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Caçada pelo Mafioso

Yule Travalon
“E uma mulher que carregava o filho nos braços disse: “Fala-nos dos filhos”.
E ele disse:
“Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar
nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas
vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a Sua força
para que Suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que
permanece estável””.

“Os Filhos” de Khalil Gibran em “O Profeta”.


A jornada de escrita desse livro dá um livro à parte.
Eu já tinha 300 páginas prontas quando decidi apagar tudo e começar
do zero. Eu queria uma história dinâmica, intensa e que me tirasse da zona de
conforto: eis como nasceu a nova versão de “Caçada pelo Mafioso”. Devo
ter escrito mais de mil páginas, escrever nunca foi o problema, o problema foi
a edição. Recortar. Deixar o que era essencial para essa história.
Espero que você entenda e se divirta, se emocione e fique cativa por
essa história, assim como eu fiquei.
Esse livro é sobre reencontros. O reencontro com o que se buscou
toda a vida, o reencontro com o que se perdeu e o reencontro com o que
sequer sabia que existia.
Os protagonistas precisarão realmente de muita confiança,
companheirismo, amizade, amor e entrega para chegar ao fim da jornada. E
terão de passar pelas conspirações, é claro. Ah, dessa vez elas colocarão tudo
e todos à prova.
Espero que você leia com carinho, cuidado e consiga captar nas
entrelinhas todas as camadas dessa história.

Agora vamos aos agradecimentos.


Aos meus amigos João Britto e Brena luz que estiveram ao meu lado
nos dias difíceis e que me deram grande suporte. Lucas Oliveira e Thiago
Souza pela motivação e apoio.
A G. R. Oliveira que me incentiva desde o conto Café Coado na
Calcinha e mesmo achando que o que escrevo é arriscado, diz: “só escreve e
vê no que dá”. Acho verdadeiramente motivador.
Não teria chegado aqui, obviamente, sem o apoio das minhas divas
literárias Anne Krauze, Katherine Laccom’t, Evy Maciel e Anne Marck.
Esse livro em especial não poderia existir sem poder ter como
referência os clássicos da literatura e do cinema relacionados à máfia. Mas
quero ressaltar a importância de ter tido contato com a Zoe X e a Nana
Simons para estruturar o meu estilo de máfia ligada com minhas
conspirações. E claro, a Anne Marck que me inspirou com sua trilogia
Protetores a escrever Protegida pelo Bilionário. Obrigado, meninas, por
serem o farol no meio desse mar tempestuoso que sou.
Aos meus outros amigos autores (Tom Adamz, Josiane Veiga, R. B.
Mutty, Bárbara P. Nunes, Kamila Cavalcante) pelo apoio, boas conversas e a
dose de rivotril diária. As maravilhosas que conheci na Bienal com quem
troquei ótimas conversas e me fizerem ser ainda mais fã delas (Tatiana
Pinheiro, Juliana Dantas, Carlie Ferrer e Bia Tomaz).
Ao Lucas Bernardes, obviamente, que preparou todo o material visual
dessa nova etapa da minha literatura: banners, marcadores, capas, etc. Sem
seus esforços e trabalho tenho certeza que o livro não seria o mesmo.
A Daniela Vazzoler, minha revisora que se comprometeu com a ideia
e a história e corrigiu tudo o que era possível e deu seu olhar em partes
importantes da narrativa. Obrigado por cuidar do material com todo carinho e
aprimorado a estrutura do texto, como já lhe disse, há uma marca sua em
minha literatura e fico feliz com isso.
E, é claro, o motivo de eu ainda escrever: as minhas leitoras.
Agradeço a espera e o carinho que vocês têm pela minha literatura.
Torço para que esse mafioso conquiste o coração de vocês! Para aquelas que
leram Resistindo ao Passado, gostaria de dizer que essa conspiração faz
paralelo com aquela, e logo em breve retornaremos a conspirar sobre o Brasil.
Ah, temos material mais do que suficiente para conspirar!
Como de costume registrarei os nomes de vocês aqui como
demonstração do meu carinho, lembrança e agradecimentos:
Para as minhas amadas leitoras Charmaine Heringer, Chris Campos,
Lu Maccari, Elisângela Rocha, Flavia Adriano, Maria Eduarda Dornelles,
Fabiana Sousa, Cristiane Reis, Tai Carvalho, Luciana Schmidt, Regina
Machado, Vania Cristina, Vanessa Santos, Débora Knob, Edna Nascimento,
Camila Rodrigues, Eliszsb, Andrea, Regina, Eva Figueira, Rosana, Rapha
Gomes, Fernanda Faustino, Yka Nick, Adri Balan, Carla de Paulo Cristofoli,
Claudia Rejane dos Santos, Risia Moura, Dany Sousa, Wuly Vieira Martins,
Maria São Pedro Souza, Mariana Cristofolete, Nidiegy, C. L, Rebeca de
Arruda, Maria Verônica, Eli Barrella, Kimberly Kelly, Artenildo Araujo,
Wetilla Oliveira, Angelica Teixeira, Roberta Natasha Cezario Vieira, Bia
Fernandes, Fabiana Carvalho Leme, Lú Oliveira, Kelly Branco, Neiva
Moura, Mary Oliveira, Nathália Novikovas, Cleomara Alves, W. F. Endlich,
Pri Assis, Karina Altobelli, Solaine Chioro, Rose Oliveira, Lais Pereira e
todas as outras que não consegui encontrar o nome.
Dividir a minha literatura com vocês me tornou não apenas um
escritor melhor, mas uma pessoa melhor. Obrigado, de coração.
Um grande abraço!

Yule.
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Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas,


fatos ou situações da vida real terá sido mera e triste coincidência.
Sinopse
Parte 1
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Parte 2
Prólogo II
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Parte 3
Prólogo III
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Parte 4
Prólogo IV
Prólogo Final
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Capítulo 41
Capítulo 42
Capítulo 43
Capítulo 44
Capítulo 45
Capítulo 46
Capítulo 47
Capítulo 48
Capítulo 49
Capítulo 50
Capítulo 51
Epílogo
Epílogo 2
Ficha Técnica
Apêndice
Yule Travalon
Outras Obras
“O amor é invencível nas batalhas”.
(“Eros anikate mahan” – Sófocles).
Sinopse

Adrian Cavalieri
Eu não nasci para amar.
Todos os que amei morreram, desapareceram ou escaparam de
minhas mãos.
Não sobrou nada aqui além de dinheiro, poder e vícios.
A melhor parte de mim ficou perdida no passado. Anos atrás quando
servi ao exército americano na fronteira da Síria com o Iraque eu conheci
uma mulher que colocou à prova o meu dever com a pátria e roubou o meu
coração. Tudo o que eu precisava fazer era apertar o gatilho caso alguém
tentasse atravessar.
Mas eu não consegui.
Ela era apenas uma garota. Parecia perdida, desesperada, fugindo de
alguma coisa. Ao invés de matá-la eu a amei como sequer achava que era
capaz de amar e depois disso ela desapareceu.
Agora, sete anos depois, ela reaparece. Todos querem a sua cabeça: a
máfia, a polícia de Nova York, a minha sociedade secreta.
Não fui capaz de matá-la quando era apenas uma desconhecida,
conseguiria agora? Quando ela não sai dos meus pensamentos?

Layla
Eu não nasci para ser amada.
Todos os que disseram me amar me traíram, machucaram ou
abandonaram. Fui vendida para um bilionário árabe, mas eu fugi. Só
precisava escapar do meu triste destino quando o encontrei.
O homem mais lindo que já vi.
Ele não seguiu as ordens, eu segui meus instintos.
Eu o amei profundamente e me entreguei aos seus braços em meio ao
caos da guerra. Infelizmente quis o destino que eu fosse capturada e vendida
para um novo bilionário nos Estados Unidos.
Eu estava grávida.
Protegi e protegerei a minha filha de qualquer um que tente se
aproveitar dela. Agora todos esses homens poderosos me querem morta, mas
nenhum deles é capaz de me subjugar.
Apenas um deles é páreo para acabar comigo, em todos os sentidos.
Então aqui estamos nós outra vez, Adrian.
Você precisa me matar, novamente. E eu não deixarei que nada
aconteça à nossa filha.
Você vai escolher o que é certo para eles ou o que o seu coração diz?

Ele não nasceu para amar.


Ela não nasceu para ser amada.
Eles nasceram um para o outro.
Parte 1
Fome
Inspirado na canção “Hunger” de Florence and the
Machine.

TRACKLIST

Hunger — Florence and the Machine.


Pequena Morte — Pitty.
Nervous — Shawn Mendes.
Yoü and I — Lady Gaga.
Do I Wanna Know — Arctic Monkeys.
Salvatore — Lana del Rey.
Prólogo
2011 – Fronteira entre Iraque e Síria
Adrian Cavalieri

— Eu espero que as minhas ordens tenham sido claras o suficiente —


Oliver, o meu superior, fechou o cenho e manteve seu olhar austero sobre
mim.
Balancei a cabeça de imediato e continuei em posição de sentido.
Aguardei ele se afastar para que eu pudesse respirar.
Alguns passos depois, o homem subitamente se virou em minha
direção e avançou, como se uma premonição houvesse lhe tomado, nos
instantes que se seguiram a ordem e o silêncio.
— Escute-me, rapaz! Você está aqui para obedecer às minhas ordens
agora! E repito: se alguma alma, objeto ou até mesmo fantasma se aproximar
dessa merda de fronteira, o que você deve fazer? — ele inquiriu, fulminante.
— Atirar — respondi sem pensar duas vezes. Não era a tarefa mais
difícil do mundo.
— Não importa que seja um cachorro, uma melancia rolando ou até
mesmo uma criança — o homem com a insígnia de quatro estrelas se
aproximou cada vez mais até estarmos novamente face a face. — Atire. É
uma ordem. O seu dever.
Tive a impressão de que ele havia rosnado.
O semblante do general se tornou colérico e no segundo seguinte, frio.
Ele repetiu o olhar para o meu companheiro que imediatamente concordou e
colocou a mão na testa.
— Eles são terroristas — o homem se dirigiu a mim, como se me
devesse alguma explicação. — E estamos aqui em uma missão especial.
Novamente anuí, eu não precisava ouvir nada daquilo, mas parecia
haver um prazer sádico nele em lembrar o peso que estava em minhas costas.
— A minha missão é torná-lo herói de guerra — sua voz não
carregava nenhum sentimento, apenas o dever. — Você trabalhou bem até
aqui. Agora cuide dessa merda de fronteira e atire até mesmo se uma sacola
vier junto com o vento — ele reforçou.
No que dependesse de mim, nem mesmo a poeira atravessaria.
E o meu silêncio e postura foram suficientes para assegurar aquele
homem que nada ultrapassaria os limites entre os países. Oliver, em seguida,
deu-me as costas e desapareceu em um dos carros do exército americano.
Eu tinha apenas vinte anos e já não me havia sobrado nada.
Bem, quase nada.
Eu ainda tinha a minha mãe e avó, meus dois irmãos mais velhos e
poucos amigos que eram quase como irmãos, na América.
Nessa terra insalubre e selvagem eu não tinha ninguém. Só alvos.
Fui treinado como atirador de elite e fui o melhor da turma. Voltaria
para casa como herói de guerra, sem dúvidas, principalmente após ter
encontrado três informantes cruciais das facções criminosas, onde
descobrimos que o nosso alvo na verdade estava no Paquistão.
— Posso ficar com o turno da noite, para que você descanse melhor
— Phillip, o soldado que patrulharia a fronteira comigo, fez menção de entrar
no posto para cochilar. — Aqui é quente como o inferno!
Eu concordei.
A solidão das estepes e o horizonte voltaram a ser novamente a minha
atração principal. Após momentos turbulentos e cruciais para a missão de
encontrar o homem que derrubou as Torres Gêmeas, enfim eu teria um
momento de paz.
... E que tolice! Um pouco de paz em meio à guerra... que piada!
Aquela fronteira foi como um presente pelos serviços prestados, era
tudo o que um soldado pediria após momentos tensos em meio a tiroteios e
bombas por todos os cantos.
Ali era calmo, não havia nada com o que me preocupar, mas o
silêncio e a calmaria me perturbaram no minuto seguinte em que fiquei
sozinho.
Faltava pouco para voltar para casa. A missão estava quase no fim.
Nada poderia dar errado agora.
E então tudo mudou algumas horas antes do término do meu turno.
O vento, a direção com que as gramíneas se inclinavam ao chão, o
voo dos pássaros. Tudo mudou.
Guardei a pistola no coldre e com o binóculo conferi minha suspeita:
alguém se aproximava do ponto limite da fronteira.
Era uma garota, cabelos escuros como a noite e olhos brilhantes que
rapidamente me paralisaram quando ergueu o rosto e me encarou do
longínquo. Engoli em seco, voltei a tatear a arma e me preparei.
— Você consegue — murmurei.
Abri um sorriso maldoso, tentativa de imitar o semblante do general
Oliver, mas nem de longe eu conseguiria ser tão cruel.
Ao acompanhar o avanço da garota ao perceber que estava chegando
a algum lugar, meu coração começou a bater mais forte.
Não era bem uma garota, não devia ter mais do que vinte anos, ainda
assim não sabia dizer se já era uma mulher.
O que ela queria? Justamente ali? Aquele ponto da fronteira era o
mais calmo, por isso não havia mais ninguém além de Phillip e eu. Nada
ocorria ali, eram praticamente as férias bem merecidas após um trabalho
exemplar!
— Vai! — rosnei, o dedo indicador tremia ao cogitar encostar no
gatilho.
E ela não parava. Já era possível começar a ouvir seus gritos.
— É apenas a droga de uma terrorista — cuspi e inflei os pulmões.
Era agora. Eu só precisava...
Não consegui.
Matar três homens foi fácil. Eram criminosos, eu tinha seus perfis na
cabeça, minha memória fotográfica armazenou cada detalhe dos rostos dos
homens que caçávamos para podermos chegar naquele terrorista maldito que
planejou o grande atentado do 11 de setembro.
O rosto daquela mulher não era nem de longe algo que eu já havia
visto nos arquivos.
E se ela fosse um rosto novo? Alguém enrolada em bombas que
estourariam ao se aproximar da fronteira? Por que logo ali, na droga da
minha maldita colônia de férias improvisada?
— Pare — murmurei.
Fiquei dividido entre a raiva de meu dedo não conseguir executar uma
ordem tão simples e a minha piedade com uma desconhecida. Que merda! O
que estava acontecendo comigo? Era só mais um alvo...
Da distância que estávamos já era mais fácil ver os detalhes do seu
rosto. Foi aí que suei frio e senti meu coração desregular. Eu só precisava
acabar com isso, eu tinha tudo o que era necessário...
— Socorro! — ela gritou em minha língua.
Não era o inglês mais perfeito que já ouvi, era carregado de um
sotaque árabe e o desespero de uma moça que parecia ter percorrido uma
longa distância.
Eu poderia acordar Phillip pelo rádio ou reportar... se eu não era capaz
de realizar um simples serviço, alguém tinha que ser. Ordens são ordens e
deviam ser respeitadas...
— Socorro! — tornei a ouvir seu pedido.
— Mas que merda! — repousei a arma maior nas costas e desci do
ponto alto em que estava para vê-la mais de perto.
— Por favor! — ela pediu, novamente, de um jeito carregado no
sotaque.
— Vá embora, garota — murmurei, abaixei os óculos escuros e
acompanhei seus passos se dirigindo até as grades com arames que
separavam os territórios.
Seus cabelos escuros sopraram junto ao vento do fim da tarde, seus
olhos eram brilhantes porque estavam marejados de lágrimas, ela tremia sem
parar e ergueu os braços, indicando que estava limpa.
Fiz um aceno negativo com a cabeça e pedi que ela retornasse.
Quase puxei a pistola quando ela decidiu que era uma boa ideia jogar
ao chão os trapos que carregava consigo e começar a despir-se, bem ali,
diante de mim, para mostrar que estava limpa.
— Por favor!
— Vá embora! — gritei, indicando a direção em que ela veio.
— Socorro! — ela repetiu.
Que merda!
Puxei a pistola do coldre e desci até chegar ao chão. Ela era alguns
centímetros mais baixa que eu, e devo confessar que me senti um tanto
constrangido ao vê-la nua. Bem... não exatamente constrangido...
Avancei devagar, a arma empunhada, examinando o que ela queria.
Que tipo de artimanha era aquela? De onde ela sacaria alguma arma?
— Vá embora — repeti, a mira em sua testa, me aproximei até estar
diante dela na grade.
Embora seus olhos castanhos fossem violentos, cheios de fúria e
rancor, também havia medo. Era sim, uma estrangeira, talvez uma terrorista
de fato, mas acima de tudo, era uma menina. Apenas uma menina.
— Quantos anos você tem? — perguntei.
Ela disparou a falar numa língua que não fazia parte do meu
vocabulário. Era arrastado, difícil, e ela falava rápido.
Pelo corpo que tinha, os seios e o quadril já um tanto largo, imaginei
que tivesse mais de dezessete...
— De onde você é?
E novamente uma sequência de palavras sem significado algum para
mim.
— Vá embora — guardei a pistola no coldre e dei-lhe as costas,
decidido a ignorá-la e voltar para o meu posto.
Caminhei alguns passos, foi tudo o que consegui.
— Socorro. Por favor — ela pediu, pausadamente.
Aquele arrepio não foi o vento. Aquela sensação estranha dentro de
mim de que eu poderia ajudá-la e ficar quite com a dor do meu passado
começou a se aflorar... e o constrangimento de vê-la nua era algo que não
saía da minha cabeça, assim como a lembrança de suas curvas...
— Que merda! — rosnei.
Tudo o que precisava ser feito era puxar a droga do gatilho. Fiz isso
três vezes e nas três foi puro sucesso! Por que eu não conseguia agora?
Ela não era ninguém, não era nada, nunca seria!
Então por quê?
— Socorro — ouvi bem perto do ouvido.
Virei-me, assustado e intrigado, pronto para puxar a pistola, mas fui
acertado por algo estranho e letal.
Fiquei paralisado por cinco segundos até conseguir me mover. Meus
olhos ficaram vidrados no horizonte onde o sol tentava descansar e eu tentava
assimilar aquela estranha sensação que rapidamente se apossou de mim.
Como ela havia ultrapassado as grades? Como chegou tão perto de
mim sem que eu percebesse? E por que ela havia feito isso?
— Você não pode ficar aqui — murmurei, tentando afastá-la de mim.
Mas seus braços continuavam ao redor da minha cintura, num abraço
muito apertado que pedia realmente por ajuda; seu corpo nu e frágil
contrastado em meu uniforme camuflado, como se aquilo simbolizasse que só
eu poderia ajudá-la.
— Como você chegou aqui? — perguntei.
— Layla. Help. Please.
Capítulo 1
Atualmente – Nova York
Layla

Eu vim para os Estados Unidos em busca de refúgio.


Antes de completar os dezoito anos meus pais me venderam para um
poderoso bilionário árabe, um homem velho, cheio de concubinas e perigoso.
Ele se afeiçoou por mim e ofereceu diversos valores para a minha família
para que eu me tornasse sua propriedade, e é claro, meus pais não aceitaram.
Foi aí que começaram as perseguições, as torturas e assassinatos...
Não demorou muito para que meu pai concordasse em me entregar
para aquele verme. Eu era apenas uma e quatro parentes muito próximos já
haviam sido mortos, e ninguém queria mais mortes...
Então fui vendida, feito um bicho, para que o homem me abatesse e
acabasse comigo.
Eu tinha sonhos, pensava em um futuro onde eu pudesse ser
professora, enfermeira, quem sabe até mesmo médica! Queria poder ajudar a
minha família, honrar nossos ancestrais e poder viver dignamente.
Antes dos dezoito a minha vida acabou.
O homem decidiu que consumaria sua posse o mais rápido possível e
isso me desestabilizou. Eu só sabia tremer, chorar e pedir silenciosamente
para que a morte chegasse logo.
Emagreci muito, fiquei desidratada, eu me recusava a comer e a beber
água, tinha desmaios frequentemente e essa fraqueza repentina me fez ganhar
tempo, mas eu não era tão sortuda.
Um dia ele me disse que me teria naquela noite. Que eu seria dele,
que ele me possuiria, que ele havia pago um preço alto e que eu deveria dar-
lhe prazer, entregar-me a ele, viver para servi-lo e fazê-lo se sentir um Deus...
E foi no início daquela noite que tudo mudou.
Eu ainda era uma criança amedrontada, encolhida nos cantos,
chorando pelo nome de papai e mamãe, rezando para que eles me buscassem
e fugíssemos juntos para um lugar distante...
A realidade era diferente, entretanto, e muito cruel.
— Tire a roupa e me sirva — ele me ordenou.
O homem fez um sinal para que seus homens saíssem e se despiu do
robe de seda dourado e recostou-se na cabeceira dourada da cama majestosa
em que estava.
— Você tem algo único... — ele lambeu os lábios enquanto eu
carregava sua taça, e acredito que não era sobre o vinho que ele estava
sedento. — Uma juventude... uma aura... Uma inocência...
Quase vomitei ali mesmo, mas continuei firme, embora ficar de pé
fosse difícil.
Eu não sentia frio, mas tremia. Já me sentia suja, imunda, um lixo
antes mesmo de começar tudo aquilo que ele pretendia.
— Quando coloquei meus olhos sobre você sabia que seria minha.
Não podia ser de mais ninguém, apenas minha. Minha criança. Venha, venha
a mim, deixe-me prová-la.
Eu fui.
Não havia outra saída.
Papai e mamãe não viriam me salvar, todos me viraram as costas
porque não queriam sentir o julgo daquele homem em suas vidas, que
significava a morte... mas eu não era nenhuma criança, não mais.
No primeiro toque que aquele homem asqueroso me deu, furei o seu
peito com uma pequena adaga.
Limpei o sangue em meu rosto com seu robe dourado, juntei
rapidamente algumas peças de ouro em um trapo e pulei a janela.
Foi a partir daí que a minha vida deixou de ser as lembranças e medos
do passado, e passou a ser as decisões que eu faria para o futuro.
— Você tem algo único — uma voz me traz para o presente.
Com o queixo repousado na cama e as duas mãos presas em algemas
eu tento me mexer, quase suplico por ajuda, o desespero se torna aparente. O
homem então ri sem pressa, sua mão sobe pela parte interna das minhas
coxas e toca profundamente em mim, avançando de um jeito agressivo.
— Uma juventude... uma aura... uma inocência... — ele diz,
exatamente a droga das mesmas palavras que aquele desgraçado um dia
disse.
Não se surpreenda, eles terão o mesmo fim.
— Mesmo depois de ter fugido, você ainda retorna para os seus
senhores. Você é uma boa escrava, é obediente, e sempre quer mais, não é,
Zoe?
Tento concordar, mas amordaçada é difícil falar.
Então ele chicoteia minha bunda tão forte que mesmo presa eu me
dobro na cama, me contorço com a dor e sinto a mescla de desespero e
adrenalina invadirem minhas veias.
— Você sabe que eu poderia te matar, não é? — ele puxa meu cabelo
com força, não há gentileza alguma nesse homem. Nunca houve, não haverá
dessa vez. — Mas você é única... e o fato de ter voltado para mim significa
que entende que você não passa de um objeto. Você é minha, minha
propriedade.
Concordo. Amarrada, deitada, nua e desprotegida eu faria o que?
Começar um debate? Um sarau?
— Você pensou em minha proposta, Zoe? Foi por isso que você veio,
não é? Enfim colocou essa cabecinha no lugar! — ele ri.
O meu sangue ferve. O simples fato dele trazer esse assunto à tona me
dá forças para resistir, para permanecer ali e esperar o momento adequado
para responder-lhe a altura.
— Você a entregará para mim, não é? — sua voz vai ficando cada
vez mais longe até que a presença dele já não esteja mais dentro do quarto, no
subsolo de uma esplendorosa mansão.
Não adiantaria gritar, pedir ajuda ou ligar para a polícia ali.
Os homens poderosos possuem muitos calabouços que são
inacessíveis até mesmo para os homens da federal. E Roger Macmillan não
seria exceção. Ele é tão poderoso e perigoso que nem mesmo o presidente
teria poder sobre ele.
Homens como o presidente, Roger e muitos outros fazem parte de um
grupo seleto, uma elite oculta, uma sociedade secreta que domina não apenas
a América, mas o mundo.
Seria impossível – e até mesmo risível – pedir ajuda a alguém para me
proteger de Roger. Ninguém poderia...
Exceto eu.
Roger era um dos homens que queria algo inestimável, algo único,
uma parte de mim que eu jamais entregaria a ninguém, absolutamente
ninguém... e a única forma de fugir de suas perseguições, torturas e
assassinatos, era entregar-lhe o beijo da morte.
Eu não podia mais fugir, eu precisava caçá-los.
Todos eles, todos aqueles malditos!
— Eu trouxe um brinquedinho diferente dessa vez — sua voz sádica
preencheu o quarto novamente e o ambiente em seguida mergulhou no
silêncio.
— Zoe? — ele olhou ao redor, o sorriso sociopata grafado nos lábios.
— Não se esconda, Zoe... vem brincar...
Roger deixou o bastão em formato fálico na cama, tateou o corpo em
busca de sua arma, por instinto, mas percebeu que estava nu e a arma não
estava mais ali...
— Vamos, Zoe, qual é, foi apenas um pequeno pedido... não
significará nada para você. Dê-me o que eu quero e eu a deixarei em paz...
Os olhos de Roger vasculharam o quarto: em busca da arma, em
busca de uma rota de fuga, em busca de mim...
Ah, eu estava bem ali, atrás dele.
Passos leves e lentos, um certo gingado ao andar e passar
despercebida... os pulsos ainda doíam, é claro, mas logo eu poderia
descansar.
— Zoe...?!
O homem se virou bruscamente e eu segurei em seu queixo com toda
a fúria guardada em mim.
— A minha filha não está à venda! — rosnei e cortei sua garganta
num único movimento.
O corpo que pomposamente se mantinha de pé, firme no chão, cedeu.
Roger Macmillian, mais um homem rico e poderoso em minha lista
da morte. E eu sabia que tinha ido longe demais e logo eu teria de pagar o
preço por aquela série de assassin... bem, assassinatos não. Prestação de
contas, chamemos assim.
Busquei minhas roupas que estavam jogadas no chão e do bolso da
calça puxei um pequeno caderninho de anotações que cabia na palma da
minha mão. Ele já estava aberto na página que continha o nome do homem
que jazia no chão.
— Eu preciso de um bom banho — encarei meu reflexo no espelho,
andei calmamente até um suporte com vela acesa e a levei até a cama: a
pequena chama se tornou uma pequena fogueira, logo mais seria um
incêndio.
Depois de anos eu ainda me sentia suja, estranha, imunda, um ser
abjeto que não tinha motivo algum para estar vivo além de proteger a filha
indefesa.
Ela não tinha culpa de nada. E não merecia o triste destino que tive.
Eu iria protegê-la de tudo e de todos. Eu iria garantir que ela jamais
sentisse ou passasse pelas coisas que passei...
Era questão de sobrevivência, minha e dela.
Conferi os próximos nomes na lista do caderninho e o fechei,
encarando sua capa dura e escura. Havia um nome ali, mas esse eu só poderia
resolver quando já tivesse avançado em mais homens que estavam atrás da
minha filha.
Aquele reencontro havia sido adiado demais, e eu precisava por um
fim em tudo.
Vesti-me rapidamente após me limpar do pouco sangue do homem
que manchou minha nudez e encarei mais uma vez o nome que estampava a
capa daquele caderninho simbólico. Sete homens já haviam pago o preço, e
outros seis conheceriam a minha lâmina.
As chamas no quarto já estavam altas o suficiente para se expandir e
fazer a mansão queimar, o calor em meu rosto e o suor em meu corpo
alertavam-me para ir embora.
— E você não me escapa, Adrian Cavalieri — encontrei coragem para
pronunciar o nome que figurava na capa.
Após uma longa jornada, aquilo era tudo o que me restara: coragem.
E o conhecimento de que a única forma de lidar com homens ruins, é
ser muito pior do que todos eles.
Capítulo 2
Times Square
Adrian Cavalieri

Eu não nasci para amar.


Não se iluda pelo que essas três belas moças, nuas, cheias de marcas
e esgotadas, em cima da cama, te dirão.
— Adrian... — uma delas ainda sussurra o meu nome. Ela o gritou
por horas e horas e minutos atrás, quando teve seu último orgasmo e se
esgotou.
— Vem dormir... — a loira, de olhos semicerrados, sedada pela
própria luxúria, segura firme em minha calça social enquanto coloco o cinto.
Homens como eu, não dormem.
Homens como eu não dormem, não dão satisfação e muito menos
sabem o que é amar.
O problema deve estar em mim, certamente, por que tudo o que ousei
amar na vida se desfez em minhas mãos. Foram tantas pancadas que desisti
desse estúpido sentimento há muito tempo.
Eu não nasci para o amor, e ele não existe para mim.
Vivi o suficiente para ver tudo o que amei ser arrancado: meus irmãos
mais velhos que substituíram o meu pai nos negócios da Famiglia, a mulher
que eu pensava amar... até mesmo a minha irmã gêmea.
Sequer cheguei aos trinta ainda, se é que um dia chegarei. E estou
esgotado.
E ainda assim, não restou absolutamente nada, fora e dentro de mim,
apenas poder, sexo e vícios.
Poder que me permite usar e abusar de quem eu sou, para estar, ter e
ser tudo o que eu quiser. Sexo para poder foder quem eu quero, quando eu
quero, como eu quero; haveria melhor passatempo? E vícios, é claro, para
me entregar às noites luminosas de Nova York em busca de um filete de luz
para o meu espírito sombrio.
O que me resta é anestesiar a alma e livrar, pelo menos por uma noite,
às vezes apenas algumas horas, dos fantasmas que me perseguem.
Acredite, eles são muitos.
E eles sempre retornam.
Quando não estou ocupado demais lidando com os meus fantasmas,
preciso lidar com os dos outros.
Cubro o corpo com um sobretudo slim, seguro firme no chapéu fedora
e jogo uma nota de cem dólares no ar como gorjeta. Saio do hotel 5 estrelas e
antes de conferir o relógio em meu pulso, encontro um carro preto diante de
mim. A porta dele se abre em minha direção e eu avanço. Sou recepcionado
logo com um:
— Buongiorno, signore. A filha do Virgílio se casa semana que vem,
por favor não se esqueça — Marco, o meu consiglieri, me recorda desse
compromisso importante.
Vejo sua agenda de capa preta ser aberta, uma série de anotações com
datas, rabiscos, nomes, sentenças e preços estão contidos ali.
O carro pega movimento, encaro a rua pela janela e mantenho o
silêncio.
Gosto dele.
— Todas as vezes em que ocasiões assim acontecem e todas as
Famiglias se reúnem, aquele seu assunto vem à tona... — Marco diz. Eu devo
ter-lhe feito algum mal para que ele comece o dia falando sobre um
compromisso torpe desses.
Marco não gosta do silêncio.
Eu sei que ele vai insistir nessa conversa. E ele sabe que eu não gosto
disso e estou pronto para abrir a sua porta e chutar-lhe de dentro do carro, na
maior velocidade possível.
O meu pai, Constantino Cavalieri, junto com dois associados
poderosos, membros das mais poderosas Famiglias italianas Sartori e
Tomazini, residentes nos Estados Unidos, conseguiram um grande feito que
foi chamado de: Pacto de Sangue.
A partir da iniciativa desses três homens, a guerra dos italianos nos
EUA por poder, territórios e vantagens acabou, tornando-nos apenas uma
grande Famiglia muito bem hierarquizada, ilustrada por uma grande árvore
cujas raízes desciam até o inferno e sua copa alcançava o domo celeste. Os
troncos dessa grande árvore eram as diversas famílias pertencentes a nossa
organização, e o primeiro entre os pares, o grande padrinho, o homem
responsável por mediar, chefiar e organizar toda a estrutura, dessa vez era
ninguém mais, ninguém menos que... eu.
Primeiro foi o meu pai, que conseguiu habilmente encerrar as guerras
internas e rechaçar os revoltosos; depois a família Tomazini, que assumiu
quando o meu pai faleceu, mas eles não tinham a mão firme dos Cavalieri.
Enrico, meu irmão mais velho, chefiou os negócios das Famiglias
enquanto eu estive na guerra em 2011, foi traído pela própria esposa e foi
entregue aos rebeldes em 2015; isso só reforçou o quanto o amor, aquele
sentimento asqueroso, era uma ilusão para enganar imbecis.
Alessandro, meu outro irmão, não durou muito, era gentil demais,
apaziguador demais, tentava agradar todos os lados... Um dia acordou e
estava morto. Quero dizer, um dia ele não acordou, mesmo sua casa sendo
guardada por bons homens.
— Qual será a sua desculpa dessa vez, senhor? — Marco insiste no
assunto.
O encarei como se estivesse pronto para chutá-lo do carro e ele me
encarou, pronto para se segurar onde estava.
Eu só queria ficar distante daquela conversa, retornar para as ruas que
passavam tão depressa pela janela do carro, onde Enrico me ensinou a andar
de bicicleta e Alessandro e eu gastávamos boa parte do nosso tempo tentando
flertar com garotas de famílias abastadas... mas o dever me chamava.
— Eu sou o primeiro de todos, o chefe. Não irei me casar.
— A família do Virgílio insiste que o senhor se case. É esperado do
chefe, do grande padrinho, que ele tenha uma esposa e família, isso passa a
seriedade que se precisa para controlar esses homens. E, é claro que ao se
casar com uma de suas filhas...
— Eu não vou me casar — reforcei. Aproveitei para fechar a
braguilha que estava aberta. — Tudo o que menos preciso agora, nessa merda
de vida, é uma mulher como um cadeado em minhas bolas!
Como pode ver, essa aliança frágil e virtual entre as famílias foi
mantida por meio de casamentos arranjados.
Os filhos e filhas dos proeminentes chefes das Famiglias foram
“leiloados” como objetos: ou seja, foram obrigados a se casar para construir
essa montanha poderosa, que agora mais parecia um vulcão, prestes a
estourar.
Enrico se casou com a filha mais velha dos Vitalli, que foram
devidamente punidos por sua traição, sua linhagem foi apagada e não restou
nem mesmo as crianças para contarem a história. O exemplo foi bom, não
houveram mais revoltas internas. Alessandro ousou se casar com alguém fora
da Famiglia, afinal de contas, Enrico era o chefe, estava vivo, ele não
pensava que um dia ocuparia o cargo...
Eu nunca fui leiloado.
Não que eu não fosse atraente, diversas vezes fui paquerado pelos
poderosos para que eu pedisse suas filhas em casamento. Mas o meu pai tinha
planos maiores para mim.
Toda a máfia já estava sobre seu domínio, meus irmãos mais velhos o
sucederiam, então ele queria expandir os negócios.
Minha irmã e eu fomos os únicos Cavalieri a nascer em solo
americano, e foi assim que ele buscou uma chance de nos inserir na maior
rede de poder americana: os italianos têm a máfia, os americanos têm suas
ordens secretas, e dentre elas, a sociedade mãe, que recebeu muitos nomes
durante a história.
Chamemos aqui apenas como “O Grande Templo” ou “A Colmeia”.
E foi assim que todas as Famiglias me quiseram como o sucessor de
Alessandro. Eu era maior, mais poderoso, mais influente do que todos eles
juntos, não apenas por ter nascido um Cavalieri, mas por ser membro dos
quadros do poder americano em sua raiz.
Foi assim que eu me tornei O Chefe.
E agora todos queriam me casar com suas excelentíssimas filhas, para
abocanhar parte do meu poder.
O carro preto em que eu estava, parou. O mesmo modelo de carro que
estava logo à frente e também atrás também pararam.
Numa avenida muito movimentada do centro de Nova York, nosso
alvo foi encontrado. Era uma mulher loira, alta, escondia as belas curvas
debaixo de um sobretudo branco, andava com muita pressa, e pareceu
perceber que havíamos parado por sua causa.
— É ela? — Marco perguntou.
Semicerrei os olhos, minha memória nunca falhava, era ela sim.
— Sim, é ela. Amanda Lavinsky — respondi.
Vi dois homens saírem do carro da frente, eles abordaram Amanda
que logo se fez de desentendida. Ela levantou as mãos, tentou acenar para
pessoas mais próximas, chamou até alguns policiais que haviam por ali.
— Senhor, por favor... — Marco segurou em meu braço quando abri a
porta do carro.
Simplesmente lhe direcionei um olhar que o fez rapidamente guardar
a mão, ele sabia que eu era capaz de arrancá-la do braço sem pensar duas
vezes.
Conforme percebi os policiais se aproximando de Amanda, tirei o
chapéu preto e asseei os cabelos para ficarem bem apresentáveis. Não foi
preciso dizer nada, eles simplesmente fingiram que Amanda não estava mais
ali quando eu me posicionei ao seu lado.
Que mafiosos estúpidos! Não sabem sequer lidar com uma mulher...
tsc.
— Por favor! Eu preciso de ajuda! — ela chorou.
— Buongiorno, Amanda — a cumprimentei.
Deixemos claro desde o princípio: eu sou um monstro? Sim. Mas bem
educado.
— Adrian, por favor... — ela pediu, as lágrimas lavaram a
maquiagem do rosto, o desespero ficou mais aparente. — Eu preciso falar
com o Héctor, posso explicar tudo, ele sabe que não foi por querer... eu só
estava obedecendo ordens...
Coloquei o dedo indicador em frente a boca dela e fiz um “shh!” bem
baixinho, o que aparentemente a deixou mais nervosa. Bem, eu permaneci
austero, da mesma forma de sempre. Aproximei o meu rosto devagar, até que
os nossos narizes se tocassem. Amanda arregalou os olhos, eu abri o que
parecia um sorriso.
— Quero que se recorde das crueldades que fez com o pequeno
Anthony Mitchell, Amanda — suspirei. — Você vai aprender comigo que
poderia ter sido muito mais criativa e cruel. E eu espero que essas lembranças
possam te tornar forte para suportar o que farei com você — o dorso da
minha mão deslizou por aquela pele macia.
Não pude conter o sorriso de canto.
— Foi a mãe dele, Adrian... ela me prometeu! Ela disse que aquilo
consertaria tudo! Eu preciso do Héctor, o Héctor...! — ela tentou.
— Shhh — novamente pedi.
A mulher que ajudou a agredir psicológica e fisicamente o meu
afilhado, o herdeiro dos Mitchell, tremeu. Suas pupilas se dilataram e seus
dedos tremeram em cima do sobretudo.
Dei uma curta volta ao redor de Amanda e posicionei-me em suas
costas. Abracei-a pelo pescoço com o meu braço, cobri sua cabeça com um
saco preto e aguardei até que seu corpo cedesse e ela caísse em meus braços.
A calma com que eu agia nesses momentos deixava as pessoas
perturbadas. Bem... eu não as culpava.
Lidar com terroristas era a minha especialidade. E mandá-los
conversar com o diabo pessoalmente era a minha missão na terra.
— Por que ainda não abriram a porra desse porta malas? — perguntei
com calma, sem alterar a voz.
Imediatamente os meus homens abriram o bagageiro e eu a joguei lá,
como se não fosse quebrar.
Quem se importaria, afinal?
Fechei o porta malas e disquei um número no celular, no segundo
toque fui atendido.
— Sim? Adrian?
— Buongiorno, senhora Mitchell — a cumprimentei.
Beatriz Mitchell pareceu bastante animada ao ouvir a minha voz, e eu
não pude conter o fino sorriso que se abriu em meus lábios. Nunca fui de
demonstrar sentimentos, mas ela era a mulher de um dos meus melhores
amigos, e portanto, ela fazia parte da minha família.
— Está feito — foi tudo o que eu disse e desliguei.
Assisti o carro preto com os meus homens e Amanda no bagageiro ir
embora, enquanto a avenida movimentada continuava a seguir seu dia:
turistas procurando onde começavam os letreiros, os policiais fazendo o seu
trabalho, artistas de rua ganhando a vida com uns trocados...
Eu a procurei.
Foi por ali que eu a perdi.
Não importava todo o tempo que havia passado, eu ainda acreditava
que era possível tê-la de volta...
— Senhor? — a voz de Marco novamente me roubou do que havia de
resquício do melhor em mim.
Deus abençoe o homem, todas as vezes em que me sinto fraco e
humano ele me desperta para o monstro que sou.
— Sim? — virei-me em sua direção.
— Senhor, algo urgente aconteceu e o senhor foi solicitado.
— Mais problemas? — massageei as têmporas. — Coisas da
Famiglia?
Só me vinha o maldito casamento da filha do Virgílio Barone na
próxima semana e aguentar mil moças virgens sendo oferecidas a mim.
Arqueei a sobrancelha, me divertindo de antemão ao imaginar as
cenas, ser o solteiro mais cobiçado de Nova York não era problema, poderia
ostentar esse título por pelo menos mais umas duas décadas...
— O que houve, Marco?
— Problemas naquela sua Sociedade Secreta.
Capítulo 3
Brooklyn
Layla

Eu não nasci para ser amada.


Os eventos em minha vida me mostraram isso da pior forma possível:
fui vendida pelo meu pai para um árabe bilionário, e mesmo fugindo desse
destino desastroso, ele me reencontrou.
Procurei uma rota de fuga para chegar o mais longe possível da minha
terra natal, e consegui.
Um homem muito gentil disse que me ajudaria e eu confiei nele. O
resultado? Tráfico de mulheres.
Vim para os Estados Unidos em busca de refúgio; cheguei como
escrava, como objeto, propriedade. Retiraram-me tudo: nome, identidade, até
moldaram minha personalidade para que eu fosse um desejo, um suspiro, um
orgasmo...
Então ela veio. Yohanna.
— Mamãe! — ouço a animação da pequena assim que abro a porta do
apartamento.
Meus olhos vigiam cada canto daquela sala, tudo parece em ordem,
ainda assim permaneço atenta. Abraço a minha neném e me mantenho presa
naquele laço por muito tempo.
— Eu senti a sua falta — ela diz, as mãozinhas mexem em meu
cabelo, seu rostinho começa a se esfregar em meu pescoço.
— Eu também senti a sua, minha filha — me afasto um pouco para
contemplar seu rosto e sorrio, não consigo conter os olhos marejados de
lágrimas.
Todas as vezes que repeti para mim mesma que não nasci para ser
amada, Yohanna estava lá. Era como um contrafeitiço, a bula, um antídoto
para os venenos que a minha mente produzia.
Algo dentro de mim ainda gritava que eu não merecia, não aquele
sentimento... mas pelo menos a minha filha, essa sim merecia tudo o que eu
não tive. E eu jamais permitiria que qualquer atrocidade lhe ocorresse.
O homem que me comprou, no início, foi bom comigo.
Eu fingia sentir prazer e ele fingia que estava me conquistando. Agora
percebo que ele só me tratou bem porque eu carregava um bebê, e isso
significava que ele não tinha uma, mas duas propriedades. Ele havia saído no
lucro na negociação.
Ele me prometeu que não faria nada com Yohanna, que ela cresceria
longe daquele mundo sujo... mas eu o peguei mentindo. Eu o peguei tentando
se aproveitar da minha menina... a minha criança...
E foi assim que eu perdi todo o medo que me restava.
— Você comeu? — amarro os cabelos em um rabo de cavalo, puxo a
minha filha pela mão e a levo para a cozinha do apartamento.
— Hoje não — ela diz dengosa, fica quietinha quando eu a sento na
cadeira.
Abro a geladeira e tiro um pote de iogurte, pego uma banana e a fatio
em pedaços pequenininhos, coloco dentro do pote e misturo com uma colher.
— Não faça muita sujeira — peço e vou preparar torradas.
— Você comeu, mamãe? — ela pergunta.
— Sim — respondo com facilidade.
Mentira. Não comi. Sequer tive tempo para isso.
O sorriso em meu rosto transparece confiança e meu olhar tenta
indicar que estou bem e satisfeita. Me tornei mestre em mentir não apenas
para mim mesma, mas para a minha filha.
Quando Yohanna termina de comer, eu a levo para o banheiro, tento
de todas as formas ser rápida no banho, mas ela quer brincar, quer me
atualizar dos livros que ela “leu”, que no caso são as ilustrações que ela viu e
o pouco que conseguiu decifrar do que juntou das palavras, começa a repetir
e misturar contos de fadas que lhe conto antes de dormir, e eu sempre me
mostro admirada e feliz.
Isso não é mentira. Ver que a mente da minha filha funciona bem e
que ela tem uma criatividade incrível me deixa cheia de emoção.
— Para onde vamos agora, mamãe? — ela pergunta.
— Para o outro lado da cidade — explico.
— Onde os ricos moram? — Yohanna afunda a boneca entre as
espumas e depois me encara.
— Sim, onde os ricos moram.
— A Lara é mergulhadora, ela descobre novas espécies de tubarões,
tartarugas e peixes — Yohanna volta a mergulhar a boneca na água.
Paro por um segundo e encaro aqueles olhos quase prateados. E a
minha bebê para o que está fazendo e me olha de volta, mas os meus olhos
são castanhos, escuros, praticamente sem vida.
Como ela podia carregar tamanha beleza?
Penteio seus cabelos negros e termino de tirar as espumas de seu
corpo, a envolvo em uma toalha e a coloco em cima do tapete.
— Você consegue se vestir sozinha? A mamãe só precisa conferir as
malas e estaremos prontas para partir — aviso.
— Por que não podemos ficar em um lugar? Por que estamos quase o
tempo todo mudando de casa, mamãe? — ela insiste nessas perguntas,
sempre faz quando estamos prestes a nos mudar.
Yohanna e eu sempre nos mudamos a dois, três, no mais tardar quatro
dias. Nunca ficamos uma semana em um só lugar.
Se você fosse caçada, como ela e eu somos, não se sentiria em paz
nem mesmo um dia sequer em um lugar.
Somos nômades, moramos hora nos bairros ricos, chiques, onde as
ruas são desertas e a segurança é redobrada, e hora em bairros mais
periféricos, onde as ruas são movimentadas, as crianças brincam livremente,
e o tráfico e o crime cercam todo o lugar.
— A mamãe trabalha para uma empresa muito importante que solicita
que ela esteja em diversos lugares o tempo todo. E você sabe porque a
mamãe te leva? — abro um longo sorriso.
Yohanna coloca os dedos na boca e começa a sorrir.
— Por que você gosta de ficar perto de mim?
— Exatamente! — beijo sua testa e continuo a encarar seus olhos
azuis, quase prateados.
É como vê-lo.
O homem que acho que amei.
Um homem que vi por apenas uma semana e que me fez sentir bem
cuidada, bem tratada... quem sabe até mesmo... amada.
A minha filha era como a lembrança de que ainda existia alguém no
mundo que fora capaz de enxergar em mim além do que todos os outros
homens enxergaram.
E isso me fortalecia ainda mais para poder protegê-la e preservá-la.
Ela merecia uma vida diferente da minha.
Termino de arrumar as malas, não tenho tantas coisas, apenas
algumas mudas de roupa e produtos de higiene, cabe tudo em uma mala.
Yohanna que precisa de mais cuidados e por isso possui três malas grandes.
— Você está pronta, filha? — a encontro na sala daquele apartamento
que aluguei por um serviço da internet. O cartão de crédito que uso para
pagar? Não é meu.
Yohanna faz que sim e continua parada, me fitando.
— Pegou todas as suas coisas?
Novamente ela acena de forma positiva, as duas mãos seguram uma
malinha rosa, onde ela carrega “coisas de menina”.
— Então vamos! — suspiro, abro a porta e coloco todas as malas no
hall, chamo o elevador e olho para trás.
Ela continua lá. Tão pequenininha por fora, mas imensa dentro de
mim. Seus olhos claros não fogem dos meus e ela mantém um brilho no olhar
que definitivamente não herdou de mim.
— O que foi? — pergunto.
Yohanna fica quieta, então me aproximo devagar, olho para os cantos
do cômodo para ver se tem algo errado, mas tudo parece no lugar.
Então sua mãozinha me toca no rosto e seus olhos parecem maiores
que o normal.
— Você é tão bonita — ela diz.
Isso me transporta para uma outra época. Uma época em que eu ainda
estava descobrindo o que era ser forte...
Igualmente olhos grandes, prateados, um rosto masculino com a barba
aparada, um nariz pontudo e longo, sobrancelhas grossas, cabelos bem
aprumados para um rapaz que era apenas um soldado.
Eu não entendia sua língua.
As poucas coisas que eu sabia falar eram “por favor” e “socorro”,
nada mais.
Então ele repetiu tantas vezes uma frase que eu a guardei comigo e foi
a primeira coisa que aprendi quando me desbravei no inglês.
— Você é tão linda — sua voz rouca disse.
Não foi apenas uma vez.
Ainda me lembro de suas duas mãos segurando nas laterais do meu
rosto e seus olhos se aproximando, tão devagar que eu posso saborear o
momento até agora. E esse momento tem gosto de um beijo quente, sedutor,
envolvente...
Tem o perfume de uma garota fugindo do próprio destino e um rapaz
que a encontrou, descumpriu uma ordem e deixou que os muros que nos
dividiam, entre eles a língua, a cultura e a forma de encarar o mundo, para
que nossos corpos tentassem se unir.
Foi desajeitado, foi engraçado, mas acima de tudo, foi único.
Ele me deu o maior presente que alguém poderia me dar.
— Tão bonita... — Yohanna toca com o dedo indicador em meu nariz
e sorri.
Da última vez que ele me viu, foi exatamente o que disse.
A língua nos separava, é claro. O sentimento não, ele era um tanto
que universal.
Ele era lindo também.
Jovem, muito mais alto que eu, um tanto magro e com um semblante
que parecia precisar de cuidado, assim como eu.
— Eu te amo, mamãe — Yohanna me obriga a voltar para o presente.
Toca com as duas mãos nas laterais do meu rosto e beija a ponta do meu
nariz.
— Eu também te amo, neném — digo e a abraço com força.
— O elevador chegou — ela aponta o dedo, indicando que devemos
ir, diz isso como se já estivesse pronta para partir, mas eu não estou.
Eu sinto que ainda preciso permanecer abraçada, sentindo o corpo
dela, tendo certeza de que ela está segura e bem.
Quantas vezes eu simplesmente paro e choro na rua, pelos cantos, ao
imaginar que posso retornar para casa e ela não estará mais lá?
— Você é linda também! — digo, quando encontro forças para
encará-la.
Recomposta, ou nem tanto, chamo o elevador novamente, coloco as
malas após ver a minha filha entrar e vemos o apartamento ficar para trás.
Nunca mais voltaremos ali.
Mais dois dias se passaram... mais dois dias viva e com a minha filha
bem.
Mesmo que Yohanna e eu não tivéssemos nada, absolutamente nada...
Tínhamos o mais importante: uma a outra.
Capítulo 4
Manhattan
Adrian Cavalieri

Henry Johnson não me poupa de toda a ritualística que é chegar a sua


mansão, passar por dezenas de empregadas, ser tratado como Deus na terra e
aguardá-lo.
Sento-me em uma poltrona preta de couro que fica próxima à lareira,
o local permanece em silêncio, com exceção do trepidar das chamas.
Os meus homens ficaram lá fora em seus carros, meus pensamentos
vagueiam por aí e eu o aguardo, um tanto irritado.
Homens como Henry sempre se aproximam para pedir favores
difíceis e normalmente eu encaminho as ordens para algum capo, algum
soldado ou subordinado para que assim o faça e me deixe livre.
— Whisky, senhor? — uma bela mulher interrompe minhas
distrações.
Está vestida como uma empregada de filmes hollywoodianos, é alta,
bonita, tem curvas exageradas. Vem sexy, caminha ao meu redor e mesmo
sem que eu a responda ela entrega o copo em minha mão e me serve o líquido
quase que em câmera lenta.
Fico entretido entre encarar aqueles peitos quase saindo pelo decote e
depois a bunda subindo e descendo, feito uma dança, quando ela sai.
Henry ri. Vejo-o escorado na parede, de braços cruzados, faz um
movimento rápido com o isqueiro dourado e acende o charuto.
— Você a quer? — ele provoca. — Eu te dou.
— Henry — faço um aceno com a cabeça e retorno a encarar o vazio.
Henry Johnson não deve ter mais do que quarenta anos. É um
bilionário, a família trabalha no ramo das bebidas há décadas, deu muito
trabalho para a família Barone, a de Virgílio, que também quis se sustentar
no ramo das bebidas e encontrou ali um rival poderoso. Sequer sei que fim
essa história teve...
Henry fica diante de mim. Seus cabelos lisos jogados para trás e o
rosto ossudo não me agradam nem um pouco, quando o encaro por muito
tempo me lembra uma serpente.
— Não sei como devo tratá-lo... — ele olha para o chão. — Como
mestre? Como padrinho?
Sua voz soa bajuladora o suficiente para que eu revire os olhos e evite
ao máximo contato visual. Embora todo aquele teatro fizesse parecer que
Henry tinha respeito por mim, ter-me feito esperar mostra o quanto ele não o
tem.
— Adrian basta.
— Certo... — Henry puxa uma cadeira qualquer e a coloca a poucos
metros de mim, se senta e olha para o chão.
O trepidar das chamas atrás de mim voltam a ser o único som naquela
grande sala, até que o homem desate a falar.
— Adrian, eu realmente preciso de um favor e não sei como pedir.
Não sei se te peço como meu superior, o meu mestre, quem precisa zelar por
mim ou como um padrinho, alguém de mão poderosa, senhor de muitas
famílias, que pode resolver o meu problema com um estalar de dedos quando
ninguém mais pode...
— Fale de uma vez, homem — rosno.
Henry fica em estado de alerta, percebo que ele quase escorrega da
cadeira. Encara-me de um jeito assustado, e eu o encaro como se ele
precisasse realmente ter medo de mim.
— Uma mulher roubou documentos importantes que conectam a
empresa da minha família com alguns serviços da máfia Barone. Além disso,
existiam outros documentos... políticos... informações da Grande Ordem...
coisas que até podem levar ao seu falecido pai...
Henry segura nas bordas da cadeira quando eu o olho de forma
fulminante. Encaro-o como se ele fosse a única coisa naquela gigantesca sala,
e justamente a coisa que eu não queria ver.
O meu pai? O que poderia levar ao meu pai?
Antes de perguntar, ele continua:
— A família Barone e eu entramos em um acordo. Colocamos os
melhores soldados deles para caçar essa mulher, não deu certo. Virgílio me
garantiu que conversaria com os outros patriarcas, não sei como vocês
chamam... essa gente cabeça da Cosa Nostra... Pelo visto ele não teve
sucesso. Então colocamos a polícia de Nova York... O FBI... gangues... até
mesmo moradores de rua, Adrian!
— E? — arqueei a sobrancelha.
— Ninguém conseguiu matar essa desgraçada. E sempre a encontram,
mas ninguém conseguiu capturá-la até agora. Já perdemos muitos homens...
dezenas deles...
A conversa começa a ficar interessante. Faço menção de beber um
pouco daquele whisky, ele parece tentador, mas não cedo ao desejo. Continuo
a girá-lo no copo e a encará-lo, flertando com a queimação que ele pode me
causar.
— Não há outra explicação, ela deve ter parte com o diabo ou coisa
do tipo... e por isso eu o chamei... por que se ela é alguém que não
conseguem matar...
— Você procura o cara que consegue matar qualquer um — suspirei.
Henry traga o charuto demoradamente, depois procura qualquer coisa
para beber.
— Estou desesperado. A minha cabeça está em jogo... a reputação da
família Barone... coisa grande vai explodir, Adrian... não podemos deixar que
algumas coisas vazem... — ele encontra uma garrafa qualquer, enche o copo
e bebe num gole só.
Henry fica parado enquanto parece que a bebida o golpeia, depois se
arrasta de volta para a cadeira e evita me encarar.
— Por que colocaram a droga da polícia, a família Barone, até mesmo
a porra do FBI antes de vir conversar comigo? — falo calmamente, baixo,
devagar.
Com o tempo percebi que isso assustava muito mais do que gritar.
Se espera tudo de um homem que foi para a guerra, matou os
melhores informantes de um terrorista e depois retornou e matou uns
traidores das famílias sem sequer mostrar um remorso. Se espera que ele saia
ameaçando as pessoas por aí, que ele tente mostrar sua superioridade o tempo
todo e encha os peitos para dizer o quanto é inatingível.
Eu era o completo oposto disso.
Calado, sério, fechado. A muralha da China. Inultrapassável,
indisponível, intransponível.
E era exatamente esse comportamento que colocava absolutamente
todos ao meu redor em alerta. Nada nem ninguém podia me parar.
— Eu não queria incomodá-lo... eu...
— Mas você quer me incomodar agora, Henry? — murmurei e o
encarei. Um fino sorriso de canto se abriu em minha boca.
— Senhor, por favor, eu...
— Você... — respiro fundo. — Pessoas como você só pensam em si
mesmas. “Eu, eu, eu”... — continuo a girar a bebida, que parece querer me
fazer girar também. — Essa mulher não é problema meu. É problema seu e da
família Barone. Seja homem e resolva os seus próprios problemas, senhor
Johnson — ao dizer isso, me levantei.
Henry se jogou aos meus pés.
O rosto voltado para baixo, as mãos segurando com firmeza em meus
sapatos italianos; confesso que fiquei tentado em chutar sua cara e sair dali.
— Pelo Bem Maior! — ele pediu.
O Bem Maior. A droga do Bem Maior.
O juramento sagrado criado pelos Pais Fundadores, de que o Bem
Maior deveria prevalecer em todos os casos, e que cada filho dos fundadores
daquela nação tinha a obrigação de escutar o chamado do “filho da viúva”,
alguém que passasse por dificuldades, estivesse em desespero, precisando de
ajuda...
Revirei os olhos.
Era tarde demais para devolver minha carteirinha de associados? Da
porra da associação que eu era mestre?
— Tire as suas mãos dos meus sapatos antes que eu as retire de você.
Henry recolheu as mãos de imediato.
— Coloque-se de pé — ordenei.
O homem se levantou. A honra, a masculinidade e a vergonha na cara
ficaram no chão. Mas aquele trapo de gente se levantou e evitou o contato
visual. Porém dessa vez eu queria encará-lo.
Ah, eu queria encará-lo, como a espada encara a armadura, e sabe que
vai insistir, até que o fio encontre a carne e por fim o sangue.
— Não use o Bem Maior em vão — o repreendi. Deveria ter-lhe dado
um soco. Quem sabe um tiro? Seria mais eficaz.
— Não é em vão, senhor. É realmente necessário. Essa mulher é
perigosa, ela pode colocar tudo a perder e expor até mesmo a Grande
Ordem... estamos em um momento delicado, então...
— Calado.
Henry parou. Nem de longe parecia o homem imponente ilustrado nos
quadros daquela mansão. No hall de entrada havia um quadro dele e o pai
com um ex-presidente americano, era tão grande que só me fazia pensar: ele
realmente quer que as pessoas saibam que essa família tem proximidade com
o ex-presidente...
Era possível ver tudo nele: o homem que ostentava poder, o homem
que fingia ser amigo de gente importante, o homem que tinha dinheiro e
influência... faltava o homem, é claro, porque aquilo não podia ser chamado
de homem.
— Meus homens não podem resolver isso?
— Senhor, por favor...
— Precisa ser eu? Eu? Eu preciso apertar o gatilho? Eu preciso caçá-
la e matá-la?
— Sim, senhor, por favor — Henry pediu.
A minha vontade de atirar nele só crescia.
Também estava estampado na cara de Henry que ele estava bancando
o espertão e me levando para uma armadilha.
Vivi o suficiente para saber que bajuladores são os primeiros a tentar
te matar.
Joguei o copo com whisky nas chamas da lareira, que rapidamente
expandiu num estouro alarmante e aqueceu as minhas costas. O homem
diante de mim deu um salto para trás, como uma criança.
— Espero que se recorde desse dia, Henry. Em que você ficou de
joelhos e implorou para que eu salvasse a sua pele.
— Eu me lembrarei, senhor.
Saí da frente daquele verme e andei em direção a saída. Não havia
mais nada a ser feito ali.
— E da próxima vez, Henry, se me fizer esperar, eu irei entrar em
cada cômodo dessa casa e matar quem quer que esteja aqui. Eu respeitei o seu
chamado, então respeite a minha presença.
— Não se repetirá, senhor, eu prometo.
Revirei os olhos e encarei a porta majestosa de mogno entreaberta.
— O que está esperando? Me dê uma foto dessa droga de mulher!
Capítulo 5
Do Brooklyn a Manhattan
Layla

Raramente mostro o meu rosto em público.


Caçada por toda sorte de gente, dos criminosos de rua até os policiais
de Nova York, preciso cobrir o rosto, usar lentes para mudar a cor dos olhos e
até mesmo moldar o corpo por debaixo da burca preta.
Não chamo a atenção de alguns algozes, mas atraio outros.
— Terrorista! — Alguém esbarra em mim com muita força e eu
quase caio.
Olho ao redor, percebo que mais olhares do que os necessários estão
voltados para mim. Os seguranças do metrô olham de longe, quando fazem
menção de se aproximar eu mostro que estou bem e sigo, curvada, cabeça
baixa, tentando chamar menos atenção possível.
— Volte para o seu país de merda! — Alguém cospe na burca e
segue o caminho.
Não consigo ver seu rosto, sei que é homem, normalmente eles são os
mais agressivos. As mulheres julgam, caladas, algumas até se compadecem
ao perceberem que o ódio que sofro se assemelha ao assédio que qualquer
uma pode passar.
Paro um segundo para conferir se Yohanna está bem, ela me atende,
consigo ouvir a TV com algum desenho ao fundo e digo que logo chegarei
em casa, que ela se comporte e não abra a porta para estranhos, caso o
porteiro toque o interfone ou até mesmo os vizinhos chamem, ela deve se
esconder e fingir que não está lá. Ela concorda, já sabe o roteiro de cor, digo
que a amo e desligo.
Nesse pequeno gesto percebo que estou sendo seguida.
Três homens bem altos, carecas, um deles tem uma tatuagem na
cabeça que lembra uma cruz, mas um tanto distorcida...
Sei bem o que garotos assim querem... confusão. Mas eu não posso,
não estou aqui para chamar mais atenção do que devo.
— Ei! — um deles assovia e me chama.
Desisto de descer pela escada rolante, seguro com firmeza no
corrimão das escadas e segurando a parte inferior da burca para enxergar o
chão, começo a descer os degraus com muita pressa.
— Vai, pega ela! — Ouço ao fundo.
Deus! Esse terror nunca acaba!
Quando não estão caçando a Layla, a fugitiva dos porões e masmorras
de donos de escravas, estou fugindo de skinheads, neonazistas, cidadãos de
bem que precisam livrar o mundo de terroristas...
— Parem essa mulher! — Um deles diz alto.
De relance percebo que uma mulher vestida de cigana atrapalha a
descida de dois deles na escada rolante, queria poder agradecê-la, mas preciso
continuar a fugir. Outro me persegue pela escada.
Alcanço o metrô que está prestes a partir, me enfio dentro o mais
rápido que posso, algumas pessoas simplesmente abrem caminho, afinal de
contas, ninguém quer esbarrar em uma pessoa como eu e assim me enfio
dentro do lugar e vejo que um deles conseguirá me alcançar.
Começo a andar dentro dos vagões, esbarrando, empurrado, tentando
ultrapassar para seguir para outro vagão e depois outro até despistá-lo.
Todos os vagões rapidamente se enchem e de longe consigo ver que
um está completamente vazio.
Avanço corajosamente, peço desculpas, mantenho a respiração em
ordem, embora ofegante e assustada, e sigo para aquele oásis, onde sei que
terei espaço para ficar bem e quem sabe ficar longe do delinquente.
Infelizmente conforme sigo, ele vem em meu encalço. Os amigos já
não estão mais com ele, mas quando se trata de mulheres encurraladas,
homens ficam corajosos demais, principalmente em lugares como o metrô ou
ônibus...
Quando estou prestes a passar para o vagão, tombo no chão.
Sinto a mão do garoto em minha nuca, apertando com força. Sim,
garoto, não deve ter mais do que vinte anos...
— Solte-a.
Repentinamente tudo se apaga e até mesmo aquela sensação no
pescoço é esquecida.
Aquela voz chega aos meus ouvidos como um trovão que não passa
despercebido. A minha pele parece se lembrar daquele som e rapidamente
sinto cada um dos meus pelos, os que tenho e os que arranquei em depilação,
se arrepiarem por completo.
Levanto o rosto suavemente e percebo que em cada porta daquele
vagão tem pelo menos três homens, todos de sobretudo, chapéu Fedora, mãos
nos bolsos.
Há apenas um homem sentado, ele carrega um dispositivo kindle em
suas mãos, e seus olhos não estão mais concentrados em sua leitura, mas no
vagabundo atrás de mim.
Sinto meu pescoço livre, mas ele continua em cima de mim. O olhar
do homem, trajado de mafioso, rapidamente me aquece. Perco o ar, preciso
relembrar como se respira, seco por cima da burca a minha testa e desejo,
mais do que nunca, me abanar.
— Perdoe-me, senhor, ela é uma terrorista... — O moleque tenta
explicar.
O homem sorri de canto, com escárnio. Move a cabeça devagar e olha
para os lados, para seus homens.
— Eu também sou — ele diz, como se não se importasse.
O moleque faz menção de se agachar, mas imediatamente metade
daqueles homens sacam suas armas e o encaram. O rapaz se levanta,
assustado.
— Saia — O homem que já retornou à sua leitura, diz com
simplicidade e passa o dedo pela tela.
Dessa vez o meu algoz foi embora, mas sei que me aguarda um vagão
ou dois de distância...
O que devo fazer?
Levanto-me, bato as mãos onde ficam meus joelhos para limpar a
poeira e dou meia volta para ir embora também.
Eu não quero, eu não estou preparada, eu não...
— Você! — Ele diz de forma enfática.
Paro onde estou e viro o rosto, o suficiente para vê-lo de soslaio.
— Fique. Não saia agora, não corra perigo assim.
O que devo fazer, Deus?
Apenas de canto de olho já posso ver a miragem que esteve em minha
cabeça por todos esses anos e quis o destino que nos encontrássemos em
um... metrô?
Viro-me em sua direção, assustada, sem saber o que fazer. Ele sequer
se importa, já voltou a ler.
Primeiro encaro os homens de semblante severo que seguem meus
passos, não parecem felizes com a minha presença, mas consigo sentir que
não farão nada a respeito. O seu chefe permitiu que eu estivesse ali, o que
fariam?
Aliás, o que ele fazia ali? Um homem como ele, em um vagão de
metrô?
Passo por ele para me sentar mais ao fundo para impedir qualquer
contato visual... mas não posso deixar de parar por um segundo enquanto
estamos lado a lado... é impressionante... ele é exatamente como me lembro.
Alto, cabelo castanho com alguns tons dourados, bem estiloso. Agora
usa um terno justo ao corpo, uma das mãos segura o livro digital enquanto a
outra repousa sobre a perna. Ele está sentado, mas suas costas não tocam o
apoio do assento. É ele. Eu sei que é ele.
Então ele levanta o rosto e me encara.
Quase caio. As pernas falham, a pupila se dilata, fico paralisada.
Tudo o que eu deveria fazer era andar rapidamente até o último
assento, me encolher e esperar a minha estação para descer o mais rápido
possível.
Não. Eu tinha que tentar vê-lo, era tentador chegar tão perto... e eu
cedi à fraqueza.
Os olhos prateados vêm em minha direção, é nítido que as pupilas se
dilatam rapidamente, e quando percebo, abaixo o rosto e corro para o fundo,
sento-me e fico imóvel ali.
Esses olhos azuis de um tom límpido e prateado que eu vi a menos de
um polegar do meu rosto... esses mesmos olhos que vejo todos os dias
quando coloco Yohanna para dormir...
Ele é exatamente como me lembro. Agora tem mais barba, parece
mais forte, mas manteve aquele olhar vítreo, que parece olhar através da
matéria, de um jeito instigador e predador. Os lábios estão exatamente como
eu os deixei, são levemente grossos, num tom quase vermelho, guardando um
milhão de sorrisos que ele não consegue dar sem ser por deboche ou dor.
— Você está bem...? — ele pergunta, vira seu rosto de modo que eu o
veja de perfil.
Fecho os olhos e balanço a cabeça negativamente.
Eu não consigo.
Eu não posso.
Eu ainda não sou forte o suficiente.
Sequer espero a minha estação chegar. Quando a porta do vagão se
abre e os brutamontes me dão passagem, corro para fora e sigo em frente,
sem olhar para trás.
Se o conheço, sei que ele olharia pelo vitrô, sei que acompanharia
meus passos, sei que até sairia para vir atrás...
Espero, por Deus, que ele não tenha percebido que era eu. Com todo o
corpo coberto e lentes de contato é o mínimo que posso esperar.
Eu não fui ninguém.
Só umas noites no meio do deserto, entre o desespero e o abandono.
Não posso, entretanto, conter o sorriso que fica fácil por debaixo do
pano. Eu o reencontrei. Ele ainda existe. Ele vive aqui, perto de mim!
— Você é tão bonita... — Aquela mesma voz disse, sete anos atrás.
Suspirei alto, na verdade arfei, as mãos trêmulas timidamente o
abraçando pelo pescoço, enquanto seu corpo avançava em direção ao meu e
eu sentia a minha carne queimar de dor... de adrenalina... de prazer.
— Lembre-se de mim — eu pedi, em minha língua.
Não sabia como se dizia na língua dele.
E ele sorriu, de um jeito totalmente diferente do que eu o vi fazer. Foi
singelo, verdadeiro, parecia que enfim, o garoto que precisava de cuidados,
tanto quanto eu, parecia feliz.
— Peguem a terrorista! — meus pensamentos voltam para o mundo
real de imediato e se concentram numa voz atrás de mim.
Apresso o passo e volto a esbarrar em algumas pessoas, outras abrem
passagem para que eu saia logo dali e desapareça.
Lá vamos nós outra vez...
Capítulo 6
Manhattan
Adrian Cavalieri

O apartamento está escuro, a pouca luz que penetra os cômodos


advém das janelas que não estão cobertas pelas cortinas pretas.
Continuo de pé, defronte ao vidro cristalino que me permite ver o
movimento dos vizinhos, os carros sempre com muita pressa e por fim sua
chegada.
O tic tac do relógio de parede marca a minha respiração, sinto-me
dividido com esse reencontro, mas ele precisa ocorrer.
Quando a porta da sala se abre, percebo de imediato que ela está
hesitante.
Dá um passo para trás, abre a bolsa, eufórica, e saca a arma. A aponta
para o chão e dá um passo, mais um, evita ligar as luzes.
— Quem está aí? — Ela pergunta.
Sua voz tem autoridade, ela é firme, sabe que pode retomar o controle
da situação. Eu não esperaria menos da mulher com quem eu quis me casar.
— Adrian! — Ela tenta recuperar o fôlego quando me vê, eu tento
facilitar as coisas, acendo a luz do abajur ao lado da poltrona e me sento nela.
— Oi, Fay — A cumprimento, cruzo as pernas e coço o queixo
devagar. — Precisamos conversar.
Fay Williams joga a bolsa em cima da mesa de centro e avança em
minha direção como se fosse arrancar minha pele do corpo. Eu a encaro sem
mostrar minhas emoções, isso não seria novidade, eu nunca mostro mesmo.
— Você não pode entrar aqui assim! — Ela reclama.
Fay anda em círculos, tapa os olhos com a mão esquerda e pragueja
com os lábios, entretanto, nenhuma voz sai deles. Depois me encara, muito
séria, desabotoa o botão próximo ao pescoço da sua farda de agente do FBI e
tira tudo do bolso, joga no sofá, me mostra o celular e o desliga, o leva para a
cozinha.
— Pensei que tinha devolvido a sua chave do apartamento! — ela
pragueja.
— Eu devolvi — respondo.
— Então como entrou?
— Dei o meu jeito.
Nos encaramos por dois segundos. Mais do que isso, ela sabe,
começamos a tirar a roupa e destruir a decoração do apartamento. Então
evitamos o contato visual.
Bom, ela evita, eu continuo a encará-la.
— Você veio aqui por nós? — ela diz isso como se quisesse me
desestabilizar. E eu consigo ver em seus olhos que ela é quem parece
desestabilizada.
— Antes de começarmos a foder, éramos bons amigos — dou o strike
one. Levanto-me e encaro a janela. — Antes de começarmos a namorar, você
sabia quem eu era e do que eu era capaz.
— Mas isso foi... — ela tenta se explicar.
— Eu pareço um ex-namorado psicótico que invade a casa da antiga
mulher por qualquer assunto que envolva “nós”, Fay?
— Adrian...
— Não estou aqui “por nós”. Nunca houve “nós”. Eu te pedi em
casamento e você recusou, e se lembra por quê?
— Adrian, eu sinto muito...
— Você se lembra das suas palavras, Fay? — a encaro e na fração de
segundo que nossos olhares se encontram, percebo que esse assunto é
delicado para ela.
— Lembro.
— “A minha carreira é tudo para mim. Eu sou a droga de uma
agente do FBI que quer chefiar essa jurisdição... E me casar com um
mafioso, pior, o chefe da máfia, enterraria minha carreira. Para conseguir
essa promoção eu preciso me casar com alguém que eleve o meu status”...
— Adrian, por favor... — a voz de Fay ficou embargada.
— Eu vivo em um mundo onde doze famílias tentam me casar com
suas filhas, e se eu não me casar com nenhuma delas, se eu ouso cogitar me
casar com alguém de fora, sabe o que acontece, Fay? O fim do mundo que os
Maias prometeram em 2012. E ainda assim eu te pedi em casamento.
Ela ficou calada. Era o que eu precisava.
— Não estou aqui por nós — reafirmei, respirei fundo e caminhei
pelo cômodo para ligar a luz.
— Por que você veio? — ela se sentou e seguiu meus passos.
— Preciso matar uma mulher — voltei para minha posição anterior e
me sentei na poltrona. — A Famiglia já esteve atrás dela, mercenários de rua,
gangues, a própria polícia de Nova York. Ninguém consegue capturá-la ou
matá-la.
— Acho que o Patrick falou dela... — Fay encarava o dorso da
própria mão, mexia na aliança.
Patrick era o noivo dela. O novo chefe da polícia de Nova York, um
cara com histórico duvidoso e comportamento extremamente questionável,
mas era o trampolim para a carreira dela, enquanto eu era o abismo.
— Pois é. Ninguém fez o trabalho direito, então eu preciso caçá-la.
— Você sabe que pode pedir ajuda para algum brutamonte de uma
dessas famílias envolvidas com a Cosa Nostra...
Fiz um sinal negativo com a cabeça.
— Precisa ser eu, Fay. Todos esses malditos incompetentes falharam
e agora essa mulher se tornou questão de estado. Ou ela morre ou as merdas
que ela tem para jogar no ventilador podem fragilizar gente poderosa.
Fay concordou, ainda continuava cabisbaixa. Os cabelos acobreados
tentavam cobrir o rosto, ela já havia tirado o terno, estava apenas com uma
maldita camisa social branca que revelava um volume generoso em seu
busto. Precisei desviar os olhos antes de continuar a ver demais e desejar o
que não era mais meu...
Sem falar na porra da aliança que brilhava ali no dedo anelar.
— Quem é essa mulher, Fay?
Fay arqueou a sobrancelha sutilmente e depois ergueu os ombros e
abaixou. Passou a palma da mão uma na outra e encarou o vazio, soltou um
suspiro em algum momento.
— De onde ela veio? Onde esteve esse tempo todo? Como conseguiu
a porra desses documentos que podem foder com tudo? — insisti. Quase me
aproximei para que ela tivesse a pachorra de olhar em minha cara.
— Sinceramente não sei, Adrian. Patrick pediu, inclusive, que o FBI
não se metesse nisso, que ele daria um jeito.
— E não deu — contrapus.
— Se você está na cola dela agora, de alguma forma, ele deu um jeito.
Fay me encarou por um segundo e fui eu quem desviei o olhar.
Eu não sabia ao certo o que sentia depois de toda aquela situação, mas
tê-la perdido para aquele cara... isso me deixava louco.
Ele não era bom o suficiente para ela. Antes de sermos amantes, ela
era minha amiga, eu tinha de protegê-la de tudo, e deixá-la nas mãos daquele
cara era... era como ter falhado comigo mesmo.
— Você sempre dá um jeito, não é, Adrian? Como recentemente
aconteceu no caso do Héctor Mitchell, ficamos sabendo de tudo. Você
conseguiu praticamente parar Nova York inteira porque a mulher do homem
foi raptada. Nem mesmo o prefeito, o governador, sequer o presidente
conseguiriam parar essa cidade. Mas você...
Enquanto ela falava, gesticulando devagar com as mãos e encarando a
mobília do que seria a nossa casa, eu a fitei.
Não, eu não a amava mais. Havia ainda alguma chama, um tesão, uma
vontade absurda e animal de tirar a roupa e resolver as coisas como na época
da Guerra do Fogo. Isso porque havia uma tensão e um ódio entre nós, algo
que não fora devidamente resolvido.
De resto, não havia qualquer outro sentimento.
Apenas a vontade de protegê-la de um homem sedento pelo poder.
E Patrick era esse homem. Eu não precisava conhecê-lo para saber o
tipo de demônio que se escondia ali. E mesmo que eu tentasse, porque tentei
avisá-la do perigo em que se metia, Fay só se preocupava em se tornar a
superintendente, receber honrarias e chegar no topo da sua hierarquia.
Ela só precisou vender o corpo e a alma para isso.
—... que você tem. Você é um dos homens mais poderosos de Nova
York, Adrian. Você comanda tudo por aqui. A sua família organizou a
criminalidade para que isso não fosse mais o caos da década de 70. Mas
sabemos que se você estalar os dedos, o caos retorna, nem a polícia, nem o
FBI, nem ninguém conseguirá segurar aquilo que você comanda. Então acho
que essa é a forma que ele encontrou de reconhecer o seu poder, respeitá-lo e
deixar implícito que ele te deve uma.
— Ele não me deve nada — me levantei, puxei o sobretudo e o
carreguei no braço. — Homens como eu não fazem negócios com vermes.
— Mas você vai matá-la, não vai? Essa mulher que vai colocar tudo a
perder. Henry te pediu, mas você sabe, e se não sabe, eu estou te dizendo,
Adrian: Patrick está por detrás disso. Ao resolver esse caso, ele será louvado
feito um Deus.
O encontro com Fay foi positivo em diversos âmbitos.
Primeiro que eu percebi, depois de meses sem vê-la, o que eu
realmente sentia – ou não sentia.
Segundo, que ela deixou escapar todas as informações que eu
precisava, mas que Henry, por exemplo, não se dignou a me dizer.
E terceiro: aquilo era uma armadilha.
Tudo aquilo. Cada passo. Eu pude ver diante dos meus olhos a mente
dos homens que armaram todo aquele plano, do momento em que fui
solicitado até a conversa com Fay.
Peguei o chapéu Fedora que eu raramente usava, mas que carregava
comigo sempre e me dirigi até a porta, para sair.
— Adrian! — Fay me chamou.
Parei. Eu deveria ter continuado, seguido o meu caminho, mas parei.
— Sim?
— Eu irei me casar em dez dias — ela avisou.
É, eu sabia disso. Era um dos motivos de tê-la ido ver também.
— Problema seu.
Capítulo 7
Manhattan
Layla

Recomeços são caros demais.


Pessoas como eu não possuem dinheiro, tempo ou poder o suficiente
para uma segunda chance.
Por isso preciso fazer com que Yohanna não precise de nada mais do
que a primeira oportunidade e isso possa bastar.
— Eu só preciso de um lugar seguro para me recuperar. Depois vou
embora — tentei explicar naquela ocasião, anos atrás.
Após ter me levado para dentro do posto de observação improvisado,
numa tenda que lembrava uma sala de direção, o homem me examinou.
Abriu um armário onde haviam medicamentos básicos, puxou de lá
uma lanterninha que me incomodou horrores quando colocou em direção ao
meu olho e examinou as minhas pupilas. Depois ele mediu a minha pressão,
passou algo ardido nas feridas que eu tinha e me deu algo de comer e beber.
Tudo isso, é claro, após me vestir com seu avental.
O que ele era? Um soldado? Médico? Uma miragem no meio do
deserto?
— Não — pedi ao perceber que ele ia pegar o rádio com que se
comunicava com os outros soldados.
Seus olhos vítreos me encararam, desconfiado, ele deixou o aparelho
guardado na gaveta da mesa e continuou a me observar.
Ele falou, é claro, mas entendi pouca coisa. Conseguia entender
apenas algumas palavras e isso não era o suficiente para interpretá-lo. Sempre
fui curiosa a respeito do inglês e o pouco que aprendi veio de um dicionário
bilíngue que implorei para que meu pai comprasse, de presente para mim.
Haviam outras formas, entretanto, de interpretá-lo. A língua era um
obstáculo, mas os gestos... os métodos da medicina... e até mesmo os olhares,
definitivamente esses eram universais.
— Eu me chamo Layla — expliquei.
O homem me encarou, atento, piscou os olhos e se sentou na cadeira
atrás da mesa.
Apontei para mim mesma.
— Layla.
Sua cabeça balançou positivamente, seus braços se cruzaram e ele me
olhou com cara de mau. Aquilo me deu medo, de início, mas ao mesmo
tempo eu me sentia... esquisita, perto dele.
Era uma sensação bem diferente da do árabe que me comprou.
— Eu não sou daqui. Estou fugindo, pois estão me caçando. Me
querem morta. Eu preciso sair daqui, preciso atravessar a fronteira e
continuar... eu não tenho rumo — tapei o rosto, tentando conter as lágrimas.
O homem continuou em silêncio, cada movimento meu parecia
sempre suspeito e perigoso, então percebi que precisaria ser um pouco menos
expressiva em meus sentimentos, para não assustá-lo. Mas como eu
conseguiria?
Eu vinha do inferno, eu passei pelo caos, todos me abandonaram e
agora a minha cabeça estava estampada por aí como assassina...
— Me ajude a fugir — pedi.
Como era “fugir” na língua dele? Que idiota, eu esqueci!
Ao vê-lo se levantar, rapidamente me encolhi. O que ele pretendia?
O assisti vir em minha direção, sem pressa, com cuidado, trouxe a
cadeira e a colocou defronte para mim. Ele se sentou, esticou a mão e eu
fechei bem os olhos, com medo.
Quando ousei abrir, recuperando a pouca coragem que tinha, vi seus
dedos a um ou dois centímetros do meu rosto. O desconhecido que me
permitira atravessar a fronteira afastou um fio de cabelo do meu rosto e o
colocou atrás de minha orelha, depois tocou na palma da minha mão. Com a
mão livre, subiu a manga daquele jaleco e me mostrou os hematomas.
Ele me perguntou algo. Eu não sabia bem o que queria dizer e
infelizmente ele não entenderia.
— Me deixe ficar — tentei, com o pouco inglês que sabia. — Vou
embora em alguns dias.
Não recebi um não, tampouco um sim.
O soldado-médico de olhos prateados se levantou, e por impulso,
segurei em seu braço.
— Por favor — pedi. Estava quase chorando.
Essa era eu. Uma menina chorona que só tinha como saída, fugir.
Eu tentava dizer para mim mesma que era forte e que conseguiria sair
dessa, que faria absolutamente qualquer coisa para sobreviver ou até mesmo
voltar para casa... mas era tudo ilusão.
Eu era ninguém, indo para lugar nenhum, sem destino certo.
Guiei a palma da mão dele para o meu tronco, entre meus seios.
— Layla. Ficar — pedi.
Aquele foi o início dos melhores dias da minha vida, embora curtos.
Aquele homem foi o primeiro e único a me dar uma segunda chance.
Mas nem tudo são flores, e quando são flores, são de velório.
Agora o passado fica para trás. Apresso o passo e evito olhar para
trás. Dessa vez algo pior do que skinheads ou neonazistas estão atrás de mim.
Fujo, preciso tomar cuidado para não tropeçar nas pessoas, em minhas
próprias vestes ou cair por puro capricho do destino.
Não são delinquentes ou policiais. Não são gangues ou moleques que
querem fazer arruaça.
Ele me persegue.
Não sei como descobriu que eu estava aqui, sequer me deu tempo
para me recuperar do nosso encontro recente, agora está em minha cola.
Era apenas uma noite comum após o fim do meu expediente no lugar
onde trabalho remotamente para conseguir ter dinheiro para pagar as
despesas, eu sabia desde o princípio que havia uma sombra na rua.
Fui para o beco, como de costume, vesti a burca e saí de cabeça baixa,
apressada, a estação de metrô não era muito longe. E eu podia, eu sei que
podia sentir seu cheiro tão perto desde que saí da lanchonete.
Um cheiro vivo, de selva e caça. Uma mistura de hortelã com
especiarias, de longe era muito frio e refrescante, mas de perto, como senti
naquele dia, era quente, chegava a marcar a minha pele; pelo menos o
pensamento ficara marcado.
Quando tive coragem para espiar por trás dos ombros, eu o vi.
Alto, de terno preto, o chapéu na cabeça e o olhar de caçador.
Seria o meu fim. Eu não podia deixar que ele me capturasse, não
agora.
Tentei despistá-lo pelos corredores do lugar, mas seus passos me
seguiam por toda parte.
O que fazer? Tirar a burca e seguir mostrando meu rosto por aí e
chamar a atenção da polícia também?
— Zoe — ouvi sua voz no fundo do corredor, o suficiente para me
arrepiar e me dar forças para correr mais rápido.

— Layla — voltei a segurar a mão dele e a direcionar para o meu


corpo, apontando para mim. Precisava saber ao menos o nome daquele
homem e essa era uma forma, digamos que até primitiva, de indicar o que eu
queria.
Ele percebeu.
Sorriu sem graça, de um jeito que por um momento me fez esquecer
que era um soldado de guerra num país desconhecido e por debaixo da farda
camuflada era apenas um menino também, que parecia estar fugindo de
alguma coisa ou de alguém.
Daria tudo para saber sua história, mas a língua me impediria de
conhecer.
Anos depois eu descobri, ou penso que ao menos descobri.
Ele não parecia mais um soldado ou um médico, mas um homem da
máfia, rodeado por famílias muito poderosas, ele era como o rei, o presidente,
o chefe de todos eles.
Também soube do que ele fugia... ou melhor, o que ele procurava.
Tentei encontrar formas de me reaproximar, mas um homem como
Adrian Cavalieri, que é o atual nome pelo qual todos o chamam, está sempre
rodeado de soldados, de pessoas que fazem a economia girar, até mesmo
homens do governo.
Afinal de contas, o que eu diria?
Essa é a sua filha, por favor, cuide dela antes que os meus algozes a
peguem.
Eu aceito ser capturada e sofrer tudo o que eles querem, mas por
favor, não a minha filha. A sua filha. A nossa filha.
Não tive coragem.
Depois de tantos anos? Ele sequer deveria se lembrar de quem eu era!
— Zoe! — sua voz se tornou um trovão, meu coração relampejou no
momento.
Com a mão esquerda em cima do peito que rasgava em dor, continuei
a correr, eu ainda tinha uma chance para fugir e o destino sabia que eu
merecia. Rezei para que a porta do vagão não se fechasse enquanto eu corria,
veloz, em sua direção.
Foi então que no último segundo, antes de eu colocar o pé dentro do
transporte que me levaria mais uma vez para longe dele, ele puxou a parte
preta que cobria o meu rosto.
Os meus cabelos negros se soltaram, até agora imagino que seus
dedos passaram por eles, como ele fez um dia. Virei-me, assustada, e o
encontro dos nossos olhares nos paralisou.
Os dois.
Ele do lado de fora, eu do lado de dentro, a porta entre nós.
Eu respirei fundo, puxei com a boca todo o ar que podia e quase
chorei quando ele...
— Layla... — ele murmurou.
Ele se lembrava de mim! Que merda! Ele sabia quem eu era!
As pupilas negras, envoltas naqueles lindos olhos azuis tão claros e
não mais puros como eu pensava, se dilataram. As minhas devem ter crescido
também.
Novamente ficamos diante um do outro, tão perto, e dessa vez, sem
máscaras.
Então a porta se fechou vagarosamente.
— Shawn... — eu murmurei.
Eu também me lembrava de quem ele era.
Capítulo 8
Vila Patrícia
Shawn Cavalieri

Encaro a escuridão do terreno de toda a minha propriedade enquanto a


lareira tenta aquecer o meu corpo. Estou congelado desde o momento em que
a vi.
A foto me arrepiou, não pude acreditar, não podia ser ela...
Faz quantos anos? Seis, sete, oito?
Ela simplesmente sumiu de repente e para seguir a tradição, voltou de
repente!
E mais uma vez eu tinha uma simples missão: matá-la. Não consegui
a primeira vez e algo dizia que seria uma tarefa ainda mais difícil na segunda.

2011 – Fronteira entre Iraque e Síria

— Shawn... — Layla tocou suavemente em meu rosto e aquele


simples gesto me fez sorrir.
As maçãs do rosto e as covinhas doeram, sorrir não era uma coisa que
eu exercitava e quando ocorria esporadicamente, como naquele momento, me
fazia perceber o quanto meu rosto era bem rígido.
Nunca tive tempo para sorrir.
— Layla — foi a minha vez de falar.
Depois de quatro dias onde cuidei dos ferimentos dela e a observei, já
havíamos aprendido – ou tentado – algumas palavras de nossas línguas. Mas
definitivamente, as nossas favoritas, eram os nossos nomes.
Engraçado... poucas pessoas sabiam que eu me chamava Shawn. E a
primeira coisa que pensei, quando ela pediu para saber quem eu era, foi dizer
a verdade.
— Você está bem agora — falei devagar, analisando os hematomas e
cicatrizes de agressão todas bem cuidadas.
Layla estava em cima da mesa, sentada, um pano branco tapava seus
seios, assim como um tapava sua genitália. Ela me encarava com uma doçura
e confiança que me fazia sentir uma boa pessoa... mas eu não era.
Matei três homens para conseguir as informações que precisava. E
nunca estivemos tão perto de encerrar aquela missão de uma vez por todas e
fazer a nossa pátria sair vitoriosa depois do atentado terrorista... também é
verdade que a protegi de Philip, que nos dois primeiros dias, tentou fazê-la de
brinquedo.
Layla estava machucada, precisava de ajuda e bons cuidados, e eu,
como médico em formação, não poderia permitir que ele se aproveitasse dela.
Na guerra, homens passam dos limites...
Devo confessar que eu também passei, quando matei aqueles homens.
Mas jamais e em hipótese alguma eu passaria dos limites com aquela
mulher.
Ela disse algo totalmente incompreensível em sua língua, dei-lhe as
costas, assenti devagar, fingindo que concordava, e depois voltei para
finalizar um curativo que eu não estava totalmente satisfeito. Não havia
material hábil e eu estava fazendo aquilo escondido do meu general, com os
poucos recursos que tínhamos ali...
Foi então que minha expressão me denunciou.
As pupilas rapidamente se dilataram e pisquei os olhos duas, três
vezes para poder me conter.
Quando virei-me na direção do corpo feminino, ela estava de pé,
olhando para mim... e completamente nua.
— Layla, por favor... — fiz menção de pegar suas roupas.
Ela me impediu.
Voltou a tocar o meu rosto e a sorrir de um jeito tímido e ao mesmo
tempo, bem lá dentro, de um jeito levado.
— Você é tão bonita — murmurei, a voz até falhou.
Porra, eu era médico. O corpo, qualquer corpo, era a minha
ferramenta de trabalho! Como, depois de ver e cuidar de alguns corpos, eu
me sentia constrangido olhando para ela?
Ela disse algo também. Não entendi naquele momento o que
significava.
Mas pareceu uma permissão.
— Shawn... — ela voltou a me chamar, enquanto se aproximava
devagar, suas mãos, as duas, agarraram a minha, que era bem maior. E levou
aos seus seios.
— Layla, nós não...
— Por favor — ela pediu.

Atualmente – Vila Patrícia


— Você me chamou aqui para ficar em silêncio? — uma voz corta o
vibrar das chamas, interrompe a minha lembrança e me faz voltar ao presente.
Um homem vestido como membro da Famiglia, mas longe de ser
integrante de sua hierarquia, está sentado em minha poltrona majestosa de
couro preto. Parece se divertir ao girar o whisky no copo, deve se sentir como
nas cenas dos filmes hollywoodianos.
Após acompanhar pela janela algumas luzes se apagarem, nas
mansões de toda a Vila Patrícia, a propriedade que construí para a minha
família, onde ainda moravam minha mãe, avó, sobrinhos, outros parentes e
alguns dos meus melhores homens, eu fecho a janela, dou meia volta e me
escoro na mesa de madeira nobre.
— Sejamos sinceros, Adrian, essa é a primeira mulher que você caça
e precisa neutralizar? — ele se dirige a mim. — Vai ser tão difícil assim
acabar com essa mulher?
Encaro seus óculos escuros, como se ele pudesse me enxergar por
detrás deles. Mas Ethan Evans não pode. Ele é cego, desde que nasceu. Das
ironias da vida, foi justamente esse motivo que nos aproximou. Não o fato
dele nascer, isso ajudou, é claro, mas o fato dele ser cego.
Uma vez eu estava em um lugar e ele não parava de me encarar... por
minutos inteiros, seu rosto estava virado para mim, e ele parecia rir, então fui
tirar satisfação.
Descobri que ele não estava rindo ou zombando de mim, me senti até
constrangido de puxar uma briga com um cego. Aí ele se tornou um dos meus
melhores amigos, uma pessoa em quem confio cegamente.
— Você se lembra de alguma das minhas histórias na fronteira do
Iraque com a Síria? — olhei para a minha sala majestosa, vendo tudo o que
conquistei.
— Isso faz um tempo, mas eu me recordo, sim — Ethan cansa de
balançar o whisky e o bebe de uma só vez.
O invejo por um segundo, em seguida começo a andar pela sala.
— Se lembra que quando estive em uma fronteira desértica, quase
tirando férias, eu tive um encontro inusitado? Com uma mulher que tentou
ultrapassar a fronteira?
Ethan apontou o dedo indicador para mim e abriu um sorriso
malicioso.
— Ah, histórias de guerra... essa parte é a que fica interessante.
Repreendê-lo com o olhar não era a melhor das opções.
— É ela. Eu sei que é ela. Só pode ser ela, Ethan...
— Mas você não disse que ela desapareceu? Que um dia você
acordou e ela simplesmente não estava lá? Justamente depois de vocês
terem...?
— Exato — o interpelei, antes que completasse a frase. — Ela sumiu.
E você sabe que eu parei tudo, absolutamente tudo para reencontrá-la. Eu
poderia ter sido considerado um desertor, se não fosse quem eu sou. O meu
general me deu três dias para achá-la, mas não consegui. Foi aí que precisei
voltar para o meu posto. Eu poderia ter sido preso, por essa mulher! —
rosnei, o punho bateu forte na mesa.
— Você não pensou que ela tivesse morrido?
— Morrido, fugido, virado pó, sei lá! Ela simplesmente desapareceu!
Não houve vestígio dela em canto algum... e quando percebi, a minha missão
ali já havia acabado. Matamos aquele terrorista e retornamos para casa...
— Layla — Ethan coçou o queixo. Ao ouvir esse nome, volto a me
arrepiar. — Esse era o nome dela, não é?
Concordei de imediato.
— E o que ela tem a ver com essa Zoe?
— Layla é a Zoe — expliquei.
Ethan fez uma careta, esticou a mão com o copo sobre a mesa e eu o
peguei antes que ele derrubasse ou fizesse alguma bagunça. Em seguida
Ethan se apoiou na poltrona e se levantou.
— Desculpa, acho que bebi e estou um pouco zonzo... Você precisa
caçar uma criminosa que pode colocar o Grande Templo em risco, porque ela
tem documentos que podem expor alguns de nossos membros. Essa é a Zoe.
Você está me dizendo que essa Zoe, é na verdade, a mulher por quem você se
apaixonou na guerra? A Layla?
— Paixão é uma palavra muito forte, Ethan — o repreendi.
— Ah, é claro que é. Vamos ver: você terminou o seu curso de
medicina, quando voltou para a América. Aprendeu a falar árabe. Aí, depois,
você foi para lá, peregrinar, em busca de alguma coisa ou alguém... voltou
um tempo depois, frustrado, cheio de vícios e com um vazio existencial que
te deixou devastado. Ai você, tem a audácia de me dizer, que não era
paixão?
— Eu não estava apaixonado — cruzei os braços.
— Você perdeu a virgindade com ela — Ethan sorriu daquele jeito
malicioso. — E foi especial. Olha a carinha que você está fazendo, Adrian.
Foi especial. Você não parava de falar nela, quando voltou. Héctor já não te
aguentava mais, Ricardo fingia que você sequer existia, você só sabia falar
dessa mulher... — ele disse de um jeito descontraído. — Depois, é claro,
começou a falar das mortes em sua família e de vingança... — sua voz ficou
repentina e logicamente mais embargada e respeitosa, nesse final.
— O que você acha que ela fez de fato para que essa gente a queira
morta? — perguntei de forma retórica.
— O que a Madame Lilith te disse a respeito disso, quando te
encontrou no metrô aquele dia?
Madame Lilith era uma mulher poderosa dos bastidores do poder
americano, e quando digo América, falo de toda a América. Ela também foi a
minha síndica, o que aqui significa que foi a mulher que me iniciou no
Grande Templo, e por isso, a minha professora. Héctor, Derick e eu fomos
treinados por ela.
Ela também era a mãe de um dos meus melhores amigos: Ricardo
Leão.
Madame Lilith, ou Elizabeth, sabia de todas as coisas. As que
aconteceram, as que acontecem e as que estão prestes a acontecer.
E nada disso tem a ver com bolas de cristal ou vidência.
Encontrei-a antes de tomar a decisão de encontrar Fay. Elizabeth me
alertou de que tudo aquilo soava estranho e que eu precisava ir até Fay,
porque lá, encarando-a nos olhos, diante dela, eu obteria as respostas que
precisava.
Como sempre, ela acertou. Ao encontrar a minha ex-namorada eu tive
todas as respostas que precisava, sendo muitas delas, de perguntas que ainda
não havia cogitado. Consegui ver os mecanismos de toda a trama girando
fora da cena e entendi que alguém queria que eu encontrasse, e desse um fim,
a todo custo, nessa Zoe. Ou melhor, Layla. Mas por quê?
— Você acha possível que ela esteja em posse desses documentos?
— Se ela estiver, você acha que ela vai te entregar e deixar tudo em
ordem? — Ethan retrucou.
Ethan só não era o meu consiglieri porque não era italiano, porque ele
era um excelente conselheiro. Era basicamente o meu segundo cérebro.
Desde o início, quando assumi os negócios de toda a Famiglia,
sempre quis que ele me aconselhasse. Mas isso pareceu que mexeria com os
ânimos dos patriarcas italianos e seus capos, então decidi por Marco, que era
de uma família respeitada e próximo dos meus irmãos.
— O que o Henry me disse foi: “atire primeiro e pergunte depois”.
Alguém quer que eu mate essa mulher. E não se importa se esses documentos
vão chegar ao conhecimento de qualquer outro, apenas querem que eu a
neutralize.
— Então você precisa neutralizá-la — foi o veredito dele.
Como? Não consegui antes quando ela era ninguém em minha vida.
Agora que ela era a melhor de todas as minhas lembranças, o oásis onde eu
tentava recuperar as minhas feridas, eu deveria simplesmente deixá-la para
trás?
Algo dentro de mim dizia que não era o certo. Não para mim.
—... ou, ao menos, fazer as pessoas acreditarem que você a
neutralizou. Vamos descobrir o que está por detrás disso tudo. E podemos
fazer à moda antiga. Já resolvemos os problemas do Héctor e da Beatriz...
Ricardo voltou e vai ficar por um período até retornar para a Duda... podemos
nos unir novamente, como antigamente, e resolver tudo isso. Ou você ficou
velho demais, hein, Adrian?
Eu era o mais jovem de todos eles. E na hierarquia, o mais poderoso.
Isso colocava um peso de responsabilidade em meus ombros, ao passo
que também me fazia sentir acuado às vezes, como se eu devesse servir à
Famiglia e ao Grande Templo, ao invés de fazê-los me servir.
— Acha que vão suspeitar de algo? Se eu a trouxer para um lugar
seguro e tentar averiguar o que está havendo? — Suspirei alto. — No fim das
contas, se ela for realmente essa pessoa perigosa e que está com documentos
nocivos... posso neutralizá-la.
Menti.
Era fácil dizer aquilo, mas eu sabia, dentro de mim, que não
conseguiria.
Algo em mim gritava que isso seria impossível.
— Converso com o Ricardo agora à noite — Ethan tateou a mesa e
pegou a garrafa de whisky.
— Ei! Aonde você...?!
— E amanhã cedo encontro o Héctor, decidiremos o melhor plano e
eu te repasso tudo. Dê-me as coordenadas de todos os lugares onde você viu
essa mulher anteriormente, vou rastrear todo o trajeto dela até encontrar onde
ela está morando. Talvez eu consiga descobrir alguma coisa, quem sabe ela
esconde algo...
Anuí, ainda irritado ao vê-lo levar o meu whisky.
— Você não precisa... — tentei tirá-lo da mão dele, mas Ethan
agarrou a garrafa como se aquilo custasse a própria vida.
— Você está sóbrio há sete meses. Parabéns — ele me deu uns
tapinhas no ombro. — Mas vou levar isso como garantia, não quero que você
tenha uma recaída. E é óbvio que eu vou beber isso, eu roubei do Terence
Smith anos atrás e vou levar comigo.
Ethan virou-se para a porta e repentinamente se voltou para mim, sua
mão direita pousou em meu ombro.
— Eu vi todo o seu estoque de bebidas. Não beba nada. Eu sei o
quanto tem em cada garrafa, não vou te perdoar se você sair do controle.
— Tudo bem, mas...
Ethan colocou o dedo indicador em meu nariz, imediatamente fiz uma
careta e franzi o cenho.
— Você é o Hierofante do Templo. O professor. O cara que tem que
dar o exemplo. Tudo bem ser essa bomba relógio que às vezes explode e quer
cortar pedaços das pessoas, normal, você é médico...
—... Cirurgião — completei, tentando acompanhar o raciocínio dele.
— É. Cirurgião. Não beba. Vamos dar um jeito de capturar essa
mulher.
— Você quer que algum dos meus homens te leve em casa?
— Não, eu vou no meu Tesla — ele sacudiu os ombros. — Valentina
vai me orientando, dizendo as direções ou coisa do tipo. E como diz aquele
ditado: se morrer... morreu.
Anuí, preocupado.
— Ei, Adrian, deixa eu te perguntar só mais uma coisa — ele voltou
de súbito, Ethan estava claramente um pouco alterado, ou pelo menos,
generosamente espontâneo com tendências ao desequilíbrio. — Como você
tem certeza que é ela?
Como eu sabia?
— Bem, metade das pessoas que sabem o meu verdadeiro nome estão
mortas, as que restaram foram minha mãe e avó, Héctor, Ricardo, Lilith e
você. E, bem... ela.
— Ok, Batman, ela sabe a sua identidade secreta. Legal. Agora
preciso ir, amanhã às sete eu te mando notícias.
— Ethan, eu não acho uma boa ideia uma pessoa cega e bêbada tentar
dirigir algo — precisei externar minha preocupação.
— Poxa, é exatamente o que eu sempre digo em época de eleições,
Shawn.
Capítulo 9
Bronx
Layla

Poucas coisas deram certo desde que me libertei do cativeiro.


Uma dessas poucas coisas foi o fato de ter conseguido um emprego
temporário em uma lanchonete, que com o tempo se tornou um emprego
“fixo”.
Eu não queria, de modo algum, fazer faxinas. Ah, nem pensar! Tudo o
que eu menos queria após ter fugido dos calabouços e masmorras era retornar
para as grandes mansões ou trabalhar dentro do território dessa gente... o sexo
não era opção. Sofri demais, fui usada demais, passei muito tempo na cama e
pouco tempo dormindo.
Nada era com consentimento, nada era agradável e eu dava graças à
Deus de poder sair viva daquelas sessões de verdadeira tortura.
A família Hayes, dona de uma lanchonete bastante frequentada no
Bronx, me estendeu a mão.
Acho que Yohanna os ganhou.
Eu a trouxe aqui, uma vez. Uma das raras vezes em que a minha
pequena pode estar livre, em público, sem precisar se encolher ou esconder.
Ela comeu tudo depressa e depois foi brincar numa área lúdica da lanchonete
com pula-pula e máquinas de jogos.
Karina Hayes, a filha do dono da lanchonete, a gerente do lugar, disse
que precisavam de uma faz tudo ali. Alguém que aceitasse serviço pesado,
desde limpar o chão até servir as mesas, quando necessário.
Expliquei-lhe minha situação de imigrante e ela foi gentil e me
ofereceu o emprego mesmo assim. E é com esse pouco dinheiro que
sobrevivo. Além, é claro, de quando não risco um nome na minha lista e pego
uma quantia razoável pelo serviço.
Aquela lanchonete, a Hot Grill, se tornou o meu segundo lar.
Eu era uma completa nômade, se não fosse por aquele lugar. Eu já
trabalhava ali há três meses!
Foi então que eu percebi que tudo ia mudar a partir do momento em
que a porta do estabelecimento se abriu, no fim da tarde.
Eu estava limpando o balcão, era um dia calmo, não havia
movimentação como de costume e tudo o que eu queria era esquecê-lo,
deixá-lo no passado, ignorar que nos encontramos para valer e ele mostrar
que se lembrava de mim e eu mostrar que me lembrava dele!
Não dormi naquela noite.
Aí no dia seguinte o que ele faz?
Entra pela porta do meu trabalho, senta em uma mesa distante e
esconde o rosto por detrás do cardápio.
Pensei que perderia o emprego naquele momento, mas não.
Ele só entrou, me viu, comeu e saiu.
Foi como um aviso. Foi como se me dissesse “não adianta se
esconder, Layla”.
Posso jurar que seus olhos me disseram isso.
Às vezes eu podia ouvir sua voz em meu ouvido, bem baixinho,
contando histórias de sua vida que eu sequer podia compreender. Entendia,
sim, algumas palavras e as gravei para tentar um dia destrinchar o que aquele
galante e gentil estranho estava me contando.
Agora eu sabia de tudo.
O que eu não sabia era se teria coragem para encará-lo.
Quando o meu turno terminou, saí da lanchonete, fui para os fundos e
ritualisticamente me cobri por inteira, deixei apenas a região ao redor dos
olhos de fora. Coloquei um lanche para Yohanna dentro da bolsa e comecei a
andar rapidamente, o metrô não ficava distante, eu só precisava ser ágil.
— Não fuja de mim.
Eu me arrepiei toda quando escutei aquilo. Peguei outro caminho,
indo por detrás da loja, entrando em becos perigosos que mulheres jamais
teriam coragem de percorrer naquela hora da noite, e lá estava ele: escorado
num muro, o sobretudo preto aberto, mostrando os suspensórios, a camisa
branca e por cima dela, duas armas encaixadas no coldre.
O ignorei completamente. Abaixei a cabeça e segui em frente.
— Layla! — ele rosnou.
Eu tive de parar e tomar ar. Olhei para trás e me assustei ao perceber
que ele estava a poucos centímetros do meu rosto. Como podia? Como se
movimentava tão rápido e silenciosamente?
— Layla — sua voz saiu mais doce e sedutora. — Não fuja de mim.
Por favor.
Respirei fundo. Era o medo? Que sensação estranha era aquela que eu
desconhecia? Era excitação?
Sei que o rosto dele foi ficando cada vez maior, conforme se
aproximava. Seus olhos azuis tão brilhantes pareceram me devorar até que
não sobrasse mais nada, além dos poucos milímetros entre os nossos rostos.
Quando o ar saiu, saiu feito um soluço.
O cheiro dele invadiu as minhas narinas e por consequência fez o meu
corpo queimar. Ao sentir a mão daquele homem tirar o pano do meu rosto, só
consegui abaixá-lo e fitar os meus pés.
O coração não ajudou. Os batimentos se tornaram completamente
desconexos e senti como se estivesse sendo asfixiada. Mas não asfixiada
como no passado, por homens cruéis que tiraram quase tudo de mim.
Asfixiada de um sentimento que, eu quis, eu acreditei, eu desejei que tivesse
morto e enterrado no deserto.
Mas ele estava ali, bem diante de mim.
Suspirei alto ao ter o meu rosto erguido pelo queixo. O dedo indicador
dele me trouxe direto para seu olhar, exatamente de onde eu deveria fugir.
— É você?! Mesmo?! — ele pareceu não acreditar.
Ele não sorriu. Eu não esperava que sorrisse.
Os olhos de Shawn, entretanto, começaram a brilhar ainda mais
intensamente do que o comum.
— Eu sonhei com você tantas noites e ... sequer consigo imaginar que
você está aqui comigo agora.
Desvencilhei-me do toque dele e dei meia volta. O ignorei. Essa era a
minha decisão final.
Eu só precisava partir, ir embora, voltar para casa, pegar Yohanna e ir
para o mais longe possível daquele homem. Eu não podia. Deus, eu não
podia!
Ele, por sua vez, agarrou o meu braço com força e me puxou para
trás.
Eu puxei o meu braço de volta. E comecei a correr,
desesperadamente, o mais rápido que eu podia.
— Layla! — ele trovejou, soou tão alto que por um segundo pareceu
que o bairro todo ficou em silêncio.
Enquanto ele decidiu ficar parado por alguns segundos, observando-
me correr, eu me meti em mais um e outro beco, até que alcancei a rua e
voltei a correr, desesperadamente, olhando para trás algumas vezes para
garantir de que ele havia ficado longe.
Numa dessas, onde olhei para trás, para conferir se ele ainda me
perseguia, bati de frente com o corpo masculino e só não me estatelei no chão
porque ele me segurou com firmeza, olhava-me com total reprovação e fúria.
— Eu já mandei você parar de fugir. Eu não dou ordens duas vezes!
Bom... ele já tinha dado três!
Soltei-me das mãos dele, e ele voltou a me segurar. Todas as vezes
que eu via aqueles olhos se aproximarem era como estar de volta em meus
sonhos de garota... quero dizer... eu não era mais garota, mas ao menos, o
meu lado que ainda acreditava em mentiras de amor.
— Você não pode fugir de mim. Ninguém pode — ele avisou.
Bom... todo mundo precisa acreditar em alguma coisa. Ele acredita
nisso, e eu respeito. Eu acredito que posso fugir sim.
— Você está na minha cidade! No meu estado! No meu país! —
Shawn esbravejou uma vez mais, segurou-me pelos punhos, não de forma
que me machucou, mas para me conter. — Olha para mim. Olha para mim,
Layla, eu preciso de respostas. Eu estou aqui para ajudar.
Fiz que não com a cabeça.
— Não tem mais como fugir. Eu já sei toda a sua rota. Sei todo o seu
trajeto. Sei onde você está e que está escondendo alguém.
Quando ele disse isso, aí sim eu tenho certeza que as minhas pupilas
se dilataram em um nível monstruoso. Eu entreabri os lábios e soltei um
pouco de ar, em seguida fiz força para me soltar. Como ele sabia?
— Quem você está escondendo? Você raptou uma criança?
Foi aí que o meu cérebro parou de funcionar.
Fiquei paralisada pelo choque do momento, e ele voltou a tocar as
minhas mãos, me puxou para si e me encarou a poucos milímetros do rosto.
— Permita-me te ajudar outra vez... eu posso...
Ele continuava o mesmo Shawn do passado. E se eu o conhecia bem...
Afastei-me uma vez mais e tomei tanta coragem, mas tanta coragem,
que até gritei quando o girei de costas para mim e dei um chute, bem em
cheio, nas costas dele.
Shawn urrou tão alto, mas tão alto, que dessa vez não deve ter sido o
bairro, mas o estado parou.
Ele se dobrou no chão, urrando de dor, o rosto vermelho feito uma
pimenta e os olhos cheios d’água. Ele não conseguia mais dizer qualquer
coisa, tentou rastejar no chão, em minha direção, mas já era tarde demais.
Corri para o metrô e desapareci do rastro dele.
Eu precisava voltar para casa.
Eu precisava garantir que tudo estava bem com a minha filha.

Adrian Cavalieri
Estrebuchado no chão, delirando de dor e pedindo a Deus por um
pouco de ópio, quase apaguei quando o sangue começou a esfriar e a dor veio
com mais intensidade, tomando cada parte do meu corpo, surrando-me de
todos os pecados do passado.
Dois ou três minutos no máximo se passaram até que Ethan estivesse
diante de mim, seus sapatos caros bem diante do meu rosto. Para mim aquilo
durou três eternidades.
— Você é fraco — ele disse. — Te falta ódio.
Ri da minha própria desgraça e ele riu daquela gracinha.
— Que cena maravilhosa, hein. Foi lindo vê-la te derrubar. O seu urro
foi tão alto que deve ter assustado todos os animais, os silvestres e os
curiosos em todas aquelas janelas nos espiando — ele apontou ao redor.
— Cala a boca — disse com todas as minhas forças, mas saiu apenas
o vestígio da voz.
— Onde está o Adrian que eu conheço? Pega a mulher, apaga ela,
joga no porta-malas. É tão difícil?
— Vá se ferrar — tentei novamente.
— Põe uma mordaça, uma máscara, dá uma rasteira nela — Ethan fez
uma pausa e riu. — Aí você aparece todo príncipe encantado e pede para que
ela suba na carruagem? Qual é! Você é o Batman! Você sobe nos arranha-
céus, vigia a cidade por cima, você faz parkour, você salta entre os prédios...
cara, você...
— Ethan! — pedi.
— Tá bom, tá bom — Ethan se agachou, me ajudou a tirar o
sobretudo, tirou as armas do coldre e rasgou a minha camisa branca, toda
ensanguentada.
— Ethan! — rosnei mais alto.
— Calma, cara! — Ethan protestou, tirou um frasco do bolso do
paletó e começou a pingar em minhas costas.
Urrei de dor, em seguida ele aplicou uma injeção em meu braço e
segundos depois a dor já não me impedia mais. Senti-me levemente lento,
mas anestesiado.
Levantei-me, embora custei ficar de pé sem apoio, e puxei todo o ar
que consegui. Ethan ficou ao meu lado, me examinando, em silêncio.
— Desembucha! — rosnei, furioso.
— Missão dada é missão cumprida, senhor.

Layla

Se eu soubesse que o elevador demoraria tanto, teria subido as


escadas. Louca como estava, teria invadido apartamentos, gritado bem alto
para que o prédio todo acordasse, seria tirada dali numa camisa de força, dada
como louca.
Errei a chave do apartamento três vezes e quando abri, corri pelo
lugar que estava alugado até o dia seguinte.
— Yohanna? — a chamei.
Procurei-a pela cozinha, pela sala, pelos corredores... nenhum sinal
dela. Fui ao seu quarto e também não estava lá. Entrei no banheiro, vigiei
cada canto, e nada. Ao chegar ao quarto grande com a cama de casal, onde
minha mala estava toda revirada, respirei com alívio e descanso quando a vi
coberta na cama.
Deus! Ainda bem! Obrigada!
Coloquei a mão na testa e sentei-me na cama, tentando agora fazer
todo o silêncio possível para não assustá-la ou tirá-la do sono.
Estendi a mão para tocar em suas pernas por cima do cobertor, mas
achei estranho o toque... Levantei-me e tirei o cobertor de cima de almofadas
que ficaram bem alinhadas fazendo parecer o corpo da minha filha.
— Não! — coloquei a mão na boca.
Ao arrancar todas as almofadas da cama eu encontrei um bilhete. Nele
dizia:
“Eu te disse para não fugir de mim”.
Capítulo 10
Do Bronx à Vila Patrícia
Layla

O que me restava agora? Me entregar, é claro.


Não esperei que amanhecesse, simplesmente refiz o meu trajeto e
voltei para o metrô, dessa vez fechado, e antes mesmo de descer na ala
subterrânea, vi um carro preto, clássico, que eu sabia que esses mafiosos
usavam.
Shawn abriu a porta e saiu de dentro dele, seus olhos prateados
estavam vermelhos, seu rosto parecia bastante alterado, ele me encarou de
uma forma que eu sabia que merecia o pior dele e ainda assim tive medo.
— Eu te tratei bem — ele disse. Foi apenas aí que percebi que ele
estava falando árabe o tempo todo e não inglês. — Fui cordial. Esperei o seu
tempo. E foi assim que você me devolveu...
— Shawn... — abaixei o rosto e tentei me explicar.
Em resposta, ele me estendeu um pano preto, eu sabia muito bem o
que deveria fazer.
Eu confesso que esperava que ele mesmo o colocasse em mim e me
sufocasse, principalmente depois do que eu fiz com ele. Mas ele não fez.
Ficou com o braço estendido até que eu pegasse o pano e colocasse na
cabeça.
— Shawn... — tentei mais uma vez.
— Vai ser do meu jeito agora — ele rosnou e me apagou colocando
um pano úmido em meu nariz.

Adrian Cavalieri

Ela dormiu por quatro dias.


Quatro malditos dias em que a minha cabeça me torturou sobre tudo
aquilo. Eu precisava de respostas e ela precisava descansar. Era notável que
Layla estava esgotada.
Qual havia sido a última vez que ela tinha dormido oito horas no dia?
Parecia que meses.
Diferente de quaisquer outras prisioneiras que iam para salas secretas
subterrâneas, eu a levei para a minha casa. Para o meu quarto. Para minha
cama.
Devia ter feito diferente?
Eu não via motivo para ser de outro modo.
Enquanto Layla dormia, mais pelo cansaço físico e emocional do que
pelas minhas artimanhas de captura, eu cuidei dela. Ela estava cheia de
hematomas, ferimentos, havia, inclusive, um corte muito mal feito e que
parecia bastante infeccionado atrás de sua nuca, coberto por seu cabelo.
Precisei anestesiá-la, para que ela não sentisse dor ou acordasse
assustada, preocupada com o que estava acontecendo... aquilo era
definitivamente muito estranho.
Quando terminei o trabalho e estava convencido de que havia dado o
meu máximo para que superficialmente o corpo parecesse bem, assim como a
pressão e batimentos cardíacos, sentei-me na cama.
A última vez que realmente parei para contemplá-la e perder-me em
seu corpo, em suas curvas, em sua pele... no calendário era há muito tempo,
em mim ainda era como ontem.
Achava bonito como minha pele totalmente branca e sem graça ficava
em contraste com o tom oliva com canela, quente e sedutor, que prendia
minha atenção, respiração e me obrigava a parar o tempo e retornar para o
melhor sabor que já provei na vida: o beijo dela.
Não sei bem se era o beijo ou a lembrança... se era a juventude, o
clima que criamos ou os hormônios...
Meus dedos tremiam ao tocar sua pele. Meu coração ricocheteava
como só fez duas vezes: ao tê-la, completa, para mim e quando a perdi.
Já não havia sobrado muito de mim, com isso, eu é que me perdi
totalmente.
Quem a havia machucado? Quem havia deixado aquelas marcas,
arranhões, aqueles cortes? Quem maltratou a minha mulher?
Eu não conseguia pensar de outra forma além de minha.
O meu lado sombrio e cruel gritava por um genocídio. Não importava
quem, eu faria como Nero, queimaria a porra daquela cidade inteira, talvez o
país. Ninguém sairia impune, ninguém seria poupado, eu seria pior que o
Dilúvio.
Quando meus dedos tocaram os dela, percebi que meu rosto
queimava, as bochechas ficaram engessadas, fechei o semblante
imediatamente e me poupei daquele sorriso. Eu não era homem de sorrir.
Como podia, mesmo depois de tanto tempo, ser tão bonita? Nenhuma
marca, nenhum machucado, nem mesmo a idade puderam esconder a bela e
adorável selvagem estrangeira que roubou a minha virgindade na guerra, os
meus pensamentos após seu desaparecimento e o meu coração para toda a
vida.
Também não conseguia pensar de outra forma: eu era dela. Meu
coração nunca agiu assim com ninguém, nunca fiquei tão nervoso, dedos
trêmulos, feição congelada.
Layla despertou do seu profundo sono e cansaço. Fez isso devagar.
Vigiou todo o perímetro com seus olhos escuros, tão lindos quanto a lua que
tenta se renovar. E quando nos encaramos, foi como um eclipse, desses que
acontece apenas uma vez enquanto estamos vivos.
Eu estava ali, ao lado dela. Era onde meu coração dizia que era o
certo.
Entrelacei nossos dedos e massageei o dorso de sua mão.
— Você me deve algumas explicações — falei na língua dela.

Layla

Acordei de um modo que não me lembrava um dia ter acordado:


descansada.
A adrenalina, a correria, a movimentação contínua do dia a dia não
me permitia focar em minhas dores físicas, tampouco nas lembranças ruins
do passado. Yohanna era a minha prioridade.
Agora que eu sabia que a minha filha estava bem cuidada, pensei que
o corpo cederia de uma vez e eu sentiria todas as dores que me eram de
direito... acho que dormi por muito tempo.
Pisquei os olhos e encarei meus braços, com marcas arroxeadas, o
abdômen com uma leve cicatriz. Olhei por um instante a camisa branca bem
larga em meu corpo e uma cueca boxer que eu usava, igualmente branca, pelo
visto, igualmente dele.
Shawn não me esperou ficar desperta, olhou-me tão intensamente que
perdi todo o ar no mesmo instante. Eu não estava, mesmo depois de tanto
tempo, preparada para encará-lo. E mesmo em silêncio, ele me exigia
explicações. Ao ouvir sua voz, tremi. Ele percebeu.
Um pouco mais velho, com um rosto mais carrancudo do que eu me
lembrava, e aquele olhar de rapaz perdido e que não vê a felicidade há muito
tempo, eu o vi.
Era um homem de parar o trânsito.
De resto, estava do mesmo modo que o deixei. Ou que ele me deixou.
— Explique-se — ele exigiu.
Era em minha língua, não tinha como fugir.
Por onde eu deveria começar?
— Por que você desapareceu? Eu te disse que estava prestes a voltar
para casa e que te traria comigo — ele disse muito sério.
Ah, como se eu houvesse entendido isso naquele momento... se ele ao
menos soubesse falar a minha língua antes...
— Eu saí do meu posto e te procurei... e não te encontrei. E passei
mais tempo do que me orgulho, te procurando, até que eu...
Ele balançou a cabeça negativamente e se levantou. Jogou o
estetoscópio do outro lado do quarto contra a parede. As mãos tocaram a testa
e depois subiram para os cabelos que estavam naturais, nem um pouco
arrumados, apenas jogados para baixo, como se ele fosse um menino rico dos
filmes americanos.
Talvez ele fosse isso mesmo.
— Estou tentando decidir se você é o fantasma que me perseguiu
todos esses anos, ou se foi apenas fruto da minha imaginação... Não seria a
primeira vez que me fazem sentir assim...
Sentei-me e escorei as costas na cabeceira da cama e acompanhei os
movimentos dele. Que gentil. Sem algemas, sem me machucar, sem impor
sua força sobre mim de forma abusiva. Não restavam dúvidas: ele ainda era o
homem diferente que conheci.
Não tive sorte com os outros, todos os outros foram cruéis.
Shawn foi o único homem que eu amei. Os outros só abusaram do
meu corpo.
Ele tinha algo especial... e me fazia sentir especial... e quis o destino
que nós dois tivéssemos algo em comum, ainda mais especial.
— Quem fez isso com você? — ele apontou o dedo para mim.
Indicou cada um dos meus machucados pelo corpo e o rosto, que já
não estava mais coberto pela burca ou maquiagem. Agora era possível ver
todas as marcas deixadas pelos homens que abusaram de mim.
Será que sou tão bonita quanto da primeira vez que você me viu,
Shawn?
Foi o que eu quis perguntar.
Não tive coragem de saber a resposta.

Shawn Cavalieri

— Que merda... — fiquei de costas e encarei o meu quarto pessoal.


Ninguém, além de mim, havia entrado ali. — Sete anos depois, uma vida
inteira de reviravoltas e acontecimentos... e eu ainda me sinto a porra de um
adolescente! — rugi, em inglês mesmo para que ela não entendesse e
derrubei um vaso grego que ganhei de presente.
Voltei a encará-la, e ela ainda estava lá, na cama, sentada, olhando
para mim.
Os cabelos negros levemente volumosos, os olhos selvagens de quem
havia encarado coisas piores do que a guerra, o corpo aparentemente frágil,
por debaixo das minhas roupas, e eu só conseguia pensar o quanto ela havia
sido forte por ter chegado até aqui.
E o quanto eu pedi, o quanto eu rezei, o quanto eu me entreguei para
que um dia pudéssemos nos reencontrar...
— Tanto tempo se passou e... — tive de encher os pulmões, porque
faltava-me ar até para encará-la. — Você ainda é tão bonita... — sorri para
mim mesmo, enquanto ainda fitava a parede.
Por reflexo, virei o rosto e a procurei na cama, novamente.
Quantas vezes eu não consegui dormir ou acordava subitamente de
madrugada, relembrando o pesadelo de um dia ter encontrado a melhor parte
de mim e no outro dia ela não estar mais lá?
E essa cena se repetiu em mim, vez após vez, até que eu começasse a
beber, para fazer parar. E às vezes parava. Então me acostumei a beber mais,
e um pouco mais, até encontrar outras drogas, e por fim, perder o controle da
porra da minha vida e deixar que as pessoas que eu deveria controlar, me
controlassem...
— Layla? — a chamei. Ela já não estava na cama.
— Então vai ser assim? — ela perguntou, em minhas costas.
Sua voz fez subir um calafrio lá do fundo da coluna até o meu sistema
nervoso, o que era cientificamente explicável e eu sabia bem cada movimento
dos átomos e células nos hormônios, até o choque ocorrer.
E quer saber? Foda-se a ciência. Só sentir, sem precisar teorizar isso,
era bastante excitante.
— “Assim”? — perguntei ao me virar para vê-la.
Se antes eu me sentia um adolescente preso em um passado de glória,
em busca de restaurar, talvez a única parte da minha vida pela qual eu amava
me lembrar, agora eu tinha a certeza que ainda era apenas um garoto.
Um pobre, simples e ingênuo garoto que nunca esqueceu o primeiro
amor. Nunca o permitiu ir embora, dentro de si. E que lutou com unhas e
dentes para recuperá-lo, mas nunca foi recompensado...
... até então.
— Todas as vezes que nos encontrarmos você vai cuidar de mim,
senhor médico? — ela perguntou e entregou-me o que restou do estetoscópio.
— Alguém precisa cuidar de você — peguei aquilo por um segundo e
joguei para trás, sem me importar. Segurei no que realmente importava, as
mãos dela e voltei a encarar aquele hematoma profundo no braço. Aquilo não
era comum. Nem mesmo... nem mesmo eu poderia ser tão cruel.
Layla sorriu.
Estava nua.
Parecia uma deusa.
Uma versão contemporânea do nascimento de Vênus, bem diante de
mim. E tudo o que eu conseguia pensar era se devia fazer como Zéfiro e
correr para cobri-la ou fazer como um adorador de arte e simplesmente
admirá-la.
— Shawn...
O meu nome. O meu verdadeiro nome. Lá estava ele, enterrado no
passado, com as melhores partes de mim, tentando retornar... eu deveria
deixar? Só dessa vez? Devo confessar, era muito tentador.
— Ninguém mais me chama assim...
— Estou acostumada a ser ninguém — seus dedos curiosos tocaram a
gola da minha camisa social e nossos olhos se encontraram por um mero
descuido.
E no silêncio da língua que criamos em comum, num passado que
nunca se apagou em mim, quando um não entendia o vocabulário do outro,
eu compreendi o que Layla queria com aquele movimento.
— Eu tenho pergu...
— Eu tenho as suas respostas — ela disse. — Mas antes, preciso
trazer à tona só mais uma coisa do passado, antes que prossigamos para o que
você quer ou não deve saber...
— Você dormiu por quatro dias, mal consegui te alimentar... você não
está com fome?
— Estou. Com fome de você.
Nossos olhos demoraram, um conversando com o outro. Não sei
muito bem o que os meus disseram, as minhas pupilas se moveram
rapidamente, de um canto a outro, olhando o rosto dela, forçando-me a
acreditar que enfim eu havia recuperado algo valioso do meu passado.
E os olhos dela permaneceram parados, encarando-me, como se
naquele gigantesco quarto, naquele gigantesco residencial, naquele
gigantesco e caro bairro, naquela imensa cidade, no país mais poderoso do
mundo, numa terra que é apenas um pontinho de tinta no meio da tela
gigantesca que é a galáxia, eu fosse a única coisa que realmente importava. A
única coisa que ela queria ver.
Porra.
Que sentimento era esse?
Torci, dentro de mim, que fosse assim que ela me enxergasse. Porque
foi exatamente o que pensei, cada segundo que a tive em minha cama, todos
os trezentos e quarenta e cinco mil e oitocentos segundos dos quatro dias em
que cuidei, a contemplei e não pude pregar os olhos nem por um segundo,
para recuperar o tempo precioso que eu perdi todos esses anos.
Layla conseguiu descrever em uma palavra, tudo aquilo que eu senti
por anos.
Fome.
Era um vazio, certamente, mas vazios são muito mais complexos e
talvez não coubessem no que eu sentia no momento.
O que eu sentia era fome. Fome de vê-la, de tê-la, de poder, pelo
menos por um segundo, cogitar que ela ainda existia e que poderíamos, por
sorte do destino, fazer esse momento acontecer.
— Eu tenho uma pergunta para você agora.
Deus, como era bom ouvir sua voz e vê-la conversando comigo,
enfim.
— Sim?
— Por que ainda não estamos transando?
Capítulo 11
2011 – Fronteira entre Iraque e Síria
Layla

— Você é tão bonita — ele disse.


Soava tão belo. Parecia algum tipo de poesia na língua dele, o modo
como aquelas palavras chegavam a mim até me faziam ficar com as maçãs do
rosto queimando. A forma como ele me olhava e sorria, com os olhos, de um
jeito meigo para um rapaz de uniforme camuflado, contribuíam em me deixar
nervosa e encantada, é claro.
— Eu não sei o que o destino me reserva... — falei, em minha língua.
Sei que ele não compreenderia, mas eu precisava dizer. — Não importa o que
aconteça... eu quero que o primeiro seja você.
Shawn continuou me encarando, usando de uma força sobrenatural
para continuar me encarando nos olhos.
Eu ainda não sabia que tipo de efeito uma mulher nua, diante de um
homem, poderia causar. Mas estava prestes a descobrir...
Ele disse algo, parecia algum tipo de negação.
Eu não me importei.
Eu queria.
Poderia ser a minha única chance de sentir algo genuíno, verdadeiro,
e, principalmente: consentido.
Shawn foi tão gentil, educado e prestativo que eu já estava entregue,
antes mesmo de perceber.
Eu o despi devagar, no início ele ficou duro, e isso não era apenas
sobre a postura. Primeiro desnudei o seu peitoral e fingi alguma surpresa
quando pude ver de tão perto aqueles braços e ombros tão largos, fortes e
definidos – como se eu não o tivesse espionado tomar banho...
— Layla... — ele murmurou o meu nome, dessa vez não parecia
qualquer tipo de negação ou hesitação, soava quase que como uma súplica.
Segui com os dedos pelos pelos do peitoral até a virilha, que
formavam um caminho, e no último segundo, antes de invadir sua calça,
encarei-o.
Foi natural.
Aqueles olhos azuis vieram até mim, como duas luminárias no meio
da escuridão, guiando-me por um caminho que eu nunca havia atravessado
até então.
O primeiro toque dos nossos lábios me deixou paralisada, ele mais
desengonçado. Sua mão em minha nuca me assustou, então me afastei
rapidamente, analisando o que estava acontecendo e entendendo as
consequências de ir adiante.
Eu queria.
Por Deus, eu queria mesmo.
Um sentimento estranho me tomou, como se aquilo fosse proibido,
perigoso e perfeitamente feito para nós dois.
— Shawn — eu disse. — Por favor.

Atualmente – Vila Patrícia


Shawn Cavalieri
Layla sempre foi como uma música no repeat, perfeita demais para
acabar, curta o suficiente para me deixar sedento por mais e carregada das
minhas verdadeiras emoções, que eu guardava tão fundo, que na maioria das
vezes sequer sabia se existiam.
Jogada na cama, com o meu corpo por cima do dela, minhas mãos em
sua nuca, num misto de carinho e devoção ao acariciá-la, e ao mesmo tempo,
um misto de volúpia e luxúria para castigá-la, não deixei de acompanhar cada
um de seus espasmos enquanto meus dedos brincavam com ela.
Ela preferiu ficar de olhos fechados, no início, talvez pela timidez,
contorcendo-se diante de mim, enquanto eu a vigiava sentir prazer.
Eu esperei tanto por isso.
Quantas vezes eu sonhei que seria capaz de tê-la de volta em meus
braços? Que sua pele nua, ao raspar na minha, queimava-me e me fazia sentir
vivo?
Eu seria incapaz de parar de olhá-la. Pelo menos, não por agora, eu
não estava pronto.
— Você está olhando para mim? — ela suspirou, as palavras saíram
com dificuldade, em meio a um gemido brando.
— Sabe há quanto tempo estou sem te olhar?
Ela ergueu as sobrancelhas, ainda de olhos fechados.
— Estou te recriando em minha mente há bastante tempo. Tempo o
suficiente para ainda me impressionar com a obra original.
— “Obra”? — ela se mostrou ofendida no início e depois riu.
Aproximei-me de seu ouvido, afastando alguns fios de seus cabelos
que estavam em frente ao seu rosto e pedi num sussurro:
— Olhe para mim.
Ela primeiro abriu um olho, o fechou imediatamente depois. Riu.
Parecia uma menina sapeca, pega no flagra.
Eu também ri. Por dentro. Continuava a admirá-la em silêncio. As
melhores obras de arte devem ser apreciadas assim, foi como aprendi.
— Olhe para mim — pedi.
— Eu não sou tão bonita como antigamente... cheia de marcas, cortes
e...
Tive de interpelá-la. Se esse era algum motivo de sua timidez, era
pura tolice.
— Abra os olhos.
— Você disse que nunca dá a mesma ordem duas vezes...
— Você testa os meus limites, e isso não é de hoje.
Então ela abriu os olhos.
Suavemente tirei meus dedos de suas carnes e massageei a parte
interna da sua coxa, sem parar de apreciá-la.
— Você é melhor do que me lembro.
— Shawn...
Saí da posição em que estava, deitado ao seu lado, e lentamente desci
até suas coxas, os olhos ainda vigiando-a, garantindo que ela não
descumpriria minhas ordens.
— E sabe o mais importante?
— O quê? — ela riu, tentando dificultar nosso contato visual
colocando a mão no meio do caminho.
— Eu me sinto muito melhor do que qualquer dia que já vivi.
— Ah, que egocêntrico! Então esse momento é sobre você?
Calei-a com a minha boca, em seus lábios. Layla se afundou na cama,
suas mãos seguraram com força em meu cabelo, o que me fez afundar ainda
mais, só que devagar, massageando-a, tomando-a, reconhecendo sua pele e
como ela me deixava fora do controle.
Espalmei sua coxa sem muita força, vendo-a constrangida e ao
mesmo tempo perdida em si mesma, sentindo o que eu era capaz de fazer. E
aquilo não chegava perto de como ela me fez sentir em sua ausência.
— Esse momento é sobre nós dois.

Layla

O corpo de Shawn por si só era um pecado.


Uma obra de arte, coberto por várias tatuagens, algumas totalmente
abstratas, outras, um verdadeiro clichê: rosas, crânios, triângulos e olhos
dentro deles, ambos os braços e pescoço eram cobertos pelos símbolos e
desenhos.
E os movimentos que ele fazia com o corpo, eram um espetáculo.
Suas mãos se apoiavam com firmeza na cama, seus ombros
permaneciam perfeitamente parados, enquanto sua cintura avançava sobre
mim, arrancando-me qualquer sanidade que busquei construir nos últimos
tempos.
Eu me sentia envergonhada, não vou mentir. Mas também me sentia
hipnotizada por aqueles olhos que não paravam de me encarar, meu coração
arrebentava no peito, meu corpo reconhecia os toques, meus suspiros até
pareciam os mesmos da primeira vez que aquele homem me deu prazer.
Por dentro ele me queimava, me fazia sentir viva e completamente
desperta, pronta para mais, necessitada por ele.
Por fora, era como uma dança.
Os músculos quase que dançavam com a claridade que provinha da
janela, sua pélvis se movia sempre avançando em mim.
Doía, é claro.
Fui machucada diversas vezes e isso deixou marcas físicas e
emocionais que talvez eu nunca seria capaz de me libertar.
O corpo de Shawn, entretanto, quando se conectava ao meu, me fazia
esquecer a dor e me deixava em seus braços, carente por mais um pouco,
perdida na ilusão de que o homem que eu guardava na lembrança, o que
havia ousado me amar, ainda estava ali.
— Eu te quero tanto — deixei escapar.
Me repreendi imediatamente e fechei os olhos, julgando-me.
O que eu era, afinal de contas? Uma menina? Para dizer uma coisa
idiota dessas?
Quando abri os olhos, quase dei um pulo.
Jurei que foi pela intensidade com que ele veio, feito um leão, para
cima da presa, sedento, nocivo e completamente encantador.
Seu rosto estava tão perto do meu que eu já não sabia diferenciar as
nossas respirações. Seus olhos ocuparam todo o meu campo de visão, tão
grandes, brilhantes e próximos que estavam dos meus.
— Pare de fechar os olhos e olhe para mim — ele mandou. — Passei
uma vida inteira tentando te imaginar e nada chegou perto de como você é.
Você é perfeita.
— Ah, Shawn... — quase me derreti em seus braços.
A sensação me inebriava, era como estar desmanchando aos poucos,
libertando meu coração de todas as correntes e prisões que ele havia se
escondido.
— Eu tenho tudo — ele murmurou.
O silêncio me fez pensar o que ele queria dizer com aquilo, até que:
— Mas a única coisa que existe em todo esse mundo, sem a qual eu
não conseguiria viver, eu acabei de redescobrir: é você.
Então o orgasmo veio.
Olhando-o nos olhos.
Sua mão direita em cima do meu colo, quase no pescoço.
Shawn me fez queimar como eu só senti uma vez na vida, a primeira
vez, em seus braços. E agora, novamente, na pressão de seu corpo.
Algo em mim pedia para que aquela não fosse a última vez.
Eu queria mais.
Era como ter fome.
E eu me sentia pronta para cometer o pecado da gula.

Shawn Cavalieri

Precisei tomar fôlego mais do que uma vez.


O meu corpo reagiu como se houvesse acabado de lembrar uma de
suas memórias mais impactantes. Senti-me aceso, entregue e completamente
aquecido ao tê-la sob meu corpo, nossas peles, imitando movimentos
paleolíticos da época em que o homem criava o fogo com as próprias mãos e
paus. Layla despertou em mim, naquele momento, aquilo que ela acendeu
anos atrás.
Eu busquei aquela mesma sensação incansavelmente nas drogas, na
bebida, no corpo de outras mulheres.
Nada chegou perto do que senti.
Foi como perder completamente o ar.
Estar preso numa redoma lacrada, em mim mesmo, transcendendo
para ela.
Como se nossos corpos tivessem não apenas o encaixe ou atrito
necessário, mas a alquimia de dois elementos da natureza que sonham em ser
um.
Eu queria que ela fosse só minha. Apenas minha.
Por que se houve alguma dúvida no passado, o simples encontro de
nossos olhos carregados de uma magia poderosa, sua nudez que me
emudecia, e seu toque manhoso, quase tímido e que aos poucos se entregava
a mim, dispersava qualquer questão.
Eu era dela.
Eu queria ser dela.
Eu me mantive vivo por ela.
E apenas sendo dela eu poderia realmente me sentir como sempre
quis: completo.
— Mais forte — ela pediu.
Um sopro correu pela minha coluna vertebral, como se aquelas
simples palavras despertassem em mim o que era necessário para ela, e
nossos corpos, juntos, criassem uma harmonia ainda mais perfeita que a
matemática.
Eu não tardei em me afundar, devagar, mas ainda assim intenso, forte,
em movimentos quase bruscos dentro dela.
Layla esticou o pescoço para cima, jogando seu delírio, seu calor, seu
tesão no ar.
E eu respirei seu perfume, me perdi em seus olhos e deparei-me com
o mais estúpido e hediondo sentimento que me perseguia e me era arrancado:
o amor.
Dessa vez eu não deixaria. Dessa vez eu me embriagaria.
Se aquela era minha fraqueza, por Layla valia a pena.
Capítulo 12
Layla

Permaneci presa na cama, encarando-o, após Shawn cuidadosamente


me limpar e se sentar ao meu lado.
Ele passou a mão pelos cabelos de mauricinho e olhou para o quarto,
como se não tivesse acreditado no que acabara de acontecer.
Eu também mal podia acreditar.
Aquilo foi mais do que desejo, tesão e luxúria. Senti-me inteiramente
conectada, despida de minhas próprias muralhas, questionando que tipo de
sensação era aquela que esquentava o meu coração e ao mesmo tempo o fazia
doer.
— Quem fez essas coisas com você? — ele inquiriu.
Pisquei os olhos mais do que duas vezes até retornar para o presente e
o encarei com certo medo de sua reação.
Eu também tinha tantas perguntas... e tanto medo das repostas...
— A maioria deles estão todos mortos — falei com simplicidade,
esperando seu julgamento.
A forma como Shawn me olhou, entretanto, não parecia qualquer tipo
de julgamento, mas uma certa admiração e fascínio que ele não havia me
mostrado antes.
Apoiou-se na cama com a mão esquerda e veio até mim. Tocou o meu
rosto com a outra mão e se sentou ao meu lado, sem permitir que cortássemos
o contato visual.
— Você está bem? — ele segurou em minha mão de um jeito tão
doce que eu pude esquecer que para homens como ele, eu era apenas um
monstro.
— Agora estou — tentei puxar minha mão de volta, mas ele a
segurou. — Obrigada por cuidar de mim. Pensei que iria me espancar,
principalmente depois que eu te atingi bem em cheio nas costas.
Ele cobriu o rosto com a mão que outrora estava na cama, mas seu
rosto de descontentamento apareceu por uma fresta.
— Você ainda faz isso? — perguntei.
— Onde você esteve? — ele devolveu, mostrando-se desconfortável
em tratar daquele assunto.
— Mostre-me suas costas — pedi.
— Por que você fugiu? — ele novamente tentou mudar de assunto.
Tínhamos tantas coisas a tratar... e eu só conseguia pensar se
tínhamos tempo o suficiente para responder cada questão.
— Quem é a criança que você raptou?
Raptei?
Fechei o cenho e cocei a ponta do meu nariz bem devagar enquanto
avaliava a expressão no rosto dele. No fundo deu para perceber que ele só
queria fugir das respostas que precisava me dar. Pelo visto não era apenas eu
que tinha medo da verdade...
— Você já percebeu que está falando comigo em árabe e eu em
inglês?
Ele fez uma pausa dramática.
Lentamente seus lábios foram se expandindo e eu tive de acompanhá-
lo.
Acabamos rindo, um do outro, como dois patetas. Ele deitou, por
cima de mim e me abraçou.
Fui acostumada com homens que me fodiam e me deixavam
acorrentada por dias até, no frio, no desalento, na solidão da minha vergonha.
Após ter tido um momento de prazer, vê-lo me limpar e depois deitar
por cima de mim, rindo e me abraçar, foi a coisa mais inusitada e bonita que
fizeram por mim numa situação dessas.
— Tive de me preparar... — ele se justificou. — Sabia que ao te
reencontrar, precisaria me fazer entender. E eu me dediquei bastante em
aprender a sua língua e tentar decifrar as coisas que me disse no passado...
— E o que você tem a dizer para que eu te entenda? — perguntei,
retomando o tom sóbrio daquela conversa.
Shawn também ficou sério e me encarou no fundo dos olhos. Quando
sua mão veio em minha direção eu fechei os olhos, efeito colateral do medo
do que esse movimento poderia significar. Mas ele apenas acariciou o meu
rosto.
— Eu senti a sua falta.
— Pensei que você sequer se lembrava de mim — eu disse, em minha
defesa.
— Eu aprendi a falar árabe, porra.

Shawn Cavalieri

—... ele me deu alguns dias para te procurar — a expliquei, enquanto


contava a minha versão da história. — E eu procurei, o convenci a me dar o
carro do exército e eu varri distâncias que sequer pensei que conseguiria. Não
te achei em canto algum. Então a minha missão foi cumprida, o terrorista foi
morto e precisei voltar para a América.
Layla me olhava, completamente surpresa, seus olhos até brilhavam,
eu não entendia bem o porquê.
— Quando voltei, me formei como médico e ocupei um cargo bem
importante... — não ia me aprofundar naquilo, não naquele momento. — E
com o poder que esse cargo me deu, eu aprendi algumas línguas e voltei para
a fronteira e viajei por todos aqueles países.
— Você voltou à Síria? — ela perguntou, incrédula.
— Por que a surpresa?
— Meu Deus... — ela subiu as mãos pela testa, puxou os cabelos e os
jogou para trás. — Você está falando sério?
— Um instante — me levantei e caminhei até um quadro do quarto
que escondia um cofre. Nele peguei o meu passaporte e o entreguei a ela.
Layla examinou os carimbos, as datas, seus olhos foram crescendo e
no fim ela me encarou como se tudo aquilo fosse surreal.
Talvez fosse.
Depois ela abriu um sorriso, apontando para a minha foto do
passaporte. É. Eu era bem diferente, sem tatuagens, o cabelo completamente
aparado, o rosto bastante ossudo... bom, o olhar vazio continuava o mesmo,
pelo menos.
— Essa é a minha versão da história — era tudo o que eu tinha a dizer
de relevante. — Qual a sua versão?
Layla respirou fundo e me encarou em silêncio por um minuto
completo. Senti sua descrença ser neutralizada com as provas do passaporte e
me senti vingado por todo o tempo que usei para tê-la de volta.
— O general me tirou do posto e disse que me colocaria em um avião
para te reencontrar na América — ela falou.
— Oliver? O meu general? — arqueei a sobrancelha. Ele que havia
permitido que eu a buscasse por toda aquela região.
— Infelizmente não tenho provas... — ela fechou os olhos.
— Eu acredito em você — segurei em suas mãos e as trouxe para meu
colo.
Precisei de um esforço hercúleo para não me levantar naquele mesmo
momento, fazer uma ligação e encontrar Oliver. Eu esperava, eu torcia, eu
estava rezando para que ele estivesse vivo.
E eu iria garantir que isso não durasse muito.
— Ele me colocou em um avião, de fato. Mas quando cheguei na
América, fui recebida por pessoas que... — ela fechou os olhos.
Deixei que tomasse todo o tempo para se recuperar.
Mas demorou mais do que eu previ.
Aproximei-me um pouco mais e a puxei para mim, abracei-a com
força e a mantive em meu colo, enquanto ela balançava a cabeça
negativamente e deixava as lágrimas rolarem pelo rosto.
— Eu estou aqui agora, com você, está tudo bem — encostei minha
testa em seu ombro.
Layla suspirou alto, com demora e balançou a cabeça em um sinal
negativo.
— O que houve? — perguntei.
Layla segurou os cabelos e os levantou, permitindo-me ver sua nuca.
Eu não me lembrava de ter visto algo do tipo em canto algum. Havia
uma tatuagem bem pequena em sua nuca que lembrava um código de barras e
uma cicatriz que parecia bastante recente.
— O que houve, Layla? — insisti.
— Tráfico de mulheres, Shawn. Foi o que houve.
Fiquei paralisado por cinco segundos, o que para mim era uma
eternidade. Fiquei mudo por dez segundos. Sem saber o que pensar, o que
fazer, o que dizer.
Tráfico de mulheres?
— Eles tiraram tudo de mim e me vendaram, eu não pude ver nada.
Fui levada para um cativeiro, cheio de mulheres e crianças... cheirava mal...
algumas crianças até morreram na espera de serem comprados...
— Layla...
— Homens com muito dinheiro estão por detrás disso, Shawn... eles
são cruéis...
Passei o meu braço por baixo de seus seios e a apertei contra o meu
corpo. Só percebi que ainda estávamos nus nesse instante de tão confortável
que fiquei com sua presença. Sequer pensei que como ela poderia estar se
sentindo com tudo aquilo...
— Eu pensei que você fosse um deles...
Isso me fez congelar e aí eu fiquei paralisado por dez segundos. Mas
não fiquei mudo. De imediato perguntei:
— Eu? Envolvido com tráfico de mulheres? — aquilo soou como
deveria: demonstrando minha indignação, ao mesmo tempo que mantinha
total respeito pelos sentimentos dela.
— Eles usam seu nome, Shawn.
Tive de soltá-la devagar, para não assustá-la.
Layla se virou sem pressa e me viu enquanto eu me vestia com tanta
pressa que fiquei desajeitado. Ela se levantou e permaneceu nua, me
encarando.
— Quem usa o meu nome? — rosnei.
Ela ficou quieta, o que me deu tempo de colocar a calça preta e a
camisa branca social de mangas longas.
— Layla? — insisti.
— Eu já disse, matei a maioria deles.
Anuí com muito cuidado, coloquei os suspensórios na calça e por
cima dele, um colete com dois coldres para minhas pistolas.
— Shawn, só me diz que...
— Dizer o quê? — rosnei e avancei em sua direção, furioso.
Fechei os olhos e respirei fundo, segurando o pior de mim onde
deveria ficar: dentro de mim.
— Me desculpe — pedi, ainda de olhos fechados.
Deixei um suspiro escapar quando o toque das mãos dela chegou ao
meu rosto. Minha cabeça queimava, a minha testa devia estampar uma veia
quase estourando, pela fúria que me tomava. Mas Layla conseguiu apaziguar
aquilo com poucos segundos enquanto afagava meu rosto.
— Eu sei que você não tem nada a ver com isso — ela disse tão
confiante que o peso imediatamente sumiu das minhas costas.
— Eu vou matá-los. Todos eles — falei pausadamente, para que não
restasse qualquer dúvida sobre isso.
— Então me agradeça, porque eu facilitei o seu trabalho e já matei
boa parte.
Um sorriso escapou no meio daquela neblina.
Abri os olhos devagar, minha visão estava meio embaçada, pelas
lágrimas que me havia acometido. Antes de passar a mão para me limpar ou
esconder aquela fraqueza, Layla mesmo passou seus dedos suavemente por
cima das minhas pálpebras e ficou quieta, me observando.
Eu não queria parecer fraco, muito menos na frente dela.
— A sua fúria só vai te levar para a ruína e para armadilhas que eles
prepararam, Shawn. Eles fazem isso nas suas costas sem que você saiba já há
alguns anos. Respire fundo e se recomponha, podemos resolver isso juntos.
— Juntos?
— Eu não sou tão frágil quanto fui um dia... — Layla desceu as mãos
do meu rosto para os meus ombros.
Depois ela começou a consertar os botões da minha camisa, que pela
pressa, raiva e completo descontrole, abotoei feito uma criança.
— Sobre a menina que você insiste em me perguntar se raptei... — ela
voltou para esse assunto e fiquei feliz que enfim ela iria responder aquilo. —
Você ainda não a viu?
— Não... — respondi prontamente. — Estive ocupado demais
tentando cuidar de você, não saí dessa casa nem por um segundo, passei os
quatro dias cuidando de ti, te alimentando e acompanhando seu estado...
Ela balançou a cabeça positivamente.
— Ela está bem? Segura?
— É claro — falei. — Está no lugar mais seguro de Nova York, eu
acho.
— Quando você a trouxer para cá, eu te conto de onde a raptei —
Layla afagou meu rosto com tanto carinho que eu não pude resistir.
Beijei-a como se eu precisasse disso. De senti-la, de tocá-la e trazer
seu corpo para o mais perto de mim e me cobrir com seu calor.
Era estranho poder pensar isso, mas... aquilo me fazia sentir mais
seguro.
— Se você puder me deixar ficar aqui alguns dias...
— Do que você está falando? — perguntei.
Ela mal tinha chegado e já estava falando em ir embora?
— Eu só preciso me recuperar, sei que não conseguirei totalmente,
mas ao menos o suficiente para não voltar a ter desmaios... e depois preciso
terminar alguns assuntos que deixei pendente...
Na brecha que ela deu para se afastar, eu a segurei pelo braço e a
trouxe de volta para mim.
Foda-se toda a postura e a imagem que eu construí para mim.
Eu precisava dela, perto de mim, naquele momento, e eu não podia
conceber, nem mesmo por um segundo, que ela iria embora.
— Por que você vai embora? Você acabou de chegar. Por favor, fique
— murmurei, ao pé de seu ouvido. — Essa é a minha casa, então é a sua casa.
Tudo o que é meu, considere seu. Fique.
— Obrigada — ela me abraçou, mas depois deixou os braços
escorregarem.
Encarou-me com um sorriso triste e tocou em minhas mãos com
doçura.
— Eu tenho assuntos pendentes e não sei se poderei ficar...
— Layla...
— Shawn — ela respondeu com o meu nome. Não sei se haveria
resposta melhor para me deixar mais inquieto.
— Tantos anos sem você, e de repente descubro tudo isso e você quer
que eu te deixe ir?
Ela anuiu.
— Eu vou com você, para onde for preciso.
— Você não pode...
— Eu não te perguntei se poderia ir. Eu só disse que vou. Essa é a
minha cidade, não importa para onde você irá, eu vou.
Dessa vez Layla me abraçou com tanta força, que quase caímos nós
dois no chão, feito dois adolescentes patetas e apaixonados que descobrem
não apenas o primeiro olhar, o primeiro beijo ou o primeiro sexo... mas o
primeiro amor.
— Primeiro precisamos garantir que aquela criança fique bem.
— O que você quiser — falei, assinando aquele cheque em branco
sem nenhum medo das consequências.
Agora que ela estava de volta, agora que eu a tinha e podia me sentir
vivo, eu não poderia simplesmente deixá-la ir.
Principalmente porque em poucas horas, me senti mais vivo do que
em toda a minha vida.
Capítulo 13
Layla

Após comer como se não me alimentasse há anos, devorando tudo o


que Shawn trouxe para a cama, como bacon, ovos, legumes feitos no vapor e
um bom vinho, eu desmaiei.
Acordei no dia seguinte, no início da tarde, e espiei pela janela do
quarto toda a movimentação naquela grande área. Aquele lugar era tipo um
residencial de mafiosos, um terreno gigante, com casas luxuosas e só homens
vestidos como nos filmes Hollywoodianos de máfia transitando.
Afinal de contas, eu era uma prisioneira ou uma convidada?
A porta estava aberta. Ele não me algemou, amordaçou ou nada do
tipo... então eu podia passear livremente pela casa? Não me lembro de ter
feito isso antes, e se fiz, foi quando eu estava completamente sonâmbula, em
busca do banheiro ou de comida.
Vesti o robe preto deixado em cima da cama e escancarei a porta do
quarto, deixando o ar dos corredores invadir o cômodo.
Aquela casa, digo, mansão, quase uma fortaleza, era bem simples por
dentro.
Paredes brancas e sem vida, pouquíssimos móveis, mas os que
haviam por ali, deviam valer uma fortuna. Vi vasos que só de olhar pareciam
caríssimos, quadros de todos os tamanhos que tentavam, em uma parede,
trazer vida para uma sala de estar grande, espaçosa e sem graça.
A cozinha era o lugar mais belo de toda a casa, eu precisava admitir.
Uma longa e grossa mesa de madeira tomava um bom espaço assim
que passei da parte da sala para o cômodo de cozinha americana, que só
terminava numa varanda coberta, que depois dava para o quintal. Três
geladeiras, dois fogões gigantescos, armários sem fim e só de examinar o que
eu podia ver por fora, os condimentos, temperos, os potes... era uma senhora
despensa, bem abastecida, quase que para um exército.
Uma mulher miúda, gordinha e com avental cantarolava uma canção,
ao que parecia, em italiano, enquanto cortava alguns legumes e sorria ao
sentir o aroma da panela.
— Olá? — tentei chamar-lhe a atenção, para não assustar.
— Oh, Dio! Você acordou! — ela disse bem animada. — Recebi
ordens para não incomodá-la enquanto dormia. Deve estar com fome, não é?
Parecia que ela gritava comigo. A mulher falava bem alto mesmo.
— Estou sim...
— Sente-se... sente-se aqui — ela indicou a cadeira da ponta da mesa.
— O meu nome é Nena e estou aqui para servi-la. Por ordens do senhor
Adrian, você precisará seguir uma dieta rígida por alguns dias, mas em breve
eu farei coisas mais suculentas! — ela disse animada e bateu palmas. —
Você gosta de legumes? Fiz quase que uma sopa com eles. Insisti com o
senhor Cavalieri que tivesse uma massa fresca também e um bom pedaço de
carne, carne sempre levanta o espírito! — ela riu.
Para ser sincera, eu não gostava de sentir fome. De resto, comia
qualquer coisa. E pelo cheiro, aquilo parecia delicioso.
— Onde ele está? — perguntei.
— Estou aqui — a voz dele me assustou.
Virei-me para a porta por onde eu havia passado e o vi.
Estava tão bonito que fiquei muda. Vestido como se fosse para um
casamento. O terno justo no corpo, os ombros largos, os braços perfeitamente
emoldurados naquela vestimenta que devia valer todas as coisas que eu tinha
ou sonharia em ter. Shawn terminava de colocar o relógio no pulso, e assim
que o fez, dirigiu seus olhos a mim.
Sorrimos, juntos, por um instante.
— Como está se sentindo hoje? Está melhor? — ele foi até o armário,
puxou um objeto fino e cilíndrico que ele apertou, fez uma luz sair da
lanterna e se aproximou, apontou-a em meus olhos.
Pisquei infinitamente devido àquele incômodo, então ele segurou com
força em minha testa e me repreendeu com o olhar.
— Estou bem — tentei me desvencilhar, mas ele me segurou com
tanta força que me obrigou a ficar parada.
— Fiquei preocupado, você simplesmente apagou, teve alguma queda
recentemente? Bateu a cabeça alguma vez?
— Não — respondi prontamente.
— Aquela sua marca na nuca... — ele tentou tocar, mas por impulso
eu me afastei na hora. — Por que essa cicatriz?
— Não foi nada.
— A cicatriz parece vir por cima dessa espécie de tatuagem, você se
feriu?
— Eu estou bem, Shawn.
Nesse instante ouvimos a mulher parar de cantarolar e parar de mexer
nas panelas. Quando olhamos para ela, ela estava parada, chocada,
encarando-nos como se tivesse visto um fantasma. Em seguida se recompôs,
recuperada do choque e voltou a mexer em tudo, bem desengonçada.
— Ninguém aqui me chama pelo meu verdadeiro nome. Só por
Adrian.
— Por quê?
— É uma história longa demais, mas digamos, por hora, que preciso
separar bem as minhas vidas. A vida do mafioso e a minha vida pessoal. E eu
não tenho vida pessoal.
— Não tem?
— Não. Não até agora... Eu vivo para o meu trabalho.
— Deu para perceber pela casa... parece que ninguém vive aqui.
— Benvenuto nel mio mondo — Shawn afagou o meu rosto e fez seu
lábio tocar o meu tão demoradamente que eu me esqueci até onde estávamos.
— Para onde você vai?
— Para uma festa de casamento, da filha de um homem muito
importante.
— Virgílio Barone? — perguntei.
Shawn, que já estava pronto para dar meia volta, ficou parado onde
estava.
Seus olhos se moveram bem devagar entre o vazio que pendia para a
prateleira e os meus olhos. Ele arqueou a sobrancelha, eu ergui a minha. Ele
entortou o lábio inferior, eu abri um sorriso de canto.
— Virgílio Barone — ele concordou com demora, me encarando
como se tentasse decifrar de onde eu tinha aquela informação.
Ele ainda não havia visto nada.
— Espero que curta a festa — desejei, de verdadeiro coração.
— Eu odeio festas — ele retrucou. — Você está proibida de sair dessa
casa, até segunda ordem. Pode andar pelos arredores, mas não pode sair do
perímetro, jamais ultrapassar aqueles muros — ele apontou para a janela,
onde ao longe eu podia ver muros bem altos, feitos de tijolos, sem qualquer
reboco ou pintura.
— Então sou sua prisioneira — disse mais para mim do que para ele.
— Só não te quero em apuros.
— Acho que você não entendeu, Shawn... eu que sou o perigo —
cruzei os braços e ri.
— Falamos disso depois... — ele voltou a dar meia volta, mas parou
no meio do caminho novamente. — Pedi que alguns lojistas trouxessem o
melhor de seus mostruários para você. Vestidos, bolsas, sapatos, roupas
íntimas...
— Não tenho dinheiro para pagar — tive que falar.
Shawn levantou a sobrancelha, não sei se surpreso por ter sido
interrompido, coisa que ninguém devia fazer, certamente, ou o fato de eu me
posicionar daquele modo.
Ele andou até mim, um passo de cada vez, me fez sentir, só por um
segundo, que o tempo dele era extremamente valioso e ele não podia mais
desperdiçá-lo comigo naquele momento.
— Já está tudo pago — ele murmurou, os lábios bem próximos dos
meus. — Então pegue tudo o que desejar. Absolutamente tudo.
— Não sei... sou bastante exigente com roupas... — torci o nariz ao
dizer aquilo, mas ri muito por dentro. A garota que usava um pano preto
cobrindo o corpo todo era exigente? Que piada!
— Por isso eu espero que a Chanel, Versace, Dior, Givenchy, Gucci e
Fendi a impressionem. Se não é bom o suficiente para a minha mulher, não é
bom o suficiente para a minha cidade.
Dito isso, ele novamente selou nossos lábios e saiu.
— Sua mulher? — joguei em suas costas.
—... E minha cidade! — ele completou.

Mansão dos Barone


Adrian Cavalieri

Antes de abrir a porta do carro, observo bem todos aqueles rostos no


pátio da mansão de Virgílio Barone, um dos patriarcas mais poderosos da
Famiglia. Em seguida, encaro Ethan Evans, que continua a olhar para frente,
num tom de quem está muito animado para participar de uma festa italiana.
— Eles quebram pratos e tudo? — Ethan perguntou.
— Onde está Ricardo Leão? — olhei para o relógio.
— Ele já deve estar por aqui, mas acho que não vai entrar.
Concordamos que era melhor ele ficar de fora e agir na hora certa.
— Tá. Você está pronto?
— O quê? — Ethan perguntou indignado. — Eu nasci para esse
momento, cara!
Assim, saímos os dois do carro, eu abri a porta, saí primeiro, arrumei
meu terno, enquanto meus homens se enfileiravam ao meu lado, criando uma
espécie de barreira humana; depois Evans saiu, vestido com um bom
smoking, óculos escuros, os cabelos loiros escondidos no chapéu Fedora e
uma bengala na mão direita, batendo contra o chão.
— Fique de olhos bem atentos — Ethan me pediu. — Eu estou vendo
tudo aqui — ele riu e seguiu em frente.
— Francamente... — balancei a cabeça num sinal negativo.
Todos pareciam bastante animados, fazendo longos brindes, cantando
e conversando bem alto. Quando passei por um pequeno amontoado de
pessoas antes da entrada, rapidamente todos foram diminuindo seus tons,
fizeram um sinal de respeito e alguns pediram a minha bênção, Deus sabe lá
para quê.
Protocolos à parte e ossos do ofício, cheguei à entrada da ilustre casa
dos Barone, onde fui recepcionado pelo próprio:
— Virgílio Barone! — o cumprimentei, bastante sério e sem grandes
floreios.
Ele segurou em minha mão de forma muito respeitosa e a beijou.
Depois me olhou com muita demora, de modo totalmente dramático no fundo
dos olhos.
— Padrinho... — ele respirou fundo e abaixou a cabeça. — Não nos
honrou com sua presença no casamento de minha filha mais velha?
— O dever me chamou, Barone. Mas o honro, agora, em sua festa.
Ele concordou de imediato e voltou a me olhar com muita demora.
Pude jurar que ele estava tentando me examinar.
Virgílio Barone era um homem que sonhava em ser alto, sonhava em
ter cabelo, sonhava em perder alguns quilos. Fora isso, falemos do que ele
tinha: um ego muito grande, um tom insultante de empurrar suas filhas para
cima de mim como se fossem animais de feira e muita má sorte.
Mas muita, péssima, horrível má sorte, a considerar que seu nome
havia saído da boca de Layla.
Aquilo foi suspeito e eu não ia deixar aquilo passar despercebido.
Então preparei não apenas Ethan e Ricardo, mas Héctor e meus homens de
confiança para intervir caso algo saísse do controle.
— Você a matou? — ele esticou as mãos e tentou ajeitar a minha
gravata.
Perguntou isso como se, veja você, fôssemos mafiosos em um filme
hollywoodiano. Pelo amor de Deus! Ele estava longe disso. Ou melhor, a
considerar o fim de alguns mafiosos em O Poderoso Chefão, ele estava bem
perto...
— Tire os seus dedos de mim, antes que eu os tire de você — falei
suavemente, observando-o com total frieza e tranquilidade. — E nunca
questione as minhas ações. Eu sempre cumpro os meus deveres para com a
família.
Rapidamente o homem de bigode sobressalente puxou os dedos para
os bolsos, sorriu nervoso e balançou a cabeça freneticamente.
— Perdoe-me, perdoe-me, padrinho... Ana! — ele gritou o nome da
mulher. — Onde estão os empregados? Bebida para o nosso padrinho! — ele
praticamente rugiu, enfiando a cabeça dentro da casa, caçando a mulher ou
qualquer um que pudesse me servir.
— Não beberei, agradeço a hospitalidade.
— Mas padrinho...! — ele disse, tentando fingir que estava ofendido.
— Ao menos no brinde, sim? O senhor brindará e beberá?
— Pensarei sobre isso.
— E a criança? — ele voltou a se aproximar, de uma forma bastante
abrupta, mas sem me tocar.
Eu o encarei como se lhe apresentasse o seu pior inimigo: o espelho.
Olhei para Virgílio, deixando bem claro como eu o via: um homem baixo,
não apenas em estatura, mas em moral. Um homem porco, de atitudes vis e
caráter duvidoso. Nojento, verme, parasita. Eu o esmagaria com a sola dos
meus sapatos.
Ele se afastou de forma estratégica, mas manteve seu total interesse
nas palavras que saíram da minha boca, que foram:
— Eu não a vi, mas cuidei dela.
Não menti no que disse. E o homem interpretou como quis.
O sorriso que ele abriu foi muito maior.
— Depois diga-me onde as enterrou, por favor. Eu mesmo queimarei
seus corpos — ele entrou na mansão e empurrou uma garçonete em minha
direção.
Que droga! Aquele homem não percebia que eu não cairia na
tentação? Que eu permaneceria sóbrio? Que uma artimanha tão baixa e óbvia
não iria me derrubar tão fácil?
Foi aí que percebi que Virgílio colocou sua cabeça em uma bandeja
de prata e me serviu.
— Desculpe-me, senhor... — a garçonete pediu, após derrubar a
bandeja com bebidas aos meus pés.
Ela se abaixou, tentou pegar os cacos de vidro, mesmo quando se
cortou não se deteve no que fazia. Então eu me curvei devagar, examinando
seu corpo e algo em especial que estava em sua nuca, que agora era possível
ver, já que seu cabelo, por um acidente do destino, me permitiu ter aquela
visão estratégica.
Era como um código de barras. Mas não havia cicatriz.
Muito pelo contrário. Havia um leve volume, quase imperceptível,
como se algo tivesse sido colocado ali.
— Perdão, senhor, perdão... — ela voltou a pedir quando se levantou,
entregou a bandeja para outra mulher e começou a limpar os meus sapatos.
— Você pode... — indiquei para a outra garçonete, para que ela se
virasse.
Ela fez isso sem nem titubear. Devia saber quem eu era e devia saber
o que eu fazia quando era desacatado.
— Se me permite... — falei por educação, quase que por desencargo
de consciência.
— Tudo, senhor, permito tudo — ela respondeu.
Afastei seus cabelos castanhos suavemente e não precisei de muito
para ver a mesma espécie de código e o mesmo volume, bem leve, como se
fosse uma alergia ou picada de inseto.
— Temos um problema! — Ethan apareceu do nada e quase me fez
sair do lugar. Mas tudo o que fiz foi encará-lo, como se fulminá-lo com os
olhos poderia fazê-lo desaparecer.
Como ele não viu minha expressão, só sorriu e continuou ali, diante
de mim.
— Já quebraram os pratos! — ele fez um rostinho triste.
Eu o segurei pela gola do smoking e o puxei em minha direção,
tomando cuidado para não fazê-lo cair por cima da mulher que limpava meus
sapatos.
— Temos problemas de verdade, Ethan.
— Eu estou armado até os dentes — ele murmurou e me encarou com
frieza.
— Ótimo. Eu também.
— Quem matar mais, ganha — ele murmurou.
— Que genial, capitão óbvio.
Capítulo 14
Adrian Cavalieri

Cumprimentei os recém-casados, tive de escutar alguns pedidos de


famosos para que desse uma ajuda para reerguer suas carreiras e antes que
alguns empresários me abordassem, Virgílio Barone os interpelou e me
direcionou para a sua sala de reuniões.
Onze homens com seus capos e homens de confiança estavam
sentados ao redor de uma longa mesa retangular.
Não tardei em chegar ao meu lugar na mesa, a cadeira da ponta, e
esperei que todos se levantassem para que eu me sentasse.
Neguei a bebida, neguei os charutos e neguei as bajulações.
Conferi que Marco estava logo atrás de mim, Ethan não poderia entrar
em momentos como esse, seria quase um insulto um homem como ele em
território mafioso, assim como seria um insulto os doze patriarcas no
território da Colmeia.
Assim era a minha vida, dividido entre duas máfias que não apenas
brigavam pelos mesmos pedaços de poder: se odiavam verdadeiramente.
— Não tenho palavras para expressar a minha gratidão e devoção ao
senhor, padrinho — Barone insistiu na bajulação, mesmo quando eu disse
que não precisava. — Sei que é um homem muito ocupado e com deveres
importantes. Reunir-se conosco, em um momento como esse, aumenta o
nosso prestígio.
Olhei para sua gravata azul marinho cara e depois para seu bigode que
estava longe de ser simétrico. Imitei uma espécie de sorriso que daria orgulho
aos Corleone e voltei a encarar o centro da mesa.
— Momentos como esse nos fazem refletir o real significado da
família: os laços de aliança que nos tornam irmãos, membros de uma
comunidade forte, que soube se reerguer e abocanhar um bom pedaço não
apenas do poder em Nova York, mas em toda a América... — Virgílio Barone
discursou.
Eu sabia onde esse discurso ia levar.
Não precisei conferir quantos segundos levariam até que ele...
— O casamento é uma instituição sagrada que sela os acordos entre as
Famiglias. E eu, Virgílio Barone, me sinto honrado hoje, em formalizar o
meu pacto e aliança com a família de Geraldo Mancini — ele estendeu a mão
de forma bastante teatral para o homem e foi aplaudido de pé.
Eu o aplaudi, sentado, examinando sua postura com minúcia.
— Agora tenho três filhas bem casadas. Uma com a família Battaglia
— ele ergueu a taça em direção ao patriarca, que retribuiu o brinde. — Uma
com a família De Luna — ele imitou o gesto anterior para o novo homem. —
E enfim uma sortuda para os Mancini! Isso que é fortalecer o sangue! —
Virgílio riu e me olhou de esguelha.
Eu o olhei por inteiro, não precisava fingir.
O que era aquele casamento senão uma forma do velho homem que
lidava com exportação de bebidas ser o centro das atenções?
Exportar bebidas para países com rigorosa lei seca era o sucesso de
Barone desde o seu pai. Vender o proibido sempre gera lucro em triplo. Ele
era um homem esperto.
— Sobraram duas para o senhor — Barone ergueu a taça em minha
direção.
Eu não toquei em minha taça, tampouco imitei o brinde. O que
nitidamente fez o homem se sentir constrangido.
Virgílio, entretanto, sentou-se, tentando manter uma feição neutra,
encheu os pulmões de ar e voltou ao seu discurso, de um jeito aclamado e
envolvente, embora moderando o tom, principalmente quando seu rosto se
virava para mim.
— Todos nós aceitamos um pacto que exigia que nosso sangue fosse
puro entre nossas famílias e jamais se misturasse com os indignos. Tenho
cumprido o acordo. Casei as minhas filhas com os nobres cavalheiros, filhos
dos patriarcas que admiro. Então, senhores, eu vos pergunto: por que o maior
patriarca, o nosso padrinho, o primeiro de todos nós, não aceita a minha
oferta? Ela é, apenas e somente, prova da minha devoção e admiração pelo
homem mais forte e poderoso que já se sentou nessa mesa.
Ok, falemos sobre Virgílio Barone e a sua oratória.
Virgílio é um bajulador e já sabemos que um bajulador é o primeiro
que vai tentar te matar. Ou te casar, com uma das filhas dele. Que para fins
completamente exegéticos, é praticamente a mesma coisa.
Virgílio casou suas filhas com três famílias poderosas: Battaglia, De
Luna e Mancini. Traficantes de arma, traficantes de cocaína e homens que
controlam alguns políticos que não estão sob jurisdição da Colmeia, já que a
máfia encontrou seu próprio jeito ou meio de fazer figuras desconhecidas
subirem ao poder e controlá-las.
Suspeito? Nem um pouco.
Garçonetes servindo bebidas lá fora, sendo jogadas para cima de mim,
com marcas de uma tatuagem de código de barras e um leve volume em suas
nucas... Coisas que certamente já devo ter visto no passado, mas que de fato
nunca reparei, uma vez que foi encontrar isso em Layla que me despertou a
atenção e a curiosidade.
Tráfico de bebidas, armas, drogas e políticos?
Por que não tráfico de mulheres?
Por que não o tráfico da minha mulher?
— Senhor Cavalieri? — Virgílio rouba a minha atenção dos meus
próprios pensamentos.
Vislumbro-o só por um segundo e em seguida entorto o rosto para
deixar que ele termine sua bela oratória.
— O quanto devo me humilhar para que a família Cavalieri aceite a
minha oferta? Devo ficar de joelhos? Devo eu mesmo desposá-lo? — ele ri.
Quando percebe que nem mesmo os patriarcas das famílias aliadas
riem, ele fica sério e percebe que já excedeu o tom da bebida.
Também não deixo passar despercebido quando ele diz “família
Cavalieri”. Não somos considerados uma família dentro das doze, somos a
família fundadora, a décima terceira, a família à parte. E, no fim das contas,
nem somos mais uma família. O que sobrou? A minha avó, a minha mãe e
alguns sobrinhos que mandei de volta para a Itália.
E mais nada.
Uma família de uma trindade. Duas mulheres viúvas e um rapaz que
se nega a casar.
E Virgílio enche a boca para fazer chacota.
— Espera-se de um líder que ele tenha uma boa esposa. O chefe da
máfia americana não pode ser solteiro. Entendemos os benefícios, sabemos
como é bom foder e abusar de qualquer puta que se encontra por aí...
— Virgílio, chega — Geraldo Mancini pede.
— O que há de errado conosco, padrinho Cavalieri? Nenhuma das
minhas filhas é apta para casar-se com o Deus todo poderoso senhor de Nova
York, Adrian Cavalieri? Nenhuma das filhas desses homens?
— Virgílio, você está levantando a voz... — o Battaglia avisou.
— Aaah! — ele estalou o lábio e bebeu mais um copo, irritado. —
Talvez devamos oferecer os nossos filhos! Quem sabe...
Quando eu me levantei, Virgílio se calou.
E eu não me levantei com pressa, fazendo algazarra ou batendo o pau
na mesa. E, acredite, Virgílio ficaria impressionado se eu fizesse isso.
Eu me levantei como quem se levanta quando precisa esticar as
pernas, afinal de contas, sou um homem bastante alto. E olhei para Virgílio
como ele merecia ser olhado: como um camundongo, encolhido em sua
cadeira, embriagado de suas verdades e infeliz por não realizar o seu grande
plano.
Ele era engenhoso. Mas eu havia matado homens muito mais espertos
que ele.
— Heleno de Fiore — deixei a minha voz sair suave, caminhei em
sua direção como se quisesse que ele gravasse cada passo do meu sapato.
O homem permaneceu parado, rígido, olhando para o Barone,
censurando-o, até que eu cheguei em suas costas.
— Quando a sua família não conseguiu emplacar aquela cantora pop,
hoje em dia famosa, e você solicitou — foi o termo educado que encontrei
para “implorou” — que eu intervisse e conseguisse que aquela garota fosse
uma estrela. O que eu te disse?
O homem esticou o pescoço para me encarar e depois pigarreou,
voltando a olhar para os seus colegas:
— “A família é sagrada para mim. E se a sua família quer que a
garota seja uma estrela, ela será. Considere feito” — ele respondeu sem
demora, cada palavra, cada vírgula e ponto, do jeitinho que eu disse.
Anuí e fui para a cadeira seguinte.
— Carlos Grasso — parei atrás dele após mencionar seu nome. — O
seu filho mais velho...
— O meu primogênito — ele disse e abaixou a cabeça. — Estava
morrendo... precisava de um novo coração... obrigado, padrinho, obrigado.
— Era aniversário da minha mãe. Eu havia feito o bolo. Bolo de
laranja com chocolate, ela gosta das raspas da casca por cima, é perfumado,
lembra um bolo da infância dela. Você entrou em minha casa, como um bom
pai que ama seu filho, e me pediu, pelo nosso sangue, que eu intervisse. Pois
seus instintos de pai diziam que poderia ser tarde demais uma semana
depois...
— O meu filho conseguiu um coração no dia seguinte — ele disse.
Não precisei arquear a sobrancelha ou dizer mais nada. Dei um passo
à frente, encarando Geraldo Mancini e ele abaixou o rosto.
— A Suprema Corte tinha provas para derrubar nossos políticos e
acabar com a nossa família. O caso foi arquivado — Geraldo Mancini disse
em voz alta.
Olhei para Virgílio, como quem quer dizer algo, mas que não precisa
mover os lábios.
Mais um passo. Pompeu Barbieri.
— Estávamos falidos. Tínhamos poder, mas não tínhamos mais
nenhum dinheiro. Nenhum trocado no bolso. O navio que levava nossas
exportações naufragou... a polícia apreendeu tudo... o senhor nos salvou —
Pompeu ergueu os olhos para mim, esticou as mãos e segurou em meus
braços.
Eu assenti e o olhei como um rapaz mais jovem deve olhar para um
homem mais velho: com admiração e mostrando que o prestigia.
Fiz isso com cada um dos onze homens na mesa.
Eu os havia reerguido, ajudado, eu sabia de suas fraquezas, sabia o
quanto eram humanos e imperfeitos, necessitados de uma figura forte para os
liderar, e essa figura não era Virgílio.
Um bom líder não precisa se alterar ou criar alianças mercenárias para
se sobressair.
Ele só precisa que os seus liderados o amem.
Ou o temam.
Mais que o próprio diabo. Mais que dois aviões atingindo torres
gêmeas. Mais do que uma terceira guerra mundial.
Prazer, Shawn Cavalieri. Ou melhor, Adrian Cavalieri.
Agora estamos muito bem apresentados, íntimos e entendidos. Se não
tivemos essa oportunidade no passado, creio que agora nos conhecemos
muito bem.
— Virgílio — chamei-o pelo nome quando me posicionei atrás dele.
— Eu doei, me entreguei e fiz tudo pela Famiglia, por que a Famiglia é a
minha religião. Esses homens, não são apenas os homens que selaram um
pacto com o meu pai, eles são como pais para mim. A Famiglia é sagrada e
seus laços não são apenas sanguíneos, mas de respeito, confiança e
reciprocidade. O que vocês fizeram por mim? — cruzei os braços.
Os doze homens, chefes de dezenas, centenas, talvez milhares de
outras famílias subalternas, se encararam. Nenhum me deu uma resposta.
— Eu nunca lhes pedi nada. Eu só disse que no momento certo, talvez
eu precisasse de um favor...
Todos eles concordaram.
— Esse dia ainda não chegou — eu logo avisei, para não matar
nenhum velho do coração. — Mas já que estamos falando da Famiglia, seus
valores e o quanto ela é sagrada, gostaria de dizer algo.
Todos se atentaram a mim, nunca tive um público tão cativo e
interessado, um público que me encarava, ansioso para ouvir as minhas
palavras.
— Algumas coisas vão contra os valores da Famiglia, sim. E isso não
é sobre um bom homem americano, com ascendência italiana, poder ser
solteiro e curtir, foder as putas que ele quiser, para parafrasear o linguajar que
o senhor Barone nos ofereceu. Não, senhores... não. Existem coisas piores,
abomináveis, que causariam problemas nacionais... talvez internacionais...
— O que é? — Geraldo Mancini perguntou, curioso.
— Tráfico de mulheres — murmurei.
Queria estar no corpo de cada um daqueles homens, para sentir como
cada um reagiu.
Virgílio se arrepiou, da cabeça aos pés. Até o bigode ficou
desconsertado.
O homem ficou petrificado, parecia ter visto a própria Medusa, ou
talvez, tivesse esquecido como mover o pescoço. Não faz mal. Eu me movi,
para entrar em seu campo de visão.
— Battaglia, a sua família paga tributos pelo tráfico de armas na
América Latina — eu o encarei, mas continuei com o rosto bem próximo do
de Virgílio.
— Um valor modesto e gentil, padrinho — ele fez uma reverência. —
Os negócios andam muito bem, e os seus tributos são honestos e mantém a
paz, elegância e valor entre as Famiglias — ele permaneceu de rosto baixo.
— Fiore, a sua família paga tributos pelas artistas multimilionárias
que conseguiram levar para a indústria da música e Hollywood? — perguntei,
de forma retórica.
— Sim, padrinho, um valor honesto e bem ajustado. Os negócios
andam bem e pudemos dar emprego para muita gente de nossa comunidade,
conseguimos oferecer remédios e pagar médicos para os mais necessitados e
ainda viver com muita dignidade — ele respondeu e abaixou a cabeça.
— Virgílio — murmurei ao pé do ouvido dele.
— Eu pago meus tributos a respeito das bebidas que exporto para
países de severa lei seca.
— Paga sim, em dia.
Ele balançou a cabeça positivamente e se levantou.
— E sobre o tráfico de mulheres, Virgílio?
A sala, como pode ver, é bastante grande.
Algumas pessoas nascem ou vivem com o propósito de ser o centro
das atenções. Bem, era isso que Virgílio Barone queria. E como um bom
padrinho, eu lhe entreguei numa bandeja dourada o que ele precisava.
Todos os patriarcas o fulminaram com o olhar. Fiore e Milani ficaram
vermelhos, Vitali e Bianco limparam a testa que pareceu, repentinamente,
cataratas. Mancini, De Luna e Battaglia se levantaram, ofendidíssimos.
— Esse casamento está desfeito! — Mancini esbravejou.
— Levarei o meu filho para casa! — De Luna estourou a taça do
brinde na parede.
— Você é um nojento cretino! — Battaglia rosnou. — Deveria ser
expulso do Pacto de Sangue!
Os aliados do homem disseram isso. Se a vitória tem um sabor, eu te
garanto que nada pode se equivaler ao fino sabor de ver os aliados do seu
inimigo, loucos para pisoteá-lo. Isso sem que você mova nenhum músculo, a
não ser os da boca, para falar.
— Senhores... — Barone tentou acalmá-los.
Mas a sua voz era como o canto de uma sereia: algo tentador demais
para se ouvir, principalmente para velhos marinheiros. Por isso os que não
tapam os ouvidos, ficam prontos com seus arpões para rasgá-las no meio,
caso tenham a oportunidade.
Pigarreei alto e todos se calaram, em respeito. Achei aquilo um
elogio.
— E não se preocupem, senhores. Eu irei me casar. Até já escolhi a
mulher certa. E eventualmente a trarei, para que os honráveis patriarcas
possam abençoar essa união. Mas nenhum de vocês poderá decidir com quem
me caso, quando caso e onde caso. Por que eu sou o chefe de vocês e eu
respeito a vossa autoridade e autonomia. Respeitem a minha.
Todos assentiram.
Virgílio se levantou, puxou seu capo e homens de confiança e saiu da
sala.
De Luna e Battaglia foram atrás, mas eu ergui a mão e pedi que o
deixassem ir.
— A partir de hoje, a família Barone está apagada da árvore. Excluída
do Pacto de Sangue — encarei os honráveis homens. — Suas ações
inescrupulosas, sujas e doentias mancham o nome dos filhos da máfia. Sua
esposa e filhos podem retornar à Itália, seus negócios devem ser confiscados
e divididos entre vós ou devem ser repassados para uma nova família que
ascenda e assine o Pacto de Sangue.
Todos os homens puxaram adagas prateadas com o entalhar de uma
árvore e cortaram superficialmente uma parte da mão. Onze gotas de sangue
foram derramadas no chão.
— Caso precisem de mim, estarei aqui pela Famiglia — dei-lhes as
costas e me preparei para sair da sala, quando hesitei e virei o rosto
suavemente. — E não se permitam sujar o nome dessa Famiglia, pois eu sou
um homem honrado e exijo nada mais do que honra. Aqueles que forem
pegos manchando, deturpando ou ridicularizando o nome da máfia, será
devidamente punido.
Não esperei que eles concordassem.
Deixei-os para trás e fui no rastro do traidor.

O noivo e a noiva nem pareciam que tinham acabado de se casar.


O rapaz, que acompanhei declamar umas juras tão bonitas de amor,
entrou num carro preto, junto com sua família e desapareceu.
A noiva, arrasada, chorou e foi consolada pela mãe, que a jogou
dentro de um carro preto e também sumiu.
Os convidados, um a um, foram diminuindo...
Procurei Virgílio no salão de danças que mais parecia um cemitério
de corpos que não foram enterrados e na cozinha abarrotada de comidas. Ao
ver aquilo, no mesmo instante ordenei que tudo fosse levado para moradores
de rua ou asilos, se eu visse qualquer comida ser jogada no lixo, eu mesmo
daria fim nos responsáveis. E enfim cheguei ao lugar onde encontrei o ex-
patriarca de uma rede mafiosa que tinha tudo para ser a mais poderosa.
Infelizmente um imbecil pode jogar poder, dinheiro e renome no lixo.
Era como Virgílio Barone ficaria gravado na história.
—... você e as crianças, peguem o próximo voo para... — ele fez uma
pausa dramática quando me viu entrar pela porta.
Ficou com o celular pendido entre o rosto e a mão, encarando-me sem
saber o que fazer.
Sua mão livre tateou a mesa e eu vi a arma em cima dela. Ele a pegou.
Era uma excelente hora para o meu amigo cego entrar em cena.
Mas onde ele havia se metido?
— Você arruinou a minha família! — Virgílio rosnou.
Eu permaneci parado, encarando-o. Nunca fui homem de ter medo, já
estive diante de pessoas piores apontando-me armas mais perigosas e num
cenário muito mais caótico. A morte era uma velha amiga que eu iria
conhecer um dia, mas não agora.
— Você só tinha um trabalho! Matar aquela desgraçada! E matar a
porra daquela criança! Qual o seu problema?
— O meu problema — limpei os lábios. — É que eu não vivo para te
servir. Você vive para me servir. E eu não pouparei esforços para realizar os
desejos de quem quer que seja, contanto que seja o certo. Matar aquela
mulher não era certo. Tampouco a criança.
Virgílio levantou a arma em minha direção.
— Por quê?
— Porque aquela mulher é a porra da mulher dele — uma nova voz
entrou em cena.
Saindo da escuridão, Layla não apenas o desarmou, como chutou o
homem bem na virilha, fazendo-se curvar, e depois deu uma senhora joelhada
na testa dele.
Eu tive de fazer uma careta só de imaginar tanta dor.
— Pensei tê-la proibido de sair da mansão — cocei o queixo.
— Proibiu — Layla respondeu prontamente.
— Também pensei que a tinha deixado ocupada escolhendo um
vestido — tateei a parede e acendi a luz, para poder vê-la melhor.
— Escolhi. Um Versace — ela disse, ainda deu meia volta mostrando
o belo vestido que havia escolhido.
— Estou ansioso para tirá-lo de você.
— Eu gostei muito dele, vai ter de fazer o que quiser, mas com ele em
meu corpo — ela exigiu.
Andei alguns passos até chegar em Virgílio, ele ainda se contorcia de
dor e parecia tão chocado quanto eu em ver Layla bem ali.
Os cabelos bem selvagens, volumosos, negros e perfumados, soltos
pelo ar. Sem maquiagem nenhuma, aquela mulher parecia uma obra prima
esculpida por um artista em pleno orgasmo. Tão real, tão natural, tão minha e
de mais ninguém. O vestido era só a moldura. Ninguém se importa com
molduras. O que nos importa é a arte.
E nessa arte, Layla era as tintas, os pincéis, o quadro, a inspiração, o
artista e quem sabe, um mistério divino que mesmo vestida, me fazia suspirar
e pensar que enfim, com 28 anos de idade, eu ainda era capaz de sentir coisas
que nunca havia experimentado e talvez, apenas talvez, aquela era a minha
chance de começar a viver.
Eu já não aguentava mais ser um zumbi.
Seguindo a vida, esperando por algo e vendo as coisas passarem
diante dos meus olhos sem sentir que eu pertencia a um lugar ou alguém...
Por que o meu lugar sempre foi nos lábios dela.
E o meu alguém era ela, eu podia decifrar isso, só de olhá-la.
Chutei a cara de Virgílio e pisei bem firme em seu rosto, amassando-o
contra o chão, enquanto a puxei para mim e a beijei com todo ardor e
saudades que duas horas poderiam conter.
Duas horas? Parecia uma eternidade! Parecia quarenta anos
caminhando no deserto em busca da terra prometida.
E ela estava ali.
Minha terra, minha pátria, minha prometida.
— Você está bem? — toquei seu rosto, examinando seus olhos para
ver como ela realmente estava.
— Estou — ela disse com simplicidade. — Vou ficar melhor.
Marco e um dos meus homens entraram em seguida e ficaram paradas
na porta, encarando Layla com extrema surpresa e encarando um Virgílio,
sendo pisoteado na cara, pelos meus sapatos italianos.
Eu sei.
Terei de polir com bastante força e limpar bem o calcanhar, porque
ficou sujo de sangue.
Mas é apenas um sapato...
— Adrian? — Ethan também entrou em cena.
— Finalmente! — revirei os olhos e saí de cima do Barone, segurei
nas mãos de Layla e a puxei para a porta. — Onde você esteve?
— Todos foram embora, inclusive os patriarcas da máfia. A noiva... o
noivo... Ih, o casamento durou pouco, viu, nunca vi um casamento durar tipo
duas horas e já ter divórcio...
— Acontece... — arrumei a gravata dele enquanto o encarava.
— O exército do Virgílio Barone está lá fora. Armado até os dentes.
Parece que ele deu ordens bem explícitas para te matarem.
— Que gentil — encarei o homem ser levantado do chão, mas ele não
conseguiu dizer nada tão inteligível que valha à pena a consideração. —
Sinto-me honrado, Barone.
— Adrian, eles são tipo uns 100 homens. E nós somos... cinco. Você,
Layla, eu, o seu consiglieri e aquele cara ali que ninguém sabe quem é — ele
apontou a bengala.
Balancei a cabeça positivamente e respirei fundo.
— Sei que algo muito inspirador vai sair de você agora... — suspirei.
— Quem chegar primeiro mata mais — Ethan me empurrou, todo
desengonçado, se atrapalhou com a própria bengala e depois a deixou toda
para a vertical, segurou o chapéu Fedora com a outra mão...
E saiu correndo.
Capítulo 15
Layla

Virgílio Barone foi carregado pelos dois homens de Shawn, enquanto


ele e eu fomos atrás, vendo os rastros do que havia sido uma festa de
casamento.
Não restava mais ninguém, além de móveis derrubados, comida e
bebida derramada e corpos jogados no chão... Ethan, pelo visto, já havia
começado o trabalho ali dentro mesmo.
Contamos sete homens até chegar no hall de entrada daquela mansão.
— Como ele consegue matar pessoas se ele não enxerga? —
perguntei para Shawn.
Ethan estava agachado, imitamos o seu gesto rapidamente quando
tiros começaram a atingir a janela. Ficamos cada um de um lado dele e eu
pude ver a arma gigantesca que ele carregava.
— Isso é a sua metralhadora? — Shawn perguntou.
— Pode apostar que sim. Um bom cavalheiro, como diria Terence
Smith, sempre usa de conversa para resolver seus conflitos.
— E de onde diabos você a tirou?! — seu tom era de admiração e
indignação.
— Se eu contar, você não acreditaria...
Houve um breve silêncio lá fora e em seguida ouvimos um homem
gritar:
— Nos entregue a mulher e o senhor Barone e tudo ficará bem,
Adrian! Pouparemos você e o seu amigo!
— Você me permite? — ele esticou o braço e segurou na
metralhadora.
— Ei! — Ethan reclamou, mas foi roubado.
Foram tantos tiros seguidos e vários gritos lá fora que eu só me
encolhi e rezei para que não morrêssemos todos ali.
— Vamos todos morrer! — Virgílio Barone pareceu se reanimar.
— Então dê a ordem para que parem! — Ethan rosnou.
— Eu não posso! — Virgílio protestou.
O amigo de Shawn que usava óculos escuros, ergueu a mão e
procurou o rosto do homem no ar. Quando o tateou, puxou a mão de volta,
preparou o punho e deu um soco em cheio na cara dele; o sangue foi
consequência do espetáculo.
Ethan então empurrou Shawn de lado e puxou Virgílio pela gravata,
quase o sufocando e colocou a cabeça dele na janela.
— Nós vamos sair! — ele anunciou. — E se atirarem, ele morre! —
sua voz saiu num nível intimidador.
— Você está certo sobre sair? — Shawn o perguntou.
— Ricardo está lá fora em algum lugar. Sei que ele dará um jeito.
Vamos! — ele tirou a arma das mãos do amigo e jogou em seus braços o
Virgílio Barone. — Você vai na frente, aponte a sua arma para o pescoço
dele, no menor movimento daqueles vermes: atire!
Assim, saímos, nós seis.
Havia uns trinta corpos no chão, mas outros cinquenta homens de pé,
pelo menos. Todos vestidos como americanos da década de 20, com seus
longos sobretudos, chapéus parecidos com o que o amigo de Shawn usava e
pistolas.
Eles nos encurralaram, fazendo um círculo, e ficamos ali, nós seis,
ilhados, no meio daquele mar de sangue, morte e raiva.
— Nos entregue o Virgílio Barone — um homem deu um passo à
frente, parecia ser o líder daquele exército.
— Por que você não vem pegar? — Ethan brincou.
— Ok, Ricardo, se você está por aí em algum lugar, é bom aparecer
logo... — Shawn murmurou.
— Então será assim, Adrian? — o homem que havia dado um passo à
frente perguntou. — Você irá nos enfrentar com uma vadia estrangeira, dois
soldados e o seu palhaço de circo? Um cego? Você veio até aqui
despreparado e com uma desvantagem?
Então perdemos a visão.
Todas as luzes se apagaram não apenas na mansão, mas nas ruas e
todo o perímetro que nossos olhos podiam alcançar. Parecia que aquele bairro
havia mergulhado nas trevas e na sombria noite nova-iorquina, que era fria e
estranha demais, até mesmo para seus próprios filhos.
— Tudo ficou escuro — foi a primeira coisa que falei. Estava muda
desde o acontecimento dentro da sala de Virgílio.
— Quem é a desvantagem agora, otário? — Ethan riu. — Ao menos
eu não preciso de luz para enxergar. Abaixem!
Ao gritar a última palavra, todos nós nos abaixamos, e pudemos ver
os tiros saindo da metralhadora iluminando de relance o rosto de Ethan que
quase deu um giro inteiro até que as luzes voltassem.
Todos, absolutamente todos os homens estavam jogados no chão,
mortos, o sangue parecia lavar o solo.
Mas havia algo estranho atrás das árvores.
Shawn e eu vimos homens de preto se afastando lentamente até sumir
da nossa visão. Um deles, em especial, tinha cabelos brancos.
Depois conferimos que mais da metade daqueles homens havia
recebido tiros nas costas e não no peito, como os que Ethan matou.
Shawn me puxou para cima e seus olhos azuis me fitaram, buscando
algum ferimento. Eu só estava suada e um pouco tensa, para falar a verdade.
— Uhul! — o cego gritou.
— Ele é assim mesmo, não se assuste — Shawn apertou a minha mão.
Naquele instante percebi que sequer tínhamos soltado a mão um do
outro. E talvez por isso levei tudo aquilo como uma aventura adolescente e
não como o verdadeiro perigo de morte que significava.
Ethan entrou no nosso meio, passou um braço pelo pescoço do amigo
e o outro pelo meu.
— Prometam-me que no casamento de vocês vai ser assim também!

Shawn Cavalieri

Joguei Virgílio Barone dentro do porta malas e fomos embora para


casa.
Procuramos Ricardo Leão em todos os cantos, mas não o
encontramos; tentamos ligar para ele, mas ele não atendeu. Também
vasculhamos todo o terreno para ver a quantidade de mortos, Ethan insistiu
que havia matado mais gente do que todo mundo... mas algo ficou em minha
cabeça enquanto Marco dirigia para a Vila Patrícia: quem eram aquelas
pessoas que se esgueiraram na escuridão?
Principalmente o rapaz de cabelos brancos que vi de relance, assim
como Layla viu, comentamos sobre isso durante o trajeto e a conclusão era:
não sabíamos.
Deixei as respostas para as perguntas que eu ainda não tinha para
outra hora e abracei a minha mulher.
Voltamos em completo silêncio para casa, envolvidos apenas com as
batidas do coração um do outro.
Um carro luxuoso chegou junto com o nosso, liberei sua entrada na
portaria e entramos primeiro. Marco nos deixou na porta de casa e os meus
soldados particulares vieram, assustados, ver o que tinha ocorrido.
— Senhor, nós avisamos que era perigoso sair com quase nenhum
homem...
— Tudo bem — murmurei.
A verdade é que, com Ethan, eu não precisava de dez, cinquenta ou
cem mafiosos. Ele dava conta, eu sabia que ele sempre dava, aquele
desgraçado era muito sortudo, era meu pé de coelho da sorte. Mas dizer isso
em voz alta poderia custar caro demais, tanto para meus soldados
legitimamente da Famiglia, quanto ao ego de Ethan Evans.
— Não esqueça de levá-lo para o Matadouro — avisei para Marco,
sobre Virgílio e o carro seguiu para uma construção bem distante daquele
residencial.
— Quem são? — Layla permaneceu ao meu lado em cada momento,
esticou o pescoço quando o carro estava quase chegando à nossa frente.
— Um amigo. Vamos entrar, eles já vão vir...
— Tudo bem — ela se aproximou devagar, seus olhos passearam pelo
meu rosto e seus lábios se aproximaram.
Segurei em seu pescoço e a beijei com força, deixando que o calor
dos seus lábios não acalmasse meu coração e me devolvesse a mesma
adrenalina do acontecimento na casa de Virgílio.
E se eu a perdesse? E se algo acontecesse? Eu não podia continuar
inconsequente assim... mesmo confiando em Ethan, a minha mulher não
poderia correr perigo, não daquele jeito.
— Quem é? — Ethan esticou o pescoço em minha direção.
Quase dei um pulo para trás ao encará-lo.
— A cada dia que passa, você se parecesse mais com um maluco...
— Ainda não estou italiano o suficiente? — ele entortou a boca.
— Ah, então você está tentando imitar um italiano? — cocei o
queixo, analisando-o.
— Você vive dizendo que não posso ser seu Consiglieri porque não
sou italiano. Uma bobagem. Eu já tive um cachorro italiano.
— Ai, meu Deus, vai começar...
— Eu juro, ele era mesmo italiano! Ele até latia no ritmo da Bella Cio.
Era mais ou menos assim: au-au-au-au au. Au-au-au-au: au. Au-au-au au
au-au au au-au au au au!
Coloquei a mão direita na boca dele e o calei imediatamente. Olhei ao
redor, para os meus soldados, que estavam estupefatos com a cena e piscaram
os olhos diversas vezes.
— Ele está bêbado — expliquei. — Voltem a vigiar o portão e os
arredores! — mandei.
Ethan se recompôs e continuou a me encarar com aquele rosto de
cachorro pidão.
— Você é um americano, CEO bilionário da área da tecnologia,
hacker internacional. Você não pode ser um Consiglieri da máfia — o
repreendi.
— Vivemos em um país livre! — foi a réplica.
— Mas a máfia tem suas regras — foi o meu ponto final.
— Então eu adotei aquele cachorro para nada? Meu Deus, ele cagava
a casa toda... — Ethan cruzou os braços.
— Ethan — murmurei. — Se você me responder na frente dos meus
homens, eles podem acabar te matando. É sério.
Ele anuiu e esticou a metralhadora em direção ao chão e quase ia
batendo com o bico na calçada, quando eu o impedi.
— Ei, seu maluco! É a sua metralhadora, não a sua bengala! Onde,
afinal de contas, foi parar a sua bengala?
Ethan ergueu as sobrancelhas e consertou a posição com que segurava
a arma e me olhou de lado.
— Se eu te contasse, você não acreditaria.
O ajudei a entrar dentro de casa, isso coincidiu com o carro de Héctor
Mitchell parar diante da minha humilde residência. Ainda o vi sair do
automóvel quando entrei e o aguardei no modesto hall de entrada.
Layla estava com um prato de sopa em mãos, comendo os legumes
como se fossem realmente deliciosos e Ethan havia levado a arma para a
cozinha.
— Vocês chegaram agora? — foi assim que Héctor me
cumprimentou.
Vestia o terno mais caro do mundo, certamente. Um azul escuro que
combinava bem com ele e dava-lhe o ar imponente que ele carregava desde
quando o conheci na adolescência.
— Sim, íamos chegar mais tarde, mas houveram imprevistos... enfim,
estamos de volta.
Seus olhos azuis me examinaram de um jeito severo. Ainda assim, ele
esticou a mão e segurou em meu braço, eu estiquei a minha mão e segurei no
braço dele.
— É bom te ver, irmão. Você está bem?
— Estou, obrigado. E você? — perguntei.
Héctor não teve tempo de responder.
Beatriz Mitchell, sua esposa, com um barrigão de grávida, entrou,
acompanhada de Anthony, uma cópia mais tímida do pai.
— Ah, olha quem saiu de casa! Anthony Mitchell! — me agachei
para encará-lo de perto. — Você só cresce, menino! Vai ficar maior que
todos nós!
— Agora eu também vou para a escola — Anthony respondeu
animado.
— Já era hora, hein? Um homem dessa idade... — toquei com o dedo
indicador no nariz dele e olhei para Héctor, repreendendo-o. — Senhora
Mitchell — beijei o rosto de Beatriz logo em seguida.
— Adrian, é um prazer encontrá-lo. Muito obrigada por...
— Não precisa agradecer, você é da família — segurei em seu ombro.
— Queira se sentar... não vou deixar uma mulher grávida de pé na porta da
minha casa...
— Na verdade, estamos de saída. Mal chegamos, eu sei, mas só
queríamos vir agradecer e te dizer que ela foi muito bem cuidada, nós a
levamos para passear, comprar roupas e ela atormentou o Anthony demais!
Ela tem um gênio forte, tipo o seu.
Ah, sim! A criança! Já havia até esquecido que Héctor era quem
estava com ela.
— Fico feliz, espero que ela não tenha dado trabalho.
— Imagina, ela é da família — Beatriz disse com muito carinho e
olhou para Héctor.
Da família? A criança que Layla tinha raptado? Como assim?
— Onde ela está? — perguntei.
Todos olhamos por cima de Beatriz para ver se encontrávamos a
criança lá na rua ou no jardim, mas na verdade ela estava escondida atrás da
senhora Mitchell. Beatriz então deu um passo para o lado e revelou uma
garotinha que roubou a minha atenção como apenas uma única pessoa fez na
vida.
Ela não devia ter mais do que seis ou sete anos, tinha cabelos bem
volumosos que tomavam forma de cachos bem ondulados e grossos. Mas não
foi a mala que ela segurava, a roupa tão gracinha que usava ou o jeito com
que ela estava com o dedo indicador dentro da boca que roubaram a minha
atenção.
Foram seus olhos.
Bem azuis, bem vivos, radiantes, não como os de Héctor que tinha
olhos azuis majestosos, porém simples. Eram olhos brilhantes, que pareciam
dois faróis olhando em minha direção, as pupilas bem dilatadas.
Ela tirou o dedo da boca devagar e sorriu para mim.
Eu vivia dizendo que não tinha coração.
Até sentir a dor de perder Layla, sem saber que um dia a
reencontraria...
E dessa vez senti uma dor completamente diferente. Uma dor que foi
como se o tempo parasse, só para que eu pudesse olhar aquela pequena
criaturinha bem ali diante de mim.
Ela tinha os cabelos e o rosto de Layla... mas os olhos, eles eram
meus.
— Meu Deus... — murmurei, sem saber muito bem o que dizer. Até
esqueci que sabia falar ou que língua deveria falar. — O que é isso?!
— Isso — a menina disse com uma pausa. — Se chama Yohanna.
E ela sorriu. Meu coração se desmanchou.
Isso porque, no fundo, talvez eu realmente tivesse um coração.
Parte 2
Grande Deus
Inspirado na canção “Big God” de Florence and the
Machine.

TRACKLIST

Big God — Florence and the Machine.


Gods and Monsters — Lana del Rey.
Friends — The Carters.
Pouca Pausa — Clau, Cortesia de Casa & Haikaiss.
Fallin' All in You — Shawn Mendes.
Serpente — Pitty.
Prólogo II
2011 – Em algum porão nos EUA
Layla

Aquele pesadelo sempre retornava.


A lembrança era tão viva que eu podia sentir as mãos fortes daquele
homem em meu braço, as estrelas em seu peito brilhavam, ele rugia feito uma
fera. Fui balançada como se fosse um objeto sem valor e jogada em um carro.
Ele disse, de uma forma confusa em minha língua, que eu seria levada
para encontrar Shawn na América.
Afinal de contas, onde ele estava?
Eu tentei gritar, mas me impediram. Fui acordada por aquele homem
que estava cercado de soldados e levada do posto da fronteira para um lugar
solitário, até que novamente me transportaram para um navio.
Foram muitos dias no mar, eu sequer sabia se estávamos saindo do
lugar. Tudo o que eu tinha era uma cela, estava presa feito um animal de
zoológico a espera de alguém para dar-lhe água e comida, sem conversas,
sem demora, às vezes sem piedade.
Shawn nunca me encontrou.
Eu ainda tive alguma esperança de que pudesse vê-lo ao chegar aos
Estados Unidos da América.
Devo confessar que de fato eu o vi. Mas foi na televisão.
O homem que fora bruto comigo e me tratara feito um pedaço de
nada, estava ao seu lado. Shawn foi condecorado e declarado herói de guerra
pelas suas ações fundamentais na morte do famoso terrorista que os
americanos diziam que tinha orquestrado o 11 de setembro.
O rosto de Shawn, entretanto, estava longe do de alguém que ostenda
ser um herói de guerra.
Com a barba já um pouco grande e desarrumada, os olhos um tanto
perdidos e vazios, sobrancelhas grossas que frequentemente franzia, ele foi
condecorado e ovacionado, mas ele agiu como se não se importasse. Parecia
que faltava algo.
Em cada segundo, desde o primeiro momento que o vi na televisão,
ele olhava para aquela multidão de repórteres, soldados e homens poderosos
como se procurasse algo. Urgentemente. Com fome. Desesperadamente.
Será que seria eu?
Menina tola.
Sem destino, jogada ao léu, pensando no rapaz que tirou sua
virgindade e...
E que colocou uma semente em mim.
O rosto de Shawn me machucou. Parecia mais magro, sem nenhuma
esperança, bem mais perdido do que quando o vi.
Ele tentou sorrir, mas não era bom nisso. O próprio presidente apertou
sua mão e ele abaixou o rosto, como se não quisesse nenhuma honraria. O
general então cochichou em seu ouvido e ele fez uma pose bem forçada para
tirar uma foto.
Faltava uma parte em mim também.
Era ele.
Menina tola. Boba. Acreditando nessas histórias idiotas...
Mas havia algo que não era apenas meu ou dele... era nosso.
Imaginei como aquele rostinho tão triste e sem esperança reagiria ao
ver o tamanho da minha barriga. Ao saber que ele seria pai...
Nunca tive essa chance.
— Esse é seu novo dono — uma voz me avisou e ligou a luz do
porão.

Fim de 2011 – Teto do Grande Templo Iluminatti de Nova


York
Shawn Cavalieri

— A cabeça é a sua maior fraqueza. Depois de tudo o que fizemos por


você... você é tão fraco... nem isso é capaz de fazer... — a voz do homem
ainda conseguia chegar aos meus ouvidos, mesmo com a ventania incessante.
Olhei para baixo, mais uma vez. Não precisei calcular a queda. Não
sobraria nada de mim se eu pulasse, apenas a lembrança e a história do
menino sem sangue azul que chegou ao mais alto grau de poder, foi iniciado,
honrado, considerado herói de guerra... mas era oco. Vazio.
As palavras de Terence Smith Já me atormentavam há bastante
tempo.
Às vezes, durante a noite, era como se ele estivesse em minha cabeça.
Murmurava bem baixinho o quanto eu era fraco e inútil, subia pela cama feito
um parasita e rasgava a minha pele, mexia com meu cérebro, reforçava sem
pudor algum que eu era apenas fragmentos.
Eu sabia. Eu nunca seria inteiro.
— Eu conheci homens como você. Que se culpam dia e noite e vivem
numa depressão profunda que os arruína e leva à ruína todos ao seu redor e
tudo o que tocam. Faça um favor a si mesmo, meu rapaz. Se jogue — ele
insistiu.
Do nono andar daquele prédio eu cogitei dar um fim a tudo.
Eu já não aguentava mais.
— Você estuprou uma mulher no meio da guerra. E se culpa dia e
noite. Esse é o pior de você, meu rapaz. Um rapaz sujo, estuprador, que não
se comportou como o cavalheiro que exigimos que fosse. Cedeu ao seu lado
animal. Deixou-se levar pelo demônio interior e foi leviano... você...
— Eu não a estuprei — tive de interpelá-lo. — Ela consentiu — soltei
um soluço alto e tapei o nariz. Terence merecia tudo, menos me ver chorar.
— Só mais um passo... — ele se posicionou ao meu lado. Não sei se
estava tentando a me empurrar, mas suas palavras...
Eu estiquei a perna.
Era o meu fim.
Seria uma queda rápida, para que eu me libertasse, para que enfim
aquela dor parasse e eu pudesse encontrá-la. Não apenas ela. Tudo o que
perdi. Os meus irmãos, Layla, o melhor que já morou em mim...
— Shawn!
A perna ficou suspensa no ar, o corpo pronto para cair, o vento
pareceu dar uma trégua para não me desequilibrar. Que inferno!
Virei o rosto o suficiente para encará-la.
Aqueles olhos verdes, os cabelos castanhos não estavam amarrados,
pelo contrário, balançavam suavemente com a brisa. Ela segurou na parte da
frente do vestido vermelho e o levantou para que não tropeçasse e andou até
mim com cautela.
Seus olhos severos recaíram sobre Terence que imediatamente ergueu
as sobrancelhas.
Héctor Mitchell, Ethan Evans, Ricardo Leão e Derick Von Grant,
meus colegas do Grande Templo, vieram atrás dela, espiando a cena.
— O que você pensa que está fazendo? — Elizabeth perguntou
furiosa.
Estava preparando a resposta, quando Terence falou:
— Ensinando.
— Ensinando? No teto? O garoto a um passo de cair? — ela passou as
mãos por cima dos cabelos e arregalou os olhos, como uma mãe olha para
uma criança que sabe que fez o suficiente para ficar de castigo uma semana,
quem sabe um mês.
— Os meus métodos são mais antigos...
—... antiquados, na verdade — ela o corrigiu. — Agora saia daqui
antes que eu use métodos antiquados com você também.
Terence suspirou e deu um passo em minha direção. Eu pude jurar
que ele iria me empurrar.
— Terence — Madame Lilith rosnou e o olhou como se estivesse
prestes a empurrá-lo do teto.
— A minha aula acabou — Terence disse, olhando de esguelha para
mim, e saiu, batendo a bengala no chão. — Vocês não deveriam estar
estudando? — ele rosnou para Ethan e Ricardo quando passou por eles.
Continuei rígido, imóvel, o pé suspenso já havia voltado para o chão.
Mas eu o estiquei uma vez mais. Terence estava certo. Só havia um jeito de
acabar com aquela dor...
— Shawn — a voz de Elizabeth me roubou a atenção e me
desequilibrou. A mão dela me segurou no braço de forma que
instantaneamente recuperei o equilíbrio.
— Ele está certo — murmurei. — Eu sou fraco demais para estar
aqui. Eu mancho a história de vocês. Eu deveria dar um fim nessa dor...
Ela ficou em silêncio alguns segundos depois que terminei de falar.
Tive de me virar para ela, para ver se ela ainda estava ali. E estava. De salto
alto, na mesma posição que eu, o vento balançando aquelas roupas ciganas,
seus cabelos brincando com o vento, seus olhos verdes mirando o horizonte.
— Nunca tinha reparado que aqui tem uma excelente vista — ela
comentou.
Quê?
— Dá para ver a estátua da liberdade daqui — ela apontou para o
horizonte.
Concordei. Mas onde ela queria chegar?
— Você está certo, Shawn. Você quer acabar com a sua dor. Não com
você. A sua dor pode ser resolvida, você não, porque você não é um
problema.
— Eu sou um completo fracasso... — as lágrimas queimavam em meu
rosto.
— Nós precisamos nos perder, antes de nos encontrar. É a ordem
natural das coisas. O caos precede a ordem — ela respirou fundo. — Você
está perdido, então precisa dar o próximo passo, não desistir de tudo.
Dar o próximo passo? Para cair? Estava prestes a dizer isso quando
Elizabeth esticou a perna.
Dessa vez eu a segurei, ela não merecia, ela tinha tudo para continuar
viva, ela era um completo sucesso, a melhor professora que alguém poderia
ter.
— Terence enxerga um monstro em você. Você o assusta, você mexe
profundamente com os instintos primitivos dele, você é a contraparte. As
trevas temem a luz. A mentira teme a verdade. O ódio teme o amor. Eles não
sabem, entretanto, que como opostos...
—... se completam — eu terminei a frase.
— Um é o monstro feio, bizarro, medonho, cheio de ódio e rancor. O
outro é também um monstro. Mas belo, altivo, portador da luz e da esperança,
cheio de vida, amor e vontades que o direcionarão para grandes feitos — ela
disse.
— E você supõe que eu seja o monstro belo? — perguntei.
Elizabeth me olhou no fundo dos olhos.
— Você supõe que Terence seja o monstro belo?
Ela devolveu o pé esticado para o chão. Deu um passo para trás, com
muito cuidado e desceu.
Eu estava muito envergonhado com tudo aquilo. Mas ela me estendeu
a mão e eu senti que segurar era a resposta certa.
Desci também e tentei me recompor, da forma que podia.
— Você pode encontrá-la...
— Como?! Eu não sei onde ela está, eu não faço ideia de...
— Então você vai ter que viver bastante para descobrir — Elizabeth
segurou em meu ombro e sorriu. — Espero que viva o suficiente, não apenas
para encontrar a sua irmã ou o seu grande amor. Mas para se encontrar
também.
Fechei os olhos, tentando conter as lágrimas, mas elas desceram.
Não foi por tristeza.
Não sei, eu simplesmente me senti forte, revitalizado e com um fio de
esperança. Se Elizabeth era um monstro, deveria ser o mais belo monstro que
conheci.
Quando ela me deu as costas e foi embora, fui sufocado por Ethan e
Ricardo, depois Héctor e Derick que me abraçaram bem forte.
— Não faz mais isso, por favor — Ethan pediu.
— Se você morrer, todos nós vamos morrer um pouquinho —
Ricardo completou.
Capítulo 16
Vila Patrícia
Shawn Cavalieri

Eu nunca pensei em ser pai.


Sempre achei uma maldade sem tamanho deixar meu DNA como
legado em um indivíduo inocente.
Embora muito cético, sempre achei que minha família era vítima de
alguma maldição, onde perder a pessoa que mais amasse fosse a regra.
Eu não permitiria que outro ser, carregando parte do meu código
genético, sofresse disso.
— Eu me chamo Yohanna — ela disse devagar, tão pequenininha,
segurou a mala rosa contra o corpo e se aproximou do meu, ficando diante de
mim, batia em minhas pernas. — Quem é você?
Tive de me agachar para examiná-la.
E novamente aquela sensação estranha.
A sensação de que, por ser quem eu era, eu poderia ir a qualquer parte
do mundo e escolher qualquer lugar para que me pertencesse. Mas não havia
canto algum, nada, nem ninguém que me fizesse sentir pertencido.
Layla mexia profundamente comigo e foi o mais próximo que cheguei
disso.
Mas olhar Yohanna foi o que simplesmente quebrou tudo em mim e
sem precisar de mais tempo, eu senti que pertencia a algum lugar. Ou a
alguém.
E o mais impactante: ela me lembrava Patrícia. Tinha herdado a
beleza oriental da mãe, uma pele que era uma mistura da nossa, os cabelos
volumosos de Layla e uma doçura no rosto que fazia meu coração bater mais
rápido.
Ao mesmo tempo, ela tinha herdado algo meu, que me fazia pensar
em minha irmã gêmea perdida: os olhos tão brilhantes, as sobrancelhas que
davam uma expressão séria e ranzinza e até mesmo a postura.
— Eu me chamo Shawn — quase não saiu.
Eu estava tão hipnotizado, tão chocado, tão perdido em meus próprios
pensamentos que não sabia mais o que dizer.
Yohanna olhou por cima dos meus ombros e procurou a mãe, que
estava logo ali atrás de mim.
— Ele tem olhos muito bonitos — a pequena concluiu.
Layla ficou quieta, não vi sua expressão ou reação.
— Ele tem cara de mau, mas só deve estar com fome — ela se
aproximou, timidamente e esticou o rosto para perto do meu. — Você comeu
hoje?
— Eu não te lembro alguém? — perguntei.
— Lembra sim — seus olhos pareciam maiores do que o comum. —
Eu não sou tão boba, já tenho seis anos.
— Ah...
— Você é irmão do Shawn Mendes, não é? Por que parece muito. Só
os olhos são diferentes e a barba, mas parece tanto...
— Yohanna — eu a chamei. Pensei em consultar Layla, mas foi bem
espontâneo. — Eu sou seu pai.
Ela levantou a sobrancelha e espiou a mãe novamente.
— É lógico — ela levantou os ombros. — Mas porque você demorou
tanto para achar a gente?
Como eu ia responder? Eu passei anos em busca de Layla, mas nunca
e em hipótese alguma eu poderia imaginar que tinha uma filha!
— Você deve ser muito ocupado — ela concluiu.
Estiquei as mãos e deixei elas abertas, para que Yohanna soltasse a
mala no chão e tomasse coragem de vir até mim.
Ela demorou até soltar o objeto, parecia que estava se escondendo
atrás dele. E quando segurou na palma da minha mão, se aproximou bem
devagar, as sobrancelhas levantadas, quase pronta para fugir.
O que fazer? Se eu não tinha tato com adultos, imagine com crianças!
Beijei suas mãozinhas e depois a trouxe devagar para perto de mim, a
peguei no colo e a levantei. Yohanna balançou os pés suspensos no ar
enquanto me encarava, seu dedo indicador contornou meu rosto, como se
estivesse gravando minhas expressões ou me reconhecendo de algum lugar,
não sei.
— Então não vamos mais trocar de apartamento toda semana? — ela
perguntou para a mãe.
— Acho que agora você tem uma casa, filha — Layla respondeu.
— Ah... eu gostava de trocar de apartamento toda semana, gostava de
conhecer novos lugares — a pequena disse desapontada.
— O que não será problema, eu tenho muitos apartamentos por toda
Nova York — falei.
Yohanna me encarou, descrente, depois olhou para Layla.
— Mamãe, meu pai é igual aqueles homens importantes de televisão?
Bilionário?

Embora fosse difícil soltá-la e dar-lhe espaço, Yohanna foi levada


pela mãe para a cozinha e depois foram conhecer o quarto em que ficaria –
fiquei apreensivo porque nem de longe aquela casa havia sido projetada para
uma criança viver. Era completamente monocromática, sem brinquedos e
sem um quarto de hóspedes adequado para uma pequena.
Aquela casa havia sido projetada para ser a minha fortaleza particular.
Não para criar uma família...
Pigarreei e encarei Héctor de canto de olho.
— Por que não me disse que ela se parecia comigo? — indaguei.
Ele levantou a sobrancelha bem alto, mas não moveu qualquer outro
músculo do rosto. Por um instante pareceu que aquela era a coisa óbvia a se
fazer, mas...
— Você simplesmente pediu que eu cuidasse dela, então não
questionei. Não faz parte da minha natureza questionar ações da família —
Héctor se defendeu.
Concordei.
Virei-me para o outro homem que estava em minhas costas.
— Então porque você não me disse que ela era pareci... — encarei
Ethan por um segundo inteiro e interrompi a frase antes mesmo que ele
respondesse e voltei-me para Héctor.
— Que novidade é essa? — ele me perguntou.
— Estou tentando descobrir. Eu não sabia da existência da criança até
agora.
— E a mulher? — Héctor olhou as horas no relógio e voltou a me
encarar.
— Layla. Já devo tê-la mencionado...
— Mencionado? — ele rosnou. — Enchido o saco de todo mundo, na
verdade! — foi a versão dele, não guardou o olhar de julgamento para si. —
E como diabos você a encontrou?
— Da mesma forma que a encontrei antes. O dever, meu amigo. O
dever de matá-la.
Héctor fez uma expressão azeda e caminhou em minha direção,
segurou-me pelo braço e me puxou pelo canto, para que Beatriz e Anthony
não pudessem nos ouvir.
— Você pretende matá-la? — ele murmurou, furioso. Seria melhor ter
gritado logo.
— Ficou maluco? Uma vida para achar essa mulher e vou matá-la?
Ele pareceu mais aliviado, dessa vez olhou para Ethan que estava
limpando os óculos escuros, quase entre mim e Héctor.
— O que você vai fazer agora? — Héctor voltou ao interrogatório.
— Cuidar delas? — Perguntei de forma retórica. Parecia a resposta
óbvia, além da coisa certa a se fazer.
— Aqui? Nesse lugar? Pelo amor de Deus, homem, esse lugar não foi
feito para criar crianças ou família, esse lugar é medonho — ele olhou ao
redor.
As paredes vazias, os poucos móveis, pelo menos havia luz natural
que iluminava o interior da casa, seja de dia pelo sol ou de noite pela lua.
Héctor nunca esteve satisfeito com o fato de eu morar tão isolado, em
um lugar tão simples e sem vida.
Mas essa era a minha identidade: um cara recluso, que só precisava de
uma cozinha bem equipada e uma cama para dormir, o resto eu tinha pela
cidade, apartamentos luxuosos, tudo do bom e do melhor... mas na minha
intimidade eu era um cara simples. E a minha mansão refletia isso.
— Isso não é um lar. Não faz bem para uma criança viver em um
ambiente assim — ele explicou. — Crianças precisam de cor, de objetos, de
brinquedos, para explorar e trabalhar a criatividade, o sentimento de
pertencimento, até mesmo a sensação de se sentir acolhida. Olha só essas
paredes mal pintadas — ele torceu o nariz. — E essas janelas nem cortinas
tem — ele me reprovou com o olhar. — Você não pode criar uma família
num lugar desses.
— Falou o cara que nasceu em berço de ouro e sempre viveu em
mansões luxuosas — o provoquei.
— É verdade — ele cruzou os braços. — Mas você é tão rico quanto
eu agora. E mesmo que venhamos de lugares diferentes, Shawn, hoje
fazemos parte de um mesmo lugar. Então, tome como conselho de um pai
experiente: ou você se muda para um lugar melhor ou você melhora o estado
dessa mansão. Embora eu saiba que ela é nova e você sempre a reforma,
afinal de contas o subsolo é cheio de túneis que levam para toda Nova York...
ela só me parece com uma casa abandonada ou que está caindo aos pedaços...
— Ok — anuí, por que acabei concordando. Eu não tinha experiência
com crianças e Héctor era pai desde que o conheci, ele devia entender bem
disso. — Mas não vou sair daqui. Pode ser um lugar triste e cinza, mas é o
lugar mais seguro para elas.
— A minha casa sempre está à sua disposição — Héctor segurou em
meu ombro.
— Obrigado. Se eu precisar eu te chamo.
Ele concordou, consertou a gravata e foi em direção à mulher,
grávida.
— Por questões de atualizar o banco de dados do Grande Templo,
precisarei dos documentos, pelo menos da criança. Se ela é sua filha, isso
deve constar em seus registros, porque ela tem os mesmos direitos que você
até alcançar a maioridade.
Concordei.
— E os documentos da mulher, se você pensa em se casar com ela.
Héctor era o secretário do Grande Templo. Todos os documentos
passavam por ele e isso incluía atualização de registros.
Pisquei os olhos enquanto processava o que ele havia me dito.
— Héctor — o chamei de volta e ele veio. — Não sei se elas possuem
documentos.
A sobrancelha dele se levantou da mesma forma que antes, talvez um
pouco mais acima.
— Elas estavam... presas... sob controle de... — estava tentando achar
a palavra adequada.
— Tráfico de mulheres — Ethan soltou, por fim.
Não era bem o termo que eu queria usar, mas como não havia outro,
ia esse mesmo...
Héctor olhou para Ethan com demora e respirou fundo antes de falar.
— Dê um jeito de providenciar os documentos então — ele disse para
nosso amigo que já havia restituído os óculos escuros ao rosto.
— O problema é que queremos que o FBI e a polícia de Nova York
acreditem que elas estão mortas — Ethan explicou.
Os olhos azuis de Héctor passearam de mim para Ethan e depois
voltaram para ele. Assim como eu, claramente ele não encontrou uma
resposta satisfatória para isso.
— Sem documentos a criança não pode receber os mesmos direitos
que você — ele disse.
Era o que eu temia.
— Nem mesmo com um teste de DNA? — Ethan e eu perguntamos
juntos.
Sequer havíamos falado sobre isso, realmente estávamos em
sincronia.
— Pode funcionar. Eu sou o secretário, você é o diretor geral do
Grande Templo, o Dérick é o Mão Oculta, isso é fácil de resolver — ele
parecia bastante seguro sobre isso. — Agora, a sua mulher... — Héctor
balançou a cabeça negativamente. — De onde você havia dito que ela era?
— Síria — Ethan e eu respondemos juntos.
Héctor olhou-me, após balançar a cabeça, dizendo tudo em completo
silêncio, apenas por me encarar.
— Estamos em missão na Síria. Talvez seja... estranho... aos irmãos
do Grande Templo a ideia de um dos nossos irmãos se casar com uma mulher
de um país que estamos subjugando.
Concordei.
— Dito isso, o que você pensa em fazer a respeito? — ele perguntou.
— Ligar o foda-se e proteger a minha filha e a minha mulher. Elas são
a minha família — não pensei duas vezes.
— Eu não esperaria outra resposta de você — Héctor segurou em meu
ombro mais uma vez.
— Obrigado, Héctor — agradeci quando ele me virou as costas.
— Para a família, tudo — ele respondeu e chamou Anthony com a
mão, depois ele foi até Beatriz, que estava sentada, segurando a barriga e a
ajudou a ir até o carro.
— Faça a notícia se espalhar de que estão mortas — falei para Ethan,
que rapidamente concordou.
— E, Shawn — Héctor me chamou, já fora da minha casa.
— Sim? — fui até a porta, onde o vi fechar a porta do carro para
Beatriz e vir em minha direção.
— Uma família precisa de um lar. E isso não me parece um lar.

Layla

Fiquei surpresa ao vê-lo colocar Yohanna para dormir.


Shawn contou uma história para ela, mas como Yohanna conhecia de
trás para frente Chapeuzinho Vermelho, eles foram juntos, recontando a
história. Ele estava mais apreensivo, sem saber se estava fazendo certo, o
tempo todo me encarava como se esperasse aprovação. Pelo visto ele não
tinha tido contato com muitas crianças nos últimos tempos...
O entrosamento deles foi bem natural. Como se tivessem se
conhecido muito bem há muito tempo e só estivessem se reencontrando e
colocando uma boa história de dormir em dia.
Eu dormi primeiro, na poltrona que ele fez questão de colocar no
quarto, ao lado da cama.
Quando acordei, uma hora depois, a minha filha já estava dormindo,
com o dedo na boca. E eu, com uma almofada atrás do corpo e outra
específica para o pescoço e coberta com um edredom muito perfumado, diga-
se de passagem.
Levantei-me e tirei o dedo da boca de Yohanna, ajeitei sua postura e
terminei de cobri-la.
Não encontrei Shawn no quarto, na cozinha ou na sala.
A casa estava toda fechada, todas as vezes que eu espiava pelas
janelas eu podia ver homens fortemente armados circulando não apenas ao
redor da casa, como pela extensão da propriedade.
Tive tempo o suficiente para vasculhar a casa enquanto o dono não
estava. E eu descobri uma passagem que ficava no escritório dele. Eu sempre
tive talento para descobrir coisas que queriam se manter secretas, sempre fui
silenciosa e rápida e como estive em muitas mansões de homens poderosos
como Shawn, eu sempre soube que eles têm uma, duas ou três passagens
secretas que levam para seus calabouços, masmorras ou esconderijos
secretos.
A porta do escritório de Shawn estava entreaberta, então só a
empurrei um pouco e entrei, sem pressa. Puxei um livro vermelho na estante
abarrotada de livros, a maioria deles da área médica ou sobre armas e vi uma
passagem se abrir na estante do meio.
Desci por aquela entrada, com a pouca luz eu podia ver garrafas e
garrafas do que parecia ser um velho e bom Whisky por toda a parede
enquanto descia, até que me deparei com um pequeno hall com quatro portas,
apenas uma entreaberta.
Eu deveria? Certamente não.
Ainda assim, empurrei-a devagar e entrei naquele lugar pouco
iluminado, tanto quanto todo o ambiente, e ouvi um barulho vindo por detrás
da porta que ficava no fim da sala.
A sala era bem grande, tinha um leve tom vermelho por todos os
cantos. As paredes estavam forradas com papeis. À direita muitas manchetes
de jornais, fotos bem gastas e anotações referentes a Patrícia Cavalieri. À
esquerda muitos mapas, principalmente da região da Síria e Iraque, todos
rabiscados, como se fosse o trajeto que ele fez. Também algumas manchetes
sobre mulheres desaparecidas, e outros assuntos referentes a morte de um
terrorista em 2011.
Quando a porta no fim da sala se abriu, tive a impressão de ouvir,
bem ao longínquo, o grito de desespero de uma mulher, que rapidamente foi
coberto pelo grito de vários homens, também desesperados.
Shawn ficou parado ao perceber que eu estava ali, apertou o
interruptor que ficava ao lado da porta e fez meus olhos doerem ao receber
tanta luz de uma vez.
— Me desculpe, eu...
— Não peça desculpas — sua voz saiu suave. — Eu não tenho nada a
esconder, pode vasculhar a casa à vontade. Talvez não goste do que vier a
descobrir, mas eu direi a verdade, é só perguntar — ele falou.
Fiquei hipnotizada enquanto o encarava. O rosto parecia bem
cansado, a veia bem no topo da testa alterada, totalmente vermelho e suado.
Estava sem camisa e calças... apenas com uma sunga que escondia um
volume bem grande na frente e outro atrás, meu Deus, como aquela bunda era
perfeita.
Quando ele ficou de costas e tive tempo o suficiente para babar
naquela bunda, subi um pouco mais e vi suas costas completamente rasgadas
e ensanguentadas.
— Você ainda faz isso? — perguntei. Voltei a olhar o mapa do meu
país natal.
Shawn suspirou e caminhou pela sala, sem rumo, olhando sempre em
frente, mas sem abaixar o rosto.
— Você me procurou mesmo?! — passei os dedos pelos riscos no
mapa, onde indicava a região que ele percorreu.
Quando o procurei pela sala, quase dei um salto ao vê-lo logo atrás de
mim. Shawn me segurou pelos braços e levantou os olhos para observar seu
trajeto, quase que como peregrino, por um país assolado pela ganância e
maldade de muitos homens.
— Eu te procurei — ele falou tão firme que eu tremi. — Eu te
procurei até me perder completamente — seus olhos se abaixaram, para
encarar os meus. — Eu te procurei até que fossem em minha busca, porque
acharam que eu tinha me perdido...
Levantei as sobrancelhas, surpresa. O que eu poderia dizer?
— O que tem atrás daquela porta? — mudei de assunto. Era a escolha
segura.
— O meu quarto de tortura — ele falou.
— Posso ver?
A expressão dele revelou que ele já esperava por esse pedido. Só não
estava pronto. Suas mãos subiram dos meus braços até os ombros e após me
massagear bem de leve, suas mãos desceram até as minhas.
— Pode.
Balancei a cabeça positivamente e fui à frente, não soltei a mão dele.
Fechei bem os olhos quando abri a porta e o encarei, só como uma última
consulta, para saber se ele estava mesmo preparado. Eu não sabia se estava...
Shawn não me impediu, então eu atravessei aquela porta.
Encontrei uma sala menor que a anterior, três portas bem diante de
mim. Levantei os olhos para a parede e vi as correntes que desciam do teto
até se transformarem em algemas que ficavam pendidas, encarei um armário
com objetos que davam sentido a aquele lugar se chamar “quarto de tortura”.
— Esse é o “matadouro”? — perguntei.
— Não — ele apontou para a porta à esquerda. — Aquela porta te
leva por um túnel subterrâneo para chegar lá.
Concordei e estava pronta para perguntar algo, quando fui
interrompida.
— Eu te disse que sou um monstro. Não menti.
Shawn não parecia se orgulhar de dizer isso, tampouco parecia triste
ou envergonhado com a ideia. Dizia com tanta naturalidade que fazia parecer
que ele acreditava ser um monstro.
Mas ele não podia ser.
Ele era diferente de todos os outros homens que conheci. Diferente de
todos os nojentos que abusaram de mim. Diferente de qualquer um que me
desejou e me fez sentir um objeto sujo.
— Você não parece nem de perto com um monstro — o encarei no
fundo dos olhos. — Já conheci muitos...
— Não deve ter conhecido todos...
— Shawn — tentei consolá-lo, tocando sem eu braço.
Não me lembrava que ele era tão forte ou tão definido. Os olhos que
rapidamente se concentraram nos braços musculosos dele e suas tatuagens,
foram para o peitoral, igualmente todo tatuado. Quando abaixei o rosto, para
desviar o olhar, olhei para o volume. Daí subi e encarei os olhos dele. Não
sabia onde era mais difícil parar para encarar.
— Acho que deveríamos recomeçar do zero e contar todas as histórias
que dissemos um ao outro quando não tínhamos uma língua em comum.
Quero entender você um pouco melhor.
— Me entender? — ele perguntou.
— É... saber a sua história, só sei fragmentos dela, ou do que acho que
sei dela.
Ele ficou em silêncio me encarando.
— Por que você se machuca? Você faz parte de alguma sociedade
secreta de sadomasoquismo além daquela dos homens muito ricos?
Shawn arqueou a sobrancelha e me encarou com interesse, depois
abriu um sorriso de canto.
— “Sociedade secreta dos homens muito ricos” — ele disse e riu.
— Não ria...
— Não, eu não faço parte de outra sociedade secreta, não uma que me
obrigue a me chicotear — ele respondeu.
— Então porque você faz isso?
Aquela pergunta parecia bem mais complexa do que realmente era, ao
julgar pela expressão que ele fez. Shawn ficou quieto por tanto tempo que eu
só consegui imaginar que ele estava revivendo muitas cenas até encontrar
onde tudo começou... e ao mesmo tempo, parecia sofrer.
O rosto que ele fez, quando começou a contar, era idêntico ao rosto do
menino que eu conheci no meio de uma guerra. Sem tirar nem por. A mesma
expressão, o melhor olhar, por olhar tão fixamente para ele, eu até tinha a
impressão de que ele não havia envelhecido nada.
— Eu tinha uma irmã gêmea — ele disse. — Um dia, nosso pai pediu
que fossemos visitar um amigo dele, então pegamos o metrô... eu não sei bem
o que ocorreu, se peguei no sono ou se simplesmente apaguei... quando
acordei ela não estava mais lá.
Abri bem os olhos e segurei na mão dele. Ele não fez menção de
chorar, longe disso, mas o olhar dele era exatamente o mesmo que eu me
lembrava. Tão triste, perdido e confuso... à beira do precipício, pronto para se
jogar.
— Eu a procurei por todos os cantos... foi tão estranho... no início
meu pai perguntou sobre ela, meus irmãos, minha mãe... ele me culpou, disse
que eu a havia perdido e que eu deveria reencontrá-la ou não voltaria para
casa.
Agora era eu quem queria chorar. Segurei o soluço bem guardado na
boca e me aproximei um pouco mais, acariciando o dorso da mão dele.
— Um dia... ele parou de falar dela. Meus irmãos, minha mãe, todos
que a conheciam, ninguém mais falava dela. As fotos dela sumiram, as
roupas, o quarto... era como se... como se ela nunca tivesse existido...
Voltei a abrir bem os olhos.
— E como eu não parei de procurá-la, o meu pai começou a me
espancar. Ele dizia que eu estava ferindo a família, por que eu havia
inventado toda aquela história. Ele me colocou de frente à minha mãe, meus
irmãos... Layla... eles negaram que Patrícia tivesse existido e que eu
precisava parar com isso. Parar de inventar mentiras.
— Quando eu vi suas costas pela primeira vez, no passado, eu toquei
nelas e você disse “Patrícia” — falei. — Pensei por anos que isso significasse
“dor” ou até mesmo “costas” em sua língua.
Ele respirou fundo e concordou.
— Ele me batia todos os dias — ele me encarou de uma forma tão
profunda que precisei me apoiar nele para não me desequilibrar. — Para me
fazer esquecê-la. Mas um dia ele foi proibido de fazer isso, então ele
encontrou uma boa solução: me obrigar a fazer eu mesmo. Então eu comecei
a me chicotear mais profundamente até arrancar o meu sangue para me fazer
lembrar.
Eu fiquei impactada e sem palavras.
Pensei em muitas histórias para explicar aqueles machucados, desde
Shawn ser um maluco, pervertido sexual ou apenas um masoquista, mas
nunca esperei ouvir aquelas palavras dele: ser espancado para esquecer e se
chicotear até ver o sangue sair para se lembrar.
— Ela só existe em minha memória agora — ele falou. — A minha
mãe não fala sobre isso há anos, nem a minha avó, que tem Alzheimer. De
resto... acho que todos que conheceram Patrícia... se foram. Meus irmãos...
meu pai...
— Ela era sua irmã gêmea — comentei alto.
— Eu sei que ela ainda está viva — ele piscou os olhos. — Não me
pergunte como, eu só... sei. Eu sinto que ela está.
Fui trazida de volta à realidade quando ele guiou minha mão até
aquele peito bem contornado e musculoso e foi descendo bem devagar, me
fazendo tatear seu corpo.
— Eu sinto dentro de mim, não sei explicar. Não é apenas no coração,
é mais fundo. No sangue. Nas células. Nos átomos. Algo em mim pulsa
dizendo que eu preciso encontrá-la, e não é para enterrá-la e dar-lhe uma
lápide digna... algo em mim diz que ela está viva e precisa de mim, mais do
que nunca. Assim como esse algo dentro de mim me dizia que um dia eu iria
te reencontrar.
Meus olhos brilharam.
Na verdade se encheram de lágrimas.
Eu o abracei forte, evitando tocar em suas costas, para não fazê-lo
sentir mais dor.
— Me desculpe, por favor... — pedi e me afoguei no corpo dele ao
ser abraçada com muita força. — Eu não queria ter te machucado aquele
dia...
— Tudo bem — ele disse com tranquilidade. — A minha avó me
disse uma vez algo que faz parte da tradição da família: às vezes a oração, o
pedido e a súplica não funcionam. Então você precisa mostrar a Deus que
realmente quer algo, tão profundamente, que está disposto a sofrer por isso.
Como Ele sofreu. Eu nunca fui muito bom em orar, suplicar ou pedir. Mas eu
aprendi a sofrer. A sangrar. A derramar o meu suor.
Entreabri os lábios para respirar pela boca.
— E talvez por não ter talento o suficiente para conversar com Deus,
porque eu devo ser surdo, pois não consigo ouvi-lo... criei uma forma de me
comunicar com ele. Eu sofro, ele consegue ver e... eventualmente... se
compadecer. Só precisei de sete anos, quase todos os dias, rasgando minha
carne para que pudesse te reencontrar. Acho que mais alguns anos e talvez...
talvez ele me devolva Patrícia também...
— Ah, Shawn... — eu o abracei, o mais forte que consegui.
Não sei se ele disse aquilo com as mesmas palavras que me contou no
passado. Mas a expressão no rosto dele e a forma como a voz saiu, era do
jeito que eu me lembrava. O que me deixava completamente arrepiada e
emocionada ao pensar que por sete anos ele sofreu.
Bom, eu também sofri...
E o que ficava, após ouvir cada uma daquelas palavras, era a sensação
de que Shawn não era, nem de longe, um monstro.
Pelo menos, não um monstro como os outros.
Capítulo 17
Shawn Cavalieri

— Você não é um monstro — Layla tocou o meu rosto com as duas


mãos.
Fiquei completamente sem ar, hipnotizado, guiado por seus olhos
enquanto procurava algo para responder, mas era impossível desviar da
sensação de poder vê-la.
Como fui tolo. Como deixei passar que ela tinha seios maiores e
quadril mais largo do que a última vez que a vi? Não pensei, nem por um
minuto sequer, que ela havia tido uma filha – e comigo. Ao menos, era o que
tudo me levava a crer, de fato.
— Você está tentando recuperar o meu lado humano? — perguntei,
completamente defensivo.
— Deveria? Gosto de você, como é e como me trata. Se é um
monstro, ao menos, não é comigo — ela respondeu.
— Será? — afastei as mãos dela do meu rosto, sem perder o contato
visual. — Você não tem medo de mim? Aqui? — olhei ao redor, ela não tirou
aquelas pedras de âmbar escuro de mim. — Não tem medo de que eu faça
algo...
— E o que você faria que eu não quero?
Ela me desarmou.
Ethan estava completamente certo em sua observação sobre mulheres.
Héctor e Ricardo já haviam concordado, eu me neguei, mas agora era
impossível.
“Há um motivo para que os furacões mais poderosos levem nomes de
mulher. Uma vez que elas passam, elas não deixam nada no lugar”.
Nunca estive tão cônscio do meu vazio, da minha fome, do maldito
deserto que habitava dentro de mim. Entretanto, eu tinha um oásis, bem ali,
tão perto.
— Eu não tenho medo de você, Shawn. Você não me amedronta e não
acho que faria algo que eu não quisesse — pude jurar que a forma sinuosa
como ela me olhou significava algo muito profundo.
— Você não me conhece por completo.
— E você me conhece por completo? — ela riu. — Você é capaz de
crueldades... por que acha que eu não? Por que acha que ainda estou viva?
Aqui? — Layla suspirou, mas continuou a me encarar. — Posso ser pior do
que você.
Tive de rir.
Voltei a me aproximar e forçá-la a desviar os olhos, segurei em seu
rosto com uma única mão e a girei para ficar na posição em que eu estava, eu
em seu lugar.
— Eu também pensei em você, todos esses anos — ela revelou. —
Afinal de contas, eu precisava manter viva, a única parte dentro de mim, que
me fazia sentir querida em algum lugar.
Não tive respostas para isso. Devo admitir que sempre quis ouvir
aquilo, mas jamais teria coragem de perguntá-la sobre. Precisava ser natural,
porque eu a procurei de forma natural, como se eu precisasse daquilo para
viver.
Layla levantou as duas mãos e continuou a me encarar.
— Me prenda — ela pediu. — Torture-me, faça o que quiser comigo.
Quero ver você fazer. Quero ver você ser tão cruel como diz ser. Você é um
monstro? Quer me assustar? Eu não tenho medo.
— Você não devia brincar com isso...
— Eu te pareço uma garota indefesa? — ela provocou.
Alcancei as algemas e em menos de dois segundos prendi as duas
mãos dela e me afastei um pouco para analisá-la. Layla ficou na ponta dos
pés, as mãos relaxadas, os olhos selvagens me perseguiam.
— Você ainda vai gostar de mim quando descobrir que há um
monstro que vive em mim também? — ela perguntou.
Layla já havia tirado o vestido caro e usava apenas uma camisa social
branca de mangas longas, minha, a mesma que usara anteriormente quando
acordou pela primeira vez em minha casa. Usava também um short de
moletom, muito curto para uma noite fria de Nova York, muito longo para
não me deixar desconcertado.
— Ainda usando as minhas roupas? — perguntei.
— Gosto do cheiro delas — ela respondeu.
Eu gostava em tudo nela. Do cheiro, da forma como me provocava,
do jeito intimidador que tentava me olhar e ao mesmo tempo parecia só uma
garota assustada. Acho que no fundo, eu também devia ser assim.
Toquei no botão debaixo e comecei a abrir a camisa, sem pressa,
deixando que o corpo dela se revelasse e me fizesse ficar ainda mais sem ar.
Sua pele morena, abençoada pelo sol, com um cheiro quente e oriental, que
ao tocar com meus dedos, fazia-me sentir ouro, ela Midas.
— Eu não quero que você vá embora, mas também não quero te
assustar ou destruir a sua vida — desabafei.
— Sou uma mulher adulta e decidi ficar.
— Você sabe que... — suspirei. — Você simplesmente poderia pedir
alguns milhões por pensão de nossa filha e ir embora, certo? — encarei-a.
Acho que meu olhar era civilizado demais e por isso, quando nós dois nos
encarávamos, era como uma mistura estranha de tensão e tesão. Como um
cavaleiro cruzado e um mouro se encontrando.
— Eu sei — ela disse, seus cabelos volumosos, desgrenhados, soltos
da arrumação que estava anteriormente. Parecia uma leoa, descabelada,
encurralada e ainda assim sexy, perigosa e sob controle de si.
— E ainda assim você quer ficar?
— Porque eu não quero a droga do seu dinheiro. Eu só quero o
monstro que tem dentro de você.

Layla

Após me despir com demora, aproveitando cada segundo, Shawn só


demorou um segundo para contemplar a minha nudez. Ele rasgou a camisa,
que de jeito nenhum passaria pelas algemas e fez questão de abaixar o short
que eu vestia e rasgar a minha calcinha com a boca.
Antes que eu pudesse provocá-lo um pouco mais, senti sua língua
começar por entre minhas nádegas, depois subir bem dentro, bem fundo,
passar pelo meu clitóris, subir pela minha virilha, por entre os seios e depois
parar a um centímetro da minha boca.
— Mesmo quando eu não entendia uma palavra do que você dizia,
acho que falávamos a mesma língua — tive que rir.
Shawn esticou a mão, sem pressa, segurou em meu pescoço e
empurrou o meu corpo bem devagar, a ponto de sentir a parede gelada fazer
um calafrio correr pela espinha.
Do outro lado, diante de mim, senti todo seu calor pelo perfume do
corpo, pelos músculos que cobriam meu corpo e sua respiração vulcânica que
ardia ao raspar por minha pele.
— Acho que criamos a nossa própria língua — ele murmurou.
— Não levou mais de uma semana. Depois uma eternidade de
ausência — completei.
Shawn riu. Seus lábios beijaram meus ombros, depois seus dentes
rasparam pela minha pele, descendo até meus seios, roubando um gemido e
um suspiro mais longo do que eu achava que conseguiria.
— Você não vai se despir? — tentei recuperar o fôlego.
— Não quero assustá-la.
— Ah, eu sei que aguento — garanti e fui beijada com fome, com
força, os braços dele me envolveram e me tiraram da parede, seu corpo me
acendeu num único estalo.
Abracei a cintura dele com minhas pernas sem muita dificuldade e o
acompanhei enquanto ele empurrou a sunga para baixo e eu senti seu pau,
bem grande e grosso, roçar com demora pelas minhas carnes e continuar até
meu baixo ventre e umbigo.
Fechei os olhos, mordisquei os lábios, só não o arranhei todo porque
estava presa.
— Ainda não vi os seus açoites — provoquei.
— São para punição — ele respondeu sério e rouco.
— Desculpe-me por ser tão profana — ergui a sobrancelha. — Quero
que me castigue.
— Por quê? — seu nariz se chocou com o meu e nossos olhos
duelaram para ver quem iria ceder.
Ninguém iria ceder.
— Porque eu quero — rosnei.
Shawn segurou a minha cintura com o braço direito e esticou o outro,
junto com o corpo, para a esquerda, onde pegou algo do armário e depois nos
trouxe de volta para o ponto inicial.
— A dor é apenas um estado mental. O corpo consegue aguentar
quase tudo, mas... — ele já ia começar a dar aula. Tive de interrompê-lo.
— Eu não me importo com a teoria. Quero que você me castigue,
depois me foda, depois me ame. Nessa ordem, desse jeito, na maior
intensidade possível e até onde aguentar.
Um sorriso malicioso escapou dos lábios dele. Dessa vez eu vi uma
nova faceta de Shawn, uma que nunca experimentei antes, não um olhar
apaixonado ou de um menino perdido. O olhar de um homem, o olhar animal,
o olhar de um monstro.
Senti a ponta de couro do chicote subir dos meus pés até as minhas
coxas, meu corpo se contorceu com o estalo. Forte demais para me fazer
gemer, fraco o suficiente para perceber que ele estava sendo cuidadoso
comigo. O ponto certo que eu queria.
— Aguento um pouco mais — provoquei.
Shawn se agachou, devagar, e deu um longo chupão em minha bunda.
Seu dedo polegar voltou a passear pelo meu corpo, tão cuidadoso e generoso,
encontrou o ponto certo e me massageou bem devagar, contrastando com o
chupão forte e intenso... seguido de um estalo, na mesma intensidade que
antes, mas que doeu por um período bem maior.
Soltei um suspiro ainda mais alto e voltei a me contorcer, antes de
procura-lo, ele se ergueu, bem diante de mim. Senti suas mãos grandes me
agarrarem pelas nádegas e me subir, contra o seu corpo, deixando o atrito da
pele ser o caminho de rastro do nosso fogo, e quando ele me abaixou, bem
devagar, senti a cabeçona do pau pressionar com força a minha vagina, e
depois, a extensão do membro escorregar, novamente raspar pelo meu baixo
ventre e umbigo.
— Você sabe tornar isso intere... — não consegui finalizar a frase.
Senti o estalo em minha coxa e joguei o rosto para frente, para tentar
recuperar o fôlego.
Foi em vão.
O rosto dele me encontrou e puxou meus lábios num beijo intenso e
quente, novamente Shawn me envolveu não só com seu corpo, mas com as
mãos e os braços, pressionando-me, puxando-me, tornando-me dele, muito
mais do que eu já era.
— O próximo passo, você sab... — novamente fui calada.
Tive de me concentrar e respirar profundamente quando o senti entrar
em mim, parecia que já estava preparado. Senti a pressão intensa, mas
devagar, cuidadosa, tive de fechar os olhos conforme senti o pau entrar aos
poucos, mas ele não tirou os olhos de mim. Eu sei disso.
Seu nariz respirava bem em frente ao meu rosto, e na fresta que abri
para poder encará-lo, vi aqueles dois olhos azuis de um tom bem vivo, mais
atentos do que nunca em minhas reações.
— Você sempre vai me encarar assim?
— Acredite, a parte mais difícil nisso tudo é: parar de te olhar.
— Você se diverte, não é? Fica me vendo ofegante enquanto me
fode...
— E você não? — ele provocou.
Deixou que as mãos que seguravam em minha cintura escapassem por
um milésimo de segundo e dessa vez eu senti uma intensidade maior, quase
gritei.
Rapidamente ele saiu do meu corpo, segurou-me pelas coxas como se
eu fosse leve como pena e se agachou, afundou o rosto em mim e me beijou
apaixonadamente, a língua passeando pelos meus lábios, movimentos
circulares em meu clitóris, avançando do jeito certo e fazendo-me sentir sua
barba na parte interna das minhas coxas, deixando-me completamente
arrepiada.
Antes que eu arranjasse qualquer outra desculpa para provocá-lo,
segurei firme nas algemas e correntes e senti novamente aquele pau grosso
entrar, senti-o pulsar dentro de mim, tão quente e ardente, de um jeito que me
fazia sentir que ele era meu. E ainda dentro de mim, seu dedo polegar não
parou de me massagear, sua outra mão continuou a apertar a minha coxa e...
— Voc... — quando eu achei que conseguiria, senti o estalo do
chicote de couro em minha bunda.
Soltei um novo gemido e antes que pudesse recuperar o ar, ele girou
os nossos corpos, pousou as próprias costas na parede e se agachou um
pouco, deixando-me sentada em seu colo.
Sentei lentamente, apertando os olhos, querendo arranhar os ombros
dele para deixar marcas.
— Um monstro muito gostoso — precisei admitir.
Ele disse algo em árabe, mas como estávamos concentrados – ou não
– no inglês, pisquei os olhos, sem entender.
— Você é muito linda — ele disse.
Fiquei sem palavras. Queria poder abraçá-lo, mas eu estava presa.
Queria poder dizer eu te amo, mas soaria bobo e infantil demais... nem nos
conhecíamos direito... e ainda assim, o que eu sentia por ele era avassalador.
Ele sorriu, ao me ver sem resposta, beliscou meus seios de leve e
começou a empurrar a minha cintura para cima com o próprio corpo,
fazendo-me sentir quase que inteiro dentro de mim.
— Isso é tão gostoso... — precisei admitir.
Shawn continuou com o que estava fazendo, beijou o meu pescoço e
depois os meus ombros, como antes. Subiu para minha orelha direita, mordeu
o lóbulo e desceu pela nuca... só do nariz e a respiração dele chegarem lá,
fiquei mais eriçada do que nunca, e assim, completamente domada, tomada e
presa, eu senti meu corpo aquecer e estremecer, fechei os olhos para
aproveitar a sensação que explodiu dentro de mim.
Ele deve ter acompanhado tudo, tão atento que era.
E quando abri os olhos, anestesiada de tesão, ele continuava ali, as
costas presas na parede, o rosto erguido, como um rei, e a cintura e coxas,
onde eu estava sentada, se mexendo com um gingado que nunca vi outro
homem ter.
— Eu não consigo nem pensar direito... — reclamei, piscando os
olhos, tão sedada que fiquei.
— Está se sentindo bem? — ele perguntou, mas não parou.
— Nunca estive tão bem — respirei profundamente. — Se estivesse
solta, daria um tapa no seu rosto.
— Que selvagem! — ele reclamou. — Quem você acha que é para
dar um tapa no rosto do homem mais importante dessa cidade? Na cara de
um mafioso?
— Alguém que não tem medo de monstros — respondi. — Eu
sentaria minha bunda na sua cara.
— Por favor — ele pediu. — Pode sentá-la também no me...
— Por hoje eu já estou saciada — falei e pisquei os olhos, de um jeito
docemente diabólico. — Mas fica para a próxima.
Shawn riu, sua mão direita segurou bem firme em minha nuca e me
puxou para perto dele, onde nossas respirações duelaram e nossos olharem
não deram trégua.
— Eu não consigo tirar você da minha cabeça — ele disse.
Aquilo soou bastante dúbio para a situação.
— Comece tirando as algemas de mim — falei.
Sua mão contornou meu rosto, num longo carinho que me deixou
paralisada, sem conseguir desviar o olhar.
— Você é boa em se livrar de algemas, pelo que ouvi. Então faça isso
sozinha.

Shawn Cavalieri

Layla não quis entregar seus truques, então me fez fechar olhos.
Quando retornei a abri-los, lá estava ela, completamente livre, os
pulsos vermelhos e marcados, ainda assim, nua, sem instrumento, alfinete,
absolutamente nada.
— Como você faz isso?
— Não vou revelar os meus segredos — ela se levantou devagar,
depois ficou de joelhos, em frente a mim. — Agora quero te fazer gozar.
Ah! Eu sequer tinha gozado!
Só de ter assistido a expressão dê-la, tê-la em meus braços se
derretendo e se entregando a mim, foi como o melhor orgasmo que tive na
vida. De certa forma, tive meu orgasmo particular também.
Layla se aproximou, manhosamente, segurou na base do meu pau e
passou a língua por todo ele. Não pude conter o arrepio, foi mais forte do que
eu. E ao sentir sua boca em minha glande, que estava tão sensível e inchada,
foi a minha vez de suspirar completamente fora do controle.
Ela daria um bom nome de furacão: Layla.
Não deixava nada intacto, não permitia que as coisas fossem como
antes, eu me sentia destruído, remendado e completamente novo depois de
tudo aquilo.
Seus olhos guardavam parte das melhores lembranças do meu
passado. Sua boca, só de encará-la, me fazia ter vontade de matar toda a
saudade de como eu me senti próximo de ser feliz, algo que nunca se
concretizou antes.
Não neguei a ela o gostinho de me ver, de olhos abertos, bem atento,
gozando como se ainda fosse um adolescente, deixando os espasmos
tomarem conta do corpo até cair no chão e ficar por algum tempo olhando o
vazio, curtindo uma nova sensação, algo tão incrível e proibido que seria
perigoso dividir com alguém.
Eu amava poder dividir isso com Layla.
— Você profanou o lugar onde eu me martirizo — olhei ao redor.
Ela anuiu e pegou o chicote de couro no chão. Bateu com o cabo dele
em minha cabeça e depois o guardou no armário, aproveitei para dar um tapa
bem forte na bunda dela.
— É um dom natural. Eu faço isso, profano lugares...
— Agora nunca mais vou estar aqui e fazer o que preciso fazer sem
pensar em você...
— Parece um bom começo para que deixe para trás esse hábito —
ela reclamou.
— Não dá... eu sou um homem muito crente e fiel à minha própria dor
— levantei-me devagar, peguei os trapos de roupa no chão e entreguei a ela.
Pelo menos o short ela conseguiria vestir.
— Toda vez que rasgar suas costas, vai pensar em minha bunda — ela
se virou e rebolou para mim.
— Sua profana!
— E vai pensar em meus gemidos...
— Ah, era isso o que você queria?! — tive de rir.
— E quando terminar, pode me chamar, que eu vou vir aqui dar um
jeito em transformar os seus pensamentos em realidade — ela provocou.
Avancei em sua direção, foi a primeira vez que a vi retroceder, dar
dois passos para trás.
Puxei-a para o meu colo e a subi pelo meu corpo, segurando-a como
se fosse bem fácil de carregá-la.
— Se o seu objetivo de vida é transformar os meus pensamentos em
realidade... — eu disse, deixando-a suspirar em meus braços.
— O quê?! — ela perguntou, devido a pausa dramática.
— Vou te arrastar para todos os lugares, porque só tenho pensado em
você.
Capítulo 18
Shawn Cavalieri

Imerso em meus mais profundos pesadelos, me vi numa cena, muitos


anos atrás, quando meu pai ainda era vivo.
— Eu já te mandei parar com isso! — ele disse de forma autoritária.
Primeiro ele me fez voltar ao metrô e me disse que se não trouxesse a
minha irmã para casa, eu não precisaria sequer voltar. Um tempo depois ele
fez de tudo para que eu jamais a mencionasse novamente.
— Eu juro que acho que a vi... — falei.
Fui calado por um golpe bem no nariz. Fechei os olhos, deixando a
dor se espalhar, senti meus olhos formigarem até começarem a derramar
algumas lágrimas, mas não fiz um barulho sequer. Deixei o nariz sangrar.
— Homens não choram — meu pai rosnou e segurou em minha
camisa, com força. — Vá limpar esse nariz e esse rosto ensanguentado e
nunca mais volte a falar sobre isso!
— Mas pai...!
Um simples olhar me fez ficar em profundo silêncio. Passei o dedo
indicador em cima do lábio e senti o líquido escarlate umedecer meus dedos.
Quando estava prestes a olhar para as minhas mãos, senti uma pontada no
nariz. Seguida de outra. Que estranho. Isso nunca fez parte do sonho...
Abri os olhos, um tanto incomodado, e me mantive imóvel quando vi
aqueles dois olhos azuis gigantes bem perto de mim.
— Oi — a pequena disse.
Apoiei os dois cotovelos na cama e me levantei bem devagar, pisquei
os olhos para tentar melhorar a vista, mas foi em vão. Procurei o despertador
ao lado da cama e vi que ainda não eram sete horas, e eu queria dormir até
mais tarde.
— Oi, princesa — fechei os olhos e voltei a deitar o peitoral e o
abdômen no colchão. — O que houve? Não consegue dormir?
— Eu posso comer iogurte? — ela perguntou.
Abri os olhos novamente e a encarei.
— Você quer comer o quê?
— Iogurte. Aqueles que vem nos copinhos. A mamãe sempre me dá,
de manhã.
Pisquei os olhos umas três vezes e decidi me levantar de imediato. Fui
puxar o cobertor para me cobrir, mas percebi que outra pessoa o estava
segurando atrás de mim. Layla.
Nunca dormi na mesma cama que alguém... e por ser a primeira vez,
até que não foi tão estranho.
— Certo. Você pode me esperar lá embaixo? Eu vou me vestir e
vamos comer.
— Tudo bem — Yohanna disse e antes de se virar, voltou-se para
mim. — Ela nunca dorme muito, então não acorde a mamãe! — ela apontou
o dedo indicador para mim, coisa que ninguém em sã consciência faria, e
saiu.
Fiquei ali, atordoado e confuso, perguntando-me o que havia acabado
de acontecer. Meu Deus!
Fui ao meu banheiro privativo e lavei o rosto, arrumei os cabelos e
escovei os dentes. Vesti-me apenas com calça social e uma camisa preta de
gola alta e mangas longas, um terno por cima.
Ao descer, vi Yohanna sentada no sofá, olhando para a janela, o dia
estava nascendo e com ele, muito frio lá fora.
— O que você disse que queria comer? — cocei os cabelos quando a
vi.
— Iogurte — ela respondeu com simplicidade.
— Não. Não — analisei um pouco. — Você não pode comer essas
coisas pela manhã. A não ser que a sua mãe faça o iogurte... — pensei alto.
— Pessoas sabem fazer iogurte? — ela me questionou.
A encarei por cinco segundos, sem palavras e procurei alguma forma
de explicar aquilo.
— É sempre importante comer coisas feitas pelas próprias mãos — eu
falei. — Mesmo que comidas enlatadas, dentro de copinhos ou em sacos,
industriais, sejam mais fáceis e acessíveis. Mas nessa casa, nós comemos
poucas coisas industrializadas.
— Por quê? — ela ficou interessada.
— Por que faz mal.
— Por quê?
— Por que a quantidade de açúcar que essas coisas têm, envelhece o
ser humano prematuramente... — eu interrompi o que seria um excelente
discurso, ao escutar a barriga dela roncar. A minha também roncou.
E, afinal de contas, ela era uma criança, não ia entender
absolutamente nada do que eu dissesse.
— Vem para a cozinha e puxe uma cadeira até o fogão.
Yohanna olhou para os lados, ergueu os ombros e se levantou,
marchou comigo até a cozinha, pegou uma cadeira e colocou ela encostada
no fogão.
— Não tão perto — eu empurrei a cadeira para uma distância segura.
— Você sabe fazer comida? — ela perguntou, após ajudá-la subir na
cadeira.
— Sim. Vamos fazer ovos, bacon e um creme branco de milho,
brócolis e couve flor. Ah, torradas também!
— Eca, esse negócio verde! — ela apontou para o brócolis.
— Mas vai ficar com um gosto muito bom!
Comecei fritando o bacon e depois os ovos, coloquei as fatias de pão
para torrar enquanto cozinhava os vegetais e depois preparava o molho
branco. Não demorei mais do que quinze minutos para fazer tudo, me
desdobrei como se tivesse uns seis braços e Yohanna ficou surpresa,
acompanhando tudo aquilo.
— Você é cozinheiro? — ela perguntou.
— Médico.
— Ah, por isso que quer que eu coma coisa ruim? — ela fez uma
careta.
Peguei um pouco do creme e provei. Faltava só um pouco de sal, mas
o bacon tinha sal natural, então eu não iria por mais. Coloquei numa colher,
soprei e dei na boca dela.
— O que achou?
Primeiro ela mastigou fazendo uma cara de nojo. Depois abriu bem os
olhos e me encarou como se não imaginasse que aquilo pudesse ter um gosto
tão bom.
— Tem um pouco de queijo — avisei e afaguei os cabelos dela. —
Então, vamos comer e depois nós vamos ao mercado comprar algumas
coisas. Coisas para você lanchar, mas saudáveis e gostosas, tudo bem?
— Tem certeza que você não é cozinheiro? — ela queria garantir.
Yohanna e eu comemos pão torrado, ovos, bacon e um delicioso
creme de milho, brócolis e couve flor com queijo. Quando ela terminou, pedi
que fosse pegar um casaco e preparei o carro para que saíssemos.
— Bom dia, senhor. A família Barbieri... — Marco me
cumprimentou, assim que saí pela porta, e já veio introduzindo assuntos de
família.
— Estou ocupado, Marco.
— Mas senhor... — ele ainda tentou.
Yohanna passou entre nós, parecia um anãozinho, um pedacinho de
gente, empacotada com um casaco muito simples, mas parecia aconchegante.
— Acha que aguenta o frio? — me agachei para encará-la e garantir
que ela estava bem coberta.
— Sim.
— Ótimo, vamos — abri a porta do carro para que ela entrasse
primeiro, liguei o celular e fiz uma anotação rápida: comprar uma cadeira
adequada para Yohanna poder usar o carro.
Na verdade, eu fiz várias anotações no caminho, porque a minha vida
não era preparada para ter uma criança ao lado. Mas agora não era opção, eu
precisava cuidar do conforto e bem-estar da minha filha.
Fomos a um supermercado grã-fino onde eu sabia que poderíamos
encontrar de tudo, desde algumas coisas para preparar refeições saborosas e
nutritivas, até comprar uma cadeira adequada e outras coisas para Yohanna
usar.
— Podemos comprar o iogurte aqui? — ela perguntou.
Devia ter esquecido de toda a nossa conversa.
— Mostre-me o iogurte que você toma. Mas não garanto levar, eu
mesmo posso fazer ou mando alguém fazer um mais gostoso e nutritivo para
você.
— Você sabe fazer tudo? — ela ficou bem interessada.
— Eu sou bom em aprender a fazer coisas novas — coloquei ela
dentro do carrinho e deixei uma dúzia de homens na porta, outros foram se
espalhando pelo local.
— Esses homens são seus amigos? — Yohanna acompanhou os
homens vestidos de sobretudo, mesmo distantes, nos espiando.
— Eles trabalham para o papai — expliquei.
— No seu hospital? Eles são médicos assistentes? — a cada pergunta
que ela fazia, parecia que movia a cabeça para um lado, uma vez para a
direita, depois para a esquerda.
— Hum... digamos que sim...
— Nunca vi médico usar preto.
Como explicar para uma criança que seu pai faz parte da máfia?
— É que estamos fora do hospital...
Bem, o meu pai nunca teve problemas com isso. Antes mesmo de
aprender a escrever os nossos nomes, nós já havíamos nos acostumado a
andar rodeados de homens armados, ouvir sobre mortes e negócios. Mas o
meu pai nunca foi exemplo de grandes coisas, então...
Yohanna me mostrou o iogurte e não preciso dizer que ele foi
reprovado. Comprei por pura pressão, mas na primeira oportunidade eu
jogaria aquele lixo fora. Comprei leite extra para poder preparar um iogurte
para ela, junto com algumas frutas, chocolate em pó e alguns suplementos
que poderiam imitar o gosto dos iogurtes que ela tomava. Também
compramos alguns casacos, livros de colorir e uma boneca que falava,
Yohanna simplesmente ficou obcecada por ela.
— Tem muitas crianças no hospital em que você trabalha? — ela
quebrou o silêncio quando um dos meus homens estava passando as coisas no
caixa e voltamos para o carro.
— Não... Por quê?
— Você não sabe muito conversar com crianças — ela analisou.
Era verdade.
— Não perguntou o que eu sonhei, não perguntou ainda meu doce
preferido, nem sabe o que eu mais gosto no mundo inteiro...
— Tenho certeza que você vai me contar tudo, não é? — desliguei o
celular e aguardei que um dos meus homens instalasse a cadeira apropriada
no banco de trás para Yohanna. — Não tirem essa cadeira daqui. Esse carro é
apenas dela, de agora em diante — mandei.
Com um aceno positivo deles, indiquei que poderíamos voltar para
casa e os outros homens que fossem depois com as compras.
— Hoje eu sonhei com você.
— Jura?! — fiquei assustado e interessado.
— Você aparecia quando eu e a mamãe corríamos perigo, na selva...
— ajeitei no cinto de segurança nela para garantir que estava segura e a
encarei enquanto ela gesticulava.
— Ah, eu quero muito ouvir essa história! — mostrei minha melhor
cara de animação.

Layla

Dormi tão bem que o fiz por muito mais do que oito horas.
Aquela cama, aquele colchão, aqueles travesseiros e cobertas...
pareciam de primeiro mundo; na verdade, pareciam de outro mundo. Dormi
numa paz, tranquilidade, sem sentir dores ou incômodo, tanto que a preguiça
me dominou.
Acordei duas vezes, na primeira, Shawn ainda estava na cama,
deitado de bruços, virado para mim. Na segunda vez ele já não estava lá, mas
isso não me preocupou. Tampouco o fato de ser bem tarde e Yohanna estar
com fome... sei que ela daria um jeito, eu havia colocado iogurtes na
geladeira, macarrão instantâneo, bolachas e alguns doces nos armários.
O quarto foi invadido por um cheiro tão gostoso e tentador que a
preguiça foi vencida pela fome.
Cobri-me com o roupão de Shawn e fui até o quarto que Yohanna
dormiu, só para garantir se ela estava mesmo lá...
Como pensei, não estava. Com um cheiro delicioso de comida? Seria
estranho se ela estivesse no quarto.
Desci para a cozinha, de onde vinha aquele perfume maravilhoso, que
fez meu estômago roncar tão alto quando parei na porta que os dois, adulto e
criança, tão entretidos numa canção, pararam para me olhar.
— Mamãe, você não vai acreditar! — Yohanna colocou a mão na
boca.
— O que foi, filha? — fui até ela, que parecia extremamente alegre e
com cara de que queria me contar um monte de histórias.
— Fomos a um lugar beeeem grande onde tem de tudo e ele comprou
tanta coisa! Até uma cadeira para colocar no carro! — ela me chamou com a
mãozinha para que eu me aproximasse. — Ele disse que o carro era meu —
ela falou, estupefata e maravilhada.
Levantei as sobrancelhas e encarei um Shawn completamente
concentrado, mexendo uma colher de pau numa panela grande.
— O que é isso? — perguntei.
— Molho de tomate com especiarias — ele respondeu e me deu um
beijo bem demorado na testa.
— Mas eles vendem isso em pacotes... — cruzei os braços.
Shawn me olhou como se eu tivesse vindo de outro mundo. Terminou
de girar e amassar aquilo, dava para perceber que ainda haviam pedaços
grandes de tomate ali, bem caramelizados e suculentos, abaixou o fogo e
encostou aquele traseiro redondo na bancada.
— Bom, antes de mais nada, gostaria de lembrar às duas mocinhas
que sou italiano. E nós, italianos, somos nojentos com comida.
— Ele também é médico — Yohanna murmurou. — E ele faz umas
comidas que é ruim, mas na verdade é bom — ela disse, parecia tão confusa
quanto eu.
— É, tem isso. Quando a Nena não cozinha, eu cozinho. Nada de
alimentos industrializados, nada de açúcar, aqui a comida é feita na hora,
fresca, suculenta e brilhando. Essa casa não tem micro-ondas, nunca vai ter, e
mais importante: nada de macarrão instantâneo — ele alertou.
Tentei acompanhar tudo aquilo, achando completamente bizarro.
— Pedi para Marco contratar mais algumas cozinheiras, já que a Nena
trabalha na casa da minha mãe e só vem aqui uma vez por semana. E ali —
ele apontou para a mesa na sala, onde havia o telefone. — Estão os números
dos melhores e mais caros restaurantes de Nova York. Obviamente eles não
fazem entrega. Obviamente vocês ligarão por aquele telefone e mencionarão
o meu número e nome, assim eles trarão até mesmo o chef de cozinha se for
preciso.
— Uau — pisquei os olhos.
— Quero que comam bem, de forma saudável e achando tudo
gostoso. Podem comer lixo, se quiserem, mas não dentro de casa — ele
avisou.
— Mamãe, ele mesmo fez o macarrão! — Yohanna estava estupefata.
— Olha! — ela me puxou pela mão até a mesa e me mostrou.
Mal bati os olhos, vi que aquilo tudo parecia perfeito e
principalmente: tinha cara de comida feita com muito amor, carinho e
cuidado. Achei bem estranho, a princípio, ouvi-lo dizer aquelas coisas sobre
comida... eu fui acostumada a dar graças a Deus por ter um macarrão
instantâneo para comer... mas Shawn era de um mundo completamente
oposto ao meu.
É claro que eu jamais imaginei que ele fizesse a própria comida ou
que até mesmo soubesse cozinhar, mas ele estava certo. Yohanna e eu não
comíamos nada bem e aquilo poderia acarretar em problemas graves no
futuro.
— Mamãe, olha! — Yohanna me puxou pelo roupão e me fez olhar
para o fogão.
Shawn tirou umas peças redondas e gigantes de carne que estavam
mergulhadas num líquido escarlate, provavelmente vinho, cabeças inteiras de
alho, manjericão e especiarias jogadas por cima.
Ele tirou o primeiro pedaço de carne e jogou numa frigideira que
estava estalando de tão quente, e com um pouco de azeite e um pouquinho de
conhaque ou rum, o fogo subiu na frigideira e foi dourando a carne,
deixando-a mais suculenta do que estava.
— Você não precisa fazer isso pela gente... — suspirei, alto o
suficiente para ele ouvir. — Não queremos incomodá-lo.
Shawn tirou a carne que estava flambando e a colocou em cima da
tábua de madeira junto com as outras carnes que já havia feito, deixou a
frigideira na pia e se virou para mim.
— Não estão incomodando.
— Você deve ter outras ocupações... coisas importantes a fazer... não
queremos estragar a sua rotina.
— Não estão estragando — ele disse de modo firme e imediato. —
Embora nunca pensei que teria filhos, não tão cedo... sempre quis cozinhar
para alguém especial. É chato cozinhar só para mim... às vezes vou até a casa
da minha mãe, ali — ele apontou pela janela. — E cozinho para ela e a minha
avó... é coisa de família... temos essa conexão com a comida e a sensação de
trabalhar os alimentos na cozinha... comer à mesa... tudo isso une a família. E
vocês são a minha família.
Tive de virar o rosto para sorrir. O sorriso veio bem largo e quente,
fazendo-me sentir menos peso e incômodo e mais importante do que deveria.
— Você é um homem bem curioso... Soldado... médico... cozinheiro...
membro de uma sociedade secreta...
Shawn colocou a frigideira de volta no fogo, voltou a colocar um fio
de azeite e depois, quando a frigideira voltou a estalar, pousou uma nova
carne, que junto com a fumaça, ao derramar o líquido alcoólico, fez levantar
fogo.
— E tudo isso e muito mais é apenas o que eu faço. Não o que eu sou.
— Ah! — Umedeci os lábios e acompanhei seu corpo que veio em
minha direção. — E o que você é, exatamente?
Embora seus lábios não sorrissem, dava para perceber que seus olhos
o faziam, no lugar. Shawn chegou bem perto de mim e sussurrou:
— Eu sou absolutamente tudo. Mas nesse momento, me contento em
ser apenas um homem apaixonado.
Capítulo 19
Layla

— Shawn! — eu gritei em desespero.


Aquele sonho voltava a se repetir, vez após vez.
Os homens do exército arrancaram as minhas roupas e analisaram
meu corpo. Fui tocada de um jeito invasivo, parecia um brinquedo nas mãos
deles, me senti completamente desconfortável, diferente de quando estava
com Shawn.
Onde ele estava?
Voltei a gritar pelo seu nome, mas não foi ele quem eu vi.
Vi um homem mais velho, estrelas no peito junto com uma medalha,
tinha ar de que comandava tudo aquilo.
Ele me interrogou, surpreendi-me ao perceber que ele falava a minha
língua. Mas eu não respondi. Eu só precisava ver o meu médico-soldado e
confiar que ele daria um jeito em tudo aquilo.
— Você quer vê-lo, não é? — o homem perguntou. — Posso levá-la
até ele. Apenas se comporte e pare de gritar — ele mandou.
Acordei num sobressalto antes do pesadelo terminar. Eu não
precisava reviver tudo o que veio depois daquilo. Meses depois eu estava nos
porões de um homem poderoso, sendo tratada como lixo, minha barriga
crescendo sem parar, junto aos abusos e a crueldade comigo.
Tirei a coberta de cima do corpo e saí do quarto, fui em direção ao
que Yohanna dormia. Ela estava lá, serena e imersa no que parecia ser um
sonho muito bom.
Fui direcionada para o corredor secreto que levava para os túneis
debaixo daquela velha mansão, onde eu sabia que o encontraria.
Quando estava descendo as escadas, escutei os urros dele, mesmo
abafados pela porta.
Entrei pela porta que fui anteriormente, passei por aquela sala com
mapas e lembranças e entrei na câmara de tortura, onde encontrei Shawn com
um açoite em mãos, um que eu nunca tinha visto. Na ponta havia algo de
metal que quando ele batia nas costas, rasgava-a instantaneamente. As
marcas, o sangue, a vermelhidão se espalhava por todo o corpo dele.
Ao fechar a porta atrás de mim, ele se virou de súbito, o rosto suado,
os olhos cansados, uma expressão de fúria que foi se amenizando aos poucos.
— Não posso fazer isso com você aqui — ele puxou forças, não sei de
onde, para me dizer.
Tateei a parede atrás de mim e me escorei, encarando-o.
— Uma pena. Eu não pretendo sair — cruzei os braços.
— Você não precisa ver isso — ele reforçou.
— Eu não preciso ver. E você não precisa fazer... — me mantive
firme, mesmo vendo-o exausto e pronto para ceder no chão.
— A dor é... — ele ia dizendo, mas tive de interrompê-lo.
— Você fica pensando em minha bunda quando faz isso? É por isso
que está se punindo? — o provoquei.
Ele levantou a sobrancelha, como se estivesse processando a
informação. Depois caiu numa risada, misturado com algumas reclamações
incompreensíveis por causa da dor.
— Preciso terminar... — ele me apontou a porta.
Ele ia precisar me tirar dali à força.
— Fique à vontade — estendi a mão aberta em sua direção, indicando
que ele poderia continuar sem problemas.
Shawn praguejou um monte, pegou o açoite e caminhou até um outro
armário da sala onde o higienizou e o guardou num lugar com cadeado.
Antes que ele fechasse o armário, encontrei ali alguma coisa que me
ajudasse, que era um soro e um pacote de algodão para limpar as suas costas.
— Você precisa mesmo fazer isso? — ele reclamou.
— Se você precisa fazer isso... — respondi. Fiquei diante das costas
dele e molhei o algodão no soro, em seguida comecei a limpar pela parte
mais alta, logo abaixo da nuca.
Ainda bem que as portas estavam fechadas, porque o urro ecoou pelo
lugar e ainda bem que ficou guardado ali.
— Por que isso hoje? — eu juro, estava tentando entender por detrás
do que ele me dizia, devia ter outro motivo além do que ele me falara.
— Queria poder apagar o seu passado — ele murmurou.
— A parte em que nos conhecemos? — eu não podia evitar. Era
muito divertido provocá-lo, ainda mais pela expressão que ele fazia.
Shawn virou o rosto rapidamente em minha direção e me censurou
com o olhar. Sua expressão mostrava o quanto estava bravo, assim como
reforçava o quanto ele era perigoso.
E tudo o que eu conseguia ver era o homem que eu gostava.
Ele não conseguia me intimidar.
— A parte em que você sofre — ele voltou a olhar para frente.
— Será que se não houvesse a parte em que eu sofro, nos
conheceríamos?
Afinal de contas, nos conhecemos por um joguete do destino, onde o
sofrimento era o mote principal.
— Valeria à pena sofrer, só para me conhecer? — Foi a vez dele me
provocar. E como sempre, ele era afiado.
— Estou descobrindo aos poucos. — Desci as mãos com um novo
algodão pelo centro das costas dele, onde o vi deixar os músculos rígidos e
suportar a dor enquanto rosnava ferozmente.
— Viajo agora à noite e volto em breve. — Shawn avisou
entredentes.
— O quê?
— Estou partindo para uma viagem agora à noite e volto em dois, três
dias no máximo. — Ele explicou, puxou tanto fôlego que eu fiquei sem ar.
— Já se cansou de mim?
Eu não havia terminado de limpá-lo, ainda assim ele se virou, o
peitoral bem marcado logo me chamou atenção. Suas mãos fortes seguraram
em meus ombros e ele abaixou o rosto até tocar nossos narizes.
— Nunca mais diga isso — ele mandou. As mãos vieram para o meu
rosto. — Eu não me cansei de você, passei muitos dias da minha vida, meses,
anos, só pensando em você. E agora você está aqui... com a nossa filha... eu
jamais me cansaria de vocês. Quero poder estar com vocês para sempre.
Eu vivi para ouvir palavras que mudavam completamente como eu
me sentia. Normalmente eu ouvia ser objeto, propriedade, lixo, brinquedo e
eu só me sentia menor.
Com as palavras de Shawn eu sentia que expandia... algo em mim
crescia, florescia, parecia que escapava pela minha pele, perpassava a dele,
nos unia no olhar, no toque e de repente... em um beijo.
Eu quis que aquele beijo durasse uma eternidade. E meio que durou.
Ficamos por tanto tempo daquele jeito, os corpos colados, eu sentindo
a pele dele me puxar e me abraçar, me tomar e me fazer sentir viva... aquilo
era bom demais para mim, eu não merecia.
— Au! — ele reclamou, quando eu subitamente passei o algodão pelo
fim das costas dele.
— Vou terminar isso logo para que você viaje... — falei, encarando-o
a um palmo do meu rosto.
— Enquanto eu estiver fora, não confie em ninguém. Se algo estranho
acontecer, qualquer coisa, pegue a nossa filha, entre aqui e sele a porta do
escritório. Evite o túnel que leva para o matadouro, o outro leva para o
coração de Nova York, para a empresa do Ethan Evans. De lá, existem outros
túneis, um que leva para o Madame Lilith...
Quando ouvi esse nome, levantei a sobrancelha, eu conhecia o lugar.
— Outro próximo da sede da minha sociedade secreta... e outro para
um apartamento do Héctor Mitchell. Onde quer que você pare, você estará
segura.
— Eu sei me virar — respondi.
Shawn voltou a selar os nossos lábios e depois me encarou com muita
demora. Pousei as mãos em seu peito e senti seu coração bater bem forte.
— Obrigado por cuidar de mim.
Aquilo mexeu comigo de um jeito diferente. Quando menos percebi,
estava sorrindo, olhando para ele, tateando seu rosto. Eu quem devia
agradecer. Ele havia cuidado de mim primeiro, e novamente, quando recebera
a ordem de me matar, cuidara de mim mais uma vez. E agora me protegia...
— Não era eu quem iria para aquela guerra... — ele me deu as costas,
pegou as roupas no chão e encarou o relógio de pulso ao tirá-lo do bolso da
calça.
Balancei a cabeça, concordando com o que quer que ele iria dizer.
— E eu não seria eu mesmo, agora, se não tivesse ido...
Ele beijou a minha testa com doçura e indicou que deveríamos subir.

No avião para Massachusetts


Adrian Cavalieri

Lutei contra mim mesmo para fazer aquela viagem.


Tudo o que eu queria nesse momento era ficar perto das minhas
meninas e cuidar delas, matar a saudade, tirar um tempo para conhecê-las
melhor. Mas o ofício impregnado em meu sangue me chamava.
E eu não podia fazer nada, além de seguir o chamado.
— Eu dobraria a vigilância agora — Ethan Evans disse, estava
sentado na poltrona à minha frente, dentro do avião particular do Héctor
Mitchell. — O Marco não é um Consiglieri de guerra. E assim como o
Virgílio tramou em suas costas, o que impede que os outros homens também
tramem?
— Concordo — fui curto e grosso.
— Você confia naquelas famílias que moram na Vila Patrícia? — foi
a vez de Héctor me perguntar. Estava sentado numa poltrona muito espaçosa
à esquerda, olhava as nuvens.
— Não confio nem em vocês — tive de rir.
Todos eles me acompanharam.
— Quero que tenha em mente que essa sua organização pode sair do
controle. E você precisa ser ágil e esperto... — Héctor cruzou as mãos em
cima da coxa, ainda evitava me olhar.
— Se preciso, matarei todos.
— Você é um. Eles são milhares, muitas famílias... — Ethan
protestou. — Você é poderoso, mas não é feito de aço!
— Ethan, eu não vou permitir que vocês corram perigo. Já estão
fazendo demais vindo comigo para essa enrascada...
— A minha mãe estava bem certa sobre o paradeiro dele — foi a vez
de Ricardo Leão se manifestar, estava ao lado de Ethan. — Ela disse que ele
tem uma amante em Massachusetts, e que deixa a família aqui em Nova York
no meio da semana para ir curtir com ela. E ela pediu para lembrá-lo,
explicitamente, que não quer a morte da amante. Ela dorme com um senador,
repassa informações de dentro muito importantes.
Anuí com demora. Se não fosse um pedido explícito da mãe de
Ricardo, a Elizabeth, eu faria uma chacina.
— Queira você ou não — Héctor pigarreou. — Nós vamos lutar para
proteger você e a sua família. Porque no fim, nós somos uma só família. E se
você corre perigo, todos estão vulneráveis.
Héctor sempre usava aquele tom de irmão mais velho que no início,
me fazia sentir pequeno e rebaixado. Com o tempo eu passei a aceitar.
Hoje, agora, nesse momento, eu entendia bem cada palavra dele,
embora o tom dele sempre soasse rude e ranzinza.
Não passei mais de quatro dias com a minha filha e eu mataria e
morreria por ela. Não deixaria que nada lhe acontecesse. Foda-se a Famiglia,
foda-se a Grande Ordem, eu passaria por cima de qualquer um ou qualquer
coisa que tentasse me separar dela. Dela e de Layla.
Assim como eu destruiria tudo e todos que as machucaram ou até
mesmo pensaram nisso.
— Alguém precisa avisar o presidente — Ricardo comentou.
— Eu ligo — Ethan já ia pegando o celular, quando eu o impedi.
— Não — segurei a mão dele. — Quero conversar com ele cara a
cara. Não iremos avisá-lo do que faremos.
Héctor me olhou, não sei se com reprovação ou com desgosto. Mas
mostrou que confiava em minhas decisões e isso era tudo o que eu precisava.
— Sobre a sua filha, conversei com Lilith e ela me garantiu que um
simples teste de DNA registrado nos arquivos a protegerá de qualquer coisa.
Já a Layla... — me impressionou ver que Héctor lembrava o nome dela. —
Vai ser complicado. Ela nasceu na Síria. Estamos com aquela situação em
andamento... Você não tem os documentos dela...
— Você acha que o presidente pode extraditá-la? Sejamos francos, o
Shawn e ele nunca pareceram se dar muito bem... — Ethan mostrou sua
preocupação.
— Se ele tentar fazer algo contra a minha família... — levantei a
minha voz e fiquei atento, já que percebi que havíamos chegado, olhando
pela janela.
— Hora do show, meninos. — Ricardo se levantou, ao perceber os
prédios logo abaixo de nós.
—... Eu o extradito primeiro — rosnei e me levantei.
Dois dias depois – Vila Patrícia
Layla

O primeiro dia sozinha naquele lugar, foi bem estranho.


Não havia absolutamente nada para fazer naquele casarão: sempre
havia alguém cozinhando, limpando, deixando tudo impecável... e
repentinamente sumiam, como se nunca tivessem estado ali.
Então dei o meu jeito e saí do residencial, andei pelas ruas, procurei
por algum emprego, poderia ser absolutamente qualquer coisa, eu não teria
problemas em limpar o chão, servir mesas, atender pessoas e incitá-las a fazer
cartões... mas todos naquela região me olhavam com certa suspeita, não foi
nada frutífero.
Tirei o segundo dia para passear com Yohanna pelo residencial e
tentei fingir que não reparei os olhares estranhos daqueles mafiosos dirigidos
a mim e a minha filha.
— Onde está o papai?
— Ele foi realizar um trabalho importante, já está voltando.
— No hospital? — ela me encarou com aqueles olhões inquisidores.
— Sim — menti. Eu me tornei boa nisso, mas a expressão de
Yohanna mostrava que ela desconfiava de algo. — Como você está se
sentindo, meu amor? O que achou do seu pai?
— Ele é tããão bonito! — ela parou de andar e balançou a minha mão.
— Ele é sim — concordei.
— E ele é tãããão alto e tãããão atencioso! Ele é um homem bom,
mamãe.
Nunca concordei tanto com ela. Shawn tinha um coração de ouro que
guardava apenas para si. Sua armadura era fingir que era cruel e sem
escrúpulos, mas ali dentro vivia alguém tão generoso e nobre... junto com
uma fera indomada, perigosa e selvagem...
— Você sentiu falta dele nesses anos, mamãe?
— Claro que sim.
— E porque não o procurou? Ou ele não te procurou?
— A mamãe tinha de resolver outras coisas primeiro, meu amor...
— Mamãe, quando vamos contar ao papai que nós achamos...
— Yohanna — eu a repreendi com o olhar. — Já combinamos. Não
podemos falar sobre esse assunto. Nunca mais.
Ela fez um bico e ficou mais séria, abaixou o rosto e começamos a
voltar em direção ao casarão.
— O que achou da Vila Patrícia? — perguntei.
— É muito grande e bonita... ela amaria conhecer o lugar.
— Sim... ela amaria, filha...
Yohanna e eu voltamos para o casarão, ela foi arrumar os brinquedos
que deixou espalhados pela sala e eu liguei a televisão. Passei vários canais,
aleatoriamente, para me distrair.
Nenhuma ligação... nenhuma mensagem... ele não disse onde ia, onde
estava, se tinha se alimentado, dormido, se as costas doíam...
—... Obra de terroristas, sem dúvida. O governo e o FBI vão
investigar a fundo... — o jornalista comentou, olhando a colega de bancada.
— A CIA, sem dúvidas — ela completou.
No canto inferior direito, a imagem de uma mão com uma aliança,
toda ensanguentada e ferida, segurando algo que parecia um coração humano.
— O general Oliver serviu como líder das forças armadas numa
expedição que mudou o mundo. Certamente ele foi um responsável, mesmo
que indiretamente, da morte do grande terrorista que feriu a nossa nação com
o atentado do 11 de setembro — o jornalista explicou. — O general,
inclusive, liderou, rapazes que foram cruciais para o sucesso da operação e se
tornaram heróis de guerra.
— Sim. Um dos seus soldados favoritos, o herói de guerra Adrian
Cavalieri, prestou assistência à família quase imediatamente, ao saber das
notícias. O corpo do general não foi encontrado, mas a sua mão, junto com o
seu coração, foram entregues numa bandeja de prata, na porta da casa em que
vive a sua mulher...
Levantei as sobrancelhas.
Ao ver as fotos do general Oliver, pude constatar: era ele! O homem
dos meus pesadelos! O mesmo homem que prometeu me levar até o Shawn e
no fim, me jogou numa rede criminosa que me vendeu, junto com a minha
filha, para pessoas doentes.
Fechei os olhos.
Lembrei da cena antes de Shawn ir viajar.
Ele se aproximou devagar, já estava bem vestido, um sobretudo preto
o cobria e dessa vez seus cabelos estavam escondidos debaixo de um chapéu
Fedora preto.
— Eu não vou permitir, nunca mais, que te machuquem — sua mão
direita tocou o meu rosto.
— Só pelo fato de você estar aqui, eu já me contento — respondi.
— Eu vou destruir todas as pessoas que te machucaram — ele
encostou o nariz no meu e respirou bem fundo. — Eu vou te proteger. Eu vou
cuidar da nossa família. Mas eu vou fazer com que todos eles paguem, pelo
que fizeram com você... com a nossa filha... e comigo...
Eu não soube o que responder na hora.
Só o abracei bem forte, pedi que Deus o protegesse e que ele voltasse
bem.
Os jornalistas mostraram quatro homens chegando na casa onde vivia
a mulher do ex-general, que os recebeu com carinho. Shawn, Héctor e Ethan
eu já havia visto. O outro, Ricardo, foi uma novidade.
Eles não olharam para as câmeras, entraram na casa e os jornalistas
voltaram a comentar sobre o acontecido e as buscas pelos culpados do caso e
pelo corpo do ex-general, desaparecido.
— O papai já voltou? — Yohanna apontou para a televisão, nem
havia percebido que ela estava ali.
Conferi a informação de que a casa que ele estava ficava em Nova
York.
— Sim, filha. Já já ele está de volta...

Adrian Cavalieri

— Nós sentimos muito... — Héctor tomou a frente. Era sempre muito


galante e prestativo. Também era dissimulado. O que era um trunfo, já que
estávamos consolando a mulher do homem que viajamos para matar.
— Aceitam um chá? — ela perguntou.
— Sim, é claro — Héctor respondeu e se voltou para nós.
A casa estava bem movimentada. Vi vários colegas que estavam
comigo na guerra, chefiados pelo Oliver. Também vi alguns homens que
faziam a segurança do presidente, eles sempre chegavam antes para ver se o
perímetro estava limpo... logo logo o homem estaria ali.
— Obrigado — Héctor segurou a xícara enquanto a mulher o servia
chá.
— Deve ser um momento muito triste, por isso não iremos nos
demorar — Ethan tomou a frente enquanto Héctor bebia chá como se fosse
um lorde inglês.
— Não é triste — a mulher me serviu o chá e me encarou com
demora. — Ele era cruel.
Ricardo abriu os olhos mais do que devia, tive de censurá-lo com o
olhar e normalmente ele era mais sensato do que eu em guardar suas
emoções.
— Um pai ausente... cheio de vícios... depois da guerra voltou
diferente... metido com facções criminosas... abusando dos filhos... me
espancando... — ela serviu o chá para Ricardo e se sentou no sofá, nós já
estávamos todos sentados. — Guerras mudam pessoas... e aquele não era o
homem que eu amei. Sei que vocês o admiravam e sei que querem me
consolar... mas eu pedi o divórcio em 2012 e desde então ele me mantinha em
cárcere, dentro dessa casa...
Héctor continuava o lorde inglês que jantava com a rainha todas as
noites de domingo. Ethan estava super interessado naquela história e Ricardo
me encarava de esguelha como se dissesse “mesmo quando fazemos merda,
fazemos a coisa certa”.
Ao que eu respondi, com o olhar “desde a adolescência, meu caro”.
—... Só me sinto livre — ela concluiu. — E é bom desabafar — ela
abaixou os ombros e olhou para o teto. — Sei que nunca mais poderei falar
isso, recebi todo o texto do que devo dizer aos repórteres para manter a
imagem dele incólume... mas ele era um monstro. E quando recebi a mão
dele apertando o próprio coração, ontem pela manhã... eu senti que ele me
devolveu o que me tirou há anos...
Héctor? Mais tranquilo que o Dalai Lama. Buda precisava de aulas
com ele. Eu não ficava atrás. Ethan já não escondia as emoções e concordava
com a mulher, chegou até a soltar um “mataram foi pouco”. Ricardo estava
apenas admirado.
— Espero que encontre força de vontade para recomeçar... e um bom
homem, senhora Oliver.
— Agradeceria se me chamassem pelo meu nome. Cinthia. Não tenho
prazer em carregar esse sobrenome, e agora, me sinto livre de vez.
— Saiba que tem o nosso apoio para recomeçar a vida onde quiser —
Ethan entregou-lhe quatro cartões, um de cada um de nós. — Se precisar de
dinheiro... uma nova casa... algo para o enterro... ou se quiser dar uma festa
de arromba quando acharem o corpo daquele pau no cu...
Ela pegou o cartão quando ouviu a última parte.
— A festa não é má ideia — ela pareceu tentada.
Toda a atenção que ela mantinha em nós foi tomada quando o próprio,
o único, o inigualável, o homem da Casa Branca chegou.
Escoltado, protegido e assessorado, flashs e microfones lá da rua
tentaram captar o momento em que Cinthia e o homem todo poderoso da
América se encontraram e ele prestou suas condolências e palavras de
respeito.
Preciso admitir, aquela mulher tinha peito.
Convidou-o a entrar, fechou a porta e disse, sem rodeios, que
aguardava aquela morte como se aguardasse poder viver novamente.
Sem cerimônias, o homem sorriu e disse que aceitava chá.
Encarou-nos de esguelha, não escondeu que nos viu assim que entrou
e caminhou devagar até os sofás, onde ficou parado nos observando. Seus
guarda-costas colados nele.
— Ora, ora, se não são os meninos da Lilith... — ele abriu um sorriso
descontraído e depois acenou para membros do exército que também
apareceram para prestar suas homenagens à família.
— “Meninos da Lilith” — Ethan riu. — Ele diz isso desde que
tínhamos... dezessete? Não lembro.
— Viemos prestar nossas homenagens a um herói de guerra — Héctor
se manteve sereno. — Membros da Colmeia de todo o país vieram, não
ficaríamos de fora, afinal de contas, nós somos o Grande Templo Illumi...
Quando ouviu a palavra “Colmeia” o homem já fez uma expressão
azeda. Quando Héctor estava terminando a frase, ele enxotou os guarda-
costas e ficou ali sozinho, conosco, notavelmente desconfortável, mas ainda
assim, numa postura sóbria e impassível.
— Por que esse encontro me parece premeditado? — o homem
cruzou os braços.
— Porque foi — respondi. — Estamos investigando um caso
problemático, senhor. Que pelo visto, não envolve apenas a máfia...
— Eu sempre te disse que essas pessoas iam te levar à lama — ele
disse entredentes, jogando em minhas costas, eu estava sentado, olhando para
frente, e embora ele estivesse de pé, ao meu lado, não parei um segundo para
encará-lo.
—... e a polícia de Nova York. Talvez até uma ala do FBI — terminei.
Roubei a atenção que precisava. O homem sentou no braço do sofá e
ficou quieto, para me ouvir.
— Tráfico de mulheres — falei, por fim. — Parece ser uma rede
antiga e queremos desmontá-la. Só precisávamos saber se o senhor...
— Você não ouse! — ele rosnou.
— Só precisava ouvir de sua boca.
— Faça o que tiver de fazer, Cavalieri. Você não diz aos quatro
cantos que essa cidade e esse estado são seus? Então só faça o que tiver de
fazer.
— Pensamos em ligar — Ethan comentou. — Mas ligações, nos dias
de hoje...
— Fizeram bem. Só fariam melhor se fossem à Casa Branca e nos
encontrássemos na parte subterrânea, secreta, onde ninguém poderia nos
ouvir. Aqui ainda corremos riscos.
— Não com tantos membros da Colmeia.
— É verdade isso? Sabem se essa rede está ligada a algum político?
— o homem mostrou interesse.
— Certamente está, senhor — Ricardo tomou a vez. — Mulheres
estrangeiras estão sendo trazidas e vendidas para os nossos colegas
bilionários. Ao que parece, até para gente da Colmeia...
— E estamos estudando o que fazer a respeito disso — Héctor
completou.
— E o que decidiram até então?
— Decidimos começar a encontrar os culpados primeiro. Um por um.
Quem vendeu, quem ajudou, quem facilitou, quem ousou pensar nesse
negócio. E, bom, o resultado o senhor sabe... — falei e me levantei.
Nos encaramos brevemente. Isso era desgostoso para mim, muito
mais para ele. Nunca fomos bons colegas no Grande Templo. Ele sempre
pareceu incomodado com a minha presença e com o tempo eu aprendi o
prazer de incomodá-lo com ela.
— Agora, senhor, precisamos descansar. Acabamos de chegar para o
enterro, estamos exaustos...
O homem segurou em meu braço e me encarou com muito interesse.
— Eu soube que vocês viajaram há dois dias, onde o Oliver estava,
em Massachusetts. Agora estão aqui. Logo após a mulher receber pedaços do
marido... — ele murmurou.
— Irônico, não é? — encarei a mão dele em meu braço, o que o fez
soltá-la. — O senhor vivia dizendo que éramos péssimos alunos porque
sempre chegávamos atrasados para as suas aulas no Grande Templo...
Ricardo passou primeiro, em direção a porta. Héctor em seguida.
— Quem diria? — Ethan comentou ao passar por ele.
—... Aqui estamos nós chegando adiantados em alguma coisa — o
olhei bem no fundo dos olhos, com o mesmo interesse com que ele me olhou.
E saí.
Capítulo 20
Layla

Shawn não voltou para casa, pelo menos, eu não o vi.


Sabia que ele já estava em Nova York, mas não tive nenhum outro
sinal dele além desse. Tentei descansar ao máximo nesses dois dias, há muito
tempo eu não tinha a verdadeira oportunidade de dormir e repor todo o sono,
aquilo era o paraíso!
Ao me dirigir ao quarto onde Yohanna ficava, para alertá-la de
guardar os brinquedos antes de dormir, a vi deitada, embrulhada, na mesma
posição das noites anteriores.
Isso só podia significar uma coisa!
Corri para o escritório e movi o livro para que a passagem fosse
aberta. Deixei que a fenda se fechasse tão rápido quando passei e me dirigi à
câmara subterrânea onde eu encontrei Shawn durante algumas noites.
Acabei esbarrando nele quando abri a porta e avancei para dentro.
Ele me segurou com tanta força que mesmo se a gravidade parasse de
funcionar, tenho certeza que não cairia.
Levantei os olhos com demora, curtindo cada milésimo de segundo,
ansiosa para vê-lo e lá estava ele. Como se sequer tivesse saído dali.
O abracei muito forte a ponto de quase arranhá-lo. Até esqueci que
poderia usar palavras para expressar meus sentimentos, apenas deixei que
meu corpo falasse por mim.
Ele devolveu o aperto e ficou em silêncio enquanto nossos corpos se
aconchegavam um ao outro e transformavam aquele momento de reencontro
em um verdadeiro motivo para a nossa felicidade.
— Eu senti a sua falta — ele pousou o queixo no topo da minha
cabeça.
— Foram só dois dias — contrapus, ainda agarrada a ele.
— O tempo é relativo. Para mim, parecem semanas... — senti os
músculos dele me apertarem com carinho e força, quando estava pronta para
pedir-lhe um pouco de espaço para respirar, ele me soltou, não se afastou,
continuou diante de mim. — Tudo em ordem?
— Tudo em ordem — balancei a cabeça.
Shawn anuiu, não cortou o contato visual quando me puxou para
dentro da câmara e fechou a porta. Andou um pouco mais até encostar na
mesa e se apoiar lá.
— Não quer me dizer nada? — ele cruzou os braços.
O que eu deveria dizer? Eu não tinha absolutamente nada a
esconder...
— Nos comportamos... — balancei os ombros, acho que era tudo o
que eu poderia dizer.
— Você saiu para procurar emprego... — ele coçou o queixo e
abaixou o rosto, fitou os sapatos caros, italianos, eu também.
Conforme ele foi levantando o rosto até me encarar, eu fiquei
congelada onde estava. Eu havia cometido algum crime?
— Preciso sustentar a minha filha — expliquei.
— Nossa filha — ele contrapôs. Estava absolutamente certo, passei
tanto tempo vendo-a apenas como minha que poderia soar de forma arisca.
— Qual o problema em eu ter um emprego? — foi a minha vez de
cruzar os braços.
— Não te quero exposta. Não quero que corra perigo.
— Mas ela tem necessidades, eu também. Não podemos ficar
dependendo do seu dinheiro...
Shawn me calou com o dedo indicador e me olhou de um modo
extremamente sério.
— Não existe meu dinheiro — ele corrigiu. — O dinheiro pertence à
família, e vocês são parte dela.
— Mas, Shawn...
— Layla, eu preciso que você entenda uma coisa. Somos de mundos
absolutamente diferentes, mas você precisa saber algo sobre o meu mundo.
Eu estava ansiosa para ouvir.
— Os nossos filhos — quando ele disse isso até me senti diferente.
Ele pensava em ter mais filhos? — Os nossos netos. Os filhos dos nossos
netos. Os netos dos nossos netos. Os bisnetos dos nossos bisnetos... nenhum
deles precisará trabalhar. Nem um dia sequer. Eu não sou apenas um
bilionário, eu sou o bilionário que torna todos esses homens, bilionários.
Tentei acompanhar o pensamento, mas não consegui pensar em tanto
dinheiro assim. Semicerrei os olhos para ver se entendia.
— Você não precisa de dinheiro. Você não precisa de um trabalho.
Eu te garanto, vá em qualquer loja de Nova York, leve Yohanna com você e
diga: essa é a filha do Adrian Cavalieri. Sabe o que eles farão?
— Tentarão me matar? — foi a resposta mais óbvia.
— Estou cuidando disso — ele coçou o queixo. — Você vai poder
sair de qualquer loja com qualquer coisa que quiser. Eu protejo os poderosos.
Todos eles. Todos me devem favores. Você sequer precisa levar um cartão,
dinheiro, você só precisa dizer as palavras certas e essas pessoas te darão
tudo, porque elas acham que estarão dando a mim.
— Mas eu quero trabalhar — tive de insistir.
Ele levantou a sobrancelha e me olhou com admiração.
— Ah, então você não precisa trabalhar, você quer. E isso é bom.
Com o que você quer trabalhar? — Shawn desceu as mãos para a mesa, os
vários anéis em seus dedos começaram a tamborilar pela madeira.
— Não sei... ajud...? — acompanhei o olhar de reprovação vindo
dele. — Talvez faxi...?
— Eu vou te dar um trabalho — Shawn segurou em meus ombros. —
Pago bem, todos os benefícios, deixo até que escolha o valor do seu salário, o
que você quiser...
— O que devo fazer? — perguntei, interessada.
— Ser a minha mulher. A mãe da minha filha. Dedicar-se à família.
— Eu já tive sonhos, sabia? — Empinei o nariz. — Eu já quis ser
médica...
— Então eu vou te preparar para entrar nas melhores universidades de
medicina. Para onde devemos ir? Harvard? Yale?
Tudo parecia tão simples para ele... será que ele não entendia que no
meu mundo as coisas eram mais difíceis?
— Shawn... — eu já ia desabafar meus pensamentos, quando ele
pareceu lê-los.
— Você pertence ao meu mundo agora — suas mãos vieram em
minha direção, seguraram bem no meio da camisa e me puxou com força
para cima dele. — E no meu mundo, não existem coisas difíceis ou
impossíveis, só existe o que você quer. E o que você quer é o que eu quero. E
se eu quero, deixa de ser mero desejo ou vontade e passa a ser realidade.
— Tipo matar um ex-general condecorado? — provoquei.
— Eu não vou permitir que nenhum homem que assombre seus
pesadelos fique vivo — ele disse muito sério. — Eu não vou permitir que
você continue a fugir e se esconder, a chorar de madrugada e falar nomes
enquanto dorme, preocupada, com medo e desamparada...
A cada palavra que ele dizia, mais eu era puxada em sua direção, os
botões da camisa foram se abrindo, ele não parecia ter pressa, estava bastante
concentrado em meu corpo.
— Pare de usar as minhas camisas — ele mandou.
— É mais forte do que eu — tive de me defender. — Gosto do cheiro
delas.
Senti o toque da palma dele em minha cintura, subindo numa lentidão
gostosa, apertando o meu corpo com os dedos.
— Eu gosto do cheiro do seu corpo nu. Então fique completamente
nua — ele mandou, muito mais exigente que antes.
— É mais forte que você? — brinquei.
— Você sabe que sim — ele sorriu com os olhos.
Meu coração ainda não estava treinado o bastante para resistir ao
encanto e a tensão que era criada entre nós dois.
Na verdade, eu me perguntava se um dia eu seria capaz de resistir.
Abaixei o short de moletom tão macio e quentinho, assim como
deixei a calcinha descer pelas minhas pernas.
Não tiramos os olhos um do outro.
No menor sinal que fiz de tirar seu terno, Shawn agarrou as minhas
mãos e me puxou, nua, para o seu colo e saiu caminhou para fora da câmara,
carregando-me.
— Preciso de um banho — ele disse no meio do caminho.
Até tentei prestar atenção no caminho que ele estava fazendo, mas eu
não conseguia tirar os olhos daquele rosto bem demarcado e com a barba o
deixando tão sério, a forma compenetrada com que ele olhava adiante,
empurrava as portas ou passagens com o pé mesmo e me segurava com os
dois braços.
Vi algumas portas ficarem para trás e quando enfim eu podia sentir o
chão, era apenas a fria porcelana da banheira em minhas nádegas. No
segundo seguinte, água deliciosamente morna tocou os meus pés e começou a
subir pela banheira até cobrir minhas coxas e não parou de subir.
Shawn deixou o terno em qualquer lugar, a camisa e a calça tiveram o
mesmo destino, assim como os sapatos.
Ele veio por cima de mim e esquentou o meu corpo, muito mais do
que a água agradável.
— Derrame o conteúdo desse líquido na banheira — ele indicou o
frasco.
Um cheiro perfumado e adocicado subiu, junto com muita espuma.
O lóbulo da minha orelha foi mordiscado pelos dentes afiados do meu
mafioso particular e senti as curvas do meu corpo novamente serem tocadas
como se ele esperasse que alguma melodia saísse dali.
O toque de Shawn era caprichado, terno, concentrado, como se
soubesse cada aspecto da minha anatomia e fosse capaz de fazer surgir
qualquer harmonia sinfônica de mim.
Tive a cintura envolvida pelos fortes braços daquele homem e não
precisei de muito mais tempo para perceber que ele me posicionou em cima
do colo, o pau pulsando, já bem grande, debaixo de mim.
A água só subia, cobrindo nossos corpos.
— Não conhecia esse lugar — falei. E olha que eu espiei cada canto
da casa.
— Eu conhecia — ele brincou. — Mas terei uma impressão diferente
dele agora, com você aqui.
— O que é isso, vai me levar para cada canto da casa para profaná-la?
— Cada canto da minha casa, cada canto da minha cidade, cada canto
do meu país, cada canto da minha vida, talvez.
Ainda bem que ele me beijou, eu fiquei sem respostas.
E o tanto que eu não gostava de ficar sem respostas era o tanto que eu
gostava de ser beijada.
Sentir a língua quente dele amaciando meus lábios, brincando com a
minha língua, passeando pela minha boca.
A mão segurando firme em meu cabelo, obrigando-me a pender a
cabeça para trás, e então, sentir o rastejar da língua, dos lábios, às vezes até
os dentes pelo meu pescoço, meu queixo, para chegar em minha boca e me
devorar como se eu fosse o prato mais difícil, mais importante e mais caro de
um renomado chef.
Shawn me deitou na banheira e deitou-se em cima de mim, o peitoral
bem largo contra o meu, a cintura remexendo-se, o pau roçando em minha
coxa, a língua deixando marcas pela minha pele, talvez pistas, talvez dicas de
um tesouro secreto.
Dei um banho nele para tirar-lhe aquele ar de viagem e ele me deu um
banho também e me preparou para algo que já havia dito que faria antes.
Fiquei muito temerosa, mas eu confiava nele. Confiava em seus
desejos, em seus toques, no que ele queria comigo.
Shawn me virou de costas e beijou-me até chegar em minhas nádegas.
Um beijo diferente se seguiu, primeiro tive uma sensação estranha,
que emaranhou-se ao prazer quando ele me lubrificou e começou a pressionar
o dedo para me preparar.
Ele perfumou o meu corpo com um óleo tão cheiroso que me
lembrava o cheiro de casa, e foi cuidadoso, gentil e me deixou maluca, quase
implorando para que me penetrasse logo, de tanto que me provocou.
— Prometo que vou ser cuidadoso — ele murmurou e eu senti a
pressão me invadir, era mais forte do que a que eu estava acostumada, fechei
os olhos e segurei firme nas bordas da banheira.
Shawn passou o braço ao redor do meu corpo, fazendo sua mão subir
pelos meus seios e abraçar o meu ombro.
— Não se esqueça de puxar o meu cabelo — pedi.
— Hein?
— Gosto quando você faz isso.
Ele riu baixinho e me penetrou bem devagar, a fricção dos nossos
corpos, a sintonia com que eles se moviam e o toque dele em meu corpo
tornou tudo muito natural. Estar lubrificada e preparada também me ajudou.
Senti um ardor me invadir e quando deixei um suspiro escapar, ele
segurou firme em meus cabelos e me obrigou a praticamente deitar em cima
de seu corpo, pendendo para trás, sentando em seu pau aos poucos.
Só de escutá-lo puxar o ar com a boca já me deixada toda arrepiada.
Envolvida com aquela deliciosa água morna, aquele perfume tão
sedutor em meu corpo e seus cuidados em mim, não tive como não me
entregar.
A cada impulso de avanço dele em mim, eu só sabia gemer e pedir
por mais um pouquinho, até estar preparada para tudo.
Por fim joguei os braços para trás na tentativa de abraçá-lo, segurá-lo,
tateá-lo de alguma forma e ele apoiou bem as mãos em meu tronco,
abraçando meus seios e me levou ao completo delírio ao dar algumas
estocadas rápidas, com jeito, fazendo minha pele conhecer um novo sentido
de prazer.
O meu mais alto gemido foi calado com um beijo.
Subitamente ele me virou e me empurrou para que eu deitasse
novamente na borda da banheira e abriu as minhas pernas e me penetrou
assim mesmo.
Seu rosto, seus olhos, sua íris, vieram em minha direção, assim como
seu corpo, sua virilha, seu pau, me devorando, obrigando-me a fechar os
olhos para aguentar a dor ser transmutada em prazer, mas tudo o que eu
conseguia era olhar para ele, porque ele ficava muito bonito quando me
encarava daquela forma.
Era hipnotizante.
Era como se estivesse sob efeito de algum feitiço, algum instinto,
como se também não pudesse resistir a mim.
Era mágico.
Eu sempre tinha a sensação de que estávamos sempre tendo a nossa
primeira vez, só que de uma forma melhor.
E cada vez que eu sentia seu pau escorregar e quase sair de mim para
avançar novamente e domar meu corpo com uma brutalidade que era envolta
de um modo quase gentil, eu me sentia dele, eu me sentia livre, eu me sentia
minha, pela primeira vez.
O desejo dele era o meu desejo. E tudo o que ele fazia em meu corpo
só despertava o melhor de mim.
O libertar dos meus gemidos, a alquimia do meu prazer e a combustão
do meu orgasmo eram valorizados, correspondidos e adorados.
Capítulo 21
Yohanna

Olhei para o teto por alguns segundos, depois pisquei os olhos.


Bocejei abrindo bem a minha boca e escapei da coberta, pisei firme
no chão e conferi se minha mala com coisas de menina ainda estava debaixo
da cama. Puxei de dentro dela a Lara, minha boneca mergulhadora e fui para
o corredor.
Passei em frente ao quarto do papai e da mamãe e espiei se eles
estavam lá, ela sim, dormindo, então eu não iria atrapalhar. Mas onde estava
o papai? Eu gostava de acordá-lo. Ele abria bem os olhos e me encarava de
um jeito tão bonitinho, meio assustado e admirado, depois ele mesmo fazia
meu café da manhã e ficava até o almoço conversando comigo, depois ele
tinha de trabalhar.
Então eu precisava acordar bem cedo para aproveitar cada minutinho
com ele.
Segurei no corrimão para descer as escadas e quando cheguei à sala,
lá estava ele.
Várias latas de tinta, rolos e baldes, muitos jornais empilhados.
Pelo visto ele já havia começado alguma coisa importante, mesmo tão
cedo. Os móveis estavam afastados da parede, alguns jornais cobriam o chão
e ele já estava pintando uma das paredes de uma cor vinho muito bonita.
— Vamos mudar as cortinas também, quero que leve a Layla e a
Yohanna para escolherem os novos móveis, reforce a segurança... — o papai
parou de dizer para o homem que anotava tudo no papel quando ambos me
viram.
— Já acordou, filha? — ele deixou o rolo sujo de tinta de lado e veio
até mim.
— Já...
— E já está com fome?
Fiz que sim.
— Lave o rosto e as mãos, eu te espero na cozinha em cinco minutos
— ele me pegou no colo e me abraçou muito forte.
E eu abracei de volta, o abraço dele era bem quentinho e forte e ele
demorava para me soltar, o que era ainda melhor.
Fui ao banheiro e fiz tudo o que precisava, lavei o rosto da Lara
também e voltamos para a cozinha, dessa vez já haviam outros homens
pintando as paredes e transitando pela casa e os que subiam as escadas faziam
isso em silêncio para não atrapalhar a mamãe.
— Vamos comer mingau hoje — o papai colocou tudo o que
precisava em cima da bancada e começou a misturar o leite com aveia e
outras coisas, eu fiquei assistindo.
— Bacon não? — coloquei o dedo na boca. — A Lara gosta de bacon.
— Não, hoje não. É bom diversificar o que comemos, a Lara, para
crescer forte e saudável precisa comer de tudo.
— Mas a Lara já é forte e saudável, ela é mergulhadora!
— Hum... porque ela comeu muita coisa que deu energia de verdade
para ela.
Concordei, puxei a cadeira, subi nela e assisti ele trabalhar.
— O senhor estava pintando as paredes?
— Uhum.
— Eu posso ajudar!
O papai me olhou de forma bem séria, eu daria um biscoito só para
saber o que se passava na cabeça dele.
— Não, não quero você mexendo com essa tinta, não quero que se
suje.
— Eu não vou me sujar, eu sei fazer — insisti.
— Não, o papai comprou aqueles livros de pintar, tintas, pinceis e
canetinhas, você pode se divertir com aquilo, mas com as paredes não.
— Mas vai ser tããão mais divertido...
O papai ficou ainda mais sério, então era melhor não insistir.
Mas eu ia ajudar sim.

Adrian Cavalieri

Yohanna foi resistente no início, mas comeu o mingau de aveia com


mel e bananas, também lambuzou a boneca e contou sobre o sonho que teve
naquela noite.
—... e o menino gritava: o lobo! O lobo vai comer todas as ovelhas! E
a cidade toda ficava muito preocupada e ia conferir...
A narrativa de Yohanna que era parecida com a história do menino
que mentia para a cidade sobre um lobo incomodar as ovelhas, foi
interrompida por um dos meus homens.
— Senhor, desculpe-me incomodá-lo — o homem ficou ainda mais
sério quando viu que eu estava tomando café com a minha filha. — O senhor
precisa ir lá fora.
— Peça para o Marco ir.
— Ele ainda não chegou. O chefe da polícia quer entrar aqui, diz ter
um mandato.
— Patrick? — perguntei, como se fossemos até íntimos.
O que o marido de Fay queria em meu território?
— Sim, senhor. Ele disse que se não pode entrar, ao menos quer vê-
lo.
— A polícia está aqui? — Yohanna já estava pronta para se levantar,
mas eu fui mais rápido, a segurei na cadeira e a impedi.
— Você vai terminar o seu café da manhã, depois vai se ocupar,
enquanto o papai não volta. Está proibida de sair de casa.
— Mas a polícia vai te levar? — ela esbugalhou os olhos e segurou na
manga do meu terno.
— Ninguém vai me levar, filha — toquei seu rosto e beijei sua testa.
— Eu vou voltar. Termine de comer e vá ficar com a sua mãe.
Após dizer isso, passei pela sala, em silêncio, e fui seguido por dois
dos meus homens. O frio de Nova York soprou dentro de casa quando
escancarei a porta e saí, o dia nem havia amanhecido direito e já havia
trabalho a ser feito.
— Não permitimos que ele entrasse, senhor. Temos ordens suas, bem
claras... — um dos meus melhores atiradores falou.
— Você fez certo, ninguém entra ou sai sem a minha permissão.
Entrei no carro e fui levado até o portão de entrada, que ficava
consideravelmente distante de onde eu morava.
No meio do caminho vi o carro de Marco me alcançar, e assim que
estávamos bem diante do grande portão, saí do carro e vigiei todas aquelas
viaturas em frente ao meu território.
— Senhor, tenho algo urgente... — Marco veio, esbaforido, mas o
calei com um aceno de mão.
— Um segundo, preciso resolver isso.
Andei até o portão, pisando bem firme no chão, as grades se abriram
quando eu estava próximo o suficiente, então atravessei e ele se fechou.
Patrick, o marido de Fay Williams, minha antiga noiva, parecia mais
corajoso do que nunca.
Dezenas de homens dentro e fora das viaturas, o peito estufado como
se estivesse ornado de medalhas e um cigarro fedorento na boca.
— Tenho um mandato — Patrick esticou o documento, quase na
minha cara.
Eu peguei. Analisei. Li cada linha sem muita pressa.
Rasguei, em seguida.
— Essa é a minha casa — o encarei firme. — Aqui é onde mora a
minha família, toda a minha Famiglia. Esse território não pode ser invadido,
nem mesmo por decreto do presidente — falei suavemente e ainda assim,
bastante soturno, os olhos levemente cerrados, o nariz irritado com aquele
cheiro fedorento. Não o do cigarro. Da polícia corrupta de Nova York.
Patrick riu, olhou para seus homens, alguns o acompanharam, outros
tremiam na base só de me olhar.
— Fay mandou lembranças — ele murmurou.
— Que triste deve ser ela ainda ter lembranças minhas — murmurei
de volta. — Tem um novo marido, mas ainda pensa no antigo cara que fodia
ela. E ainda te pede para mandar lembranças. Se isso era um recado, ele diz
mais para você do que para mim.
Patrick semicerrou os olhos e ousou dar um passo à frente. Eu não
precisava ousar. Ao contrário dele, eu fui para a guerra. Eu recebi muitas
medalhas. Não precisava de nenhuma estampada no peito naquele momento.
Enfrentei terroristas, a força de inteligência de um homem perigoso e ainda
assim saí ileso. Dei um, dois, três passos, até ficar diante dele.
— Matou a mulher? — ele questionou.
Tentava disfarçar a força hercúlea que fazia em ter que me encarar e
continuar firme, sem se borrar.
Permaneci em silêncio, encarando-o como se já desse a resposta: de
mim ele não teria nada, além de uma tortura ao estilo medieval.
— Queremos saber onde você desterrou o corpo da criança.
O tom dele deixava claro: ele estava me tratando como um animal,
um monstro, e eu gostava assim. Dessa forma eu não precisava vestir
máscara alguma, só agir naturalmente.
— Vocês não a terão — dei-lhe as costas após olhá-lo pela última
vez.
Patrick segurou em meu braço. E aqui, fica uma pequena observação
caso um dia, por um delírio, você pensar em segurar no braço do homem que
controla a máfia: todos os meus homens levantaram as armas e apontaram
para ele. Em resposta, mais da metade dos homens da polícia também
levantaram as armas.
— Não atirem! — Patrick mandou e olhou para seus homens.
As armas estavam apontadas para ele e para os outros policiais que
haviam rido, no início.
Olhei fixamente para a mão dele que um segundo depois já estava
guardada em seu próprio bolso e depois o encarei como se a rua fosse
pequena demais e ele fosse gigante o suficiente para ser notado, como um
King Kong, em cima do maior prédio da droga da minha cidade.
— E-e-eu... — ele ia começar a se explicar.
Aproveitei que ele abriu a boca o suficiente e dei um soco na boca
dele, fazendo aquele cigarro fedorento entrar, avancei e fechei a boca dele e o
assisti agonizar de dor enquanto engolia o cigarro aceso e se debatia em meus
braços.
Eu o olhei profundamente, para ele entender que aquela era a última
vez que eu queria vê-lo.
— Você não tem direito ou poder de vir à minha casa. Você não tem
moral para dizer o meu nome. Você é um verme, um moleque, um
policialzinho de merda, corrupto, que acha que pode me enfrentar porque eu
represento o crime? Eu sou o crime. E você é um bandidinho de rua,
colocado num papel importante, para antagonizar comigo e nada mais.
Assisti a fumaça sair pelo nariz dele e as lágrimas descerem pelos
olhos, já vermelhos, bastante irritados, eu diria até que intoxicados.
— A única pessoa que tem poder o suficiente para antagonizar
comigo, sou eu mesmo. Agora tire suas viaturas imundas daqui e pense
melhor antes de vir bancar o machão em meu território, porque da próxima
vez eu vou te fazer engolir, não uma bituca de cigarro, mas cada parte do seu
corpo que eu cortar com seus próprios dentes, seu verme — o joguei na lama
da rua e o encarei.
Nenhum policial o ajudou a ficar de pé. E os que haviam rido antes,
agora só me olhavam com terror. Bom. Essa era uma expressão melhor.
— Existem homens bons na polícia, muito deles vindos de famílias
respeitáveis, e esses homens, sabem que sempre serão tratados com respeito e
dignidade, tanto por mim quanto pelos que me obedecem — tive de
considerar dizer isso, após desmoralizar o chefe deles. — E existem os
corruptos, que serão tratados assim, de agora em diante, não importa se sejam
da mais alta hierarquia ou da mais baixa — ajeitei a minha gravata.
Respirei fundo e assisti Patrick se arrastar até a viatura, tossia feito
uma chaminé, as mãos tremiam, tentou, em vão, pegar a arma, e eu o assisti,
como um fã vai ao cinema ver seu filme preferido estrear.
— Eu fui à guerra, senhores. E voltei herói. Nenhum de vocês sequer
foi à guerra, não imaginam o terror que é acordar na iminência de explodir
em um milhão de pedaços — comentei.
E, devo admitir, era precioso ver aquelas carinhas aterrorizadas me
observando.
— Não me façam trazê-la até vocês para que a conheçam — rosnei.

Yohanna

Eu tentei, eu juro que tentei pegar a lata de tinta escondida, mas os


homens que trabalhavam para o papai não deram trégua, eles mesmos
estavam arrumando e pintando tudo e não me deixavam encostar nos
materiais, então eu tive de dar o meu jeito.
Fui para o quarto, peguei meus materiais e corri para o escritório do
papai.
Era o lugar mais bonito da casa!
Depois, é claro, do quarto do papai e da mamãe, principalmente
quando eles estavam lá, era o lugar mais bonito que eu já estive!
Sentei na poltrona bem grande dele e segurando bem firme na mesa,
encostei a poltrona nela, me deixando diante do meu livro de colorir e minhas
tintas, pinceis, lápis e canetinhas.
Mas eram desenhos tão sem graça... nada era tão interessante quando
pintar uma parede!
O que deixaria o papai feliz?
Olhei ao redor, me movi um pouco e consegui fazer a poltrona girar,
segurando firme na mesa e não havia nada ali a ser feito: a parede, a
decoração, tudo era tão bonito, definitivamente ninguém precisaria mexer em
nada ali.
— Que quadro bonito! — apontei o dedo para a parede, ao ver uma
pintura bem chamativa, cheia de cores e numa moldura que parecia bem
pesada, dourada, coisa bem chique.
Será que o papai ficaria feliz se eu...?

Adrian Cavalieri

Portão fechado, viaturas circulando e um monte de mafiosos me


encarando com extremo respeito, voltei marchando para casa, para aproveitar
e respirar o ar de uma manhã de Nova York, longe dos grandes prédios.
— Senhor... — Marco veio em meu encalço.
— Você vai me repreender, certamente — levei as duas mãos para
trás do corpo, uni-as e continuei a andar.
— Dessa vez não — Marco disse, para minha surpresa.
Tive até de parar por um instante e examiná-lo, só para saber se ele
estava doente.
— Foi bastante corajoso e... aquele homem foi desrespeitoso. Ele é
conhecido por intimidar os outros chefes de famílias, mas dessa vez, o senhor
o colocou em seu devido lugar, senhor.
— Ele é o chefe de polícia de Nova York — rosnei e voltei a andar.
— E o senhor é o chefe de tudo o que há em Nova York — Marco me
corrigiu.
Aquilo massageou o meu ego por um segundo, depois eu voltei à
minha expressão carrancuda.
— Senhor, tenho algo urgente a falar...
— Diga, homem, diga de uma vez!
— Os chefes das Famiglias...
— Dio mio... — revirei os olhos.
— Eles querem encontrá-lo. Não, não é nada a respeito de casamento
arranjado, eles concordaram, de forma unânime, que o senhor tem direito a se
casar com quem quiser.
Oh! Que gentis! Aquele bando de velhos havia decidido que eu tinha
o direito de me casar com quem escolhesse! Nem parecia século XXI mais.
— Então o que é dessa vez?
— O pacto de sangue, senhor — Marco disse como se estivéssemos
tratando do óbvio.
Infelizmente, não era tão óbvio assim para mim.
— O que tem o pacto de sangue?
Marco pigarreou e percebi que ele parou de caminhar. Virei o rosto e
dei meia volta, andei alguns passos até ele e o encarei, ele ficou com uma
expressão como se houvesse visto o que eu tinha feito com um oficial de
polícia na frente de seus homens – e na verdade, ele viu mesmo.
— O pacto de sangue, senhor... — Marco meneou a cabeça para o
lado e engoliu em seco. —.... ele diz que... ele diz...
Eu juro que até tentei me lembrar o que o pacto de sangue dizia, mas
não consegui. Tudo o que fiz foi piscar os olhos e encarar Marco, a espera de
sua fala.
— Ele diz que todo primogênito de um chefe da máfia deve ser
entregue para outra família cuidar dele, até que tenha 18 anos e possa se
casar.
Pisquei os olhos.
Foi mais de uma vez.
Por um momento senti como se estivesse no espaço, flutuando e de
repente fosse obrigado a pousar na gravidade terrestre, tudo em menos de um
segundo.
— O que...?
— Pela nossa lei, senhor, a sua filha deve ser entregue a uma das doze
Famiglias. E quando atingir a maioridade ela se casará com o legítimo
sucessor daquela Famiglia.
Umedeci os lábios e alcancei o bolso para pegar o celular, dei meia
volta e voltei a marchar, dessa vez, com mais pressa.
— Não é como se o senhor não pudesse vê-la ou... — Marco me
disse.
Eu me virei bruscamente, a mão livre foi direto no pescoço dele e eu
segurei com tanta força que ele entendeu cada uma das minhas palavras,
antes que eu as dissesse.
— A minha filha não vai ser entregue à ninguém.
Marco concordou comigo.
— Eu entendo a sua vontade, senhor, mas é a lei...
— Eu sou a lei — rosnei.
Marco novamente concordou e implorou que eu o soltasse, então o
fiz. Sequer havia percebido, conscientemente, que havia feito aquilo.
— São doze Famiglias, senhor... Centenas de outras obedecendo a
cada uma... isso pode fazer toda a aliança ir pelo espaço e colocar a vida de
todos os seus homens que moram aqui, na Vila Patrícia, em perigo... ou
pior... eles o reconhecem porque o senhor, acima de todos, sempre honrou e
respeitou a lei. Caso não a respeite agora...
Acho que não havia ficado claro o suficiente para Marco, então eu
precisei repetir. Coisa que eu odiava.
— A minha filha não vai a lugar algum. Ela vai continuar aqui
comigo, não importa se dez, cem, mil, um milhão de famílias se levantem
contra mim.
Marco, como um bom Consiglieri, teve de pontuar:
— O senhor é só um. Eles são milhares...
Ah, sim o telefone!
— Alô?! Você vai falar comigo ou o quê? — Ethan Evans rosnou do
outro lado.
— Ethan! — o chamei ao colocar o telefone no ouvido.
— Ouvi tudo — ele disse, quase que se deleitando.
— Eles são milhares e somos apenas dois...
— Oi, eu tô por aqui também — a voz de Ricardo de repente surgiu
do outro lado.
— Ow! — Héctor gritou também, parecia um pouco mais distante.
— Eles podem ser milhares, mas não são nós quatro — Ethan deu a
última palavra.
Era a que eu precisava ouvir.
— Senhor! — Marco correu atrás de mim, ainda tentando colocar
algum juízo em minha cabeça.
— Prepare seus homens para a guerra, Marco! — falei alto. — Ou
peça que eles fiquem de fora dela, eu não me importo.
— Senhor, por favor... — Marco correu o suficiente para ficar na
minha frente. — Eu sou leal ao senhor, mas como seu Consiglieri, eu sou
contra essa guerra. Ninguém sairá vencedor. E... sejamos justos... seremos
exterminados... Então por favor...
— Ethan... — coloquei no viva voz.
— Só um lado tem prostitutas, hackers que vão zerar as contas
bancárias de todos eles, túneis por toda a Nova York... — ele ia dizendo.
E dessa vez a voz de Héctor saiu bem próxima ao fone:
— E uma bomba atômica, se necessário.
Marco ficou branco. Eu arqueei a sobrancelha, a minha resposta
estava dada.
— Ela é... ela... — ele tentou raciocinar. — Você sequer sabia da
existência dela! A lei existe desde que você era criança! Você não pode
mudar a lei só por causa de uma filha!
A vontade foi de fazer com Marco pior do que fiz com Patrick. Mas
ele estava assustado e ele queria seguir o certo, eu não poderia tirá-lo esse
mérito.
Mas dessa vez, seguir “o certo”, era errado para mim.
A lei que se foda. A minha família, a minha mulher e a minha filha
viriam em primeiro lugar!
— Você está destituído do cargo de Conseglieri, Marco — voltei a
umedecer meus lábios. — Você e a sua família ainda são bem vindos de
permanecer em meu território. Também é livre para ir embora ou ir para o
outro lado.
— Senhor, por favor...
— Eu tenho uma guerra para organizar — dei-lhe as costas e entrei
em casa.

Yohanna

Nossa! O papai bateu a porta tão forte quando entrou que o som
passou por toda a casa! E eu sabia que era ele, porque se algum homem que
trabalhava para o papai fizesse isso, eu sei que o papai colocaria ele de
castigo!
Corri para o corredor e desci as escadas com pressa e o vi passar
furioso pela cozinha, parecia até que fumaça saía da cabeça dele.
E antes que ele fosse dar um grito bem alto, porque aquela expressão
que ele estava fazendo só podia significar isso, eu coloquei o dedo no nariz e
fiz: “shhhhh!”
Ele se virou, assustado e me olhou.
Os olhos pareciam irritados, será que era o frio?
— Silêncio! A mamãe está dormindo! — mandei, tentando imitar o
rosto dele quando ele dava ordens e ficava mais sério que o comum.
O papai fechou os olhos, levantou o rosto e respirou beeem fundo, daí
ele abriu os olhos e quando menos esperou, eu abracei ele. Quer dizer, a
perna dele.
— Vem cá — ele me pegou no colo e ficou me encarando.
— Você está gripado? Por que seu olho está vermelho assim? Por que
você não colocou um casaco quando foi lá fora? O que a polícia queria?
— Nossa... por que você está cheia de perguntas?
— Ué, você está com cara de que tá cheio de respostas... — toquei o
rosto dele, as bochechas estavam bem vermelhas também.
— Coisas de adulto, agora vá brincar... — ele me colocou no chão.
Eu segurei na calça dele com uma mão e puxei ele.
— Papai eu tenho uma surpresa! — falei e continuei puxando, mas ele
não saía do lugar. — Vem, mas fecha os olhos!
— O que você aprontou?
— Você precisa fechar os olhos! — falei e continuei a puxar.
Aos pouquinhos ele veio comigo. Na hora de passar pelo corredor que
levava ao escritório ele tropeçou no sofá. Quando já estávamos dentro do
lugar, eu falei:
— Pode abrir os olhos!
Ele abriu e olhou ao redor, parece até que estava conferindo se tudo
estava no lugar. Estava, com exceção de uma coisa.
Quando ele olhou para a mesa, lá estava o quadro bem bonito que
agora estava bem mais bonito:
— Tcharam! Surpresa!!!

Shawn Cavalieri

Eu não encontrei palavras para soltar, fiquei paralisado, encarando


aquele quadro do Pablo Picasso que a própria Elizabeth havia me dado de
presente e encarei Yohanna, incrédulo.
— Você gostou da surpresa? Está com vontade de me bater? Ou ainda
é o frio? Você está emocionado, papai? Você ainda me ama? — ela até subiu
na poltrona para ficar da minha altura e dividiu seu olhar do quadro para mim
e de mim para o quadro.
— Filha... isso... é... era... bom... é... um... Pablo Picasso... — foram
as primeiras palavras que encontrei. Até que soou bem, mas ainda parecia
que eu havia tido um leve derrame.
— Eu gostava das cores, mas faltava algo, aí eu desenhei, olha — ela
pontou. — Eu, aqui, bem pequeninha, a mamãe, tá vendo, ela bem bonita?
Olha o cabelo dela... e você! Olha, tão grande e o olho tão bonito, o cabelo do
Shawn Mendes!
Tudo o que consegui fazer foi acenar positivamente. Tapei o rosto por
um segundo e aguardei tudo aquilo ser processado pelo cérebro. Acho que
não ia processar tão cedo.
— Isso era bem caro, filha. Valia uns... — tentei até fazer um cálculo
de cabeça, mas foi em vão. — Uns Cento e trinta milhões de dólares...
— Hum... Então você não gostou?
— Não... assim... olha... você e a Layla estão lindas, não é?
— Você também, olha — ela apontou. — Papai, quanto custou as
canetinhas?
— Uns dez dólares, acho — chutei, não estava conseguindo
raciocinar.
— Então agora o Pablo Picado vale cento e trinta milhões e dez
dólares — ela disse orgulhosa.
Capítulo 22
Magnum Imperium
Layla

Assim que vi Shawn, aumentei os passos, segurei firme a mão de


Yohanna e avancei em sua direção como se fosse arrancar um pedaço dele.
Tudo o que ele fez foi abaixar o cardápio que estava em mãos e me
encarar com certa apreciação que me desconcertou completamente.
— Você é tão exagerado! — resmunguei, tentando recuperar toda a
raiva de segundos atrás, mas eu ainda estava pálida e chocada com a surpresa,
e também desconcertada com o sorriso dele.
— O que você achou, filha? — após piscar para mim, ele se voltou
para Yohanna.
— Papai, eu posso fazer de novo?! — a pequena disse excitada. — Eu
nunca pensei que ia voar de avião pela cidade, ver todas as luzes, foi tão
bom! — ela deu pulinhos.
— Era um helicóptero — ele a corrigiu. — Fico feliz que uma das
minhas garotas gostou — ele arqueou a sobrancelha, se levantou e puxou a
cadeira para mim.
— Francamente, por que não podíamos ter vindo de carro? — sentei-
me, um tanto preocupada se deveria mesmo me sentar ou só fingir para ele
empurrar a cadeira.
Eu nunca estive em um restaurante tão chique, muito menos em um
jantar elegante, na verdade, minha alimentação era basicamente de coisas
industriais e o que dava para fazer no micro-ondas.
— Considerei que o helicóptero seria mais seguro para as minhas
mulheres — ele e Yohanna dividiram um olhar de cúmplices. —... e divertido
também.
— Foi muito divertido! — Yohanna deu pulos na cadeira enquanto o
pai a ajeitava à mesa. — A mamãe ficou agarrada na cadeira e eu fiquei
olhando a janela! Nos prédios tinha roxo... azul... tinha rosa... era tão bonito!
Shawn se sentou e se debruçou um pouco na mesa para assisti-la
conversar.
— Por que o lugar está tão vazio? — tive de tirar aquela dúvida.
— É um jantar em família. E a minha família está aqui. É o suficiente
— ele foi firme e depois voltou a interagir com Yohanna. — E você viu os
prédios ao redor? Todos coloridos também, vem ver — ele se levantou e
esticou a mão, indicando que ela devia segui-lo.
O lugar se chamava Magnum Imperium, um dos mais caros e
luxuosos restaurantes de Manhattan. Mas, por Deus, quem é que vai para um
restaurante de helicóptero? Francamente!
— Na verdade, não toda a minha família, minha mãe e avó raramente
saem de casa, então não vieram. Mas eu as apresentarei assim que possível.
Yohanna parou imediatamente de apontar para as luzes coloridas dos
prédios ao redor e se voltou para o pai.
— Você tem uma mamãe e uma avó?
— Tenho. Acho que a maioria das pessoas tem, filha.
— Então eu tenho uma avó? — ela ficou surpresa e olhou dele para
mim.
Shawn ficou surpreso e agachou.
— Por que a surpresa?
— Hum... eu via as crianças na televisão com suas famílias... eu
pensava que só crianças especiais tinham família...
Foi muito doce ver o pai segurá-la pela mão e trazê-la para tão perto,
ficando os dois abraçadinhos e depois olhando um para o outro.
— E você é a criança mais especial, para o papai...
Yohanna sorriu como nunca antes e o abraçou mais uma vez.
— Eu nunca pensei que eu pudesse ser especial.
— Mas para o papai você é a criança mais importante e especial do
mundo todo.
— Do mundo todo?
— Do mundo todo.
— E quantas crianças tem no mundo todo?
— Hum... não sei. Mas deve ter um bocado.
— Tipo cento e trinta milhões e dez de crianças?
— Ah, deve ter muito mais — ele riu.
— E eu sou a mais especial? — ela abriu bem a boca.
— Pra mim, sim. E é o que importa.
— Ah, pra mim também importa, papai — ela o abraçou de novo.
A cena fofa foi atrapalhada pela barriga de ambos roncando.
— Acho que devemos comer — ele disse e se levantou. Yohanna
continuou olhando as luzes, Shawn veio até mim. — Decidiu o que quer
comer?
Levantei os ombros e depois abaixei, não tão animada com aquilo.
Eram tantos nomes difíceis... ajudaria se ao menos eu soubesse do que se
tratava.
— Estava assistindo vocês dois... e pensando...
— Pensando...?
— Um lugar como esse jamais me aceitaria trabalhar como garçonete
— ri de nervoso e olhei ao redor.
O lugar me lembrava bem as mansões dos ricaços que tinham seus
calabouços e masmorras, suas escravas e brinquedos sexuais. Parecia que as
colunas haviam sido pintadas com tinta de ouro, os vasos... ah, os vasos... eu
até estava respirando devagar, com medo de soprar muito forte e ver uma
daquelas obras cair e eu ter de lavar pratos ali até a minha morte...
— Esse lugar jamais aceitaria que você trabalhasse aqui, porque ele
não foi feito para você servi-lo. Ele foi feito para te servir — Shawn suspirou
e segurou a minha mão por cima da mesa. — É cruel pedir a um rei que
engraxe sapatos. Ele não nasceu para isso.
— E eu nasci para que, Shawn?
— Você, eu realmente não sei. Mas sei que eu nasci para te apreciar.
— Cala a boca.
— Desde o primeiro instante em que te vi... eu só tinha uma simples
missão... atirar. E você avançou, atravessou, entrou em meu posto... me
abraçou.
Foi a minha vez de suspirar.
— Eu não era abraçado há tanto tempo... — ele sorriu de um jeito
meigo, pela primeira vez. — O meu pai proibia a minha mãe e avó de
demonstrarem muito carinho conosco, ele tinha medo de que ficássemos
muito moles...
Balancei a cabeça devagar.
— Por que o helicóptero? — tive de voltar àquela assunto, senão iria
me desmanchar em lágrimas.
— É mais seguro agora — ele foi firme. — E Yohanna disse que
queria conhecer a cidade, qual a melhor forma de conhecer, senão
sobrevoando-a?
Fiz um sinal negativo com a cabeça. Quanto exagero!
Helicóptero... fechar um restaurante desses só para nós três... as
palavras dele...
Eu não merecia aquilo.
— Sobre o quadro... — levantei aquele assunto delicado.
— Relaxe — ele apertou a minha mão e não parou de me olhar
enquanto serviam a mesa, colocando champanhe em nossas taças, suco para
Yohanna e alguns petiscos para beliscarmos. — Como foi dito: agora vale
cento e trinta milhões e dez dólares. Está bem valorizado.
Não segurei o riso e ele me acompanhou quase de imediato.
— Você disse que queria um trabalho — Shawn pigarreou e puxou a
taça, entregou-me e depois pegou a sua, brindamos. — Tenho um trabalho
para você.
— Oh... — essa era uma excelente notícia!
— Quero que seja minha Consiglieri.
O que diabos era aquilo, afinal de contas?
Acho que ou ele leu os meus pensamentos ou a interrogação ficou
bem nítida em minha testa, porque imediatamente ele tratou de explicar:
— A minha conselheira. A minha mão direita. A pessoa a quem eu
consulto para tomar as decisões importantes...
— Acho que eu deveria, no mínimo, ser italiana para isso, não?
— Você tem uma filha metade italiana. E é mulher de um mafioso.
Acho que se não se sente italiana o suficiente agora, uma hora perceberá que
é mais do que pensa.
— E sairei falando alto, cantando alto e quebrando pratos em festas de
casamento? — brinquei.
— Essa é a parte mais divertida, é claro — ele bebeu o espumante e
espiou para ver onde Yohanna estava, ela ainda estava ali, no mesmo lugar,
pulando sozinha ao ver as luzes que ornamentavam os prédios.
— Posso recusar? — eu precisava saber disso.
— Pode — ele respondeu imediatamente. — Mas eu pago bem. Você
vai precisar estar quase o tempo todo comigo. E tomaremos decisões em
conjunto. É quase como um casamento. Com a pessoa certa.
Balancei a cabeça com sutileza.
— O que foi? Por que essa cara?
Precisei de tempo, ar e concentração em meus pensamentos para
responder aquilo.
— É diferente quando você diz que sou sua mulher... quero dizer, eu
me sinto diferente...
— De um jeito bom? — ele ficou apreensivo.
— Nunca imaginei que alguém me aceitaria como mulher... ainda
mais alguém como eu, que...
— Alguém como você, que mexe tanto comigo. Que me fez aprender
a porra de uma língua difícil, peregrinar no meio do deserto e estar apto para
uma guerra com mais de cem famílias — ele novamente ergueu a taça e
brindou com a minha, bebeu em seguida. — Não gosta de ser a minha
mulher?
— Eu me sinto honrada. Só não sei se... mereço.
Shawn umedeceu os lábios com a língua e segurou a minha mão com
as suas duas.
— Deixe que eu decido isso — ele disse muito sério. — E você
decide se quer ou não ser a minha Consiglieri.
— Ok...
— Filha, vem jantar! — Shawn teve de chamá-la, senão ela não sairia
dali.
Yohanna veio rápido, subiu na cadeira como uma criança
normalmente faz: parecendo que vai derrubar tudo em cima da mesa e se
sentou.
— As luzes estavam tão interessantes assim, filha?
— Não — ela disse, para nossa surpresa.
— Então o que você estava fazendo lá? — perguntei intrigada.
— Deixando vocês conversarem. O papai fica tãããão bonito quando
olha para você, mamãe. E ele te olha de um jeito tãããão especial! Eu gosto
de ver.
Que menina esperta!
— Eu sou mais inteligente do que pareço — ela disse orgulhosa.
— Eu tenho uma surpresa para você — o pai comentou.
— Mais uma??? — ela não escondeu a animação.
Não demorou muito para que escutássemos o som de um violão e uma
voz masculina bem doce, um rapaz bastante alto e bonito apareceu, cantando
e tocando, olhando para ela.
— Meu Deus! — Yohanna colocou as duas mãos na boca e se
levantou na hora, esqueceu até que estava com fome.
— Você é, realmente, muito exagerado — tive de admitir.
— Qual a graça de ser bilionário e não ser exagerado? — ele retrucou.

Mansão do Tomazini
Adrian Cavalieri

Doze homens importantes estavam sentados ao redor de uma longa


mesa, seus homens de confiança logo atrás deles. Eu entrei na sala apenas
com Layla e Ethan Evans, e sinceramente, eu não precisava de muito mais.
O olhar de reprovação me seguiu enquanto eu me dirigia à ponta da
mesa e os dois se posicionavam atrás de mim. Respirei bem fundo em
profundo silêncio e uni as duas mãos em cima da mesa.
— Você zomba de nós — o Fiore disparou.
Já estava demorando. Surpreendi-me que as acusações não
começaram desde que pisei dentro da sala, pelo visto, como último sinal de
respeito, eles decidiram me esperar sentar para começar.
— Adrian, nós não entendemos... — o Barbieri levou as duas mãos à
cabeça e se calou, balançando-a.
Eu não poderia culpá-los por estarem tão absortos.
— Por honra e lealdade à Famiglia, o Pacto de Sangue exige que o
primogênito seja entregue a uma das Famiglias para que assim a aliança fique
mais forte. Já não é o suficiente escolher uma mulher nada adequada para se
casar, vai nos negar a sua primogênita? E agora... traz uma mulher como
Conseglieri... e um cego. E nenhum é italiano... — Sartori falou. Eu o
respeitava bastante, ele foi um dos braços direitos do meu pai.
— Eu tinha um cachorro... — Ethan já ia começar, mas eu segurei sua
mão para impedi-lo.
— Sinto muito em não atender às expectativas dos nobres senhores —
comecei me desculpando. Era o melhor a fazer, de resto, eu só tinha algumas
verdades e ofensas a dizer. — Eu me casarei com quem quiser. A minha filha
se casará com quem quiser. Os filhos dela, se ela quiser tê-los, casarão com
quem quiser. Antes de ser homem da máfia eu sou um homem livre. Filho dos
Fundadores desse país. E como tal, eu não posso permitir que a minha
liberdade seja cerceada. Pelo contrário, sou eu quem diz quem perde a
liberdade...
— Você não está nos deixando escolha... — o velho Tomazini
resmungou, baixo, mas resmungou.
— Vocês nunca tiveram escolhas — precisei ser claro, transparente,
justo. — Com meus irmãos, tiveram. Eles eram homens da máfia, fieis à
Famiglia, respeitavam os senhores... e sabe onde estão?
Eu olhei um por um naquela sala.
— Mortos. — respirei fundo. — As coisas serão do meu jeito ou não
serão.
— Temos uma proposta — Battaglia tomou a frente. — Você entrega
a sua filha, a mãe e você podem visitá-la uma vez por semana, mas ela
pertence à máfia. Você continua como o “Grande Padrinho” e as centenas
de famílias que foram ofendidas... se esquecerão disso. E voltarão a respeitá-
lo.
— Ninguém se importa mais com a Famiglia do que eu — tive de
dizer. — E ninguém fez mais pela Famiglia do que eu.
Deixei que o silêncio do fim das minhas palavras ecoasse.
— Fui eu que pedi para ser “O Grande Padrinho”? — guardei o
sorriso de escárnio para mim. — Não, senhores... eu não pedi. Vocês
pediram. E eu aceitei. Comigo no comando vieram muitos, quase todos dos
seus atuais privilégios... permissões... patrimônios muito maiores... os
antigos mafiosos sequer poderiam imaginar que um dia poderiam ser tão
ricos quanto os senhores...
Eles se entreolharam.
— Vocês me devem até a alma — murmurei, alto o suficiente para
deixá-los todos de cabelo em pé.
— Não ouse...
— Vocês não eram ninguém antes de mim e depois de mim quem
ousar dizer em voz alta os seus nomes ou o nome de suas famílias, vai se
arrepender... — rosnei.
— Não estamos pedindo muito, Adrian. Só a sua filha.
Só? Só a minha filha? Pedisse todo meu patrimônio, todos os meus
apartamentos, meus carros, homens, todo meu poder e influência.
Nunca uma parte de mim.
— Antes de dizer a minha contraproposta, senhores, gostaria de dizer
aos seus homens — me dirigi aos homens atrás deles. — Se acharem útil...
digam às Famiglias que elas não têm nada a ver com isso. Eu só agirei contra
esse motim. Nenhuma mãe, nenhum filho, nenhum membro da máfia será
atingido a menos que tomem o lado errado. Eu não sou cruel, mas sou
impiedoso. E eu irei massacrar cada um que ousar pensar tocar em minha
família.
— Então você está destituído do papel de Grande Padrinho, e
portanto, não faz mais parte do Pacto de Sangue — Sartori deu o veredito.
Assisti os homens derramarem seus sangues e me levantei
calmamente.
Todos os doze cuspiram no chão e me olharam com ojeriza.
— Com respeito à figura do seu nobre pai, você tem 24 horas antes da
guerra estourar e começarmos a chacina — Battaglia disse.
Concordei. Vinte e quatro horas era um tempo justo.
Um tempo justo para que todas as centenas de famílias chefiadas por
aqueles homens pudessem arrumar as malas e pegar o primeiro avião para
fora do meu país, antes que eu fechasse os aeroportos, antes que eu
arrancasse as tripas de cada um, antes que eu transformasse a porra da minha
cidade no verdadeiro inferno.
— A minha contraproposta, senhores, é: saiam da porra do meu
planeta terra. Ou eu os arrancarei como se faz com carrapatos.
Dei-lhe as costas e saí dali, Layla de um lado, Ethan do outro.
— Ele era como um filho para mim... — Ethan se lamentou.
— Quem?
— O pobrezinho do meu cachorro italiano... o nome dele era Mr.
Pizza.
Capítulo 23
Vila Patrícia
Layla

Quando retornamos para casa, era outro lugar. Era realmente uma
casa.
As paredes pintadas, móveis novos, tudo tão bem decorado, cada
coisinha no lugar... tudo o que Yohanna e eu havíamos escolhido estava lá, o
novo sofá, a nova televisão, os vasos de plantas, arranjos, as luzes suspensas
no teto com lâmpadas nas mais diversas alturas, acompanhadas de fios
dourados que cintilavam... era realmente muito bonito e aconchegante.
Infelizmente Yohanna não poderia ver aquilo, não por agora. Ela
ficou segura em um prédio super protegido no coração dos conglomerados
dos poderosos.
Shawn desapareceu por uma hora ou duas, tempo suficiente para eu
tirar aquele vestido caro e apertado, tomar um banho e descer para o seu
mundo secreto.
A minha rotina de início de madrugada se seguiu: ajudei-o com as
costas, o ouvi reclamar bastante da dor e nos amamos um pouco.
Depois ele decidiu cozinhar algo para mim.
— Como você pode estar tão tranquilo? — tamborilei os dedos na
mesa da cozinha, olhando ao redor, o menor vulto lá fora já me deixava de
cabelo em pé.
— Por que não estaria? — ele devolveu assim.
Jogou um líquido alcoólico em cima da carne e a flambou com muito
gosto, até se exibiu, como se ainda fosse um garoto levado testando coisas
novas na cozinha sem a supervisão dos adultos.
— Você tem menos de 24 horas agora...
Shawn fez uma careta e voltou a mexer os legumes, derramou um
molho branco em cima deles e deixou ferver até borbulhar, aí desligou.
— Quanto tempo você acha que vai levar até que eles desistam? —
ele pegou uma uva verde e jogou na boca.
— Meu Deus... você é de extremos! De completamente exagerado a
extremamente tranquilo.
— Isso são extremos? — ele pegou uma uva e jogou em minha boca.
Bom, essa era a intenção. Ele acabou jogando a uva na minha cara.
Cruzei os braços e o julguei muito com o olhar, menos de um segundo
depois ele me deu um beijo bem rápido e colocou a uva em minha boca.
— Eu devo me preocupar por nós dois? — insisti.
— Amor, aproveite o jantar. A nossa filha está segura. A guerra
começa amanhã, então deixemos para sofrer apenas amanhã.
— Mas você não devia... sei lá... estar se preparando?
— Para quê?
— Para uma guerra com mafiosos? — tive de usar de retórica.
— Por que você acha que eu levei Ethan Evans para a reunião? — ele
voltou a mexer a carne e por fim desligou o fogo.
— Por que talvez eu não seja tão boa assim em ser sua Consiglieri?
Shawn riu gostosamente.
— Por que tudo o que ele precisa é estar no mesmo ambiente que
pessoas e seus celulares. Para invadir suas contas, vasculhar seus gps, saber
quem liga, para quem ligam... bloquear algumas contas... fazer transações na
calada da noite... descobrir quem mais trabalha para eles... Existe gente pior
do que a máfia, amor.
— A polícia?! Os políticos?! Você?!
Shawn se aproximou novamente, colocou aquele belo pedaço de
carne em cima da tábua de madeira e o molho com vegetais em uma tigela
duma porcelana caríssima.
— Os Illuminati.

Madame Lilith
Shawn Cavalieri

Assim que Layla acordou, após uma longa noite de muita conversa
e... diversões, eu a levei a um lugar bastante curioso de Nova York: o
Madame Lilith, um pequeno consultório de uma cigana, que ficava entre dois
prédios gigantescos, mas que por sua vez, era bastante simples e pequeno,
singelo, paredes de cor vermelha, símbolos ocultos e uma porta convidativa
que dava vontade de entrar.
Após passar pela porta e a sala de atendimentos e descer para um
jardim, era possível ver portas que levavam aos túneis de toda a Nova York,
uma delas levava para um clube secreto onde os homens poderosos
frequentavam.
Lilith nos recebeu de modo bastante cordial, estava com seu filho
Ricardo Leão e nosso irmão do Grande Templo, Ethan Evans; Héctor, ao que
parecia, tinha coisas urgentes a resolver.
Layla e Lilith se encararam com demora e interesse. Lilith foi a
primeira a quebrar o silêncio e segurar em suas mãos da forma doce e
educada do modo que sempre fazia, Layla, entretanto, ficou paralisada a
maior parte do tempo.
— Eu já estava me perguntando há dias quando o ocupado e
importante Adrian Cavalieri viria ver sua velha amiga depois de tanto
tempo... — Lilith jogou seu sarcasmo no ar e nos convidou a entrar.
Passamos pelo grande clube, vazio, sendo limpo e organizado por
algumas garotas e entramos em seu escritório particular.
— Ah, Lilith, por favor! — resmunguei. — Foi você quem me
proibiu, expressamente, de ir ao Brasil e ajudá-los em tudo aquilo...
— Proibi porque você tinha de colocar a cabeça no lugar — ela me
puxou para o canto e disse baixo, até em me corrigir ela era muito respeitosa,
era assim desde que conheci. — Não se esqueça que a qualquer momento
eles podem requisitar um teste de drogas, espero que esteja apto a passar.
— Estou apto — disse de forma segura.
Lilith acenou a cabeça de forma positiva e ao segurar em minhas
mãos, depositou um bilhete amassado. Isso ocorreu numa fração de segundo,
no instante seguinte ela girou o longo vestido e me deu as costas.
— Muito bem — ela caminhou até sua majestosa cadeira que
lembrava um trono, digno de uma rainha e se sentou, ajeitou o vestido e
encarou todos nós. — Imagino que irá fazer as honras e nos apresentar —
ela indicou Layla.
— Bem... ela é... o que eu estive procurando todos esses anos —
segurei Layla pela mão e a trouxe à frente. — Aquela moça... que eu disse
que conheci na guerra. É ela. Layla. Quem eu estive à procura todos esses
anos.
Liilith não pareceu se surpreender, mas sorriu com muita doçura e
olhou para Layla com carinho.
— E você não veio até mim para pedir que eu seja madrinha do
casamento, devo supor...
— Na verdade... — pigarreei, engoli em seco e avancei até a mesa
dela, abaixei o tom da voz. — Tenho doze chefes da máfia para enfrentar. E
junto com eles, umas... cinquenta, setenta, cem... famílias de cada... — tentei
jogar baixo, para não assustá-la.
Mas nada assustava aquela mulher.
Nunca vi olhos tão firmes, serenos e seguros em toda a minha vida. E
essa era uma combinação extremamente curiosa e assustadora.
— E imagino que você tenha a solução, só veio me avisar da
bagunça... — ela foi gentil.
— Exato — respirei fundo. — E perguntar se isso pode influenciar
naquele processo de teste com drogas e tudo mais...
— Adrian, se...
— Pode me chamar pelo meu verdadeiro nome, ela sabe o meu
nome...
— Shawn, se você não tem nada a temer a respeito do seu teste
toxicológico, não tem mais nada a temer. O processo diz respeito a se você é
apto a continuar exercendo o papel de Hierofante no Grande Templo de Nova
York. Quantas pessoas você vai matar numa guerra de famílias... isso não
conta no resultado final. Drogas, álcool, cigarro em seu sangue... sim.
Concordei de imediato.
— Também descobrimos que está havendo tráfico de mulheres e
crianças. Ainda não localizamos os responsáveis, mas estamos perto, eu sei
que estamos...
Lilith me olhou com demora, muito compenetrada e analítica. Seus
olhos verdes me vigiavam como se ainda fosse o nosso primeiro encontro.
Cada encontro que tivemos mexeu profundamente comigo, a ponto de me
fazer questionar se no fundo eu era realmente forte ou se estava apenas
tentando imitá-la.
— Ouvi rumores sobre... então é verdade? — ela imitou alguma
surpresa.
— É o que estamos prestes a descobrir. Por favor, se não for pedir
demais, peço que coloque as suas mulheres em ação... talvez elas consigam
alguma informação.
Lilith concordou e Ethan tocou em meu ombro.
— Tudo pronto, só esperando sua ordem.
— Você já tem minha ordem — falei e fiquei mais alguns segundos
ali de pé, em silêncio, olhando a minha mentora, como se respirar no mesmo
ambiente que ela pudesse me tornar mais forte.
— Traga a sua filha da próxima vez. Quero conhecê-la.
— É claro — assenti.
— Não quero atrapalhá-los, podem terminar os seus preparativos. E
se precisar de mim, você sabe que pode me ligar.
— Obrigado. Obrigado por tudo.
Ela estendeu a mão e eu a segurei e a beijei, como os mafiosos fazem
com seus padrinhos. Se eu tinha algum padrinho, só podia ser ela, a minha
mentora e madrinha.
Saímos do Madame Lilith com pressa, porque definitivamente havia
muito a ser feito.

Vila Patrícia
Layla

Na manhã do dia seguinte, a mansão amanheceu deserta. Nenhum


sinal dos homens que faziam a mudança, nenhum sinal de Yohanna ou
Shawn. Até esperei pelos tiroteios, pelos gritos, pelo horror... mas tudo o que
houve foi mais uma manhã fria e cinzenta em Nova York.
Levantei-me, fiz as minhas higienes e fui até a cozinha, onde o café
da manhã estava bem servido na mesa.
Liguei a televisão para me distrair e passei pelos canais até ver uma
imagem que tinha visto recentemente: uma mão segurando um coração.
Daquele crápula general que havia me entregue ao tráfico...
—... o caso foi resolvido de forma muito eficiente pelo FBI em mais
uma operação da inteligência... — aumentei o volume para ouvir melhor.
— O corpo do general Oliver, um herói de guerra, foi encontrado no
que parece ser um território de tráfico. O suspeito é este homem: Piero
Battaglia. Um exportador bastante rico e influente em sua região... junto com
ele, mais vinte pessoas estão sendo investigadas e encaminhadas para prestar
depoimentos...
O rosto do senhor Battaglia não era dos melhores. Estava
amedrontado, os olhos bem esbugalhados, a cada toque que um agente do
FBI dava em seu corpo ele gritava e olhava ao redor, paranoico.
Foi jogado em um carro preto, um de seus homens de confiança, que
eu mesma vi na reunião em que estive com Shawn, foi jogado junto, outros
homens tiveram o mesmo destino.
Carros do exército americano cercaram toda a propriedade do
Battaglia e começaram a vasculhar as ruas, segundo a jornalista. Outros dois
nomes foram ditos de famílias suspeitas: De Luna e Mancini.
É... as 24 horas haviam passado... e a guerra já havia começado.
E mais do que nunca parecia estar acabando.

Manhattan
Shawn Cavalieri

— Transações muito suspeitas para chamar a atenção... contas


bloqueadas... endereços dos produtos do tráfico, seja de arma, bebidas,
drogas, tudo entregue... eles estão fodidos — Ethan Evans avaliou e virou o
rosto para mim.
— Os cercamos e não precisamos matar ninguém... ainda.
— Você sempre prefere torturá-los. E dessa vez eu acho que você está
certo. É bom deixá-los viver para se arrependerem de terem mexido com
você... mas eles podem se reerguer... — Ethan resmungou.
— Está pressupondo de que eles podem nos derrotar? Derrotar você?
O todo poderoso Ethan Evans? — provoquei.
Ethan cruzou os braços e virou o rosto.
— Eu posso ver as feições em seu rosto. Você está irritado. Diga-me
o que houve. É algo a ver com...
Ethan estalou os lábios, fazia isso quando estava com raiva. Jogou o
tablet de vidro em cima da mesa e começou a mexer em coisas aleatórias.
— O que eu fiz dessa vez? — levantei-me e fui em sua direção.
Ethan me ignorou um pouco mais, parecia que queria me castigar.
No fim, ele acabou desabafando:
— Estou há anos... anos em sua sombra... te cobrindo, te ajudando,
sendo sua mão direita... e você a escolhe como Consiglieri? Quem seria seu
melhor conselheiro de guerra senão eu?!
Concordei. Era justo que ele se sentisse mal a respeito disso.
— Faça uma pausa — pedi, porque ele estava mexendo em tantas
coisas de forma aleatória que só poderia acabar dando merda...
Segurei nos ombros dele e o encarei, no fundo dos... óculos escuros.
— Ethan, me escute — respirei fundo. — Você não me deve nada.
Não pode viver como se estivesse em dívida comigo e quisesse me pagar por
algo...
— Mas eu devo! — ele rosnou.
— Você não me deve. Você é meu irmão. Você é uma parte de mim.
O que eu faço por você eu tenho certeza que faria por mim...
— Exatamente! — ele estava bem irritado mesmo. — E eu estou
tentando, todos esses anos... ser seu Consiglieri seria a forma de te pagar. É o
que posso fazer por você!
— Dio... Me pagar pelo quê? Pelo quê?
Ethan respirou fundo e fez um bico.
— Que menino bobo! — dei um cascudo nele.
— Você foi à guerra... eu deveria ter ido... eles queriam que eu fosse,
e na época eu tinha tanto medo, Shawn... o que eu iria fazer no meio daquele
deserto com armas? Tudo o que eu sabia fazer era o serviço de inteligência e
eles queriam um soldado...
Nunca vi Ethan se abrir a respeito de seus sentimentos. Creio que
depois de todos esses anos, demos um passo maior em nossa amizade.
— E eles mandaram um soldado — eu fui firme. — E desde que
voltei da guerra você ficou... obcecado por armas... por guerra... ficou até
competitivo...
Dei um novo cascudo na cabeça dele.
— Você não precisa me provar nada. Você é meu irmão. Não pode
viver como se isso tivesse sido mais caro do que foi. Fui à guerra em seu
lugar, e voltei de lá outro cara. Um cara melhor. Vazio, mas com propósito.
Tinha de ser eu, não você.
— Porra, eu tenho alergia a cachorro... — Ethan coçou o nariz.
— Ah... aí você adotou um cachorro italiano só para ter a desculpa de
ser meu Consiglieri?
Ele fez que sim.
Ele segurou a minha mão antes que eu lhe desse um novo cascudo.
— Você não precisa ser o meu Consiglieri, porque você sou eu. Tudo
o que me pertence, te pertence. Nós somos um só.
Devo admitir que aquelas simples palavras fizeram Ethan ficar pelo
menos um ou dois anos mais jovem. Ele ficou mais leve, mais tranquilo,
completamente focado e confiante.
— Obrigado.
— Eu que agradeço.
— Acho que devíamos matar pelo menos um daqueles chefes
mafiosos... por hobbie, sabe? Uns vão atrás de animais em temporadas de
caça... não seria essa a nossa temporada de caça para esses cretinos? — ele
sugeriu.
Concordei. O que um irmão meu não me pedia chorando que eu não
faria sorrindo?
— Veja o alvo mais próximo, pegue a sua conversa e vamos!
— Ah, eu amo a minha metralhadora! — ele correu para buscar.
Capítulo 24
Catedral São Patrício
Adrian Cavalieri

Demos um jeito para avisar em cima da hora para que todos os


religiosos e visitantes da catedral de São Patrício fossem retirados de lá e
encontrassem um lugar para se distrair por pelo menos duas horas.
Segundo os registros de Ethan, era ali que o velho e respeitado senhor
Sartori fazia suas orações na quinta-feira. Como pode ver, ele é um bom
homem de família e principalmente: religioso. Por isso eu o admirava.
— Vamos matá-lo dentro da catedral? — Ricardo tentou esconder que
estava apreensivo, mas isso não escapou da minha observação.
— Não na frente da estátua de Jesus, pelo menos. Não cai bem.
Quando ele entrar para se confessar, eu o mato — expliquei e ajeitei a batina
preta de padre ao corpo.
— Certo — ele analisou a situação. — Nós damos conta dos homens
dele então.
— Segundo o que peguei do celular dele, ele nunca vem com muitos
homens, apenas o motorista e um bom atirador, acho que nós dois damos
conta — Ethan foi muito mais firme com as palavras, consertou os óculos
escuros em formato quadrado e segurou no braço de Ricardo quando
tropeçou em um fino degrau antes da entrada. — Que merda!
— Tem um degrau, esqueci de avisar — tentei me desculpar.
— Ótimo, quase perdi o pé — ele foi dramático. — Espero que me
avise antes que eu perca a cabeça com um tiro... — Ethan reclamou e
entramos no lugar.
Estava formidavelmente vazio, espaçoso, silencioso. Apenas algumas
luzes estavam acesas, de resto, a iluminação dos vitrais ajudava a saber o
caminho. Era o clima propício para matar um chefe da máfia.
Conforme fomos andando e trocando rápidas palavras sobre o plano,
percebi que não estávamos sozinhos.
Sartori havia previsto nosso engenhoso plano? Mesmo em cima da
hora?
Ricardo segurou o cabo da pistola por dentro das vestes, Ethan
também o fez. Eu semicerrei os olhos, tentando enxergar quem era aquela
figura, não parecia um homem velho, definitivamente...
Conforme nos aproximamos, avistamos três figuras: um homem
vestido com trajes de bispo, era rechonchudo e as duas mãos estavam
entrelaçadas para trás, ele estava de costas para nós, olhando as paredes do
lugar e um dos vitrais; um ruivo, bem mais jovem e alto que o anterior. Deu
para perceber no primeiro olhar que ele estava usando uma máscara, aquele
não era o verdadeiro rosto dele. E, por fim, um que estava no chão, com trajes
de padre, agulha e linha em mãos, costurando a toalha do altar.
Indiquei que estava tudo bem para Ricardo e Ethan, nem de longe
aqueles homens eram da máfia ou até mesmo religiosos... bem... o
rechonchudo parecia, tinha postura.
Pigarreei para chamar a atenção do jovem padre que costurava, mas
tudo o que ele fez foi um longo “Shhhh!” e depois:
— Não pode ver que estou consertando isso? É importante. Aguarde.
Arqueei a sobrancelha e segurei o riso.
— Creio que avisei com tempo hábil para que esvaziassem o local...
tenho assuntos inacabados com um homem que virá aqui em breve re...
Tudo o que recebi dele foi um:
— Sh! — bem mais alto e que expandiu pelo local.
Que padrezinho atrevido! Ele devia agradecer a Deus, porque matar
padre, todo mundo sabe, dá azar.
Antes de olhar para os meus irmãos e debochar da situação, olhei uma
segunda vez para todo o lugar: as coisas em cima do altar pareciam bastante
bagunçadas, pelo visto, vinho havia sido derramado no chão. Olhei para o
homem ruivo que parecia mais tenso que o normal, coração acelerado, o
corpo ainda em adrenalina... e o homem com roupa de bispo rezando
baixinho e fazendo um sinal negativo com a cabeça.
— Acabei — o jovem padre disse de modo suave e se levantou, tirou
o chapéu da cabeça e revelou os cabelos brancos.
Eu já havia visto aqueles cabelos em algum lugar...
Ele encarou do remendo para mim e de mim para o remendo.
— Ficou bom. Nem parece que um mafioso se agarrou à toalha e a
rasgou...
Levantei a sobrancelha imediatamente.
— E onde está o mafioso? — foi a primeira pergunta que veio; a
“quem é você” ficou em segundo plano.
— Ele está dentro do confessionário, apagado, nossa deu um
trabalhão arrastá-lo para lá — ele disse de forma suave e no fim da frase
segurou um sorriso de canto, como se estivesse se divertindo com isso,
limpou a testa no fim.
— Dissimulado! Quem o ajudou a carregá-lo fui eu! — protestou o
bispo.
— Poxa, pois o apoio moral que eu dei, me cansou. E eu remendei a
toalha que ele rasgou — o mais jovem empinou o nariz.
— Mio Dio... Santo Padre onnipotente! — o bispo, pelo visto
italiano, juntou as mãos em frente ao corpo e fez o sinal da cruz. Depois
fuzilou o mais jovem com o olhar. — Eu realmente espero que não o
tenhamos matado! Não na casa de Deus! — ele abaixou o rosto e rezou
baixinho. — Perdonami, Padre. Perché ho peccato...
— Para de ser dramático ou eu trago a sua dignidade de volta com
sete tapas na sua cara, seu dramático! — o rapaz de cabelo platinado deu um
passo até ele e colocou a mão na cintura. — Pessoas morrem o tempo todo...
— Non nella casa de Dio! — o outro protestou, todo vermelho.
— Ah, agora o bonitão vai controlar onde as pessoas morrem?
Francamente! — ele colocou a outra mão na cintura e se virou em minha
direção. — Você é médico. Depois é só olhar, o velho ainda tem pulso, não
está morto — ele revirou os olhos e depois jogou as palavras nas costas do
rechonchudo: — Não seja temperamental, homem! Parece que nunca saiu da
Europa!
— Há anos não saio! — o outro rugiu.
— Pois bem-vindo à América! Vai ver disso aqui pra ladeira abaixo,
amigão.
Enquanto eles discutiam, me surpreendi com o fato do jovem padre
saber que eu era médico. Não passava despercebido também o fato dele vir à
minha mente como a pessoa que vi no fim da festa de casamento da filha do
Virgílio... será que eram a mesma pessoa? E como ele sabia quem eu era?
— Quem são vocês? — perguntei.
Ricardo e Ethan já não pareciam tensos como antes, no olhar deles
havia até um quê de familiaridade com aquela figura toda pomposa,
debochada e... meio afetada.
— Nós somos os faxineiros — ele respondeu com simplicidade e
ficou diante de mim, encarando-me com uma segurança que vi poucos
homens fazerem.
— “Faxineiros?” — cocei o queixo.
— É. Nós limpamos a bagunça que vocês deixam.
Isso só podia significar que...
— Ok, “faxineiro”... se você realmente diz ser quem é, qual o
fundamento do meu Grande Templo? — cruzei os braços.
— O Bem Maior — ele me fitou com seriedade e cruzou os braços
também.
Zeladores? Da Grande Ordem? Isso era sério?
Eles não eram Zeladores americanos, não mesmo. Eu conhecia
praticamente todos... de onde eles eram?
O que eles estavam fazendo ali? Como eles sabiam que estávamos
ali? Será que Lilith...?
— Ah... desculpe-me... vocês vieram por causa da morte do general?
— Não.
— Hum... talvez pelo problema com os mafiosos?
— Pelo amor de Deus, homem, não — o rapaz disse de forma
afetada. — Não nos importamos com generais e mafiosos, por Deus, temos
mais o que fazer! — ele reclamou. — Somos Zeladores europeus, eu sou
Zelador do Grande Templo Iluminatti de Paris, aquele dramático — ele
apontou para o bispo. — É um honorável Zelador do Grande Templo
Iluminatti do Vatica... — ele fez uma pausa dramática. — Roma — ele
balançou a cabeça devagar enquanto me olhava como se estivesse segurando
o riso. — E, bom, aquele ali é um Embaixador do Grande Templo Iluminatti
da Inglaterra.
— Estão bem longe de casa — meneei o rosto para avaliar o ruivo e o
bispo.
— Pois é. Estamos em uma missão. Uma não. Umas cinco, pelo
menos. Saímos com o objetivo de resolver uma coisa, aí você sabe, apareceu
uma... depois outra... e agora essa. Parece que nossos caminhos se cruzaram,
senhor Hierofante.
— Certo, em que posso ajudá-los? — descruzei os braços e me
mantive numa postura neutra.
Tudo o que eu menos queria, nessa altura do campeonato, era
problema com Zeladores do Grande Templo, ainda mais os europeus que
eram conhecidos por serem rígidos e inflexíveis.
— Bom... Estamos atrás de um colega nosso. Diego Abramovisky.
Ao ouvir esse nome, imediatamente me veio o mais óbvio na cabeça:
— Diego, o judeu? Zelador do Grande Templo Iluminatti de Nova
York?
— O próprio — ele completou. — Onde ele está?
Essa era uma boa pergunta. Não o via há pelos menos sete meses...
não nas reuniões, não pelos corredores, muito menos pelos nossos
territórios... e como nunca fui próximo dele, apenas o conhecia de vista,
sequer notei que diminuíram a zero as vezes que nos esbarramos nos últimos
tempos.
— Uma excelente pergunta, senhor Zelador. Não me recordo — virei-
me para Ethan. — Você viu o Diego, o judeu?
Ethan pensou por um momento e antes que eu fizesse a mesma
pergunta para Ricardo, percebi que ele havia estado no Brasil nesse período,
então...
— Definitivamente não o vemos há um bom tempo...
— Seis ou sete meses, pelo menos?
Fiz que sim, era bem por aí.
— Não me recordo de você ter dito o seu nome, senhor Zelador.
— Eu não disse.
— Certo... sei que você não precisa responder se quiser, mas, como
posso te chamar? — pensando bem, podia ser qualquer nome, eu só queria
parar de pensar nele como o jovem padre de cabelo platinado e jeito afetado.
— Ítalo — ele respondeu rapidamente.
— Certo, meu nome é...
— Eu sei o seu nome — ele suspirou. — Eu sei o seu nome, eu sei
cada um dos seus passos, eu sei onde a sua filha está — quando ele disse isso,
eu me arrepiei todo. — Eu sei os seus planos... eu sei mais sobre você do que
você mesmo, senhor Cavalieri.
— Você era a pessoa que eu vi naquela festa de casamento? Que nos
salvou na última hora?
Ele fez um aceno positivo bem rápido com a cabeça.
— E o que você sabe sobre mim que eu não sei?
Novamente um suspiro e uma revirada de olhos. Seguido de uma
porta de madeira sendo aberta e um mafioso cambaleando, procurando a arma
no coldre, com os olhos esbugalhados, era nítido que não estava raciocinando
direito.
— Meno Male! Dio ha ascoltato le mie preghiere — o bispo fez o
sinal da cruz.
O ruivo e Ricardo avançaram no homem e o derrubaram no chão,
imobilizando-o.
Voltei a fitar Ítalo.
— Eu sei que você é um homem de muitas fraquezas. Bebidas...
drogas... mulheres... — ele varreu o local com os olhos e evitou-me. — E está
abrigando alguém em sua casa...
— Layla — eu era melhor com nomes.
— Alguém que foi contratada para te matar — dessa vez ele cruzou
os braços e me olhou dos pés à cabeça. — Alguém que foi bem instruída para
que a sua situação chegasse a esse ponto: uma guerra interna na máfia para te
desestabilizar e deixar ocupado para que enfim ela possa terminar o serviço e
ir embora.
Quê?
A minha mente deu tantas voltas com aquela informação que eu
procurei palavras e não as encontrei, em nenhuma das quatro línguas que eu
falava.
— Não que eu goste de julgar méritos, senhor Cavalieri... — Ítalo
voltou a me olhar de cima à baixo. — Mas você parece inapto para dirigir um
Grande Templo, ainda mais um que controla toda a América. Você deveria
estar me reportando todas essas coisas que estou dizendo, não o contrário.
Você está sóbrio?
— Estou — a resposta foi automática, eu não conseguia pensar.
— Se eu te pedisse para fazer um exame agora, o exame provaria sua
aptidão?
— Sim.
Ítalo suspirou mais fundo do que deveria, indicando que estava
desapontado. Eu sinceramente não o conhecia, nunca fomos apresentados e
se nos vimos em qualquer outra ocasião, não me recordo. Mas a
desaprovação dele mexeu profundamente comigo, porque eu sabia que se ele
quisesse, ele poderia ali, naquele momento, caçar a minha iniciação e me
tornar o que eu sempre fui: um nada.
A minha mente se desconcentrou nisso por um instante, para se
concentrar em apenas uma coisa: Layla. Como era possível que as palavras
dele fossem verdade? Não podiam! Eu... eu não queria...
— Ela guarda outros segredos também — ele sequer esperou que eu
me recuperasse. — Mas esses eu deixo para que descubra sozinho, senhor
Cavalieri.
Então ele guardou a agulha dentro das vestes junto com a linha que
havia sobrado do trabalho que havia sido feito.
Então era mentira?
Layla não sentia nada por mim e todo esse tempo estava manipulando
as coisas nos bastidores para chegarmos a esse ponto?
E se eu voltasse para casa agora? Ela terminaria o serviço?
Quando Ítalo me deu as costas, por reflexo e adrenalina, eu segurei
em seu ombro. Como ele iria embora assim? Ia jogar a bomba e sumir?
Ao se virar, ele me olhou do mesmo modo que eu olhava as pessoas
que ousavam me tocar, como o marido de Fay, o Patrick. Era o melhor olhar
que todos nós aprendíamos no Grande Templo, ele era paralisador, fazia-me
sentir como se eu estivesse crescendo e crescendo até ocupar todo o espaço
daquele lugar e no fundo essa era a última coisa que eu queria...
A última vez que fizeram isso comigo foi há muito tempo...
Soltei-o e ele diminuiu a intensidade com que me fulminava com os
olhos.
— O que posso fazer para ajudá-lo a encontrar Diego Abramovsky?
— perguntei.
— Se vê-lo por aí, diga que Ítalo perguntou por ele. Mas acho que não
vai encontrá-lo...
— Não?
— Em uma dessas nossas cinco missões, descobrimos alguns chips na
nuca de algumas mulheres... — de repente aquela conversa ganhou o dobro
do meu interesse. — São chips parecidos com os que alguns dos Grandes
Templos injetam nas pessoas... mas esses não estão nos nossos registros. Nos
que pudemos conferir encontramos mapas, tabelas, nomes, locais, passagens
compradas para alguns destinos...
— Então vocês conseguem ler os chips? — não escondi a surpresa.
— Demos um jeito — ele meneou a cabeça para o lado. — Mas eles
são como quebra-cabeças... e faltam algumas partes. E uma intuição me diz
que você esteja com a parte principal.
— Eu?
— A sua filha.
— O que tem a minha filha?!
— Já olhou a nuca dela ultimamente, senhor Cavalieri?
Aquelas palavras me assombraram naquele instante e algo dentro de
mim me disse que me assombrariam por muito tempo... agora algumas peças
também se encaixavam em minha mente... teriam sido esses os
“documentos” que Layla havia “roubado” e os poderosos queriam de volta?
— Os mafiosos querem a sua filha... a polícia de Nova York quer a
sua filha... — Ítalo abriu um sorriso e olhou para cima, veio até mim quase
que num passo. — Gente do Grande Templo Iluminatti quer a sua filha —
ele murmurou.
— Terão de me matar primeiro — avisei.
Com todo respeito que eu tinha a figura que Ítalo representava como
Zelador, eu precisava me posicionar: ninguém, absolutamente ninguém
colocaria as mãos em minha filha. Ninguém. Eu morreria tentando protegê-la,
se necessário.
— Layla disse a mesma coisa — Ítalo voltou a murmurar.
Será que eles dois já haviam conversado?!
— E esse é o ponto de união de vocês dois, senhor Cavalieri. Então
como Zelador, alguém que vive para cuidar e zelar de pessoas como você, eu
vou rezar para que esse ponto de união seja maior que o de divergência.
Vocês dois querem, no fim, a mesma coisa.
— E o que você quer? A minha filha? Porque com todo respeit...
— Eu só quero o chip — ele foi simples e bastante transparente.
Balancei a cabeça, era uma mistura de sim e não.
— E como você sabe que a minha filha tem um chip?
— Como eu disse, é como um quebra-cabeças. E as peças que são
mais próximas umas das outras, se completam. E por isso se rastreiam — ele
enfiou a mão no bolso, dessa vez não tirou uma agulha, mas um chip, que
piscava num tom azul muito profundo. — Eu tenho um aqui e ele me deu a
localização exata da sua filha.
Novamente eu congelei. Abri bem os olhos e dei um passo para trás.
— E você tem todos os outros chips? — engoli em seco.
— Infelizmente não, mas... não posso dizer o mesmo de algum dos
mafiosos que você entrou em guerra ou alguém da Polícia de Nova York... —
ele disse com pesar.
Era tudo o que eu precisava saber.
Fiz uma reverência rápida e dei-lhe as costas, mas dessa vez foi Ítalo
quem segurou em meu braço e me puxou e eu lhe devolvi aquele olhar.
— Na verdade, eu preciso de mais uma coisa...
— Sim?! — perguntei, o coração a mil.
— Que entregue a sua mulher. De preferência em um carro com seus
homens mais fiéis.
— Como?
— Queime seus navios, senhor Cavalieri — Ítalo deu uma piscada, a
mão do meu braço foi para o meu peito e ele sorriu com gentileza.
Tão estabanado e apressado que fiquei, só acenei rapidamente com a
cabeça e dei meia volta, em passos bem largos, eu precisava ir proteger a
minha filha.
— Cavalieri! — a voz de Ítalo ecoou pela catedral, fazendo-me virar
o rosto em sua direção, mas não parei de andar. — Não se esqueça do maldito
mafioso que veio matar! — ele indicou com a mão o velho senhor Sartori.
— Non nella casa di Dio, per favore! — o bispo implorou.
— Ricardo! Ethan! Resolvam isso! — rugi.
Eles deram um afirmativo em conjunto.
— Obrigado, Ítalo! — gritei enquanto corria para fora daquele lugar.
— Não me procure, senhor Cavalieri! Eu te encontro — ele gritou de
volta.
Capítulo 25
Layla

Assisti dois carros pretos pararem em frente da mansão e vários


homens saírem deles. Um que tomou a frente, o Marco, o antigo Consiglieri
de Shawn, abriu a porta de entrada sem sequer bater e se espantou ao me ver
diante dele, curiosa e atenta aos seus movimentos.
O homem limpou a garganta e depois deixou o rosto bem rígido.
— O senhor Cavalieri pediu que nos acompanhasse.
— Não fui informada de nada disso — cruzei os braços, olhando-o e
vendo dois brutamontes surgirem das costas dele.
— Ele disse que se necessário, poderíamos usar a força — ele foi
simples e deu-me as costas.
Os dois brutamontes avançaram e antes que me tocassem, mostrei que
iria sem precisar ser tocada ou até mesmo violentada. Desvencilhei-me deles
e marchei até o carro, onde sentei entre os dois brutamontes.
Eles não me disseram para onde iríamos.
A viagem foi silenciosa e dava para ver pouca coisa, principalmente
com tantos homens no carro.
Minutos após ter deixado a Vila Patrícia para trás e circulado para um
outro ponto da cidade, os brutamontes desceram, o motorista e Marco,
sentado no banco ao lado dele, permaneceram.
Shawn entrou, bateu a porta do carro e manteve o olhar para frente.
Estava diferente.
Tudo nele, era como se fosse outra pessoa.
A respiração, a postura que estava sentado, o fato de sequer ter me
olhado ou até mesmo agir como se eu não estivesse ali.
O que havia acontecido?
— Para onde estamos indo? — toquei em sua mão, ele não reagiu em
absolutamente nada. — Para onde...? — insisti.
— Tenho algumas perguntas — ele sibilou. O maxilar bem rígido, os
olhos endurecidos, a expressão quase se contorcendo ou distorcendo, não sei
se de ódio, fúria, decepção, dor...
— O que houve? — murmurei. — O que está acontecendo?
— Readmiti o Marco como meu Consiglieri — foi tudo o que ele
disse.
E aquilo ecoou profundamente em mim.
Tudo o que fiz foi encher os pulmões de ar e demorar para soltar cada
suspiro. Sequer havia provado que podia ser uma boa conselheira e eu
estava... descartada?
— Eles estavam certos. Sempre estavam. É preciso confiar no sangue.
Na Famiglia. Você... não entende... como uma estrangeira poderia?
Antes que as lágrimas rolassem, insisti, segurando na mão dele.
— O que houve, Shawn?
Ele me olhou.
Antes não tivesse feito isso. Não como fez.
Não havia Shawn, não havia o homem por quem me apaixonei, não
havia absolutamente nada.
Apenas o vazio. Apenas o monstro. Apenas o Adrian.
Frio, cruel, capaz de qualquer atrocidade só para cumprir seus
desejos, quaisquer que eles fossem.
— Quem encomendou a minha morte, Layla? — suas palavras vieram
como um soco.
Fui atingida, antes fosse no estômago, na face, em qualquer lugar...
mas a dor que eu senti, tão interna e imaterial, me congelou por um segundo e
depois me machucou profundamente.
Como ele...?
— Eu quero ver a minha filha — falei.
— Quem encomendou a minha morte? — ele insistiu.
— Eu não posso dizer — fui firme e imediata, não tinha tempo para
suspense ou rodeios.
Ele concordou e voltou a fitar o caminho à frente.
Era como se ele nunca mais fosse me olhar, pelo menos, não como
antes.
— Eu quero...
— Você não tem mais filha — Shawn disse numa tranquilidade que
me perturbou. — Você a verá pela última vez e nunca mais colocará as mãos
nela. Não depois dessa traição.
— Mas eu...
Ele não queria respostas ou minhas desculpas. Ele estava resoluto, já
havia tomado o veredito antes mesmo de me ouvir, parecia impenetrável.
Mas ele também estava enganado: ninguém poderia me separar de
minha filha, muito menos ele.
Não importa que ele fosse o dono daquela cidade ou país, o mafioso
mais poderoso ou influente ou até mesmo... o pai.
Ele não seria capaz.
— Você me enganou esse tempo todo — ele disse como se deixasse
os pensamentos escorrer pela boca em leves sopros. — Voltou só para me
ferir e me destruir. Foi capaz de me induzir a me voltar contra aqueles que eu
jurei defender e eu fiz tudo isso por nós... mas não havia nós... como você
pode, Layla? Quando pretendia fazer? — essa foi a última vez que sua voz
saiu num tom normal. — Hein? — ele rosnou, virou-se bruscamente para me
encarar.
O monstro.
Pela primeira vez tive muito medo dele. Mas eu era forte o suficiente
para encará-lo como igual. Ele era um monstro? Eu também era.
— Eu ia esperar até que matasse pelo menos metade deles — no tom
da minha fala deixei bem claro que se tratava dos chefes da máfia.
Oras. A polícia queria a minha filha. Os homens da máfia queriam a
minha filha. Alguns “irmãos” da sociedade secreta de Shawn queriam a
minha filha.
Quantos mais deles eu pudesse matar antes de dar o golpe de
misericórdia, melhor.
— Não leve para o lado pessoal, Shawn. Eu faria qualquer coisa para
protegê-la...
— Inclusive me matar...
— Mostrou-se necessário. Era vocês ou eu. Por ela eu corro qualquer
risco.
Nem o motorista nem Marco mostraram satisfação com aquela cena.
Seguiram por todo o caminho em silêncio, o semblante neutro pendendo para
o sério, atentos à rua e trânsito apenas, nada além disso.
Shawn não parecia, nem de longe, o homem que havia dormido na
mesma cama comigo ontem à noite. Agora era como se nunca tivéssemos nos
conhecido, ou pior, como se houvéssemos nos conhecido e nos decepcionado
profundamente com o que descobrimos um do outro.
— Há algo mais que você queira me dizer? — sua voz vinha e junto
com ela uma boa dose de dor.
Sim. Havia.
Haviam muitas coisas que eu poderia dizer.
Nenhuma delas sem ser julgada, massacrada ou até mesmo jogada de
uma vala no meio do caminho. Preferi o silêncio.
Meus segredos morreriam comigo. Se ele quisesse saber algo a mais
ou até mesmo a verdade, a minha verdade, ele teria de me manter viva.
Foi por isso que sobrevivi. Sempre fui mais valiosa viva do que
morta.
E para ser honesta, demorou demais até que chegássemos a esse ponto
crítico, realmente esse conto de fadas já estava enfadonho e precisava de um
fim. Nada poderia ser tão perfeito, belo e aconchegante como as histórias que
a minha mãe me contava para poder dormir e sonhar com um príncipe.
Shawn não era um príncipe.
Ele era algo sombrio, vazio e perigoso.
Exatamente o que me atraía. Exatamente o meu ponto fraco, capaz de
me destruir em vários pedaços.
— O que você vai fazer agora?
Ele não me respondeu. Não me olhou também.
Manteve os olhos presos na rua, vendo os transeuntes passarem como
se fossem muito mais interessantes que eu.
Era de fato uma despedida. E eu nunca fui boa com o adeus.
Da primeira vez fui arrancada dele abruptamente. E agora, ele mesmo
me arrancava de si.
Eu sabia que chegaríamos a esse ponto.
— Shawn?
Ele suspirou, tocou a maçaneta da porta quando o carro parou em
frente àquele prédio tão deslumbrante, onde só gente da mais alta sociedade
colocava os pés. Um filete de esperança me alcançou quando ouvi sua voz,
mas o que ele disse rechaçou-me.
— Não permitirei que diga nada a Yohanna, mas pode dar adeus pela
janela fechada — ele disse e saiu do carro.
Os mesmos brutamontes de antes entraram, um de cada lado.
Pela janela fechada pude ver Yohanna sair pela porta de vidro do
majestoso edifício, acompanhada de quatro seguranças. Ela correu em
direção aos braços do pai e agarrou-se a ele, desatou a falar, como era de sua
natureza.
Depois ela olhou para um lado... para o outro...
Eu li em seus lábios.
“Onde está a mamãe”?
Shawn a colocou no chão e se agachou atrás dela enquanto Yohanna
dava alguns passos até o carro e de alguma forma, me via. Ouvi seu grito.
— Mamãe! — ela me chamou.
Ele, no entanto, só tocou nos cabelos dela e os afastou com cuidado,
olhando para sua nuca e tocando-a.
Pelo visto ele havia descoberto. Eu sabia que não adiantava o seu bom
coração ou até mesmo a boa vontade de cuidar de nós. Quando ele
descobrisse que Yohanna guardava algo precioso e importante, ela deixaria
de ser sua filha no mesmo instante e se tornaria apenas um instrumento.
Dei adeus a minha filha e o carro partiu.

Shawn Cavalieri

— Para onde a mamãe vai? — Yohanna se voltou em minha direção e


me encarou, colocou o dedinho na boca e fitou os seguranças também.
— Vamos nos virar sem a mamãe agora — falei.
— Por quê? Você fica tão mais feliz quando está com ela! — ela
bateu o pé no chão.
— Filha, precisamos ir para casa.
— Não é casa se não tiver a mamãe!
— Eu vou cuidar de você agora. Precisamos ir.
— E a mamãe?
— Filha! — suspirei alto. — Por muito tempo foi só você e a mamãe,
não foi?
Ela fez que sim.
— Agora seremos só você e eu por muito tempo.
— Ela foi para um trabalho importante? — ela coçou os olhos.
O que eu diria? A verdade que não.
— Sim. Ela foi para um trabalho importante. E pediu para o papai
cuidar de você até lá.
— Ok — com um bico e cara de choro, ela segurou em minha mão e
me acompanhou até o nosso carro.
— O que você sente quando eu toco aqui? — passei o indicador no
local com leve protuberância na nuca dela.
Yohanna suspirou e olhou para a janela enquanto eu terminava de
colocá-la em sua cadeirinha no carro.
— Eu só sinto que quero a mamãe.
Capítulo 26
Layla

Fora do centro urbano e cada vez mais distante de qualquer ar


civilizado, entre as paisagens naturais e um lindo pôr do sol, eu já estava
exausta de ouvir o que eles fariam comigo.
— Poderíamos fodê-la antes de desová-la — um dos brutamontes, o
nitidamente mais lerdo, disse.
— O chefe não ficaria zangado? — o outro rebateu.
— Se ele quer que a desovemos em qualquer lugar, um que ele não
possa saber, vai se importar com o que faremos com seu corpo antes de
abandoná-lo por aí? — o homem riu e passou o dedo indicador em meu rosto.
Já encarei homens mais nojentos, mas esse...
— Poderíamos foder o cadáver dela, que tal?
Ok, temos um vencedor. Tragam o troféu de merda para esse pedaço
de bosta.
— Certeza que esse lugar é seguro? O tal Mitchell vive logo ali
atrás...
— Calados! — o antigo, novo, sei lá, Consiglieri, tomou a voz. —
Vocês não podem simplesmente ficar quietos enquanto fazemos isso? Não
me sinto confortável.
Revirei os olhos, já cansada de tanta enrolação.
O carro ia em alta velocidade e Debi e Lóide conversavam
animosamente sobre quando foder o meu corpo: antes ou depois. Quem se
importava, afinal?
Graças a Deus sempre tive movimentos rápidos e silenciosos. Puxei
as adagas que trouxe comigo e cortei o cinto de segurança do Conseglieri e
do motorista, o que passou despercebido por apenas três segundos. Tempo o
suficiente para cortar a garganta daqueles dois palermas ao meu lado.
Marco segurou firme na arma. Eu cravei a faca bem fundo na nuca do
motorista.
O carro girou, destrambelhado, e no primeiro movimento brusco o
tiro perfurou a janela, Marco bateu com força no porta-luvas do carro e
apagou. Segurei o Lóide gigantesco pelo colarinho, abri a porta do automóvel
e o empurrei para fora, fui junto com ele.
Adivinha quem amorteceu a queda?
É, preferi fazer isso com o que disse que foderia meu cadáver. Que
sinistro esse homem. Ao piscar os olhos, respirar e garantir que estava viva,
não senti nenhuma culpa, remorso ou qualquer coisa do tipo pelo que havia
feito.
O carro avançou e entrou em uma propriedade, depois quebrou um
muro e bateu em algum canto. Sinceramente? Eu não me importava.
Tinha um assunto urgente a resolver. E nada ficava entre mim e meus
negócios.
Escondi as duas adagas num compartimento daquele belo vestido
Dior e me levantei, como se fosse apenas uma lady da alta sociedade
passeando pela sua propriedade particular enquanto assistia o crepúsculo. É
claro, após cair no meio da estrada e rolar feito uma bola de feno no Texas.
— Canalha — rosnei, enfurecida.
Acho que foi a primeira vez que falei desde que vi a minha filha e o
carro arrancou. Desde então só me coube ouvir, e eu ouvi barbaridades.
Deixando meu eu ofegante de lado e o estresse de toda aquela
situação, tudo o que restava em mim era tensão, ódio e por cima uma pitada
generosa de vingança. Era tudo o que eu precisava para manter a mente em
dia e a alma lavada. E dessa vez eu estava mais perto do que nunca!
— Você não vai me escapar dessa vez...

2010 – Grande Templo Iluminatti de Nova York


Shawn Cavalieri

— Senhor Cavalieri? — a voz feminina me trouxe de volta.


Tirei a caneta da boca e conferi que todos os olhos estavam voltados
para mim naquela sala. Quando estávamos sendo instruídos por Elizabeth,
arrumávamos as cadeiras da sala de debates em um grande círculo e assim
podíamos olhar todos uns para os outros enquanto debatíamos.
Deixei a minha mente ir longe demais em meus devaneios... devia ser
o cansaço mental ou simplesmente o corpo pedindo arrego.
— Estão todos olhando para você? — Ethan cochichou.
— Estão — respondi ainda mais baixo.
— Não fique tão nervoso, eu não estou olhando para você — ele me
deu um cutucão com o cotovelo e voltou a ler o documento que tinha em
mãos.
— Senhor Cavalieri, seria pedir demais que não dormisse enquanto
um de seus colegas apresenta suas observações sobre os sinais, símbolos e
palavras secretas que apenas os iniciados conhecem? — Elizabeth não
escondeu a desaprovação em seus olhos profundamente verdes. — Ou
gostaria de compartilhar as suas observações conosco?
A plateia não desistiu, todos continuaram a me encarar.
Levantei a mão e engoli em seco antes de abrir a boca.
— O que é o vazio que há dentro de nós?
Os olhares não se contentaram e se transformaram em risadas. As
risadas em um sonoro e longo deboche. Até mesmo Ethan parou de ler o
documento com os dedos e pendeu o rosto para o lado, como se fitasse o
espaço entre nós dois.
— Silêncio! — Elizabeth pediu e imediatamente todos a obedeceram.
— O senhor retirou a sua pergunta referente a algum dos símbolos ou sinais
que viu, senhor Cavalieri? — ela virou folha por folha e desistiu no meio do
caminho para repreender novamente meus colegas. — Sh!
— Na verdade, eu sinto um vazio. Um profundo e eterno vazio.
Dentro de mim. E eu tento... fugir dele. Mas...
— Isso não seria fome?! — uma voz ganhou proporção no fundo,
junto com ela, gargalhadas muito mais altas.
— Francamente! — Elizabeth se levantou. — Dispensados!
Arrumem as cadeiras no devido lugar e continuamos depois!
Ajudei Ethan com a cadeira dele, depois levei a minha. Assisti os
meus colegas postulantes à iniciação no Grande Templo saírem caçoando da
minha pergunta, mas não me importei. Todos eles, ao passar pela porta e
encarar Elizabeth, ficavam imediatamente quietos e sérios e seguiam rápido
para fora dali.
— Desculpe-me, eu sinceramente...
— Não estou irritada com você — ela foi simples, dobrou o códex
que estávamos estudando e colocou na bolsa. — Estou irritada com a falta de
respeito dos seus colegas ao seu questionamento.
Sinceramente fiquei surpreso. Nunca esperei que uma pergunta tão
idiota quanto aquela pudesse significar algo para ela... mas para mim
significava.
O vazio sempre foi algo presente em minha vida. Em minha mente ele
remontava a quando perdi a minha irmã... mas quando eu me esforçava um
pouco mais, tinha a sensação de que o sentia antes... não era exatamente
fome.
— E você não riu, senhor Evans? — ela ajeitou o vestido vermelho ao
corpo e o analisou. Encará-lo com severidade era o mesmo que nada.
— Aprendi que toda pergunta é importante — ele respondeu, para
profundo orgulho e admiração dela. — Então... o vazio é meu amigo
constante. Mesmo quando fujo dele, ele me acompanha. Acho que
perguntaria a mesma coisa, talvez não com tanta objetividade — ele ajeitou
os óculos escuros no rosto e asseou os longos cabelos loiros para trás.
A mulher suspirou fundo e pediu com o dedo que a
acompanhássemos.
Assim, saímos da sala de debates e fomos para a escadaria, dela
passamos para a grande biblioteca, sala dos arquivos, lá encontramos um
atalho para o corredor dos Pais Fundadores, um lugar formidável! Um tapete
vermelho cobria o chão do início ao fim do lugar, várias portas davam ali e
entre cada uma delas, o busto de um dos Pais Fundadores ficava em cima de
uma coluna, ora branca, ora preta. George Washington... John Adams...
Thomas Jefferson... James Smith... Benjamin Franklin...
Todos eles, os antigos e até mesmo os novos, como Abraham Lincoln
tinham seus bustos por ali.
— Achei que não podíamos vir aqui — desabafei.
— Não podem. Mas terão esse privilégio hoje. Aqui, certamente,
ninguém rirá de suas perguntas absurda...
— Acha minhas perguntas absurdas? — cocei o couro cabeludo.
— Absurdamente intrigantes — ela parou quando já estávamos quase
no fim do corredor e nos encarou daquele jeito materno e por isso, severo e
acolhedor. — Algum problema com o seu vazio, senhor Cavalieri?
— Nenhum. Eu só tento fugir dele.
Ela arqueou a sobrancelha.
— O que ele é? Esse vazio? Por que eu tenho? Você tem?
— Eu tenho — Ethan levantou a mão e devido ao silêncio que se
seguiu, rapidamente a abaixou.
— Se me recordo bem, Moisés escreveu no início do pentateuco algo
como “façamos o homem a nossa imagem”.
Rapidamente me lembrei dessa passagem e concordei. Bom, eu não
acreditava muito em Deus, não como as pessoas falavam dele. Mas para estar
naquele lugar eu precisava dizer que acreditava. E minha mãe me obrigava a
ler a bíblia.
— Antes disso Ele criou diversas coisas...
— Como os animais, as plantas, os minerais, os planetas, o universo,
as galáxias?! — Ethan esticou a cabeça.
Empurrei-o pela testa de volta ao seu lugar.
— Você é um irritante sabe tudo... agora entende de bíblia também?!
— Por que apenas os humanos à sua imagem? Por que não todas as
outras coisas à sua imagem?
Cocei o queixo.
O que diabos isso tinha a ver com o meu vazio?
— Talvez excesso de narcisismo? — chutei.
— Você é meio herege para um italiano! — Ethan me cutucou.
— E o que havia antes de todas essas coisas? — Elizabeth me obrigou
a me concentrar.
— Hum... os anjos... o reino celeste... o filho dele ... o espírito
santo...?! — chutei. Minha mãe ficaria orgulhosa ao ver que anos de estudo
na igreja e assistir a missa no domingo tinha levado à alguma coisa.
— E antes?
— Vai me dizer que era o vazio? — devolvi.
Elizabeth sorriu de um jeito meigo e carinhoso que me fez sentir bobo
e infantil.
— Havia apenas Ele. Única e exclusivamente Ele. E nada mais.
— E o vazio — Ethan ressaltou.
— Foi desse profundo vazio... essa sensação que não dá para se
preencher com facilidade que ele mergulhou em Si mesmo e decidiu criar
tudo. Absolutamente tudo. Ele criou o espírito santo e o seu filho, o reino
celeste e os anjos... — ela tomou fôlego. — As galáxias, o universo, os
planetas, minerais, plantas e animais...
— E por último o homem?! Para depois ir descansar? Eu acho que
entendo disso — Ethan se mostrou orgulhoso.
— Mas apenas nós ele criou à sua imagem?!
Elizabeth fez que sim.
— Que imagem? Branco? Preto? Alto? Baixo? Hétero?
— Vazio — ela respondeu.
Foi tão simples, foi tão surpreendente, foi tão arrebatador que fiquei
calado.
— Vazio? — Ethan não escondeu a indignação.
— Não é sobre o que se vê, porque Deus não tem uma forma física. É
sobre algo profundo que habita dentro de nós. Como um buraco negro. Algo
estranho, gigante e vazio, capaz de engolir absolutamente qualquer coisa e
ainda assim, jamais se encher. A sua imagem em nós é como um buraco
negro. Vazio. Que engole qualquer coisa. Que não precisa ser preenchido,
mas...
— Espera. Se não precisa ser preenchido, então precisa de quê? —
cruzei os braços.
Elizabeth sorriu daquele jeito que me deixava desconcertado.
— Acho que já tem a resposta, senhor Cavalieri.
— Então... o vazio me impulsiona a criar? Tipo, me superar?
Construir algo grande? Dar vida? — acabei coçando a nuca.
— Sem o vazio que há dentro de você, quem você seria? É essa falta
que te impulsiona a buscar ser. E descobrir, eventualmente, o que você já é.
— Puta merda! Acho que descobrimos um segredo iniciático do
Grande Templo — Ethan me abraçou pelo ombro.
— É, descobriram — Elizabeth meneou a cabeça para o lado. — Não
o segredo iniciático capaz de iniciá-los no Grande Templo, mas estão no
caminho.
— Então eu não devo fugir ou preencher o meu vazio? Eu devo...
meditar sobre ele, sei lá e a partir dele descobrir a minha própria força?
— Descobrir nele qual é a sua imagem que te conecta a Deus —
Elizabeth pontuou de forma que não deixasse dúvidas. — Ele é
absolutamente tudo. E deixou algo raro, único e específico em você. Algo que
ele não deixou em mais nenhum canto, em mais ninguém, só em você.
— Nem mesmo em mim? — Ethan pareceu ofendido.
— Ele deixou algo único, raro e específico em você também, senhor
Evans — ela tocou seu braço com doçura. — Infelizmente o que as pessoas
fazem com os seus vazios é preenchê-los. E como um buraco negro que tudo
engole e jamais fica cheio, nunca é suficiente. Porque, afinal de contas, não
foi feito para ser preenchido. Foi feito para ser contemplado. Os mistérios
não se desdobram quando estamos neles. Desdobram-se quando eles estão em
nós.
— Puta merda do caralho, e a senhora descobriu isso sem usar
drogas? — Ethan esticou o pescoço.
— Estamos no corredor dos Pais Fundadores, senhor Evans, peço que
cuide do palavreado.
— Ok. Puta merda do caralho, e a senhora descobriu isso sem fumar
um? — ele repetiu. Ela o repreendeu com o olhar. De que adiantava, afinal?
— E como o meu vazio me leva até ele? Quero dizer... se esse vazio é
a porta para que eu veja a imagem Dele em mim... deve ter uma chave. Como
toda porta. Como eu...?
Elizabeth suspirou e deu alguns passos à frente.
— Abramovsky, querido! — ela acenou para um velho homem que
sempre víamos por ali.
Diego Abramovsky, o judeu, era um dos Zeladores do Grande
Templo de Nova York. O que sabíamos sobre isso era: melhor não perturbá-
lo. E um adendo: Diego talvez não fosse o nome dele.
— Pois não? — ele se virou, deixou a porta se fechar atrás de si e
segurou com firmeza pelo menos uns sete livros que trazia consigo.
Diego, o judeu, era um homem alto, andava meio curvado para frente,
sempre se vestia de preto. Em cada lado do rosto dois cachos desciam e sua
cabeça era coberta por um quipá. Sempre tinha algo em mãos, quando não era
um guarda-chuva ou uma maleta, eram livros. E ele parecia bastante eufórico
e distraído nos últimos tempos, pelo menos das vezes que o vi.
Elizabeth murmurou algumas coisas para o homem que só a encarou
muito sério e assustado, recostou os livros na parede e ajeitou a pegada e
depois saiu correndo e entrou numa porta, sumiu.
— Como o meu vazio me leva até...?! — eu ia repetir a pergunta, ela
já devia ter esquecido do que tratávamos.
— Como chamamos Ele frequentemente aqui dentro? — ela retrucou.
A resposta estava na ponta da língua, mas não vinha de jeito nenhum.
— Grande Arquiteto do Universo?! — Ethan novamente passou na
frente, como o grande cdf que era. Havia alguma coisa que ele não sabia
responder?
— Por onde um arquiteto começa, senhor Cavalieri?
— Espero que na faculdade — tive de rir.
Ela concordou.
— E depois... no projeto? E da planta... para a construção?
— Excelente! — ela me parabenizou como se eu já tivesse a resposta.
Não tinha.
Eu ainda era muito burro, não pegava as coisas com facilidade.
Quando Elizabeth virou de costas, segurei em seu ombro.
No Grande Templo aprendíamos as diversas linguagens ocultas
através do corpo e dos sinais. Se ela me desse as costas e eu segurasse em seu
ombro, isso significava “preciso de sua ajuda”. E ela não poderia negar, por
que esse era o sinal secreto e ninguém podia desrespeitar os sinais, as
palavras e os códigos secretos. Só os “iniciados” sabiam e portanto, os que já
sabiam os sinais deviam respeitar e corresponder.
Elizabeth virou-se e me encarou como uma águia, de modo profundo
e até mesmo amedrontador.
Isso significava “tenho os meus olhos em você” ou “você está debaixo
das minhas asas” ou até mesmo “eu estou aqui para ajudá-lo”. Isso também
podia ser dito colocando a mão no peito do outro, praticamente na clavícula,
digamos assim.
— Um arquiteto não começa construindo o prédio mais alto de Nova
York pelos para-raios que ficam no último andar, senhor Cavalieri. Nem
mesmo pelo teto. Eles começam cavando o chão. Bem fundo.
— Tipo um coveiro! — Ethan disse animado.
— Ou um jardineiro — ela contrapôs, parecia mais feliz com essa
ideia. — Para construir o prédio mais alto de Nova York, primeiro é preciso
desenhar a planta. E depois cavar bem fundo, para que suas estruturas sejam
bem firmes. Não é o emblema daquela árvore da sua família? As raízes tocam
o inferno e os galhos tocam o céu?
Concordei.
— Algumas pessoas olham para os prédios de Nova York e tudo o
que pensam é: “nossa, como é alto!”, mas Ele, como Grande Arquiteto como
é, olha para o vazio e pensa: vou ter que cavar um buraco bem fundo, caso eu
queira um prédio muito alto. As pessoas só se importam em ver o troféu... Ele
se ocupa com toda a trajetória, o antes, o agora e o depois. Mas para nós,
meros humanos, parece que só há o agora — ela acenou a cabeça em um
sinal de desaprovação.
Queria ter caneta e papel para anotar tudo aquilo.
— Como arquiteto do seu próprio universo, senhor Cavalieri, sugiro
que comece cavando bem fundo. Terá de fazer isso mesmo, uma hora ou
outra, com ou sem um projeto — ela deu leves batidinhas em meu ombro e
foi embora.
As batidinhas rápidas no ombro significavam “meu trabalho aqui
acabou”.
— Ela te chamou de coveiro! — Ethan riu.
— Acha que um dia vamos parar de sentir esse vazio? — foi a minha
vez de cutucá-lo com o cotovelo.
Ethan respirou bem fundo, demorou mais do que devia nisso.
— Sinceramente? Acho que só até encontrarmos a tal imagem do
GADU dentro de nós.
— E acha que conseguiremos isso antes de morrer?
— Sinceramente? Não. Puta merda!

Atualmente – Vila Patrícia


Yohanna

O papai disse que tinha uma grande surpresa para mim!


Por isso eu me comportei, tomei o meu banho e evitei fazer bagunça.
Mas não pude evitar ir várias vezes durante o dia até o quarto do papai e da
mamãe conferir se ela já havia voltado. Ela nunca saía sem se despedir e sem
me dizer que ia trabalhar e era para eu ficar bem e me comportar...
Quando a noite chegou, o papai pediu que o carro viesse e entramos
juntos, fomos para bem, bem, beeem longe, ainda dentro da Vila Patrícia.
Quando pensei que não tinha mais lugar nenhum em meio a tanto
espaço, vi uma mansão bem grande e iluminada, tinha muitos seguranças e
homens de chapéu preto igual o que o papai sempre carregava, mas nunca
usava.
— Você está pronta? — o papai perguntou.
— A surpresa é de comer? — fui lentamente em direção ao casarão.
Passamos por todos aqueles homens com cara de pessoas que estão
segurando o cocô e com raiva porque o banheiro está cheio e ficamos parados
na porta.
— Vai ter coisa de comer, sim — o papai sorriu de um jeito bem
bonito.
Ele tocou a campainha e eu escutei uma voz muito aconchegante:
— Quem é?
— Sou eu! E trouxe visita! — o papai respondeu.
— A mamãe está aí? — sonhar nunca era demais, então eu perguntei.
— Você já se cansou do papai?
— Não...
— Então porque não para de perguntar da mamãe?
— Eu quero a mamãe.
— E não quer o papai?
— Eu quero a mamãe e o papai, não posso ter os dois?
O papai estava pronto para responder, mas foi interrompido pela porta
que foi aberta por uma mulher muito bonita, de cabelos brancos e olhos tão,
tão, tão iguais ao do papai!
Essa era a surpresa! Enfim eu ia conhecer a família! Enfim eu ia ser
uma criança especial!
— Ela é a sua mamãe? — segurei na mão dele e puxei várias vezes.
O papai fez que sim.
A mamãe do papai ficou parada na porta, levou a mão cheia de anéis à
boca e deu um passo para trás. Segurou na maçaneta e veio em minha
direção, agachou-se e me olhou bem de perto.
Que bonita! Usava um vestido preto e em contraste a ele brincos,
colar e pulseiras peroladas. A vovó tinha um cheiro muito bom e o abraço
dela era bem gostoso, parecia que eu estava no meu quarto, deitada em minha
cama, pronta para dormir e ouvir uma história.
— Dio Mio, Shawn! Mas como...?! — ela me puxou para o colo e me
tirou do chão.
— Uma longa conversa, mama — ele beijou a testa dela e entrou.
Entramos em seguida, a vovó fechou a porta e deixou todos os
homens lá fora.
A vovó andou apressada, a casa dela era bem mais enfeitada e
quentinha que a do papai, e a sala era repleta de quadros com retratos de
muita gente, inclusive do papai e de muita gente parecida com ele, pelo visto,
a família.
— Mama?! Olhe quem veio nos visitar!
A vovó disse um monte de palavras estranhas, eu não entendi
nenhuma delas. Ela me levou até uma sala onde tinha uma lareira e uma
cadeira de balanço cheia de travesseiros, onde uma mulher bem velhinha
estava sentada descansando.
Ela estava de olhos fechados e a vovó a chamou até que ela abriu os
olhos.
Era a mãe da vovó? Talvez sim. Ela deu um leve impulso e começou
a balançar a cadeira lentamente para trás e para frente enquanto examinava as
minhas feições. Por fim, ela tocou em minha mão e abriu um sorriso.
— Bentornato... Bentornato... Patricia!
Parte 3

Patrícia
Inspirado na canção “Patricia” de Florence and the
Machine.

TRACKLIST

Patricia — Florence and the Machine.


Diamonds — Rihanna.
I'll Never Love Again — Lady Gaga.
Tear You Apart — She Wants Revenge.
Hope is a dangerous thing for a woman like me to have -
but I have it — Lana del Rey.
Prólogo III
2014 – Em algum porão nos EUA
Layla

Entorpecida pela dor e deixada acorrentada para sangrar, gritar e


perder a sanidade que me restava, eu chorei amargamente.
A vergonha queimava em meu rosto, a cada respiração e espasmo o
meu corpo deixava a pele queimar e lembrar do chicote, do enforcamento, do
meu corpo sendo violado até que eu apagasse.
O homem misterioso foi embora e me deixou naquele quarto escuro,
suspensa pelas mãos, o corpo sedento pelo chão, a alma só queria partir.
Não podia. Eu ainda tinha uma filha para proteger e cuidar.
As palavras dele corriam pela minha mente:
— Que espécie de mulher é você? Matar o seu próprio dono? Sabe a
fortuna que ele pagou por você e por sua criança?
E as pancadas tomaram o lugar das palavras e eu rugi feito um bicho
que não pode fazer nada, além de apanhar do seu domador.
O meu corpo doía, eu sequer sentia os meus braços, as feridas
estavam abertas e eu me sentia fraca.
Será que Yohanna estava bem?
Após matar o homem que tentou se aproveitar da minha filha e
incendiar a sua mansão, eles me pegaram e me levaram para o mesmo lugar
de antes: o porão, era assim como o conhecíamos.
O lugar onde mulheres, crianças e alguns homens ficavam
amontoados, feito escravos num navio negreiro, à espera da morte, de dias
melhores ou ser comprado – que nesse caso, poderia significar um dos dois
anteriores.
Quem me compraria? Principalmente após ter matado um homem tão
importante?
Não sei quem seria louco o suficiente.
Quando a porta daquele porão de tortura se abriu, vi um filete de luz
entrar e a lâmpada que ficava bem distante de onde eu estava iluminou com
fraqueza a sala imunda.
Desidratada, tendo devaneios e talvez distante da realidade, vi um
corpo se aproximar, mas nem de longe parecia aqueles homens que me
surraram. Era, definitivamente, uma mulher.
No mínimo movimento dela em minha direção, eu gritei e chorei. Ela
pareceu engolir qualquer reação e passou um pano molhado, frio e meio sujo
em meus braços, para tirar o meu suor e limpar as marcas deixadas pelo
castigo.
Enquanto eu jurava a mim mesma que iria matar cada um deles
quando tivesse oportunidade, a moça, também escrava dos porões, limpou o
meu rosto.
Não escondi o assombro ao encará-la.
Um rosto fino e delicado, mas maltratado pelo tempo e pelos senhores
do tráfico. Sobrancelhas que davam um ar bem rígido e sombrio para seu
olhar penetrante, os lábios cortados, naturalmente grossos, mas inchados pelo
que parecia ser um soco.
Seus grandes olhos azuis vítreos se aproximaram e eu senti um
arrepio por toda a espinha.
Quem era ela? Como ela se parecia tanto com a minha filha ou até
mesmo... Shawn?!
— Cavalieri? — não sei de onde encontrei forças, mas eu grunhi.
A moça arregalou os olhos, espantada. Eu ainda não sabia muitas
palavras em inglês, só as que o meu antigo dono usava comigo. Mas duas
palavras eu nunca esqueceria: Shawn. Cavalieri.
E por falar nessas duas palavras, elas me levavam a uma. Uma que
por muito tempo eu pensei que significasse dor, mas o meu antigo dono me
mostrou não apenas todas as possibilidades de dizer dor, mas todas as
possibilidades de sentir.
A mulher ergueu o meu queixo e me analisou.
Ela não me conhecia. Mas talvez eu...
— Patrícia? — a chamei.
Pela reação que ela teve, devo admitir: era ela mesma.

2000 – Metrô em Nova York


Shawn Cavalieri

O nosso pai nos obrigou a vestir a nossa melhor roupa e repetiu, não
duas vezes, que deveríamos nos comportar e mostrar a nossa melhor cara
para o seu amigo.
Não sabíamos seu nome ou o que ele fazia da vida, a única
informação que tínhamos era que ele, sozinho, era muito mais poderoso que
todos os homens da máfia juntos.
— Você não vem, papai? — Patrícia perguntou.
Ela era bem mais expressiva e dinâmica que eu; eu sempre brincava
ao dizer que seus olhos e sua personalidade chegavam antes do corpo, em
qualquer lugar que fosse.
A presença dela era uma festa, ninguém cedia ao seu encanto natural.
Eu, entretanto, era o irmão mais tímido e acanhado, sempre nos cantos,
sempre em silêncio, sempre vigiando.
— Vocês já são grandes o suficiente para andarem por aí sozinhos —
o nosso pai ralhou.
— Por que não vamos de carro até a casa do seu amigo? Por que
precisa ser no metrô? — ela segurou na mão dele, mas foi desvencilhada.
Constantino Cavalieri, nosso pai, se levantou com uma expressão
áspera e começou a mexer de forma aleatória em seus livros, ele tinha muitos
e nunca nos deixava ler.
Desde pequeno eu tinha a intuição de que nós, meninos, sempre
éramos tratados de modo melhor que Patrícia. Ela era mais ligada à mamma e
nonna, e sempre que tentava aproximação com ele, recebia sua indiferença,
quando não, um falso carinho.
Ela percebia também, eu sei. Por isso se esforçava tanto.
Patrícia era a luz de qualquer lugar, menos no coração do papai e isso
a machucava bastante.
Fomos de carro até o metrô, um soldado da máfia nos garantiu que
entrássemos em segurança e depois desapareceu.
Todo o percurso foi feito em completo silêncio até que estivéssemos
dentro do vagão.
— Você acha que o papai me amaria mais se eu fosse menino?
Nunca uma pergunta me deixou tão inquieto.
Evitei olhá-la e mantive o rosto para frente, o corpo rígido, encarando
as estranhas pessoas que estavam no metrô. Estivemos poucas vezes no lugar
e sempre acompanhados de adultos, mas dessa vez, papai disse que
precisávamos sentir o peso de estarmos crescendo e ficarmos independentes
da Famiglia.
Patrícia me chutou. Ela fazia isso, sempre. Isso me irritava.
Virei o rosto em sua direção, os olhos expressavam a minha raiva.
Ela riu.
Por isso, guardei a raiva dentro de mim e voltei à minha feição de
indiferente, um olhar de peixe morto, como ela mesma dizia e me provocava.
— O que uma menina pode fazer na máfia? Só casar — ela voltou a
me chutar.
— Você tem mesmo que fazer isso? — ralhei.
Se soubesse que essas seriam as minhas últimas palavras a ela, teria
dito coisa melhor. Eu juro.
Ela tornou a me chutar. Fuzilei-a com o olhar.
— Tudo bem o papai não gostar tanto de mim. Eu sei que você me
ama.
Antes que eu pudesse concordar, repentinamente o lugar ficou vazio,
nada tão incomum, em paradas do metrô é isso que acontece. Mas nunca vi
um vagão se esvaziar por completo em poucos segundos.
— Você a... — e a voz dela sumiu.
Tudo ficou preto, lembro de sentir um cheiro muito forte contra o meu
rosto e o resto... bom... o resto é que não sobrou mais nada.
Uma semana depois

Entrei em casa e fechei a porta com cuidado. Percebi, nos primeiros


dias, que era cruel fazer qualquer movimento suspeito... mamma e a nonna
ficavam tensas, vinham correndo, largavam absolutamente tudo para conferir
se Patrícia havia voltado.
Era o desejo de todos nós. Que ela entrasse por aquela porta e dissesse
“encontrei o caminho de casa, enfim estou de volta”.
Isso nunca aconteceu, infelizmente.
— Queria me ver, papà? — enfiei a cabeça na porta do seu escritório.
Ele não se dignou a me olhar, apenas fez sinal para que eu entrasse.
Quando já estava sentado diante dele, os pés balançando, ele me
fuzilou com o olhar e escondeu o rosto com a mão aberta.
— Dio! Feche a porta! — ele rosnou como se eu não soubesse fazer
nada direito.
Após cumprir com o que me foi solicitado, voltei a sentar-me diante
dele e continuei a balançar os pés.
Meu pai era um homem de movimentos muito ágeis e firmes, nunca
hesitava, nunca dava espaço entre as palavras ou ações, era como a ponta de
uma lança, que sabe o trajeto até o coração.
— Pare com isso.
Parei imediatamente de balançar as pernas e recolhi as mãos para o
colo, continuei a fitá-lo.
— Pare de procurá-la, foi o que quis dizer.
— Mas papà o senhor disse que se eu não a encontrasse...
O meu pai respirou com muita demora e isso só significava uma
coisa: era melhor ficar quieto e escutar.
— A esperança... ela tem machucado a sua mãe e não gosto disso.
Qual o dever do homem da família, Shawn?
— Proteger a família — voltei a balançar os pés.
— E deixar a sua mãe sofrer parece com algum tipo de proteção?
— Mas papà...
A palavra “mas” ou qualquer sinal de adversar àquilo que o papai
tinha a dizer o deixava vermelho e seu olhar só endurecia. Ele não precisava
dizer nada, me calava com seu olhar de desgosto e me desarmava com seu
desprezo.
— A ferida vai fechar e ela ficará bem. Por isso precisamos deixar
que ela se recupere da perda e não falaremos mais disso.
Antes que eu pudesse rebater, seu olhar severo me alcançou e me
calou.
— O que você quer ser quando crescer, Shawn?
— Da máfia, papà — sequer precisei pensar. Todos nós queríamos
orgulhá-lo e receber sua aprovação, essa era a forma que ele demonstrava
carinho por nós.
Vi-o entortar a boca e beber de uma vez só o líquido dourado no
corpo redondo, depois ele cuspiu o gelo dentro do copo e puxou um charuto
fedido, cujo cheiro expandiu para toda aquela sala e me deixou fedido
também.
— Quer orgulhar seu papà, certo?
Acenei que sim.
— Então pedirei que não pense mais na máfia. Você não é homem
para a máfia.
— Não, papà?
— Quero que seja presidente dos Estados Unidos.
Não sei bem o que eu poderia responder a respeito disso, mas eu ri.
Ele também riu, então me senti livre, pela primeira vez, a demonstrar meus
sentimentos diante do meu pai.
Ele se levantou e avançou contra mim em fúria, deu-me um tapa que
doeu fisicamente naquele instante, mas moralmente por toda a vida.
Meu rosto ficou travado para o lado, a bochecha ardeu como se
tivesse sido cortada por uma faca. O susto e a dor me deixaram paralisado,
olhando para o canto da sala.
— Escute-me, Shawn — ele murmurou. — Você não vai seguir os
passos dos seus irmãos. Consegui algo melhor para você. Você irá assessorar
alguns políticos até que entre para a Câmara de Representantes. De lá, vai
ascender na carreira política. Quem sabe um dia se torne prefeito da cidade de
Nova York? — ele sorriu.
Nunca vi meu pai sorrir, não para mim.
— Quem sabe governador...? Senador? Quem sabe... presidente dos
Estados Unidos?
Nada recuperado do tapa, mas fitando-o com admiração e total
descrença, preferi ficar calado. O medo de dizer alguma besteira e levar um
tabefe que arrancasse a cabeça do pescoço era maior.
— Quero você lá dentro. Com gente importante, orgulhando o
sobrenome dessa família. Você será grande, meu filho.
— E se eu não quiser ser grande? — retruquei.
Tudo o que eu conseguia pensar, naquele momento, era recuperar a
minha irmã, não em ser membro da política. Nem de política eu gostava!
— Vai se formar em direito numa das melhores universidades do país,
será ensinado pelos mestres da oratória e no futuro... — ele respirou fundo.
— Você fará parte da sociedade secreta mais importante desse país, filho!
Ele dizia aquilo como se estivesse comprando o carro do ano para si e
esfregando na cara de todos que o vissem no automóvel.
Eu era muito pequeno e não sabia muito das coisas, mas da forma
como ele dizia, eu tinha certeza: nada daquilo era para mim ou sobre mim.
— A máfia? — fiquei animado.
— Não, não quero seu nome conectado à máfia — ele resmungou. —
Você me orgulha em querer fazer parte da nossa organização, mas quantas
vezes terei de repetir que o seu futuro é maior? Você vai ser o maior de todos
os Cavalieri! Presidente Cavalieri!
Ele ergueu o copo vazio com o gelo meio derretido em minha direção.
Tudo o que consegui fazer foi franzir a testa e arquear a sobrancelha, mas no
menor sinal de descrença e sua desaprovação, acenei que sim e consertei
minha postura na cadeira.
Era difícil, afinal de contas, a cabeça queria mesmo cair do pescoço
de tanta dor, mas eu dei o meu máximo.
— A Patrícia vai voltar? — perguntei antes que ele me mandasse sair.
Raramente tinha oportunidade de estar tão perto dele e poder
conversar livremente, meu pai era um homem muito ocupado, vivia rodeado
dos homens mais perigosos do país, não ia perder essa oportunidade.
Vi sua mão bater forte na mesa e em seguida me encolhi ao ver e
ouvir o barulho do vidro estraçalhando na parede.
— Shawn, nunca mais mencione o nome dela nessa casa. Você não
ama a sua mãe?
— Amo, papà — disse desesperado, ofegante.
— Amar a sua mãe significa que não quer machucá-la.
— Não quero, papà.
— Ótimo — ele fez um aceno para que eu fosse embora.
Mas já? Ele não ia dizer: “é brincadeira, filho, você não serve nem
mesmo para ser da máfia, no máximo vai virar um comerciante e viver atrás
de um balcão. Suma daqui antes que eu te faça sumir”.
Ele, entretanto, não disse nada.

2000
Patrícia Cavalieri

Espremi bem os olhos quando a luz me atingiu em cheio.


Até esqueci que meu corpo todo doía e a barriga roncava alto,
desesperada por pelo menos uma gota d’água.
— Papà? — tentei com todas as forças chamá-lo, mas o que seria um
grito soou mais como um filhotinho de gato miando.
Um homem mascarado trazia consigo outros cinco, também
mascarados. Eles se vestiam muito bem: ternos caros, anéis muito brilhantes
nos dedos, relógios como os que vi na prateleira de colecionáveis do papà.
— Ela está aqui, venham ver. Ela é deslumbrante.
— Papà? — tentei de novo.
Quando estava diante de mim, o homem segurou em meu cabelo e o
puxou para trás, fazendo-me erguer o rosto e fitar uma lanterna forte em meus
olhos.
O que era aquilo? O que estava acontecendo? Aquele era o amigo do
papà? Por que Shawn não estava comigo?
— Ela já foi vendida? — um dos homens se aproximou e tocou o meu
rosto.
— Sim, mas posso considerar repensar caso paguem melhor — o
homem que tomava a frente das coisas e puxou meu cabelo me soltou.
Olhei para todos eles. Quem eram? Eu não podia ver seus rostos.
— Querem dar um lance, senhores?
— Por qual valor começamos? — outro tomou meu campo visual.
— Meio milhão de dólares.
Capítulo 27
Layla

Patrick Wells é um homem alto, seus cabelos loiros já se misturam


com fios brancos, sua postura é artificialmente imponente, dá para perceber
que às vezes ele encolhe os ombros e se curva mais do que o suficiente.
Eu conheci muitos homens poderosos, eles são naturalmente
imponentes, desde a forma como se sentam, respiram e se portam.
Não é o caso do chefe da polícia de Nova York.
Dentro do seu prédio, atrás da sua mesa, sentado em sua cadeira, faz-
se parecer Deus, o homem mais poderoso da cidade.
Patrick e eu sabemos que ele está longe disso.
— Por que devo confiar em você? — ele me saboreia com os olhos,
não esconde que em outra oportunidade, ocasião ou lugar, não estaríamos
tendo essa conversa.
Abaixo o rosto sutilmente para poder sorrir.
— Eu o enganei todo esse tempo, não foi? Agora descobri as
fraquezas, as inseguranças dele e as entrego a você de bandeja. Você para de
perseguir a minha filha e a mim e por fim se tornará o cara que manda nessa
cidade — brinco com seus interesses.
— Eu sou o homem mais poderoso dessa cidade — ele retruca.
Patrick, Patrick... sua mãe não lhe ensinou que é feio mentir?
— E como sei que isso não é uma cilada?
— Ele tirou a minha filha de mim e me enviou para ser morta —
respondo objetivamente, sequer pisco, encaro-o com secura e desgosto. —
Nem mesmo um homem como ele pode tirar o que me pertence.
Patrick faz um aceno positivo com a cabeça, umedece os lábios com a
língua e pousa as duas mãos na mesa, pronto para se levantar.
— O que eu deveria fazer com você? — ele ri.
— Ele tem túneis que conectam várias partes da cidade de Nova
York. Um deles leva direto para o coração da mansão dele, onde você poderá
pegá-lo de surpresa.
Patrick volta a se sentar e me encara com um pingo de curiosidade.
— Te digo por onde entrar e por onde deve seguir. O resto é com
você.
— Zoe, Zoe... — Patrick se levanta. — Você deveria ser condecorada
por enganar esse mafioso, não eu... mas fico feliz em receber as medalhas em
seu lugar.
— Não quero a droga das suas medalhas. Quero paz e segurança,
quero que parem de caçar a minha filha.
O chefe da polícia concorda com isso e não se esquece do que me
prometeu:
— Um endereço por um endereço. Você me diz onde entrar para
caçar aquele desgraçado e eu te entrego o que você quer. Ele...
Antes que Patrick possa finalizar a frase, há um estardalhaço lá fora.
Pela parede de vidro que separa o gabinete de seu departamento da
mesa de alguns dos melhores oficiais da corporação, Patrick assiste todos os
seus homens se levantarem quando vê duas novas figuras em cena.
Há muita gritaria, tensão e principalmente, atenção de todos, inclusive
de Patrick.
— Mas que diabos? — antes de vir a mim ele caminha para perto do
vidro e examina o que ocorre.
Um homem vestido de bispo tenta se defender enquanto recebe tapas
e pontapés de... não sei bem o nome... uma garota de programa? Uma Drag
Queen? Uma travesti? Sinceramente, não me importo. Mas a cena é bonita de
se ver.
Um grita em italiano, tenta se defender e se esconde atrás dos
policiais.
A outra grita em espanhol, bate com a bolsa nele, depois no policial
que fica entre eles, depois no bispo de novo.
— No se puede comer sin pagar! — o rapaz maquiado e peruca acaju
com ondulações belíssimas, diga-se de passagem, bateu tão forte no policial
que teve que fazer uma pausa, todos os homens foram para cima. — Dame el
dinero, su maricona traviesa!
— Em inglês, por favor! — um dos homens da lei ordenou.
— O que é isso agora? Aqui? — Patrick entreabriu a porta e deu um
último olhar de relance em mim.
O que eu poderia fazer? Algemada e acorrentada à cadeira? Não me
restava muitas opções. Só levantei os ombros e continuei a acompanhar
aquele espetáculo.
O homem de fé deitou em cima de dois policiais, um desmaio sem
fim, parecia até que estava convulsionando.
— Asquerosa hipócrita, muy macho para pedirme comer y poco
macho para pagar?
A bolsa rodando, policiais confusos, sacando suas armas e um chefe
de polícia que foi conferir o circo.
Afinal de contas, o que poderia dar errado com uma mulher em sua
sala, acorrentada e encurralada? Até porque... se eu saísse pela porta, daria de
cara com todos aqueles policiais...
Mas quem disse que eu precisava sair pela porta?
Esperei que Patrick desse mais alguns passos e tentasse se colocar
entre a cena de novela mexicana, levando um tabefe tão forte do bispo que
não achou outra saída a não ser dar uma chave de braço no homem e deitá-lo
no chão.
Era a minha chance.
Livrei-me das algemas e correntes o mais rápido que pude, mas
mantive a posição de ainda estar presa. Assim, quando Patrick me olhou, lá
de fora, notou que eu estava na mesma posição de antes.
Ao dar-me as costas, revirei com os olhos cada lugar daquela sala
para ter certeza: a mesa, as gavetas de arquivo, os quadros... o mancebo de
madeira escura em que o chapéu, sobretudo, guarda-chuva e bolsa estavam
pendurados.
Na ponta dos pés corri até ele e tateando os bolsos internos do
sobretudo, procurei o que ficava mais embaixo e passava imperceptível pelo
toque. Soltei um pequeno rastreador com escuta lá e andei nas pontas dos pés
para abrir a janela.
Deixei o frescor de Nova York soprar em meus cabelos e ainda tossi
um pouco daquela poluição na sala do chefe de polícia.
Ainda tive tempo para dar uma última olhada de relance no rapaz que
tirou a peruca e começou a girar como se fosse uma arma ou sei lá o quê e
deixou todo mundo ainda mais tenso e em posição de confronto.
Patrick, ao perceber que aquilo estava mais estranho do que um dia
comum onde um cliente deixa de pagar por serviços sexuais, olhou para a
parede de vidro.
Viu-me dar-lhe tchau.
Ele ainda correu para me alcançar, mas já era tarde demais.

Shawn Cavalieri

Yohanna mal conseguiu dormir à noite. Tão eufórica por ter


conhecido a avó e a bisa, não parou de falar delas nem por um instante
quando eu a coloquei na cama.
— Puxa, então é verdade mesmo, eu tenho uma família!
— Tem sim. A maioria dela, hoje em dia, está na Itália — digo e após
analisar um pouco, completo. — Vamos lá em breve.
— A Itália é longe?
— É sim, filha, agora dorme.
— Longe tipo o trabalho da mamãe?
— Bem mais longe — beijo sua testa e a cubro, conserto sua postura
na cama e pego a boneca dela para colocar na mala.
— Não toque em minha mala! — ela reclama. — Eu guardo coisas de
menina, você não é menina!
Concordo com seu protesto e bocejo, deixo a boneca em cima da
penteadeira e apago a luz, deixo a porta entreaberta.
— Tem certeza que não quer contar mais uma historinha? —
Yohanna estica a cabeça.
— Já contamos três historinhas e já passa da meia noite. É hora de
dormir.
— Amanhã vamos passar o dia inteiro com a vovó? Em família?
— Vamos sim — me despeço dela e volto para o corredor.
Na verdade, estivemos em família todo esse tempo.
Antes de ir para outro quarto de hóspedes, passo na cozinha para
beber um copo d’água e vejo a minha mãe sentada, uma xícara exala não
apenas um filete de vapor, mas o fino aroma de alecrim.
Em silêncio, pego o copo, encho-o e dou meia volta, pronto para ir
dormir.
— Como você está? — a minha mãe quebra o silêncio.
— Estou bem, mamma — respondo com afeição, viro o rosto para
fitá-la e faço um aceno de despedida.
Ela não me deixa ir.
— Como estão as suas costas?
— Do mesmo jeito de sempre.
A minha mãe toma tempo, beberica o chá, depois olha para a noite lá
fora, não sei se observa a lua ou os homens armados, o dobro deles do que é
comum em sua residência.
— Quem é a mãe dela? A Fay?
— Não, mamma.
— Por que não me contou da existência de uma filha todos esses
anos? — mesmo que sua voz sai suave, chega amarga e com raiva.
— Eu não sabia da existência dela — giro o corpo lentamente em sua
direção e enfim a encaro.
Está boquiaberta, não esconde a surpresa dessa nova informação.
Mantemos contato sempre, mas apenas tratamos do essencial.
Os momentos em família morreram junto com os meus dois irmãos e
eu sempre fui o isolado, quieto e invisível na mesa.
Machucava-me profundamente cogitar que ela sofria por minha culpa.
Eu insisti em Patrícia todos esses anos enquanto ela preferiu o silêncio
por respeito, ordens ou sei lá o quê do meu pai.
E não contente em ter uma filha sumida, teve de enterrar mais dois
filhos. Essa não é a ordem natural das coisas. Isso é cruel para um pai ou uma
mãe. Assim como é cruel para um filho ter de enterrar seu pai. Assim como
mais cruel ainda era o silêncio e o profundo vazio que ficou entre nós dois
durante todos esses anos.
— Você a aceitará? Ou ela é apenas uma bastarda que será esquecida?
— minha mãe finge uma distância emocional que ela e eu sabemos que é
uma máscara.
Ela não é assim.
Giovanna Cavalieri sempre foi uma leoa.
Destemida, altiva, voraz, corajosa.
Tão inconsequente que foi capaz de entrar na frente do marido para
impedi-lo de espancar o filho e acabou sendo espancada, em silêncio, em seu
lugar.
Depois daquele dia eu decidi que em hipótese alguma ela sofreria de
novo, não dessa forma.
Todas as vezes que o meu pai me flagelou, fiz silêncio e suportei a
dor, porque a minha mãe não era forte o suficiente para ouvir suas crias
sofrerem. Mas era forte o suficiente para ser flagelada em meu lugar.
E eu não podia permitir isso.
— Yohanna faz parte da família que nos resta, mamma. Quem sabe
esse não seja o nosso recomeço? Ter uma criança em casa ilumina todas as
coisas...
— Não seria melhor enviá-la para a Itália? Tirá-la do meio dessa
guerra e protegê-la num lugar seguro?
— A mãe dela e eu somos o lugar seguro propício para protegê-la. É
melhor que ela esteja entre nós, cresça entre nós, aprenda conosco. Passei
tantos anos sem saber da existência dela, mas agora... é como se eu não
pudesse mais viver sem pensar, por um minuto sequer, na minha vida sem
sua presença. Nunca consegui entender o laço de proteção que a senhora
demonstrava por mim, mas agora posso sentir, por ela.
Terminado o chá, ela concordou em silêncio e voltou a enamorar-se
da noite.
— Ela pode ficar aqui enquanto finalizo alguns assuntos?
— É claro que pode — disse num tom ofendido. — Muito melhor do
que ficar naquela casa cinza e sem vida.
— Estamos transformando a casa em um lar... — balancei a cabeça
num gesto positivo.
— Quem é a mãe dela?
Suspirei.
Como apresentar ou descrever Layla?
— A mulher dos meus sonhos. Incrível demais para ser real. E real
demais para me fazer sentir vivo. Perigosa, destemida, tão astuta...
— Imagino que ela tenha nome.
— Layla.
Surpresa e processando as informações, ela deslizou a palma da mão
na mesa e se levantou para lavar a xícara e tudo o que havia usado para fazer
o chá, desde a faca que cortara o alecrim até o bule.
— Quando chegamos aqui e Yohanna conheceu a nonna, ouviu do
que ela a chamou?
Silêncio.
Um profundo e solene silêncio, acompanhado do cair da água da
torneira e as mãos longe das peças a serem lavadas. Iluminada pela noite,
Giovanna Cavalieri ficou paralisada.
Não sabia se era o momento certo, mas depois de tantos anos, acho
que merecíamos falar sobre isso.
— Eu te peço perdão... — ela abaixou o rosto.
— Perdão?
A respiração embargada veio acompanhada do rosto levemente
umedecido pela lágrima que escorreu, silenciosa, sem alarde, parecia que
estava guardada por pelo menos uma década.
— Quando você perdeu sua irmã, Shawn... eu perdi minha filha.
Ela admitiu.
Após anos de silêncio, sumiço de fotos, roupas, quarto, o nome que
sequer poderia ser dito ou qualquer vestígio que provasse sua existência,
enfim ela admitia.
Patrícia não era invenção da minha cabeça. Ela era real. E ela havia
desaparecido.
— E o seu pai... ele exigiu que seguíssemos em frente para que a
família se mostrasse forte e perfeita.
— Eu acho que ela teria sido forte e perfeita o suficiente caso tivesse
se desdobrado para achá-la. Pareceu que, não satisfeitos com o sumiço de
Patrícia naquele dia, vocês fizeram com que ela sumisse por anos.
Guardei o restante das palavras que tinha apenas para mim.
Percebi que seria rude e ela não merecia ouvir nada daquilo, ela não
era a culpada, eu não deveria jogar todo o peso e culpa em suas costas.
— Perdão — foi a minha vez de pedir.
— Não há pelo que pedir perdão, você está certo — ela admitiu com
pesar.
Deixamos o silêncio mergulhar na cozinha. Deveria mergulhar,
inclusive, na pia que parecia um dilúvio. A torneira estava aberta há minutos
e nada havia sido lavado, ela ficou paralisada todo esse tempo.
— Mesmo sem nosso apoio e total descrença... você não se cansou de
procurá-la? — ela perguntou.
— Todos precisam de um motivo para viver e Patrícia foi o meu
motivo por todo esse tempo. Eu irei encontrá-la, mesmo que eu morra no
segundo seguinte, a minha vida só fará sentido quando eu recuperá-la e
garantir que ela fique bem e possa viver livre, mamma.
— Espero que possa me perdoar algum dia.
Tive de ir até ela e segurar em suas mãos.
Ela evitava me encarar e sempre que me encarava, era como se ainda
me enxergasse como o menino quieto, incapaz de obedecer às ordens do pai e
ciente de que tinha uma grande missão em vida.
A família nunca morre até que o seu último membro lute bravamente
por ela.
Este sou eu. Nu, despido de meus privilégios, de minhas loucuras e
vontades.
Com o tempo eu percebi que não sou apenas aquilo que conquistei,
mas tudo o que me foi negado e arrancado.
E eu me orgulhava, pra caralho, do que me tornei.
— Perdoá-la por ser uma mãe forte que pensou no bem-estar de toda a
família? Que teve a coragem de apanhar por mim? Perdoá-la por ter se
dedicado todos os dias da sua vida por seus filhos, não ter dormido para
cuidar deles e se transformar em mãe, professora, conselheira, médica,
psicóloga, cozinheira e tudo o que eles precisavam?
Ela soluçou.
— Mulher boba — tive de dar-lhe um cascudo bem fraco, como fazia
com Ethan. — Você foi o meu maior exemplo de força e amor, mamma. E
por imitar o seu exemplo eu espero que a minha filha possa entender o real
significado da família.
Continuei a segurar suas mãos e me ajoelhei. Levei suas mãos até a
minha testa, depois o topo da cabeça e fiquei em silêncio por alguns
segundos.
— Eu não poderia ter nascido filho de outra mulher. Eu não poderia
ter crescido filho de outra mulher. Eu não poderia ter sido disciplinado,
castigado e amado como filho de outra mulher. Senão eu não seria o que sou.
E por isso, eu seria infeliz.
Tive de abraçá-la e beijar sua testa.
Nunca fizemos isso em anos.
O meu pai nos proibiu de ficar mais do que um minuto sozinhos,
abraços ou quaisquer sinais de afeição eram sinais de fraqueza e podiam
desviar os filhos para se tornarem emocionais demais.
Homens da máfia não podem ser emocionais.
Homens da máfia vivem e matam pela família e não tem tempo para o
amor.
O abraço que Layla me deu, anos atrás, derrubou o meu muro de
Berlim.
O seu retorno em minha vida foi o que ergueu a ponte para que eu
pudesse... não entender, porque é tolice entender sentimentos, mas me
permitir sentir.
Aquele longo e caloroso abraço era resultado de um buraco realmente
muito grande do prédio realmente muito alto que eu planejava construir, sem
saber se era forte o suficiente para suportar o processo.
— Agora vá descansar, por favor. Eu lavo os pratos — pedi.
Capítulo 28
Dias antes
Layla

— Queria me ver?
Era o meu primeiro dia de trabalho como Consiglieri do mafioso
mais perigoso do país, então vesti-me apropriadamente com um vestido preto
de parar o trânsito e estudei o livro de anotações do antigo Consiglieri para
entender onde cada família tinha poder nos Estados Unidos e como atingi-los
em cheio.
O meu pouco inglês me ajudou a compreender e chegar a algumas
conclusões, aproveitei que Shawn me chamou em seu escritório para dividir
minhas observações.
— Quando eu não quero te ver? — ele retrucou, seus olhos vigiaram
meus braços desnudos e o vestido caro, depois voltou sua completa atenção
para o que lia.
— Devo me sentar?
— Feche a porta, por favor — Shawn rubricou alguns documentos
que levavam carimbos feitos por cera de vela.
Avaliei o longo corredor pela última vez e fechei a porta.
A primeira coisa que vi, quando retornei à posição que o encarava, era
o quadro. Tentei segurar o riso e poupar os comentários, graças a Deus ele já
havia deixado de lado os papeis na mesa.
— Fiz algumas anotações sobre como ocupar os chefes da máfia
enquanto termino o que preciso fazer.
Ele anuiu e estendeu a mão.
Entreguei-lhe o livro de capa preta, uma fita vermelha marcava a
página que continha minhas observações.
— Nada mal — ele avaliou, fechou o livro e o jogou na mesa. — Isso
quer dizer que está pronta para me deixar?
Deixá-lo? Não sei se seria capaz.
— Eu te disse que tenho assuntos inacabados e que preciso resolvê-
los.
— E certamente não me contará sobre o que se trata...
— Agora não. Mas acho que posso dizer algo, finalmente.
— Estou ansioso para ouvir.
— Há uns meses conheci um rapaz.
O semblante dele mudou no mesmo instante.
Franziu as sobrancelhas e testa, semicerrou os olhos levemente e
cruzou os braços. Eu não precisava de nenhum outro sinal de que ao ouvir o
nome que sairia da minha boca ele avaliaria quando e como matá-lo. Mas
esse não entraria para as estatísticas.
— Ítalo.
— Esse é italiano? — não escondeu a cara de mau.
— Sinceramente não sei. Mas posso dizer que no dia em que o
conheci, deixei algo valioso com ele.
A expressão só piorou.
— O chip, que estava em meu pescoço.
— E porque diabos você deixou o chip de seu pescoço com ele? Foi
ele quem tirou? Por que se foi, eu vou matá-lo, aquilo estava fodidamente
infeccionado...
— Eu tirei. Após fugir do cativeiro, eles sempre davam um jeito de
me encontrar. Sempre. E nunca carregamos coisas eletrônicas conosco a não
ser...
— O chip — ele chegou a mesma conclusão que eu muitos meses
atrás.
— Ítalo me ajudou. Deu-me seu cartão de crédito e dinheiro para que
eu pudesse me abrigar em vários lugares em Nova York... ele procurava algo
ou alguém... e disse que precisava de tempo para abrir o chip e extrair o que
ele tinha.
— E ele conseguiu?
— É o que quero descobrir. Por isso terei de deixá-lo, só por uns dias.
E quando nos encontrarmos novamente, eu te contarei todos os meus
segredos.
— Todos? — não era bem uma voz de incredulidade, havia um quê
de fascínio também.
E era isso em Shawn que me deixava boba. Ele acreditava em mim e
era capaz de aguardar que eu estivesse pronta para dividir partes do meu
passado sombrio.
O silêncio reinou entre nós, pude avaliar suas vestimentas então.
Estava particularmente bonito, camisa social branca e suspensórios, um
blazer preto que aparentava de longe ser muito caro, de perto parecia que
valia ainda mais. Os cabelos bem aprumados e a barba por fazer.
— Está todo arrumado assim para trabalhar em casa? — provoquei.
A primeira reação que vi foi a risada, em seguida dei um passo para
trás quando o braço dele derrubou tudo, absolutamente tudo o que estava na
mesa, o laptop, a impressora, os documentos que assinara, os troféus
dourados e medalhas em uma caixa de madeira escura onde também havia
três relógios caríssimos e anéis de todos os tipos.
Levei a mão ao peito, ofegante. O que era aquilo?
— Estou todo arrumado para você tirar a minha roupa — ele suspirou
e me chamou com o dedo indicador. — Vem cá.
Segurei sua mão e ele me puxou com força em direção ao seu corpo,
fazendo-me passar por todo aquele caos no chão até encontrar seu terno.
O impacto entre os corpos foi forte. Em seguida fui erguida do chão e
repousada na mesa, acompanhei o som do zíper do vestido descer sem muita
pressa e pude, por fim, contemplá-lo de perto.
— Como estou para a ocasião?
— Qual a ocasião?
— O seu primeiro dia de trabalho — Shawn falou de modo muito
orgulhoso. — Como já fez boa parte do trabalho de forma hábil, esse é o seu
segundo trabalho.
— Te dar prazer? — chutei.
— Sentir prazer.
Ele cobriu as janelas com as cortinas com um único puxão e em
seguida arrancou a gravata do pescoço e avançou em minha direção, feroz.
— Você gosta de fugir, não é? Quero ver se é capaz de se soltar
agora.
O que ele estava aprontando?
Antes que eu preparasse a réplica, estava com as mãos atadas pela
gravata e deitada com as costas na mesa.
Encarei-o me rodear, como um predador faz com a caça antes de
devorá-la.
— Espero ser boa nesse trabalho — murmurei.
Shawn segurou firme na barra do vestido caro e o levantou sem
sutileza, revelando minhas coxas. Espalmou a minha bunda com sua mão
tatuada e em cima da marca de sua palma cobriu com beijos e um longo
chupão.
A barba por fazer roçou em minha pele, imediatamente fechei os
olhos para saborear a sensação e me permitir ficar molhada com a boca
carnuda e sedenta que entregou ao meu corpo exatamente o que ele precisava
no momento.
Um calor latente apossou-se de mim e eu queria poder estar com as
mãos livres para arranhar a mesa com as unhas.
Shawn beijou e chupou os meus lábios, seus olhos bem sérios e
profundos me encarando como um devasso depravado.
— Esse é o seu local de trabalho...
— Shhh... estamos trabalhando — ele se ergueu, majestoso e inseriu
um dedo em mim bem devagar, enquanto o polegar massageava no lugar
certo.
Segurei bem o grito que queria dar ao sentir novamente a barba dele
percorrer toda minha pele até chegar na parte interna das coxas para dar lugar
a sua boca faminta. Não havia outra força de corresponder ao toque dos
lábios dele em minhas carnes, senão com profundos suspiros e tentar acalmar
o coração.
Era tarde demais. O coração já estava no auge da maratona.
— Vou te recompensar por trabalhar tanto, bebê.
— Ah, você já me recompensa demais — murmurei, sentindo suas
mãos contornando meus quadris.
Para novamente fazer minha pele arder com a palmada e em seguida
chupá-la ardentemente.
— O que posso fazer? Só penso em te recompensar, todo o tempo.
Shawn abriu o zíper e ajeitou o pau duro para fora da calça social, não
escondi o olhar de desejo e aguardei o que ele iria fazer.
Poucas coisas se assemelham ao sentimento de ter seu corpo
envolvido pelos braços fortes de seu amado. Ainda mais pela cintura,
puxando em direção ao seu corpo, direto para o abate.
Senti o pau esfregar forte entre minhas coxas e suspirei de imediato, o
coração acelerado, a boca entreaberta buscando por ar.
— Você vai ter pena de mim? — encarei-o.
Shawn mordiscou o lábio inferior e moveu a cabeça de um lado para o
outro.
— Não.
Fechei os olhos ao sentir ser virada de lado e o vestido deixar à
mostra a minha bunda.
— É assim que eu gosto — tive de admitir.
Minha coxa foi agarrada pela mão dele e num único puxão do meu
corpo, Shawn foi capaz de já nos deixar encaixados, prontos para nosso
momento.
Seus olhos permaneciam conectados aos meus e de alguma forma
nossa respiração também parecia seguir um mesmo ritmo.
Dessa vez não fechei os olhos ao tê-lo dentro de mim, apenas apreciei
seu jeito durão e ar selvagem admirando-me como se houvéssemos apenas
nós naquele escritório.
Ele permaneceu parado, segurou com jeito em mim e me puxou para
si até devorar-me a ponto de me fazer querer gritar e depois me empurrou a
ponto de me fazer implorar por mais.
Suspirei, ofegante, olhando-o de um jeito selvagem também.
— Me faça sua — pedi.
Seus dedos se agarraram à minha pele e senti sua força me puxar de
volta em direção à sua cintura e novamente meu corpo ardeu de prazer e
volúpia, gemi com aquela sensação interminável, estocada após estocada,
com força, de um jeito bruto que fez a mesa tremer e bater contra a parede
derrubando quadros, troféus, livros...
Gemi tão alto que Shawn, sem tirar o pau de mim, pegou-me em seu
colo e calou-me com um beijo. Manteve meu corpo indo e vindo com
intensidade para engoli-lo e depois desejar que ele viesse mais ardente e
feroz.
Ele fez isso sem parar até me fazer ficar louca, entorpecida, o corpo
anestesiado.
Fui deitada, dessa vez de bruços na mesa e trinquei os dentes ao sentir
seus dedos apertando e massageando minhas nádegas para depois abrir bem
minhas pernas.
— Você sabe que já é minha — ele rosnou e avançou.
Atualmente
Shawn Cavalieri

O choro de Yohanna me despertou.


Imediatamente puxei o roupão vermelho ao lado da cama e o vesti,
cheguei à porta do quarto em que ela dormia ao terminar de amarrar a peça ao
corpo.
— Filha? — abri a porta e entrei.
Ela estava sentada na cama, diminuiu a altura que chorava ao me ver,
ainda assim, estava abraçada ao cobertor, praticamente se escondia.
Vasculhei todo o quarto em busca do que a fazia chorar, mas tudo
parecia perfeitamente em ordem.
Liguei a luz, por fim, e fui em sua direção, sentei-me na fresta da
cama e repousei a mão em cima de suas pernas.
— O que houve, filha? Teve um pesadelo?
Tudo o que a pequena fez foi se encolher ainda mais e cobrir a cabeça
com o cobertor, mas tirou a mãozinha para fora e segurou em minha mão.
— Não está pronta para falar?
Ela fez um sinal negativo com a cabeça e continuou a soluçar.
Sentei-me de forma mais espaçosa na cama e a peguei em meu colo,
coberta do jeito que estava. Devido ao sono, repousei as costas na parede e
imediatamente dei um salto para frente e arregalei bem os olhos, a dor foi
como a pontada de uma faca entrando em minha carne.
Yohanna precisou de tempo para se acalmar e eu lhe dei todo o tempo
do mundo para que estivesse pronta para conversar comigo.
Minutos após ela tirou a cabeça do cobertor, o rosto todo molhado em
lágrimas, os olhos inchados, tinha uma expressão cansada e assustada.
Asseei seus cabelos o quanto pude e a abracei contra o peito.
— A minha cabeça dói — por fim ela falou.
Toquei na testa para conferir a temperatura, depois o pescoço. Não
estava com febre. Também não me lembrava de qualquer coisa que ela
tivesse comido para sentir qualquer tipo de dor ou incômodo de madrugada.
— Você bateu a cabeça em algum lugar?
Ela fez que não.
— Papai — ela me chamou.
Faltava-me ar só de ouvir essa palavra. Mas não era mais o assombro
do peso dela, era pelo simples fato de que eu sentia como se me entregassem
um troféu cada vez que a ouvia sair da boca da minha pequena.
— Às vezes quando eu durmo a minha cabeça dói... eu ouço um
barulho... não sei explicar... tuuuuuuuuu — tentei não me divertir com a
onomatopeia e me concentrei no que ela dizia. — Minha cabeça faz um
chiado... eu vejo monstros... e eles me veem...
Arqueei a sobrancelha e novamente conferi a sua temperatura.
Ouvindo coisas e vendo coisas sem febre?
— Não seria um pesadelo, filha?
Ela fez que não.
Bem... isso só podia significar uma maldita coisa...
— Eu tenho medo de monstros — ela se escondeu na coberta
novamente. — E o barulho que eles fazem em minha cabeça... — sua voz
saiu abafada.
Deixei que ela mesma saísse de dentro do abrigo que a coberta lhe
remetia e a sentei na cama, me levantei em seguida e fui até a janela. Olhei
por ela para procurar vestígio de algo ou alguém, mas não havia nada, apenas
o silêncio de uma noite fria e homens circulando ao longínquo.
Fui em direção a saída do quarto calmamente.
— Papai... — Yohanna me chamou.
Apertei o interruptor e desliguei a luz do quarto, imediatamente ela se
escondeu debaixo do cobertor.
— Eles aparecem quando tudo está escuro... — sua voz se misturou
com o choro.
Voltei para a cama e me sentei da mesma forma que estava, procurei a
mãozinha dela e segurei firme e permaneci em silêncio.
Yohanna chorou um pouco mais, deixei que expressasse suas
emoções o quanto precisasse. Quando enfim ela estava exausta e o
sentimento já havia sido liberado, ela deu um jeito de deixar só os olhos para
fora da coberta, o resto do corpo todo escondido, inclusive nossas mãos.
— Monstros vêm no escuro para assustar...
— Filha — apertei sua mão e fitei seus olhos assustados. — Todos
nós somos monstros.
Uma criança numa situação dessas espera tudo, menos ouvir isso.
Yohanna abriu bem os olhos no início, deixou a cabeça toda escapar para
fora, revelando seus cabelos meio bagunçados e meio asseados. A expressão
era de completa confusão e eu não esperaria nada diferente.
— Nós somos monstros? — ela repetiu a última parte, chocada.
— Com o quê esses monstros te assustam?
— Eles são muito feios e querem me fazer mal... nós somos esses
monstros, papai?
Fiz que não.
— Nós somos outro tipo de monstro, filha. Nós somos aqueles que
também assustam eles, mas com a nossa beleza e fazendo o bem.
Não era o meu caso, é claro. Mas era o dela.
De confusa para curiosa, Yohanna encostou os cotovelos em minhas
coxas, o queixo no dorso das mãos e me encarou surpresa.
— Eles sentem medo de nós e vem de noite, no escuro, quando nos
sentimos mais frágeis para nos assustar. É só isso o que podem fazer, nenhum
outro mal — acariciei sua cabeça, depois os cabelos. — Eles sabem que
somos muito mais poderosos que eles, por isso esperam nos ver
desprotegidos e fracos para atacar. E tudo o que conseguem é nos assustar.
Fiz um longo cafuné na cabeça dela e me levantei, estendi a mão e ela
segurou.
— Não seria mais seguro ligar a luz? — ela perguntou quando saímos
do quarto.
— Agora não — fui firme.
Descemos para a cozinha e a sentei em uma cadeira, assim que agarrei
o que precisava, voltei para perto dela.
Yohanna fitava a casa escura, as sombras a assustavam, o mínimo
movimento lá fora a fazia tremer.
Roubei sua atenção quando risquei um fósforo que iluminou e
aqueceu os nossos rostos e deu um novo ar para a cozinha: novas sombras
surgiram e alguma iluminação também.
— Um filete de luz, mesmo pequenininho, é capaz de assustá-los. Um
pouquinho de luz muda tudo. E é isso o que você deve usar contra eles.
— Devo acender fogo de madrugada?
Deus pai senhor da misericórdia! Só podia ser minha filha mesmo, já
queria bancar o Nero e incendiar Roma.
— A sua luz está aqui, meu amor — pousei a mão nela.
— No peito?
— Dentro de você.
— É cocô, papai — ela fez uma careta.
— Tem cocô também — tive de rir. — Mas tem muita luz, muita
beleza e muito poder. E os monstros vão passar a vida toda, não só agora, em
busca de apagar a sua luz. Eles vão sempre te perseguir.
Ela cobriu a boca.
— Eles crescem conosco. Quando somos pequenos, eles são pequenos
também. E quando somos grandes e fortes, eles nos acompanham e ficam
grandes e fortes e tentam nos assustar de outras formas.
Ela continuava assustada e com a boca coberta pelas mãozinhas.
— Mas a nossa luz, a nossa beleza e poder também crescem aqui
dentro, conforme crescemos aqui fora. E eles vão tentar, toda a vida,
diminuir, diminuir e diminuir a sua luz, beleza e poder para que você se sinta
insegura, impotente e fraca. Mas eu vou te contar um segredo.
Ela tirou as mãozinhas da boca e segurou na borda da mesa, me
encarando.
— Chegue mais perto — pedi.
Yohanna esticou o rosto o máximo que pode, quase ficou de pé na
cadeira, mas a impedi. Aproximei-me de seu ouvido e sussurrei:
— Eles nunca poderão apagar a sua luz, beleza e poder — risquei
um novo fósforo quando me afastei e fiquei admirando os olhões dela
acompanhando a pequena labareda.
— Mas o fogo apaga quando o palito apaga...
Risquei outro fósforo.
E outro.
E mais outro.
— Enquanto você estiver viva, meu amor, vai perceber muitas vezes
que monstros tentarão apagar a sua chama. Mas você vai aprender um jeito
de riscar ela e acender de novo. E ela vai brilhar cada vez mais forte. E mais
forte. Até que um dia...
Afastei-me e alcancei o interruptor da cozinha. Yohanna apertou os
olhos quando a luz a atingiu em cheio, mas precisou se acostumar. Balançou
as perninhas calmamente na cadeira e sorriu ao me ver aproximar.
— Um dia a sua luz vai ocupar tanto espaço, mas tanto espaço, que os
monstros terão de se esconder nas sombras que restaram. E olhe ao redor.
Ela olhou para toda a cozinha.
— Não restou quase sombra nenhuma para vermos. Elas ainda
existem, mas a luz é mais forte.
— A luz também faz sombras quando ilumina algum objeto, não é,
papai?
— Sim, mas essa conversa nós deixaremos para outro dia — beijei
sua testa e a puxei para o meu colo. — Se eles podem te assustar com as
armas deles, meu amor, é porque eles se sentem ameaçados e querem te
distrair, fazendo com que você se esqueça do seu real poder. Lembre-se, a
sua melhor parte mora dentro de você. E é com essa parte que você pode
derrotar alguns monstros... e conquistar outros...
Ela concordou.
— Você é um monstro muito bonito — ela disse.
Não poderia negar, seria feio. Recebi o elogio de peito aberto e a
repousei sentada na mesa.
— Papai a minha dor na cabeça e esse barulho vão sumir?
— O papai vai dar um jeito nisso — garanti.
— Ok, obrigada.
— Quem quer chocolate quente? — virei-me para o fogão.
— Eu!!! — ela disse animada.
Capítulo 29
Layla

Eu planejei tudo até esse momento.


Cada detalhe, cada passo, os encontros e desencontros, ser a caça e
também a caçadora, tudo esteve sob meu controle.
O que deveria ter feito? Aparecido para Shawn e entregar a minha
filha de bandeja sem saber se ele era confiável? Se ainda era o homem que eu
amava? Ainda mais tendo ciência de que não apenas a polícia de Nova York
e homens poderosos estavam atrás de mim, mas seus homens também!
Só precisei de um momento naquele dia no metrô para gravar bem a
cara deles. Assim como fiz Patrick acreditar que eu me infiltraria no mundo
do poderoso mafioso para descobrir suas fraquezas e destruí-lo.
Agora posso dizer que escolhi o meu lado. E estou muito tensa.
Não há mais nada planejado agora. Tudo improviso.

Seis meses atrás

A minha nuca doía e a cabeça dava voltas. Cometi um grande erro, eu


sei, mas eu precisava dar um jeito naquilo, senão eles continuariam a me
encontrar cada vez que eu fugisse.
Deixei Yohanna escondida em um lugar seguro e não perdi tempo
para ir conhecer a famosa Madame Lilith.
Patrícia foi quem falou dela.
Disse que era uma mulher misteriosa e poderosa, que frequentemente
frustrava os planos dos donos do mundo e acolhia as mulheres perdidas de
Nova York.
Estava resoluta em não procurá-la, mas ao tentar tirar aquele negócio
de mim, algo deu errado. Eu precisava de seu socorro, nem que fosse para ser
enterrada em um lugar digno e garantir que a minha filha nunca fosse
capturada.
A porta do Madame Lilith estava fechada, mas não trancada.
Entrei e na ponta dos pés segui sorrateiramente até encontrar um
jardim, onde três pessoas conversavam. A mais velha, de cabelos aprumados
em um coque e vestido vermelho, certamente era a Lilith. Os outros dois,
uma mulher negra com cabelo black power bem chamativo e um rapaz de
cabelos loiros platinados eu não fazia ideia de quem eram.
Parei um segundo, para respirar e ouvir a conversa.
— Ouça a voz da razão — Lilith pediu.
— Razão? — o rapaz levou a mão ao peito. — O que há de razão
nisso tudo? — a outra mão foi para a cintura.
— As peças demoram para se encaixar, você sabe. Há um motivo
pelo qual...
— Não me interesso muito pelos motivos — a mão que estava no
peito subiu um pouco. — Interesso-me pelo meu pescoço. O fato do
Abramovisky sumir não te assusta? Não. Certamente não. O que te assusta é
perder o contato primário com aquela família e eu não serei a ponte.
Não sei exatamente sobre o que falavam, mas o rapaz parecia
resoluto.
— Um Embaixador não pode ficar sem Zelador, Ítalo. E eu irei
recomendá-lo...
— Não vai não — Ítalo esticou o dedo indicador e fez um sinal
negativo com ele. — Eu sei que ela quer que o neto se case. E eu também sei
o que ela costuma fazer com esposas que saem do controle. Lilith, eu te
imploro, você me conhece, eu sou o Zelador mais indisciplinado do Grande
Templo. Eu. Não. Posso. Treinar. Um. Príncipe.
— Não pode ou não quer? — a mulher retrucou.
— Não gosto de acidentes de carro — ele rebateu.
— Foi só uma vez — Lilith entortou a boca e olhou para a moça de
cabelo volumoso.
— Eu não posso. Eu não quero. E eu não serei Zelador de um
príncipe. Está decidido. Eu vou encontrar Diego Abramovisky e solucionar
esse caso, mas até lá, não coloque esse rapaz como minha responsabilidade,
principalmente em ajudá-lo a escolher uma esposa. Irinna — ele se voltou
para a moça negra e tocou em seu braço. — Por favor, me ajude, eu te
imploro.
Não sei se essa era a hora de entrar em cena. Mas senti que estava
prestes a desmaiar.
Dei alguns passos à frente e entrei no campo de visão da Lilith, que
não ficou espantada ou assustada ao me ver, apenas veio em minha direção,
correu no fim, e a última visão que tive foi ser amparada por seus braços.
Então apaguei.

— Pobre criança...
A visão veio embaçada de início, limpei as lágrimas dos olhos e
pisquei incansavelmente até que minha visão estivesse límpida, clara e
impecável.
A cabeça já não doía, tampouco escutei aquele zunido terrível no
ouvido que já havia se tornado comum.
Tateei o pescoço e depois a nuca, senti o curativo e tive as mãos
puxadas pelo rapaz de nome Ítalo, que me encarou bem de perto e
severamente.
— Quem é você? O que ouviu? Por que está aqui?
Pisquei os olhos e encarei o extenso quarto, repousei as mãos na cama
extremamente confortável e encontrei Lilith sentada numa poltrona logo ao
lado da cama, a Irinna estava de pé, logo atrás, mexia sem parar em um
laptop.
— Eu me chamo Layla — falei.
Ítalo moveu o rosto em direção à colega que bateu os dedos no
teclado e retornou com um aceno negativo. Então ele caminhou em sua
direção, puxou o pequeno chip e o trouxe bem diante dos meus olhos.
— Quem colocou isso em você? — ele não deixou de ser severo.
Estava aí uma pergunta que eu não saberia responder.
Todas nós que vivíamos no porão tínhamos aquilo, nunca nos
lembramos quando foi colocado ou quem colocou, só tínhamos.
— Não consigo ler. Parece idêntico ao que usamos no Grande
Templo, mas... — ela mostrou sua decepção. — Quem fez isso queria que se
passasse por algo do Grande Templo. O radar até responde ao sinal — ela
suspirou. — Mas não consegue ler.
— Ainda não consegue ler — Ítalo disse entredentes.
— Eu preciso de ajuda — pedi.
Não tinha tempo para perguntar do meu estado de saúde, se iria
sobreviver após ser louca o suficiente para arrancar aquilo de mim ou se eles
me levariam a sério. Eu só precisava dizer.
— Diga, criança — Lilith se levantou e veio até mim.
Seus olhos verdes eram muito calorosos e gentis e antes mesmo de
dizer o que tinha para dizer, senti conforto e a sensação de ser entendida e
protegida. Coisa que senti poucas vezes na vida.
— A minha filha e eu, assim como muitas mulheres, crianças e até
mesmo alguns homens... nós fomos vítimas de algo terrível e precisamos de
ajuda. Não... não importa o quanto a minha filha e eu fujamos, eles sempre
nos encontram...
— Eles quem?
Lilith segurou em minhas mãos e se sentou na cama.
— Eu não sei. Eu não sei, também não sei exatamente onde estão.
Nós conseguimos fugir de um porão... mas uma de nós ficou lá para impedir
que eles viessem atrás... quando retornei ao lugar... era apenas cinzas. Não
existia mais, a mansão, a propriedade, as árvores... tudo virou... pó...
Lilith olhou de mim para Ítalo, que deu-lhe as costas e acenou alguma
coisa para a outra moça que deu de ombros.
— Precisamos resgatá-la. Por favor, eu preciso de ajuda...
— Calma, criança, você está bem. Acabou de passar por um
esgotamento mental, precisamos fazer alguns exames para garantir que você
está bem. Tirar um chip desses da forma que imagino que fez, pode resultar
em sérios danos — sua voz era tão doce e suave que só me fazia pensar em
minha mãe quando conversava comigo, quando eu ainda era menina.
— Não temos tempo... eles...
E apaguei de novo.

Puxei todo o ar que meus pulmões aguentaram e dei um pulo da


cama, os olhos arregalados, as mãos tateando a cabeceira da cama e os
travesseiros.
— Yohanna... — chamei pela minha filha, assustada.
— Yohanna é o nome da moça que ficou para trás? — Irinna surgiu
diante de mim.
Fiz que não.
— Ainda não conseguimos descriptografar e ler — Ítalo reclamou,
colocou o chip em uma caixinha preta e guardou no bolso. — Há alguém que
conheça que esteja com o chip no corpo ainda? Podemos testar algo.
— O quê? — perguntei assustada.
Só havia Yohanna. Todos os outros sumiram, após a nossa fuga, cada
um foi para um lado, nos espalhamos para que assim fosse mais difícil nos
encontrar.
— Se esse chip imita o modelo dos do Grande Templo, ele faz upload
de informações, como a atual localização de quem o porta, para um satélite.
Se estivermos perto e com o aparato adequado, podemos encontrar o
satélite...
— Ou a antena! O lugar que armazena essas informações! — Irinna
apontou para ele. — Engenhoso! Pode funcionar!
Ítalo se voltou para a porta onde a dona do lugar, a Madame Lilith,
estava escorada, parecia estar até um pouco mais velha de quando a vi
minutos ou horas atrás. O rosto pálido, a feição mais séria e rígida.
— Acha que o desaparecimento de Diego Abramovsky pode ter a ver
com isso?
Ela demorou para responder, mas o fez. Deu um passo à frente e veio
em minha direção.
— As peças demoram a se encaixar — juro que tive um déjà-vu ao
ouvir isso. — Há um motivo pelo qual as coisas acontecem, na ordem em que
acontecem.
— Ela quis dizer sim ou não? — Irinna o encarou, confusa.
Ele devolveu com o mesmo olhar.
— Querida, como era mesmo o nome da pessoa que ficou para trás
nessa fuga? Não me lembro de ouvi-lo.
Porque na verdade não havia dito...
Seria perigoso demais dividir essa informação, mas a essa altura, se
Lilith, Ítalo ou Irinna quisessem me entregar para os homens que traficavam
pessoas, já teriam feito. Mas eles pareciam outro tipo de gente...
Algum tipo de resistência.
— Patrícia.
Lilith acenou com a cabeça.
—... Cavalieri — completei.
Ela parou onde estava, já ia dizer algo, mas pareceu que roubei-lhe as
palavras.
Ela ficou muda e imóvel por cinco segundos inteiros, seus olhos me
vigiaram na cama e novamente tive a sensação só por um segundo de que ela
havia envelhecido um pouco mais. Sua expressão tão tranquila ficou
perturbada.
— Acho que isso levará para muito mais do que Diego Abramovsky
— ela disse.
Lilith me perguntou se eu conhecia alguém da família Cavalieri e eu
disse que sim. Não falei o nome, mas ela me avaliou novamente, parece que
esqueceu da minha fisionomia e me encarou por inteira mais uma vez.
Meus impulsos diziam que era melhor manter Yohanna longe dessa
história, mas algo dentro de mim pediu para que eu os levasse até ela, então
os levei.
Irinna ficou encantada e Yohanna, mesmo tímida, não parava de me
dizer que os cabelos dela eram lindos. Ítalo ficou quieto e distante a maior
parte do tempo e Lilith a analisou como fez comigo da última vez, dos pés à
cabeça.
Mas os olhos...
Eram os olhos que denunciavam tudo. Eu sabia que sim. Estava
estampado na face dela.
— Para onde você vai, agora? — Irinna perguntou.
— Consegui pagar a estadia de hoje com uns trocados que recebi na
rua. Amanhã vejo o que fazer.
— Não — Ítalo e Lilith disseram juntos e se entreolharam.
— Você não pode ficar em qualquer lugar — ela finalizou e se
afastou, foi a vez do rapaz se aproximar.
— Quem são eles, mamãe? — Yohanna agarrou-se a minha perna e
ficou meio escondida. — São as pessoas más?
Algo em mim dizia que não. E eu queria acreditar profundamente
nisso.
— Consigo detectar a frequência e a distância que ele emite o sinal,
mas também não consigo acessar esse — Ítalo não tinha nada em mãos além
do próprio celular. — Acabou de mandar sinal, podemos esperar para ver
com que frequência faz.
Eu tinha um palpite.
— Eu ouvia um barulho estranho. Era um zunido, não sei explicar. Ou
tinha dores de cabeça, mas sinceramente não sei se eram por fome ou dores
no corpo... mas aquele barulho... ele era muito peculiar e eu o ouvia... pelo
menos uma vez ao dia.
— Eles podem te rastrear — Ítalo me estendeu a caixinha preta onde
havia guardado o meu chip.
Desvencilhei-me e respirei fundo.
— Pode ficar. Faça o que for preciso para entrar dentro dele... em
minhas mãos ele só teria uma utilidade: ser destruído.
Ele balançou a cabeça e ficou de cócoras para ver Yohanna.
— Já vi seus olhos antes — ele pensou alto.
Yohanna deu um passinho a frente e segurou a minha perna com uma
só mão, a outra levou a boca, curiosa como era e encarou o rapaz também.
—... em um arquivo... — ele completou.
— Ela é idêntica a Patrícia Cavalieri — Irinna cruzou os braços e eu
não escondi a surpresa. — Trabalho nesse caso há anos, estou na CIA desde
então só para desvendar esse mistério. Parece que estamos próximos, Lilith
— ela procurou a mulher de vermelho, que estava distraída na janela.
— Shawn Cavalieri — foi a vez de Ítalo ter o seu próprio estalo
mental. — Você insistiu que eu cuidasse do inquérito dele, não é aquele que
tem problemas com bebidas e drogas? O de temperamento explosivo e
complicado? — ele também jogou isso nas costas de Lilith.
A mulher se virou devagar, seu rosto já não era mais o mesmo.
Parecia iluminada, entendida, compenetrada. Havia rejuvenescido
tudo de novo e seus olhos estavam mais brandos e doces do que nunca.
— Acho que as peças começaram a se encaixar — ela disse.

No passar dos dias, Ítalo e Irinna me visitavam pelo menos uma vez
por dia para acompanhar a frequência que o chip emitia ou recebia,
entregavam-me dinheiro, comida e conferiam se Yohanna e eu estávamos
bem.
Nos deram malas, roupas, trouxeram até um médico para que
fizéssemos alguns exames para garantir que estávamos bem.
O resultado dizia que faltavam muitas vitaminas no corpo e que
precisávamos cuidar mais da alimentação e dormir mais, principalmente eu.
Criei um vínculo com eles, mesmo que eles quisessem se manter
emocionalmente distantes. Foram as pessoas mais gentis que tive naquele
período.
E dizer adeus não foi fácil. Primeiro tive de me despedir de Irinna.
— Nos veremos daqui muito tempo, agora — ela explicou. — A
nossa equipe conseguiu clonar o seu chip e eu o introduzi em mim. Eu me
deixarei ser pega em seu lugar e descobrirei onde está Patrícia e onde fica
esse lugar para onde ela foi levada. Darei um jeito de avisá-los quando tiver
descoberto.
A abracei com força e não economizei no obrigado.
— Prometa-me que ficará bem.
— Prometo.
Ela se voltou para Yohanna.
— Prometa que cuidará e obedecerá a sua mamãe. Ela precisa de
você, assim como você precisa dela.
Yohanna fez que sim.
E eu nunca mais vi Irinna após isso.

Steven Heller era um dos homens que me forçou a ser sua uma vez.
Com uma coleira, algemada e amordaçada, fui levada para uma
vitrine, um mostruário que os donos dos porões faziam para apresentar seus
produtos, e ele, mais do que qualquer um, me cobiçou. Teve de mim o que
quis, fez-se sentir um Deus e ofereceu valores obscenos por mim e minha
filha.
Mas eu era selvagem demais e após dar um fim em meu primeiro
dono, o homem que se considerava meu dono, achava mais justo me alugar,
do que me vender. Assim ele poupava novas mortes.
Foi esperto.
Quando fugi, fui atrás de Steven.
Ele era rico e poderoso, ofereceu-me um valor obsceno, mas dessa
vez estava mais interessado em minha filha.
A história você já conhece.
E aqui estamos nós, algum tempo atrás, diante de sua mansão
pegando fogo.
— Oi, amore — Ítalo apareceu.
Irinna não estava consigo, para a minha completa tristeza. Por outro
lado, havia um homem rechonchudo vestido de bispo, e um homem alto,
porte atlético, cabelos ruivos, mas mascarado.
— Você tem causado muitos incêndios por aí — o rapaz avaliou e
olhou a mansão pegar fogo. — Devíamos ter trazido uns marshmallows —
ele reclamou, jogou de relance um olhar para o bispo, que desaprovou.
— Onde está Irinna?
O lábio dele tremeu antes da voz sair. Isso não era um bom sinal...
— Ainda não recebemos o sinal — ele foi simples.
— Não podemos mais esperar por esse sinal, Ítalo — falei. — Eu
tenho um plano! Sei que é arriscado chegar até o Shawn agora, mas preciso.
Só ele vai conseguir proteger a nossa filha e...
Ítalo concordou, segurou em minhas mãos e me olhou no fundo dos
olhos.
— Precisamos eliminar muitas peças antes de que chegue lá. Todos
ao redor dele querem a sua filha. Não podemos arriscar.
— Eu sei... eu sinto que ele dará um jeito de protegê-la...
Ítalo concordou. Mas eu sabia que seus lábios diriam o contrário.
— Pode ser sincera comigo só por um instante, Layla?
Quase ofendida fiz que sim. Quando não fui sincera com ele?
— Isso não é apenas sobre Yohanna, é sobre você. Você o vigia de
longe... passa mascarada, por ele...
Arqueei a sobrancelha.
— Ele sonha bastante com você — Ítalo disse de uma forma tão
segura como se tivesse conversado minutos antes com Shawn. — Fala sobre
você. Para ele, você não é passado. Você é um presente perdido.
Engoli em seco e concordei.
— Não quero que se coloque em perigo ou coloque a sua filha em
perigo.
— Então o que devo fazer?
— Quero que incorpore o fantasma que você representa e o assombre.
De verdade. A ponto dele não conseguir respirar sem que pense em você.
Quero que apareça diante dele e seja escorregadia, fuja de suas mãos, seja um
caso impossível, homens ficam em estado de alerta quando querem algo e
não podem ter. E se você é algo que ele não pode ter, o fará parar o mundo
dele para se concentrar só em você.
Concordei. Era muito melhor do que aparecer um dia e dizer “oi
Shawn, sou eu. Essa é a sua filha. Cuide dela, vou ali e volto”.
— Quero que crie uma tensão a ponto de fazer todas essas baratas e
ratos mostrarem suas garras, para que possamos esmagá-los.
Concordei, mais do que nunca.
— Chega de inimigos ocultos. Os queremos declarados, a céu aberto,
a ponto de ter pistas reais de como encontrar Patrícia... e Irinna... — ele disse
com pesar.
— O que devo fazer?
— Existe um homem chamado Roger Macmillan... — Ítalo falou e
começou a se afastar.
Esse era farinha do mesmo saco que Steven Heller, só que muito,
muito mais poderoso.
— Ele não é membro da sociedade secreta de vocês? — perguntei.
Ítalo fez um aceno que sim.
Isso era suicídio! O que eu poderia fazer com um homem tão
poderoso como aquele?
— É bem simples, amore — Ítalo voltou a se aproximar e segurou em
minhas mãos. — Quando você quer intimidar de verdade, você não bate no
cara pequeno. Você encontra o mais alto, o mais forte, o mais poderoso e
intimidador. E acaba com ele. Davi e Golias, bebê.
— Roger Macmillan — repeti o nome.
Ítalo entregou-me o endereço em um bilhete.
— Acho que sei o que preciso fazer, Ítalo.
Ele sorriu e se despediu. E eu assisti a mansão de um dos meus
abusadores queimar até que os bombeiros chegassem.

A última vez que vi Ítalo foi após a morte de Roger.


Ofereci devolver-lhe o cartão de crédito que me emprestara para pagar
os lugares onde eu ficava, mas ele se recusou.
— Quando terei notícias suas agora?
— Quando eu encontrar o paradeiro de Irinna — ele respondeu.
Chamou Yohanna com a mão, que rapidamente veio e abraçou a perna dele.
— Como você está princesa?
— Estou bem! A Lara virou mergulhadora — ela mostrou a boneca
que recebera de presente do rapaz.
Ele afagou seus cabelos e ficou de cócoras.
— Tenho um último presente para você.
— Para mim?
Ele tirou das costas uma maleta rosa, pequenininha, própria para
Yohanna carregar. Pousou-a no chão e segurou nas bochechas da minha
pequena.
— O tio vai sentir muito a sua falta. E um dia, quando nos
reencontrarmos, espero que não tenha mais dores de cabeça ou escute esse
barulho. E espero que esteja tão feliz, mas tão feliz, que qualquer infelicidade
seja ofuscada pelo eclipse do seu sorriso.
Ela o abraçou e segurou a maletinha pequena, correu para o sofá para
ver o que tinha lá.
— Não sou boa com despedidas.
— Nem eu, amore. Nem eu.
— Obrigada por tudo, espero receber o seu sinal muito em breve.
— Posso te pedir uma coisa?
Fiz que sim.
— Tire umas férias de todo esse inferno. E se achar que deve, se
entregue. Sem pensar que pode dar errado. No amor não há erros e acertos.
Só a tristeza de ter feito ou a desesperança de não ter feito. E se posso dar a
minha humilde opinião, a tristeza de ter feito a gente um dia supera. A
desesperança de não ter feito a gente leva para o túmulo.
Anuí devagar e o abracei.
Shawn era um completo desconhecido agora, tudo o que eu sabia dele
foi o que ouvi todos esses anos.
Ainda assim, havia dentro de mim a lembrança do amor da minha
vida.
— Temos que viver como se o momento do agora fosse a única coisa
que temos. Além de nossa única chance de fazer as coisas darem certo.
— E eu farei.
— Uma última coisa — Ítalo girou os calcanhares para me encarar, já
havia me dado as costas. — Pare de fazer isso usando Yohanna como
justificativa.
— O quê? — perguntei intrigada.
— Faça isso por você, Layla. Você merece um recomeço, você
merece uma nova chance, você merece ser feliz — ele segurou em minhas
mãos. — As crianças aprendem mais observando do que ouvindo. Permita
que ela te observe, a partir de agora, que cada passo que você dá é por você
mesma. Porque você é uma mulher adulta, crescida e que se importa com a
sua própria felicidade.
— Mas ela...
— Yohanna precisa perceber que a mãe dela faz escolhas que a
tornarão feliz. Para que um dia ela possa fazer escolhas que a façam feliz.
Então coloque-se como protagonista dessa história e mostre para sua filha
que vale à pena lutar pelo que você acredita que é a felicidade.
— Obrigada.
— Tchau Yohanna!
— Tchau tio Ítalo!
Eles acenaram um para o outro, mas não foi o suficiente. A pequena
teve de correr em seu encalço para abraçar suas pernas.
Ítalo segurou em meu braço, muito sério.
— Quero que se lembre que eu me recusei firmemente a servir a um
príncipe e aceitei te ajudar no primeiro instante.
— Vou me lembrar.
— Não aceito menos que um final feliz para sua história.
Capítulo 30
Shawn Cavalieri

Diante de mim estavam trinta homens e duas mulheres, todos de pé.


Suas feições demonstravam orgulho em estar diante de mim, ainda assim se
portavam de forma sóbria e atentos a mim.
— Como Hierofante do Grande Templo Iluminatti de Nova York, que
aqui significa que sou o diretor geral, responsável por cada ação interna deste
lugar, devo dar-lhes as boas-vindas. Vocês, trinta e dois, foram os
selecionados pelos testes que aplicamos. Nesse ano houveram setecentas e
noventa solicitações e apenas vocês passaram para a próxima fase.
Um novo brilho de orgulho surgiu na feição de cada um deles.
Consertei o terno, em seguida o avental e passei a andar em frente a cada um.
— Dos trinta e dois aqui, apenas um, dois, no máximo três serão
iniciados nesse lugar. Os outros serão remanejados para os outros Grandes
Templos que lidam com causas nacionais ou até mesmo estaduais... ou
municipais... nesse lugar, senhoras e senhores, nós lidamos com o mundo. E
por isso precisamos dos mais hábeis.
Era nítido, na expressão de cada um, que eles matariam e morreriam
por aquela vaga.
Eu sei disso, eu já estive em seus lugares.
Mas nenhum destes e nenhum outro que pisou neste lugar foi como
eu. Eu vim do nada, minha família tinha algum dinheiro e poder, não o
renome que esses filhos de grandes políticos, empresários, advogados e
bilionários ostentam ter.
— É concedido que assistam às aulas internas desta Loja. Os
professores são os honoráveis membros dela, que dividirão com vocês os
segredos, macetes e códigos para vencer na vida — comentei.
— Não que precisem — Ethan murmurou ao pé do meu ouvido.
Seguramos o riso e voltei a encarar os candidatos à iniciação com
muita severidade. Dentre eles, um não passava despercebido de forma
alguma.
— Para serem iniciados nesta Loja, vocês precisam descobrir o
segredo do grau um, o grau Theoricus Iluminatti. Qualquer membro deste
Templo pode repetir a pergunta que guarda o segredo do grau, mas ninguém
pode responder, dar dicas ou insinuar a resposta. Ela deve ser descoberta pelo
candidato em até três anos. Esse é o tempo limite para que frequentem o lugar
e possam assistir às aulas, mas não poderão assistir às sessões de discussão
do Grande Templo. Perguntas?
O homem que não tirava os olhos de mim, a estrela daquele grupo,
estendeu a mão. Concedi que falasse.
— Qual é a pergunta que todos os iniciados podem repetir, mas
nenhum pode nos dizer a resposta? — o senhor Zimmerberg perguntou.
Falemos dele, de Matthew Zimmerberg.
Ele me procurou para que fosse indicado ao Grande Templo; eu o
empurrei para Héctor, que o empurrou para Ethan, que no fim, me devolveu o
desafio.
O dono da maior rede social já vista no mundo queria entrar em nosso
seleto grupo de poderosos que controlam o mundo às escondidas. Mas por
quê? Ele já não havia encontrado uma forma de dominar o mundo à sua
maneira?
Nós quatro: Héctor, Ethan, Ricardo e eu, decidimos que era melhor
vigiá-lo de perto. Por isso um de nós o indicou, ele passou nas três provas
eliminatórias e está aqui.
— A pergunta, senhor Zimmerberg, é: qual é a essência?
— Do quê?
Arqueei a sobrancelha.
— De qualquer coisa. A essência do universo, da vida, do céu, de um
grão de areia, da sua existência, eu não me importo. A pergunta é: qual é a
essência das coisas? A resposta é a senha secreta do grau um.
— Quem afinal de contas inventou essa pergunta? Não me digam que
foi o Abraham Lincoln — um dos nobres cavalheiros, o filho de um político
famoso, caçoou.
— Foi inventada antes de Sócrates — Ethan tomou a frente. — Era
uma questão pertinente dos filósofos gregos para entender a existência. Qual
é a essência das coisas?
Todos concordaram e já era possível ver que começavam a procurar a
resposta.
Eu também procurei. Gastei quase três anos inteiros para achá-la e no
fim a encontrei.
Outros trinta estavam competindo comigo por essa vaga, Ethan Evans
era um deles. E quando descobri a resposta, o ajudei a chegar à mesma
conclusão.
O resultado? O garoto cego e de condições humildes, porém gênio, e
o filho da máfia foram iniciados no lugar mais poderoso daquele lado
ocidental do mundo. Filhos de bilionários, políticos, advogados e empresários
comeram poeira.
Eu queria ver Zimmerberg tentar encontrar a resposta.
— Senhor Hierofante? — a porta atrás de mim se abriu, Héctor
Mitchell apareceu.
— Senhor secretário — fiz um aceno.
— Temos um problema — ele disse e deu-me as costas.
Ethan e eu o seguimos imediatamente.
Corremos para o corredor dos Pais Fundadores e de lá alcançamos
uma porta que na verdade era um elevador.
Descemos até o subsolo do lugar, onde nos deparamos em uma
câmara que lembrava uma espécie de estádio: a parte superior era forrada por
um vidro a prova de balas e lá embaixo havia apenas o chão xadrez preto e
branco, sete portas guardadas por grades circulavam o local.
— O que diabos?! — Ethan já ia reclamar, quando uma das grades
simplesmente explodiu.
Um grupo de dez homens fardados surgiram ali, empunharam suas
armas para nós e um deles ousou atirar. Sequer piscamos, só observamos a
tentativa de estrago no vidro e em seguida nos entreolhamos.
— Os seus túneis estão comprometidos — Héctor me avisou. —
Vieram por uma das suas entradas e chegaram aqui.
Poucas vezes vi o meu querido amigo bilionário preocupado. Ele
ficava irritado e não conseguia pensar direito.
Por isso eu existia naquele lugar. Eu sabia agir sob pressão.
Ainda mais aquele tipo de pressão.
Ao ver os dez homens ficarem bem ao centro da arena, onde
podíamos vê-los, toquei de leve no braço de Ethan que só apertou um botão e
fez um barulho de explosão surgir. Ouvimos algo estremecer e um barulho de
desmoronamento, mas nada demais.
Os homens enviados pela polícia de Nova York correram para o túnel,
mas ele estava selado por entulhos e rochas.
— Mas o que diabos está ocorrendo? — Héctor me fulminou com os
olhos. — Esse local é sagrado!
— Eu sei — fui firme. — Não fui eu que o profanei, irmão.
Cinco segundos de pensamento e ele concordou de imediato.
Consertou a gravata, respirou fundo e encarou-me de esguelha.
— Você planejou isso — ele lançou, como se quisesse me culpar.
Não havia culpa. Apenas um prêmio. E não devia ser dado a mim.
— Na verdade foi a minha mulher — semicerrei os olhos e dedilhei o
vidro.
Lembrei-me instantaneamente do dia em que conversamos sobre os
túneis que eu tinha por toda a Nova York. No caso, não me lembrei
exatamente por essa informação, mas pelo sexo. Foi fodidamente bom aquele
dia.
— Senhores? — ouvimos uma voz atrás de nós.
Viramo-nos juntos, se tivesse sido combinado, não teríamos tanta
sincronia.
Um rapaz bastante jovem para os padrões dos membros daquele lugar,
todo de preto e cartola na cabeça, portando uma bengala que bateu firme no
chão, caminhou em nossa direção e só parou quando estava diante do vidro.
— Senhor Zelador, podemos explicar — Héctor logo tentou se
defender.
— Senhor Mitchell, convoque a Embaixadora desta Loja, por favor
— o rapaz tirou a cartola da cabeça e revelou seus cabelos brancos.
Héctor acenou de forma positiva e dirigiu o olhar a mim, eu mostrei
que estava bem com a situação e ele foi atrás de Lilith.
— Vamos matá-los? — foi o que perguntei a Ítalo.
— Faremos algo melhor — ele sorriu. — Senhor Evans, chame os
homens de preto e leve os intrusos para a Sala de Reprogramação.
— Vai apagar a memória deles?
— Vou inserir um chip em cada um. E aí sugestionar algo na
memória deles — o Zelador assistiu Ethan Evans retornar para o elevador,
junto com Héctor.
Quando estávamos a sós, Ítalo estava pronto para dizer algo.
Mas um novo tiro no vidro o calou.
Tudo o que ele fez foi levar os olhos para baixo, sem mover o rosto e
depois direcioná-los a mim.
— Ela está bem — sua voz saiu tão despreocupada que até me
desconcertei.
— Ela tem dormido direito? E se alimentado? Onde ela está?
— Ela está pronta para voltar para você — me surpreendi ao ouvir
aquelas palavras e só senti uma paz infinita dentro de mim. — E está pronta
para te contar a verdade.
— Contar a verdade?
— Ei, eu que disse isso — Ítalo fez uma careta. — Como está a sua
filha?
— Bem.
— Você irá retirar o chip dela ou devemos trazê-la aqui para que um
membro suspeito faça?
Seria impróprio que eu mesmo fizesse. Mas em quem mais eu poderia
confiar numa situação dessas?
— O que está havendo, Ítalo?
Um novo tiro no vidro. Olhamos em sincronia lá para baixo.
— Você também está sentindo a vontade de soltar os leões? — Ítalo
coçou o queixo.
— Os crocodilos, na verdade — toquei o vidro. — Temos um bem
gigante e ele faria um estrago... — suspirei.
— É... Infelizmente precisamos desses homens. Eles vão nos levar até
as respostas que precisamos.
— Tipo onde está Diego Abramovisky?
Ítalo puxou um papel dobrado do bolso, pareceu se lembrar dele
assim que ouviu o nome do Zelador que estava à procura.
— Reconhece essa assinatura, senhor Cavalieri? — ele desdobrou o
papel e mostrou o meu selo e minha assinatura, assim como a do Mão Oculta
do Templo.
Fiz que sim imediatamente, mas não me lembrava daquele documento
em específico.
— A última vez que Abramovisky esteve nesse Templo, ele foi
mandado para uma missão — Ítalo suspirou. — Fechar e cortar todas as
relações internacionais com o Grande Templo da Venezuela.
Concordei. Não me lembrava especificamente desse detalhe, afinal de
contas, isso era um assunto que tinha a ver mais com os membros da parte
internacional do Templo, ou seja, Dérick Von Grant, o Mão Oculta da
Colmeia, ou até mesmo o próprio Diego Abramovisky e Madame Lilith, mas
não eram essas as assinaturas no documento.
Eram apenas a minha e a de Dérick.
Que merda era essa?
— Ele voltou da Venezuela? — Ítalo coçou o nariz.
— Não temos notícia dele desde...
— Desde essa data? — Ítalo deu um passo em minha direção e
colocou o dedo em cima da data em que o documento fora assinado.
Fiz que sim.
— Consultei cinco Zeladores diferentes desde que tive posse dessa
prova — ele tomou o papel de minhas mãos. — Nenhum deles soube me
dizer quem autorizou fechar e cortar os laços com o Grande Templo da
Venezuela. Aquele povo precisa de nós, não podemos dar-lhes as costas
agora. Por que assinou isso, senhor Cavalieri?
— Não me lembro de ter assinado.
— O senhor está conspirando contra a Colmeia, senhor Cavalieri?
— Ítalo — limpei a garganta. — Mesmo que eu tivesse poderes para
tal, você não concorda que Abramovisky não precisaria me obedecer? A
minha assinatura aí diz apenas que eu recebi o documento e protocolei a
saída de Abramovisky desta Loja numa missão. Não significa que eu o
mandei ir.
Ítalo anuiu bem devagar e sorriu. Pelo visto eu havia dado a resposta
certa. Ou será que ele estava me testando?
— Alguém está conspirando, senhor Cavalieri.
Ah, eu não tinha dúvidas disso. Mas não era eu.
— Alguém quer uma guerra, senhor Cavalieri. E nenhuma das 13
Famílias soube me responder quem quer. Então alguém está conspirando. E o
meu papel, além de encontrar o meu colega, é descobrir quem conspirou. E
resolver isso antes que a merda exploda.
Concordei. Antes que pudesse comentar sobre, ouvimos um novo tiro.
— Estou quase descendo lá eu mesmo e abrindo as grades dos
crocodilos — ele comentou.
Eu não o impediria.
— Você acha que no chip dentro da minha filha existem essas
respostas?
Ítalo não respondeu, mas encarou-me de esguelha, depois voltou a
assistir os dez homens lá embaixo andando de um lado para o outro tentando
escapar. Tadinhos. Mal sabiam que haviam entrado porque nós assim
queríamos e só sairiam quando nós assim permitíssemos. Caso o contrário,
aquilo ali seria apenas sangue e ossos agora.
— Muitas coisas podem estar no chip dentro da sua filha. Não é à toa
que a polícia, a máfia e uns illuminattis a querem a todo custo — aquela
resposta foi como uma pequena peça se encaixando, em quê eu ainda não
sabia. — Eu espero que lá esteja a localização do Abramovisky, porque
sinceramente, não quero ficar responsável pelo que ele fazia.
— Eu entendo.
— Não, você não entende. Abramovisky era como a caixa de
Pandora, guardava umas coisas assustadoras...
Não sei se ele diria quais eram essas coisas assustadoras ou não, mas
fomos interrompidos pela chegada de Lilith, acompanhada de Héctor.
— Como chegaram aqui? — ela veio em passos largos e ficou ao meu
lado.
— Só Deus sabe... — olhei dela para Héctor. — Deviam estar
escavando e acabaram em território proibido.
— Nem mesmo o presidente pode entrar aqui sem permissão — ela
resmungou, ao notar a presença de Ítalo deu um passo para trás, surpresa. —
Não sabia que havia chegado.
Ela claramente mentiu.
— Cheguei. Preciso que me permita usar a sua sala de
Reprogramação.
— Contanto que... estejamos todos seguros, creio que não fará mal —
ela olhou para a porta com escombros lá embaixo. — Vieram pelo seu túnel?
— É o que parece, sim — tive de dizer com pesar.
Ela me olhou dos pés à cabeça e se afastou.
— Limpem essa bagunça depois! — ela nos deu as costas e saiu.
— Já estamos limpando! — avisei.
— Algo assim pode afastá-lo do cargo de Hierofante — Ítalo me
alertou.
Concordei, um pouco preocupado.
— Ah! Senhor Cavalieri... — Ítalo bateu a bengala no chão, pronto
para ir.
— Sim?
— Uma abelhinha me contou que temos um integrante muito
interessante esse ano, para a sua seleção.
— Matthew Zimmerberg, sim — disse de imediato.
— Numa época de conspirações como as que vivemos...
Ele andou lentamente na direção do elevador para acompanhar Lilith.
—... seria sensato ficar com os olhos bem abertos em cima desse
rapaz.
Capítulo 31
Layla

Pensei que não ficaria tão tensa ao reencontrá-lo. Ledo engano.


Já estava sentada em um lugar estratégico em um luxuoso restaurante
no coração de Manhattan quando ele chegou. Deslumbrante? Não sei se essa
era bem a palavra.
Shawn Cavalieri era uma mistura de desejo proibido com perdição
imediata.
Qualquer roupa podia exaltar seu corpo, mas aquele terno que deixava
seus ombros bem grandes, os braços marcados e tão justo na cintura... a calça
social que moldava suas coxas e panturrilhas, seu ar elegante e seu andar
calmo e decidido fizeram até a fina música de violino que chegava aos meus
ouvidos parar.
Eu só tinha olhos para ele. Cada um dos sentidos. A boca salivando,
os ouvidos atentos, o nariz enfeitiçado pelo seu perfume e os olhos
devorando-o.
A pele?
Fui levantada por sua mão forte, em seguida senti-a no contorno do
meu corpo, ele desceu os olhos como se quisesse me despir ali mesmo e
acabar comigo.
Eu gosto disso.
— Estou pronto — ele empurrou a cadeira para que eu me sentasse,
depois se sentou diante de mim.
Nunca pensei que estaria pronta. Sequer imaginei que um dia, a
pessoa com quem perdi a minha virgindade, se tornasse para além de uma
memória que me tornou forte, o meu único e verdadeiro amor.
Pena que havia pessoas poderosas, muito dinheiro e uma conspiração
entre nós dois.
Eu não podia ter Shawn, era tolice.
Era como assinar o meu atestado de morte e entregar-me de uma vez
ao abismo.
E eu estava pronta.
— Como está Yohanna? — perguntei.
— Está bem. Aquela cirurgia está marcada — ele garantiu. — Não
para de perguntar da mãe, o que é bastante natural, eu não paro de pensar em
você. Nunca pensei que ela e eu teríamos tanto em comum.
Concordei devagar, repousei as mãos no colo e tateei a arma.
— Você vai voltar definitivamente agora?
Suspirei. Era difícil. Muito difícil.
— Se tivesse que escolher entre o que é o certo e o que é fácil, o que
escolheria, Shawn?
O semblante dele mostrou que não estava pronto para a pergunta –
talvez não estivesse pronto para responder.
— Eu sempre escolho o que uma voz, dentro de mim, diz. Ela é
profunda, bem clara e sempre está certa. É uma junção entre as batidas do
meu coração e a rapidez da minha mente — ele puxou a taça de cristal da
mesa com água e sorveu em um gole só.
Como dizer isso?
— Eles pediram para te vigiar, te enfraquecer e te matar — revelei.
Abaixei a cabeça e fitei a arma em meu colo.
Shawn não se alterou, tampouco se mostrou surpreso. Sua respiração
sequer mudou. Ele permaneceu altivo, galante, poderoso. Seus olhos até me
diziam que estava pronto para morrer, se fosse o caso.
— Eles também pediram para te matar, na primeira vez — ele
revelou, com um sorriso de canto. — E recentemente também.
A taça de cristal foi devolvida à mesa, suas mãos desceram para o
próprio colo, como eu estava.
— Será que somos tão incapazes assim de obedecer uma ordem tão
simples? — perguntei.
Shawn abaixou o rosto e riu. Tocou a fronte e o nariz com o indicador
e subiu o rosto devagar, um suspiro lento, suas safiras cintilantes encarando-
me.
Ficamos quietos, encarando um ao outro por um longo minuto.
— Coloque uma de suas mãos em cima da mesa — ele pediu.
Arqueei a sobrancelha e timidamente levei a mão direita e fiz o que
ele pediu, me arrepiei toda quando ele repousou a mão em cima da minha.
— Eu sou só... um cara fodidamente quebrado emocionalmente. Nada
mais do que isso. Um grãozinho, bem pequenininho, no meio de uma praia
gigante. Eu sou um soprinho, Layla, no meio de um furacão.
Não entendi nada do que aquilo queria dizer, só pisquei os olhos.
— Se você tem garantido que acabar comigo poderá te fazer feliz e te
permitir recomeçar, com nossa filha, onde quer que seja, eu prefiro que seja
assim. Eu prefiro que você faça. Descobri com o tempo que, para viver, um
homem precisa de propósito. Te caçar por todos esses anos, foi o que me deu
propósito para continuar vivo. E te reencontrar e poder ter você em meus
braços e descobrir... que temos muito mais do que uma filha... isso me deu
um novo propósito.
Foi a minha vez de suspirar, bem lento, o ar saiu quente.
— O meu único propósito nesse momento é te fazer feliz. E garantir
que fique segura. E se você acredita, de verdade, que atirar em mim e acabar
comigo te dará tudo isso, eu sentirei... — vi uma lágrima descer
silenciosamente pelo languido rosto dele. — Que a minha missão foi
cumprida.
Engoli em seco.
— Por que você não me matou, anos atrás? — tive de perguntar.
Shawn riu.
Foi tão espontâneo e bonito que fiquei sem ar, até esqueci como se
respirava.
Semicerrei os olhos para gravar aquela cena para sempre em minha
mente. Ver suas bochechas levantadas e vermelhas, os lábios esticados, os
dentes à mostra. Mas o verdadeiro sorriso estava no contorno dos olhos.
— Você nunca entenderia... — ele apertou a minha mão. — Mas você
me fez descobrir qual é a essência.
— Qual é a essência do quê? — fiquei interessada.
— Exatamente — ele continuou a sorrir. — A essência. Do universo,
da terra, da vida, a minha essência.
— E qual é? — a curiosidade só aumentava.
Quase dei um salto para trás ao ver ele se levantar e esticar a mão em
minha direção. Segurei a respiração ao sentir sua mão em cima do meu peito,
onde o meu coração batia bem rápido e o meu sangue eletrizava todo o corpo.
— Você não sente?
Sentir? O que eu deveria sentir?
— Quantos homens te tocaram desse mesmo modo e te fizeram se
sentir assim?
Fiquei muda. E mesmo com a resposta, não tinha coragem de dizer.
Nenhum. Absolutamente nenhum.
Ele era... único. A forma como me olhava, a forma como me tocava, a
forma como me fazia sentir extremamente sagrada... e extremamente profana.
Vibrando em todos os polos, tão completa e tão eu, tão minha e tão sua, de
modo que sequer poderia imaginar um dia que eu poderia me sentir.
Com Shawn eu me sentia...
— Atira — ele levantou o rosto e me encarou, como se fosse a última
vez.
Lentamente tirou a mão de mim e se afastou cuidadosamente, mas eu
o impedi. Agarrei o dorso de sua mão e o mantive exatamente onde estava.
— Se eu não puder ser feliz com você, não acho que valha à pena ser
feliz.
— Por quê?
— Por quê? — ele riu.
— É. Por quê? — insisti.
— Por que o paraíso foi feito primeiro para dois — ele sorriu. —
Para você e para mim — sua mão tocou com força em mim. — E assim
como Adão e Eva nunca foram os mesmos após sair do paraíso... o paraíso
nunca mais foi o mesmo depois da saída deles.
Foi a minha vez de sentir uma lágrima descer silenciosamente pelo
meu rosto enquanto o encarava.
— Eu não era eu antes de você. E eu nunca mais serei o mesmo
depois de você. É por isso, Layla, que não vale à pena ser feliz, se não for
com você.
Havia, enfim, chegado a hora de terminar com tudo aquilo.
Completamente tranquila e satisfeita com a minha decisão, mesmo que ela
colocasse tudo a perder.
Shawn traduziu algo que sempre esteve inconsciente em mim, de
alguma forma.
Com ele, eu podia me sentir no paraíso. Completamente inocente.
E ainda assim, em busca do pecado.
Levantei a arma devagar, a minha mão tremia bastante, e o objeto
parecia muito mais pesado do que qualquer vez que o tenha segurado.
Cuidadosamente a preparei para disparar e direcionei o cano na testa
dele.
— Eu te amo e te apoio em sua decisão.
Ele precisava deixar tudo mais difícil. Bem mais difícil do que pensei
que aguentaria.
Suspirei uma última vez e apertei o gatilho.

Dias antes
— Na verdade, eu não preciso confiar em você — Patrick Wells riu,
umedeceu os lábios e me encarou com fascínio. — Você é quem tem tudo a
perder.
Continuei a encará-lo cuidadosamente, pronta para ouvir qualquer
coisa que ele tivesse a dizer.
— Podemos ficar apenas com o chip dentro da sua filha e devolvemos
a sua amiga de porão — ele riu. — Mas você precisa matá-lo. Quero que seja
você.
Olhei para baixo por um instante e demorei até estar pronta para
encará-lo.
— Está pronta, Zoe? — ele tateou a mesa e puxou de dentro de uma
pasta uma fotografia.
Estendeu-a em minha direção.
Fiquei muda, completamente apavorada e sem reação ao ver.
— Você não queria uma prova? Aqui está a sua prova.
Minhas mãos tremiam ao segurar aquela foto, meu coração sentiu por
um instante que era real. Ele não estava blefando.
— Por que acha que permitiram que você ficasse tão facilmente com
essa criança? — Patrick riu. Porco e imundo como era. — Temos a sua outra
criança, Zoe.
Fitei a criança com os mesmos olhos de Yohanna e Shawn, muito
semelhante por sinal com ele, mas do meu tom de pele. Não parecia
maltratado, mas estava amordaçado.
— Sem joguinhos dessa vez, ou nós matamos a criança — ele
garantiu. — E você nunca mais vai ver a sua antiga companheira de cárcere
— ele ainda riu. — E ainda iremos capturar a sua filha e você. Não percebe,
Zoe? Todas as cartas estão contra você agora, na mesa. E só há uma forma de
resolver tudo isso...

Atualmente

O primeiro tiro foi seguido de um novo, depois outro.


Não parei para apreciar o sangue escorrendo ou os gritos de horror,
apenas atirei.
Do momento em que cheguei até aquele instante prestei bastante
atenção a absolutamente todos que entraram, saíram e circularam pelo local.
Os policiais disfarçados de Patrick não passaram despercebidos.
Assim como os homens de confiança de Shawn que estavam de pé, na porta
do local, e me assistiram apontar uma arma na testa do seu chefe e não
fizeram absolutamente nada.
E há um motivo para isso.
Shawn se levantou num sobressalto, puxou a arma do coldre e atirou
por cima do meu ombro, onde derrubou um homem, fez isso sem piscar até
que quatro estivessem no chão.
Jogou uma arma nova em minhas mãos e girou em noventa graus,
terminou de atirar em seus próprios homens, eu terminei de atirar nos
policiais infiltrados. Só paramos quando um perene silêncio circundou o
local, algumas famílias agachadas debaixo das mesas, os garçons acanhados
atrás dos balcões.
— Acho que foram todos, mas não temos muito tempo — segurei em
sua mão e o puxei.
— Põe na conta! — ele gritou quando saiu do estabelecimento.
Corremos para o carro e antes de puxar a porta para entrar, fui
impedida por ele e tomada por seus lábios.
Nossos corpos se chocaram, da mesma forma como um asteroide se
choca com a terra e é capaz de extinguir dinossauros... para depois fazer
aflorar a raça humana.
O caos precede a ordem.
E Shawn e eu éramos uma mistura confusa de caos e ordem.
Na verdade, um pouco mais de caos do que ordem.
O beijo foi maravilhoso, aliás.
Foi verdadeiro, intenso, reanimador como despertar de um coma
profundo. E era assim que eu me sentia desde o instante em que o conheci.
— Podem surgir outros pelas ruas, vamos ser alvejados — avisei.
Ele se importou? Nem um pouco.
Calou-me, como se tivéssemos muito tempo para isso depois e me
beijou até que ambos estivéssemos exaustos e ainda assim sedentos.
No fim, Shawn colocou as mãos na cabeça.
— Preciso dirigir — entregou-me a arma e correu para a porta do
motorista.
Desistiu, quando chegou lá, voltou correndo e abriu a porta para que
eu entrasse, em seguida voltou, se jogou dentro do carro e colocou o cinto em
tempo recorde.
Os pneus rasgaram o asfalto.
Capítulo 32
Shawn Cavalieri

As ruas ficaram urgentemente para trás conforme o carro avançava.


Por mais que eu quisesse dizer algo a Layla naquele momento, o
silêncio falou por nós. Eu já havia entregado meu coração às lágrimas ao
saber e até que encontrasse algo melhor para dissipar o silêncio, preferia
permanecer calado.
Parecia que quanto mais eu sentisse que não poderia mais aguentar à
dor, e não estou falando da física, mais ela me atingia em cheio.
E em meio à falta de palavras e a sensação de que ela havia feito uma
escolha, talvez a errada, segurei a sua mão e me mantive atento às ruas.

No dia da invasão do Grande Templo

Continuei a fitar os policiais na arena, procuravam como escapar,


mas logo perceberam que passar pelas outras portas seria um erro gigantesco.
Elas guardavam uma morte selvagem e natural.
E talvez fosse amena ao que pretendíamos fazer.
— Sabe, Cavalieri — Ítalo usou um tom mais brando e gentil. —
Quando nós catalogamos os membros da nossa sociedade, comumente
usamos alguns códigos que indiquem genética e até posições sociais...
Anuí de imediato, conhecia essa informação.
— No chip da sua filha — ouvir isso foi o suficiente para fazer-me
encará-lo, completamente atento. — Existe o mesmo padrão de código, por
exemplo, dos irmãos Leão, os gêmeos.
Engoli em seco e tentei processar aquela informação da melhor forma
possível.
— O que você quer dizer com isso?
— Existe uma possibilidade de que... Layla tenha tido gêmeos. E uma
das crianças tenha sido tirada dela, antes mesmo que ela percebesse — sua
voz saiu bastante séria e seca, embora num tom amistoso. — Eles a
chantageiam com isso desde que ela escapou pela primeira vez dos porões...
Repousei as costas na parede de vidro e mantive o olhar paralisado.
— Então ela decidiu voltar... mas nunca lhe mostraram a criança.
Desde que ela escapou, da última vez, é o que usam para convencê-la...
A lacuna naquela mensagem me deixou aflito.
— Convencê-la de quê?
— De te matar — novamente, muito simples e seco, porém, com uma
leve pitada de compaixão.
Gostaria de dizer que algumas coisas faziam sentido agora. Mas eu
sequer conseguia pensar em qualquer coisa, repentinamente perdi o chão e só
senti que estava girando...
— E você encontrou esse código quando se encontrou com a minha
filha? — supus, em voz alta.
Ele afirmou com a cabeça.
— Eu sinto muito — foi tudo o que ele conseguiu dizer.
Demonstrei que estava tudo bem.
— Sabe, Cavalieri... — Ítalo respirou profundamente. — Sabe o tanto
que você acha que é homem?
Arqueei a sobrancelha e o encarei, sem entender muito onde queria
chegar. Mas sim, eu sabia e concordei.
— É o tanto que ela é mulher.

Atualmente

— Eu sinto muito.
Não era bem o que eu queria dizer, mas isso veio quando o sinal
vermelho nos impediu de seguir.
Layla não abaixou a cabeça, tampouco evitou olhar-me em nenhum
instante. Mas nesse momento, em que nossos olhos se encontraram, eu pude
entender um pouco do peso que havia em suas costas.
— Deveria ter acabado comigo — eu não me perdoaria se não
dissesse isso.
— Calado.
Era a melhor opção, de fato. Voltei a dirigir. Peguei velocidade e
ultrapassei alguns carros.
— Você disse, uma vez, que você, Yohanna e eu somos uma família.
— E somos — garanti.
— Então faremos como uma família faz. Vamos resolver juntos.
Ela tinha um coração gigantesco por ter a coragem de dizer isso. Eu
não podia imaginar, nem por um momento, como era ouvir isso de uma mãe
que perdeu o filho. Eu só sabia de perder irmãos.
— Acha que ele está vivo?
— Vamos descobrir juntos, Shawn.
Antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, ela acrescentou:
— Sabe a sensação que você tem da sua irmã? De que ela está viva? É
o que sinto a respeito dele.
Apertei sua mão com carinho e novamente tive de aguardar o sinal
vermelho, olhei os retrovisores para conferir se havia alguém atrás de nós,
mas não.
— Às vezes acordo de madrugada e penso... eu sequer tive a chance
de dar-lhe um nome. Eu sequer tive a oportunidade de segurá-lo em meus
braços...
Ok, agora realmente tive de parar o carro, não pelo sinal vermelho.
Mas para abraça-la e trazê-la para mim o máximo que podíamos no espaço do
carro, que embora espaçoso, não nos permitia muita movimentação.
Ficamos, nós dois, novamente em silêncio, deixando as lágrimas
lavarem o rosto sem emitir um piu sequer.
— Precisamos ir — Layla foi firme.
Limpou as lágrimas e olhou duramente para a rua.
— A noite ainda não acabou. Precisamos encontrar alguém.
Ok, disso eu não havia sido informado. Só sabia que precisava
encontrá-la para dar um fim naquilo tudo. Não havia me preparado para o
resto da noite.
Cinco minutos foi o suficiente para chegarmos em uma rua distante e
deserta, com pouquíssimo movimento.
Vi uma figura logo à frente e Layla pediu que parássemos.
Abaixei a janela e vi a figura vir até mim. Colocou a cabeça com uma
cabeleira que obviamente não era sua, cabelos loiros praticamente brancos,
longos, acenou para Layla e depois se debruçou na minha janela.
— E aí, bonitão. Procurando por diversão? — Ítalo perguntou.

Yohanna

Eu estava inquieta, mesmo depois de ter brincado o dia inteiro.


O papai havia passado todos os dias anteriores só comigo, mas depois
que ele foi para o trabalho, voltou diferente, dava para perceber que estava
cabisbaixo e triste.
E mesmo quando tentei animá-lo ele estava distraído e com os
olhinhos bem brilhantes, não como se estivesse feliz, mas como se o mundo
estivesse desabando.
Quando ele saiu, naquele início de noite, pedi para ir com ele. O papai
não deixou e disse que me amava muito e que a mamãe logo voltaria.
— Mas e você? Volta também? Com ela?
O papai só me abraçou, entrou no carro com os homens de chapéu
longo e sobretudo preto e desapareceu, após dizer que me amava e que eu
nunca poderia me esquecer o que eu era: um monstrinho.
A vovó pediu que eu tomasse banho e me preparasse para passar a
noite assistindo um filme chamado “Esqueceram de Mim” e comendo
besteira, então me apressei.
Quando a Lara e eu já havíamos nos limpado, deixei a banheira pra lá,
não tirei a água nem limpei nada, deixei tudo molhado e corri para o quarto
para me vestir.
No caminho, quando estava percorrendo o corredor, vi alguns carros
ao longínquo, os faróis vinham em nossa direção.
Será que o papai tinha voltado, enfim?
— Vem, Lara! — segurei firme na boneca e corri para o quarto,
coloquei a calcinha e um vestido por cima, um casaco para me proteger do
frio e meias que vinham até o joelho.
Procurei a minha mala rosa debaixo da cama e a puxei para vê-la.
— Será que é agora? — passei o dedo indicador no queixo.
Os dois carros pararam em frente a casa da vovó e seis homens
desceram deles.
A vovó, bem altiva e principalmente irritada, saiu, bateu a porta e
perguntou o que estava acontecendo.
Antes que ela pudesse fazer qualquer outra coisa, um dos homens deu
um soco bem forte no rosto da vovó que apagou, o maior dos homens a
pegou no colo e a jogou dentro do carro.
— Precisamos proteger a vovó, Lara — balancei a boneca. — E a
bisa!
Fiquei paralisada só por um segundo ao ouvir os homens balançando
a porta, pelo visto ela não abria pelo lado de fora.
Segurei em minha mala de coisas de menina e corri para fora do
quarto com a Lara.
— Vamos, antes que seja tarde demais!
Shawn Cavalieri

Dirigi a ponto de conseguir ver o prédio onde ficava o escritório e


casa do Ethan Evans, mas Ítalo disse que eu deveria seguir um pouco mais à
frente e chegaríamos em nosso destino.
— Vocês estão indo a alguma festa à fantasia, por acaso? — indaguei.
Ítalo estava vestido como uma garota de programa das noites Nova-
iorquinas. Na verdade, uma travesti ou drag queen, para ser mais preciso.
Layla colocou a burca ali mesmo no carro, agora eu só podia ver seus olhos
com lentes de contato.
— Bem isso mesmo — Ítalo olhou pela janela.
As ruas, os carros e pessoas foram ficando para trás conforme
entrávamos no centro do coração da cidade com seus prédios gigantescos e
visual contemporâneo, cheio de luzes e informação.
— Quer um chiclete, Shawn? — encontrei os olhos do passageiro no
retrovisor e meditei se deveria ou não aceitar.
Fiz que sim e levantei a mão para trás, Ítalo depositou algo nela e
quando tive tempo para encarar, percebi que aquilo era tudo, menos chiclete.
Ao encará-lo novamente pelo retrovisor, vi que estava mascando ou
arrumando algo dentro da boca.
— Mas que merda é essa? — perguntei.
— Vamos invadir um porão.
— Somos dedetizadores ou o quê? Você não me parece um
dedetizador, Ítalo.
— O único mercado ilegal que acontece à luz do dia é o governo —
Ítalo ponderou. — O que vende e aluga seres humanos como objetos e
escravos funciona à noite. E nos porões de um desses grandes prédios.
— Tá, e por que você me deu uma gilete? Se ao menos me desse um
cabo de navalha junto... — me mantive atento à rua enquanto conversávamos.
— Você pensou mesmo que ia poder entrar armado? Com suas
pistolas? — ele provocou.
Ele, ela, sei lá, só sei que estava vestido de mulher e parecia mesmo
uma mulher, a maquiagem estava impecável. Mas o fato de eu saber quem
era, quebrava um pouco da ilusão. Quem não soubesse, passaria despercebido
por algum tempo.
— E do que você precisa mais, senhor Cavalieri? De um cavalo,
talvez? Um tanque de guerra? Quer entrar e anunciar para todos eles que
chegamos?
— E o que viemos fazer em um mercado negro?
— Vamos chamá-lo de mercado ilegal — Ítalo me retificou. — Nós
viemos resgatar uma amiga minha, também Zeladora — ele pontuou, mas
deixou claro que faltava algo.
— E...?
— E descobrir o paradeiro da sua irmã.
A minha... minha irmã?
— Ok, pode parar aqui — Ítalo pediu.
— Minha... irmã...? — pisquei os olhos após estacionar e desligar o
veículo.
— Alguém, por favor, dê um roteiro da história para esse mafioso —
Ítalo protestou e saiu do carro.
Layla e eu fomos juntos.

Yohanna

Tive que tirar os sapatos e colocar mais algumas meias no pé para não
fazer barulho enquanto corria pela casa.
Acompanhei a movimentação dos invasores pelas janelas do corredor,
eles rodearam a casa para entrar pelos fundos, onde a porta era quase toda de
vidro.
Isso me deu tempo de arrumar algumas coisinhas, ir para a sala e ver
que a bisa estava dormindo. Ajeitei a manta dela em seu colo e levantei o
tapete felpudo que ficava entre sua cadeira e a estante de televisão.
Enchi o chão de óleo que peguei na cozinha e coloquei o tapete de
volta perfeitamente como estava. Aproveitei que tinha tempo para usar o que
restava do fio invisível que peguei dentro da mala e amarrei uma ponta na
cadeira de descanso da bisa e a outra ponta no pé traseiro da estante.
Liguei a televisão e aumentei o volume e corri para as escadas, foi o
suficiente para ouvir a porta de vidro quebrar e perceber passos de botas pela
casa.
— Fique de olhos bem abertos, Lara — posicionei a boneca ao meu
lado e fiquei entre os espaços de grade no andar superior onde eu tinha vista
da sala onde a bisa estava.
— Tem mais alguém aqui — vi apenas a cabeça do homem espiar por
detrás da parede lá embaixo.
— Aqui só moram a mãe e avó dele. Esqueça as velhas, temos que
levar a criança!
— Mas e se a avó dele estiver armada?
— Aquela mulher tem Alzheimer! É uma velha inválida, não
precisamos nos preocupar com ela! — o que parecia ser o chefe, reclamou.
— Mas e se...
Eles se calaram quando joguei uma pedrinha beeem no cantinho da
sala, quase na frente da bisa, escondi a cabeça e aguardei.
— Você ouviu isso?
— É, eu ouvi. Vamos!
— Aqui está limpo, a velha está dormindo — o mais corajoso que foi
à frente disse. — Ela parece armada, para você?
O homem que vinha atrás espiou de fininho e avançou para ver. Foi
tão rápido e interessado que tropeçou no fio e escorregou com o tapete, caiu
com a cara no chão e soltou um gemido abafado.
Coloquei a língua entre os dentes para não rir e levantei a cabeça um
pouco mais.
— E essa agora... — o que estava na frente, olhando o homem caído
no chão, tentou levantá-lo. — Levanta, homem!
Levantei a cabeça só um pouquinho mais, segurei firme no cabo de
madeira e estiquei bem devagar enquanto fechava os olhos.
— Não podemos perder tempo! — o chefe reclamou. — Temos que
pegar a menina!
— Oi — chamei o mais corajoso.
Se era para acertar um, que fosse o mais corajoso.
O homem esticou o rosto bem rápido em minha direção, e na mesma
rapidez que ele fez isso, eu puxei com mais intensidade o estilingue e soltei.
Ainda tive tempo de assistir a pedra pontiaguda percorrer todo o
espaço entre nós, quase em câmera lenta, e acertá-lo bem em cheio.
— Estou cego! — o homem gritou desesperado.
— Eu adoro a história do Davi e Golias, Lara — peguei uma sacola
grandinha que estava no chão, junto com a minha boneca.
E saí correndo.
Capítulo 33
Layla

Shawn colocou uma máscara dourada que cobria todo o seu rosto,
menos a região da boca, isso ele não reclamou. Mas quando Ítalo passou a
mão em seus cabelos e desfez o penteado, deixando-os para baixo, ficou
estampado em sua cara que ele ficou completamente desconfortável de estar
em público sem estar devidamente apresentável.
— Precisa mexer em meu cabelo? É sério? — ele rosnou.
— Todos nessa cidade te conhecem, mas com máscara e o cabelo
assim, meio lambido para baixo, vamos ganhar tempo.
Ao ver Ítalo passar a língua na palma da mão, Shawn deu dois passos
para trás.
— Você não se atreva! — vociferou.
— Tá, vamos perder alguns segundos desse tempo por sua culpa
então.
— De quanto tempo você precisa?
— Tempo o suficiente para entrar, passar pela porta principal e
pronto.
— Você se vestiu como se estivesse no carnaval do Brasil só para
passar pela porta principal... e pronto? — ele não escondeu a indignação.
— Eu não espero o carnaval chegar para ser vadia — Ítalo passou
por mim e por ele, cruzou os braços. — Sou todo dia.
E assim, saímos do beco escuro e fomos encarar aquele desafio.
Não vi o nome ou placa do prédio em que entramos, só sei indicar que
era muito alto, pela parte de fora parecia um espelho, refletia absolutamente
tudo e era impossível ver o que estava dentro.
A porta automática não se abriu dessa vez, tivemos de esperar que um
homem branco e careca de olhos sem pupilas, completamente negros e
tatuagem no rosto, língua bifurcada, nos atender. Estava completamente
apresentável, terno e gravata no ponto, parecia apenas um CEO esquisitão.
— Estamos fechados — ele avisou.
O que uma pessoa normal faria? Daria meia volta e diria “volto outro
dia”. E fim.
— Ótimo, ninguém precisa saber dos nossos negócios — Shawn disse
devagar.
Acabara de ouvir essa senha e graças a Deus que ele disse ela
perfeitamente, sem esquecer uma palavra sequer.
— Motivo dos negócios? — o homem meneou a cabeça para mim,
examinou-me com pressa, mas concentrou-se em Ítalo.
— Devolução de mercadoria — Shawn foi firme.
— Devolução? — o homem coçou o queixo. — Qual das
mercadorias? — ele olhou de Ítalo para mim.
Shawn segurou no braço de Ítalo e o empurrou para frente, em direção
ao homem de olhos completamente negros.
— Posso? — ele deu um passo à frente e recebeu um sim.
O homem virou Ítalo de costas e levantou seus cabelos brancos. Eu
prendi completamente a respiração quando ele enfiou a mão dentro do terno e
caçou algo lá dentro, já estava pronta para correr ou para matar aquele
esquisito, mas essa seria uma chance de ouro desperdiçada.
O homem macabro tirou de dentro do terno um aparelho de leitura de
códigos, passou rapidamente pela nuca de Ítalo e eu mantive a respiração
presa.
Matar ou fugir?
Shawn desceu a mão direita para dentro do terno, onde ficava uma de
suas armas.
Ítalo revirou os olhos, mas dava para perceber que lá dentro, bem lá
dentro, ele também estava tenso.
Um apito fino de leitura foi efeituada e o homem leu o código no
aparelho.
— Seja bem-vindo, senhor Abraxas — o homem piscou os olhos e
guardou o aparelho dentro do terno. — O setor de devolução é no porão oito.
Como o senhor deve estar ciente, deve deixar suas armas comigo.
Shawn, que já estava com uma das mãos na pistola, só a retirou e a
entregou ao homem.
— Todas as armas — o homem insistiu, abaixou um pouco a cabeça
e o fitou.
Shawn tirou a outra arma, uma faca que guardava na cintura, uma
adaga na panturrilha, e... puta merda, o detector percebeu a fina lâmina
cortante que Ítalo havia lhe entregado.
— Siga-me, senhor Abraxas — o homem macabro solicitou, deu-nos
espaço para passar e veio em nosso encalço após fechar a porta.
Aquela grande empresa que pelo visto parecia um setor financeiro ou
algo assim, estava todo escuro, as luzes da rua que davam uma iluminação de
meia luz na parte interior.
Nos dirigimos ao elevador, onde o nosso anfitrião apertou um botão
para descermos ao subsolo. Quando estávamos naquele andar, ele apertou o
botão mais uma vez.
O elevador fez um barulho estranho e desceu um pouco mais.
Shawn se mantinha impávido, completamente altivo e sério por detrás
daquela máscara. O homem, mesmo se estivesse com um laço de fita rosa na
cabeça e uma saia bailarina ainda pareceria ajudante do diabo. Ítalo estava
com um semblante meio sem vida, robótico, cansado. E eu, atenta, pronta
para a parte em que matávamos ou fugíamos dali.
Morrer não era opção.
O elevador por fim parou.
O homem tateou a parte traseira coberta pelo espelho e puxou uma
alavanca, tocou um botão, não sei. Só sei que a parte do elevador que era
apenas espelho se levantou e deu espaço para um corredor muito amplo,
cheio de portas.
Já era possível ouvir um pouco de música, sons de risadas e outras
coisas.
— Porão oito, senhor Abraxas — o homem avisou e voltou ao
elevador.
A passagem foi fechada e ouvimos o elevador subir.
— Você havia dito que a parte mais difícil era entrar? — Shawn
provocou.
— Não, eu não disse isso — Ítalo permaneceu parado, ainda com
aquela feição moribunda. — E ainda não entramos.
— Não? — foi minha vez de perguntar.
Nesse longo corredor cheio de portas, era possível ver câmeras por
todos os lados. E lá no fim, bem distante, como uma luz no fim do túnel, um
portal bem grande, fechado como a porta de um cofre forte.
— De nada serviu aquela sua gilete. Até aquilo nos foi tirado. E não
temos mais nada. E sequer entramos. Quer dizer... pode ficar pior?
— Eu falei que era chiclete. O que se faz com chiclete? Se põe na
boca — Ítalo replicou, sem alterar a expressão ou o tom de voz.
O portal se abriu, fez um barulho alto e ao se fechar pareceu até
controlar o ar do corredor, deixando-nos com a sensação de que o lugar
estava levemente mais abafado.
Um homem alto e fortemente armado empunhando uma metralhadora
enfiou a cara diante de um dispositivo eletrônico que travou o portão e
marchou em nossa direção.
— Ótimo. Ficou pior — Shawn olhou para mim.
— Senhor Abraxas? — o homem parou onde estava, alguns metros de
distância e fez sinal que Shawn avançasse, e com ele, nós.
— Espero que você tenha um plano — Shawn rosnou. — Ainda não
acredito que caí nessa de paraquedas...
— Irei levá-los para dentro do mercado. Mas antes, terei de verificar
se restou alguma arma ou escuta.
— Novamente? — Shawn estava tentando usar uma voz diferente da
normal quando conversava com os desconhecidos. Era engraçado e
agoniante, porque eu tinha a impressão que a qualquer hora ele iria sair do
personagem e fazer besteira.
— Sim, é necessário, senhor. Redobramos a segurança desde a
semana passada. Por favor, abra os braços.
Não havia mais nada com ele, Shawn estava completamente limpo.
Foi revistado e não sobrara qualquer arma, branca ou de fogo consigo.
— Levante a burca, gracinha — ele apontou a arma para mim.
— É realmente necessário? — ele se colocou entre nós. — Não quero
que mexa em minha mercadoria — ele foi firme.
— Não podem entrar se eu não revistá-los todos — o brutamonte
insistiu.
Shawn lançou um olhar que pedia instruções, mas Ítalo o olhou como
se tudo estivesse bem. Ele se afastou e observou o homem tatear o meu corpo
e depois subir a minha burca para conferir se eu escondia algo. Eu estava
limpa.
— Esse material que veio ser devolvido? — ele indicou Ítalo que
permanecia com aquela feição neutra.
Shawn acenou que sim. O brutamonte avançou tão ríspido e grotesco
para cima de Ítalo, puxou seu braço como se fosse um pedaço de coisa
qualquer e o puxou para seguir em frente, o que me chocou e fez ter um
flashback.
Eu passei por isso também, no passado.
— Sigam-me — o homem ordenou, soltou o braço da mercadoria e
foi em frente. — Após passarem pelo portal, alguns homens os guiarão para o
departamento oito. Ele fica mais abaixo do solo.
— Ótimo — Shawn segurou em minha mão e fomos juntos atrás
deles.
A poucos metros da porta, paramos. O homem com jeito de soldado
ou miliciano, se voltou para nós, com um sorriso estranho no rosto.
— O que foi?
— Tire a máscara, senhor Abraxas.
— É meu direito mantê-la.
— Não quando tem esses olhos — o homem o olhou, dos pés a
cabeça. — São olhos incomuns e conhecemos bem eles. Já tivemos olhos
assim muitas vezes aqui. Muitos entraram e jamais saíram. Tire a máscara.
Shawn suspirou longamente e tirou a máscara. Encarou o homem,
quando fez isso, com imponência, como se não tivesse medo de encará-lo ou
de morrer. Mas eu tinha medo de perdê-lo. Só de imaginar isso o meu peito
se cortava e o coração doía profundamente.
Eu não podia, eu não queria perdê-lo.
— Sua vida anda uma bagunça, senhor Cavalieri. Mas descer aqui? O
senhor? Pensávamos que era menos tolo... tsc, tsc... — o homem se deleitou,
como se já tivesse vencido.
E havia.
Ele levantou a ponta da arma lentamente, pronto para dar um fim em
tudo aquilo.
Até que por um momento ele se virou, bem devagar, o rosto se moveu
para trás, para onde Ítalo estava.
Ítalo o havia tocado no ombro com o dedo indicador e o chamado, o
que o deixou completamente distraído por um segundo. E foi nesse segundo
que Ítalo sorriu. Entre seus dentes unidos, uma fina lâmina.
O movimento foi tão rápido que só tive tempo para puxar Shawn e
jogá-lo para trás, eu fui em seguida. As marcas dos tiros ficaram na parede, o
som saiu abafado. O braço do homem se moveu em nossa direção e mais uma
vez eu o empurrei e fui junto, caímos no chão.
Abracei-o para que não fosse atingido, preferia até que fosse eu ao
invés dele.
Mas tudo ficou silencioso repentinamente a não ser pelo tombo de um
corpo grande no chão.
Shawn teve coragem para erguer o rosto e conferir o que havia
ocorrido; eu não.
— Não disse que precisava de uma arma? — Ítalo caçoou e estendeu
a metralhadora em nossa direção.
— C-como você estava com isso na boca esse tempo todo? —
perguntamos quase juntos, não escondemos o horror.
— É o que eu sempre digo... — Ítalo se agachou, pegou o facão da
cintura do morto e terminou de fazer o serviço, preferi não olhar. — Se
trocassem mil desses homens de preto por cinco travestis da Augusta,
resolveríamos as coisas com mais praticidade — ele terminou e se levantou,
sua mão empunhava uma cabeça.
Shawn conferiu o trabalho com cuidado, diferente de mim, não
mostrou nojo ou horror, apenas respeito.
— Impecável, você cortou bem — ele analisou.
— Eu sou da Grande Loja de Paris, amore! O pessoal que inventou a
guilhotina! Você esperava o quê? — o outro devolveu com uma arqueada de
sobrancelha.
Feito Perseu segurando a cabeça de Medusa, ele arregalou os olhos do
brutamonte decapitado e o apontou para a porta, onde a leitura de retina foi
feita e a porta foi destrancada.
— Eu levo a cabeça, vamos precisar dela caso queiramos entrar na
sala de controle. Você leva a metralhadora, Layla olhe se ele tem outras
armas.
Não precisei procurar muito, ele tinha, duas pistolas, tomei-as.
Shawn aproveitou para pegar o facão do chão e o colocou em sua
cintura, junto com o cinto.
— Agora estou mais confiante, acho que temos chance de sairmos
vivos.
Ítalo riu, deu alguns passos para trás, não entendi bem porque até ver
ele erguer a cabeça em direção à câmera acima de nós. Balançou ela em tom
de deboche e ainda deu a língua, feito uma criança brincando com outra. Ao
abaixar a cabeça e trocá-la de mão, estendeu a mão ensanguentada e com o
dedo indicador e médio, chamou, quem quer que estivesse assistindo.
— Atira na câmera. Todas elas — Ítalo fitou Shawn de esguelha.
Assim que isso foi feito, passamos pela porta.

Yohanna

— Fique parada! — um dos homens gritou.


Ele e mais dois outros começaram a subir as escadas com muita
pressa, se empurrando.
Esses bobalhões sequer precisavam de mim, eles mesmos se
atrapalhavam sozinhos.
Parei, diante deles, no topo da escada, assistindo-os.
Eles vieram tão confiantes, tão raivosos, tão compenetrados em mim
que não tive tempo o suficiente para avisar que havia outro fio invisível
amarrado entre alguns degraus e infelizmente um deles caiu nisso.
Primeiro ele ficou parado e tentou soltar o pé, depois puxou com
muita força. O que foi pior.
Dei um passo para o lado e vi o criado mudo com pernas em rodinhas
ir para o lado.
Ao ver um dos homens maus levantar uma arma para mim o outro
repreendeu:
— Está louco? Ela é a única que precisamos viva e você quer matá-
la?! É só uma criança!
— Ela é o diabo! — o homem manteve a arma empunhada.
— Diabo não! — foi minha vez de repreendê-lo e chamar sua
atenção. — Monstrinho. É diferente — aproveitei, só pelo desaforo, para
puxar o criado e empurrar ele.
Não precisei de força, só jeito. E antes que eu pudesse dizer qualquer
outra coisa, o criado despencou escada abaixo e levou um dos homens
consigo, soterrado debaixo.
— Meu nome é Yohanna.
— Ela é pior que o mafioso! — os dois que restaram conversaram.
— Olha para a rebeldia nos olhos dela. E você ainda quer que a
levemos viva?
— Parem de falar e vamos pegá-la! — o homem puxou o colega pelo
braço e subiram, meio desengonçados.
Esperei que pegassem mais impulso e rapidez na subida para derrubar
todas as bolinhas de gude no saco e preferi não olhar o tombo deles lá
embaixo em cima do criado mudo.
— Será que a gente cresce e fica imbecil, Lara? — peguei a mala com
coisas de menina e a boneca e corri para o quarto.
Capítulo 34
Shawn Cavalieri

O mercado clandestino era como um shopping obscuro e


amedrontador. Pessoas estranhas portavam placas no peito onde indicavam
venda ou compra de órgãos, crianças, escravos, produtos químicos e outras
drogas.
O espaço circular que era o hall de entrada era amplo e em uma parte
específica ao centro, onde uma luz forte descia de lá de cima, havia uma
escada circular que levava para andares superiores. Portas de aço que
levavam aos outros lugares do porão ficavam mais distantes.
Não tive muito tempo para examinar o lugar. Layla e eu derrubamos
os guardas com tiros, assim que passamos pelo portal.
Tivemos de ser ágeis e principalmente, confiar um no outro. Porque
por vezes eu simplesmente não tinha um alvo em meu campo de visão, seja
acima de nós ou atrás de nós, e ela deu conta perfeitamente. Ítalo parecia uma
dançarina de tango com a cabeça em mãos, não se amedrontou com as armas,
tampouco com o perigo.
Em um momento em específico tive de parar para assistir ele dar uma
cabeçada em um dos guardas – e não foi com a própria cabeça que fez isso.
— Abaixem as armas! — ouvimos uma voz de trovão vir atrás de nós.
Layla já estava sem balas e Ítalo recuou, ainda assim, atento ao
movimento daquele cara anormalmente gigante.
— Não são bem vindos aqui.
Ainda bem que ele avisou, não fosse isso eu não teria percebido!
Conferi que já havia gastado toda a munição da metralhadora, e
somente nesse instante percebi a quantidade de homens que neutralizamos.
Foram realmente muitos.
Com o sangue começando a esfriar e a adrenalina abaixando,
consegui respirar fundo. Limpei o suor em meu rosto, puxei a minha mulher
para perto e fiquei na frente dela enquanto encarava aquele ser.
— O que querem aqui? — ele rosnou.
— Não é da sua conta — Ítalo retrucou.
— É da minha conta, vocês estão em meu território. E não sairão
vivos daqui! — ele alertou.
Que gentil.
— Em minutos esse hall estará infestado de milicianos, acabou para
vocês. Estão encurralados, sem...
O homem de proporções assustadoras fez uma pausa e ergueu os
olhos para cima quando ouviu um assobio. Foi lento e preciso.
Antes que ele pudesse erguer a arma, Layla segurou com força em
meu braço, mas me mantive atento. Vi uma figura humana descer dos céus,
não sei o quanto acima ele estava, só sei que desceu feito uma bala.
Primeiro veio o martelo que bateu em cheio na cabeçorra daquele cara
estranho, depois a figura de um homem todo de preto e bandana de caveira
amarrada no rosto, ele caiu bem em cima do pescoço daquela aberração e
num impulso forte o derrubou ao chão.
— Por que eles sempre falam demais? — Ítalo coçou o queixo e
analisou se estava tudo bem. — Não podem só... sei lá... atirar?
Conosco estava tudo bem, sim. Com aquele ser, eu já não tinha
certeza.
— Aaaaaaaaaah! — ouvi um grito de desespero e dei um passo para
trás e segurei Layla.
Vi um homem rechonchudo cair em cima do brutamontes, bem em
cima do abdômen. Ele não caiu exatamente de pé, parece que tinha
despencado de algum lugar lá em cima.
Sangue espirrou para todos os lados. Se o gigante não estava bem
antes, agora eu tinha pena de quem faria o caixão para enterrar essa criatura.
Imediatamente reconheci o bispo do dia na catedral, ele bateu as mãos
nos joelhos, levantou-se e mostrou-se tão horrorizado quanto todos nós e
apontou o dedo indicador para Ítalo.
— Você! Você disse que ia ter uma cama elástica ou na pior das
hipóteses, um pula-pula!
— Foi — ele prontamente concordou.
— Não vejo o pula-pula! — o homem estava muito irritado.
Ítalo só apontou para o resto de gente que estava estatelado no chão.
— Está aí o seu pula-pula.
— Mas isso é um ser humano!
— Cada um usa como quiser — ele jogou o cabelo longo para o lado
e colocou a mão na cintura. — Espero que tenham boas notícias.
— Todos os guardas e milicianos neutralizados e temos em nossa
posse a sala de controle agora — a voz do ruivo saiu abafada devido ao pano
em seu rosto.
Ítalo balançou a cabeça positivamente e jogou para o lado aquela
cabeça decepada, pelo visto não precisaria mais dela.
Ao ver a face do homem ruivo eu me impressionei. Ele tirou a
bandana para respirar e depois passou as mãos pelo cabelo, depois a barba e
olhou ao redor. Suspirou calmamente e conferiu se estávamos realmente
vivos e bem.
Nada poderia chamar mais atenção do que sua identidade.
— Encontraram Irinna, suponho — Ítalo andou até o centro daquele
espaço, olhou para cima com certa desconfiança, depois fitou o corpo
esborrachado no chão.
— Sim, a levamos para a sala de controle.
— Encontraram mais alguém?
— Apenas Irinna naquela cela. Ao que parece, os outros prisioneiros
foram levados para outros porões pelo país — o príncipe inglês, o homem
ruivo, disse. — Eu sinto muito.
— Acha que nos esperavam? — o bispo manteve o olhar furioso,
ainda assim abaixou o tom de voz ao se dirigir a Ítalo.
— Irinna pode ter essas respostas — ele jogou o facão no chão e
seguiu para o início da escada. — Vamos descobrir que merda está rolando!

Yohanna

Pelo visto só haviam sobrado dois homens maus, os outros estavam


realmente impossibilitados de fazer qualquer coisa porque estavam...
descansando.
Me escondi debaixo da cama junto com a Lara e vasculhei a minha
mala para encontrar uma caixa de fósforos junto com um spray que tinha uma
figura bem explicativa em sua embalagem.
Prendi a respiração só por um segundo ao ver a porta do quarto se
escancarar e acompanhar as botas pretas do homem mau que invadiu o meu
quarto.
Ele revirou o guarda-roupa, olhou pela janela, procurou em todos os
lugares, menos debaixo da cama. Então o ajudei e dei algumas batidas na
parte de madeira da cama para ele se abaixar.
— Ah, aí está você! — ele veio rápido e enfiou a cara bem diante de
mim.
— Oi — o cumprimentei.
Minha mãe me deu educação.
— Saia daí — sua mão veio em minha direção e me puxou
bruscamente para fora da cama.
Risquei o fósforo quando já estava parada diante dele e apertei o
botão do spray, soltei o fósforo e deixei o fogo iluminar e aquecer o meu
rosto.
O grito do homem foi meio assustador, mas eu tinha dito a Lara:
“calma, não precisa ter medo, eu estou aqui com você”.
Eu?
Eu não tinha medo não.
Eu só tinha medo de nunca mais ver o papai e a mamãe. O resto eu
conseguia lidar e era o que eu estava fazendo: dando um jeito.
O homem correu, não sei se era porque o spray mostrava que era
veneno para matar bicho ou se foi o fogo que derreteu um pouco os óculos
dele e deu um bronzeado... mas ele largou a arma ali e eu só chutei aquilo pra
debaixo da cama.
— Só falta um, Lara, você foi muito corajosa até aqui, parabéns!

Layla

Reencontrar Irinna foi bom. Eu queria poder ter reencontrado Patrícia


também, mas já estava feliz em poder vê-la depois de tanto tempo e perceber
que ela estava bem.
Talvez não tão bem assim, mas viva.
— Não me abrace tão forte, estou com um machucado bem grande
aqui — ela indicou a região que ia dos seios até a virilha. — Eles me
cortaram e me costuraram algumas vezes. Mas vai ficar tudo bem — ela
sorriu.
Mas o sorriso de quem já viu os horrores do mercado ilegal é marcado
de um olhar triste e quase sem esperança, como o meu era no passado e como
o de Irinna era agora.
Ítalo se uniu naquele abraço e beijou o rosto dela. Arrancou a peruca e
revelou os cabelos mais curtos com presilhas que sustentavam a peruca.
— Nada da minha irmã?
Ouvir a voz de Shawn só reforçou a sensação de dor e insegurança em
mim.
Eu nunca devia ter permitido que ela ficasse para trás quando no
último minuto ela decidiu distrair os guardas para que todos fugissem e ela
ficasse lá para morrer como uma heroína.
Era idêntica a Shawn até nisso, tinha uma personalidade forte e
decisiva, não se abatia pelo medo e não pensou duas vezes em se sacrificar
não apenas por mim e minha filha, mas por todos os outros que estavam
presos.
— Olha isso — Irinna se sentou numa cadeira preta de couro.
Ela ficava diante de um grande telão que estava desligado até o
momento, mas ela rapidamente não só o ligou como digitou algum código
que fez com que números, letras e símbolos aparecessem.
A tela piscou e em seguida vislumbramos um mapa gigantesco que
mostrava todos os continentes do mundo e alguns pontos vermelhos nele.
Doze ao total.
— O que é isso? — murmurei.
Ítalo e o homem ruivo se aproximaram e examinaram as posições que
as luzes se dispunham.
— Essa é a localização do Grande Templo da Inglaterra — o ruivo
apontou.
— E esse o de Nova York — Ítalo considerou. — Aqui o de
Moscou...
— Sobre o que é isso, afinal? — foi a vez de Shawn se aproximar e
encarar tudo aquilo.
— Tem mais — Irinna de alguma forma selecionou a parte de Nova
York e ela cresceu no mapa.
Novos pontos, dessa vez pretos, apareceram. E nomes começaram a
correr pela tela. Havia apenas duas letras por linha, como: “H. J.”, “K. R.”,
“M. M.”.
As letras pararam de subir quando apareceu “P. C.”.
— Patrícia Cavalieri? — Shawn tocou a tela, como se estivesse
tocando a própria irmã. — Onde ela está?
— Esteve aqui, meses atrás.
— Você chegou a vê-la, Irinna?
— Por um ou dois dias, apenas.
Os olhos de Shawn brilharam. Segurei em seu braço e encostei o rosto
nele. Recebi seu abraço e afago como resposta.
— Ela foi levada para outro porão. Um que disseram ser de segurança
máxima e impenetrável — ela esclareceu.
“C. /73-1” apareceu na tela.
Irinna tocou em cima do nome e ao carregá-lo, Shawn reconheceu a
localização: a vila Patrícia.
— Vê? Eles conseguem rastrear a sua filha. A última vez que o chip
dela mandou a localização foi há uma hora.
— O “-1” — Ítalo apontou na tela. — Indica que pode haver um “-2”
— ele se voltou para Shawn. — Consegue encontrá-lo por aqui?
— Sim, mas a última vez que o chip enviou a localização foi há
meses. Não sei se ajuda.
— Quero a localização — Shawn foi firme e ficou atento à tela.
Um endereço apareceu, e pela feição dele, acho que reconheceu onde
era.
— O que são esses chips, afinal de contas? Quem os criou? —
perguntei.
O homem rechonchudo olhou para o ruivo, todos se entreolharam e
depois me encararam como se essa fosse uma excelente pergunta, mas feita
pela pessoa errada.
— A Segunda Guerra Mundial não acabou como foi previsto — Ítalo
me olhou com condescendência. — As coisas saíram um pouco do controle
no fim das contas e...
— Ítalo... — o homem que estava ao lado do ruivo o repreendeu.
Ítalo pareceu não se importar.
—... E o que restou às grandes nações que venceram a guerra foi um
longo período de Guerra Fria. Estados Unidos e a União Soviética venceram
a guerra contra a Alemanha... mas são nações que não são necessariamente
amigas ou que concordavam com os mesmos ideais.
— A grande nação capitalista e a grande nação socialista — o ruivo
coçou o queixo.
— Ao fim da Segunda Guerra, começou a Terceira. Mas dessa vez,
não era uma guerra física com aviões, mísseis ou bombas... dessa vez era uma
guerra por informações, por tecnologia, por conhecimento. Saber o que a
outra nação pretendia, quais seus planos, quais suas armas, o quão haviam
avançado nas bombas nucleares...
— Não sei se entendo — tive de ser franca.
— As duas nações saíram vitoriosas da Guerra. Mas cada uma tinha
uma visão específica de como o mundo deveria ser, havia dois projetos
civilizatórios. E ambas tinham poder de mandar tudo pelos ares. Então esses
grandes governos criaram programas secretos, e entre eles, o Programa de
Controle Populacional. Ele passou por diversas fases, na verdade, até que
chegasse...
— No chip? — perguntei.
Ele fez que sim.
— Mas foi descartado — ele deixou claro. — O Reagan ficou uma
fera... — ele fez um sinal negativo com a cabeça. — O chip foi implantado
em pessoas específicas e elas foram enviadas para a Ásia, América Latina...
— Os países que podiam se aproximar ou que estavam sob algum
domínio dos comunistas — o ruivo cruzou os braços.
— Não deu certo. Era um experimento direto com seres humanos e...
na maior parte dos casos o chip causou efeitos colaterais como perdas de
memória... acelerou o Alzheimer... enlouqueceu pessoas... Os chips foram
reprovados pelo Grande Zelador do Templo de Nova York na época e em seu
lugar aprimoraram o protocolo anterior que era câmeras por toda parte.
Dentro de máquinas de tirar xerox, aparelhos televisores, computadores...
hoje em dia isso não surpreende mais ninguém. O seu celular te vigia, a
câmera dele capta imagens, o gps às vezes manda sua localização para o seu
e-mail, o seu microfone consegue captar conversas sem que você permita...
isso, naquela época, era surpreendente e fatídico. Havíamos chegado lá, no
Controle Populacional.
— O chip era um aparato do governo para nos controlar?
— Vigiar é a palavra, veja só a China, por exemplo, com sua
tecnologia de reconhecimento facial. O chip era para ser mais do que isso: um
gps, uma escuta, um pen drive humano, em alguns casos. Era a Guerra Fria,
qualquer um poderia ser um espião infiltrado, era preciso fazer lavagem
cerebral em algumas pessoas e instalar o chip, mas o Grande Templo de
Nova York foi contra e tomou a posse da patente e guardou a sete chaves.
— Tá, e como isso veio parar aqui?
Até eu me surpreendi em ver Shawn perguntando aquilo.
Pensei que ele também teria a resposta.
Ítalo riu.
Nenhum de nós achou graça e continuamos aflitos e atentos.
— Todos dizem por aí que uma elite mundial domina tudo o que
acontece no mundo... e estão certos. O que as pessoas não dizem é que é bem
difícil manter 13 famílias, com 13 visões diferentes sobre o futuro do mundo,
agindo em união. Indo numa única direção.
— O que você quer dizer? — Shawn perguntou.
— Ninguém mais fala disso, mas...
— Ítalo... — o bispo o reprovou.
— Houve uma cisão há um tempo atrás. E dessa cisão, uma nova. E
outra. Somos, no fim do dia, membros da Colmeia. Mas existem cinco ou seis
alas diferentes que estão lutando entre si pelo poder mundial.
— Como os meus mafiosos desertores? — Shawn perguntou.
— Excelente exemplo! — Ítalo sorriu. — É bem difícil manter grupos
grandes unidos em torno de um ideal. Cisões acontecem o tempo todo... na
igreja, na política, no mundo das ideias... entre as famílias que governam o
mundo...
— Tá, onde você quer chegar?
— Nós Zeladores não podemos tomar lado na cisão. Nós lutamos o
tempo todo para manter as famílias unidas, os Grandes Templos em uma só
direção... mas como você pode perceber, pela sua experiência na máfia,
senhor Cavalieri, este é um assunto bem delicado. E se membros dos
Templos de Moscou ou Pequim descobrirem que os chips vieram à tona... —
Ítalo balançou a cabeça de modo negativo. — A situação não vai ficar boa.
— Mas vocês Zeladores estão cuidando disso, certo? — Shawn
perguntou.
— Estamos. Mas onde está o Diego Abramovisky? — Ítalo
perguntou.
E eu lá saberia? Estive tão ocupada por todo esse tempo!
— Pensei que era a sua missão descobrir o paradeiro do Abramovisky
— o homem de rosto rechonchudo reclamou.
— A minha missão nunca foi encontrar o paradeiro do Abramovisky
— Ítalo cruzou os braços. — Vocês ainda não entenderam? Abramovisky não
desapareceu. Ele fugiu.
Não entendi o que aquilo queria dizer, por isso fitei Shawn. E a julgar
pela feição dele, ele havia entendido algo.
— Abramovisky entregou a tecnologia para alguém no passado e
quando você fugiu — ele apontou para mim. — Ele sabia que a cabeça dele
estaria por um fio, porque você — ele apontou para Shawn. — A encontraria.
E perguntas surgiriam. E alguém teria de investigar essa merda. E tadã,
bitches, eu sou o investigador.
— Me parece mais uma travesti das esquinas de Roma — o
rechonchudo analisou.
— Ah, você as conhece bem, não é? — ele provocou com um sorriso
de escárnio e ainda deu uma rebolada. — Consta nos registros que
Abramovisky era o atual guardião da patente do chip e sinceramente, essa
história já havia morrido para todos nós, porque o chip foi cancelado, fim de
papo e foda-se. O novo programa de Controle Populacional que usamos é
treinar indivíduos específicos para fazer manifestações e inflamar os ânimos
dos países que as 13 famílias querem o petróleo e as riquezas naturais. Todas
as vezes, nos últimos anos, que pessoas apareceram com chip... ou foi dito
que era erro médico... ou maluquice dessas pessoas descerebradas que
inventam teorias da conspiração.
— Espera aí, o Zimmerberg trabalha para vocês? — Shawn
perguntou.
— Não. Ainda preciso descobrir qual é a desse aí, porque a tecnologia
dele se parece muito com a nossa, mas é menos sutil. Sério, você abre sua
rede social e aparecem fotos da sua galeria particular e a rede social te
pergunta se você não deseja compartilhar aquelas fotos privadas com as
pessoas? Para que isso? Tudo bem que todo mundo hoje em dia sabe que está
sendo vigiado pelo governo, mas não precisa também esfregar na cara das
pessoas assim...
— Mas você disse que no chip da Yohanna havia...
— É claro que existem coisas guardadas no chip — ele bateu o pé
com salto alto bem firme no chão. — Qual a melhor forma de mandar
mensagens, ordens ou instruções secretas daqui para o Brasil, por exemplo?
Um telefonema? Um e-mail? Um pombo correio? Não. Você criptografa o
chip, coloca ele em alguém, faz com que essa pessoa se encontre com o
destinatário que tem instruções para descriptografar o chip. Será que eu estou
falando em grego?
Para mim, estava.
Ele revirou os olhos e mostrou-nos sua nuca.
— E porque eles colocaram chips em minha irmã, mulher e filhos? —
Shawn perguntou.
— Talvez porque, de todas as pessoas que eles poderiam colocar,
essas eram as únicas que você jamais iria encontrar na vida.
— Mas eu reencontrei a Layla e...
— Caralho, você ainda não entendeu a sua própria história, ô
mafioso?
Yohanna

Eu juro, eu juro que foi sem querer. Eu juro mesmo!


Tudo o que eu queria era chamar a atenção do outro homem ruim com
música, por isso coloquei o radiozinho da vovó na tomada, em cima da pia e
liguei bem alto.
Não passou muito tempo, o homem mau apareceu no banheiro e veio
correndo atrás de mim.
Encurralada, entrei na banheira e ele entrou também, ele segurou bem
forte minha cabeça dentro da água e tudo o que eu pensei em fazer foi pegar a
Lara no fundo da banheira e levantar ela até encostar na pele do homem.
Apertei um botãozinho que tinha na Lara e nunca mostrei a ninguém e
ouvi o grito do homem que pelo susto e choque, saiu da banheira derramando
água pelo lugar inteiro.
Levantei-me e procurei a Lara, ao encontra-la peguei e coloquei em
cima da pia.
— Eu vou te matar sua pestinha! — o homem veio, cambaleando e
furioso, mas escorregou na toalha no chão e bateu a cabeça na banheira e
desmaiou.
— É monstrinha — corrigi e saí da banheira. — Moço? Você está
bem?
Pelo visto não.
Ou pelo visto sim!
Soltei um gritinho ao sentir a mão dele segurar em minha perna, ele
estava de olhos fechados, ainda assim se movimentou todo estranho e ficou
com o corpo metade na banheira e metade para fora.
Segurei com todas as minhas forças na pia enquanto ele me puxava e
só tive tempo para ouvir um:
— Nããããão!
Ops.
Chutei sem querer o rádio dentro da banheira.
Minha vovó ia arrancar meus cabelos e me dar uns tapas, eu sei.
— Moço? — olhei para trás.
Mas ele estava tão sereno e quentinho dentro da água que achei
melhor não acordar.
— Será que acabou, Lara? — peguei minha boneca e tentei descer,
mas era melhor ir pelo outro lado pra não pisar no moço.
Soltei um novo grito quando vi alguém invadir o banheiro com
agilidade.
Eu tinha contado certinho e tinha dado conta de todos os homens
maus... tinha mais um?!
— Eu a encontrei! — ouvi.
Fui pega no colo pelo homem e abri bem pouquinho o olho,
totalmente temerosa de quem estava ali, mas era o pai do Anthony, um
homem muito alto igual o papai e de olho azul bem bonito, mas não tão
bonito quanto o do papai.
— Oi, titio — toquei no rosto dele.
Um segundo depois o tio Ethan apareceu, estava com uma arma, por
isso me encolhi e abracei o tio Héctor pelo terno. O outro tio, que chamava
Ricardo, também apareceu.
— Você está bem? — o tio Ricardo perguntou.
Fiz que sim.
— Não te fizeram mal?
Fiz que não.
— O que aconteceu? — O tio Ethan perguntou.
Levantei os ombros e abaixei.
— Eu não sei. Quando eu cheguei já estava tudo assim — menti.
Capítulo 35
Shawn Cavalieri

Partiu o meu coração saber que Patrícia esteve naquele lugar há meses
e o nosso reencontro não poderia ocorrer agora. Mas o meu coração e peito
ficaram quentes ao ver tantas pessoas libertas das celas e alçapões daquele
lugar.
Crianças de colo e já crescidas, mulheres e homens, todos sujos,
maltrapilhos, com o corpo machucado, cortado ou até mesmo disforme
correram em desespero para fora do local, nos agradeceram rapidamente e
buscaram um novo dia no mundo lá fora.
— Para onde vão agora? — não escondi que me preocupava.
Eu era conhecido por ser impiedoso, sim, também por ser um
monstro.
Mas a minha irmã, mulher e filhos estiveram naquelas condições um
dia. E só de tentar visualizá-los nas pessoas escravizadas, agora libertas, eu
sentia meus olhos queimarem.
— A CIA vai dar um jeito, não se preocupe — Irinna garantiu.
— Nós também — Ítalo reforçou. — Vamos devolvê-los às suas
famílias, em qualquer lugar no mundo que estejam.
— Caso precisem de ajuda, é só me chamar.
Eles acenaram positivamente.
— Vamos contatá-lo quando encontrarmos o paradeiro da sua irmã,
senhor Cavalieri — Ítalo andou em frente, seguindo a multidão.
O jovem príncipe inglês o acompanhou, assim como o bispo e Irinna,
que se despediram de mim.
Layla se posicionou ao meu lado. Tinha entrado em um dos alçapões,
agora seu rosto mostrava um pouco de tristeza, seus olhos pareciam
carregados de uma lembrança dolorosa.
— O que faremos agora? — ela perguntou.
— Vamos para a nossa casa — beijei sua testa.

Yohanna

Os meus tios, amigos do papai, queriam que eu dormisse.


É claro que não dormi! E se homens maus tentassem voltar? Eu
precisava estar bem acordada para proteger a vovó a bisa e até os meus tios,
se fosse necessário!
Fiquei afoita ao ouvir o som de carro parar lá fora em frente a
mansão, desci do colo da vovó que estava com um saco de gelo na cabeça e
corri para a porta.
Antes de alcançar a fechadura para abrir a passagem, o papai
apareceu.
E com ele a mamãe!
— Você trouxe a mamãe de volta! — me joguei em seus braços.
O papai me levantou bem alto e me encheu de beijos, não parei quieta
e depois fui para o colo da mamãe a abracei ela bem forte, com vontade de
nunca mais soltá-la.
— Você voltou, mamãe! Você voltou! Eu sabia que o papai te traria
de volta!
— Oi neném — a mamãe devolveu o abraço bem apertadinho e
quente.
Quando nós duas já estávamos sem ar, ela me soltou e me entregou ao
papai.
— Tudo em ordem por aqui? — ele encarou os titios de um jeito
severo.
— É claro — um respondeu.
— Tudo certo. Nada fora do comum.
O papai não pareceu muito satisfeito, ainda assim, concordou e me
colocou no chão, segurou em minha mão, aproveitei para segurar a mão da
mamãe com a que estava livre.
— E você mocinha, se comportou? — ele se dirigiu a mim.
— Sim, papai. E eu cuidei da Lara, da vovó e da bisa.
O papai se mostrou satisfeito, balançou a minha mão e a soltou.
— Muito bem, vá buscar as suas coisas, nós vamos voltar para casa
agora.

Layla

Diferente do clima lá fora, das noites frias e solitárias de Nova York e


nos entornos da vila Patrícia, uma sensação aconchegante e perfumada me
tomou ao entrar em casa.
Era a propriedade de Shawn, não apenas a mansão como tudo ao
redor, ainda assim, era o mais próximo que eu poderia me apropriar como um
lugar seguro e agradável para dormir, sem ter medos, receios ou pesadelos.
Despedimo-nos dos amigos de Shawn, Yohanna mais animada que
nós dois e seguimos para uma incrível noite comum em que fizemos pizza,
também fizemos uma cabana com lençóis amarrados no guarda-roupa e
cadeiras e contamos histórias até que Yohanna pegasse no sono.
Era, definitivamente, um lugar bem diferente do que eu havia chegado
a primeira vez: as paredes da sala, corredores e cômodos agora tinham cor,
quadros mais alegres decoravam todo o perímetro, móveis modernos
levantavam o astral do ambiente... e mesmo assim, lá ficamos nós três,
debaixo dos lençóis em forma de uma cabana, nos divertindo como nunca.
Como de praxe, imaginei que após cuidar para que Yohanna estivesse
bem e segura, Shawn desceria para seu cômodo de tortura, então desci antes.
Ele foi pego de surpresa quando abriu a porta e lá estava eu: escorada
no canto da parede, os olhos peregrinando por cada canto até encontrá-lo,
como um viajante leva dias no deserto até encontrar um oásis que lhe dê
esperança.
— Espero que possa me perdoar um dia — quebrei o silêncio assim.
Era melhor do que trazer à tona o que aquele lugar vibrava.
— Perdoá-la? — Shawn desabotoou as mangas longas e tirou a
camisa social branca devagar, parecia até que queria que eu assistisse.
Faltou-me ar, sempre era como ver a primeira vez, como no dia em
que o espiei tomar banho. E além de porte atlético, um olhar de mau e
tatuagens que levantavam minha libido, eu não podia deixar de admirá-lo por
quem ele era.
— Eu me sinto muito mal por não ter contado sobre Patrícia antes...
— mordisquei o lábio inferior. — Ou sobre o nosso suposto filho perdido. E,
principalmente, que me ofereceram inúmeras vezes trocá-los por você, caso
eu o matasse ou o entregasse.
Só por um segundo o homem diante de mim abaixou a cabeça.
Foi o mais perto que cheguei de enxergar fraqueza nele.
Fraqueza não. Isso não era fraqueza. Era humanidade.
Era o lado que ele temia, o lado que ele negava, o lado que ele repetia
mil vezes que não tinha.
O monstro era de todo, humano, mesmo que tentasse se cobrir com
aquele ar demoníaco.
E eu o amava perdidamente, das duas formas. Como monstro e como
homem.
— Eu passei muitos anos procurando a minha irmã, é claro — Shawn
desfivelou o cinto e o tirou da calça num impulso, como se estivesse pronto
para me chicotear com ele. — E, sequer poderia imaginar, todo esse tempo,
que eu teria uma filha... ou um filho... perdido... — novamente, ele olhou ao
redor, evitando o contato visual.
Ainda assim, permaneceu caminhando em minha direção.
— Se eu soubesse que trocar a minha vida pela deles os traria de
volta, são e salvos, eu já estaria morto — ele garantiu. — É assim que eu sou.
Não posso conceber que eles dois estejam por aí, sofrendo, por minha culpa.
— Não acho que seja a sua culpa.
— Mas você escolheu não fazer isso. E teve os seus motivos. Talvez
por isso eu ainda esteja aqui e sei que juntos — ele segurou nas duas pontas
do cinto, me enlaçou e me trouxe contra o seu corpo numa intensidade
animal. — Poderemos resolver isso.
— É o que famílias fazem — arqueei a sobrancelha e segurei em seus
ombros.
— É, Layla. É o que a nossa família faz. Não poderia suportar esse
fardo sozinho e certamente cometeria erros pelo meio do caminho... por isso
é bom que você esteja aqui. Mesmo que tenha planejado cada passo, desde o
nosso reencontro no metrô até a guerra interna na máfia.
Comprimi os lábios para guardar o sorriso de deboche.
— Não me odeia por isso?
— Por ter planejado me capturar, matar, tentar destruir meu império e
legado?
Até segurei a respiração.
— É. Eu te odeio um pouco — suas narinas soltaram um ar quente de
raiva. — Mas você é tão ardilosa e astuta, tão perigosa e livre, tão
determinada e firme que... seria loucura não te amar também.
Encostei a testa no peito dele e suspirei.
Não esperava ouvir aquelas palavras. As de ódio sim, estava bem
preparada. Mas as de amor... não.
O que mais me surpreendeu nisso tudo foi que, no momento de maior
aflição e perigo, nos instantes em que nossa vida estava por um fio e nossos
inimigos avançaram ferozmente, Shawn foi irredutível: vamos juntos.
Enfrentar juntos. Vencer ou perder, mas juntos.
Não eram mais problemas meus ou dele. Eram nossos problemas.
— Amar é um sentimento estranho que me faz sentir fraco, inseguro e
vulnerável — senti as duas mãos dele nas laterais da minha cabeça e meu
rosto foi erguido em seguida. — Nunca, Layla, nunca valeu à pena me sentir
assim. Venho de um mundo onde ser poderoso, seguro e imponente são as
regras. Mas você, só você e por você vale à pena.
— Por quê?
— Por quê? — ele sorriu. Eram as raras vezes que fazia valer à pena
poder estar tão próxima dele. — Por que eu sinto que estou conectado à
minha verdadeira essência. Mesmo que eu tente resistir, algo mais forte me
diz que a coisa mais absurda e perigosa, além de certa, é te amar.
Eu já não tinha mais palavras.
Só pude apreciá-lo, encostar seu nariz no meu e sua testa na minha.
Deixei que o vestido caísse ao chão e me entreguei aos seus braços da forma
como eu gostava.
Shawn me ergueu do chão e me trouxe ao seu colo, em seguida me
apertou contra a parede e me amou ali mesmo.
Começou voraz, não havia outro jeito de ser.
Beijou o meu pescoço, seguiu para seus seios e abdômen, me ergueu
ainda mais a ponto de que meus braços estendidos pudessem tocar o teto;
sentou-me em seus ombros e afundou seu rosto em minhas partes, beijando-
me com carinho e fome; deixou um rastro de chupões, gemidos e marcas de
sua mão pela minha coxa, sua parte interna, e por fim, bem dentro de mim,
onde seus lábios e os meus tinham um jeito único de se comunicar.
Meu corpo acendeu e ardeu, uma sensação prazerosa que só encontrei
nos braços dele.
E conforme me desceu lentamente, agarrada pelo seu corpo todo
definido, senti que precisava de mais, eu queria mais, estava sedenta por
mais.
— Eu quero ficar de joelhos, para te chupar.
— Você é terrível — ele riu e sustentando o meu corpo com suas
mãos, repousou-me no chão e segurou firme em minha nuca.
Deixou-me bem diante do seu pau grande e rígido, a cabeça bem
inchada e pulsante, e como um ímã, fui cega em sua direção e deixei que a
glande deslizasse para dentro da minha boca.
Primeiro ele deixou que eu me divertisse, segurasse com as duas mãos
na extensão do membro para sugá-lo e deixá-lo molhado, ainda mais do que
eu estava.
Depois ele foi mais incisivo e mostrou porque segurava em minha
nuca: trouxe-me cada vez mais perto, obrigando-me a engolir até que
chegasse em minha garganta e ainda assim sobrasse uma parte considerável
para fora.
— Faz de novo — tive de implorar.
Ergui os olhos em sua direção, bem pidões e grandes, extasiada e
apaixonada.
— Você é mais do que terrível — ele comentou.
Juntou bem os meus cabelos em uma só mão e me trouxe até engolir o
máximo que poderia, perdi todo o ar que me restava e com as pernas já
bambas, implorando por mais, senti não apenas a glande, mas todo o pau se
esfregar lentamente em meu rosto, deixando-me babada.
— E você não é terrível? — provoquei.
— Ah — Shawn se agachou, pareceu contemplar a visão ao ver meu
rosto tão próximo do dele. — Eu sou pior — passou as mãos por debaixo dos
meus ombros e me puxou de volta para seu corpo.
Com as costas repousadas na parede e com suas mãos sustentando as
minhas pernas, apertei os olhos ao sentir ser devorada de uma só vez, foi
mais do que ardente, meu corpo ficou bambo e tive de segurar o ar para não
desmaiar ou algo do tipo.
Shawn apoiou minhas pernas de modo que abraçasse a sua cintura.
— Eu sou muito pior — ele garantiu.
Sua língua subiu da minha virilha até chupar intensamente um dos
meus mamilos, continuou a subir pelo meu pescoço até lamber meu rosto e
tomar meus lábios num beijo apaixonado, tão intenso quanto as estocadas em
mim que não me davam outra escolha a não ser me agarrar completamente ao
seu corpo até quase fincar as unhas em suas costas.

Shawn Cavalieri

Vê-la estremecer em meus braços era o prelúdio para o paraíso.


Layla gemeu ao ser pressionada contra a parede e mordeu meu ombro
com força ao me sentir todo dentro de si.
Ela era o melhor lugar no mundo em que já estive.
Estive em vários. Contemplei as maravilhas do mundo.
Nada se igualava ao que aquela mulher conseguia fazer comigo.
Fazer-me sentir adolescente e homem, deixar-me inquieto e sem
palavras, ansioso por seu corpo, contentado por sua presença.
Nunca me senti assim antes; esse era o meu melhor momento.
Virei-a num único impulso para ficar de costas para mim e a subi pelo
meu corpo, abracei-a pela cintura e a mantive seus pés fora do chão.
— Arrr — ela pediu ao sentir meu pau voltar a penetrá-la quando a
abaixei sutilmente.
— É só disso que precisa? — lambi seu pescoço. Não contente com
isso, depositei-lhe um chupão.
— Eu preciso de você — ela pediu.
A mão que estava livre e distraída brincando com seus mamilos subiu
para o pescoço. Sorri enquanto apertava devagar e sustentava menos seu
corpo, obrigando-a a descer e sentir tudo de mim.
— Eu estou aqui para você, bebê — murmurei.
Voltei a subi-la com o braço ao redor de seu corpo até estar pronto
para sair dela. Mas eu era incapaz. Queria continuar ali, queria saborear sua
pele, queria senti-la quente e doce em mim, molhada como a deixei,
pressionando-me até arrancar minha sanidade.
— De novo — ela pediu.
Assisti seus suspiros se transformarem em um gemido intenso e lambi
sua nuca, beijei suas costas, a ponto de senti-la estremecer em meus braços.
Fiz isso com mais pressa, subindo-a e descendo em mim, por vezes
ouvindo seus gritos ao deixar o pênis deslizar e depois entrar com força,
pulsando de tesão, louco por ela.
— Shawn! — ela chamou pelo meu nome.
A desci devagar até pousar o pé direito no chão, a outra perna eu
mantive erguida enquanto a fodia com intensidade; agora a mão livre a
massageava no ritmo que ela gostava.
Sua pele era capaz de aquecer a minha, suas palavras dobravam o meu
tesão, eu permanecia alerta e prestativo ao nosso prazer.
Queria vê-la gozar, queria vê-la gritar o meu nome e se perder em
meus braços.
Eu precisava dela. Precisava saber que estava satisfeita, que
encontrava em meus braços não apenas todo o carinho, confiança e proteção
que precisava, mas também o prazer, a perdição e a luxúria.
Queria vê-la implorar.
— Shawn! — ela quase choramingou.
Mantive os dedos acariciando-a e o braço mais acima em seu pescoço,
abraçando-a contra o meu peito, embalando-a com meu corpo, estocando
com força o suficiente para deixar seus suspiros gravados na parede.
— Eu vou... eu vou...
Vai me levar ao paraíso, amor. Quero te levar junto.
Layla pendeu a cabeça para trás e se esfregou, manhosa em meu
peitoral, os olhos escuros fitaram o teto por um tempo e depois dirigiu-os em
minha direção.
O que fazer além de contemplá-la?
Era como o céu cheio de estrelas, longe das luzes da cidade. Queria
fitá-la até desvendar meu destino em suas estrelas, traçar minhas rotas em
seus sonhos e guiar-me por seus lábios.
Peguei-a no colo e encostei o nariz no dela.
— Você precisa de um banho — avaliei.
— Estou tão zonza que não sei se estou no inferno ou no paraíso —
ela disse, olhando ao redor, a mão acariciando o meu braço.
— Você está aqui comigo, bebê. Então onde estamos não importa.
Capítulo 36
Patrícia Cavalieri

Aos nove anos eu fui vendida para um bilionário por 700 milhões de
dólares.
Eu fiquei bastante confusa, devo admitir.
Em um dia a minha maior preocupação era ser mais significativa e
impressionar o meu pai.
No dia seguinte eu fui raptada dentro do metrô e acordei em um
porão, rodeada por homens que deram lances para me comprar.
Nunca pensei que uma pessoa poderia ser vendida.
O homem que me comprou nunca me disse seu nome. Era calvo, o
topo da cabeça completamente careca, cabelos brancos nas laterais e um
pouco atrás. Ele era bem mais velho que o meu pai. Sempre estava vestido
formalmente e em hipótese alguma me deixava sair do calabouço que ficava
muitos metros abaixo da sua esplendorosa mansão.
Ele disse que cuidaria de mim e me ensinaria como era a vida.
Devo admitir que não gostei de absolutamente nada do modo como
ele cuidou de mim e o que me ensinou.
Aos nove anos tudo o que eu queria era ser livre e correr no quintal,
brincar de inventar coisas e poder enxergar a luz do sol pelo menos uma vez
ao dia. Nada disso me foi permitido desde que ele se tornou o meu dono.
Conforme os anos se passaram e pude ter pouco acesso ouvindo e
bisbilhotando, vi que aquele homem recebia muita gente importante em sua
casa.
Antigos presidentes da América, grandes empresários e homens muito
ricos e poderosos, como ele.
Ele me disse várias vezes que pedir ajuda era inútil, porque ele era
mais forte e tinha direito sobre mim, porque eu era a sua propriedade.
Foi assim até 2014.
Nunca imaginei, tampouco esperei que fosse especial.
Aquele homem tinha muitas propriedades dentro dos seus calabouços
que eram enormes, cheios de cela e assustadores. E mesmo sendo sua
propriedade mais antiga e às vezes ficar livre para transitar pelo subsolo da
grande mansão, quase nunca por ela em si, fui vetada de ter contato com as
outras propriedades.
Em 2014 tudo mudou.
Depois descobri que esse homem comprou uma mulher estrangeira e
a sua filha, elas ficavam bem isoladas na última cela do corredor sem luz e
com pouquíssima ventilação.
O choro da criança partia-me o coração e muitas vezes tentei entrar
em contato, mas fui punida severamente, voltando a ficar em cárcere diversas
vezes.
Deve ter sido essa mulher, só pode ter sido ela...
Ela o matou e incendiou a mansão toda.
Homens vieram e nos tiraram das celas, ela foi espancada e sua
criança lhe foi tirada, fomos levadas de volta para o centro do mercado ilegal,
voltamos a ficar presas em porões abarrotadas de gente doente, muitas vezes
aos pedaços e que eram frequentemente atormentadas por homens que só
queriam uma noite ou um de seus órgãos.
Ah, não posso me esquecer que o meu pai veio me visitar na mansão
do meu dono uma vez.
Ele mesmo disse que eu deveria me comportar e fazer tudo o que o
homem quisesse, porque muita coisa dependia de mim.
— Um dia eu teria de entregá-la para uma família e você seria mulher
de um mafioso. Mas essa oportunidade... ela não poderia nos escapar... — ele
disse no curto momento que tivemos cara a cara.
Eu não quis abraçá-lo. Tampouco restava em mim a admiração e a
vontade de impressioná-lo e fazer com que me amasse.
Na verdade, não havia restado mais nada em mim.
Sonhos, planos, vontades... Eu já não era, há muito tempo, a criança
que sonhava em poder correr ao ar livre ou ver a luz do sol.
Eu só pedia, dia após dia que aquele tormento acabasse.
— A nossa família foi escolhida para uma grande honra e um dia o
seu irmão será o homem mais poderoso de toda a América — ele garantiu,
bastante excitado.
Eu não tinha excitação, ânimo ou qualquer outra coisa.
Tudo o que havia me restado era o sentimento de que um dia aquela
dor acabaria.
E acabou, de certa forma, quando a mulher selvagem – foi assim que a
chamaram nos porões –, matou o meu dono.
Que mulher sagrada.
Mais civilizada que toda a nossa civilização.

2014 – Em algum porão nos EUA


— Patrícia? — ela me chamou.
Pisquei os olhos devagar e larguei o pano molhado dentro do balde e
fitei-a com interesse. Como ela sabia o meu nome?
Nem eu mesma me lembrava! Nem mesmo ele me pertenceu durante
esses anos, eu fui chamada de tantas coisas, mas nunca pelo nome verdadeiro.
E ouvir o meu nome sair da boca daquela mulher desconhecida, a mulher que
nos havia livrado do nosso algoz, acendeu algo estranho em mim.
— Quem é você? — perguntei.
— Layla — ela encontrou forças para responder, ainda assim ficava
curvada, tossia bastante.
Estava toda machucada, havia muitos cortes pelo seu corpo já magro
e debilitado e sangue por toda a parte.
— Como sabe o meu nome? — sussurrei, interessada.
— Você é idêntica a ele.
— Ele quem?
— Shawn.
Quase chutei o balde. Dei alguns para trás e vigiei em volta, mas não
havia ninguém naquela sala de tortura. Pelo visto era uma noite especial para
a Layla...
— Shawn — repeti o nome do meu irmão.
Mesmo despida de muitos sentimentos a respeito do meu pai e da
minha família, ouvir o nome do meu gêmeo vir de alguém foi como um afago
no coração.
Voltei a me aproximar e apoiei o corpo dela no meu para que ficasse
de pé e pudesse respirar corretamente.
— Como você...? Quem é você? Como sabe o nome do meu irmão?
Eles dizem que você nem mesmo é da América!
Ela balançou a cabeça sutilmente, não tinha forças nem para isso.
— Se eu morrer... — ela murmurou. — Cuide da minha filha... por
favor...
— Você não vai morrer.
Isso não era palavra de apoio ou esperança, era constatação. Valíamos
muito mais vivas do que mortas; e se não nos comprássemos para sermos
escravas dos fetiches doentios, no mínimo teríamos nossos órgãos arrancados
– todos – e vendidos a preços exorbitantemente caros.
— Como sabe o nome do meu irmão? — insisti.
Foi naquele momento, cuidando daquela mulher e aproveitando os
poucos minutos que ainda tinha para limpá-la, que voltei a sentir algo que já
não conhecia desde muito cedo.
Esperança.
— Ele foi para uma guerra, eu o conheci na Síria — ela explicou, com
muita dificuldade, o inglês não era perfeito, mas eu conseguia entender.
Mais tarde ensinei a ela como melhorar o inglês.
— Na Síria? — fiquei chocada.
— Shawn Cavalieri — ela disse. — Ele é alto, mais que você. E tem
seus olhos, são idênticos...
— Uma herança genética da família, dizem que todo Cavalieri, desde
os primórdios, tem os olhos assim, bem marcantes.
Ela concordou e sorriu, mesmo com dor e sem conseguir respirar
direito.
— Eu não sabia falar inglês na época... mas ele tinha uma expressão
tão triste e vazia...
Ah, esse era mesmo o meu irmão, tadinho.
— E um dia, quando o vi nu — ela fez uma pausa, pelo visto um tanto
que constrangida. — Vi uns machucados nas costas dele ... e quando toquei
ele disse... Patrícia. Mas Patrícia não significa dor em sua língua, não é? É o
seu nome.
Voltei a piscar os olhos e encarar aquela ilustre desconhecida muito
atentamente.
— Estranho que você se lembre de tudo isso... não faz tempo?
— Ele tem uma filha.
Já? Shawn? Uma filha?
Ele que sempre foi tão distraído, frio e distante, raramente se
conectava emocionalmente e não gostava que os outros tivessem acesso aos
seus sentimentos?
Uma filha?
— Como você sabe disso? — perguntei.
— Ele e eu... — ela apontou para si. — Nós temos uma filha. É a
minha bebê, que está lá em cima...
O meu mundo... parou.

2018 – Em algum porão nos EUA


— Conta mais uma! — Yohanna bateu palmas e abriu bem os olhos
enquanto me fitava.
— Bem... hum... o que eu deveria contar?
— Conta de novo a história da Chapeuzinho Vermelho! — ela pediu.
Toquei suas mãozinhas e segurei bem firme, aninhei ela em meu colo
e suspirei ao começar.
— Era uma vez...
Muitas coisas aconteceram desde que descobri que tinha uma
sobrinha no mesmo estado que eu.
Layla e Yohanna foram vendidas novamente e isso simplesmente
destruiu o meu coração, porque elas eram a minha família em meio aquele
lugar amargo.
Ninguém nunca mais se interessou em comprar-me e isso foi um
alívio, é claro, mas vê-las partir acabou comigo.
Ao que parece, nunca tive certezas sobre isso, meus irmãos mais
velhos foram atrás do meu paradeiro. Alessandro foi morto ao descobrir que
eu estava como propriedade do meu antigo dono, é o que ouvi uma vez.
Enrico foi morto ao tentar invadir o porão em que vim parar.
O meu pai havia morrido também, anos antes. Sinto muito em
decepcionar quem quer que seja, não chorei uma lágrima.
Nunca descobri a verdade se realmente Alessandro e Enrico morreram
ao tentar me resgatar... em todo caso, eles estavam mortos e isso me fez
chorar por semanas.
Eu os amava profundamente e não queria que suas vidas acabassem
por minha causa. Orei e pedi dia e noite que Shawn não tivesse nunca o
mesmo destino.
A vontade de reencontrá-lo era grande. Mas o medo de perdê-lo era
maior.
— E o lobo era grande e assustador, não era, titia? — Yohanna
apertou meu braço.
Pisquei os olhos e retornei à linha de raciocínio do conto que minha
mãe me contava.
— Sim, o lobo mau era grande e assustador. E ele enganou a
Chapeuzinho Vermelho...
— E a Chapeuzinho Vermelho era uma menina bem pequenininha e
indefesa, não é?
— É, é sim, Yohanna.
— Mas titia, a Chapeuzinho Vermelho não tinha medo algum do lobo
mau. E ela o enfrentou e acabou com a raça dele. Fim.
— Oh! — me surpreendi. — Dessa vez ele não come a vovó?
Yohanna fez que não.
— Não, titia, a Chapeuzinho Vermelho era muito pequena e indefesa.
Mas não era burra. E o lobo era burro. E por isso ela fez o lobo mau se
arrepender de ter nascido e ter cruzado o caminho dela e fim. A Chapeuzinho
Vermelho viveu feliz para sempre com a vovó, a mamãe, o papai e todo
mundo!
Concordei.
Não era a versão oficial do conto, não a que ouvi ou li quando
criança, mas era, desde já, a minha preferida.
Um dia alguém me comprou.
E foi a mesma pessoa que havia comprado Layla e Yohanna.
Não sei se foi sorte... ou o destino, embora eu sinceramente não
acredite em nenhum dos dois.
E reencontrá-las foi muito bom. Após perder por semanas a
esperança, ela se reacendeu em meu peito como nunca.
Layla, Yohanna e eu fomos compradas não para servir a um senhor,
mas por uma pessoa que nos alugava.
É, alugava.
Dessa vez éramos bem cuidadas e bem tratadas e conhecíamos
homens que apareciam e tentavam se aproveitar de nós.
— Você precisa ir embora — avisei Layla.
— Por que só eu? Você não vem?
— Eu estava limpando um dos quartos quando escutei, no corredor,
alguém dizer que tinha escutado que havia uma criança aqui. E disse que na
próxima vez iria se aproveitar dela ou não sairia daqui.
Layla me encarou, aterrorizada. E aquilo só gritou muito mais, dentro
de mim, que eu deveria dar um jeito naquilo tudo.
— Vocês precisam ir embora.
— Não vamos sem você, Patrícia.
— E se... e se eu conseguisse roubar as chaves? Poderia te entregar e
você fugiria, poderia levar todas as outras meninas consigo... mas alguém
precisa ficar para trás, para distraí-los, para impedir que sigam vocês e...
— Patrícia nós não vamos te deixar aqui.
Segurei firme nos ombros daquela mulher e a chacoalhei até que ela
criasse juízo.
— Layla, me escute. Yohanna tem apenas sete anos... eles acabaram
comigo quando eu tinha nove. Nove anos, Layla. Eu nunca, jamais e em
hipótese alguma poderia permitir que algo assim acontecesse a aquela
criança... Chega. Vamos dar um fim a todo esse ciclo. E se alguém tem a
chance de recomeçar, esse alguém é você e a sua filha.
— Patrícia, não seja tola...
— Não há mais nada para mim, Layla. O meu pai me vendeu... meus
irmãos estão mortos...
— Ainda temos o Shawn — ela segurou firme em minhas mãos e
começou a chorar.
— Você acha mesmo que ele me aceitaria de volta? Eu sou uma
vergonha para a família, Layla. Abusaram de mim, tiraram tudo de mim... E
eu sou a moeda de um acordo que o meu pai fez, se eu fugir, vai que esse
acordo acaba?
— Shawn pode decidir isso — ela foi firme.
— Eles dizem que... quem controla todo esse esquema é um tal de
Adrian Cavalieri...
— Tem ideia de quem seja?
— Não. Nunca houve um Adrian em minha família, não faço ideia de
quem seja. Provavelmente usurpou o sobrenome da minha família... mas ao
que sabemos agora, todos usam o nome desse homem para ir e vir, todos o
obedecem, ele deve ser o chefão disso tudo...
Um segundo de silêncio. E antes que eu voltasse a falar, Layla
balançou a cabeça negativamente.
— Layla, por favor...
— Patrícia eu não quero.
— Salve a sua criança, por favor. Ao salvá-la, você vai salvar o que
eu nunca tive. Você fará o que ninguém nunca fez por mim. Por favor, Layla,
proteja a sua filha.
Layla me abraçou tão forte que senti que alguns dos meus ossos
poderiam quebrar.
— Eu vou te dar o sinal — fui firme. — Roubarei as chaves e as
entregarei a você. Fuja. Corra rápido, não olhe para trás, não pense em mim.
Procure o Shawn e deixe sua filha segura, por favor.
— Eu volto para te buscar.
— Não seja tola. Não volte. Só corra... e diga ao Shawn que... —
suspirei.
Tantas coisas a dizer! Tantas lágrimas, tantas histórias, tantas
saudades do meu irmãozinho que eu atormentava e tentava tirá-lo da bolha,
quando ele só queria ficar emocionalmente distante e parecer o mais forte
possível.
—... Não. Não diga nada — era melhor assim. — Sequer diga que me
viu.

Layla
2018 – A fuga do porão

Agarrada a Yohanna e empurrada por outras mulheres desesperadas,


parei de correr e olhei para trás.
Abracei a minha pequena nos braços e chorei ao ver Patrícia me dar
um último adeus. Seus olhos brilhavam e havia um sorriso carregado de fé e
esperança que eu jamais poderia entender.
Por que ela não veio? Por que escolheu ficar? Por que sempre tinham
de me arrancar as pessoas que me faziam bem?
Nada me restava agora, além da minha filha.
E a vontade de me vingar...
De todos os que abusaram de Patrícia e de mim.
E dos que quiseram se aproveitar da minha filha também.
Parte 4

100 Anos
Inspirado na canção “100 Years” de Florence and the
Machine.

TRACKLIST

100 Years — Florence and the Machine.


Monster — Kanye West, Jay-Z, Rick Ross, Nicki Minaj.
God is a Woman — Ariana Grande.
Coco chanel — Nicki Minaj.
So It Goes... — Taylor Swift.
Prólogo IV
2009 – Grande Templo Illuminati de Nova York
Shawn Cavalieri

Mais de quatrocentos jovens concorreram, através de convites, para


uma vaga numa tal de Colmeia. Apenas trinta deles passaram pelas três
provas, e entre eles, estavam Ethan Evans e eu.
Vinte e oito garotos de sangue azul e dinheiro o suficiente para que
gerações não trabalhassem, um garoto cego, classe média e genial – o Ethan
Evans – e eu. O filho de um mafioso.
Desde o primeiro instante que coloquei os pés na grande propriedade,
senti o desprezo das pessoas por mim, dos mais velhos deles, que portavam
aventais muito bem decorados com símbolos que se repetiam nos quadros,
paredes e teto do Grande Templo, até os mais jovens que concorriam comigo
a uma vaga para ser iniciado no lugar.
— Onde pensa que vai, senhor Cavalieri? — uma mulher de vermelho
me impediu de avançar.
Todos, incluindo Ethan, seguiram para uma reunião com o Trump e
eu fitei a mulher de cabelos escuros presos em um coque, olhos verdes
bastante felinos e um longo vestido vermelho chamativo, bem diferente do
padrão de vestimentas pretas do lugar.
— O Trump vai dar uma palestra sobre aplicações financeiras —
puxei o cronograma e mostrei.
Ela entortou os lábios e tomou o papel de mim.
— O seu cronograma é outro.
— Outro? Não vou com os demais?
— Creio que esse seja o significado de “outro” — ela sorriu com
gentileza. — Siga-me.
Segui Elizabeth Leão até um corredor vazio, onde ela revelou uma
sala cheia de materiais de limpeza e roupas apropriadas para tal, incluindo
boné, máscara, óculos ou o que fosse necessário para não ser envenenado
pelos produtos.
— O que devo fazer exatamente?
— Limpar — ela foi simples. — Pegue uma roupa que sirva em você,
vista-se e comece pelo hall. Limpe adequadamente, use aquela escada — ela
apontou para o objeto — para subir até o teto e limpar as duas colunas da
porta de entrada, não quero nenhum grão de poeira. Não use água ou
produtos, apenas um pano branco e limpo é o suficiente.
Ela estufou os peitos, parecia orgulhosa de ter dito aquilo e continuou
a me fitar, aguardando minhas dúvidas.
Bom... eu tinha várias.
— Eu passei, junto com todos aqueles garotos, na seleção. Por que só
eu tenho de limpar? Quero assistir a palestra sobre aplicações financeiras.
— Como Chefe desse lugar, acredito que seria mais apropriado que o
senhor limpasse o hall — novamente ela disse de forma tão gentil e doce que
era quase impossível ficar nervoso ou com raiva. — Se terminar a tempo,
poderá assistir a reunião do Trump. Caso não, só sairá daqui ao terminar.
— Eu tenho livros para ler! Estudo na escola de medicina! —
repliquei.
— Eu sei disso, eu li a sua ficha — ela deu uns tapinhas em meu
ombro e saiu.

Absorto não sei se era a palavra. Espumando de raiva? É. Essa era a


mais adequada.
Naquele primeiro dia demorei muito mais do que a duração da
reunião e a perdi. Só terminei a limpeza no hall tarde da noite e fui para casa,
frustrado, tentando entender por que eu havia sido tratado daquela maneira
por aquela mulher.
Desde o primeiro instante que pisei ali, ela sempre foi a que me tratou
com alguma dignidade, e agora isso?
O dia seguinte não foi diferente. E o restante dos dias seguiram iguais.
Corrimão de escada, trocar lâmpadas, limpar os bustos dos Pais
Fundadores, limpar banheiros... ah... que merda ter de limpar o banheiro!
Só de raiva me cobri todo, com boné, óculos e máscara para não ter
nenhum respingo daquele lugar nojento em minha pele.
— Ele não deveria estar aqui — uma voz masculina chamou minha
atenção.
O homem calvo, careca no topo da cabeça e poucos cabelos aos lados
e atrás, portando uma bengala na qual se apoiava e de postura curva, deu um
passo para trás quando viu que havia alguém no banheiro. Mas no segundo
seguinte me ignorou, deixou o Trump entrar e assim o fez em seguida.
— Você não pode permitir que um pato viva no meio de cisnes. Ele
nunca se tornará um cisne, entende? Deveríamos acabar com o sofrimento do
pobre garoto.
— Só acho desrespeitoso que ele não compareça às minhas reuniões
— o homem maior, altivo e de ares debochado se encarou no espelho e
asseou os cabelos.
— Mas ele é a porra de um mafioso! Escória! Desde quando
misturamos nosso sangue com isso? Aqui ele não faz nada além de impedir
que um bom rapaz, de uma boa família, possa ter uma chance. Já pensou se
ele passa?
— Eu acredito no processo — o homem ajeitou a gravata e conferiu
as horas no relógio. — Se ele for capaz de passar no processo, não seria um...
cisne?
— Trump, eu sempre admirei o seu pai e você, porque são sensatos.
Mas veja bem... ele é mais italiano que americano. Mexe com coisa suja, o
mundo do crime, aqui nos envolvemos apenas com os bastidores mais
elevados da sociedade. É esse o legado que você gostaria de deixar? Foi esse
o legado que o seu honroso pai deixou?
O homem ergueu a sobrancelha loura.
— Terence...
— Seja sincero. Você o escolheria como seu Practicus? — o homem
bateu a bengala no chão. — Ninguém escolheria. Se ele quer uma vaga em
um GTI, que seja no da Itália, não o da América!
O homem alto franziu a testa e encarou Terence no fundo dos olhos,
precisou até se agachar um pouco para fazê-lo, bem de perto.
— Eu acredito no processo — ele foi firme.
— Donal...
— Ponto final — ele piscou os olhos, irritado. — Não terá a minha
assinatura para cancelar a aplicação do Cavalieri. O registro diz: americano.
E como filho americano ele tem uma chance. Contente-se com isso — ele
passou a mão no terno, como se estivesse se limpando bruscamente de algo e
saiu.
O velho bateu a bengala na torneira, eu continuei a esfregar o vaso,
como se não estivesse ali.
— Será que todos perderam o bom senso, os valores e os costumes?
— Terence bateu a bengala no chão e saiu.

Mesmo que eu deixasse aquele lugar um verdadeiro brinco, todos os


dias eu tinha de limpar um lugar diferente. Que droga! Perdi reuniões com o
Bush, disseram que até o Obama palestrou para os garotos.
— Você quer que eu te ajude? — Ethan me espetou com o dedo.
— Não, obrigado — bufei.
— Se eu te ajudar...
— Ethan, você sequer poderia estar aqui nesse momento. Não pode
vir ao corredor dos Pais Fundadores, só estou aqui porque estou limpando os
bustos...
— Eu posso...
— E se você derrubar? Você não... — parei de dizer e o encarei de
lado.
— Eu sei que eu sou cego, idiota, não precisa me lembrar — Ethan se
afastou e bateu com a bengala no chão para sair.
Assim que fez isso, alguém saiu por uma das portas, então o puxei
imediatamente e o encostei na parede e fiquei à sua frente, fingindo limpar
um quadro de Benjamin Franklin.
— Indetectável? Tem certeza? — Terence rosnou.
Ao seu lado havia um homem bastante alto e magro, usava um quipá
na cabeça, as tranças desciam do lado.
— Shhh! — ele apertou o braço do homem e me lançou um olhar
assustado.
— Tsc, é apenas um serviçal, Abramovisky, não seja tão dramático,
por favor — Terence desdenhou.
— Indetectável — o homem garantiu. — Não entrará no rastro do FBI
nem da CIA. Apenas o Grande Templo e seus homens encarregados podem
acessar. Podemos aprimorar, você não disse que tem um garoto talentoso com
programação entre os postulantes desse ano? Vamos entregar esse pequeno
projeto a ele, para que modifique alguns códigos e fique de difícil acesso até
mesmo para o Grande Templo.
Os homens acenaram com a cabeça.
— E se você deixar de chefiar o Programa? E se outro Zelador surgir?
— Devolveremos a base do projeto ao Grande Templo e assim,
mesmo que outro o chefie, não conseguirá acessar os novos chips.
Terence acenou, a voz deles foi ficando mais distante a ponto de não
conseguir mais ouvir.
— Do que estão falando? — espetei Ethan com o dedo.
— Eu não sei... puta merda...
— Ei... me desculpe. Você é meu único amigo aqui e...
— Eu não fico triste por ser cego, só por você ser meu amigo e
desacreditar em mim.
— Só não quero atrapalhar suas reuniões. Mesmo que eu não passe,
ao menos você deve passar. Não posso tirar isso de você.
— Ficar com meu melhor amigo não vai me atrapalhar.
Fiquei sem ter o que responder na hora. Aquilo aqueceu um pouco o
meu coração e me fez sentir menos estranho naquilo tudo.
— Meu melhor amigo depois do Ricardo Leão... do Héctor Mitchell...
— ele riu.
— Ah, cala a boca! — bati com o cotovelo nele.

— Pediu para me ver, senhora? — abri a porta da sala principal do


Grande Templo.
Visualizei as armaduras e espadas, os quadros exuberantes e os bustos
de figuras de iluministas franceses.
— Entre, senhor Cavalieri — Elizabeth pediu e indicou que me
sentasse.
Assim o fiz, sem demora. Cruzei os braços e olhei ao redor; ela tinha
coisa mais importante a fazer. Rubricou mais dez papeis até que pudesse
erguer o rosto e me olhar. Eu estava elegantemente vestido de serviçal, como
diria Terence Smith.
— Como vai?
— Vou bem — menti, a gentileza dela parecia segurar a minha raiva,
ainda assim algo fervia em mim.
— Os andares realmente estão bem limpos — ela sorriu com
aprovação.
Continuei a encará-la com seriedade.
— Ótimo.
— Conseguiu assistir alguma reunião desde então, nessas últimas
semanas?
Bom... de 50 reuniões consegui assistir 3 inteiras e apenas o final de
1. Será que era esse o propósito dela?
— A senhora disse que para poder me iniciar nesse lugar eu precisaria
saber responder uma pergunta.
Ela concordou.
— A pergunta é: qual é a essência de todas as coisas?
Novamente ela acenou de modo positivo.
— Como espera que eu saiba respondê-la se a senhora me impede de
ir às reuniões? Me impede de aprender com os melhores!
Elizabeth ficou muda e paralisada.
Pela expressão, acho que ficou poucas vezes assim.
Depois sorriu com carinho, pegou a garrafa térmica de chá, que
certamente me faria levar para lavar em seguida, e levantou a xícara de chá
com bordas douradas para beber.
— É assim que você me enxerga, senhor Cavalieri? Como alguém
que quer impedi-lo de aprender?
— Com os melhores — completei.
Ela limpou os lábios e se levantou, cruzou as mãos atrás do corpo e
começou a andar ao redor da mesa.
— Com quais melhores você quer aprender?
— Não sei... mega empresários, bilionários, ex-presidentes, os
homens que dominam o mundo... — já que estávamos tendo essa conversa
tão franca, aproveitei para desabafar.
— Certo — ela anuiu. — Diga-me, senhor Cavalieri, qual a hierarquia
desses melhores no Grande Templo?
Parei um segundo para pensar. Acho que estavam no terceiro grau da
hierarquia, o que significava bastante. Eu não estava nem no primeiro, era
apenas um neófito, um aprendiz, eu era apenas um aplicador que passou nos
testes e foi permitido estar ali e mais nada.
— Philosophus, terceiro grau.
Ela concordou.
— E qual o meu grau, senhor Cavalieri? — ela ajeitou o avental na
cintura.
Não precisei pensar muito. Havia o símbolo do infinito grafado nele,
ou seja, o grau 8.
Ela se debruçou na mesa, as duas mãos seguraram com firmeza nas
bordas do móvel, as unhas vermelhas chamaram bastante atenção. A mulher
ergueu a sobrancelha e me analisou.
— Oitavo grau. Embaixadora.
O. Maior. Grau.
Pelo menos, o maior grau que alguém poderia alcançar dentro daquele
lugar.
— Eu sou a melhor — ela disse com serenidade.
Concordei de imediato.
Depois de uma gafe dessas, o que eu mais poderia fazer?
— Mas que utilidade tem limpar...?
— Homens poderosos, senhor Cavalieri, raramente prestam atenção a
pessoas que consideram inferiores — ela tamborilou as unhas na mesa. —
Em contrapartida, o senhor é o postulante mais famoso desse lugar desde...
Abraham Lincoln, acho... — ela coçou o queixo. — Certamente o senhor
pode aprender sobre aplicações financeiras, controle mental e
neurolinguística em bons livros. Mas ninguém e nenhum livro vai te ensinar
algo tão fundamental.
— O quê? — ah, agora eu queria mesmo saber.
— Ficar invisível — ela arqueou a sobrancelha, como se aquilo fosse
extremamente óbvio.
Ela tinha me ensinado a ficar invisível?
— Sabe, senhor Cavalieri, mesmo treinados e competentes, a maioria
destes homens desdenham e subjugam o potencial dos seus “inferiores” e
acham que ninguém poderia ser tão inteligente, preparado ou poderoso como
eles...
É, eu já tinha percebido isso.
— Por isso eles facilmente caem nas garras de habilidosas mulheres
que, fantasiadas ou não de inferiores, conseguem descobrir tudo deles. Afinal
de contas, o que uma garçonete de uma lanchonete poderia fazer ao descobrir
que um grande bilionário tem um esquema com o governo? — ela arqueou a
sobrancelha. — Ou uma faxineira que escuta os planos secretos de um
homem que é seu patrão... Esses homens acreditam que são inatingíveis, por
isso pecam em desmerecer o papel de quem consideram inferiores.
— Entendo.
— Vivemos no século vinte e um. Onde a informação é o verdadeiro
poder. E a guerra pela informação é a nova narrativa do mundo. Quem
controla o que você escuta e vê, controla você.
— Sim — balancei a cabeça.
Como fui estúpido!
— Creio que nenhum desses homens, os melhores, como o senhor
diz... poderiam ensiná-lo a ficar invisível.
Fiquei mudo. O que eu diria?
— Quantas mulheres o senhor viu nesse lugar?
— Apenas uma.
— Ficar invisível foi o melhor aprendizado que esse lugar me trouxe
— ela puxou a xícara de chá e bebericou.
— Muito obrigado por dividir algo tão importante comigo — engoli
em seco, envergonhado.
— Eles duvidam de você porque acham que não tem o sangue puro e
necessário para pertencer ao maior quadro de poder do mundo. Eles
duvidaram de mim porque raramente uma mulher passa numa seleção assim.
Respirei fundo.
— E no fim do dia... eles ainda são Philosophus...
Concordei.
— E eu sou a dona desse lugar — ela foi firme nas palavras e na
expressão.
Pousou a xícara em cima da mesa, sentou-se elegantemente e voltou a
puxar um papel, correu os olhos pelo documento, assinou e o colocou em
cima de uma pilha.
— Está dispensado da função de limpeza, senhor Cavalieri, pode
assistir às suas reuniões com os melhores do Grande Templo — ela disse com
doçura. — E, sinta-se à vontade para ficar invisível quando desejar. Não
precisa me devolver a chave.
— Muito obrigado, senhora Embaixadora — levantei-me e fiz uma
reverência demorada.
— Pode me chamar de Lilith — ela sorriu.
Prólogo Final
Fim de 2009 – Grande Templo Illuminati de Nova York
Shawn Cavalieri

— Segurem! — Elizabeth ordenou.


Era difícil. Os garotos mais velhos e já iniciados no Grande Templo
estavam forçando contra nossos escudos, estávamos sendo arrastados para
trás, mas ao menos, nenhum de nós havia sido eliminado.
— Lembrem-se: o método espartano é funcional porque vocês
defendem, juntos, os seus colegas à direita. Se ainda não foram eliminados,
devem isso aos seus colegas à esquerda. Aguentem e segurem! — ela voltou
a nos avaliar.
O escudo por si só era pesado e só de imaginar que no passado
aquelas barras de ferro eram na verdade espadas ou lanças e homens
precisaram enfrentá-las, eu ficava todo arrepiado.
— Lembrem-se daquele movimento. Recuem, mas com firmeza.
Façam o inimigo pensar que estão cansados e depois abram uma leve brecha,
alguém habilidoso precisa agir...
E assim foi feito.
Recuamos um pouco mais e os garotos mais velhos nos empurraram.
Em um relance de distração, toquei o cotovelo em Ethan que estava à minha
direita e abrimos levemente a fresta entre nós. Um colega atrás avançou com
a barra de ferro e bateu no ombro do inimigo a nossa frente.
— Guerreiro ferido! — alguém anunciou do outro lado dos escudos.
— Na guerra, vence o último que está de pé, não o primeiro que atira.
Não fiquem ansiosos, não se permitam ser encurralados, e na primeira
oportunidade...
— Guerreiro ferido! — novamente foi anunciado do outro lado.
— Muito bem — Elizabeth avaliou os dois lados e se mostrou
satisfeita.
— Senhora — uma nova voz surgiu, alguém que não estava no
campo de treinamento antes.
— Descansem — Elizabeth pediu. — Pois não, Abramovisky?
Enquanto todos foram descansar, limpei o suor da minha testa e fiquei
o mais próximo possível para ouvir, mas distante o suficiente para não ser
notado.
— A Embaixadora do Grande Templo Illuminati da Inglaterra está
aqui e deseja vê-la.
Elizabeth ficou parada onde estava, seus olhos correram dos pés até
os olhos de Abramovisky. Com um aceno demorado ela o dispensou, seus
olhos esverdeados recaíram sobre mim em seguida.
— Entrem pela porta do fundo e... — ela suspirou. — Tomem um
banho, pelo amor de Deus!
Assim todos fizeram. Menos eu.
Eu a segui em uma distância segura e me escondi atrás de uma coluna
quando vi a tal Embaixadora da Inglaterra.
Se eu fosse pego, certamente arrancariam o meu couro. Dessa vez me
meti em uma grande enrascada.
— Senhora Embaixadora — as mulheres se cumprimentaram.
— Estou em uma viagem extraoficial, então preciso ser rápida. Vim
resolver alguns assuntos com os Rockfeller.
— Fiquei curiosa com o seu pedido de encontro. Não sei se como
Embaixadora ou como chefe de uma das treze famílias — Elizabeth foi mais
delicada e graciosa do que todas as vezes que a vi ser.
— Como uma velha amiga que vem pedir conselhos — a mulher mais
velha de chapéu que combinava com o vestido segurou no braço de Elizabeth
para subir os degraus da escada externa.
Os homens de preto que estavam atrás dela foram dispensados com
um aceno.
— Um telefonema não resolveria?
— Querida, nós duas não somos mulheres de telefonemas.
— Poderia ter solicitado que eu fosse ao seu palácio.
— Acredite, querida, chamaria mais atenção do que eu vir aqui. A
desculpa de um encontro com a família Rockfeller caiu como uma luva, você
está sendo espionada e sabe disso. E o assunto é longo e delicado.
As duas ficaram paradas entre as duas grandes colunas preta e branca
e eu me encolhi o máximo possível atrás de uma delas.
— Algo grave? — Elizabeth pareceu preocupada.
— Não — Elizabeth contrapôs.
As duas Elizabeths se encararam em um profundo silêncio até que a
mais velha ergueu o rosto e respirou fundo, entregou a bolsa para a outra e
uniu as mãos em frente ao corpo.
— Quero que me indique um bom Zelador.
— O que houve com os Zeladores ingleses? — a mais jovem riu.
— Um que tenha ligações com a família Rockfeller.
— Entendo.
— Tenho uma leve... intuição...
— Eu sei. Ouvi as mesmas coisas.
— Não gosto disso — a mais velha levantou o dedo indicador. — O
Grande Templo de Moscou não parece feliz e o Embaixador de lá me enviou
uma mensagem. Parece uma conspiração. Estávamos indo bem até que o
Grande Templo de Pequim...
— Eu sei — Elizabeth suspirou. — Um Zelador para o príncipe
William?
— Henry — a mais velha falou em tom de que aquilo era inegociável.
— Mas William não será o rei? Muito melhor quando o rei é o
Embaixador. Com todo respeito à sua decisão, é claro.
— William será o chefe da família. O Embaixador precisa ser,
necessariamente, um espião. E um rei espião... está fora de moda, não é nada
funcional nos dias de hoje — a monarca torceu o nariz e olhou na direção da
minha coluna.
Me encolhi ainda mais, como se isso pudesse ser possível.
— E você quer um Zelador ligado aos Rockfeller para espioná-lo?
— É o que necessariamente quero.
— A senhora sabe que... só há um Zelador ligado aos Rockfeller neste
Templo, no momento.
— Sou muito bem informada, como pode ver.
— E acha que... ele aceitaria? A sua fama, com todo respeito, a
precede, por ser muito rigorosa.
— É por isso que vim pessoalmente — ela tomou a bolsa das mãos de
Elizabeth, que pelo visto havia retirado algo de lá de dentro e as duas
sorriram, como velhas conhecidas.
— Para entrar, precisa me dizer qual o fundamento deste Grande
Templo.
— O Bem Maior — a mulher respondeu de imediato.
— É sempre bom ter uma Incendiária em casa — Elizabeth sorriu e
deu-lhe passagem.
— Não qualquer Incendiária, querida. A primeira.

2010

Muitas vezes me aventurei como faxineiro pelo Templo. Escutei


coisas preciosas, seja dos meus colegas ou dos ilustres homens que eram
iniciados e vez ou outra nos agraciavam com suas presenças. Mas foi algo
que marcou profundamente a minha vida.
— ... neutralizá-lo.
— Acha necessário? Mesmo? Um garoto cego?
— Não subestime um gênio, Abramovisky. Esse garoto conseguiu
fazer o que nenhum serviço de inteligência jamais fez.
— Creio que por isso deveríamos trazê-lo para o nosso lado. Cada vez
mais temos bons homens em nossas mãos, em todos os cantos do mundo...
em breve teremos um príncipe inglês...
Terence não pareceu muito convencido. Não sei se era a idade que o
deixara assim ou se sua alma já veio desse jeito.
— Não precisamos de pensadores, Abramovisky. Precisamos de cães
de caça. Como Elizabeth treina os seus, nós precisamos treinar os nossos.
— Não sei se concordo com isso...
— Pessoas que pensam são perigosas — Terence foi firme. — Elas
questionam ordens. E como cabeças de uma nova ordem mundial, queremos
que nossos comandos sejam questionados?
— Mas se o trouxéssemos para o nosso lado...
— Tsc... Tsc... Abramovisky... O garoto sequer é um iniciado. Ele não
é um iluminado.
— Não ainda.
— Nunca será, na verdade.
— O que você quer dizer com isso?
Terence se apoiou na bengala e curvou seu corpo para frente.
— Vamos enviá-lo para a Síria, naquela missão secreta disfarçada de
caçar o homem que atentou contra os Estados Unidos — ele riu com desdém.
— O garoto cego? O que ele...?
— Pessoas morrem na guerra, Abramovisky — Terence bateu as
mãos em seu ombro. — Nunca descobrirão nossa ligação com isso e
enterraremos um questionador. Ou como eles gostam de dizer... um
Incendiário...
O velho riu e sua risada se misturou com uma tosse rouca.
— Ele está mais para aquele lado do que para esse, você precisa
admitir.
O outro fez que sim.
— Que Guerra? Ficou louco? Onde que tem guerra?
— Ainda não começou. É uma guerra para disfarçar alguma coisa,
não sei — murmurei.
— Por que você está murmurando? — Ethan sussurrou.
— Porque alguém pode ouvir.
— No alto da Estátua da Liberdade? Duvido.
— Eles vão te indicar para ir. Mas eu vou me oferecer no seu lugar, só
quero que concorde com isso.
— Por quê?
Respirei fundo.
Era difícil dizer aquelas palavras.
Perdi minha irmã e Ethan se tornou isso para mim: um irmão. Eu me
negava a perdê-lo. Eu não queria.
Preferia que fosse eu em seu lugar. Talvez assim aquele vazio dentro
de mim acabasse de vez... quando eu encontrasse o meu fim.
— Porque você é meu irmão. E como um guerreiro espartano, a
minha missão é te defender. Você está à minha direita, então precisa confiar
enquanto seguro o escudo. Porque eu confio em quem segura o escudo para
mim.
— Isso é algum tipo de código secreto ou...?
— Eu não quero te perder — assumi. — Sua história não pode acabar
assim. Você ainda tem muito a viver.
— Que conversa é essa? Nem existe essa guerra e você fala como se
eu fosse ser neutralizado...
— Você se meteu com gente perigosa, Ethan...
Ele comprimiu os lábios.
Ethan nunca me disse no que trabalhou secretamente para Terence
Smith e o Abramovisky. E sinceramente? Eu não me importava. Eu só queria
protegê-lo, porque se aproveitaram dele e agora queriam descartá-lo.
— Confie em mim — pedi.
— Tudo bem — ele levantou os ombros. — Ah, me pediram para te
apresentar alguém.
— Alguém?
— É. É uma moça de boa família e...
— Eu não tenho tempo para mulheres, Ethan.
— O Terence pediu para que eu a apresentasse a você.
Repentinamente o meu interesse ficou gigante. Semicerrei os olhos
para encará-lo. E essa agora? O que Terence estava planejando?
— Ele disse que... uma “boa” moça americana poderia “limpar” o seu
sangue. Ou algo assim...
— E você acha que meu sangue é sujo? Por que está falando dessa
moça?
— Contei tudo a Lilith. Sempre conto tudo a ela.
Respirei mais aliviado imediatamente. Se havia alguém em quem
podíamos confiar, essa era a Lilith.
— Ela disse... um negócio sobre baratas e inseticida, pisar com o
sapato, sinceramente não lembro. O ponto é que ela concordou que seria bom
você conhecê-la, sim. Talvez assim os planos do Terence fiquem mais claros
e... consigamos enxergar amplamente essa conspiração.
Concordei a contragosto. Se fosse por esse bem maior, que assim
fosse.
— Como essa aí se chama?
— Fay Williams.

2013

Terence riu com desdém. Cruzou os braços e empinou o nariz.


— E quem vocês pensam ser? — ele sibilou.
Ajeitei os óculos escuros no rosto e ajeitei as vestes de homem de
preto, um disfarce que consegui e que se tornara mais útil do que o de
faxineiro.
Terence Smith estava sentado em uma cadeira bem desconfortável e
por sua expressão, não parava de sentir dor. Frequentemente se curvava,
tossia e batia a bengala no chão.
Sentados em sua direção estavam quatro pessoas, pelo visto,
Zeladores importantes de vários dos GTI do mundo.
A mulher com longa cabelereira e roupas espalhafatosas, grandes
colares, pulseiras e anéis, rosto todo rebocado como se fosse uma pintura
indígena, se chamava Wilhermina Reinhardt Magno, a Zeladora de Lilith,
diziam que era a Zeladora do GTI de Moscou. Havia também um homem
com vestes de bispo, uma grande cruz de ouro em seu peito, carregava um
olhar severo e acusador, tinha a cabeça coberta com o chapéu que bispos
usam, de cor lilás, esse certamente era Zelador do GTI do Vaticano.
O homem ao seu lado, completamente altivo e de social, com uma
cartola no colo e bigodes e barba bem aprumados, nem precisei pensar,
certamente era um Zelador do GTI da Inglaterra. E por fim, ele que não
poderia faltar: Diego Abramovisky, mais velho, magro e de olhar mais
ranzinza do que nunca.
— Não podem fazer isso — Terence foi seguro e definitivo, como se
só a sua palavra importasse.
Ao tentar se levantar, o homem de bigode e cartola avançou e tomou
sua bengala e a jogou para trás, caiu praticamente ao lado da estante em que
eu me escondia na biblioteca.
— Senhor Smith, as acusações sobre o senhor possuem um vasto
material... — o homem foi suntuoso, como se tivesse tido um prazer
específico ao ler as mil páginas dos crimes do senhor Smith.
— Não podem me julgar — o homem continuou inabalável.
— Não? — Wilhermina riu, repousou as mãos nos joelhos e olhou
para os colegas. — O seu desejo desesperado e presunçoso em ser alguém na
história, senhor Smith, não passou despercebido. E nós, Zeladores do mundo
livre, não tivemos outra escolha a não ser ler os seus crimes e vir aqui caçar a
sua iniciação.
— Não podem — o homem bateu o pé no chão.
— Ele ficou senil ou o quê? — O bispo questionou para Wilhermina.
— Não foi prazeroso estudar os seus crimes, então vamos acabar logo
com isso — a mulher foi firme.
— Fale por você, diverti-me muito! — O inglês riu. — O Zelador
Churchill, o meu iniciador, teria se divertido ainda mais! — O homem bateu
palmas e cruzou as pernas. — Temos aqui, senhora e senhores, um velho cão
de guerra! Um projetinho de Hitler só que sem a genialidade e um pouco
perturbado sexualmente.
Wilhermina não compartilhou aquela alegria, apenas cruzou os braços
e encarou Terence com repulsa.
— Não me olhe assim, comunista...
— Querido, a União Soviética foi dissolvida há mais de duas décadas.
Está com sede? Indico que tome uma boa dose de bom senso.
— Vocês não me enganam... — o homem apontou o dedo indicador
para os Zeladores. — São todos espiões comunistas, ficaram do lado errado
da cisão... Que desonra sentar-me diante de conspiradores! O Templo de
Moscou não possui validade!
— Está senil — o bispo comentou.
— Nós somos os conspiradores? — Wilhermina riu e levou a palma
da mão ao peito. — Você é o conspirador, senhor Smith. Tramou nas costas
das 13 famílias, dissimulou atentados sem autorização e criou uma rede de
espionagem ilegal desprezível com chips...
— Era o que o Reagan queria — o homem não se deixou abater.
O inglês puxou uma pilha de documentos da pasta e revirou, um por
um até erguer um e ler uma sentença.
—... Está aqui, assinado pelo Zelador do GTI de Nova York, senhor
Bush pai. Ele presidiu a comissão e fez um excelente discurso para que todos
nós, Zeladores de qualquer Templo que fosse, não permitíssemos que essa
guerra geopolítica ou os testes em humanos...
— Traidores...
— Ou sou antiquado ou vocês são estúpidos. Estão tentando discutir
com um homem senil? — O bispo trovejou.
Abramovisky respirou fundo. Já havia esquecido que ele estava ali até
que tomasse a palavra.
— Para quem o senhor trabalha, senhor Smith?
Canalha! Como assim?
Terence o encarou de cima a baixo e cuspiu no chão.
— Podemos apenas retirar a iniciação do homem, levá-lo para a
reprogramação e liberá-lo para viver como... não sei, um pedinte em um país
de Terceiro Mundo, por favor, senhores?
Achei bizarro o bispo dizer isso, mas foi o que horrorizou Terence.
Arrepiou até os cabelos que o velho não tinha.
— Fui iniciado pelo Rito Secreto e Aceito e sou Zelador de uma das
13 famílias — Terence afirmou. — E é por isso, seus estúpidos, que não
podem fazer isso comigo. Pois não têm autoridade sobre mim. Foi me
concedida autoridade para agir e foi o que fiz.
— Um Zelador não age, por isso ele possui um Embaixador — o
inglês disse todo pomposo, como se tivesse um orgasmo ao corrigir o senhor
Smith.
— Você entendeu o que eu quis dizer— o velho rosnou.
— Não. Não entendi.
Wilhermina ergueu o indicador calmamente.
— Zelador? De qual das 13 famílias, senhor Smith? — ela se mostrou
interessada.
— Não devo dizer. Vocês são traidores.
— Qual o fundamento secreto da sua família? — o bispo perguntou.
— Não fui autorizado a dizer.
— Posso garantir que ele não é Zelador da família que represento —
Wilhermina recolheu as mãos ao colo e se levantou, olhou em minha direção,
por isso me escondi.
— Da minha? — o bispo rosnou. — Jamais! — trovejou.
— Se estão esperando que eu o negue, sentir-me-ei completamente
ofendido — o inglês fungou o nariz. — Seria um ultraje à família real! —
rosnou.
Houve um breve silêncio.
Que se prolongou.
Lentamente os três voltaram seus olhos atentamente para
Abramovisky.
— Creio que precisaremos de uma grande comissão para averiguar as
palavras do senhor Smith — foi o julgamento dele.
— Mas como ousa...?
— Consta nos registros do GTI de Nova York que o fundamento
antigo e aceito de uma das famílias é “não fui autorizado a dizer” — o
homem piscou os olhos com demora enquanto dizia palavra por palavra.
— Antigo e aceito uma ova! Isso nunca foi fundamento de droga
nenhuma nem aqui nem na China! — O inglês se levantou, irritado.
— Posso garantir que é. Por isso, se queremos ser respeitosos com a
tradição, solicito que avisem aos outros Zeladores para que compareçam e
testemunhem contra esse fundamento que, conforme o excelentíssimo
senhor...
— Fundamento? Isso? — O inglês o interrompeu.
— Se não temos Zeladores de todas as famílias aqui presentes que
possam derrubar esse fundamento, Smith não pode ser julgado, a não ser que
estejam aqui treze Zeladores — Abramovisky pontuou.
O inglês jogou a cadeira em que estava do outro lado da sala.
— Para o inferno com essa conspiração! Pelo visto não é apenas
Smith que deveria ser julgado! — rosnou e saiu.
Wilhermina ficou surpresa, trocou olhares rapidamente com o bispo.
— Que assim seja — o bispo uniu as mãos atrás do corpo e saiu.
— Wilhermina?
— Já fui enganada por homens mais espertos que vocês dois — ela
disse e deu-lhes as costas.
O silêncio voltou a reinar.
— Como prometi, consegui tempo — Abramovisky se levantou e
saiu.
Não fiquei para ouvir o que quer que Terence teria a dizer.

2014

Terence foi julgado pelos Zeladores? Não.


Ao que parece era difícil reunir treze indivíduos em um só lugar.
Quando um podia, outro não. Quando finalmente parecia que o julgamento
ocorreria, aconteciam imprevistos.
Então eis que chegou um dia que o Grande Templo de Nova York
recebeu um telefonema inquietante: a mansão em que Terence Smith vivia,
bem distante, não a próxima das dos Mitchell, havia sido consumida em
chamas.
Em um incêndio suspeito que tomou toda a propriedade, móveis e
documentos do velho, honrado e poderoso senhor Smith.
Será que isso tinha a ver com esse tal grupo Incendiário que havia
dentro da Colmeia e que ouvi as duas Elizabeths se referirem?
Sinceramente não sei.
E, ah, e sobre o senhor Smith...
Nunca foi encontrado.
Capítulo 37
Yohanna

Mesmo que Nova York seja cinzenta e fria, existem três coisas
mágicas que conseguem iluminar o dia: o sol, é claro, alguma brincadeira ao
ar livre com muita imaginação, corrida e reinventando as histórias que a titia
Patrícia me contava e o papai quando olha para a mamãe.
Eu já vi o papai olhar para muita gente. Para o motorista, para as
mulheres que ajudam na nossa casa, para a vovó, para os amigos dele... para
mim... mas olhar para a mamãe... o papai parece até outra pessoa.
Ele fica radiante, predisposto a quase sorrir sem motivo algum e suas
palavras sempre são encantadoras.
Ele olha para a mamãe como se visse algo único e precioso, ao
mesmo tempo que dá para ver que ele se sente inspirado e até mesmo se sente
mais forte, mais corajoso, mais ele mesmo.
— O que houve com você? — o papai limpa minha boca e minhas
bochechas e queixo. — Você não é de se lambuzar com a comida assim.
— Estava distraída — coloquei o pedaço da melancia bem devagar no
lençol quadriculado que estávamos sentados.
A ideia do piquenique no jardim da casa foi minha.
O jardim era tão bonito! E eu raramente via o papai lá, ele sempre
estava ocupado com o trabalho... a mamãe vinha para o jardim em alguns
dias, cuidava ela mesma das plantas, mas não passava tanto tempo quanto eu.
E eu achei que se ficássemos juntos ali, poderíamos nos divertir e tirar
um tempo para ver como a casa estava tão bonita! Por dentro e por fora!
Quando cheguei parecia um lugar abandonado, sombrio e escuro e
agora... era tão quentinho, igual o abraço do papai.
— Com o que estava distraída, filha?
— Com vocês.
— Nós? — o papai ergueu as sobrancelhas. — O que nós fizemos
para te distrair? — ele tocou o dedo indicador em meu nariz e o apertou de
leve, o que me fez rir.
— Papai...
— Sim?
— Você não acha a mamãe bonita?
O papai ficou espantado, entreabriu a boca e ficou assim por um
segundo.
— Sim, filha, é claro.
— Então diz para ela, diz.
O papai foi fechando os olhos bem devagar e eu imitei isso ao encará-
lo.
Encostei os cotovelos nas pernas cruzadas e apoiei a cabeça nas mãos
para assisti-los.
O papai estendeu a mão pelo lençol e alcançou a mão da mamãe. Eles
demoraram um pouquinho para se encarar, pareceu que estavam até
vermelhos ou envergonhados. Mas quando se olharam... ah...
— Layla... você é linda. A sua beleza é tão impactante que eu fui
incapaz de te esquecer. E não é sobre o que eu vejo, é sobre o que você
transmite para mim... você é o acontecimento positivo mais importante de
toda a minha vida.
Ai que vontade de apertar o papai! As bochechas, o rosto, encher ele
de beijos!
— Conquistar dinheiro... poder e influência... ser quem eu sou...
nunca me preencheram. E, mesmo que eu saiba que ainda há um vazio dentro
de mim, é quando estou perto de você que não tenho tempo de pensar nele ou
senti-lo. Se não tivéssemos nossos caminhos cruzados eu não seria quem sou
hoje. E eu amo quem eu sou, então, obrigado. Você é absolutamente tudo
aquilo que eu preciso sem ao menos saber o que pedir.
Olhei do papai para a mamãe.
A mamãe parecia que queria chorar.
— Você está triste, mamãe? — me levantei imediatamente.
Ela balançou a cabeça que não e me pegou no colo.
— Então por que você está chorando?
A mamãe me abraçou bem forte e eu também o fiz. O papai abraçou
nós duas e assim ficava bem melhor.
— Quem sabe um dia você entenda, filha... — a mamãe sussurrou.
— Mas você está feliz? Ficou feliz pelo papai dizer isso?
— Sim.
Acariciei o rosto dela e depois seus cabelos.
— Mamãe, você é tão bonita...
— Obrigada, neném.

Layla
Estar em família era algo estranho e ao mesmo tempo reconfortante.
Yohanna e Shawn desde o primeiro instante que se viram pareceram
criar uma conexão única deles e como ela gostava muito de falar e ele de
ouvir, se tornaram opostos perfeitos. E quando estávamos nós três juntos era
muito melhor.
E mesmo em meio a essa felicidade, eu não poderia me furtar do
pensamento de que talvez fosse ainda melhor se o meu segundo filho
estivesse ali também.
No início era uma suposição a sua existência; na verdade, não apenas
uma suposição, uma forma de extorsão da parte dos meus algozes. Mas eu
sentia, de uma forma que não sabia explicar que havia outro neném.
As cenas do parto de Yohanna estavam confusas em minha cabeça e
me lembro de terem dito que eu havia tido um menino... depois disseram que
se enganaram e era uma menina.
Desde cedo o meu contato com a minha bebê era limitado, afinal de
contas, ambas éramos mercadorias. Ainda assim eu lutei, fiz de tudo para que
ficássemos sempre juntas e eu pudesse cuidar para que ela não sofresse nada
do que eu sofria.
O piquenique seguiu cheio de palavras de amor e comidas deliciosas
preparadas pelo próprio Shawn, frutas que Yohanna devorou e depois foi
correr entre as árvores com sua boneca inseparável, até que se cansou e foi
reunir pedrinhas.
— Você está bem? — deitei no colo de Shawn.
— Estou sim, não se preocupe.
— Queria poder ter dito sobre sua irmã e em seguida tê-la resgatado,
como um presente, mas...
— Está fora do nosso controle, Layla. Mas eu sinto, aqui dentro, que
estou mais próximo dela do que nunca. E que em breve ela estará aqui com
vocês, com a minha mãe... como a família.
Fiz que sim e fechei os olhos.
Ouvi o som de um automóvel se aproximando, mas isso era bem
frequente por ali, então ignorei.
—... Yohanna tem um estilingue? Não me lembro de ter comprado
isso para ela.
— Sim, tem. Ela guarda na mala.
— Ela... — Shawn fez uma pausa. —... atira bem, parece que tem
uma boa mira ou boa sorte...
Só concordei e puxei a mão dele para cima de mim.
Shawn começou acariciando o meu pescoço, pressionando os dedos
em minha pele enquanto subia, contornou meu rosto até chegar aos cabelos.
— Temos visita — ele avisou e eu abri os olhos.
Ele me ajudou a ficar de pé e assistimos Héctor Mitchell, Ethan Evans
e Ítalo vindo em nossa direção. Torci que fossem com boas notícias.
— Titios! — Yohanna veio correndo e se lançou nos braços de Ethan.
— Que crescida você está! Está mais alta que da última vez que a vi!
— o homem de óculos escuros disse.
Yohanna fez uma cara azeda e riu.
— Mas o senhor não enxerga...
— Ah, não? Não enxergo? — ele levantou a mão e rapidamente fez
cócegas nela.
Colocou-a no chão e correu em sua direção enquanto ela ria e tentava
se esquivar, mas sempre era pega por suas cócegas.
— Não enxergo? — ele a provocou e continuou a rir enquanto a
perseguia.
— Descobriram algo? — Shawn sequer os cumprimentou, dava para
ver que estava ansioso.
— Suponho que sim — Ítalo coçou o queixo e virou o rosto para
Héctor.
Héctor ajeitou a gravata preta, depois o terno azul marinho,
desabotoou o último botão e indicou a porta da mansão.
— Vamos entrar — ele sequer esperou uma resposta e já caminhou
para a entrada.
Héctor Mitchell foi à frente e Shawn o seguiu. Aproveitei para
cumprimentar Ítalo de modo adequado, ele estava vestido formalmente e não
tirou a cartola em nenhum momento.
— Tudo bem por aqui?
— Tudo sim. Irinna está bem?
— Não, mas ficará. Ossos do ofício... — ele suspirou e entramos.
Yohanna e Ethan vieram em seguida.
Ao encontrar a primeira televisão no cômodo, Ítalo foi em sua direção
e a ligou, colocou em um canal de notícias e se reaproximou do grupo.
— Desculpem-me a euforia, sequer os cumprimentei — Shawn
apertou a mão de todos os homens, pegou Yohanna no colo e dividiu sua
atenção do grande televisor aos nossos visitantes.
— É um... milagre, é isso o que é — o jornalista disse.
Várias manchetes antigas de jornais impressos apareceram na
televisão, mostrando pessoas desaparecidas, a maioria delas, crianças.
— O que é esse milagre? — Shawn fez um cafuné demorado em
Yohanna, mas não tirou os olhos de Ítalo, principalmente.
— As pessoas que libertamos daquele lugar asqueroso retornaram
para as suas famílias, senhor Cavalieri... — o rapaz mais jovem respondeu
num tom formal, mas muito gentil. — Pais e mães que procuravam suas
filhas e filhos por dez... quinze... vinte anos... enfim os reencontraram.
Shawn acenou positivamente, sem muito sentimento.
— Essa é a novidade?
— Consigo lembrar de um homem, muito alto e forte, o nariz grande
e os olhos bem marcantes, azuis vivos, pareciam emanar algum tipo de luz —
uma mulher disse, na televisão.
— Um anjo? — a mulher mais velha, possivelmente a mãe,
perguntou.
— Como um anjo, mas ele era real. Estava com uma moça morena
que não saía do seu lado... o rosto dela não me era estranho... — a mulher
continuou a dizer.
— Pela descrição que obtivemos de pelo menos vinte pessoas,
homens, mulheres e crianças, tudo nos leva a crer que seu salvador foi o herói
de guerra Adrian Cavalieri — a jornalista comentou com muito orgulho.
Uma foto de Shawn apareceu na tela.
Ele ergueu bem alto a sobrancelha e olhou de mim para os outros,
totalmente espantado.
— Essa é a...?!
— Não. Mas curta seu momento, herói de guerra, você fez um
excelente trabalho — Ítalo se aproximou, tirou uma caixa preta do bolso e
entregou a ele.
Shawn abriu, meio tímido, e espiei uma insígnia muito bonita, junto
com dois anéis.
— Eu não mereço... eu não fiz o trabalho sozinho...
— Não seja modesto — Ítalo se afastou e pousou as mãos nas costas
de Héctor Mitchell e o empurrou levemente para frente.
O maior não pareceu gostar disso, nem um pouco, ainda assim, não
falou nada sobre.
— Parabéns, irmão — ele sorriu e apertou a mão de Shawn. — Mas
esse não é exatamente o motivo pelo qual viemos.
Shawn abriu os olhos, esperançoso.
— Ao trabalhar nos códigos para descriptografar os chips e conseguir
cloná-los, Ethan comentou algo com Ítalo que levantou uma leve suspeita...
que se tornou uma caça ao tesouro e que... nos traz aqui.
— Explique.
— Lembra-se do dia em que a minha mulher foi sequestrada por
minha mãe?
— É claro — Shawn colocou Yohanna no chão e fez um olhar de que
aquilo não deveria ser dito na presença dela.
— Vem com a mamãe, filha, vá brincar lá em cima enquanto os
adultos conversam.
Ela se despediu dos tios e abraçou Ítalo bem forte que lhe
confidenciou que tinha um novo presente para ela e entregaria assim que
fosse embora, ela subiu as escadas extremamente ansiosa e sumiu.
— Você e Ethan me salvaram aquele dia e...
— Não fiz mais do que a minha obrigação — Shawn contrapôs de
modo respeitoso.
— Lembra que na sala onde minha mãe fez Beatriz refém, havia duas
mulheres mortas? As strippers?
Ele piscou os olhos e anuiu bem devagar.
— Elas tinham chips em suas nucas — Héctor cruzou os braços.
Repentinamente Shawn parou com os movimentos mecânicos e
redobrou a atenção. Abriu bem os olhos e escorou-se na parede, de braços
cruzados.
— Ítalo pediu para que Beatriz passasse por alguns exames, até
porque ela está grávida... suspeitava que ela tivesse um chip também, mas
não encontramos nada, graças a Deus. E o meu bebê está bem — Héctor
respirou aliviado.
Shawn mostrou-se feliz em ouvir isso e continuou quieto.
— Bem... hum... Lilith me enviou em uma missão especial há muito
tempo. Muito tempo mesmo.
— Resume — Ítalo rosnou, claramente impaciente.
— Ela queria garantir que as mulheres dos clubes fossem tratadas
com dignidade e observar se elas realmente eram livres para ir e vir, ou se
estavam reféns dos donos desses espaços...
— Você não está resumindo — Ítalo revirou os olhos.
— Fui designado para espionar o La Chica, você sabe que eu ia muito
lá.
— Sim, eu sei...
— E... eu estava tão frustrado na época... muito mal... e, você sabe,
foi lá que conheci a Beatriz e eu me apaixonei perdidamente por ela e fiz de
tudo para que ela me notasse e se tornasse minha...
— Senhor Mitchell... — Ítalo deu um passo à frente, esticou o
pescoço e o encarou. — Resume.
— Eu me distraí porque me apaixonei. É isso. E não concluí a missão.
— Tá. E por que tudo isso agora? — Shawn descruzou os braços e os
encarou.
Héctor suspirou, tenso.
— Hum... Podemos ver a Amanda Lavinsky?
Shawn ficou extremamente surpreso com isso. E o mais importante:
quem era Amanda Lavinsky?
— Sim, é claro — ele piscou os olhos. — Os restos dela... pelo
menos... — ele olhou para um canto vazio do cômodo.
— A marginal está morta? — Ítalo perguntou.
— Não... mas... — Shawn respirou fundo. —... enfim, vocês a verão,
é claro. A trago aqui ou vocês...
— Estamos aqui para entrar no “matadouro” — Ítalo foi firme. — E
ele contou toda essa história — Ítalo encarou Héctor. — Por que um dos
chips nos levou a crer que esse La Chica é um dos pontos de tráfico de
mulheres. Mas sobre a Lavinsky... ela trabalhava para a mãe do Mitchell...
que era amiga pessoal de Terence Smith, não sei se lembra dele...
— Eu lembro — Shawn foi seco.
— E a senhorita Lavinsky trabalhou no La Chica, até se aproximar do
senhor Mitchell e ficar livre. E transitava por aí... sabe? Entre gente
poderosa...
— Por favor, me sigam — Shawn se virou e andou em direção ao seu
escritório.

Shawn Cavalieri

Da passagem secreta em meu escritório percorremos um longo


caminho até chegar a uma das portas que levava ao matadouro. Gritos de
agonia e vozes clamando piedade já estavam mais nítidas, engoli em seco
esperando algum comentário vindo do Zelador, mas ele permaneceu em
silêncio por todo o trajeto.
Não foi difícil encontrar a cela onde Amanda Lavinsky estava, era de
muito fácil acesso.
Acendi as tochas que ficavam entre as grades e iluminei a parte
interior até encontrar uma figura esquelética, desnutrida, sem cabelos ou
qualquer sinal de vaidade que um dia tivera.
Amanda Lavinsky agora era apenas um ser de aparência andrógina,
vestia trapos e não tinhas forças sequer para se arrastar ou andar, por isso não
precisava mais ficar acorrentada na parede.
— Ela é toda de vocês — abri a cela e entreguei a tocha para Ítalo que
estendeu a mão.
— Eles possuem celas individuais? — Héctor murmurou.
— Sim. Normalmente matavam o parceiro de cela e o comiam...
Héctor arregalou os olhos e entrou na cela.
— Essa voz... — ouvimos um som bem baixinho, menos que um
sussurro. — Será você? Veio me salvar?
A figura esquelética escondeu o rosto com a mão ossuda, a pele
flácida balançou.
— Héctor? — ela o chamou, quase em desespero.
Encontrou, não sei de onde, força para se levantar e ir em sua direção,
mas Ítalo colocou a tocha entre os dois e Amanda correu contra a parede.
— Estamos sem tempo para cumprimentos, Héctor. Segure-a.
Héctor ficou paralisado encarando-a. De fato era outra pessoa.
Despida de suas vestes, joias, cabelo e qualquer outra coisa que lhe desse
identidade, Amanda era apenas uma figura disforme e que mal conseguia se
manter de pé.
Não queria que ele soubesse que ela estava sob meu domínio, esse era
um assunto meu com a senhora Mitchell.
— Tudo bem — segurei no ombro dele e passei na frente.
Segurei Amanda com firmeza e virei-a de costas para Ítalo, que tirou
do bolso um aparelho e passou por sua nuca. Todos nós ouvimos um apito.
Ficamos quietos.
— Héctor? — menos a Lavinsky, é claro. Que não perderia a
oportunidade de clamar por piedade.
— Só preciso de um segundo para descriptografar e copiar o
conteúdo — foi a voz de Ethan se aproximar.
O celular que serviu como lanterna para iluminar parte do caminho
recebera alguns comandos por voz, raras vezes ele digitou alguma coisa,
realmente não demorou muito.
— Tenho tudo aqui — Ethan garantiu e voltou para o corredor.
— Héctor? — a voz saiu rouca e fraca. — Por favor...
Tudo o que ele fez foi dar-lhe as costas e voltar para o corredor, Ítalo
se aproximou e encarou-a no fundo dos olhos. Examinou-a em silêncio e ela
tremeu, assustada.
— Terence Smith — foi o que ele disse.
De início não entendi o porquê daquilo. Mas Ítalo a estava
observando desde que entramos ali e como um Zelador, imagino que leu
todos os seus movimentos corporais, seus olhos, cada pequeno gesto que ela
era capaz de fazer.
Ao ouvir aquele nome ela reagiu de um modo levemente semelhante
ao que fez ao ver Héctor.
— Ítalo Travalon — ele disse o próprio nome e a examinou.
Dessa vez a feição foi completamente neutra.
— Diego Abramovisky — ele limpou os lábios e a olhou com atenção.
— Sr. Brown?
Ítalo a examinou de cima a baixo, primeiro os olhos, depois o rosto e
as orelhas, as mãos e até o batimento do seu coração que era bem visível.
— Obrigado, senhorita Lavinsky — ele acenou e saiu da cela.
Soltei Amanda e tranquei a cela, voltei para o corredor e caminhei até
alcançar Héctor e Ethan, que já estavam lá na frente.
— Héctor, por favor, me desculpe...
Héctor se virou e segurou em meu ombro.
— Não é sobre você, irmão. É sobre mim. Eu falhei e esse erro
poderia ter custado a vida da pessoa que mais amo. Beatriz, Anthony... eu...
eu não vou me perdoar por... — ele começou a balançar a cabeça
negativamente, claramente perturbado.
— Mas nada aconteceu.
— Tive sorte dessa vez. E se numa próxima...
— Na próxima eu vou estar lá, para te ajudar e te proteger. Assim
como Ethan vai estar — garanti.
Héctor não pareceu menos perturbado. Nos abraçamos rapidamente e
abaixei o rosto quando o soltei.
— Há alguma forma de chegar nesse lugar sem ser pela sua casa,
senhor Cavalieri? — Ítalo mostrou-se interessado.
— Sim, há. Do prédio do Ethan Evans, os túneis se conectam após um
labirinto e ele é o mais próximo daqui.
— Eu posso... — Ítalo limpou os lábios. — Se precisar... trazer mais
um convidado para este... hotel?
— É claro — assenti, sério e Ítalo mostrou que estava satisfeito, nos
seguiu atrás. — Me desculpem... não queria que tivessem visto isso... —
fiquei entre Ethan e Héctor enquanto fazíamos o caminho de volta.
— Não importa. O mais importante é que vamos resgatar a sua irmã
— Héctor encostou o ombro no meu.
— Eu já vi coisas piores — Ethan se divertiu.
Capítulo 38
Yohanna

A boca já não abria mais do que estava, apertei minhas próprias


bochechas e depois apontei para o tio Ítalo que vinha em minha direção.
— Mamãe, mamãe, olha! — segurei na roupa dela e puxei.
A mamãe ficou ao meu lado, prestando muita atenção. Comecei a
pular no lugar em que estava, sem ao menos saber se era para mim.
— É um filhotinho! — apontei o dedo quando ele já estava muito
próximo com o cachorrinho.
Ele era uma gracinha! Tinha uma mancha preta ao redor do olho
esquerdo, era todo branco com muitas pintinhas pretas, a ponta do rabo era
preto.
— É para mim? Diz que é para mim! — continuei a pular.
— É sim — ele se agachou e me chamou para poder pegar no
cachorrinho.
Primeiro ele se encolheu e soltou um latido bem fraquinho, escondeu
o rosto com as duas patinhas e começou a chorar.
— Será que ele está com saudade da mamãe dele, titio?
— Está sim. Mas você vai cuidar muito bem dele e assim ele vai
ganhar uma nova família e vai parar de chorar. É um dálmata, você pode
escolher o nome.
— Qualquer nome?
— Sim, ele é seu, pegue.
Peguei o filhotinho com todo o cuidado do mundo. A princípio ele foi
arisco e medroso, tentou pular para o chão, mas eu o mantive bem seguro em
meus braços.
— Coitadinho... será que está com frio também? Está tremendo!
— Como se diz, Yohanna? — a mamãe me encarou.
— Obrigada, tio Ítalo. Eu nunca pensei que poderia ter um
cachorrinho, estou muito feliz!
Ele sorriu com os olhos e pousou a mão em minha cabeça, se
aproximou e disse:
— Você pode ter e ser tudo o que você quiser. Com responsabilidade
e força de vontade o mundo é seu, ok? Agora dê um nome bem bonito para o
cachorrinho e vá brincar com ele.
Não precisei ouvir duas vezes.
— Afirmativo!
Coloquei o filhotinho no chão e o assisti cambalear, meio assustado e
curioso com o lugar e o segui para garantir que ficaria bem.

Shawn Cavalieri

— Os seus presentes são sempre muito... auspiciosos... — cruzei os


braços.
O Zelador permaneceu com o semblante neutro, consertou a cartola
na cabeça e espiou as horas em meu relógio de pulso.
— Pessoas são previsíveis, senhor Cavalieri, como baratas.
— Baratas? — arqueei a sobrancelha.
Ítalo levantou as mãos até as bordas da cartola, abaixou até a altura de
seus olhos e fitou-a por cinco segundos. Depois estendeu-a a mim e indicou
com os olhos que eu segurasse.
Tomei de suas mãos o chapéu, em seguida recebi um golpe de seu
punho fechado bem no centro do meu abdômen, que me fez sentir que todos
os meus órgãos se comprimiram de uma só vez e todo o ar do meu corpo me
deixou. Respirar não parecia opção, eu sequer me lembrava como fazia para
respirar... ou o nariz não conseguia funcionar direito...
Arregalei bem os olhos e continuei paralisado, encarando-o.
— Viu? — ele puxou a cartola de volta e colocou na cabeça. —
Previsível. Na arte da guerra, senhor Cavalieri, as distrações são a diferença
entre permanecer de pé ou deitado.
Puxei com a boca algum fôlego e senti a dor se esvair lentamente.
Apoiei-me na parede e assim fiquei até conseguir respirar.
— Baratas raramente estão sozinhas. A que você vê na sua casa,
passeando aqui e ali, é sempre a mais burra. E você a mata. Péssima escolha.
Ensinou às espertas algo sobre você mesmo e sobre a barata burra. Isso é
mais ou menos seleção natural, Darwin, essas coisas aí que ninguém liga...
— Baratas... — a voz saiu mais para dentro do que para fora.
— É sempre importante se fingir de doido e observar as baratas. Ver
até aonde vão. Saber onde se escondem. Uma hora você descobrirá onde fica
o ninho delas, se tiver paciência e habilidade. Aí você não mata uma ou duas,
mas todas elas, de uma só vez — Ítalo segurou nos meus braços e me virou
para que ficássemos de frente um para o outro.
Ao ver sua mão para frente do corpo e sentir que ele iria me dar um
novo golpe, fechei os olhos e fui novamente atingido no abdômen, um
centímetro abaixo do golpe anterior.
O ar veio com tanta força que a minha atenção ficou dispersa, como
se eu tivesse dado muitas voltas e parado para ver o mundo girar.
— Melhor? — meneou a cabeça para o lado e me avaliou.
— Melhor — assenti.
— Que bom. A guerra é uma arte, senhor Cavalieri, e eu crio
distrações. É no que sou bom. E tenho criado muitas distrações desde que
cheguei a Nova York, assim como Abramovisky criou muitas distrações pelo
caminho para nos ocupar enquanto executava seu plano, qualquer que seja a
droga desse plano.
— E as baratas?
— Ah, as baratas... — Ítalo sorriu. — O senhor sabe onde elas estão.
Todas elas. Só precisa fazer o seu trabalho.
— Eu... — repensei mais uma vez, mas seria bom dizer isso. —
Pensei que... você estivesse pronto para caçar a minha iniciação e tirar tudo
de mim.
— Por quê? — ele colocou a mão na cintura.
— Bem... depois de hoje... — engoli em seco.
— Senhor Cavalieri, você não é o vilão. Tampouco o herói. Engana-
se quem acha que pode ser completamente herói ou vilão. Normalmente são
pessoas perigosas, que levam vidas um tanto medíocres e querem dissimular
algo para controlar outras pessoas. Não. Somos seres humanos. Somos heróis
e vilões a depender da perspectiva que olham para nós. Quem o admira o vê
como herói e estão certos. E seus inimigos, aqueles que devem pagar o preço
pelas obras odiosas que fizeram, o enxergam como vilão e estão certos.
— Então como eu devo me enxergar?
Ele piscou os olhos e me encarou com atenção.
— Sempre me fizeram sentir um merda por ser italiano demais para
ser americano... e americano demais para ser italiano. Eu nunca me encaixei
em droga nenhuma, Ítalo. Nunca me respeitaram no Grande Templo porque
não me consideram sangue puro o suficiente e nunca me respeitaram na máfia
pelo mesmo motivo.
— Você é pai.
Ele disse com tanta simplicidade que pareceu um soco.
— Você é irmão. Você é filho. Você é... esposo, não sei se você a
pediu em casamento e se não pediu eu terei de dar aquele primeiro golpe de
novo, mais cedo ou mais tarde... — Ítalo coçou a testa. — Você é Shawn o
suficiente e é isso o que importa. Essa é a sua história, não a história deles.
Foda-se se eles te respeitam ou não, foda-se o que eles acham de você ou não,
foda-se o que eles pretendem ou não.
Estar tão admirado me impediu de concordar, fiquei um tanto
paralisado com as palavras.
— Você é você o suficiente para fazer essa vida valer à pena. Você
não precisa de outra, só essa. Você não precisa aprender, você não precisa ter,
você já é aquilo que precisa ser para conquistar o seu destino.
— Obrigado.
— Você sempre gritou aos quatro cantos que essa é a sua cidade, esse
é o seu país, e isso me diz que você disfarça a sua insegurança com esse ar de
poder. Isso precisa acabar, senhor Cavalieri. Os donos do mundo nunca
precisam dizer que são donos do mundo. Eles sabem disso e foda-se aqueles
que não o sabem.
Um novo soco, dessa vez não físico.
— Sim, imagino que você teve obstáculos em se tornar membro do
Grande Templo, assim como posso imaginar que foi menosprezado pelos
homens da máfia. Mas olhe só para você: chegou aqui sozinho, conquistou
tudo o que conquistou e não percebeu o óbvio.
— O óbvio?
— Só existe uma coisa pior que um Illuminati — ele fez uma pausa.
— E um mafioso.
— Estou ansioso para ouvir.
— Um Illuminati mafioso — ele cruzou os braços e piscou os olhos
com demora, encarando-me como se essa resposta precisasse ficar bem
grafada em minha mente. — Você é o cara mais forte da turma e para
conseguir respeito no colégio eles querem te enfrentar.
— Não sou o cara que faz bullying — deixei claro logo.
— Só quebre eles na porrada, até que eles se lembrem que são apenas
Illuminati ou mafiosos, nunca os dois. Só você é os dois.
— As palavras vieram em boa hora. São algum tipo de distração?
Ítalo entortou a boca e deu-me as costas.
— Tire um descanso de seus títulos, senhor Cavalieri. Para se
reconectar com o eu que há dentro de você.
Agora ele estava tirando a minha iniciação? Ou só o meu grau? Fiquei
confuso.
— E o Héctor mandou dizer que a casa enfim parece um lar! — ele
disse ao sair.
Todos os jornais e programas que vi na televisão falavam do caso das
pessoas desaparecidas que haviam retornado para as suas famílias.
E a minha imagem estava estampada em todas elas como seu
salvador.
Na verdade havia sido um trabalho de equipe e o meu papel foi
apenas uma parte do todo, eu estava longe de ser o responsável pela liberdade
daquelas pessoas.
Mas era assim que o mundo funcionava: as pessoas precisavam de um
herói em quem pudessem depositar suas confianças e sentir que o mundo
valia à pena e eu era, novamente, o cara da vez.
Detestava isso. Herói era o tipo de coisa que eu não era e não
concebia poder ser.
Bem... para Yohanna certamente eu era um herói. Ela era a única que
tinha razão em poder me enxergar assim, porque de resto...
Layla entrou em meu escritório e fechou a porta.
— Senhora Consiglieri — a cumprimentei e voltei a encarar os domos
na estante de madeira.
— Nunca vou me acostumar a ser chamada assim — ela riu e se
aproximou. — Você está muito pensativo.
— Estou ansioso, eufórico, introspectivo... sempre fui capaz de
encarar qualquer loucura, mas agora que sinto que tenho algo importante a
perder, não sei... não me reconheço...
— Se sente fraco?
— Não, amor, não é como me sinto — girei a cadeira e a encarei.
Não sei se ela estava estupefata por ter sido chamada de amor ou por
me ver mais agitado do que o normal.
— Só quero fazer tudo certo agora para manter vocês seguras e depois
estar aqui, com vocês. Sempre fui inconsequente e impulsivo... mesmo sendo
quem sou, nunca senti o peso do poder e da responsabilidade como estou
sentindo agora.
— E isso te dá medo?
— Isso faz com que eu entenda o quão especial vocês são, o que em
pouco tempo construímos juntos e o que representamos uns para os outros...
Layla limpou as palmas das mãos no vestido preto e ergueu o rosto
para me encarar.
— Enviei o comunicado para todas as Famiglias, as pequenas e as
grandes, todas elas. Deixei claro as suas intenções e expliquei à minha
maneira o que queremos. Disse, como você pediu, que aqueles que
encabeçaram a revolta não serão perdoados e serão dizimados, mas isso não
significa que todos os membros das Famiglias precisem morrer.
Fui insensato? Desculpe-me, mas só há uma forma de acabar uma
guerra: com a cabeça dos inimigos aos pés.
Eu fui à guerra, eu vivi o inferno, eu presenciei torturas, eu vi como
ambos os lados agem, sei que não há piedade. Mas eu não queria ser cruel e
exterminar todo o meu povo assim.
— Devemos aguardar muito tempo para a resposta? Ou já podemos
nos preparar para dar um fim nisso? — perguntei para a minha conselheira.
— Shawn, amor, olhe pela janela — Layla pediu.
Franzi o cenho.
— Olhe — ela insistiu.
Levantei-me e caminhei sem pressa em direção à janela e me espantei
ao ver uma grande multidão lá fora.
— Pegue a Yohanna e traga para cá, agora. Vocês vão descer pelos
túneis — mandei e fechei as cortinas.
— Não estão aqui pela guerra, Shawn. Estão aqui para selar a paz.
Incrédulo e um tanto boquiaberto, passei por ela e percorri o corredor
até chegar ao quarto de Yohanna e ver que ela estava ocupada brincando com
o novo amiguinho. Voltei ao corredor, desci as escadas rapidamente e abri a
porta de casa, encarando aquelas pessoas.
Mulheres, para ser exato. As mulheres de todas as Famiglias.
Layla veio em meu encalço e ficou atrás de mim. Era uma péssima
ideia, queria que mesmo assim, caso algo desse errado, ela estivesse segura lá
dentro.
— O que vieram fazer aqui? — perguntei para as que estavam mais
próximas.
Jovens, velhas, carregando crianças nos colos ou acompanhadas de
suas mães, todas elas me encararam.
— Pedimos que dê uma nova chance a nossas famílias e não nos
extermine, por favor — uma delas tomou a frente. — Ou ao menos, deixe que
nossos filhos vivam e nos pegue em troca, mas não mate nossas crianças.
— Não sou esse tipo de monstro — encarei-a com seriedade.
— Nossos maridos já não falam por nós. Não queremos essa guerra,
então por favor, dê-nos uma chance, senhor Cavalieri.
Procurei a minha conselheira e indiquei que ficasse ao meu lado.
— Expliquei a todas essas mulheres que essa guerra ocorreu porque
querem tomar a nossa filha, Shawn. Elas também tiveram seus filhos tomados
e entregues para outras famílias, para manter o Pacto de Sangue que o seu pai
criou. Elas vieram, voluntariamente, entregar suas vidas. Só pedem que seus
filhos sejam poupados.
Mães. Como eu poderia contra um exército de... mães?
Enfrentei criminosos, terroristas, gente psicopata e doente e fui
implacável. Mas... mães?
— Mesmo que sejamos de lugares diferentes, tenhamos culturas
diferentes e pensemos diferente... temos algo em comum. Todas nós somos
mães e todas nós sabemos o peso e a dor de perder um filho. Então essas
mulheres vieram para se sacrificar por eles.
— Qual o seu conselho?
— Sinceramente?
— Você é a minha Consiglieri — ele levantou a sobrancelha.
— Vamos dar uma nova chance a essas famílias. Acabar com o Pacto
de Sangue que obriga que cada uma dessas famílias entregue seus filhos para
outros famílias como reféns só para manter um contrato de medo... e vamos
começar do zero.
Encarei a mulher que tomou a frente da situação e indiquei que se
aproximasse.
— Diga a essas mulheres que o sacrifício delas salvou não apenas
seus filhos, mas toda a sua família. Só... — respirei fundo e sorri. —... me
entreguem os onze chefes das Famiglias maiores. Aqueles que começaram
essa conspiração contra mim e começaremos do zero. Acha que é capaz de
fazer isso?
— Para selar a paz, senhor, somos capazes de coisas piores — a
mulher apertou a minha mão e abaixou o rosto.
Levantei-a pelo queixo.
— Você e nenhuma dessas mulheres tem motivo para abaixar o rosto
para mim — fiz um aceno leve com a cabeça e voltei para casa.
Gritos de agradecimento e canções tomaram não apenas a frente da
minha mansão, mas toda a Vila Patrícia. A voz daquelas mulheres era tão
forte que era possível sentir as paredes vibrando.
Deixei Layla entrar em casa primeiro e fechei a porta quando entrei.
— Obrigada.
— Eu que agradeço, nada disso teria acontecido sem você.
— É o meu trabalho — Layla riu e mordeu o lábio inferior.
Segurei nas laterais do seu rosto e sorri também. Era a minha vez de
morder seu lábio e agradecê-la por uma luz no fim do túnel.
Fomos interrompidos por batidas na porta.
O que mais queriam? Será que não me podiam deixar em paz por um
instante e ir comemorar em outro canto?
— Me espere lá em cima — mandei.
— Não, eu fico aqui — Layla sorriu e cruzou os braços.
Abri a porta lentamente e conforme tive visão de quem estava ali,
meus olhos foram crescendo.
— Preciso da sua ajuda... — Fay Williams disse.
A reconheci apenas pela cor do cabelo que estava um verdadeiro
fiasco. Os dois olhos estavam inchados, roxos, pareciam querer escapar do
rosto. Rosto, que aliás, estava todo inchado e machucado, os braços nus
também, cheios de hematomas.
— Fay? — olhei ao redor lá fora e tudo o que havia era uma multidão
se afastando e festejando. — O que fizeram com você?
— Foi o... — ela tossiu e se jogou em meus braços. — Por favor, não
me dê as costas... eu preciso de você.
— Vem, entra aqui — a ajudei a entrar e a carreguei até o sofá.
— O que foi isso? — não escondi meu horror, nunca tinha visto algo
do tipo.
— Foi o Patrick, Shawn... — sua voz embargada de choro quase
ecoou pelo lugar. — Ele não aceitou quando eu disse que tinha descoberto
e...
— Amor — voltei-me para Layla. — Fique aqui enquanto vou pegar
um soro e curativos.
Selamos os lábios rapidamente e parti para o escritório.

Fay Williams

Essa história saiu do meu controle e chegou longe demais.


Todas as minhas distrações até aqui foram derrubadas por essa mulher
nojenta e os companheiros do Adrian.
Mas uma coisa precisa ser dita o quanto antes: no xadrez, apenas a
rainha pode andar para todos os lados e quantas casas quiser para derrubar
qualquer peça.
... E me avisaram que essa história precisava de uma vilã mais
presente para pôr as coisas em seu devido lugar.
Muito bem, aqui estou eu.
A rainha.
Capítulo 39
Fay Williams

Tudo estava indo bem, perfeitamente sob controle.


Continuo a golpear o espelho com a mão até que a visão seja o
suficiente para me despertar verdadeiro pavor.
Vejo o meu reflexo entre as rachaduras do espelho e seus diversos
cacos no chão.
— Urgh! — urro e uso toda a força e impulso que me sobraram para
bater com a testa na parede.
O corpo pede descanso, os olhos estão tão inchados que tudo o que
consigo ver agora são vestígios e penumbras. Estou cansada, mas a mente é
mais poderosa que o corpo e mesmo que ele me diga que não suporta, apenas
eu direi quando chegar ao fim.
— Urgh! — me jogo da escada e rolo pelo menos uns dois andares.
Garanti que as câmeras do apartamento, corredores e escadas não
captassem nada.
É exatamente isso o que estou tentando dizer: tudo estava sob
controle.
Havia mínimas chances das coisas darem errado, então por que
deram?
Aos sete anos de idade os meus pais saíam de casa e me deixavam
sozinha com um homem. Eu tive o vislumbre, de relance, de vê-los contando
as notas de dólares enquanto saiam e me deixavam algumas horas à mercê de
um estuprador.
Ele dizia que o mundo um dia seria meu e que eu conquistaria tudo o
que quisesse se fizesse o que ele mandasse.
As visitas não terminaram até os quinze e deixaram de ser frequentes
após um tempo.
Reencontrei esse homem anos depois quando fui convidada para uma
seleção de um grupo poderoso que controla não apenas os Estados Unidos,
mas o mundo. E lá estava ele.
Bem mais velho do que eu me lembrava, a vida parecia ter-lhe
cobrado o peso e responsabilidade, porque sempre aparentava estar muito
doente.
Infelizmente não passei nas primeiras provas e fui eliminada. Foi uma
seleção verdadeiramente concorrida e pelo visto, não era a minha hora.
— Não chore, criança... — ouvi sua voz.
Mantive os olhos abaixados, encarando seus sapatos pretos e a
bengala com que se apoiava no chão.
— Mesmo que não tenha sido aceita formalmente neste lugar, você
trabalhará para mim, e por isso, terá todos os privilégios que aqui temos.
Sequei as lágrimas e ergui o rosto devagar, impactada pelo meu
fracasso.
— Confie em mim. E permita-me mudar a sua vida — ele estendeu a
mão.
E eu a segurei.
Agora me arrependo amargamente de não ter seguido os meus
instintos.
— Volte lá para cima, amor.
— Quem é ela, mamãe? — a criança estava abraçada às pernas da
selvagem.
Aquela estrangeira imunda que destruiu a minha vida.
Por quê? Por que não as matei quando tive chance?
— Onde está o seu cachorrinho?
— Lá em cima, ele tem medo de descer as escadas.
— Então fique com ele. Ele deve estar assustado, cuide dele, por
favor.
— Está bem — a criança saiu, a contragosto.
Eu nunca fui iniciada no Grande Templo Illuminati de Nova York. E
mesmo que tenham apagado as minhas lembranças do dia em que eu
fracassei nos testes, eu me lembro bem do lugar. Sei das pessoas que estão lá.
E trabalhei por anos para um dos mais poderosos homens do mundo: Terence
Smith.
O trabalho era simples e fácil para o que ele me propunha: estar por
dentro da vida secreta dos poderosos, ter acesso às coisas mais luxuosas e ter
todos os meus sonhos realizados.
Vigiar, envenenar e drogar Adrian Cavalieri era a droga do meu
trabalho.
Uma pena que eu me apaixonei.
Não me julgue, foi irresistível. Olhe só para ele.
— Você vai ficar bem, eu prometo — ele se ajoelhou diante de mim,
ligou uma luz forte contra os meus olhos e colocou óculos de hastes grossas
que o deixavam bem charmoso.
Um cara alto, gostoso, não era tatuado quando começamos a sair e
transar. Mas era inteligente, culto e com uma síndrome de querer proteger
tudo e todos, custasse sua vida ou não.
Está na hora de explorar essa fraqueza.
— Dói — choro e me contorço, seguro firme na mão dele.
— Você precisa registrar uma queixa e fazer um exame na sede
policial para ter provas contra ele, Fay. Isso não pode ficar assim.
— Registrar uma queixa contra o chefe da polícia de Nova York,
Adrian? — choro mais alto de dor e tristeza, puxo ele um pouco mais perto
de mim e contemplo o olhar da selvagem.
Aquele bicho vindo do outro lado do mundo que deveria estar numa
jaula sendo alimentada com bananas, no mínimo.
Como ele pode me trocar por... isso?
— Vou resolver isso — ele garante.
Eu sei que vai, Adrian. Eu te conheço melhor do que você mesmo.
Ficamos anos juntos, dormimos sob o mesmo teto, você confiou
cegamente em mim e bebeu da água envenenada que eu te dei, comeu tudo o
que fiz junto com drogas. Você é fraco e cego quando o assunto é proteger,
confiar e odiar autoridades.
— Não me abandone, por favor — peço.
— Eu estou aqui, vai ficar tudo bem — ele começa a limpar os meus
machucados com muito cuidado.
A culpa é toda minha, admito.
Eu o tinha em minhas mãos, sob meu controle, ele era o meu fantoche
e com ele eu tinha acesso direto a tudo do Grande Templo. Mas eu me
apaixonei perdidamente e... percebi que havia outra.
— Layla...
Esse era o nome que ele não parava de dizer, noite após noite
enquanto dormia.
— Eu preciso de você...
Dizia enquanto tinha pesadelos. Dizia quando achava que eu não
estava por perto ouvindo. Dizia quando estava tão sufocado, perdido e
entregue às drogas que encontrava naquele nome tanta força quanto um fiel
encontra no nome de Deus.
Adrian lentamente me fez perceber o quanto fugi do meu dever e me
lembrou qual era o meu trabalho: acabar com ele. Mesmo apaixonada.
E quando Terence conseguiu comprar essa maldita selvagem que
tivera dois filhos... foi o êxtase.
Ficamos com o filho, certamente seria o golpe de misericórdia para
alguém como Adrian que sabia que o seu herdeiro homem seria dono de toda
a América, quiçá o mundo, um dia. Deixei a menina. Os olhos eram iguais
aos dele e me causavam amor e ódio, mas tinha as feições imundas da
genética da mãe. O filho era idêntico a ele, a própria imagem esculpida de seu
nariz, queixo, o rosto, tudo.
E eu jurei. Eu jurei que ao ser pedida em casamento por ele e depois
quebrar tudo abruptamente, eu o destruiria em mil pedaços.
Quantas vezes ele não foi em busca dessa Layla? E quantas vezes eu
sorri e o abracei, o deixei ir e fingi que não sabia?
Ele nunca a encontraria, ela estava sob o meu domínio, os meus
cuidados.
— Sente aqui? — sinto a mão dele no meu abdômen.
— Dói muito...
Terence foi fraco, infelizmente. É o que os homens são, fracos.
Ele se afeiçoou a mulher e se afeiçoou a garota como seus brinquedos,
e a selvagem deu um fim nele antes que pudesse colocar suas mãos imundas
numa outra criança.
Não a impedi.
Senti-me, em parte, vingada.
Por outro lado, era a minha vez de brilhar.
Sem Terence eu era a dona dos porões que traficava estrangeiros
como árabes, africanos e até mesmo mulheres e crianças da América Latina,
eu controlava os chips, eu era a mulher mais poderosa daquela seita
desgraçada sem ao menos estar lá dentro!
Com os chips eu consegui tudo: saber sobre membros, localizações,
acessar suas fortunas, usar os controles governamentais para controles
populacionais e até consegui auxiliar os novos poderosos que foram
rejeitados pela seita para fazer com que presidentes subissem ao poder
através de algumas manipulações.
E por fim, a cartada final era que a selvagem matasse o Adrian.
Por isso ele sempre foi descrito como um demônio, alguém que
renegou a família, que abandonou a própria irmã pelo poder, que controlava o
mundo sombrio noturno e ilegal em Nova York...
Mas algo entrou no caminho. Não faço ideia do que tenha sido.
Talvez ela não tenha resistido e eu não a culparei.
Olhe para esse homem e olhe para essa mulher. Não fazem parte do
mesmo mundo, um estúpido acaso os colocaram na vida um do outro, mas
ainda assim, não pertenciam um ao outro e nunca pertencerão. Eu não vou
permitir.
Patrick? Um tolo e fraco que pela frágil masculinidade quis enfrentar
o mafioso que tem mais poder que o exército. Os mafiosos? Acreditei que
eles dariam um fim digno ao Adrian.
As coisas saíram do controle e estou aqui para colocar tudo no lugar.
— Eu... eu sinto muito... eu sou tão estúpida...
— Fay, você precisa descansar.
— Eu sabia que esse casamento era um erro...
— Impressionante. É a primeira coisa que concordamos em anos...
— Eu nunca deveria ter te deixado — murmurei para que apenas ele
escutasse.
Adrian abaixou os olhos com muito cuidado e depois os levantou em
minha direção. Deixou o algodão e os curativos no chão e se levantou
vagarosamente.
— O que houve? — a selvagem o tocou no ombro.
Não bastava ter tido os filhos dele... filhos não, porque jamais seriam
herdeiros... bastardos, era a palavra. Não bastasse isso, ela queria continuar a
tocá-lo? Viver na mesma casa que ele? Ela não sabia o seu devido lugar?
— Preciso de um tempo sozinho — ele segurou nos ombros dela e
saiu.
Acertado em cheio.
Era isso o que ele sempre quis ouvir e eu segurei até esse momento.
Qualquer palavra pode ser impactante, contanto que você a guarde para
encaixá-la no momento ideal. E esse era o momento ideal: aparecer
fragilizada, acabada, disforme, implorando por ajuda e perdão, revelando o
fracasso das minhas escolhas e o meu maior fracasso: tê-lo deixado.
Encarei aquela mulherzinha de quinta que se aproximou, os braços
cruzados. Não importava que se cobria com um vestido Versace ou sapatos
caros. Podia estar coberta de ouro, continuaria a ser exatamente isso: uma
mulherzinha de quinta, que usurpou o meu lugar.
Adrian e eu poderíamos ter sido o casal mais poderoso do mundo!
Infelizmente Terence era um completo depravado e doente e fez uma
negociação com o Constantino Cavalieri para que um de seus filhos fosse
entregue e o outro tivesse a oportunidade de participar do maior quadro de
poder do mundo inteiro.
A selvagem agachou o rosto e analisou as minhas feições.
Não estou assim apenas para que Adrian dê um fim em Patrick que
pode colocar minha cabeça em jogo. Estou assim para ficar irreconhecível
mesmo, bebê.
— Você precisa de água? — ela perguntou, toda educada.
Ainda bem que ela tinha consciência de que era para isso que servia:
para ser uma serviçal.
Como fui estúpida! Devia ter matado a mãe e ficado com as crianças,
inventar qualquer história estapafúrdia e segurar aquele homem comigo. Mas
a menina... ela era tão parecida com aquele ser abjeto saído de sei lá que
deserto... traria lembranças... e foram as lembranças que me fizeram sair do
completo controle e colocar tudo a perder da primeira vez.
Não mais.
— Sim... por favor... obrigada... você é um anjo...
Vejo-a sair em direção à cozinha e fecho os olhos para repassar o
plano.
Tudo o que preciso é conhecer a casa, porque Adrian nunca permitiu
que eu estivesse aqui antes e esperar. A paciência é uma virtude e dessa vez é
o que preciso para dar o golpe final.
Matá-los todos? Apenas a mulher e a criança? Apenas o Adrian?
Não sei. E terei tempo para decidir.
Capítulo 40
Layla

— Quem é ela?
Shawn girou com a cadeira pelo menos duas voltas inteiras até parar
voltado para mim. Cruzou as pernas e manteve as mãos no colo.
— Uma antiga amiga. Alguém com quem... pensei em me casar, no
passado.
Foi duro ouvir aquilo. Experimentei uma sensação nova que era
dolorosa e me deixava tensa, muda e com raiva, tudo isso junto com muita
impotência.
— E você ainda gosta dela?
Shawn fez menção de rir, mas só voltou a girar na cadeira e olhou
para a janela com demora.
A sensação ruim só aumentou dentro de mim.
— Acha uma boa ideia recebê-la na sua casa?
— Nossa casa — ele pigarreou. — Você viu o estado dela, o que eu
poderia fazer?
Mandá-la para um hospital, talvez? Com um lindo cartão de
“melhoras”?
— Você não a quer aqui?
— Não sei, Shawn. Gostaria que você consultasse os seus amigos ou
o Ítalo a respeito disso.
— Ei — Shawn se levantou e veio até mim, segurou nas laterais do
meu rosto e não desistiu até que nossos olhos se encontrassem. — Não se
sinta ameaçada por saber que eu iria me casar com ela. Era mais pelo
desespero da solidão do que por gostar dela. Você é a única mulher com
quem irei me casar, nós já temos uma família, não pense nem por um
segundo que hospedá-la e ajudá-la nesse momento difícil pode significar algo
a mais.
Homens... por que tão ingênuos?
— Não é sobre as suas intenções com ela, Shawn. Mas as intenções
dela, não apenas para com você, mas com essa família.
— Você viu o estado dela.
— Sim, eu vi. E vi o rosto também... me lembra alguém...
— É a mulher do Patrick, aquele policial corrupto que chefia a polícia
de Nova York. Deve ser por isso que está tão tensa...
— Você confia em mim?
— Amor, você é a minha conselheira. Confio em você.
— Poderia chamar o Ítalo? Gostaria de conversar algo com ele.
Shawn coçou o queixo e concordou, após alguma demora.
— Posso procurá-lo na sede do Templo ou perguntar a Elizabeth se
ele pode dar uma passada aqui, tudo bem?
— O mais rápido possível, por favor.
— Amor — senti suas mãos descerem do meu rosto para os meus
ombros. — Eu vou cuidar para que nada saia do controle, ok? Confie em
mim. Mas irei procurá-lo, mesmo que ele tenha deixado explícito de que eu
não deveria fazê-lo.
— Obrigada.
Shawn Cavalieri

Yohanna não desistiu da ideia de ir comigo, no dia seguinte.


Após aceitar, depois de muita insistência, ela inventou que queria
levar o cachorro consigo.
— De modo algum.
— Mas papai, ele precisa de mim, ele odeia a solidão.
— A mamãe vai ficar aqui, ela vai cuidar dele.
— Papai, não...
Assunto encerrado.
Coloquei Yohanna na cadeira e eu mesmo dirigi. Mostrei a ela vários
prédios em Nova York enquanto passávamos pelas ruas, fizemos uma breve
parada em um hospital que estagiei para apresentá-la para alguns ex-colegas e
seguimos para o Grande Templo de Nova York.
Antes de chegarmos lá, passamos na costa de onde ela podia ver a
Estátua da Liberdade.
— Ali — apontei. — É um dos lugares onde o papai trabalha.
— Na estátua?
O tom dela foi muito divertido.
— Existem túneis que levam para lá. Lá guarda algo muito importante
do trabalho do papai, no subsolo.
— E os túneis passam por debaixo da água?
Exatamente.
Continuei a rir e comentar aleatoriedades com ela até que chegamos
na sede do GTI. Passamos pelos portões e eu estacionei o mais próximo que
podia do prédio.
— O papai não demora. Fique aqui, não abra a porta nem converse
com ninguém. Eu já volto.
— Ok papai.
Segui para dentro do local e cumprimentei os vigilantes que estavam
por lá. Não tardou muito até que eu visse Ethan Evans.
— Que milagre você aqui.
Ele sorriu e tocou em meus ombros.
— Bom te ver também. Tudo certo na vila?
— Sim. O que veio fazer aqui?
— Eu sou iniciado aqui, não sei se você sabe — Ethan riu e ajeitou o
meu terno, depois a gravata, odiava que fizesse isso. — E você?
— Tentar a sorte e ver se consigo encontrar aquele Zelador
engraçadinho.
— O Ítalo?
— O próprio. Diga-me que o viu, por favor.
Ethan acenou que sim com a cabeça.
— Antes de mais nada, queria dizer que interceptei umas conversas
curiosas e recebi uns códigos quando tentei descriptografar os chips e... sua
filha corre muito perigo. Sério mesmo. Parece que gente daqui quer matá-la,
se possível.
— É. Eu sei disso — era pesaroso pensar na situação.
— Vai ficar afastado do cargo por quanto tempo?
— O prazo acaba em breve, aí faço os exames e retorno a chefiar o
Templo. Está com saudade?
— É uma pena então que você não realizará a cerimônia do Ricardo
Leão — Ethan lamentou. — Ele recebeu a autorização dos anciões para ser
elevado de grau para o Conselho. Acho que o Héctor presidirá,
possivelmente.
— Depois me confirme a data para que eu venha assistir.
— É claro. Sobre o Zelador, acho que não tem erro, acho que
podemos encontrá-lo na biblioteca, na sala da Elizabeth ou lá embaixo na
arena. Bom que vou te atualizando de algumas coisas.
— Certo.
Ethan conhecia aquele espaço como a palma da mão, então só girou
os calcanhares e seguimos para a escadaria para alcançarmos a biblioteca.
Enquanto subíamos os degraus, ele mais atento do que eu, tive o
prenúncio da desgraça.
Um velho conhecido, alguém que eu havia me esquecido por um
tempo, reapareceu. Henry Johnson passou avoado e apressado para o outro
lado do prédio e eu vi seu rastro no ar, o que me deixou levemente
incomodado.
— Você o viu?
— Não — suspirei. — Vamos logo para a biblioteca.
Chegamos à grande biblioteca um minuto depois, passamos por
diversos irmãos e até encontramos Ricardo Leão, sentado com Ítalo e
Elizabeth, conversavam calorosamente sobre algo.
— Olha só, reunião de cúpula — provoquei.
— Ah, que ótimo vê-lo! — Lilith veio a mim e segurou as minhas
mãos. — Como estão as coisas?
— Espero que não piorem.
— Está pronto para voltar a dirigir o Templo? Só essa semana cinco
demonstraram interesse em elevação de cargo para Hierofante e eu
sinceramente estou indisposta com o cenário.
— Eu vou voltar, não se preocupe, tudo vai ficar bem — garanti. —
Senhor Zelador, se me permite...
— Eu disse para não me procurar, senhor Cavalieri. Eu o procuro no
momento certo.
— Não é para mim, é para Layla.
Surpreendentemente ele mostrou mais interesse e disposição ao ouvir
que era para ela do que para mim. O que havia de errado? Eu que fazia parte
do clube secreto, não ela!
— Abaixem-se! — ouvimos uma voz tomar conta da sala e em
seguida ouvimos uma explosão.
O prédio todo tremeu, mas não foi mais do que isso: um susto através
do barulho e o impacto. Instintivamente Ethan, Ricardo e eu nos
posicionamos de modo a abaixar Elizabeth e Ítalo para a mesa.
— Que diabos foi isso? — Ethan tateou a mesa, se levantou e pegou o
celular.
— Não pode entrar com isso, você sabe — o repreendi.
— Alguém explodiu um carro lá fora! — um dos irmãos, diante da
janela, apontou para o pátio.
O coração deve ter parado a circulação de sangue. Prendi bem a
respiração.
Espiei pela janela e quase não consegui permanecer de pé: era o meu
carro.

Layla

A nossa ilustre convidada, ao perceber a ausência de Shawn, começou


a mostrar suas garras.
Primeiro a encontrei no escritório dele e quando a interroguei sobre
porque estava ali, ela disse que estava desorientada e procurava o sanitário.
Fingi demência, retirei-a do escritório e o tranquei.
Ela almoçou tarde, quando as moças que ajudavam na casa já haviam
encerrado o turno. Quando passei por ela na cozinha, ela derrubou o garfo
com que comia.
— Você poderia, por favor...?
— É claro.
Abaixei e peguei o talher, o lavei na pia e voltei para entregar. Segui
para pegar um pouco d’água, além de vigiar a ilustre hóspede indesejada e
quando estava prestes a sair da cozinha, ouvi o som do talher bater no chão
novamente.
— Espero que não se importe...
Olhei aquela mulher toda cheia de hematomas que parecia não
conseguir sequer ficar sentada sem gemer de dor e novamente voltei lá,
peguei o talher, o lavei e lhe entreguei.
— Com o que você trabalha?
Eu esperava que pudesse sair dali sem trocar mais palavras com ela,
mas pelo visto, era pedir demais.
— Sou consiglieri do senhor Cavalieri — respondi de modo
prestativo e educado.
Pousei as mãos, juntas, em frente ao vestido e a encarei, perguntando
com o olhar se ela queria algo mais.
E, sim, dava para ver que ela queria.
— Mas não é italiana...
— Serei em breve, através do meu casamento — esclareci. — E tenho
uma filha meio italiana.
A mulher sorriu, não sei se era dor ou desdém.
— Por quanto tempo vai continuar nesse teatrinho? Acha mesmo que
ele será capaz de levar isso adiante?
— Perdão? — cruzei os braços.
— Adrian não é homem de casamentos. Diria até que é surpreendente
o fato de estarem juntos há... não sei... semanas? Alguns meses? Mas ele e eu
ficamos juntos por anos.
Comecei a deslizar as unhas em meu braço, para não ter de fazê-lo na
cara da vadia.
— Eu terminei. Ele ficou despedaçado, coitado, depois disso nunca
mais quis saber de amor, só de distrações. Vez ou outra ele sempre me
procura... me pediu diversas vezes para repensar a minha posição e...
— Diferente de você, senhora Williams, eu sou uma mulher ocupada.
Então, se puder resumir...
—... e estando aqui... nesse ambiente tão caloroso e acolhedor... sendo
cuidada por aquelas mãos que me despertaram uma saudade imensa... me
sinto tentada. Desculpe-me, sei que é muito indiscreto dizer isso para você,
mas... vê-lo cuidar de mim reacendeu algo...
— Tá.
— E eu... acho que o quero de volta. Acho que é o destino. Agora
consigo ver que o término do meu casamento é na verdade uma forma dos
nossos caminhos se cruzarem e dessa vez tomarmos a melhor escolha.
Principalmente porque... bem... você viu como ele fica mexido quando está
comigo.
Essa sensação terrível que fazia minha cabeça esquentar até querer
explodir devia ser os ciúmes.
E em hipótese alguma eu demonstraria que estava enciumada, até
porque, vamos aos fatos.
— Ok — respondi.
— Ok? — ela riu. — É tudo o que você tem a me dizer? Ok?
Respirei fundo.
Aproximei-me devagar.
Agachei até estarmos com o campo de visão ajustado uma para a
outra.
— Olhe só para você e o que precisou fazer consigo mesma para ter a
mínima atenção dele. E olhe só para mim.
Acho que não precisava acrescentar nada além disso.
Concorrência? O que Shawn e eu tínhamos não me permitia espaço
para pensar nisso. Estávamos juntos porque escolhemos estar juntos.
Devíamos ter matado um ao outro, várias e várias vezes, e escolhemos não
fazê-lo, arcamos com as consequências e aprendemos a nos tornar um só.
Para aquela mulher destruir isso, ela precisaria que as duas partes
fraquejassem e se dividissem: e não teria isso, não de mim.
— Estou olhando para você. Consigo ver uma imigrante ilegal, vinda
de um mundo bárbaro e sem Deus. Uma raça certamente inferior que teve
alguma sorte de vir parar onde está. Mas este, querida, não é o seu destino.
— Eu escrevo o meu próprio destino — era tudo o que eu precisava
dizer.
Ela cuspiu em meus sapatos e eu não me importei. Derrubou o prato
de comida no chão, sujando-o, e eu permaneci encarando-a com serenidade.
— Limpe isso, que é para isso que você serve! Nem para
empregadinha deve servir!
— Se esse é o seu melhor momento para reconquistá-lo e está agindo
assim... Tenho pena do seu pior momento — sorri de canto e dei-lhe as
costas. — Sequer sabe o nome dele. Adrian? Faça-me rir!
— Eu sei onde está o seu filho.
Era para eu ter saído forte, triunfante, elegante e pisando na cabeça
daquela cobra sem olhar para trás. Mas aquelas palavras me desarmaram de
uma forma que fiquei paralisada, no meio da porta, encarando as paredes do
corredor.
— E se quiser que ele permaneça vivo... — ela riu.
Virei o rosto devagar, para vê-la.
—... você fará tudo o que eu mandar.

Shawn Cavalieri
Corri desesperadamente a ponto de quase despencar na escada quando
desci os degraus cego de raiva e medo. Por todas as portas do Templo, vários
homens saíram para conferir o que havia ocorrido.
Um ataque? Tão perto assim? Isso não acontecia desde o 11 de
setembro!
Abri o grande portal principal e corri até me aproximar do carro, o
coração já na garganta, os olhos ardiam pelas lágrimas e pela fumaça.
— Yohanna!!! — gritei, desesperado.
Fui abrir a porta de trás, mas estava tão quente e as chamas parecerem
querer pular em mim, mas não desisti. Arranquei o terno do corpo, enrolei ele
na mão e novamente fui abrir a porta detrás.
Havia apenas fogo e ele avançou em minha direção quando assim o
fiz.
— Você ficou maluco? — tive de ser impedido por oito pessoas.
— Ele pode explodir novamente, você perdeu o juízo, homem?
Arrastado para longe do carro, esperei que todos se distraíssem para
avançar novamente. Avancei para as chamas, pronto para adentrar no banco
detrás, mesmo sentindo o fogo queimar a minha camisa e a minha calça.
Rangi os dentes e gritei enquanto em plena loucura eu avançava e sentia o
calor consumir não apenas as minhas forças, mas eu mesmo, por completo.
— Imobilizem ele!
Fui retirado de perto do carro novamente, as mãos ardiam e os olhos
não conseguiam ficar abertos.
O choque no corpo deve ter vindo mais da fumaça que inalei e do
calor do que das chamas em si. Queimaduras, quaisquer graus que tivessem,
jamais seriam pareis a perder a minha filha.
— Segurem-no!
Mesmo machucado e com as mãos tremendo, consegui abrir os olhos
e respirar com alguma regularidade. Então eu aguentava de novo. Mas eles
foram mais rápidos.
— O que houve com esse homem? — ouvi a voz de Henry Johnson.
— Perdeu o juízo?
Apontei o dedo indicador para ele e arregalei os olhos.
— Você!
— O que tem eu?
— Você fez isso! — vociferei e avancei contra ele.
— O que eu fiz? Esse homem não era para ser o maior de todos nós?
Como alguém que perdeu a faculdade do juízo pode nos dirigir?
Não me importei com suas palavras. Fui direto em seu pescoço e nem
dez homens conseguiriam me impedir agora.
— Papai?
Assim como o mundo havia parado quando vi a cena do carro em
chamas e o que senti um segundo antes de quase perecer ao tentar entrar nele,
o mundo parou quando ouvi a voz da minha filha.
O rosto foi em direção à sua voz e lá estava ela: de vestido azul e
sapatos brancos, o laço rosa no cabelo, os olhos bem grandes, preocupados.
E... o seu cachorrinho em mãos.
— Filha — tossi e corri até ela, me ajoelhei e olhei por todo seu
corpo. — Você está bem? Aconteceu algo?
— Ele estava com sede e inquieto lá dentro, então eu saí para procurar
água...
A abracei, mesmo que minhas mãos tremessem e meu corpo
acompanhasse o movimento, seja pelo choque ou pela loucura anterior.
— Me desculpa, papai, o senhor disse que não era para trazê-lo, mas...
eu fiquei com pena dele e queria levá-lo para passear...
— Tudo bem, meu amor, tudo bem.
— O senhor está bem, papai? Está todo suado.
— Shawn, você precisa ir a um hospital — Elizabeth veio às pressas,
segurava a parte inferior do vestido.
— Eu estou bem. Está tudo bem, só preciso entrar, pegar algumas
coisas da ala médica e dou um jeito...
— Não brinque com isso! — ela me censurou. — E, afinal de contas,
o que houve aqui? Carros não explodem assim de uma hora para outra.
— Ele... — apontei para Henry.
— Não me acuse sem provas — ele devolveu.
— Na verdade, senhor Johnson... — Ethan aumentou o volume do
celular e nos fez ouvir a voz de Henry, ao que indicava, minutos atrás,
dizendo sobre a oportunidade perfeita de apagar todos os vestígios que o
conectavam a conspiração.
Tudo o que ele precisava fazer era... por um fim à minha filha.
E ele tinha algo guardado dentro do próprio carro, em caso de precisar
explodir a sala de arquivos ou biblioteca da sede.
— Incriminador o suficiente? — Ethan questionou.
Ítalo tomou o celular de sua mão e andou até Henry Johnson.
— Pode apostar que sim.
Capítulo 41
Shawn Cavalieri

— Você perdeu o juízo, homem?


Cercado por Ethan, Ricardo, Elizabeth, Ítalo e mais uma dúzia de
irmãos do templo, tomei soro na veia. Tiraram toda a minha roupa e
colocaram um gel em toda a minha pele, depois bolsões com o mesmo
produto só que gelado, por cima. Fiquei de molho meia hora até que
retirassem tudo.
— E então? Estou desfigurado? — perguntei para um dos irmãos que
era médico.
Ele avaliou o meu rosto e meu estado.
— O fato de ter coberto as mãos com o terno parece tê-las protegido,
mas parte do seu rosto está com uma queimadura severa.
— Não sinto dor. Sou resistente à dor.
— Precisa evitar a luz do sol, usar protetor, mesmo em casa e
indicarei que use algumas máscaras e géis para tratar, desinfetar e recuperar.
O processo pode ser demorado... bom... pelo menos, está vivo — o homem
deu um sorriso esperançoso no final e se afastou.
— Onde está a minha filha?
— Na biblioteca, a deixamos com o Mitchell.
Assenti, menos preocupado.
— Você poderia ter morrido — Ítalo cruzou os braços e indicou que
todos se afastassem para me deixar respirar. — O que deu em você? Que
ideia é essa de pular em um carro pegando fogo?
Engoli em seco e fechei um pouco os olhos. Sorri em algum
momento.
— Você tem filhos, senhor Zelador?
Abri uma fresta dos olhos, o suficiente para vê-lo descruzar os braços
e se apoiar na maca.
— Quando ouvi o barulho... — mexi a cabeça negativamente. — Só
de imaginar que algo poderia ter acontecido com a minha menina... eu não
me perdoaria... eu preferiria morrer junto. Eu sequer lembro como era a vida
antes dela.
O Zelador limpou os lábios e mostrou-se menos severo com o olhar.
— Eu já sou um modelo obsoleto, senhor Zelador. Tire tudo de mim.
Tire meu cargo, minha iniciação, tire-me a máfia, tire-me o meu poder e
influência... mas não tire a minha filha e a minha mulher de mim... elas são a
melhor parte de mim.
Voltei a engolir em seco e guardei aquela sensação emotiva só para
mim.
— Os peritos já analisaram a ligação e tem um veredito, senhora
Embaixadora — um dos membros do conselho entrou e alertou Elizabeth.
Ela agradeceu e voltou a me fitar.
— Em seu registro li sobre indícios suicidas, drogas e alguém
completamente descontrolado — Ítalo disse secamente. Aproximou-se
devagar até que estivéssemos menos de um metro um do outro. — Não estou
vendo o homem que li. Conheci um homem dedicado, que coloca os outros
em primeiro lugar e sente prazer em servir e ajudar quando enxerga o que é
certo.
— Obrigado pelas palavras.
— Um Hierofante, senhor Cavalieri, é o pai do Grande Templo. Ele
pune, ele é severo, ele ensina, ele precisa que todos cresçam junto com ele e
sigam as normas, para que o poder seja coeso e coerente entre todos. Ainda
assim, como um pai, ele precisa amar e cuidar, zelar e proteger, se possível
doar-se, como o Grande Arquiteto doou-se para seus filhos tão pequenos.
Fechei os olhos e agradeci pela doçura das palavras.
Normalmente era Elizabeth quem me afagava, porque de resto, eu só
ouvia críticas, pessoas tentando me derrubar e nenhum reconhecimento.
Aquilo significou muito para mim.
— Estes são os papeis que exigem os seus exames toxicológicos e
mentais — ele me entregou um encadernado.
— Devo fazê-los agora?
— Está dispensado deles — Ítalo sorriu como um cavaleiro inglês, de
modo gentil e encorajador e ao mesmo tempo com ar de disciplina e
sobriedade. — Devolvo, também, suas atividades como Hierofante do
Grande Templo Illuminati de Nova York. Você está apto. Você está mais do
que apto — ele levantou a sobrancelha. — Por ser um pai tão zeloso e
aplicado com sua filha, nos ensina e nos mostra que é capaz de ser um pai
zeloso e aplicado com os homens e mulheres sujeitos a esse lugar.
Eu não tinha palavras.
Guardei as lágrimas para mim e balancei a cabeça devagar.
— Significa muito para mim.
— Está se sentindo bem? Acha que consegue ficar de pé? — Ethan
tocou em minha mão.
— Sim. Só estou deitado porquê... há tanto tempo não encosto minhas
costas em algo... é tão gostoso... — suspirei.
— Não está com as costas machucadas? — foi a vez de Elizabeth
tocar minha mão.
— Não. Eu estou bem.
Eram apenas palavras jogadas ao vento de uma conversa qualquer
para os que não entendiam a profundidade dela.
Para Elizabeth e Ethan, que sabiam de minha história, era uma
surpresa. E para mim também.
Nunca pensei que ao começar o processo de perdão interno e começar
a perdoar as pessoas ao meu redor, eu me sentiria menos culpado.
— Muito bem — Ítalo pigarreou. — Senhor Hierofante, queira me
acompanhar até a arena.
Abri os olhos, atento e surpreso.
— É claro — saí da maca.
Cobri metade do meu rosto com aquele gel e uma máscara de silicone
para não sentir tanta dor e fui, junto com todos para o subterrâneo do Grande
Templo.
Lá embaixo, na arena, o homem ruivo, o príncipe inglês, estava com
o Zelador italiano que trajava vestes de bispo. Amarrado em uma estaca
estava Henry Johnson.
Toda a plateia ficou na parte superior, assistindo, enquanto eu desci
com Ítalo e Elizabeth para a arena. Há muito tempo eu não pisava ali.
— Me soltem! — o prisioneiro gritou. — Não podem fazer isso
comigo!
— Ah, não?! — Ítalo cruzou os braços. — Você por acaso tem algo a
me dizer?
— Na verdade, sim.
— Ótimo. E como o senhor sabe que sou um Zelador, sabe que
perguntarei apenas uma vez, senhor Johnson, então me escute com detida
atenção e cuide bem das suas palavras.
O homem que espumava respirou fundo e o encarou, suas mãos ainda
tremiam e uma veia no meio da testa estava sobressaltada.
— Para quem o senhor trabalha? Quem pediu que fizesse isso e
tivesse consigo, em seu automóvel, um projétil desses?
— A palavra secreta é: “Não fui autorizado a dizer”. Este é o
fundamento. Eu sou Zelador de uma das 13 famílias.
Eu conhecia bem aquelas palavras! Foram as mesmas que o canalha
do Terence Smith usou para se livrar do julgamento dos Zeladores. Mas Ítalo
cairia nessa? Ele parecia, de longe, o Zelador mais destemido e implacável
que já conheci.
— Devo dar uma martelada na boca dele? — o príncipe ruivo
empunhou o martelo que era do tamanho da cabeça de Johnson e o cabo era
longo como o de um machado.
— Soltem-no — Ítalo suspirou.
— Senhor Zelador, se me permite... — tive de interpelar aquilo.
— Suba, senhor Cavalieri — ele foi duro e indicou o portal que
guardava o elevador.
— Alguém já usou essas palavras antes... ele está tentando enganá-
lo...
— Senhor Hierofante, por favor, suba — Ítalo indicou o elevador. —
Vá com ele, por favor, Lilith.
Ela acenou de modo positivo e me puxou para o elevador.
— Ele não pode se safar...
— Está tudo bem, querido.
Johnson foi retirado da estaca. Ao chegar na parte superior onde mais
de cinco dúzias de curiosos estavam colados no vidro para assistir e ouvir, o
príncipe deixou Johnson livre.
— Senhoras e senhores, egrégia assembleia do GTI de Nova York,
este homem — Ítalo apontou para Johnson. — Acusou o seu Hierofante de
graves crimes. E, declarou-se mais apto e notório a ocupar o cargo de
Hierofante desta Sagrada Loja. Você endossa minhas palavras, senhor
Johnson?
Mesmo assustado por ser exposto, porque nunca pensei que aquele
homem fosse o Brutus que tentara me apunhalar pelas costas, ele deixou
ecoar:
— Sim! — sua voz chegou a todos nós.
Ítalo anuiu.
— Muito bem. Segundo a tradição, muito popular na época medieval,
os Zeladores quando incumbidos de resolver dissidências, podem clamar pela
ordália. E pelos poderes investidos a mim e a ausência do Zelador desta Loja,
eu clamo por uma ordália para Henry Johnson — Ítalo pediu que o príncipe e
o Zelador italiano se afastassem.
— O que isso quer dizer? Eu venci? — Johnson perguntou.
— Ainda não — o príncipe rosnou.
— Uma ordália, para aqueles que não sabem, é uma prova testemunha
ou uma prova jurídica. Por exemplo, na idade média, para ter prova de que
uma mulher era bruxa, eles a amarravam em uma pedra ou em um tronco de
árvore e a jogavam dentro da água. Se afundasse... era bruxa. E se não
afundasse... não era bruxa.
— Espera. Vocês não vão me amarrar em...?
— Não, senhor Johnson, teríamos que inundar o lugar. Não é prático
— Ítalo cruzou os braços. — Todos aqui têm direito de questionar os crimes
de seu Hierofante, não sua legitimidade. Quando questionada a legitimidade
de um Hierofante, existe uma ordália que, vejam só vocês, é a terceira prova
que um Zelador deve passar. Se ele passa, está apto. Se não passa, não está
apto a ser Zelador.
Johnson suspirou aliviado e concordou.
— O senhor questionou a legitimidade do seu Hierofante e declarou,
para a egrégia assembleia que é um Zelador.
Johnson concordou de imediato, confiante.
— Muito bem, senhor Johnson. Aguarde a sua ordália — Ítalo
anunciou e chamou o príncipe e o bispo para subirem.
Uma vez na parte superior, o príncipe ficou grudado no vidro, o bispo
cruzou os braços para avaliar e Ítalo voltou a expandir a sua voz pelo local.
— Todo aquele que se declara Zelador de uma das treze famílias,
passou por sete provas de teor bíblico.
Henry Johnson pareceu ter um orgasmo ao ouvir isso, como se essa
seria moleza.
— A terceira prova que um Zelador deve passar, que pode ser
chamada como ordália para aqueles que assim o declaram — ele disse e o
bispo imediatamente ratificou com a cabeça. — Diz respeito a uma passagem
bíblica muito significativa. O povo judeu, cativo na babilônia. E seu profeta,
enviado para uma arena subterrânea, deve sobreviver ao predador. “Daniel
na Cova dos Leões”.
Johnson imediatamente ficou em alerta e isso sem escutar o rugido
que veio a seguir.
Todos nós conseguimos ver, de cinco grades diferentes, a cabeçorra
de quatro felinos gigantes que fizeram todos tremer com o som de seu rugido.
— Muito bem, senhor Zelador — Ítalo disse como se o orgasmo
agora fosse dele. — Diga-me quando estiver preparado.
— Eu... eu... e-eu... — ele andou de um lado para o outro e toda vez
que um leão rugia ele pulava e procurava uma saída. Mas não havia. — Eu
posso dizer para quem trabalho.
— Eu disse que só perguntaria uma vez, senhor Zelador.
— Elizabeth? Elizabeth, por favor, por favor! Por favor? POR
FAVOR!
— Este é o seu sinal de que está pronto? — Ítalo coçou a testa.
— Os chips copiaram todos os arquivos secretos dos 13 GTI do
mundo! Eles possuem nomes, localizações, listas de vulnerabilidades...
— Por que eles sempre revelam as coisas que nós já descobrimos?
Não tem graça — o bispo mostrou desgosto e ficou de costas.
— Alguns chips são raros e possuem informações do décimo quarto
GTI! Há uma conspiração! Membros do mundo inteiro, não apenas daqui,
estão conspirando! Se revoltaram contra as 13 famílias mais poderosas do
mundo e constituíram novas famílias poderosas para servir, com base nos
segredos que foram tirados de todos os Grande Templos! Os chips contém o
nome desses novos membros também e onde encontrá-los... por favor... eu
imploro... me tirem daqui... atualmente eles buscam uma posição geopolítica
estratégica e como o Brasil foi retomado pelo nosso poder, eles querem a
Venezuela... por favor...
Que pena que a última lembrança de Henry Johnson seria sua calça
social preta mijada, coitado.
— O Zelador é preparado para entender como as criaturas agem,
sejam elas humanas ou animais. Por isso nós sempre estamos alguns passos à
frente de vocês, porque todos vocês seguem instintos genéticos e ancestrais
para atitudes que os coloquem sob pressão — Ítalo disse calmamente.
Como se estivesse palestrando.
— A ordália do Zelador, caso ele aceite, é repetir a passagem de
Daniel na Cova dos Leões, provando que é capaz de entender as atitudes de
um leão e amansá-lo.
— Você vai mesmo entregar isso de mão beijada para eles? — o
bispo estalou os lábios, com desdém.
— Soltem os leões — Ítalo indicou.
— Não! O que mais você quer? Quer nomes? Eu tenho nomes!
Alguns deles estão nessa sala...
A primeira grade começou a subir e o leão parecia muito interessado
em ir para a arena.
Devo admitir que a primeira vez que vi um Zelador fazer isso eu
fiquei embasbacado. Perguntei-me: havia dopado o leão? Havia dado tanta
carne antes que o leão já não queria mais? Mas não. Foi como um
desconhecido e um cão de rua perigoso que late, late e late e no fim acabou
cedendo aos gestos e olhares do Zelador. Os leões adultos se tornaram
filhotes outra vez e brincaram com ele.
— Patrick... Os homens da máfia... Vigílio Barone... Battaglia...
Constantino Cavalieri — ao ouvir o nome do meu pai fiquei branco,
paralisado, os olhos arregalados. — Fay Williams... Abramovisky... Terence
Smith... todos eles... todos eles... por favor...
E os leões foram realmente liberados.
— Agora uma pergunta realmente importante: há outro Zelador aqui,
que eu precise saber? — Ítalo cruzou os braços e encarou o público.
Tive a leve impressão que todos deram um passo para trás.
— Ótimo. E se houvessem Zeladores aqui, estariam tranquilos,
porque aprenderem os segredos iniciáticos de como passar por Daniel e a
Cova dos Leões. Agora — ele aumentou o tom de voz. — Gostaria de dizer
aos senhores que tratarei os conspiradores desta e de qualquer outra Loja na
arena. Retirarei suas iniciações, não importa quem sejam. Infelizmente a
tradição não permite que conspiradores sejam jogados aos leões...
Alguns suspiraram de alívio.
— Mas a tradição não diz nada sobre jacarés — Ítalo pensou alto e
novamente todos ficaram em estado de alerta. — Ou rinocerontes, quem
sabe? Eu adoro. Um hipopótamo, talvez?
— O que ele quis dizer é que seguiremos o protocolo, senhores, não
há nada a temer se não tiverem nada a esconder — o bispo disse com uma
paz de espírito que me espantou.
— O que eu disse, na verdade, é que vocês mexeram com o viado
errado, caralho — Ítalo rosnou.
Após o fim do discurso, voltei meus olhos para a arena para ver o
estado de Henry.
Mas onde será que ele estava?
Capítulo 42
Shawn Cavalieri

Posso garantir que ninguém saiu o mesmo daquela arena.


Bom, ao menos, eu não saí.
— Papai! — Yohanna se jogou em meus braços e eu me entreguei
aos braços dela.
— Oi, neném, você está bem? O tio Héctor cuidou bem de você?
— Sim, ele sabe conversar com crianças, ele é muito esperto.
Héctor levantou as sobrancelhas e fez um bico com os lábios em sinal
de vitória.
— Por que o seu rosto está coberto com isso, papai? — ela tocou em
cima do silicone que estava amarrado na parte que havia sofrido mais pela
queimadura.
— É para cuidar do rosto do papai, logo vou ficar bem, você vai ver
— beijei sua testa e chamei Héctor para o canto. — Preciso que leve ela para
a sua casa.
Ele concordou de imediato, franziu a testa e ficou completamente
sério.
— Algum problema?
— Preciso finalizar tudo isso. E quero a minha filha em um lugar
seguro e... bem... como anteriormente você, a Beatriz e o Anthony se deram
tão bem com ela...
— O Anthony nem tanto — ele pensou alto. — Mas é claro, a levo
comigo. Não vai precisar da minha ajuda para o que quer fazer?
— Não. Não, Héctor, só se concentre em cuidar da sua mulher e dela,
como se fosse sua filha. Se eu não voltar...
— Não diga coisas estúpidas agora — ele me repreendeu.
—... só garanta que ela fique bem e tenha o melhor. Eu vou fazer de
tudo para voltar.
Antes que voltasse para Yohanna e me despedisse dela, Héctor
segurou em meu braço.
— Ouvi falar que a louca da sua ex-mulher está na sua casa com a sua
mulher. E Ethan já mandou no nosso grupo uma lista de pessoas para matar e
o nome da sua ex-mulher está incluso. Não acha que sua mulher corre perigo
agora? Lá? Sozinha com essa doida?
Segurei no braço de Héctor.
— Acredite, irmão, Layla não é tão indefesa assim. Acho até que... é
pior do que eu.

Fay Williams

A noite chegou e nenhum sinal de Adrian ou daquela fedelha maldita


– graças a Deus foram com o cachorro, que tenham morrido os três, por
favor. Se não for para terminar comigo e ficar ao meu lado nessa história,
amorzinho, é melhor não estar vivo para ver o final.
Aguardei pacientemente que aquela estrangeira se descabelasse e
chorasse até que se calou e a casa toda mergulhou em um silêncio adorável.
Era a minha chance.
Henry Johnson já devia ter matado a criança e fugido, insisti que
assim o fizesse, não importava o preço, ou eu mesma o entregaria para seus
irmãos darem parte dele.
A ausência de Adrian foi como a resposta que eu precisava: a garota
estava morta e ele sequer teve coragem de voltar. Ou... ligou para a
desafortunada mãe que não parou de chorar no quarto até que apagou.
Abri a porta do quarto sorrateiramente e a vi em cima da cama, toda
embrulhada, deitada de qualquer jeito, como se realmente tivesse apagado.
Olhei uma última vez para a lâmina da faca de cozinha, extremamente
afiada e útil em minhas mãos.
Era o fim dos Cavalieri e eu daria um jeito de que fossem todos
exterminados, inclusive mãe, avó e sobrinhos, assim como dei cabo dos
irmãos mais velhos quando estavam próximos demais de descobrir a verdade.
Enfim eu poderia me deleitar no poder e na fortuna e agora, mais do
que nunca, eu e apenas eu era a pessoa mais poderosa daquela cidade. Não
Adrian ou o inútil e pervertido do Terence.
— Morra em paz, sua impura de merda — Levantei a faca, mirando
em seu peito.

Adrian Cavalieri

Três homens diante do departamento de polícia central de Nova York.


Ethan, Ricardo e eu, com chapéus Fedora cobrindo nossas cabeças,
sobretudos escuros e armados como se estivéssemos na Síria.
— Viemos buscar o seu chefe de polícia, Patrick Wells — avisei
assim que cheguei.
— Quem gostaria? — a moça simpática da recepção chegou.
— O dono dessa porra de país.
Eu confesso que esperava mais resistência.
Esperava tiroteio, confronto direto com a polícia, talvez, até, o FBI
pulando de algum canto e me chamando para o pau.
Não. Os policias entregaram Patrick como quem entrega doce para
uma criança e deu para ver, em seus olhos, que eu estava lhes fazendo um
favor.
Era para isso que eu servia, certo? Sempre fui o homem dos favores.
— Para onde estão me leva...? — calei a boca dele enfiando minha
camisa velha chamuscada e passei muita fita ao redor da cabeça; eu não
precisava e nem queria ouvir nada.
— Isso é pela Fay Williams? — Ethan perguntou quando estávamos
no carro em direção ao avião.
— Olha bem para a minha cara, Ethan.
— Estou olhando — ele virou o rosto em minha direção.
— Estou fazendo isso porque eu gosto de ser um monstro.
O avião próprio para salto de paraquedas decolou assim que
chegamos. Anoitecia em Nova York, mas a cidade permanecia iluminada,
seus letreiros davam o ar contemporâneo e esquizofrênico que a cidade
precisava, o barulho dos carros, dos músicos de rua ou dos televisores, rádios
e músicas no celular foram ficando para trás.
Subimos tanto quanto pudemos.
Arranquei a fita de uma vez do rosto daquele canalha e tirei a camisa
de sua boca.
Ele tossiu, fingiu um falso vômito e arregalou os olhos ao encarar a
porta aberta.
— Ela. Foi ela. Ela estava chefiando tudo isso...
Ok, Patrick, muito obrigado pela informação agora, achei bastante
útil.
Naquela noite em que ouvi as palavras de Fay Williams, precisei de
um tempo sozinho no escritório para colocar a cabeça no lugar.
Um tempo atrás Lilith havia pedido para que eu fosse encontrar Fay
para ver e ouvir e acima de tudo ter a certeza do que eu sentia por ela.
E eu tive.
Havia uma linha tênue que separava Layla de Fay.
Layla era real. E é isso o que um homem como eu precisa em uma
mulher: que ela seja real. Não estou aqui para viver um conto de fadas,
tampouco estou à espera de um final feliz. Eu só quero viver a minha vida de
modo que eu me sinta vivo. Não quero fantasias bobas, chantagens ou
dissimulações. Apenas o real mexe comigo e Fay era um personagem
caricato muito mal desempenhado.
Conhecer figuras como Lilith e Ítalo, que eram exatamente isso,
personagens caricatos – porque afinal de contas o papel deles era ser caricato
a ponto de te fazer repensar o que são e quem são as pessoas ao seu redor –,
me fizeram redobrar a atenção sobre quem está por detrás da máscara que
veste.
Eu nunca saberia quem estava por detrás da máscara ou personagem
que Elizabeth e Ítalo vestiam.
Mas Fay eu consegui decifrar em dois tempos estando diante dela.
E, como disse Ítalo: na guerra as distrações são essenciais.
O jeito dela de me fazer sentir mal por seu casamento? Tentar
construir Patrick como o vilão para que criássemos rivalidade? Colocar em
meu caminho pessoas que me tentariam a retornar aos meus vícios?
Eu entendi as distrações dela.
E quando ela veio na porta da minha casa após eu assinar o termo de
vitória da guerra contra os mafiosos, eu percebi que ela não era a primeira
barata, a mais burra correndo pela casa.
Ela era a última.
E Layla a reconheceu e queria cuidar dela sozinha, por isso nós dois
criamos uma distração de modo que Yohanna e eu saíssemos de lá para que
ela desse um jeito naquela psicopata.
Bom... família que mata criminosos unida, permanece unida... ou algo
do tipo.
E engraçado pensar que os criminosos que precisávamos enfrentar
eram as pessoas da lei, enquanto nós éramos a máfia. Ela e eu. Layla me deu
um novo olhar sobre como dirigir a máfia e nunca estive tão feliz em tê-la
como minha conselheira.
— Você não vai falar nada? — Patrick gritou, desesperado, ao eu
arrancar com força a fita da sua cara. — O que quer? O paradeiro do seu
filho? Da sua irmã?
Ah, legal que agora todos eles falavam abertamente sobre isso.
Mas não importava mais. Já sabíamos de tudo. E Patrick sabia que
ninguém viria em sua ajuda. Não ali em cima.
— Agora... — respirei fundo e encarei o personagem caricato que eu
era: o vilão mafioso, perigoso, cruel, perverso, louco e mal que as pessoas
conheciam como Adrian.
Por que é isso o que as pessoas buscam enxergar nas outras:
personagens.
E eu, assim como Elizabeth e Ítalo, sabia muito bem sê-lo.
— Tinha um cara... Zelador do Grande Templo da Inglaterra...
esqueci o nome dele... — virei-me para Ricardo. —... o da maçã...
— Sir Isaac Newton — Ethan, o sabe-tudo respondeu.
Concordei.
— Isaac Newton. Um importante Pai Fundador do Templo da
Inglaterra. Ele falava aquela coisa de... não sei... como se chama?!
— Gravidade — Ethan respondeu.
Parecia quase um jogral.
— Exato. Aquela história da maçã, distância, velocidade, massa...
aquela coisa chata que a gente aprende na escola...
— E no Grande Templo Illuminati — Ethan reclamou.
Concordei. Era bem chato mesmo.
— Patrick, eu preciso fazer um experimento curioso. Já estamos em
2019 e, você sabe, é a era da pós-verdade, do revisionismo. As pessoas hoje
em dia falam que a terra é plana, as vacinas adoecem, nazismo nunca
existiu... Ethan e eu estávamos discutindo...
— Ele nunca concorda comigo — Ethan acenou negativamente com a
cabeça.
— Eu acho que a gravidade é uma teoria da conspiração.
— Isaac Newton caçaria a iniciação dele, se estivesse vivo.
— Ethan acha que a gravidade não apenas é real como é inexorável.
— Essa palavra me deixa até de pau duro. Inexorável.
Fizemos uma pausa dramática. E o silêncio desencadeou a tremedeira
no homem.
— N-n-nã-não... não... por favor... eu...
— É um acordo internacional entre os Grandes Templos...
— E qualquer governo sensato...
— Não fazer experiência com seres humanos. Mas você e seus
amiguinhos decidiram que isso era uma bobagem. Bem na merda do meu
país. Bem na droga da minha cidade. Bem com a porra da minha família.
— E-e-ela está... ela está no La Chica agora... ela... você pode...
Balancei a cabeça positivamente.
— Por isso sobrevoamos aqui para — revelei uma maçã em minha
mão.
Patrick respirou aliviado e miou quando viu a maçã. Não mijou nas
calças, graças a Deus, já bastava o Henry Johnson.
O que ele havia pensado? Que eu o jogaria dali de cima? Eu? Logo
eu?
— Engole essa porra — meti a maçã com força na boca dele e
empurrei até que ele estivesse sem ar, entalado e o tirei das mãos de Ricardo
e o levantei com uma mão só.
Os olhos dele estavam vermelhos e ele tentou tossir para se
desengasgar, mas eu segurei bem a boca dele e Ricardo terminou de fechá-la
com uma nova fita.
— Infelizmente eu não sou Deus para te julgar, Patrick... — suspirei.
Ele arregalou os olhos e eu o empurrei com toda a minha força para
fora.
— Mas fui incumbido de adiantar o encontro com ele. Bom
julgamento.
E ele mergulhou sobre a noite escura de Nova York.

Layla

— Amor, só tem uma coisa que uma sogra pode odiar mais do que a
nora — Ítalo comentou no telefone.
— O quê? — perguntei, curiosa.
— A antiga nora que fodeu o coração do filhinho dela.
O som do tiro me deu um choque pela espinha e me fez levantar em
um pulo só da cama.
Vi a faca em cima de mim e aquela mulher arrogante, prepotente e
perigosa cambaleando para o lado, desnorteada, rangendo os dentes pela dor.
Havia sido acertada no ombro e não contente em manchar o meu
cobertor de sangue, manchou a parede.
— Precisamos estancar o sangue — a mãe de Shawn avançou para
dentro do quarto. — Não quero que essa vadia morra.
Gostei dela. Assim, de cara.
Que fique aqui anotado uma excelente forma de conhecer a sua sogra:
tentando acabar com alguém que as duas odeiam.
— Ela vai apodrecer até pagar por todos os seus pecados! — a mulher
rosnou.
Sim, eu chorei. E não foi fingimento, chorei bastante.
Contei-lhe toda a minha história e a de Patrícia e implorei por sua
ajuda, porque não sabia se sozinha eu conseguiria.
Chorei ainda mais quando ela desligou o telefone. Fiquei desesperada.
Chorei o triplo quando ela apareceu na porta dos fundos da minha
casa e me abraçou e disse que tudo estava bem, que cuidaria de mim e da
nossa família.
— Aperte bem firme — a mulher italiana me mostrou como estancar
o sangramento. — Chegou a hora, querida. Vamos levá-la para o matadouro.

Shawn Cavalieri

Fechei a porta de casa com cuidado, todas as luzes estavam


desligadas, menos a da cozinha.
— Shawn, é você? Ocorreu tudo bem? — a voz de Layla me chamou.
Andei calmamente até ficar no espaço do portal aberto e ergui a
cabeça.
— O que aconteceu com o seu rosto? — Layla veio desesperada.
— Mãe? — abri bem os olhos. Era algum tipo de alucinação?
A minha mãe também se levantou e correu até mim, cada uma
segurou em um lado do meu rosto e ficaram as duas me examinando como se
fossem especialistas.
— Está tudo bem, foi só uma queimadura... vou ficar com isso por
algum tempo.
— Dio mio, Shawn...
Aí minha mãe desatou em falar em italiano tão rápido que minha
cabeça doeu. Só faltava Layla falar em árabe e Ethan aparecer para falar
deboche, que era a língua nativa dele.
— Só não posso ficar recebendo luz direta, então vamos comprar
algumas velas e...
As duas me abraçaram e quase me sufocaram com isso.
— Vocês estão bem? Como se conheceram? Eu estava esperando um
momento especial para apresentá-las e...
— Encontramos o nosso momento especial — a minha mãe disse e
segurou nas mãos de Layla, como se juntas, guardassem algum segredo.
Acompanhei aqueles olhares de cúmplices e pisquei os olhos com
demora.
— É sério. Apaguem a luz da cozinha e acendam velas.
— Onde está a minha neta?
— Ela vai ficar com os Mitchell por alguns dias, mamma. Estou
pensando sinceramente em enviá-la para lá também, junto com a bisa...
— Tolice. Aquele seu amigo, aquele gentil e alegre...
— Ethan?
— Esse mesmo. No dia em que ele e aqueles outros colegas seus
foram ver se as coisas estavam bem lá em casa, esse rapaz de óculos escuros
me deu alguns presentes. Muito gentil aquele moço, ele realmente sabe do
que as mulheres gostam.
— Diamantes? — fechei os olhos, já não aguentava mais encarar
aquela luz.
— Uma bazuca. Um lança chamas. E algumas granadas.
Capítulo 43
Shawn Cavalieri

Levei a minha digníssima mãe de volta para casa, assim teria absoluta
certeza de sua segurança. Não tardei lá, vi minha avó, conferi se estava tudo
em ordem e retornei para meu lar.
Não encontrei Layla na sala, nem mesmo na cozinha. Procurei-a por
cada cômodo da casa até chegar ao mais óbvio: o escritório.
— Temos uma agenda cheia nos próximos dias, então vamos repassar
tudo só para garantir que daremos um fim a tudo isso.
As palavras dela me deixaram em estado alerta, mas não foi isso que
prendeu a minha atenção.
Apertei os olhos e os abri devagar, só para ter garantia de que não
estava tendo um delírio e não estava.
Lá estava ela, diante de mim, parecia mesmo uma Deusa. Usava na
testa uma espécie de cordão ou tiara, cheia de moedas douradas.
Seus olhos grandes e escuros deram-me todo o impacto que precisei
para perder o ar. Um véu vermelho transparente cobria o rosto e o restante do
corpo. Sua cintura trazia uma saia cheia de pedrarias douradas que se moviam
e faziam um som cintilante.
— O que é isso?
— O meu disfarce como garota do La Chica. Vou dançar por uma
noite e garantir que tudo saia como planejado.
— E você sabe dançar isso?
Layla riu. Afastou-se um pouco para que eu tivesse uma boa visão de
seu corpo inteiro. Mexeu no celular e o pousou na mesa.
Ouvi as batidas do estilo de música árabe e em seguida ela ficou na
ponta de um dos pés e se movimentou bem devagar, mas de modo preciso.
Fez o contorno da sua cintura se mover de modo tão bonito que fiquei
hipnotizado.
— Quando você ia me contar sobre isso?
— Devo te contar tudo sobre mim?
— Bem... não sei...
Era excitante poder imaginar que eu ainda não a conhecia por
completo. Que haviam tantas coisas a desvendar e tanto a viver juntos... esse
mistério me deixava alerta e intrigado, além de apaixonado e vidrado em
quem ela era.
Layla rodopiou na ponta dos pés, junto com o som da música.
Levantou os braços com tanta delicadeza e continuou a mover a cintura da
esquerda para a direita; os ombros e o rosto parados, o corpo embaixo se
remexendo e movendo de um modo preciso e chamativo.
— Tudo isso para uma noite no La Chica? — suspirei.
— Tudo isso para você.
Seus olhos selvagens e escuros vieram até mim, não sabia se devia
permanecer preso ao seu corpo que harmonicamente ia com a dança ou em
seus olhos que escondiam muito mais do que um dia eu poderia descobrir.
Ela girou o véu ao fazer o corpo dar voltas, no mesmo lugar e
estendeu a mão para que eu pudesse ir até a cadeira e me sentar.
— Não tenho palavras para expressar qualquer coisa agora.
— Que bom. Porque a dança é apenas sobre o corpo em perfeita
harmonia com o som — ela passou a perna por cima de mim até encontrar o
vão da cadeira, fez isso com a outra também. — Então aprecie.

Layla

O corpo é o templo, é onde o nosso ser maior habita.


E a dança é o modo sagrado que podemos usar para nos conectar com
esse eu divino que habita em nós.
A dança sempre foi o meu refúgio silencioso e secreto, só dancei para
mim mesma por todos esses anos, porque ninguém merecia ter o meu eu
maior compartilhado dessa forma.
Shawn, entretanto, era uma exceção. Uma excelente exceção.
Fiquei tímida no início, a sensação de dançar para alguém, ainda
mais, tão especial como ele, me dava insegurança. O primeiro movimento foi
o mais difícil, no segundo me perguntei que tipo de tolice eu estava fazendo,
no terceiro eu me entreguei ao som e senti algo doce e perfumado aquecer
dentro de mim.
Expandi os braços como se estivesse florescendo como uma árvore
que abandona o inverno e conhece seu auge na primavera e subi pelo seu
corpo como uma serpente predadora que esperava o momento exato para dar
o bote e imobilizar sua presa até asfixiá-la e matá-la.
Eu o despi devagar, como o crepúsculo chega e lentamente rasga o
céu com suas cores quentes pela última vez, deixando-o laranja como o sabor
do que está interminável, passando para coral quando o rosto do amante que
recebe o primeiro beijo, até ficar vermelho, numa explosão de tesão, paixão e
amor; uma rosa desabrochando no que antes era um talo com espinhos; uma
cereja que desperta água na boca de quem espera o fim dos parabéns para
abocanhar o bolo.
Por isso a dança é preciosa, aviva a alma e traz para fora o eu divino.
E o meu eu divino estava guardado apenas para mim mesma, até aquele
presente momento.
Agora eu o dividia inteiramente com Shawn.
Vê-lo nu era como estar diante dele a primeira vez.
Ainda não estava acostumada com as tatuagens pelo seu pescoço,
peitoral e braços, assim como também não me senti preparada para amá-lo,
na primeira vez e ainda assim o fiz. Era mais forte do que eu. Era o chamado
da natureza. Eram os nossos corpos sussurrando um para o outro, nos
movimentos que fizemos, numa dança sem som, para que retornássemos a ser
o que éramos no princípio de todas as coisas: um só.
Não precisei tocá-lo para que ele ficasse extremamente duro, assim
como a lua não precisa avisar que já é noite; Ele começou a suar e seu peito a
subir e levantar bem devagar.
Suas mãos atrevidas tocaram a minha cintura e ali ficaram, paradas,
sentindo-me dançar e me entregar completamente. Um leve impulso para
frente foi o suficiente para sentir sua glande firme passar pela minha abertura,
sorri ao encarar seus olhos travessos.
— Você me deixa louco — ele disse.
Soou em completa harmonia com a música, assim como com o meu
corpo e o meu desejo.
Continuei