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REFLEXÕES Domingo

19 de Julho de 2020 17
DR

PARA UMA LEITURA DE “TRÊS CONTOS DE ONTEM”


Arnaldo Santos,
o mestre da prosa minimalista
O meu amigo, o mais-velho Luandino Vieira, na qualidade de editor convidou-me a escrever algumas notas
introdutórias à leitura de “Três Contos de Ontem”, um bom livro que reúne alguns dos melhores textos narrativos
curtos deste escritor a respeito do qual teço aqui três breves páginas
Luís Kandjimbo de expressão resultantes de mo- como cronótopo. No momento ao ambiente vivido na cidade
delos angolanos de comunicação que se segue à Independência de Luanda nessa época.

O meu primeiro contacto com


a correspondentes formas de
conteúdo. No dizer do meu fa-
de Angola, distingo duas fases:
uma de transição em que temos
Os neologismos resultantes
das línguas em contacto, de-
Bibliografia do escritor
a obra de Arnaldo Santos ocorreu lecido amigo, o crítico literário dois livros de poesia, e uma se- signadamente, o kimbundu e
há mais de quatro décadas, quan- angolano Jorge Macedo, ele usa gunda fase em que se transita o português atestam uma va- Arnaldo Santos é natural de Luanda, onde
do li dois contos seus – “O Velho “lexias-kimbundu no interior de obras como “O Cesto de Ka- riedade linguística e uma mun- nasceu em 1935. Fez os estudos primários e
Pedro” e “Exames da 1ª Classe” de um português de luzidia cor- tandu e Outros Contos” e do livro dividência de que emana o secundários em Luanda. Na década de 50
- no contexto das mudanças po- recção”. Devido a esse labor “Na Mbanza do Miranda” para comportamento de agentes que integrou o chamado “grupo da Cultura”. Co-
líticas desencadeadas logo depois oficinal, a sua obra narrativa não uma ficção mais elaborada. Esta transformam o mundo à sua laborou em várias publicações periódicas
do 25 de Abril de 1974, em Por- conheceu variações até à década tendência evolutiva culmina volta, onde ocorre o processo luandenses, entre as quais a revista Cultura,
tugal, com repercussões no pro- de 90, gravitando em torno da efectivamente com dois roman- de apropriação de máquinas e o Jornal de Angola (da década de 60), ABC
cesso de democratização do forma breve do texto narrativo, ces, nomeadamente, “A Casa artefactos tecnológicos a que e Mensagem da Casa dos Estudantes do Im-
ensino em Angola cujos efeitos entre o conto e a crónica. Com Velha das Margens”e “O Vento se atribuem designações apenas pério. É membro fundador da União dos Es-
vivi enquanto estudante do Li- os contos dá-se o prenúncio de que Desorienta o Caçador”. inteligíveis no contexto ango- critores Angolanos (UEA) e da Academia
ceu de Benguela. A proclamação uma narrativa de fôlego. Mas é Em quase toda a obra ficcional lano. O título comporta duas
Angolana de Letras.
da Independência de Angola ao romance “A Boneca de Qui- de Arnaldo Santos regista-se a unidades lexemáticas do por-
em 1975 e, consequentemente, lengues”, publicado em 1991, presença emblemática do topó- tuguês falado em Angola, “ma- Passou a infância e a adolescência no bairro
as parciais reformas curricu- que se seguirão outros dois. nimo Kinaxixi, representando ximbombo” e “munhungu”. do Kinaxixi, topónimo que ocupa um lugar
lares, exigidas ao abrigo de eu- No panorama da ficção nar- “um pouco mais do que um sim- “O Cesto de Katandu”é um privilegiado na sua produção narrativa.
forias libertárias, deram lugar rativa angolana, Arnaldo Santos ples lugar”. Kinaxixi tem trata- conto que se constrói em torno Aos trinta anos de idade, publicou a sua
ao uso dos primeiros textos li- é uma referência fundamental, mento privilegiado na sua obra, dos dilemas morais de um homem primeira colectânea de contos, intitulada
terários angolanos como ma- um escritor de leitura obrigatória. tal como Maculussu tem na obra adulto, educado para desempe- Quinaxixi com a chancela da Casa dos Es-
teriais de apoio da disciplina Quanto a mim o seu nome deve do seu companheiro de geração, nhar papéis exclusivamente mas- tudantes do Império com sede em Lisboa.
de língua portuguesa. estar necessariamente associado Luandino Vieira. culinos. O texto está impregnado Com o livro de crónicas Tempo de Mu-
No entanto, a leitura genera- à mestria do minimalismo nar- Os “Três Contos de Ontem”não por uma tensão entre a cons- nhungo, arrebatou em 1968 o Prémio Mota
lizada dos referidos textos lite- rativo. Trata-se de um experiente obedecem a qualquer sequência ciência moral de Samuel Kan- Veiga, um dos mais importantes prémios li-
rários angolanos teve garantia técnico que, definindo a sua uti- cronológica. Mas representam dimba João, resignado, de um terários existentes em Luanda, nas déca-
de sucesso devido à explosão lização dos recursos narrativos, a primeira fase da produção nar- lado, e os costumes e as tradi-
das de 60 e 70.
editorial de obras de autores an- também se evidencia na sua obra rativa do autor e constituem ções que modelaram a perso-
golanos, assegurada pela União pelo elevado sentido de rigor na uma expressão eloquente da n a l i d ad e , d e o ut ro l ad o . A Arnaldo Santos é poeta e ficcionista. Publicou
dos Escritores Angolanos, então selectividade dos tipos de per- importância que tem a literatura natureza desse conflito torna Fuga (Luanda, poesia, 1960); Quinaxixi (con-
constituída, um mês após a pro- sonagens e sua adequação às para a compreensão dos indi- o conto em exemplar da dra- tos, 1965); Tempo de Munhungo (Luanda, cró-
clamação da Independência de estórias que constrói. Privilegia víduos, seus comportamentos maticidade da prática moral. nicas, 1968); Poemas no Tempo (Luanda,
Angola. Data dessa época, o o meio urbano luandense e a e mentalidades. Trata-se de “Na Mbanza do Miranda”é poesia, 1977); Prosas (Luanda, contos,
início da leitura sistemática dos caracterização psicológica das uma ficcionalidade plasmada um monólogo interior em que 1977,1981); Kinaxixe e Outras Prosas (contos,
contos e poemas de Arnaldo personagens obedece a uma ló- em narrativas curtas cujo con- o fluxo da consciência do nar- São Paulo, 1981); Na Mbanza do Miranda (
Santos, no âmbito da prática gica predominantemente local. texto temporal as inscreve na rador permite concluir que se contos, Luanda, 1985); O Cesto de Katandu e
institucional do ensino da leitura No seu primeiro livro, tal efeito segunda metade do século XX. está diante de uma subtil crítica Outros Contos ( Luanda, contos, 1986); Nova
e interpretação da literatura an- é alcançado, por exemplo, no As histórias dão vida a um uni- contra a burocracia, enquanto Memória da Terra e dos Homens ( Luanda,
golana que se consolida com a conto “A mulher do padeiro”,atra- verso imaginário povoado por institucionalização do mal, que poesia, 1987); A Boneca de Quilengues
reforma educativa. vés de uma conflituosa coabitação um certo tipo de personagens afecta a qualidade dos serviços (Luanda, romance, 1991); A Casa Velha das
Além disso, há duas décadas, entre personagens portuguesas e têm lugar em espaços físicos administrativos do Estado e em-
Margens (Porto, romance,1999); O Brinde
tive o grato prazer de ter Arnaldo e luandenses. Ou ainda em “Os e sociais identificados, através presas, tematizando o compor-
Santos como primeiro convi- calundus da Joana”. Embora o de idiolectos, unidades lexe- tamento dos seus agentes. Seguido de a Palavra e a Máscara (Luanda,
dado de uma série de programas seu espaço físico e social de elei- máticas, registos de fala, topó- Portanto, os três contos se- contos, 2004); Crónicas ao Sol e à Chuva
consagrados à literatura ango- ção seja o Kinaxixi, um lugar da nimos e neologismos. leccionados e propostos à leitura (Luanda, crónica, 2000); As Estórias de Ku-
lana que, durante dois anos, cidade de Luanda, em “A Boneca Em “Maximbombo do Mu- dão uma perspectiva histórica xixima (Luanda, 2003, literatura infantil); O
apresentei na Televisão Pública de Quilengues” desloca a topo- nhungo” desenha-se a geografia das mentalidades urbanas de Vento que Desorienta o Caçador (Lisboa,
de Angola. grafia para Benguela, realizando urbana de Luanda e sua estra- uma cidade como Luanda. São romance, 2006); Sabrina e os Manuscritos
É um preciosista na depuração pela primeira vez a introdução tificação social. O carácter ve- peças da obra de um verdadeiro do Kuito (Luanda, 2012);O Mais-Velho Me-
do texto narrativo curto e avaro de “lexias-umbundu”. rosímil da história permite afastar cronista dos costumes, podendo nino dos Pássaros (Luanda, literatura infan-
dos seus elementos, pois submete Na sua produção narrativa a incredulidade do leitor, na me- dizer-se que com ele a narrativa til, 2013), Três Contos de Ontem (Luanda,
a língua portuguesa a um singular destaco dois momentos, numa dida em que o dizer verdadeiro literária é um meio privilegiado contos, 2019).
tratamento, articulando formas cronologia que tem o ano de 1975 dos factos ficcionais corresponde para a investigação moral.
18 LEITURAS Domingo
19 de Julho de 2020

OBRA DE ARISTÓTELES KANDIMBA

“O Livro dos Nomes


de Angola”
Aristóteles Kandimba é um escritor e activista sócio-cultural que tem uma forte preocupação pela
preservação dos valores endógenos angolanos. Isto está bem patente na obra que ele lançou no princípio
deste ano em Luanda, depois de o ter feito em Portugal. “O Livro dos Nomes de Angola” é o sugestivo
título da obra, que tem a chancela da Allende - Edições e Perfil Criativo

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Analtino Santos que as condições permiti-
rem”, disse ele, que esteve
Amigos, linguistas e estu- em Angola expressamente
diosos das culturas e línguas para lançar o livro, em Ja-
bantu e suas variantes – in- neiro deste ano.
cluindo o músico Bonga “Os nossos nomes tradi-
Kwenda, que escreveu o pre- cionais fazem parte da ex-
fácio e contribuiu com alguns pressão filosófica das nossas
nomes - colaboraram nesta civilizações bantu, que foram
obra que levou quase uma interrompidas pelas nações
década a ser elaborada, numa coloniais. Infelizmente, ain-
viagem que começou quando da vivemos os traumas da
o autor/organizador morava violência psicológica do co-
em Amesterdão (Holanda). lonialismo português. Vemos
São mais de 2000 nomes de tudo isso também na rejeição
10 grupos étnicos e seus sub- dos nomes de origem afri-
grupos, com os respectivos cana”, explicou Kandimba.
significados, origens etimo- Aristóteles Kandimba
lógicas e personagens da his- aprendeu muito cedo em
tória e da mitologia. casa, com o pai - Alexan-
Desde muito jovem, Aris- drino Amândio Coelho
tóteles Kandimba sente a “Kandimba”, historiador,
responsabilidade de divulgar filósofo e economista - a va-
a cultura angolana mundial- lorizar as suas origens. “Com
mente e, com esta obra, co- esta obra espero mudar o
mo contou ao Jornal de pensamento dos angolanos
Angola, “sente-se mais per- que negam essa identidade
to” dos seus objectivos. ou que se envergonham dos
“Fui muito bem recebido nossos nomes. Também es-
pelo meu povo, o povo an- pero motivar os serviços do
golano, e vi estrelinhas nos Registo e Identificação Civil
olhos de muita gente que a mudarem de mentalidade,
me foi conhecer pessoal- porque, em muitos casos, e
mente no lançamento do li- de forma humilhante, têm-
vro. Foi um momento muito nos proibido de registar os
especial para todos nós. O nossos recém-nascidos com
livro em Angola foi adquirido nomes que nos pertencem,
como se fosse vitamina C. que nos ligam às nossas
A demanda continua muito identidades, e que são nosso
forte e espero regressar logo direito como africanos”.

Por dentro do livro O autor


Diáspora Não resistimos a transcrever Na tradição bantu, quanto
Escritor, pesquisador, produtor cultural, cineasta,
curador, activista social e cultural e professor de Capoeira.

versus interior aqui parte da nótula editorial


do livro:
“O colonialismo português
ao sistema de nomeação, tudo
é levado em consideração. A an-
cestralidade, a majestade, des-
De origem Ovimbundu, Aristóteles Kandimba nasceu
em Lisboa, Portugal, no início dos anos 70, num período
em que o seu pai finalizava lá os estudos universitários.
Aristóteles Kandimba cresceu, estudou e vive entre
O autor da obra privilegiou José Pedro, o director do restringiu diversas expressões treza, ferocidade e astúcia dos Angola, Portugal, Estados Unidos, Holanda e Brasil.
a grafia africana e justificou Instituto de Línguas Nacio- culturais e criou barreiras físicas animais, a beleza e encanto das Publicou a sua primeira obra literária, um poema, numa
a mesma pela busca da sua nais, órgão adstrito ao Mi- e psicológicas nos espaços sociais flores, os poderes medicinais colectânea com obras de outros escritores, aos 18 anos
identidade e valorização da nistério da Cultura,aquando africanos, forçando uma grande das raízes, folhas e frutos, o mis- de idade, em Nova Iorque, quando cursava a Faculdade
cultura. O facto de viver há do lançamento do livro, parte da população nativa a mer- tério e invencibilidade das chuvas, Comunitária La Guardia, da Universidade da Cidade de
mais de duas décadas fora questionado sobre a alte- gulhar profundamente na rejei- trovões e das águas do rio e do Nova Iorque.
de Angola não o desenco- ração da grafia dos nomes ção dos seus nomes próprios mar, os acontecimentos diários, | EDIÇÕES NOVEMBRO

rajou. Aristóteles Kambinda africanos, foi categórico em tradicionais. que tanto demonstram uma fi-
referiu que foi fundamental afirmar que o parecer dos A obra de Aristóteles Kandim- losofia africana rara/sem igual,
o apoio dos pais e de amigos especialistas não foi tido em ba é épica, no sentido de ser a o elogio à vida, à natureza e o
como Gerson Martins, Ce- consideração e pesou um primeira obra angolana a englo- misticismo, os cognomes e al-
saltina Kulanda e outros, entendimento político. bar nomes de quase todas as et- cunhas de louvor e exaltação,
que contribuíram com su- Os linguistas Cesaltina
nias e línguas bantu de Angola. que, no seu todo, são uma forma
gestões. No processo de pes- Kulanda e António Munhon-
quisa e elaboração do livro go criticaram a resistência Foi pesquisada e documentada imponente e fascinante de poe-
o autor chegou à conclusão dos funcionários dos Registos durante sete longos anos e é sia africana.
que é maior o interesse dos Civis em aceitar alguns no- uma afirmação do orgulho e va- Finalmente, Angola, os an-
angolanos que estão na diás- mes bantu. Os dois foram lorização da riqueza cultural, golanos e seus descendentes,
pora em optar pelos nomes unânimes na pertinência da que dá continuidade a uma ci- podem orgulhar-se de um livro
africanos em comparação obra e encorajaram o autor vilização interrompida, mas ja- que revive uma parte importan-
com os que se encontram a continuar na mesma linha mais aniquilada - vencida. tíssima da sua identidade”.
em Angola. de pesquisa.
LEITURAS Domingo
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HÁ MIL E UMA MANEIRAS DE LER

A crónica da leitura
Abrir livros é coisa de gente sabida ou que quer saber, porque há quem os mantenha fechados, escondidos
em estantes e outros colocam o selo da inutilidade sobre qualquer que seja o sítio que tenha um livro
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sentidas só… aliás, nunca o chão, lemos o mundo, le-


Kaz Mufuma antes sentidas. mos a vida.” Não será hoje
Quando voltava a passear que voltarei à leitura de sem-
Soube disso depois de uma sobre as letras do rebento do pre, ao barro do Cazenga e,
viagem até à pequena cidade Ondjaki, sentia que desper-
“Enquanto ou, ao betão armado de
de Ndalatando, aonde levei diçava uma outra boa leitura: estiver aqui, Luanda. Enquanto estiver
comigo os meus companhei- a desordem no que chama- aqui, meus amigos Ondjaki,
ros Ondjaki, Manuel Rui e o mos de estrada também me
meus amigos Manuel Rui e Hélder Simbad
senhor Hélder Simbad e, en- parecia mais quente, e a Ondjaki, Manuel ou terão de me acompanhar
quanto as quatro rodas da suavidade no tocar dos pés à vida destas leituras ou, fe-
lata mais velha que nos car- ao chão dos transeuntes lá
Rui e Hélder chados, terão de esperar a
regava beijava a raridade de fora tinha a particularidade Simbad (...) quentura luandense: porque
asfalto que aparecia, desfilava da gaivota-rapineira. Já ler está além de percorrer
vários olhares sobre a pai- imagino se fosse poeta, ia
terão de esperar com as vistas um conjunto
sagem na exterior idade. A rascunhar um verso do ta- a quentura de palavras!
natureza é mesmo uma mu- manho do Lucala! Estou aqui em Kambam-
lher nua – faz-nos pensar Esta não era a primeira
luandense: porque be, a pensar em abrir o livro,
que devemos tocá-la além nem a segunda vez que via- ler está além como sugeriu a cantora…
dos limites das mãos, se os java para o Cuanza-Norte, mas como? Se há mil e uma
olhos não forem capazes de mas sabia a diferença todas
de percorrer com as outras poesias abertas depois
nos levar a tão prazerosa as vezes que levantava a ca- vistas um conjunto do aro da janela?! Às vezes,
dança das possibilidades. beça e abraçava o exterior não guardamos um livro por
Entrementes, tinha o meu daquele carro. E, como se
de palavras!” não gostar de ler ou por pre-
amigo Ondjaki no seu diz que uma viagem começa guiça, é que existem muitos
“Quantas Madrugadas Tem aquando da sua programa- vros repousava tranquilo, lia outros livros abertos bem à
a Noite” aberto, como as ção, quisemos materializá- de capa em capa as muitas nossa vista.
fronteiras de um país e, no la, colocámo-nos fora e linhas naturais e esfolheava Temos sempre uma leitura
meio, passeavam intercala- buscámos o contacto directo cada paisagem qual leitor pendente!
dos os meus dedos médio e com aquela terra – o Golungo jovem num bibliótafo e, sem
polegar com a mesma fre- era-nos mais alto que o Moco ter que molhar o dedo na
quência que a chuva em do Huambo e foi daquelas língua, escorregavam-me
Abril. As montanhas circun- alturas que vimos as, tam- às páginas daquele belo na- *In “CRÓNICAS TÃO BRAN-
dadas pelo capim verde, as bém, suas reservas florestais tural. Compreendi por que CAS DE AZUL (A Idade dos
aldeias com ares da moder- e foi mais tarde que em pas- um dia concordei com Mia Lados)”, colectânea de cró-
nidade que as acolheu e a seio nas verdejantes margens, Couto: “a ideia de leitura nicas de Kaz Mufuma, David
cor da tarde que o sol causava, refrescantes como as salivas aplica-se a um vasto uni- Gaspar, Dias Neto e Luefe
pela porta dos meus luan- do vento, pisámos as suas verso. Nós lemos emoções Khayari. Pode ser baixada
denses olhos entravam as praias, já no Dondo. Nessas nos rostos, lemos os sinais gratuitamente a partir do site
razões de sensações raras e horas, o meu amor pelos li- climáticos nas nuvens, lemos www.palavraearte.co.ao.
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19 de Julho de 2020

LOURENÇO BULE | EDIÇÕES NOVEMBRO | MENONGUE

AGRICULTURA NA HUÍLA
Máquinas diminuem
sacrifício dos camponeses
É fase da colheita do milho. Maria Tchombe, 49 anos, moradora na localidade da Tchikala, comuna do
Hoque, município do Lubango, tem as palmas das mãos enrugadas por causa do descasque manual das
espigas.A velocidade da colheita é determinada pelo número de pessoas envolvidas.Tchombe está
consciente da perda que ocorre no campo devido a não intervenção da máquina de colheita. “As perdas
de espigas são as que causam maior preocupação”, disse, lamentando que a fase da colheita é a mais
difícil, “porque o processo é realizado manualmente”
Arão Martins | Lubango cupação manifestada. de milho da casca do caroço,
O coordenador da asso- trabalha a diesel. A ensa-
António Manuel, 56 anos, ciação “A Luta Continua”, cadeira com pás junta o grão
outro camponês da mesma João Francisco Tyipinge, e suga o mesmo para os sa-
localidade, explicou que contou ao Jornal de Angola cos. A sachadora, além de
recolhe espiga por espiga, que a falta de tractores para cortar o capim, remove e
tanto aquelas presas nas desbravar os solos, além destrói a crosta dura do so-
plantas como aquelas caídas de motobombas e man- lo, facilitando a infiltração
no chão. A utilização de gu e i ra s pa ra i r r igação , das águas, tornando o solo
máquinas na colecta das constitui, igualmente, fac- mais fértil para desenvolver
espigas, reconheceu, con- tores que impede o aumen- as sementes.
tribuiria imenso para re- to da produção de produtos “Normalmente, os pro-
duzir as perdas, sobretudo do campo. dutores despendem muito
na fase da seca. João Francisco Tyipinge esforço físico e realizam ac-
Na povoação da Tchikala, afirmou que a distribuição tividades produtivas muito
comuna do Hoque, existe a das sementes, por parte da penosas”, reconheceu João
associação de camponeses Estação de Desenvolvimen- Francisco Tyipinge, afir-
denominada “A Luta Con- to Agrário (EDA) acontece mando que, por causa disso,
tinua”.A associação conta sempre no fim da época o rendimento é muito baixo,
com 65 membros, sendo 34 agrícola, o que compromete em função das áreas e do
homens e 21 mulheres. Os as culturas. tempo que ficam a trabalhar.
associados enfrentam difi- A mecanização“permite,
culdades várias para o de- Cortadora e debulhadora por um lado, diminuir o des-
senvolvimento das suas A apresentação, recente, de gaste e o esforço físico do
actividades, por falta de um conjunto de equipamen- camponês, e, por outro lado,
meios materiais, tais como tos mecânicos foi recebida aumenta a sua produtivi-
charruas de tracção animal, com satisfação pelos cam- dade.Se tiver que colher
correntes, enxadas, pás, pi- poneses da Tchikala. A cor- uma determinada quanti-
caretas, ancinhos, catanas, tadora é movida à gasolina dade em 30 minutos, com
machados e foices. A falta e a debulhadora, que faz o o equipamento pode fazê-
de fertilizantes é outra preo- trabalho de separar o grão lo em 2 minutos”, explicou.
CULTIVO Domingo
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Tecnologia de baixo custo


LOURENÇO BULE | EDIÇÕES NOVEMBRO | MENONGUE
“Na estrutura agrária de An- neficiamento e o processa- bre o funcionamento e uso
gola, a agricultura familiar mento da produção. desses meios.
tem uma importância capital. Tarciso João Baptista frisou A primeira missão tem
Mais de um terço da popu- que o Executivo, por inter- como destinoas províncias
lação angolana depende da médio do Ministério da Agri- do Cuanza-Sul, Bié, Huambo
agricultura”, disse a esta re- cultura e Pescas, definiu uma e Huíla.
portagem o director-geral estratégia para a introdução Tarciso João Baptista disse
adjunto do Instituto de De- da mecanização de baixa que as comunidades bene-
senvolvimento Agrário para força-motriz e baixo custo ficiárias vão ser organizadas
a área Técnica, Tarciso João de aquisição, para a redução com vista à cedência dos pe-
Baptista. O responsável dos esforços braçais. E o Ins- quenos equipamentos agrí-
afirmou que o sector agrí- tituto de Desenvolvimento colas em forma de crédito,
cola familiar detém mais Agrário foi orientado a im- que serão amortizados com
de 98 por cento das explo- plementar um programa de os recursos das caixas co-
rações agrícolas do país, introdução de inovações tec- munitárias, por meio de con-
nas quais se encontram en- nológicas e de fomento de trato de cedência e uso dos
quadradas mais de três mi- tecnologias intermédias, no- referidos equipamentos.
lhões de famílias. meadamente a moto-me- Na segunda fase, anun-
Os indicadores de pro- canização (mini-tractores e ciou, serão contempladas as
dução das explorações agrí- moto cultivadores), equipa- associações, cooperativas,
colas familiares, salientou, mentos de irrigação (moto- grupos solidários e produ-
são extremamente baixos bombas, sistemas de rega tores individuais com estru-
como consequência do bai- auto-propelidos e bombas), tura organizativa e de gestão
xo investimento e do baixo para poupar esforços e au- funcionais, cujos requisitos
nível de “know-how”, con- mentar a produção. principais para aquisição dos
jugados com as condições Segundo o director-ad- pequenos equipamentos as-
edafo-climáticas pouco fa- junto do IDA, foi criada uma sentam em ter a capacidade
voráveis para um sistema equipa, integrada por técnicos de efectuar o pagamento do
de exploração, essencial- da estrutura afectos aos vários crédito, pontualmente e de
mente, de sequeiro. departamentos, para se des- acordo com as datas assentes
Um dos factores na base locarem às várias províncias no contrato de cedência e uso.
dos fracos resultados no cam- com a missão de realizarem Salientou que ter expe-
po é a gritante falta de pe- sessões de demonstração da riência de trabalho e ma-
quenos equipamentos utilidade das tecnologias in- nuseamento comprovado cumprir.Disse que os equi- Acrescentou que o contrato objectivos cooperativos
agrícolas para o processo termédias e de pequenos de pequenos equipamentos, pamentos do programa se- de crédito vai reger-se pelas que regulam o processo
produtivo, desde a prepa- equipamentos de inovação tais comomotorizadas, mo- rão adquiridos por contrato cláusulas do código civil e de aquisição, funciona-
ração das terras para o cul- tecnológica, bem como para tobombas, moinhos mo- de crédito de cedência e da legislação aplicável na mento, acompanhamento
tivo, o manuseio dos campos capacitar os técnicos locais torizados, entre outros, são uso, que representará o úni- República de Angola, que e resolução harmoniosa
cultivados, a colheita, o be- e os líderes comunitários so- requisitos importantes a co acordo entre as partes. se baseia nos princípios e de conflitos.

Agregar valor à produção


DR

O projecto de mecanização trará podem dar maior rendimento, prar combustível, óleo e gasolina”,
maior comodidade aos agricultores desde que sejam usados de forma realçou. Para ele, só há vantagem
no processamento da sua produção, cooperativa e associada. na introdução dos equipamentos
reconheceu a directora do gabinete Referiu que os equipamentos, mecanizados no processo de pro-
provincial da Agricultura, Pescas por serem motorizados, têm custos dução agrícola.
e Desenvolvimento Rural, Mariana com os combustíveis, manutenção “Na colheita, usamos as unhas
Soma.“O trabalho de colheita feito e com outros acessórios. “Ao fazer para descamisar o milho e os braços
manualmente tem um tempo muito o uso de forma cooperada, os cam- para separação do milho do caroço.
longo e é desgastante. A introdução poneses das associações poderão É muito cansativo”, frisou, acres-
de tecnologias vai agregar valor a encontrar mecanismos para a sua centando: “Vimos a máquina que
este trabalho”, destacou. manutenção”, disse a directora debulha e coloca o caroço e a camisa
Mariana Soma fundamentou do gabinete provincial da Agricul- do milho de parte. Uma outra faz
que vai ser a oportunidade de fazer tura, Pescas e Desenvolvimento o ensacamento sem usar a força.
com que as famílias, em pouco Rural, que ressaltou ainda que o Com este método, poupa-se o corpo.
tempo, façam a colheita e o ensa- projecto é de âmbito nacional e Para nós, é uma grande vantagem”,
camento da produção, além de po- está a ser coordenado pela direc- reconheceu Ernesto Cambambi.
derem acondicionar melhor os ção-geral do IDA. “Acredito que a A Huíla é uma província cujo
restolhos da colheita, que poderão direcção do IDA tem um prognós- potencial de produção de grãos
ser aproveitados para o consumo tico melhor. Mas para nós, na pro- é explorado, maioritariamente,
do gado ou mesmo para a fertili- víncia da Huíla, seria bom que pelas famílias.O milho é a cultura
zação orgânica. estas máquinas estivessem aces- mais amplamente difundida e cul-
Às vezes, sublinhou, no processo síveis a todas as associações de tivada, pois se adapta aos mais
de colheita manual são muitas as camponeses”, defendeu. diferentes ecossistemas.
espigas que ficam espalhadas pela Com uma produção média anual
lavra. Tem-se também, às vezes, Camponeses satisfeitos a atingir milhares de toneladas, a
o ataque do salalé.As máquinas Ernesto Vapor Cambambi, 50 anos, província concentra nos municípios
agora disponíveis para os campo- é famoso na produção de milho, de Caluquembe, Caconda, Chicom-
neses facilitam que, em um dia, cebola, repolho, cenoura, alface e ba e Quipungo, e parte do Lubango,
se faça o corte de todo o milho, batata-doce na localidade de Chi- a maior parte da cifra anual da co-
que é levado à máquina debulha- kala, comuna do Hoque. Cambambi lheita do milho.
dora, onde é descamisado, des- disse à nossa reportagem que co- Embora seja uma cultura apro-
carolado, descaroçado e a palha mercializa a sua produção no mer- priada ao uso de alta tecnologia e
é separada do grão. cado do Km-40, naquela comuna, com grande potencial de incre-
“É uma tecnologia que vai agre- e que está entusiasmado com os mento, ainda predomina na pro-
gar valor à actividade das famílias novos equipamentos. víncia o uso de tecnologia de baixo
camponesas”, reiterou Mariana So- “Estávamos à espera deste pro- investimento, o que tem mantido
ma, acrescentando que são equi- jecto. A realidade chegou. Vamos a produtividade média muito abaixo
pamentos pequenos, mas que aderir. Estou em condições de com- do desejável..
22 VIDA Domingo
19 de Julho de 2020

Kindala Manuel

O polémico jogo contou para


a sexta jornada e daria ao
FERNANDES FERNANDES EXPLICA
vencedor a liderança do pro-
vincial de Benguela, com
acesso ao torneio de apu-
O QUE O LEVOU A ABANDONAR A ARBITRAGEM
ramento à primeira divisão.
O Jornal de Angola procurou
o antigo árbitro na zona do
Futungo, em Luanda, onde
reside desde os anos 2000,
mas não foi fácil conven-
“Fui brutalmente
cê-lo a relembrar os mo-
mentos traumáticos que
viveu durante a sua passa-
gem pela arbitragem.
DR

agredido
Fernandes dos Santos
Fernandes “FF”jogou fute-
bol no Lobito Sport Club
Ferrovia entre os anos de
com pedras
1978 e 1980, no campeonato
interprovincial, onde se
destacoucomo guarda-redes
e pauladas
principal.Em 1980 recebeu
proposta de renomados ár-
bitros séniores da província
de Benguela - Mário Amu-
até desmaiar”
zalaque e Luciano Rosa “Car-
deal” -para integrar a carreira Fernandes dos Santos Fernandes,
de árbitro, começando como
estagiário e, mais tarde,pas- conhecido nas lides desportivas
sando a fiscal de linha, em por “FF” (pseudónimo profissional
campeonatos intermunici-
pais. Aos 36 anos de idade,
que comporta a letra inicial do
em 1986, passou à categoria nome e do apelido)foi árbitro de
de árbitro provincial, com a futebol na década de 80, tendo
possibilidade de auxiliar nos
jogos da primeira divisão actuado no campeonato provincial
nacional, vulgo “Girabola”. de Benguela e no Girabola. Natural
De 1986 a 1987, numa altura
em que estava a ser prepa-
do Lobito,carrega até hoje o trauma
rado para transitar a árbitro e as cicatrizes da agressão que
da primeira divisão, desem- sofreu, e que quase o levou à
penhou funções de árbitro
assistente em várias par- morte, num jogo que ajuizou, em
tidas da primeira divisão, que estiveram frente-a-frente a
na equipa do memorável
e respeitado árbitro Lucia-
Académica do Lobito e o Sital de
n o Ro sa , c o n h e c i d o n a Benguela
época por “Cardeal”.

Golo polémico
Na sexta jornada do Cam-
p e onato Provincial de
1987,houve o cruzamento “Enquanto me
do Académica do Lobito com agrediam,
o Sital de Benguela, que daria
ao vencedor a liderança. De gritavam
acordo com “FF”, a Asso- ‘Agarrem o
ciação de Árbitros de Ben-
guela era responsável pela traidor, não
nomeação do árbitro. “Para deixem passar o
este jogo, estava indicado
Mário Amuzala que, árbitro ingrato filho da
sénior de categoria nacional, de um dos postes da baliza área, tentou ludibriar-me asseguramento do jogo e e levou-me ao hospital, onde terra’. Defendi-me
já falecido. Mas,de repente, defendida pelo Sital. Rece- desviando a trajectória da a porta habitual de saída, permaneci em coma durante
a comissão decidiu que fosse beu a bola do companheiro bola com a mão.Tive que as- que dava para os balneá- vinte e quatro horas”. na medida do
eu a apitar o jogo. Eu era tido que estava em campo e mar- sinalar pênalti. Não havia r i o s , e stava c e rcad a d e O antigo árbitro acres- possível, mas não
como carrasco e ‘armado cou o golo de cabeçada. Em- hipótese, foi mão na bola, adeptos da Académica do centou que um dos ferimen-
em correcto demais’, por al- bora sendo filho da terra, com o meu assistente de Lobito insatisfeitos. Então, tos na cabeça teve de ser foi para tanto. Fui
guns adeptos e clubes da re- tive que assumir o meu pa- linha a confirmar”. tivemos que colocar em suturado com 32 pontos. brutalmente
gião. Estava diante de um pel de árbitro e fazer cum- Após o golo do Sital, refere ação o plano B, que era sair Depois de uma semana
jogo polémico e, por ser do prir as leis do desporto. “FF”, já nos últimos minutos mesmo pelo lado do morro. de tratamento foi-lhe dada
agredido, com
Lobito, na véspera cogita- Estava fora de jogo, tive que do jogo, os adeptos da Aca- Por via de dúvidas, pas- alta hospitalar. “FF” decidiu pedras e pauladas
va-se uma arbitragem ten- anular o golo”. démica do Lobito foram saram primeiro os meus então abandonar a arbitra-
denciosa. Durante a vida Como é óbvio, conta, hou- criando um ambiente hostil assistentes de linha e não gem, numa época em que
em todo corpo, até
andei abraçado com o sentido ve contestação por parte de contra a equipa de arbitra- tiveram problemas”. estava a ser preparado para desmaiar. Chibi,
da disciplina, por isso, como alguns jogadores, mas a gran- gem,entoando cânticos de Despois dos assistentes ascender à categoria de ár- técnico da
árbitro, a coerência era o de revolta veio dos adeptos ameaça e lançando objectos passarem, “FF” dirigiu-se bitro titular da primeira di-
meu timbre”, sublinhou. da Acadêmica que estavam contundentes ao campo. Se- ao portão, mas, infelizmen- visão.Querido por alguns e Académica do
De acordo com “FF”, o nas montanhas. O antigo ár- gundo ainda o antigo árbitro, te, foi abordado por dezenas odiado por outros, “FF” lem- Lobito, foi quem
problema começou aos 15 bitro explica que o campo já nos últimos minutos do de adeptos que gritavam bra-se que, na altura, o de-
minutos da primeira parte, da Académica do Lobito si- jogo o Sital marca, vencendo enfurecidos. “Enquanto me legado provincial dos me recolheu do
depois de anular um golo da tua-se numa espécie de bu- o jogo por (2-3). agrediam, gritavam ‘Agar- desportos de Benguela, Victor chão, mas já
Académica do Lobito, por raco, onde, num lado tinha Devido ao ambiente me- rem o traidor, não deixem Jeovete Barros, procurou por
ter sido marcado em fora de as bancadas e no outro o nos bom que se registava, passar o ingrato filho da ele quando estava em con- desmaiado, e
jogo. “A Académica estava m o r r o o n d e fi c a va u m no final do jogo, Fernandes terra’. Defendi-me na me- valescência, com a finalidade levou-me ao
a jogar em casa. O lance de “amontoado” de gente. dos Santos Fernandes “FF” dida do possível, mas não de persuadi-lo a desistir da
que derivou o golo anulado “Até ao intervalo, as equi- foi alertado pelo vice-pre- foi para tanto. Fui brutal- decisão, mas o homem do hospital, onde
aconteceu no momento em pas estavam empatadas a sidente da Académica para mente agredido, com pe- apito estava mesmo decidido permaneci em
que um dos jogadores da uma bola. No segundo tem- que não saísse do lado do dras e pauladas em todo a abandonar os campos. De-
Académica, que, por força po, a Académica desempata morro, devido ao grande corpo, até desmaiar. Chibi, vido ao trauma da agressão coma durante
da jogada,tinha saído das (2-1) e, passando alguns mi- número de adeptos furiosos técnico da Académica do Lo- que sofreu, “FF” ficou sem vinte e quatro
quatro linhas, sem autori- nutos, um dos jogadores da que lá estava a sua espera. bito, foi quem me recolheu ir aos campos de futebol du-
zação entra de repente, perto Académica,em plena grande “Havia poucos polícias no do chão, mas já desmaiado, rante vários anos.
horas”.
VIDA Domingo
19 de Julho de 2020 23

Versão
de um adepto
da Académica
Júlio Gaiano, adepto da No segundo tempo,
Académica do Lobito, na Yamusseku voltou a mar-
época com 16 anos de ida- car pela Académica, co-
de, assistiu ao jogo da con- locando o resultado em
fusão entre o seu amado 2-1.Porém, minutos de-
clube e o Sital de Benguela. pois, o árbitro “FF” as-
O adepto explica que sinalou pénalti contra a
na época o Nacional de Académica e o Sital em-
Benguela liderava o cam- patou (2-2), golo de Abe-
peonato e, um dia antes, gá. Um pénalti que os
empatou com a Sorefame adeptos da Académica
do Lobito. Caso a Acadé- julgaram inexistente”,
mica ganhasse ao Sital, relata Júlio Gaiano, acres-
passaria a líder e teria o centando que após o golo
caminho facilitado porque de penalti os ânimos dos
haveria de jogar com a adeptos da Académica
equipa Embalagens de descontrolaram-se, de
Angola e depois com o tanta exaltação.
Dínamos, para encon- Gaiano conta ainda
trar-se na final com o In- que, para infelicidade dos
dependentes do Lobito, adeptos da Académica,
tido na época como a quando faltava um minuto
equipa que facilitaria a para o final do jogo, surgiu
vitória da Académica. “A um cruzamento e um jo-
Académica marcou o pri- gador da equipa adversária
meiro golo por intermédio marcou o golo de cabe-
de Yamussekue, em se- çada, ficando selada a vi-
guida, o Sital empatou. tória do Sital por 2-3.

Carreira
profissional
Fernandes
dos Santos
Fernandes “FF”
foi funcionário
dos Caminhos-
de-Ferro de
Benguela e do
Porto do Lobito
entre os anos
1970 e 1985. Em
1987 foi
indicado pela
Secretaria de
Estado da
Educação Física
e Desporto para
dirigir a Casa
dos Desportistas
do Lobito
24 CRÓNICA Domingo
19 de Julho de 2020

| EDIÇÕES NOVEMBRO

“É FEITIÇO DO BRANCO”
Regresso dos parentes
do Drácula à cidade da Kianda
Com voz abafada, traje cor da paz a esvoaçar pela cortina de poeira nas ruas, o fantasma da cidade capital parece
ter voltado. A assombração parece procurar o cidadão para o abraçar, beijar, agarrar e adormecê-lo no berço de
areia da sua eterna morada
Pombal Maria em que Deus descansou ao se pode fazer é deitar a toalha os dias com os dedos da mão. hoje na linha da pobreza, te- crianças da minha geração.
construir o mundo. Há dé- ao tapete, abandonar o ringue Apenas a ciência, com seus mia dois grandes fantasmas, Muitos passaram noites em
cadas que não dormia sos- das ruas e prestar mais aten- rios de conhecimento, pro- o exército de meus amigos branco. Todos piamente acre-
Os jovens calcinhas, com segada, não pregava os olhos ção aos rebentos da árvore cura a chave perdida no mar. também ficava em sentido, ditavam que, a qualquer mo-
vaidade de pavão, caídos do na cabeceira. familiar. E para quem já cor- Vaidosos, aborrecidos, trêmulo. Trata-se do Ka- mento, podiam ser levados
céu, com árvore de dinheiro As ruas da cidade da Kian- tou ou caiu da árvore que alegres, funestos, os fantas- zumbi e do Mayombola. pelo fantasma. Tinha a des-
em casa, subtraem a presença da, acesas e ao mesmo tempo tente reconstituir a copa, o mas sempre andaram pelo Nunca ninguém os viu, mas treza de separar o corpo da
no olhar da lua e das estrelas. escuras, confundem rios de tronco e as raízes, ou plantar passeio, avenidas, jardins, sentíamos mais a sua pre- alma das pessoas, princi-
Mesmo o roncar de carros asfalto, e ao mesmo tempo outra árvore em vez de uma restaurantes, residências, sença do que gente boa que palmente dos miúdos. Le-
de luxo desapareceu na noite. imitam o deserto do Namibe, floresta. Nada é impossível. florestas, vilas e cidades. Na passava por nós, saudando, vava-os, mortos já, para os
Estes jovens, maioritaria- pelo menos à noite e à ma- Na verdade, o somatório desta sua maioria são solitários e dando conselhos. campos de cultivo de milho,
mente na flor da idade ou na drugada. Vemos algumas calada dolente aos fins-de- caminham por trás das pes- As estórias de kazumbi mandioca, batata, macunde
idade de Cristo, são filhos criaturas perdidas, como oá- semana e não só, é prova- soas, contando as marcas seguiam quase sempre a e outros produtos agrícolas,
da dona e senhora desta ci- sis, a evaporar sob o olhar velmente o regresso de dois dos pés na areia, principal- mesma plástica, era um jo- para trabalharem. Lá en-
dade, mulher com rabo de incendiário dos policiais e famosos fantasmas desta mente nas noites sem luar. vem que conhecera uma mo- contravam outras pessoas
peixe e que habita nas pro- militares postados numa e região, o Kazumbi e o Ma- Estes turistas vindos do ça de beleza esplêndida. conhecidas que já perderam
fundezas das águas da baía noutra esquina, lembrando yombola, encarnados num outro mundo têm elevada Acompanhava-a até a casa, a vida. Quando viesse um
de Luanda, a Kianda. No os velhos tempos de rusga. vírus conhecido nos palcos simpatia pelos descendentes e quando no dia seguinte novo amigo do interior,
tempo da outra senhora, Mesmo os bairros esquecidos internacionais por Covid- de Adão e Eva. Mesmo na voltava para a visitar, a mãe miúdo, é claro, reforçava a
quando aportassem nas dis- pela alma dos administra- 19. Porque o ambiente em terra de William Shakespeare, lhe dizia que a filha já havia presença do Mayombla,
cotecas de Maputo, Cidade dores, com casas amontoa- que estes fantasmas sobre- país que há milhares de anos morrido faz tempo. Para se- abria o verdadeiro livro, fa-
da Praia e nas capitais de ou- d a s , u m a s e mp u r ra n d o vivem está reconstituído. era habitado por negros de car a maré de dúvidas, vi- lava do perfil do fantasma
tros países do continente- outras, bairros onde a noite Como consequência, as olhos azuis, o primo direito sitavam o campo santo. O e das suas preferências.
berço, pagavam até as contas cai violenta, o deserto se es- pessoas entrincheraram-se do Kazumbi, o Drácula, não moço reconhecia a foto dela Estes dois amigos, vindos
dos ratos, baratas e mosqui- tende, o seu lençol de areia em casa, indagam-se sobre deixou de andar pelas ruas no epitáfio e o seu casaco, do além, não são os únicos
tos, para impressionar mu- apenas consente a ausência o que vem adiante. Temem de Londres. O senhor desen- emprestado na última noite, que descem as escadas do
l h e re s m a s c a ra d a s n a s da marca das calças. Um cão perder a alma e adormecer volvimento o agarrou. Le- pendurado na cruz da campa. inferno para nos visitarem.
etiquetas vãs e por traz do solitário pode representar uma eternamente antes do fim vou-o para o cinema, teatro Naquele tempo, conhecer Não vamos recordar os de-
batom, brilhantina, base, multidão que outrora não sabia da picada, enfim. Nesta es- e mesmo para a literatura. uma diva solitária durante mais nestas linhas, há outros
correctivo e cabelo plástico. pregar os olhos no travesseiro tação contemporânea, apa- De quando em vez sai das te- a noite levantava a poeira a viverem felizes na literatura
Estes jovens vaidosos co- durante a noite, sem o vulcão nhamos o comboio do tempo. las de TV, dos palcos de teatro da suspeita. A fórmula mais angolana. A verdade é que,
mo pavão simplesmente eva- de uma valente briga de co- Ao invés de avançarmos… e dos livros e volta às ruas. aconselhada era observar na cidade da Kianda, quando
poraram-se, não deixaram madres, ciúmes, fofocas. regressamos no tempo. Desta Neste momento, tal como o se ela tinha os pés no chão. o sol é engolido pelo mar,
palavras ao vento. Muitos até Os homens que bebem vez, ninguém precisa de um seu primo também está a an- Havia outra estória na qual vive-se o típico ambiente
estão encravados em Lisboa, álcool em quantidades in- adivinho para precipitar a dar por algumas cidades do a moça, de beleza deslum- dos parentes do Drácula.
Paris, Joannesburgo, Dubai. dustriais, noctívagos, boé- chuva ou para subir no muro velho continente. Eu sou a brante, pedia ao apaixo- Aliás, quando a epidemia
A maior parte ostenta o que mios, meretrizes, drogados, do horizonte, com binóculos, única pessoa no mundo que nado para a acompanhar. começou com os seus pri-
não ganhou. Não conhecem poetas, rosqueiros, deixaram e ver o amanhã chegar, ou percebeu essa realidade. Exactamente na porta do meiros passos no velho con-
o fruto do suor do rosto. de bater nas costas da cidade mesmo contar quantos dias Na cidade da Kianda, cemitério, o encantado tinente, perguntei a um
Distante deles, hoje, a ci- para mantê-la sempre acor- faltam para ele próprio mor- quando eu corria debaixo da percebia onde estava. A cidadão do mundo, que ainda
dade de Luanda, finalmente, dada, no mínimo, aos fins- rer. Desta vez, e porque veio chuva, fazia carros de lata, moça entrevava-se… vive na idade média, o que
pode fechar os olhos e ador- de-semana. Realmente, o encarnado em Covid-19, até apanhava gafanhotos no Mas foi o Mayombola que estava a acontecer na Europa.
mecer comodamente às noi- fantasma da cidade de Luan- os pastores e ovelhas estão meio da década setenta e mais sacudiu o corpo e a Ele foi claro a dizer que “é
tes, principalmente no dia da chegou, e apenas o que embaixo da cama, a contar início da oitenta, nos bairros alma dos adolescentes e feitiço do branco”.

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