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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO SOCIOECONÔMICO
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DA ADMINISTRAÇÃO

Jéssica Klitzke

MERCADO DE CÂNHAMO:
Um estudo acerca do potencial mercadológico alinhado ao desenvolvimento
sustentável para aplicações da fibra de cânhamo industrial.

Florianópolis
2019
Jéssica Klitzke

TÍTULO: Mercado de Cânhamo:


Um estudo acerca do potencial mercadológico alinhado ao desenvolvimento
sustentável para aplicações da fibra de cânhamo industrial.

Trabalho de Curso apresentado à disciplina CAD


7305 como requisito parcial para a obtenção do grau
de Bacharel em Administração pela Universidade
Federal de Santa Catarina.
Enfoque: Monográfico
Área de concentração: sustentabilidade e análise de
mercado.
Orientador(a): Prof. Dr. André Luis da Silva Leite.

Florianópolis
2019
Jéssica Klitzke

TÍTULO: Mercado de Cânhamo:


Um estudo acerca do potencial mercadológico alinhado ao desenvolvimento
sustentável para aplicações da fibra de cânhamo industrial.

Este Trabalho de Curso foi julgado adequado e aprovado na sua forma final
pela Coordenadoria Trabalho de Curso do Departamento de Ciências da
Administração da Universidade Federal de Santa Catarina.

Florianópolis, 18 de novembro de 2019 .

________________________
Prof. Marcia Barros de Salles, Dr.
Coordenador de Trabalho de Curso

Avaliadores:

________________________
Prof, Dr. André Luis da Silva Leite, Dr.
Orientador
Universidade Federal de Santa Catarina

________________________
Profª Vanessa Martins Valcanover
Avaliadora
Universidade Federal de Santa Catarina

________________________
Prof, Dr. Marcus Vinícius Andrade de Lima
Avaliador
Universidade Federal de Santa Catarina
AGRADECIMENTOS

Primeiramente agradeço ao Universo - ou energia cósmica, ou Deus, como


preferirem - por me nutrir com toda base da pirâmide (de Maslow) e permitir que eu
escreva um trabalho acadêmico, contribuindo, mesmo que de forma rasa, com a
geração de conhecimento de um país.
Agradeço por ter me concedido uma família resiliente, nem sempre paciente
mas com muita vontade de ensinar. Em especial agradeço a minha Mãe, por todas as
vezes que, de mente aberta e carinhosamente, me ouviu relatar algo a respeito do
tema escolhido e contribuiu com minhas ideais.
Também ao meu amor, por todo incentivo e por botar meus pés no chão quando
a dúvida e o medo tentavam tomar o lugar da certeza; e por tentar me conectar com
as pessoas certas, sempre querendo que eu desse um passo a mais.
Aos meu incríveis amigos, cruciais no meu crescimento e desenvolvimento, no
apoio, no incentivo e pela vontade de me ver prosperar.
Ao meu orientador, agradecimento profundo ao mergulhar de cabeça no tema,
pelo interesse e auxílio na construção.
Aos professores, todos que participaram dessa jornada na universidade, em
especial aqueles que tiveram uma contribuição direta com a construção do trabalho,
pelo seu tempo e dedicação.
Finalmente, agradeço a mim pela coragem, pela vontade, resiliência, e
principalmente por ser verdadeira comigo mesma.
A todos, meu muito obrigada!
Quanto maior for a semelhança entre o nosso mundo e o mundo natural,
maior é a probabilidade de nele se sobreviver (BENYUS, 2002).
RESUMO

A sociedade pós revolução industrial se encontra em um dilema de sustentação da


vida moderna. O consumo pela lógica linear e a produção de bens atualmente sofrem
uma pressão ambiental. Nesse cenário, a busca por alternativas de produtos e bens
de consumo alinhadas ao desenvolvimento sustentável, e economicamente viáveis,
traz novamente para pauta o uso do cânhamo - de nome científico Cannabis Sativa L
-, amplamente utilizado ao redor do globo até a década de 30 em mais de 25.000
aplicações industriais como têxteis, cordas, óleos, alimento e mais. Através de uma
revisão documental qualitativa de dados secundários, essa pesquisa pretende trazer
o cânhamo industrial como uma possível alternativa, alinhada ao desenvolvimento
sustentável, para as indústrias têxtil e da construção civil. Para tal, compreende o
mercado global de cânhamo e investiga o potencial nacional para os usos da fibra. As
descobertas indicam que a fibra é altamente sustentável, tanto seu processo produtivo
quanto sua aplicação nas duas industrias foco estudadas. Além de ser um setor em
rápida ascensão, estimando-se que valerá aproximadamente US$ 30 bilhões até o
ano de 2026.

Palavras-chave: cânhamo, desenvolvimento sustentável, mercado.


ABSTRACT

A post-Industrial Revolution society faces a dilemma in sustaining modern life.


Consumption by a linear logic and the production of goods is currently affected by
environmental pressure. In this scenario, a search for sustainable and economically
viable alternatives to products and consumer goods brings us back to the agenda of
hemp usage - scientific name Cannabis Sativa L - widely used around the globe until
de early 30's on more than 25,000 industrial applications such as textiles, ropes, oils,
food and more. Through a qualitative document review of secondary data, this
research intends to bring industrial hemp as an alternative aligned with sustainable
development, to the textile and construction industries. Thus, it understands the global
hemp market and investigates the national potential for fiber uses. The results
indicates that the fiber is higly sustainable, both its production process and its
application in the two focus industries studied. It is a fast growing sector, estimated to
be worth approximately US$ 30 billion by the year 2026.

Keywords: hemp, sustainable development, market.


LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Propagandas de meias calça de nylon da empresa DuPont ..................... 25


Figura 2 - Variações da Cannabis Sativa L. .............................................................. 26
Figura 3 - Caule do cânhamo "hurd" (interno) e fibra (externo). ................................ 28
Figura 4 - Características da fibra extraída do caule de cânhamo. ........................... 28
Figura 5 - Sistema Agroindustrial (SAI). .................................................................... 29
Figura 6 - Estrutura do ambiente institucional e organizacional no estabelecimento
de mercado. .............................................................................................................. 31
Figura 7 - as 5 forças de Porter. ................................................................................ 34
Figura 8 - Consumo de Água das Fibras. .................................................................. 37
Figura 9 - Consumo de Energia das Fibras ............................................................... 38
Figura 10 - Comparativo entre as fibras mais utilizadas ............................................ 39
Figura 11 - Tecidos 100% em cânhamo cru e tingido. .............................................. 40
Figura 12 - Hempcrete .............................................................................................. 41
Figura 13 - Divisão do mercado de cânhamo estadounidense.................................. 43
Figura 14 - Evolução dos mercados maduros de cânhamo em acres. ...................... 45
Figura 15 – Aptidão agroclimática ao cultivo da Cannabis Sativa L no Brasil. .......... 50
Figura 16 - Índices de expectativa da indústria brasileira da construção. ................. 51
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

THC - delta 9-tetrahidrocanabinol


CDB - óleo de Cannabis
Farm Bill - Agricultural Improvement Act (legislação)
SAI - Sistema Agroindustrial
ONU - Organização das Nações Unidas
WCED - Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (World
Commission of Environment and Development)
GEE - Gases do Efeito Estufa
ABIT - Associação Brasileira das Indústrias Têxteis
DRAP - Departamento Regional de Agricultura e Pescas do Norte (Portugal)
CNI - Confederação Nacional das Indústrias
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 12

1.1 JUSTIFICATIVA .................................................................................................. 14

1.2 OBJETIVOS ........................................................................................................ 15


1.2.1 Objetivo Geral .................................................................................................. 15
1.2.2 Objetivos Específicos ....................................................................................... 15

1.3 ESTRUTURA DO TRABALHO ............................................................................ 15

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ............................................................................. 17

2.1 COMPREENDENDO A IMPORTÂNCIA DO DESENVOLVIMENTO


SUSTENTÁVEL ........................................................................................................ 17
2.1.1 Pegada hídrica e de carbono ........................................................................... 20
2.1.2 Evolução do conceito até Economia Circular ................................................... 22

2.2 BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DO CÂNHAMO ............................ 23


2.2.1 Aplicações Industriais ................................................................................... 27

2.4 MERCADO A PARTIR DA MUDANÇA NO AMBIENTE INSTITUCIONAL .......... 30

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS............................................................... 33
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO ............................................................................. 36

4.1 POTENCIAL ECOLÓGICO DA FIBRA DE CÂNHAMO ....................................... 36

4.2 PANORAMA DO MERCADO GLOBAL DE CÂNHAMO ...................................... 42


4.2.1 O mercado têxtil da fibra ............................................................................... 46
4.2.2 O Mercado da fibra na construção civil ........................................................ 47

4.3 POTENCIAL MERCADO BRASILEIRO .............................................................. 49

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 54

5.1 LIMITAÇÕES DA PESQUISA ............................................................................. 55

REFERÊNCIAS......................................................................................................... 57
12

1 INTRODUÇÃO

A humanidade evoluiu à medida em que desenvolveu ferramentas facilitadoras


de sua vida na Terra. A revolução industrial, apoiada pelo avanço tecnológico,
fomentou na sociedade uma lógica linear de consumo, onde a alocação dos recursos
é pensada para a "extração - produção - consumo - descarte" (FUNDAÇÃO ELLEN
MACARTHUR, 2012; LEITÃO, 2015), desconsiderando os antecessores e sucessores
ao fluxo.
Seu sucesso se deu graças a baixa nos preços das commodities na época,
garantindo estabilidade para as empresas da escola clássica da administração
prosperarem e crescerem (AZEVEDO, 2015; PEREIRA, MONCUNILL, MONTEIRO,
2017). Com a virada do século, a preocupação com a possível escassez de recursos
e consequentemente a instabilidade nos preços, o aumento populacional e o aumento
na poluição atmosférica apresentaram-se como os principais fatores que
impulsionaram o pensamento sustentável (PEEV, 2012).
Tendo o pensamento sustentável como base, molda-se a concepção de
Economia Circular, que visa um modelo industrial restaurador, tanto do ponto de vista
técnico como biológico, voltado para o desenvolvimento de novos produtos e serviços
atrelados a minimização da extração de recursos e a maior duração desses no ciclo
econômico (FUNDAÇÃO ELLEN MACARTHUR, 2012).
Nesse cenário, a busca por alternativas de produtos e bens de consumo
alinhadas ao desenvolvimento sustentável, e economicamente viáveis traz novamente
para pauta o uso do cânhamo - de nome científico Cannabis Sativa L -, amplamente
utilizado ao redor do globo até a década de 30 em mais de 25.000 aplicações
industriais como têxteis, cordas, óleos, alimento e mais.
Por sua associação com a marijuana, no ano de 1937 o cânhamo foi proibido
nos Estados Unidos da América, e sua estigmatização proliferou no ocidente.
Acontece que, apesar de serem da mesma família de plantas, o cânhamo não possui
propriedades psicoativas, como é o caso da marijuana. Através da 2018 Farm Bill, os
EUA declaram legal novamente o cultivo de cânhamo, como forma de impulsionar a
agricultura local a beneficiar-se dos muitos usos da planta. (Agricultural Improvement
Act of 2018).
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O cânhamo possui menos de 0,3% de delta 9-tetrahidrocanabinol (THC),


substância responsável pelo efeito psicotrópico da planta, tornando a mesma
ineficiente para uso recreativo mas, muito rica para outras aplicações industriais (PAL,
LUCIA, 2019). A planta é altamente resistente a pragas, necessitando de mínimo ou
nenhum agrotóxico para seu cultivo, além de ter propriedades regenerativas do solo,
sendo utilizada como cultura de rotação para recuperação de solos defasados (PEEV,
2012).
A indústria do óleo de Cannabis (CBD) é atualmente a mais lucrativa por ter
amplo uso farmacêutico, alimentício e cosmético (Hemp Business Journal, 2019).
Todavia, o potencial ecológico estende-se para a confecção de bioplásticos e
biocombustíveis. Da extração do caule da planta são exploradas aplicações
principalmente na indústria de papel, construção civil (hurd) e têxtil (fibra), foco da
presente monografia. (PAL, LUCIA 2019). Inclusive na indústria automobilística, Ford
- considerado o pai da escola clássica da administração - teria utilizado fibras de
cânhamo na confecção de um dos carros da marca em 1941.
A construção civil sustentável ganha um forte aliado com a criação do
Hempcrete, uma ligação química feita a base de fibra de cânhamo e cal, que justifica-
se pela qualidade do cânhamo de ser carbono negativo - absorve CO2 da atmosfera
e o condensa na edificação - tornando-a não somente ecologicamente correta, mas
altamente resistente e durável, sendo ainda uma estrutura muito mais leve e limpa
que o concreto convencional (EIRES, 2006).
O cânhamo produz cerca de 200% a mais de fibras na mesma quantidade de
terra em comparação com o algodão e está pronto para a colheita em apenas 120
dias após ter sido plantado. Além disso, requer 20% menos água que a cultura do
algodão. Na China, a maior produtora de cânhamo do mundo, responsável por ⅕ da
produção global, foi onde surgiram as primeiras aplicações têxteis datadas ao ano de
207 a.C. (FOLD, 2013).
Diante disso, a presente monografia pretende responder a seguinte pergunta
de pesquisa: Há potencial de crescimento mercadológico alinhado ao
desenvolvimento sustentável para aplicações da fibra de cânhamo nas indústrias têxtil
e da construção civil?
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1.1 JUSTIFICATIVA

Compreende-se que este trabalho acadêmico tem relevância teórica para área
da administração, no tange a análise de setores e especificamente para os estudos
acerca da sustentabilidade. Possibilita uma revisão de conceitos inerentes à prática
agrícola no Brasil e a produção científica do setor em específico, visto que a literatura
nacional acerca da temática é mínima, e inexistente nas ciências da administração.
Contribui de forma prática para as organizações e os gestores com a análise
do potencial de crescimento de um setor pouco estudado no Brasil, e o possível
desenvolvimento econômico desse nos anos seguintes. Tal contribuição
socioeconômica expande sua relevância principalmente como sendo uma forma de
retornar a sociedade e ao meio ambiente a reinserção dos usos da fibra de cânhamo
industrial, em aplicações ecologicamente corretas e economicamente viáveis, nas
indústrias têxtil e da construção civil - assim como em todas as outras indústrias que
não são foco de estudo desta monografia -, que vai diretamente ao encontro da
necessidade da criação de mercados consumidores atrelados ao desenvolvimento
sustentável, seja nacional ou internacionalmente.
A ideia de estudar o mercado de cânhamo surge essencialmente defronte a
essa necessidade de buscar alternativas as principais fontes de matéria prima não
renovável exploradas nos mais diversos produtos de uso e consumo utilizados
atualmente, sem a intenção de menosprezá-los, mas reconhecendo a necessidade de
evolução inovativa e criação de alternativas, aqui evidenciando o cânhamo industrial.
Finalmente, o trabalho contribuirá para uma compreensão pessoal mais
profunda acerca da competição nesse mercado, e servirá de instrumento inicial para
viabilizar a construção de uma carreira na área da Gestão Agroindustrial e futuramente
atuar ativamente na construção e consolidação do setor, idealizando a abertura de
uma empresa/indústria e aplicando o conhecimento adquirido durante a graduação
em Ciências da Administração.
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1.2 OBJETIVOS

Aqui serão apresentados os objetivos de pesquisa, como forma de


responderem a pergunta de pesquisa levantada: Há potencial de crescimento
mercadológico alinhado ao desenvolvimento sustentável para aplicações da fibra de
cânhamo nas indústrias têxtil e da construção civil?

1.2.1 Objetivo Geral

Tem como objetivo geral avaliar o potencial mercadológico, alinhado ao


desenvolvimento sustentável, para aplicações da fibra de cânhamo nas indústrias
têxtil e da construção civil.

1.2.2 Objetivos Específicos

a) diagnosticar os fatores que classificam a fibra de cânhamo industrial


como alternativa sustentável;
b) identificar o atual mercado (global) de cânhamo e potencial de
crescimento para as aplicações da fibra em têxteis e na construção civil;
c) analisar potencial mercado brasileiro para aplicações dos derivados da
fibra de cânhamo.

1.3 ESTRUTURA DO TRABALHO

Em relação à estrutura, inicia-se a pesquisa com: (a) introdução, onde é


apresentada a pergunta de pesquisa, seguida dos objetivos e justificativa; (b)
fundamentação teórica, com uma breve contextualização histórica do cânhamo -
desde a proibição aos usos industriais da fibra - e então, são conectados ao tema a
definição de agronegócio e de desenvolvimento sustentável, passando pelos três
pilares da sustentabilidade e as pegadas hídrica e de carbono. Na sequência, é
abordada a importância das instituições para formação de mercados regulamentados
e ilustrado um modelo de análise setorial, proposto por Michel Porter; (c) a
metodologia é apresentada; (d) o desenvolvimento é dado através de uma revisão
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macroeconômica de dados do setor e expectativas de crescimento, retirados


majoritariamente de relatórios do bigdata New Frontier Data. Posterior, é investigado
o mercado potencial brasileiro para o consumo dos derivados da fibra de cânhamo em
aplicações industriais, também através da revisão de dados e finalmente, são
apresentados os (e) resultados referentes à pergunta de pesquisa e aos objetivos e
(f) as considerações finais.
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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A revisão de literatura da presente monografia tem intenção de primeiramente


abordar a temática da sustentabilidade através da evolução do conceito e da
compreensão dos fatores atrelados ao desenvolvimento sustentável que o cultivo do
cânhamo pode ter impacto. Em sequência, explanar sobre a cultura do cânhamo,
resgatando a história de suas primeiras aplicações pela humanidade e diferenciando-
o da Cannabis recreacional. Depois, pretende compreender sobre as principais
aplicações industriais, focando na utilização da fibra (caule) da planta. É importante
ressaltar que quando menciona-se "cultura do cânhamo" é feita referência ao cultivo
da terra, não fazendo alusão a cultura enquanto conjunto de hábitos e costumes.
Posterior a contextualização do cânhamo, conceito de agronegócio,
compreendendo o cânhamo enquanto participante desse e o ambiente institucional
em que se encontram as organizações e como esse afeta a dimensão econômica e a
formação de mercados.

2.1 COMPREENDENDO A IMPORTÂNCIA DO DESENVOLVIMENTO


SUSTENTÁVEL

A Conferência de Estocolmo, realizada pela ONU no ano de 1972, dá início ao


que se conhece por pensamento sustentável. A ideia do tema abordado, "O homem e
o meio ambiente" surge a partir do lançamento de satélites na órbita terrestre,
deixando visível - através de fotografias da atmosfera - a necessidade de se pensar
nessa relação. A página institucional do site da ONU (2019) traz a seguinte colocação
"[...] ver pela primeira vez este “grande mar azul” em uma imensa galáxia chamou a
atenção de muitos para o fato de que vivemos em uma única Terra – um ecossistema
frágil e interdependente". Em 1983 é criada a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente
e Desenvolvimento (WCED, sigla em inglês) também pela ONU, e em 1987 o Relatório
Brundtland "Nosso Futuro Comum" define Desenvolvimento Sustentável como "o
desenvolvimento que permite satisfazer as necessidades presentes sem
comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer suas próprias
necessidades" (WCED,1987, p 51).
18

John Elkington é o criador do conceito Triple Bottom Line (people - profit -


planet) e traz para pauta a ótica da administração, enfatizando que a sustentabilidade
deve ser um modelo de negócio que visa retorno para o acionistas, promovendo
desenvolvimento econômico, a manutenção social e proteção dos recursos naturais
existentes. Em suas palavras “as empresas capazes de engajar seus stakeholders
em uma visão clara do futuro [...] e atuar de forma superior em relação aos seus
concorrentes no sentido dos três pilares estarão muito melhor posicionadas para
conquistar as mentes e corações das pessoas – como também o dinheiro”
(ELKINGTON, 2012, pg 73). A partir de então, a sustentabilidade passa a ser discutida
levando em consideração essas três esferas básicas: social, econômica e ambiental.
A dimensão social se baseia na ideia de desenvolvimento humano, sendo essa
definida pela ONU no Relatório de Desenvolvimento Humano em 1997 como "as
escolhas para a formação, expansão e utilização de capacidades humanas" (ONU,
1997, pg 5), englobando valores como saúde física e mental, conhecimento,
maturidade, satisfação das suas necessidades espirituais e culturais. Segundo
Elkington
"[...] empresas sustentáveis socialmente consideram o capital humano em
sua forma principal, ou seja, pela saúde, educação e conhecimentos, da
mesma forma que olham para a saúde da sociedade e das grandes
potencialidades de criatividade que elas têm para gerar riqueza". (Elkington,
2012, p. 123)

Em relação à esfera econômica, o desenvolvimento diz respeito aos fatores


políticos e tecnológicos voltados à mudança do modelo produtivo para tecnologias
inovadoras, respeitadas as condições culturais (MELO, 2002).
Finalmente, a dimensão ambiental diz respeito a manutenção dos processos
produtivos e da vida social, levando em consideração a preservação dos recursos
naturais, conforme alerta Leis:

"[...] existe um consenso entre os autores de que, para o caso dos recursos
naturais renováveis, a taxa de substituição não pode exceder à capacidade
de reposição da própria natureza e, para o caso de recursos não-renováveis,
além de considerar a importância do desequilíbrio ecológico que produz sua
diminuição, é necessário acomodar o ritmo de sua utilização ao processo de
procura de substitutos. No mesmo sentido, as taxas de emissão de dejetos e
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de emissão de materiais contaminantes não podem exceder a capacidade de


regeneração dos ecossistemas". (LEIS, 1996, pg 173).

Em suma, o conjunto desses aspectos é o que converge para o


Desenvolvimento Sustentável, buscando (resumidamente) o fim da pobreza, a
redução da poluição ambiental e a redução de desperdícios no uso de recursos. Infere
assim uma visão sistêmica focada na integração equilibrada desses aspectos e dos
aspectos institucionais relacionados à sua gestão (LEITÃO, 2015).
Com a criação desse conceito, Elkington (2012) consegue demonstrar a
importância de as organizações buscarem novos meios de impulsionar seu
crescimento - de forma sustentável -, trazendo as três esferas como o caminho para
se alcançar esse ideal. Afirma que o desempenho dos pilares agrega valor a
competitividade da organização, melhorando a sua imagem de mercado perante os
stakeholders. Compreende que o objetivo fim de uma organização é a geração de
lucro, porém um olhar mais abrangente a realidade do universo onde as organizações
estão inseridas torna a atividade empresarial realmente completa, sendo essa um
organismo social.
A mais recente mobilização global da Organização das Nações Unidas é a
Agenda 2030, firmada em setembro de 2015 em Nova York por 193 países, onde
compila 17 objetivos para o Desenvolvimento Sustentável, passando pelas esferas
social, econômica e ambiental com data limite para 2030 e,

"[...] Aborda questões como as mudanças climáticas e a elevação do nível do


mar; desastres naturais e ambientais; gestão de resíduos; recursos costeiros,
marítimos, de água doce, terrestres, energéticos, turísticos e de
biodiversidade; transporte e comunicação; ciência e tecnologia; globalização
e liberação do comércio; produção e consumo sustentável; desenvolvimento
de capacidade e educação para o desenvolvimento sustentável; saúde;
cultura; gestão do conhecimento e da informação para tomada de decisão".
(ONU, 2015).

Independente da clara interdependência das três esferas, o foco aqui explorado


é principalmente acerca da esfera ambiental, visando demonstrar o potencial
ecológico da fibra de cânhamo, fazendo conexão com a esfera econômica, abordando
seu potencial mercadológico. Não é do interesse dessa pesquisa discorrer acerca da
20

esfera social no que diz respeito a utilização da Cannabis recreacional, visto que o
cânhamo aqui é discutido através de sua diferenciação da marijuana, sendo tratados
como culturas com propriedades particulares e utilidades distintas. Porém, será
abordada a importância do desenvolvimento do setor para a esfera social.
A abordagem de desenvolvimento sustentável será tratada não pela ótica do
consumo sustentável ou da redução dos níveis de consumo cotidianos, mas pela ótica
do desenvolvimento sustentável dos processos produtivos, partindo da compreensão
das pegadas hídrica e de carbono, discutindo assim a reestruturação dos padrões de
consumo pelo início da cadeia, o processo produtivo.
Conforme abordam Nascimento et al. (2014) para produção de um bem, é
sabido que utilizam-se os recursos: água, solo e energia. Independente da origem do
bem, seja animal, vegetal ou industrializado, os processos produtivos consomem
alguma matéria prima retirada da natureza.
A pegada ecológica, hídrica e de carbono surgem como um método de medição
de ocupação de espaço físico (em hectares), água doce (em metros cúbicos/ano) e
emissão de CO2 (kg ou ton), respectivamente, com a intenção de ser um indicador e
alertar acerca dos impactos ambientais causados na utilização de bens de consumo
cotidianos.

"A concepção de indicadores de sustentabilidade emerge nesse plano como


suportes fundamentais para a atividade de mensurar, possibilitando que as
escolhas políticas movam-se em direção à sustentabilidade, pela criação de
conexões entre o atual estágio de desenvolvimento e o estado de sustentável
no futuro". (MARTINS e CÂNDIDO, 2012, p. 6).

Portanto, a inovação assume papel fundamental para a entrada da


sustentabilidade no meio organizacional. A criação de uma cultura organizacional
alinhada ao desenvolvimento sustentável é essencialmente catalisada pela inovação,
pois parte de novas formas de gerar conhecimento e assim criar empregabilidade em
setores remodelados ou novos setores.

2.1.1 Pegada hídrica e de carbono


21

Conforme Silva et al. (2013), a pegada hídrica é definida como o volume de


água total usada durante a produção e o consumo de bens e serviços, bem como o
consumo direto e indireto no processo de produção, é de importante análise visto que
os recursos hídricos doce do planeta representam apenas 2,5% de toda água, e se
fazem importante nessa pesquisa, pois

"A maioria dos usos de água ocorre na produção agrícola destacando


também um número significativo de volume de água consumida e poluída nos
setores industriais e domésticos. [...] O uso da água doce está totalmente
relacionado com os problemas de escassez e a poluição, fato que ocorre
principalmente pelo uso de pesticidas na agricultura e pelos poluentes
lançados no ar e na água, pelas indústrias". (SILVA et al., 2013).

O estudo da pegada hídrica parte da análise de três diferenciações de recurso


hídrico. As águas verde, azul e cinza. Segundo a definição de Hoekstra et al. (2011)
A água verde é oriunda de precipitações, ou seja, água da chuva, que é armazenada
no solo ou vegetação de forma temporária. Assim, representa o volume de água da
chuva que é consumida no processo de produção. A água azul é o indicador de água
superficial ou subterrânea que é consumida/incorporada ao produto, entra nessa
categoria a água utilizada em irrigação. Finalmente, a água cinza refere-se ao grau de
poluição de água doce resultante do processo de produção.
A pegada hídrica de um indivíduo ou comunidade pode ser estimada
multiplicando-se todos os bens e serviços consumidos por seus respectivos conteúdos
de água virtual. O termo "água virtual" se refere ao uso da água em todas as fases da
cadeia de produção, foi criado a partir da análise do pesquisador Allan em 1998 ao
compreender que a maioria da água usada para produzir um produto na verdade não
está contida no produto, o que acontece é um consumo para a produção e
comercialização daquele bem, portanto o conteúdo de água dos produtos se torna
insignificante quando comparado ao conteúdo de água virtualmente consumida na sua
produção. (SILVA et al., 2013). Essa relação fica clara quando pensa-se em uma
camiseta de algodão, a composição de água dessa camiseta é inexistente. Porém,
seu conteúdo de água virtual é um dos maiores em todo setor têxtil.
Similar à pegada hídrica, a pegada de carbono mede a quantidade total de
gases do efeito estufa (GEE) que são emitidos por um indivíduo ou uma atividade, ou
22

que são acumulados ao longo do ciclo de vida de um produto, e inclui qualquer forma
de gasto energético (por fonte não renovável). O cálculo toma por base as emissões
primárias, sendo toda queima energética direta de combustível fóssil, incluído o
consumo de energia elétrica de uso doméstico e de transporte, somado as emissões
secundárias, que representam toda queima indireta de CO2 ao longo do ciclo de vida
do produto, desde a manufatura até o descarte, e é expressa em kg ou ton.
Ambos cálculos originam-se da pegada ecológica, que mede "os recursos
materiais e energéticos que uma determinada população humana necessita para
produzir os recursos que consome e para absorver seus resíduos com as tecnologias
disponíveis, em um determinado intervalo de tempo" (SILVA et al., 2013) e é expressa
em hectares.

2.1.2 Evolução do conceito até Economia Circular

A Economia Circular surge oficialmente em 2012, sendo conceituada pela


Fundação Ellen MacArthur através de um conjunto de relatórios intitulados "Em
direção a uma economia circular". A concepção de Economia Circular visa um modelo
industrial restaurador, tanto do ponto de vista técnico como biológico, voltado para o
desenvolvimento de novos produtos e serviços atrelados a minimização da extração
de recursos e a maior duração desses no ciclo econômico (Fundação Ellen MacArthur,
2012).
Surge como forma de romper com a lógica pós revolução industrial da
linearidade de consumo, onde a alocação dos recursos é pensada para a "extração -
produção - consumo - descarte" (FUNDAÇÃO ELLEN MACARTHUR, 2012; LEITÃO
2015), desconsiderando os antecessores e sucessores ao fluxo.
A abordagem circular também leva em seus ideais o ciclo de vida dos produtos
na cadeia, aqui enfatizada sua durabilidade. A menção desse novo conceito justifica-
se exatamente pela qualidade da fibra do cânhamo em ser durável e resistente. Por
exemplo, uma camiseta feita de fibra de cânhamo resiste a muito mais lavagens que
uma 100% algodão, assim, é perfeitamente adequado mencionar a Economia Circular
como convergente ao potencial ecológico do mercado de cânhamo.
23

2.2 BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DO CÂNHAMO

O cânhamo é uma planta milenarmente conhecida e utilizada em diversas


culturas do mundo em mais de 25.000 aplicações, passando principalmente pelas
indústrias alimentícia, cosmética, farmacêutica, têxtil e da construção civil. (YUAN,
SCHLUTTENHOFER, 2017). Seus primórdios remontam a um período entre 1000 e
2000 a.C na Ásia, onde era utilizado na forma de corda e papel. Por volta de 207 a.C
surgem as primeiras aplicações têxteis, exploradas principalmente pelas culturas
chinesa e indiana (EIRES, 2006; FOLD, 2013). Com o passar do tempo, a planta
aparece pelo continente africano e, somente por volta de 500 d.C que o cânhamo
ganha espaço na Europa Oriental e depois na porção ocidental, introduzido pelos
franceses e utilizado como corda e papel, para reforço nas construções feitas com
argila e também para impermeabilização. É na França que surgem as primeiras
construções a base de cânhamo, terra e cal. “No período das grandes navegações e
da Revolução Industrial, o cânhamo se tornou um produto importante para os Impérios
da época - Reino Unido, Itália, França, Holanda, Alemanha e Espanha - que o
utilizavam sobretudo na indústria têxtil e de papel.” (ROSA, 2018, pg 2).
Séculos depois, entre 1500 e 1600 d.C a fibra é vista na América, trazida pelos
exploradores portugueses e espanhóis, que utilizavam-na confecção de cordoaria e
velas para suas embarcações. O aparecimento do cânhamo no Brasil ocorre em
meados do século XVIII pela coroa portuguesa, visando a produção de novos tecidos
e continuar a produção de velas e cordoaria que já ocorria em Portugal. o estímulo ao
cultivo do cânhamo teve início quando, em meados do século XVIII, o Império
português buscava alternativas para a confecção de tecidos, velas e cordoarias
(SAAD, 2013, p. 02 apud ROSA, 2018, pg 4).

“O primeiro projeto foi implantado na ilha de Santa Catarina quando o


governador Gomes Freire de Andrade recebeu, em 1747, sementes da planta
para distribuir entre a população açoriana recém-chegada. Nessa primeira
iniciativa, a Coroa tinha dois objetivos: (1) a produção de fibras para
abastecer o mercado da Colônia e da Metrópole; (2) fixar a população
açoriana recém-chegada naquela região.” (ROSA, 2018, pg 4).
24

Rosa (2018) levanta dados informando que essa primeira tentativa foi
fracassada, a história não era conclusiva a respeito, porém acreditava-se ser
decorrente da qualidade das sementes, que chegavam na América do Sul já inférteis.
Acreditava-se também que poderia ter ocorrido uma má adaptação dos agricultores
açorianos em relação a essa nova cultura nunca antes explorada. Em uma pesquisa
recente (2019) a respeito do estudo do solo brasileiro em relação a adaptabilidade a
cultura da Cannabis concluiu-se que o estado de Santa Catarina na verdade é um dos
menos aptos ao cultivo, será abordado mais a respeito nos resultados do trabalho
(item 4).
Porém, na região nordeste do país, principalmente no Pernambuco, onde há
forte adaptabilidade ao cultivo, há relatos históricos de sucesso na produção que
perduraram em torno de 40 anos e totalizaram em torno de 7 feitorias de produção de
linho-cânhamo como a Real Feitoria do Linho, a Companhia Fábrica de Tecidos
Cânhamo e Juta, a Companhia Fábrica Yolanda S. A. e Firma J. Knight & Perini, para
citar algumas. Em meados do século XIX o comércio açucareiro passava por uma
estagnação, obrigando os produtores a diferenciarem os plantios da época.

“Diante disso, alguns empresários pernambucanos começaram a utilizar as


fibras do cânhamo como matéria-prima para a produção têxtil. De modo geral,
essa planta era utilizada para a fabricação de tecidos ou de produtos
derivados, como cordas, cabos, sacos, fios de sapateiro, fios de fogueteiro e
fios de velas. Além da iniciativa desses empresários, o governo corroborou
com o cultivo do cânhamo em Pernambuco. Um exemplo disso é o anúncio
da inspetoria agrícola federal do 5o distrito de Recife, que em 25 de novembro
de 1924 tornava público que a entidade estava distribuindo sementes de
milho, de feijão e de cânhamo.” (ROSA, 2018, pg 11).

Outras regiões do país foram também exploradas para o cultivo do cânhamo,


como o Rio de Janeiro e Minas Gerais [...] no ano de 1824, [...] na província de Minas
Gerais, ressaltou que a extração do ouro era diminuta. No entanto, havia uma
agricultura próspera baseada na produção do tabaco, do algodão, do açúcar e do café,
bem como do cânhamo e linho, a partir do qual se produzia tecidos (MAWER, 1997,
p. 43 apud ROSA, 2018, pg 10). No Rio de Janeiro surge a Real Feitoria do Linho, que
posteriormente é movida para Pernambuco, não havendo motivos concretos
registrados do motivo da mudança.
25

Em 1720 há relatos de cultivo na região litorânea dos Estados Unidos,


novamente para confecção de cordas e barbantes, sacos e velas (NAHAS, 1986;
EIRES, 2006). Porém, o desenvolvimento das culturas de algodão em meados do
século XVIII e a sequencial fabricação de suas máquinas desfibradoras provocam
uma queda na cultura do cânhamo. Em 1930 é criada a máquina desfibradora de
cânhamo porém, com o surgimento das fibras sintéticas, em especial do Nylon - criado
pela empresa americana DuPont - em 1935, conforme ilustra a figura 1, o cânhamo
sofre uma nova queda. (SMALL, 2002; EIRES, 2006). Chegado o ano de 1937 a
produção de cânhamo é proibida nos Estados Unidos, [...] "foi Harry Anslinger, diretor
do Departamento Federal de Narcóticos, sob sua inspiração, o Congresso votou em
1937 a Lei de Impostos sobre a Maconha, que proibia o cultivo, a posse, e a
distribuição de plantas do cânhamo" (NAHAS, 1986, pg 36).

Figura 1 - Propagandas de meias calça de nylon da empresa DuPont.

Fonte: "Breve história do Nylon, Revista Reperio, 2013".

O cânhamo pertence a espécie de plantas Cannabis Sativa L, mesma espécie


da conhecida e estigmatizada marijuana. Porém, possui menos de 0,3% de delta 9-
tetrahidrocanabinol (THC), substância responsável pelo efeito psicotrópico da planta,
tornando a mesma ineficiente para uso recreativo mas, muito rica para as aplicações
26

industriais (PAL, LUCIA, 2019). Em comparativo, uma Cannabis de uso recreacional


possui níveis de THC acima dos 10%.
A proibição do cânhamo no ocidente sucedeu-se principalmente pela guerra às
drogas declarada pelos Estados Unidos, devido a indissociação das variantes da
Cannabis Sativa L, conforme ilustrado na imagem 3. A proibição acontece pela
espécie, sem diferenciar as culturas industrial e recreativa, que possuem perfis e
comportamento distintos.
A prática do lobby nos Estados Unidos é considerada legal, contrário ao Brasil,
o que corrobora com a cronologia dos acontecimentos e a ideia de que foi através do
lobbysmo das indústrias química e farmacêutica que o cânhamo foi associado a
marijuana e seu cultivo proibido na Lei Federal de Narcóticos americana, uma ameaça
declarada a esses dois setores em ascensão.

Figura 2 - Variações da Cannabis Sativa L.

Fonte: "Trends in new crops and new uses” (SMALL,2002).

Além do THC, as plantas se diferenciam em tamanho, uma planta de cânhamo


ideal para poda e extração de fibra chega a 4m de altura, enquanto a recreacional
chega apenas a 2m. As folhas se diferem em largura e comprimento e as flores - a
27

principal fonte de THC - são graúdas na marijuana, e no cânhamo menores. O plantio


também tem suas diferenças, a cânhamo cresce em praticamente qualquer condição
climática e solo, enquanto a marijuana se desenvolve em condições específicas e
controladas de luminosidade e umidade (SMALL, CHERNEY, 2016; YUAN,
SCHLUTTENHOFER, 2017).
Uma planta de cânhamo leva em torno de 120 dias para desenvolver-se
plenamente e o plantio ideal deve ser feito na primavera, no hemisfério norte de março
a junho, preferencialmente em abril, e no hemisfério sul de setembro a dezembro,
preferencialmente em outubro. A colheita ideal para o caule é em torno do 60o dia, no
início da floração. (SMALL, CHERNEY, 2016; YUAN, SCHLUTTENHOFER, 2017).
Outra qualidade do cânhamo é ser altamente resistente a pragas, necessitando
de mínimo ou nenhum agrotóxico para seu cultivo, além de ter propriedades
regenerativas do solo, sendo utilizado como cultura de rotação e para recuperação de
solos defasados através da nitrogenação. (PEEV, 2012).

2.2.1 Aplicações Industriais

Da poda do caule obtém-se, na parte exterior, a fibra de uso têxtil e, no seu


interior, o chamado "hurd" ou "chenèvote", utilizado para construção civil, forragem de
cama animal, isolamento térmico, acústico e de absorção, sendo um forte aliado por
suas propriedades herbicidas e inseticidas, além de ser resistente (PEEV, 2012;
SMALL, CHERNEY, 2016; YUAN, SCHLUTTENHOFER, 2017). "O interesse pelo
cânhamo industrial cresce em todo o mundo graças às suas qualidades: solidez,
resistência, isolamento e preservação do ambiente." (EIRES, 2006).
Basicamente são duas extrações que o cânhamo fornece: o caule e a semente.
Da semente extrai-se o óleo, que tem propriedades nutricionais como ômega 3, 6 e 9
e é considerado uma superfood, similar a soja. Também pode ser utilizado para
confecção de bioplásticos, para cosméticos e principalmente em medicamentos.
(YUAN, SCHLUTTENHOFER, 2017). "As sementes tornaram-se a fonte de um óleo
para sabões, tintas e produtos semelhantes. Entre os muitos plantadores da colônia
(EUA) que cultivaram uma plantação de cânhamo estava George Washington".
(NAHAS, 1986, p 34).
28

Figura 3 - Caule do cânhamo "hurd" (interno) e fibra (externo).

Fonte: Is industrial hemp a sustainable construction material? (PEEV, 2012).

O caule do cânhamo apresenta propriedades vantajosas de resistência,


isolamento, transpiração e leveza, além de ser uma fibra longa, difícil de romper. Muito
diferente da fibra de algodão, que apesar de apresentar algumas características como
a absorção, não é altamente resistente e tem fibras curtas. Tais características
garantem ao cânhamo um diferencial, pois estende a aplicação para inúmeras
indústrias.

Figura 4 - Características da fibra extraída do caule de cânhamo.

Fonte: elaborado pela autora com base nos autores da fundamentação teórica.
29

2.3 O CÂNHAMO ENQUANTO INTEGRANTE DO AGRONEGÓCIO

Compreende-se que o agronegócio é [...] o conjunto de todas as operações e


transações envolvidas desde a fabricação dos insumos agropecuários, das operações
de produção nas unidades agropecuárias, até o processamento e distribuição e
consumo dos produtos agropecuários in natura ou industrializados (ARAUJO, 2009,
p. 16). Nesse sentido, para o estudo de um mercado que está contido no agronegócio
é relevante trazer algumas noções para conceituação.
O agronegócio se comporta de forma diferente de outros sistemas produtivos,
tendo características próprias. Davis e Goldberg (1957) afirmam que os Sistemas
Agroindustriais (SAI) estão suscetíveis a perecibilidade rápida, sazonalidade e fatores
biológicos (figura 2).

Figura 5 - Sistema Agroindustrial (SAI).

Fonte: Livro "Gestão Agroindustrial" Batalha, 2001.

Vieira (2012) exemplifica, se uma plantação é atacada por pragas acarreta em


perda da produção ou gastos extra com inseticidas; os fatores climáticos também
aumentam o risco de perda da produção podendo ter períodos abundantes e períodos
de escassez; também, se após colheita abundante ocorra uma estocagem
inadequada, a produção pode ser comprometida em decorrência da perecibilidade.
30

Tais características influenciam o estudo de mercado no que tange ao comportamento


dos preços, principalmente, e consequentemente o lucro desses sistemas.
Dentro dos sistemas agroindustriais, a fibra de cânhamo é considerada no
grupo "não alimentar", é uma commodity que necessita de indústrias de apoio para
viabilizar sua comercialização, Lima et al. (2017) chamam atenção para a importância
das cadeias produtivas no setor agroindustrial, indicando que são ecossistemas
distintos que compõe o setor e por tal, assumem importante papel na economia, tanto
pela abrangência setorial como pelo papel da inovação nos diferentes níveis da
cadeia, visando aprimorar o processo produtivo e maximizar a lucratividade, conforme
ressalta:

"A terminologia “agribusiness” vem sendo amplamente utilizada para


denominar os segmentos da cadeia produtiva agropecuária, que inclui as
variadas atividades desenvolvidas por fornecedores, equipamentos, serviços,
chegando até a comercialização da produção agropecuária, sendo o setor
também responsável por inúmeros e grandiosos avanços no setor de
produção, alto percentual na geração de renda e empregabilidade,
alavancando a economia brasileira, e constituindo-se assim uma peça chave
na economia nacional". (LIMA et al., 2017).

2.4 MERCADO A PARTIR DA MUDANÇA NO AMBIENTE INSTITUCIONAL

A ideia central em estudar o mercado de cânhamo, especificamente os usos


da fibra, sustenta-se na necessidade de pensar em soluções sustentáveis não
somente no que diz respeito ao descarte de produtos, mas a todo ciclo de vida e dentro
desse, principalmente ao processo produtivo. Porém, a controvérsia em torno da
Cannabis contida na dualidade de opiniões entre o consenso social e a pesquisa
científica incitam que o ambiente institucional seja mencionado.
Quando a sustentabilidade entra em pauta, é esperado que busquem-se novas
soluções para que ocorra essa manutenção da vida moderna sem comprometer a
subsistência das próximas gerações. Assim responde-se a questão, por que pensar
cânhamo? Ou até mesmo, por que recuperar a ideia da fibra de cânhamo? A
sociedade moderna precisa de soluções ecologicamente eficientes e
31

economicamente viáveis, e o cânhamo aparece como um possível material


alternativo, conforme será relatado nos resultados dessa pesquisa.
Nessa ótica, o estigma social construído acerca da Cannabis começa a ser
questionado, resultando em pesquisa e desenvolvimento, e é a partir dessa junção
entre a demanda social pelo desenvolvimento sustentável e a pesquisa científica que
impulsionam a mudança institucional, permitindo com que formulem-se novas
legislações, mais adequadas a realidade da cultura do cânhamo e consolide-se o
mercado.

Figura 6 - Estrutura do ambiente institucional e organizacional no


estabelecimento de mercado.

Fonte: elaborado pela autora com base na fundamentação teórica.

Dessa forma, percebe-se que o ambiente institucional, sendo descrito como a


"(...) influência manifestada por meio das instituições, constituída por regras, normas
e crenças (HOFFMAN, 1999)" é o que altera o ambiente organizacional, delimitando
como se pode ou não agir, mediante um contexto ambiental complexo e dinâmico.
32

"Instituições são as regras do jogo numa sociedade, ou mais formalmente,


são as restrições humanamente criadas que moldam a interação humana.
Em conseqüência elas estruturam os incentivos na troca humana, seja
política, social, ou econômica. A mudança institucional molda a maneira como
as sociedades evoluem ao longo do tempo e, portanto, é a chave para a
compreensão da mudança histórica". (North, 1990, p.3).

Tal compreensão permite observar a mudança histórica ocorrida com o


contexto social do cânhamo no seu passado, e também possibilita indagar sobre o
futuro da utilização desse material. A mudança institucional, atrelada a demanda
social são os grandes vetores para o surgimento desse mercado. Abertas as portas
ao mercado, inicia-se uma nova incorporação sistêmica do desenvolvimento
sustentável em todos os participantes do processo evolutivo do setor,

"A quantificação significativamente de impactos contribuirá para escolha da


opção mais vantajosa para todas as partes, que deverá contemplar o custo
real daquela aquisição, sob o ponto de vista socioambiental e econômico.
Com isso, poderá ser potencialmente usado o poder de transformação do
mercado via decisões de consumo, que deverá comunicar e incentivar os
fornecedores a incorporar sustentabilidade em estratégias, processos e
produtos". (LUCCAS et al., 2015).
33

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

A presente pesquisa tem por finalidade ser básica e pura, o objetivo é


descritivo, Gil (2008) afirma que "as pesquisas deste tipo têm como objetivo primordial
a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou o
estabelecimento de relações entre variáveis", portanto, será feita uma descrição das
variáveis que compõe o cenário circundante do mercado/setor de cânhamo. Tem
abordagem qualitativa, que segundo Prodanov e Freitas (2013)

"considera que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, isto
é, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do
sujeito que não pode ser traduzida em números. A interpretação dos
fenômenos e a atribuição de significados são básicas no processo de
pesquisa qualitativa. Esta não requer o uso de métodos e técnicas
estatísticas. O ambiente natural é a fonte direta para coleta de dados e o
pesquisador é o instrumento-chave. Tal pesquisa é descritiva. Os
pesquisadores tendem a analisar seus dados indutivamente. O processo e
seu significado são os focos principais de abordagem". (PRODANOV;
FREITAS,2013).

Assim, pretende analisar criticamente, pelo método indutivo, os significados


dos componentes mercado, agronegócio e desenvolvimento sustentável, e fornecer
uma visão qualitativa do relacionamento entre esses. Gil (2008) atribui o seguinte
significado ao método indutivo

"parte do particular e coloca a generalização como um produto posterior do


trabalho de coleta de dados particulares. De acordo com o raciocínio indutivo,
a generalização não deve ser buscada aprioristicamente, mas constatada a
partir da observação de casos concretos suficientemente confirmadores
dessa realidade. Constitui o método proposto pelos empiristas (Bacon,
Hobbes, Locke, Hume), para os quais o conhecimento é fundamentado
exclusivamente na experiência, sem levar em consideração princípios
preestabelecidos". (GIL, 2008).

Se dará através da revisão bibliográfica dos conceitos circundantes ao estudo


do segmento escolhido (mercado de cânhamo). Segundo Marconi e Lakatos (2010),
34

a finalidade da pesquisa bibliográfica é proporcionar ao pesquisador contato direto


com tudo aquilo que já foi documentado (escrito, dito ou filmado) sobre uma
determinada temática ou assunto, e Gil (2008) complementa

"A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao


investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do
que aquela que poderia pesquisar diretamente. Esta vantagem se torna
particularmente importante quando o problema de pesquisa requer dados
muito dispersos pelo espaço". (GIL, 2008)

Como forma de atender aos objetivos geral e específicos, será caracterizado


o mercado em foco, através da análise documental e bibliográfica de dados
secundários.

"Existem, de um lado, os documentos de primeira mão, que não receberam


qualquer tratamento analítico, tais como: documentos oficiais, reportagens de
jornal, cartas, contratos, diários, filmes, fotografias, gravações etc. De outro
lado, existem os documentos de segunda mão, que de alguma forma já foram
analisados, tais como: relatórios de pesquisa, relatórios de empresas, tabelas
estatísticas etc". (GIL, 2008)

Serão compreendidas as variáveis: empresas, consumidores, estrutura de


mercado, distribuição geográfica, tendência crescimento setor (vendas, produção,
empregos), capacidade instalada e produção e análise do padrão de mudança
tecnológica (inovações).

Figura 7 - as 5 forças de Porter.

Entrada de Novos
Concorrentes

Poder de Barganha dos Concorrência de Poder de Barganha dos


Fornecedores Mercado Clientes

Inovações substitutas em
potencial

Fonte: Elaborado pela autora com base em "Competição", Porter, 2004.


35

Esse modelo de análise de indústrias é uma adaptação do modelo proposto


por Michael Porter em 1986, onde o autor ressalta que analisar a estrutura industrial
de uma empresa exerce forte influência nas regras competitivas relacionadas ao
ambiente em que está inserido.
Essa lógica dá origem ao Modelo das 5 forças de Porter, que apesar de terem
finalidade voltada a competitividade da empresa, delineiam a competição de um setor,
portanto a análise dessas forças resulta em um panorama de mercado de possível
expansão ou saturação. Ao analisar o poder de barganha dos fornecedores e dos
clientes, a ameaça do surgimento de novos produtos no setor e novos concorrentes,
assim como a competição existente do setor, é possível estabelecer o comportamento
do mercado e se há potencial ou não.
36

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Como previamente apresentado, o mercado da Cannabis envolve tanto a


produção para fins recreativos - aqui será mencionado como Cannabis para uso adulto
- quanto à produção para uso industrial. A cultura é bastante resistente e cresce em
praticamente qualquer solo fértil e temperaturas temperadas, requer pouca água e
fertilizante para produção.
Sendo o presente estudo focado nos usos industriais, têm-se os principais
segmentos: na produção para extração da semente, englobando os mercados
alimentício, farmacêutico, cosmético e, em menor escala, de biocombustíveis e
bioplástico, entre outros; e, na produção para extração do caule, tendo principal
utilização na indústria têxtil e da construção civil, como concreto e como isolamento
acústico e térmico. O processo de colheita do caule para fibra é recomendável no
início do processo de floração, já para semente, posterior a floração.
Como forma de atingir aos objetivos geral e específicos, os resultados serão
apresentados conforme a ordem dos objetivos específicos. A distribuição global da
demanda será abordada com foco nos principais mercados produtores e
consumidores. Os mercados maduros de cânhamo são China, Canadá e a União
Europeia, além desses serão apresentado os mercados emergentes e com potencial
de expansão, fazendo conexão com os três pilares do desenvolvimento
sustentabilidade (people - profit - planet) e as pegadas hídrica e de carbono.

4.1 POTENCIAL ECOLÓGICO DA FIBRA DE CÂNHAMO

Medir a sustentabilidade no que tange a produção para o setor têxtil envolve


três principais fatores: o consumo de água, o consumo de energia e a utilização de
agrotóxicos (para as fibras naturais), nocivos à terra e aos consumidores. Além desses
também incluem a biodegradabilidade, o descarte de recursos, entre outros.
Almeida et al. (2016) destaca que os resíduos industriais são altamente
prejudiciais ao meio ambiente, principalmente aos recursos hídricos, sendo que
desses resíduos os da indústria têxtil tem alta carga poluente. No Brasil, a estimativa
de resíduos têxteis é de 175 mil toneladas/ano. Desse total, apenas 36 mil toneladas
são reaproveitadas na produção de barbantes, mantas, novas peças de roupas e fios.
37

(ABIT, 2017). Têxteis produzidos com fibras sintéticas correspondem a 25% do


consumo brasileiro. Em escala mundial, esse percentual passa para 60%. Em análise
apenas dos principais fatores Fletcher e Grose (2011) elaboraram um gráfico
comparativo entre as fibras mais utilizadas no mundo e seu consumo de energia e
água (gráficos 1 e 2).

Figura 8 - Consumo de Água das Fibras.

Fonte: Livro "Moda e Sustentabilidade: design para mudança (2011)"

Quando analisado o consumo de água das fibras (gráfico 1), torna-se


indiscutível a necessidade de alternativas a cultura do algodão, que apesar de estar
categorizado como um fibra natural tem um processo produtivo não alinhado ao
desenvolvimento sustentável. Seu consumo de água é de cerca de 700 galões
(aproximadamente 2.650 litros) para produzir fibra suficiente para uma camiseta. O
cânhamo apresenta consumo consideravelmente menor, chegando a 20% menos de
água para produção em uma mesma quantidade de terra (PEEV, 2012), "O cânhamo
é uma cultura que não é exigente em água. O seu consumo pode ser comparado ao
do girassol. Suas necessidades de água são mais importantes no período de
crescimento ativo (6 semanas a partir do 20o dia depois da sementeira)" (DRAP,
2011).
38

De acordo com dados do Banco Mundial, a produção de têxteis é responsável


por mais de 20% da poluição da água em escala global, ou seja, água cinza. O Brasil
sendo o quinto maior produtor de algodão do mundo e exportando apenas 0,6% dessa
produção é um grande contribuinte. Chapagain et al. (2006) verificaram a pegada
hídrica do algodão e atribuíram a esse como sendo consumidor de 2,5% de toda água,
sendo que 44% de toda água virtual em algodão produzido é destinada a exportação.
Acrescentado a água, a análise de consumo energético (gráfico 2) é ainda mais
impactante, aqui evidenciam-se os perigos na continuidade da produção de fibras
derivadas do petróleo. Os sintéticos, que aparentemente poderiam ser a alternativa
viável, tem um consumo energético alto de aproximadamente 11 bilhões de litros de
petróleo por ano, além da sua não biodegradabilidade. O consumo energético dos
sintéticos deriva da utilização de petróleo, contribuindo com a pegada de carbono
desses materiais, como os acrílicos, PET, naylon, PLA e PTT.

Figura 9 - Consumo de Energia das Fibras.

Fonte: Livro "Moda e Sustentabilidade: design para mudança (2011)".

Quanto à dependência de agrotóxicos, o cânhamo requer pouco ou nenhum


em sua produção, é altamente resistente a pragas e requer apenas algum controlável
cuidado com fertilização (DRAP, 2011; YUAN, SCHLUTTENHOFER, 2017). Em
39

comparação, a cultura de algodão é a principal contribuinte para a perda da qualidade


produtiva do solo, pois sua alta dependência de agrotóxicos faz com que o solo fique
contaminado. “As plantações de algodão convencional são responsáveis pelo
consumo de cerca de 25% da produção de agrotóxicos do mundo”, diz Dalfran
Gonçalves Vale, técnico da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária),
consumindo em torno de 250g de químicos para produzir uma camisa de algodão.

Figura 10 - Comparativo entre as fibras mais utilizadas.

Fonte: Ministry of Hemp, 2017.

O The Agricola Group do Canadá forneceu em 2008 um relatório sobre o


cânhamo industrial onde enfatiza que esse quando cultivado em práticas sustentáveis
produz plantas mais altas, de fibra mais longa, resistente e brilhante que o algodão
orgânico - uma tendência entre as fibras naturais. Além de ser altamente absorvente,
anti bactericida e resistente a mofos, pois gera uma fibra respirável.
40

Figura 11 - Tecidos 100% em cânhamo cru e tingido.

Fonte: Bombay Hemp Company, 2019.

Ao analisar a construção civil, Barreto (2005) apud Roth e Garcias (2009)


ressalta que a indústria produz impactos ambientais desde a extração de matérias
primas, até os serviços de canteiro de obra e finalmente a destinação dos resíduos
gerados, tanto na construção quanto na demolição. A construção civil convencional
opera atualmente em maioria com tijolos de barro e concreto.
Para o setor, medir a sustentabilidade está atrelado com o gasto energético
para produção dos materiais e o ciclo de vida dos produtos principalmente pela gestão
de resíduos da indústria, pois tais materiais não são absorvidos pelo meio ambiente e
geram áreas degradadas - áreas onde o descarte incorreto impede a manutenção dos
processos naturais do meio ambiente -; toma-se a indústria cimenteira como exemplo,
sendo responsável pela geração de mais de 6% do total de CO2 gerado no Brasil.
Juntamente com o setor têxtil, dentre as atividades produtivas, o setor de
construção civil é um dos que mais geram resíduos, o que está diretamente
relacionado à falta de processos adequados de descarte, e aos materiais
disponibilizados para cada serviço. Um melhor gerenciamento nesse quesito, além de
representar um ganho para o meio ambiente, também gera economia para a obra.
(ROTH, GARCIAS, 2009).
A utilização do Hempcrete tem mínima emissão de CO2, tanto o processo
produtivo quanto a construção em si não contém contribuições consideráveis,
inclusive, a principal característica sustentável do material é aprisionar CO2 na
edificação, tornando-a mais resistente ao longo do tempo; em 1m3 de cânhamo
podem ser aprisionados 108kg de CO2 retirados da atmosfera, tal característica
41

garante ao Hempcrete qualidade de carbono negativo, ou seja, sua pegada de


carbono é desconsiderável. (SANTOS, 2013).

Figura 12 - Hempcrete.

Fonte: The Architects Newspaper, 2019.

Eires (2006) pontua algumas características da construção com cânhamo que


se alinham ao desenvolvimento sustentável. Além de ser carbono negativo, o
consumo energético da produção da fibra é consideravelmente mais baixo que em
materiais convencionais, seu ciclo produtivo é curto e permite o abastecimento da
indústria sem a necessidade de extração mineral. Outra característica que contribui
positivamente é a leveza do material, em relação a custos logísticos de transporte e
armazenamento há um potencial de grande redução.
Segundo o professor Peter Walker da Universidade de Bath no Reino Unido,
pesquisador da área da construção, "o impacto na indústria da construção é enorme,
por exemplo, é estimado que a manufatura do cimento contribui mundialmente com
aproximadamente 10% de toda emissão de CO2 industrial" (AZOM, 2008).
A indústria do cânhamo atinge os três pilares (people - profit - planet) provendo
crescimento econômico através de produtos competitivos para diversos setores,
estimulando a agricultura local a operar com uma cultura sustentável, gerando um
impacto sistêmico a longo prazo em toda cadeia de valor produtiva. O The Agricola
Group canadense levanta que há quatro principais impactados pelo desenvolvimento
do mercado de cânhamo, que são:
1. Produtores, no fortalecimento da agricultura local;
2. Consumidores, com alternativas sustentáveis ao seu consumo;
3. Setor, produzindo um material versátil e de baixo custo;
42

4. Meio Ambiente, resultado de uma produção de baixo impacto,


biodegradável, baixa pegada hídrica e de carbono. (National Industrial Hemp Strategy,
2008).
Nas palavras de Peev (2012) "The organic nature of hemp, its resilience,
abundance, large biomass, fast growth, carbon negativity, simplicity of handling and
other qualities elevate hemp up to all criteria for sustainable, eco-friendly material"
(PEEV, 2012).1

4.2 PANORAMA DO MERCADO GLOBAL DE CÂNHAMO

Segundo dados do New Frontier Data (2018), a China encontra-se em posição


de liderança mundial em produção de cânhamo. Em 2017 o país plantou
aproximadamente 113 mil acres (aproximadamente 47 mil hectares), representando
um aumento de 15% em relação ao ano anterior e, de todos os produtos
comercializados 76% foram têxteis, equivalente a US$ 823 mil. Essa posição é
garantida pelo dominante mercado têxtil chinês, que representa cerca de 50% da
produção mundial. Em 2018 a China vendeu em torno de US$ 1,2 bilhões em produtos
de cânhamo. Além de ser a maior produtora de têxteis de cânhamo, também é a maior
consumidora.
Todavia, acredita-se que o valor de 113 mil acres produzidos está abaixo da
real estimativa de produção, que é calculada entre 200 a 250 mil acres. Essa
divergência se dá pois há muitos cultivadores que optam pelo anonimato, pela
insegurança de terem sua atividade confundida com a prática ilegal do plantio no país,
de uso adulto da Cannabis.
O Canadá é o país mais antigo do mundo a produzir e comercializar cânhamo
com bases legais em escala federal, em 2017 foram plantados 137 mil acres de
cânhamo em território canadense e grande parte dessa produção é destinada a
exportação, sendo os Estados Unidos seu principal consumidor. O estado de
Saskatchewan é o líder com 56 mil acres, seguido por Alberta com 45 mil acres e
Manitoba com 30 mil acres.

1
Em tradução livre "A natureza orgânica do cânhamo, sua resiliência, abundante, quantidade de
biomassa, crescimento rápido, carbono negatividade, simplicidade de cultivo e outras qualidades
elevam-no a todos os critérios de sustentabilidade em um material ecológico".
43

A China possui um mercado estabelecido, ocupando posição de líder mundial


em produção e consumo e com expectativas de crescimento tanto para o setor têxtil
quanto para o mercado da semete, emergente no país. Porém, opera sem qualquer
regulamentação federal a respeito da cultura ou distinção entre as variáveis da
Cannabis, e consequentemente, com insegurança por parte dos produtores, tornando
os dados de mercado imprecisos. Enquanto isso, de acordo com dados do Canadian
Hemp Trade Alliance (2018), o Canadá esteve a frente no que se refere a
regulamentação do mercado e investimento em pesquisa na área, tendo o território
federal com o uso plenamente regulado, o que garantiu ao país soberania em
exportações desde que iniciou em 1998 o plantio industrial. Juntos, esses dois países
correspondem a 70% do mercado global.

Figura 13 - Divisão do mercado de cânhamo estadounidense.

Fonte: New Frontier Data, 2018.

Um novo mercado começa a se estabelecer nos Estados Unidos, com a 2018


Farm Bill, o governo americano liberou o plantio de cânhamo industrial em nível federal
para impulsionar a agricultura local. Desde 2014, o governo mira no cânhamo como
um possível fator de crescimento econômico, na Farm Bill daquele ano, permitiu a
emissão de licenças específicas para agricultores e instituições cultivarem cânhamo
com a finalidade de pesquisa.
44

A partir da 2014 Farm Bill, o fenômeno do cânhamo começou a ser visualizado


nos Estados Unidos e entre os anos de 2016 e 2017, a quantidade de acres cultivados
cresceu em torno de 140% e o número de produtores dobrou no mesmo período. O
Hemp Industry Daily (2018) compila em um relatório os top 10 estados que entraram
para esse mercado a partir de 2014 e, de acordo com o New Frontier Data, em 2017
o cânhamo já crescia em 19 estados americanos com um total de mais de 25 mil acres
cultivados, sendo desse total 70% cultivado para o CBD - utilizado principalmente na
indústria farmacêutica e alimentícia -, 20% cultivados para extração de semente e 10%
para fibra.
Entre os estados onde visualiza-se o interesse em cultivar a fibra estão
Colorado, com 9.700 acres cultivados, seguidos por Carolina do Norte com 3.100
acres, Tennessee com 718 acres, Vermont com 560 acres e Nevada com 490 acres.
O preço por 1 pound (aproximadamente 454 gramas) varia entre US$ 0,10 e US$
0,19, tanto para fibra quanto para o hurd. Segundo o Hemp Business Journal, as
vendas de cânhamo americano em 2017 chegaram a US$ 800 milhões.
A União Europeia está entre os maiores produtores. De acordo com dados da
European Industrial Hemp Association, a França é a líder do bloco. Em 2017 teve um
aumento de 17,5% na produção em relação ao ano anterior, totalizando mais de 42
mil acres cultivados. Porém, em apenas dois anos a Estônia conseguiu emergir no
mercado e competir diretamente com a França, estabelecendo-se como o segundo
maior produtor, cobiçando a posição de liderança.
Outros países europeus iniciam sua entrada nesse novo mercado, a Itália teve
o cultivo do cânhamo industrial legalizado em 2016 para produção de alimentos,
tecidos, roupas, biocombustíveis, material de construção e alimentos para animais. A
utilização das flores, no entanto, não entra na regulamentação. (CBDB, 2018). O
governo iniciou um projeto piloto para 400 hectares e em 2018 esse cultivo alcançou
4 mil hectares, em comparação ao cultivo de trigo, um agricultor italiano lucra em torno
de €2.250,00 a mais com o cultivo de cânhamo por hectare. (LORENZO TONDO, 2018).
A Holanda, que permite a comercialização de produtos canábicos desde 1970,
mas não sua produção, recentemente em agosto deste ano (2019) lançou um
programa parecido com a iniciativa americana de 2014, permitindo o plantio para
pesquisa, não somente de cânhamo mas de Cannabis em todos seus usos, num
programa de quatro anos para verificar a viabilidade da legalização da produção; e
45

também a Alemanha, que emerge no mercado buscando crescimento rápido para


competir pela posição da Estônia de segundo maior produtor europeu.

Figura 14 - Evolução dos mercados maduros de cânhamo em acres.

Fonte: Hemp Business Journal, 2018.

O continente africano contempla um cenário de oportunidades para o setor


tanto do cânhamo industrial quanto para a Cannabis em geral. As aplicações
industriais do cânhamo na construção civil e têxtil, de baixo impacto ambiental e custo,
são fortes contribuintes com os objetivos de desenvolvimento sustentável para 2030
estabelecidos pela ONU em 2015, que são prioridades na África. É esperado um
crescimento populacional de 58% até 2050, passando de 1,26 bilhões para 2,53
bilhões de pessoas, se estender a linha de tempo para 2100, estima-se que o
continente africano sozinho contribua com 88% do crescimento populacional global.
Estima-se que a indústria da construção civil na África Sub-Saariana cresça em
torno de 6,6% em 5 anos, podendo chegar a ser avaliada em US$ 12.9 trilhões pelo
ano de 2025, a par com essa estimativa, essa porção do continente contém mais de
200 milhões de hectares de terras não cultivadas, sendo que a agricultura representa
60% da força de trabalho e receita do continente.
O crescimento populacional, as terras aráveis e a força da agricultura moldam
um cenário ideal para suportar as necessidades vindouras da África, que atualmente
batalha contra a desnutrição da população e a falta de condições adequadas de
46

habitação e saúde, poderá se beneficiar do cultivo do cânhamo industrial para


produção de moradias, vestuário, bens de uso e consumo, geração de renda e até
mesmo nutrição, para o caso da semente, isso sendo uma produção alinhada ao
desenvolvimento sustentável, atingindo pelo menos quatro objetivos dos 17 traçados
pela ONU para 2030. Nigeria, Ethiopia, Tanzania, Zambia e Kenya, são os países que
estarão liderando o crescimento da construção civil do continente.
O Uruguai em 2014 foi o país que abriu os mercados na América Latina,
legalizando federalmente o cultivo e comercialização de Cannabis, abrindo portas a
discussão em outras nações latinas que poderiam suportar o cultivo. O New Frontier
Data estimou que em 2017 o mercado latino americano atingiu US$ 173 milhões com
produtos derivados de cânhamo, estima-se ainda que até 2020 esse número passará
para US$ 519 milhões.
Estima-se que até 2022 esse cresça aproximadamente 30%, chegando a valer
algo próximo a US$ 2 bilhões. Sua produção já é presente em mais de 47 países em
alguma forma de extração, sendo a indústria farmacêutica a possuidora da maior fatia
de mercado, e a fibra representando cerca de 20%.

4.2.1 O mercado têxtil da fibra

Atualmente o mercado mundial de uso de fibras têxteis tem uma configuração


que representa cerca de 38% tendo o algodão como matéria prima e outros quase
60% de matéria prima sintética (ABIT, 2017). A fibra de cânhamo no mercado têxtil
hoje assume cerca de 0,7% de participação. O cânhamo tem o mais alto rendimento
de todos os produtos têxteis naturais, com até o dobro do rendimento de fibra por
hectare de algodão, ou seja, em uma base anual, um acre de cânhamo produz tanta
fibra como 2 a 3 acres de algodão.
A valor atribuído a fibra de cânhamo é influenciado pelo comprimento,
espessura, coloração e demanda por um padrão de qualidade específico de fibra.
Esses atributos são adquiridos no plantio, com a maturidade da planta, a forma com
que o desfibramento é conduzido e principalmente com o armazenamento adequado.
Diante desse cenário, empresas como a Levi's, Adidas e Nike já incorporaram
produtos à base de cânhamo em suas linhas de produção. Outras empresas surgem
dedicadas exclusivamente a fabricação de produtos de cânhamo, como é o caso da
47

Bohempia, empresa de calçados europeia fundada em 2015 ou da Kaayan, empresa


brasileira que comercializa mochilas e bonés feitos 100% à base de cânhamo. Na
mesma linha de trabalho também a Hamphaty de Portugal, a HempZone do Texas.
Na linha de vestuário a californiana DressToEarth, a HempOrganicLife com colchas
para cama, entre tantas outras que surgem no cenário, com os mais diversos
produtos.
O caso da Levi's é de interessante análise, hoje a companhia fabrica jeans
compostos 69% de algodão e 31% de cânhamo. Em uma entrevista ao Business
Insider no primeiro semestre deste ano, dada pelo Chefe de Produção e Inovação
Global da empresa, Paul Dillinger afirma que o esforço da empresa é movido por uma
observação do consumo de água das plantações de algodão que servem de matéria
prima para seus jeans. Com a legalização da cultura do cânhamo nos Estados Unidos,
o diretor está comprometido com o desenvolvimento de um tecido de 100% cânhamo
que tenha sensação de algodão, e assim espera reduzir em ⅔ o consumo de água da
empresa.
O Hemp Business Journal (2018) apresenta que a fibra de cânhamo no
mercado americano é vendida por aproximadamente US$ 260 por tonelada.
Normalmente de uma plantação obtém-se em torno de 2,5 a 4 toneladas de fibra por
acre, o que gera um lucro de aproximadamente US$ 480 por acre para os
agricultores/produtores.
Os têxteis de cânhamo dominaram mais de 20% da participação do mercado
norte americano em 2018, o Global News Wire projeta um crescimento de 13,2% para
o mesmo período no ano seguinte. Na Ásia, espera-se um crescimento de 14%,
devido ao aumento da aplicação de fibras têxteis em novos produtos. (FIOR
MARKETS, 2019).

4.2.2 O Mercado da fibra na construção civil

Entre diversas atividades produtivas, o setor de construção civil é um dos que


mais geram resíduos. Isso, muitas vezes, está relacionado à falta de processos
adequados e aos materiais disponibilizados para cada serviço. Um melhor
gerenciamento nesse quesito, além de representar um ganho para o meio ambiente,
também gera economia para a obra.
48

A parte interna da fibra do cânhamo possui algumas nomenclaturas ao redor


do mundo, sendo conhecido como hurd, shiv ou chenèvote. Nos tempos mais antigos,
essa parte do caule era descartada pelos produtores, pois não havia aplicação para
essa fibra lenhosa e curta. Com a evolução da construção iniciaram-se estudos com
cânhamo, e em 1987 na França surgem as primeiras edificações de argila reforçadas
com cânhamo. Atualmente a França é o maior produtor europeu, com largos 95% de
produção de papel e compósitos. (EIRES, 2006).
O material de construção é feito com uma base de hurd, misturado a cal e água
para dar ligação. Existem três aplicações, a mais popular sendo o Hempcrete, um
bloco pré fabricado que tem formato parecido com um tijolo de concreto. Também a
aplicação feita com um jato pulverizante ou por compactação, a partir de moldes. Pode
ser utilizado em paredes exteriores e interiores. A utilização estende-se ao isolamento
térmico e acústico. (EIRES, 2006; SANTOS, 2013).
A resistência se de pela qualidade do Hempcrete de absorver CO2 da
atmosfera e solidifica-lo na construção, fazendo com que a resistência aumente ao
longo do tempo. A cal possui baixa pegada de CO2 no seu processo produtivo,
portanto essas características atribuem ao Hempcrete qualidade de carbono negativo.
(AZOM, 2009).
Espera-se que o setor da construção ultrapasse US$ 10 trilhões até o ano de
2023, crescendo em torno de 4% de 2018 a 2023. O crescimento é impulsionado pelo
aumento na construção de moradias, devido ao aumento populacional global e
urbanização crescente.
No relatório Growth Opportunities in the Global Construction Industry (2018) é
pontuado que atualmente existe uma tendência na demanda por formas inovativas de
construir, e a "construção verde" é a mais procurada, visando reduzir a pegada de
carbono desse sistema industrial.
As expectativas para 2022 são de crescimento de 3,6% ao ano a partir de 2018,
o que representa uma pequena queda comparado ao crescimento de 2017 de 3,7%.
Estima-se que o mercado global da construção passe de dos US$ 10 trilhões para
US$ 12 trilhões. Isoladamente na Europa, o mesmo período de análise estima um
crescimento de 2,4% ao ano, representando um aumento de 1,1% comparado ao ano
de 2017.
49

Estima-se ainda que a região da Ásia-Pacífico seguirá representando a maior


fatia da indústria de construção global, uma vez que inclui os grandes mercados do
sudeste da Ásia, China, Japão e Índia.

"Embora o crescimento nos mercados emergentes permaneça superior ao


das economias avançadas no período previsto, haverá uma desaceleração
constante no crescimento dos gastos com construção em mercados
emergentes - refletindo principalmente as tendências na China, que tem o
maior mercado da construção no mundo. Em 2018-2022, o crescimento da
produção de construção em mercados emergentes terá uma média de 4,3%
ao ano, ante 4,9% em 2013-2017". (LUCINTEL, 2017).

A fibra de cânhamo estará presente nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022,


o produto NForce-Fiber é um aditivo de concreto de fibra de cânhamo
desenvolvimento pela canadense Canadian Greenfield Technologies e lançado em
2015, foi projetado para reduzir o aparecimento de trincas nos estágios iniciais do
concreto (72h). A escolha do material aconteceu após uma série de testes que
mostraram resultados promissores em relação a resistência, e será aplicado nos
trilhos de corrida e trenó. (JOURNAL OF COMMERCE, 2018).

4.3 POTENCIAL MERCADO BRASILEIRO

A predominância do agronegócio no Brasil é inquestionável, a valoração do


mesmo também. Comerciais como o "agro é tech, agro é pop, agro é tudo" enfatizam
a importância desse setor para a economia brasileira. O setor contribui com a balança
comercial nacional, sendo forte exportador de commodities como a soja, milho, café e
açúcar. O desenvolvimento econômico nacional atrelado ao agronegócio apresenta
resultados também na absorção de mão de obra, emprega cerca de 19,82% e
representa, a cada real produzido no agronegócio, R$ 1,66 gerados na economia.
(SANTOS, et al., 2016; CNI, 2019).
Com o crescente interesse pela cultura do cânhamo, pesquisadores da
Universidade Federal de Viçosa, através da criação da StartUp ADWA, mapeou o solo
brasileiro para a adaptabilidade ao cultivo da Cannabis Sativa L e o resultado é país
quase em absoluto apto, com terra e clima propícios, para não dizer ideais. A edição
50

do Globo Rural de novembro apresenta esse estudo aos produtores nacionais e estiva
que o mercado brasileiro pode atingir R$ 4,7 bilhões de reais se regulamentado.

Figura 15 – Aptidão agroclimática ao cultivo da Cannabis Sativa L no Brasil.

Fonte: ROCHA, 2019.

“A partir da análise destes dados é possível confirmar que o Brasil possui


grande potencial para o cultivo de Cannabis spp. para fins de uso medicinal
e industrial, já que, de acordo com a variedade e a finalidade do cultivo, as
áreas que receberam classificação de aptidão para o cultivo entre boa e ótima
foram responsáveis por valores entre 70% e 95% do território nacional. Para
o cultivo de fibras o território brasileiro possui entre 80% e 95% de áreas com
aptidão entre boa e ótima. Para o cultivo de flores este percentual foi superior
a 80% e para o cultivo e sementes superior a 70%.” (ROCHA, 2018, pg 4).

As áreas com maior aptidão são o nordeste brasileiro, a região centro-oeste,


principalmente próximo à divisa com o Paraguai. Assim, há um significativo potencial
produtivo nacional para a Cannabis Sativa de usos industriais, que poderá, numa
eventual mudança legislativa, contribuir com o agronegócio brasileiro, que já é forte,
agregando valor econômico nessa nova commodity.
51

A indústria nacional emprega 9,4 milhões de trabalhadores, representando


20,2% de participação no emprego formal do Brasil, a indústria tem importante papel
no crescimento economico do país, sendo que cada R$ 1,00 produzido na indústria,
são gerados R$ 2,40 na economia brasileira.
Quando olhamos para o mercado têxtil brasileiro, o cenário de oportunidade é
grande uma vez que está entre os 5 maiores produtores mundiais. Segundo dados da
ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil), o setor empregou em 2018 1,5 milhão
de pessoas em mais de 33 mil empresas, correspondendo a 16,7% dos empregos
brasileiros e 5,8% do faturamento da indústria de transformação, aproximadamente
US$ 40 bilhões.

Figura 16 - Índices de expectativa da indústria brasileira da construção.

Fonte: Indicadores CNI, ISSN 23-7322, Ano 10, Número 8, 08/2019.


52

A oportunidade no setor, expande-se ao trazer o conceito de Ecodesign (2017)


pelo Ministério do Meio Ambiente como uma forma prática de conduzir a iniciativa
fabril, principalmente no que diz respeito a escolha de materiais de baixo impacto
ambiental, a eficiência energética, e a durabilidade dos produtos, sendo altamente
alinhados a Economia Circular. Portanto, ambas tendências requerem a utilização de
materiais com qualidades assumidas pela fibra do cânhamo já mencionadas.
De acordo com dados da Confederação Nacional das Indústrias (2019), o
cenário também é otimista para a construção civil brasileira. No relatório de sondagem
da industria, trazido no gráfico 4, de agosto desse ano, os índices de expectativas de
nível de atividade e compras de insumos e matérias primas aumentaram 0,3 e 1,1
ponto, respectivamente, relativos ao mês anterior. O indicador de nível de atividade
registrou 54,8 pontos, aumentando 4,5 pontos em relação a setembro de 2018. O
indicador de compras de insumos e matérias primas atingiu 53,7 pontos, 4,6 pontos
acima do observado há 12 meses. As expectativas de novos empreendimentos e
serviços e de números de empregados recuaram 0,6 e 0,2 ponto, respectivamente,
mas ainda indicam otimismo. O índice de expectativas de novos empreendimentos e
serviços alcançou 53 pontos, 2,6 pontos acima do observado no ano anterior. Na
mesma base de comparação, com incremento de 3 pontos, o indicador de
expectativas do número de empregados registrou 52,4 pontos. (CNI, 2019).
Desde o início do século o Brasil se vê em uma crescente de demanda
internacional por bens primários e exportação de commodities, ocasionada pela
elevação dos preços internacionais, o que estimula a economia nacional, porém
fragiliza o país na dependência de exportações, em decorrência da volatilidade dos
preços dos produtos.
Apesar de ocupar o 8o lugar no ranking das maiores economias do mundo
(IMF, 2017), com um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 6,3 trilhões, em 2016, e PIB
per capita de R$ 30.407 (IBGE, 2016), a economia brasileira apresenta um cenário de
oportunidade para incorporar soluções atreladas ao desenvolvimento sustentável e
visando uma economia circular, podendo

"agregar valor às commodities; ao aumentar a oferta de empregos; ao


promover práticas associadas a serviços de manutenção; ao criar mais
atividades econômicas estruturadas relacionadas aos ciclos reversos, como
a reciclagem (recuperação de materiais) e a remanufatura (recuperação de
53

produtos), e fortalecer as cadeias; e ao promover novos negócios com


soluções inovadoras que aumentem a competitividade e a penetração da
indústria nacional nos mercados nacional e global. Mas, para que isso ocorra,
governo, empresas, universidades e toda a sociedade precisam mudar os
atuais modelos mentais. A partir disso, novos negócios, novas cadeias de
valor, novas condições facilitadoras (como políticas públicas e tecnologias)
precisam ser desenvolvidas para a formação de um Sistema de Negócios
Circular". (CNI, 2018).

A visão de negócio circular permite a diferenciação de mercado e acesso a


novos, partindo da criação de produtos e serviços inovadores, gerando novas fontes
de receita e perfis de consumidores.

"no Brasil, várias oportunidades já identificadas no setor industrial podem ser
exploradas com novos modelos de negócios, design, recuperação dos
materiais, além da economia informal existente. Entre elas pode-se citar o
potencial: do setor eletroeletrônico, com a recuperação dos materiais e novos
serviços; de construção civil, com a redução da quantidade de resíduos
gerados; têxtil, com novos materiais e cadeias circulares de valor; e plástico,
com grandes oportunidades de redução e recuperação, além de novos
materiais". (ELLEN MACARTHUR FOUNDATION, 2017 apud CNI, 2018).

É evidente que a oportunidade somente seja viável a partir de uma mudança


institucional e legislativa no país, porém, com a crescente demanda mundial pelo
desenvolvimento sustentável, a competição entre os países se dará no longo prazo
levando em consideração a adesão das empresas aos três pilares.
Conforme ressalta Elkington (2012) "um futuro crescimento da indústria
enforcará o desenvolvimento de novos indicadores de sustentabilidade", atrelado a
novos indicadores, a competição do setor começará a ser influenciada pelo
alinhamento das empresas com as práticas sustentáveis, gerando uma demanda
sistêmica por novos produtos no que tange à relação consumidor - empresa -
fornecedor [...] "explorando esse contexto, aliado a biodiversidade, diversidade
sociocultural, cultura de inovação e empreendedorismo, o país tem o potencial de se
tornar a referência de inovação e geração de valores econômico, ambiental e social
do século XXI". (CNI, 2018).
54

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O mundo como se conhece está encarando uma crise de sustentação,


ocasionada por diversos fatores como o crescimento populacional e maior demanda
por produção industrial de vestuário, moradia, bens de uso e consumo em geral e
demais necessidades de manutenção da vida cotidiana. Esse cenário ocasiona um
abuso dos recursos naturais disponíveis, gerando o que passa a ser conceituado
como pegada hídrica e de carbono, onde o consumo de água e emissões de CO2 na
atmosfera estão além da capacidade de renovação natural e portanto desalinhadas
ao conceito de sustentabilidade, social, econômica e ambiental.
O contexto de crise incita a necessidade de observação dos modos de vida
atuais e a busca por novas formas de se relacionar com o consumo. A pesquisa
científica é impulsionada a gerar inovação e conhecimento acerca de novas possíveis
fontes de matéria prima que possibilitem a criação de bens de consumo próximas as
convencionalmente utilizadas, mas que contribuam para o equilíbrio do sistema ao
invés de degradá-lo.
O cânhamo, amplamente utilizado em mais de 25.000 aplicações industriais
até a década de 30, é proibido a posteriori e retorna a ser buscado como uma possível
solução para alguns dos problemas gerados pela ação humana na Terra. Inicia-se,
com a virada do século, as pesquisas relacionadas à utilização dessa planta, dando
margem a uma melhor compreensão das suas reais características e diferenças de
espécie. Com o passar das décadas, mais experimentos surgem e novas hipóteses
são confirmadas a respeito da cultura do cânhamo.
Apesar de pertencer à espécie Cannabis Sativa L, o cânhamo não apresenta
as mesmas características que a conhecida e estigmatizada marijuana, seu
percentual de THC (substância psicotrópica) é inferior a 0,3%, sendo insignificante
para uso recreativo, mas muito adequada a uma gama de aplicações industriais. O
cânhamo é dividido basicamente em caule e semente - mas também há a folha e
flores. Da poda do caule são originadas diversas aplicações nas indústrias têxtil e da
construção civil, papeleira e de cordoaria, entre outros.
Ao analisar as premissas do desenvolvimento sustentável e compará-las com
as propriedades apresentadas pela fibra de cânhamo, conclui-se que esse é
perfeitamente adequado para a fabricação de vestuário, cordoaria, cama animal,
55

compósitos, materiais de construção, base de concreto, móveis e isolamento, tanto


térmico quanto acustico.
A partir da mudança institucional em alguns países, o mercado vem
apresentando um cenário de crescimento e expansão, principalmente a partir de 2014.
Em 2018 estimava-se que até 2022 houvesse um crescimento de aproximadamente
30%, chegando a valer algo próximo a US$ 2 bilhões. Sua produção já era presente
em mais de 47 países em alguma forma de extração, sendo a indústria farmacêutica
a possuidora da maior fatia de mercado, e a fibra representando cerca de 20%. Em
análises mais recentes de meados do segundo semestre de 2019 as projeções do
Fior Markets indicam que o mercado de cânhamo industrial esteja avaliado em US$
4,6 bilhões até o final do ano e com projeção de crescimento de 35% passando a valer
US$ 30 bilhões em 2026.
Assim, o cenário é de oportunidade para novas empresas incorporarem em
seus processos produtivos a utilização dessa fibra, que é mais rentável e ecológica
que a produção de algodão, sintéticos e concreto. E no Brasil, país "agro" com setor
da construção em expectativa de crescimento e 5o maior produtor têxtil do mundo,
poderá ser referência em produção de cânhamo e depender menos da exportação de
commodities, absorvendo a produção internamente, conforme as iniciativas nacionais
de desenvolvimento sustentável e economia circular propõe.

5.1 LIMITAÇÕES DA PESQUISA

A análise dos resultados, por compreender um universo de informações de


dados secundários, carece de profundidade. A pesquisa surgiu com o intuito de
compreender o comportamento do mercado de cânhamo global e verificar a existência
de uma demanda nacional para os usos da fibra, como uma alternativa concordante
ao desenvolvimento sustentável para materiais amplamente utilizados pela indústria
nacional. Porém para tornar possível a pesquisa exploratória, a abrangência do
trabalho seria reduzida a uma região de análise, distanciando-se ainda mais da
proposta inicial.
Apesar de haver mercados consolidados e com operações contando décadas,
ainda há uma dificuldade em acessar dados correspondentes à realidade, fato
ocasionado pela insegurança que circunda o setor, decorrido da falta de
56

regulamentações regionais claras que ordenem o mercado, como é o caso da China.


Em adição, a carência de dados é ainda mais expressiva em outras posições
geográficas, por refletirem um mercado nascente, como os Estados Unidos e América
Latina. Logo, traçar um comportamento de mercado dentro do que propõe as 5 forças
de Porter tornou-se inacessível, pois defronta a capacidade de acesso à informação
e abrangência da pesquisa.
Portanto, compreende-se que apesar de considerar que os objetivos propostos
foram atingidos, o caráter documental qualitativo da pesquisa confere-na uma
limitação. Assim, espera-se que atenda a sua justificativa e possa servir de
instrumento de partida para os estudos futuros do mercado de cânhamo em todas as
áreas de aplicação, principalmente no que toca a pesquisa nas ciências da
administração.
57

REFERÊNCIAS

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confecção e os desafios da sustentabilidade (2017). Disponível em:
<https://bucket-gw-cni-static-cms-
si.s3.amazonaws.com/media/filer_public/bb/6f/bb6fdd8d-8201-41ca-981d-
deef4f58461f/abit.pdf> Acesso em 12 de setembro de 2019.

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