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Lidando melhor com a crise da meia idade – EBD Classe de adultos 1

A CRISE DA MEIA IDADE


ENTENDENDO MELHOR SUA ORIGEM: NOSSO CORAÇÃO
Introdução:
O envelhecimento é um processo natural e não um evento, então, os sinais
aparecem de fininho em você: rugas, erupções cutâneas, cabelos grisalhos,
perda de cabelo, perda e flacidez dos músculos, ganho de peso, perda de
flexibilidade, perda de energia, dores crônicas, perda de visão, flacidez de pele,
descoloração da pele, cansaço, perda de audição, juntas duras e a lista continua.
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Mas se o envelhecimento é tão natural, por que ele é tão


temido? Por que há tantos planos e produtos projetados e
vendidos para nos ajudar a lidar com ele? Por que tendemos
a fazer tantas coisas para manter ou reter a nossa juventude?
Três fatores se ajuntam à meia-idade, os quais têm o poder de fazer dela uma
época de grande luta? Eles são: uma conscientização universal, os pressupostos
da juventude, o foco de nossa cultura e a condição de coração.

I. FATORES QUE ALIMENTAM A CRISE DA MEIA IDADE

1) Morte: Uma Conscientização Universal


Assim, quando vemos rugas, quando o corpo começa a doer e quando a
fraqueza mora onde antes reinou a força, um temor visceral toma conta de todos
nós. Não é tanto que não gostemos de ter quarenta ou cinquenta. Não é tanto
que queiramos continuar jogando futebol com todo o vigor ou trabalhar em um
andamento frenético. Não, é a consciência de que estamos mais próximos da
única coisa na vida que realmente não deveria existir – a morte.
2) O Foco de Nossa Cultura
Vivemos em uma cultura que é obcecada pelo corpo humano. Como um
comercial popular de televisão certa vez afirmou: “aparência é tudo!” Gastamos
bilhões de dólares a cada ano em produtos, processos, tecnologias e instituições
que prometem nos tornar mais musculosos, bonitos e jovens.
A Bíblia olha para a juventude e para o envelhecimento de maneira exatamente
contrária à da nossa cultura. Conquanto a Bíblia estime o vigor da juventude, ela
vê a idade mais avançada como sinal de bênção e repetidamente nos convoca
a honrar os mais velhos (Is 46.4, Lv 19.32, Pv 23.22, 1Tm 5.1). A tendência da
cultura ocidental moderna de desprezar o envelhecimento e adorar a juventude
é um indicador sutil de quão longe estamos de uma perspectiva bíblica da vida.
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Na Escritura a idade avançada é um sinal da fidelidade pactual de Deus. Ela


também é conectada com sabedoria funcional. Nós, por outro lado, desejamos
intensamente a juventude, tememos ficar mais velhos e rapidamente
aposentamos todos aqueles que viveram o suficiente para ter adquirido alguma
sabedoria funcional na vida. Essa compreensão quanto à idade é parte do
oxigênio de nossa cultura. Todos nós o respiramos diariamente, e ele afetou as
nossas concepções acerca de quem somos e onde estamos indo.
3) Uma Condição do Coração
Até aqui consideramos dois fatores que tornam a meia-idade uma grande luta: a
2 conscientização universal da não naturalidade da morte e o foco obsessivo da
nossa cultura no físico. Ainda assim, juntos, eles não são suficientes para
explicar porque o envelhecimento físico tão frequentemente se torna uma crise
espiritual na meia-idade. Nenhum desses dois fatores teria o poder de
desorientação que eles têm se não fosse fortalecido por uma condição
fundamental do coração. Essa condição do coração é a causa central no que diz
respeito às lutas da meia-idade.
2 Pedro 1.4 que é de grande ajuda aqui. Pedro diz que Deus nos deu tudo o que
precisamos para fugir “da corrupção que há no mundo, causada pela cobiça”.
O que Pedro propõe aqui é impressionante. Ele não diz que somos corruptos por
causa da cultura ao nosso redor. Na verdade, o oposto é verdadeiro. A cultura é
corrupta por que nós
Isso é humilhante, mas é verdadeiro: se quisermos entender a enorme batalha
do envelhecimento físico, não podemos olhar apenas para a cultura na qual
vivemos, mas precisamos também examinar o nosso coração. Essa luta, como
todas as demais dificuldades humanas, tem a sua origem no coração e a única
solução real é uma mudança do coração. Você e eu precisamos reconhecer
humildemente que o problema começa conosco.
II. O ERRO DE SUBSTITUIR O ESPIRITUAL PELO FÍSICO
Como a Escritura nos ajuda a entender tanto a natureza quanto o poder das lutas
da meia-idade?
Romanos 1.25 diz: “eles mudaram a verdade de Deus em mentira,
adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito
eternamente. Amém!”
Aqui Paulo nos alerta para o fato de que há uma propensão inata em cada ser
humano de substituir o espiritual pelo físico. Nós todos fazemos isso de várias
formas. A verdade é que a vida somente pode ser achada no Criador. Ainda
assim, nós tentamos encontrar vida em coisas materiais, no amor de outras
pessoas, na segurança, na situação física ou localização ou no prazer
experimentado fisicamente ou no conforto. Idolatria, em sua forma mais simples,
é quando substituo a adoração de Deus por alguma imagem física ou objeto que
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eu possa ver e tocar. A razão pela qual isso é uma tentação tão grande é óbvia.
O ídolo pode ser visto, tocado ou de alguma forma experimentado fisicamente.
Se o pecado nos coloca em uma trajetória para longe do Criador e em direção à
criação, então, ele também nos empurra para longe do espiritual e perto do f ísico.
• Assim a aparência vai triunfar sobre o caráter.
• O prazer pessoal vai triunfar sobre a pureza de coração.
• O amor de uma pessoa vai triunfar sobre o amor de Deus.
• Coisas materiais vão triunfar sobre realidades espirituais.
• Segurança de situação e localização vão triunfar sobre segurança no
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Senhor.
• O prazer físico vai triunfar sobre a satisfação da alma.
• O presente vai triunfar sobre a eternidade.
Essa inversão do que era para ser está em todos os lugares à nossa volta. A
intenção nunca foi que vivêssemos para a glórias daquilo que é visível. Na
melhor das hipóteses, essas glórias devem nos apontar para aquela glória única
e singular para a qual realmente vivemos, a glória do Senhor. Há sempre um
preço terrível a se pagar por essa substituição enorme. Ela destrói
relacionamentos, distorce a cultura, amedronta pessoas e, finalmente, leva à
morte. O oxigênio da glória de Deus, o qual deveríamos respirar, não pode ser
achado em outro lugar. Quando inspiramos os gases desoxigenados da criação,
nosso pulmão entra em colapso e nosso coração atrofia. O problema não é que
as coisas físicas são más em si mesmas. O problema é que, em nosso coração,
elas podem tomar o lugar de Deus. O desejo por uma coisa boa se torna uma
coisa má quando se torna em algo governante.
A IDADE REVELANDO NOSSOS ÍDOLOS
É importante para nós entendermos que as lutas da meia-idade são uma
janela para lutas mais profundas, muito mais fundamentais. Se todos nós
tendemos a substituir o espiritual pelo físico, então é bem fácil entender como o
envelhecimento físico se torna em tamanha batalha emocional e espiritual. Nós
não fomos feitos para extrair a nossa identidade de nosso físico, mas o fazemos.
A força e a saúde física nunca foram objetivadas como a fonte de nossa
esperança, mas frequentemente são. A coisa da qual precisamos nos apropriar
é a compreensão de que a nossa luta com as mudanças físicas da meia-
idade, na verdade, revela os ídolos que têm estado conosco por muito
tempo. A idade os traz à tona. Muitos de nós precisam confessar que,
funcionalmente, realmente não tem confiado em Deus. E quando a coisa na qual
temos confiado (nosso físico) falha, tornamo-nos tristes, iracundos,
desencorajados, obcecados e deprimidos. Ainda assim, as coisas físicas ainda
têm um grande poder de sedução sobre nós. Visto que o nosso coração é
enganoso, pode migrar da adoração e culto a Deus para adoração e culto da
criação, sem que nem mesmo percebamos. Por causa disso, é digno prestarmos
atenção aos perigos que residem nessa substituição.
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1. As coisas físicas são não permanentes. Tudo o que é físico se deteriora,


envelhece, gasta ou quebra. As coisas físicas estão em um estado constante de
mudança. Nada que você está olhando hoje será exatamente o mesmo amanhã.
A despeito de sua aparência de permanência, as coisas físicas são realmente
transitórias e imprevisíveis. Visto que isso é verdadeiro, elas não são um lugar
confiável para colocar a nossa esperança. Elas sempre vão falhar com você,
porque elas vão passar.
2. As coisas físicas são enganosas. Elas parecem entregar aquilo que não
entregam de fato. Essa é a razão porque as Escrituras nos relembram em muitas
4 passagens de que os ídolos têm olhos, mas não veem, ouvidos, mas não ouvem
e tem boca, mas não falam. Jeremias até mesmo diz que você tem de pregá-los
a uma plataforma senão eles caem, e você tem de carregá-los, porque eles não
conseguem andar (Veja Jr 10.1-16; Sl 115.5; 135.16; Hc 2.18-19; Is 41.23, 46.7).
Todas as promessas de todos os ídolos são mentira. À despeito de toda a sua
atratividade, eles não podem me dar aquilo que estou procurando. Isso nunca
vai acontecer. Procurar vida nos ídolos é um ato de insanidade pessoal e
espiritual. Ela nunca será encontrada ali.
3. Coisas físicas são impessoais. Adoração, em sua forma mais pura, é um
relacionamento. Eu fui criado para um relacionamento com Deus. Esse
relacionamento pessoal de comunhão, amor, compromisso, adoração,
dependência e obediência deve ser o eixo ao redor do qual meu mundo pessoal
revolve. A minha adoração a Deus é intensamente pessoal. O meu espírito se
conecta com o Espírito em uma comunhão tão profunda que é impossível
expressar em palavras. Os seres humanos foram feitos para essa conexão
fundamental de espírito com o Espírito. Ao tentar substituir isso por algo que eu
possa ver, tocar, provar e usar – mas com o qual nunca poderei ter um
relacionamento – me rouba de minha humanidade.
Preste atenção em mais algo:
Você e eu temos algum controle sobre as coisas físicas de nossa vida, até
mesmo sobre o nosso corpo. Você pode alterar a forma e condição física de seu
corpo. Você pode fazer dieta. Você pode colocar maquiagem ou investir em
roupas novas. Você pode até mesmo ir longe ao ponto de se submeter a uma
cirurgia plástica. Você pode controlar coisas, mas em seu relacionamento com
Deus, você não pode controlá-lo. A adoração apropriada não é somente colocar
Deus no lugar que é dele por direito em sua vida, mas é também abrir mão do
controle de sua vida para ele. As coisas impessoais nos seduzem tão facilmente
porque elas nos colocam no controle, o lugar onde cada pecador quer estar. Aqui
está um dos grandes encantos da idolatria, mas também um de seus maiores
perigos. Você e eu nunca fomos feitos para estar no controle, e quando estamos,
sempre fazemos uma grande bagunça.
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4. As coisas físicas são escravizadoras.


Aqui se encontra um dos truques mais maldosos da idolatria. Aquilo que
pensamos estar controlando está, naquele próprio momento, escravizando-nos.
Nossos desejos por coisas físicas se transformam em “necessidades”, e quando
isso acontece, nos tornamos totalmente convencidos de que não podemos viver
sem elas. Você vê essa dinâmica na maneira em que as pessoas se relacionam
com seus corpos físicos. O que antes era um desejo por ser magra, se
transforma em anorexia mortal ou em uma busca incessante pela próxima dieta
milagrosa. Uma decisão de fazer uma cirurgia cosmética se transforma em uma
5 obsessão triste por alterar a aparência e forma do corpo. Um desejo de ter um
visual legal, se transforma em uma ansiedade constante a respeito da aparência
e uma inveja daqueles que tem a aparência que eu queria ter. A qualidade
escravizadora, viciante da idolatria não pode de forma alguma ser minimizada
ou ignorada. Como qualquer outro tipo de idolatria, a adoração de coisas físicas
nos escraviza, mesmo se a coisa física for o nosso próprio corpo.
5. Substituir coisas espirituais por coisas físicas mata.
Qual é o perigo de adorar coisas físicas? Em uma palavra: morte. Deixe-me
oferecer outra metáfora. Quando os mineradores de carvão da Pensilvânia
desciam às minas profundas, levavam um canário em uma gaiola junto com eles.
Eles cuidavam muito bem do canário, sabendo bem que, se o canário estivesse
com dificuldades para respirar ou morto, eles teriam pouco tempo. Esses
mineradores de antigamente sabiam que respirar qualquer outra coisa que não
oxigênio não era uma opção; tentar fazê-lo os levaria à morte. Da mesma forma,
é importante que nos lembremos de que a vida somente pode ser encontrada no
Criador. Qualquer coisa física que pareça dar vida é um delírio. Tentar encontrar
vida fora do Criador me expõe àquilo que pode trazer somente destruição e
morte. Colocar coisas físicas no lugar do Criador é sempre destrutivo à vida
como Deus a ordenou. Quando eu me alimento com aquilo que não dá vida,
consequentemente, eu não estou me alimentando dos nutrientes que dão vida e
graça, os quais somente podem ser encontrados aos pés do Criador. Jonas
expressou dessa forma: “Os que se entregam à idolatria vã abandonam aquele
que lhes é misericordioso”. Note, nós deveríamos ser muito mais temerosos das
formas sutis em que substituímos o espiritual pelo físico do que das nossas
experiências normais de envelhecimento.

CONCLUSÃO: AJUNTANDO TUDO


As dificuldades do envelhecimento físico que, de forma tão frequente,
caracterizam a meia-idade são o fruto de uma luta maior pelo coração. Haverá
um dia em que essas lutas serão finalmente encerradas e Deus será o dono do
nosso coração, sem rivais, por toda a eternidade. Mas, por enquanto, essas lutas
ainda continuam. Assim, Deus, na grandeza do seu amor redentivo, fará o que
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for necessário para clamar posse de nosso coração errante. Esses momentos
dolorosos não são o resultado de sua infidelidade e falta de atenção; eles são,
em vez disso, o produto de sua graça amorosa. Ele nos ama com um amor eterno
e ciumento. Ele não derramou o sangue de seu Filho por nós somente para nos
perder para as coisas físicas da criação. Deus luta por nós com toda a força de
sua mão redentiva. Ele está disposto a nos fazer desconfortáveis e tristes. Ele
quer nos trazer para si por meio de sofrimento e lamentos. Ele quer nos
chacoalhar e abalar. Ele está disposto a espremer os nossos sonhos e fazer sair
o ar de nossas esperanças. Ele está disposto a deixar que aquilo pelo que
ansiamos escape como areia por entre os nossos dedos. E ele faz tudo isso
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porque somos preciosos para ele. Somos a menina dos seus olhos. Ele não nos
compartilhará com outros. Ele não nos permitirá viver no delírio de que
encontramos em outro lugar aquilo que podemos encontrar somente nele.
Assim, nossas lutas com o envelhecimento físico são lutas entre a idolatria e a
graça. Aquele que ama nossas almas está usando a ocasião da meia-idade e a
realidade do envelhecimento para expor e nos livrar de nossos ídolos, que
moram secretamente em nós e nos governam. Rejeite a autocomiseração, a
inveja e o desencorajamento que são tão tentadores nessa época. Olhe para o
céu e seja grato. Você está sendo resgatado. Celebre o único que nova e
novamente te livra daquilo que, deixado sozinho, você seria incapaz de escapar.
Não lamente a morte de sua esperança nas coisas físicas. Celebre essa morte,
pois ela dá as boas-vindas a uma nova vida renovada e vigorosa de amor,
serviço e comunhão com o nosso Redentor. Diga a si mesmo junto com Paulo,
“Sim, por fora eu estou me deteriorando, mas eu tenho uma esperança real e
uma alegria verdadeira, porque interiormente eu estou sendo renovado a cada
dia. O que a minha vida realmente diz respeito não poderá nunca ser
enfraquecido pela idade nem destruído pelo passar dos anos!”

Gildásio Reis (adaptado)


Tripp, Paul David. Perdido no Meio: A crise da meia-idade e a graça de Deus
(pp. 116-120). Editora Fiel (www.editorafiel.com.br). Edição do Kindle.