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.ertoltBrecht
TeatroCompleto.
o Sr. Puntila e seu criado Matti
Aresistível ascensão de Arturo Ui
.I

PAZ E TERRA

TEATRO COMPLETO
em 12 volumes

BERTOLT BRECHT

I
TEATRO COMPLETO
em 12 volumes

Ef)
PAZ E TERRA
Coleçào TEATRO BERTOLT BRECHT
vo1.l 2 TEATRO COMPLETO
Direç ão: Fernando Peixoto em 12 volumes
VIII

O SR. PUNTILA E SEU CRIADO MATTI (941)


Tradução de Millôr Fernandes

A RESISTÍVEL ASCENSÃO DE ARTURO UI (941)


Tradução de Angelika E. Kóhnke

Conselho Editorial
Antonio Candido
Celso Furtado
Fernando Gasparian
Fernando Henrique Cardoso
Copyright by Suhrkamp Verlag.
Títulos dos originais em alemão:
Herr Puntila und sein Knecht Matti © 1950, Suhrkamp Ver1ag, Frankfurt am
Main; Der aufhaltsame Aufstieg des Arturo Ui © 1953, Suhrkamp Verlag, Frank-
furt am Main.
Coordenação Geral: Christine Roehrig, Fernando Peixoto
Preparação Mário Quaiato
Revisão Carmen T. S. Costa
Capa Isabel Carballo

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Índice
(Câmara Brasileira do livro)
Brecht, Bertolt , 1898-1956.
Teatro completo, em 12 volumes / Berto lt Brecht.
- Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1992 - (Coleção teatro; v. 9-16)

Tradução de: Bertol t Brecht: Gesammelte \Xérke in 20 Bãden, o Sr. Puntila e seu criado Matti 11
Publicados v. 1-8
A resistível ascensão de Arturo Ui 121
1. Teatro alemão L Titulo. II Série.

92-1927 CDD-823.91

Índices para catálogo sistemático:


1. Século 20: Teatro: literatura alemã 823.91
2. Teatro: Século 20 : literatura alemã 823.91

Direitos adquiridos pela


EDITORA PAZ E TERRA SA
Rua do Triunfo, 177
01212 - São Paulo - SP
Te!.: (011) 223-6522
Rua São José, 90 - 11.° andar - cj. 1111
20010 - Rio de Janeiro - RJ
Te!.: (021) 221-4066
qu e se reserva a propriedade desta tradu ção.

1992
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
o Sr. Puntila e seu criado Matti

Herr Puntila und sein Knecht Matti


Escrita em 1940

Tradução: Millôr Fernandes


PERSONAGENS

P UNI1 LA. LATIFUNDIÁRIO

E VA . SUA FILHA

MArn . SEU M O TO RISTA


G ARÇOM

J UIZ
A TTACHÉ

EMA
VETERINÁRIO

MANDA . F ARMACÊlJIlCA

LISU . ORDENHADO RA

GORDO

TRABALHADOR

TRABALHADO R R UIVO

TRABALHADO R MISERÁVEL

LAINA

SURKALA
FINA

ADVOGADO

SANDRA . T ELEFO NISTA

P ADRE

MUL HER DO PADRE

FI LHA MAIS VELHA DE S URKALA


PRÓLOGO

Recitado pela Orden hadora


Respeitável público, nossa época é triste .
Sábio é que m se atorme nta, tolo é qu em vive em paz.
Mas como não adia nta deixar de rir,
Escrevemos esta co média para vos divertir.
As piadas que ouvireis nesta represen tação
Não foram pesad as e m ba lanças de precisão.
Não so mos usurários
Que bu scam e rebusca m medid as exa tas,
Damos é e m sacos e tonelad as co mo batatas.
Senho ras e se nho res, apresentamos hoje
Um animal pré-hi stórico - o latifundiário .
Em lingu agem mais simples: um propri etário ag rário.
Conheceis bem o cida dão:
Um animal pau -d'águ a e comilão.
O nde ele se instala, é ce rto,
Instala-se um deserto.
Desta vez, porém , ele vem vindo,
No meio de mata s magníficas,
Belos rios, lagos lindos.
Mas, no cená rio, nada disso pint amos.
Prestai mais atenção no qu e falamos.
Verei s latas de leite tilintando nos bosqu es da Finlândia ,
Aldeias ave rme lhadas por um verão sem noite ,
Galos se mp re acordados,
Rios qu e co rrem tépidos,
Fumaça azul subindo dos telhados.
Sentados aí,
Da primeira à última fila,
Isso tudo ve reis, es pero,
Na co média do Sr. Puntila.
16 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 17

ob jetivo é es pantar os fregueses para qu e não voltem mais - daí


I
essa insolên cia! O lha aqui, me traz outra agua rde nte e limpa bem
o ouvido pra não confundir tud o d e novo: eu disse agua rdente e
PUNTILA ENCONTRA UM HOMEM
sexta -feira, co mp ree nde u?
Parqu e Hotel de Tavasto, Puntila, o ju iz e o Garçom . O juiz ca mbaleia
GARÇOM - Entendi, Sr. Puntila. Sai correndo.
na cadeira, completa mente bêbado.
PUN11LA ao ju iz - Acorda, Ô, vead ão! Não se deixe assim sozinho ! Capi-
PUN11LA - Garçom, há qu anto tempo estamos aqui?
tular dessa man eira diante de dua s garrafas de bebida! Se embria-
GARÇOM - Há dois dias, Sr. Puntila . go u co m o che iro! Se escondeu no fund o do barco enquanto eu
remava neste mar de álcool , neste oceano - velha co! - e mal se
PUN11LA ao ju iz, em tom de censura - Só dois dias, ouviu? E voc ê já se arrisca a botar o nariz de fora . Que vergonha! Olha só : agora eu
dá por ve ncido e finge qu e está cansado . E eu qu e pretendia falar vou me aventurar no líquido elemento. Sobe à mesa e "caminha
um pou co a meu respeito, dizer como me sinto só, discutir um sobre as águas ". E caminho , caminho na aguardente ... e afundo ,
pou co de política! Pois sim! Ao menor empurrão, vocês cae m por acaso afundo? Descobre Matti, o chofer, que está parado na
todos como peras podres! É, o es pírito está vivo , mas a carne é entrada, já há algum tempo. Quem é você ?
fraca! Onde é que anda aquele médi co qu e ainda ontem de safiava
todo mundo pra beber co m ele? O chefe da estação viu quando MAm - Seu chofer, Sr. Puntila.
arrastaram ele daqui , o pobre-diabo. Mas o chefe também, coi-
tad o , depois de uma resistência her óica , entregou os pontos às PUN11LA desconfiado - Você é o quê? Repete!
sete da manhã. Naquela hora o farmacêutico ainda estava de pé .
Mas agora, por onde andará? E essas são - imaginem! - as MAm - O seu chofer, Sr. Puntila .
maiores autoridades da comarca! Para o juiz que dorme - Bo-
nito exemplo para o povo de Tavasto, um juiz que não agüenta PUN11LA - Assim, sem mais nem menos? Isso qualquer um pode dizer.
um co po bebido numa parada de caminho! Já pensou nisso , Fre-
Eu não te conheço.
deri co? Um homem culto , ilustre co mo você , que toda a cidade
olha com admiração , que deveria ser um modelo para todos, um
MAm - Talvez porque o se nhor não olh ou bem para a minha cara.
modelo de resp onsabilidade e sobretud o de resistência... Mas por
Estou com o se nhor só há um mês e meio.
qu e você não reage? Senta aqui firme , vamos, e conversa um
pou co comigo, lamentável criatura. Ao Garçom - Que dia é
hoje? PUN11LA - E agora , de o nde é que você veio?

GARÇOM - Sábado , Sr. Puntila. MAm '- Aí de fora . Há doi s dias que estou esperando no carro.

PUN11LA - Como sábado? Devia ser sexta! PUN11LA - Que carro?

GARÇOM - Desculpe, mas é sábado. MAm - O seu carro: o Studebaker.

PUN11LA - Ah, está me contradizendo? Bonito garçom! Já vi tudo: teu PUN11LA - Engraçado! Você pode provar?
18 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 19

MAm - Não. Só vim av isar qu e não tenho a inten ção de es perar nem pés. Eu so u O grande proprietário Puntila de Lammi, um homem
um minut o ma is. Agüent ei até agora. Mas não se pod e tratar um honrado - tenho noventa vacas. Comigo voc ê pode beber tran-
hom em assim.

,
qüilo , irmão .

PUNTlLA - Que coisa que r dizer um hom em ? Agora mesm o d isse qu e MATIl - Eu sou Matti Altonen: muit o prazer em conhecê-lo. Em dois
e ra um cho fe r. Você tem de admitir qu e e u te peguei numa co n- tempos bebe os dois copos.
tradição .
PUNTILA - O prazer é todo meu . Viu que bom coração eu tenho? Uma
MAm - O senho r já vai ve r se eu so u hom em ou não. Ningué m vai me vez apanhei um caramujo no meio da rua e tornei a colocá-lo no
tratar co mo a um cacho rro, Sr. Puntil a! E não pretendo ficar ali jardim para evitar que o esmagassem. Lembrando bem, fui até
fora a vida inte ira até que o se nho r se digne sair. mais exagerado . Coloquei-o no alto de um bambu para ele ficar
bem seguro. Você também tem bom coração, se vê logo. Olha , o
PUNTlLA - Voc ê já d isse ante s que não ia ag üe ntar. Está se repetind o. que eu não suporto são esses tipos que escrevem "eu" com e
Pod e ir. maiú sculo. Essa gente merece chicote. Conheço uns proprietários
qu e pesam cada prato de comida que dão aos empregados. Se
MAm - Já vou . É só me pagar os 175 marcos que me deve . A carteira dependesse de mim, o meu pessoal comia carne assada o ano
e u vou apa nhar lá em Puntila. inteiro. Eles também são seres humanos e gostam de comer bem,
como ... eu. Estão no direito deles, você não acha?
PUNTlLA - Eu conheço essa voz. Gira em volta de Matti, exa m ina ndo-o
como a um animal estranho. É uma voz de hom em! Senta e bebe MAm -Acho.
um copo de aguardente aqui comigo! Nós dois precisamos nos
conhec er. PUNTILA - Oh , Matti, é verdade mesmo que eu deixei você esperando
lá fora tanto tempo? Isso não se faz; você não sabe como essas
G ARÇOM entrando com um tabuleiro cheio de copos - Aqui está a co isas me deprimem. Olha , se eu fizer isso outra vez , você pega a
aguardente , Sr. Puntila , e hoje é sexta-feira. chave inglesa e me arrebenta a cabeça. Matti, você é meu amigo?

PUNTlLA - Agora sim! Indicando Matti - Um amigo meu . MAm -Não.

GARÇOM - Amigo? É o se u chofer! PUNTlLA - Muito obrigado. Eu sabia. Matti, olhe bem pra mim: que é
que você vê?
PUNTlLA - Ah, é cho fer? Eu sempre digo qu e é viajand o qu e se conhe-
ce m as pessoas mais interessantes. Põe dois copos nas mã os dele. MAm - Um pedaço de imbecil gordo e embriagado.

MAm - Não sei se vou beber esse negócio , Sr. Puntila . Ainda não PUNTILA - Vê como as aparências enganam? Não sou nada disso, Matti:
percebi bem quai s são suas inten ções. eu sou um homem doente.

PUNTlLA - Eu já vi tud o. Você é um hom em desconfiad o. Aliás, é razoá- MAm - Muito doente.
vel. A gente nunca deve sentar numa mesa com estranhos. Ima-
gina: é só você fechar um olho e te levam tud o , da cabeça aos PUNTlLA - Me agrada que você perceba. Nem todo mundo é capaz de
20 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 21

perceber. Ao me ver assim , ninguém diria. Trágico - Eu tenho dez como um homem. Mas, que adianta? Voltam da mesma ma-
uns ataques, sabe? neira! Veja, por exemplo, como fui abjeto com você, que é, evi-
dentemente, uma maravilha de homem. Taí, pega esse belo pe-
Mcrn - É mesmo, Sr. Puntila? daço de carne! Eu gostaria de saber que acaso admirável fez com
que eu te encontrasse. Como é que você veio parar no meu ser-
PUNTILA - Acha que estou brincando? Tenho ataques, sim! Acordo e viço?
percebo, de repente, que estou sóbrio! Fresco como um pé de
alface . Que é que você acha: é grave? Msrn - Perdi o emprego que tinha antes. Mas não foi por culpa minha .

Mxrn - São muito comuns esses ataques de frescura? PUNTILA - Como foi?

PUNTILA - Uma vez por mês . O resto do tempo sou perfeitamente nor- MArn - Eu via fantasmas!
mal, como agora. Isto é, me sinto completamente senhor de todas
as minhas faculdades , com absoluto domínio de mim mesmo. E, PUNTILA - Verdadeiros?
de repente, me vem o ataque. O primeiro sintoma é uma estranha
perturbação na vista . Pego dois garfos - pega um só - e só vejo Mcrn dando de ombros - Foi na fazenda de um certo Dr. Peppman.
um . Ninguém jamais tinha ouvido falar que havia fantasmas lá. Antes
da minha chegada, fantasma era coisa que não existia na fazenda.
Mxrn - Fica vesgo? Mas se o senhor me perguntar a razão, eu posso lhe dizer que os
fantasmas foram conseqüência da péssima comida. Pois todo
PUNTILA - Não, vejo só a metade do mundo; mas o pior é que, durante mundo sabe que, quando a massa de farinha vira um bolo no
esses ataques de lucidez total e desvairada, eu desço ao nível de estômago, a gente começa a ter pesadelos e a atrair os íncubos. E
um animal, não conheço mais nenhum freio . E quando fico nesse eu , então, que sou tão sensível a uma boa cozinha, sofro demais
estado, meu irmão, ninguém pode me acusar de nada do que eu com uma cozinha ruim . Pensei em ir embora logo, mas não tinha
faço, pois me torno completamente responsável pelos meus atos. pra onde, e estava com o moral muito baixo; então comecei a
Não quando se tem um coração no peito dizendo sempre que freqüentar a cozinha e a fazer uns comentários meio enviesados.
estamos doentes. Perturbado - Sabe , irmão, o que significa ser Não se passou muito tempo e as ajudantes da cozinheira começa-
responsável pelos próprios atos? Um indivíduo responsável é ram a ver cabeças de meninos fincadas na cerca do quintal, e se
capaz de tudo. Por exemplo, é capaz de esquecer o bem dos pró- mandaram. Logo depois, era uma bola cinzenta que rolava da es-
prios filhos, não tem mais amigos, fica mesmo disposto a cami- trebaria; quando a gente pegava, tinha olhos e boca, como um
nhar sobre o próprio cadáver. Isso acontece exatamente porque, homem. Quando eu contei isso à governanta, ela teve uma coisa!
como dizem os advogados , é responsável pelas próprias ações. E a arrumadeira também foi embora quando eu disse a ela que às
onze da noite, perto do banheiro, eu tinha visto um homem an-
Mxrn - E não faz nada contra esses ataques? dando com a cabeça embaixo do braço e até parou e me pediu
fogo pro cachimbo. Foi aí que o Dr. Peppman começou a ficar
PUNTILA - Faço o que posso, irmão! O que é humanamente possível irritado, dizendo que a culpa era minha, que eu é que fazia todo o
fazer! Bebe. Esse é o meu único remédio. Eu engulo sem piscar, e pessoal ir embora, que na fazenda dele não tinha nenhum fan-
não em doses infantis, pode acreditar. Se eu posso falar algo a tasma. Ah, não tinha? Estava redondamente enganado.rfo í o que
meu respeito, é que eu enfrento esses ataques absurdos de luci- lhe respondi. Durante duas noites seguidas, enquanto a mulher
22 Bert olt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 23

do Dr. Peppman estava na maternidade esperando criança, eu Pul'fIlLA - Agora me aconselha um pouco, irmão; precisamos falar de
tinh a visto , com meu s próprios olhos , um espectro branco saindo dinheiro .
da jane la da governa nta e entra ndo de mansinho no qu arto dele!
Aí, de med o , o Dr. Peppman perd eu a respiração. Me despediu ali MAm - É claro!
mesmo. Porém , na hora de ir embora, eu disse o qu e qu eria: se
ele pretendia qu e os es píritos o deixassem em paz, devia tomar pUI'fIlLA - Mas é tão vulgar falar de dinheiro.
mais cu idado com a cozinha, porque os espíri tos detestam fedor
de carne estragada. Mxrn - Então não falam os de dinheiro.

PUNTILA - Compree ndo. Você deixou o emprego porque eles e ram mi- PUNTILA - Engano se u, devemos falar. Por que, pergu nto e u, não po de-
seráveis com tua co mida . Isso de você que rer come r bem , em
mos se r vulgares? Somo s ou não somos homens livres?
absoluto não te diminui a meus olhos, desd e que você gu ie be m
o meu tratar, não seja ind isciplinad o e saiba dar a Puntil a o q ue é
l'vIATIl - Não somos.
de Puntil a. Assim tud o irá be m entre nós. Qu alquer um pode co n-
viver com Puntila. Canta-
Você brigar co migo é um ape ritivo, PUNTILA - Pois e ntão! Como hom en s livres, pode mos fazer o que be m
Pra ir pra cama com aquele objetivo. entendemos. Portant o, vamos falar de dinheiro. Tenho que arran -
Com qu e prazer Puntil a iria para a floresta de rrubar bétulas, lim- jar um dote pra minha filha ún ica, por isso é que saí por aí. esse
par os campos e guiar tratar! Mas me deix am , por acas o? Me bota- momento é preciso ser frio, calcu lista e bêbado como um corno.
ram um co larinho duro que e u não posso nem virar o qu eixo ! Não Vejo duas possibilidad es: ou vender um bosque ou ve nder-me a
fica bem o papai tratar da terra , não fica be m o papai bolinar as mim mesm o. O que é que você me aconsel ha?
moças, não fica bem o pap ai tomar café co m os emprega dos! Mas
agora acabou esse "não fica bem" . Viajo para Kurgu ela, dou l'vIATIl - Eu não me venderia, se tivesse um bosque.
minh a filha co mo noiva ao Attaché, e aí posso me se ntar e m man -
gas de camisa com quem quiser, se m dar satisfação a ninguém. PUNTILA - Qu e está dizendo? Você me decep cion a profundamente ,
Me deito com Madame Klinckm ann e pront o . E a vocês, aume nto irmão . Sabe lá o que é um bosque? Um bosque para você significa
imediatame nte a diária, po is o mundo é gra nde e eu tenho terras e apenas cinqüenta mil alqueires de madeira ou é também uma
matas que chegam para vocês e chegam também para Punt ila. verde delícia para os olhos? E você quer vender uma verde delícia
para os olhos? Te envergonha!
MATIl ri fo rte e prolongadamente e depois se levanta - Muito bem ,
muito be m. Agora calma e vamos acordar o Jui z. Mas, cu ida do, l'vIATIl - Então vendemos a outra coisa?
pelo amo r de Deus; se ele se assustar, nos dá pelo me nos cem
anos de cadeia . PUNTILA - Tu qu oque, Brutus? Quer que eu me venda?
PUNTILA - Quero esta r ce rto de que não ex iste nen hu m abismo entre
Mcrn - Para co meço de co nversa, que m é que ia com pra r?
nós dois. Diga, Matti: "Não existe esse ab ismo ".

MATIl - Se o senhor mandar, Sr. Puntila, não existe esse abismo. PUNTILA - Madame Klinckmann.

Mcrn - Quem? A tia do Attacb ê


24 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 25

PUNTILA - Ela tem um fraco por mim. 2


MAm - E pretende vender o seu corpo àquela dona? É espantoso, Sr. EVA
Puntila!
Pátio da propriedade em Kurguela . Eva espera o pai e, enqua nto isso,
PUNTILA - Por que , espantoso? Mas então a liberdade, irmão? Eu me come chocolate. O Attaché Eino Silakka , de robe de chambre, aparece
sacrifico. Que coisa sou eu? 110 alto da escada .

MAm - Boa pergunta. Que coisa é o senhor? EVA - Madame Klinckmann deve estar muito aborrecida.
O juiz desperta e, com o mão, procura sobre a mesa u ma campainha
imaginária. ATIACHÉ - Ah , titia não fica aborrecida muito tempo. Telefonei outra
vez, tentando localizá- los. Na praça da Igreja passou um carro
JUIZ - Silêncio na sala! com dois hom ens cacarejando.

PUNfILA - Dorme e por isso pen sa que está no tribunal. Irmão , acho EVA - São eles. O que tem de bo m é que meu pai eu reconheço no
qu e ago ra você coloco u o dilem a. Qu e vale mais: um bosqu e v ôo . Qu an do se fala dele, eu sei logo que é dele que se fala.
co mo o meu ou um hom em co mo e u? Você é magnífico! Tá, toma Quando alguém co rre com um ch icote atrás de um empregado,
a minh a carteira, paga a co nta e gua rda dep ois, se não e u pe rco . ou dá um automóvel de presente a uma viúva, eu sei logo : é meu
Apo ntando o juiz - Tira ele daí , leva pra fora! Eu perco tud o, pai. .
ser ia melhor não possuir nada . Não se esqueça nun ca: dinheiro
fed e. Matti ca rrega o ju iz nas costas. Este é o me u sonho : não ATIACHÉ - Tenho ho rror de escândalo. Enfim, aqui , pelo menos, não
possuir nada. Assim podíamos an da r pela nossa bela Finlândia a estamos na faze nda . Tão tenho a menor inclinação por números,
pé , ou usa ndo um automovinho de dois lugares. Ninguém ia nos nem vontade alguma de sabe r quantos litros de leite foram distri-
negar uma go ta de gasolina; e, qua ndo es tivéssemos cansados, buídos na cidade. Aliás, leite eu nem bebo. Mas para escândalo
entrávamos numa pousada como esta e metía mos um copinho, eu tenho uma sensibilidade única. Assim que o Attaché da Embai-
depois que talvez nos tivessem obrigado a rachar alguma lenha... xada de Londres, depois de engolir oito conhaques um atrás do
um traba lho que você era capaz de fazer com a mão esquerda. outro, gritou para o outro lado da sala que a duquesa de Ca-
trumple era uma prostituta, e u o pre veni imediatamente de que ia
CoZINHEIRA entra no proscénio com um balde e um vassourão, e haver um escândalo. E dito e feito. Acho que são eles. Sai rapida -
canta - mente.
Entram Puntila, o juiz e Matti.
Durant e quase três dias
Puntil a se emb riagou,
E qu ando enfim foi embora PUNTILA - Chegamos, filha. Nada de ce rimô nias. Eva, não vá acordar
O ga rçom nem cump rimentou. ninguém; bebemos ainda uma garrafinha, aqui e ntre nós , e de-
- "Ó, vagabundo e ladrão , pois vamos dormir. Me diz : você se divertiu?
Não lhe deram educação?"
- "Já viu pessoa educada, EVA - Esperávamos vocês já há três dias.
Depois de andar três dias
Com um a unha encravada?" PUNTILA - Fom os parad os no caminho, mas trouxem os tud o. Matti,
26 Bertolt Brecht o Sr. Pumila e seu criado Matti 27

pega a minha mala. Espe ro qu e você tenha cuidado bem dela , EVA - Ah, pap ai, você é imp ossível! Para Matti - Apanha ess a mala e
que nad a tenha quebrad o . Senão va mos morrer de sede aqui. leva para cima.
Como vê, viemos a tod a pressa porque eu sab ia que você estava
nos espe rando . ptMJ1LA - Calma! Calma, por favor! Primeiro d eixa eu tirar uma ou duas
garrafas. Ainda qu ero be be r um gole e nquanto discuto co m você
JUIZ - Posso cump rime ntá- la, Eva? se esse Attaché e mbrulha o u não e mbrulha o estô mago. Você ,
pelo me nos, acertou o no ivad o co m ele?
EVA - Pap ai, você é um desastre . Eu morro de tédi o aqui. Há uma
sema na qu e estou nesta casa soz inha, co m o Atta ché, a tia dele e EVA - Não . Nem falam os nisso . A Matti - Não abra ess a mala!
um romance sem ca pa.
PUNTlLA - Como? Não combino u o noivad o? Em três dias? Mas qu e foi
PUNTILA - Nós nos apressa mos , eu fiquei insistindo o tempo tod o que
que você fez? Eu te disse q ue esse tipo não me agra da. Eu, pra
não podíamos dar um a man cada . Eu ainda tenho qu e acertar al-
no ivar, preciso só três minutos. Olha, vai lá em cima e cha ma ele;
gumas coisas com o Attaché so bre o noivado , e fiquei tranqüilo
eu vo u buscar um a da s moças da cozinha, pa ra ele ve r co mo se
sabendo qu e o Attaché estava contigo. Pelo menos havia algu ém
te fazendo companhia durante a minha au sên cia. Cuidado com a faz um noivado relâmpago . E tira fora um a garrafa de Borgonha.
mala , Matti, não vá acontecer um acidente. Com infinita precau- Não , é melhor um licor !
ção, pousa a mala e abre.
EVA - Não , acab ou: você não bebe mais, papai. A Matti - Leva a mala
JUIZ - Puntila, me parece que Eva não demonstra o menor interesse pro meu quarto lá em cima, o segundo à direita .
pela situação . Com o Attaché, diz que não consegue nem brigar!
Isso me recorda um processo de divórcio , em que a mulher se PUNTlLA alarmado enqua nto Matti levanta a mala - Ah, Eva, isso não
queixava do marido nã o lhe ter dado uma s boas bofetadas é co isa qu e se faça . Não é delicad o . Você não pode deixar se u pai
quando ela atirou um abajur na cabeça dele! Tinha ficado profun- morrer de se de! Eu te prometo que vo u esvaziar só um a garrafa,
damente humilhada com a indiferença, dizia ela. com tranqüilidade e sabedoria; co nvido apenas a Arrumadeira ou
a Cozinheira. E Frederico, naturalmente, o pobrezinho também
PUNTILA - Está aí; mais uma vez tudo saiu bem. Quando Puntila se está morrendo de sede! Seja humana, filhinh a!
mete numa coisa , a coisa semp re sai bem. O quê? Você não está
contente? Deixa ele comigo, aquele ali. Sabe o que te digo? EVA - Estou em pé, até agora , exatamente para impedir que você
Manda esse Attachéandar. Isso nem homem é. acorde os empregados.
Matti dá risadinhas cheias de maligna satisfação.
PUNTILA - Eu estou convencido de que Madame Klinckm ann... Por falar
EVA - Eu disse apenas que ninguém pode se divertir sozinha com o
nisso , onde está ela? Ficará um pou co aqui co migo, co m muito
Atta ché.
prazer. Frederico está cansado, pode ir se deitar. Eu vou trocar
umas palavrinhas com Madame Klinckmann, o que, aliás, era
PUNTlLA - Mas é o que eu digo também! Pega o Matti, aí: com ele , todas
se divertem. minha intenção desde que cheguei . Ah, sempre tivemos um fraco
um pelo outro.

EVA - Eu o aconselho a esperar um pouco mais. Madame Klinckmann


28 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 29

já está bem furiosa de ter es pe rado três dias: acho qu e amanhã de _ Raciocine um pou co , Puntila. O nde é que você vai encontrar
JUIZ
manhã você não vai conseguir nem a honra de vê-la. bebida alcoólica ãs du as e meia da manh ã? A ve nda de álcoo l se m
receita médica é p roibid a.
PUNTILA - Vou lá bater no qu arto dela e resolvo tud o. Sei co mo é que
se trata uma mulher; essas coisas, Eva, é na tural, você não pode PUN11LA - Ah, você também me aba ndona? E ainda du vida do meu
saber. prestígio: não vo u conseg uir bebid a sem receita médica! Pois eu
vou te ensina r co mo se consegue uma bebida legal a qu alqu er
EVA - Sei, pelo men os, qu e nenhuma mulh er vai qu erer ficar co m você hora do dia ou da noite .
nesse estad o. A Matti - Já não lhe disse para levar a mala? Ainda
acha pou co , três dias de atraso? EVA aparecendo no alto da escada - Pap ai, desce daí desse automó-
vel, imediatamen te.
PUNTILA - Eva, seja razoável. Se não quer mesmo qu e eu suba pro
quarto de Madame KJinckm ann, então me cha me aquela gor- PUNTILA - Fica boazinh a, Eva, e honra teu pai e tua mãe, se qu er viver
dinha e ngraça dinha, aquela pequenininha, eu acho qu e é a go- muito tempo nesta terra. Qu e droga de casa! Têm o cos tume de
verna nta, não é não? Eu discuto a co isa co m ela e dá no mesmo. deixa r as tripas dos convida dos secando na corda . E eu vou ficar
sem mulhe r? Você vai ver se fico ou não fico! Pod e ir dizer a essa
KJinckmann qu e desisto da co mpanhia del a! Pra mim ela é co mo
EVA - Pap ai, não exagera, ou eu mesma subo com a mala, e qu ando
a virgem lou ca: não tem óleo na lâmpad a! E agora, pé na táb ua: o
cheg ar lá em cima, deixo ela rolar pela escada sem que rer.
chão vai tremer de pavor! Todas as curvas do caminho vão ficar
retas de med o! Sa i violentamente em marcha a ré.
PUNTILA aterrorizado, ele pára; Matti leva a mala; Eva o segu e lenta -
mente. Com voz de rei Lear - Vejam co mo uma filha trata o
EVA descendo a escada, a Matti - Faz ele parar! Faz ele parar, eu disse!
p rópri o pai! Torna a subir no automóvel. Fred erico , todos a
bord o , vamos!
MAm apa recendo atrás dela - Agora é tard e . Corre co mo um lou co!
JUIZ - Qu e é qu e você qu er? JUIZ - Bem, acho qu e não vou espe rar. Já não sou tão jovem quanto fui
um dia. Fica em paz, Eva, não vai aco ntecer nad a: teu pai tem
PUNTILA - Quero ir-me embora daqui , isto não me agra da. Vê , sofro um uma sorte sem-vergonha. Por favo r, onde é o meu qua rto? Sobe.
acide nte no terror da noite, assim mesm o faço tudo pra chegar na
hora , e olha co mo me tratam . Ah, Frederico , isso me faz lem b rar o EVA - O terceiro à dire ita, em cima . A Matti - Nós dois temos que
filho pródigo: já imaginou o que se ria da história se , qua ndo ele ficar aqui montando guarda, para evitar que ele beba com as em -
vo ltasse , em vez de um vitelo gordo e fumegante, a família lhe pregadas ou caia no utras intimidades.
tivesse dado uma esculhambação? Vou-me embora.
MAm que procura uma posiç ão c ômoda - Ah, sim, intimidade demais
JUIZ - Pra onde? é sempre um perigo. Uma vez e u traba lhava numa fábr ica de
papel e o porteiro pediu demissão , porque o diretor lhe pergun-
PUNTlLA - Quanta pergunta! Que curiosidade! Você não viu que minha tou como o filho ia pas sando.
própria filha me proíbe um cálice de álcool? Não compreende
que agora eu tenho de me embrenhar na noite , em bu sca de al-
guém que me faça a carida de de uma ou duas garrafas?
30 Bert olt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 31

EVA - Muita ge nte se aproveita dessas fraqu ezas de meu pai. Ele é bom sava. Além disso , o fato de um homem ser ou não divertido, não
demais. tem a menor importància.

Mxrn - É verdade, os momentos e m que se embriaga são a felicidade MATIl - Conheci um su jeito que ficou milionário vendendo margarina
para que m trab alha com ele. Vira u m homem form idável, só vê e artigos parecidos. E não era um suje ito divert ido .
no mundo camundongos bra ncos e fica co m vontade de fazer
carinho neles, de tão bom que fica. Ah, é tão bom! EVA - Não sei por que es tou lhe da ndo trela , falando do Attaché. Nós
nos conhecemos desde crianças. Acho que e u so u uma pessoa
EVA - Não me agrada nad a ouvir você falar assim de se u patrão . Es- com energia dem ais, sabe, por isso me aborreço com tanta facili-
pero qu e não tom e ao pé da letra tud o o que ele diz. Sobretudo dade.
com respeito ao Attaché. Não qu ero qu e ande por aí rep et ind o as
co isas que ele disse aqui de brin cad eira. MArn - E en tão começam as dúvidas.

Mxrn - O qu ê? Qu e o Attaché não é homem? Qu ant o a isso , qu e coisa EVA - Eu não falei em dúvidas. Não se i por qu e não me e ntende . Acho
vem a ser um homem? As opiniões divergem . Eu, por exe mplo, que deve estar cansado. Por que não vai dormi r?
uma vez trab alha va numa fábrica de cerveja. A dona da fábric a
tinha uma filha... Uma filha, sa be co mo é, que se mpre me cha- MArn - Porque esto u lhe fazendo co mpa nhia.
mava para levar o roupão dela no banheiro , porque essa filha era
uma moça muito pudica. "Me traz o meu roupão, Matti", gritava EVA - Não é preciso . O qu e eu tinh a a lhe dizer, já disse: qu e o Atta ché
ela, e e u lá ia com o roupão , e enco ntrava ela completame nte é um hom em inteligente e bem-educad o , qu e não dev e ser jul-
nua . "Sabe, Matti, algum homem podia me ver tomando banho." gado pela apa rência, nem pelo qu e diz nem pelo qu e faz. É che io
de atenções, lê no s meu s olhos todos os meus des ejos. É incapaz
EVA - Não entendo o qu e quer dizer com isso . da mais leve grosseria, de abusa r da minha confiança ou de fazer
qualque r exibição de virilidad e . Eu gosto muito del e . Mas... você
Mxrn - Não qu ero dizer nada , falo só pra matar o tempo , pr a e mpur- está co m so no?
rar a co nversa pra frent e . Quando falo co m os patrões, nunca eu
quero dizer nada, não tenho nenhuma opinião: não se pode ad- Mxrn - Fala, fala, pode co ntinua r falando , se nhorita. Se e u fecho os
mitir uma co isa dessas nos empregados. olhos é pra me co nce ntrar melh or.
Cortina .
EVA depois de uma pausa - Gostaria qu e você so ubesse que o Attaché
é muito bem-visto nos altos escalões do Ministério do Exterior e CoZINHEIRA entra com um pano de limpeza e uma pazinba, e canta -
tem uma bela carreira diante de si. É um a das cabeças mais bri- A filha do patrão leu um livro imoral
lhantes da nova ge ração. E ago ra diz que é intele ctual.
Encontrando um e mp regado,
Mxrn - Compreendo. Olhou- o bem no rosto
E perguntou com enfad o:
EVA - O que eu qui s dizer, qu ando disse o qu e disse a meu pai , na sua "É verdade que, apesar de chofer,
frente , é que não tinha me divertid o tanto qu ant o meu pai pen - Você também é homem quando quer?".
32 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e se u criado Matt i 33

Plm tila corre à casa do Veterinário e toca . O Veterinário surge.


3
PUNTILA - Veterinário, Veterinário , afinal te peguei! Eu so u o grande
AS NOIVAS MATINAIS DO SR. PUNTILA
pro prietário Puntila de Lammi, tenho noventa vacas e todas as
nove nta estão co m febre aftosa. Tenho , pois, necessidad e urgente
Alvorecer na vila . Casinhas de madeira. Numa está escrito: Correio. de álcool autorizado.
Noutra , Veterinário. Noutra, Sementes e Ervas. No meio da praça, um
poste telegráfico. Puntila bate com o Studebaker no poste e põe-se a
VETERINÁRIO - Penso qu e O amigo erro u de endereço . Ach o melh or
xingá-lo violentamente.
voltar pro lugar de onde veio , com a graça de Deu s.
PUNTILA - Via livre! Esta não é a auto-estrada de Tavasto?! Sai da frente,
PUNTILA - Veterinário , você me decepciona. Ach o até qu e não é vete ri-
porcaria de poste! Que ousadia, interromper dessa maneira o ca-
nário de verdade. Senão, sabe ria o qu e tod os dão a Puntila quando
minho de Puntila! Quem é você? Você tem um bosque? Tem no-
as vacas de Puntil a es tão com febre aftosa . Não esto u mentindo.
venta vacas? E então, como se permite? .. Para trás! Se der mais
Se e u di ssesse qu e el as es tava m co m câ ncer, estari a men-
um passo, vai se arrepender amargamente: chamo a polícia e
tindo , mas quando digo que estão co m febre aftosa , não é men-
mando te prender como subversivo. Desce do carro. Ah, insiste
tira: é uma senha sec reta entre hom en s de bem.
em não sair, hein? Vai até uma das casas e bate à janela. Ema, a
contrabandista, espreita medrosamente. Bom-dia, linda senhora,
VI:TERINÁRIO - E se e u não entender a se nha?
passou bem a noite? Preciso que me faça um pequeno favor. Eu
sou o grande proprietário Puntila de Lammi, e me encontro numa
situação verdadeiramente dolorosa: minhas vacas estão com es- PUNTILA - Bem, se não entender, eu me sentirei na obrigação de avisar
carlatina. Por isso tenho necessidade absoluta de comprar álcool que Puntila é o mais terrível samurai de toda esta regiã o . Já tem
legítimo. Poderia a bela jovem me dizer onde mora o Veterinário? três veterinários na consciência. Sobre ele existe até uma can ção
Derrubo a pontapés a merda desse barracão, se não me disser popular. Isso o ajuda a compreender minhas dificuldades?
logo onde ele mora , tá ouvindo?
VETERINÁRIO rindo - Ajuda , ajuda . Se o senho r é realmente um homem
EMA - Meu Deus! O senhor está muito exaltado! A casa do Veterinário tão terrível , é justo que eu lhe dê uma receita. Quero ape nas ter
é aquela ali. Mas, se não o entendi mal , o senhor está preci sando ce rteza de que é febre aftos a.
de álcool. E álcool eu tenho: álcool do bom, álcool forte . Eu
mesma faço . PUNl1LA - Olh a, Veterinário , as minh as vacas estão co m mancha s ver-
me lhas deste tam anho . Em duas delas, as man chas já estão até
PUNTILA - Sai da minha frente , perdida! Você tem a audácia de me ficando pretas; não é a doença em sua forma mais violenta? E
oferecer se u álco ol ilegal? Não sabe que eu só bebo álcool permi- depois, a dor de cabeça que sofrem as pobrezinhas. Ficam a noite
tido pela lei? Qu e o o utro nem me passa pela garganta? Antes a inteira berrando e ge me ndo , se virando na ca ma, incap azes de
morte, do qu e desrespeitar as leis de meu país. Sou um esc ravo pensar e m outra co isa qu e não nos próprios pecad os.
da lei. Qu ando preciso mandar espanca r algu ém, o u faço de
acordo co m o có digo pen al ou não faço . VETERINÁRIO - Neste caso é meu dever fornecer-lhe o alívio imediata-
me nte. Escreve a receita.
EMA - Meu caro se n hor, qu er sabe r de uma co isa? Vá para o diabo que
o carreg ue, co m suas leis! Desaparece. PUNTILA - A conta, manda pra Punt ila, já sabe. Corre à far mácia e toca
34 Bert olt Brecht o Sr. Puntila e se u criado Matti 35

a campainha violentamente. Enquanto espera, Ema, a contra: ptJN1lLA - Glu glu glu glu glu... Ó, música finland esa... a mais bela
bandista, sai do barracão . música do mundo... Meu Deu s, eu ia esquecendo. Agora tenho
álcoo l, mas não tenho mulher. E você não tem álcoo l nem tem
EMA enquanto lava uma garrafa, canta- homem. Linda farmacêutica, qu er se r minh a noiva?
Era no tempo de amora
O carro veio de fora MAN DA - Muita agrade cida , Sr. Puntila de Lammi , mas eu, sabe , só fico
E entrou nesta cidade noiva de acordo co m a praxe : "ane l direitinho e um go le de
Com um homem de verdade.
vinho".
Torna a sair. Na janela aparece Manda, a empregada da farmácia.
PUNTILA - De acord o , não sera ISSO que... O importante é você ficar
MANDA - Hei, que é que você quer? Arrancar a campainha? noiva, e já não é se m tempo. Que vida levou até agora? Me fala
um pou co de voc ê, me diz co mo é que vive: pra ser seu noivo , eu
PUNTILA - É melhor ficar sem campainha, do que sem companhia como
preciso saber tudo.
eu . Pissi pissi pissi pissu sa rará sururu. Preciso de álcool para no-
venta vacas , amor de minha vida . Depressa, meu tesouro!
MAN DA - Eu? A minha vida é a segu inte: estudei quatro an os e meu
patrão me paga menos que cozinheira. Metade do ordenado eu
à

MANDA - Você precisa é que eu chame um guarda, isso sim.


mando para minha mãe , que sofre do coração. Eu também sofro,
puxei a ela . Dia sim, dia não, pego o turno da noite . A farmacêu-
PUNTILA - Ô, bonequinha. Um guarda prum homem como Puntila de
tica vive com ciúmes, porque o patrão dá em cima de mim. O
Lammi? Que adianta um guarda? Pra mim, precisa pelo me nos
doutor tem uma letra horrível e eu uma vez troquei as receitas. Os
dois. Mas pra que dois guardas? Eu quero bem aos guardas, coita-
remédios, caindo na roupa, queimam tudo, e o senhor sabe o
dos, eles têm os pés maiores do mundo e cinco dedos em cada
pé , por quê? Porque também amam a ordem, como eu . Entrega a pre ço das fazendas. Eu não tenho amigos: o chefe de polícia , o
receita. Aqui está , lê aí, minha pombinha: uma lei e uma ordem. gerente da cooperativa e o diretor da biblioteca já são casados:
A empregada da farmácia vai buscar o álcool. Enquanto isso, Ema, a portanto, eu não tenho muito com quem me divertir. O senhor
contrabandista, sempre lavando a garrafa, aparece outra vez, can- quer saber? Não acho a vida muito engraçada, não.
tando.
PUNTILA - Está vendo? Fica com Puntilal Toma , bebe um gole!
EMA -
E fomos colher amoras: MANDA - E o anel ? Se diz : "anel direitinho e um gole de vinho".
Ele se deitou na grama,
Cobiçando a todas nós PUNTILA - Santo Deu s! Não servem as argol as da cortina?
Com o seu olhar em chama.
Torna a sair. MANDA - Quantas argolas o senhor quer? Uma só, ou várias?
Manda traz o álcool.
PUNTILA - Muitas, uma não chega. Puntil a quer jnuito de tudo, se mpre .
MANDA rindo - Olha que garrafão! Espero que consiga também alguns Uma garota só não tem sentido para Puntila , você entende?
arenques , para melhorar o porre que essas vacas vão tomar. En- Enqua nto a emp regada da farmácia va i buscar as ar[$olas da cortina,
trega a garrafa. Ema sai de casa outra vez, canta ndo.
36 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 37

EMA - PuNTILA - E eu tenho uma fábrica inteira, um moinho a vapor, uma


E enquanto fermentávamos as amoras , serraria, e não tenho mulher. Que é que você me diz, minha fran-
Conosco ele brincava alegremente, guinha? Está aqui o anel, bebe um gole ali, e estamos noivos de
E rindo ria e ria rindo, acordo com toda a praxe. Você também já sabe: domingo às oito,
Metendo o dedo no recipiente. lá em casa , em Puntila. Combinado?
Torna a entrar em casa efica espiando da janela .
A empregada da farmácia dá as argolas a Puntila . Enquanto isso, LIsu - Combinado.
repete a bocca chiusa o tema da outra .
PUNTILA continua a andar - Em frente, em frente , a caminho da cidade.
PUNTILA botando uma argola no dedo dela - Eu te espero em minha Não agüento a curiosidade de saber quem é que já está de pé a
casa , domingo, em Puntila , às oito horas. Vamos fazer uma grande esta hora da manhã. As mulheres são irresistíveis a esta hora: aca-
festa de noivado. Ele vai andando. Passa Lisu, a ordenhadora, baram de sair da cama, ainda estão com os olhos brilhantes e
com um balde na mão. Espera aí, minha pombinha! Eu te quero, pecaminosos... e em volta, o mundo é tão jovem. Chega à Central
menina. Você me agrada. Onde vai a esta hora da manhã? Telefônica. Sandra, a telefonista, está saindo. Bom-dia, deusa da
vigília! Mulher onisciente, que sabe tudo através dos fios mágicos
da telefonia. Bom-dia a ti, minha pomba-rola.
Lisu - Tirar leite das vacas.
SANDRA - Bom-dia, Sr. Puntila. O senhor, tão cedo? Que aconteceu?
PUNTILA - Como, minha filha, então o balde é tudo o que você bota
entre as pernas? Não quer um homenzinho pra você? Ah, mas que
PUNTlLA - Então não sabe? Procuro esposa .
vida a tua! Vem cá, me conta como é a tua vida, menina. Você me
interessa.
SANDRA - Ah, é o senhor? Eu procurei pelo senhor a noite inteira.
LISU - Minha vida é assim: me levanto às três e meia da manhã pra
PUNTILA - Sim, você sabe tudo. E passa a noite inteira acordada, em
varrer o estábulo e limpar as vacas. Depois tenho que ordenhar as
vigília pela cidade. Me diz aqui: que vida você leva?
vacas e lavar os baldes, com soda cáustica e outras porcarias que
queimam as mãos. Aí limpo o estábulo outra vez e tomo um café
SANDRA - Já lhe digo. Minha vida é a seguinte: ganho cinqüenta mar-
que me dá dor de estômago, porque é daqueles, né? Como um
cos, mas há trinta anos que não saio do escritório. Atrás do escri-
pouco de pão com manteiga e tiro uma pestana. Na hora do al- tório , tenho um terreninho onde planto batatas. Dava para viver,
moço, cozinho umas batatas com salsa . Carne, eu não vejo nunca. já não dá porque agora tenho que pagar meu almoço e o café está
De vez em quando a patroa me dá um ovo de presente ou eu cada vez mais caro. Sei de tudo que acontece na cidade e mesmo
acho algum no mato. Depois eu torno a varrer o estábulo, tiro no estrangeiro. O senhor ficaria espantado se soubesse o que sei.
mais leite das vacas, torno a lavar os baldes. Minha obrigação é Por isso é que até agora não casei. Sou secretária do Clube dos
ordenhar cento e vinte litros de leite por dia . De noite , como pão Trabalhadores, meu pai era sapateiro. Ligar e desligar linhas de
com leite . Me dão dois litros de leite por dia, mas as outras coisas telefone, fazer purê de batatas e saber tudo, essa é a minha vida ,
eu tenho que comprar na fazenda . De cinco em cinco domin- Sr. Puntila . .
gos eu tenho um dia inteiro livre, de noite vou dançar; às vezes
me dou mal e pego filho. Tenho dois vestidos. Tenho também PUNTILA - Pois é hora de mudarmos de vida! E depressa. Telefona ime-
uma bicicleta. diatamente ao escritório central e comunica ao diretor que você
o Sr. Puntila e seu criado Matti 39
Bertolt Brecht
38
Para ordenhar minha vaca?
vai casar com Puntila de Lammi. Aqui está o anel , aqui está a Por mim, Ó, bela ,
bebida, aqui está tudo de acordo com a praxe, e domingo às oito, Nunca te levantes do leito ;
já sabe, lá em casa . Eu deito".

SANDRA rindo - Estarei lá sem falta. Já sei que domingo é a festa de


noivado de sua filha .
4
PUNTILA pa ra Ema, a contrabandista - Como vê , cara senhora, estou
noivando aqu i de forma coletiva; espero que a senhora me dê o
o MERCADO DOS TRABALHADORE S
prazer de comparecer também. Ela estende o dedo; Pu ntila co-
Mercado dos Trabalhadores, na pra ça do bu rgo de Lamm i. Puntila e
loca a argola. Matti e um Gordo escolhem mão-de-obra. Música de fe ira, muitas
voz es.
As QUATRO cantam-
Quando nós acabamos de comer PUNTILA - Já ache i demais você me deixar sair soz inho de casa; mas é
O hom em já tinh a ido embora
ainda mais imperdoável qu e não tenha ficad o me es pe rando, me
Mas até hoje estamos es perando
obrigando a te arranca r da cama pra me trazer ao Mercad o dos
E ainda achamos que ele não demora.
Traba lhadores. Você faz como os Apóstolos, no monte das Olivei-
PUNTILA _ Tudo be m. Agora posso vo ltar a correr co m meu carrinho, ras. Ago ra eu sei qu e tenho de ficar de olho em você. Basta eu
atravesso os pinhais, atravesso a floresta , e ainda chego a tempo be ber um co po a mais, que você se aproveita pra tom ar suas li-
no Me rcad o dos Trab alhad ores. Choc choc choc choc choc cho c be rda des .
chie chie chic chie. Um viva às filhas desta te rra abençoada : a vós,
que , du rante anos e anos vos levan tastes em vão com a alvora da . Mcrn - É, Sr. Puntila.
Mas Punt ila chegou para vos fazer ditosas. Vinde a mim, vós todas
que ace ndeis o fogo das matinas , faze ndo o fumo sub ir pelos te- PUNTILA - Eu não qu e ro brigar com você, qu e isso me repug na . Falo
lhados, brilhante à luz do dia! Vinde todas, de pés nus; a erva pro seu bem ; não me leve a mal , me compree nda. A ge nte co-
fresca da ma nhã conhece os vossos pés: Pu ntila também vai co- meça com um pequen o descuid o e term ina na cadeia. Um empre-
gado que es puma de inveja diante da co mida do patrão é intole-
nhecer!
rável! Agora, um e mpregado que trabalha é outra co isa. Se fica
Corlina .
exigindo horas de rep ou so e pedaços de carne assa da do ta-
COZINHEIRA como antes, mas agora com uma tigela de louça e uma mu- manh o de tampas de privada , cai logo em nosso desagrad o e
lher batendo massa - tem os de lhes mostrar o olho da rua! Mas é ev ide nte que você não
Q uando Pun til<! foi passear, vai se arriscar a isso.
"Ó, Bela", disse , "do peito arfante!
Aonde levas, quero ajudar-te, Mxrn _ Não vou, não , Sr. Puntila. Eu li uma vez no Correio de Helsin-
Tua beleza, que é tão tocante? que, no supleme nto dos domingos, que a' humildade é uma prova
Será que acaso de educação. Q uando se é discreto , qua ndo se domina a paixão,
Sais ainda escuro se vai lon ge . Dizem que Kotilaine, o proprietário das três fábricas
De tua barraca
40 Bertolt Brecht o Sr. Puntil a e seu criado Matti 41

de papel, é a modéstia em pessoa. E se nós começarmos a esco- puNTILA - Princ ipesco! Vou exa mina r sua ca rteira no café. Me es pera lá
lher, antes que nos levem os melh ores?
no muro. A Matti - Aquele outro lá, eu vou levar por ca usa dos
costados, mas está com um a calça muit o boa ; se fosse bom trab a-
PUNTILA - Eu quero uns bem fortes. Examina um latag ão. Esse não é
lhador já a teria rasgad o. É preciso sempre prestar muita aten ção
mau , tem uns bons costados. Mas os pés não me agrada m: deve
nas roupas deles. Muito boas, é qu e não qu erem estragá- las trab a-
gos tar muito de ficar se ntado, hein? Tem os bra ços do mesmo
lha ndo; muit o ruins, é qu e são desleixados. Uma olha da e a gente
tamanho daquele ali, qu e é mu ito men or: o lha o o utro , co mo tem
julga um trab alh ad or. A idade, pra mim , não imp orta; às vezes um
os braços compr idos! Ao baixinho - Você é bom trabalh ad or de
ca mpo? velho até trab alha mais. Tem mais medo de se r despedido. O
principa l, pra mim , é o homem. Basta que não seja totalmente
GORDO - O senho r não vê qu e e u esto u tratando co m esse homem? burro . Os inteligentes, eu não quero nem ver. Passam o dia co n-
tando as hora s do trab alho , ah, eu não gosto disso ; qu ero mant er
PUNTlLA - Eu também es tou tratando co m ele, e peço-lhe o favor de relações amistosas com o meu pessoal. Ah, ia me esquecendo:
não me incom od ar! precisava arranjar tamb ém um a ordenhadora. Mas ant es vê se en -
contra ainda um ou dois trab alh ad ores pra eu escolher. Vou tele-
GORDO - Eu incom od o? fonar.
Dirige-se ao café . Mattifala a um trabalhador Ruivo.
PUNTlLA - Não me ve nha co m perguntas insolentes! Tenho horror disso!
Ao Trabalhador - Em Puntila eu pago meio marco por metro de MAm - Estam os precisando de um hom em pra trabalhar na turfa , na
turfa . Pod e se aprese ntar seg unda-feira. Como é o seu nome? p ropriedade de Puntil a. Mas eu so u só o cho fer, não sei mais o
que dizer ; o velho foi telefon ar.
GORDO - Mas qu e grosseria! Eu estou co mbina ndo a maneira de alojar
esse hom em co m a família, e o se nhor vem pescar nas minhas RUIvo - Como é a co isa lá?
águas. Há pessoas qu e não deviam se r admitidas no Mercad o.
MAT"n - Mais ou menos. Qu atro litros de leite por dia, não é mau . Dizem
PUNTILA - Ah, você tem família? Eu dou trab alh o a tod o mundo . Sua qu e dão tamb ém as refeições. O quarto não é lá essas coisas.
mulher é forte? Pode trab alhar no campo? Qua ntos filhos você
tem, e de qu e idad e? RUlvo - E a escola fica lon ge? Eu tenho um guri.

TRABALHADOR - Três . Oito, onze e doze anos. A mais velha é uma me- MAm - A um a hora e quinze.
nina.
RUIvo - Não é muito , co m tempo bom.
PUNTlLA - Vai trab alh ar na cozi nha . Dir-se-ia que vocês foram feitos p ra
mim. A Matti, de modo que o Gordo ouça - Você vê como se MAm - No ve rão não é muit o .
com portam ce rtas pessoas, hoje em dia?
Rurvo - Acho qu e vou gostar do lugar ; não e nco ntrei nada de bom até
MAm - Isso me deixa irritadíssimo. agor a e esse tro ço já vai fechar.

TRABALHADOR - E o alojamento? MAm - Vou falar com ele . Vou dizer qu e você é humilde e não é
42 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 43

teimoso; ele gosta disso. A essa altura, já telefonou e deve estar uma boa surra, como eu recomendei que fizesse sempre que me
mais tratável. Lá vem ele . visse em tal estado. Matti, você me perdoa? É impossível eu tratar
de negócios , sabendo que existe alguma coisa entre nós dois .
PUNTILA de bom humor, saindo do café --.:...- Achou 'algu ma coisa? Me
lembrei também que tenho de levar um pouquinho de leite, uns MATO - Já está tudo esquecido há muito tempo. Não pense mais nisso .
doze marcos. Vamos resolver logo o assunto dos contratos, para eles ficarem
mais tranqüilos.
MATIl - Esse aí não é mau . Me lembrei de tudo que o senhor disse e fiz
umas perguntas a ele . Sabe cuidar bem das próprias calças, mas PUNTILA escreve na carteira do primeiro Trabalhador - Eu te com-
não exagera, e não vive contando as horas de trabalho. preendo, Matti, você me despreza. Você me olha com asco, só
admite o tom frio dos negócios. Ao primeiro Trabalhador-
PUNTILA - Ele me agrada; é todo fogo, todo chama. Vou pro café, vamos Estou escrevendo o que combinamos; pra tua mulher também.
discutir. Dou leite, farinha e feijão, no inverno.

MATIl - É melhor reso lver logo , Sr. Puntila, porque já vai fechar e a MATIl - E agora o adiantamento; sem isso não há contrato.
gente não encontra mais nada .
PUNTILA - Não precisa me empurrar. Deixa eu tomar meu café em paz!
PUNTILA - Por que essa pressa? Entre amigos, tudo se arranja. Eu confio À moça que serue - Deixa isso aí, ou melhor, traz uma cafeteira
na sua escolha, Mani; estou tranqüilo. Eu te conheço e te estimo. bem grande, nós nos servimos. A cara dessa gente! Detesto esse
A um trabalhador miserável - Olha, esse daí não me parece Mercado de Trabalhadores. Quando quero comprar cavalos e
ruim ; tem um bom aspecto. Eu preciso de gente na turfa, mas vacas , está bem, vou ao mercado com prazer. Mas vocês, vocês,
também estou com falta de pessoal no campo. Vem, vamos con-
que diabo, são homens! É assim que se negociam vocês, no mer-
versar!
cado? Isso não devia ser permitido, não é verdade?
MATIl - Sr. Puntila, não quero me meter, mas esse daí não é bom para
MISERÁVEL- É evidente.
o senhor: não agüenta a virada .
Mxrn - Desculpe, Sr. Puntila , eu não concordo. Esses daí procuram
MISERÁVEL ~ Vê se te manca! Não agüento o quê?
trabalho, o senhor procura trabalhadores: é preciso negociar. Isso
pode acontecer no mercado ou na igreja, é sempre negócio. Eu
MATIl - Onze horas e meia de trabalho no verão. Eu só quero evitar
gostaria que o senhor acabasse logo .
uma decepção, Sr. Puntila . Depois ele não agüenta e o senhor vai
ter que mandar embora...
PUNTILA - Você hoje está no seu dia pior, hein? Pra me contradizer
PUNTILA - Vamos pro café. O primeiro Trabalhador, o Ruivo e o Mise- numa coisa assim tão clara. Você acha direito ficar me exami-
rável seguem Puntila e Matti até afrente do café, sentam-se num nando, pra ver se eu tenho pé chato, da mesma maneira que se
banco. Olá , garçom! Antes de começar, tenho que acertar um ne- examina um cavalo abrindo a boca pra ver os dentes dele?
gócio com meu amigo aqui. Matti, você deve ter notado ainda
agora que eu ia tendo um daqueles ataques, você sabe, já falei. Mvrn - Não, ao senhor eu levo em confiança. Falando do Ruivo -
Eu teria compreendido perfeitamente se você tivesse me dado Ele tem mulher e a filhinha está na escola.
44 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 45

PUNTILA - É menina ainda? Olha, lá vem o Gordo de novo. Basta o jeito qu e: é um cara desumano, nunca mais vai botar os pés lá em
dele andar, pra fazer ferver o sangue dos trabalhadores: é um casa. Surkala é um trabalhador de primeira.
andar de patrão. Aposto como pertence à Guarda Nacional e
obriga os empregados a fazer ginástica todos os domingos , pra MATTl - Vou falar com ele agora mesmo. Não é preciso correr; co m a
lutar contra os russos quando for preci so. Você não acha? reputação que tem, Surkala não arranja nada. Eu só queria qu e o
senho r terminasse com esse pessoal, mas estou vendo qu e o se-
RUIVO- Minha mulher lava: ela faz mais , em meio dia de trabalho, do nhor não quer nada : quer é passar o tempo.
que qualquer outra mulher num dia inteiro.
PUNTILA sorrindo dolorosamente - Ah, é assim que você me julga,
PUNTILA - Matti, eu sei que nem tudo está enterrado e esquecido entre Matti? Sim senhor, você não me entende nada , apesar de todas as
nós dois. Conta pra eles a história dos fantasmas. Eles vão gostar. opo rtunidades que lhe dei .

MAm - Depois. Primeiro os adiantamentos. Estou lhe avisando. Está RUIVO - O senhor podia assinar logo o meu contrato? Senão e u vou
ficando tarde. Está fazendo eles perderem tempo. pro curar outra coisa , enquanto é tempo.

PUNTILA bebe - Não , Matti, você não vai me obrigar a ser desumano. Eu PUN'f1LA - Está vendo? Você faz essa gente fugir de mim , Matti. Com o
quero me aproximar dos meus homens do ponto de vista hu- seu temperamento tirânico, você me obriga a me comportar
mano, antes de qualquer outra ligação. Primeiro tenho que expli-
contra minha natureza. Mas eu hei de te convencer de que Puntila
car a eles a espécie de homem que sou, pra que eles decidam se
é outra coisa. Quando compro um homem, não faço isso de cora-
podem conviver comigo. Diz a eles : que espécie de homem eu
sou? ção frio. Quero que a minha propriedade seja um lar para ele .
Não estou certo?
MAm - Sr. Puntila, permita-me garantir que nenhum deles está interes-
RUIVO- Bom , vou embora. O que eu quero é um emprego.
sado nisso ; estão interessados é num contrato. Eu recomendo que
o senhor contrate esse daí - mostra o Ruivo - , ele é capaz para
o serviço, o senhor vai ver. Quanto aos outros, um conselho: apa- PUNTILA - Espera aí! Ele foi mesmo! Ele me servia! Eu não ia ligar pras
nhando turfa , vocês não vão ganhar nem pro pão dormido . calças dele: não julgo um homem pelas calças. Não gosto é de
fazer negócios quando bebo, nem que seja um copo. Por que
PUNTILA - Aquele ali não é Surkala? O que é que ele está fazendo no tratar de negócios, quando a gente sente é vontade de cantar? A
Mercado? vida é tão bonita! Quando eu penso na volta, que beleza. Ao en-
tardecer, então, eu adoro esta terra! A gente vai correndo e as
MAm - Está procurando emprego. O senhor prometeu ao padre botar bétulas vão passando. Antes vamos beber mais um copinho.
ele na rua porque disse que é vermelho. Vamos, vocês têm de beber, fiquem alegres como Puntila, eu
gosto de alegria e nunca olho as despesas quando estou com
PUNTILA - Quem? Surkala! Meu único empregado inteligente? Toma, dá gente amiga. Rapidamente distribui um marco a cada um. Ao
esses dez marcos a ele e diz pra ele vir aqui. Vai voltar conosco no Miserável- Não se deixe impressionar, vou te dar um bom lugar,
Studebaker. Amarramos a bicicleta dele na mala, e não tem nada de você vai ficar no moinho a vapor, um trabalho fácil. .
ficar procurando não sei o que por aí. O coitado tem quatro fi-
lhos. O que é que vão dizer de mim? Quero que o padre se las- MAm - Então por que não assina a carteira dele?
46 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 47

PUNTILA - Mas pra que isso? Agora é que nós nos conhecemos. Eu dou
minha palavra de que tudo vai ser feito da maneira mais correta. 5
Então vocês não sabem o que significa a palavra de um homem
de Tavasto? O monte Hatelma pode desabar... Não é provável,
ESCÂNDALO EM PUNTILA
hein? Mas , enfim, pode ... o palácio de Tavasto pode desmoro-
nar, hein? Mas a palavra de um cidadão de Tavasto é definitiva
Pátio da propriedade de Puntila, com uma cabina de banho, cujo inte-
todo mundo sabe. Podem vir comigo. '
rior é visível. Manhã. Na porta do pátio, Laina, a Cozinheira, e a Arru-
madeira, Fina, pintam um cartaz com os dizeres: Bem-vindos ao noi-
MISERÁvEL- Eu lhe agradeço. Pode contar comigo, Sr. Puntila. Eu vou .
vado. Pelo portão entram Puntila e Matti com alguns trabalhadores,
entre os quais Surkala.
Mxrn - Em vez de dar o fora! Eu não tenho nada contra o senhor, Sr.
Puntila, mas é por causa deles.
LAlNA descendo da escada - Bem-vindo a Puntila! D. Eva, o Attaché e o
1 Juiz já chegaram; estão almoçando.
PUNTILA num tom compenetrado - É uma atitude muito bonita, essa
PUNTILA - O que eu quero é ser o primeiro a apresentar desculpas a
tua, Matti. Eu sei que você não é rancoroso. Aprecio muito a sua
você e sua família , Surkala. Faz o seguinte: vai buscar teus filhos,
boa-fé e a lealdade com que defende meus interesses. Mas você
os quatro: quero exprimir pessoalmente a eles o meu remorso
não deve esquecer que Puntila pode se dar ao luxo de ir a todo o
pela angústia e incerteza em que foram lançados por minha
vapor contra os próprios interesses, hein? Olha, Matti, quero q ue
culpa.
você me dê sempre a sua opinião. Promete? Aos outros - Sabem
por que ele perdeu o último emprego? Porque o patrão guiava e
quando fazia as mudanças arranhava a embreagem, e ele aí disse SURKALA - Não é preciso, Sr. Puntila.
que o patrão tinha alma de carrasco.
PUNTILA gravemente- É preciso, Surkala . Surkala sai. Estes cavalheiros
Mxrn - Besteira minha. vão ficar aqui: serve um copo para cada um , Laina! Vão trabalhar
na derrubada do bosque.
PUNTILA gravemente- Eu gosto de você por causa dessas besteiras.
W NA - O senhor não ia vender o bosque, pro noivado?
Mxrn levanta-se - Vamos embora? E Surkala?
PUNTILA - Eu? Eu não vendo nada. O dote de minha filha é o que ela
PUNTILA - Matti, Matti, homem sem fé. Eu não disse que ele ia voltar tem entre as pernas!
conosco, que é um trabalhador de primeira e um espírito inde-
pendente? Isso me faz lembrar o Gordo de ainda agora, o que Mxrn - Podíamos aproveitar agora pra dar o adiantamento, e o senhor
queria roubar os meus trabalhadores: ainda tenho umas coisas ficava livre disso , Sr. Puntila.
pra dizer a ele. É o capitalista perfeito.
PUNTlLA - Eu vou à sauna. Fina , me traz um café! Entra no banheiro e
se despe.

MISERÁVEL - Você acha que ele me emprega?

Mcrn - Não . Quando ficar bom, vê como você é e...


-
48 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 49

MISERÁVEL - Mas bêbado também ele não resolve. Gordo do Mercado! Fina entra. Ah, lá vem essa deliciosa criatu ra
traze ndo o meu café. Está bem forte? Quero um licor também.
MArn - Eu avisei pra vocês não virem sem contrato .
Fina traz o álcool e os trabalhadores p egam um copo cada um . MA'nl - Então, pra que o café? Nada de lico r.

TRABALHADOR - Fora isso , co mo é que ele é? PUNTILA - Já se i, você ago ra está zanga do co migo porqu e e u deixo as
pessoas es pe rando. Tem tod a a razão . Mas então co nta a história
MArn - Muito co nfiado! Pra vocês, isso nã o tem imp ortância: vocês do Go rdo, vai! Fina também pode esc utar. Conta - O lha , era um
ficam na floresta . Mas pra mim , no ca rro, estou na s mãos dele; gran dão, barrigudo e desagrad ável, um verda de iro ca pitalista, qu e
mal dou uma respirad a e ele já fica fratern al. Eu vo u-me embora. ten tava me rouba r um trab alhad or. Mas vai, Matti, co nta você , en -
Surkala entra com os quatro filh os. A ma is velha carrega o qua nto eu tomo o café.
menor. Pelo amo r de Deu s, dá o fora! Assim qu e ele sair do
banho e tomar café, vai ficar mais fresco qu e um pé de alface! MArn percebe que Fina tem os olhos grudados na tina onde está Pun-
Azar o teu , se ainda te en contra na propriedade. Ach o melhor tila - Qua ndo nós pegam os o ca rro, a cha rrete dele estava lá
você sumir por alguns dias. junto . Assim qu e ele viu o Sr. Puntil a, ficou furioso ; pegou no
Surkala faz um gesto de concordâ ncia e desaparece com os filh os. En- chicote e deu no cava lo co m tant a for ça qu e o bicho empino u,
quanto se despe, Puntila ouviu alguma coisa mas não entendeu bem, relinchando de dor.
lança um olhar para f ora da cabina de banho e vê Surkala com os
meninos. PUNTILA - Eu não posso ver ninguém maltrat ar um animal.

PUNTILA - Ah, Surkala, já já estou aí! Matti, vem cá, eu preciso qu e você Mxrn - Aí o Sr. Puntila seguro u a rédea do cava lo e acalm ou o coi-
me jogu e ág ua. Ao Miserável- Você também pod e entrar. Qu ero tado. Enqua nto isso , ia dizendo ao Go rdo alguns pensamentos.
qu e me co nheça mais intimamente. Matti e o Miserável seguem Eu ache i até qu e o Gordo ia dar um a chicotada no Sr. Puntil a, mas
Puntila na ca bina de banho. Matti j oga água em cima de Pun- ele viu qu e o nosso lado era mais forte e falou qu alqu er co isa a
tila . Surkala sa i furtiuamerue com os meninos. Um balde só, respe ito de gente sem educação, imbecis e co isas se melhantes.
chega; detesto água . Na ce rta pen sou qu e nós não íam os entender. Mas o Sr. Puntil a
tem uma inteligên cia fina e perguntou a ele se , por acaso, tinh a
Mxrn - Não, não ; precisa mais, agüe nta. Depois o se nho r toma café e instru ção bastante para sa be r qu e os gordos morrem facilmente
vai cumprime ntar as visitas. de um ataque apo plético.

PUNTlLA - E não posso ir cumprime nta r as visitas com um ba lde só? PUNTlLA - Conta co mo ele ficou verme lho co mo um peru! Tinha tant a
Qu er me fazer de imb ecil? raiva que nem sab ia o qu e responder diante daquela gente.

MISERÁvEL- Eu també m acho qu e chega um balde só . Está se ve ndo qu e Mxrn - Ele ficou vermelho como um peru, e o Sr. Puntila gritou: "Você
o Sr. Puntila detesta água. não deve se deixar dominar pela raiva, porque pod e morrer agora
mesmo co m tod a ess a go rdura estragada qu e tem no co rpo" . E
PUNTILA - Está ouvindo, Matti?; assim é qu e falam os qu e me qu erem qu e se ele ficava ass im verme lho é porque o sa ngue lhe su bia ao
bem. Conta pra ele como eu coloquei no devid o lugar aquele cé rebro, co isa que devia evitar para o bem de seus filhos.
50 Bertolt Brecht o Sr. Punti la e seu criado Matti 51

PUN11LA - E qua ndo eu disse de lad o pra você: "Não devem os irritá-lo mala: agora é propri etário do único gara nhão q ue nos serve nes-
perceb e-se qu e é um tran stornad o ". Aí é q ue ele ficou irritad~ tes o itocentos quil óm etros e m volta.
mesmo , você notou ?
FINA _ Foi ele que m co mprou? E vocês só so uberam depois da briga?
Mxrrt - Nós falávamos dele como se ele não estivesse ali, as pessoas Puntila se levanta e passa por trás, joga ndo um último balde d 'á -
e m volta riam cada vez mais e ele ficava cada vez mais verme lho. gua sobre si mesm o.
Aí é qu e ele co meçou a ficar parecid o co m um peru. Antes, só
com um tijolo descascad o . Bem -feito pra ele . Qu em mandou da r MATTl - Nós soube mos depois, mas o Sr. Puntila já sab ia. Tanto sabia
no cavalo? Um dia , no vagão de um trem , eu vi um sujeito q ue que gritou para o Go rdo qu e o ga ranhão dele não se rvia mais
sapa teava de raiva e m cima do próprio chapéu, só porque tinha pras nossas ég uas , porque estava tod o che io de pereb as. Como
perdido a passagem. E a passagem estava justame nte na fita do foi mesmo q ue o se nhor disse?
cha pé u.

PUNTlLA - Isso mesmo: perebas... não interessa.


PUNTILA - Agora você perdeu o fio . Eu disse a ele também qu e, prum
homem gordo , qualquer esforço físico , por exemp lo, chic otear
MAm - Isso mesmo , perebas, não interessa! Foi e ngraçado .
um cavalo, pode ser mortal. Que, por isso , e le não de via maltrata r
os animais.
FINA - Só faltava a ge nte mandar as mula s de trem para se re m co be rtas.
FINA- Ningué m de ve fazer isso .
PUNTlLA sombrio - Outro café!
PUNTILA - Muito bem, Fina. Você merece um licor. Vai bu scar, vai. Seruem- no .

Mxrn - Pra Fina tem aí o café . O se nhor já está melh or, Sr. Puntil a? MAm f orte - O am or aos animais é a maior qualidad e dos habit antes
de Tavasto , tod o mundo sabe. Por isso é qu e e u fiquei tão espan-
PUN11LA - Pior. Estou pior. tado com o co mportame nto do Go rdo . Ouvi falar també m qu e ele
é cunhado de Madam e Klinckmann . Eu nem quis dizer nad a, por-
Mxrn - O Sr. Puntila subiu muito na minha cons ideração, tratando que , se o Sr. Puntil a soubesse disso , ia tratar o Gordo ainda pior.
ass im aquele tipo . Bem podi a ter dito : "Não tenho nad a co m isso ; Puntila lan ça-lhe um olha r.
nã o qu ero fazer inimig os e ntre os vizinh os".
FINA - O café estava bem forte?
PUNTILA que vai fica ndo melhor aos po ucos - Eu não tenho medo de
ningu ém . PUNTILA - Não me faça perg u ntas imbecis. Eu não bebi? A Matti -
Você aí: acha que vai ficar o dia inteiro e m pé, sem faze r nada? Vai
Mxrn - É verda de . Mas qu ant os podem dizer isso? Só o se nho r. Só o e ngraxa r as bo tas e lavar o carro, que está imundo ; é uma cloaca.
se nhor pod e arranjar out ro garanhão para as éguas. E não resp onde! Se te apa nho dizendo piadinhas ou falando mal
de mim nas minhas cos tas, ano to isso na-tua ca rteira, fica avisado!
FINA- O que é qu e têm as ég uas co m a histór ia? Sai, sombrio, envolvendo-se no roupão de ba nho.

MAm - Eu ouvi dizer q ue foi o Gordo q ue comprou a Fazenda Su- FI:-.IA - Por que você deixou ele briga r com o don o da Suma la?
54 Bertolt Brech t o Sr. Puntila e seu criado Matti 55

lavra . Por isso é qu e eu hesito tant o e vo u aca bar casa ndo co m importante é ele co mpree nder que chegamos a um gra u de inti-
ele. midade que não tem mais remédio.

MAm - A se nho rita está numa sinuca. EVA -Como?

EVA - Não es tou em nenhuma sinuca, para usar sua expressão gros- MAm - Eu cha mo você de Eva na frente dele.
se ira. E até nem se i por que vim discutir co m você co isas tão
delicad as. EVA - Po r exemplo?

MAm - Discutir é humano, senhorita. É a vantagem que os homens MAm - "Eva, você esqueceu de abotoar o vestido nas cos tas ."
têm sobre os animais. Se as vacas pudessem discutir entre elas, a
senhorita acha que continuariam a dar leite? EVA passa instintiva mente a mão nas costas - Não esqueci não . Está
abotoa do. Ah, bom! Você já estava ensa iando! Mas ele não vai se
EVA - Isso não tem nad a a ver com o nosso ass unto . Eu ach o que, imp ortar co m isso. Não é tão se nsíve l assim; tem mui tas dívidas.
provavelmente, não vou se r feliz com o Attaché; mas o rompi-
mento deve partir dele . Como é qu e eu vou fazer para ele com- MAm - Então , distraíd o , e u posso pu xar o lenço do bolso e deixo cair
preender isso? um a pecinha íntima sua. É pou co sutil?

MAm - É, um a pedrinha só não chega: precisa um paralelepípedo . EVA - Já é melhor. Mas ele d irá qu e você tem uma paixão sec reta por
mim e qu e apanhou a...
EVA - Qu e qu er dizer com isso?
MAm -Ameia.
MAm - Qu e e u é que devo resolver o caso: eu so u grosso.
EVA - ... a meia qu ando eu não estava. Pausa. Estou vendo qu e não
EVA - Como é qu e você pode me ajudar, num assunto ass im tão deli- lhe falta imaginação , nesse se ntido.
cado?
MAm - Faço o melho r que posso , se nhori ta. Procuro imaginar todas as
MAm - Digamos que eu me senti encorajado pe las palavras tão ínti- situações entre nós, mesmo as mais embaraçosas, pra ver se en-
mas que o Sr. Puntil a deixou esca pa r du rante a bebed eir a, e se- co ntro um a saída .
gu ndo as quais a se nho rita devia me aga rrar para marid o . E qu e a
se nhori ta... Posso tratá-la por você? .. tinh a se se ntido atraída pela EVA - É melhor deixar, sabe?
minha força bruta, pe nse em Tarzan . Então o Attaché nos pega
em flagrant e e diz: "Você não é d ign a de mim. Uma mulher que se MAm - Como quiser. ão servia, também.
degrada co m um cho fer não serve para um Attac b é". Funcion a?
EVA - O qu e é qu e não se rvia?
EVA - Eu não posso lhe ped ir uma coisa dessas.
MAm - Se as dívidas do Attaché são muito grandes , só há um jeito:
MAm - Ora, pra mim é u m serviço como ou tro qualquer. Em co mpen- sairmos juntos do ba nheiro. Menos do que isso não adia nta. Pra
sação, eu não lavo o carro. Em meia ho ra nós resolvemos tudo. O tudo mais, ele va i enco ntrar sem pre uma justificativa. Não co nse-
56 Bert olt Brecht
o Sr. Puntila e se u criado Matt i 57

MAlTI - Como é qu e nós va mos passar o tempo no banheiro?


gu irá ver nada de mal no qu e fizermos. Por exemplo , se eu come-
Entra em casa. Eva se dirige lentamente para o banheiro. A Cozinheira
ça r a devorá-la de beijos na frente del e , ele co mpree nde rá que
entra com um cesto.
isso é porque eu não co nsigo mais resistir à sua bele za . E assim
por diant e.
LAINA - Bom-dia, dona Eva. Eu vou apa nha r pepinos. Qu er ir co migo?
EVA - Eu nunca se i qu ando você está brin cando e qua ndo está falando
EVA - Não, obriga da. Estou co m dor de cabeça. Vou tomar um banho .
a sé rio . Está fazendo pou co de mim , por acaso? Com você , eu
Entra na cabina.
nunca estou segura.
A Cozinheira abana a cabeça. Puntila e o Attaché entram, vindos da
casa. Fumam cha rutos.
MA1TI - E por que você qu er es tar segur a? Não se trata de investir um
capital. A incerteza é tão humana, pra falar co mo seu pai. Eu
ATIACHÉ - Sabe, Puntila, estou co m vontade de ir co m Eva para a Côte
adoro as mulheres , mas nã o tenho certeza del as. d'Azur, O barão Vaurien me empresta o Rolls-Royce . Quer me
parecer qu e isso é uma exce le nte propaganda para a Finlândia e
EVA - Em você , isso não me sur preende. para o Corpo Diplomático. Há tão poucas mulheres de classe em
nos so mei o .
Mvrn - Vê? Voc ê também tem boa fantasia. Laina entra com o cesto cheio de pepinos.

EVA - Eu só qui s dizer que nunca se sabe aonde você qu er chegar. PUNTILA - Onde é que está minha filha? Saiu?

Mxrn - O dentista também, a gente nunca sabe aonde e le quer chegar. LAINA - Está aí dentro, Sr. Puntil a . Disse que ia tomar um banho , por-
E, no entanto , a gente se nta lá e abre a boca ... que estava co m muita dor de cabeça . Sai.

EVA- Esse se u jeito de falar me mostra que a história do banheiro junto PUNTILA - Eva sempre com essas extravagâ ncias . Desde quando se toma
co m você não vai dar. É evidente qu e você ia se aproveitar da banho pra dor de cabeça?
situação.
ATIACHÉ - É realm ente muit o o riginal. Mas qu er sa ber de uma co isa,
Mxrn - Enfim, alguma coisa da qual você tem certeza. Sab e , a se nho- Puntila? Nós não ex ploramos devid am ente nossos banhos finlan-
rita tem tant os escrúpulos que eu até fico sem vontade de co m- deses. Eu até já co nversei sob re isso co m o ministro, quando está-
prometê-la . vamos numa co nferência tentando obter um empréstimo . Precisa-
mos de métodos mais ag ress ivos para difundir a cultu ra
EVA- Acho melhor qu e você me co mp rome ta sem mui ta vontade . Es- finlandesa. Por exemplo: por qu e não há banhos finlandeses no
cuta: eu co nco rdo com o negócio do banheiro. Mas é melhor Piccadilly?
andar depressa . Daqui a pou co eles acabam de co mer e vêm pra
cá discutir o noi vad o . Vamos log o . PUNTILA - Por falar nisso, o ministro vem o u não vem à nossa festa?

Mxrn - Entra você primeiro. Vou buscar o baralho. ATIACHÉ - Ele me prometeu so lene me nte . Está em débito co migo, de-
pois q ue e u o apresentei ao diretor do Banco Internacional de
EVA - Baralho pra quê? Comé rcio; e le anda mu ito inte ressado em esta nho .
58 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 59

PUNTUA - Preciso falar com ele. EVA - Engraçado é meu pai não ter feito nada . A Cozinheira disse que
eu estava aqui .
ATIACHÉ - Ele tem um fraco po r mim, todo mundo sabe lá no Ministé-
rio. Me disse um a vez : "Você é um hom e m que se po de enviar a MAm - Quando ele pe rcebe u, já era tarde. Deve estar com a cabeça
qua lquer lugar, você não comete indiscrições, não se mete em estourando da ressa ca. Mas foi sorte nossa ele ter visto , pois eu
política". Ele acha que eu represento muito bem . acho que só a inte nção de te com prometer não chega. É preciso
que realmente aco nteça alguma coisa entre nós dois .
PUNTILA - Será de es pa ntar, se você não fizer uma carreira br ilha nte.
Mas o ministro tem que estar aqui na festa de no ivad o , e u co nto EVA - Será que vão pensar mal de nós , apesar de tudo? Ninguém faz
firme co m ele. Aí é que eu vou ve r o teu prestígio . essas coisas assim de manhã cedo.

ATIACHÉ - Fica tranqüilo , Puntila . Uma coisa já é proverbial no Ministé- Mxrn - É bom: isso indica uma pa ixão fulmina nte, que não escolhe
rio: eu não perco nad a, sempre acho. hora nem local. Um sete-e- meio? Dá as canas. Em Vibu rgo, tive
um patrão q ue co mia a qualquer hora do dia, qua lquer quanti-
Matti entra, um gua rda napo no ombro, dirigindo-se ao banheiro.
dad e . Antes do café , às vezes até de po is do almoço , se lhe des-
se m um franguinho assado, ele não co nve rsava . A paixão dele e ra
PUNTILA - Onde vai, vag abundo? Eu teria vergonha de ficar assim zan-
comer. Fazia parte do gove rno .
zando se m fazer nada . Como é qu e você justifica o dinheiro que
tem pagam? Olh a qu e eu não te dou a carteira e você acaba co mo
EVA - Como é que você pode co mpa rar?
um bacalhau podre, daqu eles qu e caem do ba rril e ninguém
apanh a. Mxrn - Como? Em amor há também o mesmo tipo de apetite . É a tua
vez de jogar. Você acha que no estábulo esperam até que se ja
Mxrn - Sim, Sr. Puntila. noite? É verão, estamos excita dos. Lá fora , gente de mais em toda
Puntila se volta de novo para o Attach é. Matti, tranqüilamente, entra parte . Num qu art inho como este se fica muito bem protegido .
na cabina. Puntila, a princípio, nã o vê nenhum mal nisso. Logo se Mas está qu ente , hein ? Tira o paletó. Por que você não fica um
lembra de qu e Eva está lá e olha estupefato para a porta que Matti pou co mais à vo ntade? Pode deixar, qu e eu não olho. Qu anto
acabou de f echar. vale a partida: meio marco?

PUNTILA - Como vão as tuas relações co m Eva? EVA - Eu me pergu nto se não é treme nd amente vulgar tudo isso que
você está me dizen do. ão se esqueça de que não está falando
ATIACHÉ - Muito bem. Ela me trata co m uma certa frieza, mas é te mpe- com uma em pregadinha!
rame nto dela. Eu comparo isso à nossa situação com a Rússia. Em
linguagem diplomática, diria qu e nossas relações são corretas. Mxrn - Não ten ho nada contra as e mprega dinhas.
Vem comigo, vamos colhe r um ramo de rosas bran cas para ela.
EVA - O que você não tem mesmo é educação .
PUNTILA sai ndo com ele, semp re de olhar f ixo na porta - Vamos, sim,
acho qu e é melh o r. Mxrn - Já ouvi dizer isso. Os choferes são co nhecidos pela grosseria.
E, não sei por que, não têm o menor respeito pela gente de bem.
Mxrn dentro do banheiro - Vai tud o be m. Eles me viram entrar aqui. Dizem que é por causa da intimidade no automóvel: a gente de
60 Berto lt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 61

bem fica se ntada logo ali atr ás , fala muito , os choferes o uvem tudo e PUNTlLA - Po r favor, Eino , não me o fe nda.
vão perdendo o respeito . Deve ser isso . Sete-e-meio, ganhe i!
tv1Am - Agora m e trate com m ais intimidade ; você agora d e sistiu d e
EVA - No Sac ré -Coeur d e Bru xel as só se fa lava d e coisas limpas . u m a resistê ncia in úti l.

Mxrn - Eu n ão me referia a coisas limpas o u s ujas; me referia à estu p i- EVA - Não! Não! Não! Bai:'l:o - O q ue é q ue eu digo mais?
d ez d o que falam. É a sua ve z d e d a r. Mas em bara lha b em, senão
sa i o me smo jo go . tv1Am - Diz q ue e u esto u abus ando, q ue n ão tenho esse direit o ... Pensa
Entram Puntila e o Atta ché , este com um ram o de rosas. numa situação verdadeira! Fa z o teu p apel : põ e sens ualid ade
n isso !
ATIACHÉ - Mas essa Madame Lehtine tem um es pí rito! Eu di sse : "A
sen hora se ria perfei ta , se não fo sse tão rica!". E e la me re spondeu: EVA - Você está abusa ndo, Matti, não te m esse d ire ito ...
"Eu ac ho perfeit o ser tão rica!". Ah! Ah l Ah ! Sabe, Puntila , que
quando e u fui a p resen tado à filh a d e Rotschild, no p alácio do
PUI'ffiLA berra - Eva!
barão de Vaurien , e la m e d eu exatamente a me sma re spo sta? Uma
mulher d e e spírito , também!
Mxrn - Mais! Mais! Vo cê está cega d e p aix ão! Bota as cartas de lado,
enqua nto continua m a representar a cena de am or. Se e le e n tra r,
Mxrn - Dá uma risadinha , como se e u estivesse te fa zendo cócegas .
tem q ue nos pegar e m flagr ante . Se não, n ão ad ia nta .
Se não, e les passam sem nem p e rceber nada . Eva ri um pouco,
sem deixar de j ogar cartas. ão está soando tão di vertido .
EVA - Ah , isso n ão !
ATIACHÉ parando - Ué ... nã o é Eva?
Mxrn virando um ban co com um pontapé - Agora vo cê vai sair
PUNTILA - Que nada! Impo ssível. Deve ser o utra qualquer. d aqui co mo uma ca delin ha molhada .

PUI'ffiLA - Eva!
Mxrn alto, joga ndo as cartas - Mas como você é cosquenta!
Matti despenteia cuidadosa mente os cabelos de Eva . Ela a rranca um
ATIACHÉ - Escuta! botão da blusa e sa i.

Mxrn bai xo - Agora se d efenda um p ou co . EVA - Chamou, p apai? Eu estava mudando d e ro u pa, pa ra ir d ar um
mergulho.
PUI'ffiLA - É o chofer que es tá aí. Ach o melho r você levar as rosas lá p ra
d entro. PUNJ1LA - O que é que te deu? Que m aluq ui ce estava fazendo aí n o
ba n heiro? Pe nsa q ue nó s somos s u rdos?
EVA a lto - Não! Não! Assim não !
ATIACHÉ - Não fica irritado , Puntila ; que é que tem Eva estar no ba-
Mxrn - Ah , d eixa! nhei ro ?
Mattt sai do ba nheiro com ar de fi ngido embaraço, mas não torn ou a
ATIACHÉ - Mas vo cê sa be, Puntila? É igual zinha à voz d e Eva. se vestir. Pá ra, atrás de Eva.
62 Bert olt Bre cht
o Sr. Puntila e se u criado Matti 63

_ E como , desde qu e ficou h om em, você nun ca pensou se não


EVA fa z endo que nã o vê Matti, mas um pouco intimidada - Que foi púN1lLAem .
porcarias com as mulh eres, diant e d e seme lh ante pro dízi
Iglo d e
que você o uviu, pap ai? ão aco nteceu nad a.
inocência se ntirá o sang ue sub ir até as orelhas , envergonhado de
seus pe nsa me ntos impuros, e terá vo ntade de sumir terra ade ntro.
PUN1l LA - Ah, você ac ha qu e isso não é nada? Vira de cos tas!
Compreendeu?
MATIl faz endo o intimidado - Sr. Puntila , a Srta. Eva es tava só joga ndo
MA11l - Compree ndi, sim se nhor.
se te-e-meio comigo . Se o se nhor não ac red ita, estão aq ui as car- o Attaché a rrasta Puntila para dentro da casa .
tas. Foi tud o um eq uívoco.
EVA - Estaca zero.
PUNTILA - Cala a boca, você! Está de spedido. A Eva - E agora , o que é
que o Eino va i pensar de você? MA11l - Ele tem mais dívidas do que a gente pensava .

AlTACHÉ - Quer sabe r de uma co isa, Puntil a? Se eles es tava m só jo- Cortina.
gando se te-e-me io , nós fom os vítimas de um equívoco. Uma vez
a princesa Bibesco ficou tão excitada, jogando bacará , que arre- COZINHEIRA com um recipiente onde bate a nata com o esp u mador -
bentou um co lar de pérolas. Eva, eu trouxe rosas brancas pa ra Nesta propriedade há um banheiro
você. Dá as rosas a ela. Vem, Puntila, vam os jog ar um pouco de O nde aconteceu coi sas de manhã .
bilhar. Puxa-o pela manga. Nossa patroazinha tão cristã
Se tranca lá dentro com o motorista
PUN1lLA cheio de fúria concentrada - Eva, eu tomo a falar contigo Jogando sete-e- meio.
depois. Qu ant o a você , meu seduto r, se se arriscar o utra vez a da r O noivo dela , o Attaché,
um pio na frente de minha filha , em ve z de fazer co mo deve , que Não acha feio .
é tirar da cabeça esse boné fedorento e tratar de lavar essas ore- Puntila disse:
"Esse Attaché
lhas imundas como as de um porco , ah , teu s dias estão contados.
É um homem tolerante
Teu dever é olhar para a filha daquele qu e te dá trabalho como
Com tudo que vê.
quem olha para uma criatura de essência supe rior que se dignou
Nada tem de plebeu .
descer e ntre os mortai s. Me deixa, Eino: você acha que eu posso
Mas de tud o que compra
admitir tanta impudên cia? A Matti - Repete: qual é o teu dever? O devedor so u eu ".

MATIl - Olhar para sua filha como qu em olha para uma criatura de
essênc ia supe rior que se dign ou descer entre os mortais.
6
PUN1lLA - E diante desse espetácu lo se m par, você deve arrega lar os
CONVERSA SOBRE CARANG UEJOS
olhos num estupor de incredulidad e , mal ac red ita ndo qu e possa
existir um a criatura ass im. Coz inha da propriedade de Puntila. Do exterior, de vez em quando,
vem música de dan ça . Matti lê o jo rnal. É noite.
MATIl - Eu devo arrega lar os olhos num estu por de incredu lida de, mal
ac reditando qu e possa existir um a criatu ra ass im.
64 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Mani 65

FINA entra com um monte de roupa suja, vai à caldeira e joga dentro ADVOGADO - Hum, qu e maravilha!
- D . Eva qu er falar cont igo .
JUIZ - Eu se mp re qu e ve nho aq ui tom o um copo de leite depois da
Mxrn - Está certo . Vou acabar o café. sau na .

FINA- Não precisa fingir qu e não aca bou, só para ban car o imp ortante. ADVOGADO - Ah, as noites de verão da Finlând ia!
Esse negócio dela conversar contigo parece qu e te subiu um pouco
à ca beça. Aqu ela não tem ningu ém com que m falar, co itada. JUIZ - A mim me dão um a trab alh eira inferna l, as noites de ve rão da
Finlândia. Os p rocessos de pensão de alime ntos para os filhos
Mxrn - Sabe que numa noite ass im eu gosto de deixar qu e as co isas ilegítimos são um verda de iro hino às nossas noites de verão. Para
me suba m um pou co à cabeça? Por exemplo, Fina, se de repe nte poder co mpreender o pod er de sedução de nossas matas durant e
te desse uma vo ntade de ir comigo até o rio, eu esquecia ess e ess a estação, você precisa ir ao tribunal. Qu anto aos no ssos rios,
cha mado da patroa e ficava co m você. então, nem se fala. Parece qu e no ve rão as mulh eres ficam exc ita-
das, só de olha rem os rios. Uma culpo u o fen o , por ca usa do
che iro forte qu e ex ala com o calor. Colhe r amo ras é outra ativi-
FINA- Não, obrigad a. Não esto u com vontade.
dad e perigosa, e orde nha r vacas, então... Ah, co mo me ca nsa essa
ge nte tod a orde nha ndo vacas no ve rão! O governo também devia
Mxrn abre o jornal- Está pen sando no professor?
mandar ce rcar de arame farp ad o todas as moitas do ca minho . A
tentação dos se ntidos é tão reconhecida qu e não se permite
FINA- Entre mim e o professor não existe nad a. Ele só qu eria me ins-
banho de sa una co njunto: é homens prum lado , mulheres pro
truir e me emprestou um livro. É um homem muit o ge ntil.
outro. Mas qu e ad ianta? Qu ando aca ba o banho , eles entram jun-
to s nos bosques! É imp ossível. Qualquer freio é imp ossível no
Mxrn - Pena que ganhe tão pouco , co m a instru ção que tem. Eu ganho
verão . Andam juntos de bicicleta, so be m juntos nos mont es de
trez entos marc os, ele duzentos. É bem verdade que eu de vo saber feno , e deitam juntos nos jardins, porqu e so pra um fresquinho
mais qu e ele . Se um professor é ign orante, o máxim o qu e pode delicioso . E nascem crianças porque o verão é mu ito curto, e nas-
acontecer é algu ém não ap rende r a ler os jornais. Antigam ente ce m crianças porque o inve rno é muito lon go .
isso podi a ser um mal. Mas, hoje , qu e adianta ler jornal? A ce nsura
não deixa sair nad a . Eu chego a pensar qu e , se não hou vesse ADVOGADO - O bo n ito é q ue os velhos tam bém part icipam . Nos julga-
professores, não havia necessidad e de ce nsura e o governo eco- mentos, as testemu nh as são sempre os ve lhos . Vêem tudo: vêem
nomi zava o ordenado dos ce nso res. Mas se eu eng uiço na es- o casa l que some no mato , vêe m os tam an cos esquec idos na
trada , os patrõe s, qu e anda m se mpre bêbados , acabam rolando porta da despensa , vêe m o rosto da moça aca lorado porqu e ela
pela riba nce ira o u, o q ue é pior, sujam a rou pa na lam a. Faz um foi colhe r ce rejas, ocupação aliás que não faz calor a ningu ém, a
gesto para que Fina se sente em seus joelhos. não ser que a pessoa ponha nela um ardor excessivo. E não
Entram o ju iz e o Advoga do com toalhas nos ombros. Estão saindo da vêem, só : os ve lhos tam bé m ouvem : os latões de leite tilintam , as
sauna . camas rangem . E assim , com os olhos e as ore lhas , eles também
participam da festa e também gozam um pouco do verão.
JUIZ - Você tem alguma coisa pa ra nos oferecer? Aque le esplêndido
leite do outro dia? JUIZ ouvindo alguém tocar a ca mpainha, a Matti - Quer fazer o favor
Matti, com a concha , enche dois copos. Fina sai com a roupa . de ir ver q uem é que está chamando? Ou melhor, deixa que nós
Bertolt Brecht
o Sr. Puntil a e se u criado Matti 67

vamos: seremos acusados de não respeitar as oito horas de tra-


tar a elas. Eu tenho um a habilidade dan ada , você sabia? A maior
balho . Sai com o advogado.
pa rte das pessoas parece qu e tem cinco polegares na mão . Eu
não; tenho dedos. Os carang ue jos são es pe rtos e as pedras escor-
EVA entra com andar provocante de estrela de cinema e com uma piteira
regam muito , mas a noite está muito clara , ajuda . Não tem um a
na boca - Eu toquei, chamando . Você está muito ocupa do?
nuve m no cé u, o lhei ago ra mesmo .
Mxrn - Eu? Não! É que só vou pegar no trabalho às seis da manhã.
EVA hesita ndo - É melhor co m a tarrafa . Se pega mais.
EVA - Eu vim lhe perguntar se você não qu er ir de barco até a ilha.
Podíamos pegar un s caranguejos pro almoço de amanhã. MArn - Você qu er muit os?

Mxrn - Ah, remar a esta hora? Não ach a que já é hora de dormir? EVA - Papai não com e nada que não se ja se rvido em abundâ ncia.

EVA - Eu não estou cansada . No verão durmo muit o mal, não sei po r Mxrn - Então é outra conversa. Pensei que bastava pegar uns três ou
qu ê. Se você fosse dormir agora , dormia logo? quatro, e depois a gente ficava um pou co junto , assim , né? A noite
está tão bonita!
Mxrn - Direto.
EVA - Já sei que a noite está bonita . Você já disse isso antes. Vai bu scar
EVA - Que inveja! Bem , prepara as tarrafas. Papai quer caranguejos no as tarrafas!
almoço, de qualquer maneira . Gira sobre si mesma e sai com o
andar provocante que aprendeu no cinema. Mxrn - Ah, não vai me dizer que você leva tão a sério ess es carangue-
jos. Duas bol sas chegam? Eu co nheço um lugar onde tem caran-
Mxrn impressionado- Então vamos, eu remo. guejo assim. Em cinco minutos pegamos o ba stante para salvar as
aparências.
EVA - Mas não está muito cansado?
EVA - Que é que você está dizendo? Olha, fala claro : qu er pegar caran-
Mxrn - De repente criei nova disposição. É melhor você mudar de guejos ou não quer?
roupa . Vamos andar no lodo.
Mxrn depois de uma pausa - Pensando b em , já é um pou co tard e.
EVA - Está bem. As tarrafas estão na despensa. Ela sai. Matti veste uma Torna a senta r e a ler o jornal. Amanhã de manhã, às se is em
japona. Ela volta de short bem curto e sandálias. Cadê as tarrafas? ponto , eu tenho que levar o Stude bake r na es taçã o , para es pe rar
Você não apanhou? o Attach é. Se a gente ficar pe scando até as três ou qu atro da
manhã, não vai me so brar nem um tempinho pra dormir. Qu er
Mcrn - Vamos pegar com a mão , mesmo. É muito mais divertido. dizer, se você faz mesmo questão ...
Sem uma palavra, Eva se vira e sai . Matti torna a tirar a japona e lê.
EVA - Mas com as tarrafas é muito mais prático.
Entra Laina, vinda da sauna .
Mxrn - Eu estive lá com a Arrumadeira e a Cozinheira, não faz quinze LAINA - Fina e a Coz inhe ira mandam perguntar se você não qu e r ir lá
dias ; pegamos tudo com a mão e foi divertidíssimo, pode pergun-
emba ixo , no rio . Estão lá até agora, rind o muito.
68 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 69

MATll - Viou assim . qu e aca ba r de ler o jornal. Pausa Est . se importar com qu e m eu me co mprome to, mas dinheiro a você
cansa
d do . Primeiro . o~
o Mercado de Trab alh ad ores,. dee po is tivem Uit oe ele não vai que rer ficar devendo .
an ar horas com o trator dentro do pânt an o , e as co rreias .qu
acha ram de arreben tar. aInda M;.TTI ca uteloso - Não sei se ele se sentirá meu devedor, eu dando a
você esse dinheiro .
LAINA - Também es tou morta: o dia inte iro no forno preparand
do~e~~ Eu não fu í feita pra festas de noivad o . Mas 'esto u Com oeOs EVA depois de uma pausa - Já estou arrepe ndida de ter pedido .
de Ir Ja pra cama , lá fora está tão bonito . É até um pecad o d: n.a
com uma noite assim! Olha para f ora p ela janela Acho
de .
mi-
que VOu MATll - Não se i se seu pai vai gostar muit o de você partir assim na
~cer um pou co . O cava lariço vai toca r sanfona , eu gos to tanto
vés pe ra do noivad o , qu ando os do ces já estão todos prontos.
Sal morta de ca nsaço, mas com passo decidido. .
Você não devia levar a mal ele ter dito qu e você podi a se interes-
Eva en~ra no ~omento em que Matti vai sa indo pela outra porta Est- sar por mim . Foi um a distração dele : só pensa na sua felicid ad e.
em trajes de VIagem. . a
Ele mesmo me disse . Qu ando está de porre , digam os, qu ando
be be u uma dose além da co nta, às vezes ele não sabe mais onde
EVA - Preciso que você me leve à estação imedia tame nte.
está a sua felicidad e , e age segu ndo o se ntime nto da hora . Mas
qua ndo não bebeu nad a, e é de novo um hom em inteligente , te
MATll - Pois não . Cinco minutos pra tirar o Studeba ke r. Espera no
portão . compra logo um Attaché, um a pessoa à altur a dos seus milhões:
você pod e se r e mba ixatriz em Paris ou no Nepa l, e faze r tud o q ue
lhe agradar. Po r exemplo, num a noite ass im bonita co mo esta, se
EVA - Vejo que nem se interessa em sa be r o qu e pretendo fazer na
estação. tiver vo ntade de faze r alguma co isa, você faz; se não tiver, não
faz.
MATll - Acho que pretend e pegar o trem das o nze para Helsinqu e .
EVA - Q uer dizer que você ago ra me aco nselha a ficar co m o Attac hé?
EVA - Mas não de mo nstra a me nor surpresa.
MATll - Srta. Eva: a sua situação econó mica não lhe permite desagra-
MATll idi Dev ia me surpreender por quê? A surpresa de um chofer não da r a seu pai .
a lanta .nada. Não te m a menor influência sobre o curso d~s
aclonf.tecllnentos. Na verdade, em geral, ne m sequer percebem se EVA - Em suma, você já mudou de idéia . Sabe o q ue você é? Um
e e ICOUsurpreendido. ca ta-ve nto.

EVA - Decidi p~ssar algumas semanas em casa de uma amiga em Bru- MATll - De acordo. Mas não é justo falar assim dos cata-ventos. São
xe las, e nao quero incomodar papai . Preciso que você me em - feito s de ferro , não há nada mais sólido. A única coisa que não
dprestei duzentos
' marco '
arcos pra passagem. Natura lmente papai lhe têm é uma base fort e, um ap oio seguro . Eu também, infelizmente,
evo ve, assim que eu escrever de lá . nã o tenho bas e nenhuma . Esfrega o indicador com o po legar.

MATll sem entusiasmo - Está bem . EVA - Então eu tenho que aceitar o se u conselho com muita prudên cia ,
já que você não tem a bas e nec essária para me aconselhar co m
EVA - Não precisa ficar com pena do seu dinheiro. Meu pai pode não honestidade. Todas as suas belas palavras so bre o amor de meu
70 Bert olt Brecht o Sr. Puntila e seu cr iado Ma tti 71

pai podem ter nascid o ap enas do medo de arriscar o dinheiro da h via festa , ele era enca rrega do de abrir as garra fa~, depois ia pra
passagem . ~ da estu fa e ficava jogando paciência. Já tinha filhos grandes e
tras
todos só o cha mava m pelo pnmeiro " "Vítor , me traz
. .
nom e. . ') as
Mxrn - E o meu emprego, que não é tão mau ass im. botas! De pressa, VítI or" . Sabe qu e e u não gosto dISSO, se nho n ta.

- P . in a r co mo pret ende
EVA - Sr. Alton en, o se nhor é um miserável materialista , ou, como EVA _ Eu sei. Você qu er ser o patrao . osso imag
dizem no seu meio , o se nho r só cuida de sua barriga. Nunca vi tratar sua mulher.
ningu ém mais agarrado ao dinheiro e ao bem- estar. Ah, não são
só os ricos qu e vivem pensando no dinheiro . MAlíI - Já andou pensando nisso?

_ Nem e m so nho ! Acha qu e eu não tenh o mai s em ~ ue pensar,


MArn - Lamento ter desiludido a se nhorita. Mas não foi culpa minha. EVA que passo o dia . , d A') O qu e e qu e levou
inteiro pensan o e m voce. .
O seu pedido foi tão direto ... Se tivesse ape nas sugerido, se ti- A

você a ac ha r isso? Além di sso , esto u farta d e o u v i r vo~e f~l ar


vesse feito um a alusão, se tivesse deixad o a co isa nas entrelinhas, ta d o qu
podíam os ter evitado falar de dinheiro tão grosseirame nte. Di- de você mesm o , do qu e qu er, d o que gos, . e OUVIU . dizer,
nheiro p rovoca desarmonia em toda parte. Sei muit o bem o qu e há por trás das suas histonnhas Inocentes,
das suas inso lênc ias! Voce e msuportaveu
A , • ' I' Quer saber de um a

EVA senta - Não vo u me casar com o Attaché . coisa?! Tenho horror dos egoístas!
Sai. Matti torna a se sentar e lê o j ornal.
MArn - Eu pensei bem , e não ente ndo por qu e você não qu er se casar
com ele . Ele ou outro qu alquer, d á no mesmo ; e u co nheç o esses Cortina .
tipos. São todos igu ais. Muito bem-educad os, não jog am um sa- . um a fô rma de doce-
COZINHEIRA ca nta, enquanto unta d e man teiga
pato na cabeça da ge n te nem qu ando estão bêbad os, não discu-
Bela e sozinha
tem qu estões de dinheiro , so bretudo qu ando não é dele s, e são
A filha do patrão de sceu co zinha
ã

capazes de gos tar de um a pessoa co mo gos tam de um vinh o , só


porque aprende ram. A filha do patrã o de sceu à cozinha
De noit e , co m uma luz.
"Chofer, qu e mú scul os bonitos!
EVA - É. Mas com o Attaché e u não me caso, não . Me caso com você .
Viu a roupa que eu pu s
Para pe scar caranguejos?"
MA111 - Como assim?
E o cho fer, com um bocejo:
"Ah, suave donzela, seu desejo
EVA - Papai podi a nos dar uma serraria. De pe scar ca rang ue jo
No verão é natural.
MArn - Podi a lhe dar um a se rraria. Mas aind a nã o perceb eu
. I')" .
Que estou Ie n d o o jornau
EVA - Nos dar, se nos casarmos .

MArn - Olha, moça: um a vez , na Caré lia, eu trab alh ei numa faze nda
onde o don o era um ex-emprega do. Toda vez que o vigário vinha
visitar a fazen da, a mulher mandava o marido ir pescar. Quando
72 Bertolt Brecht
o Sr. Puntila e seu criado Matti 73

7 o seu cho fer! Um basta nisso! Não vo u permitir qu e arruíne m a


minha prop riedad e .
A ASSOCIA ÇÃO DAS NOIVAS DO SR. PU TILA
EVA - Mas eu não esto u arruinando nad a!
Pátio da casa de Puntila. Domingo de manhã. Na sacada, Puntila
discute com Eva, qu e segura o espelho para ele. De longe ouve-se o PUNTlLA - Eu avisei! Não pretendo tolerar nenhum escâ ndalo. Te pre-
badalar dos sin os. parei um noivad o de seis mil marcos e estou fazendo tud o o qu e
posso pra introduzir você na melh or sociedade. Sabe o qu e isso
PUNTlLA - Você casa co m o Atta ché, e pronto! Do co ntrário, não te dou custa? Isso me custa um bosque . E você sa be o qu e é um bosque?
um níquel. Sou responsável pelo teu futuro. Então , se não sabe, como é qu e se compo rta assim, dessa ma-
neira, andando co m gato e cachorro, até co m meu cho fer? Matti
EVA - Mas antes você me disse qu e eu não devia casa r co m ele, por- surgiu em baixo, no pát io. Escuta. Se gastei rios de dinheiro na
qu e não é um hom em. Que eu devia casar co m algué m que eu tua educação em Bruxelas , não foi pra você se atirar nos braços
amasse. de um cho fer! Se não se mant ém essa gente no devid o lugar, eles
se tornam insolentes e acabam querendo dormir na nossa ca ma.
PUNTlLA - Acontece qu e eu falo um pou co demais qu ando bebo um Dez pas sos de distância, se mpre, e nenhuma intimidade , senão é
co po além da sede. Mas não me agrada nad a essa tua mani a de o caos! Nesse ponto eu so u intran sigente . Sai.
so fisma r co m minhas palavras. Estou te avisa ndo, Eva: se te pe go No po rtão da p ropriedade aparecem as quatro mulh eres de Kurgu ela.
outra vez co m esse cho fe r, ai de você! Não pen sou se que r no Elas se consulta m, tiram os lenços da cabeça, substitu indo-os por ador-
escâ ndalo qu e se ria, se alguém te visse saindo da sau na co m ele? nos de palha. Cada uma traz um ramalhete de flores do campo.
Olha para o lado e vocifera - Qu em foi qu e so ltou os cavalos no Sandra, a telefonista, é mandada àfrente.
ca mpo de trevos?
SANDRA - Bom-dia! Eu que ria falar co m o Sr. Puntila.
UMA Voz - Foi uma orde m do cava lariça, Sr. Puntila!
MAm - Creio qu e hoje não vai se r possível. Ele está de mau humor.
PUNTlLA - Tira os an imais daí! A Eva - Basta qu e eu me ause nte meio
dia , e tudo aqu i vira de cabeça para baixo. Sabe po r q ue é que os S~'iDRA - Mas ac ho q ue não vai se recusar a ver a noiva.
cavalos foram parar no campo de trevo? Porque o senhor cava la-
riça faz amor co m a jardineira. Sabe por q ue aq ue la po tranca, qu e MAm - Você é noiva dele?
tem só um ano e dois meses, já está prenhe e não vai mais cres-
cer? Porqu e a governa nta vive aí se esfrega ndo co m o Veteriná rio. S~'iDRA - Acho que sim.
Também por isso, naturalmente, ninguém tem tempo de impedir
que o to uro cubra minhas vaquinhas virgens; e ele faz o que lhe
PUNTlLA fo ra de cena - E não q uero mais o uvir palavras co mo essa! Pra
apetece. Que porcaria! E se a jardineira - ah, com essa vou ter
mim , dizer amo r é o mesmo qu e dizer porcaria , e nesta casa eu
uma conversinha! - n ão ficasse aí o tempo todo se abri ndo para
não admito porcari as! A tua festa de noivado já começou , já man-
o cava lariço, este ano eu não tinha só cem qu ilos de tomate para
dei matar um leitão e não posso mais dar mar cha a ré na morte
vender. Uma mina de ouro, esses tomates! Em suma, de uma vez
dele. Você acha qu e o leitão vai me fazer a gentile za de vo ltar a
por todas, eu tenho que acabar com essas sujeiras na minha fa-
ron car no chique iro só porque você mudou de idéia ? E depois, eu
zenda! Me custam muito caro, compreende? E você também, co m
já decidi e está decidido . Quero viver em paz nesta casa, de hoje
o Sr. Puntil a e seu criado Matti 75
74 Bertol t Brecht
radiante -
E o que é que eu tenho aq ui no meu dedo , você
em diante . Não me obe dece e e u mando pôr um cadeado na S,\NDRA ' b
- ? .
não enxerga nao , o, ruxa.
port a do teu qu arto , entende?
Passos e logo uma batida na porta com violência. .Matti pega uma EMA venellOSa - Uma ve rruga . E aqui no me u, o q ue é qu~ você vê? A
vassoura comprida e se põe a ua rrer o pátio. noiva sou e u, não você. Noiva direito , co m ane l e bebida .

SANDRA - Tenho a impressão de qu e co nheço essa voz .


MAlIl - Um momentin ho! As senhoritas são ambas d: Kurgu ela? Pa-
rece que lá tem mais noivas do qu e moscas no ve rao.
MATIl - É natural, é a voz do seu noivo .
Avançam agora Lisu , a orde nhadora, e Manda, a emp regada da far-
SA."IDRA - É mesm o? Eng raça do, e m Kurgu ela a voz era diferente . mácia .

MATIl - Ah, vocês ficaram noivos em Kurguela? Quando o Sr. Pun tila AMBAS - É aqui qu e mora o Sr. Puntil a?
estava procurando á lcoo l de lei?
MAlIl - Vocês são de Kurgu ela? Então e le não mora aqui. Eu se i mUi:o
be m, porque so u cho fer dele . Esse Sr. Puntil a, de que m voces
SANDRA - A voz era diferente , mas as circuns tânc ias também : acho q ue
é por isso que esto u estranhando . E, além disso, eu via a cara de le ficara m noivas, é um o utro se nho r co m o mesmo nom e.
e nqua nto fala va, um a cara abert a, co rd ial: estava se ntado no auto-
móvel e tinha o rosto iluminad o pel a luz da au rora. LISU
_ Mas eu so u Lisu Jackara! O Sr. Puntil a é mesmo meu noivo , eu
posso provar. Indicando a telefonista - Ela também pode pro-
MATIl - Eu co nheço esse rosto e co nheço essa aurora. Mas ac ho me- var: ela também é noiva dele .
lhor você volta r pra casa. Você é demais, aq ui.
Ema avan ça . Finge qu e não conhece a telefonista . EMA E SANDRA - Sim, podem os pro var. Nós qu atro so mos noiva s do Sr.
Pun tila.
EMA - O Sr. Puntil a está? Eu tenho urgên cia de falar co m e le. Todas começa m a rir.

MATIl - Infelizm ente é imp ossível. Mas pode falar aq u i co m a noiva Mxrn _ Estou co ntente qu e possam provar. Vou falar claro: se a noiva
de le. fosse uma só, e u não me interessava, mas reconheço a voz do
povo o nde qu er qu e a o uça. p roponho que vocês funde m um a
SANDRA representando - Você não é Ema Takimainen , qu e faz co ntra- Associação da s No ivas do Sr. Puntila. E logo ajunto uma pergunta
ba ndo de álcool? do maior inte resse : qu e pre tendem faze r?

EMA - Eu, co ntrabando de álcool? Só porque uso um pouco de aguar- SANDRA _ Contamos pra ele? Bom, nós tem os um ve lho co nvite do Sr.
dente pra faze r massagens na mulher do chefe de polícia? A mu- Puntil a pra virmos todas as qua tro à festa de noivad o .
lher do che fe da estação também usa meu álcool pra fazer licor
de ce reja. Por aí voc ê vê qu e é álcool de lei. E qu e história de MATIl _ Bem , um co nvite desses vale tanto qu ant o a neve do ano
noiva é essa? Estão ve ndo só? A telefoni sta diz qu e é noiv a do passado . Acho qu e vocês vão faze r o efeito de qu atro patos se lva-
meu noivo , o Sr. Puntila. Essa é muit o fort e, Ó, and rajosa! gens q ue chegam ao pâ nta no q ua ndo o caça dor já foi em bora.

EMA - Quer dize r qu e não somos bem -vindas.


76 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e se u criado Maui 77

MAm - Não quero dizer isso. Estão é chegando muito cedo. Vou pro- [v1A111 - Para o sucesso de nossa missão, é preciso que eu faça o noivo
curar apresenta r vocês no mom ento adequa do, para que recebam beber alguma co isa que não seja leite .
o tratamento digno das no ivas que são .
SANDRA - É verdade, senti que ele estava com a voz seca.
MAl DA - É tudo brincadeira; nós só queremos nos divertir e dançar um
pouco. l\1A111 - Telefonista: você que sabe tudo e propaga o que sabe, já me
entendeu . Ela sabe que o álcool pra ele é ma is importante que o
MAm - Se esperarem o momento propício , isso se arra nja. Qu ando leite pra vocês.
eles bebem um pou co , ficam mais animados e ado ram o grotesco:
esse é o mom e nto pras qua tro no ivas fazere m sua entra da triun- LISU - É verdade que Pu ntila tem noventa vacas? Ouv i d izer.
fal. O Padre vai se escandalizar, e quando o Pad re se escanda liza
o Juiz é um homem feliz. Nós, a Associação das oivas do Sr. SANDRA - Você ouviu isso, mas não ouviu a voz dele.
Puntila, e ntraremos na sala cantando o Hino Municipal e levando
uma anágua como es tandarte.
Mxrn - Acho q ue vocês todas são moças sensatas. Portanto , co nten-
Gargalhadas gerais.
tem-se , por e nqua nto, com o che iro da coz inha .
Atrás da cozi nhe ira dois homens carrega m o leitão morto.
EMA - Você ac ha que ganhamos um café o u que nos deixam dan çar
alguma coisa?
MULHERF.5 - Puxa! Isso dá pru m ba talhão! Tosta ele bem, hein?! Bota um
po uco de man je ron a!
MAm - Vossas reivindicações são perfeitamente justas. Uma vez que
falsas es pe ranças fora m levan tad as e desp esas fo ram feitas, a Liga
tem tod o o direito de tentar obter reembolso o u co mpe nsação EMA - Vocês ac ha m q ue e u posso abrir um pou co a sa ia durant e o
pelo dinheiro versado. Vocês vieram de trem , não? almoço, qu ando ningu ém estiver olha ndo? Está meio ape rtada!

EMA - De segunda! SANDRA - À mesa?


Fina atravessa o pát io ca rregando uma bola de ma nteiga.
MANDA - O Sr. Puntil a podi a ver.
LISU - Qu e beleza!
MAm - Já pensaram no almoço de qu e vão parti cipar? Vocês estarão
EMA - Mant eiga de prim eira! ass im co m o Juiz, Presidente do Supremo Tribunal de Viburgo .
Ouça m só o qu e eu vou falar. Crava a vassoura no chão e se
lvIfu"lDA - Ei, por favor , não sei como se chama : nós acabamos de che- dirige ao juiz - "Sr. Jui z, eis aqui qua tro mulh eres de cond ição
gar de trem, você não podia nos dar um copo de leite? mod esta, dominad as pe la ans ieda de, apavoradas com o fato de
poderem ve r rejeitadas suas pretensões. Para virem até aqui, ao
MAm - Um co po de leite antes do almoço? Estraga o apetite. encontro do es poso prom etid o , percor reram a pé os longos e es-
bura cados caminhos da s nossas estradas municipais. Uma bela
LISU - Não tenha medo . manhã, dez dia s atrás, um se nhor muito bem alime ntado apare-
ce u na alde ia del as, dirigindo um Stude ba ker. Entregou a cada
um a o anel sac rame ntal e prometeu casa r com elas. É possível
qu e agora negu e tud o , qu e afirme nad a disso ter acontec ido. Sr.
78 Bert olt Brecht o Sr. Puntila e se u criado Matti 79

Presid ente , cump ra o se u dever dando uma sente nça humana a MA11l - Pra d iscurso de almoço, ~ n:uito ~urto . De m~do que e u vo u
favor dessas pobres mulheres, o u eu o adv irto de qu e um dia o I acrescentar: "Mo nse nho r, hoje e o d ia e m qu e LISU , a o rde nha-
Su p remo Tribunal de Viburgo deix ar á de existir!". dora, se se nta pela primeira vez diante de um prato de po;cela~a .
O se nho r deve ficar muito co ntente com isso , porque es ta, escfl:o
SA.'1DRA - Bravo ! que todos são igu ais d iante de Deus; o ra, por que tambe m ~ao
serem igu ais d iante d o Sr. Puntila? E pode es tar ce rto d: q ue L1~u ,
MATI1 - O Advogado também beberá à sa úde d e vocês; o que é que co mo nova d ona desta propriedade , h averá d e trata -lo murro
você va i diz er a ele, Ema Takinain en? bem: se mp re umas ga rrafin has de vinho bran co no dia d e se u
aniversário, e assim o senhor poderá co ntinua r _co m ~ su~ elo-
EMA - Direi: "Esto u enc anta da co m a o portu nida de de tê-lo conhe- qüência em louvor da s ca mp inas celestes , e ela nao tera mais que
cido" . E depois: "O sen ho r, por ac aso, não podia fazer minha d e- co nd u zir as vacas pela s ca m pinas da terra".
cla ração d e imposto e depois discutir co m os fiscais?". E depois: Enqua nto Matt i fala , Puntila aparece na sacada e escuta, o rosto sombrio.
"O sen hor, qu e fala tão bem, não pode d ar um jeitinho de livrar
meu marido do serviço militar? O coro nel vive infernando a vida PUNTILA - Quando acabar o d iscurso , me av isa! Qu em é essa gente aí?
del e, e e u, sozinha, não dou co nta da plantação de batatas . E
também qu eri a que alguém não deix asse mais o dono do arma- SANDRA rindo - São suas noivas, Sr. Puntila . O se nhor não se lembra?
zé m me ro uba r qu ando bota no ca de rno os preço s do sa bão, do
querosene e do açúcar". PUNTILA - Eu? Nu nca vi nenhuma d e vocês.

MATI1 - Isso é o qu e se cha ma ap roveita r a ocasião. Mas se o mari do E~IA - Como? Não me co n hece? Não es tá vendo o ane l?
fo r o Sr. Puntila , você não precisa se preocupar co m os impostos.
Quem casa co m ele, pode pagar. O médico também va i es tar à MA.'1DA - Anel feito com argo las de co rtina da farmácia de Kurgue\a .
mesa . O qu e é que vocês vão dizer a e le?
PUNTILA - O qu e é qu e vocês vieram fazer aqui? Arranj ar e nc re nca?
SA.'1DRA - "Sr. do uto r", e u vou d ize r, "eu ainda sinto aque la dor na
es pi n ha , mas não p recisa fazer essa cara, porqu e pretendo pagar MATI1 _ De maneira alguma. Agora mesm o estávamos discutindo c~mo
muito bem es ta co ns u lta, ass im q ue me cas ar co m o Sr. Puntila. aumentar a alegria da festa e funclam os a Associação das NOIvas
Também não precisa ter pressa , po rqu e aincla es ta mos na sopa, a do Sr. Puntila .
água p ro café nem está no fogo e o se nhor é responsável pela
saú de pú blica". PUNTILA - E por qu e não um Sindicato? O nde você se m:te: as co isas
Dois trabalhadores rolam dois barris de cerueja p ra de ntro de casa . acabam nisso. Eu te co nheço, eu se i o jornal qu e voce le .

E~IA - Hum, cerveja! E~IA _ É tudo brincadeira, Sr. Puntila: queríamos só ve r se nos davam
um ca fé.
MATI1 - O Padre é o utro qu e va i esta r à mesa. O qu e é qu e você vai
di ze r a ele? PUNTILA - Eu se i o que são essas brincadeiraS! Vo cês viera m foi fazer
. I
cha ntage m, que re m ver se me arra nca m a Iguma COIsa.
LISU - Vou d izer : "Ago ra vo u ter tempo d e ir ã igre ja aos d omingo s, se
tiver vontade". E~IA - De modo algu m, Sr. Puntila!
o Sr. puntila e seu criado Matti 81
80 Bertolt Brecht

PUNTlLA - Mas eu en sino vocês! Só porque fu i amáv el , qu erem se apro- 'Mas desde quando, na tosquia,
veitar de mim, ganhar o dia minha cus ta, não é? Olha, se não
â
As ovelhas têm direito a parte da lã?
saírem imedi atamente eu cha mo a polícia e mando prender todas . Só porqu e vo u pra cama co m vocês
Você aí, estou te co nhecendo : não é a telefoni sta de Kurguela? Uma vez na vida ,
Vou telefonar direção , para perguntar co mo é que eles admitem
ã
Sou o brigado a lhes dar comida?".
essas brinca de iras num fun cionário público . E qu anto às o utras
eu vou sabe r qu em são, um a por uma. '
8
EMA - Compreendemos. O se nhor sabe, Sr. Puntil a, o qu e mais gosta-
ríam os de ter e ra algu ma co isa pra lembrar na ve lhice . Vou só me HISTÓRIAS FINLANDESAS
se ntar um pouco , aqui no chão de sua casa , pra poder dizer que
me se nte i um dia na propriedad e do Sr. Puntila, co nvida da por Entrada p rincipal. Anoitece. As quatro mulheres volta m para casa.
ele. Senta-se no chão . Assim , oh, nin gu ém sa be rá qu e e u me sen-
tei no chão, ningu ém poderá me cha ma r de mentirosa . Não pre- _ Como é qu e a ge nte vai ad ivinha r q ua ndo um patrão .está de
EMA
ciso dizer qu e não me deram uma cadeira e qu e tive de me se ntar ovo virado? Qu ando bebem, brincam co m a ge nte, beliscam a
no so lo de Tavasto , qu e os livros de escola dizem qu e paga todo gente o nde nã o de vem , e , se nã o tom~~~s cu ida do, ~rrastam
o suo r qu e a gente emprega nele. O qu e os livros não dizem é a gente pro mato . Cinco minutos depois J3 fora~ r.n0rdldos por
qu e que m emprega o suo r é um e qu em receb e é o u tro. Esse um escorpião e temos sorte se não cha ma m a polícia. Esto u co m
che irinho bom , não é vitelo assa do? Aquil o qu e eu vi não era uma um prego no sa pa to .
bola de mant eiga? O que passou rolando não era um barril de
cerveja? Canta - SAl"DRA - A so la furou .
E o lago e o monte
E as nu ven s no ho rizonte LISU _ Não fo i feita para anda r cinco horas na estra da .
São o amo r do povo de Tavasto
Desde as que das imen sas do Aabo EMA _ Agora não p resta mais. Podi a ter durad o um ano . Me arranja
Ao verde verge l virgíneo e vas to. uma pedra! A Tetefonistü lhe dá um a pedra, e,. enqua llto um a
bate a sola, as outras se senta m em volta . Eu disse qu e a ge nte
Me digam, eu não tenho razão? E agora me levant em, não me não deve levar pa trão a sér io. Uma hora estão ass im, outr~ 1.1O~a
de ixe m nesta posição histór ica. estão assad o , o utra coz ido . A mulher do antigo chefe de polícia as
vezes me cha mava de madrugada pra fazer massagem , q ua ndo os
PUNTlLA - Fora! Fo ra daqui!
pés inchavam; pois, cada vez que eu ,c~ega~a , ela me tratav~ de
As quatro mulheres joga m no chão os adornos de palha . Matti varre os um jeito diferente. Dependia dos negoClos la dela co m o mando .
adornos. Parece que ele andava com a e mprega da. Um dia e la me o ferece u
bombons, e eu co mpree nd i qu e e le tinha deixad o a empregada .
COZINHEIRA enqua nto enxágua os copos de vinho, canta-
Mas deve ter vo ltado a andar co m a ga rota, porque de repente a
As noivas da Associação chegaram todas
mad am e não co nse guia mais se co nve ncer de qu e e u tinh a feito
Para os festejos do noivad o
dez massagens durante o mê s e não seis. Perdeu co mpletame nte
E o Sr. Puntila gritou
Já irritado, ãquela ho ra da manhã: a mem ória .
82 Bertolt Brecht o Sr. Punt ila e seu cr iado Matti 83

1'v1fu"lDA - É, mas às vezes têm um a mem ória de ferro . Como Pekka ele negou tudo p ra não ter que pagar os alime ntos. Então ela
qu e ficou rico nos Estados Unidos! Depois de vinte anos, voltou arra njou um advogado e o advogado levou pro tribunal tod as as
pra ver a família. Eles e ram tão pobres qu e pedi am a minha mãe ca rtas que o rap az tinha esc rito pra ela qu ando estava no serv iço
as cascas de batata, imaginem só . Mas quando Pekka voltou ele militar. O qu e ele dizia nas ca rtas e ra tão claro qu e ninguém lhe
f ' s tirava cinco anos de cade ia por falso juram ento . Só qu e quando o
izeram um carne iro assad o . pro americano ficar satisfeito. Ele
~ome u, ficou satisfeito, e dep ois lembrou qu e há muito tempo juiz co meçou a ler a primeira carta em voz alta, bem devagar,
tmh.a emprestado vinte marcos ao avó . E ba lançava a ca beç a, palavra por palavra, a moça be rro u que qu eria suas ca rtas de
che io ~Ie pena, tant a dor ele tinh a de se desp edi r pra se mpre dos vo lta e não ga nho u os alime ntos. Dizem qu e cho rava co mo um a
se us vinte marcos. casca ta, quando saiu do Tribunal. A mãe dela estava furiosa e o
patife ria, satis feito! Coitada, estava apa ixo nada!
SANDRA - Mas, se não fosse assim, co mo é q ue iam ficar ricos? uma
noite de inverno de 1908 o lago estava ge lado. Era uma noite SA>"IDRA - Se co mportou co mo uma idiota!
horr ível. Um p ropri etário , nosso co nhecido , co ntra tou um co-
cheiro para atra vessar o lago . Eles sa biam qu e havia um buraco E~IA - Calça o sa pa to! Depende... Podi a até ter feito bem, agindo
no gelo em algum lugar , mas não sab iam onde . Por isso o co- ass im. Eu co nheço um rapa z de Viburgo qu e não qui s recebe r
c~e iro teve que anda r a pé, na frente do ca rro, du rant e do ze qui- nada deles. Tinh a dezoito an os e, co mo andava metid o co m os
lom etros. O proprietário esta va co m tanto med o qu e prom eteu verme lhos , foi intern ado no campo de Tammerfors. Não lhe
um cava lo, se ele co nseguisse chegar do o utro lad o . No meio do davam nad a pra co mer. Pra não morrer de fom e , ele co mia ca pim.
lago o homem disse ao coc he iro qu e , se chegassem do o utro A mãe e ntão foi visitar ele, levando alguma co isa: teve qu e anda r
lad o: lhe daria um vite lo bem go rdo. Depois, quando começa ram oitenta q uilóme tros! A pé! Era lavrad ora num a plant ação , e a pa-
a a~lsta_r as luzes da aldeia ele disse: "Vamos, co rage m, força, o u troa deu a ela um peixe e meio qu ilo de man teiga. A maior parte
voce nao ga nha o se u relógio!". A cinq üenta metros da margem do te mpo ela ia a pé , mas qu ando passava um ca rro de lavrad ores
ele ainda falava de um saco de batatas. Qu ando chegaram ele d eu ela pedi a carona por um ped aço de caminho . E aí co ntava : "Vou
ao coche iro meio marco de gorjeta e disse : "Puxa, co mo você ver meu filho Athi, no campo de co nce ntração de Tammerfors, e
dem~rou!". Nós so mos muito estúp idos e eles, muito sabidos, nos minha patroa me deu este peixe e meio quil o de manteiga pra
tap eiam se mpre. O qu e atrapa lha é qu e eles são igu aisinhos a levar pra ele". Logo qu e aca bava de dizer isso , mandavam ela
nós. Se tivessem corpo de urso o u de co bra, a ge nte tom ava mais desce r por qu e o filho era verme lho . Aí ela passava pelas lavad ei-
cuida do . ras do rio e co ntava de novo: "Vou e nco ntrar meu filho Athi, no
campo de co ncentração de Tammerfors, e minh a patroa, q ue
MANDA - ão se deve brincar co m eles nunca. ão se deve acei tar Deu s a abençoe, me de u um peixe e meio qu ilo de manteiga pra
nad a deles, nun ca. levar pra ele". E q ua ndo ela chegou no campo repe tiu a mesm a
histór ia, e repetiu para o próprio co manda nte , que caiu na garga-
EMA - É bonito de dizer: não aceitar nad a deles. Eles têm tud o e nós lhad a e deixou ela e ntrar, co isa que era abso lutame nte proibida.
nad a. Não beber água do rio, morrendo d e sede? Na frent e do ca mpo ainda havia ca p im, mas dentro dos ce rcados
nada , nem um fio ; nem uma casca de árvore; eles tinh am co mido
MANDA - Por falar nisso , estou morrendo de se de. tud o . Isso aco ntec ia sempre, vocês não 'sab iam? Entre gu erra e
prisão, já tinh a dois anos que ela não via o filho . Athi estava um
LISU - Eu tamb ém . Em Kansala tinh a uma moça q ue dormiu co m o es pe to: "Ah , você está aí, Athi, meu filho ", ela disse . "Tome , olhe:
filho do patrão . Saiu um filhinho , mas no Tribuna l de Helsinqu e trou xe um peixe e meio quilo de mant eiga. A patroa me deu , pra
84 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 85

você." Athi disse bo m-d ia, perguntou co mo ia o reumatismo d I


falou de alguns vizinhos : mas a mant eiga e o peixe nem quis ~e:: 9
Ou ~elhor, fi.cou co~ raiva qu ando ela insistiu , e gritou: "Você foi
p~dlr p~r ca ndade , a patroa, essa por caria? Devolve tud o a ela: eu pUNTUA DÁA FILHA A UM HOMEM
nao ace ito nada dessa gente!". E ass im ela teve q ue e mbrulh
tud o de novo . Athi estava morto de fom e . Ela se desp ediu de le~ Sala de jantar com pequena s mesas e um enorme bufê. À esquerda,
voltou para casa , um pou co a pé e um pou co de ca rro, quando mesas com louça de café e outros utensílios. O Padre, o Juiz e o Advo-
e nc~ntr~va algum. Uma vez disse a um campo nê s: "O meu filho gadOtoma m café e fum am . Puntila está sentado num canto e bebe em
silêncio. Na sala ao lado, dan ça-se ao som de um gramofone .
Athi. esta. no campo de conce ntração " morto de fom e mas nao -
quis ace itar nem o peixe nem a mant eiga que eu le vei , porque foi
a patroa qu e deu de ca ridade e dessa gente ele não aceita nada " PADRE - É mu ito raro e ncontrar-se um a fé verda de ira. O q ue se e n-
A viage m era muit o co mprida e ela e ra muito velha. De tempo, contra geralme nte é dúvida e indife ren ça. Dá para desesp erar, o
e ~ tempos e~a se se ntava na beira da estrada , co mia um po u- nosso povo. Eu não me ca nso de repetir qu e , se não fosse pela
quinho do peixe e um pouquinho da mant eiga. Não comia muito vo ntade do Altíssimo , não nasceria nem um ame ndo im, e no e n-
porque o peixe e a manteiga já não estavam mais frescos e até tanto eles e nca ram a natureza co mo uma coisa natural. Como se ,
fediam um pouco. Mas repetia pra s mulheres qu e lavavam no rio: dando fruto s, ela não fizesse mais qu e a o brigação . Para mim essa
"No campo de co ncentração, o meu filho Athi não qui s aceitar descrença toda ve m do fato de não freqüentarem a igreja aos do-
ne~ o peixe nem a manteiga, porque foi a patroa que deu de mingos, deixando-m e falar aos bancos vazios. Como se não tives-
candade e de ssa ge nte ele não aceita nada". Repetia isso pra todo se m bastantes bicicleta s: cada criado tem uma. O qu e acontece é
mundo qu e encontrava, e deve ter ca usado uma ce rta impressão que são umas almas danadas: esta é a verdade verdade ira. Sen ão ,
nas pessoa s, porque eram oitenta quil óm etros de estrada . como se explica o qu e aco nteceu na se ma na passada, à cabece ira
de um agonizante? Eu estava explicando a ele as maravilha s qu e
LISU - Ainda há hom en s co mo esse Athi. aguardam um homem qu ando atravessa em pa z as fronteiras da
morte, quando ele me perguntou : "O qu e é que o se nho r acha , as
EMA - Muito pouco s. batatas vão ag üen tar a chuva?". Não dá uma vontade de largar
Levantam-se e saem sem dizer mais nada. tudo? Tanto trabalho posto fora .
Cortina .
J UIZ - Eu o co mpreendo, monsenhor. Iluminar escuridão tão negra não
CoZINHEIRA com um moinho na mão, mói café e ca nta - é tarefa fácil.
A festa da s quatro noivas,
Que eram noivas de um velhaco, AnVOGAOO - Também pra nós, advogados, a vida anda difícil. Sempre
Termina com as qu atro no ivas vivemos das brigas dos camponeses , homens de cabeç a dura , qu e
Pondo a viola no saco . preferem pedir esm ola do que renunciar a um direito . Continuam
Galo que crê no s senhores, com a mesma vontade de brigar, de se ofender, de se esfaquea r,
Chamando-os de protetores, de fazer un s aos outros todo o mal possível. Mas, assim qu e
Passa a viver sem cautela sabem que um advogado cob ra quatro mar cos por uma consulta,
E é o primeiro na panela. ficam logo calminhos e abandonam o mais lindo processo pel o
deus do ouro.

J UIZ - São sinais dos tempos; tempos de co mé rcio e cob iça. Um nivela-
86 Bertolt Brecht o Sr. Punt ila e seu criado Matli 87

mento geral. Acabaram -se os bon s tempos. A gente que lida cOm purmLA - A do Attaché. Fala a verda de, hein!?
o povo muitas vezes se de se spera, mas é preciso paciência. Nós
da elite, tem os que fazer tud o pra civilizá-los, um pouquinho qU~ JUIZ - cuidado, Puntil a, o pon che está muit o forte .
seja .
ATfACHÉ repete a bocca chiusa a melod ia da sala ao lado e ensaia
ADVOGADO - Puntil a, por exemplo, pod e não faze r nada; só fica passos de dança - É um ritmo irresistível, não é?
olha ndo. Aplant ação não precisa dele. Mas um processo , um pro-
cesso é uma co isa extrema me nte co mplicada . A gent e fica de ca- PUNTILA f az novo gesto para o juiz se aproximar, e este procura nã~
belos brancos pra fazer um pro cesso atingir a maturidade. Quan- notar - Frederico , fala com since ridade ! Diz a ve rda de: qu e e
tas vezes pensam os que um processo vai morrer jovem por falta que você acha dessa cara? Olha que essa ca ra vai me custar um
de testemunhas, e de repente ele rec upera a saú de de novo, cres- bosque :
ce ndo normalm ente? Quando u m p rocesso começa, qu ando é Os outros convidados ca ntam em coro: "Euproc uro Titin a ...".
mocinho , é que precisa dos maiores cuida dos. É enor me a taxa de
mortalidad e dos processos jovens. Mas , um a vez bem alimentado ATfACHÉ que não percebe nada - Eu não co nsigo gua rda r um a letra de
de docum ento s, ele cresce soz inho . Um processo qu e passou dos música ; já na escola era um infern o e u decorar un s pontos. Agora,
qu atro ou cinco an os, tem toda possibilid ad e de atingir uma idade o ritmo eu tenho no sangue.
ava nça da. Mas até a ge nte chegar lá, que luta de cão!
Entram o Art ach é e a Mulh er do Padre. ADVOGADO vendo que os sinais de Puntila se tornam ma is evidentes -
Está um calor dan ado aqui. Vam os pro sa lão? Tenta a rrasta r o
MULHER DO PADRE - Sr. Puntil a, tem qu e cuida r um pou co mais dos seus Attac hé .
co nvida dos. O se nho r ministro está dançando co m Eva, mas já
perguntou várias vezes pelo senhor. ATIACHf: - Mas há um verso qu e não me sai da ca beç a: "We have no
ban an as". Portanto , minha falta de memória não é de desesp erar.
JUIZ - Também ac ho q ue você não está dando ao ministro a atenção
devida. PUNTILA - Frede rico , o lha e julga: olha bem , Fred erico!
Puntila não responde.
JUIZ - Vocês co nhecem a piada do jud eu qu e esqueceu o capote no
AlTACHÉ - Agora mesm o , monsenhor, sua es posa deu ao ministro uma café? Não co nhecem? Pois é: ele es q ueceu o ca pote no café. O
resposta brilhant e , deliciosa! Ele pe rguntou se ela não gos tava de pessimista disse: "Ela vai encontrar o ca po te". O otimi sta disse:
jaz z . Fiquei es pe rando a resposta co m o máximo de curiosidade. "Ele não vai encontrar o capote" .
Ela refletiu um insta nte e responde u: "Pra mim, tod os os tipos de Todos riem .
dan ça são indiferentes. Eu só d ançaria se pu desse da nça r co m a
música de um órgão de igreja". O ministro chorou de rir co m a ATIACHÉ - Bem. E depois?
resp osta. Qu e é que você acha, Puntil a? Novas risadas.

PUNTILA - Não ach o nad a. Não cos tumo criticar meu s co nvida dos. Faz JUIZ - Meu ca ro Eino , parece que você não pe gou be m o se ntido da
um sinal para o ju iz se aproximar. Fred erico , essa cara te agrada? piad a.

JUIZ - Qu e cara? PUNTILA - Fred er ico!


88 Bertolt Brecht
o Sr. Puntila e seu criado Matti 89

p!JNTILA - Frederico, você ainda não pe rcebeu a gravi dade da situação.


ATIACHÉ - Então me ex plica, por favor! Tenho a impressão de que o
se nhor trocou as res postas . O o timista devia dizer: "Ele vai enco- ,
trar o ca pote ". ATTACHÉ - Enq ua nto não se d isser ex plicita me nte o nome de nin gu ém,
tudo é reparável. A co isa só se torna irreparável qua ndo as injúrias
são acompanhadas ex plicitame nte dos nomes a qu em se dirigem.
JUIZ - Não, não , o pessimi sta! Procu ra en tende r. A piada es tá justa-
mente aí: o ca pote é tão velho qu e é melhor não e ncontrá- lo .
PUNTILA com amargo sa rcasmo - E co mo é que eu faço agora, Frede-
ATIACHÉ - Ah, o ca pote é mu ito ve lho! Mas isso o se nhor não tinha rico? Não vou poder me livrar dele? Esqueci o nome dele! Lou-
dit o. Ah! Ah! Ah! É a p iada mais fo rmidável q ue eu já ouvi. vado seja De us, já sei! Está aqu i. Puxa do bolso. Está aqu i, na
promissória que e le me d eu para resgatar. Se chama Eino Silakka.
PUNTILA levanta-se, sombrio - Chegou o mome nto de intervir. ão sou Vocês acham que agora ele va i embora?
obrigado a su portar um homem ass im! Frederico , você não quis
resp onder a uma pergunta qu e eu fiz co m a máxima se riedade: ATTACHÉ - Ate nção, se nho res; um nome foi pronu ncia do . A pa rtir deste
ac ha qu e d evo introduzir na minha famíli a uma cara dessa s? Você momento , ca da palavra que não seja pesada até o ú ltimo mili-
se recu sou a resp onder. Mas e u so u homem ba stante decidido grama pode ter conseqüê nc ias fun e sta s.
para resolv er sozinho . Um homem sem humor não é um homem.
Com dignidade - Saia de minh a casa ! É, você mesmo! Não ad ianta PUNTILA - Esse não tem jeito. Vocifera - Dá o fora daqui, e u J3 não
se vo ltar ass im, co mo se eu es tivesse falando co m o utra pessoa! disse? E nunca mais me a pa reça em minha casa, está ouvin do?
Ach a que vo u entregar minha filha a u m ga fanhoto de fraque?
JUIZ - Puntila , você es tá exagera ndo.
ATfACHÉ voltan do-se para Pu ntila - Puntila , você está fica ndo agres-
ATIACHÉ - Sen ho res , e u peço q ue ign orem es te incid ente . Não podem sivo . Se me põ e pa ra fo ra de sua casa, atravessa a imperceptíve l e
imagin ar co mo é d elicada a posição dos membros do Co rpo Di- delicad a fronte ira que co nduz ao escânda lo.
plomático. Basta a mai s insignifi cante manch a, d o ponto d e vista
mor al , par a qu e nos neguem ce rtas crede nc iais. Em Paris, po r PUNTILA - Agor a é demais. Agora e u perco a paciência. Eu não qu eri a
exemplo , a sogra do secretá rio da legação ro me na ag red iu o gritar. Qu eria te fazer entender assim, discret am ente , qu e a tu a
ama nte co m um gua rda-chuva e o escânda lo fo i imediato . cara me revolta o es tõ mago , e que é me lhor você sair da minha
frente . Mas você me obriga a falar claro e direto, É só por isso que
PUNTILA - Um ga fanhoto de fraque! Um gafanhoto que prete nde d evo- eu te digo: "Dá o fora daqui , seu merda! ".
rar um bosque in teiro!
ATIACHÉ - Puntila, isso eu n ão tolero. Senhores, os meus respeitos! Vai
ATIACHÉ neruoso - Co mp ree ndem? Que ela tivesse um ama nte , é nor-
saindo.
mal ; q ue ela o tivesse ag red ido , é co ncebível; mas com um
gua rda-chuva é vulgar. Aí está a nu ança .
PUNTILA - Sai mais depressa! Quero te ver correndo, seu patife! Vou te
ensinar a me da r respostas insolentes! Corre atrás dele.
ADVOGADO - Puntila , e le tem razão . A honra qu e es tá em jogo aqui é
Todos o seguem , com exce ç ão da Mulher do Padre e do fu iz .
uma honra especialíssima. Ele pertence ao Corpo Diplomático.

MULHER DO PADRE - Agora vai ser um escândalo!


JUIZ - Esse ponch e está forte demais para voc ê , Puntila .
90 Berto lt Brecht o Sr. Pun tila e seu criado Matti 91

EVA entra canta rola ndo - Qu e barulho é esse? Qu e foi qu e aconteceu? tinha co metido um grave erro mas estava disposto a repará-lo :
que eu qu ase tinh a deixado minha filha casar co m um gafanho to
MULHER DO PADRE correndo para Eva - Ah, qu erida, aco nteceu uma de fraque , mas agora ia entregá-la a um homem , co mo se mpre foi
desgraça! Seja forte , min ha filha, tenha ânimo ! minha intenção. Eu disse : "Esse homem, esse rapaz magnífico , é
Matti Altonen, u m ótimo chofer e excelente amigo. Quero que
EVA - Mas o que foi que aconteceu? todos brindem à felicidade de um casal jove m e ditoso". Pois
muito bem: q ue rem sa be r qual foi a reação? O ministro , que eu
J UI Z - Toma antes um xerez, Eva. Teu pai bebeu um a ga rrafa inteira de pe nsava se r um homem esclarec ido, me olho u co mo se olha u m
ponche e botou o Eino para fora de casa. De repente não agüen, cog ume lo ve ne noso. E pediu o aut omóvel. Natu ralme nte todos o
tou mais a cara dele . imitaram: um bando de macacos! Qu e es petác ulo! Me se nti um
mártir cristão diante dos leões, mas a minha opinião eles soube-
EVA - O xerez está co m gosto de ro lha , q ue pen a! Qu e foi q ue pa pai ram: co nsegu i pegar o ministro antes dele subir no au tomóvel e
disse? disse a ele q ue ele também e ra um merda. Creio q ue exprimi bem
o se ntime nto de todos, não é ve rda de?
MULHER DO PADRE - Você não está tran stornada, Eva?
MAm - Sr. Puntil a, ac ho que devíamos ir todos para a cozinha, discutir
EVA - Estou , estou. o ass unto co m um a ga rrafinha de ponche.
O Padre volta .
PUNTILA - E por que na coz inha? O noivad o de vocês ainda não foi
PADRE - Ih , foi terrível! festejad o . Só feste jamos o outro , o falso . Uma desp esa inú til.
Vamos reunir as mesinhas todas e fazer uma mesa grande . Reco-
MULHER DO PADRE - Qu e aconteceu? Alguma coisa de nov o? mecemos tudo. Fina, se nta aq ui d o meu lad o .
Os outros reún em as mesinhas, como ele mandou, f ormando uma
PADRE - Uma cena horrível no pátio : Puntila atacou o Attaché a pedradas. mesa grande . Eva e Matti pegam cadeiras. Puntila se senta no meio da
sala.
EVA - Acertou alguma?
EVA a Matti - Não fica me olha ndo assim! Está co m o olhar igua lzinho
PADRE - Não se i. O Advog ad o protegeu -o co m o co rpo. E o ministro aí ao de meu pai, o ntem de manhã, qu ando serviram a e le um ovo
na sala... podre. Você já me o lho u de outra man eira, outras vezes.

EVA - Tio Frederico , agora esto u qu ase ce rta de qu e ele não vo lta. MAm - Estava olha ndo a forma do ovo.
Felizmente o min istro estava aqui. Senão, não haveria nem a me-
tad e de um escânda lo. EVA - O ntem de noite , quando você q uis ir à ilha pescar ca ranguejos
co migo , os ca rangue jos entrava m na co nversa só co mo pretexto .
MULHER DO PADRE - Eva!
Entra Puntila, seguido de Matti, Laina e Fina . Mxrn - Era de noite, e nin guém tinh a falad o e m casame nto ainda .

PUNI1LA - Amigos, acabo de dar uma olhada na ab jeção do mundo. PUl\'11LA - Fina, senta aqui do meu lado! Laina, senta também! Monse-
Entrei ali no sa lão co m as melhores intenções, para anunc iar que nhor, senta o se nhor també m aí perto da moça. Senhora, po r
92 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Mani 93

favor, ali junto da Cozinheira. E você, Frederico, escolhe um bo m você estava fora. Matti nã o acredita que você dê a ele uma serra-
lugar pra você. Matti , Eva, alegria! Senhora, por favor, faça as ho n_ ria, nem qu e eu consiga me adaptar à vida de um chofer.
ras da casa! Todos se sentam com má vontade. Silêncio . Para a
Cozinheira - Laina , deixa essa garrafa em paz e bota as tUas puNTILA - O que é que você acha , Frederico?
quatro letras nessa cadeira. Quatro letras, é : R-A-B-O.
JUIZ - Não me pergunta nada , João! Nem fica me olhando com esse
MULHER DO PADRE à Cozinheira - Já pôs os cogumelos em conserva o lhar de boi morto . Pergunta a Laina!
este ano?
PUNTILA - Laina , pergunto a vo cê: me acha ca paz de economizar,
LAINA - ão ponho em conserva. Deix o secar. quando se trata de minha própria filha? Acha qu e eu não sou
ca paz de lhe dar uma serraria , um moinho e ainda por cim a um
MUlHER DO PADRE - Como? bosque?

LAINA - Corto em pedacinhos, furo com uma agulha, enfio num ba r- LAINA interrompida enquanto explica seus cogumelos à Mulher do
bante e penduro ao sol. Padre, o que é visível pela mímica - Vou fazer um café pro se-
nhor, Sr. Puntila.
PUNI1LA - Quero dizer algumas palavras sobre o noivo de minha filha.
Matti, eu te observei em segredo e formei uma opinião definitiva PUNTlLA a Matti - Matti , você trepa bem?
sobre o teu caráter. Não quero me referir ao fato de que, depois
que você veio trabalhar conosco, aqui não há mais nenhuma má- MAm - Dizem que sim .
quina enguiçada. O que desejo ressaltar especialmente em você é
o homem. Não esqueci o que aconteceu hoje de manhã. En- PUNTILA - ão quero sabe r o que dizem, quero que você me diga: sabe
quanto eu, como um Nero qualquer, gritava lá em cima da sa- fazer a coi sa como se deve? Não há nada mais importante na vida.
cada, expulsando minhas pobres noivas, pude observar bem o Você não vai falar, eu sei, você não é homem de contar vantagem.
teu co mpo rtamento . Você conhece bem esses meus ataques . Mas me diz só : você trepou com Fina? Porque, nesse caso, eu
Deve ter visto que, durante todo o almoço, eu fiquei à parte, em pergunto a ela. Ah , não? Não compreendo!
profundo recolhimento, pensando nas pobres mulheres que vo l-
tavam a pé pela estrada de Kurguela , sem uma gota de vinho Mxrn - Deix a isso pra lá , Sr. Puntila .
depois de tanta injustiça . Depois disso eu não me espantaria se
e las perdessem a co nfiança em mim. Agora eu te pergunto , Matti : EVA que bebeu um pou co, se levanta e faz um discurso - Meu caro
você é ca paz de es q uec e r o que acontece u? Matti , e u te peço qu e me aceite co mo es posa, porque e u também
preciso de homem, co mo todas as o utras . Se vo cê qui ser, pode-
MAm - Faz d e conta q ue já esq uec i, Sr. Puntila. Mas diga à sua filha, mos antes ir pescar ca ranguejos se m tarrafa. No mai s, e u não me
co m todo o pes o ela sua auto ridade de pai , qu e e la não pode se ach o nada de extraord iná rio, como talvez você pense , ma s se i
casa r co m um cho fer. que poderemos viver junt os, me sm o sem muit o dinheiro.

PADRE - Muito bem! PUNTlLA - Bravo!

EVA - Papai , o nte m Matti e eu d iscut imos algumas idéias, e nq ua nto EVA - Se, porém, você ac ha q ue ir pescar caranguejo não é uma co isa
o Sr. puntila e seu criado Matti 95
94 Berto lt Brecht

como a mãe , mas não an tes dos trinta e cinco. Por enquanto,
muito séria, eu pego imediatamente a minh a ma la e vamos para a
ainda vale uma boa missa.
casa de sua mãe . Pap ai não tem nad a em co ntrário, tem ?
- f I d orda r digo ape nas qu e não tem se nso prático ,
MATIl - Nao a o e eng , h f
PUNTILA - Nada, nad a. De aco rdíssimo.
que nao 0 1 e uca o suficiente para ser mulhe r de um c o er.
- foi d da

MATIl se levanta e bebe dois copos seguidos - Srta. Eva, estou disposto PADRE - Sou da mesmíssima opinião .
a fazer qua lque r animalida de co m a senho rita, men os a de levá-Ia
à casa de mam ãe. A pobre velha te ria um ataque . Sabe que lá em _ d que rir menina. Se minha mãe começasse a te
MATIl - Nao tem na a ' I . f
casa só tem um sofá? Sr. cura, descreva para essa moça a co nstru- . b aos pés você perdia toda essa a egna: reav a
exa mina r da ca eça ,
ção de uma co zinha de pobre , co m cama de dormir e tud o. deste tam anh o!

PADRE sério - Um lugar assaz mod esto. _ M t' ex pe rime nta! Sou a mulh er de um cho fer. Me
EVA- En tão vamos, at I,
diz o qu e eu tenho de fazer.
EVA - Por que descrever? Eu vou ver pessoalmente.
· a traz un s sand uíches, vamos co mer uma co i-
PUNTILA - Bravo, Eva . F10 , . ' d Id d
. . o Matti vo ce exa rruna Eva de la o a a o, e
MATIl - Está bem . Vai logo perguntar a minh a mãe onde é o banheiro. sinha , Enqu anto ISS , ' .
trás e de frente, por cima e por baix o .
EVA - Ora , e eu não sei? Eu vou ao banho público. . d FI'n a' Em minh a casa não tem empregada.
MATIl - FICa se nta a, . , d f
visita qualquer a gente so po e o ere cer o
MATIl - Só se for co m o dinheiro do Sr. Puntil a. Você co ntinua com Qu ando chega uma '
essa serraria na cabeça! Não conta com isso , men ina. Amanhã de qu e co me to do d ia . Vai buscar o arenque, Eva!
manhã o Sr. Puntila fica bom , e vamos ter qu e e nfrentar de novo
EVA alegre- Correndo . Sa i.
um hom em se nsato .
. N- esquece a manteiga! A Matti - Estou sensibili-
PUNTILA g ritando - ao d d d
PUNTILA - Cala a boca, Matti! Não fala mais desse Puntila, qu e ago ra é isão de fazer tud o sozinho, se m e pe n er o
za d o com a tua dec .
nosso inimigo co mum. Esta noite nós já afoga mos esse miserável meu di10h erro
' , MUI'to poucos seriam capazes disso.
num a garrafa de ponche . E agora qu em está aqui so u eu mesmo,
um se r hum an o. Beb am vocês també m, não tenham med o , fi- - cozz'n heira - Eu não: eu nunca ponho os cogu me-
MULHER DO PADRE a . di h d
qu em hum an os! . o cozin ha r no limão , co m um a pita 10 a e man-
Ios no sa I. Delx . . h recem
. . ; é b om pros bem pequemnm os, que pa
teiga. Mas ISSO so , .
MATIl - Repito qu e não posso apresentar você a minha mãe . Minha -
un s b otoes. Tam b êrn ponho na conse rva os lactanos.
mãe me jogava os taman cos na cabeça, se eu aparecesse lá em
,. n a- o são cogumelos muit o finos, como qualidade,
casa com uma mulh er assim. Esta é a ve rda de . LAl NA - O s Iactanos - b I
, b O s cogu melos melhores sao os o etos e os
mas o gos to e o rn.
EVA - Você não precisava dizer isso. sé pias.

PUNTILA - Eva tem razão, Matti. Você agora passou dos limites. Ela tem
se us defeitos, co nco rdo, é possível que engorde com a idade.

d
o Sr. Puntila e seu criado Matti 97
Bertolt Brecht

EVA que volta com o arenque servido numa bandej a - Na cozinha não co mun ista. Se eu fosse empregado, transformaria num inferno a
vida de Puntila. Vamos, co ntinua o teu exame! Me interessa .
tem mant eiga, tem?
MATIl - Se pen so no que uma mulher de ve demon strar que sabe fazer:
MAm - Aí está ele! Eu o reconheço . Pega na travessa. Ainda ontem vi
teu írm ão , e antes de onte m comi algué m da tua fam ília: tua famí-
n:
antes que eu po ssa apresentá-la à minha mãe , e vem logo a
cabeça um par de meias . Tira o sapato, tira urr:a meta e ~~trega-a a
lia tem me alime ntado se mpre, desd e que me entendo. Quantas
Eva . Por exemplo: Eva , você é capaz de cerzir um a mela.
vezes por se ma na você vai co me r arenq ue, Eva?
_ Mas isso é exigência demais! O arenque ainda vai, mas eu acho
EVA - Três vezes, Matti, se for preciso . JUIZ
que nem o am or de Julieta por Romeu resistiria à p;~va de reme~­
dar uma meia suja . Um am or capaz de tal sacrifício se to~nana
LAINA - Três vezes? Vai ter qu e co me r muito mais! fatalmente insuportável, depois de certo tempo . Demonst:ana u~
temperamento fogoso , passional, e os temperamentos assim , mais
MAm - Você vai ter muito qu e aprende r. Minha mãe, qu e e ra cozi- cedo ou mais tarde, acabam no tribunal.
nh eira de uma fazenda, se rvia are nque cinco vezes por se mana.
Laina serve o ito . Segura o arenque pelo rabo e o suspende no ar. MAm _ Nas classes mais baixas, Sr. Juiz , as me ias não são cerzidas por
Sê bendito , Ó, arenque, co mpa nheiro d o pobre! Tu qu e nos sacias amor, mas por economia.
a fome a qualquer hora do dia , e a qu alquer hora do dia nos
envene nas as tripa s. Tu qu e vens do mar e acabas na terra! Graças PADRE _ Não creio que as Pias Irmãs de Caridade do Educandário d~
à tua força maravilhosa os pinheirais são aba tidos, os ca mpos se- Bruxelas, o nde Eva foi criada, tenham pensado em tal eventuah-
mead os! Tu qu e põ es em movim ento ess a máquina cha mada cria- dade .
dagem , qu e infelizme nte ainda não é moto-perpétu o. Ó, arenque Eva volta com a agulha e linha e se põe a costurar.
maldito! Se tu não existisses, começaríamos a exigir dos patrões
ca rne de porco , e e ntão qu e se ria da nossa Finlândia bem-amada? MAm _ Pois agora ela tem que aprende r o qu e as Pias Inn.ãs de Cari-
Deposita o prato, corta o arenqu e em pedaços e dá um pedaço a dade do Educandário de Bruxelas esquece ram de ensinar. A Eva
cada um . _ Eu não pretendo censurar as deficiências de sua educação ,
de sde que vo cê dê provas de boa vontade. Você foi infeli: na
PUNllLA - Pra mim tem um gos to especial, delicioso . Eu como tão rara- escolha de seus pai s; não lhe ensinaram nada que preste. j á n?
mente ... Essas diferenças não deviam exis tir. Se depen desse de are nque você demonstrou uma espantosa ausência de conheci-
mim , eu botava numa caixa tod a a renda da pro prieda de e cada mentos básicos . Escolhi agora a qu estã o da s meia s, para aprofun-
um se servia do dinheiro conforme precisasse . Afinal, esse di- dar mais até onde vão tuas deficiências.
nheiro perten ce a qu em traba lha. Sem o traba lho , a caixa esta ria
vaz ia. Não estou ce rto? FINA - Eu ensino à se nho rita como se faz.

MAm - Não o aco nsel ho a faze r isso , Sr. Puntil a. Em me ia hora a caixa PUNllLA _ Coragem, Eva, você é muito esperta . Tem qu e co nse guir.
ficava vaz ia, e em pouco tempo o banco to mava co nta da pro- Eva, hesitando, entrega a meia a MaUi. Matti leuanta-a, olhando-a com
p riedade. escárn io. O remendo é horrível.

PUl\rrILA - Isso é o que você diz. Eu não penso assim . Sou quase u m FINA - Sem o ovo, nem e u fazia melh or.
o Sr. Puntila e seu cria do Matti 99
98 Bertolt Brecht

111 _ Nem sempre eu exijo que minha mul her faça isso: mas hoje
PUNTILA - Eva, por qu e não usou o ovo?
~IA traba lhei o dia inteiro no trator, esto u meio mo rto . De qualque~
maneira, precisamos co nsiderar que isso possa aco ntecer. Que fOI
MAm - Ignorân cia. Ao Ju iz, que ri - Não há nad a pra rir; ficou uma
porcaria . A Eva - E se você fosse casad a com um chofer e ele Só que você fez hoje, Eva?
tivesse essa meia? Seria uma tragédia! Mas vou te dar mais uma
oportunidade. Vê se sai melh or desta! Põe uma mesa de lado EVA sentada no chão - Lavei roupa.
Uma cade ira, por favor. .
rviAm - Qua ntos len çóis você lavou?
EVA traz endo a cadeira - É, Matti, reconheço que a meia foi uma
vergo nha. EVA- Quatro, Matti.

MAm - Agora imagine que eu sou chofer, numa casa onde você tam- rviAm - Fina, diz a ela.
bém ajuda , lavando roupa e conservando a estufa acesa no in-
verno. Estou voltando pra casa de noite : como é que você me f iNA_ Você lavou no mínimo dezessete , se m co ntar as duas tinas de
recebe? roupa men or.

. EVA - Agora eu vou me sair melhor. Matti, você vai ve r. Chega em casa! rviAm - Tinha água na bica? Ou você teve que ir busca r de ba lde,
Matti se afasta alguns passos e depois finge que chega em casa. como aqui, onde a bomba está sempre enguiçada?
Matti! Correpara ele e o beija.
PUNTILA _ Essa é comigo, Matti, e ntend i bem. Mas eu mereço . Sou um
MAm - Primeiro erro: intimidade e frivolidade quando eu chego em patife .
casa morto de cansa ço. Finge abrir uma bica e lavar-se; depois
estende as mãos esperando uma toalha . EVA - Fui bu scar co m o ba lde.

EVA não entende e continua a matraquear - Oh , pobre Matti, está MAm _ E as unhas? Examina as mã os dela. Quebrou lavando a roupa
muito cansado? O dia inteiro eu fico pens and o em você ; traba lha ou atiçando fogo. Sabe o que deve faze r? Põe se mpre um ? OuCO
tanto! Eu queria tanto poder te ajuda r! de gordura nas mãos. De po is de um certo tem po , as maos de
minha mãe ficaram assim - mím ica - inchad as e ve rmel has . Eu
FINA sussurra - A toalha! Dá uma a Eva. sei que você está muito cansada, Eva, mas ain~a vai te r ~ue lavar
meu un iforme . Preciso dele bem limpo amanha de manha.
EVA deprimida - Perd ão , eu não tinha ente ndido.
Matti grunhe grosseiramente e se senta numa cadeira perto da mesa.
EVA - Sim, Man i.
Estira uma perna para que Eva lhe descalce a bota .
MAm _ Assim já esta rá seco amanhã de manhã e você não preci.sa
PUNTILA que se levantou e segu e ansioso a cena - Tira! Tira! levantar muito cedo pra passar. Bastar acordar às q uatro e mela.
Eva tira a bota de Matti, mas cai sentada no chão .
Procu ra alguma coisa em cima da mesa .
PADRE - Estou acha ndo a lição extrao rdiná ria. Está se ve ndo que essa
uniã o não é uma coisa natural. EVA p reocupada - O qu e é?
100 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e se u criado Matti 101

FINA - O jornal. Eva salta e entrega a Matti um jornal imagi nário. EVA primeiro muda de espanto, depoisfuriosa - Não me faça isso!
Mas Matti não o pega e continua a procura em cima da mesa
Em cima da mesa! . MATl1 - Que foi?
Eva joga o jornal em cima da mesa, mas ainda não tirou a segunda
bota dele; ele bate com o pé, impaciente. Depois de tirar a segunda bota EVA - Como se atreve a me bater aí?
ela se levanta satisfeita, dá um suspiro e ajeita os cabelos. '
JUIZ - Eva, querida , acho que o teu exame foi um fiasco do princípio
EVA - Eu mesma bordei este avental para dar mais co lorido à minha ao fim.
roupa . Um pouco de cor alegra a vida e vai bem em qualquer
lugar. Depois, não custa muito. É só a ge nte te r bo m gos to. Você purmLA - Mas o que é que você tem , Eva?
gosta , Matti?
Matti, interrompido na leitura do jornal, deixa-o cair no chão . Fita Eva MArn - Se ofendeu? Eu não devia fazer isso?
sem dizer nada, elafica apavorada.
EVA - Papai, pra falar a verdade, não sei mais se a coisa funciona.
FINA - Nunca falar co isa algu ma , enqua nto o marido lê o jornal!
PADRE - Eu acho que não .
Mxrn levanta-se- Está ve ndo?
PUNTILA - O que é que significam essas dúvi das?
PUNTILA - Eva, você me decepcionou .
EVA _ Cheguei à co nclusão de que minha educação foi toda errada.
Mxrn quase com compaixão - É preciso corrigir tudo. Qu er co mer Acho melhor ir dor mir.
arenque três vezes po r semana, se es quece do ovo de cerzir
me ias, e quando, à noite , eu volto pra casa esgotado de trabalho, PUNTILA - Agora eu so u obrigado a me meter. Senta aí, Eva!
não tem nem o bom se nso de ficar de boca fechad a. Ago ra me
diz: se me chamarem de noi te pra levar o velho à estação, o que é EVA - Não , papai: deixa eu ir, é melhor. Infelizmente você não vai ter
que acontece? festa de noivado . Boa-noite. Sai.

EVA - Você vai ver! Finge que abre a janela e grita para fo ra - O PUNTILA - Eva!
quê? A essa hora da noite? Mal acabou de chegar! ão tem ne m o Também o Padre e o Juiz se preparam para sair. Mas a Mulher do
direito de do rmir? É o cúmulo! O se nhor q ue vá cura r o se u pile- Padre ainda f ala dos cogumelos com Laina.
que no diabo que o carregue! Meu marido não sai porque e u não
quero! Vou até esconder as calças dele! MUlHER 00 PADRE - Você quase me convenceu. Mas, sabe, toda a minha
vida eu salguei os cogumelos; assim me 'sinto mais garantida.
PUNTILA - Magnífico! Você tem que reconhecer que foi magnífico, Matti! Antes, porém, eu tiro a pele deles.

Mxrn rindo- Formidável , Eva! Vou ficar sem emprego, é verdade , ma s UINA - Não é preciso. Basta limpar bem.
se minha mãe estivesse aqui ia adorar você. Dá-lhe u ma pal-
mada. PADRE - Vem, Ana! É tarde .
Bertolt Brecht o Sr. Pun tila e seu criado Matti 103
102

PUNTILA - Eva! Matti, não se i mais o que faze r com essa menina. Eu lhe coz inha r, tiro os talos. É melh or. Você deixa qu~nto tempo cozi-
arranja um marido , um a maravilha de ho me m, pen sando que ela nha ndo?
va i se levantar tod as as man hãs cantando co mo uma co tovia,
che ia de felicidad e . E ela, não: faz a gos tosa, não sabe, duvida... LAJNA - Só até a prim eir a fervura.
COITe até a porta . Eu bo to ela para fora de casa! Então pe nsa que
eu não se i que você ia se casa r com o Attaché só pra me COnten- PADRE - Ana, eu estou es perando! Sai.
tar? Você não tem ca ráter, é um boneco! Olha, você não é mais
minh a filha! PUNTlLA - E isso são homens? Pra mim não são! Voltando à mesa.

PADRE - Sr. Puntil a, o senho r não sa be o qu e está dizendo! MAm - Mas é o qu e eles são. Um doutor meu amigo , se.m p re qu e via
algué m batendo no cavalo, dizia: "Não o trate ass im co m tant a
PUNTILA - E me deixa e m paz , o se nho r também: vá pregar na sua humanidade!". Não podia dizer bestialidad e .
igreja, q ue ali nem os cac ho rros entram pra ouvir o se nho r!
PUNTILA - Homem de profunda sabe doria. Gostaria muito de beber
co m ele . Bebe um pouco também, Matti! Gostei de teu exame .
PADRE - Sr. Puntil a, os meu s cump rime ntos.
MAm _ Sr. Puntil a, de sculpe se dei um a palmad a no ~as:ir~ ~e sua
PUNTILA - Vai, va i! E aba ndona aqui es te pobre pai, tresp assado de filha. Não fazia parte d o exame. Só queria dar maior intimidade .
tristeza! Pai de tal filha a quem surpree nd i em flagrante delito de Saiu... pel a culatra. Serviu ape nas pra mostrar o abismo que nos
so do mia co m aque le gafanho to ca muflado de dipl om ata. Santo se para. O senhor também notou , não notou ?
Deu s! Qu alquer camponesa ignorante é capaz de ensinar a ela
pra que é qu e se rve aquele traseiro que Deu s fabricou com o suo r PUNTILA _ Não tem nada que pedir desculpas, Matti, el~ não é .mais
do se u rosto ; é para atrair um hom e m pra cama! E pra ele lamber minha filha. Vem, se nta aqui comigo; vamos beber ainda mais um
os beiços, cada vez qu e olha aquilo! Ao juiz - E você , no mo-
copinho .
mento exato, nem se quer abre a boca pra imp edi-l a de se r uma
porcaria. Vai embora tam bém, vai! MAm _ Não seja tão definitivo , Sr. Puntil a. À Mulher do Padre e à
Cozinheira - Como é: as senhor as pel o menos chegaram a um
JUIZ - O ra, chega , Puntil a, me deixa em paz! Eu lavo as mãos desse aco rdo so bre os co gume los?
negócio todo . Sai sorrindo .
MULHER 00 PADRE - E o sal, vai junto?
PUNTILA - Há trinta anos que você lava as mãos. Já deviam esta r bem
limp as, a essa altura! Mas não se esq ueça, Frede rico, qu e eram LAINA - Ah, sim, em primeiro lugar..
mãos de campo nês, antes qu e você se tornasse juiz e começasse a Saem .
ba ncar o P ôncio Pilatos.
PUNTILA - Ouve só : ainda estão dan çando lá for a!
PADRE tentan do arranca r a mulher da conversa com a Cozinheira - Do lado de fo ra vem a voz de Su rkala, o vermelho.
Vamos embora, Ana , já é tarde!
SURKALA -
MULHER DO PADRE - Não , primeiro e u ponho na água fria e, antes de Entre os suecos vivia um a condessa
104 Bertolt Brecht
o Sr. Puntila e seu criado Matti 105
Pálida e bela condessinha.
"Guarda-floresta pega esta meia minha! MArn - Compreendo, Sr. Puntila; esse é o seu esporte.
A liga arrebentou: a liga, a liga...
Ajoelha aqui e ajuda tua amiga!" PUNTILA - Não gosto das pessoas que não sabem gozar a vida. Quero o
"Condessa, não me olhe assim. meu pessoal sempre contente. Quando vejo um empregado meu
Só pela fome aqui vim. de cabeça baixa, fisionomia abatida, fico irritado.
Os seus seios são tão brancos.
O aço do machado é frio, frio, frio. Mxrn - Compreendo bem os seus sentimentos. Mas não sei por que
O amor é cheio, a morte é um vazio." essa gente tem um ar tão infeliz, aqui na sua propriedade. São
Foge a cavalo o belo guarda-bosques, todos amarelos como limão, só pele e osso, parecem vinte anos
Foge a cavalo até o mar: mais velhos do que são. Acho que fazem isso pra irritar o senhor.
-o canoeiro, me leva no teu barco, barco, barco
Me leva , canoeiro, no teu barco, PUNTILA - Como se aqui passassem fome!
Até o fim do mar" .
Mxrn - E se passassem? Já deviam estar acostumados, que diabo! Mas
PUNTILA - É comigo, isso. Essas cantigas me fazem mal ao coração. não querem entender. Não têm boa vontade. Em 18, quando oi-
Nesse momento Matti abraça Fina e sai dançando com ela. tenta mil morreram na guerra, aí sim , tivemos um belo período de
Cortina. paz! Parecia o Paraíso. Já imaginou? Oitenta mil bocas famintas a
menos?
COZINHEIRA enxugando os pratos, canta-
A raposa apaixonou-se pelo galo. PUNTILA - Também não precisava tanto.
"Paixão , tu tens paixão por mim, paixão?"
A noite foi doce, mas logo veio o dia ,
E ao levantar do Sol, após tanta paixão, 11
Havia só penas de galo pelo chão.
o SR. PUNTILA E SEU CRIADO MATTI ESCALAM
O MONTE HATELMA
10
Gabinete da casa de Puntila . Sentado a uma mesinba, está Puntila,
NOTURNO com um pano molhado em volta da cabeça , examinando contas e sus-
pirando. Laina, a Cozinheira, está perto, atenta, com outro pano e uma
É noite. Puntila e Matti mijam . bacia.

PUNTILA - Eu não poderia viver na cidade. Gosto de sair ao ar livre e PUNTILA - Se o Attaché se permitir telefonar pra Helsinque outra vez eu
mijar tranqüilamente sob o céu estrelado, no chão de Deus. Sem rompo esse noivado. Que ele me custe um bosque, ainda vai,
isso, a vida não vale nada. Dizem que quem faz isso assim é um mas esses pequenos roubos me deixam. furioso. E olha aí, que
primitivo, mas eu acho muito mais primitivo mijar numa caneca porcaria, esse livro com o registro da produção de ovos. Tem
de louça. manchas em todos os algarismos. Parece que as galinhas puseram
diretamente em cima dele. O que é que vocês querem: que eu vá
pro galinheiro verificar diretamente no rabo de cada uma?
106 Bert olt Brecht o Sr. Puntil a e se u criado Matti 107

FINAentrando - O Sr. cura e o síndico da Coo pe rativa Central do Leite PADRE - O prazo legal pra despedi-lo terminou ontem, Sr. Puntila . E
qu erem falar co m o se nho r. Surkala não foi despedido. Do co ntrário, a filha de le não estaria
na igre ja hoje de manhã.
PUNTILA - Não quero falar com ninguém, minha 'cabe çaexplode : você
não vê? Mand a entrar. PUNTILA - Como , não foi d espedido? Laina! Entra Laina gritando. Sur-
Entram o Advogado e o Padre. Fina sai. kala não foi d espedido?

ADVOGADO - Bom-dia, João . l.A!NA - Não senho r.

PADRE - Bom-dia, Sr. Puntila. Espero qu e tenha d çrmido bem. Por PUNTILA - Como não foi?
acaso en contrei o Advogado na rua , e resolvemos dar um pulinho
até aqui pra ver como o senhor ia passando. LAINA - O se nho r se encontro u co m ele no mercad o de trabalhad ores
e, em vez de mandá-lo embora, trou xe ele no Stude ba ker e ainda
ADvOGADO - Foi uma noite cheia de mal-entendidos. deua ele uma nota de dez marcos!

PUNTILA - Se está se referindo ao episódio com Eino, já falei com ele ao PUNTILA - Descarad o! Sem-ve rgonha! Me tom ar dez marcos, qua ndo eu
telefone: pediu desculpas e está tudo resolvido. já lhe tinha dito mil vezes qu e sumisse da minh a frente no fim do
co ntrato! Fina! Entra Fina. Cha ma Surkala, depressa! Fina sai. A
ADVOGADO - Não , não é bem isso, meu caro João. Quero te dizer uma cabeça me estala.
coisa mais importante; tud o que se refere à tua propriedade, aos Laina põe uma nova compressa na testa dele.
teu s domínios, à tua família, às tuas relações com a gente do go-
verno, tudo isso é problema teu . Infelizmente há outras questões ADVOGADO - Não é melhor um café?
e outras relações.
PUNTILA - Você tem razão , Pekka: eu devia estar bêb ad o. Qu ando beb o
um co po a mais, sempre faço co isas desse gênero. É de arrancar
PUNTILA - Olh a, Pekka, não me vem com os teu s rodeios! Fala claro! Se
os cabel os! Surkala se aprove ita. Mas esse aí eu boto na cadeia!
eu arranjei outra en crenca qualquer, eu pago , que diabo!
PADRE - Sr. Puntila, estou certo de qu e o se nho r foi realmente enga-
PADRE - Desgraçadamente existem en crencas qu e o dinheiro não pode
nad o . ós tod os conhec emos a sua boa-fé. Naturalme nte se apro-
pagar, prezado Sr. Puntila. Em suma: viem os aqui pra resolver
veitaram do fato do senho r ter bebido , estar sob o influxo do
amigavelmente o problema de Surkala .
álcool.
PUNTILA - Que problema?
PUNTILA - Terrível! Terrível! Desesperado - E agora, o que é qu e eu
vou dizer à Guarda Nacional? É uma questão de honra! Se sabe m
PADRE - O senhor declarou , na no ssa presença , que pretendia despedir do fato, estou perdido . Não me compram mais nem uma gota de
Surkala porque ele é um vermelho fichado, a expressão é sua, leite . Mas a culpa é toda de Matti, o chofer. É qu em estava se n-
que exerce um a influência deletéria so b re a co munid ade . tado perto del e , ainda vejo a ce na diant e dos meu s o lhos . Ele
sabia muito bem que eu não suporto Surkala. E ainda me fez dar
PUNTILA - Eu disse até que ia botá-lo daqui pra fora a pontapés. dez marcos a esse canalha!
108 Bertolt Brecht o Sr. Puntil a e seu criado Matti 109

PADRE - Calma, Sr. Puntila, não precisa fazer disso uma tragédia. São PUNllLA - O escândalo de Surkala, esse canalha que eu ainda vou botar
coisas que acontecem. daqui pra fora a pontapés, me serviu de lição. E diz a Altonen que
venha cá imediatamente. Esse espírito do mal.
PUNllLA - Não diga isso , o senhor mesmo não acredita nó 'que está
dizendo. Se eu continuo assim, preciso ser interditado: ter um LAINA - Ih! Surkala estava com as bagagens prontas pra ir embora e
tutor. Me digam: o que é que eu faço com meu leite todo? Bebo agora já desarrumou tudo de novo. Sai correndo.
sozinho? Estou arruinado, Pekka! Não fica aí de braços cruzados, Entra Surkala com os filhos.
resolve alguma coisa! Você tem que intervir, você é o síndico da
Cooperativa. Ou nã o é? Farei uma doação à Guarda Nacional. Foi PUNllLA tirando o pano da cabeça - ão adianta me vir com essa
o álcool, foi o maldito álcool. Laina, de hoje em diante não quero demagogia: minhas co ntas são com vo cê!
ver mai s uma gota de álcool nesta casa!
SURKALA - Eu se i, Sr. Puntila . Trouxe as crianças de propósito. Elas
ADVOGADO - Já estamos entendidos: voc ê manda o homem embora podem escutar, não vai fazer nenhum mal a elas.
imediatamente, pronto! Esse sujeito envenena qualquer ambiente. Pausa . Entra Matti .

PADRE - E com isso nós nos despedimos, Sr. Puntila. Como vê, com Mxrn - Bom-dia, Sr. Puntila. Como vai a dor de cabeça?
boa vontade nada é irreparável. O que é preciso nesta vida é
ter boa vontade, Sr. Puntila. PUNJ1LA - Ah, você está aí , canalha? O que foi mais que você arranjou ,
quietinho, quietinho, nas minhas costas? Ahn? Eu ontem não avi-
PUNllLA aperta -lhe a mão - Eu lhe agradeço. sei que te botava na rua? Boto na rua e não anoto na sua carteira.

PADRE - ão tem nada que agradecer. Só cumprimos o nosso dever. Mxrn - Muito bem, Sr. Puntila.

ADvOGADO saindo - A propósito, Puntila, seria bom você se informar PUNllLA - E cala a boca aí! Já estou cheio das suas insolências e sem-
dos antecedentes desse seu chofer. Ele também tem uma cara vergonhices. Já me abriram os olhos. Me diz, quanto você levou
meio sinistra. de Surkala?
Saem o Advogado e o Padre .
Mxrn - Não entendo o que o senhor quer dizer, Sr. Puntila.
PUNllLA - Laina, eu nunca mais toco numa gota de álcool. Nunca mais!
Hoje de manhã, assim que acordei, tomei essa decisão. É uma PUNllLA - Vai me dizer que não tem uma combinação com Surkala?
maldição. Eu disse pra mim mesmo: agora eu vou ao estábulo e Que você também não é um vermelho? E que não fez tudo que
tomo uma decisão. Eu sou um verdadeiro devoto das vacas, e o podia pra evitar que eu despedisse esse patife aí? Vai?
que eu decido no estábulo é sagrado. Solene - Traz pra cá todas
as garrafas que estão no armário dos selos, todas! Todo o álcool Mern - Desculpe, Sr. Puntila. Eu executo apenas o que o senhor
que houver em casa! Quero destruir tudo, quebrar todas as garra- manda.
fas, eu mesmo, uma por uma! Não pensa no que custaram, Laina : Laina e Fina continuam trazendo garrafas pra dentro .
pensa na nossa propriedade!
PUNTILA - Você tinha a obrigação de saber que minhas ordens eram
LAINA - Sim, Sr. Puntila. Mas o senhor está decidido mesmo? idiotas.
110 Bert olt Br echt o or, r-un u la e seu cria d o Mau i 111

Mxrn - O se nhor me desculp e, mas é muito difícil d istinguir entre as me instigando a ofende r meu s co nvidados! Porque você go za
sua s ordens. Se eu for exe cutar só as inteligentes, é melh or me qua ndo tud o é imundo e só rdido. É natural, nasceu numa pri-
despedir logo : fico o dia inteiro sem fazer nada . vada . É um criminoso, você mesmo me co nfesso u por qu e foi
despedido tanta s vezes , e eu não me esqueço. Te su rpree nd i ati-
PUNTIl.A - É inútil fazer essa cara de inocent e, assass ino! Sabe muito çando contra mim aqu elas mulheres d e Kurguel a. Um eleme nto
be m qu e eu não tolero indivíduos co mo esses que passam a vida deletério , é o qu e você é . Distraidamente começa a verter o con-
coch icha ndo e cochichando , até que um dia os trabalhad ores me teüdo da garraf a num copo que Matti, bem serviçal, lhe trouxe. A
chegam aqui ped indo mais dez minutos pro almoço. O que você verda de é que você me odeia; mas não pense que vai me amo le-
é , é um bolcheviqu e! Se eu não botei esse daí pra fora na hora cer mais uma vez com o teu "Perfeitamente , Sr. Puntila!".
exa ta, e ago ra tenho que pagar três meses pra ele tirar da minha
frent e essa cara imunda, a culpa foi do álcool. Agora, você me LAINA - Sr. Puntila!
levou a isso por pu ro cálculo! Mas desta vez é sério . Lain a! Vocês
estão vendo : não vou só deixar de beber! Vou destru ir até a última PUNTILA - Deixa, não se preocupe, só quero verificar se o ve nde do r
go ta tod o o álcool que haja nesta casa . Até agora não tinha to- não me tapeou , e ao mesmo tempo festejo a minha decisão irre-
mad o essa decisão , se mpre deixa va uma ga rrafa mão pro s mo-
ã vogável! Bebe. A Matti - Desde o primeiro instante eu percebi
ment os de fraqueza , e foi a minh a de sgraça! Uma vez eu li que o quem você era e fiquei de olho, esperando apenas o momento
prin cípio do alcoo lismo é a compra do álcoo l. Pen a que esse pen- em que se traísse. E por isso me embriaguei com você : mas você
samento não seja mais divulgad o. De qualquer form a, se há ál- nem desconfiou . Continua a beber. Pensou que estava me arras-
cool em casa , devem os destruí-lo . A Matti - Eu mandei te cha- tando a uma vida de dissipações e que podia me explorar be-
mar, porque qu eria qu e você assistisse a essa destruição: é uma bendo também minha custa; mas meus amigos me abriram os
ã

lição qu e você jamai s vai esqu ecer. olhos . Qu e Deu s os proteja, bebo saúde deles. Bebe. Se começo
ã

a pensar e m minha vida nest es último s tempos, me vêm calafrios :


Mcrn - Muito obrigado, Sr. Puntila. O se nhor que r qu e eu vá ao pátio aqueles três dia s no hotel do Parque, aquela corrida atrás do ál-
e comece a qu ebrar tud o? cool autorizado, as mulheres de Kurguela ... Que vida , que vida!
Sem sentido, sem razão! E a moça do estábulo, se lembra dela?
PUNTILA - Eu mesm o faço isso, gatuno . Bem qu e você gostaria - le- Naquela manhã ... Ah, tinha os seios quentes, brancos, e teria se
va nta uma ga rraf a e exam ina - de d estruir essa bebida magní- aproveitado da minha bebedeira, se e u deixasse... Se chamava
fica, mandando-a goela abaixo, hein ? Lisu, não era? E você sempre atrás ! Tem os que concordar: foram
bons tempos, hein? Mas a minha filha eu não te dou não , patife.
LAINA - O senhor não devia olhar tanto essa garrafa, Sr. Punt íla, Joga Você é um patife ... é , sim, tem que admitir. Mas, também reco -
pela janela e está acabado. nhe ço , não é um filho da puta. Bebe .

PUNTILA - Tem razão. Ameaça Matt i com a garraf a. Agora você não lAINA - Sr. Puntil a, o se nho r está bebendo de novo !
vai poder mais me obriga r a beber, can alha . Voc ê goza , vendo as
pessoa s grunhindo co mo porcos diante de você ; diz a verdade. PUNTILA - Eu, bebendo? Você chama isso beber? Uma ou duas garrafas!
Você , olha, você não tem nenhum amor pel o trabalho, e se não Pega a segunda garraf a . Dá a ela a gar-rafa vazia . Quebra isso e
fosse pelo medo de morrer de fom e , você nem movia um dedo! joga fora os cacos; já te disse , não quero ver mais isso na minha
Parasita! Bem qu e gostaria de continuar me seguindo co mo uma frente. E não me olha como Nosso Senhor olhava Pedro. Detesto
so mbra, passando noites inteiras me contando histórias porcas , e gente que vem me cobrar até a última nuança do que eu digo.
112 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e se u criado Matti 113

Indicando Matti - Esse daí procura me arrastar pro abismo, mas nheiro da ca ixa e o entrega a Sureala, depois de separar dez
você qu er qu e eu coma as unhas dos pés de chateação, que eu marcos. Men os dez . A os meninos - Vocês devem ter orgu lho
morra de tédi o . Qu e vida eu levo aqui? Fico o dia inteiro martiri- desse pai, um pai que, por ter fé nas próprias convicções , agüe nta
zando esses miseráveis ou calc ulando a forragem pras vacas, sai, todas as co nseqüênc ias. Você , Helle, que é a mais velha , de ve se r
criatura mesquinha! Laina e Fina saem balançando a ca beça . se mpre o amparo dele. E agora, ade us! Estende a mã o a Su rkala.
Mesquinhas! Sem imaginação. Aos filh os de Surkala - Assaltem , Mas Su rkala não a aperta .
roubem, sejam comunistas , mas não sejam jamais criaturas mes-
quinhas! É Puntila qu em aco nse lha isso . A Surleala - Descul pe SURKALA - Vem, Helle , va mos e mbo ra! Aqu i vocês já ouviram tud o q ue
se me introm eto na educação dos teus filhos. A Matti - Abre essa tinh am pra ouvir. Sa i com os filh os.
garrafa!
PUNTiLA aflito - Mas nem me ape rto u a mão! Você viu? Minha mão não
MATI1 - Espero que o pon che esteja bom , não misturad o co mo da é dign a dele? Eu espe rdva que me disse sse alguma coisa ao se
o utra vez. O senhor não pode co nfiar nem um pouco nesse ven- despedir. .. Uma palavra! Nada . Pra ele, nossa propriedade é uma
dedor, Sr. Puntila. merda. Eu já sabia: é um homem sem raízes . O lugar onde nasceu
não significa nada pra ele. Por isso ach ei melhor deixar qu e fosse
PUNTILA - Eu sei , por isso estou se mpre em guarda. Primeiro bebo um e mbo ra, já qu e insistia tanto. Ah, uma cena dolorosa. Bebe. Mas
golinho , mas um golinho bem pequen o , assim ; posso cuspir logo, nós, Matti, você e eu, so mos diferentes. Você é um amigo , é qu em
se perceb o qu e não presta. Pelo amor de Deus, Matti, sem essas
me indica o caminho na minha árd ua estrada. Só de olhar tua
precau ções, quem sabe quanta porcaria eu já não tinh a e ngolido?
ca ra, me vem sede. Qu ant o é qu e eu te pago por mês, Matti?
Pega também uma garrafa, e festeja a minha decisão irrevogável:
que calamida de! À tua, Surka la!
MATI1 - Tre zentos, Sr. Puntil a.
MATI1 - Eles pod em ficar, Sr. Puntila?
PUNTIl.A - Te aume nto pra tre zent os e cinqüenta. Estou particularm ente
satisfeito com você. Sonha ndo. Matti, um dia quero sub ir co ntigo
PUNTILA - Mas temos que falar ago ra dessas coisas? Agora que tud o está
ao mont e Hatelrna: a vista lá é fabul osa, de lá é que você vai ver
tão be m entre nós? Você é um desastre . E depois, que adianta a
Surka la co ntinuar aqui? Iossa proprieda de é muito pequ en a pra como é bo nito o país e m que nasceu. Vai se morder de raiva , po r
ele. Não agrada a ele , ficar aq u i: eu compreendo . Se e u fosse ele, não ter conheci do aqui lo an tes. Vamos ao mont e Hatelma , agora
tam bém não ficava. Pra mim, Puntil a se ria um ca pitalista reles, mesmo , Matti? Você vai ver q ue vale a pena. E nem precisam os ir
su jo. Sabe o qu e eu faria co m Puntila? Metia num trab alh o vio- lá: podemos ir ape nas em es pírito. Bastam qu atro cade iras.
lento, num a mina de sa l, qu e ass im ele ap rend ia o qu e é trabalho
du ro , o sang uess uga . Tenho ou não tenho razão, Su rkala? Fala, MATI1 - Dentro do horário , eu faço o qu e o se nhor qui ser, Sr. Puntil a!
não fica com cerimô nia, não!
PUNTILA - Talve z vo cê não tenha a imagin ação necessária . Matti nã o
FILHA MAIS VELHA DE SURKALA - Mas nós não queremos ir embora, Sr. responde. Puntila, com veemênc ia - Vamos, Matti, me faz uma
Puntila. montanha. Não economiza nada , não recua diante de co isa al-
guma, usa os maiores blocos de pedra que encontrar. Senão você
PUNTILA - Não, não: Surkala vai embora. Eu sei que, quando ele deci de não consegue fazer o monte Hatelma e não vamos poder gozar o
ir, nem dez cavalos o impedem. Vai até a mesinha. Tira o d i- panorama.
114 Bert olt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Matti 115

MATIl - Faço tudo exatamente como o senhor manda , Sr. Puntila. Com MATIl - Até a morte. Será que basta? No Mensageiro de Helsinque diz
um pontapé destrói um precioso relógio de pêndulo e um armá_ que a gratidão pela pátria deve ir além da morte.
rio enorme cheio de armas; com os f ragmentos e algumas cadei-
ras constrói furiosamente uma montanha em cima da mesa de PUNTIlA - Olha, primeiro os campos e os prados; depois as flores com
bilhar. Sei muito bem que não posso fazer qu estão da jornada de os pinheiros qu e brotam d a roc ha nu a, árida, e parecem se ali-
oito hora s, quando o se nhor me pede uma boa montanha no me ntar do nada; como será que co nsegue m viver em se melhan te
meio de um vale. misé ria?

PUNTIlA - Pega aqu ela cad eira ali! Assim! Segue a minh a orientação, MATIl - Seriam em prega dos ideais, he in, Sr. Punt ila?
Matti, e o monte Hatelma ficará pronto num piscar de olh os . Eu
sei o que precisa e o que não precisa, pruma montanha dessas: a PUNTIlA - Avante , Matti, vamos subir mais! Deixamos lá e mba ixo os
responsabilidade é minha. Você sozinho é capaz de construir um edifícios, obra do hom em , e e ntramos no rein o pu ro e grandioso
monte que não vale a pena; um monte se m paisagem , que não da natureza. A paisagem aq u i é mais despojad a, mais austera.
me daria a menor satisfação. Pra você , o que interessa é ter tra- Matti, aba ndona ago ra todas as tuas mesquinhas preocupações
balho; pra mim, o que interessa é canalizar esse trabalho para um cotid ianas, e te e ntrega à emocionante se nsação qu e tem diant e
fim útil. E agora eu preciso de dois caminhos; um pra atingir o de você!
cume da montanha, outro pra levar até lá os meu s cem quilos de
banha! Ninguém jamais poderá chegar lá em cima ; está vendo? MATIl - Estou fazendo o melh or qu e posso , Sr. Puntil a.
Você nem pensou nisso , hein? Você não pensa em nada! Eu, sim,
sei orientar as pessoas. Eu só queria ver o que você ia fazer sem PUN"fIlA - Ah, terra bendita! Me dá mais um copo, pra eu poder gozar
mim! com plenitude toda a bel eza de sta pai sagem es plêndida.

MATIl tira algumas peças do monte, como quem faz dois ca minhos - MATIl - Um mom ento: vou bu scar no vale. Desce e torna a subir.
Pronto, Sr. Puntila, pronto, os caminhos estão prontos. A mon-
tanha está pronta, é só subir. É uma montanha perfeita, com um PUNTIlA - Eu me pergunto se você tem capac idade de apreciar todo o
caminho perfeito, e não uma coisa inacabada e primitiva como esplendor desta terra. Você nasceu aqui mesmo , em Tavasto?
essas de Nosso Senhor. Também, ele teve que fazer tudo naquela
correria: em seis dias alguém pode fazer alguma coisa que preste? MATIl - asc i.
Resultado: teve que corrigir, botando no mundo um montão de
escravos. Senão, o mundo não funcionava. PUNTIlA - Agora eu te pergunto : onde, no mundo, você encontra um
céu igual ao nosso? Já ouvi dizer qu e em outros lugares é mais
PUNTIlA começa a subir- Vou quebrar o chifre. azul. Mas aqui as nuvens são mais leves, o vento é mais deli cad o.
Mesmo qu e me dessem outro cé u pra esco lher, o azul qu e eu
MATIl segurando-o - Isso também podia lhe aco ntec er aqui na planí- qu ero é este . E quando um bando de gan sos selvage ns se levanta
cie, se eu não estivesse sempre a seu lado . do pântano, batendo violentame nte as asas , isso não é nada? Não
vai atrás da conversa do s outros, Matti: fica em Tavasto! Qu em te
PUNTIlA - É por isso que eu te levo comigo, Matti. É por isso que eu aconselh a é Puntil a!
quero que você tenha uma visão da terra que te deu a vida e sem
a qual você seria uma bosta. Reconhece, Mattil MATIl - Muito bem, Sr. Puntila.
o Sr. Puntila e seu criado Matti 117
11 6 BertoIt Brecht

PUNTILA - E os lagos? Sem falar nos bosqu es, lá e mba ixo, está vendo? puNTILA - Sessenta, pelo men os. E, ~ais na fr:nte , e:tá vendo ~ trem?
São meus, aque les lá, junto da pedreira, e eu vou mandar de rnj, Limpand o bem o ouvido, voce ouve ate o ruído dos lato es de
bar; mas olha be m os lagos, Matti, fixa a vista só nun s três ou leite tinindo lá dentro .
qu atro , e vê! Procura não pen sar nem mesmo nos peixe s dos
qu ais eles estão che ios. Pen sa só na paisagem desses lagos MAm - É, limpando bem...
quando o Sol se levant a, isso basta. Isso basta pra você nunca
mais querer sair daqui. Se você algum dia for e mbo ra, vai morrer PUNTlLA - Ah, tenho que te mostrar também a antiga Tavasto . ÓS tam-
de sauda de! Na Finlândia, Matti, nós tem os oitenta mil lagos como bém temos cidades antigas. Lá e mba ixo o hotel do Pa~que , u~
esses! vinho excele nte. Mais pra cá o castelo: mas ele me desagrad a, foi
transformado numa prisão d e mulh eres, para criminosas políti-
MAm - Sim senho r, penso ape nas na paisagem desses lagos. cas... O qu e é qu e mulh er tem qu e se meter e m política? Mas. os
moinhos a vap or, vistos assim de longe, fazem um belo efeito ,
, A AI
PUNTILA - Está vendo aque le pequen o reb ocad or, co m cara de buldo- hein? Dão vida à paisagem . E ali à esque rda , qu e e qu e voce ve.
gue? E mais emba ixo aqueles tron cos de árvores, já limpos e lisos,
, . I
rolando dentro d 'água na luz da manhã? Aquilo é uma pequena MAm - Ah, sim: à esque rda, o qu e e que eu vejo:
mina de ouro, Matti. Eu sinto o che iro da mad eira fresca a quiló-
metro s de distân cia. E você ? Ah, os odores da Finlândi a são um PUNTILA _ Campos! Campos até onde a vista alcança; aque les, m~is perto
capítul o à parte. Por exe mplo, os morangos e as amo ras depois são os de Puntila , incluindo o pântano onde a terra e tao gor~a
da chuva. E as folha s de bétula, quando você vai à sau na e manda que , se deixamos as vacas pastar ali, temos qu e orde nhá- las tres
qu e te batam com vontade. De manhã, na cama, co mo cheiram! veze s por dia, e o trigo cresce até aq ui, du as vezes por ano . Canta
Onde é que você enco ntra uma co isa ass im, Matti? Onde você
comigo:
tem uma vista de ssas? As ondas do Roine, ondas delicadas
Beijand o a areia bran ca como leite .
MAm - Em parte algu ma, Sr. Puntila.
En tra m Fina e Laina .

PUNTILA - Sabe quando essa vista me. agrada mais? Qu ando os contor-
nos começam a ficar imprecisos, se dissolvendo na distância, FINA - Je sus!
como em certos momentos de amor : a gente fecha os olhos e as
l.AJNA - Acabaram com a biblioteca!
coisas se esfumam... Acho que essa esp écie de amor só existe
entre nós, aqui em Tavasto.
MAm - Sub imos ao monte Hatelma e estamos gozando o pan orama.
MAm - Lá onde eu nasci, Sr. Puntila, tinha umas cavernas com uma A " • I
porção de pedra s en ormes redondas e lisas como bolas de bilhar... PUNTILA - Vamos, cant em! Não tem amor a patna.
Todos, men os Matti -
PUNTILA - Ah, e você lá dentro, vendo as pedras, em vez de tomar As ondas do Roine , ondas delicadas
conta das vacas. Oh, vaca s lá embaixo , está vendo? Atravessando Beijand o a areia branca como leite.
o lago a nad o .
PUNTILA _ Oh, terra de Tavasto, sê bendita! Sê bendita com teu céu,
MAm - Estou vendo. Mais de cinqüenta. com teus lagos , teu povo e teu s bosques! A Ma~ti - Diz a ver-
118 Bertolt Brecht o Sr. Puntila e seu criado Mani 119

dad e , Matti: não se nte o co ração transb ordar de emoção diante MATI1 anda alguns passos, depois se volta-
disso tud o? 1 Antes, porém, a minha desped ida:
Longa vida , Puntila , longa vida!
Mxrn - Sim, Sr. Puntila : ve jo seus bosqu es e sinto que meu coração Que não é o pior, bem se perceb e.
tran sborda . (Chega a ser quase um homem , quando bebe.)
C011ina . Mas não pode durar, nossa amizad e:
Passa o pileque , acaba-se a fraternidade .
De que vale ch orar,
12 Se a luta cão e gato é milenar?
Não gastem à toa
MATII VOLTA AS COSTAS AO SR. PUNTlLA Uma lágrima boa.
Quem vencerá?
Chegou a hora do criado dar as costas
Pátio da propriedade de Puntila. Matti sai da casa com uma mala
. Sem esperar respost as.
Laina o segue com um pacote. É manhã cedo.
Só quando for o senhor de si mesmo ,
Dono do seu suor,
LAINA - Leva, Matti: embrul hei uma s co isas pra você comer! Por que
Pra todos então poderá dizer:
vai embora assim tão cedo? Espera ao menos que o Sr. Puntila se
"Não tem patrão melhor".
levante.
Sai rapidamente.
Mxrn - É o que eu quero evitar. Esta noite ele tomou um porre tão
grande que, quando ia amanh ecendo , me promet eu metade de
um bosque . E diante de testemu nhas, imagina! Desta vez , quando
souber disso , chama a polícia mesmo!

l.AJNA - Mas se for embora assim, sem a carteira , você está perdido .

MAm - Carteira? Pra que é que eu quero uma carteira onde estará
escrito ou ' que eu sou um bolche vique, ou que eu sou um
homem? Em qualqu er do s dois casos, eu não vou conseg uir ne-
nhum empreg o.

l.AJNA - Ele estava tão acostum ado com você. Vai sentir tua falta.

MAm - É, mas eu já me en chi . Que se arranje! Depois do caso de


Surkala , eu não agüent o mais as intimidades dele. Obriga do pelo
embrul ho, Laina. E adeus!

l.AJNA assoando o nariz, comovida, em soluços - Felicidade, Matti,


felicidade. Sai.
A resistível ascensão
deArturo Ui
Uma Parábola

Der authaltsame Aufstieg des Arturo Ui


Escrita em 1941

Tradução: Angelika E. Kôhnke


PERSONAGENS

APRESENTADOR
FLAKE, C ARUTI-lER, B lJI' CHER, M ULBERRY, CLA RK, C O MERCIANTES, LÍDERES DO CARTELDA

COUVE-FLOR

SHEET, ARMADOR

D OGSBORO UGH

J O VEM D O GSBORO UGH

ARTURO UI . CHEFE DO S GÂNGSTERES

E RNESTO ROMA, S EU L UGAR-TENENTE

EMANUELE GIRI

GIUSEPPE GIVOLA, GÂNGSTER E FLORISTA

T EDD RA GG , REPÓRTER DO S TAR

D O CKDAlSY

B OWL, PRO CURADOR DE S HEET

GOODWILL E GAFFLES, D OI S F UNCIO NÁRIO S M UNICIPAIS

O 'CASEY, E NCARREGADO DA C OMISSÃO DE INQUÉRITO

U M A TO R

H O OK , ATACADISTA DE V ERDURAS

A CUSADO FI SH

ADVO GADO DE D EFESA

J UIZ

M ÉDICO

P RO MOTOR

Colaboradora: M. Steffin
UMA M UlHER
PRÓLOGO
J OVEM I NNA, H OMEM DE C O NFIANÇA DE ROMA

UM H OMEM P EQ UENO
Dia nte da cortina, surge o Apresentador. Sobre o pano estão inscritas
IGNATIUS D ULLFEET grandes manchetes: "Novidades no escândalo do subsídio para as
BE1TY D UU.FEET, SUA E SPOSA docas/" - "Acirrada disputa pelo testamento e pela confiss âo do velho
C RIADO DE D OGSBO RO UGH Dogsborough "- "Grandes revelações no processo do incêndio do arma-
G UARDA-CO STAS
zém " - "O assassinato do g ângster Ernesto Roma pelos seus amigos" -
"Extorsão e assassinato de Ignatius Dullfeet "- '~ conquista da cidade
P ISTO LEIROS
de Cícero p elos gâ ngsteres ". Por detrás do pano, ouve-se música de
Q UITANDEIROS DE C HICAGO E C íCERO fanfa rra .
REp Ó RTERES

AP RESENTADOR -
Respeitável público , Hoje trazemos -
Silêncio lá atrás, pessoal!
E favor tirar o chapéu, jovem senhora! -
O grande e histórico show de gângsteres!
Contando, pela primeira vez ,
A verdade sobre o grande escândalo do subsídio para as docas .
Além disso , levamos ao seu conhecimento,
O testamento e a confi ssão de Dogsborough.
A asce nsão de Arturo Ui durante a grande crise!
Novas surpresas no famigerado processo do incêndio do arma-
zém!
O assassinato de Dullfeet! A justiça e ntra em coma!
Os gângsteres em família : o assassinato de Ernesto Roma!
E, por último , um iluminado painel final:
Os gângsteres conquistam a cidade de Cícero!
Vocês ve rão , na ap resentação dos artistas ,
Os heróis mais fam osos do nosso mundo do crime .
Vocês os verão mort os e vivos,
Tran sitór ios e cons tantes,
Nasc idos e criados, como,
Por exemplo, o velh o , bom e hon esto Dogsborou gh !
Diante do pano su rge o velho Dogsborough.
O co ração preto, a cabe leira branca
Faça a sua reverência, se u velho depravado'
O velho Dogsborough se retira, depois defaz er uma reverên cia ,
Vocês verão , ainda, aqu i conosco - lá
Está ele-
126 Bertolt Brecht
A resistível ascensão de Artu ro Ui 127

Diante do pano surge Givola.


O florista Givola. Com sua lábia melíflua 1
Ele vende gato por lebre .
Dizem que a mentira tem pernas curtas! a
Então observem as dele!
Givola se afasta, mancando. No centro da cidade. Surgem cinco homens de negócios, os líderes do
E agora, Emanuele Giri, o superpalhaço! cartel da couve-flor.
Apareça logo, deixe que te vejam!
Di~nte do pa no aparece Giri, cump rimentando todos com um aceno de fLAKE - Malditos te mp os!
mao.
Um dos maiores assassinos de todos os tempos! CLARK - É como se Chicago, a boa vel ha tia, a caminho da pa daria ,
Suma daqui! pa ra comprar o leite matinal, descobrisse um bu raco no seu
Giri se afasta, zangado. bo lso, e ago ra p rocurasse pelos se us ce ntavos na sarjeta.
E finalmen te, a nossa maior atração!
O gângster de todos os gângs teres! CARlJfHER - Ted Moo n me co nvidou na última quinta-feira pa ra um
O famigerado banquete de pombos na segunda, co m outros oitenta co nvida dos .
Arturo Ui! Com o qua l o cé u nos cast igou , Se realm ente fôssemos, provavelm ente só encontraría mos o lei-
Por todos os nossos crimes e pecados, loeiro . Essa bruta l mud an ça da ab undância para a misé ria leva
Atos de violência, tolices e fraquezas! hoje men os tempo do que muit os demor am para empalidecer. As
Diante do pano surge Ui, que atra vessa a rampa de um lado para frotas de verduras dos cinco mar es navegam como dantes co m
outro. rum o a essa cidade, mas já não encontra m um único co mprador.
A que m ele não faz lembrar Ricard o III?
Desde os tempos das du as rosas BurcHER - É como se a noite caísse em pleno dia!
Não se viam matanças tão fulminantes e sangrentas!
Respeitável público , em vista disso , MULBERRY - Clive e Robber estão falid os!
Foi o desejo da direção ,
Não tem er custos nem taxas es peciais, CLARK - A importado ra de frutas de Wheeler - que está no ram o
Para apresentar tudo isso , em gra nde estilo . desde os te mp os d e Noé - foi à ba ncarrota!
Tudo, porém, é estritame nte veríd ico,
Pois o que vocês verão, hoje à noite , não tem nada de novo fLAKE - As garagens de Dick Havelock em liquidação!
Não é inventado nem imaginado, '
Não foi ce nsurado nem arranjado para vocês : CARlJfHER - E o Sheet, o nde está?
? que mostramos aqui, todo o co ntine nte já sabe :
E a peça sobre o gângster que todos conhecem! FLAKE - Não tem tempo para vir. Corre de um banco a outro.
Vai aumentando o volume da música, somada ao som de uma metra-
lhadora. O Apresentador se retira, apressada mente. CLARK - O quê? Ele também? Pausa. Numa palavra: os negócios da
co uve- flor nesta cida de estão acabados.

BurcHER - Bem , meu s se nho res, cabeça para cima! Q uem não está
morto , ainda vive!
128 Bertolt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 129

MULBERRY - Não estar mort o não significa vive r. MULBERRY - Mas co m ge ntileza. Ningué m sa be até q ue ponto ainda
vamos chega r!
BlITCHER - Pra qu e ver,tudo preto? O co mé rcio de alimentos, no fundo Eles riem .
é bem saudá ve l. E co mida para quatro milhões de cida dãos! Co~
ou sem crise a cida de precisa de ve rduras frescas, e disso nós nos FLAKE para Butcher - E qua nto ao Dogsboroug h e o subsídio da pre-
enca rrega mos!
fe itura? Para os outros - Butch er e eu prep aram os algo, q ue po-
deri a nos ajudar nestes tempos parad os de iliquidez . A idéia prin-
CARlJfHER - E a situação das quit andas? cipa l, e m poucas palavras: por qu e não deveria a cida de, à qu al
pagam os imp ostos, tirar-nos da sujeira, co m um subsídio, diga-
MULBERRY - Podre. Os fregueses co mpram meio repolho , e isso no mos, para a co nstrução de novas docas, sob a nossa responsabili-
fiad o! dad e , co m o fim de baixar os cus tos das verduras que chegam a
essa cidad e? O velh o Dogsborough, co m sua influên cia, poderia
CLARK - Nossa co uve está apodrecendo . arra njar esse subsíd io para nós. O qu e diz Dogsbo rou gh ?

FLAKE - Ah, por sina l, tem um cara esperando no hal/- menciono isso BlITCHER - Ele se recu sa a fazer algo ne sse se ntido.
porque é curioso - chamado Ui...
FLAKE - O quê? Ele se recu sa? Maldito . Ele é o cabo eleitoral do distrito
CLARK - O gângster? das docas, e não qu er fazer nad a por nós?

FLAKE - Em pessoa. Sentiu cheiro de carniça e já quer fazer negócios. CARlJfHER - Há muitos an os ve nho co ntribuindo para o se u fundo de
Seu lugar-t enente , o Sr. Ernesto Roma, acredita poder co nvencer campa nha!
os quitandeiros de que comprar o utra co uve -flor que não a nossa
pode ser muit o pouco saudável. Ele promete dobrar o fatura- MULBERRY - Com os diabos , ele foi cantine iro na cantina do Sheet.
mento , pois, na sua o pinião, os comerciantes continuam prefe- Ante s de entrar p ara a política , ele co me u o pã o do cartel! Qu e
rindo comprar co uve-flor em lugar de ca ixões. ingrato! Flak e! O qu e eu lhe disse? ão há mais decência no
Risadas constrangidas. mundo! ão se trata de falta de dinhei ro! É falta de decência
mesm o! É só o barco ameaçar virar e já o aba ndo na m xing ando.
CARlJfHER - É uma pou ca-v erg onha. Amigo vira inimigo , criado deixa de se r criado, e o nosso velho e
so rridente ca ntine iro simplesme nte nos vira as costas. Oh, moral,
MULBERRY dá uma gargalhada - Pistolas Th ompson e bombas MilIs! o nde estás nestes tempos de crise?
Novas idéias para promover as vendas! Finalmente tem os sangue
novo fluind o nos negócios da co uve-flor! Correm boat os de que CARlITHER - Nunca es peraria isso de Dogsborough!
dormimos mal: o Sr. Arturo Ui se apressa em nos oferecer os seus
préstimos! Pessoal, agora é só escolhe r e ntre ele e o Exército da FLAKE - Qu e descu lpa e le es tá dando?
Salvação. Quem dá a sopa mais gostosa?
BlITCHER - Diz q ue a p roposta é sus peita.
CLARK - Ach o que a do Ui é mais qu ente .
FLAKE - O que é que tem de suspeito nisso? Construir docas não te m
CARlJfHER - Ponham -no para fora! nada de sus pei to. Significa trabalh o e pão para milhares!
130 Bertolt Brecht A resistível asce nsão de Altura Ui 131

BurCHER - Ele diz que duvida q ue iremos co nstruir docas. não viram uma única fraqueza ne le! Eu lhes digo: um homem
assim vale ouro - principalmente quando se quer con struir
FlAKE - Que infâmia! docas, talvez um pouco lentamente.

BurCHER - Que nós não queremos construir? FlAKE - Muito bem, Butcher, ele vale ouro. Quando apóia um negócio,
man tém a sua palavra. O problema é que ele não ap óia o nosso
FlAKE - Não. Que ele duvide! negócio .

ClARK - Então procurem outra pessoa que nos arrume o subsídio. ClARK - Não, não ele! "A cidade não é um caldeirão de sopa! "

MULBERRY - É isso mesmo, exis tem ou tros! MULBERRY - E "todos pela cidade, a cida de por si!".

BurCHER - Existir, existem. Mas nenhum é como o Dogsborough. Fi- CARlJfHER - É nojento! Não vejo graça .
quem calmos! O homem é bom.
MULBERRY - Ele muda de op inião mais raram ente que de ca misa. A
ClARK - Bom pra qu ê? cidade, pra ele, não é feita de madeira e pe dra , onde as pe ssoas
vivem e brigam umas com as ou tras , por aluguéis e bifes - mas
BurCHER - Ele é ho nesto . E mais que isso: ele é co nhecido co mo ho- sim, algo feito de pa pe l, algo bíblico. Nunca fui co m a cara dele.
nesto .
ClARK - Esse homem nunca esteve do nosso lad o . Que lhe imp orta a
FlAKE - Não diga! couve- flor! Ou os tran sp ortes! Por ele as verdu ras podem apodre-
cer nesta cidade. Ele não mexeria um dedo . Há dezenove anos
BurcHER - É lógico que ele pensa em sua reputação!
ele recolhe as nossas contribuições pa ra o fundo eleitoral. Ou se-
riam vinte? E o tempo todo , ele só viu couve-flor e m cima do
FlAKE - Lógico? Precisam os de um subs ídio da cida de . A boa reputação
prato! Nunca pisou e m uma das no ssas garage ns!
é probl em a dele .

BurCHER - Será mesmo? Penso que também é problema nosso . Conse - BurCHER - É isso mesmo.
guir um subsídio num a transação em que não se façam perguntas,
só mesmo por intermédio de um homem h onesto , a qu em nin- ClARK - Que vá para o inferno!
gué m tenha corage m de constrange r pedindo notas e comprovan-
tes . Esse hom em é Dogsborough. Podem te r ce rteza! O velho BurCHER - Não , pa ra o inferno, não! Que venha até nós!
Dogsborough é o nosso empréstimo. Sabem por quê? Porqu e
ac reditam nele . Quem há muito não crê mais e m Deus, ain da crê FlAKE - Que é isso? O Clark já disse que esse homem nos rejeita fria-
em Dogsboroug h. O mais calejado es pecu lador da bolsa, que não me nte .
vai a um advogado se não estiver aco mpa nhado de se u próprio
advogado, seria capaz de guardar o último centavo, encontra do BurCHER - Mas o Clark também disse claramente por quê .
sobre o balcão de um ba r, no bolso do avental do Dogsboroug h.
São cem quilos de pro bidad e! Os oi tenta inve rnos que ele viveu ClARK - O homem não sabe onde mora Deu s!
132 Bertolt Brecht
A resistíve l asce ns ão de Altu ra Ui 133

BurCHER - É isso! O qu e lhe falta? Conhec ime nto. Dogsborough não


SHEET - Além disso , vo cê sabe, tenho um a mulher qu e eu talvez tam-
sabe co mo se sente algué m em nossa pele. A pergunta é , po r- bé m não possa mais mant er.
tant o: como coloca r Dogsborough na nossa pele? O qu e devemos
fazer com ele? Precisam os lhe dar uma lição! É uma pena para ele FLAKE - Se você vendesse ...
Eu tenho um plan ozinh o. O uça m o que eu aco nse lho fazer! .
Aparece um letreiro que. relembra certos acontecimentos do passado SHEET - ... se ria um ano a mais. Só gostaria de sabe r pra qu e vocês
recente.
querem a minha co mpa nhia de navega ção .

FLAKE - Quer dizer qu e você nem pensou na possibilid ad e de nós, do


b cartel, querermos te ajudar?

Em frente à bolsa de mercadorias. Flake e Sheet estão conversando. SHEET - Não . Nem tinha pensad o nisso. Onde é que eu estava com a
cabeça? Não ter pensad o que vocês poderiam querer me ajudar, e
SHEET - Fui de Pôn cio a Pilatos. Pônci o estava viajando, Pilatos estava não so mente ext orquir o que eu tenho!
tomando banho. Hoje em dia , só vemos os nossos amigos pelas
costas! O irmão , antes de encontrar o se u irmão , pa ssa no marre- FLAKE - A amargura co ntra tod os não vai te ajudar a sair do atoleiro.
teiro pra comprar botas velhas, só pra que ele não lhe peça ne-
nhum dinheiro emprestado! Velhos sócios têm tanto medo um do SHEET -Pelo menos não ajuda o atoleiro, meu caro Flake!
outro, qu e diante do prédi o da prefeitura só se interpelam co m Aparecem três homens, ca m inhando displicentemente: o gâ ngster Ui,
nomes inventados! A cidade toda está costurando os bolsos. seu lugar-tenente Ernesto Roma e um guarda-costas. Ao passar por
Fiake, Ui encara-o como se esperasse ser interpelado, e Roma vira-se
FLAKE - E a minh a proposta? ostensivamente para ele, com uma expressão z angada no rosto, antes
de desaparecer.
SHEET - De vender? Não , isso eu nã o faço . Vocês querem o almoço em
troca da gorjeta , e depois o agradec imento pela gorjeta! O que eu SHEET - Quem é?
penso de vocês, é melhor não dizer!
FLAKE - É Arturo Ui, o gângster. - E então, que tal se você vendesse
FLAKE - Em nenhum outro lugar você consegue mais. pra gente?

SHEET - E de meu s amigos , não consigo mais do que em qu alquer SHEET - Ele pare cia ansioso pra falar com você.
outro lugar, já se i.
FLAKE rindo irritado - Sem d úvida. Ele nos persegue co m ofertas, que-
FLAKE - O dinheiro anda caro. rendo nos ajuda r a vende r a nossa couve -flor co m o auxílio da
sua Browning . Hoje já existem muit os como esse Ui. É co mo um a
praga qu e assola a cidade, co rroe ndo-lhe os dedos, os braços e os
SHEET - Mais caro ainda para aque le qu e precisa del e . E ningu ém me-
ombros . Ninguém sa be de onde isso vem. Mas sus pe itam qu e
lhor qu e um amigo sa be qu ando se precisa de dinheiro .
venha de um buraco profundo. São assaltos , seq üestros, cha nta-
gens, ameaças e matanças. Na base do "mãos ao alto!" e "salve-se
FLAKE - Você não pod e manter a sua companh ia de navegação .
quem puder!" - Isso deveria ser cauterizado.
134 Bertolt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 135

SHEET fitando-o severamente- E rápido. Pois isso pega . JOVEM DOGSBOROUGH - Meu pai não colabora.

FLAKE - E se você vendesse pra gente? BUTCHER - Muito bem, esqueça.

SHEET dando alguns passos para trás e examinando-o - É mes mo . DOGSBOROUGH - Não gos tei de encontrá-los. A cidade nã o é um caldei-
Existe uma semelhança. Isto é, como esses que acabaram de pas- rão de so pa , em q ue cada um pode meter a sua co lher. Com os
sa r; não muito forte , mas exis te. Ainda não se vê , se pressente : no diabos, o negócio de vocês está ind o bem.
fundo de um lago , vêem-se, às vezes , uns galhos esverdeados e
,?egajosos; poderiam ser cobras, mas são galhos, ou será que não? BUTCHER - O que eu disse, Flake? Vocês vêem as coisas pretas de mais.
E assim que você se parece comesse Roma, não se ofenda. Agora
que o vi, e logo em seg uida vi você, é co mo se eu já tive sse DOGSBOROUGH - Ver as coisas preta s é traição . Vocês só prejudi cam a si
notad o algo assim antes, mas não havia co mpreend ido. E não é mesmos, rap azes. O que vocês ve nde m? Couve-flor. Isso é tão
só com você. Diga mais uma vez: "E se você vendesse pra bom quanto vender ca rne e pão . É de carne, pão e verduras que
gente?". Acho que a voz também... Não , é me lho r dizer: "mãos ao o hom em precisa. Bife sem cebola, ca rne iro se m feijão, e nun ca
alto!". Pois é isso qu e você qu er dizer. Levanta as mãos. Eu le- mais ve jo o fregu ês! Alguns estão meio du ros no momento . Pen-
vanto as mãos, Flake . Fiqu em com a co mpanhia! Dêem-me um sam du as ve zes antes de co mpra r um terno novo . Mas ningu ém
chu te por ela, ou então dois! Dêem-me dois chutes, já é um precisa tem er q ue nessa cida de , tão saudável como sempre , as
pouco mais. pessoas não tenham mais dinheiro pra comprar ve rduras. Ânimo ,
rapazes! Não é mesmo?
FLAKE - Você está lo uco!
FLAKE - Faz bem ouv ir você, Dogsborou gh . Você nos dá co rage m para
SHEET - Bem que eu gostaria! seguir na luta.

BUTCHER - Eu acho até eng raçado, Dogsborou gh , vê-lo tão co nfiante e


2 seg uro em relação à co uve- flor. Pois, sincerame nte, nós não vie-
mos aq u i à toa. Não, não é aq ue la prop osta. Este assunto está
No quarto dos fu ndos do restaurante de Dogsborough . Ele e o seu filho ence rrado, meu velho. Não tenha med o . É algo mais agrad ável.
estão lava ndo copos. Surgem Butcher e Flake. Pelo menos, é o q ue es peramos. Dogsborou gh , o ca rtel consta tou
que justa me nte agora em junho faz vinte anos desd e que você,
DOGSBOROUGH - Vocês es tão p erdendo o se u tempo . Não vo u colabo- qu e já conhecíam os há décad as co mo cantine iro de uma de nos-
rar! A proposta de vocês é suspeita. Fed e como peixe podre. sas empres as, nos deixou , pra se dedicar ao bem da cida de. Sem
você , a cida de não se ria o que é hoje. E, sem a cida de , o cartel da
JOVEM DOGSBOROUGH - Meu pai rejeita a sua proposta. couve- flor não se ria o que é hoje . Fiquei co ntente em ouvir você
dizer q ue, no fundo , o negócio está be m sa udável. Pois ontem
BUTCHER - Esqueça, meu velho! Nós só perguntamos. Você diz não . decidimos fazer-lhe uma oferta pra co me mo rar essa data festiva,
Muito bem, então é não. e, digam os, co mo prova de nossa eleva da estima , e sinal de que
em nossos co rações ainda nos se ntimos muito ligados a você,
DOGSBOROUGH - É suspeito. Conheço docas assim. Não co laboro. qu erem os ofe recer a particip ação majoritária da co mpa nhia de
136 Bertolt Brecht
A resistível ascensã o de Altura Ui 137

navega ção do Sheet por vinte mil dólares . Não é nem a metade de
seu valor. Coloca um pacote de ações sobre a mesa. DOGSBOROUGH da janela - Vejo-a há vinte anos.

DOGSBOROUGH - Butche r, o que é isso? f LAKE - Pensam os nisso.

BurCHER - Dogsbo rough, falando francam ente: o cartel da couve- DOGSBOROUGH - E o Sheet, o que vai. f azer.?
flor
não conta lá com muitas almas sensíve is dentro dele, mas quando
f LAKE - Vai entrar no negóci o da cerveja.
ontem ficamos sabend o da sua respost a quanto ao nosso tolo pe-
dido de emprés timo, a sua respost a honesta , justa, indifere nte até,
bem ao estilo do velho Dogsbo rough, bem, nem queria contar, BurCHER - Resolvido?
mas alguns de nós ficaram com os olhos cheios d 'água. "O quê?", DOGSBOROUGH - Bom, parece tudo muito bonito, mas ningué m se
disse um de nós, fique calmo, Flake, não vou contar quem foi, des-
faz de uma compan hia de navega ção por nada!
"ago ra entram os bem! ". Houve uma pequen a pausa, Dogsbo
-
rough, e então essa propos ta surgiu com a maior natural idade. fLAKE _ .É, você não deixa de ter razão, pode ser ~mbém que ~s
.vint~
mil dólares nos seriam bastant e úteis agora, Já que o subsidi o fOI
DOGSBOROUGH - Butche r e Flake, o que há por trás disso? um furo n'água.

BurCHER - O que deveria haver por trás disso? É soment e uma BurCHER - E já que não gostarí amos de colocar as nossas ações
pro- no
posta! mercad o aberto , justame nte agora ...

FLAKE - E é um prazer trazê-Ia até você. Aqui está você, o arquéti DOGSBOROUGH - Isso já soa melhor. Não seria um mau negoci
po do o , não
cidadão honesto , uma lenda viva e um homem podero so, em seu fossem as condiç ões especia is, que certam ente estão envolvi das
boteco , e não está lavand o soment e alguns copos. Não , você tam- nisso...
bém lava as no ssas almas! E, apesar de tudo , você não é mais rico
que os seus fregues es . É comov ente. FLAKE - De modo algum.

DOGSBOROUGH - Não sei o que dizer. DOGSBOROUGH - Vocês dissera m vinte mil?

BurCHER - Não diga nada. Guarde o pacote! Um homem honesto FLAKE - É muito?
pode
precisa r dele , não é? Com os diabos, o vagão dourad o não passa
muitas vezes pelo caminh o honesto , não é? E o seu filho aqui: DOGSBOROUGH - Não é isso . Seria a mesma compa nhia de: navega
ção na
dizem que um bom nome vale mais que uma boa conta bancári a. qual comecei como um simples garçom. Se é que nao acab: ~pare­
Bem , ele não vai fazer pouco dela . Pegue isso logo! Espero que cendo um caroço no angu ...Vo cês desistiram mesmo do subsidio?
você não lave a nossa cabeça por tão pouco!
FLAKE - De tudo.
DOGSBOROUGH - A compa nhia de Sheet!
DOGSBOROUGH _ Talvez eu devesse pensar melhor no a.ssunto.
Não é,
meu filho pra você não seria nada mau! Chegue i a pensar que
FLAKE - Você pode vê-Ia daqui.
vocês estives sem ofendid os. E agora vocês me vêm com uma
138 Bertolt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 139

oferta
, dessas! Viu só, menino, a hon estidade compensa às vezes. ROMA - A falta de grana e ntre os nosso s rap azes já está se fazendo
E como vocês disseram : o menino não vai herdar muito mais que se ntir de forma co nstrangedo ra. O moral está baixo . A oc iosidade
um bom nome, e e u já vi tant a maldad e se ndo feita por necessi- aca ba estragando eles. Um hom em qu e só atira em ca rtas de ba-
dade! ralho acaba arru ina do. Já nem gos to mais de ir ao qu artel-general,
Arturo . Morro de pen a deles. O meu "amanhã o circo pega fogo "
BurcHER - Seria um alívio para nós se você ace itasse. Pois aí não resta- fica entalado na ga rganta, qu ando vejo co mo eles me olha m. O
ria nada desse gosto amargo, você sabe, daquela nossa proposn, seu plano de ext orsão dos quitandeiros é tão p romissor! Por que
estúp ida! E, no futuro, poderíamos o uvir os se us conselhos, de não começar log o?
como o comércio pode so breviver, de maneira honesta e direita ,
nestes tempos de crise . Pois aí vai se r também o se u negócio, UI - Não agora . Não assim , partindo de baixo . É muito cedo.
Dogsborou gh ; pois aí você tamb ém vai se r um homem da couve-
flor. Certo? ROMA - "Mu ito cedo" - essa é boa! Desde q ue você foi disp en sado
Dogsborough segura a mão dele. pelo cartel - e já faz qu atro meses - qu e você fica aí se ntado
pel os cant os, chocando. Plan os! Plan os! Tentativas sem entu-
DOGSBOROUGH - Butcher e Flake , eu aceito. siasmo! A visita que você fez ao cartel quebrou a sua espinha. E
aquele pequeno incidente com os policiais no Banco Harper
JOVEM DOGsBOROUGH - Meu pai aceita. ainda está atravessad o na sua garganta!
Aparece um letreiro.
UI - Mas eles es tava m atirando!

ROMA - Mas só para o alto! Aquilo foi ilegal.


3
UI - Por um triz, e por duas testemunhas a menos, eu hoje estaria no
Loja de apostas na rua 122. Arturo Ui e seu lugar-tenente Ernesto xadrez. E esse Jui z! Sem um pingo de simpa tia, nem por cinc o
Roma , acompanhados dos guarda-costas, ouvem a transmissão das cruzeiros!
corridas pelo rádio. Ao lado de Roma, está Dockdaisy .
ROMA - A polícia não vai atirar a favor das quitandas. Só atira a favor
ROMA - Arturo, eu queria que você se liberta sse de sse ânimo sombrio e dos bancos. Olha aqui , Arturo , começam os pela rua Onze: janela s
dessa sonheira ociosa, da qual a cidade inteira já está falando. quebradas, gasolina na couve-flor, os móvei s em pedaços para
se rvir de lenha! E aí avançamos até a rua Sete . Um o u dois dias
UI amargo - Quem está falando? inguém mais fala de mim. A cidade depois, Manuele Giri apa rece nos armazén s, um a flor na lap ela, e
não tem memória. A fama aq ui tem vida curt a. Dois meses sem garante p roteção. Dez por ce nto do faturam ento.
assassinato, e já se esquecem da gente. Folheando rapidamente
os j ornais - Quando a máu ser se cala, cala-se a imprensa. UI - Não . Antes, qu em precisa de proteção so u e u. Tenho qu e me
Mesmo que eu forneça assa ssinatos, nã o posso nunca ter certeza proteger da políci a e dos juízes antes de poder dar proteção ao s
de que isso será publicado. Pois não é a ação que vale , mas sim a outros. Isso só funciona partindo de cima.' Sombrio - Se eu não
influência. E esta depende da minha co nta ban cária . Resumindo: tiver o Jui z no bolso , tendo ele um a co isa minha no bolso , fico
as coisas chegaram a tal pont o que às vez es eu tenho vo ntade de totalmente se m direitos. Se eu assalto um banco , qualquer guar-
largar tud o . dinha simplesme nte me mata!
140 Bertolt Brecht A resistível ascensào de Arturo Ui 141

ROMA - Então só nos resta o plano de Givola . É ele quem tem o faro Rxoo - Posso bem imaginar. Dizem que o Givola já andou pedindo
pra sujeira. E se ele afirma que o cartel da couve-flor está com um emprego ao Capone.
cheiro "familiar de podre", tem de ter alguma verdade nisso. E
houve rumores quando a cidade, na época, a conselho de Dogs- DOCKDAlSY bastante bêbada - Isso é mentira! Deixe o Giuseppe fora
borough, como dizem, concedeu aquele empréstimo. Desde então disso!
correm boatos sobre alguma coisa que deveria ter sido construída
e não foi. Por outro lado, o Dogsborough tinha sido a favor . E
Rxoo - Dockdaisy! Você ainda é a vice-noiva do coxo Givola? Apre-
como é que aquele velho coroinha poderia ser a favor de alguma
senta-a - A quarta vice-noiva do terceiro vice-lugar-tenente de
coisa, se ela de alguma forma fosse suspeita? Ora vejam , aí vem o
uma - aponta para Ui - estrela cadente de segunda grandeza!
Ragg, do Star. Saber dessas coisas ninguém melhor que o Ragg.
Oh, destino cruel!
Ei, e aí, tudo bem, Ted?

Rxco um pouco bêbado - Oi, pessoal! Oi , Roma! Tudo bem, Ui? Como DOCKDAlSY - Calem a boca imunda desse sujeito!
estão as coisas em Capua?
Rxoo - A posteridade não rende homenagens aos gângsteres! A massa
UI - O que é que ele quer dizer? indecisa volta-se para novos heróis. E o herói de ontem cai no
esquecimento. Sua ordem de prisão amarela nos arquivos em-
RAeG - Ah, nada de mais , Ui. Era uma pequena vila onde outrora um poeirados. "Não fui eu quem lhes causou feridas?" - "Quando?"
grande exército foi derrotado. Por ociosidade, boa vida , falta de - "Outrora!" - "Ah, as feridas , faz tempo que elas viraram cica-
exercício. trizes!" - "E as cicatrizes mais bonitas vão-se com aqueles que as
levam!" - "Quer dizer então que, num mundo onde as boas
U, - Maldito! ações passam tão despercebidas, nem mesmo das más ações fica
um pequeno sinal?" - "Não !" - "Que mundo podre!"
ROMA para Ragg - Sem brigas! Conte-nos alguma coisa sobre esse
subsídio do cartel da couve-flor, Ted! UI dá um berro - Calem a boca dele!
Os guarda-costas aproximam-se de Ragg.
RAGe - O que é que vocês têm com isso? Vocês agora vendem couve-
flor? Já sei! Vocês também querem um subsídio da cidade. Falem RAGG empalidecendo - Ei! Olha o tom áspero com a imprensa, Ui!
com o Dogsborough! O velho conhece os canais. Ele imita o
Osfregueses levantam-se, alarmados.
velho - "Será justo que um negócio, que no fundo é saudável,
mas que esteja sendo ameaçado por uma seca passageira, acabe
sucumbindo?". Não houve olho na prefeitura que não marejasse. ROMA empurrando Ragg para fora - Vai pra casa , Ted, você já disse o
bastante. Vai logo!
Todos se solidarizaram com a couve-flor, como se fosse uma
parte deles. Ah, com a Browning não há sentimento, Arturo!
Os outrosfregueses riem. RAGG saindo de costas, agora realmente amedrontado - Até mais!
O local esvazia-se rapidamente.
ROMA - Não provoque, Ted . Ele não está nos seus melhores dias .
ROMA para Ui- Você está nervoso, Arturo.

U, - Esses moleques me tratam como se eu fosse um nada.


142 Berto lt Brecht
A resistível ascensão de Arturo Ui 143

ROMA - É porqu e faz tempo que você anda qu ieto , só isso.


Ui rapidam ente - O qu e tem o Dogsborou gh ?

UI sombrio - Onde se meteu o Giri com aquele procu rador do cartel


ROMA - O que você tinha a ver com o Dogsborough?
da couve-flor?

GIRI - É por isso qu e e u o trou xe aqui!


ROMA - Ele disse que o traria aqui às três hor as.

U, - E que história é essa do Givola com o Capone? BOWL - O Dogsborou gh me desped iu.

ROMA - Da compa nhia de navegação do Sheet?


ROMA - Nada sé rio. O Capone só esteve na floricultura dele pra com-
prar coroas.
BOWL - Da dele mesmo . Perten ce a ele, desd e o começo de se tembro.
UI - Coroas? Para quem?
ROMA -O qu ê?
ROMA - Não se i. Com ce rteza não pra nós.
GIRI - A co mpanhia do Sheet -- é do Dogsbo rough . Bowl estava
U, - Eu não te ria tanta certeza . junto , qu ando o próprio Butcher, do ca rtel da couve-flor, tran sfe-
riu a maioria das a ções pro velho .
ROMA - Ah, hoje você está vendo tud o neg ro demais. Ning ué m se
preocupa com a ge nte. UI - E então?

UI - É isso! Até su jeira eles tratam co m mais resp eito. O Givola sai BOWL - E então! É um a vergonha se m tama nho ...
correndo ao p rimeiro fracasso . Eu juro, ao prim eiro sucesso,
ace rto as co ntas co m ele! GIRI - Você não está ve ndo, che fe?

ROMA - Giri! BOWL - ... qu e o Dog sborough suge riu aque le empréstimo polpudo da
Entra Emanuele Giri com um homem de aspecto decadente, Bowl. cidade para o ca rtel da couve-flor...

GIRI - Este é o hom em, che fe! GtRl - ... quando sec retamente ele próprio fazia parte do ca rtel!

ROMA para Bowl- Entào você é o p rocurad or de Shee t, no ca rtel da UI começa ndo a entender - Isso é co rrupção. Por Deu s, o Dogsbo-
couve -flor? roug h está co m a consc iência suja!

BoWL - Era! Era o procurado r, chefe. Até a se ma na passada. Até qu e BOWL - O empréstim o foi para o ca rtel, mas através da co mpa nhia de
esse cac ho rro...
navega ção . Através de mim. Eu assinei em nom e do Dogsbo-
roug h, e não e m nome de Sheet, co mo parecia de fora.
GIRI - Ele ode ia tud o o q ue che ira a co uve- flor.
GIRI - Mas qu e bomba! O Dogsbo rou gh ! Aquele velho testa-de-ferro
BoWL - O Dog sborough .
e nferrujado! Aquele pequeno-burgu ês tão respon sável, qu e vive
144 Bertolt Brecht A resistível ascensão de Altu ra Ui 145

apertando as mãos de todo mundo ! Aquele ve lho incorruptível e ram o de negóci os flore scente, mal pode ser considerado um ato
impermeável! e rrado. Mas que eu, contando com os lucros da companhia de
navegação , já e stivesse de posse de ssa casa de campo, na época
BOWL - Dessa eu me vingo. Me mandar pra rua po r fraude , qua ndo ele em qu e suge ri o e mpréstimo, ag indo, assi m, secretame n te , por
mesmo ... cachorro! interesse pró pr io, isso foi errado.

ROMA - Calma! Além d e você muita ge nte vai sent ir o sa ng ue fervendo JOVEM DOGSBOROUGH - Foi , pai.
quando ouv ir isso . O que você acha, Ui?
DOGSBOROUGH - Foi um erro, o u , pelo menos, poderá se r co ns ide rado
UI apontando para Bowl- Ele afirma ria isso sob juram ento? como tal. Essa casa d e cam po, meu filh o , e u não d everia ter
ace itado.
GIRI - Com ce rteza.
JOVEM DOGSBOROUGH - Não.
UI levantando-se, entusiasmado- Fiqu em d e olho nele ! Venha , Roma!
Agora eu começo a farejar negócios! DOGSBOROUGH - Caímos numa armadilha , filho.
Ui sai apressadamente, acompanhado p or Ern esto Roma e seus guarda-
costas.
JOVEM DOGSBOROUGH - É, pai.

GIRI bate nos ombros de Bowl - Bowl, você deu início a um a grande DOGSBOROUGH - Esse pacote foi co mo os sa lgadinhos do don o de um
tram a , qu e ...
botequim, co locados grátis numa ces tinha so bre o balcão , para
que o freguês, aplacando a sua fome barata , sinta cada vez mais
BOWL - E quanto à gran a...
sede . Pausa . A interpelação so b re a constru ção da s do cas na
prefeitura não me ag rada . O subsí d io já foi gasto. Clark levou e
GIRI - Não se preocupe! Conheço o che fe. Butch er levou . Flak e levou e Caruthe r levou . E, infelizm ente, eu
Aparece um letreiro. também levei . E até agora não se co mprou um só q uilo de ci-
mento ! A única va ntagem é q ue e u, a pe dido do Sheet, não divul-
guei a nego ciação , de modo q ue ningu ém sa be qu e eu tenho al-
4 gu ma co isa a ve r co m essa co mpa n hia d e navegação .

Na casa de campo de Dogsborougb. Ele e seu f ilho. CRIADO elltrando - O Sr. Butch er, d o ca rte l d a co uve-flor, está na linh a.

DOGSIJOROUGH - Essa casa de campo e u jamais deveria ter aceitado. DOGSIJOROUGH - Filho , vá você!
Que e u tenha aceitado o pacote pela me tade d o preço, bem, nin- O j ovem Dogsborougb e o criado saem . Ao longe, ouve-se o badala r de
guém pode me ce nsu rar por isso . sinos.

JOVEM DOGSBOROUGH - Absolutamente ningu ém . DOGSBOROUGH - O qu e se rá qu e o Butch er qu er? Olha ndo pela ja nela
- Foram os álamos d esse lugar qu e me atra íram . E a vista para o
DOGSBOROUGH - Ter d efendido a co ncessão do emprés timo, por ter mar, co mo prata antes de se tornar moeda. Aqui não tem o che iro
se nt ido, na própria pele , como é triste ver ca ir na miséria um ran çoso de cerve ja ve lha . Os pinheiros também são agra dá ve is de
146 Bertolt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 147

se olhar, principalmente os topos. São cinza-esverdeados E UI - Sr. Dogsborough.


poeirados. E os troncos, da cor do couro de novilho que a 'g m-
. , ente
usava antigamente, para tir~r chope do barril. Mas o que pesou DOGSIlOROUGH - Pra fora!
m~smo foram os alamos. E sim, foram os álamos. Hoje é do-
~mgo . Hum. O s sinos tocam serenamente, co mo se neste mundo ROMA - Espere aí! Vamos co m calma! 'ada de precipitações! Hoje é
na o houvesse tanta maldade. O que será que o Butcher quer hoí domingo, não é?
. ? ~
num d ommgo. Essa casa de campo, eu não deveria ...
DOGSIlOROUGH - Eu disse: pra fora!
JOVEM DOGSBO~OUGH voltando - Pai, o Butcher disse que hoje à noite
na prefeitura solicitaram que se investigue a situação das docas JOVEM DOGSIlOROUGH - Meu pai disse: pra fora!
do cartel da couve-flor. Pai, você está sentindo alguma coisa?
ROMA - Que diga isso mais uma vez , e mais uma vez não será novi-
DOGSBOROUGH - Minha cânfo ra! dade.

JOVEM DOGSBOROUGH passa-lhe o remédio - Aqui! UI impávido - Sr. Dogsborough.

DOGSBOROUGH - O que o Butcher vai fazer? DOGSBOROUGH - Onde estão os criados? Chame a polícia!

JOVEM DOGSBOROUGH - Ele vem pra cá . ROMA - É melhor ficar parado, filho! Veja, no corredor estão uns garo-
tos que podem te interpretar mal.
DOGSBOROUGH - Pra cá? Não vou recebê-lo. Não estou bem. Meu cora-
~ão. Levanta-se. Num gesto largo - Eu não tenho nada a ver com DOGSIlOROUGH - Então é isso . Violência .
I~SO. Durante sessenta anos o meu caminho sempre foi reto, e a
cidade sabe disso. Não tenho nada a ver com os truques deles. ROMA - Ah, não, violência , não. Apenas um reforço , meu amigo.
Silêncio .
JOVEM DOGSBOROUGH - Sim, pai. Você está melhor?
UI - Sr. Dogsborough. Eu sei , o senhor não me conhece. Ou então, só
CRIADO entrando- Um senhor Ui se encontra no salão. de ouvir falar , o que é pior. Sr. Dogsborough, o senhor está vendo
à sua frente um homem mal compreendido. Sua imagem dene-
DOGSBOROUGH - O gângster! grida pela inveja , os seus intentos deformados por infâmias.
Quando iniciei a minha carreira nesta cidade, e posso dizer que
não foi toda de insucessos, há quatorze anos, como um filho do
CRIADO - Sim, a foto dele estava nos jornais. Ele afirma que foi o se-
Bronx, como um simples desempregado, só contava com sete
nhor Clark do cartel da couve-flor que o mandou .
bravos companheiros ao meu redor, sem recursos, porém decidi-
dos como eu, capazes de tirar carne de cada vaca criada por
DOGSBOROUGH - Bota ele pra fora! Quem foi que o mandou vir? O
osso Senhor. Agora já são trinta , e serão cada vez mais. O se-
Clark? Que diabo! Ele manda os gângsteres atrás de mim? Eu nhor se pergunta: o que o Ui quer de mim? Não quero muito. Só
quero...
quero uma coisa: não ser mal compreendido! Não quero ser con-
Entram Arturo Ui e Ernesto Roma. siderado um caçador de fortuna, um aventureiro, sei lá o quê.
148 Bertolt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 149

Pigarreia. Pelo menos aos olhos de uma polícia que eu sempre DOGSBOROUGH - O que é que eu tenho a ver com o cartel da couve-flor?
tive em alta consideração. Por isso estou diante do senhor. E lhe O senhor bateu na porta errada com o seu notável plano.
peço - e eu não gosto de pedir - para interceder por mim na
polícia , quando for preciso. . UI - Falamos nisso mais tarde. Sabe do que o senhor precisa? O se-
nhor precisa de punhos no cartel da couve-flor! Trinta homens
DOGSBOROUGH incrédulo- O senhor quer dizer, ser o seu fiador? dispostos a tudo, sob a minha liderança.

UI - Se for preciso. Isso vai depender de a gente se acertar com os DOGSBOROUGH - Não sei se em vez de máquinas de escrever o cartel
quitandeiros. prefere pistolas Thompson, mas também, eu não pertenço ao
cartel.
DOGSBOROUGH - O que o se nhor tem a ver com os quitandeiros?
UI - Falamos nisso mais tarde. O senhor diz : trinta homens , bem arma-
UI - Vou me associar a eles. Estou decidido a protegê-los. Contra qual- dos , fazem o que querem no cartel. Quem garante que nada vai
quer transgressão. Se preciso, por meio da violência. acontecer conosco? Bem, a resposta é simplesmente esta: quem
paga tem o poder! E é o senhor quem distribui os salários. Como
é que eu poderia ir contra o senhor? Mesmo que eu quisesse, e
DOGSBOROUGH - Que eu saiba , até agora eles não estão sendo ameaça-
dos por nenhum lado. não considerasse o senhor como considero, o senhor tem a minha
palavra! O que é que eu sou , afinal? Quantos me seguem, afinal?
O senhor sabia que alguns já me deixaram? Hoje são só vinte , se é
UI - Até agora , talvez não. Mas eu vejo mais adiante, e pergunto: até
que chegam a tanto! Se o senhor não me salvar, é o meu fim.
quando? Até quando, numa cidade assim, com uma polícia pre-
Como ser humano o senhor tem hoje a obrigação de me proteger
guiçosa e corrupta, o quitandeiro vai poder vender as suas verdu-
dos meus inimigos. E para ser sincero, dos meus aliados também!
ras em paz? Será que amanhã o seu pequeno estabelecimento já Uma obra de quatorze anos está em jogo! Apelo ao senhor como
não será destruído por mãos perniciosas, e o seu caixa, assaltado? ser humano!
Será que ele não vai preferir desfrutar de uma segurança forte a
partir de hoje , em troca de uma pequena quantia? DOGSBOROUGH - Então ouça o que farei, como ser humano: vou chamar
a polícia!
DOGSBOROUGH - Eu acho que não.
UI - A polícia?
UI - Isso significaria que ele não sabe o que é bom para ele. É possí-
vel. O pequeno quitandeiro, esforçado, mas limitado, muitas DOGSBOROUGH - Isso mesmo, a polícia.
vezes honesto, mas raramente com visão do futuro, precisa de
uma liderança forte . Infelizmente ele desconhece a responsabili- UI - Isso significa que o senhor se recusa a me ajudar, como ser hu-
dade em relação ao cartel , a quem ele deve tudo. Também aqui , mano? Berrando· - Então, eu exijo isso do senhor como de um
Sr. Dogsborough, eu tenho as minhas responsabilidades. Pois delinqüente! Pois é isso que o senhor é! Vou desmascará-lo! Eu
também o cartel precisa de proteção hoje em dia. Chega de maus tenho as provas! O senhor está envolvido no escândalo das docas ,
pagadores! Pague ou feche o negócio! Que alguns fracos sucum- que está pra estourar! A companhia de navegação do Sheet - é
bam! É a lei da natureza! Em suma, o cartel da couve-flor precisa do senhor! Eu previno o senhor! Não me provoque ainda mais! O
de mim. inquérito já foi decidido!
150 Bertolt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 151

DOGSBOROUGH muito pálido - Ele jamais será realizado. Meus amigos... Ui cu roa-seformalmente e deixa o recinto, acompanhado por Ernesto
Roma .
UI - a senhor não tem amigos! Amigos o senhor tinha ontem. Hoje ,
não tem mais , e amanhã só vai ter inimigos. Se existe alguém que DOGSBOROUGH - Preciso de ar! Que cara -de-pau! Mas que cara-de-pau!
pode salvá-lo, esse alguém sou eu! Arturo Ui! Eu! Eu! Não eu não deveria nunca ter aceitado essa casa de campo! Mas
eles ' não terão coragem de instaurar um inquérito. Senão estaria
DOGSBOROUGH - a inquérito não será realizado. Ninguém terá a cora- tudo acabado! Não, eles não terão coragem.
gem de fazer isso comigo. Meus cabelos estão brancos...
CRIADO entra - Goodwill e Gaffles , da prefeitura!
UI - Mas, fora os cabelos, não existe nada de branco no senhor. Entram Goodwill e Ga.fjles.
Homem! Dogsborough! Tenta pegar a sua mão. Juízo! Mantenha
o juízo! Deixe-se salvar por mim! Uma palavra sua , e eu arraso GOODWILL - ai, Dogsborough!
qualquer um que queira tocar num único fio de cabelo seu! Dogs-
borough, ajude-me agora , eu lhe peço, uma vez! Somente uma DOGSBOROUGH - ai, Goodwill. ai, Gaffles! a que há de novo?
vez! Não posso mais aparecer diante dos meus homens, se não
chegar a um acordo com o senhor! Chora. GOODWILL - Nada de bom, eu temo. Aquele não era o Arturo Ui, que
passou por nós agora no salão?
DOGSBOROUGH - Nunca! Melhor sucumbir do que me envolver com o
senhor! DOGSBOROUGH esforçando-se para rir - Era, em pessoa. Não é exata-
mente um adorno para uma casa de campo.
UI - É o meu fim. Eu sei disso . Tenho quarenta anos e continuo não
sendo nada! a senhor precisa me ajudar! GOODWILL - Não. Não é exatamente um adorno! Bem, não são bons
ventos que nos trazem até você. É o subsídio do cartel da couve-
DOGSBOROUGH -Nunca! flor para as instalações das docas.

UI - Eu estou prevenindo! Vou acabar com o senhor! DOGSBOROUGH severo - a que é que tem o subsídio?

DOGSBOROUGH - Mas enquanto eu estiver vivo, o senhor nunca , nunca GAFFLES - Bem, ontem, na prefeitura - não fique zangado - disse-
vai conseguir montar o seu esquema de extorsão contra os qui- ram que ele é um pouco suspeito.
tandeiros!
DOGSBOROUGH - Suspeito...
UI com dignidade - Muito bem, Sr. Dogsborough. Eu tenho só qua-
renta. a senhor tem oitenta, portanto, com a ajuda de Deus, vou GOODWILL - Fique tranqüilo! A maioria se indignou com a expressão.
viver mais que o senhor! Eu sei que vou entrar pára o comércio Foi um milagre que não saísse pancadaria!
de verduras!
GAFFLES - "Imagine m, contratos do Dogsborough serem suspeitos!",
DOGSBOROUGH - Nunca! eles gritaram. E a Bíblia? De repente ela também é suspeita!
Aquilo quase se transformou numa homenagem a você, Dogsbo-
UI - Vamos embora, Roma! rough! Quando os seus amigos exigiram uma investigação ime-
152 Bertolt Brecht A resistível asce nsão d e Artu ro Ui 153

diata , muitos se retrataram ao ver a nossa co nfiança, e não quise- 5


ram o uvir mai s nada a respeito . A mai oria, porém, ansiosa por ver
o se u nome livre da mais ínfim a sus peita, grit ou : Dogsborough A prefeitura. Butcber; Flake, Cla rk, Mulberry, Ca rutber. No lado oposto,
não é só um nome e não é some nte um homem, é uma institui- Dogsborougb, que está ex tremamente pálido, ao lado de O'Cast:ry, Gaf-
ção! E co m grande es tarda lhaço aprovou o in quérito . fies e Goodwill. A imprensa .

DOGSBOROUGH - O .inquérit o . BurCHER a meia voz - Ele es tá demorando .

GOODWILL - O 'Casey assumiu a liderança em nome da cidade. O pes- MULBERRY - Virá co m Sheet. Pode ser que nã o tenham chegad o a um
soal d o carte l da couve -flor declara somente que o su bs íd io foi acordo. Ach o que p assaram a noite toda negociando. Sheet t em
p assado dir etamente à compa nh ia d e naveg ação d e Shee t e que de afirmar que a com pa nh ia d e na vegação ainda é dele .
os contratos co m as e mpreite iras de viam se r fech ados diretamente
p ela companhia de Sheet. CARlJfHER - Não vai se r mole p ro Sheet se ap resentar aq ui e p ro var q ue
é o único ca fajeste.
DOGSBOROUGH - A co mpa nhia de Sheet.
FLAKE - Ele nã o vai fazer isso .
GOODWILL - O melhor se ria se você mesmo e nv iasse um homem de
boa reputação , qu e se ja da sua co nfia nça e imparcial , p ara jogar CLARK - Ele tem que fazer.
um p ouco d e luz nessa intriga toda.
FLAKE - Por que é que ele aceitaria ficar cinco a nos na prisão?
DOGSBOROUGH - Sem dúvida .
CLARK - É muito dinheiro , e a Mabel Sheet precisa de luxo. Ele cont i-
GAFFLES - Entã o está resol vid o. E agora m ostre-nos a sua tão e log iad a nu a totalmente louco por ela . Ele vai co ncorda r. E quanto à pri-
nova casa de ca mpo, Dogsborough , para que tenhamo s o q ue são: ele nem va i ve r a pri são. O Dogsborough va i dar um jeit o .
co n tar!
Ouve m-se gritos dos vendedores de j ornais na rua . Um repórter entra
com um exemplar na mã o.
DOGSBOROUGH - Sim .
GAFFLES - Sheet foi e ncontrado morto . No hot el. Com uma p assagem
GOODWILL - Paz e sinos! É o q ue se pode d esejar! para São Francisco no bolso do co le te .

GAFFLES rindo - E nada de docas!


Bur CHER - Sheet mort o?
DOGSBOROUGH - Vou ma ndar o ho mem!
O 'CASEY lê- Assass inado.
Saem lentam ente. .
Aparece um letreiro.
MULBERRY - Oh!

FLAKE a meia voz - Não foi e le q uem fez isso .

GAFFLES - Dogsborough , você está passando mal?


154 Bertolt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 155

DOGSBOROUGH com dificuldade- Já vai passar. FLAKE - Esperamos que ele relate os fatos, nada mais.

O'CASEY - A morte do Sheet... O 'CASEY - Então é um homem honesto? Isso não seria nada mau. Já
que o Sheet só morreu essa noite , as coisas já podem ter sido
CLARK - A morte inesperada do pobre Sheet é como uma aguilhoada esclarecidas. Bem, eu espero - para Dogsborough - que você
no inquérito..: tenha escolhido um homem bom.

O 'CASEY - Não resta dúvida : o inesperado muitas vezes é esperado, e CLARK incisivo - Ele é aquele que for, está bem? E aí vem ele.
muitas vezes a gente espera o inesperado. A vida é assim. Agora Entram Arturo Ui e Ernesto Roma, acompanhados de guarda-costas.
me encontro na frente de vocês, de cara lavada, e espero que
vocês não peçam que eu recorra ao Sheet com as minhas pergun- UI - Olá, Clark! Olá, Dogsborough! Olá!
tas, o Sheet está bem quieto agora, desde hoje à noite, conforme
estou vendo neste jornal. CLARK - Olá, Ui!

MULBERRY - O que significa isso, o empréstimo de vocês afinal foi dado UI - Então, o que querem saber de mim?
para a companhia de navegação, não foi?
O 'CASEY para Dogsborough - É esse o seu homem?
O'CASEY - Foi. Porém: quem é a companhia?
CLARK - Claro. Não é bom que chega?
FLAKE a meia voz - Pergunta esquisita! Ele ainda tem alguma coisa na
manga! GOODWILL - Dogsborough, será que isso significa... '

CLARK igualmente- O que pode ser? O'CASEY ouvindo um murmúrio da imprensa - Silêncio aí!

O'CASEY - Está sentindo alguma coisa, Dogsborough? É o ar? Para os UM REpÓRTER - É o Ui!
outros - Só acho que poderíamos dizer que além de algumas pás Risos. O'Casey consegue fazer silêncio . Olha os guarda-costas da ca-
de terra o Sheet ainda vai ter que arcar com a sujeira de outros beça aos pés.
daqui. Estou imaginando que...
O'CASEY - Quem é essa gente?
CLARK - Talvez, O'Casey, fosse melhor não imaginar tanto. Nesta ci-
dade existem leis contra a difamação. UI -Amigos.

MULBERRY - O que vocês querem com essas conversas obscuras? Que O'CASEY para Roma - Quem é o senhor?
eu saiba, o Dogsborough nomeou um homem para esclarecer
tudo isso. Pois vamos esperar por esse homem! UI - O meu procurador, Ernesto Roma .

O'CASEY - Ele está demorando muito. E quando vier, eu espero que GAFFLES - Um momento! Dogsborough, isso é uma brincadeira, não é?
não fale só sobre o Sheet. Dogsborough permanece em silêncio.
156 Bertolt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 157

O'CASEY - Sr. Ui, como podemos deduzir do eloqüente silêncio do O 'CASEY - Então, quem é?
Dogsborough, o senhor é o homem que tem a confiança dele e
deseja a nossa. Muito bem, onde estão os contratos? UI -O Sheet.

UI - Que contratos? O'CASEY - É mesmo? O Sheet! O silencioso Sheet! Com quem o senhor
não falou!
CLARK vendo ü'Casry olhar para Goodwill- Os contratos que a com-
panhia de navegação deve ter fechado com as construtoras para a UI - O que é que vocês estão olhando? O culpado chama-se Sheet.
ampliação das docas.
CLARK - O Sheet morreu. Você não ouviu?
UI - Não sei nada de contratos.
UI - Ah, é? Ele morreu? Eu estava em Cícero esta noite. Por isso não
O'CASEY - Não? soube de nada. Roma estava comigo.
Pausa.
CLARK - O senhor está querendo dizer que não existem contratos?
ROMA - Isso é o que eu chamo de estranho. Vocês acham que é uma
O'CASEY rápido - O senhor falou com o Sheet? coincidência que justamente agora ele tenha ...

UI abana a cabeça - Não . UI - Meus senhores, isso não é uma coincidência. O suicídio de Sheet
é a conseqüência dos crimes de Sheet. É terrível!
CLARK - Ah, não? Não falou com o Sheet?
O'CASEY - Só que não foi suicídio.
UI irado- Quem afirmar que eu falei com o Sheet está mentindo.
UI - O que foi, então? Claro, eu e o Roma estivemos em Cícero esta
O'CASEY - Pensei que o senhor ia cuidar do caso em nome do Dogs- noite, não sabemos de nada. Mas eu sei o que agora todos nós
borough . sabemos: Sheet, aparentemente um empresário honesto, era um
gângster!
UI - Foi o que eu fiz.
O'CASEY - Entendo. Para o senhor, nenhuma palavra é suficientemente
O'CASEY - E os seus estudos renderam frutos, Sr. Ui? incisiva tratando-se do Sheet, para quem hoje à noite uma outra
coisa foi excessivamente incisiva, Ui. Muito bem, e agora você,
UI - Claro. Não foi fácil descobrir a verdade. E ela não é agradável. Dogsborough.
Quando o Sr. Dogsborough me chamou, no interesse desta ci-
dade, para esclarecer o paradeiro do dinheiro, constituído dos DOGSBOROUGH - Eu?
tostões economizados por nós, contribuintes, e confiado a uma
companhia de navegação, tive de constatar, horrorizado, que o BUTCHER incisivo - O que é que tem com o Dogsborough?
dinheiro foi desviado. Este é o primeiro ponto. O segundo ponto
é: quem desviou o dinheiro? Muito bem, eu também consegui O'CASEY - Tem isto : se eu entendo o que disse o Sr. Ui - e acho que o
descobrir isso, e o culpado, infelizmente, é ... entendo bem - , foi uma companhia de navegação que recebeu
158 Bertolt Brecht A resistíve l ascensão de Arturo Ui 159

o dinheiro e o desviou. Então só resta uma pergunta: quem é a UI - Peço silêncio! Mantenham a orde m, am igos!
companhia de navegação? Ouço dizer que ela se chama Sheer,
Mas o que são nomes? O que nos interessa é saber a quem per- GAFFLES em voz alta - Pelo amor de Deus , Dogsborough, fale!
tencia a companhia. E não o nome dela! Será que ela pertencia a
Sheet? Sem dúvida, o Sheet poderia nos dizer isso , mas o Sheet UM GUARDA-COSTAS num berro súbito - O chefe quer silêncio! Silêncio!
não fala mais daquilo que lhe pertencia desde que o Sr. Ui es teve Silêncio repentino .
em Cícero . Seria possível que fosse ou tro o proprietário, quando
ocorreu a fraude da q ua l estamos trat an do? O que você acha, UI - Se me permitem dizer o qu e me mo ve neste momento ao ver es ta
Dogsb orou gh ? situação humilhant e - um homem idoso se ndo atacado e os se us
amigos ao redor, em silênc io - então é isto : Sr. Dogsb orou gh , eu
DOGSBOROUGH - Eu? acredito no se nhor. E pergunto : é assi m que a culpa se apresenta?
É es te o olhar de um ho mem que se desviou do ca min ho? Será
O 'CASEY - É. Será que é possível que você es tivesse se ntado na escri- que aqui bra nco não é ma is branco e preto não é ma is preto? As
vaninha do Sheet, quando - be m, d igamos assi m - um co ntrato co isas foram longe dema is se chegaram a esse ponto .
não estava se ndo assi na do?
CLARK - Estão ac usa ndo um hom em probo d e co rru pção!
GOODWJLL - O'Casey!
O 'CASEY - E mais q ue isso : de fraude! Po is eu afirmo que a o bsc ura
co mpanhia de navegação - d a q ua l o uv imos falar tão mal
GAFFLES para O'Casry- Dogsbo ro ugh ?! Que idéia é essa?
qua ndo ainda era conside rada como pert en cente ao Sheet - ,
essa co mpa nhia era de p ropriedade do Dogsborough no mo-
DOGSBOROUGH - Eu ...
mento em que se co ncede u o em p réstimo!

O 'CASEY - E mesmo antes, qua ndo você nos falou na p refeitura das MULHERRY - Isso é mentira!
dificuldades pelas quais a co uve-flor passava, e que deveríamos
co nceder um empréstimo - será que você falava por experiência CARUfHER - Eu ponho a min ha cabeça a prêmio pelo Dogsborough!
própria? Podem co nvocar a cida de inteira! Não vão encontrar ningu ém
qu e o cha me de corrupto!
BurCHER - Mas o qu e é isso? Vo cês não estão ve ndo qu e o homem es tá
passando mal? UM REpÓRTER para outro, que acaba de chega r - Acabam de ac usa r o
Dogsboroug h!
CARUfHER - Um homem idoso!
O O UTRO REpÓRTER - O Dogsborough? Por que não o Abraham Lincoln?
FLAKE - Os seus cabelos bra ncos deveriam servir de indício de q ue não
pode haver maldade nele . MULHERRYEFLAKE - Testemunhas! Testemunhas!

ROMA - Eu digo: e as provas? O'CASEY - Ah, vocês quere m testemu nhas? É isso? Muito bem, Smith,
como andam as coisas co m a nossa teste mu n ha? Ele chegou?
O 'CASEY - No tocante às provas... Estou ve ndo q ue ele chegou.
160 Bert olt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 161

Um de seus homens apareceu na porta e f ez um sinal. Todos olha m SEGUNDO GUARDA-COSTAS - Ele não teria gra na para uma Brow nin g . Só
para a porta. Pequena pausa . Em seguida, ouve-se uma série de tiros e es tá calibrado porque deix am ele decl am ar qu alquer co isa no bar
barulh o. Grande conf usão. Os repórteres correm para f ora. qua ndo tam bém es tão calibra dos. Mas pa rece que e le é bom . É
do gênero clássico.
REpÓRTERES - É em frente à casa. Metralha doras. - Como cha ma a sua
testemunha, O 'Casey? - O ar es tá ca rregado. - Olá, Ui! UI - Então ouça : me deram a entender que a minha pronúncia deixa a
desejar. E já que será inevitável que em uma ou outra ocasião eu
O 'CASEY indo até a porta - Bowl. Berra para f ora - Entre aqui! tenha que p roferir algu mas pa lavras, p rincipalm ente se a coisa for
política , d ecidi tomar algumas aulas. Inclu sive de apresentação.
PESSOAL DO CARTEL DA COUVE-FLOR - O qu e está acontecendo? - Algu ém
foi mort o a tiros. - a escad a. - Maldi ção ! ATOR - Sim senhor.

Bm CHER para Ui- Mais d esordem? Ui, eu corto as relações co m você UI - Tragam o espelho!
se aconteceu alguma co isa qu e ... Um dos guarda-costas traz um grande espelho de alfaiate.

UI -Sim? UI - Primei ro, o anda r. Como é que vocês andam no teatro o u na


ó pe ra?
O 'CASEY - Tragam-no para dentro!
Os policiais entram com um defunto. ATOR - Sei o q ue o se nhor quer dizer. O se nhor fala do grande est ilo .
Jú lio César, Haml et , Rom eu, peças de Sha kes peare. Sr. Ui, o se-
O 'CASEY - É o Bowl. Meus senhores, tem o qu e a minha testemunha nh o r es tá falando co m a pesso a ce rta . O velho Mah onney pode
não tenha mais co nd ições de depor. Ele se afasta rapidamente. lhe ens ina r em d ez minutos co mo se aprese nta r de forma clássica .
Os policiais coloca ram o corpo de Bowl num ca nto. Os se nho res estão diant e de um caso trágico . Eu me arruinei co m
Sha kes peare. Poeta inglês. Eu pode ria es ta r atuando na Broadway
DOGSHOROUGH - Ga ft1es, me tira daqui! hoje , se não ex istisse Sha kes peare. A tragédia d e um personagem .
GafJlespassa por ele sem responder e sai. " Tão banque Sha kes peare quando es tiver interpretando Ibsen,
Maho nney! O lhe o ca len dário! Esta mos em 1912, se n hor!" - "A
UI va i até Dogsborougb, com a mão estendida - Meus parab éns, arte não co n hece ca lendá rios , se nhor", digo eu - "eu faço arte".
Dogsb orough ! Eu qu ero qu e as coisas fiquem bem clara s. De uma Pois é.
forma ou de outra.
Aparece um letreiro. GIVOLA - Parece q ue você encontro u a pessoa errada, che fe. Ele já e ra.

UI - Veremos . Ande u m pou co em vo lta, co mo se faz nesse tal de


Sha kes peare.
6 O atar dá uma volta .

Hotel Mamm oth. Su íte de Ui. Dois guarda-costas traz em u m atar esf ar- UI - Muito bem!
rapado e o apresentam a Ui. Ao fi ou/o, Giuola.

PRIMEIRO GUARDA-COSTAS - Ele é ator, chefe. Está desarmado .


162 Bertolt Brecht A resistível asce nsào de Altu ra Ui 163

GIVOLA - Mas você não pode andar de sse jeito na frente dos co mer- você acha que esse tal de Clark do cartel se apr esenta de maneira
ciantes de couve-flor! Parece artificial! imponente? Não é para os seus iguais , é? Para eles basta a conta
bancária. Assim como para certos objetivos me bastam alguns ho-
UI - Com o assim, artificial? Hoje e m dia, ninguém parece natural. mens fortes pra que eu se ja respeitado. O Clark se apresenta de
Qu ando eu ando qu ero qu e notem qu e estou anda ndo. Imita o maneira impone nte por causa das pe ssoas simples! E eu vou fazer
andar do atar. o mesmo.

ATOR - Jogue a cabeça para trás. Ui joga a cabeça para trás. O pé toca GIVOLA - Bem, mas podem dizer: não parece se r de berço. Existem
o chão primeiro com a ponta . O pé de Ui toca o chão primeiro pessoas que são sensíveis nesse sentido.
com a p onta. Muito bem. Excelente. O senho r tem uma inclina-
ção natural. Só falta acertar os braços. Rígidos. Esp ere. É melhor UI - É óbvio que existem. Só que não é importante o que o professor
juntá-los na frente dos genitai s. Ui junta as mãos na frente dos ou um ou outro sabido pensa. O que importa é como a pessoa
gen ita is, enquanto anda . Nada mau . Está relaxad o e ao mesmo simples imagina que deve ser o seu senhor. E basta.
tempo co ncentrado. Mas a cabeç a está para trás. Correto. Penso
que o andar está de acordo com os seus objetivos, Sr. Ui. O se- GIVOLA - Mas por que fazer questão de se mostrar senhoril? Por que
nhor deseja mais alguma coisa? não aparecer simplesmente em mangas de camisa e com o olho
roxo , chefe?
UI - Ficar de pé . Diante de pessoas.
UI - Para isso eu tenho o velho Dogsborough.
GIVOLA - Coloque doi s homens fortes bem atrás de você e estará per-
feitamente posicionado. GIVOLA - Parece que esse andou sofre ndo um pouco. Aquela velha
peça preciosa ainda consta na coluna "haver", mas a gente já não
UI - Isso é uma besteira. Quando estou de pé quero que olhem pra gosta de mostrá-la, talvez ela não seja lá muito verdadeira... Como
mim , e não pra duas pessoas atrás de mim. Corrija-me. Ele se posi- uma Bíblia de família que a gente já não abre mais , desde o dia
cíona, os braços cruzados sobre o peito. em que, numa roda de amigos, ao folheá-la em ocionadamente,
en contramos, entre as veneráveis páginas amareladas, um piolho
ATOR - Assim dá . Mas é vulgar. O se nhor não quer parecer um cabelei- ressecad o. Mesmo assim ele ainda é suficientemente bom para a
reiro, seu Ui. Cruze os bra ços assim. Ele cruza os braços de modo co uve-flo r.
a mostrar as costas das mãos colocadas sobre os braços. Uma
mudança mínima , mas a diferença é enorme. Compare na frente UI - Sou eu qu em decide qu em é respeitável.
do espelho, seu Ui.
Ui experimenta a nova posição dos braços diante do espelho. GIVOLA - Claro, chefe. ada co ntra o Dogsborough! Ele ainda pode ser
usad o. em mesm o na prefeitura deix aram ele cair. O barulho
UI - Muito bem. se ria muito grande .

GIVOLA - Pra que você está fazendo isso? Pros senhores refinados do UI - O sentar.
cartel?
ATOR - O sentar. O se ntar é quase o ma is difícil, se u Ui. Existem pes-
UI - Claro que não. É óbvio que é para as pessoas simples . Pra que soas que sabem andar ; há aq ueles que sabem ficar de pé ; mas
164 Bert olt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 165

o nde estão as pesso as que sa bem sentar? Pegu e uma cade ira Com tindo as palavras, seguindo o liurinbo, sendo às vez es corrigido
e ncosto, se u Ui. E agora, não se encoste . Co loq ue as mãos so b re pelo ator; não alterando, porém, o seu tom áspero e seco.
as coxas, paralelas à barriga, os co tov elos longe do co rpo. Quanto Césa r es tá mort o . E e u vim para enterrar Césa r, e não para louvá-
tempo o sen hor consegue ficar se ntado assim, se u Ui? lo . Compa triotas! O mal que o homem faz so b revive a ele; o bem
muitas vezes é ente rrado co m e le. Assim seja co m Cés ar! O nobre
UI - O quanto eu qui ser. Brutu s lhes assegurou: César era tirânico. Se ele o foi, seria uma
falta gra ve , e grav e me nte César a teria pago.
ATa R - Então , estã tudo bem, se u Ui.
UI contin ua sozinho - Aqui es to u com a v énia d e Brutu s (pois Brutu s
GIVOLA - Talvez fo sse ce rto, che fe, deix ar a he ran ça do Dogsb o rough é um homem honrado , co mo são todos e les , todos homens hon-
para o qu erido Giri . Ele tem popularidade - mesm o sem povo. rad os) junt o ao d efunto para lhes falar. Ele foi meu amigo , foi
Ele se faz de e ngraç ado e co nsegue rir de um jeito qu e o gesso cai justo e leal a mim. Mas Brutu s no s di z, César era tirâni co . E Brutu s
do teta , se for preciso. E se não for preciso , também , por é um homem honrado. Ele trouxe muit os cati vo s a Roma: os co -
exemplo , quando você se apresenta co mo filho do Bronx, o que fres de Roma se e nc he ram com os resgates. Talvez isso já fosse
você na realidade é, e fala dos sete jovens de cididos... tirania de César? Decerto, se o homem pobre de Roma dissesse
isso dele, César teria cho rado . Seriam os tiranos de substância
UI - Ah , é , então ele ri? mai s dura? Talvez! Mas Brutu s no s diz que César e ra tirâni co . E
Brutu s é um homem honrado. Todos vistes que nas lupercais três
GIVOLA - Faz cair o gesso d o teta. Mas não diga nada p ra ele . se não vezes lhe o fereci a coroa real. Recu sou-a três vezes . Isso foi tirá-
ele va i dizer outra ve z que eu tenho ó d io del e . É melh o r fazer e le nico? Tão? Mas Brutus diz que ele era tirânico , E ce rta me nte é um
perder a mania de co lec ionar cha péus. homem honrado . Não falo para co ntrad izer Brutu s. Estou aq ui
para dizer o que se i. Tod o s o amastes alguma vez - e não sem
UI - Que chapéus? caus a! O que vo s imped e de cho ra r a sua morte?
Durante os últim os versos o pano cai lentamente . Aparece um letreiro.
GIVOLA - Os chapéus das pess oas qu e ele metralhou. E depois desfilar
por aí co m eles na cabeça. É nojento.
7
UI - Eu não ama rro o focinho do boi qu e mói o trigo pra mim . Prefiro
ign o rar as pequen as fraquezas d os meus co laboradores. Para o Escritório do ca rtel da coute-flor. Altura Ui, Ern esto Roma, Giuseppe
ator- E agora, quanto ao falar! Declam e algu ma co isa! Giuola, Emanuele Giri e os guarda -costas. Um bando de pequen os qui-
tandeiros ouoe Ui falando. Ao lado de Ui, sobre o palanque, está sen-
ATaR - Sha kespeare. Só isso . César. O ant igo heró i. Tira um liorinbo tado Dogsborougb , uelbo e doente. Em segundo plano, Clark.
do bolso. Que tal o di scurso d e Antôni o?Junto ao ca ixão de César.
Co nt ra Brutus. Mentor d os assassinos traiço eiros . Um belo UI gritando - Assa ssin atos! Carnificinas! Extorsões! Arbitrariedades!
exe mp lo de discurso popular, muit o famoso . Atuei como Antônio Roubos! Tiroteios na s ruas! Homens que se ocupam de seus negó-
e m Zenith, e m 1908. É justame nte o q ue o se nhor p recisa , se u Ui. cios, cidadãos pacífi cos, entram na prefeitura para testemunhar, e
Ele se posiciona e recita o d iscurso de Antônio linha por Iinba - são assassinados em plen a luz do di a! E eu pergunto : o que faz a
Co mpa triotas , amigos. ro ma nos, peço a sua ate nção! Ui vai repe- ad ministração municipal? [ad a! Em vez de intervir, os homens
166 Bertolt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 167

honrados sentem-se obrigados a planejar negócios escusos e a Givola e Roma batem palmas.
tirar a honra das pessoas respeitáveis. E para que vocês possam ver que tudo deverá ser feito em bases
comerciais, está aqui o Sr. Clark, do atacado Clark, que todos
GIVOLA - Ouçam! vocês conhecem.
Roma conduz Clark para a frente. Alguns quitandeiros batem palmas.
UI - Em suma, impera o caos. Pois, se cada um pode fazer o que quer
e o que o seu egoísmo manda, significa que todos estão contra GIVOLA - Sr. Clark, em nome da assembléia, dou-lhe as boas-vindas.
todos , e portanto o caos impera. Se eu vou tocando pacificamente Que o cartel da couve-flor esteja se empenhando pelas idéias de
o meu comércio de verduras, ou , digamos, o meu caminhão de Arturo Ui merece todo o meu louvor. Muito obrigado, Sr. Clark.
couve-flor, ou o que quer que seja, e um outro, menos pacífico,
pode invadir a minha loja e dizer "mãos ao alto!" ou furar o pneu CLARK - Senhoras e senhores, nós, do cartel da couve-flor, estamos
do meu caminhão com uma Browning, então nunca poderá haver vendo, alarmados, como é difícil para os senhores vender os seus
paz! Mas, uma vez sabendo que os homens são assim, que não produtos. "São muito caros" - é o que ouço dizer. Mas por que
são cordeirinhos, então eu tenho que fazer algo para que eles são muito caros? Porque os nossos empacotadores, carregadores
não destruam a minha quitanda e para que eu não tenha que e motoristas, atiçados por maus elementos, exigem cada vez mais.
levantar as mãos a qualquer momento porque o vizinho assim o Arrumar esta situação é o que desejam o Sr. Ui e seus amigos.
quer, mas sim usá-las para o meu trabalho, digamos para contar
pepinos ou o que quer que seja. O homem é assim mesmo. Ele PRiMEIRO QUITANDEIRO - Mas se o homem simples receber cada vez menos,
nunca vai largar a Browning por iniciativa própria. Digamos por- quem é que vai comprar verdura?
que assim seria mais bonito ou porque certos bons oradores na
prefeitura o louvariam. Enquanto eu não atirar, o outro atira! Isso UI - Essa pergunta é bem procedente. Minha resposta é: o mundo de
é lógico. Mas vocês perguntam o que fazer. Eu darei a resposta. hoje é impensável sem o trabalhador, quer queira, quer não.
Mas quero adiantar uma coisa: do jeito que vocês vinham fazendo Antes de mais nada, como freguês. Sempre ressaltei que o tra-
não vai dar. Ficar preguiçosamente sentado diante do caixa da balho honesto não humilha, e sim constrói e traz lucros. E por-
loja e esperar que tudo dê certo, ainda por cima em desacordo, tanto é necessário. O trabalhador, individualmente, tem toda a
dispersados, sem uma vigilância forte que os proteja e os escude, minha simpatia. Somente quando ele se amotina e se arroga o
e assim vulneráveis a qualquer gângster - desse jeito não dá. direito de se meter em assuntos de que não entende, isto é, de
Portanto, a primeira coisa necessária é a união. Em segundo lugar, como se faz lucro e assim por diante, então eu digo: espera aí,
o sacrifício. O quê? - ouço vocês dizerem - temos que fazer meu irmão, não é esse o sentido da coisa. Você é um trabalhador,
sacrifício? Pagar pela proteção, dar trinta por cento pela segu- isto é, você trabalha. Se você faz greve e não trabalha mais, então
rança? Não, isso nós não queremos. Para isso, o nosso dinheiro é você não é mais um trabalhador, mas sim um sujeito perigoso, e
muito caro! Ah, se a proteção fosse grátis , então sim. Pois é, meus então eu ataco.
caros quitandeiros, as coisas não são tão simples. Grátis só Clark bate palmas.
mesmo a morte. Tudo o mais tem preço. E assim , também têm Para que vocês vejam como tudo deverá funcionar honestamente,
preço a proteção, a tranqüilidade, a segurança e a paz! É assim com base na boa-fé, encontra-se aqui um homem que para todos
que é a vida. E já que é assim, e já que isso nunca vai mudar, eu nós - posso afirmar isso - serve de exemplo de honestidade de
tomei a decisão, junto com alguns homens que vocês estão vendo ouro e de moral insubornável, isto é, o Sr. Dogsborough.
aqui - e outros que estão lá fora - de que vamos emprestar Os quitandeiros batem palmas com maior intensidade.
nossa proteção a vocês. Sr. Dogsborough, neste momento eu sinto profundamente o quanto
168 BeI10lt Br echt A resistível ascensão de Artu ro Ui 169

lhe devo gratidão . O d estino nos uniu . Que um homem co mo o te ção , ma s gra ças a Deu s no comérci o de verduras até agora está
se n hor tenha escolh ido a mim , um jovem, um filho sim p les do tudo ca lmo.
Bro nx , para se r se u a m igo, po sso d ize r, talve z, para ser o seu
filho , isso e u jam ais es quecere i. Ele aperta a mão ca ída de Dogs- ROMA - E o ass ass in a to de Sheet? E a mort e de Bowl? Vo cês cha mam
borougb e a sacode. isso de ca lmo?

GIVOLA a meia voz - Que momento co moven te! Pai e filho! SEGUNDO Q UITA:-IDEIRO - Isso tem algu ma co isa a ve r co m a co u ve-flo r,
se u Roma?
GIRI dá alguns passos para a frente - Pesso al, o che fe disse o que
es tav a e m no ssos co rações! Eu ve jo e m se us rostos que vocês têm ROMA - Não. Um momentinho! Roma vai até Ui, que após o seu dis-
algumas perguntas. Façam-nas! E nã o tenham medo! Não co me- cu rso está sentado, exa usto e indiferente. Após algumas palavras
mos ningu ém que não no s faça mal. Eu lhes digo : não sou muito ele chama Giri com um acen o, e também Giuola participa de
a migo de discursos, e muito men os d e críticas infrutífe ras daque- uma rápida conversa em voz baixa. Em seguida, Giri acena
las que só vêem o lad o negati vo e só conhecem os "p o réns", e para um dos guarda-costas e os dois saem rapidamente.
não levam a resultado algum. Já as suge stões sa udá veis, positivas,
de como fazer alg o que precisa mesmo se r feito , são semp re b em- GIVOLA - Prezada assembléia! Acabo de ouvir que está aí uma pobre
vindas. Solte m o ve rbo! senhora, que pediu permissão do Sr. Ui para pronunciar algumas
Os qu ita ndeiros não se movem . palavras de gratid ão perante a assembléia .
Ele vai para o fundo do palco e volta acompanhando uma mulher
GIVOLA melífluo - E não nos p oupem! Acho que vocês me co n hece m. muito maquiada, com roupas vistosas - Dockdaisy, que está de mão
E a minha floricultura! dada com uma menina. Os três se colocam diante de Ui, que se levanta.

UM G UARI)A-COSTAS - Viva Givola! GIVOLA - Fale , Sra . Bowl! Dirigindo-se aos quitandeiros - Entendo
que es ta é a Sra . Bowl , a jovem viúva do procurador Bowl , do
GIVOI.A - Querem os p rote çâo o u ca rn ific ina, assassin ato , arbitrarie- cartel da co uve-flo r, o qual o nte m, ao dirigir-se à prefeitura para
dade , roubo , exto rs ão? Violência co ntra viol ên cia? cump rir a sua ob rigaç ão, foi assa ssinado por mãos desconhecidas.
A Sra . Bowl!
PRI.\ IEIRO Q UITA,'lDEIRO - Os ú ltimos tempos têm sido bastante calmos.
Na minha quitanda não hou ve qualqu er tumulto . DOCKDAlSY - Sr. Ui, no meu p rofundo luto , que me acomet eu de vid o
ao assassin ato ign ominios o que vitim ou o meu pobre marido , que
SEGUNDO Q UITANDEIRO - Ne m na minha. no cu mp rimento de suas ob rigações co mo cid adão estava a ca-
minh o da pr efeitura, e u gostaria de e xp ressa r a minha p rofunda
TERCEIRO Q UITA.'lDEIRO - Ta minha tam bém não . gra tidào. É pelas flores que o se nhor e nv io u a mim e à minha
pequ ena menina de se is anos, que foi pri vada de seu p ai. Diri-
GIVOLA - Interessante! gindo-se assembléia - Meu s se nhores, so u uma p obre viú va e
à

só queria di zer que se não fo sse o Sr. Ui.e u hoje estaria na sa rjeta,
SEGUNDO Q UITA."IDEIRO - Nós o uv imos q ue há pouco tempo houve coisa isso e u po sso jurar a qu alquer hora . Minh a pequena menina de
parecid a na adega , parecida com essa qu e o se u Ui está falando, cinco a nos de idade e eu jam ais esqueceremos d o q ue o senhor
co pos quebrados e bebida derramada se não se pagasse p or pro- fez por nós, Sr. Ui.
170 Bertolt Brecht A resistível asce nsão d e Arturo Ui 171

Ui dá a mão para Dockdaisy e pega no queixo da cria nça. TERCEIRO Q UITANDEIRO - Passar am po r aq u i transportando latas!

GIVOLA - Bra vo! ROMA fu rioso- O quê? Algu ém aq u i afirma que fomo s nós?
Passando Por entre as pessoas da assembléia surge Giri, com o chapéu
de Bowl na cabeça, seguido por alguns g ângsteres, que ca rregam gran- UM GUARDA-COSTAS enf ia a Brouming nas costelas do homem - O q ue é
des latas de gasolina. Eles abrem ca minho para a sa ída. que transportaram por aq u i? Latas?

UI - Sra . Bowl, meus pê sames pela perda . Essa fúri a violen ta, perversa OUTRO GUARDA-COSTAS voltando-se para os outros quitandeiros - Vo cê
e d escarada tem que acabar, p orque ... viu latas por aqui? - E vo cê?

GIVOI.A vendo que os quitandeiros começa m a se levantar para ir em- Q UITANDEIROS - Eu não . - Ne m eu.
bora - Parem! A reunião ainda não acabou . Agora , o nosso
amigo J ames Greenwo ol vai a p res e n tar uma canção em memória ROMA - É o que e u espero!
d o pobre Bowl , e depoi s vamos fazer uma coleta para a p obre
viúva . Ele é barítono. GIVOI.A rápido - O me smo homem que nos conto u há p ouco co mo são
Um dos guarda -costas dá um passo frente e canta uma canção me-
ã tranqüilos os negócios da couve -flo r, vê ag ora o seu armazém em
losa, que men ciona freq üentemente a palavra "lar". Durante a apre- cha mas! Mãos perversa s transformam-no e m cinzas! Você s a inda
sentação os g ângsteres, sentados, estão totalmente absoruidos e embeve- não estã o vendo? Será que são cegos? Un am-se agora! Imediata-
cidos pela música, com a cabeça apoiada nas mãos ou recostados na mente!
poltrona , de olhos f echados. O escasso aplauso após a apresentação é
interrompido p elas sirenes dos ca rros de polícia e dos bombeiros. Uma UI gritando - As coisas foram longe d emais ne sta cid ad e. Primeiro,
grande janela nofundo do palco fica vermelha . um as sassinato, agora um inc êndio criminoso! É, parece que
todos começam a entender ! Refi ro-me a todos!
ROMA - Fogo no distrito das d o cas! Aparece um letreiro.

UMA Vo z - Onde?

8
UM GUARDA-COSTAS entra ndo - Aqui tem algué m cha m ado Ho ok?
O julgamento do incêndio do armazém . Imprensa.Ju iz. Promotor. Ad-
SEGUNDO QUITANDEIRO - Esto u aqui. O q ue foi ? togado de Def esa. OJovem Dogsborougb. Giri. Giiola. Dockdaisy. Guarda-
costas. Quitandeiros e o acusado Fish.
GUARDA-COSTAS - O seu a rm azém es tá pegando fo go .
O verdu reiro Hook sai correndo . É seguido por alguns. Outros correm
pa ra a jan ela. a

ROMA - Par em! Fique m aq u i! Ninguém abandona es ta sa la! Para os Ema nuele Giri está em pé na frente do banco das testemunhas, apon-
guarda-costas - É u m incêndio cr iminoso? tando para o ac usado Fisb, que está sentado, totalmente apático.

GUARDA-COSTAS - É ló gico . Encontrar am latas d e gasolin a , che fe. GIRI grita ndo - Este é o homem que com m ãos perversa s botou fogo
172 Bert olt Br echt A resistível ascensão de Artu ro Ui 173

no a rma zé m! Segurav a a lata d e gasolina a pertada contra o se u ADVOGADO DE DEFESA- Encontra va-se esse a uto móvel quat ro horas antes
corpo no momento e m que o flagrei . Fique e m p é quando falo do incêndio na frente d o resta ura nt e d e Dogsb o rough, na ru a 87,
co m vo cê ! Levante-se! e foi o ac usa do Fish a rras tado para fora d o re staurante e m es tado
Obrigam-no a se erguer. Ele fica em pé, ca mbalea nte. inconsciente ?

J UIZ - Acu sado , controle -se. O se nhor es tá no tribunal. O sen hor es tá GIRJ - Co mo é que eu po sso sabe r? Estiv e o di a inteiro a passei o e m
se ndo acusado d e provo car um incêndio crim inoso. Reflita sob re Cíce ro, onde e ncont re i cinq üe n ta e duas pessoas que podem ate s-
o que está e m jogo para o sen hor! tar que me vira m.
Os guarda-costas riem .
FISH balbu cia - Ârlârlârl,
ADVOGADO DE DEFESA - O se nhor nã o acabou de afirmar que o senhor
J UIZ- Onde o sen ho r conseg uiu a lata de ga solina? fazi a um passeio dige stivo em Ch icago, na regi ão das d o ca s?

FISH - Ârlârl,
GIRI - O se n ho r tem algo co n tra eu a lmoçar e m Cícero e digerir e m
A um aceno do juiz, um médico extremamente elega nte e de aspecto Chi cago?
austero curua-se sobre Fish e troca um olhar com Giri. Grandes e longas gargalhadas, inclu sice do ju iz . Escurece. Um órgào
toca a marcha fún ebre de Chop in como sefosse m úsica de dança .
MÉDICO - Está sim ulando.

ADVOGADO DE DEFF_'iA- A defesa exi ge a opinião de o u tros médicos. b


JUIZ sorrindo - Indeferido. Quando a cla ri d ade volta, o quitandeiro Hook está sentado no ban co
das testemunhas.
ADVOGADO DE DEFESA - Sr. Giri , com o se deu o fato de o se n ho r es tar
presente na hora e no lugar d o início d o inc êndio no arma zém d e ADVOGADO DE DEFESA - O se nho r a lgu m a vez já b rigou com o ac usa do,
Ho ok , que reduziu a cinzas vinte e duas casas? Sr. Ho ok? Aliás , o sen hor já o viu a lgu ma vez?

GIRI - Estava dando um passeio para ajudar a digestão . HOOK - Nu nc a.


Alguns gua rda-costas riem . Giri também ca i na risada .
ADVOGADO DE DEFESA- O sen hor viu o Sr. G iri?
ADVOGADO DE DEFESA - O se n hor es tá a par de que o acusado Fish é um
desempregado que um di a antes d o incêndio ve io a pé até Ch i- HOOK - Sim, no escritó rio d o ca rte l d a couve-flo r, no dia e m que o
ca go, o nde nunca es teve ante s? meu a rmazém peg o u fogo .

GIRI - E daí? ADVOGADO DE DEFESA- Antes do incêndio?

ADVOGADO DE DEFESA- O seu a uto móvel tem a pl aca ZZZZZ Z? HOOK - Im edi atamente an tes do incêndi o . Ele passou pelo lo cal com
ma is quatro p e sso as, q ue ca rregava m lat as de gasolina.
GIRI - Se m dúvida. Inquietaç ão 110 ban co da imprensa e entre os guarda-costas.
A resistível ascensão de Arturo Ui 175
174 Bert olt Brecht

J UIZ - Silêncio no banco da imprensa! PROMOTOR - O senhor re conhece, por exemplo , aquel e homem a li?
Aponta Giri.
ADVOGAOO DE DEFESA- Qu e terreno delimita-se com o seu a rmazém, Sr.
Hook? HOOK - Não .

HOOK - O terreno da companhia de navegação , que antigamente per- PROMOTOR - O se nhor não p ode afirmar que já o tenha visto alguma
tencia a She et; O meu armazém está ligado ao p átio da com pa- vez?
nhi a atra vés de um corredor.
HOOK -Não .
ADVOGADO DE DEFESA- Sr. Hook, o senhor tem conhecime nto de que o
Sr. Giri morava na companhia de navegação que pertencia a PROMOTOR - Entã o vamos a uma pergunta muito importante, Hook.
She e t e , portanto , tinha acesso ao terreno dessa com pa nh ia? Pense b em antes d e responder. A p ergunta é: o se u a rmazém deli-
mita -se com a com pa nh ia de navegação que antigamente perten-
HOOK - Sim , na fun ção de almoxa rife. cia a Sheet?
Grande inquietação no banco da imprensa. Os gua rda-costas vaiam e
assumem uma postura ameaçadora em relação a Hook, ao Advogado HOOK após uma pausa - Não .
de Defesa e imprensa . O j ovem Dogsborougb rapidamente se apro-
ã

xima do fuiz e lhe diz algo no ouv ido . PROMOTOR - Isso é tudo.
Escurece. O órgão continua a tocar.
J UIZ - Silêncio! A sessã o fica adiada devido ao mal-estar do réu.
Escurece. O órgão volta a tocar a marcha fúnebre de Chop in como se
f osse música de dan ça.
d
c Quando volta a claridade, Dockdaisy está no banco das testemunhas.

Quando volta a claridade, Hook está sentado no ban co dos réus. Ele DOCKDAlSY numa voz mecânica - Reconheço o acusado co m certeza
está todo qu ebrado, a bengala a seu lado e com fa ixas na cabeça e pela sua ex p ressão de consciênc ia culpada e porque ele tem l~m
sobre os olhos. metro e se te nta de altura . Ouvi da minha cunha da que ao m eio-
dia do dia e m que o meu marido foi baleado ao entra r na prefei-
PROMOTOR - O senhor não está enxergando bem, Sr. Hook? tura ele foi visto e m frente à prefeitura. Ele estava com uma pis-
tola auto má tica marca Webster embaixo do braço e tinha um ar
HOOK com d ificuldade- ão, suspe ito .
Escu rece. O órgão volta a tocar.
PROMOTOR - O senhor pode di zer que está e m cond ições de reconhe-
ce r alguém clara e perfeit amente?
e
HOOK - Não .
Quando volta a claridade, Giuseppe Givola está no banco das testel~u­
nbas. A pouca distân cia, encontra-se o gua rda-costas Greenwool, de pe.
A resistível ascensão de Arturo Ui 177
176 Bert olt Brecht

PROMOTOR - Afirmou-se aqui que no escritó rio do ca rte l da co uve -flo r Risos. Escurece. O órgào continua a tocar.
algumas pessoas foram vista s carrega ndo latas de ga solina, antes
de ocorre r o incêndio crim inoso. O qu e o sen ho r sa be a respeito?
f
GIVOLA - Só pode se tratar do Sr. Greenwool.
Quando volta a claridade, o tribunal dá sinais de esgota mento total.
Pno xror o n - O Sr. Greenwool é se u e m pregado, Sr. Givo la?
J UIZ - A imprensa publi cou insinuações de que o trib u na l poderi a es ta r
so fre ndo pressões d e determinado setor. O tribunal co ns tata que
GIVOt.A - Sim se nho r.
não sofreu qu aisquer pr essões d e nenhum se to r e que oficia e m
total liberdad e . Pe nso que es ta explicação é sufic ien te.
Pao v or o n - Qual é a sua profi ssão , Sr. Givo la?
PROMOTOR _ Exce lênc ia! Em face da teimosa simu lação de demência do
GIVOLA - Florista .
ac usa do Fish , a promotoria conside ra não se r possível continuar o
interrogat óri o . Reque remos, pois...
PROMOTOR - É co mu m usar gra ndes quantidades de gaso lina neste tipo
d e ativid ade?
ADVOGADO DE DEFESA- Exce lê nc ia! O ac usa do es tá vo ltando a si!
GIVOLA sério - Não, a não se r co nt ra pul gões. Inqu ieta ç ào.

PROMOTOR - O que o Sr. Greenwool fazia no escritó rio do ca rte l da FISH pa rece acordar- Ãrlân lârlâg uâ lârlâ uâguâ rlâ .
co uve-flo r?
ADVOGADO DE DEFESA - Água! Excdência , requei ro o interr o gatóri o do
GIVOLA - Esta va a p resentando uma ca nção. ac usa do Fish !
Grande tnqutetaç ão.
PROMOTOR - Então e le não poderi a ter ao mesmo tempo le vado as latas
de gasolina p ara o armazém de Hook.
PRO~IOTOR _ Protesto! ão h á sina is qu e indiquem que Fish este ja lú-
cido. É tud o a rmação da defesa. se nsaciona lismo a qualq uer
GIVOI.A - Tot almente impossível. Pelo se u ca ráter, não é homem de cus to, tentativa de influ enciar o p úblico !
provocar incêndios crim inosos. Ele é barít ono .
FlSH - Áag. Escorado pelo advogado, levanta-se.
Paoxror o n - Fica a critério do tribunal deixa r a testemunha G reenwool
a p rese ntar a bela ca nção qu e ca ntou no escritório do ca rte l d a ADVOGADO DE DEFESA- Co ns eg ue responder, Fish ?
co uve-flo r, e nq ua nto p ro vo cavam o incêndio .
FISH - SSS.
J UIZ - O trib unal não co ns ide ra isso necessário .
ADVOGADO DE DEFESA- Fish , diga ao tribunal : no di a vinte e oit o do mês
passado o se n hor pôs fogo num a rmazém das d ocas, sim ou não?
GIVOLA - Prot esto . Levanta-se. Essa pressa toda é um escândalo. Jovens
vigorosos qu e a tiram um pouco e se ex põem demais são tratado s
aqu i co mo margin ais. Isto é re volt ante . FISH - Nããão .
A resistível ascensào de Arturo Ui 179
178 Bert olt Brecht

ADVOGADO DE DEFESA - Quando veio para Chicago, Fish? PROMOTOR - Protesto! Protesto!

GIRI - Cachorro! Corrupto! Seu mentiroso! Você é venenoso. Lá fora eu


FISH -Água.
te pego e te arranco as tripas! Criminoso!

ADVOGADO DE DhESA- Água!


ADvOGADO DE DEFESA - A cidade inteira conhece este homem!
Inquietação . O jovem Dogsborougb aproxima-se do juiz e fala com ele
persuasivamente. GIRI furioso - Cala 'a boca! já que o juiz quer interrompê-lo - Você
também! Cala a boca você também! Se é que tem amor à vida!
GIRI levanta-se com estardalhaço e grita - Tudo armação! Tudo men- Como elefica sem fôlego, o juiz consegue tomar a palavra.
tira! Mentira!
J UIZ- Eu peço silêncio! O Advogado de Defesa terá de se responsabili-
ADVOGADO DE DEFESA aponta para Giri - O senhor já viu este homem zar por desacato ao tribunal. O tribunal entende muito bem a in-
antes? dignação do Sr. Giri. Dirigindo -se ao Advogado de Defesa -
Prossiga!
FISH -Já. Água.
ADVOGADO DE DEFESA - Fish! Deram-lhe algo para beber no restaurante
ADVOGADO DE D EFESA - Onde? Ele estava no restaurante de Dogsbo- de Dogsborough? Fish! Fish!
rough , nas docas?
FISH deixando cair a cabeça, sem forças - Ârlârlârl.
FISH em voz baixa - Sim.
Grande inquietação. Os guarda-costas sacam as Broumings e vaiam. O ADVOGADO DE DEFESA - Fish! Fish! Fish!
médico vem correndo com um copo d 'água . Verte o conteúdo na boca
GIRI gritando -
Pode chamar o quanto quiser! Só que esse já era!
de Fish antes que o Advogado possa tirar-lhe o copo da mão .
Vamos ver quem é que manda nesta cidade!
Em meio a grande inquietação, vai escurecendo. O órgão continua
ADVOGADO DE DEFESA - Protesto! Exijo que esse copo seja examinado!
tocando a marcha fúnebre de Chopin em ritmo de dança .
J UIZ troca olhares com o Promotor- Moção indeferida!

g
DOCKDAISY gritando para Fish- Assassino!
Quando fica claro pela última vez, o juiz está de pé e anuncia o vere-
ADVOGADO DE DEFESA - Excelência! Querem calar com um papel o que dicto numa voz sem entonaç ão. O acusado Fish está extremamente
nem com terra conseguem. Calar a boca da verdade, de Vossa pálido.
Excelência uma sentença , co m o se fôsseis Vossa Indecência!
Ameaçam a justiça com "mãos ao alto! ". Será que a nossa cidade, JUIZ - Charles Fish , condeno-o a quinze anos de cárcere por incêndio
agora uma semana mais velha desde que teve que se defender da criminoso.
corja sangrenta , de poucos monstros , apenas, gemendo, ainda Aparece um letreiro.
tem que ver o fim da justiça, não só o fim , vê-la prostituída, ce-
dendo à violência? Excelência, interrompei o processo!
180 Bert olt Br echt A resistível asce nsão de Arturo Ui 181

Sheet e do Bowl até os assassinat os de Givola e tud o a respeito


9 do incêndio. Eu sabia disso tud o , e tudo isso toler ei, eu, o seu
a hon esto Dogsborough , por ganância de riqueza e por med o de
qu e vocês du vidassem de mim .
Cícero. Sa indo de um ca mi nb ão destroçado por tiros, uma mulher,
cobert a de sangu e. ca mbaleia para a frente .
10
MULHEH - Socorro! Vocês aí! Não fujam ! Vocês têm que testemunhar! O
meu marid o lá no carro já se foi! Ajudem! Ajudem! O meu bra ço No Hotel Mamm otb. Suíte de Ui. Ele está deitado em uma poltrona
tamb ém se foi... E o ca minhão também! Eu preciso de um pano funda , olha ndo fixam ente para o nada. Givola está escrevendo .a lgo,
para o braço ... Eles nos abatem co mo se es tivesse m tirando mos- enqua nto dois guarda-costas, olhando por cima de seus ombros, n em .
cas do se u co po de ce rveja! Oh , Deu s! Por favor, ajudem! Tão tem
ninguém aqui... O meu marid o! Seus assassinos! Mas eu se i qu em G rvo ix - Assim eu, Dogsborough, deixo como heran ça para o bom e
é! É o Ui! Furiosa - Animal! Escória da escória! Seu sujo, de esforçado Givola o meu boteco; para o corajoso, só qu e um
quem a sujeira tem tant o nojo que ela diz : onde poss o me lavar? pouco esquentado Giri, a minha casa de campo, e a? hones~~
Piolh o dos últimos dos piolh os! E tod os o toleram! E nós sucumb i- Roma, a guarda do meu filho . Peço a vocês que nomeiem o Giri
mos! Vocês aí! É o Ui! O Ui! Bem perto espo ca Ul/ICI metralhadora, para juiz e o Roma para chefe da polícia; já o meu qu erido Givola ,
e a Mulher ca i no cbão. Ui e o resto! O nde estão vocês? Ajudem! para defen sor dos pobres. Eu recomendo, de cora ção , Arturo Ui
Ningué m vai deter essa pe ste? para o meu próprio posto. Ele é dign o dele. Pod em acreditar no
se u velho e honesto Dogsbo rough! - Acho qu e isto basta . E es-
pero que ele bata as botas logo . Este testamento vai o perar mila-
b gre s. Sabendo que ele vai morrer e esperando poder enterrar o
velh o mais o u menos decentemente em terra limpa , estã o todos
Casa de ca mpo de Dogsborougb . De madrugada , Ele escreve o seu testa-
mento e a sua confissão. ansiosos para lavar o defunto . Precisam os de uma lápide co m
um a bela inscrição . A raça dos co rvos, afinal, vive, de sde os tem-
DOGSBOHOUGH - Foi ass im qu e e u, o honesto Dogsb orou gh , co ncordei pos mais rem otos, da boa reputação do fam oso co rvo bran co ,
co m tudo qu e esse bando sangrento aprontou e co meteu, depois qu e foi visto alguma vez , em algum lugar. O velh o é o co rvo
de oite nta invern os carregados co m muita decênci a. Ó, mundo! branc o deles , e como co rvo branco seu aspecto não é nada mau.
Os qu e me co nhece m de antiga mente dizem qu e eu de nada Aliás o Giri, chefe, está sempre perto dele, perto demais para o
sab ia, qu e, se so ubesse, jamai s teria permitido isso . Mas e u sa bia meu gos to . Isso não me agrada nad a.
de tud o . Sei quem incendiou o armazém de Hook. Sei qu em se-
qües trou e dopou o pobre Fish . Sei qu e o Rom a estava com o Ui num sobressalto - Giri?O que há co m Giri?
She e t qu ando este morreu sangrando, co m a passagem de navio
no paletó . Sei que o Giri mat ou o Bowl a tiros naquele meio-dia G rvoix - Ah, esto u dizendo que ele está sempre às voltas co m o Dogs-
em frente à prefeitura, por ele saber demais sobre o honesto borough, mais qu e o necessário .
Dogsborough . Sei qu e ele abateu o Hook , e o vi usando o chap éu
do Hook. Sei dos cinco assassinatos do Givola, qu e eu relacion o Ui - Não co nfio ne le.
ane xo, e se i tud o sobre o Ui e qu e ele sa bia de tud o , da morte do Apa rece Giri, com um chapéu novo, de Hook.
182 Bertolt Brecht A resistível asce nsão de Arturo Ui 183

GIVOLA - Eu também não! Caro Giri, como vai o derrame do Dogs- ROMA - Eu sei o que você está planejando . A história com o Sheet que
borough? tem aí dentro se refere a mim.

GIRI - Ele recu sa a visita do Médico. GIRI - Tem também a história com o Bowl , que se refere a mim!

GIVOLA - Daquele nosso caro Médico que tratou tão bem do Fish? ROMA - Sem dúvida . Só que vocês são patifes e eu sou homem. Co-
nheço você, Giri, e você, Givola , também! Tudo parece falso em
GIRI - Qualquer outro não deixo nem chegar perto. a velho fala de- você, não acredito nem na sua perna curta. Por que é que vocês
mais. estão sempre aqui? a que vocês estão planejando? a que eles
cochicham sobre mim no seu ouvido, Arturo? É melhor vocês não
UI - Talvez se fale demais também diante dele... irem longe demais! Se eu perceber alguma coisa, apago vocês
como se fossem manchas de sangue!
GIRI - a que significa isso? Para Givola - Seu gambá, será que você
andou espalhando de novo o seu fedor? GIRI - Não fale comigo como se eu fosse um pistoleiro!

ROMA para os guarda-costas - É isso que ele pensa de vocês! É assim


GIVOLA preocupado - Leia o testamento, meu caro Giri!
que agora falam de vocês no quartel-general! Como de pistoleiros!
Eles freqüentam os senhores do cartel da couve-flor. Apontando
GIRI arranca-o das mãos dele - a quê? a Roma chefe de polícia?
para Giri - A camisa de seda é do alfaiate do Clark . Vocês fazem
Vocês estão loucos?
o trabalho sujo - para Ui- e você tolera tudo .

GIVOLA - Ele exige. Eu também sou contra, Giri. a nosso Roma infeliz- UI como que acordando - a que é que eu tolero?
mente não é digno de confiança.
Aparece Roma, seguido de guarda-costas. GIVOLA - Que ele mande atirar nos caminhões de Caruther! a Caruther
está no cartel.
GIVOLA - ai, Roma! Leia aqui o testamento!
UI - Vocês atiraram nos caminhões de Caruther?
ROMA arrancando-o de Giri - Dá aqui! Muito bem, o Giri será o juiz. E
onde está o papel do velho? ROMA - Foi somente uma iniciativa de alguns dos meus homens. Eles
nem sempre conseguem entender por que são só as merceariazi-
GIRI - Ainda está com ele , e ele está tentando contrabandeá-lo pra nhas de nada que têm que suar e sangrar e nunca as grandes
fora. Flagrei o filho dele cinco vezes. garagens! Caramba, mesmo eu nem sempre entendo, Arturo!

ROMA estendendo a mão - Passe-o pra cá , Giri. GIVOLA - De qualquer maneira o cartel está furioso .

GIRI - a quê? Não está comigo. GIRI - a Clark disse ontem que eles só estão esperando que isso acon-
teça mais uma vez . É por isso que ele esteve com o Dogsborough.
ROMA - Está sim, se u cachorro.
Os dois se erguem e se encaram, furiosos . UI zangado ~ Ernesto, esse tipo de coisa não pode acontecer.
184 Bert olt Brecht A resistível asce nsão de Arturo Ui 185

GIRI - Seja duro com eles , chefe! Senão os rapazes acabam passa ndo GIRI - É isso mesmo , e so lta o verbo e nos diga de que lad o você está.
por cima de você!
UI levanta-se de um salto - Quer dizer que vocês estão me en cos-
GIVOIA - O cartel está furioso , chefe! tando a pistola no peito? Não , assim nã o se consegue nada co-
migo. Não desse jeito . Se estão me ameaçando, vão ter qu e se
ROMA saca ndo a Brouming , para os dois - Muito bem. Mãos ao alto! responsabilizar por qualquer coisa que acontece r depois. Eu sou
Para os guarda-costas deles - Vocês também! Mãos ao alto um hom em brando . Mas não suporto ameaças . Qu em não co nfia
to dos, e nada de gracinhas! E se encostem na parede! cegamente em mim pod e seguir o se u próprio caminho . E aq ui
Giuola, os seus homens e Giri levan tam as mãos e recuam negligente- não se prestam co ntas. Comigo é ass im: cumprir a obrigação, e
mente até a parede. dando o máxim o! E so u eu qu e digo o qu e se ga nha co m isso ,
pois se rvir-se vem depois de se rvir! O qu e e u exijo de vocês é
UI apático - O que está acontecendo, afinal? Ernesto, não os provo- co nfiança e mais co nfiança! O qu e lhes falta é fé! E qu ando falta
que! Pra que a briga? Um tiro num caminhão de verduras! Isso se
fé , tud o está perdido . Com o é qu e vocês acham qu e e u co nsegui
reso lve facilme nte. Tudo o mais vai de vento em popa e está em
chegar até onde chegue i? Foi porque eu tive fé! Foi porque eu
perfeita ordem. O incê ndio foi um sucesso. As quitandas estão
acreditei fanaticamente na causa. E foi com fé, nada mais que fé ,
pagando . Trinta por ce nto por um pou co de p roteção! Em men os
que eu avancei sobre a cidade e a coloquei de joelhos. Com essa
de um a semana um ba irro inteiro ficou de joelhos. Ningué m mais
me sma fé cheguei até o Dog sborough , e com fé co nse gui entrar
levanta um ded o contra nós. E eu ten ho o utros planos, ainda
ma iores. para a prefeitura. Em minhas mãos nu as, nada mais qu e a minha
fé inabalável!
GIVOIA rapidamente- Quais são? Eu gos taria de saber!
ROMA - E a Browning!
GIRI - Fadam-se os pla nos ! Faça com que eu possa abaixar os braços!
UI - Não. Essa, os outros também têm . Mas o qu e eles não têm é a
ROMA - Arturo , é mais seg uro que os braços de les fiqu em no alto! firme co nvicção de se r predestin ad o a ser líder. De modo qu e
vocês têm é que acreditar em mim! Vocês têm qu e ac reditar! Acre-
GIVOIA - Seria muito bonito se o Clark entrasse agora e nos visse ditar qu e eu só que ro o melh or para vocês e qu e se i o qu e é o
assim. melh or. E que també m se i qua l é o caminho que nos levará à
vitória. Se o Dogsborou gh se for, so u eu qu em vai determinar
UI - Ernes to, guarde a sua Browning! que m vai ser o quê . Posso adia ntar uma co isa: vocês ficarão satis-
feitos.
ROMA - Eu não. Acorda , Arturo . Você não está vendo o jogo em que
eles estão te mete ndo? Como eles te embru lha m com esses Clarks GIVOIA pondo a mão sobre o peito - Arturo!
e Dogsboroughs? "Se o Clark e ntrasse agora e nos visse ass im!"
Onde está o dinheiro da companhia de navegação? Não vimos ROMA sombrio - Caiam fora!
uma única nota! Os rap azes atiram nas quitandas e car rega m latas Giri, Giuola e os guarda-costas de Givola retiram-se lentamente, com as
para os ar mazéns sus pirando: o Arturo não co nhece mais a ge nte, mãos pa ra o alto.
nós, que fizemos tud o p ra ele. Ele brinca de armador e de grande
se nhor. Acorda, Arturo! GIRI dirigindo-se a Roma, ao sair- Gostei do seu chapéu.
186 Berto lt Brec ht A resistível ascensão de Artura Ui 187

GIVOLA ao sai r - Caro Rom a... UI - Estou pensando em um verdadeiro ensaio geral. Em uma cidade
pequena. Então veremos se em outro lugar as coisas são diferen-
ROMA - Pra fora! Não esqueça o riso , Giri, palhaço , e você Givola, tes , no que eu não acredito.
ladrão , leve o seu pé torto com você, me smo que ele também seja
roubado! ROMA - Onde você pretende fazer esse ensaio geral?
Depois que eles saem, Uifica novamente absorto em seus pensamentos.
UI - Em Cícero.
UI - Deixe-me sozinho!
ROMA - Mas lá te m esse tal de Dullfeet com o seu jornal a favor do
ROMA fica parado - Arturo , se eu não tivesse justamente essa fé em comércio de verduras e da coesão intern a, que tod o sábado me
você , essa fé que você descreveu agora há pouco, eu às vezes xinga de assassino do Sheet.
não teria como olhar o meu pessoal nos olhos. Precisamos agir!
Imediatamente! O Giri tem planos sujos! UI - Isso tem qu e aca bar.

ROMA - Isso pode se r feito. Um periodiqueiro desses tem inimigos. A


UI - Ernesto! E eu agora tenho grandes e novos planos. Esqueça o
tinta preta de impr essão é um pan o vermelho pra muita ge nte.
Giri! Ernesto, você, que é o meu amigo mais antigo e fiel lugar-te-
Como pra mim, por exe mplo. É, Arturo , acho qu e a xingação po-
nente, quero iniciá-lo nó meu novo plano, que já está bastante
deria aca bar.
maduro.
UI - Te ria qu e aca ba r logo. O cartel já está negociando co m Cícero.
ROMA radiante - Conte-me! O que eu tinha a lhe dizer sobre o Giri Vamos primeiro vende r co uve- flor, pacificamen te .
pode esperar. Senta-se ao /ado dele. O seu pessoal aguarda em
pé, num canto. ROMA - Quem está negoc iando?

UI - Chicago já está no papo. Eu quero mais. UI - O Clark. Mas ele tem problem as. Por nossa causa.

ROMA -Mais? ROMA - Sei. Então o Clark tam bém está nessa. Esse Clark, eu não tenho
muita co nfiança nele.
UI - Não é só aqui que existe comércio de verduras.
UI - Dizem em Cícero que nós seguimos o cartel da co uve- flor como
ROMA - Não . Mas como é que nós vamos nos embrenhar em outro sua própria sombra. Q uerem couve-flor. Mas não querem a ge nte .
lugar? Os quitande iros tê m pavor de nós, e não só eles: a mulh er do
Dullfeet há muit os anos d irige uma impo rtado ra de verduras em
UI - Pela porta da frente . E pela porta de trás. E pelas janelas. Expul- Cícero, e gos taria de e ntrar pa ra o cartel. Se não fosse por nós, ela
sos e convocados, chamados e injuriados. Ameaçando e esmo- já estaria nele.
lando, cortejando e xingando. Com violência suave e abraço de
aço. Em suma, como aqui. ROMA - Que r dizer q ue o plano de ava nça r para Cícero nem é seu? É
só um plan o do cartel? Arturo , ago ra ente ndo tudo. Tudo! O jogo
ROMA ~ Só que em outro lugar tudo é diferente. lá está be m claro!
190 Bertolt Brecht A resist íve l ascensão de Arturo Ui 191

se esgotou. Por isso ordeno que vocês, sob o comando de Er- Clark atestou e m seu favor, não é mais! Trata-se desse Ernesto
nesto Roma , que tem a minha total co nfiança, hoje à noite... Roma.
Entram Clark, Giri e Betty Dullfeet.
CLARK rapidamen te - Fica frio , Ui!
GIRI ao ver a expressão assustada de Ui - Somos só nós, chefe!
GIRI - Cícero ...
CLARK - Ui, apresento aqui a Sra. Dullfeet, de Cícero! É o desejo do
cartel que você ouça o que a Sra. Dullfeet tem a dizer, e entre em UI - Não qu e ro o uv ir isso. Quem voc ês pensam que eu so u? Basta !
acordo com ela . . Basta! Ernesto Roma é meu homem. Não admito qu e outros deter-
minem qu e homens eu dev o ter à minha volta . Isso é uma afronta
UI sombrio - Pois não . que eu não tolero.

CLARK - Nas negociações de fusão iniciadas entre o cartel de ver d uras GIRI - Chefe!
de Chicago e Cícero, co nforme é do se u co nhecime nto , fo ram
levant adas dúvidas e m Cícero qu an to à sua particip ação co mo SENHORA DULLFEET - Ignatius Dullfeet irá lutar contra homens como o
acionista. O cartel logrou , por fim, dissipa r essa o bjeção e a Sra. Roma até o último suspiro.
Dullfeet está aq ui...
GIRI friamente - Com razão. O cartel o apóia nesse assunto . Ui, seja
SENHORA DULLFEET - Para esclarecer o mal-en tendi do. Em nome do me u razoável. Amizade e negócio são duas coisas distintas. O que
marid o , o Sr. Dullfeet , eu gostaria de ressaltar, tam bém, que a re- você decide?
cente ca mpanha no jo rnal não era contra o senhor, Sr. Ui.
UI igualmentefrio - Sr. Clark , não tenho nada a acrescentar.
UI - Era contra quem, e ntão?
CLARK - Sra. Dullfeet, eu lamento muito o rumo que esta conversa
CLARK - Muito bem, Ui, sem rodeios: o "suicíd io" do Sheet causou tomou . Ao sair, para Ui- Nada sábio, Ui.
muito ma l-estar em Cícero. O homem, afinal de contas, era um Ui e Girificam sozinhos. Não se olham.
armador, um homem de certa posição, e não um joão-ninguém,
um nada , que vai para o nada, de quem não há nada que se dizer. GIRI - Depois do atentado contra a garagem de Caruther, isso o bvia-
E mais : a garagem de Caru ther deu queixa de que um de seus mente significa guerra.
caminhões foi avariado. Os dois casos envolvem um de seus ho-
me ns, Ui. UI - Eu não temo a guerra.

SENHORA DULLFEET - Qua lque r criança em Cícero sabe que a couve-flor GIRI - Muito bem, não a tema! É só o cartel, a imprensa, Dogsborough
do ca rte l é sang renta . e seus seguidores que você terá de enfrentar, e a cidade inteira!
Chefe, ouça a voz da razão e não se deixe...
UI - Isto é uma afro nta .
UI - Não preciso de conselhos. Conheço o meu dever!
SENHORA DULLFEET - Não , não. Não é contra o senhor. Depois que o Sr. Aparece um letreiro.
192 Bert olt Brecht A resistível ascensào de Arturo Ui 193

ROMA - Ab aixem a persiana! Isso não tem nada a ver co nosco, ma s o


11
seguro morreu de velho.
Na garagem . De noite. Ouve-se a chuva . Ernesto Roma e o jove m /nna . Lentamente o port ão da garagem é f echado por uma persiana de aço.
Ao fundo, p istoleiros.
ROMA - O corre dor está livre?
INNA - É uma hora .
INNA acena com a ca beça - É estra n ho o que o tabaco faz. Quem
ROMA - Ele deve ter tido um co n trate m po. fuma par e ce ter sa ngue -frio. E quando fazemo s o que faz quem
tem sa n gue-frio e fumamo s , pa ssamo s a ter sa ngue- frio .
INNA - Se rá que e le está vacila ndo?
ROMA sorrindo - Mo stre a mã o , estica da!
ROMA - É po ssível. Artu ro é tão a fe içoado ao seu pe sso al , que prefere
sacrifica r-se a sacrificá-los. em d o s rato s d o Givola e d o Giri ele INNA estica a mã o - Está tremendo . Isso é m au .
consegue se d e sfazer. Então el e faz hora e lut a cons igo mesmo , e
isso pode ir até às duas horas o u talv ez trê s. Mas vir, ele vem. ROMA ~ Não acho que se ja mau . Não considero muito os tiras . São
Cla ro . Eu o con heço, Inna . Pausa. Quando eu vir esse Giri d erro- insensíveis. Nada lh e s faz mal , e e les não faz em mal a ninguém .
tado no chão, vou me sen tir tão bem como quando acabo de Não seria m e n te. Pode tremer à vontade ! A agulha d e aço da bús-
mijar. Bem, isso vai ser logo . sola também treme a ntes d e a pon ta r fixamente para uma direção .
Sua m ão quer saber o n de é o pól o . É só isso .
INNA - Essas noites de ch uva acabam com os nervo s.
UM O -\AMAOO partindo de lado- Carro de polícia indo pela Churchstreet!
ROMA - Por iss o que eu go sto delas. Das noites , as mais negras. Dos
ca rros , os mais ve lo zes. E dos am ig os, os mais decididos. ROMA com voz corla nte- Está par ando ?

INNA - Há q ua n tos a nos você já o con hece? A Voz - Está indo a d ian te .

ROMA - Há uns d e zoit o . UM PISTOLEIRO entrando - Doi s ca rros vira ndo a esq ui na co m o farol
d e sligado!
INNA - É b astante tempo .
ROMA - É contra Arturo ! G ivo la e G iri querem liquidá -lo ! Ele va i ca ir
UM PISTOLEIRO avan çando - Os rapazes q uerem algu ma coisa pa ra beber. cego na ar ma d ilha! Precisamo s ir ao encontro dele . Venham!

Ro xrx - ada d isso. Ho je à noite e u preciso deles sóbrios. PISTOLEIRO - Isso é su icídio.
Um homem pequeno é traz ido pelos guarda-costas.
ROMA - Se for su icíd io, e ntão é porque está na hora d o su icíd io .
O PEQUENO sem fôlego- Estamos e m e ncrenca! Tem d ois blinclados pa ra- Homem! São d e zoito a nos d e a m iza de! .
dos na área! Abarrotados de policiais!
INNA com voz estride nte - Suba m a p ersiana! A met ralhadora e stá
p ronta?
A res istíve l ascensão de Arturo Ui 195
194 Bert olt Brecht

PISTOLEIRO - Está. UI - Estarei na casa de campo do Dogsborough es ta noi te . Af asta-se


rapidamente e sai .
INNA - Pra cima!
A persiana de f erro sobe lentamente. An dando rápido, entram Ui e INNA na pa rede- Seus ratos imundos! Seus traido res!
Givola, seguidos de gu arda-costas.
GIVOLA exaltado - Atirem!
ROMA - Arturo' Os que estavam em pé na parede são derrubados com rajadas de me-
tralhadora.
INNA a meia voz - É, e Givo la também!
ROMA voltando a si - Givo la! Diabos! Vira-se com dificu ldade, seu
ROMA - O qu e está acontecend o? Estamos suando sangue por você , rosto bran co como cal. O q ue aconteceu aq ui?
Arturo, Dá uma ga rgalhada . Diabos! Agora está tudo em o rd em!
GIVOLA - Nada . Algu ns traidores fora m executa dos .
UI rouco - Por qu e nã o es taria?
ROMA - Cach orro! O q ue você fez co m o meu pesso al? Givola n ão
INNA - Pensávamos que alg o tivesse saído errado. Pode lhe apertar a responde. O que aconteceu co m Artu ro? Assassinato! Eu sa b ia! Ca-
mão, chefe. Agorinha mesmo ele ia no s arrastando para a fogueira chorros! Procurando-o pelo chão. O nde está ele?
por sua causa. Não é verdade?
Ui anda em direçã o a Roma e lhe estende a mão. Roma a agarra , GIVOLA - Foi embora.
rindo . Neste momento em que ele não pode alcan çar a sua Brouming,
Givola o derruba rápido com o um raio com um tiro partindo da ROMA enquanto é arrastado até a parede - Cac ho rros! Cachorros!
cintura.
GIVOLA friam ente - A minha perna é cu rta, não é? Assim co mo o se u
UI - Empurre todos para o canto ! raciocínio ! Agora ande até a parede co m as suas pernas boas!
Os homens de Roma estão parados, perplexos, e são emp urradospara o Aparece um letreiro.
ca nto, com Inna na ponta. Gioola curtia-se sobre Roma, caído no chão.

GIVOLA - Ele ainda es tá ofegando .


12
UI - Acab em co m ele . Dirigindo-se aos outros na parede - O ate n- A floricultura de Givola . Ent ram Ign at ius Dullfeet, um homem do ta-
tad o infam e de vocês contra mim foi d escoberto . Os planos de manho de um garoto e Betty Dullfeet.
vocês co ntra Dogsb orough também foram revelad os. Antecipei-
me a vo cês na hora H. Qualquer res istê nc ia é inútil. Vou ensiná-
DULLFEET - Não gosto d e fazer isso .
los a se rebelar co n tra mim! Que belo ninho de cobras!
BE1TY - Por qu e não? Esse Roma es tá fora.
GIVOLA - Não tem um que não esteja arma do! Falando de Roma -
Está vo ltando a si: que azarado .
DULLFEET - Por ass ass ina to .

BE1TY - Qu e se ja! Ele es tá fora. O Clark diz de Ui qu e os anos de farra


196 Bertolt Brecht A resistível asce nsào de Arturo Ui 197

por que passam os melhores já aca ba ram . Ui d eixou claro que OULLFEET - Algumas vezes, Sr. Ui, se nti que se ria minha obrigação
agora pretende aba ndona r os modos grosseiros . Prosseguir com o tomar uma posição co ntra o se nhor e ...
a ta~ ue so~ente re.a ce~deria os maus instintos,e você me smo, Ig-
nattus, se na o pnrneiro a co rrer perigo . Mas se você se ca lar
agora, vão te de ixar em paz . UI - Mal-entendidos! Se nos co nhe cêssemos de sd e o início , nem tería -
mos chega do a esse ponto . Meu d esejo sempre fo i conseguir por
bem o qu e tem qu e se r co nse guido.
OULLFEET - Não está garantido qu e o meu silêncio ajuda.

BETrY - Ajuda , sim. Eles não são anima is. OULLFEET - A violência ...
Giri entra pelo lado, o chapéu de Roma na cabeça .
UI - ... ninguém a ab omina mais d o que eu . Ela não se ria necessár ia se
o se r humano tivesse bom se nso .
GIRJ - ai , vocês já estã o aqui? a che fe está lá dentro. Ficar á en cantado
I~felizment~, eu preciso ir anda ndo. E rápido . Antes qu e eu sej~
v isto : ro ube i o cha péu de Givo la. Ele ri, fa z endo ca ir reboco do OULLFEET - a meu o bjetivo ...
teta, e sa i, acenando.
UI é idêntico ao meu. Nós dois desejamos que o comérci o flo-
OULLFEET - É terrível quando es tão bravos e pior qu ando riem . resça . a pequeno quitandeiro, cuja so rte não é exatame nte bri-
lhante nestes tempos, tem qu e ter tranqüilidade para ve nde r os
BETrY - Não fale , Ignatiu s! Não aq ui! seus produtos. E prote ção , quando for atacad o .

OULLFEET amargo- E nem em o utro lugar... OULLFEET com firm eza - E d ecidir livremente se ele qu er proteção. Esse
é um ponto fundam ental para mim , Sr. Ui.
BETrY - a .q ue você qu er fazer? Já come ntam em Cíce ro que o Ui vai
ass.umlr ?
lugar do falecido Oogsb orough . E, o que é pior, os UI - Para mim também . Ele tem que escolher livremente. E por quê?
quitandeiros pendem na direção d o cartel da co uve-flor. Porque só se ele escolher o seu protetor livremente , passando a
respon sabilidade para algué m de sua livre escolha, rein ará a co n-
OULLFEET - E duas impressora s minhas já foram d estroçadas. Mulh er, eu fiança que é necessária para o comé rcio de verduras, da mesma
tenho um pressentimento ruim. forma qu e e m qualquer outro lugar. Sempre ressalt ei isso .
Entram Givola e Ui com as mã os estend idas.
OULLFEET - Estou co nte nte em ouvir isso de sua boca. E mesmo co rrendo
BETrY - Como vai, Ui? o risco de aborrecê-lo : Cícero jamais su po rtaria ser coa gida .

UI - Bem -vindo , Oullfe et ! UI - É co mpree nsíve l. ingu ém suporta se r coa gido se m ne cessidade.

OULLFEET - Para se r since ro , Sr. Ui, hesitei em vir, porque... OULLFEET - Para falar com franqueza: se uma fusão com o cartel da
couve -flor significasse qu e toda essa co rja sangu inária que ator-
UI - Por qu ê? Um homem corajoso é se mp re bem-vindo, menta Chicago se ria levad a para Cícero, e u jamais poderia con-
cordar.
GIVOLA - Assim co mo um a mulher bonita!
Pausa .
A resistível asce nsà o d e Arturo Ui 199
198 Bert olt Brecht

UI - Sr. Dullfeet, franqueza por franqueza. Pod e ser qu e no passado DULLFEI:.I - Dizem qu e hom ens ruins não gostam de flores.
tenh am aco ntec ido algu mas co isas que não resistiriam se co mpa- Eles desaparecem . Surgem Ui e Betty .
rad as a um padrão mor al mais rígido . Isso às vezes acontece
quando há luta. Mas entre amigos não aco ntece . Sr. Dullfeet , o BETfY - O homem forte é mais forte se m violên cia.
qu e eu quero do se nho r é somente que a pa rtir de agora tenha
UI - O homem só entende um motivo qu ando ele estoura.
co nfiança em mim, e me ve ja como um amigo qu e não trai nem
jamais ab andona o amig o. E, para ser mais es pecífico, que o seu
BE1TY - Um bom argumento o pera milagre s.
jornal não publique mais essas histórias de terror, qu e só incitam
à violência . Pen so qu e não é pedir demais.
UI - Só não com algu ém que tem que dar alguma coisa .
DULLFEET - Não é difícil calar sobre aquilo qu e nã o acontece , Sr. Ui. BE1TY - A Browning e a coe rção, as mentiras e os truques...

UI - É o qu e e u espero. E, se de vez em qu ando hou ver um pequen o


UI - Eu sou um homem da "Realpolitik".
incidente , já que os hom en s são apenas homens e não anjos, es-
Desaparecem. Surgem Givola e Dullfeet.
pero que não saiam logo dizendo que andam atirando para o alto
e qu e são bandidos. Também não quero afirmar que seja impossí- DULLFEI:.I - As flores não conhece m instintos ruins .
vel um d e nossos motoristas pronunciar uma palavra rude. É hu-
mano. E se esse ou aquele quitandeiro pagar uma cerveja a um GIVOLA - É por isso que eu as adoro.
ou outro dos nossos homens , para que lhe tragam couve co m
lealdade e pontualidade, também não qu ero que digam logo: DULLFEI:.I - Vivem silenciosamente um dia após o outro .
estão exigindo o que não é de direito.
Grvotx maliciosamente - Sem aborrecimentos. Sem jornais - sem
BE1TY - Meu marido é humano, Sr. Ui. preocupações.
Desaparecem . Surgem Ui e Betty.
GIVOLA - E conhecido co mo tal. E agora que ' tud o foi discutido pacifi-
camente, e está tud o esclarecido, entre amigos , e u teria imenso BE1TY - Dizem , Sr. Ui, que o seu modo de vida é muito frugal.
prazer em lhes mostrar as minhas flores...
UI - Minha oje riza a tab aco e álcool é total.
UI - Depois do se nhor, Sr. Dullfeet.
Eles vão conhecer a floricultura de Givola. Ui acompanha Betty, Givola BE1TY - Vai ver que o senhor no fundo é um santo?
acompanha Dullfeet. Eles vão aparecendo e sumindo por detrás dos
arranjos de fl ores. Surgem Givola e Dullfeet. UI - Sou um homem que não co nhece vícios.
Desaparecem. Surgem Givola e Dullfeet.
GIVOLA - Isto aqui, meu caro Dullfeet, são carvalhos japoneses.
DULLFEI:.I - É tão bom viver assim entre as flores...
DULLFEET - Vejo que florescem à margem de pequenos lagos red ondos.
GIVOLA - Seria bom se não houvesse também outras coisas!
GIVOLA - Com carpas azuis vindo à tona para pegar as migalhas. Desaparecem. Surgem Ui e Betty.
200 Bert olt Brecht A resistível asce nsào de Artu ro Ui 201

BElTY - E quanto à religiào , Sr. Ui? BElTY - Esto u tão feliz que vocês agora estão se e nte nd e ndo ...

UI - So u cristão . Isso d ev e bast ar. UI - De sd e q ue se sa iba d o que se trat a ...

BI:TfY - Claro. Mas os d e z m andamento s, a que no s ap egamos? .. BElTY - Amizades q ue amad urecem ao ven to e ao tempo ...

UI - Não d evem se int romet er no no sso di a-a-dia cin ze nto! UI p ousa a mão sobre o ombro dela - Gosto d e mulhe re s que p ensam
rápido .
BElTY - Perdoe -m e se con tin uo incomodando : como o sen hor vê a
Surgem Givola e Dullfeet, qu e está pálido como cal. Ele vê a mão de Ui
que stã o social? sobre o ombro de sua mulher.

DULLFEET - Betty, va mos indo .


UI - Eu sou social, co mo se vê : às vezes também pego no pé do s rico s.
Desaparecem . Surgem Givola e Dullfeet.
UI aproxima-se dele, estendendo- lhe a mão - A s ua d e cisã o honra o
sen hor, Sr. Dullfe e t. Ela ve m p ar a o bem d e Cícero. Que homens
DULLFEET - As flores também têm as suas vivê nc ias!
como nó s d o is tenham se e ncont ra do, só p ode ser um sinal favo -
rável.
GIVOLA - E como! Ent erro s! Ent e rro s!
GIVOLA ofe receflo res a Betty - Flores p ara uma flor!
DULLFEET - Ah , esqueci. As flores são o seu ga n ha- pão.
BE1TY - Veja que esp le ndor, Ignatius! Estou tão feli z. Até bre ve , Sr. Ui!
GIVOLA - Exatamente . A m orte é o meu melhor clie n te . Eles saem.

D ULLFEET - Espero q ue o sen hor não dependa d el a . G IVOLA - Pode ser qu e fin almente d ê certo .

GIVOLA - Não daquele s que foram prevenido s . UI sombrio - Esse home m não m e agra da .
Apa rece um letreiro.
DULLFEET - A violê nc ia nunca le va à fama , Sr. Givola.

GIVOLA - Mas ao objetivo. As flo res falam pela gente. 13


DULLFEET - Se m d úvida . Atrás de um féretro, que está sendo ca rregado pa ra o mausoléu de
Cícero ao som dos sinos da igreja, seguem Betty Dullfeet em traje de
Grvotx - O sen hor está tão p álido ... luto, Clark, Ui, Giri e Givola, os dois últimos com du as grandes coroas
nas mãos. Depois de deposita r as suas coroas, Ui, Giri e Givola perma-
DULLFEET - É o ar. necem em frente ao ma usoléu, de onde se ouve a voz do pastor.

GIVOLA - Ami g o , o sen hor não su porta o perfume da s flore s. Voz - Q ue os re sto s m o rtais d e Ignatius Dullfeet d e scansem aqui. Foi
Desaparecem . Surgem Ui e Betty. uma vid a p obre e m lu cro s , m as rica e m esfo rços. Muitos e sforços
202 Bert olt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 203

se vão junto co m essa vid a, esfo rços destinad os não àq ue le q ue GI\'OLA. - Ele tinha que sumir, pois esse pequeno Dullfeet era o poro
os desp endeu e qu e agora se va i. O anjo da port a do cé u co locará por onde o comércio de verduras transpirava de medo. E essa
a mão sobre o ombro gasto do paletó d e Ign atiu s Dullfeet e dirá : catinga de me do já não dava mai s para agüentar!
es te homem carregou o peso de mu itos homens. No co nselho d a
cidade, durante as reuniõ es dos próximos tempos, se mpre ha verá GIRI - E a co uve de vocês? Vai ou não va i para Cícero?
um pequeno silênc io depois d e todos terem falado . Vão es pera r
que Ign atíus Dullfeet tome a palavra. Tão habituados es tavam os MULBERRY - Não por meio de ma tanças.
se us conc ida dãos a o uvi r o qu e ele tinh a a dizer. É co mo se ti-
vesse morrido a co nsc iência da cida de. Po is es te hom em nos dei- GIRI - Por meio do que, então? Quem é que també m come do novilho
xou em péssim a hora , um homem que co n hecia o caminho reto que nós abatemos, hein? É d isso que eu gosto: gritar por carne e
de ol hos vendados, que sabia o direito de cor. Este homem pe- xingar o cozinheiro porque ele anda co m a faca! De vocês nós
queno , mas es p iritua lme n te grande , fe z de se u jornal um púlpito , esperamos arrotos, não broncas! E agora , vão pra casa!
de o nde sua vo z clara podia ser o uvida muito além das fronteiras
da cidad e . Ignatíus Dullfeet , de scan se em paz! Amém . MULBERRY - Foi um d ia negro esse e m q ue você nos trou xe ess a ge nte,
Clark!
Grvo ix - Um homem d e taro : nenhuma pal avra so bre a maneira como
ele morreu! CLARK - Vo cê d iz isso para mim ?
Os dois partem, somb rios.
GIRI usando o chapéu de Dullfeet - Um homem de tato? Não . Um
homem com se te filhos! GIRI - Não deixe esse bando es tragar o seu prazer no enterro , chefe!
Clark e Mulberry saem do mausoléu .
GIVOLA - Silêncio! A Bett y vem vindo!
CLARK - Dia bos! Vo cês estão de gu arda para que a ve rda de não faça Bet(v Dullfeet sai do mausoléu, apo iada em um a mulher. Ui va i ao seu
o uv ir a sua vo z nem junto ao ca ixão? encontro. Do mausoléu vem música de órgão .

GIVOLA - Meu caro Clark, por que esse tom rude? O local em que o UI - Meu s pêsam es, Sra. Du llfee t!
se nhor se encon tra de veria apaziguá-lo. Além disso , o chefe hoje Ela passa po r ele sem d iz er palavra.
não es tá de bom humor. Esse aq ui não é um lugar para ele.
GIRI berra - Pare! Senhora!
MULBERRY - Seus açoug ueiros! Esse Dull feet ma nteve a sua palavra e Ela pára e olha para trás. ~'ê-se que está extrema mente pálida.
ca lou sobre tudo !
UI - Eu d isse: meus pêsames, Sra. Dull fe et! Dullfeet , que De us o
GIVOLA - Calar não é suficiente . Precisamos de ge nte que não só es te ja tenha , não existe mais. Mas a couve d a se nhora ainda existe. É
disposta a calar a nosso favor, ma s também a falar a nosso favor, e possível qu e não a ve ja, com a vista embaçada pelas lágrimas .
isso alto e bom so m! Porém, o trágico incid ent e não d everia deixar qu e a se n hora es-
queça que há tiro s se ndo dispar ados traiço eiram ente por co var-
MULBERRY - O que mais ele poderia di zer além de que vocês são açou- des à es pre ita contra pacíficos cam in hões de ve rdu ras , e gasolina
gueiros? d e rram ada por mãos perversas, es tragando a ve rdura se mp re tão
204 Bertolt Brecht A resistível ascensão de Artu ro Ui 205

necessária. Aqui estamos eu e o meu pessoal, oferecendo prote- co ntos de terror ! Mas eu pre vino : não co nfiem demais na minha
ção. Qual é a resposta?
paciên cia proverbial!

BETTY olha ndo para o céu - Ter qu e o uvir isso , qua ndo o DuIlfeet nem BETTY - Faltam-me as palavras.
cinzas ainda não é.
UI - Elas se mp re faltam qua ndo o co ração não fala.
UI - S~ p osso lamentar o incidente e assegurar: o hom em , abatido por
mao perversa, era meu amigo.
BETTY - Então o senho r cha ma de co ração o que o faz falar?

BETTY - É isso mesm o . E essa mão que o aba teu é a mesma que ped iu
pela mão dele . A sua! UI - Eu falo do jeito que eu sinto.

BETIY - É possível se ntir assim co mo o se nho r fala? Sim, e u acredito


UI - De novo essa co nversa, essa incitação e esses boa tos maliciosos
qu e sim! Eu acredito! As suas matan ças vêm do coração! Os se us
qu e envene na m pela raiz as minhas melh ores intenções de vive;
crimes nascem d e um se ntime nto profundo, ass im co mo em ou-
em paz com meu s vizinhos! Esse não qu erer me co mp ree nde r!
Essa falta de co nfiança, qu ando e u co nfiei! Essa mald ad e de cha- tros homen s nascem as boas ações. O se nho r crê na traição como
mar de ameaças a minha tentativa de co nq uistar simpa tia! Essa nós na lealdade! É constante so me nte na incon stân cia! Não se cor-
bru sca rejeição da mão qu e eu es tendo! rompe por nenhuma e moção no bre! Inspirad o pela mentira! Ho-
nesto pel a fraude! Tod o ato animal inflam a o senho r! Fica entu-
BETTY - Qu e o se nhor estende para aba ter! sias mado ao ve r sangue ! Violên cia? O se nho r respira aliviad o! O
se nho r se e mociona até as lágrim as diant e de qualquer a ção
UI - Não! Cospem e m mim , q uando me empenho fanaticam ente em imunda. E diant e de um a boa ação, o se nho r se nte profundo de-
ca tivar! se jo de vingan ça e ód io!

BETTY - Como a cobra se empe nha em cativar o passarinho! U, - Sra. Dullfeet, é um princípio meu o uvir o meu ad versário calma-
mente . Mesmo qu e ele me ofenda . Eu sei qu e em se u meio não é
UI - Estão o uvindo? É isso qu e recebo em troca! Era ass im qu e esse exa tame nte amor o qu e nutrem por mim . A minha orige m - so u
Dullfeet ac hava que a minh a since ra oferta de amizade não p as- um simples filho do Bronx - é usad a co ntra mim! "Aque le
sava de cálcu lo, que a minh a ge nerosida de era somente fraq ue za! hom em ", dizem, "não sabe nem escolher o ga rfo ce rto para a so-
Pena! Em troca das minhas palavras de simpa tia, o q ue foi q ue eu brem esa. Como é qu e ele vai q uerer se sair bem nos grandes ne-
co lhi? Um silêncio gelado ! O silênc io foi a resposta , quando eu gó cios! Imagine se, no mei o de uma co nversa so bre tarifas, ou
esperava um aleg re conse nso. E co mo e u esperei encontrar, e m durante um a negociação finan ceira, ele, sem querer, pegar na
resp osta aos meu s consta ntes, quase humilhant es, pedid os de faca! Não, isso não dá ce rto . Este hom em não se rve para nós". Por
amizade, ou ao men os de simp les co mpree nsão, um sina l de ca usa d o meu tom rud e , do me u jeito masculino de chamar as
calor human o! Espe re i em vão! Em troca fui rechaçad o , co m um co isas p elo nome ce rto, qu erem logo me dar um a rasteira . Tenh o ,
desp rezo atroz! Até mesmo essa prom essa de silêncio, que me fo i pois, o precon ceito contra mim e ass im me vejo na dependência
dad a de má vo nta de, foi q uebrada na prim e ira o portunida de! excl usiva dos meu s eventuais méritos pessoais qu e eu mesmo
Onde, por exe mp lo, está agora aque le silêncio fervorosa me nte co nquistei. Sra. DuIlfeet , a se nho ra está no ne gócio da co uve-flor.
p rom etido? Nova mente se apregoam em tod as as direçàes esse- Eu também. E essa é a ponte entre mim e a sen ho ra.
206 Bert olt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 207

BETIY - A ponte! E o precipício entre nós , sobre o qual deverá ser UI - Logo, logo . De um jeito ou de outro.
construída a ponte, nada mais é que um assassinato sangrento!
BETIY - Qu.e Deus nos proteja d o protetor!
UI - Experiências muito amargas me ensinaram que aqui não devo
falar de se r hum ano para ser humano, mas sim como um homem UI - Então, qua l é a sua resposta? Ele lhe estende a mão. Amigos?
influen te para a proprie tária de uma importadora . E eu pergunto:
co mo vão os negócios da couve-flor? A vida continua, mesmo BETIY - Nunca! Nunca! Nunca! Apavorada, sai correndo.
quando nos acontece uma desgraça. Apa rece um letreiro.

B I:T fY - É, a vida continua, e eu quero aproveitá-Ia para dizer ao


mundo que peste o assolou! Juro pelo morto que no futuro odia-
rei a minha voz se em vez de "bom-dia" ou "dêe m-me comida" 14
ela não disser somente uma coisa: "Acabem com o Ui!".
Quarto de Ui no Hotel Mam motb . Ui deba te-se na ca ma, dominado po r
GIRI em tom a meaçador- Não se exalte, minha filha!
pesadelos. Sentados em cadeiras, com o revólver no colo, os gua rda-costas.

UI no sono - Sumam, so mbras sa ngrentas! Tenham dó! Suma m!


UI - Estamos entre túm ulos. Sent imentos ma is brandos seriam precip i-
A parede atrás dele f ica transparente. Apa rece o espírito de Ernesto
tados. Falo, pois , de negócios, que não con hecem a morte.
Roma, com um buraco de bala na testa .
B I:TrY - Oh, Dullfee t, Dullfeet! Só agora me dou conta de que você
ROMA - E tud o isso de nad a lhe adiantará. Toda essa matan ça , traição ,
não existe mais!
ameaça e perdigoteiro , é tud o e m vão, Arturo. Pois a raiz dos se us
crimes es tá podre . Eles não vão flor escer. A traição é mau fertili-
UI - Exatamente . Pense bem nisso, o Dullfeet não ex iste mais. E ass im
zante. Mate, min ta! Engane os Clarks e aca be com os Dullfeets -
sendo, falta em Cícero a voz que se levantaria contra a atroci da de,
mas detenha-se diant e dos se us! Conspire co ntra o mundo, mas
o terror e a violência. Essa p erda a se nhora não pode lam enta r o
poupe os co nspirado res! Arrase tud o co m os se us pés, mas não
suficien te! A se nhora se encontra desprotegida e m um mundo
arrase os próprios pés, seu infeliz! Minta na ca ra de todos, só não
frio , onde infelizme nte o fraco sempre está roubado! A única e
espe re pod er mentir també m para a sua cara no espelho! Você
última prote ção que lhe resta sou eu .
ba teu em você mes mo , qu ando ba teu em mim , Arturo . Eu e ra
afeiçoado a você quando você não passava de um a so mbra nu m
BETIY - É isso que o senhor diz à viúva do homem que o senhor
corredor de cervejaria. Agora es tou aqui na eternidade assolada
assassinou? Monstro! Eu sabia que o senhor viria aqui, porque o
pe los ven tos, e você aco mpa nha os gra ndes senhores à mesa. A
senhor sempre aparece no lugar em que cometeu uma atrocidade
traição o levo u ao to po , é a traição que o arrastará para ba ixo.
para culpar um outro. "Eu não , o outro! " e "Não sei de nada! ". "Fu i
Assim como você me traiu, se u amigo e lugar-ten ente , você trairá
p rejudicado!"; grita o prejuízo , e "Um assassinato! Vocês precisam
a tod os. E assi m, Arturo , tod os haverão de o trair. A terra verde
vingá-lo", grita o assassi na to.
cobre Ernesto Rom a, mas a sua deslealdad e não . Ela balan ça ao
vento sobre os túmul os , bem visível para tod os, mesm o para os
UI - Meu plano é firme: proteção para Cícero. coveiros. Vai chegar o dia e m q ue todos aque les que você aba teu
irão se levantar; e tod os aq ue les que você ainda va i aba ter, v ão
BETIY sem fo rças -:- Nunca dará certo! ressuscitar, Arturo , e vão se alistar co ntra você, um mundo se es-
208 Be rtolt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 209

vaindo em sangue, porém cheio de ód io; e você vai se ver só, co m os tiroteios. Mas que nad a! Assassinatos! Matanças! Extorsões!
olha ndo em volta à procura de auxílio. Foi assim qu e eu me vi. Arbitraried ad es! Assaltos!
Entào pod erá ameaçar e suplicar, amald içoar e prom eter! Nin-
gué m vai o uvir! Ningué m me ouviu. SEGUNDO QUITANDEIRO - Isso só aco ntece mesmo com a gente. Falta
firmeza!
UI levantando-se num sobressalto - Atirem! Ali! Traid or! Suma daqui ,
medonho! QUINTO Q UITANDEIRO - Melh or dizendo : falta a Browning! Eu vendo
Osguarda-costas atiram no lugar da parede apontado por Ui. co uve- flor. Não so u um gâ ngster.

ROMA desvan ecendo - Pod em atirar! O que restou de mim é à prova de TERCEIRO QUITANDEIRO - A minh a úni ca es perança é que o cac ho rro se
balas. depare um dia com ge nte qu e lhe arreganhe os dentes. Deixa ele
tentar faze r se u jogo em outro lugar!

QUARTO Q UITANDEIRO - Por exemplo, em Cícero!


15
Surgem os quitandeiros de Cícero. Estão extremamente pálidos.
Centro da cidade. Assembléia dos quitandeiros de Chicago. Eles estão
extrema mente pálidos. Os CIDADÃOS DE CíCERO - Alô , Chicago !

PRIMEIRO Q UITANDEIRO - Assassinatos! Matanças! Extorsões! Arbitrarieda- Os CIDADÃOS DE CHICAGO - Alô , Cícero! Vocês por aqui?
des! Assaltos!
Os CIDADÃOS DE CíCERO - Fom os co nvoca dos .
SEGUNDO QUITANDEIRO - E pior: Tolerân cia! Sub missão! Covardia!
Os CIDADÃOS DE CHICAGO - Por qu em ?
TERCEIRO QUITANDEIRO - Qu e tolerânci a, qu e nad a! Qu ando e m janeiro
dois del es entraram na minha quit anda dizendo "Mãos ao alto!", Os CIDADÃOS DE CíCERO - Por ele.
olhe i-os dos pés à cabeça, e disse calma me nte: meu s se nhores, eu
só cedo perante a violência! Deixei bem claro que e u não tinh a PRIMEIRO CIDADÃO DE CHICAGO - Como é que ele pod e convocar vocês?
nad a a ver com eles, e que de modo algum aprovava o se u com- Como é q ue pode ma ndar em vocês? Como é que pode mandar
portamento. Tratei-os com a maior frieza. E o me u olhar lhes e m Cícero?
dizia: muito bem, ali es tá a caixa registradora - mas só por causa
da Brown ing! PRIMEIRO CIDADÃODE CíCERO- Com a Browning .

QUARTO QUITANDEIRO - É isso mesm o! Eu lavo as minh as mãos! De qu al- SEGUNDO CIDADÃODE CíCERO - Cedemos com a violência.
quer jeito . Foi o que e u disse para a minha mulher.
PRIMEIRO CIDADÃODE CHICAGO - Maldita covardia! Vocês não são homen s?
PRIMEIRO QUITANDEIRO exaltado - Qu em falou em covardia? Foi um Não existem juízes em Cícero?
mod o saudável de pen sar. Ficand o qui eto e pagando , co m os
dentes rangendo, podia-se es perar qu e esses mon stros para ssem PRIMEIRO CIDADÃO DE CíCERO- Não.
210 Bert olt Brecht A resistível ascensão de Arturo Ui 211

TERCEIRO CIDADÃO DE CíCERO- Não, não mais . tel , com um aperto de mão. Clark e Betty Dullfeet apertam-se as
mãos.
TERCEIRO CIDADÃO DECHICAGO - Ouçam, vocês têm que se defender! Essa
peste negra tem que se r impedida! Vocês querem qu e o país se ja GIVOLA - Com a palavra Arturo Ui.
corroído p or essa pandemia? Ui coloca-se diante do microfone.

PRIMEIRO CIDADÃO DE CHICAGO - Primeiro uma cidade, e depois a outra! UI - Cidadãos de Chicago, cidadãos de Cícero! Amigos! Compatriotas!
Vocês devem ao p aís uma guerra até as últimas co nseqüênc ias! Quando o velho Dogsborough , um ho mem honesto , que Deus o
tenha, há um ano me procurou, com lágrim as nos o lhos, pe-
SEGUNDO CIDADÃO DE CíCERO - Por que justamente nós? Lavamos as nos- dindo-me para proteger o comércio d e verduras de Chicago, fi-
sas mãos. quei emociona do, mas duvidei de minha ca pacidade de fazer jus
a tama nha co nfia nça . Mu ito bem, Dogsboroug h está mo rto . O se u
QUARTO CIDADÃO DE CHICAGO - E esperamos que o cachorro , que Deus testamento se encontra à d isposição para quem q uise r lê-lo . Ele
permita, ainda encontre alguém que lh e arreganhe os dentes. simplesmente me chama de se u filho. E agradece, profunda mente
Ao som de fanfarras, surgem Arturo Ui e Betty Dullfeet (de luto), segui- e mocionado , por tudo que fiz desd e aquele d ia e m que ate ndi ao
dos de Clark, Giri, Givola e guarda-costas. Ui passa pelo meio. Os se u chamado. O comércio d e ve rd uras, se ja couve-flor, se ja sa l-
guarda-costas colocam -se a postos no fundo.
sinha, cebolas ou sei lá o que , tem hoje plena p rote ção e m Ch i-
cago. E me atrevo a d ize r q ue foi pela ação determinada de minha
GIRI - Oi , crianças ! Estão aí todos de Cícero?
p arte . Qua ndo e ntão, inespe radamente , um ou tro homem, Ign a-
tius Dullfee t, me fez o mesm o p edid o p ara Cícero, es tava disposto
PRIMEIRO CIDADÃODE CICERO- Sim senhor.
a igualme nte tomar Cícero so b minha proteção. Somen te impus
uma co ndição d esde o início: esse tem d e ser o dese jo dos q uita n-
GIRI - E de Chicago?
deiro s! Q uero ser cha mado p or livre escolha . Deixei bem claro
para o meu pessoal: não quero que forcem Cícero! A cidade tem
PRIMEIRO CIDADÃO DE CHICAGO - Estão.
toda a lib e rd ade d e me eleger! Não quero um "mui to bem " de má
vontade, nem um "po is não " entre dentes. Tenho ojeriza à co n-
GIRI para Ui - Estão todos presentes.
cordância sem entusiasmo. O q ue eu exi jo é um aleg re "sim!",
breve e categórico , homens de Cícero. E po rq ue eu q uero isso, e
GIVOLA - Sejam bem-vindos, quitandeiros! O cartel da couve-flor cum-
primenta-os com prazer. Para Clark - Por favor, Sr. Clark. quando quero, quero mesmo , o utra vez pergunto a vocês. Ge nte
de Chicago, vocês que me co n hecem me lhor e , como posso
CLARK - Eu tenho uma novidade para transmitir aos senhores. Depois supor, rea lmente me apreciam. Q uem é a me u favor? E quero
de semanas de negociações nem sempre fáceis - desculpe a sin- mencionar de passagem: quem não for a me u favor, é contra mim
ceridade - o grande atacadista local , B. DuIlfeet, associou-se ao e terá que se responsabilizar pelas conseqüências dessa atitude.
cartel da couve-flor. Assim sendo, os senhores passarão a receber Agora vocês podem eleger!
os seus produtos através do cartel da couve-flor. O lucro que os
senhores terão salta à vista : maior segurança nas entregas. Os GIVOLA - Mas antes que vocês elejam, ouçam a Sra . Du llfeet, que
novos preços, ligeiramente aumentados, já foram fixados. Sra. todos vocês conhecem , a viúva de um homem que era caro
Betty Dullfeet, quero cumprimentá-la como novo membro do car- a todos vocês!
212 Bertolt Brecht A resistíve l asce nsào de Altura Ui 213

BETIY - Amigos!Já qu e agora o amigo de tod os vocês, o meu que rido Browning, cassetetes , etc., pois cla mam por proteção não só Cí-
ma rido Ign atius Dullfeet, não mais está entre nós... cero e Chicago, mas também outras cidades: Washing ton e Mil-
wau kee! Detroit! Toledo! Pittsburg! Cincinnati!, onde tam bém há
GIVOLA - Qu e descanse e m pa z! co mérc io de couve-flor. Flint! Boston ! Filadélfia! Baltimore! Sr.
Louis! Little Rock ! Minnea po lis! Columb us! Cha rlesto n! E Nova
York ! Todas reclam am proteção! E nenhum "Uuh!" e nenhum "Isto
BET1'1' - ... e já não pod e mais se r um apo io para vocês, acon selh o qu e
depositem a sua co nfiança no Sr. Ui, co mo e u mesma fiz, agora não se faz!" vai impedir o Ui!
que eu, nestes tempos tão difíceis para mim , pude co nhecê-lo
Ao som de fanfa rrasfec ha-se a cortina . Aparece um letreiro.
melh or e mais de perto .

GIVOLA - Vamos à votação! EPÍLOGO

GIRI - Quem for a favor de Arturo Ui: mãos para cima!


Alguns levantam as mãos imediatamente. Vocês, porém, ap renda m como se vê em vez de olha r fIXO, e como agir
em vez de falar e falar. Uma coisa dessas chegou quase a governa r o
UM CIDADÃODECíCERO- Também é permitido ir embo ra? mundo! Os povos consegui ram dominá-lo, porém, que ningu ém sa ia
po r a i triunfando precipitadamente- éfértil ainda o colo que o criou!
GIVOLA - Cada um pode escolh er livremente o que quer fazer.
O cidadão de Cícero sai, hesitante. Dois gua rda-costas o seguem. Logo
após, ouve-se um tiro.

GIRI - E ago ra, qu ant o a vocês, qu al é a sua livre decisão?


Todos levantam as mãos, as duas mã os.

GIVOLA - A elei ção terminou , chefe . Os quitandeiros de Cícero e de


Chicag o agradecem , emocionados e trêmulos de alegri a, pela sua
proteção .

UI - Aceito com orgu lho o ag radecime nto de vocês. Qu ando , há


quinze anos, co mo um simples filho do Bronx, desempregad o , saí
para ganha r Chicago, seguindo o chamado do de stino , acompa-
nhad o de so me nte se te hom ens fortes, era meu firme desejo tra-
zer paz para o co mércio de verduras. Naque la época não é ramos
mais qu e um pequen o grupo, cujo simp les porém fan ático desejo
era justamente essa paz! Agora são mu itos. E a pa z no co mé rcio
da co uve- flor de Chicago já não é mais um so nho e sim crua reali-
dad e . E para ga rantir essa paz, eu dei orde ns qu e se co mprem
hoje mesmo novas metralh ad oras Thompson e carros-tanque e
naturalmente tud o o mais que se possa conseguir em pistolas

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