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07/06/2020 Séries e filmes para entender a dimensão econômica que levou às mortes de Floyd e Miguel - 06/06/2020 - Mercado - Folha

OPINIÃO MÔNICA RIBEIRO E RIBEIRO

Séries e filmes para entender a dimensão


econômica que levou às mortes de Floyd e Miguel
Episódio de garoto morto ao cair de prédio é reflexo de um Brasil colonial que ainda
teima em se desenvolver calcado pela desigualdade

6.jun.2020 às 12h02

EDIÇÃO IMPRESSA (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/fac-simile/2020/06/06/)

Mônica Ribeiro e Ribeiro

A precariedade das relações de trabalho doméstico, que fazem parte dos


resquícios da escravidão, dá o tom à tragédia mais recente envolvendo uma
criança negra no Brasil.

Como a Folha noticiou, Sari Côrte Real, uma mulher branca e casada com o
prefeito do município pernambucano de Tamandaré, levou o menino Miguel
(https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/06/patroa-da-mae-de-miguel-pede-perdao-em-carta-aberta.shtml),

cinco anos, até o elevador porque a criança chorava de desespero por estar
longe da mãe em um ambiente estranho.

Ao deixar o elevador, a criança caiu de uma altura de 35 metros após subir


em uma caixa que continha condensadores de aparelhos de ar-condicionado.

Indiciada por homicídio culposo por negligência de incapaz, Côrte Real


pagou fiança de R$ 20 mil e foi liberada.

Mãe do garoto, a empregada doméstica Mirtes Renata Souza o levou com ela
para o trabalho, em plena pandemia de Covid-19, por não ter com quem

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deixá-lo —mesmo com a informação de que o patrão, Sérgio Hacker, estava


com suspeita de coronavírus.

Embora particular, o episódio é um reflexo de um Brasil colonial que ainda


hoje teima em se desenvolver calcado pela desigualdade.

Em “Racismo Estrutural” (editora Pólen, 2019), Silvio Almeida traz um pouco


de luz às nossas relações de trabalho. O autor faz uma abordagem
socioeconômica do racismo no mercado de trabalho, trazendo para o debate
reflexões sobre desemprego e disparidade salarial que afetam pessoas
negras, sobretudo mulheres.

Em sua narrativa, Almeida faz uma abordagem sobre a dicotomia entre


classe e raça e exemplifica que as minorias são alocadas no que ele sublinha
como trabalhos improdutivos, que são essenciais mas desvalorizados por
não produzirem mais-valia.

Segundo ele, “as babás e empregadas domésticas


(https://www1.folha.uol.com.br/colunas/redesocial/2020/05/casa-grande-senzala-em-versao-covid-19-tem-luta-de-classes-

virtual.shtml), em geral negras que, vestidas de branco, criam os herdeiros do


capital, são diariamente vítimas de assédio moral, da violência doméstica e
do abandono, recebem o pior tratamento nos sistemas ‘universais’ de saúde
e suportam, proporcionalmente, a mais pesada tributação”.

A saga das mulheres negras em geral, principalmente as que estão em


situação de maior vulnerabilidade econômica, pode ser observada em sua
relação com os espaços públicos e a cidade.

Historicamente, cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Recife passaram


por processos de higienização social em suas regiões centrais —vide a Belle
Époque tupiniquim que perdurou do fim no Império até a Primeira
República.

O remodelamento urbano inspirado pelo francês George-Eugène


Haussmann, que revolucionou a urbanização de Paris no século 19, tinha
como principal meta promover o afastamento dos ditos indesejáveis —
pretos, mulatos e mestiços.

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Em seu artigo “Mulheres Negras, Movimentos Sociais e Direito à Cidade –


Uma Perspectiva paras as Políticas Públicas", a historiadora Jéssica Mara
Raul traz à tona esse histórico de segregação territorial a partir da visão de
uma cidade-mercadoria, que barra o acesso à moradia e impacta na vida
daquelas que são chefes de família, que, de acordo com a definição da
antropóloga Lélia Gonzalez, citada pela autora, é a “mulher negra anônima”
responsável, sobretudo, pelo sustento econômico dos seus.

Mas, se o leitor quer um filme, e não um livro, essa mesma relação precária
da população negra com a questão de moradia é abordada pelo longa “The
Banker” (George Nolfi, 2019), aqui num contexto norte-americano.

A história baseada em fatos reais conta a saga dos investidores negros


Bernard Garret (Anthony Mackie) e Joe Morris (Samuel L. Jackson), que
compram um banco para ajudar a comunidade negra a obter linhas de
financiamento imobiliário no sulista e racista Texas —isso em plena década
de 1960, no auge dos movimentos por direitos civis.

Assim como em “O Infiltrado na Klan” (Spike Lee


(https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/06/em-curta-spike-lee-liga-morte-de-george-floyd-a-faca-a-coisa-

certa.shtml), 2018), os personagens contam com o apoio de um laranja, na


ocasião o branco pobre Matt Steiner (Nicholas Hoult), que se passa por um
investidor.

Entre prisões, perseguições do FBI e embates com o Congresso Nacional, a


atuação da dupla, principalmente a de Garret, foi determinante para a
criação da Lei de Habitação Justa (1968), que tornou ilegal a recusa de venda
ou aluguel de imóveis em razão da cor, raça, sexo ou religião.

Se a ideia é mergulhar numa minissérie, as estratégias de sobrevivência da


população negra ante o racismo e as barreiras na economia do cotidiano
impostas por ele também são retratadas em “A Vida e a História da Madame
C.J.Walker” (Nicole Asher, 2020).

Disponível na plataforma de streaming Netflix, a minissérie também é


baseada numa história verídica.

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A primeira milionária negra estadunidense, Madame C.J.Walker


(https://f5.folha.uol.com.br/celebridades/2020/04/primeira-negra-milionaria-dos-eua-construiu-mansao-e-foi-vizinha-de-

magnatas-veja-imagens.shtml)/Sara
Breedlove, fez sucesso entre a comunidade negra,
no início do século 20, após criar um produto para cabelos crespos, com o
intuito de deixar a vida precária de lavadeira e vislumbrar um novo destino.

A empreitada da personagem interpretada por Octavia Spencer, ganhadora


do Oscar de melhor atriz coadjuvante por “Vidas Cruzadas” (Tate Taylor,
2012), foi feita num período não muito distante de pós-escravidão nos EUA.

Os tentáculos do racismo encontrados em todos os cantos onde a diáspora


negra se faz presente obriga a população negra a desenvolver tecnologias de
sobrevivência, sobretudo no campo socioeconômico.

Se o leitor busca entender um pouco melhor o que nos faz reproduzir o


racismo que levou ao assassinato do americano George Floyd e o menino
brasileiro Miguel, e como é a dimensão econômica desse fenômeno, vale a
penar encarar as sugestões.

PARA ENTENDER A DIMENSÃO ECONÔMICA DO RACISMO

Minissérie

A vida e a História da Madame C.J.Walker

Direção: Nicole Asher, 2020 (Netflix)

Baseada na história real da primeira milionária negra dos EUA, Madame


C.J.Walker, que fez sucesso no início do século 20 por desenvolver um
produto para cabelos crespos. O insight veio depois de ter tido problemas
com produtos inadequados.

Filme

The Banker

Direção: George Nolfi, 2019 (Apple TV+)

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Também inspirado em história real, retrata os empresários negros Bernard


Garret (Anthony Mackie) e Joe Morris (Samuel L. Jackson), que sonham em
criar de um banco para ajudar a comunidade negra a obter linhas de
financiamento nos anos 1960.

Livro

Racismo Estrutural

Autor: Silvio Almeida (2019), editora Pólen

Parte da série “Feminismos Plurais”, coordenada por Djamila Ribeiro, o livro


faz abordagem socioeconômica do racismo no mercado de trabalho,
trazendo para o debate reflexões sobre desemprego e disparidade salarial
que afetam pessoas negros, sobretudo mulheres.

Artigo

Mulheres Negras, Movimentos Sociais e Direito à Cidade


(http://emetropolis.net/system/edicoes/arquivo_pdfs/000/000/022/original/emetropolis_n22.pdf?1447896390) –
Uma Perspectiva paras as Políticas Públicas
Autora: Jéssica Mara Raul (Cefet/RJ), revista e-Metropolis, nº 22, set.2015

Faz uma abordagem interseccional sobre o mercado imobiliário no Rio, com


uma deixa sobre a gentrificação e como isso afeta as mulheres negras.

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