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PEQUENA RECORDAÇÃO

Na parte anterior, entramos em contato com o mais


cruel depoimento da ocupação nazista da França. Vimos
como Giselle Montfort, uma jovem bonita, filha do povo,
entusiasta da causa da libertação, foi convocada pelos seus
companheiros da Resistência para servir de isca aos oficiais
da Gestapo. Paulo Zingg, seu noivo, chefe dos maquis,
lutador incansável dos subterrâneos de Paris, consegue de
Giselle o supremo sacrifício: o do próprio corpo, pela
França.
Como uma nova Joana d'Arc ela se deixa queimar. Só
que, desta feita, as labaredas são diferentes. Giselle se põe
na fogueira dos apetites bestiais dos nazistas. Deixando que
sua moral dos tempos de Paz seja substituída pelo cinismo
dos tempos de Guerra, Giselle usa a beleza do seu corpo nu
― que é irresistível ― para conseguir segredos dos oficiais
da Wehrmacht, para enfeitiçar os grandes do Terceiro
Reich.
Giselle e Paulo Zingg montaram uma farsa, com o
rapto do general Stupnaggel, para que a linda espiã tivesse
um gesto de heroína, amiga dos nazistas. Tudo correu muito
bem e Giselle pôde ganhar a confiança dos oficiais do Reich
por mais algum tempo. Surge em cena sua amiga Delly,
uma jovem que havia sido barbarizada pelos oficiais de
Hitler e busca vingança. Um envenenamento de coronéis da
Gestapo na casa de Giselle provoca novo clima de
desconfiança. Fora Delly a responsável. Delly conta sua
história, episódios terríveis que tem como protagonista o
próprio Goering, selvagem e necrófilo.
Novamente Giselle se vê às voltas com problemas de
segurança. Ela tem que se livrar do cadáver do capitão
Adolf Gunther, assassinado misteriosamente em sua casa.
Giselle recebe, então, a visita de Himmler, o mais frio
carrasco nazista. Está diante dele, esperando o pior: uma
prisão, uma tortura, um gesto de sadismo. Mas Himmler,
antes de dar a conhecer o motivo de sua inesperada visita,
prefere examinar-lhe o corpo despido, diante do general
Stupnaggel.
Denunciada pela sua criada, Yvonne, como traidora
dos alemães e assassina do capitão Gunther, Giselle sentia-
se perdida, até que, de repente, a intervenção do capitão
Brandt veio em seu auxílio:
― Gunther? Eu o matei. Faria isso mais dez vezes,
se fosse preciso.

16

Himmler repetiu, num estupor:


― O senhor, capitão Brandt, matou Gunther?
― Friamente. E reafirmo: mataria dez vezes, se preciso
fosse, esse traidor.
― Traidor? ― Stupnaggel deu um salto. ― Não posso
acreditar...
― Ele vendia informações aos nossos inimigos.
Mantinha-se em constante ligação com elementos do
Serviço de Inteligência Britânico. Se desejam provas além
da minha palavra...
― A palavra de um oficial que tem, nas suas veias, o
sagrado sangue do Führer, está acima de qualquer dúvida. –
cortou Himmler, demonstrando um respeito servil.
― Mesmo assim quero que vejam as provas ― insistiu
Brandt.
Tirou do bolso um papel dobrado. Abriu-o. O código
fora decifrado e, no verso, podia-se ler a tradução. Tratava-
se de uma mensagem dos ingleses, acusando o recebimento
de informações sobre o número de tropas na área do Passo
de Calais.
― Um espião sujo ― concluiu Brandt.
― Mas por que não o poupou? ― perguntou Himmler.
― Interrogado, revelaria os seus cúmplices. Naturalmente,
ele deve pertencer a um grupo, bem organizado.
― Sei disso. Mas não foi possível poupá-lo. Cheguei
aqui neste quarto no instante exato em que Gunther se
atirava sobre Giselle, para matá-la. Ele sabia que ela
descobriria as suas atividades mais cedo ou mais tarde, e
queria eliminá-la.
― Matou-o, então, para salvar a sua agente.
― Chefe Himmler, de uma coisa estou certo ― disse
Brandt.
― De que é?
― De que temos poucos colaboradores que valham
tanto quanto Giselle.
Himmler me olhou, por um longo tempo, como que me
avaliando. Por fim, concordou:
― Também estou começando a achar.

A PROVA TERRÍVEL

Mais uma vez a sorte me livrara da morte, que parecia


certa e lógica. Himmler, convencido de que incorrera num
erro tremendo a meu respeito, fora-se embora com
Stupnaggel e Brandt. Na noite seguinte, este entrou no meu
apartamento.
― Estou tomando banho ― gritei, do meio das
espumas.
Ele veio para junto da banheira e se sentou num
banquinho.
― Ficou admirada da minha atitude, Giselle?
― Estou inteiramente no ar. Por que me salvou?
― Terá a explicação. Quer que lhe esfregue as costas?
― Obrigada. Não se incomoda?
― Ao contrário. Você é digna de um pintor, neste
instante. Parece...
― Já sei ― cortei em tom brincalhão. ― Vênus
emergindo de uma nuvem. Não prossiga, capitão. Todos os
alemães são maus poetas. Custa crer que Goethe, Schiller...
― Vamos ao nosso caso, Giselle. Eu não sou alemão.
Virei-me para ele, sem entender.
― O quê?! Você não é alemão?
― Em absoluto.
― O que é, então? Você não é parente de Hitler?
― Justamente. Nasci na Áustria e me eduquei na
Inglaterra.
― É nazista?
― Pareço, mas não sou. Detesto o nazismo e considero
meu tio um louco, um tarado, um criminoso.
― Pensa que vou acreditar em você?
― E minha demonstração de ontem? Nada significa?
― Um expediente de Himmler, para arrancar-me
nomes.
Ele pegou-me pelo queixo. Disse-me, encarando-me:
― Giselle, é preciso que acredite em mim.
― Dê-me provas.
― Eu as darei.
― Estou à espera.
― Falarei sobre Zingg.
― Zingg?!...
― Paulo Zingg, seu marido. Estou em ligação semanal
com ele. Quem fornece informações sobre as tropas alemãs
sou eu. O capitão Gunther nada tinha a ver com isso.
― Tem visto Zingg?
― Eu não o vejo, mas nos comunicamos regularmente.
O encontro dos documentos dele no bolso do morto,
naquela casa onde vocês estiveram, na floresta, fez com que
os alemães o considerassem morto.
***
Eu já não podia ter dúvidas. De qualquer modo, o
simples fato de um parente de Hitler trabalhar para os
ingleses deixava-me tonta. Resolvi continuar tateando:
― Onde está Zingg atualmente?
― Em alguma parte da França. Comunicamo-nos
sempre que existe um motivo sério, mas nunca nos
encontramos. Isto faz parte de nossas medidas de
precaução.
― Mas como, com essas tendências, essas idéias, o
senhor chegou a esse posto no exército Alemão?
― Está esquecida de que tenho nas veias o mesmo
sangue de Hitler? Ele mandou, em 1934, que eu regressasse
da Inglaterra. Tempos depois, em Londres, fui procurado no
hotel por um emissário do Serviço de Inteligência Britânico.
O mundo estava às vésperas de outra guerra mundial e a
Inglaterra necessitava de um elemento na Alemanha que
estivesse acima de qualquer suspeita. Respondi que, nesse
caso, eu não serviria, pois Hitler sabia bem da minha
amizade e admiração para com o povo inglês.
"Justamente por isso é que desejo lhe dar uma
orientação para sua nova atitude ― disse-me o agente. ―
Quando voltar agora a Berlim, procure dar a impressão de
que perdeu a sua admiração pela Inglaterra. Torne-se
nazista, cada vez mais nazista, fanaticamente nazista. Ao
cabo de alguns meses será para nós um elemento de
primeira classe.”
― E foi assim ― concluiu o capitão Brandt ― que
entrei para o Serviço Secreto. Bem sei que, se for
descoberto, serei morto como um cão danado.
― E de onde vem seu parentesco?
― Com Hitler? É uma história longa das aventuras do
pai dele com certa jovem da família Brandt, que passava as
férias na Áustria. O pai de Adolf nunca me reconheceu
como filho, mas todos sabiam e Hitler, embora não me
declare oficialmente seu irmão, trata-me como tal. Ora,
assim sendo, sou adulado por todos. Como se eu pudesse
fazer algo por eles. Até generais.
***
A história de Brandt me parecia convincente, mas eu
desejava maiores provas. Não podia confiar inteiramente,
sem mais aquela, ao primeiro que aparecesse e dissesse:
“Sou do Serviço de Inteligência Britânico” No dia seguinte,
eu procuraria enviar uma mensagem a Zingg. Por enquanto,
submeteria o capitão Brandt, que se dizia amigo do meu
esposo, a outra espécie de teste. Ergui-me na banheira. A
espuma de sabão escorria-me pelo corpo.
― Quer abrir o chuveiro para mim, capitão?
― Frio ou quente?
― Quente.
A água lavou a espuma e me deixou ali em pé, diante
dele, nua como nasci. Ele me olhava, pálido. Percebi que
estava ofegante. Virei-me de costas, lentamente.
― Capitão, quer esfregar-me os ombros mais um
pouco?
― Eu?
― Por favor...
O capitão Brandt apanhou a esfregadeira com a mão
trêmula.
― Eu não devia fazer isso.
― Ora, que bobagem, capitão!
― Zingg é meu amigo...
― E ele precisa saber disso?
O capitão ficou calado. Esfregava-me as costas
docemente. Eu lhe pedia para esfregar mais abaixo e erguia-
me um pouco para que as minhas nádegas ficassem apenas
meio submersas. Sentia a sua mão esquerda segurando-me o
ombro, enquanto ele se dedicava ao trabalho com a
esfregadeira. O pobre do capitão molhava os punhos do
dólmã. Por isso, aconselhei-o a despi-lo. Brandt ficou de
mangas de camisa.
― As alemãs parecem com as francesas? ― perguntei,
para quebrar o silêncio que se fazia pesado.
Brandt não quis ouvir. Era engraçada a cena. Uma
mulher nua, inteiramente nua, estava sendo esfregada por
um homem que tinha medo de entreter conversa com ela.
Repeti a pergunta.
― Em que sentido? ― quis ele saber.
― Os olhos, por exemplo. Os olhos das alemãs são
como os olhos das francesas?
― Não.
― E os cabelos?
― Também não. São diferentes.
― O nariz e a boca, se parecem?
Voltei-me para ele. Queria que visse os meus lábios.
Brandt parecia mais lívido do que nunca. A prova a que
estava sendo submetido era por demais cruel.
― Não ― disse ele. ― As alemãs têm os lábios mais
finos.
― E o corpo? ― insisti.
Brandt ficou aterrorizado. Eu me havia levantado,
enquanto fazia a pergunta. Todo o meu corpo estava à
mostra. Era um corpo jovem, acabado de lavar, cheirando a
sabonete, inteiramente desejável. Os meus seios apontavam
para a frente, endurecidos pela umidade. Ninguém, nenhum
homem deste mundo poderia deixar de desejá-los. Gotas de
água rolavam pelo meu ventre como se fossem pérolas
lentas. Brandt olhava-me, os olhos bem abertos, em atitude
de estupor. Num gesto lânguido, passei as mãos pelas coxas
e dei umas palmadinhas para chamar atenção.
― Acha que as berlinenses têm pernas bem feitas?
Brandt desceu o olhar até as minhas pernas e, depois,
deixou-o preso no lugar mais feminino do meu corpo.
― Ora... Giselle... eu... Bem, creio que terminei, não?
― Acha que já, capitão?
Minhas mãos se levantaram para o seu pescoço. Senti
que ele suava. Devagar, bem devagar, aproximei minha
boca da sua e beijei-o. Brandt cerrou os lábios, como se
ainda quisesse resistir. Depois, entregou-se. A sua boca
abriu-se e senti a força de um beijo ávido de homem.
De repente, como se retomasse o seu autocontrole,
afastou-se num gesto brusco e disse:
― Giselle, você não deve duvidar do que lhe estou
dizendo.
― Eu, duvidando? Ora, capitão...
― Sim, Giselle, você não acredita que eu seja amigo
de seu marido, que trabalhe com Paulo Zingg.
Não respondi. Lentamente, abri a camisa do capitão,
sem que ele procurasse afastar-se mais. Quando terminei,
puxei-o pela camisa para mais perto de mim. Ele veio.
Meus braços se introduziram por debaixo da camisa e o
enlaçaram. Procurei beijá-lo com mais cuidado. Mas fazia
isso devagar, apenas com a flor dos lábios, tocando-o de
leve e pressionando, de quando em quando, com o rosto. A
respiração do capitão estava francamente acelerada.
Gostava da carícia que eu lhe fazia. Foi quando segurou a
minha cabeça, levantou-a e disse-me, olhando bem de cara:
― Não, Giselle. Paulo Zingg é meu amigo mesmo.
― Um poeta disse que não existem amigos...
― Existem!
― Não. Existem apenas instantes de amizade.
― Você é uma amoral.
― Que é isso, meu capitão?
― Uma amoral. Uma cretina. Você não tem pudor nem
brio.
― Por que está dizendo isso, meu capitão?
― Por que sempre imaginei que você se submetia a
essas coisas por lealdade à França.
― E não é?
― Não. Agora vejo que você faz isso apenas por
prazer, por simples prazer.
― Vá falando.
― Vou mesmo. Você terá que me ouvir, sua
vagabunda. Você recebe esses oficiais nazistas, toda essa
gente, apenas para satisfazer os seus próprios instintos, a
sua tara.
Parou um instante, fuzilou-me com os olhos e disse
pausadamente:
― Giselle, você é uma puta suja.
Ri.
― Mas, meu capitão, acabei de tomar banho agora
mesmo! Como posso ser uma puta suja, se o senhor próprio
me esfregou tão bem?
O capitão não achou graça. Vi que tinha de entrar com
um jogo forte, falar à altura, para que ele cedesse.
― Capitão Brandt, nós dois estamos aqui. Somos um
homem e uma mulher jovens. Se alguma coisa surge desse
encontro, nessa situação, há algum motivo para espanto?
― Não, Giselle. Mas você esquece de um detalhe. Eu
sou amigo de seu marido, acredito que exista amizade, e
estou servindo a mesma causa que ele e você. Pelo menos,
pensei que você fosse uma de nosso grupo.
De uma maneira muito sutil, o capitão se afastava de
mim em direção à porta do banheiro, enquanto falava.
― Vou embora, Giselle. Vou embora desiludido com
você.
― Ora, capitão...
― Pelo menos, pude dominar-me.
Passou os dedos molhados pelos cabelos e sorriu.
― Quase perdia a cabeça!
Vi que ainda era cedo para ele dizer tal coisa. Parado
na porta do banheiro, olhava-me fascinado. Media-me dos
pés à cabeça. A água estava acabando de escorrer de meu
corpo e o capitão acompanhava as gotas que caíam,
religiosamente. Senti que ele seria incapaz de mover-se dali.
"Como a natureza humana é fraca, meu Deus!" ―
pensei comigo. Mas, ao mesmo tempo, resolvi submeter
aquele pobre homem ao teste final.
― Pode me dar a toalha, capitão?
― Outra vez?
― Oh, capitão! Onde está o cavalheirismo de Oxford?
Ele se adiantou com a toalha. Fiquei de pé sobre o
estrado à sua espera. Havia qualquer coisa de abandono na
minha atitude. Uma entrega misturada a um desafio. Brandt,
por isso, se deteve um pouco. A cor aparecia e desaparecia
de seu rosto. Que tremenda luta estava sendo travada no
íntimo daquele alemão. Por fim, quando me envolvia com a
toalha, fechando-a, o rosto quase colado ao meu, aproveitei
para beijá-lo. Encostei meus lábios aos seus e ele explodiu:
― Não posso mais, Giselle!
Sorri:
― Que aconteceu, "mon capitain"?
Os seus olhos estavam molhados de lágrimas.
― Fiz o que pude. Lutei até onde era possível. Resisti.
― Contra quem, capitão?
― Contra o poder satânico de seu corpo, Giselle.
Agora, não posso mais.
― Por que não se entregou desde o início, capitão?
Assim não teria sofrido tanto...
O capitão estava arrasado. Olhos baixos, murmurava:
― Zingg... Zingg é meu amigo. É realmente meu
amigo. Desde antes da guerra. Estudamos juntos em
Oxford. Passávamos as férias na Suíça.
― E então?
― Acha que é fácil trair um amigo como ele?
Nós já estávamos no quarto. De pé, recostei o corpo no
seu e acariciei-o onde sentia estar a sede de toda aquela
fraqueza subitamente revelada. Senti-o pulsar.
― Capitão...
Ele desmanchou-se. Arrancou a toalha que me cobria e
beijou-me furiosamente. Misturava palavras com beijos.
― Giselle... Zingg não sabe a espécie de mulher que
você é!
― Não?
― Nem os franceses da Resistência.
― Por acaso não sirvo à causa deles?
― Não, Giselle. Você se serve. Você quer homens.
Cinco, dez, vinte. Você é uma lúbrica, Giselle.
Brandt tinha-me levado até a borda da cama, onde me
fez sentar. Ajoelhado, empurrou meu corpo para que eu
ficasse deitada e cobriu de beijos as minhas coxas. As mãos
estiravam-se para alcançar meus seios e a sua boca tocou o
melhor de mim. Ergui-me e empurrei-o:
― Um momento, capitão Brandt!
Seu rosto se ergueu para mim como se ele não
entendesse nada.
― Agora é você que terá de me ouvir.
― Que foi?
― Nada. Apenas isto: você está redondamente
enganado a meu respeito.
― A seu respeito?
― Sim, a meu respeito. Eu nunca traí Paulo Zingg.
E repeti, para que ele ouvisse bem e compreendesse:
― Eu nunca traí Paulo Zingg. Nunca traí o meu
marido.
17

Algum tempo depois, recebi uma carta de Delly. Ei-la,


com todas as palavras:
"Minha querida Giselle:
Quem lhe escreve é Delly. Por muito que eu faça, não
consigo esquecer que sou uma assassina. Os companheiros,
nesta Londres cinzenta e sacudida pela guerra, procuram
consolar-me dia e noite, dizendo que nazista é selvagem,
nazista é perverso, nazista não é gente nem merece piedade.
Mesmo assim, mesmo sabendo que eles são os responsáveis
pela morte de dois entes queridos de minha vida ― o meu
pai e o meu noivo -, não estou conformada com a idéia de
que foram as minhas mãos que lhes deram o vinho
envenenado. Lamento, às vezes, que não tenha sido
executada. A lúbrica excitação de Goering, sua estranha
paixão pelas agonizantes, evitou que eu morresse. Contudo,
não estou certa se essa graça à última hora, ao último
instante, foi boa para mim ou se constituiu apenas num
prolongamento da tortura em que me encontro.
Minha cara Giselle, existe outro motivo sério, grave,
pavoroso, que rouba meu sono e minha tranqüilidade.
É que, minha leal amiga, dez reféns estão em via de
pagar com a vida o crime, o imperdoável crime de minha
fuga. Comprometi-me com Goering. Disse-lhe que voltaria
para os seus braços, a fim de que ele fizesse comigo o que
seus instintos macabros bem lhe ordenassem. Fatos
estranhos à minha vontade impediram isso. Não sei se você
sabe o que se passou. A verdade é que o piloto alemão, em
vez de tomar o rumo de Vichy, atravessou o Canal da
Mancha e veio sobrevoar a Inglaterra. Atirou-se de pára-
quedas e fui obrigada a fazer o mesmo. Pensei que jamais o
conseguisse, mas o medo nos ensina a ser práticos, em
poucos segundos.
Antes de meus pés tocarem o chão da Inglaterra,
Giselle querida, o nosso avião vazio era derrubado por
várias rajadas de artilharia antiaérea. Com muita
dificuldade desembaracei-me da seda e das cordas do pára-
quedas e fui caminhando pela estrada, Minha esperança
era de que, uma vez surpreendida pelos guardas ingleses,
fosse conduzida ao primeiro posto de vigilância e pudesse
apresentar-me, identificar-me, declarar-me francesa e
membro do movimento de resistência, fugitiva de uma
prisão alemã. Uma condenada à morte, por fim. Ante estas
condições― pensava eu ― os ingleses tudo fariam para
que nada me faltasse.
Andei vários quilômetros. Ninguém me perguntava de
onde eu vinha, para onde eu ia, quem era eu. Cheguei a
uma aldeia. Um velho castelo dominava a paisagem. Cruzei
ruas apinhadas de gente (soube depois que era domingo e o
povo acorria aos templos para pedir a Deus o fim do
conflito) e muitos senhores me cumprimentavam
respeitosamente, Mexi na bolsa. Estava apenas com
francos, dinheiro que na Inglaterra pouco valeria. Tinha
fome, Logo, uma chuvinha fina principiou a cair, fazendo
com que eu apressasse o passo. Uma idéia assaltou-me. O
castelo! Procuraria o conde ou o duque ou lá o que fosse e
lhe contaria a verdade, toda a verdade, pedindo que ele se
comunicasse com a polícia. Fui por um atalho e cheguei à
porta da mansão enorme e triste.
Ninguém veio atender ao toque da campainha.
Atravessei o portão e segui por uma alameda de nogueiras
centenárias. Bati. A princípio, devagar. Como não
aparecesse quem quer que fosse, bati com mais força.
Depois de alguns minutos, a porta abriu. Uma senhora,
vestida com uma túnica branca, apareceu no umbral.
― Você demorou tanto, minha filha ― disse ela, e se
afastou para me dar passagem.
― Eu queria...
A velha cortou minha palavra. Não se mostrava, um
pouquinho sequer, surpresa com a minha presença. O que
parecia mesmo era que ela estava à minha espera e se
sentia levemente desafogada por eu ter chegado à sua casa.
É evidente que eu não entendia coisa alguma. Quem era
aquela mulher? Por que me reconhecia e dava a entender
que eu batera no lugar exato onde me aguardavam? A
velha era sóbria nos gestos e nas suas palavras. Afastando-
se, disse apenas:
― Entre. A chuva está aumentando.
Entrei.
A castelã foi subindo a escada, iluminando o caminho
para mim, com a vela. A luz trêmula, aquela mulher de
branco, o rosto triste, os olhos distantes e pensativos e a
esquisita afetividade com que me tratava, deixaram-me
impressionada.
― Quer o chá com os biscoitos de que você gosta? ―
perguntou-me. ― Recebemos uma remessa de Londres.
Desde que a Holanda foi invadida que não vinham.
― Quero que a senhora saiba...
― Minha filha, tome o seu banho quente. A toalha está
onde você costumava deixar. Não se esqueça da oração
para que o seu pai resista às bombas lá em Londres.
― Minha senhora...
― Ah, James saiu para ver se havia carta. O estafeta
anda doente, com reumatismo, e não pode caminhar.
― James?
― James, sim. Seu marido, Lucy. Ou já não sabe quem
é seu marido?
A pobre velha ria. Eu, de minha parte, sentia o corpo
tremer. Onde fora cair?
― Quer que o criado lhe traga a ceia no quarto?
― Gostaria. Mas, antes, preferia conversar um pouco.
― Falaremos depois do jantar.
A castelã desceu para tomar outras providências.
Fiquei sozinha naqueles imensos aposentos, sem saber se o
que acontecia era um sonho ou a realidade. Belisquei-me
para ver se não estava dormindo. Foi quando ouvi a voz da
castelã dirigindo-se a alguém que acabava de chegar:
― Sua mulher está aí ― disse ela.
Cheguei devagarinho ao alto da escada e vi que um
rapaz magro pendurava a capa e descalçava as galochas.
Devia ser James, o James de que a velha me havia falado.
Ele respondeu sem interesse:
― Eu sabia que ela havia de voltar.
Com passos rápidos, subiu a escada. Encontrou-me na
porta do quarto. Eu devia estar cadavérica, sem uma gota
de sangue no rosto, a olhá-lo. Ele se aproximou de mim e,
sem encontrar a menor resistência, beijou-me.
― Obrigado, Lucy.
Olhou-me de novo e disse:
― Obrigado por ter voltado.
Não era possível que fosse verdade o que estava
acontecendo. Eu não podia acreditar. Devia ser mesmo um
sonho. Como aquela gente toda se enganava a meu
respeito? Quem seria essa Lucy tão parecida comigo a
ponto de a sogra e o próprio marido me confundirem com
ela? Vi que tinha de pôr um ponto final na história. Tentei o
diálogo.
― Eu queria que o senhor soubesse...
― Senhor? Por que me chama de senhor?
― Por que não o conheço. Nunca o vi.
― Nunca me viu?
O rapaz ria tanto que me deixava apavorada.
― Você, minha mulher, minha esposa perante Deus e
os homens, nunca me viu?
― Nunca.
Minha voz era firme. Eu procurava não deixar
dúvidas. Mas James não entendia.
― Você está delirando ― disse.
― Não estou delirando coisa alguma! Não sou sua
esposa! E vou-me embora daqui agora mesmo!
O rapaz olhou-me com espanto e gritou para baixo:
― Mamãe! Lucy não está boa. Não está em seu juízo
perfeito. Diz que não me conhece e que se vai!
Lá da entrada veio a voz da castelã:
― Calma, meu filho. Lucy ainda está convalescendo.
Ele se voltou para mim, tranqüilo.
― Bem, Lucy. Sei que precisa descansar. Amanhã
falaremos.
Ia saindo, quando uma idéia qualquer o assaltou:
― Não. Voltarei depois da ceia. Tenho muita saudade
de você.
Passou seus braços pelo meu corpo, apertou-me bem
contra ele. Suas mãos desceram à minha cintura,
acariciaram os meus quadris. Eram mãos frenéticas.
― Sempre fui louco por você, Lucy. Embora você
nunca me ligasse, eu sempre fui louco por você!
Eu sabia o que se aproximava. Meus movimentos,
entretanto, não pareceram ao rapaz ser de retraimento,
porque o seu olho brilhou e ele disse:
― Hoje, porém, você não está fria...
Quis cortar a comédia.
― James, quero que me ouça. Por um minuto apenas.
― Agora?
― Sim, agora. Neste instante. Quero que compreenda
isto: sou uma estranha. Não sou nem mesmo inglesa. Falo o
inglês assim porque vivi muitos anos nas ilhas. Cheguei
hoje a esta aldeia. Como posso ser sua mulher? Eu nunca
fui casada. Pelo amor de Deus, compreenda! Ele me olhava
com um ceticismo pavoroso. Não estava acreditando numa
palavra do que eu dizia. Foi então, Giselle, que resolvi
solucionar o impasse, antes que algo de pior acontecesse.
Fui ao quarto, apanhei meu casaco e dirigi-me à escada.
― Onde vai? ― James quis saber.
― Vou para Londres.
O moço segurava meu braço. Apertava-me, tinha um
brilho assassino nos olhos tristes, quando me disse
mansamente:
― Desta vez você não sairá.
Quando o rapaz me disse, no topo da escada, que eu
não voltaria a sair, pude ver que estava numa situação
difícil. Resolvi saber de tudo e perguntei:
― Faça de conta que não nos conhecemos. Qual é o
meu nome?
― Você sabe.
― Suponho que não. Como me chamo?
― Lucy.
― Lucy de quê? Sou filha de quem?
― Lucy Hanagan. Filha de John Carlyle.
― Casada com quem?
― Comigo.
― Isso você já me disse. Quero saber o seu nome.
― James Hanagan.
― Conde?
― Meu irmão é baronete. Você sabe, Lucy, sabe de
tudo isso muito bem!
― E sua mãe?
― Que há com ela?
― Ela é meio...
Fiz o movimento com o dedo na cabeça significando
maluquice.
― Sim. É meio zureta. Não funciona bem.
― Qual é a mania dela?
― Pensa que toda a aldeia está morta. Imagina que
todos desapareceram por causa do bombardeio...
― Mas ela me falou no carteiro, que estava com
reumatismo...
― É. Às vezes, ela inventa outras histórias.
― Mas isto é loucura!
James olhou-me (esse olhar, nunca esquecerei)
aproximou a boca do meu ouvido e disse em segredo:
― Não, Lucy. Não é loucura. O que ela não sabe é que
ninguém morreu na aldeia. Nós é que morremos. Eu, você e
mamãe.
― Não entendo.
― Nós três somos os mortos. A aldeia está viva.
E concluiu, levantando o queixo num ar de certeza
absoluta:
― Eu sei disso.
Nesse instante, Giselle, compreendi que estava lidando
com pobres doentes mentais. Decidi não insistir na minha
retirada, para não enfurecê-los. Recolhi-me ao quarto e,
logo depois, a criada veio trazer-me a ceia.
― Senhora... ― ela me disse com ar desolado. ―
Tenha pena dos dois.
― Sente-se aqui. Quero que me esclareça tudo.
― Eu ia lhe pedir.
― Fale, então.
― Sou criada deles há muitos anos. A família já não
era lá muito sã. Compreende, não? Um tio se matou com
uma bala na cabeça. O pai de James era alcoólatra. Os
médicos sempre disseram que seria preciso evitar choques,
emoções maiores...
― Isto explica a loucura de James. Mas, e a mãe?
― Casamento entre primos. Ela pertence a um dos
ramos da mesma família.
― Houve algum motivo que desencadeasse a doença?
― Um bombardeio.
― Apenas isso?
― Não. A mulher de James morreu sob os escombros.
E o outro filho da senhora Hanagan também.
Baixei a cabeça.
― Certa noite ― contou-me a velha criada ― desci
para ver se eles precisavam de algo. Passara a fase pior da
doença, mas ― sabia-se já dos médicos ― eles jamais
voltariam a recuperar o uso da razão. Encontrei mãe e filho
sentados ao pé da lareira conversando sobre Lucy.
Falavam, contudo, de tal maneira que a todos pareceria
que a esposa de James apenas saíra para as compras e logo
voltaria.
“Vou mostrar-lhe a colcha que bordei para o
herdeiro” falou a velha. “Herdeiro ou herdeira?” objetou
James.
“Lucy está bem disposta. Tudo indica que será
menino.”
“Mamãe, a senhora sempre com a preocupação de que
o lugar dos Hanagan não fique vago, hem?”
“Lógico, meu filho. Teu irmão não nos fez presente de
um varão. A tarefa recaiu sobre os teus ombros.”
“Depende de Lucy, mamãe.”
Lucy estava morta e eles não percebiam. Depois,
começou uma estranha e dupla obsessão: enquanto um se
julgava vivo com o outro, num mundo de mortos, o
companheiro se imaginava morto com o outro, num mundo
de vivos. De qualquer maneira, havia sempre um talher a
mais na mesa. Era fantástica e macabra a cena de todas as
noites, à hora da ceia. A mãe dava a travessa ao filho e este
passava à direita, a alguém que somente os dois viam. Foi
neste ponto que a senhora chegou. Ele saíra para ir ao
correio. A patroa abriu a porta e, apesar de não existir a
mais leve semelhança entre a senhora e Lucy, minha patroa
viu, lá pelas suas razões, o rosto de Lucy no seu rosto. Veio
o filho viúvo e encontrou a mesma semelhança que a mãe
encontrara.
A pobre criada, velha e dedicada à família, tornara-se
súplice e se dirigia a mim em tom lamentoso:
― Eu lhe peço, minha senhora. Não se vá ainda.
― Tenho de ir ― respondi-lhe. ― É absolutamente
necessário que eu me vá.
― Eles morrerão de desgosto com a sua partida...
― Acontece que há motivos sérios.
― Nenhum motivo vale a vida de dois seres humanos.
― Eu já lhe explico ― acrescentei ― e você
concordará. Eu era passageira de um avião alemão. Cai
sobre a Inglaterra.
― Uma espiã?
― Não.
― Ah, a senhora é uma espiã! Avisarei a polícia agora
mesmo!
Nos olhos esbugalhados da criada havia agora pavor e
ódio. Tive medo a princípio, mas, depois, achei que era
uma solução.
― Quero que faça isso agora mesmo ― disse eu.
― Não pense que vai deixar esta casa! Você não sairá
daqui!
Ela falava enquanto, de costas, andava para a porta.
Fechou-a a chave e ouvi seus passos afastando-se. A criada
se dirigiu ao telefone e pediu uma ligação com o posto de
vigilância. Eu podia ouvir a sua voz. Quando atenderam,
ela disse que tinha em casa uma mulher que se atirara de
pára-quedas, mas acrescentou que não havia perigo algum.
― EIa não parece muito perigosa ― comentou, antes
de pousar o fone no lugar.
Minutos depois, a polícia chegava. Num aparato que
me pareceu inteiramente absurdo. O sargento me pediu
documentos de identidade. Ofereci-os.
― Qual a sua história? ― indagou.
― Viajava num aparelho alemão.
― Sobre a Inglaterra?
― O destino era Vichy. Não sei por que motivo, o
piloto decidiu vir para as Ilhas e se atirou do avião. Fiz o
mesmo.
― Que ia fazer em Vichy?
― Essa é outra história. Uma história longa e difícil
de explicar assim de repente.
― Fará isso no posto. Lá você terá tempo.
Foi como saí daquela casa.
Embarquei no carro da guarda. O sargento era louro e
tinha sardas. Mas, assim mesmo, agradou-me. Os
Hanagan, com a criada, assistiram calados e de olhos fixos
à minha partida. No posto, o sargento pediu ligação
radiofônica e se pôs em contato com Londres. Enviou os
informes que eu dera. Do outro lado, a voz encaixotada do
interlocutor, comentou:
― Já sabemos quem é. O aviador foi preso. Não
ofereceu resistência e disse que veio para ajudar ― depois
de ligeira pausa, acrescentou: ― Essa mulher aí é amante
de Goering.
Você não imagina, Giselle, a surpresa do sargento
quando lhe disseram que eu era a amante de Goering.
― Amante de Goering?!
Ele se voltou para mim.
― Sim, senhora. Por essa eu não esperava. Prender
um dia a amante do marechal que resolveu fazer desta ilha
um cemitério... Como veio parar aqui?
Minha situação não me parecia nada boa. Dificilmente
iriam acreditar nas minhas palavras. Naquele posto
policial eu me sentia como quando estava presa no castelo.
Assim, sabendo que de muito pouco adiantaria falar, tentei:
― Você me pode ouvir um minuto?
― Fale.
― Não sou amante de Goering coisa nenhuma.
― Continue. Estou interessado, minha senhora.
― Quero que veja os papéis que trago comigo.
Desdobrei perante o sargento a declaração liberatória
que Goering me dera. O salvo-conduto e um passaporte
antigo.
― Isso não prova nada ― foi o comentário do
sargento.
― Acha que não?
― Serve apenas para piorar sua situação. Foi
libertada por Goering, hem?
Comecei a ver a medida exata do meu risco e a dar-me
conta do rumo errado que as coisas estavam tomando.
― O senhor está completamente equivocado ― disse.
― Não sou eu quem decide.
― Pois quem é?
Ninguém se dignou responder.

PRESENÇA DE JACQUES YEFFET

Na manhã seguinte, desembarquei em Londres,


discretamente escoltada. Levaram-me até o gabinete do
tenente encarregado das investigações dessa espécie e, ali,
fui submetida a um interrogatório severo.
Lembrei-me, Giselle, de alguns nomes de
companheiros nossos que se encontram na Inglaterra. Eles
tomaram nota.
À tarde, recebi a visita de Jacques Yeffet, nosso
conhecido das atividades na resistência. Ele prestou
juramento de que sabia quem eu era. Mesmo assim, foram
necessárias outras investigações, antes de me libertarem.
Eu sabia, Giselle querida, que em Londres um grupo
de franceses refugiados tinha organizado uma sucursal do
movimento de resistência. Freqüentemente, os membros
desse grupo realizam viagens ao continente e, na França,
recolhiam informações úteis aos exércitos aliados.
Joseph Kessel, o famoso jornalista, era um dos
cérebros desse movimento. Emmanuel d'Astier de la
Vigerie, outro intelectual francês de longas tradições
democráticas e antifascistas, fazia amiudadas excursões a
Paris e a outras cidades ocupadas. O general de Gaulle
confiava tremendamente nesse homem.
Minha esperança, Giselle, era poder reunir-me a esse
pessoal e arranjar uma forma de voltar. À noite, nutri hotel
designado pelas autoridades inglesas, recebi a visita de um
francês que Jacques me enviara. Chamava-se Charles
Bernard e era jovem, muito jovem para a espécie de vida
que levava.
― Atirei-me de pára-quedas oito vezes sobre a
França. E voltei de todas elas.
― Qual a sua maneira de agir?
― Escondo-me nos bosques, nas casas dos lavradores,
num paiol ou num celeiro. Passei, certa vez, quase uma
noite inteira semimergulhado num rio, escondido pelos
arbustos, enquanto os alemães me caçavam como loucos,
pois tinham visto o pára-quedas descer. Doutra feita, fui
obrigado a meter-me no interior de uma mina de carvão e
ali passar cinco dias, alimentando-me somente das rações
de emergência. A mina estava abandonada. Felizmente, um
grupo de poloneses que veio apanhar carvão, pois o
inverno era rigoroso, encontrou-me. Eu já estava sem
forças. Compreenderam que se tratava de um pára-quedista
que os alemães procuravam. Sujaram-me o rosto e
mudaram minha roupa, para que eu parecesse com eles.
Saíram cantando e eu fingia acompanhá-los naquela língua
estranha e incompreensível para mim. Foi assim que
cruzamos várias patrulhas nazistas. Olhavam-nos e
seguiam indiferentes. Soubemos, mais tarde, que a mina
fora vasculhada em todas as suas seções. Mais uma noite e
eu estada liquidado.
― E agora? Quando pensa ir à França?
― Depende de você, Delly.
― De mim?
― Exatamente. A minha missão está ligada a você.
Agora, Giselle, preste atenção no que vou lhe dizer:
Lembro que, em minha vida, eu contara histórias sem fim
aos homens que me procuravam em busca de amor, na
difícil profissão que me impusera para servir à França. A
uns eu dizia que era filha de um famoso advogado,
separado de minha mãe por incompatibilidade de gênio.
Chegava a inventar coisas: “Gostava de sentar-me nos
joelhos de meu pai e ouvi-lo falar. Ele era um dos homens
mais inteligentes que já conheci. Achava-me maravilhosa.”
Se os homens queriam saber se meu pai era vivo, eu
respondia que sim, mas que era separado de minha mãe.
“Com quem você vive, Delly?” perguntavam.
“Com minha velha.”
Logo que eles queriam saber quem fora o autor da
minha desonra, eu inventava uma história. Satisfazia. Não
sei, Giselle, por que a maioria dos homens gostam de saber
como a mulher com quem estão, às vezes apenas por uma
noite ou por algumas horas, foi deflorada. Mas não é
verdade que grande parte deles pergunta isso à gente? E se
não se dá uma resposta satisfatória tem-se de ouvir uma
série de outras perguntas, como se fosse um interrogatório
policial. Os homens se comprazem em ouvir detalhes. Uma
vez eu pensei que era porque qualquer deles gostaria de ter
sido o primeiro, ainda que não existisse amor nas relações
do instante comprado. De qualquer forma, Giselle, a idéia é
muito curiosa. Por isso, eu sempre caprichei na invenção
de minhas histórias, e podia ficar sossegada. Ia vivendo
assim, enganando a meio mundo. Em alguns lugares,
trocava o meu nome de Delly por outro qualquer. Maria do
Rosário, uma espanhola muito bonita, apresentou-me a
uma senhora em cuja casa os alemães organizavam festas
lúbricas.
“Qual o seu nome, menina?” indagou a senhora.
Depressa, respondi:
“Helene.”
Passei a ser Helene. Fui Helene para Maria, para a
Dora, que você conhece, para mulheres e homens.
Certa vez, conheci um tipo que se apaixonou por mim.
Que trabalho me dava enganá-lo! Tinha de inventar tantas
coisas para que ele não soubesse realmente qual era a
minha atividade, o que eu fazia! O homem não me largava.
Eu era obrigada a telefonar-lhe quando planejava outro
encontro. Geralmente encaixava a velha desculpa de levar
minha mãe ao médico. Mas um dia ele descobriu tudo e me
largou. Por algumas semanas apenas. Logo voltamos a
remarcar encontros e ele impôs uma condição: “Se repetir-
se isso, não a procurarei mais.”
Veio a segunda descoberta. Ele não deixou de me
procurar. Somente muito tempo depois é que desapareceu
de minha vida.
Você, Giselle, está naturalmente se perguntando que
tem a ver tudo isso com minha situação em Londres, não?
Pois eu lhe digo: Charles Bernard, que estava na minha
frente e dizia que na manhã seguinte se jogaria sobre a
França, era precisamente o homem que eu amara e de
quem me havia separado.
― Charles ― lhe falei ― você disse que não voltaria
para mim uma terceira vez.
― E daí?
― Daí eu tinha razão. Você voltará sempre.
Charles olhou para mim. Tinha frieza e desprezo no
olhar. Sua voz era quase de nojo quando me disse:
― Está enganada, Delly. Não voltei por minha
vontade. Fui mandado aqui para identificá-la. Meus chefes
sabiam que você me pertencera.
― Ah, eles sabiam?
― Sim. Eles sabiam. Sabiam de tudo. Sabiam que você
fora minha e que eu era um imbecil por querê-la. Eles
sabiam, Delly, que...
― Sabiam o quê?
Charles Bernard saiu e deixou-me pensando. Na
verdade, eu amara aquele homem. Escrevo agora, Giselle,
para dizer-lhe que estou sofrendo. Adeus."
18

Depois que o capitão Brandt me deixara em paz,


muitos fatos graves haviam ocorrido. Eu permanecia ainda
afogada na carta de Delly, quando ouvi passos na escada.
Era dia de folga. Não haveria à tarde ou à noite os meus
célebres "festivais dançantes" que abalavam Paris e tão má
fama iam ganhando entre as senhoras decentes e os
cavalheiros respeitáveis da cidade.
Aquelas minhas horas eram de descanso, pois o
trabalho de suportar nazistas sobre nazistas tornava-se
exaustivo. Por isso, ia repondo na memória os fatos do dia.
Recordava os incidentes menores de minha passagem pelos
boulevards. Pudera notar, nesse passeio, o ódio que me
devotavam as mulheres desprotegidas pela natureza,
criaturas a quem Deus não concedera um minuto de sua
atenção. Tais senhoras (que, em épocas remotas, talvez
tivessem ornamentado a digna fachada de seus maridos com
o emblema dos "cocus magnifiques") voltavam
furiosamente o rosto à minha passagem. Houve uma,
cadavérica, ruiva e medonha, que cuspiu para o lado. Creio
mesmo que chegou a escarrar. Mas tudo eu relevava, porque
minha contribuição ao trabalho da Resistência era
desconhecida dessa gente.
Os passos continuavam. Quem viria, assim, às dez
horas, perturbar o meu sossego? Himmler? Stupnaggel? Ou
um dos oficiais a quem eu dera as pequenas chaves
douradas de minha casa, para as aventuras extras?
Não era nenhum deles. Era Corentin.
― Como entrou aqui? ― perguntei.
― Stupnaggel me deu a chave.
― Que absurdo! Ele nunca fez isso.
Corentin sorriu e disse:
― Talvez ele tivesse uma razão forte para isso.
― Posso saber qual seja?
― Daqui a pouco, Giselle. Quero antes um copo de
vinho.
E acrescentou com ironia:
― Sem veneno...
Fui apanhar o vinho. Abri a garrafa e a bebida dos
deuses caiu espumante e apetitosa. Ele bebeu.
― Há quanto tempo não a via, Giselle. Tinha para mim
que não iria vê-la mais.
― Eu estava contente com isso...
Corentin não se dava por achado. Riu do meu
comentário, como se fosse uma piada muito bem bolada, e
continuou a falar:
― Nunca me esqueci daquele dia na prisão. Você
estava furiosa. Mas era linda a sua nudez. Você estava
violenta e gostosa.
Bebeu um gole do vinho puro, fez como se estivesse
provando bem o sabor sobre a língua, estalou os lábios e
concluiu:
― Gostosa como este vinho.
Eu o via, os olhos brilhantes, os lábios umedecidos
pelo vinho. Tinha vontade de expulsá-lo. De sacudir-lhe as
mãos na cara e gritar-lhe:
― Fora! Fora daqui!
Mas me contive. Já estava bastante comprometida e
não desejava novas histórias com os alemães a quem
Corentin servia tão lealmente. Ele me olhava. Eu
adivinhava seu pensamento.
Levantei-me.
― Monsieur Corentin, o senhor não tem vergonha.
― Vergonha para que, minha filha? Sirvo aos nazistas.
― Não tem medo de nada?
― Neste tempo de guerra tudo está confuso.
― E depois?
― Depois... Bem, Hitler me ajudará.
― Muito bem, Corentin. Você já pensou se Hitler for
derrotado?
― Não há essa possibilidade, Giselle. Além disso, a
aceitar essa hipótese absurda, seria preferível a morte.
― Gosta tanto assim de seus patrões?
Corentin era uma estranha e sinistra figura. Atarracado
e sangüíneo, tinha o olhar tenebroso que condizia com sua
barba negra e cerrada. O andar pachorrento fazia pensar no
bamboleio de um felino ou no rastejar de uma serpente. O
lenço multicor sobrando da calça amarfanhada e suja de
rapé era o cartão de visita da pouca compostura e da falta de
higiene.
― Não é um homem, ― diziam as mulheres honestas
― mas um monstro de luxúria.
Todos nós sabíamos que ele não simbolizava o bom
francês nem representava, com sua figura de símio
entorpecido pelas noites mal dormidas nos braços de
alguma javanesa nos becos de Montmartre, o verdadeiro
parisiense. Tínhamos, em nosso bairro, um espelho de
bonde cuja doçura era uma afirmação viva e substancial de
que o olhar de Deus ainda pairava sobre a França
angustiada e marcada pela ignomínia do tacão boche.
Corentin, entretanto, nascera para alijar Judas do seu
milenar escárnio.
Era um monstro de luxúria, como diziam as mulheres
honestas. Quantas vezes víamos Corentin, com seu passo
mole e bamboleante, subir pela escada de uma velha casa
onde uma pecadora o esperava, não para receber conforto
moral, mas para afundar-se ainda mais na lama em que
vivia!
Pois ele estava agora ali, na minha frente, babando de
sensualidade, devorando-me com seus olhos de bode
lúbrico. Aquilo não era gente. Aquilo não tinha o direito de
prostrar-se ante Deus. Aquela imundície, que agora vinha
sentar-se a meu lado e que vivia para denunciar os
"maquis", devia ser jogada pela escada ou atirada pela
janela. Cumpria, entretanto, dominar-me e eu permiti que
Corentin chegasse até meu rosto com seu hálito quente e
insuportável de fungador de rapé.
― Giselle ― falou o monstro ― sinto um Vesúvio
dentro de mim.
Corentin alisou a barba. Eu via a expressão violenta de
seu rosto e tinha medo.
― Giselle ― ele falou. ― Minha pequena e doce
Giselle...
Tive de cortar a sua frase;
― Vamos aos fatos. Que quer de mim?
Corentin sorriu e com voz pastosa limitou-se a dizer:
― Você.
Um tremor percorreu todo o meu corpo. Submeter-me
a um homem como Corentin, de quem eu tinha nojo tanto
físico quanto moral, era demais para mim. Eu suportara
muitos nazistas. Mas nenhum deles me despertava aquele
sentimento de asco, pois eram nazistas e, pelo menos do
ponto de vista da guerra, eles cumpriam a missão que seu
próprio idealismo indicava. Corentin não. Corentin era um
traidor. Perguntei-lhe:
― Ah, foi para isto que Stupnaggel lhe deu a chave?
Ele sabe que você me deseja?
― Não, bobinha. Ele ignora tudo.
― Por que foi então?
― Foi para submetê-la a um teste. Stupnaggel
desconfia de você.
― E você deseja tirar seu partidozinho?
― Claro! É um velho ditado chinês...
― Não me interessam os ditados chineses ―
interrompi. ― Quero que saia imediatamente de minha
casa.
Corentin deu uma volta pela sala, com aquele passo de
apache gordo. Sujeito horrível. intragável, difícil de
compreender. Toda a minha longa experiência a serviço dos
alemães, suportando-os, nada significava perto da tarefa de
agüentar o monstruoso Corentin por alguns minutos.
― Preciso dizer-lhe algo, Giselle. Algo muito sério.
Muito importante mesmo.
Sustive a respiração.
― Pois vamos. Fale depressa.
― Tenho visto muitas mulheres ordinárias. Lido com
vagabundas e com prostitutas. Você bem sabe qual é a zona
que eu freqüento.
― Sei.
― Pois é. Desço à lama e subo às estrelas. Sujo-me
com as pecadoras e reabilito-me com um amor sublime.
― Ora, Corentin, você está delirando...
― Não. Não estou. Logo verá aonde quero chegar.
Sorveu uma pitada de rapé. Espirrou. E disse com voz
mudada, mas precisa:
― Salve-se dormindo esta noite comigo.
Não pude deixar de rir.
― Com você, Corentin? Dormir com você? Nem que
isto valesse a minha própria vida!
― Sou tão repugnante assim?
― Mais! Muito mais! Você não é apenas repugnante.
Você é pior do que o absurdo, do que a lama, do que tudo
quanto houver de nojento e indigno.
― Tanto? Tanto assim, minha Giselle?
Corentin sorria.
― Fora daqui! ― gritei.
Os nervos me sacudiam. Já não podia olhar sequer para
a cara daquele monstro de lubricidade que tentava alisar-me
as pernas. Corentin tinha as mãos moles e eu sentia que elas
subiam pelas minhas pernas já a caminho das coxas.
Quando ele procurou subir mais, estalei a mão na sua cara.
Foi uma bofetada sonora, bonita, significativa. A marca
vermelha de minha mão estava em seu rosto. Julguei que ele
se levantaria para o revide. Por um instante permaneceu
sério. Depois, caiu numa crise de riso.
― Oncinha ― balbuciava, nervoso, histérico, excitado.
― Esse ódio, essa raiva, esse ardor apenas servem para me
deixar cada vez mais apaixonado por você.
Agarrou-me com força.
― Venha cá, minha gatinha. Venha dizer que está
arrependida. Venha fazer um carinho no velhinho que gosta
tanto, tanto de você...
― Largue-me, bandido!
Mas tudo era inútil. Hercúleo, forçudo, Corentin me
atirou sobre o divã e esmagou sua boca suja contra a minha.
Seu corpo ofegante pesou sobre o meu como se dez
toneladas me imprensassem. As mãos, rápidas e delirantes,
iam rasgando a minha roupa, num louco e desenfreado
movimento. Gritei. Agarrava-me desesperadamente aos
cabelos do monstro, puxava-lhe as barbas, contorcia-me,
num desespero que era pior do que a morte.
Corentin me pôs nua. Sua boca recendendo a rapé
sugava meu pescoço, meus seios, meu ventre. Os seus
dentes se cravavam sobre o meu monte de Vênus e eu sentia
que ele procurava afastar as minhas pernas com a mão
direita. Sabia o que ele queria.
― Miserável!
― Quietinha, boba.
Mas não. Corentin não conseguiu o que queria. Na hora
angustiante, quando quase nenhuma força me sobrava,
minha mão resvalou por um objeto duro. Segurei-o. Era
uma dessas espátulas de abrir livro que eu deixara cair na
noite da véspera, ao adormecer. Empunhei-a e cravei-a no
dorso do monstro. Ele deu um urro e largou-me. Ergueu-se
e arrancou a arma de minha mão.
― Cachorra!
― Afaste-se de mim!
― Cachorra! Cachorra vagabunda! Querendo acabar
comigo, hem?
Novamente a sua risada estourou no quarto, sacudindo
os enfeites sobre a penteadeira e as mesinhas.
― Pensa que Corentin vai assim, não? Corentin é
velho, mas forte.
O sangue manchava a sua roupa. O ferimento talvez
fosse grave, talvez não fosse, mas ele não parecia sentir.
Desconhecia a dor, aquele animal aterrador.
― Verá agora!
Encaminhou-se novamente para mim. Dei um grito
imenso, tão forte que não parecia ter saído de minha
garganta. Corentin já estava deitado sobre o meu corpo.
Enterrou-me os dentes no ombro nu e senti o sangue quente
aflorar à pele. O urro de dor não o impressionou. Ele
chupava o meu sangue, enquanto eu batia nele. Bebia meu
sangue, frenético e delirante.
Outra vez consegui arrojá-lo para longe. Refugiei-me
atrás de uma mesinha. Desta feita, ele não me perseguiu.
Estranha e completa serenidade o dominava.
― Giselle ― disse. ― Giselle, estou bem agora.
― Vai me deixar?
― Machuquei-a?
― Cale-se! E rua! Já!
― Antes, quero falar-lhe.
― Saia!
― Sente-se, Giselle.
Corentin falava num tom absolutamente calmo.
― Vou falar-lhe alguma coisa que diz respeito a
Zingg... Paulo Zingg.
Esfriei. Sem perceber, estava sentada. Ele, de pé,
procurava, displicentemente, ajeitar a calça rasgada. Uma
enorme mancha vermelha estava no lugar do ferimento.
― Que Zingg? ― consegui dizer, fazendo-me de
desentendida.
― Paulo Zingg, seu marido.
― Meu marido? Você está louco!
― O chefe dos "maquis". Paulo Zingg. Não se faça de
desentendida.
Silenciei. Corentin veio sentar-se a meu lado, agora
sem procurar intimidade.
― Giselle ― disse em tom gélido. ― Não se trata de
sua vida. Você não a defende neste momento.
― Explique-se.
― Quero dizer que está jogando com a vida de Zingg e
de todos os seus companheiros.
― Zingg morreu, Corentin.
Ele, de repente, abandonou o ar displicente.
― Morreu coisa nenhuma!
― Por que diz que ele não morreu? Os alemães
encontraram provas no bolso de um cadáver.
― Não era Zingg. Ele fez a troca.
― Você endoideceu!
Corentin riu. Riu e disse:
― Uma infeliz é o que você é, Giselle, com essa
resistência aos meus pedidos. Bastaria que fosse boazinha e
Zingg...
― Que sabe sobre Zingg?
― Sei onde está. Conheço todos os seus passos. Uma
palavra minha e Zingg será um homem morto.
― Não acredito.
― Logo acreditará. Conhece a letra de Zingg?
Calei-me.
Sobre uma folha de papel finíssimo, li um bilhete de
meu marido, endereçado afetuosamente a Corentin. Seria
farsa? Onde estaria a mistificação?
― Giselle, ― falou Corentin ― eu também pertenço
ao Movimento de Resistência. Jogo com pau de dois bicos.
Acontece que mesmo assim...
Aproximou-se de mim. Com as mãos eu tentava cobrir
minha nudez, ajudando-as com uma almofada. Logo
Corentin arrancou a almofada e jogou-a longe. Depois, ele
mesmo se afastou e me ficou admirando.
― Você terá que escolher, Giselle.
― Escolher?
― Sim. Entre seu nojo por mim e seu amor por Zingg.
O relógio da sala batia um tique-taque nervoso e
irritante. Os desenhos no teto de meu quarto se
embaralhavam aos meus olhos. E Corentin falando, falando,
falando. Disse-lhe apenas:
― Venha.
Corentin ria um riso apocalíptico.
― Eu não como carne de vaca. Gosto muito é de carne
de vitela ― dizia. ― Não se zangue, minha Giselle, se faço
jogo duplo. Tenho você e todos os seus amigos na mão. A
hora em que eu me decidir, basta fazer um sinalzinho com o
dedo assim (deu um estalido) e era uma vez Giselle e a sua
troupe...
Espiou-me com aquele jeito que me dava calafrios e
concluiu:
― Giselle e sua quadrilha...
Era preciso raciocinar depressa. Duas hipóteses
ferviam no meu cérebro:
a) Corentin estava a par de tudo. Nesse caso, poderia
realmente aniquilar-nos com a maior facilidade.
b) Corentin tudo ignorava e fazia uma tentativa para
aproximar-se da verdade.
Decidi agir com prudência. A tática recomendável seria
enfrentar o monstro de frente, com a arma da sedução.
Cheguei bem peno de Corentin. Deixei que seus olhos
mergulhassem nos meus. Eram olhos desvairados. Logo
percebi que ia beijar-me. Meu primeiro impulso foi de
recuo, desviar a minha boca. Mas a voz interior me dizia:
"Firme, Giselle!"
E senti o hálito quente de Corentin, os seus lábios nos
meus, enquanto ele me apertava, doidamente.
― Menina ― disse-me. ― Eu gosto de sua escola.
Compreendo por que os alemães se deixaram enfeitiçar por
você.
Afastei-me um pouco. Meu peito arfava e a camisola
leve que eu vestira, tênue como a brisa, invisível como o
pudor, enlouquecia Corentin.
― Perdoe-me o meu arrebatamento ― disse-lhe.
― Você machucou-me. Por que foi tão violenta?
― Sou uma temperamental. Gosto de submeter os
meus homens a testes decisivos.
― Os seus homens? ― Corentin riu prazerosamente.
Agradara-lhe a expressão. ― Posso, então, considerar-me
no rol?
Ele mesmo respondeu-se:
― Em boa companhia me encontro...
Com os dedos, contou:
― Stupnaggel... Antes, quem foi?
― Oetting. O coronel Oetting.
― Ah, aquele da prisão. Himmler também?
― Também.
― O capitão Brandt. Sem contar Paulo Zingg. Você é
insaciável.
― Insaciável? Por que acha que sou insaciável?
A minha indagação tinha o objetivo de verificar até
onde Corentin queria chegar, o pouco ou o muito que ele
sabia.
― Ora, todos dizem...
― Quem são todos?
― O pessoal do grupo Maquisard Vercors, para quem
você trabalha.
― O grupo Vercors?
Tratava-se de uma célula de "maquis", mas não aquela
a que me filiara. Logicamente, Corentin pouco sabia e
estava caminhando sobre terra não muito firrne.
― O seu grupo, Giselle.
― Quem lhe disse isso?
― François.
― Não conheço François.
― Abandone esse fingimento, sua boba. Ele me falou
em você.
Ai estava outra mentira de Corentin. Eu conhecia
François apenas de nome. Esse "maquis" jamais entrara em
contato conosco.
― Impossível ― disse eu. ― Não sei nem quem é esse
tal François. Além disso, Corentin, eu não pertenço ao
Movimento.
Fui até outro lado da cama. Displicentemente, abri a
camisola. Os olhos de Corentin se incendiaram. Os meus
gestos eram de quem estava sozinha. Despi-me. Depois,
atirei-me sobre uma pele de tigre que havia no chão, ao pé
do leito. Mas, quando Corentin se aproximou, levantei-me
rapidamente.
― Ahn-ahn... Nada de precipitação ― disse-lhe,
estabelecendo o leito como barreira entre nós.
― Precipitação?
Corentin parecia alucinado.
― Há quanto tempo estou aqui com você como um
doido? Inteiramente doido?
― Façamos um trato, Corentin. Você ficará aqui sob a
condição de palestrar comigo, sem ameaças nem
intimidades.
― Não posso.
― Então, chamarei a empregada.
Humilde, Corentin foi sentar-se no divã, enquanto eu
voltava à pele de tigre. Com os olhos pregados num
espelho, podia acompanhar o movimento da fisionomia de
Corentin, enquanto falava. Minha nudez deixava-o
prostrado, inteiramente sem ação.
― Fale, então.
― Quero que me faça, meu velho Corentin, uma
confissão em regra.
― Uma confissão?
― Sim. Quero que conte toda a verdade. Terá um
prêmio.
― Que prêmio?
― Isto!
Com um gesto amplo, mostrei-me. Ele empalideceu.
― Estou falando o que sei, Giselle.
― Seja correto, Corentin. Sei que está mentindo.
― Como sabe?
― Por uma série de razões. Aceita a proposta?
A lubricidade de Corentin dominava-o de forma total e
arrasadora. Esse homem era um escravo do sexo. Vivia para
isto. Era capaz de morrer por isto. Todos os seus
pensamentos, todas as suas ações tinham o sexo como
origem, causa, fim e conseqüência. Por isto foi traidor. Para
que tivesse novos prazeres desta natureza vendeu a pátria,
traiu os amigos, entregou dezenas de cidadãos franceses aos
nazistas. Queria apenas meios de possuir novas mulheres e
de alimentar novas aventuras. Com as facilidades que lhe
dava a amizade dos conquistadores conseguia tudo. Agora,
porém, eu o tinha aos meus pés, vencido, derrotado de
maneira categórica pela única arma contra a qual não tinha
defesa: a sua tremenda adoração por um corpo de mulher.
― Falarei.
Corentin disse isso sem tirar os seus olhos de cima de
mim. Percorria-me. Eu imaginava que, se a sua agressão
visual já me deixava naquele estado de nojo, como não seria
depois?
― Falarei, Giselle. Mas, se após ouvir tudo, você
recuar...
― Não recuarei .
― ... eu a matarei. Friamente.
― Pode começar.
― Eles sabem que você mantém ligação com o
Movimento de Resistência.
― Que mais sabem?
― Sabem de seu casamento com Paulo Zingg.
Conhecem toda a farsa com Stupnaggel naquela casa no
meio da floresta. Sabem que o cadáver não era de Zingg,
apesar dos documentos encontrados no bolso.
― Sabem onde ele está?
― Não.
― Conhecem os elementos de nosso grupo?
― Alguns.
― Por que não me prenderam até agora?
Corentin se aproximou um pouco mais, sem tocar-me.
― Eles querem, Giselle, que você os conduza ao
esconderijo de Zingg. Destruído Zingg, o movimento
clandestino em Paris terá perdido muito de sua força,
porque Zingg é o cérebro.
― Eu jamais faria isso.
― Você já o fez...
― Eu? Você está doido?
― Fez sim. A sua última mensagem a Zingg serviu de
guia.
― Minha última mensagem?
― Sim. O bilhete enviado anteontem. Um membro da
Gestapo acompanhou o portador.
Senti o coração acelerar o ritmo dentro do peito.
― E descobriram?
― Ainda não. Quando percebeu que estava sendo
seguido, o mensageiro procurou escapar. Mas não o
conseguiu.
― Foi preso?
― Não. Enfrentou os alemães. Matou três. Uma bala
deu cabo dele.
― Onde aconteceu isso?
― Em Cognac. Os nazistas cercaram o lugar. Estão
certos de que Zingg se encontra lá.
Corentin falava, mas, ao mesmo tempo, se ajoelhava junto à
pele de tigre. Os pensamentos se agitavam, em indescritível
tumulto, dentro do meu cérebro, a ponto de não sentir que
aquelas mãos grosseiras apertavam a minha carne.
19

Um silêncio pesado enchia meu quarto. Tão denso era


este silêncio que se podia escutar a respiração ofegante de
Corentin. Na verdade, eu estava deixando que ele fizesse o
que pretendera da primeira vez, quando suas mãos tentaram
afastar as minhas coxas e ele mordia o meu ventre. Os seus
cabelos se esmagavam empastados de suor e a sua boca era
insaciável, frenética, delirante. No instante exato em que o
ardor combativo para o amor, a paixão desenfreada de
Corentin chegava ao auge, a campainha da porta soou. Ele
se afastou com um movimento brusco, como se tivesse sido
atingido por um choque elétrico.
― Que foi? Que houve com você? ― perguntei,
enquanto me erguia e procurava vestir-me.
No rosto de Corentin o medo se estampara brutal e
violento. Era um medo que eu jamais vira, nem mesmo na
fisionomia dos que iam morrer.
― Stupnaggel... ― disse ele.
― Que importância tem isso, então?
― Ele...
Corentin suava frio.
― Ora, Corentin... Se foi ele quem lhe deu a chave?
― Que chave?
― A da minha casa.
― Ah!
Corentin calou-se, logo em seguida, e com o rosto
revelando sua imensa covardia, explodiu:
― Ele não me deu coisa alguma!
― Mas você disse...
A campainha soava com estridência. Era preciso ir
abrir a porta. Corentin abaixou a cabeça entre as mãos.
Desesperava-se.
― Vou abrir ― eu disse, enquanto vestia um
"peignoir".
― Não! Não faça isso!
― Tenho de abrir. Não vou fazer o general ficar à
espera.
― Esconda-me, então!
― Onde?
― Num armário! Na cozinha! Onde quiser!
― Pois me acompanhe.
Levei-o ao banheiro dos fundos da casa, uma peça
abandonada onde raramente ia alguém.
― Fique aqui ― ordenei.
E fui abrir a porta. De antemão, eu sabia que não podia
ser Stupnaggel. Ele possuía a chave da porta da rua e
costumava entrar sem aviso. Quem seria, então?
― Alô, Giselle.
Em minha presença, humilde e sorridente, estava um
homem estranho mas simpático. Jamais o vira em toda a
minha vida.
― Que deseja o senhor?
― Falar com você.
― Comigo? A respeito de quê?
― Aqui na rua não posso dizer. Gostaria de entrar.
Na sala, acomodado numa poltrona, o rapaz suspirou
com uma alegria quase juvenil.
― Confortável, a sua casa...
― Vamos ao que interessa.
Ele fingiu não me ouvir. Continuou examinando o
ambiente.
― Bonita, a sua lareira. Tem carvão no inverno?
― Para que deseja saber?
― Perguntei apenas se recebia carvão para as noites do
frio...
Eu não sabia para onde dirigir a conversa. Por isso,
perguntei:
― Interessa-lhe isso?
― Muito.
― Por quê? Com que direito se mete na minha vida?
O homem me olhou com ar estranho. Levantou-se,
colocou as mãos sobre a "chaise-longe" em que eu estava
sentada e murmurou:
― Giselle, eu venho de Londres...
Fiquei na mesma. De Londres? Aquilo podia significar
muita coisa, mas podia não significar coisa alguma também.
― Está certo. O senhor veio de Londres. E daí?
― Trago instruções.
― Maravilhoso! O senhor traz instruções de Churchill
ou do Rei?
O homem me olhou com censura.
― Não se torne irônica, Giselle. Estou a par de tudo.
― Posso saber o que entende por "tudo"?
― Movimento de Resistência.
― Não sou filiada.
― Trago ordens.
― Ordens de quem? O senhor está louco. Eu não tenho
nada com o Movimento de Resistência.
Dirigi-me à porta, abri-a de par em par e convidei-o a
sair. Longe de fazer isto, porém, o homem enfiou a mão no
bolso e retirou uma carta.
― Leia.
Obedeci. Os termos precisos da carta não me lembro. A
letra era de Delly. Inconfundível. Certos detalhes somente
ela poderia conhecer. Certas intimidades. Por exemplo:
"Stupnaggel continua com aquela mania de fazê-la
permanecer de pé e nua na sua frente?"
Logo um pensamento me assaltou: tais particularidades
eram conhecidas de mim e de Delly, mas também o eram de
Stupnaggel, pois diziam respeito às suas taras. A
desconfiança parece ter voltado à minha voz quando me
dirigi ao desconhecido, restituindo-lhe a carta:
― Não me diz respeito.
Ele se ergueu, desanimado.
― Bem, parece que se enganaram.
Ia saindo, quando o chamei:
― Um momento. Qual é o seu nome?
― Henry.
― Era o que eu desejava saber. Passe bem.
Quando o homem deixou a minha casa, fui ao banheiro
e libertei Corentin. O suor molhava a sua barba e descia por
seu rosto em gotas. "Que tipo asqueroso e covarde", pensei,
enquanto ele saía.
― Quem era? Stupnaggel?
― Justamente.
― Deus do céu! Se ele desconfia...
Atalhei:
― Corentin, agora quero a verdade. Toda a verdade.
Corentin abaixou a cabeça, vencido.
― Sim, Giselle. Eu direi tudo.
― Sente-se.
Ele obedeceu.
― Pode começar.
Corentin encheu os olhos de lágrimas e disse:
― Eu não posso possuí-la, Giselle.
O que se lê a seguir é a história que Corentin me
contou
― Sempre fui escravo da carne, Giselle. Você deve ter
percebido isto. Mas aconteceu uma desgraça comigo. Vou
dizer-lhe de que jeito tudo se passou.
Com o punho enxugou o rosto e prosseguiu:
"Eu estava à margem do Sena quando uma chuvinha
mole começou a cair. ‘Vou para casa antes que apanhe um
resfriado’, pensei comigo mesmo. E, de fato, depois de
alguns minutos, subia as escadas. Moro num edifício antigo
e fiz meu canto no último andar. Tenho meus livros, meus
quadros, meus trastes, tudo na mais absoluta desordem.
Abri a porta. Lembro-me bem de que a chave enguiçou e
levei uns dois minutos para dar um jeito. Finalmente, entrei
e sobre meu leito vi uma jovem completamente nua,
adormecida.
― Que faz você em minha cama? ― perguntei.
A moça não respondeu. Estava dormindo a sono solto.
Aproximei-me e, por um instante, fiquei a contemplar o
espetáculo daquele corpo de mulher. Era ainda uma
menina. Seus cabelos negros caíam em duas tranças sobre
o lençol. A boca, úmida, estava semi-aberta, como se ele
estivesse sorrindo. Que pensamento, que sonho sonhava
aquele anjo? Desci os olhos devagar, acompanhando as
linhas quase divinas de seu corpo de moça. Vi que Deus
fizera aquela obra após um período de repouso, num
instante de calma poética. O contorno do busto, o tom
róseo, a cor da pele, a curva das pernas, tudo era
irresistível perfeição.
E ela dormia. Linda, tranqüila, indiferente ao mundo
que a rodeava, indiferente à besta humana que a fitava. A
besta era eu, Giselle. Eu era o monstro de luxúria e de
desejo que espreitava aquela moça adormecida em meu
leito. Por um segundo, imaginei que ela ia emergir do sono.
Agitou-se na cama, cruzou as pernas num gesto que ainda
me deixou mais excitado. Tinha ganas de atirar-me sobre
ela e surpreender o ar de espanto e de horror que esboçaria
no primeiro instante. Queria surpreender em sua boca o
grito de medo que eu sabia iminente."
Corentin falava baixo e devagar:
"Entretanto, deixei-me ficar ali, inerte, subjugado.
Pela sua espantosa beleza. Sentei-me numa cadeira e,
durante horas, continuei a vê-la, deitada. Algumas vezes, a
moça trocava de posição. Ora se deitava de bruços e eu
sentia o desespero chegar-me quando admirava a forma
perfeita de sua nádegas. Ora voltava o rosto e o ventre
para cima. Ora permanecia de lado, com os olhos fechados,
voltados para mim. Não, eu não podia dormir. Vi a
madrugada entrar pela janela. Finalmente, ela despertou.
Fez um gesto de receio e de pudor, ao ver-me sentado.
Puxou o lençol e cobriu-se até o pescoço. Mostrei-lhe com
o dedo o enorme espelho de cristal pregado à parede. As
costas estavam à mostra. Raivosa, envolveu-se
completamente no lençol. Virou-se, então, para mim, num
gesto muito próprio da juventude.
― E agora?
― Agora... Primeiro me diga: que veio fazer aqui?
Ela disfarçou com um sorriso, para não responder
logo a pergunta. Disse:
― Daqui a pouco é manhã. Quer virar o rosto para
lá? Eu vou vestir-me.
― Afinal de contas ― perguntei ― por que motivo se
despiu?
― Fazia calor.
― Sabia que este quarto é meu?
― Não. Não sabia.
― Como veio parar aqui?
Ela me olhou e, depois de um instante de silêncio,
como se fosse revelar alguma coisa muito séria, disse:
― Quer que lhe conte?
― Não quero: exijo.
― Exige, é?
A mocinha deixou a cama e veio para junto de mim,
toda embrulhada e sem jeito naquele imenso lençol que lhe
atrapalhava as pernas.
― Pois então vai ficar bonzinho e escutar tudo até o
fim.
― Mas, afinal...
― Silêncio! Vou contar-lhe o que aconteceu.
― Pois conte.”
Corentin passou a falar como se fosse a própria moça
narrando sua história:
"Uma vez por semana, eu venho visitar meu noivo. Seu
nome é Michel e ele diz que me adora. Estudamos juntos na
Escola de Belas-Artes. Michel é pobre e não pode pagar
modelos. Decidi fazer um sacrifício por ele. Disse-lhe que
tinha 17 anos e que era quase dona de mim mesma.
Prometi-lhe servir de modelo. Na primeira noite, ele ainda
resistiu. Apenas observou que eu tinha as pernas bem feitas,
o busto lindo e que, para uma adolescente, mostrava-me
bem desenvolvida. Gostava de vir até onde eu estava para
arrumar meus cabelos sobre os seios. Fingia que ajeitava
as minhas pernas, mas eu via que ele tinha as mãos
quentes, ardendo de febre.
Na segunda noite, quem disse que Michel agüentou a
tentação? (Giselle, ria ao imaginar a cena). Ele atirou os
pincéis com fúria, deu um pontapé na tela e, pelo chão,
rolaram cavalete e tudo. Chegou até onde eu estava. Eu
trazia as mãos suspensas e permanecia de pé, numa pose
que ele inventara para a sua "bailarina". Disse-lhe que
estava imitando servilmente o Napolitano de Durêt.
― Não imito ninguém! ― gritou Michel. ― Eu tenho
personalidade!
― Não imita? ― respondi-lhe. ― Pois esta pose com
a mão direita em arco sobre a cabeça, a mão esquerda
estendida, o pé direito pousando no chão e o esquerdo
levantado, é ou não é puro Duret?
Ele já me agarrara pela cintura e os seus beijos
fizeram com que eu esquecesse Duret e toda a estatuária do
século passado. Juntos assim, ficamos deitados horas e
horas sobre o chão duro. Não havia tapete no atelier do
moço pobre. Havia, em compensação, muito amor.
Trocamos beijos, juras que nunca mais se acabavam de
tantas que eram e ele me prometeu uma viagem à América
logo que enriquecesse.
― Mas você não deve esquecer-se de que Cézanne
nunca vendeu um só quadro na sua vida ― dizia Michel no
intervalo das nossas loucuras de amor.
Pois foi assim que começamos a nos amar de maneira
a não sabermos se éramos um ou dois. Aconteceu,
entretanto, que o inverno passado foi rigoroso. Eu não
tinha voltado mais para a casa de meus pais. Nem eles,
gente da província conservadora e severa em assuntos
dessa natureza, haveriam de querer-me por lá. Nós, eu e
Michel, não tínhamos carvão. O dinheiro era escasso.
Michel não conseguia vender uma tela sequer. Por
desgraça, meu companheiro arranjou um resfriado que se
transformou em coisa pior. O médico lhe disse que somente
um tratamento rigoroso poderia dar resultado. Mas não
havia dinheiro para isso.
― Fico a morrer em meu quarto ― disse Michel ―
mas não tenho o direito de estragar a sua mocidade neste
cubículo ao lado de um homem que escarra sangue.
Como era natural, recusei-me a abandoná-lo. Mesmo
sabendo que me arriscava a ser apanhada pela moléstia,
não poderia deixá-lo. Foi quando se operou uma mudança
súbita no gênio de Michel. Ele se tornou ciumento,
barbaramente ciumento. Chegava até à perversidade com
seus zelos. Batia-me. Eu o via repreender-me, com as mãos
erguidas, se tardava um minuto a voltar do meu trabalho de
"midinette". Logo se arrependia, porque, no fundo, era
bom, e abraçava-me. Beijava-me na boca.
― Gostaria que morresse comigo, na mesma hora, no
mesmo dia, e fosse comigo no mesmo caixão ― dizia-me
ele.
Seu olhar, nessas ocasiões, parecia-me estranho.
Raras vezes, o médico subia as escadas de nosso edifício,
para vê-lo. Ontem, o doutor me disse lealmente:
― Escuta, menina, o organismo desse rapaz é
extraordinariamente forte. Se ele pudesse ficar seis meses
na província, bebendo leite puro, aspirando ar puro,
vivendo uma vida pura, ele se salvaria. Estou certo disso.
Ora, seis meses no campo exigem uma soma fabulosa.
Lembrei-me então que alguns momentos de sacrifício no
leito dos outros poderiam significar a salvação de Michel.
Ele morreria de desgosto se soubesse disso. Mas eu resolvi
que o salvaria da morte estúpida em plena mocidade. Por
isso é que estou aqui."
Corentin fez uma pausa. Tinha acabado a história que
lhe contara a moça. Agora, era a vez de continuar a sua.
― Giselle, ouvi tudo o que a moça me disse. Asseguro-
lhe que seria capaz naquela hora de dar-lhe dinheiro sem
que ela tivesse de me dar o seu corpo, apesar de todo o
vulcão de luxúria que trago dentro do meu peito. Mas ela,
para provocar-me ainda mais, arredou o lençol um pouco,
deixando-me ver pedaços de sua carne. Era linda a diaba!
Era um sonho.
“― Quer dizer que veio aqui por dinheiro? ―
perguntei-lhe.
― Exclusivamente por dinheiro ― respondeu-me com
um sorriso de velha profissional.
Estendeu a mão. O lençol se abriu mais, deixando ver o
seio que saltava entre as dobras do pano.
― E você sabe que eu a quero por dinheiro? ― insisti.
― Ora, ora. Estou vendo isso nos seus olhos ― disse
ela rindo. ― Você está que não agüenta mais!
Ergui-me. Fui até uma caixa onde guardo o dinheiro.
Tirei 20 mil francos e depositei-os em suas mãos. Ela se
abaixou e guardou o dinheiro dentro do sapato que estava
sob o leito. Arranquei o lençol de sobre o seu corpo num
repelão.
Na posição em que ela estava, as suas nádegas
rosadas ficavam levemente abertas. Ali ― eu sabia ― se
escondia a razão de toda a minha febre. Acariciei-a. Sem se
incomodar com a carícia extravagante, a moça se ergueu e
voltou-se para mim. Sua boca sorria. Seus olhos eram os
olhos despudorados de uma prostituta. Lentamente,
levantou os braços, envolveu o meu pescoço e beijou-me.
Beijava como se os jogos sexuais, até mesmo os mais
inusitados, não tivessem nenhum segredo para ela.
Deixando cair a cabeça para trás, perguntou-me:
― Por que você não tira essa roupa horrível?
Tirei-a. Enquanto a tirava, atrapalhando-me com os
botões, ela se deitava lânguidamente no meu leito.
― Que é que você quer?
― Tudo! Tudo!
Minha voz estava estertórica. Aquela mocinha me
punha louco. Na verdade, agora, Giselle, se eu quisesse
contar a você tudo que fizemos, juro que não me
recordaria. Mas você imagine toda a ciência dos velhos
degenerados da Roma antiga e terá uma idéia. Foram
horas seguidas de amor desenfreado. Quando me sentia
cansado, ela inventava uma maneira de restituir as minhas
forças e recomeçava tudo novamente. Por fim, exausto,
deitei-me de costas e adormeci. Quando acordei, foi aos
gritos de um rapaz dentro do quarto.
― Miserável! ― urrava ele. ― Tu vais pagar-me!
Não tive tempo sequer de me erguer do leito. Rápido
como uma serpente, o rapaz se atirou sobre mim, apanhou
meu sexo nas mãos e, com uma faca, castrou-me.
― Quero que sofras toda a vida! Que agüentes o peso
de tua luxúria! Que arrastes teu desejo incompleto para
sempre!
Foram as últimas coisas que ouvi.
Não sei como ele entrou no quarto nem como saiu.
Quando voltei a mim, estava num leito de enfermaria. A
enfermeira me olhava com piedade.
― O senhor está salvo ― disse ela. ― Um rapaz
chamou o médico bem na hora.
Eu sabia que tinha sido Michel. E agora eu era outro
homem, amputado na sua virilidade."
Corentin baixou a cabeça. Um ser completamente
aniquilado!
Então, era isso? Ergueu os olhos úmidos e me disse:
― Eu não te posso possuir, Giselle.
20

Após haver-me revelado toda a origem de sua


desgraça, Corentin aquietou-se, chegando mesmo a
aparentar alguns sintomas de sincera humildade.
Tinha eu ali, diante de mim, um homem aniquilado,
com os olhos presos no chão, denotando na inércia de
alguns minutos toda a sua imensa angústia diante da vida.
Mas não deixava de ser, aos meus olhos, o mesmo
escravo da carne. Não vendera ele sua consciência, sua
dignidade, sua vergonha, por simples momentos de prazer
lúbrico? Não tinham sido seus amigos, notoriamente
filiados ao Movimento de Resistência, denunciados por ele,
aos alemães, em troca do dinheiro imundo com que mais
tarde compraria o sexo de algumas loucas transviadas?
Eu sabia que Corentin entregara o próprio irmão à
policia secreta de Hitler, numa siderante demonstração de
fidelidade aos seus amos nazistas. Chegara mesmo a
pormenorizar os atos de sabotagem em que o jovem havia
tomado parte como membro do grupo de Resistência.
A carta de meu marido fora endereçada a um Corentin,
mas não a este nojento espião nazista. A carta era para seu
irmão. O delator apanhara, no espólio do outro Corentin,
sangue de seu sangue, todos os papéis que fossem úteis, de
uma forma ou de outra, à sua carreira de informante da
Gestapo.
Eu soube depois de tudo isso. Soube que Corentin não
se arrependera do seu ato, nem mesmo vendo que o irmão
era levado ao muro de fuzilamento. No bar em que, certa
noite, tomava seu conhaque, um homem lhe censurou a
ação torpe. Corentin respondera com voz calma:
― Alugo o meu serviço. Faço-o com honestidade.
― Mas era seu próprio irmão!
― Mesmo que fosse meu pai ou meu filho eu o
denunciaria.
O homem não suportou: cuspiu-lhe no rosto. Corentin
quis resistir, mas, vendo os olhares duros dos circunstantes,
pôs o rabo entre as pemas e saiu. Na manhã seguinte, o
outro tinha a sua casa varejada pela polícia nazista. O que
Corentin não calculou foi que, nesse meio-tempo, o homem
conseguira fugir e evitar a prisão.
Agora, estava este crápula ali aos meus pés.
― Essa é a história de minha desgraça ― explicava
ele. ― Passei a ser um trapo de homem. Todas as minhas
paixões se rompem na metade do caminho. Quebram-se,
esfacelam-se.
Corentin tinha os olhos baixos e apagados.
― Veja, Giselle. Eu sou o tremendo, o perverso, o
satânico e implacável Corentin. E não passo de um infeliz
que arrasta a sua miséria, a sua carência, por esse mundo
afora. Não posso ter a plenitude, a realização, o fim dos
meus desejos. Por isso é que sou assim...
― Assim como?
― Perverso!
― Ora, Corentin. Antes de suceder aquilo, você já era
ruim. Ruim e traiçoeiro como uma serpente.
― Mais piorei, Giselle. Hoje, vivo a procurar torpezas,
a fazer maldades. Quero gente para denunciar, famílias para
desgraçar. Separo noivos, afasto maridos de mulheres,
filhos dos pais. Apraz-me ver as cenas dramáticas dessas
separações. Lembro bem uma vez quando...
― Você é um miserável, Corentin!
― Xingue-me, Giselle. Eu sei que mereço. Mas, eu ia
dizendo que, em certa ocasião, denunciei um "maquis".
Rapaz ainda novo, ia casar e era filho único. Fui assistir à
cena da prisão. A polícia nazista chegou à casa dele, em
Montparnasse, e só você vendo a cena.
O rosto de Corentin ganhava cores e uma sombra,
embora leve, de alegria, à proporção que relembrava essa
história.
― Nunca vi derramarem tantas lágrimas. A mãe
chorava de um lado, a noiva chorava de outro. Eu, olhando.
Deleitava-me ao ver aquele moço, estuante de vida, de
sexualidade, um jovem potro, a caminho da morte. Pensava
que eu não poderia ter todo o prazer que a vida ainda lhe
reservava e, por isso, não iria permitir que ele o tivesse em
meu lugar.
― Salve-o! ― implorava a moça, de joelhos. ― Por
Deus, não deixe que levem o meu noivo!
Corentin contou que se aproximou dela, enquanto os
homens da Gestapo conduziam o rapaz para o carro. Disse
em voz baixa:
― Você seria capaz de qualquer sacrifício para salvá-
lo?
A moça disse que sim.
― De qualquer sacrifício mesmo?
― De qualquer sacrifício.
― Até de?...
― Sim. Sou capaz de tudo. Contando que o senhor o
salve.
Corentin deu-lhe um endereço e disse:
― Pois me procure neste endereço hoje à noite.
***
Descrevo agora com a minhas próprias palavras a
história torpe de Corentin:
"Quando as trevas envolviam Paris, na precaução do
"black-out", a moça apareceu na casa de Corentin. Vestia
com simplicidade e não havia pintura no seu rosto tocado
de uma palidez doentia. Mesmo assim, seus traços eram
formosos e seu corpo despertava o desejo impossível de
Corentin
― Sou sua ― disse ela.
O miserável comentou que havia qualquer coisa de
Joana D'Arc dirigindo-se para a fogueira nos gestos da
moça que, lenta mas decididamente, se despia.
― Em troca, você quer a vida de seu noivo, não é? ―
perguntou.
― Exato. Sei que o senhor me pode dar isso.
― Quem lhe disse?
A moça olhou-o com espanto.
― Mas todos sabem que o senhor...
― Sim, diga.
― ... que o senhor colabora com eles!
― É verdade. Por isso, tenho você aqui, despindo-se,
entregando-se. Se fosse filiado aos "maquis", que ganharia
eu com isso? O título de herói e um pedaço de corda em
volta do pescoço. Prefiro seus braços.
A moça tinha dúvida nos olhos.
― Quer dizer que o senhor vai salvar George?
Corentin não respondeu. Sorriu com seus dentes sujos
e ajudou a desnudar o busto da jovem. De dentro da blusa
saltou um seio pequeno e firme, dourado de beleza.
Corentin retirou toda a blusa. Eram seios que se
destacavam do corpo enxuto, sem qualquer sombra de
gordura e os bicos apontavam para a frente como num
desafio. O miserável espião nazista sentiu o corpo todo
vibrar. Com as mãos trêmulas, desabotoou o cós da saia e
deixou que ela caísse aos pés da moça. Seus quadris se
abriam em linhas fortes e bem traçadas. Seu ventre, que
Corentin apreciou depois de desnudá-la por inteiro, tinha o
desenho exato dos ventres das moças espartanas. E se
apoiava nas colunas curvas das coxas imaginadas por
Fídias.
― Você é linda! ― murmurou Corentin. ― Você é
perfeita!
― Então? Salvará George?
Corentin não tinha pressa. Suas mãos acariciavam
todo o corpo da moça, na mesma lentidão com que uma
serpente deve brincar com sua presa.
― Venha cá!
A moça foi. Corentin deitou-a na cama e ficou a olhá-
la. Ela, sem um gesto, deixava ver sua beleza. O
degenerado, já mais refeito do primeiro golpe que sofrera
ao ver a nudez impassível, sentou-se na borda do leito e
perguntou:
― Seu noivo já a viu nua?
― Não ― respondeu a moça.
― Nunca teve nada com você?
― Nunca.
Corentin balançou a cabeça e deixou escapar num fio
de voz:
― É uma pena...
― Por quê? Nós somos católicos. Nós nos
guardávamos para depois de casarmo-nos. Por que o
senhor acha que é uma pena?
― Porque assim ele morrerá sem ter visto a luz de seu
corpo...
― Não vai salvá-lo?
A moça se ergueu na cama, puxando com as mãos o
lençol sobre sua nudez. A boca estava aberta e os olhos
mostravam um brilho estranho, misto de dúvida e terror.
Esbugalhavam-se na direção do rosto de Corentin.
― Seu noivo? Claro que não.
Aturdida com o choque, a adolescente ficou imóvel,
como que pregada na cama.
Finalmente, as palavras saíram esmagadas de seus
lábios:
― Não vai salvá-lo?
― Já disse que não.
― Por que, então, mandou que eu viesse aqui?
Ela se estava desesperando. Jogou o lençol novamente
para um lado, pondo-se à mostra, e quase gritou:
― Mas eu me dou ao senhor! Não tem importância! Só
quero que o senhor o salve!
Subitamente, pareceu-lhe entender tudo. Devia restar
ainda um pouco de escrúpulos àquele homem... Talvez ele
tivesse desistido porque...
― Olhe, senhor. Eu sou virgem, mas George
compreenderá. Nós estamos vivendo um tempo difícil. Nem
sei mesmo onde fica a fronteira entre o que é bom e o que é
mau. Sei que tenho de salvar a vida de meu noivo. E sei que
isso é bom. Pode tomar-me!
Com as mãos, ela procurava despertar o desejo de
Corentin. Sentia-o, entretanto, sem nenhuma reação. Isso,
em vez de fazê-la desistir, estimulava seu desespero. Uma
espécie de intuição sexual que existe em cada mulher fazia-
a tentar outras ações mais decisivas. As lágrimas escorriam
de seus olhos enquanto ela procurava, por todos os meios e
modos, fazer Corentin sair da inércia em que se prostrara.
Tudo, porém, era inútil: Corentin não reagia.
― O senhor não me acha desejável?
O miserável, meio desnudado pelas mãos nervosas da
moça, pareceu acordar e cravou os seus dentes amarelos
no ombro bem feito dela, fazendo-o sangrar. A jovem
suportou sem um gemido. Corentin sugou o sangue até não
senti-lo mais e passou a beijar o corpo de sua presa, com
aquela ânsia e aqueles jogos que conhecia tão bem. Ela
deitou-se como que apaziguada em sua angústia. Ele, o
monstro a quem se estava entregando, provavelmente teria
despertado e iria possuí-la ao final de tudo aquilo. Então,
seu noivo estaria salvo. Mas Corentin parou e se ergueu.
― O senhor não me quer?
― Querer eu quero, garota. Mas não posso!
― Não me incomodo, já lhe disse. Pode vir!
― Menina, vou contar-lhe um segredo.
E Corentin contou o seu drama. Não omitiu um
detalhe. Narrou-lhe tudo, disse por que não podia terminar
o que tanto agrado lhe trazia. A moça, estarrecida,
murmurou apenas:
― Santa Mãe de Deus!
Levantou-se e ficou de pé, hirta como uma estátua.
Parecia não entender bem as conseqüências que, para ela,
teria aquela história.
― Quer dizer que nada fará pelo meu noivo?
― Exatamente. Não posso fazer nada.
― Não é possível! O senhor há de ter um resto de
bondade no seu coração! Não pode existir homem tão duro
assim.
― A desgraça me fez mau... ― disse Corentin.
― Olhe! ― a moça procurava outra saída. ― Eu o
seguirei por onde for. Serei uma espécie de escrava sua.
Apenas quero que interceda por ele. Diga que não era
verdade. Que ele não pertencia aos "maquis".
Corentin ficou calado.
― Serei sua empregada. Farei tudo o que o senhor
quiser. Arrumarei seu quarto, lavarei sua roupa, pregarei
botões. O senhor é um lúbrico. Pois quando sentir vontade,
servirei também à sua lubricidade.
― Não, minha filha ― respondeu Corentin,
lentamente.
― Seria pior para mim. Eu não posso.
― Nada fará, então?
― Nada farei.
A moça voltou-se para o espelho. Parecia estar
arrumando-se. Quando se voltou para Corentin, entretanto,
tinha as duas mãos agarradas ao cabo de um punhal que
enterrara no próprio ventre. Meio tombada, mais pálida do
que nunca, agonizante, mas de pé, teve ainda forças para
gritar:
― Miserável! Que a sua memória seja maldita para
sempre! Que não encontre um ser humano que chore a sua
morte! Que o enterrem vivo!
O sangue descia vigoroso pelas coxas trêmulas da
moça. Ela se punha cada vez mais fraca, embora de sua
boca saíssem palavras terríveis.
― Que o limo cubra seus lábios! Que a terra entre
pelo seu nariz! Que sinta a morte na sua vida! Tudo quanto
é ruim, tudo que existe de imundo na face da Terra lhe seja
companhia na hora de sua morte! Mil vezes maldito!
A moça parecia a deusa da Raiva, bela e agressiva,
com os olhos cheios de chamas. Corentin procurava rir. Até
que ela caiu. Nua, bela e terrível como uma deusa.
***
Corentin voltou-se para mim e comentou sua história:
― Você, Giselle, talvez não acredite. Mas desde esse
dia, um azar pavoroso me persegue. Cheguei a perder a
confiança de meus superiores nazistas. Não consegui mais
obter informes. Não havia mais gente a delatar. Os
"maquis" se afastavam de meu caminho. Passei a denunciar
os meus próprios companheiros, incluindo-os como
traidores nas listas da Gestapo. A verdade é que eles não
eram traidores. Alguém dentre os nazistas desconfiou que
eu apenas queria mostrar serviço e tratou de investigar
severamente a respeito de certo agente francês a soldo da
Gestapo, que se encontrava preso por delação minha.
Concluiu, após demoradas pesquisas, que as minhas
acusações não tinham procedência e que eu falseara
deliberadamente a verdade para condenar um inocente. Eu
estava perdido, sem saída alguma. Chegaram a pensar que
eu é que os estava traindo, ao mandar à morte os seus
agentes.
Eu ouvia o miserável falar e não dizia nada.
― Giselle ― continuou ele ― existe um ser invisível,
cavaleiro do Mal, que ajuda os criminosos e os traidores.
Apelei para ele. E logo me veio uma inspiração. Pedi, na
hora em que fui convidado para ir à presença do oficial da
polícia alemã, para fazer certas e importantes revelações ao
próprio Himmler, que se encontrava em Paris nesta ocasião.
― Isto não é comigo ― respondeu-me o chefe.
Prometeu-me, contudo, levar o meu pedido ao general
Stupnaggel .
Este mandou buscar-me.
"Que quer com Himmler? Darei a ele sua informação."
Fiz-lhe o sinal que significa boca fechada.
― Não falarei a ninguém. Se Himmler não me receber,
morrerei com o meu segredo.
Stupnaggel pensou um pouco e disse:
"Está bem. Falará com ele. Mas, se imagina fugir ao
castigo com um golpe de mestre, está completamente
enganado."
Conto agora a história, como Corentin me contou.
Disse ele que a porta se abriu e Himmler apareceu. Voltava
de alguma festa, pois envergava o primeiro uniforme. As
condecorações de tantos governos faiscavam em seu peito e
os seus olhos pareciam de metal, atrás dos vidros dos óculos
sem aro.
― Fale.
― Excelentíssimo!
― Deixe de rapapés. Diga o que sabe. E depressa!
― Minha história não pode ser contada assim em três
palavras. Antes de tudo, desejo falar a sós com o ilustre
chefe.
― A sós?
― Dou muita importância a essa condição.
Himmler olhou significativamente para Stupnaggel e
outros altos oficiais nazistas. Estes compreenderam, pois se
retiraram da sala.
― Vamos agora aos seus mistérios.
Corentin deixou que uma pausa marcasse bem a
gravidade da revelação e disse:
― Os "maquis" vão assassiná-lo esta semana.
Himmler não sorriu quando Corentin lhe disse isto.
― Minha longa experiência a serviço dos nazistas ―
comentou ele para mim ― ensinou-me a conhecê-los nos
seus pontos mais fracos. Se eu tivesse dito: "Vão assassinar
Hitler", não teria dito muita coisa. Nenhuma vida vale tanto
para um líder nazista quanto a sua própria.
― Qual é a conspiração? ― disse Corentin que
Himmler lhe perguntou.
― O atentado será a dinamite.
― Os nomes dos conspiradores?
― Não tenho ainda.
― A origem da informação?
― Uma palestra de café.
Himmler pareceu descrente.
― Isto é muito problemático.
Corentin, então, resolveu lançar a segunda bomba:
― O local do atentado foi escolhido a dedo.
― Onde seria?
― Na casa de Giselle, na Rua du Bac.
Quando Corentin chegou a essa altura de seu
depoimento, saltei do lugar onde estava.
― Você teve coragem de dizer isto?
― Era minha única saída, Giselle.
― Logo a minha casa! Por que se lembrou de mim?
― Por saber que você já estava sob vigilância.
― Sabia que Himmler vem aqui?
― Tinha conhecimento de que ele freqüenta a sua casa
quase todas as noites...
Minha respiração era ofegante. Em que enrascada
aquele diabo me havia metido! Mas eu estava disposta a não
cair.
― Logo, logo, Himmler saberá que esse atentado é
uma farsa ― disse eu
Corentin tinha a sua certeza, entretanto:
― Não saberá.
― Claro que saberá! ― redargüi. ― Ele virá aqui e
não encontrará a morte que você predisse.
Vi, com terror, que se formava nos lábios de Corentin
aquele sorriso que tanta repugnância me causava.
Pausadamente, murmurou sua voz macia:
― Aí é que está o seu erro.
― Por quê?
― Por que haverá o atentado. .
― Aqui?!
― Sim. Haverá o atentado e haverá morte. Himmler
cairá.
― Na minha casa?
― Sim. Na sua casa.
― Posso saber quando?
― Esta noite.
― Quem são os terroristas?
― Não há muitos, Giselle. Só há um.
― Quem?
― Eu...
Aos poucos eu ia entendendo a terrível trama que
Corentin armara para salvar-se. Mas resolvi prosseguir no
inquérito.
― E a bomba?
― Já a ocultei em sua casa.
― Uma bomba de ação retardada?
― Exatamente. Dará tempo para que eu saia e me
ponha a salvo.
Para mim, havia um ponto falho em tudo que Corentin
havia planejado. Disse-lhe:
― Você só falhou num detalhe. É que eu posso sair
daqui com você.
― Não. Você não vai sair daqui.
― Quer dizer então que vai pedir-me para morrer com
Himmler e salvar a sua vida? Não pensou que eu posso
bater com os dentes assim que ele chegar aqui? Posso até
fazer isso antes. Basta que eu telefone para a Gestapo,
denuncie o que você acaba de me contar e tudo está salvo.
Você será encontrado onde quer que se esconda. Ou pensa
que eu não farei isso?
Corentin sorriu mais largo.
― Não, não fará nada disso ― assegurou. ― Você não
sairá daqui, não telefonará, não fará nada.
― Por quê, Corentin?
― Porque os mortos não falam, Giselle.
Havia assassínio nos seus olhos. Compreendi que
estava perdida. "Giselle", pensei comigo mesma, "dê tratos
à bola! Pense, Giselle! Somente a imaginação é que poderá
salva-la! Giselle, raciocine depressa!"
Corentin se ergueu. Tinha na mão uma pistola Mauser.
Nos seus olhos, um desejo evidente de apertar o gatilho. E a
idéia salvadora não me chegava. Lembrei-me de rezar a
oração que dizia em minha infância. Mas as palavras não
vinham. Levantei-me um pouco.
O "peignoir" de cetim que me envolvia escorregou sem
querer pelos meus ombros, deteve-se um pouco nos quadris
e caiu no chão. Diante de minha nudez, o movimento de
Corentin não teve curso. Ele me olhava com aquele mesmo
olhar de escravo sexual. Iria ceder?
Na mão de Corentin a pistola dançava.
― Ninguém vai saber de nada, Giselle ― disse ele.
― Pois atire!
Eu me havia aproximado bem do meu carrasco e o suor
que se formara entre os meus seios recendia misturado com
o odor de água-de-colônia. As narinas de Corentin se
inflaram.
― Não vai mais matar-me?
Corentin semicerrou os olhos e murmurou:
― Não se apresse. Temos ainda 45 minutos.
Perguntei a Corentin:
― Depois de matar-me, que é que você fará?
Corentin ria de uma maneira satânica.
― Depois? Ora... Depois farei desaparecer o corpo.
Falava de mim como se eu já fosse um cadáver.
― Aguardarei a chegada de Himmler. Mal ele apareça
na porta da frente, sairei pela porta dos fundos.
― Imagina que Himmler cairá nessa armadilha com
tanta facilidade? Ele não é ingênuo...
― Por que não, Giselle? Himmler não desconfia de
nada.
― Como não desconfia? Você já está esquecido,
Corentin, de que os nazistas sabem que você é um traidor?
― Eu? Traidor dos alemães? Himmler não pensa isso.
― E sua prisão?
― O motivo explícito é bem outro.
― Traição por dinheiro, não?
― Em absoluto: exagero na denúncia por interesse
pessoal.
Corentin olhava o relógio. Os minutos avançavam
rapidamente. Eu dava trabalho à mente para descobrir um
meio de evitar o gesto frio e impiedoso do colaboracionista.
Não encontrava.
"Deus meu!" ― rezei. ― "Dai-me uma idéia, apontai-
me o caminho, fazei com que ele não me mate!"
― Vem, Giselle ― disse Corentin, suavemente.
― Para onde?
― Para qualquer lugar. Aqui não é próprio para
assassinar uma senhora... A cor do sangue estragaria a
alvura do lençol.
Sua voz era tétrica ao dizer isto.
― O melhor que se tem a fazer é "trabalhar" na adega.
O sangue e o vinho se confundem.
Procurei ganhar tempo.
― Posso trocar de roupa?
Ele concordou, mas disse;
― Se é para seduzi-me com a maravilha de seu corpo,
já sabe que é trabalho perdido.
― Nada disso. Nem pensei nessa possibilidade.
Desnudei-me diante dos olhos de Corentin, olhos
alucinados, devorando minha carne. Olhos decididos,
― Estou pronta ― disse. ― Vestirei apenas um "robe-
de-chambre".
― Para quem vai morrer é roupa até demais.
Apanhei no guarda-casaco um extravagante robe feito
de gaze. Fui abrindo caminho. Corentin, o fanático, vinha
depois, sempre com a arma na mão.
― Para que, diabo, carrega este revólver? ― estrilei.
Corentin guardou a arma. Na adega, abaixei um pouco
a cabeça para poder passar. O monstro, acompanhando-me
sempre, jogou o pesado fardo de seu corpo em cima de um
barril de vinho.
Chegamos ao fim, Giselle. Lamento muito, mas não
posso deixá-la viva, testemunha que é do meu crime.
― Um crime que ainda não cometeu, não é?
― Não posso evitá-lo.
― Cumpra-se a sua vontade. Estou preparada.
No instante em que Corentin preparava a pistola para
atirar, veio um ruído lá de cima da casa.
― Quem será? ― assustou-se ele.
― Deve ser alguma pequena ― disse eu, lembrando-
me que, de fato, ficara de ser procurada, nessa hora, por
uma menina chamada Bárbara vinda da Provença.
― Grite que venha para a adega ― ordenou Corentin.
― Não faço isto. Se ela vier para cá você terá de matá-
la.
― De qualquer maneira, ela não escapa.
― Bárbara! ― chamei.
― Dona Giselle? ― respondeu a vozinha. ― Onde
está?
― Aqui! Na adega!
Ela chegou. Linda, morena, os cabelos descendo pelos
ombros, olhos negros e grandes, lábios cheios, apetitosos. O
busto ereto, as curvas dos quadris, a cintura fina, pareciam
obras talhadas com exemplar cuidado pelos artífices
divinos. Bárbara se assustou ao ver Corentin. Feitas as
apresentações, ela se sentou numa banqueta e ficou à espera
de que alguém lhe explicasse o que se estava passando.
― Não acha que faz calor aqui dentro? ― perguntou
Corentin.
― Calor? ― respondeu Bárbara. ― Sim. Acho que
sim.
― Por que não tira a roupa, então?
― Eu? O senhor está doido?
― Giselle não está quase despida?
― Ela gosta de andar assim. Eu não.
― Pois eu prefiro que você a imite.
― Não faço isso.
― Não? ― Corentin tinha a arma na mão. ― Acho
que você se arrependeria...
Resolvi interferir:
― Obedeça-lhe, Bárbara.
Automaticamente, Bárbara começou a despir-se. As
peças foram caindo aos seus pés. Quando ficou nua,
absolutamente nua, compreendi que a única saída para a
vida estava aberta. Bárbara era algo de maravilhoso. O
corpo esguio, as coxas bem torneadas, uns seios cheios de
solene beleza, o ventre levemente ondulado e a doce curva
das pernas arrasaram o pobre Corentin. Ele se esquecia das
horas. Bastaria que a linda Bárbara o mantivesse sob esse
domínio do sexo para que o animal dentro dele o traísse.
Subitamente, se interessou por um pequeno sinal que a
moça possuía um pouco acima do baixo ventre.
― É o sinal de uma operação?
― É sim ― confirmou Bárbara.
― Operação de quê?
― Apendicite.
― Também é só. Quanto ao resto, você é perfeita.
Bárbara voltou-se para mim. Eu podia notar que
Corentin devorava a menina com os olhos. Minha esperança
de que a intervenção providencial de Bárbara se faria no
momento exato aumentou ainda mais.
― Giselle!
― Fale, Corentin .
― Explique a essa moça o que se passa.
― Por que você não explica?
― Prefiro que você o faça. Estou meio chocado com
este quadro.
O quadro a que Corentin se referia era Bárbara, tímida
e envergonhada, retraída a um canto da adega, as mãos no
peito com o eterno gesto de pudor. Do corpo até parecia sair
uma luz.
Clara e pura era a pele da jovem.
― Bárbara ― falei ― esse homem é um assassino
miserável. Trouxe-me aqui para matar-me. Você apareceu
em má hora e ele vai fazer o mesmo com você.
Corentin não tirava os olhos de cima dela. Os minutos
se passavam sem que ele percebesse. Estava mesmo na hora
em que Himmler deveria aparecer na sala de minha casa.
Desde os meus primeiros encontros amorosos com o líder
nazista, ele trazia uma das tais chaves que eu distribuía
entre os oficiais nazistas. Passara a entrar sem aviso, Agora,
pela primeira vez eu rezava para que ele não demorasse.
Corentin se levantou e chegou perto de Bárbara. A pobre
menina tremia. Tocou com os dedos, levemente, a
superfície daquele corpo que o esmagava. Em seguida,
correu-o, passando-lhe a mão pelo dorso. Fazia isso com a
mesma técnica de um escultor modelando a argila. De
repente, com violência extraordinária, puxou-a de encontro
ao peito, apertando-a e esmagando os seus lábios nos dela,
num beijo de louco. Bárbara pôde apenas soltar um gemido.
O miserável a tinha derrubado no chão.
Conclui na próxima edição...

© 1964 ― DAVID NASSER E A.S.GUEIROS