Você está na página 1de 2

1

A convicção inspiradora
Gabriel Perisse ** Autor do recém-publicado livro A Arte da Palavra (Editora Manole)

Não escrevemos a partir do vazio.

Escrevamos seja o que for, um poema ou um bilhete, um ensaio filosófico ou uma carta comercial, o leitor
quer conferir se diante de seus olhos há um texto que vale a pena ser lido.

Para que escrever um poema de amor? Para convencer-me de que estou amando?

Para que escrever um bilhete? Para forjar um álibi?

Para que escrever um ensaio filosófico? Para manipular outras mentes?

Para que escrever uma carta comercial? Para fazer comércio... apenas?

Tais perguntas são imprescindíveis. Precisamos experimentar a arte de escrever com a intensidade e com a
consciência de quem se entrega a uma tarefa valiosa. Perguntando-nos por que escrevemos, para que
escrevemos, e respondendo-nos, saberemos conferir uma razão de ser ao nosso texto e dar um texto à nossa
razão de ser!

Escrever por amor à vida, à vida em si e em suas facetas: vida afetiva, vida intelectual, vida profissional, vida
social. Escrever para saciar a sede de descobrir a própria personalidade, querendo melhorar como pessoa.
Escrever para satisfazer a necessidade vital de sentir-se vivo!

A busca de uma técnica pessoal, de um estilo pessoal na comunicação escrita, é conseqüência direta das
convicções que uma pessoa acolhe, convicções que se intensificam e se fortalecem quando colocadas em ato...
pelo ato de escrever.

Escrever sem superficialidade, sem


pretensão, sem arrogância ou falsa
humildade, sem medo e sem temeridade,
sem frescura. Escrever com criatividade,
sem esquecer que criatividade relacionada
com o bom humor, com o gosto musical,
com a nossa capacidade de interpretar os
próprios sonhos, de observarmos os detalhes
do que acontece ao nosso redor, de
olharmos com empatia para o rosto
diferente da pessoa que não fala a nossa
língua, não reza segundo o nosso credo e
não pensa conforme o nosso manual de
Ilustração: Palóinstruções.

No caminho da criação do estilo pessoal, entra em jogo a necessidade existencial de viver intensamente, de ir
em frente, de ir para o alto, de fazer desabrochar o que se é, de potenciar ao máximo a capacidade de
expressar-se, de, convictamente, afirmar os valores que nos valorizam.

Dessa convicção, dessa intensidade no viver é que provém a inspiração. É dessa convicção que provém um
texto cuja clareza é um gesto de educação para com o leitor. Clareza no texto e clareza nas convicções.
Clareza que ilumina.
2

A convicção inspiradora faz eclodir beleza e inteligência naquilo que escrevemos. A inspiração vem da
afirmação de nossas convicções, do exercício de mergulhar diariamente na linguagem. Vem do hábito de
batizar-nos diariamente na linguagem. A palavra batismo, em grego, é justamente isso: mergulho. Batizar-se é
mergulhar. Mergulhar na palavra que nos renova, que nos faz ser novos seres. Os seres que deveríamos ser
desde sempre. Seres que falam, que pensam, que escrevem.

Criar convicções supõe trabalho e paixão, esforço e sentimento, estudo e reflexão. Supõe desvestir-nos de
nossos preconceitos, de nossa vaidade intelectual, de nossas teimosias. E supõe entrar em contato íntimo com
as palavras. As convicções não vêm com um simples download via Internet. É preciso que haja todo um
trabalho de ir além de nós mesmos, de ir ao extremo de nossas possibilidades. João Cabral de Melo Neto diz
num poema que o escritor escreve no extremo de si mesmo. No extremo... até as últimas conseqüências.
Viver, e escrever com convicção, é isso: ir mais longe, querer mais, abandonar um comportamento de
indiferença, de resignação, e exigir mais de si mesmo.

Escrever é subir uma montanha interior, atingir novos patamares de consciência. O que nos permitirá fazer
descobertas textuais que estão, por assim dizer, aguardando por nós.

Escrever é subir. É fugir... para a realidade. E o papel de quem escreve é o de tornar seus leitores pessoas mais
lúcidas, mais bem-informadas.

Escrever é viver, com tudo.

http://www.berro.com.br/Html/Educacao/Educacao3.html

Você também pode gostar