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análise

Estadão e Folha publicam mais cartas de elogio


Levantamento mostra como os dois jornais editam a opinião dos leitores

Os dois grandes jornais de São Paulo, Folha e Estadão, publicaram em suas


seções clássicas de cartas, Painel do Leitor e Fórum dos Leitores, 521 cartas nas 30
edições do período de 24 de março a 22 de abril. A maioria elogiava os jornais, seus
jornalistas ou articulistas (33,7% das cartas na Folha, e 27,5% no Estado), mas, logo
abaixo, vinham as críticas, com a média equilibrada de 31% na Folha, e baixa de
13,7% no Estado.
A comparação seria imprópria se não se levasse em conta que o Estadão abre
mais espaço para os leitores que a Folha. Além da seção clássica, aberta a qualquer
assunto, o jornal publica o Fórum de Debates, em que dá o mote e incentiva o leitor
a dar a opinião (cerca de 210 cartas sobre assuntos como violência, educação,
governos paulista e federal, Previdência Social, etc.) e, no caderno Cidades, a seção
São Paulo Reclama, um Procon informal que encaminha queixas e cobra
providência de empresas privadas e serviços públicos. Até 22 de abril, São Paulo
Reclama publicou 5 453 cartas.
Há muitas cartas sobre outras cartas. As cartas sobre atualidades confundem-
se com as críticas e apoio velado aos serviços públicos e iniciativas ou omissões do
governo. O item Outros incluiu casos como os de perguntas sem resposta (“Até
quando seremos o país do futuro?”).
O Painel do Leitor da Folha, publicado na nobre página 3, como o Fórum dos
Leitores no Estado, é mais bem apresentado, com letras e visibilidade maiores, que
a seção do concorrente. A Folha é também o jornal que mais responde a críticas -
18, ou 6,7%, num total de 269, enquanto o Estadão, que publica menos críticas às
suas matérias, contestou 8 reclamações, ou 3,1%, que apareceram no total de 252
cartas publicadas.
O Estadão divulga periodicamente uma lista de leitores cujas cartas foram
desprezadas. No período, a lista citou aproximadamente 200 nomes, mas estava
incompleta. O jornalista Marco Nascimento escreveu em 27 de março protestando
contra a forma como seu nome apareceu numa reportagem, sua carta não foi
publicada nem figurou na lista de agradecimentos. O advogado José Carlos Graça
Wagner criticou um editorial sobre a última encíclica do papa João Paulo II e ficou
inédito. “Era uma crítica dura”, disse Graça. A Folha usa a seção de cartas para
fazer correções, prática que o Estadão ignora (leia à direita).
A menor carta no Estado (“Situação do Professor”, de Cidinha Pigani Costa, em
29 de março), e na Folha (“Pérsio Arida”, de Hely Heck, em 30 de março), tinha duas
linhas. As maiores revelam as idiossincrasias dos jornais. A Folha, que gosta de
polêmicas nas artes, deu 72 linhas, em 5 de abril ( “Teatro em quadrinhos”), para
Beth Lopes e Luiz Cabral desancarem o jornal pela notícia de que o diretor Gerald
Thomas descobrira os heróis dos quadrinhos e o western como tendência teatral. E
o Estadão, que gosta do governo Fernando Henrique Cardoso, deu 117 linhas ao
ministro Reinold Stephanes (“Ministro contesta”) para rebater o artigo “Lorotas do
desmanche da Previdência”. O jornal também deu destaque, a ponto de publicar fora
da seção tradicional, a uma carta do ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes
contestando notícias de que manipulou números da balança comercial. A
curiosidade do levantamento também ficou por conta do Estadão: enquanto duas
centenas de leitores tiveram suas cartas recusadas, O. C. Serrano, de São Paulo,
publicou quatro, com sutis críticas ao governo e elogios a um artigo de Frei Betto
sobre Cuba.

Correção de erros distingue os jornais

 Não existe praia em Ibiúna, que, como se sabe, é cidade mediterrânea; não
foram 22% e sim 4% os entrevistados que almoçaram lasanha no domingo; foi Noé,
e não Jó, quem construiu a Arca de Noé...Diariamente, os leitores da Folha de S.
Paulo podem conferir na seção Erramos, em baixo do Painel do Leitor,
impropriedades impressas pelo jornal em edições anteriores. A Folha se expõe como
o único grande jornal brasileiro que corrige erros graves e banais , como os citados
acima, e uma infinidade de datas, porcentagens e até gols trocados em títulos e
matérias. De 24 de março a 22 de abril, Erramos publicou 108 correções.
O pente fino que a Folha faz diariamente em suas edições, realizado por uma
equipe específica e colaboradores como o ombudsman Marcelo Leite e os leitores,
às vezes é motivo de piada, quando deveria ser imitado. Seu maior concorrente, o
Estadão, fez, no mesmo período de 30 dias, apenas cinco correções ostensivas -
uma delas nas palavras cruzadas, outra sobre o autor de uma ilustração.... 
A anedota é que o Estadão não corrige porque não erra. Uma leitura superficial
detectou, no entanto, erros não admitidos: o presidente da Fundação Palmares
chama-se Joel e não Jair Rufino dos Santos (dia 15/4); 42,1% de 3719 são 1565 e
não 1158 (6/4) ; e subversões ortográficas como a do título do editorial “A hora e a
vez dos sociais-liberais” (o certo é social-liberais). Em 6 de abril o Estadão chamou
açaí de sopa, que é o mesmo que definir chimarrão como caldo de mate. No dia 11,
o leitor podia escolher, nas páginas A14 e B24, qual foi, em 1994, o prejuízo da
empresa que administra o Eurotúnel: além de publicar a matéria em duas editorias, o
jornal ofereceu dois números distintos, US$ 750 milhões numa página e US$ 622
milhões na outra.

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Boletim nº 2, Abril de 1995
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