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OS

JARDINS DA MEMÓRIA

ORHAN PAMUK

Tradução Miguel Serras


EDITORIAL PRESENÇA

FICHA TÉCNICA
Título original: Kara Kitap
Autor: Orhan Pamuk
Copyright © Can Yayinlari Ltd., 1990

Todos os direitos reservados
Tradução © Editorial Presença, Lisboa, 2002

Tradução: Miguel Serras Pereira
Capa: Catarina Sequeira Gaeiras
Composição, impressão e acabamento: Multitipo — Artes Gráficas, Lda.

1.a Edição, Lisboa, Junho, 2004

2.a edição, Lisboa, Outubro, 2006

3.a edição, Lisboa, Outubro, 2006

Reservados todos os direitos
para Portugal à
EDITORIAL PRESENÇA
Estrada das Palmeiras, 59
Queluz de Baixo
Digitalização e Arranjo: Agostinho Costa















“Segundo Ibn Arabí, que afirma tratar-se de um facto verídico, um dos seus
amigos, que era um dervixe abdalita, foi içado até aos céus pelos espíritos,
atingiu o Monte Kaf que cerca o universo e verificou que essa montanha estava,
ela própria, cercada por uma serpente. Sabe-se hoje que não há montanha que
cerque o universo, como também não há serpente que cerque tal montanha.”

Enciclopédia do Islão

PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO I

A PRIMEIRA VEZ QUE GALIP VIU RUYA
“Não useis a epígrafe, porque mata o mistério da obra!”
Adli

“Se assim deve perecer, só tens de matar o segredo e também o falso profeta
que vende o segredo!”
Bathi


Na penumbra tépida e doce, coberta pelo edredão aos quadrados azuis, com
as suas cristas, as suas ravinas sombrias e as suas colinas de um azul delicado,
que se estendia até à extremidade da cama, Ruya dormia ainda, deitada sobre o
ventre. Lá fora, erguiam-se os primeiros ruídos de uma manhã de Inverno: raros
automóveis, alguns autocarros, o barulho dos bidões de cobre com que o
vendedor de salep, combinado com o vendedor de bolinhos de carne, enchia
estrepitosamente o passeio, e os silvos do apito do guarda encarregado de
assegurar o bom funcionamento dos táxis colectivos. No interior do quarto, a luz
de Inverno de um cinzento de chumbo tornava-se ainda mais pálida ao atravessar
as cortinas de um azul-marinho. Galip, que ainda não tinha emergido do sono,
olhou de relance a mulher, cuja cabeça irrompia do edredão azul. O queixo de
Ruya afundava-se na almofada de penas. A maneira como debruçava a cabeça
tinha qualquer coisa de irreal, que despertava em Galip curiosidade por todas as
coisas maravilhosas que nesse mesmo instante se produziam no cérebro dela, e
medo também. “A memória é um jardim”, escrevera Djélâl numa das suas
crónicas. “Os jardins de Ruya, os jardins dela...”, dissera então Galip para
consigo. “Não penses nisso, acima de tudo não penses nisso, o teu ciúme seria de
mais!” Mas Galip foi nisso que pensou, enquanto contemplava a fronte da
mulher.
Teria querido tanto errar agora debaixo do sol, entre as trepadeiras de rosas,
as acácias e os salgueiros do jardim secreto, com as portas tão cuidadosamente
fechadas, de Ruya, mergulhada na serenidade do sono. E, contudo, sentia um
medo envergonhado dos rostos que corria o risco de lá encontrar: olha, também
aqui estavas, também tu, viva! O receio de lá encontrar, com tanta curiosidade
como tristeza, silhuetas masculinas que não esperava encontrar: desculpe, meu
caro amigo, onde é que conheceu, então, a minha mulher, onde foi que se
encontraram? Em sua casa, há três anos, numa revista de modas estrangeira
comprada na loja de Alâaddine, ou no edifício da escola onde andavam os dois,
ou à entrada de uma sala de cinema, onde estavam os dois de mãos dadas... Mas
não, a memória de Ruya talvez não fosse assim tão apinhada e tão implacável;
talvez no único recanto com sol do sombrio jardim das suas recordações,
estivesse a passear de barco com ele, Galip.
Tinham tido os dois papeira ao mesmo tempo, seis meses depois da
instalação da família de Ruya em Istambul. Nesse tempo, alternadamente, a mãe
de Galip ou a de Ruya, a muito bela tia Suzan, e por vezes as duas em
simultâneo, levavam as duas crianças a passear de barco em Tarabya ou em
Bebek, depois de um longo percurso em autocarros aos solavancos pelas estradas
empedradas. Nesses anos, eram os micróbios que eram célebres e não os
medicamentos: toda a gente pensava que, no tocante à papeira, o ar puro do
Bósforo era o melhor dos remédios. O mar de manhã era calmo, a barca branca,
o barqueiro, sempre o mesmo, amigável. As mães sentavam-se atrás, Ruya e
Galip instalavam-se na proa, semiescondidos pelo torso do barqueiro, que se
endireitava e curvava num movimento contínuo. Abaixo dos seus pés e dos seus
tornozelos frágeis, tão parecidos, que estendiam para o mar, as águas corriam
com lentidão, com as suas algas, as manchas de óleo com as cores do arco-íris,
as pedrinhas quase transparentes e os bocados de jornal ainda legíveis que
examinavam do alto da barca, à procura de um artigo de Djélâl.
A primeira vez que viu Ruya, seis meses antes da papeira, Galip estava
sentado num pequeno tamborete, instalado em cima da mesa da sala de jantar, e
o barbeiro estava a cortar-lhe o cabelo. Nesse tempo, o barbeiro, um tipo
alongado com um bigode à Douglas Fair-banks, vinha cinco vezes por semana
barbear o avô. Era a época em que as pessoas faziam bicha para comprar café,
em longas filas diante da torrefacção do Árabe e da loja de Alâaddine, a época
em que as meias de nylon se vendiam no mercado negro, em que os Chevrolet
modelo 56 se tornavam cada vez mais numerosos em Istambul, o ano em que
Galip entrara para a escola primária; lia já com extrema atenção os artigos de
Djélâl, que apareciam cinco vezes por semana, na página dois do Milliyet, sob o
pseudónimo de Sélime Katchmaz, fora a avó que lhe ensinara a ler e a escrever,
havia dois anos. Instalavam-se ao canto da mesa da sala de jantar, a avó
revelava-lhe, com a voz entrecortada por arquejos, o maior dos mistérios, a
maneira de ligar as letras umas às outras, depois soprava o fumo do seu cigarro
Bafra, que mantinha sempre apertado entre os lábios; o fumo fazia lacrimejar o
neto e, na página do abecedário, o cavalo animava-se tingindo-se de azul. Por
cima das letras CAVALO, que indicavam o animal de que se tratava, o cavalo do
abecedário parecia muito mais vigoroso que o do coxo que vendia água de
nascente ou do que as pilecas esqueléticas atreladas à carroça do vendedor de
roupa, esse malandro atestado. Nesse tempo, Galip sonhava entornar em cima da
imagem desse belo cavalo resplandecente de saúde uma poção mágica que lhe
desse a vida. Mais tarde, na escola, não lhe tinham permitido entrar directamente
para o curso elementar, tivera de aprender de novo a ler e a escrever, no mesmo
abecedário com o seu belo cavalo, e a sua ideia da poção mágica parecera-lhe
então idiota.
Mas nesse tempo, se o avô tivesse podido cumprir a sua promessa e obter-lhe
essa famosa poção contida numa garrafa cor de flor de romanzeira, Galip teria
querido tanto entorná-la por cima dos velhos exemplares poeirentos de
L'Ilustration, cheios de zepelins, de canhões e de cadáveres cobertos de lama da
Primeira Guerra Mundial, dos velhos postais enviados de Paris ou de Marrocos
pelo tio Mélih, ou da orangotango a amamentar a cria, cuja fotografia Vassif
descobrira no diário Dunya, ou ainda desses estranhos rostos que Djélâl
recortava dos jornais. Mas o avô já não saía, nem sequer para ir ao barbeiro, e
passava os dias em casa. Continuava todavia a vestir-se como no tempo em que
ia para o armazém: um velho casaco inglês com as lapelas muito grandes,
cinzento como a barba dele ao domingo, umas calças que lhe caíam por cima dos
sapatos, sem esquecer os botões de punho e a gravata de algodão perlado, “uma
gravata de funcionário”, como o pai dizia. Era uma palavra que a mãe
pronunciava “gravata” e não “guiravata” como toda a gente. Porque a família
dela fora outrora mais rica. Mais tarde, o pai e a mãe tinham-se habituado a falar
do avô como de uma dessas velhas casas de madeira que caíam em ruínas, mais
decrépitas de dia para dia; ao fim de um momento, acabavam por esquecer o
avô, e quando os dois subiam um pouco de tom, viravam-se para Galip: “Vamos,
vai brincar lá para cima.” “Vou de elevador?” “Ele não pode ir sozinho de
elevador!” “E sobretudo não vás de elevador sozinho!” “Posso ir brincar com o
Vassif?” “Não, ele ainda se zanga outra vez!”
Mas, para dizer a verdade, Vassif nunca se zangava. Era surdo-mudo. Nunca
se zangava quando me via a arrastar-me no soalho, para jogar à “passagem
secreta” e rastejar por baixo das camas, insinuar-me até ao fundo da gruta, até às
profundezas do poço que servia para arejar o prédio, com uma agilidade de gato,
a do soldado que atravessa o túnel que escavou até às trincheiras inimigas. Vassif
sabia bem que eu não fazia troça dele, mas todos os outros o ignoravam, excepto
Ruya, quando mais tarde chegou. Havia dias em que Vassif e eu
contemplávamos demoradamente os carris do eléctrico. Uma das janelas
salientes do prédio de betão dava para a mesquita, que ficava lá no fim do
mundo, a outra para o liceu das raparigas, o outro fim do mundo, com, entre um
e outro, o posto da polícia, o grande castanheiro e a loja de Alâaddine, sempre
tão animada como uma colmeia. Enquanto observávamos os clientes que
entravam e saíam, e apontávamos com o dedo os carros que passavam,
acontecia-me ser presa de um medo impensado quando Vassif, bruscamente
tomado pela emoção, emitia sons aterradores, arquejos de adormecido assediado
pelos assaltos do demónio no seu pesadelo. “O Vassif voltou a assustar o
miúdo”, dizia por trás de mim o meu avô, que ouvia rádio sentado na sua
poltrona coxa, diante da avó que não o escutava, ocupada que estava, como ele, a
chupar o seu cigarro. E, mais por hábito do que por curiosidade: “E então,
quantos carros contaram?”, perguntava depois o meu avô. Mas nem ele nem ela
concediam o menor interesse às informações que eu lhes fornecia sobre o
número de Dodge, de Packard, de De Soto ou de novos Chevrolet.
O avô e a avó passavam os dias a tagarelar sem descanso, enquanto ouviam
música, tanto alia franga como alia turca, as notícias, a publicidade feita aos
bancos, às águas de colónia ou às lotarias, despejadas pelo aparelho, sempre
ligado, e em cima do qual dormia um cão de porcelana com uma pelagem muito
farta, um ar sereno, em nada parecido com os cães turcos. Durante a maior parte
do tempo, queixavam-se do cigarro que tinham na mão, como de uma dor de
dentes a que temos de nos habituar uma vez que ela não nos dá tréguas,
atribuíam-se mutuamente a responsabilidade de continuarem a não ser capazes
de renunciar ao tabaco, e quando um deles começava a ficar estrangulado pela
tosse, o outro triunfava, assumindo primeiro um tom trocista e bonacheirão,
cheio de inquietação e de cólera depois.
Mas depressa, um dos dois zangava-se a valer. “Deixa-me em paz, por amor
de Deus, é o único prazer que me resta!”, era o que um ou outro dizia então.
“Aliás, faz muito bem aos nervos, foi o que li no jornal!”, acrescentava. E ambos
se calavam por um momento, mas esses silêncios que permitiam ouvir o
tiquetaque do relógio no corredor eram de pouca dura. Voltavam a pegar nos
jornais, que folheavam estrondosamente, e recomeçavam a falar, do mesmo
modo que falavam durante as partidas de besigue da tarde ou quando os outros
se lhes reuniam para irem para a mesa ou para ouvirem rádio; e depois de ter lido
o artigo de Djélâl no jornal: “Deviam permitir-lhe assinar os artigos com o nome
verdadeiro”, declarava o avô, “talvez isso lhe desse mais juízo!” “Na idade
dele!”, suspirava a avó. “Será porque não o autorizam a usar o seu nome
verdadeiro que escreve artigos tão maus, ou será por ele escrever assim que não
lho autorizam?”, acrescentava, com um ar vagamente intrigado, como se fosse a
primeira vez que se punha a questão, quando a formulava todos os dias. E o avô
então valia-se do argumento que alternadamente um e outro utilizavam para se
consolar: “Pelo menos”, dizia ele, “muito pouca gente é capaz de compreender
que é de nós que ele faz pouco!” “Ninguém pode sabê-lo”, replicava a avó num
tom que Galip adivinhava pouco convicto. “Ninguém pode afirmar que ele fala
de nós.” E o avô aludia então, de um modo vagamente afectado e com o cansaço
de um actor de segunda que repete a mesma réplica pela centésima vez, a um
desses artigos que Djélâl retomaria mais tarde — na época em que recebia
centenas de cartas dos seus leitores —, mal o modificando e assinando-o já com
o seu nome tornado célebre, porque a sua imaginação se esgotou, diriam uns;
porque a política e as mulheres não lhe deixam tempo para trabalhar, afirmariam
outros, ou ainda muito simplesmente por preguiça. “Esse artigo sobre os
apartamentos”, repetia o avô.
“Toda a gente sabe que o prédio em questão é o nosso, com mil diabos!” E a
avó então calava-se.
Nessa época, o avô começara já a falar do sonho que tantas vezes depois
teria. Como em todas as histórias que repisavam todo o dia, a avó e ele, havia
azul no sonho que o avô descrevia de tempos a tempos, com os olhos brilhantes
de emoção. E nesse sonho, os seus cabelos e a sua barba cresciam muito
depressa, porque caía sem parar uma chuva azul-marinho. Depois de ter
escutado pacientemente todos os pormenores do sonho: “O barbeiro vai chegar
de um momento para o outro”, dizia a avó. Mas o avô não ficava contente ao
ouvir falar do barbeiro: “É tão falador, está sempre a fazer perguntas!”, dizia ele.
E Galip ouviu-o uma ou duas vezes, depois de se falar do seu sonho e do
barbeiro, murmurar com uma voz que perdia o vigor: “Devíamos ter mandado
construir noutro lado. Este prédio dá-nos azar.”
Muito mais tarde, depois de a família ter deixado o prédio o “Coração da
Cidade”, após tê-lo vendido andar por andar, e de nele se terem instalado
pequenas oficinas de confecção, consultórios ginecológicos que praticavam
abortos discretos e escritórios de seguradoras, como aconteceu em todos os
prédios do bairro, sempre que passava diante da loja de Alâaddine, Galip lançava
um olhar à fachada, tão feia e tão sombria, e perguntava-se porque teria o avô
falado de azar. Mas já na época em que o ouvira dizer essas palavras, Galip
adivinhava que o avô, a quem, interrogando-o mais por hábito do que por
curiosidade, o barbeiro perguntava em todas as sessões: “Quando é que, então, o
seu filho mais velho volta de África, senhor?”, não apreciava o tema: tendo-lhe
tomado anos, o regressso do tio Mélih da Europa e de África a Izmir primeiro, a
Istambul depois, a maior das pouca-sortes, para o velho, fora a partida, um belo
dia, do filho para o estrangeiro, abandonando a mulher e o filho, e o seu
regresso, anos mais tarde, com a sua segunda mulher e a sua filha (Ruya).
O tio Mélih estava ainda na Turquia quando empreenderam a construção do
prédio. Fora Djélâl quem o contara a Galip: tendo compreendido que lhes era
impossível rivalizar com as sucursais e os lokoums da casa Hadji Békir, e na
esperança de venderem melhor os frascos de compotas de marmelo, de figo e de
ginja que a avó alinhava nas prateleiras, a família transformara o armazém de
Sirkedji em pastelaria, e depois em restaurante. E o tio Mélih, que ainda não
entrara na casa dos trinta, deixava ao fim da tarde o seu escritório de advogado
onde passava mais tempo a discutir com os clientes do que a tratar dos seus
assuntos, entre as suas velhas pastas de cartão cujas capas enegrecia de desenhos
de navios e de ilhas desertas; apressava-se em direcção a Nichantache, o local
das obras, para aí se reunir ao pai e aos irmãos, que vinham, pelo seu lado, da
Farmácia Branca em Karakeuy, desembaraçava-se do casaco e da gravata,
arregaçava as mangas e deitava mãos à obra para insuflar coragem aos pedreiros
cuja energia enfraquecia com o entardecer. Foi na mesma época que o tio Mélih
começou a fazer alusões à necessidade de enviar um dos membros da família
para o estrangeiro, a fim de aí aprender a confeitaria ocidental, encomendar
papel de prata para as castanhas doces, se associar com franceses para criar uma
manufactura de sabonetes de espuma de cores diversas; de comprar barato um
piano de cauda para a tia Hâlé, e máquinas às firmas que então faliam umas atrás
das outras na Europa e nos Estados Unidos, como que atingidas por uma
estranha epidemia, e além disso fazer observar Vassif por um bom especialista
do cérebro e dos ouvidos, em França ou na Alemanha. Quando o tio Mélih e
Vassif partiram dois anos mais tarde para Marselha, a bordo de um navio romeno
(o Tristaná), cuja fotografia Galip descobriu numa das numerosas caixas de
perfume de água-de-rosas da avó, e de cujo naufrágio, motivado por uma mina
no Mar Negro, Djélâl ficou a saber oito anos mais tarde e por meio de um dos
recortes de jornais coleccionados por Vassif, o prédio estava concluído, mas a
família ainda não se instalara lá. Passado um ano, quando Vassif chegou, sozinho
e de comboio, à gare de Sirkedji, continuava surdo-mudo (“Evidentemente!”,
dizia a tia Hâlé, sempre que se voltava ao assunto e num tom cuja razão e cujo
mistério Galip só pôde elucidar anos mais tarde), e apertava contra o peito um
aquário cheio de peixes japoneses, em quantidade suficiente para preencher a
vida dos seus trisnetos; durante os primeiros dias, não se separou do aquário um
instante; contemplava-o, com a respiração entrecortada, sob o efeito da emoção,
por vezes com melancolia, os olhos cheios de lágrimas. Nessa época, Djélâl e a
mãe moravam no terceiro andar, vendido posteriormente a um arménio, mas
como era preciso mandar dinheiro ao tio Mélih, para lhe permitir adiantar as suas
investigações comerciais nas ruas de Paris, tinham arrendado o seu próprio
apartamento e tinham-se instalado no alto do prédio, no pequeno sótão
transformado em estúdio. Quando começaram a espaçar-se os envios de receitas
de pastelaria e de bolos, as fórmulas de fabrico de sabonetes e águas de colónia,
as cartas cheias de fotografias de artistas ou de bailarinas que comiam esses
doces e usavam esses produtos de beleza, os pacotes de amostras de pasta
dentífrica men-tolada, de castanhas doces, de bonbons de licor, os capacetes de
bombeiro ou boinas de marujo para crianças, a mãe de Djélâl perguntou a si
própria se não deveria voltar para casa dos pais. Mas para que se decidisse a
deixar o prédio levando o filho consigo e se fosse instalar no bairro de Aksaray,
na casa de madeira dos seus pais — o pai dela era um pequeno funcionário nos
Vakifs —, foi necessária a explosão da Segunda Guerra Mundial, e logo a seguir
a chegada de um postal castanho e branco, onde se podiam ver uma estranha
mesquita e um avião em pleno voo, que o tio Mélih lhes enviou de Bingazi,
anunciando-lhes que todas as vias de regresso estavam minadas. De Marrocos,
para onde se encaminhou depois da guerra, o tio Mélih enviou-lhes também
muitos outros postais a preto e branco. Foi ainda por meio de um postal, colorido
à mão, na circunstância, e que representava um hotel de estilo colonial — o
mesmo que serviria mais tarde de cenário a um filme americano em que espiões
e traficantes de armas se apaixonavam por raparigas dos bares — que o avô e a
avó souberam que o filho se tinha voltado a casar com uma jovem turca, que
conhecera em Marráquexe, que a nova nora deles era descendente da família do
Profeta, portanto uma Seyydé, além de extremamente bela.
Muito mais tarde, Galip divertiu-se a identificar as bandeiras que se
desfraldavam no segundo piso do hotel no postal, e muito mais tarde ainda,
decidiu um dia que fora num dos quartos desse prédio, que parecia um bolo de
creme, que Ruya “fora concebida”, como ele disse de si para si, servindo-se do
estilo das histórias que Djélâl publicava sob o título Os Bandidos de Beyoglou.
Seis meses depois, chegou-lhes um postal de Izmir: de começo recusaram-se a
acreditar que lhes fora endereçado pelo tio Mélih, persuadidos como estavam
todos de que ele nunca regressaria à Turquia. Corriam já boatos: o tio Mélih e a
sua nova mulher tinham-se convertido ao cristianismo, tinham-se reunido a um
grupo de missionários para se dirigirem ao Quénia e lá construírem, num vale
onde os leões caçavam antílopes com três cornos, a igreja de uma seita que
venerava Cristo e o Crescente. Mas segundo as informações fornecidas por uma
pessoa tão curiosa como segura da veracidade do seu testemunho, e que
afirmava conhecer em Izmir a família da nova nora, o tio Mélih estava prestes a
tornar-se milionário, graças aos negócios duvidosos (tráfico de armas, corrupção
de um soberano, etc.) que empreendera no Norte de África durante a guerra; mas
incapaz de fazer frente aos caprichos da sua esposa — já célebre pela sua beleza
—, aceitara segui-la até Hollywood, para ela se poder tornar aí uma estrela, e as
suas fotografias apareciam já nas revistas ilustradas francesas e árabes. Enquanto
no postal que passou de mão em mão durante semanas e de andar em andar,
maltratado à força de ser raspado aqui e ali com a unha, como acontece com as
notas de banco suspeitas de serem falsas, e cuja autenticidade se quer verificar, o
tio Mélih lhes dava a notícia de que caíra doente à força de nostalgia do país e
que portanto tinham decidido regressar: “Agora, estamos bem”, dizia ele. Geria,
“com uma concepção mais nova, verdadeiramente moderna”, os negócios do seu
sogro, comerciante de figos e tabacos em Izmir. O postal que lhes enviou um
pouco mais tarde vinha redigido num estilo arrebicado, “tão emaranhado como
os cabelos de um negro”, diziam eles. Suscitou comentários que diferiam de um
andar para outro do prédio, dados os problemas de partilhas que, no futuro
poderiam arrastar a família para uma guerra silenciosa. Quando Galip o leu,
muito mais tarde, apercebeu-se de que o tio Mélip exprimia, numa linguagem
que, para dizer a verdade, não era assim tão confusa, o seu desejo de voltar em
breve a instalar-se em Istambul e anunciava-lhes o nascimento da sua filha, cujo
nome ainda não tinha escolhido, acrescentava.
Guya tinha descoberto o nome de Ruya, pela primeira vez, num daqueles
postais que a avó prendia na moldura do espelho que se encontrava pendurado
por cima do aparador onde se guardava o serviço de licores.
Entre essas imagens de igrejas, de pontes, de praias, de torres, de barcos, de
mesquitas, de desertos, de pirâmides, de hotéis, de parques e de animais, que
cercavam o espelho como um segundo quadro e que de vez em quando
suscitavam a cólera do avô, alguém tinha introduzido fotografias de Ruya bebé
e, depois, já mais crescidinha. Nesse tempo Gallip interessava-se bastante menos
pela filha do seu tio (a sua comine: actualmente utilizava-se o termo francês),
que ele sabia ter precisamente a sua idade, do que pela gruta, assustadoramente
grande e propícia aos devaneios, do mosquiteiro silencioso sob o qual Ruya
dormia, e do que pela sua tia Suzan, a descendente do Profeta, a qual, fixando a
câmara com um olhar melancólico, entreabria o mosquiteiro para mostrar a filha,
lá no fundo daquela caverna a preto e branco. Todos, as mulheres tanto como os
homens, só muito mais tarde compreenderam que aquilo que os tinha
mergulhado num silêncio sonhador, na altura em que as fotografias passaram de
mão em mão lá no prédio, era na realidade a beleza daquela mulher. Mas nesse
tempo limitavam-se a discutir sobre a data em que chegariam o tio Mélih, a
mulher e a filha, ou em que andar iriam instalar-se. A mãe de Djélâl, que se tinha
casado com um advogado, tinha morrido, jovem ainda, devido a uma doença
diagnosticada de modo diferente por cada um dos médicos que tinha consultado.
E Djélâl, que de resto já não queria viver na casa de Aksaray, invadida pelas
teias de aranha, tinha cedido às solicitações prementes da avó e voltara ao
prédio, onde se instalara no pequeno apartamento das águas-furtadas. Tinha
começado por fazer os relatos dos jogos de futebol — onde rapidamente
detectava os odores de tabaco mascado —, para o jornal que viria a publicar os
seus primeiros artigos, que ele assinava com pseudónimo —; aí redigia,
embelezando-as, as notícias dos crimes tão astuciosos como misteriosos
cometidos pelos maus rapazes dos bares, das boites e dos bordéis das ruelas de
Beyoglou; compunha problemas de palavras cruzadas em que as casas pretas
eram sempre mais do que as brancas, retomava, conforme as necessidades, o
folhetim do especialista das modalidades de luta, nos dias em que não tivesse
conseguido emergir das bebedeiras de ópio que misturava no vinho; e
eventualmente redigia colunas intituladas “A Sua Personalidade Revelada pela
Sua Caligrafia”, “A Chave dos Sonhos”, “O Carácter Reflectido no Rosto”
ou ainda “Consulte o Seu Horóscopo para Hoje”. Foi nessas pequenas
crónicas que começou a enviar saudações aos membros da sua família, aos seus
companheiros, às amiguinhas, ao que se dizia. Encarregado, além disso, da
crónica “É incrível mas é verdade”, consagrava o restante tempo à crítica dos
novos filmes americanos aos quais tinha gratuitamente acesso.
Dizia-se até que estas inumeráveis actividades em breve lhe permitiriam
constituir família.
Mais tarde, quando verificou um belo dia que o velho empedrado da linha de
eléctrico tinha sido coberto por uma banal camada de asfalto, Galip dissera para
consigo que aquilo a que o avô chamava azar se ligava à estranha promiscuidade
e à falta de espaço que reinavam no prédio, a certo segredo tão vago como
aterrador. Na noite em que o tio Mélih desembarcara em Istambul, com a mulher
e a filha tão belas, e com os sacos de viagem e as malas, viera muito
naturalmente instalar-se no estúdio de Djélâl, como que para manifestar a sua
cólera perante o pouco caso que a família fizera dos seus postais.
Na véspera da manhã de Primavera em que chegou atrasado à escola, Galip
tivera um estranho sonho: estava num autocarro municipal que se afastava da
escola onde ele devia nesse dia reler as últimas páginas do seu abecedário, e
encontrava-se na companhia de uma linda rapariga de olhos azuis que não
conseguia identificar. E ao despertar, descobriu que não era o único a estar
atrasado: o pai, também ele, não fora trabalhar. Sentados diante da mesa do
pequeno-almoço que os raios de sol só tocavam uma hora por dia, coberta de
uma toalha parecida com um tabuleiro de xadrez azul e branco, a mãe e o pai
falavam com indiferença dos novos ocupantes do sótão, chegados durante a
noite, como teriam falado das ratazanas que haviam invadido o poço de
ventilação do prédio ou de histórias de fantasmas ou dos espíritos da criada,
Esma hanim. Galip, pelo seu lado, recusava-se a perguntar a si próprio porque
acordara tão tarde, porque tinha vergonha de ir à escola por estar atrasado;
também não queria interrogar-se sobre as pessoas que se encontravam agora no
antigo sótão. Subiu até ao andar dos avós, onde nada mudava nunca, onde tudo
se repetia sempre, mas o barbeiro fazia já a sua pergunta, enquanto barbeava o
avô, que não parecia nada satisfeito. Os postais do espelho estavam dispersos,
viam-se aqui e ali objectos estranhos, desconhecidos, e reinava na sala um cheiro
novo, ao qual ele iria apegar-se tanto.
De súbito preso de uma vaga náusea, experimentou medo e curiosidade:
como eram os países bicolores que os postais representavam? E a tia, que nas
fotografias parecia tão bela?
Tivera bruscamente vontade de crescer e de ser um homem! Quando
anunciou que queria que lhe cortassem o cabelo, a avó ficou encantada. Mas,
como todos os tagarelas, o barbeiro não compreendia nada de nada. Não o
instalou na poltrona do avô, mas num pequeno tamborete, que pôs em cima da
mesa. E além disso, a grande toalha branca e azul que usara para barbear o avô e
que prendeu à volta do pescoço da criança era demasiado grande; não só lhe
apertava a garganta asfixiando-o como lhe caía até abaixo dos joelhos, como, a
saia de uma rapariga.
Muito mais tarde, muito depois do seu casamento, que tivera lugar, segundo
os cálculos de Galip, dezanove anos, dezanove meses e dezanove dias após o
primeiro encontro, certas manhãs, quando via a cabeça da sua mulher afundada
na almofada, dizia para consigo que o azul do edredão que cobria Ruya
provocava nele o mesmo mal-estar que o azul da toalha que o barbeiro tirara do
pescoço do avô para a prender no dele; mas nunca o dissera à mulher, talvez por
saber que Ruya não mudaria as forras do edredão por um tão vago motivo.
Galip disse de si para si que o jornal fora sem dúvida enfiado por baixo da
porta, levantou-se cautelosamente, habituado que estava a medir cada um dos
seus gestos, mas os passos não o conduziram até à porta; dirigiu-se para a casa
de banho, e depois para a cozinha. A cafeteira não estava lá e ele descobriu o
bule na sala de estar. O cinzeiro de cobre estava cheio de beatas, o que
significava que Ruya passara a noite a ler um novo policial — ou talvez não. A
cafeteira estava na casa de banho. Uma vez que a pressão da água era
insuficiente, viam-se muitas vezes na impossibilidade de utilizar esse aparelho
aterrador chamado chauffe-bain(1) e tinham então de aquecer a água na
cafeteira, porque continuavam sem ter ainda comprado outro recipiente. Antes
de fazerem amor, tinham por vezes de pôr a cafeteira ao lume, discretamente,
com impaciência, como haviam feito outrora os seus avós, e também os seus
pais.
Durante uma das suas sempiternas discussões que começavam sempre pelas
mesmas palavras: “Devias desistir de fumar!”, a avó acusara o avô de nunca,
mas nunca, se ter levantado antes dela. Vassif observava-os. Galip ouvia-os,
perguntando-se o que quereria ela dizer. Mais tarde, Djélâl escrevera qualquer
coisa a esse respeito, mas não no sentido em que a avó o entendia: “Não se trata
apenas de não esperar que os raios de sol toquem a nossa cama, como aconselha
o ditado, ou de se estar a pé quando ainda está escuro; o princípio segundo o
qual a mulher deve sair da cama antes do homem tem origem numa longa
tradição camponesa”, dizia ele, depois de ter descrito aos seus leitores o ritual do
levantar dos avós, sem alterar demasiado os pormenores (a cinza do cigarro no
edredão, a escova de dentes e a dentadura no mesmo copo, e o modo de
percorrer com precipitação a página necrológica do jornal). Depois de ter lido a
conclusão dessa crónica: “Não sabia que éramos camponeses!”, exclamara a avó,
e o avô acrescentara: “Devíamos tê-lo feito comer lentilhas todos os dias ao
pequeno-almoço, para o fazermos perceber o que é ser-se camponês!”

*1. “Esquentador” em francês no original. (NT)

Depois de ter enxaguado chávenas, disposto pratos e talheres limpos, tirado
do frigorífico, que tresandava à pastirma, azeitonas e queijo fresco que parecia
feito de uma matéria plástica, e enquanto se barbeava com a água que aquecera
na cafeteira, Galip estudava a maneira de provocar um ruído que despertasse
Ruya, mas sem a descobrir. Bebeu o chá que não tivera tempo de deixar abrir,
comeu azeitonas com algumas fatias de pão duro, e enquanto percorria com os
olhos o jornal a cheirar ainda a tinta fresca que fora buscar debaixo da porta e
desdobrara em cima da mesa ao lado do prato, pensava numa coisa muito
diferente: dizia para consigo que podiam ir à noite a casa de Djélâl, ou ver um
filme ao Konak. Relanceou a crónica de Djélâl, decidiu que a leria à noite, ao
voltar do cinema, mas, como os seus olhos não se afastaram no mesmo instante,
acabou por ler uma das frases, depois levantou-se deixando o jornal aberto em
cima da mesa, vestiu o sobretudo, e preparava-se para sair quando voltou atrás.
Com as mãos nos bolsos cheios de tabaco, de trocos e de bilhetes velhos, ficou
um longo momento a contemplar a mulher, em silêncio, com atenção e respeito.
Depois saiu do apartamento fechando a porta devagarinho. As escadas, cuja
passadeira acabava de ser mudada, cheiravam a porcaria e a poeira molhada.
Cá fora, estava frio e escuro, e a lama e os fumos de carvão ou de fuel que
subiam das chaminés de Nichantache toldavam ainda mais a atmosfera.
Lançando à sua frente a pequena nuvem do seu bafo, avançou entre os
amontoados de lixo espalhados pelo passeio e tomou lugar na bicha, já
comprida, que se formara na paragem dos táxis colectivos.
No passeio fronteiro, um velho, que, à laia de protecção, trazia apenas um
casaco cuja gola levantara, hesitava entre os bolos de carne picada e os de
queijo, expostos no mostruário de um vendedor ambulante. Galip saiu
bruscamente da fila, dobrou a esquina da rua, pagou a um vendedor de jornais
que instalara o seu expositor à porta de um prédio, dobrou o Milliyet e meteu-o
debaixo do braço. Ouvira um dia Djélâl imitar ironicamente uma leitora de uma
certa idade: “Ah! Djélâl bey, gostamos tanto das suas crónicas, o meu marido e
eu, que chegamos às vezes, por impaciência, a comprar dois Milliyet no mesmo
dia!” Galip, e Ruya, e Djélâl riam-se sempre muito com estas imitações.
Espicaçado por uma chuva, de início leve e depois desagradável, conseguiu,
após algumas cotoveladas, entrar num táxi colectivo, e, uma vez na certeza de
que nenhum tema de conversa seria abordado no carro, que cheirava a pontas de
cigarro e a pano molhado, abriu e voltou a dobrar o jornal, com todo o cuidado e
prazer do verdadeiro maníaco, de modo a ter acesso ao canto da página dois,
lançou um olhar discreto pela janela e pôs-se a ler a crónica de Djélâl.


CAPÍTULO II

O DIA EM QUE SE RETIRARÃO AS ÁGUAS DO BÓSFORO

“Nada pode ser mais assombroso que a vida. Salvo a escrita.”
Ibn Zerhani


Repararam que as águas do Bósforo estão a retirar-se? Penso que não. Nestes
tempos em que nos matamos uns aos outros com o bom humor e o entusiasmo
de crianças que vão a uma feira de diversões, qual de entre nós consegue manter-
se ao corrente, através da leitura, do que se passa no mundo? As próprias
crónicas dos nossos jornalistas, não podemos mais que percorrê-las,
acotovelando-nos nas plataformas, nos autocarros apinhados onde caímos nos
braços dos nossos vizinhos, ou ainda nos bancos dos táxis colectivos, com as
letras a dançar diante dos nossos olhos. A notícia de que vos falo, descobria
numa revista de geologia francesa.
O Mar Negro está a aquecer, ao que parece, e o Mediterrâneo a arrefecer. Foi
por isso que as águas começaram a despejar-se para o interior de fossas
gigantescas, junto às plataformas continentais que cedem e se desdobram; e
devido aos mesmos movimentos tectónicos, o fundo dos estreitos de Gibraltar,
dos Dardanelos e do Bósforo começa a subir em direcção à superfície. Um dos
últimos pescadores das costas do Bósforo contou-me, de resto, que o seu barco
tocava no fundo em lugares onde, outrora, para lançar a sua âncora, tinha de se
servir de uma corrente com o comprimento de um minarete, e fez-me a seguinte
pergunta: então, o primeiro-ministro não se interessa pelo problema?
Não sei de todo. O que não ignoro, em contrapartida, são as consequências
próximas desta evolução, que parece cada vez mais rápida. É evidente que este
paraíso terrestre, a que se chamava o Bósforo, se vai transformar muito em breve
numa cloaca sombria, onde as carcaças dos galeões, cobertas de lama negra,
luzirão como dentes de fantasma. Não é difícil imaginar que o fundo do pântano
acabará por secar aqui e ali, como seca, devido a um Verão demasiado quente, o
leito de uma pequena ribeira que atravessa uma povoação modesta; e que, nos
taludes regados pelas cascatas dos milhares de esgotos que aí se entornam,
crescerão ervas, e até mesmo margaridas. Será o começo de uma vida nova,
nesse vale selvagem e profundo, dominado pela Torre de Leandro que, como
uma verdadeira fortaleza, se erguerá, impressionante, no topo de uma colina.
Quero falar dos novos bairros que começarão a edificar-se na lama desta
fossa, a que se chamava outrora o Bósforo, sob os olhos dos controladores da
municipalidade, correndo de um lado para o outro, com as suas notas de multa
na mão. Quero falar dos bairros de lata, dos abarracamentos, dos bares, salas de
dança nocturnas e outros locais de prazer, construídos com isto e aquilo,
lunaparks com os seus carrosséis de cavalos de pau, casas de jogo, mesquitas,
conventos de dervixes, ninhos de fracções marxistas, oficinas de peças de
cozinha em plástico, ou de meias de nylon... Neste caos apocalíptico, emergirão
as carcaças dos barcos, deitados de lado, da companhia das linhas municipais, e
campos de medusas e de cápsulas de garrafas de refrigerante. Lá se descobrirão
também os transatlânticos americanos, naufragados no último dia, esse dia em
que as águas bruscamente desapareceram, e, entre colunas jónicas, esverdeadas
de musgo, os esqueletos dos celtas e dos lícios, invocando, de boca aberta,
divindades pré-históricas desconhecidas. Posso igualmente imaginar que a
civilização que aparecerá no meio dos tesouros bizantinos atapetados de
mexilhões, das facas e dos garfos de prata ou de folha, dos tonéis de vinho
milenares, das garrafas de água com gás e das carcaças das galeras de nariz em
bico, poderá obter a energia necessária para alimentar as suas lareiras e as suas
lâmpadas antigas, graças a um velho petroleiro romeno com a hélice enterrada
no lixo. Mas o que devemos prever antes do mais são epidemias inteiramente
novas, provocadas pelos gases tóxicos que se escaparão em grandes bolhas do
solo pré-histórico e dos pântanos semi-secos, pelas carcaças de golfinhos, de
chernes e de espadartes, difundidas pelas hordas de ratazanas, que terão
descoberto um paraíso novo nesta maldita fossa, regada pelas cascatas de um
verde carregado dos esgotos de Istambul. Sei-o e aviso-vos: as calamidades que
se sucederão nesta zona em breve declarada insalubre, rodeada de arame farpado
e posta de quarentena, atingir-nos-ão a todos.
E doravante, do alto das varandas de onde contemplávamos outrora o luar
tingindo de prata as águas sedosas do Bósforo, observaremos os fumos azulados
que subirão dos cadáveres que será necessário queimar a toda a pressa, dada a
impossibilidade de os enterrar. Nos lugares onde bebíamos raki aspirando os
perfumes capitosos mas refrescantes das árvores da Judeia e da madressilva das
margens do Bósforo, o cheiro acre dos cadáveres em decomposição, misturado
ao dos bolores, queimar-nos-á a garganta. Nos cais onde se alinhavam os
pescadores à linha, já não será o murmúrio das águas nem o cantar dos pássaros
na Primavera, que asseguram serenidade à alma, que ouviremos, mas os uivos
dos indivíduos que, para salvarem a pele, se baterão uns com os outros com as
armas que arranjarem maneira de obter, espadas, punhais, sabres enferrujados,
pistolas, espingardas de toda a espécie, lançadas à água há milhares de anos, por
medo das buscas e perseguições.
Ao voltarem para casa ao anoitecer, os habitantes das aldeias da beira-mar já
não poderão abrir as janelas dos autocarros municipais para esquecerem o seu
cansaço aspirando o perfume das algas; pelo contrário, para impedirem a entrada
do cheiro do lodo e dos cadáveres em putrefacção, terão de calafetar com jornais
ou trapos as janelas dos autocarros municipais, de onde poderão ver o
espectáculo das trevas, lá em baixo, iluminadas pelas chamas. Dos cafés da
beira-mar onde encontramos os vendedores de barquilhos ou de balões
vermelhos, já não contemplaremos os fogos-de-artifício ou as luzes, mas os
clarões cor de sangue das minas que as crianças demasiado curiosas farão
explodir ao mexer-lhes.
Os caçadores de destroços, que ganham a vida apanhando as moedas
bizantinas ou as latas de conserva vazias trazidas pelas tempestades do vento do
Sul, passarão então a viver da recuperação de velhos moinhos de café de cobre,
dos relógios com os seus cucos esverdeados de musgo e dos pianos negros que
as inundações arrancavam outrora das casas de madeira que orlam as duas costas
e se acumulavam nas profundidades do Bósforo. E então, eu passarei uma noite
o arame farpado, e mergulharei neste novo inferno em busca de um Cadillac
preto.
O Cadillac preto do qual, há trinta anos, se vangloriava um jovem marginal
(não me atrevo a chamar-lhe um gangster) do bairro de Beyoglou, cujas
aventuras eu seguia quando era um jovem jornalista e me extasiava diante dos
dois panoramas que adornavam a entrada da sua casa de jogo. Os outros dois
Cadillac de Istambul eram os de Dagdelen, o milionário dos carris, e de Marouf,
o rei do tabaco. O nosso jovem marginal, cujas últimas horas relatámos num
folhetim que se prolongou por uma semana inteira, e do qual, nós jornalistas,
tínhamos feito um personagem lendário, ao ver-se perseguido pela polícia em
plena noite, mergulhara com o seu Cadillac na Ponta das Correntes, nas águas
negras do Bósforo, acompanhado pela amante; porque estava bêbado, disseram
uns; porque quisera perecer como o bandido que se lança com o seu cavalo do
alto de um precipício, afirmaram outros. Julgo ter identificado bem o local
exacto onde descobrirei o Cadillac preto, que os mergulhadores procuraram em
vão dias a fio, no fundo do Bósforo, em plena corrente submarina, e que os
jornalistas e leitores muito em breve esqueceriam.
E ele lá estará, bem no fundo deste novo vale, outrora conhecido pelo nome
de Bósforo, no ponto mais baixo de um abismo de lama, cheio de botas ou
sapatos desemparelhados, com sete séculos de antiguidade, onde os caranguejos
terão feito o seu ninho, e de ossadas de camelo, e de garrafas contendo cartas de
amor endereçadas a desconhecidas, para lá de declives cobertos de uma floresta
de esponjas e de mexilhões, onde cintilam diamantes, brincos, cápsulas de
garrafas e pulseiras de ouro; algures na areia atapetada de ostras ou de fusos,
regado de baldes e baldes de sangue das velhas pilecas ou dos burros abatidos
pelos talhantes clandestinos, muito perto de um laboratório de heroína, instalado
à pressa numa carcaça de chalupa.
E enquanto procurar o Cadillac no silêncio destas trevas perfumadas de
podridão, e no ruído das buzinas dos carros que se sucederão no asfalto da
estrada outrora chamada “caminho da beira-mar” e que apresentará então o
aspecto de uma estrada de montanha, tropeçarei nos esqueletos, com os pés
agrilhoados, de padres ortodoxos apertando contra o peito o crucifixo ou o
báculo, ou de conspiradores do serralho ainda dobrados em dois no interior dos
sacos onde os fecharam para os afogar nas águas. Quando vir fumos azulados
subirem do periscópio, transformado em chaminé de fogão, do submarino inglês
cuja hélice se prendeu em redes de pescadores e que naufragou diante do
Arsenal, depois de ter batido de frente nos rochedos cobertos de algas, quando
tentava torpedear o Guldjémal, carregado de tropas de partida para os
Dardanelos, adivinharei a casca desembaraçada dos esqueletos britânicos, com a
boca ainda aberta à procura de oxigénio, e imaginarei os nossos concidadãos,
muito à vontade no seu novo lar, directamente saído dos estaleiros de Liverpool,
a saborearem o seu chá da noite em serviços de porcelana chinesa, sentados nas
poltronas de veludo dos majores de outrora. No escuro, um pouco mais longe,
avistarei a âncora enferrujada de um dos couraçados do Kaiser Guilherme, e um
ecrã de televisão, de aparência nacarada, piscar-me-á o olho. Poderei ver os
restos de um tesouro genovês que escapou à pilhagem; um canhão de cano curto
entupido pela lama; ídolos ou ícones atapetados de mexilhões, outrora venerados
por povos ou Estados há muito desaparecidos; ou ainda as lâmpadas quebradas
de um lustre de latão, equilibrado sobre a ponta do nariz. Descendo até cada vez
mais baixo, avançando na lama entre os rochedos, poderei observar os
esqueletos dos forçados das galeras que espreitam ainda as estrelas,
pacientemente sentados nos seus bancos, amarrados aos seus remos. Um colar
pendurado num arbusto de algas. Talvez não preste muita atenção aos óculos ou
aos guarda-chuvas, mas com um olhar tão ansioso como atento, verei os
cavaleiros cruzados, ainda em cima das suas majestosas montadas, com as suas
couraças e os seus arneses. E só então me aperceberei de que os Cruzados,
carregados com as suas armas e os seus símbolos, montam guarda à volta do
Cadillac preto. A passo lento, com medo, com respeito também, como se
esperasse que os Cruzados mo permitissem, aproximar-me-ei do Cadillac preto,
levemente iluminado de vez em quando por um clarão fosforescente vindo de
não sei onde. Tentarei forçar os fechos das portas, mas o carro, inteiramente
coberto de mexilhões e de ouriços-do-mar, permanecer-me-á inacessível; os
vidros bloqueados, esverdeados, não cederão. Então tirarei da algibeira a minha
esferográfica e começarei a raspar de uma das janelas a ganga de algas de um
verde de amêndoa, lentamente, sem me apressar. E tarde na noite, à luz de um
fósforo, nessa penumbra aterradora, misteriosa, muito perto do fulgor metálico
do volante esplêndido, ainda tão cintilante como as couraças dos Cruzados, dos
quadros de bordo niquelados, dos mostradores e dos ponteiros, poderei distinguir
os esqueletos do gangster e da sua bem-amada, com os finos braços cheios de
braceletes e pulseiras, com os dedos cheios de anéis, ambos abraçados,
enlaçados um no outro, não só pelos maxilares, mas também pelos crânios
soldados num beijo sem fim.
E então, voltando sobre os meus passos e deixando de me servir dos
fósforos, regressarei na direcção das luzes da cidade; dir-me-ei que se trata da
mais bela maneira, no instante das piores catástrofes, de enfrentar a morte. E
dirigir-me-ei com tristeza a uma bem-amada longínqua: minha alma, minha bela,
minha melancólica, chegou o tempo das desgraças, volta para mim, de onde quer
que estejas, pouco importa, num escritório invadido pelo fumo dos cigarros, ou
na cozinha fedendo a cebola de uma casa que cheira também a roupa molhada,
ou ainda num quarto de dormir azul desarrumado, onde quer que estejas, os
tempos chegaram, volta para mim, e na penumbra de uma sala com as cortinas
corridas para esquecermos a aproximação da desgraça, doravante será o tempo
de esperarmos a morte, tu eu, enlaçados com todas as nossas forças.


CAPÍTULO III

UM BOM BOM-DIA A RUYA
“O meu avô chamava-lhes a família.”
Rilke


Na manhã do dia em que a sua mulher o ia abandonar, enquanto subia as
escadas do prédio onde se encontrava o gabinete dele, no bairro de Babiâli, com
o jornal que acabava de ler debaixo do braço, Galip pensava na esferográfica
verde que deixara cair no mais fundo das águas do Bósforo, havia já tantos anos,
no decorrer de um dos passeios de barco que as suas mães os levavam a dar, no
ano em que tinham tido papeira, Ruya e ele. E na noite do mesmo dia, quando
examinasse a carta que Ruya lhe deixara, diria para consigo que a esferográfica
verde, poisada em cima da mesa, e que servira para escrever a carta, era
exactamente a mesma que aquela que caíra na água. Esta esferográfica — a que
deixara cair no Bósforo havia vinte e quatro anos —, fora Djélâl que lha
emprestara, porque agradara muito à criança, mas apenas por uma semana. E
quando soubera da sua perda, informara-se do lugar onde a esferográfica caíra ao
mar e concluíra: “Não se perdeu, porque sabemos o sítio exacto do Bósforo onde
ela está.” Galip abriu a porta do escritório e espantou-se com a ideia de que a
esferográfica que Djélâl tiraria da algibeira para limpar de algas o vidro do
Cadillac preto, “nesse dia de desgraça” cujos pormenores acabava de ler,
pudesse ser uma outra esferográfica. Porque as coincidências nascidas dos anos e
dos séculos faziam parte dos indícios que Djélâl gostava de usar nas suas
crónicas — essas moedas bizantinas, por exemplo, cunhadas com a imagem do
Olimpo, ao pé das cápsulas de garrafas de refrigerante OJympos, no vale de
lama que predizia no Bósforo —, mas, para isso, era-lhe indispensável não
perder a memória, e fora de a estar a perder que se queixara durante um dos seus
últimos encontros. “Quando o jardim da memória começa a desertificar-se”,
dissera Djélâl nessa noite, “acarinhamos as suas últimas árvores e as suas
últimas rosas, tememos por elas. Para evitar que sequem e desapareçam,
acaricio-as, regoas de manhã à noite! Não faço outra coisa que não seja recordar
e voltar a recordar, com medo de esquecer!”
Galip sabia-o por Djélâl: um ano depois da partida do tio Mélih para Paris e
por ocasião do regresso de Vassif, com o aquário nos braços, o avô e o pai de
Galip tinham-se dirigido ao escritório de advogado do tio Mélih, em Babiâli, e
posto os móveis e os papéis numa carroça, para os transportarem para
Nichantache, onde tinham depositado tudo nas águas-furtadas. E mais tarde
ainda, na altura em que o tio Mélih regressara do Magrebe com a sua mulher e a
sua filha Ruya, quando, depois de ter causado a falência da venda de figos secos
do sogro, decidira retomar as suas actividades de advogado, porque a família o
proibira de intervir na confeitaria e na farmácia, com receio de outra falência,
fizera transportar os móveis para o seu escritório, no desígnio de impressionar
eventuais clientes. Muito mais tarde, numa noite em que evocava com ironia e
cólera o passado, Djélâl contara a Galip e a Ruya que nesse dia um dos
carregadores, especializado nas mudanças de pianos e de frigoríficos, fizera
parte da equipa que, vinte e dois anos antes, transportara os mesmos móveis para
as águas-furtadas. Os anos tinham somente feito com que perdesse o cabelo...
Vinte e um anos depois do dia em que Vassif dera um copo de água a esse
mesmo carregador, observando-o com extrema atenção, o tio Mélih ficara sem
escritório porque se batia mais com os seus próprios clientes do que com as
partes adversas, a darmos ouvidos ao pai de Galip; mas, sobretudo, a darmos
crédito à sua mãe, porque, senil, confundia as pastas e os autos, as compilações
de jurisprudência com as ementas dos restaurantes e os horários dos serviços de
barcos, ou ainda porque, como afirmava Ruya, o seu querido pai previra já ao
tempo o que se ia passar entre a filha e o sobrinho, e deixara-se assim persuadir a
ceder o escritório ao futuro genro, que nessa altura não passava ainda de
sobrinho; e o escritório, com todos os seus velhos móveis, fora assim parar às
mãos de Galip: retratos de juristas ocidentais de crânio calvo, cujos nomes
estavam tão esquecidos como os motivos do seu renome, fotografias dos
professores, ainda com o fez na cabeça, ensinando na Escola de Direito de havia
meio século, documentação de processos cujos autores, e partes, e advogados, e
juizes tinham morrido havia muito, a mesa de trabalho outrora utilizada ao serão
por Djélâl, que nela redigia os seus artigos, e de manhã pela sua mãe, que nela
recortava os seus modelos, e, a um canto da sala, um enorme telefone preto, que,
mais que um instrumento de comunicação, fazia pensar numa arma de guerra
atarracada e sinistra.
A campainha do telefone, que se desencadeava por vezes por iniciativa
própria, era mais aterradora do que eficaz; o auscultador, negro como alcatrão,
tão pesado como um haltere; e quando se marcava um número, o mostrador
rangia melodiosamente, como os velhos molinetes do cais dos barcos que faziam
a ligação entre Karakeuy e Kadikeuy, e as mais das vezes ia-se ter, não ao
número pretendido, mas ao que o próprio aparelho escolhera.
Galip marcou o número de casa e surpreendeu-se ao ouvir a voz de Ruya. “Já
estás acordada?” Sentiu-se feliz por saber a mulher saída enfim do jardim
estreitamente fechado da sua memória e de regresso a um universo de todos
conhecido. Imaginava a mesa em cima da qual estava poisado o telefone, a sala
desarrumada, a pose de Ruya. “Leste o jornal que te deixei em cima da mesa? O
Djélâl escreve umas coisas com graça.” “Ainda não o li.
Que horas são?”, disse Ruya. “Deitaste-te muito tarde, não foi?”, disse Galip.
“Tiveste de fazer tu o pequeno-almoço”, disse Ruya. “Não tive coragem para te
acordar”, disse Galip.
“Com que estavas a sonhar?” “Vi um percevejo no corredor, esta noite já
muito tarde”, disse Ruya. E acrescentou, com a voz, tornada indiferente pela
habituação, do operador de rádio que comunica aos navios a localização exacta
de um torpedo errante detectado no Mar do Norte, mas apesar de tudo com um
pouco de inquietação: “Estava entre o radiador do corredor e a porta da
cozinha... Eram duas horas... Era enorme...” Houve um silêncio.
Queres que eu vá já aí ter de táxi?”, perguntou Galip. “Quando as cortinas
estão corridas, a casa é aterradora”, disse Ruya. “Vamos ao cinema esta noite?”,
disse Galip. “Ao Konak? E
a seguir não podemos ir ver o Djélâl?” Ouviu Ruya bocejar. “Estou com
sono.” “Vai dormir”, disse Galip, e calaram-se os dois. Antes de poisar o
auscultador, Galip ouviu ainda levemente Ruya bocejar uma vez mais.
Nos dias que se seguiram, quando foi levado a rememorar uma e outra vez
esta conversa, Galip tinha de se confessar incapaz de recordar com segurança,
não só o bocejo, mas as próprias palavras que tinham trocado ambos. As coisas
que Ruya dissera, recordava-as diferentes de uma vez para outra, e sentia
dúvidas. “Parece que não foi com ela que falei, mas com outra...”, dizia de si
para si, chegando a pensar que essa outra lhe fizera uma partida. Mais tarde
ainda, diria para consigo que Ruya pronunciara de facto as palavras que ele
ouvira, mas que fora ele que pouco a pouco se tornara outro depois daquela
conversa, e não Ruya. E seria com esta nova personalidade que tentaria
reconstituir o que talvez tivesse compreendido mal ou o que julgava recordar. E
compreenderia então muito bem que duas pessoas que falam de duas
extremidades de uma linha telefónica podem tornar-se inteiramente diferentes à
medida que se vai desenrolando a conversa. Mas a princípio, numa operação
lógica muito mais simples, imaginaria que tudo se desencadeara por causa
daquele telefone velho. O aparelho pesadão não parara de tocar e de ser utilizado
durante o dia todo.
Depois de ter falado com Ruya, Galip telefonou a um cliente, um inquilino
em litígio com o seu senhorio. Depois houve um engano. Até ao momento em
que Iskender ligou para ele, houve ainda dois outros enganos. E um
desconhecido que o sabia “parente próximo de Djélâl bey” pediu-lhe o número
de telefone do jornalista. E a seguir, um pai desejoso de tirar da prisão o filho
que se metera na política, e um negociante de ferro-velho que perguntou a Galip
porque era que a prenda destinada a untar as mãos do juiz teria de lhe ser
oferecida antes e não depois da audiência. E por fim Iskender, que procurava
entrar em contacto com Djélâl.
Iskender apressou-se a falar-lhe dos quinze anos que acabavam de se passar,
porque era um colega de liceu de Galip e havia todo esse tempo que se não viam,
e felicitou-o por ter casado com Ruya, afirmando como muitos outros que
“sempre tinha adivinhado que aquilo acabaria em casamento”. Trabalhava agora,
como realizador, numa agência de publicidade e explicou-lhe que estava a tentar
organizar uma entrevista entre Djélâl e umas pessoas da BBC, que preparavam
um programa sobre a Turquia. “Querem conversar diante das câmaras sobre a
situação do país, com um tipo como o Djélâl, um jornalista que assina há trinta
anos uma crónica diária e que tem tratado de toda a espécie de assuntos!”
Explicou a Galip, com uma montanha de pormenores inúteis, que os tipos da
equipa já tinham entrevistado políticos, homens de negócios e sindicalistas, mas
que, aos seus olhos, Djélâl era o mais interessante de todos; queriam encontrar-
se a todo o custo com ele. “Não te preocupes”, disselhe Galip. “Vou tratar de o
encontrar imediatamente.” Sentia-se feliz por ter um pretexto para telefonar ao
primo. “Tenho a certeza de que me andam há dois dias a contar patranhas no
jornal!”, disse Iskender. “É por isso que te estou a falar. Há dois dias inteiros que
Djélâl nunca lá está. Deve passar-se alguma coisa.” Acontecia por vezes que
Djélâl se fosse fechar numa das casas de que dispunha em diversos lugares da
cidade e cujos endereços e números de telefone escondia de todos. “Não te
preocupes”, repetiu Galip. “Vou-to encontrar imediatamente.”
Não o conseguiu até a noite. Ao longo do dia todo, sempre que telefonou a
Djélâl para casa ou para o Milliyet, foi com a intenção de se apresentar sob um
falso nome, disfarçando a voz, assim que o primo atendesse o telefone. (À noite,
divertiam-se muitas vezes os três, Djélâl, Ruya e ele, a imitar leitores ou
admiradores, com vozes tomadas de empréstimo aos actores de teatro
radiofónico. “Não há sombra de dúvida, percebi bem o sentido do seu artigo de
hoje, meu irmão!”, dir-lhe-ia Galip.) Mas sempre que ligou para o jornal, obteve
a mesma resposta da mesma secretária: “Djélâl bey ainda não chegou.” E
continuando a bater-se com o telefone o dia inteiro, só uma vez pôde saborear o
prazer de pregar uma partida ao seu interlocutor.
Com a tarde já adiantada, a tia Hâlé, a quem ele telefonara com a intenção de
lhe perguntar se sabia por acaso onde estava Djélâl, convidou-o para jantar. E
quando acrescentou: “O Galip e a Ruya também cá vão estar, os dois”,
compreendeu que a tia uma vez mais confundira as vozes deles, tomando-o por
Djélâl. “Pouco importa”, declarou a tia quando ele a fez notar o seu erro. “Vocês
são todos meus filhos, filhos muito ingratos, são todos os mesmos, vocês! Seja
como for, tencionava telefonar-te depois de falar ao Djélâl!” E depois de ter
acusado Galip — com o tom com que costumava ralhar ao seu gato preto Carvão
quando este afiava as unhas nos sofás — de nunca lhe falar a saber como ela
estava, recomendou-lhe que passasse à noite pela loja de Alâaddine para
comprar farinha para os peixes japoneses de Vassif: só comiam farinha
importada da Europa, que Alâaddine só vendia aos clientes que conhecia bem.
— Leu hoje o artigo dele? — perguntou Galip.
— O artigo de quem? — replicou a tia, com uma obstinação que nela se
tornara uma mania.
— O artigo do Alâaddine? Não. Se compramos o Milliyet, é para o teu tio
poder fazer as palavras cruzadas e o Vassif se distrair a recortar fotografias. Não
é com certeza para lermos o artigo do Djélâl e para nos desolarmos
comprovando o ponto a que ele chegou!
— Nesse caso, telefone à Ruya por causa desta noite — disse Galip. — Eu
não vou ter tempo para tratar disso.
— Vê bem se não te esqueces! — disse a tia Hâlé repetindo-lhe a hora do
jantar e a tarefa de que o encarregara. E com a voz do locutor que, para avivar o
interesse dos ouvintes, se compraz em enumerar com lentidão os nomes dos
jogadores que participam num desafio de futebol esperado há dias, lembrou-lhe a
ementa invariável destes jantares de família e comunicou-lhe os nomes dos
convivas, os mesmos de sempre, também eles: “Vão estar cá a tua mãe, a tua tia
Suzan, o teu tio Mélih, o Djélâl se quiser vir, claro, o teu pai, evidentemente, o
Vassif, a tua tia Hâlé e o Carvão.” Não houve a grande gargalhada, a
transformar-se em ataque de tosse, com a qual ela habitualmente punha fim à
enumeração das duas equipas, e desligou depois de ter acrescentado: “Haverá
souffléde carne, para ti.”
Enquanto mantinha um olhar distraído no aparelho, cuja campainha
recomeçou imediatamente a tocar, Galip rememorava os projectos matrimoniais
da sua tia Hâlé, projectos que tinham falhado no último momento; não conseguiu
lembrar-se do nome bizarro do pretendente. “Não atendo enquanto não tiver
dado com o nome”, decidiu, para evitar a habituação do seu espírito à preguiça.
O telefone tocou sete vezes, depois emudeceu. Quando a campainha soou de
novo, Galip estava a evocar a visita do pretendente com o nome bizarro, que
viera pedir a mão da tia Hâlé, acompanhado pelo pai e pelo irmão; isso passara-
se imediatamente antes da chegada de Ruya e dos seus pais a Istambul. O
telefone emudeceu. Fazia escuro quando o telefone voltou a tocar, os móveis do
escritório mal se distinguiam. Galip continuava sem descobrir o nome do
pretendente, mas lembrava-se com terror dos estranhos sapatos que o homem
calçava nesse dia; e depois, tinha na face a cicatriz de um abcesso de Alep: “Esta
gente é árabe?”, dissera o avô.
“Hâlé, tencionas realmente casar com esse árabe? Como foi que o
conheceste?” Fora por acaso... Ao anoitecer, pelas sete horas, antes de sair do
prédio que ficara deserto, Galip lembrou-se do nome estranho do pretendente,
quando consultava, valendo-se apenas da luz dos candeeiros de iluminação
pública, o dossier de um dos seus clientes, que desejava mudar de nome de
família. E quando se dirigiu para a paragem dos táxis colectivos em direcção a
Nichantache, disse para consigo que o universo era demasiado vasto para a
memória humana. E, uma hora mais tarde, quando se encaminhava para o prédio
da família, acrescentou de si para si que o homem só graças a coincidências
descobre sentido na vida.
O prédio — onde a tia Hâlé, Vassif e Esma hanim, a criada, ocupavam um
apartamento, sendo outro ocupado pelo tio Mélih, pela tia Suzan (e outrora por
Ruya) — ficava numa rua afastada do bairro de Nichantache, uma “rua de trás”.
Como estava apenas a três ruas de distância e a cinco minutos a pé da esquadra,
da loja de Alâaddine e da avenida, outros não teriam usado esse qualificativo,
mas para os que viviam nos dois apartamentos sobrepostos, essa rua, cujo
traçado seguiam sem interesse algum, a partir de um terreno vago lamacento, e
de uma horta onde se via ainda um poço, até à calçada pavimentada à albanesa, e
depois à romana, não podia fazer parte do centro do bairro. Como também não,
as ruas vizinhas que não achavam merecedoras de interesse de maior.
Na época em que tinham sido obrigados a vender uns atrás dos outros os
andares do prédio “Coração da Cidade”, que constituíra o centro de atracção do
seu universo geográfico, mas também do seu universo sentimental, e em que
tinham finalmente compreendido que tinham de deixar esse edifício “que
dominava Nichantache”, segundo a expressão da tia Hâlé, para se converterem
em inquilinos de apartamentos “lamentáveis”, e desde os primeiros dias da sua
instalação naquele prédio vetusto, situado num canto perdido e desolado da
simetria geográfica que traziam dentro de si próprios; talvez também para
aproveitarem a ocasião que lhes era dada de se culpabilizarem uns aos outros,
exagerando ainda mais a gravidade da infelicidade que os feria, tinham-se
habituado a utilizar sem descanso essa expressão, para falarem da rua. No dia em
que tinham deixado o “Coração da Cidade” para se mudarem para um dos
prédios da “rua de trás”, três anos antes de morrer, Mehmet Sabit bey (o avô),
depois de se instalar na sua poltrona coxa, que formava o mesmo ângulo (que no
apartamento anterior) com o pesado móvel de prateleiras, onde fora posto o
aparelho de rádio, mas um ângulo diferente com a janela dando para a rua,
inspirado talvez pela pileca tísica da carroça que transportara as mobílias nesse
mesmo dia, declarara: “Cá estamos nós a mudar de cavalo para burro, esperemos
que a história não acabe muito mal!” Depois fizera girar o botão do aparelho de
rádio, em cima do qual fora já posto um napperon de renda e o cão de procelana
adormecido.
Tudo isto se passara dezoito anos antes. Mas às oito horas da noite, quando
todas as lojas já tinham descido os seus estores de ferro — excepto o florista, o
vendedor de figos secos e a loja de Alâaddine — e uma neve molhada
atravessava o ar poluído, cheio dos gases dos tubos de escape, de fuligem e de
poeira, e que fedia a enxofre e a lenhite, Galip avistou as luzes do velho prédio,
sentiu-se invadido, como a cada uma das suas visitas, pela ideia de que todas as
recordações, ligadas àquele prédio ou aos seus diversos andares, que trazia
dentro de si, não datavam de há dezoito anos apenas. O que importava não era
nem a largura da rua, nem o nome do prédio (ninguém na família gostava de
pronunciar esse nome, com a sua carga de sons em o e ti) nem sequer a sua
localização, mas a impressão de que desde sempre, desde um passado situado
fora do tempo, eles tinham habitado em apartamentos sobrepostos. Enquanto
subia os degraus das escadas (onde reinava sempre o mesmo cheiro cuja fórmula
fora estabelecida segundo a análise operada por Djélâl numa crónica que
suscitara a cólera da família — uma mistura do fedor do poço de ventilação, de
pedra molhada, de bolor, de azeite e de cebola queimados), Galip imaginava as
cenas e as imagens que iria testemunhar, via-as desfilar a toda a velocidade, do
mesmo modo que um leitor folheia com impaciência as páginas de um livro que
leu e releu.
Como já são oito horas, disse Galip para consigo, vou dar com o tio Mélih
instalado na velha poltrona do avô, a ler os jornais que trouxe do seu andar,
como se ainda os não tivesse lido, ou por pensar que as mesmas notícias podem
ter um sentido diferente segundo a altitude, ou ainda para lhes lançar “uma
última olhadela antes de o Vassif se pôr a fazer os seus recortes”. Imaginarei,
como em miúdo, que aquela triste pantufa, que balança na ponta do pé dele
animado de um movimento frenético, me lança um apelo de desgraça, que me
grita, com um nervosismo, uma impaciência que nunca terão tréguas:
“Aborreço-me, precisava muito de fazer alguma coisa, chateio-me, que poderei
eu fazer...” E ouvirei Esma hanim (posta fora da cozinha pela minha tia, que quer
preparar em paz e sossego os seus célebres soufflés, sem intervenções
inoportunas) a pôr a mesa, com o seu cigarro Bafra — que nunca conseguiu
substituir os seus antigos Yeni Harman — na boca, perguntar-nos: “Quantos
somos esta noite?”, como se não soubesse a resposta e como se os outros fossem
capazes de lhe fornecer uma resposta que ela própria ignorasse. Então, o tio
Mélih e a minha tia Suzan, instalados à direita e à esquerda do aparelho de rádio,
tal como o avô e a avó outrora, e os meus pais diante deles, ficarão em silêncio a
seguir à pergunta, e depois a minha tia Suzan virar-se-á para Esma hanim: “O
Djélâl vem esta noite, Esma hanim?”, perguntar-lhe-á ele com uma vaga
esperança. “Este rapaz nunca será sério, nunca”, declarará o tio Mélih como de
costume, e ouvirei o meu pai, orgulhoso de assumir a defesa do sobrinho frente
ao tio Mélih, feliz por se mostrar mais equilibrado, mais consciente das suas
responsabilidades do que o seu irmão mais velho, afirmar com bom humor que
leu uma das últimas crónicas de Djélâl. E quando, para acrescentar ao prazer de
defender o sobrinho na presença do irmão mais velho, ou de dar provas do seu
saber na minha presença, o meu pai introduzir, depois de todo o bem que dirá
desse artigo de Djélâl sobre este ou aquele problema nacional ou este ou aquele
fenómeno social, a expressão “crítica positiva” (termo do qual Djélâl seria o
primeiro a troçar caso o ouvisse) e eu via a minha mãe (não te metas nisto, tu
pelo menos, mãezinha!) aprová-lo meneando a cabeça, porque considera um
dever, perante a cólera do tio Mélih, tomar a defesa de Djélâl, sempre por meio
do mesmo preâmbulo: “No fundo, é um rapaz tão simpático...”, não poderei
conter-me mais, e sabendo-os embora incapazes de saborearem e de
compreenderem como eu os artigos de Djélâl, perguntar-lhes-ei
inutilmente: “Leram a crónica que ele escreveu hoje?”, e ouvirei o tio Mélih,
embora com o jornal em cima dos joelhos aberto na página onde vem o artigo do
filho, inquirir: “Que dia é hoje?” ou ainda responder-me: “Então publicam uma
crónica dele todos os dias? Não, não a li!”, e ouvirei o meu pai afirmar: “Acho
que ele faz mal em usar um tom grosseiro quando fala do primeiro-ministro!”, e
a minha mãe acrescentar: “Ainda que não tenha respeito pelas suas opiniões, ele
devia respeitar a personalidade de um escritor!”, numa frase retorcida que não
nos permite compreender se está a dar razão ao primeiro-ministro, ou ao meu
pai, ou a Djélâl, e ouvirei ainda a tia Suzan, encorajada pela imprecisão da
mesma frase, declarar: “As ideias dele sobre a eternidade e sobre o ateísmo, e
também sobre o tabaco, lembram-me os franceses”, fazendo assim regressar a
conversa ao tema dos cigarros. E depois de ver recomeçar a sempiterna
discussão entre o tio Mélih e a criada (“Esma hanim, quero fazer-te notar que os
teus cigarros me dão crises de asma!” “Se isso é verdade, Mélih bey, devias ser
tu o primeiro a deixar de fumar!”) e de Esma hanim, embora continuando
indecisa quanto ao número de convivas, pegar na toalha e a desfraldar no ar,
como se fosse um lençol de cama lavado, contemplando depois a sua lenta queda
na mesa, sempre de cigarro na boca, sairei da sala. Na cozinha, invadida por uma
fumarada que cheira a massa fresca, a queijo e a azeite quente, sozinha,
semelhante a uma feiticeira que ferve no caldeirão certo elixir secreto (com um
lenço na cabeça a proteger-lhe os cabelos), a tia Hâlé, que está a fritar os seus
bolos de carne, na esperança de atrair como paga o meu interesse e a minha
afeição, e de obter até mesmo um grande beijo, apressar-se-á a pôr-me na boca
um bolinho escaldante, e perguntar-me-á: “Não está quente de mais?”, enquanto
eu não poderei sequer responder-lhe, com os olhos a lacrimejar de dor. Depois,
entrarei na sala onde a avó nos dava outrora, a Ruya e a mim, lições de leitura,
de cálculo e de desenho; onde o avô e ela passavam as suas noites de insónia,
nos seus edredões azuis, e onde, depois da morte deles, veio instalar-se Vassif
com os seus queridos peixes japoneses, e onde eu os encontrarei, Ruya e ele.
Estarão a contemplar os peixes, ou ainda a colecção de recortes de jornais e de
revistas de Vassif. Juntar-me-ei aos dois, e por um longo momento não
trocaremos palavra, Ruya e eu, como para evitarmos pôr em evidência o facto de
Vassif ser surdo-mudo, utilizando a linguagem de gestos dos braços e das mãos
que tínhamos inventado e desenvolvido entre nós três, e, Ruya e eu, mimaremos
uma cena de um dos velhos filmes recentemente vistos de novo na televisão, ou
se não tivermos visto uma cena que se preste a ser-lhe reproduzida, mimaremos
outra, de O Fantasma da Ópera, que emociona sempre Vassif sem
medida, mimá-la-emos com imensos pormenores, como se tivéssemos acabado
de rever o filme. Um pouco mais tarde, porque Vassif nos terá virado as costas,
ele, que tem muito mais tacto do que todos os outros ou porque se terá voltado a
aproximar dos seus peixinhos queridos, olhar-nos-emos, Ruya e eu, e então, eu,
que não te voltei a ver desde esta manhã e porque não trocámos os dois uma
palavra a sós desde ontem à noite, dir-te-ei: “Como vais?”, e tu, tu responder-
me-ás como sempre: “Vou bem, vou bem”, e eu, eu meditarei um longo
momento sobre os subentendidos voluntários ou não destas palavras, e a fim de
mascarar a inutilidade das minhas reflexões, pôr-te-ei uma outra pergunta, como
se não soubesse que ainda não começaste a tradução do romance policial que um
dia me anunciaste, como se ignorasse que passaste o teu tempo a andar de um
lado para o outro, a folhear os teus velhos policiais dos quais nunca chegaste a
ler nenhum. E dir-te-ei: “Que fizeste tu hoje, Ruya, que fizeste?”
Noutro dos seus artigos, Djélâl propusera uma outra fórmula, afirmando que
a maior parte das escadas das casas das “ruas de trás” cheiram a alho, a bolor, a
cal, a carvão, a azeite queimado e a sono... Antes de tocar à porta, “vou
perguntar à Ruya se foi ela quem me telefonou esta tarde três vezes”, disse Galip
para consigo.
A tia Hâlé abriu a porta. — Ah! Então, onde é que a Ruya está?
— perguntou ela.
— Ainda cá não chegou? — questionou Galip. — Não lhe tinha telefonado?
— Telefonei, mas ninguém me atendeu — disse a tia Hâlé. — Por isso,
pensei que com certeza tu a tinhas avisado.
— Talvez esteja lá em cima, em casa do pai — sugeriu Galip.
— O teu tio e a tua tia já desceram há um bocado — disse a tia Hâlé.
Houve um silêncio.
— Então, deve estar com certeza em casa — conclui Galip por fim.
— Vou já lá buscá-la.
— Ninguém atende de vossa casa — repetiu a tia Hâlé, mas Galip corria já
escadas abaixo.
— Bom, mas vê se te despachas! — disse a tia Hâlé. — A Esma hanim já
pôs os bolinhos de carne na frigideira! — gritou-lhe ela.
Galip avançava com rapidez, com as abas do seu sobretudo já com nove anos
de idade (mais um tema de crónica para Djélâl) levantadas pelo vento frio que
formava rajadas de neve molhada. Calculara um dia que, em vez de se dirigir
para a avenida, se seguisse até ao fim a rua escura passando diante da mercearia
agora fechada, da loja do polidor de lentes que estava ainda a trabalhar, das
caves onde moravam as porteiras, à luz débil dos anúncios gabando os méritos
da Coca-Cola ou das marcas das meias de nylon, só levaria doze minutos para
chegar do prédio onde moravam os seus tios e tias à sua própria casa. Não se
enganara muito. Quando regressou, pelas mesmas ruas e os mesmos passeios (o
alfaiate manejava a agulha, com a mesma peça de tecido em cima do mesmo
joelho), tinham passado exactamente vinte e seis minutos. A tia Suzan, que lhe
abriu a porta, e depois aos outros, enquanto todos tomavam lugar à mesa,
explicou que Ruya apanhara frio, que estava doente e que adormecera,
entorpecida por excesso de antibióticos (engolira tudo o que encontrara nas
gavetas), e que, embora tendo ouvido tocar o telefone, não fora capaz de se
levantar para atender, de tão cansada que estava; estava ainda semi-adormecida,
sem sombra de apetite, e, do seu leito de enferma, mandava beijos para todos.
Sabia que as suas palavras despertavam em todos a mesma imagem (a da
pobre Ruya, no seu leito de dor), e previra também o debate filológico e
farmacológico que suscitariam: todos os nomes de antibióticos, de penicilina, de
xaropes e de pastilhas para a tosse, de cápsulas ou de comprimidos antigripe,
anticoagulantes ou contra as dores que se vendem nas nossas farmácias, bem
como os das vitaminas que devem obrigatoriamente acompanhar os primeiros —
como a nata com que se cobre um bolo — foram enumerados com uma
pronúncia que os turquicizava introduzindo neles uma profusão de vogais; e a
sua posologia cuidadosamente indicada. Noutras circunstâncias, Galip teria
saboreado como um bom poema este festim de articulações criadoras e de
medicina de amadores, mas tinha na cabeça a imagem de Ruya, deitada no seu
leito de dor, uma imagem a propósito da qual nunca pôde mais tarde decidir em
que proporções era real ou imaginária. Certos pormenores — o pé de Ruya
doente a sair do edredão, os seus ganchos de cabelo disseminados pelos lençóis
— pareciam de facto autênticos, mas outras imagens — os cabelos cobrindo a
almofada, por exemplo, ou à sua cabeceira, o amontoado das embalagens dos
medicamentos, o copo, o jarro de água e os livros — pareciam tiradas de um
filme cujas cenas Ruya mimasse, ou de um dos romances mal traduzidos que
comprava na loja de Alâaddine. Quando, em seguida, Galip respondeu com
frases breves às perguntas inquisi-tivas ditadas pela afeição familiar, deu provas
de extremo escrúpulo esforçando-se por distinguir as imagens verídicas de Ruya
das que fora ele a inventar, e aplicou nessa triagem a minúcia dos detectives dos
romances policiais que mais tarde tanto procuraria imitar.
Sim, naquele preciso minuto (enquanto estavam todos à mesa), Ruya voltara
sem dúvida a mergulhar no sono; não, ela não tinha fome, era realmente inútil a
tia Suzan dar-se ao trabalho de fazer uma sopa. Sim, Ruya recusara-se a chamar
esse médico cujo hálito tresandava a alho e cuja maleta cheirava a fábrica de
curtumes; sim, ainda não fora este mês que tinha ido ao dentista; era certo, Ruya
saía muito pouco nos últimos tempos, passava os dias em casa, entre quatro
paredes. E hoje? Não, não saíra, se a viram na rua, então, muito bem, tinha saído
afinal, mas sem dizer nada a Galip, ou não, sempre lhe tinha falado nisso, do
sítio onde a tinham visto, fora à retrosaria, para comprar botões, botões violeta,
passando em frente da mesquita, como explicara a Galip, claro, e apanhara frio,
era claro, com o tempo que está, tossia, sim, e depois, evidentemente, fumava
um maço por dia, sim, estava pálida, e sim, Galip não via como estava pálido ele
próprio. Quando é que poriam os dois fim a uma maneira tão pouco saudável de
viver?
Casaco, botões, chaleira. Porque lhe voltavam à memória estas três palavras,
no desfecho daquele inquérito familiar? — foi uma pergunta que Galip não fez a
si próprio mais tarde.
Numa das suas crónicas, redigida num paroxismo barroco de cólera, Djélâl
afirmava que as zonas obscuras que se escondem no mais fundo dos cérebros
não existiam entre nós, mas sim nos personagens dos romances e dos filmes
pretensiosos e incompreensíveis do mundo ocidental, que continuamos a não
aprender como imitar. (Djélâl acabava de ver Bruscamente no Verão Passado,
filme no qual Elizabeth Taylor não conseguia atingir a “zona obscura” de
Montgomery Clift.) Galip compreenderia, quando descobrisse o museu e a
biblioteca que Djélâl formara, que o primo, influenciado por certos livros de
psicologia, condimentados de pormenores levemente pornográficos, escrevera
muitos artigos que explicavam tudo — incluindo a nossa miserável existência —
por meio dessas zonas obscuras tão inquietantes como incompreensíveis.
No propósito de mudar de assunto, “no seu artigo de hoje...”, preparava-se
Galip para dizer, aterrado pelo à-vontade que o hábito lhe garantia, mas enunciou
a ideia que, bruscamente, lhe passara pela cabeça: “Tia Hâlé, esquecime de ir à
loja do Alâaddine”, exclamou. Os outros salpicavam de miolo de noz esmagado
à mão no grande almofariz herdado da confeitaria a grande travessa de doce de
abóbora que Esma hanim acabava de servir com mil precauções, como se
levasse um bebé cor de laranja para o berço. Um quarto de século antes, Galpi e
Ruya tinham descoberto que aquele almofariz ressoava como um sino quando se
lhe batia com o cabo de uma colher: tchin tchin! (“Não querem acabar de nos dar
cabo dos ouvidos com o vosso alarido de sacristães?”) Senhor, como lhe custava
ir engolindo os seus bocados! Era mais que evidente que as nozes esmagadas
não chegavam para todos; quando a tigela violeta passou de mão em mão, a tia
Hâlé teve o cuidado de ser a última a servir-se (“Não estou lá com muita
vontade!”), mas lançou a seguir um olhar ao fundo da tigela e, de súbito,
irrompeu em imprecações como um comerciante, um dos seus ex-concor-rentes
de profissão, que lhe parecesse de repente responsável não apenas pela tigela
vazia, mas por todas as suas dificuldades: estava decidida a apresentar queixa
contra ele na esquadra. E, contudo, todos eles tinham medo da esquadra e da
polícia, como de fantasmas vestidos de azul-marinho. Depois de ter publicado
um artigo em que afirmava que a zona obscura do nosso subconsciente era
constituída pela esquadra, Djélâl fora convocado pelo juiz, por meio de uma
folha de papel trazida por um chui que vinha dessa mesma esquadra... A
campainha do telefone tocou. Com um ar mais sombrio do que nunca, o pai de
Galip levantou o auscultador. Estão a ligar-nos da esquadra, disse Galip para
consigo.
Enquanto o pai, ao mesmo tempo que respondia ao telefonema, fitava com o
mesmo olhar sem expressão a sala à sua volta (o papel que forrava as paredes,
com botões verdes esparsos entre folhagens, era exactamente o mesmo que o do
antigo apartamento, o que os consolava de não poucas coisas), a família ainda
sentada à mesa — o tio Mélih, que estava com um ataque de tosse, Vassif, que
parecia ouvir a conversa telefónica, por muito surdo que fosse, e os cabelos da
sua própria mulher (que, depois de muitas vezes pintados, tinham agora a mesma
cor que os da bela tia Suzan), Galip, que ouvia como todos os demais apenas
metade da conversa — esforçava-se por adivinhar a identidade da parte que
assegurava a outra metade do telefonema. — E alguém à procura da Ruya —
começara ele por dizer.
— Ele não está, minha senhora, não veio. Com quem tenho a honra de estar a
falar? — dizia o pai de Galip. — Muito obrigado. Sou tio dele. Infelizmente, não
está connosco esta noite...
— Era para o Djélâl — disse, depois de ter desligado. Estava com um ar
satisfeito. — Uma das suas admiradoras. Uma pessoa de certa idade, uma pessoa
distinta, via-se bem. Gostou muito do artigo dele e queria falar disso com o
Djélâl, pediu-me a direcção dele, e o número de telefone.
— De que artigo estava ela a falar? — perguntou Galip.
— Olha, Hâlé, é estranho — acrescentava o pai dele. — A voz daquela
mulher era muito parecida com a tua.
— Que há de mais normal que o facto de a minha voz ser parecida com a de
uma mulher de idade? — disse a tia Hâlé. O seu pescoço violáceo esticou-se de
repente como o de uma gansa: — Mas a minha voz não se parece nada com a
dela!
— Como é que sabes?
— Sei porque essa pessoa tão distinta, como tu lhe chamas, já telefonou esta
manhã. Não é uma senhora, a voz dela era como a de uma velha bruxa que se
esforça por falar como uma senhora! Quase se diria que era um homem a imitar
a voz de uma velha!
O pai de Galip fez então uma pergunta: como teria a velha senhora
conseguido o número de telefone lá de casa? Hâlé ter-lho-ia perguntado?
— Não, não achei que fosse preciso — declarou a tia Hâlé. — Já nada que
venha do Djélâl me espanta, desde o dia em que começou a exibir a nossa roupa
suja no jornal, como se estivesse a escrever um folhetim sobre as façanhas dos
campeões de luta; disse para comigo que é bem capaz, num desses artigos em
que faz pouco de nós, de ter fornecido aos seus leitores o nosso número de
telefone; para eles se poderem divertir ainda mais. Aliás, quando penso no
desgosto que ele causou aos meus pobres pais, digo de mim para mim que a
única coisa que ainda me pode admirar não é o facto de ele ter dado a toda a
gente o nosso número de telefone, não, mas descobrir finalmente porque é que
ele nos detesta tanto, ao fim destes anos todos...
— Odeia-nos porque é comunista — declarou o tio Mélih, acendendo um
cigarro, cheio de orgulho por ter conseguido dominar o seu ataque de tosse. —
Quando acabaram por compreender que não conseguiriam enganar os operários
e o povo, os comunistas tentaram enganar os militares para os levarem a fazer
uma revolução bolchevique que assumiria a forma de uma revolta de janízaros.
E com os seus artigos que tresandam a sangue e ódio, o Djélâl foi o instrumento
dessa ilusão.
— De maneira nenhuma! Estás a exagerar um bocado! — disse a tia Hâlé.
— Eu estou ao corrente, foi a Ruya quem me contou tudo — declarou o tio
Mélih. Soltou uma gargalhada, mas sem recomeçar a tossir. — Parece até que
começou a estudar francês, porque se convenceu da promessa que lhe fizeram de
o nomearem ministro dos Negócios Estrangeiros do novo regime bolchevique-
janízaro alia turca que seria implantado pelo golpe de Estado militar. Ou talvez
embaixador em Paris! Confesso que, a princípio, eu próprio senti certa satisfação
pensando que essas ilusões revolucionárias seriam capazes de ajudar o meu filho
a fazer progressos em francês, ele que não conseguiu aprender uma única língua
estrangeira, porque passou a juventude a dar-se só com malandros. Mas levou as
coisas tão longe que proibi à Ruya que visse o irmão.
— Mas isso nunca aconteceu, Mélih — protestou a tia Suzan. — A Ruya e o
Djélâl nunca deixaram de se ver nem de gostar um do outro como se fossem
realmente irmãos completos, em vez de só meios-imãos!
— Tudo se passou deveras como eu disse, mas era já tarde de mais — disse
o tio Mélih. — Como não conseguiu enganar a nossa nação e o nosso exército,
tentou a sorte com a irmã. E
foi assim que a Ruya se tornou anarquista. Se o meu pequeno Galip não
aparecesse para a arrancar a esse buraco de ratazanas, a esse ninho de bandidos,
só Deus sabe onde a Ruya estaria agora, mas não seria com certeza em casa e na
cama!
Galip examinava as unhas, dizendo para consigo que todos eles imaginavam
a pobre Ruya, doente, na cama, e perguntou a si próprio se o tio Mélih acabaria
ou não por poder acrescentar uma nova recriminação à lista de acusações que
estabelecia assim todos os dois ou três meses.
— Talvez estivesse na prisão, porque não é tão prudente como o Djélâl —
continuou o tio Mélih, emocionado pela enumeração a que procedia, e sem
prestar atenção aos “Deus nos livre!” que explodiam à sua volta. — Talvez se
tivessem juntado a esses bandidos, o Djélâl e ela. A pobre Ruya talvez acabasse
por se dar com os gangsters de Beyoglou, os traficantes de heroína, os patrões
dos bares da noite, os russos brancos cocainómanos, e andar em todos esses
meios de deboche em que o irmão dela se meteu a pretexto de fazer reportagens.
Teríamos sido obrigados a andar à procura da nossa filha no meio dos turistas
ingleses que vêm a Istambul para satisfazerem os seus gostos vergonhosos, dos
homossexuais apreciadores de lutadores greco-romanos e dos folhetins que
falam deles, dos americanos que participam empartouzes nos banhos turcos; no
meio dos escroques; no meio das nossas estrelas de cinema, que seriam
incapazes de exercer, em qualquer país da Europa, já não digo a profissão de
actrizes, mas até mesmo a de putas; no meio dos oficiais expulsos do exército
por corrupção ou desvio dos dinheiros públicos, dos cantores travestis com a voz
desfeita pelas doenças venéreas; no meio dessas beldades dos bairros duvidosos
que procuram fazer-se passar por senhoras da boa sociedade... Diz-lhe que tome
Isteropiramisina.
— O quê? — perguntou Galip.
— É o melhor dos antibióticos contra a gripe. Com Becozyme forte. Uma
cápsula de seis em seis horas. Que horas são? Achas que ela já acordou?
A tia Suzan afirmou que Ruya estava com certeza a dormir. E como todos os
presentes, Galip imaginou Ruya, adormecida, na sua cama.
— Ah, não! — exclamou Esma hanim, enquanto dobrava cuidadosamente a
toalha para sempre condenada às nódoas, porque não servia apenas como toalha:
serviam-se da borda como de guardanapos, para limparem a boca no fim das
refeições, hábito aborrecido herdado do avô e do qual nunca tinham conseguido
desfazer-se, a despeito dos protestos da avó. — Não! Não vou permitir que falem
assim do Djélâl nesta casa! O meu pequeno Djélâl transformou-se num grande
homem!
A dar ouvidos ao tio Mélih, era por causa das suas ideias políticas que o filho
dele, com cinquenta e cinco anos de idade, nunca se preocupava com o seu velho
pai, de setenta e cinco anos, não revelava a ninguém a sua direcção em Istambul,
a fim de que nenhum dos membros da família — nem sequer a tia Hâlé, sempre
pronta a perdoar-lhe tudo — tivesse a possibilidade de o contactar, escondia de
toda a gente os números dos seus diversos telefones e chegava ao ponto de
desligar o aparelho. Galip sentia-se enlouquecer à ideia de que lágrimas,
provocadas pelo hábito e não pelo desgosto, em breve começariam a correr dos
olhos do tio. Mas passou-se outra coisa, igualmente aflitiva. Esquecendo-se de
levar em conta os vinte e dois anos que separavam os dois primos, o tio Mélih
repetiu uma vez mais que sempre sonhara ter um filho como Galip, um rapaz
com tanta maturidade, tão reflectido, tão razoável como ele...
Vinte e dois anos antes (Djélâl tinha então a actual idade de Galip), numa
época em que crescia com uma rapidez que o mergulhava na confusão, e em que
as suas mãos e os seus braços o faziam cometer mil gestos desastrados ainda
mais mortificantes, quando ouvira estas palavras pela primeira vez, e sonhara ver
realizar-se tal voto, Galip pensara imediatamente em escapar às refeições da
noite, incolores e insípidas, partilhadas com os seus próprios pais, em que cada
um deles fixava um ponto invisível, para além das paredes que com os seus
ângulos rectos cercavam a mesa. (A mãe: “Sobraram algumas verduras com
azeite do almoço, queres?” Galip: “Não, obrigado.” A mãe: “E tu?” O pai: “Eu, o
quê?”) E imaginara-se à mesa todas as noites, em companhia do tio Mélih, da tia
Suzan e de Ruya. Imaginava também muitas outras coisas, que lhe causavam
vertigens: a bela tia Suzan, que por vezes via vestida com uma camisa de noite
azul, quando subia até ao andar do tio, nos domingos de manhã, para brincar
com Ruya às “passagens secretas” ou ao “eu não vi nada”, transformava-se em
sua mãe (seria muito melhor assim); o tio Mélih, cujas histórias de África e os
episódios ligados à sua profissão adorava, transformava-se em seu pai (era,
apesar de tudo, preferível); e como tinham a mesma idade, Ruya e ele
transformavam-se em gémeos (mas a esse propósito, ele hesitava ao examinar as
consequências terríficas que decorreriam de semelhante situação).
Uma vez levantada a mesa, Galip explicou que havia umas pessoas da BBC à
procura de Djélâl, mas que ainda não tinham podido descobri-lo; e,
contrariamente à sua expectativa, esta notícia não reavivou os comentários sobre
o facto de Djélâl esconder a toda a gente os seus diversos endereços e números
de telefone, cujo número provocava rumores de toda a espécie acerca da
localização dos seus apartamentos e as maneiras de dar com eles. Alguém
observou que estava a nevar: por isso, levantaram-se todos da mesa e afastaram
as cortinas com um mesmo gesto de mão, para lançarem na noite glacial um
olhar à rua coberta de uma leve camada branca, antes de se irem instalar cada um
nas respectivas poltronas. Uma neve muito limpa, silenciosa. (A repetição de
uma cena utilizada por Djélâl: mais para troçar da nostalgia que os seus leitores
experimentavam pelas “noites dos Ramadas de outrora” do que para a
compartilhar.) Galip, pelo seu lado, seguiu Vassif, que se retirava para o seu
quarto.
Quando Vassif se sentou na beira da cama, Galip instalou-se diante dele.
Vassif passou a mão pelos cabelos brancos e desceu-a até ao ombro: “Ruya?”
Galip bateu com o punho no peito e fingiu tossir a ponto de perder o fôlego:
“Está com tosse, está doente!” Depois, juntou as mãos e fez com elas uma
espécie de almofada onde poisou a cabeça: “Está deitada.” Vassif tirou então um
grande caixote de debaixo da cama: uma selecção de recortes de jornais e de
revistas que coleccionava havia cinquenta anos, os mais interessantes, sem
dúvida. E puseram-se a contemplar os recortes que iam tirando ao acaso do
caixote, tal como se Ruya ali estivesse, sentada do outro lado, junto a Vassif, e
como se se rissem os três das imagens que este último ia mostrando: num
anúncio de creme de barbear de havia mais de vinte anos, o sorriso alvo de
espuma de um jogador de futebol celebérrimo, falecido, mais tarde, por causa de
uma hemorragia cerebral devida ao facto de ter cabeceado a bola chutada de um
pontapé de canto; o cadáver do dirigente iraniano Kassim, repousando no seu
uniforme ensanguentado, depois do golpe de Estado militar; uma ilustração
representando o crime da praça de Chichli, que dera muito que falar na época (o
coronel compreende, mas só ao fim de vinte anos, e uma vez reformado, que a
mulher o engana e criva de balas a jovem esposa e o sedutor jornalista que trazia
de havia muito debaixo de olho, dizia Ruya, imitando as vozes do teatro
radiofónico); o primeiro-ministro Mendérès concedendo a vida ao camelo que os
seus partidários se preparavam para degolar em sua honra, e no segundo plano,
Djélâl jovem repórter, a olhar para outro lado tal como o camelo. Quando estava
prestes a levantar-se para voltar para casa, Galip reparou em duas velhas
crónicas de Djélâl que Vassif acabava de tirar do caixote. Eram “A loja de
Alâaddine” e “A história do carrasco e da cabeça a chorar”. Boas leituras para a
noite de insónia que se anunciava!
Não precisou sequer de fazer muitas imitações para persuadir Vassif a
emprestar-lhas. A sua recusa da chávena de café que Esma hanim lhe servia foi
recebida por todos com compreensão. O que queria dizer que a expressão “a
minha mulher está doente e sozinha em casa” se gravara de facto no seu rosto.
Ia-se demorando entretanto à saída. O próprio tio Mélih estava de acordo: “Sim,
sim, é melhor ele ir indo!” A tia Hâlé debruçava-se por cima do Carvão, que
voltava da rua coberta de neve. “Deseja-lhe melhoras rápidas da nossa parte!
Beija-a por nós! Dá-lhe as nossas boas-noites!”, gritaram de novo os outros, da
sala de jantar.
No caminho de regresso, Galip viu o polidor de lentes, que descia o estore de
ferro da sua oficina. Cumprimentaram-se à luz do candeeiro de iluminação
pública, enfeitado de pingentes de gelo, e recomeçaram a andar os dois com o
mesmo passo: “Estou atrasado, a minha mulher está em casa à minha espera”,
disse o polidor, talvez para romper o excessivo silêncio da neve. “Está frio”,
disselhe Galip por sua vez. Prestando atenção ao ranger da neve sob os seus
passos, continuaram a avançar lado a lado, até ao momento em que apareceu o
prédio à esquina da rua e a débil luz do candeeiro de cabeceira, à esquina do
prédio, mesmo lá em cima. Ora as trevas, ora a luz caíam por cima da rua.
As luzes da sala estavam apagadas, as do corredor acesas, como Galip as
deixara ao sair de casa. Assim que entrou no apartamento, pôs água ao lume para
fazer chá; livrou-se do sobretudo e do casaco, pendurou-os nas suas cruzetas,
dirigiu-se ao quarto de dormir, onde descalçou os sapatos ensopados, à luz pálida
da mesa de cabeceira. Depois, sentou-se à mesa da sala de jantar e releu a carta
que Ruya lhe deixara antes de se ir embora. Essa carta, escrita com a
esferográfica verde que estava em cima da mesa, era ainda mais curta do que na
sua memória: só dezanove palavras.


CAPÍTULO IV

A LOJA DE ALÂADDINE

“Se tenho um defeito, é na realidade o de me afastar do assunto.”
Biron pacha


Sou um escritor “pitoresco”. Consultei o meu dicionário, mas não
compreendi lá muito bem o sentido deste epíteto: acontece simplesmente que
gosto da sua ressonância, da sua atmosfera. Sempre sonhei escrever outra coisa:
falar dos cavaleiros nas suas montadas; descrever os exércitos de há trezentos
anos que se preparam para o ataque nos dois extremos de uma planície ainda
mergulhada na escuridão, na manhã nevoenta; os infelizes que contam uns aos
outros histórias de amor nas tabernas durante as noites de Inverno; as
intermináveis aventuras de um par de apaixonados perdidos, em busca de algum
mistério em cidades sombrias; mas Deus concedeu-me estas colunas neste jornal
— e concedeu-me também estes meus caros leitores — para que eu contasse
histórias de um género completamente diferente. E por isso me digo e vos digo,
amigos leitores, que nos arranjemos o melhor possível.
Se o jardim da minha memória não secasse pouco a pouco, talvez nunca me
queixasse desta situação, mas sempre que pego na minha esferográfica, surgem
de súbito os vossos rostos, leitores bem-amados, que esperais de novo qualquer
coisa de mim, como me aparecem apenas os rastos das minhas recordações, que
me fogem umas atrás das outras, neste jardim que se desertifica. Encontrar
apenas os rastos em vez de uma recordação é como se se contemplasse, com os
olhos cheios de lágrimas, o rasto que a bem-amada, que nos abandonou e nunca
mais voltará, deixou num cadeirão.
Decidi ir falar com Alâaddine. Quando soube que eu ia falar dele no meu
jornal, mas queria antes disso ter uma conversa com ele, disseme, abrindo muito
os seus olhos pretos: — Diz-me uma coisa, irmão, isso não me vai prejudicar?
Disselhe que nada se passaria. Expliquei-lhe o lugar que ocupa nas nossas
vidas a sua loja em Nichantache. Disselhe como os milhares, as dezenas de
milhares de coisas que vende na sua loja permaneceram intactos nas recordações
de todos nós, com toda a frescura dos seus cheiros e das suas cores. Descrevi-lhe
a impaciência com que as crianças doentes esperam na cama o regresso da mãe,
que lhes foi comprar um presente ao Alâaddine (um soldado de chumbo), um
livro (O Cenoura) ou uma banda desenhada (o número 17, esse em que Kinova
ressuscita depois de lhe terem tirado o escalpe). Expliquei-lhe que em todas as
escolas do bairro, milhares de miúdos esperam o último toque — que já tocou há
muito tempo na sua imaginação — e como se imaginam já a entrar na loja, para
comprarem pacotes de bolachas, desses onde descobrimos fotografias de
jogadores de futebol (Métine, da equipa de Galata-Saray), de lutadores (Hamit
Kaplan) ou de actores de cinema (Jerry Lewis). Disselhe como as raparigas, que
lá vão comprar uma garrafa de dissolvente para tirarem o verniz pálido das
unhas, antes de irem para o curso da noite da Escola de Artes Domésticas,
pensarão com melancolia na loja de Alâaddine, como num conto de fadas
longínquo, quando se lembrarem dos seus primeiros amores, dentro de muitos
anos, no meio dos seus filhos e dos seus netos, na cozinha sem alegria de um
casal sem alegria.
Havia muito tempo que estávamos instalados em casa, sentados diante um do
outro. Contei a Alâaddine a história de uma esferográfica verde e a de um
romance policial mal traduzido, que comprara na loja dele, havia já muitos anos.
Na segunda história, a heroína, a quem eu oferecera o livro e de quem gostava
muito, via-se finalmente condenada a nada mais fazer a não ser ler policiais até
ao fim dos seus dias. Revelei-lhe que um dos oficiais patriotas que preparavam
um golpe de Estado com o desígnio de mudarem o curso da nossa história e a de
todo o Próximo Oriente e um dos jornalistas envolvidos no mesmo projecto se
tinham encontrado na loja dele, antes da sua primeira entrevista histórica.
Evoquei Alâaddine, que ignorava por completo tal encontro histórico, a contar,
uma bela noite, molhando de saliva o polegar e o indicador, os jornais e as
revistas que entregaria no dia seguinte de manhã, atrás do seu balcão onde as
torres de livros e de caixotes subiam até ao tecto. Falei-lhe das mulheres,
estrangeiras ou autóctones, que posavam nuas nas revistas, expostas no
escaparate ou no tronco espesso do castanheiro, diante da porta, e que,
insaciáveis como as escravas ou as esposas do sultão das Mil e Uma Noites,
assombrarão na mesma noite os sonhos dos solitários que passam, distraídos, no
passeio. Enquanto falava das Mil e Uma Noites, revelei a Alâaddine que a
história que tem o nome dele nunca foi na realidade narrada ao longo dessas mil
e uma noites, mas nelas foi introduzida sub-repticiamente por Antoine Galland
quando editou o livro no Ocidente há duzentos e cinquenta anos; expliquei-lhe
que o conto nunca fora contado a Galland por Xerazade, mas por um cristão que
ele diz chamar-se Hanna. Relatei-lhe igualmente que na realidade o dito Hanna
era um sábio de Alep, Juhanna Dieb de seu nome, e que o conto era um conto
turco cuja acção se passa provavelmente em Istambul, como indicam os
pormenores relativos ao café que nele figuram. Mas expliquei-lhe do mesmo
modo que nunca se conhecerá o original, nem no conto nem na vida, porque,
disselhe eu, se esquece tudo, tudo, deveras tudo. Porque, para dizer a verdade,
sou velho, infeliz, resmungão e solitário, e tenho vontade de morrer. Porque se
ouvia o estrépito da circulação do anoitecer na praça de Nichantache, e na rádio,
uma música que fazia chorar de tristeza. Porque, na verdade, depois de ter
passado a minha vida a contar histórias, queria, antes de morrer, ouvir Alâaddine
contar-me a história de tudo o que esqueci, a história dos frascos de água de
colónia, dos selos fiscais, das imagens nas etiquetas, das caixas de fósforos, das
meias de nylon, dos postais, das fotografias de actores, dos dicionários de
sexologia, dos ganchos de cabelo e dos livros de orações da sua loja.
Como em todas as pessoas reais que mergulham em histórias imaginárias, há
em Alâaddine um lado irreal que rejeita os limites do universo e uma lógica
simplista que se recusa a submeter-se às suas leis. Declarou-me que se sentia
muito feliz com o interesse que a imprensa dedicava ao seu armazém. Havia
trinta anos que trabalhava catorze horas por dia na sua loja sempre cheia, e que
dormia em casa ao domingo à tarde, entre as duas e meia e as quatro horas, quer
dizer, essas horas durante as quais toda a gente ouve pela rádio a retransmissão
dos desafios de futebol. Explicou-me que não se chamava Alâaddine, mas que os
clientes ignoravam o seu verdadeiro nome. Disseme que só lia um jornal, o
Hurriyet. Assegurou-me que não podia ter tido lugar na sua loja qualquer
encontro político, porque a loja se situa mesmo em frente da esquadra de
Techvikiyé e ele próprio não se interessa pela política. Não lambia os dedos
quando contava as revistas, era mentira, e a sua loja não era um lugar de lenda
ou de conto de fadas. Esse género de erros irritava-o. Outros também: assim,
certos velhos necessitados entravarn-lhe por vezes na loja,
entusiasmados, porque, tomando por verdadeiros os relógios de pulso feitos de
plástico expostos na montra, se espantavam com a modicidade do seu preço.
Havia também os clientes que tinham perdido jogando com os “cavalinhos”
comprados na sua loja, ou que, furiosos porque ainda nunca tinham ganho nada
na Lotaria Nacional cujas cautelas eles próprios tinham escolhido, discutiam
com Alâaddine, persuadidos de que era ele quem organizava todos esses jogos.
A cliente cujas meias se rompiam, a mãe do garoto cujo corpo estava todo a
pelar por ter comido chocolate fabricado no país, o leitor a quem as opiniões
políticas do seu jornal desagradavam, todos acusavam Alâaddine, apesar de este
não ser produtor, mas um simples intermediário. Alâaddine não era, fosse como
fosse, responsável pelo facto de certo pacote de café não conter café mas graxa
castanha. Não era responsável pelo facto de as pilhas made in Turkey ficarem
vazias ao serem sacudidas por uma simples canção de Emel Sayin, a cantora
com a voz cheia de sedução, e estragarem o aparelho de rádio portátil com o
líquido escuro que derramavam. Não era responsável pela bússola que, onde
quer que se fosse com ela, indicava a esquadra da polícia de Techvikiyé, em vez
de apontar o Norte. E também não era responsável pelos cigarros Bafra em cujo
maço uma romanesca operária introduzira uma carta que falava de amor e de
casamento, mas o certo é que o aprendiz de pedreiro que abrira a embalagem
correra de pronto até à sua loja, louco de alegria, beijara respeitosamente a mão
de Alâaddine, rogando-lhe que fosse testemunha deles e pedindo-lhe o nome e o
endereço da rapariga.
O seu estabelecimento ficava de facto num bairro outrora considerado “o
mais elegante” de Istambul, mas os clientes sempre o tinham surpreendido.
Espantava-se com os senhores de gravata que não havia maneira de aprenderem
a estar na bicha, e não podia impedir-se de descompor os que não esperavam
pela sua vez. Renunciara a vender cadernetas de bilhetes de autocarro, porque
sempre que um autocarro aparecia à esquina da rua, quatro ou cinco pessoas
invadiam a loja, semeando lá dentro a desordem, com as suas maneiras de
assaltantes mongóis e gritando: “Um bilhete, depressa, um bilhete, por amor de
Deus!” Vira casais casados havia quarenta anos discutirem por causa de uma
cautela de lotaria; mulheres muito maquilhadas que, para comprarem um
sabonete, cheiravam trinta; oficiais reformados que experimentavam uma caixa
inteira de apitos antes de se decidirem a escolher um deles. Mas tais coisas não o
chocavam, habituara-se a elas. A mãe de família que protestava porque já não
conseguia descobrir certo exemplar de uma fotonovela, cujo último número
aparecera havia onze anos, o encorpado senhor distinto que lambia os selos de
correio antes de os comprar para lhes saborear a cola, e a mulher do talhante que
lhe devolvia os cravos artificiais comprados na véspera, furiosa por aquelas
flores não terem perfume, deixavam-no doravante indiferentes.
Batera-se com unhas e dentes para garantir o sucesso do seu estabelecimento.
Durante anos, encadernara com as suas mãos os velhos exemplares de Texas e
Tom Mix, abrira e varrera a loja de manhã muito cedo enquanto a cidade inteira
estava ainda mergulhada no sono, pendurara com molas de roupa os diários e os
semanários ou à porta da loja ou no tronco do castanheiro, dispusera as
“novidades” na montra; passara anos a percorrer a cidade, rua após rua, loja após
loja, para satisfazer os pedidos dos seus clientes, fornecendo-lhes as mais
estranhas mercadorias (bailarinas que dançam rodando sobre si próprias quando
se aproxima delas um pequeno espelho magnético, atacadores tricolores, bustos
de gesso de Atatiirk, que tinham, nas pupilas, lampadazinhas azuis que se
acendiam, afia-lápis em forma de moinho holandês, letreiros “Casa Para
Arrendar” ou “Em Nome De Deus Cheio De Misericórdia”, pacotes de pastilha
elástica com aroma de pinheiro, de onde saíam imagens de pássaros, numeradas
de um a cem, piões de jogos de mesa cor-de-rosa que só havia no Grande Bazar,
decalcomanias representando Tarzan ou Barba-Ruiva, capuzes com as cores das
equipas de futebol (ele próprio usara um azul durante dez anos), ou ainda esses
instrumentos de ferro, dos quais uma das extremidades serve para abrir garrafas
de refrigerante e a outra de calçadeira. Às perguntas mais insólitas (“Tem aqui
tinta azul que cheira a água-de-rosas?” “Pode arranjar-me anéis que tocam uma
música?”), nunca respondera pela negativa. “Mando vir amanhã”, afirmava ele
sempre, dizendo para consigo que a mercadoria existia uma vez que lha
encomendavam, e tomando nota da ecomenda no seu caderno; no dia seguinte,
retomava as suas investigações, em todos os bairros, em cada loja, como o
viajante que atravessa as ruas de uma cidade em busca de um segredo, e
descobria sempre o que procurava. Sem dúvida, conhecera períodos fastos, em
que ganhara dinheiro sem se esforçar, vendendo quantidades inimagináveis de
fotonovelas, ou histórias de cowboys ilustradas, ou ainda fotografias de actores
nacionais com um olhar sem expressão; mas houvera também o tempo, tão
desagradável para ele, em que o café e os cigarros se vendiam no mercado negro,
esses dias frios, insípidos, em que se formavam as bichas. Quando se olha da sua
loja a vaga das pessoas no passeio, é impossível adivinhar se são “assim” ou
“assado”, são “um pouco... um pouco esquisitas, as pessoas...”.
Essa multidão, que parecia à primeira vista formada por pessoas muito
diferentes umas das outras, era tomada de uma paixão súbita pelas caixas de
música que eram ao mesmo tempo cigarreiras, ou disputava canetas do tamanho
do dedo mendinho vindas do Japão; no mês seguinte, esquecendo caixas e
canetas, punham-se a comprar quantidades de isqueiros em forma de revólver
que Alâaddine tinha dificuldade em arranjar de modo a satisfazer as
encomendas.
Depois começava a moda das boquilhas de plástico: durante seis meses, toda
a gente utilizava essas boquilhas transparentes, contemplando o alcatrão pouco
apetitoso que nelas se acumulava com o prazer que disso retiram os cientistas
maníacos. E bruscamente, tudo aquilo era esquecido, e todos, fossem de direita
ou de esquerda, crentes ou ateus, corriam a comprar na loja de Alâaddine
rosários de todos os tamanhos e de todas as cores que desfiavam ao longo de
todo o dia e por todo o lado; e assim que esse furor acalmava, antes ainda de
Alâaddine ter tido tempo de devolver ao seu fornecedor os stocks que não
conseguira escoar, sobrevinha a moda dos sonhos, e formavam-se de novo
bichas diante da loja de pessoas que queriam comprar os pequenos tratados de
interpretação dos sonhos.
Bastava um único filme americano para que todos os jovens comprassem
óculos escuros; uma notícia nos jornais para que todas as mulheres lhe pedissem
uma pomada para os lábios; e os homens, gorros que conviriam de preferência
aos imãs; mas de um modo geral não era possível explicar a procura da clientela,
cujas manias se difundiam como a peste.
Porque era que milhares e dezenas de milhares de pessoas se punham no
mesmo momento a pendurar no vidro de trás dos automóveis, ou em cima dos
rádios e radiadores, em suas casas, ou nas suas mesas de trabalho e no
equipamento das oficinas, aqueles pequenos veleiros de madeira? Como explicar
que mães e filhos, homens e mulheres, jovens e velhos, tivessem vontade de pôr
nas paredes ou nas portas um mesmo retrato, o de uma criança de tipo europeu,
com o rosto melancólico e uma lágrima enorme a correr-lhe pela face? Sim, este
país, estas pessoas eram realmente... “estranhas”, “inexplicáveis” e até mesmo...
“assustadoras”... Eu soprava-lhe os adjectivos que ele não conseguia
encontrar, porque era a mim, e não a ele, que competia descobrir as palavras
certas. Ficámos em silêncio, os dois, por um longo momento.
Depois, enquanto ele me falava dos gansozinhos de celulóide, cuja cabeça se
move, e que não parara de vender havia anos, dos chocolates em forma de
garrafinhas, que continham licor, com uma ginja verdadeira lá dentro, e enquanto
me explicava onde se podiam encontrar as melhores, e também menos caras,
armações para estrelas de papel em Istambul, compreendi que existia um laço
entre Alâaddine e os seus clientes, um laço que seria necessário descrever com
palavras que ele era incapaz de achar. Alâaddine gostava tanto da menina vinda
com a avó comprar um arco com guizo como do rapaz borbulhento que,
apoderando-se de uma revista francesa, se retirava para um canto da loja para
fazer furtivamente amor com a fotografia de uma mulher nua; gostava tanto da
empregada bancária de óculos que comprava um romance sobre a vida
extravagante das estrelas de Hollywood, o devorava numa só noite e tentava
devolvê-lo na manhã seguinte, jurando que “já o tinha”, como do velho que lhe
rogava instantemente que embrulhasse num jornal sem a menor ilustração o
cartaz com uma rapariga a ler o Corão. Mas esta sua ternura era acompanhada
pela prudência: era capaz de compreender um bocadinho a mãe e a filha, que,
desdobrando como mapas geográficos os modelos das revistas de moda,
decidiam servir-se deles para cortarem em plena loja o tecido que tinham trazido
com elas; os garotos que, antes ainda de saírem da loja, organizavam um
combate entre os tanques que acabavam de lá comprar e acabavam por os
estragar durante a batalha. Mas, perante clientes à procura de uma lâmpada de
algibeira em forma de lápis ou de um porta-chaves enfeitado com uma caveira,
sentia a impressão de estar na presença de sinais vindos de um universo que não
conhecia nem compreendia. Sim, que sinais misteriosos estaria a dirigir-lhe,
assim, esse estranho cliente, que, chegando em pleno Inverno, num dia de neve,
à sua loja, recusava categoricamente as “Paisagens de Inverno” utilizadas para os
deveres escolares e exigia “Paisagens de Verão”? Certa tarde já adiantada,
quando se preparava para fechar a loja, tinham entrado dois homens com rostos
patibulares; tinham manipulado as bonecas com braços articulados e guarda-
roupa, de todos os tamanhos, com a afeição, a atenção e a habilidade dos
médicos que examinam bebés de carne e osso, tinham contemplado, como que
enfeitiçados, a maneira como aquelas criaturinhas cor-de-rosa abriam e
fechavam os olhos, e depois tinham-se ido embora não sem mandarem
embrulhar uma das bonecas, além de uma garrafa de raki, desaparecendo nessa
noite escura que fazia Alâaddine estremecer.
Depois de toda a espécie de incidentes deste género, Alâaddine começara,
nos últimos tempos, a sonhar com as bonecas que vendia dentro de caixas ou
sacos de plástico; imaginava-as abrindo lentamente as pálpebras, de noite, a
seguir a sair da loja, e chegava ao ponto de lhes ver crescer o cabelo. Preparava-
se talvez para me perguntar o que queriam dizer esses sonhos, mas dizendo para
consigo que já falara de mais e que estava a maçar toda a gente com as suas
próprias preocupações, recaiu no mutismo melancólico, desesperado, que oprime
tantas vezes os nossos concidadãos. Então calámo-nos os dois, e sabíamos que
esse silêncio duraria um bom bocado de tempo.
Muito mais tarde, enquanto saía, com um ar incomodado, como se se
desculpasse, Alâaddine declarou-me que eu era melhor juiz do que ele e que
tinha a liberdade de escrever o que melhor me parecesse. Um dia, caros leitores,
talvez eu escreva um bom artigo sobre aquelas bonecas e sobre os nossos
sonhos.

CAPITULO V

É UMA INFANTILIDADE

“Partimos por um motivo. Dizemo-lo. Damos o direito de resposta. Não se
parte assim.
Não, é uma infantilidade.”
Marcel Proust


Ruya escrevera a sua carta de adeus de dezanove palavras com a
esferográfica verde cuja presença ao lado do telefone era uma exigência de
sempre de Galip. Como já lá não estava e Galip não a encontrou depois de
procurar por todo o apartamento, disse para consigo que Ruya redigira a carta
imediatamente antes de sair de casa. Depois de a ter escrito, devia ter metido no
saco a esferográfica, no último momento, dizendo-se que talvez viesse a precisar
dela. Porque a grande caneta que usava com prazer — coisa que raramente lhe
acontecia — todas as vezes que decidia escrever a alguém uma carta bem
cuidada (uma carta que de resto não terminava nunca, que nunca punha dentro
de um envelope e que, ainda que fizesse tudo isso, nunca deitava no correio), a
caneta, essa, estava no seu lugar, na gaveta da cómoda do quarto de dormir.
Galip consagrou um tempo enorme mais tarde e por diversas vezes à busca do
caderno do qual Ruya arrancara uma folha para lhe escrever essa carta. A horas
diferentes da noite, comparou o seu papel com o dos cadernos que tirava do
velho armário, onde, a conselho de Djélâl, Ruya montara um pequeno museu do
seu passado: o caderno de aritmética da escola primária, em que o preço de uma
dúzia de ovos era calculado na base de seis piastras por ovo; o caderno de
orações, corveia das aulas de religião, tendo nas últimas páginas cruzes gamadas
e a caricatura do professor muito vesgo; um caderno de literatura em cujas
margens se viam modelos de saias e os nomes de certas estrelas do cinema
mundial ou de certos belos jovens desportivos ou de actores de música pop (com
uma nota: “Para o exame: pode haver uma pergunta sobre Husn-u Achk.”).
Depois de uma última tentativa, depois de todas as buscas que empreendera
nas diferentes gavetas e que se tinham revelado todas elas decepcionantes, no
fundo das caixas que despertavam as mesmas associações de ideias sem
qualquer resultado, de baixo da cama e até nos bolsos das roupas de Ruya, que
cheiravam todos ao mesmo perfume, como que para convencer Galip de que
nada mudara, logo a seguir à oração da manhã, o seu olhar caiu de novo no velho
armário e a mão que estendeu ao acaso poisou no caderno do qual o papel da
carta fora arrancado. No entanto, já folheara aquele caderno sem prestar atenção
aos desenhos e às notas que continha (“O nosso exército procedeu ao golpe de
Estado de 27 de Maio porque o poder estava a destruir as nossas florestas.” “A
taça da hidra parece-se com a jarra azul do aparador da avó.”) Precisamente a
meio do caderno, uma página fora arrancada, com uma precipitação implacável.
Um pormenor que, como todos os indícios mínimos que Galip pôde reunir ao
longo da noite, apenas despertou nele vagas associações de ideias e observações
sem importância, que desabavam umas atrás das outras, como uma construção
de dominós.
Associações de ideias: muitos anos antes, quando Ruya e ele estavam na
mesma classe, mas em carteiras diferentes, a professora de História, essa que era
tão feia e que eles suportavam pacientemente troçando dela, exclamava de
repente: “Peguem nos vossos papéis, nas vossas canetas!” No silêncio provocado
pelo terror de um exame que a turma não esperava, a professora não podia
suportar o barulho das folhas arrancadas dos cadernos: “Não rasguem os
cadernos! Exijo folhas de exercícios! Folhas de exercícios!”, gritava ela com a
sua voz de falsete. “Quem rasga os cadernos da nação, quem se torna culpado de
desperdício, não é bom turco, não passa de um bastardo, e vai ter zero!” E
aplicava a ameaça assim proferida.
Um pequeno indício: no silêncio da noite, insolentemente quebrado pelo
ruído do frigorífico, cujo motor começava a ronronar com intervalos
imprevisíveis, descobriu, bem no fundo do armário que revolvia pela enésima
vez, um romance policial, uma tradução, atrás de um par de sapatos verde-
petróleo de saltos altos que Ruya não levara. Não se interessou imediatamente
pelo livro, porque havia centenas de policiais em casa, mas as suas mãos, que
desde a véspera se tinham habituado a investigar tudo o que encontravam no
fundo dos armários ou das gavetas, folhearam maquinalmente o livro de capa
negra, ilustrada com a imagem de um pequeno mocho com grandes olhos cruéis,
e Galip descobriu entre as páginas uma fotografia, a de um belo homem nu.
Comparando instintivamente o sexo do homem com o seu, “deve ter recortado
isto de uma revista comprada na loja do Alâaddine!”, disse para consigo.
Outra associação de ideias: Ruya sabia muito bem que Galip nunca tocava
em romances policiais, que achava insuportáveis. Recusava-se a perder o seu
tempo num universo factício, em que os ingleses eram terrivelmente ingleses, os
gordos deveras gordos, e em que todos os sujeitos e objectos, culpado e vítima
incluídos, se transformavam totalmente em indícios, ou a isso se viam forçados
pelo autor, sendo-lhes de qualquer modo impossível serem eles próprios. (“Faz
passar o tempo, é tudo! replicava Ruya”, enquanto ia roendo as avelãs e os
pistácios que comprava na loja de Alâaddine, tal como fazia com os romances
policiais.) E Galip sustentara perante ela que o único romance policial legível
seria aquele cujo próprio autor ignorasse o nome do assassino. Assim, os
personagens e as coisas já não seriam obrigados a dissimular-se sob um disfarce
de falsos indícios, de falsas pistas, obedecendo à vontade do autor, que, esse,
pelo seu lado, está a par de tudo; poderiam tomar lugar no livro imitando o que
eram na vida real, e deixariam de ser fantasmas imaginados pelo escritor. Mas
Ruya, bem melhor leitora de romances do que o marido, perguntara-lhe como se
poriam limites à abundância dos pormenores. Porque no romance policial cada
pormenor aparecia sempre com um fim preciso.
Pormenores: antes de sair de casa, Ruya havia espalhado abundantemente
pela casa de banho, a cozinha e o corredor um desses produtos cujas etiquetas
representam uma barata enorme ou três pequenos percevejos para aterrorizar o
consumidor. (O cheiro persistia.) Accionara o botão do aparelho a que
chamamos um chofben(2) (por distracção, sem sombra de dúvida, porque a
quinta-feira era o dia em que todo o prédio dispunha de água quente); percorrera
o Milliyet (o jornal estava amarrotado) e começara a resolver as palavras
cruzadas com a esferográfica verde que depois levara consigo: mausoléu,
interstício, lua, mal-estar, divisão, rami, mistério, escuta. Tomara o pequeno-
almoço (chá, queijo fresco, pão). Não lavara a louça. Fumara dois cigarros no
quarto, quatro na sala.

*2. Chofben: de chauffe-bain (esquentador). (NT)

Levara apenas alguma da sua roupa de Inverno, uma parte dos produtos de
beleza que acusava de lhe estragarem a pele, as pantufas, os romances mais
recentes que estava a ler, o porta-chaves vazio que afirmava dar-lhe sorte e que
pendurada no fecho do seu pequeno cofre, a sua única jóia: o colar de pérolas, a
escova de pentear, acompanhada de um espelho, e vestira o casaco, que tinha a
cor dos cabelos dela. Pusera decerto tudo na velha mala, de tamanho médio, que
pedira emprestada ao pai (o tio Mélih trouxera essa mala do Magrebe), para o
caso de virem a precisar dela para uma viagem que de resto nunca tinham
chegado a fazer. Voltara a fechar a maior parte dos armários e dos armários de
parede (com um pontapé), fechara as gavetas, deixara no seu lugar todos os
objectos que costumava espalhar um pouco por todo o lado e redigira a sua carta
de adeus, de um jacto, sem experimentar qualquer hesitação, porque não havia
um único rascunho nem nos cinzeiros nem no caixote do lixo.
Talvez fosse inexacto classificar como carta de adeus aquela carta. Ruya não
precisava que não voltaria, mas também não dizia que o viria alguma vez a fazer.
Dir-se-ia que era a casa e não Galip que deixara. E era sobretudo uma
cumplicidade que propunha a Galip nas suas poucas palavras: “Arranja maneira
de não dizeres nada aos meus pais!”, uma cumplicidade que ele imediatamente
aceitara e que não era desagradável, porque ela não acusava directamente Galip
de ser a causa da sua partida, e porque, fosse como fosse, sempre se tratava de
uma cumplicidade entre os dois. A promessa que em contrapartida lhe fazia
cabia em cinco palavras: “Depois dou-te notícias minhas.” Mas não lhas dera
durante a noite toda.
E ao longo de toda a noite, as canalizações da água e as tubagens dos
radiadores soltaram gemidos, ralhos e suspiros de toda a espécie. Nevou a
intervalos. O vendedor de sumo de painço fermentado passou só uma vez. Galip
contemplou durante horas a assinatura a tinta verde de Ruya. No interior da casa,
os objectos e as sombras mudaram de aspecto, a casa tornou-se uma outra casa.
“Assim faz três anos que esta luz no tecto parece uma aranha!”, surpreendeu-se
Galip. Procurou dormir, na esperança de um sonho agradável, mas não
conseguiu. E ao longo de toda a noite, a intervalos regulares, renovou buscas já
feitas (vira bem na caixa, no fundo do roupeiro? Sim, fizera-o, sem dúvida,
talvez não, não, com certeza não, e agora ia ter de recomeçar tudo). No meio
destas buscas sem esperança, parava, tendo na mão a fivela de um velho cinto de
Ruya que despertava nele uma profusão de recordações, ou o estojo vazio de um
par de óculos escuros perdidos havia muito, compreendia que todos aqueles
esforços eram inúteis (como eram pouco críveis os detectives dos romances,
como era optimista o autor que sussurrava os indícios necessários ao ouvido do
seu herói!), voltava a poisar o objecto que tinha entre os dedos no sítio onde o
encontrara, com o cuidado e a prudência do investigador que procede ao
inventário de um museu; as pernas conduziam-no em seguida à cozinha, com o
passo inconsciente do sonâmbulo; abria o frigorífico, remexia lá dentro sem tirar
nada, depois voltava a instalar-se na sua poltrona favorita, na sala, à espera de
começar outra vez o mesmo ritual.
E ao longo de toda essa noite em que se encontrava só, abandonado, naquela
poltrona, da qual, ao longo dos seus três anos de casamento, contemplara Ruya,
sentada diante dele, mergulhada na leitura dos seus policiais, impaciente,
nervosa, balouçando as pernas, mexendo no cabelo, soltando de tempos a tempos
um profundo suspiro, Galip esteve constantemente obcecado pela mesma
imagem: não era a da rapariga dos seus anos de liceu, quando a via sentada numa
pastelaria ou numa leitaria, onde baratas intrépidas e indiferentes erravam pelas
mesas, na companhia de rapazes cujo lábio superior se cobrira de penugem
muito mais cedo do que o de Galip, e que tinham começado a fumar muito mais
cedo do que ele; nem a que descobrira três anos depois, num sábado à tarde,
quando subira ao andar dela (“Vim ver se teriam umas etiquetas azuis!”), a
maquilhar-se diante do toucador oscilante da mãe, balouçando nervosamente a
perna e lançando olhadelas ao relógio; não eram as impressões despertadas pelos
sentimentos de derrota, de solidão e de nulidade (tenho o rosto assimétrico, sou
desajeitado, sou demasiado apagado, falo com dificuldade!) que o invadiram
quando, três anos ainda mais tarde, soubera do casamento — um casamento que
não era simplesmente político — de uma Ruya pálida e cansada — que de resto
ele deixara por completo de ver — com um jovem apaixonado pela política,
muito corajoso e disposto a todos os sacrifícios, se se desse crédito aos que o
rodeavam, e que publicava já nesse tempo, assinando-as, as suas primeiras
“análises políticas” na revista A Aurora do Trabalho. A única imagem que
assombrou Galip durante toda a noite foi, com o sentimento de ter perdido uma
ocasião, um divertimento ou uma parte inteira da sua vida, a da luz da loja de
Alâaddine derramada no passeio coberto de neve.
Um ano e meio depois da instalação de Ruya e dos seus pais no último andar,
quando frequentavam ainda o curso elementar — era uma sexta-feira, ao cair da
noite, e o ruído dos carros e dos eléctricos chegava até eles vindo da praça de
Nichantache —, tinham-se lançado num novo jogo a que chamavam
“desapareci”, uma mistura das regras da “passagem secreta” e do “não vi nada”.
Alternadamente, iam esconder-se num canto dos apartamentos dos avós ou dos
tios — era o “desaparecimento”, um jogo, muito simples que fazia apelo à
paciência e à imaginação das partes, porque proibia que se acendesse a luz nos
quartos escuros e não fixava quaisquer limites de tempo ou de lugar. Quando foi
a sua vez de “desaparecer”, Galip trepara (pelo braço e, depois, prudentemente
pelas costas de um sofá) para cima do armário do quarto da avó, um esconderijo
que atraíra a sua atenção dois dias antes, num relâmpago de criatividade.
Convencido de que Ruya nunca o descobriria ali, imaginara no escuro as
reacções da prima; pusera-se no lugar dela, a fim de compreender como Ruya
experimentava a tristeza do seu desaparecimento! Estaria decerto a chorar;
decerto cansada de solidão; no andar de baixo, numa sala escura, Ruya estaria a
suplicar-lhe que saísse do seu esconderijo, com a voz cheia de lágrimas! Mais
tarde, depois de uma espera que parecera tão longa como a eternidade à criança
que era, Galip, tomado de impaciência e sem assumir que se encontrava ele
próprio vencido por causa dessa impaciência, saltara do armário e, acostumando
pouco a pouco o seu olhar às pálidas luzes do apartamento, começara à procura
de Ruya. Após ter corrido de um andar para outro, preso de um estranho
sentimento de irrealidade e de insegurança, acabara por perguntar por ela à avó.
“Mas estás todo cheio de pó!”, dissera a avó. “Onde é que estiveste metido?
Andaram à tua procura por todo o lado!” E o avô acrescentara: “O Djélâl veio
cá. Foram à loja do Alâaddine, a Ruya e ele.” Galip correra imediatamente para a
janela, com a sua vidraça fria, azul-marinho, sombria. Nevava: uma neve pesada,
melancólica, que convidava a sair. Do estabelecimento de Alâaddine, que se via
ao longe, entre os brinquedos, as revistas ilustradas, as bolas, os ioiôs, os tanques
e as garrafas de todas as cores, uma luz que tinha a palidez do rosto de Ruya mal
chegava a reflectir-se na brancura da neve espessa que cobria o passeio.
Ao longo de toda a noite, sempre que se lembrava desta imagem de havia
vinte e quatro anos, sentia a impaciência que então o tomara, com a mesma
irritação que sentimos diante de um fervedor de leite que transborda. Para onde
fora assim o pequeno pedaço de vida que deixara escapar? Da outra sala
chegava-lhe o tiquetaque incessante e escarninho do relógio trazido de casa da
tia Hâlé, que pendurara com pressa e aplicação na parede do seu “ninho de
amor”, nos primeiros dias do casamento de ambos, no desígnio de reavivar as
recordações de infância e todas as lendas da sua vida em comum de outrora, e
que desfiara a eternidade ao longo de anos e anos no corredor dos avós. Durante
os seus três anos de casamento, fora sempre Ruya, e não Galip, que parecera
inquieta por estar a deixar escapar as alegrias e os prazeres de uma outra vida,
desconhecida, que se situava noutro lugar, qual não se sabia.
Saía de manhã para o trabalho, e voltava para casa ao fim da tarde,
debatendo-se com os cotovelos e os pés anónimos dos passageiros de rosto
sombrio e impessoal que voltavam do trabalho a bordo dos autocarros e dos táxis
colectivos. Durante o dia, telefonava duas ou três vezes para casa, inventando de
cada vez pretextos que suscitavam a troça de Ruya, e ao fim da tarde, quando
voltava à tepidez da casa, conseguia adivinhar, sem se enganar muito nas suas
deduções, o que Ruya fizera durante o dia, observando o número e a marca das
pontas de cigarro acumuladas nos cinzeiros, a disposição dos móveis, a presença
de algum novo objecto ou até mesmo as cores da mulher. Quando, num instante
de felicidade intensa (o que era excepcional) ou de suspeitas levadas ao extremo,
imitando, como decidira fazer desde a véspera, os maridos dos filmes ocidentais,
perguntava sem rodeios a Ruya o que fizera nesse dia lá em casa, sentiam os dois
um certo embaraço, vendo-se nesse terreno, escorregadio e vago, que nenhum
filme descreve abertamente, seja oriental ou ocidental.
Fora só depois do seu casamento que Galip se dera conta da presença de um
sector secreto, misterioso, cheio de evasivas, na vida do ser anónimo que os
rótulos burocráticos e as estatísticas qualificam como “doméstica” (criatura
rodeada de filhos e de detergentes, à qual Galip nunca pudera assimilar Ruya).
Sabia-o bem: tal como a parte desconhecida e incompreensível que se
escondia no fundo da memória de Ruya, esse jardim onde proliferavam plantas
misteriosas e flores aterradoras fora-lhe sempre inacessível. Essa zona interdita
constituía o objecto e o alvo de todos os anúncios de sabões e detergentes, das
fotonovelas, das actualidades extraídas das revistas ilustradas estrangeiras, da
maior parte dos programas de rádio e dos suplementos a cores dos jornais
diários, mas permanecia sempre tão secreta, tão misteriosa como antes, para
além do alcance de tudo e de todos. Quando, por exemplo, impelido por um
vago instinto, Galip se perguntava como e porquê estavam as tesouras de cortar
papel poisadas ao lado da travessa de cobre em cima do radiador, ou quando
encontravam ambos, durante um passeio de domingo, uma amiga que Ruya via
ainda muitas vezes, como ele sabia, mas que pelo seu lado ele não via há anos,
sentia-se de súbito apanhado de surpresa, como se descobrisse um indício que
conduzia a essa região secreta, um sinal misterioso que dela tivesse irrompido;
tão desamparado como os membros de uma seita muito difundida, mas forçada à
clandestinidade, que se vêem bruscamente confrontados com os segredos que o
grupo não pode continuar a manter. E o mais aterrador era o facto de o mistério
(tal como os segredos da seita interdita) que rodeia a criatura abstracta chamada
“mulher sem profissão” se observar em todas as mulheres: comportavam-se
como se não tivessem nem segredo nem ritual nem pecado nem alegria nem
história a partilhar, e além disso pareciam agir com toda a franqueza, e não com
o desejo de esconderem fosse o que fosse. Esse domínio reservado era ao mesmo
tempo atraente e repugnante; lembrava os segredos tão ciosamente guardados
pelos eunucos do palácio imperial. Como toda a gente conhecia a sua existência,
talvez não fosse mais aterrador que um pesadelo banal, porque nunca fora
descrito nem qualificado, embora passasse de uma geração para outra, havia
séculos, sempre com a mesma estranheza; era um mistério lamentável, porque
nunca fora fonte de orgulho, de confiança ou de vitória. Galip dizia para consigo
por vezes que se tratava de uma espécie de maldição, como essas que perseguem
ao longo de séculos todos os membros de uma mesma família, mas como vira
muitas vezes com os seus próprios olhos muitas mulheres regressarem ao seu
âmbito de livre vontade, deixando de trabalhar, porque se casavam ou porque
tinham tido um filho, ou por outros motivos obscuros, adivinhava que os
mistérios da seita comportavam um elevado grau de atracção; de tal modo que
em muitas mulheres, de entre essas que, para escaparem à maldição, decididas a
tornarem-se pessoas diferentes, tinham conseguido entrar com êxito no mundo
do trabalho, Galip distinguia veleidades de regressarem às cerimónias secretas,
aos momentos mágicos que tinham deixado para trás, a essa região sombria e
sedosa que ele não compreenderia nunca. Quando Ruya desatava a rir às
gargalhadas, surpreendendo-o a ele próprio, do gracejo idiota ou do jogo de
palavras duvidoso que ele acabava de fazer, ou quando acolhia com o mesmo
bom humor a carícia desastrada da mão que ele lhe passava pela floresta dos
cabelos cor de esquilo, nesses instantes de proximidade parecidos com um sonho
que acontecem no casal, quando tudo o mais desaparece, o passado e o presente,
as revistas ilustradas e os ritos que ensinam, por vezes vinha a Galip uma
vontade de fazer perguntas à mulher sobre essa zona misteriosa, à margem da
lavagem da roupa e da louça, dos romances policiais e dos passeios (o médico
declarara-lhes que nunca teriam filhos e Ruya nunca exprimira o desejo de
encontrar emprego), morria de vontade de lhe perguntar o que fizera ela em casa
nesse dia, a esta ou àquela hora exactamente, mas a distância que os separaria
depois de uma tal pergunta tornar-se-ia tão aterradora, e as informações que uma
tal pergunta reclamava eram tão estranhas às palavras que ambos usavam no seu
vocabulário comum que ele nunca era capaz de a fazer, e se contentava com fitar
Ruya, adormentada nos seus braços, um olhar desprovido de expressão. “Estás
outra vez com o olhar vazio!”, dizia-lhe ela também, retomando a fórmula que a
mãe de Galip costumava utilizar para falar com ele nos seus tempos de garoto.
Soou a oração da manhã, e Galip amodorrou-se um breve instante na sua
poltrona. Sonhou: os peixes japoneses oscilavam com lentidão num aquário
cheio de um líquido do mesmo verde que o da esferográfica; havia uma confusão
entre Ruya, Galip e Vassif, depois compreendiam que o surdo-mudo era Galip e
não Vassif, mas não se afligiam por aí além: de qualquer maneira, tudo acabaria
por se arranjar, muito em breve.
Galip acordou, instalou-se à mesa e procurou uma folha de papel, como
supunha que Ruya o fizera, dezanove ou vinte horas antes. Não a encontrando —
tal como Ruya —, pôs-se a anotar no verso da carta de adeus os nomes das
pessoas ou dos lugares que lhe haviam voltado ao espírito durante a noite. O que
resultou numa lista cada vez mais longa, e que o irritou porque lhe dava a
impressão de estar a imitar os heróis dos romances policiais. Os antigos
apaixonados de Ruya, as suas colegas de liceu mais divertidas, certos amigos
cujos nomes ela por vezes citava, os seus antigos camaradas políticos, os seus
amigos comuns a quem Galip decidira nada dizer antes de reencontrar Ruya,
todas essas palavras pareciam piscar maldosamente o olho ao detective amador
em que ele se tornara, ou saudá-lo com um gesto alegre; comunicavam-lhe falsos
indícios com as curvas e os anéis das vogais e das consoantes que as
compunham, a sua maneira de subirem e de descerem, as suas formas e o seu
rosto que adquiriam cada vez mais significações, ou antes cada vez mais duplos
sentidos. Depois da passagem dos homens do lixo que esvaziavam os enormes
caixotes despejando-os com estrondo nas caixas das camionetas, Galip recusou-
se a prolongar a lista, e meteu-a, tal como a esferográfica verde, no bolso interior
do casaco que contava vestir nesse dia.
Quando começou a amanhecer, sobre o brilho azulado da neve, apagou todas
as luzes, examinou uma vez mais o caixote do lixo e pô-lo à porta para evitar
despertar as suspeitas do porteiro demasiado curioso. Deixou o chá a abrir na
água aquecida, introduziu uma lâmina nova na gilete, barbeou-se, mudou de
roupa interior, enfiou uma camisa que fora lavada mas não passada a ferro e
arrumou de novo o apartamento. Pegou no jornal que o porteiro lhe metera por
baixo da porta no intervalo de tempo de que precisou para se vestir e, enquanto
bebia o chá, começou a ler a crónica de Djélâl, uma crónica que falava do
“Olho” que vira uma noite nas trevas de um bairro popular. Galip conhecia a
crónica que Djélâl publicara muitos anos antes, mas sentiu de novo o terror que
o Olho despertara então nele. E, no mesmo instante, o telefone tocou.
“É a Ruya!”, disse para consigo, e dirigiu-se para o aparelho pensando que
poderiam ir talvez ao cinema essa noite: o Konak. A voz no auscultador foi uma
decepção, mas não teve a menor hesitação ao responder à tia Suzan: sim, a febre
descera, Ruya passara bem a noite, tivera até um sonho que contara a Galip.
Ficaria decerto muito contente por falar com a mãe. Gritou na direcção do
corredor: “Ruya! Ruya! É a tua mãe!” Pareceu-lhe ver Ruya sair da cama a
bocejar, espreguiçando-se indolentemente enquanto procurava as pantufas.
Mas mudou imediatamente de bobina no filme que fazia: como bom esposo
preocupado com a saúde da mulher, Galip atravessava o corredor para ir chamá-
la e descobriu-a de novo mergulhada no sono. Para melhor dar vida a este
segundo argumento e oferecer à tia Suzan uma atmosfera convincente, recorreu
inclusivamente a “efeitos especiais”
percorrendo duas vezes o corredor, e depois voltou a pegar no telefone: “Está
a dormir, tia Suzan, lavou a cara, porque tinha as pálpebras coladas da febre,
tornou a deitar-se e a adormecer.” “Ela tem de beber muito sumo de laranja”,
respondeu-lhe a tia Suzan, explicando-lhe cuidadosamente onde poderia arranjar
as laranjas sanguíneas melhores e mais baratas de Nichantache. “Esta noite,
talvez vamos ao Konak”, afirmou Galip com convicção. “Sobretudo, ela que não
apanhe frio!”, respondeu-lhe a tia Suzan, depois decerto dizendo para consigo
que se estava a meter demasiado na vida deles, mudou bruscamente de assunto:
“Sabes que ao telefone a tua voz se parece estranhamente com a do Djélâl?
Também apanhaste frio, tu? Toma cuidado, não deixes que a Ruya te passe
os micróbios!”
Desligaram ambos, com o mesmo respeito, a mesma afeição e também a
mesma delicadeza; tanto, dir-se-ia, para poupar o aparelho como para evitar
despertar Ruya.
Quando recomeçou a ler a crónica de Djélâl, logo a seguir a ter desligado, na
bruma dos seus pensamentos e sob o olhar do Olho do artigo, e sob o efeito
também do personagem que acabava de interpretar: “Claro, a Ruya foi ter com o
antigo marido!” decidiu ele bruscamente, e surpreendeu-se de não ter até esse
momento conseguido distinguir a realidade evidente, que escondera a si próprio
a noite inteira, cobrindo-a de outras ilusões.
Sempre com a mesma decisão, foi ao telefone na esperança de poder falar
com Djélâl.
Tencionava explicar-lhe a sua aflição e a convicção a que acabava de chegar:
“Vou pôr-me já à procura dela”, dir-lhe-ia ele, “mas quando a descobrir — o que
não demorarei muito a fazer —, tenho medo de não conseguir convencê-la a
voltar. Tu és o único a poder chamá-la à razão. Que me aconselhas a dizer-lhe
para a convencer a voltar para casa?” (“Que volte para mim”, era o que Galip
quereria ser capaz de dizer, mas nunca teria coragem para pronunciar tais
palavras.) “Antes do mais, tens de te acalmar!”, responder-lhe-ia Djélâl com uma
voz afectuosa. “Quando é que ela se foi embora? Acalma-te! Vamos analisar os
dois o problema. Vem ter comigo ao jornal.” Mas Djélâl não estava nem no
jornal nem em casa.
Galip saiu deixando o auscultador do telefone fora do descanso. “Se a tia
Suzan me disser: passei o dia a telefonar para vossa casa, a linha estava sempre
ocupada, eu digo-lhe: a Ruya pousou mal, a tia conhece-a, é tão distraída,
esquece-se sempre de tudo!”


CAPÍTULO VI

OS FILHOS QUERIDOS DE MESTRE BÉDII

“... somente suspiros que faziam tremer o ar eterno...”
Dante


Desde que tivemos a audácia de abrir as nossas colunas aos problemas dos
nossos concidadãos de todas as categorias, de todas as classes, de todos os
géneros, recebemos dos nossos leitores cartas muito interessantes. Vendo que as
suas realidades podiam finalmente ser expressas, alguns não têm sequer a
paciência de as expor por escrito e acodem à nossa redacção para nos relatarem a
sua história com todos os pormenores. Outros, quando nos vêem duvidar dos
acontecimentos incríveis que nos contam, dos pormenores assombrosos que nos
referem, chegam a obrigar-nos a sair da nossa mesa de trabalho e arrastam-nos
até às trevas e à lama das zonas inferiores da nossa sociedade, das quais ninguém
até ao momento falou, pelas quais ninguém se interessou. Foi assim que
conhecemos a história, mantida deliberadamente secreta, da arte do manequim
na Turquia.
Durante séculos, a nossa sociedade ignorou essa arte, se exceptuarmos os
manequins a que chamaremos “folclóricos”, esses espantalhos que cheiram a
aldeia e a estrume. O primeiro artesão que empreendeu o exercício do ofício
entre nós, o santo padroeiro, poderemos dizê-
lo, da profissão, foi mestre Bédii, que confeccionou os manequins para o
Museu da Marinha, criado por ordem do sultão Abdulhamit e sob a alta
protecção do príncipe herdeiro Osman Djelâlettine Efendi. Os primeiros
visitantes do museu ficaram — segundo a descrição das testemunhas — varados
de estupefacção quando descobriram, com os seus imensos bigodes e o seu porte
majestoso, instalados entre os caíques imperiais e as galeras, os nossos corsários
e os nossos marinheiros, que causaram tantas contrariedades, há trezentos anos,
aos navios italianos e espanhóis do Mediterrâneo.
Para confeccionar estas primeiras obras-primas, mestre Bédii utilizara
madeira, gesso, cera, couro de gazela, de camelo e de ovelha, verdadeiros
cabelos e barbas verdadeiras. Mas quando viu essas criaturas miraculosas,
realizadas com tanto talento, o Xeque Ul Islam da época, muito limitado, foi
tomado de um grande furor: uma imitação tão perfeita da criatura humana foi
assimilada a uma tentativa de rivalidade com o Senhor, os manequins foram
retirados do museu e colocados entre as galeras simples espantalhos.
Esta mentalidade e esta interdição, cujos exemplos se contam aos milhares
na história — ainda inacabada — da ocidentalização do nosso país, não lograram
todavia extinguir a “chama da criação” que consumia mestre Bédii. Enquanto
continuava a fabricar os seus manequins na oficina, esforçava-se por convencer
as autoridades a reporem no museu as suas obras, às quais chamava “seus
filhos”, ou então a expô-las em qualquer outro local.
Goradas todas as tentativas, passou a odiar o Estado e o poder, mas nunca
renunciou a exercer a sua arte. Continuou a confeccionar manequins na cave de
sua casa, que transformara em oficina. Posteriormente, para escapar às acusações
de “feitiçaria, ateísmo e desvio” lançadas contra ele pelos vizinhos, e também
porque os seus “filhos”, cada vez mais numerosos, já não cabiam na sua morada
de muçulmano modesto, deixou a cidade para se instalar numa casa na margem
europeia em Gaiata.
Nessa casa estranha, situada no bairro da Torre de Gaiata, onde o meu leitor
me levou, mestre Bédii prosseguiu os seus minuciosos trabalhos, sempre com a
mesma fé e a mesma paixão, e transmitiu ao seu filho o ofício que exercia e que
ninguém lhe ensinara. Após trabalhos que duraram vinte anos, na vaga de
ocidentalização exaltada dos primeiros tempos da nossa república, quando os
senhores elegantes abandonaram o fez para adoptar o panamá, e as belas
senhoras se desembaraçaram dos seus tcbarchaft passaram a calçar sapatos de
salto alto, as lojas de roupa mais reputadas da rua de Pêra começaram a instalar
manequins nas suas montras. Quando mestre Bédii viu esses primeiros
manequins importados da Europa, disse para consigo que chegara enfim o dia da
vitória havia tantos anos esperado; precipitou-se para o quarteirão de Pêra, mas
na grande rua cheia de estabelecimentos de luxo e de locais de prazer, que se
chamava agora Beyoglou, esperava-o uma nova decepção, que ia fechá-lo — até
à morte — na penumbra de uma vida subterrânea.
Todos os proprietários de Bom e Barato ou de outros estabelecimentos que
vendiam ratos, casacos, conjuntos, saias ou capas de confecção, todos os
chapeleiros, todos os decoradores de montras que iam à sua oficina para verem
os manequins de mestre Bédii, ou a quem este os propunha, recusavam os seus
serviços. Os manequins que ele criara pareciam-se com a gente da nossa terra e
não com os habitantes dos países ocidentais que eram os fornecedores de
modelos. “O que o cliente deseja”, explicara-lhe um dos comerciantes, “não é o
casaco que vê num tipo de bigodes, escuro e seco, com as pernas arqueadas, que
ele encontra em dezenas de milhares de exemplares todos os dias, não, o que ele
quer vestir é o casaco usado por uma criatura jovem e bela, vinda de um
universo longínquo, desconhecido, que lhe permita imaginar-se também
diferente, um outro homem.” Um decorador de montras, homem de experiência,
depois de descobrir com admiração as obras de mestre Bédii, declarara-lhe que,
infelizmente, não podia instalar nas suas montras “estes verdadeiros
concidadãos, estes verdadeiros turcos”, porque os turcos já não queriam ser
turcos, queriam ser outra coisa. Fora justamente por isso que tinham imaginado a
“reforma do vestuário”, fora por isso que tinham cortado as barbas, mudado a
sua maneira de falar e o seu próprio alfabeto. O patrão de um grande
estabelecimento, que usava uma linguagem mais concisa, explicara ao velho
artesão que os clientes compravam, não uma peça de roupa, mas uma ilusão. O
que na realidade desejavam era parecer-se com os que se vestiam assim.
Mestre Bédii não tentou sequer confeccionar manequins em conformidade
com o novo ideal; compreendera bem que nunca poderia rivalizar com aquelas
criaturas importadas da Europa, cuja pose e cujo sorriso de anúncio de pasta
dentífrica mudavam sem descanso. Por isso voltou aos fantasmas tão verídicos
que abandonara na penumbra da sua oficina. E
durante os quinze anos de vida que ainda viveu, criou mais de cento e
cinquenta, todos verdadeiras obras-primas, manequins, nos quais os seus sonhos
bem da nossa terra se cobriam de carne e osso. O seu filho, que apareceu no
jornal para me convidar a visitar a oficina do pai, apresentou-mos um a um e
explicou-me que a “nossa essência”, o que faz com que “nós sejamos nós”, ali
estava enterrada naquelas obras tão insólitas, cobertas de pó.
Estávamos na cave escura e fria de uma casa situada numa rua inclinada e
lamacenta, com degraus arrancados e passeios tortos. Rodeava-nos por todos os
lados a vida inteiriçada dos manequins, que pareciam esforçar-se num frémito
por se moverem, por chegarem à vida passando à acção. Na cave obscura,
centenas de rostos e de olhares expressivos observavam-nos na sombra ou
fitavam-se uns aos outros. Sentados ou de pé, conversavam ou comiam, riam ou
rezavam, alguns deles pareciam lançar-me um desafio à vida exterior, no interior
de um quadro 'existencialista. Era tudo evidente: havia naqueles manequins uma
vitalidade impossível de encontrar nas montras de Beyoglou ou de Mahmout-
Pacha, ou, melhor ainda, que não poderíamos sequer experimentar nas multidões
da ponte de Gaiata. A vida jorrava numa vaga de luz daquela massa de
manequins atravessados por frémitos, como se uma respiração os animasse.
Sentia-me enfeitiçado. Lembro-me de me ter aproximado com temor, mas
irresistivelmente, de um deles, estendi a mão, como que para beneficiar eu
próprio da sua vitalidade, na esperança de descobrir o segredo daquele realismo,
o mistério desse universo, quis atingir “essa coisa” (um velho ensimesmado nas
suas preocupações de cidadão), e recordo-me de a ter tocado: a pele era dura,
assustadora e fria como a cave.
— O meu pai sempre nos repetiu que devíamos, acima de tudo, estudar os
gestos que nos fazem ser aquilo que somos — explicou-me com orgulho o filho
de mestre Bédii. Depois de longas horas de um penoso labor, o pai e ele surgiam
das trevas do bairro da Torre de Gaiata, iam instalar-se a uma mesa do café dos
proxenetas, de onde se via melhor a praça de Taksim, pediam chá e punham-se a
observar os gestos da multidão. Nesses anos, o seu pai afirmava que podia
transformar-se a maneira de viver de um povo, a sua história, a sua cultura, a sua
tecnologia, a sua arte e a sua literatura, mas recusava-se a admitir que fosse
possível transformar os seus gestos. E enquanto me referia as palavras do seu
pai, o filho imitava para mim os gestos de um motorista de táxi a acender o
cigarro; explicava-me porquê e como os jovens marginais de Beyoglou andam
com os braços ligeiramente afastados do corpo, avançando um pouco de lado,
como um lagostim; chamava-me a atenção para o queixo de um aprendiz, que,
por trás de um tabuleiro de grão-de-bico torrado, ria a bandeiras despregadas,
como todos nós fazemos; explicava-me o medo que se lê nos olhos das mulheres
da nossa terra, que olham sempre para a frente quando andam sozinhas na rua,
um saco de compras na mão, e também porque é que os nossos compatriotas
andam de cabeça baixa nas nossas cidades e no campo andam a olhar sempre
para o céu. Muitas e muitas vezes, fez-me notar os gestos, as posturas, o
elemento “muito nosso” na atitude daqueles manequins que esperavam
pacientemente que soasse a hora da eternidade que lhes concedesse o
movimento. Além disso, compreendia-se logo que aquelas criaturas
maravilhosas tinham todas as qualidades requeridas para a apresentação de belas
roupas.
E todavia, nesses manequins, nessas criaturas desafortunadas, havia qualquer
coisa que nos impelia, a voltar o mais depressa possível à claridade e à vida de lá
de fora: como explicá-lo ? — era um lado doloroso, assustador, quase terrífico. E
quando o homem acrescentou: “Mais tarde, o meu pai renunciou a observar os
gestos de todos os dias...”, compreendi que não me enganara, que tinha de facto
sentido qualquer coisa de terrífico. O pai e o filho haviam começado a notar
pouco a pouco que os movimentos que estou a tentar descrever por meio da
palavra “gesto”, essas atitudes quotidianas que vão da explosão de riso à maneira
de assoar o nariz, do modo de andar ao olhar hostil lançado de través, da maneira
de apertar a mão à de abrir uma garrafa, tinham começado a mudar, a perder
sinceridade. Enquanto contemplavam a massa de gente, do seu posto de
observação no café dos proxenetas, não tinham notado imediatamente que
modelo era o escolhido pelo homem da rua, por esse homem que não se encontra
senão com outros homens da rua. Esses gestos a que os dois homens chamavam
“o tesouro mais precioso da nossa gente”, os movimentos dos seus corpos na
vida quotidiana, transformavam-se pouco a pouco, lentamente, como que
obedecendo às ordens de um chefe invisível e secreto, e depois acabavam por
desaparecer, substituídos por novas atitudes, decalcadas de não se sabia que
modelo. Por fim, num dia em que o pai trabalhava numa série de manequins de
crianças, tinham compreendido bruscamente a causa do fenómeno: “É por causa
desses malditos filmes!”, exclamara o filho.
Sim, os gestos do homem da rua começavam a perder a sua autenticidade por
causa desses malditos filmes estrangeiros que se importavam toma lá, aqui tens
mais um, e que passavam horas a fio nas salas de cinema. As nossas gentes
abandonavam, com uma rapidez que ainda não se notava, os seus gestos
próprios; tinham começado a adoptar, a imitar os movimentos dos outros povos.
Não quero abusar da vossa paciência referindo-vos todos os pormenores
enumerados pelo filho de mestre Bédii, a fim de demonstrar a legitimidade da
cólera que o seu pai experimentava, contra uma tal gesticulação
incompreensível, tais novas atitudes tão pouco naturais. Descreveu-me todos
esses movimentos deslocados, mas estudados, aprendidos nos filmes, quer as
gargalhadas quer as maneiras de abrir uma janela, de fechar uma porta, de pegar
numa chávena de chá, ou ainda de pôr um casaco, os meneios de cabeça, o
tossicar elegante, os furores bruscos, as piscadelas de olho, os murros, o levantar
das sobrancelhas, os modos de olhar, a contenção ou, pelo contrário, a violência
que mataram a nossa tão ingénua rudeza. O pai já não podia suportar o
espectáculo desses gestos mestiços. Chegara ao ponto de decidir não voltar a sair
da oficina, por temer tanto sofrer a influência das novas maneiras artificiais e
prejudicar assim a originalidade dos seus “filhos”.
Encerrado doravante na cave de sua casa, declarara que desvendara havia
muito “o mistério e o sentido do segredo, a sua essência”.
Enquanto contemplava as obras dos seus últimos quinze anos de vida,
adivinhei, com o sentimento de susto da “criança selvagem” que descobre
muitos anos mais tarde a sua identidade, o que significava essa misteriosa
“essência”. Entre aqueles manequins de tios, de tias, de amigos, de conhecidos,
de merceeiros, de operários que me observavam, que se introduziam na minha
vida, que eram “meus” representantes, havia alguns que se pareciam comigo; eu
estava até mesmo ali, em pessoa, naquela penumbra que respirava desespero e
derrota. Os manequins dos meus compatriotas, na sua maioria cobertos de poeira
(havia entre eles tantos gangsters de Beyoglou como raparigas absortas no seu
trabalho de costura, Djevedet bey, o milionário, e o douto Selahttine, o
enciclopedista, e também bombeiros, anões alucinantes, velhos mendigos, e até
mulheres grávidas), com as suas sombras tornadas ainda mais terríficas pela
fraca luz das lâmpadas, faziam-me pensar em divindades, sentindo
dolorosamente a perda da sua autenticidade, nesses infelizes, torturados pela
ideia de que não podem ser outros, nesses amantes desgraçados que se matam
um ao outro porque não podem amar-se. E tal como eu, tal como nós, também
eles pareciam ter um dia descoberto, e depois esquecido, num passado tão
longínquo como um paraíso perdido, o sentido de uma existência em que se
haviam encontrado por puro acaso.
Sofríamos por causa das recordações que tínhamos esquecido, sentíamo-nos
diminuídos, mas obstinávamo-nos em permanecer nós próprios. O sentimento de
derrota e de tristeza que se imiscuía nos nossos gestos, em tudo o que fazia de
nós o que éramos, na nossa maneira de nos assoarmos, de coçarmos a cabeça, de
adiantarmos um pé, nos nossos olhares, talvez fosse o castigo de tal obstinação.
Enquanto o filho de mestre Bédii declarava: “O meu pai sempre esteve
convencido de que os seus manequins um dia teriam o seu lugar nas montras!”,
ou ainda: “O meu pai nunca perdeu a esperança de ver os homens deste país
serem suficientemente felizes para deixarem de querer imitar os outros!”, eu
dizia para comigo que aquela multidão de manequins estava a morrer de vontade
— tal como eu — de sair o mais depressa possível daquela cave que cheirava a
mofo, de viver ao sol a olhar para os outros, a imitar os outros, a esforçar-se por
ser outro, para se tornar outro, para conhecer enfim a felicidade, tal como nós.
Este desejo, soube-o mais tarde, acabou por se realizar em parte. Um
comerciante, que não parava de querer seduzir por meio da extravagância das
suas montras o desejo do cliente, comprara dois ou três “produtos” da oficina,
talvez por saber que os comprava barato. Mas os manequins que expusera
pareciam-se a tal ponto, pelas suas atitudes e pelos seus gestos, com os clientes,
do lado de fora da montra, com a massa dos transeuntes no passeio, eram tão
habituais, tão verídicos, tão da “nossa terra”, que ninguém se interessou por eles.
Então, o proprietário do estabelecimento, pensando no seu dinheiro, cortara-os à
serra, e uma vez desaparecido o conjunto que dava sentido aos seus gestos, os
seus braços, as suas pernas, os seus pés foram utilizados durante anos na montra
exígua de uma pequena loja, para exibir às massas de Beyoglou luvas, botas,
sapatos ou guarda-chuvas.


CAPÍTULO VII

AS CARTAS DO MONTE KAF

“Será de facto preciso que um nome queira dizer alguma coisa?”
Lewis Carroll


Logo a seguir aos primeiros passos dados na rua, após uma noite de insónia,
Galip compreendeu, na surpreendente claridade da brancura que recobria a
pardacenta monotonia de Nichantache, que nevara muito mais do que ele
imaginara. A multidão que se comprimia nos passeios não parecia dar pelos
grandes pedaços de gelo que se tinham formado nas cornijas dos prédios. Galip
entrou na agência do Banco do Trabalho (a Banca da Porcaria, dizia Ruya,
sempre que evocava a praça de Nichantache, por entre a poeira, os fumos, os
gases que jorravam dos escapes, a névoa de um azul sujo que subia das
chaminés); aí pôde saber que Ruya não procedera a qualquer levantamento
importante da sua conta conjunta nos últimos dez dias, que o aquecimento não
funcionava no banco e que toda a gente estava de bom humor porque uma das
empregadas exageradamente maquilhadas ganhara um prémio de certa
importância no último sorteio da Lotaria Nacional. Deixou para trás as montras
embaciadas das floristas, continuou pelas ruas cobertas por onde iam e vinham
marçanos com as suas bandejas cheias de copos de chá, passou diante do Liceu
do Progresso de Chichli, onde os dois tinham estudado, Ruya e ele, avançou
junto aos castanheiros com as ramadas enfeitadas por grandes pingentes de gelo
fantasmáticos, e entrou na loja de Alâaddine. Tendo na cabeça o gorro azul que
Djélâl referira numa das suas crónicas de havia nove anos, Alâaddine estava a
assoar-se.
— Então, Alâaddine, estás doente?
— Apanhei frio.
Galip pediu-lhe, pronunciando cuidadosamente os seus nomes, todas as
revistas políticas de esquerda em que o ex-marido de Ruya publicava outrora os
seus artigos, tanto as que apoiava como as que não apoiava. Com o rosto
marcado por uma expressão pueril, receosa e desconfiada, mas nunca hostil,
Alâadine explicou-lhe que essas revistas, agora, só os estudantes universitários
as liam: — Que vais tu fazer com elas, tu?
— É por causa das palavras cruzadas! — respondeu-lhe Galip. Alâaddine
soltou uma grande gargalhada que provava que sabia apreciar um gracejo: —
Nessas revistas nunca há passatempos! — disse ele, com a nostalgia de um
amador de charadas. — Também não queres estas duas? Acabam de sair agora
mesmo — acrescentou.
— Bom, bom! Embrulhas-mas num jornal, pode ser — segredou-lhe Galip,
como um senhor idoso que compra revistas com fotografias de mulheres nuas.
No autocarro que o levava a Emineunu, teve a impressão de que o embrulho
que transportava se tornara estranhamente pesado, e também a sensação de estar
a ser espiado por um olho. Não se tratava do olhar de alguém no autocarro,
porque os passageiros, sacudidos como numa chalupa no mar agitado, fitavam
todos, com um ar distraído, a calçada e os passeios cobertos de neve. Só então
reparou que Alâaddine embrulhara as revistas num velho Milliyet e que a
fotografia de Djélâl o fitava, da sua janela no alto de uma página. O que era
desconcertante era o facto de, nessa fotografia que Galip via todas as manhãs
havia anos, Djélâl o observar com um olhar completamente diferente, com o ar
de quem lhe está a dizer: “A ti, eu conheço-te, vamos lá, e trago-te debaixo de
olho!” Galip poisou o dedo em cima daquele “Olho” que parecia ler no seu
coração, mas ao longo de todo o trajecto teve a impressão de sentir a sua
presença no dedo.
Assim que entrou no seu escritório, telefonou a Djélâl: em vão. Desdobrou
cuidadosamente o jornal, poisou-o a um canto da secretária, abriu as revistas e
começou a lê-las com atenção. Despertaram nele, para começar, sentimentos
havia muito esquecidos de entusiasmo, de expectativa, de tensão, e também
esperanças de vitória, de libertação e de caos havia muito frustradas; já nem ele
sabia desde quando. Mais tarde, depois de ter longamente telefonado aos antigos
amigos de Ruya, de cujos nomes tomara nota no verso da carta de adeus, essas
recordações perdidas pareceram a Galip tão fascinantes e tão inverosímeis como
os filmes que ia ver, na infância, nos cinemas ao ar livre que eram montados, no
Verão, entre as paredes da mesquita e os jardinzinhos dos cafés. Quando
contemplava as produções a preto e branco da Rua do Pinheiro Verde,
confrontado com o ilogismo assustador do argumento, Galip imaginava que não
tinha compreendido absolutamente nada da intriga, ou então, desconfiado,
sentia-se convidado a penetrar num universo composto de pais tão ricos como
implacáveis, de admiráveis pobres, de cozinheiros e de criados de quarto, de
mendigos, de automóveis americanos interminavelmente compridos, um
universo transformado — involuntariamente — em conto de fadas. (Ruya, pelo
seu lado, jurava-lhe que vira no primeiro filme da sessão o mesmo De Soto, com
a mesma matrícula.) Enquanto contemplava com desdém esse universo
inverosímil e se espantava por ouvir soluçar o espectador sentado ao seu lado,
pois bem, nesse exacto momento, encontrava-se bruscamente, como que por um
passe de magia, de lágrimas nos olhos, prestes a compartilhar as desgraças dos
bons, tão pálidos e lamentáveis, e dos heróis de vontade forte, sempre dispostos
ao sacrifício que via no ecrã.
Desejoso de estar bem ao corrente do universo político — com o seu conto
de fadas a preto e branco — das pequenas facções esquerdistas, antes de dar com
Ruya em casa do seu ex-marido, telefonou a um amigo que coleccionava todas
as publicações políticas: — Suponho que continuas a guardar todas as revistas?
— disselhe com uma voz cheia de segurança. — Gostava de consultar os teus
arquivos por causa da defesa de um cliente que teve os seus aborrecimentos.
— Mas, claro! — respondeu-lhe Sai'm com a sua boa vontade de sempre,
feliz por o procurarem por causa dos seus arquivos; ficaria à espera da visita de
Galip nessa mesma noite, às oito e meia.
Galip trabalhou até ao anoitecer. Ligou várias vezes para Djélâl, sem
conseguir apanhá-lo.
E sempre que desligava depois de ouvir a secretária dizer-lhe que Djélâl bey
“ainda não tinha chegado” ou que “tinha acabado de sair”, experimentava a
impressão de que o olho do primo o observava do jornal que poisara numa das
prateleiras da estante herdada do tio Mélih. Enquanto ouvia a descrição de um
litígio entre os co-proprietários de uma loja do Grande Bazar, depois o discurso
de uma mãe e do seu filho, ambos obesos, que tiravam sem parar a palavra um
ao outro (a mala da mãe estava cheia de medicamentos), e até mesmo enquanto
tentava explicar a um polícia sinaleiro, com os olhos escondidos por óculos
escuros, que queria mover uma acção contra o Estado, a pretexto de que a sua
reforma fora mal calculada, que os dois anos que passara num asilo de alienados
não podiam, segundo as leis em vigor, ser tidos em conta no cálculo da sua
reforma, sentiu ininterruptamente a presença de Djélâl.
Telefonou a todos os amigos e amigas de Ruya, uns atrás dos outros. E
sempre que fazia um telefonema, inventava um pretexto novo. A Madjidé, uma
colega de liceu, pediu o número de telefone de Gul, de quem Madjidé não
gostava nada. Queria ver Gul por causa de um julgamento, explicou. E soube,
pela boca da criada com uma linguagem castigada da rica casa de Gul, que Gul,
senhora de um tão belo nome,(3) dera à luz na antevéspera os seus terceiro e
quarto filhos, na clínica de Gulbahtché; Galip poderia ver, através do vidro da
sala dos recém-nascidos, os lindos gémeos que haviam recebido os nomes de
Husnu e de Achk,(4) na condição de correr sem demora para a clínica, entre as
três e as cinco horas.
Fuguena, pelo seu lado, preparava-se para devolver a Ruya o Que fazer?, de
Tchernychevski, e os Raymond Chandler que lhe pedira emprestados, e
desejava-lhe um restabelecimento célere. Quanto a Béhiyé, não, não, Galip
estava enganado, ela não tinha um tio na Divisão dos Narcóticos da Direcção da
Polícia; nada indicava na voz dela — Galip estava certo disso — que soubesse
fosse o que fosse a respeito de Ruya. Sémih, sim, surpreendeu-se: como é que
Galip soubera da existência dessa oficina de têxteis clandestinos, onde eram
levadas a cabo, sob a direcção de engenheiros e de técnicos, intensas actividades
destinadas à tealização do primeiro fecho-ecler made inTurkey? Sémih nada
sabia dessa, a mais recente, história de contrabando de bobinas de linha, da qual
os jornais falavam, e não podia fornecer a esse respeito qualquer informação
jurídica a Galip, e pedia-lhe que transmitisse a Ruya a expressão da sua amizade
mais sincera (da qual Galip não duvidava).
Também não redescobriu a pista de Ruya telefonando para muitos mais
conhecidos ainda, sempre com o cuidado de disfarçar a voz e de declinar falsas
identidades. Suleyman, que tentava vender porta a porta enciclopédias
domésticas inglesas datando de havia quarenta anos, fora completamente
sincero, também ele, quando respondera ao director escolar, que o chamava ao
telefone com a máxima urgência, que não só não tinha nenhuma filha chamada
Ruya, no ensino secundário, como não tinha sequer filhos. Do mesmo modo que
Ilyas, que se ocupava do transporte de madeira do Mar Negro para Istambul,
com os batelões do seu pai, quando afirmou que não tinha podido esquecer-se no
cinema Ruya de um caderno onde anotasse os seus sonhos, porque havia meses
que não ia ao cinema e porque nunca tivera cadernos desses. Sincero, Assime,
importador de elevadores, fora-o igualmente quando lhe explicou que não
poderia ser considerado responsável pela avaria dos elevadores do edifício Ruya,
pois era a primeira vez que ouvia falar de uma rua ou de um prédio com esse
nome. Todos se tinham servido do nome Ruya sem qualquer vestígio de
desconforto ou de sentimento de culpa, com a simplicidade da inocência.

*3. Rosa, em turco. (NT )
4. Husn-u Achk, longo poema místico, sob forma romanesca, de Xeque
Galip, célebre poeta dos finais do século XVIII. (NT)

Quanto a Tarik, que de manhã fabricava veneno para os ratos no laboratório
do segundo marido da mãe e consagrava os serões a escrever poemas que
falavam da alquimia da morte, acolheu com alegria a proposta dos estudantes da
Faculdade de Direito de proferir uma conferência sobre o tema do sonho e dos
seus mistérios, e prometeu esperá-los nessa mesma noite diante do antigo café
dos proxenetas da praça de Taksim. Kémal e Bulent estavam ambos ausentes,
encontravam-se na província: o primeiro dirigira-se a Izmir no propósito de aí
recolher, para a agenda que as máquinas Singer preparavam, as recordações de
uma costureira que, havia cinquenta anos, dançara uma valsa nos braços de
Atatiirk, com a imprensa presente e sob os aplausos da multidão, e que logo a
seguir se sentara à sua máquina de costura Singer, para nela coser num belo
impulso — tic-tac tic-tac — um par de calças de homem à ocidental. O segundo
percorria de mula todas as aldeias e cafés do Leste da Anatólia, a vender piões
de gamão mágicos, esculpidos nos fémures desse velho e santo homem que
vivera na região havia mais de mil anos, e a quem os europeus chamam o Pai
Natal.
Tal como foi incapaz de descobrir, na névoa dos enganos e das confusões das
linhas telefónicas, barafunda que se agravava ainda mais nos dias de chuva e de
neve, os outros amigos cujos nomes escrevera na sua lista, Galip também não
conseguiu descobrir nem o nome nem o pseudónimo do ex-marido de Ruya nas
páginas de nenhuma das numerosas revistas políticas que esteve a ler até à noite,
entre os nomes ou os pseudónimos dos esquerdistas que tinham mudado de
facção, dos “arrependidos”, de todos os que tinham sido mortos ou torturados,
dos mortos por balas perdidas, daqueles que tinham sido ou iam ser enterrados,
dos leitores cujas cartas eram publicadas, daqueles que recebiam resposta, dos
caricaturistas, dos autores de poemas e dos quadros da redacção.
Quando a noite caiu, deu por si na poltrona, desamparado e desgraçado. Do
bordo da janela, um corvo curioso observava-o do canto do olho. O tumulto da
multidão da sexta-feira à noite subia da avenida. Galip mergulhou pouco a pouco
num sono irresistível e afortunado. Quando acordou muito mais tarde, a sala
estava mergulhada em trevas, mas conseguiu adivinhar o olhar do corvo do outro
lado da vidraça, cravado nele, tal como o olho de Djélâl, do alto da sua lucarna.
Fechou as gavetas, lentamente, no escuro, procurou tacteando o casaco, vestiu-o
e saiu do escritório. Não havia já uma só luz nos corredores do prédio. No rés-
do-chão, o aprendiz do café estava a lavar as instalações sanitárias com baldes de
água.
Sentiu frio ao atravessar a ponte de Gaiata coberta de neve. Um vento
violento soprava do Bósforo. Em Karakeuy, entrou numa leitaria com mesas de
mármore e, evitando os grandes espelhos que se reflectiam uns nos outros, bebeu
um caldo de galinha com massa miúda e comeu ovos estrelados. A única parede
sem espelhos da sala estava enfeitada com uma paisagem de montanha retirada
de postais ou de calendários da Pan American; a montanha com o pico pintado
de branco que surgia entre pinheiros, acima de um lago tão liso como um
espelho, lembrava mais o Monte Kaf, que Galip e Ruya tinham tantas vezes
subido na infância, do que os Alpes dos postais em que o pintor se inspirara.
Na carruagem do metropolitano que apanhou para ir para Beyoglou, Galip
surpreendeu-se a discutir com um velho o célebre “acidente do Túnel” que se
dera havia vinte anos: se as carruagens tinham saído dos carris, devastando tudo
à sua passagem com o ímpeto de garanhões cheios de alegria de viver que
tomam o freio nos dentes, e tinham desembocado na praça de Karakeuy, fora por
causa da ruptura do cabo que as prendia ou porque o maquinista estava bêbado?
Esse maquinista bêbado era de Trabzon e concidadão do velho anónimo...
As ruas do bairro de Djianguir estavam desertas. Saím e a mulher abriram-
lhe a porta com bom humor, mas à pressa, com medo de perderem a emissão
televisiva, que era seguida por todos os motoristas e porteiros no café que havia
na subloja do prédio.
No programa em causa, intitulado “O que deixámos para trás”, falava-se, em
tom lacrimejante, das mesquitas, das fontes e dos caravançarais outrora
construídos pelos otomanos, e que se encontravam hoje nas mãos dos
jugoslavos, dos albaneses e dos gregos.
Enquanto Galip contemplava as imagens de mesquitas cheias de tristeza do
fundo do seu sofá pseudo-rococó, cujas molas haviam perdido havia muito a sua
capacidade de funcionamento e no qual o tinham instalado, como se instala o
miúdo dos vizinhos que veio ver um jogo de futebol, Sa'ím e a mulher pareciam
ter-se esquecido da sua presença. Sa'ím era muito parecido com um campeão de
luta muito célebre, morto havia muito, mas cuja fotografia, na qual aparece com
a medalha de ouro conquistada nos Jogos Olímpicos, se encontra ainda hoje em
todas as lojas de fruta e de legumes. A mulher de Saím lembrava uma bela
ratinha bem gorda. Havia na sala uma velha mesa cor de poeira, um candeeiro
cor de poeira e, na parede, numa moldura aouraaa, o retrato de um antepassado
que, mais do que com Saim, se parecia com a sua mulher (como se chama ela,
afinal, interrogava-se Galip com cansaço: Remziyé?); o calendário de uma
companhia de seguros, um cinzeiro com o nome de um banco, um serviço de
licores no bufete, bem como um açucareiro de prata e chávenas de café, e por
fim a “biblioteca-arquivos” (razão da visita de Galip) que cobria duas paredes de
pó e de papelada, de revistas e mais revistas.
Esta biblioteca, a que havia já dez anos alguns companheiros de faculdade
chamavam por troça “arquivos da nossa revolução”, Saim criara-a — segundo
ele próprio confessara, num momento de franqueza surpreendente na sua pessoa
— por “indecisão”. A indecisão de quem não tem a coragem de escolher, “não
entre duas classes!”, como se dizia então, mas entre as diferentes facções
políticas.
Nesses anos, Saim participava em todas as reuniões políticas, em todos os
fóruns, corria das universidades e das cantinas de umas para as outras, ouvia
todos os oradores, acompanhava de perto todos os pontos de vista, todas as
políticas, e como sentia relutância em levantar aos outros demasiadas questões,
arranjava maneira (“Desculpa, mas não terás por acaso o comunicado que os
'liquidadores' distribuíram ontem na Universidade Técnica?”) de obter tudo o
que era publicado pela imprensa de esquerda, incluindo as brochuras de
propaganda, os panfletos policopiados, sem esquecer os distribuídos na rua, e lia,
lia, sem parar de ler.
Era sem dúvida porque não tinha tempo para ler tudo e porque não conseguia
escolher uma “linha política” que decidiu um dia armazenar tudo o que não lhe
fora possível ler. Ao longo dos anos, a leitura dessa literatura e a decisão a tomar
haviam perdido importância, e o fim da sua existência tornara-se “a construção
de uma barragem” (tal era a imagem utilizada por Saim, que era engenheiro
civil) destinada a conter aquele rio de documentação cada vez mais caudaloso, e
cujos afluentes se tornavam cada vez mais numerosos, para, como ele próprio
dizia, evitar os desperdícios.
Quando voltou o silêncio, depois de terminado o programa e de desligada a
televisão, uma vez trocadas as devidas perguntas sobre a saúde de uns e de
outros, e enquanto o casal o olhava interrogativamente, Galip lançou-se na sua
história: um estudante cuja defesa ele assumia era acusado de um assassinato
político que não cometera. Evidentemente, havia uma vítima: na sequência de
um assalto, tentado de modo extremamente desastroso por três jovens
extremamente desastrados, um destes últimos, que corria desvairado para o táxi
roubado que os esperava, esbarrara entre a multidão de clientes com uma frágil
avozinha que por ali andava. Sob a violência do choque, a infeliz rolara por
terra, a cabeça batera no passeio e ela morrera instantaneamente.
“E é assim que as desgraças acontecem:”, mulher de SaYm. Só um dos
jovens fora detido no teatro da acção, na posse de um revólver, um rapaz de
“muito boas famílias”, calmo e discreto. Evidentemente, recusara-se a dar à
polícia os nomes dos seus camaradas, pelos quais experimentava uma admiração
e um respeito sem limites, e, mais admiravelmente ainda, persistira nessa atitude
apesar das torturas; mais ainda, devido ao seu silêncio, fora responsabilizado
pela morte da velha senhora, quando não fora ele o seu autor, conforme as
averiguações empreendidas por Galip provavam. Um certo Mehmet Yilmaz,
estudante de arqueologia, o mesmo que chocara com a pobre velha e provocara
assim a sua morte, fora, pelo seu lado, metralhado por desconhecidos, três
semanas mais tarde, enquanto escrevia palavras de ordem cifradas nos muros de
uma fábrica, num bairro de lata que acabava de ser criado por trás dos altos de
Umraniyé. Em tais condições, o jovem de boas famílias recuperava decerto a
possibilidade de revelar o nome do verdadeiro culpado. Mas, infelizmente, não
só a polícia não acreditava que o Mehmet Yilmaz que acabava de ser morto fosse
o mesmo Mehmet Yilmaz, como também os responsáveis da rede que organizara
o assalto pretendiam, contra todas as expectativas, que Mehmet Yilmaz
continuava em vida, e que continuava a publicar artigos, sempre com a mesma
feroz resolução, na revista que o grupo difundia. “Em tais condições”, Galip, que
se encarregara do caso não a pedido do jovem de boas famílias, mas do seu pai,
homem rico e de boa-fé, desejava: 1) ler os artigos em causa a fim de provar que
o novo Mehmet Yilmaz não era o Mehmet Yilmaz anterior; 2) descobrir, graças
aos pseudónimos utilizados, a identidade do autor desses artigos, que os assinava
com o nome de Mehmet Yilmaz, o jovem que morrera; 3) tendo esta situação
insólita sido montada, como sem dúvida Saim e a mulher haviam já
compreendido, pela facção dirigida outrora pelo ex-marido de Ruya, Galip
gostaria de ter uma ideia das actividades desse grupo, ao longo dos últimos seis
meses; 4) tencionava resolver o mistério que rodeava esses autores-fantasma,
que redigiam artigos em vez dos mortos, bem como os nomes falsos e certos
desaparecimentos.
Encetaram imediatamente investigações sobre o caso que despertara uma
forte curiosidade e até emoção em Saim. Durante as duas primeiras horas,
contentaram-se com examinar os nomes e os pseudónimos dos diversos autores
de artigos, enquanto sorviam o chá e devoravam as fatias de bolo que a mulher
de Saim lhes servia (Galip conseguira lembrar-se enfim do nome dela: Roukiyé).
Mais tarde, alargaram o terreno das suas pesquisas englobando nestas os nomes e
pseudónimos de todos os colaboradores de revistas, de todos os provocadores e
de todos os mortos: o sortilégio desse universo semi-secreto, feito de
participações de óbito, de ameaças, de confissões, de bombas, de gralhas
tipográficas, de poemas e de palavras de ordem, um mundo já esquecido que
subsistia ainda, causava-lhes vertigens. Descobriram assinaturas que não
escondiam ser pseudónimos, outros nomes literários que decorriam dos
primeiros, outros ainda, formados por sílabas tomadas de empréstimo aos
anteriores. Decifraram acrósticos, anagramas falhos de rigor, códigos bastante
simplistas, sem conseguirem estabelecer em que medida essa transparência fora
deliberada ou fruto do acaso. Roukiyé sentara-se ao fundo da mesa, diante da
qual Saím e Galip estavam instalados. Mais do que uma investigação conduzida
para salvar um homem injustamente acusado de homicídio, ou para descobrir o
rasto de uma mulher que desaparecera, a atmosfera da sala evocava a
melancolia, em que se misturam irritação e rotina, das partidas de cavalinhos ou
de tômbola, ao som da rádio, de uma noite de Ano Novo. Por entre os cortinados
abertos, via-se a neve caindo de novo em grandes flocos. Com o entusiasmo do
professor, que, ao descobrir um novo discípulo extremamente dotado, continua a
ser a paciente testemunha da sua maturidade e do seu sucesso, Galip e Saím
seguiam com orgulho as aventuras dos pseudónimos, os seus vaivéns entre as
revistas, os seus triunfos e os seus fracassos, e quando percebiam que um ou
outro dos redactores fora detido, torturado, condenado ou dado como
desaparecido, ou quando deparavam com a fotografia de um deles, caído sob as
balas de um desconhecido, observavam um momento de silêncio, com uma
tristeza que os fazia esquecer o entusiasmo que a investigação lhes causava, mas
a seguir descobriam um novo jogo de palavras, uma nova pista, um traço
insólito, e voltavam a mergulhar na vida que brotava dos arquivos.
A dar ouvidos a Saím, tal como a maior parte das assinaturas e dos
personagens que apareciam nas revistas eram imaginários, também as reuniões,
as manifestações, as assembleias gerais secretas, os congressos de partidos
clandestinos, os assaltos pretensamente organizados por eles nunca haviam tido
lugar. Saím contou como exemplo a história, que leu em voz alta, de um
levantamento popular que se teria dado vinte anos antes na povoação de
Kutchuk-Tchérouh, entre Erzindjan e Kémah, no Leste da Anatólia. Na
sequência desse levantamento, que uma das revistas relatava em pormenor, fora
constituído um governo provisório, e emitido um selo postal que representava a
efígie de uma pomba; o subprefeito fora atingido por uma bilha na cabeça e
morrera, fora publicado um jornal diário redigido integralmente em verso, os
oftalmologistas e os farmacêuticos tinham fornecido gratuitamente óculos a
todas as pessoas que viam mal, arranjara-se icuim sunucua para aquecer a escola,
mas quando estava em construção uma ponte destinada a ligar a comuna à
civilização, as forças da ordem fiéis aos princípios de Atatiirk chegaram e
retomaram o controlo da situação, antes que as vacas tivessem tempo para
devorar as sapatas de esteira impregnadas do cheiro dos pés dos fiéis que
juncavam o chão de terra batida da mesquita, enforcando depois os rebeldes nos
plátanos da praça. O certo era, porém, como demonstrou Saím sublinhando o
mistério de certas cartas e de certos mapas, que não existia nenhuma povoação
chamada Tchérouh, que as assinaturas dos autores afirmando que a rebelião era
herdeira de uma tradição em renascimento perpétuo na comuna em causa,
semelhante a um pássaro fabuloso, eram, na sua totalidade, pseudónimos.
Mergulhados na poesia rimada e com repetição da rima final de tais anónimos,
em breve descobriram uma pista que poderia levá-los a Mehmet Yilmaz (tratava-
se de um assassinato político perpetrado em Umraniyé na época em que Galip
situara a sua história), mas não conseguiram descobrir mais nada a esse mesmo
respeito nos números seguintes da revista, o que acontecia de resto com a maior
parte de todas as informações que tentavam seguir, de tal modo que tinham a
impressão de estar a assistir à projecção de fragmentos de sequências de velhos
filmes turcos.
Foi então que Galip se levantou para telefonar para casa: com uma voz cheia
de ternura, explicou a Ruya que contava trabalhar com Saím até tarde e
recomendou-lhe que não esperasse por ele para se deitar. Saim e a mulher
pediram-lhe que transmitisse as lembranças amigáveis deles a Ruya. E, claro,
Ruya fez a mesma coisa.
Enquanto os dois homens se mantinham mergulhados nesse jogo, que
consistia em descobrir pseudónimos, em descodificá-los e em criar novos com as
letras que os compunham, a mulher de Saím foi deitar-se, deixando-os sozinhos
na sala onde todas as superfícies disponíveis estavam cobertas de jornais, de
revistas, de comunicados e de papelada. Passava da meia-noite e, em Istambul,
reinava o silêncio enfeitiçado da neve.
Galip saboreava o encanto dos erros tipográficos e das incorrecções
ortográficas de uma colecção muito interessante (Falta muita coisa, não está
completa, protestava Saím com a modéstia de sempre) de comunicados
compilados num mesmo conjunto por terem sido todos impressos no mesmo
duplicador com os caracteres gastos e que haviam sido outrora distribuídos pelos
restaurantes universitários cheirando a tabaco queimado arrefecido, pelas tendas
onde os grevistas se protegiam da chuva e por pequenas gares perdidas. Saim
trouxe de uma das divisões vizinhas da casa um livro que declarou, com o
orgulho do coleccionador, “extremamente raro”, e que se intitulava u Anti-ibn
Zerbani ou A Jornada de Um Místico Que Soube Assentar os Pés no Chão. Galip
folheou atentamente o livro encadernado, cujas páginas pareciam ter sido
dactilografadas. “É a obra de um amigo que vive numa povoaçãozinha da região
de Kayseri que nem sequer aparece nos mapas a escala reduzida da Turquia”,
explicou-lhe Saim. O filho do xeque de uma confraria minúscula. O pai
inculcara-lhe na infância os elementos da religião e do misticismo. Muitos anos
mais tarde, enquanto lia A Sabedoria do Mistério Perdido, de Ibn Zerhani,
místico árabe do século XIII, anotara nas margens do livro certas reflexões
“materialistas”, imitando o que Lenine fizera ao ler Hegel. Copiara mais tarde
essas notas, reforçando-as com parênteses tão pretensiosos como inúteis. Depois,
redigira uma introdução bastante extensa, uma espécie de comentário sobre
reflexões anónimas, misteriosas, incompreensíveis, e acrescentando por fim um
“prefácio do editor”, dactilografara tudo, como se se tratasse da obra de um
outro. Fizera preceder o texto de uma trintena de páginas, que eram a narrativa
fabulosa da sua própria vida, religiosa e revolucionária. O mais interessante
nesta efabulação era a maneira que tinha de contar como descobrira, no decorrer
de um passeio ao fim da tarde pelo cemitério da povoação, o estreito laço
existente entre a filosofia mística a que os Ocidentais chamam panteísmo e
aquilo a que, pelo seu lado, chama o “materialismo filosófico”, teoria que
construíra reagindo aos ensinamentos do xeque seu pai. “Foi ao encontrar, nesse
cemitério onde as ovelhas vinham pastar e onde dormitavam fantasmas, um
corvo que vira no mesmo lugar vinte anos antes — sabes que os corvos na
Turquia vivem mais de duzentos anos —, e só os ciprestes estavam
evidentemente um pouco mais altos, que fizera a seguinte descoberta: a cabeça e
as patas da estranha criatura desavergonhada, dotada de asas e capaz de voar, a
que se chama o 'pensamento transcendente', podem de facto mudar, mas o seu
corpo e as suas penas continuam a ser sempre os mesmos! E o corvo que se vê
na capa do livro, foi ele próprio a desenhá-lo. Este livro prova bem que qualquer
turco desejoso de conquistar a imortalidade tem a obrigação de ser só ele próprio
e ao mesmo tempo Johnson e Boswell, Goethe e Eckermann! Procedeu a seis
cópias da obra. Não creio que se encontre algum exemplar que seja nos arquivos
das Informações Gerais...”
Teria podido acreditar-se na presença de um fantasma na sala, havia um laço
que de repente ligara os dois homens ao autor do livro, ao seu corvo, à sua vida
inteiramente passada naquela cidadezinha de província, entre a sua casa e a loja
de ferrador herdada do pai, à força da imaginação irrompida da sua existência
baça, triste e silenciosa. “Todas as letras, todas as palavras, todos os sonhos de
independência, todas as recordações de escândalos ou de torturas contam
somente a mesma história, redigida na alegria e na dor destes sonhos e destas
recordações!”, sentia Galip vontade de dizer. Dir-se-ia que Saim pescara esta
história ao acaso, algures na sua colecção de papéis, de jornais, de revistas
reunida ao longo de tantos anos com a paciência do pescador que puxa as suas
redes do mar; dir-se-ia que estava consciente da sua importância, mas que por
entre a abundância do material que acumulara e classificara, não lhe fora
possível dar-se conta de todo o seu sentido, e também que perdera a palavra-
chave necessária para a descodificar.
Quando descobriram o nome de Mehmet Yilmaz numa revista de havia
quatro anos, Galip, porque tinha vontade de voltar para casa, declarou que se
tratava apenas de uma coincidência. Mas Saim impediu-o de partir: nada podia
ser coincidência nas “suas”
revistas — porque ele dizia agora as “minhas” revistas. Nas duas horas que
se seguiram, desdobrando esforços sobre-humanos, saltando de revista em
revista, abrindo olhos como projectores, Saim descobriu que Mehmet Yilmaz se
transformara em Ahmet Yilmaz; numa revista sobre a vida rural, com a capa
ilustrada pela imagem de um poço, e na qual se falava muito de camponeses e de
frangos, Ahmet Yilmaz tornara-se Mété Tchakmaz. Saim não teve dificuldade
em perceber que Mété Tchakmaz e Férit Tchakmaz eram um só e o mesmo
homem. A mesma assinatura renunciara entretanto aos artigos teóricos para se
tornar a de um autor de letras para canções, dessas que se cantam com
acompanhamento de saz e de fumo de cigarro nos salões de bodas e banquetes.
Mas esta nova vocação fora breve: a assinatura tornou-se a de um imprecador,
cujos artigos provavam que todo o mundo — excepto ele — colaborava com a
polícia, depois a de um “matemático-economista” tão colérico como ambicioso,
fixando-se por tarefa a denúncia das opiniões e dos costumes perversos dos
académicos ingleses. Mas o homem não era capaz de se demorar muito nos
moldes sem alegria, desagradáveis, em que tentava vazar-se. Na colecção de
uma outra revista, que foi buscar ao quarto de dormir em bicos dos pés, Saim
descobriu rapidamente o personagem num número publicado três anos e dois
meses antes: chamava-se então Ali Wonderland e descrevia com todos os
pormenores a existência que seria a do futuro radioso, dos belos dias vindouros,
quando as diferenças de classe tivessem desaparecido; as ruas empedradas
ficariam como eram e nunca seriam cobertas de asfalto; os romances policiais
que não passavam de uma perda de tempo e as crónicas jornalísticas que
perturbavam os espíritos seriam proibidos; abandonar-se-ia o costume de cortar
o cabelo em casa. E quando Galip descobriu que a educação das crianças seria
confiada ao avô e à avó que morassem no andar de cima, para escapar à lavagem
ao cérebro sob a influência dos preconceitos imbecis do pai e da mãe, deixou de
ter dúvidas sobre a identidade do autor e compreendeu que Ruya partilhara com
o ex-marido as suas recordações de infância. Mas o que mais o espantou foi
saber, por um outro número da revista, que a assinatura era a de um professor de
matemáticas da Academia das Ciências da Albânia. E no final da biografia desse
professor, sem experimentar a necessidade de se esconder por meio de qualquer
pseudónimo, semelhante a um insecto enlouquecido pela luz da lâmpada que
bruscamente se acende na cozinha, exibia-se com todas as letras, mudo, imóvel,
o nome do anterior marido de Ruya.
— Nada pode ser tão surpreendente como a vida! — declarou
orgulhosamente Saím, nesse instante de muda estupefacção. — Nada? Excepto a
escrita!
Voltou em bicos dos pés ao quarto de dormir e voltou com dois grandes
caixotes de margarina Sana a transbordar de revistas. — Aqui estão as
publicações de uma facção pró-
albanesa. Vou falar-te de um estranho mistério que levei anos a resolver;
porque verifico que está ligado ao objecto das tuas pesquisas.
Voltou a pôr a ferver a água para o chá, depois espalhou em cima da mesa as
revistas e os livros que julgava sem dúvida necessários e que escolheu nos
caixotes e nas prateleiras da estante, depois começou a sua narrativa: — Isto
passava-se há seis anos, num sábado à tarde, quando O Trabalho do Povo, uma
das revistas publicadas por adeptos da linha do Partido do Trabalho albanês e do
seu dirigente Enver Hoja (nessa altura, essas publicações eram três e combatiam-
se umas às outras implacavelmente), quando portanto estava a percorrer o último
número de O Trabalho do Povo, à procura de um assunto susceptível de me
interessar, vi um artigo e uma fotografia que me chamaram a atenção. Tratava-se
de uma cerimónia organizada em honra dos novos aderentes. Se lhe prestei
atenção, não foi porque falasse dessas pessoas que aderiam, recitando poemas e
tocando saz, a uma organização marxista, num país onde toda a actividade
comunista era proibida pela lei. Porque as revistas de todas as pequenas
organizações esquerdistas que, para não se desmoronarem, têm de exagerar o
número dos seus membros, costumam publicar, desafiando todos os perigos,
informações desse género em todos os seus números. Não, o que me surpreendeu
foi antes do mais a legenda, por baixo de uma fotografia a preto e branco onde se
podiam ver os posters de Mao e de Enver Hoja, os declamadores de poesia e os
espectadores, fumando todos apaixonadamente os seus cigarros, como se se
submetessem a um rito, essa legenda, portanto, que aludia a doze pilares. Mais
estranho ainda, como a reportagem mostrava, os novos aderentes usavam todos
nomes alevh, como Hassan, Husséyne ou Ali, ou ainda, como a seguir verifiquei,
nomes de padres bektachis. Se eu ignorasse a força da Ordem dos Bektachis,
outrora na Albânia, nunca teria talvez notado esse incrível mistério, mas, como a
conhecia, apliquei-me ainda mais energicamente ao estudo dos factos e dos
artigos. Passei quatro anos a ler uma montanha de livros que tratava dos
Bektachis, dos janízaros, dos Houroufis e dos comunistas albaneses, e pude
assim descobrir o segredo de uma conspiração que vem a ser urdida desde há
cento e cinquenta anos...
E enquanto ia repetindo: “Como sabes, decerto”, Saím começou a descrever
a Galip os sete séculos de história do movimento bektachi, a partir de Hadji
Bektache Véli; falou-lhe das ligações existentes entre a Ordem e as fontes
xamanistas, alevi e místicas, do seu papel na fundação do Estado Otomano, na
ascensão do seu poder e das tradições de rebelião dos janízaros, cuja alma era a
Ordem. Quando sabemos que cada janízaro era também um bektachi,
compreendemos facilmente como o segredo — nunca revelado — da Ordem
pôde imprimir o seu selo na história de Istambul. Foi por causa dos janízaros que
os bektachis foram uma primeira vez banidos da capital. Em 1826, quando o
sultão Mahmout II atacava a tiro de canhão os quartéis do exército, que se
recusava a adoptar os novos métodos militares vindos do Ocidente, os conventos
que sempre tinham assegurado a unidade espiritual dos janízaros foram
encerrados e os padres bektachis banidos de Istambul.
Vinte anos depois desta primeira clandestinidade, os bektachis haviam
regressado a Istambul, a coberto da confraria dos Nakchibendis. E até à
República e à proscrição por Atatiirk de todas as confrarias, continuaram, sob
essa aparência, a desenvolver as suas actividades por mais vinte anos ainda. Para
o mundo exterior eram nakchis, mas na realidade viviam como bektachis,
guardando os seus segredos no mais fundo do coração.
Num velho diário de viagem de um inglês, poisado em cima da mesa, Galip
examinava uma gravura que supostamente representava uma cerimónia bektachi,
mas que, mais que a realidade, reflectia os fantasmas do pintor viajante: nela
contou, exactamente, doze pilares.
— O terceiro regresso dos bektachis teve lugar seis anos após a proclamação
da república, não dessa feita sob a aparência da confraria nakchibendi, mas a
coberto do marxismo-leninismo — disse Saím. Calou-se por um longo
momento, depois enumerando com exaltação todos os exemplos que fora capaz
de descobrir nas brochuras, os livros, os artigos, as fotografias e as gravuras que
recortara e conservara, afirmou que tudo concordava e se assemelhava
estranhamente na confraria e na organização política, as actividades, as palavras,
o vivido, os pormenores da cerimónia, e antes da admissão, os períodos de prova
e de penitência a observar pelo neófito, as dores que o noviço tem de sofrer; o
culto votado aos santos, aos mortos, aos mártires da Ordem; e até mesmo os
modos por que essa veneração se exprime; o sentido sagrado assumido pela
palavra “via”; o zikr, repetição de certos termos e de certas expressões
destinadas a assegurar a união e a unidade, sejam quais forem os termos e as
expressões repetidos; os sinais que permitem reconhecer os iniciados: barba,
bigode, os próprios olhares; declamação de poemas com acompanhamento de
saz, durante as cerimónias, rimas e ritmos desses poemas, etc. — E acima de
tudo — disse Sa'ím —, ainda que supondo que tudo isto fossem apenas
coincidências, que tudo isto não passasse de uma partida de mau gosto que Deus
me tivesse pregado por meio do artigo, seria preciso que eu fosse cego para não
notar esses jogos de palavras, essas combinações de letras que os bektachis
tinham herdado dos Houroufis, e que encontramos indubitavelmente nos textos
editados pelas facções... — No silêncio da noite, quebrado apenas pelos apitos
dos guarda-nocturnos em quarteirões distantes, Saím pôs-se a ler lentamente,
como se recitasse orações, certos anagramas que detectara, e comparou os seus
diversos sentidos.
A uma hora mais tardia, enquanto Galip oscilava entre o sono e a vigília,
entre a imagem de Ruya e as recordações dos dias felizes, Saím lançou-se
naquilo a que chamava “o aspecto mais importante e mais surpreendente do
assunto”: não, os jovens que aderiam àquela organização política ignoravam que
se tinham tornado bektachis; não, exceptuadas quatro ou cinco pessoas, a grande
maioria dos membros ignorava que tal plano fora decidido graças a um pacto
secreto, celebrado entre os dirigentes de grau intermédio do partido e certos
bektachis albaneses; aqueles jovens de boa-fé, dispostos a todos os sacrifícios,
que, aderindo à organização, mudavam completamente a sua maneira de viver e
os seus hábitos quotidianos, eram incapazes de imaginar que aquelas fotografias,
tiradas no decorrer dos desfiles, das cerimónias, das comemorações, das
refeições em comum, eram consideradas pelos padres bektachis que viviam na
Albânia como outras tantas provas de uma extensão da sua Ordem. — A tal
ponto que comecei por acreditar que estava diante de uma conspiração
aterradora, de um segredo incrível e que os jovens estavam a ser
vergonhosamente enganados — declarou SaYrn. — Estava tão perturbado que,
pela primeira vez em quinze anos, pensei em redigir e publicar um artigo para
expor a minha descoberta com todos os seus pormenores, todas as suas
presunções concomitantes, mas depressa acabei por renunciar a esse projecto.
— E enquanto apurava o ouvido para o ruído vindo de um petroleiro que
atravessava o Bósforo sob a neve, fazendo tremer ligeiramente as vidraças das
janelas da cidade, acrescentou: — Porque tinha então compreendido que, mesmo
que se provasse que a vida que vivemos não é mais do que o sonho de um outro,
isso nada mudaria. Depois Saím contou a história da tribo dos Zeribans, do Leste
da Anatólia, instalada no flanco de uma montanha deserta, “onde nunca passava
uma caravana, que nenhum pássaro alguma vez sobrevoava” e cujos
preparativos de uma viagem que deveria levar os seus membros ao Monte Kaf
duraram duzentos anos. Quer essa ideia de chegar ao Monte Kaf — que os
Zeribans nunca realizaram — tenha tido origem na leitura de algum velho
tratado sobre a interpretação dos sonhos de havia três séculos, quer o adiamento
constante da partida tenha sido efeito de um acordo celebrado entre o poder
otomano e os xeques da tribo, que transmitiam o segredo de geração em geração,
nada muda à história. Explicar aos jovens chamados, que, nas pequenas cidades
da Anatólia, enchem as salas de cinema aos domingos à tarde, que o sacerdote
cruel e falso que, no ecrã, se prepara para fazer beber vinho envenenado ao
valente guerreiro turco é na realidade um actor sem pretensões e um bom
muçulmano, para que serve senão para estragar a sua cólera, que é o seu único
prazer?
Um pouco antes da alvorada, enquanto Galip dormitava no divã, Saim
afirmou que muito provavelmente na Albânia, num hotel branco de estilo
colonial datando do início do século, num grande salão vazio lembrando os que
vemos nos sonhos, onde os recebiam alguns altos dignitários do partido, os
velhos padres bektachis contemplavam, com os olhos molhados de lágrimas, as
fotografias que lhes mostravam da juventude turca, ignorando que, durante as
cerimónias, se falava com entusiasmo das soluções marxistas-leninistas, mas de
maneira nenhuma do ritual secreto da sua Ordem. A ignorância pelos alquimistas
do facto de que nunca conseguiriam descobrir a pedra filosofal, que buscavam
havia séculos, não lhes causava infelicidade, pois essa era a própria razão da sua
existência. O ilusionista, nos nossos dias, bem pode avisar o espectador de que
aquilo que faz é apenas um truque, mas o espectador que lhe segue os gestos
com fascínio sente-se feliz porque consegue acreditar, ainda que apenas por um
instante, estar a assistir a um sortilégio e não a uma fraude. São numerosos os
jovens que se apaixonam sob o efeito de uma palavra ou de uma história
ouvidas, de um livro lido em comum, num certo instante da sua vida, e se
apressam, movidos pela emoção, a desposar o objecto do seu ardor, e que
vivem depois felizes o resto dos seus dias, sem chegarem nunca a compreender
que o seu amor se baseava numa ilusão. Saber que, no fundo, a escrita — todas
as escritas — trata unicamente de um sonho, e de maneira nenhuma da vida,
nada de nada muda, declarou Saím, enquanto percorria o jornal que o porteiro
lhe pusera por baixo da porta, enquanto a mulher recolhia as revistas acumuladas
em cima da mesa para a poder preparar para o pequeno-almoço.


CAPÍTULO VIII

OS TRÊS MOSQUETEIROS

“Perguntei-lhe quem eram os seus inimigos. Ele não acabava de enumerar
nomes.”
Conversações com Yahya Kémal


O seu enterro desenrolou-se exactamente como ele receava que se
desenrolasse havia vinte anos e, como ele o descrevera trinta e dois anos antes,
éramos nove ao todo e para tudo: um empregado e um amigo de dormitório,
pensionista como ele da pequena casa de repouso privada em Uskudar, um
jornalista na reforma, cujos primeiros tempos o defunto favorecera na época
mais brilhante da sua carreira de colunista, dois parentes afastados, com um ar
atordoado, que ignoravam tudo da vida dele e da sua obra, uma estranha
mulherzinha, com um chapéu de véu enfeitado com um penacho que lembrava o
dos turbantes do sultão, o imã, eu e o escritor no seu caixão. Como a descida do
caixão à cova teve lugar no pior momento da tempestade de neve que ontem
ocorreu, o imã não prolongou as orações e nós apressámo-nos a lançar os nossos
punhados de terra. E depois, não sei bem como, dispersámos imediatamente. Na
paragem de Kissikli, eu era o único à espera do eléctrico.
Chegado à margem europeia, fui a Beyoglou. Passavam no Alhambra um
filme com Edward G. Robinson, entrei no cinema e regalei-me a vê-lo. Sempre
adorei Edward G.
Robinson! Desempenhava o papel de um modesto funcionário, pintor
amador também sem talento, mas que, com o objectivo de conquistar a mulher
que amava, mudava de personalidade e de aparência fazendo-se passar por
milionário. No entanto, a mulher que amava — Joan Bennett — não parava de
lhe mentir, por sua vez. Traído pela amada, a dor dele era imensa, e nós,
espectadores, seguíamos o filme com uma profunda tristeza.
No dia em que travei conhecimento com o “defunto” (neste segundo
parágrafo, faço questão de empregar, como no primeiro, esta expressão que ele
gostava de usar nos seus artigos), no dia, portanto, em que o vi pela primeira
vez, ele era já septuagenário e dispunha de uma coluna diária. Quanto a mim,
mal chegara a entrar na casa dos trinta. Nesse dia, eu ia ver um amigo a
Bakirkoy e preparava-me para apanhar o comboio em Sirkédji quando o avistei:
o defunto e dois outros jornalistas, lendários para mim desde a infância, estavam
sentados a uma mesa do restaurante da estação, à beira do alpendre, a beber raki.
O que achei mais surpreendente não foi deparar, na algazarra e entre a baça
multidão da estação de Sirkédji, com estes três velhos, pelo menos
septuagenários, figuras míticas que eu colocava no primeiro plano do meu
universo literário, mas ver aqueles três mosqueteiros da pena, que se haviam
odiado e insultado ao longo de toda a sua carreira, sentados e a beber à mesma
mesa, semelhantes aos três mosqueteiros reunidos no cabaré de Dumas Pai, vinte
anos depois. Ao longo de toda a sua carreira literária de meio século durante a
qual tinham erodido três sultões, um califa e três presidentes da República, os
três polemistas passaram a vida a qualificar-se mutuamente — além de outras
acusações, algumas das quais eram justificadas — de ateus, de jovens-turcos, de
cosmopolitas, de nacionalistas, de maçónicos, de kemalistas, de partidários da
repúlica, de traidores à pátria, de monárquicos, de ocidentalistas, de membros
das confrarias proibidas, de plagiários, de nazis, de judeus, de árabes, de
arménios, de homossexuais, de renegados, de integristas, de comunistas, de
lacaios do imperialismo americano e muito recentemente de existencialistas, de
acordo com a moda do dia. (Um deles chegara a afirmar num artigo que o maior
dos existencialistas fora Ibn Arabí, e que os filósofos ocidentais se tinham
limitado a pilhá-lo e a plagiá-lo, setecentos anos mais tarde.) Depois de ter atenta
e longamente observado os três mosqueteiros, e sem reflectir mais, aproximei-
me da mesa deles, apresentei-me e declarei-lhes a minha admiração, tendo o
cuidado de dosear equitativamente os meus elogios.
Gostaria que os meus leitores me compreendessem bem: sentia-me
entusiasmado, era tímido, era jovem, inventivo, brilhante, tinha sucesso, e
hesitava entre a auto-satisfação e a falta de segurança, entre a boa-fé ilimitada e
o descaramento. Conservava, sem dúvida, o entusiasmo do jovem cronista, ainda
noviço, mas se não estivesse intimamente persuadido de ter já muitos mais
leitores, de receber já muito mais correio, e sobretudo de escrever muito melhor
do que eles, e se não estivesse certo de que as duas primeiras destas afirmações
eram, para sua desgraça, do conhecimento deles, não teria encontrado em mim
coragem suficiente para me aproximar daqueles três grandes mestres da minha
profissão.
Foi por isso que a altivez com que me acolheram me deu prazer, vi nela um
sinal de vitória para mim. Se não fosse um cronista jovem e já conhecido, se não
passasse de um leitor anónimo que lhes expressava a sua admiração, ter-me-iam
decerto tratado melhor. Não me propuseram imediatamente que me sentasse à
mesa deles; tive de esperar. Em seguida, quando acabei por me sentar,
mandaram-me transmitir à cozinha os seus pedidos, como se eu fosse um
empregado de mesa; e fui. Manifestaram o desejo de consultar um semanário;
corri a comprá-lo ao vendedor de jornais. Descasquei uma laranja para um deles,
apressei-me a apanhar o guardanapo que o outro deixara cair, e respondi às suas
perguntas do modo que eles esperavam, com extrema modéstia: infelizmente,
não, não sabia francês, mas passava os meus serões, com um dicionário na mão,
a decifrar Les Fleurs du mal. A minha ignorância tornava-lhes o meu sucesso
ainda mais insuportável, mas a minha modéstia e a minha confusão imensas
atenuavam aos olhos deles a gravidade dos meus pecados.
Muitos anos mais tarde, quando me surpreendi a comportar-me exactamente
como eles na presença de jornalistas mais jovens, pude compreender melhor que
contentando-se com discutir uns com os outros, sem parecerem manifestar por
mim o mais pequeno interesse, o seu único desejo era, na realidade,
impressionar-me. Eu escutava-os, mudo e cheio de respeito. Por que motivos
aquele cientista nuclear alemão, cujo nome nessa altura enchia regularmente as
primeiras páginas dos jornais, se vira forçado a converter-se ao Islão?
Quando o santo padroeiro dos autores de crónicas turcos, Ahmet Mithat
efendi, encurralara em plena noite e numa rua escura o seu rival, “Lastik” Ali
bey, vencedor da polémica que os opusera, e lhe administrara um bom
correctivo, teria conseguido fazê-lo jurar pôr fim a essa querela? Bergson era um
místico ou um materialista? O que é que provava a presença de um “segundo
universo” misteriosamente oculto no interior do nosso mundo? Quem eram os
poetas acusados, nos últimos versículos da vigésima primeira surata do Corão,
de obedecerem a certos preceitos nos quais não acreditavam? E por associação
de ideias: André Gide seria realmente homossexual ou, sabendo que esse tema
atraía a atenção dos leitores, fingia sê-lo, da mesma maneira que o poeta árabe
Ebou Nowaz, que, na verdade, adorava as mulheres? Quando, no primeiro
parágrafo do seu romance Kéraban o Teimoso, Júlio Verne nos descreve a praça
de Top-Hané e a fonte de Mahmout I, erros que comete resultarão do facto de se
ter servido de uma gravura de Melling, ou serão a consequência de ter plagiado
inteiramente a descrição delas feita por Lamartine na sua Viagem no Oriente?
Mevlâna teria introduzido no tomo V do seu Mesnevi o conto da mulher que
morreu a fazer amor com um burro pelo episódio em si ou pela moralidade que
se pode extrair dele?
Enquanto discutiam esta última questão com seriedade e sem vulgaridade,
uma vez que os seus olhares se viravam para mim e que as suas pestanas brancas
pareciam enviar-me sinais, ousei dizer-lhes a minha opinião: o conto fora de
facto introduzido no Mesnevi, como todos os outros, pelo interesse que
apresentava, circunstância que o autor quisera dissimular sob o véu da moral a
extrair do episódio. Um deles, (aquele cujo funeral ontem acompanhei) disseme
então: “Meu filho, quando escreve um artigo, fá-lo para tirar dele uma
moralidade ou pelo prazer do leitor?” Para lhes provar que tinha sobre todas as
coisas ideias bem definidas, forneci-lhes a primeira resposta que me passou pela
cabeça: “Pelo prazer, senhor”, disselhe. A minha resposta não lhes agradou nada:
“Você é jovem, mal começou ainda a sua carreira”, disseram-me. “Temos o
dever de lhe dar alguns conselhos.”
No mesmo instante, levantei-me com um salto entusiasmado da minha
cadeira. “Gostava muito de tomar nota desses conselhos, meus senhores!”,
exclamei, e corri a pedir algumas folhas de papel ao dono do restaurante. Todos
os conselhos a respeito da arte da crónica que então transcrevi a tinta verde, no
papel que tinha no cabeçalho o nome do restaurante de gare, servindo-me da
caneta esmaltada que um deles me emprestou, quero partilhá-los convosco, meus
queridos leitores, nesta longa conversa dominical.
Bem sei, entre os meus leitores há alguns que esperam com impaciência que
eu lhes fale desses grandes jornalistas, hoje esquecidos de há muito; gostariam
muito que eu lhes segredasse ao ouvido os nomes desses três mosqueteiros da
pena cuja identidade consegui até aqui dissimular. Mas não o farei. Não para que
eles continuem a repousar em paz nas suas sepulturas, mas para não misturar os
leitores que teriam direito a conhecer a verdade com aqueles que a não merecem.
É por isso que vou designar cada um dos três cronistas mortos por um dos
pseudónimos utilizados para assinarem os seus poemas por três sultões
otomanos. Os leitores que reconhecerem sob os seus nomes literários os sultões
em questão poderão depois estabelecer um paralelo entre os nomes dos
soberanos e os nomes próprios dos meus ilustres mestres, resolvendo assim este
enigma, de resto pouco importante.
Porque o verdadeiro enigma escondia-se na misteriosa partida de xadrez que
os três mestres disputavam a golpes de conselhos no domínio do orgulho.
Como continuo sem ser capaz de resolver o mistério, à semelhança dos
amadores pouco dotados que se limitam a comentar, numa coluna de jornal ou de
revista, o jogo dos grandes mestres, cuja táctica são incapazes de compreender
—, introduzi, entre os conselhos que me prodigalizaram os meus três mestres
nesse dia, e entre parênteses, os meus modestos comentários, e as minhas ideias
ainda mais humildes.
A — Nome literário do sultão: Bathi. Trazia nesse dia de Inverno um fato
creme, cortado em pano inglês (porque, entre nós, se usa o adjectivo “inglês”
para qualificar os tecidos caros), e uma gravata escura. Alto, cuidando bem da
sua pessoa, bigode branco bem cortado. Serve-se sempre de uma bengala. Tem o
porte de um gentleman inglês na penúria.
Mas será possível ser-se um gentleman se não se tiver dinheiro? Ignoro-o.
B — Nome literário do sultão: Baki. Gravata com o nó mal feito, de través,
como o seu rosto. Vestindo um velho casaco amarrotado, coberto de nódoas. Por
baixo do casaco, aparecem o colete de malha e a corrente do relógio de bolso. É
gordo, desmazelado. Tem sempre um cigarro na mão; chama afectuosamente “o
meu único amigo” a esse cigarro que, traindo a sua amizade unilateral, o fará um
dia morrer de uma crise cardíaca.
C — Nome literário do sultão: Cemali. Pequeno, nervoso. Os esforços que
abundantemente despende para manifestar o seu gosto pela ordem e pelo asseio
não bastam para dissimular a sua aparência de professor primário reformado.
Casacos e calças de empregado dos correios, sempre no fio, sapatos com
espessas solas de borracha produzidos pela fábrica estatal de Sumerbank. Óculos
de lentes grossas. Extremamente míope. Uma fealdade que se poderia qualificar
de agressiva.
E agora, eis os conselhos de cada um destes grandes homens, bem como os
meus modestos comentários: 1. C: Para o jornalista que dispõe de uma crónica,
escrever apenas em função do prazer do leitor equivale a ver-se sem bússola em
pleno mar. 2. B: Mas o cronista não é Esopo nem Mevlâna. A moralidade deve
ser sempre extraída da fábula, e não a fábula da moralidade. 3-C: Escreva
sempre tendo em conta a sua inteligência e não a do leitor. 4. A: E a fábula que
serve de bússola (réplica manifesta a l.C). 5. C: Impossível falarmos do nosso
país ou do Oriente sem termos penetrado os segredos da nossa história nacional
e dos nossos cemitérios. 6. B: A chave das relações Oriente-Ocidente encontra-
se na seguinte exclamação de Arif, o Barbudo: “Ó infortunados que se viram
para o Ocidente — a bordo do navio silencioso que os leva para o Oriente!”
(Arif, o Barbudo era um personagem que B criara inspirando-se num
personagem real).

7. A-B-C: Arranja um repositório de provérbios, de expressões, de histórias,
de bons ditos, de versos, de máximas. 8. C: Impossível procurar a máxima que
coroará o teu artigo; é depois de teres escolhido a máxima que deverás procurar
o tema que melhor se lhe adeque.
9-A: Nunca te instales diante da tua mesa de trabalho antes de teres
encontrado a primeira frase do teu artigo. 10. C: As tuas convicções devem ser
sinceras. 11. A: E ainda que o não sejam, o teu leitor deve estar persuadido de
que o são. 12. B: Aquilo a que chamamos o leitor é uma criança a morrer de
vontade de ir ao lunapark. 13-C: O leitor nunca perdoa àquele que blasfema
contra o Profeta, além disso o Senhor fere de paralisia o blasfemo!
(Tendo adivinhado que o conselho 11. A constituía um discreto ataque contra
si, C aludia assim à sequela — imperceptível — de uma paralisia facial, no canto
da boca de A, autor de um artigo versando a vida conjugal e as actividades
comerciais de Mahomet.) 14. A: Fala sempre com afeição dos anões, o leitor,
também ele, gosta deles (réplica ao conselho 13, com uma alusão à pequena
estatura de C). 15. B: Aí está, a estranha casa dos anões, outrora construída em
Uskudar, eis um belo tema para uma crónica. 16. C: A luta é também um bom
tema, mas quando praticada como um desporto, e quando se fala dela como de
um desporto. (Tendo interpretado o conselho 15 como uma crítica contra a sua
pessoa, C alude aos rumores de pederastia que correm acerca de B, grande
amador de luta, e que dela fala muitas vezes nas suas colunas.) 17. A: O leitor
médio é um homem com uma vida penosa, é casado, pai de quatro filhos, e tem a
idade mental de um miúdo de doze anos. 18. C: O
leitor é tão ingrato como o gato. 19-B: O gato, que é um animal muito
inteligente, não é ingrato, mas sabe que não deve fiar-se nos escritores que só
gostam de cães. 20. A: Não te preocupes com os gatos nem com os cães, mas
com os problemas do país. 21. B: É preciso conhecerem-se os endereços de
todos os consulados. (Alusão aos rumores segundo os quais, durante a Segunda
Guerra Mundial, C teria vivido de subsídios do consulado alemão, e A dos do
consulado britânico.) 22. B: Podes entrar numa polémica, na condição de seres
capaz de derrear o adversário. 23-A: Não entres em polémicas a não ser que
tenhas o apoio do teu patrão. 24. C: Trava a polémica, mas arranja um casacão
bem grosso. (Alusão à desculpa bem conhecida apresentada por B quando
explica que preferiu ficar em Istambul durante a Ocupação, em vez de partir para
participar na guerra pela independência: “O Inverno em Ankara é demasiado
duro para mim!”) 25. B: Responde sempre às cartas dos leitores. Se ninguém te
escrever, dirige cartas a ti próprio e responde-lhes!
26. C: O mestre de todos nós, a nossa santa padroeira é Shéhérazade. Tal
como ela, tudo o que fazes é introduzir histórias entre os acontecimentos que
constituem aquilo a que se chama a vida, não te esqueças! 27. B: Lê pouco, mas
lê aquilo que gostas de ler, parecerás mais culto que aquele que lê muito, mas
com tédio. 28. B: Mostra-te empreendedor, esforça-te por conhecer muitas
pessoas, por armazenar recordações delas, e poderás escrever depois artigos por
ocasião da sua morte. 29-A: Acima de tudo, trata de evitar acabares o teu artigo
injuriando o defunto quando começaste por fazer o seu elogio. 30. A-B-C: Evita
tanto quanto possível as frases seguintes: a) Ainda há dois dias, o defunto estava
vivo. b) A nossa profissão é muito ingrata, os nossos artigos passado um dia
foram já esquecidos, c) Ouviram ontem à noite aquele programa na rádio? d) Os
anos passam tão depressa! e) Que diria o defunto deste escândalo se ainda
estivesse em vida? f) Fazem certa coisa de modo completamente diferente na
Europa! g) O preço do pão, há X anos, era... h) Posteriormente, esse incidente
despertou em mim certa recordação... 31. C: Aliás, expressões como
“posteriormente” e “depois” só são boas para os noviços que não conhecem o
ofício. 32. B: Numa crónica ou nota do dia, nem tudo o que é arte é crónica.
E nem tudo o que é crónica é artístico. 33-C: Não elogies nunca os que matam a
poesia infligindo-lhe os maiores ultrajes (seta destinada a B, que escreve
poemas). 34. B: Escreve com facilidade se queres ser lido facilmente. 35. C:
Para seres lido comodamente, escreve de modo complicado. 36. B: Mas nesse
caso terás uma úlcera! 37. A: Com uma úlcera, serás um artista! (Depois desta
amabilidade, riram-se os três.) 38. B: Tenta envelhecer o mais cedo possível! 39.
C: Envelhece, e poderás escrever uma bela crónica sobre o Outono!
(Sorriram-se uns aos outros, afectuosamente.) 40. A: Os três grandes temas,
é claro, o amor, a morte e a música. 41. C: Mas o que é o amor? Primeiro, é
preciso ter-se uma opinião a esse respeito. 42. B: Continua sempre à procura do
amor. (Devo lembrar aos meus leitores que, entre estas recomendações, se
insinuavam hesitações e longos silêncios.) 43. C: Mantém os teus amores
secretos, porque és um escritor! 44. B: Amar é procurar. 45. C: Foge dos outros,
para que eles se convençam de que tens um segredo. 46. A: Deixa adivinhar que
tens um segredo, as mulheres ficarão loucas por ti. 47. C: Cada mulher é um
espelho! (Neste ponto, convidaram-me a beber, fora aberta uma segunda
garrafa.) 48. B: Não nos esqueças. (Garanti-lhes que não os esqueceria,
evidentemente, e escrevi muitas crónicas a pensar neles e nas histórias que
contavam, como decerto os meus leitores mais atentos terão compreendido.) 49-
A: Passeia pelas ruas, observa os rostos, aí tens um tema para ti. 50. C: Faz com
que o leitor adivinhe que és detentor de segredos históricos, mas que,
infelizmente, não podes falar deles! (Nesta altura, C conta-nos uma história, que
hei-de recordar noutra crónica, a do amante que dizia à mulher amada: “Eu sou
tu”; e então, pela primeira vez, experimentei a impressão de que um laço secreto
unia estes três escritores e lhes permitia tomarem lugar à roda de uma mesma
mesa, amigavelmente, eles que haviam passado meio século a insultar-se. 51. A:
Não esqueças também que o mundo inteiro é hostil ao nosso país. 52. B: As
pessoas deste país adoram os seus generais, a sua mãe e as suas recordações de
infância.
Também deverás amá-los. 53-A: Nunca utilizes a epígrafe, porque a epígrafe
reduz a nada o efeito de surpresa do artigo. 54. B: Ou então, se o efeito de
surpresa dever desaparecer, suprime tu próprio o mistério, ataca os falsos
profetas que fazem do mistério negócio seu.
55. C: Quando utilizares uma epígrafe, nunca a vás buscar aos livros do
Ocidente, cujos autores e personagens não se parecem connosco, também não a
vás buscar aos livros que não leste, porque é isso exactamente o que o Dejjal faz.
56. A: Sobretudo não esqueças que deves ser ao mesmo tempo anjo e demónio, o
Falso Messias e Ele. Porque os leitores cansam-se depressa dos que são
inteiramente bons ou inteiramente maus. 57. B: Mas quando o leitor compreende
que o Dejjal lhe aparece sob a forma Dele, quando adivinha que aquele que
tomou pelo Salvador é na realidade o Falso Messias, quando concebe com horror
que foi ludibriado, é capaz, juro-te, de te matar numa ruela sombria. 58. A: É
exacto; é por isso que deves conservar o mistério, e sobretudo não traias os
segredos da tua profissão! 59-C: O teu segredo é Amor, acima de tudo não o
esqueças. A palavra-chave é Amor.

60. B: Não, a palavra-chave lê-se nos nossos rostos, olha e escuta.

61. A: É o Amor, Amor, Amor! 62. B: Não receies o plagiato, todo o segredo
da pouca coisa que sabemos, o segredo da nossa arte, está escondido no nosso
espelho místico.
Conheces a história do concurso entre pintores que Mevlâna conta? Foi
buscá-la a outros autores, mas ele também... (Conheço-a, sim senhor, disse eu.)
63. C: Quando tiveres envelhecido, quando te puseres a pergunta “o homem
pode ser ele próprio?”, perguntar-te-
ás igualmente se conseguiste ou não apreender esse mistério, nunca o
esqueças! (Não o esqueci!) 64. B: Nunca esqueças os velhos autocarros, os livros
escritos ao sabor da fortuna, não esqueças os que sabem ter paciência, e tanto os
que não compreendem como os que compreendem!
Uma canção que falava de amor e de mágoa e do vazio da existência subia
da gare, talvez do próprio interior do restaurante.
No mesmo acto, os três desinteressaram-se de mim e, recordando-se de que
eram Shéhérazades velhas e com bigodes, bruscamente melancólicos, amigáveis,
fraternais, começaram a contar histórias, das quais vos conto algumas: A história
triste e cómica do infeliz jornalista que sempre sonhara contar a visita de
Mahomet ao alto dos Sete Céus, e que ficou desesperado ao descobrir que Dante
escrevera qualquer coisa de semelhante; a história do sultão louco e maníaco que
ia caçar corvos nos pomares, na companhia da irmã; a do escritor que perdeu
todos os seus sonhos a partir do dia em que a mulher lhe fugiu com outro; e
ainda a do leitor que imaginava ser ao mesmo tempo Proust e Albertine, ou a do
autor de crónicas que se disfarçava de Mehmet, o Conquistador, etc.


CAPÍTULO IX

ALGUÉM ME SEGUE

“Ora era a neve que caía, ora eram as trevas.”
Xeque Galip


Ao longo do dia inteiro, Galip iria pensar no velho sofá que vira ao sair do
apartamento do seu amigo dos arquivos, quando descia para Karakeuy passando
pelas velhas ruas e os estreitos passeios em degraus do bairro de Djihanguir, da
mesma maneira como de um sonho de mau agoiro se fixa apenas um só e único
pormenor. O sofá fora abandonado diante do estore metálico descido de uma das
oficinas de marceneiro, estofador, aplicadores de linóleos ou oleados, numa das
ruelas íngremes que ficam por trás do Arsenal, e que Djélâl percorrera muitas
vezes na época em que conduzia um inquérito sobre o tráfico de ópio e de haxixe
em Istambul. O verniz das pernas e dos braços do sofá estalava em escamas, o
couro rasgado, e molas enferrujadas, semelhantes aos intestinos que irrompem
do corpo de um cavalo esventrado, saíam do seu interior como uma ferida.
Quando chegou por fim a Karakeuy, Galip estava prestes a persuadir-se de
que o aspecto desértico — embora fossem mais de oito horas — da praça e da
rua onde deparara com o sofá se devia à aproximação de alguma catástrofe,
cujos presságios toda a gente fosse capaz de decifrar. E era sempre por causa
desse iminente desastre que os barcos, que já deviam ter retomado o seu serviço,
estavam ainda amarrados uns aos outros, que os cais permaneciam vazios, que os
fotógrafos à la minute, os vendedores ambulantes, os mendigos de rosto tisnado
pareciam ter decidido passar os seus últimos dias na ociosidade. Galip apoiou-se
no parapeito para contemplar a água turva e começou por pensar nos miúdos
que, outrora, se concentravam naquele canto do porto e mergulhavam para
apanhar as moedas que os turistas atiravam ao mar; depois perguntou-se: porque
é que, na crónica em que descrevia o dia em que as águas do Bósforo se
retiravam, Djélâl não evocara esses óbolos que, anos mais tarde, acabariam por
adquirir um sentido muito diferente?
Voltou para o escritório e pôs-se a ler a crónica desse dia do seu primo. De
resto, não era desse dia; Djélâl já a publicara muitos anos antes. O que tanto
podia significar que havia muito tempo não enviava crónicas novas para o jornal
como constituir uma mensagem secreta. A interrogação posta pelo artigo: “Tem
dificuldade em ser você próprio?” — interrogação enunciada pelo principal
personagem da crónica, um barbeiro — talvez não tivesse o sentido manifesto
que o artigo parecia conceder-lhe e fornecia indícios secretos espalhados por
aqui e por ali num outro universo. Galip lembrava-se do que outrora lhe
explicara Djélâl a esse respeito: “A maior parte das pessoas”, dissera o primo,
“não observam as particularidades essenciais dos objectos, porque as têm
debaixo do nariz, mas observam e reconhecem as suas particularidades
secundárias, as que são marginais e lhes chamam a atenção precisamente pelo
facto de serem marginais. É por isso que, nas minhas crónicas, nunca sublinho
aquilo que quero explicar aos meus leitores, e contento-me com aludir a essas
coisas negligentemente, de passagem, num cantinho do artigo, não as
dissimulando de facto, claro, mas como se jogasse às escondidas com crianças, e
se o faço é porque os leitores acreditam imediatamente, como as crianças,
naquilo que descobrem. O
pior é que acabam por abandonar o jornal sem terem compreendido nada,
nem o sentido que se lhes põe diante dos olhos ao longo de todo o artigo, nem os
segredos nascidos do acaso, que exigem um bocadinho de paciência e de
inteligência.”
Galip deixou o jornal em cima da mesa de trabalho e, cedendo a um impulso
súbito, saiu do escritório na intenção de ir ao Milliyet para se encontrar com o
primo. Djélâl ia à redacção de preferência ao fim-de-semana, na ausência dos
outros jornalistas, e, sabendo-o, Galip esperava encontrá-lo a sós no seu
gabinete. Dir-lhe-ia simplesmente que Ruya estava adoentada, decidiu, enquanto
subia a avenida. Depois inventaria uma história, um cliente desesperado, porque
a mulher acabava de o deixar. Que diria Djélâl de uma tal história? Ao contrário
das nossas tradições e de toda a história do nosso país, um cidadão honesto,
laborioso, razoável, e cujos negócios correm bem, é de repente abandonado por
uma esposa que muito ama. Qual o sentido profundo desse facto? Que provava?
Que apocalipse anunciaria?
Djélâl ouviria atentamente a história de Galip, com todos os seus
pormenores, e depois contá-la-ia ele, por seu turno. E quando Djélâl contava
alguma coisa, o universo adquiria um sentido; todas as realidades que se
desdobravam diante dos nossos olhos se transformavam, convertiam-se nos
elementos assombrosos de uma história cheia de cor que já conhecíamos, mas
ignorávamos conhecer, e a vida tornava-se desse modo mais suportável. Com os
olhos presos aos ramos encharcados que rebrilhavam no jardim do consulado do
Irão, Galip disse para consigo que gostaria de viver no universo contado por
Djélâl e não no seu próprio universo.
Não encontrou Djélâl no gabinete. A mesa de trabalho dele estava bem
arrumada. O cinzeiro, limpo. Não se via a chávena de chá vazia. Galip instalou-
se no sofá violeta que costumava ocupar durante as suas visitas. Estava
convencido de que em breve ouviria as gargalhadas de Djélâl numa sala vizinha.
E quando acabou por perder essa esperança, muitas recordações tinham
desfilado já na sua memória: a sua primeira visita ao jornal — a pretexto de ir
levantar um convite para um concurso de cultura geral, que seria retransmitido
pela rádio, com um colega de estudos que, mais tarde, se apaixonaria por Ruya,
visita sobre a qual Galip não falara com os seus pais. (Ele mostrava-nos a
tipografia, mas não tinha tempo, explicara Galip, um pouco incomodado, durante
o caminho de regresso. “Viste as fotografias das miúdas que ele tem no
gabinete?”, perguntara-lhe o amigo.) A sua primeira visita com Ruya à redacção.
Djélâl levara-os a visitarem a tipografia (“Também quer ser jornalista, você,
minha menina?”, perguntara o velho tipógrafo a Ruya, e Ruya fizera a mesma
pergunta a Galip, quando voltavam para casa.) E aquele gabinete que era para ele
um cenário das Mil e Uma Noites, cheio de papéis e de sonhos, e onde se
entreteciam existências e histórias extraordinárias, que ele, pelo seu lado, era
incapaz de imaginar.
Quando começou a revolver a toda a pressa as gavetas da mesa de trabalho
de Djélâl, à procura de novos documentos e de novas histórias, eis o que
descobriu: cartas de leitores por abrir, lápis, canetas, recortes de jornais (um caso
do dia sublinhado a tinta verde; ao fim de muitos anos de casados, um marido
ciumento assassinara a mulher), fotografias — sempre e só rostos — recortadas
de revistas estrangeiras, retratos (certas notas, escritas com a letra de Djélâl, em
pedaços de papel: “não esquecer: a história do príncipe imperial”), tinteiros
vazios, caixas de fósforos, uma gravata horrível, livros muito elementares sobre
o xamanismo, o houroufismo e os métodos de educação da memória, um frasco
de soníferos,,medicamentos contra a hipertensão, botões, um relógio de pulso
parado, um par de tesouras e, num envelope, esse, aberto, fotografias
acompanhando a carta de um leitor (numa delas, Djélâl e um militar calvo; no
jardim de uma tasca, dois lutadores de corpos luzentes de óleo e um cão de gado
“kangal” de focinho simpático olhavam para a objectiva), lápis de cor, pentes,
boquilhas e esferográficas de todas as cores.
Na cobertura com mata-borrão da mesa de trabalho, descobriu duas pastas,
“Artigos Publicados” e “Reservas”. Na pasta das crónicas publicadas,
encontravam-se o texto dactilografado dos seis últimos artigos de Djélâl e uma
crónica de domingo que sairia no dia seguinte; o texto tinha sido decerto
composto, e em seguida ilustrado, antes de ser guardado na pasta.
Nas “Reservas”, Galip deparou apenas com três artigos, publicados havia já
alguns anos.
Um quarto, que sairia provavelmente na segunda-feira, estaria sem dúvida na
cave. Haveria lá, como era mais que evidente, artigos bastantes para garantir as
crónicas até quinta-feira próxima. Poderia concluir-se de tal circunstância que
Djélâl saíra da cidade para uma viagem ou umas férias rápidas? Mas Djélâl
nunca se afastava de Istambul.
Galip dirigiu-se então à grande sala de redacção para conseguir notícias de
Djélâl e aproximou-se maquinalmente de uma mesa, diante da qual dois homens
de certa idade estavam a conversar. Um deles, que toda a gente conhecia pelo
seu nome literário — Néchati —, era um velho atrabiliário, que travara, havia
alguns anos, uma violenta polémica com Djélâl. Actualmente, publicava em
folhetim as suas memórias, de um moralismo colérico, numa página do jornal
com muito menos destaque do que as colunas reservadas a Djélâl.
— Há dias que o Djélâl bey cá não vem — disse ele, com o seu focinho de
buldogue tão desabrido como a fotografia que ilustrava o seu canto de jornal. —
É parente dele?
Quando o outro jornalista lhe perguntou porque queria ele ver Djélâl bey,
Galip sentiu que estava prestes a recordar-se do nome dele, algures nos
meandros da sua memória. Mas, claro que sim, tratava-se realmente do Sherlock
Holmes de óculos escuros, que não era homem que se deixasse levar com
facilidade, e tinha a seu cargo as páginas de magazine do jornal. Estava a par de
tudo, sabia em que época e em que rua disceta de Beyoglou e em que casas de
passe dirigidas por Madame Fulana haviam trabalhado algumas de entre as
nossas actrizes de cinema, que hoje se excedem em requebros, na esperança de
se darem ares de grandes senhoras otomanas. Sabia que a “cantora vedeta”,
apresentada como uma aristocrata argentina, era na realidade uma argelina
muçulmana, ex-acrobata de circo em pequenas cidades de França.
— Portanto, é um dos parentes dele — disse o redactor das páginas de
magazine. Sempre pensei que o Djélâl bey não tinha outros parentes excepto a
sua falecida mãe.
— Olá! — exclamou o velho polemista. — Sem a família que tem, o Djélâl
estaria onde está hoje? Tinha, por exemplo, um cunhado, um homem que o
ajudou muito, que lhe ensinou a profissão, e foi esse cunhado, marido da irmã
mais velha dele, um homem piedoso, até mesmo devoto, que o Djélâl mais tarde
traiu. O cunhado era membro de uma confraria Nakchibendi, que continuava a
praticar em segredo o seu rito numa antiga saboaria. Todas as semanas, o
cunhado dirigia às Informações Gerais um relatório sobre essas cerimónias, em
que eram utilizadas correntes, prensas de azeite, círios e diferentes moinhos de
sabão. E isso com a intenção de provar aos militares que as actividades dos
membros da confraria em nada lesavam os interesses do Estado. Tinha tomado,
entretanto, o hábito de ler esses relatórios ao jovem Djélâl, que apreciava a
escrita, para o fazer adquirir o gosto pelo estilo e pelas belas-letras. Mas, mais
tarde, sob o efeito do vento que nesses anos começou a soprar, o Djélâl adoptou
as ideias da esquerda, divertiu-se cruelmente a usar o estilo desses relatórios,
associando-o com alegorias e metonímias que extraía das obras de Attar, de
Ebou Horassani, de Ibn Arabí ou de Bottfolio. Como querem assim que os
leitores que julgam descobrir nas imagens utilizadas — metáforas que nele se
baseiam sempre em lugares-comuns — pontes que ligam a modernidade ao
nosso passado cultural, possam adivinhar que esses pastiches foram imaginados
não pelo Djélâl, mas por outro? O cunhado, cuja existência o Djélâl se esforçou
por fazer esquecer, era um erudito no verdadeiro sentido da palavra, dotado de
todos os talentos: tinha inventado umas tesouras munidas de um espelho para
facilitar a tarefa dos barbeiros, aperfeiçoado um bisturi para a circuncisão,
permitindo evitar esses aborrecidos acidentes que enegrecem o futuro de tantos
dos nossos rapazes, inventado uma forca, na qual uma corrente substituía a corda
untada e um chão móvel tomava o lugar do tamborete, o que evitava muitos
sofrimentos ao supliciado. No tempo em que precisava ainda do afecto da
querida irmã e do cunhado, o Djélâl falava com entusiasmo de todas estas
invenções na rubrica “Parece incrível mas é verdade” do nosso jornal.
— Peço desculpa, mas a verdade é muito diferente! — protestou o redactor
do magazine.
— O Djélâl vivia numa solidão absoluta no tempo em que tinha a seu cargo
essa rubrica. E a esse propósito vou contar-lhe um episódio que pude
testemunhar pessoalmente.
Tratava-se de uma cena que parecia extraída dos filmes financiados pelos
produtores da rua do Pinheiro Verde, de um desses melodramas que se debruçam
sempre sobre os anos de solidão e de miséria vividos por jovens de carácter
completamente íntegro e que, invariavelmente, conseguem obter as graças da
fortuna. Tudo se passou nos últimos dias do ano, na sua modesta casa, situada
num bairro pobre da cidade. O Djélâl, jornalista ainda muito jovem, anuncia à
mãe que o ramo rico da família o convidou para a festa de passagem do ano na
bela residência familiar de Nichantache. Vai lá passar uma noite de algazarra e
de bom humor, na companhia das filhas animadas e dos filhos demasiado
ruidosos das suas tias e dos seus tios paternos, e depois, quem sabe, irão divertir-
se para algum dos lugares de prazer da cidade.
A mãe — que ganha a vida como costureira —, inundada de felicidade ao
pensar nas alegrias que esperam o seu filho, comunica-lhe uma boa notícia: no
máximo segredo, arranjou para ele um velho casaco do pai. Enquanto o Djélâl
prova o casaco, que lhe assenta, aliás, às mil maravilhas, a mãe (as lágrimas
correm-lhe dos olhos diante dessa cena: “És o fiel retrato do teu pai, meu filho!”)
fica encantada ao saber que um amigo do seu filho, jornalista como ele, foi
também convidado para a festa. Mas nessa noite, quando o jornalista,
testemunha ocular da história, desce com Djélâl os degraus das escadas sombrias
e glaciais da velha casa de madeira e se encontra na rua a sós com ele, toma
conhecimento da verdade: o pobre Djélâl nunca foi convidado para a passagem
de ano, nem pelos seus parentes ricos nem por ninguém. E, mais ainda, prepara-
se para ir para o jornal fazer horas extraordinárias, na noite da passagem de ano,
porque precisa de arranjar dinheiro para pagar a operação da mãe, que perdeu a
vista à força de costurar à luz de uma vela.
Após o silêncio que se seguiu a estas historietas, os dois jornalistas não
prestaram a mais pequena atenção aos protestos de Galip, que tentava explicar-
lhes que certos dados, nos dois relatos, nada tinham a ver com a vida de Djélâl.
Evidentemente, podiam ter-se enganado acerca de certos laços de parentesco ou
de certas datas. Uma vez que o pai de Djélâl bey estava ainda em vida (“Mas
tem a certeza disso, o senhor?”), podiam ter confundido o pai e o avô, a tia
paterna e a irmã mais velha, mas, até à evidência, nem um nem outro tinham a
mínima intenção de atribuir fosse que importância fosse a tais pormenores.
Depois de terem convidado Galip a sentar-se, e de lhe oferecerem um cigarro,
fazendo-lhe uma pergunta (“Que laço de parentesco disse você ao certo que
tinha com o Djélâl?”), sem ouvirem a resposta dele, recomeçaram a extrair, um a
um, do seu saco de recordações, os peões que depois dispunham como melhor
lhes parecia no seu tabuleiro de jogo imaginário.
Djélâl sempre estivera envolvido na atmosfera do afecto sem limites que a
sua família lhe proporcionava, dizia um. A tal ponto que, nos dias tão sombrios
durante os quais, à excepção dos problemas camarários, todos os restantes temas
eram proibidos aos jornalistas, a evocação de uma recordação da sua infância,
uma cena que se passara numa grande casa cujas janelas davam sobre tílias, lhe
bastara para redigir um artigo esplêndido que nem os leitores nem os censores
compreendiam.
— De maneira nenhuma! — replicava o outro. Djélâl tinha tão poucos
contactos com as pessoas, excepto os da sua profissão, que insistia em fazer-se
acompanhar a todas as recepções ou reuniões por um amigo de confiança cujos
gestos, discurso, maneira de vestir e até de comer imitava.
Mas não, a verdade era muito diferente! Como explicar que um jornalista tão
jovem, encarregado das palavras cruzadas, das charadas e dos “Conselhos às
Leitoras”, conseguisse obter, ao fim de três anos, uma crónica diária que era a
mais lida, não só no país, mas também nos Balcãs e no Médio Oriente, fazendo
chover impunemente calúnias em redor, a não ser pelo facto de contar com uma
poderosa parentela que persistia em protegê-lo com uma afeição que ele
realmente não merecia?
Qual quê! Se Djélâl tinha, numa das suas crónicas, ridicularizado com os
seus sarcasmos implacáveis e intolerantes a recepção que um dos nossos homens
de Estado progressistas, na intenção de implantar entre nós o costume da
celebração do aniversário, tradição de uma elevada humanidade que constituiu
um dos fundamentos da civilização ocidental, organizara com perfeita boa-fé por
ocasião dos oito anos do filho, com um enorme bolo de morangos e natas,
encimado por oito velas, e convidara para a cerimónia diversos jornalistas e
também uma “senhora” levantina para tanger as teclas de um piano, não fora, ao
contrário do que se pensara, por razões ideológicas, políticas ou estéticas, mas
porque se dera amargamente conta de nunca ter, pelo seu lado, conhecido
semelhante ternura, paterna ou não.
E hoje, se continuava a ser impossível de encontrar, se todos os endereços ou
números de telefone que indicava se acabavam por revelar inexactos ou
completamente inventados, era devido a um ódio estranho, inexplicável, que
nutria contra todos os seus parentes, próximos ou afastados — e até mesmo
contra a humanidade inteira. (Com efeito, Galip perguntara-lhes onde poderia
encontrar Djélâl.) Não e não! Se Djélâl se escondia num canto perdido da
cidade, se, num exílio voluntário, se mantinha afastado da humanidade, o motivo
era bem outro, evidentemente: compreendera que nunca poderia escapar ao cruel
sentimento de solidão, de incomunicabilidade doentia, que, desde que nascera,
pairava sobre a sua cabeça, como uma auréola funesta. Sabia Deus em que
refúgio deserto e longínquo ele se deixava cair resignado nos braços de uma
solidão sem esperança, da qual nunca escaparia, como o doente que se abandona
a um mal incurável.
Galip tentou em vão saber onde ficava esse refúgio longínquo e explicar que
uma equipa de televisão “europeia” desejava encontrar Djélâl. Mas o dito
Néchati, autor de crónicas e polemista, cortou-lhe a palavra: — De resto, o jornal
está quase a despedir o Djélâl bey.' Toda a gente sabe: as crónicas “a publicar”
que ele tem de reserva não passam de velhos artigos dados à estampa há vinte
anos, dactilografados de novo, toda a gente sabe!
O responsável pelo magazine protestou, como Galip esperava: as crónicas de
Djélâl suscitavam mais interesse do que nunca, os telefonemas sucediam-se, ele
recebia no mínimo vinte cartas diárias.
— Claro! — replicou o polemista. — Essas cartas são-lhe enviadas por
putas, chulos, terroristas, hedonistas, por traficantes de estupefacientes ou por
esses ex-gangsters que ele cobre de elogios nos artigos que escreve.
— Então, tu lês o correio dele? — perguntou o responsável pelo magazine.
— Como tu próprio fazes! — exclamou o polemista.
Endireitaram-se os dois nos seus lugares, como jogadores de xadrez
satisfeitos com a sua abertura. O velho jornalista extraiu do fundo da algibeira
uma caixinha e mostrou-a a Galip com o gesto preciso do prestidigitador que
designa aos espectadores o objecto que se prepara para fazer desaparecer: — O
único ponto que mantivemos em comum, o Djélâl bey, que você diz ser seu
parente, e eu: um medicamento contra o excesso de ácido gástrico. Quer um
bocadinho?
Galip escolheu uma pílula branca e devorou-a, na esperança de se ver
autorizado a aceder a esse jogo, do qual não sabia onde começara nem onde o
poderia levar, mas no qual o seu desejo de participação persistia.
— Apreciou o nosso joguinho? — perguntou-lhe o velho cronista, sorrindo.
— Estou a tentar descobrir-lhe as regras — respondeu-lhe Galip,
desconfiado.
— Você lê os meus artigos?
— Regularmente.
— Quando abre o jornal, quem lê primeiro, o Djélâl ou eu?
— O Djélâl é meu parente.
— É só por essa razão que o lê primeiro?
— Mas os artigos dele também são muito bons! — disse Galip.
— Você não compreende que toda a gente os podia escrever? — exclamou o
velho jornalista. — Tanto mais que alguns são demasiado compridos para
crónicas. São antes novelas falhadas. Bonitinhas, supostamente artísticas. Um
falatório oco.
O Djélâl bey tem alguns truques bem dominados, mais nada. Fala sempre de
recordações, de coisas agradáveis, tudo açúcar e mel. E está sempre a insinuar,
sem descanso, um paradoxo qualquer. Serve-se daquilo a que os poetas do Divan
chamavam a “esquiva de ignorância”, o jogo que consiste em se fingir ignorar o
que se conhece bem. Relatar coisas reais como se nunca se tivessem passado, ou
as coisas que nunca se passaram como realidades. E quando nenhum destes
truques é utilizável, ele dissimula o vazio do artigo sob um estilo enfático, que os
seus admiradores consideram elegância. Qualquer um é capaz de jogar esse jogo
tão bem como ele. Até você... Conte-me lá uma história!
— Que género de história?
— O que lhe passar pela cabeça. Uma história, vamos lá.
— A mulher de um homem que a adorava deixou-o um belo dia, e ele depois
pôs-se à procura dela — disse Galip. — Em toda a parte da cidade onde
estivesse, descobria rastos dela, mas a ela, nunca a descobria.
— E então?
— É tudo.
— Não, não, tem de continuar! — exclamou o velho jornalista.
— Que lê esse homem nas pistas que descobre na cidade? A mulher seria
realmente bela?
Por quem foi que ela o deixou?
— Em todos os indícios que descobria na cidade, não conseguia ler senão o
seu próprio passado, os rastos do seu passado comum. Ignorava por quem ela o
tinha deixado, ou então, não queria sabê-lo, porque a qualquer lado onde fosse,
em qualquer parte onde encontrasse a marca desse passado comum, dizia de si
para si que o homem com quem a sua mulher tinha ido ter ou o lugar onde estava
faziam necessariamente parte do seu próprio passado.
— É um belo tema — disse o velho. — Uma mulher muito bela que morre
ou desaparece, dizia Poe. Mas um narrador tem de ser mais resoluto. Porque o
leitor não confia no escritor que mostra as suas hesitações. Vamos assim tentar
descobrir um fim para essa história servindo-nos dos artifícios do Djélâl.
Recordações: a cidade deve estar pululante das recordações felizes do marido. O
estilo: os indícios das recordações evocadas por meio de frases elegantes só
podem desembocar no vazio. Ignorância fingida: o personagem tem de fingir
ignorar por quem foi que a mulher o deixou. Paradoxo: esse homem não é outro
senão o próprio personagem! Que acha da minha ideia? Está a ver, é muito capaz
de escrever crónicas assim, você mesmo! Toda a gente é capaz!
— Mas o Djélâl é o único que as escreve — disse Galip.
— Bem dito! Mas doravante, também você poderá escrevê-las, você mesmo!
— declarou o autor de crónicas num tom que indicava que queria ficar-se por ali.
— Se faz questão de o encontrar — disse o responsável pelo magazine —,
basta-lhe consultar as crónicas dele. Os artigos que escreve estão sempre
recheados de mensagens, que ele envia para a esquerda e para a direita, em
redor, breves mensagens pessoais, se percebe o que eu estou a dizer.
Galip contou-lhes então como, quando era ainda garoto, Djélâl lhe mostrara
nalguns dos seus artigos frases construídas com as primeiras e as últimas
palavras dos parágrafos, esses jogos de letras que ele inventava para ludibriar a
censura e o agente do Ministério Público que se encarregava da imprensa, os
encadeamentos das primeiras e das últimas sílabas das suas frases, as frases
formadas pelas maiúsculas do texto, e também os trocadilhos destinados a
escandalizar a tia Hâlé.
— A sua tia Hâlé não era uma solteirona? — perguntou o responsável pelo
magazine.
— De facto, nunca se casou — disse Galip.
Era verdade que Djélâl bey estava zangado com o pai por causa de um
apartamento?
Galip respondeu-lhe que isso era uma “história muito antiga”.
Um dos tios, advogado, confundia realmente as decisões judiciais, as
compilações de leis e de jurisprudência com as ementas dos restaurantes e os
horários dos barcos?
No entender de Galip, era possível que tudo isso não passasse de uma
história inteiramente inventada, como o resto.
— Veja uma coisa, meu jovem — disselhe então o velho jornalista com uma
voz pouco amena — não foi o póprio Djélâl bey quem forneceu estes dados ao
meu colega, detective amador e entusiasta do houroufismo; com a paciência do
homem que começa a escavar um poço munido de uma agulha, foi ele que os
descobriu sozinho, uns atrás dos outros, nos artigos em que o seu primo os
escondia, nas palavras que neles utilizava.
O redactor do magazine declarou que todos aqueles jogos podiam ter um
sentido profundo, que nos ajudavam a penetrar certos mistérios e que talvez
tivessem permitido a Djélâl deixar para trás todos os seus colegas, graças às suas
relações profundas com tudo o que era secreto.
E, todavia, Djélâl não devia esquecer o axioma seguinte: o jornalista que se
deixa iludir demasiado pelos seus próprios dons acaba na vala comum, a menos
que os confrades se quotizem para lhe pagar o funeral.
— Deus o proteja, mas talvez ele tenha morrido! — disse o velho jornalista.
— Gosta deste joguinho que estamos a jogar?
— O Djélâl ficou realmente amnésico, ou isso não passa de mais um boato?
— perguntou o responsável pelo magazine.
— É uma lenda, mas também uma realidade — disse Galip.
— E esses endereços por toda a cidade, que ele esconde a toda a gente?
— É também verdadeiro e falso.
— Talvez ele esteja agora a agonizar sozinho numa dessas casas — disse o
cronista. — Você sabe que ele próprio adora esta espécie de conjecturas.
— Se fosse esse o caso, teria chamado um dos seus próximos — retorquiu o
redactor do magazine.
— Ele não tem próximos! — afirmou o velho jornalista — Nunca
experimentou afeição fosse por quem fosse.
— O nosso jovem amigo não tem decerto a mesma opinião — disse o
responsável pelo magazine. — Mas você, afinal, nem o seu nome nos disse.
Galip apresentou-se.
— Pois bem, Galip bey, fale lá, então — afirmou o responsável pelo
magazine. — O Djélâl deve ter amigos ou parentes de quem se sinta
suficientemente próximo para os chamar, no caso de se sentir mal, ou atravessar
uma crise, num dos seus refúgios, a fim de lhes confiar os seus segredos
literários ou de escolher entre eles o seu legatário universal, não é verdade?
Porque é um homem que não está tão só como parece.
Galip reflectiu antes de responder. — Não, não é realmente um homem só —
disse com certa apreensão.
— A quem poderia ele recorrer? — perguntou o responsável pelo magazine.
— Talvez a si?
— À irmã dele — disse Galip, sem se dar sequer tempo para reflectir. —
Tem uma irmã.
Mais nova que ele vinte anos, sua meia-irmã. Seria a ela que recorreria.
Recomeçou a reflectir. Depois lembrou-se do sofá esventrado de onde irrompiam
molas ferrugentas.
Continuava a reflectir.
— Certamente você deve começar a captar a lógica do nosso jogo — disse o
velho cronista.
— A extrair dele as devidas consequências. E até a sentir com isso certo
prazer. É por isso que lhe vou falar com franqueza.
Todos os houroufis acabaram mal. O fundador do houroufismo, Fazlallah
d'Esterabad, foi abatido como um cão, o seu cadáver, arrastado pelas ruas e pelos
mercados, por uma corda presa ao pé. Sabe que, também ele, como o Djélâl bey,
começou por interpretar sonhos, há seiscentos anos? Não exercia a sua arte num
jornal, mas numa gruta, no exterior da cidade.
— Com comparações desse género, até que ponto se poderá compreender um
homem, penetrar os segredos de uma vida inteira?
— inquiriu o responsável do magazine. — Há mais de trinta anos que
procuro segredos, quem não o são, dos infelizes actores da nossa terra, dessas
pessoas a quem chamamos estrelas para macaquear os americanos. E por fim
compreendi: os que sustentam que qualquer criatura humana é criada num duplo
exemplar enganam-se. Ninguém se parece com ninguém. Cada uma das pobres
raparigas deste país tem a sua miséria própria. Cada uma das nossas estrelas é
uma pobre estrelazita, que brilha sozinha, no seu canto do céu.
— Se não levarmos em linha de conta o seu original de Hollywood —
declarou o velho jornalista. — Não lhe falei dos originais dos quais o Djélâl bey
não passa de uma pálida cópia? Além dos que já citei, ele roubou tudo a Dante, a
Dostoievski, a Mevlâna, o Xeque Galip, plagiou-os a todos.
— Toda a história é única em si própria! — disse o responsável pelo
magazine. — Toda a história é história por não ter semelhante. Todo o escritor é
um pobre escritor único no seu género.
— Não tenho essa opinião! — exclamou o velho jornalista. —Vejamos por
exemplo essa crónica que o Djélâl tinha intitulado “O dia em que se retirarão as
águas do Bósforo” e que terá sido muito apreciada. Não se tratará de um simples
plagiato de livros com milhares de anos, onde se descrevem os sinais que
anunciam o Apocalipse, os tempos de catástrofe e de destruição que hão-de
preceder a vinda do Messias; o Corão e as suas suratas sobre o fim do mundo, os
escritos de Ibn Haldun e de Ebou Horassani. Ele limitou-se a acrescentar uma
história de gangsters. É uma crónica sem o mais pequeno valor artístico. Se pôde
comover uma estreita franja de leitores, se centenas de mulheres histéricas
telefonaram nesse dia para a redacção, não foi por causa dos disparates que esse
artigo contava. As letras do alfabeto contêm mensagens secretas,
incompreensíveis para pessoas como você e eu, e só os iniciados na posse da sua
chave são capazes de as compreender. Os adeptos dessa confraria, que são ou
putas ou pedófilos, disseminados pelos quatro cantos do país, consideram essas
mensagens como outras tantas ordens e telefonam de manhã e à noite para a
redacção, para que não ponhamos na rua o seu pai espiritual, Djélâl bey, pelo
facto de ter escrito essas asneiras! De resto, há sempre duas ou três pessoas à
espera dele à saída do jornal. E como poderemos saber ao certo que também
você mesmo, Galip bey, não é um desses iniciados?
— O Galip bey agradou-me muito! — disse o redactor do magazine. —
Redescobrimos nele um pouco da nossa juventude. Inspirou-nos uma tal
simpatia que lhe revelámos alguns dos nossos segredos. É assim que podemos
compreender se ele é ou não um iniciado. É a doença a que se chama ciúme,
como me dizia a Samiyé Samim, actriz célebre no seu tempo, quando vivia os
seus últimos dias numa casa de repouso... Mas que se passa, meu jovem, quer
deixar-nos?
— Uma vez que te vais embora, meu filho, responde pelo menos à minha
pergunta — disse o velho jornalista. Porque é que é com o Djélâl que aquela
gente da televisão britânica quer fazer a reportagem, e não comigo?
— Porque ele escreve melhor do que o senhor — replicou Galip, que se
levantara e se dirigia para o corredor que levava às escadas. Ouviu o velho
jornalista gritar, com uma voz forte que nada perdera do seu bom humor: —
Tens a certeza de que a pastilha que te fiz engolir era realmente um remédio para
o estômago?
Uma vez na rua, Galip examinou atentamente as imediações. No passeio
fronteiro, no preciso lugar onde alguns alunos do liceu teológico um dia haviam
queimado não só a crónica de Djélâl que consideravam blasfema, mas também
todas as outras páginas do jornal, avistou dois homens: um era calvo, outro
estava junto de um tabuleiro de laranjas.
Ninguém parecia estar à espreita da saída de Djélâl. Galip atravessou a rua e
comprou uma laranja. Descascou-a e comeu-a enquanto andava, com a
impressão súbita de estar a ser seguido. Enquanto atravessava a praça de
Djagaloglou em direcção à rua do seu escritório, pôs-se, sem ter resposta para
ela, a seguinte pergunta: porque é que fora preso, naquele instante preciso, dessa
impressão? Desceu a passo lento a rua íngreme, olhando para as montras das
livrarias e perguntando-se porque lhe parecia essa mesma impressão tão real.
Era como se houvesse um olho atrás de si, cravado na sua nuca, quase
imperceptível.
Quando viu dois olhos na montra de uma livraria diante da qual afrouxava
sempre o passo, foi preso de emoção, como se tivesse encontrado um próximo e
concebido nesse mesmo instante o afecto que lhe dedicava. A loja pertencia às
edições que publicavam a maior parte dos romances policiais que Ruya devorava
precipitadamente.
O mocho de olhos cruéis que ele descobria tantas vezes na capa daquela série
seguia com um olhar paciente Galip e a multidão de sábado, que passava diante
da pequena montra.
Entrou na livraria e comprou três volumes já antigos que Ruya decerto não
lera, e o livro da semana: Amor, Bonecas e Whisky. “Na Turquia, nenhuma série
chegou ainda ao 126! O número que figura nos nossos romances policiais é a
n. garantia da sua qualidade”, podia ler-se num letreiro, a encimar a estante.
Como na livraria se vendiam outros livros além das séries “Os Grandes
Romances de Amor da Literatura” e “Os Romances Humorísticos do Mocho”,
Galip pediu um livro sobre o houroufismo. Um grande velho robusto, que, da
poltrona que instalara junto à porta da loja, podia vigiar quer o balcão por trás do
qual se mantinha um jovem pálido quer a massa de gente que desfilava pelo
passeio coberto de lama, forneceu-lhe a resposta que ele esperava: — Não
temos. Vá ver se o Ismaíl, o Forreta tem. — E o homem acrescentou: — Dei um
dia com os rascunhos dos romances policiais traduzidos do francês pelo príncipe
Osman Djélalettine, que era houroufi. Sabe como foi que o assassinaram?
Quando Galip saiu da livraria, examinou a rua e os passeios, mas sem nada
descobrir fora do habitual: uma mulher, com um lenço na cabeça, e um
rapazinho com um casacão grande de mais, que tinham parado diante da montra
de um vendedor de sandes, duas alunas com collants do mesmo verde, e um
velho trajando um paletó castanho que se preparava para atravessar a rua. No
entanto, quando recomeçou a andar, Galip sentiu de novo o olhar do Olho na sua
nuca.
Como nunca fora seguido na vida e nunca até então tivera a impressão de o
ser, os conhecimentos de Galip no domínio da perseguição reduziam-se a filmes
e a certas passagens dos romances de Ruya. Embora só raramente lesse policiais,
tinha sobre esse género ideias que gostava de expor: devia escrever-se um
romance cujo último capítulo fosse exactamente o mesmo que o primeiro;
escrever uma história que não tivesse conclusão evidente, ficando o fim real
dissimulado no interior da história; um romance que decorresse inteiramente
entre cegos, etc, etc. Enquanto construía estas hipóteses, que Ruya acolhia com
um trejeito dubitativo, Galip sonhava poder vir a tornar-se num dia um outro
homem.
Quando imaginou que o mendigo só com uma perna, que se instalara ao
canto da porta, à entrada do prédio, era igualmente cego, decidiu que o pesadelo
que atravessava provinha tanto da falta de sono como do desaparecimento de
Ruya. Entrou no escritório, e, em vez de se sentar diante da mesa de trabalho,
abriu a janela, debruçou-se e observou por um bom momento os movimentos na
rua, lá em baixo.
Quando por fim se instalou na sua poltrona, estendeu maquinalmente a mão,
não para o telefone, mas para a pasta onde guardava o papel de máquina, pegou
numa folha em braço, e começou a escrever, sem demasiada reflexão: “Sítios
onde a Ruya pode estar: em casa do ex-marido. Em casa dos pais. Em casa do
Banou. Algures com os amigos dela que andam metidos na política. Ou com
outros, que se interessam menos pela política. Numa casa onde se fale de poesia.
Num sítio qualquer onde se fale de tudo. Algures, em Nichantache. Numa casa
qualquer. Numa casa...” Decidindo que o facto de escrever o impedia de reflectir,
poisou a esferográfica. Depois pegou nela outra vez e riscou tudo o que
escrevera, excepto as palavras: “Em casa do ex-marido”. E recomeçou a
escrever: “Sítios onde a Ruya e o Djélâl podem estar: a Ruya e o Djélâl numa
das casas do Djélâl. Num quarto de hotel. A Ruya e o Djélâl vão ao cinema. A
Ruya e o Djélâl? A Ruya com o Djélâl...”
À medida que ia enchendo a página, descobria parecenças com os
personagens dos romances policiais que gostava de imaginar, prestes a transpor
uma porta que dava para um mundo novo e que o fazia pensar em Ruya e no
homem novo que sonhava vir a ser. Visto dessa porta, o mundo era um universo
onde a impressão de se sentir seguido não suscitava qualquer apreensão. Se era
capaz de se julgar objecto de uma perseguição, devia também ser capaz de se
sentar diante da sua mesa para fazer a lista de todos os indícios susceptíveis de
servirem para a descoberta de uma pessoa desaparecida. Galip sabia que não era
ele o homem que se parecia com os personagens dos romances policiais; mas o
simples facto de acreditar que se parecia com esse homem, que podia ser “como
ele” tornava-lhe menos pesada a pressão que sobre si exerciam os objectos e as
histórias que o rodeavam. Quando, um pouco mais tarde, o empregado, com os
cabelos divididos ao meio por uma risca espantosamente simétrica, lhe trouxe a
refeição que encomendara no restaurante vizinho, na travessa engordurada, as
cenouras raladas e a carne assada acompanhada de arroz pilaf pareceram-lhe
iguarias extravagantes que estivesse a descobrir pela primeira vez na vida, de tal
modo o seu universo se aproximara do dos romances policiais, à força de encher
as páginas brancas com os indícios que ia reunindo.
Quando o telefone tocou, a meio da refeição, pegou no auscultador com a
pressa que pomos em responder a uma chamada longamente esperada. Era
engano. Depois de acabar de almoçar, tirou a travessa da mesa e compôs o seu
próprio número de Nichantache. Deixou o telefone tocar por muito tempo;
imaginava Ruya a sair da cama para atender, voltara para casa, estava cansada.
Contudo, não se surpreendeu por não obter resposta. Marcou então o número da
tia Hâlé.
Para evitar as perguntas da tia, que lhe pedia notícias da saúde de Ruya, e
que lhe contava que, inquieta por ninguém a atender, a tia Suzan passara por casa
deles mas dera com o nariz na porta, Galip começou a falar de um jacto: não
tinham podido prevenir a família porque tinham o telefone avariado, Ruya
restabelecera-se durante a noite, estava esplêndida, já não tinha nada, estava à
porta à espera de Galip, num táxi Chevrolet 56, feliz com a vida, com o seu
casaco violeta, partiam para Izmir os dois, iam ver um velho amigo gravemente
doente, o barco saía em breve do porto, ele estava a telefonar à tia de uma
mercearia pelo caminho, agradecia ao merceeiro que lhe permitira que utilizasse
o seu telefone, apesar de todos aqueles clientes que lhe enchiam a loja, adeus, tia
Hâlé! Mas a tia Hâlé fez-lhe mais duas perguntas: tinham fechado bem a porta
ao saírem de casa? Ruya levara a camisola verde?
No momento em que Saím lhe telefonou, Galip perguntava-se: a que ponto
poderá uma pessoa ver-se transformada à força de estudar o plano de uma cidade
onde nunca pôs os pés e à força de imaginar a vida dessa cidade? Saím
informou-o de que continuara as suas investigações nos seus arquivos depois de
Galip se ter ido embora e que dera com certos indícios que lhe poderiam ser
úteis. Sim, Mehmet Yilmaz, responsável pela morte da pobre velha, podia de
facto estar ainda com vida, andava de um lado para o outro pela cidade, tão
visível como um fantasma, dissimulava-se, não como tinham começado por
pensar, sob os nomes de Ahmet Katchar ou de Haldoun Kara, mas sob o de
Mouammer Erguener, nome que cheirava um pouco menos a ficção. Saím não
ficara demasiado surpreendido ao deparar com essa assinatura numa revista que
defendia a “oposição” no seu conjunto. Ficara muito mais surpreendido ao
verificar que, na mesma revista, um artigo assinado por Salih Gueulbachi,
atacando violentamente as crónicas de Djélâl, aparecia escrito no mesmo estilo e
com os mesmos erros ortográficos. Depois de dizer de si para si que aquele
primeiro nome e aquele sobrenome rimavam com os do ex-marido de Ruya e
que eram compostos pelas mesmas consoantes, Saím voltara a encontrá-los
nalguns velhos exemplares de uma pequena revista sobre educação, como sendo
os do director da publicação. Tomara por isso nota, em intenção de Galip, do
endereço da sede social, que ficava nos subúrbios: bairro Guntépé, rua Refet-
Bey, nº 13, Sinanpacha, Bakirkeuy.
Depois de ter desligado, quando descobriu o bairro Guntépé num plano da
cidade, Galip sentiu-se muito surpreendido, mas não se tratava da estupefacção
que teria feito dele um outro homem, conforme desejava: o bairro Guntépé
cobria inteiramente a colina árida sobre a qual se erguia o bairro de lata onde
Ruya e o seu primeiro marido se haviam instalado doze anos antes, para melhor
se entregarem às suas actividades no seio da classe operária. Como o plano
mostrava, a colina era agora percorrida por ruas, cada uma das quais exibia o
nome de um herói da guerra da independência. Num dos cantos do plano, podia
ver-se a mancha verde de um parque, o minarete de uma mesquita, e uma praça
na qual um pequeno rectângulo indicava a localização de uma estátua de
Atatiirk: a última das zonas com que Galip poderia ter sonhado.
Depois de ter voltado a telefonar e de ter sido informado de que Djélâl bey
“ainda não tinha chegado”, Galip ligou para Iskender. Enquanto lhe explicava
que conseguira apanhar o primo, que lhe falara da entrevista pedida pela equipa
de televisão britânica, que Djélâl não dissera que não, mas que tinha o tempo
muito tomado nos próximos dias, ouvia chorar uma rapariguinha, não muito
longe do telefone. Iskender tranquilizou-o: os ingleses contavam passar pelo
menos mais seis dias em Istambul; tinham ouvido falar muito de Djélâl,
esperariam até que ele tivesse tempo, era mais que certo. Galip continuaria a
poder encontrá-los no Péra-Palace.
Galip poisou a travessa diante da porta e saiu do prédio. Quando descia a rua,
observou a cor do céu, uma palidez que até então nunca vira. Dir-se-ia que ia
começar a cair uma neve cor de cinza e que esse fenómeno não causaria surpresa
à multidão do sábado. Talvez fosse para se prepararem para ela que os peões
avançavam de olhos postos na lama. Notou que os livros que trazia de baixo do
braço lhe devolviam a serenidade; dir-se-ia que os romances do género, porque
eram escritos em países longínquos e mágicos e traduzidos para a nossa língua
por mulheres casadas, sem profissão, que lamentavam amargamente não terem
podido levar até ao fim estudos iniciados em liceus onde o ensino é ministrado
em línguas estrangeiras, permitiam a todos viverem a sua vida de todos os dias;
dir-se-ia que esses transportadores vestidos de roupa velha que recarregavam o
gás nas entradas dos edifícios de escritórios, esses corcundas tão deslavados
como trapos velhos, esses viajantes silenciosos e pacientes, que esperavam o
autocarro, podiam continuar a viver a sua existência quotidiana graças àqueles
romances policiais.
Quando se apeou em Harbiyé do autocarro que apanhara em Emineunu,
Galip olhou a bicha formada diante do cinema Konak. Era a multidão da sessão
das duas e quarenta e cinco da tarde dos sábados. Vinte e cinco anos antes, Ruya,
alguns dos seus amigos e Galip frequentavam essas matinées, por entre a massa
dos alunos de liceu com o rosto coberto de acne, vestindo todos os mesmos
impermeáveis; Galip vencia rapidamente os degraus cobertos, como ainda hoje
estavam, de serradura, ia consultar os cartazes do “programa da próxima
semana”, iluminados por pequenas lâmpadas, ao mesmo tempo que vigiava
Ruya com o seu silêncio paciente, para saber com quem estaria ela a falar. Nesse
tempo, a sessão anterior parecia nunca mais se decidir a acabar, as portas
permaneciam obstinadamente fechadas, e o instante em que ficariam os dois,
sentados ao lado um do outro, Ruya e ele, e em que as luzes se apagariam,
tardava muito. Quando soube que ainda havia bilhetes para uma sessão das duas
horas e quarenta e cinco, sentiu-se invadido por um estranho sentimento de
liberdade. A sala, aquecida pelo bafo da massa que acabava de a evacuar,
cheirava a mofo. As luzes apagaram-se, os spots publicitários começaram a
passar no ecrã e Galip percebeu que ia adormecer.
Quando acordou, endireitou-se no seu lugar. Havia no ecrã uma mulher,
muito bela, e tão infeliz como bela. Depois viu um rio, largo e sereno, depois
uma quinta, uma quinta americana perdida entre a verdura. A seguir, a mulher
muito bela e muito triste pôs-se a falar com um homem de certa idade, um actor
que Galip nunca vira ainda até então. E mais que pelas palavras que trocavam,
Galip adivinhava, pelos seus gestos lentos e calmos, e pela expressão dos seus
rostos, que as existências de ambos estavam cheias de preocupações e de
desgostos. Não o adivinhava, tinha a certeza disso. A vida era feita de
preocupações, e assim que uma chegava ao fim, outra nova lhe sucedia, e
quando já nos habituávamos a ela, novas infelicidades sobrevinham, gravando
nos nossos rostos a mesma expressão opressa, de tal modo que acabávamos por
nos parecermos todos uns com os outros. E ainda que as desgraças sobreviessem
todas ao mesmo tempo, sabíamos de havia muito que se desencadeariam sobre
nós, estávamos à sua espera, preparávamo-nos para elas, e todavia, quando a
desgraça se abatia sobre nós, como um pesadelo, redescobríamo-nos numa
estranha solidão, numa solidão desesperada, intransponível, mas que
imaginávamos ser capaz de nos levar à felicidade se a soubéssemos partilhar
com outros.
Galip sentiu bruscamente que o desgosto da mulher do ecrã era o mesmo que
o seu, ou então, não era o desgosto que lhes era comum, mas o universo de
ambos, um universo bem ordenado onde o homem não espera grande coisa da
vida, mas onde ninguém leva nada a mal a ninguém, onde a lógica e o absurdo
são limitados — um universo que nos incita à modéstia. À medida que os
acontecimentos se sucediam no ecrã, quando a mulher tirava água de um poço,
se lançava nas estradas a bordo de uma camioneta Ford, ou quando tomava o
filho nos braços, ou o deitava na caminha sem parar de falar demoradamente
com ele, Galip sentia-se muito próximo dela, a ponto de ter a impressão de se
estar a ver a si próprio no ecrã.
O que despertou nele o desejo de a tomar nos braços não foi a beleza da
mulher nem a sua naturalidade, mas a convicção profunda de que ambos viviam
no mesmo universo. E se lhe fosse possível apertá-la nos seus braços, aquela
mulher tão bela, tão delgada, com os cabelos castanhos claros, partilharia decerto
da mesma convicção. Galip tinha a impressão de estar só ele a seguir o filme, de
que ninguém mais via o que se desenrolava diante dos olhos dele. Mas passado
um momento, quando uma rixa estalou numa pequena cidade esmagada pelo
calor e atravessada por uma larga estrada de asfalto, e quando um actor
“transbordante de personalidade”, tão rápido como robusto, começou a precipitar
a marcha dos acontecimentos, Galip adivinhou que a sua comunhão com a
heroína estava prestes a chegar ao fim. As legendas dos diálogos gravavam-se
palavra a palavra nos seus olhos; já adivinhava agora os frémitos da multidão na
sala a abarrotar. Levantou-se, e, na noite que cedo chegara, voltou para casa
debaixo da neve que caía em grandes flocos.
Muito depois, deitado debaixo do edredão aos quadrados azuis,
semiadormecido, disse de si para si que se esquecera na sala de cinema dos
romances policiais que comprara para Ruya.


CAPÍTULO X

O OLHO

“O número de páginas que escreveu todos os dias durante esse período da
sua vida nunca foi inferior a cinco.”
Abdurrahman Seref


O incidente que vou narrar-vos aconteceu-me numa noite de Inverno.
Atravessava um período dos mais sombrios: deixara já para trás de mim os
primeiros anos, os mais difíceis, da profissão de jornalista, mas tudo o que tivera
de fazer para triunfar um pouco no meu ofício esgotara o entusiasmo com que
começara por me lançar na carreira. Quando, em frias noites de Inverno, repetia
para comigo: “Consegui aguentar-me!”, sabia bem que estava esgotado. Como já
sofria, nesse Inverno, de insónias, doença da qual não fui capaz de me
desembaraçar ao longo de toda a minha existência, ficava por vezes até muito
tarde na redacção, na companhia do secretário de piquete, para terminar certos
trabalhos que não poderia efectuar na agitação do dia. Abria à minha frente um
jornal estrangeiro, já rasgado por numerosas janelas que correspondiam a outros
tantos recortes, e examinava longamente as ilustrações da rubrica “Parece
incrível mas é verdade” (considerei sempre inútil e até prejudicial para a
imaginação o conhecimento de uma língua estrangeira), depois pegava na minha
caneta para pôr em palavras, numa espécie de entusiasmo artístico, aquilo que as
imagens me inspiravam.
Nessa noite, depois de ter examinado num velho exemplar de uma revista
francesa (Ilulustration) a fotografia de um ser com o rosto estranho (um olho na
base da testa, o outro muito em cima), pus-me a rabiscar uma nota sobre os
“Tépégueuz” ou ciclopes.
Depois de ter resumido a história dessas criaturas audaciosas, esses gigantes
que aterrorizam as raparigas na Epopeia de Dédé Korkout e que, em Homero,
têm o nome de kuklops; o monstro que, na História dos Profetas de Bukhari, é o
próprio Dejjal e que penetra nos haréns dos vizires ao longo dos contos das Mil e
Uma Noites, ou que, vestido de violeta, aparece por um instante no Paraíso, no
preciso momento em que Dante encontra a sua bem-amada Beatriz — que me é
tão querida; que ataca as caravanas no Mesnevi de Mevlâna Djelâttine e se
dissimula sob a aparência de uma negra em Vatbek, um livro de que muito gosto,
descrevi o olho estranho e único, escuro como um poço, que tem no meio da
fronte, expliquei o medo que nos inspira e as razões por que devemos desconfiar
e proteger-nos dele. Depois, continuando sob o mesmo impulso, acrescentei a
esta breve monografia duas pequenas histórias que me apareceram
espontaneamente ao correr da pena: falei do Tépégueuz, o homem com um só
olho, que vivia num dos bairros pobres do Corno de Ouro, e do qual se dizia que
mergulhava à noite nas suas águas turvas, para ir não se sabia onde, encontrar-se
talvez com um outro Tépégueuz, este elegante, de tal maneira que lhe tinham
dado o cognome de Lord — tantas eram as raparigas que tinham desmaiado de
terror nos bordéis de luxo de Pêra, no instante em que ele retirava o seu colbaque
depois da meia-noite —, e que talvez fosse o mesmo que o do Corno de Ouro.
Depois de ter deixado o artigo ao desenhador, que adorava aquele género de
histórias, com uma nota: “Sobretudo, nada de bigodes, se fazes o favor!”, saí já
muito tarde do jornal, e como não queria voltar a entrar logo a seguir numa casa
fria e deserta, decidi caminhar um pouco pelas ruas da velha Istambul. Como
sempre, não estava contente comigo, mas estava bastante satisfeito com o artigo
e com a história. Imaginava que se fizesse seguir de um longo passeio esta
impressão de vitória, conseguiria escapar ao sentimento de infortúnio que sem
cessar pesa sobre mim, como um mal crónico.
Seguia ruelas que se entrecruzavam num emaranhado de curvas
desordenadas, e que se tornavam cada vez mais estreitas e mais escuras.
Caminhava ouvindo o ruído dos meus passos, sob as janelas cegas de casas
sombrias cujas sacadas completamente assimétricas quase tocavam as fachadas
das casas fronteiras. Atravessei assim ruas inteiramente esquecidas, onde as
matilhas de cães errantes, os guarda-nocturnos sonolentos, os fumadores de
haxixe e os próprios fantasmas já não se atrevem a pôr os pés.
Quando me senti invadir pela impressão de que um olho me fitava de não
sabia onde, não comecei por me inquietar de imediato: dizia para comigo que se
tratava sem dúvida de uma ilusão ligada ao meu artigo, porque olho algum me
aparecia, como de início acreditara, nas trevas de um terreno vago, nem por
detrás de uma janela cuja sacada gradeada quase tocava o chão. Aquela coisa,
que eu sentia a espiar-me, era apenas uma ilusão e eu recusava-me a atribuir-lhe
importância.
Mas durante aqueles longos silêncios, unicamente perturbados pelos apitos
dos guarda-nocturnos e pelos uivos das matilhas de cães que se batiam em
arrabaldes longínquos, a impressão de ser espiado, observado, tornava-se tão
aguda e tão densa que, muito rapidamente, compreendi que não seria fingindo
ignorá-lo que me desembaraçaria de um mal-estar tão opressivo.
Um Olho, que via tudo e me descobria por onde quer que eu andasse,
espiava-me agora abertamente, e nada tinha a ver com os personagens das
histórias que eu inventara; não era terrífico nem feio nem cómico; o seu olhar
não era frio, não me era estranho, era-me até mesmo, por assim dizer, familiar. O
Olho conhecia-me e eu, eu conhecia-o a ele.
Estávamos havia já muito ao corrente da existência um do outro. Mas para
que déssemos tão claramente um pelo outro, fora preciso que eu seguisse aquela
rua, que experimentasse aquela estranha impressão tão tarde na noite, fora
preciso o choque brutal daquela aparição.
Não vou revelar-vos o nome da rua, situada nas altitudes do Corno de Ouro;
de qualquer maneira, nada diria aos leitores que não conhecem bem Istambul.
Basta que imaginem uma rua empedrada, bordada de casas de madeira
enegrecidas — cuja maior parte pude redescobrir tais como eram, passados trinta
anos sobre a minha experiência metafísica —, sublinhada pelas silhuetas das
varandas gradeadas, pela pálida luz de um lampião, e que os ramos de árvores
encavalitadas umas nas outras tornavam ainda mais escura. Os passeios eram
estreitos e sujos. A parede de uma pequena mesquita ia perder-se em trevas sem
fim.
E no canto mais sombrio onde a rua e a parede convergiam, no fundo da
perspectiva, esse Olho absurdo — que outro qualificativo poderia dar-lhe? —
estava à minha espera. Espero ter-me feito compreender: se estava à minha
espera, não era para me assustar nem para fazer-me mal, estrangular-me, vibrar-
me uma facada, mas, pelo contrário, como compreendi mais tarde, para me
ajudar a penetrar, a mergulhar nessa experiência metafísica que mais lembrava
um sonho.
O silêncio era total. Eu adivinhara desde o início que esta prova estava ligada
a tudo o que a minha profissão de jornalista me custara, ao vazio que sentia em
mim. É quando estamos fatigados que vemos os sonhos mais realistas.
Simplesmente aquilo não se tratava de um pesadelo, mas de uma impressão
muito nítida, precisa, transparente, matemática, diria eu. “Sei que tudo está vazio
dentro de mim.” Fora o que eu me dissera. E parei, com as costas contra a parede
da mesquita. “Ele sabe que o meu coração está vazio.”
Conhecia os meus pensamentos, estava ao corrente de tudo o que eu até
então fizera, o que não era o mais importante, porque o Olho apontava-me outra
coisa, qualquer coisa de bem evidente. Eu criara-o, a “Ele”, e “Ele” criara-me a
mim! Comecei por crer que esta ideia me ocorrera por acaso, como uma palavra
estúpida nasce ao correr da pena, e que ia desaparecer, mas não, não o fez.
Assim, pela porta que o pensamento me abria, penetrei num universo novo, do
mesmo modo que aquele coelho inglês que rolou para dentro do vazio, ao passar
por um buraco no campo.
Ao princípio, esse Olho, fora eu que o criara. Como era perfeitamente
evidente, para que ele me visse e me espiasse. Não queria afastar-me do seu
olhar. Criara-me graças àquele olhar e a sua presença satisfazia-me. Pois existia
porque estava consciente do facto de ser observado sem parar. Dir-se-ia que
desapareceria se esse Olho deixasse de me ver. Era a própria evidência:
esquecendo que fora eu que o criara, experimentava reconhecimento por esse
Olho que me fazia existir. Queria obedecer às suas ordens: porque ia aceder
assim a uma existência mais agradável; era difícil sem dúvida alcançá-lo, mas
isso não me causava qualquer sofrimento, era um aspecto da vida que eu
precisava de considerar como normal.
De tal modo que o universo “ideal” para onde rolara no momento em que me
encostara à parede da mesquita nada tinha de um pesadelo, era uma forma de
felicidade, feita de recordações e de imagens familiares, como o eram os quadros
dos pintores cuja existência eu inventava por inteiro, para citar os seus traços
insólitos nos meus “Parece incrível mas é verdade”.
Vi-me no meio desse jardim de ventura, em plena noite, encostado à parede
de uma mesquita, a contemplar o meu próprio pensamento.
Compreendi imediatamente que aquilo que via, no centro do meu
pensamento ou da ilusão, desse universo quimérico — chamem-lhe o que
quiserem —, não era um homem que se parecia comigo, mas que era de mim
mesmo que se tratava, e então senti que o meu olhar era o do Olho que acabava
de descobrir. O que significava que me tornara aquele Olho e que me olhava a
mim próprio. Não era uma impressão estranha, nem estrangeira, não era sequer
inquietante. A partir do instante em que me vira, compreendera logo que tinha já
o hábito de me observar de “fora”. Havia anos, sempre que me olhava assim,
esforçava-me por me controlar, dizia de mim para mim: “Está tudo bem, está
tudo em ordem”, ou então: “Não me pareço o bastante comigo”, “Não me pareço
o bastante com aquilo com que quero parecer-me”, ou ainda: “Sou parecido, mas
ainda tenho esforços a fazer”, era isso que eu me dizia, havia anos já, quando me
olhava do exterior e repetia cheio de felicidade: “Acabei por me parecer com
aquele com quem me quero parecer, pareço-me com Ele e tornei-me Ele!”
Mas quem era Ele? Nesse instante do meu passeio pelo País das Maravilhas,
compreendi porque fora que esse Ele com quem eu me queria parecer me
aparecera enfim. Porque, ao longo desse longo passeio nocturno, não procurara
parecer-me com Ele, porque não imitava nem nada nem ninguém.
Compreendam-me bem; não acredito que se possa viver sem imitar nada, sem se
experimentar o desejo de ser outro. Mas naquela noite, sem dúvida por causa do
cansaço, por causa do vazio que sentia em mim, o meu desejo de me parecer
com outro enfraquecera a tal ponto que, pela primeira vez na minha vida, me
tornara seu igual, igual Dele, cujas ordens executava havia tantos anos. Os
leitores poderiam compreender esta igualdade extremamente relativa,
observando a facilidade com que eu penetrava no universo de sonho para onde
ele me atraía. É certo que Ele me mantinha sob o seu olhar, mas naquela bela
noite de Inverno, eu era livre, ainda que essa impressão de liberdade e de
igualdade nascesse do meu cansaço e da minha derrota, e não de uma vitória da
minha vontade; era apesar de tudo uma porta aberta para a camaradagem e para a
intimidade entre Ele e mim. (Trata-se de uma camaradagem que se deve deixar
adivinhar pelo meu estilo.) Assim, pela primeira vez ao fim de tantos anos, Ele
revelava-me os seus segredos, e eu, eu compreendia-O. Era, sem dúvida, a mim
próprio que me dirigia, mas não seria uma maneira de conversar segredando com
a segunda, e depois com a terceira pessoa que em nós próprios dissimulamos?
Os meus leitores, sempre tão atentos, tê-lo-ão adivinhado há muito, graças ao
modo como disponho o meu discurso, mas vou apesar de tudo repeti-lo: Ele, era
o Olho, evidentemente.
A pessoa que eu queria ser era o Olho. Não era o Olho que eu começara por
criar, mas aquilo que eu queria ser. E Ele, que eu queria ser, lançara sobre mim
aquele olhar terrífico, sufocante. O Olho, que restringia assim a minha liberdade,
esse olhar implacável, que lia em mim, que me avaliava, pairava por cima da
minha cabeça, como um planeta de mau agoiro. (Não concluam acima de tudo,
ao ler-me, que eu estava descontente com a minha situação, estava, pelo
contrário, satisfeito com o panorama cintilante de luz que o Olho me
apresentava.) Enquanto me contemplava a mim próprio, nesse panorama
despojado, geométrico (o que constituía de resto o seu encanto), compreendera
imediatamente que O criara, mas tinha dificuldade em conceber como o
conseguira. A ajuizar por certos indícios, o material que utilizara para o Criar
provinha da minha própria vida e das minhas recordações. Nele, que eu tanto
queria imitar, redescobria os heróis das bandas desenhadas da minha infância, os
escritores, os “pensadores” cujas fotografias via em certas revistas estrangeiras,
as poses pretensiosas que assumiam perante os fotógrafos diante das suas
estantes ou à sua mesa de trabalho, em todos os lugares sagrados onde
desenvolviam o seu pensamento tão profundo como rico em significações. Claro,
gostaria de me parecer com eles, mas até que ponto? Nessa geografia metafísica,
descobri também outros indícios, mais decepcionantes, mas que me revelavam
que dados do meu passado, que personagens eu utilizara para O criar: um
vizinho tão laborioso como rico, do qual a minha mãe sempre falara com
admiração; o fantasma de um general que se dedicara à salvação do seu país
optando pela ocidentalização; o espectro do herói de um livro que eu lera e
relera; um mestre-escola que se calava quando queria castigar-nos; um colega de
turma que tratava por senhor os pais e que era suficientemente rico para se
permitir o uso de meias lavadas de fresco todos os dias; os heróis de filmes
estrangeiros que passavam nas salas de Beyoglou ou de Chehzadé-Bachi, sempre
tão maliciosos, preparados para ripostar, todos eles campeões, com essa maneira
que tinham de pegar no copo de whisky, de se comportar com as mulheres (as
bonitas), cheios de à-vontade, irónicos, nunca hesitando quando era preciso
tomar uma decisão; escritores célebres; filósofos; cientistas; exploradores,
inventores, cujas biografias eu lia nas enciclopédias ou nos prefácios; certos
militares; e até personagens de contos, como esse rapazinho que conseguiu
salvar uma cidade de uma inundação porque se não deixara dominar pelo sono...
No País das Maravilhas onde eu penetrava em plena noite, encostado à parede da
mesquita, todos esses personagens desfilavam diante dos meus olhos, ao acaso,
como certos lugares familiares aparecem aqui e ali na superfície de um mapa. De
começo fiquei estupefacto, experimentei a emoção pueril de quem vê num plano,
pela primeira vez na vida, o bairro e a rua onde vive há tantos anos. Depois, foi a
amargura, a decepção do homem que vê um plano pela primeira vez na vida e
que compreende que os seus autores se contentaram com indicar por meio de
pontinhos, de tracinhos, todas as casas, os prédios, as ruas, os parques, todos
esses lugares para ele carregados de recordações, e dos quais a memória exige
uma vida inteira, mas que os vê minúsculos, sem importância, comparados com
todos os outros pontos e sinais que enchem o mapa.
Fora com todas essas recordações e personagens, tornados eles próprios
recordações, que eu O criara. No olhar que o Olho me lançava e que se
metamorfoseava no meu próprio olhar, eu redescobria uma gigantesca
colagem, Ruma criatura monstruosa feita dessa multiplicidade que via desfilar
diante de mim e cujos rostos reconhecia, uns atrás dos outros. Nesse instante,
nesse olhar, revia a minha vida inteira, reencontrava-me a mim próprio.
Continuava a viver, feliz por ser vigiado por aquele olhar, por ser obrigado a pôr
ordem na minha maneira de viver, esforçando-me por O
atingir, imitando-O, persuadido de que um dia seria Ele, ou de que, pelo
menos, me pareceria com Ele! Os meus leitores não deverão imaginar que tal
experiência metafísica constituía uma espécie de revelação, ou um fenómeno
didáctico, destinado a ensinar-me a “abrir os olhos para a realidade”. No País das
Maravilhas onde penetrara ao encostar-me à parede da mesquita, tudo estava
disposto segundo uma ordem geométrica ofuscante de luz, purificado do pecado
e do crime, do prazer e do castigo. Num dos meus sonhos, eu vira ao fundo de
uma rua como aquela, na mesma perspectiva, ao alto do céu do mesmo azul-
marinho, a lua cheia transformar-se lentamente num mostrador de relógio
esplendente. A paisagem que se desdobrava diante dos meus olhos era, como no
sonho, límpida, transparente e simétrica, tínhamos vontade de a contemplar do
fundo da alma e de designar uma a uma todas essas categorias tão visíveis, para
as enumerarmos. Não digo que o não tenha feito. Repetia-me: “O eu que está
encostado à parede da igreja quer tornar-se Ele”, como se jogasse à “linha de
três” e comentasse a colocação dos peões num mármore com laivos violeta: o
homem que aqui está quer tornar-se Ele, esse Ele que inveja. E Ele finge ignorar
que não é mais que uma criação deste Eu que O imita. Daí, de resto, a segurança
que se lê no olhar do Olho. Ele finge ter esquecido que o homem encostado à
parede da mesquita criou o Olho na esperança de O alcançar, mas o homem
encostado à parede conhece a seguinte verdade que mal chega a ser perceptível;
se conseguir o que quer, se se tornar Ele, então o Olho ver-se-á num beco, no
vazio, no mais amplo sentido do termo, etc.
Repisava estes pensamentos, vigiando-me do exterior, e depois esse Eu que
contemplava recomeçou a andar seguindo a parede da mesquita, e a seguir à
parede, as casas de madeira com as janelas gradeadas que se repetiam, todas
iguais, os terrenos vagos, os estores de ferro das lojas, a fonte, o muro do
cemitério, para ir ao encontro da sua casa e da sua cama.
Tal como atravessamos um breve instante de surpresa quando, ao andar por
entre a multidão observando à nossa volta os rostos dos transeuntes e as manchas
de cor das suas roupas, avistamos bruscamente o nosso reflexo na montra de um
armazém ou num grande espelho, por trás de uma ala de manequins, sentia-me
preso de assombro ao contemplar-me do exterior.
Sabia, no entanto, como num sonho, que nada havia de surpreendente no
facto de o homem que contemplava não ser outro que não eu próprio. O que era
surpreendente era a simpatia incrivelmente calorosa, o afecto que experimentava
por ele. Adivinhava a que ponto ele era susceptível, triste, lamentável. Eu era o
único a saber que ele não era o que parecia ser.
Como um Deus, como um pai, queria proteger aquela criança sensível,
morria de vontade de pôr de baixo da minha asa aquela criatura, tão boa como
infeliz. Mas depois de ter caminhado longamente (em que pensaria ele, porque
parecia tão triste, tão cansado, tão abatido?), alcançou a avenida. De tempos a
tempos, lançava um olhar distraído às montras das mercearias ou das leitarias
com todas as luzes apagadas. Enfiara as mãos nos bolsos.
Com a cabeça baixa, andou de Chehzadé-Bachi a Ounkapani sem se
interessar pelos táxis livres nem pelos raros veículos que passavam perto de si.
Talvez não tivesse dinheiro.
Ao passar a ponte de Ounkapani, virou-se para o Corno de Ouro: um
marinheiro que mal se distinguia no escuro manejava uma corda para fazer
descer a chaminé comprida e fina de um rebocador, que se preparava para passar
por baixo da ponte. Trocou algumas palavras com um bêbado com quem se
cruzou na avenida íngreme de Chichané. Não manifestou qualquer interesse
pelas montras violentamente iluminadas da avenida da Independência; excepto
por uma, a de um ourives, que ficou a contemplar longamente. Em que poderia
estar ele a pensar? Era o que eu me perguntava, observando-o cheio de afecto, a
tremer por ele.
Na praça de Taskim, comprou num botequim cigarros e uma caixa de
fósforos; abriu o maço, acendeu um cigarro, com os gestos muito lentos que
observamos tantas vezes nos nossos concidadãos vergados pelo peso das suas
preocupações. Ah, como era frágil e melancólico o fiozinho de fumo que se
escapava dos seus lábios! Eu sabia tudo, reconhecia tudo, vivera tudo,
atravessara tudo; e todavia, estava inquieto, tinha medo por ele, como se me
encontrasse pela primeira vez na minha vida na presença de um homem, de uma
existência. Tinha vontade de lhe gritar: “Atenção, pequeno” sempre que ele
atravessava uma rua; a cada um dos seus passos agradecia aos céus que não
tivesse acontecido uma desgraça àquele homem que seguia; distiguia os
presságios de uma calamidade nas ruas, nas fachadas dos prédios sombrios, nas
janelas com todas as luzes apagadas.
Graças a Deus, ele chegou são e salvo a um prédio em Nichantache (o
“Coração da Cidade”, tal era o nome do prédio). Quando entrou no sítio onde
morava no último andar, imaginei que adormeceria logo a seguir, esquecendo os
seus cuidados que eu tanto gostaria de conhecer para o ajudar a vencê-los, mas
não, sentou-se num sofá a folhear os jornais, acendeu um cigarro. Depois
começou a andar de um lado para o outro entre os móveis velhos e a mesa
oscilante, as cortinas descoloridas das janelas, os livros e os papéis.
Bruscamente, instalou-se à mesa, fazendo ranger a cadeira, pegou numa caneta e
debruçou-se sobre uma folha de papel branco.
Eu estava ao lado dele, também debruçado sobre a mesa desarrumada,
observava-o de muito perto; ele continuava a escrever, com uma atenção infantil,
um ar sereno, com o prazer evidente do espectador que segue um filme de que
gosta, mas o seu olhar exprimia uma concentração introspectiva extrema. Eu, eu
olhava-o com o orgulho do pai que lê a primeira carta que o filho querido lhe
enviou. Ao chegar ao final de uma frase, franzia levemente os lábios, os seus
olhos seguiam piscando as palavras na folha de papel. A página estava quase
cheia. Estremeci ao descobrir com tristeza o que ele escrevera: o que
transcrevera na folha não eram as palavras que reflectiriam a sua alma, e que eu
morria de vontade de conhecer, mas contentara-se com escrever frases minhas,
estas que acabam de ler. Não era o seu universo próprio, mas o meu; não eram as
palavras dele, mas as que os leitores acabam de percorrer com a máxima
velocidade do olhar (um pouco menos depressa, por favor): eram as minhas.
Tentei opor-me, pedir-lhe que usasse as suas próprias palavras, mas, como num
sonho, não podia senão deixájlo continuar a fazer o que fazia. E as palavras e as
frases sucediam-se, e cada palavra e cada frase me feriam um poço mais.
No início de um parágrafo, parou por um longo momento de escrever. Virou-
se para mim, os nossos olhares cruzaram-se, dir-se-ia que ele estava a ver-me.
Como nessas longas passagens dos livros de outrora, das velhas revistas, em que
o autor discorre agradavelmente com a sua Musa, ou nesses desenhos
humorísticos que nos mostram o escritor sorrindo a uma amável pequena musa
do tamanho da sua pena. Foi assim que nos sorrimos, ele e eu e, com optimismo,
eu esperava que tudo se tornasse mais claro entre nós, depois daquele olhar
cúmplice: ele compreenderia enfim a realidade e começaria a escrever as
histórias do seu próprio universo, e eu poderia deter desse modo a prova de que
ele se tornara ele próprio.
Mas nada disso aconteceu. Depois de me ter lançado um último sorriso, com
um ar feliz, como se todas as questões tivessem sido elucidadas, parou de
escrever, endireitou-se com a atitude do jogador de xadrez que descobriu uma
solução, depois acrescentou algumas palavras mais, as últimas, que me
abandonavam a mim próprio, no meu próprio universo, numa penumbra onde
muitas coisas continuavam sempre a ser incompreensíveis.


CAPÍTULO XI

DA NOSSA MEMÓRIA, QUE PERDEMOS NAS SALAS DE CINEMA

“O cinema afecta não só os olhos da criança, mas também a sua
inteligência.”
Ulunay


Assim que despertou, Galip adivinhou que recomeçara a nevar. Talvez
tivesse dado por isso durante o sono, porque sentira o silêncio da neve que
cobria o ruído da cidade, no seu sonho, um sonho que recordava ainda no
instante em que despertara, mas que esquecera desde que olhara pela janela. A
noite caíra havia muito tempo já. Galip tomou um duche com a água que o
esquentador continuava a não conseguir amornar, depois vestiu-se. Muito tempo
depois de se ter barbeado, enfiou o casaco às riscas que lhe ficava tão bem, no
dizer de Ruya, o sobretudo de lã grossa igual ao de Djélâl, e saiu de casa.
Já não nevava, mas uma camada branca com a espessura de quatro dedos
cobria os passeios e os carros estacionados. Os transeuntes que acabavam de
fazer as compras do fim da tarde de sábado avançavam, com os embrulhos nas
mãos, cheios de cautela, como se pisassem o solo de um planeta que tivessem
acabado de descobrir.
Quando chegou à praça de Nichantache, ficou muito feliz ao verificar que já
não havia engarrafamentos na avenida. Comprou o Milliyet datado do dia
seguinte a um vendedor de jornais e de revistas de escândalos e de mulheres
nuas, que instalava a sua banca à noite, no esconso de uma mercearia, depois
encaminhou-se para o restaurante do passeio fronteiro, escolheu um canto onde
não fosse visto pelos transeuntes e pediu sopa de tomate e bolinhas de carne
grelhada.
Enquanto esperava que o servissem, abriu o jornal, para ler atentamente a
crónica dominical do primo.
Lembrava-se exactamente de certas frases dessa crónica, de havia já vários
anos, porque a relera nessa mesma manhã na redacção do jornal: era aquela em
que Djélâl falava da memória. Enquanto bebia o seu café, traçou certos sinais no
texto, depois saiu do restaurante e conseguiu arranjar prontamente um táxi para o
levar ao bairro de Sinan-Pacha, em Bakirkeuy.
Durante todo o trajecto, Galip teve a impressão de que não era Istambul, mas
uma outra cidade que via desfilar. Na encruzilhada das avenidas de Gumuche-
Souyou e de Dolma-Bahtchè, dera-se uma colisão entre três autocarros;
concentrara-se uma massa de basbaques no local do acidente. As paragens dos
autocarros e dos táxis colectivos estavam desertas. A neve caíra sobre a cidade,
opressiva. As luzes dos candeeiros de rua estavam mais pálidas do que nunca;
cessara toda a animação que, à noite, fazia de Istambul uma cidade. Uma noite
medieval, com as suas portas fechadas e os seus passeios desertos, abatera-se
sobre a cidade; sobre as cúpulas das mesquitas, sobre os hangares e os bairros de
lata, a neve não era branca, mas azul. Do seu táxi, Galip e o motorista puderam
ver alternadamente putas de rostos azulados e lábios violeta, a toda a volta de
Aksaray; junto às muralhas, miúdos que escorregavam na neve, instalados em
escadas; as luzes azuis giratórias dos carros de polícia que vigiavam a saída, da
sua garagem, dos autocarros que fitavam os passageiros com os seus grandes
olhos aterrorizadores. O velho motorista contou a Galip uma história incrível,
que se passara havia muito tempo, durante um Inverno igualmente incrível e
remoto, quando as águas do Corno de Ouro tinham gelado. Graças à luz do tecto
do Plymouth modelo 59, Galip, pelo seu lado, ia cobrindo de letras, de números
e de sinais a crónica de domingo de Djélâl, sem conseguir alcançar desse modo
fosse que resultado fosse.
Quando o motorista lhe comunicou que não podia ir mais longe, apeou-se do
táxi em Sinan-Pacha e continuou a pé o seu caminho.
O bairro de Guntépé ficava mais perto da rua principal do que a sua memória
indicava.
Depois de ter subido uma ruela muito íngreme, que trepava por entre as casas
de betão de dois andares do antigo bairro de lata, todas com todas as cortinas
corridas, e as lojas com montras escuras, desembocou numa praça. O busto (e
não a estátua) de Atatiirk, cujo pequeno rectângulo indicativo observara de
manhã no guia da cidade, lá estava de facto.
Fiando-se naquilo que recordava do plano, enfiou por uma rua, ao lado da
mesquita, de belo porte e cujas paredes estavam cobertas de palavras de ordem
políticas.
Diante dessas casas com pequenas varandas de través ou com as janelas
esburacadas por um tubo de fogão, proibia-se de pensar em Ruya, mas quando
ali fora havia dez anos, aproximara-se sem fazer barulho de uma janela aberta e
vira o que se recusava a ver, antes de voltar logo a partir: na quente noite de
Agosto, com um vestido de algodão sem mangas, sentada diante de uma mesa
coberta de papéis, Ruya estava mergulhada no seu trabalho, enrolando de vez em
quando no dedo um anel de cabelos; o marido dela, que estava de costas para
Galip, mexia com uma colher um copo de chá; uma falena, condenada a morrer
dentro de instantes, traçava alguns últimos círculos, cada vez mais desordenados,
à volta da lâmpada nua, que quase roçava as cabeças do casal. Entre Ruya e o
marido, havia em cima da mesa um prato com figos e uma bomba de insecticida.
Galip ainda se lembrava muito bem do tilintar da colher no copo, do som dos
grilos nos arbustos próximos. Pelo contrário, a placa pendurada de um poste de
electricidade e semitapada pela neve, na qual se podia ler “Rua Rifat-Bey”, não
despertou nele qualquer memória e também não o informou sobre a localização
precisa da casa.
Num dos extremos da rua que Galip percorreu duas vezes, havia miúdos que
atiravam uns aos outros bolas de neve, e no outro extremo, a luz de um lampião
derramava-se por cima de um grande cartaz de cinema, iluminando o rosto de
uma mulher sem nada de especial e à qual tinham vazado os olhos pintando-os
com tinta preta. Foi contrariado que Galip identificou a janela, a fachada baça e
sem reboco, o fecho da porta que não se atrevera a tocar havia dez anos; tudo
aquilo que fingira não reconhecer quando passara pela primeira vez, tanto mais
facilmente que as casas tinham todas dois pisos e não estavam numeradas.
A casa fora aumentada de um andar. Agora, um muro rodeava o jardim onde
o cimento substituíra a terra batida. No rés-do-chão, não havia luz. Mas o clarão
azul de um televisor que atravessava as cortinas no primeiro andar, ao qual
davam acesso umas escadas e outra porta, e o fumo de lenhite cor de enxofre que
saía de um tubo assestado sobre a rua como o cano de uma arma, pareciam
prometer ao viandante guiado pelo Senhor que batesse à porta àquelas horas da
noite lume na lareira, comida quente e anfitriões igualmente calorosos, vendo a
televisão com um olhar torvo.
Enquanto subia prudentemente os degraus das escadas, um cão uivou
lugubremente no jardim da casa vizinha. “Não vou falar muito tempo com a
Ruya”, repetia Galip para consigo sem saber demasiado se se dirigia a si próprio
ou ao ex-marido das suas recordações: ia pedir-lhe que lhe desse as explicações
que não houvera por bem dar-lhe na sua carta de adeus, depois pedir-lhe-ia que
fosse buscar o mais depressa possível todas as suas coisas: os livros, os maços de
cigarros, as meias desemparelhadas, as caixas de medicamentos vazias, as
travessas e os ganchos do cabelo, os estojos dos seus óculos de míope, as
tabletes de chocolate encetadas, os Pato Donald de madeira da sua infância.
“Tudo o que me faz lembrar-me de ti me dói.” Claro, não podia dizer-lho na
presença do outro tipo: o melhor seria persuadi-la a acompanhá-lo de pronto a
um sítio qualquer onde lhes fosse possível discutirem a situação como pessoas
“responsáveis”. Uma vez garantido esse “sítio qualquer” e assumido o
qualificativo de “responsáveis”, poderia convencer Ruya a fazer muitas outras
coisas, mas onde iriam naquele bairro cujos cafés eram de clientela
exclusivamente masculina? E eis que, entretanto, já tocara...
Assim que ouviu uma voz de criança exclamar “Mãe, estão a tocar à porta!”,
depois uma outra voz chamar igualmente a atenção para essa evidência, a de
uma mulher que não podia parecer-se nem de perto nem de longe com Ruya, a
sua amiga de havia trinta anos, o seu grande amor de havia vinte e cinco, Galip
compreendeu a asneira que fizera imaginando-a presente naquela casa. Pensou
por um breve instante em escapar-se sem esperar mais, mas a porta já estava a
abrir-se. Reconheceu o ex-marido de Ruya à primeira vista, mas o ex-marido,
pelo seu lado, não o reconheceu. Um homem de meia-idade, de meia altura,
exactamente aquele cuja imagem tantas vezes evocara e no qual nunca mais
tornaria a pensar.
Enquanto Galip dava ao ex-marido tempo que lhe permitisse reconhecê-lo, e
o outro se esforçava por adaptar a vista às trevas de um mundo exterior cheio de
perigos, o rosto da nova esposa, o de um primeiro filho e depois o de um
segundo apareceram sucessivamente na moldura da porta. “Quem é, pai?” O pai
descobrira a resposta àquela pergunta, e hesitava, confuso: Galip decidiu que
estava perante uma ocasião única de se escapar sem ter de entrar e debitou o seu
pequeno discurso, de um só fôlego.
Pedia desculpa de os incomodar à noite e tão tarde, mas tratava-se de um
assunto que não podia esperar; viera — e voltaria a aparecer decerto noutra
ocasião para uma visita amigável, na companhia de Ruya — consultá-lo acerca
de um problema urgentíssimo, na esperança de obter uma informação sobre certa
pessoa, um simples nome. Um estudante, cuja defesa ele assumira, era acusado
de um crime que não cometera; sim, claro, havia uma vítima, mas o verdadeiro
assassino, do qual se dizia que errava pela cidade como um fantasma, e sob um
nome falso, tinha outrora...
Antes de ter tempo de chegar ao fim da sua história, Galip fora convidado a
ter a bondade de entrar, tinham-lhe oferecido umas pantufas demasiado pequenas
para ele, substituindo os sapatos que fizera questão de descalçar, tinham-lhe
posto uma chávena de café na mão, garantindo-lhe que o chá estava a abrir.
Quando, para voltar ao seu assunto, Galip repetiu o nome do homem em questão
(acabava de inventar um novo, a fim de evitar qualquer coincidência), o ex-
marido de Ruya tomou a palavra. E à medida que falava, Galip dizia de si para si
que acabaria por se deixar invadir por aquele discurso, como pelo sono, e que lhe
seria cada vez mais difícil sair daquela casa. Lembrá-lo-ia mais tarde: chegara a
tentar a certa altura convencer-se de que poderia, ouvindo o outro, descobrir
certos indícios que o levariam a Ruya, o que se assemelhava aos esforços de um
paciente que vai sofrer uma operação muito grave e que tenta tranquilizar-se no
preciso instante da anestesia. Três horas mais tarde, quando pôde por fim
aproximar-se da porta, quando já perdera toda a esperança de a abrir, eis o que
retivera do discurso sustentado pelo ex-marido numa torrente ininterrupta e
irreprimível de palavras: Acreditámos saber muitas coisas, quando não sabíamos
nada.
Sabíamos, por exemplo, que a maior parte dos judeus da Europa Central e
dos Estados Unidos descendiam dos povos do Império Judaico Khazar, que se
manteve durante mil anos entre o Cáucaso e o Volga. Sabíamos também que os
Khazars eram um grande povo turco convertido ao judaísmo. Mas o que
ignorávamos era que se esses judeus eram turcos, havia também turcos que eram
judeus. E era extremamente interessante estudar as vagas sucessivas desses dois
grandes povos que, semelhantes a infelizes irmãos siameses, colados um ao
outro, seguiram ao longo de vinte séculos inteiros curvas tangentes sem nunca se
encontrarem, como se dançassem ao ritmo de uma música secreta.
Quando o ex-marido trouxera um mapa da divisão contígua, Galip emergira
bruscamente do torpor em que se deixara cair, como se ouvisse um conto de
fadas, levantara-se, espreguiçara-se discretamente para reanimar os seus
músculos distendidos pelo calor, e contemplara com assombro as setas traçadas a
tinta verde no planeta inteiramente inventado, que se desdobrava em cima da
mesa...
Dado que a história se exprime sempre por meio de simetrias, e sendo essa
verdade incontestável, dizia o ex-marido, devemos preparar-nos para a travessia
de uma época de desgraças, a qual seria tão longa como a de felicidade que
tínhamos vivido, etc.
Primeiro, “Eles” iam criar um Estado nos Estreitos. “Eles” não tinham a
intenção de instalar povos novos, nesse novo país, como acontecera havia mil
anos, mas de transformar as populações já presentes em grupos de homens
novos, que estariam ao seu serviço.
E para adivinhar que contavam roubar-nos a nossa memória, transformando-
nos em miseráveis criaturas sem passado, sem história, fora do tempo, não era
necessário ter-se lido Ibn Haldoun. Toda a gente sabia: para destruir a nossa
memória, nos obscuros colégios dos missionários, nas costas do Bósforo ou nas
ruas por trás de Pêra, faziam engolir às crianças turcas misturas de cores
platónicas (“Repare nas cores que eles escolhem”, dissera a mulher que ouvia o
marido com extrema atenção). Mas mais tarde, tendo todas essas práticas
vergonhosas sido consideradas demasiado perigosas pela ala “humanista” do
Ocidente, por causa dos inconvenientes químicos que acarretavam, “Eles”
tinham passado a recorrer aos métodos “cinema-música”, muito menos brutais e,
a longo prazo, mais eficazes.
Sem sombra de dúvida, com esses rostos femininos que pareciam surgidos
dos ícones, essas vagas de imagens tão repetitivas como a música poderosa e
simétrica dos órgãos de igreja ou dos cânticos, essa promoção ofuscante de
álcool ou de outras bebidas, de armas, de aviões e de roupas, os métodos do
sistema cinematográfico mostravam-se muito mais produtivos e seguros que os
utilizados pelos missionários em África ou na América Latina.
(Galip perguntou-se a que ouvintes teriam sido já endereçadas aquelas longas
frases, já bem aprendidas, como era evidente. Às pessoas do bairro? Aos colegas
de trabalho? Aos passageiros anónimos dos táxis colectivos? A sogra?) Na época
em que se tinham inaugurado as primeiras salas de cinema em Istambul, em
Chehzadé-Bachi e em Beyoglou, centenas de espectadores tinham sido feridos
de cegueira. Os gritos de revolta e de desespero daqueles que adivinhavam o
horrível tratamento que os faziam sofrer nessas salas haviam sido abafados pela
polícia e pelos alienistas. E os jovens que tinham tido a mesma reacção sincera
podiam ser hoje facilmente tranquilizados por meio de um par de óculos
oferecidos pela Segurança Social para os olhos tornados cegos por imagens
novas.
Mas nem todos se deixavam enganar: o ex-marido compreendera-o ao ver
um jovem de quinze anos disparar desesperadamente sobre os cartazes
publicitários em plena noite, a duas ruas dali. Surpreendido com latas de
gasolina à entrada de uma sala de cinema, um outro miúdo pedira aos que lhe
queriam dar uma sova que lhe devolvessem os seus olhos, os seus olhos de
outrora, esses olhos capazes de verem as imagens... Um pequeno pastor da
região de Malatya, convertido ao fim de uma semana num viciado do cinema,
esquecera o caminho do regresso e perdera inteiramente a memória; a notícia
aparecera nos jornais, Galip bey não a lera? Seriam precisos dias inteiros para
enumerar as desgraças de todos os miseráveis incapazes de regressarem à sua
antiga vida, porque as ruas, as roupas, as mulheres que viam nos ecrãs se tinham
tornado o objecto dos seus desejos. Quanto aos que se identificavam com os
personagens que viam nos filmes, já não eram considerados “doentes” ou
“delinquentes”, mas, muito pelo contrário, os nossos novos senhores
associavam-nos aos seus negócios. Tornáramo-nos cegos, todos nós nos
tornáramos cegos...
O dono da casa, quer dizer, o ex-marido de Ruya, fazia-lhe a pergunta:
nenhum dos responsáveis do país observara a relação directa entre a decadência
de Istambul e a importância do papel desempenhado nas nossas vidas pelas salas
de cinema? Seria realmente um acaso que, entre nós, os cinemas e os bordéis
abrissem sempre nas mesmas ruas? Outra pergunta ainda: porque era que as
salas de cinema eram sempre escuras, estavam sempre mergulhadas nas trevas?
Naquela mesma casa, havia já anos, Ruya e ele haviam tentado viver
consagrando-se, a coberto de pseudónimos e de identidades falsas, a uma causa
na qual acreditavam do fundo da alma. (De tempos a tempos, Galip baixava a
cabeça para examinar as unhas.) Empenhavam-se na tradução de comunicados e
de declarações vindos de países aonde nunca tinham ido, redigidos nas línguas
desses países; traduziam-nos fazendo o possível por adaptar o seu estilo a essas
línguas vindas de países longínquos, e redigiam essas profecias políticas numa
língua sintética, inteiramente nova, e dactilografavam-nas ou policopiavam-nas
para as transmitirem a pessoas que nunca veriam. Para dizer a verdade, o que
cada um deles queria, no fundo, era tornar-se “outro”. E que felicidade para eles
verificarem que alguém com quem acabavam de travar conhecimento tomara a
sério os seus nomes falsos! Esquecendo a fadiga das horas de trabalho na fábrica
de pilhas eléctricas, os artigos a redigir, os envelopes a preencher para os
comunicados, um dos dois — Ruya ou ele — tirava do bolso o mais recente dos
seus bilhetes de identidade para ficar a contemplá-lo. Com o entusiasmo e o
optimismo da juventude, sentiam-se tão felizes por poderem dizer um ao outro
“Mudei, tornei-me um/uma outro/outra” que inventavam pretextos que os
levassem a repetir essas palavras; descobriam graças a essas novas identidades
um sentido novo para o universo que os rodeava, transformado numa
enciclopédia recentíssima, que se podia ler de ponta a ponta — e quanto mais a
liam, mais a enciclopédia mudava, como também eles mudavam, de tal modo
que depois de a terem lido na íntegra, recomeçavam a lê-la, a partir do primeiro
volume, e perdiam-se nas páginas, na embriaguez que lhes proporcionava a sua
enésima personalidade (enquanto o dono da casa se perdia nas páginas dessa
comparação que não estava a usar decerto pela primeira vez, tal como acontecia
com o resto do seu discurso, Galip viu numa prateleira do aparador o Tesouro
dos Conhecimentos que um jornal diário publicara em fascículos). Mas agora, ao
fim de tantos anos, compreendera que essa transformação não passava de um
logro: imaginar que seja possível regressar à felicidade da identidade inicial à
força de se devir outro, outro ainda, e outro mais, não passava de optimismo
oco! Ruya e ele haviam compreendido que se tinham extraviado algures pelo
caminho, entre os sinais, as cartas, os comunicados, as fotografias, os rostos, os
revólveres, a que já não podiam dar sentido! Nesse tempo, não havia outras
construções naquela colina árida... Uma noite, Ruya enfiara meia dúzia de coisas
dela num saco e voltara para casa, porque era aí que se sentia mais segura, no
regaço da família.
O dono da casa, cujo olhar lembrava por vezes a Galip o Coelho Bunny de
uma velha revista ilustrada infantil, e que, arrebatado pela violência das suas
palavras, se levantava e se punha a medir passo a passo a sala causando
vertigens ao seu hóspede, chegara também à mesma conclusão: para fazermos
com que os planos “Deles” falhassem, devíamos recomeçar tudo desde o
princípio. Galip podia vê-lo com os seus próprios olhos: aquela casa era a de um
pequeno-burguês, de um homem pertencente à classe “média”, a casa de um
cidadão “tradicional”. Tudo o que possuíam eram aqueles velhos sofás, forrados
de pano de algodão florido, aquelas cortinas de tecido sintético, aqueles pratos
esmaltados enfeitados por um voo de borboletas, aquele aparador horrível,
aquele serviço de licores nunca utilizado, e a caixinha que serve para oferecer
doces aos convidados nos dias festivos, além daquele tapete, já no fio, com as
cores apagadas pelo tempo. A mulher dele não era uma mulher notável, instruída
como Ruya, nada tinha de extraordinário, ele bem o sabia, era uma mulher
simples, sem pretensões, como a mãe dele fora (a mulher lançou a Galip um
sorriso cujo sentido ele não conseguiu decifrar, e sorriu depois ao marido), era de
resto prima dele, filha de uma sua tia. E os filhos eram como eles. Levavam a
vida que o pai dele teria continuado a levar, se não tivesse morrido. Escolhendo
deliberadamente uma tal maneira de viver, assumindo-a conscientemente,
causava o fracasso de uma conspiração de dois mil anos, recusava-se a tornar-se
outro que não ele próprio, obstinava-se no apego à sua “identidade própria”.
E entre todas as coisas que Galip bey podia ver naquela sala, nada era fruto
do acaso, tudo fora disposto com um fim preciso: o relógio fora escolhido
expressamente para ali estar, porque um relógio e o seu tiquetaque são
indispensáveis em certo género de casa. O aparelho de televisão estava ligado,
como um candeeiro de rua, porque, a certas horas, em certo género de casa, a
televisão está sempre acesa; o napperon de renda estava em cima do televisor
porque, em certo tipo de família, há sempre um napperon em cima da televisão.
A desordem da mesa, os jornais velhos para ali deixados, depois de recortado o
cupão do sorteio, a mancha de doce na caixa de bonbons transformada em caixa
de costura, e até os pormenores que ele não determinara explicitamente, a
chávena cuja asa partida pelas crianças fazia pensar numa orelha, a roupa a secar
diante do horrível aquecedor a carvão, tudo era resultado de um plano
cuidadosamente estudado, ponto por ponto. Quando o ex-marido observava tudo
o que o rodeava, os assuntos das conversas, a maneira como se sentavam nas
cadeiras à volta da mesa, comprovava com alegria que as suas palavras e os seus
gestos eram de facto os das famílias de certo género. E era feliz, pois a felicidade
consiste em vivermos conscientemente a vida que desejamos viver. Mais feliz
ainda porque conseguira, graças à sua felicidade, fazer gorar uma conspiração
histórica.
Desejoso de ver uma conclusão nestas últimas palavras, e semi-inconsciente
a despeito de inumeráveis chávenas de chá e de café, Galip declarou que
recomeçara a nevar, levantou-se e dirigiu-se, titubeante, para a porta. Mas o dono
da casa interpôs-se entre Galip e o sobretudo de Galip, e retomou o seu discurso.
Estava desolado de ver Galip bey regressar a Istambul, a essa cidade onde o
declínio começara. Istambul era a pedra de toque da questão: viver lá ou pôr
sequer os pés lá era uma resignação perante a derrota, era aceitar capitular.
A cidade terrífica pululava agora dessas imagens de degenerescência que
outrora só se viam nas salas escuras dos cinemas. As multidões que haviam
perdido toda a esperança, os carros velhos, as pontes que lentamente se
afundavam no mar, os montes de bidões, o asfalto esburacado como um
passador, as letras gigantescas e indecifráveis, os cartazes ilegíveis, os painéis
rasgados que tinham perdido todo o sentido, as pichagens cuja tinta tingira as
paredes, e os anúncios de bebidas ou de cigarros, os minaretes mudos, os montes
de pedras, a poeira, a lama, etc, — nada era possível esperar de uma tal
decadência. E se um dia uma renovação se desse — e o dono da casa estava
certo de que se daria, não era ele o único a protestar, a resistir através da sua
maneira de viver —, essa renovação começaria naqueles novos bairros aos quais
havia quem chamasse com desprezo os “bairros de lata de betão”, porque eram
eles os únicos a ter conservado intacta a identidade, disso tinha ele a certeza e
mais que a certeza. Sentia-se orgulhoso de ter sido o fundador de um desses
bairros, um precursor, que indicara o caminho. Convidava Galip a instalar-se ali,
a viver ali, e o mais, depressa possível. Galip podia até passar aquela noite em
casa deles, o que lhes daria pelo menos ensejo de continuarem a conversar.
Galip vestira o sobretudo, despedira-se da mulher silenciosa e dos filhos
indiferentes, abrira a porta; ia-se embora. O ex-marido de Ruya olhou
atentamente a neve por um instante, depois articulou quatro sílabas num tom que
agradou a Galip: “Tudo branco”. Conhecera um xeque sempre vestido de branco
e, logo a seguir, tivera um sonho inteiramente branco, e nessa brancura, tinham-
se sentado lado a lado, o Profeta e ele, no banco traseiro de um Cadillac todo
branco. A frente, estavam o motorista, cujo rosto ele não via, e os dois netos de
Mahomet, Hassan e Husséyne, ainda pequenos; o Cadillac branco atravessava o
bairro de Beyoglou, cheio de cartazes de publicidade, de cinemas e de bordéis; e
então as crianças viravam-se para o avô, fazendo caretas de repulsa...
Galip preparava-se para descer os degraus das escadas, cobertos de neve,
mas o dono da casa retomou a palavra: não era que desse demasiada importância
aos sonhos, mas aprendera a decifrar certos sinais portadores de um carácter
sagrado. Gostaria muito de fazer com que Galip e Ruya beneficiassem do seu
saber. Outros não hesitavam em servir-se dele. Era-lhe muito agradável ter
ouvido naquele mesmo dia o primeiro-ministro retomar palavra por palavra
algumas das “análises mundiais” que ele próprio publicara, sob pseudónimo,
havia três anos, no período mais activo da sua vida política. Sem dúvida, “esses
homens” dispunham de um vasto serviço de informações, que lia toda a
imprensa, sem esquecer as pequenas revistas e que, em sendo disso caso,
comunicava as suas leituras aos níveis mais elevados. Ainda outro dia, um artigo
de Djélâl Salik atraíra a sua atenção; compreendera ao lê-lo que o jornalista
tivera, sempre pelas mesmas vias, conhecimento das suas propostas, mas o caso
de Djélâl era desesperado: nessa crónica diária, pela qual se vendera, buscava
inutilmente uma solução, forçosamente errónea, para uma causa perdida...
O que era interessante nos dois exemplos era o facto de as ideias de um
homem que possuía a fé, mas que alguns julgavam exausto — a ponto de já não
lhe baterem à porta — serem utilizadas — não se sabia por que vias — por
primeiros-ministros ou cronistas célebres. O ex-marido chegara a pensar em
revelar à imprensa como essas duas eminentes personalidades tinham ido buscar
a um dos seus artigos, publicado numa revista de facção — que ninguém lia —
certas expressões, ou até certas frases, literalmente, a tal ponto que ele poderia,
exibindo provas, denunciar a desvergonha da pilhagem, simplesmente as
condições ainda não aconselhavam um ataque desse tipo. Ele tinha de esperar,
com paciência, sabia-o bem, mas também sabia que todos acabariam por vir um
dia bater-lhe à porta, disso estava mais que certo. Ou não era esta visita de Galip
bey, chegado em plena noite, de baixo de neve, a um bairro remoto, para se
informar acerca de um pseudónimo — pretexto pouco convincente — um sinal
que o anunciava? Ele sabia decifrar bem essa espécie de sinais, Galip não devia
esquecer-se. E quando Galip se achava já na rua coberta de neve, continuava
ainda a fazer-lhe perguntas em voz baixa: Galip bey seria capaz de reler a nossa
história daquele ponto de vista? Conseguiria dar com a rua principal sozinho sem
se enganar no trajecto? Permitir-lhe-ia que o acompanhasse? Quando poderia
Galip bey voltar a visitá-lo? Enfim, Galip bey não quereria transmitir os seus
protestos de amizade a Ruya?


CAPÍTULO XII

O BEIJO

“Se, como creio, se pode acrescentar o hábito da leitura de publicações
periódicas ao catálogo definido por Averróis das antimnemónicas ou
substâncias que enfraquecem a memória...”
Coleridge


Há uma semana, houve alguém que me encarregou de te transmitir os seus
protestos de amizade. Disselhe que não deixaria evidentemente de o fazer, mas
passado o tempo que levei até apanhar um táxi, esquecera, não os protestos de
amizade a transmitir, mas aquele que disso me encarregara. E não o lamento. Na
minha opinião, um marido inteligente deve sempre esquecer os protestos de
amizade que outros homens lhe pedem que transmita à mulher. Porque nunca se
sabe. Sobretudo quando a mulher é uma mulher no lar: ao longo de toda a sua
vida, a infeliz criatura designada pelo nome de “mulher no lar” nunca vê outros
homens além do marido, tão fatigante — se exceptuarmos, claro, os merceeiros e
outros comerciantes com que depara no decorrer das compras ou vê no mercado.
Quando um homem se lhe faz lembrar, a mulher põe-se a reflectir sobre essa
delicadeza; ora, o certo é que tem muito tempo para se consagrar à reflexão. E é
verdade que homens assim são extremamente distintos! Por amor de Deus,
existiria outrora semelhante costume? Nos bons velhos tempos, os homens
educados não podiam asseverar os seus sentimentos de respeito a não ser a um
gineceu inteiro, desprovido de personalidade. E eram muito mais seguros os
eléctricos, com compartimentos reservados às senhoras, nesses outros tempos...
Os leitores que sabem que sou celibatário, que nunca fui casado e que nunca
poderei casar-me, porque sou jornalista, devem ter compreendido que tentei
desorientá-los desde a minha primeira frase. Quem poderá bem ser esse “tu” ao
qual me dirigi? Abracadabra! O vosso velho cronista vai falar-vos hoje da sua
memória que enfraquece de dia para dia! Venham aspirar comigo o perfume das
rosas, que murcham como eu, no meu jardim secreto, e poderão assim avaliar a
minha situação. Mas não se aproximem de mais, fiquem por favor a dois passos
de distância, e antes que os meus pequenos ardis sejam desmascarados, deixem-
me continuar em paz estes meus pequenos jogos de escrita, que não têm de resto
nada de extraordinário.
Há já uns trinta anos, no começo da minha carreira, no tempo em que era
repórter em Beyoglou, fazia porta-a-porta, à caça de informações, sempre em
busca de algum novo crime cometido num bar nocturno, nos meios dos
gangsters e dos traficantes de haxixe do bairro ou de uma história de amor
rematada por um suicídio. Andava de hotel em hotel a consultar os livros de
registo que o recepcionista me deixava ler e ao qual eu pagava duas libras e meia
por mês, a fim de não perder a chegada a Istambul de uma celebridade
estrangeira — ou pelo menos de um ocidental suficientemente interessante para
me ser possível fazê-lo passar por uma celebridade. Nesse tempo, o mundo ainda
não pululava de celebridades como hoje; nenhuma de entre elas se deslocava a
Istambul. As pessoas que eu apresentava como ilustres celebridades aos meus
leitores, quando eram totalmente desconhecidas no seu próprio país, ficavam
sempre estupefactas ao descobrirem a sua fotografia no meu jornal, mas era uma
surpresa que invariavelmente se transformava em ingratidão. Um desses
desconhecidos, a quem eu predissera o sucesso e o triunfo, alcançou-os de facto
muitos anos mais tarde, vinte anos depois da minha previsão: “O conhecidíssimo
criador de moda feminina esteve ontem na nossa cidade”, publicada nas páginas
do jornal; esse costureiro francês tornou-se realmente um criador existencialista
e célebre, mas nunca me agradeceu. Era um ocidental que não passava de um
ingrato.
Então, no tempo em que me ocupava de ilustríssimos personagens
destituídos de qualquer particularidade, e dos gangsters locais (hoje qualificados
de Mafia), conheci um velho farmacêutico que poderia ser para mim uma fonte
de informações interessantes. O homem sofria das duas doenças que hoje me
afectam a mim: insónias e perda da memória. Quando somos atingidos por estes
dois males ao mesmo tempo, se imaginamos que poderemos remediar um deles
(a perda da memória) por meio das consequências do outro (o tempo ganho
graças à insónia), é exactamente o contrário que se produz.
Durante as suas noites de insónia, o velho farmacêutico via fugirem-lhe todas
as suas recordações (tal como se passa comigo), a ponto de se ver sozinho, na
noite e num tempo inteiriçado, num universo incolor e inodoro, desprovido de
toda a particularidade e de toda a personalidade, o universo da “face escondida
da lua”, da qual se falava muito ao tempo em artigos traduzidos de revistas
estrangeiras.
Em vez de, como eu, tratar a sua doença por meio da escrita, o velho
elaborara um remédio no seu laboratório. Depois de uma conferência de
imprensa destinada a dar a conhecer ao público a sua poção mágica. — éramos
dois os presentes, o repórter de um diário da tarde, inveterado fumador de
haxixe, e eu, ou três ao todo, contando com o farmacêutico —, no decorrer da
qual engoliu o conteúdo de vários copos, que enchia afectadamente de um
líquido rosado, o farmacêutico recuperou de facto o sono que lhe fugia havia três
anos. Mas a opinião pública, entusiasmada ao descobrir que um turco inventara
finalmente alguma coisa, nunca soube se ele recuperara as recordações
paradisíacas da sua memória, uma vez que o velho farmacêutico não voltou a
despertar. Durante o seu enterro, que teve lugar dois dias mais tarde, sob um céu
sombrio, perguntei-me que teria ele tanto querido recordar.
Continuo a pôr-me a questão: quais são as recordações cujo peso, à medida
que envelhecemos, a nossa memória rejeita, semelhante a uma besta de carga
indócil que sacode um fardo demasiado pesado, quais as que detesta mais ou
quais as que mais facilmente lhe fogem?
Esqueci, pelo meu lado, o fulgor dos raios de sol que vinham tocar os nossos
corpos atravessando as cortinas de tule, em quartos pequenos que se situavam
sempre nalgum belo recanto de Istambul. Esqueci diante de que cinema exercia
as suas actividades o revendedor de bilhetes do mercado negro, que se
apaixonou pela jovem caixeira grega com um rosto tão pálido atrás do seu
guichê, e acabou por, desse modo, perder a razão. Esqueci há muito tempo os
nomes dos meus leitores bem-amados que sonhavam os mesmos sonhos que eu,
no tempo em que eu tinha a meu cargo a interpretação dos vossos sonhos nas
páginas do jornal; e esqueci igualmente os segredos que lhes revelava nas cartas
que lhes dirigia.
Ao fim de tantos anos, no momento em que o vosso cronista se vira para o
tempo perdido, em busca de um ramo a que se possa agarrar na sua insónia, tão
tarde na noite, lembra-se de um dia aterrador que viveu nas ruas de Istambul.
Fora tomado pelo desejo de um beijo, desejo que me incendiava o corpo e a
alma.
Numa das mais velhas salas da cidade, um sábado à tarde, quando via um
policial americano, talvez ainda mais velho que a sala (A Alma da
Cidade), pudera ver no ecrã um beijo bastante breve. Tratava-se de um beijo
comum, em nada muito diferente das outras cenas de amor dos filmes a preto e
branco, cenas que os nossos censores cortavam ao fim de quatro segundos, mas
não sei porquê nem como, o desejo de poisar os meus lábios nos da actriz,
apertando-os com todas as minhas forças, despertou em mim, tão intensamente
que quase sufoquei de mágoa. Tinha vinte e quatro anos, e nunca ainda beijara
uma mulher na boca. Evidentemente, deitara-me com mulheres nos bordéis, mas
essas mulheres nunca nos beijam, e de resto também eu jamais desejaria tocar-
lhes a boca com os meus lábios.
O filme ainda não terminara quando saí da sala, sentia quase pânico, como se
uma mulher com vontade de me beijar me esperasse algures na cidade. Lembro-
me ainda, avancei a passo de corrida para o Túnel, regressei a toda a pressa para
Galatasaray, esforçava-me desesperadamente — como se procurasse alguma
coisa a tactear no escuro — por descobrir um rosto, um sorriso, uma silhueta de
mulher. Não tinha nem parente nem amiga que me fosse dado beijar. E nem a
mais pequena esperança de encontrar uma amante: não conhecia ninguém que o
pudesse ser! Dir-se-ia que a cidade cheia de gente estava deserta!
E, no entanto, em Taksim, dei por mim a bordo de um autocarro. Na época
em que o meu pai nos abandonara, longínquos parentes, do lado da minha mãe,
tinham-nos dado testemunho do seu interesse. Era um casal com uma filha, dois
anos mais nova do que eu, e chegámos a jogar algumas vezes às damas, nesse
tempo. Uma hora mais tarde, no preciso instante em que lhes batia à porta, no
bairro de Findikzadé, lembrei-me bruscamente de que essa rapariga — que
sonhava beijar — se casara havia já muito tempo. Os pais — ambos já falecidos
— convidaram-me a entrar. Pareciam um tanto surpreendidos, não
compreendiam decerto porque vinha eu visitá-los ao fim de tantos anos. Falámos
de insignificâncias (nem sequer o facto de eu ser jornalista despertara o seu
interesse: tratava-se de uma profissão desprezível aos olhos deles, pois consistia
em difundir boatos). Bebemos chá, comemos ros-quilhos enquanto ouvíamos o
relato do jogo de futebol que a rádio estava a transmitir.
Cheios de boa-fé, insistiam em que eu ficasse para jantar, mas eu parti
bruscamente, resmungando vagas desculpas.
Uma vez na rua, quando fiquei de novo no meio do frio, continuava a arder
do desejo de beijar uma mulher. Com o rosto gelado, a carne e o sangue em
chamas, sentia um mal-estar tão profundo como insuportável. Apanhei o barco
para ir a Kadikeuy. Um colega do liceu contava-nos as aventuras de uma
rapariga que adorava beijar os rapazes — quer dizer, que se deixava beijar sem
exigir casamento. Enquanto me dirigia a pé para Fénerbahtché, onde morava
esse colega, dizia para comigo que, à falta da rapariga já citada, talvez ele
conhecesse outras do mesmo género. Chegado ao bairro onde morava outrora o
meu companheiro, errei em vão entre velhas casas sombrias e ciprestes negros,
mas não consegui dar com a sua morada. Ao passar diante daquelas grandes
construções em madeira, hoje há muito demolidas, contemplava as raras janelas
onde brilhava uma luz imaginando que eram as da rapariga que se deixava beijar
sem a contrapartida do casamento. Parei em frente de uma delas repetindo-me:
“Aqui está a casa onde mora a rapariga que eu poderia beijar!” Não estava muito
longe de mim, não havia entre nós mais que o muro de um jardim, uma porta,
umas escadas de madeira, mas eu, eu encontrava-me na impossibilidade de a
alcançar, não podia beijá-la. Esse contacto tão normal, tão aterrador, incrível e
fascinante, tão misterioso, tão estranho como um sonho, parecia-me naquele
instante tão próximo e, ao mesmo tempo, tão longínquo!
Lembro-me ainda: no barco que me trazia de regresso à margem europeia,
perguntava-me o que se passaria se beijasse de súbito — simulando um engano
— uma das passageiras, mas embora não estivesse em condições de me mostrar
exigente, não via à minha volta um único rosto susceptível de me inspirar a
mínima vontade de o beijar. Noutros períodos da minha vida, perdido entre as
multidões de Istambul, experimentei muitas vezes com amargura e desespero a
impressão de me encontrar numa cidade deserta, mas nunca com tanta violência
como nesse dia.
Caminhei longamente pelas calçadas molhadas. Contava decerto regressar
um dia a esta cidade deserta, conhecido, célebre, para aqui obter aquilo com que
sonhava. Mas nesse dia, o vosso cronista não podia senão voltar ao apartamento
que partilhava com a mãe, e a sua única consolação seria reler — em turco —
Balzac a contar-me a história do infeliz Rastignac; nesse tempo, lia não para meu
prazer, mas por dever, porque considerava — como bom turco que sou — que as
minhas leituras um dia me viriam a ser úteis; mas o que poderá vir a ser útil um
dia nunca é de utilidade alguma no instante presente! Foi por isso que, depois de
me ter fechado por um bom momento no meu quarto, voltei a sair, esgotada toda
a minha paciência. Recordo-me de me ter olhado ao espelho da casa de banho,
dizendo para comigo que podemos sempre depor um beijo na imagem da nossa
própria boca, enquanto evocamos os rostos dos dois protagonistas de um filme.
De resto, tinha sem parar diante dos olhos os lábios dos dois actores (Joan
Bennett e Dan Duryea). Mas seria apenas o espelho, e não a minha boca, que
beijaria. Então, saí da casa de banho. Instalada diante da sua mesa, perdida entre
as peças de tecido e os modelos que lhe trouxera não sei que parenta rica de não
sei que distantes ramos da nossa família, a minha mãe apressava-se a acabar um
vestido de noite para uma festa de casamento.
Comecei a falar com ela; sem dúvida dos meus projectos de futuro, dos meus
sucessos vindouros e dos meus sonhos; contei-lhe histórias que evocavam as
minhas ilusões, mas ela não me ouvia com muito interesse. Compreendi então
que tudo o que podia dizer-lhe não teria grande importância; a única coisa a tê-
la, aos seus olhos, era que eu passasse uma noite de sábado com ela, a fazer-lhe
companhia. E a cólera invadiu-me. Nessa noite, ela estava particularmente bem
penteada, pusera um nadinha de bâton, um bâton levemente cor de tijolo, que
recordo ainda. Calei-me, com os olhos postos nos seus lábios, na sua boca, que
ela muitas vezes dizia ser parecida com a minha.
— Porque é que estás a olhar para mim com esse ar esquisito? — perguntou-
me ela, com uma voz assustada.
Houve um longo silêncio. Levantei-me, aproximei-me dela, mas não dei
mais que dois passos, as pernas tremiam-me. E sem me aproximar mais, comecei
a gritar, com toda a força da minha voz. Não me lembro exactamente do que lhe
disse, mas foi mais uma dessas brigas aterradoras que tantas vezes nos opunham.
Esquecêramos qualquer receio de ser ouvidos pelos vizinhos, num desses
momentos de furor e de liberdade em que somos capazes de dizer o que quer que
seja ao nosso interlocutor, de partir chávenas ou derrubar o fogão.
Quando, por fim, consegui precipitar-me para fora de casa, a minha mãe
estava a chorar sobre as musselinas, os carros de linhas e os alfinetes importados
(os primeiros alfinetes produzidos na Turquia foram os da firma Atli, em 1976).
Vagueei pelas ruas tarde na noite, entrei no pátio da Suleymaniyé, atravessei a
ponte Atatiirk, regressei a Beyoglou. Era como se já não fosse eu próprio, sentia-
me acossado pela cólera e pela sede de vingança, encurralado pelo homem que
deveria ser.
Ao chegar a Beyoglou, entrei numa leitaria, com o simples propósito de
deixar de estar só.
Mas não olhava para ninguém, com medo de descobrir o olhar de um homem
como eu, esforçando-se por preencher o vazio daquelas intermináveis noites de
sábado. Porque os que se parecem comigo reconhecem-se logo uns aos outros, e
desprezam-se. Um pouco mais tarde, um casal aproximou-se de mim: o homem
estava a contar-me alguma coisa... E sabem quem era esse fantasma de cabelo
grisalho, que surgia das minhas recordações? O meu antigo colega, aquele cuja
casa eu não conseguira descobrir em Fénerbahtché! Casara, trabalhava na
Sociedade Nacional dos Caminhos-de- Ferro, tinha o cabelo já grisalho e, sim,
lembrava-se muito bem dos anos de outrora.
Um antigo companheiro, que encontramos ao fim de muitos anos, finge
sempre achar-nos muito interessantes e ter partilhado connosco uma montanha
de recordações e de segredos, com o simples propósito de sugerir à sua mulher
ou ao amigo que tem ao lado que o seu próprio passado foi apaixonante. Foi o
que fez o meu antigo colega nessa noite, mas não me senti surpreendido.
Recusei-me contudo a representar o papel que ele queria atribuir-me (na
esperança de tornar mais cativantes as suas recordações inteiramente inventadas)
e a pretender levar ainda a vida miserável e triste que ele próprio havia muito
abandonara.
Enquanto mergulhava a colher no manjar branco que sempre preferi sem
açúcar, contei-lhe que era casado havia muito tempo, que ganhava muito
dinheiro, que tu estavas em casa à minha espera; estacionara o meu Chevrolet na
praça Taksim, viera à leitaria para comprar as natas com peito de frango que de
repente tiveras vontade de comer, morávamos em Nichantache, podia deixá-los
nalgum lado que lhes desse jeito. Não, obrigado; ele continuava a morar em
Fénerbahtché. Curioso como era, fez-me perguntas a teu respeito, primeiro
timidamente, depois, ao saber que eras “de boas famílias”, levou mais longe o
seu inquérito, a fim de provar à mulher que ele próprio estava muito ligado às
boas famílias.
Não deixei fugir o ensejo: afirmei-lhe que decerto te conhecia e que devia
lembrar-se de ti.
Ele assentiu, encantado. Encarregou-me de te transmitir as suas respeitosas
homenagens. E quando saímos da leitaria (eu com a tua dose de natas com peito
de frango na mão), beijei-o, depois beijei a mulher dele, exibindo as maneiras
dos ocidentais distintos que o cinema nos ensinou. Que estranhos leitores, os
meus, e que estranho país, o nosso.


CAPÍTULO XIII

OLHA QUEM AQUI ESTÁ

“Há muito tempo que nos devíamos ter encontrado.”
Turkan Soray


Depois de ter saído de casa do ex-marido de Ruya, ao longo de toda a
avenida que tomou, Galip não descobriu qualquer meio de transporte. E os
autocarros interurbanos que passavam de tempos a tempos, com uma
determinação que nada seria capaz de conter, nem sequer abrandavam ao passar
por ele. Decidiu prosseguir a pé o seu caminho. E até à gare de Bakirkeuy, que
lembrava os velhos frigoríficos desconjuntados que muitos merceeiros utilizam
como montras, avançando a grandes passadas na neve, imaginou mil vezes que
reencontrara Ruya, que haviam retomado a sua rotina quotidiana, uma vez que
os motivos pelos quais ela o abandonara se tinham revelado muito simples e
compreensíveis; ambos os tinham já esquecido, ou quase. Todavia, na vida em
comum que renascia na sua imaginação, Galip continuava a ser incapaz de falar
a Ruya na sua visita ao ex-marido.
No comboio, meia hora mais tarde, um velho contou-lhe uma história que
vivera, havia quarenta anos, por uma noite de Inverno tão glacial como aquela.
Durante esses anos de restrições, enquanto toda a gente esperava com temor que
o país entrasse em guerra, o esquadrão a que ele pertencia passara um Inverno
muito penoso numa pequena aldeia da Trácia. Uma manhã, obedecendo a uma
ordem mantida em segredo, os homens tinham saído da aldeia a cavalo. Haviam
alcançado Istambul depois de uma viagem que durara um dia inteiro, mas após
entrarem na cidade, tinham tido que esperar pela noite nas colinas que dominam
o Corno de Ouro.
Quando a animação se extinguiu por completo na cidade, tinham descido
pelas ruas sombrias, e, à fria luz dos candeeiros de rua pintados de azul por
razões de segurança, haviam conduzido sem fazer barulho os cavalos pelas
calçadas geladas até aos matadouros de Sutludjé. No ruído do comboio, Galip
tinha dificuldade em distinguir certas palavras, certas sílabas da descrição que o
velho lhe fazia das sangrentas cenas do abate: o pânico dos cavalos que caíam
um a um e cujos intestinos, que lhes irrompiam do ventre como as molas de um
velho sofá, se espalhavam nas lajes cobertas de sangue, o olhar desesperado dos
animais que esperavam a sua vez, a raiva dos magarefes e, sobretudo, a
expressão de culpa que se lia, idêntica em todos, no rosto dos soldados ao saírem
da cidade marchando.
Nenhum meio de transporte à saída da estação de Sirkédji: Galip perguntava-
se já se não seria melhor continuar a pé até ao escritório, para lá passar o resto da
noite, quando viu um táxi descrever um amplo U na sua direcção. Mas parou
junto ao passeio, um pouco mais acima: um homem a preto e branco, aparecido
dos filmes a preto e branco, com uma pasta na mão, abriu a porta e entrou para o
carro. O motorista parou de novo o táxi, desta vez diante de Galip, e declarou
que podia levá-los até Galatasaray, ao “senhor” e a ele. Galip entrou no táxi.
Quando se apeou, em Galatasaray, lamentou não ter metido conversa com
aquele homem vindo dos filmes a preto e branco. Enquanto contemplava os
barcos das linhas do Bósforo, amarrados vazios ainda junto à ponte de Karakeuy,
mas já com todas as luzes acesas, pensara de facto fazê-lo: “Caro Senhor, há
muitos anos já, numa noite de neve como esta...”
Se tivesse começado a contar-lhe essa história, era pelo menos a impressão
que sentia, teria sido capaz de a levar até ao fim, e o homem tê-lo-ia decerto
escutado com interesse.
Diante da montra de uma sapataria de senhoras (Ruya calçava 37), um pouco
acima do cinema Atlas, um homenzinho fraco aproximou-se dele. Trazia na mão
uma dessas pastas de napa, como as que carregam os encarregados da contagem
do gás que se deslocam de porta em porta. “Interessa-se pelas estrelas?”,
perguntou-lhe o homem, que vestia um casaco abotoado até ao pescoço à laia de
sobretudo. Galip começou por tomá-lo por um confrade do homem que, nas
noites sem nuvens, instala o seu telescópio na praça de Taksim e faz contemplar,
em troca de uma nota de cem libras, as estrelas aos curiosos, mas nesse instante
já o desconhecido estava a mostrar-lhe um álbum. E nas páginas que o outro ia
passando diante dos seus olhos, Galip descobriu, em papel de boa qualidade,
fotografias espantosas de certas estrelas femininas do cinema.
Evidentemente, as fotografias não eram das próprias actrizes em causa, mas
de mulheres que usavam os mesmos vestidos e as mesmas jóias que elas e que
— mais importante ainda — imitavam a sua maneira de estar, de fumar, de
entreabrir os lábios ou de os oferecer a um beijo. Em cada uma das páginas,
recortada de alguma revista, uma fotografia a cores do original, encimada pelo
seu nome escrito em grandes caracteres, aparecia rodeada de outras imagens, nas
quais a sua sósia se esforçava por se lhe assemelhar através de poses
“sugestivas”.
Quando detectou o interesse que estas fotografias despertavam em Galip, o
homenzinho fraco arrastou-o para uma ruela deserta que levava ao cinema
Mélek, e passou-lhe o álbum para que ele o folheasse à sua vontade. A luz de
uma estranha montra onde se expunham braços, pernas, luvas, meias, carteiras e
guarda-chuvas, suspensos por fios invisíveis, Galip pôde examinar com atenção
as Turkan Soray, que acendiam o cigarro com um gesto cansado, ou que
dançavam, envergando um vestido cigano com uma racha enorme; as Mudjé Ar,
que descascavam uma banana olhando para a objectiva com um ar atrevido,
numa explosão desenfreada de riso; as Hulya Koygit, com óculos encavalitados
no nariz, que tiravam o soutien para o arranjar, lavavam a louça, inclinando-se
muito, ou que derramavam lágrimas inocentes. Mas o homem, que punha uma
igual atenção no seu exame de Galip, apoderou-se bruscamente do álbum, com o
gesto decidido do professor primário que surpreende um aluno a ler um livro
proibido, e enfiou-o, acto contínuo, na pasta.
— Quer que o leve a ir ter com elas?
— Mas... onde é que elas estão?
— O senhor tem um ar decente, venha comigo.
Enquanto seguiam as ruelas escuras, Galip, que o homem apertava com
perguntas a fim de o fazer decidir, declarou-lhe que tinha um fraco por Turkan
Soray.
— Mas é ela em pessoa! — disse o homem segredando, como se lhe
confiasse um segredo.
Ela vai ficar encantada, você vai agradar-lhe muito!
Nas imediações da esquadra de Beyoglou, detiveram-se diante de uma velha
casa de pedra, onde, sobre a fachada, se liam ainda duas palavras: “...dos
Amigos”; penetraram num rés-do-chão que cheirava a pó e a panos, depois numa
divisão sobre o comprido mergulhada em penumbra, onde se não viam nem pano
nem máquinas de costura, mas que sugeriu logo a Galip a ideia de completar o
letreiro: “Oficina dos Amigos”. Uma segunda divisão,,brilhantemente iluminada,
pelo seu lado, onde entraram por uma porta branca muito alta, lembrou de súbito
a Galip que teria de pagar ao proxeneta.
— Turkan! — gritou o homem enquanto guardava o dinheiro no bolso. Olha
quem aqui está! Tens uma visita do Izzet!
Duas mulheres que estavam a jogar às cartas viraram-se, entre risinhos, para
Galip. A sala, que evocava o palco de um velho teatro duvidoso, cheirava a
mofo, a fogão de aquecimento entupido, a um perfume enjoativo, e ressoava do
barulho extenuante de uma música pop local. Estendida num divã na pose
preferida de Ruya quando estava a ler os seus romances policiais (com uma
perna nas costas do divã), uma mulher que não se parecia com Ruya nem com
qualquer estrela de cinema que fosse, folheava uma revista satírica. Só o nome
de Mudjé Ar, escrito com todas as letras na sua blusa, permitia adivinhar que se
tratava de um duplo dessa actriz.
Um homem, vestido de empregado de café, amodorrara-se diante da
televisão, enquanto no ecrã os participantes de uma mesa-redonda discutiam a
importância da conquista de Istambul na história universal.
Galip conseguiu descobrir uma vaga semelhança entre uma mulher nova
exibindo uma permanente nos cabelos, envergando jeans, e certa actriz
americana, cujo nome esquecera, sem ter a certeza de estar perante a semelhança
desejada. Um homem entrou por uma outra porta, aproximou-se da falsa Mudjé
Ar e começou a decifrar na blusa o nome dela, engolindo a primeira sílaba, com
a seriedade dos bêbados e de todos os que não estão convencidos da veracidade
dos acontecimentos que vivem a não ser depois de os terem lido transformados
em grandes títulos nas páginas dos jornais.
Galip adivinhou pelo ritmo do seu andar que a mulher, com um vestido
pintalgado como uma pele de leopardo, que se aproximava agora dele, devia ser
Turkan Soray. Talvez fosse a que mais se parecia com o original. A sua longa
cabeleira loura caía-lhe por cima do ombro direito.
— Posso fumar? — disselhe ela com um sorriso encantador, pondo um
cigarro sem filtro entre os lábios. Tem lume?
Galip acendeu o cigarro com o isqueiro, e o rosto da mulher desapareceu
numa nuvem de fumo incrivelmente densa. Num estranho silêncio que a
algazarra da música não conseguia perturbar, quando o rosto da mulher e os seus
olhos de pestanas muito compridas surgiram de novo por entre o fumo — como
os de uma santa que aparece do interior de uma nuvem —, Galip disse para
consigo, pela primeira vez na vida, que era capaz de se deitar com outra mulher
que não Ruya. Entregou dinheiro ao homem com ar de funcionário subalterno
que o apresentara sob o nome de Izzet.
Subiram para o piso de cima e entraram numa divisão um pouco mais
cuidadosamente mobilada. A mulher esmagou o cigarro num cinzeiro que
continha um anúncio do Akbank, e tirou logo a seguir outro do maço.
— Dá licença? — repetiu ela, sempre no mesmo tom e com o mesmo gesto
afectado. Com o cigarro ao canto da boca, lançava-lhe o mesmo olhar cheio de
soberba e o mesmo sorriso enfeitiçante. — Importa-se muito de me dar lume?
Galip viu-a inclinar a cabeça, sempre com o mesmo gesto encantador, e
tendo o cuidado de exibir os seios, na direcção de um isqueiro imaginário, e
compreendeu que aquele gesto e aquelas palavras eram tirados de um dos filmes
de Turkan Soray, e que ele próprio devia representar o principal papel masculino,
desempenhado por Izzet Gunay. Acendeu-lhe o cigarro e, pouco a pouco, os
grandes olhos negros com as pestanas muito compridas da mulher surgiram de
novo por entre uma nuvem tão incrivelmente densa como a anterior.
Como conseguiria ela fazer jorrar da boca tanto fumo, aquela nuvem só
realizável num estúdio?
— Porque é que ficas calado? — disselhe a mulher sorrindo.
— Não fico calado — disse Galip.
— A verdade é que tens um ar bem desembaraçado, mas não serás por acaso
tímido? — disse a mulher fingindo curiosidade e irritação. Repetiu a frase,
depois, sempre com os mesmos gestos. Os seus brincos enormes roçavam-lhe os
ombros nus.
Graças às fotografias — dessas que se exibem nos átrios dos cinemas —,
Galip deixou de ter dúvidas: aquele vestido “leopardo”, com as costas nuas até
às ancas, era o que Turkan Soray de facto usara havia vinte anos, num papel de
rapariga de bar, no filme A Minha Puta Bem-Amada em que era, ao lado de Izzet
Gunay, a actriz principal. Galip conseguiu até recordar certas frases do diálogo:
(com a cabeça de lado, como uma menina estragada de mimo e um pouco
melancólica, abrindo bruscamente as mãos que cruzara por baixo do queixo)
“Agora não posso ir dormir, assim que bebo um copo, só penso em divertir-
me!”; (com os modos de uma tia muito simpática que se preocupa com o filho
dos vizinhos) “Izzet, então vem a minha casa, podes esperar pelo encerramento
da ponte!”; (subitamente tomada de entusiasmo e de emoção) “Contigo, e hoje
mesmo, porque era este o meu destino!”; (como uma senhora elegante e distinta)
“Encantada por conhecê-lo... Encantada por tê-lo conhecido... Encantada...”
Galip fora sentar-se numa cadeira ao pé da porta. A mulher, pelo seu lado,
sentara-se num tamborete, em frente do espelho de um pequeno guarda-vestidos,
bastante parecido com o original do filme; penteava os longos cabelos pintados
de louro. No quadro do espelho, figurava, aliás, a fotografia dessa cena do filme.
Tinha umas costas realmente soberbas. Dirigiu-se ao reflexo de Galip no
espelho: — Devíamos ter-nos conhecido há muito tempo...
— Mas conhecemo-nos há muito tempo — replicou Galip, olhando-a no
espelho. — Não nos sentávamos no mesmo banco da escola, mas quando, nos
primeiros dias amenos da Primavera, se abriam as janelas da sala de aula depois
de grandes discussões entre prós e contras, eu contemplava, como estou a fazer
agora, o reflexo do teu rosto na vidraça que o quadro preto transformava em
espelho.
— Hum... Devíamos ter-nos conhecido há muito tempo.
— Conhecemo-nos há muito tempo — repetiu Galip. A primeira vez que te
vi, as tuas pernas pareceram-me tão delicadas, tão frágeis, que tive medo de as
ver partirem-se.
Parece-me que a tua pele era mais grossa quando eras miúda, mas quando
cresceste, durante os teus anos de liceu, ganhaste novas cores e a tua tez tornou-
se incrivelmente delicada. Nos dias quentes do Verão, quando fazíamos trinta
por uma linha lá em casa, ou quando voltávamos da praia, lambendo os nossos
cones de gelado comprados em Tarabya, e quando arranhávamos os braços para
escrever coisas na nossa pele esbranquiçada de sal, eu adorava a penugem dos
teus braços tão finos. Adorava as tuas pernas rosadas pelos raios do sol. Gostava
tanto dos teus cabelos que se espalhavam por cima da tua cara, quando estendias
o braço para tirares alguma coisa da prateleira por cima da minha cabeça...
— Devíamos ter-nos conhecido há muito tempo.
— Gostava das marcas que deixavam nas tuas costas as alças da camisola
que pedias emprestada à tua mãe; gostava da maneira como torcias o cabelo
entre os dedos quando estavas contrariada; de apanhares entre o indicador e o
médio o pedacinho de tabaco que se tinha colado à tua língua, quando ainda
fumavas cigarros sem filtro; de contemplares boquiaberta os filmes que
passavam no ecrã; e de, quando lias os teus policiais, mordiscares distraidamente
ou pistácios e os grãos-de-bico torrados que tiravas de um pratinho ao alcance da
mão; gostava da tua mania de estares sempre a perder as chaves, e de franzires
os olhos recusando-te a admitires a tua miopia. Amava-te também, cheio de
medo, quando fixavas o olhar na distância, quando adivinhava que estavas muito
longe de mim nos teus pensamentos. Amava-te com terror quando adivinhava os
teus pensamentos e mais ainda quando não os adivinhava, meu Deus!
Adivinhou uma vaga apreensão no rosto de Turkan Soray no espelho e
calou-se. A mulher foi deitar-se na cama, ao lado do guarda-vestidos.
— Vamos lá — disselhe ela. — Nada vale a pena... Nada de nada, estás a
ouvir-me?
Mas Galip hesitava, não saía da sua cadeira.
— Não gostavas da Turkan Soray? — perguntou-lhe a mulher, com um rasto
de ciúme na voz, sem que Galip fosse capaz de decidir se esse ciúme era real ou
se não passava uma vez' mais de um jogo.
— Sim, gosto muito.
— Também gostavas da minha maneira de pestanejar, não era?
— Gostava.
— Da minha maneira de descer as escadas para a praia na Bolinha, de
acender o cigarro na Minha Puta Bem-Amada e de fumar com uma boquilha na
Bomba Sexy, gostavas de todas essas coisas, não era?
— Muito.
— Então, vem cá, meu querido.
— Vamos continuar antes a falar.
— De quê?
Galip calou-se; reflectia.
— Como te chamas? Que fazes na vida?
— Sou advogado.
— Tive um advogado — disse a mulher. — Devorou todo o meu dinheiro,
mas não conseguiu recuperar o carro que o meu marido tinha posto em meu
nome. O carro pertencia-me, era meu, percebes, e agora ele ofereceu-o a uma
puta; um Chevrolet 56, vermelho como as camionetas dos bombeiros. Que
queres que eu faça com um advogado incapaz de fazer com que o meu carro me
seja restituído? Eras capaz de o recuperar, tu?
— Havia de conseguir — disse Galip.
— Conseguias? — disse a mulher. — Sim, havias de conseguir com certeza,
se fosses tu, eu bem sei. Se conseguires, caso-me contigo! Salvavas-me desta
vida que levo. Da vida de artista de cinema, estás a ver? Estou farta, farta de
fazer de artista. As pessoas desta terra são atrasadas mentais; para elas, uma
actriz de cinema é uma puta e não uma artista. Eu não sou actriz, eu, mas sou
uma artista, estás a perceber?
— Caro.
— Casavas-te comigo? — disselhe ela com vivacidade. — Se nos
casássemos, íamos passear no nosso carro. Casavas comigo, diz lá? Mas tinhas
de gostar de mim.
— Casava contigo, claro.
— Não, és tu que tens de mo perguntar! Diz assim: queres casar comigo?
— Queres casar comigo, Turkan?
— Não é assim. Faz-me a pergunta com sentimento; isso tem de te sair do
fundo do coração, como nos filmes! E para começar, põe-te de pé. Não se faz
uma pergunta dessas sentado.
Galip levantou-se de um pulo, como se se preparasse para cantar o hino
nacional: — Turkan! Queres casar comigo, queres?
— É que eu não sou virgem — disse a mulher. — Aconteceu-me um
acidente.
— Como foi? A montar a cavalo? Ou a escorregar pelo corrimão das
escadas?
— Não, a passar a ferro. Estás a brincar, mas soube ontem que o sultão
ordenou que te cortassem o pescoço! És casado?
— Sim.
— Calham-me sempre homens casados! — exclamou a mulher, num tom
extraído de A Minha Puta Bem-Amada. Mas não tem importância nenhuma. O
que importa é a Sociedade Nacional dos Caminhos-de-Ferro! Na tua opinião,
que clube vai ganhar a Taça da Turquia? E além disso, diz-me outra coisa, na tua
opinião, que vai ser deste país? Na tua opinião, quando é que o exército vai
acabar com a anarquia? Fazias melhor se cortasses o cabelo, sabes...?
— Nada de observações pessoais — disselhe Galip. — Não é correcto.
— Mas eu não disse nada de mal! — exclamou a mulher fingindo surpresa;
pestanejava com força, abrindo muito os olhos, como Turkan Soray. —
Perguntei-te se eras capaz de recuperar o meu carro, e aceitava casar-me contigo;
ou melhor, queres casar comigo se recuperares o meu carro? A matrícula é: 34
CG 19-. “A 19 de Maio de 1919, pôs-se em marcha saindo de Samsun e salvou a
Anatólia!”, como diz o hino. Um Chevrolet 56”.
— Fala-me do Chevrolet] — disse Galip.
— Com muito gosto, mas daqui a nada eles começam a bater à porta. A
vizita está a chegar ao fim.
— Não se diz vizita, em turco.
— O que é que estás para aí a dizer?
— O dinheiro não tem importância — disse Galip.
— É o que eu acho também — disse a mulher. — Um Chevrolet 56
vermelho, exactamente da cor das minhas unhas, olha! Tenho uma unha partida,
viste? Talvez o Chevrolet tenha batido nalgum lado. Antes de o sacana do meu
marido o oferecer àquela puta, eu pegava no Chevrolet para vir até aqui. Mas
agora já só me cruzo com ele na rua, estou a falar do carro, encontro-o às vezes
num canto da praça de Taksim, e é outra pessoa qualquer que o guia, ou então
diante do cais de Karakeuy, quando estou à espera de alguém. Mas sempre com
um condutor diferente. A ordinária gosta de carros, isso é uma coisa que se vê,
está sempre a mandá-lo pintar. Um dia, o meu Chevrolet é castanho escuro, no
dia seguinte mudaram-lhe os niquelados e os faróis, e o carro está cor de café
com leite. No outro dia, é um carro de noiva, um carro florido, corde-rosa, e tem
uma boneca cor-de-rosa à frente, e depois, passada uma semana, voltaram a
pintá-lo de preto, e tem seis chuis de bigode preto uns em cima dos outros lá
dentro, e transformou-se numa carrinha de transporte de presos. Tem até escrito
“polícia”, não há engano possível. Claro, de umas vezes para as outras, mudam
sempre a matrícula para me impedirem de o reconhecer.
— Evidentemente.
— Evidentemente — repetiu a mulher. — E esses motoristas: todos, e esses
chuis todos, são os chulos da mulherzinha, mas o corno do meu marido não dá
por nada, o gajo. Pois foi, um dia deixou-me... Nunca te deixaram, a ti? Em que
dia estamos hoje?
— A 12.
— O tempo passa tão depressa! E tu continuas a fazer-me falar... Ou vais
pedir um tratamento especial? Diz-me, não tem importância, um senhor distinto
como tu, gostei muito de ti, trazes muito dinheiro, és realmente rico? Ou um
vendedor de frutas e hortaliça como o Izzet? Não, és advogado. Faz-me
responder a uma adivinha, senhor advogado.
Bom, vou eu fazer-te responder a uma, eu: qual é a diferença entre o sultão e
a ponte do Bósforo?
— Não sei.
— E entre o Atatiirk e o Profeta?
— Não sei de todo.
— Desistes com muita facilidade! — exclamou ela, e, afastando-se do
espelho onde se mirava, segredou a resposta ao ouvido de Galip, entre acessos
de riso. Depois pendurou-selhe ao pescoço: — Vamos casar os dois, vamos casar
os dois”, murmurou. — Vamos subir juntos ao alto do Monte Kaf. Vamos ser um
do outro. Vamos transformar-nos noutro homem e noutra mulher... Toma-me,
toma-me...
Beijaram-se, sempre na mesma atmosfera de jogo. Que haveria naquela
mulher que o fazia lembrar-se de Ruya? Nada de nada, mas Galip sentia-se bem
com ela. Quando se deixaram cair na cama, a mulher teve um gesto que o fez
pensar em Ruya, e todavia não o fizera bem como Ruya. Sempre que a língua de
Ruya penetrava na boca dele, Galip dizia para consigo que, nesse instante, ela se
tornava outra mulher, e essa ideia atormentava-o.
A pseudo-Turkan Soray, pelo seu lado, introduziu a sua língua — mais longa
e mais grossa do que a de Ruya — na boca de Galip, não num gesto de triunfo,
mas com amabilidade e leveza como se se tratasse de uma brincadeira, e Galip
sentiu uma transformação, não na mulher que tinha nos braços, mas em si
próprio, e comoveu-se. A mulher afastou-o sempre como se fosse um jogo, e, tal
como nas cenas de amor tão pouco realistas que se vêem nos filmes turcos, os
dois rolaram de um extremo ao outro da grande cama, um por cima do outro,
alternadamente. — Dás-me a volta à cabeça! — disse a mulher, imitando algum
fantasma ausente e simulando ter vertigens. Galip notou então que podiam ver-se
no espelho, de um extremo da cama ao outro, e compreendeu porque era que
aquelas cambalhotas tão agradáveis haviam sido consideradas necessárias. E
quando a mulher se despiu e o ajudou a tirar a roupa, Galip seguiu com os olhos
e com prazer as imagens de ambos no espelho. Mais tarde, observaram nele até
se fartarem os talentos da mulher, como se se tratasse de uma terceira pessoa,
quais membros do júri de uma prova de ginástica, frente a um candidato que
executa as figuras obrigatórias — ainda que, apesar de tudo, com um pouco mais
de bom humor. Mais tarde ainda, no preciso instante em que Galip deu por si
incapaz de olhar para o espelho: — Tu e eu, nós já não somos os mesmos! —
disse a mulher, enquanto estremecia sobre as molas silenciosas do colchão. —
Quem sou eu, quem sou? — perguntou ela. Mas Galip não lhe deu a resposta que
ela esperava. Deixou-se ir. Ouviu a mulher murmurar — Duas vezes dois, quatro
— e depois — Ouve-me, ouve-me! — falando-lhe de um vago sultão e das
desgraças do seu herdeiro, e repetindo insistentemente “diz-se que... parece
que... pensa-se que...”, como se lhe contasse uma história de fadas ou lhe
descrevesse um sonho.
— Se eu sou tu, e se tu és eu, que importa? — acrescentou a mulher
enquanto voltavam a vestir-se. — Se tu és eu e se eu sou tu, diz! — Sorria-lhe,
com um olhar cheio de astúcia. — Gostaste dela, da tua Turkan Soray?
— Muito.
— Então, vem socorrer-me, ajuda-me a escapar a esta existência, a ir-me
embora daqui, vamos para outro lado, tu e eu, para longe daqui, vamos fugir,
vamos casar-nos, vamos refazer a nossa vida!
A que filme pertencia aquela cena? Galip hesitava. Talvez fosse isso o que a
mulher desejava. Ela tinha declarado que não acreditava que ele fosse casado; os
homens casados, ela conhecia-os muito bem. Se ele se casasse com ela, se
conseguisse recuperar o Chevrolet 56, passeariam ao longo do Bósforo,
comprariam coscorões em Emigân, e em Taraya, contemplariam o mar, para
acabarem por ir jantar a Buyuk-Déré.
— Eu detesto Buyuk-Déré — declarou Galip.
— Nesse caso, é em vão que o esperas, a Ele! — disse a mulher. — Ele
nunca há-de chegar!
— Não tenho pressa.
— Tenho eu — obstinou-se ela. — Mas tenho medo de não o reconhecer
quando chegar.
Tenho medo de o ver depois dos outros todos. De ser a última a vê-lo, a Ele.
— Mas Ele, quem é Ele? — perguntou Galip.
Ela fez um sorriso misterioso: — Nunca vais ao cinema, tu? Não conheces a
regra do jogo?
No nosso país, deixa-se com vida os que falam destas coisas? É que eu quero
viver!
Estava a contar-lhe a história de uma sua amiga, misteriosamente
desaparecida, e que fora sem dúvida executada, tendo sido a seguir atirado ao
Bósforo o seu cadáver, quando lhes bateram à porta. A mulher calou-se. Galip
estava a sair, no instante em que ela segredou nas suas costas: — Estamos à
espera Dele, todos, todos. Esperamos por Ele...

CAPÍTULO XIV

TODOS O ESPERAMOS

“Amo apaixonadamente as coisas misteriosas.”
Dostoievski


Todos O esperamos. Estamos, há séculos, todos à espera Dele. Esperamo-Lo,
nós, que, angustiados e extenuados pela multidão da ponte de Gaiata,
contemplamos com dor as águas de um cinzento de ferro do Corno de Ouro; nós,
que vamos pondo mais lenha no fogão impotente para aquecer a única divisão da
nossa casa junto às muralhas; nós, que subimos as intermináveis escadas de uma
velha casa grega numa ruela do bairro de Djihanguir; nós ainda que, numa
povoação perdida da Anatólia e na expectativa de um encontro com um amigo,
mergulhamos nas palavras cruzadas de um jornal de Istambul; nós, que
sonhamos apanhar um dia um desses aviões de que os jornais falam e cujas
fotografias publicam; entrar nos salões cintilantes de luz, enlaçar corpos
soberbos; nós esperamo-Lo. É Ele ainda que esperamos quando caminhamos,
melancólicos, por passeios cobertos de lama, transportando na mão embrulhos
de papel feitos com velhos jornais lidos e relidos, ou sacos de plástico da pior
qualidade, que impregnam do seu cheiro sintético as maçãs que contêm, sacos de
rede para provisões que deixam marcas violáceas na palma e nos dedos das
nossas mãos. Esperamo-Lo, quando voltamos do cinema onde acabamos de
acompanhar, com um prazer incansável, as aventuras de homens que, todos os
sábados à noite, partem vidros e garrafas, e de mulheres mais belas umas que as
outras; quando voltamos da rua dos bordéis, onde nos deitamos com putas, que
exacerbam ainda mais em nós o sentimento de solidão; das tabernas onde os
amigos se riem implacavelmente de nós por causa das nossas pequenas manias,
ou ainda de casa dos nossos vizinhos, onde nem sequer conseguimos ouvir a
peça do “Teatro Radiofónico”, porque os seus filhos turbulentos não se decidem
a adormecer, todos O esperamos. Entre nós, alguns afirmam que Ele aparecerá
num lugar qualquer, nos bairros pobres, onde os garotos descarados partem as
lâmpadas dos candeeiros de rua a golpes de funda. Outros dizem que surgirá
diante dessas lojas onde há descrentes que vendem bilhetes da Lotaria Nacional
ou boletins de apostas desportivas, revistas com fotografias de mulheres nuas,
brinquedos, cigarros, preservativos e todo o mais estranho bricabraque. Mas
pouco importa o sítio onde Ele aparecerá, nessas churrasqueiras onde garotos
preparam carne picada doze horas por dia; ou nas salas de cinema, onde milhares
de pupilas se transformam num só olho ardente do mesmo desejo; ou ainda nas
verdes colinas onde pastores, tão inocentes como os anjos, são embruxados pelos
ciprestes dos cemitérios, porque toda a gente afirma que o bem-aventurado
escolhido que primeiro O verá o indentificará no mesmo instante. E poderemos
então compreender todos que a nossa espera — tão longa como o infinito e tão
breve como o pestanejar de um olho — terá chegado ao fim, e que terá vindo o
tempo da Redenção.
O Corão só é claro a este respeito para os que sabem decifrar as Escrituras
(versículo 97 da surata Al-Isrâ, versículo 23 da surata Az-Zumer, onde se diz que
o Corão desceu do céu “numa Escritura nas suas partes, semelhantes a
Repetidas”, etc). Segundo o livro O Começo e a História de Mutahhar Ibn Tahir,
de Jerusalém, que o escreveu trezentos e cinquenta anos depois da descida do
céu do Corão, as únicas provas de que dispomos a este respeito são as palavras
de Mahomet: “Alguém, cujos nome, aparência e acção serão semelhantes aos
meus, mostrará o Caminho”, e os testemunhos daqueles que transmitiram uma
ou outra hadith. E trezentos e cinquenta anos mais tarde ainda, vemos Ibn Batuta
fazer uma breve alusão ao tema no seu Livro das Viagens, onde nos diz que a
Sua aparição é esperada, acompanhada de um ritual completo, nos subterrâneos
do Turbh Hakim-ul Vakt dos chiitas em Samarra. Trinta anos depois, a darmos
crédito ao que Firuz Shah ditou ao seu secretário, nas ruas amarelas e poeirentas
de Deli, milhares de desgraçados aguardavam a sua vinda, bem como o mistério
das Letras que Ele lhes revelaria. Sempre na mesma época, no Mukaddime onde
Ibn Haldun estuda uma a uma as hadith que se referem à Sua vinda,
desembaraçando-as das fontes chiitas extremistas, podemos comprovar a
importância assumida por um outro aspecto do problema: ao mesmo tempo que
Ele, o Dejjal, ou Satã, ou ainda o Anticristo, se quisermos utilizar a concepção e
a terminologia ocidentais, aparecerá igualmente, mas Ele matá-lo-á nesses dias
de apocalipse e de redenção.
O mais surpreendente é que toda a gente espera e aguarda a vinda do
Redentor, mas ninguém — nem o meu querido leitor Mehmet Yilmaz, que me
comunicou a “visão” que teve, numa modesta povoação da Anatólia; nem Ibn
Arabí, que, setecentos anos antes dele, descreveu no seu Ankayi Mugrib a
mesma visão; nem o filósofo El-Kindi que, há onze mil anos, O viu num sonho
conduzindo as turbas dos seus fiéis resgatados à conquista de Istambul, para
arrebatar a cidade aos cristãos; nem tão-pouco a vendedora que, séculos e
séculos após a realização desse sonho, continua a sonhar com ele na sua
retrosaria, entre as caixas de carrinhos de linha e de botões e meias de nylon —,
ninguém pôde jamais imaginar o Seu rosto.
Pelo contrário, podemos muito bem imaginar o Dejjal: é ruivo e vesgo,
segundo o Enbiya de Bukhari, que, no Hadj, nos ensina que traz o nome inscrito
no rosto; Dejjal tem um pescoço muito grosso segundo Tayalisi. No Tevhidát
Hodja Nizamettine éfendi, que o descobre numa visão tida mil anos depois em
Istambul, tem os olhos vermelhos e o rosto ossudo. Nos meus primórdios de
jornalista, numa banda desenhada que descrevia as aventuras de um guerreiro
turco e que era publicada pelo jornal Karagueuz, muito popular na Anatólia,
Dejjal era representado como um monstro com a boca torta. O nosso guerreiro,
que entrava em numerosas intrigas de amor com as belas de Constantinopla
antes da Conquista, travava, com ardis incríveis (alguns dos quais eram soprados
por mim ao autor da banda), um combate encarniçado contra um Dejjal de testa
muito larga, com um nariz imenso num rosto imberbe. Enquanto o Dejjal sempre
inspirou a nossa imaginação visual, o facto de o único dos nossos escritores ter
sabido evocar sob todos os seus aspectos o Redentor que todos esperamos haver
sido o Doutor Férit Kemal, reduzido a escrever em francês o seu romance O
Grande Pachá e a só em 1870 o publicar em Paris, é por muitos considerado
como uma grave lacuna da nossa literatura.
Do mesmo modo que é injusto considerar que O Grande Pachá, essa obra
que O descreve com um realismo extremo, não faz parte da nossa literatura pelo
facto de ter sido escrita em francês, são bem lamentáveis essas teses que
reflectem um profundo complexo de inferioridade, defendidas em revistas
antiocidentais, como Sadirvan e Buyuk Dogu, e segundo as quais a passagem do
Grande Inquisidor em Os Irmãos Karamazov não passaria de um plágio desse
pequeno texto. Esta lenda dos plágios do Oriente e do Ocidente inspira-me
sempre a mesma reflexão: se o universo dos sonhos a que chamamos o
universo é uma casa onde penetramos com o assombro do sonâmbulo, as
diversas literaturas, pelo seu lado, parecem-se com relógios nas paredes dessa
morada a que procuramos habituar-nos. Por conseguinte:

1 — É estúpido afirmar que este ou aquele de entre os relógios que se ouvem
numa das divisões da casa dos sonhos tem ou não horas certas;
2 — É igualmente estúpido declarar que um desses relógios está adiantado
cinco horas, porque poderia deduzir-se, segundo a mesma lógica, que esse
mesmo relógio está atrasado sete horas.
3 — Se são nove horas e trinta e cinco num desses relógios, e se um outro
relógio indica nove horas e trinta e cinco ao fim de algum tempo, chegar à
conclusão de que o segundo imita o primeiro é absurdo.

Um ano antes de assistir ao enterro de Ibn Rushd (Averróis) em Córdova, Ibn
Arabí, autor de mais de duzentas obras sobre o sufismo, encontrava-se em Fez;
aí redigia um livro inspirado pela visão narrada pela surata corânica que acima
referi (suplico ao tipógrafo que use com discernimento as indicações de lugar
segundo a posição desta linha na coluna), a de Al-Isrâ, onde se diz que
Mahomet, transportado uma noite até Quds (Jerusalém), subiu ao céu servindo-
se de uma escada (é a Ascensão Nocturna, Mirâj, em árabe) e que do alto pôde
contemplar o Paraíso e o Inferno. Uma vez que Ibn Arabí nos conta no seu livro
como, conduzido pelo seu guia, Mahomet percorreu os Sete Céus, o que viu, as
suas conversas com os Profetas que encontrou, e dado que escreveu o livro com
trinta e cinco anos de idade (em 1198), concluir que Nizhâm, a jovem que
aparece na visão em causa, é o original do qual Beatriz se limita a ser a cópia;
que a verdade está em Ibn Arabí e o erro em Dante; que o Kitab al-lsrâ ilâ
Maqâm al-Asrâ é o original e A Divina Comédia um plágio é uma ilustração por
excelência dos disparates a que há pouco aludi.
Tendo o filósofo andaluz Ibn Tufeyl escrito no século XI a história de uma
criança que, a seguir a um naufrágio, se vê só numa ilha deserta e que nela passa
anos, descobrindo na ilha, além de uma corça que a alimenta com o seu leite, a
natureza e as coisas e o mar e os céus e a morte e as “realidades divinas”,
concluir que Havy Ibn Yakzan se adianta seiscentos anos a Robinson Crusoé, ou,
pelo contrário, uma vez que o segundo romance sabe descrever as coisas e os
instrumentos muito mais rigorosamente do que o primeiro, sustentar que Ibn
Tufeyl está seis séculos atrasado em relação a Daniel Defoe é uma ilustração do
segundo absurdo.
No mês de Março de 1761, na sequência de uma reflexão irreflectida de um
amigo pouco discreto que viera visitá-lo uma sexta-feira à noite, e que, tendo
visto um esplêndido armário no seu gabinete de trabalho, exclamara: “Hodja
éfendi, há tanta desarrumação no teu armário como na tua cabeça!”, Hadji
Veliyyudin éfendi, cheikbulislâm sob o reino de Mustafá III, foi tomado de uma
brusca inspiração e começou a redigir um longo mesnevi, baseado na
comparação entre a sua razão e o armário de nogueira, a fim de provar que
reinava tanto numa como no outro a mesma ordem perfeita. Do facto de nesse
mesnevi o autor nos mostrar que, tal como aquele magnífico armário com dois
batentes, quatro prateleiras e doze gavetas, obra-prima de um artesão arménio, a
nossa razão comporta, também ela, doze compartimentos, onde se arrumam o
tempo, o espaço, os escritos, os números e várias outras coisas a que chamamos
hoje causalidade, existência, determinismo, e do facto ainda de o ter feito vinte
anos de Kant ter publicado o seu livro mais célebre, no qual enumera as doze
categorias da razão pura, concluir que o alemão plagiou o turco é um exemplo da
estupidez número três.
O Doutor Férit Kemal, que traçava um retrato extremamente vivo do Grande
Redentor que todos esperamos, não se sentiria surpreendido se soubesse que um
século mais tarde os seus contemporâneos se interessariam por ele unicamente
devido a dislates que tais, porque a sua vida correra numa atmosfera de
indiferença e de esquecimento, que o entregara a si próprio num silêncio de
sonho. Hoje, não sou capaz de imaginar o seu rosto — do qual não nos resta uma
fotografia que seja — a não ser como o rosto, espectral, de um sonâmbulo.
Era um grande fumador de haxixe. Sabemos, pelo estudo maldoso que se
chama Os Novos Otomanos e a Liberdade e que Abdurrahman Serif lhe
consagrou, que Kemal suscitou uma habituação ao ópio em numerosos dos seus
pacientes de Paris. Em 1866 — sim, um ano antes da segunda viagem de
Dostoievski à Europa — partira para Paris, impelido por um vago sentimento de
revolta e pelo gosto pela liberdade. Publicou alguns artigos nos jornais Hurriyet
e Muhbir, editados na Europa; mas, enquanto os Jovens Turcos acabavam por se
entender com Serralho e regressavam uns atrás dos outros à Turquia, ele
continuara em Paris. Não voltamos a encontrar mais rasto dele. Uma vez que
alude no prefácio do seu livro aos Paraísos Artificiais de Baudelaire, talvez
tivesse ouvido falar de De Quincey, de quem eu tanto gosto; talvez se tenha ele
próprio entregado a experiências com ópio. Mas não encontramos qualquer
alusão a tais práticas nas páginas em que nos fala Dele. Nelas encontramos, pelo
contrário, uma lógica robusta, que hoje muita falta nos faz. Se escrevo esta
crónica, é para falar dessa lógica, para dar a conhecer aos oficiais patriotas das
nossas forças armadas as ideias irrecusáveis expostas n'O Grande Pachá.
Mas se queremos compreender uma tal lógica, temos de penetrar primeiro na
atmosfera evocada pela obra: imaginem um livro encadernado a azul, impresso
num grosseiro papel amarelo, pelas edições ;! Poulet-Malassis, em Paris, no ano
de 1870; noventa e seis páginas apenas. Imaginem também ilustrações, motivos
decorativos, objectos, silhuetas, devidos a um pintor francês (de Tennielle) que,
mais que a Istambul da época, lembram as ruas pavimentadas, os passeios, os
edifícios da Istambul de hoje, e que fazem pensar não nas enxovias de pedra e
nos instrumentos de tortura tão primitivos de outrora, mas nas ratoeiras de
cimento e nos meios de tortura, por suspensão ou choques eléctricos,
característicos da nossa época.
O livro começa pela descrição de uma ruela de Istambul; é de noite. O
silêncio só é quebrado pelas pancadas que os guarda-nocturnos dão com os seus
paus na calçada e pelos uivos das matilhas de cães que se batem nos bairros mais
remotos. Não se vê uma luz nas janelas com gelosias de madeira das casas
também de madeira. Um vago fumo sai de um tubo de chaminé de fogão,
mistura-se à leve bruma que cai sobre os telhados e as cúpulas.
Neste profundo silêncio, um som de passos no passeio deserto. E para todos
os que se preparam para enfiar-se na sua cama glacial embrulhados em vários
casacos de malha, e para os que sonham já, cobertos por dois ou três edredões,
esse ruído estranho, inesperado, anuncia uma boa nova.
E no dia seguinte, são as manifestações de regozijo, sob um céu cheio de sol
que faz esquecer as trevas e as angústias da noite. Todos O reconheceram e O
identificaram. Todos compreenderam que a hora chegou, que a era das
desgraças, que no seu desespero acreditavam que nunca mais teria fim, passou
para todo o sempre. Nesta atmosfera de festa, à volta dos carrosséis de cavalos
de pau, no meio da multidão — desses homens e dessas mulheres que trocam
gracejos, dessas crianças que devoram rebuçados de açúcar ou algodão doce,
desses inimigos de sempre agora reconciliados, e de todos os que dançam ao
som dos clarinetes e dos grandes tambores — eis a presença Dele. Mais que um
super-homem libertador que avança por entre os deserdados que quer conduzir
rumo a dias mais belos voando de vitória em vitória, é um irmão mais velho que
passeia no meio dos seus.
Mas a sombra de uma inquietação, de um pressentimento vela-Lhe o rosto. E
enquanto anda assim pelas ruas, mergulhado nas suas reflexões, acontece que os
homens do Grande Pachá se apoderam Dele e o fecham num dos frios cárceres
abobadados e de pedra da cidade. O Grande Pachá vem vê-Lo em plena noite,
com uma vela na mão, e fica a falar com Ele até ser de manhã. Quem é este
Grand Pachep. Não traduzo do francês para o turco o nome deste personagem
tão especial, porque, tal como o seu autor, deixo a cargo do leitor, em plena
liberdade, a decisão. Podemos imaginar, dado o seu título de pachá, que se trata
de um homem de Estado importante, de um comandante ilustre ou de um militar
de alta patente. Se tivermos em conta a lógica do seu discurso, podemos pensar
que se trata igualmente de um filósofo, ou de um grande homem que ascendeu à
sabedoria, de um desses personagens tão numerosos na nossa história, mais
preocupados com os interesses do Estado e da nação do que com os seus
próprios. No cárcere, durante toda a noite, o Grande Pachá fala, e escuta. E
foram as seguintes as palavras e a lógica que fizeram com que Ele se calasse e
acabasse por se deixar convencer:

1 — Como todos os outros, adivinhei imediatamente quem eras! (Assim
começa o discurso do Grande Pachá.) Não precisei de recorrer às predições que
falam da tua aparição, nem aos Sinais vindos do céu ou contidos no Corão, nem
aos segredos das letras e dos números, como os homens têm feito há centenas e
há milhares de anos. Compreendi quem tu eras assim que li, em todos os rostos,
a alegria e o entusiasmo da vitória. Agora, o que esperam de ti é que os faças
esquecer as suas preocupações e as suas desgraças, que lhes devolvas a
esperança que perderam, que os conduzas de vitória em vitória, mas poderás tu
fazer tudo isso? Há séculos, o Profeta conseguiu insuflar esperança nos
deserdados, porque, graças à sua espada, soube, ele sim, fazê-los voar de vitória
em vitória. Ao passo que hoje, por mais forte que seja a nossa fé, as armas dos
inimigos do Islão são mais poderosas do que as nossas. O sucesso militar é
doravante completamente impossível! Não o provam esses falsos Mehdis que
aparecem nas índias ou em África, e que, depois de infligirem algumas derrotas
aos ingleses ou aos franceses, são finalmente esmagados, aniquilados,
provocando assim as maiores desolações? (Ao longo de todas estas páginas, as
comparações nos domínios económico e militar tendem a demonstrar que é
doravante impossível, não só para o Islão, mas para o Oriente inteiro, obter sobre
o Ocidente uma única vitória importante.
Com a honestidade de um político realista, o Grande Pachá contrasta o nível
das riquezas ocidentais com a miséria do Oriente. E Ele, porque não é um
charlatão, mas porque é realmente Ele, admite com o seu silêncio melancólico a
realidade do sombrio quadro que lhe é traçado.)
2 — Mas esta aterradora miséria não significa naturalmente que toda a
esperança seja interdita aos infelizes (acrescenta o Grande Pachá, muito mais
tarde, já bem depois da meia-noite). Quer simplesmente dizer que não podemos
declarar a guerra ao inimigo do exterior. Que se passa, porém, com o inimigo do
interior?
A origem de todas as nossas misérias, das nossas desgraças não poderão ser
os pecadores, os usurários, os déspotas, os tiranos entre nós, e também os que
simulam a virtude? Vês bem, não é verdade?, que podes suscitar entre os nossos
irmãos deserdados a esperança da vitória e da felicidade travando a batalha
contra o inimigo do interior? Trata-se, portanto, como estás a ver, de um
combate a travar não com soldados heróicos, mas rodeando-os de polícias, de
delatores, de carrascos, de torcionários. E preciso apontar um culpado a todos os
desesperados; eles hão-de imaginar assim que com a eliminação dos
responsáveis pela sua miséria, o universo voltará a ser um paraíso. E é isto que
nos temos limitado a fazer desde há trezentos anos. Para devolvermos a
esperança aos nossos irmãos, apontamos-lhes a dedo os culpados. E os nossos
irmãos acreditam em nós, porque precisam tanto de esperança como de pão.
Entre os culpados designados, os que são mais inteligentes e mais honestos,
antes de sofrerem o seu castigo, e porque compreendem a lógica do método,
confessam todas as faltas mínimas que cometeram, exageram-nas até,
unicamente para devolverem um pouco de esperança aos seus irmãos infelizes.
Chegamos até a perdoar alguns deles, que vêm então engrossar as nossas fileiras,
lançam-se connosco na caça aos culpados. Tanto como o Corão, é a esperança
que mantém de pé não só a nossa vida espiritual e moral, mas igualmente a nossa
vida terrestre, material. Porque aos nossos olhos a esperança e a liberdade nunca
se dissociam do nosso pão quotidiano.

3 — Sei que és suficientemente forte para conseguir o que esperamos de ti;
que o sentimento de justiça que te anima te permitirá designar os culpados, sem
a menor piedade, a ponto de os submeteres à tortura, em legítima defesa. Porque
tu és Ele. Mas por quanto tempo conseguirás iludir as multidões com essa
esperança? A multidão acabará por compreender que nada foi resolvido. E como
não verá a sua fatia de pão aumentar, a esperança que lhe terás inspirado esgotar-
se-á pouco a pouco. Então, os infelizes perderão uma vez mais a sua fé no Corão
e tanto no universo terrestre como no do além; voltarão a cair no pessimismo
mais sombrio, na imoralidade, na miséria da alma. Pior ainda, começarão a
duvidar de ti, a odiar-te. Os ex-delatores sentirão remorsos por terem
abandonado os falsos culpados aos teus torcionários e aos teus carrascos tão
cheios de zelo.
Os polícias e os carcereiros ficarão tão cansados do absurdo das torturas que
terão de praticar que nada lhes despertará qualquer interesse, nem os métodos
mais recentes, nem a esperança que terás querido suscitar neles. Dir-te-ão que as
suas desgraçadas vítimas, esses cachos humanos pendentes das forcas, foram
sacrificadas para nada. Compreendes sem dúvida que as pessoas deixarão de
acreditar em ti, e também nas histórias que possas contar-lhes.
Mas, como sabes, há outra coisa ainda mais grave: no dia em que deixar de
haver uma história em que todos possam acreditar, cada um inventará a sua, cada
um terá a sua própria história, cada um quererá contar uma história só sua. Nas
ruas sujas das cidades apinhadas, nas Vpraças cobertas de lama e desordenadas,
errarão milhões de miseráveis, movendo-se como sonâmbulos. Cada um com a
sua própria história, que trará coroando-lhe a cabeça como uma auréola de má
sorte. E aos seus olhos, tu já não serás Tu, ter-te-ás volvido no Dejjal e eles
confundir-te-ão com ele; será nas suas histórias que desejarão acreditar. O Dejjal
poderá ser eu, que terei obtido a vitória, ou qualquer outro, pouco importa.
Explicará aos infelizes que os iludes desde o começo, que os alimentas de
mentiras quando lhes falas de esperança, dir-lhes-ás que és o Dejjal. Pode
também acontecer que não precisem de ir tão longe. É possível que, por uma
noite sombria, numa rua sombria, o próprio Dejjal, ou qualquer pobre vagabundo
persuadido de estar a ser enganado ano após ano, dispare com a sua arma sobre
ti, sobre o teu corpo, que todos haviam durante tanto tempo crido imortal.
Assim, porque lhes deste a esperança ao longo de muitos anos, porque os
iludiste durante tanto tempo, o teu cadáver será encontrado num desses passeios
lamacentos, numa dessas ruas cobertas de lodo, a que te terás habituado ao ponto
de as amar.


CAPÍTULO XV

AS HISTÓRIAS DE AMOR DA NOITE SOB A NEVE

“Os ociosos e os apaixonados por contos e por histórias...”
Mevlâna


Galip acabava de sair do quarto da falsa Turkan Soray, quando voltou a
encontrar o homem saído de um filme a preto e branco, que partilhara com ele
um táxi entre Sirkedji e Galatasaray. Estava nesse momento diante da esquadra
de Beyoglou e não conseguia decidir o que ia fazer, quando um carro da polícia,
cujo farol rotativo se acendia intermitentemente, dobrou a esquina e se deteve
junto ao passeio. Galip deteve-se também.
Reconheceu de pronto o homem que aos empurrões faziam sair do
automóvel pela porta de trás. O seu ar de personagem de filme a preto e branco
desaparecera, e a expressão do seu rosto, agora animado, convinha melhor às
tonalidades sem inocência do azul-marinho da noite. Ao canto da boca, via-se
uma marca vermelha e escura, uma mancha de sangue que ele não tentava limpar
e onde se reflectiam as luzes violentas que protegiam contra qualquer assalto a
fachada da esquadra. Um dos polícias trazia na mão a pasta de homem de
negócios que o homem apertara tão fortemente contra si a bordo do táxi.
Avançava de cabeça baixa, com a resignação do culpado que confessou, o que
não o impedia de parecer extremamente satisfeito consigo. Quando deu por
Galip junto aos degraus da entrada da esquadra, lançou-lhe um breve olhar que
exprimia um bom humor estranho, e até mesmo um pouco inquietante: — Boa-
noite, caro senhor!
— Boa-noite — respondeu Galip, hesitando.
— Quem é este? — perguntou um dos polícias, indicando Galip. Mas os
polícias impeliam já o homem para o interior do edifício, e Galip não pôde ouvir
a resposta.
Era mais de uma hora da manhã quando chegou à avenida; havia ainda
transeuntes nos passeios cobertos de neve. “Há um café aberto toda a noite numa
das ruas paralelas aos jardins do consulado da Grã-Bretanha”, lembrou-se ele,
“frequentado por intelectuais, e não por novos-ricos que chegam da província
para estoirarem o dinheiro em Istambul.” Era sempre Ruya quem descobria este
género de informações nas revistas que falam em tom irónico dos novos sítios da
moda. Diante do velho hotel Tokatliyan, encontrou Iskender.
Adivinhava-se pelo seu hálito que bebera muito raki. Fora buscar ao Péra-
Palace os jornalistas da BBC para os fazer viver as mil e uma noites de Istambul
(cães revolvendo os caixotes do lixo, vendedores de tapetes ou de droga,
dançarinas do ventre com a barriga demasiado gorda, jovens delinquentes dos
bares nocturnos, etc), e levara-os a um estabelecimento situado numa rua
perdida. Um tipo estranho, com uma pasta na mão, provocara uma rixa, não com
eles, não, mas por causa de uma palavra mal interpretada, e os polícias tinham
chegado, levando-o. Alguém fugira por uma janela. Em resumo, depois de toda
aquela confusão, outros clientes, que não conheciam, tinham vindo partilhar a
mesa deles, o que prometia uma noite agradável, Galip podia participar também,
se assim quisesse. Galip seguiu Iskender, à procura de cigarros sem filtro,
subiram ambos, depois voltaram a descer a avenida, e entraram num bar que se
chamava “Clube da Noite”. Galip foi acolhido com ruído, bom humor e
indiferença. Uma mulher muito bonita, que fazia parte da equipa dos jornalistas
britânicos, estava a contar uma história. A orquestra alia turca calara-se; um
prestidigitador tirava caixas e mais caixas, e ainda mais caixas, de dentro de
outras caixas. A rapariga que o assistia tinha as pernas mal feitas e deixava ver
abaixo do umbigo a cicatriz de uma cesariana. Galip disse para consigo que ela
seria quando muito capaz de dar à luz um coelho sonolento, como o que tinha
nos braços. Depois de um número de “rádio invisível”, extraído do repertório do
mago Zati Sungur, o ilusionista recomeçou a manipular as suas caixas e os
clientes deixaram de manifestar o mais pequeno interesse pelos seus gestos.
No outro extremo da mesa, Iskender traduzia para turco aquilo que a
jornalista inglesa dizia. Optimista, Galip, que perdera o começo da história,
persuadiu-se de que o rosto expressivo da jovem lhe permitiria compreender
tudo. Tanto quanto pôde entender, havia uma mulher (tratava-se decerto, disse
ele para consigo, da própria narradora) que procurava convencer o homem, que a
amava e a conhecia desde os nove anos de idade, do poder mágico de uma
inscrição numa moeda bizantina descoberta por um mergulhador.
Cego pelo amor que a mulher lhe inspirava, o homem era incapaz de
distinguir a fórmula mágica na moeda e não podia fazer outra coisa que não
fosse continuar a escrever poemas de amor.
— Assim, graças à moeda bizantina descoberta por um mergulhador no
fundo do mar, os dois primos puderam finalmente casar. Mas a mulher, que, pelo
seu lado, tinha acreditado no encanto exercido pelo rosto gravado na moeda, vira
a sua vida mudada, enquanto o homem não percebera nada de nada! — traduziu
Iskender. Por isso a mulher passara numa torre o resto dos seus dias (Galip disse
de si para si que ela devia muito simplesmente ter despachado o tipo). E achou
absurdo o silêncio respeitoso com que todos os que estavam sentados à volta da
mesa comprida acolheram aqueles sentimentos tão “humanos” quando se tornou
evidente que a história terminara. Não podia, decerto, exigir que todos ficassem
tão contentes como ele ao saberem que uma mulher bonita abandonara um
imbecil. Mas quando pensava na beleza da mulher (uma vez que ela fora descrita
como bela), esse fim triste, trágico até (todos se recolhiam no género de silêncio
afectado e imbecil que se segue a um discurso pomposo) da história, que só em
parte ouvira, acabava por lhe parecer cómico. Quando a jornalista se calou,
Galip decidiu que não era bonita, mas apenas simpática.
A apresentação de Iskender fez saber a Galip que o homem de grande
estatura que a seguir tomou a palavra era um escritor do qual ele já ouvira falar.
O homem, que usava óculos, declarou que a história que se preparava para lhes
contar falava de um escritor, e recomendou a todos os presentes que não o
confundissem com o escritor da história.
Porque o homem tinha um sorriso estranho e um arzinho triste, como se
quisesse atrair a simpatia do seu auditório, Galip não conseguiu formar uma
opinião acerca da sua sinceridade.
Segundo aquilo que dizia, o escritor da história passara anos em casa, a
escrever romances e novelas que não lia a ninguém, e que de resto ninguém teria
publicado. Estava a tal ponto obcecado pelo seu trabalho (que não o era, para
ele, nesse tempo) que a solidão se lhe tornara habitual: não era que não gostasse
dos seus semelhantes ou que reprovasse a sua maneira de viver, mas tornara-se
incapaz de deixar a sua mesa de trabalho, de abrir a porta aos outros e de se
misturar com eles. À força de viver sempre só sentado diante da sua secretária,
todos os seus hábitos de “vida social” estavam embotados, e quando lhe
acontecia — muito raramente — ver-se no meio de uma massa de
gente, refugiava-se tomado de pânico a um canto, esperando o momento em que
lhe fosse possível regressar à sua tarefa. Depois de ter passado catorze horas à
mesa de trabalho, à hora em que subia dos minaretes da cidade o apelo da oração
da manhã, enfiava-se na cama, sonhava com a mulher que amava havia muitos
anos e que vira apenas uma vez e, para mais, apenas por acaso. Não era sob o
efeito daquilo a que se chama amor ou desejo sexual que pensava nela. O que
experimentava era a nostalgia de uma camaradagem de sonho, que seria o
contrário da solidão.
No entanto, muitos anos mais tarde, o escritor, que confessava que só nos
livros compreendia o amor e que não se sentia atraído pelo sexo, casara com a
mulher — que era de uma beleza extraordinária — dos seus sonhos. Tal como os
livros que começara a publicar, este casamento não transformara demasiado a
sua vida. Continuava a passar catorze horas por dia diante da sua mesa de
trabalho, construindo as suas frases com uma lenta paciência e olhando horas a
fio a página em branco à sua frente enquanto reflectia nos pormenores das suas
futuras novelas. A única mudança que a sua vida conheceu foi o paralelismo que
passou a sentir entre as fantasias despertas que se apoderavam dele ao nascer do
dia, sempre à hora da oração da manhã, e os sonhos que a sua mulher via, tão
bela e silenciosa, tranquilamente adormecida, quando se reunia a ela na cama.
Enquanto devaneava, deitado ao lado da mulher, tinha a impressão de que havia
um laço a unir os sonhos de ambos. Como essa harmonia que aparecia, por si
própria, no ritmo das suas respirações e que lembrava as modulações de um
modesto trecho de música. O escritor estava muito satisfeito com a sua nova vida
e, depois de tantos anos de solidão, a obrigação de dormir ao lado de uma outra
pessoa não o incomodava; experimentava até um grande prazer em sonhar a
ouvir respirar a mulher e em se convencer de que os seus sonhos se confundiam.
A partida da mulher, que o abandonou em pleno Inverno, sem se dar ao
trabalho de invocar um pretexto válido, assinalou para o escritor o início de um
período doloroso. Já não conseguia ficar a fantasiar na cama como outrora,
ouvindo a chamada da oração da manhã.
Os sonhos, que o visitavam com tanta facilidade e lhe garantiam um sono tão
sereno tanto no tempo passado como durante os seus primeiros anos de
casamento, já não eram nem tão esplendorosos nem tão convincentes. Como
diante de um romance que fosse incapaz de escrever, sentia nos seus sonhos uma
indecisão, uma insuficiência que o arrastavam até tremendos becos. Ao longo
dos primeiros dias que se seguiram à partida da mulher, esta queda na qualidade
dos seus sonhos foi tão considerável que o escritor, que sempre conseguira
adormecer à hora da oração da manhã, só conciliava o sono muito depois dos
primeiros cantares dos pássaros nas árvores, após o abandono da cidade pelas
gaivotas que cobriam os telhados durante a noite e a passagem das camionetas
do lixo e do primeiro autocarro. Pior ainda, esta baixa de qualidade dos seus
sonhos e do seu sono reflectiu-se naquilo que escrevia. Via bem que não
conseguia dar vida à frase mais simples, ainda que a retomasse mais de vinte
vezes.
Para sair desta crise que abalava o seu universo, esforçara-se muito; adoptara
um novo sistema de trabalho muito estrito: aplicava-se a rememorar cada um dos
seus antigos sonhos, na esperança de reencontrar a paz que lhe haviam
proporcionado. E, com efeito, algumas semanas mais tarde, depois de um longo
sono, no qual pudera mergulhar com toda a serenidade depois da oração da
manhã, dirigira-se com um passo sonâmbulo para a sua mesa de trabalho e
começara a escrever frases tão animadas, tão belas como desejava.
Compreendera então que a crise chegara ao fim graças a um estranho
subterfúgio que utilizara sem disso se dar conta sequer.
Como o homem abandonado pela sua mulher se tornara incapaz de sonhar, o
escritor começava por evocar o tempo em que ninguém partilhava a sua cama, o
tempo em que os sonhos de uma mulher jovem não vinham misturar-se aos seus.
Sonhava de um modo tão voluntário e tão intenso com a sua personalidade de
outrora que acabava por se confundir com o homem que fora, e era capaz assim
de adormecer recorrendo aos sonhos desse homem. Tendo-se acostumado a esta
dupla vida, deixara de precisar de se forçar para sonhar ou para escrever.
Tornava-se esse outro homem fazendo os mesmos gestos, enchendo os mesmos
cinzeiros das mesmas pontas de cigarro, bebendo o seu café na mesma chávena,
deitando-se às mesmas horas e na mesma cama que ele; conseguia assim
adormecer tranquilamente insinuando-se no fantasma do seu próprio passado.
Quando a mulher regressou para junto dele, entretanto, mas sem lhe
apresentar qualquer explicação válida (“Volto para casa”, declarara-lhe ela), o
escritor tornou a atravessar um período extremamente penoso. Porque a mesma
atmosfera fluida que estragara a sua vida nos primeiros dias em que se vira
abandonado invadia de novo a sua vida. Despertava com pesadelos do sono que
tanto lhe custara conciliar, nem a sua personalidade de outrora nem a nova lhe
garantiam fosse que serenidade fosse, e ele passava de uma para outra como um
bêbado que não dá com a porta de casa. Certa manhã em que não conseguia
adormecer, saiu da cama, pegou na almofada e foi para a sala onde estavam a sua
mesa de trabalho e os seus manuscritos e que tresandava a pó e a radiador,
deitou-se encolhido no divã pequeno e afundou-se de súbito num sono profundo.
A partir desse dia, ganhou o hábito de dormir, não ao lado da mulher tão
silenciosa, tão misteriosa, com sonhos tão incompreensíveis, mas junto à sua
mesa de trabalho e dos seus papéis. Mal abria os olhos, instalava-se ainda
sonolento diante da mesa e continuava, cheio de serenidade, a escrever as suas
histórias que se diriam o prolongamento dos seus sonhos. Foi então que uma
nova prova se lhe deparou.
Antes da partida da mulher escrevera um livro que os seus leitores tinham
tomado por um romance histórico; era a história de dois homens que se pareciam
um com o outro estranhamente e que acabavam por se substituir um ao outro.
Quando, para dormir ou para escrever em paz, o escritor envergava o fantasma
da sua antiga personalidade, transformava-se naquele que escrevia essa história,
e só redescobria a sua antiga personalidade retomando com o mesmo entusiasmo
a mesma velha história de sósias, uma vez que não podia nem conhecer o seu
futuro nem o do fantasma. Esse universo — onde tudo imitava tudo, onde todas
as histórias e todos os personagens não eram mais que a imitação ou que o
original de outras histórias e de outros personagens, e onde todas as histórias
desembocavam noutras histórias — pareceu-lhe tão real, passado algum tempo,
que, persuadido de que ninguém acreditaria nessas histórias, baseadas em
realidades demasiado evidentes, decidiu penetrar num universo “irreal”, que ele
próprio tivesse prazer em descrever e no qual os seus leitores gostariam de
acreditar. Com esse fim, portanto, enquanto a sua mulher tão bela e tão
misteriosa dormia silenciosamente na sua cama, ele adquiriu o hábito de errar
em plena noite pelas ruas escuras dos subúrbios pobres, onde todos os
candeeiros de rua estavam partidos, pelos velhos subterrâneos bizantinos, pelos
cafés frequentados pelos fumadores de haxixe e pelos marginais, pelos bares e
salões de dança nocturnos. O que aí viu ensinou-lhe que a vida da cidade era tão
irreal como o seu universo de sonho e confortou nele a ideia de que o universo
não passava de um livro.
Gostava tanto de ler esta vida, de andar horas a fio, todos os dias, arrastando-
se pelos cantos mais esconsos e observando os rostos, os sinais, as histórias, com
que deparava nas páginas incessantemente renovadas que a cidade lhe oferecia,
que doravante o seu único medo se tornara o de deixar de querer regressar nem
para junto da mulher tão bela que dormia na sua cama nem ao seu romance
inacabado.
A história do escritor foi acolhida pelo silêncio, porque insistia mais na
solidão do que no amor, e mais do que na própria história, na maneira de a
contar.
Como cada um de nós se lembra de ter sido, uma vez pelo menos,
abandonado sem razão, o que era mais intrigante nesta história, disse Galip para
consigo, eram as razões que tinham impelido a mulher do escritor a abandoná-lo.
A rapariga do bar que começou a contar a história seguinte repetiu várias
vezes que se tratava de uma história vivida e insistiu em que “os amigos turistas”
disso fossem prevenidos; a história devia ser uma lição e um exemplo, não só
para a Turquia, mas para o mundo inteiro. A história era, por conseguinte,
recente, e desenrolara-se naquele preciso lugar em que se encontravam. Ao fim
de muitos anos, um primo e uma prima encontram-se ali, e a chama dos seus
amores de infância reanima-se. A mulher é uma empregada do bar, mas o
homem um jovem marginal (um proxeneta, estão a ver, vincou a rapariga
virando-se para os turistas), pelo que não se trata de qualquer problema de honra
ofendida a vingar, podendo levar o homem a matar a mulher. Nesse tempo, a
calma reinava nos estabelecimentos nocturnos como no resto do país, os jovens
não disparavam uns sobre os outros quando se cruzavam nas ruas, beijavam-se,
não atiravam bombas, mas trocavam caixas de rebuçados nas ocasiões festivas.
O homem e a mulher viviam felizes. Tendo o pai da jovem morrido de morte
súbita, o primo e a prima compartilhavam uma casa, mas não dormiam na
mesma cama, pois, para o fazer, esperavam, com extrema impaciência, o dia em
que se casassem...
O dia tão esperado chegou enfim; rodeada de todas as raparigas dos bares do
bairro de Beyoglou, a jovem estava a pintar-se e a perfumar-se quando o homem,
saindo do barbeiro depois de um “barba e cabelo especial” para noivo, se deixou
apanhar nas redes de uma beleza incomparável que encontrou na rua.
Apaixonou-se imediatamente por essa mulher que, depois de o ter levado para o
Péra-Palace, onde se amaram até à saciedade, lhe revelou o seu segredo: a infeliz
era filha dos amores adúlteros da rainha de Inglaterra e do xá da Pérsia! Com o
objectivo de se vingar dos seus progenitores que haviam abandonado o fruto de
uma só noite de amor, essa mulher viera à Turquia para realizar uma parte do seu
plano.
O que pedia ao proxeneta era que lhe arranjasse um plano, do qual metade se
encontrava nas Informações Gerais, e outra metade numa secção da polícia
secreta.
Inflamado de amor, o rapaz correu para o bar onde devia celebrar-se o
casamento. Todos os convidados tinham já partido, e a noiva estava a soluçar a
um canto. Ele começou por consolá-la e afirmou-lhe que era forçado a
consagrar-se a uma “causa nacional”. Deixando a boda para mais tarde,
dirigiram-se a todas as alcoviteiras, a todas as raparigas dos bares, às dançarinas
do ventre, às patroas dos bordéis, às ciganas do bairro de Souloukoulé para obter
informações acerca de todos os polícias que frequentavam as zonas duvidosas da
cidade.
Mas quando, tendo conseguido reunir assim as duas partes do mapa,
puderam reconstituí-lo, a jovem compreendeu que fora enganada pelo seu primo,
iludida, como todas as mulheres da profissão, e que o seu amante estava na
realidade apaixonado pela filha do xá do Irão e da rainha de Inglaterra. Enfiou o
mapa no soutien, por cima do seio esquerdo, e foi esconder o seu desgosto num
bordel do bairro da Torre de Gaiata, frequentado pelos homens mais viciosos e
pelas mulheres mais degradadas da cidade.
Por ordem da princesa malvada, o primo lançou-se em sua busca por todos
os cantos de Istambul. E, à medida que as suas peregrinações se sucediam,
compreendeu que amava na realidade o objecto da sua busca e não aquela que
lhe ordenara que a buscasse: o seu grande amor não era a princesa, mas de facto
a prima. Quando, enfim, a descobriu na casa de passe perto da Torre de Gaiata,
quando pôde ver por um postigo oculto aquela que amava desde a infância
recorrer a mil ardis “para proteger a sua virtude” frente a um ricaço que usava
laço, meteu a porta dentro e salvou-a. Apareceu-lhe uma enorme verruga no olho
que encostara ao postigo — com o coração dilacerado — para espiar a sua bem-
amada, seminua, a lamber um sexo, uma verruga que nunca desapareceu. E a
prima tinha uma verruga igual no seio esquerdo, sendo ambas como que o selo
do seu amor! E quando seguiram os polícias, durante uma rusga no Péra-Palace
destinada a prender a mulher malvada, descobriram nas gavetas dela fotografias,
milhares de fotografias de jovens honestos retratados nus em toda a espécie de
posições; haviam sido seduzidos pela princesa devoradora de homens e os
retratos tinham sido incluídos nas suas colecções de carácter político. Além
daquele abundante material político, foram descobertas centenas de livros
proibidos, desses que vemos na televisão quando nos mostra os “anarquistas”
que foram detidos, comunicados com a foice e o martelo no cabeçalho, o
testamento do último sultão pederasta e planos da partilha da Turquia ostentando
a cruz bizantina. A polícia sabia muito bem que aquela mulher difundia
secretamente a anarquia no nosso país, a par das doenças venéreas, mas como se
tinham encontrado também fotografias de grande número dos nossos polícias,
igualmente nus e de matraca na mão, o caso foi abafado antes de os jornais terem
ensejo de o abordar. A imprensa foi apenas autorizada a noticiar o casamento dos
dois primos, publicando uma fotografia da cerimónia. Chegada a este ponto da
história, a narradora tirou da carteira um recorte de jornal, que deu a volta à
mesa, e onde ela aparecia, elegantíssima com o seu casaco com gola de raposa e
os brincos de pérolas que trazia naquela mesma noite.
Depois, dando-se conta de que a sua história era acolhida com cepticismo e
sorrisos, a rapariga do bar zangou-se, jurou ter dito apenas a verdade, e virou-se
para chamar alguém: o homem que tirara as fotografias pornográficas da
princesa e das suas vítimas estava ali...
E ao fotógrafo de cabelo grisalho que se aproximava da mesa, ela anunciou
que os “hóspedes estrangeiros” estavam dispostos a fazerem-se fotografar e a
deixar-lhe uma boa gratificação se ele lhes contasse uma bela história de amor.
Pelo que o fotógrafo começou a contar: Havia pelo menos trinta anos, um criado
apresentara-se no seu estúdio para o convidar a dirigir-se a certo endereço, na
avenida de Chichli. Curioso de saber porque o tinham escolhido, a ele que só
trabalhava nos bares da noite, quando existiam tantos fotógrafos mais célebres
que ele e especializados em assuntos mundanos, encaminhou-se para a morada
indicada. Uma mulher jovem, bela e viúva, propôs-lhe um acordo: o fotógrafo
levar-lhe-ia todas as manhãs, em troca de uma soma muito elevada, duplicados
das centenas de fotografias que fazia todas as noites nos bares de Beyoglou.
Adivinhando que esta proposta, que aceitava sobretudo por curiosidade,
escondia “uma história de amor”, ele decidira seguir de perto os actos e os gestos
daquela mulher de cabelo castanho claro e com as pupilas ligeiramente
assimétricas. Ao fim de apenas dois anos, compreendeu que ela não estava à
procura de um homem que tivesse conhecido ou cujo retrato tivesse visto.
Porque entre as centenas de fotografias que examinava cada manhã e naquelas
que escolhia de vez em quando encarregando o fotógrafo de proceder à sua
ampliação, os rostos e até as idades diferiam muito. Mais tarde, movida pela
confiança nascida do trabalho realizado em comum e pelo segredo que
compartilhavam, a mulher entregou-se a algumas confidências: — É em vão que
me trazes estas fotografias com estes rostos vazios, completamente desprovidos
de expressão, estes olhares estúpidos — dizia-lhe ela por vezes. — Não descubro
em tudo isso nenhum sentido, não consigo reconhecer uma letra que seja! —
Quando conseguia ler alguma coisa, dizia ela insistindo na palavra ler, na
expressão de certo rosto, as novas fotografias desse mesmo rosto acabavam por
decepcioná-la. — Se é só isto que se pode descobrir nos bares e nas tabernas
onde as pessoas vão para esquecer as suas desgraças ou a sua melancolia, Deus
sabe como é vazio o olhar dos que trabalham atrás de um balcão ou num
escritório! — repetia ela.
Duas ou três fotografias tinham contudo despertado esperança neles. Numa
delas, depois de a contemplar longamente, a mulher pudera ler um certo sentido;
no rosto enrugado de um homem velho — um joalheiro, como tinham
descoberto mais tarde —, mas esse sentido era muito antigo, demasiado
“estagnado”. Aquela abundância de letras legíveis nas bolsas por baixo dos olhos
e entre as rugas da fronte não era mais que o eco de um estribilho demasiadas
vezes retomado, e o seu sentido secreto não iluminava senão o passado. Ao fim
de três anos de busca, acabaram por descobrir um rosto onde pululavam letras
extremamente tensas e que descobriram ser o de um contabilista. Passavam o seu
tempo a contemplar aquele rosto atormentado, nas ampliações entretanto
operadas, quando a mulher, uma triste manhã, mostrou ao fotógrafo o mesmo
rosto, que aparecera nos jornais com a seguinte legenda: “Este homem desviou
vinte milhões!” Uma vez terminada a agitação que nele causava a ideia de ser
um criminoso, de transgredir a lei, o seu rosto, enquadrado por polícias de
bigode, parecia agora descontraído; fitava o leitor com um olhar tão vazio como
o do carneiro com a lã tingida de hena que é conduzido para o sacrifício.
Evidentemente, todos os presentes estavam de acordo para concluir, como
mostravam por meio de murmúrios ou de gestos, que o verdadeiro romance de
amor se desenrolara entre a mulher e o fotógrafo. Mas, no final da história,
aparecia outro personagem. Quando, numa bela manhã de Verão, na fotografia
de um grupo de clientes instalados à volta de uma mesa, num bar, a mulher
notou um rosto incrivelmente luminoso, no meio de tantos outros inexpressivos,
decidiu no mesmo instante que as buscas a que procedia havia onze anos não
tinham sido inúteis. Na ampliação de uma outra fotografia tirada na noite desse
mesmo dia e no mesmo bar, lia-se naquele rosto tão jovem e notável um sentido
tão simples como evidente: era o amor. As três letras do alfabeto latino que
formam em turco a palavra amor — ASK — liam-se facilmente no rosto desse
homem com trinta e três anos de idade (souberam igualmente que era relojoeiro
e tinha uma pequena loja em Karagumruk).
Furiosa com o fotógrafo que não distinguia as letras, a mulher declarou-lhe
que a vista dele começava a enfraquecer. Passou os dias seguintes a tremer,
como uma rapariga que se prepara para comparecer perante as casamenteiras, e
sofria já mil mortes como todos os amantes que se sabem vítimas desde o
começo, mas que, ao mais pequeno clarão de esperança, se comprazem na
imaginação de mil razões de felicidade, a cuja análise minuciosa se entregam.
No espaço de uma semana, foram penduradas nas paredes da sala centenas de
fotografias, obtidas por astúcia ou a coberto dos mais diversos pretextos, do
relojoeiro com o seu rosto incrível.
O fotógrafo passou mais uma noite a fixar na película, de mais perto e mais
rigorosamente, aquele rosto tão notável, mas o relojoeiro deixou bruscamente de
frequentar o bar habitual, o que deixou a mulher louca de inquietação.
Enviou o fotógrafo em busca dele a Karagumruk, mas aquele não o
descobriu nem na loja nem no domicílio, uma casa que as pessoas do bairro lhe
haviam indicado. E quando lá voltou passada uma semana, a loja estava à venda
e o homem mudara-se. A partir desse dia, a mulher passou a não se interessar
senão pelo relojoeiro, já não concedia a sombra de um olhar aos outros rostos,
nem sequer aos mais interessantes, que o fotógrafo continuava a fornecer-lhe,
“por amor à arte”. Uma manhã de Setembro, enquanto soprava um vento
demasiado fresco para a estação, quando o fotógrafo se apresentou em casa da
mulher com um “espécime” que lhe parecia digno de interesse, o sempre curioso
porteiro do prédio anunciou-lhe, com um prazer manifesto, que “a senhora” se
mudara sem deixar o novo endereço. O fotógrafo disse então para consigo,
melancolicamente, que aquela história acabara. Uma nova começava talvez para
ele, que para si próprio a inventaria evocando o passado.
Mas o verdadeiro fim da história, só muitos anos mais tarde o conheceu, por
um grande título na primeira página de um jornal que estava a percorrer
distraidamente: “Cobriu-o de vitríolo!”. Nem o nome da esposa ciumenta nem a
sua idade nem a sua direcção correspondiam à idade da senhora dos bairros
elegantes; e o marido vitimado pelo vitríolo não era relojoeiro, mas um
procurador da República colocado numa pequena cidade do centro da Anatólia,
conforme rezava a notícia. Além disso, nenhum dos dados difundidos pelo jornal
lembrava nem a mulher, com a qual o fotógrafo continuava a sonhar havia anos,
nem o belo relojoeiro, e, no entanto, assim que lera a palavra “vitríolo”, ele
adivinhara que se tratava bem do par formado por ambos, compreendera que os
dois se amavam havia anos, que se haviam servido dele para fugirem, e que
tinham decerto recorrido a esse ardil para afastar um outro homem, com tão
pouca sorte como ele. Compreendeu que acertara ao descobrir num jornal de
escândalos o rosto corroído pelo ácido mas feliz do relojoeiro, inteiramente
desembaraçado de todas as suas letras e de todo o seu sentido.
O fotógrafo, que observava com particular atenção os jornalistas
estrangeiros, verificou o interesse suscitado pela sua história e revelou, como se
se tratasse de um segredo militar, um último dado, que a coroava: muitos anos
mais tarde, o mesmo jornal de escândalos publicara de novo a fotografia do rosto
semiliquefeito, apresentando-o como o da última vítima de um conflito que se
eternizava no Médio Oriente, acompanhando-a da seguinte legenda carregada de
sentido: “Tudo é, portanto, amor, ao que se diz.”
Todos os presentes posaram com bom humor para o fotógrafo. Havia entre
eles dois ou três jornalistas e publicistas que Galip conhecia vagamente, um
homem completamente calvo que vira não sabia onde, e alguns desconhecidos
que tinham vindo reunir-se ao grupo.
Reinava à volta da mesa a atmosfera amistosa, feita de interesse e de
curiosidade, que une os viajantes que passam uma noite na mesma estalagem ou
as pessoas que atravessaram juntas um acidente sem gravidade. O bar estava
semivazio, o barulho acabara, as luzes do palco tinham-se apagado havia muito.
Galip teve a impressão de que aquele lugar servira de cenário para o filme A
Minha Puta Bem-Amada, em que Turkan Soray desempenhava o papel de
rapariga de bar; perguntou se assim fora de facto a um dos empregados de mesa.
O homem, já de certa idade, encorajado pelo interesse que lia em todos os
olhares que se tinham virado para ele e sob o efeito das histórias anteriores das
quais conseguira apanhar alguns fragmentos, contou-lhes por sua vez uma
história.
Uma história acerca de um filme; não, não se tratava do de Turkan Soray,
mas de outro rodado naquele bar e que ele próprio vira catorze vezes, durante a
primeira semana da sua exibição no cinema Ruya. O produtor e a bela actriz
tinham-lhe pedido que aparecesse como figurante em duas ou três cenas, ao que
ele acedera com entusiasmo. Ora, o rosto e as mãos que pôde ver dois meses
mais tarde, ao assistir ao filme, eram bem os dele, mas numa outra cena, as suas
costas, os seus ombros e a sua nuca pertenciam a outra pessoa e sempre que
voltava a ver o filme, estremecia com um estranho prazer mesclado de medo.
Além disso, nunca conseguira habituar-se à voz que no filme saía da sua boca, e
que não era a dele, mas uma voz que mais tarde reconheceria em muitos outros
filmes. Quanto aos seus próximos, aqueles que tinham visto o filme não se
sentiam intrigados como ele por essas substituições tão desconcertantes como
inquietantes. Não tinham dado por aquilo a que se chama os efeitos especiais em
cinema, nem compreendido que um pequeno artifício nos pode dar a aparência
de um outro, ou vice-versa.
Durante anos, o empregado de mesa esperara inutilmente rever, nas salas de
Beyoglou onde são projectados dois filmes durante os meses de Verão, a obra em
que aparecera. Se tivesse conseguido voltar a ver esse filme, ainda que uma vez
só, ter-lhe-ia sido possível recomeçar uma nova vida, estava convencido de que
assim seria, não porque isso o fizesse recuperar a juventude, mas por outra razão,
muito mais evidente: tratava-se de qualquer coisa pela qual os seus próximos não
tinham dado, mas que aqueles “clientes distintos” seriam decerto capazes de
compreender.
Depois de o empregado os ter deixado, todos os presentes discutiram
longamente essa “razão tão evidente”. Segundo a maioria, tratava-se do amor,
sem sombra de dúvida: o empregado estava apaixonado ou por si próprio, ou
pelo universo que em si descobrira, ou pela arte do cinema. A rapariga do bar
pôs fim à discussão declarando que o empregado era maricas, como todos os ex-
lutadores, tinham-no visto a masturbar-se, nu em frente de um espelho, e fora
surpreendido nas cozinhas a apalpar os jovens ajudantes do cozinheiro.
O homem calvo e de certa idade que Galip tinha a impressão de conhecer
protestou contra “esse preconceito completamente sem fundamento” emitido
pela rapariga do bar sobre os representantes do nosso desporto nacional, e
começou a fornecer aos circunstantes numerosos dados relativos à vida familiar
exemplar desses seres excepcionais que tivera a oportunidade de observar de
muito perto, em certa época, na Trácia. No entanto, Iskender explicava a Galip
que conhecera aquele senhor de idade no átrio do Péra-Palace, muito
recentemente, naquela mesma semana, precisamente quando estava tão ocupado,
sobrecarregado até, com a organização do programa de actividades dos
jornalistas britânicos, e a tentar apanhar Djélâl — sim, talvez tivesse sido no dia
em que telefonara a Galip. O senhor idoso explicara-lhe que conhecia Djélâl e
que desejava vê-lo, também ele, por causa de um assunto pessoal. Mais tarde,
voltara para oferecer o seu auxílio a Iskender e aos jornalistas estrangeiros, não
só para procurar Djélâl, mas também para resolver, graças às suas relações — ele
era um oficial na reserva —, certos pequenos problemas. E parecia encantado
por ter oportunidade de se servir das poucas palavras de inglês que conhecia.
Tratava-se até à evidência de um coronel reformado, desejoso de consagrar o seu
tempo a coisas úteis, apreciador de convívio e grande conhecedor de Istambul.
Depois de ter falado longamente dos lutadores trácios, o homem declarou
que lhes ia contar a história mais interessante daquela noite. Para dizer a
verdade, apresentar-lhes-ia mais uma questão que uma história. Surpreendidas
por um eclipse do Sol, as ovelhas de um velho pastor tinham regressado por si
próprias para a aldeia; depois de as fechar na cerca, o homem voltara para casa,
onde descobriu a mulher, que muito amava, deitada na cama com o seu amante.
Após uma breve hesitação, pegara numa faca e matara-os a ambos, entregando-
se depois às autoridades. Para se defender diante do cádi, afirmara que matara,
não a mulher e o amante, mas dois desconhecidos que descobrira na sua cama. A
lógica dele era simples: a mulher, com a qual vivera anos cheios de amor, na
qual tinha toda a confiança, não podia traí-lo assim. Por conseguinte, a mulher
que surpreendera na cama era outra, tal como era outro aquele que matara. O
pastor estava ainda mais persuadido da realidade destas substituições
surpreendentes por ter interpretado o eclipse como um sinal vindo do céu.
Evidentemente, estava disposto a sofrer o castigo pelo crime cometido por
aquele que nele bruscamente se introduzira, conforme lembrava perfeitamente
ter acontecido. Mas queria que o homem e a mulher que matara fossem
considerados dois malfeitores que tinham entrado em sua casa para se servirem
vergonhosamente da cama dele. Depois de sofrer a pena, contava partir em busca
da sua esposa, que não voltara a ver desde o dia do eclipse, e quando a
encontrasse, lançar-se-ia na demanda — com a ajuda da mulher, talvez — da sua
verdadeira identidade, dessa identidade que perdera... Qual teve de ser, assim, a
sentença do cádi?
Enquanto ouvia as respostas à pergunta do coronel reformado, Galip disse
para consigo que já lera ou ouvira algures aquela história; mas não sabia onde
nem quando, nem conseguia recordá-lo. Por um breve instante, julgou ter
descoberto a resposta para as perguntas que se colocava sobre a história do
pastor e sobre o homem calvo: enquanto contemplava uma das fotografias que o
fotógrafo acabara de revelar, teve a impressão fugidia de ir lembrar-se de tudo,
de ir poder dizer ao ex-militar que descobrira a sua identidade e que, como na
história do fotógrafo, desvendara o mistério de um desses rostos tão difíceis de
decifrar. Quando chegou a sua vez de responder à pergunta, Galip declarou que,
em seu entender, o cádi deveria ter perdoado ao pastor, e adivinhou de pronto
que realmente compreendera o segredo do rosto do ex-militar. Aquele homem já
não era o mesmo que era ao iniciar a sua história — que lhe acontecera enquanto
a narrava, o que fora que assim o transformara?
Quando foi a sua vez de tomar a palavra, Galip decidiu contar-lhes a história
de amor de um velho jornalista solitário, acrescentando que lhe fora contada por
um outro jornalista. O
velho jornalista passara a vida a fazer traduções para as revistas ilustradas, a
escrever artigos sobre as peças de teatro e os filmes recentes. Nunca casara,
porque se interessava menos pelas mulheres que pelas suas roupas e adornos.
Vivia sozinho num apartamento de duas divisões, numa ruela de Beyoglou,
acompanhado apenas por um gato que parecia ainda mais velho e mais solitário
do que ele. A única alteração que conhecera numa vida ao longo da qual nunca
se passara nada foi a causada pela leitura que empreendeu nos seus últimos anos
do interminável romance em que Marcel Proust se lança em busca do tempo
perdido.
O velho jornalista gostara tanto da obra que, durante algum tempo, falava
dela à primeira pessoa que lhe aparecesse, mas sem nunca descobrir ninguém
que tivesse sido capaz de ler todos aqueles tomos em francês, como ele próprio
fizera com grande esforço, e de os apreciar devidamente, ou sequer de
compreender o entusiasmo que ele próprio sentia. Por isso, fechando-se ainda
mais em si próprio, adquiriu o hábito de a si próprio contar todas as histórias e
todos os pormenores desses romances que lera e relera, sabe Deus quantas vezes.
Ao longo do dia inteiro, sempre que tinha algum aborrecimento, ou se via
obrigado a sofrer a grosseria, a insensibilidade das pessoas tão ambiciosas como
incultas — porque os indivíduos que tais são sempre assim — que o rodeavam,
repetia para consigo: “Seja como for, já aqui não estou, eu, neste instante, mas
em minha casa, no meu quarto e imagino o que faz a minha Albertine só minha,
que está ainda a dormir na divisão contígua, e que se encontra prestes a acordar,
ouço com alegria, com transporte, o brando ruído dos passos dela que vão e vêm
pela casa!” Quando caminhava, melancólico, por uma rua, repetia de si para si,
como o narrador faz em Proust, que uma mulher jovem e bela o esperava em sua
casa, uma mulher chamada Albertine, uma mulher cujo conhecimento lhe
parecera outrora o cúmulo da felicidade; e comprazia-se na imaginação do que
estaria ela a fazer enquanto o esperava. E quando voltava a entrar no seu
apartamento de duas divisões cujo fogão funcionava tão mal, o velho jornalista
rememorava com tristeza as páginas do tomo seguinte, as páginas que se seguem
à partida de Albertine, sentia no coração a melancolia da casa deserta, recordava
as conversas e os risos de ambos, as visitas de Albertine que esperava que ele
tocasse antes de o procurar, os pequenos-almoços tomados com ela, as suas
contínuas crises de ciúmes, a minúcia dos seus preparativos para a viagem a
Veneza; era ao mesmo tempo Proust e Albertine, até ao momento em que os seus
olhos transbordavam de lágrimas de dor e de felicidade. Na manhã de domingo,
que passava em casa com o seu gato tigrado, quando a grosseria de tudo o que o
jornal contava o punha furioso, ou quando pensava nos sarcasmos dos vizinhos
demasiado curiosos, dos primos afastados e desprovidos de compreensão, e das
crianças mal-educadas que deitam a língua de fora, fingia descobrir um anel
numa das gavetas da sua velha cómoda, convencia-se de que se tratava daquele
que Albertine esquece na gaveta de uma mesa de pau-rosa, e depois, virando-se
para o fantasma da criada, dizia-lhe em voz suficientemente alta para ser ouvida
pelo gato: — Não, François, a Albertine não se esqueceu dele, e seria inútil
mandar-lho; seja como for, ela muito em breve estará de volta. Se o nosso país é
tão miserável e tão digno de dó, é porque ninguém aqui conheceu Albertine,
porque ninguém leu Proust, dizia para consigo o velho jornalista; no dia em que
aparecerem leitores capazes de compreender Proust e Albertine, então talvez
todos esses pobres tipos de bigodes que enchem as nossas ruas possam conhecer
uma vida melhor; só então, em vez de jogarem à facada por ciúme à menor
suspeita, se porão a sonhar evocando como Proust o rosto da sua bem-amada. E
porque não leram Proust, porque não conheceram Albertine, porque não sabem
que o velho jornalista leu Proust, porque não compreenderam que ele é ao
mesmo tempo Proust e Albertine, que esses redactores, que esses tradutores que
encontram trabalho no seu jornal porque lhes atribuem uma certa cultura são tão
obtusos e tão lastimáveis.
O que era mais espantoso nesta história era o facto de o velho jornalista se
tomar por um romancista e por um personagem de romance; porque qualquer
turco que se apaixona pelo livro de um escritor ocidental que ninguém leu no seu
país se persuade ao fim de algum tempo de não se ter limitado a ler e a amar o
livro em causa, mas imagina sinceramente que foi ele que o escreveu e, mais
tarde, começa a desprezar as pessoas que o rodeiam, não só por não terem lido o
livro, mas também por serem incapazes de escrever um romance como o seu!
Sim, o que era mais estranho nesta história não era o facto de o velho jornalista
se ter tomado durante anos por Proust ou por Albertine, mas o facto de ter
confessado a um jovem jornalista encarregado de uma crónica esse segredo que
escondera a todos durante tanto tempo. Se o fez, talvez tenha sido porque sentia
pelo jovem uma afeição particular; o cronista tinha um encanto que lhe
recordava o de Proust e de Albertine; um belo rapaz robusto, com o bigode em
forma de amêndoa, um corpo clássico com belas ancas, pestanas muito
compridas, moreno e não muito alto, como Proust e Albertine; a sua pele macia,
acetinada, luminosa, lembrava a dos paquistaneses. Mas todas as semelhanças
com Proust ficavam por aí: o jovem cronista, cujos conhecimentos e gostos no
domínio da literatura europeia se limitavam aos romances de Paul de Kock e de
Pitigrilli, explodira de riso perante a narrativa que o velho jornalista lhe fizera
dos seus amores e dos seus segredos, anunciando-lhe a seguir que se serviria
daquela história espantosa numa das suas crónicas.
Dando-se conta do seu erro, o velho jornalista suplicara-lhe que esquecesse
tudo, mas em vão; o outro continuava a rir às gargalhadas. Ao voltar para casa, o
velho compreendera que o seu universo desabara bruscamente. Na sua casa
deserta, tornara-se incapaz de pensar no ciúme de Proust ou nos belos dias
vividos na companhia de Albertine, e já não era sequer capaz de perguntar a si
próprio onde estaria Albertine. Essa paixão extraordinária, mágica, que era ele o
único a conhecer naquela cidade, o único a ter vivido, esse amor tão nobre, que
era o único orgulho da sua vida, e que ninguém fora capaz de manchar, ia ser
grosseiramente revelado, oferecido ao apetite de centenas de milhares de leitores
limitados e estúpidos, e era como se a Albertine que ele acarinhava havia tantos
anos estivesse prestes a ser violada por essas bestas. Quando repetia de si para si
que aqueles leitores imbecis, que nos jornais só se interessavam pelos desvios
praticados pelo ex-primeiro-ministro ou pelas falhas dos programas de rádio,
iam descobrir, nos jornais que em seguida utilizariam para forrar o caixote do
lixo ou para limpar o peixe, o doce nome de Albertine, que ele tanto amara, de
quem tivera ciúmes mortais, cuja partida o levara a afundar-se na desgraça, e
cuja maneira de andar de bicicleta ele nunca, nunca, esquecera desde que a vira
fazê-lo uma primeira vez em Balbec, não conseguia desejar senão a morte.
Fora por isso que, num derradeiro sobressalto de coragem, telefonara ao
jovem cronista de pele acetinada e bigode em forma de amêndoa, declarando-lhe
que o considerara o único, “deveras o único”, ser capaz de compreender aquela
paixão incurável, o seu “caso humano” tão excepcional, aquele ciúme sem
limites nem esperança; suplicara-lhe que não falasse nunca nem de Proust nem
de Albertine numa das suas crónicas. E, numa audácia última, acrescentara: “De
resto, você nem sequer leu a obra de Marcel Proust.” “De quem? Que livro?
Porquê?”, perguntara-lhe então o outro, que havia muito esquecera a história e os
amores do velho jornalista. Este último voltara assim a contar-lhe tudo, e o
cronista voltara a rir às gargalhadas, implacável: “Oh, sim! Vou ter de escrever
essa história!”, dissera com bom humor. Imaginava sem dúvida que era isso o
que o velho jornalista esperava dele.
E escrevera uma crónica, que parecia uma novela. O velho jornalista era
descrito como na história que aqui acabam de escutar: um velho de Istambul,
solitário, digno de lástima, que se apaixonava pelo personagem principal de um
estranho romance, escrito por um europeu, e que se tomava ao mesmo tempo
pelo personagem e pelo romancista. Tal como o de carne e osso, o velho
jornalista da crónica tinha um gato tigrado. E sentia-se transtornado ao ver que
se riam dele numa crónica de jornal. O velho jornalista da crónica extraída da
história do velho jornalista, também ele, desejava morrer ao encontrar no jornal
os nomes de Proust e de Albertine. E na história tirada da história tirada da
história, os jornalistas solitários e os Proust e as Albertine vinham assombrar uns
atrás dos outros os pesadelos das últimas noites sem alegria do velho jornalista.
E quando despertava desses pesadelos, já não lhe restava sequer aquele amor,
que, através das suas ilusões, o tornara feliz, porque secreto.
Quando lhe meteram dentro a porta de casa, três dias depois da publicação
dessa crónica tão cruel, descobriram que o velho jornalista morrera
silenciosamente no seu sono, asfixiado pelas emanações do fogão entupido. O
gato tigrado não comia nada havia dois dias, mas não se atrevera a devorar o seu
dono...
Como todas as anteriores, a história de Galip, embora triste enchera de boa
disposição os seus ouvintes graças aos laços que criara entre eles. Alguns — os
jornalistas estrangeiros, entre outros — levantaram-se para dançar com as
raparigas do bar ao som da música de um aparelho de rádio invisível, e
dançaram assim, e riram muito passaram um bom bocado, até ao momento em
que o cabaré fechou as suas portas.


CAPÍTULO XVI

TENHO DE SER EU PRÓPRIO



“Se se quisesse ser alegre, melancólico, ou sonhador, ou cortês, bastava que
se fizessem simplesmente todos os gestos correspondentes a esses estados de
alma.”
Patrícia Highsmith


Já relatei o mais sucintamente possível, nestas mesmas colunas, uma
experiência metafísica que atravessei numa noite de Inverno, há vinte e seis
anos. Publiquei essa crónica há onze ou doze anos, já não sei muito bem (é uma
pena que eu não disponha neste instante dos “arquivos secretos” aos quais
recorri nestes últimos tempos, desde que a minha memória fraqueja tão
seriamente). Na sequência dessa crónica, que era muito longa, recebi um
importante correio dos meus leitores. Além das cartas dos descontentes que me
acusavam como sempre de ter utilizado na minha crónica uma forma insólita e
abordado um tema inesperado (porque é que eu não falara como de costume dos
problemas do país, porque é que não descrevera a tristeza das ruas de Istambul
sob a chuva?), havia a de um leitor que “tinha a impressão”, dizia ele, de
partilhar o meu ponto de vista acerca de “um outro tema muito importante”.
Desejava visitar-me o mais cedo possível, para me perguntar a minha opinião
sobre “certas questões muito pessoais e muito graves”, acerca das quais, ao que
parecia, tínhamos as mesmas ideias.
Quase esquecera a carta desse leitor que exercia a profissão de barbeiro (o
que era pouco habitual), quando um dia, da parte da tarde, ele se apresentou na
redacção. Era a hora do fecho, e nós apressávamo-nos a rematar os nossos
artigos para os enviarmos para a tipografia. Eu tinha pouco tempo. Além disso,
dizia para comigo que o barbeiro se ia pôr a falar das suas preocupações,
acusando-me de lhes não consagrar espaço bastante nas minhas crónicas.
Tentei ver-me livre dele pedindo-lhe que viesse noutro dia. Ele recordou-me
que me escrevera prevenindo-me da sua visita e que, fosse como fosse, não teria
grande ocasião de voltar. Só tinha de resto duas perguntas a pôr-me, perguntas às
quais eu poderia responder de imediato, disseme ainda. A sua maneira directa de
abordar o assunto agradou-me e eu pedi-lhe que me fizesse as suas perguntas: —
Tem dificuldade em ser você próprio?
Na expectativa de um diálogo acerca de um tema original ou divertido e na
esperança de uma brincadeira com a qual poderíamos depois todos rir-nos,
vários de entre os meus colegas tinham-se entretanto aproximado de nós: havia
alguns jovens jornalistas, que eu ajudava o melhor que podia, e um repórter
desportivo, roliço e barulhento, que estava sempre com as suas facécias a fazer
rir os que o rodeavam. Por isso tive de responder à pergunta do barbeiro com o
“dito de espírito” que em tais situações os outros esperam de mim. O barbeiro
ouviu atentamente a minha resposta, como se fosse aquela que esperava, e fez-
me depois a segunda pergunta: — Há maneira de cada um de nós ser unicamente
ele próprio? Era uma pergunta que ele parecia fazer-me não para satisfazer a sua
própria curiosidade, mas a pedido de alguém, a quem estivesse a servir de
intermediário. Era mais que evidente que a preparara e a decorara. O efeito do
meu gracejo ainda se fazia sentir; outros colegas, ouvindo os nossos risos,
tinham-se aproximado. Naquelas condições, em vez de sustentar perante o
barbeiro um discurso ontológico sobre a possibilidade de cada um ser ele
próprio, que haveria de mais natural que lançar um segundo gracejo, igualmente
esperado por todos, e que acertaria em cheio. Aliás, o gracejo não poderia deixar
de acentuar o efeito do primeiro e o caso transformar-se-ia numa anedota, numa
história divertida que os outros gostariam de contar na minha ausência. Depois
do segundo dito de espírito que de resto esqueci: — Era isso mesmo que eu tinha
compreendido! — declarou o barbeiro, e foi-se embora. Como os nossos
compatriotas não prestam atenção aos duplos sentidos a não ser nos casos em
que o segundo sentido comporta um insulto ou uma humilhação, nem sequer me
perguntei se o barbeiro não teria ficado ofendido com a minha resposta. Posso
até dizer que me inspirou um pouco de desprezo, como o que experimento pelos
leitores incapazes de reprimirem as suas emoções, esses, por exemplo, que, ao
reconhecerem este vosso criado num urinol, lhe perguntam, sem lhe darem
sequer tempo para fechar a braguilha, o que é para ele o sentido da vida ou se
acredita em Deus.
Mas com o tempo... Não me conhecem aqueles de entre os meus leitores que
esperam agora que eu lhes explique como lamentei a minha grosseria, como
fiquei convencido do acerto da pergunta feita pelo barbeiro, e como sonhei com
ele para despertar esmagado pelo remorso. Não voltei a pensar no barbeiro;
excepto uma só vez. E até mesmo dessa vez, o barbeiro não foi a origem da
minha reflexão, consequência de uma ideia que me impressionara muitos anos
antes, quando ainda não o conhecera; nem sequer se pode falar de uma reflexão,
ou de uma ideia; era um estribilho, que me visitava uma e outra vez desde a
infância, soava de súbito aos meus ouvidos, vinha do mais fundo da minha
razão, da minha alma: “Tenho de ser eu próprio, tenho de ser eu próprio...”
No fim de um dia passado com os meus colegas, depois com pessoas de
família, antes de me ir deitar, instalara-me, tarde na noite, no meu velho sofá;
pusera os pés em cima de um banquinho, e fumava o meu cigarro a olhar para o
tecto. A algazarra, as conversas fiadas, as sempiternas reclamações de todos os
que encontrara durante o dia pareciam ter-se fundido numa só voz, que soava aos
meus ouvidos, tão obsidiante, tão cansativa como uma enxaqueca persistente, ou
antes uma surda dor de dentes. Foi então que recomeçou em contraponto, diria
eu, esse estribilho tão familiar a que não me atrevo a chamar reflexão; indicava-
me o meio de me desembaraçar do tumulto incessante de todas aquelas pessoas
que me rodeavam, refugiando-me nas minhas vozes interiores, nas minhas
alegrias e na minha tranquilidade, no meu próprio cheiro, e repetia-me: sê tu
próprio, sê tu próprio, tem de ser... Foi nessa altura que compreendi como me
sentia feliz por me encontrar em plena noite longe da multidão e do tumulto
ignóbil a que os outros (o imã no sermão da sexta-feira, os meus antigos
professores, a minha tia, o meu tio, o meu pai, os nossos políticos) chamam a
vida, essa lama na qual gostariam tanto que eu me espojasse, que nos
espojássemos todos. Eu estava tão feliz por poder vaguear pelo jardim das
minhas fantasias, longe das suas histórias insípidas, que observava
afectuosamente as minhas pernas magricelas e os meus pobres pés poisados no
banquinho; contemplava com indulgência a minha mão tão feia e tão desajeitada,
que aproximava dos meus lábios o cigarro cujo fumo eu soprava para o tecto.
Por uma vez, podia ser eu próprio! E porque conseguira sê-lo, tornara-me no
mesmo acto capaz de experimentar afeição por mim próprio, Em vez de retomar
incessantemente as mesmas palavras — como o idiota do bairro que anda ao
longo da parede da mesquita repetindo a mesma palavra a cada pedra da
calçada, ou o viajante idoso que, da janela da sua carruagem, conta todos os
postes telegráficos —, o estribilho transformou-se: invadiu com a sua violência e
com a sua impaciência a lastimável divisão que me rodeava e todo o mundo real,
eu próprio incluído. Sob o efeito deste furor, já não era o estribilho, mas a minha
própria voz que repetia numa alegre cólera: tenho de ser eu próprio, sem me
preocupar com os outros, nem com as suas vozes, os seus cheiros, os seus
desejos, nem com os seus amores ou os seus ódios, dizia eu de mim para mim
contemplando os meus pés que pareciam satisfeitos com a sua sorte, ou seguindo
com o olhar o fumo do meu cigarro, que subia para o tecto; se não conseguir ser
eu próprio, transformar-me-ei no homem que gostariam que eu fosse, e recuso-
me a ser o homem que eles quereriam que eu fosse, e preferiria não ser coisa
nenhuma a tornar-me o indivíduo insuportável que eles querem que eu seja.
Quando, na minha juventude, ia ver os meus tios e as minhas tias, transformava-
me no homem de quem eles diziam: “Que pena ele fazer jornalismo, mas
esforça-se muito, e, se continuar a trabalhar assim, há-de conseguir, inchallah!”
E depois de ter trabalhado anos e anos para evitar ser esse homem, sempre que
me dirigia ao prédio onde o meu pai e a sua segunda mulher tinham vindo
igualmente instalar-se, o homem de certa idade que eu então era transformava-se
naquele de quem eles diziam: “Trabalhou muito e, apesar de tudo, saiu-se
bastante bem!” Pior ainda, como também eu próprio não conseguia ver-me de
outro modo, essa personalidade da qual eu não gostava nada colava-se-me à pele
e, quando me via com eles, ao fim de um momento surpreendia-me a pronunciar
palavras que não eram as minhas, mas a desse outro indivíduo. E, quando
voltava à noite para casa, rememorava, para me castigar de as ter pronunciado,
todas as palavras tomadas de empréstimo a esse outro que eu não queria ser, e,
para poder ser um pouco eu próprio, repetia-me, até sufocar de tristeza, frases
banais como: “Referi-me esta semana a este assunto num longo artigo”, “Tratei
deste problema na minha última crónica de domingo”, “Aqui está o que vou
dizer no meu artigo de amanhã”, “Examino demoradamente a questão na minha
crónica da próxima terça-feira”.
Toda a minha existência pululava de más recordações como estas. E, a fim de
melhor apreciar o prazer de ser finalmente eu próprio, confortavelmente sentado
no sofá, com os pés no banquinho, evocava umas atrás das outras todas as
ocasiões em que não pudera sê-lo.
Lembrei-me de ter feito todo o meu serviço militar com a reputação de ser
“um tipo que não deixa de brincar, até mesmo nas situações mais penosas”,
porque, desde os primeiros dias, os meus “companheiros de regimento” tinham
decidido que eu era um gigolô.
E também de ter muitas vezes agido como um homem distraído,
“mergulhado em reflexões profundas e até mesmo sublimes”, porque eu próprio
decidira, a julgar pelos olhares deles, que a multidão dos sem-nada-para-fazer
saídos para fumar um cigarro no intervalo, nos cinemas onde eu ia ver maus
filmes — menos para lá passar o tempo que por sempre ter gostado de me
encontrar sozinho na penumbra das salas frescas —, considerar-me “um jovem
de grande valor prometido a um brilhante futuro”. Lembrei também que, na
época em que todos nós só tínhamos na cabeça projectos de golpes de Estado
militares e em que sonhávamos todos os dias tomar o poder, eu me tornara um
grande patriota, a ponto de passar noites em branco por causa da ideia de que os
militares poderiam atrasar-se na passagem à acção e de que as desgraças do meu
país teriam de se prolongar por mais tempo ainda. Pensei nos dias em que, nas
casas de passe que frequentava às escondidas, fazia de desesperado, que acabava
de viver uma triste história de amor, e isso unicamente porque as putas são mais
simpáticas com os infelizes no amor. Ou ainda na época em que, tendo de passar
diante de um posto de polícia, me esforçava por assumir a aparência de um
cidadão tranquilo e respeitador das leis, se não tivesse tido tempo de passar para
o outro passeio.
Lembrei-me de ter fingido divertir-me com a tômbola em casa dos meus
avós, para ser como os outros, ao ir celebrar a passagem de ano, apenas pela
razão de não ter tido coragem de passar sozinho essa noite horrível. Voltei a ver-
me, esgotando os meus esforços na presença de mulheres que me atraíam, e só
com o fito de lhes agradar, para me transformar, conforme o caso, num homem
que só pensa no casamento, na coragem e no “combate pela vida”, ou fazendo o
papel do cidadão decidido a consagrar-se somente à salvação do país, ou o papel
do homem sensível e frustrado pela indiferença e a incompreensão tão
generalizadas entre nós, ou talvez o do “poeta secreto”, para pegar aqui numa
fórmula menos gasta. E por fim lembrei-me de que nunca era eu próprio no meu
barbeiro, ao qual vou de dois em dois meses, e de que, na sua sala, imitava a
soma de todas as individualidades que imitava.
No entanto, era para me descontrair que me dirigia para o meu barbeiro
(trata-se, claro, de um barbeiro diferente daquele de quem falei no início desta
crónica). Mas mal começava a examinar no espelho, como o barbeiro fazia, os
cabelos a cortar, a cabeça que tinha esses cabelos, os ombros, o tronco a seguir à
cabeça, compreendia que o homem sentado que contemplava no espelho era
outro e não eu. A cabeça que as mãos do barbeiro tomavam enquanto ele me
perguntava que corte de cabelo queria, o pescoço, os ombros, o tronco a seguir à
cabeça não eram os meus, mas os do jornalista Djélâl bey. E eu, pelo meu lado,
nada tinha a ver com esse homem. Estava convencido de que o barbeiro daria
por isso, tão evidente era tudo! Mas o barbeiro nunca via nada. Além disso,
como se quisesse insistir no facto de eu ser “o cronista”, fazia-me as perguntas
que se fazem aos profissionais do jornalismo: “Se hoje houvesse uma guerra,
acha que éramos capazes de vencer os gregos?”, “É verdade que a mulher do
primeiro-ministro é uma puta?”, “Será por causa dos vendedores de fruta e de
legumes que a vida está tão cara?”. Uma força misteriosa, cuja origem eu
ignorava, impedia-me de ser eu próprio a responder a estas perguntas, e era o
jornalista, que eu contemplava no espelho com um estranho pasmo, que
murmurava com o seu pretensioso tom de sempre, respostas do seguinte género:
“A paz é uma coisa boa... Não é mandando enforcar as pessoas que se fazem
baixar os preços!”
Odiava aquele jornalista, convencido de tudo saber, capaz, apesar disso, de
verificar a sua ignorância, e que aprendera, com uma ponta de pretensão, a
considerar com tolerância as suas lacunas e os seus excessos. Odiava igualmente
o barbeiro que, com as suas perguntas, me transformava ainda mais no “cronista
Djélâl bey”. E foi ao repisar estas desagradáveis recordações que de súbito
pensei no barbeiro que me procurara para me fazer as suas insólitas perguntas.
E então, àquelas tardias horas da noite, instalado no meu sofá que me
permite ser eu próprio, com os pés no banquinho, ouvia o pequeno estribilho,
que uma nova cólera atravessava, e que me trazia de novo as minhas más
recordações, enquanto repetia para comigo: “Pois bem, senhor barbeiro, não nos
permitem sermos nós próprios, nunca nos permitem isso, nunca nos hão-de
permiti-lo!” Mas estas palavras, que eu pronunciava adoptando o ritmo do
estribilho e a sua raiva, mergulhavam-me ainda um pouco mais na serenidade
que eu esperava. Então, decidi que em toda esta história, na visita do barbeiro
que me voltara à memória por intermédio de outro barbeiro, havia um sentido,
uma ordem, e até mesmo, diria eu, essa “misteriosa simetria” da qual falei
noutras crónicas, como só os meus leitores mais fiéis terão notado. Tratava-se de
um sinal quanto ao meu futuro: o caminho do homem que consegue voltar a
tornar-se ele próprio, sozinho, sentado no seu sofá, depois de um longo dia e um
longo serão, assemelha-se ao regresso a casa do viajante no final de uma viagem
cheia de aventuras e que durou muitos anos.


CAPÍTULO XVII

RECONHECEU-ME?

“Hoje, quando lanço um olhar sobre esse tempo, parece-me adivinhar uma
multidão que avança no escuro.”
Ahmet Rasim


Os que tinham estado a contar histórias no bar não se separaram ao sair;
imóveis sob a neve que caía levemente, viravam-se uns para os outros, na
esperança de alguma nova distracção, da qual não faziam a mais pequena ideia;
pareciam esses basbaques que foram testemunhas de um incêndio ou de um
crime, e que se especam no local, na expectativa de uma nova catástrofe. “Não
se trata de um lugar aberto a qualquer pessoa, Iskender bey”, declarou o senhor
calvo que pusera entretanto um chapéu de feltro enorme. “Somos demasiado
numerosos. Prefiro levar lá só os ingleses, para os fazer descobrir mais um
aspecto do nosso país. Você pode vir, você também, é claro...”, acrescentou,
virando-se para Galip.
Puseram-se a caminho, em direcção a Tépébachi, levando consigo uma
antiquária e um arquitecto de uma certa idade, com o bigode cortado em escova,
dos quais não tinham conseguido desembaraçar-se.
— Já esteve alguma vez em casa de Djélâl bey em Nichantache ou em
Chichli? — perguntou o homem de chapéu de feltro, quando passavam diante do
consulado americano.
— Porque é que me faz essa pergunta? — respondeu-lhe Galip olhando de
perto o rosto do homem, que lhe pareceu desprovido de expressão.
— O Iskender bey disseme que era primo do jornalista Djélâl Salik. Não
anda à procura dele? Seria bom que ele falasse aos ingleses dos problemas do
nosso país. Bem vê, o mundo inteiro começa a interessar-se por nós.
— Seria muito bom, naturalmente — disse Galip.
— Sabe as direcções dele? — perguntou o homem de chapéu de feltro.
— Não, ele não as dá a ninguém — respondeu Galip.
— É verdade que ele se fecha dias seguidos em casa com certas mulheres?
— quis saber o homem.
— Não, disse Galip.
— Desculpe-me — acrescentou o homem —, claro, são só boatos. O que não
serão as pessoas capazes de inventar? E não podemos impedi-las disso, porque,
como diz o ditado, a boca humana não é uma bolsa cujos cordões se possam
fechar! Sobretudo quando está em causa um personagem lendário como o Djélâl
bey! Conheço-o bem, eu.
— Ah, sim?
— Chegou a convidar-me um dia para casa dele, foi em Nichantache.
— Onde? — perguntou Galip.
— A casa foi demolida, entretanto. Era uma casa de pedra com um andar.
Nessa noite, ele queixou-se muito da sua solidão. Recomendou-me que o fosse
ver sempre que me apetecesse.
— Mas é ele que procura a solidão! — disse Galip.
— Talvez você não o conheça muito bem — disse o homem. — Tenho como
que um pressentimento, há qualquer coisa que me diz que ele me está a pedir
ajuda. Então, não conhece nenhum dos endereços dele?
— Nenhum — disse Galip.
— Se todos nós pensamos no Djélâl, é sem dúvida porque descobrimos nele
uma parte de nós próprios. Trata-se de uma personalidade excepcional —
concluiu o homem de chapéu de feltro.
E Galip e ele começaram a discutir as crónicas mais recentes do jornalista.
Numa das ruas que levam ao Túnel, ouviram o apito de um guarda-nocturno
ressoar com uma violência reservada aos subúrbios, e viraram -se todos para os
passeios cobertos de neve, iluminados por um néon violeta. Quando tomaram
por fim uma das ruas que desembocam na Torre de Gaiata, Galip teve a
impressão de que os andares dos edifícios, dos dois lados da rua, se
aproximavam uns dos outros, como um pano de cena que se fecha devagar. No
alto da torre, havia luzes vermelhas indicando que continuaria ainda a nevar.
Eram duas horas da manhã. Muito perto deles, o estore metálico de uma loja
desceu estrondosamente.
Depois de terem vagueado um pouco pelo bairro, entraram numa rua que
Gali desconhecia.
Avançavam em silêncio pelo passeio onde a neve gelara. O homem de
chapéu de feltro bateu à porta vetusta de uma casa de um andar. Só depois de
passado um longo momento, uma luz se acendeu lá em cima, enquanto se abria
uma janela e a ela aparecia um rosto azulado.
— Anda abrir, sou eu — disse o homem de chapéu de feltro.
— Temos visitas, estrangeiros, ingleses. — E olhou para os ingleses com um
breve sorriso de confusão.
Um homem na casa dos trinta, com o rosto pálido, mal barbeado, tonto de
sono, abriu-lhes a porta, na qual se podia ler: “Oficina de Manequins Merih.”
Vestia umas calças pretas e um casaco de pijama às riscas azuis. Depois de ter
apertado a mão a cada um dos recém-chegados, lançando-lhes um olhar
cúmplice, como se fossem todos membros de uma associação secreta, conduziu-
os a uma sala rebrilhante de luz, que cheirava a tinta, e que estava pejada de
caixas, de moldes, de barris e de diversas partes do corpo humano.
Enquanto distribuía pelos visitantes brochuras que foi buscar a um canto,
começou a falar com uma voz monótona.
— A nossa empresa produz os manequins mais inteligentes dos Balcãs e do
Médio Oriente.
Ao fim de cem anos de existência, os resultados que hoje obtemos
confirmam o alto nível alcançado pela Turquia nos domínios da industrialização
e da modernização. Hoje, não se trata apenas de garantir a cem por cento a
produção de braços, de pernas, de ancas em conformidade com as necessidades
do país...
O homem calvo cortou-lhe a palavra, com um gesto incomodado: — Djebbar
bey, as pessoas que aqui estão vieram para uma visita guiada por si às suas
sobrelojas, às suas caves, aos seus subterrâneos, vieram para ver com os seus
próprios olhos as infelizes criaturas que aí se apinham, tudo o que faz de nós o
que somos, a nossa história, não sei...
O guia premiu um botão com um gesto colérico, e as centenas de braços, de
pernas, de cabeças, de troncos desapareceram nas trevas silenciosas; uma
lâmpada nua iluminou um pequeno patamar dando para umas escadas. Desceram
os seus degraus, todos em grupo; atingiu-os no rosto um cheiro a mofo, e Galip
imobilizou-se de repente. Djebbar aproximou-se dele, com um à-vontade
espantoso: — Não tenhas medo, vais encontrar aqui o que procuras! —
disselhe ele num tom entendido. - Foi Ele quem me enviou! Não quer que tomes
os caminhos da perdição! — Galip perguntou a si próprio se o homem estaria
também a dirigir-se aos outros.
— Aqui estão as primeiras obras do meu pai — declarou o guia quando
entraram numa sala ao fundo das escadas, apresentando-lhes os manequins. E, na
divisão seguinte, enquanto contemplavam à fraca luz de uma lâmpada os
manequins de numerosos personagens, marinheiros, corsários, escribas,
envergando os seus uniformes otomanos, camponeses sentados à volta de uma
esteira desdobrada no chão, o homem continuou a resmonear vagos comentários.
Só na terceira sala, onde estavam expostos uma lavadeira, um blasfemo a quem
tinham cortado a cabeça e um carrasco transportando os seus instrumentos de
trabalho, Galip conseguiu compreender enfim o que ele dizia: — Há cem anos,
quando criou os personagens que acabam de ver, o meu avô alimentava uma
ideia muito simples e que toda a gente deveria compartilhar: os manequins
expostos nas montras das nossas lojas devem ser fabricados tomando por
modelos as pessoas do nosso país, assim pensava ele. Mas as desgraçadas
vítimas de uma conspiração internacional e histórica que vem sendo urdida há
dois séculos impediram-no de levar a sua obra a bom termo.
A medida que iam descendo escadas, que transpunham portas dando acesso
através de alguns degraus a outros subterrâneos, podiam ver centenas de
manequins, acumulados em caves cujos tectos ressumavam água e que eram
percorridas por um fio eléctrico munido de lâmpadas, esticado como uma corda
de pendurar roupa.
Puderam assim contemplar, entre outras figuras, o marechal Fevzi
Tchakmak, que, durante os trinta anos que passou à frente do estado-maior,
obcecado pelo medo de eventuais colaboradores com o inimigo, pensou em
derrubar todas as pontes do país, em demolir todos os minaretes que os espiões
pudessem utilizar para endereçar sinais aos russos, e acarinhou o projecto de
transformar Istambul numa cidade-fantasma, depois de a esvaziar de habitantes,
a fim de fazer dela um labirinto onde o inimigo se perderia; camponeses da
região de Konya, que acabavam por ser todos quase exactamente iguais — mãe,
pai, filha, tio, avô — à força de casamentos consanguíneos; e trapeiros, que, ao
longo do seu porta-a-porta, tinham acabado por nos arrancar, sem darem sequer
por isso, todas as velharias que haviam feito de nós aquilo que éramos: artistas e
actores célebres, desprovidos por completo de personalidade nos filmes que
interpretam, tão incapazes de serem eles próprios como de serem outro, ou que
não podem senão interpretar-se a si próprios; os tolos, tão dignos de dó, que
consagram a sua existência a traduções ou a adaptações a fim de transmitirem ao
Oriente a ciência e a arte do Ocidente; os utopistas, que, na esperança de abrirem
nas ruas tortuosas de Istambul avenidas bordadas de tílias como em Berlim, ou
avenidas em forma de estrela, ligadas por pontes, como em Paris, se derreiam
durante a vida inteira, debruçados sobre planos, com uma lupa na mão, e que —
depois de terem sonhado com passeios modernos onde os nossos generais
reformados possam fazer cagar os cães que passeiem presos pela trela à maneira
dos ocidentais — morrem sem ter conseguido realizar um só dos seus projectos,
de tal modo que a própria localização da sua sepultura é prontamente esquecida;
funcionários dos serviços de informações, reformados administrativamente
devido ao seu apego aos métodos tradicionais no domínio da tortura e à sua
rejeição dos novos valores internacionais no mesmo domínio; vendedores
ambulantes que, com uma vara aos ombros, vendem, de cestos pendurados dela,
iogurte, atum ou milho fermentado. Entre os “Panoramas de Cafés”,
apresentados pelo guia como “uma série começada pelo meu pai, que o meu pai
desenvolveu e eu próprio retomei”, os visitantes puderam contemplar os
desempregados, que têm sempre a cabeça encolhida entre os ombros; os
felizardos, que, quando jogam às damas ou ao triquetraque, acabam por esquecer
a época em que vivem e a sua própria identidade; e todos os nossos concidadãos
que, com o seu copo de chá ou o seu cigarro barato na mão, fitam um ponto no
infinito, refugiados nas suas reflexões, como se se esforçassem por recordar a
razão da sua existência, e também os que, não o conseguindo, se vingam
maltratando os dados ou as cartas e até mesmo os seus vizinhos.
— No seu leito de morte, o meu avô tinha claramente consciência do poder
das forças internacionais que teve de enfrentar! — explicava o guia. — Essas
forças estrangeiras ocultas que queriam impedir a nossa nação de conservar a sua
identidade, privando-a dos gestos, dos movimentos da nossa vida quotidiana
(que constituem o nosso mais precioso tesouro), conseguiram expulsar o meu
avô dos grandes armazéns, das montras da rua central de Beyoglou. Quando o
meu pai, tal como o meu avô no seu leito de morte, compreendeu que no futuro
só lhe seria deixado o subsolo da nossa cidade, ignorava ainda que Istambul
tinha sido sempre, ao longo da sua história, duplicada por uma cidade
subterrânea. Compreendeu-o à medida que ia escavando novas caves na argila
para aí instalar os seus manequins, e assim descobrindo novas galerias.
Enquanto desciam os degraus da escada que levava a essas galerias e iam
deixando para trás covis e tripas que já não podiam considerar-se salas, os
visitantes tiveram ocasião de ver os manequins de centenas de homens sem
esperança. A luz das lâmpadas nuas, os manequins lembravam a Galip os seus
concidadãos tão pacientes, cobertos pelo pó e pela lama dos séculos, que
esperam numa paragem de há muito suprimida um autocarro que nunca virá, e
também essa ilusão que ele por vezes experimentava ao andar pelas ruas de
Istambul, essa, segundo a qual todos aqueles infelizes eram irmãos. Pôde ver
vendedores de bilhetes de tômbola, com o saco na mão; estudantes de rosto
irónico e nervoso; aprendizes das lojas de pistácios; amadores de pássaros e
caçadores de tesouros; e os que liam Dante a fim de provar que o Ocidente
pilhara o Oriente em todos os domínios da ciência e da arte; os que desenhavam
mapas para demonstrar que os minaretes são sinais endereçados a um outro
universo; um grupo completo de alunos de uma escola corânica que, tendo
tropeçado num cabo de alta tensão, tinham ficado presos de um assombro azul-
eléctrico e recordado bruscamente factos insignificantes ocorridos havia dois
séculos. Galip compreendeu que aqueles manequins que se alinhavam em covis
com as paredes cobertas de lama se dividiam segundo certas categorias:
pecadores, falsários, usurpadores de identidade. Viu esposos infelizes, mortos
que nunca haviam conhecido a paz, soldados, caídos pela pátria, emergindo das
suas covas.
Homens misteriosos, com letras gravadas na fronte ou por todo o rosto,
sábios que revelaram os segredos dessas letras e as celebridades que hoje
herdaram o seu lugar. Num canto, entre os manequins dos escritores e dos
artistas do nosso tempo, estava o de Djélâl, vestindo o impermeável que usara
havia vinte anos. O guia explicou-lhes de passagem que aquele escritor, no qual
o seu pai pusera muitas esperanças, se servira com fins desonestos dos segredos
das letras que o artesão lhe ensinara, e que vendera a alma em troca de um
sucesso medíocre. Um artigo, que Djélâl escrevera sobre o pai e o avô dele havia
vinte anos, fora emoldurado e pendurado ao pescoço do manequim, que parecia
exibir assim a sua própria sentença de morte. Com os pulmões invadidos pelo
acre cheiro a mofo e a humidade que se desprendia das paredes das caves
escavadas sem autorização — como acontece no caso de tantos lojistas —, Galip
ouvia o guia contar-lhes como, vítima de inumeráveis traições, o pai acabara por
depor todas as suas esperanças nos segredos das letras, que descobrira durante as
suas viagens à Anatólia e que expusera à vista de todos nos rostos dos seus
manequins: nos dias em que as gravara, vira abrirem-se, umas atrás das outras,
as galerias subterrâneas que dão a Istambul o seu carácter. Galip imobilizou-se
por um longo momento diante do manequim de tronco espesso, mãos pequenas e
olhar doce de Djélâl. “Foi por tua causa que nunca pude ser eu próprio!”, disse
para consigo. “Foi por tua causa que acreditei em todas essas histórias que
fizeram de mim um outro tu!” Contemplou demoradamente, atentamente, o
manequim do seu primo, da mesma maneira que o filho examina uma fotografia,
tirada há anos, do seu próprio pai. Lembrava-se bem: o pano das calças fora
comprado com desconto a um parente afastado que tinha uma loja em Sirkedji.
Djélâl gostava muito daquele impermeável que o tornava parecido com os
personagens dos romances policiais ingleses.
No casaco, as costuras dos bolsos tinham cedido, por causa do hábito que ele
tinha de lá enfiar as mãos com força. Galip disse ainda para consigo que havia já
alguns anos se tinham deixado de ver no queixo e na maçã de Adão do primo as
arranhaduras da navalha de barba. E também que Djélâl usava ainda hoje a
mesma esferográfica que ali lhe tinham enfiado no bolso do casaco. Gostava de
Djélâl e tinha medo dele; teria gostado de estar no seu lugar e fugia-lhe; desejava
vê-lo e queria esquecê-lo. Puxou-o pelo casaco como que para exigir dele o
sentido da sua própria vida que ainda não fora capaz de decifrar, um segredo que
Djélâl conhecia, mas que escondia dele, o mistério do outro universo que se
esconde no nosso futuro, o meio de sair de um jogo, de início agradável, mas que
se ia transformando em pesadelo. Podia ouvir ao longe a voz do guia, que
exprimia tanto o entusiasmo como a habituação: — Estes manequins, aos quais
ele atribuía um conteúdo, graças às letras que gravava nos seus rostos, sentidos
que já não se encontravam na nossa sociedade, nas nossas ruas ou nas nossas
casas, o meu pai moldava-os com tal rapidez que ficávamos sem lugar para eles
nas caves que íamos abrindo. É por isso que não se pode atribuir ao acaso a
descoberta, na mesma época, das passagens que nos ligam ao subsolo, aos
subterrâneos da história. O meu pai via-o com clareza: doravante a nossa história
seria subterrânea, a vida “em baixo”
indicava o fim da derrocada “em cima”, e essas galerias que desembocavam
umas atrás das outras por baixo da nossa casa, essas vias subterrâneas onde
pululavam esqueletos, eram outras tantas ocasiões históricas da redescoberta de
uma vida e de um sentido, graças aos rostos dos verdadeiros cidadãos que somos
nós a criar!
Quando Galip lhe largou o casaco, o manequim de Djélâl vacilou
pesadamente sobre os seus pés, da direita para a esquerda, como um soldado de
chumbo. Galip disse para consigo que nunca esqueceria aquela visão estranha,
aterradora e cómica, recuou dois passos e acendeu um cigarro. Não tinha
qualquer vontade de seguir os outros até à entrada da vida subterrânea, onde,
dizia o guia, “os manequins hão-de pulular um dia como os esqueletos”.
Enquanto o guia indicava aos visitantes a entrada do túnel escavado na outra
margem do Corno de Ouro, havia mil trezentos e seis anos pelos bizantinos,
receosos de um assalto das tropas de Átila, e do qual uma das extremidades
chegava à margem do lado de cá, e enquanto lhes contava num tom de cólera a
história dos esqueletos que se podiam ver se se entrasse naquelas galerias com
uma lanterna, e dos tesouros que esses esqueletos tinham à sua guarda e que
haviam sido escondidos à chegada dos invasores latinos, havia seiscentos e
sessenta anos, e das mesas e das cadeiras completamente tapadas por teias de
aranha, Galip lembrou-se de um enigma, associado àquelas imagens e àquelas
histórias, que lera num artigo de Djélâl, muitos anos antes.
Sempre com a mesma paixão, o guia continuava a sua narrativa: como o pai
dele compreendera, a fuga para um mundo subterrâneo significava —
irrefutavelmente — a derrocada inevitável do mundo exterior. Assim que uma
galeria, assim que um túnel profundo era escavado em Bizâncio, Buzos, Nova
Roma, Rman, Tsargrad, Miklggard, Constantinopla, Cospoli, Istín-Polin, por
razões imperativas, produziam-se alterações inauditas à superfície, e a
civilização subterrânea vingava-se assim uma e outra vez do mundo exterior que
a obrigara a esconder-se. E Galip pensou então numa crónica em que Djélâl
comparava os andares dos prédios ao prolongamento das civilizações
subterrâneas.
O guia, pelo seu lado, explicava, sempre com a mesma raiva, que o seu pai
sonhara encher com os seus manequins todas as vias subterrâneas, onde
abundavam os tesouros guardados pelas ratazanas, pelos esqueletos e pelas teias
de aranha, a fim de fazer passar as suas criaturas na gigantesca destruição, no
apocalipse inevitável anunciado pela vida subterrânea; sim, com as suas visões
de uma imensa cerimónia de destruição, o seu pai fora capaz de dar um sentido
novo à vida, e ele próprio continuava no mesmo caminho, com aqueles
manequins cujos rostos cobria com os segredos contidos nas letras, acrescentou
o guia com uma voz comovida. Galip deixou de duvidar: o homem corria todas
as manhãs a comprar o Milliyet antes de toda a gente para nele ler
imediatamente a crónica de Djélâl, cheio de paixão, de inveja e de ódio, e com a
cólera que se lhe adivinhava agora na voz. E quando o guia lhes anunciou que os
visitantes que se sentissem capazes de enfrentar o espectáculo dos esqueletos
abraçados para a eternidade (os dos Bizantinos, tomados de pânico, que haviam
procurado de baixo da terra um refúgio por altura do cerco da cidade dos
Abássidas, e também os dos judeus fugindo dos invasores cruzados) podiam, se
o desejassem, penetrar naquele túnel inimaginável, onde ainda se podiam ver
colares e pulseiras de ouro pendurados da abóbada, Galip ficou convencido de
que o homem lera as crónicas mais recentes do seu primo. O guia explicava que
os esqueletos dos genoveses, dos amalfi, dos pisanos que tinham conseguido
fugir, havia setecentos anos, quando os bizantinos massacraram os italianos, que
eram então mais de seis mil na cidade, e os, com a idade de seiscentos anos, dos
sobreviventes da grande peste, introduzida no porto por um navio chegado de
Azak, sentados lado a lado, à volta das mesas trazidas para o subterrâneo durante
o cerco de Bizâncio pelos Avars, ali estavam pacientemente à espera do dia do
Juízo Final. E Galip disse para consigo que havia nele a paciência de Djélâl. O
homem estava agora a contar-lhes que, para fugirem à pilhagem de Bizâncio
pelos otomanos, os habitantes da cidade tinham ido refugiar-se no subterrâneo,
que ia de Santa Sofia a Santa Irene, e que desembocava no Pantokrator.
O subterrâneo, tornado insuficiente para as necessidades que se faziam sentir,
teve de ser posteriormente prolongado até à margem de cá do Corno de Ouro.
Havia também os esqueletos daqueles que, dois séculos mais tarde, ali se tinham
escondido para escapar ao édito de Murat IV que proibia o uso do café e do
tabaco; cobertos de uma fina camada de pó, como que sob uma neve ligeira,
munidos dos seus moinhos, cafeteiras e chávenas, nargui-lés, cachimbos, bolsas
de tabaco ou de ópio, ali estavam à espera dos manequins que viriam anunciar-
lhes a libertação. E Galip dizia para consigo que o mesmo pó sedoso cobriria um
dia o esqueleto de Djélâl. O guia anunciou-lhes que poderiam ver, se o
desejassem, o esqueleto de um dos filhos de Ahmet III, forçado, após o malogro
de uma conspiração de palácio, a esconder-se nas mesmas galerias em que se
tinham refugiado os judeus expulsos de Bizâncio havia então sete séculos; e
também o da jovem da Geórgia que se evadira do Harém com o amante; mas
encontrariam igualmente os moedeiros falsos de hoje em dia, que ali verificam a
cor das suas notas de banco ainda húmidas, ou uma Lady Macbeth muçulmana,
reduzida a descer ao subsolo — uma vez que o seu pequeno teatro instalado
numa cave não dispõe de camarim onde ela possa mudar-se —, sentada diante
do espelho de um toucador, a tingir as mãos num recipiente cheio de sangue de
búfalo, comprado a talhantes clandestinos, com um belo tom vermelho como
decerto nunca ninguém viu em nenhum outro palco do mundo. Ou ainda jovens
químicos autóctones, presas do frenesim da exportação, debruçados sobre
alambiques onde é destilada uma soberba heroína, que contam expedir para a
América a bordo de velhos cargueiros búlgaros ferrugentos. E Galip dizia para
consigo que todas estas coisas se podiam ler tanto no rosto de Djélâl como nas
suas crónicas.
Muito mais tarde, depois de ter mostrado aos seus “hóspedes” todos os
subterrâneos e todos os manequins, o homem revelou-lhes o sonho do seu pai,
que era igualmente o dele: por um dia quente de Verão, enquanto toda a cidade lá
em cima, invadida pelos lixos e pelas nuvens de moscas e de pó, dormita sob o
pesado calor do meio-dia, ali em baixo, naqueles subterrâneos frios, escuros e
húmidos, organizarem todos juntos, entre os esqueletos pacientes e os manequins
que pulsam da vida da gente da nossa terra, uma grande festa, uma cerimónia
gigantesca, que celebraria a vida e a morte, para além do tempo e da história e
das leis e dos interditos. Os visitantes imaginavam com algum susto a exaltação
e o horror da festa, os esqueletos e os manequins alegremente lançados na sua
dança macabra, o ruído das taças e das chávenas partidas, a música e os
silêncios, o entrechocar das ossadas quando copulassem, e, no caminho de
regresso, depois de ter lido a dor nos rostos de centenas de manequins de
“cidadãos anónimos”, cujo destino o guia não sentia sequer necessidade de
contar, Galip, pelo seu lado, sentia pesarem-lhe nos ombros todas as histórias
que ouvira e todos os rostos que olhara. A fraqueza que lhe cortava as pernas não
era causada nem pelas escadas que subiam nem pelo cansaço daquele dia tão
comprido; sentia no seu próprio corpo a fadiga que lera nos rostos dos seus
irmãos, de todos aqueles que apareciam diante dos seus olhos ao longo dos
degraus escorregadios, nas caves húmidas iluminadas por lâmpadas nuas, que
atravessavam sem parar. Aqueles pescoços demasiado compridos, aquelas costas
curvadas, aquelas ancas deformadas, aquelas pernas trôpegas, e também as
desgraças e as histórias dos homens do seu país, pareciam-lhe ser o
prolongamento do seu próprio corpo. Porque tinha a impressão de que todos
aqueles rostos eram o seu próprio rosto, de que todos aqueles desesperos eram o
seu próprio desespero, não queria continuar a ver os manequins frementes de
vida que se aproximavam dele, nem cruzar os seus olhares, mas, incapaz de
desviar os olhos, sentia uma ligação como a dos gémeos entre si próprio e todos
eles. A certa altura, como fazia outrora, ainda muito novo, quando lia as crónicas
do seu primo, tentou persuadir-se de que havia, para além do mundo visível, um
segredo muito simples, e que escaparia aos seus efeitos se conseguisse descobri-
lo, pois se tratava de um mistério que libertaria o homem, se fosse possível
descobrir a sua fórmula; mas como lhe acontecia sempre com a leitura dos
artigos de Djélâl, sentia-se tão profundamente mergulhado naquele universo que,
a cada esforço tentado em vista da resolução do mistério, se via desarmado como
uma criança ou um amnésico. Não sabia o que significava o universo que os
manequins lhe designavam; não sabia o que estava ali a fazer com todas aquelas
pessoas que não conhecia, ignorava também o sentido das letras e dos números,
e do mesmo modo o mistério da sua própria existência. Além disso, notava que à
medida que subiam, que se iam aproximando da superfície da terra, e porque se
afastava cada vez mais dos segredos das profundidades, começava a esquecer o
que vira e o que aprendera. Numa das salas de cima, quando viu uma série
completa de “cidadãos comuns” junto dos quais o guia não se deteve, sentiu que
compartilhava com eles pensamentos e destino. Outrora, todos juntos, haviam
vivido uma vida que tinha um sentido, mas por uma razão desconhecida, tinham
perdido esse sentido, tal como tinham perdido a sua memória. E sempre que
tentavam redescobri-lo, como se perdiam nos meandros cobertos de teias de
aranha da sua memória, como não eram capazes de dar com o caminho do
regresso nas vielas tenebrosas da sua razão, e como nunca encontravam a chave
de uma nova vida, caída no poço sem fundo das suas recordações,
experimentavam os tormentos que sofrem os que perderam tudo, a casa, o país, o
passado, a história. A dor de se estar longe de casa, de se estar perdido no
caminho do regresso era tão violenta, tão insuportável que mais valia ter
paciência, muito simplesmente, sem tentar sequer reencontrar o sentido perdido
ou o mistério, aceitando esperar em silêncio que a eternidade passasse. Mas, à
medida que se aproximava da superfície da terra, Galip adivinhava que nunca
poderia resignar-se a essa expectativa esmagadora; que nunca recuperaria a sua
serenidade antes de ter encontrado o que buscava. Não valeria mais ser a má
cópia de outro do que alguém sem passado, sem memória e sem sonhos? Quando
chegou ao cimo das escadas de ferro, quis imaginar-se no lugar de Djélâl, e
tentou ironizar a propósito dos manequins e da ideia que levara à sua criação:
aquilo não passava da sistematização maníaca de uma ideia extravagante, de
uma caricatura lamentável, de uma brincadeira de mau gosto, de uma série de
disparates incoerentes. E como que para lhe provar que tinha razão, o guia, ele
próprio uma caricatura, explicava que o seu pai nunca acreditara que o Islão
proibisse as imagens; aquilo a que chamamos pensamento, dizia ele, não era uma
cópia, uma imagem, e não acabavam eles de ver toda uma série de cópias?
Voltaram por fim à primeira sala; e eis que o artesão explicava aos visitantes que,
para manterem de pé aquela “concepção grandiosa”, deviam “agir sobre o
mercado dos manequins” e pedia-lhes que deixassem na caixa verde dos
“donativos” a “contribuição” que achassem conveniente.
Galip deitou uma nota de mil libras na caixa; o seu olhar cruzou-se com o da
antiquária.
— Reconheceu-me? — disselhe ela; tinha uma expressão infantil, alegre, e o
olhar de um sonhador que acaba de acordar. — Todos os contos da minha avó
diziam então a verdade.
— Os olhos dela cintilavam na penumbra como os de um gato.
— Perdão? — disse Galip, um pouco confuso.
— Não me reconheceste — disselhe a mulher. Andámos juntos no quarto
ano... Belkis...
— Belkis! — repetiu Galip; e disse para consigo que, de todos os rostos das
raparigas da turma,, só se lembrava do de Ruya.
— Trouxe o meu carro — disse a mulher. — Também moro em Nichantache.
Posso levar-te.
Saíram para o ar fresco da rua e dispersaram-se. Os jornalistas ingleses
foram na direcção do Péra-Palace. O homem de chapéu de feltro deu um cartão
de visita a Galip e entrou nas ruelas do bairro de Djihanguir. Iskender apanhou
um táxi. O arquitecto com o bigode aparado em escova acompanhou a pé Galip e
Belkis. Logo a seguir ao cinema Atlas, pararam diante de uma cozinha
ambulante, instalada à esquina da rua, para comerem um prato de pilaf. Próximo
da praça Taksim, mergulharam na contemplação dos relógios de pulso em
exposição na montra com o vidro gelado de uma relojoaria, como se estivessem
a admirar brinquedos misteriosos. No azul-bmarinho enevoado da noite, Galip
examinou atentamente o cartaz rasgado, azul-marinho também, de um filme, e
depois, na montra de um fotógrafo, o retrato de um ex-primeiro-ministro havia
muito enforcado. O arquitecto propôs-lhes então levá-los à mesquita de
Suleymaniyé. Poderia mostrar-lhes um fenómeno muito curioso, mais
interessante ainda que aquilo a que ele chamava “o inferno dos manequins”: a
mesquita, com quatrocentos anos de idade, movia-se lentamente sobre os seus
alicerces... Entraram no carro de Belkis, que o estacionara numa ruela, por trás
da praça de Taksim, e puseram-se a caminho, silenciosos. “Aterrador! É
aterrador!”, sentiu Galip vontade de dizer, enquanto o automóvel passava entre
as casas de dois andares, mergulhadas no escuro. Caía uma neve ligeira, toda a
cidade dormia.
Quando chegaram à mesquita, após um longo percurso, o arquitecto acabara
a sua história: encarregado dos trabalhos de restauro, conhecia bem os
subterrâneos da mesquita, e um imã disposto a abrir-lhes as portas em troca de
algumas moedas. O motor parou. Galip declarou que os esperaria no carro.
— Mas vais ficar gelado! — disselhe Belkis. Galip observou que ela deixara
definitivamente de o tratar na terceira pessoa. Com o seu casacão pesado e o
lenço que pusera na cabeça, parecia uma das suas tias afastadas. Os doces de
amêndoa que essa tia lhes oferecia, quando a iam ver por altura das festas, eram
tão açucarados que Galip tinha de engolir um copo de água antes de atacar a
segunda dose, que ela lhe servia com insistência. Porque era que Ruya nunca
participava nessas visitas familiares dos dias de festa?
— Não me apetece ir — disse ele num tom decidido.
— Mas porquê? — disse a mulher. — Subimos a seguir ao alto do minarete.
— E virando-se para o arquitecto: — Podemos subir, não podemos?
Houve um silêncio. Um cão ladrou algures, não muito longe. Galip ouviu o
trovão da cidade sob a neve.
— Sobem vocês os dois — disse o arquitecto. — O meu coração não
aguentava se eu subisse aqueles degraus todos.
A ideia de subir ao alto do minarete agradara a Galip, que saiu do carro.
Atravessaram um primeiro pátio, cujas árvores cobertas de neve estavam
iluminadas por algumas lâmpadas, e penetraram no claustro. Vista de tão perto, a
mole de pedra pareceu-lhes mais pequena e transformou-se num edifício familiar
que já não podia dissimular os seus segredos. A camada de neve que cobria os
mármores era sombria e estava crivada de buracos, como a superfície da Lua,
nas imagens publicitárias de uma marca de relógios estrangeira.
Num canto da galeria, o arquitecto começou a mexer de qualquer maneira no
cadeado de uma porta metálica, enquanto lhes explicava que a mesquita
deslizava de cinco a dez centímetros por ano na direcção do Corno de Ouro; era
arrastada pelo seu peso e também pelo movimento da colina sobre a qual fora
construída. De resto, deveria ter deslizado mais rapidamente ainda, mas as
paredes de pedra que vão de um lado para outro entre os alicerces, e “cujo
segredo não foi até hoje descoberto”, “esse sistema de esgotos cuja técnica
nunca foi igualada”, o conjunto dos subterrâneos, dos canais e dos reservatórios,
calculado com tão minuciosa precisão havia quatrocentos anos, travavam o
movimento da mesquita. O cadeado acabou por ceder, a porta abriu dando para
uma passagem escura, e Galip leu nos olhos cintilantes da jovem mulher uma
imensa curiosidade perante a vida.
Belkis talvez não fosse singularmente bela, mas quem a via perguntava-se o
que iria ela fazer ou dizer. “Os ocidentais nunca conseguiram desvendar este
segredo!”, declarou o arquitecto com um exagerado entusiasmo de bêbado, e
penetrou no túnel. Galip, pelo seu lado, ficou no pátio.
Ouvia os ruídos que lhe chegavam do túnel, quando o imã surgiu da sombra
das colunas geladas pelo frio. O homem não parecia descontente de ter sido
acordado tão cedo.
Também ele apurou o ouvido para as vozes que subiam do subterrâneo, e a
seguir perguntou: — Esta senhora é uma turista estrangeira? — Não —
respondeu-lhe Galip, que disse para consigo que a barba do imã o fazia parecer
mais velho que era. — És professor, tu também? — perguntou-lhe o imã. —
Professor, sim. — Professor, como Fikret bey? — Sim. — É verdade que a
mesquita se move? — É verdade. É justamente por isso que aqui estamos. —
Deus vos abençoe pelo vosso interesse! — disse o imã, que estava com um ar
um tanto desconfiado. — A mulher vem acompanhada por uma criança? —
Não... É que há uma criança, que se esconde no fundo da mesquita.,— Parece
que a mesquita se move há séculos... — disse Galip, pouco à-vontade. — Bem
sei — disse o imã. — É proibido entrar neste subterrâneo, mas uma turista, uma
estrangeira, entrou, ela e o filho, eu vi-os. E estava sozinha quando saiu. A
criança ficou lá dentro. — Você devia ter prevenido a polícia — disse Galip. —
Não valia a pena — disse o imã. — Mais tarde, as fotografias da mulher e da
criança apareceram nos jornais.
Parece que se tratava do neto do rei da Abissínia. Mas é preciso fazê-la sair
de lá... — O que é que havia no rosto da criança? — perguntou Galip. — Bem
vês, também tu estás ao corrente — disse o imã, sempre desconfiado. — Eu era
incapaz de olhar a criança nos olhos! — Galip insistiu: — O que é que estava
escrito no rosto da criança? — Muitas coisas! — disse o imã, que parecia ter
perdido toda a sua segurança. — Sabes ler nos rostos? — perguntou Galip. O
imã calava-se. — Para se descobrir um rosto perdido, bastará correr atrás do que
esse rosto significa? — insistiu Galip. — Deves saber melhor que eu — disse o
imã, inquieto. — A mesquita está aberta? — Acabo de abrir a porta — disse o
imã.
— Os fiéis vão começar a chegar dentro em breve para a primeira oração da
manhã. A mesquita estava vazia. Os néons iluminavam mais as paredes nuas do
que os tapetes violetas, que se desenrolavam até muito longe como a superfície
do mar. Galip sentiu os pés gelados nas meias. Examinou a cúpula, as colunas, a
gigantesca mole de pedra por cima da sua cabeça, com o desejo de se sentir
impressionado. Mas nenhum sentimento despertou nele, excepto o desse mesmo
desejo, um sentimento de expectativa, uma vaga curiosidade pelo que se ia
passar... Tal como as pedras com que fora construída, a presença da mesquita era
em si própria enorme, fechada, auto-suficiente. O lugar não atraía, não remetia
para outra coisa: do mesmo modo que nada significava nada, tudo podia ser sinal
de tudo. Galip julgou entrever uma breve luz azul, depois ouviu um rápido bater,
talvez o de umas asas de pombo. Mas de pronto o lugar tornou à sua alma, ao
seu silêncio, na expectativa de um novo sentido. Ele disse-se então que à sua
volta, as pedras, os objectos eram ainda mais despojados do que o necessário. As
coisas pareciam suplicar-lhe que lhes desse um sentido.
Ao fim de um momento, dois velhos aproximaram-se a passo lento,
segredando entre si, e vieram acocorar-se diante do mihrab. E Galip deixou de
ouvir o apelo das coisas em seu redor.
Talvez tenha sido por isso que não estava à espera de nada de novo quando
se viu nas escadas do minarete. O arquitecto dissera-lhe que Belkis já subira,
sem esperar por ele. De início, Galip subiu rapidamente os degraus, mas em
breve teve de afrouxar o passo: sentia violentamente nas têmporas as pulsações
do coração. E teve de se sentar quando começou a sentir dores nas pernas e nas
ancas. E continuou a sentar-se antes de retomar a escalada sempre que deixava
para trás uma das lâmpadas nuas Que iluminavam as escadas. Pôs-se a subir
mais depressa quando ouviu os passos da jovem mulher por cima da sua cabeça,
mas precisou ainda de algum tempo até a alcançar na galeria do minarete. Lado a
lado, contemplaram em silêncio Istambul mergulhada no escuro, as raras luzes
da cidade e a neve que caía.
Quando Galip notou que as trevas se dissipavam pouco a pouco, a cidade
parecia continuar ainda por muito tempo mergulhada na noite, semelhante à face
obscura de uma estrela longínqua. Depois disse para consigo, a tiritar de frio,
que a luz que tocava as paredes das mesquitas, o fumo das chaminés, os
amontoados de betão, não vinha do exterior, mas parecia surgir do interior da
cidade. Tal como a superfície de um planeta, ainda a completar a sua revolução,
dir-se-ia que os diferentes fragmentos desta cidade, toda em encostas, coberta de
betão, de pedra, de tijolos, de construções de madeira, de cúpulas e de matéria
plástica, se iam entreabrir lentamente para deixarem passar a luz avermelhada de
um subsolo cheio de mistérios. Mas esta imprecisão pouco durou. As letras
gigantescas dos anúncios de bancos ou de marcas de cigarros apareciam pouco a
pouco, umas atrás das outras, entre as paredes, as chaminés e os telhados, e
ambos ouviram a voz do imã a recitar a oração da manhã, que irrompia dos
altifalantes muito perto deles.
Enquanto descia as escadas, Belkis pediu notícias de Ruya. Galip disselhe
que a mulher estava em casa à espera dele, que adorava ler romances policiais à
noite, e que ele lhe comprara três novos nessa mesma manhã.
Belkis voltou a fazer-lhe a mesma pergunta quando ficaram os dois sozinhos
na Murat tão banal — haviam deixado o arquitecto com o seu bigode aparado
em escova na avenida de Djihanguir, que continuava larga e deserta como antes.
Dirigiam-se agora para a praça de Taksim. Galip explicou-lhe que Ruya
actualmente não trabalhava, que lia romances policiais, e que, de tempos a
tempos, traduzia sem pressas um desses romances. Enquanto davam a volta à
praça, a jovem mulher perguntou-lhe como fazia Ruya as suas traduções: muito
lentamente, disselhe Galip; de manhã, ele saía para o escritório, Ruya levantava
a mesa onde tinham acabado de tomar o pequeno-almoço, para se instalar diante
dela, mas a verdade era que Galip nunca a vira a trabalhar, e não conseguia
sequer imaginá-la a fazê-lo.
Em resposta a uma nova pergunta, explicou, sempre com o ar ausente de um
sonâmbulo, que lhe acontecia, certas manhãs, sair de casa sem esperar que Ruya
saísse da cama.
Acrescentou que uma vez por semana iam jantar a casa da tia paterna (de
Ruya) e materna (de Galip), e que, à noite, iam de vez em quando ver um filme
ao cinema Konak.
— Bem sei — disse Belkis. — Vi-vos lá muitas vezes. Tu, com um ar de
quem está feliz com a vida, examinavas as fotografias do átrio, davas
afectuosamente o braço à tua mulher, e guiava-la por entre a massa das pessoas,
até a porta que dá para o balcão. Mas a Ruya, essa, procurava nos cartazes e na
multidão um rosto que fosse capaz de lhe abrir as portas de um outro universo.
Eu adivinhava que ela tentava decifrar o sentido secreto dos rostos, algures
muito longe de ti.
Galip ficou em silêncio.
— No intervalo, enquanto fazias sinais à vendedora, que fazia tinir uma
moeda na sua caixa, para lhe comprares chocolate com recheio de coco ou o
gelado que a tua mulher aprecia, como um bom marido ajuizado, satisfeito com
a vida, e enquanto procuravas trocos nos bolsos, eu adivinhava, pelo meu lado,
que até mesmo nos anúncios de escovas ou de espremedores de limão, que
contemplava, com um ar infeliz, no ecrã, à luz baça da sala, ela procurava os
rastos de mensagens misteriosas que a conduziriam a outras paragens.
Galip continuava em silêncio.
— Por volta da meia-noite, as pessoas saíam do Konak, comprimindo-se
menos umas contra as outras do que contra os sobretudos e os impermeáveis
umas das outras, e eu via-vos, de braço dado, a caminho de casa, olhando sempre
para diante.
— Afinal, só nos deves ter visto uma vez no cinema — disse Galip, com
uma voz onde transparecia uma vaga cólera.
— Vi-vos, não uma, mas uma dúzia de vezes no cinema, mais de sessenta
vezes na rua, três vezes no restaurante, seis vezes em lojas. E quando voltava
para casa, imaginava, como fazia quando éramos crianças, que a rapariga que
estava contigo era eu, e não a Ruya.
Houve um silêncio. Depois, ela voltou a falar ao passarem em frente do
cinema que acabavam de evocar.
— Quando ainda andávamos no colégio, nos recreios, quando ela ria com as
histórias que lhe contavam os rapazes, que molhavam o cabelo para comporem o
penteado com um pente que tiravam do bolso de trás e que penduravam todos os
porta-chaves que tinham no cinto, eu dizia de mim para mim que era eu, e não a
Ruya, quem tu seguias com o olhar sem sequer levantares a cabeça do livro que
tinhas poisado em cima da carteira. Nas manhãs de Inverno, repetia para comigo
que a rapariga sorridente que eu via atravesar a rua, e que nem sequer olhava
para os lados, porque tu ali estavas para a guiar, era eu, e não a Ruya. Aos
sábados à tarde, via-vos às vezes encaminharem-se para a paragem dos táxis
colectivos na direcção da praça de Taksim, acompanhados por um tio que vos
fazia sorrir; e imaginava que nos iam levar a Beyoglou, a ti e a mim.
— Quanto tempo durou esse jogo? — perguntou Galip ligando a rádio.
— Não se tratava de um jogo — disse a mulher, sem abrandar. — Não vou
passar pela vossa rua — acrescentou.
— Lembro-me desta canção — disse Galip, virando-se para a rua onde
morava, como se olhasse para um postal representando uma cidade remota. —
Era o Trini Lopez quem a cantava.
Na rua e nas janelas do apartamento, nada indicava o regresso de Ruya.
Galip sentiu a necessidade de fazer qualquer coisa e mudou de posto: uma voz
masculina, afectuosa e cortês, falava das medidas que se deviam tomar para
proteger as nossas quintas dos ratos.
— E tu nunca te casaste? — disse ele, quando o carro tomou por uma das
ruas que fica por trás da praça de Nichantache.
— Sou viúva — disse Belkis. — Perdi o meu marido.
— Não me lembro nada de ti na escola — disse de súbito Galip, com uma
crueldade sem razão. — Lembro-me de uma outra cara, que se parecia com a
tua: uma judiazinha tímida, muito simpática: Mary Tavachi. O pai dela era o
fabricante das meias Vogue. No final do ano, alguns rapazes, e até certos
professores, pediam-lhe calendários Vogue, que mostravam mulheres a calçarem
as meias. E ela trazia-lhos, confusa...
— Fomos muito felizes, o Nihat e eu, durante os primeiros anos do nosso
casamento — prosseguiu a mulher após um silêncio. — Ele era sensível,
reservado; fumava muito. Aos domingos, folheava os jornais e ouvia relatos de
futebol na rádio. Tentava tocar flauta, e tinha arranjado uma, não sei onde. Bebia
muito pouco, mas a maior parte do tempo tinha um rosto mais triste que o dos
bêbados mais tristes. Depois começou a queixar-se timidamente de dores de
cabeça. Descobrimos então que, havia anos, tinha um enorme tumor a crescer
pacientemente no cérebro. Sabes como são esses miúdos obstinados e
silenciosos, que escondem qualquer coisa na mão fechada, e que não a abrem,
façamos nós o que fizermos? Tal como eles, ele protegeu teimosamente o seu
tumor cerebral. E de novo, como os miúdos que nos sorriem quando acabam por
abrir os dedos para nos oferecerem o berlinde que têm na palma da mão, ele
mostrou-me um sorriso feliz, antes de entrar na sala de operações, onde acabou
por morrer discretamente.
Numa rua por onde Galip nunca ia, mas que conhecia tão bem como aquela
onde morava, não muito longe de casa da tia Hâlé, entraram num prédio cuja
fachada e cuja porta se assemelhavam estranhamente às do edifício “O Coração
da Cidade”.
— Sei que, com a morte, ele de certo modo se vingou de mim — disse a
mulher, quando subiam no velho elevador.
— Tal como eu era uma cópia da Ruya, ele tinha compreendido que devia ser
uma cópia tua. Porque certas noites, depois de beber um bocadinho de conhaque
a mais, eu não conseguia impedir-me de falar durante muito tempo de ti e da
Ruya.
Após um silêncio, entraram no apartamento e Galip sentou-se no meio de
móveis que se pareciam com os seus. — Lembro-me do Nihat, na escola —
disse ele a medo, como se quisesse desculpar-se.
— E achas que se parecia contigo?
Galip teve de se forçar até fazer surgir duas ou três cenas do fundo da sua
memória: Nihat e ele, tendo cada um na mão um bilhete, assinado pelos pais, a
pedir que fossem dispensados da ginástica, e o professor a chamar-lhes
molengões; um dia de Primavera demasiado quente, Nihat e ele desalterara-se,
com a boca colada às torneiras das casas de banho, com as suas sentinas fétidas.
Nihat era gordo, pouco desembaraçado, lento, pesado, pouco brilhante. A
despeito da sua boa vontade, Galip não chegava a experimentar simpatia por
esse rapaz que teria sido parecido com ele e do qual não se lembrava bem.
— É verdade — disse. — Éramos um bocado parecidos.
— Ele não era nada parecido contigo — disse Belkis. Os olhos dela
cintilaram com um clarão perigoso, como no momento em que chamara pela
primeira vez a atenção de Galip.
— Não era nada parecido contigo. Mas estávamos na mesma turma. E eu
tinha conseguido fazer com que ele olhasse para mim da mesma maneira que tu
olhavas para a Ruya. À hora do almoço, quando estávamos no bar, a Ruya e eu, a
fumar cigarros juntamente com os rapazes, eu via-o passar no passeio, lançar um
olhar preocupado para o grupo animado do qual, como ele sabia, eu fazia parte.
Durante os tristes fins dos dias de Outono, quando escurece tão cedo, enquanto
via como as luzes baças dos prédios se derramavam sobre as árvores despidas,
sabia que também ele via aquelas árvores, a pensar em mim, como tu fazias,
enquanto pensavas na Ruya.
Quando se sentaram à mesa para tomar o pequeno-almoço, a luz do sol
entrava já na sala em grandes vagas, por entre as cortinas abertas.
— Sei como é difícil sermos nós próprios — disse Belkis, abordando
bruscamente o assunto, como fazem aqueles cujo tema de reflexão é o mesmo há
muito tempo. — Mas só o compreendi depois dos trinta anos. Até lá, imaginava
que era uma questão de imitação, ou de simples ciúme. Durante as minhas
insónias, deitada de costas, contemplava as sombras no tecto, e desejava muito
estar no lugar de outra; convencia-me de que seria capaz de me desfazer da
minha pele, como uma mão despe uma luva, e que poderia, graças à força do
meu desejo, introduzir-me na pele de outra e começar uma vida nova. Havia
momentos em que sofria tanto por pensar nessa outra mulher, por não poder
viver a minha própria vida como ela vivia a dela, que as lágrimas me escorriam
pelo rosto quando estava sozinha sentada numa sala de cinema, ou quando
contemplava as pessoas mergulhadas no seu próprio universo, na multidão de
um mercado.
Pensativa, Belkis passava e voltava a passar a lâmina da faca por cima de
uma fina fatia de pão torrado, como se estivesse a barrá-la de manteiga.
— Ao fim de tantos anos, ainda continuo sem compreender porque é que nos
esforçamos assim por viver a vida de outra pessoa, e não a nossa própria —
prosseguiu ela. — Também não consigo explicar a mim própria porque queria
estar no lugar da Ruya, e não de outra.
Tudo o que posso dizer é que, durante muitos anos, julguei que se tratava de
uma doença que eu devia manter secreta. Tinha vergonha dessa doença, da
minha alma tocada por essa doença, do meu corpo condenado a carregá-la. Dizia
para comigo que a minha vida não passava de uma cópia da “vida verdadeira”,
dessa que eu deveria ter vivido, uma pálida cópia, digna de lástima e da qual
devia ter vergonha como de todas as cópias. Nesse tempo, para me livrar dessa
infelicidade, tudo o que podia fazer era imitar ainda mais o meu modelo, o meu
“original”. Cheguei a certa altura a pensar em mudar de escola, de bairro ou de
meio, mas sabia que afastar-me de vocês só serviria para me fazer pensar ainda
mais em vocês. Durante as tardes de Outono, não tinha vontade de fazer nada,
passava horas numa poltrona a contemplar as gotas de água que escorriam pela
vidraça. Pensava em vocês: na Ruya e no Galip. Segundo os indícios de que
dispunha, pensava naquilo que o Galip e a Ruya estariam a fazer nesse preciso
instante. A tal ponto que, ao fim de duas ou três horas, começava a acreditar que
quem estava sentada naquela poltrona, naquela sala sombria, já não era eu mas a
Ruya, e essa ideia aterradora causava-me um extremo prazer.
Porque a jovem mulher se levantava sem descanso para ir buscar chá e pão
torrado à cozinha, e porque falava com um sorriso tranquilo, como se contasse
uma história insólita relativa a um conhecimento distante, Galip podia ouvi-la
sem demasiado desconforto.
— Esta doença durou até à morte do meu marido. Talvez ainda dure, mas eu
já não a vivo como uma doença. No período de solidão e de saudade que se
seguiu à morte dele, decidi que era impossível ser eu própria. Experimentava
violentos remorsos, o que constituía aliás outra forma da mesma doença. Ardia
do desejo de reviver tudo o que tinha vivido durante tantos anos ao lado do
Nihat, da mesma maneira, mas sendo simplesmente eu própria. Na noite em que
compreendi que os remorsos só podiam envenenar o resto dos meus dias,
atravessou-me o espírito uma ideia bizarra: tal como não tinha podido ser eu
própria na primeira parte da minha vida, porque queria ser outra, ia passar a sua
segunda parte sem o conseguir ser também, por tanto chorar os anos em que não
tinha podido sê-lo. A ideia pareceu-me tão cómica que aquele desespero terrível,
que parecia ser a sorte do meu passado e do meu futuro, adquiriu aos meus olhos
o aspecto de um destino normal que eu partilhava com todos os outros e com o
qual não queria perder tempo. Nunca podemos ser nós próprios: tinha acabado
por compreender esta verdade primeira, que nunca mais esqueceria. Sabia que
aquele velho, em que reparei um dia, mergulhado nos seus cuidados, entre a
multidão que se atropelava numa paragem de autocarro, conservava ainda em si
os fantasmas de todos aqueles que tinha querido ser, muitos anos antes. Sabia
que aquela mãe saudável, vigorosa, que levava o filho ao parque, numa manhã
de Inverno, para aprovei-' tar o sol que estava, era vítima da imagem de outra
mãe que, também ela, levava o filho ao parque. Sabia que as multidões
melancólicas que saem, com um ar pensativo, das salas de cinema, ou que se
apinham nas ruas ou nos cafés ruidosos, são, manhã e noite, assombradas pelos
fantasmas dos originais cujo lugar gostariam de ocupar.
Sempre sentados à mesa, acenderam um cigarro. A mulher continuava a falar
e, na sala cada vez mais quente, Galip sentia uma vontade de domir insuperável
e um sentimento de culpa que só em sonhos se experimenta a invadi-lo
lentamente. Pediu licença para se deitar num divã, perto do radiador, para dormir
um bocadinho. Mas Belkis começou a contar-lhe a história do príncipe herdeiro
que, dizia ela, tratava de “todas estas questões”.
Sim, era uma vez um príncipe que descobria o problema mais importante da
vida: poder ser ele próprio, ou não o conseguir. Mas quando Galip começava a
imaginar as cores da história, adormeceu sentindo que se transformava noutro, e
depois num homem que se afunda no sono.


CAPÍTULO XVIII

O POÇO ESCURO DO PRÉDIO

“O aspecto desta venerável casa sempre me impressionou como uma


fisionomia humana.”
Nathaniel Hawthorne


Muitos anos mais tarde, voltei a ver o prédio, ao cair da noite. Passara muitas
vezes por essa rua sempre animada, por aqueles passeios onde, à hora de almoço,
alunos do liceu desalinhados, mas de gravata, se atropelavam, com as suas pastas
na mão; onde, ao anoitecer, se apressavam os maridos de regresso do trabalho, e
as mães que ficam em casa, voltando do cinema ou de uma sala de chá. Mas eu
nunca ali voltara para ver o prédio, que outrora tivera tanta importância para
mim.
Era, portanto, um anoitecer de Inverno. Escurecera muito cedo, o fumo que
saía das chaminés derramava-se como uma noite de nevoeiro na rua estreita. Só
em dois andares havia luz: a luz baça, sem alma, dos escritórios onde se trabalha
até tarde. O resto da fachada estava mergulhado na escuridão. Havia cortinados
sombrios corridos sobre aqueles apartamentos, com as luzes apagadas, e as
janelas eram tão assustadoras e vazias como os olhos dos cegos. Quando
comparava o prédio com o que fora no passado, a sua imagem era glacial,
desagradável; impossível imaginar que uma família vivera outrora nesses
andares, no meio da algazarra de uma promiscuidade afectuosa.
Deu-me prazer este aspecto de degradação e de declínio do edifício, como se
visse nele o castigo de todos os seus pecados de juventude; sei que este
sentimento me tomava porque nunca pudera saborear a parte de felicidade que
me deveria, de todos esses pecados, ter tocado. Sei que experimentava também
um certo prazer de vingança perante aquele espectáculo de decrepitude. Mas de
momento pensava noutra coisa: que seria feito dos mistérios que escondia o
velho poço, transformado mais tarde em poço de ventilação, e de tudo o que ele
continha?
Pensava no poço que se encontrava ao lado do prédio, nesse poço que me
fazia tremer de medo à noite, a mim e a todos os meninos encantadores, às lindas
meninas e até mesmo aos adultos, que então enchiam o prédio. Tal como os
poços dos contos de fadas, pululava sem dúvida de morcegos, de serpentes
venenosas, de escorpiões e de ratazanas. Estava convencido de que se tratava do
poço descrito pelo Xeque Galip no seu Husnu Achk e daquele a que se refere
Mevlâna no seu Mesnevi. Por vezes, aparecia cortada a corda dos baldes com
que se tirava a água; dizia-se também que havia, lá no fundo, um demónio, um
negro do tamanho do prédio inteiro! Sobretudo, não se aproximem do poço,
meninos, diziam-nos. Com uma corda presa à cintura, o porteiro descera lá
dentro um dia, e regressara dessa expedição à imponderabilidade e ao infinito
das trevas com as lágrimas nos olhos e os pulmões cheios de alcatrão de cigarro.
Sabia também que a guardiã do poço, a feiticeira dos desertos, evocada pelo
Xeque Galip, se dissimulava sob a aparência da mulher de rosto lunar do
porteiro; e que o poço estava estreitamente ligado a um segredo, enterrado no
mais fundo das memórias dos moradores do prédio, um segredo que eles
temiam, como se se tratasse de uma falta que não seria possível manter
eternamente escondida. Tal como certos animais que tapam com terra os seus
excrementos que os envergonham, as criaturas que viviam no prédio acabaram
por esquecer o poço e os seus segredos e também as recordações que lhes
estavam associadas: uma bela manhã, mal acabava ainda de sair de um pesadelo
cor de noite, assombrado por rostos humanos desprovidos de expressão,
verifiquei que estavam a tapar o poço. Compreendi então, aterrorizado, e sempre
com a mesma impressão de pesadelo, que um poço ao contrário ia ser construído
agora a partir do buraco que tinha o nome de poço. Para falar desse novo espaço,
que aproximava das nossas janelas o mistério e a morte, passaram a utilizar-se
termos novos, e o poço passou a ser designado como “poço de ventilação” ou,
sobretudo, “buraco negro”.
E com efeito, esse volume a que os moradores do edifício chamavam com
repulsa e tristeza “buraco negro” (sem qualquer alusão à ventilação ou à
iluminação, ao contrário do que se passava com os demais habitantes de
Istambul) não servira desde o começo como poço de ventilação.
Quando o prédio fora construído, tinha terrenos vagos dos dois lados; ainda
não se viam essas construções pavorosas que, mais tarde, ergueram ao longo da
rua uma longa muralha encardida. Depois, um desses terrenos vagos fora
vendido a um promotor imobiliário. Em breve, as janelas da cozinha, as do
corredor muito comprido e as da pequena divisão, utilizada de modo diferente de
andar para andar (despensa, casa da roupa, quarto de criada, quarto de criança,
quarto de amigos pobres, quarto de dormir de uma tia afastada), que davam até
então para a mesquita, a linha de eléctrico, o liceu feminino, a loja de Alâaddine
e, evidentemente, o poço, ficaram a três metros de distância apenas das janelas
do novo prédio vizinho. De tal modo que, entre as paredes de betão escurecidas
pela sujidade e as janelas dos dois edifícios que se espelhavam umas às outras,
juntando à sua imagem a dos andares inferiores, se formou um volume cheio de
uma atmosfera pesada, inerte e sombria, que lembrava a fundura infinita do
antigo poço.
Os pombos depressa descobriram aquele vazio, que igualmente depressa
readquiriu o seu antigo cheiro tão desagradável. Acumulando os seus
excrementos inesgotáveis à volta das janelas, em recantos que a mão humana
não podia nem ousava alcançar, nos vãos que se esboroavam de repente, ao
longo das saliências do betão, nos cotovelos dos algerozes, criaram lugares que
convinham aos seus próprios cheiros, à sua segurança, à sua prole cada vez mais
numerosa. As gaivotas impertinentes, que são, ao que se diz, mensageiras de
catástrofes meteorológicas, mas também de certas más notícias menos
determinadas, vinham de vez em quando reunir-se-lhes, tal como corvos
extraviados na noite e que chocavam contra as janelas cegas, naquele escuro
poço perdido. Descobriam-se com frequência as carcaças destas criaturas aladas
semidevoradas pelas ratazanas no pequeno pátio, ao qual se tinha acesso
baixando as costas pela portazinha de ferro — parecida com a de um calabouço,
e que rangia tanto como a porta de um calabouço — do cubículo do porteiro,
com o seu tecto baixo e sem ar. Descobriam-se muitas outras coisas ainda
naquele chão, coberto de porcarias a que nem sequer uma estrumeira se poderia
chamar: casca de ovos de pomba que as ratazanas roubavam subindo pelo
interior dos algerozes, meias de senhora e peúgas desemparelhadas, facas e
garfos com azar que tinham caído das toalhas de mesa às flores ou dos lençóis
ainda com cheiro a sono sacudidos sobre aquele abismo verde-cinzento, pontas
de cigarro, fragmentos de vidraças, de lâmpadas ou de espelhos, molas
enferrujadas de colchão, bonecas cor-de-rosa manetas que se obstinavam em
abrir e fechar tristemente as suas pálpebras com pestanas de nylon, páginas
rasgadas prudentemente aos bocadinhos de certos jornais ou de revistas
susceptíveis de serem considerados “subversivos”, bolas vazias, cuecas de
criança sujas, pedaços assustadores de fotografias destruídas, etc.
De tempos a tempos, brandindo com repulsa um desses objectos, o porteiro
exibia-o de andar em andar, mas todos os moradores do prédio se recusavam a
reconhecer-se proprietários dessas coisas duvidosas regressadas do lodo de um
outro universo: — Não é nosso — afirmavam. — Foi lá em baixo que
encontraste isso?
Este “lá em baixo” representava um medo a que tentavam fugir, mas que não
conseguiam expulsar da sua memória. Falavam daquilo como de uma doença
contagiosa, vergonhosa: o poço de ventilação era uma cloaca, na qual poderiam
eles próprios precipitar-se um dia por descuido, entre todos aqueles objectos
lamentáveis que o poço tragara; um ninho de danos que se introduzira
dissimuladamente entre eles. Até à evidência, era ali que as crianças apanhavam
todos esses micróbios tão falados nos jornais e que as feriam de doenças
misteriosas; era “lá em baixo” que aprendiam o medo dos fantasmas e da morte,
dos quais, apesar da sua pouca idade, já falavam. Era lá de baixo que subiam os
cheiros estranhos que se introduziam pelos interstícios das janelas e que, ao
mesmo tempo que o medo, invadiam a casa, dir-se-ia que as próprias aflições e a
miséria era por ali que se insinuavam! As nuvens escuras que se abatiam sobre
eles (falências, dívidas, pais que desertavam do lar, amores quase incestuosos,
divórcios, traições, ciúmes, óbitos), semelhantes às pesadas emanações azul-
marinho que subiam do buraco, ligavam-se por inteiro no espírito de todos à
história do poço. Tal como livros cujas páginas se confundissem na sua memória
porque queriam esquecê-los.
Graças a Deus, há sempre alguém para descobrir tesouros ao folhear as
páginas interditas.
As crianças (ah, estas crianças!), estremecendo no escuro do corredor, cuja
lâmpada nunca se acendia porque era preciso reduzir o consumo de
electricidade, introduziam-se entre as cortinas cuidadosamente corridas e,
curiosas e assustadas, encostavam a testa às vidraças das janelas que davam para
o poço. Nos dias em que toda a família ia jantar ao andar do avô, a criada
utilizava o poço de ventilação para anunciar, gritando o mais alto que podia, aos
do andar de baixo bem como a todos os inquilinos do prédio vizinho, que o
jantar estava pronto. Nas noites em que não tinham sido convidados, a mãe e o
filho, relegados para o último andar, lançavam de vez em quando um olhar pela
janela, que mantinham aberta, da sua cozinha, para espiarem os pratos da ementa
e as intrigas lá em baixo. Certas noites, um surdo-mudo contemplava o fundo do
patíozinho, até ao momento em que a sua velha mãe o surpreendia da janela.
Nos dias de chuva, a criadazinha, tão lacrimejante como os beirais,
devaneava, com os olhos no poço. O que fazia igualmente um certo jovem, que
mais tarde regressaria vitorioso a um daqueles andares, abandonados por uma
família em pleno declínio, incapaz de os manter...
Examinemos, também nós, e ao acaso, os tesouros que se descobriam
daquelas janelas: por trás das vidraças embaciadas das cozinhas, as silhuetas de
mulheres ou de raparigas cujas vozes se não ouviam; os movimentos de um
espectro que fazia as suas orações na penumbra de um quarto; por cima de um
edredão, ao lado de uma revista ilustrada, a perna de uma velha mulher estendida
numa cama (com um pouco de paciência, podia ver-se também uma mão a virar
as páginas da revista, ou a coçar a perna com um gesto preguiçoso); com a testa
encostada à vidraça, um jovem, decidido a regressar um dia vitorioso à beira do
poço perdido, para resolver os mistérios que todos os habitantes do prédio
dissimulavam tão cuidadosamente (o mesmo jovem, contemplando o seu rosto
na vidraça fronteira, avistava por vezes numa outra vidraça, mais abaixo, o
reflexo da segunda mulher do seu pai, com a sua beleza tão siderante, também
ela mergulhada em fantasias).
Mais algumas pequenas coisas, ainda: as silhuetas estão emolduradas pelas
cabeças e pelos corpos dos pombos acoitados no escuro; a atmosfera é de um
azul-marinho, muito carregado; os cortinados movem-se; nas divisões dos
apartamentos, as luzes acendem-se para se apagarem logo a seguir, deixando
atrás delas um rasto alaranjado e cintilante nas reminiscências melancólicas,
misturadas com um sentimento de culpa, que hão-de subir das memórias quando
estas se virarem para as mesmas janelas e para as mesmas imagens... Não
vivemos muito tempo, não vivemos grande coisa, sabemos menos ainda. Pelo
menos sonhemos. Bom domingo, queridos leitores.


CAPÍTULO XIX

OS SINAIS NA CIDADE

“Creio lembrar-me de me ter sentido um pouco diferente, mas se não sou a
mesma, a questão que se põe é a seguinte: quem diabo posso eu ser?”
Lewis Carroll


Ao despertar, Galip descobriu diante de si uma mulher inteiramente
diferente: Belkis mudara-se, vestia uma saia verde-petróleo que lembrou a Galip
que se encontrava num lugar que não conhecia, com uma mulher que não
conhecia. O rosto e os cabelos de Belkis tinham-se transformado por completo.
Prendera os cabelos exactamente como os de Ava Gardner em Cinquenta e
Cinco Dias em Pequim e pusera o bâton Supertechnirama do mesmo filme.
Enquanto contemplava o novo rosto da mulher, Galip disse para consigo que
toda a gente o andava a enganar, e havia já muito tempo.
Um pouco mais tarde, foi buscar o jornal ao bolso do sobretudo, que a jovem
mulher pendurara cuidadosamente num cabide dentro do armário; abriu-o em
cima da mesa, já desembaraçada, sempre com o mesmo cuidado, dos restos do
pequeno-almoço, e releu a crónica de Djélâl. As palavras e as sílabas que nela
sublinhara pareceram-lhe tão desprovidas de sentido como as notas que
acrescentara à margem. Pareceu-lhe evidente que as cartas destinadas a descobrir
o segredo escondido no artigo não lhe forneciam qualquer pista. No mesmo
instante, teve a impressão de que não existia ali segredo algum. As frases que
relia pareciam indicar não só o que diziam as palavras, mas muitas coisas ainda.
Nesta crónica dominical, onde Djélâl contava a história do personagem que,
tendo-se tornado amnésico, era incapaz de entregar à humanidade a incrível
descoberta que acabara de fazer, cada uma das frases dir-se-ia pertencer a uma
outra história, conhecida de todos, a respeito de um caso completamente
diferente. Era tão claro, tão evidente que não era sequer necessário escolher
certas palavras, certas sílabas, certas letras da crónica para as dispor de outro
modo. E, para se compreender o sentido secreto, “invisível” da crónica, bastava
muito simplesmente relê-la com essa convicção. Enquanto o seu olhar deslizava
de uma palavra para outra, Galip persuadiu-se de que ia descobrir não só o local
onde se escondiam Djélâl e Ruya, o que significava esse local, mas também
todos os segredos da cidade, e até da própria vida; mas assim que levantava a
cabeça e via o novo rosto de Belkis, perdia o seu belo optimismo. Para o
conservar, tentou por um bom momento contentar-se com reler o artigo uma e
outra vez, sem contudo conseguir extrair dele claramente esse sentido secreto
que acreditava ser tão fácil descobrir nas suas linhas. Alegrava-se por se sentir
prestes a alcançar o conhecimento dos segredos da vida e do universo, mas
quando queria exprimir claramente, sílaba por sílaba, aquilo que procurava, era o
rosto da mulher a observá-lo de longe que aparecia diante dos seus olhos. Ao fim
de um momento, decidiu que não se aproximaria do segredo pela intuição ou
pela fé, mas pela razão, e começou a sublinhar outras palavras, outras sílabas e a
tomar notas à margem do artigo. Estava profundamente mergulhado neste
trabalho quando Belkis se aproximou da mesa.
— É a crónica do Djélâl Salik? — disse ela. — É teu tio, não é? Sabes
porque é que na noite passada, no subterrâneo, o manequim dele me pareceu
aterrador?
— Sei — disse Galip. — Mas ele é filho do meu tio. Não é meu tio.
— É que o manequim era tão parecido com ele! — continuou Belkis. —
Quando eu passeava pelo bairro na esperança de vos ver, era sempre ele que
encontrava. E sempre com a mesma roupa.
— Era de facto o impermeável dele, que usava muitas vezes nesse tempo —
disse Galip.
— Ainda o usa, e vagueia pelo bairro como um fantasma — disse Belkis. —
O que vêm a ser essas notas?
— Não têm nada a ver com o artigo — disse Galip dobrando o jornal. — É a
história de um exlorador polar que desaparece. Um outro vai à procura dele, e
desaparece também, por seu turno. O primeiro desaparecido, cuja ausência o
segundo tinha querido esclarecer, vive na realidade sob um falso nome, numa
cidade perdida, esquecida de todos, mas, um dia, é assassinado nessa cidade. O
homem que é morto sob esse falso nome...
Terminou a sua história, mas compreendeu que tinha de a retomar desde o
princípio, e sentiu-se tomado de uma irritação profunda contra todos os que o
obrigavam a repetir-se.
“Basta que cada um seja ele próprio para deixar de haver necessidade de
contarmos histórias”, apetecia-lhe dizer. Ao recomeçar a sua história, pusera-se
de pé e enfiara o jornal cuidadosamente dobrado no bolso do seu velho
sobretudo.
— Vais-te embora? — perguntou-lhe timidamente Belkis.
— Ainda não acabei a minha história — replicou-lhe ele, encolerizado.
E enquanto a concluía, sentiu a impressão de que a jovem mulher tinha posta
uma máscara.
Se lhe arrancasse essa máscara com os lábios pintados de bâton
Supertechnirama, o sentido do rosto que assim surgiria poderia ser clara,
nitidamente decifrado, dizia Galip para consigo, mas que sentido seria esse? Não
conseguia decidi-lo. Como fazia na infância quando o tédio o invadia, estava a
jogar ao jogo do “porque é que existimos?” e, porque podia, tal como na
infância, jogar esse jogo enquanto fazia outra coisa, continuou a contar a sua
história. Disse então de si para si que Djélâl despertava tanto interesse nas
mulheres por ser capaz de contar uma história enquanto pensava noutra coisa.
Mas Belkis estava a olhar para ele, não como uma mulher a ouvir Djélâl, mas
como alguém que não conseguia esconder o que significava o seu rosto.
— A Ruya nunca se inquieta contigo? — perguntou-lhe ela.
— Nunca. Acontece-me muitas vezes voltar para casa muito tarde. Tive com
frequência de desaparecer durante noites inteiras por estar a tratar de casos de
militantes em fuga, de escroques que deixavam atrás de si títulos falsos, de
inquilinos misteriosamente desaparecidos sem pagarem a renda, de desgraçados
que se tinham tornado bígamos a coberto de uma identidade falsa.
— Mas já passa do meio-dia — disse Belkis. — Se eu estivesse no lugar
dela, à tua espera lá em casa, gostava que me telefonasses.
— Não me apetece telefonar.
— Se fosse eu que estivesse à tua espera, estava morta de aflição —
continuou Belkis. — Esperava-te à janela, ficava à espera de ouvir tocar o
telefone. E ficava ainda mais infeliz ao pensar que tu não tentavas sequer dizer-
me nada, embora soubesses que eu me sentia inquieta, infeliz. Vá lá, telefona-
lhe. Diz-lhe que estás aqui, em minha casa.
A jovem mulher foi buscar o telefone e poisou-o diante dele, como se lhe
estendesse um brinquedo. Galip ligou para casa. Ninguém respondeu.
— Não está ninguém em casa.
— Mas onde poderá ela estar? — disse a mulher, mais por jogo do que por
curiosidade.
— Não faço a mínima ideia — disse Galip.
Foi buscar outra vez o jornal, instalou-se de novo diante da mesa para reler a
crónica. Leu-a e releu-a tão longamente que as palavras acabaram por perder
todo o sentido, transformando-se em desenhos compostos de letras. Depois disse
para consigo que ele próprio era capaz de escrever aquele artigo e que era capaz
de escrever como Djélâl.
Passado um momento, foi buscar o sobretudo ao armário, vestiu-o, recortou a
página da crónica, dobrou-a cuidadosamente e enfiou-a no bolso.
— Vais-te embora? — disse Belkis. — Não te vás embora...
Da janela de um táxi que teve muita dificuldade em conseguir, Galip lançou
um último olhar àquela rua tão familiar; tinha medo de nunca mais esquecer o
rosto de Belkis no momento em que ela lhe pedira que se não fosse embora. O
que ele, pelo seu lado, teria querido era que se gravasse na sua memória a
imagem da jovem mulher com um outro rosto, com uma outra história. Sentia
vontade de se dirigir ao motorista com o tom dos heróis dos policiais de Ruya,
mas limitara-se a explicar-lhe que desejava ir para a ponte de Gaiata.
Na ponte, que ia atravessando a pé, foi invadido pela impressão de estar
prestes a descobrir, entre a multidão do domingo, um segredo que buscava havia
anos e que só agora acabara de compreender que buscava. Como num sonho,
sentia vagamente que essa expectativa não passava de um erro, e contudo, as
duas verdades contradiziam-se na cabeça dele sem o perturbarem. Via soldados
de licença, pescadores à linha, famílias numerosas que andavam muito depressa
para não perderem o barco. Nada sabiam, todos eles, mas todos eles viviam no
segredo que Galip se esforçava por resolver. Quando Galip o conseguisse, este
pai de família que saíra para uma visita, com um bebé nos braços e um filho
calçado com ténis ao lado, esta mãe com a filha no autocarro, as duas com o
cabelo preso no alto da cabeça, poderiam então dar-se conta da realidade que
havia tantos anos determinava tão profundamente as suas vidas.
No passeio do lado do Mar de Mármara, Galip avançava observando de perto
os transeuntes: os seus rostos pareciam iluminar-se por um breve instante, perder
a sua expressão gasta, esgotada, envelhecida por anos e mais anos. Lançavam
um rápido olhar ao homem que se aproximava deles com um ar tão resoluto, e
Galip fitava-os nos olhos, olhava-os com insistência, como que para lhes ler no
rosto o seu segredo.
Os sobretudos e casacos da maior parte deles estavam velhos, coçados e
baços. O universo era para eles tão normal como o passeio de baixo dos seus
pés; e contudo não estavam solidamente implantados neste mundo. Estavam,
todos eles, pensativos, distraídos, mas, à menor provocação, uma curiosidade
enterrada no mais fundo da sua memória lembrava-lhes um segredo escondido
no seu passado e surgia por um breve instante na máscara inteiriçada dos seus
rostos. “Gostava tanto de os perturbar”, disse Galip para consigo, “de lhes contar
a história do príncipe herdeiro!” A história em que acabava de pensar era para
ele nova, mas tinha a impressão de a ter ele próprio vivido, de a recordar.
Na ponte, a maior parte dos transeuntes carregavam sacos de plástico a
transbordar de outros sacos de papel, de objectos também de plástico ou de
metal, de jornais, de caixotes de embalagem que Galip examinava, atentamente,
como se nunca tivesse visto tais coisas até então, ao mesmo tempo que tentava
decifrar as palavras que tinham impressas. De pronto, sentiu que as palavras e as
letras nos sacos eram outros tantos indícios que designavam a “outra verdade”, a
“realidade fundamental”, e a esperança invadiu-o. Mas tal como os rostos que
passavam por ele se iluminavam apenas por um instante para se extinguirem de
novo, as palavras ou as sílabas que via nos sacos desapareciam também muito
depressa, umas atrás das outras, depois de terem brevemente cintilado de um
sentido novo. E contudo Galip continuava a ler: “Leitaria... Atakoy... Turksan...
Frutos... Montra de... Palácio de...”
Quando viu num saco, ao lado de um velho que estava a pescar à linha, já
não letras, mas a imagem de uma cegonha, disse para consigo que era tão
possível decifrar as imagens como as palavras. Notou assim num outro saco as
imagens de duas crianças — um rapaz e uma rapariga — e dos seus pais,
radiantes de alegria e olhando cheios de esperança o mundo em seu redor. Dois
peixes num novo saco. Pôde ver ainda peças de calçado, mapas da Turquia,
silhuetas de edifícios, maços e cigarros, gatos pretos, galos, ferraduras,
minaretes, folhados de mel e amêndoa, árvores. Segundo toda a evidência, estas
imagens eram sinais, mas que segredo indicariam? No saco de uma velha que
vendia milho para pombos, diante da Mesquita Nova, descobriu a imagem de um
mocho. E compreendeu imediatamente que esse mocho era o das capas dos
romances policiais de Ruya, ou um dos seus irmãos, ali escondido,
sorrateiramente, e sentiu claramente a existência de uma mão misteriosa, que
movia todos os cordelinhos. O que ele precisava de descobrir, de decifrar, eram
de facto essas combinações, esses pequenos jogos, o sentido secreto da vida,
mas, à excepção de si próprio, ninguém mais parecia interessar-se por isso.
Embora todos estivessem enterrados até ao pescoço num segredo que tinham
perdido havia muito!
No propósito de examinar o mocho de perto, Galip comprou uma medida
de painço à velha que parecia uma feiticeira, e começou a atirar as sementes aos
pombos. Uma horrível massa negra de pombos caiu sobre o painço, fechando-se
em si própria ruidosamente como um guarda-chuva. O mocho do saco era
realmente o mesmo que o dos policiais de Ruya! Um casal que contemplava com
orgulho uma rapariguinha a dar de comer aos pombos irritou Galip; contrariou-o
que não vissem nem o mocho, nem a verdade evidente, nem os outros sinais, que
não vissem nada. Não havia a menor intuição naquele homem nem naquela
mulher. Tinham esquecido tudo. Galip sonhou ser o herói do romance policial
que imaginava Ruya a ler, em casa, à espera dele. O nó tão complicado que
precisava de cortar encontrava-se entre ele e aquela mão misteriosa que
arranjava maneira de ordenar tudo, de tudo governar e de permanecer secreta.
Bastou-lhe encontrar nas imediações da Suleymaniyé um aprendiz que trazia
num quadro a reprodução em pérolas de vidro da mesquita para decidir que, tal
como as palavras, as letras e as imagens nos sacos, as coisas que elas contavam
eram outros tantos sinais; o quadro de cores berrantes era mais real do que a
própria mesquita. Não só as palavras, as imagens, os quadros, mas também todos
os objectos que via em seu redor eram peões do mesmo jogo conduzido pela
mão misteriosa. Assim que o compreendeu, decidiu igualmente que o próprio
nome do bairro da Porta das Enxovias, cujas ruas encruzilhadas percorria, tinha
um sentido particular que ninguém notava. Tal como o jogador que reuniu
pacientemente as peças de um puzzle, sentia-se prestes a dispor todas as coisas
no seu lugar.
Era uma intuição sua: as tesouras de podar e as chaves de fendas, as
indicações de estacionamento proibido, as latas de molho de tomate, os
calendários nas paredes das tabernas, a arca bizantina em que tinham posto letras
de plástico, os pesados cadeados nos estores metálicos, tudo o que via nas lojas
disto e daquilo daquele bairro, nos seus passeios desfeitos, eram outros tantos
sinais que levavam ao sentido oculto. E sentia-se capaz, caso disso tivesse
vontade, de decifrar aqueles objectos e aqueles sinais do mesmo modo que os
rostos dos transeuntes. Adivinhando que este par de tenazes significava:
“atenção”; as azeitonas neste frasco: “paciência”; o motorista de ar feliz que
aparecia no anúncio de uma marca de pneus: “a meta está muito próxima”,
decidiu que se aproximava da sua própria meta à força de atenção e de paciência.
Mas fervilhavam sinais muito mais difíceis de ler à sua volta: fios telefónicos, o
anúncio que recomendava um especialista em circuncisão, sinais de trânsito,
pacotes de detergente, pás sem cabo, palavras de ordem políticas ilegíveis,
pedaços de gelo, placas dos serviços de electricidade, setas que indicavam
direcções, bocados de papel branco... Muito em breve, ser-lhe-iam, talvez,
acessíveis, mas de momento tudo continuava confuso, ruidoso, esgotante. Ao
passo que os heróis dos romances policiais de Ruya viviam, pelo seu lado, num
universo tranquilo, sereno, envolvido nos indícios que o autor lhes fornecia.
E, todavia, a mesquita de Ahi Tchélébi foi para ele um reconforto, o signo
que designava uma história inteligível: havia já muitos anos, numa das suas
crónicas, Djélâl evocara um sonho, no qual se encontrara naquela pequena
mesquita em companhia do Profeta e de alguns santos homens. Uma quiromante,
que fora consultar a Kassime-Pacha para que ela lhe explicasse o seu sonho,
predissera-lhe que ele passaria a vida a escrever; imaginaria e descreveria tantas
coisas que lembraria toda a sua vida como uma longa viagem, ainda que nunca
mais pusesse os pés fora de casa. Galip descobrira muito mais tarde que essa
crónica fora inspirada a Djélâl por uma passagem muito conhecida do Livro das
Viagem de Eviliya Tchélébi.
Assim, disse Galip para consigo, ao passar diante do Mercado, esta história
tinha para mim um certo sentido quando a li, mas adquiriu um sentido
completamente diferente quando a reli. Uma terceira leitura da mesma crónica,
depois uma quarta, deveriam portanto garantir-lhe novos sentidos, disso não
duvidava; ainda que as histórias que Djélâl contava fornecessem a cada leitura
outros indícios, davam a Galip a impressão de estar a aproximar-se de uma certa
meta, à força de transpor portas que davam umas para as outras, tal como nas
charadas e nos labirintos das revistas ilustradas para crianças. De tal modo que
enquanto atravessava, pensativo, as ruelas sem pés nem cabeça que rodeiam o
mercado da fruta e dos legumes, sentiu vontade de chegar o mais depressa
possível a um sítio onde pudesse reler todas as crónicas do seu primo.
A saída do Mercado, viu em cima do passeio o expositor de um adelo: o
homem dispusera em cima de um pano uma série de objectos que fascinaram
instantaneamente Galip. Saíra do Mercado atordoado pela algazarra e pelos
cheiros inacreditáveis que reinavam lá dentro e sem ter chegado a qualquer
conclusão. Havia em cima do pano dois cotovelos de tubo de fogão, discos
velhos, um par de sapatos pretos, uma base de candeeiro, tenazes desarticuladas,
um telefone preto, duas molas de colchão, uma boquilha com enfeites de nácar,
um relógio havia muito parado, duas notas de banco russas antigas, uma torneira
de latão, um bibelô que representava uma deusa com flechas ao ombro (Diana?),
uma moldura de quadro vazia, um velho aparelho de rádio, dois fechos de porta,
um açucareiro.
Galip enumerou-os pronunciando cuidadosamente os seus nomes e
examinou-os com atenção. O que os tornava tão fascinantes, ao que lhe parecia,
não era a sua natureza, mas o modo como estavam dispostos. Aqueles objectos,
que poderiam ver-se na loja de qualquer ferro-velho, haviam sido dispostos pelo
velho quatro a quatro em quatro alas, de tal modo que se diria formarem um
grande jogo de damas. Fora deixada entre eles uma distância bem calculada
como a que separa as peças de um jogo; não se tocavam; a simplicidade e o rigor
da sua posição não pareciam fruto do acaso, mas o efeito de um plano bem
ordenado. Por isso, Galip pensou de repente nos testes dos manuais de línguas
estrangeiras: há ilustrações que representam dezasseis objectos, dispostos lado a
lado e o aluno atribui-lhes nomes à medida que os vai aprendendo. Tubo, disco,
telefone, sapatos, tenazes, tinha Galip vontade de repetir em voz alta, mas
adivinhava com terror que todos aqueles objectos lhe indicavam um sentido
diferente do aparente. Examinava uma torneira de latão, dizia para consigo que
aquele objecto indicava uma torneira, como nos manuais, mas dizia-se logo a
seguir, extremamente comovido, que a torneira indicava igualmente outra coisa.
Tal como o telefone do manual, o telefone preto poisado em cima do pano
conduzia decerto ao conceito de telefone, quer dizer a um aparelho bem
conhecido que, uma vez ligado a uma tomada, nos liga a outras vozes, assim que
marcamos o número, mas significava também outra coisa que fez com que Galip
estremecesse.
Como poderia ele penetrar no universo misterioso desses duplos sentidos e
descobrir-lhes o segredo? Achava-se no limiar desse universo, sentia-o, sentia-se
feliz por isso, mas não conseguia tanspor o limiar. Nos policiais de Ruya, no
momento em que a intriga se decidia, o universo até então dissimulado por véus
que se sobrepunham esclarecia-se, mas no mesmo instante o primeiro universo
afundava-se nas trevas da indiferença. Quando, com a boca cheia do grão-de-
bico torrado que comprava na loja de Alâaddine, Ruya exclamava em plena
noite: “O assassino era o major reformado, vingou-se porque tinha sido
insultado!”, Galip adivinhava que a mulher esquecera todos os pormenores que
pululavam no livro, isqueiros luxuosos, mordomos, mesas da sala de jantar,
chávenas de porcelana, pistolas; a sua memória conservava apenas o universo
cujos sentidos novos e secretos todos esses objectos e todas essas porcelanas
indicavam. Os objectos que permitiam a Ruya e ao detective desembocar num
mundo novo no fim daqueles romances, tão mal traduzidos, só garantiam agora a
Galip a esperança de ter acesso a esse mundo também. E com esse objectivo,
fitou atentamente o rosto do adelo que dispusera os seus objectos misteriosos em
cima do pano, como se neles tivesse querido introduzir um sentido escondido.
— Quanto custa este telefone?
— És comprador? — perguntara-lhe o adelo, com prudência, preparando-se
para regatear.
Esta pergunta inesperada acerca da sua identidade deixou Galip estupefacto.
“Agora, também eles vêem em mim um sinal que conduz a outras pistas!”, disse
para consigo. O
mundo em que sonhava penetrar não era aquele, mas o universo que Djélâl
criara, tendo-lhe consagrado tantos anos. Adivinhava que o primo construíra
para si próprio ao longo dos anos, atribuindo nomes às coisas e contando
histórias nas suas crónicas, um universo onde se escondia e cuja chave não
entregava a ninguém. O rosto do homem, que se iluminara por um breve instante
na esperança de um negócio, voltara a ficar inexpressivo.
— Para que é que isto serve? — perguntou-lhe Galip, indicando-lhe a
pequena base de candeeiro.
— É um pé de mesa — disse o adelo —, mas há quem o use também como
varão de cortinado... Também pode servir de fecho de porta...
“A partir daqui, vou observar somente os rostos”, disse Galip de si para si
enquanto caminhava de novo pela ponte Atatiirk. Como os pontos de
interrogação que se tornam maiores nos balões das bandas desenhadas, a
expressão do rosto de cada transeunte inscrevia-se por um instante com fulgor na
sua memória, mas em seguida o rosto afastava-se, com a pergunta que nele se
lia, deixando atrás de si um ligeiro rasto. Pareceu-lhe a certa altura poder
estabelecer um nexo entre o panorama da cidade vista da ponte e as diferentes
significações que gravavam no seu cérebro os rostos que se sucediam, mas não
passava de uma ilusão. Talvez fosse possível descobrir no rosto dos seus
concidadãos a decrepitude da cidade, as suas adversidades, o seu esplendor
perdido, a sua melancolia e as suas misérias, mas tudo isso eram apenas os rastos
de uma história, de uma derrota, de uma culpa colectivas e não os de um
segredo, mostrando-se com um fim preciso. O azul cinzento e frio das águas do
Corno de Ouro, que se cobriam de espuma à passagem dos rebocadores,
transformara-se num castanho-escuro assustador.
Até ao instante em que entrou num café, numa ruazinha por trás do Túnel,
Galip observara setenta e três rostos. Instalou-se a uma mesa, satisfeito com tudo
aquilo que vira. Pediu um copo de chá ao empregado, depois, com um gesto
maquinal, tirou do bolso o jornal e começou a reler a crónica de Djélâl. As
frases, as palavras, as letras já nada tinham de novo para ele, mas, à medida que
as sondava, descobria nelas certas ideias que nunca tivera até então; essas ideias
eram de facto dele próprio, não surgiam do artigo, mas encontravam-se
estranhamente na crónica. Quando concluiu que existia esse paralelismo entre as
suas ideias e as do primo, experimentou a serenidade que o invadia quando, em
criança, se cria capaz de imitar deveras aquele que teria querido ser.
Em cima da mesa, havia uma folha de papel, dobrada em forma de cone. Os
restos de sementes de girassol que se viam na mesa indicavam que um vendedor
ambulante vendera aquelas sementes num pacotinho de papel ao cliente que
precedera Galip. Notou em seguida que o cone fora feito com uma página
arrancada de um caderno de escola. No verso da folha, podia ver-se a caligrafia
aplicada de uma criança: “6 de Novembro de 1972.
Unidade 12. Trabalho de casa: a nossa casa. O nosso jardim. No nosso
jardim, há quatro árvores, dois choupos, um grande salgueiro, um salgueiro
pequeno. O nosso pai construiu os muros do nosso jardim com pedras e arame. A
casa é um abrigo que protege os homens do frio no Inverno e do calor no Verão.
A casa guarda-nos de todos os perigos. A nossa casa tem uma porta, seis janelas
e duas chaminés.” Galip descobriu a casa, o jardim e as árvores no desenho feito
a lápis de cor por baixo do exercício escrito. As telhas do telhado tinham
começado por ser cuidadosamente desenhadas, uma a uma, e depois
apressadamente esborratadas de vermelho. Galip verificou que o número de
portas, de janelas, de árvores e de chaminés confirmava o texto, o que o
tranquilizou ainda mais.
Sempre com a mesma serenidade, virou a página e pôs-se a escrever, muito
depressa. Tal como as palavras utilizadas pela criança, as que ele escrevia entre
as linhas indicavam certos factos reais, disso não podia ter a mais pequena
dúvida. Era como se há muitos anos tivesse perdido a sua língua e o seu
vocabulário para os reencontrar agora, graças àquele dever. Quando chegou ao
fim da página, onde alinhara, em caracteres mínimos, os indícios que reunira:
“Como era realmente simples! Para poder ter a certeza de que o Djélâl pensa
como eu, preciso de observar ainda mais rostos, é tudo!”, disse para consigo.
Esvaziou o seu copo de chá contemplando os rostos em seu redor, depois
saiu do café.
Numa ruela, por trás do liceu de Galata-Saray, cruzou-se com uma mulher
velha, com um lenço na cabeça que falava consigo própria em voz alta. No rosto
de uma rapariguinha que saía de uma mercearia passando por baixo do estore
metálico meio descido, leu que todas as existências se assemelhavam. A de uma
rapariga vestindo roupa usada, com os olhos postos nos sapatos de sola de
borracha que escorregavam na neve endurecida, mostrava que ela sabia bem o
que era a inquietação.
Entrou noutro café, instalou-se, tirou do bolso o dever e começou a relê-lo
rapidamente, como costumava percorrer as crónicas de Djélâl. Se, à força de ler
e reler os artigos dele, conseguisse apropriar-se da memória do primo, talvez
acabasse por ser capaz de descobrir o sítio onde Djélâl se encontrava. Mas, para
adquirir essa memória, precisava primeiro de conhecer o lugar onde se
conservava tudo o que Djélâl escrevera. O dever que relia permitira-lhe
adivinhar que esse “museu” era uma casa: “Um lugar que nos guarda de todos os
perigos”. Quanto mais lia o dever sobre “a casa”, mais recuperava a ingenuidade
da criança que pode nomear tranquilamente todas as coisas à sua volta, e sentiu-
se prestes a saber designar o sítio onde Ruya e o irmão dela o esperavam.
Sempre que esta ideia o fazia estremecer de entusiasmo não podia deixar de
registar novos indícios do outro lado da folha.
Eliminara alguns desses indícios quando acabou por sair do café, e fizera
com que outros ocupassem o primeiro plano: Ruya e Djélâl não podiam estar
fora da cidade, porque Djélâl era incapaz de viver em qualquer lugar que não
fosse Istambul. Não podiam estar na margem da Ásia, porque, para Djélâl, ela
não possuía uma carga histórica suficiente. Ruya e Djélâl não podiam ter-se
refugiado em casa de um amigo, porque não tinham amigos desse género. Ruya
não podia estar em casa de uma amiga sua, porque Djélâl nunca a teria
acompanhado, se assim fosse. Não podiam estar em quartos de hotel, porque aí
ver-se-iam privados das suas recordações, e porque um par — ainda que de
irmão e irmã — desperta sempre suspeitas num hotel.
No café seguinte, adquirira pelo menos uma certeza: estava no bom caminho.
Dirigia-se para a praça de Taksim, passando pelas pequenas ruas por trás de
Beyoglou, e avançava direito a Nichantache e Chichli, direito ao coração do seu
passado. Lembrou que numa das suas crónicas, Djélâl evocara longamente os
cavalos que se vêem nas ruas de Istambul. Viu numa parede o retrato de um
campeão de luta morto havia muito e do qual Djélâl falava amiúde. A fotografia,
a preto e branco, fora arrancada de um velho exemplar da revista Hayat, cujas
ilustrações emolduradas enfeitam as paredes de tantos salões de barbearia, de
lugares de hortaliça e de oficinas de alfaiate. Enquanto examinava a imagem do
campeão, com os punhos nas ancas e a medalha olímpica no peito, sorrindo com
um ar modesto, Galip recordou-se de que ele morrera num acidente na estrada.
De tal modo que, como com ele acontecia muitas vezes, a modéstia que se podia
ler no rosto do homem acabou por se confundir no seu espírito com o acidente, e
Galip concluiu, contrariado, que esse acidente era também um sinal.
As coincidências deste género, que misturavam os factos e as imagens para
os transformar noutras tantas novas histórias, eram portanto indispensáveis. Saiu
do café e retomou a direcção da praça de Taksim, sempre por uma e outra ruela.
“Quando vejo por exemplo”, dizia ele para consigo, “esta velha pileca
semimorta atrelada a esta carroça, junto ao passeio estreito da rua Hasnun-Galip,
sinto necessidade de remontar à recordação do grande cavalo cuja imagem via
no meu abecedário, no tempo em que a minha avó me ensinava a ler.
Esse grande cavalo, por baixo do qual estava escrita a palavra cavalo,
lembra-me, por sua vez, o apartamento situado no último andar do prédio da
avenida Techvikiyé, onde Djélâl morava sozinho na mesma data, e que mobilara
em função das suas recordações. E então digo para comigo que talvez esse
apartamento seja o símbolo do lugar que Djélâl ocupou na minha vida.”
Mas havia anos que Djélâl deixara o apartamento. Galip disse de si para si
que talvez estivesse a interpretar mal os signos, e hesitou: sabia com toda a
certeza que acabaria por se perder na cidade se começasse a duvidar das suas
intuições. O que o impedia de cair eram histórias, histórias que teria de descobrir
graças à sua intuição, como um cego consegue, tacteando, descobrir e identificar
as coisas. Conseguira aguentar-se porque criara para si uma história, obra
completamente sua, juntando os sinais'que lhe fora possível descobrir na cidade,
ao longo dos três dias da sua deambulação, atento a todas as aparências. E o
mundo em seu redor e as pessoas, também elas, se conseguiam aguentar-se, era
graças às histórias, disso sentia-se Galip igualmente certo.
Quando entrou num novo café, sentiu-se capaz de examinar a sua situação
com o mesmo optimismo. As palavras com as quais enumerara os indícios
pareceram-lhe tão simples e compreensíveis como as palavras do dever escolar,
do outro lado da folha. No outro extremo do café, num televisor a preto e branco,
viam-se tipos que jogavam futebol num campo coberto de neve. A bola e os
limites marcados a carvão na lama eram negros.
Excepto os clientes que jogavam às cartas em mesas de madeira despidas,
toda a gente olhava para essa bola negra.
Saiu do café, dizendo-se que o segredo que tentava desvendar devia ser tão
despojado, tão simples como aquele desafio de futebol a preto e branco. A única
coisa a fazer era continuar a andar até onde o levassem os seus passos, enquanto
fosse observando as imagens e os rostos. Havia cafés e mais cafés em Istambul,
de tal maneira que seria possível atravessar a cidade entrando-se num café de
duzentos em duzentos metros.
Nas imediações da praça de Taksim, viu-se de súbito no meio de uma massa
de espectadores que saíam de um cinema. Os rostos das pessoas que desciam os
degraus das escadas de braço dado, ou com as mãos nos bolsos, ou que
deixavam no chão um olhar distraído, eram tão carregados de sentido que Galip
disse para consigo que o pesadelo que estava a viver era uma história realmente
sem importância. Em todos aqueles rostos, lia-se a serenidade dos que esquecem
os seus males por estarem inteiramente mergulhados numa história: aquelas
pessoas estavam ao mesmo tempo, na rua digna de dó onde ele as via, e lá longe,
no coração da história em que tinham rapidamente querido instalar-se. A sua
memória, havia muito esvaziada pelas derrotas e pelas preocupações, enchera-se
agora de uma história complicada que as fazia esquecer todas as tristezas e todas
as recordações.
“Cada uma destas pessoas consegue convencer-se de que é uma outra!”,
disse para consigo, nostalgicamente, Galip. Teve por um instante vontade de ir
ver o filme que a multidão acabava de contemplar, para, também ele, se perder
numa história e se transformar em outro. Mas via aquelas pessoas que se
espalhavam pelas ruas de regresso já ao universo nauseante das coisas mil vezes
repisadas, enquanto olhavam as montras absolutamente desprovidas de qualquer
motivo de interesse. “Já estão a desistir!”, disse Galip de si para si.
Quando, para se poder ser outro, é preciso utilizarem-se todas as forças... No
momento em que chegou à praça, sentiu-se extremamente decidido, capaz de
mobilizar toda a sua vontade nesse sentido. “Tornei-me outro!”, pensou. Era uma
impressão muito agradável; sentia que não só o passeio coberto de gelo debaixo
dos seus pés, e a praça cheia a toda a volta de painéis de publicidade de Coca-
Cola ou marcas de conservas, mas também a sua própria personalidade, se
transformavam por inteiro. Era até possível imaginar que se podia transformar o
mundo à força de se repetir a mesma frase, mas não valia a pena ir tão longe.
“Sou outro!”, repetiu ele para consigo. E sentiu subir nele, como uma vida
nova, uma música carregada das recordações e das tristezas desse outro que ele
não queria nomear. E no meio dessa música, a praça de Taksim, um dos centros
principais da geografia da sua existência, transformou-se pouco a pouco, com os
seus autocarros que a atravessavam, como perus gigantescos, os seus trolleis que
se deslocavam lentamente, como lagostas indecisas; com os seus cantos e os
seus recantos decididos a permanecer para sempre afogados na penumbra,
metamorfoseou-se, tornou-se uma praça “moderna”, maquilhada e colorida, num
país arruinado e que perdera toda a esperança, uma praça onde Galip punha os
pés pela primeira vez na sua vida. O monumento à República, inteiramente
coberto de neve, as grandes escadarias do templo grego que não levavam a lado
algum, e a Ópera, que Galip vira arder em grandes labaredas, havia dez anos,
com certa satisfação, lograram assim tornar-se os fragmentos reais do país
imaginário que pretendiam anunciar. Nas bichas de espera desvairadas que se
acotovelavam nas paragens dos autocarros, entre todos os que se atropelavam
para entrar, Galip não conseguiu identificar um único rosto misterioso; não viu
um único saco de plástico susceptível de lhe fornecer um indício de outro
universo dissimulado sob múltiplos véus.
Caminhou assim até Nichantache, passando por Harbiyé, sem experimentar
de novo a necessidade de entrar em cafés para decifrar rostos no seu interior.
Muito mais tarde, quando estivesse certo de ter encontrado o lugar que tanto
buscara, e quando se esforçasse por recordar da identidade que assim adoptara
ao longo de todo o seu caminho, as dúvidas assaltá-lo-iam: “Nem sequer então
conseguira convencer-me deveras de ser, eu próprio, o Djélâl!”, diria de si para
si, ao redescobrir-se diante dos recortes de jornal, dos cadernos e dos velhos
artigos, que esclareceriam todo o passado do seu primo; “é que, nesse tempo,
não tinha conseguido relegar-me por completo para segundo plano.” Olhara tudo
o que o rodeava com a mentalidade do viajante que perdeu o avião e tem de
passar metade de um dia numa cidade que, de outro modo, nunca teria pensado
em visitar: o monumento a Atatiirk lembrava que este fora um militar que
desempenhara um papel importante na história do país; nos passeios cobertos de
neve, as multidões em frente dos cinemas cintilantes de luzes significavam que,
aos domingos à tarde, as pessoas tentavam enganar o seu tédio com sonhos de
outros países; do outro lado dos vidros das montras das suas lojas, os vendedores
de sandes e de beurek, com a faca na mão, os olhos postos nos passeios, eram
outras tantas alusões ao facto de que as ilusões e as lembranças dolorosas
acabavam por desaparecer sob as cinzas; na avenida, as árvores sombrias e nuas
tornavam-se ainda mais sombrias com a chegada da noite, simbolizando a
tristeza que se abatera sobre todo o país. “Que se poderá realmente fazer nesta
cidade, meu Deus, a estas horas, nesta rua?”, murmurara para consigo Galip,
mas sabia que extraíra essa exclamação de um velho artigo de Djélâl que
recortara e guardara.
A noite caíra quando chegou a Nichantache. A atmosfera das noites de
Inverno, nessas horas em que a cidade sufoca, numa combinação de gases dos
tubos de escape dos carros e de fumos que sobem das chaminés dos prédios,
impregnava os passeios estreitos. Galip aspirou com satisfação esse cheiro que
lhe queimava a garganta e que, na sua opinião, era insolitamente próprio daquele
bairro.
Numa das esquinas da praça, o desejo de ser outro invadiu-o com tal força
que teve a impressão de ver pela primeira vez, como outras tantas coisas novas,
diferentes, as fachadas das casas, as montras dos armazéns, os letreiros dos
bancos, os anúncios de néon, que todavia contemplara milhares e milhares de
vezes. Um sentimento de ligeireza e de aventura, que transformava subitamente
o bairro onde vivia havia tantos anos, apoderou-se dele, como se nunca mais o
fosse abandonar.
Em vez de atravessar e de voltar para casa, Galip virou à direita, na avenida
Techvikiyé. A impressão que acabava de o invadir por completo tornava-o tão
feliz, as possibilidades que lhe proporcionava a personalidade que endossara
eram tão sedutoras que devorava com os olhos essas imagens tornadas novas
com a avidez do doente que deixa o hospital depois de ter vivido durante anos
entre as mesmas quatro paredes. “A montra desta leitaria, pela qual passo todos
os dias há tantos anos, parece-se afinal com uma montra de joalheiro
brilhantemente iluminada, e eu nunca tinha dado por isso! E como é estreita esta
avenida, e estes passeios estão estragados!”, apetecia-lhe repetir.
Em miúdo, gostava de deitar para trás das costas o corpo e o espírito, para
observar do exterior o novo “ele” em que assim se tornava. E, tal como seguia
nesse tempo na sua imaginação o percurso daquele cuja personalidade adoptara,
disse para consigo: “Ele está neste momento diante do Banco Otomano, agora
passa em frente do "Coração da Cidade", onde morou tantos anos com o pai, a
mãe, o avô, a avó, e nem sequer volta a cabeça para ver o prédio. Agora pára
diante da farmácia, vê a montra, o filho da enfermeira que ia lá a casa dar
injecções está sentado atrás do balcão. E neste instante passa sem a mais
pequena apreensão diante da esquadra. Depois, contempla com afecto, como se
estivesse a olhar para velhos amigos, os manequins dispostos entre as máquinas
Singer. E a seguir, com o passo decidido das pessoas que sabem onde vão,
encaminha-se na direcção de um segredo, do núcleo de uma conspiração
minuciosamente urdida desde há anos...”
Depois de ter atravessado e seguido de um extremo a outro a avenida em
sentido contrário, voltou a atravessar e caminhou até à mesquita, passando diante
das janelas, dos cartazes de publicidade e de algumas raras tílias. Enfim, sempre
no mesmo passeio, voltou a descer a avenida. Parava uma ou outra vez um
pouco acima ou um pouco abaixo, para voltar atrás, alargando assim o seu
terreno de investigação, e observava atentamente certos pormenores que a sua
outra infeliz personalidade não lhe pemitira até então notar, e gravava-os num
canto da sua memória: havia uma navalha de mola na montra da loja de
Alâaddine, entre os jornais velhos empilhados, as pistolas de brinquedo e as
caixas de meias de nylon; o sinal de “direcção obrigatória”, que se supunha
indicar a avenida Techvikiyé, estava virado para o “Coração da Cidade”; os
bocados de pão duro abandonados no murete da mesquita estavam cobertos de
bolor, apesar do frio; as palavras de ordem política desenhadas junto à porta do
liceu feminino comportavam certas palavras com um duplo sentido; e era ainda o
“Coração da Cidade” que Atatiirk fixava através do vidro cinzento de pó que
protegia o seu retrato na parede de uma das salas de aula cujas luzes tinham sido
deixadas acesas; e na montra da loja de flores, uma mão misteriosa pusera
minúsculos alfinetes-de-ama nos botões de rosa. E os próprios manequins de
porte altivo, do outro lado dos vidros da montra de uma nova loja de artigos de
cabedal, viravam os seus rostos para o “Coração da Cidade”, na direcção do
apartamento do último andar onde Djélâl vivera outrora e onde mais tarde se
haviam instalado Ruya e os pais dela.
E como eles, Galip contemplou longamente o último andar do prédio.
Quando se sentiu transformado, tal como os manequins, numa cópia de
personagens imaginados noutros países, e dos heróis, que não se deixam
enganar, dos romances policiais em tradução que nunca lia, mas dos quais ouvira
Ruya falar muitas vezes, a ideia de que Djélâl e a irmã podiam perfeitamente
estar no andar que o olhar dos manequins lhe indicavam pareceu-lhe lógica.
Afastou-se no mesmo instante do prédio, como se se estivesse a pôr em fuga, e
recomeçou a avançar em direcção à mesquita.
Mas para tanto, teve de recorrer a toda a sua energia, como se os pés se
recusassem a obedecer-lhe, como se quisessem entrar o mais depressa possível
no “Coração da Cidade”, subir a passo de corrida os degraus tão familiares da
escada que levava ao último andar, penetrar no apartamento, num local sombrio
e inquietante, para descobrir não podia saber o quê. Galip recusava-se a evocar
essa imagem, mas quanto mais se forçava a afastar-se do prédio, mais sentia que
as pernas o reconduziam a todas as respostas carregadas de sentido que lhe
indicavam havia tantos anos aqueles passeios, aqueles armazéns, aquelas letras
nos anúncios ou nos sinais de trânsito. E quando compreendeu que eles lá
estavam, a intuição de uma desgraça e a angústia invadiram-no por completo.
Quando chegou à esquina da rua e da loja de Alâaddine, já não sabia se esse
medo se acentuava por estar muito perto da esquadra ou por ter notado que o
sinal “direcção obrigatória” já não indicava o “Coração da Cidade”. O seu
cansaço, a confusão do seu espírito eram tão grandes que teve de se sentar para
reflectir um pouco.
Instalou-se no velho botequim, na esquina onde ficava a paragem dos táxis
colectivos Techvikiyé-Emineunu, e pediu beurek e chá.
Que poderia ser mais normal, para um Djélâl tão apegado ao seu passado,
à sua memória vacilante, que arrendar ou comprar o apartamento onde passara a
sua infância e a sua juventude? Enquanto os que, outrora, o haviam forçado a
afastar-se estagnavam, porque não tinham dinheiro para mais, num velho
apartamento poeirento, numa rua escusa, ele regressara assim, vitorioso, aos
lugares de onde fora corrido. O facto de ter dissimulado essa desforra a toda a
família, com a excepção de Ruya, a arte com que soubera baralhar todas as pistas
quando morava naquela mesma avenida, pareceram a Galip convir bem ao
carácter de Djélâl.
Nos minutos que se seguiram, Galip consagrou toda a sua atenção a uma
família que acabava de entrar no botequim: o pai, a mãe, os filhos — um rapaz e
uma rapariga —, que vinham para um jantar sumário, após a sessão de cinema
do domingo à tarde. Os pais tinham a idade de Galip. De tempos a tempos, o pai
mergulhava na leitura do jornal que tirara do bolso. A mãe, pelo seu lado, tentava
acalmar, franzindo as sobrancelhas, as discussões entre os filhos, quando estas se
tornavam demasiado barulhentas. As mãos iam e vinham sem descanso entre a
mesa e o saco, de onde ela extraía, com a rapidez e a habilidade do
prestidigitador que tira do chapéu os objectos mais heteróclitos, toda a espécie
de coisas: um lenço para o rapaz que tinha o nariz a pingar, um comprimido
vermelho que deixou na palma da mão do pai, uma travessa para o cabelo da
filha, um isqueiro para o cigarro do pai, que estava a ler a crónica de Djélâl, o
mesmo lenço de novo para o rapaz, e assim sucessivamente.
No momento em que Galip engolia o seu último bocado e esvaziava o seu
copo de chá, dera-se conta de que aquele pai fora seu condiscípulo no colégio e
no liceu. E quando lho recordou, detendo-se impulsivamente ao encaminhar-se
para a porta, viu no pescoço e na face direita do homem cicatrizes de
queimaduras terríveis. Recordou também que a mulher daquele homem fora uma
aluna tagarela e desembaraçada, da mesma turma que ele e que Ruya, no liceu
Chichli-Teraki. Enquanto os adultos conversavam assim e as crianças
aproveitavam essa circunstância para solucionarem o seu diferendo, ao longo do
processo de evocação do passado e das perguntas relativas ao presente, acabaram
naturalmente por falar com muito apreço de Ruya, elemento do casal simétrico.
Galip explicou-lhes que não tinham filhos, que Ruya estava em casa à espera
dele a ler romances policiais, que tencionavam ir ao Konak, que ele próprio fora
comprar bilhetes para a sessão da noite e que encontrara na rua uma outra aluna
da mesma turma que eles, Belkis, uma rapariga de altura mediana, com os
cabelos castanhos...
— Nunca houve nenhuma Belkis na nossa turma! — protestaram o homem e
a mulher, tão enfadados um como o outro, num tom cortante e insípido como
eles próprios; folheavam com frequência os anuários encadernados da escola, a
fim de evocarem todos os seus companheiros desse tempo, bem como as
recordações e pequenas histórias ligadas a cada um deles, e era por isso que
tinham a certeza daquilo que estavam a dizer.
Galip saiu do botequim e voltou para o frio das ruas, começando a caminhar
rapidamente na direcção da praça de Nichantache. Decidira que Djélâl e Ruya
iriam ao Konak para a sessão das sete e um quarto da tarde dos domingos.
Correu para o cinema, mas eles não estavam nem no passeio nem no átrio de
entrada. Ficou um longo momento à espera deles e reparou na fotografia da
actriz que vira no filme da véspera; e de novo o desejo de se encontrar no lugar
daquela mulher despertou dentro dele.
Era tarde quando se viu, depois de ter efectuado um longo desvio, uma vez
mais diante do “Coração da Cidade” contemplando as lojas e lendo os rostos dos
transeuntes ao longo dos passeios. A luz azulada da televisão, que se reflecte
todas as noites às oito horas em todas as janelas, cintilava nas fachadas da rua,
excepto na do “Coração da Cidade”. Galip examinou com atenção as janelas
escuras e distinguiu uma ponta de pano azul-marinho na varanda do último
andar. Havia trinta anos, quando toda a família ali morava, um pedaço de pano
do mesmo azul-marinho constituía um sinal dirigido ao vendedor de água
potável. O homem que distribuía os bidões de água, com que enchia a sua
carroça puxada por um cavalo, sabia assim quais eram os andares que
precisavam de água.
Decidindo que continuava a tratar-se de um sinal, Galip imaginou diversas
interpretações: Djélâl podia muito bem estar a comunicar-lhe assim a presença
de Ruya. Ou ainda, Djélâl regressava desse modo, nostálgico, a certos elementos
do seu passado. Por volta das oito e meia, Galip abandonou o seu posto no
passeio e foi para casa.
As luzes da sala com os móveis velhos onde outrora — e não se tratava de
um passado muito antigo — se instalavam, Ruya e ele, com jornais e livros, um
cigarro na mão, desprendiam uma multidão de recordações insuportáveis, e de
uma tristeza igualmente insuportável, como essas fotografias de paraísos
perdidos banalizadas pelos jornais. Nada indicava que Ruya ali tivesse
regressado; não se via o mais pequeno rasto da sua passagem.
Os mesmos cheiros, as mesmas sombras acolhiam ali melancolicamente o
homem exausto que voltava ao domicílio conjugal. Galip abandonou os móveis
silenciosos sob as luzes nostálgicas e atravessou o corredor sombrio para entrar
no quarto mergulhado no escuro.
Tirou o sobretudo e deixou-se cair na cama, que descobriu tacteando. As
luzes da sala, as dos candeeiros da rua, que entravam pela janela do corredor,
desenhavam silhuetas demoníacas de rosto estreito no tecto do quarto.
Quando se levantou, muito mais tarde, Galip sabia perfeitamente o que ia
fazer. Leu o programa da televisão no jornal, depois as horas das sessões, que de
resto nunca mudavam, dos cinemas das imediações e os títulos dos filmes em
exibição; releu uma última vez a crónica de Djélâl, a seguir abriu o frigorífico,
de onde tirou algumas azeitonas e queijo branco com algumas manchas de bolor,
que comeu acompanhados de pão duro. Enfiou depois alguns jornais num grande
envelope que descobriu no armário de Ruya, e escreveu o nome de Djélâl no
envelope. As dez e um quarto, saíra de casa e retomara a sua espera diante do
“Coração da Cidade”, desta feita um pouco mais longe do prédio.
Ao fim de um momento, viu acenderem-se as luzes das escadas, e o velho
porteiro do prédio, Ismail, ocupado a esvaziar para dentro de um grande caixote
de lixo, junto ao grande castanheiro, os sacos de lixo que trouxera do interior do
edifício. Galip atravessou a rua.
— Viva, Ismail éfendi. Venho deixar-lhe este envelope para o Djélâl.
— Mas é o Galip! — disse o homem, com a alegria e a leve hesitação do
director da escola que encontra um antigo aluno, ao fim de muitos anos. — Mas
o Djélâl não está aqui! — acrescentou.
— Sei que está, mas não digo a ninguém — disse Galip, enquanto penetrava
no prédio com um passo decidido. — Sobretudo, não digas nada seja a quem for,
também tu! Entregas o envelope ao Ismail éfendi, foi tudo o que ele me disse!.
Galip desceu os degraus das escadas onde reinava desde sempre o mesmo
cheiro a gás e a azeite queimado e entrou nas instalações do porteiro. Sempre
instalada na mesma poltrona, a mulher de Ismail, Kamer, estava a olhar para a
televisão, poisada na prateleira onde estivera outrora a rádio.
— Kamer, sou eu!
— Aah! — exclamou a mulher. Pôs-se de pé; beijaram-se. — Vocês
esqueceram-se de nós!
— Nunca na vida! — disse Galip.
— Vejo-vos a todos, passam por aqui, em frente do prédio, mas nunca nos
vêm ver!
— Trouxe isto para o Djélâl — disselhe Galip, mostrando-lhe o envelope.
— Foi o Ismail quem te disse?
— Não, foi o próprio Djélâl. Bem sei, eu, que ele mora aqui. Mas, acima de
tudo, não digam nada a ninguém!
— Não podemos fazer nada, nós, não podemos dizer nada a ninguém —
disse a mulher. — Ele recomendou-nos tanto!
— Bem sei — disse Galip. — Estão lá em cima, agora?
— Nunca sabemos quando ele está. Chega a meio da noite, quando já
estamos a dormir. E sai sempre quando também estamos a dormir. Nunca o
vemos, e só ouvimos a voz dele, nunca o vemos em pessoa. Vamos lá recolher-
lhe o lixo, deixamos-lhe lá o jornal. Há alturas em que os jornais ficam no chão,
metidos por baixo da porta, durante dias e dias.
— Não vou subir — disse Galip.
Fingindo procurar um sítio onde poisar o envelope, examinou o aposento: a
mesa, coberta pelo mesmo oleado aos quadrados azuis; as mesmas cortinas
envelhecidas, que tapavam as pernas dos transeuntes no passeio e as rodas
enlameadas dos carros; a caixa de costura, o açucareiro, o fogareiro a gás, o
radiador enferrujado... Viu a chave pendurada como outrora num prego ao pé da
prateleira, por cima do radiador. A mulher voltara a instalar-se na poltrona.
— Vou fazer-te chá. Senta-te aí, na borda da cama. — Entortava os olhos na
direcção do televisor — O que é que faz a Senhora Ruya? Porque é que ainda
não tiveram um filho?
Uma rapariga que, de longe, lembrava Ruya apareceu no ecrã, para o qual a
mulher, agora, olhava abertamente. Uma tez muito branca, os cabelos desfeitos,
de uma cor indefinível; o seu olhar falsamente infantil não tinha expressão, e a
rapariga ia cobrindo, maravilhada, os lábios de bâton.
— É bonita — disse Galip sem levantar a voz.
— A Senhora Ruya é muito mais bonita! — disse Kamer, também ela em
voz baixa.
Contemplaram ambos a rapariga com respeito, com uma admiração quase
receosa. Com um gesto rápido, Galip apoderou-se da chave, meteu-a no bolso,
ao lado do exercício escolar onde registara todos os indícios. A mulher não dera
por nada.
— Onde quer que eu ponha este envelope?
— Dê-mo cá — disse Kamer.
Pela janelinha que dava para a rua, Galip pôde ver Ismai'1 éfendi voltar a
entrar no prédio com os caixotes de lixo vazios. Quando o elevador se pôs em
andamento, o que fez empalidecer as luzes e confundiu por um instante a
imagem no ecrã, Galip despediu-se.
Subiu os degraus das escadinhas e dirigiu-se para a porta de entrada, abriu-a
sem sair e depois deixou-a fechar-se ruidosamente.
A seguir, encaminhou-se para as escadas grandes, subiu dois andares em
bicos dos pés, presa de uma emoção que não conseguia dominar. Sentou-se num
dos patamares, entre o segundo e o terceiro andares, à espera do regresso de
Ismaíl éfendi, que estava a levar os caixotes de lixo vazios para os andares
superiores. As luzes das escadas apagaram-se por um instante. “É um sistema
automático”, murmurou Galip para consigo, reflectindo no qualificativo que
usara, e que evocava para ele as regiões longínquas e misteriosas da sua infância.
As lâmpadas voltaram a acender-se. O elevador desceu com o porteiro lá dentro,
e Galip recomeçou a subir as escadas muito lentamente. Na porta do
apartamento onde outrora vivera com os seus pais, uma placa de latão indicava o
nome de um advogado. Na do apartamento dos avós, pôde ler o nome de um
ginecologista. Havia um caixote de lixo vazio no patamar.
Nenhuma indicação, em contrapartida, assinalava a porta de Djélâl. Galip
carregou no botão da campainha com o à-vontade do homem do gás que vem
fazer a sua cobrança.
Quando tocou de novo, as luzes das escadas apagaram-se. Não se via a mais
pequena luz pela fresta, junto ao chão, da porta. Tocou uma terceira, depois uma
quarta vez, enquanto procurava a chave no poço perdido do bolso. Descobriu-a,
mas continuou a tocar. “Estão escondidos numa das divisões, na sala”, disse para
consigo; “estão à espera, sem fazerem barulho, instalados em duas poltronas, um
diante do outro.” Não conseguiu introduzir imediatamente a chave na fechadura,
e estava prestes a concluir que aquela não era a chave certa, mas do mesmo
modo que uma memória que confunde todas as suas recordações pode
bruscamente, num clarão de lucidez, descobrir ao mesmo tempo a sua própria
estupidez e o caos do universo, a chave penetrou na fechadura; com um
sentimento assombroso de simetria e de felicidade, viu a porta abrir-se
mostrando um apartamento mergulhado no escuro e, quase no mesmo instante,
ouviu tocar o telefone.

SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO I

A CASA-FANTASMA

“Sentiu-se triste como uma casa desmobilada.”
Flaubert


O telefone começara a tocar três ou quatro segundos depois de a porta abrir,
mas Galip sentiu-se enlouquecer à ideia de que existisse uma ligação mecânica
entre a campainha e a porta, à semelhança do que acontece com os implacáveis
mugidos dos alarmes nos filmes de gangsters. Enquanto o telefone tocava pela
terceira vez, Galip, na convicção de que ia chocar com Djélâl, tentava, no
escuro, alcançar o aparelho. Ao quarto toque, decidiu que não havia ninguém no
apartamento, mas à quinta que havia com certeza alguém, porque ninguém
insiste em chamar tanto tempo um número de telefone se não souber que a casa
não está deserta. Ao quinto toque, esforçava-se por reconstituir a topografia do
apartamento-fantasma onde entrara pela última vez havia quinze anos; procurava
às apalpadelas os interruptores, e surpreendeu-se ao deparar com o móvel pelo
caminho: correu na direcção do toque, por entre a escuridão mais completa,
esbarrou em móveis, derrubando alguns. Quando, ao fim de muitos esforços,
acabou por descobrir o aparelho, o seu corpo descobrira instintivamente uma
poltrona, na qual se instalou.
— Está?
— Então, sempre acabou por voltar para casa! — disselhe uma voz
desconhecida.
— Sim...
— Djélâl bey, há dias e dias que ando à sua procura. Peço-lhe desculpa de o
incomodar tão tarde, mas preciso absolutamente de o ver, e o mais depressa
possível.
— Não reconheci a sua voz...
— Já nos conhecemos, foi há muito tempo, num baile por altura da Festa da
República.
Apresentei-me a si, Djélâl bey, mas provavelmente você não se lembra de
mim. Ao longo dos anos que foram passando depois desse baile, enderecei-lhe
duas cartas, assinadas com pseudónimos que eu próprio esqueci. Numa dessas
cartas, falava-lhe de uma explicação plausível para o mistério que rodeia a morte
do sultão Abdulhamit. Na outra, referia-me a essa maquinação conhecida pelo
nome de “crime da mala”, que teria sido cometido por certos estudantes da
Universidade. E aludia na minha carta ao papel desempenhado por um agente
secreto que posteriormente desapareceu; a partir daí, você investigou o caso,
resolveu-o, com a sua profunda inteligência, e falou detidamente dele nalgumas
das suas crónicas.
— Sim.
— Neste momento, tenho outro dossier, aqui à minha frente.
— Deixemo no jornal.
— Sei que já lá não vai há muito tempo. Além disso, não sei até que ponto
posso fiar-me nas pessoas da redacção, uma vez que se trata de um assunto
escaldante e tão actual.
— Bom, nesse caso, deixe-o ao meu porteiro.
— Mas não sei a sua direcção. Nos Telefones, as Informações não fornecem
a direcção correspondente a um número. E talvez você apareça na lista sob um
nome falso: pelo menos não há qualquer indicação sobre uma pessoa chamada
Djélâl Salik. Descobri um certo Djélâleddine Roumi, mas deve tratar-se de um
nome literário.
— A pessoa que lhe forneceu este número não lhe deu o meu endereço?
— Não.
— Como é que arranjou o meu número de telefone?
— Através de um amigo comum. Hei-de explicar-lhe quando nos virmos. Há
dias que ando à sua procura. Experimentei todos os meios imagináveis. Telefonei
aos seus próximos.
Falei com a sua tia, que parece gostar muito de si. Fui a certos lugares de
Istambul que lhe são queridos, percorri a ruas de Kassime-Pacha e de Djihanguir,
fui ao Konak, na esperança de o encontrar. Foi assim que soube que uma equipa
de televisão inglesa, instalada no Péra-Palace, tinha a intenção de preparar uma
emissão a seu respeito, e andam à sua procura por todo lado, também eles.
Sabia?
— De que é que trata o seu dossier?
— Não quero revelar-lho pelo telefone. Dê-me a sua direcção, ainda não é
muito tarde, e eu chego aí num instante. É realmente em Nichantache que mora?
— Sim — disse Galip com sangue-frio. — Mas esse género de casos já não
me interessam.
— Não é nada disso, trata-se de um assunto que o vai interessar e que você
comentará nos seus artigos. Vai poder até falar do caso aos membros da equipa
de televisão inglesa... Dê-me a sua direcção.
— Desculpa lá, meu velho — disse Galip com um bom humor que o
surpreendeu a ele próprio. — Mas deixei de frequentar os apreciadores de
literatura.
Poisou muito calmamente o auscultador, estendeu automaticamente o braço,
e a sua mão descobriu o interruptor do candeeiro, mesmo ao lado dele, em cima
da secretária. Quando mais tarde pensasse nisso, Galip qualificaria de
“miragem” o espanto e o medo que se apoderaram dele ao ver uma pálida luz
alaranjada invadir a sala.
A sala era exactamente a mesma que quando ali vivia Djélâl, jovem
jornalista, celibatário, havia vinte e cinco anos. A localização de todos os
móveis, dos cortinados, das luzes, as suas cores, as suas sombras e os seus
cheiros eram os mesmos. Dir-se-ia que certos móveis, que lhe pareciam novos,
imitavam alguns dos móveis de outrora, para pregarem uma partida a Galip, para
o fazerem crer que nunca vivera o último quarto de século. Mas quando os
examinou de mais perto, Galip sentiu-se inclinado a concluir que os móveis não
estavam a tentar enganá-lo, que o tempo que vivera desde a infância se dissipara
bruscamente, como que por encanto, para desaparecer para sempre. Os móveis
que haviam de súbito surgido da escuridão inquietante não eram novos; se lhe
tinham dado a ilusão da novidade, era por ressurgirem diante dele, ao fim de
tantos anos, sob o aspecto que apresentavam quando os vira pela última vez e
que esquecera, quando os imaginava envelhecidos, quebrados, como as suas
próprias recordações, talvez desaparecidos. Como se as mesas velhas, os
cortinados murchos, os cinzeiros sujos, os sofás fatigados se tivessem recusado a
submeter-se às aventuras e ao destino que a vida e as recordações de Galip lhes
impunham; disse para consigo que um certo dia (o dia em que o tio Mélih, a
mulher e a filha tinham chegado de Izmir para se instalarem no prédio) os
móveis se tinham revoltado contra o destino que para eles fora imaginado, para
depois procurarem e descobrirem a maneira de realizarem o seu próprio
universo. Uma vez mais, Galip compreendeu com terror que todos os móveis,
todos os objectos tinham sido dispostos no apartamento exactamente como
estavam havia vinte e cinco anos, quando Djélâl, jovem jornalista, ali morava na
companhia da mãe.
A mesma mesa de nogueira com as pernas que acabavam em garra, na
mesma posição relativamente à janela com os mesmos cortinados verde-
petróleo, o sofá forrado com o mesmo tecido da Sumerbank (tinham passado
vinte e cinco anos, mas os mesmos galgos enfurecidos perseguiam ali com o
mesmo ardor as mesmas infelizes gazelas numa floresta cheia de folhagens
violeta); no encosto do sofá, a mesma mancha (gordura, cabelos, brilhantina...)
continuava a lembrar uma silhueta humana; dentro de uma vitrina poeirenta,
numa bandeja de cobre, o setter vindo dos filmes ingleses contemplava com a
mesma paciência o mesmo universo; os relógios parados, as chávenas, as
tesouras das unhas em cima dos radiadores, todas as coisas ali estavam, tal como
Galip as deixara um dia, àquela mesma luz alaranjada, para nunca mais pensar
nelas. “Limitamo-nos a esquecer certas coisas. Quanto a outras, nem sequer nos
lembramos de as ter esquecido.
São essas que devemos esforçar-nos por reencontrar!”, escrevera Djélâl
numa das suas crónicas mais recentes. Galip lembrava-se bem: quando os pais
de Ruya tinham vindo instalar-se naquele apartamento, afastando Djélâl, aqueles
móveis haviam pouco a pouco mudado de lugar, tinham envelhecido, tinham
sido reparados e depois acabado por se afundar no desconhecido, não deixando
qualquer rasto nas memórias. Quando o telefone voltou a tocar, Galip debruçou-
se da velha poltrona onde se sentara sem despir o sobretudo e pegou no aparelho
que lhe parecia agora tão familiar, sem pensar no que estava a fazer, certo como
se sentia de ser capaz de imitar a voz de Djélâl.
Era outra vez a mesma voz ao telefone. Acedendo ao pedido de Galip, o
homem apresentou-se, não já por meio de recordações comuns, mas declinando
o seu nome de família e o seu primeiro nome: Mahir Ikindji. Em Galip, estas
duas palavras não evocaram qualquer rosto, qualquer personagem.
— Estão a preparar um golpe de Estado. Trata-se de uma pequena
organização no interior das forças armadas. Uma associação integrista, uma
espécie de confraria. Acreditam na chegada do Messias. Crêem que os tempos
chegaram. Além disso, vão passar à acção baseando-se nos seus artigos.
— Nunca me interessei por esse género de imbecilidades.
— Interessou, sim, Djélâl bey, interessou, sim senhor! Se já não te lembras, é
porque estás a perder a memória, como confessaste nos teus artigos, ou então
porque mudaste de opinião. Vai ver as tuas crónicas antigas, relê-as, e hás-de
recuperar a memória.
— Não me vou lembrar de nada.
— Vais! Porque, tal como te conheço, não és homem para te deixares ficar na
tua poltrona quando se anuncia um putsch militar.
— Sim, não sou dessa espécie de homem. Nem mesmo de espécie nenhuma.
— Vou ter contigo agora mesmo. Vou devolver-te a memória do teu passado,
as recordações que perdeste. Acabarás por me dar razão e por te dedicar a fundo
a este caso.
— Gostava muito, mas não posso ir ver-te.
— Vou eu ver-te a ti.
— Se conseguires descobrir a minha direcção. Já não saio de casa.
— Ouve uma coisa: na lista de Istambul há os números de telefone de
trezentos e dez mil assinantes. Dado que eu tenho uma ideia do primeiro
algarismo, sou capaz de verificar cinco mil números por hora. O que significa
que daqui a cinco dias, o mais tardar, sou capaz de descobrir a tua direcção e o
nome sob o qual te escondes, e a verdade é que estou cheio de curiosidade de te
conhecer.
— Vais ter muito trabalho para nada! — disse Galip, fingindo-se seguro. —
O meu número não vem na lista.
— Adoras os pseudónimos. Há anos que leio tudo o que escreves; sempre
adoraste os nomes literários, os subterfúgios, todos os truques que uma pessoa
pode usar para se fazer passar por outra. Em vez de teres pedido para não vires
na lista, deves ter-te divertido a inventar um novo pseudónimo. Já tentei certos
cognomes de que tu gostavas muito, verifiquei algumas das minhas suposições.
— Quais suposições?
O homem enumerou-as. Galip voltou a poisar o auscultador, desligou a ficha
do telefone e disse para consigo que todos os nomes que acabava de ouvir se iam
apagar da sua memória sem deixarem o mais pequeno rasto. Tirou o desenho do
exercício escolar do bolso e escreveu esses nomes. O facto de um leitor seguir e
se lembrar ainda melhor do que ele de tudo o que Djélâl escrevia pareceu-lhe tão
estranho, tão surpreendente que o seu próprio corpo lhe pareceu perder a
realidade. Adivinhou-se capaz de se apegar como a um irmão àquele leitor tão
atento, embora ele lhe inspirasse antipatia. Se pudesse discutir com o homem as
crónicas antigas de Djélâl, a poltrona em que estava sentado, aquela sala tão
irreal, talvez adquirissem um sentido mais profundo.
Antes da chegada de Ruya e dos seus pais, quando, com seis anos de idade,
subia até ao andar de Djélâl às escondidas do pai e da mãe -— que pouco
apreciavam tais visitas —, nos domingos à tarde, à hora em que os outros
membros da família ouviam todos juntos o relato do desafio de futebol na rádio
(o próprio Vassif abanava a cabeça fingindo ouvir), era naquela mesma poltrona
que se instalava para observar cheio de admiração a velocidade com que Djélâl,
com um cigarro na boca, redigia na sua máquina de escrever a continuação de
um folhetim sobre os grandes campeões de luta, que o grande especialista na
matéria tivera o capricho de interromper.
Durante as noites frias de Inverno, no tempo em que Djélâl ainda não tivera
de deixar aquele apartamento e lá moravam, todos juntos, ele, o tio Mélih, a
mulher e a filha deste, e quando Galip subia a visitá-los, autorizado pelos pais,
menos para ouvir as memórias africanas do tio Mélih do que para contemplar a
tia Suzan e Ruya — mal começara ainda a descobrir então que Ruya era tão
incrivelmente bela como a mãe —, era também naquela mesma poltrona que se
sentava, bem em frente de Djélâl, que, com a sua mímica, troçava das histórias
do pai. Nos meses seguintes, quando Djélâl desapareceu bruscamente e as
discussões entre o pai de Galip e o tio Mélih faziam chorar sem descanso a avó,
enquanto, lá em baixo, no apartamento dos avós todos discutiam questões de
propriedade e de partes e de andares, alguém acabava por dizer: “Deviam
mandar as crianças lá para cima”, e eles ficavam os dois, um com o outro no
meio daqueles móveis silenciosos. Ruya sentava-se na borda da poltrona, os pés
dela ainda não chegavam ao soalho, e Galip ficava a contemplá-la com
veneração. Fora havia vinte e cinco anos.
Ficou por muito tempo sentado na poltrona, silencioso. Depois, na esperança
de descobrir qualquer indício que o levasse ao local onde Ruya e o irmão se
escondiam, começou a esquadrinhar sistematicamente as outras divisões da casa-
fantasma que Djélâl recriara para reencontrar as suas próprias recordações de
infância e de juventude. Duas horas mais tarde, depois de ter vagueado por
divisões e corredores, examinado cuidadosamente o conteúdo dos armários e
roupeiros, menos à maneira do marido detective contra-vontade, lançado na
busca da sua mulher desaparecida, do que como o apaixonado, transtornado pelo
amor e pelo respeito, que percorre o primeiro museu consagrado ao objecto da
sua paixão, chegara às seguintes conclusões: A julgar pelas duas chávenas
poisadas na prateleira que Galip derrubara quando se precipitara no escuro em
busca do telefone, acontecia a Djélâl receber visitas. Mas como as chávenas de
porcelana fina se tinham partido, não lhe fora possível deduzir fosse o que fosse
provando a fina camada de borra ressequida que ficara depositada no fundo
(Ruya bebia sempre com muito açúcar o café). Segundo a data do mais antigo
dos Milliyet metidos por baixo da porta, Djélâl encontrava-se no apartamento no
dia do desaparecimento de Ruya. A crónica publicada nesse dia, intitulada “O
dia em que se retirarão as águas do Bósforo”, cujas gralhas haviam sido
corrigidas com uma esferográfica verde, com a caligrafia sempre nervosa de
Djélâl, fora poisada ao lado da velha Remington.
No armário do quarto de dormir e no do corredor ao lado da porta, da
entrada, nada indicava que Djélâl tivesse partido em viagem ou deixado a casa
por algum tempo. Do pijama às riscas azuis dos armazéns militares a um par de
sapatos nos quais a lama ainda não secara, do sobretudo azul-marinho que ele
usava muitas vezes naquela altura do ano aos casacos de malha de Inverno e às
inúmeras peças de roupa interior (numa das suas crónicas antigas, Djélâl
pretendia que os homens que viveram com dificuldades na infância e na
juventude, e enriquecem a partir de certa idade, são atingidos, todos eles, pela
mesma doença: a mania de comprarem cuecas e camisolas interiores em tal
quantidade que deixam por usar a maior parte dessas peças de roupa), sem
esquecer as meias sujas no cesto da roupa para lavar, a casa era a de um homem
que podia entrar a todo o momento, para retomar a seguir a sua vida quotidiana.
Era sem dúvida difícil deduzir, a partir de pormenores como os lençóis ou as
toalhas, a parte de reconstituição do antigo cenário, mas, segundo toda a
evidência, o princípio de “casa-fantasma” aplicado na sala de estar fora-o
igualmente nas restantes divisões do apartamento. Assim, reencontravam-se ali
as paredes de um azul infantil do antigo quarto de Ruya, a carcaça (uma cópia?)
da cama em cima da qual a mãe de Djélâl tinha o hábito de amontoar o seu
material de costura, as amostras, os tecidos importados da Europa que as belas
senhoras de Nichantache ou de Chichli lhe confiavam acompanhados de um
modelo ou de uma fotografia. Se os cheiros — o que se compreendia com
facilidade — se acumulam em certos lugares, com a sua carga de velhas
evocações, para repetirem o passado, devem contudo associar-se a um dado
visual que os complete. Galip compreendera que os cheiros só existem graças
aos objectos que os rodeiam; assim, a mistura de perfume dos sabonetes Puro de
outrora que lhe subia às narinas quando se aproximava do belo divã onde então
dormia Ruya, e de água de colónia Yorgui Tomatis, hoje impossível de
encontrar, que o tio Mélih usava. Mas não se via no mesmo quarto a cómoda
onde se acumulavam os livros ilustrados que eram enviados para Izmir, para
Ruya, depois de terem sido comprados em Beyoglou ou na loja de Alâaddine, as
bonecas, os ganchos de cabelo, os rebuçados, os lápis e os álbuns para colorir; e
também ali se não viam os sabonetes que soltavam sempre o mesmo perfume à
volta da cama de Ruya, nem as imitações das águas de colónia Pe-Re-Ja, nem as
pastilhas elásticas com sabor a hortelã.
Era muito difícil estabelecer, a partir deste cenário fantasma, a frequência das
visitas de Djélâl ou o tempo que ele ali passava. Mas podia pensar-se que o
número de pontas de cigarro de YeniHarman e de Guélindjik, nos velhos
cinzeiros que pareciam dispostos ao acaso por aqui e ali, o asseio da louça nos
armários de parede da cozinha, a frescura da pasta dentífrica no tubo de Ipana
deixado aberto e implacavelmente estrangulado, com a raiva que inspirara o
artigo de Djélâl, escrito muitos anos antes, no qual atacava essa marca de pasta,
constituíam os elementos essenciais e constantes daquele museu, organizado
com uma atenção e um cuidado quase doentios. Podia ir-se ainda mais longe e
pensar que a própria poeira acumulada nos candeeiros, as próprias sombras que
atravessavam essa poeira e se iam reflectir nas paredes descoloridas, e as
próprias imagens dos desertos da Ásia Central ou das florestas de África que as
formas dessas sombras despertavam havia vinte e cinco anos na imaginação de
duas crianças de Istambul, tal como os fantasmas e as silhuetas aterradoras das
fuinhas e dos lobos das histórias de bruxas e de demónios que lhes contavam a
avó e as tias, constituíam fragmentos da incomparável reconstituição que fora
levada a cabo naquele museu (Galip repisava esta ideia, comovido a ponto de ter
dificuldade em engolir a saliva). Era por isso que se tornava impossível calcular
quanto tempo fora habitado o apartamento, a partir dos minúsculos rastos de
água em frente da porta da varanda, que não fora bem fechada, ou dos carneiros
de pó cinzento e sedoso que serpenteavam ao longo das paredes, ou do ranger
das tábuas do soalho dilatadas sob o efeito do calor emanado pelos radiadores
velhos. O pomposo relógio de parede em frente da porta da cozinha, e que, como
gostava de repetir a tia Hâlé, era exactamente o mesmo que tiquetaqueava e dava
alegremente as horas em casa de Djevdet bey, nos tempos do seu esplendor,
parecia ter sido parado deliberadamente, a uma hora precisa — indicaria uma
morte? —, como acontece com todos os relógios de todos os museus
consagrados a Atatiirk nos mais diferentes pontos do país, dando assim
unanimemente testemunho da mesma fidelidade doentia. Mas as nove horas e
trinta e cinco minutos indicadas pelo relógio seriam as nove e trinta e cinco da
manhã ou da noite, e que morte poderiam comemorar? Galip não pensou em pôr-
se essa questão.
O peso espectral do passado, o sentimento de tristeza e de rancor que exalam
os velhos móveis, vendidos porque já não há em casa lugar para eles, e que
partem não se sabe para que horizontes longínquos e para o esquecimento,
chocalhando ao ritmo da carroça do ferro-velho, abateram-se sobre ele,
deixando-o sem o mínimo recurso. Só muito mais tarde Galip passou ao
corredor, na intenção de esquadrinhar, para examinar a papelada que o enchia, o
único móvel novo que descobrira naquela casa, a estante de madeira de olmo
envidraçada, que ocupava toda a parede entre a casa de banho e a cozinha. E eis
o que lá descobriu, depois de breves buscas, muito bem arrumado nas prateleiras
com um cuidado maníaco: Recortes de certas reportagens, de certos casos do dia,
datando da época em que Djélâl era um jovem repórter; recortes de todos os
artigos que falavam de Djélâl, dizendo bem ou mal dele; todas as crónicas, todos
os artigos publicados por Djélâl sob nomes de empréstimo; todas as crónicas
assinadas com o seu próprio nome; recortes de todos “Parece incrível mas é
verdade”, “A chave dos vossos sonhos”, “Outrora, hoje”, “O vosso carácter
revelado pela vossa letra”, “O vosso rosto, a vossa personalidade”, palavras
cruzadas, adivinhas e outros escritos do mesmo género, praticados outrora por
Djélâl; recortes de todas as entrevistas concedidas por Djélâl; rascunhos de
artigos não publicados por diversas razões; notas pessoais; dezenas de milhares
de recortes de artigos, de fotografias que Djélâl conservara ao longo dos anos;
cadernos onde registara sonhos ou fantasias; coisas “a não esquecer”; cartas de
leitores, aos milhares, classificadas e guardadas em caixas de frutos secos ou de
castanhas conservadas em açúcar, ou também em caixas de sapatos; recortes de
diversos folhetins redigidos no todo ou em parte por Djélâl, sob pseudónimos
vários; duplicados das centenas de cartas de Djélâl aos seus leitores; centenas de
brochuras, de revistas ilustradas, de livros bizarros, de anuários das Grandes
Escolas Públicas ou da Escola Militar; caixas cheias de fotografias recortadas de
jornais ou publicações ilustradas; fotografias pornográficas; fotografias de
insectos ou de animais estranhos; dois grandes caixotes cheios de artigos sobre
os houroufis e a ciência das letras; velhos bilhetes de futebol, de autocarro, de
cinema, rabiscados de sinais, de letras, de símbolos; fotografias coladas em
álbuns; fotografias avulsas; prémios atribuídos pelas associações de jornalistas;
notas de banco da Rússia czarista, moedas turcas fora de circulação; agendas
com endereços e números de telefone...
Galip descobriu três novos cadernos de endereços e voltou a sentar-se na
poltrona da sala de estar para os ler escrupulosamente, página a página. Depois
de investigações que duraram quarenta e cinco minutos, concluiu que todas as
pessoas citadas naqueles cadernos tinham desempenhado um papel na vida de
Djélâl ao longo dos anos 1950-1960; que as suas casas tinham sido muito
provavelmente demolidas na sua maioria e que aquelas pessoas deviam ter
mudado de direcção, pelo que se tornava impossível descobrir Djélâl e Ruya por
meio dos seus antigos números de telefone. Depois de examinar rapidamente as
antiguidades das prateleiras, Galip começou a ler as crónicas de Djélâl datando
do início dos anos setenta e as cartas que recebera dos seus leitores durante o
mesmo período, na esperança de encontrar entre elas a carta que aquele Mahir
Ikindji afirmava ter escrito acerca do “crime da mala”, bem como as crónicas de
Djélâl sobre o mesmo assunto.
O próprio Galip se interessara por esse assassinato político, baptizado “o
crime da mala”
pelos jornais, porque conhecera alguns dos protagonistas do caso, durante os
seus anos de liceu. Djélâl, pelo seu lado, interessara-se também, porque num país
onde, segundo ele afirmava, tudo era plagiato, alguns jovens dotados de
imaginação e organizados numa facção política tinham, decerto sem darem por
isso, reproduzido um romance de Dostoievski, Os Possessos, até aos mais
ínfimos pormenores. Enquanto folheava as cartas de leitores datadas dessa
época, Galip tentava lembrar-se dos dois ou três serões em que Djélâl lhe falara
desse assassinato. Fora um período sombrio, funesto e triste, que estava hoje
esquecido e que era preciso esquecer. Ruya estava então casada com aquele
“rapaz sério”, relativamente ao qual Galip hesitava entre o respeito e o desprezo,
a tal ponto que acabava por se esquecer do nome dele. Quando, deixando-se
levar por uma curiosidade que, uma e outra vez, o fazia mais tarde arrepender-se
do seu interesse, Galip dava ouvidos ao que se dizia do casal ou tentava
informar-se a seu respeito, eram sempre notícias políticas que obtinha, muito
mais que factos que lhe permitissem decidir se os recém-casados eram felizes ou
infelizes... Uma noite de Inverno, enquanto Vassif estava sossegadamente
ocupado a alimentar os seus peixes japoneses (wakin e tvatonai, de caudas em
franja, abastardados pelas uniões consanguíneas) e a tia Hâlé fazia as palavras
cruzadas do Milliyet, com um olho na televisão, a avó morrrera, com os olhos
postos no tecto frio da fria divisão vizinha. Vestida com um sobretudo usado,
tendo na cabeça um lenço ainda mais usado, Ruya aparecera sozinha no enterro
(“É muito melhor assim”, declarara o tio Mélih, que não escondia o ódio que lhe
inspirava aquele genro de extracção provinciana, e assim dava abertamente voz à
opinião secreta de Galip), para desaparecer de novo, logo a seguir. Nos dias que
se seguiram ao enterro, numa noite em que a família se encontrava reunida num
dos andares do prédio, Djélâl perguntara a Galip o que sabia ele acerca do crime
da mala, mas não conseguira obter resposta à pergunta que mais o interessava:
de todos os jovens apaixonados pela política que Galip conhecera, algum deles,
um único que fosse, teria lido o romance do escritor russo?
— Porque todos os crimes são imitações, como todos os livros. É por isso
que nunca hei-de publicar um livro em meu nome — dissera Djélâl nessa noite.
E na noite do dia seguinte, no apartamento da defunta, onde toda a família
voltara a reunir-se, quando Galip e ele se viram a sós um com o outro, já muito
tarde, Djélâl tornara ao assunto: — Mas os crimes mais sórdidos apresentam
sempre alguma particularidade que não encontramos nos livros, nem sequer nos
piores — dissera ele. E num silogismo que, ao longo dos anos seguintes,
proporcionaria a Galip o gosto de uma aventura sempre que pensava nele, Djélâl
prosseguira o seu pensamento: — Portanto, não são os crimes que são plágios
completos, mas os livros. Os crimes que imitam os livros, porque se
transformam em cópia de uma cópia, coisa que nos é tão querida, e os livros que
contam crimes dirigem-se, tanto uns como outros, a um sentimento que existe
em cada um de nós. O homem não pode abater a sua maça sobre o crânio da sua
vítima a não ser se for capaz de se pôr no lugar de um outro (porque ninguém
pode suportar de facto ver-se como assassino). A criatividade nasce a maior parte
do tempo da cólera, dessa cólera que faz esquecer tudo, mas a cólera não pode
fazer-nos passar à acção a não ser por intermédio dos métodos que os outros nos
ensinaram: as facas, as pistolas, os venenos, as técnicas literárias, as formas do
romance, as rimas, etc. O assassino “vindo do povo” que declara: “Eu já não
pensava pela minha cabeça, senhor doutor juiz!”, exprime a seguinte verdade
bem conhecida: o crime é qualquer coisa que os outros nos ensinam, em todos os
seus pormenores, com todas as suas tradições; aprendemo-lo nas lendas, nos
contos, nas memórias, nos jornais, na literatura, numa palavra. O crime mais
elementar, o homicídio involuntário, por exemplo, cometido por ciúme, é uma
imitação inconsciente, uma cópia da literatura. E se eu fizesse um artigo acerca
disto, que me dizes? — Mas nunca o escrevera.
Muito depois da meia-noite, enquanto Galip continuava a ler as velhas
crónicas encontradas na estante, as luzes da sala empalideceram pouco a pouco,
como as que iluminam um pano de teatro, e a seguir o motor do frigorífico
soltou um gemido melancólico, com o cansaço de um camião com demasiada
carga que muda de velocidade ao subir uma encosta íngreme e coberta de lama, e
o apartamento mergulhou nas trevas. Como todos os habitantes de Istambul
habituados a estes cortes de corrente, Galip disse para consigo que a luz em
breve voltaria e deixou-se ficar por um longo momento imóvel na sua poltrona,
com as pastas cheias de recortes de jornais poisadas nos joelhos. Ouvia os ruídos
do prédio, esquecidos havia tantos anos, o ronronar dos radiadores, o silêncio
das paredes, os estalidos das tábuas do soalho, os gemidos das torneiras e dos
canos, o tiquetaque abafado de um relógio cuja localização esquecera, e o rugido
inquietante do poço de ventilação. Era sem dúvida muito tarde quando,
tacteando, se dirigiu para o quarto de dormir. Despiu-se e, enquanto enfiava o
pijama de Djélâl, pensou na história do infeliz escritor que ouvira na véspera à
noite no bar, nesse personagem que se deitava no escuro na cama vazia e
silenciosa de um outro. Deitou-se, mas não conseguiu adormecer logo a seguir.


CAPÍTULO II

NÃO CONSEGUE DORMIR?

“O sonho é uma segunda vida.”
Gérard de Nerval


Você meteu-se na cama. Instalou-se entre móveis e objectos que lhe são
familiares, entre os seus lençóis e os seus cobertores impregnados do seu cheiro
e das suas recordações; a sua cabeça redescobriu o fofo habitual da sua
almofada, você deitou-se de lado; uma vez recolhidas as pernas contra o ventre,
inclina a cabeça, a forra fresca da almofada refresca-lhe a face; muito em breve,
adormecerá, e esquecer-se-á de tudo no escuro, de tudo.
Vai esquecer-se de tudo: o poder implacável dos seus superiores, as palavras
inconsideradas deles, a sua estupidez, o trabalho que você não pôde terminar, a
incompreensão, a deslealdade, a injustiça, a indiferença, e os que lançam contra
si acusações e os que estão prestes a fazê-lo, as suas preocupações monetárias, o
tempo que passa depressa de mais, o tempo que não se decide a passar, tudo isto
e todos os que não voltareis a ver, a sua solidão, a sua vergonha, as suas derrotas,
os seus infortúnios, o seu estado tão lastimável, em breve terá esquecido tudo
isso. E sentir-se-á feliz porque vai esquecer tudo. Fica à espera.
E consigo, os móveis à sua volta ficam também à espera, os armários tão
banais, tão familiares, mergulhados no escuro ou na penumbra, as gavetas, as
mesas, as prateleiras, as cadeiras, os cortinados corridos, a roupa que você acaba
de despir, o seu maço de cigarros, a sua carteira e a sua caixa de fósforos no
bolso do casaco, o seu relógio de pulso. Também eles ficam à espera.
E, ao longo dessa espera, ouve os ruídos costumados da rua, de um carro que
passa na calçada, familiares também, e nas poças de água junto ao passeio, uma
porta que bate algures nos arredores, o motor do frigorífico velho, dos cães que
ladram ao longe, o corno de bruma que vem do mar, o estore de ferro de uma
leitaria, bruscamente descido. Com o sono e os sonhos que evocam, esses ruídos
carregados de recordações que desembocam no novo mundo do esquecimento
bem-aventurado lembram-lhe que, muito em breve, os vai esquecer a todos, do
mesmo modo que aos móveis que o rodeiam, do mesmo modo que à sua cama
que lhe é tão querida, e que você vai deslizar para o interior de um outro
universo.
Está preparado.
Está preparado. Dir-se-ia que se distanciou do seu próprio corpo, das suas
ancas, das suas pernas, com que está tão contente, dos seus próprios braços, das
suas mãos, ainda mais próximas de si. Está preparado, e está tão feliz por estar
preparado que já não experimenta a necessidade destes prolongamentos do seu
corpo, e sabe, enquanto os seus olhos se fecham, que os vai esquecer também.
Sob as suas pálpebras cerradas, sabe que bastou um fraco movimento
muscular para que as suas pupilas se afastassem da luz. Certos de que tudo vai
bem, graças ao que evocam os cheiros e os ruídos familiares, os seus olhos
parecem comunicar-lhe, não a luz quase imperceptível que reina no quarto, mas
as mil cores de uma luz tão fulgurante como um fogo-de-artifício, que incendeia
o seu espírito cada vez mais distendido, e que desliza cada vez mais em direcção
à serenidade; você contempla as manchas e os clarões azuis, as brumas e as
cúpulas violeta, as vagas de um azul carregado e trémulo, as sombras das
cascatas malva, o balouçar das lavas violeta que surgem de uma boca de vulcão,
o azul da Prússia das estrelas cintilantes e silenciosas. As formas e as cores
repetem-se, desaparecem, reaparecem, transformam-se lentamente, fazem
ressurgir certas cenas esquecidas, outras que nunca tiveram lugar, recordações
reais ou imaginárias, e você maravilha-se com as mil cores que se atropelam no
seu espírito. E, todavia, continua a não conseguir adormecer.
Não será ainda muito cedo para o fazer lembrar esta evidência? Rememore
aquilo que pensa nas noites em que adormece em sossego. Não pense sobretudo
no que hoje fez, nem naquilo que conta amanhã fazer; evoque antes recordações
gratas que o levem ao esquecimento no sono: elas esperaram o seu regresso e
você acabou por regressar para elas, que se sentem por isso tão felizes! Ou então,
não, não se vire para elas, você está num comboio que corre entre postes
cobertos de neve, tendo a seu lado, num saco, tudo aquilo de que mais gosta; ou
ainda, pronuncia em voz alta as palavras belíssimas que agora acorrem ao seu
espírito; apresenta respostas inteligentes; todos os mais compreendem como se
enganaram, calam-se e sentem admiração por si, ainda que a não manifestem;
você estreita nos seus braços o corpo que é tão belo e que o ama tanto, e que se
aperta contra si; regressa a esse jardim que nunca pôde esquecer, e onde colhe
cerejas muito maduras; é Verão, é Inverno, é Primavera; e em breve será manhã,
uma manhã completamente azul, uma manhã lindíssima, cheia de sol, uma
manhã feliz em que tudo correrá bem... Mas você continua a não conseguir
adormecer...
Então, faça como eu: movendo muito lentamente os seus braços, as suas
pernas, sem as incomodar demasiado, vire-se devagar na sua cama, fazendo com
que a sua cabeça alcance a outra extremidade da almofada, e a sua face, um
canto fresco da fronha. Depois, pense na princesa Maria Paleóloga que, há
setecentos anos, partiu de Bizâncio para se tornar na esposa do kban mongol
Húlagú. Deixou Constantinopla, a cidade onde hoje você vive, para desposar
Húlagú, que reinava no Irão, mas tendo Húlagú morrido antes da sua chegada,
acabou por casar com Abaka, que sucedera ao seu pai. Viveu quinze anos no
palácio do Grande Mongol, e depois, tendo o marido sido assassinado, ela voltou
a estas sete colinas, a este mesmo lugar onde você tanto deseja dormir em
sossego. Para conseguir identificar-se com a princesa Maria, imagine a tristeza
dela quando se pôs a caminho, depois os dias que viveu na igreja que mandou
construir quando voltou ao Corno de Ouro, e que transformou em seu lugar de
retiro. Pense nos anões da sultana Handan. A mãe do sultão Ahmet I mandara
construir para eles uma casa em eskudar, destinada a garantir a felicidade dos
seus pequenos amigos a quem tanto queria; os anões ali viveram durante anos e
depois, sempre auxiliados pela sultana, construíram um galeão, que deveria levá-
los até uma região desconhecida de todos, um paraíso cuja localização nos
mapas eles próprios ignoravam.
Tinham partido de Istambul nesse navio. Pense no dia da partida deles, na
tristeza da sultana ao separar-se dos seus queridos amigos, na melancolia dos
anões agitando os seus lenços para lhe dizerem adeus do alto do galeão;
imagine-os, como se estivesse a partir de Istambul, você também, e todos os
seres humanos que lhe são queridos.
E quando tudo isto não basta para me fazer adormecer, meus queridos
leitores, imagino então um homem atormentado, inquieto, que anda de um lado
para o outro no cais de uma estação deserta, onde está à espera de um comboio
que não chega. E quando posso decidir do lugar para onde ele conta partir, é
porque me transformei nesse homem. Penso nos que se bateram num subterrâneo
na porta de Silivri, para ajudarem os gregos que cercavam Istambul a penetrar na
cidade.
Imagino a estupefacção do homem que descobriu o outro sentido das coisas.
Sonho com o outro universo, nesse que surgiu do nosso. Comprazo-me a
imaginar a minha embriaguez nesse outro universo, rodeado de significações
inteiramente novas. Imagino o espanto bem-aventurado do amnésico. Imagino-
me abandonado numa cidade-fantasma que me é desconhecida; aí onde viviam
outrora milhões de homens, os bairros, as ruas, as pontes, as mesquitas, os
navios, tudo está deserto, e, enquanto vaguear por esses lugares vazios e
espectrais, lembrar-me-ei, com as lágrimas nos olhos, do meu próprio passado e
da minha própria cidade, e ver-me-ei andar a passo lento a caminho do meu
bairro, da minha casa, e desta cama onde me esforço por adormecer. Imagino
que sou François Champollion, que, à noite, saía da cama para decifrar os
hieróglifos da Pedra de Roseta, mas um Champollion que errasse nos meandros
obscuros da minha memória, mergulhado neste sonho de sonâmbulo, entrando
em becos para neles descobrir recordações perdidas. Imagino que sou Murat IV,
a disfarçar-se uma noite para ir verificar a eficácia da interdição do álcool;
armado da certeza de que ninguém poderá atacar-me, uma vez que os meus
guardas me acompanham, também eles disfarçados, trato de ir ver com os meus
olhos como vivem os meus súbditos nas mesquitas, nas raras lojas ainda abertas,
e, entre eles, os que dormitam nas salas de fumo de ópio escondidas em
passagens secretas... Aconteceu-me transformar-me num aprendiz de cardador,
que vai de porta em porta murmurando ao ouvido dos homens das lojas a
primeira e a última sílaba de uma senha, enquanto é fomentada uma das últimas
revoltas dos janízaros do século XIX. Ou então, sou um mensageiro vindo do
seu medressé, para despertar de um sono e de um silêncio de muitos anos os
loucos de Deus de uma confraria proibida. E se continuo a não poder adormecer,
queridos leitores, transformo-me no amante infeliz, seguindo as pistas das suas
recordações, errando em busca da bem-amada perdida; abro uma a uma todas as
portas da cidade; e por toda a parte onde se fuma ópio, por toda a parte onde as
pessoas contam histórias umas às outras, em todas as casas onde se canta uma
canção, procuro os traços do meu passado e os da minha bem-amada. E se a
minha memória e a minha imaginação e os meus sonhos, que arrasto comigo,
continuam a resistir ao cansaço destas peregrinações, num desses instantes bem-
aventurados na fronteira entre o sono e o despertar, introduzo-me no primeiro
espaço conhecido que me aparece, a casa de um amigo longínquo, ou a
habitação abandonada de um parente próximo, abrindo as portas umas a seguir
às outras, como se percorresse os recantos mais esquecidos da minha memória, e
penetro na última sala, sopro a minha vela; deito-me na cama, adormeço entre
objectos remotos, insólitos, estrangeiros.


CAPÍTULO III

QUEM MATOU CHEMS DE TABRIZ?

“Por quanto tempo ainda te buscarei porta-a-porta, casa a casa?
Por quanto tempo ainda de recanto em recanto, de rua em rua?”
Mevlâna


Quando Galip acordou tranquilamente na manhã seguinte, depois de um
longo sono profundo, a lâmpada, com mais de sessenta anos, continuava acesa
no tecto, com o seu clarão amarelo como o papel envelhecido. Ainda com o
pijama de Djélâl vestido, Galip apagou todas as luzes de casa, foi buscar o
Milliyet que lhe tinham enfiado por baixo da porta, e instalou-se para o ler diante
da mesa de trabalho do primo. Quando descobriu na crónica do dia as mesmas
gralhas que descobrira durante a sua visita à redacção, no sábado à tarde
(sejamos nós próprios em vez de seja você próprio), a sua mão estendeu-se
maquinalmente para a gaveta, encontrou uma esferográfica verde e corrigiu o
texto. E
quando terminou o artigo, imaginou Djélâl, vestido com aquele pijama às
riscas azuis, sentado àquela mesma mesa, a corrigir gralhas com aquela mesma
esferográfica enquanto fumava um cigarro.
Tinha a impressão de estar no bom caminho. Tomou o pequeno-almoço com
o optimismo do homem que, a seguir a uma boa noite de sono, começa com
segurança um dia duro.
Cheio de confiança em si próprio, parecia-lhe não ter de facto necessidade de
se transformar num outro.
Preparou uma chávena de café, escolheu na estante algumas caixas cheias de
cartas, de artigos e de recortes de jornais, e dispô-las em cima da mesa. Estava
convencido de que acabaria por achar o que procurava contanto que examinasse
com toda a atenção toda aquela papelada; não tinha dúvidas disso.
Ao longo das crónicas que abordavam os temas mais diversos: a vida cruel
das crianças abandonadas que vivem nos pontões da Ponte de Gaiata, os
directores de orfanatos gagos e malvados; os concursos de voo entre os
amadores da ciência que, com as suas asas coloridas, se precipitam nos ares do
alto da Torre de Gaiata como se se atirassem à água; a pederastia na história e a
história dos que hoje a transformam num negócio, Galip soube dar provas da
paciência e da atenção necessárias. Leu assim com a mesma boa-fé e a mesma
confiança as recordações de um antigo mecânico do bairro de Béchiktache, que
conduzira o primeiro Ford T de Istambul; um artigo sobre a necessidade de
instalar um relógio de música em cada bairro da cidade; a significação histórica
da interdição no Egipto e todas as passagens as Mil e Uma Noites que tratam de
encontros galantes entre as mulheres dos haréns e escravos negros; as vantagens
dos tramways puxados por cavalos de outrora que podiam ser apanhados em
andamento; a história dos papagaios que tinham fugido de Istambul, onde os
corvos os tinham substituído, e as precipitações de neve subsequentes...
A medida que ia lendo, recordava os dias em que lera aquelas crónicas pela
primeira vez, tomava notas em pedaços de papel, relia certos parágrafos,
detinha-se em certas palavras, voltava a guardar a crónica na caixa de onde
retirava apaixonadamente uma outra.
O sol não entrava na sala, mal chegava a aflorar o rebordo das janelas. Os
cortinados estavam abertos. Pingava água gota a gota das estalactites de gelo na
beira do telhado fronteiro e dos algerozes a transbordar de neve e de lixo. Entre o
triângulo de um telhado cor de tijolo e de neve suja e o rectângulo de uma longa
chaminé que expelia por entre os dentes negros fumo de lenhite, aparecia uma
nesga de céu de um azul cintilante. Sempre que Galip levantava a cabeça para
repousar os olhos cansados da leitura no espaço entre o triângulo e o rectângulo,
via o rápido voo dos corvos zebrando o azul; depois regressava aos papéis que
tinha à sua frente e dizia para consigo que também Djélâl devia contemplar o
voo dos corvos quando estava cansado de escrever.
Muito mais tarde, quando o sol feriu as janelas com os cortinados ainda
corridos do prédio fronteiro, o belo optimismo de Galip começou a dissipar-se:
os móveis, as palavras, os sentidos ocultos, talvez tudo estivesse ainda no seu
lugar, mas quanto mais avançava na leitura, mais comprovava com amargura o
apagar-se da realidade profunda graças à qual o conjunto se mantinha de pé. Lia
as crónicas que Djélâl consagrara aos diversos Messias, aos falsos profetas, aos
impostores erigidos em soberanos, às relações entre Mevlâna e Chems de Tabriz,
ao ourives Selâhaddine do qual o grande poeta se aproximou depois da morte de
Chems, e ao qual sucedeu Tchelebi Husamettine. Para escapar ao mal-estar que o
invadia, Galip chegou até a reler os “Parece incrível mas é verdade” escolhidos
outrora por Djélâl. Mas não conseguia livrar-se da angústia enquanto relia a
história do poeta Figaní, que, tendo ofendido com um dístico o grão-vizir do
sultão Ibrahim, foi condenado a atravessar, amarrado de pés e mãos, em cima de
um burro, todas as ruas de Istambul; ou ainda a do Xeque Eflâki, que, tendo
desposado as suas irmãs uma a seguir à outra, causara involuntariamente a sua
morte. Passou a cartas que descobriu noutra caixa, e surpreendeu-se, como nos
seus tempos de miúdo, com o número e a variedade dos leitores que se
interessavam por Djélâl; mas as cartas de pessoas que lhe pediam dinheiro, ou
daqueles que se acusavam uns aos outros de todos os crimes, ou que afirmavam
que as esposas de certos cronistas que polemizavam com Djélâl não passavam de
putas, ou que denunciavam as conjuras das confrarias religiosas ou as luvas
recebidas pelos directores comerciais dos Monopólios, as cartas enfim de todos
os que proclamavam os seus amores e os seus ódios serviam apenas para
alimentar a desconfiança que crescia em Galip.
Sabia que tudo aquilo se ligava à transformação da imagem que tivera de
Djélâl no momento em que se sentara à sua mesa de trabalho. De manhã, quando
os móveis e os objectos eram ainda extensões de um mundo inteligível, Djélâl
continuava a ser aos seus olhos o personagem cujos artigos lia havia anos, e
cujos aspectos desconhecidos, admitindo que os desconhecia, apreendera como
que de longe. Durante a tarde, durante as horas em que o elevador funcionou
sem descanso com a sua carga de mulheres grávidas ou doentes que se dirigiam
ao consultório do ginecologista, no andar de baixo, quando Galip compreendeu
que essa imagem de Djélâl se transformava estranhamente numa imagem que
qualificou de incompleta, sentiu que a mesa à sua frente, a mobília e a sala à sua
volta tinham mudado. Os móveis tinham-se convertido agora nos signos
inquietantes e hostis de um universo cujos mistérios não eram fáceis de penetrar.
Como adivinhava que uma tal transformação se ligava ao que Djélâl
escrevera sobre Mevlâna, Galip decidiu estudar o assunto mais de perto.
Descobriu sem perda de tempo todos os artigos acerca do poeta e começou a lê-
los rapidamente.
O que aproximava Djélâl do poeta místico mais influente de todos os tempos
não eram nem os poemas que escrevera em persa no século XIII, em Konya,
nem as citações demasiado repisadas, apresentadas como exemplos nas aulas de
moral dos colégios. O ritual mevlevi em que os dervixes descalços e vestindo
saias imensas dançam, para grande gáudio dos turistas e dos editores de postais,
não tinha para Djélâl mais interesse do que as belas frases que muitos autores
medíocres usam como epígrafes. Mevlâna, que inspira há mais de setecentos
anos dezenas de milhares de tomos de comentários, e a confraria que se formara
depois da sua morte, haviam seduzido Djélâl por constituírem simplesmente um
tema curioso e do qual um cronista poderia e deveria tirar partido. Aquilo que
mais o interessara em Mevlâna eram as relações místicas e sexuais que o poeta
tivera em certas épocas da sua vida com certos homens e o mistério que se
desprendia dessas histórias, bem como as conclusões que de tudo isso seria
possível extrair.
Mevlâna, que herdara do seu pai o lugar de xeque em Konya, e que não só os
seus discípulos, mas todos os habitantes da cidade veneravam e estimavam,
sofrera aos quarenta e cinco anos de idade a influência de um dervixe que errava
de cidade em cidade chamado Chems de Tabriz, que não se lhe assemelhava nem
pela sua maneira de viver nem pelo seu saber nem pelas suas qualidades: um
comportamento inexplicável na opinião de Djélâl.
Provavam-no bem as vãs tentativas dos comentadores que havia sete séculos
se esforçavam por torná-lo “compreensível”. Depois do desaparecimento (ou do
assassinato) de Chems, e a despeito dos protestos dos seus discípulos, Mevlâna
designou como seu sucessor um ourives muito ignorante e destituído de
qualidades. Segundo Djélâl, tal escolha era reveladora do estado psíquico e
sexual de Mevlâna, e não da “poderosa atracção súfica”
que Chems de Tabriz teria exercido sobre ele e que tanta gente se esforçara
por provar. De resto, a seguir à morte do novo “sucessor”, Mevlâna escolheu
como outro “ele próprio” um homem ainda mais apagado e banal do que o
anterior.
Na opinião de Djélâl, imaginar, como se tem feito há séculos, toda a espécie
de desculpas destinadas a tornar inteligíveis estas três relações que parecem
incompreensíveis, atribuir aos três “sucessores” extraordinárias virtudes
demasiado pesadas para eles, e sobretudo, como fizeram certos exegetas,
inventar árvores genealógicas visando provar que os três descendiam de
Mahomet ou de Ali era perder de vista um aspecto importantíssimo da vida de
Mevlâna. Uma particularidade que, dizia Djélâl, se reflecte também na obra do
poeta, e da qual falara numa das suas crónicas dominicais, por ocasião das
comemorações de Mevlâna, que se celebram todos os anos em Konya. Quando
Galip releu vinte anos mais tarde essa crónica, que achara aborrecida na sua
infância, como tudo o que dizia respeito à religião, e que só recordava graças à
série de selos comemorativa de Mevlâna (nesse ano, os selos de quinze piastras
eram cor-de-rosa, os de trinta piastras eram azuis e os de sessenta piastras —
muito raros — eram verdes), teve de novo a impressão de que tudo à sua volta
mudara.
Aos olhos de Djélâl, era verdade que Mevlâna exercera uma forte influência
sobre o dervixe errante Chems de Tabriz, desde o seu primeiro encontro, em
Konya, e que ele próprio fora também influenciado por Chems, conforme
disseram milhares de vezes todos os comentadores que colocam o encontro de
ambos no centro dos seus comentários. Mas se esta influência se pôde exercer
tão rapidamente, não foi, como se julga, por Mevlâna ter prontamente
compreendido que o dervixe era um sábio, na sequência do célebre diálogo
entabulado entre os dois homens, a partir de uma questão levantada por Chems
de Tabriz.
O diálogo em causa baseava-se numa “parábola sobre a modéstia”, da qual
encontramos milhares de exemplos nos livros que tratam do misticismo, sem
exclusão dos mais medíocres. Se Mevlâna era tão sábio e instruído como se diz,
não poderia ter-se sentido impressionado por uma parábola tão banal; terá,
quando muito, podido fingir admiração.
Foi decerto o que fez; comportou-se como se tivesse descoberto em Chems
uma individualidade realmente profunda, um espírito fascinante. Segundo
Djélâl, nesse dia, à chuva, Mevlâna, que contava na altura cerca de quarenta e
cinco anos, tinha realmente necessidade de descobrir uma “alma” assim, um ser
em cujo rosto lhe fosse possível distinguir a sua própria imagem. Deste modo, a
partir do seu encontro com Chems, convenceu-se de que este era o ser que
proccurava e, naturalmente, não teve dificuldade em convencer Chems do alto
valor da sua personalidade. Logo a seguir a este encontro, que teve lugar a 23 de
Outubro de 1244, fecharam-se ambos numa cela de medresse, da qual não
saíram durante seis meses. Que tinham feito durante seis meses nessa cela, de
que tinham conversado, era uma questão, de carácter “laico”, que os melevis
raramente abordaram, mas que Djélâl abordava na sua crónica, com
circunspecção, para evitar chocar os sentimentos dos seus leitores devotos, antes
de entrar no tema que de facto lhe importava.
Mevlâna passara a vida em busca de um “outro”, que lhe permitisse agir, que
insuflasse nele a chama necessária, que fosse um espelho reflectindo o seu
próprio rosto e o seu próprio espírito. Tudo o que fizeram na sua cela, tudo o que
aí se disseram — exactamente como acontece nas obras de Mevlâna —, foram as
acções, as palavras, a voz de uma só pessoa que se esconde sob uma aparência
dupla, ou de mais que uma pessoa sob a aparência de uma pessoa só. Para poder
suportar a admiração de discípulos supersticiosos (mas aos quais era incapaz de
renunciar) e a atmosfera sufocante de uma cidade da Anatólia do século XIII, o
poeta precisava de dispor, não só dos disfarces que escondia no seu armário, mas
também de certos companheiros, dos quais nunca se separava, o que lhe permitia
respirar abrigando-se, quando necessário, por trás da personalidade deles. Para
melhor explicar esta necessidade profunda, Djélâl recorrera a uma comparação
amiúde presente nas suas crónicas: “Como esses trajos de camponês que esconde
no seu armário, para os envergar à noite e com eles percorrer as ruas da sua
capital, o soberano cansado de reinar sobre um país habitado por imbecis, entre
os cortesãos, os malvados e os miseráveis.”
Como Galip esperava, um mês depois da publicação desta crónica, acolhida
por ameaças de morte vindas de leitores apegados à sua religião e por
felicitações dos cidadãos republicanos e laicos, Djélâl voltara ao assunto, apesar
de o patrão do jornal lhe ter pedido que não tornasse a abordá-lo.
Nessa segunda crónica, Djélâl começava por recordar certos factos
fundamentais, que todos os melevis conheciam bem: os outros discípulos,
invejando o interesse testemunhado por Mevlâna àquele dervixe de origem
duvidosa, tinham ameaçado Chems de morte. Pouco depois, a 15 de Fevereiro de
1246, num frio dia de Inverno em que a neve caía sobre Konya (Galip gostava
muito da mania que Djélâl tinha de fornecer datas precisas, o que o fazia pensar
nos manuais escolares cheios de gralhas), Chems desapareceu. Incapaz de
suportar a ausência do seu bem-amado e também a perda desse “outro” por trás
do qual podia dissimular-se, Mevlâna, tendo ouvido falar da presença de Chems
em Damasco, mandou regressar imediatamente a Konya o seu “bem-amado”
(termo que Djélâl punha sempre entre aspas para excitar ainda mais as suspeitas
dos seus leitores) e casara-o com uma das suas filhas adoptivas. Todavia, o cerco
de ciúmes e de ódios continuou a cerrar-se cada vez mais à volta de Chems, e,
em breve, no décimo quinto dia, uma quinta-feira do mês de Dezembro de 1247,
Chems era alvo de uma cilada — o próprio filho de Mevlâna, Alâaddine, se
contava entre os assassinos — e abatido à punhalada nessa mesma noite, sob
uma morrinha fria, tendo depois o seu cadáver sido atirado a um poço, próximo
da casa de Mevlâna. Na continuação do artigo, que descrevia o poço onde fora
lançado o cadáver de Chems, Galip descobriu certos traços que lhe pareceram
familiares. Tudo o que Djélâl contava acerca do poço, a solidão e a tristeza do
morto, lhe parecia muito estranho e aterrador, mas tinha também a impressão de
ter diante dos olhos o poço com setecentos anos para onde fora atirado o
cadáver, de conhecer as pedras e a argamassa à moda do Khorassan que nele
tinham sido utilizadas.
Depois de ter lido e relido o artigo, impelido por um pressentimento,
percorreu outros e descobriu que, para descrever o poço, Djélâl se servira
exactamente de certas frases de uma outra crónica, na qual falava de um poço de
ventilação entre dois prédios; observou do mesmo modo que Djélâl soubera
habilmente manter o mesmo estilo nos dois artigos.
Impressionado por esse jogo, que não o teria surpreendido se o tivesse
descoberto depois de mergulhar nos artigos do seu primo consagrados aos
houroufis, Galip releu com outros olhos as crónicas que reunira em cima da
mesa. Foi então que compreendeu, à medida que ia lendo, porque era que as
coisas mudavam à sua volta, porque é que tinham desaparecido o sentido
profundo e o optimismo que ligavam entre si as mesas, os cortinados, as luzes,
os cinzeiros, as cadeiras e o par de tesouras poisado em cima do radiador, todas
as antiguidades da sala.
Djélâl falava de Mevlâna como se falasse de si próprio; valendo-se de
interpolações quase esotéricas, que não se detectavam à primeira vista,
conseguia desse modo pôr-se no lugar do poeta. Quando Galip verificou de novo
que Djélâl usara as mesmas frases, os mesmos parágrafos em certos artigos onde
falava de si próprio e nas crónicas de tema “histórico”
que tratavam de Mevlâna, e que, mais ainda, recorria ao mesmo estilo
impregnado de tristeza, deixou de ter dúvidas quanto a essas interpolações e
intercalações. O que tornava inquietante este estranho jogo era o facto de os
cadernos íntimos de Djélâl, os rascunhos de artigos que não publicara, as suas
notas sobre história, os seus ensaios sobre o Xeque Galip, as suas interpretações
de sonhos, as suas recordações de Istambul e os temas que abordara em grande
número das suas crónicas não fazerem outra coisa que não fosse reiterá-lo.
Na sua rubrica “Parece incrível mas é verdade”, Djélâl contara centenas de
vezes histórias de reis que se tomavam por um outro, de imperadores da China
que, para se tornarem um outro, incendiavam os seus próprios palácios, de
sultões cujo o gosto de se disfarçarem para se misturarem de noite com o resto
da população se tornara uma mania, de tal modo que acabavam por desprezar
dias a fio os seus palácios e os assuntos de Estado. Num caderno onde Djélâl
reunira algumas breves novelas inacabadas, que se assemelhavam a recordações,
Galip pôde descobrir que o primo, no decorrer de um só dia de Verão, se tomara
sucessivamente por Leibniz, pelo grande homem de negócios Djevdet bey, pelo
profeta Mahomet, por um patrão dos jornais, por Anatole France, por um
cozinheiro de renome, por um imã muito conhecido pelos seus sermões, por
Robinson Crusoé, por Balzac e por seis outros personagens cujos nomes depois
apagara. Galip examinou a seguir caricaturas feitas pelo primo a partir de selos e
de cartazes consagrados a Mevlâna, e descobriu também um desenho desajeitado
representando uma sepultura e no qual se podia ler: “Mevlâna Djélâl”. Uma
crónica inédita começava assim: “O Mesnevi, que se considera a principal obra
de Mevlâna, não passa, de uma ponta à outra, de um plágio!”
Depois Djélâl enumerava, forçando um pouco o traço, as semelhanças
detectadas pelos exegetas mais académicos, que hesitam entre o medo do
desrespeito e a preocupação com a verdade. Certa história do Mesnevi fora
extraída de Kalila e Dimna; outra do Mantik-ut Tayr de Attar; outra pequena
história fora inteiramente roubada a Leylâ e Majnun, outra furtada do Menakib-i
Evliya. Na longa lista das fontes assim pilhadas, Galip descobriu o Kissasi
Enbiya, As Mil e Uma Noites e Ibn Zerhani. Djélâl acrescentara à sua lista
aquilo que Mevlâna pensava da contracção de empréstimos literários. Cada vez
mais pessimista à medida que a tarde caía, Galip leu esse texto com a impressão
de que ele não exprimia apenas as ideias de Mevlâna, mas também as de Djélâl,
que se identificava com Mevlâna.
Segundo Djélâl, como todos os que não se resignam a ser eles próprios e que
só encontram a paz quando conseguem fundir-se na personalidade de um outro,
também Mevlâna não podia, quando começava a contar uma história, deixar de
repetir o que um outro dissera. De resto, para todos os infelizes que ardem no
desejo de serem um outro, contar uma história não passa de um ardil que
descobriram para se escaparem desse seu corpo e desse seu espírito que os fazem
morrer de tédio. Mevlâna queria contar uma história, com o simples propósito de
contar uma história. Do mesmo modo que as Mil e Uma Noites, o Mesnevi era
uma composição estranha e desordenada, onde uma segunda história começa
quando a primeira ainda não terminou, onde se passa a uma terceira antes do fim
da segunda, e onde as histórias incompletas são incessantemente abandonadas,
tal como nos cansamos de uma personalidade que adoptámos para escolhermos
uma outra. Nos tomos do Mesnevi que folheou, Galip descobriu passagens
sublinhadas em certos contos eróticos, páginas inteiras cobertas de pontos de
interrogação e de exclamação, de correcções e de rabiscos, tudo a tinta verde, e
como que com raiva. Depois de ter rapidamente percorrido as histórias referidas
nessas páginas sujas de tinta, Galip compreendeu que o tema de muitas das
crónicas de Djélâl, que lera na juventude, era tomado de empréstimo ao Mesnevi
e adaptado em seguida à Istambul dos nossos dias.
Lembrou-se das noites em que Djélâl lhes falava durante horas da arte da
glosa ou naziré, afirmando que era essa a única verdadeira arte. Enquanto Ruya
devorava os bolos comprados durante o caminho de regresso a casa, Djélâl
declarava que escrevera grande número das suas crónicas — talvez todas — com
o auxílio de outros autores; o importante, acrescentava ele, não é “criar”, mas
poder dizer qualquer coisa de inteiramente novo, a partir de obras-primas
maravilhosas criadas ao longo dos séculos por milhares de cérebros,
modificando-as ligeiramente, e afirmava de novo que sempre fora buscar a
outros os temas dos seus artigos. O que enervou Galip, fazendo-o perder a sua fé
na realidade dos móveis à sua volta, dos papéis em cima da mesa, não foi
descobrir que certas histórias que, durante anos, atribuíra a Djélâl haviam sido
imaginadas por outros, mas as consequências que dessa revelação decorriam.
Disse para consigo que talvez houvesse algures em Istambul um apartamento
e uma sala, exactamente mobilados como aquele apartamento e aquela sala, que,
pelo seu lado, reconstituíam com todos os seus pormenores um passado de havia
vinte e cinco anos. E ainda que, nessa outra sala, não se encontrassem nem
Djélâl a contar uma história, nem Ruya para a ouvir com bom humor, haveria
talvez um pobre tipo que se parecia com Galip e que esperava descobrir a pista
da sua mulher desaparecida relendo velhas colecções de jornais. Tal como as
coisas, os desenhos, os símbolos observados nos objectos ou nos sacos de
plástico indicavam uma coisa diferente daquilo que eram, e tal como cada
crónica de Djélâl adquiria um sentido novo a cada leitura, cada vez que pensava
na sua própria vida, pensou Galip, descobria nela um sentido novo, e disse para
consigo ainda que acabaria por se perder entre todas aquelas significações que se
sucediam implacavelmente como os vagões de um comboio. Lá fora, a noite
caíra; uma luminosidade glauca, quase material, que fazia pensar no cheiro a
mofo e a morte de obscuros subterrâneos atapetados de teias de aranha, enchia a
sala. Galip compreendeu que a única maneira de escapar ao pesadelo deste outro
mundo espectral em que mergulhara sem querer era continuar a ler com os seus
olhos cansados, e acendeu a luz da secretária.
Regressou assim ao poço atapetado de teias de aranha onde fora lançado o
cadáver de Chems. Na continuação da narrativa, o poeta, desvairado de mágoa
pela perda do amigo, do “bem-amado”, recusava-se a admitir a sua morte. Não
queria acreditar que o corpo dele tivesse sido atirado para dentro de um poço;
furioso contra os que queriam mostrar-lhe o poço, inventava pretextos para partir
em busca do seu bem-amado. Porque não teria Chems voltado para Damasco,
como por altura do seu primeiro desaparecimento?
Mevlâna foi então a Damasco e começou a vaguear pelas ruas da cidade em
busca do seu bem-amado. Percorria cada rua, entrava em todas as tabernas, em
todas as casas, numa divisão atrás da outra, esquadrinhava todos os recantos,
levantava do chão pedra atrás de pedra; visitou as mesquitas, os tekke, todos os
lugares que Chems gostara outrora de frequentar; foi ver os seus antigos amigos
e os seus amigos comuns, de tal modo que a sua demanda acabou por se tornar
aos seus olhos mais importante que o objecto procurado. Ao chegar a este ponto
da crónica de Djélâl, o leitor acabava por se encontrar no meio dos fumos de
ópio, do cheiro a água-de-rosas e dos morcegos de um universo místico e
panteísta, onde aquele que procura muda de lugar com aquele que é procurado,
onde conta mais avançar em direcção a um fim do que alcançá-lo, onde o amor é
mais importante do que o objecto do amor, que já não passa de um pretexto. O
artigo demonstrava brevemente que as diversas aventuras vividas por Mevlâna
nas ruas da grande cidade correspondem às diversas etapas que o peregrino da
confraria deve transpor no seu avanço a caminho da verdade e da perfeição: a
cena em que o poeta toma com assombro conhecimento do desaparecimento do
seu bem-amado, a busca em que se precipita correspondem à etapa da provação,
do mesmo modo que as cenas em que aparecem os antigos amigos ou inimigos
do bem-amado, e aquelas em que o poeta examina todos os lugares frequentados
outrora pelo desaparecido e que despertam nele recordações cruéis, bem como os
seus objectos pessoais e as suas roupas, concordam com os diferentes graus da
iniciação. A cena do bordel simboliza a reabsorção no amor, a destruição no
inferno e no paraíso das páginas enfeitadas de parábolas, de jogos e de
armadilhas literárias, recordando as cartas que se descobriram em casa de Hallaji
Mansur depois do seu suplício, significa o itinerário pelos vales maravilhosos
descritos por Attar. Se os narradores que contam alternadamente uma história de
amor, à noite, na taberna, são tomados de empréstimo ao Colóquio das Aves de
Attar, o facto de o poeta, ébrio de cansaço à força de deambular pelas ruas, de
examinar as lojas e as janelas pululantes de mistérios da cidade, compreender
que aquilo que foi procurar ao cume do Monte Kaf é apenas ele próprio,
constitui um exemplo da fusão do indivíduo no absoluto, retirado do mesmo
livro.
Esmaltavam o longo artigo de Djélâl citações rimadas e pomposas extraídas
dos numerosos poetas místicos que trataram do problema da fusão entre aquele
que busca e o objecto da sua busca. O verso célebre de Mevlâna, fatigado das
suas buscas de vários meses pelas ruas de Damasco, aparecia igualmente,
traduzido em prosa por Djélâl, que abominava as traduções poéticas: “Uma vez
que sou ele, porquê continuar a procurá-lo?”, declarara um dia o poeta, perdido
nos mistérios da cidade. Ao chegar a este ponto culminante, Djélâl rematava a
sua crónica com este truísmo literário que todos os melevis repetem com
orgulho.
Transposta assim a última etapa, Mevlâna reunira os seus poemas sob o título
de Divã de Cbems de Tabriz sem utilizar o seu próprio nome.
Tal como nos seus tempos de criança, o que mais interessou Galip nesta
crónica foi a “trama policial” da narrativa da busca: Djélâl chegava a uma
conclusão que sem dúvida irritara uma vez mais aqueles de entre os seus leitores
que sentiam respeito pela religião, e divertira muito os seus leitores laicos e
republicanos: “Segundo toda a evidência, quem mandou assassinar Chems e
ordenou que o seu corpo fosse atirado a um poço, não foi outro senão o próprio
Mevlâna!” Djélâl sustentava esta teoria servindo-se dos métodos utilizados pelo
ministério público e pela polícia, que conhecia bem por ter tido, durante os anos
cinquenta, a seu cargo no jornal os casos do dia e as notícias dos tribunais.
Recordava assim, à maneira de um procurador da República da província,
disposto a acusar fosse quem fosse e de qualquer maneira, que era o próprio
Mevlâna quem, no caso em apreço, beneficiava com o crime, uma vez que,
graças a esse homicídio, se tornara o maior poeta místico de todos os tempos, em
vez de continuar a ser um simples hodja entre muitos outros, pelo que decerto
desejara a morte de Chems. Transpondo assim a estreita margem jurídica que
separa o desejo do homicídio e a ordem de matar, que só nos romances cristãos
encontramos, Djélâl assinalava factos estranhos, como a recusa por parte de
Mevlâna de acreditar na morte da vítima, ou de examinar o cadáver atirado para
o poço, a alienação provocada pela dor, atitudes que são apenas manifestações
do sentimento de culpa, pequenos ardis utilizados pelos assassinos inexperientes.
Depois mudava bruscamente de assunto, mergulhando Galip no desespero: que
significavam então aquelas buscas de vários meses nas ruas de Damasco, depois
de cometido o homicídio, essas investigações repetidamente conduzidas por toda
a cidade?
Djélâl consagrara muito mais tempo do que poderia parecer à redacção desta
crónica; Galip compreendeu-o graças a certas indicações anotadas em cadernos,
graças também a um plano da cidade de Damasco, que descobriu numa caixa
onde Djélâl guardava os bilhetes de certos desafios de futebol celebérrimos
(Turquia 3-Hungria 1) e bilhetes de cinema (A Mulher à Janela ou Regresso a
Casa). No mapa da cidade, os itinerários seguidos por Mevlâna tinham sido
sublinhados com uma esferográfica verde. Dado que Mevlâna não podia estar à
procura de Chems, uma vez que o sabia morto, o fim que visava na sua busca era
completamente outro. Mas de que se tratava, então? Todos os lugares onde o
poeta estivera tinham sido sublinhados no mapa; os nomes dos bairros, das
estalagens para caravanas, das albergarias, das tabernas que ele visitara tinham
sido registados no verso. Djélâl tentara sem dúvida descobrir um sentido oculto,
uma simetria secreta nas letras e nas sílabas de todos os nomes enumerados por
uma lista interminável.
Já muito depois do cair da noite, numa caixa onde Djélâl conservava todo um
conjunto de antiguidades datando da época em que examinara numa série de
crónicas os enigmas policiais das Mil e Uma Noites (“Ali o Desperto”, “O
Ladrão Astucioso”, etc), Galp descobriu um plano do Cairo e um plano de
Istambul editado em 1934 pela municipalidade.
Como esperava, setas desenhadas a tinta verde indicavam no plano do Cairo
os locais onde se desenrolavam as histórias das Mil e Uma Noites. Descobriu
também no plano de Istambul, em certos bairros, setas sempre traçadas com a
tinta verde, senão com a mesma esferográfica. E ao seguir os trajectos
desenhados pelas setas no emaranhado dos mapas, pareceu-lhe ver o percurso da
sua própria errância dos últimos dias na cidade. Para se persuadir de que se
tratava apenas de uma ilusão, disse para consigo que as setas conduziam a
edifícios, a mesquitas onde ele nunca entrara, a encostas que nunca subira, e
contudo passara por edifícios vizinhos, entrara em mesquitas muito próximas,
subia ruas que levavam a essas colinas. Pouco importava o que aparecia nos
mapas, mas toda a cidade de Istambul transbordava de viajantes que haviam
empreendido a mesma viagem! Galip dispôs lado a lado os planos do Cairo, de
Damasco e de Istambul, como Djélâl aconselhava numa crónica, escrita muitos
anos antes e inspirada por Edgar Allan Poe. Para o poder fazer, teve de recortar
as páginas de um mapa municipal encadernado, com uma lâmina de barba que
descobriu na casa de banho, e na qual alguns pêlos da barba de Djélâl provavam
que este a usara. Quando acabou de dispor os planos lado a lado, ficou sem saber
que fazer ao certo daquelas redes de linhas e de signos de diferentes dimensões.
Depois, como na infância faziam, Ruya e ele, para copiarem uma imagem de
uma revista ilustrada, sobrepôs os três mapas contra a porta envidraçada da sala,
a fim de os examinar à transparência, à luz de uma lâmpada. Em seguida, tal
como a mãe de Djélâl quando estudava os modelos que dispunha em cima
daquela mesma mesa, voltou a colocar lado a lado os mapas das três cidades, que
tentou considerar como as peças de um puzzle. A única imagem que vagamente
conseguiu distinguir nos mapas sobrepostos foi a do rosto enrugado e
perfeitamente fortuito de um homem muito velho.
Contemplou esse rosto tão longamente que teve a impressão de o conhecer
de havia muito.
Este sentimento familiar e o silêncio da noite permitiram-lhe recobrar a
calma: uma serenidade tranquilizadora, porque parecia já vivida, planificada,
prevista por um outro. Disse sinceramente para consigo que Djélâl lhe estava a
indicar uma certa direcção. O primo escrevera várias crónicas sobre a
significação dos rostos, mas Galip lembrou-se também de certas frases sobre a
“paz interior” que Djélâl experimentava quando contemplava os rostos das
actrizes de cinema estrangeiras. E decidiu prontamente reler as críticas de filmes
que datavam dos primeiros tempos de jornalista do primo.
Nesses artigos, Djélâl falava com tristeza e nostalgia dos rostos de certas
estrelas americanas, como se descrevesse estátuas de mármore transparente, ou a
superfície sedosa e escondida de um planeta, como se evocasse certos contos de
certos países longínquos, tão leves como sonhos. E ao reler aquelas linhas, Galip
compreendeu que o gosto que lhes era comum, a Djélâl e a si próprio, era o da
harmonia dessa nostalgia, semelhante a uma melodia suave, quase inaudível,
muito mais que o afecto que os dois sentiam por Ruya ou o interesse que
experimentavam por tudo o que fosse história. Amava — e temia — tudo o que
descobriam ambos naqueles mapas, naqueles planos, nos rostos e nas palavras.
Teria gostado muito de mergulhar mais fundo no conteúdo das críticas de
cinema, para aí descobrir aquela pequena música, mas hesitou, tomado de receio;
Djélâl nunca utilizava esse tom para falar dos actores turcos, ainda que se
tratasse dos mais célebres. Os seus rostos, dizia, lembravam-lhe comunicados de
guerra de há meio século, cujos código e sentido se tinham perdido havia muito.
Sabia muito bem, agora, porque fora que o optimismo que o invadira de
manhã, quando tomara o pequeno-almoço e se instalara à mesa de trabalho, se
dissipara depois. Após oito horas de leitura, a imagem que tinha de Djélâl
transformara-se por completo, de tal modo que ele próprio tinha a impressão de
se ter tornado outro. Ao passo que de manhã não sentia minimamente ainda a
necessidade de se tornar outro, quando a sua fé no universo em redor permanecia
ainda intacta, quando acreditava ainda ingenuamente que um paciente labor lhe
permitiria penetrar um segredo essencial que o mundo lhe escondia. Mas agora,
à medida que os mistérios do universo se afastavam dele, que os objectos e os
escritos que se encontravam na sala e que ele julgava conhecer se transformavam
em objectos incompreensíveis vindos de um mundo desconhecido, ou em planos
de rostos que não conseguia identificar, Galip queria desembaraçar-se do homem
em que se tornara e que lançava sobre o universo inteiro aquele olhar angustiado,
despido de esperança; queria tornar-se outro. Quando, na esperança de descobrir
um indício que lhe permitisse averiguar o verdadeiro laço que unia Djélâl a
Mevlâna e à filosofia da sua congregação, se dedicou à leitura das crónicas em
que o primo evocava certas recordações, a hora do jantar chegara já e o clarão
azul dos televisores reflectia-se na avenida Techvikiyé.
Se Djélâl se debruçara tantas vezes sobre a história da confraria dos
mevlevis, não fora apenas por causa do interesse algo inexplicável que os
leitores votavam ao tema, mas também porque o segundo marido da mãe dele
fora membro dessa confraria. Esse homem (que a mãe de Djélâl desposara
porque não conseguia viver e fazer viver o filho com os seus trabalhos de costura
depois de ter tido de se divorciar, uma vez que o tio Mélih não se decidia a
regressar da Europa ou, mais tarde, do Norte de África) frequentava um
convento de mevlevis, situado perto de uma cisterna bizantina, numa ruela do
bairro Yavuz-Sultan; Galip adivinhou-o pelo retrato traçado por Djélâl — com
uma ironia voltaireana e uma hostilidade bem laica — de um advogado
“corcunda e fanhoso” que assistia a cerimónias rituais secretas. Enquanto
descobria, assim, que, nos tempos em que o primo vivera sob o mesmo tecto que
o padrasto, tivera, para ganhar a vida, de trabalhar como “arrumador” nos
cinemas de bairro, onde muitas vezes sovara os clientes — ou fora ele próprio
sovado — na sequência de rixas muito frequentes nas salas escuras e a abarrotar;
à leitura da crónica em que Djélâl contava que vendia gasosa nos intervalos e
que, com o objectivo de aumentar o consumo desta, se entendera com o
pasteleiro levando-o a pôr sal e pimenta nos bolos secos consumidos pelos
espectadores, Galip, como todos os bons leitores, pôs-se sucessivamente no
lugar de todos os personagens, arrumadores, pasteleiros, espectadores irascíveis,
e o próprio Djélâl.
Numa outra crónica sobre as suas recordações de infância, em que Djélâl
evocava os dias passados numa oficina de encadernação, que cheirava a papel e
a cola, onde trabalhara depois de ter deixado o seu posto de arrumador numa sala
de Chehzadé-Bachi, uma outra frase chamou a atenção de Galip, porque lhe
pareceu por um breve instante conter uma premonição da sua situação actual.
Tratava-se de uma frase bana-líssima, utilizada por todos os autores que
inventam um passado doloroso, mas do qual se podem orgulhar. “Lia tudo o que
me caía nas mãos”, escrevera Djélâl. E Galip, que lia tudo o que apanhava
acerca de Djélâl, compreendera imediatamente que, naquela crónica, o primo
falava não dos dias passados por ele na oficina de encadernação, mas na
realidade do próprio Galip...
Até ao momento em que saiu do apartamento, tarde na noite, sempre que se
lembrava desta frase, Galip via nela a prova de que Djélâl estava a par de tudo o
que Galip fazia, instante por instante. De tal maneira que os esforços que
multiplicava havia uma semana deixaram de ser aos seus olhos os elementos de
uma busca que empreendia, tentando descobrir Djélâl e Ruya, para se
transformarem num jogo imaginado por Djélâl (e talvez também por Ruya).
Como esta ideia concordava com o gosto que Djélâl tinha de conduzir à sua
maneira as pessoas onde bem entendia graças aos pequenos ardis e às vagas
alusões de que se servia nas suas crónicas, Galip disse para consigo que as
buscas que estava a desenvolver naquele museu vivo eram uma expressão da
liberdade de escolha de Djélâl, e não da sua.
Queria sair o mais depressa possível do apartamento, não só porque já não
podia suportar a impressão de asfixia que ali experimentava, ao mesmo tempo
que os olhos lhe doíam de tanto ler, mas sobretudo porque não descobrira nada
que se comesse na cozinha. Tirou do armário de parede ao pé da porta de entrada
o casaco azul-marinho de Djélâl, para que o porteiro e a mulher — decerto
amodorrados, senão já adormecidos — imaginassem ver passar diante da sua
janela as pernas e o casaco de Djélâl. Desceu as escadas sem acender a luz e
verificou que nenhuma luz se via também na janelinha do porteiro que dava para
a rua. Deixou entreaberta a porta do prédio cuja chave não tinha. Ao dar os
primeiros passos no passeio, a ideia de que o homem do telefone, no qual havia
um bom momento se recusava a pensar, ia aparecer no escuro fê-lo estremecer.
Disse para consigo que esse homem — não se tratava de um desconhecido, disso
tinha a certeza — detinha não um dossier relativo aos preparativos de um novo
golpe de Estado militar, mas um segredo muito mais perigoso e aterrador. A rua
estava deserta. Enquanto caminhava, Galip perguntou-se se a voz do telefone
não seria em busca dele próprio que andava. Mas não, ele não estava a tentar
pôr-se no lugar de um outro: “Vejo tudo, claramente, tal como é”, murmurava de
si para si, ao passar diante da esquadra. Os polícias de guarda, de metralhadora
na mão, lançaram-lhe olhares desconfiados e pesados de sono. Galip andava
olhando bem a direito, à sua frente, para evitar ler as letras dos anúncios
luminosos, cujos néons crepitavam, dos cartazes e das palavras de ordem
políticas escritas nas paredes.
Todos os restaurantes e tascas do bairro estavam fechados.
Muito mais tarde, depois de ter percorrido longamente os passeios onde caía
neve fundida dos beirais num murmúrio melancólico, passando por castanheiros,
plátanos e ciprestes, apurando o ouvido para os seus próprios passos e para o
tumulto que lhe chegava dos pequenos cafés de bairro, entrou numa leitaria onde
se encheu de sopa, de frango e de kadayif, para retomar em seguida a direcção
do “Coração da Cidade”, depois de ter comprado num botequim fruta, pão e
queijo.


CAPÍTULO IV

A HISTÓRIA DOS QUE NÃO PODEM CONTAR HISTÓRIAS

“Sim!, disse o leitor encantado, é sensato, é genial, compreendo-o e admiro-
o. Eu próprio pensei cem vezes a mesma coisa. Por outras palavras, esse homem
lembrou-me a minha própria inteligência e, por conseguinte, eu admiro-o.”
Coleridge


O artigo mais importante que alguma vez escrevi, o que nos permitiria, sem
que sequer déssemos por isso, decifrar o mistério de toda a nossa vida, não é
decerto a crónica escrita há dezasseis anos e quatro meses, na qual eu revelava as
incríveis semelhanças que se podem observar entre os mapas de Damasco, do
Cairo e de Istambul. (Os que o desejarem poderão descobrir nessa crónica que o
Darb-el-Mustakim, o Khalili-Khan e o nosso Grande Bazar desenham nos três
mapas a mesma letra do alfabeto árabe, Mim, e nela poderão descobrir também o
rosto evocado por essas letras.) A história mais “carregada de sentido” que
contei também não é essa, com duzentos e vinte anos de idade, que descreve
como o infortunado Xeque Mahmout, para adquirir a imortalidade, vendeu a um
espião francês os segredos da sua confraria, coisa de que viria a arrepender-se
amargamente. (Os que quiserem saber como o xeque, em busca de um homem
disposto a assumir o peso da sua imortalidade, se dirigia aos campos de batalha,
para tentar convencer disso os combatentes na agonia, ensopando-se no sangue
deles, poderão descobrir todos os pormenores da história na minha crónica.)
Quando penso em todas as histórias sobre os gangsters de Beyoglou, os
poetas feridos de amnésia, os ilusionistas, as cantoras com dupla identidade, os
amantes desesperados, dos quais falei outrora, verifico que deixei sempre de
lado o tema mais importante ou então que me limitei a andar à volta dele, de
longe, com uma estranha reserva. Mas não sou o único a proceder assim! Há
trinta anos que escrevo. E consagrei à leitura o mesmo número de anos ou quase.
Mas nunca descobri, nem no Oriente nem no Ocidente, um único autor que tenha
chamado a atenção para aquilo de que vou falar aqui.
E agora, à medida que forem lendo o que vou escrever, imaginem, por favor,
os rostos que evoco. (De resto, ler será mais que atribuir uma imagem, no ecrã
mudo da nossa inteligência, a tudo aquilo que o escritor conta com letras?) No
ecrã do vosso cérebro, façam passar uma loja de vendedor de tintas, numa cidade
do Leste da Anatólia. Numa fria tarde de Inverno, quando a noite cai muito
depressa, o barbeiro — que confiou a sua loja ao aprendiz porque o mercado está
quase deserto —, um velho reformado, o irmão mais novo do barbeiro e um
cliente do bairro, que ali estão menos para fazer compras do que para cavaquear,
estão sentados à volta do fogão; conversam, evocam recordações do serviço
militar, folheiam os jornais, mexericam, gracejam de tempos a tempos. Mas um
deles está pouco à vontade, porque é ele quem fala menos, quem sabe menos
fazer-se ouvir. Trata-se do irmão do barbeiro. Também ele tem histórias para
contar, gracejos a transmitir, mas é em vão que arde do desejo de falar, não sabe
contar nem narrar uma história, falta-lhe a vivacidade. Ao longo da tarde,
sempre que tenta começar uma, os outros cortam-lhe a palavra, sem o fazerem
sequer propositadamente, e por isso, imaginem, por favor, a expressão do irmão
do barbeiro sempre que os outros o interrompem, sempre que é obrigado a deixar
por começar a sua história.
E depois, imaginem, por favor, uma cerimónia de pedido de casamento numa
casa de família, a de um médico de Istambul, que nunca conseguiu ganhar o
suficiente. Uma família ocidentalizada. Alguns dos convidados que invadiram a
casa encontram-se por acaso no quarto da jovem noiva, à volta da cama, em
cima da qual os casacos se foram amontoando. Entre eles, uma rapariga bonita e
simpática, e dois jovens que se interessam muito por ela. Um deles não é muito
bonito, nem muito inteligente, mas não é tímido, fala com facilidade. É por isso
que a rapariga e os convidados mais velhos que ali estão prestam atenção às
histórias que ele conta. Agora, imaginem o outro jovem muito mais inteligente e
sensível que o tagarela, mas que não sabe fazer-se ouvir.
E por fim, imaginem três irmãs, todas elas casadas com dois anos de
intervalo. Dois meses depois do casamento da mais nova, juntam-se em casa da
mãe. É a casa de um pequeno comerciante, onde se ouve o tiquetaque de um
relógio enorme e um canário que se aborrece na sua gaiola. Enquanto toma o seu
chá na luz pardacenta de uma tarde de Inverno, a mais nova, que foi sempre
animada e faladora, descreve a sua experiência de mulher que casou há dois
meses, sabe descrever tão bem certas situações, certos incidentes cómicos, que a
mais velha, que é também a mais bela, confessa a si própria com melancolia que
talvez falte alguma coisa na sua vida — e talvez também no marido. Imaginem o
seu belo rosto impregnado de tristeza.
Imaginaram bem estes rostos? Não se assemelham todos, estranhamente?
Não vêem uma parecença entre eles, e o laço invisível que une entre si estas
pessoas tão diferentes umas das outras? Os silenciosos, os mudos, os que não
sabem contar, que parecem sem importância, todos os que não sabem descobrir a
réplica adequada excepto depois de terem já voltado para casa; e também
aqueles cujas histórias não interessam a ninguém —, não parecem os seus rostos
mais expressivos, muito menos vazios que os demais? Dir-se-ia que, nesses
rostos, fervilham as letras de todas as histórias que não puderam contar; dir-se-ia
que são portadores dos estigmas do silêncio, da humilhação e, mais ainda, da
derrota. E talvez entre esses rostos, tenhamos descoberto o nosso, não é assim?
Como somos dignos de dó, tão numerosos, como somos desesperados, a maior
parte de nós!
Mas não gostaria, apesar de tudo, de vos iludir: não sou um dos vossos. O
homem que é capaz de se exprimir com papel e um lápis, que consegue melhor
ou pior fazer com que os outros leiam o que escreve, é mais ou menos poupado
por essa doença. E é por isso que nunca encontrei um autor que falasse com
acerto de um tema tão importante. Hoje, sempre que rapo da pena, compreendo
que só me resta uma questão a tratar: doravante vou esforçar-me por penetrar a
poesia secreta dos nossos rostos, o mistério aterrador dos nossos rostos. Podem
contar com isso.


CAPÍTULO V

AS ADIVINHAS NOS ROSTOS

“Geralmente, as pessoas reconhecem-se pelo rosto...”
Lewis Carroll


Quando, terça-feira de manhã, Galip se instalou diante da mesa onde se
acumulavam os artigos, estava muito menos optimista que havia vinte e quatro
horas. Depois de um dia de trabalho, a imagem que até então tinha de Djélâl
sofrera uma transformação que lhe parecia desagradável, de tal maneira que o
objectivo da sua busca lhe parecia agora muito vago.
Todavia, continuava a ler as crónicas e as notas que descobrira na estante,
porque a leitura era para ele o único meio de construir certas teorias relativas ao
lugar onde Djélâl e Ruya se escondiam. E acalmava-se com a ideia de que ler,
sentado àquela mesa, era a única coisa que podia fazer para evitar não sabia lá
muito bem que desgraça. Além disso, reler os artigos de Djélâl naquela sala
onde, desde a infância, sempre se sentira feliz na companhia das suas
recordações, era muito mais agradável do que estudar os contratos de inquilinos
que tentavam proteger-se contra as agressões do seu senhorio, ou os dossiers dos
vendedores de ferro-velho ou de tapetes que só pensavam em roubar-se uns aos
outros.
Sentia dentro de si o entusiasmo do funcionário promovido a um posto mais
interessante, que obteve uma mesa de trabalho muito mais confortável do que a
anterior, ainda que devendo essas vantagens a uma catástrofe.
E sob o efeito deste entusiasmo, enquanto bebia um segundo café, examinou
de novo a lista dos indícios de que dispunha. Lembrava-se de ter lido a crónica
intitulada “Enfermidades e sarcasmos”, que descobriu no Milliyet que o porteiro
enfiara por baixo da porta, muitos anos antes: portanto, Djélâl não entregara na
redacção um novo artigo. Era a sexta vez consecutiva que uma crónica antiga
aparecia no jornal. E já só restava um artigo na pasta das “Reservas”. O que
significava que, a partir de quinta-feira, as colunas reservadas a Djélâl ficariam
vazias, se não enviasse para o jornal novos artigos ao longo das trinta e seis
horas seguintes. Até então, Djélâl nunca abandonara a sua crónica, como faziam
outros cronistas, a pretexto de férias ou de doença. E sempre que pensava no
vazio que assim poderia aparecer na segunda página do jornal, Galip
experimentava com terror a iminência de uma desgraça: uma catástrofe que lhe
lembrava a retirada das águas do Bósforo.
A fim de permanecer acessível a qualquer eventual indício, voltou a ligar o
telefone cuja ficha desligara depois de entrar no apartamento. Tentava recordar
todos os pormenores da conversa que tivera com essa voz que se apresentara sob
o nome de Mahir Ikindji. Tudo o que o desconhecido contara acerca do “crime
da mala” e de um golpe de Estado militar o fez pensar em certas crónicas de
Djélâl. Procurou-as na caixa, leu-as atentamente, e pensou noutros artigos,
noutros parágrafos também, que falavam do Messias. Descobrir o rasto dessas
frases espalhadas por diversas crónicas e a data da sua publicação tomou-lhe
tanto tempo que, quando voltou a sentar-se à mesa, sentia-se tão esgotado como
ao fim de um dia de trabalho.
No começo dos anos sessenta, na época em que evocava num tom de
provocação a iminência de um golpe de Estado militar, Djélâl pensara sem
dúvida num dos motivos que o haviam impelido a escrever artigos sobre
Mevlâna: um jornalista que quer fazer aceitar uma ideia a um grande número de
leitores tem de ser capaz de fazer voltar à superfície as ideias e as recordações
enterradas na vasa das suas memórias, como se fossem outras tantas carcaças de
golfinho afogadas havia séculos no Mar Negro. Foi por isso que Galip ficou à
espera, como todos os leitores que se respeitam, enquanto relia nesse fito os
episódios extraídos por Djélâl de diversas fontes históricas, de um frémito no
lodo da sua própria memória. Enquanto lia como o Duodécimo Imã mergulhou
um dia no terror os ourives das ruelas do Grande Bazar que utilizavam balanças
viciadas, ou como o filho do xeque, do qual Silahtar fala na sua História,
proclamado Messias pelo seu próprio pai, atacou as fortalezas, seguido pelos
seus bandos de ferreiros e de pastores curdos; ou ainda a história do lavador de
pratos aprendiz, que, tendo visto em sonhos o Profeta sentado no banco traseiro
de um Cadillac branco descapotável, que avançava pelo empedrado coberto de
lama de Beyoglou, se proclamou, também ele, Messias, a fim de aliciar as putas,
as ciganas, os carteiristas, os mendigos, os vadios, os vendedores de cigarros do
mercado negro, os engraxadores para o combate que queria empreender contra
os proxenetas e os grandes gangsters, imaginava todos esses acontecimentos
envolvidos no vermelho de tijolo e no tom alaranjado da aurora da sua própria
vida e dos seus próprios sonhos. Descobriu histórias que excitaram tanto a sua
memória como a sua imaginação: quando leu a história de Mehmet, o Caçador,
que, príncipe herdeiro e depois sultão durante anos e anos, acabou por se
proclamar igualmente profeta, Galip lembrou-se da noite em que Djélâl evocara
a necessidade de formar um falso Djélâl capaz de o substituir na redacção das
suas crónicas (um tipo capaz de se apropriar da minha memória, dissera ele), o
que fizera sorrir Ruya, com um olhar como sempre benevolente e um tanto
sonolento. No mesmo instante, Galip tivera a impressão de se estar a deixar
arrastar para um jogo perigoso, que poderia ter por desfecho uma armadilha
mortal.
Releu uns atrás dos outros os nomes e os endereços que descobrira numa
agenda, comparando-os com os da lista. Marcou certos números que haviam
despertado as suas suspeitas: tratava-se de uma oficina em Lâléli, onde se
fabricavam bacias, baldes e cestos de roupa de plástico; bastava fornecer um
modelo à oficina para que esta entregasse, no prazo de uma semana, várias
centenas de cópias, fosse qual fosse a forma ou a cor escolhidas. A segunda
tentativa, respondeu uma criança: morava ali, com o pai, com a mãe e com a
avó; o pai tinha saído. Antes de a mãe, desconfiada, ter conseguido apoderar-se
do telefone, um irmão mais velho — que a primeira criança não mencionara —
interveio no diálogo, declarando que se recusavam a comunicar os seus nomes a
um desconhecido.
“Quem fala? Quem é o senhor?”, perguntou a mãe, prudente e receosa. “Está
enganado no número.”
Era já meio-dia quando Galip começou a tentar decifrar tudo o que Djélâl
anotara em bilhetes de autocarros ou de cinema. Nalguns bilhetes, Djélâl
escrevera, com uma caligrafia muito aplicada, o que pensara do filme, e por
vezes até mesmo os nomes dos actores. Galip esforçou-se por descobrir porque
fora que alguns dos nomes tinham sido sublinhados.
Também nos bilhetes de autocarro, havia nomes e palavras. Num deles,
Galip desenhara um rosto, composto de letras do alfabeto latino. (A julgar pela
tarifa — quinze piastras — o bilhete datava do começo dos anos sessenta.) Galip
examinou atentamente as letras do rosto. Depois leu antigas críticas de filmes,
algumas das primeiras reportagens de Djélâl (“A muito conhecida actriz
americana Mary Marlove esteve ontem na nossa cidade”), esquemas inacabados
de palavras cruzadas, cartas de leitores que escolheu ao acaso, e vários recortes
de jornais, todos eles relativos a crimes cometidos no bairro de Beyoglou e que
tinham chamado a atenção de Djélâl: a maior parte dos assassinatos em causa
pareciam copiados uns dos outros, não só por terem sido perpetrados com
instrumentos cortantes geralmente utilizados em cozinhas, e sempre em plena
noite, ou porque o assassino ou a vítima — ou por vezes ambos — estavam
bêbados que nem cachos, mas sobretudo por serem relatados numa linguagem
que insistia no sentimentalismo “macho”, e num tom extremamente moralizador:
“Assim acabam os que se metem em negócios duvidosos!”
Para abordar o assunto, Djélâl utilizara certos recortes descrevendo “Os
pontos mais notáveis de Istambul” (os bairros de Taksim, Djihanguir, Lâleli,
Kourtoulouche). Uma série de artigos intitulada “As estreias da nossa história”,
descoberta na mesma caixa, lembrara a Galip que o primeiro livro a utilizar o
alfabeto latino na Turquia fora impresso em 1928, por Kassime bey, proprietário
da Biblioteca do Ensino Público. Em cada folheto do Calendário do Ensino
Público, publicado pelo mesmo editor, além das receitas culinárias que Ruya
muito apreciava, das citações de Atatiirk, dos grandes pensadores do Islão ou de
estrangeiros ilustres como Benjamin Franklin ou Bottfolio, ou dos trocadilhos e
ditos espirituosos, via-se um mostrador de relógio que indicava as horas das
orações de cada dia.
Quando, em certos folhetos, Galip observou que Djélâl retocara a lápis o
mostrador-horário para o transformar num rosto humano com o nariz e os
bigodes muito compridos, convenceu-se de ter descoberto nisso um novo
indício, e registou-o numa folha de papel branco. E enquanto almoçava um
pedaço de pão, queijo e uma maçã, examinou com um interesse estranho a
posição dessa nota no papel.
Nas últimas páginas de um caderno que continha o resumo de romances
policiais como O Escaravelho de Ouro ou A Sétima Carta, informações sobre os
códigos e as chaves de código, extraídas de livros sobre a Linha Maginot ou os
espiões alemães, descobriu algumas linhas trémulas traçadas com uma
esferográfica verde. Lembravam um pouco as linhas verdes que atravessavam os
mapas do Cairo, de Damasco e de Istambul, ou talvez um rosto, por vezes flores
ou os meandros de um rio na planície. Depois de ter estudado as curvas
assimétricas e desprovidas de sentido das quatro primeiras páginas, Galip só na
quinta página descobriu a chave do mistério: fora solta uma formiga no meio de
uma página branca, e o percurso hesitante do insecto desvairado fora sublinhado
pela esferográfica. Depois, o caderno fora fechado e, mesmo no meio da quinta
página, o cadáver ressequido do insecto ficara colado no local onde a formiga
exausta traçara círculos hesitantes. Galip tentou então adivinhar a quando
remontava a morte da infeliz formiga, castigada por não chegar a qualquer
resultado; perguntou-se também se esta estranha experiência teria alguma
relação com as crónicas que o primo consagrara a Mevlâna. No quarto tomo do
seu Mesnevi, Mevlâna referia com efeito a história da formiga que percorrera os
seus rascunhos: o insecto começava por tomar as letras do alfabeto árabe por
lírios e narcisos, depois compreendia que era o cálamo que criava aquele jardim
de flores, e que o cálamo era dirigido pela mão, e que a mão obedecia ao
cérebro. “E compreendia em seguida que essa inteligência era movida por uma
outra inteligência”, acrescentara Djélâl numa sua crónica. As imagens evocadas
pelo poeta místico confundiam-se assim uma vez mais com os sonhos de Djélâl.
Talvez Galip estivesse prestes a estabelecer uma ligação significativa entre
aqueles artigos e a data em que o caderno fora utilizado, mas as últimas páginas
eram inteiramente consagradas aos grandes incêndios de outrora, aos bairros de
Istambul que tinham devastado, e ao número de grandes casas de madeira que
haviam então desaparecido. Leu ainda outra crónica em que Djélâl contava as
aventuras de um empregado de alfarrabista viajante que, no começo do século,
vendia livros de porta em porta. O jovem apanhava o barco para se dirigir cada
dia a um bairro diferente de Istambul; batia à porta das casas mais ricas para aí
vender, depois de muitos regateios, os livros que trazia no seu fardo às mulheres
do Harém, aos velhos que já não saíam de casa, aos funcionários com o dia
demasiado ocupado, às crianças sonhadoras, mas o essencial da sua clientela era
constituída pelos ministros, que não podiam sair de casa a não ser para ir aos
seus ministérios, de acordo com a proibição decretada pelo sultão Abdulhamit
que a fazia controlar pelos seus espiões. Enquanto lia como o jovem caixeiro-
viajante comunicava a esses pachás (aos seus leitores, escrevera Djélâl)
mensagens que ele próprio introduzia no texto dos livros que lhes vendia, e que
os ensinava a decifrar com o auxílio de certos segredos dos Houroufis, Galip
disse para consigo que pouco a pouco se estava a tornar outro homem, o homem
que queria ser. E no momento em que concebeu que os segredos do houroufismo
não eram muito complicados mas tão simples como o mistério das letras e dos
signos, desvendado no final de um romance americano que se passa em mares
longínquos, e cuja versão simplificada Djélâl oferecera a Ruya, num sábado à
tarde dos seus tempos de miúdos, Galip convencera-se de que uma pessoa pode,
à força de ler, tornar-se outra. Foi então que o telefone tocou. Era evidentemente
o mesmo homem quem telefonava: — Estou muito contente por verificar que
voltaste a ligar o telefone, Djélâl bey! — disse a voz que evocava para Galip um
homem de certa idade.
— Recusava-me a admitir que um homem com o teu valor pudesse manter-
se à margem de uma cidade inteira, de um país inteiro, nestes dias em que se
corre o risco de que sobrevenham os acontecimentos mais terríveis!
— Em que página da lista vais?
— Estou a esforçar-me muito, mas o trabalho avança muito menos depressa
do que eu esperava. Quando lemos números durante horas a fio, começamos a
pensar em coisas em que nunca pensamos. Agora, comecei a distinguir nos
números fórmulas mágicas, disposições simétricas, repetições, clichés, formas...
Isso diminui o meu rendimento.
— Também há rostos?
— Sim, mas só aparecem graças a combinações de algarismos. E depois, os
números nem sempre se exprimem, acontece-lhes ficarem em silêncio. Às vezes
adivinho que os quatros me estão a segredar não sei o quê, sucedem-se sem
descanso. Dois a dois a princípio, depois mudam de coluna de maneira simétrica,
e eis que de repente se transformam em dezasseis. De súbito, há setes que se
introduzem na coluna que os quatros abandonaram, e trauteiam-me a mesma
melodia. Repito de mim para mim que tudo isto são só acasos sem sentido, mas
o número de telefone 140 22 40, que é de um tal Timour Beyazit, não te faz
imediatamente pensar, também a ti, na batalha de Ankara de 1402, e nesse
bárbaro do Timour que, depois de vencer, reduziu à condição de concubina a
esposa de Beyazit, cognominado o Relâmpago? Toda a nossa história, toda a
cidade de Istambul palpita nesta lista. Não lhe passo as páginas na esperança de
descobrir coincidências, mas não consigo descobrir-te, quando sei que és o único
homem capaz de desarmar a mais grave de todas as conspirações até hoje
urdidas. Tu próprio dobraste o arco que lançou a flecha, e por isso só tu és capaz
de deter este golpe de Estado militar, Djélâl bey!
— E isso porquê?
— Não foi em vão que te disse, durante a nossa primeira conversa, que eles
acreditavam na vinda do Messias! São apenas um punhado de militares, mas
leram sem dúvida alguns dos teus artigos, há já muitos anos. E leram-nos
acreditando neles, tal como eu acreditava também, pelo meu lado. Lembra-te lá
de algumas das tuas crónicas dos primeiros meses de 1961, do teu pastiche de
“O Grande Inquisidor”, relê a conclusão desse artigo pretensioso, em que
explicavas porque é que não acreditavas na felicidade da família reunida das
cautelas da Lotaria Nacional (A mãe está a fazer malha, o pai lê o jornal —
talvez a tua crónica — deitado no chão, o filho faz os deveres, o gato e a avó
dormitam ao pé do fogão.
“Se toda a gente é tão feliz, se todas as famílias se parecem com a minha,
porque é que se vendem tantos bilhetes de lotaria?”, dizias tu). Relê também
algumas das tuas críticas de cinema. Porque é que fizeste tanta troça dos filmes
turcos nessa época? Porque é que, nesses filmes, que tanta gente contemplava
com mais ou menos prazer, e que exprimiam apesar de tudo os sentimentos do
nosso povo, tu só vias o cenário, o frasco de perfume na mesinha-de-cabeceira,
junto à cama, as fotografias em cima dos pianos que nunca se abriam, votados às
teias de aranha, os postais que emolduravam os espelhos, os cães de porcelana
mergulhados no sono em cima do aparelho de rádio familiar?
— Não faço ideia.
— É claro que fazes! Era para tornares todos esses pormenores símbolos da
nossa miséria e da nossa decadência! Falavas no mesmo tom dos lixos
miseráveis atirados para os poços de ventilação entre os prédios, das famílias
que viviam em apartamentos situados em diferentes andares do mesmo prédio e,
consequência dessa promiscuidade, dos primos que casavam com as primas, ou
dos sofás sempre cobertos de forros de protecção que os preservassem de
envelhecer! Fornecias-nos todos estes elementos como outros tantos sinais
lamentáveis da decadência inelutável, da banalidade, da insipidez em que
estávamos mergulhados. Mas a seguir fazias-nos adivinhar, nos teus artigos
pretensamente históricos, que a libertação é sempre possível, e que nos piores
momentos, poderia aparecer um salvador que nos libertasse da miséria. E seria
então o regresso, sob uma outra aparência, a ressurreição de um redentor que
vivera havia centenas de anos, e que surgiria desta feita em Istambul, ao fim de
cinco séculos, sob a aparência de Mevlâna Djélâleddine ou do Xeque Galip, ou
ainda de um cronista! Quando falavas assim, quando evocavas a infelicidade das
mulheres que faziam bicha diante de uma fonte nos bairros pobres, os gritos de
amor dignos de dó gravados nas costas de madeira dos bancos dos eléctricos
velhos, havia jovens oficiais que acreditavam no que tu dizias. Convenciam-se
de que o regresso do Mehdi em que acreditavam assinalaria o fim desta tristeza e
desta miséria, e que tudo voltaria a entrar na ordem. Foste tu quem os fez
acreditar! Conheceste-os! Era em intenção deles que escrevias todas essas
coisas!
— Bom, mas que queres agora de mim?
— Tudo o que quero é encontrar-me contigo.
— Porquê? Esse famoso dossier afinal não existe, não é verdade? -— Quero
ver-te, explico-te tudo depois.
— E o nome que me deste não é o teu nome, pois não?
— Quero ver-te — repetiu a voz; essa voz afectada, mas estranhamente triste
e convincente, do actor encarregado da sonorização e da dobragem de um filme
e que pronuncia as palavras: “Amo-a...”.
— Hás-de compreender porquê quando nos virmos. Ninguém te pode
conhecer tão bem como eu, ninguém! Sei que passas as tuas noites a fantasiar, a
ingerir chá e café que tu próprio fazes, a fumar os Maltépé que pões a secar no
radiador. Sei que escreves os teus artigos à máquina, que os corriges com uma
esferográfica verde, e que não estás nem contente contigo nem satisfeito com a
tua vida. Sei que passas as tuas noites a andar de um lado para o outro do quarto,
que continuas a desejar estar no lugar de um outro, mas que nunca consegues
decidir quem será esse outro...
— Contei tudo isso muitas vezes, nas minhas crónicas — disse Galip.
— Também sei que não gostas do teu pai, e que ele, quando voltou de África
com a sua segunda mulher, te expulsou do apartamento nas águas-furtadas onde
te tinhas refugiado.
Estou igualmente a par de todas as dificuldades materiais que sofreste, ao
longo desses anos em que foste obrigado a viver em casa da tua mãe. Ah, meu
pobre irmão! Quando eras um miserável jovem repórter no bairro de Beyoglou,
inventaste crimes inverosímeis para despertar o interesse dos leitores.
Entrevistaste no Péra-Palace vedetas que nunca existiram, de filmes americanos
que nunca foram realizados! Chegaste a fumar ópio para poderes redigir as
confissões de um fumador de ópio turco! Apanhaste uma sova durante uma
viagem que estavas a fazer à Anatólia para terminares uma série de vidas de
campeões de luta que publicavas sob pseudónimo! Na tua rubrica “Parece
incrível mas é verdade”, contaste, com as lágrimas nos olhos, a tua própria vida
e ninguém pareceu dar por isso!
Também sei que tens sempre as mãos húmidas, que tiveste dois acidentes de
automóvel, que nunca conseguiste descobrir uns sapatos impermeáveis à água. E
que viveste sempre sozinho, apesar do teu medo da solidão. Gostas de subir ao
alto dos minaretes, gostas das revistas pornográficas, gostas de te demorar na
loja de Alâaddine, gostas de conversar com a tua irmã. Quem mais, senão eu,
poderia saber tudo isto?
— Uma quantidade de gente — respondeu Galip. — Porque todos esses
pormenores podem ser conhecidos por meio das minhas crónicas. Queres dizer-
me porque é que realmente te queres encontrar comigo?
— Por causa do golpe de Estado!
— Vou desligar...
— Juro-te! — disse a voz enlouquecida, desesperada. — Digo-te tudo se
conseguir encontrar-te!
Galip desligou a ficha do telefone. Deitou a mão a um anuário que vira na
véspera na estante do corredor e sentou-se na poltrona onde Djélâl se instalava
ao voltar para casa, exausto. Tratava-se da lista, cuidadosamente encadernada, da
promoção de 1947 da Escola Militar. Além das fotografias, acompanhadas de
máximas e citações de Atatiirk, do Presidente da República, do comandante do
estado-maior, de todos os chefes do exército, do comandante e dos professores
da Escola Militar, o anuário incluía as fotografias cuidadosamente tiradas dos
alunos da promoção. Enquanto passava as páginas, separadas por folhas de papel
vegetal, Galip não conseguia compreender o que o levara a examinar o álbum,
na sequência da conversa que tivera ao telefone; dizia para consigo que todos os
rostos, todos os olhares se pareciam estranhamente, do mesmo modo que os
quépis e as insígnias. Tinha a impressão de estar a folhear uma velha revista de
numismática, encontrada numa das caixas poeirentas cheias de livros
lamentáveis vendidos ao desbarato que os alfarrabistas põem em frente das
portas das suas lojas, e de contemplar as reproduções de velhas moedas de prata,
cujas origem e efígie só os especialistas são capazes de distinguir. Sentia subir
dentro de si a pequena música que ouvia quando andava de um lado para o outro
nas ruas, ou quando se encontrava no meio da massa dos passageiros de um
barco. Gostava de ver os rostos.
E, continuando a percorrer as páginas do anuário, redescobriu a impressão
que experimentava em criança quando folheava a publicação ilustrada cuja
edição esperara durante semanas e que cheirava tão bem a papel e a tinta de
impressão. Havia sempre uma ligação entre todas as coisas, como se diz nos
livros. Começava a ver nas fotografias a expressão fugitiva dos rostos com que
se cruzava nas ruas, e sentia o mesmo prazer em contemplar à sua vontade os
rostos e em decifrar o que significavam.
Exceptuados os generais que se tinham limitado a dirigir piscadelas de olho
encorajadoras aos conspiradores, sem se exporem eles próprios ao perigo, a
maior parte dos que tinham fomentado as conspirações votadas ao fracasso no
começo dos anos sessenta faziam decerto parte dos jovens oficiais cujas
fotografias apareciam no anuário. Mas Galip não descobriu qualquer ligação
entre os golpes de Estado militares e as palavras, os desenhos que Djélâl
rabiscara nas páginas do álbum, e até mesmo nos separadores de papel vegetal.
Uma barba, um par de bigodes tinham sido acrescentados — como por obra de
uma criança — a certos rostos; noutros, as maçãs do rosto ou os bigodes tinham
sido acentuados a traço de lápis.
Noutros ainda, as rugas da fronte haviam sido transformadas em marcas do
destino, onde se podiam ler as letras do alfabeto latino, palavras desprovidas de
sentido. As bolsas por baixo dos olhos de alguns tinham sido sublinhadas por
arcos de círculo que ora faziam um O ora um C; estrelas, óculos, cornos
enfeitavam ainda certos rostos. Os maxilares, a testa, a aresta do nariz tinham
sido vincados a negro; alguns traços também a negro pareciam medir as
proporções entre a largura e o comprimento de outros rostos, entre o nariz e os
lábios, a testa e o queixo. Por baixo de algumas fotografias, uma indicação
remetia para outras páginas e outras fotografias. Ao rosto de um grande número
de alunos oficiais tinham sido acrescentadas borbulhas, verrugas, manchas,
cicatrizes de abcessos de Alep, hematomas ou queimaduras. Ao lado de um rosto
tão aberto e luminoso que era impossível adicionar-lhe um risco ou uma letra,
Galip pôde ler as seguintes palavras: “As fotografias retocadas matam as almas!”
Galip descobriu a mesma frase noutros anuários que encontrou no mesmo
canto do armário; nas fotografias que figuravam nos anuários da Escola de
Engenharia, dos professores da Escola de Medicina, dos deputados da
Assembleia Nacional em 1950, dos engenheiros e dos administradores da rede
ferroviária Sivas-Kayséri, do Comité de Embelezamento da Cidade de Bursa, e
até mesmo nas dos voluntários de Alsandjak, em Izmir, a época a Guerra da
Coreia, deparou com os mesmos gatafunhos. A maior parte dos rostos tinham
sido divididos por um traço vertical, com o objectivo evidente de destacar as
letras desenhadas nas duas metades. Galip folheava rapidamente as páginas, mas
acontecia-lhe também deter-se longamente num rosto, como se se esforçasse por
apreender uma recordação vagamente rememorada, no momento preciso em que
ela ia mergulhar no abismo do esquecimento, ou por redescobrir a localização de
uma casa, onde o tivessem levado uma vez só e em plena noite. Alguns de entre
aqueles rostos nada forneciam para lá daquilo que prometiam à primeira vista;
outros debitavam bruscamente uma história que a sua superfície lisa, serena, não
deixava prever. Nesses momentos, Galip lembrava-se de certas cores, do sorriso
melancólico de uma empregada de restaurante, entrevista havia anos num filme
estrangeiro; recordava a última audição na rádio de uma melodia que gostaria de
voltar a ouvir, mas que perdia sempre.
Ao cair da noite, Galip transportara para a mesa de trabalho todas as
agendas, todos os álbuns, todas as caixas cheias de fotografias recortadas de
jornais ou de revistas, investigava-as ao acaso, como que tomado por uma
embriaguez. Descobria rostos anónimos, fotografados não sabia onde, nem
quando, nem como; raparigas, senhores de ar distinto com um chapéu de feltro,
mulheres com os cabelos tapados por um lenço, jovens de rosto aberto,
desesperados havia muito perdidos. Via rostos infelizes que podia adivinhar
onde e porquê haviam sido fotografados.
Dois honestos cidadãos seguiam com os olhos, e um ar inquieto, o seu
presidente da câmara, que transmitia ao primeiro-ministro as suas pretensões,
sob os olhares benevolentes dos outros ministros e da sua escolta de guardas;
uma mãe que conseguira salvar das chamas o seu filho e uma trouxa, durante o
incêndio de Déréboyou, no bairro de Béchiktahe; uma bicha de mulheres, diante
das bilheteiras do Alhambra, onde são passados filmes de Abdulvahap, o cantor
egípcio; a dançarina do ventre, ilustre estrela de cinema, detida na posse de
haxixe, cercada de polícias da esquadra de Beyoglou; o rosto subitamente
desfeito do contabilista, culpado de desvio de fundos. Galip tinha a impressão de
que todas as fotografias, que ia extraindo ao acaso das caixas, procuravam
explicar-lhe porque é que haviam sido tiradas e conservadas. “Que pode haver de
mais revelador, de mais curioso, de mais persuasivo que uma fotografia, um
documento no qual se esconde a expressão de um rosto?”, pensou Galip de si
para si.
Por trás dos rostos, até mesmo dos mais vazios, cujo sentido e cuja expressão
tinham sido distorcidos pelos retoques e arranjos, adivinhava uma melancolia,
uma história carregada de recordações e de medos, um segredo bem guardado,
uma dor que se reflectia nos olhos, nas sobrancelhas, no olhar, à falta de poder
exprimir-se por palavras. De tal modo que acabou por ficar de lágrimas nos
olhos enquanto examinava o rosto exultante e espantado do aprendiz de
cardador, feliz contemplado com o grande prémio da Lotaria Nacional; o do
empregado de seguros que acabava de apunhalar a mulher ou ainda o de uma
Miss Turquia, terceira entre as rainhas de beleza, que se preparava para
representar “o mais dignamente possível” o nosso país em toda a Europa.
E porque reencontrava nalguns desses rostos os rastos de uma melancolia
que detectava por vezes nas crónicas de Djélâl, decidiu que o primo escrevera
aquelas crónicas enquanto contemplava as fotografias: a que falava da roupa
posta a secar nos pequenos quintais de casas pobres, por trás de armazéns de
fábrica, Djélâl escrevera-a decerto sondando o rosto do nosso campeão de boxe
amador (cinquenta e sete quilos). A redacção da crónica que explicava que as
ruelas cheias de desvios de Gaiata só são na verdade tortuosas aos olhos dos
turistas estrangeiros, fora sem dúvida concebida a partir do rosto esbranquiçado
e violáceo da nossa cantora nacional, com cento e onze anos de idade, que, por
meio de alusões, se orgulhava de ter ido para a cama com Atatiirk. As
fotografias dos cadáveres, ainda de cabeça coberta, dos peregrinos que haviam
perecido num acidente rodoviário, quando regressavam de Meca, lembraram a
Galip uma crónica sobre as velhas gravuras e os velhos mapas de Istambul.
Djélâl afirmava nela que a localização dos tesouros desaparecidos era indicada
por alguns desses mapas, e que em gravuras efectuadas por pintores estrangeiros,
tinham sido traçados certos sinais, acusando personagens vestidos à moda
europeia de serem inimigos do nosso país, que tinham vindo a Istambul
animados do projecto insensato de atentar contra a vida do sultão. Galip disse
para consigo que existia decerto um nexo entre os mapas das cidades,
sublinhados a tinta verde, e aquela crónica, redigida sem dúvida por Djélâl num
dos períodos em que vivia sozinho durante mais de uma semana, num
apartamento que todos os demais ignoravam, num qualquer canto de Istambul.
Pôs-se então a ler em voz alta, sílaba a sílaba, os nomes dos bairros no plano
de Istambul.
Alguns desses nomes, porque os utilizara milhares de meses havia anos na
sua vida de todos os dias, estavam tão carregados de recordações que já nada de
definido lhe lembravam, como acontece com as palavras “água” ou “coisas”. Em
contrapartida, os nomes de bairros que tinham desempenhado um papel menos
importante na sua existência suscitavam nele associações de imagens imediatas,
para tanto bastando que os repetisse em voz alta. Galip lembrou-se de uma série
de artigos em que Djélâl evocava certos bairros de Istambul. Essas crónicas, que
encontrou na estante, tinham todas por título “Os cantos secretos de Istambul”,
mas à medida que as relia, verificava que não lhe ensinavam grande coisa sobre
os segredos desses cantos da cidade e que se compunham simplesmente de
pequenos episódios. Esta decepção, que se teria limitado a fazê-lo sorrir noutras
ocasiões, exasperou-o a ponto de o levar a dizer de si para si que, ao longo de
toda a sua carreira de jornalista, Djélâl não só iludira os seus leitores, mas
também mentira conscientemente a si próprio. Enquanto lia uma a seguir à outra
a história de uma discussão num eléctrico da linha Fatih-Harbiyé; a do garoto
que os pais tinham mandado à mercearia da esquina e que saíra da sua casa em
Férikeuy para não mais voltar e o quadro do tiquetaque musical que enchia uma
loja de relojoeiro do bairro do Arsenal, Galip murmurou para consigo que nunca
mais se deixaria enganar. Mas, em breve, quando pensou que Djélâl podia muito
bem estar escondido algures em Harbiyé, em Férikeuy ou em Top-Hané, a sua
cólera virou-se, já não contra Djélâl, que lhe teria montado uma armadilha, mas
contra a própria conformação do seu espírito, que o levava a descobrir pistas e
indícios em todos os artigos do primo. E sentiu horror por esse espírito, incapaz
de subsistir sem se alimentar de histórias, como de repente se pode sentir horror
por uma criança que exige que a todo o instante a divirtam; e bruscamente,
decidiu que não havia lugar neste mundo para tudo o que fossem indícios,
signos, duplos ou triplos sentidos, segredos, mistérios; tudo isso eram somente
frutos da sua imaginação, das suas próprias ilusões, do seu espírito que teimava
em descobrir e em decifrar todos os sinais. Despertou nele o desejo de viver num
universo onde cada objecto fosse muito simplesmente o objecto que acontecesse
ser; um mundo onde nem as palavras impressas ou escritas, nem as letras que
compunham essas palavras, nem os rostos, nem os candeeiros que iluminavam
as ruas, nem a mesa de trabalho de Djélâl, nem a estante herdada do tio Mélih,
nem esta tesoura ou esta esferográfica ainda com as impressões digitais de Ruya,
fossem já os sinais equívocos que indiciam um segredo. Perguntou-se como
poderia aceder a esse universo onde a esferográfica verde fosse apenas uma
esferográfica verde, e onde ele não quisesse ser outro que não ele próprio. Como
a criança que se imagina a viver no país longínquo que vê num filme, Galip, para
se convencer de que vivia nesse universo, examinou os mapas desdobrados em
cima da mesa: pareceu-lhe de início ver o seu próprio rosto, tão enrugado como
a fronte de um velho, a seguir vários rostos de sultões que se confundiram diante
dos seus olhos; um rosto que não lhe era estranho, talvez o de certo príncipe
herdeiro, seguiu-se aos anteriores, mas apagou-se antes que ele tivesse tempo
para o reconhecer.
Mais tarde, instalou-se na poltrona dizendo-se que poderia olhar os rostos
coleccionados por Djélâl como se fossem imagens desse novo universo onde
queria viver. Nas fotografias que ao acaso tirava das caixas, esforçava-se por
examinar os rostos sem neles descobrir signos ou segredos. De tal maneira que
cada rosto lhe surgia agora como a descrição de um objecto concreto,
comportando simplesmente um nariz, uma boca, um par de olhos, como nas
fotografias das autorizações de estadia ou dos bilhetes de identidade. Assim que
sentia uma breve emoção, a que se apodera do empregado diante de um belo
rosto de mulher marcado pela dor, cuja fotografia figura num dossier de seguros,
dominava-se prontamente e passava a outra, que não exalava melancolia, que
não contava qualquer história. E para não se deixar apanhar na armadilha de tudo
o que diziam os rostos evitava ler as legendas das fotografias, e as palavras que
Djélâl escrevera. Depois de ter contemplado longamente aquelas imagens de
homens e de mulheres, esforçando-se por não distinguir nelas senão mapas e
planos, enquanto as nuvens da noite se fechavam sobre a praça de Nichantache e
os seus olhos de novo se enchiam de lágrimas, só pudera examinar ainda uma
parte muito pequena das fotografias que Djélâl reunira ao longo de trinta anos.

CAPÍTULO VI

O CARRASCO E O ROSTO EM LÁGRIMAS

“Não chores, peço-te, não chores!”
Halit Ziya


Porque nos comove tanto um homem que chora amargamente? Uma mulher
em lágrimas é aos nossos olhos uma parte tocante e aflitiva da nossa vida
quotidiana; acolhemos esse espectáculo com sinceridade e ternura. Um homem
que chora, pelo seu lado, enche-nos o coração de um sentimento de infelicidade.
Dir-se-ia que esse homem chegou ao desfecho último de um universo, ou ao
fundo dos fundos, ao extremo limite das suas capacidades, das suas
possibilidades, e experimentamos o mesmo sentimento que experimentamos
perante a morte de um ser querido. Ou então, existe no seu universo próprio
qualquer coisa que não condiz com o nosso, qualquer coisa que nos perturba, ou,
mais ainda, talvez nos aterrorize. Todos conhecemos o assombro e a aflição de
depararmos com uma região que desconhecíamos no mapa que julgávamos
conhecer tão bem, e a que chamamos um rosto.
Ao ler a História dos Carrascos de Edirnéli Kadri, dei com uma história que
é relatada no tomo VI da História de NaYma e na História dos Icoglanos de
Mehmet Halifé.
Apenas há trezentos anos, numa noite de Primavera, o carrasco mais célebre
do tempo, Kara Eumer, aproximava-se, montando o seu cavalo, da fortaleza de
Erzurum. Aí fora enviado por ordem do sultão; o Bostandji-Bachi entregara-lhe
por sua própria mão um documento que o encarregava de executar Abdi pacha,
governador da fortaleza. Sentia-se muito satisfeito por ter feito em doze dias o
caminho de Istambul a Erzurum, que um viajante comum percorria num mês. O
fresco da noite fazia-o esquecer a sua fadiga, mas experimentava, apesar disso,
uma dúvida, um abatimento insólitos. Como se pairasse sobre ele a sombra de
um mau-olhado, de uma incerteza que o impedisse de cumprir honradamente a
sua tarefa, de dar provas dos seus talentos.
Sem dúvida, o que tinha a fazer não era nada fácil: ia penetrar sozinho na
casa guardada por homens armados de um pachá que não conhecia, que nunca
vira; entregar-lhe-ia a ordem, comunicaria ao pachá e ao seu séquito a inanidade
de qualquer rebelião contra as decisões imperiais; e se não conseguisse
transmitir-lhes essa impressão, se o pachá tardasse a dar-se conta da inutilidade
de qualquer resistência, o que era muito pouco provável, teria de o abater ali
mesmo, antes de o seu séquito ter tempo para passar à acção. Não era decerto a
falta de experiência que suscitava nele esta apreensão: ao longo de trinta anos de
vida profissional, executara uma vintena de príncipes imperiais, dois grão-
vizires, seis vizires, vinte e três pachás e mais de seiscentos malandros ou
pessoas sérias, culpados ou inocentes, cristãos ou muçulmanos, homens ou
mulheres, velhos ou crianças, do mesmo modo que, desde os seus anos de
aprendizagem, infligira a tortura a milhares de seres humanos.
No dia seguinte, portanto, numa bela manhã de Primavera, antes de entrar na
cidade, o carrasco apeou-se perto de um ribeiro, fez as suas abluções, recitou as
suas preces, apurando o ouvido para o alegre chilreio dos pássaros. Acontecia-
lhe raramente pedir a Deus que o ajudasse a cumprir a sua tarefa, mas, como
sempre, o Senhor acedeu às súplicas daquela criatura tão conscienciosa. Tudo se
passou bem. Assim que viu o carrasco com a cabeça rapada sob o seu gorro de
feltro vermelho e o laço bem untado de sebo que trazia à cintura, o pachá
adivinhou o que o esperava, mas não levantou a mais pequena dificuldade.
Talvez se tivesse preparado havia muito para aquela sorte pois conhecia bem
os seus crimes.
Primeiro, leu e releu o firmão, sempre extremamente atento (o que é uma
característica dos cidadãos respeitadores da lei); poisou em seguida os lábios no
firmão, levou-o à fronte, com todos os sinais do respeito (maneira de proceder
que vemos muitas vezes nos que podem ainda procurar impor-se e que Kara
Eumer achava bastante estúpida); declarou que desejava ler o Corão e fazer as
suas orações (necessidade característica dos que procuram ganhar tempo ou dos
crentes sinceros). Depois de ter terminado as suas devoções, distribuiu pelo seu
séquito as pedras preciosas, os anéis ou outras jóias que tinha consigo: “Em
minha memória!”, dizia, mas com o objectivo evidente de não os abandonar ao
seu carrasco (outra reacção característica dos que são muito apegados ao mundo
e suficientemente superficiais para quererem mal ao seu carrasco). E depois,
como a maior parte daqueles que manifestavam não uma ou duas destas
reacções, mas todas elas ao mesmo tempo, tentou por fim debater-se injuriando o
carrasco antes de este lhe pôr o laço no pescoço. Mas um violento murro no
maxilar bastou para lhe cortar braços e pernas e para que o pachá se resignasse.
Chorava.
Tratava-se de uma reacção frequente das vítimas em tal momento. Mas no
rosto coberto de lágrimas do pachá, o carrasco apercebeu-se de qualquer coisa de
tão estranho que, pela primeira vez em trinta anos de vida profissional, hesitou.
E, num gesto não habitual nele, tapou com um pano o rosto do pachá antes de o
estrangular. Era uma precaução que sempre reprovara quando com ela deparara
nos seus colegas; porque, era essa a sua convicção, um carrasco, se quisesse
realizar um trabalho tão perfeito como rápido, devia ser capaz de olhar até ao
fim a vítima nos olhos.
Depois de se certificar de que o pachá estava de facto morto, apressou-se a
separar a cabeça do corpo, com uma navalha especial chamada “cifra”; guardou
em seguida a cabeça no saco de couro cheio de mel de que se munira. Porque,
para provar que levara bem a cabo a sua tarefa, precisava de levar consigo
aquela cabeça e de a entregar aos responsáveis encarregados de a identificarem
em Istambul, e isto sem deixar que o tempo causasse a sua decomposição. E,
enquanto a colocava cuidadosamente no saco, voltou a ver com assombro o
olhar em lágrimas do pachá, e a sua expressão tão surpreendente como
aterradora, que não poderia esquecer até aos últimos dias — de resto bastante
próximos — da sua vida.
Montou a cavalo e saiu imediatamente da cidade, porque fazia questão de
estar sempre pelo menos a dois dias de distância do lugar da execução, quando o
corpo decapitado descesse à terra, depois do funeral que decorreria entre
lágrimas e desolação, revolvendo o coração de todos os participantes. Depois de
cavalgar sem tréguas um dia e meio, chegou à floresta de Kemah. Ceou na
albergaria das caravanas, retirou-se logo a seguir para uma cela e adormeceu.
Quando emergiu do fundo de um sono de chumbo que durara doze horas,
estava a sonhar que se encontrava em Edirné, a cidade onde passara a sua
infância. Aproximava-se de um enorme bocal, cheio do doce de figo que a mãe
cozera e recozera tanto que o perfume agridoce dos frutos invadira não só a casa
e o jardim, mas o quarteirão inteiro. Começava por compreender que as
pequenas bolas verdes que tomara por figos eram os olhos de um rosto que
chorava; destapava o bocal, com a impressão de cometer uma falta, não por se
tratar de uma acção interdita, mas antes pelo facto de ser testemunha do
terror que impregnava o rosto em lágrimas; e quando começaram a irromper do
bocal os soluços de um homem maduro, inteiriçava-se imobilizado, tolhido pela
impotência.
Na noite seguinte, quando dormia numa outra cela, de uma outra albergaria
de caravanas, reviveu um fim de dia da sua primeira juventude: continuava a ser
em Edirné, numa ruela, pouco antes do cair da noite. A convite de um amigo que
não conseguia reconhecer, via o Sol baixar numa extremidade do céu, e na outra,
subir a face lívida da Lua cheia. Depois, à medida que o Sol desaparecia e a
noite tombava, o rosto redondo da Lua acendia-se, tornava-se mais preciso, e em
breve se revelava que esse rosto resplandecente era o rosto, coberto de lágrimas,
de um homem. E o que transformava as ruas de Edirné, que se tornavam as de
uma cidade desconhecida, inteiramente diferente, não era, como se poderia crer,
a tristeza do astro transformado em rosto em lágrimas, mas o seu aspecto
enigmático.
De manhã, o carrasco disse para consigo que esta descoberta, feita durante o
sono, era resultado das suas próprias recordações: ao longo de toda a sua vida
profissional, vira milhares de rostos de homens em lágrimas; mas nenhum deles
lhe causara o mais pequeno sentimento de medo ou crueldade, ou sequer de
culpa. Ao contrário do que se poderia pensar, as suas vítimas sempre lhe haviam
inspirado alguma tristeza, mas esta piedade era imediatamente contrabalançada
por uma lógica de obrigação, de lei, de sem recurso. Porque sabia que os
infelizes que estrangulava, esquartejava ou decapitava conheciam sempre melhor
do que o seu carrasco o encadeamento dos motivos que os levara à morte. Nada
havia de insuportável na imagem de um homem que era levado para o suplício
rogando, debatendo-se, sacudido de soluços e espasmos, com o rosto coberto de
lágrimas e de ranho.
Ao contrário de certos imbecis que exigem dos homens prestes a ser
executados atitudes afectadas, discursos heróicos susceptíveis de passarem à
posteridade e à lenda, o carrasco não experimentava qualquer desprezo por esses
homens em lágrimas, mas ao contrário de uma outra espécie de imbecis, que
nada compreendiam da crueldade inelutável e ligada aos acasos da vida, nunca
cedia também a uma compaixão que lhe inutilizaria braços e pernas.
Mas o que era então que o paralizava nos seus sonhos? Enquanto passava
entre ravinas profundas cobertas de rochedos, numa bela manhã de sol
esplendoroso, com o saco de couro preso no arção, o carrasco disse para consigo
que esta indecisão que o invadira antes de entrar em Erzurum se ligava sem
dúvida ao imperceptível pressentimento funesto que obscurecera a sua alma. No
rosto — que normalmente deveria ter esquecido logo a seguir — da sua vítima,
distinguira um segredo, de tal maneira que tivera de o dissimular sob um pano de
burel antes de a estrangular. Ao longo do dia todo, que não havia maneira de
acabar, o carrasco conduziu o seu cavalo entre rochedos abruptos, com estranhas
formas — um veleiro de casco redondo como uma marmita, um leão cuja cabeça
era uma figueira —, entre pinheiros e faias que lhe pareciam desconhecidos e
mais insólitos que de costume; enquanto o cavalo avançava sobre um cascalho
estranho, quase inquietante, por margens que ladeavam águas geladas, não
voltou a pensar uma só vez no rosto da cabeça cortada que trazia à garupa.
Agora, o que havia de mais espantoso aos seus olhos era o universo, um mundo
novo que redescobria, que discernia pela primeira vez.
Pela primeira vez, verificava que as árvores se pareciam com as sombras que
se agitavam na sua memória, durante as noites de insónia. Pela primeira vez,
dava-se conta de que os pastores com o coração puro, que apascentavam os seus
rebanhos de ovelhas nos taludes verdejantes, carregavam a cabeça em cima dos
ombros como se fosse um fardo que nem sequer lhes pertencesse. Pela primeira
vez, compreendia que os pequenos lugares com uma dezena de casas,
encarrapitados nos flancos das montanhas, lembravam os sapatos alinhados às
portas das mesquitas. Pela primeira vez, adivinhava que as montanhas violeta
que se erguiam para oeste e que atravessaria doze horas mais tarde, as nuvens,
extraídas de miniaturas, que as encimavam, lhe diziam que o universo é um
lugar nu, inteiramente nu.
Conseguia agora compreender que todos os vegetais, todos os animais, todas
as coisas eram sinais de um universo tão aterrador como os pesadelos, tão vazio
como o desespero, tão velho como as recordações. À medida que avançava para
oeste e que as sombras se alongavam e mudavam de significação, o carrasco
descobria indícios, signos que não conseguia decifrar e que pareciam chover uns
atrás dos outros à sua volta, como sangue a escapar-se gota a gota de um
recipiente rachado.
Restaurou-se numa albergaria de caravanas que alcançou ao cair da noite,
mas sentiu-se incapaz de dormir fechado com o saco numa cela; sabia que não
seria capaz de suportar o pesadelo aterrador que invadiria pouco a pouco o seu
sono, como o pus que escorre de um abcesso rebentado, esse rosto desolado,
coberto de lágrimas que, como todas as noites, lhe apareceria sob uma outra
forma. Repousou um longo momento contemplando com assombro a multidão
dos rostos à sua volta, e depois retomou o seu caminho.
A noite estava silenciosa e fria, sem um sopro de vento; o seu cavalo
extenuado decidia sozinho o rumo que tomava. Avançou assim um bom pedaço
de tempo sem nada ver e sem se pôr a menor questão embaraçosa: porque fazia
muito escuro, dir-se-ia ele mais tarde.
Porque, assim que a Lua surgiu entre as nuvens, as árvores, os rochedos, as
sombras transformaram-se lentamente noutros tantos indícios de um mistério
insolúvel. O mais assustador não eram nem as pedras tumulares melancólicas
dos cemitérios, nem os ciprestes solitários, nem os uivos dos lobos na noite
silenciosa. O que tornava aos seus olhos o universo tão surpreendente, a ponto
de se tornar tremendo, eram os esforços que esse universo fazia por lhe contar
uma história, sim, parecia querer dizer ao carrasco, indicar-lhe uma certa
significação; mas tal como durante as paragens para repouso, as explicações
perdiam-se numa imprecisão brumosa. E pela manhã, o carrasco ouviu soluços
muito próximos.
Ao romper do dia, disse para consigo que esses soluços não passavam de um
jogo do vento por entre os ramos; mais tarde, decidiu que tudo aquilo era apenas
um efeito da fadiga e da falta de sono. Por volta do meio-dia, os soluços que
saíam do saco pendurado do arção tinham-se tornado tão nítidos que ele se
apeou do cavalo, como quem sai de uma cama bem quente em plena noite para
pôr fim ao ranger irritante de uma janela mal fechada, e apertou com toda a força
as cordas que fechavam o saco. Mas, um pouco mais tarde, sob a chuva que
começara a cair, não só continuaria a ouvir os soluços, mas sentiria também na
sua própria pele as lágrimas da cabeça cortada.
Quando o Sol tornou a aparecer, compreendeu que havia uma ligação entre o
mistério do universo e o que se lia no rosto em lágrimas, e dir-se-ia que o
universo, que lhe era outrora conhecido, familiar, inteligível, escapava ao
aniquilamento graças à expressão normal, comum, dos rostos. Do mesmo modo
que tudo se transforma quando uma taça encantada voa em pedaços, quando se
quebra um frasco de cristal mágico, todo o sentido do universo se dissipara
desde que aquela estranha expressão surgira no rosto em lágrimas, entregando o
carrasco a uma aterradora solidão. Enquanto as suas roupas molhadas pela chuva
secavam ao sol, compreendeu de súbito que precisava de mudar a expressão
colada ao rosto como uma máscara se quisesse que tudo voltasse à ordem antiga.
Por outro lado, a sua consciência profissional ordenava-lhe que conduzisse a
Istambul a cabeça que mergulhara, sem lhe dar tempo para arrefecer, no saco
cheio de mel.
Depois de ter passado a cavalo, sem pregar olho, uma noite terrível, que lhe
fazia perder a razão, envolvida no som ininterrupto dos soluços, que haviam
tomado a forma de um refrão irritante, o carrasco deparou com o mundo
inteiramente transformado, de tal modo que mal podia acreditar que continuava a
ser ele próprio. Os plátanos, os pinheiros, os caminhos lamacentos, as fontes, as
pessoas que se afastavam com terror ao vê-lo, surgiam de um mundo que não
reconhecia, que ignorava por completo. Numa povoação onde chegou a meio da
jornada, e que nunca atravessara até então, teve dificuldade em identificar os
alimentos que se limitou a devorar instintivamente, como um animal. Quando se
deitou à sombra de uma árvore, à saída da aldeia, para permitir ao cavalo
descansar, compreendeu que aquilo a que até então chamara céu era uma
estranha cúpula azul. Ao pôr-do-sol, voltou a montar a cavalo. Restavam-lhe
ainda seis dias de jornada. Compreendera agora que nunca poderia chegar a
Istambul se não fizesse calar os soluços, se não conseguisse fazer o rosto mudar
de expressão, se não conseguisse realizar o passe de magia que lhe permitisse
devolver ao universo o seu antigo rosto familiar.
Ao cair da noite, descobriu um poço nos arredores de uma aldeia, onde ouvia
ladrar cães, e apeou-se do cavalo. Apoderou-se do saco de couro, abriu-o, tirou
para fora a cabeça segurando-a pelos cabelos. Lavou-a com muita água, mas
com delicadeza, como se se tratasse de um recém-nascido. Depois de a ter
cuidadosamente enxugado com um pano, secando-lhe bem os cabelos e os
ouvidos, examinou-a à luz do luar: não se notava nela qualquer alteração e
exprimia sempre o mesmo desespero, insuportável, inesquecível; continuava a
chorar.
Poisou-a na borda do poço, foi buscar ao arção da sela os seus instrumentos
de trabalho, os seus dois cutelos e as grossas barras de ferro que utilizava nos
suplícios. Em primeiro lugar, com as suas facas, tentou transformar o rosto
puxando-lhe com força as comissuras dos lábios, a pele e os ossos. Depois de
prolongados esforços, deixara os lábios desfeitos, mas conseguira desenhar na
boca o esboço apenas de um sorriso, um pouco de través. Depois dedicou-se a
um trabalho mais delicado: aplicou-se a abrir os olhos que a dor tinha pregueado.
Depois de demorados esforços esgotantes, quando finalmente conseguiu tornar
sorridente o rosto, estava sem forças, e já não se sentia tão tenso. Regozijou-se
até ao ver na pele a marca roxa do murro que tivera de infligir a Abdi pacha
antes de o estrangular. Cheio de uma alegria infantil, apressou-se a guardar os
seus instrumentos nos arções. Mas quando voltou ao poço, a cabeça
desaparecera. Por um breve instante, pensou que se tratasse de uma partida que
ela lhe tivesse pregado. Quando compreendeu que caíra para dentro do poço, não
hesitou mais, correu até à casa mais próxima e bateu com muita força à porta
para acordar os moradores. Bastou ao velho camponês e ao seu filho verem o
carrasco para, aterrados, obedecerem com toda a prontidão às suas ordens. Até
de manhã, entregaram-se os três ao trabalho de retirar a cabeça do interior do
poço, que não era muito profundo. Ao romper do dia, o rapaz, que tinham feito
descer ao poço, seguro por uma corda presa à cintura, voltou à superfície
uivando de terror, com a cabeça, que agarrara pelos cabelos. Estava muito
estragada, mas já não chorava. O carrasco, que recobrara a calma, enxugou-a
com todo o cuidado, voltou a pô-la dentro do saco de mel, ofereceu algumas
piastras ao jovem e ao pai, e voltou a partir muito feliz para oeste.
Quando o Sol subiu no céu, enquanto os pássaros chilreavam nas árvores em
flor, o carrasco, com uma alegria e um entusiasmo sem limites, tão imensos
como o céu, compreendeu que o universo voltara a ser o antigo universo
familiar. Já não ouvia soluços irrompendo do saco. Apeou-se do cavalo cerca do
meio-dia, à beira de um lago fechado entre colinas cobertas de pinheiros e, na
sua felicidade, entregou-se ao sono profundo que esperava em vão havia tantos
dias. Todavia, antes de adormecer, levantara-se de um salto, com vivacidade, e
correra até ao lago para nele contemplar a imagem do seu rosto, e verificara,
uma vez mais, que o universo não mudara.
Cinco dias mais tarde, em Istambul, quando certas testemunhas que haviam
conhecido bem Abdi pacha afirmaram que aquela cabeça cortada não era a dele,
e que a expressão sorridente que nele se via não lembrava de maneira nenhuma o
defunto, o carrasco pensou no rosto feliz que lhe fora dado contemplar no
espelho do lago. Acusaram-no de ter recebido dinheiro de Abdi pacha e
guardado no saco a cabeça de outro homem, de um pastor inocente, por
exemplo, que teria assassinado pelo caminho para esconder a sua desonestidade.
O carrasco não tentou desculpar-se, sabia que qualquer desmentido seu seria
inútil: vira já o carrasco encarregado de o decapitar transpor a porta de entrada.
A história do inocente pastor decapitado em vez de Abdi pachá espalhou-se
muito rapidamente. De tal maneira que o pacha, que esperava a pé firme a
chegada do segundo carrasco à sua bela residência de Erzurum, o mandou
executar de imediato. Foi assim que começou a rebelião conduzida por Abdi
pacha, que alguns acusaram de ser um impostor, depois de terem decifrado as
letras do seu rosto; rebelião que durou vinte anos e fez cair seis mil e quinhentas
cabeças.


CAPÍTULO VII

O SEGREDO DAS LETRAS E O DESAPARECIMENTO DO SEGREDO

“Milhares e milhares de segredos serão revelados No dia em que se revelar
esse rosto secreto.”
Atear


Quando chegou a hora de jantar na cidade, quando a circulação diminuiu na
praça de Nichantache e se calaram os sons de apito furiosos do agente
encarregado de regular o trânsito à esquina da praça, Galip contemplava havia
tanto tempo as fotografias que a melancolia, a tristeza ou a piedade, que nele
tinham podido despertar os rostos dos seus compatriotas, se haviam esgotado; as
lágrimas já não lhe corriam pelo rosto. E do mesmo modo tinham desaparecido
também o bom humor, a alegria ou a emoção que essas fisionomias tivessem
podido inspirar-lhe. Dir-se-ia que nada mais esperava da vida. Sentia diante das
fotografias a indiferença de quem perdeu a memória, as esperanças e o futuro.
Num recanto do seu cérebro, sentia revolver-se lentamente o silêncio que
parecia invadir todo o seu corpo. Enquanto comia o pão e o queijo que
descobrira na cozinha e bebia o resto do chá da véspera, continuava a contemplar
as fotografias em cima das quais deixava que as migalhas caíssem. A agitação da
cidade, tão resoluta como incrível, chegara ao fim, substituída pelos ruídos da
noite. Agora, podia ouvir o ronronar do frigorífico, um estore metálico que
descia ao fundo da rua, uma explosão de riso chegada da loja de Alaaddine.
Por vezes apurava o ouvido para o som de sapatos de salto alto que
avançavam muito depressa na rua. Acontecia-lhe também esquecer o silêncio
enquanto examinava um dos retratos com uma expressão de medo, ou até
mesmo de terror no rosto e um assombro que acabava por deixá-lo exausto.
Foi então que começou a reflectir sobre as relações entre a expressão dos
rostos e os segredos das letras: mais no desejo de imitar os heróis dos romances
policiais caros a Ruya do que no propósito de decifrar o que Djélâl rabiscara nas
fotografias. “Para poder ser como os personagens dos romances, capazes, esses,
de descobrirem sem parar novos indícios”, dizia-se Galip, fatigado, “basta
acreditarmos que as coisas que nos rodeiam nos escondem segredos.” Foi buscar
à estante do corredor as caixas onde Djélâl guardara todos os livros, as
brochuras, os recortes de jornais e de revistas que tratavam da ciência das letras
e acumulara milhares de fotografias, e recomeçou o trabalho.
Descobriu rostos que constituíam letras do alfabeto árabe, vav e ayin, que
desenhavam olhos, ze e ri, que traçavam sobrancelhas, narizes que eram elif.
Djélâl sublinhara cada uma das letras utilizadas com a aplicação e o cuidado do
bom aluno que se dedicou à tarefa de aprender o alfabeto antigo. Num velho
livro litografado, Galip descobriu também olhos de onde corriam lágrimas numa
combinação de vav e de djim: o ponto por cima do djim era uma lágrima que
deslizava para o fundo da página. Numa velha fotografia a preto e branco,
verificou que era fácil descobrir essas mesmas letras nas sobrancelhas, nos
olhos, no nariz e nos lábios; por baixo da fotografia, Djélâl escrevera muito
legivelmente o nome de um xeque bektachi. Galip descobriu também caligrafias
de máximas ou de poesias (“Ah, os meus antigos amores!”), galeões sacudidos
pelas tempestades, relâmpagos que caíam do céu e tinham a forma de um olho
ou de um olhar aterrador, enigmas onde as cabeças humanas se confundiam com
os ramos, inteiramente desenhados com letras, incluindo certas barbas das quais
cada pêlo era uma letra. Encontrou ainda rostos lívidos, recortados de
fotografias, e aos quais tinham sido furados os olhos, outros rostos de inocentes
com os lábios maculados por letras portadoras das marcas do pecado, rostos de
pecadores cujo destino tremendo se podia ler nas rugas que lhes cobriam a
fronte. Por cima da longa camisa branca e do auto da sua execução que traziam
ao pescoço, viu a expressão transtornada de primeiros-ministros ou de bandidos
enforcados, fixando o solo que os seus pés não podiam alcançar. Em fotografias
de cores envelhecidas enviadas por leitores que adivinhavam nos olhos
descaradamente pintados de uma actriz de cinema bem conhecida os seus
talentos de puta, nas dos supostos sósias de Rudolph Valentino ou de Benito
Mussolini, ou ainda de sultões ou de pachás, lia as letras que tinham sublinhado
na sua própria fotografia ou na dos homens com quem se imaginavam parecidos.
Nas cartas de leitores que tinham sido capazes de decifrar a mensagem que
Djélâl lhes enviava num artigo em que sublinhava o sentido muito particular da
letra h, a última letra do nome de Allah, ou dos que revelavam as simetrias das
palavras, manhã, rosto, sol, que Djélâl durante um mês, uma semana ou um ano
usara nas suas crónicas, nas longas cartas dos que se esforçavam por lhe provar
que o estudo das letras em nada era diferente da idolatria, Galip reencontrou os
rastos dos jogos de letras que Djélâl imaginara. Examinou cópias de miniaturas
representando o fundador do houroufismo, Fazlallah de Esterabad, às quais
tinham sido acrescentadas letras dos alfabetos árabe e latino; as palavras ou as
letras que enfeitavam as fotografias de futebolistas e de actores de cinema, as
que se viam em pacotes de bolachas e de pastilhas elásticas tão grossos como a
massa dos crepes que Alâaddine vendia na sua loja; as fotografias de assassinos,
de simples pecadores ou de chefes de confrarias. Descobriu centenas, milhares,
dezenas de milhares de fotografias de “gente da nossa terra”, pululantes de
letras. Dessas fotografias, havia realmente milhares, tiradas em todos os cantos
da Anatólia, nas pequenas cidades cinzentas de poeira, nas povoações mais
longínquas, onde o chão estala no Verão crestado pelo sol, nessas que nada nem
ninguém — excepto os lobos esfaimados — pode alcançar no Inverno, isoladas
como ficam durante quatro meses pela neve; nas aldeias de contrabandistas na
fronteira com a Síria, essas aldeias onde metade da população masculina só tem
uma perna por ter sido vítima das minas; nas aldeias de montanha desde sempre
à espera de uma estrada; em bares e salas de dança da noite, ou em matadouros
clandestinos escondidos nas grutas; em cafés frequentados por traficantes de
haxixe ou vendedores de cigarros no mercado negro; escritórios da “direcção”
em estações de caminho-de-ferro longínquas e desertas; “salões”
de hotéis onde os negociantes duvidosos passam as suas noites; em bordéis
de Sogukoluk: milhares de retratos “tirados” por fotógrafos, com a cabeça
metida de baixo de um pano preto, que fazem funcionar as suas velhas Leica
manipulando, como alquimistas ou adivinhos que lêem a sina, as placas cobertas
de produtos químicos, os obturadores, as bombas e os foles dos seus aparelhos
que pérolas azuis protegem do mau olhado, em cima dos seus tripés, instalados
nos arredores dos hotéis ou dos serviços administrativos, ao lado das mesas de
trabalho dos escrivães públicos. Não era difícil adivinhar que as pessoas da
nossa terra, no momento em que fixavam a objectiva, eram presas de um vago
medo da morte, de um sentimento do tempo que passa mesclado de aspiração à
imortalidade, que as faziam estremecer. Galip podia compreender imediatamente
que esse desejo profundo estava ligado aos sentimentos de derrota, de morte e de
desespero cujos sinais descobria nos rostos dos humanos e nos mapas das idades.
Dir-se-ia que as cinzas e as poeiras de um vulcão tinham recoberto o passado de
uma camada espessa, quando a derrota sucedera aos anos felizes e que, para
descobrir o sentido secreto e esquecido de havia muito das recordações, Galip
teria de ler e de decifrar os sinais que invadiam os rostos.
Adivinhava-se, por certos pormenores anotados no verso, que certas
fotografias tinham sido enviadas a Djélâl no começo dos anos cinquenta, na
época em que estava encarregado no jornal não só das palavras cruzadas, das
críticas de filmes e da crónica “Parece incrível mas é verdade”, mas ainda da
rubrica “O seu rosto, a sua personalidade”. Adivinhava-se também que outras
lhe tinham sido enviadas mais tarde, em resposta a um apelo que lançara
(“Desejamos ver as fotografias dos nossos leitores e publicar algumas delas para
ilustrar a nossa crónica!”); ou ainda letras, pedaços de papel, palavras rabiscadas
no verso permitiam compreender que certas fotografias tinham sido enviadas
para acrescentar algumas precisões a cartas cujo conteúdo Galip não conseguia
compreender. As pessoas fixavam a objectiva como se rememorassem uma
recordação ligada a um passado muito longínquo, ou como se contemplassem o
fulgor esverdeado de um relâmpago aceso por cima de uma costa distante, que
mal conseguia ver-se; como se, com um olhar habituado, vissem decompor-se
num pântano sombrio o seu próprio destino; tinham o olhar do amnésico,
convencido de que a memória perdida nunca mais lhe voltará. Ao mesmo tempo
que sentia que o silêncio daqueles personagens invadia cada vez mais o seu
espírito, Galip compreendia claramente porque fora que Djélâl pudera cobrir de
letras essas fotografias, esses recortes, esses rostos, esses olhares, e isso desde
havia tantos anos; mas assim que tentava utilizar tais motivos como uma chave
para explicar a ligação entre a sua vida e as de Djélâl e de Ruya, para se
perguntar como iria deixar aquele apartamento fantasma e o que seria o seu
futuro, sentia-se inteiriçado, por um breve instante, como os rostos nas
fotografias, e a sua razão, que deveria ter descoberto um nexo lógico entre os
acontecimentos, extraviava-se nas brumas de uma certa significação, que se
encontrava algures entre os rostos e as letras. Foi assim que se aproximou do
terror que descobriria nos rostos e onde se afundaria pouco a pouco.
Em velhos livros litografados, em folhetos recheados de erros ortográficos,
descobriu todos os pormenores da vida de Fazlallah, profeta e fundador do
houroufismo: nascera em 1339 no Khorassan, em Esterabad, perto do Mar
Cáspio. Desde os dezoito anos, consagrara-se ao misticismo, fizera a
peregrinação a Meca e tornara-se discípulo de um certo Xeque Hassan.
Enquanto lia como Fazlallah aumentara o seu saber no decorrer das suas
viagens, percorrendo de cidade em cidade o Irão e o Azerbaijão, enquanto
descobria os temas das suas entrevistas com os xeques de Tebriz, de Chirvan ou
de Baku, Galip experimentava uma irresistível necessidade de tudo recomeçar,
de viver uma “vida nova”, como diziam aqueles velhos alfarrábios. As profecias
de Fazlallah sobre o seu destino e a sua morte — que se cumpriram todas —
deram a Galip a impressão de tratarem de coisas completamente banais, que
poderiam acontecer a qualquer homem decidido a viver a vida nova a que ele,
Galip, aspirava. Num dos seus sonhos, Fazlallah vira duas poupas empoleiradas
numa árvore, o profeta Salomão e ele próprio dormiam aos pés da árvore, sob o
olhar dos pássaros, e o sonho do profeta Salomão e o de Fazlallah tinham-se
confundido num sonho único, enquanto os dois pássaros no ramo se confundiam
igualmente num só. Uma outra vez, sonhara com um dervixe que vinha visitá-lo
na caverna para onde se retirara, mas em seguida o mesmo dervixe viera de facto
vê-lo, em carne e osso, e comunicara-lhe que ele próprio vira em sonhos
Fazlallah: sentados ao lado um do outro, folheavam um livro numa caverna,
distinguiam os seus rostos nas letras do livro, e quando se viravam um para o
outro para se olharem, viam as letras do livro nos seus rostos.
Para Fazlallah, o fonema, a voz, era a linha de demarcação entre o ser e o
não-ser. Porque, quando se passa do mundo invisível ao mundo material, só o
som que toda a coisa produz é material. Para o comprovar, bastava bater umas
nas outras as coisas “mais mudas”. A forma mais evoluída do som é
naturalmente a fala, o fenómeno mais elevado a que chamamos “verbo”, o
mistério a que chamamos “palavra” e que é feito de letras. E era possível ler
distintamente no rosto humano as letras, sentido e essência do ser, representação
de Deus na terra. Há nos nossos rostos duas sobrancelhas, quatro pestanas, mais
a raiz dos cabelos, ou seja um total de sete linhas. Quando, a estas linhas, vêm
acrescentar-se os sete traços do nariz, que se desenvolve mais tarde, com a
puberdade, o número de letras eleva-se a catorze. Se se dobrassem estes
números, adicionando o seu valor numérico e a sua aparência material, que é
mais poética, era claro que o número vinte e oito, número das letras utilizadas
por Mahomet e graças às quais foi enunciado o Corão, não era fruto do acaso. E
quando Galip leu que, para se alcançar o total das trinta e duas letras do persa,
língua que Fazlallah falava e na qual escreveu o seu célebre Javidanname, era
preciso examinar mais atentamente a linha dos cabelos e a que há por baixo do
queixo, e dividi-las por dois e lê-las como duas letras distintas, compreendeu
porque era que em certas fotografias, a cabeça — rosto e cabeleira — se dividia
em duas por meio de um traço mediano que lembrava a risca do cabelo
abrilhantinado dos actores dos filmes americanos dos anos trinta. Tudo parecia
agora muito simples a Galip; feliz com uma simplicidade tão infantil,
compreendeu uma vez mais o que atraíra Djélâl em tais jogos de letras.
Tal como o “Ele” cuja história Djélâl relatara, Fazlallah proclamara-se o
Salvador, o Profeta, o Messias esperado pelos judeus, o Redentor que os cristãos
esperam ver descer do céu, o Mehdi cuja vinda Mahomet igualmente anuncia.
Depois, após ter reunido à sua volta sete discípulos que acreditavam nele,
começara a difundir a sua fé. Quando Galip leu que Fazlallah, indo de cidade em
cidade, declarava na sua pregação que o universo não revelava o seu sentido ao
primeiro olhar, que fervilhava de mistérios e que, para penetrar esses segredos,
era indispensável o conhecimento do segredo das letras, experimentou uma
serenidade profunda, como se estivesse perante a prova de que o seu universo
próprio também estava cheio de segredos, exactamente como ele sempre crera e
esperara.
Adivinhava também que a serenidade que o invadira estava ligada à
simplicidade desta prova. Se era exacto que o universo pululava de mistérios, o
universo secreto que lhe designavam a chávena de café, o cinzeiro, o corta-
papéis que via em cima da mesa, e até a sua própria mão, que parecia um
caranguejo adormecido, poisado ao lado do corta-papéis, esse universo secreto
do qual a sua mão fazia parte existia deveras. E Ruya, também ela, se encontrava
nele. Galip, pelo seu lado, estava no limiar desse universo, prestes a penetrar
nele. Muito em breve, haveria de o conseguir fazer, graças ao segredo das letras.
E, para tanto, devia continuar a ler, com a mais extrema atenção. Releu a
descrição da vida e da morte de Fazlallah. Soube que ele vira a sua morte em
sonhos e que se encaminhara para a morte como num sonho. Fora acusado de
ateísmo e de blasfémia, reprovavam-lhe o facto de não adorar Deus, mas o
homem, as letras e os ídolos; de se ter proclamado Messias; de não acreditar no
sentido visível, real, do Corão, mas nas suas próprias ilusões que, aos olhos dele,
constituíam o sentido secreto, invisível, do Livro. Fora preso, julgado e
enforcado.
Depois da execução de Fazlallah e dos seus discípulos chegados, os
houroufis, perseguidos no Irão, tinham podido refugiar-se na Anatólia graças ao
poeta Nesimí, que foi um dos sucessores do Profeta. Transportando consigo as
obras de Fazlallah e todos os seus manuscritos sobre a sua doutrina numa arca
verde, mais tarde tornada lendária para os houroufis, percorreu todas as cidades
da Anatólia, e encontrou novos adeptos nos medresse desertos onde dormitavam
aranhas, nos conventos onde os dervixes fumavam haxixe e formigavam os
lagartos; e a fim de provar aos seus discípulos que não só o Corão, mas o
universo inteiro transbordavam de segredos, recorrera a jogos de letras e de
palavras extraídos do xadrez, jogo que muito apreciava.
Este poeta, que, em dois versos apenas, comparava uma das linhas do rosto
da sua bem-amada e um seu sinal a uma letra e a um ponto, e essa letra e esse
ponto a uma esponja e a uma pérola no fundo do mar, para se comparar a si
próprio ao pescador de esponjas que mergulha em busca da pérola, depois esse
homem que se lança de livre vontade nos braços da morte ao “louco de amor”
em busca de Deus, comparando por fim Deus à sua bem-amada — e o círculo
completava-se assim —, fora preso em Alep, esfolado vivo depois de um
processo muito prolongado; o seu cadáver foi exibido em seguida na cidade,
pendurado numa forca, depois esquartejado em sete partes que, para exemplo,
foram enterradas nas sete cidades onde o poeta fizera discípulos e os seus
poemas haviam sido aprendidos de cor.
O houroufismo, que, graças a Nesimí, se difundiu rapidamente no Império
Otomano, exerceu uma forte influência em Mehmet, o Conquistador, quinze
anos depois da conquista de Istambul. Quando os ulemás souberam que o sultão,
citando os escritos de Fazlallah, gostava de discutir os mistérios do universo, as
interrogações que as letras propunham, e os segredos de Bizâncio, que
contemplava do palácio onde acabava de se instalar, e que procurava descobrir
como cada cúpula, cada chaminé, cada árvore que apontava com o dedo ao seu
séquito, podia constituir a chave dos mistérios de um segundo universo, um
universo subterrâneo, fomentaram uma conspiração e fizeram com que fossem
queimados vivos todos os horoufis que tinham conseguido insinuar-se nas boas
graças do soberano.
Num livrinho, que, a dar crédito a uma nota acrescentada à mão na última
página, teria sido feito clandestinamente numa tipografia de Horassan, perto de
Erzurum, no início da Segunda Guerra Mundial, Galip descobriu uma gravura:
nela se viam a ser consumidos em fogueiras houroufis decapitados na sequência
de uma conspiração falhada contra Beyazit II, o filho do Conquistador. Numa
outra página, viam-se ainda membros da seita, queimados vivos por não se terem
submetido ao édito de proscrição de Solimão; era sempre o mesmo desenho
infantil e a mesma expressão de terror. Nas chamas que envolviam os corpos dos
mártires, distinguiam-se os elif t os Iam, que compõem o nome de Allah. Mais
estranho ainda, lágrimas desenhadas com O, U e C do alfabeto latino irrompiam
dos olhos dos supliciados, a arder no meio de grandes labaredas. Foi nesta
imagem que Galip encontrou a primeira aplicação do houroufismo à reforma do
alfabeto de 1928, à passagem dos caracteres árabes para os caracteres latinos,
mas como, nesse momento, se preocupava sobretudo com o mistério que queria
resolver, continuou a ler o conteúdo da caixa sem compreender bem o que
significava aquilo que vira.
Leu assim páginas e páginas sobre o kanzi mahfi, o “tesouro secreto” da
natureza de Deus; todo o problema era descobrir a via que levaria a esse segredo,
compreender como ele se reflectia no universo; realizar que o mistério se
manifestava em toda a parte, em cada objecto, em cada coisa e em cada ser
humano. O universo era um oceano de indícios, e cada gota desse oceano tinha o
gosto do sal que poderia levar ao segredo que nele se dissimulava. Galip estava
persuadido de que poderia mergulhar nos mistérios desse oceano, contanto que
continuasse a devorar todas aquelas páginas com os seus olhos avermelhados
pela fadiga.
Tal como as suas manifestações se encontravam por toda a parte e em tudo, o
mistério estava em tudo e por toda a parte. Galip podia verificar claramente, à
medida que ia lendo, como as coisas à sua volta eram indícios do segredo do
qual lentamente se aproximava, do mesmo modo que o eram nos poemas o rosto
da bem-amada, as pérolas, as rosas, as taças de vinho, as cabeleiras de ouro, as
noites e as chamas. O facto de o cortinado ferido pela luz pálida da lâmpada, os
velhos sofás que se confundiam com as recordações de Ruya, as sombras nas
paredes, o telefone com o seu aspecto aterrador, estarem tão carregados de
sentido e de histórias, despertou em Galip — como lhe acontecia na infância —
a impressão de entrar sem dar por isso num jogo: um jogo no qual cada um dos
jogadores imitava outro e no qual cada coisa imitava outra coisa. Convencido de
que era capaz de sair desse jogo perigoso tornando-se outro — como na sua
infância fazia —, continuou o seu caminho a despeito de uma vaga de apreensão.
“Se tens medo, posso acender-te a luz”, dizia ele quando, ao jogar no escuro com
Ruya, adivinhava nela a mesma ansiedade.
“Acima de tudo, não acendas!”, respondia-lhe Ruya, a corajosa, que gostava
do jogo e do medo. Galip continuou a ler.
No início do século XVII, nos anos em que as rebeliões djélâlis subverteram
a Anatólia, certos houroufis foram instalar-se nas aldeias abandonadas pelos
camponeses, que fugiam dos pachás, dos cádis, dos bandidos e dos imãs.
Enquanto se esforçava por decifrar as estrofes de um poema muito longo
celebrando a vida cheia de alegrias e de sentido dessa aldeias houroufis, Galip
pensou uma vez mais nas recordações felizes da sua própria infância.
Nesses tempos longínquos e felizes, o sentido da vida e a maneira de viver
eram uma só e mesma coisa. Nesses tempos paradisíacos, as mobílias com que
enchíamos as nossas casas correspondiam aos sonhos que sonhávamos. Nesses
anos tão felizes, toda a gente sabia que as ferramentas e os objectos, os punhais e
os calamos em que pegávamos eram o prolongamento não só dos nossos corpos,
mas também das nossas almas.
Nesse tempo, quando os poetas falavam de uma árvore, cada um podia
imaginar uma árvore tal como a árvore é, todos sabiam que não era necessário
demonstrar grande talento, nem contar o número das folhas e dos ramos para
descrever a árvore no poema ou a árvore no jardim. Nesse tempo, toda a gente
sabia que os objectos descritos e as palavras utilizadas para os descrever estavam
muito próximos e se confundiam nas manhãs em que a bruma descia sobre a
aldeia-fantasma. Nessas manhãs, ao despertar, todos eram incapazes de
distinguir o sonho da realidade, a vida da poesia, os homens e os seus nomes.
Nesse tempo, os rostos eram tão expressivos que até mesmo aqueles que não
sabiam ler, que acreditavam que o alfa era o nome de um fruto, que tomavam o
e/z/por uma trave ou o A por um chapéu, podiam a todo o instante decifrar as
letras que se liam nos rostos.
Ao mesmo tempo que lia como, para falarem da feliz e longínqua época em
que os homens nem sequer conheciam o tempo, os poetas descreviam o Sol cor
de laranja imóvel no horizonte ao cair da noite, e os galeões cujas velas
inchavam sob o efeito de um vento que não soprava sobre o mar liso cor de vidro
e de cinza, e que nunca mudavam de lugar ainda quando avançavam; ao deparar
com a descrição de mesquitas muito brancas que se erguiam junto ao mar,
semelhantes a miragens que nunca desaparecem, e dos seus minaretes ainda mais
brancos, Galip disse para consigo que os sonhos e o modo de vida dos houroufis,
que se mantiveram secretos do século XVII até aos nossos dias, haviam de facto
invadido igualmente Istambul. Quando descobriu continuando a ler as cegonhas
e os albatrozes que batem as asas entre os brancos minaretes com três galerias, e
as fénix e os Simorgh e todos os outros pássaros fabulosos que planam desde há
séculos por cima das cúpulas de Istambul, como se estivessem presos ao
firmamento; quando concebeu que um passeio nas ruas de Istambul, que nunca
formam um ângulo recto quando se cruzam, e das quais nunca se sabe quando
vão cruzar-se, é tão vertiginosa e tão distractiva como uma volta na grande roda,
que lança o viajante em direcção ao infinito; quando soube que pelas noites
quentes de Verão e de luar, quando os baldes sobem dos poços tão cheios de
mistérios e de sinais vindos das estrelas como de uma água glacial, as pessoas
recitavam até de manhã poemas que falavam do sentido e dos indícios
veiculados por tais sinais, Galip compreendeu que o verdadeiro houroufismo
fora outrora que vivera a sua idade de ouro em Istambul; compreendeu também
que os anos de felicidade que tinham, Ruya e ele, conhecido já não eram mais
que passado. Essa idade de ouro e de beatitude não havia decerto durado muito.
Porque logo a seguir a essa época em que todos os mistérios eram revelados,
a seita começara a fechar-se em si própria: para tornarem os seus segredos ainda
mais herméticos, do mesmo modo que faziam os houroufis instalados nas
aldeias-fantasma, alguns punham todas as suas esperanças em elixires
confeccionados com sangue, com gema de ovo, com pêlos e excrementos, outros
cavavam subterrâneos por baixo das suas casas, nos cantos mais secretos de
Istambul, para aí esconderem os seus tesouros. Galip descobriu ainda que certos
membros da seita, com menos sorte que os cavadores de subterrâneos, tinham
sido presos e enforcados por terem participado numa revolta de janízaros, e as
letras tornaram-se ilegíveis nos seus rostos deformados pelo nó corredio. E os
rapsodos, que, com o seu saz na mão, se dirigiam em plena noite aos conventos
de dervixes dos bairros pobres para aí sussurrarem os segredos dos houroufis,
rapidamente esbarraram numa muralha de incompreensão. Todos estes dados
provavam que uma grande desolação pusera fim à idade de ouro que a doutrina
conhecera, nas aldeias mais remotas do país ou nos recantos mais secretos, nas
ruelas mais misteriosas de Istambul.
No final de um velho livro de poesia, com as páginas roídas pelos ratos, onde
manchas de bolor verde-acinzentado e verde-garrafa alastravam num cheiro bom
a papel e a humidade, Galip descobriu uma nota: podiam encontrar-se
informações sobre o mesmo tema numa outra brochura. E nas últimas páginas da
brochura, a dar-se crédito a uma frase bastante comprida e mal construída, que o
impressor de Horassan introduzira em caracteres mínimos entre os últimos
versos de um poema monótono e indicações sobre o endereço do editor e do
impressor, a data de edição, a brochura em causa, intitulada O Segredo das
Letras e o Desaparecimento do Segredo, sétima obra da mesma colecção,
igualmente publicada em Horassan, perto de Erzurum, fora redigida por um
certo F. M. Utchundju e atraíra os louvores de Sélime Katchmaz, jornalista em
Istambul.
Conquistado pela sonolência e pelo cansaço, com o espírito toldado pelos
fantasmas de letras e de palavras e pela recordação de Ruya, Galip tentou
rememorar os primórdios da carreira do seu primo. Nesse tempo, o interesse de
Djélâl pelos jogos de letras e de palavras limitava-se às mensagens que
endereçava aos seus próximos e às suas amiguinhas através de rubricas como
“Parece incrível mas é verdade” ou “O horóscopo do dia”. Galip começou a
revolver, enraivecido, nas revistas, jornais e papéis amontoados, procurando a
brochura.
Depois de ter instalado o caos numa das caixas que continuava a examinar
sem esperança, era perto da meia-noite quando descobriu a obra dissimulada
entre os recortes de jornais, alguns artigos que aludiam a uma polémica e nunca
haviam sido publicados e fotografias bizarras.
E nas ruas reinava o silêncio dos períodos de estado de sítio e de recolher
obrigatório, esse silêncio que nos faz pele de galinha e nos mergulha no
desespero.
Como muitas outras “obras” do mesmo género cuja próxima publicação era
anunciada, O Segredo das Letras e o Desaparecimento do Segredo fora
composto vários anos mais tarde e numa outra cidade: em 1962 e em Górdio,
onde nesse tempo existia, portanto, uma tipografia, o que muito espantou Galip.
Um livro de duzentas e vinte páginas. A capa envelhecida estava enfeitada com
uma ilustração enegrecida, devida a uma chapa defeituosa e a tinta de má
qualidade: uma estrada, entre duas alas de castanheiros, perdia-se no infinito da
perspectiva. Atrás de cada uma das árvores adivinhavam-se letras aterradoras,
que causavam arrepios.
A primeira vista, o livro assemelhava-se aos numerosos ensaios que oficiais
“idealistas” publicavam ao tempo, do género: “Porque é que não atingimos ao
fim de duzentos anos o nível do Ocidente?”, ou “Como garantir o
desenvolvimento do país?”, “Aluno da Escola Militar! Só tu podes salvar o teu
país!”. O livro abria com esta apóstrofe que se encontrava na maior parte da
mesma espécie de trabalhos, todos publicados em edição do autor nalguma
povoação remota da Anatólia. Mas, quando se pôs a percorrer as páginas, Galip
compreendeu que estava na presença de um tema muito diferente. Deixou a
poltrona, instalou-se à mesa de trabalho de Djélâl e, com os cotovelos bem
firmados na mesa, começou a ler atentamente o livro.
O Segredo das Letras e o Desaparecimento do Segredo compunha-se de três
partes, das quais as duas primeiras se encontravam no título. “O segredo das
letras” começava pela narrativa da vida do fundador do houroufismo. Mas F. M.
Utchundju dera uma dimensão laica ao personagem: mais que o Fazlallah
místico, era o filósofo racionalista, o matemático, o semântico que passava para
o primeiro plano. Fazlallah era, sem dúvida, um profeta, um Mehdi, um mártir,
um santo, um justo, mas era ainda mais um filósofo subtil, um génio, e além
disso era acima de tudo um homem da “nossa terra”. Era por isso que qualquer
tentativa de explicar as suas ideias — como faziam os orientalistas ocidentais —,
evocando a influência do panteísmo ou da Cabala, de Plotino ou de Pitágoras,
não podia ser senão um golpe traiçoeiro contra Fazlallah, um recurso ao
pensamento ocidental visando um homem que a ele se opusera durante a sua
vida toda. Fazlallah era um puro oriental.
Segundo F. M. Utchundju, o Oriente e o Ocidente dividiam o mundo;
opunham-se um ao outro como o rosto e o verso, eram dois antónimos, como o
bem e o mal, o negro e o branco, o anjo e o demónio.
Era impossível a esses dois universos viverem em paz, lado a lado, como
pensavam os utopistas, que se embalavam com ilusões. Ao longo de toda a
história, e alternadamente, um dos dois triunfara; alternadamente, um fora
senhor e o outro reduzido à servidão. Uma série completa de exemplos históricos
particularmente significativos ilustravam esta guerra gemelar incessante: o livro
citava Górdio (em turco kordugum, nó extremamente complicado) onde
Alexandre cortara o nó (ou seja, o número, dizia o autor) com um golpe de
espada; as Cruzadas; as letras e os algarismos com duplo sentido que figuravam
no relógio que Haroun al-Rachid enviara a Carlos Magno; a passagem dos Alpes
por Aníbal; as vitórias muçulmanas na Andaluzia (uma página inteira era
consagrada ao número das colunas da mesquita de Córdova); falava de Mehmet,
o Conquistador, também ele houroufi, e da sua conquista do Império Bizantino e
de Constantinopla; da ruína do Império Khazar bem como das derrotas sofridas
pelos otomanos perante Veneza e Doppio (o Castelo Branco).
Segundo F. M. Utchundju, todos estes factos históricos exprimiam uma ideia
da maior importância, que Fazlallah exprimira também em termos velados. Os
períodos de dominação do Ocidente e do Oriente não obedeciam ao acaso, mas à
lógica. Aquele destes dois universos que, em certos momentos históricos,
conseguia ver o mundo como um lugar misterioso, de sentidos múltiplos,
pululante de segredos, conseguia vencer, esmagar o outro. Aqueles para os quais
o universo era um lugar simples, de sentido único, despojado de mistérios,
estavam condenados à derrota e à servidão, que é o desfecho inelutável da
derrota.
F. M. Utchundju consagrara a segunda parte do livro a um minucioso exame
do desaparecimento do segredo. Quer na idea da filosofia grega, no Deus dos
neoplatónicos cristãos, no Nirvana indiano, na Ave Simorgh de Attar ou no
“bem-amado” de Mevlâna, no Tesouro Secreto dos houroufis, no númeno de
Kant ou na descrição do assassino num romance policial, o mistério significava
sempre o “centro” secreto, escondido, do mundo. E portanto, dizia F. M.
Utchundju, se uma civilização perdeu a ideia de mistério, isso significa que o seu
pensamento é desprovido de “centro” e perdeu por completo o equilíbrio.
Nas páginas seguintes, Galip descobriu longas frases consideravelmente
incompreensíveis sobre as razões que haviam forçado Mevlâna a matar o seu
“bem-amado”, Chems de Tebriz, e depois a dirigir-se a Damasco para fazer durar
o mistério que “forjara de extremo a extremo” com essa morte; sobre o facto de
as suas idas e vindas, as suas “investigações”
na cidade não bastarem para manter a ideia de “mistério”; depois sobre o
sentido atribuído aos diversos pontos de Damasco percorridos pelo poeta no
decorrer das suas deambulações, na esperança de redescobrir o “centro” do seu
pensamento que se perdia pouco a pouco.
Cometer um assassínio, quando o assassino não podia ser identificado, ou
desaparecer sem deixar rasto — passar à clandestinidade —, era, na opinião do
autor, um método eficaz de recriação de um segredo desaparecido.
Adiante, F. M. Utchundju passava à relação “letras/rosto” que é o elemento
mais importante da doutrina houroufi. Como Fazlallah fizera no
seujavidanname, insistia na ideia de que Deus — invisível — se manifestava no
rosto humano; estudava longamente os traços desse rosto, e as relações desses
traços com as letras do alfabeto árabe. Depois de algumas digressões um pouco
ingénuas sobre a prosódia dos poetas houroufis, como Nesimí, Rafii, Missali,
Ruhi de Bagdad ou Gul-Baba, havia uma lógica que se desprendia do livro: nas
épocas de felicidade e de vitórias, para cada um de nós, o rosto tem um sentido,
da mesma maneira que o mundo em que vivemos. Esse sentido foi-nos revelado
pelos houroufis, que souberam penetrar os mistérios do universo e discernir as
letras nos nossos rostos. Mas, com o desaparecimento da doutrina, as letras
tinham-se apagado dos nossos rostos, tal como o segredo do universo se perdera.
Os nossos rostos estavam doravante vazios, já não era possível ler neles o que
quer que fosse: os nossos olhos, as nossas sobrancelhas, o nosso nariz, o nosso
olhar, a nossa expressão, o nosso rosto já não tinham qualquer sentido. Galip
sentiu vontade de se levantar para ir ver o seu próprio rosto ao espelho, mas
continuou a ler com a maior atenção.
Tudo se ligava ao vazio dos nossos rostos, quer se tratasse da estranha
topografia que faz pensar na face oculta da Lua e que redescobrimos nos rostos
das estrelas do cinema turco, árabe ou indiano, ou dos resultados aterradores e
misteriosos que a fotografia obtém quando se interessa pelo homem. Se as
multidões que enchem as ruas de Istambul, do Cairo ou de Damasco se parecem
tanto, como fantasmas enchendo a noite com os seus gemidos; se os homens de
sobrancelhas sempre franzidas deixam crescer todos o mesmo bigode; se as
mulheres com o mesmo lenço na cabeça, mantêm os olhos no chão quando
avançam pelos passeios cobertos de lama, a razão é sempre a mesma: o vazio
dos rostos. Por conseguinte, a única coisa a fazer é devolver uma expressão ao
vazio dos nossos rostos, criar um sistema que nos permita descobrir neles as
letras do alfabeto latino. O capítulo II anuciava que esse sistema seria examinado
na terceira parte, intitulada “A descoberta do segredo”.
Galip apreciara muito este F. M. Utchundju que tão bem sabia utilizar os
jogos verbais e explorar o duplo sentido das palavras, com uma ingenuidade
infantil: havia nele qualquer coisa que lhe lembrava Djélal.


CAPÍTULO VIII

UMA PARTIDA DE XADREZ MUITO LONGA

“Harun al-Rachid disfarçava-se por vezes a fim de visitar incógnito Bagdad
e saber assim o que o seu povo pensava dele e da sua administração. Essa noite,
pois, uma vez mais...”
Contos das Mil e Uma Noites


Um dos nossos leitores, que deseja conservar o anonimato, possui uma carta
que esclarece certos pontos que permanecem obscuros de um período da nossa
história recente: esse a que se chama a “transição para a democracia”. A carta
ter-lhe-ia chegado às mãos através de uma série de acasos, por caminhos
semeados de ciladas e de perfídias, que, justificadamente, o nosso leitor se
recusa a revelar. Publico na íntegra essa carta, a qual teria sido escrita pelo
ditador da época a um dos seus filhos então no estrangeiro, sem nada mudar do
seu estilo — o de um militar de alta patente.
“Por essa noite de Agosto, há seis semanas, fazia muito calor, até mesmo no
aposento onde morreu o fundador da nossa República; o ar estava tão sufocante
que tínhamos a impressão de que não só o relógio cheio de dourados que marca
para sempre as nove horas e um quarto, o instante da morte de Atatiirk — o que
vos fazia rir muito porque induzi em erro a minha pobre mãe —, mas todos os
relógios tinham parado no palácio de Dolma-Bahtchè e em Istambul; no meio
desse calor implacável, o pensamento, o movimento, o tempo pareciam ter-se
petrificado. Nas janelas que dão para o Bósforo, as cortinas sempre agitadas pela
brisa não se mexiam nessa noite. Na penumbra, os guardas alinhados ao longo
do cais mantinham-se tão imóveis como manequins, como se estivessem ali não
por minha ordem, mas porque o tempo parara de correr.
Pressentindo que chegara a hora de passar à execução daquilo que sonhava
fazer havia tantos anos e que nunca me decidira a realizar, escolhi no meu
armário um trajo de camponês, que enverguei. E, enquanto me escapulia do
palácio pela porta do Harém, há tanto tempo inutilizada, pensei, para me dar
coragem, em todos os sultões que durante cinco séculos tinham saído por portas
escusas de todos os outros palácios de Istambul — Topkapi, Beylerbey, Yildiz —
ou ainda por aquela mesma porta, para mergulharem nas trevas da vida urbana
que tanto desejavam descobrir, tendo regressado sãos e salvos dessas sortidas.
“Como Istambul estava mudada! Decididamente, os vidros do meu Chevrolet
blindado não são apenas à prova de bala; impedem igualmente a vida real da
minha cidade, desta cidade que amo tanto, de chegar até mim. Depois de me ter
afastado dos muros do parque, enquanto avançava para Karakeuy, comprei halva
a um vendedor ambulante: o caramelo sabia a queimado. Nos cafés ainda
abertos, falei com homens que jogavam às cartas ou ao triquetraque, ou que
ouviam a rádio. Vi putas que atendiam o cliente em lojas de manjar branco,
crianças que mendigavam em frente dos restaurantes apontando com o dedo os
kébap exibidos nas montras. Entrei nos pátios das mesquitas para me misturar
com as multidões que saíam depois das últimas orações. Nas casas de chá de
clientela familiar, nos bairros pobres bebi chá e mordisquei sementes de girassol
como toda a gente. Numa ruela lajeada, encontrei um jovem casal que regressava
de uma visita a casa de vizinhos: devias ver com que amor a mulher, com os
cabelos tapados por um lenço, se apoiava no braço do marido, que trazia aos
ombros um rapazinho semiadormecido. Fiquei com as lágrimas nos olhos.
“Não, não era com a felicidade — ou com a infelicidade — dos meus
concidadãos que me preocupava. Até mesmo nessa noite de liberdade e de
sonho, o espectáculo — por parcial e fragmentado que fosse — da sua vida real
reavivara em mim o sentimento de me encontrar fora da realidade, a tristeza e o
temor de ser acordado dos meus sonhos. E esforçava-me por me desembaraçar
dessas ilusões e desse medo contemplando Istambul. De novo as lágrimas me
subiam aos olhos, enquanto olhava as montras das pastelarias e as multidões que
saíam dos barcos com as suas chaminés elegantes das Linhas Marítimas
Municipais, regressando do seu último trajecto.
“Aproximava-se a hora do recolher obrigatório. Em Emineumu, na esperança
de aproveitar a frescura da água, fui ter com um barqueiro, estendi-lhe cinquenta
piastras e pedi-lhe que me levasse, sem se apressar, à outra margem, a Karakeuy
ou a Kabatache. "Perdeste a cabeça?", disse-me ele. "Então, não sabes que o
general-presidente passeia por aqui todas as noites a esta hora e manda para a
prisão todos os que encontra no mar?" Tirei do bolso um maço dessas notas de
banco cor-de-rosa, a propósito das quais, bem sei, os meus inimigos inventaram
tantas calúnias infames, por nelas aparecer impresso o meu retrato, e estendi-lhas
no escuro. "Se formos para o largo com o teu barco, podes mostrar-me o barco
do presidente?" Ele arrancou-me as notas das mãos e indicou-me a proa da
embarcação: "Põe-te ali, debaixo daquele toldo, e sobretudo fica quieto! Que
Deus nos ajude!" E pegou nos remos.
“Para onde nos dirigíamos, naquele mar sombrio, para o Bósforo, para o
Corno de Ouro ou para Mármara? Ignorava-o. O mar calmo estava tão silencioso
como a cidade às escuras.
Do banco onde me estendera, podia sentir o cheiro leve da bruma sobre a
água. Ouviu-se um ruído de motor: "Aí está ele, está a chegar!", segredou o
barqueiro. "Vem aqui todas as noites!". A nossa embarcação foi esconder-se
entre os pontões cobertos de mexilhão do porto. Eu não conseguia afastar o olhar
do poderoso feixe de luz que girava para a direita, depois para a esquerda, e se
deslocava implacavelmente para a cidade, as costas, o mar e as mesquitas. Vi o
grande navio branco que se aproximava lentamente, podia distinguir os guardas,
com o colete de salvação às costas, as armas na mão, e, mais acima, algumas
silhuetas na ponte de comando, depois, no ponto mais alto, só, o falso general-
presidente.
Tinha dificuldade em ver-lhe o rosto porque o escuro o dissimulava, mas
apesar de tudo pude comprovar, por entre a névoa ligeira, que se vestia como eu.
Pedi ao barqueiro que seguisse o navio, mas em vão: explicou-me que a hora do
recolher obrigatório chegara e que ele tinha amor à vida, e levou-me para
Kabatache. Segui por ruelas desertas e entrei no palácio sem ser notado.
“Passei o resto da noite a pensar no meu sósia, nesse falso pachá, não para
me perguntar de quem se trataria e o que procuraria ali, no mar, em plena noite;
pensava nele porque, graças a ele, podia reflectir sobre mim próprio. No
propósito de poder seguir mais facilmente o que ele fazia, ordenei logo no dia
seguinte de manhã aos comandantes responsáveis pelo estado de sítio que
atrasassem uma hora o recolher obrigatório. A rádio comunicou imediatamente a
ordem, acompanhada por um dos meus discursos. E para dar a ilusão de um
sopro de liberalização, mandei igualmente que fossem libertados alguns presos,
ordem prontamente executada.
“Terá sido a noite seguinte mais alegre em Istambul? De modo nenhum! O
que prova que a tristeza constante de que a nossa nação sofre não é causada pela
opressão política, como afirmam os meus adversários do seu ponto de vista tão
superficial, mas se alimenta de razões mais profundas, insuperáveis. As pessoas
fumavam, comiam gelados, mascavam sementes de girassol, os clientes dos
cafés continuavam a ouvir com a mesma melancolia e a mesma indiferença o
discurso no qual eu anunciava a redução do recolher obrigatório. Mas eram tão
reais!
Quando me encontrava entre eles, experimentava a dor do sonâmbulo,
incapaz de regressar à realidade por não poder despertar. O barqueiro estava à
minha espera em Emineunu, sabe Deus como. Fizemo-nos rapidamente ao largo.
“Nessa noite, o vento soprava, o mar estava agitado. O general-presidente
fez-nos esperar, como se um sinal o tivesse prevenido da nossa presença.
Enquanto, ao abrigo de uma bóia ao largo de Kabatache, observava a chegada do
navio, e a seguir o próprio general-presidente, disse para comigo que ele era belo
— belo e real, se estas duas palavras podem ser utilizadas lado a lado. Seria
possível? Acima da massa de gente que se apinhava na ponte do navio, os seus
olhos viravam-se como projectores para Istambul e para as pessoas de Istambul,
parecia estar a contemplar a história. Mas que veria?
“Meti um maço de notas de banco cor-de-rosa no bolso do barqueiro; ele
pegou nos remos.
Sacudidos, agitados pelas vagas, alcançámo-los em Kassime-Pacha, perto do
arsenal, e pudemos observá-los, mas somente de longe. Desapareceram todos
dentro de automóveis pintados de azul-marinho ou de negro — entre os quais se
via o meu Chevrolet — e sumiram-se nas trevas de Gaiata. O barqueiro
praguejava sem parar, repetia-me que era tarde e que se aproximava a hora do
recolher obrigatório.
“Depois de ter sido tão prolongadamente sacudido pelas vagas, pensei que o
sentimento de irrealidade que me tomou quando pus o pé no cais se devia a uma
simples questão de equilíbrio. Nada disso. Enquanto caminhava nas ruas onde já
não encontrava ninguém, dado o adiantado da hora, nas avenidas desertas por
minha ordem, fui de novo invadido pelo mesmo sentimento de irrealidade, um
sentimento tão forte que fez com que me aparecesse uma imagem que se diria
vinda de um sonho. No caminho que vai de Findiki a Dolma-Bahtchè, não se
viam senão matilhas de cães vadios. Só um vendedor de milho cozido empurrava
o seu carrinho, vinte metros à minha frente, quase a correr e virando-se muitas
vezes para me observar. Adivinhava pelos olhares que me lançava que lhe
causava medo e que ele estava a fugir de mim, enquanto, pelo meu lado, eu
gostaria de lhe dizer que a coisa que ele devia temer se escondia por trás dos
enormes castanheiros que ladeavam o caminho. Mas era incapaz de lho explicar,
como acontece sempre nos sonhos, e, sempre como nos sonhos, tinha
medo, porque não podia dizer-lhe aquilo que queria dizer-lhe, ou pelo contrário,
não podia dizer-lho porque tinha medo. A coisa que me fazia medo, essa,
encontrava-se atrás das árvores que desfilavam dos dois lados da estrada, cada
vez mais depressa porque eu estugava o passo, e porque o vendedor de milho o
estugava também, por me ver fazê-lo. No entanto, não sabia de que coisa se
tratava; pior ainda, sabia que aquela ameaça não era um sonho.
“No dia seguinte de manhã, como não queria voltar a experimentar o mesmo
medo, ordenei atrasar mais uma boa hora o recolher obrigatório e libertar mais
um certo número de presos.
Não fiz sequer qualquer declaração a esse propósito na rádio; foi apenas
difundido um dos meus anteriores discursos.
“Mas sabia, pela experiência dos velhos a quem a vida ensina que nada muda
nunca, que voltaria a ver as mesmas imagens nas ruas da cidade. Não me
enganava. Alguns cinemas ao ar livre tinham atrasado a hora das sessões, e era
tudo. As mãos dos vendedores de algodão doce estavam como sempre
manchadas de cor-de-rosa; e os rostos dos turistas ocidentais que tinham
coragem para sair à noite, ainda que na companhia dos seus guias, eram muito
brancos, como sempre.
“O meu barqueiro esperava-me como de costume no mesmo local. O mesmo
posso dizer do falso pachá. Cruzámo-lo logo a seguir a ter deixado a costa. A
noite estava tão calma como a primeira o estivera, mas sem um farrapo de
bruma. No espelho obscuro do mar, podia ver reflectir-se, tal como os minaretes
e as luzes da cidade, a silhueta do general-presidente, empoleirada na ponte. Ele
era real. Além disso, naquela noite clara, vira-nos. Como nos teria visto qualquer
ser de carne e osso naquela noite clara.
“A nossa embarcação seguiu o navio e singrou atrás dele até diante do
embarcadouro de Kassime-Pacha. Acabava de pôr discretamente o pé no cais
quando alguns indivíduos que pareciam mais vigilantes de estabelecimentos
nocturnos que militares se precipitaram sobre mim: que fazia eu ali, de noite e
tão tarde? Desvairado, protestei, a hora do recolher obrigatório ainda não soara,
eu era um pobre camponês, estava hospedado num hotel do bairro de Sirkedji,
quisera dar um passeio de barco na minha última noite em Istambul, antes de
regressar à aldeia, não estava a par do decreto do presidente. Mas o barqueiro
amedrontado confessou tudo, e os guardas explicaram o que se passava ao
general-presidente, que se aproximara de nós. Trajado à “civil”, o general-
presidente parecia-se ainda mais comigo, e eu parecia um camponês. Fez-nos
repetir as nossas declarações, depois deu as suas ordens: o barqueiro podia ir-se
embora. Quanto a mim, devia acompanhá-lo.
“Sentados lado a lado no banco traseiro, o general-presidente e eu estávamos
sós no Chevrolet blindado que saía do porto. A presença do motorista, do qual
nos separava um vidro à prova de som — que não existia no meu próprio
Chevrolet —, tão silencioso e espectral como o automóvel, não atenuava a nossa
solidão, acentuava-a ainda mais.
“Esperávamos há tantos anos este encontro!”, disse o general-presidente,
com uma voz que me pareceu totalmente diferente da minha. “Por mim, eu sabia
que o esperava, tu nada sabias, e embora o esperássemos os dois, ignorávamos
que se daria assim”.
“Falava com uma voz cansada, hesitante, menos comovido pela ideia de
poder contar-me, enfim, a sua história do que tranquilizado pela alegria de lhe
pôr fim. Ele e eu estivéramos, dizia ele, no mesmo ano na Escola Militar. Os
mesmos professores tinham-nos prodigalizado as mesmas lições, participáramos
nos mesmos exercícios em noites de Inverno geladas, esperáramos ambos a
chegada da água às torneiras do nosso quartel durante os dias quentes do Verão;
nos dias de licença, percorríamos juntos a cidade de Istambul que tanto
amávamos, ao que ele dizia. Já nessa época, ele previra a evolução dos
acontecimentos, afirmou também, embora não tivesse previsto os dados mais
particulares da situação actual.
“Já nesse tempo, enquanto travávamos um combate secreto, ele e eu, pois
ambos queríamos conseguir as melhores notas em matemática, obter o máximo
de pontos no campo de tiro, conquistar a estima dos nossos camaradas e ser o
primeiro, com a melhor folha de serviços, ele compreendera, dizia, que eu teria
melhores resultados e residiria um dia em palácios, onde a minha pobre mãe se
sentiria desconcertada pelos relógios parados. Fi-lo notar que esse combate — se
era que realmente o traváramos — devia ter permanecido muito secreto, porque
não me lembrava de maneira nenhuma de ter vivido qualquer rivalidade durante
os meus anos de Escola Militar com um dos meus condiscípulos — coisa em que
sempre vos aconselhei a imitarem-me —, do mesmo modo que também não me
lembrava de ter sido seu amigo. Mas ele não pareceu minimamente afectado.
Replicou-me que eu era demasiado seguro de mim para ter dado por essa
rivalidade surda, à qual ele próprio renunciara por ter compreendido que eu era
muito superior, já nesse tempo, a todos os alunos do nosso ano, a todos os alunos
da Escola, aos tenentes e até mesmo aos capitães; recusara-se a continuar a ser
uma pálida cópia, um êxito de segunda. Queria ser “ele próprio”, ser uma
realidade, e não uma sombra. Enquanto se ia assim explicando, eu contemplava
as ruas desertas de Istambul da janela do Chevrolet, que notava pouco a pouco
não ser afinal demasiado parecido com o meu, e de vez em quando olhava os
nossos joelhos e as nossas pernas, imóveis, estendidos para a frente, exactamente
na mesma posição.
“Mais tarde, explicou-me que nunca houvera lugar para o acaso nos seus
cálculos. Na época, não era necessário ser-se um grande mago para prever que o
nosso povo se submeteria a um ditador pela segunda vez em quarenta anos, e lhe
entregaria Istambul, e que esse ditador seria um militar da nossa geração. Nem
para se chegar à conclusão de que eu seria esse soldado. Por meio de uma
simples operação intelectual, previra todo o futuro, quando era ainda aluno da
Escola Militar. Ou seria eu que me tornaria general-presidente, e ele ficaria numa
Istambul indecisa quanto ao futuro, tornar-se-ia numa sombra quase espectral a
mover-se entre a reallidade e o apagamento, entre o desespero do presente e os
fantasmas do passado e do futuro; ou então consagraria a sua vida a descobrir
outro meio de se realizar. Quando me contou que, para descobrir essa outra via,
cometera um delito suficientemente grave para ser expulso do exército, mas
suficientemente benigno para não o levar à prisão, e que conseguira fazer-se
apanhar quando, envergando o uniforme de comandante da Escola, passava em
revista todas as sentinelas, acabei, mas só então, por me lembrar daquele meu
companheiro, bastante apagado, de outros tempos. Depois de sair da Escola,
ingressara no comércio. “No nosso país, o que há de mais fácil é enriquecer, toda
a gente o sabe!”, declarou com orgulho. “Pelo contrário, se há tantos pobres
entre nós, é porque ensinam às pessoas, ao longo de toda a sua vida, a maneira,
não de enriquecerem, mas de continuarem a ser pobres!”, explicou-me ele ainda.
Depois de um breve silêncio, acrescentou que fora eu quem assim o ensinara a
assumir-se. “Tu!”, exclamou ele, vincando bem a palavra. “Tu, que esta noite
verifico com assombro, ao fim de tantos anos, seres ainda menos real do que eu!
Pobre diabo de camponês!”
“Seguiu-se um longo, muito longo silêncio. Vestindo a roupa que um
ajudante de campo me preparara declarando-me orgulhosamente que era assim
que se vestiam os camponeses dos arredores de Konya, sentia-me, não ridículo,
mas, pior que isso, excluído da realidade, transformado, contra a minha vontade,
numa parte de um sonho. Compreendi igualmente que esse sonho não passava de
uma montagem, realizada a partir de diversas imagens de uma Istambul
mergulhada no escuro, que desfilavam silenciosamente do outro lado dos vidros
como num filme mudo: ruas vazias, praças, passeios desertos. Chegara a hora do
meu recolher obrigatório; dir-se-ia que a cidade fora evacuada.
“Compreendera enfim que aquilo que o meu ex-camarada cheio de orgulho
me estava a mostrar era o fantasma de cidade que eu próprio criara.
Passávamos por casas de madeira perdidas entre ciprestes imensos que as
faziam parecer ainda mais minúsculas, por bairros pobres e periféricos que se
confundiam com os cemitérios, a tal ponto que estávamos como que no limiar da
região dos sonhos.
Percorrêramos ruas empedradas muito inclinadas, abandonadas às matilhas
de cães que se batiam entre si; subíramos outras, muito íngremes, que os
candeeiros de rua tornavam ainda mais escuras. Enquanto passávamos por essas
ruas espectrais, cheias de muros em ruína, e chaminés demolidas, de fontes sem
água, que eu só em sonhos teria pensado ver, ao mesmo tempo que contemplava
com uma apreensão estranha as mesquitas afundadas no sono, semelhantes na
noite a gigantes lendários; enquanto atravessávamos praças com os relógios
parados, com os lagos secos, com estátuas havia muito esquecidas, que me
davam a impressão de que o tempo se detivera, não só no meu palácio, mas na
cidade inteira, deixara de prestar atenção à história que o meu duplo me narrava
dos seus triunfos comerciais, bem como às anedotas que me contava também,
pretendendo que evocavam a nossa situação (o episódio do velho pastor que
surpreende a mulher com o amante e a passagem das Mil e Uma Noites em que
Harun al-Rachid se extravia nas ruas da cidade).
Um pouco antes da aurora, a avenida que tem o meu nome — o teu —
parecia-me menos uma realidade do que o prolongamento de um sonho, como
todas as outras avenidas, as ruas e as praças.
“Estava a fazer-me recordar o sonho de Mevlâna, conhecido sob o nome de
"História do concurso de pintura" quando redigi o comunicado que anunciava o
meu abandono de um título demasiado pomposo e que fiz em seguida difundir
pela rádio — esse comunicado sobre cujas razões secretas os nossos amigos
ocidentais, aí, sem dúvida te interrogam. Após aquela longa noite branca,
quando tentava adormecer, sonhei que todas as noites as multidões enchiam as
praças e que os relógios parados recomeçavam a funcionar; que uma vida mais
real do que a dos fantasmas e dos sonhos ia começar nos cafés onde as pessoas
comem sementes de girassol, nas pontes, em frente dos cinemas. Não sei a que
ponto este sonho se realizou, nem se a cidade de Istambul se transformou num
mapa onde eu poderia voltar a ser real. Mas sei pelos meus ajudantes de campo
que a liberdade, como sempre, inspira muito mais os meus inimigos do que os
sonhos. Continuam a reunir-se nas casas de chá, em quartos de hotel debaixo das
pontes, para fomentarem contra mim novas conspirações. Os malandretes
continuam a escrever nas paredes do palácio mensagens em código,
indecifráveis, ao que se diz. Mas nada disto tem muita importância. Os tempos
em que os sultões se disfarçavam para se misturarem com os seus súbditos
passaram; são histórias que já só nos livros acontecem.
“Li noutro dia, foi na História dos Otomanos de Hammer, que o sultão
Sélime, o Temido, ainda príncipe herdeiro, tinha ido a Tabriz disfarçado de
dervixe. Como jogava maravilhosamente xadrez, conquistara rapidamente um
certo renome, e o xá Ismail, ele próprio grande amador do xadrez, chamara ao
seu palácio o jovem dervixe. Sélime saíra vencedor de uma partida que durara
muito tempo. Foi então que me interroguei: muitos anos mais tarde, quando o xá
Ismail compreendeu que o jovem que o batera no jogo não era um dervixe, mas
o sultão Sélime, o Temido, que conquistaria Tabiz a seguir à batalha de
Tchaldiran, terá conseguido recordar-se da sucessão dos lances da partida? O
meu duplo, cheio de orgulho, pelo seu lado, lembra-se decerto de todos os lances
da partida que disputámos. A propósito de xadrez, a minha assinatura de King
and Pawn deve ter caducado; deixei de receber a revista. Mando-te dinheiro,
através da embaixada, para que ma renoves.”


CAPÍTULO IX

A DESCOBERTA DOS SEGREDOS

“Este capítulo onde se decifra claramente o texto do teu rosto.”
Niyazi-i Misri


Antes de mergulhar na leitura do capítulo III de O Segredo das Letras e o
Desaparecimento do Segredo, Galip preparou um café muito forte. Foi passar o
rosto por água fria a fim de lutar contra o sono, evitando cuidadosamente ao
mesmo tempo olhar-se no espelho.
Quando se instalou de novo, com a sua chávena de café, à mesa de trabalho
de Djélâl, experimentava o ardor de um aluno do liceu bem decidido a resolver o
problema de matemática em que esbarrou há dias.
Segundo F. M. Utchundju, nesses tempos em que se esperava que aparecesse
na Anatólia, nas terras turcas, um Mehdi que salvaria todo o Oriente, a primeira
coisa a fazer — se se quisesse redescobrir o segredo perdido — era fornecer,
utilizando os traços do rosto humano, uma base sólida às vinte e nove letras do
alfabeto latino que, a partir de 1928, foram adoptadas pelo turco. Com exemplos
extraídos de escritos houroufis havia muito caídos no esquecimento, de fórmulas
bektachis, do imaginário popular da Anatólia, dos rastos muito vagos que se
podiam ainda encontrar nas aldeias houroufis, dos signos traçados nas paredes
dos conventos de confrarias ou das velhas residências de pachás, e dos milhares
de caligrafias, o autor demonstrava os valores adquiridos por certos sons, no
decorrer da sua passagem do árabe ou do persa para o turco. Descobrira e
sublinhara essas letras em certas fotografias, com uma precisão perturbadora.
Enquanto obs