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VIVER UMA GRANDE PAIXÃO

TANGLED HEARTS

Carole Mortimer

Sarah teria coragem de trair a própria irmã?

“Você ainda vai ser minha!" As palavras de Garrett coavam no ouvido de Sarah
como uma ameaça, uma maldição. Por mais que o amasse, não conseguia esquecer que
fora ele o causador da infelicidade de sua família. E, embora dez longos anos tivessem se
passado desde a última vez que o vira, as lembranças ainda estavam muito vivas em sua
mente. Ela teria coragem de abandonar tudo e entregar-se ao homem que um dia fora
seu cunhado?

Digitalização: Desconhecida
Revisão: Alê Ramos
Sabrina 509 - Viver uma grande paixão - Carole Mortimer

CAPÍTULO I

— Mamãe!
Jason Kingham deixou a palavra escapar dos lábios, antes que se desse conta da
própria surpresa.
Uma mulher morena, de longos cabelos negros cacheados, virou-se, descansando o
pincel no cavalete e encarando-o com um brilho estranho nos profundos olhos castanhos.
Sua silhueta esguia, as pernas longas e bem torneadas, reveladas pelo minúsculo
short, e a pele de bronze acetinada pareciam fazer um conjunto perfeito com o mar de um
verde intenso e o céu muito azul, sem nuvens, que se refletia na tela semi-acabada.
Sem jeito, Jason murmurou um tímido pedido de desculpas. Depois, recobrando o
controle, percebeu que ela continuava a encará-lo em silêncio como se tivesse visto um
fantasma.
Sarah Harvey engoliu em seco. Aquele olhar... Ela só tinha visto aqueles olhos cor
de esmeralda num homem: Garrett Kingham. E o calor que percorrera seu corpo quando
o fitava ainda a perseguia, mesmo depois de dez anos. Sarah procurou pensar
racionalmente; alto, pele bronzeada, cabelos longos e loiros, e aqueles olhos... era Jason,
filho de sua irmã!
— Jason? — ela começou, hesitante, quase sem conseguir acreditar que seu
sobrinho estivesse ali depois de tantos anos de separação.
— Você... Você sabe meu nome! Então deve ser minha tia Sarah! — ele concluiu,
entre contente e aliviado. — Puxa! Por um momento pensei estar diante de minha mãe...
Ou melhor, do fantasma dela — acrescentou, aproximando-se com timidez para dar um
abraço na tia.
— Jason! Mas é você mesmo? — dizia Sarah enquanto o abraçava e beijava, com
os olhos cheios de lágrimas. — Seu avô vai ficar muito contente em vê-lo. Quando
chegou?
— Agora mesmo. Fui até o chalé, mas não havia ninguém.
— Se tivesse nos avisado, teríamos ido buscá-lo na rodoviária.
— Quis fazer uma surpresa, tia.
— E seu pai sabe que você está aqui?
Jason fez que não ouviu a pergunta. Deu alguns passos para a frente a fim de olhar
as ondas que estouravam na praia da pequena cidade.
— Dá para praticar surf aqui?
— Não, não dá. Mas muitas pessoas fazem windsurf.
— É, o vento é forte. Sempre venta desse jeito?
— Sim. A costa da Inglaterra é famosa por esse motivo.
Começando a recolher seu material de pintura, Sarah sentia-se intrigada com o
modo de agir do sobrinho. O motivo de sua vinda à Inglaterra deveria ser muito
importante, já que desde a morte de Amanda a família Kingham nunca havia procurado
entrar em contato com ela e o pai.
— Seu pai sabe que você está aqui? Insistiu Sarah determinada a descobrir a
verdade.
— Não sou mais uma criança. Já estou bastante crescido para tomar minhas
próprias decisões — argumentou Jason, teimoso, sem nada esclarecer.
Sentindo que o rapaz estava inseguro, o primeiro instinto de Sarah foi o de abraçá-lo
e pedir que lhe contasse o que o estava incomodando; porém sabia que ainda era muito

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cedo para esse tipo de intimidade. Procurando ganhar a confiança de Jason, ela decidiu
agir com calma:
— Você pode carregar isto para mim? — perguntou tranquila, dando-lhe o quadro.
— E tenha cuidado, não está seco.
— Ei, isto está muito bom! Por acaso você é artista?
— Oh, não. Mas bem que gostaria. Sou professora de educação artística e só
rabisco um pouco durante as férias.
— Mas você não se parece com uma professora.
Sarah já estava acostumada a esse tipo de comentário, feito por adolescentes como
Jason, Afinal, sua beleza exuberante parecia não combinar com a ideia que fazia de uma
professora, sisuda e de óculos.
Caminhando lado a lado com Jason pela praia, em direção ao chalé onde morava
com o pai, Sarah não pôde deixar de rir da imagem.
— E por que não? Será que professoras não usam short e top? — brincou,
provocando-o.
— Não na classe... E as minhas, acho que em lugar nenhum, — Ele piscou divertido.
— Para falar a verdade, até que sou muito comportada na sala de aula!
— Sabe, tia, não é só o jeito como se veste... É que você não parece ter idade para
ser uma professora. Parece mais uma garota.
Rindo com vontade, Sarah subiu os degraus de pedra, abrindo a porta de madeira
escura.
— Já ouvi muita coisa, mas nunca tinha sido confundida com uma de minhas alunas,
O ar fresco da sala suavizava o sol forte, tornando o ambiente muito agradável.
Depois de guardar o equipamento de pintura num armário embaixo da escada, ela virou-
se para o sobrinho:
— Você já comeu? Se quiser, posso preparar algo.
— Não, tudo bem. Comi por aí, obrigado.
Olhando ao seu redor, Jason notou os móveis rústicos e confortáveis, os quadros
nas paredes, a pequena varanda que dava para o mar. E num canto próximo à lareira,
uma estante repleta de livros sobre os mais variados assuntos,
— É, talvez você seja mesmo uma professora.
— É, talvez eu seja — respondeu Sarah, brincalhona encostada no corrimão da
escada.
— Quer beber alguma coisa?
— Tem refrigerante?
— Tem. Eu vou buscar.
Seguindo-a, Jason sentou-se numa das banquetas de couro, apoiando-se no balcão
que servia de divisória para a cozinha.
— Por que você veio? — Sarah perguntou direta, entregando-lhe a bebida.
Ele sorriu, parecendo muito mais jovem do que o rapaz adulto que tentava
impressionar a tia.
— Vocês têm uma linda vista aqui! — desconversou ele, olhando pela grande janela
que dominava o ambiente, desvendando a praia e o mar.
— Jason! — O tom autoritário a voz da tia o fez sorrir.
— Você é persistente, não?
— E você não responde às minhas perguntas. O que demonstra que somos
parentes.
— Acha que meu avô vai demorar muito?
— Sinceramente, não sei. Talvez de tenha encontrado um amigo e parou para
conversar. — Sarah resolveu não insistir, pois tinha medo de que o sobrinho se
ressentisse, evitando uma aproximação maior.

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Os dois se estudavam em silêncio. Jason bebia o refrigerante calmamente, sentindo


que podia confiar na tia. Ela, porém, refletia apreensiva que com toda certeza o pai dele
não tinha a menor ideia de que o filho estava ali, e, conhecendo Garrett Kingham como
conhecia, sabia que ficaria furioso quando descobrisse que Jason fora procurá-los.
Minutos depois, ouviram a porta da frente bater.
— Agora é ele! — Sarah sorriu, encorajando o sobrinho ao notar que parecia
nervoso.
— Pensei que você ainda estivesse na praia, Sarah — O pai a cumprimentou,
alegre. Era um homem baixo, de cabelos grisalhos e calorosos olhos azuis.
— Desci até lá para me juntar a você quando volt... — interrompeu-se ao dar-se
conta de que a filha não estava sozinha. Meio ansioso, meio incrédulo, olhou fixamente
para o rapaz a sua frente.
— Jason?
Levantando--se devagar, ele aproximou-se do avô secando as mãos úmidas no
jeans surrado.
— Vovô? — perguntou, engolindo em seco.
Sarah sentiu um nó na garganta ao ver rosto do pai iluminar-se. Durante anos
ouvira-o falar do neto, dos passeios que fariam juntos, de todas as coisas que, como avô,
sonhava em dividir com o menino. Viu os dois se encarando por alguns instantes, até que
o Sr. Harvey provocou Jason, percebendo sua hesitação.
— Será que não vou ganhar um abraço? — perguntou com voz emocionada.
Sarah não saberia dizer quem deu o primeiro passo, mas logo os dois estavam
abraçados. Aos dezesseis anos, seu sobrinho já era quase um homem, e um dia seria tão
alto e forte quanto o pai. Ao pensar em Garrett, Sarah estremeceu. Sabia que precisava
avisá-lo de que Jason estava com eles. E, quando o fizesse, tinha certeza de que ele viria
à Inglaterra para levar o filho de volta, separando-o mais uma vez da família Harvey.
—... por isso pensei que você deveria ter mudado de ideia — ela ouviu o pai falar
baixinho no ouvido do neto.
— Mudar de ideia sobre o quê? — interrompeu Sarah, desconfiada.
— Ahn... Que tal uma xícara de chá querida? — disse o Sr. Harvey, tentando
demonstrar que não ouvira a pergunta.
— Papai! — Ela olhou séria, sentindo que os dois tinham planejado algo de que não
estava a par.
— Ora, o que há filha? Seu sobrinho vem de tão longe e você não lhe oferece nada?
— Papai, o que você está me escondendo?
— Meu bem, não vamos discutir na frente de Jason, não é?
— Acontece, titia que telefonei para meu avô ontem e perguntei se podia vir visitar
vocês — o rapaz apressou-se em dizer, numa voz que soara muito cansada para alguém
tão jovem.
Então era esse o motivo da alegria de seu pai! Não dera muita importância às suas
atitudes, porque imaginara que ele tivesse encontrado a Sra. Potter. Os dois estavam
tendo um caso há algum tempo, embora ele tentasse esconder o fato.
— Por que você não me contou, papai? — perguntou Sarah com um ar de
desapontamento.
— Mas, minha filha, eu não tinha certeza se ele realmente viria e... Não queria vê-Ia
tristonha se isso não acontecesse.
Ela podia ler nos olhos azuis a satisfação que o pai sentia por estar finalmente ao
lado de Jason. E, incapaz de contrariá-lo, mesmo sabendo dos problemas que teriam,
acabou concordando com tudo.
— Muito bem, seus dois conspiradores, vocês ganharam.
— Viu, Jason, não disse que ela não ficaria zangada?
— Vou fazer o chá. Vocês vão para a sala.

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Sarah não conseguia parar de pensar no que Garrett faria quando soubesse do
paradeiro do filho. Sabia que ele nunca acreditaria que ela não tinha a menor noção do
que Jason e seu pai haviam tramado. De qualquer forma logo estariam frente a frente
num encontro nada agradável.
Apesar da ameaça que pairava sobre eles, Jason parecia muito à vontade e feliz, o
que de certo modo dava a Sarah forças para enfrentar Garrett.
Ao acomodar-se no sofá, ele sorriu:
— Ele é exatamente como imaginei que seria — disse, satisfeito, referindo-se ao
avô.
Vendo o brilho do olhar do sobrinho, Sarah lembrou-se do rapaz decidido e cínico
que a irmã apresentara como seu marido dez anos atrás. Será que algum dia ele fora um
garoto cheio de sonhos como o próprio filho? Tudo que lhe restara do homem alto, loiro e
penetrantes olhos verdes era uma vontade imperiosa, o antagonismo a atração que
sentira com relação a ele quando tinha dezesseis anos.
Ao entrar na sala carregando uma bandeja, Geoffrey Harvey fez com que a filha
saísse de seu silêncio.
— Acho que sempre soube que você iria se parecer com seu pai. Mesmo quando
bebê, não lembrava em nada a nossa família.
Sarah sentiu que Jason recebeu o comentário como uma crítica, e procurou
amenizar o clima tenso que se instalou entre os três.
— Eu acho que ele herdou de Garrett a determinação e... A altura, não é, papai?
Afinal, nós não somos famosos pela estatura. — Ela mal pôde conter o riso, sabendo que
atingira o ponto fraco do pai. Jason percebeu a brincadeira e sorriu também. — Será que
agora vocês não vão me contar como é que planejaram esse encontro de hoje?
— Papai está na Inglaterra fazendo um filme. Por isso, pensei em vir visitá-los —
Jason respondeu num tom que revelava rebeldia e insegurança.
As mãos de Sarah ficaram geladas. Garrett ele volta! Há dez anos, pouco mais que
uma criança, ela sentia algo estranho sempre que aquele homem estava por perto e o
evitava; agora, teria de olhá-lo nos olhos sem permitir que isso a abalasse.
— Ele trouxe você em férias? — perguntou, tentando parecer calma.
— Não. Ele me trouxe por obrigação. Infelizmente para ele, meu tio Jonathan e tia
Shelley estão viajando e não puderam ficar comigo — Havia um toque de amargura no
semblante carregado.
Em seu íntimo, Sarah se perguntava quantas vezes o rapaz fora levado "por
obrigação" a algum lugar e maldizia o cunhado por nunca ter permitido que se
aproximassem.
Depois que Amanda morreu, ele deixou claro que não aprovava a relação de seu
filho com o avô e a tia maternos.
Com receio de causar problemas ao garoto, Sarah e seu pai respeitaram a decisão
de Garrett, apesar da mágoa que isso lhes causava.
Agora, porém, Jason estava crescido, já era capaz de tomar suas próprias decisões
e parecia disposto a reatar os antigos laços. Sarah estava feliz por isso, embora soubesse
que o cunhado os censuraria. De qualquer forma, não queria jogar o filho contra o pai, e,
na tentativa de amenizar a situação, repreendeu o sobrinho com carinho.
— Tenho certeza de que ele não gosta de deixar você com seus tios.
— Como pode dizer isso? — ele retrucou indignado.
— Ora, Jason. Seu pai precisa trabalhar.
— Não, não precisa. É um homem rico.
— Você não acha que com 39 anos ele é jovem demais para se aposentar?
Um brilho de fúria acendeu os olhos verdes. Sarah pôde perceber então que ele não
suportava vê-Ia defendendo seu pai.

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Mesmo sabendo disso, precisava fazê-lo entender que deveria haver uma
explicação para tudo.
Geoffrey, que até então observara calado, decidiu que era hora de interferir para
evitar uma situação ainda mais constrangedora.
— Jason... Desculpe por não ter ido buscá-lo no ponto de ônibus. É que ele está
sempre atrasado, e por isso não liguei muito para o horário. Mas não é que justamente
hoje o ônibus chegou no horário?
Então foi por essa razão que seu pai antecipara a ida à vila para comprar fumo para
o cachimbo!
— Devo concluir que vocês se desencontraram, não? — comentou ela, seca,
demonstrando desaprovação.
— É que... Bem, quando cheguei à vila o ônibus já havia partido. Aí fui até a Sra.
Hall e perguntei-lhe se tinha visto um rapaz loiro desembarcar. Pensei que talvez Jason
tivesse mudado de ideia e desistido de vir.
— Não tem importância. Na verdade foi muito fácil. Quando cheguei, pedi
informação no posto de gasolina. Lá, me disseram que seria mais rápido se viesse pela
praia. E eu vim.
— Sem dúvida que é. Mas, para velhos como eu, caminhar na areia faz as pernas
doerem.
— Não lhe dê ouvidos, Jason. Ele vem dizendo isso desde que me conheço por
gente.
— Você não podia deixar de me contrariar, não é mesmo, Sarah? Acredite-me,
Jason, depois de viver tantos anos em uma casa cheia de mulheres, é bom ter um
homem com quem dividir o lugar. — E deu-lhe uma piscadela com ar maroto.
Arregalando os olhos, Sarah fitou um e outro.
— Jason vai ficar aqui... conosco? — Uma visita rápida era aceitável, mas
permanecer com eles alguns dias era algo que, ela estava certa, Garrett não permitiria.
— Se estiver tudo bem com vocês... — Jason se pôs na defensiva, olhando para o
avô.
— É claro que sim. O quarto de hóspedes está sempre pronto para nossos
convidados, não é, filha? — O tom de voz jovial não escondia a apreensão. — Você
trouxe uma muda de roupa?
Jason concordou com um gesto de cabeça, esperando pela aprovação de Sarah.
Sentindo a ansiedade dos dois, ela não quis estragar tudo, mas não podia deixar de se
sentir preocupada quanto ao que aconteceria depois.
— Seu pai sabe onde você está? — perguntou, temendo a resposta.
— Ele foi para a Escócia por alguns dias com outro dono de estúdio. E... eu estava
ficando doente de ficar fechado naquele hotel. Então telefonei para o vovô.
— Isso quer dizer que seu pai não sabe que você está aqui...
Pronto para discutir, Jason recebeu a intromissão do avô com um suspiro de alívio.
— Filho, por que não pega suas coisas lá fora e as leva lá para cima? O seu é o
primeiro quarto à direita. — Depois que ele saiu, Geoffrey tornou a falar: — Sei que está
brava, Sarah. Mas quando ele me ligou, estava chateado, sentindo-se sozinho. O que
mais eu poderia fazer além de convidá-lo a vir aqui?
— Ah, papai, você sabe muito bem que não é o fato de ele estar aqui que me
aborrece, mas o modo como tudo aconteceu. Estou tão contente quanto você, só acho
que deveria ter agido com mais responsabilidade e...
— Mas como eu poderia avisar Garrett se ele nem estava no hotel? — o pai a
interrompeu, tentando se defender.
— Ora, poderia ter deixado um recado!
— Está certo, está certo. Mas eu... fiquei tão contente com a ideia de ver Jason que
nem me lembrei desse detalhe. Sei que fui um pouco egoísta, mas não é tarde demais

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para corrigir meu erro. Jason disse que Garrett ainda demora alguns dias. É só telefonar
para lá e deixar um recado. Não sei por que o garoto deveria ficar lá sozinho em vez de
passar uns dias aqui conosco.
— Você venceu. Vou telefonar e deixar um recado. Qual é o nome do hotel?
Sarah não se surpreendeu ao descobrir que Garrett estava hospedado no mais
luxuoso hotel de Londres, e recordou-se de que o filho do poderoso senador Kingham só
poderia ter do bom e do melhor. Sorriu com desprezo.
Quando a ligação foi completada e ela pediu para deixar um recado para o Sr.
Kingham, houve um barulho estranho na linha.
— Alô — começou ela, ao perceber alguém no aparelho.
— Quem é? — uma voz rude interpelou-a. De imediato, Sarah soube que não se
tratava de Garrett.
— Alô, eu quero deixar um recado para o Sr. Kingham. Acho que houve alguma
confusão, porque a telefonista...
— Qual é o recado? Diga logo.
Ela não estava entendendo nada. Quem quer que fosse aquele sujeito, mais parecia
um animal grosseiro e mal-educado.
— Diga a ele que Sarah ligou e...
— Sarah de quê?
— Bem, se me deixar acabar de falar... — Ela perdeu a paciência e numa voz
irônica completou: — Talvez aí eu possa lhe dizer.
— Você está com o garoto?
Ignorando-o, ela continuou:
— Diga ao Sr. Kingham que nós estamos com Jason...
— Vocês quem?
— Quer parar de me interromper?
— O que você quer?
— Apenas que entregue o recado.
— É melhor saber que não está sendo muito inteligente. O pai do menino está muito,
muito zangado. Se...
— Não pode estar mais zangado do que eu por estar sendo tratada desta maneira.
— Então diga de uma vez, o que quer?
— Jason está com os Harvey, e se ele quiser poderá vir buscá-lo.
— Que Harvey?
— Ele sabe. — Dizendo isso, ela bateu o telefone.
Vermelha de raiva, Sarah andava de um lado para outro na sala. Jason, que
acabara de descer, a encarou, curioso.
— O que aconteceu, tia?
— Acabo de falar com o homem mais rude que já conheci.
— Papai? Mas ele só volta na...
— Se fosse seu pai eu saberia como tratá-lo. Esse homem parece um brutamontes
sem nenhum cérebro.
— É Dennis! — concluiu Jason.
— Dennis? — Os olhos castanhos brilhavam, zangados.
— Com aquelas maneiras? Matador seria um nome mais apropriado!
— Ele é o segurança de papai.
— Bem, isso explica tudo — disse o Sr. Harvey, que não via Sarah tão zangada
assim há muito tempo.
— Aposto que Dennis adorou "conversar" com você — Jason comentou, irônico... —
Por falar nisso, que foi que ele disse?
— Nada. Não lhe dei nenhuma chance. Bati o telefone na cara dele. — Ela preferiu
mentir a deixar o garoto apreensivo por saber que o pai já fora avisado de sua ausência.

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Soltando uma risada gostosa, Jason pareceu vibrar com aquela demonstração de
rebeldia da tia.
— E agora, que tal me ajudarem a preparar um belo jantar? — Sarah mudou de
assunto, já mais calma.
Na minúscula cozinha, três pessoas pareciam um batalhão, e Jason não tinha a
menor noção do que fazer, complicando ainda mais a preparação da comida.
Entre risos e conversas, a refeição foi muito agradável. Falaram sobre o passado,
sobre a vida de Jason em Malibu, mas tanto Sarah quanto o pai perceberam que ele
evitava qualquer pergunta que levasse a um terreno mais pessoal. Era quase meia-noite
quando foram dormir. Acomodando Jason, que adormeceu quase em seguida, Sarah
dirigiu-se ao próprio quarto.
Ainda sorrindo, colocou a longa camisola de seda verde-água e o negligé da mesma
cor. Enquanto penteava os cabelos negros, ouviu uma brecada forte na garagem e correu
até a janela.
Era uma noite clara e quente, com o céu repleto de estrelas e um mar calmo e
silencioso. Contra o luar, avistou a silhueta de um homem alto, de cabelos loiros com
reflexos cor de prata.
Com um arrepio de excitação e medo, reconheceu-o de imediato: aquele era Garrett
Kingham!

CAPÍTULO II

Bem, Sarah havia dito ao segurança que se ele quisesse o menino era só ir busca-
lo, e Garrett não perdera um minuto.
Sem tempo para se trocar, ela desceu corendo a escada querendo evitar que as
batidas imperiosas na porta acordassem o pai e o sobrinho.
Garrett Kingham batia sem parar, muito apreensivo. Quando Dennis telefonou para a
Escócia avisando que Jason desaparecera, a notícia o atingiu como um golpe. Tomou o
avião de volta imediatamente.
Ao chegar ao hotel, viu a polícia a postos para qualquer movimento dos possíveis
“sequestradores”. As longas horas de agonia quase o enlouqueceram. Depois quando
soube do telefonema dos Harvey, convenceu a policia de que Jason estava bem e fora a
casa do avô, em Easton.
E agora lá estava ele, tantos anos depois, novamente no chalé.
Sarah hesitava diante da porta. Sabia que a hora da verdade chegara, Já não era
uma adolescente, mas sentia-se trêmula por ter que enfrenta-lo.
Destravou a porta e quase não teve tempo de abri-la completamente, pois Garrett foi
entrando sem a menor cerimônia, sem nem mesmo lhe dirigir um olhar. Ele não mudara
em nada. Irritada, Sarah fechou a porta, seguindo-o em direção à sala. Ele ainda era tão
bonito quanto se lembrava, com o mesmo porte altivo, os mesmos ombros largos, o
mesmo corpo poderoso e atraente. Só que agora parecia mais maduro, mais seguro.
Sarah não conseguia tirar os olhos de Garrett, lembrando-se de como ele povoara
seus sonhos durante aqueles dez anos.
Antes de se sentar no sofá, ele se virou e ficou encarando-a com os olhos
penetrantes e magnético, a boca apertada numa linha fina e tensa. Sarah sentiu-se

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embaraçada com aquele exame que parecia desnudá-la, mas não desviou o olhar,
disposta a mostrar a ele que não a amedrontava mais.
Quando o silêncio se tornou insuportável, Garrett falou numa voz cortante e gelada:
— Estou aqui, conforme as instruções. Onde está Jason?
— Dormindo lá em cima — ela o informou com frieza. — Quem sabe se você tivesse
vindo numa hora mais apropriada o tivesse encontrado acordado.
— Tive de voar da Escócia para cá e fazendo o resto do percurso de carro. — Nem
um músculo se movia no rosto sério e exasperado.
— Oh! É mesmo! Eu me esqueci de que você largou Jason sozinho em Londres... —
comentou, sarcástica, sentindo a fúria que emanava do corpo tenso de Garrett.
— Eu não o larguei, como você está dizendo. Eu o deixei com seu guarda-costas,
como sempre faço quando não posso levá-lo comigo.
— Guarda-costas? Ali, é claro... Ele vem de uma família rica e poderosa — Sarah
concluiu, mostrando todo seu desprezo. E, quando ele sumiu, o brutamontes pensou em
sequestro!
— Exato. E, ao receber seu recado, ele pensou que você estava me atraindo para
uma armadilha. Mas eu lhe assegurei que era apenas minha cunhada. E que Jason havia
resolvido fazer uma visita surpresa.
Os olhos de Sarah faiscavam de fúria.
— E de que outra maneira ele poderia nos ver? Você, com toda sua maldita fortuna,
sua presunção e arrogância... Além de infernizar a vida de minha irmã, ainda separou
Jason de nós.
— Acontece que Jason nunca mostrou interesse em conhecer vocês.
— Bem, obviamente ele mudou de ideia — ela retorquiu, cortante, incapaz de
disfarçar o antagonismo que sentia por ele.
Olhos verdes a fitavam, furiosos.
— Jason tem apenas dezesseis anos e desaparecer do modo como ele fez é algo
um pouco mais sério do que ir a um cinema.
Ele estava certo, sem dúvida, mas o modo imperioso e prepotente como a estava
tratando a fazia ter vontade de agredi-lo. Procurando se controlar, Sarah disse em tom
conciliatório:
— Sei que ele não deveria ter feito isso, mas sei também que...
— Como você é magnânima! — rele cortou, sarcástico.
Ela o encarou com intenso desprezo e, ignorando-o, continuou: — Sei também que,
se ele fosse mais chegado a você, teria lhe dito como se sentia com relação a mim e meu
pai.
Garrett respirou fundo.
— Em poucas horas de convivência com Jason, você já decidiu que não sou um
bom pai, que o ignoro e que na melhor das hipóteses o considero um fardo; não é?
— Não, é claro que não!
— Pois foi o que pareceu.
— Não é nada disso; é só que...
— Eu tinha me esquecido — ele a interrompeu outra vez — que você sempre me
detestou e que acreditaria com vontade em qualquer coisa que se dissesse contra mim.
Aquilo não era verdade. Quando ele apareceu pela primeira vez no chalé, ela se
apaixonara, mas Garrett era o marido de sua irmã, um homem proibido; então
transformou a atração e o amor em ódio para que ninguém percebesse o quanto se
magoava ao vê-los juntos.
Agora precisava impedi-lo de descobrir a verdade. Encarando-o firmemente,
concordou.
— Talvez porque sempre tenha sido tão fácil acreditar! Ele suspirou, cansado.
— Sarah, é tarde, fiz uma longa viagem e não estou disposto a discutir com você.

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Ela ainda permanecia com uma atitude desafiante, apesar das linhas de cansaço
que via ao redor dos olhos e da boca de Garrett. Não queria, não podia pensar naquele
homem como alguém vulnerável, porque isso o tornaria humano, acessível, e acabaria
por minar suas defesas.
— Eu já lhe disse Garrett, Jason está dormindo, e você não vai levá-lo daqui como o
fez depois da morte de Amanda, afastando-o de nós. Agora sou adulta, mais do que
capaz de lidar com você!
Ao terminar de falar, Sarah desejou não ter sido tão impulsiva nem tê-lo desafiado.
Viu-o estreitar os olhos, percorrendo seu corpo. Com um olhar insolente, fazendo-a sentir-
se nua. Dirigiu-lhe o esboço de um sorriso.
— Você não parece muito diferente de quando tinha dezesseis anos. Nem é capaz
de lidar comigo...
— Não? Então talvez você queira tentar tirar Jason daqui novamente...
Os olhos dele se tornaram duas esmeraldas brilhantes.
— Eu não gosto de ser ameaçado, Sarah.
— É mesmo? — ela o desafiou, jogando os cabelos para trás. — Bem, eu também
não!
Continuaram a se encarar por segundos cheios de tensão; Sarah parecia
determinada a não voltar atrás, embora não soubesse como detê-lo se ele resolvesse tirar
Jason de lá à força. Tudo o que sabia era que precisava enfrentar aquele homem, pois o
sobrinho já não era mais criança, e se Garrett o convencesse a ir embora partiria o
coração do velho Geoffrey.
Por fim, ele baixou o olhar e estirou-se numa poltrona.
— Você ainda faz aquele café delicioso?
Sarah piscou surpresa. A última coisa que esperava ouvir dele era um elogio, ainda
mais sobre algo tão banal!
— Sim, eu ainda faço o mesmo café.
— Bom. Então eu o quero forte, do jeito que gosto. Preto, por favor.
Sarah queria lhe dizer que já era mais de meia-noite, que também estava cansada e
que não tinha vontade de fazer café para ninguém. Mas apesar de tudo isso, pôde ver
que ele parecia exausto e que a tensão que passara por não saber sobre o paradeiro do
filho o abatera de verdade.
Nas poucas ocasiões que ela deixara a mente vagar, voltando ao passado, Garrett
sempre permanecera o mesmo; naquele instante, porém, Sarah se deu conta de que o
tempo havia deixado suas marcas no rosto bronzeado e determinado; Se ele fizera
infelizes aqueles que viveram à sua volta, tampouco parecia ter alcançado a felicidade.
— Muito bem, Sr. Kingham — ela cedeu. — Então eu sugeriria que...
— Meu nome é Garrett, Sarah, como você sabe muito bem. Prove que não é mais
uma criança e use-o.
Ela sentiu as faces arderem enquanto se afastou em direção à cozinha para
preparar o café. Era uma mulher, uma professora, e, contudo algo em Garrett Kingham a
fazia sentir-se reduzida a uma garotinha petulante. Irritada, pensava em como a irmã
podia ter-se apaixonado por um tipo como aquele, o que não deixava de ser uma
contradição, refletiu, contrafeita, já que ela também fora vítima do mesmo fascínio. A
despeito da casca de refinamento e sedução, Garrett era apenas um homem rude e
ambicioso.
Ressentida, Sarah lembrou-se de como ele sempre ignorara a existência da esposa,
preocupado somente com sua carreira, fazendo Amanda sentir-se deprimida e miserável.
Não, ela não podia permitir que fizesse o mesmo com o sobrinho e, armando-se de
coragem para dizer-lhe isso, pegou a bandeja e foi para a sala.
Ao se aproximar não pôde evitar a onda de carinho que derrubou suas defesas.
Garrett havia adormecido! Colocando a bandeja sobre a mesa de centro sem fazer

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Sabrina 509 - Viver uma grande paixão - Carole Mortimer

barulho, fitou-o por um longo tempo. Ele parecia mais jovem, mais acessível. Entretanto,
mesmo naquele momento dava a impressão de manter a guarda sobre suas emoções.
Sarah sentia que, mesmo dormindo, a figura máscula dominava o ambiente, e sabia que
ele não poderia permanecer ali a noite toda.
— Garrett? — ela chamou com voz suave, tocando-lhe o ombro com delicadeza. —
Garrett, acorde!
A resposta dele foi afastar com brusquidão a mão sobre seu ombro, olhando-a de
maneira hostil.
— Que diabos pensa que está fazendo? — ele perguntou, endireitando o corpo.
Sarah afastou-se como se tivesse levado um tapa.
— Você dormiu e tive de acordá-lo, pois precisa ir embora. Não tinha ideia de que
isso o ofenderia.
Sentindo a tensão abandoná-lo, Garrett esboçou um sorriso. — Acredite-me, não
tenho aversão pelo toque de uma mulher bonita. Acontece que você me assustou.
Ela não estava interessada em ouvi-lo falar das mulheres de sua vida, mas não pôde
deixar de sentir uma pontada irracional de ciúme.
— Posso lhe assegurar que não acontecerá outra vez. Trouxe-lhe o café. Sugiro que
o tome e vá embora.
Ele negou com um gesto de cabeça, antes de beber o líquido fumegante com
vontade.
— Não sem Jason — comunicou-lhe, sério.
— Escute, ele disse que você está trabalhando aqui na Inglaterra no momento. Não
machucaria ninguém se você o deixasse ficar conosco alguns dias, não é? — Sarah
pensava em seu pai e no quanto ele ficaria desapontado se o neto partisse.
A expressão de Garrett era de poucos amigos.
— Talvez, se ele tivesse falado comigo primeiro...
— Você o teria impedido de vir. Do mesmo modo como fez com Amanda.
Ele semicerrou os olhos, retrucando com voz gélida: — Eu nunca impedi Amanda de
vir aqui.
— Talvez não diretamente, mas sempre deixou claro que desaprovava suas visitas.
— Eu... Sarah, não vamos desenterrar essa história. — Ele suspirou pesadamente.
— Jason sabe melhor do que ninguém que não deveria ter enganado Dennis.
O modo como ele falou demonstrou que o garoto sabia o que sua atitude causaria e
o quanto deixaria o pai aborrecido.
— Pela minha experiência, eu diria que o comportamento dele é uma forma de
chamar sua atenção...
— E qual é a experiência que tem com filhos, Srta. Harvey? Ela ficou pálida, os
olhos nublados como se fosse o prenúncio de uma tempestade.
— Eu disse a seu segurança que meu nome era Sarah Harvey somente para que
pudesse me identificar; na verdade meu sobrenome agora é Croft. E, embora eu não
tenha filhos, lido com dezenas de alunos adolescentes todos os dias!
Os olhos verdes se estreitaram, procurando uma aliança na mão esquerda dela.
— Está me dizendo que há um marido esperando por você no quarto?
A incredulidade que Sarah leu no rosto de Garrett fez seu sangue ferver.
— Não! Eu já tive, não tenho mais.
— Você e sua irmã parecem ter o hábito de correr para o "papai" quando as coisas
não saem como querem, não é?
— Eu não tive de correr para casa nem para papai, porque eu e David morávamos
aqui. E, para sua informação, nós nos divorciamos de forma bastante amigável. — Até
hoje ela se perguntava se seu relacionamento com o marido podia ser chamado de
casamento, já que fora um erro do princípio ao fim.

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— Talvez, se ele tivesse sido forte o suficiente para exigir que tivessem sua própria
casa, isso não tivesse acontecido!
— Não tente julgar meu casamento, quando fez do seu o inferno que todos
sabemos!
— Se você e sua irmã não fossem tão mimadas, talvez não exigissem tanta atenção
dos maridos.
— Ora, seu... seu...
— Sim?
— Idiota estúpido! — Sarah explodiu. — Amanda e eu fomos amadas, não mimadas.
E esse é um sentimento que sua família não conhece, muito menos você!
Ele se levantou devagar, e no minuto seguinte agarrou-a, prendendo-a nos braços.
— Há muitos tipos de amor, Sarah — murmurou suavemente.
— A qual deles você se refere?
Ela arregalou os olhos ao perceber a súbita ameaça que havia na voz grave.
— Eu... Não, Garrett! — Ergueu as mãos na tentativa de afastá-lo, mas tudo o que
conseguiu foi sentir-se prensada contra o peito largo.
— Sarah... — ele sussurrou com uma expressão séria. — Quem diria que aquela
pequena de olhar desafiante iria se tornar uma bela mulher... Uma bruxinha de olhos
castanhos — ele brincou antes de abaixar a cabeça em direção aos lábios femininos.
Sua boca era cálida, exigente, possessiva ao reclamar a dela, e o último
pensamento coerente de Sarah, antes de se entregar ao beijo, foi o de que aquilo não
devia estar acontecendo entre eles. Então, como um náufrago, agarrou-se a Garrett,
sentindo as mãos macias acariciarem seu corpo por sobre a lingerie, estremecendo ao
perceber que ele desfazia o laço do negligé e afastava a alça da camisola.
Seus dedos estavam quentes ao tocar a pele arrepiada dos seios de Sarah, e ela
soltou um gemido abafado ao perceber que ele deslizava os lábios úmidos por seu rosto
em direção ao lobo da orelha, mordiscando-o com suavidade, para depois depositar
pequenos beijos ao longo do pescoço macio até alcançar os mamilos, beijando-os,
lambendo-os, sugando-os com urgência e avidez.
Sarah tremia, sentindo-se fraca, atordoada pelas emoções que Garrett lhe
despertava. Mantinha os olhos fechados, perdida nas sensações, quando se viu
subitamente afastada. Será que ele estava brincando, pretendendo dar-lhe uma lição que
nunca esqueceria?
— Dê um jeito em suas roupas — ele falou ríspido. — Alguém está descendo a
escada.
Garrett mal acabara de falar e Sarah escutou passos. Arrumou rapidamente a
camisola e refez o laço do negligé; segundos depois seu pai entrava na sala.
— Garrett! — Geoffrey o cumprimentou sem esconder a surpresa. — Não tinha ideia
de que estava aqui...
Sarah ficou embaraçada. Sabia que devia estar corada, e, embora Garrett
parecesse frio como sempre, tinha certeza de que seu pai notara algo no ar, pois ela não
se sentia capaz de disfarçar o choque pelo que acontecera há pouco.
— Garrett estava... Nós estávamos...
— Como você já deve ter imaginado, vim para levar Jason comigo — ele a
interrompeu. — Sarah estava tentando me persuadir a deixá-lo ficar por alguns dias. Vou
pensar sobre isso. Nós não queríamos perturbar seu sono, Geoffrey — desculpou-se, um
tanto sem jeito.
O velho parecia contente pelo fato de Garrett estar considerando a possibilidade de
deixar o neto permanecer ali mais algum tempo, enquanto Sarah sentia-se arrasada ao se
dar conta das implicações que haviam por trás das palavras do cunhado, que parecia
pensar que ela estava tentando seduzi-lo para influenciar sua decisão!

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Não saberia explicar o que havia acontecido, mas pela primeira vez sentiu que a
presença daquele homem era muito perigosa. Irritada, desejou que ele e sua presunção
fossem para o inferno.
— Não faz mal. — O pai de Sarah sorria, sem perceber a ambiguidade daquele
comentário sobre a filha. — Nós, velhos, já não temos mais necessidade de dormir tanto.
Conversaram mais um pouco e por fim Garrett anunciou que ia embora. Sarah só
conseguiu respirar aliviada quando ouviu o barulho do carro à distância.
— Bem, o que acha disso, filha? — O pai a olhou esperançoso. Ela notou que ele
parecia acreditar na resposta afirmativa do genro, e gostaria de poder ter a mesma
certeza. — Acho que teremos de esperar para ver.
— Eu teria pedido para que ele deixasse o garoto ficar, mas...
— Por que se arriscar a ouvir um insulto, pai? Garrett Kingham continua o mesmo
homem arrogante de dez anos atrás.
Ele balançou a cabeça tristemente.
— Nunca pude entender por que Amanda se envolveu com esse tipo.
Sarah sabia que seus pais haviam ficado muito aborrecidos quando a irmã
apresentara Garrett como seu marido, mas tinham consciência de que essa seria a
melhor solução, já que ela estava grávida de três meses. Sentia que havia algo errado
naquela história, mas seu pai nunca esclarecera nada, parecendo resignado com o curso
dos acontecimentos. Ouviu-o suspirar.
— Quando ela partiu estava tão determinada a ser atriz... Foi uma grande surpresa
vê-la de volta trazendo um marido e esperando um bebê.
— Parece que Garrett fez sucesso pelos dois — comentou Sarah, cínica.
— Pode ser, mas isso não o tornou um homem feliz.
Sarah se perguntava se ele algum dia fora feliz. Não que se importasse, é claro, pois
já superara a paixão adolescente e o único sentimento que nutria no momento, pelo
cunhado, era ódio.
— O que acha que ele vai resolver sobre Jason? — o pai insistiu.
— Olhe, não se anime demais. Temo que a minha "persuasão”, como ele falou, não
vá adiantar nada.
Exceto, talvez, convencê-lo de que ela não era uma companhia adequada para o
sobrinho...

CAPÍTULO III

Pela manhã Sarah estava apavorada com a expectativa da chegada de Garrett.


Temia ter de olhá-Io nos olhos depois do que acontecera na noite anterior. Não que
compreendesse o que houvera. Poderia dizer que ambos se sentiram atraídos, que o
desafiara questionando sua autoridade sobre Jason, e até mesmo que o fato de estar de
camisola tivesse soado com um convite. O que não conseguia aceitar era o modo como
permitira que um homem que odiava e desprezava a tivesse beijado de um jeito tão
ousado, tão íntimo!
Seu rosto queimava de vergonha cada vez que se lembrava daqueles lábios
possessivos, das mãos grandes e quentes sobre seu seio nu, da boca exigente...
Estremeceu ao pensar como reagira a ele, como não tivera forças para detê-lo.
Como poderia encará-lo outra vez?
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Deixando de lado a angústia, ela recordou-se de modo como Jason recebera a


notícia da chegada do pai. Cumprimentara-a alegre e bem-disposto, mas, ao tomar
conhecimento da visita da noite anterior, fechara-se num mutismo hostil, apenas
beliscando o café da manhã. Enquanto arrumava a cozinha, ela observava o pai e o
sobrinho jogando tênis na praia, contentes por estarem juntos naquele instante mesmo
sabendo que muito em breve teriam de dizer adeus. Pelo bem de ambos esperava que
não tivesse de ser assim.
Seu pai sempre fora um homem muito ativo e ocupado, mas, depois que se
aposentou, muito de sua alegria de viver se perdera. Porém, a chegada do neto parecia
tê-lo reanimado, dando-lhe novas perspectivas.
Aqueles dois precisavam um do outro; ela só esperava que Garrett conseguisse
enxergar isso.
Droga! Como se censurava pelo que acontecera à noite! Não fosse isso, seria capaz
de enfrentá-lo de igual para igual. Contudo, sabia que ele nunca a olharia como a
professora capaz e a mulher segura que lutava pela felicidade de duas pessoas que
amava, e sim como uma tola ingênua que não resistira a seu charme.
— Droga, droga, droga! — Sarah bateu a porta do armário com força,
descarregando a raiva.
— Alguma coisa a está aborrecendo numa manhã tão linda e ensolarada?
Ela se virou de imediato, encarando o homem que lhe causara toda aquela angústia,
estreitando os olhos enquanto ele se apoiava, muito à vontade, no balcão. Estivera tão
absorta observando Jason e o pai que não notara a chegada do carro de Garrett, nem sua
entrada no chalé. E agora se via exatamente na posição em que não queria estar: na
defensiva.
Ele vestia uma bermuda jeans e uma camiseta regata, e parecia ter dormido muito
bem. Ao contrário de Sarah.
— Já tomou café? — ela perguntou, desanimada.
— Ovos, bacon, frutas...
— Não pedi detalhes.
— Você obviamente ainda não comeu — Garrett afirmou, olhando-a zombeteiro. —
Não sabe que o café da manhã é a refeição mais importante do dia?
Ela engoliu em seco, procurando não se irritar. — Pois hoje será o almoço.
Ele pareceu estudá-la por alguns instantes.
— Se continuar assim, logo vai sumir.
Sarah resistiu ao impulso de dar-lhe uma resposta malcriada, sentindo-se, de
repente, muito exposta no short cavado que fazia conjunto com o top vermelho.
Imaginando que ele apareceria, censurou-se por não ter colocado uma roupa mais formal:
porém não queria que o pai notasse nada de diferente em suas atitudes.
— Sempre fui magra.
— Não se preocupe. Você é cheinha nos lugares certos.
Irritada, ela achou melhor mudar de assunto.
— Garrett, sobre a noite passada...
— Às vezes eu me pergunto quantas conversas já não começaram com essas
mesmas palavras...
Ele estava brigando de gato-e-rato com ela, e, como uma adolescente, Sarah se via
sem saída. Então, chegando ao limite de sua paciência, falou ríspida:
— Eu não estou preocupada com outras conversas, somente com esta! E na noite
passada...
— Eu beijei você — ele completou suavemente. — E você correspondeu.
Ela corou.
— Eu não encorajei você!
— Nem tentou me fazer parar.

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— Só que não é esse o ponto. Num segundo estávamos discutindo, no seguinte


você tentava provar sua masculinidade.
Garrett fez uma careta depois de ouvir aquela descrição do beijo que trocaram.
— Há muitas outras mulheres com as quais eu poderia ter feito isso, e que me
trariam muito menos complicações.
Os olhos castanhos cintilaram de raiva. — Então por que me beijou?
— Talvez porque quisesse ver se a pequena gata brava que você era tinha mesmo
crescido.
— E o que descobriu? — Sarah perguntou, incapaz de controlar a vontade de saber
a resposta.
— Você deixou marcas em meu corpo — ele confessou, fitando-a com ar
enigmático.
Garrett estava tão perto que ela podia sentir o calor de seu corpo, odiando-o por
forçá-Ia a ter consciência da atração e da intimidade que havia entre ambos.
— Já não chega uma vez? Por que tem de magoar meu pai de novo? — Os olhos
dela tornaram-se nublados, lembrando-se o dia em que Garrett levara Jason embora.
— Eu o estava levando para o lugar a que pertencia.
— Mas meu pai tinha acabado de enterrar a filha mais velha... Sua esposa!
Garrett suspirou profundamente ao notar a acusação na voz de Sarah.
— Olhe, eu sinto muito pelo modo como Amanda morreu...
— Porque isso o salvou de ter de suportar um processo de divórcio, não é?
Os olhos verdes tinham um brilho perigoso. — Não teria havido divórcio.
— Amanda o deixou — ela rebateu, sem acreditar. — O próximo passo seria a
separação legal.
— Não necessariamente. Não entre Amanda e mim. Sarah franziu a testa, intrigada,
ante tanta certeza. — Mas ela o deixou...
— E teria voltado — ele afirmou, arrogante. — Sempre voltava.
— Sempre?— Sarah lançou-lhe um olhar surpreso. — Mas...
— Como vai indo com Jason? — Garrett fixou o olhar no filho, com uma expressão
que deixava claro que não diria mais nada.
Sarah voltou o rosto para a janela, perdida em seus próprios pensamentos. Amanda
nunca havia deixado o marido antes daquela trágica ocasião; então por que ele insinuara
que houve outras vezes? Por que sempre que falava na esposa a voz grave deixava
transparecer um enorme ressentimento? O que acontecera entre eles, afinal? Confusa,
Sarah percebeu que precisava descobrir a verdade.
— Sabe, Garrett, a gente acaba chegando à conclusão de que o velho e o jovem se
entendem muito bem.
— Só nós, que estamos no meio da estrada, é que somos uns pobres diabos e
levamos todo o fardo da incompreensão, não é?
Ela o fitou novamente.
— Nunca pude perceber em você o desejo de ser sociável, de ser querido pelos
outros!
Garrett sorriu de maneira espontânea, o olhar quente, magnético.
— Ser querido é uma emoção apenas agradável.
— Não se preocupe. Não há muitas pessoas que sentem essa emoção tão
indefinida por você.
A expressão dele suavizou-se ao encarar o rosto perfeito de Sarah.
— Você se tomou uma linda mulher. Seu marido foi um tolo por deixá-la.
De repente pareceu-lhe que os dois estavam afastados de tudo, num mundo
particular, e ela sentiu medo. A última coisa que queria era sentir-se vulnerável perto
daquele homem. Já era difícil controlar a vontade de tocá-Io discutindo o tempo todo.
Caso se deixasse levar pelo fascínio de Garrett, estaria perdida.

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Procurando um assunto mais seguro, perguntou-lhe se já havia chegado a alguma


conclusão sobre Jason.
— Ainda não. Você não deve acreditar em tudo o que ele contar a você, Sarah.
Garotos de dezesseis anos costumam achar que o mundo todo está contra seus
propósitos.
Ela sabia bem disso, e deixara claro para o sobrinho que havia um outro lado na
questão e que era preciso levar em conta o desejo de seu pai.
— Eu já lhe disse, sou uma professora, entendo o que se passa com Jason. Apesar
disso, acho que ele e meu pai estão se entendendo e esse relacionamento faria bem a
seu filho, caso você permitisse que ele ficasse aqui.
— Vamos ver. Qual é a matéria?
— Como? — Ela piscou, sem entender.
— O que você ensina?
— Educação Artística.
Ele fez que entendia com um gesto de cabeça sem se surpreender com a resposta.
— Você pintou o retrato de Amanda e o de sua mãe que estão na sala?
— Foi um presente que dei a meu pai.
— São muito bons. Um tanto emocional, mas você é assim mesmo.
— Garrett...
— Será que eu disse alguma coisa errada? — Ele franziu as sobrancelhas, nos
olhos verdes um ar zombeteiro.
— Acho melhor nos juntarmos a Jason e papai.
— Por quê? Está entediada? — Ele deu de ombros. — Os dois parecem estar se
arranjando muito bem sem nós.
Sem dúvida, avô e neto se davam muito bem, o que não acontecia com Sarah e o
cunhado. Nunca conseguira lidar com aquele homem cínico e arrogante, que parecia
disposto a deixá-la acuada como um animalzinho assustado.
— Tenho certeza de que Jason quer ver você — ela insistiu, firme.
Garrett deu uma risada irônica, um som gutural que a fez estremecer.
— E eu tenho certeza de que sou a última pessoa no mundo que ele quer ver. Jason
possui o mesmo talento da mãe e não há nada que goste mais do que uma audiência
cativa!
— Não está sendo um pouco injusto com ele? Tenho certeza de que os tios dele são
pessoas ótimas, mas Jason não parece gostar de ser sempre deixado com parentes.
— Ele só fica com meu irmão e minha cunhada nas férias, e não sou de sair tanto
assim. A principal objeção dele quanto a ficar com os tios é que não tem nada para fazer
lá. É óbvio que Jonathan é muito ocupado e Shelley não está acostumada a ter crianças
por perto. Ela faz o melhor que pode dentro das circunstâncias, mas Jason parece não
reconhecer isso.
— Você é o pai, deveria....
— Também faço o melhor que posso. Como qualquer outro pai que sai para
trabalhar.
— Garrett, não quero discutir com você...
— Será a primeira vez, então. Mesmo quando adolescente você brigava comigo
sobre a bebida que tomaria na lanchonete...
Sarah corou fortemente ao lembrar-se daquela ocasião. Depois de muito relutar,
aceitara sair com a irmã e o cunhado. Tinham ido a uma lanchonete e ela cismara em
tomar vinho branco. O resultado foi que voltaram para casa depois de uma feia discussão;
Sarah sem tomar o vinho e Garrett sem conseguir convencê-la de que ainda não tinha
idade para beber álcool.
Agora, dez anos depois, sentia-se embaraçada por seu comportamento infantil no
passado.

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— Eu estava furiosa por você ter se casado com minha irmã, ela confessou, e
depois acrescentou, depressa: — Você era um intruso e eu não gostava do seu jeito.
Sarah sabia que aquilo era uma meia verdade apenas, pois o que sentira naquela
época fora ciúme, um sentimento forte e novo que tivera de esconder de todo mundo.
Precisava disfarçar sua paixão pelo cunhado; desafiá-lo, hostilizando-o o tempo
todo, fora a saída que encontrara. Parecia ter tido sucesso, pois ninguém jamais
desconfiara de seu amor por Garrett.
— E ainda não gosta — ele falou com voz arrastada. Mas sugiro que façamos uma
trégua, pelo bem de Jason — concluiu suavemente, segundos antes de o filho e o sogro
entrarem na casa.
Ela pensara que Garrett iria ter uma conversa com o filho e, depois de tomar uma
decisão, partir com ou sem ele, mas teve a impressão de que se enganara.
Jason cumprimentou secamente o pai, comunicando-lhe que o avô o convidara para
pescar. Ao fitar Geoffrey, Sarah notou-lhe o olhar cúmplice e soube que o desejo de
agradar o neto suplantara mais uma vez o bom senso.
— Por que não vamos todos? — Garrett sugeriu, animado. — Sarah poderia arranjar
comida para nós... O que acham?
A última coisa que ela queria era sair para pescar no iate dos Kingham, mas, caso
se recusasse, estragaria o passeio de todos. Então se viu concordando com a ideia.
Sabia que, em segredo, Garrett se divertia ao ver frustradas todas as suas tentativas
de se manter afastada. Como odiava aquele homem!
Ele a ajudou a arrumar a cesta enquanto Geoffrey e Jason saíam à procura do
equipamento de pesca, e parecia disposto a não deixá-la esquecer sua presença,
mantendo-se sempre por perto enquanto empacotavam as coisas, e fitando-a durante o
percurso até a marina pelo espelho retrovisor do Mercedes alugado.
Para um estranho, eles deviam parecer uma família, Sarah pensou exasperada,
comprimindo os lábios ao virar-se e deparar com Garrett, que a fitava divertido. Ele
parecia totalmente à vontade recostado de maneira displicente na espreguiçadeira
colocada num canto do convés, as longas pernas esticadas para a frente. Muito
consciente do modo como ele a examinava, percorrendo seu corpo lentamente com os
olhos verdes e brilhantes, Sarah de alívio por estar de óculos escuros, o que o impedia de
descobrir o que seus olhos revelavam...
— Você tem um bronzeado incrível — ele comentou, quebrando o silêncio.
Ela estremeceu.
— Você não acha que já temos problemas suficientes sem isso?
— Problemas? — ele olhou ao redor, admirando as gaivotas voando sobre o barco
que cortava suavemente as águas azuis e límpidas, aprovando o riso fácil do filho que
parecia se divertir muito com o avô, na cabine de controle.
Sarah suspirou.
— Você sabe muito bem o que quero dizer, Garrett. Meu pai está sendo educado
porque quer ficar com o neto, mas não acho que o tenha perdoado pela desgraça que
trouxe as nossas vidas.
— A todos vocês? — ele repetiu baixinho, estreitando os olhos.
— O que foi que fiz a você?
Como explicar que depois da morte de Amanda ela se desdobrara para que o pai
não sentisse falta da irmã, que lutara para diminuir-lhe a dor, casando-se para dar-lhe um
neto, e que nada disso dera certo? Parecia que tudo se transformara num rodamoinho de
desilusões desde que Garrett entrara em suas vidas.
— Você destruiu minha família. Seduziu Amanda com riqueza e sucesso, e acabou
por arruinar três vidas ao mesmo tempo,
Ele lançou-lhe um olhar gelado.
— Estou aliviado por ver que não incluiu meu filho nessa conta.

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— Não tenho uma opinião formada ainda. Só quero que perceba que não preciso de
seus avanços pouco sutis para me dizer o quanto é odioso! — Ela fuzilou-o com olhos
brilhantes e zangados.
Garrett levantou-se, afastando-se tenso e silencioso em direção à cabine.
Por que ele estava fazendo aquilo? Que satisfação teria em magoar outra vez sua
família? Será que já não fizera o suficiente ao transformar a vida de sua irmã num
verdadeiro inferno e depois afastar Jason do próprio avô? Ele estava errado quando
dissera que não haveria divórcio; Amanda falara sobre isso no dia em que morrera. Sem
saber o que pensar, Sarah percebeu que tinham acabado de lançar âncora numa
pequena baía ao longo da costa.
Pouco depois os três homens dirigiram-se para onde ela estava, devorando o
almoço e preparando-se em seguida para pescar. Garrett porém permaneceu a seu lado.
— Por favor, sinta-se à vontade para se juntar a eles — Sarah sugeriu, apontando
para Geoffrey e Jason.
— Como era ele? — Garrett perguntou de repente, os braços cruzados sobre o
peito.
Ela o fitou, surpresa.
— Como era quem?
— Seu marido. Acho que você disse que ele se chamava David.
As mãos de Sarah tremeram, enquanto ela terminava de guardar as sobras do
almoço.
— É um professor, como eu.
— Trabalhavam juntos na mesma escola?
Ela negou com um gesto de cabeça.
— Nós ainda estávamos fazendo estágio quando nos conhecemos. David vive e
trabalha em Londres, agora.
Garrett semicerrou os olhos.
— Por quanto tempo permaneceram casados?
— Não muito. — Ela evitou dizer que o casamento durara apenas seis meses e que
fora um erro desde o início. — Por que esse súbito interesse pelo meu casamento,
Garrett?
— Não é súbito. Eu quis saber de tudo desde que você me contou que tinha sido
casada.
— Por quê?
— Estou curioso sobre esses dez anos de sua vida, e seu casamento me pareceu
um bom começo.
— Bem, posso lhe assegurar que meu relacionamento com David é só uma pequena
parte desse tempo.
Ela tentou encerrar o assunto, enfiando a mão no bolso traseiro do short, e dando as
costas para ele, deixando os olhos vagarem pelo imenso mar azul.
— Que parte? Realmente, Garrett...
Não estou perguntando à toa, Sarah. — Ele agarrou-lhe os braços, obrigando-a a
sentar-se a seu lado. — Mulheres que foram... casadas... não fogem do contato de um
homem do jeito como você fugiu.
Os olhos dela brilhavam de raiva.
— Isso quer dizer que eu deveria estar faminta por um homem que mostrasse
interesse por mim, mesmo que fosse você?
— Eu não disse isso...
— Não com essas palavras, mas o sentido é o mesmo.
— Sarah...
— Por que não me deixa em paz? — Lágrimas brilhavam em seus olhos. — Eu não
quero nem mesmo que você me toque, eu não quero...

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— Sarah! — ele gemeu, a boca exigente descendo sobre a dela.


Aquilo era errado! Ela odiava aquele homem, desprezava-o. Mas estava
correspondendo ao beijo como se sua vida dependesse disso.
Sarah sentia-lhe o cabelo loiro como seda ao afundar os dedos por entre as mechas
macias, perdia-se no fascínio dos lábios possessivos, na linha rígida e máscula do queixo
reto. Garrett era tão lindo, e ela o desejava tão desesperadamente... Um soluço escapou
de seus lábios quando a boca úmida abandonou a sua.
Os olhos dele estavam escuros, nublados de desejo.
— Vamos lá para baixo — sussurrou.
— Meu pai e Jason...
— Estão dormindo. — Tornou a beijá-la. — Por favor, Sarah!
— Mas...
— Sarah, eu tenho de tocá-la! — ele gemeu, abrindo a porta da cabine e puxando-a
para dentro.
Era um espaço pequeno, com uma pequena cozinha e dois beliches. Garrett a fez
sentar-se num deles e acomodou-se a seu lado.
— Estive ansioso para tocá-la outra vez desde que seu pai nos interrompeu a noite
passada. Se ele não tivesse entrado...
— Mas entrou — Sarah disse sentindo-se fraca. — E talvez devêssemos ser gratos
por isso.
— Não. — Garrett aproximou-se, sério. — Eu quero você, Sarah, e acho que
também me quer.
— Não...
— Sim — ele insistiu ao buscar a boca macia e úmida de Sarah uma vez mais.
Lágrimas escorriam por suas faces enquanto ela se perdia no calor do beijo de
Garrett, odiando-se por corresponder a ele e, contudo, incapaz de fazê-lo parar.
Essa era a razão por que odiara aquele homem, a razão por seu casamento ter
fracassado sem nem mesmo uma chance. Amava Garrett Kingham. Na verdade, nunca
deixara de amá-lo.

CAPÍTULO IV

Sarah era pouco mais do que uma criança quando viu Garrett pela primeira vez, mas
se apaixonou perdidamente e acabou transformando aquele amor em ódio ao perceber o
quanto ele fizera a irmã infeliz. E enterrara tão fundo o sentimento verdadeiro que acabara
por acreditar que estava morto. Até o beijo da noite anterior acontecer...
Quando ele a beijara e a tocara, mostrara-lhe que não era fria nem frígida, como o
ex-marido a fizera crer; que apenas precisava que o homem certo a despertasse. Garrett
era esse homem.
Durante a longa noite de insônia, ela tentara se convencer de que aquilo tudo era
loucura, de que ainda o odiava, de que jamais poderia amar alguém como ele.
Mas o amava; soube disso no momento em que arqueou o corpo de encontro ao
dele para que os lábios ousados deslizassem pela pele acetinada até encontrar o vale
entre os seios, roubando-lhe a respiração. Sentiu a boca úmida apossando-se do mamilo,
depois de ter afastado o top, e estremeceu ao ser tocada pela língua morna e ávida.

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Projeto Revisoras
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Agarrava-se a Garrett, gemendo baixinho ante a tortura daquele toque, ante o


desejo de entregar-se, de fazer amor com loucura.
Sentiu o ar frio em seu corpo quando o tecido foi totalmente afastado. Fitou-o com
olhos escuros de paixão, desejando que ele a deitasse na cama, sem se importar com o
perigo de Geoffrey ou mesmo Jason resolverem entrar a qualquer momento.
— Você é linda, Sarah — Garrett murmurou ofegante, os olhos mais parecendo dois
lagos profundos. — Tão linda e... Deus, eu quero você! — gemeu, deitando-se sobre ela,
reclamando a boca de Sarah num beijo urgente e possessivo.
Ela curvou o corpo, amoldando-se ao dele, tomada por uma necessidade primitiva
ao sentir-lhe as mãos sobre os seios nus, acariciando os mamilos, apertando-os com a
ponta dos dedos. Passou os braços em torno do pescoço masculino, trazendo-o mais
para junto de si, à medida que o beijo se tornava cada vez mais íntimo.
Estava perdida, ávida pelo amor daquele homem, ansiando pelo seu toque, pela
satisfação total.
Afastando-se um pouco, Garrett a fitou com os olhos cheios de fogo, mostrando o
desejo que sentia.
— Não aqui, Sarah — murmurou frustrado... Mas logo, meu amor, logo — prometeu,
tentando se controlar. — Agora preciso ajudar você a se vestir, senão não sei do que
serei capaz...
Oh, Deus! O que ela estava pretendendo! Se não fosse pelo controle de Garrett,
teriam feito amor ali mesmo!
Virou-se, afastando-se dele, agarrando a pequena peça de roupa, as faces pálidas
de desespero e desprezo por si mesma.
— Sarah...
— Não, não me toque — disse-lhe numa voz tensa e abafada.
— Não se odeie querida. Foi lindo. Nós...
— É a você que eu odeio! Você com seu dinheiro e seu poder, com essa presunção
de achar que pode ter tudo o que quiser e quem quiser! Recolocou o top mecanicamente,
dirigindo-se, trêmula, para a porta. — Deixe-me sair! — ordenou com voz gelada, quando
Garrett deliberadamente barrou-lhe a passagem.
A expressão no rosto claro era de dor.
— Sarah...
— Eu disse para me deixar passar, Garrett — ela repetiu entre dentes, saindo da
cabine de cabeça erguida; porém arrasada.
Desprezava a si mesma por ter-se apaixonado pelo homem que seduzira sua irmã,
deixara-a grávida, magoara seus pais, destruíra seu casamento, separara Jason dela e do
pai por anos e agora a chamava de "meu amor" e "querida", tentando seduzi-la.
Não havia explicação racional ou razoável para o amor que sentia por Garrett, que
sempre sentira, e odiava-se por não ser capaz de deixar de amá-lo.
Droga! Ele devia estar se divertindo ao concluir que ela, como tantas outras: caíra
em sua armadilha. Sarah sentia o coração cheio de dor, mas já não se importava, pois a
sensação pelo menos bloqueava o desespero que parecia querer sufocá-la.
— Hei, o que aconteceu com você? — Jason perguntou, preocupado, ao encontrá-la
apoiada na amurada, com o olhar vago.
Ela tentou disfarçar, procurando sorrir ao fitá-lo.
— Isso sempre— acontece comigo — mentiu. — Tenho enjoo quando passeio de
barco. — Evitou o olhar surpreso do pai, pois ambos sabiam que ela nunca enjoara no
mar. Mas aquela fora a melhor desculpa que encontrara. Como poderia explicar que se
sentia descontente consigo mesma, e que o homem com semblante muito sério parado a
seu lado era a causa?
— Talvez devêssemos voltar... — Geoffrey sugeriu hesitante.
— Não quero estragar a pescaria...

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Sabrina 509 - Viver uma grande paixão - Carole Mortimer

— Talvez devêssemos voltar agora — Garrett cortou ríspido. — Tenho que voltar a
Londres ainda hoje.
Lembrar que estavam de partida acabou por fazê-los taciturnos na viagem de volta,
e Sarah, mais do que todos, calou-se, evitando qualquer contato com Garrett.
Talvez fosse a última vez que veria Jason, e o pensamento acabou por deprimi-la
profundamente. Garrett não tinha coração, disse a si mesma, era o ser mais egoísta que
já encontrara, e detestava o que ele a estava fazendo sentir. Se ao menos pudesse odiá-
lo...
Ele não fez menção de sair do carro quando chegaram ao chalé, mantendo o motor
ligado.
— Não vou entrar — falou seco. — É uma longa viagem de volta. Fique, Jason —
disse ao ver o garoto sair do Mercedes.
Jason o encarou com uma ponta de rebeldia no olhar, a costumeira rixa contra o pai
vindo à tona novamente.
— Tenho de entrar e pegar minhas coisas...
— Não há necessidade. Você ficará com seu avô e Sarah por alguns dias.
— Ficarei? — o rapaz repetiu incrédulo. Garrett fez que sim com um gesto de
cabeça.
— Voltarei no fim da semana para buscá-lo. Mas queria falar com você primeiro.
— Obrigado, Garrett. — Geoffrey tocou-lhe o ombro. — Significa muito para mim.
— Sarah me convenceu. — Ele a encarou friamente. — Não vou demorar muito com
Jason — assegurou a Geoffrey.
Sarah sabia que Garrett tentara atingi-la, e o pior era que conseguira. Será que ele
realmente pensava que ela se permitira a tocá-lo daquele modo porque esperava
persuadi-lo a deixar Jason ali? Será que não percebia que o teria impedido se tivesse
forças para tanto?
— Nunca pensei que ele fosse concordar. — O pai sorriu ao entrar em casa. — Não
sei o que disse a ele, filha, mas agradeço por isso.
Ele não se sentiria tão agradecido se descobrisse o preço que Garrett acreditava
que Sarah teria pagado para convencê-lo.
— Eu não disse nada a ele, pai. Você conhece Garrett. — Seus lábios se
comprimiram. — Ninguém consegue convencê-lo do que não quer.
— É, tem razão. — Geoffrey franziu o cenho, pensativo. — O que aconteceu com
você hoje? — perguntou, preocupado. — Nunca passou mal no mar.
— Deve ter sido algo que comi, porque me sinto bem agora ela mentiu, sentindo o
estômago se contrair ao se lembrar do que acontecera na cabine.
— É estranho, porque todo mundo comeu a mesma coisa e ninguém passou mal.
Contudo, pensando melhor agora, Garrett parecia um pouco pálido depois do almoço.
— Como pode dizer isso? Ele está bronzeado!
— Você também está bastante bronzeada e ficou pálida no barco, Sarah.
Sem resposta, ela ficou pensando no quanto desejara tocar aquela pele amorenada.
Quando era mais jovem, sonhara muitas vezes em correr os dedos pelo peito largo, pelo
cabelo loiro, invejando a irmã por ter se casado com Garrett. Então, quando descobriu o
mal que ele causara, suas fantasias se transformaram em ressentimento.
No entanto o amor sobrevivera. Sarah não sabia como nem por que, mas o
sentimento nunca morrera.
— O que você acha que ele queria falar a Jason? — o pai perguntou, preocupado.
Ela sorriu.
— Provavelmente o mesmo que eu lhe disse esta manhã: que ele agiu de maneira
irresponsável, sem pensar nos outros, e que se fizer isso outra vez não sairá impune.
Geoffrey sorriu, aliviado.
— Então foi por isso que ele mal tomou café! Sarah o fitou com ar reprovador.

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— Eu deveria ter-lhe dito o mesmo, embora tenha certeza de que meu sobrinho
conseguiu convencer você a ajudá-lo nesse plano maluco.
— Obrigado pela compreensão!
— Poderia ter havido sérias consequências, pai...
— Mas não houve. — Fez um gesto para que ela silenciasse quando a porta se
fechou atrás do neto. — Agora vamos tratar de fazer com que a permanência dele aqui
seja o mais agradável possível, está bem?
— É claro. Mas não vou deixar você o mimar demais. Os olhos azuis de Geoffrey
sorriam.
— Não pensei vem por um minuto que você deixaria!
Sarah sorriu para Jason, deixando que o sobrinho percebesse que tudo estava bem.
Mas, enquanto preparava o chá, não pôde deixar de pensar que em três dias Garrett
estaria de volta e a tortura recomeçaria.
Três dias não eram suficientes para recuperar dez anos de separação, mas os três
se esforçaram ao máximo, nadando juntos, saindo para pescar no bote de Geoffrey, indo
à cidade para fazer compras. Tinham noites calmas, neto e avô descobrindo a mesma
paixão pelo xadrez. E naquelas noites que Garrett telefonava para o filho Sarah sempre
procurava se certificar de que seu pai ou Jason atendiam ao chamado, evitando a todo
custo falar com ele.
Apesar de sua determinação, Sarah sabia que havia algumas coisas que gostaria de
lhe falar. Tinha percebido um homem sempre por perto, todas as vezes que estavam na
praia, e depois do que Garrett lhe dissera sobre a possibilidade de Jason ser
sequestrado... Mas, por outro lado, sentia-se ridícula por desconfiar de um homem
apenas porque coincidira de estarem sempre no mesmo horário, na mesma praia. Com
toda certeza devia ser um turista em férias.
Naqueles poucos dias Jason tornou-se parte integrante da vida de Sarah e Geoffrey,
transformando-se num garoto aberto e falante, preocupado apenas em desfrutar a
companhia do avô e da tia.
O tempo passou depressa, e na última noite Jason hesitava em ir dormir, embora o
avô já tivesse se recolhido. Ficava perto de Sarah, observando-a remendar algumas
peças de roupa.
— Espero que você não tenha ficado aborrecida comigo no dia em que cheguei... —
Ele a encarou, sem jeito.
— Tudo que me lembro sobre aquele dia é que fiquei muito satisfeita por ver você —
assegurou ela, largando a costura.
O rapaz deu de ombros, mostrando embaraço.
— Fui um bobo ao pensar que você poderia ser minha mãe. Sarah franziu a testa.
— Por quê? É claro que seu pai lhe falou que ela estava morta...
— É claro. Mas é que você se parece tanto com ela e... Tudo que consigo me
lembrar sobre minha mãe é que ela desapareceu um dia, e então só havia papai e eu.
Pensei... por um momento que... que talvez ele tivesse dito que mamãe estava
morta só porque os dois tinham se separado e ele não queria que eu a visse.
Aquele pensamento não estava tão longe da verdade, mas fora da família de
Amanda que Garrett mantivera o filho afastado. Entretanto, depois de tudo, era bom que
ele não se lembrasse da tragédia que vitimara sua mãe ou da cena que se seguira
naquele mesmo chalé, quando o pai o levara embora.
No entanto incomodava-a saber, que o sobrinho achava que ela lembrava Amanda.
Sarah não se parecia com a irmã...
— De certo modo, lamento que isso não tenha acontecido, pois então sua mãe não
teria morrido. Mas posso lhe assegurar que ela nunca teria ficado longe de você por
tantos anos. Amava-o demais para concordar com uma situação dessas.
Jason parecia triste.

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— Você era a pessoa mais importante do mundo para ela — Sarah murmurou
suavemente.
Ele pôs-se de pé.
— Estou contente por ter vindo, por ter ficado com você e com vovô. Eu... vou sentir
falta dos dois — terminou com voz embargada, antes de subir correndo as escadas.
Eles também sentiriam muita falta do garoto, e Sarah sabia que o pai sofreria com a
partida do neto, no dia seguinte, apesar de ser grato a Garrett por ter permitido aqueles
poucos dias de convivência. Ela, contudo, não chegara a nenhuma conclusão a respeito
do que fazer sobre aquele amor sem futuro. Além disso, havia a eterna semelhança com
a irmã.
Dirigindo-se ao espelho, Sarah viu uma mulher jovem e bronzeada, com longos
cabelos negros e olhos misteriosos. Prendeu a respiração ao ver o retrato da irmã na
parede oposta à do espelho. As semelhanças eram muitas, embora apenas superficiais.
Será que Garrett as tinha notado também? Será que fora essa, a razão de ele
parecer compelido a tocá-la, a beijá-la? Ele e Amanda não pareciam ter sido felizes; na
verdade a vida do casal indicava que mal se suportavam. Ele, porém afirmara que não
haveria divórcio. Tudo indicava que não tinham sido capazes de viver juntos; talvez, a seu
modo, Garrett tivesse amado a esposa, e agora visse Sarah como uma substituta
adequada.
— Não! — ela quase gritou, tentando convencer a si mesma de que nada daquilo
era verdade.
Contudo, lembrou-se de que o primeiro beijo que trocaram acontecera depois de
uma discussão sobre ele e Amanda serem infelizes juntos... E, ao encarar-se no espelho,
a resposta veio clara e cortante como um raio. Por um breve período, Sarah se tornara
Amanda para Garrett.
Nenhum dos três sabia com exatidão o horário de chegada de Garrett. Assim
resolveram passar o dia na praia. Já era quase fim de tarde e não havia nem sinal dele.
Mas o homem que Sarah tinha visto muitas outras vezes estava sentado numa
elevação ali perto. A coincidência pareceu muito grande. Sempre que o fitava, Sarah via
que eram observados disfarçadamente. Seu pai e Jason pareciam não ter notado o tal
homem, mas, à medida que o dia passava e a praia começava a esvaziar, a inquietação
dela aumentava, pois o desconhecido permanecia exatamente no mesmo lugar.
Sem refletir, Sarah assegurou-se de que o pai e o sobrinho estavam bem e cruzou a
pequena distância que a separava do estranho. Era encarada com curiosidade e começou
a se perguntar se não tinha cometido um erro; ele não se parecia com um sequestrador.
Era pouco mais alto do que ela, magro e quase calvo, com olhos castanhos e frios.
E foram seus olhos que a fizeram guardar certa distância.
— Eu não sei o que você espera ganhar nos espionando dessa forma — desafiou-o,
ríspida. — Mas quero que saiba que sei exatamente o que está fazendo.
— O homem ergueu as sobrancelhas. — É mesmo?
Aquela voz pareceu-lhe conhecida. Mas, antes que pudesse descobrir onde a
ouvira, a areia sob seus pés começou a ceder e Sarah se viu perdendo o equilíbrio,
caindo dentro do buraco que o homem havia cavado. A reação dele foi rápida,
amparando-a desajeitadamente, fazendo com que ambos caíssem no chão.
— Realmente, Dennis! — soou uma voz divertida e tão furiosamente familiar para
ela. — Sei que pedi que desse uma olhada neles, mas eu quis dizer à distância!
Sarah se recobrou o suficiente para virar-se e fitar Garrett, as faces vermelhas ao
encontrar a expressão zombeteira no rosto bronzeado. Depois se voltou para o estranho.
— Dennis? — repetiu incrédula.
— Certo — ele respondeu colocando-se de pé.
Ela tirava a areia do corpo, mantendo os olhos baixos, incapaz de encarar os dois
homens, mortificada pelo que acontecera. Engolindo em seco, começou a desculpar-se:

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— Eu lamento. Não tinha ideia de que Garrett o mandara para cá. — Ou jamais teria
se comportado como uma tola, pensou, deixando o rancor aparecer nos olhos castanhos.
Jason está sob minha responsabilidade — Dennis explicou secamente antes de se
virar para Garrett. — Ela veio direto para mim e me desafiou, chefe. — Franziu o cenho
carrancudo... — Pensou que eu estivesse atrás de Jason.
Garrett respirou profundamente, agarrando Sarah pelo braço e mantendo-a a seu
lado.
— Obrigado, Dennis — disse sem sorrir, virando-se e puxando-a sem a menor
cerimônia.
Sarah temera aquele reencontro, mas jamais esperara que acontecesse daquela
maneira. Garrett parecia furioso, quase como se tivesse vontade de colocá-la sobre os
joelhos e dar-lhe umas palmadas. Acenou para o filho e o sogro e continuou andando
para o chalé, apesar dos protestos veementes que ela fazia.
— Garrett! — gritou, exasperada, tentando soltar-se das garras que a mantinham
cativa. — Garrett, solte-me! — ordenou furiosa.
— Não — foi a resposta lacônica e cortante.
Haviam acabado de entrar na sala quando ele se virou para Sarah, os dedos
relaxando o aperto, fitando-a sério.
— Sua pequena tola! Que mulher mais tola!
Antes que ela pudesse desabafar a indignação que sentia, seus lábios foram
tomados por uma boca selvagem, num beijo rude, e seu corpo preso de encontro ao dele
como se fossem um só. Aquele era um castigo, um beijo de punição, que a subjugava,
que a deixava louca de amor, e, embora se sentisse fraca, sabia que precisava se afastar.
Desviou-se, empurrando-o sem sucesso.
— Não sou Amanda! — explodiu por fim, desvencilhando-se dele, ao notar que
ficara muito quieto.
Os olhos verdes fitavam-na de modo penetrante.
— Foi essa a desculpa que encontrou para explicar meus beijos? — perguntou ele
com uma calma que estava longe de sentir.
— Acha que fingi que você era Amanda? .
— Bem, foi isso, não foi? — Sarah desafiou-o, os olhos brilhando.
— Não.
— Mas...
— Eu sabia exatamente quem você era todas as vezes que a beijei e a toquei. Será
que pode dizer a mesma coisa?
Ela o fitou, sem esconder a surpresa.
— O quê...
— Será que não fingiu que eu era seu ex-marido?
— Não, é claro que não! — ela negou, decidida; nunca correspondera a David do
modo como reagia a ele. — E jamais beijei você tentando convencê-lo a deixar Jason
aqui — completou, com veemência.
— Eu estava furioso com você quando disse aquilo — ele desculpou-se. — Não
estou acostumado a ver mulheres ficarem doentes apenas porque tentei fazer amor com
elas!
— É tudo porque...
— Por eu ser quem sou. Mas nós correspondemos um ao outro, Sarah, não por
causa de Amanda ou de David, mas por nós mesmos. E não pretendo lutar contra essas
emoções porque nunca as senti em toda a minha vida. Faz muito tempo que não me sinto
assim, tão bem, como quando estou com você!
Sarah engoliu em seco.
— Só que isso não faz diferença nenhuma, não é? — retrucou, sem fôlego. — Você
e Jason vão embora hoje.

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— Amanhã. — ele corrigiu; abrupto. — Fiz uma reserva para esta noite.
— Bem, então...
— Já desisti de muita coisa na vida para deixá-la, Sarah. Nós ficaremos juntos. Pode
contar com isso!
Ela não queria pensar no assunto; tudo o que desejava era que Garrett fosse
embora, para tentar sufocar o amor que sentia por ele, como fizera há dez anos.
— Não tenha tanta certeza!
Ele apertou os olhos, massageando as pálpebras como se sentisse dor.
— Não consigo pensar direito desde que a vi, naquela noite. Gostaria de poder fazê-
la entender...
— Eu entendo — ela o interrompeu sarcástica — que você fez da vida de minha
irmã um inferno!
Os olhos verdes brilharam perigosamente. — Eu também não fui feliz.
— É o que geralmente acontece quando se é forçado a encarar a responsabilidade
de ter engravidado uma garota de dezoito anos!
Garrett se retraiu como se ela o tivesse agredido fisicamente. — Acho que vou ver
como andam Jason e Geoffrey — falou com uma calma mortal.
Sarah ainda respirava com dificuldade mesmo depois de ele ter saído, tentando
conter os pequenos soluços que se tornariam um pranto convulsivo se não conseguisse
se controlar.
Por que nunca conseguira desejar David do mesmo modo apaixonado e insano
como queria Garrett? Por que tinha de amar o único homem que não podia ter?
O jantar foi uma ocasião estranha; seu pai e Jason pareciam arrasados com a
partida, perdidos em seus próprios pensamentos, sem se dar conta da tensão que existia
entre ela e Garrett.
Mas Sarah tinha consciência de tudo, e sabia que embora ele parecesse frio e
controlado como sempre, aproveitava cada pequena desculpa para tocá-la, e ambos
tremiam, incapazes de disfarçar a atração que sentiam um pelo outro. Ele a queria de
fato, não conseguia disfarçar a paixão. E ela jamais o teria.
— O que acha de uma volta na praia, Sarah? — Garrett sugeriu depois do jantar,
quando Jason e o avô estavam envolvidos em mais uma disputa de xadrez.
Ela se pôs na defensiva de imediato.
— Ahn... Não, eu acho que não. Tenho de pregar alguns botões e...
— Você parece um tanto pálida, filha — o pai a interrompeu, deixando claro que
aprovava a companhia do genro. — Um pouco de ar fresco lhe fará bem!
— Estive ao ar livre durante todo o dia, pai — rebateu ela suavemente, evitando o
olhar persuasivo de Garrett.
— Então apenas me faça companhia — ele insistiu apressado. Sarah ficou irritada.
Aquele homem a colocava numa situação sem saída.
— Vou pegar um casaco... — disse aceitando o convite por não ter outra opção e
saindo da sala rapidamente.
Andaram em silêncio por algum tempo, muito conscientes um do outro. Sarah tremia
de expectativa cada vez que ele a tocava. Sentia-se em chamas, os pensamentos girando
feito loucos, causando uma sensação estranha em seu coração.
— Geoffrey e Jason parecem se dar muito bem — Garrett comentou por fim, ao
pararem próximos à água.
Sarah sorriu.
— Muito bem. Papai vai sentir muito a falta do neto.
— Humm... — Garrett franziu o cenho. — Acho que a ideia que meu pai faz de ser
avô é a de mandar presentes caros no Natal e aniversário, e fazer um discurso sobre a
importância de ser um Kingman toda vez que encontra Jason!
— Acho que não agimos de modo melhor durante todos estes anos.

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Garrett a olhou sob a luz difusa do entardecer.


— Jason sabe que a culpa não foi sua ou de Geoffrey.
— Tenho certeza de que seu pai é um homem muito ocupado... — ela procurou
justificar a atitude do senador, tentando suavizar a censura que ele deixara transparecer
na voz.
— Oh, sim... — Garrett confirmou amargo. — Ele sempre foi muito ocupado.
— Garrett...
— Pude ver a mudança que se operou em Jason em apenas três dias — ele
continuou suavemente. — Meu filho estava se tornando um garoto petulante. Eu, com
toda certeza, nunca o vi enxugando pratos do modo como fez hoje.
— Deve ser porque vocês têm empregadas, e ele...
— Não é só isso. — Garrett balançou a cabeça. — A atitude dele é menos egoísta
agora.
— Estou contente por saber que você acha que pudemos ajudá-lo em alguma coisa.
Onde está Dennis esta noite?
— No hotel. Você foi muito tola esta manhã. E se ele estivesse de fato atrás de
Jason? Poderia ter uma arma...
— Uma arma? — ela repetiu, dando-se conta da loucura que fizera.
— Desculpe. — Garrett franziu o cenho ao ver o rosto pálido de Sarah. — Passei a
vida inteira numa sociedade em que armas são conseguidas facilmente, e esqueci que
aqui as coisas são diferentes.
— Não, não são. É só que... Eu estava pensando que alguma coisa podia acontecer
a Jason.
— Está tudo bem, Sarah. — Ele passou os braços ao seu redor com firmeza. — Não
vou deixar acontecer nada com nenhum de vocês. Nunca.
Ela não podia permitir que Garrett continuasse a falar sobre aquelas coisas e tentou
colocar uma barreira entre ambos.
— Por favor, deixe-me ir.
— Você não acha que eu deixaria, se pudesse? A última coisa que eu estava
procurando quando cheguei aqui era um envolvimento com qualquer mulher, muito menos
com você!
Tudo porque ela era a irmã de Amanda. E ele na verdade nunca amara a esposa!
— Então você não tem com que se preocupar, não é? — ela rebateu, fitando-o com
olhos brilhantes. — Porque não vai se envolver comigo!
— Eu já me envolvi.
— É preciso dois para se dançar um tango, Garrett — ela retrucou, tentando se
desvencilhar, já que ele parecia determinado a não soltá-la.
— Você está dizendo que não está envolvida?
— É claro que não estou! — Sara h estava ofegante pelo esforço que fazia ao tentar
se libertar. — Eu não gosto de você, nunca gostei...
— Mas corresponde a mim. Já é um bom começo.
— Não...
— Sim! — Garrett a contradisse, a respiração tão ofegante quanto a dela. — Ambos
sabemos que poderíamos nos deitar na areia neste exato momento e faríamos amor com
loucura!
Ela estremeceu ante a imagem erótica que as palavras de Garrett evocaram; seus
corpos nus, entrelaçados na areia dourada, satisfazendo todos os desejos, todas as
fantasias... Ser finalmente possuída por ele... Não, não podia sentir-se daquele jeito com
Garrett, não devia!
— Mas também sabemos que não vou fazer isso — ele parecia falar consigo
mesmo, e Sarah sentiu-se mortificada com o desapontamento que aquelas palavras lhe

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causaram. — Você é especial, e o que está acontecendo entre nós também é. Por isso,
quando fizermos amor, não haverá nada de ilícito ou clandestino em nossa relação!
“Quando” fizessem amor! Não se fizessem, mas quando! Sarah soltou-se de seus
braços, furiosa.
— Todas as atrizes que querem uma pequena ponta em seus filmes podem estar
ansiosas para ir para a cama com você, mas jamais me confunda com elas!
— Nunca contratei ninguém para participar de meus filmes "por serviços prestados".
— Nem mesmo Amanda? Ela não foi para a cama com você esperando que
pudesse ajudá-la na carreira e acabou grávida?
Os olhos de Garrett se transformaram em duas chamas verdes.
— É isso que você acha que aconteceu?
— Eu tinha só dezesseis anos quando minha irmã morreu, era muito jovem para que
ela chegasse a me falar de sua vida sexual com você!
— Se ela tivesse discutido esse assunto com você, talvez percebesse que não foi
bem assim que tudo aconteceu.
— Amanda não amava você...
— Não, mas me queria! — ele explodiu numa voz gelada.
— Você devia tê-la impedido! — Sarah gritou, tomada pela emoção. — Amanda
tinha apenas dezoito anos, Garrett, dezoito!
Ele suspirou enfiando as mãos nos bolsos da calça.
— Gostaria de poder explicar meu casamento com Amanda...
— Não quero saber de seu casamento com minha irmã! Já é suficiente que ele
tenha acontecido!
— Sarah...
— Não me toque outra vez! — ela avisou, cheia de ressentimento. — Apenas diga
boa noite a meu pai e Jason e vá embora! Tentarei não estar por perto amanhã, quando
vier apanhar seu filho! — girou nos calcanhares e correu de volta para o chalé.
Queria subir direto para o quarto, mas sabia que isso pareceria muito estranho.
Então deu de ombros e foi juntar-se ao pai e ao sobrinho.
O jogo estava adiantado quando ela entrou na sala e ficou olhando para os dois, tão
entretidos no tabuleiro que nem se deram conta de sua presença na sala.
Não importava o quanto fora dolorido ver Garrett novamente.
Valera a pena ter Jason ali por algum tempo. E, quando ele e o pai voltassem para
os Estados Unidos, o velho Geoffrey teria a lembrança desses dias para iluminar o resto
de sua vida. Quanto a ela, teria de se conformar com as lembranças daqueles beijos e do
que poderia ter havido se as coisas fossem diferentes.
O pai lançou-lhe um olhar.
— Você deixou Garrett lá fora?
— Estou aqui, Geoffrey. — Ele entrou na sala e cobriu rapidamente a distância que
havia até a lareira. — Que tal o jogo? perguntou tranquilo, como se ele e Sarah não
tivessem acabado de ter outra discussão.
— Vou perder meu companheiro de jogo — comentou Geoffrey triste, os olhos azuis
nublados.
— Tenho de voltar a Londres por algum tempo — Garrett explicou calmamente — e
quero que Jason vá comigo. Contudo, tenho outra coisa em mente — acrescentou
depressa, falando com Geoffrey, mas olhando para Sarah, que permanecia rígida num
canto da sala. — Por que vocês dois não vêm conosco para umas férias em Malibu?
Sarah sentiu como se todo o ar tivesse saído de seus pulmões, sabendo, pela
excitação de seu pai e de Jason,que estavam adorando a ideia e vendo, pela expressão
vitoriosa de Garrett, que ele apresentara deliberadamente a ideia na frente dos dois para
que ela não pudesse recusá-la!

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CAPÍTULO V

Uma semana depois, Sarah e o pai desciam no aeroporto de Los Angeles. Ela ainda
se perguntava como se deixara convencer a fazer aquela viagem. Não, não fora
persuasão, e sim coerção ó que Garrett fizera.
Ela ainda se opusera com dezenas de objeções, derrubadas uma a uma tanto pelo
pai quanto pelo sobrinho. Sabia que lutara numa batalha perdida, mas não quis entregar
os pontos até o último minuto.
Já que fora obrigada a ir, decidiu que tudo aconteceria a seu modo e insistiu em que
não poderia partir de imediato, pois existiam coisas as serem resolvidas antes de
deixarem o país. Garrett concordou prontamente, embora ela soubesse que o fazia por já
ter conseguido o que queria.
E lá estavam eles. Logo depois de passar pela alfândega, Sarah o veria novamente.
Tinham recebido um telefonema dele na noite anterior, confirmando o horário da chegada
e avisando-os de que iria apanhá-los. Sarah não atendeu à chamada, saindo do quarto e
refugiando-se no banheiro. Ao retomar à sala, viu o pai muito animado ao ver que tudo
estava saindo como haviam planejado.
Geoffrey praticamente a forçara a fazer aquela viagem. E, como ela não queria
estragar o humor do pai, controlou-se, engolindo o comentário sarcástico que estava na
ponta da língua.
Garrett manipulara a situação, de modo a fazê-la ir para sua casa. O objetivo, Sarah
tinha certeza, era tentar seduzi-la.
— Tudo funciona neste país, não? — Geoffrey comentou enquanto se
encaminhavam para o encontro com Garrett.
Sarah estava tensa demais para responder, desejando não ter de reencontrá-lo,
tremendo com o esforço que fazia para permanecer calma.
Ela avistou Garrett no meio da multidão quase de imediato; o cabelo loiro brilhava
com os raios do sol e o corpo atlético se movia com a graça de um felino por entre as
pessoas. Um prazer intenso a dominou ao vê-lo caminhando em sua direção.
Antes que Sarah se desse conta, ele já acenava para um carregador,
cumprimentando Geoffrey em seguida com um caloroso aperto de mão. Então parou,
determinado, à sua frente.
A apreensão toldou os olhos castanhos, enquanto ela esperou ansiosa, pelo próximo
movimento que ele faria, prendendo a respiração e soltando-a com um suspiro de alívio
ao receber um beijo inocente no rosto.
— Covarde! — ele sussurrou baixinho junto a seu ouvido antes de se afastar com
um olhar divertido.
Sarah mordeu o lábio, exasperada. Se fosse de fato uma covarde, teria arranjado
algum jeito de não ir, e deixaria que o pai fizesse a viagem sozinho. Mas isso apenas
adiaria o momento de rever Garrett. Não tinha a menor dúvida de que ele a procuraria
assim que retomasse a Londres. Era um homem que não aceitava um não como
resposta...
Quando chegaram à calçada, Sarah reparou em como o dia estava abafado e seco.
Minutos depois, o homem que levara sua bagagem estacionava uma limusine e segurava
a porta, esperando que entrassem:
— Sempre sonhei em andar num carro desses — o pai de Sarah comentou,
animado como uma criança, ao sentar-se entre a filha e o genro no espaçoso banco de
couro.

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Sabrina 509 - Viver uma grande paixão - Carole Mortimer

Sarah lançou um olhar a Garrett que demonstrava seu desprezo por aquela óbvia
demonstração de riqueza.
— O carro pertence ao estúdio — explicou Garrett. — Foi ideia de Jason que o
usássemos hoje. Eu o avisei de que vocês provavelmente o achariam ostensivo, mas ele
insistiu.
— Estou contente que o tenha feito, embora você esteja certo. — Geoffrey sorriu. —
Seria muito engraçado ter um desses estacionado em frente ao chalé.
As sobrancelhas de Sarah se ergueram quando ela comentou irônica:
— Poderíamos dizer que se tratava do quarto de hóspedes!
Garrett deu um sorriso.
— Com toda certeza, é grande o suficiente para guardar uma cama!
Ela se voltou depressa ao sentir o calor em suas faces, tomando consciência de que
a brincadeira inocente se virara contra ela. Nada mudara durante aquela semana. Garrett
ainda a queria, o calor nos olhos verdes dizendo-lhe quanto gostaria de levá-la para a
cama.
— Onde está Jason? — Geoffrey perguntou curioso. — Esperava que ele viesse
com você.
— E ele queria vir. — Mas eu o deixei em casa, fazendo as vezes de anfitrião.
Espero que não se importem, mas meu pai, meu irmão e minha cunhada também são
meus hóspedes.
"Era só o que faltava!", Sarah praguejou silenciosamente. Como se não bastasse
Garrett, ainda teria de enfrentar a família inteira! Sabia que a irmã considerava o sogro
rude a ponto de ser grosseiro, embora parecesse se dar bem com Jonathan e Shelley
Kingham. Quanto mais pensava, mais Sarah se convencia de que aquela visita estava se
transformando num pesadelo.
— É claro que não tem importância — Geoffrey assegurou tranquilo. — Nós somos
visitas aqui; você tem toda a liberdade de convidar sua família para ser sua hóspede.
Ele deu de ombros.
— Não é uma questão de convidar ou não. Eles sempre vêm para minha casa nesta
época do ano.
— Tenho certeza de que tudo correrá bem. Agora trate de me mostrar os pontos
turísticos que houver pelo caminho.
Como o pai, Sarah nunca saíra da Inglaterra e ouvia em silêncio enquanto Garrett
indicava lugares e coisas que caracterizavam aquela terra de ilusões chamada Hollywood.
Algum tempo depois, viraram à direita na ponta da praia chegando a uma adorável
construção no estilo de uma “hacienda”, pintada de branco e contrastando com o azul do
céu. Ao descer do carro, Sarah pôde entrever a piscina aos fundos, palmeiras e folhagens
além do “deck” de pedra, e um casal que parecia estar se divertindo.
A mansão era tão bonita por dentro quanto por fora, com uma decoração luxuosa e
aconchegante, uma atmosfera fresca e agradável.
— Venham, vou levá-los a seus quartos. — Garrett sorriu. Depois, poderemos tomar
um drink na piscina e aí aproveito para apresentá-los aos outros.
O quarto de Geoffrey era sóbrio e elegante, decorado em tons de bege, e o de
Sarah era uma luxuriante combinação de sensualidade e recato em tons de verde. Sua
bagagem já havia sido arrumada, e ela ansiava por um banho para se refrescar.
Entretanto, Garrett não parecia ter pressa de sair. Ele a manteve cativa com o olhar,
enquanto fechava a porta com lentidão, fazendo desaparecer com poucos passos a
distância que os separava.
Suas mãos seguravam as faces coradas de Sarah.
— Nunca pensei que pudesse sentir tanta falta de alguém como senti de você!

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A respiração de Sarah tornou-se ofegante. Se ele tivesse sido agressivo ou


prepotente, ela saberia como lidar com a situação, mas a tocara com tanta delicadeza, e
sua voz não era mais que um gemido torturado, que sentiu-se tão vulnerável quanto ele.
Durante dez anos não vira aquele homem, e aquela única semana depois do
reencontro tinha sido um verdadeiro suplício.
— Garrett...
— Não me mande embora — ele implorou, olhando-a de forma penetrante. Suspirou
de alívio ao ver a vulnerabilidade no olhar castanho. — Você sentiu minha falta também?
— Eu...
— Mentir não vai mudar a verdade que posso ler em seus olhos.
Sarah balançou a cabeça.
— O que você quer de mim? — gemeu desesperada.
— Só você. Só quero que mostre o que sente por mim.
— Acho que já o fiz — ela falou áspera, dando um passo para trás. — Eu o
desprezo pelo que fez Amanda passar!
A expressão de Garrett tornou-se sombria, e ele deixou os braços caírem ao longo
do corpo. Apesar de tudo, Sarah não pôde deixar de notar o quanto aquele homem se
revelava atraente de calça branca e camisa polo verde.
— O que fiz Amanda passar? Por acaso bati nela? Tive outra mulher? O que foi que
fiz?
Sarah engoliu em seco. Tinha certeza de que ele nunca batera numa mulher; sua
força era algo muito além da simples superioridade física, e Amanda jamais mencionara
outra mulher.
— Há outras formas de crueldade, além dessas que você mencionou.
A boca de Garrett se comprimiu numa linha fina.
— Você se refere ao fato de eu sair para trabalhar para que continuássemos a viver
no luxo que ela tanto adorava?
— Amanda nunca esteve interessada em seu dinheiro!
— Você está certa, ela nunca se interessou por dinheiro... desde que houvesse o
suficiente para gastar em roupas e festas exageradas.
— Amanda não era assim!
— Nem precisava ser — ele retrucou amargo. — Ela teve tudo o que quis, mas seu
maior desejo era o nome dos Kingham! — Para o filho que esperava! — rebateu
carinhosamente.
A fúria escureceu os olhos verdes, e Garrett inspirou profundamente, tentando
recuperar o controle.
— Você não pode me aceitar como sou agora, aceitar que a quero, esquecendo que
um dia casei com Amanda?
— Não! — Sarah gritou, cheia de desprezo.
— Você o fará. — Ele a fitou com um brilho determinado no olhar. — Eu prometo
que o fará.
Sarah se sentiu acalorada e irritada depois que ele partiu, apesar de a casa ter ar
condicionado central. Só se esquecia de quem Garrett era quando estava em seus
braços, e tinha de ficar longe deles se quisesse manter sua sanidade. Só que isso não
seria uma tarefa fácil, pois ele parecia disposto a conquistá-la.
Sem vislumbrar nenhuma solução, ela tomou um banho e escolheu um vestido leve
de algodão vermelho. Tinha acabado de se arrumar quando a porta do quarto se
escancarou, depois de breves batidas. Sua expressão severa abriu-se num sorriso
satisfeito ao ver Jason entrando, alegre.
— Sarah! — Ele rodopiou com ela nos braços, abraçando-a depois de colocá-la no
chão.

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Os dois tinham se dado muito bem na Inglaterra, mas era a primeira vez que ele
mostrava tamanha espontaneidade. Sarah o abraçou, piscando para afastar as lágrimas.
O rosto jovem parecia iluminado pelo entusiasmo.
— Essa semana se arrastou! — ele disse, fazendo uma careta.
— E então meu avô, meu tio Jonathan e minha tia Shelley chegaram. — Não
disfarçou o desagrado. — E isso acabou com meus planos de encontrá-los no aeroporto.
Eu pretendia mostrar a você o Teatro Chinês, a placa que fica nas colinas, Beverly Hills.
— Suas instruções foram seguidas à risca, Seu pai fez tudo isso. — Ela sorriu. —
Seu avô adorou.
— Mas você não — ele concluiu perspicaz. — É tudo um pouco esnobe demais, não
é?
— Só um pouquinho. Mas não seria Hollywood se não fosse assim.
— Acho que não. — Jason sorriu. — Está pronta para descer e conhecer minha
família? — Riu ao ver que ela não escondia o fato de não estar ansiosa. — Quer saber
como sempre faço quando tenho de encontrar meu avô?
Sarah notou que ele sempre se referia ao senador de modo formal, sem o carinho
que destinava a Geoffrey. Suspirou, desanimada. Se o próprio neto, que convivera com
ele a vida inteira, se sentia pouco à vontade em sua presença, que chances ela teria,
sendo a irmã da mulher que William Kingham desaprovara abertamente como esposa de
seu filho mais novo?
— Como? — perguntou, interessada.
— Sempre tento pensar que ele um dia deve ter sido um bebê e usado fraldas!
Ela se lembrava de que a irmã o havia descrito como um homem frio e rígido, que
julgava saber o que era certo e errado . — Isso é possível? — perguntou descrente.
O sorriso de Jason se alargou.
— Bem, é um pouco difícil, mas se você tentar imaginar as fraldas...
Ela lhe deu o braço...
— Isso não é um tanto desrespeitoso? Jason deu de ombros.
— Eu só estou lhe dizendo o que faço; você não precisa seguir meu conselho.
Mas, ao ser apresentada a William Kingham, um homem alto, de cabelos grisalhos,
Sarah sentiu que o ressentimento dele era quase palpável, e que os lábios finos e os
olhos frios e cortantes não perderiam a menor oportunidade de espicaçá-la. Soube então
que precisaria de toda a ajuda disponível. Imaginar aquele homem arrogante como um
bebê envolto em fraldas fez seu sorriso tornar-se mais descontraído.
Trocaram um aperto de mão formal; frio e desaprovador por parte do senador,
quente e tenso para Sarah:
Garrett estava na piscina com uma bela loira, que Sarah concluiu ser Shelley, e seu
pai sentava-se sob um enorme guarda-sol colorido com um homem alto e loiro, uma
versão mais clássica da beleza de Garrett, que só podia se Jonathan.
Forçando-se a encarar o senador novamente, ela comentou polida:
— É um prazer conhecê-lo, senador Kingham.
— Você é bastante parecida com sua irmã.
O sorriso que havia nos lábios de Sarah desvaneceu-se, e ela franziu a testa quando
Jason, em pé atrás do avô, procurava atrair sua atenção. A piscadinha marota que ele lhe
deu devolveu-lhe o sorriso, e foi preciso que desviasse o olhar para não acabar rindo. Já
controlada, voltou a fitar o senador, só que desta vez friamente.
— Acho que sou sim.
Ele continuou a encará-la de forma hostil por alguns minutos, antes de fazer uma
súbita inclinação com a cabeça e se afastar.
— Ufa! — Sarah suspirou quando o sobrinho se juntou a ela
— Se seu tio Jonathan for tão hostil quanto seu avô, acho que vou precisar de uma
trégua para aguentar outra dose.

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Jason sorriu.
— Não se preocupe. Tio Jonathan é um dos políticos da nova escola; não importa o
que aconteça, ele sempre se mantém calmo e charmoso. Mas, em todo caso, as fraldas
servem para ele também.
O riso de ambos atraiu a atenção dos homens sentados sob o guarda-sol, e ela
surpreendeu-se ao encontrar os olhos verdes de Jonathan receptivos e calorosos. Ele
sorria. Trocaram um aperto de mão gentil e Sarah se sentiu bem-vinda, afinal.
— Estava ansioso para conhecer você — ele lhe disse, com voz rouca.
"Gostaria de poder dizer o mesmo sobre sua família", pensou ela consigo mesma, e
apenas sorriu.
— Gostaria de uma limonada gelada? — Jonathan ofereceu, escolheu um copo e o
entregou a ela.
Sarah bebeu enquanto conversavam amenidades, consciente do charme que
emanava de. Jonathan. Por fim, ele pegou o copo vazio de suas mãos, recolocando-o
sobre a mesa.
— E agora, que tal um pequeno passeio pela praia? — sugeriu, animado.
Jason sentara-se ao lado de Geoffrey. William Kingham estava parado, em pé, na
varanda da casa, olhando-a de forma penetrante e desaprovadora, e Garrett parecia não
ter notado sua presença, pois ainda continuava a conversar com Shelley dentro da água.
Fora uma semana difícil, um longo dia, e um passeio ao longo da praia parecia
tentador. Garrett com certeza nem sentiria sua falta.
— Acho que seria ótimo! — Sarah aceitou o convite com um sorriso. — A menos que
eu o esteja tirando de algum compromisso... ou de alguém — acrescentou incerta, por
não saber como a esposa dele reagiria ao fato de vê-la com uma estranha.
O sorriso de Jonathan se alargou.
— Shelley e eu somos casados há vinte e um anos. Acho que já posso dizer que
também somos amigos. Mas, mesmo assim, duvido que qualquer um deles perceba que
saímos.
Ao darem a volta à piscina, Sarah escutou a risada leve e fácil de Garrett, que, ao
acenar para eles, parecia muito mais jovem. Os cabelos molhados, puxados para trás, o
corpo musculoso e bronzeado brilhando ao sol, uma ternura no olhar a fitar a loira ao seu
lado...
Tirando-a de seus devaneios, Jonathan comentou:
— Garrett nos disse que você é professora.
— Eu tento — ela concordou, rindo, enquanto caminhavam pela areia dourada,
acompanhando a linha do oceano muito azul.
— Jason acha você muito bonita.
— É mesmo? — Ela sorriu de prazer, embora a enervasse um pouco pensar que
Garrett talvez tivesse comentado qualquer coisa a respeito do que estava acontecendo
entre eles. — É bom saber. — Garrett parece muito... — ele se interrompeu, franzindo o
cenho. — Alguém já lhe disse o quanto parece...
— Com Amanda? Sim.
— Garrett comentou isso? — Ele a olhava pensativo.
— Jason. E, agora a pouco, seu pai. — Parou, observando as ondas quebrarem na
praia. — Mas Garrett também pensa assim.
Jonathan ficou parado ao lado dela, as mãos enfiadas dentro dos bolsos da calça de
corte perfeito.
— É difícil saber o que se passa pela cabeça de meu irmão, ultimamente.
Sarah enrijeceu os músculos, olhando-o séria e afastando-se um pouco ao notar a
expressão especulativa dos olhos de Jonathan. Enganara-se a respeito daquele homem;
ele não era nem um pouco diferente do pai. Apenas usava outras táticas de ataque!

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— Posso lhe assegurar que não tenho nenhuma intenção com relação a seu
irmãozinho!
Ele deu um sorriso.
— Garrett sempre decidiu as coisas por si mesmo, do modo como mais lhe
agradava, e temo que você não aceite as decisões dele.
Sarah sentiu as faces arderem.
— Meu pai e eu estamos aqui somente por causa de Jason.
— Sarah, estou apenas tentando lhe oferecer meu apoio. — Ele parecia sincero. —
Meu pai pode ser teimoso quando não aprova alguma coisa e...
— Ele não me aprova — completou tensa, irritada consigo mesma por ter acreditado
que aquele passeio iria livrá-la da pressão dos últimos dias. — Eu já lhe disse, não há
nada entre mim e seu irmão para ser desaprovado.
Jonathan suspirou e pegou-lhe as mãos.
— Por favor, não se ofenda como o que falei...
— Ofender? — Ela se desvencilhou, os olhos castanhos brilhando intensamente. —
Por que deveria me ofender só porque o irmão de meu anfitrião vem me prevenir sobre
ele apenas alguns minutos depois de minha chegada?
— Meu Deus, você é como Amanda...
— Apenas o suficiente para lhe dizer que, mesmo que eu e Garrett estivéssemos
envolvidos, isso não seria da sua conta! Agora, se me dá licença... — ela se virou e parou
de repente, ao ver Garrett a apenas alguns passos de onde estava.
Parecia um deus grego, alto, atraente e profundamente sensual na minúscula sunga
preta que mal escondia sua masculinidade.
O olhar penetrante ia do rosto corado de Sarah para o mutismo do irmão, o que o
fez comentar com voz gelada:
— Shelley gostaria que você fosse se juntar a ela agora, Jonathan.
O homem mais velho concordou.
— Irei em seguida. — Olhou para o rosto tenso e os lábios comprimidos de Sarah.
— Eu não quis ofender você — disse-lhe com suavidade, antes de se afastar em direção
à casa.
Sarah encarou Garrett desafiante, esperando que ele a criticasse pela explosão que
certamente presenciara, e arregalou os olhos, surpresa, quando nada aconteceu.
— Você parecia estar precisando de ajuda — ele comentou apressado, parando a
seu lado.
Ela suspirou aliviada.
— Tenho a ligeira impressão de que a estada em sua casa vai ser tudo, menos
relaxante.
— Se alguém disse algo que a magoou, vou...
— Seu pai está bravo porque me pareço muito com Amanda, e seu irmão parece
satisfeito com isso! — explodiu Sarah, cansada. Garret balançou a cabeça.
— Eles veem somente o que querem ver. Para mim você é apenas Sarah.
Ela não devia ficar contente, mas ficou.
— Bem, pelo menos papai parece feliz. Ele concordou, sorrindo.
— Ele e Jason já saíram à procura de um tabuleiro de xadrez! Sarah sentiu a tensão
das últimas horas abandonarem-na e começou a relaxar ao lado de Garrett, coisa que
jamais imaginou ser possível. Porém, logo em seguida pôs-se em guarda.
— Eu queria ir procurá-la em seu quarto — ele lhe disse, rouco, — mas Jason
insistiu em ir buscá-la.
— Fiquei contente por ver meu sobrinho outra vez. — Garrett suspirou, exasperado.
— Será que é tão difícil admitir que também gostou de me ver? Não consegui
pensar em mais nada nem em ninguém além de você durante a semana toda! Não pode
me dizer que pensou ao menos um pouquinho em mim?

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Pensar um pouquinho nele? Sarah não fora capaz de se concentrar em mais nada!
Há uma semana ele a deixara dizendo-lhe que um dia fariam amor sem se esconder, que
havia algo especial entre eles, e abalara todas as suas convicções anteriores, fazendo
desabrochar uma sensualidade que ela nunca sonhara possuir. Como poderia não ter
pensado nele e nas emoções que lhe despertava?
Depois que Garrett se fora, há dez anos, ela arranjara um namorado, e depois outro,
e mais outro. Então surgiu David. Planejaram se casar e ficaram noivos; só que nunca se
relacionaram intimamente, e o rapaz não entendia a recusa de Sarah em consumar o
amor que ele achava que sentiam um pelo outro.
Na noite de núpcias ela tentou convencer a si mesma que sua falta de interesse pelo
marido se devia ao fato de ele a ter pressionado demais. Mas, com o passar dos dias,
semanas e meses, descobriu que jamais poderia se entregar a David e ambos
descobriram que não conseguiriam continuar vivendo daquela maneira.
Então veio o divórcio. Porque não queria magoar David ainda mais e porque ele
desejara que fosse assim, separaram-se amigavelmente, embora nada disso tivesse sido
necessário, porque o casamento jamais fora consumado.
O marido a quisera demais, tentara despertar o desejo em Sarah, mas, quando suas
tentativas falharam, ele afastou-se, cheio de desgosto, em vez de possuí-la com
brutalidade, como muitos homens teriam feito.
Sarah era uma mulher de vinte e seis anos, fora casada e continuava virgem porque
nunca fora capaz de sentir desejo pelo marido. E contudo, se Garrett a tomasse nos
braços e a deitasse na areia dourada naquele instante, iria se entregar apaixonadamente,
como ele jurara que aconteceria.

CAPÍTULO VI

David acusara Sarah de frígida no fim do traumático casamento e, até Garrett


reaparecer em sua vida, ela acreditara na afirmação do ex-marido. Agora, sabia que
aquilo não era verdade.
— Critiquei sua arrogância e praguejei contra suas maquinações, portanto suponho
que deva ter pensado em você, Garrett.
— Sarah... — Ele balançou a cabeça, linhas de tensão ao redor de seus olhos. —
Estou sendo honesto com você. Por que não pode agir da mesma forma comigo?
Ela franziu as sobrancelhas escuras. — Pensei que tivesse sido.
Garrett suspirou pesadamente.
— E tão errado admitir que me acha atraente?
— Sim, é! — Os olhos dela brilhavam. — É desleal para com Amanda!
Garrett respirou ofegante, deixando as mãos caírem ao longo do corpo.
— Amanda morreu há muitos anos! Você era quase uma criança, e meu casamento
já estava em ruínas. Só seria desleal se ela ainda estivesse viva.
— Eu...
— Não se iluda dizendo que não nos sentiríamos assim se Amanda fosse viva.
Talvez não pudéssemos fazer nada a respeito, mas a atração ainda existiria! Sempre
houve alguma coisa entre nós, mas você era muito criança e eu não consegui reconhecer
a atração que sentíamos até reencontrá-la há dez dias.
Sarah sabia, sempre soube o que se passava com eles. Virou-se, na defensiva.
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— Deixe-me sozinha, Garrett! Apenas me deixe em paz!


— Não posso! — ele quase gritou. — Não posso prometer dar-lhe tempo para se
acostumar à ideia! — Os olhos verdes estavam cheios de dor. — Eu já fiz sexo com
outras mulheres nestes dez anos, mas tocar você me dá mais prazer do que jamais senti
com qualquer uma delas. Eu acho... que vou morrer um pouquinho quando fizer amor
com você!
— Não! — Sarah estava muito pálida, com o corpo trêmulo.
— Sim — foi o gemido rouco e desafiante de Garrett.
Ela não o contradisse dessa vez; apenas se virou e correu, respirando ofegante ao
atingir os degraus da escada que levava à piscina. Ele continuou no mesmo lugar,
observando-a silenciosamente.
Sarah não estava preparada para o choque que a esperava quando se aproximou
do guarda-sol. Shelley Kingham havia saído da água e conversava com os quatro
homens, com um sorriso feliz e sereno no rosto. E estava em uma cadeira de rodas!
Amanda nunca havia mencionado o fato de sua cunhada ser paralítica, em nenhuma
de suas cartas, e Sarah ressentiu-se por isso, desejando não parecer surpresa demais,
acabando por provocar uma situação embaraçosa.
Deu um gemido de surpresa ao sentir o calor da mão de Garrett contra a pele nua
de suas costas. Virou-se, hesitante.
A expressão do rosto bronzeado era gentil.
— Não importa quantas vezes a gente discuta, isso não vai mudar o que sinto por
você.
— Mas...
— Venha, vou apresentá-la a Shelley — ele convidou rápido.
— Depois de Jason, é o membro mais gentil da família…
Foi exatamente essa a impressão que Sarah teve da bela mulher, calorosa e
receptiva, contudo um tanto reservada. Apenas o senador mantinha-se afastado,
desaprovando sua presença.
Depois de conversar meia hora com Shelley, Sarah entendeu por que a irmã nunca
lhe mencionara a invalidez; ela era uma mulher encantadora e inteligente, com olhos
acinzentados francos e vivos, além de ter um temperamento sensível e agradável.
Jonathan também parecia mais relaxado ao lado da esposa, e,quando Sarah subiu
para descansar um pouco antes do jantar, sentia-se um pouco mais à vontade.
Estava num estado de semiconsciência, meio acordada, meio dormindo, seu corpo
nu relaxado entre os lençóis, quando notou uma figura embaçada ao lado da cama. O
cabelo loiro brilhava devido aos poucos raios de sol que penetravam pelas frestas da
cortina. Ele tocou seu rosto com delicadeza.
— Garrett... — murmurou sonolenta, sem saber se estava alarmada ou excitada por
sua presença no quarto.
— Volte a dormir... — a voz ordenou com ternura.
Sarah suspirou, desapontada, ao perceber a figura se afastando, saindo tão quieta
quanto entrou...
Uma empregada veio acordá-la com uma bandeja de chá pouco antes das seis, e a
lembrança da visita de Garrett retomou, fazendo-a refletir se não fora apenas um sonho.
Se tivesse sido apenas sua imaginação, então a forma íntima e apaixonada como
reagira a ele seria um segredo seu. Mas, se ele realmente houvesse estado ali...
Gostaria de não ter de descer para o jantar, só que estava faminta e não queria que
ele pensasse que a havia encurralado. Então se aprontou e desceu.
Infelizmente a primeira pessoa que viu ao entrar na sala foi o senador Kingham. No
mesmo instante, certificou-se de que o vestido frente-única branco e justo caía muito bem,
fazendo um lindo contraste com a pele bronzeada, o cabelo negro e a maquilagem
suave...

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— Boa noite, senador! — cumprimentou-o, educada, sentando-se numa poltrona


para esperar pela chegada dos outros.
— Srta. Harvey — ele acenou com a cabeça, empertigado; permanecendo em pé
bem à sua frente.
Sarah encarou-o friamente.
— Garrett não lhe contou que meu nome de casada é Croft? — ela divertiu-se ao ver
o homem perder a pose.
— Ele não nos contou que você tem um marido — o senador confessou a
contragosto.
— Oh, mas eu não tenho. Não mais.
— Você parece muito jovem para ter sido casada e já estar divorciada.
Ela olhou-o dentro dos olhos com firmeza.
— Nós costumamos nos casar cedo em minha família. A boca de William Kingham
tornou-se uma linha fina.
— Tenho consciência disso. E parece que vocês também têm a tendência de
descartar seus maridos tão logo a lua de mel acabe.
Sarah levantou-se, brava.
— O senhor não sabe absolutamente nada sobre meu casamento...
— Como você está linda, meu bem! — Garrett interrompeu a discussão ao entrar na
sala, e, mesmo irritada, Sarah lançou-lhe um olhar de admiração ao vê-lo num dinner
jacket branco e calça preta. Ele curvou-se para beijá-la nos lábios, os olhos penetrantes
indo de seu rosto para o do senador. — Não é mesmo, papai? — provocou com voz dura,
sentando-se e levando Sarah com ele, descansando o braço sobre os ombros femininos.
O olhar do homem mais velho era totalmente hostil, mas sua voz soou neutra:
— Beleza parece uma coisa que não falta às mulheres da família Harvey.
— Ora, mas...
— Você está adorável, bruxinha. — Garrett beijou-lhe o ombro desnudo, com um
brilho de aviso no olhar para que não se atrevesse a rejeitar a carícia.
Sarah pôde ver o quanto aquele comportamento irritava o senador, e ela mesma não
conseguiu disfarçar o arrepio de excitação pelo modo possessivo como era tocada. Sabia
que ele dissera que se recusava a amá-la em segredo, com encontros clandestinos, mas
isso...
— Com licença! — o Sr. Kingham falou, áspero. — Voltarei quando você terminar de
acariciar sua amante! — Girou nos calcanhares, deixando a sala.
Ela deu um suspiro, sentindo-se relaxar, embora estivesse mortalmente pálida.
— Desculpe — disse Garrett, angustiado, cheio de preocupação.
— O que você esperava? — gemeu ela, os olhos brilhantes das lágrimas não
derramadas. — Seu pai me despreza e à minha família, e você flerta comigo
abertamente! — estremeceu ao recordar o olhar de ódio que vira no rosto do velho.
Ele tocou seu rosto com delicadeza.
— Talvez eu não devesse ter feito nada disso, mas tinha de mostrar a ele que você
é importante para mim, e que eu espero que a trate com respeito... Algo que ele não
estava fazendo quando entrei.
— Você espera que ele me respeite? A mulher que está tendo um caso com o
marido da própria irmã!
— Ouça, já passamos por isso antes. E estou sozinho há anos. Não estamos tendo
um caso e não sou marido de ninguém.
Ela balançou a cabeça, desalentada.
— Seu pai nunca vai enxergar dessa maneira.
— E você acha que estou preocupado com o que ele pensa? Você é importante
demais para mim, você, Sarah. Sarah! — Ele gemeu, apertando-a de encontro ao peito,

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sentindo os lábios trêmulos sob os seus, sem contudo beijá-la. — Deus, eu preciso tanto
de você!
Ela também precisava daquele homem, e, abraçando-o como se sua vida
dependesse disso, deixou-se envolver pela magia daquela paixão.
Os lábios finalmente se encontraram num beijo gentil, terno movendo-se juntos
numa exploração lenta, trocando carícias, as línguas se tocando sutis, maliciosas.
— Talvez estejamos um pouquinho adiantados para o jantar...
Sarah saiu da letargia sensual que o beijo lhe provocara e aos poucos foi tomando
consciência do que a voz divertida do pai significava. Ficou rígida ao encarar Jonathan,
Shelley, Jason e Geoffrey.
O rubor queimou suas faces, e ela olhou para Garrett em busca de apoio.
— Eu... Nós...
Ele ainda mantinha o braço sobre seus ombros, e apertou-os com firmeza ao
encarar a família, desafiante.
— Alguém aceita um aperitivo antes do jantar? — perguntou de maneira casual,
deixando claro que o que acontecera não necessitava de explicação.
Sarah procurou os olhos do pai em busca de algum sinal de reprovação; contudo ele
parecia apenas surpreso.
— -Eu aceito — disse num murmúrio. — Um brandy duplo!
O momento embaraçoso foi superado graças a Shelley, que adiantou-se,
envolvendo Sarah numa discussão acerca de um livro que ambas haviam lido. Quando o
senador reapareceu a conversa fluía solta, embora ela tivesse consciência de que Jason
a encarava como se nunca a tivesse visto. Se estragasse seu relacionamento com o
sobrinho por causa disso...
Mas, e seu relacionamento com Garrett? Um momento de fraqueza e foi como se
tivessem feito uma declaração pública! Ele talvez estivesse contente com aquilo, mas ela
não estava!
O jantar se arrastou. Assim que a sobremesa terminou, Sarah alegou uma dor de
cabeça e recolheu-se junto com o pai.
— Não seja tão dura consigo mesma, filha — Geoffrey disse quando ela o encarou
apreensiva no quarto. — Não é vergonha nenhuma sentir-se atraída por aquele homem.
Afinal, ele é livre e você também. — Tirou o paletó, guardando-o no armário.
— Ele foi marido de Amanda...
— Há muito tempo. Estou contente que você tenha encontrado alguém; tenho
estado preocupado com isso desde que se separou.
Sarah nunca comentara com o pai os verdadeiros motivos de seu divórcio. Depois
de algum tempo ainda tentou sair com outros homens, mas sentia-se da mesma maneira
com todos eles. Por fim, cansada de recusar avanços, desistiu de continuar aceitando
convites, preferindo dedicar-se a seus alunos e à sua pintura. Mas jamais imaginara que a
falta de interesse em iniciar outro relacionamento tivesse preocupado o pai.
— Mas logo Garrett?
— Por que não? — Geoffrey deu de ombros, sentando-se, cansado, na ponta da
cama.
— Você sabe por quê.
— Sarah, Garrett não deixou Amanda grávida porque quis. Ela poderia tê-lo detido,
se quisesse. Sei muito bem que ele não a violentou.
Bela sabia muito bem o tipo de controle que Garrett exercia sobre suas emoções. Já
tivera provas disso.
— Eu não quero me sentir atraída por ele. O velho piscou os olhos muito azuis.
— De uma coisa eu sempre soube: quando Garrett quer alguma coisa, geralmente
consegue.
— Eu não sou um script ou um carro, pai! — Sarah protestou, indignada.

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Sabrina 509 - Viver uma grande paixão - Carole Mortimer

— Não — ele reconheceu sério. — Acho que você é muito mais importante para
Garrett do que qualquer coisa ou pessoa. E, considerando-se o modo como a família
Kingham se sente sobre isso, admiro a honestidade e a franqueza dele.
Sarah franziu as sobrancelhas.
— Você fala de um jeito... Parece gostar dele!
— Eu nunca desgostei de Garrett, e sim do que ele e Amanda fizeram um ao outro e
a Jason. Pelo menos tentaram que o casamento desse certo.
— Ele tornou Amanda tão infeliz...
— Tenho certeza de que o mesmo vale para ela. Sua irmã também sabia ser muito
egoísta e cheia de vontades...
— Papai!
— Oh, eu sei que você não tinha muita noção de tudo o que aconteceu e por isso
tomou-a como um parâmetro, mas Amanda era um poço de egoísmo e vaidade. Sua mãe
e eu sempre tememos que ela viesse para cá, mas já era maior de idade e não podíamos
fazer nada para impedir. Quando ela voltou, seis meses depois, casada e carregando o
filho de Garrett, soubemos que o pior havia acontecido.
— Ele pode não tê-la forçado, mas com certeza a seduziu.
— Não, Sarah, ele não o fez, e eu não vou deixar você acreditar nessa mentira
apenas porque não quer reconhecer que está apaixonada. Tenho certeza de que ele não
foi o primeiro amante de sua irmã. Mesmo aos dezoito anos, ela já era muito mais
sofisticada do que você é agora. — Tomou a mão da filha entre as suas. — Tem de
entender que Amanda quis casar com Garrett e ter seu filho, embora eu não saiba bem
porque, já que nunca o amou. Sarah, minha filha, escute: você não deve desistir de sua
chance à felicidade apenas por causa do que aconteceu a sua irmã.
— Garrett nunca poderia me fazer feliz.
O pai lhe deu um sorriso triste.
— Céu e inferno podem estar muito próximos às vezes, Sarah.
De volta a seu quarto, ela pensava nas palavras do pai e sentia-se cada vez mais
confusa com sua atitude. Ele parecia convencido de que Garrett era o único homem que
poderia fazê-la feliz, embora tivesse transformado a vida de sua filha mais velha num
inferno. Sem chegar a nenhuma conclusão, Sarah pôs-se a pensar em Jason. Sentia que
estava tão confuso e perdido quanto ela, e achou que lhe devia uma explicação.
Saiu, então, à procura do sobrinho, e foi informada por uma das empregadas que ele
já se havia recolhido. Voltou para o quarto e no caminho seu coração começou a bater
descompassado: encontrou Garrett no corredor.
Havia um brilho satisfeito nos olhos verdes.
— Procurando por mim? — provocou-a, a voz rouca. Ela corou fortemente.
— É claro que não.
Ele ficou tenso, o olhar sério e ameaçador.
— Por quem, então?
— Jason. Quase não falou comigo depois que nos viu juntos. Eu queria...
— Falar com ele — Garrett completou, compreendendo seus temores. — Acabei de
deixá-lo. Ele entende.
— Entende o quê?
— Que, embora nenhum de nós tenha procurado por isso, existe uma forte atração
entre nós.
Sarah suspirou, exasperada.
— Você lhe disse isso? — perguntou, entre incrédula e indignada.
Garrett semicerrou os olhos, com uma expressão desafiante. — Disse.
— Pois não tinha esse direito! Eu queria...
— Estou começando a me cansar de lutar contra você, sabe?

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— Ora, seu... O que pensa que está fazendo? — ela protestou ao ser agarrada pelo
pulso e puxada sem a menor cerimônia.
Garrett estava serio.
— Estou levando você para o meu quarto, onde poderemos...
— Não, não! — Parou, apesar da dor que sentiu no pulso pelo movimento brusco.
Garrett a encarou ao notar que se recusava a sair do lugar.
— Muito bem! Se é assim que você quer... — Abriu uma porta a seu lado e
empurrou-a para dentro, entrando em seguida.
Sarah surpreendeu-se ao notar que estavam num closet espaçoso e perfumado,
cuja luz se acendia automaticamente quando a porta se abria.
Lembrando-se de como ele entrara em seu quarto naquela tarde, refugiou-se na
própria fúria, ignorando a sensação morna que lhe invadia o corpo, quando a porta se
fechou e ambos se viram envoltos em completa escuridão.
— Espero que você não sujeite todas as mulheres que traz aqui a essa falta de
respeito!
Os lábios úmidos deslizavam pelo pescoço esguio de Sarah.
— Eu a encontrei no corredor, bruxinha...
— Eu não estou falando de agora, eu quis dizer esta tarde! — Ela se mantinha rígida
entre os braços fortes. — Não aprecio o fato de que o único modo de dormir tranquila será
trancando a porta, pois você pode resolver aparecer outra vez em meu quarto e me tocar
enquanto eu estiver adormecida!
A mordida que ele lhe deu foi forte demais para ser considerada um carinho, e Sarah
se afastou brava.
A respiração quente de Garrett tocou-lhe o rosto como uma leve carícia.
— Você não gostou?
— Foi um golpe baixo e desprezível. — Ela deu graças pela escuridão esconder o
rubor que lhe queimava as faces.
— Então não vai acontecer outra vez — ele prometeu muito sério.
Sarah se afastou, tanto quanto Garrett lhe permitiu, desconfiada.
— Você aceitou tudo muito rápido...
— Eu prometo. Agora, por favor, bruxinha me beije antes que eu fique
completamente maluco!
Sarah sentiu as pernas amolecerem ante o gemido rouco e urgente, deixando que
ele percebesse em sua reação e reflexo das próprias emoções. Enlaçou-o pelo pescoço,
soltando um gemido de capitulação.
Não sabia mais o que fazer para resistir àquele homem, e já não tinha tanta certeza
de que o conseguiria. Perdeu-se num mundo de emoções ao sentir o calor tomar conta de
seu corpo, enquanto mãos ousadas deslizavam por seu vestido, desamarrando-o e
tomando o lugar do tecido contra sua pele quente.

CAPÍTULO VII

O corpo de Sarah vibrava, cheio de excitação, enquanto a boca possessiva de


Garrett reclamava a sua e as mãos fortes acariciavam-lhe os seios nus, brincando com os
mamilos até senti-los eretos de prazer.

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Ela jogou a cabeça para trás, arqueando o corpo num pedido mudo de posse.
Agarrava-se a Garrett, enquanto ele a enlouquecia, beijando-lhe os seios, depois
mordiscando-os, e reclamando sua boca uma vez mais. Sem timidez, ela mergulhou os
dedos entre os cabelos dourados, beijando-lhe o pescoço, afastando ansiosa o tecido da
camisa para poder tocar o tórax musculoso e recoberto de uma penugem macia.
Soltou um gemido rouco e fraco quando ele puxou o vestido, deixando que caísse a
seus pés, e Sarah sentiu o calor do corpo masculino mesclar-se ao seu, com mãos
possessivas abraçando-a por inteiro.
— Sarah, não podemos fazer amor aqui... — ele sussurrou selvagemente. — Você...
— Não pare... — ela gemeu, sentindo-se no limiar de uma descoberta maravilhosa,
a excitação se tornando insuportável. — Oh, Deus, Garrett, não pare! — encostou-se a
ele, insinuante.
— Eu... Oh! Gostaria de poder vê-la...
— Você não precisa me ver — ela lhe disse ofegante. — Apenas toque-me. Sinta-
me!
Ávido, ele retirou-lhe a calcinha de renda e começou a acariciar-lhe o ventre, as
coxas, a doce umidade de seu triângulo escuro. Incapaz de resistir, deitou-a no chão, o
carpete silenciando o ruído, beijando-a apaixonadamente.
Sarah já não era capaz de controlar as pequenas explosões de prazer que
percorriam seu corpo, querendo, exigindo que Garrett a acompanhasse na conquista do
amor. Mas ele apenas continuava a acariciá-la, a boca úmida sugando-lhe os seios, as
mãos ousadas transportando-a para além das fronteiras da razão. Depois, o abraço
apertado e possessivo que acalmou-lhes o desejo, transformando aquele rodamoinho de
sensações em pura ternura.
Sarah se virou para ele na escuridão.
— Garrett, mas nós não... Nós não...
— Está tudo bem, minha Sarah. — Ele a beijou lentamente. — Eu apenas quis lhe
dar um pouco de prazer.
— Mas...
— Bruxinha, nunca conheci nada mais bonito que ter você em meus braços. — ele
assegurou, ainda acariciando-a com movimentos suaves. — Mas não quero possuí-la
aqui.
Ela corou, desapontada.
— Mas eu nem mesmo toquei em você...
— O prazer está em dar, Sarah. Ver o modo como você se entregou me fez sentir
completo pela primeira vez em minha vida.
— Mas nós não fizemos...
— Nem faremos. — Ele a ajudou a se levantar, vestindo-a como se fosse uma
deusa.
— Você é como um presente bonito e muito especial que, para meu tormento, estou
abrindo aos poucos, para prolongar, o prazer de descobrir o que virá.
— Eu não o teria feito parar...
— Sei disso. — Ele sorria ternamente ao abrir a porta. Imediatamente a luz se
acendeu, desvendando seus olhos escuros de prazer e levando-o a beijá-la mais uma
vez. — Num closet, nunca mais — brincou, passando-lhe o braço pela cintura enquanto a
acompanhava até a porta do quarto.
Sarah sabia que, como ela Garrett estava feliz demais para se importar com o lugar
onde se encontraram. Agora sentia-se uma mulher completa, como nunca, e embora não
tivessem consumado seu amor era apenas uma questão de tempo para que ele a
possuísse como ambos sonhavam.
Dormiu pesado, acordando tarde no dia seguinte e descendo ansiosa para vê-lo
novamente.

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Sentia-se maravilhosamente viva, livre dos temores, como se Garrett a tivesse


libertado com aquela demonstração mágica de amor. Reconhecia seu desejo, ansiava por
fazer amor com ele, e não tinha mais medo ou remorso de admitir seus sentimentos.
Porém, ao juntar-se a Shelley na varanda, soube que ele precisara ir ao estúdio e
não foi capaz de esconder um profundo desapontamento, corando como uma adolescente
apaixonada quando soube que lhe fora deixado um recado dizendo que estaria de volta
assim que fosse possível.
— Você o ama, não é? — Shelley perguntou, ao reconhecer o ar apaixonado do
sorriso de Sarah.
Ela inspirou profundamente e tomou um gole de café antes de responder.
— Até ele nos procurar, há onze dias, eu quase nem o conhecia. — Receava falar
de emoções tão novas.
A loira sorriu.
— Pois eu conheço Garrett há vinte e dois anos, e nunca o vi tão feliz quanto esta
manhã!
Os olhos castanhos brilharam. — É verdade?
— É sim.
Sarah franziu a testa.
— Você não vai me dizer que sou parecida com Amanda, e o quanto sou
inadequada para Garrett, como o resto da família?
— Você não tem nada de sua irmã. Soube disso cinco minutos depois que a
conheci.
— Você e Amanda não se davam muito bem? — perguntou intrigada, ao perceber a
reação da outra.
— E por que deveríamos?
— Não me lembro de minha irmã muito bem. Mas estou começando a descobrir que
havia diferentes personalidades para diferentes pessoas. — Deu de ombros. — Me
pergunto o que ela seria para você...
— Bem, não éramos amigas, se é isso que quer dizer. Aquilo explicava a reserva
que sentira em Shelley no dia anterior, e que perdurara até a outra perceber que ela nada
tinha a ver com Amanda!
— Parece que ninguém da família de Garrett gostava de minha irmã — comentou
Sarah achando tudo muito estranho.
— Eu não deixaria que isso a incomodasse; certamente não incomodou Amanda.
Sarah soltou um suspiro.
— Por que todo mundo parece censurá-la por ter se casado com Garrett?
— Ninguém a censura por ter-se casado com ele. É só que ela deixou cair a
máscara depois que estavam casados.
As peças daquele quebra-cabeça ainda estavam muito embaralhadas na mente de
Sarah, que achou melhor mudar de assunto, pois não se sentia preparada para o que
podia descobrir.
Ainda conversavam quando a hora do almoço chegou. Garrett continuava ausente,
mas os outros apareceram pouco antes de a refeição ser servida. Geoffrey parecia mais
relaxado e descansado, Jonathan mantinha o charme usual e até mesmo o velho
Kingham não a importunou, permitindo que apreciasse as iguarias...
Mas era para Jason que Sarah olhava o tempo todo, ainda incerta quanto a sua
reação. Ele parecia mais à vontade, embora ela pudesse sentir que ainda havia alguma
reserva no olhar do sobrinho.
— Posso ir com você? — perguntou a ele, depois do almoço, ao ouvi-lo anunciar
que iria surfar. Jason a fitou, um tanto surpreso.
— Se quiser... — Deu de ombros.

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— Eu gostaria, sim — reafirmou ela, ansiosa, apressando-se para pegar suas


coisas.
Ficou um pouco desapontada por não ficar sozinha com o garoto, como queria, já
que Jonathan decidiu se juntar a eles depois que Shelley e Geoffrey anunciaram que
preferiam dormir um pouco.
Logo depois, Jason se afastava em direção ao mar, deixando-a sozinha com o tio.
Sarah sentia-se satisfeita por estar ali, e acenou para Dennis, em pé ali perto.
Jonathan olhou para o segurança...
— Esqueci que ele estava lá.
— Acho que a ideia é essa — comentou, embora ainda achasse a presença de um
guarda-costas um tanto desconcertante. — Não é à toa que Jason achou as ondas na
Inglaterra tão sem graça! — Sorriu, ao ver o sobrinho manobrar sua prancha com
habilidade sobre a crista de ondas altas e fortes.
Jonathan riu, sentando-se na areia.
— Às vezes tenho a impressão de que ele já nasceu pegando onda!
— Você surfa?
Ele balançou a cabeça, negando.
— Não há muitos convites para isso em Washington.
— Eu quis dizer quando era mais moço. — Ela riu, divertida.
Jonathan fez uma careta.
— Será que já fui jovem? — Riu também, deitando-se na areia, com as mãos
cruzadas sob a cabeça, os óculos escuros protegendo os olhos Claros do sol forte. —
Garrett sempre pensou que era o filho rebelde, aquele que procurava por sua própria
identidade. Nunca parou para considerar o quanto me foi difícil ter a identidade, a vida
praticamente decididas por outra pessoa!
Não havia amargura em seu tom, e ela não pôde ver-lhe a expressão do olhar, mas
sentiu ressentimento naquelas palavras. — Sou o filho mais velho. Claro que tinha de
seguir a carreira política, como meu pai.
Sarah o observava atentamente, muito quieta.
— Não era o que você queria?
Ele sentou-se, retirando a areia dos braços.
— Por incrível que pareça, era sim. — Deu de ombros: — É o que eu faço melhor.
— Então por que o ressentimento?
— Foi assim que soou? — Ele franziu a testa. — Não quis dizer isso. — Sorriu. —
Mas é que há momentos como esse; quando observo Jason aproveitando sua juventude,
em que percebo que perdi algumas coisas em meu caminho, que segui uma vida cheia de
códigos muito rígidos.
— E Garrett?
— Quando tinha dezessete anos, o senador já o estava chamando de ovelha-negra
da família! É claro que isso só o tornava mais determinado a chocar nosso pai puritano.
Durante anos os jornais estiveram cheios das escapadas do filho mais novo do senador
Kingham! — Riu com vontade.
Sarah sorriu ao imaginar Garrett um pouco mais velho que o próprio filho,
provocando deliberadamente o pai.
— Aposto como ele gostava disso. Jonathan deu de ombros.
— Gostaria de ter tido sua ousadia. Em vez disso, fui um estudante exemplar, fiz o
casamento perfeito do ponto de vista social e me tornei um dos senadores mais jovens do
país.
— Você se arrepende disso?
— Às vezes. Algumas ocasiões as regras podem ser bem estreitas para se
conseguir viver bem dentro delas e ser feliz... A única coisa de que nunca me arrependi é
Shelley; eu a amei desde o primeiro momento em que a vi.

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Ela acreditava nessas palavras, pois já tinha presenciado o amor que havia entre o
casal.
— E você? — Jonathan olhou-a de lado. — Meu pai me disse que já foi casada.
— Aposto que adorou comentar meu fracasso.
Jonathan sorriu.
— Depois que o conhecer melhor vai perceber que ele age assim por causa de seu
amor pela família.
— Não acho que ficarei por perto tempo suficiente para descobrir coisa alguma.
Ele ficou sério.
— Mas eu pensei que você e Garrett... Vocês pareciam... Talvez eu estivesse errado
— desculpou-se, sem jeito.
Jonathan tinha pensado que havia algo sério entre ela e o irmão, que pareciam
apaixonados; Sarah entendeu perfeitamente bem a mensagem muda.
Garrett estaria apaixonado por ela? Ele nunca dissera nada, embora fosse
possessivo em relação a Sarah; mas ela também nunca lhe falara sobre seus
sentimentos. E, mesmo que estivessem apaixonados, não era ingênua a ponto de sonhar
com casamento.
— É, acho que você estava errado — ela disse, gentil. Jonathan correu um dedo
com delicadeza pelo rosto bronzeado de Sarah.
— Meu irmão será um tolo se deixar você se afastar. Ela sorriu, enrubescendo um
pouco ante o elogio.
— Acho que todos somos tolos às vezes, não?
— Tem razão — ele concordou, a expressão subitamente fechada.
Sarah procurou Jason com o olhar, encontrando-o sobre as ondas uma vez mais.
Ainda não tinha tido chance de conversar com ele, mas o sobrinho parecia amigável, e
talvez tivesse mesmo entendido sobre ela e o pai.
Quando voltaram para casa, Jason a desafiou para uma corrida na piscina, e,
enquanto os outros os observavam, disputaram volta a volta até que Sarah desistiu
sorrindo, admitindo a derrota. Saiu da água e viu de relance o sobrinho dar a volta da
vitória na piscina olímpica.
A primeira pessoa que avistou ao sair da água foi Garrett.
Afastando-se dos outros, ele tomou suas mãos e baixou o rosto para roubar-lhe um
beijo.
— Você tem o corpo mais bonito que eu já vi na vida — murmurou suavemente,
beijando-a de novo.
— Então é só o meu corpo que você quer? — Sarah provocou-o em tom de
brincadeira, depois de se separarem.
— É? — ele sussurrou sensual.
Ela se entregara completamente na noite anterior, mas Garrett não a possuíra,
apesar de desejá-la com loucura. Encarou-o com o olhar cândido.
— Talvez seja somente o seu corpo que eu queira. A expressão terna dos olhos
verdes não mudou.
— É? — perguntou outra vez.
Ela sabia que não, mas no momento seu desejo e o amor que sentia por Garrett
eram uma coisa só.
— Ouça, nós temos que falar sobre meu casamento com David...
— Porque ele nunca lhe deu o prazer que lhe proporcionei?
Sarah encarou-o, encontrando compreensão em seu rosto.
— Como sabe?
— Porque você tem um pouco de medo pelo que posso fazê-la sentir. E esse medo
se deve à inexperiência. Não se preocupe, bruxinha. — Ele desfez as rugas de tensão em

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sua fronte com uma carícia. — Você não é a primeira mulher casada que não atingiu o
clímax ao fazer amor.
— Não é apenas isso...
— Bruxinha, esta conversa e nossa proximidade estão fazendo maravilhas com meu
corpo!
Sarah podia sentir-lhe o desejo latente.
— Talvez você esteja precisando se refrescar... — disse ela, com uma expressão
marota.
— O quê... Não, Sarah! — ele tentou recuar, ao notar o brilho dos olhos castanhos.
— Sarah, nãããão... — gritou antes de cair na piscina, espalhando água para todos os
lados.
Explodindo numa risada gostosa, ela o observou voltar à superfície, jurando
vingança, a camisa e a calça grudadas em seu corpo como uma segunda pele.
— Precisa de uma ajuda, pai? — Jason perguntou, antes de chegar por trás de
Sarah e jogá-la na água também.
Ela ainda teve tempo de ouvir Garrett murmurar um "muito obrigado, filho", antes de
desaparecer no fundo da piscina, abrindo os olhos ao ser agarrada pelos ombros e sentir
lábios ansiosos tomando os seus.
Ainda estavam se beijando ao voltar á tona, embora se separassem respirando
ofegantes em busca de ar.
— Gostou da água? — perguntou ela, zombeteira.
O cabelo loiro estava grudado na cabeça, a penugem do peito visível através da
transparência da camisa.
— Um chuveiro frio teria sido menos dramático. — E ajudou-a a sair, levando-a a
engolir em seco quando viu seu peito nu. Mas esse banho teve o mesmo efeito, posso lhe
garantir. Senti sua falta hoje.
— Senti sua falta também — ela admitiu depressa, ao saírem da piscina lado a lado.
— Eu...
— Quando vocês dois acabarem de se exibir na frente dos criados...
Os olhos de Garrett adquiriram uma expressão gelada ao se desviarem de Sarah,
fixando-se no senador, que parecia furioso.
— Eu não tenho criados pai, apenas pessoas que trabalham para mim — explodiu
Garrett. — E se Sarah e eu resolvermos tirar nossas roupas aqui e fazer amor, não creio
que isso seja de sua conta.
— Esqueceu-se de que seu filho está vendo tudo?
Mãos firmes mantinham Sarah ao lado de Garrett, embora o olhar dele
permanecesse fixo no pai.
— Ele, pelo menos, tem o bom-senso de não tentar me impedir! O sarcasmo em sua
voz pareceu ter sido a gota d'água para o velho Kingham.
— Você pretende colocar essa mulher acima de sua família?
Garrett semicerrou os olhos.
— Terei que chegar a esse ponto?
— Eu não ficarei aqui presenciando seu comportamento desavergonhado com essa
mulher! — O pai disse-lhe, desgostoso.
Ele concordou sério.
— Nesse caso, creio que o senhor sabe onde é a saída!
William Kingham ficou branco como cera.
— É sua palavra final?
— Asseguro-lhe que não tenho a menor intenção de ficar longe de Sarah.
— Muito bem! — o senador falou entre dentes. — Quando você recobrar a razão eu
estarei em Washington... Esperando por suas desculpas.

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— É melhor esperar sentado, pai. — Garrett murmurou, rude, enquanto o pai se


afastava pisando duro.
— Garrett...
Ele olhou para Sarah com luminosos olhos verdes.
— Quer vir comigo até meu quarto para me ajudar a vestir roupas secas?
Ela sabia que Garrett estava querendo muito mais do que aquilo, que a cena com o
pai o havia perturbado mais do que gostaria de admitir e que precisava dela naquele
momento.
— Garrett, não posso ir. Não sou Amanda...
Ele deu um sorriso sem alegria.
— Sei exatamente quem é. Você sabe quem sou? Deixe-me dizer — acrescentou
antes que ela tivesse chance de falar qualquer coisa. — Eu sou o homem que vai fazer
amor com você bem devagar. Até fazê-la esquecer tudo.
A respiração de Sarah ficou difícil.
— É isso que eu quero Garrett, é o que mais quero!
— Então vamos. — Aproximando-se dos outros com Sarah a seu lado, ele olhou-os
com ar desafiante, a água escorrendo pelos corpos perfeitos. — Sarah e eu vamos nos
secar.
— Não nos incomodamos de atrasar o jantar por causa de vocês — Jonathan
respondeu, seco.
— Vocês podem voltar para Washington com meu pai, se quiserem — retrucou
Garrett, ríspido.
— Acho que não queremos, não é? — o jovem senador olhou interrogativamente
para a esposa, os olhos brilhando de humor.
Shelley sorriu, com uma expressão divertida no rosto.
— Estou aproveitando bastante e não quero ir embora — disse ao marido com
suavidade.
— Nós ficamos Garrett — Jonathan falou.
Ele concordou em silêncio, caminhando em direção a casa.
— Você se importa? — perguntou a Sarah de repente.
— Com o quê?
Ele deu um suspiro impaciente.
— Que todos saibam que vamos fazer amor.
— Você acha que eles se importam? — perguntou Sarah bem-humorada, tentando
livrá-lo da tensão.
— Acho que estão adorando esta situação! — Garrett fez uma careta.
Ela correu os dedos pelo peito largo e úmido.
— Então por que deveríamos nos importar?
Sentiu que Garrett começou a relaxar e teve a confirmação quando ele lhe deu um
sorriso espontâneo.
— É, por que deveríamos? — abriu a porta do quarto dela, fechando-a em seguida.
— Que tal começarmos agora? — murmurou rouco, os lábios se apossando dos dela.
Sarah o beijou com sofreguidão, sentindo-se apertada no abraço forte.
Garrett a afastou ao senti-la estremecer involuntariamente de frio quando suas
roupas molhadas tocaram-lhe o corpo.
— Um banho quente primeiro, e já. — Ele a observava enquanto desabotoava o
cinto da calça. — Não quero que você morra de frio!
Ela continuou parada, sem fazer nenhum movimento para tirar o biquíni. Uma coisa
era a nudez da noite anterior, e outra, bem diferente, ficar despida na frente dele como se
já tivessem intimidade!
— Frio? Com você por perto? Acho impossível!
— Concordo. — Ele a tocou nos braços, sorrindo. — Você está gelada.

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Sarah desviou o olhar, hesitante.


— Posso... usar o banheiro primeiro?
Garrett franziu a testa, com uma pergunta no olhar.
— Sarah, você está se sentindo tímida comigo?
Ela piscou brava, só se acalmando ao ver a expressão gentil no rosto bronzeado.
— Estou.
— Se preferir, não...
— Oh, não é nada disso. — Corou, depois do protesto veemente. — É só... que eu
gostaria de tomar um banho primeiro.
Ele a fitou com intensidade.
— Você nunca tomou banho com seu marido?
— Não — ela respondeu, desejando ter esquecido a timidez e se despido; pelo
menos seria melhor do que ter de responder a tantas perguntas.
Garrett sorriu.
— Então, por favor, use o banheiro primeiro — brincou, fazendo uma mesura — Vou
até meu quarto e pegarei roupas secas enquanto espero.
Sarah ficara aliviada quando Garrett a levara até aquele quarto, sabendo que não
conseguiria fazer amor na mesma cama que ele dividira com Amanda durante o
casamento. Mas estava curiosa pelo súbito interesse que ele demonstrara com relação ao
seu relacionamento com o ex-marido.
— Garrett... — ela o fez parar na porta. — Por que quis saber sobre David logo
agora?
— Porque não vou permitir que você não compartilhe tudo comigo, como fez com
ele.
Sarah concordou com um gesto de cabeça, antes de entrar no banheiro. Pensava no
pouco que dividira com David. Tinham em comum a carreira, sentiam uma amizade
profunda um pelo outro, mas nunca tiveram nada que se parecesse como que ela vivia ao
lado de Garrett.
Deixando o jato de água quente acariciar seu corpo nu, Sarah pensava em como
dizer a ele que seu casamento nunca passara do papel. Sabendo que não podia mais
adiar a hora da verdade, foi para o quarto usando apenas um roupão.
Encontrou Garrett esperando, vestido da mesma maneira. Ele se aproximou,
beijando-a com muita paixão. Sarah viu-o afastar-se então, uma expressão confusa no
olhar, ao não encontrar a mesma resposta sôfrega e cheia de desejo da noite anterior.
— Ele machucou você?
— Quem?
— David.
Ela evitou-lhe o olhar.
— Não. Eu... Você... não deveria tomar um banho antes que pegue uma
pneumonia?
— Já tomei, em meu banheiro — ele respondeu, ainda observando-a atentamente.
— Sarah, o que há? Sinto que está com medo!
Ela umedeceu os lábios secos.
— Eu...
— Não vou fazer nada que você não queira — assegurou-lhe, rouco. — Nunca faria
nada que a machucasse.
Sarah fechou os olhos, engolindo em seco.
— Você vai me machucar.
— Não — ele protestou, balançando a cabeça. — Que tipo de homem foi seu marido
que lhe incutiu esse medo de fazer amor?
Ela manteve os olhos fechados.

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— Ele era um homem bom, doce, gentil. — Umedeceu os lábios outra vez. — Só
não era a pessoa certa para mim.
— Nós todos cometemos erros, bruxinha — Garrett consolou-a, gentil. — Ninguém é
infalível.
— Não! — Os olhos castanhos estavam arregalados, fixos nele, enquanto a verdade
explodia nos lábios trêmulos. — David era atraente, charmoso, tudo que eu poderia
desejar num marido... Mas quando me tocava na cama eu não conseguia sentir nada!
Garrett prendeu a respiração ao perceber o que aquilo significava.
— Agora a pouco, quando disse que eu iria machucá-la, não quis se referira... a...
— Eu sou virgem, Garrett.
Ele franziu a testa, tonto ao descobrir a verdade.
— Seu casamento foi anulado?
— Não... mas deveria ter sido. Só que eu não podia fazer David passar por mais
essa humilhação.
Garrett respirava pesadamente.
— Eu... Você... Eu...
— Não estou surpresa por você estar sem fala. Acredite-me, não me sinto muito
orgulhosa de meu comportamento. Acho que arruinei a vida dele.
— Onde David está agora? Trabalhando em Londres. Casou outra vez?
— Sim, mas... — franziu a testa, intrigada com tantas perguntas.
— Filhos?
Deu um suspiro impaciente.
— Um bebê de colo.
— Então você não arruinou a vida dele coisa nenhuma.
— Mas eu era frígida e acabei com nosso casamento!
— Ambos sabemos que isso não é verdade, bruxinha. Olhou-a nos olhos, fazendo-a
recordar-se dos momentos de paixão que compartilharam. — Admito que você tenha
tornado as coisas um pouco turbulentas para David durante algum tempo, mas parece
que ele foi sensível o suficiente para superar tudo isso e refazer a própria vida. Se eu não
soubesse que isso iria magoá-lo, gostaria de agradecer-lhe!
— Pelo quê? — Sarah perguntou confusa, sem entender o brilho de prazer nos
olhos verdes.
Por deixar que minha noiva viesse a mim intocada.
Sarah pensou que fosse desmaiar. Ele não podia estar dizendo aquilo...
— Quer se casar comigo? — Garret perguntou ansioso — Quer ser minha mulher,
bruxinha?

CAPÍTULO VIII

Sarah fitava Garrett, sem conseguir acreditar no que ouvira.


— Quer se casar comigo só porque descobriu que sou virgem?
— Não. Sei que a sociedade de hoje anda meio promíscua, mas tenho certeza de
que não é a única virgem no mundo.
— Então...
— Quis me casar com você no momento em que a vi, há quase duas semanas. Eu
já lhe disse como você estava sexy naquela noite, de negligé e camisola de seda?
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Sabrina 509 - Viver uma grande paixão - Carole Mortimer

— Garrett!...
— Tudo bem. — Ele ergueu as mãos num gesto de rendição. — Mas você parecia...
— Garrett, por favor! Você acabou de me pedir em casamento e eu gostaria de
saber por quê!
— Pela mesma razão por que todas as pessoas se casam...
— E qual é essa razão? — ela insistiu, sentindo um pavor tomar conta de seu peito.
— Porque as pessoas se amam — Garrett respondeu, a expressão se suavizando
ao ver a confusão nos olhos castanhos. — Eu te amo, bruxinha. Desde o momento em
que te vi outra vez.
— Porque eu me pareço com Amanda...
— Você não tem nada a ver com Amanda! Você é Sarah! A bruxinha de olhos
castanhos sorridentes e corpo perfeito.
Ela franziu a testa, cheia de medo.
— Não acho que consiga acreditar nisso. Os olhos de Garrett se escureceram de
dor.
— Não posso fazer meu casamento com Amanda "desaparecer".
— Nem quero isso. Se fosse assim, Jason não existiria.
Ele estava tenso, os lábios comprimidos.
— E você o ama.
— É claro.
— E não me ama.
— Eu não disse isso... — Sarah gemeu, suspirando pesadamente. — Garrett, eu
não posso simplesmente esquecer que você foi casado com minha irmã. Que dormiu com
ela. Que teve um filho com ela. Você pode?
— Estou tentando. Oh, Deus, Sarah, você sabe muito bem que meu casamento
estava longe de ser considerado um sucesso!
Um forte rubor coloriu as faces de Sarah.
— O que o faz pensar que seria diferente conosco? Eu venho do mesmo lugar,
tenho os mesmos...
— Eu não amei Amanda! — ele explodiu ríspido, os punhos fechados.
Ela engoliu em seco.
— Nunca?
— Não.
Sarah sabia que a maioria dos relacionamentos sobrevivia apenas com a parte
física, sem o envolvimento amoroso, mas Amanda e Garrett acharam necessário se casar
quando a gravidez aconteceu. Claro que deviam ter se amado! Mesmo ela e David,
depois de tudo, ainda tentaram salvar o relacionamento, recuperar o casamento. Por que
com eles teria sido diferente?
— Preciso de tempo para pensar, Garret!.
— Por quê?
— Já tive um casamento fracassado...
— E você acha que eu não tive? — Ele a olhava duro. — Pensei que com você
poderia ser diferente. Diabos, Sarah, eu só pedi uma mulher em casamento durante toda
a minha vida; não estou lhe pedindo para ir a uma festa. Sei bem o que estou fazendo!
— Não me sinto segura...
— Bem, talvez você queira me comunicar quando se sentir!
Sarah estremeceu ao ouvir a porta bater com um estrondo depois que ele saiu.
Garrett era um homem orgulhoso, que não mostrava facilmente as emoções, e ela o
magoara, ferira seu orgulho.
Mas o que poderia fazer? Conformara-se em ter um romance com ele, mesmo
amando-o como o amava, e nunca se atrevera a pensar em algo mais duradouro, muito
menos em casamento! O que faria agora? Não podia permitir que a consciência a

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perseguisse a vida inteira por ter se casado com o marido da: irmã! Só que não conseguia
imaginar o mundo sem ele. Perdida em sua angústia, assustou-se quando viu o pai entrar
no quarto, sem nem mesmo bater.
— O que aconteceu? — perguntou, sem cerimônia. Sarah sentia o rosto pegando
fogo.
— Você viu Garrett?
— Se o vi? Saiu de carro na disparada, cantando pneus.
— Garrett saiu?
— -O que você acha? Sarah, o que aconteceu? Num momento vocês dois estão
agindo como... como...
— Amantes.
— Exato. Ele chegou a pedir ao pai que partisse por sua causa, e no minuto
seguinte sai como um louco perseguido por demônios!
E talvez estivesse mesmo sendo perseguido por demônios, Sarah pensou,
angustiada. Talvez pensasse que poderia ser feliz com ela e esquecer Amanda, mas
duvidava que isso fosse possível. Bastaria olhar para Jason, e Amanda sempre estaria
entre eles.
— Não daria certo, pai — foi tudo que disse, enfiando as mãos nos bolsos do robe.
Geoffrey parecia confuso.
— O que não daria certo? — Relanceou um olhar pelo quarto, notando a cama
arrumada, prova de que nem mesmo haviam feito amor. — Filha, o homem se importa
com você...
— Não quero falar sobre isso agora...
— Parece que alguém tem de fazê-la falar. — Ele suspirou, impaciente. — Alguém
tem de falar alguma coisa!
Sarah franziu as sobrancelhas, intrigada com a veemência do pai.
— O que quer dizer?
Ele suspirou novamente, balançando a cabeça.
— Não tenho certeza, mas há algo...
— Sim?
Geoffrey balançou a cabeça outra vez.
— Talvez eu devesse falar com Garrett primeiro. Não tenho muita certeza, e até que
esteja seguro...
— Do que está falando, pai?
O pai a olhou como se de repente se desse conta de que ela estava ali.
— Não é nada que eu queira mencionar até ler certeza, mas se eu estiver certo...
— Então?
Ele fez um gesto vago com as mãos.
— Você ainda não me disse por que Garrett partiu tão de repente.
Sarah suspirou.
— Acho que eu disse que não queria falar sobre isso.
A expressão no rosto do pai suavizou-se:
— Meu bem, sei que seu casamento com David foi um desastre...
— Você não sabe nem a metade, pai.
— Sei que ele costumava andar pelo quarto a maioria das noites, quando vocês dois
achavam que eu já estava dormindo, e que você costumava ficar na cama chorando!
Ela enrubesceu.
— Nós éramos incompatíveis, pai. Completamente!
— E Garrett saiu porque você disse isso a ele?
— Não. Não acho que você entenda tudo o que aconteceu entre mim e David, e...
— Eu entendo perfeitamente. E, ao contrário do que todo mundo diz, fazer amor não
vem naturalmente para qualquer casal, no começo da relação. Tem de ser praticado,

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construído passo a passo, e muitas vezes não chega a ser perfeito. Sua mãe e eu nunca
a criamos com qualquer inibição quanto a seu corpo, mas a sociedade sempre tem um
jeito de impor sanções a cada um de nós. Se você não gosta de fazer sexo com a
primeira pessoa que encontra e se alguém a acha fria, então você se sente assim
também. Não importa se isso aconteceu apenas porque aquela pessoa com quem você
tentou fazer amor não era o homem certo!
— Você faz soar como se o que aconteceu entre mim e David fosse tão... tão
normal! — Passou os braços em volta dele.
— E é! — assegurou ele com calma. — Sua mãe e eu praticamos bastante antes de
fazer tudo certinho!
Sarah deu-lhe um sorriso por entre as lágrimas.
— Garrett me pediu em casamento.
— E você recusou?
— Não exatamente.
— Mas o suficiente para soar como um não para ele — o pai concluiu, perspicaz. —
Por causa do que acabou de me contar?
— Deus, não! A última coisa que sinto quando estou com Garrett é indiferença!
— Eu percebi — ele concordou, seco. — Em todos os sentidos. Aquele empurrão na
piscina foi uma boa mostra!
— Eu bem que gostei.
— Certo. Agora quero que se anime. — Garrett logo estará de volta e vai querer
falar com você, sem dúvida.
Ela suspirou, angustiada.
— Nada vai mudar!
— Você quer dizer quer não irá aceitá-lo?
— Não posso me casar com o marido de minha irmã!
— Amanda era minha filha e eu a amava, mas mesmo depois de morta continua
arruinando a vida das pessoas!
— Pai!
— Filhota, se o que estou pensando for verdade... Ela pode ter sido infeliz, mas isso
não justifica... Não vou dizer mais nada até que tenha falado com Garrett.
O pai de Sarah teve de esperar bastante; Garrett não voltou para o jantar nem
dormiu em casa naquela noite.
Sarah preocupava-se com ele; queria saber onde estava, no que estaria pensando.
Preocupava-se em saber como a família dele a julgaria, já que era a responsável por seu
súbito desaparecimento.
Permaneceu acordada até quase amanhecer, esperando ouvir o barulho do carro
chegando e acabou por cair num sono leve que a deixou com dor de cabeça quando
acordou.
Ao descer, a empregada informou-lhe que os homens haviam saído para jogar golfe
e que Shelley estava no pátio lendo um livro.
— Você não deveria se preocupar com Garrett. — Shelley deixou de lado a leitura
para concentrar-se no rosto pálido de Sarah, que tomava uma xícara de café preto. — Ele
já é bem grandinho, e se escolheu comportar-se como uma criança mimada...
— Eu o magoei.
— Tenho certeza de que ele deve ter tido uma boa razão para sair do modo como
saiu. Mas sempre foi muito esquentado. Apesar de gostar dele, estou contente por ter
percebido antes que fosse tarde demais que Jonathan combina muito melhor comigo.
— O que quer dizer? Shelley deu um sorriso.
— Conheci Garrett antes de conhecer Jonathan. Pensávamos estar apaixonados,
mas éramos ambos muito jovens e... Bem, quando encontrei Jonathan percebi onde
estava o verdadeiro amor.

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— Garrett deve ter ficado muito triste ao perdê-la para o irmão. — comentou Sarah,
desanimada; não tinha a menor ideia de que ele havia amado aquela mulher.
Agora entendia a grande ligação que existia entre ambos.
— Foi a primeira vez que reparei bem no gênio de Garrett. Depois disso tive
oportunidade de presenciar muitas de suas explosões, mas a primeira foi definitivamente
a pior!
— Vocês deviam ser muito jovens, não?
— Tínhamos dezenove anos. E Jonathan vinte e quatro. Saí com Garrett vários
meses, com Jonathan foi amor à primeira vista.
— Garrett ainda se importa muito com você...
— Hei! Eu só lhe contei isso para tentar animá-la! Não comece a imaginar amor
onde ele não existe. Sabe, gosto demais de Garrett, mas é outro tipo de amor. Só lhe
contei o caso para que entendesse que, quando as emoções estão envolvidas, ele é
ainda menos tolerante do que o usual. Mas logo se acalma, vai ver.
— Você o faz parecer um tirano!
— Ele é. Está acostumado a controlar todas as pessoas no estúdio, fazendo-os agir
segundo seus desejos, e esquece que não pode fazer a mesma coisa com gente de
verdade. A noite passada você desafiou-lhe a vontade.
Sarah deu um sorriso relutante.
— Tem certeza de que se casou com o irmão certo? Você parece conhecê-lo tão
bem!
Shelley sorriu marota.
— Acredite-me, Jonathan é muito mais maleável!
— Foi por minha culpa que ele saiu daquele jeito.
— Ora vamos, não comece a se recriminar outra vez. Ele saiu batendo o pé. E, se
você não pretende tomar café direito, sugiro que façamos um passeio e mais tarde
procuremos um bom lugar para almoçar,
Sarah parecia hesitante,
— Não vai ficar sentada aqui esperando por ele, vai? — Shelley lhe disse,
determinada, — Deixe-o pensar que você não dá a mínima.
— Mas eu...
— Está apaixonada por Garrett. Sim, eu sei, Nós todos sabemos como se sente,
inclusive ele. Mas depois de deixá-la preocupada a noite toda... — lançou-lhe um olhar
penetrante. — tirando-lhe o sono, fará muito bem a ele voltar para casa e ter de esperar
até você voltar!
Sarah seguiu-a até o carro.
— O "maleável" Jonathan sabe como você é mandona? perguntou Sarah,
brincalhona, enquanto recolhia a cadeira de rodas, colocando-a no porta-malas e
sentando-se no banco de passageiros, no carro adaptado.
Shelley riu com vontade.
— É claro que não!
O passeio serviu para acalmá-la, e ela surpreendeu-se ao descobrir o lugar que a
outra tinha escolhido para o almoço.
Era o "Queen Mary", um barco ancorado permanentemente em Long Beach, que
mantivera todo o luxo e elegância do tempo em que navegava pelo Atlântico, cheio de
gente bonita e bem vestida. Sarah estava adorando a companhia de Shelley.
— Humm... — Shelley olhou para o relógio, quando já estavam no carro, depois do
almoço. — Você acha que já ficamos fora tempo suficiente?
Considerando que eram mais de três horas, Sarah pensou que haviam exagerado.
Estava ansiosa para retornar e ver se Garrett já chegara.
— Eu... Ahn...
A outra deu um leve sorriso.

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— Pare de tentar ser educada, Sarah, e diga me para dirigir de volta para casa.
— Shelley, leve-me de volta para casa.
Ligando o carro, ela tomou a estrada em direção a Malibu...
— Aposto como você é uma professora formidável!
— Não tão formidável quanto a mulher de um político que conheço,
— Agora, não se esqueça — Shelley advertiu-a quando já estavam bem próximas
da casa.— Foi ele quem a deixou sozinha.
A primeira coisa que Sarah viu ao contornarem a garagem foi o Mercedes vermelho
de Garrett. O coração começou a bater feito louco dentro do peito, e as palmas de suas
mãos estavam úmidas de suor.
— Vou para meu quarto descansar um pouco — Shelley despediu-se; deixando que
ela fosse procurar Garrett sozinha.
Sarah encontrou-o na piscina, movendo-se dentro da água com movimentos longos
e poderosos, cheios de uma velocidade tensa. Nesse momento soube que ele não se
havia acalmado.
Pediu um refresco e sentou-se sob o guarda-sol em silêncio, esperando que Garrett
se cansasse e saísse da água.
Foi quase meia hora depois, quando ele saiu da piscina e parou para enxugar o
cabelo, que a viu tomando uma limonada gelada.
Depois de um olhar breve e duro continuou a se enxugar.
— Gostando do exercício? — Sarah perguntou, suave.
— Não exatamente — ele retrucou, a toalha jogada sobre os ombros.
Ela suspirou ante a atitude pouco amigável.
— Se você preferir não conversar...
— Conversar! Que diabos me adianta falar, falar e falar?
Sarah mordeu o lábio inferior.
— Sinto muito se o magoei....
— Não procure se desculpar. Estou bravo, não magoado, bravo com sua falta de
capacidade para entender as coisas.
Ela balançou a cabeça, pesarosa.
— Eu não posso...
— Casar comigo. Eu sei — ele completou, seco. — E que tal um caso? Poderia viver
com isso?
Sarah ficou pálida ao sentir o desprezo na voz de Garrett.
— Você nem mesmo está tentando entender!
— Oh, mas eu entendo muito bem! — Os olhos verdes pareciam esmeraldas. — Sou
bom para ter um caso com você, mas não sirvo para marido!
— Pensei que você quisesse só um romance...
— E agora que viu o equívoco, está fugindo, assustada!
— Ainda estou aqui.
— Onde diabos você andou a manhã toda?
— Onde você esteve a noite toda?
— Suponho que se eu lhe disser que encontrei uma mulher num bar e passei a noite
com ela você vai acreditar!
Sarah deu um soluço audível, respirando pesadamente para acalmar a raiva antes
de responder:
— Do mesmo modo como acreditaria se me dissesse que passou a noite sozinho.
Ele a olhou com frieza.
— Passei a noite sentado no carro, olhando o oceano.
— Oh, Garrett...
Ele ergueu a mão, fazendo com que Sarah se calasse.

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— Tentei encontrar um jeito de arrumar toda essa confusão, mas você está certa,
não há nenhum modo de fazê-lo sem magoar um monte de gente inocente. — Suspirou,
cansado. — Então vamos nos separar no fim destas férias e nunca mais nos veremos.
Nunca mais? Ela não seria capaz de suportar.
— Mas... e quando quisermos ver Jason?
— Eu não estarei por perto, pode ter certeza.
— Garrett...
Ele evitou a mão que Sarah lhe estendia.
— É assim que tem que ser bruxinha.
Talvez fosse, mas Sarah não suportava pensar que não o veria nunca mais.
— Eu te amo, Garrett.
Os olhos verdes brilharam intensamente para se nublarem depois, fazendo-o
parecer mais derrotado do que nunca.
— Eu também te amo. Mas parece ser uma daquelas ocasiões na vida em que só
isso não basta.
Sarah deixou o desespero vir à tona, soluçando convulsivamente enquanto corria
para o quarto. As lágrimas a cegavam e ela bateu na parede sólida de um peito
masculino.
— Me desculpe, eu...
— Está tudo bem... Meu Deus, Sarah, o que aconteceu? — Jonathan perguntou,
preocupado.
Ela manteve o rosto abaixado.
— Me desculpe, eu... eu tenho de ir para o meu quarto!
Desvencilhou-se dos braços dele, limpando as lágrimas e ansiando por ficar
sozinha.
Mais calma, procurou refletir racionalmente. Garrett tinha todo o direito de estar
zangado com ela. Que estava querendo, afinal, ao rejeitar o único homem que amara em
toda sua vida? O casamento com Amanda não dera certo e Garrett tinha o direito de
tentar outra vez. Ambos mereciam sua chance de felicidade. Se não desse certo, pelo
menos teriam tentado.
Segura, como nunca estivera em sua vida, ela correu para a piscina, esperando que
Garrett ainda estivesse lá.
— Quando eu quiser sua opinião, eu peço — Garrett estava dizendo a Jonathan,
com voz alterada. — Não tente me ensinar como dirigir minha vida, não quando fez da
sua uma grande confusão!
Sarah parou abruptamente, temendo interromper a séria discussão entre os dois
irmãos. Indecisa quanto ao que fazer, ouviu Jonathan dizer:
— Eu cometi um único erro, Garrett...
— Não foi um erro. Você sabia muito bem o que estava fazendo.
Ela viu o homem mais velho ficar muito pálido.
— Não fui capaz de me controlar...
— Não quero ouvir suas desculpas. Só quero que fique longe de Sarah. Se
aproximar-se dela novamente, eu o mato.
— Eu já lhe disse para não se preocupar com isso. Eu... é que... ela é tão parecida
com Amanda!
— Ela não tem nada a ver com Amanda! — Garrett retrucou ríspido. — Mesmo que
Amanda fosse a mulher que você imaginou que fosse!
— Era tão linda, tão...
— Mesmo agora você não consegue esquecer o que teve com aquela víbora, não
é? Você tem Shelley, sua carreira, e ainda pensa na mulher que o usou, que por tão
pouco tempo dormiu em sua cama!
Amanda e Jonathan...

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Sarah não quis ouvir mais nada. Agora, todas as peças do quebra-cabeça
começavam a se encaixar.

CAPÍTULO IX

Sarah ficou olhando para o vazio. Amanda e Jonathan. Quase não conseguia
acreditar... mas tudo fazia sentido. O ódio de Garrett pela esposa, o prazer de Jonathan
ao descobri-la tão parecida com a irmã, o ressentimento de William Kingham pela mesma
razão, a inimizade entre Shelley e cunhada e, mais do que tudo, a descrição que Geoffrey
fizera da própria filha. Amanda tinha de ser egoísta e mimada para destruir a vida de
tantas pessoas. O que Sarah não conseguia entender era o fato de a família continuar
unida mesmo depois de descobrir a traição. A menos que Amanda tivesse morrido antes
de isso acontecer... Ela parecia tão certa do divórcio com Garrett, e ele estava igualmente
seguro do contrário...
Talvez fosse a isso que seu pai se referira, desconfiado... Como estaria se sentindo
ao descobrir a irresponsabilidade da filha mais velha? Sarah pensava em quanto a irmã
devia desprezar o marido para atirar-se nos braços de outro homem. Seu próprio
cunhado! Não importava o quanto tivesse sido infeliz, nada justificava um caso com
Jonathan, nada! Era cruel demais para com Shelley, desleal para com Garrett!
Como ele devia tê-la odiado ao descobrir aquela história sórdida e vingativa: E
pensava que o recusara por lealdade à irmã!
Se antes já estava decidida, agora nada no mundo a faria desistir do homem que
amava. Se Garrett ainda a quisesse, iria se casar com ele e tentaria com todas as suas
forças fazê-lo feliz!
Voltou para seu quarto, achando melhor deixar que os dois irmãos se entendessem
antes de tentar uma nova aproximação. Vestiu-se com esmero para o jantar, escolhendo
um vestido de seda azul-cobalto e escovando os longos cabelos negros até deixá-los
brilhantes e sedosos.
Só que Garrett não apareceu, e, enquanto a noite tornava-se mais e mais escura,
Sarah começou a pensar se não deveria ter falado com ele lá mesmo na piscina.
— Garrett está fazendo onda outra vez! — Shelley comentou quando já estavam
tomando café.
Sarah olhou de relance para Jonathan, que estivera calado durante todo o jantar.
Era óbvio que a discussão entre ele e o irmão fora bastante desgastante. Ela não ficara
até o final, pois tinha certeza de que Garrett não gostaria de vê-la descobrir a humilhação
que sofrera nas mãos de Amanda.
Não havia dúvida de que Jonathan amava a esposa. Mas ainda pensava no caso
com Amanda, e tudo indicava que ainda sentisse sua falta. Como podia estar apaixonado
por duas mulheres ao mesmo tempo, mesmo que uma delas estivesse morta? Era algo
que ia além de sua compreensão. E, pela atitude de Shelley com relação à cunhada,
parecia claro que sabia da traição do marido; mas, qualquer que tenha sido sua reação na
época, ao que tudo indicava já superara tudo.
Se Garrett aceitasse seu amor, Sarah lhe mostraria que jamais deveria ter duvidado
de sua sinceridade, que ele era o único homem que queria na vida.
— Papai não está fazendo onda — Jason defendeu-o. — Ele tinha serviço para
terminar.
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— Ouça, nós todos sabemos que ele se trancou no estúdio porque ainda está bravo
com Sarah — a tia corrigiu, gentil mas firme.
Os olhos castanhos ficaram atentos.
— No estúdio? Aqui na casa?
— Exatamente. E a porta não está trancada...
Sarah se levantou devagar.
Será que Garrett a ouviria quando dissesse que cometera um erro ou continuaria
furioso? Fosse qual fosse sua reação, tinha de falar com ele.
— Obrigada, Shelley.
— Cuidado com copos voadores. Ou garrafas! — Shelley avisou-a com um sorriso...
— A última vez que o ouvi, tinha acabado de pedir uma garrafa de scotch.
Sarah não conseguia imaginá-lo bêbado; aquilo feriria seu orgulho, já que ele não
conseguia se imaginar sem o controle das próprias atitudes; e ela não se perdoaria se
fosse a responsável por aquela depressão.
Ao abrir a porta, a primeira coisa que viu foi a garrafa de uísque ainda intocada,
sobre a mesa.
— Posso entrar? — perguntou suavemente, ao notar os olhos verdes se estreitarem
num misto de dor e raiva.
— O que quer?
Sarah umedeceu os lábios ressequidos, fechando a porta silenciosamente e
aproximando-se passo a passo.
— Você.
Ele se recostou na poltrona, tenso e alerta.
— O quê?
Ela engoliu em seco.
— Eu cometi um erro, Garrett...
— Quando?
Respirando de maneira irregular, ela o encarou.
— Quando lhe disse que não poderia me casar com você.
— Por quê?
Ele não estava tornando as coisas fáceis! E por que deveria? Sarah não podia ter se
importado com quem ele fora casado; era quem amava no presente que contava.
— Porque eu te amo.
Garrett estava sério:
— Você me amava ontem e esta tarde também, mas ainda assim recusou meu
pedido. Pergunto-me o que aconteceu para fazê-la mudar de ideia.
— Eu...
— Conte-me. Você voltou para pegar sua bolsa? Notei que a tinha esquecido na
piscina, à tarde.
Sarah nem mesmo se lembrava de ter esquecido a bolsa, até que uma das
empregadas a levou a seu quarto, mas era óbvio que Garrett suspeitara que ela fora
buscá-la e acabara por escutar a discussão. Precisava fazê-lo entender a verdade,
mesmo que o fato de ter percebido que não podia viver sem ele fosse pouco plausível
depois de tudo o que lhe dissera.
— Você está certo. Eu escutei a conversa entre você e Jonathan.
— E daí?
— Sei que Amanda teve um caso com seu irmão enquanto estava casada com você.
Ele respirou fundo.
— E então?
Sarah balançou a cabeça.
— Ouvi apenas por alguns instantes, mas foi... o suficiente.

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— Entendo — ele murmurou sério, o olhar gelado. — E agora você decidiu que me
quer.
— Eu sempre quis você. Estava indo lhe dizer...
— Que agora que sabia que sua santa irmã tivera um caso com o próprio cunhado,
sentia-se livre para se casar comigo!
— Não...
— Sim. Obrigado, mas assim não a quero. Já casei com uma mulher por razões
erradas; não vou repetir o equívoco. Eu a convidei a vir aqui, esperando que visse por si
mesma, percebesse... — Balançou a cabeça desolado. — Você está cega demais pelo
passado para ver o tipo de futuro que poderíamos ter juntos.
— Não estou! Vim para lhe dizer...
— Será que não entende, Sarah? — ele se levantou. — Eu não a quero mais!
Ela ficou pálida.
— Se isso é verdade, suas emoções são muito instáveis...
— Não são nem a metade das suas. Você realmente acha que pode ouvir uma
discussão sobre o caso de Amanda com Jonathan, vir aqui depois, pedir desculpas e
achar que tudo vai ficar bem?
— Não foi assim que aconteceu. Tão logo o deixei, percebi que tinha cometido um
erro, que não suportaria passar o resto da minha vida sem você. Não fui atrás da bolsa;
voltei para lhe dizer que eu estava errada!
Garrett fitou-a friamente.
— Mesmo que isso fosse verdade.
— Mas é!
— Só que eu nunca poderei ter certeza disso, não é?
Tarde demais. Já era muito tarde para eles.
— Garrett, eu te amo! Se não me quer mais como esposa, pelo menos... pelo
menos, me aceite como amante.
— Não.
— Garrett, pelo amor de Deus...
— Eu disse não! Arranjei uma esposa graças a uma armadilha, não quero outra do
mesmo jeito!
Sarah se encolheu como se ele a tivesse agredido fisicamente.
— Você acha que eu... que eu...
— Por que não? As mulheres da família Harvey não gostam de ser contrariadas
quando querem alguma coisa!
— Você... — ela tremia tanto que precisou se apoiar no braço de uma poltrona. —
Garrett...
— Parto amanhã cedo. Tenho de ir à Espanha por alguns dias e não deverei voltar
até que você esteja na Inglaterra.
Amortecida pela dor, Sarah mal o viu sair. Quando foi capaz de sentir alguma coisa,
soluços fortes e descontrolados pareciam retirar toda a vida de dentro de seu corpo,
deixando-a completamente vazia.
Fiel a sua palavra, Garrett partiu bem cedo. Depois das palavras cruéis e definitivas
que trocaram, Sarah arrastou-se até seu quarto, permanecendo largada na cama, incapaz
de reagir. Ouviu-o andar de um lado para outro pela casa, e ao amanhecer soube que
partira quando o Mercedes deixou a garagem com um ronco suave. Sentia-se meio morta,
mas precisava sair do quarto e enfrentar o mundo. Vestiu-se mecanicamente e foi
encontrar-se com os outros no terraço.
Embora todos soubessem que ela era o motivo de Garrett ter deixado a casa,
cumprimentaram-na calorosamente, o pai fitou-a preocupado ao notar-lhe a palidez e os
outros conversando sobre amenidades, procurando acalmá-la.

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Sarah olhou ansiosa para Jason, certa de que ele deveria odiá-la por causa da
partida repentina do pai, mas tudo que encontrou foi compreensão e simpatia.
— Café? — Shelley perguntou.
— Obrigada — respondeu ela como se fosse um robô, segurando a xícara com
mãos trêmulas.
— Papai foi embora — Jason lhe disse com suavidade.
— Eu sei.
— Partiu bem cedo.
— Eu sei.
— Você sabe...
— Jason, será que poderíamos não falar de seu pai? — Ela o olhou, desafiante.
— Eu só queria saber se ele lhe disse para onde iria.
— Desculpe querido — Ela corou por sua falta de sensibilidade.
Estava tão mergulhada em seu próprio sofrimento que não percebeu a preocupação
do sobrinho. — Eu pensei que ele lhe tivesse dito... Garrett falou qualquer coisa sobre
precisar ir para a Espanha.
— Espanha? — O garoto franziu a testa. — Por que diabos iria para lá?
— Não tenho a menor ideia. Deve ter algo a ver com o filme que está fazendo.
— Mas...
— Jason, deixe-a em paz. — interrompeu Jonathan, abrupto.
— Será que não vê que Sarah está aborrecida?
O sobrinho o fitou, cheio de ressentimento.
— É claro que vejo!
— Então não fique fazendo perguntas sem sentido!
— Está tudo bem, Jonathan — Sarah tratou de acalmá-lo ao notar a atmosfera
tensa. — Jason está apenas preocupado.
— Isso não justifica...
— Não justifica o quê? — o rapaz desafiou o tio. — Por que não cuida de sua
própria vida... e tira suas mãos de cima dela? — perguntou, furioso, o olhar fixo na mão
de Jonathan que repousava confortadora sobre o ombro de Sarah.
— Jason!
Ele se levantou bravo, o corpo rígido.
— Ele não tem o direito de...
— Por que nós todos não nos acalmamos um pouco? — Shelley interrompeu,
procurando serenar os ânimos. — Jason, sente-se e termine seu café.
— Não quero.
— Não fale com sua tia nesse tom! — Jonathan advertiu-o duramente.
— Ou então? — Jason desafiava-o, cheio de sarcasmo. — Você vai me bater? Não
é homem suficiente para isso.
— Jason, acho que já chega — o avô pediu, com uma autoridade calma e absoluta.
Ele calou-se, abatido, embora conservasse a expressão rebelde.
— Você não entende, vovô.
— Oh, eu acho que entendo, sim. Perfeitamente.
Sarah não conseguia compreender o que estava acontecendo. Todos pareciam
apreensivos desde a partida de Garrett, mas... isso! Jason parecia odiar o tio naquele
momento.
O garoto olhou, incerto, para o avô. — Entende mesmo?
— Sim, filho.
— Mas... como?
— Juntando coisas aqui e ali. — Geoffrey explicou-lhe suavemente. — Não foi muito
difícil depois desses últimos dias. — E você?
— Também. Há semanas.

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Sabrina 509 - Viver uma grande paixão - Carole Mortimer

— Gostaria de ir para algum lugar calmo e falar sobre isso?


— Sim, eu acho que sim — murmurou ele, olhando ressentido para as expressões
surpresas de Sarah e dos tios.
Passando o braço em torno da filha, Geoffrey lhe disse:
— Tenho certeza de que Jonathan vai explicar tudo, para você. — Olhou com
severidade para o outro homem. — Jason precisa de mim agora. — Afastou-se, com o
neto, em direção à casa.
Sarah observou-os entrar, uma expressão confusa no rosto, e ao encarar Shelley e
Jonathan viu o quanto estavam pálidos.
— Não estou entendendo nada. Será que alguém pode me explicar o que está
acontecendo? — perguntou, entre irritada e apreensiva.
— Eu posso — Jonathan falou.
— Eu também. — Shelley disse, seca, dirigindo-se ao marido.
Ele ergueu as sobrancelhas ao fitá-la, os olhos escuros de dor.
— Pode?
Shelley respirou fundo, falando com voz controlada.
— Posso.
— Mas...
— Querido, Sarah não está entendendo esta nossa conversa. Não fica bem tratar
assim uma hóspede de honra, não acha?
— Eu sei... Há quanto tempo você descobriu?
— Há muito, muito tempo... — Shelley suspirou. — Não acha que já é tempo de
dizer a Sarah o que aconteceu?
Jonathan engoliu em seco.
— Não compreendo... Por que você nunca disse que sabia de tudo?
— Poderemos falar depois, querido. — Virou-se para Sarah. — O que Jason de
alguma forma parece ter descoberto, e que Geoffrey certamente adivinhou quando
chegou aqui, é que...
— ... Garrett não é o pai de Jason. — Eu sou. — Jonathan completou.
— Por que diabos contou a ela? — gritou uma voz gelada e fria. Todos se viraram
para olhar Garrett, que encarava o irmão com um brilho furioso nos olhos verdes...

CAPÍTULO X

— É mentira, Shelley! — Garrett negou, com os olhos semicerrados. — Não dê


ouvidos a ele!
— Garrett — ela o interrompeu, suave, — eu sei da verdade há muito tempo.
Ele estava muito quieto, e uma veia pulsava em sua têmpora.
— Como?
— Amanda fez questão de me dizer, pouco antes de partir pela última vez.
— Amanda! — ele explodiu, os olhos gelados ao encarar Sarah.
Ela se encolheu, sabendo que naquele momento ele odiaria qualquer pessoa ou
coisa que o fizesse se lembrar da mulher que fora sua esposa e que quase arruinara a
vida de uma família inteira.
Sarah mal podia acreditar que Jonathan era pai de Jason e que a irmã tivera um
caso com ele antes de se casar com Garrett. Era monstruoso!
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— Sarah — Shelley chamou-a suavemente, libertando-a do estado de choque em


que se encontrava, — eu não quis magoar você. Todos nós sabemos que amou muito
sua irmã.
— Quero ouvir a verdade, não importa qual seja.
A outra concordou com um gesto de cabeça.
— Então eu acho que...
— Shelley, não — Garrett interrompeu-a, brusco. — Sinto muito que você tenha
descoberto a verdade, mas dizê-la a Sarah vai apenas magoá-la.
Sarah o encarou, buscando desesperadamente uma esperança naquelas palavras.
Talvez ele tivesse mudado de ideia, talvez ainda se importasse...
— Garrett, antes de ouvir toda a história, queria que soubesse que tudo que lhe falei
ontem foi sincero e verdadeiro, e que não teve nada a ver com o fato de eu ter escutado
um pedaço da discussão entre você e Jonathan.
— Por que diabos acha que eu voltei se não por ter percebido que você me falou
somente a verdade?
O amor que ela sentia por Garrett parecia iluminar-lhe o rosto...
— Quero lhe falar, querido...
— Nós vamos conversar, sim. Mas não vai ser nada agradável. Para nenhum de
nós.
— Garrett, Jason também descobriu — Sarah lhe disse com voz carinhosa.
A fúria nublou os olhos verdes.
— Maldição! Quem contou?
— Ninguém. — Shelley suspirou pesadamente. — Ele parece ter juntado todas as
peças sozinho.
— Droga! Eu bem que me perguntei por que ele se recusou a ficar com você e
Jonathan desta vez, por que de repente resolveu desaparecer, indo procurar Geoffrey e
Sarah! Tenho de vê-lo...
— Meu pai está com ele — Sarah acalmou-o. — Acho que seria melhor deixá-los
algum tempo sozinhos. Aguente um pouco, dê-lhe tempo. O que ele sente por você não
vai mudar.
— Deus do céu! — Garrett sentou-se, fraco, fechando os olhos.
— Espero que ele perceba que eu sou seu pai, que sempre fui, desde que o
puseram em meus braços, pouco depois de nascer.
Sarah acariciou-lhe o cabelo, desejando que a força que agora sentia passasse para
o homem que tanto amava.
— Tenho certeza de que ele sabe disso.
Garrett fitou-a, agradecido, ambos sabendo que a hora para as explicações viria
depois, que Jason era mais importante naquele momento.
Sarah olhou com ar indagador para Jonathan, cujo rosto pálido realçava o
verdadeiro parentesco com Jason.
Ele enrubesceu.
— Como Amanda pôde contar a Shelley?
— Não seja tolo, Jonathan — Garrett escarneceu. — Quando Amanda era
contrariada, podia fazer qualquer coisa!
— Mas por que magoar Shelley?
— Porque Shelley estava em seu caminho. Você deixou claro que não pretendia se
casar com ela e, quando se tornou um senador, a amargura tomou conta de Amanda, que
disse a Shelley a verdade sobre o caso de vocês. Deus, ela me propôs casamento porque
sabia que você não a queria!
Sarah olhou para Garrett como se nunca o tivesse visto. Amanda lhe fizera a
proposta! Então a outra mulher que ele pedira em casamento só podia ser Shelley... . E

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ele se casara com Amanda apenas para protegê-la! Será que ainda a amava? Não, não
como um homem ama uma mulher, disso tinha certeza.
Jonathan olhava para o irmão como se ele lhe vivesse dado um soco.
— Mas eu pensei... eu sempre pensei....
— O quê? Que eu a amava, que eu quis me casar com ela? — Garrett completou a
pergunta com voz dura. — Eu nunca a quis. Ela era vazia e egoísta. Mas carregava o filho
de um Kingham. E ameaçou fazer um aborto, a menos que eu a tornasse minha esposa!
— Não! — Sarah e Jonathan gritaram ao mesmo tempo.
— Sim. Também tinha outras condições ligadas ao casamento, mas quando não
concordei ela achou melhor agarrar o que já havia conseguido: minha aliança em seu
dedo.
— Que outras condições? — Jonathan franziu a testa.
— Nada que lhe diga respeito. Eu me casei com ela, dei a seu filho um nome... Mas
assim que Jason nasceu, passou a ser meu filho!
— Fui um tolo. — Jonathan enterrou o rosto entre as mãos.
— Encontrei Amanda em uma de suas festas, fiquei encantado, louco por ela. Tentei
ignorá-la, mas... Shelley querida, acredite, não amei Amanda como amo você.
— Sei disso. — Tomou-lhe as mãos. — Sempre soube. Se fosse de outro modo eu
já o teria deixado a muitos anos.
— Amanda foi a única outra mulher...
— Sei disso também. No início pensei que a causa fosse o fato de eu estar presa a
essa cadeira...
— Nem pense nisso. Ela era diferente, eu nunca tinha encontrado ninguém como
Amanda. Fiquei enfeitiçado. E então tudo se acabou; ela estava grávida de meu filho, mas
disse que iria se casar com Garrett.
— Ela queria ser o centro das atenções, Jonathan — o irmão falou com desprezo. —
Se não como a mulher do político, pelo menos como a esposa do diretor de cinema.
Infelizmente para ela, foi só até onde a deixei chegar. Mas ser a Sra. Kingham, encenar
seu papel de rica dama da sociedade, era melhor do que nada!
— Ela me disse que ia se casar com você porque te amava Jonathan confessou
num gemido.
Garrett lançou-lhe um olhar cheio de pena.
— Para magoá-lo, só isso. Na melhor das hipóteses, nós nos desprezávamos...
— Arruinei tantas vidas...
— Não a minha — Garrett negou, olhando para Sarah.
— Jason me odeia...
— Ele está com raiva. E tem todo o direito de estar. Quando se sentir pronto para
falar conosco, iremos os dois vê-lo, tentar explicar. Mas lembre-se de que ele é meu filho,
Jonathan.
— Deus, nunca tentei me colocar entre vocês! Ele me tolera, mas ama você.
— Nosso casamento sobreviveu também, Jonathan — Shelley assegurou-lhe,
suavemente.
— Falando em casamento... — Garrett interrompeu-a. — Se nos dão licença, Sarah
e eu vamos discutir o nosso... em particular.
Quando se afastaram, o outro casal conversava baixinho, suavemente, e Sarah
sentiu que tudo iria se ajeitar.
Foram para o quarto de Garrett, permanecendo afastados e silenciosos por alguns
instantes.
De repente, Garrett deu um suspiro trêmulo, agarrando-a e prendendo-a nos braços.
— Bruxinha, você se importaria se deixássemos as explicações para depois? Agora
preciso senti-la minha, completamente minha...
Sarah transbordava de amor e desejo.

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— Pensei que você tivesse dito, quando nos reencontramos, que era um homem de
ação.
— Oh, bruxinha! Sarah, eu te amo!
Ela cobriu-o de beijos, no rosto e no peito.
— Eu também te amo. Eu te amo! Sinto muito pelo que minha irmã...
— Silêncio... — Ele colocou um dedo sobre seus lábios, impedindo-a de continuar.
— Neste momento, que agora sei que esperei durante minha vida inteira, quando você
está se entregando a mim, só vamos pensar em nós dois.
Beijaram-se com volúpia, até que o desejo guiou-os pelos caminhos do prazer.
Garrett despiu-a lentamente, depositando beijos rápidos pelo corpo perfeito e
bronzeado. Parou extasiado, contemplando os seios fartos e eretos, acariciando-os com a
ponta dos dedos, arrancando um gemido dos lábios de Sarah. Tonta de amor, ela abriu
um por um os botões da camisa de Garrett, fazendo-a cair ao chão. Deslizando as mãos
macias pelo peito largo, Sarah foi descendo lentamente até alcançar o fecho da calça.
— Ah, bruxinha, se você soubesse o que está fazendo comigo... Garrett gemeu,
terminando de se despir rapidamente, beijando-a com sofreguidão quando os corpos nus
se tocaram.
Tomando-a nos braços sem parar de beijá-la, deitou-a nos lençóis macios;
espalhando os longos cabelos negros pelo travesseiro.
Começou então uma lenta exploração, buscando, desvendando, descobrindo cada
curva da pele macia e dourada que parecia estar em fogo. Tocou o rosto de Sarah com a
ponta dos dedos, deixando que deslizassem depois pelos seios redondos, pelo ventre
ansioso, até alcançar o triângulo de pelos negros, enlouquecendo-a aos poucos,
refazendo a mesma trilha com a boca quente e úmida, a língua ousada levando-a a gritar
seu nome no auge da paixão.
Incapaz de esperar mais, Garrett mergulhou na umidade do corpo tão desejado,
sentindo que Sarah se contraía. Permaneceu quieto, beijando-a suavemente, até que ela
relaxasse; iniciou então movimentos lentos e cadenciados, que a faziam delirar de prazer.
Tomada de desejo, Sarah arqueou-se, cravando as unhas nas costas de Garrett,
obrigando-o a penetrá-la mais profundamente, fazendo-o perder o resto de controle que
ainda possuía.
— Garrett... agora... — implorou, rouca, clamando pela satisfação total.
Arquejantes, os dois moviam-se num ritmo frenético, em perfeita harmonia, até que
o mundo explodiu em cores e calor.
Permaneceram abraçados por muito tempo, deixando que os corpos saciados e
suados descansassem.
Sarah o acariciava devagar, admirando-lhe a força e a masculinidade, sorrindo ao
fitá-lo com brilhantes olhos cor de avelã. — Eu estava errado. Não morri... Sinto-me mais
vivo do que já me senti!
— Sabe, sempre tive medo desse quarto, mas agora sei que não tenho nada a
temer. Você nunca fez amor com Amanda aqui ou em qualquer outro lugar.
Ele ficou tenso.
— O que a faz pensar assim?
Sarah sorriu novamente, desfazendo as rugas de preocupação na fronte de Garrett
com um beijo.
— O fato de que, na noite em que você foi ao chalé e adormeceu na poltrona, eu o
acordei e você me repeliu, pensando que fosse Amanda; além disso, sempre fez questão
de ficar em hotéis quando nos visitavam, para que meus pais não percebessem que
vocês dormiam em quartos separados... e o fato de que dividir a cama com Amanda foi
uma das condições com as quais você não concordou!
Garrett dirigiu-lhe um meio sorriso.
— Concluiu tudo isso sozinha, não é?

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— Sim... finalmente.
Ele suspirou, apoiando-se sobre os travesseiros e abraçando-a possessivamente.
— Eu nunca quis Amanda.
— Mas ela o desejava.
— Bruxinha, ela não era de todo ruim, mas estava infeliz porque Jonathan realmente
amava Shelley e...
— Na última vez que o deixou, ela nos contou que ia se divorciar... Você acha que
teria feito qualquer coisa que ela lhe pedisse para evitar isso?
— Não sei. Eu conhecia as condições dela e suponho que talvez as aceitasse. Não
bastava que Amanda tivesse tudo o que o dinheiro podia comprar, nem a admiração de
seus amigos e do filho que a adorava; ela vivia me chantageando com a ameaça do
divórcio para conseguir o que queria, e daquela última vez...
— Ela queria você — Sarah completou fracamente.
— Ela queria um casamento normal.
— Acho que posso entender.
— Sarah!
— Quero lhe contar uma coisa, Garrett, algo que eu acho que você tem direito de
saber...
Braços fortes a apertaram.
— Não vou deixá-la ir embora, não importa qual o segredo que vai me contar.
Ela deu-lhe um sorriso de entendimento. Já haviam passado por junta coisa que
mais nada poderia separá-los.
— Era uma vez duas irmãs — começou ela, devagar. — A mais velha, e mais bonita,
e...
— Acho que sou melhor juiz que você.
Ela o fez calar-se com um pequeno beijo.
— ... E a mais nova, muito tímida... A mais velha foi para Hollywood, esperando um
dia ver seu nome brilhando nos letreiros, mas em vez disso voltou trazendo um príncipe...
— deu-lhe um olhar bravo quando ele fez menção de interromper. — Um lindo príncipe de
bronze que enfeitiçou a irmã mais nova, mas com um feitiço muito forte que todos os
homens que ela encontrou depois dele viraram pó.
— Bruxinha...
— A irmã mais velha viveu com seu príncipe de bronze na terra dos sonhos,
enquanto a irmã mais nova suspirava por ele numa terra que perdera toda a cor.
— Bruxinha, você não tem que me contar isso! — ele gemeu, apertando-a junto a si.
— Então, quando a irmã mais bonita não estava mais feliz com seu príncipe de
bronze e, finalmente o deixou, e quando disse à irmã mais nova que iria se divorciar, ela
ficou contente, esperando que ele a enxergasse, que se apaixonasse por ela! — Agora
Sarah tremia, e tinha os olhos cheios de lágrimas. — Antes que eu a visse de novo,
Garrett, Amanda estava morta. E eu me senti como se tivesse ajudado a matá-la, porque
o queria para mim! Odei-o por isso, mas odiei a mim mesma ainda mais! — Enterrou o
rosto no peito largo. — Então ataquei você.
— E quando o príncipe de bronze a viu, apaixonou-se perdidamente. E você o
recusou.
— Sim. Casei com David esperando poder dar a meu pai os netos que ele sempre
quis, e em vez disso descobri que não conseguia corresponder a meu próprio marido.
Dois minutos depois de ver você, eu soube a razão: meu amor nunca morreu.
Garrett tremia, abraçando-a como se tivesse medo de que ela fugisse.
— Bruxinha... Será que tudo acabou agora? Vai se casar comigo para que sejamos
nós e dar a seu pai mais netos?
Sarah concordou, emocionada.

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— Amanda foi muito infeliz como sua esposa, mas ela mesma escolheu essa vida.
Eu sei que nós vamos ser felizes juntos. — Pode apostar que sim. Esperei a vida toda por
você.
— E quanto a seu pai? Acha que ele vai me aceitar?
— Talvez sim, talvez não. — Ele deu de ombros. — Eu nunca lhe disse que Jason
não é meu filho, e ele sempre pensou que Amanda me fez cair numa armadilha. Mas será
problema dele se não aceitar você.
— Jonathan e Shelley vão ficar bem, não vão?
— Jonathan se transformou num completo idiota por causa de Amanda. E quase
cometeu o mesmo erro em relação a você...
— A mim?
— Não fui eu que entrei em seu quarto no primeiro dia — Garrett contou-lhe, com
um pedido de desculpas no olhar. — Eu poderia ter matado meu irmão quando você me
acusou de invadir sua privacidade, tocando-a enquanto estava dormindo. Eu sabia que só
podia ter sido ele. Ao conhecê-la, Jonathan percebeu que era completamente diferente de
Amanda. — Seus olhos ficaram gelados. — Eu teria batido nele se tivesse tentado tocá-la
outra vez!
Sarah odiou pensar em Jonathan entrando em seu quarto, tocando-a, mas sentia
pena também.
— Ele se apaixonou por uma mulher que nunca existiu. Garrett concordou.
— Ou que existiu só em sua imaginação.
— Pobre Shelley... Não sei se eu conseguiria permanecer em silencio por tanto
tempo.
— Ela merece o melhor. Mas é a Jonathan que ama.
— Uma vez você me disse ter desistido de algumas coisas. Uma delas foi Shelley,
não foi?
— Pensei que fosse. Para falar a verdade, não gostei de tê-la perdido para meu
irmão. O acidente, enquanto eles ainda estavam em lua de mel, não ajudou em nada...
— Acidente? Eu não sabia! Que terrível para eles!
Garrett concordou.
— Disse a mim mesmo que, se não os tivesse apresentado, ela nunca se
apaixonaria por Jonathan, nunca teria se casado com ele e não teria estado naquele lugar
naquela hora. Eu me sentia traído por ambos quando Amanda veio até mim e sugeriu que
eu assumisse o bebê. Pareceu-me uma restituição justa na época; eu ficava com Amanda
e o filho de Jonathan, enquanto ele tinha a mulher que eu amava. — Balançou a cabeça.
— Eu era muito jovem e muito tolo.
— E minha irmã fez de sua vida um inferno.
— Não completamente. Ela também me deu você. Mas...
— Tudo aconteceu há muito tempo, bruxinha. E eu, pelo menos, quero esquecer
essa história.
— Você ainda ama Shelley?
— Eu nunca a amei como amo você. Eu a amei como uma irmã, mas meu orgulho
ficou ferido quando ela escolheu Jonathan. É claro que, se você quiser demonstrar o
quanto me ama, não vou fazer nenhuma objeção... — E deitou-se completamente
entregue.
— Posso ver.
— Bem?
— Bem, o quê?
Ele franziu a testa.
— Com certeza não fui um professor tão ruim, fui?
— Você é um grande sedutor de mulheres jovens!
— Ah!

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— O que foi?
— Esqueci de uma coisa! — Sorriu, parecendo um garoto com sua primeira
namorada.
— Acho que é um pouco tarde para pensar em anticoncepcionais!
— Não me referi a isso. — Deitou-se por cima dela. — Embora fosse muito bom se
você ficasse grávida — afirmou, acariciando a maciez do ventre de Sarah.
— Você não se importa de ter um filho logo?
— É claro que não, bruxinha, embora eu deva primeiro assegurar ao filho que já
tenho que ele é amado, antes de lhe dar irmãos ou irmãzinhas.
Sarah tocou-lhe o rosto, cheia de carinho.
— Acho que você vai descobrir que ele já é adulto o suficiente para aceitar e
entender o que aconteceu entre Amanda e Jonathan. Só acho que não seria justo dizer-
lhe o quanto você foi infeliz por causa disso. Ele ama tanto a memória da mãe.
Garrett concordou.
— Tenho certeza de que ela falava sério a respeito do aborto, mas, na medida em
que a gravidez avançava e o bebê tornava-se mais real, Amanda começou a amá-lo de
fato. Seu amor por Jason era indiscutível.
— Talvez ela tenha realmente amado Jonathan...
— Talvez. Nunca mostrou a ele como podia ser venenosa...
— Como você mesmo disse, tudo isso é passado. — Sarah encerrou o assunto. —
É o futuro que nos interessa.
— É mesmo? — Um brilho divertido apareceu nos olhos verdes. — E que futuro
seria esse?
— Eu gostaria muito de ser sua esposa, mas você não quer...
— Deixe-me dizer-lhe uma coisa, mocinha. Vou me casar com você uma dúzia de
vezes só para que saiba o quanto eu a quero. Começando por hoje à noite.
— Hoje à noite? Mas...
— Vamos nos casar em Nevada. Depois faremos outra cerimônia, na Inglaterra.
Então um aqui, então...
— Garrett, uma vez só é suficiente!
— Uma vez nunca será suficiente para mim, bruxinha.
— Garrett Kingham!
— Sim... Sarah Kingham?
— Vou passar a vida inteira amando você.

EPÍLOGO

Sarah deu um sorriso ao ouvir a confusão no corredor, que anunciava a chegada do


marido.
O bebê era esperado para dali a cinco semanas, e ela assegurara a Garrett que
haveria tempo de ir até a Inglaterra e voltar antes do nascimento. Teria ido junto para
aproveitar alguns dias na companhia do pai e de Glynuis, a gentil senhora com quem ele
se casara no ano anterior, mas estava se sentindo muito cansada nos últimos dias e
todos acharam que seria melhor que ficasse em casa.
Dezoito meses de casamento só fizeram aumentar seu amor e o de Garrett, e ela
sabia que ele estava extasiado com a ideia de ser pai outra vez. — Sarah! — Ele entrou
no quarto, com as mãos cheias flores e chocolates, que obviamente comprara no

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caminho. — Você está bem? — Calma, pai — Jason disse, sorridente. — Não vê que ela
está bem?
Porque não pudera ir com ele, Sarah insistira em que Jason o acompanhasse, e o
pobre garoto não parara de acalmá-lo durante toda a viagem de volta, desde que Shelley
lhe telefonara na noite anterior para avisar que Sarah entrara em trabalho de parto.
Garrett parou ao lado da cama.
— Você já teve o bebê! — Olhou para o estômago achatado, depois de meses de
espera, e sentiu-se como se fosse estourar de felicidade.
— Sim — ela confirmou, paciente.
Ele engoliu em seco, linhas de tensão em volta dos olhos, o cabelo despenteado, as
roupas amassadas.
— Shelley não me disse nada quando nos encontramos no aeroporto. E Jonathan
também não...
— Porque eu lhes pedi, meu bem. Queria dizer-lhe eu mesma. Os cunhados haviam
ficado com ela durante a longa noite. — Jason, pegue uma cadeira para seu pai, porque
ele parece que vai desmaiar!
Garrett sentou-se assim que a cadeira foi colocada a seu lado.
— Nada deu errado, não é? Foi tão cedo...
— Tudo correu bem. — Ela sorriu, acalmando-o, e piscou para Jason, um rapaz já
tão alto quanto o pai. — Venha cá — disse ao enteado.
— Tem certeza? — Ele parecia hesitante, com medo de ser um intruso.
— Não quer saber se tem um irmãozinho ou irmãzinha?
Ele sentou-se ao lado do pai. Ambos estavam curiosos.
Sarah respirou fundo.
— Garrett, eu já lhe falei sobre minha avó, a mãe de meu pai?
— Bruxinha, não é hora de discutir sua família. Eu quero saber do bebe...
— Não há nada errado com ele, Garrett. Como eu estava dizendo, foi uma dessas
coisas que a família pensou que nunca aconteceria, já que nunca mais aconteceu
desde...
— Sarah, quer me dizer se tenho um filho ou uma filha e parar de me assustar?
— Eu estava tentando tornar isso mais fácil para você.
— Não quero as coisas mais fáceis, só quero a verdade!
— Tudo bem — Sarah assentiu, alisando o cobertor. — Às duas e trinta e dois dessa
manhã, nossa filha veio ao mundo...
— Uma filha! — 0 rosto de Garrett brilhava, cheio de orgulho. — Nossa Dianna
Louise.
— Pois é. E às duas e cinquenta e seis nossa segunda filha nasceu...
— Duas? — Ele engasgou, incrédulo.
— Vovó Harvey teve gêmeos — Jason concluiu, excitado.
— Bem... não exatamente — Sarah negou devagar.
— Como "não exatamente"? — Garrett perguntou.
Ela respirou fundo mais uma vez.
— Às três e dez, um pouco mais depressa dessa vez, nossa terceira filha nasceu:
— Trigêmeas! — Ele recostou-se, pálido. — Esse é o total.... não é? Não há nenhum
garotinho, há?
— Não. Quem sabe da próxima vez...
— Próxima vez? — Ele se levantou nervoso. — Depois disso acho que eu não
aguentaria uma próxima vez! Por que nenhum dos médicos suspeitou?
— Os médicos me avisaram de que havia uma possibilidade, mas era só uma
possibilidade, e eu não quis deixá-lo preocupado.
— Ela "não quis me deixar preocupado"! — Garrett disse ao filho. — Oh, não,
preferiu me dar um ataque do coração de uma vez! O que vou fazer com três filhas?

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— Ficar orgulhoso delas, amá-las...


— Preocupar-me com elas. — Garrett virou se para Jason. — Nós dois vamos nos
preocupar com elas. É trabalho do irmão proteger as irmãs, e se elas forem tão bonitas
como a mãe...
— São muito mais bonitas do que eu — Sarah interrompeu-o suavemente.
— Meu Deus, bruxinha! — ele sentou-se na beirada da cama, tomando-lhe as mãos.
— Você está bem?
— Estou. — Sarah riu do pânico que pareceu tomar conta do marido.
— E nossas filhas?
— Um quilo e oitocentos, um quilo, oitocentos e setenta, e um quilo, oitocentos e
quarenta gramas respectivamente. Um pouquinho pequenas no momento, mas são todas
perfeitas, sadias e lindas! Seu pai deu uma olhada nelas e teve de ir para casa descansar!
Recordou-se com um sorriso. William Kingham não era propriamente seu amigo,
mas passara a respeitá-la com uma admiração crescente.
— Todo mundo já conhece nossas filhas, menos Jason, e eu. Será que podemos vê-
las?
— É claro. Se você me ajudar a sentar na cadeira de rodas, nós todos iremos ver as
três belas Kingham.
Sarah observou a expressão de Garrett enquanto ele olhava extasiado para as
filhas, pelo vidro do berçário. Orgulho e amor dançavam nos olhos verdes enquanto ele
ria para os três rostinhos redondos, com cabelos negros como os da mãe.
— Acho que vão ter olhos verdes — Sarah lhe disse num sussurro. Garrett falou
com voz embargada, fitando a mulher amada com um brilho de paixão no rosto
resplandecente de felicidade:
— Da próxima vez, quem sabe, possamos ter três garotos...

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