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SUMÁRIO

UNIDADE 1 – INTRODUÇÃO ..................................................................................... 2


UNIDADE 2 – ORIGENS DA CONSTITUIÇÃO .......................................................... 6
UNIDADE 3 – CONCEITOS, OBJETO E FONTES CONSTITUCIONAIS .................. 9
3.1 CONCEITO E SENTIDOS: MATERIAL, FORMAL, SOCIOLÓGICO, POLÍTICO E JURÍDICO ...... 9
3.2 OBJETO ............................................................................................................. 15
3.3 FONTES DO DIREITO CONSTITUCIONAL ................................................................. 16
UNIDADE 4 – PRINCÍPIOS DE HERMENÊUTICA CONSTITUCIONAL .................. 18
UNIDADE 5 – CLASSIFICAÇÕES ........................................................................... 21
5.1 CONSTITUIÇÕES FORMAIS E MATERIAIS – CONTEÚDO ............................................. 21
5.2 CONSTITUIÇÕES ESCRITAS E NÃO ESCRITAS – FORMA ............................................ 22
5.3 CONSTITUIÇÕES RÍGIDAS E FLEXÍVEIS – ESTABILIDADE OU ALTERABILIDADE ............. 23
5.4 CONSTITUIÇÃO GARANTIDA E PROGRAMÁTICA – FINALIDADE ................................... 24
5.5 CONSTITUIÇÃO OUTORGADA E PROMULGADA – ORIGEM ......................................... 25
5.6 CONSTITUIÇÃO NORMATIVA, NOMINAL E SEMÂNTICA – CORRESPONDÊNCIA COM A
REALIDADE............................................................................................................... 26
5.7 CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA OU HISTÓRICA – ELABORAÇÃO ..................................... 27
5.8 CONSTITUIÇÃO ANALÍTICA E SINTÉTICA – EXTENSÃO .............................................. 28
5.9 OUTRAS CLASSIFICAÇÕES ................................................................................... 29
UNIDADE 6 – A TEORIA DA NORMA CONSTITUCIONAL .................................... 33
6.1 CLASSIFICAÇÃO DE JOSÉ AFONSO DA SILVA .................................................. 33
6.2 A CLASSIFICAÇÃO DE MARIA HELENA DINIZ ..................................................... 37
6.3 A SANÇÃO IMPERFEITA ........................................................................................ 38
UNIDADE 7 – PREÂMBULO E ATO DAS DISPOSIÇÕES CONSTITUCIONAIS
TRANSITÓRIAS (ADCT) .......................................................................................... 39
7.1 PREÂMBULO DA CONSTITUIÇÃO ........................................................................... 39
7.2 O ADCT............................................................................................................ 41
UNIDADE 8 – INTRODUÇÃO À INTERPRETAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO ............. 45
8.1 A ESTRUTURA .................................................................................................... 46
8.2 AS AMBIGUIDADES .............................................................................................. 47
8.3 INCOERÊNCIA NORMATIVA ................................................................................... 49
8.4 LACUNAS ........................................................................................................... 50
8.5 MÉTODOS PARA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL ............................................... 52
8.6 PRINCÍPIOS PARA INTERPRETAR A CONSTITUIÇÃO .................................................. 54
UNIDADE 9 – AS CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS .............................................. 58
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 71

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UNIDADE 1 – INTRODUÇÃO

Sejam bem-vindos ao módulo que nos dará as primeiras impressões acerca


do Direito Constitucional, prelecionado por JOSÉ AFONSO DA SILVA (2014) como
ramo do Direito Público, configurando-se como fundamental por referir-se
diretamente à organização e funcionamento do Estado, à articulação dos elementos
primários do mesmo e ao estabelecimento das bases da estrutura política.
PAULO MASCARENHAS (2008) também nos ensina que:
em sentido geral e amplo, constituição é a estrutura fundamental ou a
maneira de ser de qualquer coisa;
em teoria política e direito, Constituição, em letra maiúscula, refere-se a
Estado, podendo ser empregada em sentido amplo ou restrito;
em sentido amplo, genérico, é a própria organização estatal. Todos os países
possuem suas Constituições, que lhes são próprias;
em sentido restrito, define-se a Constituição como o conjunto de normas
jurídicas necessárias e básicas à estruturação de uma sociedade política,
geralmente agrupadas em uma única Lei Fundamental.

No entendimento de PAULO GUSTAVO GONET BRANCO (2011, p. 43), o


Direito Constitucional é o ramo do estudo jurídico dedicado à estrutura básica do
ordenamento normativo. Nele se examinam as regras matrizes de todo o direito
positivo. Nesta disciplina, até por isso, encadeiam-se princípios – as causas
primeiras – do Direito Administrativo, Tributário, Processual, Penal e Privado.
Nessa direção, CLEVER VASCONCELOS (2010) explica que o Direito é um
todo e a sua divisão ocorre meramente para fins didáticos, abrangendo as seguintes
disciplinas:
a) Direito Constitucional Positivo (particular ou especial) – sua análise recai
sobre as normas fundamentais vigentes. Ou seja, seu objeto é a interpretação,
crítica e sistematização das normas vigentes em certo Estado. Assim, fala-se em
Direito Constitucional Particular quando se examinam as peculiaridades da
organização jurídica de cada Estado, e em Direito Constitucional Positivo quando se
ressalva a vigência e eficácia das normas que compõem o seu ordenamento jurídico.
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b) Direito Constitucional Comparado – analisa diversas Constituições para


obter da comparação dessas normas positivas dados sobre semelhanças ou
diferenças que são úteis ao estudo jurídico, captando o que há de essencial na
unidade e na diversidade entre elas. O Direito Constitucional Comparado assenta-se
em sistemas jurídicos positivos, embora não necessariamente vigentes.
Cabe ainda, mesmo que de modo sucinto, contrapor o pensamento de
Ferdinand Lassalle1; Konrad Hesse2 e Hans Kelsen3 e lembrar de imediato o
pensamento de Georg Jellinek4.
Para Lassalle, as questões constitucionais não são jurídicas, mas políticas,
onde os fatores reais do poder formam a chamada Constituição real do país; o poder
da força seria sempre superior ao poder das normas jurídicas, situação em que a
normatividade é submetida à realidade fática.
Isso significaria a negação da Constituição jurídica, que teria unicamente a
função de justificar as relações de poder dominantes (MASCARENHAS, 2008).
Hesse (traduzido no Brasil por Gilmar Ferreira Mendes), contrapõe-se às
concepções de Lassalle, demonstrando que o desfecho entre os fatores reais de
poder e a Constituição não implica necessariamente na derrota desta última. Para
Hesse, existem pressupostos realizáveis que permitem assegurar sua força
normativa, e que apenas quando esses pressupostos não sejam satisfeitos é que as
questões jurídicas podem se converter em questões de poder. O primeiro desses
pressupostos é a vontade de Constituição. A Constituição transforma-se em força
ativa se existir a disposição de orientar a própria conduta segundo a ordem nela

1
Advogado na antiga Prússia, (1825-1864). Difundiu o conceito sociológico de Constituição ao
estabelecer que tal documento deve descrever rigorosamente a realidade política do país, sob pena
de não ter efetividade, tornando-se um mera folha de papel. Esse conceito nega que a Constituição
possa mudar a realidade.
2
Jurista alemão, (1919-2005), discorreu sobre a força normativa da Constituição.
3
Jurista e filósofo austríaco, (1881-1973), é considerado o principal representante da chamada
Escola Normativista do Direito, ramo da Escola Positivista. Foi também o criador da teoria da
modulação dos efeitos da declaração de inconstitucionalidade nos sistemas jurídicos da família
romano germânica.
4
Filósofo do direto e juiz alemão, (1851-1911), é reconhecido como o fundador da disciplina de
Teoria Geral do Estado, pois até sua obra ser conhecida aplicava-se uma leitura ora idealista
(Filosofia do Estado de Hegel, por exemplo) ora negativista (ideologias do Estado, no exemplo da
tradição marxista).
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estabelecida, se fizeram-se presentes, na consciência geral (especialmente na


consciência dos principais responsáveis pela ordem constitucional), não só a
vontade de poder, mas também a vontade de Constituição. Para Hesse, a força
normativa da Constituição não está assegurada de plano, configurando missão que
somente em determinadas condições poderá ser realizada de forma excelente. Para
ele, compete ao direito constitucional realçar, despertar e preservar a vontade de
Constituição, que, indubitavelmente, constitui a maior garantia de sua força
normativa.
Kelsen foi o formulador e principal defensor da “Teoria Pura do Direito”. Ele
contrapôs-se a Lassalle e a Hesse. Para Kelsen, o direito deve ser examinado como
ele de fato o é, isento de juízos valorativos, e não como deveria ser. Vale dizer, o
direito tem de ser despido de todo seu conteúdo valorativo, e que necessita existir
uma respeitabilidade entre o conjunto hierarquizado das normas, que contém na
Constituição seu ápice.
O ordenamento jurídico não é, portanto, um sistema jurídico de normas
igualmente ordenadas, colocadas lado a lado, mas um ordenamento escalonado de
várias camadas de normas jurídicas (KELSEN, 2003, p. 103).
Quanto a Jellinek, em linhas gerais, defensor do direito como um mínimo
ético, tem como certo que todo indivíduo, por fazer parte da comunidade, pode estar
vinculado ao Estado com quatro status distintos, os quais serão vistos ao longo do
curso, quando estudarmos os direitos fundamentais.
Pois bem, neste primeiro momento do curso, veremos as origens e um
pouco da construção histórica desse ramo do direito; conceitos, objeto e fontes
constitucionais, bem como os princípios de hermenêutica, as diversas classificações
das constituições (baseadas na forma, estabilidade, finalidade, extensão,
elaboração, entre outras), características da norma constitucional, entre outros
pontos que são essenciais ao estudo da Teoria Constitucional.
Também teremos uma unidade para entender o preâmbulo e o ato das
disposições constitucionais transitórias (ADCT) e breve estudo dos métodos de
interpretação da Constituição. Finalizaremos com algumas pontuações sobre as
Constituições Brasileiras.

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Ressaltamos em primeiro lugar que embora a escrita acadêmica tenha como


premissa ser científica, baseada em normas e padrões da academia, fugiremos um
pouco às regras para nos aproximarmos de vocês e para que os temas abordados
cheguem de maneira clara e objetiva, mas não menos científicos. Em segundo lugar,
deixamos claro que este módulo é uma compilação das ideias de vários autores,
incluindo aqueles que consideramos clássicos, não se tratando, portanto, de uma
redação original e tendo em vista o caráter didático da obra, não serão expressas
opiniões pessoais.
Ao final do módulo, além da lista de referências básicas, encontram-se
outras que foram ora utilizadas, ora somente consultadas, mas que, de todo modo,
podem servir para sanar lacunas que por ventura venham a surgir ao longo dos
estudos.

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UNIDADE 2 – ORIGENS DA CONSTITUIÇÃO

O Direito Constitucional é o Ramo do Direito Público que estuda os


princípios indispensáveis à organização do Estado, à distribuição dos poderes, os
órgãos públicos e os direitos individuais e coletivos (MASCARENHAS; 2008;
PAULO; ALEXANDRINO, 2008; NEVES; LOYOLA, 2011).
Em relação a sua origem, o Direito Constitucional, enquanto ramo do Direito
que estuda os princípios necessários e indispensáveis à estruturação da vida do
Estado, teve como origem a Assembleia Nacional Constituinte da França de
26/09/1791, que determinou a obrigatoriedade do ensino da Constituição para os
estudantes franceses.
A expressão Direito Constitucional, contudo, somente surgiu em 1797, em
Milão, norte da Itália (MASCARENHAS, 2008).
Se pensarmos em pré-constitucionalismo, ou seja, o desenvolvimento
histórico do Direito Constitucional, analisado sob a ótica da evolução humana, a
partir de sua convivência em sociedade, desde a era primária, este seria a existência
de um Direito Constitucional anterior, nascido de um sistema totalmente rudimentar,
onde se delineou as primeiras noções elementares de território, população e
governo, sistema este que era orientado por princípios que regulavam a vida de
primitivos agrupamentos humanos, compreendendo, desta forma, aspectos jurídicos,
políticos, sociais, religiosos e econômicos (PENNA, 2013).
Essa concepção nos levaria para tempos gregos, romanos, bizantinos,
entretanto, nosso interesse começa mais recentemente com a emancipação
americana.
Até meados do século XVIII, as Constituições eram costumeiras, baseadas
nas tradições, hábitos e costumes do povo, e, também, baseadas em leis e
documentos esparsos, como por exemplo, a Magna Carta inglesa, de João Sem
Terra, de 1215, que consubstanciou o acordo entre o Rei e o baronato revoltado
com os amplíssimos poderes do Monarca sobre tudo e sobre todos.
Posteriormente, em 1689, na mesma Inglaterra, para, uma vez mais,
estabelecer limites aos poderes do Monarca, foi editada a Bill of Rights.

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A ideia de Constituição veio a ganhar força quando foi associada às


concepções iluministas, com o liberalismo político representando a ideologia
revolucionária do século XVIII. O triunfo das ideias liberais dá-se com as Revoluções
dos séculos XVII, na Inglaterra, e XVIII, nos Estados Unidos e na França, quando se
afirmam os direitos fundamentais e a não-intervenção arbitrária do Estado
(MASCARENHAS, 2008).
A partir da segunda metade do século XVIII, inspirado na filosofia
sociocontratualista, existente especialmente durante os séculos XVI a XVIII,
compreendeu-se a necessidade da elaboração de uma Constituição escrita,
baseada no pacto social, de maneira que ela significasse uma verdadeira expressão
contratual da sociedade, devendo, por isso, ser clara, objetiva, racional e firme, de
modo a representar um princípio de maior proteção contra possíveis e prováveis
deformações de caráter autoritário, arbitrário (MASCARENHAS, 2008).
A primeira Constituição escrita, criada pelo Poder Constituinte e em termos
similares aos que atualmente são conhecidos, surgiu em 1787, nos Estados Unidos,
tendo por base a teoria do contrato social.
É bem de ver, contudo, que antes da revolução americana, e, por
conseguinte, bem antes dessa primeira Constituição escrita, todas as treze colônias
americanas já tinham as suas cartas constitucionais.
Com a independência dessas colônias, depois transformadas em Estados
soberanos, foram publicados documentos formais como a Declaração de Direito do
Estado da Virgínia, de 12/06/1776, e a de Massachussets, em 1780, tomada como
principal modelo da Constituição Federal americana.
Nos dizeres de Penna (2013, p. 161), o constitucionalismo norte-americano
firmou o ciclo das Constituições Escritas.
Depois disso, a Constituição se tornaria uma instituição política que tinha por
objetivo a delimitação do Poder, sendo que esta delimitação se operava, de maneira
extrínseca, pela garantia dos direitos naturais, e de maneira intrínseca, como
decorrência da adoção do princípio da separação de poderes, conforme explicitado
pela Declaração dos Direitos do Homem, de 1789.
Segundo NORBERTO BOBBIO (1997), o Estado moderno, liberal e
democrático, surgiu da reação contra o Estado absoluto. Para ele, o problema
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fundamental do Estado constitucional moderno, que se desenvolve como uma


antítese do Estado absoluto, é o dos limites do poder estatal, como veremos ao
longo do curso.
Quanto à nossa situação, deixamos a última unidade para discorrer sobre as
Constituições Brasileiras, mas de imediato, podemos inferir que nosso
constitucionalismo nasceu das ruínas sociais do colonialismo, com certo desrespeito
à organização indígena que aqui já existia, igualmente com os povos negros que
trouxemos para cá, sem preservar um mínimo de identidade desses povos.

Guarde...
Constitucionalismo é o movimento político-social que tem como marco
formal a Constituição Americana (1789) e a Revolução Francesa (1791), ambas do
século XVIII, que elege o povo como titular do poder em contraposição do
Absolutismo Reinante e a época do Iluminismo.

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UNIDADE 3 – CONCEITOS, OBJETO E FONTES


CONSTITUCIONAIS

Segundo VICENTE PAULO e MARCELO ALEXANDRINO (2008), o Direito


Constitucional não se desenvolve isolado de outras ciências de base social, tais
como a Política, a Sociologia, a Filosofia. Em maior ou menor grau, essas ciências
possuem laços de interconexão, o que permite a construção de diferentes
concepções para o termo Constituição, como norma básica de um Estado, a saber:
Constituição em sentido sociológico, Constituição em sentido político e Constituição
em sentido jurídico, entre outros sentidos.
Embora também tenhamos um módulo para o estudo da organização do
Estado e dos poderes, precisamos lembrar que o Estado existe quando há
soberania, povo e território, além de um quarto elemento, a finalidade, ou seja, o
Estado é a organização soberana de um povo em um território que deve ser
orientada ao atingimento de um conjunto de finalidades.
Diante desse conceito, o estado precisa de uma Constituição!
Vejamos alguns dos sentidos de Constituição, palavra derivada do verbo
latino constituere (estabelecer definitivamente) que, contudo, é usada no sentido de
Lei Fundamental do Estado. Com efeito, a Constituição é a organização jurídica
fundamental do Estado, um conjunto de regras sistematizadas em um texto único,
por conseguinte, formal (VASCONCELOS, 2010).

3.1 Conceito e sentidos: material, formal, sociológico, político e jurídico


CLEVER VASCONCELOS (2010) nos lembra que a Teoria da Constituição,
como conhecimento jurídico, político e filosófico, deve-se à doutrina alemã. Sua
formação e autonomia decorreram da preocupação de se chegar a um conceito
substantivo de Constituição. Ela examina, identifica e critica os limites, as
possibilidades e a força normativa do Direito Constitucional, ocupando-se em
estudar os diversos conceitos de Constituição, o Poder Constituinte e a legitimidade
da Constituição; reforma constitucional; direitos fundamentais e separação de
poderes, como elementos característicos do Estado de Direito, entre outros.

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Não, ainda não vamos aprofundar na “teoria”, somente apresentar alguns


sentidos e conceitos que embasam o tema “Constituição”.
Constituição em sentido material (ou substancial) é o conjunto de normas
cujo conteúdo seja considerado propriamente constitucional, isto é, essencial à
estruturação do Estado, à regulação do exercício do poder e ao reconhecimento de
direitos fundamentais aos indivíduos. PAULO BONAVIDES (2006) nos ensina que,
do ponto de vista material, a Constituição é o conjunto de normas pertinentes à
organização do poder, à distribuição da competência, ao exercício da autoridade, à
forma de governo, aos direitos da pessoa humana, tanto individuais como sociais.
Segundo esse conceito, há matérias que são constitucionais em razão de
seu conteúdo, e as normas que delas tratam – não importa se escritas ou
consuetudinárias, se integrantes de um único documento escrito de forma unitária ou
de textos esparsos surgidos em momentos diversos – ostentam a natureza de
normas constitucionais (normas materialmente constitucionais).
O conceito formal de Constituição diz respeito à existência, em um
determinado Estado, de um documento único, escrito por um órgão soberano
instituído com essa específica finalidade, que contém, entre outras, as normas de
organização política da comunidade e, sobretudo, que só pode ser alterado
mediante um procedimento legislativo mais árduo, e com muito maiores restrições,
do que o necessário à aprovação das normas não constitucionais pelos órgãos
legislativos constituídos.
Nesse documento poderá haver normas de qualquer conteúdo. É evidente
que as normas fundamentais concernentes à estruturação e ao funcionamento dos
poderes estatais, bem como aos direitos fundamentais dos cidadãos, deverão
constar dessa Constituição escrita. Entretanto, inúmeras outras disposições,
tratando virtualmente de qualquer matéria que o constituinte entenda por bem alçar
ao status constitucional, poderão figurar no texto da Constituição formal.
Essas disposições terão hierarquia idêntica à daquelas outras que, na
mesma Constituição escrita, veiculam normas tidas como materialmente
constitucionais.
A hierarquia das normas constitucionais, em uma Constituição em sentido
formal, é determinada simplesmente pelo fato de as disposições que as veiculam
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constarem do texto da Constituição escrita do Estado; não existe absolutamente


nenhuma distinção formal entre as disposições constantes do texto constitucional,
sejam quais forem os seus conteúdos.
De outra parte, em um Estado dotado de Constituição escrita e rígida (que
exige um procedimento especialmente árduo para sua modificação), qualquer
disposição que não esteja no texto da Constituição, ainda que veicule normas cujo
conteúdo seja tido por materialmente constitucional, poderá ser livremente alterada
pelo legislador constituído mediante os mesmos procedimentos necessários à
edição e alteração de toda a legislação não constitucional. Não existe, por exemplo,
absolutamente, nenhuma diferença formal entre as leis ordinárias no Brasil, seja qual
for a matéria de que tratem (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).
Como veremos um pouco adiante, esses sentidos dados para analisar a
Constituição acabam por se confundirem com as diversas classificações para o
mesmo instituto.
PAULO GUSTAVO GONET BRANCO (2011) explica com muita propriedade
sobre a questão da Constituição no sentido substancial quando o critério definidor se
atém ao conteúdo das normas examinadas. Nessa direção, a Constituição será o
conjunto de normas que instituem e fixam as competências dos principais órgãos do
Estado, estabelecendo como serão dirigidos e por quem, além de disciplinar as
interações e controles recíprocos entre tais órgãos. Compõem a Constituição
também, sob esse ponto de vista, as normas que limitam a ação dos órgãos estatais,
em benefício da preservação da esfera de autodeterminação dos indivíduos e
grupos que se encontram sob a regência desse Estatuto Político.
Essas normas garantem às pessoas uma posição fundamental ante o poder
público (direitos fundamentais), portanto, esse é o conceito material de Constituição
que o constitucionalismo moderno sugere. É de se notar, contudo, que, ultrapassado
o momento histórico caracterizado pela preocupação predominante de conter o
poder, o Estado foi levado a assumir novas funções e tarefas, que os desafios da
História foram-lhe propondo como essenciais para a própria existência da
comunidade política.
Ante o risco de dilaceração interna, em virtude das angustiantes e
crescentes desigualdades de fato verificadas na sua população, agravadas pelas
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pressões do crescimento demográfico e acentuadas pela concentração de rendas


que o sistema econômico ensejava, o Estado passou a assumir um papel ativo de
redefinição social, com vistas a prosseguir o ideal de integração nacional que
também lhe compete. O Estado de direito descobriu que lhe é essencial a busca da
justiça social. Deu-se conta, ainda, de que a sociedade se tornou acentuadamente
plúrima, em termos de concepção de vida e de interesses essenciais, e de que a
todos os membros da comunidade é devida a consideração e o respeito em termos
de proteção normativa básica (BRANCO, 2011).
Enfim, o conceito material de Constituição, portanto, segue a inteligência
sobre o papel essencial do Direito e do Estado na vida das relações em uma
comunidade.
Na visão sociológica, a Constituição é concebida como fato social, e não
propriamente como norma. O texto positivo da Constituição seria resultado da
realidade social do País, das forças sociais que imperam na sociedade, em
determinada conjuntura histórica. Caberia à Constituição escrita, tão somente, reunir
e sistematizar esses valores sociais num documento formal, documento este que só
teria eficácia se correspondesse aos valores presentes na sociedade (PAULO;
ALEXANDRINO, 2008).
Representante típico da visão sociológica de Constituição, como já
aventamos, foi Ferdinand Lassalle, segundo o qual a Constituição de um país é, em
essência, a soma dos fatores reais de poder que nele atuam, vale dizer, as forças
reais que mandam no país. Para Lassalle, constituem os fatores reais do poder as
forças que atuam, política e legitimamente, para conservar as instituições jurídicas
vigentes. Dentre essas forças, ele destacava a monarquia, a aristocracia, a grande
burguesia, os banqueiros e, com específicas conotações, a pequena burguesia e a
classe operária.
Segundo Lassalle, convivem em um país, paralelamente, duas
Constituições: uma Constituição real, efetiva, que corresponde à soma dos fatores
reais de poder que regem esse País, e uma Constituição escrita, por ele
denominada “folha de papel”. Esta, a Constituição escrita (“folha de papel”), só teria
validade se correspondesse à Constituição real, isto é, se tivesse suas raízes nos
fatores reais de poder. Em caso de conflito entre a Constituição real (soma dos
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fatores reais de poder) e a Constituição escrita (“folha de papel”), esta sempre


sucumbiria àquela.
A concepção política de Constituição foi desenvolvida por Carl Schmitt, para
o qual a Constituição é uma decisão política fundamental, ou seja, a sua validade
não se apoia na justiça de suas normas, mas na decisão política que lhe dá
existência. O poder constituinte equivale, assim, à vontade política, cuja força ou
autoridade é capaz de adotar a concreta decisão de conjunto sobre modo e forma da
própria existência política, determinando assim a existência da unidade política como
um todo.
A Constituição surge, portanto, a partir de um ato constituinte, fruto de uma
vontade política fundamental de produzir uma decisão eficaz sobre modo e forma de
existência política de um Estado.
Nessa concepção política, Schmitt estabeleceu uma distinção entre
Constituição e leis constitucionais: a Constituição disporia somente sobre as
matérias de grande relevância jurídica, sobre as decisões políticas fundamentais
(organização do Estado, princípio democrático e direitos fundamentais, entre outras);
as demais normas integrantes do texto da Constituição seriam, tão somente, leis
constitucionais (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).
Por fim, em sentido jurídico, a Constituição é compreendida de uma
perspectiva estritamente formal, apresentando-se como pura norma jurídica, como
norma fundamental do Estado e da vida jurídica de um país, paradigma de validade
de todo o ordenamento jurídico e instituidora da estrutura primacial desse Estado. A
Constituição consiste, pois, num sistema de normas jurídicas.
Na Teoria Pura do Direito de Hans Kelsen, encontramos o embasamento
necessário para entender essa visão, qual seja: a validade de uma norma jurídica
positivada é completamente independente de sua aceitação pelo sistema de valores
sociais vigentes em uma comunidade, tampouco guarda relação com a ordem moral,
pelo que não existiria a obrigatoriedade de o Direito coadunar-se aos ditames desta
(moral). A ciência do Direito não tem a função de promover a legitimação do
ordenamento jurídico com base nos valores sociais existentes, devendo unicamente
conhecê-lo e descrevê-lo de forma genérica, hipotética e abstrata (PAULO;
ALEXANDRINO, 2008).
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Esta era a essência de sua teoria pura do direito: desvincular a ciência


jurídica de valores morais, políticos, sociais ou filosóficos, para o que ele
desenvolveu dois sentidos para a palavra Constituição: (a) sentido lógico-jurídico; (b)
sentido jurídico-positivo.
Em sentido lógico-jurídico, Constituição significa a norma fundamental
hipotética, cuja função é servir de fundamento lógico transcendental da validade da
Constituição em sentido jurídico-positivo.
Como Kelsen não admitia como fundamento da Constituição positiva algum
elemento real, de índole sociológica, política ou filosófica, ele se viu forçado a
desenvolver um fundamento também meramente formal, normativo, para a
Constituição positiva. Denominou esse fundamento “norma fundamental hipotética”
(pensada, pressuposta), que existiria, segundo ele, apenas como pressuposto lógico
de validade das normas constitucionais positivas. Essa norma fundamental
hipotética, fundamento da Constituição positiva, não possui um enunciado explícito;
o seu conteúdo pode traduzir-se, em linhas gerais, no seguinte comando, a todos
dirigidos: “conduzam-se conforme determinado pelo autor da Constituição positiva”;
ou, de forma mais simples, “obedeçam à Constituição positiva”.
Já em sentido jurídico-positivo, Constituição corresponde à norma positiva
suprema, conjunto de normas que regulam a criação de outras normas, lei nacional
no seu mais alto grau. Ou, ainda, corresponde a certo documento solene que
contém um conjunto de normas jurídicas que somente podem ser alteradas
observando-se certas prescrições especiais.
Dessas concepções de Constituição, a relevante para o Direito moderno é a
jurídico-positiva, a partir da qual a Constituição é vista como norma fundamental,
criadora da estrutura básica do Estado e parâmetro de validade de todas as demais
normas (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).

Guarde...
Em sentido sociológico – a Constituição é o somatório dos fatores reais do
poder, dentro de uma sociedade (Ferdinand Lassalle).

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Em sentido político – a Constituição estrutura órgãos do Estado, direito


individual, democracia, e as leis constitucionais seriam dispositivos inseridos
no texto do documento constitucional (Carl Schimitt).
Em sentido formal – a Constituição cuida da maneira pela qual a norma foi
introduzida. Assim, se foi trazida pelo ordenamento interno, por um
procedimento mais dificultoso (lei ordinária) do que as normas
infraconstitucionais, aí serão constitucionais.

Ex.: O art. 242, § 211, da CF traz que: “O Colégio Pedro II, localizado na
cidade do Rio de Janeiro, será mantido na órbita Federal”. Assim, só porque foi
introduzido pelo poder constituinte originário será norma constitucional.
Sentido jurídico – a Constituição está no mundo do “dever ser” e não no
mundo do “ser” (Hans Kelsen). José Afonso da Silva considera a Constituição
uma norma pura. É a norma hipotética fundamental, contendo a verticalidade
das normas. (NEVES LOYOLA, 2011).

3.2 Objeto
A Constituição, objeto de estudo do Direito Constitucional, deve ser
entendida como a lei fundamental e suprema de um Estado, que rege a sua
organização político-jurídica.
O objeto imediato do Direito Constitucional é a Constituição, e aqui se
desenvolvem esforços por compreender em que consiste, como ela é, quais as suas
funções, tudo propiciando as bases para o aprimoramento constante e necessário
das normas de proteção e promoção dos valores que resultam da necessidade de
respeito à dignidade da pessoa humana e que contribuem para conformá-la no plano
deontológico (BRANCO, 2011, p. 43).
As normas de uma Constituição devem dispor acerca da forma do Estado,
dos órgãos que integram a sua estrutura, das competências desses órgãos, da
aquisição do poder e de seu exercício. Além disso, devem estabelecer as limitações
ao poder do Estado, especialmente mediante a separação dos poderes (sistema de
freios e contrapesos) e a enumeração de direitos e garantias fundamentais (PAULO;
ALEXANDRINO, 2008).
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J. J. GOMES CANOTILHO (1994), com base nos pontos essenciais da


concepção político-liberal de Constituição, cunhou a expressão “Constituição ideal”,
reiteradamente citada pelos autores pátrios. Os elementos caracterizadores desse
conceito de “Constituição ideal”, de inspiração liberal, são os seguintes:
a) a Constituição deve ser escrita;
b) deve conter uma enumeração de direitos fundamentais individuais
(direitos de liberdade);
c) deve adotar um sistema democrático formal (participação do “povo” na
elaboração dos atos legislativos, pelos parlamentos);
d) deve assegurar a limitação do poder do Estado mediante o princípio da
divisão de poderes.
O alargamento do âmbito de ação do Estado – o Estado atual possui
atribuições jamais cogitadas pelo Liberalismo clássico – tem levado a um
considerável aumento da importância do Direito Constitucional nos estudos jurídicos,
bem como à tendência de ampliação de seu conteúdo material.
Segundo VICENTE PAULO e MARCELO ALEXANDRINO (2008), as normas
de uma Constituição, no Estado liberal, deviam restringir-se a determinar a estrutura
do Estado, o modo de exercício e transmissão do poder e a reconhecer direitos
fundamentais de liberdade aos indivíduos.
No Estado moderno, de cunho marcadamente social, a doutrina
constitucionalista aponta o fenômeno da expansão do objeto das Constituições, que
têm passado a tratar de temas cada vez mais amplos, estabelecendo, por exemplo,
finalidades para a ação estatal. Isso explica a tendência contemporânea de
elaboração de Constituições de conteúdo extenso (Constituições analíticas ou
prolixas) e preocupadas com os fins estatais, com o estabelecimento de programas
e linhas de direção para o futuro (Constituições dirigentes ou programáticas).

3.3 Fontes do Direito Constitucional


As fontes são as maneiras ou formas, por intermédio das quais se fixam ou
criam os preceitos constitucionais e no caso do direito Constitucional são cinco as
fontes; a saber: o Direito Natural, a Constituição Política, os Costumes e as
Tradições, a Jurisprudência dos Tribunais, e a Doutrina.
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Segundo PAULO MASCARENHAS (2008), essas fontes podem ser divididas


em fontes imediatas e fontes mediatas.
Como fontes imediatas temos a própria Constituição política, fonte primária
do Direito Constitucional, que estabelece as diretrizes políticas e organizacionais de
uma sociedade – podendo esta ser escrita – como verbi gratia, a Constituição
brasileira – ou não escrita – como a Constituição inglesa, e as leis constitucionais
esparsas, escritas ou não – estas nos países que adotam o common law.
Como fontes mediatas, temos o Direito Natural, a doutrina, a jurisprudência e
os costumes e tradições do povo, da sociedade (MASCARENHAS, 2008).
Vejamos:
a) Direito Natural – fonte legitimadora de todo e qualquer preceito de direito
positivo.
b) Constituição política (codificada) – vontade soberana do povo manifestada
através do poder constituinte. É a fonte direta e principal, no campo da positividade
jurídica.
c) Costumes e tradições – regras firmadas no decorrer da evolução social.
Têm destacada influência nos países de Constituição não escrita (exemplo: a
Inglaterra). Essa fonte, porém não perde a sua importância nos países de
Constituição escrita, porque serve de roteiro necessário ao legislador constituinte.
d) Jurisprudência dos Tribunais – é de suma importância nos países de
Constituição escrita, onde o mais alto órgão do Poder Judiciário exerce a função de
intérprete máximo e guardião da Lei Magna.
e) Doutrina – tem desempenhado papel de alta relevância na formação e na
transformação do direito em geral, lembrando que as primeiras Constituições
escritas foram inspiradas nas doutrinas de Montesquieu, Jean-Jacques Rousseau,
Rodolf Van Ihering e outros.

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UNIDADE 4 – PRINCÍPIOS DE HERMENÊUTICA


CONSTITUCIONAL

Enquanto a hermenêutica (interpretação do sentido das palavras; arte de


interpretar leis – FERREIRA, 2004) constitucional tem por objetivo o estudo das
técnicas de interpretação da Constituição, fornecendo os princípios básicos,
segundo os quais os operadores do Direito devem apreender o sentido das normas
constitucionais, a interpretação constitucional, por outro lado, consiste no desvendar
do significado da norma, com vistas à aplicação em um determinado caso concreto
(MASCARENHAS. 2008).
A hermenêutica estabelece princípios para se interpretar as regras
constitucionais, que são os seguintes: a) princípio da Supremacia da Constituição; b)
princípio da Unidade da Constituição; c) princípio da Imperatividade da Norma
Constitucional; d) princípio da Simetria Constitucional; e) princípio da Presunção de
Constitucionalidade das Normas Infraconstitucionais.
Vejamos:
a) Princípio da Supremacia das Normas Constitucionais:
As normas constitucionais são, sempre, superiores às demais normas não
constitucionais, ou infraconstitucionais.
A norma não constitucional, ou inferior, somente se torna válida na medida
em que é feita em estrita obediência ao procedimento legislativo que lhe é adequado
e que, também, preserva o fundamento básico da supremacia das normas
constitucionais que não admite a existência de normas jurídicas conflitantes.
Isto que dizer que, sob o ponto de vista normativo, a Constituição representa
o ápice de uma figura piramidal de hierarquização da norma jurídica.
Em outras palavras, a Constituição seria um conjunto de normas jurídicas
superiores que determina a criação de todas as demais regras que integram o
ordenamento jurídico estatal.
Segundo HANS KELSEN (2003, p. 103), “o ordenamento jurídico não é,
portanto, um sistema jurídico de normas igualmente ordenadas, colocadas lado a
lado, mas um ordenamento escalonado de várias camadas de normas jurídicas”.
b) Princípio da Unidade da Constituição:
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As normas constitucionais devem ser interpretadas de modo a se evitar


qualquer tipo de contradição entre si (ZIMMERMANN, 2002, p. 138). Isto porque

a Constituição não é um aglomerado de normas constitucionais isoladas,


mas, ao contrário disso, forma um sistema orgânico, no qual cada parte tem
de ser compreendida à luz das demais (SARMENTO, 2002, p. 100).

J.J. GOMES CANOTILHO (1997, p. 232) ensina que “este princípio obriga o
intérprete a considerar a Constituição na sua globalidade e a procurar harmonizar os
espaços de tensão existentes entre as normas constitucionais a concretizar”.
Como nos afirma PAULO MASCARENHAS (2008), é por meio dessa visão
unitária que fica consagrada a interdependência entre as normas constitucionais.
c) Princípio da Imperatividade (ou da Máxima Efetividade) da Norma
Constitucional:
Sendo a norma constitucional de ordem pública e de caráter imperativo,
emanada que é da vontade popular, o intérprete deve lhe conferir o máximo de
efetividade no momento de sua aplicação.
Para RUI BARBOSA (1993, p. 495 apud ZIMMERMANN, 2002), a
hermenêutica da norma constitucional devia ser o mais ampla possível, pois para ele
“nas questões de liberdade, na inteligência das garantias constitucionais, não cabe a
hermenêutica restritiva”.
d) Princípio da Simetria Constitucional:
Este princípio postula que haja uma relação simétrica entre as normas
jurídicas da Constituição Federal e as regras estabelecidas nas Constituições
Estaduais, e mesmo Municipais. Isto quer dizer que no sistema federativo, ainda que
os Estados-Membros e os Municípios tenham capacidade de auto-organizar-se, esta
auto-organização se sujeita aos limites estabelecidos pela própria Constituição
Federal.
Assim, pelo princípio da simetria, os Estados-Membros se organizam
obedecendo ao mesmo modelo constitucional adotado pela União. Por este
princípio, por exemplo, as unidades federativas devem estruturar seus governos de
acordo com o princípio da separação de poderes (MASCARENHAS, 2008).

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e) Princípio da Presunção de Constitucionalidade das Normas


Infraconstitucionais:
Segundo este princípio, todas as normas jurídicas infraconstitucionais
possuem a presunção de constitucionalidade até que o controle judicial se manifeste
em contrário.
Trata-se, portanto, da presunção juris tantum, posto que a norma
infraconstitucional possui eficácia jurídica até que se prove o contrário.
Este princípio decorre do próprio Estado de Direito, da separação de
Poderes, pois é a própria Constituição que delega poderes ao Poder Legislativo para
editar normas ordinárias, infraconstitucionais, que lhe dão plena operatividade, e o
Legislativo assim o faz na convicção de que está respeitando a Constituição, na
presunção de que as leis que elaborou e que foram promulgadas são, efetivamente,
constitucionais, devendo a quem argui a sua inconstitucionalidade perante o Poder
Judiciário provar o vício que alega, e a declaração de inconstitucionalidade das
normas ordinárias somente deve ocorrer quando afastada toda e qualquer dúvida
quanto à sua incompatibilidade com a Constituição (MASCARENHAS, 2008).

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UNIDADE 5 – CLASSIFICAÇÕES

Falar em classificação das constituições, ou seja, os tipos existentes, quer


dizer abrir um leque de possibilidades. Algumas possuem textos extensos, outras
versam somente sobre matérias substancialmente constitucionais, relacionadas com
a organização básico do Estado.
Algumas permitem a modificação do seu texto por meio de processo
legislativo simples, idêntico ao de modificação das demais leis, enquanto outras só
podem ser alteradas por processo legislativo mais dificultoso, solene. A depender
dessas e de outras características, recebem da doutrina distintas classificações,
conforme exposto nos itens seguintes (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).
Vejamos então algumas dessas classificações:

5.1 Constituições formais e materiais – conteúdo


Constituição material ou substancial é o conjunto de regras constitucionais
esparsas, codificadas ou não em um único documento.
Na concepção material de Constituição, consideram-se constitucionais
somente as normas que cuidam de assuntos essenciais à organização e ao
funcionamento do Estado e estabelecem os direitos fundamentais (matérias
substancialmente constitucionais). Leva-se em conta, para a identificação de uma
norma constitucional, o seu conteúdo. Não importa o processo de elaboração ou a
natureza do documento que a contém; ela pode, ou não, estar vazada em uma
Constituição escrita.
Nessa visão, a Constituição é o conjunto de normas pertinentes à
organização do poder, à distribuição das competências, ao exercício da autoridade,
à forma de governo, aos direitos da pessoa humana, tanto individuais como sociais;
tudo quanto for, enfim, conteúdo essencial referente à estruturação e ao
funcionamento da ordem político-jurídica exprime o aspecto material (ou substancial)
de uma Constituição (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).
Já a Constituição, no seu conceito formal, consubstancia-se em um
conteúdo normativo expresso, estabelecido pelo poder constituinte originário em um

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documento solene que contém um conjunto de regras jurídicas estruturais e


organizadoras dos órgãos supremos do Estado.
A diferença entre sentido material e sentido formal da Constituição é que
nesta temos a existência estatal reduzida à sua expressão jurídica formalizada
através da codificação solene das normas constitucionais (MASCARENHAS, 2008).

5.2 Constituições escritas e não escritas – forma


Constituição escrita é o conjunto de normas codificado e sistematizado em
um único documento, para fixar a organização fundamental do Estado (MORAES,
2001, p. 36). A Constituição escrita é elaborada num determinado momento, por um
órgão que tenha recebido a incumbência para essa tarefa, sendo formalizada em um
documento escrito e único. É também denominada Constituição instrumental
(CANOTILHO, 2002, p. 56).
Nas Constituições não-escritas (costumeiras ou consuetudinárias), as
normas constitucionais não são solenemente elaboradas, em um determinado e
específico momento, por um órgão especialmente encarregado dessa tarefa,
tampouco estão codificadas em um documento único. Tais normas encontram-se em
leis esparsas, costumes, jurisprudência e convenções. Exemplo é a Constituição
inglesa, país em que parte das normas sobre organização do Estado é
consuetudinária (MASCARENHAS, 2008).
Nota-se que, tanto nos Estados que adotam Constituição escrita quanto nos
Estados que adotam Constituição não-escrita existem documentos escritos que
contêm normas constitucionais. Na Inglaterra, parte das normas constitucionais está
em documentos escritos: leis esparsas, convenções e jurisprudência. A distinção
essencial é que, nos países de Constituição escrita, as normas constitucionais são
elaboradas em um dado momento, por um órgão especificamente encarregado
desse mister, que as codifica em um documento único. Diversamente, nos Estados
de Constituição não-escrita, as normas constitucionais, quando escritas, estão
cristalizadas em leis e outras espécies normativas esparsas, que surgiram ao longo
do tempo e, dada a sua dignidade, adquiriram status constitucional (PAULO
ALEXANDRINO, 2008).

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Os mesmos autores explicam que a Constituição Federal de 1988 é do tipo


formal, porque foi solenemente elaborada, por um órgão especialmente incumbido
desse mister, e somente pode ser modificada por um processo especial, distinto
daquele exigido para a elaboração ou alteração das demais leis (rígida). Não é
correto afirmar que a Constituição Federal de 1988 seja parte formal e parte
material. A Constituição, no seu todo, é do tipo formal. Entretanto, nem todas as
normas que a compõem são materialmente constitucionais; algumas são apenas
formalmente constitucionais.
De todo modo, todas as Constituições brasileiras foram escritas, desde a
Carta Imperial até a Constituição de 1988.

5.3 Constituições rígidas e flexíveis – estabilidade ou alterabilidade


Aqui temos constituição do tipo imutável, rígida, flexível, semirrígida ou
semiflexível.
Constituição imutável é aquela onde é vedada qualquer modificação. Essa
imutabilidade pode ser, em alguns casos, relativa, quando prevê a assim chamada
limitação temporal, consistente em um prazo em que não se admitirá qualquer
alteração do legislador constituinte reformador.
Constituição rígida é aquela escrita, mas que pode ser alterada através de
um processo legislativo mais solene e com maior grau de dificuldade do que aquele
normalmente utilizado em outras espécies normativas. Exemplo: Constituição
brasileira de 1988 (Ver artigo 60 – Emendas à Constituição).
Constituição flexível é aquela em regra não escrita e que pode ser alterada
pelo processo legislativo ordinário, sem qualquer outra exigência ou solenidade.
Constituição semirrígida ou semiflexível é aquela que pode ter algumas de
suas regras alteradas pelo processo legislativo ordinário, enquanto outras somente
podem sê-las por um processo legislativo mais solene e com maior grau de
dificuldade (MASCARENHAS, 2008).
ALEXANDRE DE MORAES (2001, p. 37) entende que a Constituição
brasileira de 1988 é super-rígida, porque “em regra poderá ser alterada por um
processo legislativo diferenciado, mas, excepcionalmente, em alguns pontos é
imutável (CF, art. 60, §4º – cláusulas pétreas)”.
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5.4 Constituição garantida e programática – finalidade


Uma classificação moderna, de grande relevância, é a que distingue as
Constituições em Constituição-garantia, Constituição-balanço e Constituição
dirigente, no tocante às suas finalidades.
Constituição-garantia, de texto reduzido (sintética), é Constituição negativa,
construtora de liberdade-negativa ou liberdade-impedimento, oposta à autoridade
(SILVA, 2007). É Constituição que tem como precípua preocupação a limitação dos
poderes estatais, isto é, a imposição de limites à ingerência do Estado na esfera
individual. Daí a denominação “garantia”, indicando que o texto constitucional
preocupa-se em fixar as garantias individuais frente ao Estado.
As Constituições-garantia são o modelo clássico de Constituição,
propugnado nas origens do movimento constitucionalista, restringindo-se a dispor
sobre organização do Estado e imposição de limites à sua atuação, mediante a
outorga de direitos fundamentais ao indivíduo.
Constituição-balanço é aquela destinada a registrar um dado estágio das
relações de poder no Estado. A Constituição é elaborada para espelhar certo
período político, findo o qual é elaborado um novo texto constitucional para o
período seguinte. Exemplo típico foi o que aconteceu na URSS, que adotou
Constituições seguidas (1924, 1936 e 1977), cada qual com a finalidade de refletir
um distinto estágio do Socialismo (fazer um “balanço” de cada estágio) (PAULO;
ALEXANDRINO, 2008).
Constituição dirigente, de texto extenso (analítica), é aquela que define fins,
programas, planos e diretrizes para a atuação futura dos órgãos estatais.
É a Constituição que estabelece, ela própria, um programa para dirigir a
evolução política do Estado, um ideal social a ser futuramente concretizado pelos
órgãos do Estado. O termo “dirigente” significa que o legislador constituinte “dirige” a
atuação futura dos órgãos governamentais, por meio do estabelecimento de
programas e metas a serem perseguidos por estes.
O elemento que caracteriza uma Constituição como dirigente é a existência,
no seu texto, das denominadas “normas programáticas”, mormente de cunho social.
Como o próprio termo indica, tais normas estabelecem um programa, um rumo
inicialmente traçado pela Constituição, que deve ser perseguido pelos órgãos
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estatais. São normas que têm como destinatários diretos não os indivíduos, mas os
órgãos estatais, requerendo destes a atuação numa determinada direção, apontada
pelo legislador constituinte (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).

5.5 Constituição outorgada e promulgada – origem


As Constituições outorgadas são impostas, isto é, nascem sem participação
popular. São resultado de um ato unilateral de vontade da pessoa ou do grupo
detentor do poder político, que resolve estabelecer, por meio da outorga de um texto
constitucional, certas limitações ao seu próprio poder.
As Constituições democráticas (populares ou promulgadas) são produzidas
com a participação popular, em regime de democracia direta (plebiscito ou
referendo), ou de democracia representativa, neste caso, mediante a escolha, pelo
povo, de representantes que integrarão uma “assembleia constituinte” incumbida de
elaborar a Constituição.
As Constituições cesaristas são outorgadas, mas dependem de ratificação
popular por meio de referendo. Deve-se observar que, nesse caso, a participação
popular não é democrática, pois cabe ao povo somente referendar a vontade do
agente revolucionário, detentor do poder.
PAULO BONAVIDES (2006) refere-se, também, à existência das
denominadas Constituições pactuadas (ou dualistas), que se originam de um
compromisso firmado entre o rei e o Poder Legislativo, pelo qual se sujeita o
monarca aos esquemas constitucionais (monarquia limitada). Nesse regime de
Constituição, o poder constituinte originário está dividido entre dois titulares; por
essa razão, o texto constitucional resulta de dois princípios: o monárquico e o
democrático.
A Constituição promulgada, também chamada de democrática ou popular, é
aquela fruto do trabalho de uma Assembleia Nacional Constituinte, eleita pelo povo
com a finalidade da sua elaboração. Exemplos: Constituições brasileiras de 1891,
1934, 1946 e 1988.
Constituição outorgada é aquela estabelecida através da imposição do
poder, do governante, sem a participação popular. Exemplos: Constituições

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brasileiras de 1824, 1937, 1967 e a Emenda Constitucional de 1969 (PAULO;


ALEXANDRINO, 2008; MASCARENHAS, 2008).

5.6 Constituição normativa, nominal e semântica – correspondência com a


realidade
VICENTE PAULO e MARCELO ALEXANDRINO (2008) citam o
constitucionalista alemão Karl Loewenstein que desenvolveu uma classificação para
as Constituições, levando em conta a correspondência existente entre o texto
constitucional e a realidade política do respectivo Estado.
Para ele, as Constituições de alguns Estados conseguem, verdadeiramente,
regular o processo político no Estado. Outras Constituições, apesar de elaboradas
com esse mesmo intuito, não logram, de fato, normatizar a realidade política do
Estado. Há, ainda, Constituições que sequer têm esse intuito, pois visam, tão-
somente, à manutenção da vigente estrutura de poder.
A partir dessa constatação, podem as Constituições ser classificadas em
três grupos: Constituições normativas, Constituições nominativas e Constituições
semânticas.
As Constituições normativas são as que efetivamente conseguem, por
estarem em plena consonância com a realidade social, regular a vida política do
Estado. Em um regime de Constituição normativa, os agentes do poder e as
relações políticas obedecem ao conteúdo, às diretrizes e às limitações impostos pelo
texto constitucional.
As Constituições nominativas são aquelas que, embora tenham sido
elaboradas com o intuito de regular a vida política do Estado, não conseguem
efetivamente cumprir esse papel, por estarem em descompasso com a realidade
social. As disposições constitucionais não conseguem efetivamente normatizar o
processo real de poder no Estado.
As Constituições semânticas, desde sua elaboração, não têm o fim de
regular a vida política do Estado, de orientar e limitar o exercício do poder.
Objetivam, tão-somente, formalizar e manter o poder político vigente,
conferir legitimidade formal ao grupo detentor do poder. Nas palavras de Karl
Loewenstein (s.d), seria “uma constituição que não é mais que uma formalização da
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situação existente do poder político, em benefício único de seus detentores”


(PAULO; ALEXANDRINO, 2008).

5.7 Constituição dogmática ou histórica – elaboração


As Constituições dogmáticas, sempre escritas, são elaboradas em um dado
momento, por um órgão constituinte, segundo os dogmas ou ideias fundamentais da
teoria política e do Direito então imperantes. Poderão ser ortodoxas ou simples
(fundadas em uma só ideologia) ou ecléticas ou com promissórias (formadas pela
síntese de diferentes ideologias, que se conciliam no texto constitucional)
(VASCONCELOS, 2010; PAULO; ALEXANDRINO, 2008).
As Constituições históricas (ou costumeiras), não-escritas, resultam da lenta
formação histórica, do lento evoluir das tradições, dos fatos sociopolíticos,
representando uma síntese histórica dos valores consolidados pela própria
sociedade, como é o caso da Constituição inglesa.
A Constituição brasileira de 1988 é tipicamente dogmática, porquanto foi
elaborada por um órgão constituinte em um instante determinado, segundo as ideias
então reinantes. Ademais, é uma Constituição eclética. O fato de ter sido elaborada
em um período em que o Estado brasileiro deixava a triste realidade de um regime
de exceção, de aniquilamento dos direitos individuais, fez com que, entre outros
aspectos, resultasse ela em um documento extenso, analítico, muitas vezes prolixo.
As Constituições dogmáticas são necessariamente escritas, elaboradas por
um órgão constituinte, ao passo que as históricas são do tipo não-escritas.
As Constituições dogmáticas tendem a ser menos estáveis, porque
espelham as ideias em voga em um momento específico. Destarte, com o passar do
tempo e com a consequente evolução do pensamento da sociedade, surge a
necessidade de constantes atualizações, por meio da alteração do seu texto.
As Constituições históricas tendem a apresentar maior estabilidade, pois
resultam do lento amadurecimento e da consolidação de valores da própria
sociedade (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).
PAULO MASCARENHAS (2008) sintetiza que a Constituição dogmática é
aquela que se nos é apresentada de forma escrita e sistematizada, por um órgão
constituinte, a partir de princípios e ideias fundamentais da teoria política e do direito
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dominante em uma determinada sociedade e que Constituição histórica é aquela


que resulta da história, dos costumes e da tradição de um povo.

5.8 Constituição analítica e sintética – extensão


No tocante à extensão, as Constituições são classificadas em analíticas e
sintéticas.
Constituição analítica (larga, prolixa, extensa ou ampla) é aquela de
conteúdo extenso, que versa sobre matérias outras que não a organização básica
do Estado. Em regra, contém normas substancialmente constitucionais, normas
apenas formalmente constitucionais e normas programáticas, que estabelecem fins,
diretrizes e programas sociais para a atuação futura dos órgãos estatais.
Exemplo de Constituição analítica é a Constituição Federal de 1988, que,
nos seus mais de trezentos artigos (entre disposições permanentes e transitórias),
exagera no regramento detalhado de determinadas matérias, não substancialmente
constitucionais, que nada têm a ver com a organização política do Estado.
Constituição sintética (concisa, breve, sumária ou sucinta) é aquela que
possui conteúdo abreviado, e que versa, tão-somente, sobre a organização básica
do Estado e o estabelecimento de direitos fundamentais, isto é, sobre matérias
substancialmente constitucionais, deixando a pormenorização à legislação
infraconstitucional. É o caso, por exemplo, da Constituição dos Estados Unidos da
América, composta de apenas sete artigos originais e vinte e sete emendas.
A tendência contemporânea é de adoção, pelos diferentes Estados, de
Constituição do tipo analítica, de conteúdo extenso, muito embora esse tipo de
Constituição tenda a ser menos estável, em virtude da exigência de seguidas
modificações do seu texto (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).
Essa tendência moderna de elaboração de constituições analíticas é
decorrência, sobretudo, de dois fatores:
a) Intenção do constituinte de conferir maior estabilidade a certas matérias,
levando-as para o texto da Constituição, no intuito de limitar a discricionariedade do
Estado sobre elas. E,
b) Objetivo de assegurar maior proteção social aos indivíduos (a partir do
surgimento do Estado social, as constituições passaram a ter conteúdo extenso, de
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cunho social e programático, estabelecendo não só as bases de organização do


Estado, mas, também, fixando programas e diretrizes de política social para a
concretização futura pelos órgãos estatais) (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).
No entendimento de PAULO MASCARENHAS (2008), Constituição analítica
é aquela que examina e regulamenta todos os assuntos relevantes à formação,
destinação e funcionamento do Estado. É também chamada de Constituição
dirigente porque define fins e programa de ação futura. Exemplo: Constituição
brasileira de 1988.
Constituição sintética é aquela que prevê somente os princípios e as normas
gerais de organização do Estado e a limitação do seu poder através da fixação de
direitos e garantias fundamentais para o cidadão. Exemplo: a Constituição dos EUA.
No caso da nossa Constituição Federal de 1988:
• quanto ao conteúdo, é formal;
• quanto à estabilidade, é rígida (para alguns autores ela é superrígida em
virtude do art.60, parágrafo 4º da CR/88);
• quanto à forma, é escrita;
• quanto à origem, é promulgada;
• quanto ao modo de elaboração, é dogmática;
• quanto à extensão, é analítica;
• quanto à unidade documental, é orgânica (ou seja, documento único,
aproxima-se da escrita e dogmática. A inorgânica é formada por um conjunto
de documentos, mas não significa que ela seja histórica);
• quanto à ideologia, é eclética;
• quanto ao sistema, é principiológica (de acordo com o neoconstitucionalismo);
• quanto à finalidade, é dirigente (embora toda constituição tenha um pouco de
garantia) (NEVES; LOYOLA, 2011).

5.9 Outras classificações


ALEXANDRE DE MORAES (2006) refere-se à Constituição nominalista, que
é aquela cujo texto da Carta Constitucional já contém verdadeiros direcionamentos
para os problemas concretos, a serem resolvidos mediante aplicação pura e simples

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das normas constitucionais. Ao intérprete caberia tão-somente interpretá-la de forma


gramatical-literal.
LUIZ PINTO FERREIRA (1996) refere-se às Constituições reduzidas e
variadas. As primeiras seriam aquelas sistematizadas, cujas normas estão
consolidadas em um único código, enquanto as últimas seriam as formadas por
textos esparsos, espalhados no ordenamento jurídico.
Essas mesmas Constituições são denominadas por ANDRÉ RAMOS
TAVARES (2006) de Constituições codificadas (sistematizadas em um único
documento) e Constituições legais (integradas por documentos diversos, fisicamente
distintos, como foi o caso da Terceira República Francesa, formada por inúmeras
leis constitucionais, redigidas em momentos distintos, tratando cada qual de
elementos substancialmente constitucionais).
ANDRÉ RAMOS TAVARES (2006) refere-se, também, às Constituições
liberais e sociais.
As Constituições liberais são aquelas resultantes do triunfo da ideologia
burguesa, dos ideais do Liberalismo, correspondentes ao primeiro período de
surgimento dos direitos humanos, que exigiam a não-intervenção do Estado na
esfera privada dos particulares. São, também, denominadas Constituições
negativas, pois impunham a omissão ou negativa de ação do Estado, preservando-
se, assim, as liberdades públicas.
As Constituições sociais correspondem a um momento posterior do
constitucionalismo, em que se passou a exigir do Estado atuação positiva, corrigindo
as desigualdades sociais e proporcionando o surgimento do Estado do bem comum.
Nesse tipo de Constituição, busca-se a concretização da igualdade material (e não
meramente formal), e nela são traçados expressamente os grandes objetivos que
deverão nortear a atuação governamental, razão porque é também denominada de
Constituição dirigente.
RAUL MACHADO HORTA (s.d apud PAULO; ALEXANDRINO, 2008)
classifica a Constituição Federal de 1988 como expansiva. Para o renomado
constitucionalista, seriam dois os aspectos que caracterizariam nossa Constituição
atual como expansiva: (i) a abordagem de novos temas, não presentes nas

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Constituições brasileiras pretéritas; e, (ii) a ampliação do tratamento de temas


permanentes, já presentes nas Constituições pretéritas.
Alguns autores referem-se, ainda, à Constituição plástica, embora não haja
consenso quanto ao seu significado. LUIZ PINTO FERREIRA (1996) usa a
expressão Constituição plástica como sinônimo de Constituição flexível, isto é, que
admite modificações no seu texto mediante procedimento simples, igual ao de
elaboração das leis infraconstitucionais. Já RAUL MACHADO HORTA (s.d),
emprega o vocábulo “plástica” para conceituar as Constituições nas quais há grande
quantidade de disposições de conteúdo aberto, de tal sorte que é deixada ao
legislador ordinário ampla margem de atuação em sua tarefa de mediação
concretizadora, de densificação ou “preenchimento” das normas constitucionais,
possibilitando, com isso, que o texto constitucional acompanhe as oscilações da
vontade do povo, assegurando a correspondência entre a Constituição normativa e a
Constituição real (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).
Enfim, vejamos a seguir um esquema com o resumo das principais
classificações das Constituições.

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Fonte: Paulo; Alexandrino (2008, p. 24).

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UNIDADE 6 – A TEORIA DA NORMA CONSTITUCIONAL

6.1 Classificação de JOSÉ AFONSO DA SILVA


A teoria da norma constitucional cuida justamente do estudo da
aplicabilidade das normas constitucionais, assunto do qual José Afonso da Silva
estudou e falou sempre com muita propriedade, tanto que ele sustenta a tese de que
todos os preceitos constitucionais contêm normas que são passíveis de aplicação
pelo poder judiciário, dividindo-as “em normas constitucionais de eficácia plena,
contida e limitada” (SILVA, 1998, p. 89).
Normas constitucionais de eficácia plena são aquelas que, desde a entrada
em vigor da Constituição, produzem ou têm possibilidade de produzir, todos os
efeitos essenciais, relativamente aos interesses, comportamentos e situações, que o
legislador constituinte, direta e normativamente, quis regular (MORAES, 2001, p.
39).
São, portanto, normas que não necessitam de regulamentação, sendo
autoaplicáveis ou autoexecutáveis, como por exemplo, os remédios constitucionais:
mandado de segurança, habeas corpus, mandado de injunção, habeas data.
Ex.: Princípio da legalidade tributária, segundo o qual devem ser
estabelecidos através de lei. O tributo que é estabelecido através de ato
administrativo e não de lei será inconstitucional. Esse efeito pretendido pela norma
de limitar o poder tributário do Estado se produz plenamente, não necessita de uma
outra norma que a regulamente.
Já as normas constitucionais de eficácia contida são aquelas que o
legislador constituinte regulou suficientemente os interesses relativos a determinada
matéria, mas deixou margem à atuação restritiva por parte da competência
discricionária do poder público, nos termos que a lei estabelecer ou nos termos de
conceitos gerais nela enunciados (MORAES, 2001, p. 39).
JOSÉ AFONSO DA SILVA (2007) explica que a peculiaridade das normas
de eficácia contida configura-se nos seguintes pontos:
a) São normas que, em regra, solicitam a intervenção do legislador ordinário,
fazendo expressa remissão a uma legislação futura; mas o apelo ao legislador

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ordinário visa a restringir-lhes a plenitude da eficácia, regulamentando os direitos


subjetivos que delas decorrem para os cidadãos, indivíduos ou grupos.
b) Enquanto o legislador ordinário não expedir a normação restritiva, sua
eficácia será plena; nisso também diferem das normas de eficácia limitada, visto que
a interferência do legislador ordinário, em relação a estas, tem o escopo de lhes
conferir plena eficácia e aplicabilidade concreta e positiva.
c) São de aplicabilidade direta e imediata, visto que o legislador constituinte
deu normatividade suficiente aos interesses vinculados à matéria de que cogitam.
d) Algumas dessas normas já contêm um conceito ético juridicizado (bons
costumes, ordem pública, entre outros), com valor societário ou político a preservar,
que implica a limitação de sua eficácia.
e) Sua eficácia pode ainda ser afastada pela incidência de outras normas
constitucionais, se ocorrerem certos pressupostos de fato (estado de sítio, por
exemplo).
Vale dizer, a matéria constitucional foi devidamente regulada, mas a sua
aplicação está condicionada a prévia existência de outra lei específica que a
discipline, assim previsto expressamente.
Exemplo: “Art. 5º, XIII: é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou
profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”.
Então, desde o início de sua vigência, cada brasileiro tem a liberdade de
exercer a profissão que escolher, no entanto, a lei poderá estabelecer determinados
requisitos para o exercício de certas profissões. Assim, por exemplo, para exercer a
advocacia, exige-se que possua o título de bacharel em direito e esteja devidamente
inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil. Muitos criticam a denominação “eficácia
contida”, pelo fato de dar a impressão de que a eficácia da norma deve estar
previamente balizada. Na verdade, a eficácia da norma é restringível, pode vir a ser
restringida, no futuro, pelo legislador ordinário (SILVA, 2007).
Outro exemplo temos no inciso VIII do art. 5º da Constituição Federal,
segundo o qual:
VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de
convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal
a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;
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Esse dispositivo assegura a liberdade de crença religiosa e de convicção


filosófica ou política, e deve ser assim interpretado:
(a) a princípio, a liberdade religiosa ou de convicção filosófica ou política é
ampla, sendo certo que ninguém será privado de direito por esses motivos;
(b) a lei poderá, entretanto, fixar prestação alternativa àqueles que
invocarem alguma crença ou convicção para eximir-se de obrigação legal a todos
imposta;
(c) uma vez fixada a prestação alternativa em lei, aquele que alegue motivo
de crença religiosa ou convicção filosófica ou política, para eximir-se de obrigação
legal a todos imposta, poderá ser privado de direito, caso se recuse, também, a
cumprir a prestação alternativa (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).
O direito de propriedade é outro exemplo. O inciso XXII do art. 5º da
Constituição garante o direito de propriedade, mas os incisos XXIV e XXV
apresentam os elementos de sua limitação, permitindo a desapropriação por
necessidade ou utilidade pública ou por interesse social, bem como a requisição de
propriedade particular pela autoridade competente no caso de perigo público
iminente. Com efeito, embora a Constituição Federal assegure a imediata eficácia do
direito de propriedade (art. 5º, XXII), o mesmo texto constitucional já autoriza a
imposição de restrição ao seu gozo, por meio de conceitos jurídicos de larga
aceitação, tais como “necessidade ou utilidade pública” e “interesse social” (na
hipótese de desapropriação - art. 5º, inciso XXIV) ou “iminente perigo público” (na
hipótese de requisição administrativa - art. 5º, XXV).
Normas constitucionais de eficácia limitada são aquelas que apresentam
aplicabilidade indireta, mediata e reduzida, porque somente incidem totalmente
sobre esses interesses após uma normatividade ulterior que lhe desenvolva a
aplicabilidade.
Isto quer dizer que esse tipo de norma constitucional, para entrar em vigor,
vale dizer, para ter aplicabilidade prática, depende de uma lei posterior que a
regulamente.
Em outras palavras: as normas constitucionais de eficácia limitada são
aquelas que não produzem, com a simples entrada em vigor, os seus efeitos
essenciais, porque o legislador constituinte, por qualquer motivo, não estabeleceu,
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sobre a matéria, uma normatividade para isso bastante, deixando essa tarefa ao
legislador ordinário ou a outro órgão do Estado (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).
JOSÉ AFONSO DA SILVA (2007) ainda classifica as normas de eficácia
limitada em dois grupos distintos:
a) As definidoras de princípio institutivo ou organizativo.
b) As definidoras de princípio programático.
As normas definidoras de princípio institutivo ou organizativo são aquelas
pelas quais o legislador constituinte traça esquemas gerais de estruturação e
atribuições de órgãos, entidades ou institutos, para que, em um momento posterior,
sejam estruturados em definitivo, mediante lei. São exemplos: “a lei disporá sobre a
organização administrativa e judiciária dos Territórios” (art. 33); “a lei disporá sobre a
criação, estruturação e atribuições dos Ministérios” (art. 88); “a lei regulará a
organização e o funcionamento do Conselho de Defesa Nacional” (art. 91, § 2.°); “a
lei disporá sobre a constituição, investidura, jurisdição, competência, garantias e
condições de exercício dos órgãos da Justiça do Trabalho” (art. 113).
Por sua vez, essas normas constitucionais definidoras de princípio institutivo
ou organizativo podem ser impositivas ou facultativas.
São impositivas aquelas que determinam ao legislador, em termos
peremptórios, a emissão de uma legislação integrativa (e.g., art. 20, § 2º; art. 32, §
4º; art. 33; art. 88; art. 91, § 2º).
São facultativas ou permissivas quando não impõem uma obrigação, mas se
limitam a dar ao legislador ordinário a possibilidade de instituir ou regular a situação
nelas delineada (e.g., art. 22, parágrafo único; art. 125, § 3º; art. 195, § 4º; art. 25, §
3º; art. 154, I).
Ao lado da classificação de JOSÉ AFONSO DA SILVA (1998), adotada pela
maioria dos nossos doutrinadores, temos as chamadas “normas programáticas”, que
não têm aplicação ou execução imediata, mas se constituem em comandos-regras,
pois explicitam comandos-valor.
São aquelas em que o constituinte, em vez de regular, direta e
imediatamente, determinados interesses, limitou-se a lhes traçar os princípios e
diretrizes, para serem cumpridos pelos órgãos integrantes dos poderes constituídos

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(legislativos, executivos, jurisdicionais e administrativos), como programas das


respectivas atividades, visando à realização dos fins sociais do Estado.
Constituem programas a serem realizados pelo Poder Público, disciplinando
interesses econômico-sociais, tais como: realização da justiça social; valorização do
trabalho; amparo à família; combate ao analfabetismo, entre outros.
Esse grupo é composto pelas normas que a doutrina constitucional
denomina normas programáticas, de que são exemplos o art. 7º, XX; o art. 7.°,
XXVII; o art. 173, § 4º; o art. 216, § 3º (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).

6.2 A classificação de MARIA HELENA DINIZ


A Professora MARIA HELENA DINIZ propõe uma classificação que combina
os critérios da intangibilidade e da produção de efeitos concretos das normas
constitucionais, segundo a qual temos as seguintes categorias de normas na
Constituição (PAULO; ALEXANDRINO, 2008):
a) Normas com eficácia absoluta.
b) Normas com eficácia plena.
c) Normas com eficácia relativa restringível.
d) Normas com eficácia relativa dependente de complementação legislativa.
As normas de eficácia absoluta são normas constitucionais intangíveis, que
não poderão ser contrariadas nem mesmo por meio de emenda constitucional. É o
caso das cláusulas pétreas, previstas no art. 60, § 4º, da Constituição Federal.
As normas com eficácia plena são aquelas plenamente eficazes desde a
entrada em vigor da Constituição, por conterem todos os elementos imprescindíveis
para que haja a produção imediata dos efeitos previstos. Diferem das normas de
eficácia absoluta porque, ao contrário destas, poderão ser atingidas por emenda
constitucional.
As normas com eficácia relativa restringível correspondem em sua descrição
às que o Professor José Afonso da Silva denomina normas de eficácia contida. Têm
aplicabilidade imediata, embora sua eficácia possa ser reduzida, restringida nos
casos e na forma que a lei estabelecer (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).
As normas com eficácia relativa dependente de complementação legislativa
não têm aplicação imediata, por dependerem de norma posterior que lhes
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desenvolva a eficácia, para então permitir o exercício do direito ou benefício nelas


consagrado. Sua possibilidade de produção de efeitos é mediata, pois, enquanto
não for promulgada a legislação regulamentadora, não produzirão efeitos positivos,
mas terão eficácia paralisante de efeitos de normas precedentes incompatíveis e
impeditiva de qualquer conduta contrária ao que estabelecerem (PAULO;
ALEXANDRINO, 2008).

6.3 A sanção imperfeita


PAULO GUSTAVO GONET BRANCO (2011) nos lembra que as normas
constitucionais caracterizam-se, também, pela especificidade dos meios de tutela e
das sanções jurídicas que as cercam. São, nesse sentido, chamadas de normas
imperfeitas, porque a sua violação não se acompanha de sanção jurídica suficiente
para repor a sua força normativa, até porque não há nenhuma instância superior da
ordem jurídica que lhe assegure a observância pelos órgãos da soberania. As
normas constitucionais dependem da vontade dos órgãos de soberania de respeitá-
las e cumpri-las.

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UNIDADE 7 – PREÂMBULO E ATO DAS DISPOSIÇÕES


CONSTITUCIONAIS TRANSITÓRIAS (ADCT)

Ao se examinar o texto da Constituição, nota-se que ali se encontram


diversas normas, enumeradas em artigos, incisos, parágrafos e alíneas, agrupados
em capítulos e títulos. Nota-se, também, na Constituição de 1988, que, antes do
primeiro Título da Carta e do seu primeiro artigo, consta um preâmbulo.
A parte dogmática da Constituição de 1988 constitui o seu corpo principal,
ou permanente (esta última expressão, usada em contraposição à parte que contém
as disposições transitórias, o ADCT).
Estruturalmente, a parte dogmática da Constituição de 1988 divide-se em
nove títulos, a saber: (I) Dos Princípios Fundamentais; (II) Dos Direitos e Garantias
Fundamentais; (III) Da Organização do Estado; (IV) Da Organização dos Poderes;
(V) Da Defesa do Estado e Das Instituições Democráticas; (VI) Da Tributação e do
Orçamento (VII) Da Ordem Econômica e Financeira; (VIII) Da Ordem Social; (IX)
Das Disposições Constitucionais Gerais.
O corpo permanente da Constituição congrega todas as normas essenciais à
organização e ao funcionamento do Estado brasileiro, como as relativas aos direitos
fundamentais, à estrutura do Estado federal e às competências de cada ente
político, à organização dos poderes e da Administração Pública, à repartição de
rendas, aos princípios fundamentais da ordem econômica e da ordem social, entre
outros.
Apresenta, também, inúmeras normas programáticas, mormente no que
concerne a direitos sociais, porquanto se trata de uma Constituição dirigente.
Deve-se lembrar, ainda, que, por ser uma Constituição prolixa, o seu corpo
principal abriga, também, inúmeras regras tidas por apenas formalmente
constitucionais, que nada têm a ver com a organização básica do Estado (PAULO;
ALEXANDRINO, 2008).

7.1 Preâmbulo da Constituição


Segundo PAULO MASCARENHAS (2008) e outros, a utilidade do preâmbulo
consiste em esclarecer o sentido ideológico da Constituição escrita que se examina,
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traduzindo-se, assim, em autêntico subsídio à hermenêutica constitucional, pois, traz


em si, de forma sintética, os anseios e aspirações do legislador constituinte.
É da tradição brasileira que os diplomas constitucionais sejam antecedidos
de um preâmbulo, em linha com o que acontece também em vários outros países.
Não obstante, o preâmbulo constitucional é uma espécie de resumo da
Constituição, em que se consignam de uma maneira geral os princípios que lhe
servem de norma. É a melhor chave para interpretar uma constituição porque explica
os motivos e fins que teve em vista ao formulá-la (MASCARENHAS, 2008).
LUIZ PINTO FERREIRA (1996) considera o preâmbulo constitucional como
parte integrante da Constituição, porque, segundo ele, “revelaria a verdadeira
intenção do legislador”.
PAULINO JACQUES (1957 apud MASCARENHAS, 2008) tem entendimento
diferente, pois considera o preâmbulo constitucional um mero princípio
constitucional, e não como norma jurídica, pois, segundo ele, “ninguém poderá
ingressar em juízo com ação fundada, única e exclusivamente, no preâmbulo, que
não contém normas jurídicas, mas princípios que não autorizam a ação judicial”.
Enfim: o preâmbulo da nossa Constituição Federal de 1988 revela o anseio
do legislador constituinte brasileiro na construção de valores democráticos e
pluralistas do liberalismo político e a vontade de que o Estado venha promover o
bem-estar geral, numa perspectiva que seria mais propriamente a do
intervencionismo estatal de natureza social-democrática.
Assim é que o preâmbulo da nossa Constituição Federal revela e consagra
os princípios do Estado Democrático de Direito dentro de uma visão de governo
representativo, da consagração dos direitos individuais, e dos mecanismos jurídicos
de aumento dos direitos e garantias sociais:

Preâmbulo da CF-88
Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional
Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício
dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o
desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade
fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida,
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na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias,


promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República
Federativa do Brasil.

Registre-se que a Constituição não pode ser interpretada ou aplicada de


forma contrária ao seu espírito, de forma contrária ao texto expresso no seu
preâmbulo (MASCARENHAS, 2008).

7.2 O ADCT
Quando o Poder Constituinte Originário dá início a uma nova conformação
jurídica da comunidade, por vezes se defronta com situações que se alongaram no
tempo e que motivaram expectativas de permanência estimadas justas. Para não
frustrá-las, o constituinte originário muitas vezes opta por mantê-las, em certos
limites, dispondo um regime jurídico único para casos específicos. Às vezes, no Ato
das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) são inseridos preceitos, com o
intuito de excepcionar alguma regra geral da parte principal da Constituição. Da
mesma forma, tanto o constituinte originário como o de reforma podem deliberar
sobre temas concretos, em regulação por prazo definido, preferindo fazê-lo fora do
Texto principal, mas com o mesmo valor jurídico das normas ali contidas (BRANCO,
2011).
Outras tantas vezes, o assunto em si mesmo parece de menor estatura ao
legislador constitucional, que, mesmo assim, quer recobri-lo com a proteção de que
gozam as normas constitucionais. Abre-se, em todos esses casos, a opção por
incluir essas normas no corpo do ADCT. As normas do ADCT são normas
constitucionais e têm o mesmo status jurídico das demais normas do Texto principal.
Os artigos do ADCT seguem uma numeração própria, o que não significa
que perfaçam um documento retirado da Constituição. Explicou o Supremo Tribunal
Federal, pela voz do Ministro Moreira Alves, que essa

autonomia da numeração se justifica por motivo de ordem prática: o de


evitar, no texto permanente da Constituição, dispositivos que, exaurida
totalmente sua eficácia provisória, perdem exemplo.

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Lembrando que boa parte desses dispositivos transitórios é de direito intertemporal


(BRANCO, 2011).
O mesmo autor acima comenta que, como as demais normas
constitucionais, as regras do ADCT são suscetíveis de serem reformadas, se isso
estiver em conformidade com o objetivo almejado pelo constituinte originário. Na ADI
8307, o Tribunal deliberou que não havia inconstitucionalidade na antecipação,
operada por via de reforma do art. 2° do ADCT, para abril de 1993 do plebiscito
marcado originalmente para setembro do mesmo ano, em que se definiriam a forma
(república ou monarquia constitucional) e o sistema de governo (parlamentarismo ou
presidencialismo) a serem adotados pelo País. Evidentemente também que as
normas acrescidas ao ADCT pelo poder constituinte de reforma são suscetíveis de
controle de constitucionalidade, nas hipóteses em que as emendas à Constituição o
podem ser.
Cumpre ter presente que, por vezes, o dispositivo do ADCT é estatuído pelo
constituinte originário para excepcionar hipóteses concretas da incidência de uma
norma geral, integrante do corpo principal da Constituição, ou, então, volta-se
especificamente para atribuir um regime vantajoso a um grupo concreto de
destinatários. Nesses casos, pode-se reconhecer que o constituinte originário quis
investir beneficiários certos em direitos determinados, de tal sorte que, se o
constituinte de reforma lhes subtraísse ou diminuísse a vantagem, estaria
perpetrando, senão um ataque à cláusula pétrea da segurança jurídica ou do direito
adquirido, certamente que uma fraude ao constituinte originário.
Assim, não seria válida uma emenda que restringisse os contemplados pela
anistia concedida pelo constituinte originário no art. 8º do ADCT. Tampouco seria
válida a emenda que tivesse por efeito anular a estabilidade no serviço público
concedida pelo constituinte originário, no art. 19 do ADCT, aos servidores que,
quando da promulgação da Carta, estavam há pelo menos cinco anos no serviço
público, embora não houvessem ingressado nos quadros da Administração por meio
de concurso público (BRANCO, 2011, p. 91).

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43

Guarde...
O Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) reúne dois
grupos distintos de preceitos:
a) Os que contêm regras necessárias para assegurar uma harmoniosa
transição do regime constitucional anterior (Constituição de 1969) para o novo
regime constitucional (Constituição de 1988).
b) Os que estabelecem regras que, embora não sejam relacionadas à
transição de regime constitucional, têm caráter meramente transitório, têm sua
eficácia jurídica exaurida tão logo ocorra a situação nelas prevista.
Exemplo da primeira espécie de dispositivo é o art. 16 do ADCT, que fixou
competência temporária para o Presidente da República, com a aprovação do
Senado Federal, para indicar o Governador e o Vice-Governador do Distrito Federal,
até que nele fosse realizada a primeira eleição direta.
Um bom exemplo da segunda categoria de disposições é o art. 3° do ADCT,
que estabeleceu as regras para a realização da revisão constitucional prevista para
ocorrer cinco anos após a promulgação da Constituição de 1988. Uma vez cumprido
esse comando, isto é, realizado o procedimento de revisão constitucional (em
1993/1994), o dispositivo perdeu a eficácia, por estar exaurido o seu objeto.
Em ambos os casos, a característica própria de uma norma integrante do
ADCT é a existência de eficácia jurídica somente até o momento em que ocorre a
situação nela prevista; ocorrida a situação, a norma transitória perde a sua eficácia
jurídica, por exaurimento de seu objeto.
É importante ressaltar que, embora de natureza transitória, os dispositivos
do ADCT são formalmente constitucionais, ou seja, têm o mesmo status jurídico e
idêntica hierarquia à das demais normas da Constituição.
Por essa razão, sua observância por todas as instâncias de poder é
obrigatória, o que enseja, por exemplo, a declaração de inconstitucionalidade de
quaisquer normas infraconstitucionais com eles incompatíveis. Outrossim, a
modificação de qualquer dispositivo do ADCT somente poderá ser feita por meio da
aprovação de emendas à Constituição, com estrita observância do art. 60 da
Constituição Federal.

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Quanto ao último ponto, cabe mencionar que o ADCT tem sido objeto de
reiteradas modificações e acréscimos mediante emendas à Constituição, emendas
estas que, em sua maioria, introduziram novas matérias de caráter transitório, como
é o caso da extinta contribuição provisória sobre movimentação ou transmissão de
valores e de créditos e direitos de natureza financeira (CPMF).
Ademais, importantes garantias constitucionais continuam provisoriamente
disciplinadas por dispositivos do ADCT, em face da omissão do legislador ordinário
quanto ao seu dever de regulamentá-las. É exemplo a proteção à relação de
emprego diante da despedida arbitrária ou sem justa causa, que continua
disciplinada pelo art. 10, inciso I, do ADCT, por não haver sido editada a lei
complementar reclamada pelo art. 7°, inciso I, da Constituição Federal
(MASCARENHAS, 2008; PAULO; ALEXANDRINO, 2008).

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UNIDADE 8 – INTRODUÇÃO À INTERPRETAÇÃO DA


CONSTITUIÇÃO

No entendimento clássico de Savigny (s.d. apud MASCARENHAS, 2008),


interpretação é a reconstrução do conteúdo da lei, sua elucidação, de modo a
operar-se uma restituição de sentido ao texto viciado ou obscuro.
Noutras palavras, trata-se de operação lógica, de caráter técnico, através do
qual, busca-se investigar o sentido exato da norma jurídica imprecisa ou não muito
clara.
De acordo com VICENTE PAULO e MARCELO ALEXANDRINO (2008),
interpretar as normas constitucionais significa compreender, investigar o conteúdo
semântico dos enunciados linguísticos que formam o texto constitucional. Trata-se,
portanto, de tarefa não só dos tribunais do Poder Judiciário, mas também dos
Poderes Legislativo e Executivo.
Para FELICE BATTAGLIA (1951 apud Mascarenhas, 2008), jurista italiano, o
momento da interpretação vincula a norma geral às conexões concretas, conduz do
abstrato ao concreto, insere a realidade no esquema.
ROY REIS FRIEDE (1999) adverte que os problemas de interpretação
constitucional, em certa medida, são mais amplos e complexos do que aqueles
afetos à lei comum, até porque, sob certa ótica, também repercutem sobre todo o
ordenamento jurídico.
Sabe-se que a Constituição protege, simultaneamente, diferentes bens e
direitos (integridade física e moral, liberdade de imprensa, liberdade de crença
religiosa, propriedade, entre outros), espelhando valores que poderão conflitar ou
colidir em determinadas relações. Diante de um caso concreto, poderão entrar em
confronto, por exemplo, o direito à liberdade de imprensa e a garantia da
inviolabilidade da intimidade do indivíduo; ou, ainda, a liberdade de pensamento e a
vedação ao racismo – e assim por diante.
Em situações como essas, torna-se indispensável a aplicação das técnicas
de interpretação constitucional, não somente para solucionar, no caso concreto, o
conflito entre os bens constitucionalmente protegidos, mas, sobretudo, para conferir
eficácia e aplicabilidade a todas as normas constitucionais.
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A interpretação constitucional não tem natureza substancialmente diferente


da que se opera em outras áreas. São, portanto, aplicáveis à interpretação
constitucional os mesmos métodos de interpretação das demais normas jurídicas –
gramatical, teleológico, sistemático, histórico entre outras. Ao lado destes,
entretanto, como decorrência da superioridade hierárquica das normas
constitucionais, existem alguns princípios e métodos próprios, que norteiam a
interpretação das Constituições (MASCARENHAS, 2008).
O Constitucionalismo moderno refuta a tese in claris cessai interpretatio, que
entendia ser desnecessária a interpretação se o conteúdo do dispositivo a ser
aplicado fosse por demais evidente. Modernamente, é reconhecida a
imprescindibilidade da interpretação em todos os casos, especialmente quando se
trata de leis constitucionais (PAULO; ALEXANDRINO, 2008).
Enfim: conforme nos ensina J.J. GOMES CANOTILHO (2002), “toda a
norma é significativa, mas o significado não constitui um dado prévio; é, sim, o
resultado da tarefa interpretativa”.
Faremos breves análises sobre a estrutura, as ambiguidades, a incoerência
normativa, as lacunas e claro, mais uma vez, sobre os princípios utilizados para
interpretar a constituição.

8.1 A Estrutura
É sempre oportuno o aviso de EROS ROBERTO GRAU (2009), quando
concita a que não nos esqueçamos de que os textos normativos carecem de
interpretação não apenas por não serem unívocos ou evidentes – isto é, por serem
destituídos de clareza –, mas sim porque devem ser aplicados a casos concretos,
reais ou fictícios. Por isso mesmo é que o intérprete discerne o sentido do texto a
partir e em virtude de um determinado caso dado (...).
A norma é produzida, pelo intérprete, não apenas a partir de elementos
colhidos no texto normativo (mundo do dever ser), mas também a partir de
elementos do caso ao qual ela será aplicada, isto é, a partir de dados da realidade
(mundo do ser).
A norma, portanto, não se confunde com o texto, isto é, com o seu
enunciado, com o conjunto de símbolos linguísticos que forma o preceito. Para
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encontrarmos a norma, para que possamos afirmar o que o direito permite, impõe ou
proíbe, é preciso descobrir o significado dos termos que compõem o texto e decifrar,
assim, o seu sentido linguístico.
Se a norma constitucional é formada por uma medida de ordenação
expressa através de enunciados linguísticos (programa normativo) e por uma
constelação de dados reais (setor ou domínio normativo), sua interpretação
orientada à aplicação não se torna completa se o intérprete se bastar com a análise
sintática do texto. Como as normas têm por vocação própria ordenar a vida social,
os fatos que compõem a realidade e lhe desenham feição específica não podem ser
relegados no trabalho do jurista, portanto, é preciso atentar para sua estrutura e
circunstâncias da realidade.

8.2 As ambiguidades
PAULO GUSTAVO GONET BRANCO (2011) ressalta que a Constituição se
vale de palavras e expressões que comportam inteligências variadas, mais ou
menos amplas, que, por vezes, aludem a propriedades que se revelam em graus
diferenciados. Assim, por exemplo, a Constituição veda as penas cruéis (art. 5º,
XLVII), deixando ao intérprete o trabalho de, compreender quando se pode
caracterizar como cruel um castigo aplicado. O constituinte fala em devido processo
legal, no art. 5º, LIV, expressão que dá ensejo a várias pretensões de sentido,
inclusive permitindo que se fale em devido processo legal material, como sinônimo
de exigência de razoabilidade/proporcionalidade nas ações dos poderes públicos.
Atente-se, por igual, para o art. 12, § 4º, l, da CF, que enumera como causa
de perda da nacionalidade brasileira a condenação por atividade nociva ao interesse
nacional. É ocioso enfatizar a amplitude de significados que a expressão realçada
pode abrigar.
A ambiguidade pode resultar da existência de dois significados para uma
mesma expressão ou termo, um deles, técnico, e o outro, natural. Algumas palavras
comuns, quando ingressam no ordenamento jurídico e, em especial, no
constitucional, mantêm seu significado ordinário. Não raro, porém, assumem uma
designação diferente da leiga ou do significado próprio de outro setor jurídico.

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Por vezes, o constituinte, ainda, está criando uma realidade nova com a
expressão de que se utiliza; em outros casos, recolhe e constitucionaliza uma noção
já assentada na comunidade.
Veja-se, por exemplo, o que acontece com a palavra “domicílio” e com a
palavra “casa”. No art. 109, § 1º, a Constituição dispõe que as causas em que a
União for parte serão aforadas na seção judiciária onde tiver domicílio a outra parte.
O art. 139, V, cogita da busca e apreensão em domicílio. No art. 5º, XI, o constituinte
proclama o que a doutrina chama de princípio da inviolabilidade do domicílio, ao
dispor que “a casa é o asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar
sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou
para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial”.
Atente-se, também, para o que diz o art. 58:

o Congresso Nacional e suas Casas terão comissões permanentes e


temporárias, constituídas na forma e com as atribuições previstas no
respectivo regimento interno ou no ato de que resultar sua criação.

Sabe-se que, no direito civil, domicílio e casa não são noções coincidentes,
mas o constituinte as identifica, por exemplo, no art. 139, V, ali aludindo a domicílio
no sentido de prédio em que a pessoa possui residência. Em outro ponto, já utiliza o
termo domicílio no seu sentido técnico jurídico, quando cuida de dispor sobre
competência da Justiça Federal (art. 109, § 1º). Repare-se, também, que o
constituinte usa a expressão casa não apenas para se referir ao lugar de residência
da pessoa (art. 5 º, XI) como também emprega o termo para designar os principais
órgãos do Poder Legislativo, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. E
mesmo a palavra casa, que também, na linguagem leiga, designa o espaço físico em
que alguém reside, é compreendida, tecnicamente, pelo Supremo Tribunal Federal,
como a corresponder também ao escritório profissional, o lugar de trabalho, mesmo
que nada tenha a ver com a residência da pessoa, em se tratando de aplicação do
art. 5º, XI, da CF.
Não há um critério absoluto e único para que se possa afirmar com certeza
que um dado termo empregado pelo constituinte o foi em sentido leigo, técnico
habitual ou se trata de uma inovação. Perante cada utilização de um conceito

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polissêmico haverá que analisar cuidadosamente qual o sentido que lhe cabe nessa
circunstância, conforme se admoesta, com boa razão, na doutrina (BRANCO, 2011).
De toda sorte, é sustentável dizer que, se o constituinte se dedica a
disciplinar um assunto de cunho técnico, os termos de que se vale, em princípio,
devem ser compreendidos como o são na área do saber especializado. Assim,
quando o constituinte se vale de termos jurídicos de conteúdo assentado na ciência
jurídica, há bons motivos para que se tenha por certo que está incorporando tal
noção na norma que dispõe. Quando a Constituição garante a propriedade, mesmo
sem a definir, entende-se que acolhe o conceito firmado desse instituto, que possui
um núcleo de significado a que se ligam as faculdades de usar, gozar e dispor.
Ao se referir a casamento, sem atinar com nenhuma cláusula modificativa do
significado jurídico estabelecido do termo desde antes mesmo da elaboração do
Texto Constitucional, é dado sustentar que vincula esse instituto à união entre
pessoas de sexos diferentes. Se o poder constituinte originário inaugura uma nova
ordem jurídica, isso não significa que não possa acolher e vitalizar conceitos da
ordem pretérita (BRANCO, 2011).

8.3 Incoerência normativa


Outro problema com que o intérprete pode-se defrontar relaciona-se com os
casos de incoerência normativa por parte do constituinte. O postulado do legislador
racional, que não usa palavras excessivas e que não é incoerente nos seus
comandos, encontra nas realidades constitucionais desmentidos práticos que
desafiam a criatividade do intérprete. Por vezes, não há como resolver, segundo os
critérios técnicos tradicionais da hierarquia, especialidade ou cronológico, certas
antinomias internas, verificadas na redação do Texto Constitucional.
O problema, nesses casos, radica na circunstância de duas regras diversas,
a propósito de um mesmo pressuposto de fato, comandarem soluções díspares.
Veja-se, a título de exemplo, o que acontece na Constituição em vigor no
seu art. 61, § 1º, d, e no art. 128, § 5º.
De acordo com o primeiro dispositivo, são da iniciativa privativa do Chefe do
Executivo as leis que disponham sobre a organização dos Ministérios Públicos da
União e dos Estados. Já o segundo preceito estabelece que os Procuradores-Gerais
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desses Ministérios Públicos da União e dos Estados têm iniciativa de lei


complementar sobre organização e estatuto dos respectivos ramos do parquet. A
perplexidade gerada pela afirmação de que o Presidente da República é a única
autoridade que pode provocar o Legislativo para dispor sobre a organização do
Ministério Público, convivendo com a assertiva de que também o Procurador-Geral
do Ministério Público tem essa prerrogativa, resulta de uma inesperada incoerência
técnica, que convoca o intérprete a exercer incomuns poderes corretivos (BRANCO,
2011).

8.4 Lacunas
A dificuldade para o intérprete da Constituição pode estar, ainda, na
circunstância de se deparar com uma situação não regulada pela Carta, mas que
seria de se esperar que o constituinte sobre ela dispusesse. Mais inquietante, ainda,
pode ser a situação em que um fato real se encaixa perfeitamente no que impõe
uma norma, mas se sente que os resultados da incidência da norma seriam
inadequados. Nesses casos, todos falam em lacuna da Constituição. A lacuna pode
ser definida, na fórmula precisa e concisa de JORGE MIRANDA (2002 apud
BRANCO, 2011), como situação constitucionalmente relevante não prevista.
Quando ocorre a primeira das situações acima descritas, será necessário
discernir se o constituinte não deixou de disciplinar a matéria, justamente para
permitir que o legislador o fizesse, conforme as peculiaridades do momento, sem a
rigidez que marcam as decisões fixadas no Texto Magno. Teríamos, então, apenas
uma matéria que a Carta-da-República não regulou, por haver preferido situá-la no
domínio da liberdade de conformação do legislador comum. O assunto é
extraconstitucional.
Outros casos há, porém, em que o problema sob a análise do intérprete não
encontra subsunção em uma disposição específica do Texto Constitucional, mas não
se flagra um propósito do constituinte de relegar o tema ao jogo político ordinário da
legislação infraconstitucional, porque a matéria, à parte o tópico em que ocorre a
omissão, é objeto de um tratamento direto e minucioso do constituinte.
Nessas hipóteses, o intérprete pode se ver convencido de que a hipótese
concreta examinada pelo aplicador não foi inserida pelo constituinte, no âmbito de
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certa regulação, porque o constituinte não quis atribuir ao caso à mesma


consequência que ligou às hipóteses similares de que tratou explicitamente.
A omissão da regulação, nesse âmbito, terá sido o resultado do objetivo
consciente de excluir o tema da disciplina estatuída. Fala-se, em situações tais, que
houve um “silêncio eloquente” do constituinte, que obsta a extensão da norma
existente para a situação não regulada explicitamente (BRANCO, 2011).
Caso de silêncio eloquente, assim reconhecido pelo STF, é o da regulação
dos atos normativos que podem ser objeto de ação direta de inconstitucionalidade
perante a Suprema Corte. O art. 102, I, a, fala em leis e atos normativos estaduais
ou federais. O silêncio com relação às leis e atos normativos municipais é proposital
e excludente dessas modalidades de normas da fiscalização abstrata por meio de
ação direta no STF.
No entanto, o exame apurado das circunstâncias normativas, a partir de uma
compreensão sistemática, pode revelar que houve, na omissão, apenas um lapso do
constituinte, que não pretendera excluir a categoria de fatos em apreciação da
incidência da norma. Fala-se, então, em uma “lacuna de formulação”.
Como exemplo, veja-se que, até a Emenda Constitucional nº 45/2004, na
lista dos entes e pessoas que estavam legitimados a propor a ação direta de
inconstitucionalidade perante o Supremo Tribunal Federal (art. 103 da CF), aparecia
o Governador do Estado, mas não se mencionava o Governador do Distrito Federal.
Não obstante, o caráter taxativo da enumeração, o STF entendeu que a omissão
não pretendia impedir o Governador do Distrito Federal de propor ação direta
perante a Suprema Corte, já que competências do Estado-membro são estendidas
ao Distrito Federal (art. 32, § 1º) e não haveria motivo para o tratamento
diferenciado, no particular. A hipótese configuraria mera lacuna de formulação, um
lapso material, que não impediria a ação direta proposta pelo Governador do Distrito
Federal. O dispositivo veio a ser, afinal, retificado com a EC 45/2004.
A lacuna às vezes ocorre porque o constituinte não chegou a atinar com a
necessidade de dispor sobre o período de adaptação necessário, no plano da
realidade, para que a norma que estatuiu possa produzir efeito. Assim, por exemplo,
com o aumento do número de tribunais regionais do trabalho propiciado pela
Constituição de 1988, verificou-se a impossibilidade, em alguns casos, de se formar
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lista de integrantes do Ministério Público do Trabalho com mais de dez anos de


carreira para compor o quinto constitucional dos membros da corte, o que poderia
inviabilizar a própria composição plural da corte desejada pelo constituinte. O STF
enxergou, aqui, então,

uma lacuna: a não regulação das situações excepcionais existentes na fase


inicial de implementação do novo modelo constitucional. Não tendo a
matéria sido regulada em disposição transitória, parece adequado – disse o
Ministro Gilmar Mendes – que o próprio intérprete possa fazê-lo em
consonância com o sistema constitucional (BRANCO, 2011).

Assegurou-se, então, que as listas de candidatos a juiz de TRT pela vaga do


Ministério Público pudessem ser completadas, quando necessário, por quem não
possuía ainda dez anos de carreira.

8.5 Métodos para interpretação constitucional


PAULO MASCARENHAS (2008) lista algumas possiblidades para se
analisar as normas constitucionais dentro de um plano metodológico. São elas:
a) Da Interpretação Gramatical (ou literal): meio através do qual busca-se
aferir o significado literal da norma jurídica por meio de uma interpretação que leve
em consideração o exame das palavras e das regras gramaticais vigentes à época
da elaboração do texto legal. É meio fundamental como etapa preliminar a toda
interpretação jurídica, não devendo ser utilizado unicamente, contudo, como meio de
interpretação.
b) Da Interpretação Lógica ou Racional: é aquela que, na lição de PAULO
BONAVIDES (1986), sobre examinar a lei em conexidade com as demais leis,
investiga-lhe também as condições e os fundamentos de sua origem e elaboração,
de modo a determinar a ratio ou mens do legislador. Busca, portanto reconstruir o
pensamento ou intenção de quem legislou, de modo a alcançar depois a precisa
vontade da lei.
Esse método está sintetizado pela locução “intenção do legislador”,
subdividindo-se em cinco:
b.1 Mens legis – busca verificar o que o legislador realmente disse,
independentemente de suas intenções;
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b.2 Mens legislatori – busca verificar, ao contrário do anterior, o que o


legislador quis efetivamente dizer, independentemente do que acabou efetivamente
dizendo;
b.3 Ocasio legis – conjunto de circunstâncias que determinaram a criação da
lei;
b.4 O argumento a contrario sensu – componente da interpretação lógica
que utiliza o fato de que a lei sempre faculta a conclusão pela exclusão, dada a
regra hermenêutica que afirma que as exceções devem vir sempre expressas; e, por
fim,
b.5 O argumento a fortiori – pode ser resumido pela máxima do Direito
segundo a qual “quem pode o mais pode o menos”.
Este método de interpretação deve ser utilizado imediatamente após a
interpretação gramatical ou literal, independentemente da aparente solução definitiva
que esta possa ter sugerido ao intérprete.
c) Da Interpretação Sistemática: as normas jurídicas estão dispostas em
capítulos, títulos, livros e artigos, onde se encontram indicados o assunto e,
consequentemente, o direito tutelado.
A interpretação sistemática, assim, consiste no propósito de resolver
eventuais conflitos de normas jurídicas, examinando-as sob a ótica de sua
localização junto ao direito que tutela (FRIEDE, 2002).
Com este método devemos interpretar a norma constitucional vendo-o como
um todo lógico e harmônico.
Destarte, a interpretação da Constituição deve ser feita de modo a se
permitir que as normas constitucionais sejam compatíveis entre si (ZIMMERMANN,
2002).
d) Da Interpretação Histórica: método através do qual o intérprete busca o
conhecimento evolutivo (histórico) da ambiência em que se originou a lei e da
linguagem utilizada na redação do texto legal, de modo a se chegar à essência do
dispositivo normativo, o verdadeiro significado da lei.
E) Da Interpretação Sociológica ou Teleológica: busca interpretar as leis com
vistas a sua melhor aplicação na sociedade. Este tipo de interpretação, no dizer de
AUGUSTO ZIMMERMANN (2002), permite a alteração da ratio legis, possibilitando
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ao intérprete conferir um novo sentido à norma, contrapondo-se ao sentido original


da mesma e otimizando o cumprimento da sua finalidade.

8.6 Princípios para interpretar a constituição


Ao lado dos métodos acima descritos – e como diretrizes de sua aplicação –,
a doutrina identifica a existência de determinados princípios específicos de
interpretação constitucional (MASCARENHAS, 2008).
Segundo J. J. GOMES CANOTILHO (1997 apud MASCARENHAS, 2008),
os seguintes princípios merecem destaque:
a) Princípio da unidade da Constituição: segundo este princípio, o texto de
uma Constituição deve ser interpretado de forma a evitar contradições (antinomias)
entre suas normas e, sobretudo, entre os princípios constitucionalmente
estabelecidos.
O intérprete deve considerar a Constituição na sua globalidade, procurando
harmonizar suas aparentes contradições; não pode interpretar suas disposições
como normas isoladas e dispersas, mas sim como preceitos integrados em um
sistema interno unitário de regras e princípios. O intérprete, os juízes e as demais
autoridades encarregadas de aplicar os comandos constitucionais devem
compreendê-los, na medida do possível, como se fossem obras de um só autor,
exprimindo uma unidade harmônica e sem contradições.
Como decorrência do princípio da unidade da Constituição, temos que:
a.1) todas as normas contidas numa Constituição formal têm igual dignidade
– não há hierarquia, relação de subordinação entre os dispositivos da Lei Maior;
a.2) não existem normas constitucionais originárias inconstitucionais –
devido à ausência de hierarquia entre os diferentes dispositivos constitucionais, não
se pode reconhecer a inconstitucionalidade de uma norma constitucional em face de
outra, ainda que uma delas constitua cláusula pétrea;
a.3) não existem antinomias normativas verdadeiras entre os dispositivos
constitucionais – o texto constitucional deverá ser lido e interpretado de modo
harmônico e com ponderação de seus princípios, eliminando-se com isso eventuais
antinomias aparentes.

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b) Princípio do efeito integrador: corolário do princípio da unidade da


Constituição, esse princípio significa que, na resolução dos problemas jurídico-
constitucionais, deve-se dar primazia aos critérios ou pontos de vista que favoreçam
a integração política e social e o reforço da unidade política.
c) Princípio da máxima efetividade: (ou princípio da eficiência, ou princípio
da interpretação efetiva) reza que o intérprete deve atribuir à norma constitucional o
sentido que lhe dê maior eficácia, mais ampla efetividade social.
Embora sua origem esteja ligada à eficácia das normas programáticas, é
hoje princípio operativo em relação a todas e quaisquer normas constitucionais,
sendo, sobretudo, invocado no âmbito dos direitos fundamentais (em caso de
dúvida, deve-se preferir a interpretação que lhes reconheça maior eficácia).
d) Princípio da justeza: (ou da conformidade funcional) estabelece que o
órgão encarregado de interpretar a Constituição não pode chegar a um resultado
que subverta ou perturbe o esquema organizatório-funcional estabelecido pelo
legislador constituinte.
Assim, a aplicação das normas constitucionais proposta pelo intérprete não
pode implicar alteração na estrutura de repartição de poderes e exercício das
competências constitucionais estabelecidas pelo poder constituinte originário.
e) Princípio da harmonização: este princípio é decorrência lógica do princípio
da unidade da Constituição, exigindo que os bens jurídicos constitucionalmente
protegidos possam coexistir harmoniosamente, sem predomínio, em abstrato, de uns
sobre outros. Ele impõe a coordenação e combinação dos bens jurídicos – quando
se verifique conflito ou concorrência entre eles – de forma a evitar o sacrifício (total)
de uns em relação aos outros.
Fundamenta-se na ideia de igualdade de valor dos bens constitucionais
(ausência de hierarquia entre dispositivos constitucionais) que, no caso de conflito
ou concorrência, impede, como solução, a aniquilação de uns pela aplicação de
outros, e impõe o estabelecimento de limites e condicionamentos recíprocos de
forma a conseguir uma harmonização ou concordância prática entre esses
dispositivos.
f) Princípio da força normativa da Constituição: este princípio impõe que, na
interpretação constitucional, seja dada prevalência aos pontos de vista que, tendo
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em conta os pressupostos da Constituição (normativa), contribuem para uma


eficácia ótima da Lei Fundamental. Segundo esse postulado, o intérprete deve
valorizar as soluções que possibilitem a atualização normativa, a eficácia e a
permanência da Constituição. Enfim, o intérprete não deve negar eficácia ao texto
constitucional, mas sim lhe conferir a máxima aplicabilidade.
g) Interpretação conforme a Constituição: este princípio impõe que, no caso
de normas polissêmicas ou plurissignificativas (que admitem mais de uma
interpretação), dê-se preferência à interpretação que lhes compatibilize o sentido
com o conteúdo da Constituição.
Como decorrência desse princípio, temos que:
g.1) dentre as várias possibilidades de interpretação, deve-se escolher a que
não seja contrária ao texto da Constituição;
g.2) a regra é a conservação da validade da lei, e não a declaração de sua
inconstitucionalidade; uma lei não deve ser declarada inconstitucional quando for
possível conferir a ela uma interpretação em conformidade com a Constituição.
Porém, a doutrina e a jurisprudência apontam limites à utilização da
interpretação conforme a Constituição:
i) o intérprete não pode contrariar o texto literal e o sentido da norma
interpretada, a fim de obter concordância da lei com a Constituição;
ii) a interpretação conforme a Constituição só é admitida quando existe, de
fato, um espaço de decisão (espaço de interpretação) em que sejam admissíveis
várias propostas interpretativas, estando pelo menos uma delas em conformidade
com a Constituição, que deve ser preferida às outras, em desconformidade com ela;
iii) no caso de se chegar a um resultado interpretativo de uma lei
inequivocamente em contradição com a Constituição, não se pode utilizar a
interpretação conforme a Constituição; nessa hipótese, impõe-se a declaração da
inconstitucionalidade da norma;
iv) deve o intérprete zelar pela manutenção da vontade do legislador,
devendo ser afastada a interpretação conforme a Constituição, quando dela resultar
uma regulação distinta daquela originariamente almejada pelo legislador. Se o
resultado interpretativo conduz a uma regra em manifesta dissintonia com os
objetivos pretendidos pelo legislador, há que ser afastada a interpretação conforme
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a Constituição, sob pena de transformar o intérprete em ilegítimo legislador positivo


(MASCARENHAS, 2008; PAULO; ALEXANDRINO, 2008).

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UNIDADE 9 – AS CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS

Contaremos um pouco da história das nossas Constituições tendo em PAULO


MASCARENHAS (2008); VICENTE PAULO e MARCELO ALEXANDRINO (2008);
CLEVER VASCONCELOS (2010) os maiores suporte teóricos, afinal eles
embasaram todos nossos momentos de estudo.

A Constituição de 1824
Com a Proclamação da Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822,
surgiu a necessidade da estruturação de um poder centralizador para o Império que
emergia, de modo a manter a unidade nacional.
Na discussão de ideias acerca da melhor forma política para a nova Nação,
dois grupos políticos se destacaram com ideias e propostas diametralmente opostas.
Esses grupos, que antes marcharam unidos na luta pela independência do Brasil,
divergiam quanto aos destinos do País. O grupo encabeçado por José Bonifácio de
Andrada e Silva, de tendência mais conservadora, propunha um governo forte,
centralizador no seu aspecto administrativo, onde o monarca era o Chefe de Estado
e, ao mesmo tempo, Chefe de Governo, enquanto o grupo mais liberal, encabeçado
por Gonçalves Ledo, defendia a monarquia constitucional representativa, onde o
Parlamento seria o poder mais forte e importante, e propunha, ainda, a liberdade de
expressão, de iniciativa, a descentralização administrativa e a ampla autonomia das
províncias.
Vencendo a disputa, Bonifácio inicia uma perseguição a Gonçalves Ledo e à
maçonaria por ele liderada. Ledo foi obrigado a refugiar-se em Buenos Aires.
Em meio a essa crise acontece a coroação de D. Pedro I, aclamado como o
Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil, ainda em 1822. Dom Pedro I chegou a
convocar uma Assembleia Constituinte para discutir a primeira Constituição do
Brasil, onde a proposta federativa foi discutida à exaustão, mas, considerando que
os constituintes de 1823 estavam criando uma Constituição que não era do seu
agrado, restringindo os seus poderes e deixando de propor a criação do Poder
Moderador, como queria, o monarca determinou a dissolução, à força, da

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Assembleia Constituinte, passando para a história como o primeiro e único dos


mandatários brasileiros a cometer tal ato de força.
Assim, em 1824, no ano seguinte, portanto, o Imperador outorgou uma
Constituição para o País, criando mecanismos políticos-institucionais que
representaram o triunfo da centralização proposta por José Bonifácio sobre o anseio
federativo de Ledo.
Essa Constituição Imperial de 1824 teve forte influência da Constituição da
França de 1814, e iniciou o hábito de se fazer Constituições analíticas.
A Constituição outorgada de 1824, consagrando o unitarismo, dividiu o País
em vinte províncias inteiramente subordinadas ao poder central, e dirigidas por
Presidentes escolhidos e nomeados pelo Imperador, demissíveis ad nutum. Criou,
ademais, os chamados Conselhos Gerais das Províncias, embrião do que viria ser
mais tarde o Poder Legislativo, só que com pouquíssimas atribuições.
Por essa Constituição, todo o aparelho político estava voltado para o Poder
Moderador, controlado unicamente pelo Imperador. Assim, Dom Pedro I não
somente reinava, mas também governava, e acumulava os Poderes Executivo e
Moderador, o que veio a trazer, como esperado, a concentração excessiva de poder
pelo Monarca.
No segundo reinado, já com o Imperador Dom Pedro II, o Brasil viveu a sua
primeira experiência parlamentarista, de origem costumeira, uma vez que não estava
prevista na Constituição Imperial.
Dom Pedro II, ao contrário de seu pai, jamais usou o Poder Moderador de
forma abusiva. Com o golpe militar de 15 de novembro de 1889, comandado por
Deodoro da Fonseca, Ministro da Guerra de Pedro II, surge a República Federativa
do Brasil.
Em razão da característica de Estado Unitário, dividido em províncias, com
forte centralização político-administrativa, evitou a fragmentação de nosso território.
A forma de Governo era a monarquia hereditária constitucional. As eleições eram
indiretas e censitárias. O Poder Legislativo submetia-se ao regime representativo,
eletivo e temporário, na Câmara dos Deputados, mas, no Senado, os integrantes
eram membros vitalícios, nomeados pelo Imperador.

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Foi o texto constitucional de maior longevidade em nossa história. Não


obstante isso, foi uma Constituição que se poderia classificar de nominativa, porque
não conseguiu fazer com que as práticas constitucionais adotadas na realidade
correspondessem às previstas em seu texto.

A Primeira República e a Constituição de 1891


A República foi instaurada no País muito mais pela necessidade da
implantação do federalismo do que por oposição à forma monárquica do governo de
Pedro II, mesmo porque este era respeitado pela sua inteligência, pela sua
moderação e pela sua honestidade.
Dom Pedro II morreu pobre, conquanto tenha governado o País por mais de
cinquenta (50) anos. E a prova desta assertiva está no Decreto Republicano de
15/11/1889, elaborado por Rui Barbosa, que logo no seu primeiro artigo assim
dispunha: “Art. 1º: As Províncias do Brasil, reunidas pelo laço da federação, ficam
constituindo os Estados Unidos do Brasil”. E no seu artigo 2º dispunha que “As
antigas Províncias serão consideradas Estados”.
A Constituição de 1891 institui, de modo definitivo, a forma federativa de
Estado e a forma republicana de governo (o Decreto nº 1/1889 o fizera em caráter
meramente provisório). A autonomia dos estados é assegurada, sendo a eles
conferida a denominada “competência remanescente”, conforme inspiração do
modelo norte-americano de federação. Foi estabelecida, também, a autonomia
municipal. O regime é o representativo, com eleições diretas e mandatos por prazo
certo nos Poderes Executivo e Legislativo. O sistema de governo adotado foi o
presidencialista, de inspiração norte-americana (de cujas instituições Rui Barbosa
era um profundo estudioso).
É abolido o Poder Moderador, voltando-se à fórmula tradicional de
separação entre os poderes, propugnada por Montesquieu.
A declaração de direitos individuais foi fortalecida, com acréscimo de
importantes garantias, como o habeas corpus.
A Constituição adotou a forma rígida, considerando constitucionais todas as
suas disposições, as quais somente poderiam ser alteradas mediante procedimento

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especial, mais laborioso do que o exigido para a criação e modificação do direito


ordinário.
Pode-se dizer que foi uma Constituição nominativa, pois suas disposições
não encontraram eco na realidade social, vale dizer, seus comandos não foram
efetivamente cumpridos. Nas palavras de JOSÉ AFONSO DA SILVA (1964 apud
PAULO; ALEXANDRINO, 2008), “o coronelismo fora o poder real e efetivo, a
despeito das normas constitucionais”.
Em 1926, a Constituição sofreu uma profunda reforma, de cunho
marcadamente centralizador e autoritário, que acabou por precipitar a sua
derrocada, ocorrida com a Revolução de 1930.

A Revolução de 1930 e a Constituição de 1934


Quando, em 1930, o Presidente Washington Luís escolheu mais um paulista,
Júlio Prestes, para sucedê-lo, a oligarquia mineira se rebelou entendendo ter sido
desrespeitada a chamada política do “café com leite”, resultante do constante rodízio
de presidentes paulistas – o café –, e mineiros – o leite –, juntando-se aos
fluminenses, gaúchos e a políticos de outros estados do Nordeste, formando a
famosa Aliança Liberal em torno da candidatura de Getúlio Vargas, gaúcho, ex-
Ministro da Fazenda de Washington Luís.
Com a derrota da Aliança Liberal e com a continuação da desordem no País
agravada pela grave situação econômica, jovens tenentes e jovens dissidentes da
oligarquia dominante partiram para a luta armada, e, em 3 de novembro de 1930,
Getúlio Vargas e os seus jovens tenentes marcharam sobre o Rio de Janeiro,
assumindo o poder uma Junta Pacificadora, que então já havia derrubado o
Presidente Washington Luís.
Através de um Decreto, editado em 11/11/1930, Getúlio Vargas passou a
exercer os poderes Executivo e Legislativo, dissolvendo o Congresso Nacional, as
Assembleias Legislativas Estaduais e as Câmaras Municipais, acabando de vez com
os últimos resquícios da incipiente democracia brasileira. Todos os governadores de
estado foram afastados e substituídos por interventores federais, recrutados, na sua
maioria, dentre os tenentes que apoiaram o Golpe de Estado, e que obedeciam
cegamente as ordens de Getúlio Vargas.
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Depois de mais de um ano e meio da revolução, estando o Brasil


administrado ainda sob métodos arbitrários e antidemocráticos, começaram a surgir
focos de resistência e rebeldia a partir de São Paulo, em favor da sua
redemocratização. Surge daí a Revolução Constitucionalista, de pequena e efêmera
existência, sufocada que foi pelas tropas leais ao Governo.
Mesmo tendo sido um fiasco do ponto de vista militar, a Revolução
Constitucionalista foi um sucesso do ponto de vista político, pois forçou Getúlio a
consentir na elaboração de uma nova Constituição para o País, em 1933, e que
marcaria o retorno do Brasil à normalidade democrática.
A nova Constituição, a segunda Constituição da República, promulgada em
16/07/1934, era analítica, contendo mais do dobro das disposições presentes na de
1891. Foi ela fortemente influenciada pela Constituição de Weimar, alemã, e pelo
fascismo, conquanto trouxesse, à época, um grande avanço do País para o
chamado Estado Social.
Por esta Constituição foi introduzido no Brasil o voto para as mulheres, a
obrigatoriedade e gratuidade do ensino primário, a criação do mandado de
segurança, a instituição do salário-mínimo, a criação da Justiça do Trabalho, as
férias anuais remuneradas, dentre outras.
Noutra linha, a Constituição de 1934 autorizou a União a monopolizar as
riquezas do subsolo – o petróleo, o ouro –, das águas e da energia hidráulica, e na
economia visava a monopolizar, de forma progressiva, os Bancos de depósito,
amparar e estimular a produção e estabelecer novas condições de trabalho.
Concedeu, ainda, autonomia aos Municípios como instrumento de descentralização
e democratização do Estado.
PAULO BONAVIDES (1985, p. 320), a respeito desta nova Constituição,
assim se pronunciou:

A Carta de 1934 é uma colcha de retalhos, em que pese seu brilhantismo


jurídico e sua lição histórica. Princípios antagônicos (formulados
antagonicamente, inclusive) são postos de lado. Eles marcam duas
tendências claramente definidas, dois projetos políticos diversos. Um deles
haveria de prevalecer. O que efetivamente aconteceu: sobreveio a ditadura
getulista a partir de 1937. O texto de 1934 está marcado de indecisões e
ambiguidades. Não é possível delinear a partir dele um projeto político
hegemônico para o país. Essa hegemonia então questão de vida ou morte.

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Se ela não pode ser resolvida no plenário, teve de sê-lo com a ajuda das
articulações de bastidores e das falsificações históricas para não dizer com
a força das armas. A Constituição de 1937 é o registro definitivo da
derrocada da tendência liberal.

Getúlio Vargas, conquanto tivesse reduzido gravemente os direitos


individuais dos cidadãos, do ponto de vista político, como um presidente-ditador
legou inúmeras “conquistas sociais” para os trabalhadores, ainda que de forma
ditatorial, reforçando, assim, o seu desprezo pela democracia e, ao mesmo tempo, a
imagem paternalista e personificadora do Poder Estatal.
Assim, a outorga dos direitos sociais, que não foram introduzidos graças à
luta política, mas por obra e vontade do ditador, acabou por gerar o saudosismo
popular para com as ditaduras; fenômeno reforçado com o regime militar.

O Estado Novo e a Constituição de 1937


Em 10/11/1937, o Presidente Getúlio Vargas, dando um autogolpe, outorgou
uma nova Constituição ao País, de feição nitidamente ditatorial, inteiramente
redigida pelo ex-Deputado Federal por Minas Gerais Francisco Campos.
Essa Constituição de 1937 ficou conhecida como Carta Polaca, em virtude
da grande semelhança que guardava com a fascista Constituição da Polônia, de
1935.
O presidente/ditador interveio nos estados-membros afastando todos os
governadores e designando, em seus lugares, interventores nomeados, escolhidos,
na sua maioria, entre os tenentes do exército que o ajudaram a derrotar a Aliança
Liberal, em 1930, e que apoiaram o seu autogolpe.
A Constituição outorgada de 1937, a “Polaca”, carecia de vários dispositivos
de garantia dos direitos fundamentais, como, por exemplo, o mandado de segurança
e o direito de manifestação de pensamento. E, pior, foi instituída a pena de morte
para crimes políticos e homicídios considerados mais graves.
Como se isso não bastasse, foi suprimido o nome de Deus do preâmbulo;
conferiu amplos poderes ao Presidente da República; ampliou o prazo do mandato
presidencial, criou o estado de emergência para a restrição temporária das garantias
individuais; estabeleceu o plebiscito para aprovação da Constituição outorgada (que
acabaria não sendo realizado); dissolveu o Congresso Nacional e as Assembleias
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estaduais; restringiu as prerrogativas do novo Congresso a ser instalado (e que


nunca o foi), e a autonomia do Poder Judiciário; mudou o nome do Senado para
Conselho Federal; eliminou a autonomia dos Estados-Membros.
Segundo LUIZ PINTO FERREIRA (1996), a Constituição Federal de 1937
nunca foi verdadeiramente cumprida. Para ele, dissolvidos os órgãos do Poder
Legislativo, tanto da União como dos Estados-Membros, dominou a vontade
despótica do presidente, transformado em caudilho, à maneira do caudilhismo
dominante nas Repúblicas latino-americanas. Os Estados-Membros viveram sob o
regime da intervenção federal, os interventores sendo na verdade delegados do
presidente. As liberdades de imprensa e de opinião foram amordaçadas e também
dissolvidos os partidos políticos.

A democracia e a Constituição de 1946


A derrota da aliança nazifascista, envolvendo a Alemanha e a Itália, na
Segunda Guerra, que inicialmente era simpática ao então ditador brasileiro fez com
que crescessem as pressões internas para a reconquista das liberdades
democráticas, criando um clima verdadeiramente hostil ao presidente/ditador Getúlio
Vargas.
Submetido à pressão de juristas, intelectuais e de parcela da população,
Getúlio vê-se obrigado a fazer emendas à Constituição outorgada em 1937, abrindo,
ainda que timidamente, o regime.
Assim é que editou a Lei Constitucional nº 9, em fevereiro de 1945, contendo
várias emendas à Constituição, sendo a mais importante delas a que fixava eleições
diretas para o mês de dezembro do mesmo ano. Demais disso, em abril de 1945,
concedeu liberdade aos presos políticos, dentre eles Luís Carlos Prestes, presidente
do proscrito Partido Comunista Brasileiro – PCB –, que, em uma “jogada política”
uniu-se ao seu algoz, durante a campanha eleitoral, em um movimento denominado
queremista que tinha por objetivo manter o Presidente Vargas no poder.
Em 29 de outubro de 1945, antes mesmo das eleições, e quatro dias após a
nomeação do seu irmão Benjamim Vargas para chefe de polícia do Rio de Janeiro,
então Distrito Federal, Getúlio Vargas era deposto pelos militares, chefiados pelos

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Generais Eurico Gaspar Dutra e Góes Monteiro, assumindo provisoriamente o


governo o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro José Linhares.
A queda de Vargas levou ao início da elaboração de uma nova Constituição,
democrática, em lugar da outorgada, com costume autoritário.
Em 12 de novembro de 1945, através da Lei Constitucional nº 13, foram
dados poderes constitucionais ao Parlamento que seria, como o foi, eleito em 2 de
dezembro de 1945, para a elaboração de uma nova Constituição. Dois meses
depois, em fevereiro de 1946, os constituintes iniciaram os trabalhos de elaboração
da nova Constituição que somente ficaria pronta em setembro de 1946, cerca de
sete meses depois.
Essa nova Constituição procurou conciliar os princípios de liberdade e justiça
social, garantindo os direitos dos trabalhadores conquistados durante o estado
Novo, e coibindo abusos do poder econômico.
A Constituição promulgada de 1946 foi, na opinião de vários juristas, dentre
eles CELSO RIBEIRO BASTOS (1999), a mais municipalista que tivemos. Foram
muitos os constituintes que se bateram pela causa.
A nova Constituição restabeleceu o princípio da separação e harmonia dos
poderes, o cargo de Vice-Presidente da República, integrou a Justiça do Trabalho no
âmbito do Poder Judiciário, proibiu a organização, registro ou funcionamento de
qualquer partido político ou associação cujo programa de ação contrariasse o regime
democrático, como por exemplo, o Partido Comunista Brasileiro – PCB –,
reconheceu o direito de greve, dentre outros.
Essa Constituição de 1946 sofreu apenas três emendas, e levou a Nação a
viver de forma democrática, inclusive com a eleição do antigo ditador Getúlio Vargas
para o quadriênio 1951/1955. Em 24/08/1954, Getúlio comete suicídio assumindo o
seu vice até 08/11/1955, quando se afastou por problemas de saúde. O Presidente
da Câmara, Carlos Luz, ocupou a Presidência por três dias (08 a 11/11/1954)
quando foi afastado por um dispositivo militar e impedido de assumir o cargo por
determinação do Congresso Nacional (motivo: o Sr. Carlos Luz não queria dar posse
ao Presidente eleito naquele ano Juscelino Kubitschek). Em seu lugar assumiu o
Vice Presidente do Senado Nereu Ramos que empossou o Presidente eleito em
31/01/1956 e que cumpriu mandato até 31/01/1961. Jânio da Silva Quadros,
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Presidente eleito em 15/11/1960, assumiu em 31/01/1961 governando até


25/08/1961, quando, tentando aplicar um autogolpe, renunciou à Presidência, e
levou o País a uma crise institucional que culminou com a implantação do regime
parlamentarista.
As Forças Armadas e setores conservadores da República não queriam que
o Vice-Presidente João Goulart assumisse a Presidência, ao argumento de que ele
era esquerdista e discípulo de Getúlio Vargas, criando, assim, uma grave crise
institucional.
O vice-presidente, quando da renúncia de Jânio Quadros, encontrava-se em
viagem diplomática à China, e os militares tentaram impedir o seu retorno ao País
para assumir a Presidência. Contra essa tentativa de golpe de estado levantou-se a
população, estimulada pela “cadeia da legalidade”, criada pelo governador Leonel
Brizola, do Rio Grande do Sul, que defendia a posse do Presidente e a normalidade
democrática.
Para resolver esse impasse, editou-se a Emenda Constitucional nº 4, de 2
de setembro de 1961, instituindo o regime parlamentarista, sendo escolhido como
Primeiro-Ministro o então deputado federal por Minas Gerais, Tancredo Neves.
O parlamentarismo foi, assim, a saída encontrada e aceita pelas partes para
que o Presidente João Goulart pudesse assumir o poder central.
Assumindo o governo, João Goulart, com excepcional maestria, conseguiu
convocar um plebiscito logo para o ano imediatamente seguinte para que o povo
decidisse soberanamente sobre o regime de governo, se parlamentarista ou
presidencialista, vencendo este último, que culminou com a edição da Emenda
Constitucional nº 6, de 23 de janeiro de 1963, trazendo de volta o velho
presidencialismo.
Em 31 de março de 1964, os militares insatisfeitos com o governo
nacionalista de João Goulart que, dentre outras coisas, nacionalizou a exploração do
petróleo e estatizou instituições financeiras – coadjuvados pela velha oligarquia
política de Minas Gerais e São Paulo, além de políticos oportunistas, deram um
golpe de estado e afastaram o Presidente João Goulart.
Os militares, no dia 1º de abril, vale dizer, no dia seguinte ao golpe,
assumiram o poder e impuseram o Ato Institucional nº 1, institucionalizando o
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Regime Militar de forma a ordenar os plenos poderes constituintes que passaram a


possuir, e fortalecendo o Poder Executivo centralizando a administração. Era a
primeira de uma série de medidas arbitrárias.
Para dar foros de legalidade à situação, de forma subserviente e covarde, o
então Presidente do Senado Federal Auro de Moura Andrade, mesmo sabedor que
João Goulart encontrava-se em território brasileiro, mais precisamente no Rio
Grande do Sul, de onde pretendia reagir ao golpe, no dia 2 de abril de 1964,
declarou a vacância do cargo, ao argumento de que o Presidente teria deixado
espontaneamente o País.
Deu-se início, a partir de então, a mais uma ditadura, com a supressão das
liberdades, já agora sob o jugo dos militares.

O Regime Militar e a Constituição de 1967;


A Emenda Constitucional de 1969
O regime militar, através da Constituição outorgada de 1967, e da Emenda
Constitucional nº 1, de 1967, na prática uma nova Constituição, governou por mais
de vinte e cinco anos, concentrando de forma excessiva os poderes, transformando
os governadores de estado e os prefeitos em verdadeiros fantoches, manipulados
pelo Poder Central.
Os militares golpistas reduziram as liberdades individuais e coletivas,
suspenderam direitos e garantias constitucionais, e passaram a governar através
dos Decretos-lei, usurpando a competência do Poder Legislativo.
Em 13 de dezembro de 1968, foi promulgado o Ato Institucional nº 5, o AI-5,
que concedeu uma gama extraordinária de poderes ao Presidente da República,
inclusive os de decretar o fechamento do Congresso Nacional, das Assembleias
Legislativas e das Câmaras Municipais, cassar os mandatos dos parlamentares e
suspender os direitos políticos de qualquer pessoa por dez anos.
Com essa medida, o Poder Executivo usurpava, de uma vez por todas, os
poderes do Legislativo.
Além disso, esse AI-5 suspendia, também, as garantias da magistratura,
como a vitaliciedade e a inamovibilidade, assim como as garantias do funcionalismo
em geral, tal como a estabilidade, e, usurpando poderes do Judiciário, suspendeu o
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instituto do habeas corpus nos casos de crimes políticos contra a “segurança


nacional, a economia popular e ordem econômica”, além de subtrair do Judiciário a
competência para apreciar qualquer ato praticado com fundamento nele, AI-5.
No período do governo do General Ernesto Geisel, penúltimo dos governos
militares, foram “baixados” os assim chamados “pacotes” de abril/1977 e julho/1978.
No primeiro “pacote” de medidas, foram editadas, pelo Executivo, catorze
emendas à Constituição e seis decretos-lei, trazendo as seguintes medidas:
diminuição do quorum para emenda constitucional (de 2/3 para maioria absoluta de
cada uma das casas legislativas); criação dos chamados senadores “biônicos”,
escolhidos indiretamente pelas Assembleias Legislativas estaduais (tinha o objetivo
de dar maioria ao Governo no Senado); prorrogação do mandato de Geisel de 4
anos para 6 anos, dentre outros.
Já no segundo “pacote”, o de julho/1978, revogaram o AI-5 e a suspensão
dos direitos políticos, e reduziram-se alguns dos poderes do Presidente/ditador,
como por exemplo, o de decretar o recesso legislativo.
Já no governo do General João Batista de Oliveira Figueiredo, o último do
ciclo militar, a população foi às ruas para exigir a redemocratização do País, com os
célebres e concorridos comícios pelas “Diretas já”, que somente aconteceria anos
depois.
O Congresso “elegeu”, de forma indireta, como último presidente daquele
período, o Dr. Tancredo Neves, tendo como seu vice o Sr. José Sarney, político
governista, filiado ao partido oficial, mas, que na última hora, vislumbrando a
derrocada do regime, bandeou-se para a oposição, derrotando, na oportunidade, a
chapa governista integrada por Paulo Maluf e Nelson Marquezan.
O Presidente Tancredo Neves não chegou a ser diplomado em razão da sua
morte, tendo assumido a Presidência o Sr. José Sarney, que, cumprindo os
compromissos de Neves, convocou uma Assembleia Nacional Constituinte.

A Constituição promulgada de 1988


A nova Constituição brasileira teve como fonte de inspiração a Constituição
portuguesa de 1976, fortemente influenciada pelo Mestre constitucionalista J. J.
GOMES CANOTILHO.
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O novo texto constitucional proclamou os direitos individuais e sociais;


fortaleceu o Poder Legislativo, conquanto tenha permitido a chamada medida
provisória – ato normativo com força de lei –, instituto que veio a substituir os
famigerados Decretos-lei, o que vem permitindo aos sucessivos governos a
usurpação de competência do poder de legislar; aprimorou o sistema democrático
através do incremento da democracia semidireta (o plebiscito, o referendo e a
iniciativa popular); além de trazer inegáveis e incontáveis avanços no
reconhecimento dos direitos e garantias individuais e coletivos.
Para os seus críticos, as superposições e o detalhismo minucioso, prolixo e
casuístico, são impróprios para um documento desta natureza (BARROSO, 2001).
LUÍS ROBERTO BARROSO (2001, p. 42) acrescenta, ainda, que o assédio
dos lobbies, dos grupos de pressão de toda ordem, geraram um texto com inúmeras
esquizofrenias ideológicas e demasiadamente corporativo. Avalia, contudo, que as
críticas à Constituição, segundo ele cabíveis e necessárias, não empanam o seu
caráter democrático, mas apenas realçam a fisionomia ainda imatura de um País
fragilizado pelas sucessivas rupturas institucionais e pela perversidade de suas
relações sociais.
Outros juristas e operadores do Direito, como PAULO MASCARENHAS
(2008), entendem que naquele momento, saindo o País de uma longa ditadura que
durou mais de vinte anos – na qual morreram milhares de brasileiros, afora outros
tantos que foram torturados e exilados – e ainda chocada com a morte do
Presidente Tancredo Neves, depositário das grandes esperanças e aspirações do
povo brasileiro, a Assembleia Nacional Constituinte produziu a melhor Constituição
que, na circunstância, poderia produzir, com avanços sociais extraordinários, além
da consagração de direitos e garantias fundamentais, que será objeto de nosso
estudo em módulo seguinte.

Resumo das nossas constituições:


1824: positivada por outorga. Constituição do Império do Brasil. Havia um
quarto poder: o Poder Moderador.
1891: positivada por promulgação. Primeira Constituição da República.
1934: positivada por promulgação.
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1937: positivada por outorga (Getúlio Vargas). Apelidada de Constituição


“Polaca”.
1946: positivada por promulgação. Restabeleceu o Estado Democrático.
1967: positivada por outorga (há quem sustente ter sido positivada por
convenção, pois o texto elaborado pelo Governo Militar foi submetido ao
referendo do Congresso Nacional antes de entrar em vigor).
1988: positivada por promulgação (Constituição Cidadã).

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