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Flor do Pântano Patrícia Potter

Flor do Pântano
Patrícia Potter

Resumo:

Um campo de batalha nã o era


lugar para jovens ricas e mimadas.
Mas a dor e a revolta de perder o
noivo instigaram em Samantha
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Flor do Pântano Patrícia Potter

Chatam à vontade de lutar contra


o pró prio pai, lutar par vingar a
morte do homem amado.
Determinada, vestiu-se de rapaz
e juntou-se ao grupo rebelde que
tentava libertar a Carolina do Sul
do julgo dos ingleses.
A cada dia crescia a admiraçã o do
major Connor O'Neil pelo "garoto"
corajoso que nã o hesitava em
arriscar a vida em missõ es
perigosas. Apegava-se ao jovem de
modos estranhos sem suspeitar
que sob os trajes rudes houvesse

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uma bela mulher, que se debatia


no drama de nã o poder revelar sua
identidade. Principalmente a ele,
que odiava a todos da família
Chatam, e a quem passou a amar
desesperadamente.

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NOTA DA AUTORA

A batalha de Eutaw Springs foi a


maior de todas no conflito nas
Carolinas.

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No Norte, George Washington


derrotou Cornwallis um mês
depois, em Yorktown, e a guerra,
para todos os efeitos, estava
terminada. Yorktown foi à ú ltima
batalha verdadeira, embora ainda
acontecessem alguns confrontos de
menor importâ ncia entre os
ingleses e os espanhó is e franceses
que haviam ido em socorro da
jovem naçã o americana. Charleston
foi um dos ú ltimos redutos
britâ nicos a se renderem e sua
queda deu-se no começo de 1782.

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Francis Marion, um solteirã o


convicto, retornou à sua fazenda
incendiada pelos ingleses e casou-
se com uma prima distante, Esther
Vídeau.
Muitos relatos sobre Marion sã o
falhos e contraditó rios, mas todos
concordam ao revelar que ele era
tanto tímido como audacioso, duro
e sentimental, esperto e também
religioso. Seu bando de rebeldes
recebia rapazes de até catorze anos
de idade e Marion era conhecido
pelo cuidado que dedicava aos

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jovens soldados.
Embora fosse um mestre da
guerra, ele a desprezava, nã o
hesitando em desligar de seu
regimento qualquer soldado que
cometesse atrocidades contra uma
família tory ou um militar inimigo,
jamais aceitando desculpas por
atos de crueldade.
Muitas das aventuras narradas
neste livro realmente aconteceram,
como, por exemplo, a captura do
general O'Mara, o incêndio do forte
Motte, o ataque a Georgetown e

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vá rias outras.
Algumas pessoas também
existiram. Peter Horry e Billy James
foram companheiros de Marion na
vida real.
Para finalizar, devo dizer que
procurei ao má ximo ser fiel nas
descriçõ es do cará ter de Francis
Marion e dos costumes da época.

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PRÓLOGO

Samantha despertou de um sono


inquieto, ouvindo o som de cascos
batendo no chã o crestado pelo
calor intenso daquele verã o.
Durante a noite debatera-se entre
pesadelos causados pela
preocupaçã o e pelo medo,
acordando vá rias vezes, desejando
e ao mesmo tempo temendo que
amanhecesse.

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Afastando as sensaçõ es
desagradáveis experimentadas na
escuridã o, deixou que cada parte
de seu corpo fosse devagar
recebendo energia. Sorriu,
pensando que aquele seria o dia de
seu casamento.
Saiu da cama e correu para a
janela, abrindo as cortinas verdes.
Tudo o que acontecesse nas horas
seguintes teria importâ ncia
decisiva: as condiçõ es de tempo, as
entradas e saídas do pai, as tarefas
dos escravos.

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Escancarou a janela, deliciando-se


por um momento com o odor de
jasmim e de magnó lia misturado à
forte fragrâ ncia dos loureiros. O
perfume da natureza parecia
celebrar aquele recanto estuante
de vida da Carolina do Sul.
Uma carruagem desaparecia
numa curva da estrada poeirenta e
Samantha admirou-se ao ver que o
pai saía tã o cedo, imaginando o que
o fizera contrariar seus há bitos. Os
primeiros raios de luz apenas
tingiam o horizonte de rosa e

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dourado, prenunciando o nascer do


sol. Aquela aurora colorida era a
primeira de sua nova vida, que
compartilharia com Brendan.
Respirou profundamente,
enchendo os pulmõ es com o ar
perfumado e ainda fresco. Aos
poucos, o dia se transformaria
numa fornalha, mas nem aquilo a
perturbaria quando estivesse junto
de Brendan, fugindo com ele.
O coraçã o da moça apertou-se de
medo, mas aquela sensaçã o
desapareceu ao ser suplantada pela

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felicidade que a invadiu de repente.


Nã o devia pensar nas
conseqü ências do que faria, quando
estava a um passo de realizar seu
sonho de amor. Seu pai ficaria
furioso, certamente, mas teria de
aceitar o casamento. Nã o teria
outra escolha. E, afinal, a uniã o dos
dois jovens poderia acabar de uma
vez por todas com a inimizade de
duas famílias. Portanto, o ato de
rebeldia acabaria por tornar-se
benéfico para todos.
Os pensamentos de otimismo

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marcante conseguiram acalmá -la.


Tudo daria certo. Iria ao encontro
de Brendan no lugar combinado e
os dois viajariam para Charleston,
onde um amigo que era ministro os
casaria. Outro amigo lhes oferecera
a casa que possuía na cidade por
um mês: tempo suficiente para que
a situaçã o se definisse. O que
aconteceria depois ia depender das
atitudes de suas famílias, mas os
noivos estavam preparados para
enfrentar a vida sozinhos, se fosse
necessá rio. Encontrariam forças no

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Flor do Pântano Patrícia Potter

amor que os unia para vencer


todos os obstá culos.
"Para o inferno com a política", ela
pensou. "Que se danem todos os
tories e os whigs que dividiram a
paró quia em duas e cavaram o
abismo de ó dio entre meu pai e os
O'Neill”.
Percebendo que pensamentos
amargos ameaçavam anuviar sua
paz de espírito, ela os espantou.
Política e desavenças nada tinham
a ver com ela e Brendan, cujo amor
florescera no decorrer dos anos,

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desde que eram crianças.


Afastou-se da janela e colocou-se
na frente do grande espelho que
pendia de uma parede, olhando-se
criticamente. Achava seu rosto
pequeno demais e os lá bios muito
carnudos, mas gostava dos olhos
imensos, de um tom escuro de azul.
Gostava também dos longos
cabelos negros que brilhavam
como o rico mogno que decorava
todos os cô modos da casa-grande
de Chatham Oaks. O corpo era
esguio, cheio de curvas, e o rosto

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refletia intensa vivacidade.


Brendan a chamava de "alegre fada
dos bosques", mas Samantha
preferiria ser chamada de "minha
bela". De qualquer forma, fada ou
bela, naquela noite já seria a sra.
Brendan 0'Neill.
Colocando um ponto final nos
devaneios, rapidamente trocou a
camisola por um vestido azul e
amarrou os cabelos com uma fita
da mesma cor. Depois de uma
ligeira toalete, desceu a escada
correndo, ansiosa por saber onde o

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pai fora tã o cedo e a que horas


pretendia voltar. Talvez ficasse em
Monck's Corner até a noite. Pela
barulheira de cascos com que fora
despertada, ele fora acompanhado
de guardas, porque desde o início
da guerra o distrito de
Williamsburg tornara-se um lugar
perigoso, tanto para os homens do
partido Tory como para os do
partido Whig.
Foi para a cozinha, seu lugar
predileto na parte da manhã . A
velha cozinheira, Maudie,

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praticamente a criara e era sua


principal fonte de carinho e
também de informaçã o. Ao
aproximar-se da porta, parou
admirada com o tom de afliçã o que
percebeu na voz da escrava.
— O que vou dizê à pobre
menina?
Angel, a filha de Maudie, também
nã o parecia muito tranqü ila
quando respondeu à pergunta da
mã e.
— Nada. O sinhô disse que vai
bate em quem fala quarqué coisa.

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Flor do Pântano Patrícia Potter

— O sinhô Brendan é tudo na vida


da menina Samantha. Ela precisa
sabe.
— Nã o sou eu que vou conta.
Intrigada, Samantha entrou na
cozinha abrindo a porta de repente.
— Contar o quê, Maudie?
O silêncio caiu na cozinha e as
duas negras baixaram os olhos.
— Maudie — insistiu Samantha
—, o que está acontecendo? O que é
que eu preciso saber?
A velha escrava desmanchou-se
em lá grimas e tomou uma das

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mã os de Samantha.
— Seu pai sabe que a menina e o
sinhô Brendan... — Interrompeu-se
para engolir o bolo que se formara
na garganta. — Os dois vã o ter um
duelo agora de manhã .
Um grito involuntá rio, carregado
da mais profunda dor, escapou dos
Sá bios de Samantha.
— Nã o! Papai o matará ! Brendan
nã o tem a habilidade dele!
Antes que qualquer das duas
escravas pudesse abrir a boca para
dizer alguma coisa, Samantha saiu

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correndo pela porta da cozinha,


indo em direçã o à s cocheiras.
Rapidamente encilhou sua égua e
subiu na cerca para montar.
Sundance, sentindo a inquietaçã o
da dona, nã o precisou de incentivo
para lançar-se a galope.
A moça conhecia muito bem o
local usado para duelos. Era uma
clareira adorável, cercada por
gigantescos ciprestes, a cerca de
oito quilô metros da fazenda do pai.
Ela sempre considerara obsceno
um lugar tã o lindo ser destinado a

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receber inimigos que se


enfrentavam em disputas que
inevitavelmente terminavam com
uma morte. Sempre que passava
pelo lugar era assaltada por um
estremecimento de horror.
Todavia, dirigia-se para lá ,
correndo em desespero.
Inclinou-se sobre o pescoço da
égua e incitou-a a galopar com mais
rapidez. Precisava impedir o pai de
bater-se com Brendan. O amor dos
dois nã o podia terminar daquela
maneira cruel e sangrenta.

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Flor do Pântano Patrícia Potter

Ela nã o tomava conhecimento dos


galhos que lhe arranhavam as
pernas e rasgavam a saia do
vestido, assim como nem percebera
que a fita escorregara dos cabelos,
que esvoaçavam livremente a seu
redor.
— Mais rá pido, Sundance, por
favor. Você precisa ir mais rá pido!
Nã o demorou muito a avistar a
clareira, tomada de esperança.
Chegaria a tempo de interromper o
duelo e evitar que seu pai
assassinasse o homem que naquele

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dia ia tornar-se seu marido.


O barulho de tiros de pistola
quebrou a quietude da manhã e
quando Samantha desmontou,
percebeu o estranho silêncio que
caíra sobre a clareira. Nem os
pá ssaros chilreavam mais e ela nã o
ouviu o farfalhar das folhas
agitadas pelos saltos dos esquilos
que infestavam os bosques da
regiã o.
Como se estivesse vivendo um
pesadelo, aproximou-se da figura
estendida no chã o.

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Flor do Pântano Patrícia Potter

Os cabelos dourados de Brendan


brilhavam aos primeiros raios do
sol e seus olhos, azuis como os dela,
estavam abertos, fixos no céu. A
camisa de linho branco ostentava
uma mancha vermelha que se
alastrava pavorosamente.
Ela colocou a cabeça dele no colo,
abraçando-a com desespero.
— Brendan — murmurou. —
Brendan, nã o me abandone. Eu te
amo! Nã o me deixe sozinha, por
favor, querido.
Nã o sentia as lá grimas que lhe

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Flor do Pântano Patrícia Potter

banhavam o rosto, nem via o


ameaçador vulto do pai. Também
nã o percebeu a aproximaçã o do
cavaleiro que chegara ao local
alguns segundos depois dela.
O homem desceu do cavalo e
rispidamente agarrou-a pelo braço,
fazendo-a levantar-se e
empurrando-a para longe.
Ajoelhando-se ao lado do morto,
ele gentilmente fechou-lhe os olhos
e depois fitou Samantha com fú ria
e sofrimento profundo estampados
no rosto pá lido.

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Flor do Pântano Patrícia Potter

— Está contente com o que fez?


Foi você quem o matou! Você o
matou pela mã o de seu pai!
Depois, vagarosamente, Connor
O'Neill ergueu o corpo do irmã o e
atravessou-o na sela do cavalo.
Montando também, segurando o
cadáver com uma das mã os,
lentamente desapareceu no
caminho que saía do bosque.
Samantha deixou-se cair ao lado
da poça de sangue que a terra
começava a absorver, soluçando,
sufocada por uma dor insuportável.

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Flor do Pântano Patrícia Potter

CAPÍTULO I

Completamente desanimada,
Samantha permanecia sentada
perto da janela de seu quarto
trancado, olhando para as á rvores
que pareciam chorar grossas
lá grimas de musco cinzento-
prateado. Os velhos carvalhos
tinham uma aparência lú gubre e
ela imaginou como um dia pudera

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Flor do Pântano Patrícia Potter

achá -los encantadores, como algo


má gico que alimentava sua
fantasia. Como tudo a seu redor,
eram tristes, monó tonos e
decadentes.
O céu carrancudo, coberto de
nuvens escuras, trazia à sua
lembrança os olhos cinzentos e
angustiados de Connor 0'Neill e a
cruel acusaçã o que ele lhe lançara
ao rosto naquele dia terrível, um
ano atrá s.
— Oh, Brendan — ela falou
baixinho na solidã o que a rodeava

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Flor do Pântano Patrícia Potter

como pesada mortalha. — Preciso


de você, meu amor.
Debruçou-se na janela e suspirou.
Conservava a mesma beleza, mas
no íntimo sentia-se vazia, como
uma boneca. A magreza fizera
desaparecer as curvas suaves,
deixando-a com o corpo reto, muito
diferente do de uma moça de
dezenove anos, em pleno esplendor
da juventude. Os longos cabelos
negros caíam em desalinho ao
redor do rosto miú do e pá lido. O
fulgor que sempre brilhara nos

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Flor do Pântano Patrícia Potter

olhos azuis dera lugar a uma


expressã o melancó lica e torturada.
Naquele dia tivera outra briga
violenta com o pai, o que resultara
em nova reclusã o no quarto. Era
uma prisioneira em seu pró prio lar.
Desde a manhã do duelo, quando
ele a arrastara do local da morte de
Brendan, as discussõ es se
tornavam cada vez piores.

Naquele dia de dolorosa


lembrança, quando chegaram em
casa, erguera as mã os manchadas

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Flor do Pântano Patrícia Potter

de sangue, para que o pai as visse,


quase em estado de choque,
trêmula e soluçante.
— Eu odeio você, pai. E o odiarei
até o dia da minha morte —
declarara com voz fria.
O rosto do homem tingira-se de
vermelho, e erguendo uma das
mã os pesadas, esbofeteara-a com
tal força que a moça caíra ao chã o.
Nã o desviara os olhos azuis do
rosto enfurecido e seu olhar
dolorido era frio e acusador.
Incapaz de continuar a encará -la,

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Flor do Pântano Patrícia Potter

Robert Chatham virara as costas.


— Eu a avisei, Samantha. Disse
para ficar longe daquele imundo
rebelde irlandês. Agora você
destruiu sua reputaçã o e pode
perder a esperança de conseguir
um bom casamento. Tudo foi culpa
sua, nã o minha.
Nã o podia ser culpada de nada.
Ela e Brendan haviam se amado
com fervor ingênuo e apenas
desejado estar juntos. Ela deixara-
se ficar no chã o, escondendo o
rosto entre as mã os, sentindo que

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Flor do Pântano Patrícia Potter

sua vida se desfazia em mil


pedaços.
A ira de Robert Chatham
diminuíra ligeiramente, mas jamais
a perdoaria por haver destruído
seus sonhos de uma aliança
vantajosa através do casamento da
filha com um homem pró spero e
digno de confiança. Uma reputaçã o
manchada nunca readquiria a
pureza.
— Vá para seu quarto — ele
ordenara com aspereza. — E fique
lá até aprender a respeitar seu pai.

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Flor do Pântano Patrícia Potter

Respeitar e obedecer.
— Respeito! — ela cuspira a
palavra. — Nunca!
Levantara-se do chã o e saíra da
sala olhando para o vestido que o
sangue de Brendan enodoara. Só ao
chegar ao quarto abandonara-se
completamente à dor, jogando-se
na cama e gritando com a boca
apertada no travesseiro.
Permanecera reclusa durante três
semanas, sobrevivendo apenas a
pã o e á gua, conforme as ordens do
pai que desejava obrigá -la a pedir

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Flor do Pântano Patrícia Potter

perdã o e a concordar em obedecer-


lhe cegamente. Maudie à s vezes
arriscava-se a mandar alguma
guloseima às escondidas, mas
Samantha nem as tocava. Naqueles
dias de luto e sofrimento, a comida
nã o a atraía, servindo apenas para
nã o deixá -la morrer de fome. Até
pensara em recusar qualquer
alimento, mas o instinto de
sobrevivência derrotara seu
propó sito.
Esmigalhar o pã o entre os dedos e
dar o farelo aos passarinhos

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Flor do Pântano Patrícia Potter

tornara-se um exercício habitual,


que a impedia de enlouquecer
pensando demais no que
acontecera.
O castigo terminara quando o pai
vira como ela estava emagrecendo.
Robert assustara-se com a
aparência doentia e o silêncio
teimoso da filha e ordenara que ela
descesse para as refeiçõ es. Ela
obedecera, mas os momentos que
passavam juntos haviam sido
torturantes.
Durante os meses seguintes,

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Flor do Pântano Patrícia Potter

acontecera uma espécie de trégua.


Samantha respondia o que lhe
perguntavam e só . Era cortês com
os convidados do pai, mas nunca
amigável. Muitos afastavam-se dela,
repelidos pela atitude distante e
gelada, apesar da beleza de
Samantha ter aumentado, sua
aparência tornando-se quase
etérea.
A casa era cada vez mais visitada
por oficiais britâ nicos e pelos
amigos tories de Robert Chatham.
Na guerra pela independência do

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Flor do Pântano Patrícia Potter

novo país, os Estados Unidos da


América, Charleston caíra no
começo daquele ano de 1782 e os
ingleses enchiam Williamsburg,
cometendo violências contra
aqueles que nã o se juntavam a eles
na luta. Samantha, ao recebê-los ao
lado do pai, desprezava-os em
silêncio, mantendo uma atitude de
mera polidez.
Agindo daquela forma conseguira
manter qualquer possível
pretendente a distâ ncia, até que o
coronel William Foxworth

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Flor do Pântano Patrícia Potter

apareceu em cena.
Ela passava por uma porta,
quando ouviu alguém com sotaque
inglês falando com o pai. Ia
continuar seu caminho, mas parou
ao ouvir o nome da família O'Neill.
— O senhor será generosamente
recompensado por esta informaçã o
— o inglês prometeu.
— Eu quero que eles morram. Os
dois — Robert Chatham respondeu.
— Serã o enviados para um navio-
prisã o. Muitos dos prisioneiros
morrem logo. E é o que acontecerá

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Flor do Pântano Patrícia Potter

com esses dois se nã o concordarem


em lutar do nosso lado.
— Os O'Neill? — o pai perguntou
com espanto. — Nunca! Sã o
obstinados, como todos os
irlandeses. Nã o sã o leais para com
o rei, nem reconhecem qualquer
autoridade. Sã o uns baderneiros.
— Sabe que tem direito a receber
alguma propriedade em troca de
suas valiosas informaçõ es — o
inglês comentou.
Houve um instante de silêncio.
— A fazenda deles? — Robert

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Flor do Pântano Patrícia Potter

sugeriu em voz baixa.


— E sua. Queremos a Carolina do
Sul nas mã os de ingleses leais à
coroa, como o senhor.
Samantha nã o pô de mais conter-
se. Abriu a porta de repente e
encarou o pai.
— Nã o tem mais nenhuma honra?
— acusou-o, ignorando o homem
vestido de vermelho. — Nã o se
satisfez matando Brendan? Quer
mais sangue em suas mã os, pai?
O rosto de Robert Chatham ficou
lívido, enquanto ele olhava do rosto

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Flor do Pântano Patrícia Potter

enfurecido da filha para o do


estarrecido inglês.
— Saia já daqui! Conversarei com
você mais tarde. Saia, Samantha! —
gritou, fitando a moça com raiva
mal contida.
— Por favor, papai. Nã o faça mais
nada contra os 0'Neill. Já nã o errou
bastante?
— Você se esqueceu? Eles
mataram sua mã e! Agora saia,
antes que eu mande um escravo
arrastá -la para fora.
A moça sabia que ele nã o hesitaria

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Flor do Pântano Patrícia Potter

em cumprir a ameaça. Virou-se


bruscamente e saiu da sala,
batendo a porta atrá s de si.
Robert voltou-se para o oficial e ia
pedir desculpas quando notou um
lampejo de interesse nos olhos
frios.
— Que moça adorável! Apenas um
pouco impulsiva demais.
— E nada obediente — o dono da
casa disse, irritado. — Minha filha é
jovem demais e reage
exageradamente a tudo.
— Um dom valioso, se bem

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Flor do Pântano Patrícia Potter

dirigido — o inglês ponderou com


crescente interesse. — Está
comprometida?
Robert Chatham pensou rá pido.
Positivamente o oficial estava
interessado em sua filha e era bem
apresentável, além de bem situado
na vida.
— Nã o — respondeu. — Nã o há
ninguém na vida dela.

— Gostaria de poder visitá -la... se


isso lhe for agradável, senhor. E se a
moça concordar, é claro.

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Flor do Pântano Patrícia Potter

— Naturalmente. Será uma


honra.
— E quanto a sua filha? Vai aceitar
me ver? Ela parece simpatizar com
a causa dos rebeldes.
— Samantha nã o tem nenhuma
definiçã o política, mas teve uma
paixã o infantil por um rebelde.
— E o que aconteceu com ele?
— Está morto — Robert
respondeu, laconicamente. William
Foxworth olhou-o com curiosidade,
mas nã o fez mais perguntas.
Desejava tornar a ver aquela garota

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Flor do Pântano Patrícia Potter

voluntariosa e tentar fazê-la


aproveitar o gênio forte de maneira
mais produtiva. Encantara-se com a
beleza frá gil.
— Estarei preso ao dever nos
pró ximos dias, mas, se permitir,
virei visitar a srta. Samantha
quando estiver livre.
— Sim, sim, tem minha aprovaçã o.
Mudando de assunto, e os 0'Neill?
— Serã o presos hoje à tarde.
— Ó timo — Robert Chatham disse
com um sorriso mesquinho. —
Talvez com o desaparecimento

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Flor do Pântano Patrícia Potter

deles consigamos estabelecer a


ordem por aqui.
Logo depois, os dois homens se
despediam. Robert Chatham subiu
ao quarto da filha. Ela estava lendo
e nem ergueu os olhos do livro
quando o pai se aproximou. Aquela
atitude displicente o irritou e ele
arrancou-lhe o livro das mã os.
— A despeito de seus modos
deselegantes e de sua conduta
imperdoável, o coronel William
Foxworth deseja visitá -la de vez em
quando — Robert anunciou.

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Flor do Pântano Patrícia Potter

— Eu nã o o receberei. Nã o
receberei nenhum invasor
assassino.
— Receberá , sim, ou...
— Ou, o quê? Já fez o má ximo de
mal que podia me fazer, pai.
— Aí é que você se engana.
Ela sentiu um arrepio de medo
subir-lhe pelo corpo. Subitamente,
soube que o homem que chamava
de pai seria capaz de qualquer
coisa se fosse contrariado.
— Você receberá o coronel — ele
decidiu. – E o tratará com gentileza,

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Flor do Pântano Patrícia Potter

ouviu bem?
Samantha mordeu o lá bio,
frustrada.
— Sim — murmurou, finalmente.
— Vai ficar neste quarto durante
três dias, por causa do atrevimento
de hoje. — Balançou o livro no ar.
— E sem nada que a distraia. Quero
que pense no modo como vem
agindo e que se decida a mudar de
atitude.
Aquilo acontecera dois dias antes.
Teria de suportar mais um antes de
ser libertada, antes de poder

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Flor do Pântano Patrícia Potter

novamente cavalgar contra o vento,


galopando com fú ria para esquecer
seus tormentos.
Samantha mexia-se
inquietamente, enquanto o coronel
William Foxworth apresentava seu
convite para o baile dos oficiais no
sá bado seguinte.
Passara a desprezar a pedante
arrogâ ncia do homem e sua
persistência em tentar cortejá -la,
algo que a repugnava. Jamais
soubera olhar com simpatia para
um assassino, um incendiá rio como

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Flor do Pântano Patrícia Potter

aquele. Se no começo o tratava com


indiferença, com o correr do tempo
chegara a vê-lo como a um inimigo.
Era um homem bonito, de maneira
fria e impessoal e provavelmente
estava acostumado a brincar com
os coraçõ es das mulheres. O
uniforme vermelho tinha corte
perfeito e ajustava-se
insinuantemente ao corpo bem
talhado. Os olhos azuis pareciam
desbotados e tinham uma
expressã o gélida, em nada
comparáveis com os olhos da cor

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Flor do Pântano Patrícia Potter

do mar profundo de Brendan. O


que mais detestava, porém, era dos
cabelos cuidadosamente empoados
e amarrados na nuca com uma fita
de cetim.
Outras moças com certeza o
achariam atraente, mas Samantha
sentia apenas repulsa. Ele
assemelhava-se a uma serpente,
enrodilhada, sempre pronta a
atacar inimigos e inocentes da
mesma forma.
— Seu pai deseja que você vá ao
baile — ele dizia. — Acha que deve

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Flor do Pântano Patrícia Potter

sair mais, ver novas pessoas.


Samantha encarou-o,
reconhecendo uma ameaça velada
em suas palavras. A atrevida
autoconfiança do coronel crescera
incrivelmente no decorrer dos
meses, certamente com o
encorajamento de Robert Chatham.
O oficial sabia que ela nã o aceitava
com agrado suas atençõ es, pois ela
mesma o dissera, explicando que o
recebia apenas por temer as
ameaças do pai, mas nã o desistia
de atormentá -la.

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Flor do Pântano Patrícia Potter

— Nã o tenho me sentido bem,


coronel! — replicou friamente,
procurando vencer a ná usea que a
tomava. — Minha companhia nã o
seria agradável.
— Sua companhia sempre me
agradará , srta. Samantha. Sua
beleza supre a falta de gentileza em
relaçã o à minha pessoa.
Ele estendeu a mã o e tomou uma
mecha dos cabelos negros entre os
dedos.
— Seus cabelos sã o lindos e me
encantam. Ela afastou a cabeça

56
Flor do Pântano Patrícia Potter

num gesto brusco.


— Coronel Foxworth, o senhor
age com demasiada liberdade. E
penso que devo recusar seu
generoso convite. Nã o tenho
condiçõ es de ir ao baile, doente.
O sorriso era forçado e um
lampejo de raiva passou pelos
olhos claros.
— Veremos, Samantha. Talvez
esteja melhor amanhã . Mandarei o
médico do regimento vir aqui
examiná -la.
— Isso nã o será necessá rio,

57
Flor do Pântano Patrícia Potter

coronel. Estarei ó tima na segunda-


feira.
Ele ergueu-se, pá lido de raiva.
Teria apreciado uma recusa
desafiadora, mas desacatá -lo
daquela maneira já era ir longe
demais. Por um momento imaginou
se ela valia tanto esforço, mas logo
afastou o pensamento, pensando
na fazenda e na riqueza do pai
daquela jovem renitente. Era filha
ú nica e herdaria tudo, logicamente
com o marido. Ele era o terceiro
filho de um nobre inglês e nada

58
Flor do Pântano Patrícia Potter

possuía além de um título sem


valor. Com a morte do pai, quem
herdaria tudo seria seu irmã o mais
velho, portanto era importante que
se casasse com uma moça rica.
Engolindo a ira, tomou a mã o
delicada que ela lhe oferecia em
despedida e beijou-a.
— Voltarei amanhã para vê-la.
Talvez já esteja melhor.
— Duvido — ela respondeu com
sarcasmo. — Henry o acompanhará
até a porta.

59
Flor do Pântano Patrícia Potter

Sem mais uma palavra, Samantha


tocou a sineta para chamar o
escravo e saiu da sala, deixando o
pretendente fumegando de raiva e
frustraçã o.
Irritada com o encontro
indesejado, foi para o quarto e
trocou o vestido de seda por um de
algodã o leve e fresco, de mangas
ajustadas até os cotovelos que
depois se abriam num largo
babado arrematado por rendas de
linho. Iria cavalgar e esquecer o
pretendente pertinaz e o

60
Flor do Pântano Patrícia Potter

sofrimento intolerável em que sua


vida se transformara.
Esperou até ver o antipá tico
William Foxworth sair da fazenda.
Nã o desejava correr o risco de
tornar a encontrá -lo e ter de
explicar sua miraculosa
recuperaçã o.
Depois, correu para o está bulo e
ficou olhando Hector colocar os
arreios em Sundance. Desejava
poder montar, como quando era
criança, sem sela, apertando as
pernas contra o corpo do animal,

61
Flor do Pântano Patrícia Potter

livre como uma índia, mas o pai


proibira tal procedimento
indecoroso e ameaçara chicotear
Hector se o jovem escravo se
submetesse aos caprichos dela.
Quando a égua já estava pronta,
Samantha a acariciou e deu-lhe
uma maçã , admirando a pelagem
ouro-pá lido que cintilava ao sol.
A mã e de Sundance fora sua
primeira montaria de tamanho
grande depois dos vá rios pô neis da
infâ ncia e Samantha a adorava.
Chorara durante muitos dias

62
Flor do Pântano Patrícia Potter

quando a égua morrera ao dar à luz


a bela potranquinha que se
transformara naquele magnífico
animal dourado. Todo o amor que
havia no coraçã o da menina, já ó rfã ,
se transferira para Sundance, que
correspondia ao sentimento,
sempre acompanhando a dona por
todos os lugares e obedecendo-lhe
com docilidade extrema, dando a
impressã o de captar seus
pensamentos.
A cada dia, depois da morte de
Brendan, passava mais tempo com

63
Flor do Pântano Patrícia Potter

a égua, escovando o pêlo luzidio,


mimando-a e conversando com ela
em voz suave. Sundance era seu
ú nico objeto de afeto.
Com um tapinha carinhoso no
pescoço do animal, ela montou,
tomando a direçã o do rio. Já estava
no tempo de visitar a caverna, o
lugar onde ela e Brendan haviam se
encontrado tantas vezes e onde se
reuniriam para a fuga no dia em
que ele morrera. Evitara ir lá
durante o ano que se seguira à
tragédia, sabendo que nã o

64
Flor do Pântano Patrícia Potter

suportaria as lembranças, mas já se


sentia com forças para recordar os
doces encontros e os momentos em
que haviam rido de bobagens,
cheios de entusiasmo pela vida.
A caverna ficava na Unha
demarcató ria da fazenda Chatham
Oaks, abaixo da propriedade dos
0'Neill, Glen Woods, da qual era
separada por duas outras fazendas.
A floresta pantanosa onde corria o
Pee Dee fora o refú gio das duas
crianças amigas, que depois se
haviam tornado dois jovens

65
Flor do Pântano Patrícia Potter

enamorados. Fora o irmã o de


Brendan, Connor, quem lhes
mostrara a caverna, pedindo
segredo. Aquele lugar fora o
recanto favorito dos três e nenhum
deles jamais sequer pensaria em
revelar sua existência aos adultos.
Samantha adorara Connor, na
época. Ele era bem mais velho que
ela e Brendan, mas embora já fosse
um rapaz quando os outros dois só
tinham dez anos de idade,
mostrava-se gentil e carinhoso
ensinando-lhes novas brincadeiras

66
Flor do Pântano Patrícia Potter

e contando histó rias fabulosas de


outros tempos e outras terras.
Nunca os tratava com ares de
superioridade, mesmo quando lhes
desvendavam os segredos da
floresta, compartilhando com eles o
conhecimento que possuía da
natureza, que amava
profundamente.
Um dia, Connor decidira ensiná -
los a atirar e rira muito quando
Samantha mostrara possuir mais
aptidã o que Brendan, que nã o
ficara zangado, mas aplaudira sua

67
Flor do Pântano Patrícia Potter

habilidade com genuína admiraçã o.


Fora entã o que ela percebera que
aquele menino era especial e que o
amaria sempre.
Depois, a tragédia se abatera
sobre suas vidas. A mã e de Connor
e Brendan morrera e, nã o muito
tempo apó s, a mã e de Samantha
também se fora. Robert Chatham
culpara os O'Neill pela morte da
esposa e houve ameaças e tiroteios.
Os fatos que envolveram aqueles
acontecimentos nã o haviam sido
esclarecidos para Samantha que, no

68
Flor do Pântano Patrícia Potter

entanto, fora proibida de tornar a


ver os amigos. A briga dos adultos
nã o afetou os dois jovens
apaixonados que continuaram a se
encontrar, desenvolvendo a arte de
mentir e escapar à vigilâ ncia dos
pais. Quando se viam, costumavam
explorar os bosques ou
simplesmente sentar-se na caverna
e conversar.
Brendan lhe dissera que o irmã o
concordara com o pai que toda a
ligaçã o com os Chatham deveria ser
cortada, de modo que Samantha

69
Flor do Pântano Patrícia Potter

ficara sem falar com Connor,


apenas vendo-o por rá pidos
instantes quando se cruzavam na
estrada ou se encontravam em
Georgetown. Depois, ele fora para a
Inglaterra, de onde só voltara no
início da guerra, para seguir quase
que imediatamente para o Norte.
Fora só na manhã do duelo que
tornara a vê-lo de perto e, apesar
de sua rispidez, ela nunca se
esqueceria de sua bondade e
paciência com as duas crianças que
o adoravam. Assim, tornava-se

70
Flor do Pântano Patrícia Potter

muito difícil imaginá -lo encerrado


num navio-prisã o, de onde talvez
nã o saísse vivo.
A caverna fora encoberta pelo
mato e apesar de conhecer sua
localizaçã o muito bem, ela teve
dificuldade em encontrá -la.
Finalmente descobriu a entrada e
afastou a cortina de vegetaçã o que
a vedava, penetrando naquele
santuá rio de recordaçõ es.
O sol iluminava o lugar
fracamente, mal atravessando as
folhas e ramos que se entrelaçavam

71
Flor do Pântano Patrícia Potter

na entrada. Ela sentou-se no chã o,


observando o jogo de luz e sombra
nas paredes de pedra. Lá grimas
formaram-se em seus olhos
enquanto pensava nas horas felizes
passadas ali, nos risos, nas
conversas e nos planos para o
futuro. Sob o peso das lembranças,
escondeu o rosto nas mã os e
chorou longamente por Brendan,
por Connor e por si mesma.
Muito tempo depois notou que as
sombras tornavam-se mais
espessas, sinal de que já entardecia.

72
Flor do Pântano Patrícia Potter

Precisava voltar para casa antes


que o pai mandasse grupos de
homens à sua procura. Olhou em
volta e encontrou a pulseira de
sementes que Brendan fizera para
ela. Ficara feia com o tempo, mas
uma de ouro puro nã o seria mais
bonita a seus olhos. Pegou-a,
pensando em levá -la para casa, mas
desistiu. O pai dera para entrar em
seu quarto sem se fazer anunciar e
ela desconfiava que até mexia em
suas coisas. O bracelete ficaria mais
seguro onde estava.

73
Flor do Pântano Patrícia Potter

Havia também dois pacotes de


roupas que ela e o namorado
pretendiam levar na fuga. As peças
estavam ú midas e cheirando
levemente a bolor, mas achavam-se
ainda em bom estado. Ela
encontrou a calça grosseira e a
camisa que roubara do depó sito da
fazenda. Os dois viajariam parte do
caminho disfarçados, para nã o
chamar atençã o inutilmente.
Por fim, levantou-se do chã o,
relutando em sair daquele lugar
querido, mas nã o havia alternativa.

74
Flor do Pântano Patrícia Potter

Encontrou Sundance pastando


tranqü ilamente e montou-a sem
dificuldade, subindo numa pedra.
Sem olhar para trá s, fez a égua
retomar o caminho de volta a trote
ligeiro.
Quando chegou aos portõ es da
entrada de Chatham Oaks,
desmontou e levou Sundance para
o está bulo sem pressa, dando
tempo para que o corpo do animal
esfriasse depois da corrida. Fora
um dia muito quente e haviam
percorrido uma longa distâ ncia.

75
Flor do Pântano Patrícia Potter

Hector falava com um mascate e


nã o percebeu sua presença. Rá pida,
Samantha entrou pela porta dos
fundos para nã o perturbar um
momento de descontraçã o tã o raro
para os escravos.
Tirou os arreios da égua e
escovou-a até que o pêlo brilhasse.
Quando saiu do está bulo, admirou-
se de ver Hector ainda envolvido na
conversa. De repente, ao ouvir o
nome "Marion", escondeu-se atrá s
da pesada porta.
— Foi isso que Maudie ouviu —

76
Flor do Pântano Patrícia Potter

Hector dizia. — O coronel


Foxworth disse ao patrã o que
Tarleton estava preparando uma
armadilha para o coronel Marion,
na fazenda Coursey.
— Haverá algo mais que uma
armadilha para Tarleton, graças a
você, Hector. Tome cuidado, rapaz.
Voltarei na semana que vem.
O escravo virou-se para a porta do
está bulo e, ao ver a moça, ficou
visivelmente assustado.
— Srta. Samantha, eu... eu nã o a
vi.

77
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ela percebeu a perturbaçã o do


escravo e apressou-se em
tranqü ilizá -lo.
— Nã o se preocupe, Hector. Nã o
direi a ninguém o que ouvi. Ele
relaxou, conseguindo sorrir. Eram
da mesma idade e, de certa forma,
haviam crescido juntos. Ela o
ensinara a ler e a escrever, a
despeito da proibiçã o de
alfabetizar os escravos. Hector
falava tã o bem quanto ela mesma,
embora muitas vezes adotasse o
linguajar truncado dos outros

78
Flor do Pântano Patrícia Potter

negros como medida de proteçã o.


Um escravo com alguma cultura era
visto com desconfiança pelos
senhores, pois a educaçã o podia
fazer germinar neles idéias de
subversã o.
— Você está ajudando a Raposa
do Pâ ntano, nã o é, Hector? — ela
adivinhou.
O medo voltou ao rosto humilde.
— Nã o, senhorita — ele
respondeu, sem convencê-la da
mentira.
— Fique tranqü ilo, Hector. Nã o

79
Flor do Pântano Patrícia Potter

tenho nenhum amor pelos ingleses.


Guardarei seu segredo. Ela
começou a afastar-se, mas logo
retornou. — Sabe de uma coisa?
Também quero ajudar.
— A senhorita? Mas é muito
perigoso!
— Menos perigoso para mim do
que para você. Quem suspeitaria da
filha de um dos tories mais
fervorosos da Carolina do Sul? —
Sua voz tornou-se amarga. —
Quero ajudar, preciso. Pelos O'Neill
e principalmente por Brendan.

80
Flor do Pântano Patrícia Potter

O escravo fitou-a, indeciso. Ela


teria valor inestimável para a causa
e todos na fazenda conheciam bem
a coragem e determinaçã o daquela
moça delicada.
— Terá de ser um segredo entre
nó s dois, senhorita — ele disse por
fim. — Ninguém mais deverá saber.
A senhorita me contará o que
descobrir e eu passarei a
informaçã o para o coronel Marion
através do mascate.
— Por que está fazendo isso,
Hector?

81
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ele olhou para o chã o e depois


voltou a encará -la.
— Sou apenas um escravo,
senhorita, mas acho que, se as
colô nias se libertarem da
Inglaterra, eu e os de minha raça
teremos mais esperança de
liberdade.
A tristeza que viu nos olhos
escuros a espantou. Escravos
faziam parte do mundo em que
nascera e nunca lhe ocorrera que
eles pudessem nã o estar contentes
com sua condiçã o. Colocou uma das

82
Flor do Pântano Patrícia Potter

mã os no ombro dele,
demonstrando compreensã o.
— Ajudarei em tudo que puder
para que isso se torne realidade,
Hector. Juntarei informaçõ es e as
passarei para você.
Na hora do jantar, Robert
Chatham estava irritado.
— O coronel Foxworth me disse
que você nã o aceitou seu convite
para o baile.

Ela sorriu de forma encantadora,


o que o surpreendeu.

83
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Mudei de idéia, pai. Diga-lhe


amanhã , quando vocês dois saírem
juntos para queimar mais algumas
casas.
— Samantha! Nã o quero que fale
comigo nesse tom! — Procurou
conter a irritaçã o. — Fico contente
em saber que concordou em ir ao
baile. Ele é um excelente jovem e
possui um bom nome. Será um
marido digno de você.
— Nã o. Irei ao baile com ele, mas
nunca o aceitarei como marido.
Nunca!

84
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Pense nisso, Samantha — o pai


insistiu. — Ele já deu a entender
que pretende pedir sua mã o, se
você o encorajar, pelo menos um
pouco.
Era de seu interesse fingir que
aceitava pensar no assunto, mas no
fundo do coraçã o Samantha jurou
que morreria, se fosse necessá rio,
para nã o se casar com William
Foxworth.

CAPÍTULO II

85
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor achava que nunca mais na


vida conseguiria tirar o mau cheiro
do navio-prisã o de sua pele, ou
pelo menos de sua lembrança.
Aquilo o perseguiria enquanto
vivesse, aquele odor fétido!
Os O'Neill haviam sido presos
duas semanas antes, sendo
obrigados a assistir a destruiçã o de
sua casa por um incêndio quando
se recusaram a juntar-se a um
regimento tory e jurar fidelidade à

86
Flor do Pântano Patrícia Potter

Coroa. Com pulsos amarrados,


foram jogados para dentro de um
carroçã o juntamente com outros
simpatizantes do partido Whig. Um
pouco antes da partida, um dos
criados leais introduzira uma faca
no cinto de Connor. Aquilo apenas
servira para complicar a situaçã o.
Nem começara a cortar as cordas
que o prendiam quando foi
descoberto por um oficial vigilante
que lhe tomara a faca e, na chegada
a Charleston, denunciara-o às
autoridades britâ nicas como

87
Flor do Pântano Patrícia Potter

rebelde contumaz.
Pai e filho haviam sido separados
dos outros prisioneiros e postos
sob vigilâ ncia especial, depois de
receberem argolas de metal nos
tornozelos e serem amarrados
juntos pelos pés. Uma corrente
pesada ligava-os a outros
prisioneiros considerados
perigosos e recalcitrantes.
Deitado no porã o mais profundo
do navio, Connor ainda podia ouvir
o som humilhante do martelo
fechando a argola à volta de sua

88
Flor do Pântano Patrícia Potter

perna e ecoar-lhe na mente. Suas


dores eram constantes, por causa
dos ferimentos causados pelo
metal afundando em sua carne,
mas aquele sofrimento era menor
se comparado ao cheiro.

Os navios serviam, na realidade,


de moradias da morte. O ar viciado
era cheio de emanaçõ es pú tridas
da febre maligna, de contaminaçã o
mortal e do odor horrível de suor,
comida podre e dejetos. O calor
sufocante tornava a respiraçã o

89
Flor do Pântano Patrícia Potter

quase impossível, mas Connor e o


pai ainda conseguiam manter-se
vivos naquele, inferno.
Estava sempre tã o escuro que um
mal podia distinguir as feiçõ es do
outro. Subiam ao convés apenas
durante duas horas por dia, tempo
suficiente até para que os
prisioneiros conseguissem
readaptar os olhos à luz e lavar-se
rapidamente tentando escapar, em
vã o, à sujeira que lhes penetrava
nos poros. Nã o havia nem sabã o e
só dispunham da á gua do mar, cujo

90
Flor do Pântano Patrícia Potter

sal deixava a pele irritada e ardida.


Os alimentos eram nojentos. Pã o
seco, carne de porco estragada,
sebo e ervilhas visguentas.
Recebiam menos de dois terços da
raçã o consumida por um homem
normal e a fome tornava-se uma
tortura constante.
Connor via o pai enfraquecer. A
força de â nimo do mais velho dos
O'Neill ficara combalida quinze
meses atrá s, por ocasiã o da morte
de Brendan, e a miséria infinita do
navio-prisã o apenas lhe levava o

91
Flor do Pântano Patrícia Potter

que restava.
Connor à s vezes se perguntava
por que tentava continuar vivo.
Outros se rendiam à morte ou até a
procuravam para fugir ao
sofrimento desumano.
Mas o jovem 0'Neill tinha metas a
atingir. Soubera por intermédio de
outros prisioneiros que fora Robert
Chatham quem os denunciara aos
tories, recebendo em troca Glen
Woods, a propriedade que lhes fora
confiscada. Mas o infame pagaria
por todos os segundos de

92
Flor do Pântano Patrícia Potter

tormentos que Connor e o pai


passassem naquele inferno. E
pagaria muito caro.
Connor contava os dias para nã o
perder a noçã o do tempo. Ficar
perdido na solidã o, sem nenhuma
ligaçã o com a realidade, seria
resignar-se à loucura que rondava
incessantemente os prisioneiros. Já
fazia quatro meses que haviam sido
levados a bordo da prisã o flutuante
e, à medida que os dias
intermináveis se sucediam,
entregou-se à ú nica atividade

93
Flor do Pântano Patrícia Potter

possível naquele chiqueiro.


Procurava lembrar-se, palavra por
palavra, pá gina por pá gina, dos
livros que lera. Sempre possuíra
memó ria prodigiosa e chegara o
momento de usar o dom
proveitosamente. Conseguia
lembrar-se de livros inteiros com
detalhes preciosos e os recitava em
voz alta, procurando distrair o pai e
os companheiros de infortú nio. A
distraçã o os ajudava a agarrar-se à
vida e inflava â nimo nos espíritos
cansados e abatidos pela privaçã o e

94
Flor do Pântano Patrícia Potter

pela brutalidade.
E foi entã o que a varíola infestou o
navio.
O mau cheiro tornou-se pior que
nunca quando o odor
horrivelmente adocicado da
moléstia misturou-se aos outros.
Os presos gritavam pedindo
médicos, mas nenhum tinha
permissã o para entrar. A morte
começou sua sinistra colheita e
apenas os mais fortes resistiram
aos golpes de sua foice.
Connor já ficara imunizado

95
Flor do Pântano Patrícia Potter

quando apanhara a doença no


começo da guerra, durante um
surto que caiu sobre o corpo de
milícia onde ele servia, mas o pai,
Gerald 0'Neill, estava à mercê da
peste, e nã o tinha mais forças nem
desejos de lutar contra a horrenda
moléstia. Morreu lentamente,
lançando fracos gemidos que se
perdiam no clamor de pragas e
gritos dos outros moribundos e dos
que continuavam sã os, embora
exaustos e revoltados.
A ú ltima palavra que murmurou

96
Flor do Pântano Patrícia Potter

foi o nome de Brendan, e aquilo


penetrou no coraçã o de Connor
como um punhal de angú stia.
Embora fosse o primogênito,
sempre soubera que o irmã o mais
moço fora o favorito. Gerald
procurara disfarçar o sentimento,
mas nã o havia como esconder o
brilho de seu olhar quando fitava o
filho loiro e radiante como o sol.
Connor nã o se ressentia com a
preferência, porque ele pró prio
amara o irmã o de modo especial.
Brendan nascera para o riso e para

97
Flor do Pântano Patrícia Potter

a alegria, como os pais. Fora


sempre cheio de humor travesso,
mas nunca chegara à malícia ou ao
desrespeito. Naquele coraçã o feliz
existia apenas um amor
irreprimível pela vida.
Connor, por outro lado, sempre
fora sério e responsável e à s vezes
chegava a se indagar por que era
tã o diferente do resto da família.
Desde pequeno, olhara o mundo
com solenidade e arvorara-se no
afeiçoado anjo da guarda do irmã o,
doze anos mais novo. E os cuidados

98
Flor do Pântano Patrícia Potter

haviam se ampliado, abrangendo o


pai e a fazenda, quando a mã e
morrera e Gerald passara a beber
mais que o normal, procurando
esquecimento para a sua dor.
Durante os ú ltimos dez anos,
Connor fora, para todos os efeitos,
o senhor de Glen Woods, uma das
mais ricas plantaçõ es de índigo
para a extraçã o do anil usado no
tingimento de tecidos, de toda a
regiã o do rio Pee Dee.
Contudo, aos trinta e dois anos,
fora lançado num navio-prisã o,

99
Flor do Pântano Patrícia Potter

depois de ver a casa da família


queimada e a fazenda confiscada.
Nã o era mais dono de nada e ficara
completamente só .
Segurando o corpo do pai nos
braços, Connor pensou que talvez o
velho tivesse tido sorte, afinal. A
morte era infinitamente preferível
à vida desumana que levavam
naquele porã o imundo. Passou uma
das mã os pela cabeça de Gerald,
tentando dar algum aspecto de
dignidade à cabeleira suja e
arrepiada e sentiu enojado os

100
Flor do Pântano Patrícia Potter

piolhos que a infestavam,


desrespeitando o horror que o
homem sentira pela sujeira e pelos
parasitas durante toda a sua vida.
Mal podendo mover-se, por causa
das correntes que o prendiam aos
companheiros e à s paredes, Connor
continuava agarrado ao cadáver,
sem coragem de comunicar a morte
de Gerald aos guardas. Sabia do
tratamento brutal dado aos corpos
dos infelizes que ali morriam. Eram
atirados como lixo aos barcos que
faziam o transporte de

101
Flor do Pântano Patrícia Potter

carregamentos entre o navio e a


praia e depois enterrados na areia,
a pouca profundidade. As
tempestades geralmente
desenterravam os cadáveres e nã o
era fato incomum vê-los arrastados
para o mar e depois devolvidos à
praia incessantemente pelas ondas.
Connor pretendia implorar
permissã o para sepultar o pai de
modo mais digno, embora aquilo
ferisse profundamente seu orgulho.
Falaria com algum oficial quando
subisse para o convés na hora de

102
Flor do Pântano Patrícia Potter

tomar sol. Falar com os guardas


que trabalhavam nos porõ es,
bajuladores desavergonhados dos
tories, seria inú til. Sem a mínima
piedade, divertiam-se em infligir
todas as humilhaçõ es possíveis aos
miseráveis prisioneiros.
Pensando em tudo o que
acontecera, Connor sentiu o ó dio
crescer em seu peito e dominar a
tristeza. Mais um O'Neill morrera
por causa dos Chatham. Nunca
imaginara que o ó dio pudesse
transformar-se num sentimento

103
Flor do Pântano Patrícia Potter

tã o obsessivo a ponto de ser a


ú nica razã o para a sobrevivência,
quando seria mil vezes melhor
morrer. Ele ficaria vivo apenas para
poder destruir Robert Chatham e
tudo o que lhe pertencia, depois de
fazê-lo experimentar toda a agonia
que ele pró prio sofrera.
No momento de subir para o
convés ele esperou pacientemente
que as correntes fossem soltas da
parede e entã o ergueu o corpo de
Gerald nos braços, o que só foi
possível porque o velho perdera

104
Flor do Pântano Patrícia Potter

muito peso, tendo ficado tã o leve


quanto uma criança. Os guardas
nã o fizeram nenhuma pergunta,
acostumados a verem muitos
prisioneiros necessitando da
assistência dos companheiros.
Chegando em cima, Connor
franziu os olhos, ajustando-os à luz,
ficando contente por o céu estar
nublado e sem a claridade intensa
que provocava uma dor aguda.
Amaldiçoou mais uma vez aquele
inferno, onde até o sol maravilhoso
era temido. Com os olhos

105
Flor do Pântano Patrícia Potter

lacrimejantes, procurou um oficial


inglês.
Viu um fitando o fardo que ele
levava nos braços e logo notou que
o oficial encaminhava-se para seu
lado.
— Esse homem está morto — o
oficial disse com raiva, dirigindo-se
aos guardas tories. — Por que nã o
foi retirado mais cedo? Por que
ainda está acorrentado aos outros?
Um dos guardas tomou a si a
tarefa de responder, enfrentando a
irritaçã o do soldado.

106
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Ninguém nos comunicou a


morte, senhor.
O inglês olhou com certa piedade
para Connor.
— Tirem as correntes do morto!
— ordenou.
Ia retirar-se, mas Connor
impediu-o, dando um passo à
frente.
— Senhor...
— Sim? — o oficial perguntou
com impaciência.
— Ele é meu pai. Poderia me dar
permissã o para enterrá -lo? Na

107
Flor do Pântano Patrícia Potter

praia.
O inglês estudou o prisioneiro
demoradamente. As roupas
achavam-se em frangalhos, o rosto
imundo e barbudo, mas havia
dignidade no porte do infeliz. Ele
odiava trabalhar naqueles navios-
prisõ es, mas fora mandado para
um deles quando sua embarcaçã o
afundara deixando-o sem um posto
por algum tempo. Fazia três meses
que estava ali e rezava todas as
noites para ir embora. Virou-se
para os guardas.

108
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Tirem as correntes dos dois. —


Depois, olhou para o prisioneiro. —
Seu nome?
— Connor O'Neill.
— Vou permitir que vá para terra
com o pró ximo grupo de serviço.
Pode enterrá -lo e marcar o lugar da
sepultura.
— Obrigado.
— Nã o é preciso agradecer.
Acredito que você faria o mesmo
por mim.
Mais tarde, já na praia, Connor
encheu-se de repentina e louca

109
Flor do Pântano Patrícia Potter

esperança. Era a primeira vez em


quatro meses que se via sem
correntes e pensou que talvez
houvesse uma chance, mesmo
ínfima, de escapar.
Enterrou o pai numa colina suave,
embaixo de um carvalho antigo e
frondoso. Tomou emprestado o
machado de um dos prisioneiros
que cortava lenha e fez uma cruz
tosca. O esforço o deixou exausto e
ele sentou-se à beira do tú mulo,
enquanto os outros se afastavam
cortando e juntando lenha para os

110
Flor do Pântano Patrícia Potter

fogõ es dos navios. Os guardas


acompanharam os presos, e num
gesto de bondade, deixaram
Connor alguns instantes sozinho
junto à sepultura do pai. Todos o
achavam fraco demais para correr
e fugir.
Connor descansou durante alguns
minutos e depois começou a recuar
para o bosque. Já havia
desaparecido por entre as á rvores
quando um dos guardas olhou para
trá s e descobriu que ele nã o se
achava mais à vista. O fugitivo

111
Flor do Pântano Patrícia Potter

ouviu o grito de alarme e desistiu


de qualquer idéia de ser discreto,
começando a correr, fazendo os
galhos secos estalarem sob seus
pés. Sua imensa vontade de fugir
para vingar-se manteve-o à frente
dos perseguidores durante algum
tempo, até que suas pernas
enfraquecidas dobraram-se sob o
corpo, fazendo-o cair. Arrastou-se
para o meio das moitas e cobriu-se
com folhas. Passos soaram
apressados, ultrapassando o lugar
onde ele se escondera, voltando

112
Flor do Pântano Patrícia Potter

vagarosamente um pouco depois.


Um guarda revirava os montes de
folhas secas com o mosquete,
atirando de vez em quando.
Connor, porém, estava determinado
a nã o voltar para o navio,
preferindo morrer. Quando o
mosquete inevitavelmente atingiu-
o com a ponta pesada do cano, ele
virou-se rapidamente, empurrando
a arma. Mas o guarda já a disparara
e uma bola de ferro incandescente
penetrou-lhe o peito. O movimento
todo desequilibrou o guarda e

113
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor aproveitou-se para segurar


a arma com todas as suas forças,
acabando por arrancá -la das mã os
do homem. Erguendo-a no ar,
atingiu o guarda na cabeça, com a
coronha, deixando-o desacordado.
Antes de ir embora, pegou o
embornal de pó lvora que o guarda
carregava e colocou-o no ombro.
Segurando a arma pesada como
uma muleta, apoiando-a embaixo
do braço, ele desapareceu na
floresta densa.
Atormentado pela fome, pela

114
Flor do Pântano Patrícia Potter

exaustã o e pela dor, Connor


cambaleava de uma á rvore para a
outra, até que sua força de vontade
nã o foi mais suficiente para
sustentá -lo. Capturara alguns
caranguejos na noite anterior,
arriscando-se a ser visto na praia
clara, mas seu estô mago, debilitado
pelos meses de comida estragada e
insuficiente, recusara a carne
adocicada.
A fome tornara-se um inimigo
feroz, minando sua energia,
deixando-o tonto e esquecido da

115
Flor do Pântano Patrícia Potter

necessidade de andar sem cessar.


Competia em tortura com a dor
lancinante do ferimento que o
percorria como fogo líquido. Ele
sabia que a ferida nã o era fatal, mas
temia o sangramento e a infecçã o
que inevitavelmente adviria se nã o
encontrasse alguém que o ajudasse.
Precisava de socorro urgente.
Aquela parte da regiã o das
Carolinas abrigava tanto patriotas
que lutavam pelo reconhecimento
da independência do país, assinada
em 4 de julho de 1776, como de

116
Flor do Pântano Patrícia Potter

americanos ainda fiéis ao governo


britâ nico, os tories, que eram
apoiados por soldados ingleses. Ele
precisava ser cuidadoso para nã o
cair nas mã os das pessoas erradas.
Nã o sobreviveria a uma volta aos
navios-prisõ es e na verdade
preferia morrer a ser preso
novamente. Encontrava-se
extenuado. Usara toda sua
resistência na tentativa de fugir e
cada passo representava um
esforço sobre-humano. Nã o mais
podendo manter-se de pé, desabou

117
Flor do Pântano Patrícia Potter

ao lado de um tronco caído e


mergulhou em misericordiosa
inconsciência.
Ele ouviu a voz que soava
fracamente em seus ouvidos, como
um eco repercutindo num vale
distante. Mal distinguindo as
palavras, conseguiu mover-se o
bastante para procurar o
mosquete. Nã o o encontrou.
— Mã e! Mã e! — dizia uma voz
infantil. — Mã e, encontrei um
estranho. Ele está ferido.
Connor tentou livrar-se da

118
Flor do Pântano Patrícia Potter

nebulosidade que lhe toldava os


olhos, procurando focalizar o rosto
da pessoa que falava, mas a dor
voltou em ondas quentes e ele fez
uma careta quando sentiu uma
calosa mã o tocando-lhe a face.
Gemeu, quase nã o podendo
suportar a dor no lado do corpo.
— Está tudo bem, senhor — disse
uma voz de mulher. — Descanse.
Eu o ajudarei.
Lutando para readquirir
consciência total, ele ouviu a
mulher falar com outra pessoa.

119
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Deve ser por causa deste


homem que os malditos "lagostas"
estã o revirando a floresta. Bem, se
depender de mim, nã o o
encontrarã o. Johnny, vá buscar
cobertores, ataduras e um pouco de
uísque de seu pai. E tome cuidado.
Fique de olhos bem abertos.
Connor nã o conseguia ver a
mulher. Quis sentar-se, mas ela
colocou a mã o em seu ombro,
impedindo-o.
— Onde... onde estou?
— Em Santee — ela explicou. —

120
Flor do Pântano Patrícia Potter

Se é quem estou pensando, nã o


entendo como chegou tã o longe,
fraco como está .
— Roubei um barco — ele
respondeu devagar, sabendo que
encontrara uma amiga.
— Onde está ?
— Nã o era um barco muito bom
— murmurou com um traço de
ironia que nã o escapou a ela. —
Afundou.
— Vamos arrumar-lhe outro. Nã o
pode ficar aqui muito tempo. Estã o
procurando pelo senhor por toda a

121
Flor do Pântano Patrícia Potter

extensã o da costa e o que querem a


todo custo.
O garoto voltou com o que a mã e
pedira e ficou olhando com ávida
curiosidade enquanto ela tirava os
trapos que haviam restado da
camisa. Ela tocou a pele
intumescida e vermelha que
circundava o ferimento provocado
pela bala, fazendo Connor soltar
uma praga abafada.
— Nã o está com bom aspecto,
senhor, mas podia estar pior. Vou
lavar com uísque, mas é melhor

122
Flor do Pântano Patrícia Potter

tomar um grande gole primeiro.


Ele sabia o que o esperava. Seria
uma verdadeira agonia quando o
á lcool caísse na ferida aberta.
Tomou entã o um longo trago da
botelha de louça e colocou o
pedacinho de madeira que Johnny
lhe estendera, entre os dentes. A
dor foi pior do que ele imaginara,
mais violenta que qualquer outra
que já sentira. Era como se todo o
lado de seu corpo explodisse em
chamas, e ele mordeu o pedaço de
madeira para nã o gritar.

123
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Pronto — a mulher murmurou.


— Acabou.
Ele olhou para cima, procurando
concentrar-se no rosto dela e
ignorar a dor horrível que o
transpassava. No meio do nevoeiro
que insistia em envolvê-lo, viu uma
mulher alta e ossuda com o rosto
prematuramente envelhecido por
duros trabalhos e muita
preocupaçã o.
Ela endireitou o corpo e passou as
mã os pelo avental.
— Vou buscar algo para o senhor

124
Flor do Pântano Patrícia Potter

comer. Procure ficar o mais bem


escondido possível. Johnny
montará guarda.
— Nem sei como poderei
agradecer tudo o que está fazendo
por mim, senhora. Nã o quero que
entre em encrencas por minha
causa, portanto vou-me embora.
— As encrencas já passaram por
aqui — ela disse com amargura. —
Os "lagostas" levaram meu John há
um ano. Nunca mais tive notícias
dele, nem sei se está morto ou vivo.
Dizem que muitos prisioneiros

125
Flor do Pântano Patrícia Potter

foram mandados para exércitos


ingleses que estã o lutando em
outros lugares. — Ela cuspiu no
chã o. — Nó s nunca tivemos muita
coisa, só uns acres de terra, mas
meu marido era um homem bom e
trabalhador. Assim, tudo o que
puder fazer para prejudicar aquela
gente, farei. E Johnny também.
Bem, vou buscar Um pouco de
ensopado.
A comida estava deliciosa e
Connor comeu tudo, sentindo-se
mais forte. Conseguiu sorrir,

126
Flor do Pântano Patrícia Potter

embora com dificuldade.


— Gostaria de poder lhe pagar,
senhora.
Ela esticou o corpo e seu porte
orgulhoso de repente a deixou
bonita.
— Estarei paga se o senhor
conseguir fugir deles. Bem, acho
que devia dormir um pouco. Eu o
levaria para a nossa cabana se
pudesse, mas os tories já estiveram
aqui e desconfio que vã o voltar.
Quando Connor voltou a acordar,
o céu estava escurecendo. As

127
Flor do Pântano Patrícia Potter

primeiras estrelas pá lidas


piscavam entre as nuvens pesadas
e logo seria noite fechada. Ele
olhou ao redor e viu um pã o e uma
botija de á gua que a mulher deixara
para ele. O ferimento ainda doía
bastante, mas o alimento e o sono o
haviam fortalecido, deixando-o em
melhor estado de â nimo.
Subitamente ouviu um ruído na
á gua, logo além de onde ele
repousava, e ficou tenso. Suspirou
aliviado ao ouvir a voz de Johnny.
— Senhor?

128
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Ainda estou no mesmo lugar,


Johnny.
O menino apareceu entã o num
pequeno barco.
— Os "lagostas" estã o espalhados
por toda a parte. Mamã e acha que o
senhor precisa partir.
Connor pô s-se a apalpar o chã o
com ansiedade e o garoto sorriu.
— Se é a arma que está
procurando, escondi-a numa moita
logo atrá s do senhor. Fiquei com
medo que nã o fosse um patriota,
mas só no começo.

129
Flor do Pântano Patrícia Potter

O homem examinou o rostinho


vivo do menino.
— Gostaria de poder deixá -la
para você, Johnny, mas precisarei
de alguma proteçã o. — Pensou um
pouco. — Mas prometo, que lhe
mandarei um rifle. Darei um jeito.
Qual é o seu nome completo e o de
sua mã e?
— Meu nome é Johnny Brown e o
de mamã e, Ellie. Nã o. Esse é o
apelido. O nome dela é Ellen
Brown. Ellen nã o é um nome
bonito? — o garoto perguntou com

130
Flor do Pântano Patrícia Potter

orgulho.
— Sim, e sua mã e também é uma
mulher bonita. Diga a ela que eu
disse isso. E diga-lhe que serei
eternamente grato a vocês dois.
Johnny desceu para a margem e
ajudou Connor a entrar no barco.
Colocando o mosquete e o saco de
pó lvora perto da bolsa de comida
que o garoto trouxera na pequena
embarcaçã o, Connor pegou o remo.
— Adeus, senhor — o menino
sussurrou.
Era uma boa coisa que a noite

131
Flor do Pântano Patrícia Potter

estivesse tã o escura, com o céu


nublado encobrindo o brilho do
luar. Connor ainda se sentia fraco,
tendo perdido, calculava, uns dez
quilos de peso nos meses de
confinamento. A dor no flanco
persistia, mas seu otimismo
retornara. Estava alimentado, tinha
um barco ligeiro e um rio que o
levaria até em casa. E, o mais
valioso de tudo, era um homem
livre.
Durante os dias seguintes, viajou
nas horas noturnas, escondendo-se

132
Flor do Pântano Patrícia Potter

quando começava a clarear.


Percebia que diversas patrulhas
corriam a á rea, mas até aquele
momento tivera sorte em conseguir
esconder o barco e a si mesmo com
perfeiçã o. Durante o dia, quando
era obrigado a ficar quieto, deitado
em algum lugar, planejava as etapas
seguintes da viagem e o que faria
quando ela terminasse. Iria juntar-
se a Francis Marion que, ouvira
dizer, estava em Snow Island, a ilha
que ficava na confluência do rio Pee
Dee e do riacho Lynch. Francis fora

133
Flor do Pântano Patrícia Potter

seu comandante na ilha Sullivan e


os dois haviam feito uma amizade
só lida. Connor acompanhara o
amigo nos primeiros ataques
contra os tories e do acampamento
dele é que executaria sua vingança.
O desejo de vingar-se era a força
que o impulsionava, diminuía seus
sofrimentos físicos e amenizava a
dor pela perda de tudo o que
amara. Tornara-se sua ú nica razã o
de viver.
Já viajava pelo rio três dias
seguidos e começava a ficar

134
Flor do Pântano Patrícia Potter

impaciente com a demora.


Contudo, nã o podia locomover-se a
nã o ser durante a noite e mesmo
assim precisava ir devagar e
cautelosamente, pois, no percurso
cheio de curvas do rio, arriscava-se
a encontrar uma inesperada
patrulha inglesa.
Sua provisã o de alimentos
terminara e o ferimento deixara de
doer tã o fortemente. Esses dois
fatores contribuíram para que ele
relaxasse um pouco na cautela.
Além disso, sabia estar perto da

135
Flor do Pântano Patrícia Potter

fazenda que lhe pertencera, o que


aumentava sua impaciência.
Apressando as remadas, deixou
que os pensamentos divagassem e
nã o viu o brilho de uma fogueira
um pouco adiante. — Alto! Quem
vem lá ?
A interpelaçã o ríspida despertou-
o do devaneio e ele amaldiçoou sua
falta de cuidado. Nã o sabia se havia
sido visto ou se a sentinela apenas
ouvira o ruído do remo cortando a
á gua. Rapidamente levou o barco
para a margem e apanhou a arma

136
Flor do Pântano Patrícia Potter

antes de desembarcar e
desaparecer no mato rasteiro.
Sentiu-se como um animal caçado,
mas o mosquete infundia-lhe
alguma confiança. Nã o hesitaria em
atirar para defender-se.
Ele caçara nas margens do Pee
Dee durante toda a sua vida e
aquele bosque nã o apresentava
mistérios. Conhecia cada á rvore
daquele trecho, que se estendia a
menos de um quilometro e meio de
Glen Woods.
Ouviu passos correndo nas trilhas

137
Flor do Pântano Patrícia Potter

arenosas. Seus perseguidores


mostravam-se incautos, o que
melhorava a situaçã o. Ele esperou
pacientemente escondido atrá s de
um velho cipreste até que os passos
de apenas um homem
aproximaram-se. Viu de relance a
cor vermelha de um uniforme e
sorriu. Estava com sorte. Os tories
da á rea conheciam os bosques
tanto quanto ele, mas os soldados
ingleses eram uns paspalhos
naquela regiã o e pagariam caro
pela imprudência.

138
Flor do Pântano Patrícia Potter

Quando o soldado chegou ao


alcance de seu braço, ele desceu a
coronha do mosquete sobre o
inimigo, que caiu silenciosamente,
enquanto um filete de sangue lhe
escorria da cabeça ferida. Connor
esperou pela outra sentinela, pois
de acordo com o som de passos que
ouvira no começo, devia haver mais
uma.
Um ruído atrá s dele o fez virar
com o mosquete apontado. Ele e o
segundo soldado viram-se ao
mesmo tempo, mas Connor foi

139
Flor do Pântano Patrícia Potter

mais rá pido. Atirou e ficou olhando


o homem cair devagar, tendo no
rosto uma expressã o de surpresa e
terror. Naquele instante, o pé de
Connor foi puxado e ele perdeu o
equilíbrio, enquanto o mosquete
que segurava bateu com força no
ferimento do flanco reabrindo-o e
fazendo o sangue escorrer.
Debateu-se ao cair e uma das mã os
atingiu o primeiro soldado que
voltara a si e o atacara. Viu o brilho
de uma faca na mã o do homem e
teve tempo apenas de desviar o

140
Flor do Pântano Patrícia Potter

corpo para nã o ser atingido. Sem


parar para pensar como o soldado
se recuperara tã o depressa,
começou a lutar pela vida. Com
força e agilidade extraordiná rias,
agarrou o pulso do inglês e
apertou-o com violência. A faca
voou para o meio do mato quando
o soldado abriu a mã o.
Os dois estavam feridos, mas
lutavam igualmente pela
sobrevivência, o que lhes dava
maior força. Rolaram por baixo das
á rvores, procurando golpear-se.

141
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor sentiu-se zonzo com a nova


perda de sangue e decidiu que
precisava acabar logo com a luta.
Com uma das mã os, prendeu o
inglês ao chã o e com a outra
procurou algo que servisse de
arma. Finalmente sentiu nos dedos
o contato frio de uma pedra e
segurou-a. Ergueu o braço e o
desceu, fechando os olhos ao ouvir
o som horrível da pedra batendo na
cabeça do adversá rio. O homem
parou de lutar e ficou largado.
Connor sentou-se, envolvido pela

142
Flor do Pântano Patrícia Potter

vertigem. Sua camisa estava


empapada de sangue, mas ele
precisava sair dali.
Examinou o corpo do soldado,
certificando-se de que estava
mesmo morto e depois considerou
a situaçã o. Nã o podia adivinhar
quando os dois sentinelas seriam
rendidos, mas provavelmente nã o
demoraria para que os colegas
chegassem. O ferimento reaberto
nã o permitiria que fosse muito
longe, porque doía demais e o
mínimo movimento aumentava a

143
Flor do Pântano Patrícia Potter

hemorragia. Por outro lado, nã o


podia ficar ali, pois os bosques
fervilhavam de soldados e
americanos tories.
A caverna. Nunca mais fora lá ,
depois que a mostrara a Brendan e
à garota Chatham. De certa forma,
dera o lugar de presente aos dois e
renunciara ao direito de ir lá .
Escondida num enrugamento
esquisito do terreno, a caverna
jamais seria descoberta por quem
nã o soubesse de sua existência. Ele
pró prio a encontrara por acaso,

144
Flor do Pântano Patrícia Potter

quando um de seus cã es perseguira


um coelho e o bichinho entrara lá
para esconder-se.
Naquele lugar que fora seu refú gio
na infâ ncia e na adolescência,
esperaria que suas forças
voltassem. Depois, iria ao encontro
de Marion.
CAPÍTULO III

Samantha brincava com


Sundance, mas seu pensamento
estava longe. Escondeu a maçã
atrá s das costas e deixou que a

145
Flor do Pântano Patrícia Potter

égua a procurasse, esfregando o


focinho em seus cabelos, bufando
em seu pescoço e finalmente, com
um suave relincho de satisfaçã o,
encontrasse a fruta.
Ficou olhando a maçã desaparecer
na boca ávida, invejando a
felicidade ingênua de Sundance. Se
houvesse algo no mundo que
pudesse devolver-lhe um pouco da
antiga alegria, já se daria por feliz,
mas continuava mergulhada num
poço fundo de tristeza.
Andara escutando novamente

146
Flor do Pântano Patrícia Potter

atrá s das portas, uma atividade


para a qual demonstrara um
talento insuspeitado e o que a
deixara profundamente aborrecida.
Aproximando a cabeça do pescoço
da égua, esfregou o rosto na crina
farta. O animal meneou a cabeça e
relinchou baixinho, pressentindo
que sua dona nã o estava bem.
Samantha suspirou, sem saber o
que fazer. Desempenhara o papel
de espiã com perfeiçã o e excitada
com o que fazia, prestando ajuda
aos rebeldes e ao mesmo tempo

147
Flor do Pântano Patrícia Potter

vingando-se do pai e de Roxworth,


mostrava no rosto corado e no
brilho do olhar que algo mudara
em seu íntimo. Aquela animaçã o,
porém, fora mal interpretada pelo
pretendente, que a julgara
propensa a aceitá -lo como noivo.
O baile transcorrera
tranqü ilamente. Bastava-lhe sorrir
para que os oficialmente ingleses
tropeçassem uns nos outros para
terem o prazer de falar com ela.
Discorriam sobre suas exploraçõ es,
suas pró ximas "missõ es perigosas"

148
Flor do Pântano Patrícia Potter

e acabavam por pedir abertamente


sobre os planos do coronel Tarleton
para apanhar a maldita Raposa do
Pâ ntano e acabavam por implorar
permissã o para visitá -la. Ela
apenas sorria da corte cerrada e
ocupava-se em decorar datas,
nomes de lugares e nú meros de
regimentos, corando de vez em
quando de pura excitaçã o.
Excitaçã o exagerada. No fim da
noite, nã o pô de deixar de perceber
o olhar intrigado que Fuxworth lhe
lançou, nem a expressã o de

149
Flor do Pântano Patrícia Potter

surpresa no rosto do pai.


Entã o, naquele dia, quase uma
semana depois do baile, ouvira os
dois tramando novamente.
— Quero uma definiçã o —
Foxworth dizia irritado quando ela
encostou-se à porta da biblioteca
para ouvir.
— Desejo esse casamento tanto
quanto você — o pai respondeu. —
Dou meu consentimento e juro que
ela concorda. Tenho meios para
forçá -la.
— Estou certo de que sim, meu

150
Flor do Pântano Patrícia Potter

caro Robert, mas acredito que nã o


será necessá rio agir pela força. Vejo
interesse nos olhos dela. Como
todas as moças, está se divertindo
um pouco antes de aceitar a
proposta. — O oficial riu baixinho.
— Nã o está preocupado com
outras coisas? 0'Neill, por exemplo?
— Oh, nã o creio que vá muito
longe. Acharam um bocado de
sangue por onde ele passou e o
homem deve estar muito
enfraquecido depois de passar
meses num navio-prisã o. Logo o

151
Flor do Pântano Patrícia Potter

encontrarã o morto em algum lugar.


O pai soltou uma exclamaçã o de
desgosto.
— Como ele conseguiu fugir,
afinal? Você me garantiu que
ninguém escapa de um navio
daqueles.
Samantha ouviu o risinho
sarcá stico do homem que desejava
ser seu marido.
— O pai dele morreu e um tenente
de coraçã o mole permitiu que ele
fosse à praia enterrar o velho. O
oficial pagará caro por esse

152
Flor do Pântano Patrícia Potter

estú pido ato de piedade, pode crer.


A moça estremeceu ao ouvir o
relato de Foxworth, mas
recuperou-se depressa quando os
dois homens caminharam para a
porta. Saiu correndo pelo corredor
e invadiu a cozinha com a desculpa
de querer pegar uma maçã .

Connor estava vivo! Gerald O'Neill


morrera! Pensou no velho, como o
conhecera anos atrá s. Gentil, como
Connor, possuía fartos cabelos
ruivos e um talento muito especial

153
Flor do Pântano Patrícia Potter

para contar histó rias. Sempre


gostara de contar fá bulas a respeito
do povo pequenino que vivia nos
bosques e de suas travessuras. Uma
lá grima rolou pelo rosto macio,
embora ela imaginasse que nunca
mais fosse capaz de chorar.
— Por favor, ajude Connor a
salvar-se — ela rezou baixinho,
dirigindo-se ao seu Deus particular,
diferente daquele descrito pelos
ministros da Igreja, capaz de
crueldades.
Ela nã o rezara muito nos ú ltimos

154
Flor do Pântano Patrícia Potter

tempos, mas seu Deus nã o deixaria


de ouvi-la, porque nã o era
vingativo, nem vaidoso. Era um
Deus feito de amor.
De repente, o resto da conversa
voltou-lhe à mente. Agarrada ao
pescoço de Sundance, suspirou
desanimada.
— Nã o posso me casar com ele —
disse baixinho.
Nã o sabia a que meios o pai
recorreria para forçá -la, mas podia
imaginar que, com sua maldade e
prepotência, nã o hesitaria em usar

155
Flor do Pântano Patrícia Potter

coisas e pessoas que ela amava


para chantagea-la. Nã o havia mais
dú vidas nem escolhas a fazer.
Precisava desaparecer antes que
Robert pudesse ameaçá -la, pois o
pai, duro e severo como era, se
sentiria na obrigaçã o de cumprir as
ameaças mesmo depois que ela
sumisse.
Tinha de ir embora. Mas para
onde? Nã o tinha parentes ou
amigos. O pai a isolara do mundo e
nã o hesitara em denegrir sua
imagem para que ninguém a

156
Flor do Pântano Patrícia Potter

procurasse. Quando desafiara


Brendan publicamente para o
duelo, Robert Chatham acusara-o
de ser amante da filha na frente de
vá rios homens, como mais tarde
lhe contaram.
Ela ficara marcada aos olhos dos
amigos de Brendan, que a
culpavam pela morte, e as poucas
moças que freqü entavam Chatham
Oaks com os pais haviam
desaparecido, certamente temendo
manchar sua reputaçã o. Nã o que
aquilo a preocupasse. Sua perda

157
Flor do Pântano Patrícia Potter

fora dolorosa demais para que


lamentasse a evasã o de falsos
amigos, mas de repente via-se
sozinha no mundo. Tivera contato
com os oficiais ingleses no baile,
encantando-os, mas pedir qualquer
ajuda a um deles estava fora de
cogitaçã o.

— Você — ela disse, beijando o


pescoço da égua — é tudo o que me
resta.
O animal esfregou o focinho em
seu rosto, retribuindo o carinho,

158
Flor do Pântano Patrícia Potter

mas Samantha nem conseguiu


sorrir. Uma mulher sozinha e sem
dinheiro nã o tinha qualquer
esperança de fuga, mas nada a
deteria. E de forma nenhuma
deixaria Sundance. Onde quer que
fosse, sua amiga a acompanharia.
Se ela fosse um rapaz, poderia ir
ao pâ ntanos, juntar-se ao coronel
Marion e seus homens. O apelido
de Raposa do Pâ ntano fora dado a
ele pelo adversá rio, Tarleton, que o
chamara daquele modo num
momento de frustraçã o por nã o

159
Flor do Pântano Patrícia Potter

conseguir apanhá -lo. O apelido


pegara e os homens de Marion, em
vez de o acharem insultoso,
haviam-no adotado com orgulho.
Os patriotas de toda a regiã o
gostavam de contar os feitos
audaciosos da Raposa, elevando-o
quase ao nível de lenda, para
desespero dos britâ nicos e do
partido Tory.
Samantha passou os dedos pelos
longos cabelos. Poderia disfarçar-
se de rapaz e entrar para as fileiras
de Marion, onde, ela sabia, havia

160
Flor do Pântano Patrícia Potter

rebeldes que nã o passavam de


meninos. Um deles era filho do
pró prio coronel e já fora visto
lutando ao lado do pai. Vestida de
homem, ficaria igualzinha a um
jovem adolescente, se nã o fosse por
aqueles cabelos exuberantes.
Seria possível colocar em prá tica
aquela idéia louca? Ela cavalgava
tã o bem quanto um homem e desde
criança sempre tivera um dom
notável para a representaçã o e o
disfarce, mas seria possível
enganar um bando de soldados por

161
Flor do Pântano Patrícia Potter

muito tempo?
Animou-se quando pensou nas
valiosas informaçõ es que tinha
para passar ao coronel Francis
Marion, porque Hector ainda nã o
tivera oportunidade de passar
adiante tudo o que ela conseguira
saber no baile. Seria um bom
passaporte.
Suspirou pensando nos cabelos
longos e brilhantes. Teria de cortá -
lo e, tendo crescido numa fazenda
de índigo, sabia que usando um
pouco da planta para tingi-los, eles

162
Flor do Pântano Patrícia Potter

perderiam o brilho completamente.


Também passaria um pouco na
pele, para deixá -la á spera.
Amarraria os seios e nã o precisava
se preocupar com o resto do corpo,
ainda bastante anguloso por causa
do peso que perdera depois da
morte de Brendan, alimentara-se
apenas para nã o morrer de fome,
pois as refeiçõ es, como tudo em sua
vida, já nã o lhe davam nenhum
prazer.
De repente, tomou uma decisã o.
Iria embora naquela noite.

163
Flor do Pântano Patrícia Potter

Primeiro, chegaria até a caverna,


onde vestiria as roupas masculinas
que já estavam lá . Depois, rumaria
para Snow Island, o reduto da
Raposa do Pâ ntano. Chegaria lá , de
qualquer jeito. Tinha de chegar.
Samantha pegou a tesoura e
hesitou, olhando para sua imagem
no espelho. Por que seus cabelos
pareciam tã o maravilhosos naquela
noite? Talvez as coisas parecessem
mais preciosas quando prestes a
serem destruídas. As longas
mechas brilhavam quando as

164
Flor do Pântano Patrícia Potter

escovava antes de dormir e a luz


das velas apenas as deixavam mais
encantadoras. Pensou como
Brendan adorava seus cabelos e
como costumava entrelaçar os
dedos nos fios sedosos.
— Brendan — ela murmurou. —
Por que você nã o está aqui comigo?
Por mais que fizesse, nunca
conseguia sufocar a dor surda e
constante que a ausência dele lhe
causava.
Criando coragem, inclinou-se por
cima do tampo da penteadeira,

165
Flor do Pântano Patrícia Potter

aproximando o rosto do espelho e


ergueu a tesoura. Depois que
começasse a cortar as mechas, nã o
haveria volta. Pensou em Foxworth
e no modo possessivo com que ele
tocara naqueles cabelos, poucas
horas antes, quando fora visitá -la.
Quase gritara de repulsa, mas
simplesmente afastara a cabeça,
mantendo um sorriso gelado no
rosto,
A admiraçã o do oficial inglês
pelos cabelos que Brendan tanto
amara acabou por dar-lhe a

166
Flor do Pântano Patrícia Potter

coragem de que necessitava.


Agarrou um punhado dos fios
brilhantes e, já sem nenhuma
hesitaçã o, começou a cortar. Tosou
as mechas deixando-as bem curtas,
como as de um menino, ignorando
a moda masculina que ditava
cabelos pelos ombros, amarrados
cuidadosamente na nuca. Nã o
podia imaginar quando faria novo
corte e do modo como estavam, os
cabelos demorariam bastante a
crescer. Deu-se por satisfeita. Ia
fazer papel de menino e um garoto

167
Flor do Pântano Patrícia Potter

nã o se importaria com a moda. O


que restara dos cabelos magníficos
continuava brilhante e lindamente
ondulado, atribuindo à sua
aparência muita feminilidade.
Pegou o frasco que enchera com
uma mistura de índigo e á gua e
esfregou o líquido marrom na
cabeça. Penteou os cabelos para
trá s e tornou a olhar-se no espelho,
maravilhando-se com a
transformaçã o que sofrera. O rosto
continuava delicado e finamente
cinzelado, mas a bela pele macia

168
Flor do Pântano Patrícia Potter

também sofreria mudança radical.


Passou a líquido nas faces, no
queixo e na testa, e daquela vez foi
uma pessoa estranha que ela viu no
espelho.
Nã o havia mais nada que
lembrasse a jovem mulher de
minutos antes. Samantha se
transformara num rapazinho do
campo, de sorriso malicioso e pele
morena e á spera. Apenas as roupas
destoavam, mas aquilo seria
remediado quando chegasse à
caverna e trocasse o vestido rodado

169
Flor do Pântano Patrícia Potter

por calça e camisa.


Cuidadosamente apanhou os
cabelos que caíram no chã o,
enrolou tudo num papel e colocou
o embrulho na bolsa que levaria
consigo. Nã o podia deixar nenhuma
pista de seus atos. Depois, sentou-
se à escrivaninha e preparou-se
para escrever. Mergulhou a pena no
tinteiro e rabiscou palavras
apressadas no papel fino e caro que
tirara da gaveta.

"Papai,

170
Flor do Pântano Patrícia Potter

Nã o posso me casar com o coronel


Foxworth. Vou para o norte, onde
pretendo ganhar a vida como
governanta. Nã o tente me
encontrar. Seria inú til.

Samantha."

Todas as outras pessoas da casa já


se haviam recolhido muitas horas
atrá s. Ela vestiu uma longa capa,
colocando o capuz na cabeça
tosada. Olhou ao redor do quarto

171
Flor do Pântano Patrícia Potter

onde dormira durante toda sua


vida até aquele momento. Seu olhar
caiu sobre um retrato em miniatura
da mã e, pintado por um grande
artista. Sentiu-se tentada a levá -lo
consigo, mas desistiu. Se o vissem
em seu poder, seria desmascarada.
Uma lá grima rolou pelo rosto
artificialmente bronzeado, sem
deixar sinal. A tintura aplicada
sobre a pele resistia bastante à
á gua.
Nã o havia tempo para
recordaçõ es tristes. Embrulhou-se

172
Flor do Pântano Patrícia Potter

na capa e abriu a porta do quarto


silenciosamente.

Nã o teve dificuldade alguma em


sair da casa. Conhecia cada
centímetro do chã o onde pisava e
evitou as tá buas do assoalho que
rangiam. Em poucos instantes,
achava-se no pá tio dos fundos, de
onde se dirigiu para as cocheiras. A
lua cheia, como uma rainha, olhava
friamente para a terra, iluminando
tudo, enquanto as estrelas, aos
milhõ es, rodeavam-na como

173
Flor do Pântano Patrícia Potter

sú ditos dedicados. Normalmente,


Samantha pararia para admirar a
beleza do céu, mas naquela noite
desgostava-se com a luminosidade
exagerada que clareava todos os
caminhos, sem nenhuma discriçã o.
Devagarzinho, abriu a porta da
cocheira onde deixava Sundance e
caminhou para a baia onde a égua,
feliz por vê-la, relinchava baixinho.
— Quietinha — pediu num
murmú rio, acariciando o focinho
que procurava alcançá -la. — Nã o
tenho maçã , agora, Sundance.

174
Flor do Pântano Patrícia Potter

Começou a puxar o animal para


fora da baia, consciente da
imprudência de levá -la. Todos nas
redondezas conheciam a égua
dourada, de raça pura, da fazenda
dos Chatham. Mas seria impossível
deixá -la. Inventaria uma histó ria
qualquer para explicar a posse do
animal.
— Onde vai com essa égua?
A voz conhecida, mas inesperada
assustou-a, deixando-a imó vel. Os
tratadores de cavalos nã o
passavam as noites nas cocheiras, a

175
Flor do Pântano Patrícia Potter

menos que um dos animais


estivesse doente.
— Quem está aí? — Hector
perguntou, aproximando-se com
um lampiã o que iluminou o rosto
da moça.
— Sou eu, Hector! — ela gritou. —
Samantha.
Ele estendeu a mã o e puxou o
capuz para baixo, expondo os
cabelos curtos. Soltou uma
exclamaçã o de espanto. Reconhecia
a voz da jovem, o porte e a capa que
vira tantas vezes, mas o rosto era

176
Flor do Pântano Patrícia Potter

estranho e a linda cabeleira


desaparecera.
— Srta. Samantha! Nã o posso
acreditar!
Ela sorriu satisfeita. Se conseguira
enganar Hector, que crescera a seu
lado, enganaria qualquer outra
pessoa. Apagou o lampiã o com um
sopro e pegou o escravo pelo braço,
continuando a andar para a porta.
— Sou eu mesma, Hector. Estou
indo embora. Nã o posso mais ficar
aqui com o homem que matou
Brendan e agora quer me forçar a

177
Flor do Pântano Patrícia Potter

casar com alguém que desprezo.


— Mas aonde vai?
— E melhor nã o saber. — De
repente, ela preocupou-se com o
jovem, — Meu pai sabe que você
está na cocheira a estas horas?
— Nã o. Damen estava inquieto e
vim ver o que ele tinha. A senhorita
sabe como gosto desse cavalo.
Ela sorriu.
— Sei, sim. Bem, se meu pai nã o
imagina que você está aqui, nã o
pode saber que me viu, portanto
nã o haverá perigo de represá lias.

178
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Bateu com carinho no ombro do


escravo. — Preciso ir. Sempre me
lembrarei de você e Maudie. Diga a
ela que eu a amo.
Temerosa de que a coragem a
abandonasse, a jovem levou o
animal para trá s de um grupo de
á rvores e passou-lhe as rédeas pelo
pescoço. Jogou um cobertor no
lombo da égua e olhou em volta,
procurando um lugar para subir e
montar. Encontrou um tronco caído
e, com um salto gracioso, montou.
Murmurando palavras de carinho

179
Flor do Pântano Patrícia Potter

para Sundance, partiu em trote


largo para a caverna.
Samantha calculou que faltavam
cerca de três horas para amanhecer
quando alcançou seu destino.
Ficaria na caverna apenas o tempo
necessá rio para pegar as roupas
escondidas ali havia mais de um
ano e a pulseira de sementes que
Brendan fizera para ela.
Passando uma perna por cima do
lombo de Sundance, escorregou
cuidadosamente para o chã o.
Sabendo que a égua nã o fugiria,

180
Flor do Pântano Patrícia Potter

amarrou as rédeas frouxamente a


uma á rvore, para que o animal
pudesse pastar à vontade. Tirou a
capa pesada e pegou a bolsa de
viagem que continha os cabelos
cortados, fó sforos, velas e comida.
A seguir, entrou na caverna escura.
O luar nã o atravessava a cortina de
vegetaçã o que cobria a entrada e
tudo estava imerso na mais
completa escuridã o. Ela tropeçou e
a bolsa voou de suas mã os.
Nervosa, abaixou-se para procurá -
la e apalpou o chã o. Nã o podia

181
Flor do Pântano Patrícia Potter

perder tempo, pois planejava


continuar viagem antes do nascer
do sol.
Subitamente sua mã o tocou algo
macio e ela retraiu-se, assustada. A
seguir, criando coragem, voltou a
tocar o objeto e percebeu tratar-se
de um corpo humano. Pegou um pé
que nã o se moveu, mas tinha calor,
de modo que ela deduziu que a
pessoa estava viva.
Continuou a procurar a bolsa e
finalmente encontrou-a. Mexeu no
conteú do até achar as velas e os

182
Flor do Pântano Patrícia Potter

fó sforos e sem perda de tempo


riscou um dos palitos de encontro à
parede rochosa da caverna.
Encostou a chama no pavio de uma
das velas, acendendo-a.
Cautelosamente, aproximou-se do
corpo estirado no chã o e quando se
inclinou a luz bruxuleante bateu
num rosto pá lido e barbado. Nã o
conseguiu sufocar uma exclamaçã o
de espanto profundo ao reconhecer
Connor 0'Neill.
Ajoelhou-se ao lado dele.
— Connor — murmurou,

183
Flor do Pântano Patrícia Potter

desolada. — O que fizeram com


você?
Ela fez a luz da vela percorrer o
longo corpo magro e coberto de
trapos. A camisa estava empastada
de sangue e no lado do tó rax a
mancha estava ú mida e quente. Ele
ainda sangrava. Quando a luz
alcançou os pés, ela estremeceu
vendo uma argola de ferro soldada
ao redor de um dos tornozelos.
Ele gemeu, e ela levou uma das
mã os ao rosto maltratado,
acariciando-o levemente.

184
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Connor?
Sua pergunta ansiosa caiu no
silêncio e ela percebeu que ele
estava inconsciente. O rosto era
gelado ao tato, apesar da
temperatura razoavelmente quente
daquele final de outubro.
— Oh, Connor, o que devo fazer?
Ela procurou lembrar-se dos
textos dos livros de medicina.
Como a maioria das senhoras das
fazendas, muitas vezes fora
chamada para dar assistência aos
escravos doentes, mas seu

185
Flor do Pântano Patrícia Potter

conhecimento nã o passava de
simples noçõ es sobre o uso de
ervas para a febre e de compressas
para curar cortes. O pai sempre
chamara o médico para tratar de
ferimentos e doenças mais sérias.
Ela sabia, porém, que a queda de
temperatura do corpo advinha
depois de grande perda de sangue
e que geralmente prenunciava a
morte.
Calor. Era de calor que ele
precisava. Derramando um pouco
de cera derretida no chã o, fixou a

186
Flor do Pântano Patrícia Potter

vela e correu para fora. Tirou o


cobertor estendido de sobre o
lombo de Sundance e pegou todos
os gravetos secos que pô de
carregar.
De volta ao interior da caverna,
acendeu uma pequena fogueira e
cobriu Connor com o cobertor
ainda quente do corpo de
Sundance. Depois, procurou as
duas trouxas de roupas ali
guardadas para a fuga com
Brendan e vestiu trajes masculinos,
pensando o tempo todo no que

187
Flor do Pântano Patrícia Potter

poderia fazer para ajudar Connor,


Finalmente resolveu que teria de
voltar a Chatham Oaks e falar com
Hector. Ele poderia pegar alguns
remédios guardados por Maudie e
entrar em contato com um dos
homens do coronel Marion. Talvez
a Raposa do Pâ ntano mandasse um
médico e levasse o ferido embora.
Uma vez ouvira dizer que Connor já
cavalgara ao lado do chefe dos
rebeldes e Marion era conhecido
por sua lealdade aos amigos.
Já transformada num rapazinho

188
Flor do Pântano Patrícia Potter

imberbe, ela ajeitou o cobertor ao


redor do corpo de Connor e soprou
a vela.
Chegou a Chatham Oaks pouco
antes da alvorada. Amarrou
Sundance num lugar escondido e
deslizou silenciosamente por entre
as á rvores, chegando à s cabanas
dos escravos. Procurou a porta de
Hector e bateu de leve. O rapaz
atendeu quase que imediatamente.
Pela segunda vez, em questã o de
horas, olhou-a assombrado.
Ela entrou depressa e encarou-o.

189
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Você precisa me ajudar, Hector.


Encontrei Connor O'Neill. Ele está
gravemente ferido... na caverna.
Quero que consiga remédios e faça
chegar um recado ao coronel
Marion.
Falava apressadamente e seu
rosto mostrava profunda angú stia.
Subitamente, deixou-se cair
sentada no chã o e escondeu o rosto
nas mã os.
— Ele vai morrer, Hector, e nã o
posso suportar essa idéia. Nã o
posso. Nã o agü entarei a morte de

190
Flor do Pântano Patrícia Potter

mais um O’Neill.
O jovem escravo estendeu as mã os
para ela, ajudando-a a se levantar.
— Nã o se desespere, senhorita.
Vou buscar remédios com Maudie.
Fique aqui, quietinha.
Dentro de minutos, o rapaz
retornava com um pacote nas
mã os.

— Nã o disse a ela que a senhorita


estava aqui. Apenas expliquei que
havia uma pessoa doente.
— Obrigada, Hector.

191
Flor do Pântano Patrícia Potter

— E melhor a senhorita ir
embora. Quando seu pai acordar
vai mandar todos os escravos
saírem à sua procura. Vou mandar
o recado ao coronel Marion. Nã o se
preocupe. Hoje à noite alguém irá à
caverna ajudá -la.
Ela olhou para o rosto escuro,
onde se via preocupaçã o
verdadeira. Sorriu, sabendo que
podia confiar nele. Explicou com
precisã o como se chegava à
caverna.
— Hector — ela finalizou —,

192
Flor do Pântano Patrícia Potter

preciso de um balde e de sabã o. Ele


nã o discutiu, pegando o pró prio
balde, onde colocou bastante sabã o
de cinza e o pacote com remédios
que conseguira de Maudie.
— Obrigada — ela murmurou,
segurando o balde com as duas
mã os. — Nunca me esquecerei de
você, Hector.
Ele abriu a porta e ficou olhando o
vulto miú do desaparecer entre as
á rvores.

Quando Samantha chegou à

193
Flor do Pântano Patrícia Potter

caverna, a tímida luz do sol já se


filtrava para dentro do lugar. Um
novo dia começava, e nas pró ximas
horas a regiã o ficaria tumultuada
com as buscas que certamente
seriam feitas. Haveria grupos
procurando por ela e outros
perseguindo Connor. Deixar
Sundance fora seria o mesmo que
sair gritando para chamar a
atençã o, de modo que ela levou a
égua para dentro, contente por
haver bastante espaço para todos.
Foi um pouco difícil fazer o animal

194
Flor do Pântano Patrícia Potter

passar pela entrada estreita, mas


depois o lugar alargava-se,
entrando pela colina.
A fogueira que ela fizera reduzira-
se a brasas e Connor continuava
deitado na mesma posiçã o em que
o deixara. Tocou o rosto dele e
sentiu a pele um pouco mais
morna, o que lhe reavivou as
esperanças.
Ela nã o atiçou o fogo, deixando as
brasas se apagarem, pensando que
a fumaça poderia ser vista à luz do
dia. Esvaziou o balde e foi até o rio

195
Flor do Pântano Patrícia Potter

buscar á gua, voltando rapidamente.


Aqueceu um pouco de á gua numa
pequena vasilha, colocando-a sobre
as brasas que morriam devagar e
juntou cerca de uma colherada de
goma extraída do tronco do á lamo
branco. Rasgou um pedaço do
vestido que usara naquela noite e
fez uma compressa com o líquido
grosso, aplicando-a sobre o
ferimento nas costelas de Connor.
O corpo estremeceu sob o
estimulo da dor e um gemido
escapou dos lá bios descorados. Aos

196
Flor do Pântano Patrícia Potter

poucos, os mú sculos relaxaram e


Samantha percebeu que a poçã o já
exercia um efeito sedativo sobre a
ferida.
Com a claridade do dia, foi
possível examinar melhor a figura
do homem mergulhado na
inconsciência. A moça nunca vira
alguém tã o sujo, mas aquilo nã o
tinha importâ ncia. Ela se lembrava
do rosto bronzeado do sol, dos
cabelos de um belo tom claro de
castanho, dos olhos cinzentos e
expressivos. As faces agora estavam

197
Flor do Pântano Patrícia Potter

emaciadas e a pele esticava-se


sobre os ossos. O corpo que já fora
robusto mostrava-se extremamente
magro e coberto de cortes,
arranhõ es e picadas de insetos
infeccionadas. A argola de ferro ao
redor do tornozelo lacerara a carne
e enquanto ele vivesse carregaria
as cicatrizes daquela humilhaçã o.
Ela encheu-se de compaixã o.
Como alguém poderia infligir tanto
sofrimento a outro ser humano,
esquecendo-se de todas as leis de
amor ao pró ximo? E que força

198
Flor do Pântano Patrícia Potter

sobrenatural manteria um homem


vivo depois de tantos reveses?
Pegou outro pedaço do vestido
rasgado, o balde com á gua e um
pedaço de sabã o e sentou-se perto
dele. Delicadamente começou a
lavá -lo, começando pelo rosto e
descendo para o peito, limpando
bem a á rea que contornava o
ferimento. Nã o se atrevia a esfregar
muito, receando provocar dor, mas
uma boa camada de sujeira saiu no
pano molhado e ele se sentiria
melhor quando acordasse.

199
Flor do Pântano Patrícia Potter

Aquele pensamento a fez imaginar


o que aconteceria depois. Nã o sabia
o que lhe diria e nem como
explicaria sua presença na caverna.
Lembrou-se das palavras duras que
ele lhe dirigira no dia do duelo. Ele
certamente se tornara ainda mais
revoltado e cheio de ó dio depois
que o pai morrera no meio de
tormentos provocados por Robert
Chatham, o mesmo homem que
matara Brendan e de quem ela
tinha a infelicidade de ser filha.
Depois de limpá -lo da melhor

200
Flor do Pântano Patrícia Potter

forma possível, Samantha


encostou-se à parede da caverna.
Nã o dormira a noite toda e sentia-
se exausta. Dentro de alguns
minutos, mergulhou em sono
profundo.
Acordou ouvindo a voz de Connor.
Ele remexia-se embaixo do
cobertor e tinha os olhos abertos,
mas sem nenhuma expressã o.
Samantha compreendeu que
delirava. Tocou o rosto agitado e a
pele estava gelada.
— Chatham... eu vou matá -lo...

201
Flor do Pântano Patrícia Potter

destruí-lo... acabar com todos os


Chatham... Oh, Brendan. Papai!...
Chatham pagará por tudo...
Samantha sentiu-se vergastada
pelo ó dio que havia na voz dele,
mas recobrou-se do choque. Ele
obviamente piorara muito e
precisava de cuidados.
O homem delirante tremia a
despeito do calor do dia e do
cobertor. Nã o havia mais nada que
ela pudesse usar para aquecê-lo,
além da capa, que também nã o
seria suficiente. Com um

202
Flor do Pântano Patrícia Potter

pensamento repentino, decidiu que


o aqueceria com seu pró prio corpo.
Deitou-se ao lado dele, ignorando
o mau cheiro que emanava dos
trapos que o envolviam. Abraçou-o
e pô s-se a acariciá -lo, procurando
acalmar sua agitaçã o. Aos poucos, o
tremor diminuiu e ele relaxou. Por
sua respiraçã o compassada, notou
que ele caíra num sono normal.
Logo depois, dormia também.
Quando Samantha despertou, viu
que Connor virara de lado e a
apertava nos braços. Olhou para o

203
Flor do Pântano Patrícia Potter

rosto mais tranqü ilo, percebendo


que ele nã o tinha consciência do
que fazia, mas mesmo assim
experimentou uma sensaçã o
perturbadora com sua
proximidade. Devagar e com
cuidado, desvencilhou-se do
abraço. A camisa se abrira no peito
e seus seios apareciam. Se ele
acordasse e a visse daquela
maneira, descobriria que nã o se
tratava de um rapaz.
Rasgou mais um pedaço do
vestido e improvisou uma faixa,

204
Flor do Pântano Patrícia Potter

que passou ao redor dos seios,


achatando-os. Vestiu a camisa de
pano grosseiro marrom e deu-se
por satisfeita com a silhueta
esbelta de garoto. Depois, juntou o
que restara do vestido, as roupas
de baixo, tã o femininas, as mechas
de cabelo e saiu da caverna. Alerta,
pronta a perceber qualquer ruído
estranho, enterrou tudo.
Nada mais restava de Samantha
Chatham.

205
Flor do Pântano Patrícia Potter

CAPÍTULO IV

Connor acordou no meio da tarde


e Samantha logo percebeu seus
movimentos cautelosos. Virou-se a
tempo de ver os olhos cinzentos se
abrirem e vagarosamente
examinarem a caverna. Finalmente
pousaram no rapaz que o fitava

206
Flor do Pântano Patrícia Potter

com preocupaçã o.
O ferido quis virar-se e mordeu os
lá bios para nã o gritar de dor. Todo
o seu lado esquerdo ardia como
fogo. Fechou os olhos agoniados e
quando a dor diminuiu, tornou a
olhar para o rapazinho.
— Quem é você? Como encontrou
este lugar?
— Minha égua o encontrou —
Samantha improvisou. — Veio para
estes lados e escutei seus gritos.
Encontrei-o quase morto.
— Você... você cuidou de mim?

207
Flor do Pântano Patrícia Potter

Pensei... — o homem sacudiu a


cabeça, confuso. — Devo ter
sonhado.
— Pensou o quê?
— Nada. Obrigado por ter me
ajudado.
— Nã o precisa agradecer. Teria
ajudado qualquer outra pessoa. Ah,
mandei recado para a Raposa.
— Mais uma vez, obrigado. Eu
nã o teria forças para chegar lá .
Ele sorriu e ela sentiu uma onda
de ternura ao ver como o sorriso se
parecia com o de Brendan.

208
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Está precisando de um banho,


senhor — ela disse para disfarçar a
emoçã o. — Tentei lavá -lo, mas tive
medo de machucá -lo.
Connor tornou a sorrir.
— Tem razã o. Estou cheirando
mal. — Apontou para o balde. —
Ainda há á gua?
Ela concordou, balançando a
cabeça e levou o balde até ele,
juntamente com o sabã o.
— Encontrei algumas roupas aqui
na caverna, senhor. Pegou o pacote
e ofereceu-o a Connor, cujo rosto se

209
Flor do Pântano Patrícia Potter

ensombreceu ao reconhecer as
roupas do irmã o. Entã o, seu olhar
captou a expressã o prestativa e
satisfeita do rosto do rapaz e sorriu
aquecido.
— Você vive fazendo milagres? —
brincou. — Como se chama?
— Sam... Sam Taylor — ela
gaguejou.
— Tem família?
— Estã o todos mortos. Os
ingleses mataram minha família e
agora vou me reunir ao coronel
Marion.

210
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor examinou o rostinho


solene.
— Você é muito jovem, rapaz.
— Mas atiro tã o bem quanto
qualquer homem. Cavalgo bem e
até roubei um cavalo, na verdade
uma égua, de um tory idiota e
gordo. Além disso, já ouvi que há
rapazes da minha idade lutando ao
lado de Marion e outros, mais
jovens ainda, no exército de
Washington.
A despeito do desconforto físico,
Connor estava se divertindo e

211
Flor do Pântano Patrícia Potter

precisou refrear um sorriso para


nã o magoar o garoto que se dava
ares de soldado. Uma coisa era
certa, porém. O rapaz era esperto e
sabia resolver problemas. Cuidara
dele com habilidade e conseguira
fazê-lo melhorar. Estivera bem
doente e tivera crises de delírio. E
em suas visõ es vira uma mulher
perto dele, o que naturalmente era
completamente impossível. No
entanto, lembrava-se do doce calor
de um corpo feminino junto ao seu.
Ele puxou o balde e o sabã o e

212
Flor do Pântano Patrícia Potter

começou a lavar-se
desajeitadamente, depois de tirar a
camisa em farrapos. Quando tentou
tirar a calça, fez uma careta de dor
e gemeu, percebendo que nã o seria
possível curvar-se.
— Sam — ele chamou.
O "rapaz" lhe dera as costas e ao
ser chamado virou o rosto
levemente, sem encará -lo.
— Pode me ajudar a tirar a calça,
Sam?
— Eu?
— Nã o vejo mais ninguém aqui —

213
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor respondeu com um sorriso.


Com relutâ ncia, Samantha
aproximou-se dele e ajoelhou-se a
seu lado, começando a desabotoar
as calças, contente por causa da
pintura do rosto que disfarçava o
intenso rubor que lhe subia à s
faces. Depois, desviou o olhar
quando o homem ergueu os
quadris e ela começou a puxar a
calça rasgada para baixo.
— Tire a ceroula também, por
favor. Quero tomar um banho
completo — ele pediu.

214
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ela sabia que seu rosto devia estar


em fogo e achou que nem mesmo a
tintura de índigo conseguiria
disfarçar a prova de sua extrema
timidez.
— Vai pegar um resfriado — ela
avisou, com esperança de que ele
desistisse.
— Você mesmo me disse que eu
estava precisando de um banho,
Sam — Connor ponderou,
entregando-lhe a faca que pegara
depois da luta com os soldados.
— Nã o precisa tirar com tanto

215
Flor do Pântano Patrícia Potter

cuidado. Corte o tecido e arranque


tudo.
Ela fechou os olhos e começou a
cortar o pano, mas teve de olhar
para evitar algum acidente e
profundamente encabulada
procurou pensar em outra coisa.
Mas nã o era possível ignorar os
detalhes do corpo masculino e ela
suspirou de alívio quando a ceroula
foi atirada para longe. Só que sua
provaçã o ainda nã o terminara.
Incapaz de virar-se e esfregar o
corpo, Connor pediu-lhe que o

216
Flor do Pântano Patrícia Potter

ajudasse no banho.
Ansiosa por acabar logo com a
tarefa, ela tornou-se bastante
diligente e mais rude do que
pretendera. O doente resmungou
vá rias vezes, quando esfregou com
força demais a pele machucada e
picada de mosquitos. Cada minuto
foi uma agonia. A despeito da
magreza, o corpo refletia a
disciplina de vá rios anos de
trabalho á rduo. Os mú sculos
continuavam rijos e quando se
recuperasse dos horrores por que

217
Flor do Pântano Patrícia Potter

passara, ele iria readquirir o porte


robusto e bem-feito.
Samantha nã o olhava para o seu
sexo, morreria de vergonha se o
fizesse. Tinha noçõ es rudimentares
sobre as relaçõ es entre os sexos
porque afinal crescera no meio de
animais e assistira a muitos
cruzamentos, mas nunca vira um
homem nu. Brendan e ela haviam
decidido esperar até que
estivessem casados para
experimentar a maravilhosa
aventura da entrega, e ela

218
Flor do Pântano Patrícia Potter

lamentava nã o haver cedido aos


impulsos que a faziam desejar um
relacionamento íntimo com ele.
Finalmente o banho terminou e
ela ajudou-o a vestir as roupas de
Brendan. Normalmente ficariam
muito apertadas nele, mas pendiam
soltas no corpo emagrecido e
Connor precisou amarrar um
cordã o na cintura para ajustar a
calça.
Samantha tornou a sair da
caverna com muita cautela e logo
depois retornava com outro balde

219
Flor do Pântano Patrícia Potter

de á gua. Lavou entã o os cabelos


castanhos pacientemente,
ensaboando e enxaguando
repetidas vezes, até certificar-se de
que tirara todos os piolhos.
Absorvida pelo que fazia, nã o notou
os olhares intrigados que ele lhe
lançava. Finalmente, com um
sorriso satisfeito, ela declarou-o
apto a conviver com outros seres
humanos e ele sorriu de prazer ao
sentir-se razoavelmente limpo pela
primeira vez em meses. Coçou a
barba crescida, mas ao pensar nos

220
Flor do Pântano Patrícia Potter

arranhõ es de Sam, durante o


banho, desistiu de pedir-lhe que o
barbeasse. O ferimento ainda o
incomodava bastante, mas já estava
se sentindo melhor e acabaria por
curar-se rapidamente. O mais
importante de tudo, porém, era que
estava livre e um dia vingaria a
destruiçã o da família 0'Neill.
A expressã o de Connor mudou e
um mú sculo palpitava tenso em
uma das faces. Samantha notou-lhe
a inquietaçã o e até imaginou o
motivo. Aquele homem estava

221
Flor do Pântano Patrícia Potter

cheio de ó dio.
Ela ergueu-se do chã o e pegou o
pã o com carne que trouxera na
bolsa. Ofereceu a maior parte do
simples jantar ao ferido, sabendo
que ele precisava de alimento
muito mais que ela. Ele resistiu,
exigindo que tudo fosse dividido
em partes iguais.
— Você precisa engordar um
pouco se deseja lutar ao lado de
Marion. Ele nã o gosta de
magricelas — Connor brincou.
Percebendo que ele se recusaria a

222
Flor do Pântano Patrícia Potter

comer se ela nã o aceitasse uma


divisã o justa, Samantha cedeu,
apesar de nã o estar com fome. Uma
nova preocupaçã o juntara-se à s
outras. A Raposa do Pâ ntano nã o a
aceitaria em suas fileiras por causa
de seu corpo franzino? O que faria
se nã o pudesse integrar o
regimento rebelde?
Samantha olhou para Connor, que
dormia pacificamente. Os cabelos
grossos e ajeitados, castanho-
claros, estavam crescidos demais
para o gosto dele, que nunca os

223
Flor do Pântano Patrícia Potter

usara compridos, como ditava a


moda. Reclamara um pouco, mas
como nã o havia jeito de cortá -los,
acabara deixando que ela os
amarrasse na nuca, usando um
cordã o.
O rosto quase totalmente
encoberto pela barba mostrava
tranqü ilidade e alívio. Ele devia
estar quase morto de cansaço
depois de uma fuga de cinco dias
pelo meio do mato.
Escorregando para o chã o da
caverna, encostada à parede, ela

224
Flor do Pântano Patrícia Potter

estudou sua pró pria situaçã o. Nã o


tinha dú vidas de que naquela noite
alguém do acampamento de
Marion chegaria à caverna. Hector
era de confiança e faria tudo para
cumprir o que prometera.
Ela inclinou a cabeça para trá s,
apoiando-a na parede de pedra. O
coronel Marion nã o podia deixar de
aceitá -la, porque ela desfizera
todos os caminhos de volta para a
vida antiga. Precisava continuar o
que começara, embora soubesse
que nã o seria fá cil. Haveria

225
Flor do Pântano Patrícia Potter

coincidências demais. Samantha


Chatham desaparecera e Sam
aparecera na caverna que a moça
conhecia. Arrependia-se de nã o
haver usado outro nome, mas
"Sam" aparecera em sua mente
como sendo o mais ló gico e já era
tarde para trocar. E, depois, havia
Sundance.
Quando Connor vira a égua, no
fundo da caverna, depois que já se
recuperara o bastante para
concentrar-se no que se passava ao
seu redor, ficara tenso,

226
Flor do Pântano Patrícia Potter

reconhecendo o animal
imediatamente.
— Onde você conseguiu essa
égua? — perguntara, ríspido.
— Num pasto, nã o muito longe
daqui. E roubei as rédeas de uma
cocheira, mas nã o achei nenhuma
sela. E nem preciso de uma. Monto
muito bem.
Naquele momento, Sundance
esticara o pescoço para roçar o
focinho nas costas da moça e ele
franzira a testa.
— Parece amigo e acostumado

227
Flor do Pântano Patrícia Potter

demais com você, para um animal


que foi roubado.
Ele parecia intrigado, mas nã o
desconfiado da verdade.
— Sempre tive muito jeito para
lidar com animais. Papai vivia
dizendo isso.
Connor relaxara e um largo
sorriso aparecera no rosto cansado.
— Sabe que essa égua é premiada
e pertence ao maior Tory, das
Carolinas? Tem bom gosto, Sam! —
elogiara, rindo.
Samantha soltara um risinho

228
Flor do Pântano Patrícia Potter

zombeteiro, mas nada comentara,


nã o desejando forçar sua boa sorte.
Sorte. Era o que mais precisava,
embora duvidasse que alguém
pudesse associar a fina e bem-
educada jovem, filha de um Tory
rico, com um rapazinho mal vestido
ligado aos rebeldes. Tentaria ficar
longe de Connor, o ú nico que a
conhecera em sua vida anterior,
mas pensando no encanto daquele
homem e no seu sorriso simpá tico,
percebeu que ia ser difícil.
Algo muito terno e suave

229
Flor do Pântano Patrícia Potter

despertara nela uma atraçã o que


pensara jamais voltar a sentir por
alguém, mas talvez fosse apenas o
velho sentimento de amizade que
sempre dedicara ao irmã o de
Brendan. Pensativa, acabou por
cochilar.
Quando tornou a abrir os olhos,
Samantha viu que a luz do dia fugia
da caverna e que o dia aproximava-
se do fim. Dentro de algum tempo
receberiam a visita de um enviado
de Marion.
Ouviu Connor mexer-se e foi até

230
Flor do Pântano Patrícia Potter

ele, oferecendo-lhe á gua. O homem


sentou-se devagar, gemendo de dor.
Ela mal podia ver a expressã o do
rosto sofrido, já quase encoberto
pelas sombras.
— Quanto tempo dormi? —
perguntou ele.
— A tarde toda. Sente-se melhor?
— Sim, graças a você. Ainda sinto
dor, mas estou mais animado. Tem
certeza de que Marion virá ?
— Nã o tenho certeza de nada.
Apenas mandei um recado. Ele riu.
— Franqueza é o que nã o lhe falta,

231
Flor do Pântano Patrícia Potter

nã o é, Sam?
Ela nã o respondeu e os dois
ficaram em silêncio até que a noite
caiu de todo. Samantha, entã o, saiu
para esperar.

Chegaram tã o silenciosamente
que Samantha apenas os viu
quando já estavam na frente dela.
Hector, ao lado de dois homens,
fitou-a com indiferença, nã o dando
o mínimo sinal de reconhecê-la e a
moça abençoou por ser tã o bom
ator.

232
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Esse é o rapaz que me avisou


sobre o sr. O'Neill — o escravo
explicou.
Os homens vestiam calçõ es até os
joelhos, feitos de tecido grosso, e
calçavam meias compridas e
botinas que chegavam ao meio das
canelas. As jaquetas desciam até os
quadris e eram em couro, assim
como os bonés, que ostentavam
fitas brancas.
Enquanto Samantha os
examinava, eles também a
inspecionavam cheios de suspeita.

233
Flor do Pântano Patrícia Potter

Haviam considerado a hipó tese de


uma armadilha, mas os dois eram
amigos de Connor e nã o queriam
deixar de prestar-lhe auxílio,
acabando por arriscar-se.
O mais alto deles encarou-a de
testa franzida.
— Onde está 0'Neill?
Ela apontou para as moitas e
trepadeiras que encobriam a
entrada da caverna.
— Lá dentro.
— Vá na frente — o homem
comandou.

234
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ela deslizou pela abertura e os


homens a seguiram. Um deles
riscou um fó sforo e ergueu o longo
palito no ar, olhando em volta. A
moça rapidamente pegou uma vela
e acendeu-a no fó sforo. A luz mais
forte atingiu Connor, que esforçava-
se para sentar-se.
O homem que falara com
Samantha sorriu e alcançou o
amigo com duas passadas,
colocando as mã os em seus
ombros.
— Connor! Bom Deus,

235
Flor do Pântano Patrícia Potter

pensávamos que você estivesse


morto! Nem imagina como estamos
contentes em revê-lo. Você sabe
como Francis é durã o. Pois até ele
sorriu quando soube das
novidades. Todos achávamos que
você nã o havia agü entado o horror
do navio e no princípio receamos
que o recado fosse uma armadilha
— o homem despejou, excitado.
O sorriso de boas-vindas do ferido
murchou.
— Eu agü entei, mas meu pai
morreu. E eu teria morrido aqui

236
Flor do Pântano Patrícia Potter

nesta caverna se nã o fosse pelo


Sam. Estou contente em vê-lo,
Peter.

Peter Horry tomou a vela da mã o


e ergueu-a sobre Connor. Estudou o
rosto pá lido e o corpo magro.
— Aqueles malditos ingleses —
murmurou entre os dentes
cerrados de raiva. — Desgraçados!
— E aquele maldito Robert
Chatham! — Connor completou
com amargura. — Acho bom ele
começar a tremer, porque minha

237
Flor do Pântano Patrícia Potter

vingança será cruel.


A expressã o de Peter mudou.
Conhecera Connor no início da
guerra e sempre respeitara seu
autocontrole e seu temperamento
calmo. Aquele era outro homem,
amargo e cheio de ó dio, que ele nã o
gostaria de ter como inimigo.
— Nã o deixe que Francis Marion o
escute. Ele nã o gosta de atitudes
pessoais na luta contra nossos
adversá rios.
— Chatham destruiu tudo o que
eu amava — Connor justificou-se.

238
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Nada me deterá .
Peter sabia quando devia mudar
de assunto.
— Davey está comigo — explicou.
— E trouxemos um médico
também, que ficou perto do rio
enquanto vínhamos saber o que
realmente se passava por aqui.
Connor sorriu para o outro
homem que se aproximava: nada
disseram, mas o forte aperto de
mã o que trocaram expressou a
forte amizade que nutriam.
Peter desapareceu para voltar

239
Flor do Pântano Patrícia Potter

poucos minutos depois com um


homem sobriamente vestido de
preto.
— Dê uma olhada nele, doutor, e
veja se pode cavalgar. Connor
submeteu-se ao rá pido exame e
mordeu o lá bio inferior quando o
médico tocou a á rea ao redor do
ferimento.
— Você está em boa forma,
considerando-se o tempo que
passou naquele inferno — o
homem declarou espantado. — O
ferimento ainda vai doer por algum

240
Flor do Pântano Patrícia Potter

tempo, mas se tomar bastante


cuidado, poderá montar. O que
puseram na ferida?
O ferido sorriu e olhou para Sam.
— Pergunte a ele, doutor. Foi Sam
quem fez o curativo. Fez muito
mais. Lavou-me, limpou minha
cabeça, deu-me de comer e me
manteve aquecido.
— Como sabia que devia mantê-lo
aquecido, rapaz? — o médico
perguntou.
— Já vi fazerem isso em outros
feridos.

241
Flor do Pântano Patrícia Potter

O médico tornou a olhar para


Connor.
— O garoto salvou sua vida.
Depois de uma perda de sangue
muito intensa, os pacientes
geralmente apresentam queda de
temperatura. Se nã o sã o
socorridos, podem morrer. Você
teve sorte.
— Eu sei, doutor.
A seguir, o médico passou uma
atadura limpa ao redor do corpo do
paciente, protegendo o ferimento e
entregou-lhe um frasco de poçã o

242
Flor do Pântano Patrícia Potter

destinada a acelerar o processo de


cura.
Peter Horry e Davey ajudaram
Connor a pô r-se de pé.
— O que vamos fazer com ele? —
Peter perguntou, fazendo um gesto
de cabeça na direçã o de Samantha.
— Quero ir com vocês — ela
declarou, procurando nã o
demonstrar ansiedade.
O homem sacudiu a cabeça.
— Sinto muito, rapaz, mas você é
jovem demais. Além disso, Marion
ficaria furioso se levá ssemos um

243
Flor do Pântano Patrícia Potter

estranho.
Connor olhou para o rosto de Sam,
iluminado pela luz da vela, e viu
profundo desespero nos olhos
azuis. O garoto lhe salvara a vida e
chegara o momento de retribuir o
favor.
— Ele vai comigo — disse
simplesmente. — Além de ser meu
amigo, é um endiabrado ladrã o de
cavalos. Roubou a égua favorita dos
Chatham. É um talento que
podemos aproveitar.
Peter tornou a examinar o vulto

244
Flor do Pântano Patrícia Potter

franzino e depois olhou para


Sundance, meio escondida pelas
sombras.
— Se o levarmos, terá de ir
vendado — disse, ainda em dú vida.
Connor concordou balançando a
cabeça.
— Trouxeram um cavalo para
mim? — perguntou.
— Claro. Nã o íamos obrigá -lo a
andar — Peter respondeu rindo.
— Sam pode ir na garupa do meu
cavalo, para me ajudar, e levaremos
a égua pelas rédeas.

245
Flor do Pântano Patrícia Potter

O rosto de Samantha iluminou-


se num sorriso de agradecimento.
— Os casacas-vermelhas estã o
por toda a parte — Peter avisou. —
Precisamos ter muito cuidado. —
Olhou para Sam. — Nada de
conversas, sim?
Connor sorriu divertido.
— Nã o precisa se preocupar com
ele, Peter. Meu amigo fala ainda
menos que Davey,
Quando já estavam fora da
caverna, Hector apareceu com
quatro cavalos e todos ajudaram

246
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor a montar no que lhe fora


destinado. Samantha esperou
pacientemente que a venda fosse
colocada em seus olhos e a seguir
foi erguida para a garupa do animal
montado por Connor. Observou
Hector amarrar Sundance na argola
que havia atrá s da sela do cavalo
deles e abraçou-se à cintura de
Connor para firmar-se.
Quando o grupo sumiu por entre
os velhos ciprestes, Hector
silenciosamente retomou o
caminho de Chatham Oaks. Apesar

247
Flor do Pântano Patrícia Potter

da decisã o de manter-se longe de


Connor, Samantha estava adorando
aquela proximidade que lhe dava
segurança e calor. Era uma
experiência estranha, cavalgar com
os olhos vendados, e aquilo a fazia
concentrar-se mais em seus
pensamentos. Tinha a impressã o
de que ela e Connor eram as duas
ú nicas pessoas existentes no
mundo e saboreava aqueles
momentos sabendo que eles
poderiam nunca mais repetir-se.
Nem podia pensar que um dia

248
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor descobriria sua verdadeira


identidade e a desprezaria,
envolvendo-a no ó dio que sentia
por Robert Chatham. Revoltava-se
contra os atos do pai, mas, embora
desejasse poder odiá -lo também,
nã o conseguia. Ele nunca fora um
pai carinhoso e, quando criança, ela
fizera de tudo para agradá -lo, sem
nunca receber um beijo, um afago,
ou uma simples palavra de elogio.
Imaginou o que ele faria a
respeito de sua fuga. Sem dú vida
alguma, as buscas seriam mantidas

249
Flor do Pântano Patrícia Potter

em segredo, pois o orgulho de


Robert jamais permitiria que ele
revelasse o atrevimento da filha.
Sem falar que procuraria manter o
coronel William Foxworth na
ignorâ ncia do fato, para nã o correr
o risco de arruinar seus planos de
casamento para os dois. De
qualquer forma, mesmo tendo
certeza de que o pai seria discreto
ao procurá -la, Samantha teria de
ser muito cuidadosa.
Já cometera erros perigosos,
começando com aquela bobagem

250
Flor do Pântano Patrícia Potter

do nome. Também fora negligente o


bastante para nã o disfarçar os seios
e Connor poderia ter despertado e
descoberto tudo.
De repente, nã o suportou mais
pensar em sua difícil situaçã o.
Dormira muito pouco nos dois
ú ltimos dias e a fadiga começava a
vencê-la. Tentava manter-se ereta
no lombo do cavalo, mas sua mente
e seu corpo nã o eram mais capazes
de obedecer-lhe. Desistindo de
lutar contra o sono, apoiou a
cabeça nas costas de Connor e

251
Flor do Pântano Patrícia Potter

cochilou.
Connor também sofria
desconforto. Ainda estava muito
fraco e com dor, mas reanimava-se
pensando que cada passo o levava
para mais longe do perigo de ser
novamente aprisionado. Olhou
para o céu e achou que nunca vira
noite mais bela. A lua brilhava
serena, um pouco velada por
nuvens brancas que lembravam
retalhos de renda. A brisa soprava
murmurando na folhagem dos
ciprestes enormes, trazendo o

252
Flor do Pântano Patrícia Potter

perfume da terra e dos bosques.


Finalmente voltara para o lugar
que mais amava no mundo.
Sentiu as mã os de Sam
escorregarem para os seus quadris
e o peso da cabeça pequena contra
as costas. Sorriu emocionado. Era
um rapaz estranho, solene e calado,
tã o determinado a ser um soldado.
Todavia, deixava transparecer uma
grande bondade de coraçã o e uma
tristeza talvez ainda maior que a
sua.
Devia a vida à quele garoto e

253
Flor do Pântano Patrícia Potter

sempre o protegeria. Satisfeito com


aquela decisã o, concentrou-se na
longa estrada.

CAPÍTULO V

Samantha acordou sobressaltada


com o assobio agudo e penetrante
que cortou a madrugada. Connor,
que se largara na sela, também
endireitou o corpo.
Ela tentou adivinhar as horas, mas
a venda a impedia de ver a mais
tênue claridade. Pelo ar frio e pelo

254
Flor do Pântano Patrícia Potter

silêncio pesado que reinava no


lugar, julgou que a noite chegava ao
fim. Mexeu-se inquieta e recolocou
as mã os ao redor da cintura do
companheiro de viagem.
— Logo amanhecerá , Sam, e
estamos chegando.
As mã os dela crisparam-se
nervosas e Connor sentiu uma
onda de piedade. Por mais corajoso
que Sam se forçasse a ser, devia
estar assustado ao chegar de olhos
vendados num campo militar, sem
saber o que se passava ao seu

255
Flor do Pântano Patrícia Potter

redor. Sorriu de leve, pensando que


o amigo se ofenderia se pudesse ler
seus pensamentos. O sorriso,
porém, transformou-se numa
careta quando sentiu uma pontada
lancinante no ferimento. A longa
cavalgada tornara-se um pesadelo
nas ú ltimas horas e ele ansiava por
vê-la terminada.
Já estivera no acampamento de
Marion. A base, em Snow Island,
era amplamente protegida por
grupos de patrulha que formavam
dois grandes círculos ao redor da

256
Flor do Pântano Patrícia Potter

á rea. No círculo de fora, maior, os


patrulheiros cavalgavam, e no de
dentro andavam a pé. O lugar era
cercado por um pâ ntano e Marion
conhecia centenas de caminhos
através dele, mas a maior parte do
terreno mostrava-se impenetrável.
Os soldados ingleses sempre
acabavam frustrados em suas
tentativas de alcançar o
acampamento.

Connor seguiu os companheiros


para o recesso mais escondido da

257
Flor do Pântano Patrícia Potter

ilha, sentindo que olhos invisíveis


acompanhavam todos os seus
movimentos.
Finalmente atingiram uma
pequena clareira pontilhada por
fogueiras já agonizantes e Connor
virou-se para desamarrar a venda
dos olhos de Sam, que olhou para
tudo, espantado. O sol ainda nã o
nascera e a fraca claridade da
madrugada nã o atravessava as
frondes espessas dos ciprestes ou o
cortinado formado pelas plantas
que subiam pelos troncos

258
Flor do Pântano Patrícia Potter

entrelaçando-se umas nas outras. A


copa majestosa das á rvores
juntavam-se num abraço
centená rio e vistas de baixo
pareciam as cú pulas das igrejas
gó ticas que Samantha vira em
livros. A fumaça das fogueiras
dançavam no ar acrescentando
toques de mistério à beleza do
lugar.
Com a sensaçã o de estar num
lugar ao mesmo tempo má gico e
rude, ela desmontou e ajudou
Connor a descer, mas ele quase caiu

259
Flor do Pântano Patrícia Potter

ao colocar os pés no chã o. Ela o


amparou e ficou abraçada a ele,
dando-lhe apoio, até que um grupo
de homens aproximou-se, liderado
por um soldado que vestia uma
tú nica escarlate muito justa. Um
boné de couro preto ostentava uma
lua crescente de prata onde as
palavras "Liberdade ou Morte",
apareciam gravadas.
Seu ar de autoridade fez
Samantha adivinhar que se tratava
do coronel Francis Marion, a
Raposa do Pâ ntano, e olhou para

260
Flor do Pântano Patrícia Potter

ele com grande espanto. O homem


nã o era muito mais alto que ela
nem muito mais robusto. O corpo,
embora magro, dava a impressã o
de ser feito de ferro. A pele curtida
era saudável e o nariz aquilino
projetava-se sobre o queixo
proeminente. Porém, o que mais
impressionava, eram os olhos.
Negros e penetrantes, irradiavam
poder, e Samantha compreendeu
por que seus homens os seguiam
sem vacilar, nas mais arriscadas e
audaciosas investidas contra o

261
Flor do Pântano Patrícia Potter

inimigo.
Marion olhou de Samantha para
Connor e um leve sorriso crispou
os lá bios finos, enquanto ele pegava
o amigo pelos ombros.
— Seja bem-vindo, Connor.
Percorreu o recém-chegado com
seu olhar agudo e franziu a testa ao
notar a argola de ferro presa a um
dos tornozelos.
— Vamos tirar isso daí e logo —
disse. — Depois, teremos de
engordá -lo.
Marion voltou a sorrir, mas aquela

262
Flor do Pântano Patrícia Potter

vez foi um sorriso gentil e aberto.


— E o rapaz aqui, o que faz?
— E um excelente ladrã o de
cavalos — Connor explicou
sorrindo. — E um bom samaritano.
Roubou um dos animais de Robert
Chatham e depois me encontrou,
salvando-me a vida.
— Entã o devo agradecer-lhe o
trabalho que teve, rapaz — Marion
disse a ela. — Connor e eu somos
amigos há muitos anos e fico feliz
em vê-lo com vida.
O coronel voltou a olhar para o

263
Flor do Pântano Patrícia Potter

amigo, de maneira reprovadora. —


Por que trouxe o garoto para cá ,
Connor?
— O pai de Sam foi assassinado
pelos ingleses. O rapaz pretendia
vir procurá -lo quando me
encontrou, para alistar-se em suas
fileiras. Tudo o que ele quer é ser
um rebelde sob seu comando,
Francis.
— É quase uma criança.
— Você já tem alguns de apenas
catorze anos. E posso jurar que
Sam é fantá stico para lidar com

264
Flor do Pântano Patrícia Potter

cavalos. Eu me responsabilizo por


ele.
— Sabe atirar, rapaz?
— Sim, senhor.
Marion virou-se para um dos
soldados.
— Entreguem um rifle ao garoto.
Samantha pegou a arma que lhe
apresentaram e examinou-a para
ver se estava corretamente
carregada. Sopesando-a, para
avaliar a força que teria de usar nas
mã os para segurá -la na hora de
atirar, olhou para Marion, que

265
Flor do Pântano Patrícia Potter

apontou para um galho baixo de


uma á rvore a uns cinqü enta metros
de distâ ncia.
Mirando cuidadosamente, puxou
o gatilho. A clareira foi abalada pelo
estampido e Samantha viu, com
satisfaçã o e orgulho, o galho
partido pender para o chã o.
Marion bateu-lhe no ombro.
— Muito bem, rapaz, mas se
quiser me seguir terá de obedecer
a minhas ordens à risca. Nada de
inventar proezas por sua conta,
entendidos?

266
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Entendidos — ela replicou,


lacô nica.
O coronel Francis Marion
continuou a fitá -la com seus olhos
perguntadores.
— Atirar num homem nã o é o
mesmo que atirar num coelho. É
um ato com o qual você nunca se
acostuma e que o perseguira pela
vida inteira Use a arma com
prudência e sempre com o objetivo
de defender-se ou de proteger seus
companheiros.
— Sim, senhor.

267
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Entã o, seja bem-vindo ao meu


regimento — disse Marion,
virando-se para Connor. —Vocês
dois estã o precisando dormir. Vou
mandar um ferreiro tirar essa
argola do seu pé, mas antes tratem
de comer. Há batatas-doces assadas
e carne salgada. Sirvam-se logo ou
ficarã o sem.
Connor percebia que sua
resistência se esgotara. Quase nã o
conseguia manter-se de pé para
saudar velhos amigos que
chegavam para vê-lo. Finalmente,

268
Flor do Pântano Patrícia Potter

cambaleou para perto de uma


á rvore e escorregou para o chã o,
apoiando as costas no tronco.
Samantha observava-o
preocupada e quando outro
homem ia aproximar-se dele, ela o
impediu.
— Connor precisa dormir. Fale
com ele depois.
O soldado entendeu e afastou-se.
Entã o, ela foi buscar algumas
batatas e um pedaço de carne e
levou tudo para o amigo, insistindo
para que ele comesse e depois

269
Flor do Pântano Patrícia Potter

dormisse. Quando Connor


finalmente adormeceu na sombra
da á rvore, ela também se deitou e
logo dormia, exausta.
O coronel Marion observava os
dois, divertido.
— Parece que Connor foi adotado
— comentou com Peter Horry. —
Sabe alguma coisa sobre o garoto?
— Nada além do que Connor lhe
contou. O rapaz nã o disse uma
palavra no caminho até aqui.
— Nã o sei o que é, mas existe algo
estranho naquele jovem. Algo que

270
Flor do Pântano Patrícia Potter

nã o encaixa. Fique de olho nele,


Peter. E peça a Billy James para
fazer o mesmo. Sã o quase da
mesma idade.
— Certo, Francis. Eu nã o queria
trazê-lo, mas Connor insistiu e se
nã o trouxéssemos o garoto, talvez
ele nã o viesse também.
Marion suspirou.
— Connor já passou maus
bocados na vida, mas tem uma
ó tima intuiçã o sobre as pessoas.
Confio em seu julgamento.
— Nã o creio que o rapaz vá causar

271
Flor do Pântano Patrícia Potter

problemas, mas Connor vai.


— Como assim? — Marion
perguntou intrigado.
— Meteu na cabeça que tem de
matar Robert Chatham. Nã o sei se
você vai poder mantê-lo sob
controle.
O rosto do coronel endureceu e
seus olhos brilharam de
contrariedade.
— Vai ter que se esquecer disso,
se quiser ficar comigo. Nã o nos
envolvemos em brigas pessoais.
Nem mesmo por Connor.

272
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha acordou a certa altura


da tarde e observou ou arredores.
Sentia-se mais livre que nunca e
achara delicioso montar sem estar
apertada em corpetes, saias e
aná guas que a haviam torturado
desde que era uma garotinha.
Levantou-se do chã o e viu os
homens dormindo, espalhados pelo
chã o. Procurou algum que estivesse
acordado, mas nã o encontrou.
Francis Marion lutava durante a
noite e dormia durante o dia.
Aquele era um mundo estranho e

273
Flor do Pântano Patrícia Potter

ela passara a fazer parte dele.


Caminhou silenciosamente para o
curral rú stico onde estava
Sundance. Ao vê-la, separou-se dos
outros cavalos e foi ao encontro da
dona, esperando ganhar uma maçã .
Samantha acariciou-a
murmurando desculpas e abriu a
porteira para deixá -la sair. Logo
depois guiava a égua através da
clareira e para dentro da floresta
em busca de uma lagoa, que ouvira
os homens mencionarem. Nã o
demorou a encontrá -la. A á gua

274
Flor do Pântano Patrícia Potter

tranqü ila parecia negra à sombra


das á rvores e nela flutuavam
jacintos aquá ticos e lírios do
pâ ntano. De vez em quando um
raio de sol infiltrava-se através da
espessa folhagem e caía sobre a
á gua, fazendo-a brilhar.
Enquanto o animal bebia,
Samantha começou a pensar em
sua nova e estranhíssima situaçã o.
Alcançara o objetivo desejado, mas
sentia-se confusa ao pensar no que
viria a seguir. "Atirar num homem
nã o é o mesmo que atirar num

275
Flor do Pântano Patrícia Potter

coelho", o coronel Marion dissera.


Ela nunca matara um coelho nem
outro animal qualquer. Seus alvos
sempre haviam sido objetos
inanimados, como toras de
madeira, garrafas vazias e tá buas
onde marcava o local a ser atingido.
Quando fizera os planos, apenas
pensara em escapar a tirania do pai
e à s atençõ es de um pretendente
antipá tico, sem pesar as
conseqü ências. Em seus devaneios,
vira-se cavalgando e correndo
livremente, participando de uma

276
Flor do Pântano Patrícia Potter

aventura, nunca tirando a vida de


um ser humano.
Também nã o sonhara em
encontrar Connor O'Neill e sentir-
se tã o atraída por ele. Julgara que
seu coraçã o secara para sempre
com a morte de Brendan, mas do
seu íntimo ressequido surgiam as
sementes de um sentimento suave
e terno. Todavia, nã o existia
esperança para o florescer de algo
profundo, porque Connor lhe
viraria as costas assim que
descobrisse quem ela era. De

277
Flor do Pântano Patrícia Potter

qualquer modo, estremecia só em


pensar nele. Como pudera
envolver-se tã o depressa?
— E uma linda égua.
Ela assustou-se. Nã o ouvira som
de passos e virou-se rapidamente
para ver quem fizera o comentá rio.
— E, sim — respondeu apenas
para o garoto que a fitava. O
rapazinho nã o podia ter mais de
catorze anos e quase desaparecia
no meio dos calçõ es fofos, da
camisa de algodã o e das botas
altas.

278
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Sou Billy James — o menino


explicou. — Vi você vindo para cá e
pensei que pudesse se perder.
Ele estendeu a mã o, que ela
apertou depois de alguma
hesitaçã o. Nã o podia permitir-se
fazer amizade com ninguém,
evitando cometer erros. Voltou a
olhar para a á gua, dando a
entender que desejava ficar
sozinha.
Billy ignorou a grosseria e sentou-
se no chã o.
— Este é um lugar muito bonito,

279
Flor do Pântano Patrícia Potter

nã o é? Costumo vir aqui para


pensar.
— E um bom lugar para quem
deseja ficar sozinho — ela
respondeu, seca.
O garoto franziu a testa diante da
indireta, mas continuou sentado,
olhando o novo companheiro com
aberta curiosidade. O coronel
Marion ordenara-lhe que travasse
amizade com Sam e mantivesse
discreta vigilâ ncia sobre ele, mas
seria uma tarefa mais difícil do que
imaginara.

280
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Nunca vi um cavalo seguir uma


pessoa sem ser puxado, como
fazem os cã es — disse para
quebrar o silêncio.
Samantha suspirou de desagrado,
ignorando o comentá rio.
— Gostaria de ser seu amigo —-
atacou Billy, esperançoso.
— Nã o quero amigos. Quero ficar
sozinho,
As palavras de rejeiçã o
contrariavam o que ela sentia por
dentro. Só Deus sabia como tinha
necessidade de um amigo. Olhou

281
Flor do Pântano Patrícia Potter

para o garoto e nã o pô de disfarçar


a solidã o que lhe transparecia nos
olhos azuis. Foi apenas um breve
lampejo, mas Billy percebeu-o.
— Nó s, os mais jovens do
regimento, cuidamos uns dos
outros — explicou sem irritaçã o,
temendo estragar aquela tênue
promessa de comunicaçã o entre os
dois.
Instantaneamente, Samantha
ficou alerta. Fora imprudente e
deixara que o menino percebesse
seus sentimentos.

282
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Estou acostumado à solidã o —


disse devagar. — E gosto dela.
Billy balançou a cabeça,
concordando.
— Está bem, mas se precisar de
alguma coisa é só me pedir.
Ela fez um gesto breve com a mã o,
mas os olhos já estavam frios
novamente.
O rapazinho levantou-se e ela
ficou olhando seu vulto engraçado
desaparecer no meio das á rvores.
Um menino brincando de soldado.
Suspirou, desalentada,

283
Flor do Pântano Patrícia Potter

perguntando em que espécie de


confusã o se metera.
Connor foi despertado por um dos
homens, quando a tarde já ia bem
avançada. O ferreiro chegara.
O aro que lhe aprisionava o
tornozelo enferrujara e o homem
levou mais de uma hora limando e
martelando para conseguir soltar o
fecho sem machucar a perna de
Connor. Mesmo assim, cada golpe
era uma tortura, porque o metal
batia contra a carne ferida,
causando dores horríveis. Porém,

284
Flor do Pântano Patrícia Potter

quando a argola soltou-se, Connor


descobriu que valera a pena sofrer.
Estava livre da marca do poder dos
ingleses, livre para a vingança.
Com quanto seu ferimento ainda
doesse, ele já era capaz de
movimentar-se muito melhor que
no dia anterior. Caminhou pela
clareira por alguns minutos,
gozando a plena liberdade, que
aprendera a prezar como o bem
mais precioso da vida. Depois,
sentou-se sob a á rvore, no cobertor
que lhe servira de leito, amarrou o

285
Flor do Pântano Patrícia Potter

tornozelo ferido e calçou as botas


dadas por Marion. Precisava
barbear-se para poder sentir-se
completamente humano outra vez.
Olhando-se num pequeno
espelho, considerou o rosto que
nem parecia o seu. A barba
crescera consideravelmente e era
do mesmo tom claro dos cabelos.
As faces mostravam-se encovadas e
havia novas linhas ao redor dos
olhos, que também pareciam
diferentes. Os olhos cinzentos,
antes sempre calmos e ternos,

286
Flor do Pântano Patrícia Potter

exibiam dureza e fria


determinaçã o.
Com uma navalha emprestada por
Peter, rapidamente raspou o rosto e
depois voltou a examinar as faces
detidamente no espelho. A pele
estava fina e pá lida, mas as feiçõ es
haviam adquirido nova firmeza,
como se refletissem os novos
traços de sua personalidade,
nascidos do ó dio e do desejo de
retaliaçã o. Qualquer meditaçã o
sobre as mudanças operadas em
seu íntimo seria inú til. Jamais

287
Flor do Pântano Patrícia Potter

voltaria a ser o mesmo Connor e


tudo o que tinha que fazer era
preparar-se para um futuro
diferente do que idealizara.
Acabava de passar a navalha uma
segunda vez pelo rosto, quando
Marion juntou-se a ele.
— Melhorou bastante, Connor.
— Nunca pensei que fazer a barba
desse tanto prazer. O coronel riu.
— Foi bom ter você de volta. Eu...
senti sua falta.
— Obrigado. Eu também. Marion,
entã o, ficou sério.

288
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Gostaria de falar sobre aquele


rapaz... Sam. Connor olhou-o
preocupado.
— Sim? O que há com ele?
— O que sabe a respeito dele?
O outro ficou pensativo,
admitindo que nada sabia sobre o
garoto que lhe salvara a vida. Sam
Taylor falara muito pouco sobre si
mesmo.
— Nã o muito — confessou. — Só
sei que se ele nã o aparecesse eu
estaria morto, agora. Dividiu seu
alimento comigo e levou horas

289
Flor do Pântano Patrícia Potter

tentando me lavar sem me causar


dores. — Sorriu. — Apesar de que
me esfregou com uma força que me
fez a pele arder.
Parou de falar e olhou para o rosto
fechado do coronel.
— Por que, Francis? Acha que
pode ser um espiã o do lado inglês?
Se fosse, teria me entregado. Existe
uma recompensa prometida para
quem me pegar,
— Nã o — Marion respondeu,
confuso. — Nã o é isso. Mas gostaria
de saber um pouco mais sobre ele.

290
Flor do Pântano Patrícia Potter

— O garoto é do tipo calado, mas


tentarei descobrir mais detalhes.
O coronel fez uma longa pausa,
como se escolhesse as palavras que
diria a seguir.
— Há mais uma coisa que gostaria
de discutir com você, mas penso
que devíamos procurar um lugar
discreto.
Sem acrescentar mais nada,
ajudou o amigo a levantar-se e
tomou o caminho do bosque.
Samantha ficou sentada à beira da
lagoa durante horas, deixando

291
Flor do Pântano Patrícia Potter

Sundance tosar o capim até fartar-


se. Quanto mais tempo ficasse
longe dos outros, mais evitaria
perguntas embaraçosas. Aos
poucos, deixou que a imaginaçã o
inventasse uma histó ria
completamente diferente da sua.
Até divertiu-se, criando pessoas
agradáveis, um pai que a amava e
um estilo de vida com o qual
sempre sonhara. A histó ria de Sam
Taylor delineou-se vagarosamente,
detalhada e convincente. Seu pai
era um inglês que fora para a

292
Flor do Pântano Patrícia Potter

América atrá s de riqueza, um


homem bom e trabalhador que
fazia o filho participar de tudo. Os
dias felizes haviam terminado com
a chegada dos casacas-vermelhas e
o extermínio da família.
Finalmente, dando-se por
satisfeita, deixou aquele recanto
adorável e voltou para o
acampamento. Depois de colocar
Sundance no curral, foi procurar
algo para comer.
De repente, enquanto caminhava
para o carroçã o que servia de

293
Flor do Pântano Patrícia Potter

despensa, ouviu as vozes de Marion


e Connor vindas de algum lugar
pró ximo, escondido entre as
á rvores. Parou.
— Nã o quero que persiga os
Chatham — o coronel dizia. —
Temos coisas mais importantes a
fazer. Se cada homem estivesse
aqui apenas para acertar diferenças
pessoais, nã o faríamos mais nada.
Um dia, todos nó s teremos de viver
juntos novamente, sejamos whig ou
tory. Se nos confrontar de maneira
limpa, no campo de batalha, isso

294
Flor do Pântano Patrícia Potter

será possível, mas se lesarmos


nossos compatriotas, matando suas
famílias e incendiando suas casas, o
ó dio nunca será esquecido e nã o
haverá convivência pacífica, que é o
que desejamos para o nosso país.
— Acha que eu poderei conviver
pacificamente com os Chatham, ou
eles comigo, depois de tudo o que
houve? — Connor perguntou com a
voz cheia de raiva.
— Isso é algo que apenas você
pode decidir. Temos ordens para
destruir estradas e impedir a

295
Flor do Pântano Patrícia Potter

comunicaçã o entre os grupos


inimigos. Isso manterá os ingleses
ocupados demais aqui no Sul,
evitando que cheguem ao Norte.
Somos menos de cem e nã o
podemos nos arriscar a perder um
homem sequer. Fique com nosso
regimento, Connor. Precisamos de
você.
Houve um longo silêncio até que
Connor respondesse.
— Está bem. Ficarei... por
enquanto. Mas a cada vez que
sairmos para lutar, rezarei para

296
Flor do Pântano Patrícia Potter

encontrar Chatham entre os


inimigos. E, entã o, juro que nada o
salvará .
— Nã o posso censurá -lo.
— Francis... — o outro começou,
hesitante. — Tem tido notícias da
filha de Robert Chatham?
A voz do coronel soou á spera ao
responder a pergunta.
— Por quê? Está pretendendo
vingar-se nela?
— Só quero saber o que foi feito
dela.
— Parece-me que foi para o Norte,

297
Flor do Pântano Patrícia Potter

tomar conta de uma parente


doente. Hector, o rapaz que me
trouxe o recado de que você tinha
sido encontrado, é escravo de
Chatham. Foi ele quem me falou da
srta. Samantha.
— Ela se casou?
— Nã o, mas ouvi rumores de que
ia casar-se com um dos oficiais de
Tarleton.
— Nã o demorou muito a esquecer
meu irmã o, nã o é verdade? —
Connor disse, entre irado e
desgostoso.

298
Flor do Pântano Patrícia Potter

Marion, ignorando o fato de que


Samantha era uma das principais
fontes de informaçã o de Hector,
calou-se.
Sentindo-se mal com o que ouvira,
ela tornou a enveredar pelo bosque
e, em certo ponto, deixou-se cair no
chã o, cheia de angú stia. Ficou
escondida até que as sombras da
noite caíram sobre o acampamento
e a fome abrigou-a a voltar para o
meio dos outros.
As fogueiras estavam acesas e o ar
recendia com o cheiro de batatas-

299
Flor do Pântano Patrícia Potter

doces assadas nas brasas. Pensou


nas mesas fartas da fazenda do pai,
cheias de presunto, vegetais
passados na manteiga, pã es
frescos e tortas dos mais variados
tipos, mas afastou os pensamentos,
considerando-os uma traiçã o..
Tudo aquilo pertencia a um mundo
de ambiçã o desmedida e crimes,
um mundo a que pertenciam
homens como seu pai e o coronel
Foxworth, dos quais felizmente se
livrara.
Quando se aproximava

300
Flor do Pântano Patrícia Potter

timidamente de uma das fogueiras


para pegar batatas, o som de um
violino lamurioso cortou o ar
tranqü ilo e um dos soldados
começou a cantar.
Aos poucos, a clareira foi
ganhando vida com as palmas
ritmadas, gritos e cantos
desafinados, e até Samantha, na
depressã o em que se encontrava,
acabou sorrindo. Sentada com as
costas apoiadas num tronco de
á rvore, mordiscava o alimento
quente demais para ser comido

301
Flor do Pântano Patrícia Potter

depressa,
Entã o, o violinista começou a
tocar mú sica de dança e vá rios
homens nã o resistiram, pondo-se a
rodopiar e a bater com os pés no
chã o, em animada quadrilha. No
meio da alegria e do clima de
camaradagem, Samantha pensou
que nunca se sentira tã o só .
Connor chegou perto de Sam,
atravessando o tumulto do baile
improvisado, e ficou atô nito com a
hostilidade que viu nos grandes
olhos azuis. Chegara a pensar que

302
Flor do Pântano Patrícia Potter

poderiam ficar amigos, depois da


solicitude mostrada pelo rapaz,
mas enganara-se.
Tudo em Sam era estranho. Fora
diligente em livrar Connor da
sujeira, mas até aquele momento
ele pró prio nã o se banhara. O rosto
miú do estava sujo, o que acentuava
a dureza da expressã o amuada. A
generosidade que ele adivinhara
nos atos do garoto desaparecera
atrá s do olhar desconfiado e hostil.
Intimamente, Connor desculpou-
o, achando que devia ser muito

303
Flor do Pântano Patrícia Potter

difícil para alguém tã o jovem


manter uma atitude de
independência e autoconfiança e
que momentos de tristeza eram
normais em tais circunstâ ncias.
Compreensivo, por causa de sua
natureza amorosa e pacífica, nã o
iria revidar a frieza de Sam na
mesma moeda. Natureza amorosa e
pacífica. Sim, até o ó dio nascer
como planta venenosa em seu
coraçã o. Mesmo no começo da
guerra, nunca agira com ó dio,
simplesmente lutando com um

304
Flor do Pântano Patrícia Potter

profundo senso de dever, ficando


triste com tanta violência,
lamentando que a liberdade de um
povo devesse ser paga com sangue.
Fora um guerreiro relutante. Mas
tudo mudara depois da morte de
Brendan, quando ele sentira, pela
primeira vez, o desejo de fazer
justiça com as pró prias mã os.
Pensou em Marion e no que o
povo diria se soubesse que o chefe
dos rebeldes, um mestre na arte e
estratégia, era no fundo um
pacifista. Como amigos, haviam

305
Flor do Pântano Patrícia Potter

trocado confidências e Connor


descobriu que o maior sonho do
coronel era ver a guerra terminada
para que ele pudesse voltar à vida
tranqü ila de fazendeiro. Lutava
pela justiça e pela liberdade, mas,
como dissera naquela tarde, nã o
devia haver ó dio entre homens que
seriam vizinhos quando a paz fosse
restabelecida.
Seus pensamentos voltaram para
Sam. O rapaz era um triste produto
da guerra como tantos outros
garotos mais novos ainda, de onze,

306
Flor do Pântano Patrícia Potter

doze anos, que já eram soldados.


Alguns daqueles meninos corriam
para um objetivo, enquanto outros
fugiam de alguma coisa. Connor
imaginou qual seria o caso de Sam.
Determinado a quebrar o gelo,
sorriu de leve, procurando um
assunto bem impessoal que nã o
fizesse o rapaz retrair-se.
— Sabe usar uma pistola? —
perguntou.
— Nunca tive uma.
Surpreso ao ver que Sam admitia
uma desvantagem, Connor

307
Flor do Pântano Patrícia Potter

reprimiu um sorriso.
— Entã o, amanhã , vou lhe ensinar.
— Ó timo — o garoto respondeu
sem sorrir. — Você está com boa
aparência — comentou, ainda
distante.
— Graças a você, meu amigo.
— Nã o sou seu amigo!
Nã o foi mais possível refrear a
vontade de sorrir. A voz beligerante
nã o combinava com a expressã o
solene dos olhos que o fitavam sem
pestanejar.
— Mas eu sou amigo, Sam. Até

308
Flor do Pântano Patrícia Potter

amanhã . Afastou-se antes que o


garoto pudesse protestar.

CAPÍTULO VI

O acampamento fervilhava de
atividade na noite fechada. As
fogueiras haviam sido extintas e os
homens ocupavam-se em verificar
os rifles, espadas e sacos de
pó lvora, à luz de lampiõ es. Os
novos companheiros de Samantha
moviam-se em silêncio e com

309
Flor do Pântano Patrícia Potter

eficiência, falando o mínimo


indispensável e em voz baixa.
Ela continuava sentada embaixo
da á rvore, olhando fascinada para a
cena que parecia saída do livro de
Robin Hood, mal acreditando que
fazia parte daquilo tudo.
Subitamente, alguém chamou-a,
quebrando o encanto.
— Sam... Sam Taylor!
Ela olhou para cima e deparou-se
com Francis Marion. O homem de
baixa estatura de repente
assemelhava-se a um gigante,

310
Flor do Pântano Patrícia Potter

cercado por uma aura de poder que


a amedrontou. O homem era como
um tigre, tenso e alerta, na hora de
atacar. Devia ser terrível tê-lo como
inimigo.
Ele entã o sorriu e Samantha
percebeu que sua imaginaçã o lhe
pregara uma peça, levando-a a
estremecer de medo diante do
homem que era o chefe dos
rebeldes patriotas. Estava mais
abalada do que desejava admitir:
solitá ria, longe de casa, numa
floresta estranha e no meio de

311
Flor do Pântano Patrícia Potter

homens armados.
— Fique aqui, Sam, e cuide de
Connor para nó s — ele disse. —
Billy James o ajudará se for preciso.
Ela quis objetar. Nã o queria ficar
sozinha com Connor temendo
encorajar uma familiaridade que
nã o desejava entre eles. Mas os
olhos de Marion estavam sérios e,
temerosa, ela baixou a cabeça em
obediência.
— Estaremos de volta ao
amanhecer — o coronel prometeu.
Tã o repentinamente como surgira,

312
Flor do Pântano Patrícia Potter

o homem desapareceu entre os


outros soldados que pareciam
sombras e o grupo todo enveredou
pela floresta. Logo depois, só se
ouvia um ú nico ruído, produzido
por milhares de grilos e pelo coaxar
rouco das rã s. O vento soprava nas
copas das á rvores e os cordõ es de
musgo balançavam-se como dedos
ameaçadores tentando agarrar
quem passasse por baixo dos
ciprestes.
Os sons da floresta tornaram-se
assustadores e Samantha ergueu-se

313
Flor do Pântano Patrícia Potter

de um salto quando uma coruja


piou num galho pró ximo. No mato
rasteiro, ela podia ouvir o rastejar
de criaturas invisíveis. Entã o, as
ordens de Marion voltaram à sua
lembrança e a moça resolveu segui-
las, aliviada.
Encontrou o lugar onde Connor
dormia placidamente. Com muita
delicadeza, tocou-lhe a testa com a
ponta dos dedos. Nã o havia febre.
Satisfeita, ficou olhando para o
rosto banhado pelo luar. Voltara a
ser belo como antigamente, sem a

314
Flor do Pântano Patrícia Potter

barba maltratada e suja. As feiçõ es


eram bem definidas, desde o nariz
reto e a boca bem desenhada, até o
queixo forte e revelador de uma
personalidade íntegra e
voluntariosa.
O rosto demonstrava força, mas
também humor e carinho. Se ela
nã o soubesse, nã o poderia
adivinhar que aquele homem
guardava dentro de si um ó dio
imenso.
A despeito de tudo o que decidira,
nã o desejava sair de perto dele. Foi

315
Flor do Pântano Patrícia Potter

buscar seu cobertor e deitou-se a


alguns metros do companheiro,
onde ouviria se ele chamasse,
ficando longe o bastante para nã o
sentir a perturbaçã o que a
dominava quando estavam muito
pró ximos.
Fechando os olhos, passou a
imaginar um mundo onde nã o
havia nem ó dio nem dor.
Connor despertou muito cedo na
manhã seguinte, com a chegada de
Marion e seus soldados de mais
uma bem-sucedida excursã o. Ficou

316
Flor do Pântano Patrícia Potter

surpreso ao ver Sam deitado ali


perto, depois da hostilidade
demonstrada na noite anterior. Um
leve sorriso aflorou-lhe aos lá bios,
quando ele percebeu que fora o
medo da noite e seus mistérios que
levara o garoto a procurar sua
companhia.
O rosto sujo do jovenzinho tinha
expressã o serena e inocente,
apelando para o instinto de
proteçã o do homem mais velho.

Cumprindo o que prometera,

317
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor passou a manhã ensinando


Sam a atirar com pistola e contou-
lhe que o ataque de Marion daquela
noite, a uma base inimiga, suprira o
acampamento com boas armas
inglesas e bastante pó lvora. Iam
ficar com a pó lvora, mas trocariam
os mosquetes por cobertores, com
outro coronel rebelde, Thomas
Sumter.
Connor mostrou a Samantha
como medir corretamente a carga
de pó lvora e colocá -la na pistola e
depois ficou observando enquanto

318
Flor do Pântano Patrícia Potter

ela tentava sozinha. Compreendia


as explicaçõ es com facilidade e
aplicou a técnica perfeitamente, o
que fez Connor sorrir. Por fim, ele
apontou para um alvo e ela mirou,
puxando o gatilho bem devagar,
como ele ensinara. Uma expressã o
de desapontamento e vergonha
passou pelo rosto dela quando a
bala passou longe do alvo.
— Nã o se esqueça, Sam, de que
uma pistola nã o é um rifle. Nã o tem
a mesma precisã o, e o atirador
precisa compensar essa falha. Faça

319
Flor do Pântano Patrícia Potter

de conta que só tem uma baia e


precisa desesperadamente acertar.
Nã o a desperdice, ficando longe
demais do alvo. Vamos, tente de
novo!
Connor nã o perdeu a paciência
nem uma vez e intimamente até
aplaudiu o rapaz que mostrava
tanta habilidade em lidar com
armas. Sam já aprendera a avaliar a
distâ ncia que lhe permitira matar
alguém ou simplesmente passar
raspando pelo alvo tornando-se
apto a defender-se,

320
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Muito bem, Sam. Estou


orgulhoso de você — finalizou. Ela
sabia que aquele era um grande
elogio e nã o pô de deixar de sorrir
de contentamento. Subitamente,
Connor foi atingido pelo brilho dos
olhos azuis e sentiu uma punhalada
de dor e saudade. Os olhos de Sam
lembravam os de Brendan. Seu
rosto anuviou-se e os lá bios se
estreitaram. Talvez nã o fosse
recomendável apegar-se demais ao
garoto. Nã o suportaria perder
outra pessoa querida? No entanto,

321
Flor do Pântano Patrícia Potter

havia algo naquele rapaz franzino


que o fazia desejar cuidar dele com
carinho. Devia-lhe gratidã o,
naturalmente, mas nã o era só isso.
Precisava gostar de alguém para
sentir-se vivo.
Nas semanas seguintes ninguém
teve tempo para pensar em
ninguém. Marion ordenara a
mudança do acampamento, uma
tá tica que usava para confundir os
ingleses. Mudava o regimento de
lugar com bastante freqü ência,
deixando armadilhas preparadas

322
Flor do Pântano Patrícia Potter

nos acampamentos abandonados.


Eram armadilhas pró prias para
apanhar animais, e se durante uma
inspeçã o posterior fosse
descoberto que uma delas
funcionara, o lugar nã o voltava a
ser usado, pois fora descoberto.
Servindo na milícia, Connor
alcançara a patente de major e
Marion restabeleceu-a, elevando o
amigo à posiçã o de um de seus
mais importantes colaboradores.
Samantha, com seu jeito especial
para lidar com cavalos, fora

323
Flor do Pântano Patrícia Potter

encarregada de cuidar dos animais,


o que a deixara bastante feliz. Podia
ser ú til e ocupar-se o dia todo,
ficando longe de Connor. Qualquer
dú vida que Marion tivesse quanto à
sua capacidade foi dissipada pela
eficiência e entusiasmo com que
ela executava suas tarefas.
À s vezes passavam-se dias sem
que a moça visse Connor a nã o ser
rapidamente. Ela continuava a
manter-se fechada e refratá ria a
contatos amigáveis e sua principal
distraçã o era desaparecer com

324
Flor do Pântano Patrícia Potter

Sundance nas horas de folga.


Ninguém mais se preocupava com
ela, achando que seu desejo de
solidã o devia ser respeitado. Era
competente no que fazia e isso
bastava.
O mês de novembro chegou e
Samantha foi obrigada a dividir
uma barraca com Billy James
quando as chuvas da época
começaram a cair. Tornara-se
polida ao tratar com o garoto, mas
evitava longas conversas e deu-se
por satisfeita quando compreendeu

325
Flor do Pântano Patrícia Potter

que Billy passara a aceitá -la como


era, nunca sendo indiscreto.
A rotina repetia-se quase sempre.
Quando havia um ataque, Marion e
os soldados partiam assim que
escurecia e voltavam ao amanhecer
trazendo suprimentos tirados dos
ingleses e às vezes patriotas
resgatados das prisõ es inimigas.
Alguns desses homens ficavam por
algum tempo no acampamento,
mas outros tratavam de voltar
depressa para suas casas. Quando
nã o havia ataques, todos cantavam

326
Flor do Pântano Patrícia Potter

e dançavam ao som do violino,


contavam histó rias e jogavam
cartas.
Samantha sentia-se cada vez mais
à vontade em sua nova vida, apenas
ressentindo-se por ser obrigada a
ficar longe de Connor, temendo que
ele descobrisse seu segredo. De
qualquer forma, nã o tinham muitas
oportunidades de se verem depois
que Marion escalou o major
Connor O'Neill para ser seu contato
junto ao exército do general
Greene, na Carolina do Norte, o que

327
Flor do Pântano Patrícia Potter

o obrigava a constantes viagens.


Aquelas ausências eram penosas
para ela. Apesar de manter
distâ ncia, sentia-se atraída por ele
por alguma inexplicável
necessidade.
No começo de setembro, as ruas
das cidades e vilas ocupadas pelos
ingleses haviam começado a exibir
cartazes onde uma recompensa de
mil guinés era oferecida a quem
desse informaçõ es valiosas para a
captura de Francis Marion, chefe da
milícia rebelde. Menos de uma

328
Flor do Pântano Patrícia Potter

semana depois os cartazes haviam


sido substituídos por outros, que
ofereciam mil dó lares americanos a
quem levasse os rebeldes à prisã o
de "um certo Charles Cornwalls,
que se intitula general das tropas
estrangeiras que se atreveram a
pisar no solo sagrado da Carolina
do Sul". Os cartazes eram assinado
por Francis Marion.
Furioso com o gesto atrevido do
chefe rebelde, Cornwalls formara
uma guarda pessoal que nã o o
deixava nunca e prometeu

329
Flor do Pântano Patrícia Potter

recompensas para quem


entregasse qualquer homem sob o
comando de Marion. A recompensa
oferecida pela prisã o de Connor era
de setecentos guinés de ouro e
Samantha passou a viver
aterrorizada com a idéia de que ele
fosse preso em uma de suas
viagens solitá rias.
O coraçã o de Samantha exultou de
alegria quando ela viu Connor
entrar no acampamento no
primeiro dia de dezembro. Ele
estivera fora durante quase duas

330
Flor do Pântano Patrícia Potter

semanas. Ela percebeu que os olhos


cinzentos procuravam alguém no
agrupamento que se formara em
volta dele. Ao vê-la, sorriu, mas
Samantha desmanchou o pró prio
sorriso, recolocando no rosto a
má scara de indiferença. Connor
pareceu nã o se incomodar com a
mudança de atitude, porque, ainda
montado, foi direto até ela.
Desmontou com calma,
examinando a figurinha
desalinhada à sua frente.
— Trouxe um presente para você,

331
Flor do Pântano Patrícia Potter

Sam. Ela mudou a posiçã o dos pés,


inquieta.
— Pensei que você nã o voltaria
— disse por fim. Ele deu um sorriso
largo.
— Entã o sentiu minha falta!
— Eu nã o disse isso.
— Pegue. — Jogou um pacote para
ela, — Falo com você depois.
Preciso ver Francis, agora.
Ela olhou desconfiada para o
pacote.
— Nã o precisava se incomodar.
Ele, porém, nã o deixou de

332
Flor do Pântano Patrícia Potter

perceber o modo como o pacote foi


apertado contra o peito.
— Nã o foi incomodo, Sam. Foi um
prazer, mas se isso o deixa mais
tranqü ilo, comprei isso aí para nó s
dois.
Em seguida, ele foi em direçã o à
barraca de Marion, de onde os dois
homens saíram um pouco depois
para entrarem pelo bosque.
Samantha continuava a olhar para
o pacote até que finalmente
escondeu-se num aglomerado de
moitas para abri-lo longe de olhos

333
Flor do Pântano Patrícia Potter

curiosos. Nã o pô de deixar de soltar


uma risadinha quando viu o
conteú do: dois livros de
alfabetizaçã o. Certamente Connor
achara que ela nã o sabia ler e
resolvera-se a ensiná -la. Tã o
irô nico! Ensinar a ler a quem
sempre fora um verdadeiro rato de
biblioteca, sempre procurando algo
entre os livros do pai, que possuía
uma das maiores coleçõ es de
clá ssicos e obras atuais de toda a
colô nia! Livros, revistas, jornais,
nada escapava à sua mente sedenta

334
Flor do Pântano Patrícia Potter

de conhecimento.
Parou de rir quando pensou em
como lidaria com aquela situaçã o.
Um garoto envolvido nas
conseqü ências de uma longa
guerra e ainda por cima ficando
ó rfã o, logicamente nã o teria
freqü entado a escola. O raciocínio
de Connor fora correto. Mas como
faria para fingir estar aprendendo,
sem parecer inteligente demais?
— Inferno! — exclamou sem
pensar.
Assustou-se com a palavra,

335
Flor do Pântano Patrícia Potter

totalmente inadequada para uma


moça fina e educada. Estava
começando a assimilar os modos e
jeito de falar dos companheiros.
Nunca, em toda a sua vida,
praguejara. O absurdo da situaçã o
envolveu-a de repente e ela soltou
uma risada totalmente desinibida.
E o som daquele riso orientou
Connor em sua busca. Encontrou-a
no meio das touceiras e ficou
parado à sua frente com uma
expressã o espantada. Nunca ouvira
o jovem rir e ficou esperando pela

336
Flor do Pântano Patrícia Potter

explicaçã o de toda aquela alegria.


— Nã o preciso de livros — Sam
declarou. — Já sei tudo o que
preciso.
Ele irritou-se,
— Eu sei que sabe lidar com
cavalos e atirar. Sei também que é
capaz de andar pelo mato como um
índio, mas isso nã o basta. Quando a
guerra acabar, o país precisará de
gente instruída. E você precisará de
um emprego decente.
— Eu sei do que preciso e nã o
quero sermõ es. Você nã o é meu pai.

337
Flor do Pântano Patrícia Potter

Os olhos dele brilharam


perigosamente. Decidira que
ajudaria aquele garoto a ser alguém
e era o que ia fazer.
— Se eu fosse seu pai, garoto, lhe
ensinaria um pouco de boas
maneiras.
Vendo a expressã o irritada no
rosto de Connor, Sam preparou-se
para fugir. Infelizmente, ele
adivinhou suas intençõ es e foi mais
rá pido. As mã os fortes agarraram
as dela, impedindo a fuga.
Samantha parou de lutar e ficou

338
Flor do Pântano Patrícia Potter

olhando para ele, assustada.


Imediatamente, ele a soltou,
arrependendo-se do descontrole.
— Os livros sã o para você, Sam.
Quero que aprenda a ler. Mas ela já
se fora, deixando-o erguer os livros
do chã o com um suspiro frustrado.
Connor dormiu durante vá rias
horas e só acordou um pouco antes
do anoitecer. Naquela noite os
homens tinham uma missã o a
cumprir. Marion recebera a
informaçã o de que um
carregamento de sal ia ser

339
Flor do Pântano Patrícia Potter

transportado e resolvera-se a
conseguir o tempero indispensável
que tanta falta fazia no
acampamento. Connor gostou da
idéia de entrar imediatamente em
atividade. Seus pensamentos
ficariam longe da família perdida e
da decepçã o que tivera com Sam.
Os homens saíram assim que a
noite caiu completamente.
Samantha e Billy James foram
deixados no acampamento, para
cuidarem dos cavalos que nã o
haviam sido usados para a

340
Flor do Pântano Patrícia Potter

excursã o daquela noite. Ela ainda


nã o acompanhara os soldados uma
ú nica vez, o que a deixava contente.
Sabia que nã o seria capaz de atirar
numa pessoa, mesmo que fosse um
casaca-vermelha ou Foxworth.

A noite estava clara e a lua


passeava no céu sem nuvens. Billy a
estava ensinando a jogar cartas,
quando uma série de assobios
anunciou a chegada de um
visitante. Pelos sinais transmitidos,
os dois souberam tratar-se de

341
Flor do Pântano Patrícia Potter

alguém de confiança, mas nã o


pertencente ao regimento. Ficaram
prontos, puxando os rifles para o
alcance das mã os.
Samantha quase gritou de alegria
quando Hector entrou a cavalo na
clareira, sorrindo para ela. O
sorriso do escravo, porém, tornou-
se impessoal quando o rapaz viu
Billy, a quem se dirigiu.
— O coronel Marion está indo
para uma emboscada — disse. —
Ouvi uma conversa do meu senhor.
O coronel Tarleton forjou a

342
Flor do Pântano Patrícia Potter

informaçã o a respeito do
carregamento de sal. Vocês têm de
ir atrá s deles.
Sem perda de tempo, evitando
perguntas inú teis, Billy
desapareceu no meio das á rvores
para ir avisar os sentinelas. Voltou
pouco depois e olhou para Sam.
— É você quem vai, Sam. Sua
égua é o animal mais rá pido de
todos e como nã o deixa que
ninguém a monte a nã o ser você,
nã o temos escolha. Eu o levarei
para fora do pâ ntano e de lá você

343
Flor do Pântano Patrícia Potter

vai atrá s de Marion. Está indo para


a fazenda de Garrison.
Ela nã o precisou que lhe
dissessem mais nada. Connor
estava em perigo, assim como
Marion, a quem ela passara a
admirar incondicionalmente.
Enfiou uma pistola no cinto e
rapidamente selou Sundance.
Quando estava pronta, Billy
passou-lhe um rifle, que ela
atravessou numa alça colocada na
frente da sela. Angustiou-se com a
marcha lenta pelo pâ ntano, mas

344
Flor do Pântano Patrícia Potter

descobriu que nã o podia ser


diferente, porque havia trechos de
areia movediça e trilhas falsas por
toda a parte.
Finalmente chegaram a terreno
firme e Billy mostrou-lhe em que
direçã o seguir. Ela partiu a galope,
lembrando-se da ú ltima vez que ela
e Sundance haviam se lançado por
uma estrada tentando evitar uma
tragédia, chegando tarde demais.
Porém, daquela vez, chegaria a
tempo.
Tinha de chegar.

345
Flor do Pântano Patrícia Potter

CAPÍTULO VII

Francis Marion, Connor O’Neill e


Peter Horry lideravam a marcha.
Francis ia um pouco à frente dos
outros, porque ninguém conhecia o
terreno traiçoeiro como ele, que
andava pelos pâ ntanos como
qualquer outra pessoa andava por
estradas firmes e bem demarcadas.
Faziam aquela excursã o com
entusiasmo, pois a meta era

346
Flor do Pântano Patrícia Potter

conseguir sal, um produto mais


importante que o ouro naquelas
circunstâ ncias. Os ingleses haviam
tomado todas as fontes produtoras
e os patriotas, além dos rebeldes,
sentiam falta do sal que lhes era
negado. Dessa forma, a captura de
alguns carroçõ es do produto
ergueria o â nimo de todos os
moradores daquela regiã o da
Carolina do Sul.
Um dos espiõ es de Marion ouvira,
em Georgetown, que um
carregamento seria encaminhado

347
Flor do Pântano Patrícia Potter

para a fazenda Garrison, cujo


proprietá rio era um tory
importante. O comboio nã o levaria
guarda muito forte, pois a
propriedade Garrison ficava um
pouco distante de Snow Island e os
ingleses sentiam-se seguros.
O regimento de Marion
acostumara-se às cavalgadas
noturnas e aventurava-se a ir cada
vez mais longe. Porém, o sal que
conseguiriam valeria todo o
esforço.
O horizonte já se tingia de

348
Flor do Pântano Patrícia Potter

dourado e rosa, anunciando a


alvorada, quando Marion e seus
homens avistaram a fazenda
Garrison. Connor aproximou-se dos
soldados que vinham logo atrá s
dizendo-lhes que ficassem ocultos
entre as á rvores até que os três do
comando dessem o sinal para o
ataque.
Os carroçõ es de sal achavam-se
alinhados à frente da casa-grande,
mas tudo estava quieto. Quieto
demais.

349
Flor do Pântano Patrícia Potter

Marion observava tudo escondido


atrá s de uma á rvore, procurando
ver algum movimento. Havia algo
errado naquela situaçã o. Embora já
estivesse quase amanhecendo, nã o
se notava nenhuma das atividades
comuns numa fazenda à quela hora.
Nem mesmo fumaça saindo por
uma chaminé denunciava que a
primeira refeiçã o começava a ser
preparada.
De repente, ele viu um rá pido
movimento atrá s de um celeiro e
distinguiu algo verde. Naquele

350
Flor do Pântano Patrícia Potter

momento, Connor voltou de uma


apressada ronda de
reconhecimento da á rea.
— O lugar está cheio de homens
de Tarleton.
— E uma cilada — confirmou
Peter Horry, voltando também.
Marion olhou para os dois homens.
— Vamos deixá -los acreditar que
caímos na armadilha — decidiu. —
Connor, leve trinta homens para
dentro do bosque. Peter, leve
outros cinqü enta e arme uma
emboscada lá embaixo, na estrada.

351
Flor do Pântano Patrícia Potter

Levarei o resto comigo e entrarei


na fazenda. Quando eu chegar
perto da casa, você, Connor, dispare
o rifle, como se estivesse atirando
num homem de Tarleton que se
antecipasse à s ordens. Meu grupo
avançará e os tories irã o atrá s,
espero. Entã o, você se adianta com
seus homens e rouba os carroçõ es,
enquanto eu e a turma de Peter, na
estrada, pegamos o inimigo.
Marion esperou vinte minutos,
dando tempo para que Peter Horry
e seus soldados preparassem a

352
Flor do Pântano Patrícia Potter

emboscada. Entã o, fingindo


completa ignorâ ncia da situaçã o,
ele avançou com seu grupo para a
casa-grande.
Um assobio discreto alertou os
tories escondidos na casa e nos
celeiros, que começaram a
preparar os mosquetes. De repente,
ouviu-se um tiro e Tarleton, vestido
de verde e postado numa janela do
primeiro andar, praguejou,
observando Marion virar
rapidamente o cavalo e internar-se
no bosque.

353
Flor do Pântano Patrícia Potter

Voltou-se para William Foxworth.


— Vou atrá s dele. Fique aqui com
dez homens, e guarde os carroçõ es.
Descubra o homem que deu aquele
tiro. Quero submetê-lo à corte
marcial.
Tarleton estava cego de ó dio e
frustraçã o e nem esperou pela
resposta de Foxworth. Seus
soldados, os dragõ es do exército
britâ nico, já se achavam montados
nos cavalos escondidos num dos
celeiros e três minutos depois, sob
o comando do coronel, partiram na

354
Flor do Pântano Patrícia Potter

perseguiçã o de Marion.
Connor assistia a tudo do seu
posto de observaçã o. Recarregara o
rifle e achava-se pronto para agir.
Sentia a impaciência dos homens
atrá s dele, mas era necessá rio que
Tarleton caísse na armadilha de
Marion antes que ele entrasse em
açã o. Observou o movimento
existente atrá s das janelas da casa,
percebendo que Tarleton deixara
uma guarda. Desejou poder saber
quantos homens havia lá dentro
para poder decidir a melhor forma

355
Flor do Pântano Patrícia Potter

de proteger-se e aos seus homens,


alvos fá ceis para os que se
escondiam na casa-grande.
Subitamente, tomou uma decisã o.
Fazendo um sinal para que três
homens desmontassem, desceu do
cavalo. Os quatro conversaram
durante alguns minutos antes de
desaparecerem entre as á rvores
tomando a direçã o da moradia.
Cuidadosamente aproximaram-se
dos fundos da casa, correndo de
á rvore em á rvore. Finalmente,
abaixando-se, rastejaram para a

356
Flor do Pântano Patrícia Potter

porta de trá s sem serem vistos.


Connor experimentou o trinco
enquanto os outros lhe davam
cobertura. A porta abriu-se e eles
entraram silenciosamente na
cozinha. Connor levou um dedo aos
lá bios, pedindo o má ximo de
silêncio e ergueu as mã os
espalmadas indicando que deviam
contar até dez antes de atacar.
Ele pró prio e mais um rebelde
subiram a escadaria. Quando a
contagem chegou a seis, estavam
no topo e espiaram o interior de

357
Flor do Pântano Patrícia Potter

um cô modo. Um oficial inglês, com


o uniforme verde dos dragõ es de
Tarleton, estava virado para uma
janela, olhando para fora, enquanto
três homens em trajes civis
postavam-se atrá s dele.
Sete... Oito... Nove... Dez!
Connor e o companheiro
entraram no quarto e, quando
ouviram barulho no andar de baixo,
engatilharam as pistolas. O ruído
ecoou no pequeno aposento e os
quatro homens de costas para eles
viraram-se de sú bito. Um deles

358
Flor do Pântano Patrícia Potter

apontava uma arma para Connor,


mas ao ver as pistolas nas mã os
dos invasores, deixou cair a sua.
— Os outros cavalheiros devem
fazer o mesmo — Connor instruiu
em voz baixa. — Já !
O oficial fulminou-o com um olhar,
mas logo todos deixavam cair as
pistolas e tiravam as espadas da
cintura, jogando-as no chã o. O ó dio
que sentiam por terem sido
apanhados tã o facilmente era
quase palpável, mas Connor nã o
perdeu o controle da situaçã o nem

359
Flor do Pântano Patrícia Potter

por um segundo. Recuou até a


porta.
— Daniel! Mick! — gritou para
baixo.
— Está tudo em ordem, aqui —
um deles respondeu. Connor olhou
para Foxworth. — Quantos homens
há na casa?
— O suficiente para que você nã o
escape — o oficial retorquiu.
— Veremos.
A seguir, Connor mandou que o
companheiro amarrasse os quatro,
mantendo os prisioneiros sob a

360
Flor do Pântano Patrícia Potter

mira da pistola. Três foram


amarrados pelos pés e pelas mã os e
uns aos outros, mas quando chegou
a vez de Foxworth, Connor
interrompeu o amigo.
— Amarre as mã os desse aí atrá s
das costas, apenas. Tenho planos
para ele.
Os olhos do oficial brilharam de
raiva.
— Eu nã o ajudaria em nada, seu
rebelde imundo!
— Você nã o tem escolha, coronel...
— Coronel William Foxworth.

361
Flor do Pântano Patrícia Potter

Nã o se esqueça do meu nome,


porque eu o mandarei enforcar,
nem que seja a ú ltima coisa que
faça nesta vida!
— Sua vida nã o será muito longa,
coronel, principalmente se nã o me
obedecer.
— Posso saber quem é você?
Connor riu sarcasticamente.
— Isso faz alguma diferença?
— Gosto de conhecer meus
inimigos.
— Connor 0'Neill, major da
milícia da Carolina do Sul. Ele nã o

362
Flor do Pântano Patrícia Potter

esperava ver o espanto que tomou


conta do rosto de Foxworth, mas o
oficial recompô s-se depressa e nã o
havia tempo para ficar tecendo
conjecturas.
Tomando um dos braços do
coronel inglês, empurrou-o para a
porta.
— Você e eu — esclareceu Connor
— vamos inspecionar a fazenda
juntos.

Foxworth quis reagir mas suas


mã os estavam firmemente

363
Flor do Pântano Patrícia Potter

amarradas atrá s das costas e os


dedos de O'Neill em seu braço
pareciam de ferro. Nã o tinha outra
opçã o além de andar ao lado do
inimigo, que amaldiçoava a cada
passo. De maneira que aquele
rebelde nojento era Connor O’Neill,
o homem que Robert Chatham
odiava com tanta violência!
Depois que os tories capturados
no andar de baixo também já
haviam sido amarrados e
amordaçados, Connor empurrou
Foxworth para fora, levando-o para

364
Flor do Pântano Patrícia Potter

um celeiro, enquanto fazia sinais


para que os rebeldes escondidos no
bosque se aproximassem. Quando
chegarem perto, Connor disse-lhes
para levarem os carroçõ es
carregados de sal. Ele e os três que
o acompanhavam encontrariam
todos os ingleses que estivessem
enfurnados por ali.
Os homens atrelaram quatro
cavalos a cada um dos carroçõ es e
logo desapareciam na estrada.
Entã o o recalcitrante Foxworth foi
levado para dentro do celeiro,

365
Flor do Pântano Patrícia Potter

empurrado por Connor e outro


rebelde, enquanto os outros dois
do grupo montavam guarda à casa.
Ao transporem a porta alta e larga
de madeira, ouviram um tiro e
Connor viu Mick cair.
Aproveitando-se da surpresa de
seu captor, Foxworth torceu o
corpo e escapou da mã o de Connor.
Rolou no chã o, deixando o
adversá rio como um alvo fá cil,
completamente exposto.
Samantha chegou à fazenda
Garrison no momento em que

366
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor levava Foxworth para o


celeiro. De onde estava, podia ver o
que ele nã o conseguia. Um
mosquete apontado para o grupo.
Viu Mick cair e o atirador, agachado
no só tã o no celeiro, pegar uma
outra arma. Sem hesitar, agarrou o
rifle e fez Sundance disparar no
galope. Perdera o medo de atirar
naquele momento em que
precisava proteger Connor do
perigo. A atençã o do tory, em cima,
no só tã o, estava presa ao homem
abaixo dele. Nã o viu o cavaleiro que

367
Flor do Pântano Patrícia Potter

se aproximava nem ouviu o tiro.


Apenas sentiu a bala que se
encravava entre suas omoplatas.
Connor virou-se e viu a figura
franzina montada na égua dourada.
Nã o pô de reprimir um sorriso
apesar da dificuldade do momento.
— Foi um tiro danado de bom —
elogiou quando Sam chegou perto.
— Mais uma vez lhe devo a vida.
Ela nã o respondeu. Sua atençã o
focalizava-se no oficial inglês
deitado no chã o. Os olhos do
homem lançavam faíscas de puro

368
Flor do Pântano Patrícia Potter

ó dio e por um instante ela pensou


ver neles um lampejo de
reconhecimento.
Fez Sundance virar e sem uma
palavra desapareceu entre as
á rvores, deixando Connor
espantado. Forçou Foxworth a
levantar-se e jogou-o para dentro
do celeiro, que abrigava seis
cavalos e o cadáver que despencara
do só tã o. Amarrou o coronel
firmemente a uma pilastra e
amordaçou-o. Pegou os cavalos
pelas rédeas e dirigiu-se para o

369
Flor do Pântano Patrícia Potter

local onde Mick, tonto, tentava se


erguer segurando um ombro que
sangrava profusamente.
— Vamos sair daqui. Mick.
Assobiando para chamar os dois
que guardavam a casa, ajudou o
companheiro ferido a montar.
Quando os dois outros apareceram,
cada um agarrou um cavalo e
montou. Puxando os cavalos sem
cavaleiros pelas rédeas, saíram
galopando pela estrada tomada
pelos carroçõ es de sal algum tempo
antes.

370
Flor do Pântano Patrícia Potter

Os grupos dos rebeldes de Marion


chegaram tarde da noite ao
acampamento. A emboscada tivera
sucesso. Tarleton, em seu
desespero para capturar Marion,
cavalgara diretamente para a cilada
e a perda dos tories fora grande,
embora o coronel conseguisse
escapar. E os arrogantes ingleses,
incapazes de seguir os inimigos,
ficaram no meio da estrada
xingando suas tropas exaustas e
jurando vingança.
Samantha estava entre os

371
Flor do Pântano Patrícia Potter

primeiros a chegar. Nunca estivera


tanto tempo em cima de uma sela e
todos os mú sculos de seu corpo
doíam. Quando desmontou,
escorregou e caiu entre as patas de
Sundance. Embaraçada, deu uma
risadinha nervosa, que logo
transformou-se numa torrente de
gargalhadas. Ela, Samantha
Chatham, filha de família
tradicional e influente, encontrava-
se deitada na poeira, no meio de
um bosque, depois de matar uma
pessoa. Billy reconheceu o riso

372
Flor do Pântano Patrícia Potter

histérico. Era o desabafo depois de


um dia especialmente amargo, a
explosã o nervosa de alguém que
matara pela primeira vez.
Reagira da mesma forma depois
que matara o primeiro inimigo.
Estendeu as mã os, agarrando as de
Sam, ajudando o companheiro a
levantar-se, admirando-se da
leveza daquele corpo.
Um dos homens, que chegara um
pouco antes de Sam, já espalhara a
histó ria daquele tiro certeiro que
salvara a vida de Connor. Já

373
Flor do Pântano Patrícia Potter

impressionado com a resistência


do jovem companheiro, que
passara praticamente vinte e
quatro horas em cima de uma sela,
Billy intimamente renovou a
promessa que fizera a si mesmo de
transformar Sam num amigo
verdadeiro.
Samantha, porém, achava-se
completamente exausta. E
preocupada. Nã o podia ter certeza,
mas achava que Foxworth a
reconhecera. E nada poderia ser
pior. Também nã o !he saía da

374
Flor do Pântano Patrícia Potter

cabeça o pensamento de que


matara uma outra pessoa sem
nenhuma hesitaçã o e sem ficar com
o mínimo vestígio de remorso.
Pensara nas palavras de Marion
sobre o ato de matar e ficara
chocada ao ter de admitir que nã o
teria coragem de atirar num coelho,
mas que agira com fria presteza ao
fazer mira sobre o homem que
ameaçava Connor. Na verdade, ela
nã o quisera matar um tory, inimigo
de sua causa, mas proteger o
homem que ocupava seus

375
Flor do Pântano Patrícia Potter

pensamentos em todos os minutos


do dia e da noite. Lutando para
compreender a si mesma e
justificar sua falta de
arrependimento, agradeceu a
presença de Billy que,
silenciosamente, lhe fazia
companhia naqueles momentos
difíceis.
Logo percebeu que nã o era a
ú nica a estar exausta. Todos
encontravam-se tã o cansados que
se arrastavam, mal podendo
mastigar as costumeiras batatas e

376
Flor do Pântano Patrícia Potter

os bolinhos de milho moído. No dia


seguinte, grupos sairiam para
caçar, pois já possuíam sal para
conservar a carne. A despeito do
cansaço, ninguém dormiu. Todos
estavam cheios de excitaçã o pela
aventura, extremamente tensos
apó s horas de violência, para
conseguirem descansar. Juntaram-
se em grupos, sentando-se ao redor
das fogueiras, para comentarem os
acontecimentos do dia, enquanto
Angus Mclntyre tocava melodias
alegres em seu violino.

377
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha pouco viu Connor


depois que ele entrou no
acampamento ao lado de Marion e
imediatamente começou a cuidar
do ferimento de Mick. Quando
acabou de fazer o curativo, ocupou-
se em cobrir os carroçõ es para
proteger o precioso produto da
chuva que poderia cair a qualquer
momento. Mais tarde, discutiu com
Marion e Peter Horry os planos
para a distribuiçã o do sal. Ficou
satisfeita em nã o precisar
conversar com ele. Nã o sabia como

378
Flor do Pântano Patrícia Potter

explicaria sua pressa em sair da


fazenda Garrison. Porém, o que
mais temia era ouvir suas palavras
de gratidã o. Ele nã o imaginava, mas
por mais que ela fizesse, jamais
poderia sanar todo o mal que seu
pai fizera à família 0'Neill, de
maneira que as palavras de
agradecimento que Connor lhe
dirigia apenas provocavam mal-
estar.
Quando ele finalmente terminou
seus afazeres e foi procurá -la,
Samantha já se recolhera na tenda

379
Flor do Pântano Patrícia Potter

que partilhava com Billy.


Na manhã seguinte, ela saiu da
barraca assim que o sol começou a
surgir, ainda tímido e frio. O
orvalho caído durante a noite
cobria tudo e o ar fresco tinha
perfume de mato e terra molhada.
Ela respirou fundo e foi em busca
de Sundance, que alimentou com
milho seco. Depois, sem colocar a
sela, montou, agarrando-se à longa
crina, que usou como rédeas para
guiar a égua até o rio. Embora
tivesse a impressã o de estar

380
Flor do Pântano Patrícia Potter

completamente só , cavalgando na
margem arenosa, sabia que as
sentinelas de Marion já haviam
percebido sua presença. Parou num
certo ponto para contemplar um
salgueiro cujos ramos longos e
pendentes caíam na superfície da
á gua que começava a cintilar com a
claridade da manhã . Na quietude
do amanhecer ela ouviu
enternecida o trinado dos pá ssaros
que esvoaçavam em busca de
alimento. A atmosfera de pureza
daquele lugar contrastava

381
Flor do Pântano Patrícia Potter

violentamente com a crueldade do


cená rio do dia anterior e ela sentiu
o gosto salgado das lá grimas ,que
começaram a escorrer por seu
rosto.
Subitamente, Marion apareceu à
sua frente. Chegara tã o
silenciosamente que ela, perdida
em sua tristeza, nã o o vira.
— Está chorando, Sam? — ele
perguntou gentilmente.
Ela apenas continuou a olhar para
ele, que, dando-lhe a mã o, ajudou-a
a descer. Sentaram-se no chã o, lado

382
Flor do Pântano Patrícia Potter

a lado.
— Você foi brilhante, ontem, Sam.
Agiu como qualquer um dos outros
homens agiria. Viu o perigo que
ameaçava um companheiro e nã o
hesitou em atirar. Nã o há motivo
para tristeza ou remorso.
Os olhos azuis pousaram no rosto
do homem, mas desviaram-se
depressa. Era como se aquele
soldado calejado tivesse o poder de
ler sua mente e ela nã o desejava
correr o risco de ver seus segredos
devassados.

383
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Está triste por haver matado


aquele tory? — ele insistiu.
— Nã o — ela replicou com
honestidade. — Ele ia matar
Connor.
Marion suspirou. Ninguém podia
deixar de perceber o apego daquele
rapaz por Connor, assim como era
impossível entender por que fugia
de uma amizade mais profunda
com o homem a quem
evidentemente era tã o afeiçoado.
— Nã o quer me dizer o que o está
perturbando, Sam?

384
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Nã o é nada, mas agradeço sua


preocupaçã o.
O coronel sentia-se confuso.
Apesar da evidente fragilidade do
rapaz, ele mostrara-se eficiente,
corajoso e forte. Portanto, Marion
nunca esperava descobrir aquela
sensibilidade, aquela delicadeza de
alma que o fazia chorar sozinho por
algo que se recusava a revelar.
Ficou preocupado, sem poder
atinar com o motivo. Uma intuiçã o
inquietante, porém, alertava-o de
que o coraçã o do rapaz abrigava

385
Flor do Pântano Patrícia Potter

mistérios que o faziam sofrer.


— Nã o sei você — o coronel
começou, mudando de assunto —
mas eu estou com fome. Alguns
homens já caçaram alguma coisa e
temos carne fresca.
Ela olhou-o com um sorriso fraco.
— Também estou faminto —
confessou. Novamente, a intuiçã o
de Marion alertou-o. A voz do
rapaz, normalmente á spera e baixa,
soara com modulaçõ es suaves de
pessoa bem-educada. Decidiu nã o
apegar-se ao pensamento. A

386
Flor do Pântano Patrícia Potter

maioria de seus homens tinha algo


a esconder e o segredo daquele
jovem nã o podia ser pior do que o
dos outros.
Caminhando juntos de volta para
o acampamento, Marion nã o pô de
deixar de admirar a maneira como
a égua docilmente acompanhava o
dono.
— Gostaria que me ensinasse a
treinar meus cavalos tã o bem como
treinou seu animal — observou
com um sorriso.
— Leva tempo e é necessá rio que

387
Flor do Pântano Patrícia Potter

haja afeiçã o.
— Acho que nã o é tã o simples
assim. Connor disse que você tem
um jeito especial para lidar com
cavalos e vejo que é verdade. Olhe,
Sam, pode ficar no acampamento
cuidando dos animais quando
sairmos em missã o, ou ir junto, o
que achar melhor.
Ela olhou para ele, sabendo que
sua perturbaçã o fora
compreendida e que Marion
desejava dizer que a aceitava
incondicionalmente e que

388
Flor do Pântano Patrícia Potter

respeitaria suas limitaçõ es.


— Obrigado, coronel.
Sentiram o cheiro de carne assada
assim que se aproximaram da
clareira. As armadilhas colocadas
durante a noite haviam apanhado
coelhos e quatis e um dos
caçadores abatera um porco-do-
mato que estava sendo limpo para
a noite, quando seria realizado um
verdadeiro banquete.
Marion esperou que Samantha
colocasse a égua no curral e os dois
entraram juntos na clareira. O

389
Flor do Pântano Patrícia Potter

coronel percebeu que Connor vinha


ao seu encontro e com um gesto
discreto indicou-lhe que se
afastasse. Por puro pressentimento,
sabia que o rapaz nã o estava
pronto para conversar com o
amigo.
Serviram-se de carne de coelho e
de papa de milho. O coronel e Sam
sentaram-se bem juntos e embora
o rapaz nã o falasse quase nada e
evitasse cuidadosamente fazer
confidências, havia uma grande
compreensã o entre eles.

390
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha tornara-se o centro das


atençõ es desde o dia anterior.
Todos sabiam de sua chegada
providencial à fazenda Garrison e
do tiro perfeito que acabara com
um tory e salvara a vida de Connor.
Mesmo aqueles que se afastavam
dela por causa de seus modos
reservados, começaram a rodeá -la
naquela manhã , cumprimentando-
a pela atuaçã o impecável. Ela
aceitava as homenagens cheia de
acanhamento e ganhou mais um
amigo por sua modéstia. Para fugir

391
Flor do Pântano Patrícia Potter

da notoriedade indesejável, foi para


a tenda e dormiu o resto do dia.

CAPÍTULO VIII

Os dois homens encararam-se


com fú ria no escuro gabinete de
paredes forradas de mogno de
Robert Chatham.
— Eu quero saber onde ela está !
—Foxworth exigiu com rispidez.
— Nã o vou lhe dizer mais nada!
Você nã o tem o direito de fazer

392
Flor do Pântano Patrícia Potter

perguntas!
Chatham ficava mais furioso à
medida que Foxworth insistia sem
cessar em interrogá -lo com
arrogâ ncia. Nã o tinha a mínima
idéia de onde sua filha estava.
Fizera tudo o que fora possível para
descobrir seu paradeiro, sem
resultado.
— Você me disse, Chatham, que
ela foi para a casa de parentes
cuidar de uma tia doente, mas nã o
estou acreditando nessa histó ria.
Por que Samantha nã o dá notícias?

393
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Ela quis ir embora para refletir


em paz antes do casamento. Pediu-
me para nã o revelar o lugar a
ninguém.
— Nem ao seu prometido? Ao
homem que vai ser seu marido?
Desculpe, Chatham, mas nã o
acredito em você.
A raiva do pai de Samantha
aumentou.
— Se quer saber, penso que você
foi o motivo principal da retirada
de minha filha para um lugar
tranqü ilo. E estou começando a

394
Flor do Pântano Patrícia Potter

entender por que ela precisou de


tempo para tomar uma decisã o
sobre o casamento.
Foxworth fitou Robert Chatham
com olhos faiscantes.
— Desconfio de que você nã o
sabe onde sua filha está . Na
verdade, acho que sei mais que
você.
O coronel viu o involuntá rio olhar
de espanto que o outro lhe lançou,
mas era difícil acreditar que
Chatham ignorava o paradeiro de
Samantha. Pensou no dia anterior,

395
Flor do Pântano Patrícia Potter

quando tivera a impressã o de


reconhecer a moça nos trajes do
rapaz que atirara no tory escondido
no só tã o, mas aquilo era um
absurdo. Nenhuma garota de boa
família saberia atirar daquela
maneira. Todavia, havia algo que
Samantha fazia muito bem, mesmo
sendo mulher. Montava com a
segurança de quem subira ao
lombo de um cavalo ainda muito
criança e desenvolvera uma
habilidade invejável.
Muitas vezes ele admirara o

396
Flor do Pântano Patrícia Potter

entrosamento perfeito que havia


entre a jovem e Sundance.
E fora justamente a égua montada
pelo jovem rebelde que introduzira
a inquietante dú vida em sua mente.
Seria impossível haver dois animais
idênticos e a égua só podia ser
Sundance.
— O que aconteceu com a égua
que pertencia a Samantha? —
perguntou de chofre.
Chatham olhou-o surpreendido. O
coronel nunca demonstrara
especial interesse em cavalos. E

397
Flor do Pântano Patrícia Potter

esse fato era o ú nico senã o que via


no pretendente à mã o de sua filha,
pois, como fazendeiro digno do
nome, Robert Chatham apreciava
esses animais, tratando-os até com
certo carinho. A pergunta de
Foxworth devia esconder alguma
armadilha.
— Foi roubada logo depois que
minha filha viajou — respondeu,
cauteloso.
— Acho que sei onde ela está .
— Onde?
— Com Marion. Eu a vi na

398
Flor do Pântano Patrícia Potter

fazenda Garrison, durante o ataque


dos rebeldes. Estava sendo
conduzida por um rapazinho. — O
coronel olhou atentamente para o
velho. — E vi algo mais.
Chatham deu de ombros, como se
as palavras do coronel nã o lhe
interessassem.
— O’Neill — continuou Foxworth.
— Connor O'Neill. E major do
exército daquele canalha.
O militar observou com prazer
que Chatham empalidecia.
— Tem certeza?

399
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Absoluta. Alto, cabelos


castanho-claros, frios olhos
cinzentos. Devo dizer que a prisã o
nã o parece tê-lo afetado demais.
— E você o deixou escapar?
— Meu caro Robert, o que mais eu
podia fazer? O homem me
apontava uma arma. — Os lá bios
de Foxworth estreitaram-se
quando ele pensou na humilhaçã o
que sofrera. — Aqueles bandidos
nã o lutam como cavalheiros. Mas
nã o se preocupe que eu os pegarei.
E Marion também. — Sorriu de

400
Flor do Pântano Patrícia Potter

forma estranha. — E faço questã o


de prender o rapazola que anda
com a égua que pertencia a
Samantha.
Chatham, porém, nã o estava mais
interessado em Sundance. Só
conseguia pensar em Connor
O'Neill, que devia saber de sua
participaçã o no seu
aprisionamento e no confisco de
Glen Woods. Teria de reforçar a
guarda ao redor da propriedade.
Subitamente desejou que Foxworth
fosse embora. Detestava o modo

401
Flor do Pântano Patrícia Potter

que o militar tinha de olhá -lo,


erguendo as sobrancelhas e
mantendo um ligeiro sorriso de
mofa nos lá bios. Aquela atitude
antipá tica deixava claro que o
inglês alimentava profundo
desdém pelos habitantes da
Carolina do Sul, fossem eles leais ao
rei ou nã o. Chatham começava a
desconfiar que errara ao desejar
que a filha se casasse com aquele
tipo.
De qualquer modo, nã o tinha mais
paciência para aturar a presença de

402
Flor do Pântano Patrícia Potter

Foxworth. Tinha assuntos mais


urgentes a tratar, precisava
planejar formas de se proteger de
Connor O'Neill, que certamente
procuraria vingar-se.
— Depois da dura experiência de
ontem, acredito que deseje
descansar — disse ao coronel, sem
importar-se com a expressã o de
desagrado que tomou conta do
rosto do inglês. — Pedirei a um dos
escravos que o acompanhe até a
porta.
Frustrado com sua incapacidade

403
Flor do Pântano Patrícia Potter

de vencer o silêncio de Chatham e


descobrir algo mais sobre a viagem
de Samantha, Foxworth balançou a
cabeça em assentimento.
— Conheço o caminho, obrigado.
Espero que me avise se souber
alguma coisa sobre sua filha.
— Avisarei... se ela desejar falar
com você — Chatham respondeu,
seco, imaginando se ele pró prio
tornaria a ver Samantha.
Depois que Foxworth partiu, o
fazendeiro andou pela casa,
desnorteado. Apesar de toda as

404
Flor do Pântano Patrícia Potter

desavenças com a filha, descobriu,


surpreso, que sentia falta dela.
Quando a esposa falecera, oito anos
atrá s, jurara nunca mais amar
ninguém. Tinha consciência de que
nã o suportaria outro sofrimento
semelhante à quele.
Robert Chatham tivera uma
infâ ncia infeliz e cheia de restriçõ es
e acabara por se acreditar incapaz
de nutrir sentimentos de ternura
em relaçã o a outra pessoa. Sendo o
mais jovem dos filhos, fora apenas
tolerado numa casa abalada por

405
Flor do Pântano Patrícia Potter

conflitos. O casamento dos pais


havia sido apenas um acordo de
conveniência e o desafeto entre os
dois crescia à medida que o tempo
passava. A mã e tivera casos de
amor e o pai inú meras amantes, o
que os levara a viver trocando
acusaçõ es e palavras amargas.
Estavam sempre ocupados demais
para pensar nos filhos e até mesmo
para escolher com cuidado as
governantas e professores
encarregados da educaçã o da prole,
de modo que as primeiras

406
Flor do Pântano Patrícia Potter

lembranças de Chatham eram


dolorosas, envoltas nas marcas
indeléveis provocadas pelos
castigos e falta de compreensã o. Já
rapaz, deixara a Inglaterra e partira
para a colô nia, onde sua
inteligência e tino para os negó cios
o haviam tornado pró spero e
admirado por todos.
As cicatrizes permaneciam,
porém. Ele continuou a guardar sua
independência zelosamente,
fechando o coraçã o a qualquer
envolvimento amoroso. Até que

407
Flor do Pântano Patrícia Potter

Elizabeth Matthews aparecera em


sua vida.
Encontraram-se numa festa e
Chatham ficou fascinado com a bela
jovem cheia de vivacidade e alegria
que podia escolher um marido
entre dezenas de pretendentes
apaixonados. Sabia que era amargo
e maçante e ficou espantado
quando a moça mostrou-se
interessada. Ele nunca saberia que
o interesse de Elizabeth fora
motivado por ela tê-lo considerado
um desafio e ficado curiosa a

408
Flor do Pântano Patrícia Potter

respeito de sua personalidade


taciturna. Aos poucos, a
curiosidade transformara-se em
amor e a moça, desprezando
conselhos e comentá rios, casou-se
com o reservado Robert Chatham.
Ele, por sua vez, sentia-se
maravilhado e feliz. Para ele, nada
existia no mundo a nã o ser a bela,
risonha e carinhosa Elizabeth.
Quando a filha nasceu, ressentiu-se
da intromissã o e detestava cada
minuto que a criança exigia do
tempo da mã e. Sua obsessã o pela

409
Flor do Pântano Patrícia Potter

esposa crescia, seu ciú me doentio:


aumentava e fazia tudo para
cercear a liberdade da mulher,
restringindo suas amizades e o
contato com outras pessoas. Por
amor, Elizabeth aceitava suas
imposiçõ es, com uma exceçã o. Nã o
abria mã o da amizade de Margaret
0'Neill, que fora sua amiga desde a
mais tenra idade. As duas mulheres
amavam-se como se fossem irmã s e
foi com satisfaçã o que viram a
afinidade entre Samantha e
Brendan crescer tomando-os

410
Flor do Pântano Patrícia Potter

inseparáveis. Brincavam sobre um


possível casamento quando os dois
crescessem e intimamente
acreditavam que a brincadeira se
transformaria em realidade.
Havia apenas uma sombra
pairando sobre a amizade das duas.
Por causa do preconceito de Robert
Chatham, que desprezava a origem
irlandesa da família O'Neill, as
amigas freqü entemente
mantinham suas visitas em segredo
para nã o desgostá -lo.
Entã o, a febre maligna assolou a

411
Flor do Pântano Patrícia Potter

regiã o e quase todas as casas


receberam seu ataque nefasto.
Sabendo que Margaret estava
muito mal, Elizabeth ordenou, sem
hesitaçã o, que aprontassem uma
carruagem para levá -la à casa da
amiga. Encontrou a morte, já
respirando entre estertores. Os
olhos verdes mostravam-se
enormes no rosto pá lido e
emagrecido. O sorriso que
conseguiu endereçar à outra foi
apenas uma sombra do que fora.
Margaret 0'Neill, Maggie, como

412
Flor do Pântano Patrícia Potter

era carinhosamente chamada,


morreu naquele mesmo dia e
Elizabeth voltou para casa,
desesperada, para encontrar o
marido furioso, que se recusou a
ouvir explicaçõ es, trancando-a no
quarto e indo dormir num outro
aposento. Sua raiva era tanta a
ponto de nã o lhe permitir notar
que a esposa tinha as faces
afogueadas e que os lindos olhos
mostravam um fulgor febril.
Quando uma das escravas levou o
desjejum ao quarto da senhora, no

413
Flor do Pântano Patrícia Potter

dia seguinte, encontrou-a


inconsciente.
Dois dias depois, Elizabeth
Matthews Chatham estava morta.
Robert manteve-se isolado no
quarto que dividira com a mulher
amada durante vá rios dias, sem
alimentar-se, bebendo uma garrafa
de conhaque apó s outra Culpava-se
por nã o haver notado os sintomas e
chamado o médico imediatamente,
o que poderia ter salvado a vida da
esposa querida. Todavia o
sentimento de culpa era

414
Flor do Pântano Patrícia Potter

insuportável e ele procurou alguém


a quem culpar pela morte de
Elizabeth. Cegamente jogou toda a
responsabilidade de sua desgraça
sobre os 0'Neill. Eles haviam
contaminado sua mulher com a
febre maldita.
Certa manhã , pegou uma arma e
saiu de casa com destino à fazenda
Glen Woods. A sede estava fechada
e uma coroa de cetim negro
decorava tristemente a porta de
entrada. Atiçado por todo o á lcool
que vinha ingerindo, nã o perdeu

415
Flor do Pântano Patrícia Potter

tempo em bater. Empurrou a porta


com brutalidade e invadiu a casa.
— O'Neill! — ele berrou.
Aquilo tirou Gerald 0'Neill do
torpor angustiado em que caíra. Ele
também procurara afogar o
sofrimento numa garrafa de bebida
e achava-se entorpecido. Atraído
pelo barulho que o invasor fazia,
Connor, que trabalhava no celeiro,
entrou na casa correndo.
Gerald saiu do quarto no segundo
andar aos tropeçõ es e parou no
alto da escada, confuso, encarando

416
Flor do Pântano Patrícia Potter

Chatham que o olhava cheio de


ó dio.
— Robert! Soube da morte de
Elizabeth. Sinto muito e... Seu rosto
contorceu-se numa careta de dor e
ele calou-se,
— Sente muito, miserável? Vocês
a mataram! E agora eu vou matá -
los também!
Devagar, ergueu a arma, mirando
o peito de Gerald, no momento em
que Connor entrava correndo pela
porta da frente. Num segundo, o
jovem compreendeu a intençã o de

417
Flor do Pântano Patrícia Potter

Chatham. Com presença de espírito


notável, voou na direçã o do
agressor e segurou-lhe o braço,
desviando o projétil, que se alojou
no braço de Gerald.
Furioso, Connor jogou o homem
mais velho ao chã o e esmurrou-o
até fazê-lo aquietar-se. Depois,
ergueu-o e segurando-o por um
dos braços, atirou-o porta a fora.
Seguiu-o entã o, pelos degraus do
alpendre e até o cavalo.
— Eu devia matá -lo, Chatham —
disse baixinho, observando-o

418
Flor do Pântano Patrícia Potter

montar. — Mas nã o o faço em


consideraçã o à sua esposa falecida
e à minha mã e. Aviso-o porém de
que, se puser os pés novamente em
nossas terras, nada me deterá .
O rosto do outro homem deixou
transparecer a raiva.

— Seus malditos irlandeses!


Vocês mataram a minha Elizabeth e
eu os mandarei para o inferno por
causa disso,
Connor olhou-o com frieza.
— Tenho certeza de que o

419
Flor do Pântano Patrícia Potter

encontrarei lá também, Chatham.


Só o demô nio poderá castigá -lo
pelo que fez à sua mulher. Pelo
menos ela agora ficou livre de você,
mas tenho pena de sua filha.
Cego de ó dio, o homem tentou
atropelá -lo com o cavalo, mas
Connor estava alerta e pulou para o
lado.
— Fique longe de Samantha.
Todos vocês, irlandeses sarnentos,
fiquem longe dela ou eu os matarei!
— gritou Robert Chatham,
esporeando o animal e saindo a

420
Flor do Pântano Patrícia Potter

galope.
Depois daquele dia, a vida de
Chatham terminou. Ele apenas
vegetava, indiferente a tudo o que
acontecia a sua volta. Samantha
cresceu sob a tutela de estranhos,
pouco vendo o pai, que nã o gostava
de sua presença e nem dava por
sua falta quando ela escapava para
encontrar-se com Brendan O’Neill,
ou para brincar com Hector.
Entã o, espantado com o passar do
tempo, ele descobriu que a filha
estava com dezessete anos.

421
Flor do Pântano Patrícia Potter

Precisava encontrar um marido


para ela. O casamento o livraria da
responsabilidade de preocupar-se
com ela e lhe daria algo que muito
desejava um herdeiro para a sua
fortuna, um neto que um dia
tomaria seu lugar. O marido de
Samantha nã o podia ser qualquer
um. Tinha de ser um inglês, com
educaçã o tradicional e leal à coroa.
Quando um escravo lhe contou
que Samantha se encontrava à s
escondidas com Brendan O’Neill,
ficou tã o enfurecido a ponto de

422
Flor do Pântano Patrícia Potter

esquecer-se de que podia macular


a reputaçã o da filha. Procurou o
rapaz e acusou-o publicamente de
haver seduzido a namorada,
espicaçando de tal forma o orgulho
do jovem que um duelo se tornou
inevitável. O resultado do
confronto encheu-o de perversa
alegria.
Sua satisfaçã o porém se desfez
quando ele se propô s a achar um
marido para a filha. Descobriu que
manchara a reputaçã o da jovem,
tornando quase impossível um

423
Flor do Pântano Patrícia Potter

"bom" casamento. Ninguém queria


uma leviana e os boatos haviam
corrido toda a regiã o. Dessa forma,
o interesse de Foxworth por
Samantha caíra do céu.
Continuando a percorrer a casa
com passos inquietos, ele se
perguntava por que entã o sentia
aquela espécie de repulsa pelo
oficial inglês.
E por que, depois de tantos anos,
o fardo da solidã o ameaçava
tornar-se pesado demais para ser
suportado?

424
Flor do Pântano Patrícia Potter

CAPÍTULO IX

Connor esfregou o flanco


dolorido. Fazia dois meses que fora
ferido, mas o lugar ainda doía e
uma longa cavalgada sempre
aumentava o desconforto.
Desceu do cavalo e todo o seu
corpo refletia cansaço. Passara
trinta horas montado e tanto ele
quanto o animal estavam pró ximos
da exaustã o.

425
Flor do Pântano Patrícia Potter

Até mesmo Marion, que parecia


incansável, quase cambaleava ao
aproximar-se do curral. Todos os
outros homens desmontavam
vagarosamente, esfregando os
mú sculos doloridos.
Samantha aproximou-se do grupo,
mas as sombras da madrugada
escondiam a ansiedade de seu
rosto. Tomou as rédeas do cavalo
de Connor.
— Vou escová -lo para você —
ofereceu-se.
Ele nem discutiu, cansado demais

426
Flor do Pântano Patrícia Potter

para falar. Com vagar, aproximou-se


de Marion e os olhos dos dois
homens se encontraram,
— Demos uma liçã o em todos,
desta vez. Nã o se sentirã o seguros
em lugar nenhum — o comandante
disse.
— O preço da vitó ria foi alto.
— Sempre é. Mas agora temos
mais quinhentos americanos livres,
que ontem nã o passavam de
prisioneiros. Dentro em pouco,
estarã o engrossando as fileiras de
Greene ou de Washington. Além do

427
Flor do Pântano Patrícia Potter

mais, nosso feito reforçará a


esperança de outros prisioneiros.
— Podíamos ter recebido alguns
em nosso regimento. Estamos com
falta de homens.
— Nã o daria certo. Nã o sã o bons
cavaleiros. Preciso de homens que
saibam montar como você. —
Marion presenteou o amigo com
um de seus raros elogios.
Connor inclinou a cabeça,
agradecendo o cumprimento.
— Vou dormir, Marion, e acho que
você também devia descansar.

428
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Descansarei assim que acabar


de passar os piquetes em revista.
Agora, todo cuidado é pouco. Os
ingleses ficarã o mais ativos depois
do que aconteceu esta noite.
Amanhã levantaremos
acampamento.
Os dois se separaram e Connor
dirigiu-se para a barraca, mal
podendo esperar para deitar-se.
Aquele começo de inverno estava
sendo bastante frio e chuvoso e nã o
era mais possível dormir ao ar
livre, de modo que todos haviam

429
Flor do Pântano Patrícia Potter

passado a usar as barracas


roubadas dos ingleses em ataques
anteriores.
Arrastou-se para o espaço exíguo,
ignorando a fome que fazia seu
estô mago dar voltas. Nada era mais
importante que algumas horas de
descanso e sono. Ao virar-se na
enxerga, procurando posiçã o para
dormir, sua mã o bateu num prato
colocado no chã o. Apalpando,
descobriu que continha comida e
encontrou também uma caneca de
vinho. Sem pensar como o alimento

430
Flor do Pântano Patrícia Potter

fora parar ali, comeu o pã o com


presunto e bebeu o vinho, sentindo
o estô mago aquietar-se. Quando já
estava quase dormindo foi que
pensou no anô nimo bom
samaritano. Só podia ter sido Sam.
Aquele rapazola estranho era
sempre prestativo, mas nunca
permitia que ele lhe desse algo em
troca. Quando acordasse, teria uma
conversa com o teimoso e
reservado Sam Taylor.
Apenas, mais uma vez, a conversa
teria de ser adiada. Quando, horas

431
Flor do Pântano Patrícia Potter

mais tarde, Connor rolou para fora


da tenda, o acampamento já fervia
de atividade. Sam e Billy James já
haviam ido na frente com os
cavalos excedentes e Connor
recebeu a incumbência de ficar no
acampamento que estava
abandonado para supervisionar o
preparo das armadilhas, fundas
covas cobertas de galhos de
á rvores e folhas secas, redes
colocadas estrategicamente para
envolver os curiosos, laços de corda
que corriam e prendiam pés

432
Flor do Pântano Patrícia Potter

incautos. Os homens já haviam


adquirido grande prá tica naquele
trabalho e nã o precisavam de
supervisã o, de maneira que Connor
percorreu o local procurando
cuidadosamente algo que
denunciasse a permanência do
bando naquele recanto dos
pâ ntanos, como pedaços de pano,
balas de armas de fogo, sapatos e
até mesmo restos de refeiçõ es.
Estando tudo pronto, ele montou
e guiou o grupo para o novo
acampamento, à s margens de um

433
Flor do Pântano Patrícia Potter

afluente do Pee Dee.


Como os outros locais escolhidos
por Marion, aquele ficava bem fora
do caminho dos viajantes que
desciam o rio de canoa e oferecia
boa á gua e bastante caça. Quando
Connor e os homens chegaram,
equipes cavavam latrinas e outras
erguiam as tendas. O estampido de
tiros de rifle denunciavam o
trabalho das turmas encarregadas
de caçar. O risco de que o inimigo
se guiasse pelo barulho era bem
remoto. Os pâ ntanos abafavam e

434
Flor do Pântano Patrícia Potter

distorciam os sons e se alguém


tentasse guiar-se pelos tiros
acabaria por perder-se
completamente nos labirintos
perigosos do bosque.
Os pâ ntanos eram realmente uma
ameaça terrível para quem nã o os
conhecia. As terras baixas
abrigavam uma variedade enorme
de cobras e esses répteis eram tã o
numerosos que os caçadores
ouviam o ruído que produziam ao
jogar-se no rio durante a noite. Os
porcos-do-mato representavam

435
Flor do Pântano Patrícia Potter

outro grande perigo. Tinham pouco


medo e atacavam sem provocaçã o.
A regiã o era também o lar de
panteras, ursos e lobos, que
movimentavam-se à vontade num
lugar onde o ser humano tinha
grande dificuldade em orientar-se.
Se tudo isso nã o bastasse, havia o
perigo tremendo das areias
movediças.
Precisava-se de muita coragem
para viver nos pâ ntanos. A vida ali
era solitá ria, perigosa e triste
naquele cená rio cheio de ameaças,

436
Flor do Pântano Patrícia Potter

embora encantador. A febre


maligna pairava como eterno
pesadelo sobre todos e Marion
bebia vinagre todos os dias,
jurando que o há bito afastava a
doença. De fato, parecia dar certo
para ele porque, ao contrá rio da
maioria de seus soldados, o
comandante do regimento rebelde
nunca adoecera. Contudo, por mais
que se esforçasse para induzir os
companheiros a imitá -lo, ninguém
conseguia engolir a bebida á cida
todos os dias.

437
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor perdia-se em
pensamentos variados ao adentrar
o territó rio do novo acampamento.
Ficara surpreso ao constatar a
facilidade com que Sam adaptara-
se à quela vida difícil sem queixas,
apesar da dieta alimentar muitas
vezes inadequada e das
acomodaçõ es desconfortáveis. Na
verdade, sua calma resignaçã o o
distinguira dos outros homens, que
viviam resmungando contra tudo.
O rapazinho fora aceito
rapidamente pelos companheiros,

438
Flor do Pântano Patrícia Potter

que admiravam sua habilidade em


lidar com os cavalos e sua
diligência em cumprir as mais
variadas tarefas sem reclamaçõ es.
Sua façanha na fazenda Garrison
consolidara sua posiçã o entre os
soldados e Connor ficara surpreso
e satisfeito ao perceber o interesse
de Marion pelo jovem rebelde. Sam
nã o podia ter melhor mestre.
Porém, o comportamento esquivo
do rapaz continuava a intrigar a
todos. Sam rejeitava as ofertas de
amizade e nã o aceitava a ajuda de

439
Flor do Pântano Patrícia Potter

ninguém, principalmente de
Connor, a quem nã o perdia
oportunidade de auxiliar de todas
as formas. Seus cuidados eram tã o
constantes que Connor o
comparava a um anjo da guarda. Ao
imaginar o rapazinho sujo e de
rosto fechado envergando um par
de asas e camisola imaculada,
sorriu divertido.
A necessidade de privacidade
alimentada por Sam tornara-se
ó bvia. Ele nunca se banhava
juntamente com os outros e

440
Flor do Pântano Patrícia Potter

costumava desaparecer por algum


tempo todos os dias, voltando
depois com os cabelos ú midos, a
aparência refrescada, apesar das
roupas sujas e amassadas. A
princípio, os outros soldados
brincavam com ele, provocando-o
por causa do estranho
comportamento, mas aos poucos
foram aprendendo a respeitar seu
modo de ser e agir.
Connor precisou sorrir outra vez
ao lembrar-se da comida e do
vinho colocados em sua tenda.

441
Flor do Pântano Patrícia Potter

Nenhum presente poderia ter sido


mais apreciado e desejava ver Sam
e agradecer a gentileza. Queria
também agradecer sua valiosa
interferência na fazenda Garrison,
mas o rapaz fugia cada vez que ele
tentava uma aproximaçã o e Francis
Marion lhe pedira para nã o
pressioná -lo. Parecia haver uma
compreensã o profunda entre o
garoto e o calejado comandante, e
Connor sentia uma ponta de
despeito por perceber que Francis
tivera sucesso onde ele fracassara

442
Flor do Pântano Patrícia Potter

completamente.

Afastando os pensamentos
desencontrados, Connor colocou o
cavalo no curral recém-construído
e dirigiu-se para as fogueiras onde
o alimento era preparado. Viu
postas de peixe: assando em cima
das brasas e cortou um pedaço da
carne branca e cheirosa. Comeu
rapidamente, aceitando uma
caneca de vinho seco para
acompanhar a refeiçã o simples. A
seguir, saiu à procura de Sam, a

443
Flor do Pântano Patrícia Potter

quem ainda nã o vira.


Samantha evitava encontrar-se
com Connor, cujo rosto nã o lhe saía
da mente nem de dia, nem de noite,
quando surgiu em seus sonhos
agitados. Tentara convencer-se de
que era uma reaçã o ao sentimento
de culpa que a tomara quando
havia descoberto as atrocidades do
pai contra os 0'Neill, mas fora
obrigada a reconhecer que havia
algo mais. Seu coraçã o apressava as
batidas quando ele lhe sorria, os
lá bios perdendo a costumeira

444
Flor do Pântano Patrícia Potter

rigidez. Era difícil nã o


corresponder à doçura daquele
sorriso, entã o ela mantinha-se a
distâ ncia, mesmo sabendo que
assim agindo aumentava, a
curiosidade de Connor. O coronel
Marion a compreendia, jamais
exigindo respostas, entendendo
que ela temia alguma coisa. Essa
silenciosa solidariedade ajudava-a
a encontrar forças para suportar o
conflito que se agitava em seu
íntimo.
Francis Marion, fiel à promessa

445
Flor do Pântano Patrícia Potter

que lhe fizera, deixava-a tomar as


pró prias decisõ es e ela preferia
ficar cuidando dos cavalos, onde
seu trabalho era valioso. E ninguém
contestava sua preferência.
O tempo tinha pouco significado
nos pâ ntanos, sendo marcado
apenas pelas expediçõ es de ataque
e as esperas angustiadas pela volta
dos homens ao acampamento. A
ú ltima missã o havia sido torturante
para ela, pois os soldados atacaram
um grande destacamento de tropas
inglesas que levava prisioneiros de

446
Flor do Pântano Patrícia Potter

Kingstree para Georgetown. Ficara


exultante com a volta deles e
colocara o alimento e o vinho, que
Hector levara para ela, na tenda de
Connor.
Foi tirada dos pensamentos pelo
cheiro desagradável que exalava de
suas roupas e lhe atingia as
narinas. Ainda usava a mesma
vestimenta que vestira para fugir
de casa, complementada por uma
pesada tú nica inglesa muito maior
que ela. Nã o havia roupa sobrando
no acampamento, principalmente

447
Flor do Pântano Patrícia Potter

do tamanho que se ajustasse ao seu


talhe delicado, e ela temia tirar as
que vestia para lavar e ser
surpreendida despida. Além disso,
já estava frio demais para banhar-
se vestida no rio, pois as roupas
demoravam a secar e, assim, ela
sofria em silêncio, apenas
consolando-se com a idéia de que
nã o estava sozinha no meio
daquele desconforto todo.
Encontrava-se entre homens rudes
que acreditavam que um banho
completo por ano já era suficiente e

448
Flor do Pântano Patrícia Potter

que limpeza demais deixava o


organismo debilitado. Limitavam-
se a lavar os pés, o rosto e as mã os.
E somente Marion, Connor, Horry,
James e o jovem Billy faziam
questã o de tomar banhos
freqü entes.
Um sorriso matreiro iluminou as
feiçõ es delicadas. Sua escrava,
Angel, reclamava sempre dos
banhos diá rios da patroa e das
constantes trocas de roupas,
alegando que aquilo ainda acabaria
mandando-a para a sepultura

449
Flor do Pântano Patrícia Potter

precocemente. Portanto, de acordo


com os vigentes padrõ es de
higiene, ela nunca gozara de tanta
saú de como naquele momento.
Voltando a pensar em Connor,
considerou que nã o conseguiria
fugir dele para sempre. Quando ele
estava no acampamento, olhava-a
demais, parecendo querer ler seus
mais íntimos pensamentos e ela já
se aperfeiçoara no jogo de
esquivar-se à s suas tentativas de
aproximaçã o. Mas aquele era um
jogo perigoso, que o deixava cada

450
Flor do Pântano Patrícia Potter

vez mais determinado a vencer a


resistência do jovem Sam, que fugia
à sua amizade.
E ela teve uma prova daquela
determinaçã o quando Connor
aproximou-se dela e de Billy na
primeira noite no novo
acampamento.
— Preciso falar com você, Sam —
ele disse de rosto fechado, nã o
permitindo discussã o.
Billy rapidamente se erguera, mas
Sam agarrara-o pelo braço e o
jovem soldado olhou confuso para

451
Flor do Pântano Patrícia Potter

o major 0'Neill, um superior a


quem devia obediência.
— Volto depois, Sam — disse
Billy, escapando da mã o que o
prendia.
Enquanto o garoto se afastava,
Connor sentou-se ao lado dela no
chã o.
— Quantos anos você tem, Sam?
— perguntou com voz mansa.
— Tenho idade suficiente para
estar aqui.
— Você nunca responde uma
pergunta de modo direto?

452
Flor do Pântano Patrícia Potter

Sam deu de ombros, fazendo um


muxoxo de enfado. Percebia que o
homem se irritava e procurava
controlar a paciência.
— Alguém pó s a comida na minha
tenda ontem à noite. Foi você?
— Sim — respondeu Sam,
surpreendendo-o pela falta de
relutâ ncia em admitir o fato.
— De onde veio aquilo? Nã o
temos pã o e presunto no
acampamento.
Por fim, Sam encarou-o
timidamente.

453
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Um rapaz que queria falar com


o coronel deu para mim.
— E por que me deu?
— Você precisava mais. Estava
cansado e faminto. — Baixou a
cabeça, desviando os olhos azuis.
— Além do quê, ainda está muito
magro.
Connor nã o pô de reprimir um
sorriso divertido. Ninguém era
mais esguio que Sam e nas ú ltimas
semanas o corpo esbelto ficara
ainda mais miú do.
— Nã o faça mais isso, Sam —

454
Flor do Pântano Patrícia Potter

advertiu com gentil severidade. —


Uma vez já lhe disse que Marion
nã o gosta de soldados magricelas.
Se nã o se alimentar melhor acabará
sendo expulso do regimento.
— O coronel nã o faria isso. Ele e
eu somos... amigos. O homem
colocou uma das mã os no ombro
frá gil do rapazinho.
— Gostaria que você também me
considerasse um amigo — disse
com uma ponta de má goa na voz.
Sam olhou-o diretamente e o azul
daqueles olhos atingiu-o

455
Flor do Pântano Patrícia Potter

dolorosamente. Lembrava-se da
cor dos olhos de Brendan, o irmã o
a quem tanta amara.
O sentimento nã o passou
despercebido de Sam, que viu a
nuvem de dor que toldou os olhos
cinzentos. Compreendeu o motivo,
lembrando-se de que ela e Brendan
muitas vezes haviam brincado a
respeito de terem a mesma cor de
olhos, profunda e brilhante. Quase
involuntariamente sua mã o pousou
no braço do homem num gesto de
conforto e compreensã o.

456
Flor do Pântano Patrícia Potter

Porém, tudo foi tã o rá pido que


Connor achou que imaginara
aquilo. Depois, todavia, percebeu
que uma nova corrente de simpatia
os unia. Temeroso de que uma
palavra apressada pudesse
arruinar o começo daquela
amizade, nada revelou sobre seus
planos de adotar aquele garoto de
espírito forte e independente.
Quando a guerra acabasse
reclamaria suas terras de volta e
daria um lar de verdade a Sam.
— Conheci um menino em Santee

457
Flor do Pântano Patrícia Potter

— disse depois de longa pausa. —


O nome dele é John. Ele e sua mã e
me ajudaram a fugir e eu prometi
que daria um rifle de presente ao
garoto. Francis nã o está planejando
nada para os pró ximos dias, de
modo que pensei em ir até lá . Quer
ir comigo? — Sorriu. — Preciso de
um protetor.
Sam sabia que seria imprudente
aceitar, mas a vontade de passar
alguns dias ao lado de Connor
venceu a prudência. Assentiu,
olhando para o chã o.

458
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor levantou-se.
— Partiremos ao alvorecer.

CAPÍTULO X

Colocando os arreios num cavalo


castanho, Samantha censurava-se
pela decisã o de acompanhar
Connor até Santee. Tentava ignorar
o contato do focinho de Sundance
em seu pescoço, mas depois que a
égua a empurrara diversas vezes
chamando sua atençã o, parou o

459
Flor do Pântano Patrícia Potter

que estava fazendo para acalmar o


animal. Sundance era linda demais
para empreender a viagem, que
devia transcorrer o mais
discretamente possível.
Quando Connor aproximou-se do
curral, viu Sam falando com a égua
dourada. Sempre fora exímio
cavaleiro, mas jamais tivera o dom
de comunicar-se com os animais.
Todos os cavalos do regimento
aquietavam-se na presença de Sam
e docilmente deixavam-se tratar,
mesmo quando estavam feridos ou

460
Flor do Pântano Patrícia Potter

doentes. O ferreiro do bando


dissera que Sam enfeitiçava os
cavalos, mas nada supersticioso,
Connor achava que o rapazinho
possuía uma habilidade incrível
que nã o deixava de ser intrigante.
Samantha virou-se e espantou-se
ao ver o estranho atrá s dela.
Demorou alguns instantes para
reconhecer Connor. Um trapo sujo
enrolava-se ao redor do pescoço
musculoso e um retalho de couro
preto, sustentado por duas tiras
finas tapava o olho esquerdo. Pelo

461
Flor do Pântano Patrícia Potter

jeito, ele também conhecia a arte


de tingimento. Os cabelos
castanho-claros exibiam uma
tonalidade escura de marrom e o
rosto arroxeado parecia o de um
homem viciado em bebida.
Mancando, ele aproximou-se dela
com uma expressã o maliciosa.
— Pode ajudar um aleijado, ferido
a serviço de Sua Majestade, o rei da
Inglaterra? — A voz bem modulada
disfarçava-se em sotaque grosseiro.
Samantha sorriu, divertida.
— Por que nã o se finge de mudo?

462
Flor do Pântano Patrícia Potter

E mais fá cil — ela o provocou.


— Vou pedir a fazenda que me
prometeram em recompensa dos
meus serviços — ele continuou
com voz pastosa.
Ela reprimiu uma risada, mas nã o
resistiu ao desejo de fazer uma
observaçã o insolente.
- Tenho certeza de que os
britâ nicos estã o loucos para dar-
lhe uma recompensa por seus
serviços, mas duvido que seja uma
fazenda.
Connor riu, deleitado com a

463
Flor do Pântano Patrícia Potter

pronta resposta, e deu-lhe um


tapinha nas costas.
Por mais que tentasse, Samantha
nã o podia conter a alegria quando
saíram do acampamento. Os
primeiros raios de sol anunciavam
a manhã e cores suaves tingiam o
horizonte. Sentindo-se leve,
respirou o ar fresco da floresta,
agitada pela revoada de pá ssaros e
pelos saltos graciosos dos esquilos
que passavam de uma á rvore para
a outra em divertida algazarra.
Connor percebeu que o jovem

464
Flor do Pântano Patrícia Potter

companheiro endireitava os
ombros e que os olhos azuis
absorviam todas as cenas, cheios
de embevecimento e entusiasmo.
Poucas pessoas eram capazes de
sentir o doce mistério dos
pâ ntanos e de reconhecer a beleza
empolgante da natureza majestosa.
Moviam-se em quase completo
silêncio, acompanhando o curso do
Pee Dee a alguma distâ ncia. Os
ingleses usavam o rio como rota de
transporte apesar das constantes
arremetidas de Francis Marion, de

465
Flor do Pântano Patrícia Potter

maneira que precisavam ser


prudentes para nã o denunciarem
sua presença.
Pouco falavam também. Connor
concentrava-se em seguir a trilha,
sempre alerta a possíveis perigos,
mas à s vezes quebrava o silêncio
para apontar um arbusto e
dissertar sobre suas qualidades
medicinais ou seu papel no ciclo
vital da floresta. Sam encorajava-o
demonstrando grande interesse
nas explicaçõ es.
Ao meio-dia, pararam perto de

466
Flor do Pântano Patrícia Potter

uma pequena lagoa e dividiram


uma frugal refeiçã o de peixe seco.
Apesar da camaradagem partilhada
durante toda a manhã , Samantha
conservava os olhos baixos e
respondia às perguntas do
companheiro apenas por
monossílabos. Um mau
pressentimento lhe tirava a paz de
espírito.
— Tenho algo a fazer em
Georgetown — declarou Connor
repentinamente. — E quero que
fique escondido na floresta.

467
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Nã o — Sam rebelou-se. — Você


me trouxe e vou junto. Connor
suspirou resignado e sorriu.
— Muito bem. Mas vamos andar
separados porque alguém pode me
reconhecer.
— Isso é impossível.
— Nã o discuta, Sam. Você vai
andar um pouco atrá s de mim. —
Suavizou a ordem com um sorriso.
— Seu major está mandando.
— Sim, senhor! — Sam replicou
em tom zombeteiro. Connor deu
uma gargalhada. O garoto

468
Flor do Pântano Patrícia Potter

realmente nã o tinha modos nem


senso de obediência.
— Você, seu pestinha, ainda vai
encontrar quem lhe ensine boas
maneiras.
Levantou-se e estendeu a mã o
para Sam ajudando-o a erguer-se,
espantando-se com a leveza
daquele corpo franzino.
— Vamos embora. Chegaremos a
Georgetown no meio da tarde.
Chegando a Georgetown, Connor
franziu a testa desgostoso com a
visã o de um forte de madeira

469
Flor do Pântano Patrícia Potter

construído na estrada principal que


adentrava pela graciosa
cidadezinha, sua favorita entre
todas as outras da regiã o. E aquele
forte, povoado por homens
vestidos de vermelho, zombava da
dignidade da vila americana.
Passou pelos guardas mancando e
reclamando com voz disfarçada,
pedindo para ver uma das
autoridades.
Samantha ficou para trá s,
esperando que Connor
desaparecesse. Só entã o seguiu

470
Flor do Pântano Patrícia Potter

caminho também passando pela


guarda. Seu coraçã o batia forte no
peito e ela chegou a temer que
algum soldado notasse sua
inquietaçã o e suspeitasse dela.
— O que veio fazer aqui, garoto?
— perguntou um guarda.
— Meu pai mandou-me pedir
proteçã o contra os rebeldes.
O soldado fez um gesto com a
mã o, liberando-a e ela
desajeitadamente esporeou o
cavalo, quase caindo da sela
quando o animal lançou-se para a

471
Flor do Pântano Patrícia Potter

frente, o que provocou uma onda


de riso entre os guardas. Seguindo
as orientaçõ es de Connor, chegou a
uma imponente casa de tijolos
vermelhos rodeada por uma cerca
de ripas pintadas de branco. No
alpendre havia lampiõ es a gá s e ela
maravilhou-se, imaginando quem
viveria naquela casa. Os donos
tinham de ser muito ricos porque
iluminaçã o a gá s era um luxo
tremendo.
Ela já estivera em Georgetown
vá rias vezes e percorrera a á rea

472
Flor do Pântano Patrícia Potter

comercial, assim como visitara


diversas mansõ es que alinhavam-
se ao longo do rio e da rua
principal, moradias de amigos de
seu pai. Porém, nunca estivera
naquela ruazinha quieta, limpa e
tranqü ila. Talvez ali morassem
patriotas notó rios, mas se assim
fosse as propriedades já teriam
sido confiscadas pelos britâ nicos.
Sacudiu a cabeça, espantando a
confusã o. Connor nã o a teria
mandado encontrar-se com ele ali
se o lugar nã o fosse seguro. Com

473
Flor do Pântano Patrícia Potter

renovada confiança, escorregou da


sela e entregou as rédeas ao
escravo vestindo libré que se
aproximara do portã o. Correu pelo
jardim e subiu os degraus que
levavam à varanda. Depois de um
segundo de hesitaçã o bateu à porta
de carvalho.
Ficou admirada por ela ser aberta
por uma mulher e mais ainda
quando observou-lhe os trajes
incomuns, que deixavam o corpo
quase todo à mostra. Samantha
nunca vira uma mulher com tã o

474
Flor do Pântano Patrícia Potter

pouca roupa, pelo menos em


pú blico.
A moça era bela, nã o havia dú vida.
Os cabelos ruivos e brilhantes
cascateavam pelas costas abaixo e
emolduravam um rosto de traços
clá ssicos e perfeitos. Os sorridentes
olhos verdes fitavam o rosto
espantado de Samantha, que nã o
conseguia acreditar que a outra
vestia uma camisola reveladora e
sensual. Quando conseguiu encarar
o rosto risonho, Samantha
percebeu que a mulher nã o era tã o

475
Flor do Pântano Patrícia Potter

jovem como parecera à primeira


vista. Havia linhas sutis ao redor da
boca e dos olhos verdes.
— Você deve ser Sam — a outra
disse com voz calorosa. — Connor
está esperando por você. E
ansiosamente, devo dizer.

Subitamente, notando a surpresa


e acanhamento do visitante, a
mulher riu baixinho.
— Connor me contou alguns
minutos atrá s e nem tive tempo
para trocar de roupa. Mas venha,

476
Flor do Pântano Patrícia Potter

entre. Nã o pode ficar aí plantado.


Os ingleses poderiam estranhar.
Extremamente confusa, Samantha
entrou num vestíbulo decorado
com exagero. O interior mostrava
uma estranha combinaçã o de peças
de bom gosto e outras horríveis,
mas o que mais chamava a atençã o
era a profusã o de espelhos e sofá s
espalhados por todo o ambiente.
Quem seria aquela mulher e qual
seria sua ligaçã o com Connor?
Seguiu a mulher até uma espaçosa
cozinha, onde encontrou Connor

477
Flor do Pântano Patrícia Potter

sentado a uma mesa, comendo


presunto com ovos. Ao perceber os
passos que se aproximavam, ele
ergueu a cabeça e sorriu.
— Sam... Nã o teve problemas?
Os olhos de Samantha
estreitaram-se e percorreram o
amigo, a mulher e a cozinha bem
equipada. Nem o cheiro gostoso da
comida conseguia aliviar o nó que
se formara em seu estô mago e
sufocar o ímpeto de rebeldia que
ameaçava dominá -la. O sorriso de
Connor desapareceu quando ele

478
Flor do Pântano Patrícia Potter

notou sua confusã o.


— Esta é Annabelle — ele
apresentou. — É minha amiga há
muito tempo.
Samantha nã o pô de refrear o
desgosto que colocou um lampejo
de raiva em seu olhar límpido. Os
outros dois perceberam o que se
passava e a mulher apressou-se em
apaziguar o rapaz.
—Todos nó s trabalhamos para o
general Greene e para o coronel
Marion — disse amigavelmente,
colocando uma das mã os no ombro

479
Flor do Pântano Patrícia Potter

de Sam. — Nã o há motivo para


preocupar-se, garoto.
As vibraçõ es de antagonismo
emitidas por Sam eram tã o fortes
que Annabelle nã o pô de deixar de
senti-las. Se viessem de outra
mulher ela nã o se espantaria.
Estava acostumada ao desprezo e à
raiva das mulheres, mas nã o
entendia por que um rapazinho
estranho a repelia com tal vigor.
Aquilo nã o fazia sentido.
Ela suspirou e chamou uma
escrava.

480
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Venha comigo. Preciso trocar


de roupa.
Saiu da cozinha depois de lançar
um sorriso muito íntimo em
direçã o a Connor,
— Quem é ela? — perguntou Sam
com rudeza assim que ficaram
sozinhos.
Pensativo, Connor observou o
jovem companheiro. Durante os
dezessete anos em que mantivera
amizade com Annabelle nunca vira
um homem ficar imune ao seu
encanto. A mulher nã o procurava

481
Flor do Pântano Patrícia Potter

fingir ser o que nã o era e


orgulhava-se de dirigir o melhor
bordel de Georgetown. Ele
encontrara nela uma boa amiga,
sincera, espirituosa e cheia de
coragem, a quem muito estimava.
Fora levado ao bordel de Annabelle
pelo pai, quando completara
quinze anos, "para que aprendesse
a arte do amor com boas mestras".
— Se você quer ser carpinteiro —
Gerald O'Neill dissera —, precisa
começar como aprendiz numa
carpintaria. Se deseja tratar de

482
Flor do Pântano Patrícia Potter

cavalos precisa aprender com o


dono de uma estrebaria. O amor
nã o foge à regra. Deve ser
aprendido junto de quem sabe o
que faz.
Assim, Connor fora parar nas
mã os suaves de Annabelle que na
ocasiã o estava com vinte anos e
era, sem dú vida alguma, a principal
atraçã o do "Salã o para Cavalheiros
Apple". Quando a estimada
proprietá ria se aposentou para
casar-se com um dos clientes,
vendeu o estabelecimento para

483
Flor do Pântano Patrícia Potter

Annabelle que imediatamente


trocou o nome do bordel e
adicionou toques de sofisticaçã o ao
lugar que passara a ser conhecido
simplesmente como "Casa Nú mero
Dois, rua Cherry".
Connor jamais se esquecera da
noite em que Annabelle, gentil,
carinhosa e compreensiva o
iniciara nos ritos do sexo e no
correr dos anos continuara a
freqü entar o lugar. Ele e a mulher
tornaram-se amigos além de
amantes até que, sem que nada

484
Flor do Pântano Patrícia Potter

demarcasse o início daquela


mudança, haviam deixado de
relacionar-se intimamente para
permanecerem simplesmente
amigos. Connor confiava tanto nela
que segredava-lhe suas atividades,
esperanças e seus desgostos, e ela,
depois que ele se tornara um
rebelde, oferecera-se para,
juntamente com as meninas do
bordel, captar informaçõ es valiosas
para a causa dos patriotas. Como
recebiam os oficiais ingleses, eram
espias de valor inestimável.

485
Flor do Pântano Patrícia Potter

Mas nada daquilo ele podia


explicar a Sam, que permanecia
atô nito naquele ambiente estranho.
De repente, lamentou a idéia de
levar o garoto para lá , mas nã o
havia nada a fazer a nã o ser tentar
remediar a situaçã o. Ocorreu-lhe
que poderia dar a Sam o mesmo
presente que seu pai lhe dera
dezessete anos atrá s, oferecendo-
lhe a iniciaçã o nos mistérios do
amor. Hesitou, porém, ao pensar
em como o rapaz era teimoso
recusando-se a aceitar qualquer

486
Flor do Pântano Patrícia Potter

coisa dele.
Um pouco mais tarde, Sam
sentou-se e ficou beliscando o
prato de comida que o amigo
colocou à sua frente. Connor
observou-o em silêncio, resolvido a
falar com Annabelle sobre o
problema do rapazinho.
A pouca atençã o que Samantha
dispensava ao alimento dispersou-
se totalmente quando a cozinha foi
invadida por uma horda de jovens
mulheres vestidas
espalhafatosamente. Os vestidos ou

487
Flor do Pântano Patrícia Potter

eram agarrados ao corpo ou


mostravam decotes
exageradamente baixos, que
expunham os seios fartos quase
por completo. O mais
desconcertante contudo foi o modo
desinibido e animado com que
cumprimentaram Connor. Algumas
até se debruçaram sobre ele,
depositando beijos molhados em
suas faces.
Samantha teve um desejo enorme
de esbofetear todas elas e seu
companheiro também, que

488
Flor do Pântano Patrícia Potter

permanecia sentado, sorrindo e


dirigindo frases a cada uma delas
com chocante familiaridade. Ele
obviamente nã o censurava o modo
de vestir escandaloso daquelas
mulheres.
Ela empurrou o prato, incapaz de
comer. Annabelle certamente era
uma mulher perdida. Nenhuma
outra receberia um homem em
trajes íntimos. Samantha já lera
muito, mas nã o tinha nenhuma
experiência de vida. Assim,
demorou a perceber que Connor a

489
Flor do Pântano Patrícia Potter

levara para uma "casa suspeita".


Corou até a raiz dos cabelos e
desejou desaparecer. Seu querido
Connor nã o era um cavalheiro,
afinal de contas, se tivera coragem
de levá -la a um lugar daqueles.
Entã o lembrou-se de que era "um
rapaz" e o ridículo da situaçã o
ameaçou fazê-la romper em
gargalhadas. Quase engasgou para
sufocar o riso.
Connor, que se distraía
cumprimentando as mulheres,
olhou para o jovem companheiro e

490
Flor do Pântano Patrícia Potter

franziu as sobrancelhas intrigado.


Sam parecia à beira de um ataque e
as bochechas mostravam-se
infladas como se o rapaz estivesse
se esforçando para nã o rir. Sam
querendo rir? Que milagre era
aquele?
Samantha viu o olhar dele e
redobrou os esforços para se
conter. Com uma repentina
inspiraçã o, fingiu ter engasgado e
imediatamente Connor começou a
bater-lhe nas costas. Aos poucos,
ela dominou-se e o perigo passou.

491
Flor do Pântano Patrícia Potter

Como explicaria um ataque, de riso


quando nada acontecera de
engraçado?
— Nã o estou acostumado com
tanta pimenta — explicou assim
que pô de falar com clareza, embora
ainda reprimisse a vontade de rir.
Felizmente, Connor nã o percebeu
a encenaçã o e olhou-a preocupado.
— Acho que você precisa
descansar um pouco, Sam.
Ela concordou, ansiosa por sair
dali e fugir de todos aqueles
olhares concentrados em seu rosto.

492
Flor do Pântano Patrícia Potter

Seguiu-o para fora da cozinha e


subiram uma escada circular. Ela
notou enciumada a familiaridade
que ele demonstrava ao percorrer a
casa. Andaram por um longo
corredor com portas enfileiradas
dos dois lados e chegaram a outra
escada que levava ao terceiro
andar, onde havia apenas dois
quartos. Connor abriu a porta do
que ficava à esquerda.
Obviamente tratava-se do quarto
de um homem, com decoraçã o
só bria e de bom gosto, em tons de

493
Flor do Pântano Patrícia Potter

bege e marrom. No aposento o que


mais chamava a atençã o eram as
estantes lotadas de livros, e só
depois de alguns instantes ela
notou a bela cama que combinava
com uma escrivaninha e um
armá rio de valiosa madeira
entalhada a mã o. Aquele ambiente
refletia o cará ter de Connor e ela
sentiu novo golpe de ciú me.
— Até parece que você vive aqui
— comentou com aspereza
involuntá ria.
Ele sorriu, apreciando a

494
Flor do Pântano Patrícia Potter

sagacidade do rapaz.
— Annabelle e eu sempre temos
negó cios a tratar e eu fico aqui
quando venho à cidade. É bastante
seguro.
— Todas aquelas mulheres sabem
que você é um rebelde? Suspeito
que recebem muitos casacas-
vermelhas aqui.
O sorriso dele aumentou.
— E recebem mesmo. O que é
muito bom para Francis Marion.
Quanto mais entrarem em contato
com os ingleses, melhor para nó s.

495
Flor do Pântano Patrícia Potter

Sam virou o rosto, desgostoso,


mas Connor viu a expressã o de
censura e riu. O rapazinho logo
aprenderia a apreciar Annabelle.
No entanto, nada comentou e
dirigiu-se para a porta.
— Fique aqui. Aconteça o que
acontecer, nã o saia deste quarto. A
casa logo se encherá de clientes e
haverá ingleses e alguns
americanos tories entre eles. Quero
que prometa que vai me obedecer.
Sam continuou com o rosto virado
para a parede.

496
Flor do Pântano Patrícia Potter

— É mais arriscado para você do


que para mim — observou sem
fitar Connor.
— Tenho assuntos a resolver, Sam.
Mas nã o se preocupe porque sou
cuidadoso. E, entã o, promete ficar
aqui?
Ela sabia que nã o tinha escolha e
balançou a cabeça, concordando.
— Diga isso com todas as
palavras, Sam.
— Prometo ficar aqui.
— Muito bem. Outra coisa: nã o
abra a porta para ninguém a nã o

497
Flor do Pântano Patrícia Potter

ser para Annabelle, ouviu?


No instante seguinte, ele já saíra
do quarto, deixando Samantha a
olhar sombriamente para a porta
fechada.
Connor ajeitou-se numa grande
poltrona de couro no escritó rio de
Annabelle e sorriu para sua
anfitriã .
— Finalmente conseguiu livrar-se
das minhas garotas — ela brincou,
sorrindo também. — Elas sempre
fazem apostas sobre quem
conseguirá levá -lo para a cama

498
Flor do Pântano Patrícia Potter

primeiro.
Ele riu do comentá rio picante.
Annabelle gostava do som daquele
riso franco e honesto. Ao vê-lo,
sempre sentia uma ponta de
tristeza por nã o serem mais
amantes, mas a amizade entre eles
era muito importante para que se
arriscassem a perdê-la por algum
desentendimento no terreno
sentimental e por um acordo tá cito
haviam cessado suas relaçõ es
íntimas. Connor fora o ú nico
homem a tratá -la com respeito e a

499
Flor do Pântano Patrícia Potter

admirar sua inteligência, quando


todos os outros viam apenas seu
corpo e sua habilidade na arte do
amor. Muitos anos atrá s ele lhe
emprestara dinheiro para comprar
o bordel e depois daquilo haviam
se associado em algumas aventuras
comerciais. Quando os ingleses
invadiram a Carolina do Sul ele lhe
dera uma grande soma de dinheiro
para que ela investisse em seu
nome, sabendo que seria um dos
primeiros alvos dos britâ nicos
depois que lutara contra eles na

500
Flor do Pântano Patrícia Potter

ilha Sullivam em 1776. E realmente


seus bens acabaram sendo
confiscados, mas o dinheiro
administrado por Annabelle estava
a salvo.
Ela olhou-o detidamente. Mesmo
vestido daquela maneira pobre e
tendo um dos olhos tapado, ele nã o
conseguia disfarçar a atraente
virilidade.
— Com essa aparência, Connor
0'Neill, é melhor ficar escondido.
Nenhum dos meus clientes vai
acreditar que você tem dinheiro

501
Flor do Pântano Patrícia Potter

para pagar uma noite em minha


casa. Na verdade, nem vã o
entender por que o deixei entrar.
— A senhora me magoa
profundamente, madame — ele
respondeu com um sorriso. —
Tiffany e as outras garotas nã o
demonstraram nenhuma repulsa
por minha pessoa.
Annabelle riu.
— Elas nã o têm juízo, meu amigo.
Falando em juízo, fale-me sobre o
garoto que veio com você. Ele
pareceu apavorado quando me viu.

502
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Sam dá a impressã o de ter


medo de tudo e é um rapaz muito
estranho e fechado. A ú nica pessoa
em quem confia, e talvez nã o
totalmente, é o coronel Marion.
— Por que o trouxe? Sabe o
quanto pode ser perigoso para
você, para mim e para as garotas da
minha casa.
Ele inclinou-se para a frente, sério
e compenetrado.
— Annabelle, você sabe que eu
nada faria que pusesse você ou sua
casa em perigo. Sam salvou minha

503
Flor do Pântano Patrícia Potter

vida duas vezes. Encontrou-me


quando fugi do navio e cuidou de
mim como se eu fosse seu irmã o.
Depois, durante um ataque a uma
fazenda tories, matou um dos
homens de Tarleton que tentava me
alvejar do só tã o do celeiro. Ele nã o
tem muita educaçã o, é rude e
teimoso, mas também é corajoso e
cheio de bondade. Nã o tenho mais
família e desejo fazer alguma coisa
por ele. Talvez o adote, se ele
concordar, mas primeiro preciso
ganhar sua confiança, o que me

504
Flor do Pântano Patrícia Potter

parece quase impossível. Pensei


que viajando comigo ele começasse
a acreditar que realmente quero
ser seu amigo.
Annabelle olhou-o com um
sorriso terno nos lá bios.
— Sempre preocupado com os
pobres e abandonados, nã o é?
Muito bem. Em que posso ajudar?
Connor sorriu.
—- Lembra-se de minha primeira
visita a esta casa?
— Como poderia esquecer? — ela
perguntou, rindo. — Nunca tive

505
Flor do Pântano Patrícia Potter

aluno mais aplicado que você, meu


caro. — Ela parou de rir e encarou-
o. — Quer dizer que... quer...
— Exatamente.
— Quem será a professora?
— Deixo a escolha por sua conta,
minha amiga.
— Preciso pensar. — Ela fez uma
pausa. — Talvez Tiffany. E muito
jovem mas tem bom coraçã o. Nã o o
humilhará .
Os dois se olharam em silêncio e
Annabelle suspirou.
— Seu jovem amigo nã o gostou

506
Flor do Pântano Patrícia Potter

de mim. Nem um pouquinho.


Quando me viu de camisola ficou
acanhado e atô nito. Talvez nã o
esteja pronto ainda, Connor.
O homem sorriu, lisonjeiro.
— Tenho a maior confiança no seu
estabelecimento, Annabelle. Agora,
mudando de assunto, que
novidades tem para Francis?
A mulher foi até o cofre num dos
cantos do escritó rio e tirou
algumas folhas de papel.
— Anotamos tudo o que achamos
importante — esclareceu. — Agora

507
Flor do Pântano Patrícia Potter

leia e grave as informaçõ es na sua


magnífica memó ria.
— Annabelle, meu companheiro e
eu precisamos de novas roupas.
Um brilho divertido passou pelos
olhos verdes da mulher.
— Nesse ponto concordo com
você plenamente.
Ele riu. Conhecia bem o gosto dela
por belas roupas.
— Pode mandar alguém comprar
alguma coisa? Nada elegante
demais, por favor. Roupas só brias
que nã o chamem a atençã o de

508
Flor do Pântano Patrícia Potter

ninguém.
— Nã o se preocupe. Farei tudo de
acordo.
— Mais uma coisa. Preciso de um
rifle para dar de presente.
— Está certo. Amanhã de manhã
já estará tudo aqui. O que vai fazer
depois?
— Preciso visitar algumas pessoas
aqui em Georgetown. Ela sabia que
nã o devia questioná -lo mais.
Quanto menos soubesse das
atividades do amigo, melhor para
todos.

509
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Você e Sam terã o um bom


tratamento aqui — ela assegurou.
— Sabe que minha casa é sua,
Ele ergueu-se da poltrona e os
dois caminharam para a porta.
Annabelle admirou a elegâ ncia do
andar daquele homem encantador.
Connor a marcara de forma
indelével e ela nã o conseguia amar
homem algum. Porém, talvez
aquela incapacidade já viesse de
muito tempo atrá s quando, aos
catorze anos, sem um centavo e
solitá ria, batera à porta da sra.

510
Flor do Pântano Patrícia Potter

Apple procurando abrigo. Apple


nã o era o nome real da dona do
bordel, que achava Sarah
Wentworth muito sem graça para
atrair fregueses, decidindo adotar
um pseudô nimo. A decisã o fora
acertada. Em pouco tempo a casa
da rua Cherry era conhecida num
raio de muitos quilô metros.
Annabelle nunca se arrependera
de haver entrado naquela vida,
exceto quando pensava que se as
coisas fossem diferentes ela
poderia ter alguma chance de

511
Flor do Pântano Patrícia Potter

conquistar Connor. Tornara-se rica


e independente e ate mesmo
famosa. Nã o atendia mais clientes,
a nã o ser quando ela mesma
decidia dormir com algum homem,
e selecionava muito bem as moças
que trabalhavam para ela,
tratando-as com gentileza e justiça.
Os clientes também sabiam que se
maltratassem uma das mulheres
seriam para sempre banidos da
casa e essa ameaça bastava para
mantê-los na linha. Para os homens
da regiã o nã o poderia haver

512
Flor do Pântano Patrícia Potter

desgraça maior do que nã o ter mais


acesso à casa de Annabelle.
Com um sorriso, livrou-se dos
pensamentos e dirigiu-se ao
vestíbulo para receber os primeiros
clientes da noite. Depois de passar
alguns momentos conversando
com eles, entregou a tarefa a Mary
Jo, sua recepcionista.
Voltou para o interior da casa,
mandou que um escravo
esquentasse á gua para um banho e
que outro levasse uma banheira
para o quarto de Connor. Depois,

513
Flor do Pântano Patrícia Potter

subiu os lances de escada e bateu à


porta do quarto do amigo, onde
Sam ficara fechado.
— Quem é? — o garoto
perguntou com voz sonolenta.
— Annabelle.
Depois de um longo silêncio, a
porta abriu-se e Sam encarou-a de
modo apreensivo. A mulher olhou-
o de alto a baixo imaginando como
um fiapo de gente daqueles podia
ter salvado a vida de Connor duas
vezes. Nã o era diferente de nenhum
dos rapazes sem lar, frutos da

514
Flor do Pântano Patrícia Potter

guerra, que vagueavam pelas


cidades aos bandos. Algo porém
sobressaía naquele rosto franzino
de maneira impressionante. Os
olhos, Annabelle imaginou como
nã o os notara antes. Eram os olhos
maiores e mais azuis que ela já vira
e cintilavam com o brilho de uma
inteligência viva. De repente, ele
desviou o olhar.
— Por que nã o me encara, Sam?
De que tem medo?
— E falta de educaçã o encarar as
pessoas — o rapaz respondeu com

515
Flor do Pântano Patrícia Potter

insolência.
Annabelle tossiu para disfarçar o
riso. Realmente aquela era uma
criatura estranha.
— Nã o gostaria de tomar um
banho? — perguntou cautelosa,
afastando-se para um lado para o
escravo entrar com a banheira de
metal de pés torneados. Logo em
seguida, entraram mais dois negros
carregando fumegantes baldes de
á gua.
Samantha observava o
movimento, achando que nunca

516
Flor do Pântano Patrícia Potter

ansiara tanto por um banho.


Connor poderia entrar no quarto e
apanhá -la na á gua, mas estava
disposta a correr o risco para
sentir-se limpa finalmente.
— Connor saiu e nã o voltará tã o
cedo — Annabelle explicou como
se houvesse lido seus pensamentos.
Samantha olhou para a bela
mulher de cabelos vermelhos que a
olhava quase com compaixã o.
Estaria Connor apaixonado por ela?
O pensamento causou-lhe uma dor
angustiante no coraçã o. Logo,

517
Flor do Pântano Patrícia Potter

porém, a á gua convidativa na


banheira redonda que parecia uma
tina a fez esquecer-se da tristeza.
— Obrigado — murmurou com
voz suave.
Nã o viu o olhar surpreso da dona
do bordel que com um leve sorriso
a observava, achando que nem tudo
era como parecia. O garoto podia
estar simplesmente fingindo ter
modos grosseiros e ser avesso à
amizade. Subitamente, o sorriso
desapareceu. Connor podia muito
bem estar sendo traído por aquela

518
Flor do Pântano Patrícia Potter

criatura enigmá tica. Pensativa,


Annabelle saiu do quarto
acompanhada dos escravos.
Samantha rapidamente tirou as
roupas sujas e a faixa que lhe
apertava os seios. No instante
seguinte, entrava na á gua quente e
perfumada, deixando-se invadir
por alegria intensa. Fechou os
olhos e deixou-se envolver pelo
calor delicioso, permitindo que a
mente descansasse e o corpo
relaxasse.

519
Flor do Pântano Patrícia Potter

CAPÍTULO XI

Samantha desligou-se tã o
completamente de tudo que nã o
ouviu a porta abrir-se.
— Trouxe toalhas — Annabelle
anunciou entrando no aposento.
Deu alguns passos em direçã o à
banheira e parou espantada.
Debatendo-se, tentando ficar de pé,
a mocinha procurava algo com que
cobrir-se, sem nada encontrar. Os
maravilhosos olhos azuis estavam

520
Flor do Pântano Patrícia Potter

cheios de medo.
— Connor nã o costuma cometer
erros — a mulher disse começando
a rir. — Mas você o enganou
direitinho.
Pensara que Sam fosse um
pequeno traidor, quando na
verdade nã o passava de uma garota
fingindo-se de rapaz.
Querendo dar à moça apavorada
algum tempo para se recompor,
Annabelle virou-se e trancou a
porta. Sam nã o sairia dali até que
lhe desse algumas respostas

521
Flor do Pântano Patrícia Potter

convincentes.
Samantha afundara novamente na
á gua e mantinha os braços
cruzados sobre os seios com uma
expressã o mortificada e ansiosa.
— Está tudo bem, garota. Nã o vou
magoar você. Só quero ter certeza
de que nã o está com Connor para
traí-lo.
— Traí-lo?
O espanto na voz da moça era tã o
genuíno que Annabelle nã o podia
duvidar de sua sinceridade. Os
olhos verdes estudaram a figura da

522
Flor do Pântano Patrícia Potter

surpreendente hó spede. Conhecia


mulheres melhor que ninguém e
tinha a habilidade de descobrir
verdadeiras belezas mesmo
quando ocultas sob trapos e
sujeira. Examinando Sam, admirou-
se por nã o haver percebido antes
os traços perfeitos. Estava na
presença de uma mulher belíssima.
— Fique de pé — pediu.
Samantha obedeceu e, a despeito
da vergonha e da ansiedade, ficou
orgulhosamente ereta. "Bravo",
Annabelle aplaudiu. A garota

523
Flor do Pântano Patrícia Potter

possuía espírito forte e coragem,


como dissera Connor. Nã o havia
sombra de lá grimas nos olhos
magníficos, nem se ouviam
desculpas esfarrapadas.
Apesar de estar magra demais, o
corpo mostrava linhas precisas e
curvas que ficariam irresistíveis se
engordasse um pouco. Os seios
eram redondos e firmes e os
quadris bem moldados. Nã o fora à
toa que Sam escolhera roupas
largas de trabalhador. Apenas elas
poderiam disfarçar um talhe tã o

524
Flor do Pântano Patrícia Potter

feminino. A pele mostrava partes


lisas e claras e outras escuras. Os
olhos de Annabelle subiram para o
rosto de cor morena.
— Tingiu a pele?
A moça assentiu e uma centelha
de humor passou pelos olhos azuis,
— Só tinha tinta para pintar o
rosto e as mã os. O resto ficou
branco. Nunca imaginei que alguém
fosse me ver despida e, se fosse
surpreendida, o curioso pensaria
que eu estava com algum tipo de
peste e fugiria correndo.

525
Flor do Pântano Patrícia Potter

Annabelle riu. A mocinha era


espirituosa e subia em seu conceito
a cada instante. Os experientes
olhos verdes continuaram a
inspeçã o. Os cabelos eram de um
castanho opaco, mas nã o
combinavam com a cor da pele do
corpo. Estava tosado quase rente à
cabeça, mas as mechas curtas
encaracolavam-se ao redor do
rosto mimoso. A mulher estendeu-
lhe uma toalha e a garota enrolou-
se nela, voltando a encarar a dona
da casa.

526
Flor do Pântano Patrícia Potter

— E os seus cabelos? Tingiu-os


também? Samantha deu uma
risadinha nervosa. Lá estava ela, a
recatada Samantha Chatham, nua
num bordel, interrogada pela
proprietá ria, como se estivesse à
procura de um emprego.
— Passei uma soluçã o de índigo,
mas por natureza sã o negros.
— Pode me dizer a razã o dessa
farsa toda, garota?
— Eu nã o tinha para onde ir. Sei
montar e atirar e queria me juntar
ao bando do coronel Marion. Nã o

527
Flor do Pântano Patrícia Potter

aceitariam uma mulher e assim...


A suspeita que Annabelle ainda
pudesse alimentar formou-se em
admiraçã o. Entã o percebeu que a
moça falava com classe e que a voz
possuía modulaçõ es educadas e
suaves.
— Quem é você?
— Meu nome é mesmo Sam — a
jovem respondeu. Annabelle levou-
a até a cama, onde a fez sentar e
ocupou uma cadeira em frente.
— Você vai me contar tudo,
menina. Tudo. Samantha

528
Flor do Pântano Patrícia Potter

perscrutou o rosto da mulher.


À quela altura nada mais tinha a
perder. Se nã o contasse toda a
verdade Annabelle procuraria a
ajuda de Connor. Eram amigos,
inevitavelmente amantes.
Annabelle notou a expressã o de
desespero que transparecia no
rosto miú do e seu olhar
enterneceu-se.
— Você ama Connor, nã o é, Sam?
A moça balançou a cabeça
afirmativamente e grossas lá grimas
formaram-se nos olhos. A outra

529
Flor do Pântano Patrícia Potter

mulher encheu-se de profunda


tristeza. Algo lhe dizia que aquela
jovem estava destinada a ser de
Connor.
— Entã o por que tem tanto medo
de dizer a ele quem é?
— Porque meu pai é um tory.
Connor me expulsaria e eu nã o
suportaria ser mandada embora.
Annabelle sentiu uma onda de
medo, que tratou de disfarçar,
— Connor entenderia, Sam.
Os olhos da mocinha estavam tã o
desesperados e infelizes que a

530
Flor do Pântano Patrícia Potter

mulher, que pensara ter o coraçã o


enrijecido, sentiu-se tocada pela
agonia que viu neles. Num gesto de
consolo ergueu a mã o e acariciou
os cabelos curtos e á speros.
Emocionada, Samantha decidiu
contar toda a verdade, que tornara
um fardo muito pesado.
— Meu pai — disse com voz firme
— é Robert Chatham. Annabelle
retirou a mã o, empalidecendo.
— Oh, meu Deus — murmurou
chocada.
Nã o podia desviar os olhos da

531
Flor do Pântano Patrícia Potter

frá gil jovem à sua frente. Connor


nunca fizera segredo do seu ó dio
pelos Chatham e ela já ouvira seus
juramentos de vingança e seus
desabafos cheios de ameaça. E ele
nã o era homem de palavras vazias,
já o ouvira amaldiçoar o nome de
Robert Chatham e de sua filha
Samantha. Sam.
Pela expressã o aturdida de
Annabelle, Samantha compreendeu
que a mulher sabia de tudo. Mais
uma prova de que era amante de
Connor. E fora tola o bastante para

532
Flor do Pântano Patrícia Potter

confiar nela.
Annabelle perguntava-se por que
artimanhas do destino assumira
um papel naquele assunto trá gico.
Amava Connor, mas sabia que seu
amor jamais seria correspondido.
Ele amaria apenas uma vez na vida
e sua intuiçã o lhe dizia que
Samantha era a mulher destinada a
ele. Mas era Samantha Chatham, a
filha de um inimigo odiado.
— Você vai contar a ele? —
Samantha perguntou, suplicante.
— Descobrirá sozinho, minha

533
Flor do Pântano Patrícia Potter

cara. Connor nã o é estú pido e sabe


muito bem a diferença entre um
homem e uma mulher. E o que vai
acontecer quando ele descobrir?
— Talvez até lá eu tenha provado
que sou diferente de meu pai e que
nã o tive culpa no que aconteceu.
— Pelo que ele me disse —
Annabelle sorriu com tristeza —, já
a admira muito. Mas o que vai
acontecer quando ele descobrir
quem você é realmente? Há muito
ó dio entre vocês.
Samantha procurou o olhar da

534
Flor do Pântano Patrícia Potter

mulher.
— Juro que tentei ficar longe dele,
mas nã o consegui. Talvez... ele
venha a me amar tanto que a
verdade nã o importe.
Annabelle olhou-a em dú vida.
Connor era teimoso, como todos os
homens que conhecia. Era
carinhoso, tolerante e geralmente
bem-humorado, mas os céus
tivessem piedade daqueles que o
traíam ou a quem ele amasse.
Desejava saber mais sobre
Samantha Chatham. Pelo que

535
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor dissera em sua ira, a moça


era mimada e egoísta e levara seu
querido irmã o à morte. Aquela
descriçã o nã o combinava em nada
com o que dissera sobre Sam, o
corajoso rapaz que o salvara da
morte por duas vezes.
— Conte-me tudo, Samantha.
Fale-me sobre Brendan, diga-me
como encontrou Connor. O que faz
no regimento de Francis Marion?
— Eu amei Brendan desde que
tinha dez anos de idade. Amava-o
de todo o coraçã o e ele era meu

536
Flor do Pântano Patrícia Potter

ú nico amigo. Depois que nossas


mã es morreram nossas famílias
passaram a se odiar. — As lá grimas
começaram a cair pelo rosto
amargurado.
Contou sobre o triste
acontecimento no dia que era para
ser o de seu casamento com
Brendan e falou durante quase uma
hora, entregando-se à emoçã o e ao
alívio da confissã o.. Descreveu tudo
o que lhe acontecera nos meses
passados e de como ficara confusa
ao perceber que estava se

537
Flor do Pântano Patrícia Potter

apaixonando por Connor, mesmo


sabendo que aquele seria um amor
impossível.
Quando terminou, o silêncio caiu
entre as duas. Annabelle nã o
encontrava palavras adequadas,
completamente aturdida. Depois de
um longo tempo, inclinou-se e
tomou Samantha nos braços.
— Se eu tivesse uma filha — disse
baixinho — gostaria que fosse
igualzinha a você.
O rosto manchado de lá grimas da
mocinha refletiu incredulidade. A

538
Flor do Pântano Patrícia Potter

mulher estava sendo bondosa com


ela!
— Entã o nã o vai contar a
Connor?
— Nã o, Samantha, nã o vou contar.
Mas compreenda que ele vai
descobrir e que o modo dessa
descoberta vai depender o futuro
de vocês dois.
— Nã o terei futuro se nã o puder
ficar ao lado dele.
Annabelle olhou para a jovem
apaixonada e uma dú vida surgiu
em sua mente. Estaria traindo a

539
Flor do Pântano Patrícia Potter

confiança de Connor nã o lhe


contando o que descobrira? De
qualquer forma valia a pena
arriscar-se naquele desafio. Se ele
conseguisse esquecer o passado
à quela jovem o faria muito feliz.
— Por que está fazendo isso por
mim? — Samantha perguntou
enxugando novas lá grimas.
Os olhos de Annabelle também
estavam molhados pela primeira
vez em muitos anos.
— Porque eu também o amo e
você salvou-lhe a vida. Nã o uma

540
Flor do Pântano Patrícia Potter

vez, mas duas. E também porque


acredito que você lhe possa dar
tudo o que eu jamais poderia. Ele é
meu amigo e desejo que seja feliz.
Samantha estendeu a mã o e
pousou-a sobre a de Annabelle.
— Ele tem bastante sorte por
possuir uma amiga como você.
As duas mulheres fitaram-se,
conscientes de que, apesar de todas
as diferenças entre elas, haviam
iniciado uma amizade que seria
longa e sincera.
— Você deve se vestir — disse

541
Flor do Pântano Patrícia Potter

Annabelle de repente. — Vou tirá -la


deste quarto antes que Connor
volte. Planejei colocar vocês para
dormirem na mesma cama, mas
vejo agora que nã o foi uma boa
idéia. Estamos com falta de camas,
mas darei um jeito.
A mulher sorriu e ficou contente
ao ver que Samantha retribuía o
sorriso.
— Onde pretende me pô r para
dormir, Annabelle? A outra riu sem
nenhuma reserva.
— Connor queria que uma das

542
Flor do Pântano Patrícia Potter

minhas meninas iniciasse Sam nas


maravilhas do amor. Direi a ele que
você aceitou a oferta e que dormirá
em meu quarto. Poderá ficar à
vontade, porque estarei muito
ocupada lá embaixo.
— E o que lhe direi pela manhã ?
— Samantha perguntou entre
divertida com a idéia de Connor e
aborrecida por ele ter tomado tal
liberdade.
— Diga qualquer coisa, menina.
Desde os tempos de Eva as
mulheres sã o mais astuciosas que

543
Flor do Pântano Patrícia Potter

os homens.
As duas sorriram em perfeita
compreensã o.
Samantha aconchegou-se na
enorme cama de colchã o de penas,
deliciando-se com a maciez dos
lençó is de cetim e do fofo
acolchoado cor-de-rosa.
Aquele fora um dia incomum. A
manhã havia sido maravilhosa,
mais gratificante que qualquer
outra desde a morte de Brendan.
Recordou os sorrisos de Connor,
suas descriçõ es das aventuras ao

544
Flor do Pântano Patrícia Potter

lado de Marion, os comentá rios


cheios de entusiasmo a respeito
das belezas da floresta. Ele
conversara com ela nã o com o jeito
pretensioso de um superior
dirigindo-se a um subalterno, mas
como um amigo que dividia
impressõ es e apreciava as idéias de
um companheiro sensível e
inteligente. Ela passara a admirá -lo
ainda mais e sentia um arrepio ao
pensar que ele estava no quarto do
outro lado do corredor, bem perto
dela.

545
Flor do Pântano Patrícia Potter

Entã o pensou em Annabelle e


sorriu. Nunca, nem nas fantasias
mais loucas, imaginara vir a
admirar e a gostar de uma
prostituta e, muito menos, acabar
dormindo numa casa de bordel.
Quando Annabelle a levara para
aquele quarto nã o conseguira
reprimir uma exclamaçã o de
deleite. O aposento era de extremo
bom gosto e beleza. Decorado em
tons de cinzento-azulado e rosa,
assemelhava-se a um recanto do
paraíso.

546
Flor do Pântano Patrícia Potter

A mulher sorrira ao notar sua


reaçã o.
— Este é o meu cantinho
particular. Nã o precisa se
preocupar com a possibilidade de
alguém entrar aqui. Ninguém, nem
mesmo Connor, entraria sem ser
convidado.
— É lindo!
— Considere-o seu.
— Obrigada — Samantha
murmurara. A mulher afagara-lhe o
rosto e saíra.
O bordel fervilhava, superlotado e

547
Flor do Pântano Patrícia Potter

barulhento. Uma das salas era


destinada a jogos de azar e em
outra funcionava um bar onde os
homens bebiam e petiscavam
enquanto escolhiam as companhias
para a noite. Apesar da
preocupaçã o de Annabelle com a
descuidada aparência de Connor,
nã o houve problemas. Sua casa era
talvez o territó rio mais neutro em
toda a cidade de Georgetown.
Ninguém questionava ninguém, e
Annabelle proibia conversas sobre
política nas salas destinadas ao

548
Flor do Pântano Patrícia Potter

pú blico. Os infratores, sem


nenhuma exceçã o, eram
convidados a se retirar.
Os ingleses e tories que
freqü entavam a casa tinham muito
cuidado em nã o ofender Annabelle.
O bordel era um lugar onde podiam
relaxar e esquecer-se das
escaramuças da guerra e das
hostilidades do povo da cidade que
os viam com crescente rancor.
Portanto, ela nã o estava nem um
pouco preocupada ao
cumprimentar os velhos fregueses

549
Flor do Pântano Patrícia Potter

e observar os novos. Falava com


cada um deles e sempre rindo
dispensava suas atençõ es
amorosas, sugerindo uma ou outra
garota que poderia satisfazer suas
preferências. Como tudo estava
tranqü ilo, tinha bastante tempo
para pensar em Connor e Samantha
Chatham.
Nem ela mesma sabia por que
resolvera calar-se sobre a
descoberta que fizera, ajudando a
moça a manter sua farsa. Aquilo
poderia facilmente destruir a

550
Flor do Pântano Patrícia Potter

amizade que ela prezava tanto.


Desconfiava que uma das razõ es
era a pró pria Samantha. A mocinha
era uma irresistível mistura de
vulnerabilidade e força, de gênio
esquentado e delicadeza. Annabelle
nã o sabia se ela pró pria teria a
coragem suficiente para viver num
pâ ntano, entre homens rudes que
compunham, em sua maioria, o
pequeno regimento de Marion.
Imaginava como Connor ficaria
abismado se pudesse ver Samantha
como ela realmente era e nã o como

551
Flor do Pântano Patrícia Potter

o retrato de moça fú til e egoísta


que dela pintara.
Perdida em pensamentos, nã o viu
a figura alta, vestida de verde, que
entrou no vestíbulo causando um
marulhar de cochichos entre as
moças, até que Mary Jo correu para
ela.
— O coronel Tarleton está aqui,
Annabelle. Quer falar com você.
Tarleton já visitara a casa vá rias
vezes, sempre requisitando seus
favores. Ela sempre se recusara e o
mandara para Darlene, a mais

552
Flor do Pântano Patrícia Potter

bonita e inteligente de suas


garotas. De todas as vezes, Darlene
conseguira valiosas informaçõ es.
Mas naquela noite, queria que ele
estivesse longe dali. "Tarleton
Sanguiná rio" era comandante da
cavalaria inglesa e sua principal
tarefa era a de tentar capturar
Marion. Ganhara o apelido horrível
depois que seus homens haviam
matado cento e treze americanos a
baioneta e ferido mais duzentos
antes que a bandeira de rendiçã o
fosse erguida. Talvez fosse o mais

553
Flor do Pântano Patrícia Potter

temido e odiado britâ nico da


colô nia.
O coronel Banastre Tarleton
atravessou a sala exibindo o
imaculado uniforme verde que
acentuava a força de seus mú sculos
e a cor de fogo de seus cabelos que
nunca empoava, desprezando a
moda. Fez uma reverência para
Annabelle. O desejo insaciável do
coronel por mulheres era talvez sua
ú nica fraqueza, sem considerar a
obsessã o que alimentava a respeito
da captura de Marion.

554
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Está sempre adorável, bela


dama. E sempre distante.
— Estou apenas um pouco
cansada, coronel. O que o traz a
Georgetown? Pensei que estivesse
acampado perto de Monck's
Corners.
Ele abriu um sorriso que seria
encantador se Annabelle nã o o
conhecesse.
— Parece que Marion afundou-se
nos pâ ntanos e aproveitei a trégua
para descansar um pouco da caça
à quela raposa velha.

555
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Continua escapando ao senhor,


coronel? Isso me surpreende —
lisonjeou a mulher, lutando para
esconder a nota de satisfaçã o na
voz.
Os olhos de Tarleton fulguraram.
— Ah, mas eu o apanharei e terei
o maior prazer em vê-lo enforcado,
juntamente com Peter Horry e
Connor O’Neill.
— O’Neill? — Annabelle fingiu
espanto. — Nã o estava na prisã o?
— Estava — o homem respondeu
com aspereza, odiando seu fracasso

556
Flor do Pântano Patrícia Potter

com os rebeldes, mas atiçado pelo


interesse dela. — Escapou há
alguns meses e agora é um dos
oficiais de Marion. Há uma
recompensa polpuda por sua
captura, mas duvido que ele se
atreva a sair dos pâ ntanos sozinho.
Vamos pegar todos juntos.
— Acha que ainda vai demorar?
— Nã o. Vai ser mais cedo do que
se espera. Tenho meus truques.
— Acredito que sim — ela usou
sua habilidade dramá tica para
fingir admiraçã o. — Mudando de

557
Flor do Pântano Patrícia Potter

assunto, coronel, com quem vai


querer ficar esta noite?
Tarleton inclinou-se e tocou o
rosto levemente pintado de rouge
de Annabelle.
— Com a mais linda de todas —
disse, com um sorriso. Ela
escondeu a repulsa e devolveu o
sorriso.
— Desculpe, coronel, mas nã o me
sinto bem. Além disso, o senhor
deve saber que nã o me permito
mais tais prazeres. — Chamou
Mary Jo — Sabe se Darlene está

558
Flor do Pântano Patrícia Potter

disponível?
— Acabou de ficar livre.
Annabelle olhou para o inglês,
esperando que ele demonstrasse
ter aceitado a sugestã o. Ele olhou-a
desejoso e sorriu melancó lico.
— Se nã o posso ficar com o
diamante, contento-me com a
pérola.
Ela nã o reprimiu um sorriso
diante do elogio extravagante e por
um momento desejou que ele nã o
fosse o homem cruel que era.
— Quanto tempo pretende ficar

559
Flor do Pântano Patrícia Potter

em nossa cidade?
— Estarei indo para o norte ao
amanhecer.
— Visite-nos sempre que passar
por Georgetown, coronel. Será
bem-vindo.
Observou o homem subir a escada
seguindo Mary Jo e cobriu o rosto
com o leque para esconder seu
sorriso.
No quarto do terceiro andar,
Samantha nã o conseguia dormir.
Seu corpo parecia repousar numa
nuvem, mas sua mente nã o

560
Flor do Pântano Patrícia Potter

encontrava descanso. Depois de


virar-se na cama por vá rias horas,
resignou-se a ficar acordada,
pensando no dia seguinte. Ficaria
sozinha com Connor e ele
certamente faria perguntas sobre a
experiência na casa de Annabelle.
De repente, achou que seu corpo
se desacostumara do conforto de
uma cama e com um gemido
irritado levantou-se. Estendeu um
lençol no assoalho e deitou-se. Em
poucos instantes, dormia
profundamente.

561
Flor do Pântano Patrícia Potter

Annabelle andava nervosa pela


casa. No começo da noite tinha
mandado um escravo comprar as
roupas e o rifle que Connor pedira.
Nã o seria a primeira vez que um
comerciante era tirado da cama
para atender um pedido dela e
nenhum deles reclamava porque o
incomodo era recompensado com
visitas gratuitas à casa de
Annabelle.
Sabia que Connor voltara muito
antes da chegada de Tarleton ao
bordel e que, como de costume,

562
Flor do Pântano Patrícia Potter

estaria de pé antes do amanhecer,


querendo partir bem cedo.
Precisava estar alerta para evitar
que os dois homens se
encontrassem.
Carregando a muda de roupas que
comprara para o ex-amante, subiu
os dois lances de escada e ficou
ouvindo à porta dele antes de bater
de leve. Ele abriu prontamente e
apareceu à luz da vela, bem
desperto. Ela deslizou para dentro
do quarto.
— Tarleton está no andar de

563
Flor do Pântano Patrícia Potter

baixo. Connor olhou-a contrariado.


— Devia selecionar melhor seus
clientes, mulher. Ela encarou-o com
um esboço de sorriso nos lá bios.
— Devia, nã o é?
Ele voltou-se e caminhou para
uma cadeira onde sentou-se
cruzando as pernas longas.
— Só Deus sabe como eu teria
prazer em agarrá -lo — disse
pensativo.
— Mas nã o vai — Annabelle
respondeu severa. — Seria o fim de
todos nó s. Só queria avisá -lo para

564
Flor do Pântano Patrícia Potter

que esperasse a partida dele antes


de descer.
— E Sam?
— Está a salvo... com Tiffany.
Nenhum de vocês dois vai aparecer
antes que eu diga que o caminho
está livre.
— Sim, madame — ele respondeu
com fingida humildade. Sabia
quanto aquela mulher se arriscava
para ajudá -lo e nã o desejava
causar-lhe problemas.
Annabelle olhava-o com
indisfarçada afeiçã o, admirando o

565
Flor do Pântano Patrícia Potter

corpo musculoso vestido apenas


com ceroulas até os joelhos. Nunca
vira homem de físico mais atraente.
Em apenas três meses depois de
evadir-se da prisã o ele já
recuperara o bronzeado da pele e a
rigidez dos mú sculos. O peito e os
braços indicavam força e
flexibilidade. A branca cicatriz no
flanco apenas acentuava sua
masculinidade.
— Você está muito bem, Connor.
Os ingleses nã o conseguiram
prejudicá -lo demais.

566
Flor do Pântano Patrícia Potter

O rosto má sculo contraiu-se numa


expressã o dura e os olhos
cinzentos adquiriram uma frieza
que ela nunca vira neles.
— Deixaram sua marca,
Annabelle. Aquilo é um inferno.
— Oh, Connor — ela murmurou,
arrependida do comentá rio
irrefletido. — Desculpe.
Com esforço ele tentou sorrir.
— Um dia... — ele começou e
interrompeu-se.
— Um dia, o quê?
— Talvez, quando eu puser certas

567
Flor do Pântano Patrícia Potter

coisas em ordem, quando tiver


matado Chatham, conseguirei
expulsar o ó dio que trago dentro de
mim.
A mulher olhou-o com ar de
compaixã o.
— Esse desejo de vingança nã o
combina com você, Connor.
— Talvez nã o, mas terei prazer em
vingar-me.
— E Sam?
— Sam? O que ele tem a ver com
isso?
— Ele precisa de você. Ele

568
Flor do Pântano Patrícia Potter

também sofreu e suas perdas foram


tã o amargas quanto...
— Quanto as minhas? Como
sabe? Ele nunca fala do passado.
Percebendo que falara demais,
Annabelle procurou remediar a
situaçã o.
— O sofrimento aparece nos
olhos dele e você também teria
percebido se nã o estivesse tã o
absorvido pela sua dor e pela
determinaçã o de vingar-se.
Ele permaneceu em silêncio,
avaliando as palavras da amiga. Ela

569
Flor do Pântano Patrícia Potter

tinha razã o, em parte. Procurara


diversas vezes penetrar o mundo
do rapaz, mas o fizera ao seu jeito,
sem tato, talvez.
— Você também conseguiu fazer
amizade com ele? — perguntou por
fim.
— Como assim?
— Sam torna-se amigo de todos,
menos de mim. Francis, Billy, e
agora você, romperam sua reserva.
— Já pensou que pode haver um
motivo para isso? — ela perguntou,
enigmá tica.

570
Flor do Pântano Patrícia Potter

— O que está insinuando,


Annabelle?
— Acho que ele sente o ó dio que
há em você. Talvez nã o possa
confiar em quem odeia tanto.
— Que diabo, Annabelle! Você
precisa ser tã o racional sobre tudo
o que acontece? Isso até irrita.
Ela riu.
— E você precisa ser grosseiro
quando a verdade nã o o agrada?
Ele riu também e o humor
sombrio dissipou-se. Annabelle
saiu alguns instantes depois e foi

571
Flor do Pântano Patrícia Potter

para o pró prio quarto. Assustou-se


quando viu a cama vazia.
Freneticamente, seus olhos
percorreram o aposento até
pousarem na pequena forma
enrodilhada num canto.
Sorriu, percebendo por que
Samantha preferira dormir no
chã o. Analisou o rosto adormecido,
admirando os longos; cílios que
sombreavam as faces de contornos
delicados. Decidiu que deixaria a
moça dormir mais um pouco,
enquanto mandava preparar o

572
Flor do Pântano Patrícia Potter

desjejum. Depois, esperaria que


Tarleton fosse embora.
Rapidamente, Samantha vestiu as
roupas novas, olhando com
gratidã o para Annabelle. Estavam
perfeitas. Largas, disfarçavam
completamente as formas
femininas. E, melhor que tudo,
eram roupas limpas.
A mulher sorriu para ela,
satisfeita por vê-la contente. Era
inacreditável que a filha de um rico
e poderoso fazendeiro pudesse
ficar tã o feliz por causa de

573
Flor do Pântano Patrícia Potter

vestimentas tã o simples e feias.


— Coma — disse num tom
maternal, apontando para a
bandeja que levara para cima.
— Onde está Connor?
— Comendo no quarto dele.
Disse-lhe que você ainda estava
dormindo.
Samantha descobriu que estava
terrivelmente faminta. Comera
pouco no dia anterior e o prato que
sua nova amiga lhe preparara
mostrava-se tentador: ovos,
presunto, pã o quente com

574
Flor do Pântano Patrícia Potter

manteiga e mel.
Enquanto ela comia, Annabelle
conversava.
— Disse a Connor que você
passou a noite com Tiffany.
— Mas a moça...
— Ela nã o vai dizer nada. Disse-
lhe que você era um rapaz muito
tímido e que preferia dormir
sozinho, mas que nã o queria que
Connor soubesse para nã o
desapontá -lo.
— Connor fará perguntas.
— Tive uma conversinha com ele.

575
Flor do Pântano Patrícia Potter

Avisei-o para nã o ser indiscreto


porque qualquer relacionamento
desse tipo é assunto íntimo que
nem todo mundo gosta de discutir.
— Pensou em tudo — comentou
Samantha rindo, alegre, A outra
ficou séria e quando voltou a falar
havia uma nota de severidade em
sua voz.
— Saiba controlar a situaçã o,
garota, porque se nã o souber vai
arruinar mais que uma vida.
Connor nã o gosta de mentiras e é
incapaz de perdoar deslealdade.

576
Flor do Pântano Patrícia Potter

Conte-lhe logo toda a verdade. Nã o


o deixe descobrir sozinho.
— Por que resolveu nã o revelar
meu segredo, Annabelle?
— Desejo que você tenha uma
oportunidade de conquistar
Connor. Seria bom para vocês dois.
Deus queira porém que eu nã o me
arrependa, o que vai acontecer se
ele descobrir nossas mentiras e nã o
souber compreender.
Houve um breve silêncio entre as
duas e Annabelle levantou-se da
beira da cama, repentinamente

577
Flor do Pântano Patrícia Potter

apressada.
— Connor estará esperando por
você, lá embaixo. A propó sito,
tivemos um visitante importante,
ontem. O coronel Tarleton.
Samantha empalideceu.
— Tarleton?
— Nã o se preocupe. Já partiu. Mas
tomem cuidado da mesma forma.
Acredito que ele esteja nos
arredores da cidade tramando
alguma perversidade.
Samantha levantou-se e abraçou a
mulher, beijando-lhe o rosto.

578
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Muito obrigada por tudo,


amiga.
— Espero ter agido com acerto,
querida.

CAPÍTULO XII

Era um daqueles dias lindos de


dezembro, um mês que parecia
favorecer a regiã o sulista. O sol

579
Flor do Pântano Patrícia Potter

brilhava radiante num céu de


safira, aquecendo a terra com seus
raios generosos. Apesar de faltar
apenas uma semana para o Natal,
ainda estava relativamente quente
e o inverno que espreitava só era
denunciado pela brisa fria.
Samantha desabotoou o casaco
novo, deleitando-se com a carícia
morna do sol e com o sopro
brincalhã o do vento suave. Ela e
Connor haviam tomado os mesmos
cuidados do dia anterior. Ele
partira primeiro, esperando-a no

580
Flor do Pântano Patrícia Potter

bosque e já fazia uma hora que


viajavam em silêncio.
— Annabelle é muito bonita —
ela tentou iniciar uma conversa.
Connor surpreendeu-se. Aquelas
eram as primeiras palavras de Sam
naquela manhã . Era difícil, mas ele
procurava seguir o conselho de
Annabelle e esforçava-se para nã o
se impor ao taciturno rapaz. Nada
sabia da noite que o companheiro
passara com Tiffany e a ú nica pista
que tivera fora a maliciosa piscada
que a moça lhe dera ao vê-lo de

581
Flor do Pântano Patrícia Potter

manhã .
Voltou-se e olhou diretamente
para Sam, que estava um pouco
atrá s dele.
— Sim, é muito bonita.
— Gentil, também.
— Sim — foi a resposta lacô nica.
Samantha mordeu o lá bio,
frustrada. Queria saber mais sobre
Connor e Annabelle, descobrir que
tipo de relacionamento
mantinham, mas nã o via jeito de
abordar o assunto. E Connor nã o
estava colaborando em nada.

582
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Você a conhece há muito


tempo? — tentou novamente.
— Muito tempo.
Connor agia de forma deliberada.
Sabia que Sam estava curioso, mas
ia provocá -lo mais, forçando-o a
falar e sair do costumeiro mutismo,
Cavalgaram em silêncio por
alguns minutos, enquanto
Samantha reprimia a crescente
curiosidade.
— Aposto que muitos homens
estã o apaixonados por ela —
comentou com astú cia.

583
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor ampliou o sorriso. Aquele


era um novo Sam, sem dú vida.
— Tive a impressã o de que você
nã o gostou dela, Sam.
— Enganou-se.
Connor deu uma risadinha,
divertido com o grande interesse
que o companheiro nã o desejava
admitir. Sentiu-se bem, relaxando
um pouco a tensã o que sentira por
saber que Tarleton nã o devia estar
muito longe, naquele momento.
Viajaram calados até o meio-dia,
quando pararam numa pequena

584
Flor do Pântano Patrícia Potter

clareira ao lado da trilha.


Desmontaram e alimentaram os
cavalos antes de abrir o pacote com
o almoço. Annabelle preparara um
verdadeiro banquete para eles.
Havia frango frito, pã o fresco,
manteiga, queijo e até uma garrafa
de vinho. Vinho francês.
Comeram com prazer, pouco
falando. Entã o Connor esticou-se
no chã o, apoiando as costas numa
á rvore. Samantha assustou-se com
o repentino desejo de aproximar-se
dele e beijá -lo.

585
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Sam? — ele chamou baixinho,


cortando o devaneio. Controlando-
se, ela procurou olhar para ele com
indiferença.
— O que é?
— Se um dia você ficar sozinho,
se alguma coisa me acontecer,
procure Annabelle. Ela o ajudará .
— Por que o faria?
— Muitos se dizem amigos, Sam,
mas poucos realmente o sã o.
Amigos sã o aqueles que morrem
por você, ou você por eles, sã o
aqueles em quem se pode confiar

586
Flor do Pântano Patrícia Potter

completamente. E raro termos a


sorte de encontrarmos um
verdadeiro amigo. Eu tive muita
sorte, pois encontrei dois.
Annabelle e Francis. Annabelle o
ajudará porque seria o mesmo que
estar me ajudando. Além disso, ela
gostou muito de você. Samantha
sentiu um aperto no peito ao
considerar as palavras de Connor.
Amizade, honra e honestidade
eram, sem dú vida, fundamentais
para ele. Pensou em Annabelle e no
risco que corria de desagradá -lo

587
Flor do Pântano Patrícia Potter

para esconder seu segredo sem


entender por que a mulher agia
daquela forma.
— Você a ama? — atreveu-se a
perguntar.
— De certa forma — ele
respondeu devagar. — Talvez nã o
do modo que está pensando, mas
existem muitos tipos de amor.
Confio nela, algo que nã o posso
dizer de muita gente.
— Você dorme com ela?
A pergunta saíra quase que
involuntariamente e Samantha

588
Flor do Pântano Patrícia Potter

apavorou-se com sua audá cia.


Surpreendeu-se com a risada
espontâ nea de Connor.
— Essa, meu caro Sam, é uma
pergunta que um cavalheiro nã o faz
a outro.
— Nã o sou um cavalheiro.
O homem controlou o riso. Nã o
queria magoar o rapaz quando uma
tímida confiança começava a brotar
entre os dois.
— Espero que tenha aprendido
algo sobre o amor a noite passada.
Pelo menos, sobre a parte física do

589
Flor do Pântano Patrícia Potter

amor. Aprenda mais uma coisa.


Nunca o misture com negó cios ou
amizade. E uma combinaçã o
mortal.
— Quer dizer que duas pessoas
nã o podem ser amigas e fazer
amor?
Ela verdadeiramente desejava
compreender aquele conceito em
que ele acreditava. Brendan e ela
haviam sido os melhores amigos do
mundo e a amizade nã o diminuíra
o desejo que nutriam um pelo
outro.

590
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Digamos que isso é muito raro


— o homem respondeu parecendo
pouco à vontade.
— Mas Annabelle...
— Chega de falar de Annabelle.
Basta que saiba que poderá
procurá -la a qualquer momento
que precisar de ajuda.
Connor ficou admirado com a
tristeza que viu tomar conta dos
olhos azuis. Samantha estava
pensando nas palavras de
Annabelle. "Connor nã o gosta de
mentiras e é incapaz de perdoar

591
Flor do Pântano Patrícia Potter

uma deslealdade." Ela e seu


segredo poderiam estar destruindo
a amizade de Connor e Annabelle.
As mentiras se avolumavam, uma
puxando outra. Ela acabaria por
afogar-se nelas.
Sem saber a que atribuir a
expressã o conturbada de Sam, o
outro procurou algo para dizer,
esperando ajudar o companheiro.
— Você deve ter saudade de seu
pai — tentou. — Sei como se sente.
Perdi meu pai e meu irmã o. Sabe,
Sam, seus olhos lembram os de

592
Flor do Pântano Patrícia Potter

meu irmã o.
Samantha levantou-se e começou
a correr sem destino. Precisava de
um refugio, qualquer que fosse. A
aventura que começara sem medir
as conseqü ências estava se
transformando num pesadelo. Cada
palavra tornava-se uma mentira,
uma traiçã o.
Ouviu passos atrá s dela e correu
com mais desespero,
embrenhando-se na floresta.
Connor gritou seu nome e os
passos aproximaram-se. Entã o ela

593
Flor do Pântano Patrícia Potter

sentiu os braços dele ao redor de


seu corpo, amparando-a quando
seus joelhos se dobraram.
— Que diabo aconteceu, Sam? O
que foi que eu disse? Atô nito, o
homem viu o rapazinho começar a
chorar como se seu coraçã o se
estivesse partindo. Apenas aquele
pranto nã o era o de um rapaz.
Ajudou a criatura a sentar-se no
chã o, sentindo o frá gil corpo
feminino sob as roupas grossas.
Praguejou baixinho.
Samantha sabia que se traíra e

594
Flor do Pântano Patrícia Potter

nova torrente de lá grimas banhou o


rosto atormentado. Odiava-se por
estar desmoronando daquela
forma, mas nada conseguia deter
os soluços angustiados.
Connor observava-a sem saber
que atitude tomar. As emoçõ es
desencontradas refletiam-se em
seu rosto em rá pida sucessã o.
Confusã o, interesse, piedade, raiva.
Aos poucos, todas fundiram-se
numa só : compaixã o. Nunca
presenciara tamanha explosã o de
sofrimento. Estendeu

595
Flor do Pântano Patrícia Potter

cautelosamente a mã o num gesto


que oferecia consolo e ao mesmo
tempo pedia uma explicaçã o.
Tomou o pequeno queixo nas mã os
e ergueu o rostinho banhado em
lá grimas.
— Nã o chore mais, pequena.
Nada pode ser tã o ruim, que
mereça tanto desespero.
Os olhos azuis encontraram os
dele e mostravam-se cheios, de
infelicidade. Ele nã o conseguia
desviar o olhar daquele rosto
transfigurado por dolorosas

596
Flor do Pântano Patrícia Potter

emoçõ es.
— Foi o que eu disse a respeito
do seu pai?
Viu-a lutar para controlar-se e
admirou-se da coragem. que ela
demonstrou ao erguer o queixo
desafiadoramente, sufocando a
má goa. Uma garota! Uma frá gil
mocinha que o enganara
completamente, portando-se com
teimosia e nunca reclamando de
nada na vida dura nos pâ ntanos.
Ele sorriu ligeiramente,
analisando os traços finos.

597
Flor do Pântano Patrícia Potter

— O que a está atormentando


tanto?
Ele falara de modo gentil e
compreensivo, provocando novo
fluxo de lá grimas. Ela abraçou-o e
ele afagou-lhe os cabelos,
murmurando palavras que a
acalmassem. Depois, muito
lentamente, ergueu-lhe o rosto e
ficou surpreso quando a boca
rosada procurou a sua com
desespero. Os lá bios delicados
tremiam e pareciam famintos de
carícias e os braços dele

598
Flor do Pântano Patrícia Potter

estreitaram o corpo miú do contra o


peito. Deixando a boca trêmula, os
lá bios dele pousaram nos cabelos
curtos e de lá deslizaram pelo rosto
molhado, numa sucessã o de beijos
já cheios de paixã o.
Suas mã os percorriam o corpo
esbelto, sentindo curvas
insuspeitadas e ele descobriu com
horror a faixa que apertava os seios
de modo cruel. Colocando as mã os
por baixo da camisa larga, soltou-a,
sentindo a maciez da carne até
entã o aprisionada. Uma voz íntima

599
Flor do Pântano Patrícia Potter

dizia-lhe para parar com aquela


loucura. A intuiçã o avisava-o de
que se tratava de uma virgem
inexperiente, mas o desejo que
adivinhara no corpo jovem era tã o
grande quanto o seu,
transparecendo nos olhos límpidos.
A chama da paixã o envolveu-os,
poderosa e ardente. Sem sequer
notar a brisa fria de dezembro, em
poucos instantes livraram-se das
roupas que se interpunham entre
eles e entregaram-se ao alucinante
jogo de carícias que inflamavam os

600
Flor do Pântano Patrícia Potter

corpos enlaçados.
A barreira da virgindade caiu em
meio a um suspiro suave. Um fluxo
de sensaçõ es os envolvia como
á guas de um mar revolto. Guiados
pelo prazer, deixaram-se levar pelo
ritmo selvagem, ate atingirem o
êxtase.
Abraçado a ela, Connor
abandonou-se à sensaçã o de bem-
estar apó s a uniã o intensa.
Rememorou os momentos
maravilhosos daquela entrega,
sorrindo ao pensar que ela nã o

601
Flor do Pântano Patrícia Potter

tivera medo e apenas demonstrara


paixã o e desejo de doar-se
totalmente. Fitou os olhos azuis
que estudavam seu rosto e viu
neles o reflexo de sua pró pria
satisfaçã o.
— Connor... — ela murmurou com
doçura fazendo-o amar o som de
sua voz.
Uma corça, que vagueava perto da
clareira, assustada com a presença
de humanos disparou em corrida
desabalada, quebrando o encanto
daquele momento. A expressã o do

602
Flor do Pântano Patrícia Potter

rosto de Connor mudou, quando


ele olhou espantado para a
companheira, imaginando como
pudera perder o controle daquela
forma. A suavidade dos instantes
de paixã o desapareceu com a onda
de arrependimento que crescia em
seu íntimo.
— Connor? — ela perguntou
baixinho, perturbada pela mudança
que vira na expressã o dele.
Seus olhos se encontraram e os
lá bios dele estavam apertados.
— Desculpe, por favor. Sinto

603
Flor do Pântano Patrícia Potter

muito. Eu nã o devia...
— Nã o! — ela gritou. — Nã o se
arrependa. Eu queria você. Ele
olhava para ela como se a visse pela
primeira vez e como se a odiasse.
Percebeu a cor clara do corpo em
contraste com a pele escurecida do
rosto e das mã os. Desejava fazer
perguntas, mas permanecia mudo,
aniquilado pela raiva que sentia de
si mesmo.
— Connor, nã o fique aborrecido.
Eu sabia o que estava fazendo.
— Você estava sob os meus

604
Flor do Pântano Patrícia Potter

cuidados — ele disse penosamente.


— Vista-se, Sam. E esse mesmo o
seu nome?
Ela meneou a cabeça
afirmativamente.
— Entã o pelo menos isso é
verdade — ele comentou com
ironia.
Samantha sentia-se infeliz,
recebendo o sarcasmo como um
golpe físico, incapaz de perceber
que a irritaçã o de Connor voltava-
se contra ele mesmo.
Com gestos lentos, ela apanhou as

605
Flor do Pântano Patrícia Potter

roupas espalhadas, enquanto ele


vestia as suas com brusquidã o,
chegando a arrancar um cordã o da
camisa em sua pressa. Ouviu-o
praguejar irado contra o incidente,
dando uma mostra da intensidade
de sua raiva.
Ele captou o olhar magoado de
Samantha e sua expressã o
suavizou-se.
— Nã o estou com raiva de você,
Sam, mas de minha leviandade. Isto
nunca deveria ter acontecido.
Depois que ela acabou de vestir-

606
Flor do Pântano Patrícia Potter

se, segurou-a pela mã o, ajudando-a


a levantar-se, e voltaram depressa
para os cavalos. Juntaram os restos
da refeiçã o, envolvendo tudo no
pano em que Annabelle
embrulhara os pratos. Ele ajudou
Sam a montar e subiu para a
pró pria sela, incitando o cavalo a
entrar em trote ligeiro.
Samantha seguia-o de longe,
temerosa de irritá -lo ainda mais,
convencida de que ele a odiava por
sua farsa. Mas os breves momentos
de entrega seriam para sempre

607
Flor do Pântano Patrícia Potter

lembrados. Nã o se arrependia de
ter pertencido a Connor, amava-o.
Connor pensava apenas no que
fizera, achando que traíra a
confiança de uma jovem inocente.
Sam era quase uma criança, que se
entregara como deveria fazer dali a
alguns anos, com seu marido.
Nã o fazia idéia da idade da moça,
mas obviamente tinha mais do que
os catorze anos que ele lhe
atribuíra. De qualquer forma, ainda
era jovem demais e fora virgem até
uma hora atrá s. Ele destruíra sua

608
Flor do Pântano Patrícia Potter

pureza. Que demô nio entrara em


seu corpo impelindo-o a agir de
modo irresponsável? Nunca sentira
tanta culpa, tanto desgosto de si
mesmo.
Nã o sabia o que devia fazer no
futuro. Certamente ela nã o poderia
continuar no regimento de Marion,
embora já houvesse vivido como
um soldado nos ú ltimos três meses.
Ela dissera nã o ter família e ele nã o
tinha ninguém a quem confiá -la, a
nã o ser Annabelle. E aquilo, sem
nenhuma dú vida, estava fora de

609
Flor do Pântano Patrícia Potter

cogitaçã o. De repente, uma


suspeita surgiu em sua mente.
Annabelle e Tiffany. Elas saberiam?
O que acontecera na noite anterior?
Ele considerou as vá rias
possibilidades e nã o gostou de
nenhuma delas.
Talvez devesse pedir Sam em
casamento, mas no momento seu
futuro era incerto e ele nem sequer
possuía um lar. E antes de tudo
tinha algo a fazer. Matar Robert
Chatham. A vingança vinha em
primeiro lugar e ele nã o podia

610
Flor do Pântano Patrícia Potter

casar-se com aquela obsessã o


dominando todos os seus
pensamentos. Além disso, o que
sabia da moça? Nada. As
consideraçõ es atropelavam-se em
sua mente conturbada, mas um fato
permanecia inegável. Ele
aproveitara-se de uma garota
inexperiente e essa constataçã o
levava-o a odiar a si mesmo e a ela.
Viajaram vá rias horas em silêncio
antes de chegarem a Santee. A
alegria que Samantha sentira no
dia anterior e naquela manhã

611
Flor do Pântano Patrícia Potter

transformara-se num peso


opressivo no coraçã o. Tentava
recordar a doçura dos momentos
de amor, mas a hostilidade de
Connor arruinava as lembranças.
Ela destruíra seus sonhos mais
preciosos num ato impulsivo.
O cheiro de mar anunciou que
estavam perto de seu destino.
Connor dissera que a fazenda
Brown Ficava no litoral. Ela vira
com pavor o fim da viagem,
temendo que fosse obrigada a
responder às perguntas que

612
Flor do Pântano Patrícia Potter

evidentemente atormentavam
Connor. Ele ainda nã o estava
preparado para conhecer sua
verdadeira identidade, o que
significaria mais mentiras. Fechou
os olhos, desanimada. Amava
Connor como jamais amaria outro
homem e desejava ardentemente
que ele a compreendesse, o que era
sonhar demais.
Aproximaram-se cautelosamente
da pequena fazenda. As cercas
mostravam-se quebradas e os
campos cheios de mato, com

613
Flor do Pântano Patrícia Potter

exceçã o de um pequeno retalho de


terra cuidadosamente cultivado. Ao
som dos cascos dos cavalos, uma
porta da casa modesta abriu-se e
uma mulher de meia-idade
apareceu, trazendo nas mã os uma
arma antiquada. Olhou para
Connor sem reconhecer naquele
homem forte o fugitivo ferido, sujo
e barbado de quatro meses atrá s.
Ele desmontou e caminhou até
ela.
— Sra. Brown, nã o se lembra de
mim?

614
Flor do Pântano Patrícia Potter

A mulher sacudiu a cabeça,


procurando lembrar-se do homem
educado que lhe falava com
gentileza.

— Há quatro meses atrá s — ele


continuou —, a senhora arriscou
sua vida para ajudar um
prisioneiro evadido.
Ellie Brown fitou-o mais
atentamente, procurando algo que
lembrasse aquele infeliz. Nã o
conseguiu encontrar nada, mas a
voz gentil e a expressã o agradecida

615
Flor do Pântano Patrícia Potter

a convenceram.
— Consegui, entã o — ela disse. —
Rezei para que se salvasse, mas...
— Johnny está bem?
— Sim. Está no bosque, colocando
armadilhas. — O rosto sofrido
abriu-se num sorriso. — Ele nunca
duvidou de que enganaria as
lagostas e nã o passa um dia sem
falar no senhor.
Ellie olhou para o rapaz que
permanecia montado. Os olhos de
Connor voltaram-se para Sam e
nublaram-se, tornando-se frios.

616
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Este é Sam — declarou


simplesmente. Ela sorriu, amigável.
— Vamos entrar. Johnny ficará
muito triste se o senhor nã o o
esperar.
Samantha olhou Connor e ele fez
um gesto de assentimento,
torturando-a com sua expressã o de
indiferença. Ela desmontou e
permaneceu parada observando o
companheiro tirar alguns pacotes
do embornal e pegar um rifle novo
em folha que viera preso à sela. Viu
como entregou os pacotes para a

617
Flor do Pântano Patrícia Potter

mulher, sorridente e gentil.


— Trouxe sal e quinino. E isto é
para Johnny — acrescentou,
passando-lhe o rifle.
— Ele disse que o senhor se
esqueceria da promessa — a
mulher comentou com um largo
sorriso que a deixava quase bonita.
Depois de entrarem na cabana
pobre mas escrupulosamente
limpa, Ellie ofereceu-lhes sidra.
— Nã o podemos nos arriscar
muito tempo — explicou Connor.
— Os casacas-vermelhas estã o em

618
Flor do Pântano Patrícia Potter

toda a parte nesta regiã o.


A mulher concordou, balançando
a cabeça.
— Sempre aparecem por aqui,
mesmo sabendo como me sinto a
respeito deles.
O rosto do homem mostrou
ansiedade.
— Ficaram sabendo de mim?
— Nã o. Continuaram procurando
por muito tempo, mas nã o
desconfiaram de nó s. — A atençã o
de Ellie voltou-se para Sam. — E
seu filho?

619
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Nã o. Está me acompanhando
nesta viagem. Samantha notou que
ele pretendera dizer que nã o
haveria outras viagens. Precisou de
todo o seu autocontrole para
segurar as lá grimas.
Naquele momento, a porta abriu-
se e um garoto entrou correndo.
Vira os cavalos na frente da cabana
e nã o sabia se a mã e estava
precisando de proteçã o. Encarou o
homem alto, estudando-o
cautelosamente, até que o rostinho
ansioso perdeu a expressã o aflita e

620
Flor do Pântano Patrícia Potter

ele sorriu.
— Senhor! Eu sabia que voltaria.
— Sim — Connor respondeu
contente. — Tinha algo para lhe
entregar. — Apontou para o rifle
sobre a mesa.
Johnny correu e apanhou a arma
maravilhado. Connor
pacientemente explicou como lidar
com o rifle, contando que era do
mesmo tipo que haviam ajudado os
patriotas vencerem a batalha em
Kings Mountain, no começo
daquele ano. O tory de nome

621
Flor do Pântano Patrícia Potter

Patrick Ferguson inventara o rifle


carregado pela culatra, mas os
ingleses haviam se aferrado
teimosamente aos mosquetes
Brown Bess, menos eficazes.
Ironicamente, o pró prio Ferguson
morrera em Kings Mountain,
vitimado por uma de suas pró prias
armas, de posse dos rebeldes. Fora
sepultado no campo de batalha,
onde dois mil representantes do
partido Tory haviam tombado,
enquanto os patriotas perdiam
apenas vinte e oito homens.

622
Flor do Pântano Patrícia Potter

Johnny olhava para Connor com


adoraçã o e Samantha sorriu ao ver
o afeto com que o homem falava
com o menino. Seus olhos se
encontraram e por um segundo
partilharam a alegria de
testemunhar a felicidade de uma
criança.
— Precisamos ir embora —
Connor anunciou de repente. —
Temos um longo caminho pela
frente, esta noite.
Ellie levantou-se com relutâ ncia. A
presença dos visitantes levava

623
Flor do Pântano Patrícia Potter

alegria ao lar humilde. Ela nã o vira


o filho tã o feliz desde que o pai fora
levado embora. Agradeceu os
presentes, principalmente o sal, de
valor inestimável. Johnny poderia
caçar e ela teria condiçõ es de
salgar a carne, conservando-a por
longo tempo. No inverno, aquilo
podia significar a salvaçã o.
Connor tomou a mã o calejada nas
suas.
— Eu é que agradeço. Poucos
fariam o que vocês fizeram por
mim e gostaria que soubessem que

624
Flor do Pântano Patrícia Potter

nã o se arriscaram em vã o.
Ellie tornou a sorrir.
— Que Deus os acompanhe.
Um pouco mais tarde, mã e e filho
olhavam da porta enquanto os dois
cavaleiros desapareciam na estrada
poeirenta.

CAPÍTULO XIII

Enquanto a tarde transformava-se


em crepú sculo, Connor pensava em
suas atitudes, chegando à

625
Flor do Pântano Patrícia Potter

conclusã o de que estava sendo


injusto. Todavia mantinha-se
silencioso, ignorando a presença de
Sam. Ela tentara conversar, mas
nã o obtivera resposta e calara-se
desgostosa.
Ele nã o saberia explicar por que a
punia ao mesmo tempo que se
torturava perdido no
arrependimento. Todavia, nã o
conseguia livrar-se da lembrança
daquele corpo macio junto ao seu e
da paixã o que inundara os olhos
azuis nos momentos alucinados da

626
Flor do Pântano Patrícia Potter

uniã o. As imagens o perseguiam,


intensificando sua ira e embotando
seu instinto natural para perceber
o perigo.
Nã o esperava encontrar uma
patrulha de soldados britâ nicos
naquela estrada, mas fora
imprudência usá -la. Ele pensara
apenas em encurtar o viagem para
que chegassem depressa a uma
cabana nos pâ ntanos que já
ocupara diversas vezes. Lá ,
pretendia ter uma conversa frente
a frente com Sam Taylor. Queria

627
Flor do Pântano Patrícia Potter

fazer algumas perguntas, mas nã o


enquanto cavalgavam, pois
desejava que a moça respondesse a
todas, encarando-o, olhando-o nos
olhos.
Numa encruzilhada da estrada,
depararam-se com uma barricada
guardada por casacas-vermelhas a
pé e alguns tories vestidos de
verde, os dragõ es de Tarleton,
montados em magníficos cavalos.
Rapidamente, Connor fez um
inventá rio das alternativas e
encontrou apenas duas. Retornar e

628
Flor do Pântano Patrícia Potter

arriscar-se a ser perseguido ou


atravessar a barreira tentando
enganá -los com alguma histó ria.
Mas aqueles nã o eram os guardas
relapsos que encontrara à entrada
de Georgetown. Eram guerreiros
experientes, endurecidos por anos
de guerra.
Tomou a decisã o quando
reconheceu dois tories, antigos
vizinhos com que ele jogara muitas
partidas de cartas e havia tomado
alguns drinques. Muito
possivelmente eles o

629
Flor do Pântano Patrícia Potter

reconheceriam também atrá s do


pobre disfarce fornecido pelo tapa-
olho.
Virou-se para Sam.
— Finja que perdeu o controle do
cavalo e faça-o disparar em direçã o
à floresta. Espere um pouco e me
chame e eu irei em seu socorro.
Ganharemos um pouco de tempo.
Um sorriso muito leve, que mal
chegou a distender os lá bios dela,
foi o ú nico sinal de que
compreendera. Com um aperto
imperceptível dos calcanhares nos

630
Flor do Pântano Patrícia Potter

flancos do animal e puxando as


rédeas com todas as forças, fez o
cavalo, desgovernado e assustado,
rodar num círculo completo. Ela
entã o afrouxou o aperto das rédeas
e o animal disparou em direçã o à
floresta. Fingindo que nã o
conseguia manter-se na sela ela
começou a gritar.
— Socorro!
Os soldados ficaram olhando o
incidente e começavam a divertir-
se quando um dos tories achou a
cena pouco convincente.

631
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Sã o homens de Marion! — ele


berrou. Imediatamente, dragõ es e
soldados levaram os mosquetes aos
ombros e atiraram na direçã o dos
dois fugitivos. Connor já estava
quase ao lado de Sam quando o
cavalo dela tropeçou e a moça
escorregou da sela, rolando para o
lado antes que o animal desabasse
sobre seu corpo. Ele deitou-se
sobre o pró prio animal e estendeu
uma das mã os para ela. O braço
esquerdo de Samantha parecia
morto, mas o direito nã o

632
Flor do Pântano Patrícia Potter

apresentava problemas e ela, com


desespero, agarrou-se à mã o que
ele lhe estendia. Com forte impulso,
ele a puxou para cima e conseguiu
rodear-lhe a cintura com o braço,
içando-a para a sela atrá s dele.
Sentindo que ela se agarrava a ele,
Connor esporeou o cavalo e
desapareceram no meio das
á rvores.
Os dragõ es foram ao seu encalço
em vã o. Era como se houvessem
desaparecido no ar. Depois de
vasculharem a floresta durante

633
Flor do Pântano Patrícia Potter

horas, desistiram da busca.


Nas profundezas da mata, Connor
entrava por lugares que um homem
comum jamais se atreveria a
explorar, nã o prestando atençã o
aos galhos secos que lhe rasgavam
as roupas e cortavam a pele do
rosto. Percebeu quando os
perseguidores ficaram bem para
trá s, mas nã o parou, começando a
seguir o curso de um riacho que se
estendia por quilô metros. Fazendo
o cavalo andar na á gua rasa, nã o
deixava rastros, o que tornava a

634
Flor do Pântano Patrícia Potter

fuga muito mais segura.


Sentia o braço de Sam ao redor de
sua cintura e começou a imaginar
por que nã o usava também o
esquerdo. Ela nã o dissera uma
palavra, mas ele adivinhava que seu
rosto e seu corpo deviam estar tã o
feridos quanto os dele, por galhos e
espinheiros. Até o cavalo estava
com ferimentos nos flancos.
Quando teve certeza de que os
soldados haviam desistido da
perseguiçã o, virou-se ligeiramente
para trá s.

635
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Você está bem, Sam?


— Estou — ela respondeu com
voz sumida.
Sem se convencer, logo adiante
Connor guiou o cavalo entre as
á rvores até uma clareira. Um
enorme carvalho, de tronco coberto
de musco, cobria o lugar com seus
galhos generosos.
Fez o animal parar e virou-se
cuidadosamente na sela. Sam tinha
uma expressã o de dor e mordia os
lá bios. Connor olhou para o braço
esquerdo da moça e viu que ele

636
Flor do Pântano Patrícia Potter

pendia estranhamente. Escorregou


da sela bem devagar e estendeu os
braços, pegando-a pela cintura.
Procurando nã o tocar no braço
ferido, pousou-a com delicadeza no
chã o. Seus olhos fitavam o rosto da
companheira com admiraçã o e
tristeza. Ela devia ter sofrido uma
verdadeira agonia naquela corrida
entre as á rvores e no entanto nã o
abrira a boca para queixar-se.
— Tem certeza de que podemos
parar, agora? — ela perguntou,
preocupada.

637
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Sim, meu bem, podemos. Por


que nã o me disse? - Uma nova onda
de dor fez com que os olhos azuis
se toldassem, mas ela conseguiu
sorrir.
— Eu nã o tinha escolha. É melhor
um braço quebrado que uma bala
nas costas.
Ele ajudou-a a sentar-se no chã o
forrado de mato rasteiro e
ajoelhou-se a seu lado para
examinar-lhe o braço com dedos
cuidadosos mas firmes. Ela gemeu
quando ele tocou o lugar na fratura.

638
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor olhou-a, preocupado.


— Temos muito que andar, ainda.
Preciso prender seu braço, mas vai
doer terrivelmente, Sam.
Ela balançou a cabeça
concordando. Nã o podia viajar com
o braço pendurado daquele modo.
Ficou quase feliz quando viu que
sua decisã o foi recebida com um
sorriso de aprovaçã o. Connor foi
até o cavalo e pegou a garrafa de
vinho que Annabelle mandara para
eles. Voltando em seguida, bebeu
vá rios goles no gargalo e preparou-

639
Flor do Pântano Patrícia Potter

se para o que precisava ser feito.


Ele nã o perdeu mais tempo. Se
hesitasse, perderia a coragem que
reunira para aquela provaçã o. Deu
um rá pido puxã o no braço para
endireitá -lo e suspirou de alívio ao
sentir o osso voltar ao lugar. Sam
nã o gritara e ele olhou para ela,
admirado. Samantha havia
desmaiado. Aproveitando a
abençoada inconsciência, ele
colocou o braço entre dois pedaços
de madeira e amarrou tudo
fortemente, usando tiras rasgadas

640
Flor do Pântano Patrícia Potter

do pano onde seu almoço viera


embrulhado. Fazendo uma tipó ia,
prendeu o braço imobilizado
contra o peito. Depois de completar
a tarefa, sentou-se e ficou pensativo
a observar a pequena forma imó vel.
Era tã o jovem e frá gil, que seu
coraçã o apertou-se. Além do braço
quebrado, ela apresentava cortes e
arranhõ es nas mã os, no rosto, nos
tornozelos e em algumas partes do
corpo onde o tecido da roupa se
rasgara. Os cabelos curtos e
anelados estavam emaranhados e

641
Flor do Pântano Patrícia Potter

cheios de pedaços de madeira e


folhas secas. Estudou as feiçõ es
cinzeladas e os cílios escuros e
longos. Sorriu, pensando que nunca
vira uma pessoa mais bonita,
mesmo em tã o tristes condiçõ es.
Nã o resistiu ao impulso de
acariciar as faces macias e afastar
algumas folhas dos cabelos da
jovem. Jamais julgara que uma
mulher pudesse ter a força e a
coragem que ela demonstrara
possuir naquele dia. Olhou-a com
imensa ternura, recordando os

642
Flor do Pântano Patrícia Potter

momentos de paixã o, a resignaçã o


com que ela aceitara sua
hostilidade e finalmente seu
silêncio, apesar de toda a dor que
sofrera na cavalgada selvagem
através da floresta.
Suspirou, sentindo o ar frio do
início da noite. Tinham apenas um
cavalo e dois cobertores. A cabana
onde pretendera pernoitar ficava a
cerca de oito quilô metros, mas ele
nã o acreditava que devesse
sacrificar o cavalo com peso extra,
o que deixaria o animal exausto.

643
Flor do Pântano Patrícia Potter

Por outro lado, nã o planejara


acampar na floresta e nã o viajara
preparado para enfrentar uma
noite fria ao ar livre. Pensou em
fazer uma fogueira, mas seria uma
grande imprudência. As tropas
britâ nicas infestavam a regiã o e o
cheiro da fumaça iria longe com o
vento, o que poderia denunciá -los.
Sem alternativa, Connor ergueu-se
e começou a tirar os arreios do
animal. Depois, pegou um dos
cobertores e enrolou Sam, que
continuava desacordada, cobrindo-

644
Flor do Pântano Patrícia Potter

a com o outro. Voltou a sentar-se,


apoiando as costas no tronco do
carvalho, ficando a olhar para a
companheira e imaginando quem
seria ela realmente.
Falava bem e ele, muito estú pido,
julgara-a uma analfabeta. Talvez
descendesse de boa família, o que
complicava seu raciocínio. Por que
uma jovem fina e educada se
prestaria a uma farsa daquelas?
Quem seria Sam Taylor? De onde
viera?
Porém, havia alguns pontos dos

645
Flor do Pântano Patrícia Potter

quais nã o podia duvidar: do cará ter


forte e da lealdade da moça.
Connor detestava enigmas e esse o
irritava sobremaneira. Descobrir a
verdadeira identidade de Sam
tornara-se uma obsessã o e ele nã o
conseguia entender por que sentia-
se tã o envolvido pelo problema.
Sempre gostara das mulheres, mas
nunca se apaixonara, chegando a
julgar-se imune ao amor. Antes da
guerra pensara em casar-se porque
sua posiçã o o exigia. Procurara
uma noiva de bom gênio e

646
Flor do Pântano Patrícia Potter

prendada, que tivesse habilidade


para dirigir bem uma casa e dar-lhe
herdeiros, mas ninguém conseguira
atraí-lo o suficiente para prendê-lo.
Fora protelando a decisã o, lutando
contra todas as campanhas da
família e dos amigos para acabar
com seu celibato.
A capacidade de doaçã o de Sam,
simples, altruísta e silenciosa, era
algo totalmente novo para ele.
Subitamente, reconheceu que
gostava de tudo na moça delicada e
corajosa que surgira tã o

647
Flor do Pântano Patrícia Potter

estranhamente em sua vida.


Mas quem era ela?
Seus pensamentos foram
interrompidos por um movimento
dela e os olhos azuis o fixaram
espantados.
— Você está tremendo — ela
observou, preocupada com ele. —
Deu-me os dois cobertores e vai ter
de dormir comigo — disse com um
sorriso travesso.
— Posso machucar você.
— Vai me machucar muito mais se
ficar aí congelando. Prometo que

648
Flor do Pântano Patrícia Potter

nã o vou atacá -lo. Aliá s, estou sem a


menor condiçã o de fazer isso.
Ele hesitou, mas decidiu-se
quando a viu tentar desfazer-se
sozinha do cobertor. Ajudou-a a
estendê-lo no chã o; e deitou-se ao
lado dela, cobrindo os dois com o
outro cobertor. Ele imaginara que
seria estranho tê-la tã o perto, mas
nã o foi. Quando a envolveu nos
braços, sentiu como se houvesse
feito aquilo a vida inteira.
A certa altura da madrugada ele
acordou, confuso por um momento.

649
Flor do Pântano Patrícia Potter

Entã o lembrou-se de onde estavam


e viu que ainda mantinha Sam nos
braços. Hesitou em mover-se, nã o
desejando despertá -la. Por que
achava tã o natural que os dois se
aquecessem mutuamente e se
sentissem tã o à vontade nos braços
um do outro? Imagens indefinidas
de uma outra noite abriram
passagem em sua mente. A caverna.
Ele estava muito mal e tivera a
impressã o de que um corpo
aquecia o seu. Um corpo macio de
mulher. Sam. Sorriu com a

650
Flor do Pântano Patrícia Potter

lembrança e voltou a dormir.


Levantaram-se ao nascer do sol,
ambos famintos haviam se
alimentado desde o meio-dia e
tiveram de contentar-se com as
parcas sobras do almoço.
Os olhos de Sam nã o exibiam o
brilho de costume e ele percebeu
que ela sentia dores no braço.
Tinham de se pô r caminho. Snow
Island ainda estava a horas de
distâ ncia, mas talvez eles parassem
na cabana, onde estariam longe dos
ingleses. Entã o pescaria alguns

651
Flor do Pântano Patrícia Potter

peixes para uma refeiçã o melhor.


Ajudou-a a montar, cheio de
gentileza. Esquecera as perguntas
que desejava fazer, pois decidira
que nã o a pressionaria. Com toda a
certeza havia razõ es fortes para
que agisse do modo que fizera e as
confissõ es viriam quando ela
estivesse pronta para enfrentar
suas dolorosas lembranças. Até que
isso acontecesse, ele a aceitaria
como ela era.
Samantha, todavia, pensara muito
antes de dormir e resolvera contar-

652
Flor do Pântano Patrícia Potter

lhe tudo. Nã o podia mais suportar


mentiras ou o medo que ele
descobrisse a verdade de outra
forma. Ela saberia fazê-lo
compreender.
Connor montou atrá s dela e Sam
reclinou-se em seu peito, cheia de
confiança e carinho. Imersos em
seus pensamentos, começaram a
cavalgar vagarosamente através da
floresta.
Apesar de Connor evitar que o
cavalo trotasse e de a apertar nos
braços, a dor de Sam era evidente.

653
Flor do Pântano Patrícia Potter

A cada vez que sentia o corpo


miú do enrijecer-se e ouvia a
respiraçã o agitada, era como se
sentisse o sofrimento dela na
pró pria pele. Certo de que nã o
conseguiriam chegar a Snow Island
tã o cedo, ele decidiu que iriam para
a cabana. Francis ficaria
preocupado, mas nã o havia nada a
fazer. Nã o ia submeter Sam a mais
sofrimento.
Ela era leve como uma pluma e ele
mal sentia seu peso contra o peito.
Pensou nas vá rias vezes em que ela

654
Flor do Pântano Patrícia Potter

lhe dera alimentos que se


destinavam à s pró prias refeiçõ es e
sentiu-se mal ao recordar que
aceitara o que ela lhe oferecera sem
pensar, com completo egoísmo. Ela
lhe oferecera tudo, inclusive seu
amor. E ele dera tã o pouco em
troca! Tratara-a de modo
abominável no dia anterior, quando
ela mais necessitara de carinho e
sua negligência quase a matara,
quando distraído por seus
pensamentos egoístas, tomara uma
estrada perigosa que os levara à s

655
Flor do Pântano Patrícia Potter

mã os dos ingleses. Contudo, ela


nã o dissera uma só palavra de
reprovaçã o ou queixa. Comovido,
apertou-a mais nos braços e beijou
o alto da cabeça coroada de cabelos
revoltos, mal podendo acreditar na
ternura que o inundava. Encarou a
realidade de que desejava tê-la
perto de si. Para sempre.
Chegaram à cabana um pouco
antes do meio-dia e ele carregou-a
para o interior do abrigo rú stico,
depositando-a cuidadosamente
numa enxerga dura.

656
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Nã o está mais zangado


comigo? — ela perguntou com
suavidade, incapaz de
compreender aquelas mudanças de
humor.
— Eu nã o estava zangado com
você, meu bem. Apenas comigo
mesmo.
— E nã o está mais?
Ele tomou as mã os pequenas nas
suas.
— Devia estar. Você é apenas uma
criança.
— Nã o sou. Tenho dezenove anos.

657
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Dezenove? Eu nã o podia dar-


lhe mais que catorze!
— Eu sei. — Ela sorriu com
satisfaçã o. — Planejei tudo para
dar essa impressã o.
O rosto dele ficou sério.
— Nã o quer me contar por quê?
Ela considerou a pergunta,
observando-o com atençã o. Connor
sabia que Sam imaginava se podia
confiar nele e ficou magoado ao
constatar que a desconfiança
permanecia entre eles. Com um
suspiro, soltou-lhe as mã os e

658
Flor do Pântano Patrícia Potter

endireitou o corpo.
— Esqueça, Sam. Vou ver se pesco
alguma coisa para o nosso almoço.
Fique aqui e descanse.
Contente por nã o ser obrigada à
confissã o, sorriu agradecida.
— Obrigada.
Ele nã o respondeu e saiu da
cabana batendo a porta com força.
Ela o irritava por deixá -lo tã o
confuso e quase tímido. Sentia-se
como um garoto que acabara de
beijar pela primeira vez uma
menina, uma sensaçã o

659
Flor do Pântano Patrícia Potter

verdadeiramente perturbadora.
Sam lhe dera tudo, mas nã o
conseguia confiar nele, e o que ele
mais desejava era ser merecedor de
sua confiança.
Ele acendeu uma pequena
fogueira antes de procurar um
galho que servisse de vara de
pescar. Improvisou um anzol com
um pedaço de metal encontrado no
embornal, em meio a outras
miudezas, e facilmente encontrou
gordas minhocas, cavando a terra
mole embaixo de um carvalho-

660
Flor do Pântano Patrícia Potter

chorã o. Ele sempre levava linha de


pesca quando viajava pela floresta
e rapidamente conseguia um
instrumento bastante eficiente
para pescar. Em seguida, jogou o
anzol com uma isca numa pequena
lagoa formada pelo riacho. Nã o
demorou muito para que ele
pescasse três grandes trutas.
Limpou-as e colocou-as sobre as
cinzas quentes da fogueira,
observando a carne suculenta
embranquecer. O aroma delicioso
lembrou-o de que estava faminto,

661
Flor do Pântano Patrícia Potter

assim como Sam também devia


estar.
Enquanto os peixes assavam, ele
preparou algumas armadilhas na
esperança de que durante a noite
alguma caça caísse nelas. Nã o se
atrevia a dar tiros, temendo
chamar a atençã o de alguém. De
volta à fogueira, tirou os peixes,
limpou-os da cinza e apagou tudo,
jogando terra em cima do braseiro.
Sam cochilava quando ele entrou
na cabana com o almoço. Tocou-a
de leve, no ombro e ela abriu os

662
Flor do Pântano Patrícia Potter

olhos, aspirando com prazer o


cheiro do peixe assado. Olhou com
admiraçã o para as três trutas
colocadas num pedaço de á rvore
que servia de bandeja.
— Parecem deliciosos —
murmurou com apetite. Sentou-se
ao lado dela e começaram a comer
devagar saboreando o alimento e o
momento de companheirismo.
Quando dos peixes só sobravam as
espinhas, ela lambeu os dedos
satisfeita.
— Você tem muitos talentos,

663
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor. Nunca suspeitei de que o


soldado corajoso pudesse ser
também um bom cozinheiro.
— Tenho outros talentos,
senhorita.
— Nã o duvido nada. Descubro
um por dia — disse em tom de
provocaçã o.
— Nã o seja tã o desinibida,
mocinha. — Ele fingiu severidade.
— E você é presunçoso. Como
pode saber de que talentos estou
falando? Pode ser que eu admire
sua habilidade em enganar os

664
Flor do Pântano Patrícia Potter

soldados do rei ou de consertar um


braço quebrado.
Ele jogou a cabeça para trá s e deu
uma sonora gargalhada.
— Se você nã o estivesse com o
braço quebrado e com arranhõ es
pelo corpo todo eu lhe mostraria
meu principal talento, garota.
Ela examinou os braços e as
pernas mal cobertas pela calça
rasgada e franziu a testa.
— Estou mesmo horrível, nã o é?
E pensar que ontem estas roupas
estavam novinhas! — Os olhos dela

665
Flor do Pântano Patrícia Potter

brilharam de repente. — O riacho!


Será que posso banhar-me nele?
— Acho você bonita mesmo suja e
com roupa rasgada. - Era o
primeiro elogio que recebia dele. O
olhar que lançou a Connor revelou
toda sua felicidade.
Ele colocou uma das mã os no
rosto delicado e fitou os olhos azuis
e profundos.
— Você é adorável, Sam. Linda,
corajosa e cheia de bondade. Além
disso... atira melhor do que
qualquer mulher que conheci, um

666
Flor do Pântano Patrícia Potter

fato a que devo minha vida.


O sorriso dela era tímido, como se
duvidasse que atirar bem fosse
uma virtude admirável numa dama.
Todavia, sentia-se feliz com o olhar
amoroso e gentil do homem que
passara a ser a pessoa mais
importante de sua vida.
Ele reconheceu na expressã o de
Sam a muda interrogaçã o sobre o
que o destino reservava para os
dois, mas nã o havia respostas,
Nunca estivera tã o atraído por uma
mulher ou sentira tanta satisfaçã o

667
Flor do Pântano Patrícia Potter

em momentos compartilhados.
Cada vez que a tocava era como se
uma chama iluminasse
sentimentos antes ocultos.
Desejava dizer que a amava, mas
nã o podia, enquanto ela nã o
demonstrasse confiar plenamente
nele. Nã o, enquanto o mistério que
a envolvia permanecesse como um
fantasma entre eles.
Samantha interpretou mal a
expressã o que via nos olhos
cinzentos. Apesar do que ele
dissera, sabia que sua aparência

668
Flor do Pântano Patrícia Potter

era a pior possível. Estava magra,


suja, os cabelos mostravam-se
emaranhados e as roupas imundas
e rasgadas. Tentou ver-se com os
olhos dele e ficou desalentada. Era
uma moça, mas portava-se mais
como rapaz, acostumada a ouvir
xingamentos e que aprendera
rapidamente a praguejar como
forma de comunicaçã o com os
companheiros de regimento. E,
horror dos horrores, já passara a
noite num bordel. Para completar o
quadro, entregara-se a um homem,

669
Flor do Pântano Patrícia Potter

que nã o era seu marido, com total


abandono. Nã o era mais uma jovem
com quem alguém quisesse se
casar, Samantha pensou com
desgosto. E se aquilo tudo nã o
fosse o suficiente para que Connor
a desprezasse, o fato de ser uma
Chatham seria.
Uma nuvem de tristeza passou
por seus olhos. Precisava criar
coragem e contar a verdade a ele
antes que a situaçã o se complicasse
mais. Sacudiu a cabeça, enxotando
o pensamento perturbador.

670
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Eu quero me lavar, Connor. Por


favor.
Ele nã o pô de resistir à sú plica e
logo em seguida desciam juntos
para o riacho. Ele a ajudou a tirar
as botas e depois de descalçar as
suas, mostrou um precioso pedaço
de sabã o. Ela olhou-o surpreso e
ele sorriu.
— Passei quatro meses sem tomar
banho no navio-prisã o. Agora, nã o
vou a parte alguma sem levar um
pedaço de sabã o comigo.
O sorriso desapareceu e o rosto

671
Flor do Pântano Patrícia Potter

má sculo e atraente cobriu-se de


tristeza enquanto ele se lembrava
daqueles dias intermináveis e das
noites insones. Uma das maiores
torturas fora a sujeira e a
impossibilidade de livrar-se dela.
Samantha adivinhou o que lhe
passava na mente e seus olhos
fixaram-se na marca que ele trazia
no tornozelo.
— Você nunca me falou dos
meses naquele inferno —
comentou, meiga.
— Você me viu, naquela noite na

672
Flor do Pântano Patrícia Potter

caverna. Eu estava um trapo. Mas o


pior de tudo foi ver meu pai
morrer. Lentamente. Minuto a
minuto. Eu também estava
marcado para morrer, mas
consegui enganá -los. Os ingleses e
o maldito Chatham.
Ela ficou calada, notando a
mudança que se operava no rosto
dele. A revolta, o ó dio, a amargura,
passavam como sombras escuras
pelos olhos normalmente suaves e
cariciosos.
— Tive um irmã o — ele

673
Flor do Pântano Patrícia Potter

continuou. — Era um pouco mais


velho que você. Chatham matou-o
também. A filha dele, maldita seja,
seduziu meu irmã o e depois disse
ao pai que fora arruinada por ele,
desonrada. Chatham desafiou
Brendan para um duelo e meu
irmã o morreu. Foi assassinado.
No íntimo de Samantha a
esperança morreu no meio de
desesperada agonia. Havia ó dio na
voz dele e ela soube que nã o
haveria perdã o.
— Brendan morreu por aquela

674
Flor do Pântano Patrícia Potter

mulher, que meses depois estava


casada com um desgraçado oficial
inglês.
— Talvez ela amasse seu irmã o —
Samantha murmurou num fio de
voz.
— Amava e o matou? Foi isso o
que ela fez, como se houvesse
disparado o tiro que atravessou o
coraçã o de Brendan. Chatham
vinha procurando uma desculpa
para nos aniquilar fazia muitos
anos. Ela a providenciou.
Connor procurou controlar-se.

675
Flor do Pântano Patrícia Potter

Nã o havia razã o para ter contado


aqueles fatos a Sam e arrastá -la
pelos meandros trá gicos de sua
vida amargurada. Todavia sentira a
compulsã o de abrir a alma, talvez
esperando que ela se animasse a
fazer o mesmo.
A esperança porém feneceu
rapidamente. O rosto de Sam
mostrava uma angú stia terrível e
ele arrependeu-se de haver agido
outra vez como um idiota sem
sentimentos. Nã o devia tê-la
sobrecarregado com a revelaçã o de

676
Flor do Pântano Patrícia Potter

sua tragédia, quando obviamente


ela trazia no coraçã o suas pró prias
má goas.
Forçou-se a agir com naturalidade
e pegando o sabã o começou a lavá -
la. O rosto, as mã os e finalmente os
pés foram esfregados e
enxaguados, enquanto ele relatava
casos engraçados do regimento.
Contudo, por mais que se
esforçasse, nã o conseguiu apagar a
tristeza que se imprimira nos
lindos olhos azuis.
CAPÍTULO XIV

677
Flor do Pântano Patrícia Potter

Durante os dias seguintes, Connor


cortejou Sam como nunca cortejara
mulher alguma antes. Mimava-a de
todas as formas possíveis, fazendo
coisas inesperadas para alegrá -la.
Decidira que ficariam na cabana
até que o braço dela melhorasse e
os arranhõ es se curassem. Caça
miú da e peixes providenciavam
todo o alimento de que precisavam
e ele nã o via urgência em voltar
para Snow Island. Aproximava-se o
Natal e Marion nã o planejaria nada

678
Flor do Pântano Patrícia Potter

naquela época, concedendo algum


descanso aos homens.
Os dias eram idílicos, cheios de sol
e brisa fresca. As noites frias nã o
apresentavam problema, pois os
dois aqueciam-se mutuamente,
rejubilando-se com a proximidade
um do outro. Os corpos moldavam-
se perfeitamente e ele sentia uma
rara satisfaçã o em apenas abraçar a
companheira com carinho.
Durante o dia, caminhavam pela
floresta de mã os dadas ou
simplesmente ficavam sentados e

679
Flor do Pântano Patrícia Potter

abraçados, enquanto ele recitava


sonetos e longos poemas. Contara a
Sam sobre sua facilidade de
decorar, memorizando o que lia
quase que palavra por palavra.
Voltara a falar do navio-prisã o,
porém com mais calma,
recordando como recitar trechos
de livros em voz alta o ajudara a
nã o enlouquecer. Conversava com
ela como nunca fizera com
ninguém, desejando que Sam
conhecesse sua alma, assim como
sua vida passada.

680
Flor do Pântano Patrícia Potter

Sabia que se apaixonara


irremediavelmente, porque seu
coraçã o exultava cada vez que ele
fitava os olhos imensos e via o
sorriso aberto no rosto lindo.
Aquela mulher possuía uma
espontaneidade que o encantava.
Sam sempre conservaria algo de
criança mesmo quando tivesse
idade avançada, porque possuía um
jeito de ser franco, sem a menor
afetaçã o.
Apenas um fato o aborrecia. Ela
nunca falava sobre si mesma,

681
Flor do Pântano Patrícia Potter

apesar de ele continuadamente lhe


dar oportunidade. Ao menor sinal
de curiosidade, ela fechava-se
teimosamente, fazendo-o sentir-se
excluído de sua vida.
No momento, aquilo nã o fazia
muita diferença. Connor sentia que
era amado como nunca fora antes e
em troca entregava seu amor
apaixonado e cheio de
deslumbramento.
No terceiro dia, estavam sentados
à margem do riacho e Connor
jogara a isca na á gua. Enquanto

682
Flor do Pântano Patrícia Potter

esperava que algum peixe a


mordesse, declamava a parte do
velho bispo de Os Contos de
Canterbury, do poeta inglês
Chaucer. Ela ria com ar de
antecipaçã o e ele fitou-a surpreso.
— Algo me diz que você já ouviu...
ou leu... isso antes, Sam. Um ar de
fingida culpa passou pelo rosto
dela.
— Sua bruxinha! E pensar que
andei atrá s de cartilhas para
ensiná -la a ler!
Ela começou a rir.

683
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Valeu a intençã o.
— Quer dizer que você sabe ler?
— Um pouco.
— Suspeito de que nã o é tã o
pouco assim — ele disse sério, mas
nã o havia acusaçã o em suas
palavras.
Ela tornou a rir e ele beijou-lhe os
lá bios rosados, perdendo-se em sua
doçura. Contudo, afastou-se
bruscamente. Lembrou-se de como
perdera o controle três dias antes.
Estudou-a detidamente. Apesar
do riso alegre, a expressã o de

684
Flor do Pântano Patrícia Potter

amargura nã o desaparecera dos


olhos expressivos. Num impulso de
carinho puxou a cabeça dela para o
colo e ficou brincando com os
cabelos anelados. Ela pousou a mã o
sobre a dele e naquele instante ele
sentiu que nunca estivera tã o
pró ximo de outro ser humano. Era
como se suas almas se
encontrassem em profunda
comunhã o.
Os sentimentos de Samantha
eram confusos. Abandonara a idéia
de revelar sua identidade. A

685
Flor do Pântano Patrícia Potter

amargura em sua voz, quando ele


falara do irmã o, lhe dera a certeza
de que jamais seria compreendida
ou perdoada. Mas nã o podia
desistir dele. Nã o conseguia
imaginar a vida sem ele, apesar de
saber que o sonho terminaria um
dia. Extrairia o má ximo de
felicidade que pudesse das horas,
dos dias, talvez dos meses que
ainda lhe restavam ao lado do
homem amado para ao menos
guardar lembranças para um
futuro de solidã o.

686
Flor do Pântano Patrícia Potter

Olhou para o rosto de Connor,


gravando na memó ria cada detalhe
das feiçõ es fortes. Deslizou a mã o e
introduziu-a na camisa meio
aberta, afagando o peito coberto de
pêlos claros em movimentos lentos,
provocantes.
Rendendo-se à ternura, ele baixou
a cabeça e pousou os lá bios nos
dela. Sam suspirou e ele afastou a
vara de pesca para poder abraçá -la.
Entre beijos exaltados despiram-se,
procurando um contato completo.
— Eu te amo, Connor, e sempre

687
Flor do Pântano Patrícia Potter

amarei — ela murmurou com


lá grimas nos olhos.
Ela dissera as palavras que ele
tanto desejara ouvir. Emocionado,
mergulhou na alegria de tê-la nos
braços e uniram-se docemente sob
a luz do sol. A paixã o transparecia
em cada toque gentil, em cada
beijo. Era uma troca de emoçõ es,
um prazer total que os arrebatava.
Ambos sabiam que algo
maravilhoso acontecera com eles e
os transformara para sempre.
Permaneceram abraçados e

688
Flor do Pântano Patrícia Potter

silenciosos, atô nitos com a força


dos sentimentos que os inundava.
Juntos viram o sol esconder-se
atrá s das á rvores, enviando um
caleidoscó pio de cores através do
céu, envolvendo as nuvens em
tonalidades brilhantes e
indescritíveis. A magia os
abandonou apenas quando o frio
da brisa arrepiou-lhes a pele.
Relutantes, separaram-se, receosos
de quebrar o clima de
compreensã o e amor que os unia.
Connor ajoelhou-se diante dela,

689
Flor do Pântano Patrícia Potter

inebriado com a natureza


apaixonada e meiga que lhe
animava o corpo delgado. Inclinou-
se e beijou-a, antes de estender-lhe
a mã o para que se levantasse.
Voltaram devagar, ainda calados,
para a cabana. Ele acendeu uma
vela e acariciou o rosto sonhador
voltado para o seu.
— Vou examinar as armadilhas,
mas voltarei logo, amor — disse
baixinho.
Com um ú ltimo olhar de carinho,
saiu. Precisava ver se caçara

690
Flor do Pântano Patrícia Potter

alguma coisa para a refeiçã o


daquela noite e também da manhã
seguinte, quando retomariam o
caminho para Snow Island. Francis
já devia estar mais que preocupado
com a demora dos soldados.
Já estava completamente escuro
quando ele voltou com dois
coelhos. Preparou uma fogueira
fora da cabana e assou-os. Um seria
para o jantar e o outro para o
desjejum. Falaram pouco enquanto
comiam, embora seus olhares e
sorrisos transmitissem mensagens

691
Flor do Pântano Patrícia Potter

cheias de calor e doçura. Na hora


de dormir, abraçaram-se na
enxerga estreita para aproveitar as
ú ltimas horas de intimidade.
O sol esgueirou-se
indiscretamente pelas frestas da
cabana. Suspirando de
contentamento, Samantha ajeitou-
se nos braços de Connor e seus
rostos se tocaram. Ela sorriu,
pensando que apreciava até o
contato da barba que despontava
nas faces morenas. Na verdade,
gostava de tudo nele.

692
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor também relutava em


mexer-se, gozando a sensaçã o de
posse que tinha com Sam nos
braços. Nã o podia mais tentar
enganar-se. Nã o viveria sem ela.
Naquele mesmo dia a pediria em
casamento.
Levantaram-se, por fim, evitando
pensar na volta para Snow Island,
onde nã o mais compartilhariam
um mundo particular povoado de
sonhos. Comeram em silêncio e, de
mã os dadas, foram até o riacho
lavar-se. Ele ajudou-a a banhar-se e

693
Flor do Pântano Patrícia Potter

depois sentaram-se à margem. Os


olhos cinzentos fixaram-se nos
dela.
— Seu nome é mesmo Sam?
Ela sentiu o coraçã o falhar.
Precisou de toda a sua energia para
fitá -lo de modo tranqü ilo, enquanto
as emoçõ es fervilhavam em seu
íntimo. Precisaria mentir para nã o
ver o carinho que havia nos olhos
cinzentos transformar-se em ó dio.
— Sim... bem... quase. Meu pai
queria um menino. Aquilo era a
mais pura verdade, mas precisava

694
Flor do Pântano Patrícia Potter

continuar.
— Meu nome é Samara —
improvisou.
— Samara — ele repetiu com ar
sonhador. — É um nome lindo! Eu
precisava conhecê-lo porque nã o
podia ignorar o nome verdadeiro
da mulher com quem vou me casar.
Ele estava preparado para tudo,
menos para a expressã o de
desespero no rosto dela. Abraçou-a
sabendo instintivamente que ela
estava pronta para fugir. Samantha
lutou um pouco para livrar-se, mas

695
Flor do Pântano Patrícia Potter

percebendo a inutilidade da
tentativa, ficou imó vel e cabisbaixa
incapaz de encará -lo.
— Sam... Samara... eu a amo e
quero que seja minha esposa. Sei
que nã o tenho muito a lhe oferecer
agora, mas... quando a guerra
acabar teremos um lar. Eu a amo
mais do que imaginei possível
alguém amar. Tom Edwards é
pastor e poderá nos casar em Snow
Island. Francis pode ser meu
padrinho e... — ele interrompeu-se,
admirado com a infelicidade da

696
Flor do Pântano Patrícia Potter

companheira.
Sentiu-se vazio e confuso. Sam
nã o queria casar-se com ele! — O
que é, Sam? Nã o vai me aceitar
como seu marido?
— Nã o posso. Você nã o sabe nada
a meu respeito, sobre minha
família ou minha origem.
— Porque nunca me contou, meu
bem. Mas sei tudo o que desejo
saber: nã o quero perdê-la.
Os olhos azuis, ficaram
escurecidos pela dor. Os lá bios dela
tremiam, mas corajosamente Sam

697
Flor do Pântano Patrícia Potter

sustentou o olhar que nã o


abandonava seu rosto.
— Nã o vai me perder, Connor.
Ficarei com você até que nã o me
queira mais, mas nã o posso ser sua
esposa.
— Por quê? — ele perguntou
num tom de sú plica que exigia uma
resposta franca.
— Porque eu o amo. Nunca duvide
disso. Eu o amo mais que minha
pró pria vida.
Ele examinou o rosto determinado
e reconheceu a derrota. Entã o,

698
Flor do Pântano Patrícia Potter

raiva e tristeza emergiram do


espanto em que caíra. Ela estava
disposta a ser sua amante, mas nã o
sua esposa. Talvez estivesse certa.
Ele também nã o podia se entregar
por inteiro. O ó dio destruíra grande
parte de seus sonhos e projetos e
apenas a morte de Chatham lhe
devolveria a paz. Talvez fosse
aquilo que Annabelle quisesse
explicar ao dizer que Sam fugia
dele por pressentir o ó dio e o
desejo de vingança que o
consumiam. Nesse caso, ele nada

699
Flor do Pântano Patrícia Potter

podia fazer, mas era mais um


motivo para que exterminasse
Robert Chatham.
Samantha pensou morrer ao notar
a mudança que se operava no rosto
dele. Os olhos cinzentos, cheios de
ternura poucos instantes antes,
tornaram-se frios. Percebendo que
ia chorar, ela virou-lhe as costas.
Ouviu os passos que se afastavam e
só entã o deixou que as lá grimas
rolassem e os soluços escapassem
de seu peito dolorido.
Samantha pensou que aquele

700
Flor do Pântano Patrícia Potter

estava sendo o dia mais longo de


sua vida. Connor a ajudara a
montar, mas suas mã os apenas
haviam cumprido um dever, sem
nenhum carinho. Com o rosto
fechado e os olhos frios,
transformara-se num perfeito
estranho, compelido por uma
obsessã o de vingança que mal
podia ser contida e que ela, sem
querer, fizera aumentar.
Colocara-a na garupa, em vez de
mantê-la à frente dele, evitando um
contato maior. Lembrou-se do

701
Flor do Pântano Patrícia Potter

carinho com que a enlaçara


durante a cavalgada de três dias
antes, e seu coraçã o apertou-se
aflito.
Connor pouco falara depois que a
deixara à beira do riacho naquela
manhã e quando ela estendera a
mã o em sua direçã o. Mais tarde,
num gesto de reconciliaçã o, ele
fingira nã o ver, afastando-se.
Ela segurava-se na sela, pois ao
passar o braço pela cintura dele,
em busca de apoio, sentira-o ficar
tenso e retraíra-se imediatamente.

702
Flor do Pântano Patrícia Potter

O caminho parecia interminável,


como se estivessem destinados a
viajar para sempre, mergulhados
naquele silêncio gelado. A situaçã o
a fez pensar em Tâ ntalo, um dos
filhos de Zeus, que ofendera os
deuses roubando a Ambró sia e o
néctar que lhes servia de alimento
para oferecer as iguarias a simples
mortais. Como puniçã o, fora
condenado a permanecer
mergulhado em á gua até o pescoço,
sem poder beber, enquanto acima
de sua cabeça via frutas que nã o

703
Flor do Pântano Patrícia Potter

podia alcançar para matar a fome.


Por toda eternidade. Seria aquele
seu futuro com Connor?
Ela roubara o fruto proibido do
amor e sua puniçã o seria tê-lo ao
alcance das mã os e nã o poder tocá -
lo. Amá -lo com todas as forças do
coraçã o e nã o conseguir fazê-lo
acreditar na intensidade do
sentimento. Ser escolhida para ser
sua esposa e nã o poder aceitar.
Fechou os olhos, agoniada pela
dolorosa ironia.
Connor também ansiava pelo fim

704
Flor do Pântano Patrícia Potter

da viagem, que acabaria com o


contato físico entre eles. A
proximidade dela, antes motivo de
alegria, transformara-se em tortura
e cada lembrança dos momentos de
ternura e paixã o tornava-se um
peso em seu coraçã o desiludido.
Ele a amava. Intensamente. Ela
enchera sua vida de luz, nã o apenas
nos ú ltimos dias, mas quando ainda
pensava que Sam tratava-se de um
rapaz a quem ele poderia adotar
como filho. Mas o riso cristalino, o
carinho que ela lhe dera, a ternura

705
Flor do Pântano Patrícia Potter

e a compreensã o haviam sido uma


farsa. Ela nã o o queria, embora ele
nã o pudesse compreender o
porquê. Se houvesse algum segredo
em seu passado, deveria confiar
nele. Confiaria se o amasse. Como
pudera fingir tã o bem?
Cheio de ó dio, desejou que ela
fosse para o inferno juntamente
com todas as outras mulheres do
mundo.
Samantha imaginava o que
aconteceria quando chegassem a
Snow Island. Se ele contasse a

706
Flor do Pântano Patrícia Potter

verdade a Marion, o chefe dos


rebeldes a expulsaria do
acampamento e ela teria de
abandonar Connor. Talvez nunca
mais o visse. Aquilo ainda seria
pior do que vê-lo todos os dias e
suportar sua frieza.
Connor, por sua vez, estudava as
alternativas sobre o procedimento
que deveria adotar. Por dever, teria
de contar a verdade a Francis. Ele
nunca permitira a presença de
mulheres em seus acampamentos
secretos por inú meras razõ es,

707
Flor do Pântano Patrícia Potter

portanto quase certamente Sam


seria banida do bando se seu
verdadeiro sexo fosse revelado.
Todavia, a idéia de nã o tornar a vê-
la lhe era insuportável. Apesar dos
ú ltimos acontecimentos, devia
muito à moça. Ela lhe salvara a vida
por duas vezes e ele nã o podia
suportar o pensamento de que algo
lhe acontecesse. Assim, se ela
permanecesse no acampamento ele
a faria prometer que se limitaria a
ficar cuidando dos cavalos e que
nunca mais participaria de

708
Flor do Pântano Patrícia Potter

expediçõ es de ataque. Quanto aos


seus pró prios deveres, pediria a
Francis que lhe desse mais
trabalhos como mensageiro, para
que pudesse afastar-se um pouco
da presença perturbadora da
mulher amada. Se tivesse coragem
suficiente para ficar longe dela
definitivamente, pediria para ser
transferido para o regimento de
Greede, mas sabia que isso estava
fora de cogitaçã o. Por mais ferido
que estivesse, ele a amava e tinha
necessidade de vê-la. Suspirou

709
Flor do Pântano Patrícia Potter

longamente, cheio de amargura.


O suspiro triste fez com que
lá grimas brotassem nos olhos de
Samantha. Enxugou-as com raiva,
formando manchas escuras no
rosto empoeirado.
Ela o amava. Como poderia viver
sem ele?
Ele a adorava. Como seria capaz
de deixá -la ir embora?
As respostas fugiam deles e a
ú nica coisa que parecia real
naquele pesadelo era o ruído dos
cascos do cavalo sobrecarregado

710
Flor do Pântano Patrícia Potter

que os levava ao seu destino.

CAPÍTULO XV

Connor e Samantha chegaram a


Snow Island calados e exaustos.
Com seu comportamento
imprevisível, Francis Marion
partira com três quartos de seus
homens para Nelson's Ferry, a
principal á rea de fornecimento de
víveres para os ingleses.
Connor praguejou alto. Seu lugar

711
Flor do Pântano Patrícia Potter

era ao lado de Marion e ele perdera


tempo envolvendo-se num sonho
vazio, fazendo papel de tolo nas
mã os de uma mulher que nã o o
queria. Sem cerimô nia, agarrou-a
pela cintura e colocou-a no chã o,
sem nada dizer. Em seguida,
ocupou-se em selar um outro
cavalo. Ela o seguiu, tímida e
indecisa.
— Connor...
Ele virou-se ao ouvir-lhe a voz e
seu rosto era uma mascara
endurecida.

712
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Você vai ficar aqui. E Deus a


proteja se eu descobrir que tentou
ir atrá s de nó s ou que saiu do
acampamento. Ouviu bem?
Ela assentiu lentamente.
— Vai contar ao coronel Marion?
Nã o havia compaixã o no olhar que
ele lhe lançou.
— Nã o sei. Nada direi até que nó s
dois possamos conversar
novamente, mas depois nã o sei o
que farei. E Francis nã o é mais
coronel. Foi promovido a general.
Montou e depois de fitá -la com

713
Flor do Pântano Patrícia Potter

um olhar que parecia querer


transpassar-lhe a alma, esporeou o
cavalo e partiu a galope,
desaparecendo na floresta envolta
nas sombras do crepú sculo.
Connor sentia-se exausto mas
estava satisfeito com a
oportunidade de cavalgar sozinho
através do pâ ntano. A viagem
solitá ria dava-lhe tempo para
pensar nos ú ltimos quatro dias,
responsáveis por tal reviravolta em
sua vida e em suas emoçõ es.
Quatro dias que pareciam uma

714
Flor do Pântano Patrícia Potter

eternidade. Nunca imaginara que


duas pessoas pudessem unir-se
com tanta afinidade e jamais
pensara ser capaz de tanta ternura
e amor. Os dias com Sam haviam
lhe dado uma amostra do paraíso. E
entã o acontecera a queda que o
lançara nas profundezas do
inferno. A dor de descobrir que
Sam nã o desejava passar a vida a
seu lado doera e ainda doía de
forma avassaladora. Maldita.
Maldito ele também, que caíra em
suas malhas da seduçã o, que se

715
Flor do Pântano Patrícia Potter

deixara levar como um tolo.


Contudo, a situaçã o nã o estava
clara, havia um mistério que nã o
conseguia decifrar. Se os fatos
evidenciavam a rejeiçã o de Sam,
algo oculto corroia-lhe a mente,
atormentando-o. Os olhos dela.
Aqueles imensos olhos azuis
haviam se enchido de dor quando
ela dissera que nã o podia desposá -
lo. Por quê? Qual seria o motivo, se
houvesse algum, que a obrigara a
nã o aceitar sua proposta? Por que
ela nã o confiava nele e em seu

716
Flor do Pântano Patrícia Potter

amor?
Quando voltasse ao
acampamento, teriam de conversar.
Forçaria uma explicaçã o e
descobriria a verdade. Talvez sua
intuiçã o estivesse correta. Talvez
Sam o amasse, mas estivesse
impedida de entregar-se ao amor
por algum amargo segredo que a
deixava temerosa e confusa.
Esporeou o cavalo e desviou o
pensamento para o seu encontro
com Francis.
Francis Marion e sua tropa de

717
Flor do Pântano Patrícia Potter

cento e cinqü enta homens haviam


sitiado Nelson's Ferry e estavam
tendo grande sucesso em capturar
desavisados barcos de suprimentos
que navegavam diretamente para a
armadilha. Além de víveres,
carregavam pó lvora, da qual os
rebeldes necessitavam
desesperadamente, o que tornava a
expediçã o bastante gratificante.
Marion, todavia, sentia falta de
Connor, que provara ser seu melhor
colaborador. Nã o podia livrar-se do
receio de que o amigo fora

718
Flor do Pântano Patrícia Potter

capturado, pois nã o era de seu


feitio atrasar-se nas viagens que
fazia. Preocupava-se também com a
segurança do jovem Sam Taylor. Se
os dois nã o estivessem em Snow
Island quando a tropa retornasse,
mandaria espiõ es para descobrir o
que acontecera a eles.
Acabara justamente de passar as
sentinelas em revista, quando
percebeu o vulto de Connor que se
aproximava a galope.
— Uma tropa britâ nica, de
aproximadamente quatrocentos

719
Flor do Pântano Patrícia Potter

soldados, está a menos de oito


quilô metros daqui — o recém-
chegado anunciou sem perder
tempo com saudaçõ es.
— Eles o viram?
— Nã o. Eu viajei fora da estrada.
Sã o dragõ es e estarã o aqui em
menos de uma hora.
Marion agiu rá pido. Ordenou aos
homens que montassem e
desaparecessem no pâ ntano. Os
suprimentos capturados já haviam
sido despachados para Snow Island
e os barcos ardiam incendiados.

720
Flor do Pântano Patrícia Potter

Quando o general já se preparava


para partir também, uma sentinela
chegou correndo para avisar que
outra tropa inglesa bloqueava o
caminho para o acampamento
rebelde. Marion reuniu os oficiais
mais graduados.
— Connor, Horry, levem os
homens para os pâ ntanos e
coloquem todos em posiçõ es
estratégicas. Aqueles desgraçados
nunca ousaram entrar nos
pâ ntanos antes.
Connor dirigiu metade dos

721
Flor do Pântano Patrícia Potter

homens e ordenou-lhes que


subissem nas á rvores que
sombreavam um riacho profundo,
sabendo que Horry estava fazendo
o mesmo com os soldados que
orientava. Os comandados de
Marion, na maioria lenhadores
experientes, habituados a andar na
floresta, desapareceram no meio do
mato com a facilidade de lebres.
Ficaram observando a aproximaçã o
dos britâ nicos, que formaram
piquetes ao longo do riacho, mas
nã o agiram antes de escurecer.

722
Flor do Pântano Patrícia Potter

No decorrer da noite, tiros e gritos


cortavam o ar ocasionalmente,
enquanto os rebeldes atacavam os
piquetes, matando as sentinelas
ingleses. Pela manhã ambos os
lados encontravam-se num
impasse. Os britâ nicos nã o
ousavam entrar no pâ ntano,
enquanto os rebeldes nã o se
atreviam a sair dele.
Connor foi o primeiro a divisar a
bandeira branca que anunciava o
pedido de trégua e discussõ es para
entendimento. Ele e Marion entã o

723
Flor do Pântano Patrícia Potter

foram ao encontro do comandante


da tropa inglesa, o major McLeroth.
Ambos conheciam o oficial, um
escocês que possuía muito pouco
da natureza sanguiná ria da maioria
dos soldados de Sua Majestade, nas
Carolinas. Em silêncio, divertiam-se
com as queixas dos homens.
— É contra todas as leis de uma
guerra civilizada o ataque contra
piquetes de vigia — o escocês
explicou, indignado.
Depois, cerimoniosamente,
desafiou Marion a sair da floresta e

724
Flor do Pântano Patrícia Potter

bater-se numa luta limpa.


O general rebelde apertou os
lá bios para nã o rir e Connor teve
grande dificuldade em permanecer
sério. De repente, Marion mudou
de expressã o. O momento de
descontraçã o acabara.
— E eu acho que e contra todas as
leis de uma guerra civilizada
incendiar as casas de qualquer um
que nã o se submeta a vocês —
revidou com um brilho perigoso no
olhar. — Isso é muito mais sujo do
que atacar piquetes, portanto,

725
Flor do Pântano Patrícia Potter

enquanto vocês quebrarem as leis


de um modo nó s as quebraremos
de outro.
Marion voltou-se para ir embora,
mas o major chamou-o de volta.
— Tenho uma proposta a fazer.
— Sim?
— Colocarei quinze dos meus
melhores soldados contra quinze
dos seus. Eles resolverã o esta
batalha.
Marion nã o tinha dú vidas sobre
quem venceria o combate. Nã o
havia melhores atiradores no Sul

726
Flor do Pântano Patrícia Potter

do que seus homens. O que nã o


conseguia compreender era por
que, tendo muito mais soldados,
McLeroth fazia tal proposta.
Com um seco aceno de cabeça, o
rebelde concordou e os dois
homens marcaram a hora para o
confronto. A seguir, Marion e
Connor voltaram para os seus
homens e pediram voluntá rios,
deixando bem claro que aquele
podia ser um empreendimento
suicida, apesar de estarem
aparentemente em posiçã o de

727
Flor do Pântano Patrícia Potter

vantagem. Nã o importava quanta


habilidade tivessem, tiros quase à
queima-roupa seriam fatais.
Houve excesso de voluntá rios e o
general e Connor procederam à
seleçã o, eliminando os pais de
família. Os que sobraram foram
selecionados por sua perícia em
atirar. Connor apenas esboçou o
desejo de participar do combate,
porque Marion recusou sua
permissã o de forma irredutível.
Na hora marcada os dois grupos
combatentes aproximaram-se um

728
Flor do Pântano Patrícia Potter

do outro. De um lado, os
americanos, em seus trajes
comuns, de tecido barato. Do outro,
os ingleses, envergando seus
uniformes vermelhos e elegantes.
Marion, que sempre percebia tudo,
estava tã o distraído na observaçã o
dos grupos que demorou a notar
que as fileiras britâ nicas ficavam
desfalcadas à medida que se
aproximava do ponto de encontro.
No momento em que o primeiro
tiro deveria ser disparado, o resto
dos quinze casacas-vermelhas

729
Flor do Pântano Patrícia Potter

debandou, deixando os patriotas


americanos sozinhos no campo de
batalha, completamente
estarrecidos.
Ninguém porém ficou tã o
espantado quanto Marion, que
mandou Connor e mais dez homens
atrá s dos ingleses para aprisionar
alguns e voltou para o seio da
floresta preparando-se para uma
eventual emboscada. A retirada do
inimigo fora bastante suspeita.
Uma hora mais tarde, Connor
voltava com um tenente inglês. O

730
Flor do Pântano Patrícia Potter

cavalo do homem estava mancando


e o impossibilitara de seguir a
coluna dos companheiros,
tornando-se presa fá cil.
Marion nã o levou muito tempo
para extrair informaçõ es do
prisioneiro. O tenente, embora
desgostoso pela captura, nã o
escondia o orgulho pela açã o
ardilosa de seu comandante.
McLeroth nã o sabia da
aproximaçã o de uma segunda tropa
inglesa e julgara ter caído numa
armadilha, supondo que Marion

731
Flor do Pântano Patrícia Potter

possuísse um nú mero muito maior


de soldados, principalmente depois
do ataque aos piquetes. Optara
entã o pela retirada, aproveitando o
momento em que todas as atençõ es
voltaram-se para os dois grupos de
quinze soldados que se bateriam.
Connor, Horry e Marion
entreolharam-se completamente
atô nitos. O general ordenou que
soltasse o tenente e assim que o
inglês estava bastante longe para
nã o ouvir, os três começaram a rir.
Com a retirada do destacamento

732
Flor do Pântano Patrícia Potter

de McLeroth, os rebeldes evitaram


facilmente um encontro com a
segunda tropa inglesa e logo todos
se achavam a caminho de Snow
Island. Connor entã o nã o pô de
mais evitar os olhares inquisitivos
de Marion, que cavalgava a seu
lado.
— Estávamos preocupados com
você e Sam — o general comentou
sem sombra de censura na voz.
— Encontramos uma patrulha
inglesa e o cavalo de Sam foi morto.
E... ele caiu e quebrou o braço —

733
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor mordeu o lá bio ao perceber


que quase dissera "ela", mas
continuou:
— Conheço uma cabana
abandonada na floresta e ficamos
lá para que ele descansasse antes
de continuarmos viagem.
— Ele está bem? — Marion
perguntou, estranhando a
hesitaçã o do outro.
— Está , sim. Acredito porém que
deverá ficar sem sair do
acampamento por algum tempo.
O general concordou, ainda

734
Flor do Pântano Patrícia Potter

achando estranho que o amigo


fosse tã o lacô nico ao falar de quem
gostava tanto.
Sabia que Connor levara Sam
junto com ele para que os dois
tivessem oportunidade de se
conhecerem melhor e fazerem
amizade. Algo acontecera que
desgostara seu amigo e nã o fora
apenas o acidente com o rapaz.
Tivera a esperança de que a
preocupaçã o de Connor com o
garoto o ajudasse a superar o ó dio
destrutivo que alimentava. Aquele

735
Flor do Pântano Patrícia Potter

era um homem bom demais,


honrado demais, para arruinar sua
vida.
Respeitando a evidente reticência
do outro, Marion resolveu mudar
de assunto.
— Como vai Annabelle? —
perguntou com um sorriso. Sempre
achara interessante a amizade
entre os dois e seria eternamente
grato à colaboraçã o inestimável da
dama de Georgetown à causa
rebelde.
A pergunta provocou uma ligeira

736
Flor do Pântano Patrícia Potter

risada de Connor.
— Em má companhia. Estive sob o
mesmo teto com Tarleton, quatro
dias atrá s.
Francis nã o reprimiu outro
sorriso. — Deve ter sido
emocionante.
— Annabelle disse que ele andou
se gabando de ter algumas
surpresas reservadas para a
Raposa dos Pâ ntanos.
O general riu bem-humorado.
— Fico imaginando a surpresa
dele se soubesse que você estava lá .

737
Flor do Pântano Patrícia Potter

— A pobre Annabelle quase


desmaiou quando ele disse que
agora eu sou quase tã o procurado
quanto você. Uma honra duvidosa,
nã o é? De qualquer forma, Tarleton
jurou que eu também nã o sairia
vivo dos pâ ntanos. Deu outras
informaçõ es preciosas, porém.
Cornwallis está planejando um
ataque violento contra Greene, o
que deverá acontecer dentro de
poucas semanas.
Marion ficou sério ao receber a
informaçã o.

738
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Enviarei um mensageiro assim


que chegarmos a Snow Island.
— Eu gostaria de ir — Connor
declarou com firmeza. O general
nã o gostou da idéia de ficar
novamente sem o valioso
companheiro, mas havia a
vantagem de que Connor era
respeitado e prontamente lhe
dariam crédito.
— Está certo. Antes terá de
descansar um pouco. Se me
permite a comparaçã o, está com
uma aparência dos diabos, meu

739
Flor do Pântano Patrícia Potter

amigo.
Sem esperar pela resposta,
Francis cavalgou para a frente da
coluna.
Connor dormiu durante o resto do
dia e a noite toda. A exaustã o nã o
evitou que a imagem de Sam
invadisse seus sonhos, torturando-
o. Quando despertou, com os
primeiros raios de sol, sentia-se
triste e deprimido.
Encontrou Marion sentado perto
de uma das fogueiras e aceitou uma
caneca de chá , um luxo que viera

740
Flor do Pântano Patrícia Potter

entre os suprimentos capturados


em Nelson's Ferry.
— Ainda deseja levar a mensagem
ao general Greene? — Francis
perguntou.
O outro assentiu, enquanto os
olhos cinzentos percorriam a
clareira em busca de Sam.
— E claro.
— Precisa prometer que será
cauteloso. Se os ingleses o pegarem
será uma grande perda para a
causa. Tenho certeza de que nã o
teriam misericó rdia.

741
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Se Georgetown for uma


amostra de sua competência, nã o
terei nenhum problema —
respondeu com um sorriso
sarcá stico, antes de fechar o rosto
numa expressã o carrancuda. — Eu
quero ir, Francis. E gostaria de ficar
lá se houver a evidência de alguma
batalha pró xima. Concorda?
Os olhos de Marion cravaram-se
nos dele, perscrutadores.
— Nã o. Nã o concordo. Preciso de
você, aqui.
— Greene vai precisar de quantos

742
Flor do Pântano Patrícia Potter

homens puder reunir se tiver de


enfrentar Cornwallis. Voltarei
assim que terminar.
Os compreensivos olhos do
general suavizaram-se.
— Ajudar Greene nã o é motivo
real, nã o é mesmo? - Connor
desviou o olhar. — O que o está
perturbando? — insistiu Francis.
— O desejo intenso de vingar-se de
Chatham, ainda?
O outro balançou a cabeça,
negando.
— Estã o o que é? — o general

743
Flor do Pântano Patrícia Potter

perguntou em tom ríspido,


procurando abrir uma brecha na
armadura emocional na qual o
companheiro se escorava. — Está
preocupado com Sam?
Connor agarrou-se à deixa
providencial.
— Ele quase foi morto. Acho que
você devia considerar a idéia de
mandá -lo para outro lugar.
— Para onde? Aparentemente nã o
tem família ou amigos além de nó s.
Pensei que gostasse dele.
— Apenas nã o quero que ele corra

744
Flor do Pântano Patrícia Potter

riscos — Connor teimou. Marion


franziu a testa, desconcertado.
Aquele era um homem diferente do
que conhecera. Contraditó rio e
inseguro.
— Cuidarei dele, Connor. Nã o
precisa se preocupar. Escute, se
Greene achar que precisa de você,
pode ficar, mas fique sabendo que
sentirei muito a sua falta e nã o só
porque é um dos meus melhores
soldados.
Alívio e gratidã o brilharam nos
olhos cinzentos, mas Connor sabia

745
Flor do Pântano Patrícia Potter

que a pró xima tarefa seria mais


difícil. Foi à procura de Sam e
encontrou-a sentada numa
reentrâ ncia do terreno à margem
do rio.
— Sam?
Ela olhou para cima e uma intensa
alegria cintilou nos imensos olhos
azuis. Quase que imediatamente
desviou o olhar, torcendo as mã os
nervosamente. Apesar do rosto,
que parecia esculpido em pedra, ele
estava extremamente bonito com
os cabelos claros brilhando ao sol.

746
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Sam, olhe para mim! — ele


exigiu, agarrando-a pelos ombros.
— Eu vou partir.
Ela fitou-o aflita e aturdida.
— Partir? — repetiu já com os
olhos marejados.
— Vou me juntar ao general
Greene, na Carolina do Norte.
Cornwallis está ameaçando atacá -
lo.
— Vai partir por minha causa?
— Nã o — mentiu, suavizando a
expressã o. — Devo levar
informaçõ es ao general. Sã o

747
Flor do Pântano Patrícia Potter

urgentes e já me demorei demais.


— Sim, é por minha causa — ela
gemeu com lá grimas nos olhos.
Incapaz de conter-se, ele tomou
um dos cachos curtos dos cabelos
maltratados e acariciou-os por um
instante. Depois, largou-o
abruptamente e endireitou-se.
— Se tiver algum problema, Sam,
qualquer que seja, saiba que eu a
ajudarei. Se é algo assim que a
impede de casar-se comigo,
resolveremos a dificuldade juntos.
Ela ergueu-se de um pulo e no

748
Flor do Pântano Patrícia Potter

instante seguinte estava nos braços


dele, soluçando, desesperada. Ele
apertou-a contra o corpo e todos os
ressentimentos desapareceram,
anulados pela necessidade física e
emocional que tinham um do outro.
— Nã o vá — ela implorou. — Nã o
me deixe sozinha! - Uma
premoniçã o aterradora assaltou-a
ao dizer aquelas palavras. Dissera a
mesma coisa ao deparar com
Brendan morto, assassinado por
seu pai. Sentiu-se gelar, envolvida
pelo sopro frio do terror. Os olhos

749
Flor do Pântano Patrícia Potter

azuis mostravam pavor e os lá bios


pá lidos tremiam sem controle.
— Nã o vá , Connor — sussurrou.
— Por favor, nã o vá !
— Diga que aceita ser minha
esposa.
Ela fechou os olhos. O gélido
pressentimento referia-se à viagem
de Connor a uma regiã o perigosa
ou ao casamento dos dois?
— Nã o posso! — ela gritou entre
lá grimas.
— Eu sei que você me ama, Sam.
Os lá bios se encontraram num

750
Flor do Pântano Patrícia Potter

beijo faminto e ele começou a


acariciá -la, pretendendo forçá -la a
admitir que o amava. Deslizaram
para o chã o e uniram-se
febrilmente, movimentando-se no
ritmo do desejo desenfreado, até o
gozo final. Deixaram-se ficar
deitados, abraçados, mas nã o
contentes. O medo e a incerteza,
que haviam colocado a frenética
urgência em sua uniã o, ainda se
erguiam como fantasmas entre
eles.
Em silêncio, Connor arrumou as

751
Flor do Pântano Patrícia Potter

roupas e ajudou-a a fazer o mesmo.


Hesitando em fazer perguntas por
temer as respostas, ele ficou
brincando com uma folha de capim.
— Eu nã o queria que isto
acontecesse — disse por fim. —
Nã o desejo uma amante, Sam, que
me satisfaça os apetites apenas.
Nunca pensei encontrar alguém
como você e agora nã o suporto a
idéia de viver sem seu amor. Porém
nã o quero momentos roubados.
Nosso amor tem de ser aberto, feliz
e para sempre, ou prefiro

752
Flor do Pântano Patrícia Potter

renunciar.
Ela estudou o rosto sério voltado
para ela e leu a seriedade nos olhos
cinzentos. Clamavam para que ela o
aceitasse como marido, para que
lhe contasse toda a verdade.
Lembrou-se porém do ó dio que ele
demonstrara e o impulso morreu.
— Nã o posso — murmurou.
— Nã o pode me dizer por que?
— Nã o.
Ele ficou de pé, olhando-a
pensativo e novamente magoado.
— Falei com Marion e ele

753
Flor do Pântano Patrícia Potter

prometeu tomar conta de você.


— Ele nã o sabe que...
— Nã o. Eu nada lhe disse, mas
acho que você deveria confessar a
verdade. E logo.
— Você vai mesmo partir?
— Vou, Sam.
— Quando?
— Assim que arrear meu cavalo.
— Por favor...
Ele virou-se e deixou-a
rapidamente, nã o ouvindo suas
palavras murmuradas.
— Por favor, Connor, tenha

754
Flor do Pântano Patrícia Potter

cuidado. Eu te amo.
Era véspera de Natal e sons
alegres enchiam a floresta. As notas
de violinos e flautas juntavam-se
aos risos e cançõ es. As fogueiras
fagulhavam no crepú sculo e a
primeira estrela surgiu, clara e
brilhante. O cheiro de carne assada
enchia o ar, enquanto porcos
selvagens, patos, perdizes e coelhos
tostavam em espetos acima dos
braseiros. Contudo, apesar da
atmosfera festiva, uma corrente de
melancolia pairava sobre aqueles

755
Flor do Pântano Patrícia Potter

homens que se achavam longe de


seus lares. A tristeza estava nos
risos exagerados e nas cançõ es
entoadas em voz alta. Os soldados
que lutavam pela liberdade da
pá tria davam-se uma trégua e
juntavam-se em grupos, falando
das namoradas e das famílias
distantes.
Para alguns, esse era o quarto
Natal de guerra e a solidã o tornava-
se mais pesada e opressiva naquela
noite especial, principalmente para
os vigias que ficavam espalhados

756
Flor do Pântano Patrícia Potter

pela floresta, mais sozinhos que os


outros. Os que moravam nas
redondezas haviam dado uma
escapada rá pida até suas casas com
a esperança de ver os entes
queridos, se nã o houvessem sido
despojados de seus lares e
espalhados pela regiã o.
Sam fora convidada a juntar-se a
diversos grupos que tentavam se
divertir e procurara rir e cantar
com os companheiros, mas logo se
retirara para a minú scula barraca
que era seu lar. Em seu coraçã o

757
Flor do Pântano Patrícia Potter

havia um grande vazio e nada


poderia amenizar a saudade de
Connor e a preocupaçã o com sua
segurança. No natal anterior ela
estivera chorando a morte de
Brendan e naquele chorava por
outro O’Neill que, mesmo estando
vivo, corria perigo e destruíra seu
coraçã o com o ó dio que a impedia
de contar-lhe a verdade e entregar-
se à felicidade.
Connor partira quatro dias antes.
Ela tentara proteger-se contra a
dor da solidã o e da tristeza, mas

758
Flor do Pântano Patrícia Potter

nã o conseguira. Sentia
dolorosamente a falta do homem
maravilhoso a quem pertencia de
corpo e alma, a quem se entregara
sem nada exigir.
Marion mudara novamente o
acampamento, daquela vez para a
parte da floresta que ficava nas
terras de William Goddard, no
outro lado da ilha. Lá havia
casinhas rú sticas que se prestavam
perfeitamente bem ao
armazenamento de víveres e
armas, e para o confinamento de

759
Flor do Pântano Patrícia Potter

prisioneiros. Isso significava que o


general rebelde poderia manter
reféns para negociá -los com o
inimigo, o que nã o pudera fazer
antes.
Porém o relativo conforto do novo
acampamento nada significava sem
Connor.
Aprisionada em sua dor e
distraída pelos tristes
pensamentos, nã o ouviu os passos
que se aproximavam e nem notou
que Francis Marion entrara na
barraca e a fitava, preocupado.

760
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ele quase retirou-se em silêncio


ao ver as lá grimas que escorriam
pelo rosto miú do, relutando em
invadir a privacidade do rapaz que
obviamente atravessava momentos
dolorosos. Mas Sam percebeu sua
presença e olhou para ele.
— Trouxe uns presentinhos para
você — o general disse com
gentileza. — Posso entrar e me
sentar um pouco?
Ela deu-lhe um sorriso tremulo.
— Sente-se aqui no colchã o,
general.

761
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ele entregou-lhe dois pacotes e


ela abriu um deles, encontrando
um boné de couro com o distintivo
do regimento e um laço de tecido
branco. Ela sorriu contente. Aquilo
significava de que fora
definitivamente aceita como
soldado de Francis Marion. Quando
ia abrir o segundo pacote, o general
bateu-lhe de leve no ombro.
— Esse é de Connor. Pediu-me
que lhe entregasse na noite de
Natal.
Marion notou como Sam apertava

762
Flor do Pântano Patrícia Potter

mais o pacote entre as mã os,


enquanto novas lá grimas desciam
pelas faces delicadas. Mais do que
nunca, desejou saber o que
acontecera na viagem dos dois que
dera a Connor o desejo de partir e
fazia o garoto sofrer. Percebeu que
Sam desejava abrir o presente
sozinho e levantou-se.
— Todos estamos um pouco
tristes esta noite, Sam. Você nã o é o
ú nico.
— Obrigado, general. Gostei
muito do boné.

763
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Você o merece. Provou vá rias


vezes que tem muito valor.
Depois que ele saiu, Samantha
apalpou o embrulho, protelando o
momento de abri-lo. Ficou deitada
no colchã o fino, olhando as estrelas
que pontilhavam o céu claro de
inverno e ouvindo as cançõ es dos
homens. Puxou o cobertor e
envolveu-se nele, desejando o calor
de Connor. Tentou dormir, mas nã o
conseguiu. Por vá rias horas
permaneceu imó vel com o boné
colocado de lado na cabeça e

764
Flor do Pântano Patrícia Potter

abraçada ao pacote que nã o abrira.

CAPÍTULO XVI

Connor chegou à Carolina do


Oeste na véspera de Natal. Já
estivera na Carolina do Norte, com

765
Flor do Pântano Patrícia Potter

Greene, e fora enviado ao encontro


do general Daniel Morgan, o velho
Carreteiro, como era chamado.
Depois de três dias de viagem
encontrava-se exaurido e ainda
mais deprimido.
O exército de Greene era muito
menor que o de Cornwallis, que
contava com quatro mil homens e
incluía a famosa Brigada Britâ nica.
Apenas oitocentos dos dois mil e
trezentos homens de Greene
encontravam-se em perfeitas
condiçõ es para a luta e sua raçã o

766
Flor do Pântano Patrícia Potter

de comida daria apenas para mais


três dias. Os sapatos e roupas dos
soldados achavam-se em estado
deplorável e o â nimo de todos era
perigosamente baixo.
A inteligência de Connor vencera
a teimosia de Greene e levara o
general a tomar uma decisã o
relutante. Contra todas as normas
convencionais do bom senso,
dividiria o comando das tropas
tentando enganar Cornwallis e
induzi-lo a fazer o mesmo, Morgan,
no oeste, poderia ter uma boa

767
Flor do Pântano Patrícia Potter

chance de derrotar uma parte do


exército de Cornwallis, enquanto
que nã o haveria possibilidade
nenhuma de Greene vencer uma
batalha contra as forças britâ nicas.
O general da Carolina do Norte
precisava de tempo para fortalecer
os riscos envolvidos na audaciosa
estratégia.
Chegou ao campo de Morgan ao
meio-dia e deu as informaçõ es que
portava. Quando se encaminhava
para uma tenda, desejando apenas
um cobertor e um pedaço de chã o

768
Flor do Pântano Patrícia Potter

para dormir, esbarrou num homem


robusto que lhe pareceu familiar.
Voltou alguns passos para alcançar
o soldado e estudar-lhe o rosto.
— Denney! — exclamou sorrindo.
— Como é bom ver você! O outro
exibiu um sorriso surpreso.
— Connor! Ouvi dizer que está
com Marion. Como vai? .
— Bastante bem, mas
infernalmente cansado. Nem quero
contar os quilô metros que percorri
nos ú ltimos três dias.
— Faz bem mais de três anos que

769
Flor do Pântano Patrícia Potter

nã o o vejo, homem. — Denney


Dernerest ficou sério de repente. —
Soube da morte de seu irmã o e de
seu pai. Que tristeza, Connor!
O outro limitou-se a balançar a
cabeça, mas os mú sculos do rosto
bronzeado ficaram rígidos e ele
apertou as mã os num gesto de
tensã o. Estivera pensando em
Brendan e Gerald durante toda a
manhã . O Natal sempre fora uma
data festiva e cheia de amor no lar
dos 0'Neill e Glen Woods enchia-se
de risos, mú sicas, gente alegre e

770
Flor do Pântano Patrícia Potter

amiga. Sentira a perda de tudo com


tanta intensidade novamente que
era como se toda a tragédia
houvesse acontecido apenas um dia
antes.
Denney viu a tristeza no olhar do
amigo e desejou ter ficado de boca
fechada. Colocou uma das mã os
enormes no ombro do outro.
— Tem lugar para ficar?
— Mandaram-me para uma
barraca, mas qualquer pedaço de
chã o me servirá .
Denney sorriu.

771
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Acho que posso fazer algo por


você. Meu tio tem uma fazenda a
três quilô metros daqui. Vou para lá
e há bastante lugar para nó s dois.
O amigo sorriu em agradecimento
e sacudiu a cabeça.
— Obrigado, Denney, mas nã o
quero incomodar.
— Nã o vai incomodar ninguém.
Pense bem, homem. Uma cama de
verdade, um banho quente, comida
gostosa. Estã o planejando uma
festa de Natal para esta noite e até
um baile. Todos os oficiais de

772
Flor do Pântano Patrícia Potter

Morgan foram convidados.


— Nã o sei...
— O coronel Henry Lee vai estar
lá . Parece-me que vai ser mandado
para o regimento de Francis
Marion. Seria uma boa
oportunidade para vocês se
conhecerem.
— Nã o tenho roupas adequadas.
Só trouxe as que estou usando.
— Ora, Connor, eu lhe empresto
as minhas. — Denney olhou com
admiraçã o para o corpo esbelto e
rijo do amigo. — Podem ficar um

773
Flor do Pântano Patrícia Potter

pouco largas para você, e um pouco


curtas, mas se colocar as calças
dentro das botas ninguém vai notar
que faltou pano.
Connor riu da insistência
carinhosa, mas estava determinado
a nã o aceitar o convite. Em sua
depressã o, queria ficar longe de
festas.
— Denney, estou cansadíssimo,
— Pode dormir a tarde toda se
quiser. Nã o vou aceitar mais
desculpas. Quero conversar com
você e ouvi-lo falar sobre Marion, a

774
Flor do Pântano Patrícia Potter

Raposa dos Pâ ntanos. O homem


está se tornando uma lenda. É
verdade que mandou colocar
cartazes oferecendo uma
recompensa pela captura de
Cornwallis?
Denney riu deliciado quando
Connor assentiu com um sorriso.
Dez minutos depois estavam a
caminho da fazenda dos Demerest.
Connor sempre gostara de Denney
Demerest, apesar de o rapaz ser
vá rios anos mais jovem que ele.
Haviam se conhecido em

775
Flor do Pântano Patrícia Potter

Charleston e servido juntos na ilha


Sullivan em 776. De certa maneira,
Denney lembrava Brendan.
Extrovertido, alegre, sempre
pronto para rir. Naquele momento,
a companhia dele ajudava-o a
esquecer um pouco as chagas
reabertas. Para satisfazer a
curiosidade do amigo falou sobre a
habilidade militar de Marion e suas
expediçõ es de ataque mais
audaciosas. Denney ouvia com
atençã o, mas fazia caretas ao ouvir
o outro dissertar sobre a vida difícil

776
Flor do Pântano Patrícia Potter

nos pâ ntanos.
— Prefiro ficar com Morgan —
declarou rindo. — Gosto de
conforto, mesmo escasso, que
temos no acampamento. E sempre
que posso escapo para a fazenda do
meu tio.
Connor riu de verdade pela
primeira vez em muitos dias.
— Diga-me, você tem parentes
espalhados por todas as Carolinas?
— Quase. Existem mais Demerest
que raposas por aqui.
— Como é que uma fazenda de

777
Flor do Pântano Patrícia Potter

seu tio nã o sofre represá lias,


Denney?
O rosto do jovem anuviou-se.
— Ele sofre de artrite e nã o pode
lutar. Nã o tem filhos. Embora nã o
faça segredo de sua simpatia pelo
movimento Whig, nunca se
envolveu diretamente. Todos
gostam dele e recebem sua ajuda
quando necessá rio, seja tory ou
whig. De modo que o deixam em
paz. — Os olhos travessos
brilharam. — Tem apenas uma filha
e é tã o bonita que ninguém a quer

778
Flor do Pântano Patrícia Potter

ver sofrendo.
— Sua prima.
— Minha prima, infelizmente.
Connor percebeu a tristeza na voz
do amigo e fitou-o, intrigado.
— O casamento entre primos nã o
é proibido, Denney.
— Na minha família é.
Depois da resposta seca, o moço
passou a falar de outras coisas e
logo chegaram à fazenda Demerest.
Os dois desmontaram e entregaram
os cavalos a um escravo, subindo
em seguida os degraus da varanda.

779
Flor do Pântano Patrícia Potter

Sem bater, Denney empurrou a


porta e gritou pelo tio.
Num instante a sala encheu-se de
escravos e o velho apareceu
sorrindo e dando as boas-vindas
aos visitantes. Depois de Denney
ter apresentado o amigo e feito
uma descriçã o de sua viagem
cansativa através das Carolinas,
Connor foi levado a um grande
quarto confortável onde uma
banheira de cobre já o esperava
com á gua fumegante. Despiu-se
rapidamente e deixou-se afundar

780
Flor do Pântano Patrícia Potter

na á gua convidativa, sentindo que


aos poucos os mú sculos cansados e
doloridos relaxavam. Depois, já
quase dormindo, deitou-se na cama
enorme, entre macios lençó is de
linho impecavelmente limpos e
adormeceu.
Quando Denney o despertou,
horas depois, Connor ouviu mú sica
no andar de baixo. O amigo usava
uniforme de capitã o e trazia roupas
civis para ele: calça cinza-claro,
casaca cinza-chumbo, camisa de
linho e gravata de laço farto, de

781
Flor do Pântano Patrícia Potter

alvo cetim. Estranhou que Denney,


tã o desinibido, gostasse de roupas
só brias, que no entanto
combinavam à s maravilhas com
seu pró prio gosto. Vestiu-se
devagar, nem um pouco ansioso
para participar da festa. Embora as
horas de sono o tivessem
restaurado fisicamente, sua
disposiçã o continuava sombria.
Finalmente, tã o alegre como se
estivesse indo ao encontro de um
pelotã o de fuzilamento,
acompanhou Denney escada

782
Flor do Pântano Patrícia Potter

abaixo, em direçã o ao salã o de


baile, onde dezenas de pares
dançavam entre risos animados.
Denney arrastou-o de grupo em
grupo até chegarem ao que rodeava
o coronel Henry Lee, um
almofadinha bonito e elegante que
vestia com aprumo calçõ es de um
azul berrante, casaca da mesma cor,
sapatos de fivelas de prata e meias
brancas até o joelho. Todavia,
apesar da aparência requintada, ele
e sua legiã o de trezentos homens já
haviam sido aclamados por sua

783
Flor do Pântano Patrícia Potter

bravura e rapidez de açã o. Lee até


ganhara o apelido de Relâ mpago.
Olhando para ele, Connor indagou-
se como tal distinto cavalheiro
poderia adaptar-se aos pâ ntanos
de Marion e à s suas tá ticas pouco
ortodoxas.
Cumprimentou-o com reserva,
embora Henry Lee se mostrasse
efusivo e curioso sobretudo ao que
se referia a Francis Marion. Seu
entusiasmo e esfuziante admiraçã o
pela legendá ria Raposa dos
Pâ ntanos eram tã o sinceros que

784
Flor do Pântano Patrícia Potter

logo venceram a resistência de


Connor. Os dois acabaram na
biblioteca, onde conversaram por
mais de uma hora.
Quando saíram, Connor notou
uma linda jovem que o fitava
fixamente. Retribuiu o olhar
avaliador e a moça corou, voltando
a prestar atençã o na conversa do
grupo de rapazes que a rodeava.
Ficando sozinho, Connor limitou-se
a observar as pessoas que
dançavam ou simplesmente
conversavam. Aparentemente

785
Flor do Pântano Patrícia Potter

aquele era um baile como qualquer


outro, mas a atmosfera de urgência,
o exagero dos risos e do flerte
deixavam perceber a tensã o que se
apossava de todos. As separaçõ es
haviam se tornado lugar comum,
assim como a morte, e as pessoas
pareciam determinadas a tirar o
má ximo de prazer possível de
qualquer momento de diversã o. Ele
invejou a capacidade de divertir-se
daquela gente. Seu coraçã o e sua
mente pareciam paralisados.
Amortecidos. Ter sentimentos doía

786
Flor do Pântano Patrícia Potter

demais.
Caroline Demerest estava
fascinada pelo estranho que seu
primo convidara para a festa.
Parecia solitá rio, evitando a
companhia dos outros e os olhos
cinzentos percorriam o ambiente
como se ele fosse mero expectador
da reuniã o barulhenta e nã o um
participante dela. Era bonito e seu
rosto bronzeado, de feiçõ es fortes,
refletia virilidade e energia. E os
cabelos, castanho-claros,
mostravam-se rebeldes, escapando

787
Flor do Pântano Patrícia Potter

do laço que os amarrava na nuca,


como se nã o estivessem
acostumados aos caprichos da
moda. Também eram mais curtos
que os outros. Era evidente que
aquele homem atraente nã o se
vergava aos ditamos fú teis dos usos
em vigor.
Desculpando-se com um sorriso,
ela afastou-se do grupo e entrou na
multidã o procurando por Denney.
Seus olhos brilharam quando
focalizaram o primo.
— Denney — chamou com voz

788
Flor do Pântano Patrícia Potter

doce e melodiosa.
— Está precisando de mim,
priminha?
— Quero que me apresente ao
seu amigo.
— Já nã o quebrou coraçõ es
demais esta noite? Quer mais aos
seus pés? — ele provocou para
esconder a sú bita dor que o
invadiu.
Caroline era linda. Alta e esguia,
possuía cabelos cor de avelã e
olhos castanhos e grandes que
expressavam todos os seus

789
Flor do Pântano Patrícia Potter

pensamentos. Naquele momento


mostravam-se extremamente
sérios.
— Ele parece estar tã o triste,
Denney.
— E acho que está mesmo,
Caroline. Perdeu um irmã o no ano
passado e o pai há poucos meses.
Se isso nã o bastasse, sua fazenda
foi confiscada e ele foi colocado
num navio-prisã o. Tem razõ es
suficientes para estar triste, nã o
acha?
Os olhos castanhos encheram-se

790
Flor do Pântano Patrícia Potter

de lá grimas.
— Agora, se deseja que eu o
apresente faça uma carinha alegre.
Connor nã o vai gostar de ver
lá grimas.
Ela obedeceu prontamente,
enxugando os olhos no lencinho de
cambraia e rendas que trazia
amarrado no pulso. Em seguida,
caminhou na direçã o do estranho,
sabendo que o primo a
acompanhava.
Connor divagava, imaginando
como seria bom dançar com Sam

791
Flor do Pântano Patrícia Potter

num salã o daqueles, luxuoso e


fartamente iluminado. Ele nem
sabia se ela dançava. Nã o sabia
quase nada da jovem que
aprisionara seu coraçã o.
Sobressaltou-se com a voz de
Denney que o chamava.
— Connor?
Virou-se e olhou para o amigo e
para a garota que já lhe chamara a
atençã o antes.
— Desculpem, estava distraído.
— Gostaria de lhe apresentar
minha prima Caroline — disse

792
Flor do Pântano Patrícia Potter

Denney. — Prima, este é o major


Connor 0'Neill.
— Major, o senhor é muito bem-
vindo em nossa casa — declarou a
moça com um sorriso encantador.
Connor sorriu também.
— Vocês foram muito gentis com
um estranho exausto.
— Já comeu alguma coisa? —
quis saber Caroline.
— Ainda nã o.
— Entã o venha comigo. Nã o
queremos hó spedes famintos.
— Cuidado, Connor — avisou

793
Flor do Pântano Patrícia Potter

Denney, baixinho. — Ela tem


péssimo costume de quebrar
coraçõ es.
A moça ouvira o comentá rio
brincalhã o e sorriu para o primo,
tomando o braço que Connor lhe
oferecia. Levou-o à comprida mesa
onde se achavam as iguarias e as
bebidas e deixou-o preparar dois
pratos e encher dois copos de
vinho. Em seguida, guiou-o através
do salã o para a varanda larga.
Estava frio e nã o havia mais
ninguém ali. Connor apreciou a

794
Flor do Pântano Patrícia Potter

oportunidade de ficar longe da


agitaçã o e do barulho, começando a
relaxar. Olhou para a
acompanhante, mais uma vez
pensando em como ela era bonita.
Caroline era do tipo de mulher que
sempre o atraíra no passado. Alta e
esbelta, possuía formas
deliciosamente femininas. Movia-se
com graça e os cabelos claros
rodeavam o rosto lindo, fazendo
sobressair o castanho-escuro e
brilhante dos olhos. Contudo, os
cabelos e o vulto miú do de Sam nã o

795
Flor do Pântano Patrícia Potter

lhe saíam da mente.


— Parece estar a milhares de
quilô metros de distâ ncia, major.
— Perdã o, srta. Caroline.
— Nã o se preocupe. Eu entendo.
Denney me falou sobre sua família
e imagino como este Natal deve
estar sendo triste para o senhor. E,
por favor, nã o me chame de
senhorita. Sou apenas Caroline
para os amigos.
Ele tentou sorrir com
naturalidade, mas nã o era possível
esconder a amargura que lhe ia na

796
Flor do Pântano Patrícia Potter

alma. Caroline percebeu e tocou-


lhe de leve no braço.
— Se quiser entrar e ir para o seu
quarto, fique à vontade. Nã o me
ofenderei.
Connor espantou-se com a
percepçã o da moça. Era justamente
o que desejava fazer, mas temia
desgostar o amigo que tã o
gentilmente o levara à casa dos
parentes.
— O que pensa de Denney,
Caroline? — ele perguntou com
genuíno interesse.

797
Flor do Pântano Patrícia Potter

— É meu melhor amigo.


— Só isso?
Ela fez uma pausa e o sorriso
desapareceu.
— Ele é meu primo.
— Eu sei — disse Connor com
paciência, esperando que ela
continuasse a falar.
— Ele me pediu em casamento,
mas papai nã o deu sua permissã o.
Alegou que somos parentes muito
pró ximos. Já houve um casamento
entre primos na nossa família antes
e foi desastroso.

798
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ele sabia que estava se


intrometendo onde nã o devia, mas
sua triste experiência com Sam
tornara-o sensível à má goa dos
dois jovens obviamente
enamorados.
— Meus avó s eram primos.
Apaixonaram-se, casaram-se, nã o
houve nenhum problema —
Connor contou.
Ela estremeceu de leve e ele tirou
a casaca, colocando-a sobre os
ombros desnudos de Caroline.
— O irmã o de papai casou-se com

799
Flor do Pântano Patrícia Potter

uma prima — revelou com tristeza.


— Tiveram dois filhos doentios que
morreram prematuramente. Minha
tia suicidou-se. Agora, meu pai nem
quer discutir a hipó tese de meu
casamento com Denney.
Connor abraçou-a com carinho,
solidarizando-se em sua dor.
Naquele momento, um dos oficiais
de Morgan, o capitã o Williard
Lewis entrou na varanda.
— Opa, desculpem. —
Embaraçado, virou-se e voltou para
o saiã o.

800
Flor do Pântano Patrícia Potter

Caroline suspirou desalentada.


— E o maior mexeriqueiro do
regimento — explicou. Connor
pegou a casaca e vestiu-a.
— Acho melhor entrarmos.
Ofereceu o braço a Caroline, que
seguiu-o para dentro do salã o com
a cabeça erguida.
No dia de Natal, Connor
participou do jantar na casa dos
Demerest juntamente com diversos
outros oficiais convidados.
A reuniã o apagou um pouco de
sua tristeza e ele descobriu que

801
Flor do Pântano Patrícia Potter

gostava muito daquela família,


principalmente de Denney e
Caroline, que riram e brincaram
durante toda a refeiçã o.
Mais tarde, Brett Demerest
convidou-o a ficar na fazenda
durante sua estada na Carolina do
Oeste e Connor aceitou. Suspeitava
de que em parte o convite fora feito
porque o pai de Caroline desejava
que a filha se ocupasse com alguém
além de Denney. Os pais da moça
gostavam do sobrinho e nã o lhe
negavam o carinho de um lar, mas

802
Flor do Pântano Patrícia Potter

evidentemente nã o o aceitariam
como genro e nã o perdiam
nenhuma oportunidade de colocar
a filha em contato com outros
possíveis candidatos à sua mã o.
Durante a semana seguinte, os
três, Connor, Caroline e Denney,
passaram muito tempo juntos e
nã o demorou para que os rumores
começassem a correr e os oficiais
de Morgan se pusessem a fazer
apostas sobre quem seria o noivo
da moça muito em breve.
Connor e Caroline desenvolveram

803
Flor do Pântano Patrícia Potter

uma grande amizade mas a jovem


deliciava-se com os momentos que
podia ficar ao lado de Denney, o
eleito de seu coraçã o. Sem a
presença de Connor, seriam
vigiados e seus encontros
desencorajados.
Connor observava-os divertido e
preocupado. Estavam apaixonados
e combinavam de modo perfeito.
Sentia-se envergonhado por tomar
o partido dos dois, contrariando os
desejos dos pais da moça, mas seu
caso de amor com Sam tornara-o

804
Flor do Pântano Patrícia Potter

mais compreensivo e tolerante.


Durante a maior parte do dia, ele e
Denney ficaram no acampamento
militar, ocupados em treinar os
novos recrutas. Connor exasperava-
se com aqueles soldados
independentes que sabiam muito
pouco sobre acatar ordens e seguir
tá ticas e que também nã o se
esforçavam por aprender. Chegou a
desesperar-se, pensando jamais
conseguir formar uma unidade
homogênea com todos aqueles
indisciplinados vindos de

805
Flor do Pântano Patrícia Potter

Maryland, de Delaware e das


pró prias Carolinas.
Entre o trabalho no acampamento
e as tardes e noites passadas com
os Demerest, ele tinha pouco
tempo para pensar em Sam ou
preocupar-se com ela, embora sua
imagem lhe aparecesse
incessantemente em sonhos.

Na primeira semana de janeiro de


1781 os soldados de Morgan
atacaram o Posto Noventa e Seis,
um dos principais locais de

806
Flor do Pântano Patrícia Potter

abastecimento de Comwallis. Cento


e cinqü enta homens, entre
soldados britâ nicos e americanos
leais ao rei, morreram e quarenta
foram aprisionados.
Morgan retirou-se e esperou pelos
atos de retaliaçã o de Comwallis, o
que aconteceu bem depressa.
Agindo de acordo com as
esperanças de Greene, Cornwallis
dividiu suas forças em três grupos
e mandou um deles, sob o comando
de Tarleton, atrá s de Morgan.
Connor livrou-se do trabalho de

807
Flor do Pântano Patrícia Potter

treinamento e foi designado para


auxiliar no comando. Prontamente,
descobriu o acampamento de
Tarleton e seguiu todos os seus
movimentos, vendo-o acompanhar
Morgan até Cowpens, planície
famosa pelos rodeios de gado. Com
o rio Broad cortando a retirada dos
americanos de um lado, e bosques
ralos que permitiam a fá cil
penetraçã o dos dragõ es de Tarleton
de outro, aquela seria uma vitó ria
fá cil para as tropas inglesas.
Chegando à barraca de comando

808
Flor do Pântano Patrícia Potter

depois de um dia de espionagem,


Connor fez um relató rio sobre a
força de Tarleton e sua estratégia.
Imediatamente, Morgan colocou
atiradores em duas colinas baixas,
uma atrá s da outra.
A noite de 16 de janeiro foi muito
longa. Connor ficou ao lado de
Morgan, que nã o saiu de junto dos
soldados de vigia nas colinas,
brincando com eles e ajudando-os
a manter o otimismo. Os homens
ouviram as ordens com atençã o.
Cada um deles deveria disparar

809
Flor do Pântano Patrícia Potter

apenas dois tiros e depois retirar-


se sem atropelos.
Na manhã seguinte, Connor
reuniu-se aos soldados colocados
na primeira colina, todos naturais
de Delaware e viu quando os
dragõ es de uniforme verde se
aproximaram, com as plumas dos
chapéus dançando ao vento. Os
tiros espocaram e os dragõ es
recuaram. De repente, o campo
ficou cheio de homens da infantaria
inglesa, enquanto os dragõ es
alinhavam-se nas laterais.

810
Flor do Pântano Patrícia Potter

Os homens de Morgan atiraram


novamente e debandaram em
completa desordem. Connor, que
atirara e já recarregara a arma, viu
as expressõ es exultantes nos rostos
dos ingleses e permitiu-se um
sorriso mordaz. Juntou-se à
retirada, observando como
Tarleton, certo da vitó ria, avançava
com todo o ímpeto.
Havia ingleses por toda a parte, e
suas fileiras, antes ordenadas com
exatidã o, mostravam-se confusas e
embaralhadas. Quando todos

811
Flor do Pântano Patrícia Potter

alcançaram o topo da primeira


colina, caíram sob a mira
implacável de novas tropas
americanas, alojadas no outro
morro. A armadilha fechou-se
completamente quando um pelotã o
de cavalaria americana caiu sobre
os ingleses pelos flancos e por trá s.
Os inimigos cercados, sem outra
alternativa, jogaram as armas ao
chã o, rendendo-se.
Os seiscentos homens de Morgan
haviam vencido mais de mil e
trezentos ingleses.

812
Flor do Pântano Patrícia Potter

Naquela noite, Connor soube que


havia perdido doze soldados, mas
que contavam-se novecentos
ingleses e tories entre mortos,
feridos e capturados. Tarleton,
todavia, escapara.
Denney e Connor levaram
Caroline à festa da vitó ria.
Fogueiras gigantes lançavam suas
chamas em direçã o ao céu azul-
escuro e cançõ es patrió ticas
cantadas com entusiasmo enchiam
o ar.
Connor viu o amigo de mã os

813
Flor do Pântano Patrícia Potter

dadas com a mulher amada e


imaginou o que Sam estaria
fazendo, desejando com todo o seu
coraçã o que ela estivesse junto
dele, participando daquele triunfo.
Via seu rosto delicado e os
maravilhosos olhos azuis e tinha a
impressã o de que lhe bastaria
estender os braços para alcançar o
corpo delgado e apertá -lo ao peito.
Com um suspiro pensou na
decisã o que precisava tomar. No dia
seguinte, Morgan se retiraria para o
Norte, antes que Cornwallis o

814
Flor do Pântano Patrícia Potter

apanhasse. Seu regimento se


reuniria ao de Greene e Connor
precisava escolher entre voltar
para Marion e continuar com
Morgan.
Voltando a olhar para Caroline e
Denney, reviu o rosto de Sam ao
recusar sua proposta de
casamento. A dor que sentira
naquele momento voltou com toda
a intensidade.
Aproximou-se de Morgan e
comunicou-lhe que o
acompanharia ao encontro de

815
Flor do Pântano Patrícia Potter

Greene.

CAPÍTULO XVII

Samantha escovava Sundance com


a mã o direita apenas, pois ainda
trazia o braço esquerdo
imobilizado. O animal mexia o
couro do corpo a cada vez que a
escova corria pelos flancos
lustrosos, mas sua dona parecia

816
Flor do Pântano Patrícia Potter

alheia ao seu prazer e aos relinchos


de gratidã o.
Fazia vinte e nove dias que
Connor partira. Dias longos como
séculos.
Parou finalmente de escovar a
égua afagando-lhe o focinho
ternamente. Pensava no que faria a
seguir para ajudar o tempo correr
mais depressa. Já havia cuidado dos
outros animais e atendido o novo
prisioneiro.
Seu braço estaria logo bom, mas
sua inquietaçã o anormal era

817
Flor do Pântano Patrícia Potter

evidente para todos. Procurando


ocupá -la, Marion pedira-lhe que
cuidasse do general sir Brian
O'Mara, do exército inglês,
capturado dois dias antes. Sua
tarefa consistia em verificar se o
prisioneiro recebia á gua e comida
nas horas certas.
Apesar de sua crescente raiva
contra os ingleses, Samantha sentia
uma certa simpatia pelo homem.
Humilhado pela captura infamante,
O'Mara fora colocado numa das
casinhas maiores, que servia de

818
Flor do Pântano Patrícia Potter

prisã o, e, como retaliaçã o pelo


tratamento desumano recebido
pelos prisioneiros americanos que
caíam em poder dos britâ nicos,
permanecia de mã os e pés
amarrados, mesmo durante as
refeiçõ es.
Ela precisava alimentá -lo e dar-
lhe á gua na boca, detestando a
expressã o angustiada que via nos
olhos do prisioneiro. Todavia, o
inglês sempre fora gentil e até
demonstrava gratidã o por seus
eficientes cuidados.

819
Flor do Pântano Patrícia Potter

Mas as horas nã o passavam,


apesar das variadas tarefas. Olhou
para as botas novas, o presente de
Connor, que desembrulhara na
manhã do dia de Natal. Eram de
couro macio e ajustavam-se com
perfeiçã o aos pés pequenos. Nã o
sabia dizer se ele as comprara
antes ou depois de descobrir sua
farsa, mas desconfiava que fosse
antes porque ele nã o teria
oportunidade de adquiri-las apó s a
partida de Georgetown. Em sua
opiniã o, aquele fora o presente

820
Flor do Pântano Patrícia Potter

mais lindo que já ganhara em toda


a sua vida.
Ao sair do curral, Samantha ouviu
o galope ligeiro de um animal que
corria em direçã o à cabana de
Marion. Aproximou-se curiosa e
ouviu o cavaleiro mencionar o
nome de Connor.
— O major Connor 0'Neill
mandou estas informaçõ es, senhor.
Tivemos uma grande vitó ria em
Cowpens e varremos
completamente os homens de
Tarleton, jogando-os para fora de

821
Flor do Pântano Patrícia Potter

lá . O nú mero de mortos, feridos e


aprisionados chega a novecentos.
— E as baixas do nosso lado? —
perguntou Marion com inflexã o
preocupada na voz.
— Apenas doze. Foi a coisa mais
impressionante que já vi, general.
Morgan os fez cair na armadilha
como se fossem coelhos. Tarleton
fugiu vergonhosamente.
— E o major 0'Neill?
— Ele está bem, senhor. Enviou
seus cumprimentos, mas disse que
Morgan ainda precisa dele.

822
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha engoliu em seco,


abafando um grito de protesto.
Connor ainda demoraria a voltar.
Correu para longe dali, nã o
querendo ouvir mais nada.
Precisava encontrar algo para fazer
ou enlouqueceria. Em desespero,
olhou para a cabana que servia de
prisã o. Alguém precisava dela...
nem que fosse um inimigo.
O general O'Mara tinha poucas
dú vidas sobre o que lhe
aconteceria depois do triste
episó dio de sua captura. Um oficial

823
Flor do Pântano Patrícia Potter

experimentado como ele, ser


raptado do acampamento de
Charleston, bem embaixo do nariz
de Cornwallis, era o cú mulo. A
ú nica coisa que podia esperar era
ser destituído do posto.
Francis Marion fora incisivo ao
explicar o que esperavam dele.
Cornwallis mandara o vice-
governador da Carolina do Sul para
a prisã o em Saint Augustine. Os
cidadã os de Charleston haviam
protestado com tanta veemência
que seis civis, incluindo um da

824
Flor do Pântano Patrícia Potter

pró pria família de Marion, tinham


ido também para a cadeia. O
general 0'Mara teria de escrever
para Cornwallis e dizer-lhe para
soltar os civis imediatamente ou
ele, Brian O'Mara, general do
exército de Sua Majestade, seria
executado pelos rebeldes. Além
disso, a vida de todos os oficiais
ingleses que caíssem nas mã os de
Marion correria perigo.
O'Mara escrevera a carta,
percebendo que sua carreira
chegava ao fim. Já permanecia

825
Flor do Pântano Patrícia Potter

como prisioneiro por três dias e


imaginava se Cornwallis
concordaria com as exigências de
Marion ou se o deixaria morrer
enforcado.
A porta da casinha abriu-se
rangendo e o general viu o jovem
rebelde que cuidava dele entrar,
carregando um balde pequeno e
uma colher na mã o direita. Sua
garganta estava seca e o homem
sentou-se aprumado, preparando-
se para beber á gua, que o rapaz lhe
dava à s colheradas.

826
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Obrigado — disse cortesmente


ao terminar.
Algo no soldadinho rebelde o
atraía de maneira estranha. Talvez
fosse o rosto, ainda nã o endurecido
como o dos outros, ou os olhos
expressivos, que naquele momento
exibiam um brilho ú mido.
Samantha olhou para os pulsos do
prisioneiro, de onde gotas de
sangue escorriam de vez em
quando, vertendo dos lugares onde
a corda esfolara a pele. Pensou em
Connor e na cicatriz que ficara em

827
Flor do Pântano Patrícia Potter

seu tornozelo, mas continuou a


examinar o general inglês com
certa piedade. Era de meia-idade,
mas o rosto cansado e abatido
parecia o de um velho. Ele remexia-
se inquieto, procurando aliviar a
dor nas costas, provocada pela
posiçã o forçada.
Assim que saiu da cabana,
Samantha dirigiu-se para o
alojamento de Marion procurar
interceder pelo infeliz.
— Ao menos deixe-me soltar as
cordas e enfaixar os pulsos dele! —

828
Flor do Pântano Patrícia Potter

suplicou.
Francis Marion sorriu de leve.
— Você assume a
responsabilidade?
— Sim, senhor.
Marion chamou um sargento e
ordenou-lhe que acompanhasse
Sam até a cabana do prisioneiro e
removesse as cordas dos
tornozelos e dos pulsos para que os
ferimentos fossem tratados. O
general rebelde gostava dos
sentimentos humanitá rios que Sam
vinha demonstrando e nã o queria

829
Flor do Pântano Patrícia Potter

destruí-los.
Um pouco mais tarde 0'Mara
sentia-se bem melhor. Os pulsos
estavam enfaixados e embora as
cordas continuassem a prendê-lo
com firmeza, nã o se achavam mais
tã o cruelmente apertadas. Entre os
pés fora deixada uma folga na
corda que ligava um ao outro e o
homem podia ficar em pé e até
andar. Quando Samantha ia sair
atrá s do sargento, ouviu o general
chamá -la.
— Sam!

830
Flor do Pântano Patrícia Potter

Olhou para ele, surpresa.


— Sim?
— Devo isto a você, nã o é, jovem?
— Foi por ordem do general
Marion.
— Obrigado. Sou seu devedor.
— Foram ordens do general —
teimou ela, nã o desejando a
gratidã o do homem nem criar
qualquer ligaçã o entre eles.
— Por que fez isso, Sam? —
O'Mara insistiu. Ela olhou-o com
firmeza.
— Um amigo meu foi prisioneiro

831
Flor do Pântano Patrícia Potter

dos ingleses e levará para sempre


as cicatrizes provocadas pelos
grilhõ es. Nenhum ser humano
deveria ser submetido a
tratamento tã o indigno,
O general olhou espantado para o
rapazinho que julgara ser um
analfabeto ignorante. Sam falava
bem e aparentava ter cultura.
— Onde está sua família? —
O'Mara perguntou.
— Meus parentes estã o mortos.
— Mortos? Todos eles?
— Quase todos.

832
Flor do Pântano Patrícia Potter

O'Mara que estivera andando


devagarzinho para aliviar o
entorpecimento das pernas, parou
para fitá -la.
— O general Marion realmente
me enforcará se Cornwallis nã o
aceitar suas condiçõ es.
Ela encarou-o sem pestanejar.

— Sim — respondeu baixinho. —


Ele nã o gostaria de fazê-lo, mas se
for necessá rio...
O'Mara deu-lhe um ligeiro sorriso
amargo.

833
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Já é alguma coisa saber que ele


nã o teria prazer em me enforcar.
— O senhor fez uma pergunta e
eu respondi.
O general sentou-se no chã o e
olhou para os pés amarrados.
— Tenho filhos gêmeos que nã o
conheço — disse com tristeza.
— Seu exército, general, enforcou
muitos dos nossos, queimou nossas
casas, aprisionou nossos cidadã os,
mesmo civis. O general Marion
acredita que pagar na mesma
moeda, e se for preciso, em dobro, é

834
Flor do Pântano Patrícia Potter

a ú nica maneira de deter esses


acontecimentos abomináveis. —
Olhou para O'Mara. —Desculpe se
estou sendo cruel.
— Nã o, Sam, você nã o está sendo
cruel. É um rapaz generoso. Espero
ter a oportunidade de retribuir o
que fez por mim.
Ela sorriu.
— O general Marion está
convencido de que Cornwallis vai
aceitar a proposta que recebeu.
Samantha continuou a cuidar de
O’Mara nos dias seguintes,

835
Flor do Pântano Patrícia Potter

trocando as bandagens dos pulsos


e dando-lhe comida e á gua. Ele
freqü entemente lhe pedia para
ficar mais um pouco na cabana
conversando e ela o atendia,
reconhecendo a tremenda solidã o
do homem, tã o semelhante à sua.
Demorou quase uma semana para
que Cornwallis aceitasse as
condiçõ es dos rebeldes, depois do
que O'Mara foi deixado amarrado e
amordaçado na entrada do posto
militar inglês de Charleston.
Marion vencera mais uma vez.

836
Flor do Pântano Patrícia Potter

CAPÍTULO XVIII

Cinco dias mais se arrastaram, um


mais longo que o outro,
desesperadamente vazios. Nem
mesmo Sundance conseguia
alegrar Samantha, que fechava-se
cada vez mais hermeticamente em
sua tristeza. No quinto dia achava-
se sozinha na beira do riacho
quando o tropel de cavalos ecoou
pela floresta e dezenas de
cavaleiros invadiram o

837
Flor do Pântano Patrícia Potter

acampamento. Movida pela


curiosidade saiu do seu lugar de
retiro e encontrou-se rodeada por
homens lindamente uniformizados
e montados em cansados animais.
— Vejam só os almofadinhas —
um dos soldados de Marion
comentou com ironia.
— Quem sã o eles? — Samantha
perguntou admirada.
— Henry Lee e seus homens.
Estávamos indo muito bem sem
eles.
Ela olhava para todos os rostos,

838
Flor do Pântano Patrícia Potter

procurando o de Connor.
— O major O’Neill veio com eles?
— perguntou nã o dominando a
ansiedade.
— Eu nã o o vi — o outro
respondeu. — Também nã o posso
imaginá -lo no meio desses
soldadinhos de chumbo.
Inquieta, deixou o companheiro
resmungando sozinho e correu
para a cabana de Francis Marion.
Viu-o cumprimentando um jovem e
bem vestido oficial. Marion a viu e
fez um gesto para que se

839
Flor do Pântano Patrícia Potter

aproximasse. — Este é um dos


nossos mais jovens e corajosos
soldados — o general disse a Lee.
— E este, Sam, é o coronel Henry
Lee. Ele vai ficar entre nó s por
algum tempo.
Marion percebeu o olhar cético
com que Lee analisava o rapaz. —
Sam é um excelente ladrã o de
cavalos e atira como poucos. Você
disse que viu Connor O'Neill em
Cowpens. Pois bem, ele viveu para
estar lá porque Sam acertou um
tory a cem metros de distâ ncia.

840
Flor do Pântano Patrícia Potter

A dú vida que havia nos olhos de


Lee transformou-se em admiraçã o
e ele examinou o rapaz mais
detidamente. Notou os brilhantes
olhos azuis e o rosto delicado, mas
o que mais o impressionou foi a
expressã o de determinaçã o e a
total falta de acanhamento que o
garoto demonstrava na frente de
superiores. De repente, Lee deu
uma risada escandalosa que fez
com que Sam o olhasse com
curiosidade e espanto.
— Eu sei que explosivos vêm em

841
Flor do Pântano Patrícia Potter

embalagens pequenas, por isso


acredito. Estou contente em
conhecê-lo, Sam. Estive com o
major O'Neill alguns dias atrá s e ele
me falou bastante sobre Francis
Marion, mas esqueceu-se de me
alertar sobre o perigoso Sam.
Ele nã o se dava ares de
superioridade e Samantha gostou
dele a despeito da elegâ ncia nada
adequada a um soldado rebelde.
— E como está o major O'Neill? —
ela nã o pô de deixar de perguntar.
— Apaixonado — Foi a resposta

842
Flor do Pântano Patrícia Potter

fulminante. — Caiu nas malhas de


uma encantadora jovem da
Carolina do Oeste. Dizem que estã o
noivos.
— Connor? — exclamou Marion
incrédulo. — Ele já devia estar aqui
e nã o posso acreditar que uma
dama, por mais bela que seja, o
esteja segurando lá .
— Acho que esta nã o é a ú nica
razã o de sua permanência naquela
regiã o. Morgan pediu-lhe que
ficasse com ele até sua reuniã o com
Greene. Cornwallis está nos

843
Flor do Pântano Patrícia Potter

calcanhares deles e fumegando de


ó dio.
— Inferno! — praguejou Marion.
— Nã o vou permitir tal coisa!
Quero-o de volta e vou mandar um
mensageiro com uma ordem para
que retorne imediatamente. Quem
é ela? Essa noiva?
— O nome dela é Caroline
Demerest — esclareceu Lee com
um sorriso. — Tã o bonita que
viraria a cabeça do melhor dos
soldados. Simpá tica e inteligente
também. Os dois eram inseparáveis

844
Flor do Pântano Patrícia Potter

até que Morgan partiu para


encontrar-se com Greene.
Nenhum deles viu o desespero no
rosto de Samantha quando ela
murmurou uma desculpa qualquer
e saiu correndo. Connor encontrara
uma dama de verdade, algo que ela
nã o era mais. Tomada de vertigem,
mal podendo respirar, começou a
andar devagar, afastando-se de
todos. Novamente à beira do
riacho, deixou-se cair numa vala
para proteger-se de olhares
curiosos e desatou em soluços

845
Flor do Pântano Patrícia Potter

agoniados.
Quando as lá grimas secaram,
sentiu um enorme vazio no peito.
Tudo se acabara. Nã o tinha lar, nem
família, ninguém para amar.
Lentamente, sua dor transformou-
se em raiva. Connor dissera que a
amava e semanas depois
apaixonava-se por outra. Que amor
era aquele? Da frustraçã o que a
dominava nasceu entã o uma idéia
resoluta. Podia nã o ser uma dama,
mas mostraria a ele que podia ser
um soldado endiabrado. Apertou as

846
Flor do Pântano Patrícia Potter

mã os nervosamente. Prometera
que ficaria no acampamento, mas a
promessa nada mais significava.
Seu braço já nã o a incomodava e
ela iria com os companheiros na
pró xima missã o, qualquer que
fosse.
Os trezentos homens de Lee
reforçaram o regimento de Marion
de forma extraordiná ria.
Tecnicamente, como soldado do
Exército Continental, Lee deveria
assumir o comando das tropas de
Marion, mas os dois homens

847
Flor do Pântano Patrícia Potter

haviam se tornado amigos desde o


primeiro encontro e dividiam a
liderança pacificamente.
Samantha observava a diferença
enorme entre os dois. Henry tinha
vinte e poucos anos e vivia
impecavelmente vestido com o
uniforme sob medida, verde e
branco. Francis Marion beirava os
cinqü enta e envergava peças
disparatadas de uniformes velhos,
completando a vestimenta com um
boné quase em trapos. Contudo,
nã o havia como negar o respeito e

848
Flor do Pântano Patrícia Potter

amizade que havia entre os dois.


Os homens sob o comando deles,
porém, nã o seguiam esse exemplo
de boa camaradagem. Os soldados
de Marion, broncos lenhadores e
agricultores em sua maioria,
zombavam da legiã o bem vestida e
ordeira de Lee, o que gerava
constantes brigas entre os
componentes dos dois grupos. Por
sua vez, os comandados de Henry
Lee Relâ mpago nã o perdiam
oportunidade de provocar os
homens de Marion e até Samantha

849
Flor do Pântano Patrícia Potter

fora envolvida numa briga depois


de ouvir repetidos gracejos sobre
sua pequena estatura e fragilidade.
Ela já andava deprimida, ferida e
zangada por causa da traiçã o de
Connor e disposta a fazer qualquer
coisa para provar seu valor como
soldado. Um dia, a zombaria de um
dos almofadinhas de uniforme
perfeito e pluma no chapéu saiu
dos limites.
— Pensei que Marion tivesse
homens em seu regimento, e nã o
mosquitos — o soldado gritou,

850
Flor do Pântano Patrícia Potter

provocando o riso dos


companheiros. — Esse aí nã o tem
nem tamanho para subir num
cavalo!
Samantha começou a enfurecer-se
e pelo canto dos olhos notava que
seus camaradas mantinham-se em
silêncio e na expectativa.
— Posso nã o ser grande —
respondeu —, mas tenho
inteligência bastante para
reconhecer um asno quando vejo
um.
O homem ficou rubro.

851
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Vou ensinar-lhe a respeitar


seus superiores, seu... Sem
terminar a frase, agarrou-a pelo
braço, mas ela foi mais rá pida e
acertou-lhe um murro no olho ao
mesmo tempo que rodopiava para
colocar-se fora do alcance dele.
Aquilo foi o sinal de que os outros
esperavam. Os homens de Marion
caíram sobre os de Lee e a briga só
acabou quando os dois
comandantes chegaram e exigiram
ordem. Na hora de apurar quem
começara a confusã o ninguém

852
Flor do Pântano Patrícia Potter

admitiu a culpa e Marion e Lee só


puderam passar uma repreensã o
geral.
O episó dio todo deixou Samantha
em evidência, justamente o que ela
queria evitar, mas pelo menos as
provocaçõ es terminaram.
O aumento de populaçã o no
acampamento dobrara o trabalho
de todos e ela procurava cuidar de
vá rias tarefas que a impedissem de
pensar demais na desilusã o que
sofrera. Servia as refeiçõ es para
Marion, Lee e seus oficiais e estava

853
Flor do Pântano Patrícia Potter

no meio deles quando


concordaram a respeito dos planos
finais para o ataque a Georgetown.
No dia anterior à missã o, decidiu
que falaria com Marion. Nã o sabia
se seria capaz de matar novamente,
mas também nã o desejava ficar
para trá s, no acampamento. Seria
um soldado de verdade. Frente a
frente com seu comandante,
encarou-o com ar decidido.
— Quero ir com os outros, desta
vez.
Marion nã o escondeu a surpresa.

854
Flor do Pântano Patrícia Potter

Durante todos aqueles meses o


jovem ficara satisfeito em apenas
cuidar dos cavalos e embora o
assunto nunca houvesse sido
discutido, o general sentia que Sam
nã o gostava de matar.
— Connor queria que você
permanecesse no acampamento.
— Ele nã o está aqui. E estava
apenas preocupado com meu
braço, que já sarou.
Marion estudou o rosto
determinado, adivinhando um
conflito por trá s daquela decisã o

855
Flor do Pântano Patrícia Potter

inesperada.
— Nã o sei se devo permitir, Sam.
— Depois daquele ataque atrá s de
sal o senhor me prometeu que eu
escolheria o que mais me
agradasse.
— De fato — concordou Marion
com relutâ ncia.
Nã o podia quebrar uma promessa,
mas Connor nã o gostaria nada
daquilo.
— Além disso — Samantha
persistiu —, estive em Georgetown
há pouco mais de um mês atrá s e

856
Flor do Pântano Patrícia Potter

sei tudo sobre a cidade.


Marion sorriu da arrogâ ncia
juvenil, já derrotado.
— Muito bem, Sam, pode ir. Mas
tenha cuidado.
Samantha saltou para a sela com
uma inquietaçã o totalmente
desconhecida até entã o. Todos os
riscos que correra desde que saíra
de casa haviam sido por acaso e
seus atos de coragem, frutos da
necessidade do momento. Nunca
desafiara o perigo por prazer, no
entanto passara a precisar de

857
Flor do Pântano Patrícia Potter

emoçõ es fortes para sentir-se viva.


A excitaçã o dos quinhentos
homens que se preparavam para
partir era quase palpável na semi
obscuridade do crepú sculo e ela
sentiu-se contagiada.
Nã o ia levar Sundance. Já perdera
muitos seres amados para arriscar-
se a perder mais um. Billy sorriu-
lhe ao vê-la emparelhar o cavalo
com o seu, contente por ter sua
companhia na longa viagem.
Samantha endireitou os ombros e
aprumou-se na sela, orgulhosa por

858
Flor do Pântano Patrícia Potter

estar colaborando com os rebeldes


numa missã o importante. Passara
quase uma hora com Marion e Lee,
naquela manhã , explicando-lhes a
exata localizaçã o dos postos de
guarda, patrulhas e alojamentos
das vá rias unidades britâ nicas em
Georgetown.
Apagando pensamentos estranhos
à tarefa que os rebeldes tinham
pela frente, ela concentrou-se na
batalha que se aproximava.
Duzentos homens de Lee iriam de
barco até uma ilha coberta de

859
Flor do Pântano Patrícia Potter

bosques densos que ficava na


direçã o do centro comercial de
Georgetown. Um segundo grupo,
composto de soldados do Exército
Continental e de comandados de
Marion, atacariam de dentro da
floresta atrá s da cidade. Samantha
ia fazer parte desse grupo.
Mais de uma vez durante a longa
cavalgada, ela questionou-se sobre
sua presença no meio daqueles
homens. Sabia que provavelmente
teria de atirar em outro ser
humano, mas precisava

860
Flor do Pântano Patrícia Potter

desesperadamente sentir-se parte


de alguma coisa, para desfazer-se
da impressã o de que nada mais
daria certo em sua vida.
Havia também, nã o podia negar, a
compulsã o de provar algo a Connor,
mas nem sabia direito o que era.
Que nã o precisava dele? Que nã o se
importaria se ele se casasse com
outra? Se fosse isso, estaria
mentindo a si mesma. Na verdade,
o que estava fazendo era um ato de
puro desafio. Nada mais.
Suas costas doíam e ela esticava-

861
Flor do Pântano Patrícia Potter

se constantemente procurando
alívio, mas todos os outros também
pareciam cansados. Os homens já
nem conversavam e o ú nico ruído
era o de centenas de cascos
batendo no chã o.
Samantha estava quase dormindo
na sela quando seu cavalo começou
a andar mais devagar. Ouviu o
barulho que os homens faziam
saltando para o chã o e tirando os
rifles dos suportes presos à s selas.
Ela também desmontou, satisfeita
por poder esticar as pernas e

862
Flor do Pântano Patrícia Potter

movimentar os mú sculos
entorpecidos.
Exceto pelo ruído dos cavalos
bufando, o silêncio os rodeava e a
tensã o que dominava os homens
era quase tangível. Ainda faltava
muito para o amanhecer e a noite
estava excepcionalmente escura,
sem a luz de uma ú nica estrela.
Ela estremeceu embaixo do
casaco fino, reconhecendo que o
arrepio era mais de medo que de
frio. Billy aproximou-se dela
prestativo, notando seu receio.

863
Flor do Pântano Patrícia Potter

— E sempre assim — cochichou.


— A espera é a pior parte da
missã o.
Samantha assentiu, aliviada em
saber que os outros também
estavam tomados de apreensã o.
Ainda endurecida pela longa
cavalgada, voltou a montar
seguindo as ordens murmuradas
de homem para homem.
Meia hora depois ouviram os
primeiros sons distantes de
disparos de rifles e mosquetes.
Samantha ouviu a ordem á spera de

864
Flor do Pântano Patrícia Potter

avançar e foi apanhada na confusã o


de centenas de cavalos que se
lançavam na direçã o das entradas
iluminadas da cidade. Quando
apertou as ancas do animal com os
joelhos, percebeu que todo o medo
desaparecera e que uma selvagem
euforia tomava seu lugar.
Empolgada, juntou-se aos outros
nos gritos de incitamento.
Saindo finalmente da floresta,
cavalgou em disparada com os
indisciplinados cavaleiros de
Marion, vagamente percebendo a

865
Flor do Pântano Patrícia Potter

aproximaçã o ordenada da legiã o de


Henry Lee, que avançava em
fileiras perfeitamente corretas. A
brigada de Marion nã o tinha esse
comportamento de "soldadinhos
de chumbo". Muito pelo contrá rio,
entraram como uma tempestade
pelas silenciosas ruas de terra de
Georgetown. Ouviam-se tiros
ocasionais e o barulho surdo de
corpos ou cavalos caindo, mas o
clamor maior partia do povo da
cidade, que saía gritando em
saudaçã o pelas ruas. Samantha

866
Flor do Pântano Patrícia Potter

alcançou Marion, que cavalgava na


frente com Lee, e ficou ao lado dele
quando se dirigiram para a
cidadela inglesa, perto do centro da
vila.
O refú gio dos britâ nicos nã o
passava de um pequeno forte de
toras com duas torres, mas estava
maciçamente guardado e a fuzilaria
foi intensa entre os defensores da
cidadela e os duzentos homens de
Lee, que haviam chegado da
direçã o do rio. Entre a fumaça e o
barulho ensurdecedor, Samantha

867
Flor do Pântano Patrícia Potter

pô de ver um grupo de casacas-


vermelhas apanhado fora do forte
ser dominado pelos soldados de
Henry Lee, que agiam com rapidez
e precisã o. Enquanto olhava para o
que se passava, ouviu uma bala
passar assobiando a poucos
centímetros de sua perna. Sem
demora e sem receio, levou a cavalo
para fora da linha de fogo e desceu
para o chã o, pegando o rifle.
Marion e Lee haviam se separado,
cada um guiando seus homens para
uma das torres. A intensidade dos

868
Flor do Pântano Patrícia Potter

tiros nã o diminuiu em nada e ela


via homens caírem à sua esquerda
e à sua direita. Rapidamente
procurou um lugar protegido e
ergueu o rifle. Nã o tinha mais
nenhuma hesitaçã o. Os ingleses,
nos muros da cidadela, estavam
ferindo e matando seus
companheiros. Mirou
cuidadosamente e atirou numa
figura vestida de vermelho que
recarregava o mosquete. O homem
caiu justamente quando uma
grande explosã o ocorreu atrá s dela

869
Flor do Pântano Patrícia Potter

e o peito começou a doer


terrivelmente. Procurando
dominar-se, fechou os olhos por
alguns instantes. Depois, ignorando
a dor, mirou novamente e voltou a
atirar. Largou-se no chã o e colocou
outra medida de pó lvora no cano
da arma, com movimentos lentos e
desajeitados. Ia mirar outra vez
quando veio a ordem de retirada.
A dor perdera a intensidade e
ficara apenas um latejamento
incomodo no lado do peito onde a
camisa se empapara de sangue.

870
Flor do Pântano Patrícia Potter

Procurou cobrir a mancha com o


casaco e foi para o local onde
Marion e Lee conferenciavam com
os oficiais.
— Nã o vamos conseguir deste
jeito — Francis dizia. — Se
tentarmos, perderemos metade dos
nossos homens.
— Mas nã o vou devolver
Georgetown para os camarõ es
ingleses! — protestou Lee.
— Temos alguns arcos e flechas —
um oficial aparteou. — Talvez
possamos incendiar o forte.

871
Flor do Pântano Patrícia Potter

Instantes depois, Marion mandava


os homens arrancarem galhos de
algumas á rvores ornamentais.
Envolveram flechas na casca
resinosa e atearam fogo. Logo, um
verdadeiro rio de flechas em
chamas cortava a semi-obscuridade
da madrugada e atingia a estrutura
de madeira ressequida. A bandeira
inglesa foi tirada do mastro e
homens vestidos de vermelho ou
verde saíram correndo pelos
portõ es para em seguida serem
desarmados e presos.

872
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha observava tudo de uma


certa distâ ncia. Estava cansada,
fraca e sem a selvagem energia de
momentos atrá s. Via corpos
estendidos por todos os lados,
iluminados pelas chamas que
devoravam o forte e outras
construçõ es vizinhas. O lugar
assemelhava-se a um pedaço do
inferno. Vagarosamente levantou-
se do chã o com o auxílio do rifle.
Precisava de ajuda, mas nã o podia
deixar-se examinar pelo médico
que os acompanhava para evitar

873
Flor do Pântano Patrícia Potter

que seu segredo fosse descoberto.


A casa de Annabelle nã o ficava
muito distante. Iria para lá . Com
certa dificuldade, conseguiu
encontrar seu cavalo e montou.
Pensou em Billy e silenciosamente
rezou para que nã o estivesse entre
os mortos. Fez o animal virar e
lentamente, mal tomando
consciência do que passava ao
redor, dirigiu-se para a rua Cherry.
Annabelle e suas garotas
encontravam-se na varanda
olhando para o clarã o vermelho

874
Flor do Pântano Patrícia Potter

que iluminava o céu nublado da


manhã . Uma hora antes, a casa
ficara em polvorosa por causa dos
tiros que acusavam algo muito
grave. Os clientes haviam saído
correndo dos quartos, ainda
vestindo as calças ou calçando as
botas, fazendo perguntas que
ninguém estava em condiçõ es de
responder. Dentro de instantes nã o
havia mais um homem na casa, a
nã o ser os escravos.
Annabelle, assim que viu os
cavaleiros selvagens que invadiam

875
Flor do Pântano Patrícia Potter

as ruas, adivinhou que Marion


chegara. Mandou um escravo
observar o tumulto, enquanto ela e
suas moças comemoravam,
sabendo que sua contribuiçã o
concorrera para aquele
acontecimento. Estavam rindo e
brincando quando um cavaleiro
solitá rio, sentado de forma pouco
natural na sela, aproximou-se da
cerca.
No mesmo instante, Annabelle
desceu os degraus da varanda e
correu para o portã o, pegando as

876
Flor do Pântano Patrícia Potter

rédeas que o cavaleiro soltara e


guiando o animal para dentro do
jardim. Só entã o olhou para o rosto
do homem e reconheceu Samantha.
Sem perder tempo, voltou-se para
as moças.
— Evie, Becky, venham me ajudar.
Juntas apanharam Samantha, que
escorregava da sela e a levaram
para dentro.
— Para o meu quarto — instruiu
a dona do bordel. Subiram a escada
e logo alcançavam o aposento
indicado.

877
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ali seria um bom esconderijo no


caso de Marion ser obrigado a
retirar-se da cidade, deixando-a
novamente em poder dos ingleses.
Depois de colocarem Samantha na
cama, Annabelle dispensou as duas
moças dizendo-lhes para
esperarem no corredor. Quando
Samantha recobrou a consciência, a
mulher tirou-lhe o casaco e a
camisa e inspecionou o corte
comprido no lado esquerdo do
peito. O ferimento ainda sangrava
um pouco, mas nã o parecia grave,

878
Flor do Pântano Patrícia Potter

de modo que Annabelle suspeitou


que a fraqueza de Samantha era
provocada pela exaustã o e pela dor.
— Vai precisar levar alguns
pontos — disse baixinho,
respondendo ao olhar interrogativo
da moça. — Você ficará boa logo.
Vou mandar chamar um médico.
— Nã o. Estã o todos ocupados e
nã o quero que o general Marion
saiba.
Annabelle olhou-a longamente.
— Connor está com vocês?
Surpreendeu-se com o olhar

879
Flor do Pântano Patrícia Potter

conturbado de Samantha. — Nã o...


Ele está ... com Greene. Nã o posso...
ficar uns dias aqui... com você?
— Alguém irá procurá -la, menina.
— Confusã o... muita confusã o...
Nã o sentirã o a minha falta.
— Já fui obrigada a dar pontos,
antes. Sabe, ferimentos que
precisam ser mantidos em segredo.
Posso tentar, se quiser.
— Nã o conte a ninguém que fiquei
ferida.
— Nem a Connor?
— A ninguém! Annabelle sacudiu

880
Flor do Pântano Patrícia Potter

a cabeça.
— Nã o pode manter esse segredo
para sempre. Connor já sabe quem
você é?
— Já descobriu que nã o sou um
rapaz.
— Mas nã o sabe que você é
Samantha Chatham, nã o é? Fique
tranqü ila. Nã o pretendo fazer
perguntas por enquanto. Vou pegar
á gua e sabã o e depois terei de
desinfetar a ferida com á lcool.
Samantha concordou com um
aceno e fechou os olhos.

881
Flor do Pântano Patrícia Potter

A dor foi quase insuportável


quando a mulher lavou o ferimento
com á gua e sabã o e depois com
á lcool, mas Samantha nã o
desmaiou, para espanto da outra. A
pior parte ia começar e Annabelle
cerrou os lá bios quando introduziu
a agulha com linhas nas bordas da
ferida. Samantha mordeu a ponta
da colcha para nã o gritar e
agarrou-se a uma das colunas da
cama. Annabelle nunca vira tanta
coragem numa mulher e sentiu
ainda mais simpatia por aquela

882
Flor do Pântano Patrícia Potter

jovem sofrida. Quando terminou,


limpou carinhosamente a poeira e
os traços de pó lvora do rostinho
delicado e ajeitou-a na enorme
cama, cobrindo-a com um
acolchoado.
— Agora durma, mocinha. Aqui
está em segurança. Saiu
silenciosamente do quarto
pretendendo descobrir o que mais
acontecera naquela manhã cheia de
surpresas.
Francis Marion nã o deu por falta
de Sam até a noite. Depois da

883
Flor do Pântano Patrícia Potter

rendiçã o, Billy procurara pelo


companheiro, mas nã o o
encontrara nem entre os feridos
nem entre os mortos. A
preocupaçã o de Billy tornou-se tã o
intensa que ele encontrou a
coragem necessá ria para abordar
Francis Marion.
O general sorriu ao vê-lo à sua
frente, torcendo o boné nas mã os.
Gostava daqueles jovens soldados,
tã o cheios de coragem e amor pela
pá tria, que haviam passado a
infâ ncia na guerra e tinham a

884
Flor do Pântano Patrícia Potter

capacidade invejável de calar


qualquer queixa contra o
desconforto e as dificuldades.
— Billy, rapaz, você quer falar
comigo?
— Sam desapareceu, senhor. Nã o
consegui encontrá -lo em parte
alguma.
O general ficou tenso. Prometera a
Connor e a si mesmo que cuidaria
de Sam.
— Procurou entre os feridos, os...
mortos?
— Nã o está entre eles, senhor.

885
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Antes assim.
Marion refletiu por um momento,
lembrando-se de que vira Sam
atirando no meio do fogo cerrado.
Depois ouvira um tiro de canhã o
perto do lugar onde o rapaz estava.
Talvez Sam houvesse ficado ferido e
procurado socorro numa das casas
das redondezas. Chamou um
sargento e disse-lhe para formar
um grupo e vistoriar a á rea. Aquilo
era imperdoável. Se algo
acontecesse ao rapaz estaria em
maus lençó is perante Connor e

886
Flor do Pântano Patrícia Potter

perante si mesmo.
Uma longa fila de soldados e
oficiais esperava ordens e,
preocupado, Marion forçou-se a
desviar os pensamentos para
outros assuntos.
Billy e mais cinco homens
procuraram por Sam a noite toda e
durante boa parte da manha, mas
nã o encontraram nem o mínimo
vestígio do jovem. Era como se ele
houvesse desaparecido da face da
terra.
Para Marion, a alegria da vitó ria

887
Flor do Pântano Patrícia Potter

perdera muito do brilho. Enquanto


ele e Lee preparavam a partida,
pensava nos homens que ficariam
para trá s, mortos ou feridos demais
para serem transportados. E
pensava em Sam, que
desaparecera.
Os pelotõ es rebeldes saíram de
Georgetown levando carroçõ es de
pó lvora, muniçã o, armas,
medicamentos e cobertores. E, pela
primeira vez desde que se haviam
reunido, os soldados de Lee e de
Marion conviviam pacificamente.

888
Flor do Pântano Patrícia Potter

Depois da demonstraçã o, de ambas


as partes, de capacidade e coragem,
um mú tuo respeito nascera entre
eles;

CAPÍTULO XIX

Connor relaxou na sela, ficando a


observar as longas fileiras da
cavalaria e da infantaria que se
estendiam por quilô metros.
Estavam percorrendo o caminho
estreito e poeirento, que nem

889
Flor do Pântano Patrícia Potter

merecia o nome de estrada, havia


dias, conservando-se apenas um
pouco à frente de Cornwallis.
Encontravam-se todos famintos,
cansados e doloridos. Os homens
da infantaria, que seguiam a pé,
mal se agü entavam, achando as
duas curtas paradas para descanso
completamente insuficientes. Os da
cavalaria também sofriam com
dores nas costas, bolhas nas
palmas das mã os e assaduras no
vã o das pernas.
Mas o sofrimento chegava ao fim.

890
Flor do Pântano Patrícia Potter

Havia sinais evidentes de que


Cornwallis ficava para trá s, um
pouco mais a cada dia que passava.
Connor amassou o pedaço de
papel que segurava nas mã os. Já
quase nã o tinha desculpa para ficar
com Greene. O perigo maior
passara, pelo menos por algum
tempo. O papel era um bilhete de
Marion, ordenando que voltasse
imediatamente.
Suspirou, sabendo que nã o tinha
muita escolha. Os soldados rasos
da milícia de Marion tinham

891
Flor do Pântano Patrícia Potter

bastante liberdade para ir e vir,


dependendo de colheitas,
problemas conjugais e até simples
preguiça, de modo que seus
assuntos pessoais nunca ficavam
abandonados. Aquela tolerâ ncia
porém nã o se estendia aos oficiais.
Francis precisava saber que
possuía oficiais em quem podia
confiar e Connor tinha consciência
de que abusara da amizade que os
unia. Aquilo o aborrecia, mais ainda
quando pensava que ficara tanto
tempo com Morgan e Greene para

892
Flor do Pântano Patrícia Potter

nã o ter de encarar seus problemas.


Os dedos fortes transformaram o
pedaço de papel numa bolinha. Ele
sempre olhara as dificuldades de
frente, nunca fugindo de situaçõ es
problemá ticas. Todavia, Sam
conseguira mudar aquele seu jeito
de ser e ele acabara se escondendo,
procurando fugir ao ressentimento
e à frustraçã o.
Chegara a reconhecer, bem no
íntimo, que tentava forçar Sam a
contar-lhe seu segredo porque lhe
doía nã o ser merecedor de sua

893
Flor do Pântano Patrícia Potter

confiança. Contudo, forçá -la


significava perdê-la e naquele
momento, sob o sol alto no céu tã o
azul que ofuscava a vista, ele
confessou a si mesmo que nunca
sentira o que Sam lhe inspirava. Ele
a queria com alucinado desespero.
O sorriso franco e o brilho dos
olhos azuis o perseguiam em
sonhos e dominavam todos os seus
pensamentos. Por que tinha de ser
aquela mulher a enfeitiçá -lo? Já se
perguntara inú meras vezes, mas as
respostas sempre lhe fugiam. Havia

894
Flor do Pântano Patrícia Potter

apenas uma certeza: Sam era a


mulher de sua vida, e nã o podia
deixá -la escapar.
De repente, nã o havia mais
nenhuma hesitaçã o. Ia voltar para
Sam. Aquele desejo poderoso
suplantaria as dificuldades. Juntos,
poderiam vencê-las. Eles se
amavam e o amor lhes abriria as
portas para uma nova vida.
Inconsciente de que suas emoçõ es
refletiam-se no rosto de expressã o
sonhadora, sobressaltou-se quando
Denney Demerest riu perto dele.

895
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Você parece um homem


apaixonado, Connor. E pensei que
eu fosse o ú nico a sofrer dessa
doença.
O outro sorriu ao ouvir a
confissã o do amigo.
— Nã o deixe Caroline escapar,
Denney. Se você a ama, lute por
esse amor — aconselhou,
surpreendendo-se com o que
dissera.
Nã o desejara interferir nos
problemas de Denney, mas naquele
momento nã o podia deixar de dizer

896
Flor do Pântano Patrícia Potter

o que pensava, pois o conselho


servia também para si mesmo.
— Você será um idiota se perder
essa oportunidade — continuou. —
Pode nã o haver outra.
Denney olhou-o consternado.
— Está falando por experiência
pró pria, Connor?
— Talvez esteja. Nã o sei se minha
chance de ser feliz já se perdeu,
mas vou tentar remediar a
estupidez que fiz. Amanhã cedo
voltarei para a minha terra.
— Deixou alguém lá ?

897
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Sim — respondeu Connor com


simplicidade. — E nã o vou perdê-
la. Quanto a você, amigo, agarre sua
felicidade antes que seja tarde
demais.
— Mas nossas famílias...
— Só vocês dois importam. O
resto que vá para o inferno.
Denney, nã o destrua sua vida por
causa dos preconceitos de outras
pessoas.
O jovem olhava espantado para o
amigo. Connor evitara emitir
qualquer opiniã o durante todas

898
Flor do Pântano Patrícia Potter

aquelas semanas, embora houvesse


ajudado os dois jovens apaixonados
a ficarem juntos. Vá rias vezes
Denney tentara comentar o assunto
com o amigo, mas notara que ele
fugia de confidências.
— Pensei que desaprovasse meu
amor por Carolina.
— Nã o. Apenas nã o tinha certeza
se vocês se amavam de verdade. Se
existe mesmo amor, nã o deixem
que nada se interponha entre
vocês.
O rosto de Denney resplandecia

899
Flor do Pântano Patrícia Potter

de alegria.
— Você tem razã o, homem! Você
tem toda a razã o! Fugiremos e nos
casaremos. Nosso primeiro filho vai
se chamar Connor.
— Calma, rapaz. Primeiro, precisa
perguntar a ela se aceita fugir com
você — disse Connor, rindo do
entusiasmo do outro.
— E você, amigo, nã o vai me falar
desse alguém que o espera?
— Vou lhe dizer apenas que ela
possui os olhos mais azuis e belos
do mundo. E que seu coraçã o é

900
Flor do Pântano Patrícia Potter

generoso e cheio de coragem.


Despediram-se sorrindo e Connor
apertou os joelhos nos flancos do
cavalo, fazendo-o galopar na
direçã o de Greene.

Acalmada por uma forte dose de


lá udano, Samantha dormiu mais de
vinte e quatro horas seguidas.
Quando acordou, o sol enchia o
quarto com luz morna e brilhante.
Ela espreguiçou-se, gozando o
conforto da cama macia e entã o
uma pontada aguda a fez lembrar-

901
Flor do Pântano Patrícia Potter

se de onde estava e por quê.


Apenas nã o fazia a mínima idéia de
quanto tempo dormira.
Com a mente anuviada pelo sono
e pelo remédio, ela percebeu que a
garganta doía, ainda irritada pela
fumaça. Nã o tinha energia
suficiente para sair da cama e nem
vontade, o que muito a
surpreendeu.
Naquele instante a porta abriu-se
e Annabelle entrou.
— Acordou, finalmente! Isso é
bom. — Aproximou-se da mesa ao

902
Flor do Pântano Patrícia Potter

lado da cama e encheu um copo


com á gua da moringa de prata. —
Tome. Beba isto. Vou mandar trazer
sopa.
— Onde esta o general Marion?
— Partiu esta manhã . Eu queria
mandar avisá -lo de que você estava
aqui, mas a promessa que lhe fiz
me impediu. Mas foi estupidez,
porque logo os ingleses estarã o de
volta.
Samantha fechou os olhos.
Conhecia o general bastante bem
para saber que o homem devia

903
Flor do Pântano Patrícia Potter

estar muito preocupado com seu


sumiço. Sempre procurara proteger
os elementos mais jovens do bando
e entre ele e Sam nascera uma forte
amizade. E Connor? Nã o podia
preocupar-se com ela, pois estava a
mais de cento e cinqü enta
quilô metros de distâ ncia. Além
disso, amava outra mulher. A dor
que aquele pensamento lhe
causava era muito mais violenta
que o sofrimento físico e aparecia
perfeitamente em seus olhos
tristes.

904
Flor do Pântano Patrícia Potter

Annabelle notou sua perturbaçã o


e suspirou. Aparentemente as
coisas nã o iam bem entre
Samantha e Connor. Tocou a sineta
para chamar um escravo e pediu
um prato de sopa à negra de idade
que atendeu ao chamado. Em
seguida, sentou-se na beira da
cama.
— Conte-me tudo, Samantha. O
que Connor sabe e o que nã o sabe.
Também quero saber por que você
está tã o infeliz.
A moça olhou para ela já com os

905
Flor do Pântano Patrícia Potter

olhos velados pelas lá grimas.


— Connor ficou noivo —
respondeu simplesmente.
— Connor está noivo? — a mulher
perguntou chocada. — De quem?
— De uma garota chamada
Caroline Demerest. Você a conhece,
ou pelo menos a família?
— Demerest... Bem, eu conheço
uma porçã o de pessoas com esse
sobrenome. Estã o espalhadas pelo
Estado todo. Mas evidentemente só
conheço os homens.
Samantha nã o sorriu daquela

906
Flor do Pântano Patrícia Potter

tentativa de fazer humor.


— Você disse que Connor
descobriu seu verdadeiro sexo. O
que aconteceu realmente? —
Annabelle quis saber.
— Foi quando saímos de
Georgetown. Eu caí e ele me ergueu
e aí... Bem...
— Bem... o quê? — a mulher
perguntou com impaciência.
— Fizemos amor.
— E você gostou.
Samantha deu um sorriso triste,
patético em contraste com os olhos

907
Flor do Pântano Patrícia Potter

marejados.
— Foi maravilhoso. Nã o sabia que
era tã o lindo.
O coraçã o de Annabelle apertou-
se de compaixã o pela moça e por si
mesma. Como desejara possuir
aquela inocência quando se
apaixonara pela primeira vez!
— E depois?
— Connor ficou muito zangado,
mas depois eu quebrei o braço e ele
o imobilizou. Fizemos amor
novamente e foi mais bonito ainda.
— Ela fez uma pausa e suspirou. —

908
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ele quis casar-se comigo e eu nã o


pude aceitá -lo, você sabe por quê.
Se ele descobrisse que sou uma
Chatham me odiaria e eu nã o
suportaria isso. Mas acabou me
odiando da mesma forma porque
pensa que eu nã o o quero. E eu o
amo desesperadamente.
As lá grimas começaram a rolar
copiosamente nas faces escuras.
— Oh, Annabelle — gritou
Samantha —, ele deixou Marion
por minha causa, porque nã o
tolerava minha presença, e agora

909
Flor do Pântano Patrícia Potter

está noivo! Vai casar-se com outra!


— Calma, menina, calma. Como
sabe que ele está noivo?
— Um dos homens de Greene
esteve no acampamento levando
despachos para Marion e disse que
o noivado dele está sendo
comentado por todos,
— Comentá rios podem ser
produzidos por simples rumores.
Connor alguma vez lhe disse que a
amava?
— Sim — ela respondeu com voz
fraca.

910
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Entã o, se eu fosse você nã o me


preocuparia — Annabelle declarou
decidida. — Connor é correto
demais para dizer a uma mulher
que a ama e propor casamento a
outra um mês depois.
— Mas ele ficou magoado
comigo!
— Isso nã o faz diferença. Connor
sabe o que quer e nã o desiste
facilmente.
Por alguma razã o, aquelas
palavras cheias de confiança nã o
melhoraram o â nimo de Samantha

911
Flor do Pântano Patrícia Potter

e nova torrente de lá grimas lavou-


lhe o rosto. Annabelle balançou a
cabeça sem saber o que fazer ou
dizer. Ficou contente quando a
escrava chegou com a sopa. Ajudou
a moça sentar-se na cama e disse-
lhe para comer tudo. Precisava
ficar forte para reunir-se a Marion.
Terminada a refeiçã o, Samantha
recostou-se nos travesseiros e
fechou os olhos, mas nã o conseguiu
apagar a imagem que invadiu sua
mente, atormentando-a. Connor e
uma linda jovem andavam de mã os

912
Flor do Pântano Patrícia Potter

dadas por um belo jardim,


sorridentes e trocando olhares
repletos de carinho.
Connor chegou a Snow Island
cansado e com dores pelo corpo,
mas com o coraçã o agitado. Logo
veria Sam. Durante a longa viagem
de volta refletira muito e decidira
nã o pressioná -la mais, dando-lhe
todo o tempo de que precisasse
para vencer os receios e falar-lhe
sobre o passado. Faria com que ela
confiasse nele e a teria como
esposa. Dali por diante, teriam uma

913
Flor do Pântano Patrícia Potter

vida cheia de alegria e


compreensã o.
Ao aproximar-se do acampamento
de Francis Marion notou que a
floresta parecia mais vazia que o
usual, quando devia estar muito
mais movimentada com a chegada
de Lee e sua legiã o. Esporeou a
montaria e chegou rapidamente à
clareira dentro das terras de
Goddard. Encontrou apenas um
grupo de soldados montando
guarda e nada mais. Procurou
ansiosamente por Sam e ela nã o

914
Flor do Pântano Patrícia Potter

estava lá , o que provocou uma


pontada de apreensã o em seu
íntimo.
Lutando contra o pressentimento
incomodo, desmontou e caminhou
na direçã o de um sargento que se
encontrava sozinho à porta de uma
das cabanas.
— Major O'Neill! O general
Marion está preocupado com o
senhor.
— Onde ele está ?
— Ele e Lee foram para
Georgetown há três dias. Deixou

915
Flor do Pântano Patrícia Potter

apenas trinta homens no


acampamento.
—- Onde está Sam Taylor? Com
certeza ele nã o acompanhou o
regimento.
— Acho que foi junto sim, senhor.
Nã o o vi desde a partida dos outros.
— Diabos — resmungou Connor,
irritado.
Pedira a Marion para nã o deixar
Sam sair do acampamento. O que
acontecera, afinal?
O sargento olhava para ele com
curiosidade. Era raro ver o major

916
Flor do Pântano Patrícia Potter

perder a calma.
— Devem chegar a qualquer
momento — explicou, tentando
ajudar.
Connor esfregou as faces
barbadas. Nã o tivera tempo de
barbear-se nos ú ltimos dias, mas
aquilo teria de esperar. Seu corpo
cansado necessitava urgentemente
de repouso. Seu primeiro
pensamento fora pegar outro
cavalo e sair ao encontro de
Marion, mas aquilo só serviria para
deixá -lo ainda mais exausto. Sam

917
Flor do Pântano Patrícia Potter

devia estar bem, pois Marion


tomaria conta dela.
— Vou dormir um pouco — disse
ao sargento. — Acorde-me se
houver alguma novidade.
Instantes depois, dormia enrolado
num cobertor embaixo de uma
á rvore. A despeito da exaustã o,
despertou assim que ouviu os sons
que os vigias emitiam, imitando o
piado dos passarinhos, sinal de que
Marion estava chegando. Sacudiu a
cabeça para espantar o sono e
levantou-se, ficando encostado ao

918
Flor do Pântano Patrícia Potter

tronco da á rvore, procurando


controlar o medo que começava a
apontar em seu coraçã o, como
sombria intuiçã o.
Assim que Marion entrou na
clareira, os dois se viram. A
expressã o que Connor viu no rosto
do amigo bastou para saber que
seu pressentimento era justificado.
Olhou para os homens que
chegavam, procurando um rosto
miú do onde brilhavam enormes
olhos azuis. Sam nã o se achava
entre eles.

919
Flor do Pântano Patrícia Potter

Francis saltou para o chã o e


encaminhou-se para o amigo,
tomando-o pelo braço e afastando-
o para um lado, para que os outros
nã o ouvissem a conversa. Connor
nã o conseguia fazer a pergunta que
lhe queimava os lá bios, mas
finalmente ela veio, formulada em
voz baixa.
— Onde está Sam?
— Nã o sei — respondeu Marion
com tristeza. — Simplesmente
desapareceu.
— Em Georgetown?

920
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Sim. Ainda o vi durante o


ataque ao forte, mas depois...
sumiu. Procuramos por ele a noite
toda. Nã o estava entre os mortos,
nem entre os feridos. Sinto muito,
Connor. Eu nã o devia ter dado
permissã o para que nos
acompanhasse, mas ele insistiu
demais e eu já havia prometido que
o deixaria escolher o que desejasse
fazer.
Connor manteve-se em silêncio,
incapaz até de recriminaçõ es.
Sentia-se vazio, sem nenhuma

921
Flor do Pântano Patrícia Potter

emoçã o, como se estivesse


narcotizado.
— Sam sabe cuidar-se —
consolou Marion. — Já provou isso
vá rias vezes. É um rapaz valente.
— Nã o é um rapaz, Francis. É
uma moça e nã o sabe cuidar-se tã o
bem assim, embora tenha orgulho
em demonstrar o contrá rio.
O rosto do general empalideceu,
mostrando perplexidade.
— O que está dizendo?
— Sam é na realidade Samara
Taylor. Deus a ajude se cair nas

922
Flor do Pântano Patrícia Potter

mã os dos ingleses e eles


descobrirem isso.
O espanto de Marion aos poucos
transformava-se em raiva.
— Há quanto tempo sabe disso?
— Desde que fomos juntos a
Georgetown.
— E existe algo mais que afeto
fraternal entre vocês dois, nã o é?
— Sim — Connor respondeu em
tom beligerante, uma atitude
anormal nele e que divertiria o
general se ele nã o estivesse tã o
preocupado e irritado.

923
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Diabos, Connor! Um
acampamento de guerra nã o é o
melhor lugar para namoricos e
brincadeiras. Conhece minhas
regras. Sabe que preciso confiar
nos meus oficiais e você fez uma
confusã o dos infernos!
O outro já estava mais calmo e
aceitou a repreensã o.
— Tem razã o, Francis, mas Sam
nã o tinha para onde ir e pensei que
aqui ficaria em segurança. Ela me
prometeu que nã o sairia do
acampamento.

924
Flor do Pântano Patrícia Potter

Marion percebeu tanta tristeza na


voz do amigo que a raiva
desapareceu. Subitamente,
entendeu tudo.
— Ela cumpriu a promessa até
saber que você estava noivo.
— Noivo? — o outro exclamou,
surpreso.
— O coronel Lee disse que você
provavelmente ficaria no Norte por
causa de uma moça, uma Demerest,
com a qual tinha assumido
compromisso de casamento.
— Oh, meu Deus! Caroline é

925
Flor do Pântano Patrícia Potter

namorada de Denney Demerest,


seu primo. Você se lembra dele,
Francis. Serviu na ilha Sullivan
comigo. Nó s três nos tornamos
grandes amigos.
— Infelizmente essa nã o foi a
informaçã o que Sam teve. Agora
entendo por que ela parecia tã o
infeliz. O que mais sabe sobre ela,
Connor?
— Nada mais, além do nome.
Também percebi que recebeu fina
educaçã o. Ela nã o fala da família e
só à s vezes se refere ao pai, já

926
Flor do Pântano Patrícia Potter

falecido. Nã o tem para onde ir e por


isso implorou-me para que nã o lhe
contasse a verdade.
— Se ela ficou ferida em
Georgetown, nã o deixaria que um
dos nosso médicos a examinasse —
considerou Marion. A expressã o de
Connor se iluminou de repente.
— Já sei! Procurou Annabelle!
— Annabelle? A do bordel?
— Quem mais, homem?
Esqueceu-se de que ficamos na
casa dela quando estivemos em
Georgetown, em dezembro?

927
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Sam confiaria nela? Connor


sorriu.
— Acho que sim. Tenho a
impressã o de que as duas se
tornaram amigas. Sam nunca me
disse, mas aposto como Annabelle
descobriu a verdade e as duas se
entenderam muito bem.
— E provável entã o que Sam
esteja lá .
— Vou imediatamente para
Georgetown, Francis.
— Nã o. Aquilo lá deve estar
formigando de ingleses e você é

928
Flor do Pântano Patrícia Potter

conhecido demais. Mandarei um


homem.
— Vou para Georgetown. Com ou
sem sua permissã o, Francis.
— Posso mandar prendê-lo por
insubordinaçã o! — exclamou
Marion, novamente irritado.
— Pode, mas nã o vai — foi a
resposta insolente. — Por favor,
Francis. Conheço Georgetown como
a palma de minha mã o e irei
disfarçado. Sou responsável por
ela! Preciso encontrá -la!
Marion descobriu que tudo o que

929
Flor do Pântano Patrícia Potter

dissesse ou fizesse seria inú til.


— Vai levar alguém com você? —
perguntou, admitindo a derrota.
— Levarei Pat O'Leary.
— Está bem.
Pat O'Leary tinha sessenta anos e
aparentava setenta, mas poucos
soldados, mesmo muito mais
jovens, possuíam sua energia. Além
disso, o homem tinha um talento
todo especial para fingir-se de
caduco, o que desviava qualquer
suspeita que poderia suscitar.
Vá rias vezes já entrara em cidades

930
Flor do Pântano Patrícia Potter

tomadas pelos ingleses para


espionar e sempre obtivera
sucesso.
— Espere escurecer, Connor. As
estradas devem estar cheias de
soldados atrá s de nó s.
O outro concordou, embora com
relutâ ncia. Já abusara demais da
paciência do amigo.

CAPÍTULO XX

Nos três dias que passou com

931
Flor do Pântano Patrícia Potter

Annabelle, Samantha aprendeu a


gostar imensamente da mulher
franca e decidida, que encarava a
vida de forma prá tica e com bom
humor. E ambas tinham algo muito
importante em comum, um fato
que evitavam comentar. As duas
amavam Connor O'Neill.
Samantha percebera, já na
primeira visita ao bordel, em
dezembro, que Annabelle era
apaixonada por ele e ficara
admirada da generosidade da
mulher, que nã o se negara a ajudar

932
Flor do Pântano Patrícia Potter

uma rival. Aquele amor era


verdadeiro e capaz de sacrifícios,
um sentimento que Samantha nã o
imaginara existir na vida real. Ela
mesma, ao saber de Caroline
Demerest, tivera o desejo de bater
na moça desconhecida e cravar as
unhas naquele rosto que diziam ser
tã o belo. Aquele nome odioso
estava gravado a fogo em sua
mente corroída pelo ciú me.
Annabelle forçava-a a alimentar-
se vá rias vezes por dia e dormir
bastante, mas nos intervalos

933
Flor do Pântano Patrícia Potter

conversavam longamente.
Samantha falava do pai e de como
sempre desejara ser amada por ele
e jamais conseguira. Contava como
ela e Brendan haviam crescido
juntos, sob a tutela carinhosa de
Connor que os ensinava
brincadeiras novas e lhes contava
histó rias de floresta. Conseguiu
falar sobre a morte de Brendan e
sobre o que se passara entre ela e
Connor depois da primeira visita a
Georgetown, como ele fora
carinhoso, gentil, e depois como

934
Flor do Pântano Patrícia Potter

ficara furioso com a sua negativa.


Admitiu que quase revelara sua
verdadeira identidade, como
Annabelle aconselhara, mas que
Connor falara sobre o irmã o, a
morte do pai e a prisã o no navio
com tanto ó dio contra os Chatham
que ela entrara em pâ nico e se
calara.
— Ele me acusou de seduzir
Brendan e jogar meu pai contra ele
— contara, chorando. — Disse que
foi como se eu houvesse matado
seu irmã o com minhas pró prias

935
Flor do Pântano Patrícia Potter

mã os. Nã o podia dizer a ele que eu


era Samantha Chatham e ver seu
amor transformar-se em ó dio
profundo. Foi até bom ele ter
encontrado outra moça, embora
isso esteja me matando.
Annabelle era uma ouvinte
maravilhosa, que nunca forçava
confissõ es, nunca julgava e
raramente fazia comentá rios.
Apenas uma vez ficara
desconcertada. Samantha a fitara
com aqueles grandes olhos azuis e
inocentes e fizera a pergunta que

936
Flor do Pântano Patrícia Potter

pairava sobre elas desde o início.


— Por que está me ajudando,
Annabelle? Você também o ama,
nã o é?
Fora uma pergunta honesta,
merecedora de uma resposta
também honesta.
— Você me falou de sua infâ ncia,
Samantha. Agora vou falar da
minha. Eu nã o conheci minha mã e
e desconfio que nem sabia quem
era meu pai. A fome e a solidã o
sempre foram marcantes em minha
vida de criança. Cresci num

937
Flor do Pântano Patrícia Potter

orfanato e odiava aquele lugar


horrível, onde nã o havia carinho e
as surras e castigos eram
constantes. Nunca fui uma
conformista e apanhei muito. Um
dia, um casal apareceu no orfanato
para pegar uma criança e me
escolheram.
Annabelle fizera uma pausa e os
olhos verdes encheram-se de
amargura.
— Fiquei muito feliz, até
descobrir que a mulher nã o queria
uma criança. Quem queria era o

938
Flor do Pântano Patrícia Potter

marido. Ele me usou até eu


completar treze anos e começar a
lutar contra a situaçã o. Ele
começou a me espancar e um dia
fugi e vim para cá . Nada mais
conheci da vida a nã o ser sexo
forçado e prostituiçã o.
Samantha sentira os olhos cheios
de lá grimas ao ver a tristeza
imensa estampada no belo rosto de
Annabelle.
— Eu tinha dezenove anos
quando conheci Connor. Ele tinha
apenas quinze, embora parecesse

939
Flor do Pântano Patrícia Potter

muito mais velho e já fosse


extremamente atraente. Sério,
educado, mas com o calmo senso
de humor que sempre pega a gente
desprevenida. Uma vez ele viu um
livro em meu quarto e começamos
a conversar sobre literatura. Ele
começou a me trazer livros e se
transformou numa espécie de
professor, preenchendo as lacunas
deixadas por minha educaçã o
pobre. Foi a ú nica pessoa que me
tratou com respeito, como pessoa,
apesar de eu ser o que sou.

940
Flor do Pântano Patrícia Potter

Emprestou-me dinheiro para que


eu comprasse esta casa e me
ensinou a ter respeito por mim
mesma. Nã o há nada no mundo que
eu nã o faça por ele.
Samantha inclinara-se e apertara
a mã o da amiga.
— Eu também gosto de você,
Annabelle. E a pessoa mais
generosa que já conheci.
A mulher sorriu.
— Apesar de tudo o que lhe
contei, Connor nunca me amou. Ele
gosta de mim. Somos amigos e

941
Flor do Pântano Patrícia Potter

nada mais. Apesar do meu afeto


por ele, nunca poderia amá -lo do
modo como você o ama. Já fui
usada demais, sou experiente
demais. Ele precisa da sua pureza,
da sua alegria e do seu amor
inocente.
— Mas...
—Você pode nã o acreditar agora,
porque está confusa e magoada,
mas eu sinto que vocês pertencem
um ao outro. Connor tem um
coraçã o amoroso e gentil. Pode ser
até perigoso quando está lutando

942
Flor do Pântano Patrícia Potter

pelo que julga ser certo, mas deseja


apenas viver em paz e pertencer a
alguém que o ame. E esse alguém é
você, meu bem.
— Como pode dizer isso,
Annabelle? Ele pensa que eu matei
Brendan, que...
— Ele pensa isso porque nã o
conhece a verdade.
— E Caroline Demerest?
— Bobagem! Falató rios de
soldados. Acredito tanto nisso
quanto creio que Tarleton vá para o
céu com asas e harpa. Se você o

943
Flor do Pântano Patrícia Potter

ama de verdade, Sam, lute por ele.


Se o perder, vai se arrepender pelo
resto da vida.
— Quero que seja sempre minha
amiga, Annabelle... Aconteça o que
acontecer.
Samantha jantou e Annabelle
examinou o ferimento. Estava
cicatrizando bem e as duas haviam
chegado à conclusã o de que fora
produzido por uma lasca de
madeira arrancada de algum lugar
pela bala de um canhã o. Nã o havia
sinal de infecçã o e Samantha

944
Flor do Pântano Patrícia Potter

pretendia partir na manhã


seguinte, assim que acabasse o
período de recolhimento noturno
imposto pelos ingleses. Marion
devia estar muito preocupado com
ela, talvez achando que a perdera
para o inimigo.
Seria bom viajar à noite, mas os
britâ nicos haviam proibido o
trâ nsito de civis para dentro ou
fora da cidade, do anoitecer ao
nascer do sol. Mesmo aqueles que
transitavam durante o dia eram
exaustivamente interrogados pelos

945
Flor do Pântano Patrícia Potter

guardas.
Annabelle relutara em concordar
com sua partida, mas compreendia
a inquietaçã o que a atormentava.
Consolava-se pensando que,
vestida de rapaz, Samantha tinha
aparência bastante inofensiva.
Na manhã seguinte, Samantha
saiu da cama antes do amanhecer.
Tomou o desjejum e vestiu as
roupas de garoto que Annabelle
comprara para substituir as outras,
sujas e rotas que certamente
causariam curiosidade.

946
Flor do Pântano Patrícia Potter

Olhou-se no espelho e viu que os


cabelos estavam mais compridos e
encaracolados, mas nã o tinha
coragem de cortá -los outra vez.
Cobriu-os com um velho chapéu e
estava pronta.
Annabelle despediu-se dela com
carinho e levou-a até a porta dos
fundos, fazendo mil
recomendaçõ es. No quintal, em vez
do belo animal com que entrara na
cidade, encontrou um velho cavalo
de puxar arado, sem sela. Precisava
dar a impressã o de ser filho de

947
Flor do Pântano Patrícia Potter

algum lavrador das redondezas e o


disfarce parecia perfeito...
Samantha montou e acenou para a
mulher que a olhava com
preocupaçã o. Depois, guiou a
montaria para a rua de terra. O sol
despontava no horizonte.
Enquanto Samantha seguia pela
rua que corria atrá s da casa de
Annabelle, Connor e Pat O'Leary
desciam a Cherry. Haviam chegado
a Georgetown antes do alvorecer,
encontrando a passagem barrada.
A ansiedade de Connor chegava a

948
Flor do Pântano Patrícia Potter

ser dolorosa e ele nã o cansava de


rezar para que Samantha estivesse
com Annabelle.
Ao chegarem à entrada da cidade,
Pat O’Leary aproximara-se dos
guardas parecendo um velho senil
já beirando a morte e descobrira
que a cidade se achava sob o toque
de recolher. Nada podiam fazer a
nã o ser esperar. Connor ficara
olhando para as estrelas, nã o
admirando sua beleza, mas
esperando que se apagassem à luz
do dia.

949
Flor do Pântano Patrícia Potter

Quando finalmente amanheceu,


ele e Pat juntaram-se à multidã o
que esperava permissã o para
entrar na cidade e os cansados
guardas ingleses nem prestaram
atençã o ao homem sujo, de tapa-
olho, que seguia ao lado de um
velho trô pego. Chegando à frente
da casa de Annabelle, Pat
continuou montado, enquanto
Connor forçava-se a subir a escada
da varanda mancando, simulando
dificuldade. Todo o cuidado era
pouco e ele já treinara uma

950
Flor do Pântano Patrícia Potter

resposta no caso de ser interpelado


por algum guarda. Diria estar à
procura de uma filha fugitiva.
Nã o parou para bater à porta, mas
entrou com audá cia e gritando,
como faria um pai furioso, mas a
casa estava vazia. Nã o havia
nenhum soldado britâ nico ali. Os
clientes já haviam partido e as
mulheres estavam dormindo. Com
impaciência, correu escada acima e
bateu à porta do quarto de
Annabelle, que resmungou,
mandando o intruso embora. —

951
Flor do Pântano Patrícia Potter

Annabelle, sou eu, Connor.


Depois de alguns segundos, a
porta abriu-se e a mulher encarou-
o com espanto. Ele empurrou-a de
leve para um lado e entrou.
— Sam esteve ou está aqui?
— Sim.
— Onde ela está ?
— Você nã o devia ter vindo a
Georgetown, Connor. Tarleton está
na cidade e nunca o vi tã o furioso.
O assalto de Marion funcionou
como um insulto pessoal para ele.
— Onde está Sam, Annabelle?

952
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Saiu há poucos minutos. Está


voltando para Marion.
— Por que ela a procurou?
— Feriu-se na noite em que
Marion tomou a cidade. Nã o queria
que os médicos a examinassem,
você sabe por quê.
— O ferimento foi grave?
— Nã o muito. Uma lasca de
madeira, eu acho, atingiu-a no lado
do peito, perto da cintura. Ela
perdeu um pouco de sangue, mas
estava cansada demais.
Connor suspirou de alívio.

953
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Pensei que você estivesse com


Greene — ela comentou. — Sam
disse que você estava noivo de uma
moça de lá .
Os olhos cinzentos encheram-se
de raiva e frustraçã o.
— Foi por isso que ela se meteu
nessa estú pida encrenca?
— Entã o é verdade?
— Nã o! — ele gritou. Annabelle
sorriu contente.
— Por que nã o vai atrá s dela e
desfaz o engano, em vez de ficar aí
plantado?

954
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ele encarou-a e depois saiu


correndo do quarto. Desceu a
escada aos pulos, esquecendo-se de
que era manco. Sam devia estar
saindo da cidade, pelo mesmo
portã o que eles haviam
atravessado trinta minutos antes.
Alcançando a porta da frente,
parou um pouco para recompor a
imagem de um homem cansado e
com problemas na perna. Todavia,
a excitaçã o em seu rosto era por
demais evidente.
— O rapaz está aí? — perguntou

955
Flor do Pântano Patrícia Potter

Pat 0'Leary.
— Saiu há pouco. Deve estar
alcançado a saída da cidade. Vamos
atrá s dele, Pat!
O velho sentiu-se contagiado pela
impaciência do companheiro,
embora nã o pudesse compreendê-
lo muito bem. Ele também gostava
de Sam Taylor, mas as atitudes de
Connor pareciam um pouco
exageradas. Sacudiu a cabeça,
intrigado, e esporeou o cavalo para
alcançar seu major.
Samantha fazia o possível para

956
Flor do Pântano Patrícia Potter

nã o se fazer notar. Tinha a


impressã o de que todos os olhares
se achavam fixos nela, de modo que
deixou os ombros se curvarem,
tentando parecer ainda menor.
Seu cavalo agora trotava pela rua
principal, cheia de soldados
ingleses e ela sentia medo, como
nunca sentira, nem nos piores
momentos daquela aventura.
Estava sozinha e achava que nã o
teria capacidade de vencer as
dificuldades, se elas aparecessem.
Mantinha os olhos voltados para o

957
Flor do Pântano Patrícia Potter

chã o, mas de repente o cavalo


estacou e ela olhou para cima.
Deparou com um homem vestido
de vermelho e montado ereto num
garanhã o baio.
— Você é Sam, nã o é?
Ela engoliu em seco ao fitar o
rosto do homem e reconhecer o
general O'Mara, de aparência
severa e olhar inquisitivo. Baixou
os olhos rapidamente, sabendo que
nã o havia nada a fazer. Fora
apanhada como uma perdiz numa
arapuca.

958
Flor do Pântano Patrícia Potter

— O que está fazendo em


Georgetown? — ele perguntou com
voz quase suave.
— Vim buscar remédio para o
meu velho pai.
Talvez ele a deixasse ir se ela
desempenhasse bem seu papel.
— Ele também mora nos
pâ ntanos?
Com aquelas palavras, a
lembrança da humilhaçã o por que
passara voltou à mente do general.
Por causa de Marion voltaria para a
Inglaterra na semana seguinte, com

959
Flor do Pântano Patrícia Potter

sua carreira arruinada.


Samantha deu de ombros, sem
saber o que dizer, e olhou para o
general sentindo-se
completamente infeliz.
O'Mara examinou os pró prios
pulsos. Ainda estavam marcados.
Lembrou-se de como Sam
intercedera a seu favor e de sua
gentileza. Detestava aquele conflito,
detestava os rebeldes e a teimosia
de seu pró prio povo. Sabia por
instinto que a Inglaterra perderia a
guerra. Nenhum país, onde

960
Flor do Pântano Patrícia Potter

meninos de catorze anos


manuseavam rifles e os homens
abandonavam suas famílias e
interesses para lutar, poderia ser
derrotado. Podia odiar os rebeldes,
mas também os admirava. De
repente, descobriu que estava
contente por poder abandonar
tudo aquilo e voltar para casa.
Puxou as rédeas do cavalo e saiu
da frente de Sam. — Siga seu
caminho, rapaz. — Entã o sorriu,
com tristeza e bondade. — Logo
verei meus garotos, os gêmeos.

961
Flor do Pântano Patrícia Potter

Espero que eles nunca precisem ir


tã o longe para comprar remédio. O
general O'Mara se afastou,
pensando que o rapazinho estaria a
salvo, mas nã o notou que outro
oficial inglês os observava com
perplexidade.
A frustraçã o de William Foxworth
nã o tinha limites. Sua carreira
estagnara e Samantha Chatham
desaparecera. Acabara por
acreditar que nem mesmo o pai da
moça sabia de seu paradeiro e
assim suas esperanças de colocar

962
Flor do Pântano Patrícia Potter

as mã os na fortuna de Robert
Chatham foram morrendo aos
poucos.
O caso todo o enfurecera. Parecia
mentira que uma mulher, nascida
na colô nia, houvesse desprezado
nã o só suas atençõ es, como
também seu pedido de casamento,
pouco se importando por ele ser,
além de inglês, nobre e de
educaçã o impecável. Uma
verdadeira imbecil.
De qualquer maneira, nã o lhe saía
da cabeça a imagem daquele rapaz

963
Flor do Pântano Patrícia Potter

rebelde montado numa égua


dourada, tã o parecida com o animal
predileto de Samantha. Mas aquilo
era loucura. Que mulher iria para a
guerra e se sujeitaria a viver nos
pâ ntanos com os bandidos de
Marion? Uma prostituta, talvez,
mas nunca uma jovem com a
criaçã o de Samantha Chatham.
Ele ouvira rumores sobre um caso
de amor que ela tivera com um dos
irmã os O'Neill e diziam que o rapaz
fora morto por haver desonrado o
nome da família Chatham

964
Flor do Pântano Patrícia Potter

deflorando Samantha. Contudo, o


pai dela dissera que aquilo nã o era
verdade. Nã o que aquilo fizesse
diferença. Queria a fortuna dos
Chatham e seria muito bom ter a
moça de quebra, com seus longos
cabelos negros e os tentadores
olhos azuis. Teria prazer em domá -
la e mostrar quem mandava,
fazendo-a curvar-se a todos os seus
desejos.
Naquele dia, em Georgetown,
William Foxworth, fora
encarregado de verificar os postos

965
Flor do Pântano Patrícia Potter

de guarda na entrada da cidade, um


dever que ele considerava abaixo
de sua posiçã o, mas nã o seria
aconselhável discutir com seu
comandante, já bastante
enraivecido. Tarleton ficara uma
fú ria ao chegar à cidade e encontrá -
la invadida e saqueada. O forte fora
destruído e as barracas queimadas.
Seu exército, já bastante dizimado
em Cowpens, recebera elementos
novos e inexperientes, de maneira
que a viagem de Charleston a
Georgetown demorara mais do que

966
Flor do Pântano Patrícia Potter

seria normal. Para irritá -lo ainda


mais, os cidadã os mostravam-se
satisfeitos e sorridentes diante do
ataque dos rebeldes. Ordenara que
qualquer pessoa que houvesse
prestado ajuda aos patriotas
americanos devia ser presa e que
todas as casas deviam ser
revistadas à procura de rebeldes
feridos.
Imerso nos pensamentos, que iam
de Samantha até os ú ltimos
acontecimentos, Foxworth chegou
à rua principal, onde viu o general

967
Flor do Pântano Patrícia Potter

O'Mara conversando com um rapaz


montado num cavalo velho. O
general caíra em desgraça e estava
para voltar para a Inglaterra, mas
ainda teria alguma serventia.
Depois de ser prisioneiro de
Marion, com certeza seria capaz de
reconhecer algum dos rebeldes, se
o visse, de modo que fora mandado
patrulhar as ruas. Foxworth via
certa semelhança entre as carreiras
de todos os oficiais designados
para as Carolinas. Nenhum deles
conseguia distinguir-se e subir

968
Flor do Pântano Patrícia Potter

mais um degrau na hierarquia


militar. Ele já se via mofando ali
para sempre. Se ao menos tivesse a
sorte de capturar um rebelde da
envergadura de Marion ninguém
mais poderia ignorá -lo e
obviamente a recompensa viria.
Olhou novamente para o general e
para o rapaz. Havia uma expressã o
bastante estranha no rosto de
O'Mara, e Foxworth fixou o garoto
com atençã o. Havia uma certa
graça na figura mal vestida e
mesmo de longe ele percebeu o

969
Flor do Pântano Patrícia Potter

brilho de olhos espantosamente


azuis meio escondidos pela aba do
chapéu. Começou a andar, mas de
repente resolveu esperar e
observar a dupla. Se 0'Mara
conhecia o rapaz, poderia estar
protegendo-o. Se nã o, ele,
Foxworth, pegaria o garoto para
fazer-lhe algumas perguntas. A
intuiçã o lhe dizia que o encontro
seria muito proveitoso.
Esperou que o general sumisse de
vista e seguiu o rapaz até o posto
de guarda na saída da cidade.

970
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ficou, de lado, ouvindo a ladainha


do garoto, que explicava ao
sentinela que seu pai estava doente
e ele fora em busca de remédio.
Entã o, em certo momento os olhos
azuis pousaram em Foxworth e
arregalaram-se de irreprimível
surpresa, enquanto a voz suave
morria na garganta. Naquele
instante, Foxworth soube que
acertara ao seguir a intuiçã o.
Seus olhos estavam gélidos e a
boca tornara-se uma linha estreita
e cruel quando se dirigiu ao

971
Flor do Pântano Patrícia Potter

sentinela.
— Deixe o rapaz comigo.
Olhou para Samantha com o ar
malvado de um gato brincando com
um camundongo.
— Desça do cavalo — ordenou.
Ela hesitou e ele agarrou-a pelos
braços, largando-a no chã o sem
nenhuma delicadeza. A seguir,
prendendo-a por uma das mã os,
começou a andar, obrigando-a a
segui-lo pelas ruas, em direçã o aos
alojamentos.
Connor e O'Leary chegaram bem a

972
Flor do Pântano Patrícia Potter

tempo de ver Foxworth arrastando


Samantha para longe do posto de
guarda. Connor imediatamente
reconheceu o oficial que vira no dia
do assalto aos carroçõ es de sal e
imaginou que o inglês nã o se
esquecera do rapaz que atirara tã o
bem, derrubando um tory do só tã o
do celeiro. Apertou os lá bios com
força, maldizendo a má sorte. O
homem poderia reconhecê-lo
também, a despeito do disfarce.
Olhou para 0'Leary e encontrou o
olhar interrogativo do

973
Flor do Pântano Patrícia Potter

companheiro.
— O que faremos agora, major?
— Vamos segui-los e esperar.
Foxworth levou Samantha para
seu alojamento, um quarto numa
casa que pertencera a uma família
whig e que fora confiscada. A
moradia fervilhava de soldados
comuns ingleses e dragõ es. Sem
nada explicar e ignorando os
olhares curiosos dos camaradas,
arrastou a moça pela escada acima
até chegarem a um grande quarto.
Empurrou-a para dentro e entrou

974
Flor do Pântano Patrícia Potter

também, fechando a porta à chave,


apó s o que fitou a jovem assustada.
Ele sorriu de forma zombeteira e
seu olhar percorreu todos os traços
do rosto bonito. Arrancou o chapéu
desabado sobre a testa, que
escondia os cabelos escuros, e
tomou um cacho entre os dedos.
— Que pena, Samantha. Nã o
devia ter cortado cabelos tã o
lindos.
Ela continuou calada, trêmula e
temerosa de que sua pernas nã o a
sustentassem por muito tempo.

975
Flor do Pântano Patrícia Potter

Estremeceu quando ele desabotoou


o casaco que ela vestia, depois a
camisa e encontrou a faixa que
disfarçava os seios. Soltou-a e
estendeu as mã os para aquelas
formas tentadoras. Ela tentou fugir,
mas ele a segurou e cobriu os
lá bios rosados com os seus. Ela
fingiu render-se e quando ele
procurava, intensificar o beijo, ela
mordeu-lhe o lá bio inferior com tal
violência que o sangue escorreu.
— Desgraçada! — Ele cuspiu,
passou as costas da mã o pelos

976
Flor do Pântano Patrícia Potter

lá bios e pulou para trá s.


Recobrando-se rapidamente da
surpresa, porém, ergueu a mã o e
esbofeteou-a com toda a força,
atirando-a longe. Ela entã o sentiu
na boca o gosto do pró prio sangue
que vertia de um corte nos lá bios.
— Você vai se arrepender disso,
sua ordiná ria! — ele ameaçou,
tirando um lenço do bolso.
Samantha olhava-o com ó dio e
desafio. Mas ele, apesar de tudo,
sentia que o desejo por aquela
mulher crescia a cada segundo.

977
Flor do Pântano Patrícia Potter

Notou a expressã o de cobiça nos


olhos dele e procurou aumentar a
distâ ncia entre ambos.
— E uma pena que você nã o tenha
conseguido disfarçar esses olhos,
Samantha. Pena para você, é claro.
Eu os reconheceria em qualquer
lugar. E foi o que aconteceu aquele
dia, na fazenda Garrison. Onde você
aprendeu a atirar daquele jeito?
A pergunta parecia inofensiva,
mas ela sabia que escondia uma
ameaça. Ele fora humilhado,
naquele dia, e ia fazê-la pagar pelo

978
Flor do Pântano Patrícia Potter

vexame. Foxworth aproximou-se


novamente, sentindo prazer com o
pavor que lia nos olhos dela. Ela
jogou a cabeça para trá s e a raiva
brilhou nos olhos frios que a
fitavam.
— Você gosta daqueles rebeldes
sujos, nã o é? Prefere ir para a cama
com eles?
— Nem sabe como! Por que acha
que fugi de casa?
A segunda bofetada foi muito mais
forte e ela caiu ao chã o, mas sem
deixar de olhá -lo

979
Flor do Pântano Patrícia Potter

desafiadoramente.
Foxworth tentou controlar a ira.
Nunca batera numa mulher antes,
mas ela o deixava maluco. Em vez
de medo via apenas um ó dio gelado
nos olhos azuis.
Virou-lhe as costas, tentado
ordenar os pensamentos. Ele
pretendera pedi-la novamente em
casamento, mas aquilo se tornara
impossível. Ela admitira estar
dormindo com os homens de
Marion, enquanto parecia ter nojo
deles. Pensou por um momento em

980
Flor do Pântano Patrícia Potter

entregá -la à s autoridades, mas o


fato teria pouco valor. Afinal, ela
continuava sendo a filha de um dos
tories mais poderosos e leais das
Carolinas. Seria muito pior entregá -
la a vê-la escapar sem puniçã o.
Pensaria num modo de castigá -la.
Voltou-se novamente para ela e
viu-a procurando fechar a camisa,
sem no entanto tirar os olhos de
cima dele. Pensou no que
acontecera na fazenda Garrison.
Naquele ú nico tiro que salvara a
vida do major rebelde, que devia

981
Flor do Pântano Patrícia Potter

ser seu amante. A raiva distorceu as


feiçõ es do inglês e nada restou de
bonito no rosto conturbado, onde
já brilhava uma idéia torpe.
Talvez Samantha ainda tivesse
alguma serventia. A recompensa
pela captura de Connor era quase
tã o grande quanto a oferecida pela
de Marion e, se tivesse sorte,
poderia apanhar os dois. A moça
seria a isca.
Depois, nã o lhe poderiam negar a
cobiçada promoçã o.
Samantha logo percebeu que algo

982
Flor do Pântano Patrícia Potter

maligno se passara na mente de


seu carcereiro. O rosto dele passara
do ó dio para a raiva fria e calculista
e entã o assumira um ar de
maliciosa satisfaçã o.
Encostou-se contra a parede
quando o viu aproximar-se
observando-o parar perto da cama
e rasgar um lençol em tiras. Isso
feito, ele a fez erguer-se com um
puxã o brutal pelo braço e amarrou-
lhe as duas mã os atrá s das costas.
Depois, fez uma bola de pano e
enfiou-lhe na boca, amordaçando-a

983
Flor do Pântano Patrícia Potter

com outra tira de tecido. Por fim,


ele pegou o chapéu que ela estivera
usando e enterrou-o na cabeça co-
berta de cachos curtos, puxando a
aba para a testa de modo a quase
esconder os grandes olhos azuis
que nã o se desviavam de seu rosto.
Olhou-a de alto a baixo e ao ver os
seios soltos e fazendo volume à
frente da camisa, pegou outra tira
de pano. Embora ela lhe desse
pontapés desesperados, ele
desabotoou-lhe a blusa e envolveu
os seios na faixa, achatando-os.

984
Flor do Pântano Patrícia Potter

Tornou a fechar a camisa, que


deixou solta, para disfarçar as
formas femininas. Nã o queria que
ninguém desconfiasse da verdade,
enquanto a levava para fora de
Georgetown, onde ela nã o teria
chance de pedir socorro a O'Mara.
Generalizara. Ali havia alguma
coisa também, mas deixaria para
desvendar aquele mistério quando
estivesse sozinho com Samantha
num lugar isolado.
Segurando-a por um dos braços,
abriu a porta e puxou-a para fora

985
Flor do Pântano Patrícia Potter

do quarto e depois escada abaixo.


Encontraram-se com alguns oficiais
que olharam espantados para o
rapaz amordaçado. Cinicamente,
Foxworth bocejou como se
estivesse profundamente
entediado.
— Uma sombra do regimento de
Marion, dono de uma boca muito
grande. Cansei-me de ouvi-lo dizer
besteiras.
Os outros riram.
— Esses rebeldes começam cedo,
nã o é? — um deles comentou, já

986
Flor do Pântano Patrícia Potter

perdendo o interesse pela cena.


No corredor que levava à saída,
Foxworth mandou o soldado de
plantã o procurar seu sargento e
mais cinco homens que nomeou,
ordenando-lhe que mandasse selar
oito cavalos.
Esperou com impaciência que os
homens aparecessem, um de cada
vez, e distribuiu ordens a torto e a
direito. Depois, quando avisaram
de que os cavalos achavam-se à
porta, ele saiu puxando-a atrá s
dele. Colocou-a sobre um dos

987
Flor do Pântano Patrícia Potter

animais e, segurando as rédeas que


ela nã o podia manejar, montou em
seu pró prio cavalo.
O pequeno grupo de soldados
desceu a rua principal e saiu de
Georgetown.
Connor e Pat assistiram à partida
de seu posto de observaçã o, no
outro lado da rua. Escondido atrá s
do cavalo, Connor viu Sam apenas
de relance, mas foi o bastante para
acender o estopim de sua fú ria. Ela
tropeçava como se estivesse ferida
e havia traços de sangue em seu

988
Flor do Pântano Patrícia Potter

rosto. Sentiu-se impotente para


ajudá -la e aquilo aumentou seu
desespero. As tropas inglesas
achavam-se espalhadas por toda a
cidade e de qualquer maneira ele
precisava tomar muito cuidado
para que ela nã o saísse ferida se
houvesse uma refrega. A moça
estava cercada de soldados e ele
percebeu que o caso era muito
sério, embora nã o conseguisse
atinar com a intençã o daqueles
homens. Pelo certo, como
prisioneira, ela deveria ser

989
Flor do Pântano Patrícia Potter

encaminhada para as autoridades


britâ nicas.
Olhou para Pat e leu as mesmas
dú vidas no rosto de velho. O outro
fez um gesto com as mã os,
indicando que entendia o que se
passava tanto quanto o
companheiro.
Os dois homens viram o grupo
passar pelas sentinelas e
apressaram-se ao tomar a estrada
que ia para o oeste. Connor entã o
montou, logo seguido por Pat
O'Leary. Trataram de assumir uma

990
Flor do Pântano Patrícia Potter

expressã o de enfado e cansaço e


também passaram pelo posto de
vigia, seguindo a fila de pessoas
que saíam da cidade.

Por sorte, a estrada estava


bastante movimentada e tornava-
se fá cil vigiar os oito cavaleiros à
frente sem serem notados. Connor
ajeitou-se na sela, pensando
angustiado em como Sam devia
estar se sentido mal, procurando
equilibrar-se sobre a montaria com
as mã os amarradas para trá s.

991
Flor do Pântano Patrícia Potter

A atitude de Foxworth o intrigava


fortemente. Era mais que estranho
que o oficial se preocupasse em
apanhar caça tã o miú da, mesmo
que houvesse descoberto que Sam
era uma garota. E se fosse
justamente aquilo que fazia o inglês
portar-se tã o estranhamente?
Talvez o maldito estivesse
planejando abusar dela
sexualmente. Mas levando um
bando atrá s deles? As perguntas
martelavam sua mente em
cadência de enlouquecer e ele nã o

992
Flor do Pântano Patrícia Potter

encontrava respostas plausíveis.


Foi O'Leary quem finalmente
pensou adivinhar o destino dos
ingleses. O movimento na estrada
diminuíra e os dois tinham de
manter distâ ncia para nã o serem
vistos, mas os olhos de lince do
velho viram os homens de
vermelho desaparecendo atrá s de
algumas á rvores. Quando os dois
chegaram à quele ponto da estrada
notaram uma trilha quase invisível
que levava à floresta que se
adensava logo adiante. — Beaker

993
Flor do Pântano Patrícia Potter

— declarou O'Leary com desâ nimo.


— Estã o indo para a ilha Beaker.
Connor gemeu, percebendo que
Pat tinha razã o. Os Beaker
formavam uma família de ladrõ es e
assassinos que antes da guerra
haviam aterrorizado os habitantes
da regiã o. Quando o conflito
eclodira eles haviam se retirado
para uma pequena ilha no
pantanal, continuando com seus
atos criminosos, protegidos por
homens da lei que temiam mais a
ferocidade dos bandidos do que

994
Flor do Pântano Patrícia Potter

respeitavam o dever. No decorrer


da guerra, haviam se tornado
"respeitáveis e decentes", pois,
declarando-se tories, matavam,
saqueavam e incendiavam em
nome da Inglaterra e de seus
interesses. Poucos intrusos
escapavam com vida do territó rio
dos Beaker, protegido por á reas de
areia movediça, onde apenas eles
conseguiam orientar-se e
encontrar o ú nico caminho seguro
para a ilha.
O'Leary olhou para Connor, que

995
Flor do Pântano Patrícia Potter

empalidecera. — Pelo menos


sabemos para onde levaram nosso
rapaz — disse à guisa de consolo.
— Mas por que o levaram para lá ?
A ú nica resposta razoável seria a
de que os ingleses estavam
preparando uma emboscada. Para
quem? Nenhum soldado
experimentado acreditaria que um
jovem rebelde, quase uma criança,
teria valor como refém.
Naquele instante, ouviram o
matraquear de cascos e
rapidamente esconderam-se no

996
Flor do Pântano Patrícia Potter

mato, vendo um casaca-vermelha


sair da floresta e galopar para
longe.
— Agora ficaram apenas sete —
comentou Pat.
— Mas nã o sabemos quantos
Beaker estã o com eles ou se há
outros soldados na ilha —
respondeu Connor. — Pat, vá atrá s
dele e agarre-o. Veja o que pode
descobrir e depois procure Marion.
Conte-lhe o que está acontecendo.
O velho irlandês estudou o rosto
do companheiro.

997
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Um trabalho dos diabos por


causa de um rapaz que acabarã o
soltando, mais cedo ou mais tarde.
— Nã o é um rapaz, Pat. E uma
moça, que corre muito perigo na
companhia dos Beaker.
O’Leary olhou para ele e seu rosto
ficou vermelho de raiva. Nem se
lembrou de perguntar o que fazia
uma garota no meio dos homens de
Marion, certamente irado por
imaginar o que um bando de
facínoras podia fazer com uma
dama indefesa.

998
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Muito perigo! — concordou. —


Vou pegar aquela lagosta
desgraçada num piscar de olhos!
Sem mais demora, esporeou o
cavalo e afastou-se numa nuvem de
poeira.
Connor sorriu de leve. Tudo o que
o teimoso irlandês precisava para
lançar-se em doidas aventuras era
ser instigado em seu instinto
galanteador. Velho como já estava,
Pat ainda nã o deixara de amar as
representantes do belo sexo frá gil,
como definia todas as mulheres. E

999
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor nã o tinha a menor dú vida


de que se desempenharia da
missã o com rapidez e eficiência.
Incitou o cavalo a andar, até que
seu caminho foi bloqueado pela
mata densa. Pulou para o chã o e
depois de amarrar o animal a uma
á rvore, tirou o casaco e cortou
pedacinhos de tecido com o
canivete. Assim, quando começou a
se arrastar no chã o, no meio do
mato rasteiro e raízes expostas, ia
deixando uma trilha de retalhos
minú sculos. De cor marrom, os

1000
Flor do Pântano Patrícia Potter

pedaços de pano nã o chamavam a


atençã o, se ninguém os estivesse
procurando como marcas do
caminho de volta.
Apó s rastejar por vá rias horas,
Connor sabia que nã o avançara
nem um quilô metro, mas já chegara
à á gua e parou para descansar
numa canaleta natural. Quando já
respirava com normalidade e o
coraçã o batia em ritmo
compassado, ele ergueu a cabeça e
viu um largo braço de rio que o
separava da ilha. Parecia limpo e

1001
Flor do Pântano Patrícia Potter

manso, mas ele sabia que aquela


aparência era enganosa. Era um
traiçoeiro pedaço de rio que
escondia o pâ ntano e areia
movediça, protegendo toda a costa
da ilha Beaker, tal como acontecia
ao redor de Snow Island.
Ele podia distinguir movimento
na ilha e imaginou que sentinelas a
percorriam em seu trabalho de
vigia. Todavia, nã o havia nenhum
homem na direçã o dele. O rio,
muito largo naquele ponto,
tornava-se um guardiã o poderoso

1002
Flor do Pântano Patrícia Potter

da ilha, eliminando a necessidade


de sentinelas.
Incapaz de fazer qualquer coisa
sozinho, voltou a deitar-se para
esperar. Marion deveria chegar ao
anoitecer. Enquanto isso,
trabalharia num plano que
começava a esboçar-se na mente.
O corpo inteiro de Samantha doía
e ela achava que aquela cavalgada
nunca terminaria. Continuava
amordaçada e a poeira da estrada
enchera suas narinas, dificultando
a respiraçã o de forma horrível. Mas

1003
Flor do Pântano Patrícia Potter

o sofrimento nã o parava aí. Os


pulsos amarrados atrá s das costas
achavam-se entorpecidos e suas
pernas sofriam cã ibras sucessivas.
Nã o haviam ajustado os estribos
para a sua pequena estatura e ela
precisava segurar-se aos flancos do
animal com os joelhos e as coxas
para nã o cair. Coroando tudo, o
ferimento do peito, mal curado
ainda, latejava e o corte nos lá bios
doía.
Os pensamentos também a
perturbavam. Nã o podia imaginar

1004
Flor do Pântano Patrícia Potter

por que Foxworth a tirara de


Georgetown em vez de entregá -la
à s autoridades ou mandar chamar
seu pai, mas sentia que o inglês
tinha planos sinistros.
Procurou pensar em coisas boas,
como seu querido Connor dissera
fazer na prisã o. Pensou nele,
visualizando o rosto má sculo e
ouvindo o riso franco. Ela o amava
tanto! Nunca experimentara tanta
paixã o, alegria e dor. Desejava
ardentemente que tudo fosse
diferente, que nã o houvesse mais

1005
Flor do Pântano Patrícia Potter

guerra, que ela estivesse nos braços


de Connor e que, mais importante
que tudo, ele conhecesse seu
passado e a houvesse perdoado,
deixando o amor vencer.
Também seria bom se ela
morresse e seu sofrimento
acabasse. Fugiu daquele
pensamento sombrio. Nunca se
renderia, por mais mal que lhe
fizessem. De algum modo
conseguiria burlar a vigilâ ncia do
odioso Foxworth e fugir.
Quando ela pensou que nã o

1006
Flor do Pântano Patrícia Potter

poderia mais manter-se na sela de


tã o fraca, cansada e dolorida que
estava, os cavaleiros diminuíram a
marcha, mas entã o seus
sofrimentos redobraram. Galhos e
espinhos começaram a atingir-lhe o
rosto desprotegido e o corpo.
Finalmente, depois de um tempo
que pareceu uma eternidade,
saíram da floresta fechada e ela viu
um rio largo. Foxworth e os outros
pararam e ficaram à espera, até que
um homem, sujo e esfarrapado,
saiu do mato na margem oposta e

1007
Flor do Pântano Patrícia Potter

apontou para um certo ponto da


corrente de á gua. Desapareceu em
seguida, para logo retornar
montando um cavalo. Atravessou o
rio cautelosamente no lugar que
indicara antes, onde a á gua nã o
atingia mais que noventa
centímetros de profundidade.
Aproximou-se de Foxworth e
olhou-o com hostilidade.
— Nã o me lembro de ter feito
convite algum — disse, secamente.
O inglês olhou-o com desprezo.
Nã o gostava de lidar com aqueles

1008
Flor do Pântano Patrícia Potter

vermes, mas nã o tinha escolha, pois


tinha um ponto em comum com
eles, o ó dio pela Raposa dos
Pâ ntanos, algo muito importante
naquela emergência.
— Você quer pegar Marion, nã o
quer? E O'Neill também? —
perguntou com voz fria.
Os olhos do homem brilharam de
ó dio. A milícia de Marion, sob o
comando de Connor 0'Neill, matara
seu irmã o, dois meses antes.
— Vá falando — resmungou.
— Penso que O'Neill virá atrá s

1009
Flor do Pântano Patrícia Potter

deste aqui. — Apontou para


Samantha. — E talvez Marion
também apareça.
— Atrá s dessa porcaria? — o
homem replicou. — Está
brincando!
Foxworth ia dizer quem era
aquela porcaria, mas achou por
bem calar-se. Era um segredo que
nã o devia partilhar com ninguém
no momento, pois poderia ser
muito ú til no futuro.
— Este moleque salvou a vida de
O'Neill — explicou. — Eu vi. Por

1010
Flor do Pântano Patrícia Potter

isso, nã o vai ficar desamparado


pelo amigo.
O homem olhou para Samantha
com novo interesse.
— Talvez tenha razã o.
— O'Neill virá — afirmou
Foxworth. — E Marion também,
talvez. Quantos tories você poderá
reunir até antes do amanhecer?
— Os que precisarmos.
— Ó timo! Já mandei um
mensageiro a Marion, oferecendo o
garoto em troca de 0'Neill. Marquei
o encontro para amanhã , bem cedo,

1011
Flor do Pântano Patrícia Potter

a dois quilô metros daqui. Mandei


avisar que só aceitarei 0'Neill ou o
pró prio Marion. Se enviarem outro
qualquer, o moleque morrerá .
O rosto do habitante da ilha
encheu-se de fú ria.
— Sem me perguntar nada? Foi
fazendo negó cios sem me
consultar?
— Sei que você nã o gostaria de
desapontar o rei. Além disso, há a
sua vingança contra O'Neill, para
nã o falar que vocês todos aqui só
ficarã o em liberdade enquanto

1012
Flor do Pântano Patrícia Potter

forem leais à coroa.


O bandido cerrou os dentes,
contendo a raiva. Odiava aquele
inglês arrogante quase tanto
quanto odiava Marion e 0'Neill,
mas era esperto o suficiente para
usá -lo em interesse pró prio,
exatamente como aquele idiota
pensava que o estava usando.
— Venham — disse asperamente.
— E tomem cuidado com a areia
movediça. Nã o saiam da trilha que
eu seguir.
Foxworth sorriu e olhou para

1013
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha com ar de vitó ria. Ela


ouvira toda a conversa e seus olhos
azuis fuzilavam de raiva.
— Seja cuidadosa, meu amor —
Foxworth disse num cochicho. —
Nã o gostaria de ver um corpo tã o
bonito afundando na areia,
Primeiro você vai assistir ao
enforcamento de seus amigos.
Com um puxã o violento, fez o
cavalo dela acompanhar o seu,
quase fazendo-a cair. Apavorada
com o perigo da travessia,
Samantha começou a respirar com

1014
Flor do Pântano Patrícia Potter

mais dificuldade ainda, mas logo


depois estavam do outro lado do
rio. Da conversaçã o entre o inglês e
o homem da ilha, ela extraíra um
pensamento consolador. Foxworth
nã o sabia que ela era conhecida
como Sam Taylor e evidentemente
pensava que Marion e Connor
sabiam quem ela era na realidade.
Sem pensar no perigo que corria
nas mã os de Foxworth, sorriu ao
lembrar-se de que Connor nã o
levantaria um dedo sequer para
salvar a vida de Samantha

1015
Flor do Pântano Patrícia Potter

Chatham. O homem amado estava a


salvo, pois nã o apareceria ali para
tirar a filha do odiado inimigo das
mã os daqueles brutos. De qualquer
forma, achava-se a quilô metros de
distâ ncia, cortejando Caroline
Demerest. Pobre Foxworth! Pobre
inglês burro e convencido! Só nã o
riu ao imaginar o desapontamento
daquele arrogante porque a
mordaça a impedia. Quando por
fim chegaram a uma rú stica
cabana, Foxworth tirou-a do lombo
do animal, rindo quando as pernas

1016
Flor do Pântano Patrícia Potter

delgadas dobraram-se, fracas e


entorpecidas. Ajudou-a ficar de pé
segurando-a com brutalidade e
obrigou-a a entrar no casebre
imundo. O cheiro horrível deixou-a
nauseada e Samantha lutou mais
uma vez para respirar, evitando o
vomito. Foxworth jogou-a num
catre sujo e foi até porta, falar com
o homem que os havia ajudado na
travessia do rio pantanoso. Ela só
ouvia algumas palavras, mas
entendeu que o inglês tornava a
exigir que o bandido reunisse um

1017
Flor do Pântano Patrícia Potter

bom nú mero de homens. Depois,


ele fechou a porta e caminhou até
onde ela estava, tirando uma faca
da bainha de couro presa ao
cinturã o. Samantha encostou-se à
parede, levando-o a rir.
— Nã o vou lhe fazer mal algum,
querida. Pelo menos por enquanto.
Mas se seus amigos nã o estiverem
aqui pela manhã , vou entregá -la
aos Baeker para que eles a usem,
depois de mim, é claro.
Samantha olhou-o, enojada,
deixando-o ainda mais enfurecido.

1018
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Se você é uma prostituta dos


rebeldes, pode muito bem ser a
mesma coisa para os Beaker —
acrescentou com crueldade.
Usou a faca para cortar a mordaça
e tirar o pano que enchia a boca de
Samantha. Ela respirou
avidamente, sentindo a boca seca,
desejando tomar um pouco de
á gua.
— Está com sede, Samantha? —
Foxworth perguntou ao vê-la
passar a língua pelos lá bios. — Se
implorar eu lhe darei á gua.

1019
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ela ergueu o queixo num gesto de


rebeldia, mas a sede terrível a
dominou. Daria a pró pria alma em
troca de um gole de á gua. Pedir
alguma coisa à quele canalha era
tã o revoltante que a nauseava, mas
nã o tinha escolha.
— Por favor... — disse baixinho.
— Nã o é o bastante, srta.
Samantha Chatham. Acho que vou
querer um beijo, também. Dado de
boa vontade. Ela apertou os lá bios,
revoltada.
— Nunca! — exclamou com

1020
Flor do Pântano Patrícia Potter

desprezo.
Ele riu, tripudiando sobre o
sofrimento dela.
— Ainda vai reconsiderar essa
decisã o, Samantha. Isso eu posso
jurar.
Foxworth saiu da cabana,
deixando-a quase desesperada de
sede, mas pensando que afinal nã o
seria capaz de vender a alma em
troca de um gole de á gua.

Incentivado pelo sentimento de


cavalheirismo, O'Leary nã o

1021
Flor do Pântano Patrícia Potter

demorou muito para alcançar o


mensageiro inglês e dominá -lo.
Para o pobre soldado, ainda muito
jovem e aterrorizado pela difícil
missã o que lhe fora imposta, a
figura de Pat O'Leary, com sua
barba branca e espada erguida no
ar, surgiu a seu lado como uma
imagem de pesadelo. Rendeu-se
depressa, contente por nã o ter de
fazer a viagem até Snow Island e
confrontar-se com a terrível
Raposa dos Pâ ntanos.
Seu alívio durou pouco. Com

1022
Flor do Pântano Patrícia Potter

sagacidade, O'Leary revistou as


bolsas penduradas à s selas e
encontrou um papel dobrado onde
havia algo escrito. Evidentemente o
velho sabia fazer as coisas, mas nã o
sabia ler. Praguejando contra sua
incapacidade de decifrar o
conteú do do bilhete, Pat ergueu o
papel à altura dos olhos do soldado.
— O que está escrito aqui?
— É uma mensagem para Marion.
— Leia! — O velho irlandês
berrou, brandindo a espada no ar,
vendo o terror crescer nos olhos do

1023
Flor do Pântano Patrícia Potter

outro.
— Nã o posso! É para Marion!
— Bem, entã o nó s dois levaremos
a mensagem para ele, nã o é,
lagosta? — Pat declarou,
perversamente atormentando o
prisioneiro.
Com decisã o, tomou as rédeas do
cavalo do inglês numa das mã os e
partiu a galope, levando-o a
reboque, fazendo o outro agarrar-
se à cabeça da sela para nã o perder
o equilíbrio.
Quando chegaram ao Pee Dee, o

1024
Flor do Pântano Patrícia Potter

velho vendou os olhos do inglês


antes de seguirem pelas trilhas que
formavam um verdadeiro labirinto
até o acampamento de Marion.
O'Leary procurou o comandante
imediatamente. Intrigado. Marion
viu os dois se aproximarem.
— Onde está Connor? —
perguntou.
— Na ilha Beaker. Apanharam
Sam Taylor e nó s os seguimos até
lá . Este cavalheiro estava vindo à
sua procura com uma mensagem.
Francis Marion pegou o papel

1025
Flor do Pântano Patrícia Potter

amarfanhado, mas antes que


pudesse ler, O'Leary o interrompeu.
— Connor disse que Sam nã o é
um rapaz. E verdade?
— E, sim, Pat, para confundir
ainda mais as coisas.
— Tínhamos de ir atrá s deles.
Aqueles beakers sã o piores que
cobra e o oficial lagosta nã o é
melhor que eles. A pobre mocinha
estava com o rosto ensangü entado.
O rosto de Marion endureceu de
raiva e os olhos escuros faiscaram.
Entã o, começou a ler.

1026
Flor do Pântano Patrícia Potter

"A Raposa dos Pâ ntanos


Pegamos um traidor, ou melhor,
uma traidora, Samantha Chatham,
que será enforcada, a menos que
amanhã recebamos um outro
miserável de igual valor. Os dois
ú nicos aceitáveis sã o o falso
general Francis Marion e o também
falso major Connor O'Neill.
Se nenhum desses dois traidores
se apresentar no lugar marcado no
mapa, amanhã ao amanhecer,
Samantha Chatham morrerá .
Qualquer tentativa de salvá -la de

1027
Flor do Pântano Patrícia Potter

outra maneira causará a morte


imediata da mulher.
Coronel William Foxworth."
Assinar a carta fora o segundo
erro de Foxworth. Errara pela
primeira vez ao raptar a garota.
Marion sabia que aquilo fora feito
por livre iniciativa do coronel
inglês. O comando britâ nico jamais
condenaria uma mulher à forca,
por mais erros que ela houvesse
cometido. Um ato daqueles
desencadearia uma revolta febril
nos patriotas da regiã o, algo que os

1028
Flor do Pântano Patrícia Potter

ingleses nã o desejavam de modo


algum.
Voltou a olhar para o bilhete,
estudando o nome de Samantha
Chatham. Entã o, Samara Taylor, ou
Sam Taylor, era na realidade a filha
do maior inimigo de Connor. Aquilo
explicava completamente a
infelicidade de Sam. Ela e Connor
haviam tecido uma teia perigosa
para si mesmos.
Ordenou que o soldado inglês
fosse colocado na cabana-prisã o e
que cinqü enta homens se

1029
Flor do Pântano Patrícia Potter

preparassem para segui-lo.


— Você é capaz de encontrar o
lugar onde Connor se escondeu? —
perguntou a O'Leary, que assentiu,
balançando a cabeça branca.
Marion amassou o bilhete e
atirou-o numa fogueira. Minutos,
depois ele e seus homens corriam
pela floresta, esporeando os
cavalos.
Connor passou a tarde
procurando algo que servisse aos
seus propó sitos e finalmente
encontrou o que buscava: uma

1030
Flor do Pântano Patrícia Potter

á rvore derrubada recentemente. A


parte inferior era bastante grande e
ainda nã o começara a apodrecer.
Sentou-se perto dela e, tirando a
faca da bainha, começou a cortar o
tronco, procurando nã o pensar na
insanidade daquela tarefa.
O crepú sculo já caía sobre a
floresta quando ele notou que já
conseguira alguma coisa. Seus
braços e mã os doíam quase
insuportavelmente, mas ele
precisava separar a tora em
pedaços. Foi entã o que ouviu o

1031
Flor do Pântano Patrícia Potter

ruído de passos e viu-se cercado


por Marion e seus homens, que
haviam chegado silenciosos como
animais selvagens.
Ele e Marion começaram a
conversar enquanto os outros
tomavam a si a tarefa de partir o
tronco. O general descreveu o
bilhete que recebera, omitindo a
verdade sobre a identidade de Sam
e Connor falou do plano que tivera
de construir uma balsa com cordas
e pedaços de tronco, o que lhe
permitiria levar uns dez homens

1032
Flor do Pântano Patrícia Potter

para a outra margem. Pretendia


salvar a moça, enquanto os outros
caíssem sobre os homens que
estivessem à espera dele ou de
Marion. Mais tarde, todos
atacariam o restante dos ocupantes
da ilha, bandidos e soldados
ingleses, pegando-os de surpresa.
Marion concordou com o plano e
pediu voluntá rios para a travessia
do rio. Todos os homens queriam ir,
tendo ouvido de O'Leary que Sam
era uma moça e que corria grande
perigo. Connor finalmente

1033
Flor do Pântano Patrícia Potter

selecionou aqueles que afirmaram


serem bons nadadores.
Por volta de meia-noite, a rú stica
jangada estava pronta e foi
carregada para o rio. Connor
ordenou que todos fizessem a
travessia deitados, meio
escondidos nas partes escavadas
dos pedaços de tora e nos
intervalos entre eles, sobre as
cordas que os amarravam. Daquele
modo, vista de longe e no escuro, a
balsa daria a impressã o de ser um
destroço qualquer carregado pela

1034
Flor do Pântano Patrícia Potter

correnteza. Todavia, nã o poderiam


ir todos juntos, por falta de espaço.
Ataram uma longa corda numa das
extremidades da embarcaçã o e que
os homens à margem de partida
ficariam segurando. Ao atingirem o
lado oposto, os que chegassem
empurrariam a balsa e os outros
puxariam, recomeçando a operaçã o
de travessia.
Na primeira viagem foram Connor
e mais dois homens, nus e com as
trouxas de roupas nas costas, para
evitar que se molhassem. Deitados

1035
Flor do Pântano Patrícia Potter

de bruços, sentindo a á gua gelada


nos corpos, pois a precá ria
embarcaçã o ficava ligeiramente
submersa com o peso deles, os
homens remaram com as mã os até
chegarem à outra margem.
Empurraram a balsa e os
companheiros do outro lado a
puxaram. Dentro de uma hora, os
onze achavam-se na margem do
reduto inimigo. Descobririam onde
Sam se encontrava e a resgatariam
antes do amanhecer, enquanto os
ingleses, os tories e os bandidos os

1036
Flor do Pântano Patrícia Potter

estivessem esperando a mais ou


menos dois quilô metros de
distâ ncia, contando com a
localizaçã o singular da ilha, que os
deixava tranqü ilos quanto a uma
invasã o.
O céu clareou lentamente,
tomando uma tonalidade cinzenta-
clara, enquanto as estrelas se
apagavam aos poucos. Os soldados
de Connor haviam descoberto a
cabana que servia de prisã o a Sam,
mas mantinham-se escondidos nas
vizinhanças, porque dois homens

1037
Flor do Pântano Patrícia Potter

montavam guarda na porta do


casebre.
Connor fez sinal para dois
companheiros para que
dominassem um dos guardas e ele
pró prio aproximou-se do segundo.
A sentinela nem ouviu os passos
dele, só percebendo que havia algo
errado quando sentiu a lâ mina fria
da faca no lado do pescoço.
— Quem está lá dentro? —
Connor perguntou num cochicho,
pressionando a faca numa ameaça
muda.

1038
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Apenas um prisioneiro.
— Se estiver mentindo, nunca
mais sairá desta ilha. O homem
estremeceu.
— Eu juro — balbuciou. — Nã o
há mais ninguém. Satisfeito,
Connor bateu-lhe na cabeça com a
coronha da pistola e o guarda caiu
desmaiado. Entã o, lentamente,
abriu a porta da cabana.
Seu coraçã o apertou-se. Sam
estava sentada num catre imundo e
tinha os olhos quase fechados no
meio do inchaço do rosto que os

1039
Flor do Pântano Patrícia Potter

golpes de Foxworth haviam ferido.


As faces mostravam cortes e
picadas de insetos e a boca estava
intumescida. E, quando ela o viu, os
lá bios magoados abriram-se num
doce sorriso.
Rapidamente, ele cortou as cordas
que prendiam as mã os dela e
abraçou-a com força.
— Graças a Deus — murmurou. —
Graças a Deus você está viva, Sam.
Samantha pensou estar sonhando.
Delirando. Connor devia encontrar-
se a quilô metros dali.

1040
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Connor?
Ele afagou o rosto machucado.
— Sim, amor, sou eu.
Subitamente, ela voltou à razã o.
Connor caíra na cilada preparada
para ele.
— Vá embora — ela cochichou. —
É uma armadilha.
— Nó s sabemos, meu bem, mas
quem cairá na arapuca será
Foxworth. Eu vou matá -lo. Se
Marion nã o o fizer, terei o maior
prazer em eliminar aquele canalha.
— O general Marion? Ele está

1041
Flor do Pântano Patrícia Potter

aqui também?
— Sim. Deve estar de tocaia para
cair sobre todos esses patifes. —
Ele fez uma pausa, estudando o
rosto maltratado. — Foxworth
abusou de você?
— Nã o... mas disse que ia me
entregar aos beakers, depois de me
usar — ela revelou estremecendo.
Sentiu que ele a beijava na testa,
com tanta ternura que seu coraçã o
se apertou. Saudosa dos beijos dele,
ergueu o rosto para que seus lá bios
se encontrassem numa suave

1042
Flor do Pântano Patrícia Potter

carícia.

Uma nova esperança a animava.


No bilhete, Foxworth falara de
Samantha Chatham e Connor já
devia saber quem ela era na
verdade. Estaria sonhando demais,
achando que ele a aceitara? Nã o
queria perguntar para nã o quebrar
o encanto do momento. Com um
suspiro feliz, afundou-se mais nos
braços dele, descansando de tudo o
que sofrera, silenciosamente
saboreando aquela proximidade

1043
Flor do Pântano Patrícia Potter

confortadora que a protegia de


todos os males. Nada mais
importava. Nem o fato de ela ser
filha de Robert Chatham, nem os
rumores sobre o noivado de
Connor. Estavam juntos e unidos,
unidos pelo amor.
Ele a apertou contra o peito,
sentindo sua necessidade de
conforto e carinho. Gentilmente
acariciava os cabelos curtos e
ficaram abraçados até que alguns
dos homens entraram na cabana
para saírem em seguida,

1044
Flor do Pântano Patrícia Potter

embaraçados. Minutos depois


entrou um sargento, com um largo
sorriso.
— Está tudo certo, major. Os
guardas estã o amarrados e
coloquei piquetes no ponto de
travessia, onde duvido que passe
alguém que nã o seja dos nossos.
Acredito que logo teremos notícias
do general Marion. — Os olhos do
homem, entã o, pousaram em
Samantha. — Estamos muito
contentes em vê-la... vê-la
novamente, senhorita...

1045
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Sam — ela completou com um


ligeiro sorriso. — Continuo sendo
Sam.
O sargento inclinou a cabeça.
Sempre ficara à vontade com o
rapaz, mas nã o sabia como seria
dali por diante. Deslizou para fora
da porta, acanhado.
Connor olhou-a.
— Que diabo você estava fazendo
em Georgetown, Sam? Você me
prometeu que...
A pergunta repentina, trouxe-a de
volta à realidade. Ele nã o

1046
Flor do Pântano Patrícia Potter

mencionara Samantha Chatham.


Seria possível que ainda nã o
soubesse?
— Prometi — respondeu ela na
defensiva —, mas pensei que você
nã o fosse mais voltar, que nã o se
importava mais comigo e que...
— E que eu estivesse noivo, nã o é?
Pois nã o estava. Nunca tive
compromisso com mulher alguma.
— Mas...
— Caroline tornou-se minha
amiga. Está apaixonada por um
primo e a família nã o aprova o

1047
Flor do Pântano Patrícia Potter

casamento dos dois. Eu só os ajudei


a se aproximarem.
— Você nã o ama aquela moça? —
ela perguntou, incrédula,
lamentando toda a agonia por que
passara.
— Como poderia, se eu te amo?
— Você me amaria de qualquer
modo, sem importar-se com nada
mais? — ela quis saber,
experimentando o terreno
cautelosamente.
— Eu te amo apesar de ter fugido
e se metido numa encrenca destas.

1048
Flor do Pântano Patrícia Potter

Quer prova maior?


Porém, ser filha de Robert
Chatham era algo muito diferente e
a revelaçã o da verdade a deixava
apavorada.
— Você leu o bilhete que o
coronel Foxworth mandou para
Marion?
— Nã o — ele respondeu. — Segui-
a desde Georgetown. Fui à sua
procura quando nã o retornou com
Francis. Quando cheguei à casa de
Annabelle você tinha acabado de
sair e depois eu vi Foxworth pegá -

1049
Flor do Pântano Patrícia Potter

la.
Ela suspirou desiludida. Ele nã o
sabia de nada, por isso mostrava-se
tã o carinhoso. A situaçã o
continuava a mesma, a nã o ser seu
amor por aquele homem
extraordiná rio, que aumentava a
cada segundo. Apoiou a cabeça no
peito largo e ficou em silêncio.
Momentos mais tarde, um dos
homens chegou correndo.
— Cavaleiros se aproximam,
senhor. Achamos que é o general
Marion com seus homens.

1050
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor afastou-se gentilmente de


Sam e correu para a porta, onde
encontrou um cavalo selado, talvez
pertencente a um dos guardas
amarrados perto da cabana. Partiu
a galope na direçã o do ponto de
travessia. Encontrou um de seus
homens no alto de uma á rvore.
— Quem vem lá ? — perguntou.
— É o general Marion, senhor.
Tranqü ilizado, foi postar-se na
orla da floresta, onde ficou à
espera. Na passagem sobre a balsa,
viera experimentando o terreno do

1051
Flor do Pântano Patrícia Potter

fundo do rio com os pés,


procurando os lugares onde a areia
nã o cedia e provavelmente era o
ú nico ali que conhecia o lugar
seguro para a travessia. Quando
Marion apareceu na outra margem,
indicou-lhe o ponto certo e logo
estavam todos reunidos.
— Onde está Foxworth? —
perguntou Connor com ó dio no
olhar.
— Está morto. E todos os beakers
também. Aprisionamos vá rios
casacas-vermelhas. Como está

1052
Flor do Pântano Patrícia Potter

Sam?
— Bem machucada, mas nada
muito grave. Aquele maldito
Foxworth prometeu dá -la aos
beakers se seu plano desse certo.
Infame!
— Ninguém vai sentir falta de
nenhum deles. Sou capaz de
apostar que aquele coronel
engendrou o plano sozinho, mas
gostaria de saber por quê. Sam
esclareceu alguma coisa?
— Ela falou muito pouco.
Uma expressã o estranha passou

1053
Flor do Pântano Patrícia Potter

pelo rosto de Marion, mas foi tã o


rá pida que Connor nã o teve tempo
de preocupar-se com ela.
— A moça pode montar? — o
general perguntou. Naquele
instante, Samantha apareceu atrá s
de Connor.
— Posso, sim, general. — Olhou
para Marion com imensa gratidã o.
— Obrigada.
Apenas Marion entendeu o que
ela estava agradecendo.
— Conversaremos quando
chegarmos a Snow Island — ele

1054
Flor do Pântano Patrícia Potter

respondeu.
Samantha nã o pô de ignorar a
inflexã o severa que havia na voz de
Marion.

CAPÍTULO XXII

Samantha nunca havia sido tã o


mimada em sua vida. O general
Marion fizera questã o de dar-lhe
sua pró pria cabana e a obrigara a
passar por minucioso exame
médico. Depois que o doutor lhe

1055
Flor do Pântano Patrícia Potter

deu o tratamento adequado, ela


começou a receber uma infinidade
de visitas. Todos queriam ver a
corajosa companheira e muitos
soldados levaram-lhe pequenos
presentes.
Os homens do regimento haviam
aprendido a estimar e respeitar o
pequeno Sam, mas nada viam de
extraordiná rio no fato de ele
portar-se como soldado. Contudo,
ao saberem que se tratava de uma
mulher, passaram a ver seus feitos
como proezas extraordiná rias e sua

1056
Flor do Pântano Patrícia Potter

admiraçã o e curiosidade nã o
conheciam limites. Apareciam na
cabana com flores, pedras
interessantes, penas coloridas e
outras coisas simples, tratando-a
por senhorita, madame, dona, ou
mocinha, o que a deixava muito
sem jeito.
— Sam — ela nã o parava de
repetir. — Continuo sendo Sam
para vocês.
Um dia Billy James apareceu para
visitá -la, parecendo embaraçado e
orgulhoso. Sam era sua amiga, daí o

1057
Flor do Pântano Patrícia Potter

orgulho. Por outro lado, dividira


uma tenda com ela e depois que
fora revelado que Sam era uma
moça, os companheiros nã o o
deixavam em paz, troçando por ele
nã o saber a diferença entre um
homem e uma mulher. Olhou para
ela e sorriu com acanhamento.
— Estava preocupado com você
— disse apenas.
— Realmente nã o fui muito
inteligente — Sam admitiu. — Para
começar, nã o devia ter ido para
Georgetown e, para acabar, devia

1058
Flor do Pântano Patrícia Potter

ter voltado com vocês. Eu podia ter


confiado pelo menos em você, Billy,
e deixá -lo cuidar de mim. - O rosto
do rapazinho iluminou-se.
— Vai continuar sendo minha
amiga?
— Para sempre.
Billy corou de contentamento.
— Cuidei de sua égua, enquanto
esteve... fora.
— Eu sei. O major O'Neill me
disse. Falou também que você fez
um trabalho muito bom como
cavalariço. Obrigada, Billy.

1059
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Ela já me conhece bem, mas


sente falta de você. Eu percebo que
a égua a procura quando eu entro
no curral.
— Vou tentar vê-la hoje.
— Nã o vai, nã o — alguém disse da
porta, e os dois olharam para cima,
surpresos.
Era Francis Marion, e Billy
levantou-se respeitosamente.
— Vai ficar aí deitada até segunda
ordem do doutor — o general
continuou com voz severa.
Sam sentiu-se amedrontada.

1060
Flor do Pântano Patrícia Potter

Chegara ao acampamento dois dias


antes e aquela era a primeira visita
de Marion. Ela suspeitava de que
chegara o momento de acertarem
contas e nã o havia como fugir.
Estava certa. O general virou-se
para Billy.
— Preciso falar a só s com Sam —
disse.
O rapaz saiu imediatamente,
fechando a porta atrá s de si.
— Você é Samantha Chatham —
declarou Marion.
— Sou — ela respondeu com

1061
Flor do Pântano Patrícia Potter

tristeza.
— Conhecia Foxworth?
— Sim. Meu pai queria que eu me
casasse com ele e foi por isso que
fugi de casa.
— Mas por que veio para cá ? Por
que nã o procurou amigos em
algum outro lugar?
— Nã o tinha amigos — ela
murmurou. — Nã o tinha para onde
ir. Depois da morte de Brendan, os
amigos dele passaram a me culpar
e meu pró prio pai me difamou,
afastando as pessoas que eu

1062
Flor do Pântano Patrícia Potter

conhecia. Eu... — ela hesitou um


instante —, eu odiava meu pai pelo
que ele fez, nã o só a Brendan como
a todos os O'Neill e a outros
vizinhos. As atitudes dele e de
outros tories me revoltavam. Entã o
soube que Hector colaborava com
vocês e comecei a ajudá -lo
passando-lhe informaçõ es. Foi por
isso que pensaram que eu me
casaria com Foxworth. Dava-lhe
atençã o para conseguir descobrir
coisas para a causa. Mas quando
meu pai começou a insistir para

1063
Flor do Pântano Patrícia Potter

que eu o aceitasse como marido,


tive de fugir. Aquele inglês patife
me enojava.
Ela fez a ú ltima declaraçã o com
tanta veemência que Marion fez
uma careta. Compreendia cada vez
mais os motivos daquela jovem e
sua simpatia por ela crescia.
— Alguém sabe quem você é ou
onde está ?
— Apenas Hector... e Foxworth,
que já morreu e nã o deve ter dito a
ninguém. Queria usar-me em
proveito pró prio.

1064
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Isso eu já havia adivinhado.


Mas e agora? Você nã o pode manter
sua identidade em segredo para
sempre.
O rosto dela encheu-se de
desespero.
— Eu sei. Nunca imaginei que isso
fosse acontecer entre Connor e eu...
Que fô ssemos nos apaixonar. Só
queria ir para algum lugar onde
pudesse ser ú til e ficar longe de
meu pai, mas encontrei Connor na
caverna e me apaixonei. Tentei ficar
longe dele, lutei contra o

1065
Flor do Pântano Patrícia Potter

sentimento, mas nã o consegui


vencer a atraçã o.
Os olhos azuis continham uma
sú plica para que ele a
compreendesse e Marion sentiu o
coraçã o apertar-se.
— Ele também a ama. Nã o acha
que devia revelar-lhe a verdade?
— Tentei, mas quando penso no
ó dio que ele sente por meu pai,
sempre perco a coragem. Continuo
esperando que um dia ele nã o me
odeie tanto.
— Você está cometendo uma

1066
Flor do Pântano Patrícia Potter

injustiça, nã o confiando nele.


Connor é inteligente e bom. Se ele
soubesse...
— Nã o — ela interrompeu-o com
firmeza. — Posso suportar tudo,
menos que ele passe a me odiar
também. Talvez, com o tempo...
Marion suspirou. Aquele nã o era
um problema fá cil de resolver.
Gostava de Connor e de Sam. Sua
admiraçã o pela moça aumentara
durante a conversaçã o. Nunca vira
uma mulher tã o determinada e
desejosa de sacrificar-se pelas

1067
Flor do Pântano Patrícia Potter

coisas em que acreditava.


— O senhor nã o contará a ele, nã o
é? — ela implorou. — Por favor,
deixe-me fazer isso quando chegar
o momento certo.
— Eu nã o sei, Sam — o homem
respondeu com honestidade. —
Connor é meu amigo. Ele tem o
direito de saber, antes que tudo vá
mais longe,
— Um mês — ela pediu. — Dê-me
um mês de tempo. Ele fitou-a e nã o
pô de recusar. Ela e Connor eram
leais, inteligentes, corajosos. Nã o

1068
Flor do Pântano Patrícia Potter

havia como duvidar do amor dos


dois. Dariam um par perfeito,
depois que a ú ltima barreira entre
eles caísse.
— Está bem. Um mês.
— Eu posso ficar aqui? — ela
perguntou, temerosa. Ele sorriu.
— Nã o gosto de quebrar o
regulamento, mas, no seu caso,
abrirei uma exceçã o. Já é tarde
demais para dizer que esta vida
nã o é para uma mulher como você,
mas seus dias de guerra acabaram.
Vai ficar no acampamento. Certo?

1069
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha sorriu, aliviada.


— Certo, general.
As poucas semanas que se
seguiram foram muito felizes e
também cheias de tristeza.
A legiã o de Lee partira para
reunir-se a Greene e o
acampamento de Marion voltou à
rotina. A primavera chegou cedo
naquele ano e o sol fecundante
voltou a derramar-se sobre a Terra,
fazendo renascer o verde
exuberante da floresta.
A guerra também já era vista com

1070
Flor do Pântano Patrícia Potter

algum otimismo pelos rebeldes, o


que nã o acontecia fazia vá rios anos.
Marion e seus homens tinham
grande fé em Nathaniel Greene,
algo que nã o acontecera com seu
predecessor, o general Gates. A
batalha de Cowpens e a desonrosa
derrota dos dragõ es de Tarleton
haviam trazido novo alento aos
patriotas até entã o desanimados.
Todas as comunidades das
Carolinas enchiam-se de novas
esperanças e grande nú mero de
voluntá rios alistava-se sob o

1071
Flor do Pântano Patrícia Potter

comando dos generais rebeldes,


enquanto os civis tornavam-se cada
vez mais audaciosos na rebeliã o
contra os ingleses e os tories.
As boas notícias nã o paravam de
chegar. A Inglaterra declarara
guerra à Holanda. A Inglaterra já
estava em guerra com a França. A
Espanha mandara dinheiro para a
jovem naçã o americana e o general
Washington e suas tropas,
sobrevivendo ao rigoroso inverno
do Norte, estavam prontos para
travar novas batalhas.

1072
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha exultava com as boas


novas, mas sua felicidade real
nascia dos momentos que passava
com Connor.
Ele cumpria a promessa de nã o
pressioná -la e o pavor que sentira
ao imaginá -la morta ou prisioneira
depois da tomada de Georgetown
servira para demonstrar a
intensidade de seu amor por ela.
Nã o existia outra mulher como
aquela, com sua coragem e
resistência, com tanta alegria de
viver e sensibilidade. Ele amava

1073
Flor do Pântano Patrícia Potter

tudo o que vinha dela e


maravilhava-se ao perceber que
sua beleza dia a dia tornava-se
mais exuberante.
Três semanas apó s sua captura
por Foxworth, ela parecia-se muito
pouco com o rapaz que aparecera
para lutar ao lado de Marion, cinco
meses antes. Os cabelos estavam
crescendo e mostrando sua
verdadeira cor, negra e brilhante,
emoldurando o encantador rosto
de anjo. E o sorriso era como o sol
radiante a iluminá -lo. Apenas

1074
Flor do Pântano Patrícia Potter

alguns repentes de teimosia faziam


com que ele se lembrasse do rapaz
que salvara sua vida e depois se
recusara a ser seu amigo.
Naquelas semanas, cercada de
atençõ es e cuidados, ela engordara.
As faces, antes pá lidas, estavam
coradas, tostadas de sol e os olhos
transbordavam de felicidade. Sam
tinha uma vivacidade contagiante
que fazia Connor sentir-se vivo e
feliz. Pela primeira vez na vida ele
ria de pequenas coisas e extraía
prazer de todos os momentos,

1075
Flor do Pântano Patrícia Potter

vivendo cada segundo num clima


de encantamento e felicidade.
Nunca chegara a compreender
Brendan e seu alucinante amor
pela vida e pelo riso, até agora.
A medida que Sam se recuperava,
eles davam longos passeios juntos,
de mã os dadas, ou sentavam-se à
margem do rio para conversarem
durante horas. Haviam perdido a
privacidade que poderiam gozar se
todos nã o soubessem que Sam era
mulher e nã o queriam abusar da
compreensã o de Marion, que

1076
Flor do Pântano Patrícia Potter

consentira na permanência dela no


acampamento. Conheciam o rígido
senso de moral do comandante do
regimento, uma das razõ es para
que objetasse quanto à presença de
mulheres ali.
Porém aquela proximidade
tornava-se agoniante, pois
Samantha à custo continha o desejo
de entregar-se ao prazer que
poderia desfrutar nos braços do
homem amado.
Um certo dia, deixou-se ficar
olhando para ele, admirando seu

1077
Flor do Pântano Patrícia Potter

porte elegante, mesmo naquela


posiçã o de preguiçoso descanso,
encostado a uma á rvore. Ela
adorava aquele corpo rijo e esbelto,
onde se notava uma sutil e até
inconsciente predisposiçã o para a
violência, produzida pelos anos de
guerra. Todavia, também era
perceptível a gentileza de senti-
mentos e a ternura indisfarçável, o
que o tornava ainda mais
irresistível. Ela ergueu os olhos
para o rosto bonito onde brilhavam
os olhos cinzentos e cristalinos que

1078
Flor do Pântano Patrícia Potter

deixavam transparecer as emoçõ es


que os dominavam. Os cabelos
esvoaçavam ao vento e ele
impacientemente jogou-os para
trá s olhando para ela. Entã o ele se
levantou e afastou-se alguns passos
como se quisesse fugir da
atmosfera de encantamento e
desejo que se formava entre eles.
Connor estava determinado a
resistir à tentaçã o de torná -la nos
braços e amá -la, mandando todas
as precauçõ es para o inferno.
Ansiava pelo momento em que

1079
Flor do Pântano Patrícia Potter

poderia casar-se com ela e levá -la


para um lugar seguro até que a
guerra acabasse, mas Sam ainda
nã o dera nenhuma indicaçã o de
que mudara de idéia e de que o
aceitaria se ele a pedisse
novamente. Temia pressioná -la. Já
fizera isso antes e quase a perdera.
Teria paciência. Sorriu imaginando
sua vida em comum. Seria uma
constante alegria, pois Sam nunca
deixaria de surpreendê-lo è de
iluminar seus dias com aquela
vivacidade que o encantava.

1080
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha viu-o sorrir e teve


vontade de chorar. Tinha apenas
mais uma semana de prazo para
contar-lhe toda a verdade. O tempo
que o general lhe concedera para
tomar uma decisã o se esgotava e
logo ela teria de dizer quem era
realmente e arriscar-se a perdê-lo.
Ou entã o, triste alternativa, nada
dizer e desaparecer da vida dele.
E havia mais uma coisa a
considerar. Seu corpo parecia
estranho, como se estivesse se
modificando por dentro. Seu fluxo

1081
Flor do Pântano Patrícia Potter

menstrual falhara vá rios meses,


mas aquilo nã o a deixara
preocupada, pois desde o choque
com a morte de Brendan tornara-se
irregular. Todavia, a menstruaçã o já
estava bastante atrasada e sua
barriga mostrava ligeira
protuberâ ncia que nã o era normal
num corpo tã o esguio. A idéia de
que poderia estar esperando um
bebê, um filho de Connor, deixava-a
aterrorizada e imensamente feliz.
Nã o sabia o que o futuro lhe
reservava, mas pelo menos teria

1082
Flor do Pântano Patrícia Potter

uma parte do homem amado


consigo, um pequenino O’Neill a
quem devotar todo o seu carinho.
Connor via as emoçõ es passarem
pelo rosto delicado. Reconhecia
algumas, outras nã o. A expressã o
de tristeza secreta ele conhecia
bem e detestava, mas havia algo
mais. Repentinamente, estendeu a
mã o e quase sem perceber ela a
tomou.
O que via nos olhos cinzentos
dizia-lhe que as defesas de Connor
estavam minadas, assim como as

1083
Flor do Pântano Patrícia Potter

suas, e que logo os dois se uniriam


novamente, no mais completo
sentido, de corpo e alma.
Tropeçando, correram pela
margem do rio, ansiosos por
encontrarem um refú gio. Ele
conhecia todos os postos de guarda
e desviava-se deles, procurando um
lugar distante, protegido dos
olhares de algum soldado que
estivesse passeando ou caçando.
Finalmente encontrou o que
procurava, uma reentrâ ncia no
terreno, um leito verde forrado de

1084
Flor do Pântano Patrícia Potter

musgo e sombreado pelos galhos


de um carvalho, que caíam como
um dossel ao redor deles.
A relaçã o foi diferente de todas as
outras. Algum tempo atrá s haviam
acreditado que se achavam
separados para sempre e estarem
juntos naquele lugar lindo parecia
um milagre. Partilharam o amor de
modo terno e suave, trocando
beijos leves e palavras sussurradas
com intensa emoçã o. A necessidade
física era dominada pelo desejo de
se sentirem ligados por um

1085
Flor do Pântano Patrícia Potter

sentimento especial que os


encantava e transportava para um
paraíso distante de tudo e de todos.
Quando aqueles momentos
maravilhosos terminaram,
permaneceram deitados em
silêncio, temendo quebrar a magia
em que estavam envoltos.
Connor nã o saberia dizer se
minutos ou horas se passaram até
que se movessem novamente.
Sentou-se e ficou contemplando o
rosto de feiçõ es delicadas, cada
curva do corpo bem-feito.

1086
Flor do Pântano Patrícia Potter

Finalmente seu olhar pousou no


ventre que se arredondava e ele
tocou-o delicadamente com as
pontas dos dedos. Uma pergunta
passou por sua mente, mas ele nã o
a formulou. Se fosse o que estava
pensando ela teria dito alguma
coisa. Sam apenas estava
engordando um pouco,
recuperando a saú de, e ele ficou
contente em saber que a mulher a
quem amava tanto se fortalecia
depois de tantas provaçõ es.
Vestiram-se lentamente e com

1087
Flor do Pântano Patrícia Potter

relutâ ncia e ficaram sentados,


temerosos de expressar seus
pensamentos. Porém havia algo
que Samantha precisava saber.
— Depois da guerra — começou
ela hesitante —, poderemos viver
juntos e pacificamente? Os tories e
whigs, quero dizer.
— Francis acha que sim — ele
respondeu.
— E você? Será capaz de se
esquecer de tudo o que aconteceu?
Ele a fitou e o rosto tornou-se uma
má scara rígida.

1088
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Suponho que alguns possam se


esquecer de tudo. Outros jamais se
libertarã o do ó dio e da revolta. Eu
nã o descansarei enquanto nã o fizer
Chatham pagar pelo que fez à
minha família. Prometi isso a meu
pai. Ele, o maldito Robert Chatham,
e os seus nã o escaparã o à justiça.
Ela compreendeu que ele jamais
desistiria da vingança contra seu
pai e contra ela. Nã o poderia contar
a ele quem era, portanto nã o
poderia permanecer a seu lado.
Teria de partir. Olhou para o rosto

1089
Flor do Pântano Patrícia Potter

de Connor e seu coraçã o contraiu-


se amargurado. Ele nã o saberia
compreender sua nova fuga e
ficaria magoado e confuso, mas
acabaria por conformar-se. No
entanto, ela nã o suportaria a raiva
que veria nos olhos dele se lhe
revelasse a dura verdade.
Com enorme força de vontade,
nã o permitiu que seu rosto traísse
os pensamentos que a torturavam.
— Sentirã o nossa falta — disse
ela. — Se nã o voltarmos logo virã o
nos procurar. Aqueles homens

1090
Flor do Pântano Patrícia Potter

transformaram-se num bando de


galinhas chocas atrá s de mim.
Os dois riram, divertindo-se com a
proteçã o exagerada que aqueles
soldados endurecidos haviam
desenvolvido em relaçã o a ela.
Connor levantou-se
preguiçosamente, estirando os
braços acima da cabeça para
afastar a moleza e o desejo de
continuar ali.
— Gostaria de ficar aqui para
sempre — declarou, ajudando-a a
pô r-se de pé e beijando-a. — Eu a

1091
Flor do Pântano Patrícia Potter

amo Sam e quero passar o resto de


minha vida com você.
— Eu também o amo. Mais do
que você possa calcular. Com
imenso carinho ela acariciou o
rosto dele, sabendo que aquela
poderia ser a ú ltima vez que o fazia.
Ele sentia-se imensamente feliz,
nã o percebera a nota de tristeza na
voz quando Samantha dissera amá -
lo tanto. Sorriu fitando os olhos
azuis. Sam lhe pertencia.
Samantha nada podia fazer até
que os homens partissem para

1092
Flor do Pântano Patrícia Potter

algum ataque e o acampamento


ficasse vazio. Tanto Marion quanto
Connor nã o a perdiam de vista, sem
contar com o resto do bando.
Porém, os dias voavam e a
necessidade de partir tornava-se
premente. O prazo que o general
lhe dera para contar a verdade a
Connor estaria esgotado dentro de
vinte e quatro horas e ela
torturava-se, debatendo-se na
angú stia de saber que nã o teria
forças para fazer a revelaçã o.
Também nã o via maneira de poder

1093
Flor do Pântano Patrícia Potter

empreender a fuga.
Nã o tinha dinheiro para
desaparecer da regiã o, onde jamais
poderia ficar sem ser reconhecida.
A ú nica soluçã o era ir para o Norte,
talvez para Boston, onde
desapareceria no meio dos
numerosos habitantes. Lá poderia
passar por uma das viú vas de
guerra e arrumar emprego como
governanta ou professora. Mas
precisava de dinheiro e só tinha
uma saída: vender Sundance
embora isso lhe fosse causar mais

1094
Flor do Pântano Patrícia Potter

sofrimento. Seu coraçã o porém já


se encontrava partido em mil
pedaços e suportaria mais um
desgosto.
Teria cuidado para que a égua
jamais fosse usada pelos ingleses
ou na guerra. Depois de pensar
muito, chegou à conclusã o de que
apenas Annabelle poderia ser a
nova dona do animal. E à bondosa
mulher nã o precisaria dizer
exatamente para que fim
necessitava de dinheiro.
Formulou todos os planos e estava

1095
Flor do Pântano Patrícia Potter

à espera de uma boa oportunidade


para colocá -los em açã o. Enquanto
nã o chegava o momento certo,
continuava a tratar dos cavalos,
procurando evitar a proximidade
de Connor, que também mantinha-
se ocupado estudando novos
ataques com Francis Marion. Nas
poucas horas de folga, montava
Sundance e ia para a floresta,
habituando as sentinelas à s suas
contínuas idas e vindas. Sofria a
cada vez que saía com Sundance.
Dentro de pouco tempo perderia

1096
Flor do Pântano Patrícia Potter

aquele animal querido como já


perdera tudo. A mã e, Brendan,
Connor. Perdia a todos os que
amava, mas animava-se pensando
que logo teria o bebê, uma nova
pessoa a quem dedicar todo o seu
amor. O filho de Connor nasceria
longe do ó dio e seria uma fonte de
alegria e esperança.
No ú ltimo dia do prazo dado por
Francis, Samantha ficou sem saber
se ria ou chorava quando o general
anunciou uma expediçã o para
aquela noite. Greene confrontara-

1097
Flor do Pântano Patrícia Potter

se com Comwallis na Carolina do


Norte, num lugar chamado Guilford
Court House e houvera uma
convocaçã o geral dos exércitos
rebeldes. Embora aparentemente
Greene houvesse sido derrotado,
na verdade ocorrera uma retirada
estratégica. Cornwallis perdera um
quarto de seu exército, enquanto o
de Greene saíra com poucas perdas.
O principal exército britâ nico
seguira para a Virgínia, e Greene,
em vez de persegui-lo, decidira
rumar para o Sul. Era o momento

1098
Flor do Pântano Patrícia Potter

certo de libertar as Carolinas,


notícia recebida com jú bilo pela
brigada de Marion, que já se julgava
abandonado pelo Exército
Continental Sulista. Henry Lee
voltaria a juntar-se a eles e o
general Francis Marion, juntamente
com as tropas milicianas de
Pickens e Sunter, intensificaria a
destruiçã o dos meios de
comunicaçã o e fonte de
suprimentos dos ingleses.
O domínio dos britâ nicos sobre as
Carolinas era baseado numa

1099
Flor do Pântano Patrícia Potter

seqü ência de lugares estratégicos,


que, desenhados sobre uma mapa,
formavam um "T" invertido. Se o
trá fego nesse "T" fosse
interrompido as tropas inglesas
seriam obrigadas a retirar-se para
Charleston. Greene reconhecia nã o
ter força suficiente para isso, mas
contava poder anular o poder
militar inimigo com Marion,
Pickens e Sunter efetuando rá pidos
ataques nos lugares certos, desse
modo sufocando as tentativas de
reforço destinado aos locais que os

1100
Flor do Pântano Patrícia Potter

rebeldes planejavam atacar.


Francis Marion sabia que a tá tica
daria certo e desejava começar
imediatamente com os ataques.
Naquela noite, cairia sobre um local
de armazenamento dos ingleses
perto de Monets Corner e levou
quase todos os homens do
acampamento.
Samantha estava mais calada que
de costume quando Connor
despediu-se, lutando para nã o cair
em pranto.
Ele notou sua tristeza, mas

1101
Flor do Pântano Patrícia Potter

atribuiu-a ao fato de ela nã o poder


acompanhá -los, já que Marion a
proibira de qualquer atividade fora
dos limites do acampamento.
Inclinou-se e beijou-a, ignorando os
olhares divertidos e invejosos dos
companheiros.
— Estarei de volta amanhã ao
meio-dia — disse ele. — Entã o
pretendo conversar seriamente
com você.
Ela nã o respondeu, apenas olhou-
o com tristeza. Connor procurou ler
em seu rosto o que se passava com

1102
Flor do Pântano Patrícia Potter

ela, começando a achar que


Samantha pretendia fazer algo que
o iria magoar muito. Por fim,
chegou à conclusã o de que estava
imaginando coisas.
— Major O’Neill! — chamou
Marion.
Ele afastou-se rapidamente, ainda
olhando para ela, desejando poder
ficar e apertá -la nos braços.
— Amanhã , Sam — ainda
murmurou.
— Eu te amo, Connor — ela disse
baixinho, quando ele nã o mais

1103
Flor do Pântano Patrícia Potter

podia ouvi-la.
Apenas alguns homens
permaneceram no acampamento.
Billy felizmente acompanhara
Marion, do contrá rio seria mais
difícil Samantha sair sem ser
notada, pois o rapaz gostava de
passar o tempo livre em sua
companhia.
Ela ficou no curral durante algum
tempo, cuidando dos cavalos e
depois comeu, sem muito apetite, o
ensopado preparado para o jantar.
A lua cheia pairava no céu

1104
Flor do Pântano Patrícia Potter

profundo e ela achou que aquilo


era um bom pressá gio, além de a
claridade ajudá -la a transpor o
pâ ntano que, à quela altura, já
conhecia bem. O ú nico problema
seria passar pelas sentinelas,
embora todas já estivessem
habituadas às suas cavalgadas
solitá rias.
Preparou Sundance e devagar
afastou-se do acampamento,
lançando um ú ltimo olhar ao
recanto onde conhecera alegria e
dor, solidã o e companheirismo.

1105
Flor do Pântano Patrícia Potter

Onde soubera, pela primeira vez


desde a morte da mã e, que
pertencia a alguém e que era
amada.
Uma lá grima rolou por seu rosto,
enquanto se despedia de Snow
Island.

CAPÍTULO XXIII

Samantha já conhecia o caminho


que ligava Snow Island a
Georgetown como a palma da mã o.
Era sua terceira viagem em quatro

1106
Flor do Pântano Patrícia Potter

meses e a mais difícil de todas.


Marcava o desligamento de uma
vida que aprendera a amar e
valorizar e o início de um novo
caminho que ela nã o tinha a
certeza de poder trilhar com
coragem até o fim. Pensar em
Georgetown a assustava um pouco,
pois nã o podia esquecer-se do
encontro com Foxworth e do que
padecera nas mã os dele. Mas o
coronel estava morto e seus
companheiros que nã o haviam
morrido estavam presos no

1107
Flor do Pântano Patrícia Potter

acampamento. Na realidade, nã o
tinha o que temer.
A idéia de procurar Annabelle
outra vez a desgostava. Nã o
desejava abusar da amizade que a
mulher generosamente lhe
dedicava. Mas precisava de
dinheiro e só teria coragem de
vender Sundance para alguém que
fosse cuidar muito bem do animal.
Pensara em ir para o Norte levando
Sundance, mas desistira. Era
impossível, sem dinheiro e sem
documentos. Ninguém acreditaria

1108
Flor do Pântano Patrícia Potter

que um rapaz maltrapilho pudesse


possuir um animal tã o magnífico e
viajar vestida de mulher seria
arriscado demais, pois teria de
cavalgar por estradas desertas.
Também sabia que Connor iria
atrá s dela e o primeiro lugar em
que a procuraria seria a casa de
Annabelle. Precisava estar numa
diligência, já longe de Georgetown,
quando ele aparecesse por lá .
Pretendia continuar a esconder a
gravidez, o que em breve nã o seria
nada fá cil. Sua barriga já distendia

1109
Flor do Pântano Patrícia Potter

o tecido da calça de rapaz e apenas


seu casaco largo disfarçava as
curvas femininas, mais acentuadas
no preparo para a maternidade.
Ao aproximar-se de Georgetown
parou para arrumar-se. Os cabelos
já estavam bastante compridos e
ela os erguera, escondendo-os sob
um velho chapéu. O casaco caía-lhe
até o meio das coxas e em um dos
bolsos ela colocara um bilhete que
preparara antes de sair do
acampamento. Era falsamente
assinado por Robert Chatham e

1110
Flor do Pântano Patrícia Potter

declarava que o rapaz que o


portava fora mandado à cidade
para entregar a égua à nova
proprietá ria. Aquela fora uma
atitude audaciosa, mas Samantha
sabia que o pai gozava da estima e
do respeito dos ingleses e que o
bilhete seria aceito como
verdadeiro. Ninguém ousaria
duvidar de um papel com a
assinatura do leal tory.
Depois de recolocar as mechas
caídas para dentro do chapéu e
fechar o casaco até o pescoço,

1111
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha reuniu-se à corrente de


trá fego na estrada que levava a
Georgetown. Mostrou o papel aos
guardas, na entrada da cidade, e foi
liberada sem perguntas ou
embaraços. Livre do perigo, tomou
o rumo da casa de Annabelle,
pensando na ironia da vida.
Confiava cegamente numa mulher
de quem nem chegaria perto
apenas alguns meses atrá s. Tivera
tantas surpresas e mudara tanto
desde que desistira de ser a filha de
um rico fazendeiro que duvidava

1112
Flor do Pântano Patrícia Potter

que um dia sua vida voltasse ao


normal. Tornara-se uma mentirosa
bastante convincente e temia ter
adquirido o vício de escapar de
dificuldades mentindo e
inventando histó rias.
A casa onde funcionava o bordel
tinha a aparência serena de
sempre. Sam guiou Sundance para
o está bulo, nos fundos, pedindo ao
cavalariço que mantivesse a égua
lá , enquanto ela falava com
Annabelle. A seguir, esgueirou-se
pela porta de trá s, entrando na

1113
Flor do Pântano Patrícia Potter

cozinha. A casa começava a


parecer-lhe um lar e ela sorriu pela
primeira vez naquele dia.
Avisada por uma escrava,
Annabelle apareceu na cozinha e
fitou-a com espanto.
— Samantha! Está sozinha?
— Estou, Annabelle.
— O que foi? Aconteceu alguma
coisa a Connor?
— Nã o. E nã o vou me demorar
muito. Achei que você gostaria de
comprar minha égua.
— Sua égua?

1114
Flor do Pântano Patrícia Potter

A mulher parecia aturdida.


Soubera através de um dos espiõ es
de Marion que Samantha fora
capturada e resgatada
posteriormente, de modo que nã o
podia entender como a moça tivera
coragem de voltar à cidade.
— Sundance. E o animal mais
maravilhoso que você possa
desejar.
Annabelle recobrou-se do espanto
diante do tom de amargura que
havia na voz da jovem.
— E por que deseja vendê-la,

1115
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha?
— Nã o posso dizer por quê.
Preciso de dinheiro, só isso, e
Sundance é o ú nico bem que
possuo. Quer vê-la?
— Se é de dinheiro que você
precisa, eu...
— Nã o, Annabelle, obrigada. Se
você nã o quiser comprá -la
procurarei outra pessoa. Vim aqui
primeiro porque acho que
Sundance será bem tratada, mas
estou decidida a vendê-la de
qualquer maneira.

1116
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Está bem. Vou dar uma olhada


no animal. Fique aqui e coma
alguma coisa. E pelo amor de Deus
tire esse casaco horrível, sim?
Assim que viu Sundance, a mulher
decidiu que a queria. Nunca vira
uma égua tã o linda nem tã o bem
cuidada. O pêlo brilhava, limpo e
saudável, e os olhos castanhos do
animal demonstravam inteligência
e docilidade. E, mesmo depois da
longa viagem, a égua nã o se
mostrava exausta. O cavalariço
seguia o minucioso exame com

1117
Flor do Pântano Patrícia Potter

atençã o.
— É uma beleza de animal, srta.
Annabelle.
— É verdade.
Pouco depois, a mulher voltava a
entrar na cozinha e olhava para
Samantha com censura, notando
que a moça ainda nã o se desfizera
do casaco disforme e sujo.
— Venha ao meu escritó rio —
ordenou, mostrando o caminho.
Esperou que Samantha se sentasse,
olhando-a com severidade. — Quer
me dizer o que significa tudo isso?

1118
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Estou cansada de viver no


mato, de me vestir como homem e
de estar no meio de soldados.
Tenho amigos em Nova York e
desejo visitá -los.
— E Connor?
Samantha olhou para o chã o.
— Ele nã o consegue esquecer o
que meu pai fez a sua família e é
melhor que nos separemos.
— Entã o ele sabe que você está
partindo.
— E claro — mentiu Samantha.
Annabelle nã o acreditou, embora

1119
Flor do Pântano Patrícia Potter

o rosto da moça fosse o retrato da


inocência. Algo acontecera e ela
desejava ardentemente saber qual
fora o problema entre a jovem e
Connor. Nada perguntou, porém.
Foi até o cofre e tirou uma grande
quantidade de moedas que
entregou a Samantha.
— Isso é suficiente?
A moça admirou-se ao constatar
que era uma generosa quantia e
quis protestar, mas Annabelle fez
um gesto imperativo, mandando-a
calar-se.

1120
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Obrigada — limitou-se a
murmurar.
— Quer tomar o desjejum
comigo, Sam?
Ela hesitou, mas estava faminta e
sabia que a diligência para Boston
sairia bem mais tarde. Se deixasse a
casa de Annabelle tã o cedo
precisaria ficar perambulando pela
cidade até a hora da partida.
— Quero sim, obrigada.
— Espere um pouquinho aqui,
sim? — pediu a mulher saindo do
escritó rio.

1121
Flor do Pântano Patrícia Potter

Instantes depois, Annabelle estava


de volta no está bulo e falava com o
cavalariça.
— Zack, vá chamar aquele seu
amigo, John. Diga-lhe que tenho um
trabalho para ele. Quero que siga o
rapaz que trouxe a égua e descubra
para onde ele vai. Se comprar
passagem para algum lugar, quero
saber que lugar é esse. E o mais
rá pido possível, ouviu?
O moço assentiu.
— Só vou poder prendê-lo aqui
por mais uma hora, talvez menos.

1122
Flor do Pântano Patrícia Potter

Acha que poderá trazer seu amigo


antes que o rapaz saia de minha
casa?
— Sim, madame.
A mulher deu-se por satisfeita e
voltou para a casa. Ordenou que a
mesa para a refeiçã o fosse
arrumada na cozinha e mandou
chamar Samantha. Suspirou
desanimada ao ver que a teimosa
nã o tirara o casaco quente, que ela
mantinha abotoado até em cima.
Sentaram-se frente a frente e
Annabelle apontou para as roupas

1123
Flor do Pântano Patrícia Potter

sujas e surradas que a outra vestia.


— Vai para Nova York desse jeito?
A moça corou, consciente de que
se achava extremamente mal
vestida.
— Pensei em comprar um vestido
em Georgetown e me trocar em
algum lugar, no caminho.
Annabelle sacudiu a cabeça. A
pobre moça pensava ser esperta,
mas era infinitamente ingênua.
— Connor ainda nã o sabe quem é
você, nã o é mesmo?
— Nã o — a jovem admitiu. —

1124
Flor do Pântano Patrícia Potter

Mas eu lhe perguntei sobre a vida


de todos depois da guerra, se ele
seria capaz de esquecer e de
perdoar. Ele respondeu que nã o
haveria perdã o para Chatham. E
nã o haverá mesmo, Annabelle.
Portanto, é melhor que eu me vá .
A mulher ficou em silêncio, quase
concordando com Samantha.
Conhecia Connor muito bem e seu
ó dio por Robert Chatham. Um ó dio
tã o grande que anulava o bom
senso e sua natural bondade no
que se referia à família inimiga.

1125
Flor do Pântano Patrícia Potter

Balançou a cabeça com desâ nimo.


Nã o havia soluçã o, ao menos no
momento. Descobriria para onde a
jovem estava indo e nada mais
poderia fazer, a nã o ser que
amarrasse Samantha e a
mantivesse como prisioneira, o que
nã o tinha cabimento.
Annabelle segurou Samantha o
quanto pô de, mas finalmente
precisou deixá -la partir, embora
com relutâ ncia. Ficou satisfeita
quando viu um vulto esgueirar-se
do está bulo e seguir a moça pela

1126
Flor do Pântano Patrícia Potter

rua que passava atrá s da casa. Se


houvesse ficado mais um pouco na
porta dos fundos teria visto mais
duas pessoas juntarem-se à
estranha procissã o.
Samantha dirigiu-se primeiro à
agência de diligências, onde
comprou uma passagem para
Boston. Ficou irritada quando lhe
informaram que a partida estava
marcada para as cinco da tarde,
aborrecendo-se ainda mais quando
o agente disse que o horá rio na
realidade pouco significava, pois

1127
Flor do Pântano Patrícia Potter

havia freqü entes atrasos. Tanto


grupos rebeldes como ingleses
paravam os veículos vá rias vezes
para inspeçõ es e uma viagem podia
levar, em certos dias, o dobro do
tempo normal.
Em seguida, Samantha foi a uma
loja de vestidos, onde foi recebida
com pouco entusiasmo pelo
proprietá rio, que olhou a figura
maltrapilha e preparou-se para pô r
o mendigo porta a fora. Mas
Samantha tirou do bolso o
saquinho de couro cheio de

1128
Flor do Pântano Patrícia Potter

moedas e o desdém do homem


transformou-se rapidamente em
sorrisos prestativos. Ela finalmente
encontrou um vestido liso de
algodã o, largo na cintura e com
franzidos no busto, que certamente
lhe serviria e comprou-o.
O tempo passara sem que ela
percebesse e repentinamente
sentiu-se faminta. Comprou uma
boa quantidade de bolinhos numa
casa de chá e voltou à agência para
esperar.
Dois dos homens que a haviam

1129
Flor do Pântano Patrícia Potter

seguido tinham ouvido o nome do


lugar para onde ela comprara
passagem. Um deles voltara
correndo para a casa de Annabelle,
enquanto o outro, deixando o
companheiro na observaçã o da
moça, tomara a estrada que saía de
Georgetown.

Connor estava furioso. A raiva


transparecia no modo como ele
apertava as rédeas nas mã os, na
linha dura dos lá bios e na frieza
dos olhos cinzentos.

1130
Flor do Pântano Patrícia Potter

Chegara a Snow Island mais cedo


do que esperara, incitado pela
necessidade de ver Sam e acertar
as coisas entre eles, apenas para
receber a notícia de que a moça se
fora. Ela passara pelos sentinelas
que a deixaram ir, mas que,
preocupados com sua demora em
voltar haviam enviado um homem
atrá s dela. O homem também nã o
voltara.
Connor imediatamente vestira as
roupas surradas de fazendeiro,
colocara um chapéu desabado e

1131
Flor do Pântano Patrícia Potter

amarrara o tapa-olho no rosto. As


faces mostravam-se já
naturalmente disfarçadas pela
barba crescida. Trocara de cavalo e,
deixando um bilhete lacô nico para
Marion, saíra do acampamento
xingando aquela mulher sem juízo
que parecia um azougue, sempre
escapando dele, deixando-o morto
de preocupaçã o. Quanto mais ele
procurava segurá -la mais ela lutava
para escapar-lhe, algo que se
tornava incompreensível e que o
levava à loucura. Porém naquilo

1132
Flor do Pântano Patrícia Potter

tudo uma idéia nã o o deixava em


paz. Dias atrá s suspeitara de que
Sam esperava um filho. O corpo
esbelto mudara completamente
nos meses passados e nã o apenas
porque ela estava mais gorda. As
formas sugeriam uma gravidez.
Esporeou o cavalo, cheio de nova
ansiedade.
Estava a alguns quilô metros de
Georgetown quando um cavalo saiu
da estrada e foi ao encontro dele,
que viajava por um caminho
marginal. Reconheceu

1133
Flor do Pântano Patrícia Potter

imediatamente um dos homens de


Marion, o que seguira Sam. Puxou
as rédeas com força e sua montaria
estacou.
— Você a seguiu? — perguntou
sem preâ mbulos.
— Sim. Ela foi à casa de Annabelle
e depois à agência de diligências.
Comprou uma passagem para
Boston.
— Você a deixou lá ? — gritou
Connor enfurecido. O homem
suspirou. Agira da melhor forma
possível e ainda era censurado.

1134
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Major, meu irmã o mora em


Georgetown e está de olho nela. Eu
precisava voltar para dar notícias
ao senhor e ao general.
Connor percebeu que fora
grosseiro, mas sua ansiedade era
tanta que nã o perdeu tempo
pedindo desculpa.
— A que horas ela vai partir?
— À s cinco, mas a diligência
sempre atrasa. Meu irmã o ficará
vigiando até a hora da partida.
Sem nenhum comentá rio, Connor
fez o cavalo partir a galope.

1135
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha andava de um lado para


o outro cheia de impaciência. A
longa espera poderia tornar-se
perigosa, porque os casacas-
vermelhas nã o paravam de passar
na frente da agência e olhar para os
passageiros, que aguardavam a
chegada do veículo. Um deles
chegou a entrar e pedir
documentos, mas ela se salvara
explicando que fora a Georgetown
entregar uma égua para a srta.
Annabelle por ordem de seu patrã o
e que estava voltando para casa. O

1136
Flor do Pântano Patrícia Potter

nome da famosa dama encerrou a


questã o e o soldado desistiu de
continuar a interrogar o rapazinho
mal vestido.
Em certo momento, nervosa com
a demora, perguntou ao agente o
motivo do atraso e o homem
limitou-se a dar de ombros. Voltou
a sentar-se com o vestido
embrulhado na cadeira ao lado,
com a cabeça pendida, começando
a achar o casaco abotoado até o
pescoço extremamente
desconfortável.

1137
Flor do Pântano Patrícia Potter

E estava naquela atitude


desanimada quando Connor a
encontrou.

Ela estava de olhos fechados, mas


sentiu-lhe a presença. Ergueu a
cabeça lentamente e abriu os olhos,
fitando o rosto zangado. Nem teve
tempo para pensar. Ele estendeu a
mã o e segurou-a pelo pulso direito,
obrigando-a a levantar-se com um
puxã o nada gentil. Para nã o dar
escâ ndalo, seguiu-o docilmente,
quase correndo para acompanhar

1138
Flor do Pântano Patrícia Potter

as passadas largas.
— Pare aí! — A ordem seca soou
perto deles. Connor parou no
mesmo instante.
— Sim, senhor — disse numa voz
obsequiosa que ela nã o conhecia.
— O que está fazendo com esse
garoto? — o soldado inglês
perguntou.
— É um empregado meu que
fugiu, senhor. E tem contas a
ajustar comigo. Ah, mas eu o peguei
de jeito, se peguei!
Ela teria rido se o momento nã o

1139
Flor do Pântano Patrícia Potter

fosse tã o impró prio. Mal


reconhecia o sotaque grosseiro de
Connor, que estava se revelando
um ator de primeira classe.
O inglês olhou para ela de testa
franzida.
— Isso é verdade, menino?
Ela abaixou a cabeça e assentiu
lentamente.
— Entã o sumam daqui!
Connor recomeçou a andar
puxando-a atrá s de si, apenas
desejando sair da rua antes que
chamassem mais atençã o.

1140
Flor do Pântano Patrícia Potter

Finalmente chegaram a uma casa


de madeira e os dois subiram os
degraus do alpendre. Ela nã o fazia
idéia de onde estavam, mas
continuou calada enquanto ele
puxava o cordã o da sineta da porta.
Um negro atendeu e Connor
estendeu-lhe um bilhete. Depois de
ler, o homem deixou-os entrar e ela
olhou em volta, procurando
adivinhar onde se encontravam. Só
entã o ele soltou-lhe o pulso e disse
algumas palavras ao negro. A
seguir, pegando-a pelos ombros,

1141
Flor do Pântano Patrícia Potter

guiou-a para uma saleta, e obrigou-


a a sentar-se numa cadeira. Ela nã o
o encarava e ele tomou-lhe o rosto
entre as mã os, forçando-a a olhá -lo.
— Boston. Por que Boston, pode
me explicar? — perguntou sem
esconder a raiva.
— Como foi que você... — ela
começou a perguntar, mas
interrompeu-se ao ver a expressã o
dura do rosto dele.
— Você pensou mesmo que
Francis a deixaria desaparecer com
toda a informaçã o que tem sobre

1142
Flor do Pântano Patrícia Potter

nó s?
Ela apertou os lá bios. Nã o havia
pensado naquilo.
— Eu nã o o trairia — respondeu
baixinho.
— Mas a mim sim, nã o é?
— Nã o! — ela gritou. — Nunca
trairia você!
— Entã o por que fez isso? Foi
uma espécie de traiçã o,
desaparecer sem deixar um bilhete.
Ele continuava a fitá -la com o
ú nico olho descoberto. O tapa-olho
de couro tornava o rosto zangado

1143
Flor do Pântano Patrícia Potter

ainda mais ameaçador, mas Sam


nã o se deixou intimidar. Cruzou as
mã os sobre o colo e olhou para o
chã o, deixando-o mais irritado.
— Tire esse casaco, Sam.
Obedientemente ela o tirou,
sabendo que nã o tinha escolha. Ele
arrancou o tapa-olho e examinou-a
detidamente, demorando-se a
olhar a linha da cintura.
— Você está esperando um filho?
— perguntou em voz baixa e gentil.
Ela apenas olhou para ele e nã o foi
necessá rio responder nada. Os

1144
Flor do Pântano Patrícia Potter

olhos azuis mostravam total


desespero e toda a raiva que ele
alimentava desapareceu. Pegou as
pequenas mã os entre as suas e
admirou-se ao descobrir como
estavam geladas.
— Por que nã o me disse, Sam?
Nã o podia imaginar como ia me
deixar feliz? Nã o sabe que desejo
me casar com você, querida?
Ela nã o pô de suportar o brilho
feliz dos olhos cinzentos.
— Este bebê veio na época
errada! Está tudo errado, Connor!

1145
Flor do Pântano Patrícia Potter

— ela gritou, desesperada.


Ele colocou um dedo sobre os
lá bios dela para silenciá -la.
— Nã o há nada errado, meu bem.
Nó s nos casaremos amanhã de
manhã . Ele... — fez uma pausa e
sorriu —, ou ela, precisa ter um
sobrenome, você sabe.
Ela olhou para Connor, cansada de
lutar e de fugir.
— Se é isso o que você quer... —
respondeu com voz sem expressã o.
Feliz com a resposta, ele nã o
percebeu a tristeza que havia nos

1146
Flor do Pântano Patrícia Potter

olhos dela, como se aquele fosse


um momento de rendiçã o a um fato
desagradável mas que nã o podia
ser evitado. Inclinou-se e tirando o
chapéu que cobria os cabelos
anelados que ele tanto admirava,
beijou-a ternamente, correndo os
dedos pelos cachos escuros para
desembaraçá -los. Depois, sem
poder conter a alegria, ele riu alto,
achando que a vida afinal era
mesmo maravilhosa.
— Vamos ter um jantar de
comemoraçã o, querida. — Tornou

1147
Flor do Pântano Patrícia Potter

a rir. — Mas, antes, acho que nó s


dois precisamos de um banho.
Ele saiu da saleta e ela ouviu-o
gritar ordens num tom de voz cheio
de felicidade. Estremeceu,
apavorada. Ele nunca a deixaria
partir, a menos que ela revelasse
ser Samantha Chatham. E nã o
estava preparada para aquilo. Nã o
ainda. Ficaria mais alguns dias ao
lado dele, aumentando a bagagem
de lembranças para o futuro vazio
que a esperava. O casamento nã o
teria validade, pois ela nã o usaria

1148
Flor do Pântano Patrícia Potter

seu nome verdadeiro, de modo que


ele continuaria livre. Nã o haveria
laços entre Connor O'Neill e uma
odiada Chatham. Mas seriam felizes
naquela noite, no dia seguinte e
talvez por mais algum tempo.
Quando ele voltou, Sam estava
mais animada e deixou-o erguê-la
nos braços e levá -la para o andar
de cima, para um quarto onde uma
banheira já a aguardava. Ao ser
colocada numa cama imensa, olhou
em volta, apreciando o ambiente de
decoraçã o tipicamente masculina.

1149
Flor do Pântano Patrícia Potter

As paredes eram forradas de


painéis de madeira escura e os
mó veis eram pesados e só brios. Ela
gostou da beleza simples do
aposento e do conforto
despretensioso.
— Esta casa pertence ao meu
amigo Denney Demerest, que me
deu autorizaçã o para usá -la.
Mantém escravos e criados para
protegê-la e cuidar de tudo.
— Mas os ingleses...
— A casa está no nome de um
primo inofensivo. Terreno neutro,

1150
Flor do Pântano Patrícia Potter

digamos assim. Denney tem uma


infinidade de primos, inclusive uma
prima chamada Caroline, pela qual
está perdidamente apaixonado —
explicou Connor com um brilho
malicioso no olhar.
— A sua Caroline? — perguntou
ela para provocá -lo. Ele riu.
— Foi o namoro mais curto da
histó ria. Um namoro que ficou
apenas na fantasia dos país dela,
que nã o querem o casamento da
filha com Denney.
— Mas por quê, se eles se amam?

1151
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Porque sã o primos, meu amor.


Embora eu nã o acredite que haja
problemas, os pais dela nã o
querem nem ouvir falar em tal
coisa. Já houve um caso na família e
foi desastroso.
Samantha nã o entendia a
proibiçã o. Conhecia muitos primos
que se haviam casado. Na pequena
sociedade das Carolinas aquele
chegava a ser um fato corriqueiro.
— Acho que se estã o apaixonados
devem casar-se de qualquer
maneira — declarou, com a

1152
Flor do Pântano Patrícia Potter

costumeira determinaçã o.
Ele ergueu as sobrancelhas e
fitou-a com espanto fingido.
— Pensei que você tivesse algo
contra o casamento. Quase desisti
de convencê-la a casar-se comigo.
Ela ignorou a provocaçã o e ele nã o
insistiu. O relacionamento deles
ainda era muito fraco para suportar
discussõ es.
Naquele momento, dois escravos,
um homem e uma mulher,
entraram com baldes de á gua, que
despejaram na banheira de cobre.

1153
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha sorriu de prazer ao ver o


vapor subir para o teto.
— O jantar estará pronto dentro
de uma hora, senhor — o negro
esclareceu sorrindo. — É bom ter
alguém aqui de novo. A casa fica
muito vazia sem o sr. Denney.
Connor apresentou o casal a Sam
e ficou feliz ao ver como a moça os
tratava calorosamente. Ele adorava
sua simplicidade e seu coraçã o
generoso, que parecia receber a
todos sem distinçã o de cor ou
posiçã o social. Ficara mais do que

1154
Flor do Pântano Patrícia Potter

espantado quando percebera a


facilidade com que ela fizera
amizade com Annabelle, pois uma
enorme barreira de preconceitos
precisava ser derrubada para que
uma jovem se tornasse amiga de
uma prostituta. Mas Sam era uma
mulher fora do comum, diferente
de qualquer outra que já
conhecera. Dominado pela emoçã o,
acariciou o rosto delicado e nem
percebeu quando os escravos
saíram.
— Vou entrar no banho — ela

1155
Flor do Pântano Patrícia Potter

murmurou, despertando-o do
enlevo.
Ele ajudou-a a despir-se, olhando
maravilhado para o corpo que se
livrava das roupas empoeiradas e
feias. Nã o se conteve e começou a
acariciá -la até que, ambos nus,
caíam sobre a cama abraçados,
rindo e murmurando palavras de
amor. Perderam-se na doaçã o de si
mesmos, sendo arrastados por
correntes poderosas demais para
serem vencidas. Nada mais no
mundo importava, a nã o ser a

1156
Flor do Pântano Patrícia Potter

necessidade de mergulharem no
êxtase.
Mais tarde tomaram banho juntos,
brincando como crianças na á gua
quase fria. Connor ensaboou-a
carinhosamente, demorando as
mã os sobre o ventre que abrigava
seu filho, desejando sentir alguma
palpitaçã o de vida. Esqueceram-se
do jantar no entusiasmo de
estarem juntos, até que uma
discreta batida à porta os trouxe de
volta à realidade.
— Nem tive tempo de lavar você

1157
Flor do Pântano Patrícia Potter

— ela reclamou com um sorriso.


— Já me lavei sozinho, Sam, e nã o
estou disposto a ser arranhado,
como daquela vez em que você me
deu banho. Quase me arrancou a
pele, mulher malvada.
Ela saiu da banheira e novamente
bateram à porta.
— Sim?
— O jantar está pronto, senhor —
Cecil, o escravo, avisou.
— Já vamos descer. A srta. Taylor
demora muito para se vestir e... —
Connor riu e calou-se quando viu a

1158
Flor do Pântano Patrícia Potter

barra de sabã o vir voando em sua


direçã o.
Finalmente resolveram agir com
seriedade e vestiram-se
rapidamente, sentindo-se bastante
famintos. Samantha tomara o
desjejum perto do meio-dia e
depois só comera alguns bolinhos.
Connor nada comera desde a noite
anterior e estava esfomeado. Ela
olhou-se no espelho quase com
timidez, sabendo que era a
primeira vez que ele a via com um
vestido. Connor observava-a

1159
Flor do Pântano Patrícia Potter

fascinado, notando como o tecido


abraçava os seios fartos e apertava
a cintura ainda fina, para abrir-se
fartamente ao redor dos quadris
redondos. A cor azul do pano
parecia escurecer a tonalidade dos
olhos profundos, deixando-os com
o colorido de um céu de verã o ao
anoitecer. Ela escovou os cabelos,
ainda com pedaços tingidos de
marrom opaco, ajeitando-os
graciosamente ao redor do rosto.
Nã o precisava ouvir cumprimentos.
Toda admiraçã o de Connor refletia-

1160
Flor do Pântano Patrícia Potter

se em seu olhar, que nã o conseguia


desviar-se do corpo bonito e do
rosto corado, cuja pele já perdera
toda a tonalidade escura deixada
pelo índigo.
Ele vestiu-se com algumas roupas
de Denney, mas deixou a barba que
lhe serviria de disfarce no dia
seguinte. Porém para Samantha,
nã o havia homem mais lindo no
mundo inteiro.
O jantar foi delicioso. Mesmo nos
tempos difíceis de guerra, quando
na cidade se tornava quase

1161
Flor do Pântano Patrícia Potter

impossível conseguir carne fresca,


os criados haviam comprado uma
galinha, que foi servida com molho
grosso e batatas assadas. Havia
também pã o fresco, biscoitos,
vinho e, como sobremesa, uma
torta de maçã recém-saída do
forno. Comeram tudo, contentes
com a comida caprichada e
também pelo fato de ser aquela a
primeira vez em que se sentavam
juntos a uma mesa para uma
refeiçã o civilizada. Depois de
saciarem a fome perderam-se na

1162
Flor do Pântano Patrícia Potter

contemplaçã o um do outro,
enquanto as chamas das velas
dançavam, pondo sombras em seus
rostos.
Por fim, sem nenhuma palavra,
Connor ergueu-se e dando a mã o a
Sam ajudou-a a levantar-se da
cadeira. Juntos subiram para o
quarto e mais uma vez despiram-se
um para o outro, rejubilando-se
com a intimidade do ato. Ela
afundou-se nos braços dele, que
apertou-a possessivamente,
levando-a para a cama de alvos

1163
Flor do Pântano Patrícia Potter

lençó is com perfume de alfazema.


Acordaram na manhã seguinte,
ainda abraçados, e Connor beijou-a
com ternura.
— Hoje é o dia do nosso
casamento — disse num tom que
nã o permitia discussã o.
— Mas os proclamas — ela
protestou.
No dia anterior, quando aceitara
casar-se com ele, nã o pensara que
realmente fosse possível arranjar
um casamento com tanta rapidez.
— Conheço alguém que poderá

1164
Flor do Pântano Patrícia Potter

dispensá -los. E um amigo dos


rebeldes.
— Mas...
— Nada disso, Sam. Chega de
hesitaçã o. Depois que nos
casarmos você poderá ficar aqui,
nesta casa. Entrarei em contato
com Denney. Você e o bebê estarã o
em segurança, perto de médicos e
sob a proteçã o de Cecil e Mary. E há
Annabelle também, se precisar
dela. Deixarei dinheiro suficiente
para qualquer eventualidade.
— Eu quero... - Ele sorriu.

1165
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Eu sei o que você quer, mas


Snow Island, cavalgadas e atropelos
nã o sã o para uma mulher grávida.
Pense no bebê. Sei que vai ser
difícil ficar aqui confinada, mas
virei sempre que for possível.
— Eu quero ficar com você!
— Você é uma pessoinha bem
contraditó ria. Ontem estava
fugindo de mim e hoje nã o quer me
largar!
— Isso foi ontem — ela disse sem
nenhuma ló gica, como se aquilo
explicasse tudo.

1166
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Quero que me prometa uma


coisa, Sam. Prometa que vai ficar
aqui quietinha. Deixe Cecil ou Mary
fazerem as compras e se sentir
solidã o chame Annabelle para
conversar, sim? Prometa, cabeça-
dura!
— Vai ser como estar na cadeia!
— Nã o será por muito tempo.
Dentro em breve tomaremos
Georgetown. Enquanto isso nã o
acontece, quero ter certeza de que
você e meu filho estarã o em
segurança.

1167
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ela ficou calada e Connor


finalmente entendeu seu silêncio
como aceitaçã o de tudo o que ele
lhe dissera. Mas por que ela nã o
aceitava suas recomendaçõ es com
mais facilidade, por que nã o dava
respostas que o tranqü ilizassem?
Suspirou. Certas atitudes de Sam
deixavam-no bastante frustrado.
— Vista-se, querida, e fique bem
bonita. Vou sair para buscar o
ministro.
— E quanto a você? Sabe se
desejo me casar com um homem de

1168
Flor do Pântano Patrícia Potter

um olho só , barbado e mandã o?


— Belo momento de apontar para
os meus defeitos — ele disse rindo.
— Gostaria de ser um noivo bonito,
mas nã o posso me arriscar a ser
enforcado.
Ela calou-se, repentinamente
consciente de todos os riscos que
ele correra por sua causa. Acariciou
as faces barbadas, fitando-o com
carinho.
— Pelo menos, quando o ministro
me fizer prometer que o aceitarei
para o melhor e o pior, já saberei o

1169
Flor do Pântano Patrícia Potter

que é "o pior" — disse, nã o


resistindo ao desejo de provocá -lo.
— Ah, Sam, você é deliciosa!
Nunca perca essa graça
espontâ nea, uma das qualidades
que adoro em você.
Beijou-a rapidamente e começou a
vestir-se. Logo depois saía do
quarto com o tapa-olho e
arrastando uma perna, fazendo-a
rir.
— Voltarei logo. Esteja pronta.
De fato, ele retornou rapidamente
na companhia do reverendo

1170
Flor do Pântano Patrícia Potter

Thomas Smith e sua esposa, Molly,


que seria a testemunha.
Sam gostou dos dois no mesmo
instante. O reverendo era de
estatura mediana e possuía claros
olhos azuis onde se via uma grande
compreensã o e infinita bondade.
Os cabelos já se mostravam ralos e
os ó culos grandes davam-lhe a
aparência de um corujã o bem-
humorado. Molly era gorduchinha e
sorridente, com olhos brilhantes e
ar maternal, o que deixou a jovem
noiva completamente à vontade.

1171
Flor do Pântano Patrícia Potter

As duas mulheres começaram a


conversar e Molly tomou o partido
de Sam, censurando a aparência do
noivo. O marido lhe explicara que
Connor era um oficial rebelde cuja
cabeça estava a prêmio, mas ainda
assim era estranho ver um homem
tã o desleixado no dia do pró prio
casamento.
A cerimô nia foi curta e Sam, mais
tarde, se lembraria pouco do que se
passara. Sentia-se cheia de remorso
por estar levando adiante aquela
farsa, por estar enganando Connor

1172
Flor do Pântano Patrícia Potter

de maneira tã o vergonhosa.
Enquanto ele repetia as promessas
tã o lindas com voz firme e clara, ela
fazia seus votos de maneira quase
inaudível, desejando
desesperadamente que aqueles
momentos passassem depressa.
A felicidade que sentira até aquela
manhã se esvaíra, perdida na
convicçã o de que estava fazendo
algo imperdoável à ú nica pessoa
que ela amava no mundo. Quando
chegou o momento de assinar o
registro, com relutâ ncia escreveu o

1173
Flor do Pântano Patrícia Potter

nome de Samara Taylor, alguém


que nã o existia. Seus lá bios
estavam gelados quando Connor
inclinou-se e beijou-a de leve.
Todos beberam vinho para
celebrar a uniã o e logo os Smith se
retiraram, fazendo votos para que
fossem felizes para sempre.
Os noivos almoçaram em silêncio.
Connor dissera que teria de partir
naquela mesma tarde. Henry Lee ia
chegar a Snow Island e Francis
Marion planejava iniciar uma
campanha imediatamente.

1174
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Francis já foi muito tolerante


comigo — explicara. — Nã o posso
abusar.
Ela concordara, desejando ficar
com ele e ao mesmo tempo
querendo ficar sozinha. O
sentimento de culpa a torturava e
cada vez que olhava para o rosto
honesto dele, seu coraçã o se
apertava.
Connor nã o podia deixar de
perceber sua mudança de humor,
mas atribuiu-a à separaçã o
iminente. Depois do almoço,

1175
Flor do Pântano Patrícia Potter

tomou-a mais uma vez nos braços.


— Nã o vai demorar muito até que
possamos ficar juntos, Sam. Eu
prometo.
Ela beijou-o com intensidade tã o
desesperada que o comoveu.
Parecia um beijo de adeus.
Desejou saber mais sobre ela, pois
adivinhava que o passado a
perseguia e lançava sombras tã o
pesadas sobre Sam que começavam
a afetá -lo também.
Todavia nã o podia demorar-se
mais. Gentilmente afastou-a de si,

1176
Flor do Pântano Patrícia Potter

analisando o rosto triste voltado


para o dele. Beijou-a e se foi.

CAPÍTULO XXIV

Ao entrar em Snow Island, Connor


viu os homens de Lee por toda a
parte. Os uniformes verdes
contrastavam fortemente com as
roupas grosseiras, de couro ou
algodã o cru, dos soldados de
Marion. Foi diretamente para a

1177
Flor do Pântano Patrícia Potter

cabana de comando e entrou bem


no meio do que parecia ser uma
reuniã o de oficiais. Todos os
homens de posiçã o de comando
das duas tropas achavam-se
reunidos ao redor de uma mesa
onde se via um grande mapa
aberto.
Marion ergueu os olhos ao
pressentir a entrada de mais
alguém e viu o amigo.
— Chegou em boa hora, major.
Gostaria que ficasse depois da
reuniã o. Precisamos conversar.

1178
Flor do Pântano Patrícia Potter

O general voltou a olhar para o


mapa e Connor descobriu que
estava enrascado. Pelo modo seco
de Marion, fizera algo que o
desagradara. Acompanhou o resto
da discussã o e viu que pretendiam
atacar Watson e depois o forte
Motte, um grande posto de
abastecimento dos ingleses. Greene
planejava destroçar o "T" formado
pelos britâ nicos e acabar com o
domínio do inimigo sobre a
Carolina do Sul.
Depois que os outros oficiais

1179
Flor do Pântano Patrícia Potter

saíram, Connor ficou a só s com


Marion. O general nã o escondeu
seu aborrecimento, fazendo o outro
esperar enquanto enrolava o mapa
com lentidã o irritante. Finalmente
olhou para o major.
— Está planejando ficar com o
regimento desta vez? — perguntou
com ligeiro sarcasmo.
Connor mantinha-se calado, tendo
consciência de que agira mal.
Partira para Georgetown sem pedir
permissã o, deixando apenas um
recado. Um gesto imperdoável num

1180
Flor do Pântano Patrícia Potter

exército. Nenhum general poderia


ser eficiente dependendo de
oficiais que desapareciam quando
bem entendiam.
— Desculpe, Francis. Nã o tornará
a acontecer.
O rosto de Marion perdeu um
pouco da dureza. Esperara ouvir
aquela promessa, pois sabia que
Connor nã o a quebraria. Precisava
da capacidade de liderança do
major como nunca antes
necessitara. Connor tinha um certo
instinto para pressentir o perigo e,

1181
Flor do Pântano Patrícia Potter

mais importante que tudo, possuía


carisma. Os soldados o obedeciam
de boa vontade e cegamente.
Connor O’Neill era um pacificador e
conseguia resolver as mais duras
rixas entre soldados com poucas
palavras. Todas essas qualidades
faziam dele um auxiliar de valor
inestimável.
— Encontrou Sam? — o general
perguntou por fim. Connor sorriu
pela primeira vez desde que
entrara ali.
— Sim e nos casamos hoje de

1182
Flor do Pântano Patrícia Potter

manhã . Ela ficou em Georgetown,


na casa de Denney Demerest.
A surpresa do general
transformou-se em espanto
quando ele percebeu, pela calma do
amigo, que Sam ainda nã o revelara
a sua verdadeira identidade.
Sentiu-se desapontado. Esperara
mais honestidade daquela garota.
— Nã o vai me dar os parabéns?
— perguntou Connor confuso. —
Sempre achei que você gostava de
Sam.
— Ela lhe disse por que foi

1183
Flor do Pântano Patrícia Potter

embora?
— Nã o exatamente — respondeu
o outro, ainda nã o querendo
revelar a gravidez da moça.
Francis ficou em silêncio durante
alguns segundos e depois estendeu
a mã o, que o amigo apertou com
força.
— Desejo-lhes boa sorte e muita
felicidade, Connor.
— Obrigado, Francis —
agradeceu o major, nã o notando
que o general se mantinha sério e
com expressã o preocupada.

1184
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Snow Island foi tomada —


Annabelle contou a Samantha.
Estavam sentadas na pequena sala
de visitas da casa de Denney. A
exuberante dama de cabelos ruivos
e olhos verdes achava-se vestida
com simplicidade, trajando um
vestido marrom e capa da mesma
cor. Colocara um chapéu que lhe
cobria a vasta cabeleira presa num
coque, pois os cabelos vermelhos
eram bem conhecidos na cidade e
ela nã o podia chamar a atençã o ao

1185
Flor do Pântano Patrícia Potter

ir visitar a amiga.
Os olhos de Sam mostraram
alarme, mas Annabelle apressou-se
em acalmá -la.
— O acampamento estava vazio, a
nã o ser por alguns sentinelas, que
escaparam. Marion porém perdeu
os suprimentos e muniçã o.
Acredito que vai tomar isso como
um insulto pessoal e revidar à
altura. Olho por olho, dente por
dente. Acho que essa é também a
filosofia dos ingleses, porque
Marion e seus homens estavam

1186
Flor do Pântano Patrícia Potter

fora, atacando uma base britâ nica


para pegar víveres e armas.
— Para onde eles foram?
— Para outro lugar nos pâ ntanos,
imagino. Pelo que sei, Marion tem
dezenas de acampamentos
espalhados por lá . Mas você deve
saber dessas coisas melhor do que
eu, Samantha.
Sabia mesmo e desejava estar nos
pâ ntanos com o homem amado.
Sentia-se sozinha e odiava cada
minuto longe dele. Detestava
pensar que ele podia estar

1187
Flor do Pântano Patrícia Potter

correndo perigo enquanto ela


ficava ali naquela casa, em
completa segurança, mas sem
sossego e entediada. Com exceçã o
dos caseiros e mais dois criados e,
naturalmente, Annabelle, nã o via
mais ninguém. Para divertir-se lia
um livro ou outro que a atraía na
pequena biblioteca da casa e nem
pensava em sair para a rua onde
sua gravidez, já mais evidente,
chamaria a atençã o. A cidade
estava cheia de homens do partido
Tory e muitos deles conheciam os

1188
Flor do Pântano Patrícia Potter

Chatham bem demais para serem


enganados.
Suspirou desanimada. Já fazia um
mês e meio que Connor partira,
mas parecia um século. O calor a
aborrecia. Apesar de estarem em
meados de maio, já sofriam os
efeitos de um calor fora do comum
para a época e de uma umidade
pesada e sufocante. Nervosa,
queixava-se do tempo, do suor que
lhe escorria pelo rosto, do
desconforto causado pelo corpo
que já engordara bastante.

1189
Flor do Pântano Patrícia Potter

Annabelle suportava as
reclamaçõ es com paciência. A
princípio, ao saber das condiçõ es
daquele casamento, ficara furiosa.
Connor passara em sua casa para
lhe pedir que cuidasse de sua
esposa, deixando-a estupefata e
imaginando se Samantha afinal
achara coragem para contar a
verdade. Nã o quisera tocar no
assunto com ele para nã o lançar
uma sombra na sua evidente
felicidade, mas assim que Connor
partira ela fora visitar Samantha,

1190
Flor do Pântano Patrícia Potter

esperando encontrar uma noiva


exultante. Deparara-se com uma
mulher em prantos. Depois de
acalmá -la conseguira ouvir a
histó ria do casamento falso, vindo
a saber do bebê. Ficara com raiva
de Samantha, achando que ela nã o
podia ser tã o desonesta com um
homem que a amava tanto, mas aos
poucos a irritaçã o passara e ela
começara a olhar para a moça com
tolerâ ncia e uma boa dose de
compaixã o.
Com um suspiro, Annabelle

1191
Flor do Pântano Patrícia Potter

desviou os pensamentos para o


presente e ficou a olhar para o
ventre redondo da outra.
— Quanto tempo acha que vai
conseguir esconder a verdade de
Connor? — perguntou.
— Nã o sei, Annabelle. Eu o amo
tanto, mas toda vez que tento
abordar o assunto alguma coisa
acontece e acabo perdendo a
coragem. Nã o quero perdê-lo!
— A situaçã o piora a cada dia que
passa, Samantha. Depois de tantas
mentiras será muito mais difícil

1192
Flor do Pântano Patrícia Potter

fazê-lo compreender.
— Eu sei.
— Esse casamento...
— Nã o é um casamento de
verdade, Annabelle.
— Pensa que ele vai encarar essa
farsa com calma e compreensã o?
Samantha suspirou desalentada.
— Nã o quero pensar nisso agora,
Annabelle. Tudo o que queria era
ter notícias de Connor.
A mulher sorriu e procurou em
um dos bolsos da capa, retirando
um papel dobrado e fechado com

1193
Flor do Pântano Patrícia Potter

lacre.
— Deixei a surpresa para o fim
porque queria conversar com você
e sabia que depois de ler isto seria
impossível.
Entregou o papel à moça, que
ficou olhando para ele como se
estivesse em transe.
Samantha nem percebeu quando
Annabelle saiu da casa e desceu
para a rua, onde sua carruagem a
esperava. Agarrou a carta e subiu a
escada correndo. Trancou-se no
quarto e apertou o papel de

1194
Flor do Pântano Patrícia Potter

encontro ao peito, sabendo que o


homem amado o tocara apenas
algumas horas antes.
"Meu amor
Quando ler esta carta com certeza
já estará sabendo que os britâ nicos
descobriram nosso acampamento
em Snow Island. Perdemos apenas
suprimentos e alguma muniçã o,
felizmente. De qualquer maneira,
estamos progredindo bastante e
parece que nossa sorte está
mudando, afinal.
Tomamos o forte Watson depois

1195
Flor do Pântano Patrícia Potter

de um longo cerco que nos deixou


esgotados. Nossa vitó ria deveu-se a
um oficial muito inteligente que
desenhou uma torre da qual nossos
artilheiros atiravam diretamente
para dentro do forte. O comandante
inglês rendeu-se quase que
Imediatamente. Foi uma perda
terrível para os ingleses, mas para
nó s uma vitó ria que reanimou a
todos.
Acredito que poderei vê-la em
breve, querida. F. está impaciente e
estamos viajando rapidamente em

1196
Flor do Pântano Patrícia Potter

direçã o a essa cidade.


Cuide bem de você mesma e do
bebê. Eu amo vocês dois e só penso
em poder estar perto para sempre.”
Samantha leu a curta mensagem
até que o papel estivesse todo
amassado e cada palavra ficasse
gravada em sua mente. Entã o,
queimou-a na chama de uma vela.

Samara... Samara... Samara.


Connor repetia o nome,
procurando acostumar-se a ele,
mas a palavra soava sempre de

1197
Flor do Pântano Patrícia Potter

modo estranho. Era Sam quem ele


amava. A enigmá tica, irritante e
encantadora Sam.
Uma bala passou assobiando e
enterrou-se no chã o a poucos
centímetros de onde ele estava
deitado. Rolou depressa para um
lado, fugindo à mira dos atiradores
ingleses, que estavam com pontaria
muito melhor depois de três dias
de cerco.
Marion e Lee estavam dispostos a
tomar o forte Motte de qualquer
maneira, mas a situaçã o parecia

1198
Flor do Pântano Patrícia Potter

meio complicada. Num impulso de


generosidade, o general entregara
o comando a Henry Lee, que
resolvera atacar cavando
trincheiras que aos poucos se
aproximavam da cidadela britâ nica,
mas que deixavam os soldados
rebeldes expostos à s balas do
inimigo. E as baixas aumentavam a
cada dia.
O forte Motte fora edificado ao
redor da espaçosa mansã o da sra.
Rebecca Motte. Os engenheiros
ingleses haviam acrescentado um

1199
Flor do Pântano Patrícia Potter

fosso, paredõ es de terra e


resistentes paliçadas,
transformando a residência numa
fortaleza de difícil acesso. O
comandante inglês, tenente Donald
McPherson contava com cento e
quarenta homens e os rebeldes
com quatrocentos, mas aquilo
pouco significava quando os
britâ nicos tinham toda a proteçã o
possível e os americanos estavam
em posiçã o extremamente
vulnerável.
A lentidã o da tá tica escolhida por

1200
Flor do Pântano Patrícia Potter

Lee exasperava Connor, que sabia


que Francis Marion ardia de
ansiedade para atacar Georgetown.
O general tinha uma irmã naquela
cidade, que ele amava bastante por
haver passado ali parte de sua
infâ ncia. Desejava
desesperadamente libertá -la do
domínio dos casacas-vermelhas.
Por outras razõ es, Connor também
mal podia esperar o momento de
marchar sobre a cidade e arrancá -
la dos ingleses. Apenas a
resistência do forte Motte os

1201
Flor do Pântano Patrícia Potter

impedia de seguir para


Georgetown.
Outra bala ergueu um punhado de
terra do chã o perto dele.
— Desgraçados! — ele praguejou,
rastejando para o lado.
Nunca tomariam o forte se
continuassem naquela posiçã o
passiva, fugindo das balas de
McPherson e seus homens. Tomado
de raiva repentina, ergueu-se e
correu para o lado de Marion.
O rosto do general estava
sombrio. Seus espiõ es haviam

1202
Flor do Pântano Patrícia Potter

descoberto uma grande legiã o


britâ nica a dois dias de viagem dali,
o que explicava a calma do tenente
McPherson.
O homem estava determinado a
resistir, minando as forças dos
rebeldes, porque esperava reforços.
Marion e Lee conferenciaram,
enquanto Connor apenas ouvia. Se
nã o tomassem o forte
imediatamente teriam de retirar-
se. Foi entã o que os dois
comandantes pensaram nas flechas
incendiadas que haviam obrigado a

1203
Flor do Pântano Patrícia Potter

cidadela de Georgetown render-se.


Mas o forte Motte era uma
residência particular e a
proprietá ria, Rebecca Motte, uma
leal patriota que sofrera a
indignidade de ser removida de sua
casa e levada para uma rú stica
cabana de toras, onde estava
morando. Nem Marion nem Lee
desejavam destruir a mansã o.
Por fim, resolveram consultar
Rebecca e os três ficaram atô nitos,
quando a idosa viú va lhes disse que
deviam ter ateado fogo à fortaleza

1204
Flor do Pântano Patrícia Potter

mais cedo, mesmo sem falar com


ela.
— Mas é sua casa, senhora —
argumentou Marion.
— Mesmo que fosse um palá cio,
deveria ser sacrificado — ela
declarou sem hesitaçã o.
O general entã o ordenou que os
homens preparassem as flechas,
mas antes avisou McPherson do
que ia fazer, aconselhando-o a
render-se. Teimosamente, o inglês
recusou-se a seguir a sugestã o e em
questã o de minutos o forte ardia.

1205
Flor do Pântano Patrícia Potter

Logo em seguida os britâ nicos


rendiam-se e, unidos aos
americanos, debelavam o incêndio,
em consideraçã o a uma velha
senhora.
Connor foi um dos primeiros a
alcançar ao telhado e, com a ajuda
de um soldado inglês jogou baldes
de á gua nas chamas. Os dois
trabalharam arduamente,
ignorando o calor e o perigo,
procurando apenas evitar maior
destruiçã o. Aos poucos, o fogo foi
dominado e as brasas pisadas e

1206
Flor do Pântano Patrícia Potter

cobertas de terra.
Quando tudo terminou, a casa
permanecia de pé, com sua
orgulhosa beleza maculada por
perfuraçõ es de balas e um enorme
buraco no telhado. Ingleses e
americanos apressaram-se a
consertar o teto sob o olhar
molhado de lá grimas da sra. Motte.
Mais tarde, enquanto Marion e
Lee supervisionavam o
desarmamento dos prisioneiros, a
mulher aproximou-se deles.
— Com sua permissã o, general

1207
Flor do Pântano Patrícia Potter

Marion, gostaria de convidar todos


os oficiais para jantar em minha
casa.
Ele sorriu.
— Aceitamos com prazer,
senhora. Estamos vivendo de carne
salgada há semanas.
— Todos os oficiais, general
Marion — frisou ela. — Os ingleses
também.
Francis virou-se para Lee.
— O que acha disso, coronel?
— Acho que a sra. Motte é a dama
mais graciosa que já tive o prazer

1208
Flor do Pântano Patrícia Potter

de conhecer — replicou Henry Lee


com galanteria. — Pode convidá -
los, senhora.
A brigada de Marion e a legiã o de
Lee deixaram o forte Motte no dia
seguinte, depois de tomarem ou
destruírem todos os suprimentos
ingleses.
Marchariam para Georgetown
apó s atacar diversos postos de
abastecimento de menor
importâ ncia e Marion já escrevera
a Greene pedindo-lhe permissã o
para tomar a cidade. Estavam

1209
Flor do Pântano Patrícia Potter

apenas esperando pela resposta.


Francis Marion entrou em
Georgetown no dia 27 de maio e
tomou-a com facilidade. Lorde
Rawdon já abandonara a cidade,
deixando apenas uma pequena
guarniçã o, que também debandou
com a chegada do general rebelde.
Dois dias depois Marion tomava
posse completa do lugar. Percorreu
as ruas a cavalo, aclamado por
centenas de pessoas, Samantha
entre elas. Os sinos repicavam
ecoando pela cidade, enquanto

1210
Flor do Pântano Patrícia Potter

soldados e civis gritavam


cumprimentos e cantavam. Marion,
depois de percorrer a cidade
libertada, cavalgou para a casa da
irmã , Henriette,
Connor permanecia montado,
ereto na sela, procurando uma
rosto na multidã o agitada e alegre.
Tinha certeza de que Sam nã o
ficaria trancada em casa num
momento tã o grandioso.
Finalmente a viu, com um largo
sorriso no rosto e um brilho feliz
nos olhos azuis que o fitavam

1211
Flor do Pântano Patrícia Potter

emocionados.
Cuidadosamente, ele fez o cavalo
abrir caminho até alcançá -la. Nã o
desceu do animal, ficando a olhá -la
com indisfarçado prazer.
— Está engordando bastante,
madame — provocou, cheio de
satisfaçã o e orgulho.
— Por sua causa — ela replicou
prontamente.
Ele debruçou-se sobre ela e
beijou-a, pouco se incomodando
com a curiosidade das pessoas
mais pró ximas.

1212
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Vou compensá -la por isso,


acredite.
— Espero que sim.
Ela olhava para ele com adoraçã o,
achando-o maravilhoso com o
rosto bronzeado e os olhos
cinzentos brilhando de amor e
alegria.
— Vamos para casa, Connor.
Ele inclinou-se e ergueu-a para a
sela com extremo cuidado.
— Pobre cavalo! — comentou
rindo. — Está acostumado a
carregar dois, mas três já é demais.

1213
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ela riu e ele passou um braço pela


cintura volumosa, enquanto com a
outra mã o manejava as rédeas e
guiava o animal para a casa de
Denney. Chegando lá , entraram na
casa de mã os dadas, do modo mais
casto possível. Quando a porta
fechou-se atrá s deles, atiraram-se
nos braços um do outro, famintos
de amor e torturados pela saudade.
— Senti falta de você, Connor.
Cada minuto longe foi um
sofrimento.
Ele apoiou o rosto nos cabelos

1214
Flor do Pântano Patrícia Potter

dela, apertando-a nos braços,


sentindo-se um homem completo.
Como a amava! Adorava seu riso,
suas brincadeiras, sua paixã o.
Samantha apertou-se de encontro
a ele, tanto quanto o ventre
crescido lhe permitia. Sentia-se
segura e confiante. Sabia que tudo
ia dar certo. Quando o bebê
nascesse ela lhe contaria tudo e ele
compreenderia, mas nã o queria
pensar em problemas num
momento tã o especial.
Mais tarde, no quarto, ela colocou

1215
Flor do Pântano Patrícia Potter

as mã os dele sobre a barriga e


Connor sentiu o bebê chutar e
mexer-se. O filho tornou-se real
para ele e seus olhos umedeceram-
se de terna emoçã o. Seu filho e sua
esposa. Tal felicidade era
completamente nova para ele, tã o
intensa que chegava a dar medo.
Tocou Sam quase com reverência,
mas a moça rebelou-se, desejando
carícias mais audaciosas.
Quando finalmente adormeceram,
muito tempo depois, ainda estavam
estreitamente abraçados.

1216
Flor do Pântano Patrícia Potter

A brigada de Francis Marion


descansou em Georgetown durante
vá rias semanas. Estavam todos
exaustos depois de meses de luta
constante e a ordem era descansar
para recobrar energias. O verã o
prometia ser longo e rigoroso e
ainda havia muito que fazer nó
combate às forças britâ nicas.
Embora os soldados ingleses se
rendessem apó s cada destruiçã o de
um posto de abastecimento, ainda
havia muitos entre Charleston e
Orangeburg, Infelizmente a guerra

1217
Flor do Pântano Patrícia Potter

ainda nã o terminara.
Para Sam e Connor aquele fora um
período de felicidade sem limites.
Cada dia era uma surpresa,
começado com entusiasmo e
encerrado com ternura e alegria.
Ele ainda tinha deveres a cumprir
junto ao regimento e ficava fora de
casa boa parte do dia, mas cada vez
que se reencontravam sua
felicidade se renovava.
Na terceira semana da pausa
abençoada, Connor anunciou que
teria de partir dentro de dois dias.

1218
Flor do Pântano Patrícia Potter

Francis Marion estudava uma nova


campanha e deixaria apenas uma
pequena guarda na cidade. Os
ingleses continuavam a dominar
Charleston e Orangeburg, fazendo
contínuas excursõ es à s fazenda
vizinhas com a finalidade de
conseguir alimentos e artigos
necessá rios à sobrevivência.
Marion desejava acabar com
aqueles ataques enquanto esperava
que Greene reforçasse seu exército
e finalmente tomasse as duas
cidades.

1219
Flor do Pântano Patrícia Potter

Estavam partilhando uma ceia, já


tarde da noite, aproveitando cada
minuto do tempo que ainda tinham
juntos, quando ouviram uma
carruagem parar à porta e passos
apressados subirem a escada do
alpendre.
Connor levantou-se e caminhava
para a porta, quando um oficial do
Exército Continental,
impecavelmente vestido, entrou
trazendo uma bonita moça pela
mã o.
— Denney! — exclamou Connor,

1220
Flor do Pântano Patrícia Potter

admirado. — Vejo que seguiu meu


conselho.
Os dois amigos abraçaram-se
trocando congratulaçõ es.
A jovem olhava-os sorridente e
quando os dois se separaram, ela
colocou-se na ponta dos pés e
beijou o rosto de Connor.
— Foi graças a você que tivemos
coragem de tomar uma decisã o.
Obrigada.
Naquele instante, Samantha
apareceu ao lado deles com um
sorriso confuso no rosto e Connor

1221
Flor do Pântano Patrícia Potter

abraçou-a.
— Esta é Sam — apresentou com
orgulho. — Sam, este é Denney
Demerest, cuja casa estamos
usando, e esta é Caroline.
Denney juntou os calcanhares e
fez uma graciosa reverência.
— Tenho muito prazer em
conhecê-la, sra. O’Neill. Quando
soube que Connor havia se casado
logo adivinhei que devia ser
alguém muito especial. Vejo que
nã o me enganei.
Samantha corou lisonjeada e

1222
Flor do Pântano Patrícia Potter

simpatizou com o rapaz, mas


estava curiosa a respeito de
Caroline, uma jovem que detestara
tã o ferozmente durante algum
tempo. Sorriu para ela.
— Estã o casados há pouco tempo,
nã o é?
— Duas semanas — respondeu
Denney cheio de felicidade. — Mas
preciso voltar para junto de Greene
e pensei... achei... que Caroline
poderia ficar aqui — gaguejou sem
jeito.
— Naturalmente — disse Connor.

1223
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Procuraremos outra casa


amanhã .
— Nã o, você nã o me entendeu,
Connor. Nã o quero que Caroline
fique sozinha. A família dela ainda
está furiosa por causa do
casamento e a minha também, devo
dizer. Pensei que ela poderia ficar
aqui com você e Sam. Quando nó s
dois estivermos fora elas terã o a
companhia uma da outra.
Samantha achou a idéia
maravilhosa. Quando Connor nã o
estava ela sentia-se muito solitá ria.

1224
Flor do Pântano Patrícia Potter

Aproximou-se de Caroline e tomou


as mã os da moça nas suas.
— Será ó timo ficarmos juntas.
Por favor, diga que também gosta
da idéia.
A simpatia entre as duas mulheres
foi imediata.
— É claro que desejo ficar com
você, Sam — a moça respondeu
com um sorriso franco.
— Entã o estamos combinados —
decidiu Denney. — Cecil! —
chamou, voltando-se para a porta.
Num instante, Cecil e Mary

1225
Flor do Pântano Patrícia Potter

entraram na sala carregando as


malas e foram apresentados a
Caroline.
Os quatro cearam juntos e aquela
refeiçã o se tornaria inesquecível,
pois marcava o início de uma
amizade sincera e duradoura.
Samantha confessou que detestara
Caroline sem nem mesmo conhecê-
la e a moça riu.
— Se eu nã o estivesse tã o
apaixonada por Denney, confesso
que teria tentado conquistar
Connor, mas aposto como teria

1226
Flor do Pântano Patrícia Potter

fracassado. Agora sei que ele só


pensava em você.
Os momentos de alegria
despreocupada terminaram
quando os dois homens
começaram a falar da guerra.
Nenhum deles tinha esperança de
que o conflito terminasse dentro de
um curto espaço de tempo, embora
a situaçã o estivesse mudando,
melhorando as perspectivas do
lado americano.
Finalmente, retiraram-se para os
quartos. Connor e Sam

1227
Flor do Pântano Patrícia Potter

continuaram a ocupar o dormitó rio


principal, enquanto Denney e
Caroline acomodavam-se no de
hó spedes.
Samantha estava quieta,
impressionada com a conversa dos
dois oficiais, quase entrando em
pâ nico com a idéia de que o marido
ia voltar para os campos de
batalha, onde cada segundo
representava um perigo.
— Gostei muito de Denney e
Caroline — declarou, disfarçando o
desgosto.

1228
Flor do Pântano Patrícia Potter

O marido inclinou-se para beijá -la


e ela abraçou-o com sofreguidã o.
Nã o podiam desperdiçar o pouco
tempo que ainda tinham para se
entregar à paixã o.
Os homens partiram dois dias
depois e Samantha e Caroline
entraram na rotina da espera.
A amizade entre as duas
fortalecia-se a cada dia, mas
Caroline percebia que nem tudo
estava bem com a amiga,
estranhando a relutâ ncia de Sam
em falar sobre a família e o

1229
Flor do Pântano Patrícia Potter

passado. Discreta, a moça dedicou-


se a ajudar a futura mamã e, sem
pressioná -la a falar de assuntos que
a desagradavam.
As duas preparavam o enxoval do
bebê, liam, conversavam e
esperavam.

CAPÍTULO XXV

Robert Chatham sentia-se


perdido, sem nenhum objetivo.

1230
Flor do Pântano Patrícia Potter

Durante a primavera e o verã o os


fortes ingleses haviam caído nas
mã os dos rebeldes, um apó s outro.
As tropas britâ nicas achavam-se
encurraladas em Charleston. Quase
toda a á rea de Williamsburg, antigo
reduto inglês, achava-se sob o
domínio dos americanos da
Carolina do Sul e a derrota final era
apenas uma questã o de tempo. Ele
nã o tinha a menor dú vida de que
sua fazenda lhe seria tirada assim
como perderia as terras que
tomara dos rebeldes punidos.

1231
Flor do Pântano Patrícia Potter

Alguns dos tories mais faná ticos


recusavam-se a aceitar as idéias
derrotistas de Robert Chatham.
Alegavam que Cornwallis ainda
possuía um exército poderoso na
Virgínia e que Henry Clinton
permanecia firme em Nova York.
Mas Chatham sabia que tudo
terminara. Um exército francês já
marchava sobre a Virgínia,
auxiliando os americanos, e uma
esquadra francesa navegava para a
América, indo ao encontro de
George Washington. Os britâ nicos

1232
Flor do Pântano Patrícia Potter

encontravam-se envolvidos em
conflitos pelo mundo todo e já nã o
havia dinheiro nem forças para
manterem exércitos na América.
Vendo que o fim se aproximava
inexoravelmente, Robert Chatham
convocou uma reuniã o dos mais
proeminentes tories.
Foi um encontro tenso e
desagradável. Alguns agarravam-se
à ilusã o de que os ingleses jamais
se deixariam derrotar por uma
naçã o tã o jovem e sem recursos.
Outros, nã o muitos, já planejavam

1233
Flor do Pântano Patrícia Potter

mudar-se para o Canadá ou para


alguma das ilhas britâ nicas no
Caribe. Um grupo muito maior
decidira aceitar os fatos, submeter-
se aos desejos dos americanos e
permanecer onde estavam.
Finalmente, havia os que, como
Chatham, acreditavam que o fim
estava pró ximo, mas achavam-se
decididos a lutar até o ú ltimo
instante.
A reuniã o terminou entre duras
acusaçõ es e recriminaçõ es
cortantes. Quando todos se

1234
Flor do Pântano Patrícia Potter

retiraram, ficaram apenas cinco


reunidos. Eram os que estavam
dispostos a lutar até o fim e
prestaram juramento de que jamais
desistiriam. Finalmente sozinho,
Robert Chatham andava pelo
escritó rio nervoso e irritado. Os
homens que haviam ficado a seu
lado na realidade nã o tinham muito
a perder continuando a luta. Todos
estavam na lista negra de Marion,
pois haviam matado, incendiado,
roubado e confiscado durante os
três anos passados. Nã o seriam

1235
Flor do Pântano Patrícia Potter

perdoados quando a guerra


terminasse. E nem queriam ser.
Ó dio e destruiçã o haviam se
constituído em seu modo de vida.
Chatham sabia que
principalmente ele nã o teria
condiçõ es de viver nas Carolinas.
Francis Marion e Greene estavam
ocupados na campanha para
libertar Charleston, mas uma vez
que a tarefa estivesse terminada
inevitavelmente voltariam sua
atençã o para Williamsburg,
atacando os tories da regiã o. E

1236
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor O’Neill estaria no meio dos


rebeldes, sedento de vingança.
Pensar em Connor O’Neill
deixava-o transtornado. Jamais
esqueceria a humilhaçã o que
sofrera nas mã os dele no dia que
fora a Glen Woods apó s a morte da
esposa, causada pelos malditos
irlandeses. Também sabia que a
morte de Brendan fora a causa do
desaparecimento de Samantha. Ele
pró prio nã o tinha nenhuma culpa
naquilo tudo. Sua filha fora
seduzida por um O'Neill. Sua

1237
Flor do Pântano Patrícia Potter

adorada Elizabeth morrera por


culpa dos O’Neill. Nada mais
restava. Só o frio da solidã o e do
ó dio de ver suas esperanças se
desfazendo até desaparecer.
Nã o teria estô mago para conviver
com os canalhas que assumiriam o
governo do país, assim como nã o
possuía mais energia ou desejo de
começar tudo de novo. Morreria
nas Carolinas, morreria pelo rei,
mas se entregaria alegremente à
morte se conseguisse arrastar
Connor O’Neill com ele.

1238
Flor do Pântano Patrícia Potter

Sentou-se à escrivaninha e
escreveu o plano que apresentaria
aos quatro homens que o
acompanhariam na ú ltima luta
desesperada.
Francis Marion convencera o
governador da Carolina do Sul,
Rutíedge, a promulgar uma lei que
perdoava os tories. O governador,
prevendo a necessidade de paz
doméstica quando a guerra
acabasse, reconhecera o valor da
medida, com certas restriçõ es.
Assim, proclamara que todos os

1239
Flor do Pântano Patrícia Potter

tories, com exceçã o daqueles que


haviam trabalhado para Cornwallis
ou Clinton e dos que ocupavam
cargos comissionados pelo governo
inglês, receberiam o perdã o se
aparecessem num quartel
americano ou perante uma brigada
dispostos a servirem, pelo menos
durante seis meses, à causa
patriota. Um grande nú mero deles,
que desejava permanecer nas
Carolinas, já havia passado para o
lado dos americanos.
E era justamente essa lei que

1240
Flor do Pântano Patrícia Potter

Chatham pretendia usar como isca


na armadilha que imaginara.

Connor estava com calor,


deprimido e exausto. Nã o via Sam
desde julho e já estavam no meio
de agosto, mas nã o podia ausentar-
se do regimento porque Francis
continuava a usá -lo como ligaçã o
entre ele, Greene e Sunter, um líder
independente muito parecido com
Marion, mas sem seus rígidos
princípios éticos. Isso causava
freqü entes desavenças entre os

1241
Flor do Pântano Patrícia Potter

dois generais e Connor aplicava seu


talento de apaziguador para
minimizar os conflitos. Nem
sempre a tarefa era fá cil, pois
Sunter nutria grande
ressentimento contra a crescente
autoridade de Marion.
Tudo começara durante a batalha
de Quinby, quando Sunter, na
ausência de Marion, ordenara que
Peter Horry se expusesse numa
posiçã o de perigo enquanto ele e
seus homens permaneciam atrá s,
em segurança. A tropa fora

1242
Flor do Pântano Patrícia Potter

dizimada e Horry o acusara


amargamente de
irresponsabilidade. Marion, através
de Connor, tentava desesperada-
mente manter a paz com a milícia
de Sunter para evitar que se
separasse do resto do exército num
momento crítico, como aquele, em
que os britâ nicos representavam
uma séria ameaça em Charleston.
Connor acabara de chegar ao
acampamento de Marion, perto de
Monck's Corners, quando recebeu
uma mensagem. Francis fora ao

1243
Flor do Pântano Patrícia Potter

encontro de Greene, de modo que


foi o major John James quem
silenciosamente entregou-lhe uma
carta com o timbre de Robert
Chatham.
O rosto de Connor era impassível
enquanto ele lia o texto. Sem uma
palavra deu a carta a James, que a
estudou durante alguns instantes.
— Acredita nele, Connor?
— Tanto quanto acredito no
diabo. Chatham desejando
entregar-se? A mim,
principalmente? Tudo em nome

1244
Flor do Pântano Patrícia Potter

"da paz"? O homem deve estar


louco.
— Mas se estivesse sendo sincero
ajudaria muito em Williamsburg.
Chatham tem muita influência lá .
— O desgraçado nã o pode estar
sendo sincero e ao que me consta
nã o tem direito ao perdã o. Foi
colaborador direto dos ingleses.
James olhou para o companheiro
e viu uma expressã o que nunca vira
no rosto de Connor. Um ó dio
terrível transparecia nos olhos
cinzentos, frios como o gelo.

1245
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Ele quer me pegar — explicou


Connor. — Quer que eu vá lá ,
sozinho. E irei.
— Vai ser perigoso, major. Espere
até que Marion retorne. Ele
mandará alguns homens com você.
— Nã o. Já esperei demais. O que
existe entre aquele homem e mim é
extremamente pessoal.
James olhou-o desanimado.
— Francis nã o vai gostar disso.
Connor riu, mas nã o havia alegria
alguma naquele riso.
— Paciência. Ninguém poderá me

1246
Flor do Pântano Patrícia Potter

impedir. Diga a Francis que voltarei


assim que for possível.
Dentro de instantes, Connor já
selara um cavalo e saía do
acampamento, deixando James a
ler e reler a carta de Robert
Chatham.
Uma hora mais tarde, Marion
chegou e o major explicou-lhe o
que acontecera. Sem hesitaçã o, o
general ordenou uma troca de
cavalos e escolheu seis homens
para o acompanharem. Aborrecido,
Marion praguejava baixinho. Na

1247
Flor do Pântano Patrícia Potter

certa, o amigo estava se


encaminhando para uma
armadilha. De qualquer forma,
aquele encontro significava a ruína
do amor de Sam e Connor O'Neill.
Xingando a si mesmo por nã o haver
revelado ao companheiro a
verdade, partiu a galope.
Robert Chatham achava-se à
espera. Seus quatro amigos haviam
sido colocados em pontos
estratégicos da casa e do está bulo,
enquanto um escravo vigiava a
estrada.

1248
Flor do Pântano Patrícia Potter

Estava impaciente, depois de dois


dias aguardando a chegada do
odiado inimigo. Tinha certeza de
que Connor O'Neill apareceria, a
menos que nã o houvesse recebido
a mensagem. Se a sorte estivesse
mesmo do seu lado, Marion
também cairia na emboscada e ele
pegaria dois grandes adversá rios
da coroa.
Ainda nã o sabia o que faria a
seguir. Talvez ficasse esperando
outros rebeldes que certamente
iriam atrá s dos companheiros,

1249
Flor do Pântano Patrícia Potter

dispostos à vingança. Mas aquilo


nã o fazia diferença. O que ele
desejava mais do que já desejara
algo na vida, era apanhar Connor
O'Neill.
Andava sem cessar de um cô modo
para outro da casa, mais uma vez
admirando sua clá ssica elegâ ncia.
Construíra aquela moradia trinta
anos atrá s e ela continuava bela,
talvez mais ainda do que no
começo. Os painéis de madeira das
paredes haviam escurecido com o
tempo e adquirido uma rica

1250
Flor do Pântano Patrícia Potter

tonalidade. Os candelabros de
cristal que ele importara da
Inglaterra cintilavam ao sol,
lançando minú sculos arco-íris
sobre os mó veis e o chã o.
Mas era uma casa vazia. Seus
lá bios apertaram-se de amargura
quando ele pensou em Elizabeth,
cujo riso o alegrara mais que
milhares de raios de sol
atravessando os pingentes de
cristal dos lustres.
E Samantha. Ficara surpreso ao
sentir falta da filha. Nunca prestara

1251
Flor do Pântano Patrícia Potter

nenhuma atençã o a ela, detestando


olhar para um rosto tã o parecido
com o de Elizabeth e que
despertava saudade pungente.
Porém, quando nã o mais ouvira o
riso da moça ecoando pela casa
percebera o quanto perdera.
— Onde você está , Samantha? —
murmurou.
Fechou os olhos e viu todo o
cená rio de sua vida á rida.
Nã o. A morte nã o o atemorizava e
seria até bem-vinda se levasse
Connor O'Neill também. Iriam

1252
Flor do Pântano Patrícia Potter

juntos para o inferno. Voltou para a


varanda e foi de lá que viu o
escravo que ficara vigiando a
estrada chegar a galope. Alguns
minutos depois, todos estavam
avisados da aproximaçã o de
Connor e prontos para a açã o. Um
homem achava-se no só tã o do
celeiro, que se abria para o lado de
fora, dois escondiam-se no andar
de cima da casa e o quarto postara-
se no está bulo, atrá s das á rvores.
Chatham entrou em casa e foi
para o escritó rio, onde pegou uma

1253
Flor do Pântano Patrícia Potter

pistola de duelo. Era a mesma arma


que matara Brendan O'Neill e
muitos outros. Robert Chatham era
um exímio atirador.
Colocou a pistola no cinturã o que
trazia ao redor dos quadris e saiu
tranqü ilamente para a varanda
justamente quando Connor se
aproximava da casa. O oficial da
milícia rebelde estava sozinho.
Connor movia-se cautelosamente,
tendo sérios motivos para nã o
confiar em Chatham. Seus olhos
experientes examinaram toda a

1254
Flor do Pântano Patrícia Potter

á rea e nã o deixaram de perceber


um ligeiro movimento nas cortinas
de uma janela do segundo andar. O
instinto de guerreiro avisou-o de
que havia outros homens
espalhados por ali e ele chamou-se
de idiota por ter teimado em ir
sozinho ao encontro do inimigo.
Mas já esperara demais por aquele
momento. Parou e desceu do
cavalo, pegando o rifle. Levava
também uma pistola no cinto.
— Ouvi dizer que deseja receber o
perdã o do governador, Chatham —

1255
Flor do Pântano Patrícia Potter

disse com frio sarcasmo.


O outro riu.
— Acreditou nisso, O'Neill?
— Nã o, mas vim para pegá -lo.
Com um rá pido olhar para os altos
da casa descobriu um rosto em
outra janela. Deu uma risada de
deboche, voltando a olhar para o
velho na varanda.
— Entã o precisa de ajuda, nã o é?
Só enfrenta garotos sem o auxílio
de ninguém.
Os lá bios de Chatham apertaram-
se de ó dio, mas ele controlou-se

1256
Flor do Pântano Patrícia Potter

para nã o perder a paciência e atirar


no momento errado. Atirava bem,
mas desconfiava de que o maldito
O'Neill tinha ainda mais perícia
empunhando uma arma. Nã o ia se
precipitar e perder a oportunidade
de varrer o ú ltimo sobrevivente da
família mais odiada da face da
terra. Conseguiu sorrir.
— Só quero ter certeza de que
vou acabar a tarefa que comecei
dois anos atrá s. Na verdade pensei
que o navio-prisã o fosse me poupar
esse trabalho. Gostou de lá , Connor

1257
Flor do Pântano Patrícia Potter

O'Neill?
Chatham queria provocá -lo o mais
que pudesse. Dera ordens para que
os homens atirassem apenas
quando Connor erguesse a arma e
enquanto isso nã o acontecesse
pretendia divertir-se um pouco.
— Pensou em mim enquanto
estava preso, irlandês? Pensou em
mim quando seu pai morreu?
— Seu miserável! — gritou
Connor erguendo o rifle. Chatham
ainda nã o sacara a arma e Connor
sabia que o perigo maior vinha dos

1258
Flor do Pântano Patrícia Potter

homens no andar superior. O rifle


cuspiu fogo e um homem
despencou de uma das janelas.
Connor atirou-se ao chã o e jogou o
rifle para o lado, pegando a pistola.
Uma bala cravou-se na terra perto
dele e, olhando na direçã o do tiro,
ele viu um vulto no só tã o do
celeiro. Atirou e o homem caiu. Em
seguida, ouviu um tiroteio e,
quando tudo silenciou, teve a
impressã o de que só ele e Chatham
haviam sobrado. O inimigo de
tantos anos levou a mã o à arma e

1259
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor apontou a pistola para ele,


observando o rosto do homem
contorcer-se de puro ó dio.
Chatham ia atirar quando seu
corpo caiu para trá s e o sangue
espirrou-lhe do peito empapando a
camisa branca.
Connor nã o chegara a apertar o
gatilho. Olhou para trá s
enraivecido. Chatham devia ter
morrido por suas mã os, mas o
direito de vingança lhe fora negado.
Francis Marion aproximou-se
segurando o rifle que ainda

1260
Flor do Pântano Patrícia Potter

fumegava. Cinco homens vinham


atrá s dele e havia um corpo no
chã o. O general apontou para o
companheiro morto e olhou para
Connor com severidade.
— Fez uma coisa muito estú pida,
major. Nã o devia ter vindo sozinho.
— Eu queria matar Chatham e
você me negou essa satisfaçã o,
Francis. Eu precisava matá -lo, como
ele matou meu irmã o e meu pai!
— Se eu nã o atirasse ele atiraria
em você, mas desculpe-me se agi
mal. Nã o sabia que seu orgulho era

1261
Flor do Pântano Patrícia Potter

maior que seu bom senso.


Mas Connor estava imune a
qualquer raciocínio, por mais
ló gico que fosse.
— Você nã o tinha o direito de se
meter, Francis!
O general desceu da montaria e
aproximou-se do amigo. Chegara a
hora de revelar a verdade.
Cautelosamente, estudou o rosto
do major.
— Se eu nã o me metesse você
teria matado o avô de seu filho, ou
teria morrido pelas mã os dele.

1262
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor olhou-o em total confusã o,


até que as palavras começaram a
abrir caminho em sua mente,
fulminando-o com seu significado.
Deu um passo atrá s, estarrecido.
— Nã o — disse num murmú rio.
— Nã o pode ser verdade.
— Connor...
— Nã o é possível! Sam nã o é... Oh,
Deus!
— Ela o ama, Connor. Deu-lhe
tudo. Desistiu de tudo por amor a
você — disse o general, tentando
fazer o amigo compreender.

1263
Flor do Pântano Patrícia Potter

Mas Connor parecia insensível a


qualquer argumento. Caminhou
vagarosamente para o cavalo e
montou. Olhou mais uma vez para
o cadáver de Robert Chatham e
chicoteou a montaria, fazendo-a
disparar a galope.
Um sargento olhou para Marion.
— Acha que um de nó s deveria
segui-lo, senhor? O general sacudiu
a cabeça.
— Nã o. Ele precisa ficar sozinho.
CAPÍTULO XXVI

1264
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha estava na sala de


visitas, lendo, quando ouviu o
tropel de cascos aproximando-se
da casa. Denney continuava fora,
com o exército de Greene, e
Caroline encontrava-se no andar de
cima, descansando. O calor de
agosto era sufocante, mas
Samantha achava que deitar-se
durante o dia nã o ajudava muito.
Preferia distrair-se com um bom
livro.
Levantou-se com movimentos
desajeitados, sentindo todo o peso

1265
Flor do Pântano Patrícia Potter

do bebê e percebendo que a


criaturinha dava chutes em seu
ventre. Sorriu. As mulheres
costumavam dizer que o ú ltimo
mês de gravidez era sempre o mais
terrível, quando a mã e parecia
engordar a olhos vistos, ficando
mais pesada a cada dia. Ela porém
nã o se sentia nem gorda demais
nem aborrecida. Saboreava cada
minuto, imaginando o garoto
saudável que nasceria dentro de
pouco tempo. Estranhamente, nã o
tinha dú vida alguma de que seria

1266
Flor do Pântano Patrícia Potter

um menino, mas nã o saberia


explicar de onde lhe vinha tã o forte
convicçã o. Ela já amava aquela
criança com toda a intensidade de
seu coraçã o e mal podia esperar
para apertá -la nos braços.
Ouviu passos na escada do
alpendre e reconheceu-os. Connor
estava chegando. Um sorriso
radiante desenhou-se em seu rosto
quando ele abriu a porta e entrou,
mas a expressã o que viu nos olhos
que a fitavam apagou sua alegria.
Ele estava pá lido e sua frieza a fez

1267
Flor do Pântano Patrícia Potter

estremecer. Deu um passo na


direçã o dele, com as mã os
estendidas.
— Connor...
— Samantha. Nã o é esse seu
nome? — ele perguntou em voz tã o
baixa que ela mal distinguiu as
palavras.
Entã o teve a impressã o de que o
mundo ruía a sua volta. Aquela
calma fria que ele aparentava era
mil vezes pior que qualquer
explosã o de fú ria. Ela deu um passo
atrá s e suas mã os procuraram a

1268
Flor do Pântano Patrícia Potter

borda de uma mesa em busca de


apoio.
— Entã o é verdade — continuou
ele. — Tive a esperança de que
Francis estivesse enganado, mas
nã o estava. Sam... Samara...
Samantha... diga-me uma coisa.
Você alguma vez disse algo que nã o
fosse mentira? Que idiota fui, nã o é
mesmo? O maior imbecil do mundo
inteiro.
Ela o fitava como se estivesse
hipnotizada, nã o conseguindo
desviar os olhos dos dele, muda e

1269
Flor do Pântano Patrícia Potter

desesperada.
— O que pretendia, Samantha?
Brendan nã o foi suficiente? Por que
quis destruir dois O'Neill com esse
ar de criança inocente? Pensou que
eu acabaria como Brendan,
Samantha? Pensou?
As palavras a atingiam como
chicotadas e ela começou a afastar-
se, mas a mã o dele aprisionou-lhe o
pulso.
— Nã o, Samantha. Você nã o vai
fugir desta vez. Vai me dizer por
que fez isso comigo, por que

1270
Flor do Pântano Patrícia Potter

mentiu sem parar.


Ela porém nã o conseguia emitir
som algum, tomada de horror. Teria
sido capaz de suportar a raiva dele,
mas nã o aquele frio sarcasmo.
Connor transformara-se num
estranho cruel que escolhia as
palavras certas para feri-la
profundamente.
— Nã o vai me dar explicaçõ es,
Samantha? Sempre foi tã o fértil em
inventar histó rias! Será que perdeu
a imaginaçã o?
Olhou-a de alto a baixo,

1271
Flor do Pântano Patrícia Potter

analisando-a.
— Nã o está com boa aparência,
Samantha, Sam — comentou,
fazendo questã o de repetir o nome
dela como se fosse uma
obscenidade. — Nã o quer sentar-
se?
Empurrou-a, forçando-a sentar-se
na cadeira que ocupara momentos
antes. Momentos ou milênios
antes? A mente dela parara de
funcionar, presa à quele instante de
tortura em que via o homem
amado transformar-se num

1272
Flor do Pântano Patrícia Potter

impiedoso.
— Sente-se para ouvir uma
notícia. Seu pai está morto,
Samantha. Foi ele quem morreu e
nã o eu. Seus planos nã o deram
certo, nã o é?
Dizendo aquelas palavras cruéis,
Connor nã o obteve a satisfaçã o que
esperava. Ela fechou os olhos por
um instante e tornou a abri-los,
encarando-o com firmeza.
— Foi você quem o matou?
— Nã o, embora fosse esse o meu
desejo. Francis roubou-me o prazer

1273
Flor do Pântano Patrícia Potter

de aniquilar aquele verme.


Ela percebeu a crueldade das
palavras, mas nã o foi atingida.
Estava entorpecida, vazia. O bebê,
talvez sentindo o sofrimento da
mã e, deu um chute mais forte e ela
instintivamente cobriu a barriga
com os braços num gesto protetor.
— Nã o vou bater em você. Nem
sequer desejo tocá -la com um dedo.
Também nã o quero mais vê-la nem
o filho que carrega.
Ela pensara que nã o poderia ouvir
nada mais terrível do que já ouvira,

1274
Flor do Pântano Patrícia Potter

mas aquelas palavras tiveram o


efeito de um punhal que se cravava
em seu coraçã o, tirando-a do
torpor para lançá -la no mais
profundo desespero.
Ele virou-se para sair.
— Sustentarei você e seu filho,
mas nã o quero nenhuma ligaçã o
com uma Chatham. Se precisar de
alguma coisa, entre em contato
com Annabelle.
Andou até a porta e voltou-se
mais uma vez para olhá -la.
— Foi tudo uma mentira? -—

1275
Flor do Pântano Patrícia Potter

perguntou com voz ligeiramente


descontrolada.
Ela estava tã o perdida em seu
desespero que nã o pô de responder
de imediato.
— Meu amor por você nã o foi uma
mentira — murmurou quando ele
já havia saído. — Eu sempre o
amarei, Connor.

Na rua, Connor lançou a cabeça


para trá s, cheio de agonia. Desejava
gritar, lutar, ferir, atacar, fazer
qualquer coisa que o impedisse de

1276
Flor do Pântano Patrícia Potter

ser perseguido por aqueles olhos


azuis banhados de desespero. Sabia
porém que nunca se livraria deles.
Precisando de algo para
descarregar sua raiva, pensou em
Francis. Ele sabia de tudo e nada
lhe dissera. Era seu amigo e o
traíra. Precisava descobrir por quê.
Caroline, ouvindo a porta da rua
bater, levantou-se ainda sonolenta.
Com a esperança de que Denney
houvesse retornado, vestiu-se
depressa e desceu.
Sam estava sentada numa cadeira,

1277
Flor do Pântano Patrícia Potter

rígida, pá lida e de olhar vazio. Nã o


percebeu a presença de Caroline e
nã o fez um movimento sequer.
— Sam? — chamou Caroline com
voz aflita.
Nã o houve resposta.
— Sam, quem esteve aqui?
Connor?
Ao ouvir o nome dele, Sam piscou,
mas nã o se moveu. Era como se
algo dentro dela houvesse partido e
ela temia mexer-se, como se
qualquer gesto fosse quebrá -la em
mil pedaços. Nã o queria sentir, nem

1278
Flor do Pântano Patrícia Potter

pensar, nem sair dali.


— Mary! Cecil! — a outra moça
gritou. Quando os dois apareceram
ela interrogou-os.
— Nã o, madame, nã o vimos nada.
Fui comprar verduras e Cecil estava
no pá tio tratando dos cavalos —
Mary explicou.
Caroline ajoelhou-se, ao lado de
Sam.
— O que foi, querida? Aconteceu
alguma coisa a Connor? Samantha
continuou calada e imó vel. Nã o
acreditava no sofrimento que a

1279
Flor do Pântano Patrícia Potter

torturava. Nada podia, ser tã o


doloroso. Caroline desesperava-se,
quase entrando em pâ nico.
— Cecil, chame o médico. Mary,
ajude-me a levá -la para cima.
A moça tomou a mã o de Sam e
puxou-a de leve, ficando
surpreendida quando a outra
ergueu-se obedientemente. Nã o
houve resistência, mas as duas
mulheres tinham a impressã o de
estarem levando uma criança meio
adormecida para a cama. Tiraram-
lhe a roupa, vestindo-a com uma

1280
Flor do Pântano Patrícia Potter

camisola, enquanto Sam


continuava completamente apá tica.
Mary olhou para a forma deitada
na cama e enxugou os olhos no
avental.
— Essa nã o é a sra. O'Neill. Nã o
pode ser.
— É verdade, Mary. Como eu
gostaria de saber o que aconteceu,
meu Deus! Talvez o médico possa
dizer alguma coisa.
Mas nã o pô de. O doutor sempre
admirara aquela paciente que
esperava o bebê com tanta

1281
Flor do Pântano Patrícia Potter

ansiedade e nã o escondia o amor


apaixonado que dedicava ao
marido. Ficou tã o espantado
quanto as pessoas da casa.
— Ela sofreu algum choque, disso
nã o há dú vida. E como se ela
desejasse anular-se, deixar de
existir.
Caroline aproximou-se da cama.
— Sam, o bebê. Pense no bebê,
querida.
Só entã o a jovem mulher
demonstrou alguma emoçã o e o
médico percebeu a profunda

1282
Flor do Pântano Patrícia Potter

agonia que a dominava. Inclinou-se


sobre a cama.
— Sra. O'Neill. Nã o pode
entregar-se dessa forma. O bebê
precisa da senhora. Nã o importa o
que aconteceu, deve proteger a
criança que vai nascer.
Ela balançou a cabeça lentamente,
concordando, mas o rosto bonito
continuava sem expressã o.
O médico fez um gesto para que
Caroline o acompanhasse para fora
do quarto.
— Tente descobrir o que

1283
Flor do Pântano Patrícia Potter

aconteceu e procure entrar em


contato com o marido dela. Force-a
comer. Está a apenas uma semana
do parto e precisa estar forte.
Mande chamar-me se precisar. A
qualquer hora. Voltarei amanhã .
Caroline mandou uma mensagem
para o ú ltimo lugar onde ela sabia
que Marion acampara, mas o
general se mudara de lá e o
mensageiro, em vez de procurar o
novo acampamento, voltara a
Georgetown. A moça enviou
diversas outras, sem perda de

1284
Flor do Pântano Patrícia Potter

tempo.
Enquanto nã o encontrava Connor,
Caroline cuidava de Samantha
como de uma criança. Nã o havia
melhora no estado da amiga e Sam
apenas comia quando a outra lhe
falava no bebê. Mesmo assim,
alimentava-se pouco, aceitando
pequenos bocados que mastigava
por longo tempo. Caroline pensava
na alegria que parecia transbordar
dos olhos azuis, da energia que
dominava a amiga anteriormente, e
tinha vontade de chorar. Nunca se

1285
Flor do Pântano Patrícia Potter

sentira tã o inú til em toda a sua


vida. Nã o sabia o que mais poderia
fazer para ajudar a outra e
começava a desesperar-se.
No quarto dia, aproximou-se da
porta de Sam e ficou radiante ao
perceber que havia movimento lá
dentro. Bateu e entrou. Sam estava
de pé, andando de um lado para o
outro, mas o rosto delicado
mantinha a expressã o vazia e
alienada. Colocara uma bolsa sobre
a cama e procurava colocar roupas
dentro, mas os gestos eram por

1286
Flor do Pântano Patrícia Potter

demais lentos e descontrolados.


— Sam! O que está fazendo, meu
bem? — perguntou Caroline.
— Vou embora. Connor quer que
eu me vá .
— Nã o! Ele a ama. Ele a ama como
poucos homens amam uma mulher,
Sam!
A outra sorriu tristemente.
— Nã o. Preciso ir antes que ele
volte.
— Vai para onde, querida? E o
bebê? Está perto de nascer.
— Tomarei conta dele. Meu bebê é

1287
Flor do Pântano Patrícia Potter

tudo o que me resta.


Pegou mais uma peça de roupa e
começou a dobrá -la. Caroline
fitava-a completamente atô nita.
Percebia pela voz firme de Sam que
nada a deteria. Procurou palavras
para tentar convencê-la, mas
desistiu. Se ao menos soubesse o
que acontecera ou onde encontrar
Connor!
De repente, lembrou-se de
Annabelle. Nunca se encontrara
com a mulher, mas Sam falara da
amizade das duas. Haviam rido

1288
Flor do Pântano Patrícia Potter

bastante quando Sam lhe contara


da primeira visita ao bordel e das
intençõ es de Connor de iniciar "o
rapazinho" nos prazeres do amor. A
princípio, a moça ficara
horrorizada com a idéia de
mulheres direitas tendo amizade
com uma prostituta, mas Sam
rapidamente remediara aquilo
falando da bondade e da gentileza
da mulher, acabando por deixar
Caroline fascinada.
Sem demora, escreveu um bilhete
para Annabelle, pedindo-lhe para

1289
Flor do Pântano Patrícia Potter

vir vê-la. Quase riu do espanto, de


Cecil quando lhe deu o endereço. O
negro saiu balançando a cabeça,
totalmente incrédulo.
Annabelle chegou em menos de
uma hora, mais uma vez usando
roupas escuras e discretas. Ouviu
as explicaçõ es de Caroline e subiu
para o quarto de Sam.
A moça ainda perambulava pelo
aposento e Annabelle ficou chocada
com sua aparência. Sam sentia-se
vazia, como se sua alma houvesse
abandonado o corpo. Nem

1290
Flor do Pântano Patrícia Potter

percebeu que alguém entrara no


quarto.
— Sam — chamou Annabelle
baixinho.
Ela virou-se para a mulher, que
nã o esperava ver a expressã o
desalentada dos olhos azuis.
Annabelle sentiu um nó na
garganta e engoliu em seco,
preparando-se para falar com
calma. Abraçou a amiga
carinhosamente.
— O que aconteceu, Sam? Connor
descobriu?

1291
Flor do Pântano Patrícia Potter

Samantha apenas olhou-a com ar


ausente.
— Estou partindo. Connor nã o
quer mais me ver.
A calma determinaçã o daquelas
palavras assustou Annabelle, —
para onde pretende ir, Samantha?
— Nã o sei, mas isso nã o importa.
Vou para qualquer lugar.
O que Connor dissera à pobre
moça? Pelo jeito sua reaçã o fora
terrível. Sempre acreditara que ele,
com seu senso de justiça e sua
calma, agiria sem exageros. Por isso

1292
Flor do Pântano Patrícia Potter

permanecera calada a respeito do


segredo de Samantha.
— Conte-me exatamente o que ele
lhe disse — pediu, guiando a jovem
para a cama, onde ambas se
sentaram.
— Ele disse que nã o queria nada
com uma Chatham, nem com a
criança. Disse que nã o queria me
tocar nem com um dedo, nem
sequer olhar para mim. Falou do
nosso bebê com desprezo, como se
fosse algo indesejável.
— Oh, Sam — murmurou

1293
Flor do Pântano Patrícia Potter

Annabelle com vontade de chorar. -


Desabafe, Sam, chore bastante.
— Nã o posso, Annabelle. Nã o
consigo. Lá grimas sã o para dores
pequenas. A minha dó i demais.
— Nã o sei o que lhe dizer, meu
bem.
— Nã o se preocupe comigo,
Annabelle. Eu vou embora.
— Você nã o pode ir a lugar algum
nessas condiçõ es. O bebê está para
chegar. Se nã o pensa em você,
pense nele.
— Quando Connor voltar devo

1294
Flor do Pântano Patrícia Potter

estar longe daqui. Nã o suportarei


vê-lo novamente.
Entã o Annabelle decidiu-se.
Samantha precisava dela. Connor
estava agindo como um louco e ela
se desiludira. O amigo de tanto
tempo tinha o grande defeito de
permitir que o ó dio o cegasse,
destruindo seu bom senso.
— Você vai comigo — disse com
firmeza. — Nã o diremos a ninguém
para onde estamos indo. Mentirei,
explicando que a estou levando
para a agência de diligências. Irá

1295
Flor do Pântano Patrícia Potter

para a minha casa e eu cuidarei de


você e do bebê. Depois que ele
puder viajar eu a ajudarei a ir
aonde quiser.
— Mas Connor... Ele visita você,
Annabelle.
— Nã o se preocupe com isso.
Resolverei o problema.
— Obrigada, Annabelle.
Finalmente havia um lampejo de
vida naquele rosto sofrido e a
mulher sorriu satisfeita.
— O que diremos a Caroline? —
preocupou-se Samantha.

1296
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Direi a ela que nã o pude


impedi-la de partir.
As duas acabaram de arrumar as
malas e logo depois dirigiam-se
para a porta.
— Nã o acha que devia escrever
um bilhete para Connor, no caso de
ele voltar a esta casa?
Samantha assentiu. Precisava
fazê-lo ao menos entender que nã o
planejara tudo aquilo, que nã o
quisera enganá -lo, mas que fora
obrigada por causa do ó dio dele
contra sua família. Acima de tudo,

1297
Flor do Pântano Patrícia Potter

precisava dizer que realmente o


amava.
Algum tempo depois, estavam a
caminho da rua Cherry, deixando
para trá s um bilhete amarfanhado
e Caroline em prantos.

Naquele momento, Connor


achava-se no meio de uma das mais
desesperadas batalhas de toda
aquela guerra que parecia
interminável.
Depois de separar-se de Samantha
fora para o acampamento de

1298
Flor do Pântano Patrícia Potter

Marion e descobrira que o general


estava indo juntar-se a Greene, que
surpreendera e capturara cem
soldados britâ nicos escondidos
num lugar chamado Eutaw Springs,
na estrada para Charleston. O
ataque despertara a atençã o do
resto das forças inglesas e uma
batalha de grandes proporçõ es
começava a formar-se.
Mesmo enfurecido e magoado
como estava, Connor nã o podia
perder-se com problemas pessoais.
Tomou o comando de seus

1299
Flor do Pântano Patrícia Potter

milicianos e colocou-se
rapidamente à disposiçã o de
Greene.
Num dia quente e ú mido de
setembro, dois mil soldados do rei
confrontaram-se com as tropas
americanas, formadas por dois mil
e quatrocentos homens.
Connor, no meio da poeira
sufocante e da fumaça, lutava para
manter sua milícia intacta
enquanto os ataques se repetiam.
Quase perdeu o controle da
situaçã o quando um bando de

1300
Flor do Pântano Patrícia Potter

soldados continentais começou a


espalhar boatos sobre as forças
inglesas, provocando pâ nico no
pelotã o exausto. Connor precisou
de todo o seu poder de persuasã o
para que seus subordinados nã o
debandassem. Porém haviam
perdido a chance de produzir
resultados efetivos. Depois de três
horas de combate desesperado,
Greene ordenou a retirada. Connor
saiu sem um arranhã o, apesar de
haver cortejado a morte quase
despudoradamente o dia todo.

1301
Flor do Pântano Patrícia Potter

Mais tarde, à noite, soube que,


embora os americanos houvessem
sido derrotados, tinham muito
provavelmente destruído o que
sobrara do exército inglês nas
Carolinas. Os britâ nicos haviam
perdido quase metade dos homens,
entre mortos e prisioneiros.
Naquele momento, os restantes
arrastavam-se penosamente de
volta a Charleston.
Foram dois dias depois que
Connor teve a oportunidade de
encontrar-se com Marion, Sua raiva

1302
Flor do Pântano Patrícia Potter

ainda nã o esmorecera. Na verdade,


o tempo que tivera para ruminar
sua frustraçã o apenas servira para
lançar mais lenha à fogueira de sua
ira.
Francis, quando o viu aproximar-
se, pediu desculpas aos homens
que o rodeavam e fez um sinal para
que o acompanhasse até um grupo
de á rvores, onde estariam a só s.
Nã o deixou que Connor abrisse a
boca, silenciando-o com um olhar.
— Como está Sam? — perguntou
de testa franzida. Connor ignorou a

1303
Flor do Pântano Patrícia Potter

pergunta.
— Que diabos deu em você,
Francis, para me esconder a
verdade? Quando descobriu? Por
que nã o me contou?
— Como está Sam? — o outro
repetiu.
— Nã o sei e nã o quero saber!
— Você é um asno completo,
Connor. Nã o soube reconhecer o
amor sem restriçõ es que aquela
garota lhe devota.
Connor encarou-o,
completamente aturdido com o

1304
Flor do Pântano Patrícia Potter

ataque violento.
— Que espécie de amigo é você?
— revidou.
— O melhor que você podia ter.
Todavia isso nã o modifica o fato de
eu achar que você agiu como um
asno.
— Você devia ter me contado,
Francis!
— Tem razã o. Devia. Errei nesse
ponto, mas só descobri a verdade
quando Sam foi capturada e ela me
prometeu que lhe contaria tudo.
Depois ela desapareceu e você foi

1305
Flor do Pântano Patrícia Potter

atrá s, voltando casado. Sam tentou


contar a você vá rias vezes, Connor,
mas toda a vez que se resolvia, você
começava a falar do seu ó dio pelos
Chatham.
— Ela foi responsável pela morte
de Brendan — insistiu Connor
teimosamente.
Nã o estava pronto para desistir da
teoria de que Samantha Chatham
causara a morte do irmã o. Era sua
ú nica justificativa para o que fizera
com ela.
— Nã o seja obstinado, Connor.

1306
Flor do Pântano Patrícia Potter

Quem lhe disse isso?


— O pai dela espalhou pela...
— E você acreditava em tudo o
que Robert Chatham dizia? Isso é
novidade para mim.
Connor nã o respondeu. Guiado
pelo raciocínio ló gico do amigo,
sentia que a raiva esfriava,
deixando uma grande confusã o em
sua mente.
— Você sabia que Sam trabalhava
para nó s como espia, muito tempo
antes de fugir de casa e encontrá -lo
na caverna? Sabia que ela e seu

1307
Flor do Pântano Patrícia Potter

irmã o iam fugir para casar no dia


em que ele foi morto?
Os olhos cinzentos arregalaram-
se.
— Fugir? Samantha e Brendan?
Mas meu irmã o nunca disse nada!
— Acho que ninguém avisa que
vai fugir. Quando alguém foge é
porque deseja manter alguma coisa
em segredo — disse Marion, seco.
— Mas de alguma forma, Robert
Chatham descobriu o plano dos
dois e desafiou Brendan para um
duelo. Connor, ouvi as confidências

1308
Flor do Pântano Patrícia Potter

de Sam. Ela amava seu irmã o, assim


como ama você. Acredite, só nã o
lhe contou quem era porque tinha
pavor de que você a odiasse
quando soubesse. Eu devia ter
insistido, mas Sam achava que o
tempo resolveria tudo.
Connor ouvia em silêncio, sem
saber em que acreditar.
— Ela salvou sua vida duas vezes
— continuou Marion. — É corajosa
e honesta e tem um grande
coraçã o. Connor, nã o deixe que seu
ó dio e seu orgulho destruam a

1309
Flor do Pântano Patrícia Potter

ambos. Você nã o sabe a sorte que


teve em encontrar alguém como
Samantha.
O outro ficou calado, enquanto as
palavras de Francis martelavam
sua mente. Nã o sentia mais raiva e
já conseguia examinar as coisas
com calma e ló gica. Empalideceu ao
lembrar-se do que dissera a Sam,
de como fora cruel e da expressã o
de dor que vira nos olhos dela.
Escondeu o rosto nas mã os.
— Vá procurá -la, amigo —
aconselhou Marion, gentilmente.

1310
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Nã o posso, Francis. Estou


envergonhado das coisas que disse
e sei que ela nã o vai me perdoar.
Marion nem queria pensar nos
horrores que aquele homem
orgulhoso devia ter dito num
momento de desespero.
— Ela o ama — disse apenas. —
Embora eu nã o entenda por que,
ela o ama demais. Vá procurá -la.
Connor ergueu a cabeça e havia
um brilho de esperança em seus
olhos. Sorriu de leve e deixou o
amigo para selar um cavalo que

1311
Flor do Pântano Patrícia Potter

estivesse bem descansado. A


viagem seria longa.
Levou quase meio dia para chegar
a Georgetown e já estava
escurecendo quando bateu à porta
da casa dos Demerest. Pensara em
entrar sem bater, mas protelava o
momento de encarar a mulher que
magoara tanto.
Caroline abriu a porta e Connor
viu com tristeza que a moça o
olhava com franca hostilidade.
— Onde está Sam? — conseguiu
perguntar.

1312
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Foi embora e nã o sei para onde.


Caroline desapareceu e voltou
dentro de um instante com um
bilhete amassado.
— Deixou isto para você —
explicou.
— Posso entrar, Caroline?
Ela apenas afastou-se para um
lado, olhando-o com extrema
frieza.
— Nã o sei o que você fez ou o que
disse a Sam, Connor, mas quase
matou a pobre moça.
Ela fechou a porta com estrondo e

1313
Flor do Pântano Patrícia Potter

deixou-o sozinho na sala. Ele


passou os dedos pelo papel,
acariciando-o. Finalmente
desdobrou-o e começou a ler:

"Connor,
Peço que me desculpe por tudo,
pela dor que lhe causei, pelas
mentiras e pela decepçã o. Sei que
nunca poderá me perdoar, mas por
favor acredite que menti apenas
porque o amava e temia perdê-lo.
Você era a minha vida, Connor. Esta
é minha ú nica desculpa.

1314
Flor do Pântano Patrícia Potter

Por sorte nã o estamos legalmente


casados e você continua sendo um
homem livre. Desejo que encontre
alguém que o faça feliz. Jamais lhe
pedirei nada, tenho o suficiente
para as minhas necessidades.
Sei que nã o quer me ver de novo.
Será como deseja. Estou deixando
Georgetown e nã o voltarei.
Espero que um dia me perdoe e
pense em mim sem ó dio, porque eu
o amarei para sempre.
Sam"

1315
Flor do Pântano Patrícia Potter

Ele amassou o bilhete nas mã os.


Cada frase era uma condenaçã o. A
letra dela, desigual e incerta,
deixava bem claro o estado de
angú stia em que ela escrevera
aquela mensagem. Precisava
encontrá -la.
— Caroline?
A moça apareceu à porta da sala
de jantar.
— O que deseja?
— Você nã o faz idéia para onde
ela foi? Sam deve ter dito alguma
coisa.

1316
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Nã o. E mesmo que ela


houvesse me dito alguma coisa, nã o
sei se diria a você. Se ela quisesse
que você a encontrasse teria
deixado o endereço nesse bilhete
— a jovem replicou asperamente.
— Caroline, por favor!
— Eu nã o sei de nada. Nã o sei
mesmo.
Ele abaixou a cabeça, derrotado, e
virou-se para sair. Havia outros
lugares onde procurar. Talvez ela
tivesse voltado para Chatham Oaks,
sua fazenda. Afinal, era a herdeira

1317
Flor do Pântano Patrícia Potter

de um homem rico.
Colocou o bilhete dentro da bota e
voltou a montar.
Durante os dois dias seguintes,
Connor procurou-a sem descanso.
Chatham Oaks estava abandonada.
Muitos escravos haviam fugido ou
sido roubados. Os está bulos
estavam vazios. Dali ele foi até a
caverna e ficou longos minutos
recordando cenas do passado. O
balde que ela usara para lavá -lo tã o
furiosamente ainda permanecia lá .
Um leve sorriso distendeu os

1318
Flor do Pântano Patrícia Potter

Sá bios dele. Sam, Sam. Adorável e


doce Sam.
Foi a Snow Island, mesmo
sabendo que ela nã o voltaria para
lá , tã o perto de dar à luz. Foi,
obedecendo a um impulso. O lugar
estava cheio de recordaçõ es e ele
se sentiria mais pró ximo dela.
Necessitava de boas lembranças
para nã o enlouquecer.
Encontrou apenas ruínas. Os
ingleses haviam queimado tudo.
Suas recordaçõ es jaziam
enterradas em cinzas. Voltou para

1319
Flor do Pântano Patrícia Potter

Georgetown, pensando na primeira


viagem dos dois, quando a
apresentara a Annabelle.
Annabelle. Já pensara em procurar
Sam na casa da rua Cherry, mas
desistira, achando,que ela nã o
ficaria na cidade. De repente, achou
que havia uma possibilidade de ela
estar lá . Tinha de estar. Esporeou o
cavalo, com renovada esperança.

CAPÍTULO XXVII

1320
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor subiu os degraus da


varanda da casa de Annabelle
correndo, enquanto a esperança e o
medo travavam uma dura batalha
em seu coraçã o, Virou a maçaneta e
descobriu que a porta estava
trancada, o que arrancou dele uma
exclamaçã o de tristeza. Aquela
porta nunca ficava trancada.
Começou a bater.
A porta abriu-se tã o de repente
que ele quase caiu para dentro do
vestíbulo, sobre Annabelle, que o
fitava com desgosto. Aquela era a

1321
Flor do Pântano Patrícia Potter

primeira vez, em tantos anos, que a


mulher o recebia sem um sorriso e
uma palavra de boas-vindas.
— Sam? Ela está aqui?
Annabelle perdeu um pouco a
expressã o de censura ao perceber a
ansiedade na voz dele. Connor
também estava sofrendo. Ela sorriu
levemente.
— Demorou mas chegou, nã o é?
— comentou enigmá tica.
— Ela está aqui, Annabelle?
Procurei por toda a parte!
— Pensei que nunca mais a

1322
Flor do Pântano Patrícia Potter

quisesse ver.
Ele fechou os olhos, atormentado
pela lembrança do que fizera com
Sam.
— Annabelle, por favor, diga-me,
Sam está com você?
— Está lá em cima, preparando-se
para por seu filho no mundo.
— No seu quarto?
— Onde mais?
No instante seguinte, ele voava
escada acima, deixando-a com um
sorriso satisfeito no rosto.
Ele parou à porta do quarto,

1323
Flor do Pântano Patrícia Potter

ligeiramente aberta, e ouviu


pessoas movimentando-se lá
dentro. Respirou fundo, pensando
que sua felicidade dependia do que
se passasse nos minutos seguintes.
Nã o culparia Sam se ela o
mandasse embora, mas torcia
desesperadamente para que o
aceitasse de volta e o perdoasse.
Finalmente, empurrou a porta e
entrou.
Ela estava na cama, apoiada numa
montanha de travesseiros. O rosto
parecia menor e os olhos

1324
Flor do Pântano Patrícia Potter

sobressaíam enormes nas faces


pá lidas. A expressã o deles nã o era
de censura ou hostilidade, mas de
má goa tã o profunda que ele sentiu
o coraçã o doer. O que mais o
atingiu porém foi ver que havia
medo naqueles olhos azuis como o
céu de primavera. Ele nunca se
odiara tanto quanto naquele
momento e nem percebeu que seus
olhos se umedeciam. Mas, se
percebesse, nã o se importaria por
estar chorando. Olhou para Darlene
e para a outra garota.

1325
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Por favor, deixem-me a só s


com ela — pediu em voz baixa.
Elas hesitaram e olharam para
Sam. Evidentemente temiam que
ele a magoasse outra vez, o que o
deixou envergonhado e com mais
raiva de si mesmo.
Samantha fez um gesto afirmativo
com um gesto de cabeça e as moças
saíram depressa, percebendo que
os dois nem mais sabiam que elas
existiam. Eles ficaram-se olhando
fixamente, cheios de medo e
incerteza. Entã o ele viu o rosto

1326
Flor do Pântano Patrícia Potter

lindo contorcer-se de dor e o corpo


delicado tremer. Correu para o lado
dela e começou a acariciar as faces
pá lidas, ignorando as lá grimas que
rolavam de seus olhos.
— Sam... Samantha... Oh, Deus! Eu
te amo, querida. Será capaz de me
perdoar, um dia?
Mas naquele momento, ela sentiu
uma contraçã o violenta e nã o
entendeu o que ele lhe dizia. Viu
apenas as lá grimas rolando pelo
rosto má sculo e atormentado
debruçado sobre ela. Estendeu a

1327
Flor do Pântano Patrícia Potter

mã o e tentou enxugá -las. Ele nã o


devia chorar. O forte, confiante e
orgulhoso Connor nã o devia chorar.
Agoniado com o silêncio dela, ele
achou que precisava dar mais
explicaçõ es.
— Francis me contou tudo... sobre
você e Brendan... Disse que você
era espiã dos rebeldes... que tentou
vá rias vezes me contar a verdade...
— ele calou-se, incapaz de
coordenar os pensamentos que se
atropelavam em sua mente.
— Sim, eu amava Brendan.

1328
Flor do Pântano Patrícia Potter

Quando ele morreu eu também


quis morrer. Eu teria dado minha
vida para salvar a dele — ela
terminou, também chorando.
— Eu sei, Samantha. Eu acredito.
Ele sentia o coraçã o doer de
remorso, pensando nas vá rias
vezes que a acusara de haver
matado seu irmã o, dando vazã o ao
ó dio contra os Chatham.
— Depois o encontrei na caverna
e algo aconteceu em meu coraçã o,
mas eu nã o queria amá -lo porque
sabia que você tinha motivos para

1329
Flor do Pântano Patrícia Potter

me odiar por causa de meu pai.


Mas nã o pude sufocar o amor. Eu o
amava tanto!
Amava. Seria tarde demais?
— Desculpe-me, Connor, Fiz você
sofrer com minhas mentiras. Se
soubesse quem eu era nã o teria se
envolvido comigo.
Aquilo era mais do que ele podia
suportar. Ela lhe pedia desculpas! A
ele, que a tratara com brutalidade
imperdoável!
— Samantha...
— Nã o se preocupe. Eu irei

1330
Flor do Pântano Patrícia Potter

embora e nunca mais nos veremos.


— É isso o que você quer?
Ele sentia o coraçã o apertado de
angú stia, mas nã o tinha o direito de
tentar fazê-la mudar de idéia.
Outra contraçã o começou e ela
gemeu. Connor pegou a mã o
largada sobre o lençol e ela
agarrou-se a ele, sentindo as ondas
de dor torturarem seu corpo.
Quando tudo passou, ele fitou os
olhos azuis e soube que jamais
poderia deixá -la ir embora.
— Sam, por favor, nã o me deixe.

1331
Flor do Pântano Patrícia Potter

Eu te amo. Fui um tolo, mas te amo


de todo o meu coraçã o. Por favor,
perdoe-me.
Daquela vez ela entendeu todas as
palavras e a esperança brilhou em
seus olhos.
— Você me quer? — perguntou
timidamente.
— Se eu a quero? — Ele segurou
as mã os dela nas suas. — Nem
imagina quanto. Agora, amanha e
sempre. E quero meu filho também.
Quero vocês dois como nunca quis
algo no mundo.

1332
Flor do Pântano Patrícia Potter

— É verdade? Mas eu...


— Você nã o fez nada, meu amor.
Fui eu que quase estraguei tudo,
porque fui estú pido e cego.
— Mas... sou uma Chatham.
— Você é Samantha, o meu amor.
Samantha ou Sam, minha mulher.
Agora quero saber se me perdoa e
se pode continuar me amando
depois de tudo o que lhe fiz.
Ela sorriu e foi como se ele tivesse
uma visã o do paraíso, tal a
felicidade que o invadiu.
— Sabe que sempre o amarei,

1333
Flor do Pântano Patrícia Potter

Connor. Sempre.
Ele inclinou-se e beijou os lá bios
que sorriam docemente. Entã o,
tomado de alegria que nã o
conseguia dominar, começou a rir
extravasando sua alucinante
felicidade. E o riso contagiou
Samantha, que também se pô s a rir
de modo incontrolável.
No corredor, Annabelle e algumas
das moças esperavam
ansiosamente, tentando adivinhar
o que se passava lá dentro do
quarto. Ao ouvirem as risadas

1334
Flor do Pântano Patrícia Potter

descontroladas entreolharam-se
assustadas e entraram no
aposento. Os dois riam sem parar,
segurando-se pelas mã os, sem se
preocuparem em enxugar as
lá grimas que escorriam por seus
rostos.
Annabelle balançou a cabeça,
sorrindo, e saiu, chamando as
garotas. No corredor, também
começaram a rir, participando da
felicidade que haviam presenciado.
De repente, Sam parou de rir.
Outra contraçã o levou-a a agarrar-

1335
Flor do Pântano Patrícia Potter

se a Connor que ficou sério e


penalizado com o sofrimento
estampado no rosto dela. Quando a
dor passou, beijou-a novamente.
— O bebê já está para nascer?
— Annabelle disse que ainda é
cedo para chamar o médico, que
seu filho é teimoso como você e
ainda vai demorar um pouco para
vir ao mundo.
— Por que fala do bebê no
masculino? — ele perguntou com
um sorriso. — Filho... teimoso...
Pode ser uma filha.

1336
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Nã o. Vai ser um menino. Chuta


com muita força para ser uma
dama.
Ele apertou a mã o dela, com
imensa ternura no olhar.
— Samantha Chatham, quer se
casar comigo?
Nova onda de felicidade a invadiu
ao ouvi-lo pronunciar seu nome
completo, sem ó dio ou zombaria.
Ele se esquecera do passado e o
futuro estava pronto para recebê-
los e conservá -los felizes para
sempre.

1337
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Sim, meu amor. Eu quero ser


sua esposa. Ele sorriu de modo
provocador.
— Agora? Neste instante?
— Sim, mas como...
Mas ele já se fora. Ela sorriu de
sua impaciência e nova dor
lancinante a fez estremecer. Seu
filho também começava a se
impacientar.
— Annabelle — chamou.
A mulher entrou no quarto e
olhou-a, preocupada.
— As contraçõ es já estã o

1338
Flor do Pântano Patrícia Potter

pró ximas?
— Sim, acho que está na hora de
chamar o doutor.
Connor praticamente correu até
chegar à casa do reverendo Smith,
ao lado da igreja, dois quarteirõ es
abaixo. Os sinos repicavam, como
sempre ao meio-dia e Connor
imaginou que encontraria o pastor
na torre. Subiu a escada íngreme e
realmente lá estava o reverendo
com protetores nas orelhas,
puxando a longa corda do sino
maior. Nã o era possível conversar

1339
Flor do Pântano Patrícia Potter

ali e ele foi obrigado a esperar até


que o ú ltimo eco se perdesse no ar
e o ministro olhasse surpreso para
ele.
Nem o ouvira chegar,
evidentemente, assim como nã o o
vira, porque se achava totalmente
entregue à tarefa de fazer os sinos
produzirem os sons alegres que
saudavam o meio do dia.
— Preciso do senhor, reverendo.
Quero me casar. O Pastor olhou-o
assombrado.
— Mas major O'Neill! Vai casar-se

1340
Flor do Pântano Patrícia Potter

outra vez?
— Nã o tenho tempo para explicar.
Por favor, venha comigo!
— O senhor já é casado, major.
Perdeu o juízo?
— Nã o. Explicarei depois, mas
vamos logo, por favor. O ministro
esforçava-se por entender o que
estava acontecendo e um
pensamento horrível passou por
sua cabeça.
— Major, está tentando me dizer
que sua esposa morreu? Que vai
casar-se de novo?

1341
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Nã o, reverendo. Vou me casar


com a mesma mulher.
O homem sacudiu a cabeça,
completamente aturdido e Connor
começou a arrastá -lo escada
abaixo, e através da igreja,
enquanto explicava resumidamente
o que acontecera entre ele e
Samantha. Por fim, o reverendo
entendeu a situaçã o e começou a
correr por iniciativa pró pria. Uma
criança ia nascer e a uniã o dos pais
precisava ser legalizada. Aquela
seria realmente uma histó ria muito

1342
Flor do Pântano Patrícia Potter

interessante para ele contar a


Molly.
— Para onde vamos? —
perguntou ao futuro pai quando já
se encontravam na rua.
Connor hesitou.
— Nã o é muito longe daqui,
reverendo.
E nã o era mesmo. Num instante,
chegavam à frente da casa nú mero
dois da rua Cherry. Connor
começou a subir os degraus da
varanda, mas percebeu que o
pastor nã o estava mais a seu lado.

1343
Flor do Pântano Patrícia Potter

Olhando para trá s viu o homem


olhando para a casa, chocado.
Desceu os degraus e tomou-o pelo
braço, com delicadeza, mas
decidido, ignorando a torrente de
protestos. Finalmente chegaram à
porta, que Annabelle acabara de
abrir. A mulher olhou-os com
ansiedade e dirigiu-se a Connor.
— O médico acabou de chegar.
Nã o temos muito tempo —
declarou, lançando um sorriso
apressado para o ministro.
O reverendo Smith desistira de

1344
Flor do Pântano Patrícia Potter

lutar. Entrou na casa orando,


pedindo perdã o para todos os
pecadores que a freqü entavam.
Nada tinha contra Annabelle, que
costumava ser muito generosa
quando a paró quia precisava de
dinheiro para as obras de
assistência social, e até permitia
que as garotas da casa
freqü entassem os cultos de
domingo. Porém sentia-se mal ao
colocar os pés num lugar que ele
considerava um antro de pecado.
Sem falar que precisaria explicar à

1345
Flor do Pântano Patrícia Potter

esposa por que estivera ali.


Consolou-se pensando que a sra.
Smith ficaria tã o curiosa para saber
como era o interior de um bordel
que esqueceria a zanga.
Quando finalmente chegaram ao
quarto da parturiente, ouviram um
grito abafado. Annabelle impediu-
os de entrar por alguns instantes,
enquanto verificava o que se
passava lá dentro. Nã o demorou a
sair para o corredor, sorrindo
nervosamente.

1346
Flor do Pântano Patrícia Potter

— Acho melhor se apressar,


reverendo. O doutor disse que a
criança nascerá a qualquer
momento.
O quarto tornou-se pequeno
quando todas as moças da casa
apareceram para assistir ao
casamento. O médico suspirou e
franziu a testa, olhando para o
pastor que procurava alguma coisa
na Bíblia, agarrando-a como se a
considerasse uma tá bua de
salvaçã o naquele mar de pecado.
Finalmente, a cerimô nia começou

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Flor do Pântano Patrícia Potter

e todos os olhos se umedeceram de


emoçã o. Samantha e Connor nada
viam, fitando-se com adoraçã o,
enquanto repetiam os votos de
eterna fidelidade.
— Que o que Deus juntou nã o
separe o homem — o reverendo
dizia as palavras finais quando o
corpo de Samantha estremeceu e
arqueou-se para trá s.
— Pelo amor de Deus, reverendo,
acabe logo com isso — o médico
quase gritou.
— Eu os declaro marido e mulher

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Flor do Pântano Patrícia Potter

— o pastor terminou,
apressadamente.
Logo em seguida, todos desciam
para o salã o, onde tomariam
champanhe. Connor beijou
Samantha antes de acompanhar o
bizarro cortejo.
— Tenha coragem, meu amor.
Nosso filho logo estará aqui. Depois
de fazer as honras da casa e
convencer o ministro a tomar uma
taça de champanhe com os outros,
Annabelle subiu novamente para
ver se podia ajudar em alguma

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Flor do Pântano Patrícia Potter

coisa. Connor demorou-se um


pouco com o pastor, mas logo subiu
também, começando a andar na
frente da porta do quarto onde seu
filho nascia. Os minutos
arrastavam-se e ele nã o saberia
dizer quanto tempo ficara naquela
agonia quando ouviu um forte
gemido e Annabelle abriu a porta.
— Você tem um filho, Connor. Um
garoto lindo e saudável. Samantha
está passando bem e acha que você
lhe deve um longo beijo que nã o foi
dado durante a cerimô nia.

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Flor do Pântano Patrícia Potter

A mulher beijou-o de leve no


rosto.
— Você é um homem de sorte —
declarou. — E se voltar a maltratar
Samantha, terá de se entender
comigo.
Ele sorriu, afetuosamente.
— Nunca terá de se preocupar
com isso, Annabelle. Gostaria que
soubesse que amamos você.
Devemos muito ao seu coraçã o
generoso.
— Nã o me devem nada. Só quero
que continuem a ser meus amigos.

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Flor do Pântano Patrícia Potter

Agora vá lá dentro conhecer seu


filho.
Ela virou-se depressa para que ele
nã o visse as lá grimas em seus
olhos. Que danaçã o! Estava ficando
com o coraçã o mole. Lembrou-se
dos outros no andar de baixo e
desceu para dar a notícia.
— E um menino, reverendo Smith
— ela anunciou, rindo, — Uma
có pia de Connor. Vai brindar
comigo e minhas meninas, pela
saú de do novo O'Neill?
O ministro, que em seu

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Flor do Pântano Patrícia Potter

nervosismo já consumira vá rias


taças de champanhe, nã o recusou.
Juntamente com as mulheres da
casa, ergueu um brinde à vida que
se iniciava. Depois de secar o copo,
ele virou-se para Annabelle e
limpou a garganta.
— Srta. Annabelle, posso pedir-
lhe uma coisa?
Ela assentiu, preparando-se para
ouvir um sermã o. O reverendo
engoliu em seco, corando de
embaraço.
— Gostaria de sair pela porta dos

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Flor do Pântano Patrícia Potter

fundos.
Annabelle riu e ele ficou
horrorizado ao perceber que
gostara daquele riso solto e
sincero.
— A vontade, reverendo. Siga-me,
por favor. Atravessaram a cozinha e
alcançaram a porta de trá s.
O pastor começou a abri-la e
Annabelle enfiou um saquinho de
moedas em sua mã o. Ele quis
protestar, mas ela balançou a
cabeça, sorrindo.
— É para os pobres. Em nome do

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Flor do Pântano Patrícia Potter

bebê.
Ele também sorriu e esgueirou-se
pela porta entreaberta, olhando
para os lados. Pouco depois,
alcançava a ruazinha traseira e
tomava o rumo de casa, resolvendo
que nada diria à esposa. Estava
alegre e nada disposto a ouvir
recriminaçõ es e perguntas sem fim.
Connor entrou no quarto,
passando pelo médico, que saía
vestindo a casaca.
— Aceite minhas congratulaçõ es
— disse com um sorriso. — Pelo

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Flor do Pântano Patrícia Potter

casamento e pela paternidade.


Pensei que já tivesse visto de tudo
neste mundo, mas hoje...
Connor abraçou-o e quando o
homem saiu acercou-se da cama,
onde Samantha contemplava o filho
com adoraçã o. Ela sempre fora
bela, mas naquele momento exibia
uma beleza gloriosa.
— Venha ver seu filho, meu amor
— ela convidou com voz trêmula de
emoçã o.
Ele ajoelhou-se ao lado da cama e
estudou o rostinho vermelho e

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Flor do Pântano Patrícia Potter

tranqü ilo. A criança era maior do


que ele imaginara que seria e
possuía cabelos claros e fartos. O
bebê espreguiçou-se e abriu os
olhos.
— Ele tem belos olhos azuis — o
pai murmurou, enlevado.
— Todos têm, quando nascem, seu
bobo. Mas talvez os dele continuem
assim.
A criancinha fez uma careta que
parecia um sorriso e tornou a
fechar os olhos, adormecendo.
Samantha olhou para Connor,

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Flor do Pântano Patrícia Potter

observando o sorriso que ela tanto


amava.
— Que nome daremos ao nosso
filho? — perguntou.
— Esqueça de tudo o que começar
com Sam. "Um" Sam na família já é
suficiente — respondeu ele em tom
provocador. — Sam é nome de
gente teimosa, atrevida, orgulhosa
e muito, muito desobediente.
O sorriso de Samantha
desapareceu.
— O que acha de Brendan? —
perguntou baixinho.

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Flor do Pântano Patrícia Potter

— Meu irmã o ficaria muito


orgulhoso — ele disse emocionado.
— E eu fico muito feliz.
Os dois se entreolharam e
sorriram, sabendo que nã o haveria
mais sombras entre eles, que o sol
do amor surgira em suas vidas para
iluminá -las para sempre.

FIM.

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