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Filosofia (3º ano E.M.

)
Unidade 1: Descobrindo a Filosofia1:
Capítulo 1: A Experiência Filosófica

➢ 5 – Reflexão Filosófica:
Em filosofia, muitas vezes as inúmeras definições propostas para um determinado tipo de
abordagem ou problema se contrapõem. Isso se deve ao núcleo problematizador da filosofia, que
ora, por via de regra, determina que toda definição tem como objetivo delimitar um significado, em
geral, muito mais amplo, com o intuito de estreitá-lo.
Em uma reflexão filosófica a delimitação contraria, no sentido mais amplo do campo
filosófico, o núcleo problematizador do filosofar uma vez que o próprio conceito de reflexão não é
exclusivo ao campo da filosofia: reflexão, do latim refletere significa fazer retroceder ou voltar atrás.
Logo, refletir é retomar o próprio pensamento, pensar o já pensado, voltar pra si mesmo e questionar
o já conhecido.
O filósofo brasileiro Dermeval Saviani 2 (1943 - ), numa tentativa de delimitar, propõe, em
uma de suas obras, três conceitos de reflexão filosófica, são elas: a Reflexão Radical, a Reflexão
Rigorosa, e a Reflexão de Conjunto a partir dos problemas apresentados pela realidade.
A Reflexão Filosófica Radical
A filosofia consiste em uma reflexão radical (do latim radix, raiz, fundamento, base), não no
sentido de ser inflexível, mas porque busca explicitar os conceitos fundamentais usados em todos os
campos do saber e do agir. A filosofia das ciências examina os pressupostos do saber científico,
elaborando, por exemplo, questões como:

• o que é ciência;
• quais as diferenças entre ciência e filosofia;
• quais as diferenças entre as ciências e os outros tipos de saberes;
• quais as características e validades dos vários métodos científicos;
• qual(is) a(s) dimensão(ões) da “verdade” das teorias científicas; entre outras.

Em outras palavras, a abordagem filosófica reflexiva radical exige, em si de acordo com


Saviani, que se opere uma reflexão em profundidade dentro de um “recorte” da realidade.
A Reflexão Filosófica Rigorosa
O pensamento reflexivo é rigoroso pelo fato de ser argumentativo, o que, no entanto, exige
uma manutenção sistemática entre suas diversas partes. Por meio de uma linguagem rigorosa, que
segue métodos determinados, tenta-se ao máximo evitar qualquer possibilidade de ambiguidade, e,
1 Referência Bibliográfica: ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires – Filosofando: Introdução à Filosofia, Volume Único, 6ª ed. – São
Paulo: Moderna, 2016
2 SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. Campinas: Autores Associados, 2009. p. 29-33. (Coleção Educação Contemporânea)
essa característica permite a existência de uma interlocução com outros filósofos baseados em
conceitos claramente definidos.
Isso, no entanto, não restringe o “praticante filosófico” da criação de novos conceitos ou à
readequação de conceitos preexistentes. Na Grécia Antiga, por exemplo, enquanto o termo ideia
(eidos no grego arcaico) significava intuição sensível de uma coisa (aquilo que se vê ou é visto), Platão
ressignificou o conceito de ideia para referir-se à concepção racional do conhecimento.
É por meio do rigor dos conceitos que os caminhos do pensamento reflexivo se inovam.
A Reflexão Filosófica de Conjunto
O pensamento reflexivo filosófico adquire a condição de conjunto graças ao inerente caráter
da filosofia que é a capacidade de ser transdisciplinar. Dessa maneira, no entanto, e graças à
transdisciplinaridade da filosofia, pode-se estabelecer, no âmbito das mais variadas reflexões
possíveis, que a filosofia nos permite o elo entre as diversas formas e expressões do saber e do agir.
É neste aspecto que a filosofia se distingue da ciência de um modo mais marcante – ao contrário da
ciência, a filosofia não tem objeto determinado, ela se dirige a qualquer aspecto da realidade, para
que, com o esforço da reflexão e do pensamento reflexivo, haja uma problematização. Ou seja,
podemos definir que o campo de ação da filosofia é o problema enquanto ainda não se sabe onde
ele está, por isso se diz que a filosofia é a busca.
Diversos assuntos diferentes surgem diante do filósofo: a moral, a política, a ciência, o mito,
a religião, o cômico, a arte, a técnica, a educação dentre tantos outros temas de caráter “problemático”
ou “questionável”. É nesse sentido também que se pode dizer que a filosofia abre caminhos para a
ciência: por meio da reflexão, ela localiza o problema tornando possível a sua delimitação na área de
tal ou qual ciência que pode então analisá-lo e, talvez, solucioná-lo. Como exemplos práticos dessa
relação – entre a filosofia e a ciência – podemos citar:
• o avanço da biologia genética que desperta a discussão filosófica da bioética;
• a produção artística que provoca a reflexão estética e sua evolução;
• o sistema econômico que provoca a reflexão entre a quantidade de bens que se
produz e se consome perante a uma desigualdade social crescente observada na
maioria dos países;
• a velocidade assim como a voracidade no consumo de bens materiais que evoca,
promove e, por fim, desperta a discussão filosófica do consumismo e seus impactos – tanto
individuais, no campo psicológico, quanto sociais e ambientais;
Ademais, enquanto a ciência isola o seu aspecto do contexto e o analisa separadamente, a
filosofia, embora dirigindo-se às vezes apenas a uma parcela da realidade, insere-as no contexto e a
examina em função do conjunto.

1 Referência Bibliográfica: ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires – Filosofando: Introdução à Filosofia, Volume Único, 6ª ed. – São
Paulo: Moderna, 2016
2 SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. Campinas: Autores Associados, 2009. p. 29-33. (Coleção Educação Contemporânea)