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Obras Raras Fiocruz

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Obras Raras Fiocruz


Acer vo Di gi tal de Obr as Rar as e E s p eciais
O.G. CRUZ
.STERN Gr.P.u-is
6 VARIOLA E VACCDlA· NO CB:ARA'

Fala se. ainda hoje • con1 assombro da


ep-iden1ia da variola, que en1 I 8 70 ata-
cou o exercito francez durante a gue~ra
Franco- prussiana. Esta epidemia foi
pequena compar3:da con1 a de '18 78 em
Fortaleza .
.A França perdeu victimaclos pela be-
xiga, de 11111 exercito de um · nlilhão de ~
h 1n1ens, vinte e tres mil soldados, e, a
capital do Ceará perdeu, en1 pouco mais
de ...dois mezes, de uma população , de
pouco n1ais de cen1 mil almas, 2 7.3 78
" vidas.
1\ população ele Fortaleza podia-se
calcular ern 1 30 n1il pessoas, das quaes .
1 1 o n1il eran1 retirantes, que: acossados
pela secca, pqra escapar á fon1e havia1n- ·
se refugiado na capiLil da prodncia.
l)esta grande 111as;:;ade fan1intos no-
venta e cinco por cento não _ eran1 vac-
cinados . .-
Nunca en1 parte alguma do_ mundo un1
111orbus encontrou terre _no 1nais apto ~
sua gern1inação e desenvolvin1vnto.
Par~ se avaliar o gráo ele receptibili-
.dade _ dessa nn1lticlão, lembro que ale1n .
de não ter a i1nmuni<lade da vaccina ant\- ·
va ·iolica, v1via na n1ais cc 111p!eta infr J.C·

/
sporte de guerra e Purús, ,.
porto d Fortaleza, desen1barcou dois va ..
riolosos, que foram recolhidos ao lazare•
to d La ôa Funda. Foi uma fa ulha, que
1H VARIOL\ E VACCTN.\ NO CEARA 1

que se apresentava. Chan1ava111-na,taóa~~-


dúi) pclle de l/xa, olho de P,olvo, _canudo,
f.o,1ro,etc. etc. _
I)e to<las a 111ais dolorosa, a n1:ais _ter...
rível era a canudo. Na petle de lixa e.
tabardia a coni1uencia da; pus~ulas era
tal que a pellc se entun1ecia, inchava, sem
as vcsiculas se individualisarem, e depois
se fendia, s_e gretava e o_ puz ·con ia da- '
quellas fendas fazendo do enfern10 un1 ·
n1onstro inforn1e e repellcnte.
Na bexz:r;-ade canudo a erupção ton1_ava :
outra_ feição. _J\ pelle se cobri~ de. vergões,
de pois de tres a cinco dias ele febre alta.
Era este o inicio da erupção. ·
() enfermo sentia que aquelles vergões
quein1avan1 con10 se fossem causticas de .
· brazas. A dor das '1uein1aduras não se n1e~
tigava l)ias depois cada vergão se levan-
ta 'ª ern pustulas cylindricas de vinte cen-
ti1netros de curnprimento e dois centime-
tin1etros ele dian1etro cleforn1ando o ínfe:
liz desde o couro cabellu<lo a planta do pé.
l~stas enorn1es vesículas en :hian1-se de
pús, e quando con1eçava a supuração não
havia organisn10 por forte que a resistisse.
Un1a outra .fórn1a gr ,ave de variola foi
a hc1norrhngica; e de un1a-virulencia ta- ,,
20 VARlOLA E VACINA NOCEARN - '

Tr es foram os abarracan1ent6s removi-


dos: S: Luiz, P~jehú e l\IeireHes. Cacl~ um _-
contava centenas de variolosos. · . ·
Fui testennrnha ocular · da remoção do
abarracamento . do ·Meirelles, a cargo , êlo
n1el} an1igo, o Dr. José L9ur~nço de Cas-
tro e Silva, hoje fallecido. · -
Para se àvaliar do atropelan1e_pto, dos
vexa1nes de toda sorte, reláto . o que se
passou na mlldança do abarracarnento .do
l\Ieirelles, sob a direcçã~ do dr. José Lou-
renço, un1 dos mais prestantes e abnegados ·
cidadãos que tenho conhecido. '
1
E5te 111edico philantropo, con1ry.1issario
activo e de unia probidade i1111nacu1ada,
pondo en1 acção toda a sua energia e
caridade não conseguiu fazer o transpor -
te de seus doentes, sen1 que ~stes sof-
fressen1 horrores. -
. Tudo faltou ao ben1 estar no transpor-
te dos enfern10s. Não havia vehiculos
propr.ios e nf>tn tão pouco carregadores
amestrado~ e hun1anos. Imagin@ se um .
corpo en1 carne viva, que custa a suppor•
tar in1n1ovel o contacto de folhas .de ba-
naneiras . hun1edecidas · ·ern oleo, _atirado;
sern caridade, dent~Ó ~e un1.1 rêde t.le
panno grosso, e depois levàdo aos tram .. 1
V

' , -

-<
),

..
A epide1nia havia ton1ado proporções
taes que a acção dos poderes pnblicos ··
se lin1itava a assistir os.' doentes que es•
tavan1 recolhidos ás enfermarias e a en- ..
terrar os n1ortos. Nada n1ais havia a fa..
zer. En1 forçada resignação esperava-se
qt~e o tempo resolvesse tão angustiosa
cnse.
A solução estava prevista: a varíola
só se extinguiria quanao atacasse o ul.
tin10 individuo não in1mune.
Não estava longe esse desenláce~
A media da n1ortalidade continuava a
~er · de quinhentos por dia. Assim em '
,:..::,-..~·

~f~ti:t
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8-t VARIOLA E VACCINA NO CEARA .

4 de fevereiro de Í 90 2 a seguinte lei :


, A vaccinação anti-variolica é ,,,
obrigatoria no curso do primeiro
anno da vida assim con10 a re- -.-
vaccinação no curso do undecimo
e do vigesin10 primeiro anno. Os
paes e tutor .es são pessoaln1ente
obrigados a execução desta me-
dida.,
Entre as nações que receberam n1al a
descoberta de Jenner occupa logar s~li-
ente a poderosa Inglaterra, a patria do
grande humanitario.
· U n1a propaganda tenaz levantou-se con~
tra o salutar preservativ.o e o resultadó foi
a celebre lei de 1 898, em que o parlan1en-
to alterou o \ZVaccination act>>,pennittindo
a isenção da vaccina ás creanças, cujos pais
ou tutores, affirn1assern perante qualquer
n1agistrado ter t1111a< objecção de consci-
encia», a tal preservativo.
Este acto do parlan1ento inglez, acce-
c1enc1o aos caprichos 111alentendidos de
tuna parte d.a popuiação de Londres., deu
inteiro ganho de causà aos anti-vaccio- _
nistas e clahi en1 diante 1nuito poucos
~e vaccinaratn na oppulcnta capital.
Calcula-se que dcixara111 de receber o


\ Til

A população · de Fortaleza, a qu'.e não


era analphabeta, ia comprehendendo o-.
Yalor , da vaccina anti-variolica, tánto que -
nos 28. dias do mez de fevereiro -vacci- --~ ·
nei .5 l 8 pessoas. · Este resultado . animou- .·..
nie bastante, e esperançoso prosegui no
meu trabalho.
1l0 R.

brar, não sei porque, o longo periodo de


estacionamento que atravessaTia o Brazil
devido a su1 grande popL1lação mestiça. , .
Len1brava-n1e con1 funda tristeza, que a
origem, de oito decin1os da população
· deste grande e opulento paiz fôra a
n1esma daquelles cinco n1eninos nús e pio-
lhosos, educados por uma mãe analpha-
beta e viciosa. Com pezar ainda recordei
que a esta grande nação de analphabetos,
em sua quasi totalidade, fizeran1 republica,
quando o governo 1nonarchico era por de-
mais liberal para a educação e c1v1sn10
de seu povo.
Depóis de mil considerações e n1es1110
rogos disse-n1e à n1estiça que não vaccina-
va os filhos porque não tinha com que ali-
mental-os durante o rec;guar:do. Procurar
convencel-a de que o resguardo era ne •
nhun1 seria trabalho perdido. O vulgo e ·
mesmo n,uita gente que s.ahiu delle e tern
hoje carruagens e lacaios, pénsa que a vac-
cina para produzir os seu~ bons effeitos,
precisa que o vaccinaclo cumpra u,n anno
de resguardo comendo són1ente carne e
farinha. .,..\idaquelle que dentro daquelle
espaço de tempó tocar em carne _de porco
ou en1 toucinho.
112 R. THEOPHfLO

O 3 outros deram n1ais ou n1enos o rnes-


111) trab-ªlh '), a exce,Jção do ultinvJ, u111
diabrete de tres .annos, que berrava, es-
perneava e p')r fim deu para 111orJer,
como· se estivesse clan1nacl'J.
Es -:apei que 1ne ferrasse os dentes na
n1ão, e vendo que só nada conseguia
pedi o auxilio da n1estiça, q~1e de 111uito
má vontade veio ajudar-me. Subjugado
o 1nenino vaccinei-o; rnas é preciso dizer
que sendo muito mais no"º do que os
outros estava tão sujo, ou antes a e.a-
mada de sujo era tão espessa quanto na• \

quelles. •
Mais de uma hora . gastei em catechi-
sar e vaccinar esta gente.
Para con1pletar o trabalho faltava a es-
tatistica e tan1ben1 a n1im,_éonhecer mais
uma idios .yncrasia do nosso pov0. Quan-
do saquei do bolso a caderneta e o lapis ,
e perguntei a mulher o nome, edade, fi-
liação e naturalidade dos filhos, ella fi-
cou n1ai_s aterrada do que quando lhe fa-
lei en1 vaccina. Perguntou-n1e para que
eu queria saber <laquillo ; si não era para
botar os n1eninos na n1arinha e as meninas
seren1 tiradas por orphãs? Expliquei con1
a maior paciencia para que queria eu aquel-
XI

Ten<l.D concluído · o serviço na rua de


Santa Thereza e estando ·a varíola gras- ·.
sando com certa intensidade no lado
opposto) bairro do Oiteiro, passei-me ·
para lâ. '
Como o seu non1e indica este lagar,
é um planalto extenso· e mais elevado
que o Matadouro. E' habitado ordinaria-
n1ente por pescadores e pelo pessoal em
pregado no servigo do porto.
A sua população é melhor alimenta ...
da e agasalhada do que a d·~q_ue~le bair..-'-
R. THEOPHILO

tanca e que é o porto da capital de


preferencia escolhido pelos que vão e
pelos que voltam.
E' um incessante formigar. Não ha va- ·
por que passe por aqui que não conduza
en1igrantes para o norte, con10 ta1nbem
não ha vapor que venha do norte que não
traga «paroaras > para o Ceará.
Assin1 o serviço de vaccinação não
pode ser interrompido por mi1n pelo 111e-
nos emquanto o governo do Estado não se
resolver a fazer o que eu estou fazendo. -
Havia. um n1eio infallivel de preservar
da varíola os individuas que fossen1 nas-
cendo,-vaccinal-os na pia baptisn1ál.
Len1brei-me disso e ainda falei aos vi-
garios das duas freguezias de Fortaleza;
mas estes deram,me rasões que até cer-
to ponto justificava1n os escrupulos de
acceitarem tal incumbencia. Regeitada
assim esta minha idéa ainda era possi vel
realisa! a se os vigarios ordenassem aos
sacristães que enviassem-me diarian1ente
a nota dos baptisamentos e a rua e nu-
mero da casa dos baptisados.
. . Assit-n
.
procuraria eu a creança e vacc1nana.
Era excellente esse n1eio, e o teria
. ,
posto em pratica se todos se compene-
...

160 R. TlIEOIIl'l LO

vite para con1111issario y accinador nessa


localidade.
O tneu desvaneci1nento é grande por-
que o meu appello foi ouvido por qursi to-
dos a quen1 foi dirigido. Não n1e illudi
quando acreditei ainda na existencia de
bons ccarenses, de hon1ens capazes de urn
sacriíicio pelo Ben1 Publico. Agora já não
parecerá uma utopia o 1neu tentarnen; é
quasi uma realidade. Para iniciar o vosso
trabalho de vaccinação envío-vos vaccina
animal que dará para inocular en1 setenta
pessoas. Chamo vossa attenção . para o
directorio junto, que será observado tanto
quanto possível. ;

As escolas públicas e particulares de-


ven1 ser visitadas, por vós e vaccinadas
as creanças q 11e ainda não gosarem desse
beneficio.
O nome, edade, naturalidade das pes-
soas que forem vaccinadas e revaccinadas
deven1 ser tomados por vós afim de ser or-
ganisado wn mappaquevosdignareisenviar
n1e men~aln1ente. Esta estatística, que será
publicada pela imprensa da capital, ser-
virá de incentivo e será uma prova de vos•
sos serviços á causa <la humanidade
Todas os mezes vos enviafei nova pro-
166 R. THEOPHILO

não in1mune é conveniente ---proceder-se


a reyaccinação, que sera feita peló me-
nos de dez em dez annos.
Ha organismos que perdem n1uito de-
pressa a inln1unidade que lhes dá a vac•
cina e mesn10 a . propria vario la. Dahi o
facto de un1 individuo ter bexigas uma,
duas e tres vezes. A.ssi111a revacciajlção
torna-se tão necessana como a propria
vaccinação.
Fortaleza, 28 de Agosto de 1902.

.,-

-
17~ VARIOLA E VACCTNA
NO CEARA'
• )
A iniciativa particular, son1ente deve-
se a varíola ter-se extinguido na capital
do Ceará, resultado esse devido a vac-
cinação praticada nos suburbios de For-
taleza, na qual não to1nou parte a repar-
tição de l ·lygiene con10 o confessa o Sr.
Ins'pc~tor, quando diz-durante a 1ninha
ansencia, (que foi de Janeiro de 1902 a
2 5 de Abril de 190 3) a vaccinação não
foi feita
'


182 -

Em Setembro ainda o con1missario


-
de Aracoyaba o Sr. R. de Castro e Silva
enviou-me a sua estatistica pela qual tive
a satisfação de saber que 5 4 pessoas
haviam sido vaccinadas con1 bons resu].
tados. Este con1111issario tem sido um dos
meus bons auxiliares.
. . .
A idéa de .diffundir a vacina 1a vin-
gando por toda a parte.
De quando en1 vez, entretanto passa~
va eu por uma decepção.
Achava que já era tempo de estar ar-
raigado no espírito da população de, For-
tàleza o resp.eito a saúde publica e no
eptanto de onde e1n onde tinha uma des ·-
1.llusão, que n1e desalentava. Quando essas
' descabidas vinham da plebe eu as suppor-
.td'và con1 paciencia, n1esmo com resigna-
ção. Outro tanto não posso dizer quando
. ellas vinha'm de pessoas de certa cultura e
ainda n1ais de agentes do poder publico .
.l\. Fortaleza, achava -se, con10 já disse,
dep.ris ç_l~un1 trabalho de quasi dois an-
nos, éon1p"letc1 mente expurgada da vario la.
Esse facto, que se devia irnpôr como um
acontecimentn, ·por ser, alem do mais, de.
vido unican1ente a iniciativa particular, pas ~
sava despercebido para todas e até para
184 VARIÓLA E VACINA NO CEARA'

sitar tod2.s as casas da visinhança e v:ac-


cinar e revaccinar os seus habitantes. Foi
o que fiz
Dias depois falecian1 os variolosos.
A casa, por n,uito favor, foi desenfectada.
Felizn1ente a variola não ~e propagou. ,
' . '

188 ' VARIULA E VACClNANO CEARA'

conhecidas as 1ninhas observações e as


de n1eus auxiliares :
eCidade do Limoeiro, 8 de Ou-
tubro de 1902.

Illn1. Sr. Rodolpho Theophilo.


Respondo a patriotica e hum1-
nitaria carta de V. S. em que
sollicita o n1eu hunlilde concurso
ao granàe tentan1en da n1ais no-
bilitante cruzada d ~ beneficencia.
Já de ha muito eu conhecia o
esforço tenaz, a coragern resolu-
ta, a acendrada caridade que o
anin1avam nessa gloriosa campa•
nha que um dia in1n1ort1lisará o
1 seu nome, se p r outros títulos ·
egualmente nobres, egualmente
respeitaveis elle já não fuss~ co-
nhecido e aureolado de luz.
Eu o admiro con10 cearense,
fanatico pelas glorias d~ minha ·
terra.
Eu o ben1digo, co,no homen1, ~
avido do be,n, delle carecedor e
dP.lle pregoeiro. ,
Co1no é consolador ser bon1,
ter conscienci 'l de ter feito se n1 •
190 VARIOLA E VACCINA• NO ·cEARA'

deste. A vaccina foi a mesn1a, is-


so é, a lympha foi a mesn1a, for.-
" necida por um só i11dividuo e pra-
tica ·va-se _de braço a braço.
Pois bem. En1 todas manifesta-
ram -se os melhores effeitos; a ex-
cepção daquella menina que nada
soffren. Era refractaria pei1sou--se. ·
Sabe o que aconteceu? ·un1 an•
no ou n1ais de um anno depois
daquella inoculação, a menina ca-
., hiu -em · estado febril e nos lagares
onde se havi _a inoculado a lym-
pha se desenvoveram pustulas vac-
cinicas, que encheran1 e depoi:,
seccaram dentro do período nor ...
mal deixando n1arcas con10 as da
nj_elhor vaccina ·. ,Este facto foi pu- .
bl-iro e notorio aqui e ainda nesse ·
01omento me foi len1brado pelas
irn1ãos da creança.
O que foi que retardou tanto
o desenvolvimento da vaccina ?
Co1no se pode explicar este facto?
Podeis contar con1 a minha dedi .
cação a nobre causa que defendeis
Vosso an1igo e acln1irador,
'Jos é Osternc Ferrcz'ta Maia.
XX

..
A serie de annos seccos parece não ex-
gottar-se.
A' nossa geração coube ben1 crescido
quinhão de provações e de dôres. Ainda
bem o_Ceará não recupera o perdi _do em
uma secca já vem outra para empobre-
cei-o ainda n1ais. O anno de 1900 ha-
via sido inclemente; seguiu .se I 90 r
de inverno bem regular, não en1 todo o
Estado. E _depois os dois seguintes quasi
seccos. Não ha duvida que em I 90 3 foi,
em muitas localidades, totalmente secco.
Prova-o o deslocamento da população da-
quelles pontos para o littoral e Fortaleza·
- HJ" VARlUL,f E VACClNA NO CEARA'

ta annos, durante a qual nunca ~ ,


lhes esvasearan1 os celeiros e nem
nos campos lhes morreram osga-
dos victirilados pela fome.
Nós luctamos com a inclen1en~
eia das seccas desde r 8 77.
Ha vinte e seis annos portan-
to que soffre1nos. Ten1 sido ben1
,
poucos neste espaço de tempo 0s
nossos dias prosperos · e esses
mes1nos corta dos de sobresaltos e
de temores.
A peste da varíola é a con1pa-
nheira insep1:ravel da secca. 1'odos
nós ainda temos bem gravada na
men1oria a dolorosa lembrança das
horrorosas scenas de que F orta-
leza foi theatro en1 ~ 8 78, durante a
epidcn1ia das bexigas,a n1ais n1or-
tifera calan1idade que .ha registra~
do a historia destas pestes. Para
se avaliar da sua devastação basta
diz~r <·1ue n1atou em pouco 111ais
de dois n1ezes vt['\tee sete mi\ tre-
sentossete11ta e oitopessoas en1 uma
população de pouco mais de cem _
mil aln1as ! !
Para evitarn10s a reproducção
~02

se o nosso appello fosse ouvido


en1. toJas as localidades a que nós
dirigin10s. Para aquelles logares
que não nos ouviran1 van1os falar
de novo a outros homens até
éncontarn10s cearenses capazes de
un1 sacriíicio pelo bem publico.
Falaren10s até que nos ouçan1.
... ..:'
\ par dessa indiferença de
1nuitos temos a consolação de
registrar a dedicação de alguns
de nossos associados, cujos -servi-
ços têm sido de grande valor .
Ha confrades nossos que tên1
sido verdadeiros apostol'.)s do
bem.
Confiemos en1 Deus que em
breves dias a variola será de uma
vez extincta na terr~ cearense e .
ficara a vaccinação, tão repellida _
hoje, acceita e propagada por to-
dos. A geração que nos succeder
seguirá o nosso exemplo. Assin1
o esperamos.
An1or e Trabalho.
<lo officio do Engenheiro-chefe, é\ mim
rigi?o, na occ~sião de . exonera~- n1e e cuja
copta vos envio.
E' fora de duvida que está acabado
esse beneficio prestaclo a esta pobre gen-
te. Aproveito o ensejo para apresent~r-
vos os protestos ele ,ninha subida esti1na
- e consideração. '
Amor e. Trabalho. -
,,

Aurclio Gaspar de Olive-ira .


.,
-~ ~~À>~i~-~~Jf~~~
~~~~o)!7G~~

,.:.

XXIV

Jirà o quarto anno de trabalho.


j
p
Fortaleza continuava expurgada da va- ' ~

riola, _mas por isso não segue-se que eu


interrompesse o serviço de vaccinação.
Como já disse não ha cidade alguma cujo
movimento de população adv~nticia seja
maior do que a capital do Ceará. Vacci-
no os moradores de uma rua nos subur-
bios, e mezes depois quando volto já en-
contro gente nova. Assin1 não sei quan•
do poderei dar por terminada essa tarefa.
As co1nmissões vaccinadoras do interior
do Estado continúo a prover de vaccina.
Para poder . dizer com verdade •O que
havian1 feito derigi a circular que abaixo
publico. ~
o
oo~~)~()~o~ o
o
o
o
o
o

XXV

En1 1904 nâo deu-se en1 Fortaleza un1 (


J

só caso de varióla.
Estamos en1 Dezen1 bro, a epocha . do
anno em que a bexiga grassava _en1 ou•
tros tempos com mais intensidade, e ne1n
um caso se quer. TP.m havido n1uita va•
ricel1a, Ainda ha pouco me vieram dizer
que no Cócó havia casos de varíola.
Entrei em indagações e soube que ~e tra-
tava de bexiga doida apenas.
Dos portos do sul desembarcararn d9us
variolosos.
O prin1eiro e111lVIaio vindo do Recife
foi recolhido a casa de sua família, no Ala-
gadiço, onde falleceu de variola hemor-
rhagica .
Estava e1n Pajussara quando recebi
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III

Esc1tsado ó dizer q,1e a maioria dos que


succumbiram ertt.m retirantes, dos q 1.1aes95 °/0
não eram v accinados.
Dahi por deante, a varíola tornou-se en-
demica no Ceará, pagando todos os annos a
população o seu tributo mais ou ruenos pesa-
do á medonha molestia.
Em 1888, reappareceu a sêcca. e éom ella
recrudesceu violentamente a variola, princi-
paJmeate nos verões de 1889 e 1890.
O governo do Estado e os pa.rticulares
olhavam com c1·iminosa indifferença para a
devastação da, molestia e não tomaram pre-
caução alguma para extinguil-a.
No decennio de 1890 a 1900, exceptuada
uma ou outra criança filha de gente educada e
abastada, nà".) se vt¾ccinou ninguem . na capi-
tal do Ceará!. ..
Em 1900, vem oova sêcca e começa o
exodo dos sertões para o littoral. Com esse
exodo de famintos, recrudesce a varíola e
são ainda esses infelizes os primeiros ataca-
dos. Os variolosos morriar.a e apodreciam nas
praças publicas, sem ter quem os soccorresse
e quem os enterrasse!. ..
O unico favor que o governo do Estado
concedeu a esse:;, infelizes foi dar-lhes um pe-
queno laza .reto sem capacidade parà conter
o elevado numero dos atacados e que afinal
mandou fechar, exactamente quando a epide•
mia a ttingia o seu auge ! !. ..
Foi em presença dessa criminosa incuria
por parte do poder publico, que Rodolpho
rrheophilo tomou a si o bncar·go de extermi-
V

«Tive a feiiz idéa. de dirigir-me ao meu l;>omami-


go dr, Garcia Redondo, distincto homem de letras.
residente em S. Paulo, expondo-lhe a situação e· o
meu desapontamento e pedindo-lhe que me enviasse
do Instituto Vaccinogenico dalli alguma semente de
vaccina. Aquelle amigo, com a sua gentileza innata,
attendeu immediatamente ao meu pedido, enviando,
me a precisa semente, a qual acompanhou de suas
bondosas e animadoras palavras. Fiz, logo que a re-
cebi, a vaccinação de um vitello e tres dias depois da
inoculaQão vi que as pustulas começavam a se indi-
vidualizar e no quinto dia estavam aptas para dellas
ser colhida a vaccina, que era excellente•.
Narra depois que, em presença de yarios
medicos, começou a vaccinar crianças não
havendo inoculação que abor.tasse.
E assim iniciou o serviço de vaccinação
no Ceará, trabalhando sem descam;o, ajuda-
do por sua esposa, que é outr .o grande cora-
ção, vaccinando , e ensinando a vaccinar, ven-
cendo a repugnancia dos rotineiros e igno-
rantes, distribuindo tubos com vaccina e lan-
cetas e constituindo em todo o Estado com-
missões de vaccinação.
O resultad ;o dessa campanha durante qua-
tro annos foL já o dissemos, que, em Dez .em-
bro do 'anno que acaba de findar, fazia 31 .me-
ies que a varíola não victimava uma só .pes,sõa
em }fortaleza e que não fazia mais victimas
tam bem no interior do Estado!
Este ·brilhante successo conseguido pelo
esforço e pela vontade de um unico homem,
vem mostr::tr o que ha mais tempo teria .con-
seguido o governo do Ceará, se quizesse . fa-
zer o que Rodolpho Theophilo fez, desajuda- ·
do do auxilio of.ficial, com .os seus recursos
IX
.
nos sertões, num estado de semi-barbaria, a
instrucção indispensavel para transformai-a
em util elemento economico. O seu erro es-
tá em pensar que o governo republicano é
incapaz dessa funcção, quando a verdade é
que nenhuma outra se llle jmpõe tão energi-
ca e urgentemente e que a maior falta dos
governos dos Estados, que elles ptlrgam du-
ramente aliâs ; está em que a attenção e ener-
gia empregadas em coisas ~omenas têm des-
curado o cumprimento desse dever primor-
dial.
Assignada assim a nossa diverg~ncia com
o modo de ver a situação política. do paiz, te-
mos todas a~ razões para nos orgulharmos e
desvanecermos apontando ao paiz o nome do
8r. Rodolpho Theophilo, como o de um bene-
merito que fez juz a estima de todos os seus
compatriotas. Na campanha que se faz tão
energicamente contra a vaccinação obrigato-
ria, o depoimento que elle nos traz é precio-
- sissimo : é o elemento do facto, é o exemplo
que concorre para attestar o mo-do incontes-
tavel a efficacia desse recurso prophylatico.
E o que o constitue benemerito é qoo esse ex-
emplo, que representa tão a~signalado bene- ·
ficio para a população do Ceará, elle o deu por
si, a custa de sua fazenda, pelo proprio esfor-
ço, desajudado p·or completo, moral e mate-
rialmente, até dos que pela .funcção do goyer-
no, lhe deviam, quando menos auxilio indire-
ct-0 e o concurso do prestigio.
O Sr Rodolpho Theophilo assistiu á tre-
menda epidemia da varíola que assolou a ci-
XI
gnante.Nesse dia, precisamente quando havia
a enterrar o maior numero de mortos que o
cemiterio recebia, I .004, faltaram .1.0 servi-
ço doze coveiroa. O administrador redobrou
de esforços e actividade. Era impossi vel 52
homens abrirem covas para tantos corpos.
Emboni o terreuo de areia, e, portanto, de
facil perfuração, embora a diaria augmenta-
da e a ração de aguardente dobrada, com o
fim de animar os enterradores, ficaram as
, horas da noite, quando os COVE,iroslargaram
por mais não poderem de cansados, duzentos
e trinta cadaveres insepulto& !,
As scenas, que se seguem, descriptas com
simplicidade, trazein a impressão da verda-
de de gueto as viu e as transmitte, ferem tão
cruamente a nossa sensibilidade, que as fur-
taremos ao conhecimento do leitor. Bastamos
por -lhe sob os olhos a estatistica tot.al dos
obitos causados por essa terrível epidemia,
cumprindo sempre lembrar que o total da po-
pulação pouco excedia de cem mil almas.
-
Setembro -obitos 45
Outubro - « 592
Novembro- e 9.721
Dezembro- « 14.491
TOTAL 24.849

«Esta estatística re v~a apenas o nume ..


ro dos sepultados no cemiterio da Lagoa
Funda, Não ha estatistica dos crem~dos em
palhoças dos suburbios, dos sepultados no ce~
miterio de S. João Baptista e dos enterrados
XX
a xarq ue, era amarrado a um páo ~ lá se ia
pelas ruas da cidade ao cemiterio da Lagoa
Funda».
e, A peste ia n'uma marcha cada vez.
mais intensiva e voraz.»
« Em Novembro o obituario accusou ...
9.721 mortes produzidas pela varíola, para
augmentar ainda mais a jntensidade da epi-
demia em Dezembro>,
No dia 10 deste mez davam entrada no
cemiterio da Lagoa Funda mil e quatro cada-
veres ! >
« Os coveiros redobraram de esforços ;
mas ainda assim ficaram sobre a terra 230
corpos insepultos. No dia seguinte quando os
trabalhadores voltaram á sua ingrata tarPfa,
já os cães e os urubús cevavam-se nu carni-
ça humana !... »
« Homens affeitos áquelle serviço, a lidar
com c8rne podre, a respirar urna atmosphe-
ra impregna,dã do fedor da podridão, esta•
caram deante de tão hediovdo espectaculo.
Era precisa muita coragem para písar
aquelle chão juncado de ca rn~ humana. Pa-
ra mais aterrorizar as testemunhas desta,
horrível scena ouvfo n1-se o crocita r dos uru-
bús e o rosnar dos cães disputando uns aos
outros um pedaço de inte~tino ou um fran•
galho tle musculo.11
iüs coveiros vv.lerarn-se, como sempre,
do alcool e para maior animo eucheram•se
de aguardente."'
« Horas depois naquell~ campo santo re-
presentava-se uma tragi-comedia. Calaram-se
xxnr
eom cortezia e admittido a praticar naquelle
estabelecimento.
Feita a acquisição de instrumentos e de
vitellos torinos necessa rios, partiu para o
Ceará.
O presidente do Estado applau<liu o pla-
no, porem duvidou que podesse ser levado a
effeito.
Apenas refez a saude um pouco altera-
da na capital da Bahia, Rodolpho Theophil o
metteu mãos a obra, começando ô serviço da
vaccinaçào em sua propria casa.
O insuccesso foi completo, devi&o á se-
mente que por má ou antiga não havia ger-
mina.do.
Rodolpho Theophilo não desanimou, e es-
creveu ao Dr. Garcia Redondo, que prompta-
mente attendeu ao pedido enviando-lhe a pre•
cisa semente.
Feita a, inoculação em um vitello, tres
dias depois as pustulas começavam a ee in-
di vidualisar. ExcelJente foi a colheita da lym-
pha, sendo nesta mesma occasião vacciuadas
diversas pessoas,
Estava meio caminho andado. Restava
agora captar a confiança, vencer a má vonta-
de do publico.
Grandes, quasi insuperaveis foram as dif-
ficuldades ; mas afinctl vencerat11 a coragem,
a paciencia, a abnegação de Rodol pho Theo-
philo, por que mais de uma vez teve de pagar
para consentirem que fizes8e a inoculação.
Falta-nos espaço para acompanharmos Ro-
dolpho Theophilo ern sua via dQlorosa, .monta-
Y@u
râtht!1 Yt1tll!!\ltit !li
G11.1él.
O Ceará é a terra da iniciativa pessoal:
as calamidades, os flagellos a que está s-u-
jeita põem frequentemente em evidencia
homens de vontade e dedicação superior,
que assumem com sacrifício de sua bolsa e
do seu tempo, encargos que caberi&m ao po-
der publico, cuja energia infelizmente, como
succede em quasi todo o Norte, se manifes-
ta insufficiente e fraca.
Ao rol dos cearense .s benemeritos, em
que figura entre tantos outros o denodado
jornalista João Brigido, é de justiça juntar-
se o nome de Rodolpho Theophil0, o talen-
toso e applaudido romancista e cultor da sci-
encia, de quem acaba.mos de receber a of-
ferta da interessante brochura- Varíola e
Vaccinação no Ceard.
Nesse volume, distribuído gratis, estão
narradas na linguagem um pouco desleixa-
da, mas pittoresca e fluente do autor do Pa-
roara, as peripecias da ultima invasão da .
epidemia da varíola que soffreu a cidade da
Fortaleza, os estragos que causou a peste, e
os esforços empenhados pelo estimado es-
XXVII
criptor para pratiear a vaecinação preven-
tiva num meio fortemente avesso a essa me-
dida. Desajudad9 .' do concurao do governo
e das autoridades, que contestavam a sua
impotencia, Rodolpho Theophilo montou em
seu domicilio um serviço de immunisação,
mas vendo que o povo não procurava a vac-
cina, sabiu a propagal~ad~ bairro em bair-
ro, impondo-se ás mais · féltigantea jornadas.
São curiósas as noticias que nos dá dos
seus passos junto ás populações ignorantes
para convencei-aí da utilidade da vaccina-
ção. . ,
A's vezes foi-lhe preciso pôr em contri-
buição a phaotaeia do romancista como sue-
cedeu no seguinte encontro que teve com um
feroz inimigo da vaccina :
• Contei-lhe a historia de Jenner em que
este figura de um santo Anachoreta que
vi via nas brenbas a fazer milagres e peni-
tenciaR. Já comia o maná do céo, que lhe
trazia uma p_omba alva como a neve, e que
todas as tard ·es descia das alturas a caver-
na onde morava o santo. Perto havia uma
cidade assolada pela varíola. O povo della,
muito devoto, viu que se acabava todo apo-
drecendo em vida, fez preces e romarias pa-
ra applacar a colera de Deus. Todos o~ dias
morriam mais de mil pessoas. A princeza ti-
nha morrido e a rainha estando doente tarn ·
bem da peste, o rei botou voz de fama por
todo o reino dizendo dar um thezouro a quem
lhe salvasse á mulher. A cidade parecia um
cemiterio, tal era a tristeza e luto das fa1ni-
=WftJfi
• • •
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1
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lt11Ael11 Yllll!!lfit
''
Ili
Geilá ..'.

O ultimo 1i, ro qe RoqolphQ Theophilo,


1

operoso Htterato cearense-,· não será uma obra


de arte, mas é o melhor ·attestado de qul:th·
to pode o esforço de urn homam generoso e
intelligente quando empenhado numa causa
nobre e santa. · ·
Trabalho de observ~çào feito sobre no-
tas colhidas durante longos annQs de labuta,
é mais um documento ~0111probatorio ::las vir-
tudes da vaccína, tão contestadas, apezar da
evidencia esmagadora dos factos, pela mal-
vada ignorancia dos sabios qe certas seitas
truculentas.
O Ceará, devido a ·repetida$ crises cli-
matericas, é um dos estados do Brazil mais
sugeito1s a variola : basta lembrar que, em
1878, somente na capital e em doiR mezes,
falleceram dessa terriv 'el n1oleatia J1.ald pes-
soas, sendo que nessa epocha, houve um dia
em que foram sepultados 1.004 cadaveres
de variolosos, no cemiterio da. Fortaleza..
O auctor da brochura em questão, inte-
r~ssado como ninguem pelas coisas de sua
terra e vendo que as s~ccas · no norte do Bra-
XXXII

co o movimento do hospital de S. Sebastião


de Lo a 30 de Novembro de 1878:

Entraram- 875
Falleceram- 326
Ourados- 141
Em tra.tamento- 408 875
Vaccinados - 32
Sem vaccina- 843 875
Dos vaccinados nenhum falleceu.»
Rodolpho Theophilo narra detalhada-
mente os horrores da varíola. durante as sec-
cas de 77 e 900 sobre as quaes já publicou
dois livros que hão de ser sempre consulta-
dos com interresse.
E é lendo a historia dessa inenarravel
tragedia. ; a.ssistirido ao depoirn~nto de uma
testemunha do valor 1nental e moral do au-
tor ; sobretudo é acompanhando a deseri-
pção de factos que tanto falam contra. a
nossa t\ducaçào cívica e incuria, · pessoal
que se pode avaliar o serviço que Rodolpho
Theophilo acaba de prestar á gloriosa terra
que lhe foi berço.
Não posso resistir ao desejo de tran3cre-
ver os seguintes trechos da parte final da pre-
sente brochura :
« Qu11tro ancws de propaganda bastaram
para o povo se convencer da utilidade da,
vaccioa. Já disBe quanto me custou a vacci-
nação don1iciliaria. nos primeiros tempos. Ho~
je me procuram para, vaccínar e quando
XXXIII
chego aos don1icilios não sou repellidó. Ago-
ra mesmo, quando escrevo estas linhas, o meu
· gabinete está cheio de povo, que vai para a
Amazonia, e, grassando a varíola em Belem
e Manaos, vem pedir-me de sua livre e ex-
pontanea vontade o preservativo das bexi-
gat3•.
. . . . . . . . . . . .
e Entrego o Estado do Ceará á commie-
são vaccinadora federal expurgado da varío-
la, seru um obito por essa peste em pessoa
residente em Fortaleza, ha 31 mezes, como
se vê da certidão abaixo publicada.•
O auctor deste mal acabado escorço bi-
bliographico tem a f Plicidade de conhecer de
perto o adoravel espírito do auctor do livro
presente; largas horas passou na c'Jnviven-
cia encantadora de seu lar, sempre aberto
aoa amigos e aoR pobres ; e é com muita sau-
<lade que ao terminar o que ahi fica, recorda
essa casa hospitaleira. onde Rodolpho Theo-
philo, auxiliado pela excepcional bondade da
mais pura, d,1 mais nobre, da mais santa das
esposas-a quem o Ceará em grande parte
deve o inestimavel serviço que lhe vem de
ser prestado-passa os dias agindo em prol de
centenas de indivíduos que, certamente, lhe
não saberão agradecer.
H. C.
Editorial d' A Republica, Rio Grande do
Norte. Natal, 21 de :Março de 1905.
XLII
Se entre gPnte mais ou menos culta a
noticia do pasqui.m foi 1nais ou menos acre-
ditada, que prorluziria ella no povo, que alem ·
da grande prevenção que tem contra a vac-
cina, não póde por sua ignorancia di~t.inguir
o joio do trigo?
Não foram precisos muitos dias para eu
ter a prova do mal que haviam feito á miuh~
propaganda publieando aquella mentira.
Pensei que a torpeza dos inimigos do Cea-
rá, que felizmente não são cearenses, sào fo-
rasteiros vindos de outros Estados, não se di-
vulgas~e até a pleb~; mas, illudi-me.
O vulgo não lê, ma~ ouve ler, o que é
peior ainda.
Poucos dicts depois da citada publica-
ção, vaccinava eu na estrada de Pacatuba.
Chegando á casa do jornaleiro João Fran-
cisr.o da Silva, homem n1uito meu conhecido,
e de cuja família já tinha vaccinado, havia
tempos, algumas pessoas, encontrei uma crean-
ça de quatro mezes por vaccipar.
Pedi para vaccinal-a. O jornaleiro não
consentiu, dizendo-me, com muito bons mo-
dos, é verdade, as palavras seguintes, que
deixo transcriptaa para ficar bem caracteri-
sada a epocha. que atravessamos:
-Vm.cê me perdôe não deixar a menina
se vaccinar.
-Porque?
-Porque eu vi ler nas foias que a vac-
cina de Vm.cê está e1npestando e morreu uma
menina das que Vm.cê vaccinou.
-Não vê você que isto é uma calumnia?
8 VARIOLA E VACCINA ÇÃO NO CEARÁ
---
rem eu combatia pela verdade e apanhei a
luva.
Dois dias depoiA de publicada a noticia
pela «Republica•, vim pelas columnas do •J or-
nai do Ceará• extranhar o procedimeeto da
folha official publicando uma noticia que ella
sabia ser falsa, só com o fim de desacreditar
a vaccina anti-variolica por mím preparada.
Essa publicação, feita em terl.llos os mais
polido1;;, teve do jornal official esta resposta
ioserta em sua edição de 14 de Março de
1906:

« Ü CHARLATÃO >

(CComo era de esperar veio a fala o Sr.


Rodolpho Theophilo, não para se defender pe-
rante o publico, sinão por atirar uma puuca de
lama sobre os 1 edactores da « Repuhlica».
4

Não seremos nós que revide ao ataque gros-


~eiro e brutal de que fomos alvo :-prezamo-no1,
muitu por não condescender eiJi terçar a·rmas
com o charlatão, que vive a illaquear a bôa fé
dos incautos com o engôdo da sua lympha vac-
cinica. Somente porque nos não acoimem de me-
nos discret os, julgamos drver insi.i;tir no facto,
que denunciamos ao leitor, da morte de uma
creança vaccinada pelo hystrião da. Pajussara.
Trata-se bem .se vê de urn facto da maíor
gravidade, e que affecta menos ao ignorante e
pretencioso pharmar:oco, do que ao publico, cuja
vida não pode e:,tar a mercê do primeiro impos-
tor. Que .~e abra sobre elle o mais 1·igoroso in-
querito, e, apurada.i; a.ç responsabilídades, 8e to-
R. THEOPHILO 11

qu.er referír o impagavel sophomano. Esse indi-


viduo effectivamente serviu a 14 de Janeiro ul-
fimo como auxiliar na r~moção do varioloflo Mi-
guel da Costa, soldado do 14 batalhão de ínfan-
taria para o cemíterio de Lagoa-Funda, sendo
no dia 30 do mesmo rnez, accornmettido do Te-
ferido morbus, ma,., de caracter benigno ou dis-
creto. Teve alta a 1.o .de Março corrente. Ma, o
que o insigne Sr. Rodolpho no enthusiasmo es-
tolldo pela sua benemerencía não desceu a ave-
ríguar foz o seguinte: era essa a segunda vez
que .~1anoel Pereíra era accom·mett'ido de variola,
já havendo padec ,·do desso epldem'ia e,m Trahiry,
quando creança.
Elle ahi está são e ,'lalvopara attestar que
o fatuo Rodolpho foi v :cttma de sua irremed,avel
nescedade.
Do exposto se conclue que o Boletim Mensal
do Sr. Rodolpho, é um aggregado do burlas, {a-
bulas cynt'co.s de um esp1r1to alvar aceommetti-
do pelas bexigas indrsc1·etas da mais estulta
vaidade », •
Por esta linguagem da folha official em
suas columnas edítoriaes vê-se com que cas-
ta de gente eu P,sta va batendo-me, Imagine-se
os insultos que me eram dirigidos nas pagi-
na-, livres, os quaes não transcrevo para, não
offender a moral.
A' verrina supra respondi pelo «Jorna.l
do Ceará» em sua edição de 22 de Março de
1905:
« Desprezando-se a linguag~m insultuosa.,
,, impropria das columnas privadas de im-
c, prensa seria, não levando-se em conta a
R. THEOPHILO 17

Era preciso tempo e muito tempo para


restabelecer a confiança que eu merecia e
que o governo do Estado fez abalar.
A campanha continuava burda e impla,
cavel.
A 10 de Abril fui surprehendido com
uma publicação feita no jornal official pelo
meu antigo discipulo do LycP-u Dr, Eduardo
Mamede.
Era mais um que vinha, de vizeira ergui-
da, combater ao lado dos incondicionaes que
se sustentam a si sustentando a olygarchia do
Ceará.
Mezes depoia de haver eu publicado o
livro-Varíola e Vaccinação-veio o Dr. Bor-
ges .Mamede combater 3 minha propaganda,
não por ser positivista e nem tão pouco por
amor á sciencia, mas por ter eu (diz elle)
feito uma referencia. pouco honrosa a illus-
tre pessoa delle.
Quero deixar plenament~ provado que
não foi esse o movel que arrastou o Dr. Ma-
mede á imprensa .
O trecho a, que ~e refere o Doutor é o
seguinte, pag 208 :
« Tendo eido nomeado um n1edico para
« o prolongamento da Estrada de Ferro de
« Baturité, pensei conseguir restabelecer o
« serviço da vaccinaçào ali. Procurei esse fa-
c cultativo, um ca va.lheiro de minha particu-
« lar estima, o envidei todos ·os esforços no
« sentido de ser restabelecido ali o serviço
• da vaccinação . Depois ele muitos rogos pro-
« metteu-me encarregar-se da vaccina, r.aas,
20 VARíOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

E disae uma verdade, porquanto qualquer ca-


so de varíola que se dê no interior, tenho
immediatamente communicação e pedido de
vaccina.
O governo do Estado não supportou que
eu tal dissesse e fez escreve.r esse topíco em
sua mensagem:
" No interior occorreram casos de febres
" de mau caracter, alem disso, grassando o
1
' crup e a varíola em Senador Pompeo,- ~-
" Quíteria, l\Iissão Velha, Maranguape, Qui-
" xadá, Granja e Aracaty ".
Pelas columnas do «Jornal do Ceará ►) pe-
di venja a.o Sr. presidente do Estado para di-
zer-lhe que elle escrevera uma falsidade, que
não grassara a varjola naquellas localidades
como falsamente a Inspectoria de Hygiene
informara.
Este meu protesto custou-me essa verri-
na publicada no jornal official "Republica»,
em editurial, no dia 25 de Outubro de 1905:
" Só hoje podemo~ dar publicida.de ao
~ artigo em que o Dr. Meton de Alencar op-
" põe formal contestação ás diatribes assaca-
" das índivjdualmente a este nosso illustre
" amigo e á repartição de que tern a respon-
" sabili dade suprema. Trata-se nada maiEi.
" nada menos do seguinte: 'fendo o benerne-
" rito Sr. presidente dó Estado de elaborar a
« sua ultima Mensagem era natural que na
·' parte referente á bygiene publica calcasse
" as suas proposições sobre os dados apresen-
" ta.dos pelo chefe do serviço sanitario do Es-
" tado, Por sua vez é logico tambem que esse
24 VARIOLA E VACCINAÇÃONO CEARÁ

As respo3tas
dos R.mos vigarios não se fi-
zeram esperar. l\'.lunido de tão importantes
documentos compareci perbinte o publico no
«Jorna! do Ceará>> em 27 de Outubro de 1905,
e disse isto:

• Quem lê a mensagAm do governo e


« lê o meu livro não sabe quem faltou a ver-
« dade. O documento official passará por ver-
~ dadeiro.
« Quem acreditará que haja um governo
« que faça guerra á vaccina anti-variolica,
« quando esse mesmo governo foi testemunha
« da grande epidemia de variola de I 878, a
~ maior peste de bexigas que tem havido no
« mundo inteiro?!
v Ninguem. No entanto é uma verdade.
« Basta ler-se o jornal official para ficar-se
« convencido que não exaggero. O publico vê
« todos os dias nas paginas editoriaes da fo-
« lha do governo as mais acrimoniosas injurias
« á minha pessoa, á minha propaganda. Eu
« sou UM IGNORANTE, UM SANDEU, UM MENT~-
c<CAPTO, QUE VIVO A ILLAQUEAR A BÔA FÉ
e DOS INCAUTOS COM O ENGODO DE MINHA
« L YMPHA V ACCINJCA.
Porque o governo do Estado applaude
«
« e eonsente essa linguagem em sua folha~
« Uonsente e applaude porque não compre-
« hende os seus deveres, as suas responsabi-
<< !idades corno ch(3fe da magistratura do Es-
« tado. Se é verdade o que dizem de mim e da
« vaccina por mim preparada, o gove_rno do
« Estado está deixando que o accusem, em
~8 VARIOLA E V AúOlNAÇÃO NO CEARÁ

" Continúa variola. Oito casos e um obi-


to. Urge remessa mais vaccina. Dr. Leite ".
Pela primeira mala fiz remessa de bõa
provisão de va.ccina animal, recentemente
preparad.11, e ainda uma vez appellei para os
aentimeutos humanitarios do Dr .. Leite em
extensa carta que lhe dirigi.
Para maior clareza publíco o officio, que,
em resposta ao meu, recebi ~obre varíola no
Aracaty.
" Liga Oearense c-.ontra a Varíola. Ara-
caty, ~9 de Agosto de 1905.-111.mº Sr. Rodol-
pho Theophilo-Recebi o vosso officio de 15
do expirante, que passo a responder. Em 'fins
de Março deste anno desembarcou" neste por-
to, de um dos vapores da Companhja Per~
nambucana. um doente de varíola, de forma
discreta, que se tratou dentro da cidade, res-
tabelecendo-se em poucos di~s. Em Abril des-
embarcou um outro doente, tambem de um
vapor da mesrua Companhia Pernambucana;
mas neste a varíola era confluente, propa-
gando-se a tres pessoas da cidade, da~ quaes
uma falleceu. Foram mais contagiadas trese
pessoas, quasi todas de variola confluente,
falleceudo nove.
Se alem desses dezeseis casos em pes-
soas aqui domiciliadas houve mais algum caso,
ignoro.
Não ho1.1ve caso de varíola hemorrhagica.
Nenhuma pessoa vaccinada foi atacada.
Ignoro quaes as providencias tomadas
pelos poderes estadoaes e qual o seu vacci-
nador aqui. O movitnento de vaccinação a
36 VARIOLA E VACOINAÇÃONO CEARÁ

Foi encarrega.do do :serviço da vaccina-


ção na cidade de Sobral o Sr. Dr. Joaquim
Ribeiro da Frota.
No dia 11 de Outubro de 1905 recebi do
c-ommis~ario vaccinador de Ba.rbalha, Coro-
nel José Barreto Sampaio, este telegramma:
~ Mande vaccina ».
Dias depois reeebi este outro telegramma
t.la mesma proced encist:
« Varíola victimando nos sertões visi-
nhos Patos e Souza ».
Esta noticia me encheu de cuidados. A
cidade ameaçada da invasão da varíola está
a mais de cem leguas de Fortaleza. e, como
toda povoação sertaneja, cheia de gente sem
vaccina.
Se ao meuos aquella localidade fosse ser-
vida. por Estrada de Ferro, que eu podesse
para lá me transportar no caso della ser in-
vadida pela peste; mas seria preciso fazer
grande pu.rte da viagem a cavallo, o q~e não
me era possível.
Na impossibilidade de acudil-a pessoal-
mente em caso de perigo, escrevi longa car~
ta ao commissario vaccinador, lembrando-lhe
diversas medidas a tomar, caso a varíola ali
irrompesse. Recornmendei-lhe a vaccinação
e n~vaccinação como unico mPio de tornar
a população in vulnerav~l ao ataque de tão
tremendo inimigo. Enviei-lhe bôa provisão
dR vaccina animal e confiei na sua solieitude,
A varíola, felízmente, nào e~trou no t~r-
ritorio do Ceará, ficou no da Parahyba.
Para aquelle Ebtãdo dei ao Sr. José Ro-
Pessoa1:s por mim vaccinadas:
Janeiro . • . . . . . ·45
Fevereiro . . . . . 2ó
Março. . . . . . . 70
Abril . . . . . 24
Maio (Pa:jussara) . . 12
Junho ( « ) • • • 16
Julho ( « ) • • • 16
Agosto . . . . . . 26
Setembro . . . . . . 111
Outubro ·, . . . . . . 94
Novembro . . . . . . '16
Dezembro . . . . óO
565
No numero de nan não estão incluidae
as pessoas vaccinadas pelo Dr. João da Rocha
Moreira.
Peesoas v acciuadas peloe commieaarfoa
va.ccinado'r'es do interior do Estado, em 1905:
Camocim . . . . . . 46
Aracaty. . . . . • 1.0'lf>
Aracoyaba. . . . . 86
Quixadá . . . . . 29
1.186
46 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

A erysipela pela inocL1lação dos strepto-


coccus, sendo causa occasional da pneumo-
nia, uma vez que os microbios d'esta existem
commummeute na cavidade boccal na razão
de 10 a 15 °/o á espera de um instante azado
para sua pro1iferação n0 organismo, o qual é
dado, no momento em questão, pelo estado
erysipelatoso que muito facilita concorrendo
poderosamente para o seu desenvolvimento,
e a pneumonia, dt;,termioando a meningite na
razão de 13 °lo, podem ainda fazer callar o
Sr. Rodolpho Theophilo, pe ,gando sobre seus
hombros a expiação da possibilidade de. tão
grande crime.
De quaato temos adduzido verá V. Exc.a
a imp0rtaucia capital do assumpto e, por quA
se não nos chame de menos justo, proceden-
do como deve esta Inspectoria, cremos de
bom alvitre, pars:t evitar a reproducção de
factos desta. ordem, V. Exc.ª nomeiar uma
commissão de profissionaes habilitados para
uma syndicaneia rigorosa do processo usado
para o preparo da lympha vaccinica pelo Sr, _
Rodolpho Theophilo, quaes os meios emprega-
dos para confecção e purificação da mesma,
quaes as provas a que a submette para ga-
rantir o vaccinando contra as eventualidades
morbidas citadas, ajuizando dahi o valor do
meio prophylactico, cujo fabrico explora.
No caso de tudo ser executado de accor-
do com o que preceitua a sciencia, seria pre-
ferível que se fizesse acquisição de quanto
existe, impedindo o mercado que faz o mesmo
Sr., ficando a fabricação e distribuição sob
R. THEOPHILO 47

as vistas do Governo, unico meio que conhe-


cemos para que seja entregue aos vaccinado-
res lympha perf~itamento preparada e livre
de perigos para B, Saúde.

DEFRAUDADORES

Os defraudadores, certos de sua. innocen-


cia, extendem seus laços ás bebidas e sub-
stancias alimentícias, abastecendo o mercado
ern grosso e a retalho, com productos de fal-
sificações porta .dores de poreposos nomes, en-
feitados com etiqueta.$ douradas e outros en-
g0dos illudindo d'este modo a bôa. fé publica
para conseguir sua maior acceitação dentro
e fóra do Estado.
Em discussão que sustentamos não ha
muito pela imprensa, mostramos de maneira
cabal seus defeitos de fabricação, quando
falsificam os preciosoa vinhos de Champagve
com o nosso vinho <le cajú, pela addição de
bicarbonato de sodio, elevando esta. mistura
a ebolição prolongada ern banho-maria, re-
sultando a formação do carbonato neutro de
sodio, droga irritante e por ísto não uzada.
O Sr. Rodolpho Theophilo é pharmaceuti-
co, diz-se chimico e lhe emprestam fóros de
sabio.
Por ahi avaliamos o que existe em mi-
lhares de productos d'esita natureza, conf~ccio-
nados por indivíduos que não dispõem de co-
nhecimentos especiaes de chimica industrial,
52 VAlUOLA E VAOOINAÇÃO NO CEARÁ

1905, visto em conferencia por V. S.A, rogo-


lhe por i;iua probidade profissional responder-
me ao8 seguintos quesitos:
1.0 ~- Qual o diagnostico feito por V. S.ª?
2.o-Qual o estado do doente quando foi
V. S.a ehamado em conferencia?
3.c-Qual o periodo em que se acha varo
as vaccinas da creança, se aprE'sentavam al-
guma cousa de anormal indicando ínfec1tão?
4. 0 -Se a molestia de que veio falleeer
a creança teve como causa a Yaccina?
5.0 -Se a creaPça soffria otite aguda, sup-
purativa ou purulet1ta, chronica ou oturrbea?
Permitta me em qualquer tempo fazer
uso publico de sua rPsposta..
Sou com estima
De V. S.a
Patr, Am.o Ob. 0
0

Rodolpho Theophilo.

Fortaleza, 18 de Dezembro de 1907.


n1,mo Sr. Rodolpho rrheophilo.

Ylotívam a delonga de minha resposta á


carta de V. S.a os multiplos serviçua da pro-
fissão e os preparativos a proxima viagem.
Releve-me não denuuciar aqui os nomer-;
das pessôas da fumilia do finado doentinhc,
de que sua carta é assumpto.
E' esse um dever da nossa profissão de
medico.
Aos quesitos formulados por V. 8.a res-
pondo: ·
Ao 1. -Meningíte.
0 Tal o diagnostico do
.,

54 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

1.0 -Se a va6cinação que pratiquei se-


guiu ou não o seu curso normal ?-Sim.
2. 0 -Se appareceu a febre peculiar a vac-
cina e q ae tempo durou? Sira, dois dias, pois,
tendo se vaccinado no dia ~4 de F6vereiro
de 1905: appareceu-lhe é:t febre no dia 2 de
:Março que durou até o dia seguinte.
3. 0 -Se no locai da vaccina appareceu al-
guma cousa extránha que fizesse suppor al-
guma infecção? Não.
4, 0 -Em que dia manifestou-se a molestia
de que veio a fallecer a crea.nça e qual o es-
tado nesse dia , das pustulas vaccinicas? Na
madrugada do dia 7 de Março por uma febre
intensa. As pustulas nesse dia já estavam em
começo de cicatrisação .
5. 0 --Qual o medico chamado para prestar
assistencia a creança e qual o seu djagnosti-
co? O Sr. João Hypolito que diagnosticou me-
ningite.
6. 0 -Quantos dias durou a molestia? Qua-
tro.
7.0 -Qual a causa que a determinou?
I~noro.
8. -Qual
0
a opinião dos medicos, se hou ,.
ve conferencia? L\.Iem do Dr. João Hypolito,
que foi o assistente, o Sr. Dr. Eduardo Sal-
gado visitou a creança uma vez em compa-
nhia daquelle, concordando ern tudo com a
opinião e tratan1ento do assistente.
9.0 -De que molestia disse o medico em
attestado de obito ter fallecido a creança? A
mesma do diagnostico.
10.0 ,-Se a creança era sadia, forte, bem
R. THEOPHILO 55
----------------- ---
constituid ·a e se tinha alguma molestia na
bocca, gargc111ta, ou ouvidos? Não; e tinha na
face ao lado do ouvido esquerdo um orificio .sem
intumescencia e quasi imperceptivel por onde
suppurava a menor pre.'lsão dos dedos. Alem diss·o
a opinião geral é que a c'reança era lymphatica.
Pode V. S.a fazer desta minha resposta o
uso que lhe aprouver.
Sou com particular estima e consideração
de V S.ª
Am. 0 Or. 0 Obr. 0

A. Nunes Valente.

Vê-se, embora o tom esquivo dos medi-


cos, em tratando de tal assumpto, qne a va.cci-
na não determinou a meningite de que mor-
reu o meniílo.
A carta do Sr. Antonio Valente, tio da
creança, essa. não tem rodeios, limita-se a res-
ponder os quesitos sem · divagações. Por ella
vê-se que a vaccina foi a mais normal que é
possível e que- a molestia de que morreu o
pequenino foi causada pela enfermidade que
o mesmo soffria em um dos ouvidos, enfermi-
dade que encontrou terreno proprio, visto a
creança, descender de pais tuberculosos.
Não posso deixar de commentar este pe-
ríodo do referido relatorio:
«A erysipela pela inoculação dos strepto-
coccus, sendo causa occa.sional dét pneumo-
1
nia, uma vez que os rnicrobios d esta existem
comn1ummente na cavidade boccal na razão
de 10 a 150/0 á espera de um instante azado
56 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

para sua proliferação no organismo, o qual


é dado, no momento em questão, pelo esta.do
erysipelatoso que muito facilita concorrendo
pod-erosamente para o ~rnu desenvolvimento,
e a pneumonia, determinando a meningite na.
razão de 13 °/o, pode-m ainda fazer callar o
Sr. Rodolpho Theophilo, pesando sobre seus
hornbros a expiação da. possibilidade de ião
grande crime>),
Em verdade digo que bem poucas vezes
tenho lido um trecho tão obscuro.
Delle deprehende-se que o streptococ-
cus in'3cula-se nu organismo e encontrando
no mesmo os microbios da pneumonia, na ca-
vidade boccaJ, estes proliferam, a custa da
proliferação dos microbios da erysipela, e
sã.o atacadas as meninges.
Todas essas coisas foram ditas para fa-
zer crer que a crea nça morreu em conse4uen-
cia da va,ccinação, que esta produziu a ery-
sipela, que a erysipela produziu a pneumo-
nia, que a pneumonia produziu a meningite,
que a meningite produziu a morte que tir0u
a creança deste mundo.
Acceitando como verdadeira essa. theo-
ria do Sr. Inspec tor de Hygiene, mesmo as-
sim não me pesa sobre os hombros a expiaçiJ,o
de tão grande crime.
A creança não teve erysipela, não teve
pneumonia o affirmam os medicos que as-
sistiram-na e o seu tio della. As vaccinas evo-
luíram normalmente e quando as pustulas es-
tavam quasi seccas declara-se a meningite.
O Snr. Inspector de Hygiene arranjou
R. THEOPHILO 57

~ evolução de um esta.do morbido, começan-


do pela erysípela e acabando pela meningite.
Como na vaccinação a erysipela é um
accidente que pode advir, acceitou-o e aca-
bou affirmando que a alludida creança falle-
ceu de meuingite em consequenuia da vacci-
nação.
, E se a creança falleeeu de meningite parf\
que mandou fazer uma rigorosa desinfecção
em toda. a casa?!. ..
O Snr. Inspector de Hygiene, pedia ao
governo do Estado, como medida sanitaria,
o feeharoento de meu vaccinogenio.
Fundamentava o seu pedido a morte da
ereança por mim vaccina.da e a exploração
que eu fazia eru Fortaleza. Pedia a nomeação
de urna com missão modica afim de examinar
o meu processo de cultura da v accina animal
e a propria vaccina.
Esperei com anda a vinda dessa commis-
são, mas não veio. Sei que convidaram me-
dicos para isso, porem não encontraram acto-
res para a come dia. O que viriam elles fa-
zer? O processo que uso é o mesmo usado
em todos os vaccinogenios do mundo e o
descrevo minuciosamente no meu livro e Va-
ríola e Vaccinação no Ceará»-1904. Fazer o
exame bacteriologico da vaccina? Não, por-
que não têm gabinete de bacteriologia e nem
pratica de tal especialidade.
A commissão não veio, mas por isso não
me julguei justificado. Agora quem exigia.
que a vaccina fosse examinada era eu. Pedi
ao governo do Estado, que a bem da saúde
58 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

publica, fizesse o pedido do Inspector de Hy-


giene mandando examinar a vaccina por mim.
preparada.
Não me deu resposta.
Appellei para ai suprema auctoridade sa-
nitaria do Brazil, a Directoria Geral de Hy-
giene Publica do Rio de Janeiro. Emquanto
a Directoria de Hygiene do Rio não profe.
ria o sen véreditum eu publicava este annun-
cio no «Jornal do Ceará»:
«Rodolpho Theophilo, continúa a vacci-
nar, gratuitamente, em sua residencia, todos
os dias de uma ás quatro horas da tarde,
emquanto o Sr. Inspector de Hygiene não
determinar o contrario».
Não podia proceder com mais lealdade.
O Sr. Inspector de Hygiene dizia que a ·
rainha va,ccina era suspeita de conter ger-
rnens pathogenos, microbios que .matavam
produzindo meningite.
Eu pensava que a vaccina que cultiva-
va era innocente. O que valia a minha pala-
vra de vendedor de vaccina, de defraudador,
deante da palavra auctorisada da prirueira
auctoridade sanitaria do Estado? Nada.
Assim, dirigi ao Director de Hygiene do
Rio esta petição :

«lllmo. Exmo. Sr. Dr. DirectorGeralda


HygienePublica.
Rodolpho Marcos Theophilo, pharmaceu-
tico pela Faculdade de Medicina da Bahia,
tendo estabelecid.o na cidade de Fortaleza., ca-
60 V ARIOLA E V ACCIN AÇÃO NO CEARÁ

«Instituto Sorotherapico Federal-Rio de


Janeiro, 10 de Maio de 1907. ·

Illmo. Exmo. Sr. Dr. Directordo Institutode


Manguinhos.
Tenho a honra de apresentar-vos o rP.~Ul•
tado do exame bacteriologico procedido na
vaccina anti-variolica preparada pelo sr. Ro-
dolpho Theophilo.
Os tubos de vaccina a examinar estavam
accondicionados n'uma pequena caixa de ma-
deira, aberta nas extremidades, e envolvida
por uma tira de papel que trazia impresso os
seguintes dizeres: Vaccinogenio de Rodolpho
Theophilo- Vaccina Anímal ext,rahida do vi-
tello 92 no dia 15 de Dezembro de 1906 e con-
servada em glycerina-10 tubo.ç-Ga1·antida por
60 dias-Boulevard do Visconde de Cauhype
N.o 4-Ceard-Fortaleza-e presa nas extre-
midades por lacre.
Os tubos de lympha vaccinica estavam
enyolvidoes em papel de chumbo, fe.chados a
lampada em ambas as extremidades, a ex-
cepção de um, em que uma dellas estava mal
soldada. A va.ccina nelles contida era de côr
amarellada, notando-se perfeitamente a sepa-
ração existente entre a agua glycerinada e a
polpa, não havendo bomogenisação perfeita.
Todos apresentavam o mesmo aspecto, a ex-
cepção do que ficara mal fechado, o que per-
mittiu o desenvolvimento d'um bolôr.
Para verificar-se a existencia de algum
germen pathogeno foi o conteudo de 5 tubos
R. TH..EOPHILO 61

addicionado de um pouco de agua physiologi-


ca a 7,5°/o e inoculado sob a pelle do abdo-
men d'uma cobaya. Nem no dia seguinte nem
nos que se seguiram houve a minima reacção
inflamatoria no ponto da inoculaçã.o, assim
tambem como outro qualquer phenomeno mor
bido. A obs~rvação da cobaya que se prolon-
gou por mais de um mez, demonstrou a não
existencia, na vaccina em questão, de qual-
quer germen pathogeno, pois · que esse prazo
é sufficiente, ainda mesmo quanto á tubercu-
lose, para que evoluisse na cobaya a n1olestia
que causasse, e durante todo esse tempo ella
sempre se manteve em optimas condições.
Para verifiear a quantidade e a especie
de germens existentes na vaccina, foram del-
la semeiados varios tubos. Este exame de-
monstrou que em um tubo havia 5 germens,
em outro 3 e em outro 2.
O estudo delles mostrou tratar-se de: sta-
philococuz albers, do ungasther;·ium, do b. subti-
lis, de um germen que ainda não poude ser
diagnosticado.
O seu ·estudo, porem, demonstrou que,
como os outros, era inoffensivo, pois que a
sua cultura. inoculada em grande quantidade,
sob a pelle, no peritoneo de varios animaes
do laboratorio, não produziu nelles a mini-
ma reacção quer local, quer geral.
Verificada a inocuidade da vaccina, va-
rias creanças foram com ella vaccinadas e o
resultado foi o :MELHOR POSSIVEL, nos pontott
da inoculação desenvolveram-se pustulas ca-
04 YAHIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

Solon da Costa e Silva, supplente do juiz


seccional.
Roberto Muratori, artista.
Domingos Muratori, artist€.l.
Oarlo8 Mesiano, negociante.
Manoel E. Maia, artista.
José Moreira Villar, negociante.
Demosthenes Erigido, guarda-livros.
Pharmaceutico José Eloy da Costa, depu-
tado estadoal.
Leopoldo Gurjào Cabral, negociante.
Oonradc> Cabral Filho, negociante.
Maximiano Leíte Barboza, negociante.
Francisco da Costa Freire, negociante.
Conego Liberato Dionísio da Costa, pro-
fessor da Escola Normal.
Hortencio Alcantara, negociante.
João Arêas, negociante._
Aprigio Menescal, negociante.
Francisco Ferreira Braga F. 0 , negociante.
Benjamin C. de Moura, emp. public.o.
, Dr. Raymundo Francisro Ribeiro, profes-
sor da Faculdade de Direito. ( 1)
José Nogueira, despachante geral da Al-
fandega.
Joaquim Costa Souza, negociante.
Raymundo Cabral.
Francisco Víllela, empregado da Camara
Municipal.

(1) Por sciencia propria quanto ao primeiro af-


testado e por informações fidedignas quanto aos de-
maui.
• •
R. THEOPHILO 65

Niel Olsen, artista photographo.


Alberto Alvaro Ferreira, negociante e ve-
reador da Camara Municipal.
Pharmaceutico Antonio Albano .
.João Tiburcio Albano, negociante .
Dr. Antonio E. da Frota, engenheiro e
director do Lyceu Cearense.
Dr . Eduarrlo Studart, juiz seccional. (1)
Manços Valente Cavalcante, capitalista.
Pharmaceuttco Antonio Gonzaga Cordei-
ro de Almeida.
Pharmaceutico Luiz Pacifico Caracas.
José Bruno Menescal, negociante.
José da Justa l\ilenescal, negociante.
Gabriel Fiuza Pequeao, negociante .
Ismael Fiuza Pequeno, negociante.
José ~lenescal da Costa, empregado do
commercio.
José Rodrigues de Carvalho, negociante.
Dr. José Joaquim de Almeida Filho, en-
genheiro e negociante .
Casimiro Montenegro, deputado estadoal.
Pharmaceutico Ildebrando Gomes do Rego.
João · Nunes de Mello, negociante.
L uiz (Joelho Caititú.
José Agostinho Rodriguesj negociante .
J oaquíto Sá, negociante.
Domingos Russo Italiano, negociante.
Gabriel Gonçalves Gomes, negociante.
João Baptista Lopes, negociante.

(1) Vaccinou em minha casa com excellentes re-


sultados.
66 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

Antonio .Jovino dos Santos, empregado


no commercio.
Damião Au~usto Fernandes, empregado
no comCJercío.
Euea8 Campos, negociante.
João Euzebío Ferreira , negociante.
Ignacío Porfirio Sampaio, negociaute.
Joaquim Barroso, negociante.
Paulino Joaquim Barroso, negociante.
Antero da Costa Tb eopbilo, empregado
do commercio.
José Albaoo Filho, negociante e consul
da Allemanba.
Adolpho Barroso, negociante.
José Marçal, negociante.
José Xavier de Castro, em pregado do
Lloyd Brazileiro
Conra,do Ferreira Pacheco, empregado
publico.
Julio Alcides da Silva.
Antonio da Sílva Braga, despacbi:lnte da,
Alfandega.
1
João Pedro Villa Real, empregado da
namara Municipal.
Antonio Teixeira Leite, artistn.
Joaquim Lima, r.mpregado publico.
José Costa Souza.
Agapito .Jorge dos Santos, advoga.do e
jornalista.
Pharmaceutico Carlos Felippe Rabello de
Miranda.
Hermenegildo de Britto Firmeza., guar-
da -livros e jornalista.
Virgílio Nunes de Mcllo.
68 VARIOLA E VACOINAÇÃO NO CEARÁ

Frederico Skinner, artü,ta.


Dr. Hermino Ba.rroso, professor do Lyceu
Cearense.
Antonio da Justa Menescal, negociante.
José P. Bastos, negocia,nte.
João da Costa Bastos, negociante.
. Commendador Alfredo Garcia, emprega-
do publico .
Paulo Augusto de Moraes, negociante e
vereador da Oamara Municipal.
Antonio Vieira Sobrinho, negociante.
Possidonio dêJ Silva Porto, negociante.
D.r. Alfredo ~ovis, arrendatario da Es-
trada de Ferro de Baturité.
J oã.o de Alencar Araripe.
Desembargador João Firmino Dantas Ri-
beiro.
Bernardo Ferreira, da Cruz, industrial.
Joaquim Martins Junior, negociante.
Paulino de Oliveira Rocha, industrial.
Dr. Pedro de Queiroz, industrial e homem
de letras.
' José Pierre Carneiro, negociante.
Raymundo Cícero da Silva, negociante.
Louis C. Oholowieçki, artista.
Barão de Oamocim, nP,gociante.
Alfredo d~ Castro e Silva, negociante.
Cap.m Francísco .Pedro dos Santos, offi-
cial do exercito.
Raymundo Theophilo Ramos, negociante.
Manoel Ribeiro Bertrand, negociante.
Oonfucio Paimplona.
Eduardo Pastor, negociante.
A. Cruz Saldanha, negoch:1.nte.
R. THEOPH-ILO 69

Edmond Levy, ndgociaute.


Dr. Francisco Gomes Parente.
Dr. João Marinho de Andrade, medico.
Dr. Virgilio Augusto de Moraee, profes-
sor da Faculdade de Direito e advogado.
Dr. Francisco de Assis Bezerra de Mene-
zes, professor da Faculdade de Direito e ad-
vogado.
Quintioo Aderaldo Maia.
Dr. Waldemiro Oa \Talcanti, a.dvogado e
jornalista.
Armando Monteiro, professor do Lyceu
Cearense.
João Brigido dos Santos, advogado e jor-
nalista.
José Candido Cavalcante, preside 'nte da
Junta Commercial.
Joaquim Feijó de Mello, tabellião publico.
Manoel Fernandes Fradique, negocit:tnte.
Francisco Pinto de Mesquita, guarda-li-
vros.
Guilherme Studart da Fonseca.,negociante.
Virgílio Bezerra de Menezes, negociante.
Benedicto Asclepiades de Pontes.
Barão de Studart, medico.
Guilhern1e Perdigão, conferente da Al-
fandega.
Antonio Ovrillo
., Freire .
Dr. Anrelio de Lavor, medico.
Vicente Alves de Almeida e Castro, em-
pregado no commercio.
Francisco Horacio Vieira da Costa.
José Joaquim de Paiva Filho.
70 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

Dr. Alvaro Fernandes, medico. (1)


Antonio A. Carvalho, despachante da Al-
fandega.
Major FranP,isco Baptista Torres de Mello.
Joaquim Emygdio de Castro, negociante.
Antonio Ildefonso de Araujo.
Candido Maia.
Miguel Horacio da Silva.
Joaquim Theophilo Cordeiro de Alm€ida,
artista.
Ludgero Garcia, negociante.
Aroancio Cavalc~nte, artista.
Raymundo Martins de Almeida.
Francisco Ribeiro Leitão, negociante.
José Raymundo da Costa, negociante.
José Luí.z de Castro, guarda-livros.
Luiz Perdigão Bastos, negociante.
Francisco Augusto Loureiro, negociante.
Manoel J ulio Pessoa.
Dr. Rufino Antunes de Alenca.r, medico.
José Gomes Carva.lhedo, empregado pu-
blico.
Louis Gonthier, artista.
Virgílio Ribeiro da Silva, negociante.
Pharmaceutico Osvaldo St.udart.
Fra.nci~co de Assis Bezerra de Menezes,
artista.
Vicente Bezerra, artista ,.
Raul Cabral, negociante.
Benoit Levy, negociante.

(1) Vaccinou em minha casa nma pessoa com


exito . Quanto as outras partes do attestado não tenho
razões para affirmar ou infirmar o allegado.
74 VARIOLA E VACCINAÇÃONO CEARÁ

·o •

~
~

=
~
o
'1li
:n:
~
Õ'

t( 1
é)

Antes de expol-a á venda, requeri ao go-


verno da União patente de invenção, envian-
do, corno é de lei, o processo .de sua fabrica-
76 VARIOLA E V.ACCINAÇÃO NO CEARÁ

Pessoas vaccir1adas por mim em 1906 ·

Janeiro , 112
Fevereiro. 84
Março 36
Abril 95
:Maio
,Junho
Julho
l Pajusaara:
10
17
11
Agosto • 1 91
Setembro. 37
Outubro . 28
Novembro 29
Dezembro 21
571

Pessoas vaccinadas pelas com missões v ac-


cinh,doras do interior do E~tado em 1906:

Camocim . 33
78 VARIOLA E VAOCINAÇÃO NO CEARÁ

Era essa a razão de continuar eu a minha


labuta sem treguas e nem desfallecimentos.
Só podendo a V8,riola ser jmportada por
mar eu tinha grande cuirlado em ter auxilia-
res zelosos em todos os port0s do Ceará fi-
1

cando o de Fortaleza sob minha vigila.ncia.


Os estragos que a variola fazia em Para-
byba e Rio Grande do Norte, para onde eu
enviava vaccina por quasi todos os va.pores,
me traziam apprehensivo. Não tarda.ria a
aportar em nosso porto um varioloso.
Eu sabia que immediatarriente o Inspector
da Saúde do Porto me avizaria o deaembar- _
que de um bexigoso, mas que providencias
poderia eu tomar?
Não tardou muito a se realisar o que eu
previa.
No dia 24 de Janeiro desembarcou do
vapor v Pernambuco», a menor Francisca,, par-
da, de 10 annos de edade, vinda de Parahyba
êm companhia do Sr. Capitão-Tenente José
Fructuoso Monteiro da Silva e sua faroilia.
A menina desembarcou com febre alta e
grande dor de cabeça. A visado do caso e vin-
do ella de um logar onde grassava a varíola
com intensidade, não sendo vaccinada, como
me affirmaram, procurei vel-a na manhã do
dia 25. Fui ao hotel de França onde a famí-
lia estava hospedada. Indaguei da doente e
disseram-me estar confronte ao hotel á rua
do Major Facundo n. 0 3. Dirigi-me para lá e
encontrei a creança P.tn grande estado de
prostração, delírio, escarrando sangue e tendo
no corpo algumas placas negras. Vi que se
R. THEOPHILO 79

tratava da terrivel bexiga hemorrhagica e


perguntei a enfermeira o que hã.via dito o me-
dico, respondeu-me, que dissera ser variola.
A vista disso tratei de immunisar os ha-
bitantes do quarteirão.
8ó na casa parede em meio á casa da
doente havia uns arabes que tinham doze
creanças por v accinar.
· Vaccinei e revaccinei os moradores de
todo o quarteirão. Depois tratei de fazer re-
mover a enferma para uma casa isolada nus
suburbios da cidade. Competindo esse serviço
a. Hygiene Publica, pedi ao dono do hotel que
communicasse o facto ao Iospector de Hygie-
.ne e aguardasse as providencias . O Sr. Izido-
ro Brun foi pessoalmente entender-se com a.
Hygiene, ma8 nada obteve, alJegando aquella
auctoridade não ter onde recolher o enfermo.
No dia ~7 pela manhã fui visitar a doen-
te e encontrei a casa fechada.
Dirigi-me ao Sr. Izidoro e soube, que este
fôra obrigado pelos seus hospedes a remover
a. variolosa, sob pena de abandonarem o ho-
tel. Perguntei-lhe para onde e disse-m~ que
para o arraial « Moura Brazih ..
O local não podia ser peior. Estranhei
que o Sr. Izidoro esquecesse o meu peclido
e l~vasse a doente para o meio de gente que
não era vaccinada.
J11stificou-se dizendo não ter Eincontrado
uma casa desoccupada nos suburbios a não
ser aquella para onde fez remover a bexigosa.
O ma) estava feito, agora era procurar
re1nedial ..o.
80 VARfOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

Fui irnmediatamente ao arraial «Moura


Bra&il», miseravel bairro, a beira-mar, dentro
de uma socava, ao sopé da duna onde está
edificada a estação central -da Estrada de
Ferro de Baturité, habitado por ínfima gente,
pescadores e catraeiros em sua maioria.
O casebre onde estava a doente ficava.
encravado em uma pequeoa rua de vinte e
tantos casebres.
Havia ali cerc& de cem pessoas não vac-
cinadas; um optimo começo de epidemia.
Estava munido de vaccina ani1aal, re-
~entemente colhida, e pedi para que se dei-
xassem vaccinar.
Accederam de muito má vontade, alle-
gando que havendo bexiga na terra a vacci-
na podia empestar.
Trabalhei até exgottar a provisão de
vaccina que levava.
Vim á casa e munido de mais vaccina
' voltei ao arraial, de onde retirei-me quando
deixei todos vaccinados, a excepção de uma
mulher e dois filhos menores e um taverneiro.
A variolosa agonisava. Entendi-me com a
enfermeira, uma mulher muito cordata, e pe-
di-lhe que fizess~ o enterramento logo que a
doente fallecesse; recommendei-lhe mais cer-
tas medidas de prophila.xia, como fossem o
transporte do cadaver por pessoas vaccina-
das, a interdição da casa, a completa desin-
fecção desta etc.
Pela manhã do dia 28 voltei ao arra~al
em companhia de um amigo, auctoridade po-
licial em Fortaleza.
R. THEOPHILO 81

Dirigi-me logo á casa da. doente; havia


falltcido ás 2 horas da manhã e, conforme o
meu pedido, fôra sepult~da antes de amanhe-
cer o dia. As roupas e os poucos trastes de
que se serviu a variolosa foram queimados á
minha vista e a casa rigorosamente desin-
fectada a expensas minhas.
Para completar a obra era preciso vac-
cinar as pessoas que se haviam recusado. A
autoridade, levada até ali pormim para isto,
obrigou 0:3 obstinados a receberem o preser-
vativo de J enner.
A mulher e1itregou-me os braços zurran-
do como uma jumenta.
O taverneiro protestou P-ontra a violen-
cia, mas deixou-se vaccinar. As duas crean-
ças, a.ssombradas com o berreiro da mãi gri-
tavam desesperadamente e no acto de serem
vaceinadas estrebuchavam como se estives-
sem endemoniadas.
Tpmadas assiru as providencias ao meu
alcance aguardei o resultado. Durante trinta
dias fui ao arraial Q Moura Brazil-. Acompa-
nhei a evolução das vi,ccinas 1 que havia pra-
ticado, e bastante satisfeito fiquei por uào
ter perdido uma incisão. A variolosa vinda
de Parahyba não contagiara pessoa alguma
graças a vaccinação feita immediata.mente
nos iadividuoe não vaccinados habitando na
visinhança da euferma.
A casa n.º 3 da rua do Major Facundo
foi rigorosamente desinfectada. Durante o
mez visitei todos os dias o quarteirão e não
foi notificado um só caso de varíola.
82 VARIOLA E VAC0INAÇÃONO CEARÁ

A variola hemorrhagica é das formas de


variola a mais terrivel, porem tal vez a menos
contagiosa, se é que ~sta molestia não se
transmittP, no periodo da inC'ubaçào.
A bygiene publica não deu um passo para
impedir que a, vari0la se propagasse e no
entanto o Sr. Presidente do Estado diz em sua
mensagem:
«E'-me agradavel consignar que, a não ser
um caso de variola importado de Parahyba,
nenhum outro se verifica ha dois annos nesta
capital, g1·aças as medidas postas em pratica
pelas auctoridades sanita rias».
Este topico da mensagem é falso, infeliz-
mente, quando debaixo de todos os pontos de
vista devia ser verdadeiro,
O Sr. Com mandante da Escola de Apren-
dizes Marinheiros do Ceará, soHcitou-me vac-
doa para ser enviada para a Escola de A pren-
dizes d8. Parahyb:1.
Attendi immediatamente o pedido envian-
do 25 tubos de vaccina, como se vê dos do-
cumentos abaixo:

Escola de Aprendizes. Ceará.


III.mo Sr. Rodolpho Theophilo.
Meus cordeaes cumP.rimentos.
Accuso recebido os 25 tubos de va.ccina
animal que teve a gentileza de enviar-me afim
de serem remettidos ao Sr. Commandante da
Escola de Aprendizes Marinheiros da Para-
hyba, que nos solicitou.
Aos muitos serviços que desinteressada-
mente tendes prestado a esta Escola vem mais
R. 'l'HEO PHILO 83

este se juntar para que maior seja a nossa di-


vida para comvosco.
Bem sei que é uma dívida insolvivel, rua:3
tem o grande valor de não fazendo corar o
devedor, enaltecer o merito do credor.
Meus sinceros agradecimentos ao bene-
merito do Ceará. Queira aceeitar os protestos
de estima P- consideração de quem é vosso
Patrício agradeci00
..... .
Heleno Pereira.

Fortaleza, 6 de Junho de 1907.

Comrnando da Escola de Aprendizes Ma•


rinheiros.
N. 0 178-Parahyba, 13 de Junho de 1907. ·
Ex.mo Sr. Rodolpho Theophilo.
Summamente grato a gentileza dispen•
sada por Y. Ex.ª ao estabelecimento e-ubordi-
nado a.o meu com mando pela remessa gracio-
sa de tuboa de vaccina preparados sob asa-
bia direcção de V. Ex.ª cumpro o dever de
P-xpressar o reconhecimento desta Escola a
V. Ex.ª e de comrnunicar que acabo de dar
conta de tão valioso serviço ao Senr. Ministro
da Marinha, que o tornará na devida consi-
deração.
Prevalecendo-me do ensejo tenho a hon-
ra de apresentar a V. Ex.ª os protestos de
distincta consideraÇ,ão.
Saúde e fraternidade.
Capitão de Corveta Franci~co Agostinho
de Souza e Mello, Oornmandante.
VII'

A variola continuava a grassar nos Esta-


dos visinhos e nem por isso o governo do
Ceará se apercebia rlo perigo que curria a
nossa população não havendo em Fortaleza
· um isolamento, onde fossf:m recolhidos 0s va-
ríolosos, que aqui aportassem. Era confiar
demais no destino.
O caso do arraial «Moura · Brazil», feliz-
mente sem consequencias, podia se repetir
com desastrosos effeitos.
Em meu~ boletins mensa.es pedia aos po-
deres publicos a creação de um lazareto para
vafiolosos. Só assim o Ceará podia se consi-
derar livre de uma peste, que já uma vez o
deixara quasi aniquilado.
O governo do Estado repetia em suaF:
mensagens que a subi Hygiene Publica havia
conseguido extinguir a variola em Fortaleza.
Não entrava na apreciação da affirmati-
va do governo. Acceitando•a como v~rdade
pedia que completasse a.obra mandando fazer
o isolan1ento.
O isolamento não s0 fazia, como medida
R. THEOPHILO b5

alguma tomava a Hygiene Publ~ca no seutido


de impedir 4ue a varíola voltasse ao Ceará,
corno hei de provar.
Haviam já se dissipado as minhas appre-
hensões, motivadas pelo caso de variola im-
portado de Parahyba, quando un, outro va-
rioloso aporta á Fortaleza, no dia 20 de Se-
tembro> no vapor (<Jaboatão•.
Era o carvoeiro do me~mo vapor, 1\Ianoel
Pereira de Lima, de 24 annos de edade, sol-
teiro, natural de Pernambuco.
O Sr. Inspectof da Saúde do Porto na vi-
sita que fez ao navio fel-o desembarcar e com-
municou imrnediatamente o facto ao Sr. In-
spector de Hygiene do Estado.
O desembarque foi feito peJa manhã e o
doente esteve até cinco horas da tarde expos-
to ao sol a.o lado do galpão <la Recebedoria
do Estado, na. praia, até que a Hygiene alu-
gou um casebre no morro do Moil1bo e fêl-o
transportar.
Tendo conhecimento do facto, na noite
do dia 20, logo ao amanhecer do dia ~l diri-
gi-me ao morro do Moinho. Lá encontrei o
enfermo, alojado em uma choupana., na subi-
da do morro, ao naseente du pequeno povoado.
O local e a habitação foram de uma es-
colhá infeliz. Haviam aloja.do o doente no seio
de uma população sem hygiene e sem vacci-
na. Cerca de cem cazebres habitados p~r gen-
te da peior condição constituem o arraial do
morro do Moinho.
Não competia a mim providencia alguma
uma, vez que a Hygiene Publica tinha o va-
86 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

rioloso sob a sua guarda. Se essa repartição


qaizesse agir já teria ali os seus vaceinado-
res immunisando a população, um medico
de conta do doente. Nem sombra de policfa.
sanitaria encontrei. ·
A vaccinação e revaccinação ali era a
unica medida de salvamento.
Quiz praticai-as, mas o povo recusou-se
obstinadamente. Parede em meio do pseudo-
isolamento morava uma viuva com filhos sem
vaccina.
Pedi para que se deixassem vaccinar,
mostrei-lhes o perigo que corriam morando
visinho a um varioloso. A nada os brutos se
moveram.
Responderam-me com evas _ivas ·e depois
como insistisse, trataram-me mal. .
Sahi de porta em porta rogando que se
vaccinassem, mas todos me repelliram allegan-
do estar a peste no logar e por isso a vaccina
empestar. Quem seria capaz de demovei-os
desse errado pensar? Esta fa1sa theoria tenho
visto medicos sustentarem.
Desilludi-me de ímmunísar aquelles igno-
rantes, que eram victimas da criminosa ine-
pcia do governo do Estado.
Aquelle attentado á Saúde Publica feito
pelo Poder PnbJico, me irritou e retirei-me
disposto a nunca mais lá voltar.
Em caminho encontrei-me com o medico
da marinha Dr. João Guilherme Studart. Eu
estalava de indignação. Desabafei. Pedi que
me acompanhasse para testemunhar uma das
nossas mizerias .
R. THEOPHILO 87

E voltei levando-o em minha companhia


ao morro do Moinho.
Chegando em frente ao casebre onde se
achava o varioloso, entrou.
Quaes as suas impressões uão m'as disse,
apenas informou-me que se tratava, de um ca-
so de variola confluente ~ que elle havia si-
do· encarregado do tratamento do enfermo.
Mostrou-me a con venienciêj de proceder
a v accinação ali. Concordei e pedi que a ini-
ciasse, offerecendo-lhe a lanceta e alguns tu-
bos de vaccina animal.
Encaminhou-se, por indicação minha, para
a casa, parede em meio do isolamento. A dona
do c4sebre recebeu-o ainda peior do que a
mim.
Seguiu de rua a. fora offerecend o vacci-
na e recebendo de todos a mais formal re-
cusa.
Desenganados voltamos a cidade, onde a
pedido seu, revaccinei-o.
Pela reluctancia da gente ali domiciliada
em receber a vaccina, convenci-me de que a
· varíola se propagaria . ali e quiçá pela cidade.
Esta idéa mortificava-me. Seis annos de
trabalho perdidos pela obstinação daquP lla
gente estupida e pela inepcia criminosa de
um governo máo.
O que poderia eu fazer em tal emergen•
eia?
Persev~rando, talvez conseguisse sa.lvar
aquelles infelizes. Nessa esperança ia. todas
as rnanhãs ao morro do Moinho, fazer aquella
penosa via-sacra. Chegando áquelle arraial,
88 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

ia de casa em casa doutrinando, rogaodo que


se rleixassem vaccinar; porem a nada os bru-
tos se moviam.
Nessa~ minhas idas passava em frente á
cas;;1,do Dr. Eduardo Saboya, e este sabendo
o meu destino enchia-me de coragem para
proseguir na minha t:1,refa.
Visitava o varioloso diariamente e por
isso estava a par do que se passava com
aq uelle desgraçado.
Logo no terceiro dia depois de recolhido
ao isolamento, indo vel-o encontrei a porta fe-
chada. Bati e ninguem me falou. Informaram-
me os vizinhos que o enfermeiro sabia. para.
o trabalho todos .os dias pela manhã e só vol-
tava á noite; que o enfermo ficava sem ter
quem lhe desse um copo dagua; que assim
abandonado chorava e gemia de fazer com-
paixão. Perguntei-lhes onde tral,alhava esse
homem e disseram-me que era encadernador
na litho-typographia do Sr. Tenente Eugenio
Gadelha.
O facto era gravíssimo.
Para apurar a verdade dirigi-me imme-
diatament'3 áquella. officina e effectivarnente
lá estava o Sr. l'l anoel Leite a encadernar
os seus livros com aquellas mãos que acaba-
vam de sahir do corpo de um varioloso. E
aquelles livros iam em pouco tempo passar
de mão em mão levando e espalhando a be-
xiga.
Extranhei o procediipento do enffirrueiro
e levei o facto ao conhecimento do gerente
da empreza, que pro\lidenciou dispensando o
VIII

Para dAixar uma prova indelevel de mi-


nhas asserções, fiz photographar o casebre,
que servia de isolamento, e a fila de casebres
por elle começada, uma vez que -não me era
possivel pbotographar a f\ssistencia medica,
a dieta, o zelo do enfermeiro e o conforto
dado ao variolosn. ( 1)
Essa photographía fiz reproduzir no «Al-
bum Imperial> de S. Paulo e no «llalhoi. do
Rio de Janeiro. Como isto não fosse bastante
'\
mandei tirar uma photographia em
ponto
maior, do isolamento, tendo á janella o en-
fermeiro, Manoel Leite. ·
Prova mais authentica seria impossivel.
E~tes documentos, que me parecem irrefuta-
veis, offereço intercalados 110 texto.
No dia 12 de Outubro chegando ao Moi-
nho chamou-me a dona da casa contigua ao
isolamento e pediu-me que apeiasse para ver

(1) A palavra isolamento fiz escrever na photo-


graphia para se conhecer qual o casebre que serve
de lazareto.
R. THEOPHILO 91

é!Uafilha mais velha que se achava com muita


febre.
Essa mulher que agora se dirigia a mim
com tanta humildEtde era a mesma insolente,
que me tratara mal, quando lhe roguei que
v accinasse a família.
Apeiei-me e entrei na miseravel palhoça.
Em uma rede estava a doente, Francisca
das Chagas, parda, de 20 annos de edade.
Tinha 40 gráos de febre, cephalgia intensa,
dores nas pernas, pescoço e espinhaço.
Um caso de varíola pensei. Havia vinte
dias que o varioloso morava ali paredes meias.
Como se dera o contagio? Ayuella familia não
se communicara com o enfermo nem c,>m
pes8oas que com elle estivessem. O -vehiculo
fõra o ar. Em breve se elucidaria o caso.
-Deus quiz que sua filha tivesse varíola,
disse eu a mulher, que me ouviu aterrada .
Agora expiará a sua falta, tendo impedido
que sua familia fosse preservada da peste. A
vida lhe ei-a penosa quando voceis todas
tinham saúde, o que será agora? A doença e
depois a fome.
Não as illudi. Aquella familia vivia, como
muitas outras daquelle arraial, de lavagem
de roupas.
Tudo foi bem emquanto a velha poude
ir para o trabalho, deixando a doente aos
cuidados das irmãs menores, as quaes se oc-
culta vam de mim quando pela manhã fazia
a minha visita.
No fim de oito dias a enferma começou
a ter os pritneiros siguaes da erupção: a va-
92 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

riola era eonfluente. "Nocubículo onde se acha-


va estavam arrumadas as trouxas de roupas,
já la.vadas, e promptas para serem entregues
aos seus donos, que ignoravam por comple-
to que ellas vinham de um foco de varíola.
Exprobrti-lhes esse proceder mostrando o
perigo de irem os germens da. bexiga naquel-
las roupas. Não me a.creditaram.
A bexigosa ia em meio da doença quan-
do encontrei a velha doente.
Apresentava todos os symptomas de va-
ríola, embora já tivesse tido esta molestia em
1878.
Disse-lhe: Deus quiz que V. tivesse bexiga
pela segunda vez; favor este que não concede t&
todos. ·
A mulher acovardou se. Não era o temor
da molestia era o medo da fome, que iriam
· pass8 -r porque ella não poderia mais traba-
lhar. Quando examinava a doente vi passar
um&i menina, e indagando quem era, soube que
era filha àa velha e ainda havia mais duas
que estavam escondidas.
Custava a crer que naquelle pardieiro,
que media quatro metros de comprimento so-
bre tres de largura, morassem cinco pessoas.
Soube que as tres meninas não eram vac-
cinadas. Perguntei á velha se queria que vac-
cinasse as filhas, respondeu-me que fizesse
o que entendesse.
Fiz vir as me.ninas e estando todas de per-
feita saúde, embora fosse quasi certo já te-
rem incubada a varíola, vaccinei-as todas.
A velha pediu-me que não as abandonas-
R. THEOPHILO 93

!:ie. Prometti•lhe cumprir e cumpri os meus


deveres de christão.
Em uma das visitas a esses enfermos en-
contrei visitando-os tambem uma cabocla no-
va ainda. Disse-lhe que não viesse ali porque
fatalment0 teria bexiga. Respondeu-me que
era vaccinada. RepliquE-i qu~ podia levar a
doença para as pessoas com quem morava.
Olhou-me com desdem e não respondeu. Quan-
do sahiu fitou-me e zombando disse:
- Veja se levo alguma cousa.
Aquelle começo de epidemia me trazia
apprehensivo , Era bem provavel que a va-
riola se propagasse a. todo baírr-o e depois
entrasse na capital.
o~ dois casoi>1de bexiga e o meu modo
de proceder para com aquelles infelizes itn-
pressionaram aquella gente estupída. Achei-a
mais humana e B.proveitando o momento mos-
trei o erro em que estava recusando a vac-
cina e os soffrimentos que a todos esperava .
quando aquella terrível molestia os atacasse.
Diss3-lhes eu que não tinha 1·ecursos para soe-
correr a todos com remedios e dieta e que
para não vel•os padecer não • voltaria ruais
ali. As minhas palavras calaram no animo
delles e me responderam, que se tivessem
co1n que cümprir o resguardo da vaccina, se
deixariam vaccinar somente para me serem
agrada veis.
Con vencel-os de que a vaccina não pre-
cisava dieta era impossível. Quem seria ca•
paz de fazel-os comer toucinho ou carne de
porco no primeiro anno que se seguisse a vac-
94 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

cinação? Não faziam aquillo para explorar-


me e, se fosse, não seria melhor gastar alguns
centos de mi1 réis e impedir a propagação da
varíola? Assim accordei com elles pagar mil
réis por cabeça destinados ao resguardo.
Nessa mesma manhã vaccinei até exgottar
a provisão de lympha que levava, pagando a
todos.
Voltei ao dia seguinte e conclui a vac-
cinação.
Uma das ultimas pessoas que vaccinei,
foi uma cabocla de meia edade. Dei-lhe os
dez tostões, e ella, olhando a nota disse-me:
-Vm.cê podia pagar ma.is!
O proceder daquella infeliz era muito hu-
mano, mas tambern indigno. Fiz-lhe ver que
era pouco para ella, é verdade, mas que era
muito para mim, que não tinha recursoa para
tanto.
A mulher ouYiu--me e pela expressão do
rosto lhe falava a alma incredula do que eu
lhe dizia. Respondeu-me:
-Vm.cê não era tão besta que sahisse da
sua casa para pagar a gente para se vacci-
nar com dinheiro do seu bolso. Este dinheiro
é do governo e por isso V m.cê podia nos dar
mais.
Não repliquei, achei que a wulher tinha
razão para assim pensar.
IX

Com a vaccinação dos habitantes do mor-


ro do Moioho ~stava mais ou menos conjura-
do o perigo da propagação da varíola.
Ainda assim eu não me despreoccupava,
e todas as manhãs ia áquelle arrai~l e o pP-r-
corria todo de choupana em choupana.
Acompanhava com grande interesse a
evolução da vaccina nab meninas que havia
vaccinado em casa da8 bexigosas. O primei-
ro período, isto é, a formação das papillas,
corueçou exactamente no quinto dia. Seguiu~
se o segundo, a formação das vesiculas, acom-
panhada de ligeiro 1novímento febril. Chegou
o terceiro periodo, o das pustulas. Duas pus•
tulas em cada braço tinham as creanças, o
numero de inoculações que eu havia feito.
Eram umas magnificas vaccinas. Eu exulta-
va com o resultado, estava contente de ter
evitado o mal naquellas creanças.
No decimo dia de vaccinadas as meninas,
indo vel-as, passei pela decepção de encon-
trai-as toda9 derribadas, com febre alta e os
96 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ.

symptomas de varíola. O caso era interessan-


te e o acompanhei com r.auita attenção.
No terceiro dia a febre cahiu, para se ex-
tinguir de todo no quinto dia.. Sabia-se que se
tratava de varíola porque pelo rosto e tron-
co sa.híram alguma:, bexigas quE: seccaram
antes de encherem, que ficaram em vesículas.
Na menor Thereza eu contei apenas oito
. las ....
ves1cu '
Esse facto augnH•ntou ainda mais a con-
fiança que tenho na vaccina.
Considerava extincta a pequena epidemia
por quanto a. vaccinação, que eu havia feito,
tinha dado excellente resultado, não se per-
deu ineisão.
O varioloso importado de Pernambuco
havia tido alta por curado no ilia 28 de Ou-
tubro, depoi~ de ter estado doente trinta e
oito dias.
O que, soffreu esse infeliz no isolamento
não se acredita. Eu o vi poucas horas antes
de embarcar e me disse elle-não me mata-
ram porque tenho os dias de vida compridos.
Elle levava a, mais triste recordação do
Ceará. Quando aportou ao Aracaty o comman-
dante do navio quiz desembarcal-o, mas o po-
vo armou-se e mandou dizer para o vapor que
o bexigoso não salt:-tria, que se opporia ao
desembarque delle, porem á bala.
O Oommandante acceitou a intimação e
veio sacudir o doente nas praias de Fortaleza
para padecer as crueldades da Hygiene Pu-
blica e contagiar alguns infelizes.
Antea de ser entregue o castbre, que ser-
R. THEOPHIL0 97

viu de isolam6nto, a Hygiene mandou dois ser-


ventes desinfectal-o.
Fui testemunha ocular e muda dessa co-
media.
Os homens abriram o pardieiro, borrifa-
ram as paredes com agua phcnicada e em se ~
guida juntaram o que lhes podia servir, com<>
rede, roupag etc. 1 e arrumaram para condu-
zir. Feito isso ·puzeram a cama de vento fora
da casa e queimaram. Retiraram-se depois
fechando a porta. Estava dedinfectada a caija
e prompta para ser habitada.
Fica v&. ali aquelle foco de jnfecção, que
encontraria quem nelle fosse morar~ embora
soubesse que ali estivera um varioloso em tra -
tamento.
O povo é fatalista. Tem bexigas quem
tem de ter. ,
Assim, a casa foi logo occupada por um
soldado do 9. 0 batalhã.o, sua amasia e sua mãe.
Achando o casebre com gente fui visital-o.
:H'iz ver o perigo que corriam morando
naquella casa não sendo v~ccinadoc1.
O soldado e a amazia estavam immunes,
porem a outra mulher, não. Pedi para v acci-
nal-a, recusou-se dizendo que a vaccina que
queria era B de Deus. Convencel-u do con-
trario era impossível.
, Eu sabia que mais dias menoa di~s teria
;~li um caso de variola e por isso todos os dias
visitava o casebre e rogav&, a cabra que se
deixasse v acci nar.
Recusava-8e sempre.
Ellã era ebria habitual. Um dia., penso,
98 VARIOLA E VA CCINAÇÃO NO CEARÁ

não tinha dinheiro para comprar aguardente


e disse-me que se vaccinaria, porem com a
condição de eu dar-lhe dois mil réis para ctJm-
prir o resguardo da vaccína. Accedi.
Logo que acabou de se vaceinar e rece-
beu o dinheiro sahiu caminho <la taverna, on-
de minutos depois eu a vi cumprindo o seu fa-
do.
A vaccina., evoluiu normalmente embora
todas as bebedices d'aquella infeliz Quando
as pu!::!tulas começavam a seccar, declarou-se
a varíola, mas uma varíola frustrada, sem im-
portaocia, cujas vesículas, umas vinte, não
chegaram a pustulas, seccaram.
No arraia.! não havia caso novo de bexi"
gas. As cinco variolosas da palhoça paredes
meias ao ex-isolamento estavam bõas e eu es-
perava em breve queimar· a palhoça, unica,
desinfecção possível em tão infame párdieiro.
Accordei com a, viuva queimar o casebre, a
vil 1-llitada, e em paga dar-lhe uma casinha me-
lhor e que melhor as accornmodasse.
Só assim eu ficaria certo de estar extin-
cta a v ariola ali:
Preparei tudo para o auto de fé, que se
ria celebrado pela manhã na minha presença.
Dirigi-me ao Moinho a queimar a palhoça,
ma.s grande foi o meu desapontomeuto quan-
do ali soube, pela viuva, que uma irmã de3t~.,
na rua de S . Cosme estava doente de bexigas.
Contrariado com a nova, abandonei a idéa
de por fôgo no casebre.
Pãra que queimai-o se a varíola já esta-
va em outro sitio ?
=
=

X
> : .

Tudo dependia da interdicção da palhoça.


Procurava um meio de convencer o povo
da exist~neia do microbio, da realidade do
contagio. Como eu rne faria comprebender?
Era necessario falar que me entendessem, cor-
porisar o abstracto. Ia caminho do Moinho
pensando no que havia de dizer e como dizer
pa,r-a que me ouvissem. Tive uma idéa que
acreditei feliz. Já sabia como me hã.via fazet'
comprehender.
Chegando á palhoça informaram-me que
ali não havia entrado viva alma. Não sei se
diziam a verdade, penso que não.
Eu estava a cavallo, defronte da entra-
da da palhoça, tendo toda ella debaixo de
vista, pois como já disse, aquelle pardieil'o
se compunha de um unico e pequeno compar-
timento. 'rodos a distancia de bem me ouvi-
rem, comecei a minha historia, que ia tambern
ser ouvida pela cabocla que levou varíola
para a tia e que se abeirou da palhoça.
-Estimo que V. tivesse chegado a te1n-
po de ouvir . uma historia que lhe dP,Ve inte-
R. TB.EOPHILO 103

ressare servir de exemplo, disse '3U à rereru-


vinda. Quando eu lhe disse qu~ não viésse
aqui, que levaria variola para alguem de sua
ca,sa, Você riu-se de -mim e sahiu levando a
peste para sua tia, que ali está doente. Con-
to-lhe como foi isto. A bexiga vem de um bi-
chinho pequeno, que não se vê; muito menor
do que o mucuim. O bichinho morde o córpo
da pessôa e se ella não é vaccinada elle en-
tra no sangue e começa a gerar bichinhos
aos milheiros. Durante este ·temp() uma fe-
bre medonha dá na pessôa. Quando o corpo
el:lfria mais os bichinhos sabem pelos poros
da pelle e ficam emcima do corpo todo. Quan-
do uma pessôa -entra no quart0 de um doen-
te de bexiga alguns bichinhos sabem do be-
xigoso e vem para o corpo dapessôa, sem a
pessôa ver e sentir. Dá-se o mfismo que se
dá quando entramos em uma casa onde ba
gallinha com piolhos. Note-se que a mundice
é dez vezes maior do que o bichinho da bexiga.
Entramos em uma casa e lá em uma camarinha
está uma gallinha chocando uma ninhada de
ovos e coberta de piolho~. Ignoramos a existen-
cia della e eruquanto estamos ali, mesmo na sa-
la, os piolhos, sem que os vejamos, vem para
o nosso corpo. Sahimos e chegando á casa co-
meçamos a nos coçar, como tambem as pes-
sôas que estão perto de nós. Os piolhos co-
meçam a se tornar importunos, a. nos incom-
modar até que procuramos a causa de seme-
lhante coceira e vemos que é devida aos cafu.-
tis, que trouxemos, sem saber, da casa onde
estivemos em visita. Foi assim que V. levou
104 VARIÓLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

a bexiga para sua tia. Esteve V. aqui mais


de uma vez. Os bichinhos da bexiga sahiram
do corpo da doente para o seu corpo, do
mesmo modo que os pi~lhos de ga.llinha. Mor•
deram _-na, mas não entraram 110 sangue por-
que V. era vaccinada. V. sahiu e elles foram
com V. sem que os visse, sem que os sentis-
se. Chega,ndo em casa sua tia veio recebel-a
para saber noticias. Chegou-se a V. e os bi-
chinhos pass.:tram de seu corpo para o corpo
della. Morderam-na e acharam o sangue doce,
de pessôa que não é vacciniitda. Entraram de
corpo a dentro e ella ficou com bexigas. E'
ou .não é assim que a bexiga caminha levd.-
da por nós? perguntei á cabocla que me ouvia
com religiosa attenção. ·
-E', senhor, sim. Da minha parte eu não
virei _mais aqui, emquanto tiver bexiga.
E sahiu, deveras convencida.
Essa pequena historia, com esse exemplo
ao alcance dos conhecimentos delles valeu
mais do que todas as minhas recommendações.
A dona da casa n1e falou tão convencida que
penso que a palhoça ficará interdicta de agora
em deante.
Na rua de S. Cosme havia muita gente
por vaccinar. Nas casas contiguas a em que
morava a mulher que foi atacada de variola
doze creanças não eram vaccinadas. Recorri
ao Sr. Alfredo Feitoza, empregàdo da Estrada
de Ferro de Batufité e pedi que obthTesse de
seu9 subalternos que deixassem vaccinar 08
filhos. Prometteu-me e effecti vamente falou
com interesse aos seus en1pregados sobre o as-
106 VARIOLA E VAVClNAÇÃONO CEARÁ

Sahi, e chegando á rua, a visinha cha-


mou -me e perguntou que doença tinha a me-
nina, respondi que bexigas pelle de lixa. Pe-
diu-me para entrar e vaccinar os filhos, · rela-
tando o facto da 's creanças vaccinadas dentro
de uma casa cheia de varíola terem escapa-
do. Concordei e fiz a vaccinação, embora sou-
besse que a vaccina, que estava inoculando
absolutamente não immunisa.va de varicella.
A noticia d.e achar-se uma creança doen-
te de bexigas naq uella rua alarmou os seus
habitantes e eu augmentava-lhes o medo es-
palhando boa.tos aterradores. Assim consegui
fazer uma v a.ccinaçào geral.
Todos os dias ia ao Moinho, visitar a va-
riolosa. A o;iolestia seguia a sua marcha e pela
forma, que apresentava., eu ·pensava o prognos-
tico fatal. Nunca eu tinha acompanhado de
perto a marcha de tão terrível doença.
A varíola era confluente da que o povo
c-.hama pelle de lixa.
A erupção começava, mas não se via uma
vesícula. , .
A pelle estava entd.boada e escura. As
vesículas eram em tal numero que não po-
diam se desenvolver is.Qladam~nte. -Assim a
pelle de todo o corpo foi inchando ~ se tor-
nando cada vez maiR ·preta.
A doente tinha quasi o duplo do volume,
tal era a inchação do corpo.
A pe1le secca e escamenta queimava
como se estivesse coberta de brazas. A doen•
te gemia sem descanço. Só alliviava um in-
R. TH.EOPHILO 111

Quixadá . 148
Paracurú. 14
Soures 38
200

Tendo mudado de residencia o Dr. Bía-


nor Carneiro, foi encarregado do serviço de
vaccinação no Pereiro o Sr. João Freire de
Andrade.
Foi encarregado do serviço de vuccina-
ção em Areias o Sr. professor Manoel C. de
Carvalho.
A população de Areias Brancas, Estado
do Hio Grande do Norte, solicitou vaccina
por intermedio dos Snrs. João Ribeiro Dantas
e outros. Enviei graciosamente a· vaecina pe-
dida. .
Tempos depois agradeciam dizendo terem
obtido excellentes resultados e solicitando no-
va remessa.
Accedi da 1nelhor vontade.
R. THEOPHILO 115

hygiene publica é cousa de pouca valia. A


medida que venho pedir é a creação de um
isolamento para variolosos. A varíola acha.-
se extincta aqui ha cerca de cinco annos. O
Ceará é o unico Estado do Bra.zil que goza
presentemente de semelhante prerogativa, de-
vida a iniciativa particular propagandc, a vac-
cina animal de choupana ~ro choupana pelos
suburbios de Fortaleza. Depois de tanto tra-
balho, de tão grande exito, deixar que aquel-
le morbus volte a ser um~ endemia n ' esta
capital, onde já matou em um só dia, em De-
zembro de 1878, a assombrosa cifra de 1.008
pessoas, seria um attentado inandito á Raúde
publica. Extrallh,u·á V. Ex;a que eu venha pe-
dir semelhante 'favof i ao governo da União,
quando me competia , fazel () ao governo do
EAtado. Os governos, rnuito bem esabe V. Ex.a,
nem sempre se ocêupam com o bem publico.
Por curteza , de vista ou pot indifferença en-
tregam á sorte a vida de seus goveruandos.
E) infelizmente o que acontece no Ceará. Quer
V. Ex.ª uma prova? Eu lh'a dou ne~te facto.
Em 20 de Setembro do anno passado o Dr.
Inspector da Saúde do Porto na visita, que
fez ao vapor «Jaboatãol), encontrou atacado
de v ariola o carvoeiro .Manoel Pereira. Fêl-o
desembarcar e levou immediatamente o facto
ao conhecimento do Inspector de Hygiene
Publica. O doente ficou atirado na praia, cer-
ca de cinco horas, emquanto a H~1 giene pro-
cura.v a alugar um casebr~ nos suburbios da
cídade para recolhel-o.
O casebre e o local para isolamento de
1 lG VA.LUOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

um enfermo de molestia contagiosa foram um


attentado tamanho á saúde publica que não
resisti ao desejo de photographal-o, o que fiz,
eõmo verá V. Ex.ª das copias que envio. Ten-
do conhecimento do caso, já no dia 20 á noi-
te, dirigi-me na manhã do ctia 21 ao morro
do Moinho, a um kilometro de Fortaleza e lá
encontrei o infeliz entregue a.os cuidados de
um leigo, sem assistencia medica. O pardiei-
ro, onde se achava o enfelmo, começava uma
rua de 23 casebres e era cerca .do por mais
de dncoenta choupanas habitadas por gente
da peior condição, havendo entr~ ella mais
de ceru pessoas por vacc.inar. Aquelle desres-
peito do governo á saúde puhlica me revol•
tou. A vaccinação ali impuuha-se sem delon-
ga. Tentei pratical-a, immediatamente, diri-
gindo-mP. á palhoça parede em meio ao iso-
lamento. Ahi encontrei cinco pessoas, uma já
tendo varíola e quatro não vaccinadas. Re-
pelliram-me dizendo ·- que não queriam metter
a peste no corpo. Procurei <iissnadil•as de seu
errado pensar, mas embalde. Nem um agen-
te da hygiene publica ali appa.receu para im-
munisar aquelles ignorantes condRmnados
pela auctoridade sanitaria á roorte pela mais
horrivel das molestias. Depois de repetidas
visitas ao Moiuho, de ter sido accommettida
de variola uma das moradoras da palhoça
contigua ao pseudo-isolamento, consegui a
vaccinação pagando eu mil réis por cabeça.
Esta quota foi exigida por elles; era, diziam,
para comprar dieta durante o resguardo da
vaccina. Convencei-os de que a va.ccina não
R. THEOPHILO 117

tem dieta é impossivel; assim achei de melhor


alvitre pagar a taxa. Dias depois oo primeiro
caso de varíola na palhoça, foi accommetti-
d.a de varíola uma mulher que já havia tido
esta doença havia mais de vinte annos. Essa
infeliz, que era a chefe da família, vi uva e pau-
perrima, quando roguei-lhe que deixasse vac-
cinar as filhas, depois d~ dizer os maiores
despropositos, foi o seu ultimaturu -só tem be-
xigas quem Deu8 quer.
Atacada, da peste pela segunda vez, aco-
vardou-se. Não era somente a doença, era tam-
bem a fome. Fui vel-a e tive dó de seu aban-
dono. Servindo-me de suas palavras disse-
lhe :-Deus quiz que você tives.r;ebexigas pela
segunda vez, favor e.i;teque não faz a todo.Y.A
infeliz estava. apavorada. Havia ainda tres
meninas, suas filhas que fatalmente teriam
vario la. Perguntei-lh~ se ainda não queria que
vaccinasse as creança.,? Respondeu-mP- que fi-
zesse o que entendesse. Não havendo contra-in-
dicação, embora presumisse achar-se _a varío-
la já incubada naquelles organismos, proce-
di a vaccinação.
Com muito interesse acompanhei a evo-
lução da vaccina, ind3 á palhoça todos os
dias. As vaccinas desenvolveram-se normal-
mente, e, quando entravam no período da sec-
ca .e eu julgava as meninas livres da variola
eis que são todas tres ataeadas no mesmo dia.
A molestia veio acompanhada de seus sym-
ptomas alarmantes.
A avaliar por estes se pensaria uma for-
n1a de variola grave. Ainda uma vez pude
118 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

apreciar o poder prodigioso da vaccina. As


doentes tiveram uma variola di~creta tão be-
nigna, que bem podia se classificar de forma
frusta. ·
Em nenhuma das enfermas as pustulas
completaran1 a evolução: seccaram antes de
tempo. Em uma das doentes contei apenas
oito pustulas. Pensei extincta a pequena epi- .
demia) porque, havia vaceinado e revaccina-
do os moradores de todo o arraial, quando
soube haver um caso suspeito de variola no
sopé do morro, na rua de S. Cosme, entre gen-
te sem vaccina. Immediatamente fui verifi-
car o caso e encontrei uma . mulher, parda,
irmã da que estava com bexigas pela segunda
vez, com varíola. Censurando eu ter ido ella
procurar a doença, visitando os parentes Ya-
riolosos, disse-me lá nunca ter posto os pés.
Que uma sobrinha, que com ella morava é
que ia lá todos os dias. Lembrei me então de
ter visto na palhoça uma cabocla nova, e ex-
tranhando . que ella ali estivease, disse-me ser
vaccinada.
Fiz ver que ella . podia levar a molestia
para outros. Riu-&e e quando sahiu, olhou-me
com ar de mofa Jizendo: Veja se eu levo al-
guma cousa. No sopé do morro onde havia che-
gado a varíola havia muita gente sem vacci-
na. Logo na casa contigua á da bP-.&.ígosaen-
contrei cinco creanças sem Vrl.ccina. ·
Quiz v_accinal-as, mas a isso s~ opp0z bru-
talmente a mãi das creanças, dizendo que a
vaccina que queria era a de Deus. Desengana-
do procurei outras casas encontrando a mesma
R. THEOPHILO 119

repulsa. Con ve.acel-os seria impot;sivel. Era


preciso pagar para se deixarem vaccinar.
Sendo impossível aos meus recursos mais
essa despeza, opinei pela remoção da vario-
losa para o Moinho, obrigando-me a prestar-·
lhe W3sistencia á minha custa, condição esta
por ella imposta. Acompanhei a enferma á
casa da irmã e recommP-ndei que se não com-
municassem com os visinhos, que não rece-
bessem visitas. Era preciso fazel-os acreditar
no contagio, 8em o que oão cumpririam as
minhas · prescripções.
Era preeíso que cornprehendessem o que
era microbio e como se propagavam as mo-
lestias contagiosas.,
Sem isso não se deixariam de communi-
car, de receber quem os procurasse. Uomo
me faria comprehender por espiritos tão rom-
bos? Que ímagem empregaria, para dar uma
itléa, a elles, da propagação da bexiga? Era
grande o meu embaraço.
Depois de muito pensar encontrei o ca-
minho accessivel átquelles ignorantes. Falei-
lhes na sua linguagem, corporisando o ab-
stracto, fazendo comparações na altura de
seus conhecimentos. Comecei dizendo-lhes que
o microbio era um bichinho menor do que o
piolho da gallinha, do que o rnucuim. Que o
doente de bexigas fica com o corpo coberto
desses bichinhos, como a gallinha choca fica
coberta de piolhos. Entramos em uma casa •
onde estamos algum tempo conversando e
não sabemos que lá num canto está uma gal-
linha chocando.
120 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

Sahímos e pouco tempo depois começa.-


mos a sentir nos fervilhar pelo corpo, nos mor-
der. Voltando á nossa casa, as pessoas que
estão perto de nós, começam a se coçar. Ve-
rificado o caso, eu vim, sem saber, cheio de
piolhos de gallinha da casa onde estive e
chegando os espalhei pela$ pessoas que a
mim se chegaram. Foi assim que a mulher
levou a varíola para a tia na rua de S. Cos~
me. Quando ella estava aqui os bichinhos da
bexiga sahiram do corpo da doente e vieram
para o corpo della, sem el la os ver, do mes-
mo modo que os piolhos da. gallinha sahem
desta para o nosso corpo.
Os bichinho8 morderall)-na, mas a.charam
u sangue ruim, porque ella era vaccinada e
não lhe entraram no corpo. Chegando em casa
os bichinhos.sahiram do corpo della para o
corpo da tia, tudo isso sem ella ver e sem ella
saber. Morderam o corpo e achaildo o sangue
doce entraram nas carnes que não eram vac-
cinadas e a mulher cahiu doente de bexigas.
E' assim que a molestia caminha levada por
nós sem o sabermos.
Essa narrativa ao sabor delles., calou-lhes
no espírito, dando-lhes un1a idéa do microbio.
Removida a variolosa para a palhoça dos pa-
rentes, no morro do Moinho, falleceu quinze
dias depois de sua chegada ali. A forma da
varíola, de que fôra accommettida era a con-
fluente, chamada pelo povo,-pelle de lixa.
. Morreu em um estado lastimoso. o COflJO
havia . inchado tanto que duplicou de volume.
A pelle ficou negra e escamenta. Nos ultimos
R. THEOPHILO 121

dias da molestía o en volucro preto estilhou-


se, da cabeça aoR pés, e abriu-se em profun -
das fendas de onde escorria fe-tido e nojento
pús.
A nenhum dos varioiosos contagiados por
culpa do governo, prestou este a minima. assis -
tencia.
Teriam se acabado de fome se não fosse
a caridade particular.
O enterro da variolosa foi feito por par -
ticulares, sem registo civil, sem a menor for-
malidade. Isso ainda não é tudo. Tendo se
restabelecido o carvoeiro do ,Jaboatão•, e ti -
do alta, foi o casebre onde esteve em trata -
mento, entregue ao senhorio, o qual o alugou
por cinco mil réis por mez, a uma praça do
exercito do 9.0 Batalhão de Infantaria, aqai
e»tacionado. Encontrando aquelle fóeo de
contagio habitado, procedi a vaccinação na
pessoa da mãe do soldado; que não era vac-
cinada, mas já tinha a varíola incubada . Te-
ve bôa vaccina e depois bexiga discreta tão
benigna, que não deixou signal. Ainda uma
vez verifiquei o poder do preservativo de
Jenner.
Não havendo mais casos de variola tra-
tei de extinguir a palhoça onde estiveram
em tratamento os variolosos e falleceu a mu-
lher de quem me occupei. Fazer uma desin-
fecção em tão infame pardieiro era impoe-
sivel; assim achei mais acertado queimai-o e.
accordei com a dona delle fazer uma casi-
nha á minha custa em troca da ruim palhoça,
que seria incinerada.
122 VARIOLA E VACGI.NAÇÃO NO CEARÁ

Assim fiz e pude in-sito extinguir a peque-


na epidemia de varíola. Por esse facto verá
V. Ex.ª o perigo qt1e corremot:i de importar
uma peste que na epidemia de 1878, que durou
cerca de 90 dias, nós roubou 35 mil vidas!!. ..
Só a lembrança desse flagello bastaria para os
poderes publicos estarem s6mpre vigilantes,
sempre alerta.
Aqui, infelizmente, não ha só indifferen-
ça, ha muita, ignorancia. E só a ignoranci~
pode explicar o destemor com q ne são en-
frentados aqui morbus temi veis como a peste
bubonica. Essa molestia aqui entrou na secca
de 1900 com os generos alirnenticios que nesse
tempo importa vamos do sul da Republica em
larga escala. Por felicidade 110ssa veio-nos
um bacteriologista, enviado pelo governo do
Pará e affirmou não se tratar de uma enti-
dade morbida, produzida pelo bacillo de J(i.
tasato Yersin e sim de uma doença tendo como
causa o hemato.zoario de Laveran. Esse diagnos•
tico foi a nossa salvação, porque do contra-
rio teríamos os portos fechados em uma epo-
cba em que toda a nossa alímentação vinha
de fóra. Fatalmente nos acabaríamos: os que
não mori·essem de peste morreriam de fome.
A peste bubonica começou a ser chama-
da febre de caroço. Ninguem lhe deu importan-
cia., a começar pelo presidente do Et:itado, que
sendo medico trouxe da vi&inha cidade de
Maranguape um buboQico, de fórma pneumo-
nica e alojou-o na parte mais central e fre-
quentada de Fortaleza, a praça do Ferreira,
R. THEOPHILO 123

de onde regressou moribundo para eeu domi-


cilio, fallecendo a.o chegar.
A peste bubonica tem uos visitado di-
versas vezes, e se V. Ex.ª isto ignora, é porque
ella aqui, como já disse, tem o nome pitto-
resco de febre de caroço.
Os que ella tem atacado têm pago com
a vida a sua ignorancia e a incuria do gover-
no. A virulencia e a lethalidade do mal não
impedem que o doente seja tratado de por-
tas abertas, visitado, velado como se fosse
um doente de rheumatísmo.
Se morre, é o corpo guardado horas in-
teíras por parentes e amigos e o enterro fei-
to sem as medidas de propbylaxia em casos
de molestia contagiosa. P0r felicidade no ea,
Fortaleza é uma cidade sem logares escuso ,
pLina, sem viellas, fartamente arejada, illu-
minada prodigamente por um sol brilhante,
o nosso uni co agente prophylatico.
Se asE1im não fosse, a peste bubonica se-
ria aqui uma endemia, como é a febre ama•
rella, o paludismo, a diphteria e out.rae mo-
lestias. O que acabo de dizer surprehenderá
V.Ex.ª acostumado a ouvir celebrar a excel-
lencia do nosso clima e sua pr~verbial saiu•
brida.de.
ls8o foi em outros tempos, quando a po-
pulação era menor, a cidade não estava cri-
vada de fossas fixas, não havia centenas de
caixas d'agua, completamente expostas, a..,
estações eram regulares, os pantanos e rega-
tos da cidade não descobriam a vasa. Depois
124 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

da grande secca de 1877, Fortaleza ficou uma


cidade doentia.
A semente das innumeras molestias que
gra.ssaram naquella, epocha em uma popula-
ção de famintos superior a 120 r:nil almas não
se acabou ainda.. De quando em quando ~ur-
ge uma entidade morbida sem ser importada.
E' que a semente existia aqui.
A nossa capital, entretanto, tem elemen-
tos para se tornar uma cidade saluberrirna,
voltar ao que foi. Luz e ar tem ella em de-
masia, o que lhe falta está nas rnãos do ho-
mem remediar. A febre amarella, que nessa
capital pode-se considerar extincta,, graças ás
energicas medidas de prophylaxia emprega•
das por V. Ex.ª, aqui é uma endemia.
Como debellal•a se os viveiros de mosqui-
tos pullulam por toda a cidade ?
A transmissão da febre amarella pelo
mosquito é aqui um mytbo. Isso parecerá a
V. Ex.ª exagero e no entanto os factos es-
tão abi para provar a minha asserção. Entre
os muitos ca.sos que aqui se dão annualmente
vou relatar um dos mais recentes. Em dias
de Nnvembro do anno passado falleceu de
febre amarella na S. Casa de Misericordia
desta capital o padre lazarh;~a Thiago Salése,
lente do Seminario Episcopal, chegado da
ilha da Madeira, havia um anno. No terceiro
dia da molestia, quando já estava firmado o
diagnostico, foi removido para a S. Casa, on-
de falleceu. Não se tomou nenhuma das me-
didas prophylaticas, tão em voga depois das
memoraveis experiencias de Havana. O stego-
R. TBEOPHILO 125

mya fasciata teve livre curso no quarto do


enfermo e sabido este lá ficou para fazer no-
vas victimas, como fez. Os casos de febre
~marella, como disse, são aqui frequentes, não
só em estrangeiros, não aclimados, como nos
naturaes vindos do alto sertão. Interdizer o
quarto de um doente de febre amarella aos
mosquitos, destruir os que estão no aposento,
foi cousa que aqui nunca se praticou. Outra
molestia que tambem grassa aqui é a dipbte-
ria. Todos os annos faz ella muitas victimas,
com especialidade nas creanças. Não aei se
trata-se de diphteria ou se de anginas ma•
liguas.
O exame bacteriologico é o que firmaria
a diagnose.
lfalta-nos instrumentos para ver os infi-
nitamente pequenos; mas se os tivessemos,
ainda assim seriamos cegos, nos faltar iam
olhos para divulgal-os, conhecei-os e classifi-
ca.1-os.Diphteria ou angina maligna, a moles-
lia é lethal e muito contagiosa, tanto que ha
pouco tempo matou ella cinco creanças em
uma mesma casa dentro de trinta dias. O nos-
so quadro nosologico é variadíssimo, e nem
podia deixar de sel-o, se Fortaleza occupa o
sexto lugar entre a~ cidades de maior mor-
talidade do mundo. Pela ligeira exposição que
acabo de fazer, vê V. Ex.ª o nosso atrazo em
materia de saude publica. Os cargos aqui são
exercidos, não pelos mais competentes, mas
pelos que melhores serviços prestam á poli-
ticagem.
A guerra que têm feito os poderes pu-
126 VA.tUOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

blicos á minha propaganda de vaP,cinaç.ào an-


ti-variolica. é uma prova disso. Essa propagan-
da tem sido uma via-sacra. Conhece V. Ex.a,
por experiencia propria, o ataque dos nullos,
dos ignorantes, a. mizeria da. ia,prensa venu,l
e mercenarja, ma.s desconhece talvez os des-
propositos das nullidacles quando governo.
Na propagação da vacçina tive que arrostar
com a ignorância do povo e com as iras dos
poderes publicos.
Ao vulgo venci com a palavra, doutri-
nando; ao governo desprezando as suas in-
vectivas e tendo compaixão de sua cegueira.
Porque venci? Porque eu estava com a
verdade.
A minha obra, entretanto, está incomple-
ta. Não posso ultimal-a 1 não porque me fal-
leça o animo, mas porque temo u1na violen-
cia daquelle.s que deviam ser a garantia dos
direitos e liberda .des do cidadão.
A varíola está extincta aqui ha cerca de
cinco annos ; mas por isso não segue-se que
devamos estar seguros, estar livres della.
Grassa nos estados visinhos e, assim, aporta-
rão aqui variolosoa, como já tem acontecido.
O ca,so do Moinho é um exemplo. Se não
fosse a iniciativa particular Pim u1na labuta
de tres mezes, em visitas diarias áquelle ar-
raial, luctando com a ígnorancia do povo e
com a má vontade do governo, a varíola vol-
taria a grassar nesta capital.
A creação de um isolamento será o com-
plemento de minha obra. Se me fosse dado
pedir uma recompensa pelo que tenho feito,
R. THEOPHILO 127

pederia que, sem delonga., se fizesse um iso-


lamento para recolher os variolosos que aqui
aportassem, ficando o Ceará para sempre li-
vre da v a ri ola, um8 Allemanha na America
do Sul. Os factos que acabo de relatar, são
tão graves, que talvez não baste o meu teste-
munho para dar-lhes fór0r:; de verdade. Se
assim fôr) rogo a V. Ex.a que se digne ouvir o
Sr. Dr. Inspector da Saude do Porto, funccio-
nario respeitavel, cuja palavra deve mere-
cer inteira fé. A V. Ex.ª que tem sido n1oder-
namente o maior esteio da saude publica no
Brazil, peço confiante que tome sob sua va-
lioi;;a protecção o meu pedido.
As photographias, que envio, corporísam
a verdade e esta, de certo, achará ecbo em
V. Ex.ª, que deve ter a grtJ.ndeza e piedade
dos espíritos cultos. Saúda a V. Ex.a o admi-
r8.dor sincero. Rodolpho Theophilo.
Fortaleza., ~O de Maio de 1908 ».

O chefe do Serviço Sanita.rio Militar so-


licitou-me vaccina como se vê do officio in-
fra:
Enfermaria Militar de Fortaleza, em 5
de Outubro de 1908. N. 0 105.

Illm. 0 Sr. Rodolpho Theophilo

Animado pelo vosso sempre manifesto


espirito de humanidade e patriotismo rog_o-vos
ter a bondade de fornecer a esta chefia a-
fim de vaccinar o pessoal do 9. 0 Batalhão de
Infanteria aqui estacionado a lympha (cow·-
128 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

pox) por vós tão habílmente preparada e em


quantidade suffici.ente.
Antecipando os meus agradecimentos por
mais este serviço prestado ao governo peço
Yenia para vos tornar patentes os votos de
alto respeito e consideração.
Saúde e fraternidade.

Dr. Carlos Autran da Matta e Albuquerque,


Major-chefe.
XII

A carta dirigida ao Sr. Dr. Osvaldo Cruz


não deu resultado.
Creio mesmo que não a tivesse lido e se o
fez talvez dissesse comsigo-um povo que tole-
ra um governo que attenta de tal modo contra
a saúde publica deve extinguir-.'JP-.
Algum~s vezes tenho pernmdo em nossa
passividade P- quGtl será o nosso fim. Alguns
são os factores de nossa submissão e entre
elles o principal- 'li serie de seccas que ulti-
mamente nos tem fl»gellado. A nossa pusil-
lanimidade é tal que parecemos uns degra-
dados mora.es.
Abandonados pelos governos, sem direi-
tos a assistencia garRntida a nós pelo nosso
pacto fundamental, cumpre-nos, uma vez que
nossa fraqueza nos inhibe de obrigar pelo
direito da força os governos a cumprirem os
seus de veres, a nos constituirmos faetorE;s da
previdencia humana e trabalharmos para o
b~m publico.
Assim é que no tocante á eaúde publica,
não conseguindo a construcção de um isola-
r..oento, continuamos com actividade o uosso
130 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEAH.Á

serviço de vaccinação, para , a varíola quando


fôr importada não encontrar onde fazer pasto .
A epidemia de vario]a na capital da Repu-
blica despertou em nosso meio mais interesse
pel a vaccinaçào . Atemori8ou mais aq uell a peste
no Rio de Janeiro, do que quando estava pare-
des meias ao Ceará, no Rio Grande do Norte.
Por esse facto vê-se a influencia que ain-
da exerce a, capital do Brazil nos J,~stadus.
A propaganda que a imprensa do Rio fa-
zia em favor da vaccioa, não parecendo a
rnesma que havia feito tanta guerra á va.cci-
na obrigatoria, influiu aqui de um modo muito
sensível. O numero de pessoas a vaccinar
elevou-se porque o jornal eont~va que o povo
do Rio se estava vaccinando.

Durante o anno vaccinei:


Janeiro . . 60
Fevereiro 11
Março. . 3
Abril . . 20
Maio 8
Junho Pajus~ara . 10
Julho 1 6
Agosto 50
Setembro. 175
Outubro . . ~16
Novembro , 60
Dez~mbro 55
674
Pelo Sr. Dern e trio Menezes . 1ô5
839
R. THEOPHILO 131

Pessoas vaccinadas pelaR commissões do


interior do Estado em 1908:

Aracoyaba .. 112

Solicitaram vaccina durante o anno o~·


Snrs.:
Chefe do Serviço 8anitario Militar e!ll
Fortaleza; Dr. Pires Barroca, de Canindé;
Dr. Antonio da Justa, de Quixadá · Dr. José
Frota, de Fortaleza; P.e Alexandre Saraiva,
de Maranguape: Dr. Adolpho Campello, de
Baturíté; Manoel Satyro, para Quixadá; Co-
ronel Antonio Botelho, para Maranguape;
Coronel Alexandrino Costa Lima, para Ara-
caty; Dr. Dias Pereira, para Fortaleza: José
Severiano, Fortaleza; Leopoldo Cabral, para
Quixeramobim; Pedro Sampaio, para Palmei-
ra; Raymundo Castro Silva, para Aracoya-
ba ~ Dr. Joaquim Frota, para Sobral; Dr. Ma-
rinho de Andrade, para Sobra]; Dr. Edgard
Borges, para Sobral ; João Severiano Ribei-
ro, para o Rio de Janeiro; Dr . .João Augu:5to
Btzerra, para o Crato; Vicente Lopes, para
Oratheus; Dr. José Leite Barbosa, Aracat:y;
Francisco Salles, para Soures; Dr. Hel ve-
cio Monte, para o Rio de Janeiro; Manoel
Thomaz, Parahyba; Dr. Romulo Pacheco,
par8, Parahyba; Dr. Autonio Theudorico da
Costa, para. Fortaleza; Demetrio de Castro
Menezes, para Fortaleza; Octavio .Tu ta, para
Pacatuba; Antonio Lobo, para Baturité; ~f1-
guel de M()ura, pa.ra :Maranguã-pe: Dr. João
lv.Iaria Bastos, para Piauhy; Dr. João Alfre-
134 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

meiros tempos está arrefecendo. São cousas


do espírito humano.
A vaccinação nos proprios domicilios se
faria em grande escala porque todos hoje
querem a vaccina) justiça lhes seja feita, não
querem é se incommodar indo recebei-a no
vaccinogenio.
Esse desleixo é simplesmente devido á
extincçào da varíola; desleixo que me tem
contaminado ta1nbem. Estou velho e já me é
penoso andar a cavallo todos os dias.
No interior do Estado as commissões vac-
/'
cinadoras podem se considerar extinctas. A
Hygiene Publica matou-as quando devia dar-
lhes vida.
Vou trabalhar para restaural-as. Pen~o
que com muito esforço poderei conseguir qúe
funccionem outra vez. ·
A publicação deste livro com todos os
fttctos, provados com doc-umentos, e-smagará
as calumnias editadas contra mim nas colum-
nas da folha do governo.
Publicado para ser distribuído gratuita-
mente, como meio de mais propagar a idéa
da vaccinação anti-variolica, pretendo espa-
lhal-o por todGls as localidades do Estado e
depois reorgariisar as commissões vaccina-
doras .
.Continuarei a trabalhar afim de ser fei-
to em Fortaleza um isolamento para vario-
loS'0s. ··
Tenho quasi certeza de perseverando con~
seguir mover o governo da Uniao a cumprir
o que preceitúa. o nosso codigo ,sanitario.
R. THEOPHILO 135

Feito o isolamento em Fortaleza e tPndo


nos outros portos do Estado commissario ·s vac-
cinadores zelosos e a0tivos, como $Oe ser o
do Atacaty, Dr. José Leite Barboza, a vario-
la ficará para smnpre riRcada do nosso qüa-
dro nosologico.
· A extincção da varíola no Ceará trouxe
fatalmente a extincção da variola em Manáos:
assim pensa o Sr. Dr. Inspector do Serviço
Sanitario daquella capital, e pensa com accer-
to, pois as duas capitaes se acham na maior
communicação.
Não ha vapor que passe por Fortaleza
que não leve passageiros para l\Ianáos e vi-
CP-versa.
Recife e Parahyb~ são actualmente os
viveiros da varíola no norte do Brazil, o que
é para lastimar. Em terra civilisada essa mo-
lestia não pode demorar-se mais de trinta dias,
tal o valor da vaccina animal e o seu modo
facil e seguro de propagação. Em 30 dias
vaccina-se e r~vaccina-se uma população por
maior que seja e a bexiga fatalmé'ote extin-

gue-se. . ·
Agora mesmo, sabendo dos estragos que
a varíola está fazendo na capita) da Parahy-
ba tive a idéa de estabelecer ali utn posto
de vaccinação a cargo do Dr. Antonio Mendes
da Silva, ídéa que, penso, será dentro de
pouco tempo uma realidade. Acredito · que o
Dr: Mendes, amante como é de sua terra, não
deixará de collaborar para · felicidade della,
de ser um dos factore8 da, previdenchi hutn .a-
136 VA8IOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

na, uma vez que os governos a quem compe-


tia, essP trabalho são indjfferentes.
Eu me comprometto a prover de vacci-
na animal recentemente preparada, o vacci-
nogenio de Parahyba. Conto que o Dr. Men-
des dará uma parcella de seu tempo ao bem
publico, para em breves dias aquella capital
ficar livre da variola como ficou Fortaleza, e
isso sem onus de especie alguma para os go-
vernos e para os particulares.
Em todos os Estados deviam organizar-se
«Ligas contra a Varíola». E' tempo de traba-
lhar cada um na medida de suas forças e re-
cursos para o bem da collectividade.
A iniciativa particular, bem orientada,
tudo pode. O Ceará é um exemplo disso. A
guerra aqui do governo foi tremenda, mas a
idéa venceu e os poderes publicos capitula•
ram.
Em 11 de Março fui passar a minha esta-
ção de todos os annos em Pajussara, de onde
regressei a 6 de Setembro. Durante o tempo
que estive auzente o servi ,ço da vaccinação
foi feito pelo Dr. João da Rocha Moreira, a
quem enviava a vaccina que era necessaria.
Em Pajussara vaccinaYa todos os mezes
um vitello e vaccinava naquellas cArcanias os
que ainda não estavam immunes, como se
verá adeante da estatistica.
Cumpro o grato dever de salientar aqui
os serviços do Sr. Dernetrio de Castro Mene-
zes á propaganda da vaccina anti-variolica
nesta capital. Este cavalheiro, corn rara abne-
gação, emprega a1ahoras que lhe -sobram de
R. THEOPHILO 137

seu trabalho como guarda-li V'ros vaccinando


pelos domicilios. A elle forneço vaccina quasi
todas as semanas, avaliando assim o seu zelo
e solicitude na propagaçâ() do preservativo
da. variohi.
E' de justiça lembrar tambem os serviços
prestados pelo Dr. José de Castro Medeiros,
illustre clínico nesta capital, a quem constan -
temente dou vaccina para as pessoas de sua
clínica.

Poasoas vaccinadas por mim em 1909:

Janeiro 32
Fevereiro 12
Março 8
Abril ó
Maio 3
Pajussara · 9
.Junho
Julho 2
Agosto 4
Setembro . 18
Outubro 39
Novembro. 47
Dezembro. 62
241

Pessoas vaccinadas pelas commiasões do


interior do Estado:

Aracoyaba. 9
Pereíro 34
43
138 VARIOLA E VACCINAÇÃO NO CEARÁ

Neste numero não estão co111prehendidas


as pessoas vaccinadas . pelo Dr . .João da Ro-
cha Moreira.
Termino o meu relatorio affirmancto com
grande satisfação achar-se a varíola extincta
em Fortaleza e em .todo o Estado desde Janei-
ro de 1902 até hoje. Os casos que têm se da-
do foram em pesimas â.qui aportadas.
Na certidão, pablicada adeante, firinada
pelo Official do Registo Civil, apenas constam
dois obitos pela varíola em o longo período de
cinco annos, e estes em pessoas vindas de
fóra, isto é, um no soldado Zacharias Miguel
Feitoza, desembarcado do vapor «Brazil• ~
outro em Francisco Manoel Rodrigues, que
contrahiu aquella molesti .a por ter ajudado a
transportar para. o cemiterio o cada ver de
Feitoza. .
Manda a verdade que eu accresc ·ente a
estes dois obitos mais dois obitt>s pela varíola
occorridos nesta capital no ultin10 quinquennio
e que não foram registados no cartorio ci-
vil e nem no religioso.
Foram · os do morro do Moinho e do Ar-
raial Moura Brazil, dos q uaes já me occupei
detidamente em outra. parte deste livto.
Espero continuar na minha labuta ~té
que outros sejam os tempos e os poder6s pu-
blicos do Estado · secompenetrem ·de seus de-
veres e responsabilidades, tomando a si esse
encargo. Emquanto não, estarei no meu posto
de sacrifícios, assim Deus me ajude. ·
R. THEOPHILO 139

III.mo Snr. Official do Registo Civil.


Rodolpho Theophilo precisa., para a his-
toria da variola no Ceará, que V. S.a lhe dê
por certidão o numero de obitos pela varíola,
que se deram nesta · capítal do 1.~ de Janei-
ro de 1905 a 31 de Dezembro de 1909.
Ceará, 31 de Dezembro de 1909.

Rodolpho Theophilo.

Auctorisado pe]o Decreto n.o 470 de 7


de Junho de 1890, certifico que dando busca
nos li vroR do Registo de Obitos de 1.0 de Ja-
neiro de 1905 até a presente data, no de nu-
mero 25 as folhas 192 verso e 193 sob n.os 98
e 99 consta que no hospital de isolamento
desta capital, falleceram de «varíola» nos
dia~ 14 do mez de Janeiro e 3 de Fevereiro
de 1905: o soldado do 40 Batalhão de Infan-
tar ra Zacharias Miguel Feitoza, de 22 annos
de edade, solteiro, n'.1tural de P~rnambuco,
desembarcado dt bordo do paquete "Brazil",
e Francisco Manoe] Rodrigues, de 25 annos de
edade, solteiro, operario, natural d0 Icó des-
te Estado. Nada mais se continha em ditos li-
vros a.os quaes me reporto e dou fé . E para
constar eu Lindolpho Cícero Gondim, Official
do Registo Civil, passei a presente certidão.
Fortaleza, 31 de Dezembro de 1909.
O Official do Registo Civil,
Lindolpho Cícero Gondim.
E' topico da mensagem do sr. Presiden-
te do Estado, lida á Assembléa Legislativa
do Ceará em 12 de Julho de 1905:
No interior, occorreram casos de
febres de mau caracter, grassando,
além disso, o c,roup e a variola em Se-
nador Pompeu, S. Quiteria, Missão Ve-
lha, Maranguape, Quixadá, Granja e
Aracaty. Satisfazendo requisições da
Inspectoria de Hygiene) sempre solici-
to no que prende com a. saúde publica,
remetti, sem perda de tempo, para
todos esses pontos, ambulancias com
medicamentos.
Nesta capital, reinaram tamberu
com mais ou menos intensidade febres
de fórma typhica, tendo-se verificado
apenas 9 casos de varíola em passagei-
ros procedentes dt=, Pernambuco. Das
pessoas accommettidasdo terrivel mor-
bus, somente uma veiu a fallecer.

(*} Reedito esses artigos por terem trazido a


imprensa o Sr. Dr. Meton de Alencar e este tel-os ta-
xado de 3ggressão grosseira, como se verá de sua pri-
meira publi·oação na «Republica}) de 25 de Outubro
de 1905.
IV
Nos ultimos mezes, grassou com
caracter epidemico, na Fortaleza e em
outros pontos, a dysenteria, fazendo
grande numero de victimas.

Peço venia ao sr. Presidente do Estado


para dizer-lhe que é falsa a fonte onde bebeu
estas informações, taes são as inverdades
destas, inverdades que venho, muito contra
a. gosto apontar.
Corre-me a obrigação de varrer a minha
test&.da, uma vez que affirmei em meu livro
~Varíola. e vaccinação no Ceará-achar-se a
variola extincta em todo o Estado ha mê:l1s
de tres annos.
Esta affirmação acaba de negar o sr.
Presidente do Estado, naquelle documento.
E' preciso apurar a verdade.
Antes de exhibir tt,s prova!3, em fav0r do
q ne disse, permitta.-se-me qu(>' faça algumas
considerações sobre o criterio e saber da re-
partição, que forneceu os dados para esta
partP., aliás importantíssima, da mensagem
presidencial.
O Sr. Presidente do Estado não tem es-
tudos de rnedicina, não tuo mesmo. obrigação
de ter conhecimentos desta sciencia; mas já
não é assim o Sr. Inspector de Hygiene.
Alem de febres dP. mdo caracter grassou o
croup ern diversas localidades do interior do
Estado as quaes -remetti ambulancias com me-
dicamentos, diz o governo.
A classe medica que responda se é ou
não hBresia scientifica dizer que gras13ou a
V

diphterja em clima secco e quente como é o


dos sertões do Ceará !...
Se é possivel este morbus desenvolver-se,
espontaneamente, lá em Missão Velha a mais
de cem leguas de Fortaleza, sem ser impor-
tado!...
Admittindo-se, por mera hypothese, um
tal phenomeno em deaaccordo completo com
a pathogenia d'aquella entidade morbidêi, que
medicamentos enviou o governo para debPl-
lal-a, uma vez que não temos o serum anti-
diphterico? !
Certamente mandou oleo de ricino, poayêi,
linhaça e banha de tejuassú. Esta therapeu-
tica parecerá extra vagante, mas está de ac-
cordo com a que se usou aqui no tempo em
que a bubonica grassou em Fortaleza com o
pseud'lnymu de febre de ca'toça.
Em materia de bygiene publica. nós so-
n1os fosseis, ainda nos regemos pela pharma-
copea de J oã.o Curvo Sem Medo.
Ne.r;ta capital reinai·am tambem, com mai.r;
ou menos intensidade febres de forma typhica,
diz a mensagem .
.E' outra falsidade. O que grassa no Cea-
rá são febres de fórma palustre. Muito rara-
mente, entre nós, a febre biliosa reveste o
caracter typhico, rnolestia cujo desfecho é
quasi sempre fatal. Consulte-se o obituariu e
se verá a inverdade de semelhaute affirma-
ção,
A dysenteria, esta sim, grassou com
certa intensidade fazendo muitas victirnas na
classe peior abrigada. e ali1nentada. ·
VI
A auetoridade sanitaria limitou-se a di-
zer qual a prophylaxia do mal; mas não sei
se de accordo com a sciencia moderna.
Os clinicos àe Fortaleza calaram-se a
mór parte. Alguns vieram A falaram .
Dissera,m uns o que sabiam e outros o
que não sabiam. Publicaram um trabalho e
artigos scientificos e tambem a]guns artigos
ocos, vasios de sciencia e até de criterio. O
povo nada aproveitou cor!! elles; não preci-
sava de rethorica e sim de remedios, de die-
t~, e foi o que não se lhe deu.
Rodolpho Theophilo.

(A seguir).

«Jornal do C~ará>) de 23 de Outubro de


1905.

(Continuação)

Emquanto estes infelizes se acabavam a


mingua de toda a. assistencia publica, dizia-se
pelo telegrapho á imprensa do Rio--graças as
energicas e acertadas providencias do8 pode'i·es
publícos a epidemia de dysenteria acha-se ex-
tincta.
Dias depois deste despacho, por uma iro -
VII
nia do destino, noticiava. a folha official o
fallecimento de um filho do Inspector de
Hygiene, victimado pelo mal reinante (dysen-
teria).
Ag·ora vou me occupar detidamente do
topico da mensagem, que se refere a variola..
Grassou t3Ste mal, segundo affirmou o sr.
r residente do Estado, em S. Quiteria, Mit1são
Velha, Maranguape, Quixadd, Granja e A1·a-
caty.
Esta affirmação importa um solemne des-
mentido ao que escrevi.
Sei e sa.be o publico a guerra movida
pela gente do governo á minha propaganda
de vaccinação, guerra que desceu ao insulto
eru pasquins por ella editados e foi até as
proprias paginas editoriars do jornal offieial,
conforme consta das edições du «Republica,
de 1 J, 14 e 21 de lVIarço deste anno, que tran-
screvo, em outra parte desta folha, para o pu-
blico avaliar a sua linguagem acrin1onivsa
e soez. .
Se era esta a. linguagem da folha official,
em suas column)ls privadas, imagine-se a dos
pasquins !
Uma ign0minia !...
A gente do governo não sustenta uma
discussão no terreno scientifico. Atira-se-lhe
a luva,; não a apanha, remia, mas insultando.
Não é que entre ella não haja homens cultos,
muito poucos, é verdade, porém é que discu-
tir asf:;umptos scientificos não é de seu pro-
gramma, uma vez que seja respeitada a indi-
vidualidade do ad versario. Quer a offensa
VIII
pessoal, que se retalhe o inimigo, até no lar,
e quando não houver mais pelle para ser ar-
rancada pelo latego da calumnia., exponha-se-
lh.e as molestias, que soffre, como se as en -
fermidades fossem um delito! ...
Est,1s publicações anonymas attestam só-
mente a nossa moral, educação e costume~.
São feitas p0r mercenarios, membros de
um syndicato de diffaroação organisado aqui,
para explorar a industria de Apulchro, rea-
lisando o ideal do mestre no tocante a gor-
geta e ao insulto.
O mestre, entretanto, era mais digno do
que os discípulos no Ceará. Mordia a reputa-
ção alheia, mas com a responsabilidade de seu
nome, de peito descoberto. Era um vesctnico
que expunha a vida para ganhar a vida. Os
apulchros daqui são covardes, _não ~ahem da
emboscada. A luz os incommoda como ás co-
rujas e aos morcêgos.
Excedem ao editor do c(Corsario,, num
anonymato sui-generis, unico, me parece, no
Brasil inteiro. Publicam as suas verrinas com
o nome de seus adversarios. Eu tive de ver
firmada com o meu nome uma novella porno-
graphica em que se atacava a vida privada
de meu arnigo dr. Waldemiro Cavalcanti.
· Não tive a quem pedir providencias. Limi-
tei-me a registar o facto pa.ra vergonha de seus
autores, se é que tal sentimento possuem elles.
O caso da creança vaccinada por mim e
fallecida quinze dias depois, de meningite,
conforme attestado de seu medico assistente,
é por si bastante para provar a, o-àmpanha que
IX
sustento ha cinco annos, campanha que será um
opprobrio 110 futuro para os que a prornovem.
Agora não são os pasquinheiros que di-
zem que sou um charlatão, um embusteiro; é
o sr. Presidente do Estado 1 em docun1ento
publico, que diz t~r eu faltado á verdade .
Quando affirmei achar-se a variola ex-
tincta em todo o Ceará, _affirmei uma verdade
incontesta vel. E podia com segurança fazel-o
porquanto tenho auxiliares em todo o Ceará,
4ue me trazem ao corrente de tudo que se
passa com relação a variola. A pequena
epidemia de bexigas no Aracaty, em Abril
,l'este anuo, tive noticia de.lla, talvez antes
do sr. Presidente do Estado.
Agora mesmo em Camocim desembarca-
ram tres variolosos vindos do Recife e imme-
diatamente o nosso commissa.rio vaccinador
avisou-me pedindo vaccina com urgencia.
Um caso suspeito de varíola, em fins do
mez passado, em Senador Pompeu, foi-me lo-
go communicado pedindo o commissario pro-
vídencias.
Agora mesmo o commissario vaccinador
de Barbalha, Coronel Barreto Sampaio, coru-
municou-me por tEilegramma, o apparecimen-
to da varíola na cidade de Souza e Patos da
Parahyba, pedindo com urgencia, por temer
que a peste viesse aq nella cidade cearense.
Itnmediatamente providenciei enviando bôa
provisão de vaccina.
Assin1, repito, podia dízer com seguran-
ça qual o estado sanitario, do Ceará inteiro,
em relação a variola.
X
A a.ffirmação do governo contraria a mi-
nha só se admitte por engano ou proposi to.
A primeira hypothese não prevalece por-
quanto foram seis as localidades onde gras ·
sou a varíola e para a,s quaes foram enviadas
ambula,ncias com medicamentos . A segunda
é a mais plausível, visto a má vontade do
governo á minha propaganda de vaccínação.
Já que não se atreve a impedir que eu
divulgue pelo Ceará inteiro o preservativo
de Jenner, pensa amesquinhar o meu serviço
dizendo que a varíola nã,o se acha extincta,
e como prova cita as localidades oode reinou
e para as quaes enviou medicamentos!
A sua, opposição tem tido effeito contra-
rio. A verdade será sempre a verdade.
Podem terçar todas a.s armas contra. a
minha propaganda e ella irá adeante, trium-
p h ara. ....
1

Por este lado sou invulneravel.


De ·tudo lançam mãos os delatores. Até a
vaccina que forneço a outros Estados, por pe-
dido destes e por modica retribuição denun-
ciam como se fosse um crime ! Não é um cri-
me, quanto muito será um donativo que re-
cebo, não para mim, mas para o Ceará E' -este
pequeno auxílio que me dão de quando em
vez que me ajuda a sustentar o serviço de
vaceinação aqui.
Rodolpho Theophilo.
(A seguir).
«.Jornal do Ceará1) d0 25 de Outubro de
1905 .
XI

(Conclusão)
Quem lê a mensagem do goYerno e lê o
meu livro não sabe quem faJtou á verdade ...
O documento official passará por verdadeiro.
Quem acreditará que haja um governo
que faça guerra á vaccina anti-variolica
quando este mesmo governo foi testemunha
da grande epidemia de v ariola em 1878, a
maior peste de bexigas que tem havido no
mundo inteiro? Ninguem. No entanto é uma
verdade. Ba,sta ler-se o jornal official para
ficar-se convencido de que não exaggero. O
publico vê todos os dias nas paginas edit~-
riaes da folha do governo aB mais acrimonio-
sas injurias á minha pessoa, á minha propa-
ganda.
Eu sou um ignorante, um, sandeu, u,nt rnen-
tecapto, que vivo a illaquea1· a boa fé dos incau-
to:; com o engodo de minha lympha nociva.
Porque o governo do Estado applaude e
consente esta linguagem de regateira em sua
folha? ... Consente e applaude porque não
comprehende os seus deveres, as suas respon-
sabilidades como chefe da 111agistratura do
Estado. Se é uma verdade o que dizem de
mim e da vaccina por mim preparada, o go-
verno do Estado está deixando que o accusem,
em seu proprio jornal, uma vez que não pro-
hibe, que eu attente rontra a saúde publica.
Se é uma calumnia que me assacam os
XII
apulebros, porque consente que saia dos pas-
quins para ser divulgada pelo jornal official?
Qu.em acreditará que o poder publico
falseasse os factos? ! Serei eu o falsa rio. Para
que não fique eu com semelhante pécha, para
que os posteros não me julguem capaz de
uma tal torpeza, provarei que a verdade está
de meu lado.
Não quero o testemunho de 1nfus auxilia-
res nas localidades onde, no dizer do gover-
no, grassou a variol:i. Podiam taxa.1-oa de
suspeitos.
Quero o testemunho dos vigarios, a quem
peço, sob juramento, que digam se houve ou
não vario la em sua freguP-sia.
A estes dirigi a circular infra:
-
clllmo. Rmo. Sr. Vigario da Freguesia. de ...

Rogo a V. Rma. o favor de attestar, em


fé de parocho, se grassou ou não a varíola
nessa freguesia no período de 12 de Julho de
1904 a 12 de Julho de 1905.

Rodolpho Theophilo».

Attesto que no periodo de 12 de Julho


de 1904 á 12 de Julho de 1905, não grassou
a variola em minha freguezia. Em fé de paro-
cho o affirmo. S. Quiteria, 21 de Agosto de
1905.
Asaignarlo-Pad1·e Antonio Tabosa B1·aga.
Reconheço a firma supra do P. 0 Antonio
Tabosa Brag·a, dou fé. Fortaleza, 27 de Outu-
XIII
bro de 1905. Em testemunho de verdade. O
Tabellião Publico, Joaquim Feijó de Mello.

Attesto que no período de 12 de Julho


de 1904 á 12 de Julho de 1905: não grassou a
varíola na freguesia. de Granja nem na de Ca-
mocim que hoje está annexa áquella e nem
rne consta que se tenha dado um iSÓ caso.
Para constar la vreí e assigno Ita in fide
Parochi. Assignado- Vi!Ja1·io Vice1ite Martins
da Costa.
Reconheço a firma do Vigario Vicente
Martins da Costa ; Dou fé. Fortaleza, 27 de
Outubro de 1905. Em testen1unho da verdade.
O Tlt.belliào Publico, Joaquim Feijó de 1llello.

Attesto que não me consta ter havido um


só caso de varíola nesta fregllesia, no perio-
do de 12 de Julho de J904al2de Julho de
1905. Ita in fide Parochi.
Missão Velha, 7 de Setembro de 1905.
Assignado-Padre Pedro Esmeraldo da Silva.
Reconheço a firma do Padre Pedro Esme-
rctldo da Silva.. Fortaleza, 27 de Outubro de
1905. Em testemunho da verdade. O Tabellião
Publico, Joaquim Fe(jó de Mello.

Attesto, in fide Patochí, que não reinou a


variola nesta fregu6iia no periodo de 12 de
Julho do anno passado a 12 de Julho do cor-
rente anno.
M. Pereira., 1 de Agosto de 1905. Assigna-
do- Padre Leão P. de Andrade(Vigario de Ma-
ria Pereira e 8ena.dor Pompeu).
XV
desembarcado eru Aracaty 3 varioloaoa,do
Recife, que trouxeram este mal á população
da cidade.
A primeira communicação, que recebi de
nosso C')mmiseario · vaccinador ali, dr. José
Leite Barbosa, foi em 8 de Abril, ne te tele•
gramma:

«Ca,sos variola aqui. Dr. Leite•.


No dia seguinte pa~sava um vapor da
companhia Pernambucana e por elle en iei
vaccina animal e instrucções.
No dia. 18 de Abril recebi do dr. Leite
este telegramma:
« Peço remetter pelo correio quarta-feira,
mais vaccina,.
Satisfiz a requisição e escrevi ao dr. Lei
te pedindo que procedesse á vaccinação e re-
va ccinação da população sem delongas e nem
esmorecimentos. Lembrei-lhe o iqolawentodo
enfermo8 e outras medidas hygienicas
Em 23 de Abril, recebi ainda este d p -
cho do dr. Leite.
<<Continúavariola. Oito ca o, e""' obito.
Urge.remessa mais vaccina».
1

Pela primeira mala fiz remessa de bO


provisão de vaccina animal, recente19ent
prepara.da, e ainda uma vez appellei p
sentimentos humanitarios do dr. Leite em
tensa carta que lhe dirlgi.
Para maior clareza publico o offieie
em resposta ao me•J, recebi sobr v
Aracaty.
XVI
« Liga Cearense contra a variola•.

Aracaty, 29 de Agosto de 1905.

Illmo. Sr. Rodolpho Theophilo.

Recebi o, vosso officio de 15 do expirante,


cujos quesitos passo a responder.
Em fins de Março do corrente anno des-
embarcou neste porto, de uru dos vapores da
Companhia Pernambucana um doente de va-
ríola, de forma diacreta, que se tratou dentro
da cidade, restabelecendo-se em poucos dias.
Em Abril desembarcou um outro doente, tam-
bem de um vapor da mesma Companhia Per-
uam bucana; mas neste a variola. era de for-
ma confluente, propagando-se a trez pessoaa
da cidade, <las quaes uma fa.llE.ceu.
Foram mais contagiadas treze pessoas,
quasi todas de varíola confluente, falltcendo
nove.
S.e alem destes dezeseis casos em pessoas
aqui domiciliadas houve mais algum caso
ignoro.
Não hoove caso de varíola bemorrhagica.
Nenhuma d::ts pessoas vaccinadas foi ata-
cada.
Ignoro quaes as providencias tomada .s
pelos poderes estcl.doaes, assim como o SBU
vaccinador aqui.
O movimento de vaccinação a meu cargo
elevou-se ha ma is de mil pessoas , cuja lista
vos remetterei oportunamente.
Empreguei a vaccina que por diversas
XVII

vezes me remctteste~, com os melhores re-


sultados.
Supponho a variola extiucta.
Amor e Trabalho.

Dr. José Leite Barbosa.

A' vista dos documentos irrefutaveis, por


mim exhibidos, fica provado que o sr. Presi-
dente do Estado foi quem faltou á verdade,
levado pelas falsas informações do sr. Inspe-
ctor de Hy-giene.
Rodolpho Theophilo.

«Jornal do Ceará» de ~7 de Outubro de


1905.
Sr. Rodolpho Theophi'lo
Acabo de ler a aggressão grosseira e des•
cabida que, na vesania de inculcar•se ao Uni-
verso-um sabio, um verdadeiro apostolo da
scienc-.ia, fez s. s. á minha obscura e humilde
pessoa, pelo « J orna! do Ceará» de hontem,
si bem que ({muito a contra gosto.-, como soe
acontecer qua~i todas as vezes que vem á
scAna pela imprensa. Pois bem; resolvido es-
tamos a sahir do silencio habitual, quebrar o
mutismo e indifferença com que lemos os seus
espalhafatosos artigos Va.riola e "Vaccinaçào"
para retirar denós o-; epithetos que nos foram
emprestados, taxando-nos de mentiroso -uma
vez que fornecemos dados "não verdadeiros",
á mensagem do digno Presidente ·ao Estado,
e, de "ignorante'' e "sem crit8rio", quando
demos á publicidade, ba tempos, "artigos
oco~, \ asios de sciencia e até de cri te rio''.
Iremos até onde s. s. nos conduzir.
E por mais trevas e tortuosidades que se
nós apresentem seguiremos firn1e, guardando
a compostura quando ô. s. respeital-a, até de-
monstrar ao publico que a carapuça que nos
emprestara, fôra talhada pela cabeça de s. s.
e lhe vai perfeitamente bem.
Analysemos a verrina.
XIX
"A classe medica responda se é ou não
here~ia scien tifica dizer que grassou a dipbte-
ria em clima secco e quente como é o dos
sertões do Ceará!. .. ''
Aqui, s. s., o impeccavel, fa,ltou com a
verdade e julgou até sem o menor criterío.
Vejamos:
Costumamos ff'lrnecer os dados de inteiro
e fiel accordo, sem tintas nem pbantasias,
com que nos são enviados pelas autoridadee
competentes, para que o Governo tenha com-
pleta sciencia do que se pa8sa no Estado e,
se bem que comprehendamos perfeitamente
como são feitos os diagnosticos de palpite,
no interior do Estado pelos collegas de s. s.,
não podemos deturpal--os e dar-lhes feição
imaginosa ou nomenclatura nova com o unico
fim de lhe st3rmos agrada vel.
Não sabemos se fõra crup, ou não, uma
vez que 11ão fizemos o exãme preciso (isto é .
ter criterio) mas em desaceordo com s. s., pa•
reee-nos, que apeza r das 100 leguas ! que lhe
serviram de base scientifica, e da tempera-
tura de um clima "secco e qu_ente'1, essa enti-
dade pathologica poderia desenvolver-se per-
feitamente, maxime ebtando Missão Velha vi-
zinha do Crato e Serra. du Araripe, regiõ~s
uberrimas, onde a temperatura é sempre
agradavel, descendo muito o therm _o1netro du-
rante a noite.
Aqui na Capit.al é ~abido ex~,;tir o crup
e não raramente a população tem ficado alar-
mada e profundamente sentida, ante as suas
intempestivas e bruscas invasoes, aniquilan -
XX
do diversas pessôas da mesma familia, dentro
de poucos dias, a temperatura que tanto va-
lôr dá á ethyologia do crup é muita vez supe-
rior á das localidade~ indicadas por esta Ins-
pectoria-.
E, quando assim não fôra, sabemos (data
venia s. s.) e é corrente em sciencia que as
manifestações crupaes podem se desenvolver
na intercurrencia do sarampo, febre typhoy-
de, scarlatioa e até da coqueluches e d'abi
a denominação de secunda rias: Se a.ssim é,
porque não pode ter se clesen vol vído o crup
n'estas regiões, como em qualquer outra. onde
se deram casos d'estas molestias de natureza
infecciosa.
Diga-me agora s. s.:
Que criterio lhe assiste para arrogan t9
e enfatuadamente, de modo dogmatico, affir-
mar ser isto llrna heresia scientifica?
Vê pois s. s. que se não faz precizo ad-
mittir uma. «hypothese, um tal phenomeno,
em completo desaccordo com a _pathogenia
d'esta entidade morbida», no dizer de s. s.,
que a conhece tanto quanto nós o grego, pãra
que possa se desenvolver esta especie nosolo-
gíca do interior do Estado .
Faltou ainda, s. s., o dogmatico, o auste-
ro, com a verdade, affirmando têrem sido
enviadas ambulancias, para debellar o crup 1
querendo ai:;sim, ridicularh,ar-nos, estygmati-
Zár - nos de ignoran teR. As ambulancias fôram
maadadêis para occorrer a outras molestias
e, quando fossem para, o crup, não seriato de8-
cabidas, uma vez que quasi sempre se faz
XXI

míster combater as complicações, tão com-


muns n'estas manifestações morbidas.
Não remetteriamos a. banha de tejuassú,
tão commum .mente manuseada na clínica dia-
ria de S. S.ª, mas sim, medicamentos necessa-
ríos a fazer a antisepsia do larynge, do in-
testino quando possi vel, as desinfecções, a
minorar as paralysias, a favorecer a elimina-
ção das toxinas, a combater os perigos das
myocradites e das broncho-pneumonías.
Sabemos (com licença <le S. S.ª) a utili-
dade e efficacia incontestada do serum de
Roux, conhecemos as estatisticas, e trabalhos,
não só d'este scientista como de outros que
o secundaram e lhe dizemos que os medica-
mentos são quasí sempre bons auxiliares.
Veja agora S. S.ª o quanto foi infeliz e
desastrado!. ..
Referindo-se á febre typhoide teve S. S.ª
o des ·côco de declar.11.r peremptoria e dogma-
ticamente, ex-cathedr-a :-•o que grassa no
Ceará, são febres palustres e mllito raramen-
te a febre biliosa reveste o caracter typhico•.
Qual a competencia scientifica, o crite-
rio com que affirma esta these?
lfallecem-lhe certamente conhecimentos
para tanto, não dispõe S. S.ª de observações
diarias, constante e cl'iteriosamen tE, feitat!,
riã.o possue serviços de demographia-sanita-
ria., para que, baseado n'isto, possa modificar
a opinião da maior parte da classe medica
d'esta Capital, que uma vez por outra se vê
a braços com as manifestações typhicas.
Isto não é historia natural. Consiga S. S.a
XXII
eliminar da estatistica mortuaria estas mani-
festações morbidas, e terá S. S.ª direito ao
pomposo titulo de benemerito por que tanto
traba.lha. ·
Como pois eompreheuder-se uma tão ca•
thegorica affirmação?
Só um esforço de imaginação doentia,
uma lítteratice phantasmagorica, r.ãofrequcu-
te nos trabalhos de s. s.a, ou por estulta pre-
sumpção pode s. s.a sustentar o que va.idosa
e irreflectidamente alcançou.
Ignora s. s.ª prolegomenos de pathologia
interna e saberá, quando muito, alguma cousa
de cartilhas homeopathicas; como pois se em-
pa vona para gritar do alto da imprensa que
aqui não existe febre typhoide?
Questões d'esta ordem têm sido debatidas
por summidades medicas do Rio e nem sem-
pre se tem feito a luz: como pois decreta
s. s.a por mero palpite o desapparecimento
das manifestaçõee typhoides de nosso meio?
Terminando s. s.ª refere-se aos clínicos
(sem um qualificativo que minore · ag grosse-
rias e doestas): «Disseram uns o que sabiam
e outros o que não sabiam•.
« Public<lram um trabalho e artigos scien-
tificos e tarr1bem alguns «<artigos ocos, vasios
de scieucia e até de · cri te rio».
O insulto foi a muitos distinctos collegas,
não poupando .s.s.ª seus proprios amigos,
d'onde se vê o desasisamento que vai por ahi.
Desça s. s.ª das alturas, d'esta atmosphe-
ra fictícia, vaporosa de orgulho, vaidade e
sem commedimento, onde quer se ma,nter in-
XXIII
censa nd o-se a si proprio, com artigos, tran -
scripçõeR e elogios de encommenda, desprese
as allucinações da vista, no delirio de gran-
dezas em que vive immerso e venha habitar
o orbe oude vivemos nós o~ peccadoras e
mortaes e terá s. s. ª menos di~sabores e tro-
peços na faina ingloria de deprimir o alheio
em proveito de sua sapientissima pessoa.
Foi por demais infeliz nas accusações q üe
nos fez e só teve occasiào de patentear publi-
camente que falta com a verdade a cada pas -
so, que ignora rudimentos da acíencia e julga
com inteira falta de criterio os que lhe não são
sympathicos.
«Au revoir~.
Dr. Meton de Alencar.

Republica de 25 de Outubro de 1905.

8r. Rodolpho Theophilo


No segundo artigo da serie enfadonha
com que pretende demonstrar o que garan-
tiu de modo inconsciente em artigos atrasa-
dos, baldos de ~rniencia e até sem criterio,
anteriormente publicados, refere-se s. s. a. UtJl
telegra,mma, passado para o Rio em que o
correspondente dissera: «graças ás energicas
e acertadas providencias dos poderes publi-
cos a epidemia de dysentheria acha-se ex -
XXIV
tincta. Serei responsavel tambem pelo que
dizem os correspondentes dos jornaes? ou bi-
tolando s. s. os outros por si, julga-nos capaz
de encommendar o acceitar elogios pompo-
sos? Engana-se.
Para provar o contrario do que reza o
telegramma traz com verdadeira impiedade á
imprensa o fallecimento de minha estremeci-
da filhinha em con:3equencia de dysenteria,
attribuindo-o perversa e ironicamente a uma
«ironia do destino>.
, ..-,.1 Ouça-nos s. s., o intransigente.
~,L;.·. ;

Estava realmente quasi extinct&. a epi -


demia quando minha filhinha:, que se acha .va
em plena evolução dos dentes, foi victimada
pela dysenteria, sendo um dos ultimos obitos
a registar.
Esta . é a verdade e consta do registro de
obitos.
Estava portanto s. s., o justo, cri-terioso e
circumspecto, em verdadeiro estado de impla-
cirlez, quando quiz desmentir o communica-
do pelo telegrapho, fazendo crer que ~stava-
mos em franca epidemia, quando perdi mi-
nha filhinha, e foi aindâ. iroplacavel quando
attribuio seu fallecimento a uma ironia do
destino!
Occupando-se da varíola, nega ter havi-
do casos no interior. Corno já lhe dissemos,
as informações nos são ministradas pelas au-
toridades competentes e parece-nos que pode
se lhes attribuir pelo menos o mesmo crite-
rio dos pretensos commissarios de s. s.
E se não ~ouve, pretende s. s. que a glo-
XXV

ria lhe seja reservada in totum - pelo desap-


parecimento temporario deste morbus de
nosso meio-já é pouca modestia ! .Já é ter
criterio !
Vejamos : o Ceará terá approximadamen•
te nrn milhão de habitantes e s. s. por mais
asafama que tenha revelado e por mais que
espore o seu ca vallinho, não terá vaccinado
a 10.a parte desta gente, e, quando tenha,
com todos os seus auxiliares (pessoal bastan.
te criterioso e habilitado) conseguido esta ci~
fra, será mister deduzir 1/:l ou mé:tis que não
aproveitou 9-e sua vaccinação, sinào a incom-
moda espetadella: uns pela inopportunidade
da vaccinação, isto é, pelo estado transitorio
de immunidade, alguns pela immunidade tal•
vez absoluta, outros pela má qualidade da
lympba, grande parte pelo defeito dos crite-
riosos vaccinadores e a maior parte talvez
por não sêrem as pustulas a verdadeir&- Vi'\C-
cina ; pois é sabido que o facto de ferir a epi ·
derme e inocular a lympha e obter depois
uma pustula, não é o que constitue a immu-
nidade, uma vez que a pustula pode não ser
vaccinica e sim devido a outra qualquer cau,
sa de naturesa infecciosa. Com que criterio
os seus commissaríos podem-lhe informt\r que
o paciente têve proveito com sua lympha?
Talvez até s. s.ª, tão entendido em vaccina
não saiba. distinguir uma cousa de outra?!
Assim nos parece, pelas asneiras que an-
dou dizendo quando pretendeu construir ar-
gumentos que lhe expuzera. um habil colle-
ga.
XXVI

Retires. s.ªda 10.ª parte todos estes ca-


sos de insuccesso e mais o numero não pe-
queno dos revaccinados e verá com que as-
somo de pretenciosidade e com que pouco
criterio attribue o dt3sapparecimento da va-
ríola á prophylaxia que emprega.
Seria preciso, como já lhe disse um dis-
tincto collega, que a lympha de seu fabrico
tivesse o poder de irradiaçãc,.
Fosse uma especie de magia, isto é, que
um individuo vaccinado, pelo simples acto
de presença, ou hypnotismo, transmittisse es-
te poderosú «fluido prophylatico». (mera con-
cepção, invento de s. s.ª) . ás pessoas de sua
convivencia.
Só deste modo é possível comprehencler
que s. s. tenha conseguido immunisar a po-
pulação do Ceará.
Já é ter criterio attribuir a si propI'io
um facto desta ordem.
Aqui, na propria capital, onde se ufana
s. s. d~ uma vez para sempre ter afugenta-
do este terrível morbus, hou-,e nada mais,
nada menos que 8 casos, dos quaes somente 3
foram importados.
Si aqui procede com este desplante, ima-
gine agora o publico o que ha de verdadeiro
quando affirma incon8cieutemente ter extin-
guido a variola em todo o Estado!?
S, s. sabe so~ente quantas pessoas fo-
ram vaccinadas com sua maravilhosa lympha;
o que não sabe p::>rém(nem lhe convem) é o
numero dos que a aproveitaram. lsto sim,
seria mais util e importante; não o fa,z, po•
XXVII
rém, porque lhe traria difficuldade8 que nào
saberi~ vencer e não pequena decepçào.
E capaz de garantir que todos a apro-
veitaram.
Desconhecendo s. s. o numero dos que
aproveitaram a inoculação da lympha, es-
tá implicitamente mostrando a pouc$1 confi-
ança que lhe merece intimamente o meio pro-
phylatico que emprega. Vaccinar, pouco ou
nada vale; o que vale muito, muito mesmo,
é vaccinar com proveito.
Para isto sim, é preciso ter criterio sci-
~ntifico e probidade profissional.
\ Se não faz nada disto para apresentar
uma estatistica real, de valor ex:acto, como
se abalança a decretar propheticamente a
extincção da varíola em nosso mtio ?
E' a este embuste que s. s. chama ter
criterio ?
Retire s. a.ª da 10.ª parte da população,
que suppõe isenta de contrahir a i'lfecção
variolica, o numero dos que emigraram para
o Amazonas e outros pontos do Paiz; retire
ainda (embora muito a contra gosto) o nume-
ro talvez co.asideravel dos que já fizeram a
grande viagem ao desconhecido paiz das som-
bras, ond~ parece sêr s. s.a tão familiar; de-
duza todas estas causas de insuccesso e ve-
rá que a insignificante parte que ha vaccina-
do não pode absolutamente conferir immuni-
dade á população, senão pelos processos que
apontamos, os quaas s. s.ª pode estudar com
att9nção, a ver se descobre uma la.ocêta que
faça. a inoculação do vírus vaccinicos, á dia-
XXVIII
tancia (sem fim) e fü3t:iim terá máIS cArteza
do emprego e successo de sua lympha, uma
vez que difficilrnente encontrará pessoal do
criterio e conhecimento scientifico de s. s.ª
Esperemos, portanto, a maravilhosa des-
coberta. Nada duvidamos. Ha pouco ternpo,
inventou s. s.ª que a addiçào de bica.rbonato
de sodio e acido cítrico, ou tctrtarico, ao vi-
nho de cajú, de natureza acido, contendo tal-
vez não pequena quantidade de ferro, daria
deliciosa champagne e expoz á V6nda com
este pomposo titulo uma beberagem.
Saiba s. s.a que o bi-carbonato nàu se
addiciona aos vinhos e que se s. s.ª o pôz em
estado solido (o que é bem possi vel) elle fica-
rá eternamente assim, uma vez que não é so-
luvel no alcool.
Desconhece s. s.ª a fabricação dos vinhos
de charopagne, vinhos naturaes, puramente
fermentados, e dahi denominar esta mistura,
sem. , criterio scientifico de «Oha.mpagne de
caJu. ))
Desconhece s. s.ª rudimentos de chimi-
ca, até industrial, a propría sciencia em que
se mostra doutor, e explora com productos
de seu invento.
Os vinhos de Champagne são naturaes,
como dissemos, e a, falsificação pode ser feita
não por meio das drogas que emprega e, sim,
por processos e appa.relhos tendentes a fazer
a completa mistura do -acido earbonico-
com a que se quer «champ~gnisar» o que s.
s a desconhece por completo.
Como poís baptisar voluntate propria,
XXIX

sem criterio: uma beberagem de champa-


gne?
Tal vez o suggesti vo nome de gengibirra
de cajú fosse mais adequado, não acha s. .ar
Diz s. s.:
•A gente do governo não sustenta discus-
são no terreno scientifico Atira-se a luva e
não apanha-a•.
Se não discutirnos no terreno puramente
scientifico, é porque temor, a certeza de não
sermos comprehendido, pois que s. s. prova
a cada momento ser um rotineiro, um super-
ficial, cujos profundos conhecimentos têm o
brilho dos dour-,1.du~de baixo preço: mareiam
ao primeiro raio de luz.
Au revoir.

26-16--905.
Dr. 1.l1etonde Alencar.

Repu,blica d_e 27 de Outubro de l905.

Sr. Rodolpho Theophilo


No terceiro e ultimo artigo (Sic) quando
diz ter o digno sr. presidente do Estado affir-
mado grassara a varíola na.s localidades por
s. :s. mencionada, faltou ainda com a v~rdade.
Não fora. isto escripto, nem s. s. as im
comprehendera; mas, somonte com o intui-
XXX

to, aliás futil, de fazer uma exhibição de at-


testados sacerdotaes e a.rmar ao effeito, é que
assim procedeu; e, se cornpr6bende desse
modo, isto é, que grassara a variola em ca-
da uma destas localidades, pol'que, quando
se referio ao crup, não o transportou a todaR
ellas, como fez com a v ariola ?
Porque não invocou o testemunho fidedi
gno dos vigarios que hoje cita?
Acha.mos os documentos de muito pP-so,
g:abamos a memoria dos dignos representan-
tes da Egreja, que, sem estatísticas mortua-
rir1s-e de momento precisaram até os dias
em que não houve varíola (de 12 de julho d~
1904 a 12 de julho de 1905).
Não vem isto, porém, ao caso; o de que
se trata é mostrur ao publico, c9mo s. s. mui-
to de proposito forçou o sentido do período
d~ Mensagem Presidencial, para prova.r (de
rná fé), não ter havido variolc:t. naquellas loca-
lidades.
Isto sabíamos nós e sabe o povo; não se
fazia mist8r incommodar os viga rios com os
documentos yue publicou.
O que queríamos que provasse era se
em Aracaty não houve vari0la, e se Ara.caty
não faz parte do interior do Estado.
Não se c01nprehende que a Mensagem
diga ter havido febres graves, crup e vario -
l}Aem cada uma destas localidades, maa sim,
qae em determinadas localidades houve fe-
bres, cm outras crup e em . outras varíola.
Negará tambem a invasão deste morbus
ultimamente em Camocim?
XXXIV

Leia o publico o que ahi vai transcripto


e avalie como este toleirão escreve e mette-
se a pontificar até em sciencia. O 8r. Rodol-
pho suppõe que está cscrev€ndo as suas «his-
torias» de S. J ener, illudindo os incautos,
quando os quer attra.hir á sua vaccina.
Diz s. s., o tôlo e «tolo presumido•:
«Sua Sapieocia entendeu no seu bestun -
do dar-me uma lição de chimica. e espichou-
se. O que escreveu e transcrevi acima é um
monumento de bestidade. E não trasladei tu-
do, não tanto por ir muito longe como por
ter o sufficiente para roduzir o piroá a por -
poções de cogumelo.
Começa dizendo a S. Sapiencia que o vi-
nho de cajú não é de natureza acido, que não
contém ferro e sim tanino•.
Fora s. s. quem entendera em seu bes-
tunto não ser o vinho de cajú de natureza aci-
do, e não nós.
A ffirma o Pascacio: «não é de natureza
aeido, não contem ferro, e sim tannino» .
Vejamos o que seja tannino:
O tannino, ou acido tannico, é o -resul-
tado da combinação do acido gallico comsi-
go proprio e deshydratado. Uma solução de
tannino, exposta ao ar, fermenta em presen-
ça dos fermentos vegetaes (penieillium gla .u-
cum ou aspergillus niger), . elementos estes
que, roubando agua da solução, a transforma
em acido gallico.
Escrevemos para a]guem que possa nos
comprehender scientifícamente:
XXXV

14 10 2 2 7 ti 5
e H + H Ü= ( e H o )
Acido tannico Agua. Acido gallico

Si o acido tannico (tannino) addicciona-


do á agua produz acido gallico, certo é que
este acido, pela perda de agua, dará acido
tannico.
Isto é o que aprendemos (não colll s. s.)
quando estudantes, e não o que queria impin•
gir ao publico.
Tal vez o nosso Pascacio tivel,i\;,e lido em
alguma bibliotbeca do povo poder ser o aci-
do tannico um ether digallico, e dahi ficar
tão alarmado com o que dissemos. Por este
motivo é que não di~cutimos sciencia., porque
estamos mais que certo não nos entender.
Mostremos praticamente ao publico o modo
cte reconhecer a acidez dos vinhos de cajú.
Desmascaremos o papalvo.
Praticamente reconhece-se a acidez de
uma substancia, fazendo mergulhar na mistu-
ra de cuja acidez se quer indagar, o papel
azul de tournesol o qual em presença dos aci-
dos deixará a côr azul para ficar a vermelha da.
Agora o nosso leitor compre um livrinho
de papel azul de tournesol, lave muito bem
um copo (se possi vel, passe agua distillada) e
deite um pouco de vinho de cajú (reco1nmen-
damos a marca R. Theophilo) introdusa uma
tirinha deste pape] e verá com que rapidez
o azul do papel é transformado eru verme-
lho, d'ahi dedusirá do criterio e conhecimen-
XXXVI
tos scientíficos com que este parlapatào quer
imbair a população d'esta cidade.
A 's pt,ssoãs que quizerem tomar o traba-
lho de chegar ao nosso consultorio, nos pro-
pomos a fazer a experiencia pratica, que re-
dusirá a zero o enfatuado sabichão, o mais
perfeito typo do Quaresma.
Os conhecimentos scientificos do nosso
Pascacio, são como o papel de tourneso], aos
primeiroE:t .laivos de acidez da verdade tran•
sformam-se, não em vermelho, mas sim em
ver ... dadeiras tolices.
Saiba mais que 0 acido tannico ou tanni-
no precipita a gelatina e albumina, e grande
parte das soluções salinas (bicat.'bonato de so-
dio, está no caso) e em presença dos 8aes
ferricos dá um precipitado pret'.> qtie serve
ás tintas de escrever. Tal ve~ no fabrico de
sua champagne já se tenham dado estas cou-
sas, sem q 1.1e as soubesse explicar e aprovei-
tar para esta nova industria. ]foi isto, sr.
Pa.scacio, o qué nos enainaram.
Negue ainda que não contém acido o vi-
nho de cajú!
De duas uma, ou contem o acido tannico
(tannin0 como confessa) JU o tannino contido
(segundo affirma em solução n'agua antes
da adclição do alcool (que não é feita imme-
dia,tamente1, transform _a-se em acido gallico.
Ou um ou outro.
Escolha qual dos dous a.cidos quer que
:-;e contenha na beberagem de cajú P passe a
mão ao bolo, deixando o todo quixotesco com
XXXVIII

da hoje internamente por sêr irritante. Pre -


judicial portanto á saúde.
Este composto, ó muito soluvel, d'ahi D.
Pascacio, achar que o bicarbonato é muito
soluvel na Champagne.
Já é conhecer chimica !
Diga-nos o publico:
E' ou não ignorante quem procede d'este
modo?
Descobriu nosso Pascacio ainda mais esta
asneira: que o ar e priucipalmente humido
é o que mareia os metaes.
Fizemos apenas uma imagem sem visos
de sciencia, mas un'la vez que a trouxe a pu-
blico, saiba que se mostrou ainda ignorantr,.
Não é propriamente o ar 4ue ataca os
metaes e sim o Oxygenio contido n'esta mis-
tura, ou suppõe S. S. que será combinação?
Sendo mistura cede qu::1lquer de seus elemen-
tos, não actua por si e, sim por cada um de
seus coU1ponentes. O oxygenio que se contem
no ar em volume na razão de 20,8 e em peso
na de 23, é que ataca os metaes. Comprehen-
deu D. Pascacio?
Não dissemos que o cajú continha ferro,
nem podíamos dizer porque nnnca o exami-
námos. O que dissemos foi que o vinho conti-
nha e deve conter em vista do instrumental
usado em seu fabrico.· Ou usará S. S. todo o
instrumental de porcellana?
Vê pois D. Pascacio que não fomos nós
que dissemos «monumentos de besteiras» mas
sim S. S. que perdeu optima occasião de fi-
car- calado para não ver publicvmente seus
XL

Achamos conveniente modifique s. s.a os in•


sultos e doestas com que vae dic1a rlia nos fe-
rindo, pois, comquanto, tenhamos bitolado
nossa defesa pelos moldes que no~ são for•
necidos por s. s.a, pode bem ser nos exceda •
mos, o que não será talvez muito agradavel
á s. s.ª, nem a nós mesmo.
Tra.n.:,crevemos em seguida o novo insul .
to que em língua soez, de feira, nos atirou.
«Depois dos attestados dos vigarios o sr.
Inspector de Hygiene devia recolher•se aos
bastidores, já que não havia. a oppor um for-
mal e solemne de~mentido. Não tendo e nem
podendo destruir as provas contra si apre-
senta das) veio, num assomo de cynismo nun-
ca visto, dizer o que se vae ler mais a,d.eante •.
Não nos fazer.a medo carBtas, nem tam
pouco convicios queremos apenas mostrar ao
pubiico que s. s.ª é quem nos guia, ~endo por-
tanto o responsavel por ,qualquer excesso de
linguagem em desaccordo com a educação que
possuímos.
Assomo de cynismo ?
Qual o acto nosso, publico ou particular,
que já praticamos com assomo de cynismo?
Aqui, nascemos e aqui temos vivido, o pu-
blico que ouça e nos julgue.
Seria termos provado publicamente o gra •
vissimo erro que commettera querendo emen•
dar-nos quando affirmara pela, imprensa do-
gmaticamente nào o conter o vinho de cajú
acido e sim taunino?
Não fomos culpado que S. S. . não conhe -
cesse sêr tannino e acido tanníno urua e a
XLII

dade que, temos certesa, s. s.a assim compre-


hendeu, serás. s.ª duas vezes cynico, quando
omittiu aquella localidade para impingir ao
publico a patranha que affirmara no seu livro.
Diz S. S.ª que os vígarios têm assenta-
mentos de obitos .
Sabíamos que registaram o faJlecimento,
sem a causa mortis.
Acreditamos que ~ssim seja; mas uma
vêz que os obitos são atteloltados por verda-
deíros leigos, deve ter pouco v al()r um tal re-
gisto. Demais, seria preciso que todo variú-
loso morresse para constar do mesmo regis-
to, o que não é o caso, visto todos os attesta-
dos dizerem que não houve varíola ..
O facto de não haver varíola de 12 de
julho de 1904 a 12 de julho de 1905 consta-
rá tambem do registo de obitos dos dignolil
vigarios?
Assomo de cynismo é o de quem, sem o
menor escrnpulo, nem conhecimentos, ousa
falsificar os vinhos de Charnpagne com a
addicção de bicarbonato de sodio ao vinho
de cajú, podendo transformar este sal em car-
bonato neutro, prejudicial á saúde, com o uni-
co fim de estorquir do povo mais algum vin-
tem.
E' isto, Sr. Rodolpho, que se pode cha-
mar assomo de cyni8m0.
-Assomo de cynismo é o de quem não
sabe prezar os fios brancos que aos cincoen-
ta annos, lhe prateam as faces esqualidas,
indicando o gráo maximo a. que pode se im-
XLIII
pôr um cidadão, para merecer dos seus se-
melhantes o respeito que lhe é devido.
Isto é que é assomo de cvnismo.
Diz S. S.; elidas )l,S provas prol e contra,
julgue o publico do criterio e do cynisrno da
Inspectoria de Hygiene».
Dizemos nós: lidas as proYtIS, as contra-
dietas aos embustes, os argumentos formaes
e os erros dados por S. S., julgue o publico
do criterio e do cynismo com que pro~ede esse
impostor.
Dr. Meton de Al-encar.

Republica de 3 de Novetnbro de 1905.

8r. Rodolpko Theoplti"lo


Depois rle um exordio aliá~ insultuoso,
muito cornmum em tudo quanto escreve, vol-
tou S. S., dant~s tão laconico, com uma pro-
lixidade extraordinaria.
Andou naturalmente Espirito Santo n,es-
te meio.
O dedo do gigante está descobérto; fal-
ta-nos agora mostrar quanto são anões em
sciencia, o discípulo e o mentor.
Depois de haver nos insultado, arrepen-
dera-se, segundo diz o seu artigo, verdadeira
sallada de sophismas e novas asneiras. Ar-
rependera-se tarde 1 porem ainda a tempo, o
XLIV
que duvidamos (são frequentes as contradi-
cções em S. S. ), e senão esperemos.
Diz S. S. «A basofia, entretanto, foi ta-
manha que não m.e contive». E' uma verda-
de; isto é seu. Confirmou d'este 1nodo o nosso
asserto, chamando-lhe de impostor.
Basofia, Sr . .Rodo_lpho, quer dizer fanfor-
ronice, impostoria, e, se S, S. é basofeiro, como
diz, eomprehendemos o .motivo de tauta len -
ga-lenga e lhe desculpamos tanta leviJioda-
de, impostura e até as heresias scien ti ficas.
S. S. eom sua natural basofia analysou,
sem nenhum criterio, o que escrevemos e que
jamais será destruido, apezar da má vonta-
de e sophismas com que argumenta.
Acredita que escrevessemos O 14 H 10, ao
en veií de C 14 H 1O O 9 ?
Não comprehende ter sido um cochílo do
revisor, pouco affeito a questõea de chimica?
Não. Fossemos nós quem tivesse corrigi-
do as provas, ta] vez lhe nã~ dessemos azo a
tanta basofia. Cabe na cabeça de S. S. que
copiassemos C 14 H 10 ao envez de O 14 H 10 .
O 9? Cabe. ·
Garantimos que só na cachola de S. S. é
que pode se anjnhar uma tal supposição. Se-
ja, porem, uma verdade. Erramos; não sa-
bemos que o característico dos acidos orga-
nicos é o agrupamento carboxylo (00, OH)
e que o numero destes carboxylos é que dá a
basecidade aos mesmos acidos. Ignoramos tu-
do isto (?) que deu lugar ás interrninaveis di-
v a g ações de S. S. Louva.do seja Deus !
Bemaventurados os pobres de Espírito!
XLVI

Uma solução de tannino, exposta .!:toar,


fermenta, etc. Transcreveo S. S. este topico
por ter ensejo de dizer est3t clamorosa asnei- ,
ra (verdadeira besteira, expreElsão de S. S )
Diz S. S, «Não ha tal, não ha fermenta-
ção, não ba absorpção d'agua.
Da-se justamente o contrario do que diz
o lnspector de Hygiene. »
(Este pedacinho está digno de um alma-
nach.) Para affirmar o que diz cv,thegorica-
mente, cita um pedaço de Souberan, que por
maior vergonha de S. S. vamos transcrevec
e em cujo topico está o que dissemos. Eil-o:
«A solução aquosa de tannino exposta ao
ar soffre alterações progressivas que se ma- .
nifestam por uma absorpção de oxygenio e
por uma producção de acido carbonico, acido
gallico e agua.
Souberan J.o vol. pag. 849, nona edição.
Ora ahi está, sr. Rodolpho, por que lhe
dissemos: veio lavar a testa e parti o o nariz
(mais uma vez). .
Antes nunca tives8e se lembrado de tran-
screver Pste pedacinho, para não soffrer mais
esta humilhação, este dissabor pat'a quem
presa, mais que tudo, os fóros de sabio.
Snr. Rodolpho, nos diga pelo amor d('
Deus, por tudo quanto estima n'este mundo
falle com sinceridade e responda-nos:
O que são alterações pi-ogressi vas de uma
substancia exposta ao ar? Não é uma e a
mesma cousa que fermentação. Como desco -
nhece cousa tão rudimentar? O que é que
produz estas ~Iterações progressivas? (que
XLVII
tanto lhe intrigaram) Não são os fermentos
vegetaes, os penicillium glaucum, ou os as-
pergillus niger?
Como é que Souberan dizendo uma ~ a.
mesma cousa que affirmamos, serve-se S. S.ª
d'este autor para sua defeza 't Como é que leu
e nada entendeu? (chimica tem d'estas cousas;.
Já interpretando Littré, veio S. S.ª a
campo dizer justamente o contrario de que
lá ei:,tava sobre vaccina. Será defeito de tra-
ducção?
E' d'este modo que quer argumentar scien-
tificamente?
Seria perdermos nosso tempo.
Para não duvidar do que acabamos de
dizer valendo-nos de Souberan (auctor e tre-
cho citados por S. S.ª), mostremod a verda•
de diti:l por Troost (senhor da chimica) 29.ª
edição, ti-aduzida pelo Dr. Ra.miz Gal vão
(para S. S.ª não dizer que erramos na tradu-
cção):
Diz este auctor, pag. 386.
o.A solução de tannino expostê1. ao ar tve-
ja bem Sr. Rodolpho) soffre a fermentaçào
gallica. sob a influencia de um. fermento ve-
getal. Leia Sr. Rodolpho e depois corf-) de ·
vergonha. para náo affirmar, ex-cathedra, que
não se dá fermentação e sim alterações pro-
gressivas! Conf~:;se, não é peccado, que não
enten<leo o que leu no Souberan (é mais boni-
to que mostrar ignorancia).
Para S. S.ª entender o que rliz ~ouberan,
façamos um meio pratico:
Alterações progressivas que soffre umu
XLVIII

solução de tannino exposta ao ar é= (egual)


a fermentação.
Ouçamos outra opinião ainda em portu-
guez. Diz o Dr. Pecegueiro do Am'àrai, Pro-
fessor da Faculdade de Medicina do Rio, á
pag. 20:l.
O acido gallico, geralmente se obtem pela ..
fermentação (veja bem Sr. Rodolpho) do aci-
do tannico, o que se consegue deixando as
nozes de galha, reduzidas a, pó grosso, em
maceração durante alguns dias com agua,
que diseolve o acido tannico (temos a solução
aquosa Snr. Rodolpho).
Decanta -se o liquido e abandona-se á
fermentação (vá ouvindo Snr. Rodolpho) pro- ·
duzida pelos aspergillius niger, pelo penicil-
li um glftueum e (mais ainda Sr. Rodolpho)
pelos sterig matocystis nigra, e· em virtude
da qual (farmentação, abra os olh0s e os ouvi-
do'3 Snr. Rodolpho) ha a hydrata.çào do acido
tannico e seu desdobramento em acido gal-
lico. ,)
E agora, Sr . Rodolpbo, opera-se ou não
a. fer ·mentação, como lhe dissemos? Se S.-S.a
diz: sciencia não se inventa, para que faz
· d' ·esta.s maravilhosas descobertas: uma solu-
ção de tc1nnino exposta ao ar não furrrien tn .
não ha Htl ! ! ! S. S.a é dos que dizem: façam
o que digo e não o que faço. (Bôa logica).
Aqui, já extenuados de consultarem os
compendios de chimica cahiram os dous:-
o Mentor é o Ullysses. Vejamos:
Achou S. S.a um verdadeiro enygma (não
admira, pois tudo que diz respeito á chimica
XLIX

não lhe cheira bem) dizer que o tanniuo é o


resultado da combinação do acido ~allico com•
sigo proprio e deshydratddo.
Em assumpto de chimica .S. S.ª não é fe-
liz, nãu tem lá muito facil comprehensão (hr1
pessôas assim) pois não precisa tour de force
para. Cümprehender o que lhe dissemos .
Ora ahi está; se ta.nnino mais a agua dá
acido gallico, porque acido gallíco menos
agua não ha. de dar tannino? Se não é isto
um axioma, é uma verdade demonstrada :
Provemos mais esta ignorancia de S. S.h
Diz Troost (tr. pg. 386): o tanuino pode
ser considerado como um ether digallico, re-
sultante da combinação do acido gallico
7 6 5
C H O comsigo mesmo e perda
2
de H O. (textual)
2
Sr. Rodol pho, H O é agua , portanto
quando dissemod ser o tannino um resulta-
do de combiuação do acido gallico, comsigo
mesmo e deshydratado, não in ventâmos e
dissemos uma verdade. Quem tira agua des -
hydrata Sr. Rodolpho.
Na propria synonimia do cannino tem s.
s.ª a certeza disto.
Porque é chamado acido digallico '?
Porque é r-hamado acido gallo-tannico?
E' justamente porque resulta do acido
gallico, sr. Ro<lolpho.
Terá entendido!. .. ~~, de tão diffit~il com-
prehensão, que tudo é possivel.
L
O que foi pois que inventamos ern sc1cn-
cia?
Quanto dissemosJ o affirmam todos os
autores, e poderia mos fazer uma exhibição
tnão de padres) de chimicos ab~lisa.dos, em
apoio ás nossas ideas; não o fazemos, porem,
porque seria um nunca acabar.
Deixaremos de 1·esponder aos sopbismas
sciPntificos de s. s.ª, pois deste modo, cotn a
má fé com que lê o que escrevemos, e com a
difficuldade com que comprohende, não che-
garemos ao fim.
O que queremos é que s.·s.ª nos prove o
sPguinte, coroo affirmou dogmaticamente:
•Ü vinho de cajú não ~ de natureza aci-
do, mas contem tannino». .
Se desconhece s. s.ª que o vinho que fa-
brica ha mais de 20 annos é de natureza aci-
do, como pode saber chimica, que não lê ha
tal vez mais de 40?
Confesse: é?
Já sabe que o tannino é o mesmo acído
tannico?
.Já sabe que o bi-carbonato de sodio é in-
soluvel no alcool e não é muito soluvel na
agua, como prophetisou? A re8peito ouça s.
s.ª o que dizem Crolas e Moureau-Pharma-
eia Chimica, pag. 186.- ·
O bi-carbonato de sodio é soluvel em 11
partes de agua a 15°; 9 partes a 30°; 6 par-
tes :i 600 e decompõe-se a 100°. Mire-e;e n'~s-
te espelho e affirme ainda ser um sal muito
soluv-el n'agua.
LII
Diz o matuto am sua logica rustica e8ta
expressiva verdade:
O boi sabe onde fura a cerca.

Dr. Meton de Alencar.

Republica de 6 de Novembro de 1905.

8r. Rodolpko '11heopkilo

Que dissemos nós da, lympha de seu fa-


brico, para assanhar tanto sua basofia?
Não externámos um juiso, em publico,
pró ou contra sua lY.mpha.
Referimo-nos apenas ao que se passou
com o Governo do Ama.zonas (não foi nossa
a culpa), e ísto sem a menor apreciação qun
justificasse o dilemma a quB nos impoz (?)
Competia a s. s.a negar ou affirrnar_o fac-
to; não se fazia mister tanta cousa, algum.as
at~ sem valor.
Parece-nos que estas exhibições, tão fre-
quentes em s. s.a, attendem a uma necessida-
de de ordem psychica, a um d~svio meutal.
Djga-nos s . s.ª que valor têm os telegram -
mas e offieios requisitando lympha?
Será isto uma. prova em favor?
Não . Não havendo servíço regularmente
feito de vaccinação, não se póde dedusir, da
LIII
quantidade da lympha, empregada, sua b0a
qualidade. Vejamoa:
A vaccina.ção é feita para attender ás
necessidades de ruomento, e nunca mai o
vaccinado volta a verificar o resultado obti-
do, nem, tão pouco, o vaecinador o procura;
este vai continuando seu labor diario, sem se
aperceber se a lympha é bôa ou má. Duran-
te este tempo vai fazendo noyas requisições.
E' rara a pessôa que volta a reclamar nova
vaccinação, e o vaecinador continúa no doce
engano d'alma lêdo e cego.
O facto de vaccinar meus sobrinbNs será
uma prova em favõr?
Fomos solicitar esta fineza de a. s,ª? Não
eativemos presente nem fomos ouvido.
Diz s. s.ª coustar do seu livro de registro
25 tubos que levamos para o <Jrato. Não o,
requisitamos como quiz fazer crer, não pedi-
mos o favor; fôra a. s.a quem solicitára o ob-
sequio da propaganda, e lhe dizemoo, coro
franqueza embora o pezar que t~mos, nada
aproveitamos d'esta provisão, talvez por cir-
cumstancias independentes de sua vontade.
Tinha s. s.a 6ntão pouca prat1c& d'este
serviço; poderia bem _ser que hoje, com a ex-
periencia adquirida e o instrumental que diz
ter, isto não se desse.
Apezar d'este insuccesso, guardtlmos re-
serva.
Se fizemos requisição de ly111pha deve
s. s.ª ter o documento por nós firmado e é
hora de exhibil-o (com firma reconhecida.).
Diga-nos (em particular) se é tão bôa a
Sr. lnspector de .Hyg·íene
dr. Meton de Alencar
Seria enfadonho fazer a enumeração de
todas as asneiras e macreações de Suai Sa-
piencia em seus artigos de 25 e 27 do cor-
rente no jornal «Republica». _
Não dispondo de tempo nem de pacien-
cia para tanto, permitta-me o publico que me
occupe, a.penas de di.;as entre muitas tolices
do Sr. Inspector de Hygiene.
Eil-as:
«Ha pouco tempo inventou S. S. que
a addição de bicar-bonato de sodio e
acido citrico ou tartarico ao vinho de
cajú, de natnreza acido, contendo tal-
vez não pequena quantidade de ferro,
daria delicioso charnpagne e expoz á
venda com este pomposo titulo uma
beberagem. Saiba S. S. que o bicarbo-
nato de sodio não se addiciona ao vi-
nho e se S. S . .o poz em estado solido,
(o que é bem possível) elle ficará eter-
namente, assim, uma vez que não é
soluvel no alcool».
Antes de entrar no assumpto diga-me S.
sapiencia a que veio á discussão o meu vi-
LVII

nho de cajú? Quaado me occupei cto Sr. In-


spector de Hygiene do Ueará, foi somente no
exercício de suas funcções publicas.
Que importava á dis~ussão as suas quali -
dades como profissional ou industrial?
Que tinha que ver com a sua sciencia,
dando vista aos cegos on tirando a vista dos
que a tinham?
Absolutamente na.da.
Sua Sapiencia entendeu no seu bestunto
dar-me uma lição de chimica e espichou-se.
O que escreveu e tril,nscrevi acima é um
monumento de bestidade. E não trasladei
tudo, não tanto por ir muito longe como por
ter o sufficient~ para reduzir o piroá a pro-
porções de cogumelo.
Começo dizendo a S. Sapiencia que o vi-
nho de cajú não é de natureza acido, que não
contem ferro e sim tannino.
Saiba 8. Sapiencia que o bicarbonato de so-
diu addicionado ao vinho se di,c;solve1·án~ te e
não ficard eternamente insoliivel, porque o bi ·
carbonato de sodio é um sal muito soluvel
'na~ua e os vinhos nã,o são mais do que uma
místura dagua e outras substancias, entran-
do agua na proporção de cerca de 85 por cento.
Todo mundo sabe que o bicarbonato de
sodio se dissolv6 nos vinhos e tanto é assim
que muitas pessoas usam d'elle deitando as
pastitilhas de Vichy, ou os comprimidos, no
vinho na occasião das ref~ições ,
Saiba S. Sapiencia que o bicarbonato de
sadio é um sal que só existe no estado solido;
LVIII
eu pelo ·menos não o conheço em estado 1i
quido ou g·azozo.
Vamos a segunda bestidade , dita com to-
da petulancia .
E' esta:

«Se não diséutimos no terreno puramente


scientifico é porque ternos a certexa de não
sermos comprehendido, pois que S. S. prova
a cada momento ser um .rotineiro, um super-
ficial, cujos profundos conhecimentos têm o
brilho dos dourados de baixo preço : mareiam
ao primeiro raio da. luz•.

Se isso fosse ·verdade S. Sa.piencia esta-


ria de todo asinha v rado, não estaria tão ru-
1::?icundo.
Saiba S. Sapiencia. que o que oxida ou
mareia os metaes communs, não é a luz e
sim o ar, mormente se este está carregado
de humidade.
Um pedaço de latão,ou deferropolido con-
servará eternamente o seu brilho se estiver
ao abrigo do ar. Isso foi o que aprendi quan-
do estudei ch.imica inorganica, e me pa.rece
que ainda hoje é ensinado assim.
A nova theoria de S. Sapiencia derribou a
grande e memoravel descoberta de Lavoisier.
Já não é o ltr atmospherico que oxida os
metaes, é a luz!. ..
Quanta paciencia é precisa á gente quan-
do tem de ouvir tolos, e tolos presumidos !...
Brevemente responderei ás accusações
LX

No interior occorreram casos de


febre de rnáo caracter, grassando,
alem disso, o cr'UP e a oarJiola em
Senador Pompeu) S. Quiteria, Mis-
são Velha, 1Vlaranguape, Quúr adá,
Granja e Aracaty.
Falem os srs. Vigarios das freguesias
acima citadas .
Attesto que no período de 1~ de Julho
de 1904 á 12 de Julho de 1905, não grassou
a varíola em minha freguezia. Em fé de pa-
rocho o affirmo. S. Quiteria, 21 de Agosto
de 1905.
Assignado-Padre Antonio Tabosa Braga.
Reconheço a firma supra do Padre An-
tonio Tabosa Braga, dou fé . Fortaleza, 27 de
Outubro de 1905. Em testemunho de verdade .
O Tabelião Publico, Joaquim Feijó de Mello.

Attesto que no período de 12 de Julho de


1904 á 12 de Julho de 1905,nào grassou·a va-
ríola na freguesia de Granja nem na de Oa-
mocim que hoje está annexa áquella e nem me
consta que se tenha dado um só caso.
Para constar lavrei e assigno Ita i·n fide
Parochi. Assignado- Vz'gario Vicente Martíns
da Costa.
Reconheço a firma do Vigario Vicente
Martins da Costa; Dou fé. Fortaleza, 27 de
Outubro de 1905. Em testemunho da verdade.
O Tabelião Publico, Joaqui-m P1e(j6 de Mello .
LXII
Attesto, ín fide Pa1·ochi, que a Vêlriola não
grassou nesta freguesia no periodo de. 12 de
.Julho do anno pa.ssado á 12 de Julho do cor-
rente anno.
Maranguape, 24 de Julho de 1905. Assi-
gnado - Vígarío Vicente Salaza'i· da Cunha.
Reconheço verdadeira a. letra e firma re-
tro do Conego Vicente Salazar da Cunha; dou
fé. Fortaleza, 27 de Outuhro de 1905. Em tes-
temunho da ~ erdade. O Tabelião Publico,
Joaquim Feijó de Mello.

O Snr. Inspector de Hygiene contestando


. diz o seguinte :

«SR. RODOLPHO THEOPHILO

No tercE'iro e ultimo artigo> (Sic) quando


diz ter o digno sr. presidente do Estado affirma-
do grassara a varíola nas lucalidades por s.
s. mencionadas, faltou a.in<l~. com a verdade.
Não fora isso escripto, nem s. s. assim
comprehendera; mas, somente com o intuito,
aliás futil, de fazer uma exhibição de attesta-
dos sacerdotaes e armar a.o effeito, é que.
assim procedeu; e, se comprehende deste
modo, i~to é, que grassara a varíola em cadt,
uma destas localidades, porque, qucindo se re-
ferio ao crup, nà.o o transportou a todas ellas,
como fez com a v ariola?
Porque oü.o invocou o testen1unho fide-
digno dos v igarios q ué hoje cita?
Aehamos os documento~ de muito peso,
gabamos a rr.emoria dos dignos representan-
LXIV

Por ordem de sua. Cunhadoria. o guarda-


ram á distancia, na. quarta pagina, quando
podiam ter ficado hombro a hombro com S.
Sapiencia, tão egual é o estofo de que sào
formados os tres, e a língua que faJam.
O poeta, pertence ao syndicato e o apul~
chro é o apulcbro.
Conheço muito o ornejo dessa alimaria.
Que zurre até lhe darem melhor mangedou-
ra nas cocheiras do Estado, são os meus vo-
tos.
Quanto ao extPnso artigo do sr. Inspector
de Hygiene são taes os disparates, as besti-
daçies, que dispengam uma aoaly~e seria.
Imagine-se uma mistura. de desaforos e ter-
mos scien tificos e ge terá o escripto de S. Sa-
piencia.
Não podendo provar a « 'insolubilidade
• do bicarbonato de sodio no vinho, a pre-
« sença do ferro no sueco do cajú, o estado
< liquido ou gazozo do bicarbonato de sodio;
« a oxydação dos metaes pela luz, » faz um
sarapatel de nomes technicos e cte nomes
feios e depois com toda. ínnocencia de seu
espírito infantil adormece feliz porque pensa
a victoria sua.
Felizes os pobres de espírito porque dei
les é o reino do céo.
Deixemos S. Sapiencia no doce engano
em que vive. Deixemos pensar- estar fazendo
muito bonita figura, elle, chefe do serviço sa-
nitarjo do Ceará, assignando verrinas !
Não se pode discu'tir seiencia com S. Sa-
piencía, que fala como falavam os prophetas
r

LXVI

Não quero que esta verdade suprema seja


tachada de vindicta.
Devia deixar que S. Sapiencia me cha-
masse, as vezes que quizesse, « besta igno -
« rante, par lapa tão, Pascacio, sandeu » e mais
outros vocabulos injuriosos.
A bazofia, entretanto, foi tamanha que
não me contive.
Pro me tto de agora por diante ter mais
paciencia.
Amparado por esta grande virtude vou
entrar no assumpto.
Diz o sr. ln spector de Hygiene:

cAffirma o Pascacio: não é de natureza


acido, não contem ferro e sim tannino, (o vi-
nho de cajú). Vejamos o que seja tannino:
O t~nnino ou acido tannico é o resultado da
combinação do acido gallico comsigo proprio
e deshydratado. Uma solução de tannino ex -
posta ao ar fermenta em presença dos fer-
mentos vegetaes (penicillium glaucum ou as•
pergillus niger), elementos estes que, rouban -
do agua da solução, a transforma em acido
gallico». ·
AnJpara-mc, paciencia ., ampara-me. Não
consintas ql1e quebre o voto topando, logo no
começo da, jornada, com semelhante heresia.
O que veio fazer aqui a transformação
do tannino e111 acido gallico? Sómente offe-
recer ensejo ao ~r. Inspector de Hygiene para
dizer algun1as p~ lavras scientificas e fazer,
perdoe-me, uma preleção errada.
Eu disse sómente que o vinho de cajú
LXVIII

Em sciencia, e principalmente em scien -


cia experimental: não se ::tdmitte metaphora,
catachrese ou metaphysica. As nebulosidades
são con~emnadas.
Diz o sr. Inspector • que uma solução de .
tannino, exposta ao ar, fermenta etc. »
Não ha tal; não ha fermentação, não ha
absorpçã0 d'agua. Dá-s<~justàrnen te o contra -
rio do que diz o sr. Tnspector .
«A solução aquoza de tanníno ex:posta ao
ar soffre alterações progressivas q .ie se ma -
1

nifestam por urna absorpção rl( ~ oxigeniu e


por uma producção de acido carbonico, acido
ga1lico e agua.» (Sobeiram, 1.º volurue, pag.
849-nona edição.)
O tannino e não é o resultado da , combi -
nação do a~ido gallico comsigo proprio , e
deshydratado » corno diz o i.,r. Inspector .
. Pelo contrario o tannino é que se póde
tranAformar em acido gallico por meíó d'agua.
«Pode-se preparar o acido gallico hydra-
tando o tannino. (Tratado dé Chimica Orga-
nica, pag. 186 de E. Willm. et M. Hanriot .)»

• Escrevemo s para alguem. .. »

(?) ... que nos possa comp1·ehend-er scien -


«
tificamente, » diz o sr. Inspector.
Para esse alguern sabAr 4ue a Hygiene
Publica conhecia a syrnbolização chirnica, o
modo de se escrever sem ser entendida pelo~
profanos, reduziu o sr Inspector a osta equa
ção ,(( a combinação do acido gallico comsigo
proprio e deshydratado •:
LXX

Temos, por eonseguinte, nos corpos com-


ponentes 14 atomos de carbono, 12 atomos
de hydrogenio e um atomo de oxigenio. Estes
elementos devem se encontrar fatalmente
nestas proporções no cocpo obtido.
O corpo que resultou foi o acido gallico
(2 moleculas) conforme a equação do sr. In-
spector, cuja formula dá-14 atomos de car-
bono, 12 atomos rle hydrog·enio e um atomo
de oxigenio. Comparando o numero de atomos
dos elementos compon~ntes com o do corpo
obtido vê-se que, contra todas as leis de chi-
mica, foram creados 9 atomos de oxigenio !
De onde veio este oxigenio em tãJ eleva-
da proporção? Si só entrou um atomo de
oxigenio da molecula dagua, nunca podiam
apparecer 10 atomos !
Com os elementos componentes da equa-
ção do sr. Inspeotor, jamais se obteria acido
gallico.
Onde já se viu acido organico Rem oxige-
uio?
0 14 H 1º nunca foi acido tannico.
" Para maior clareza vou mostrar uma
t,quação perfeita. Seja a preparação do mesmo
acido gallico pela hydratação do acido tannico.
C14 HlO Q9
Acido tannico
+ H2 Ü
Agua
207 fl6 Q5
Aoiflo gallico

Como não estou escrevendo pcJra alguem


que me possa comprehender scientificamente,
permitta-se-me uzar de uma linguagem ao al-
cance, não só dos scientistaa, como do~ leigos.
LXXII
do Amazonas, a quem S. S. offerecera seu producto
vaccinico a troco de dinheiro. Este, sim, disse que não
acceitava a proposta por ser imprestavel a lympha.
8. S. deve ter o jornal official em que o governo exa-
rou essa despacho. (Talvez o tenha queimado)».

Em todo este periodo só ha uma verda-


de, a parte em que se refere ao governo do
Ceará.
Sei que o sr. Presidente do Estado não
diz mal nem bem de pessôa alguma. E' ho-
mem muito calado. Quando pecca é por obras
e nunca ·por pala -rras.
Já não é assim o sr. Inspector de Hygie-
ne, que fala muito e de cousas que não são
de sua conta, como _, por exemplo, a venda
de vaccina para outros Estados, etc. etc. ·
Ser~ um crime vender eu va~cina, quan-
do o proprio Instituto Va.ccinogenico do Rio,
que é official, a vende?
Isso não é da competencia do sr. Inspec-
tor de Hygiene.
Outro tanto não digo do serviço de vac-
" cinação que faço nesta capital desde Janeiro
de 1901. .
Este sim está debaixo de sua fiscalisação
e jurisdição.
Diz o jornal official q uasi todos os dias
-que sou um impoEdor, que vivo a illaquear a
bôa fé dos incautos com o engodo de minha lyrn-
pha nociva.
O sr. ln8pector por sua vez confirma
aquella affirmação, pregando o descredito da
vaccina, por mim preparada, até em outros
Estados!
LXXIV
do Estado, 25 tubos de vacrina extrahida do
vitello n.o 15».
O que falta ao sr: Inspector de Hygiene
para agir dentro da lei?
Não terá por ventura, o governo e por-
tanto a justiça da terra?
Não está em suas mãos o poder sanita-
rio do Estado?
Tem tudo, mas falta-lhe tudo . Falta-lhe
a verdade.
Porque eu, pobre ignorante, grande im-
postor, como apregôa o sr. lnspector de Hy-
giene, sustento sosinho esta lucta contra oR
poderozos do Ceará?
Porque as calumnias assacadas diaria-
mente pela gente do governo, na folha offi-
cial e nos pasquins, por ella editados, não tis-
naram ainda a minha individualidade?
( .

· E' porque a verdade está de meu lado.


. Tenho a meu favor a opinião publica,
tenho a meu favor o testemunho da maioria
dos chefes de família de Fôrtaleza, entre os
quaes grande numero de amigos do governo.
O sr. Inspector de Hygiene affirma que o
governo do A mazona,ç regeitou a lympha qu,e
lhe offereci, a _troco de dinheiro, por imprestavel.
Quando o sr. Inspector affirmou esta pro-
posição mediu a responsabilidade que assu-
ruia, fazendo-a? Lembrou-se que não era o
oculista Meton de Alencar que vinha denun-
ciar ao publico um facto tão grave e sim o
chefe do serviço sanitario do Ceará? Tinha
certeza de que affirmava uma verdade?
Reflectiu que não sendo verdadeira sua
LXXVI
Rodolpho Theophilo. Continue remessas lympha. Di -
r ector de Hygiene. ))

Continuei o fornecimento em Julho, Agos-


to e Setembro.
Em Outubro de 1904, foi de oovo suspen-
so o fornecimento de vaccina pata o Amazo-
nas. ·
1
E preciso dizer, que nunca fiz preço a
vaccina, o governo do Amazonas pagou o que
julgou razoav~l, servindo lhe de base - o preço
porque p!l,gava a vaccina que recebia da Eu-
.copa.
Diz o sr. Inspector de Hygiene :
"S. S. deve ter o jornal official em que o
governo exarou este despacho.>>
Não tenho o jornal official, a que ~e refe-
re o sr. Inspector. O que tenho é um numero
do «Jornal rio Oommercio» do Amazonas de
9 de Junho de 1904 em que esta folha fazen-
do reclame a vaccina do Porto diz isso:

«Não ha muito tempo gastou o Estado não p_e-


quena somma com um Instituto Vaccinogenico, o qual
morreu em embryão. As vaccinas vindas do Rio de
Janeiro nunca aproveitaram aqui e muito menos a do
sr. Rodolpho do Ceará, cujo resultado, entre nós, foi
sempre negativo.»

Não me lembro se foi esta noticia ou se


foi o despacho, que cita o sr. Inspector, que
aqui transcreveu a «Republíea» em lottraa
bem gordas devido a tezoura do sr. Alvaro
Martins, como um.a fineza por ter eu com a
melhor bôa vontade lhe vaccinado os filhos.
LXXVIII
para se verificar o resultado no Pará recebi
este outro telegramma:
1<Pharmaceutico Rodo1pho ThC'ophilo, Ceará. Ro-
metta urg·ente mai~ duzentos tubos vaccina. Miranda,
Director Serviço Sanitario,l)

Enviei com a posstvel bre·Jidade.


Em 15 de Abril do · corrente arinú recebi
este · telegr.1mma--do Rio Grand~ do Norte:
c1Pharmaceutico Rodolpho Thoophilo. Ceará. Re-
metta Estado duzentoEt tubos vaccina. Henrique Cas-
triciano, Secretario do Governo,:&
No dia J •0 de Maio recebi · este outro te-
l~gramma:
uPhal'maceutico Rodolpho Theophilo, Ceará.Con-
tinue .remessa vaccina. quarenta tubos todos os vapo-
res- Henrique Castriciauo, Secretario Governo.»

Este fornecimento de quarenta tubos


quatro vezes por mez foi feito até Ago~to
deste anno. Em Setembro, em vista de or-
dem daquelle governo, foi o fornecimento re-
duzido a cem tubos mensaes até hoje.
Particula l'mente tenho Anvi ado vaccina
gratuitamente, a diversas pessôas de outror
Estados, como Amazonas, Pará, Piauhy, Mara-
nhão, Rio Grau de do N ortP., Pa.rahyba, Per-
nambuco e Bahia. Tenho as solicitações todas
archivadas e as publicarei quando quizerem.
Supponho ter destruído por completo a
accusação levantada contra mim pelo sr. In-
spector de Hygiene, em relação ao forneci-
LXXIX
mento de vaccina para o Esta.do do Amazo-
nali. Deetruida esta será levantada outt·a ama-
nhã. Será afsim um nunra acabar. E' preciso
por termo a isso.
· E' preciso o poder publico ter mai crite-
rio e respeito a Ri proprio. Esta campanha dd
diffamação não póde centinuar.
A vaccina que propago ou é bôa e o ar.
lni;pector de Hygiene Publica. condemnantio-a
é um diffamador vulgar; ou a v&ccioa é mà
e o sr. Inspector de Hygiene Publica, não
cumpre os seus deveres prohibindo-a e pro-
ce~sando-me.
Deste dilemma o sr. Inspector de Hygie-
ne não póde sahir: ou prohibe a vaccina ou
é um diffamador.
! lepois deste repto nem mais uma pala-
vra sobre o assumpto !

Rodolpho Theophilo.

«Jor11al do Ceará• de 6 de Novembro de


1905.