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3
A DESIDEOLOGIZAÇÃO COMO CONTRIBUIÇÃO DA
PSICOLOGIA SOCIAL PARA O DESENVOLVIMENTO
DA DEMOCRACIA NA AMÉRICA LATINA1ª

Introdução

As condições objetivas - especialmente as estruturas econô_:-


micas, a hegemonia norte-americana e as forças militares - são os
principais obstáculos à vigência de autênticos regimes democráti-
cos na América Latina; mas, possivelmente, as condições subjeti-
vas constituem o obstáculo mais imediato, pois limitam·o universo
de sentido das maiorias populares, alienando os seus marcos de
referência e inibindo possíveis movimentos de mudança. Por sua
natureza, à Psicologia Social cabe promover um processo de desi-
deologização, isto é, desmascarar o "senso comum" que justifica e
viabiliza subjeti~amente a opressão dos e_<?vos. Este senso comum
esteve tradicionalmente alicerçado em esquemas reli iosos que,
atualmente, estao sendo su stitu1 - os - -esquemas da democra-
-- por --
eia formal de estiTÕ norte-aÍnericano, que, em geral, carecem de
sentido nas -condições lâtino-amêricanas: Um f ~ o l o g i -
zador demanda que a isicología Social: (a) assuma a perspectiva
das maiorias oprimidas; (b) desenvolva pesquisas sistemáticas so- ""6-
bre a realidade dessas maiorias; (c) utilize de forma dialética esse
conhecimento, comprometendo-se com os processos históricos de
libertação popular.

16. Trabalho publicado originalmente em ·t 985 no Boletín da Asociación


Venezolana de Psicología Social, vol. 8, n. 3 [N.T.].
55
~

l) Os obstáculos à democracia na América Latina


Democracia, diz o dicionário' é o "sistema
,. de governo em qUe
0 povo ou a plebe exerce a soberania" (CASARES, 1971, p. 264). E
soberania é o exercício ou a posse da "autoridade suprema e inde-
pendente" (p. 774). Então, haverá democracia, pelo menos no sen-
tido original do termo, onde o povo possui e exerce a autoridade
fsuprema e independente para reger sua vida e seu destino. A de.
/ mocracia consiste, portanto, em um sistema de regulação da vida
\ social no qual o poder e a autoridade de governar residem nos
~ róprios sujeitos governados. Consequentemente, o importante
não está nas formas pelas quais se exerce o poder ou nos mecanis-
mos pelos quais se determina tal exercício; a essência da democra-
-- --- ·- --·-------
cia reside no exercício do governo pelo próprio povo governado.

A realidade latino-americana
A partir deste critério inicial, podemos analisar, ainda que su-
mariamente, a realidade dos países latino-americanos. Focarei a
região da América Central que, além de ser mais familiar, me pa-

, rece paradigmática em muitos aspectos. Deixando de lado Belize,


que por razões históricas e culturais constitui um fenômeno à par-
te, há cinco países que conformam a tradicional uirião centro-ameri-
cana: Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua.
Quais são as características distintivas destes cinco países?
- ·-·- --
a) Urna estrutura econômica subdesenvolvida, dependente,
desigual e injusta que faz com que uma elite minoritária acu-
mule a maior parte dos recursos nacionais e as maiorias este-
jam em situações de miséria e marginalidade.
b) Regimes políti cos de caráter autoritário repressivo, funda-
dos sobre a oliga rquia econômica e dirigidos por militares ou
fachada s civis formalmente eleitas em votações mais ou ml'-
no.s ff.-.. prescnt'.:'llt1
· " ·v as, ma1·s ou menos livres, mas que nao
- pro-
porcionam poder real.
e) Con t rol<· hv re " .- "" , . ,_
m· g moni u >d os l~stados Uni dos sob re as detd
; uc1t, funda 111 e . t • • . 1 . . . -
ln a< ,., . , . , 01
f. - , n c.l is e os sistemas eco no n11co e poh tlLO e
unçélo da segura n , . .
1

ça n8 c 1ona l norte-a merican a.


1
'

56
• ~

d) lntp111·l1111h•11 rnnv lm .. 11ln11 d,· opo11h,·1 u, popul nr qL1c vão des-


de• p ~1 ~d 1Hl ll'n lt,14 ,·mit n- rl q111 •11 ru ·11 n lc\ n inHu rgílndn político- mi -
li liH ~111 lvn dtH't1 11l111 .

()t,vinnw 11ll', t 1 11 li1 cn 1·1u ·l•·1·i:1.m_·n o n,1<1 nborJ n muito1-1 fato res
q,,,, d ift'rt ·1wln n1 OH d nro pnÍ Ht•H. /\lunlmc· nlt•, o,; princpa is dife-
n•ih fol H ('11 v,,l vt' l'll, dt• 11m lodo, n clif,•n•nçn t·nÍre a dominaç ão
111 lliÍnr qu n~l' 1..·omr,1t 1 ln l ' lll nlgun1-1 pní~wH (f ~I Sn lvndor, Guatemala
. _. 1hmdurn:-4) ,, n ngonl·1,n nl<- parl nmPnl nriHrno e" ace lerada milita-
1

rl ·1.n,110 de Cor-1 ln Rit._·n; por oulro Indo, n diívrcnça ent re os quatro


pn ísl'~ 1nl. rwionnd( lN qLw conforrrr nrn um bloco controla do pelos
1

l·'.~ tnd1._,s Un id(ls l' n Nicnn\g uu que, pnrn Hn lva r sua revolu ção po-
pulnt' l' ~un inde pl't'l ctf•nci n, lnrnb<'•m teve que HC militarizar.
Diante dcHsn sHuuçüo t'con ô mi co, polfti cJ e social, a rea lização
dL' ..L'lciÇÕl:S J urn 11"1l' CD ni smo formal que, rw maior parte das vezes,
não po~su i rna ior i rn po rl5 ncia ou trn nsccndê ncia, especia Jmente
qunndo siio OH rnilit~rrcs e o governo norle-a mcri ca no quem, em
ú Ili rn n instôncio, estabelece m o vercd ito sob re a "va 1idad e demo-
cráti ca" dos proccsHos eleitora is.

Ohstnc11/os à democracia
Sen1 dúvidn, as condições objetivas apresent ~~as são os prin-
cipa is obslãculos para1í vigência
- --- (, -
de reghnes dernocráticos nos
- ·---
países da América Central. E uma ingenuid ade pensar que uma
-- - -
oJigarquia pode rosa abdkará da possibili dade de impor seus in-
teresses ao resto da popu'laç ão enquant o perdurar em estrutura s
econô111icas que colocam nas 1nãos de poucos um_im.e nso poder.
Por exempJo, a recusa absOluta do grande capital salv~<!_orenho em
ceder a penas u.m único de-seus privil.égios ou em realizar ~ a mi-
nú scula concessã o às d emanda s pop_ulare s- recusa que precipitou
o pais em um a guerra civil qu e já dura mais de 5 anos - é um claro
jndicado r de que não pode existir de1nocracia enquant o ex istem
condiçôcs que gcrn111 ta manhas diferenciações de poder social.
O outro grande· obi-;Ln culo objetivo para o estabele cimento da
democra cia nos pníses ccnlro-a m c ricanoH 0 o controle hcgemôni-
co dos Estados Unidos sob re a .1rca. (.: pa radox a l que um país que
ost-cnta se u sistema ct"emoc-r6 ti co e que, talvez, tenha articulad o

57
~

tação popular para o exercício de poder em


ime de represen . . d d .
um reg . , . seJ· a O maior irunugo da ver a eira dem0-
'prio terntono,
seu pro , ue se situam no espaço que trata como "quin-
crada nos pa1ses q . l" d"d
. de "seguranç a naciona , compreen 1 a como
tal" A doutnna U ·- S . , .
· f t total e totalizado r com a n1ao ov1ehca, faz com
um con ron o
norte-ame ricano se oponha a qualquer rnudan.
que o governo
or mais razoável que seja, temendo que ela possa resultar
ça, p A • I .
, .
em uma maior independe nc1a dos pa1ses atino-ame ncanos em
relação ao seu domínio hegemôni co e, portanto, em uma apro-
ximação da superpotê nda inimiga. Como demonstr a o caso de
Cuba, que parece ser confirmad o pelo caso de Nicarágua , esta ló-
gica conflitiva converte-s e, frequente mente, em uma self-fulfilling
prophecy, uma profecia que provoca a realização do que anuncia.
De qualquer maneira, a lógica doutrinár ia da segurança nacio-
nal fundamen ta uma política que prefere se aferrar às mais re-
pressivas ditaduras do que arriscar qualquer solução que tenha
o cheiro de socialismo. Um Pinochet assassino , mas capitalista,
, sempre será melhor que um Allende democrát ico ' mas socialis-
i
, ta; um Somoza pró-Estad os Unidos sempre será preferível a um
L Ortega nacionalis ta.

~m terc~iro obstáculo objetivo para a instauraçã o da demo-


cr_acia em paises centro-am ericanos é o setor militar. Se em Costa
Rica certa forma de demo crac1a • • ate, pouco
· existiu - tempo atras .
, isso
ocorreu porque não ha via • , . , , ' .
. exercito; e se ha algo que esta contn-
bumdo para a derrubad t 0 t 1 d .
d ª a~ o regime existente é o seu acele-
,
ra o processo de militar. . .
e pela _ izaçao, prec1p1tad o pela crise econômica
pressao norte-am .
coalizão de p t·d encana. Em 1972, em El Salvador, uma
ar I os de o . ~
aqueles que h . _ posiçao, encabeça da justament e por
0 Je estao na l'd
1 erança do governo (o engenheuo .
José Napoleón O
uarte) e da O 5 • ~ I
Ungo), triunfou . _ po içao (o doutor Guillermo Manue
l nas e1e1çoes presi'd enc1a1s . . para logo em segui·da,
ver o seu triunf
em f o arrebatado I f '
; ~vor do candidat . . pe a orça das armas que ah1avam
JLIU:Z, "1972) . É
1
° oficial, um militar (HERNÁN DEZ-PICO &
leh l1ll (• o . . - e aro que o pod
era ,·. - s al,m enLarn , 't , er dos miJita.res depende daque-
Ud nos , ' is o e os d .
a h(: ,,L, · ~a i ses d a At -~ . : -- ois outros obstáculo s da demo-
g -rnon1a nenca Ce 11 t ra J: a oligarquia econônuca . e
vador ; , norte-a rn _.
e obv io . er ica na p I
que sern a . · or exemplo, no caso de El Sa -
sa ªJuda m 5 iva
as
• dos Estados Unido s, o

r ,~
exército já teria sido derrot ado pela aliança insurg ente de forças
democ rático- revolu cionár ias.

Alem desses três grand es obstác ulos objetivos ao desenv ol-


\imen to da den1ocracia nos países da América Central, há O\:!_tros
obstác ul?s que poderí arnos qualifi car como subjeti vos ou intersu b-
jetivos, cuja impor tància certam ente é menor , mas não d;spre zível.
Trata-se de todo o mw1d o da cultur a e da consciência coletiva, do ~
univ~rso dos símbol os e das ideologias: É impor tante evitar id;a-
lismos _gue p rioriza m os valore s e princíp ios ideais em detrim ento
da divisã o do trabal ho ou das relações g[~ais. Da mesma forma,
é necess ário evitar reduci onism os p sicolog~ s que colocam nas
pessoa s causal idades que são própri as das estnttu ras sociais. ]2-
davia, não convé m cair no materi alismo economicista ou no socio-
logism o mecan icista e, assim, negar o papel que a cultur a desem -
penha na vida human a ou a influência parcia lmente autôno ma que
a consci ência coletiva pode ter sobre os processos históricos.
Tod a orde m social exige a elabor ação de um univer so simbó-
1ico que cumpr e várias fun ções críti_cas para sua sobrev
ivência e
rPprodução: (a) dar um sentid o frente às grande s questõ es da exis-
t[·nciJ hu m a nJ ; (b ) justific ar o valor da ordem social para todos os
sctorc~ dJ popul ação; (e) permi tir a interio rizaçã o norma tiva da
ord t~m social pelos grupo s e pessoas. Com o expos to, fi ca claro
que t..'blou nw rt'fc rindo às princi pais funçõe s que podem se r atri-
huíd ,_1s J idc.l.ulogia. Ca be d estaca r que, ao exe rce r es ta~ funções, ,1
1dtl.ulüg1., t)pt~r,K inna li7a e, ao mesm o te mpo, oculta o~ interes ses
<.l.h d .b~t'" dnm111.1n tes, gerand o folsJ con'>ciência, i~tu L', um,1 cti~-
lur 1.) <, 11,1 r <.' l.l \ ,lU entre ,1 co nf1gura ç,10 da realid aJe e i..,ua r\..'pr<.'-
') l 'I\ Lh, .1<. ) ru u)n:.-.L'lt' nti ,1 du-, grupo~ e dJ.~ pe-.,--;vtl
'>

J i, 1,1 1,, 1 j 't' l'-f't'di \ ,l p-,iu b"> l>Cid l, L) h.\rrL•nu pn\dvg il1d1.\ d,.1
'' ' 11 1• ,. . ' d1,r11 1r1,111 tl' t~n 1 l t>Li d \,1d,>n\ '>u-..1,11 '-' u du "-.,~•n..,u 1.uniun\ '
' ' i , 1,1,1 1, 11111 H L • t .. ,i d1t\h. \·ltllf""h p 7tl) '\ultur ~i u11nu ,u · e..)
d l ' I' (\. . . . \11 )l) ") h h q li\' t \) 1 1 l , t li\ ~ h. ,,., ., 1\ l ' 1 '
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59
,,
uando as exigências objetivas de um sistema social são art·
JQ • • icula.
das coino exigências subJetivas do senso comum que se tradu
,. t· d d
em hábitos rotinas e papeis estereo ipa os, po e-se afirma
zern
~
( um sistema' conseguiu
. ,
estabelecer raizes (REICH, 1933/196S).
r que

A cultura dos povos latino-americanos não é a razão b, .


- - -· --- - -- - as1ca
de seu -subaesen'v olvimentõ,-
- - , --- ta] como afirmam certos enfo ques
psicologistás (cf. DURAN, 1978). T_~-9--~via, é correto afirmar que
se essa cultur~ consegue limitar o universo de sentido em que 05
grupos e as pessoas se movem, distorcendo a percepção da realj.
d~e, então ela consegue i~ib~r p~o_~~~o_s_d~~uaanç~. E clarÔ que
o fatalismo latino-americano, seja pe}! referência a um~ suposta
a
~ ordem natural, seja pela ref~rêndã vontade de Deus, bloqueou
intportantes dina~J_smos __ hi~t.?~~os. Por isso, à conscientização
pràmovidã-pelÕ método de alfabetização de Paulo Freire (1970)
ou, mais recentemente, pela reflexão e práxis cristã das Comuni-
dades Eclesiais de Base (cf. La fe de um pueblo, 1983), contribwu
para desencadear movimentos de libertação popular que atingi-
ran1 os alicerces dos regimes estabelecidos.

2) A tarefa da Psicologia Social


Os psicólogos sociais pouco ou nada podemos fazer diante
dos três grandes fatores objetivos que impedem o desenvolvimen-
: to da deinocracia nos países latino-americanos. Todavia, podemos
1 fazer algo, e talvez muito, diante dos fatores que chamamos de
\_ subjetivos ou intersubjetivos.

A Psicologia Social é a disciplina cujo objetivo é o de exam3-


nar o que há de ideológico no comportamento humano, tanto
das pessoas quanto dos grupos (MARTÍN-BARÓ, 1983, P· 1-20).
Assun:iindo que toda ação humana significativa é uma tenta_ti"~
de artJcu lar os interesses sociais com os interesses individuai5, ª
Psico1og
. .
1· S · 1 b
. · ª ocia ca e estudar o mon1en to en1 que o sooa se ,
· l tor-
na md1vidua) O · d·1 'd to oe
. e m v1 uo se torna social. Trata-se, portan '
ana li sar as i 1,fl " · . . · que
. _ · -· uencias soc1a1s, intergrupa is ou interpessoais
ernergem em um - 111. ' l e. • - ,,.. • ·tua·
- . d s (JílJ concreta, em uma circunstancia e 51
çao muito Ps pec I'f' , N . ' ni
\ rnaior O icas. esse con tex to, toda influência sooal e, e
u m enor gra u i.1 t~ . . _ . das
' ma enahzaçao de forças e interesses
60
classes que cons titue m uma dete nnin ada form ação social AL' .· /
1 ~ d c,S un,
por exemp o, nao _se_ eve ~erg unta r abstr ata ment e se ae: prese

nça
de outras pess oas nube a aJuda ou se redu z a r·esp _ b'l' d d .
, onsa
dividual (LATANE & DARLEY, 1970 ) mas siln por qu al1 1 a~ e 111-
, · , razao cm
um deter mina ~o grup ~ ou soc~e~ade a prese nça das pessoas (to-
das ou algu m tipo parti cular ?) 1n1be a a1·uda (todo tipo de · d 7)
aJU a. ,
enquanto que em outr o grup o ou socie dade a ajud a é estim ul ada
e exfgida._ A cham ada "açã o pró-social" ganh a um sentid o qu an-
do e cons idera da abstr atam ente ou no interior de um a sociedad e
homogênea e adqu ire outro senti do muit o distinto quan do é con-
siderada conc retam ente ou no inter ior de uma sociedad e dividid a
em classes sociais, na qual o mesm o processo que beneficia algun s
prejudica outro s.

Se à Psicologia Social cabe o estud o do ideológico no compor-


tame nto hum ano, a sua me1h~~ conJr ibuição para o dese ny_9lvi-
mento da dem ocra cia nos paíse s latino-americanos consistirá no
dism asca rame nto de toda ideol ogia antipopular, isto é, daqu elas
formas de sens o c omu m que oper a~i~E:ãliza m e j1:~t!fi~~m um sis-
tema socia l explorad or e opressivo. Trata-se de desvelar o que há
--
de alien ador ness-es-- -- --
press upos tos enrai zado s na .vida - -
cotidiana e
que fw:ld amen tam ayass ivida de, a ~ub~ issão e o fatalisn:º·
Trad icion alme nte, o univ erso simbólico gue a!ime ~ sen-
so comu m dos centr o-am erica nos era de natu reza religiosa: as coi-
sas eram como eram p-e1a vontade- de Deus e os num"ãnos não po-
deria m ques tiona r tal vont ade ou fazer cobranças ao Criad or. Fi-
cava semp re O cons olo de que Deus consertaria as coisas no outro
rn un do e recom pens aria os pobr es por seu sofrirnento, obediência
<.: re~ignaçã o. Aind a hoje, há muit o desse
fatali sH\O relig ioso_ na
cu ltu ra dos povo s centr o-am erica nos que é estimulad o por seitas
run dam enta listas prov enien tes dos Estad os Uni dos que, com o 0
~ '1
(H) J r, depo ~ jtan1 toda sua con f '
1ança e m ocu · s, m 'as ouc -. , ao O-H:
. "'srrn),
lc'mpo , rv cebcn 1 t11TI subs
ta ncia l zipo1· 0 log 1' s,t·.,co l) fi n '1nCl'
.
.
tn) li-1~
·
Llgl!n c w ~ nor l c·-,Hn l' r i c.:i n as P dos gov l' rnns l ·1" 1·cri ,p i 10 ( cl DO~ll N-
' ·
CUL Z & l lUN TJN< ~Tt)N , 1')84 ).
Desdp í.t culeh rttril o do ( ,oncll, 10
. .. ll
Vdt 1c,ll H) L, l t1 l\)ll fv r0 ncic1 . ,
E · ' i l • ,· - r<.'r haça as
pi sco pal dt' Med ell ín, nn1p lo~ sel<>rPs l (' giq, 1 r d lll
_ l' -
f . . . , .- 1· e nrom overa 1
orma s mais gros se lra ~ de fa tali srno n igws< r >. . ) m a

61
_ h 'stóri
ca das estru turas que oprír nerrl o povo como
bertaçao 1 / . _ . un-.ã
. , . m· trinse ca d.a fe cnsta . Com ISSO, a e la borac ão ideoi ~
ex1ge noa · . . · •- ~e.a
dos intere sses d om in.an tes foi m'1c ando seu uruv erso simb óüc()_ A
nova ideol ogia é uma esp éáe de catec ismo das "democracias
regim e de segu rança na ciona 1" que torna como prêss upoi to implí -
em
cito que tudo o que é prov enien te d os Estad os Cnid os ~-uma nor-
ma adeq uada e que o que é bom para a "seg uran ça nacio nal" dos
Estad os Unid os é bom. para noss os paíse s. O pape l do crucifixo foi
assum ido pelo dóla r; já não são as enód iras papa is, mas os dís--
cu rsos d e Re agan o que defin e o bem e o maJ; ao invés de santos,
apare cem Koja k e Mich ael Jacks on; ao invés de nove nas e missas,
são celeb radas eleições. Tudo ísso dem anda ou é comp atíve l com a
conv ersão dos exércitos em corp os po1iciaís e em verd adeir as má-
quin as repressiva s que agem contr a seus próp rios povos/ os quais
são mantidos al ienad os ou ate rrori zados, sem possí bi~:tar que o
m,al-estar socia J p romo va mud ança s para além daqu elas que são
assimiláveis pelo siste ma.
Dian te dessa s form as ideol ógica s que justif icam a situação
,, de opressão fazei ldo refer êncía a Deus ou à s.eg i rança nacional,
cabe à Psico logia Social a tarefa de desi d~!o g.i2ar. Desideo!ogizar
':r sjgnifica desm ascar ar o senso comu m alien ador que acoberta os
obstá culos objetivos ao dese nvolv imen to da demo craci a 01..1 que
. os conv erte em algo aceit ável para as pessoas. :\:o entan to,~que
é nece ssári o_fazer para desen volv er esta iaref a desid eolog izadora
em nossas socie dade s? T~ s po~t os p arece m essen ciais :
a) assum ir a persp ectiva do p ovo;
b) apro fu n dar o conh ecim ento de sua reali dade ;

e) 5€ comp rome te r cri ticam ente com um proc esso que dá ªº


- povo O pode r sobre sua p rópri a exist éncia e seu dest:-110 ·
F ~ p~m ei ro luga r, é nece ssári o que o p5icólogo social e ª
próp n a PF;icologi.a Socia l assum am a persp ectiv a d o oo-:o . ~ e
que M: bu <,ca {· o go - d , -, - - --:-
. -
ti .r dr> ponto d . •
verno o povo ,, e nece ssan o se 51hlar e.. . ;. . . ::;,,._
~
~ v i sta d esse povo ,. isto é das maio rias opri.tT~_az:::- -- - . ,
1sto n ur, a pa r,_,nt , - ,
7 emen te e s imp1 , b . d od - ~
- 1
e':>pE:a· 1 . •1.::
' . . es o u o v10 e m o 0
aJQUlT '
. o c -
a m ente para nó . .
1 . ':J, cient is tas socia is educados e hab1n.1au --Í (l~
• a

pe O parad 1gma exp er··1 J . . 1


• r v 5
-
menta a se 1nse nr nos proce ssos h uc-:a.... ·
62
assegurando o máximo de controle. Fingir que vamos contribuir
para o desenvolvimento da democracia, isto é, para o governo do
povo, sem sequer saber como se enxerga a vida a partir dos olhos
do próprio povo é uma pretensão que é falsa hermeneuticamen-
te e ~pistemolo~ica~ente. Não p?de~os desmascarar a ideologia ]
dominante se nao sa1mos de seu ambito, mesmo que isto não seja
mais do que um passo metodológico. _
Em segundo lugar, devemos realizar uma pesquisa sistemá-
tica de tÓdos os mecanismos que mantêm o nosso povo alienado
dian te de sua p rópriãreãlidade. Se a guerrà civil de El ~sa lvador
revelou algo a nós, cientistas sociais, é o quão pouco conhecíamos
(e conhecemos) nosso povo, não falo tanto de suas características
de fato, mas de suas potencialidades históricas. O que sabemos
.____ - - - -- - - - - -- -- - -
sobre os setores majoritários de nossas _populações é tao pouco
---- . -
que praticamente não vai além da afirmação de que são fatalis-
tas, religiosaseffiachis1as.Wadã sabémo;s""ob~e t odas as virtudes
que subjazem sua sÍtuação de-permanente emergência 9Í-Qca ou
sob_re sua capacidade de solidariedade que impedéo abandono
dos mais miseráveis entre os miseráveis. Que ·o põvo salvadore-
nho tenha- co nseguiâo se organizar tendo como recurso ~penas
sua pobreza e tendo como ajuda apenas a sua própria unidade
e, mesmo assim, tenha colocado em xeque o império norte-ame-
ricano é algo imprevisível para nossos modelos sobre os pobres
ou nossos conhecimentos sobre a mobilização social. A partir da
perspectiva popular, a pesquisa de~e nos _o_ter~~~ ~!º a~nas o
que nossos povos são de1ã.to, m~~, sobr~_tudo, o gue po~ em e gue-
re1!1_ c!'1~g_ar ! ser.
Finalmente, a desideologização supõe um~ prq__m isso críti-
co q~~-devolve ao próp rio povo o conhecimen~o _a_d_g_uirido. Todo
conhecim-~nto resulta em podE:! e servÍría_mos ~~ito mal a cau-
sa da democracia-sees-se poder adquir1do pela pesquisã ficar nas
mãQS daq~eles que não partilham os ~~eresse~920ares. Nosso '
con hecimento deve servir como um espelho-e m que o povo pode _\ ,'
ver refle Uda sua im agem e adquirir essa pequena distância crítica ,
que permi te objetivar sua rea lid ade e transfonná-la. As palavras _\
geradoras uti li zadas pelo mé todo alfabetizador de 1:__r~ire são um
modelo sobre corno O co~hccime nto pode ser_v ir p ara a desideo-
logiz_ação: são palavras qu e refl etem a realid ade de fato, retiradas

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do unive rso simb ólico das própr ias pesso as, do senso comum d
sua vida cotid iana, mas que, quan do dja]e ticam ente devolvict e
.d d d d as
pelo diálo go a' mesm a comu m a e, po em esrna scara r a reaüda-
de que expre ssam e abrir as porta s para sua trans formação.
Com o opera ciona lizar estas três tarefa s é algo que depen de
da situa ção concr eta de cada país. Possi velm ente, uma das me-
lhore s mane iras como isto pode ser realiz ado é por meio de urn
sistem átic? _estud o da op inião pública, que não é o mesmo que a
opin ião que se toma públi ca ou que aquil o que é p ublicado nos
meio s de comu nicaç ão (cf. MAR TÍN- BAR Ó, 1985). De qualquer
mane ira, indep ende nte da form a concr eta adota da, o ponto cen-
tral é a vincu lação que, como psicó logos sociais, estabeleceremos
r com o povo . Se o que quere mos é contr ibuir verda deira ment
e ao
desen volvi ment o da demo craci a, isto é, ajuda r para que o povo
gove rne a si mesm o, a prim eira coisa que deve mos fazer é assun1ir
os seus intere sses como própr ios. Some nte então nosso s olhos po-
derão desco brir não apen a os véus que obscu recem a consciência
popu lar e impe dem que eles assum am as rédea s de seu próprio
desti no, mas tamb ém os véus que cobre m nosso próp rio conheci-
ment o e não nos perm item contr ibuir signi ficati vame nte às lutas
[ popu lares por justiç a, paz e demo craci a.

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