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REVISTA DE ARQUEOLOGIA

VOLUME 26 _ NUMERO 1 _ JULHO 2013


Capa: Tatiane Gama
REVISTA DE ARQUEOLOGIA
VOLUME 26 _ NUMERO 1 _ JULHo 2013 _ ISSN 0102-0420
A Revista de Arqueologia, fundada em 1983 pela Profª Maria
da Conceição M. C. Beltrão e editada originalmente pelo
Museu Paraense Emilio Goeldi/CNPq, é uma publicação oficial
e semestral da Sociedade de Arqueologia Brasilieira - SAB.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Diretoria da SAB


VOLUME 24 _ NUMERO 1 _ julho 2011 _ ISSN 0102-0420 Sociedade de Arqueologia Brasileira
Presidente
Conselho Editorial Gilson Rambelli – Universidade Federal de Sergipe
Abdulay Câmara Vice-Presidente
Adriana S. Dias Marcia Bezerra - CNA/Iphan/Universidade Federal do Párá
Astolfo Gomes de Mello Araujo 1ª Secretária
Alberico Nogueira de Queiroz Suely Amancio Martinelli – Universidade Federal de Sergipe
André P. Prous 2º Secretário
André O. Rosa Luis Cláudio Symanski – Universidade Federal de Minas Gerais
Claudia Rodrigues Ferreira de Carvalho 1ª Tesoureira:
Denise P. Schaan Loredana Ribeiro - Universidade Federal de Pelotas
Eduardo G. Neves 2ª Tesoureira:
Fabíola A. Silva Rosiclér T. da Silva - Universidade Federal do Piauí
Gilson Rambelli Comissão de Seleção:
Gislene Monticelli Andrés Zarankin – Universidade Federal de Minas Gerais
Gustavo Politis Fabíola Andréa Silva – Universidade de São Paulo
João Pacheco de Oliveira Filho Flávio R. Calippo – Universidade Federal do Piauí
José Lopez Mazz Comissão Editorial
Loredana Ribeiro Lucas Bueno – Universidade Federal de Santa Catarina
Luiz Cláudio Symanski Adriana Schmidt Dias – Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Luiz Ossterbeek Edithe Pereira – Museu Paraense Emilio Goeldi
Marco Aurélio Nadal De Masi Conselho Fiscal
Michael Heckenberger Dilamar Cândida Martins – Universidade Federal de Goiás
Sheila Mendonça de Souza Albérico Queiroz – Universidade Federal de Sergipe
Tania Andrade Lima Cláudia Rodrigues-Carvalho – Universidade Federal do Rio de Janeiro
Veronica Wesolovski
Museu de Arqueologia e Etnologia
Universidade de São Paulo
Av. Prof. Almeida Prado, 1466
São Paulo - SP - Brasil
05508-900

Comissão Editorial: Lucas Bueno, Adriana Dias, Edithe Pereira


Editor Responsável: Lucas Bueno
Gestão 2011-2013

Dados Internacionais de Catalogação Revista de Arqueologia / Sociedade de Arqueologia Brasileira, 2013.


São Paulo: SAB, 2013, V. 26, Nº1
Semestral a partir de 2008: 2011.
ISSN: 0102-0420
1. Ciências Humanas. 2. Arqueologia. 3. Antropologia.
4. Sociedade de Arqueologia Brasileira
SUMÁRIO
07 Editorial

Volume temático 10 Arqueologia, Memória e História Indígena: uma Introdução


Lucas Bueno e Juliana Salles Machado

ARTIGOS 16 ARQUEO-ETNOGRAFIA DE TIERRADENTRO


Cristóbal Gnecco

28 TERRITÓRIO, LUGARES E MEMÓRIA DOS ASURINI DO XINGU


Fabíola Andréa Silva

42 COSMO-ONTOLÓGICA MBYÁ-GUARANI: DISCUTINDO O ESTATUTO
DE “OBJETOS” E “RECURSOS NATURAIS”
Sergio Baptista da Silva

56 SEGUINDO O FLUXO DO TEMPO, TRILHANDO O CAMINHO DAS ÁGUAS:


TERRITORIALIDADE GUARANI NA REGIÃO DO LAGO GUAÍBA
Adriana Schmidt Dias e Sérgio Baptista da Silva

72 HISTÓRIA(S) INDÍGENA(S) E A PRÁTICA ARQUEOLÓGICA COLABORATIVA


Juliana Salles Machado

86 Arqueologia e etno-história na Terra Indígena Lalima, Miranda/MS


Eduardo Bespalez

96 TERRITÓRIOS EM DISPUTA: O PAPEL DA PESQUISA ETNOARQUEOLÓGICA


NOS ESTUDOS DE IDENTIFICAÇÃO E DELIMITAÇÃO DAS TERRAS INDÍGENAS
GUARANI ÑANDEVA NO SUDESTE DO ESTADO DE SÃO PAULO
Robson Rodrigues

112 CORPO, COMUNICAÇÃO E CONHECIMENTO: REFLEXÕES PARA A SOCIALIZAÇÃO


DA HERANÇA ARQUEOLÓGICA NA AMAZÔNIA
Cristiana Barreto

130 ARQUEOLOGIA PELAS GENTES: UM MANIFESTO. CONSTATAÇÕES E


POSICIONAMENTOS CRÍTICOS SOBRE A ARQUEOLOGIA BRASILEIRA
EM TEMPOS DE PAC
Bruna Cigaran da Rocha, Camila Jácome, Francisco Forte Stuchi, Guilherme Z. Mongeló e Raoni Valle

Resenha 142 Historias de Arqueología Sudamericana de Javier Nastri


e Lúcio Menezes Ferreira
(editores). Buenos Aires, Fundación de Historia Natural Félix de Azara
Universidad Miamónides, 2010. 239 páginas
Resenhado por Adriana Schmidt Dias
146 Normas Editoriais
07 EDITORIAL
Editor Responsável: Lucas Bueno

O volume 26, número 1 da Revista de lugares, bem como aos vestígios materiais
Arqueologia se constitui como um Volume (arqueológicos e históricos) neles existentes,
Temático. Neste número temos 10 artigos, constituindo o que se pode definir como lu-
que representam parte dos trabalhos apre- gares da memória.
sentados durante o Simpósio “Arqueologia, O quarto artigo, de autoria de Sergio Ba-
Memória e História Indígena”, realizado em tista da Silva apresenta uma reflexão sobre a
novembro de 2012 na Universidade Federal experiência relativa à elaboração de três re-
de Santa Catarina. latórios de identificação e delimitação de
O primeiro artigo, de minha autoria em terras indígenas no Rio Grande do Sul, em
parceria com Juliana Machado, apresenta as colaboração com a Fundação Nacional do
características gerais do evento que resultou Índio (FUNAI) e contando com a participa-
neste volume, explicando seus motivos, ob- ção de profissionais oriundos de diferentes
jetivos e resultados. especialidades: antropólogos, arqueólogos,
O segundo artigo, de autoria de Cristobal geógrafos, socioambientalistas, botânicos e
Gnecco, apresenta a dialética da construção zoólogos.
de um conhecimento construído com base O artigo de Adriana Dias e Sergio Ba-
em relações não hierárquicas entre comuni- tista da Silva apresenta as pesquisas rea-
dade e academia, utilizando como exemplo lizadas por ocasião da produção de um
um estudo de caso sobre uma proposta de relatório de identificação de terras indí-
gestão de um parque arqueológico na Co- genas Mbyá-guarani na região metropo-
lômbia, rejeitado pela comunidade indígena litana de Porto Alegre, Rio Grande do
em cujo território foi criado. Sul. Essas pesquisas, decorrentes de uma
O artigo de Fabiola Silva apresenta uma demanda dos Mbyá, resultram na iden-
reflexão sobre o modo específico como os tificação de vários sítios da Tradição
Asurini do Xingu apreendem o seu territó- Guarani, indicando que as ocupações
rio na Terra Indígena Kuatinemu e quais os pré-coloniais formavam um horizonte
significados que atribuem a determinados sócio-cultural e ambiental que atual-
8

mente também é manifestado pelos pansão desenfreada do grande capital pelo


Mbyá-guarani. país que segue deixando comunidades lo-
O sexto artigo, de autoria de Juliana cais, já marginalizadas, em situações ainda
Machado aborda questões teórico-me- mais precárias. Ao final do artigo publica-
todológicas da prática arqueológica co- mos a lista com todos os signatários do ma-
laborativa em comunidades indígenas. nifesto.
Para encaminhar essa discussão a autora Esperamos que aproveitem a leitura e
apresenta uma pesquisa colaborativa en- que este volume possa contribuir para uma
tre os Xokleng de Santa Catarina. reflexão crítica sobre o fazer arqueológico
O artigo de Eduardo Bespalez apresenta no Brasil que aponte alternativas, novos ca-
uma pesquisa arqueológica realizada na minhos para a produção de um conheci-
Terra Indígena Lalima. O autor aborda mento participativo, engajado e plural, que
questões como território e territorialidade, reconheça o papel político da Arqueologia
dando ênfase à discussão sobre identificação na agenda da sociedade nacional e atue de
e significado de lugares significativos. forma efetiva na ampliação do espaço e do
O artigo de Robson Rodrigues trata de reconhecimento das populações tradicio-
uma pesquisa sobre a ocupação Guarani no nais que ocupam o território brasileiro.
sudeste paulista. Utilizando dados etnohis-
tóricos e etnoarqueológicos o autor se pro-
põe a discutir aspectos da dinâmica de ocu-
pação Guarani Ñandeva no vale do rio
Itararé.
Cristiana Barreto apresenta algumas re-
flexões sobre o papel do arqueólogo no atual
contexto de discussões sobre multivocalida-
de na socialização do patrimônio arqueoló-
gico da Amazônia. Com base nessas refle-
xões a autora apresenta uma proposta
conceitual e metodológica de comunicação
e transmissão de conhecimento científico
mais afinada com uma arqueologia pública
do século XXI.
Fechamos a seção de artigos deste volu-
me com a publicação de um manifesto ela-
borado por um coletivo de pesquisadores
(Bruna Cigaran da Rocha , Camila Jácome ,
Francisco Forte Stuchi , Guilherme Z. Mon-
geló , Raoni Valle) que reforçam a necessi-
dade e a urgência de uma reflexão crpitica
sobre a práxis arqueológica no Brasil, apon-
tando para o papel político desempenhado
pela disciplina no começo do século XXI,
estreitamento atrelado ao processo de ex-
10

ARQUEOLOGIA,
MEMÓRIA
E HISTÓRIA
INDÍGENA:
UMA INTRODUÇÃO
Lucas Bueno1 e Juliana Salles Machado2
1- Universidade Federal de Santa Catarina, lucasreisbueno@gmail.com
2- Pós-doutoranda, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo, julianasalles-
machado@gmail.com
Este volume é resultado de um simpósio O tema escolhido para a realização do
realizado em 2012 sobre o tema “Arqueolo- simpósio inicial dessa parceria - História In-
gia, Memória e História Indígena”. O evento dígena e Arqueologia -, tendo como eixo
foi realizado em Florianópolis, na Universi- temático os ameríndios, buscou conjugar
dade Federal de Santa Catarina, e contou pesquisas etnográficas com análises mate-
com a presença de diversos pesquisadores riais abarcando contextos atuais, coloniais e
nacionais e internacionais, a maior parte de- pré-coloniais. O conjunto de abordagens se
les autores deste volume. A organização des- desdobra em temas tais como memória, re-
te evento foi fruto de uma parceria entre o presentações e formas de interação, tecnolo-
LEIA, Laboratório de Estudos Interdiscipli- gia e território, cotidiano, cultura material,
nares em Arqueologia/UFSC, o LINTT, La- tradição oral/escrita, e educação e formação
boratório Interdisciplinar de Estudos sobre intelectual indígena (Fausto e Heckenberger
Tecnologia e Território/MAE-USP e o 2011; Heckenberger 2001; Machado 2009;
LETT, Laboratório de Tecnologias Tradicio- Neves 2006, 2001; Oliveira e Pereira 2009;
nais/UFRGS. Este evento deu continuidade Silva 2012, 2011, 2009; Silva et al. 2011,
aos seminários do LINTT, que atingiu sua 2010, 2007; Stuchi 2010). De caráter multi-
terceira edição, a primeira fora do Estado de disciplinar, tais abordagens buscam com-
São Paulo, unindo-se à VI Semana de Ar- preender a diversidade sócio-cultural destas
queologia e Patrimônio da UFSC. Para sua populações atuais e pretéritas, pautando-se
concretização o evento contou com finan- em reivindicações das comunidades indíge-
ciamento CAPES e UFSC. nas com relação à memória, história e cultu-

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ra. A integração desses diferentes eixos tem queologia e muito menos na arqueologia
o intuito de conferir um caráter histórico consultiva. Não obstante, alguns pesquisa-
para a situação contemporânea das popula- dores têm demonstrado a riqueza teórico-
ções indígenas, prerrogativa necessária para -metodológica de abordagens colaborativas
atuação em discussões relativas ao lugar do com populações tradicionais, entre povos
indígena na sociedade brasileira, sua diver- indígenas, ribeirinhos e quilombolas. A or-
sidade e perspectivas de futuro. ganização de um seminário acerca deste
A escolha deste tema se deve primeira- tema permitiu um compartilhamento de ex-
mente à crescente demanda das populações periências de pesquisa em diversos contex-
indígenas por pesquisas arqueológicas em tos brasileiros e enriqueceu o debate com
seus territórios (Silva 2012, 2011, 2009; Sil- pesquisadores nacionais e internacionais
va et al. 2011, 2010, 2007; Stuchi 2010). que têm se voltado para este tema.
Esta por sua vez, se deve a um crescente O estabelecimento destas parcerias, em
processo de reafirmação e reconstrução síntese, visa aprofundar o conhecimento
identitária que as populações indígenas sobre o passado das populações indígenas
vêm experimentando, também relacionado brasileiras integrando múltiplas e diversas
a novas delimitações das atuais terras indí- visões em sua construção no presente. Este
genas, numa tentativa de ampliação e res- volume, assim como o seminário que o pre-
gate de territórios ancestrais. A luta pela cedeu, nos fornece a oportunidade de pen-
permanência das populações indígenas em sarmos sobre estas novas abordagens da
seus territórios e pela sua continuidade cul- arqueologia e da história em terras indíge-
tural sempre fez parte da relação destas po- nas, proporcionando reflexões comparati-
pulações com a sociedade nacional, no en- vas sobre esta construção multivocal do
tanto, a interação destas práticas com a conhecimento.
arqueologia é um processo muito recente
no Brasil. O tema é, no entanto, muito dis- A TEMÁTICA INDÍGENA E A ARQUEO-
cutido internacionalmente, com especial LOGIA EM CAPÍTULOS
destaque em países como Estados Unidos, Podemos sintetizar a temática deste
Canadá e Austrália (Colwell-Chanthapho- volume em três eixos que refletem as
nh e Ferguson 2009; Fairclough et al. 2008; discussões propostas aos autores no
Meskell 2009; Silliman 2008; Smith e Wo- evento realizado, são elas: Memórias lo-
bst 2005; Van Dyke 2008; Zedeño 2008, cais e academia; Memória, laudos antro-
1997), mas também está presente em ou- pológico-arqueológicos e delimitação de
tros contextos. terras indígena; e Território e Territoria-
As reivindicações das populações indíge- lidades.
nas com relação à construção de sua própria A idéia do tema “Memórias locais e aca-
história têm impulsionado uma série de mu- demia” visa trazer a problemática da cons-
danças teóricas e metodológicas na arqueo- trução do conhecimento por vezes confli-
logia, etnoarqueologia e antropologia, sendo tantes entre acadêmicos e populações
cada vez mais aceita a necessidade e impor- tradicionais, enfatizando as experiências de
tância da multivocalidade na construção dos projetos de pesquisa colaborativos e a cons-
discursos científicos. No Brasil, contudo, trução de discursos multivocais.
esta demanda indígena ainda encontra pou- Já Memória, laudos antropológico-arque-
ca interlocução no meio acadêmico da ar- ológicos e delimitação de terras indígena,

ARQUEOLOGIA, MEMÓRIA E HISTÓRIA INDÍGENA: UMA INTRODUÇÃO Lucas Bueno e Juliana Salles Machado
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trata do papel dos arqueólogos e da arqueo-


logia na realização de laudos antropológi- Referências Bibliográficas
cos e arqueológicos e sua consequente rela-
COLWELL-CHANTHAPHONH, C. E FERGUSON, T.J.
ção com a delimitação de terras indígenas.
2008. Introduction. The Collaborative Continuum. In COL-
Território e Territorialidades aborda a
WELL-CHANTHAPHONH, C. E FERGUSON, T.J. Collabora-
questão do território de maneira a abarcar tion in Archaeological Practice. Engaging Descendent Communi-
tanto a construção e percepção de pertenci- ties. Altamira Press, New York, pp.1-32.
mento de um sujeito à terra e à paisagem, COLWELL-CHANTHAPHONH, C. 2009.The Archaeologist
quanto sua construção e vinculação políti- as a world citizen. On the Morals of Heritage Preservation and
destruction. In MESKELL, L. (Ed.) Cosmopolitan Archaeologies.
ca, como por exemplo, na demarcação de
Duke University Press, pp140-165.
terras indígenas.
FAIRCLOUGH, G.; HARRISON, R.; JAMESON JNR, J.;
Por fim cabe registrar que durante o SCHOFIELD, J.. 2008. The Heritage Reader. Routledge, New
evento contamos com a participação de cer- York.
ca de 100 estudantes indígenas, todos alu- FAUSTO, C. E M. HECKENBERGER. 2011 Introduction:
nos do curso Licenciatura Intercultural In- Indigenous History and the History of the “Indians”. In: C. Faus-
to & M. Heckenberger, When Time Matters: History, Memory,
dígena do Sul da Mata Atlântica, o que sem
and Identity in Indigenous Amazonia. University Presses of Flori-
dúvida, trouxe uma contribuição funda-
da.
mental para o debate. Infelizmente essa par- HECKENBERGER, M., 2001. Estrutura, história e transfor-
ticipação não resultou numa participação mação: a cultura Xinguana na longue durée, 1000-2000d.c., In
efetiva na elaboração deste volume, mas Franchetto, B. E Heckenberger, M. (Org.), Os povos do Alto Xin-
certamente estimulou e criou uma ponte gu História e
MACHADO, J. 2009. História e Memória na construção da
para concretizar essa parceira futuramente.
paisagem na Amazônia. Boletim do Museu Paraense Emílio Goel-
A partir destas propostas temáticas con-
di, Especial História da Arqueologia Amazônica.
vidamos a todos a refletir sobre um fazer MESKELL, L. (Ed.) Cosmopolitan Archaeologies. Duke Uni-
arqueológico engajado com a história indí- versity Press, 2009.
gena e reflexivo, aberto às diversidades de NEVES, E. G. . Tradição Oral e Arqueologia na História Indí-
formas de pensar o tempo e o espaço, as gena do Alto Rio Negro. In: Louis Forline; Rui Murrieta; Ima
Vieira. (Org.). Amazônia, Além dos 500 Anos. Belém: Editora do
inúmeras formas de percepção e construção
Museu Paraense Emílio Goeldi, 2006, v. , p. 1-37.
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2009 b. A etnoarqueologia e na Amazônia: contribuições e

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 10-14 - 2013


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lidade, no prelo.
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gia Colaborativa na Amazônia. Amazônica 3(1) 32-59.
SILVA, F. A.; BESPALEZ, E.; STUCHI, F.F.; POUGET, F.C..
2010Arqueologia em terra indígena uma reflexão teórico-meto-
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V. (orgs). Arqueologia amazônica, Bélem : Museu Paraense Emí-
lio Goeldi : Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacio-
nal ; Secretaria de Estado de Cultura do Pará, v. 2.
SILVA, F. A.; BESPALEZ, E.; STUCHI, F.F.; POUGET, F. C.
2007 Arqueologia, Etnoarqueologia e História Indígena – um
estudo sobre a trajetória de ocupação indígena em territórios do
Mato Grosso do sul: a terra indígena Kayabi e a aldeia Lalima.
Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 17: 509-
512.
SMITH, L. 2008 Towards a Theoretical Framework for Ar-
chaeological Heritage Management. In FAIRCLOUGH, G. al.
(Eds.) The Heritage Reader. Routledge, New York.
SMITH, C.E WOBST, H.M. (Eds.) 2005 Indigenous Archaeolo-
gies. Decolonizing Theory and Practice. One World Archaeology.
Routledge, New York..
STUCHI, F. 2010 A ocupação da terra indígena Kaiabi (MT/
PA): história indígena e etnoarqueologiahistória indígena Anexo 2
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VAN DYKE, R. M. 2008 Memory, Place and the Memorializa-
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2008 The Archaeology of Territory and Territoriality. In Da-
vid, B. and Thomas, J. Handbook of Landscape Archaeology. Wal-
nut Creek, CA: Left Coast Press, pp. 210-217

ARQUEOLOGIA, MEMÓRIA E HISTÓRIA INDÍGENA: UMA INTRODUÇÃO Lucas Bueno e Juliana Salles Machado
16
ARTIGO

ARQUEO-ETNOGRAFIA
DE TIERRADENTRO
Cristóbal Gnecco1

1- Universidad Del Cauca


17

RESUMO: A diferença da etnoarqueolo- ABSTRACT: Making a difference with


gia, que procura ampliar a hermenêutica ethnoarchaeology, which seeks to expand
disciplinaria através da utilização metodoló- disciplinary hermeneutics through the me-
gica de culturas vivas, a arqueo-etnografia thodological use of living cultures, the archa-
que realizo neste artigo procura etnografiar eo-ethnography I perform in this paper seeks
os acontecimentos nos quais participa a dis- to ethnography events in which the discipli-
ciplina. Neste caso concreto, procuro mos- ne participates. In this case, I try to show
trar como a arqueologia participou de uma how archeology partook of a management
proposta de gestão de um parque arqueoló- plan for an archaeological park in Colombia,
gico em Colômbia, rejeitado pela comuni- rejected by the indigenous community in
dade indígena em cujo território foi criado o whose territory the park was created. I
parque. Analiso essa rejeição desde catego- analyze this rejection from native categories
rias nativas e intento entende-la no contexto and attempt to understand it in the present
atual, mostrando os resultados de uma rela- context, showing the results of a non-hierar-
ção não hierárquica entre a comunidade, o chical relationship between the community,
estabelecimento e a academia. the establishment and academia.

Palavras-chave: arqueo-etnografía, Keywords: archaeo-ethnography, Co-


Cólombia, indígenas, patrimônio. lombia, indigenous peoples, heritage.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 16-27 - 2013


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Em 1945 o Estado colombiano estabele- que desenterravam coisas que eles, os indí-
ceu o Parque Arqueológico de Tierradentro genas, preferiam enterradas, longe de suas
em território dos indígenas Nasa,1 no meio vidas; se o perguntaram, as respostas não
da reserva de San Andrés de Pisimbalá. Por foram inquietantes; se o foram, não se tra-
anos Tierradentro, um dos três parques ar- duziram em oposição à labor dos arqueólo-
queológicos existentes na Colômbia, tem gos. Os arqueólogos não perguntaram por
sido um lugar emblemático para a posta em que os indígenas ignoravam seu trabalho.
cena do discurso histórico nacional. Duran- Não perguntaram por que deixavam que
te décadas ninguém impediu os trabalhos eles, os arqueólogos, traficaram livremente
dos arqueólogos e do Instituto Colombiano com os restos daqueles que, talvez, pode-
de Antropologia e Historia (ICANH), en- riam ser os seus ancestres. A falta de per-
carregado da administração do parque; nin- guntas —e a ausência concomitante de res-
guém desafiou as suas pretensões acadêmi- postas— criou as condições da relação: os
cas. Tierradentro tornou-se um lugar arqueólogos escavaram, exibiram, arquiva-
icônico para a realização do sono arqueoló- ram, deslocaram aquilo que chamaram ar-
gico: vestígios glamorosos —inigualáveis queológico; entanto, os indígenas continua-
tumbas comunais pintadas e esculpidas, ce- ram com as suas vidas, lutando por não
râmica decorada, estatuas de pedra (cf. Cha- sucumbir aos embates da civilização, dei-
ves e Puerta 1986)— em uma localização xando aos arqueólogos fazer.
esplêndida habitada por índios, esses sujei- Este situação idílica e ideal para os ar-
tos estranhos que os arqueólogos não busca- queólogos começou a mudar muito antes
ram conhecer mas a quem eles agradece- que as mudanças foram visíveis, muito antes
ram, secretamente, dar um toque de que os tempos de turbulência mexeram as
autenticidade à paisagem, um toque que re- folhas das árvores em Tierradentro. A revol-
dimiu a sua nostalgia imperialista.2 Também ta indígena de 1970 e a adoção do multicul-
foi icônico por outra razão: esses índios que turalismo pelo Estado colombiano foram os
certificaram o autentico não estavam inte- responsáveis ​​de que o piso sólido dos arque-
ressados nas cosas que a eles, aos arqueólo- ólogos começara a tremer. Os indígenas,
gos, interessavam. O circulo de interesses pela primeira vez, viraram seus olhos para
excludentes foi solidamente fechado: os in- as coisas de interesse para os arqueólogos,
dígenas e os arqueólogos conviveram em desta vez não para fugir delas ou ficar longe,
um mesmo lugar sem se atrapalhar, igno- mas para inseri-las no âmbito de suas rei-
rando-se placidamente. Os indígenas não vindicações. Em 2006, o cabildo (conselho
perguntaram o que faziam esses estranhos indígena) de Calderas, uma das comunida-
des que formam Tierradentro, propôs ao
1- Cerca de 200.000 Nasa, cuja relação com o Estado (colo-
nial e republicana) foi marcada por capitulação tanto como ICANH a co-administração do Parque Ar-
por rebelião, vivem principalmente na região chamada de
Tierradentro, na Cordilheira dos Andes do sudoeste da Co-
queológico, apenas parcialmente concedida.
lômbia. Esta situação reflete o interesse atual dos
2- Segundo Rosaldo (1993:69) na nostalgia imperialista os
agentes do colonialismo "normalmente apresentam nostal- Nasa pelo arqueológico, antes desdenhado
gia pela cultura do colonizado como era ‘tradicionalmente’
(ou seja, como era quando a encontraram pela primeira
por causa de prescrições culturais de longa
vez). A peculiaridade de seu lamento é, certamente, que data (Gnecco e Hernández 2008). O interes-
os agentes do colonialismo suspiram pelas formas de vida
que alteraram ou destruíram intencionalmente... um tipo se dos Nasa pelo parque e seus referentes
particular de nostalgia, muitas vezes encontrada no impe-
rialismo, na qual as pessoas lamentam a morte daquilo que
arqueológicos coincidiu com sua declaração
elas mesmas têm transformado." como patrimônio mundial pela UNESCO,

Arqueo-Etnografia de Tierradentro Cristóbal Gnecco


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em 1995; esta declaração levou ao ICANH …se levem em conta as operações, expressões ou opiniões
em 2009 a desenhar um plano de gestão e conhecimentos das comunidades indígenas, represen-
“como uma ferramenta de gestão adminis- tadas pelas suas autoridades tradicionais, a respeito de
qualquer intervenção que envolva diagnóstico, estudo,
trativa, técnica, social e financeira para ga-
pesquisa ou investimento relacionados com os aspectos
rantir uma programação consistente, efi- arqueológicos, antropológicos, etnográficos, lingüísticos
ciente e sustentável das atividades que o e históricos, neste caso específico em relação ao denomi-
ICANH vai desenvolver no Parque durante nado Plano de Gestão Arqueológica, uma ação que será
os próximos dez anos, exclusivamente ou desenvolvida sem o conhecimento e consentimento pré-
em cooperação com outras instituições e or- vio das comunidades indígenas legitimas, repositórias
do direito de participar nas decisões que as afeitam, es-
ganizações sociais.” A proposta de este plano
pecialmente se elas são científicas ou educativas. Consi-
de gestão ocorreu em um momento de gra- derando os aspectos anteriores, apresentamos a vocês
de agitação social na zona que não só levou que no âmbito do Plano de Vida das reservas e cabildos
à conhecida confrontação com o Estado se- indígenas do município do Inzá estaremos analisando,
não também ao enfrentamento entre indíge- discutindo e propondo as atividades relacionadas ao
nas e os habitantes não indígenas, velhos tema arqueológico, etnográfico e turístico. Portanto, até
que seja possível a divulgação dos componentes concei-
vizinhos que agora não se reconhecem. Este
tuais legitimados pela assembléia máxima de cabidos de
artigo é um registro de acontecimentos re- Inzá, qualquer intervenção anterior carece de reconheci-
centes e uma opinião cândida sobre a situa- mento e validade jurídica e administrativa.
ção na zona; é, então, uma arqueologia etno-
gráfica sobre a colisão entre as memórias A carta enfatiza quatro pontos e põe de
indígenas e a academia. presente (a) as opiniões da comunidade so-
bre assuntos que a academia e o Estado con-
Cronologia e sorte de um plano sideram domínio exclusivo do conhecimen-
de gestão to dos especialistas; (b) o propósito de
Para levar a cabo o plano de gestão o ICA- discutir estes assuntos no seu próprio marco
NH estabeleceu uns termos de referência. As conceitual, o Plano de Vida; (c) a legitimida-
lideranças indígenas da reserva de San An- de das comunidades; e (d) a declaratória do
drés, em cujo território está localizado o par- plano de gestado do ICANH como ilícito.
que arqueológico, foram convocadas a uma Pela primeira vez o instituto nacional encar-
reunião em maio de 2009 para apresentar e regado de proteger e promover o patrimó-
discutir os termos de referência. O resultado nio arqueológico é confrontado por uma
mínimo da reunião foi que as lideranças re- organização de base de uma forma muito
jeitaram que os termos de referência não ti- direta e abrangente; pela primeira vez, as
vessem sido acordados com elas, especial- ações de uma instituição nacional que traba-
mente tendo em conta acordos previamente lha dentro de um quadro legal reificado são
estabelecidos com ICANH em relação com declaradas ilegais por uma organização in-
consultas em caso de ações no parque, e dis- dígena.
seram que em breve se pronunciariam sobre O significado político e cultural da decla-
o assunto. O fizeram. Em 24 de julho de 2009 ração de “ilegalidade” do plano de gestão do
os Governadores dos cabildos do município ICANH pelas lideranças deve ser entendido
de Inzá, também em Tierradentro, enviaram desde a sua cosmovisão. Os Nasa nao têm
uma comunicação ao ICANH, rejeitando a uma concepção do “mau” senão de “não
proposta por inconsulta e excludente. Na bom”: ewme kayatxisa —ew/me/ka-yatxisa
carta de 24 de julho expressaram que (bom/não tiver/que faz-pensar; o não tiver

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do bom que faz pensar; o vazio do bom no na.” A mensagem é clara: qualquer interven-
pensar faz o não bom). O que não é bom ção do Estado que ignore a participação da
também pode ser bom na medida em que os comunidade — não periférica, como quer o
atos que não são bons sejam bem adminis- multiculturalismo, senão estrutural— care-
trados. O bom e o não bom estão no fazer ce de legalidade frente a sua concepção do
do pensar. Um fato o uma ação podem care- que é legal e bom. Os Nasa rejeitaram o pla-
cer de ewme, quer dizer, o vazio do bom que no de gestão porque não é justo, porque cria
leva a ação que carece do conteúdo de o tensões, rompendo um equilíbrio amplo e
bom. Ewme é uma palavra composta que as- abrangente. A injustiça é confrontada pelos
sinala, ao mesmo tempo, o bom e o não Nasa com a defensa do lugar, a permanência
bom; dali que o mau não existe. Ew denota a e a vida, não tanto a sua como a do territó-
categoria do bom e me é o não haver que in- rio, chamado uma (mãe).
dica a ausência do não bom no conteúdo de A resolução das tensões criadas pelas
uma ação. O sufixo ka denota aquilo que faz ações e comportamentos injustos (ilegais/
pensar no não bom enquanto yatxisa vem da ilícitos) assim concebidos desde os domí-
raiz da palavra yatxnxi que é pensar a partir nios interligados da política e das crenças
de uso da memória. Em suma, ewme kayat- pode descansar no entendimento de cosmo-
xisa é o vazio do bom que faz pensar no não visões locais que permitam construir agen-
bom na realização de uma ação; é o ilícito, o das programáticas (mesmo metodológicas)
que não deve ser e que, portanto, é rejeitado. que respeitem relações justas, direitas, legí-
A rejeição radica na forma de pensar que é a timas e legais. Esse entendimento deve co-
ação de fazer memória; a memória está sem- meçar por reconhecer que os Nasa têm se-
pre presente na tomada de decisões. Desde guido os ensinamentos do Manuel Quintin
essa compreensão começou a se configurar Lame, um líder indígena da primeira meta-
a ilicitude dos atos do ICANH.3 de do século XX, quem desafiou duas vene-
A rejeição da comunidade aos termos de ráveis ​formas de dominação: a da cultura
referência do plano de gestão é um desafio sobre a natureza e a da Ocidente sobre os
político e cultural a uma proposta institu- índios. No manifesto de Lame (escrito em
cional que ela considera prejudicial à sua 1939, mas publicado só até 1971), ainda co-
independência, autonomia e cosmovisão. nhecido como A doutrina (Lame 2004), as
Para os Nasa as pretensões institucionais de conotações ocidentais negativas sobre a na-
realizar um plano de gestão em um parque tureza —que reificaram a idéia de que a his-
arqueológico localizado no seu território é tória é uma longa viagem em direção até sua
ilegal em mais dois sentidos: porque ignora desaparição ontológica— assumiram um
uma autonomia constitucional (a jurisdição caráter positivo e afirmativo. O outro étnico
local), apoiada por mandatos internacionais falante desabou a legalidade e legitimidade
(a Convenção 169 da OIT, por exemplo) e do Ocidente: tornou o natural uma virtude
porque trata a temporalidade Nasa como (Lame foi educado pela natureza, a única es-
um elemento exótico. Em uma das reuniões cola cuja validade ele reconhecia) e deixou
entre a comunidade e o ICANH uma lide- claro que os índios eram bons é os brancos
rança manifestou que “o plano de gestão e o maus. O equilíbrio perturbado por causa da
ICANH têm que se ajustar ao tempo indíge- maldade dos brancos sobre a bondade dos
3- As anotações desde o nasa yuwe, a língua dos Nasa, fo-
índios só poderia ser restaurada pela Lei da
ram feitas por Juan Carlos Piñacué. compensação, males divinos que cairiam so-

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bre aqueles que maltrataram a sua gente. A patrimônio tangível e intangível enquanto
convulsão retórica do Lame, política até a que para os Nasa o “intangível” são os espí-
medula, foi a declaração mais forte já emiti- ritos contidos no “tangível.” Não são inde-
da por um indígena sobre a cosmovisão mo- pendentes, mas inseparáveis; melhor, ​​não
derna, desvelando a historicidade de afirma- podem ser conceituados de essa maneira e o
ções vernáculas voltas universais por meios nasa yuwe não tem palavras para nomeá-los
coloniais. Mas sua voz foi silenciada, presa, como entidades separadas. O boom do patri-
exilada. Mais de meio século se passaria an- mônio, impulsionado pelo mercado, que ele-
tes que seus ensinamentos encontraram um vou os bens “tangíveis” e “intangíveis” ao
terreno fértil para florescer na legitimidade nível de riqueza explorável, violenta a cos-
(política e cultural) alcançada pelas comuni- movisão Nasa porque objetiva o passado
dades indígenas. Enquanto as disposições para torná-lo mercadoria e fica construído
constitucionais e legais das duas últimas dé- sobre uma concepção de história que lhe re-
cadas reconheceram autonomias étnicas li- sulta inconcebível. Os povos indígenas na
mitadas e circunscritas, as comunidades Colômbia, assim como em outras partes do
pressionaram para que sua opinião fosse le- mundo, estão agora preocupados com a
vada em conta na definição de políticas pú- mercantilização dos ensinamentos de seus
blicas, mesmo em questões contenciosas antepassados ​​e como têm sido reduzidos a
que o Estado reformado não estava disposto categorias estranhas. Especificamente, a ma-
a discutir, como o simbolismo histórico e o neira como a indústria turística apresenta o
domínio do mercado. Nas mãos das comu- patrimônio para a venda insulta o caráter
nidades esses assuntos abandonaram seus confidencial do sagrado. Uma liderança
alojamentos tradicionais nos prédios dos mesmo sugeriu que “as tumbas expostas no
especialistas para se tornar elementos cen- parque arqueológico nunca deveram ter
trais na definição de planos de vida, projetos sido abertas e deveriam ser fechadas.” O tu-
para uma vida melhor, amplamente discuti- rismo, portanto, espera ser reavaliado e re-
dos. Os planos de vida não são apenas pro- definido pela comunidade.
jetos para a vida interna das comunidades, Uma lista esquemática e imprecisa de re-
mas também para as relações com o mundo lações opostas —não-indígena/indígena,
exterior. Os Nasa consideram ilícita a ausên- patrimônio/ancestral, arqueológico/sagra-
cia daquilo que-deve-ser, isto é, o conteúdo do, turismo/mostrado a vender, intangível/
legitimo duma ação. O que-deve-ser é uma espírito- corpo, tangível/corpo-espírito—
ação respeitosa de o seu yatxnxi (pensamen- mostra que foi prejudicial e agressivo dese-
to). As ameaças ao yatxnxi são enfrentadas nhar um plano de “gestão” em um território
com atos que buscam preservar o seu mun- indígena sem ter como elemento constituti-
do e a sua vida coletiva. O plano de gestão vo os planos de vida Nasa, precisamente
do ICANH tocou aspectos sensíveis da vida onde convergem o conhecimento e pensa-
Nasa e foi rejeitado; não considerou o plano mento indígenas. Assim, estabelecer a legiti-
de vida das comunidades; estava baseado midade da perspectiva subalterna —usual-
em conceitos (patrimônio, arqueologia, na- mente negada por a lei e as instituições
cional, objeto, passado, parque) alheios à porque a consideram ilegítima— é uma
cosmovisão Nasa. Por exemplo, o conceito questão política e, ao mesmo tempo, uma
de patrimônio não existe para os Nasa. Os confrontação de legitimidades ancorada a
discursos institucionais diferenciam entre cosmovisões diferentes. Isso não pode ser

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feito apenas apelando para princípios mo- realização de que tudo o que vive lá tem
rais ou boas intenções, tipicamente multi- vida/espírito. O tempo histórico não decor-
culturais —a consulta prévia,4 por exemplo. re; só o que está no lugar acontece. O lugar
Isso só pode ser firmemente estabelecido de seu pensamento vive em fatos e estes de-
desnaturalizando as condições metafísicas e correm. A temporalidade Nasa é resumida
ontológicas em que a legalidade institucio- no conceito neesnxi (permanência): a gente
nal está baseada e mostrar que elas são o re- não esta no tempo, mas no território.
sultado de relações históricas específicas Levar em conta a cosmovisão Nasa e as
atravessadas por relações de poder, que são necessidades e expectativas da comunidade,
parte de uma historicidade vestida de natu- em fim, a sua opinião sobre questões cen-
reza. trais para a sua vida, levou que a relação en-
Para as comunidades de Tierradentro a tre o ICANH e as pessoas de Tierradentro
ilegalidade/ilicitude dos termos de referên- fosse reconsiderada em outros termos. Em
cia do plano de gestão repousava sobre cos- setembro de 2010, a governadora e alguns
movisões em conflito, sobre concepções di- membros do cabildo de San Andrés, a presi-
vergentes da história. A história Nasa não dente da Associação de Cabildos Juan Tama
fica no passado, mas no presente; ela vive em e eu nos encontramos para discutir o plano
quem a enuncia, independentemente de seu de gestão impugnado, sobre a base de que o
status ou condição. Falar do histórico/rela- ICANH aceitava abandonar os termos de
cional em termos arqueológicos com um referência iniciais e que estava disposto a
Nasa é um diálogo desigual porque supõe aceitar novos termos que satisfizeram as
que o arqueológico contem o passado, lem- partes. A comunidade manifestou o seu in-
brado em segmentos de tempo (o bicentená- teresse em participar de um amplo processo
rio da independência, por exemplo). Se o de reflexão e consulta sobre patrimônio, tu-
arqueológico fosse lido desde a cosmovisão rismo, história e território e sobre a sua rela-
Nasa —uma proposta realmente estranha ção com o Estado e os seus vizinhos não
porque os Nasa não compartilham o pensa- indígenas. Para isso foi proposta a metodo-
mento dos arqueólogos— haveria que dizer logia que tinha logrado uma ampla mobili-
que ele não contém o passado, porque este é zação da comunidade em torno de questões
implícito e só obtém relevância no espírito. educativas. Esta metodologia está baseada
A história Nasa não tem tempo tanto como em assembléias e workshops e complemen-
lugar. A temporalidade Nasa está ligada ao tada por grupos de trabalho específicos.
lugar: reside em seres vivos ou mortos como A discussão entre o ICANH, a academia
lugar. Os seres estão sempre no território da e a comunidade tem permitido pensar uma
memória. O território como um lugar é a proposta concebida e formulada desde a
4- A consulta prévia foi estabelecida pelo articulo 6 da base, com ampla participação, para recupe-
Convenção 169 da OIT: “os governos deverão... consultar os rar, reconhecer e reapropriar a memória e o
povos interessados, mediante procedimentos apropriados
e, particularmente, através de suas instituições represen- conhecimento e as relações com o território
tativas, cada vez que sejam previstas medidas legislativas
ou administrativas suscetíveis de afetá-Ios diretamente.” ancestral de wêdx yu’ (reserva de San An-
Embora possa ser considerada um passo na direção certa drés de Pisimbalá). Essa proposta também
(a direção da justiça social), a consulta prévia não é uma
panacéia. Quando é executada em projetos de desenvolvi- busca a recuperação da memória e da histó-
mento em que grandes quantidades de dinheiro estão em
jogo (e, não surpreendentemente, quando as corporações ria da comunidade Nasa de Tierradentro; a
transnacionais estão envolvidas), a consulta prévia pode proteção de sítios sagrados (alguns deles
ser uma simulação de respeito e democracia enquanto só é
uma formalidade cercada por corrupção e ameaças. coincidem como o que o ICANH e os arque-

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ólogos chamam de “sítios arqueológicos”); o formas nômades, a sua economia tradicio-


fortalecimento da educação própria, levan- nal, o uso de línguas vernáculas e se recusa-
do em conta a relação espiritual com o terri- vam a negociar com os brancos e ao uso do
tório; a criação de grupos de trabalho regio- dinheiro, deviam ser reduzidas pela Igreja e
nais (pu’yaksa); e o estabelecimento de mantidas fora da legislação nacional; se as
posições mais informadas sobre turismo, comunidades indígenas já haviam adotado
meio ambiente e educação. O contexto atual o modelo nacional baseado na agricultura, a
em que este trabalho se desenrola é comple- vida da aldeia, o uso do castelhano e o exer-
xo e exige um mínimo de leitura, sobre todo cício da religião católica, sobre elas operaria
porque no campo da semântica, aparente- a jurisdição nacional. A distinção entre indí-
mente inofensivo, são reproduzidas as assi- genas civilizados (já localizados dentro dos
metrias e as relações de força. Por exemplo, limites conhecidos, reduzidos e domados
nos termos de referência do plano de gestão pela moral civilizadora do Estado-nação) e
do ICANH as comunidades foram apresen- incivilizados (localizados fora desses limi-
tadas como “adjacentes” ao parque, negando tes) estabeleceu o desinteresse do Estado
sua centralidade e reforçando o domínio pelo destino da parte mais numerosa e dife-
institucional. Enquanto o ICANH e o esta- renciada da população nativa e, em um ato
belecimento acadêmico seguem falando de de negligência irresponsável, a entregou à
sítios arqueológicos a comunidade fala de sí- Igreja Católica.
tios sagrados. Não são conceitos intercambi- As convenções sobre missões de 1888,
áveis​​, equivalentes entre uma visão de mun- 1908 e 1928 deram a Igreja Católica o con-
do e do outra; eles são, realmente, abismos trole das zonas de fronteira do país, mais da
de diferença. metade do território, onde morava a maior
parte da população indígena. A constituição
Contexto de fato de um Estado (o das missões) dentro
Tierradentro tem uma longa história de de outro (o da república) permitiu que em
desapropriação, violência e luta. Desde o sé- áreas de fronteira (cerca de 3/4 partes da Co-
culo XVII, quando os espanhóis alcançaram lômbia ao início do século XX) a Igreja Ca-
um controle territorial precário, alguns pou- tólica fosse o poder absoluto que dominou a
cos povoados não indígenas sobreviveram vida das comunidades indígenas. A emenda
em uma área que era abertamente hostil a constitucional feita durante o primeiro go-
eles. Os missionários católicos tiveram me- verno de Alfonso López revogou o acordado
lhor sorte: estavam presentes desde os pri- na Concordata, mas o novo acordo assinado
meiros dias da ocupação espanhola, apren- em 1953, no governo de Laureano Gómez,
deram a língua nativa e fizeram sua doutrina restabeleceu os direitos da Igreja, especial-
nela. No final do século XIX o governo co- mente o seu papel na evangelização dos ín-
lombiano apoiou o seu trabalho e, inspirado dios, continuando e acrescentando o traba-
pelo espírito da Concordata de 1887, produ- lho missionário em 18 territórios. Um deles,
ziu a Lei 89 de 1890 que dividiu os índios em criado em 1921, foi a Prefeitura Apostólica
duas categorias: (a) “os selvagens a serem de Tierradentro, com sede em Belalcázar,
reduzidos à vida civilizada” e (b) “as comu- elevada a Vicariato Apostólico em 2000.
nidades indígenas já reduzidas à vida civil.” A violência política da década de 1950
Esta taxonomia estabeleceu que se algumas afetou gravemente aos Nasa. A denúncia do
comunidades indígenas mantinham as suas Padre David Gonzalez (sd) mostrou como o

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governo conservador do Cauca, com o apoio líticas multiculturais que foram acordadas
de mercenários, atacou duramente à popu- pelas instituições globais. Em 1974 começou
lação indígena de Tierradentro, punindo a tomar forma uma nova moralidade nas re-
tentativas nascentes de organização. A cria- lações com os indígenas. O ponto de vira-
ção do Conselho Regional Indígena do Cau- gem foi a Concordata de 1973, ratificada
ca, em 1971, começou a mudar o equilíbrio pela Lei 20 de 1974. Enquanto a Concordata
de forças na região. Embora a igreja conti- anterior e as convenções sobre missões per-
nuasse tendo poder, especialmente na edu- mitiram a criação de um estado dentro de
cação, e os partidos políticos tradicionais um estado encarregado dos indígenas e dei-
ainda puderam implantar sua máquina de xou as mãos livres a Igreja, o novo tratado
clientelismo na região, a organização indíge- com o Vaticano apenas afirmou que “O Es-
na adquiriu força suficiente para desafiar o tado à Igreja cooperarão na rápida e eficaz
poder do Estado e da Igreja. A recuperação promoção das condições humanas e sociais
de terras, a fim de restaurar as reservas ao dos indígenas.” Ainda que os vicariatos e as
seu tamanho colônia e talvez expandi-lo, prefeituras apostólicas continuassem exis-
juntou-se ao fortalecimento das autoridades tindo e a influência da Igreja em áreas indí-
tradicionais e da língua. genas seguiu sendo proeminente, os efeitos
Este difícil cenário moderno pouco inte- dos novos regulamentos do “problema” in-
ressou aos antropólogos. Desde a obra de dígena, a partir de uma perspectiva não as-
Henri Pittier Fábrega (1907), o primeiro es- similacionista e auto-governante, foram
tudioso que trabalhou na área, até os anos imediatos e começaram a definir a política
1990, os antropólogos reificaram a cultura multicultural que seria elevada a status
dos Nasa e a extraíram, assepticamente, do constitucional em 1991. A consagração
contexto. Segundo Bernal (1953a, 1953b, constitucional dos critérios de autonomia e
1954, 1955) é talvez o melhor exemplo. Suas reconhecimento da diversidade cultural ter-
bucólicas e pacíficas descrições da vida Nasa minou por dar forma ao contexto atual, ca-
foram feitas no auge da violência Conserva- racterizado por três elementos que devem
dora mas voam sobre ela sem vergonha, ig- ser levados em conta no planejamento de
norando o genocídio. A exceção foi Anthony políticas públicas relacionadas à arqueologia
Henman; no seu livro Mama Coca (1978) e ao patrimônio: (a) a retórica generalizada
não só criticou a assepsia acadêmica de seus do multiculturalismo, (b) o empoderamento
antecessores senão que mostrou as duras étnico, e (c) o interesse indígena para ques-
condições da vida dos Nasa, presos entre as tões arqueológicas anteriormente ignoradas
políticas segregacionistas dos regimes aris- ou proibidas.
tocráticos caucanos e os assalto à mão arma- O cenário atual, no qual se desenvolvem
da contra os seus territórios, muitas vezes a promoção e a legitimação das diversidades
complementados por legislações que possi- culturais, especialmente étnicas, é a conver-
bilitaram a dissolução de várias reservas. Os gência entre a ordem do capital e as exigên-
arqueólogos, por sua vez, estavam muito cias locais. O surgimento de uma nova legis-
ocupados em suas escavações para notar o lação que objetiva, precisa e estimula as
que estava acontecendo ao seu redor. fronteiras da diversidade pode muito bem
Desde então, muita água passou debaixo ser uma forma de fragmentar a consciência
das pontes. Na década de 1970 o governo de classe e a oposição ao capitalismo multi-
colombiano começou a lenta adoção de po- nacional, mas também é produto da pressão

Arqueo-Etnografia de Tierradentro Cristóbal Gnecco


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dos movimentos sociais. Apesar de que pro- mentos localizados em áreas indígenas e que
move a abertura e a compreensão entre cul- atendiam uma população majoritariamente
turas e subscreve as promessas de igualdade indígena. O decreto foi acordado com as au-
e justiça com as quais estreou a retórica mo- toridades indígenas, respondendo a sua luta
derna há três séculos, a academia contempo- para estabelecer o que chamam de educação
rânea (multicultural, então) não desistiu da própria. Porém, em abril de 2010, o Gover-
sua maneira como trata outras formas de nador publicou o Decreto 0102 sobre esta-
produzir, transmitir e apropriar o conheci- belecimentos educativos indígenas, excluin-
mento. Também não renunciou a seu mono- do estas instituições e violando os acordos
pólio narrativo. Este fenômeno tão perto e com os Nasa de San Andrés com o argu-
onipresente, o multiculturalismo, faz que as mento de que alguns setores da comunidade
disciplinas sociais que procuram superá-lo educativa estavam desconformes. A respos-
terminem alimentando-lo. Esse parece ser o ta dos indígenas foi rápida: o 22 de abril
caso da antropologia: apesar de condenar o ocuparam a escola de San Andrés de Pisim-
colonialismo, apesar de ser a caixa de som balá —cujos alunos são Nasa quanto não
(autonomeada) das lutas da alteridade, seu Nasa— em uma mobilização no âmbito do
horizonte de valoração está construído sobre que eles chamaram de “trabalho coletivo de
o destaque (distante) dos outros. Thomas resistência pelo direito à educação própria.”
(1994:89) observou que os antropólogos A ocupação do colégio ocorreu no mes-
acreditam que os outros têm naturezas espe- mo período de fechamento do hotel turísti-
cíficas e cognoscíveis, preservando o privilé- co e, um pouco mais tarde, do Parque Ar-
gio epistêmico do colonialismo ao mesmo queológico. O hotel foi fechado em junho de
tempo em que rejeitam a sua violência. 2010, citando ameaças contra funcionários,
Tierradentro, especialmente San Andrés e reaberto em dezembro daquele ano, em
de Pisimbalá, é um cenário multicultural grande parte devido ao apoio mostrado pela
onde os outros reais partem do roteiro dos comunidade. Entre junho e julho de 2010, o
outros virtuais e criam conflitos que o Esta- diretor do ICANH enviou comunicações ao
do adjetiva com epítetos antes só dados às cabildo de San Andrés, ao prefeito de Inzá e
organizações armadas. Lá você pode ver ao Diretor de Assuntos Indígenas alertando
como o Estado e seus discursos associados sobre os perigos que corria, em sua opinião,
promovem a alteridade enquanto procuram o patrimônio arqueológico. Parte de suas
limitá-la; quando isso não acontece, se vol- preocupações foi baseada em rumores de
tam para a estigmatização. A educação é o uma tomada do Parque Arqueológico pelos
melhor exemplo, pois em torno dela foram indígenas. A tomada do colégio e a tomada
produzidos os enfrentamentos mais graves do parque surgiram, assim, como duas par-
entre indígenas e não indígenas já vistos na tes de um mesmo propósito: a reivindicação
zona. De fato, seguindo políticas estabeleci- de soberania territorial, cultural e histórica
das desde a década de 1980 e ante a mobili- das comunidades Nasa. Em 30 de agosto de
zação da comunidade, o Governador do 2010 o ICANH decidiu fechar o Parque Ar-
Cauca emitiu o Decreto 0591, em 2009, que queológico argumentando a incapacidade
abrangeu os colégios e escolas de San An- de proteger aos turistas da ameaça de vio-
drés sob critérios étnicos de educação, ou lência. Embora, o assunto foi lido de outra
seja, tratamentos especiais e autônomos, forma por várias lideranças locais: o Estado
considerando que se tratava de estabeleci- procurava limitar o radicalismo indígena

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 16-27 - 2013


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alimentando a agitação dos vizinhos não in- plinar diferente, talvez complementar a for-
dígenas, cuja vida depende em grande parte mas tradicionais de fazer, como propõe a
do turismo que vem para o parque. Feliz- chamada arqueologia pública; implica no-
mente o fechamento não durou muito tem- vos relacionamentos que só podem ser en-
po: o parque foi reaberto em 7 de outubro contrados fora dos portões disciplinares. A
desse ano. A ocupação do colégio terminou nova moralidade que pode ser construída
no final de 2011 através de um acordo, tipi- entre as comunidades e a academia não vai
camente multicultural, alcançado com o surgir das entranhas da ortodoxia discipli-
Governo do Cauca: haverá duas sessões de nar, ocupada em afiar o arsenal multicultu-
aula, uma para os indígenas e outra para os ral com o qual procura canalizar a energia
não indígenas. Mas esta fragmentação mul- dos movimentos sociais em proveito pró-
ticultural não tem porque se estender a ou- prio. Eu acho que surgira de situações novas,
tros âmbitos, como o arqueológico. Em vez como a que está acontecendo em Tierraden-
disso, um cenário diferente é possível de tro, do acompanhamento dos projetos de
atingir. vida daqueles que sempre foram empurra-
dos para as margens da modernidade —
Esboços de um cenário intercul- aqueles sujeitos estranhos de seu lado escu-
tural ro, cuja exterioridade era uma condição
Nestes tempos não há dúvida de que o básica para o funcionamento do projeto
conhecimento é, cada vez mais, um lugar de moderno. De esses sujeitos podemos espe-
batalha, desafio e discussão. O conhecimen- rar a maior impugnação e o trabalho de ree-
to arqueológico antes inquestionável é agora dificação mais importante. O ímpeto de essa
objeto de luta. Os arqueólogos (e o estabele- reedificação sairá de uma condição de exte-
cimento que os apóia) são questionados, rioridade; não de um lugar intocado pela
junto com seu monopólio narrativo. Este modernidade (um afora ontológico) senão
desafio, geralmente originado nas organiza- desde um afora “que está, precisamente,
ções indígenas (agora interessadas em mui- constituído como diferença pelo discurso
tos dos assuntos que os arqueólogos consi- hegemônico. Com a apelação desde a exte-
deravam exclusivamente seus), pode ser rioridade na qual é localizado, o Outro se
respondido com argumentos multiculturais; torna a fonte original do discurso ético vis a
nesse caso, o único que terá sido feito é aco- vis a totalidade hegemônica” (Escobar
modar a disciplina as circunstâncias, tentan- 2005:36). Tal discurso ético está contra o
do preservar seus privilégios. Também pode discurso moderno —contra os discursos
ser respondido com argumentos saídos do que o sustentaram e lhe deram substância,
que pode ser chamado de arqueologia inter- como a arqueologia— com a legitimidade
cultural, um imenso desafio que exige aos política e histórica que dá falar/agir desde a
arqueólogos abandonar seu controle (físico diferença colonial e desde a exterioridade
e retórico) do arqueológico. A relação entre constitutiva. O Outro étnico como o afora
a arqueologia e as comunidades locais pode da modernidade localiza a legalidade e legi-
ser reconstruída por uma moralidade dife- timidade do Ocidente no lugar onde seu
rente tecida em torno de uma agenda co- mistério é desnudado: a modernidade preci-
mum de questões a serem resolvidas, a me- sa do ilegal por a mesma razão que o sujeito
nos importante das quais não é a dominação moderno precisa da alteridade para se defi-
colonial. Isso não implica uma prática disci- nir e limitar. A criação ocidental do legal

Arqueo-Etnografia de Tierradentro Cristóbal Gnecco


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esteve baseada no ilegal. No entanto, o nú-


cleo exposto da questão é queimante. A rei- Referências Bibliograficas
ficada legalidade ocidental é apenas circuns-
Bernal, Segundo
tancialmente contornada, só exposta apenas 1953a Aspectos de la cultura páez: mitología y cuentos de la
em casos específicos enquanto é preservada parcialidad de Calderas, Tierradentro. Revista Colombiana de
em outros. Voltando a Tierradentro, desafiar Antropología 1:279-309.
ao ICANH e trazê-lo para aceitar os termos 1953b Medicina y magia entre los paeces. Revista Colombiana

da comunidade pode ser visto como uma de Antropología 2:219-267.


1954 Economía de los paéz. Revista Colombiana de Antropo-
vitória importante mas, a longo prazo, não é
logía 3:291-367.
tão crucial como quebrar as condições onto- 1955 Bases para el estudio de la organización social de los
lógicas e metafísicas que fazem possível a páez. Revista Colombiana de Antropología 4:165-188.
reificação do legal e do ilegal, tal como são
definidos pelos discursos institucionais; não Chaves, Álvaro e Mauricio Puerta

é tão crucial como estabelecer relações não 1986 Monumentos arqueológicos de Tierradentro. Banco Po-
pular, Bogotá.
autoritárias e não logocêntricas que possam
Escobar, Arturo
preencher o vazio criado pela imposição e 2005 Más allá del Tercer Mundo. Globalización y diferencia.
arrogância, pela operação irrefletida de con- ICANH-Universidad del Cauca, Bogotá.
cepções verticais e policiais sobre patrimô- Gnecco, Cristóbal e Carolina Hernández
nio, arqueologia, justiça, bem-estar. 2008 History and its discontents: stone statues, native histo-
ries, and archaeologist. Current Anthropology 49:439-467.
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 16-27 - 2013


28
ARTIGO

TERRITÓRIO,
LUGARES E MEMÓRIA
DOS ASURINI DO
XINGU
Profª Drª Fabíola Andréa Silva1
1- Docente e Pesquisadora do Museu de Arqueologia e Etnologia. Universidade de São Paulo.
Coordenadora do Laboratório de Estudos Interdisciplinares sobre Tecnologia e Território (LINTT).
Bolsista de Produtividade CNPq (PQ 2).
29

Abstract: Archaeology and ethnoar-


Resumo: A Arqueologia e a Etnoarque- chaeology have searched, among various
ologia buscam, entre vários objetivos, com- objectives, for the understanding of the ways
preender o modo como as populações huma- in which human populations explore, trans-
nas exploram, transformam e gerenciam as form and manage landscapes and their re-
paisagens e os seus recursos e, simultanea- sources and, simultaneously, verify how
mente, verificar como tais comportamentos these behaviors result on the formation of
resultam na formação dos registros materiais. material records. In this work I intend to
Neste trabalho quero contribuir para esta contribute for this research agenda, present-
agenda de pesquisa, apresentando uma refle- ing a contribution on the specific ways in
xão sobre o modo específico como os Asurini which the Asurini of the Xingu – a Tupi-
do Xingu – um povo Tupi-Guarani que vive Guarani population that lives at the margins
às margens do Xingu, no estado do Pará – of the Xingu river, Pará State – apprehend
apreendem o seu território na Terra Indígena their territory within the Kuatinemu Indig-
Kuatinemu e quais os significados que atri- enous Land, and which meanings are attrib-
buem a determinados lugares, bem como aos uted to certain places, as well as to the exist-
vestígios materiais (arqueológicos e históri- ing material record (archaeological and
cos) neles existentes, constituindo o que se historical), constituting what could be de-
pode definir como lugares da memória. fined as places of memory.

Palavras-Chave: Arqueologia, Ter- Key-Words: Archaeology, Territory,


ritorio, Memória, Asurini do Xingu. Memory, Asurini of the Xingu.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 28-41 - 2013


30

A Arqueologia e a Etnoarqueologia bus- ressantes sobre a dinâmica espacial de dife-


cam, entre vários objetivos, compreender o rentes populações indígenas (p. ex.: Noelli
modo como as populações humanas explo- 1993; Eremites de Oliveira 1996; Hecken-
ram, transformam e gerenciam as paisagens berger 1996; Assis 1997; Neves 1998; Wüst
e os seus recursos e, simultaneamente, veri- 1991; Silva 2000; Rodrigues 2007; Moi 2007;
ficar como tais comportamentos resultam Bespalez 2009; Stuchi 2010; Silva e Stuchi
na formação dos registros materiais. Os 2010).
principais temas investigados nesta pers- Neste trabalho quero contribuir para
pectiva tem sido: 1) a disponibilidade e dis- esta agenda de pesquisa, apresentando uma
tribuição dos recursos no ambiente (Bin- reflexão sobre o modo específico como os
ford 1982, 1983a; Politis 1996; Smith 2003); Asurini do Xingu – um povo Tupi-Guarani
2) as atividades econômicas, sociais, políti- que vive às margens do Xingu, no estado do
cas e culturais realizadas em nível local e Pará – apreendem o seu território na Terra
regional (Kent (Ed.) 1987; Tomka 1996; Indígena Kuatinemu e quais os significados
Panja 2003; Hutson et. al. 2007); 3) a conti- que atribuem a determinados lugares, bem
nuidade e/ou ruptura na ocupação local e como aos vestígios materiais (arqueológi-
regional (Wüst 1998; Heckenberger 2001; cos e históricos) neles existentes, consti-
van Gijseghem e Vaughn 2008; Fitzpatrick tuindo o que se pode definir como lugares
2008); 4) as causas e consequências sócio- da memória.
-históricas e culturais dos processos de mo-
bilidade que resultam tanto na formação de Sobre os lugares significativos
grandes assentamentos, quanto na dissolu- Em 1982, Lewis Binford publicou “The
ção ou diminuição de assentamentos (Nel- Archaeology of Place”, artigo onde estabele-
son e Hegmon 2001); 5) a variabilidade dos ce parâmetros para a análise dos sítios ar-
processos de mobilidade uma vez que as queológicos como lugares de atividades hu-
sociedades são distintas (Cameron e Tomka manas cuja configuração e variabilidade
(Eds.) 1996); 6) a complexidade das causas seriam resultantes das atividades econômi-
da mobilidade que podem estar relaciona- cas e sociais de captação e processamento
das com questões ecológicas, políticas, reli- dos recursos disponíveis no ambiente, ao
giosas, ideológicas, cosmológicas, etárias, longo do tempo. Este trabalho orientou vá-
de gênero, sociais, etc (Nelson 2000). Final- rias pesquisas e ainda é citado em muitas
mente, cabe ressaltar que várias dessas pes- publicações sobre arqueologia espacial e da
quisas revelaram ser comum às populações paisagem.
ocuparem e reocuparem locais previamente No entanto, desde 1982, ocorreram mui-
antropizados, que já apresentavam indícios tas mudanças na chamada “arqueologia do
de ação humana. lugar”. Na atualidade, vários autores se de-
No Brasil os estudos arqueológicos sobre dicam a estudar os lugares para além de
o uso do espaço são bastante frequentes, seus significados em termos de organização
tanto para compreender as dinâmicas das e logística sócio-econômica. Os lugares as-
populações caçadoras-coletoras, como das sim como as paisagens passaram a ser en-
populações ceramistas. No entanto, não se tendidos como significativos, adjetivados
pode dizer o mesmo a respeito dos estudos de várias maneiras (p.ex. sagrados, perigo-
etnoarqueológicos, que ainda são poucos, sos, tradicionais, culturais) e estudados em
mas que têm apresentado informações inte- termos de suas biografias, significados me-

TERRITÓRIO, LUGARES E MEMÓRIA DOS ASURINI DO XINGU Profª Drª Fabíola Andréa Silva
31

tafóricos e metonímicos, políticas, lógicas, ga aldeia do Kuatinemu no igarapé Ipiaçava


redes, transformações e persistências (Wi- e realizado um estudo arqueométrico com-
thridge 2004; Stewart et.al. 2004; Carroll parativo entre o material cerâmico arqueo-
et.al. 2004; Brown 2004; Bowser e Zedeño lógico e etnográfico existente na atual aldeia
(Eds.) 2009). Assim, pode-se entender uma do Kuatinemu (p. ex. Silva 2000, 2002, 2003,
“arqueologia do lugar” como “aquela que se 2008, 2009d, 2009e, 2010; Silva e Rebelatto
concentra sobre os modos como as pessoas 2003; Silva et al 2004, 2007).
comunicam significado – tanto simbolica- Em 2007, no entanto, uma conversa com
mente como através da ação – ao seu entor- Apewu Asurini me fez perceber que o foco
no físico e cultural em múltiplas escalas e de minhas pesquisas estava em tempo de
sobre as formas materiais que estes signifi- ser redirecionado. Ele apelou para que eu
cados adquirem” (Zedeño e Bowser 2009:5). conseguisse recursos para um projeto de
As pessoas criam lugares através de suas pesquisa com o objetivo de visitar os anti-
experiências com o meio (tangível e intangí- gos locais de ocupação Asurini na T. I. Kua-
vel), dando significados a eles e produzindo tinemu. Para Apewu “os jovens precisavam
conhecimento sobre os mesmos. Os lugares conhecer a história de ocupação desta terra
tem uma dimensão individual e social, bem e assumir a responsabilidade de zelar pela
como agência para modelar e influenciar as sua preservação”. Com o tempo percebi que
ações das pessoas. Os lugares são irremedia- esta não era uma preocupação exclusiva de
velmente ligados à história e à memória das Apewu, mas tratava-se de uma demanda
pessoas e, por isso, podem também assumir tanto das velhas como das novas gerações
dimensões políticas e identitárias (Bowser e de Asurini. Os velhos queriam rever suas
Zedeño (Eds.) 2009; Stewart e Strathern antigas moradas e possibilitar aos mais jo-
2003a). vens o conhecimento local desta parte de
sua história e os jovens, por sua vez, que-
O território dos Asurini do Xingu riam visitar estes antigos locais de ocupação
Após dezessete anos entre os Asurini do dos seus ancestrais, que eles conheciam
Xingu, pesquisando os processos de produ- apenas dos relatos orais de seus pais e avós.
ção, uso, armazenagem, descarte, inovação, Além disso, havia a preocupação de ambas
transformação da cultura material, trans- gerações em garantir a vistoria e proteção
missão de conhecimentos e, além disso, par- de suas terras contra possíveis invasões de
ticipando de projetos de educação em par- grileiros, posseiros e madeireiros. Atual-
ceria com Regina Polo Müller1 (Silva 2009b, mente, esta é uma questão crucial para os
2009c, 2012a, 2012b), eu nunca havia reali- Asurini que acompanham os embates rela-
zado uma investigação mais aprofundada tivos às tentativas de invasão das terras in-
sobre a ocupação territorial da T. I. Kuatine- dígenas nesta região paraense do Baixo-
mu. Eu havia apenas documentado os vestí- -Médio Xingu e, especialmente, neste atual
gios arqueológicos encontrados na aldeia e contexto de expectativa da construção da
seu entorno, registrado as interpretações Hidrelétrica de Belo-Monte.
Asurini sobre estes vestígios, visitado a anti- Assim, no ano de 2008, formulei o proje-
to intitulado Território e História dos Asurini
1- Projetos financiados pelo CNPq (Cerâmicas e Trançados, Músi-
ca e Dança dos Asurini do Xingu – Edital MCT/MMA/SEAP/SEP- do Xingu. Um estudo bibliográfico, documen-
PIR/CNPq 26/2005) e pelo PNPI-IPHAN/MINC (Documentação e
Transmissão dos Saberes Tradicionais dos Asurini do Xingu – Edital
tal, arqueológico e etnoarqueológico sobre a
001/2005), que foram coordenados por Regina P. Müller. trajetória histórica dos Asurini do Xingu (sé-

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 28-41 - 2013


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culo XIX aos dias atuais) 2. Ele foi concebido da mata, enquanto os demais se dispersa-
como uma proposta de pesquisa colaborati- ram pela área, formando pequenos acam-
va, que procurava compreender as transfor- pamentos localizados próximos das mar-
mações culturais dos Asurini, desde o seu gens do igarapé Ipiaçava.Todos estes locais
encontro com as populações não indígenas, de ocupação eram interligados por cami-
ao mesmo tempo, para satisfazer as suas ex- nhos, fazendo com que os Asurini manti-
pectativas em relação ao resgate do conheci- vessem constante contato entre si, apesar
mento “dos velhos” sobre a sua trajetória e desta estratégica dispersão que, segundo
dinâmica de ocupação territorial nesta área eles, os tornava menos vulneráveis aos ata-
do Xingu, mais especificamente, no entorno ques inimigos.
do Igarapé Ipiaçava. O projeto tinha três ob- Diante da situação de perigo eminente e
jetivos principais: 1) visitar os antigos locais já debilitados pelas perdas populacionais
de ocupação Asurini, na TI Kuatinemu; 2) que vinham sofrendo ao longo dos anos, os
vistoriar partes da TI que há muito anos não Asurini finalmente se renderam ao contato
era percorrido por eles e que poderia estar com os brancos, acreditando ser esta a so-
sendo invadido por grileiros; e 3) fazer um lução para evitar o seu extermínio (Muller,
levantamento do potencial arqueológico 1984/85:92-95, 1990:36-40; Ribeiro,
desta parte da Terra Indígena. 1982:27; Viveiros de Castro, 1986:166-167;
De acordo com as primeiras informa- Fausto, 2001:39-101). Assim em 1971, os
ções sobre os Asurini, datadas do século Asurini do Xingu foram contatados oficial-
XIX, o local mais antigo de ocupação deste mente, primeiramente, pelos padres Anton
povo teria sido a região às margens do alto e Karl Lukesch e, posteriormente pela FU-
curso do Bacajá, de onde se deslocaram NAI, a partir da frente de atração liderada
para o lado do rio Xingu devido às pressões por Antônio Cotrim Soares (Lukesch
dos extrativistas regionais e em função dos 1985). Logo após o contato, a população
ataques das populações indígenas Kayapó. Asurini ficou distribuída em duas aldeias
Eles, então, ocuparam a região dos igarapés localizadas às margens do igarapé Ipiaçava
Piranhaquara e Ipiaçava onde estabelece- (Akapepugui e Kuatinemu). A partir de
ram, desde a década de quarenta, várias al- 1972, no entanto, ela passou a ocupar uma
deias e onde, novamente, foram persegui- única aldeia (Kuatinemu), na margem di-
dos se deslocando, desta vez, para a região reita do igarapé onde permaneceu até 1985
do igarapé Ipixuna. Eles permaneceram quando se transferiu para o local em que se
nessa região até serem expulsos pelos Ara- encontra hoje a nova Aldeia Kuatinemu
weté que para lá se deslocaram – por volta (Coudreau, [1897]1977:33-34; Muller,
da década de sessenta – empurrados pelos 1984/85:91-92, 1987:37-42, 1990:35-40;
grupos indígenas Kayapó e Parakanã. Des- Nimuendajú, 1948:225).
locando-se novamente em direção ao igara- A região do igarapé Ipiaçava foi a última
pé Ipiaçava, a população Asurini ali se fixou terra ocupada pelos Asurini no período pré e
dispersando-se em pequenos grupos cons- pós-contato. Os acampamentos e aldeias que
tituídos de parentes e agregados. Parte de- nela se localizam são testemunhos deste mo-
les se estabeleceu em uma nova aldeia de- mento de suas vidas que, em grande parte, se
nominada Taiuviaka, localizada no interior caracterizou pelas fugas, belicosidade com
outros povos e morte de seus entes queridos.
2- Projeto de pesquisa FAPESP (Processo 2008/58278-6). No entanto, os Asurini não querem esquecer

TERRITÓRIO, LUGARES E MEMÓRIA DOS ASURINI DO XINGU Profª Drª Fabíola Andréa Silva
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Figura 1. Mapa da Terra Indígena Kuatinemu com a localização dos sítios arqueológicos e dos assentamentos
e acampamentos dos Asurini do Xingu.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 28-41 - 2013


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Figura 2. Jovens Asurini auxiliam no trabalho de campo arqueológico. Foto Fabíola Andréa Silva (2010)

esta história e muito menos perder esta terra pamentos (Silva et al 2011). O grupo foi
tendo em vista que ela foi o lugar onde eles composto por 55 pessoas (50 adultos e
puderam prosseguir com o seu modo de vida. crianças Asurini, 3 arqueólogos, 1 auxiliar
Como disse um jovem líder Asurini: de saúde, 1 cozinheira e 1 professora da es-
“É muito bom conhecer nossas aldeias e relembrar dos cola indígena). Durante este período locali-
nossos antepassados, daquilo que eles fizeram, como eles zamos três antigos assentamentos e um
escaparam dos ataques, como foi o encontro deles com os acampamento Asurini, todos situados sobre
brancos. É muito importante conhecer o nosso passado” ocupações pretéritas não-Asurini e áreas
(Ajé Asurini).
com Terra Preta Antropogênica (TPA) (Fi-
Assim, relembrar e reviver a história de gura 1). Durante este tempo, os Asurini fo-
ocupação da T. I. Kuatinemu através da ex- ram fundamentais na determinação dos lo-
periência sensorial com os lugares e a paisa- cais de acampamento e na localização dos
gem, se configura como uma ação simbólica antigos assentamentos e acampamentos de
que remete à tradição oral e à memória e seus antepassados. Os velhos moradores das
que, portanto, tem conteúdo e significado aldeias e acampamentos mostraram uma
identitário. memória muito precisa sobre a localização e
a distribuição das estruturas e dos espaços
Os lugares da memória na T.I. domésticos e coletivos nestes locais de habi-
Kuatinemu tação, sendo que vestígios materiais foram
Em 2010, durante doze dias, subimos o facilmente detectados através das prospec-
Igarapé Ipiaçava e acampamos às suas mar- ções. Além disso, os assentamentos ficavam
gens para localizar as antigas aldeias e acam- em locais visivelmente domesticados em

TERRITÓRIO, LUGARES E MEMÓRIA DOS ASURINI DO XINGU Profª Drª Fabíola Andréa Silva
35

neste lugar... Eu falei com meu pai quando ele estava mor-
termos da paisagem. Inúmeras espécies ve- rendo e ele me disse que quando eu viesse aqui eu deveria
getais, a exemplo de cuieiras, bananeiras, li- rezar para ele me proteger, para ele controlar as chuvas,
moeiros, urucuzeiros e pés de algodão, são para ele não deixar as doenças me pegarem. Isto foi o que
ele me disse. Eu sempre peço estas coisas para ele.
comuns nos antigos assentamentos Asurini,
assim como as chamadas capoeiras; eles, in- No final das atividades neste local per-
clusive, revisitam eventualmente alguns des- guntei a um deles o que ele havia achado do
tes locais antigos para coletar estes recursos. trabalho arqueológico realizado, bem como
A pesquisa arqueológica foi eminente- dos seus resultados. Foi interessante perce-
mente oportunística e conduzida para con- ber que a prática arqueológica foi identifica-
templar os interesses da pesquisadora e dos da por Kwain como um trabalho detalhado
Asurini. Assim, todos os seus antigos locais de e organizado – certamente a maioria dos
ocupação ao longo do Ipiaçava foram visita- arqueólogos concordaria com esta definição
dos (Aldeia Kuatinemu Velho, Aldeia Akape- da sua prática de campo e laboratório. Ao
pugui, acampamento Itapemuu, Aldeia Taiu- mesmo tempo, ele fez uma apropriação po-
viaka) e pesquisados do ponto de vista sitiva de seus resultados em termos de seus
arqueológico (coletas superficiais, tradagens e próprios interesses:
poços-teste) – como ressaltei anteriormente, Kwain: A gente pode ver que este trabalho de arqueolo-
todos estes locais eram sítios arqueológicos gia é um trabalho bem detalhado, bem organizado... A
(Figura 2). Os Asurini auxiliaram nos traba- gente está ajudando e também está aprendendo neste
lhos arqueológicos tanto na definição dos lo- trabalho de arqueologia. A gente acha cerâmica e isto
deixa a gente mais contente... Esta cerâmica é a dos mais
cais de coleta e prospecção, como nas ativida-
antigos Asurini.
des de coleta, escavação, peneiramento e
acondicionamento do material Asurini e de Em diferentes contextos já foi observa-
sub-superfície. Na Aldeia Kuatinemu Velho, do que os povos indígenas conectam os
inclusive, eles nos preveniram de que não se vestígios materiais às narrativas sobre o seu
poderia coletar ou intervir no espaço onde es- passado, atribuindo-lhes significados cul-
tavam os vestígios (p.ex. esteios, vasilhas cerâ- turais e históricos. É a tradição oral e a me-
micas) da tavyva (casa comunal). Além disso, mória que embasam as interpretações indí-
explicaram a importância daqueles que ali genas sobre os mesmos e isto os torna
estavam enterrados e o modo como até hoje significativos nos processos de construção
eles interagiam com os mortos e aquele lugar. de suas identidades e de pertencimento aos
Kwain Asurini3: Você está olhando para o cemitério. É lugares (Brown 2004; Carrol, Zedeño, Sto-
proibido perturbar este lugar. Vários pajés estão enterrados ffle 2004; Whitridge 2004; Bowser e Ze-
aqui. Este era o lugar onde estava a tavyva, a casa grande. deño (eds) 2008; Silva 2002, 2009a; Silva et
Manduca Asurini4: Nós não perturbamos este cemitério al 2011). Neste sentido, os registros arque-
porque os nossos pajés mais poderosos estão enterrados ológicos não falam apenas de acontecimen-
aqui. Eles costumavam matar veado, comer sua carne crua tos no passado (histórico ou mítico), mas
e beber seu sangue. Eles eram os mais velhos pajés Asurini. eles também são testemunhos de realida-
Os pajés mais novos não comem a carne crua, só os antigos
des no presente.
faziam isto... comiam a carne crua de vários animais,
anta, veado, qualquer animal...Meu pai está enterrado
Desde que iniciei minha pesquisa junto
aos Asurini registrei as suas explicações e
3- Jovem liderança que na época da pesquisa era o vice-presidente da interpretações sobre os vestígios arqueológi-
Associação Indígena Awaeté Asurini. cos encontrados em suas terras (Silva 2000,
4- Um homem com mais de cinqüenta anos e uma antiga liderança
Asurini. 2002). Durante esta etapa de pesquisa ocor-

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 28-41 - 2013


36

reu o mesmo e todos os lugares e os vestígios rém, segundo os velhos Asurini, eles só são
materiais encontrados na coleta e na pros- encontrados junto à árvore do frutão, lugar
pecção receberam uma explicação Asurini onde Tauvuma mantinha relações sexuais
sobre os seus significados históricos e/ou com este homem-anta e lhe servia o mingau.
cosmológicos (Silva et.al. 2011). Cada vez que consumia o mingau, ele que-
As oficinas líticas existentes nos aflora- brava a vasilha e Tauvuma precisava refazer
mentos rochosos ao longo Ipiaçava, são para suas vasilhas. Ao partir do mundo dos ho-
eles as marcas deixadas por Maira – entidade mens ela se transformou em Tauva, retor-
mítica – na terra mole do firmamento, antes nando apenas em momentos rituais específi-
da catástofre que fez o mesmo desabar sobre cos que evocam o seu espírito (Müller 1990;
os bava – seus ancestrais. Assim, as bacias de Silva 2000; Silva 2002; Silva et al 2011).
polimento são o banco de Maira e os polido- Os Asurini apreendem os vestígios mate-
res em canaleta as marcas de seus pés. Os riais, como sendo a materialização da exis-
vestígios cerâmicos, por sua vez, são atribuí- tência e da presença de seus ancestrais, dos
dos a diferentes personagens míticas e às an- personagens míticos e da sua cosmologia.
tigas ceramistas Asurini. Aqueles de paredes Assim, se pode dizer que eles são objetiva-
grossas teriam sido produzidos por Anumaí, ções de subjetividades, ou ainda, a “encor-
irmã dos xamãs primordiais e a primeira ui- poração” (embodiment) de pessoas (huma-
ratimbé – dona do mingau – que deixou o nas e não humanas) e de relações sociais
mundo dos homens por causa de um con- (entre humanos e entre humanos e seres
fronto com Tapijawara – ser sobrenatural sobrenaturais) (Santos-Granero 2009). Ao
monstruoso – que afogou os humanos com mesmo tempo, os locais onde eles aparecem
as águas do mundo subterrâneo. Anumaí te- são lugares significativos (Zedeño e Bowser
ria jogado suas vasilhas cerâmicas com pare- 2008) aos quais os Asurini atribuem uma
des grossas em Tapijawara para fazê-lo vol- dimensão histórica e mítica – a partir dos
tar às profundezas, sendo que estas se seus próprios regimes de historicidade –,
quebraram restando apenas os fragmentos tornando-os testemunhos da sua ancestrali-
espalhados no chão. Neste episódio, todos os dade, como lugares da memória (Stewart e
Asurini morreram com exceção de Ajaré que Strathern 2003b).
sobreviveu sentado em um banco sobre uma As narrativas Asurini sobre alguns destes
palmeira. Quando as águas baixaram, Ajaré lugares do Ipiaçava, porém, revelam a situa-
reiniciou a vida dos Asurini, pois teve filhos ção de desespero vivida por eles no período
com Uirá uma mulher-pássaro que todos os do contato com os brancos. Não foi à toa que
dias vinha até ele e lhe fazia o mingau. Os quando chegamos à antiga aldeia Akapepu-
restos das vasilhas cerâmicas desses antigos gui – acampamento do padre Anton Lukesh
Asurini que morreram, até os dias de hoje, que se tornou uma pequena aldeia por eles
estão espalhadas pela superfície da terra. Os ocupada antes da instalação da aldeia do
fragmentos cerâmicos de paredes finas, por Kuatinemu Velho pela FUNAI – eles ficaram
outro lado, pertenceram a Tauwuma, uma profundamente tristes ao lembrarem de to-
mulher que abandonou o mundo dos vivos dos aqueles que sucumbiram naquele lugar
depois que o seu irmão assassinou o seu “na- vítimas, especialmente, de doenças trazidas
morado”, um homem-anta. Esses fragmentos pelos “brancos” (Lukesh 1985). Pela primei-
são finos como os dos Asurini – daqueles ra vez – após quinze anos de pesquisa – pude
que viveram nestes locais e dos atuais – po- de fato compreender o porquê da resistência

TERRITÓRIO, LUGARES E MEMÓRIA DOS ASURINI DO XINGU Profª Drª Fabíola Andréa Silva
37

deia Taiuviaka que foi a


última aldeia Asurini pré-
-contato, também trouxe
lembranças tristes “do
tempo em que ainda ha-
via muitos Asurini viven-
do no Igarapé Ipiaçava”.
Muitos Asurini que mor-
reram no evento do con-
tato em Akapepugui fo-
ram transportados e
enterrados neste local. É
interessante ressaltar que
a interação com esse lugar
Figura 3. O acampamento Itapemuu em 1971. Fonte: LUKESH, A. Bearded Indians of
possibilitou, para alguns,
the Tropical Forest. Graz/Austria: Akademische Druck – u. Verlagsanstalt.1976. p.107. o retorno a este passado
através de experiências
dos Asurini em retornar a aldeia Akapepu- sensoriais que os uniram aos seus antigos
gui. Este lugar foi sempre considerado peri- moradores; o relato de um jovem Asurini
goso por eles, pois está repleto de anyngas revela a intensidade deste tipo de experiên-
(espíritos) que podem afetar física e espiritu- cia:
almente os vivos. Nossa visita a esta antiga Ajé: Eu e Tukura5 ficamos sentados na capoeira próxima
aldeia trouxe de volta essas lembranças e vá- da aldeia Taiuviaka e ficamos conversando sobre como
rios relatos foram formulados pelos velhos teria sido a vida dos velhos ali naquele lugar, o que eles
Asurini enquanto realizávamos as atividades teriam passado, como deve ter sido difícil para eles fica-
rem fugindo dos outros índios… quase dava para a gen-
de coleta e prospecção. Após visitarmos Aka-
te sentir o que eles tinham passado ali.
pepungui, dois integrantes do grupo adoece-
ram – a professora da aldeia e um indígena Outro aspecto importante a ser conside-
Arara que vive com os Asurini há vários anos rado nesta relação dos Asurini com os luga-
– e os pajés atribuíram seu mal-estar a influ- res e os vestígios materiais neles existentes
ência do espírito (anynga) de um perigoso diz respeito ao modo como eles atuam no
pajé cuja intenção seria manter estas pessoas processo de construção da identidade e de
junto dele naquele lugar. Para libertar os dois pertencimento ao lugar que constitui hoje o
indivíduos desta influência e restaurar seu seu território de vivência, a Terra Indígena
ynga (princípio vital), os pajés realizaram vá- Kuatinemu, demarcada pela FUNAI, nos
rias práticas terapêuticas e, através do sonho, anos oitenta. Isto ficou evidente por ocasião
apaziguaram a ira do referido pajé. Este de nossa busca pela Aldeia Taiuviaka que
evento me foi relatado por um jovem pajé, ficava no interior da mata, a quatro quilô-
vários meses depois da viagem. Como se metros do igarapé Ipiaçava. Durante o tra-
pode perceber o significado inscrito nos lu- balho de localização eles observaram a ocor-
gares está intrinsecamente relacionado com rência de uma “picada”, ou seja, uma
as experiências nele vividas no passado e/ou derrubada de mata feita pelos brancos com
no presente (van Dyke 2008; Strang 2008).
5- Jovem Asurini, filho de um pajé que morreu de tuberculose na
Outros lugares como, por exemplo, a al- Aldeia Kuatinemu.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 28-41 - 2013


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em que os Asurini dei-


xam seus rastros de vida
nestas terras, seguindo
aqueles de seus antepas-
sados e ancestrais míti-
cos. A viagem pelo Ipia-
çava é um exemplo disso,
pois nós revistamos os
lugares de seus antepassa-
dos e inscrevemos neles
nossas experiências,
unindo passado e presen-
te (Figura 3 e Figura 4).
Esta experiência jun-
Figura 4. O acampamento Itapemuu em 2010. Foto Fabíola Andréa Silva (2010)
to aos Asurini me faz
concordar com a pers-
marcações que indicavam uma provável in- pectiva de Lane (2008:242) que afirma que
tenção de ocupação da terra. Este fato cau- as “paisagens não são estáticas, formas ins-
sou uma profunda revolta, especialmente, critas e convencionalmente documentadas
nos jovens Asurini que resolveram construir por cartógrafos, arqueólogos e geógrafos
algumas tukaias6 em diferentes pontos desta históricos, mas são fenômenos temporais
picada como um aviso aos invasores “de que com múltiplos e, muitas vezes, sobrepostos
esta terra tem dono”. Na volta ao acampa- ritmos que decorrem do processo de ocu-
mento base às margens do igarapé Ipiaçava pação humana ou, em outras palavras, do
eu pude conversar com os jovens e testemu- estar na terra”. Para os Asurini do Xingu a
nhar seus sentimentos com relação ao fato: ocupação e o conhecimento da T.I. Kuati-
Fabíola: Kwain, o que você sentiu quando percebeu nemu possibilita a eles a (re)vitalização de
aquela picada de brancos em suas terras? sua memória e tradição oral, reforçando a
Kwain: Eu senti revolta e constrangimento porque eles
sua identidade e o seu pertencimento a
entraram na nossa área, no lugar onde estão as velhas esta terra que eles chamam de ure yvi (nos-
aldeias. Eu senti desgosto ao ver aquela picada de bran- sa terra), a terra dos Asurini do Xingu.
co. O lugar onde nossos antepassados viveram por tanto
tempo, o homem branco agora quer controlar. Eu não Palavras Finais
aceito este tipo de coisa e nossa vinda para este lugar é
Em 2011, após quarenta anos de contato
muito importante. O que eu realmente espero encontrar
são as aldeias mais antigas de que nosso povo fala. Esta
oficial, os Asurini dividiram-se e formaram
viagem está sendo difícil. É difícil de chegar neste lugar, uma nova aldeia - Aldeia Itaaka, situada no
mas é muito importante ver de perto o que está se pas- extremo norte da T.I. Kuatinemu, na mar-
sando com as nossas terras. gem direita do rio Xingu. Foi o grupo do-
Os Asurini do Xingu acionam a sua me- méstico do falecido Kurijá, um grande pajé,
mória e tradição oral para estabelecer seus que fundou esta aldeia a partir da intrépida
vínculos a estas terras do Xingu. Estes vín- liderança de Kwain, seu filho mais velho. Ita-
culos, por sua vez, se reforçam na medida aka é o nome da aldeia onde nasceu Tureí, a
avó de Kwain e, segundo ele, foi ela que no-
6- Um abrigo feito de folhas de palmeira e que é utilizado pelos homens
durante a caçada para espreitar e surpreender os animais na mata. meou esta nova aldeia com o mesmo nome

TERRITÓRIO, LUGARES E MEMÓRIA DOS ASURINI DO XINGU Profª Drª Fabíola Andréa Silva
39

do seu lugar de nascimento. Essa antiga al- od and Theory, 11(1):31-58.


deia ficava às margens do alto rio Bacajá, de Browser, B. J. e Zedeño, M. I. (eds). 2009. The archaeology
of meaningful places. Salt Lake City. The University of Utah Press.
onde eles foram expulsos, muitos anos antes
Cameron, C.M. e Tomka, S. (Eds.). 1996. Abandonment
do contato com os brancos. Tureí veio ao
of settlements and regions: ethnoarchaeological and archaeological
mundo em Itaaka e, provavelmente, irá approaches. Cambridge: Cambridge University Press.
completar seu ciclo de vida na nova Itaaka. CARROLL, A.K.; ZEDEÑO, M.; STOFFLE, R.W. Landscapes
Penso que este é o modo dos Asurini evi- of the gost dance: a cartography of numic ritual. Journal of Ar-
denciarem a ligação entre o passado e o pre- chaeological Method and Theory, 11(2):127-156. 2004.
COUDREAU, H. 1977. Viagem ao Xingu. São Paulo, Ed. Ita-
sente e, ao mesmo tempo, de afirmarem sua
tiaia/EDUSP.
persistência cultural e demonstrarem que
EREMITES DE OLIVEIRA, J. 1996. Guató – Argonautas do
eles nunca vão acabar, pois eles sempre en- Pantanal. Porto Alegre, Edipucrs.
contram um lugar onde podem recomeçar e FAUSTO, C. Inimigos Fiéis. São Paulo, EDUSP. 2001
dar continuidade ao seu modo de vida. Fitzpatrick, S.M. 2008. Maritime interregional interec-
tion in Micronesia: deciphering multi-group contacts and Ex-
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AGRADECIMENTOS: À FAPESP pelo
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 28-41 - 2013


42 COSMO-
ARTIGO ONTOLÓGICA
MBYÁ-GUARANI:
DISCUTINDO
O ESTATUTO
DE “OBJETOS”
E “RECURSOS
NATURAIS”
Sergio Baptista da Silva11
1 -1- Núcleo de Antropologias das Sociedades Indígenas e Tradicionais - NIT
Programa de Pós-graduação em Antropologia Social – PPGAS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul-UFRGS
sergiobs@terra.com.br
Resumo: Neste artigo apresento algu-
mas reflexões oriundas da experiência na Abstract: In this article I present
elaboração de três relatórios circunstancia- some ideas from the experience in the de-
dos de identificação e delimitação de terras velopment of three detailed reports for iden-
indígenas no Rio Grande do Sul. Este traba- tification and demarcation of indigenous
lho surgiu como uma demanda dos Guarani lands in Rio Grande do Sul. This work
e foi realizado em colaboração com a FU- emerged as a demand of the Guarani and
NAI, contando com a participação de um was carried out in collaboration with FUN-
grupo técnico composto por antropólogos, AI, with the participation of a technical
arqueólogos, geógrafos, socioambientalis- group composed of anthropologists, archae-
tas, botânicos e zoólogos. O território anali- ologists, geographers, botanists and zoolo-
sado compreendeu áreas geográficas ao sul gists. The analysed territory included areas
de Porto Alegre, conhecidas como Itapuã, from the south of Porto Alegre, known as
Morro do Coco e Ponta da Formiga, situa- Itapuã, Morro do Coco and Ponta da For-
das às margens do Lago Guaíba ou da Lagu- miga, situated on the shores of Lake Guaíba
na dos Patos. A partir destas experiências, or Laguna dos Patos. From these experi-
discutimos neste artigo a territorialidade ences, we discuss in this article the territori-
guarani como uma cosmo-ontológica, enfo- ality guarani as cosmo-ontological, focusing
cando as relações, de um lado, entre corpo e on relationships, between body and territo-
território e, de outro, entre natureza e cultu- ry and, on the other hand, between nature
ra ou objeto e sujeito, discutindo e proble- and culture or object and subject, discussing
matizando as articulações entre os campos and questioning the relations between the
da Antropologia e da Arqueologia, tomando fields of anthropology and archeology, tak-
como pano de fundo a cosmologia e a onto- ing into account the cosmology and ontol-
logia destes coletivos ameríndios. ogy of these Amerindians collectives.

Palavras-chave: guarani, território, Keywords: guarani, territory, archae-


arqueologia, antropologia ology, anthropology

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 42-54 - 2013


44

Gostaria de refletir neste artigo sobre a mente por nós chamados de “objetos
experiência relativa à elaboração de três re- inanimados”, tendo por fim problematizar
latórios circunstanciados de identificação e estas percepções analíticas, externas, euro-
delimitação de terras indígenas no Rio referenciadas e disciplinares destas catego-
Grande do Sul, em colaboração com a Fun- rias que costumamos designar como artefa-
dação Nacional do Índio (FUNAI). Partici- tos ou adornos. Da mesma forma, estarei ao
pou das pesquisas e redação destes relató- longo deste artigo refletindo sobre o estatuto
rios um grupo técnico que abrigou uma cosmológico mbyá-guarani daquilo a que
série de profissionais oriundos de diferentes nos referimos como “recursos naturais” ou
especialidades: antropólogos, arqueólogos, “recursos minerais”, enfatizando-os unica-
geógrafos, socioambientalistas, botânicos e mente enquanto elementos da economia, da
zoólogos. sustentabilidade e da “natureza”.
O território analisado compreendeu áre- Neste sentido, inicialmente, gostaria de
as geográficas ao sul de Porto Alegre, conhe- trazer alguns exemplos etnográficos ocorri-
cidas como Itapuã, Morro do Coco e Ponta dos no contexto destas pesquisas, tendo
da Formiga, situadas às margens do Lago como objetivo compreender as categorias e
Guaíba ou da Laguna dos Patos, grandes ex- conceitos êmicos que compõem os estatutos
tensões de água que interligam estes três ter- cosmológicos mbyá-guarani de “colar-pul-
ritórios indígenas entre si. seira-adorno”, “espécies animais e vegetais” e
O processo de identificação destas áreas “areia”, com todas as implicações decorren-
decorreu de uma série de demandas indíge- tes para as duas disciplinas acadêmicas aqui
nas, iniciadas há décadas pelos guarani, e comentadas.
que resultou, inicialmente, em estudos pre- Como comentário inicial, quero dizer
liminares por parte da FUNAI, até a consti- que os vegetais, animais, recursos minerais
tuição do referido grupo técnico em 2008, e, por consequência, os ”objetos”, não são
para estudar os três casos específicos. percebidos pelos mbyá como elementos dis-
A partir destas experiências de campo, o tantes, relacionados a uma categoria separa-
objetivo deste artigo é o de discutir a territo- da e afastada do humano, como pode se ver
rialidade guarani como uma cosmo-ontoló- nos exemplos etnográficos a seguir. Ao lon-
gica, enfocando as relações, de um lado, en- go dos itinerários percorridos no trabalho
tre corpo e território e, de outro, entre de campo do GT, muitos outros “remédios”,
natureza e cultura ou objeto e sujeito, discu- frutos, animais, plantas e minerais, com suas
tindo e problematizando as articulações en- propriedades imateriais agentivas, foram
tre, principalmente, os campos da Antropo- vistos, observados, comentados, pelos sur-
logia e da Arqueologia, tomando como pano preendidos e agora alegres guarani diante
de fundo a cosmologia e a ontologia destes destes existentes do seu cosmos, imprescin-
coletivos ameríndios, através da etnografia díveis para compor/fabricar/fixar seus cor-
realizada neste contexto de laudos, e que pos e pessoas. Vejamos alguns deles.
pretendeu ser o mais simetrizante possível
em relação aos conhecimentos e aos concei- 1. Guapo í
tos destes coletivos. Taussira: Guapo í em guarani. E figueira
Deste modo, uma parte significativa des- em português
te texto estará centrada na discussão do es- Sergio: E qual é o uso que os mbya dão
tatuto cosmológico guarani dos analitica- para o guapo í?

C O S M O -O NT O L Ó G I C A MBYÁ-GUARANI: D IS C U T IN D O O E S T A T U T O DE "OBJETOS" E "RECURSOS NATURAIS" Sergio Baptista da Silva


45

Taussira: Guapo í é para ficar forte. No Rogério: Isso aí; é remédio para ficar for-
dia que quiserem brigar contigo, que que- te.
rem te pegar, aí não vão te pegar. Sergio: Para a criança ficar forte que
Sergio: E como faz para pegar essa forta- nem o Guapo í.
leza do guapo í? Rogério: Se eles brigarem com alguém,
Taussira: A gente tira a casquinha para a ninguém aguenta.
gente botar no pulso, tipo pulseira e depois Sergio: Isso os guarani costumam fazer
tirar a seringuinha também dele, o mel dele sempre. Só que agora está difícil de fazer,
passa em cada junta que a gente tem. não tem mais o guapo í.
Sergio: Nas juntas das mãos? Rogério: Não tem mais, mas antigamen-
Taussira: Na mão e da perna, do joelho te...
também. Sergio: Todo mundo fazia. Conta como
Sergio: Para ficar forte? é que faz. Pega a casquinha...
Taussira: Para ficar forte! Rogério: Tira a casquinha, amarra em
Sergio: A seringuinha que tu dizes é a toda juntinha que vai usar, na pele, para ficar
aguinha que sai lá de dentro? forte.
Taussira: O leite dele que sai quando a Sergio: Em cada junta bota uma casqui-
gente corta. nha daí, cotovelo, pulso, perna, cintura. Até
Sergio: Da casquinha faz algum trança- no pé também?
dinho? Rogério: Não.
Taussira: Faz um trançadinho para botar Sergio: Até o joelho.
no pulso. Rogério: Até joelho só.
Sergio: E quem é que usa, criança, adulto? O mato, como se vê, é o local onde estão
Taussira: Todo mundo. presentes inúmeras alteridades extra-huma-
Sergio: E guapo í tem nas outras aldeias nas que possuem vontade, propriedades
ou é muito difícil? imaterias, e com os quais é possível relacio-
Taussira: Desse guapo í mesmo acho que nar-se. Estes “outros”, e as relações que os
não. Não vi ainda. guarani com eles estabelecem, são impres-
Sergio: Tu não viu ainda? cindíveis para a manutenção de seus corpos
Taussira: Eu vi aqui no mato. e pessoas, aproximando-os do modo de per-
O interlocutor indígena Rogério, na feição, da divindade.
Ponta da Formiga, ao encontrar uma espé- Nele, processam-se os ensinamentos fei-
cie particular de figueira, faz um importan- tos pelos mais velhos. Nele são socializadas
te relato sobre esta alteridade vegetal im- as crianças e os jovens, e os saberes são
prescindível para a reprodução cultural transmitidos.
guarani.
Rogério: Usa para remédio. 2. Tujá renîpî-a
Sergio: E para que daí, Rogério? É um exemplo muito significativo, pois
Rogério: Tira a casquinha e amarra para além de demonstrar o entusiasmo e alegria
a criança ficar forte e ninguém segura ela. dos interlocutores indígenas na constatação
Guapo í quando segura ele termina com a da presença de mais um elemento vegetal
madeira, se pegar na madeira já era. não mais encontrado em suas aldeias, remete
Sergio: Ela mata outra árvore. É uma ár- à agência deste ser na constituição dos cor-
vore forte. pos e das pessoas de mães e recém-nascidos.

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Jaime: Quando a mulher tiver com bebê Sergio: Como é que faz uma oração para
novinho, pode tomar banho só com isso, ficar forte?
não pode tomar banho simplesmente com Sebastião: Na nossa língua é diferente.
água. Pode cozinhar para tomar banho só Sergio: Fala na língua dos guaranis, va-
com isso aí enquanto estiver com dois, três mos ver?
meses. (...) Na realidade, antes de três meses Sebastião: Quando bota assim o colar,
pode tomar só com esse aí. pode falar na nossa língua assim: (fala em
Sergio: Como é o nome dele, repete aqui guarani). Eu disse assim: Deus fez a oração
para a câmera? com a ponta do rabinho do tatu para eu ficar
Jaime: Tujá renîpî-a. forte, porque o deus está vendo. Ninguém
Sergio: A mulher usa para que essa plan- me prejudique em nada e até hoje eu vou fi-
ta no banho? car forte.
Jaime: Tujá renîpî-a que a gente chama, Sergio: E tu alguma vez usaste o colar
para mulher quando está com as crianças com o rabinho do tatu?
novas, os maridos delas procuram esse re- Sebastião: Usei muitas vezes.
médio para cozinhar para ela tomar banho. Sergio: Então deve ser por isso que tu és
Sergio: E serve para que para mulher? forte e está com 77 anos.
Jaime: Para se sentir bem, ver como está, Sobre o uso de colares, em geral, Sebas-
com força ou não, tomar banho com isso aí, tião relata:
se sente forte. Sente que o bebe está maman- Sergio: Mas esses colares que a piazada
do bem, descendo o leite bem. usa hoje em dia, também são importantes?
Sergio: E no Cantagalo não tem? Sebastião: São importantes, mas para fa-
Jaime: No Cantagalo não tem; seria im- zer o conjunto, mas tem que confiar em
portante se a gente pudesse levar umas mu- Deus, não é para fazer assim, olha, só para
das também. brincar, não. Tem que confiar em Deus.
Sergio: Sempre que tu colocas uma coisa
3. Colares no colar, tem que pedir para Deus?
O guarani Sebastião, morador da Terra Sebastião: Pedir para Deus sempre que
Indígena do Cantagalo, esclarece-nos sobre tem encontro ali ... tem que botar ele para
o uso de colares em geral e, em particular, Nhanderu... Então Nhanderu vai proteger
sobre aqueles com a presença do rabo do ele para não acontecer nada.
tatu. Sergio: E o colar já traz junto essas pro-
Sebastião: Nós usávamos o rabinho do teções. Porque no colar, por exemplo, eu es-
tatu daquele mais fininho para botar no co- tava falando do rabinho do tatu, mas tam-
lar. bém tem colar de semente
Sergio: E para que serve o rabinho do Sebastião: Eu sei, porque no meio, que-
tatu? rem botar dois tipos, um do lado do outro, e
Sebastião: Para ser forte. O tatu, tu agar- o rabinho do tatu fica no meio. O que signi-
ra ali, vai na toca, tu pega no rabinho e tu fica do mesmo jeito que um santo que vocês
não tira na hora, não. Ele é forte, é pequeno, fizeram. Um santo para nosso cristo, para
mas você não vai tirar na hora. nosso pai, para nossa mãe e tudo o que o
Sergio: E se usa o rabinho dele no colar, o santo foi feito.
que acontece com a pessoa que usa o colar? Sergio: E que tipo de sementinha usa
Sebastião: Faz oração para ficar forte. nos colares?

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Sebastião: tem sementinha de dois tipos, caçar ... passarinho. Quando a criança vive
miudinho, pode ser chamar, daquele miudi- em cima dessa areia, ela está feliz; para pes-
nho bem pretinho e mistura com aquele do car é boa essa areia. É como uma farinha de
rosário, daquela semente mais grandinha. terra ou de pedra. Quando é amarela é yvyju.
Sergio: É uma branca e uma preta, é Ela é boa, é sagrada. Yvy porã”.
isso? Mariano: É, farinha de terra. Por exem-
Sebastião: É, ... e uma preta. Podia botar plo, a gente fala itakuí.
três sementinhas pretas e a do rosário tam- Sergio: Porque também é uma farinha
bém tem que botar um, um de cada lado, já de pedra?
vai ficar muito respeitado. Também serve. Mariano: Sim, é parecido.
Sergio: E para que serve estas sementi- Sergio: E quando ela é amarela vocês
nhas? chamam de yvyju?
Sebastião: É sagrada, do nosso Cristo Mariano: Quando é amarelo é yvyju
Sergio: E qual é o nome da sementinha Sergio: E ela é boa?
pretinha? Mariano: A gente chama de yvy porã ...
Sebastião: Essa daí eu não sei, na língua Sergio: Yvy porã ou yviju.
... Mariano: Yvyju é terra sagrada.
Sergio: E em guarani como é que é? Ao longo dos trabalhos de campo, como
Sebastião: Ivy a ü se pode observar através destes poucos exem-
Sergio: Que é preto? plos, os interlocutores mbyá-guarani trouxe-
Sebastião: Bem pretinho. ram uma rica e densa gama de preceitos so-
Sergio: E isso o karaí benze ou não pre- ciocosmológicos, baseados solidamente nas
cisa? suas concepções cosmológicas e ontológicas,
Sebastião: Não. Não sei. É duas partes, a com clara relação à temática da continuidade
do karaí é outra. A gente que tem confiança de seu modo de ser. Em outras palavras, a ex-
em Nhanderú trabalha por dentro, mas periência etnográfica relatada conecta-se
nunca pergunta o que fazer. É muita coisa inexoravelmente a uma práxis tradicional
que tu estás sabendo que para nós nos ali- guarani possível nos ambientes ecológicos
mentarmos é muita coisa. O cacique nem presentes nas áreas estudadas, revelando
que seja estudado não sabe. Que por minha uma condição de não separação entre os con-
parte eu sei. Eu como um pouquinho, se tem ceitos de cultura e natureza. Esta divisão on-
mistura eu como bem pouquinho. tológica entre natureza e cultura, animais e
humanos, plantas e humanos, minerais e hu-
4. Yvyju manos, objeto e sujeito, sociedade e indiví-
Em outro momento do campo, o interlo- duo, humanos e não humanos, entre tantas
cutor mbyá Mariano, além de refletir sobre a outras, costuma ocorrer nas sociocosmolo-
indissociável relação entre crianças guarani, gias euroreferenciadas, marcadas por concei-
felicidade e terra sagrada, indica-nos a ex- tos antagônicos, que indicam oposições biná-
tensão ou alargamento do conceito êmico rias, sem conectividade entre seus termos.
guarani de terra sagrada, para além da mata, Daí, certamente, nossas dificuldades e cons-
quando fala da importância das faixas are- trangimentos cosmológicos, na compreen-
nosas litorâneas, aqui particularmente sobre são de inúmeros preceitos êmicos mbyá-gua-
o Arroinho, na Ponta da Formiga: rani, essencialmente importantes para o
“Essa areia para nós é importante para entendimento das suas noções de corpo e

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território, e imprescindíveis para o entendi- Por outro lado, procuro associar, tal qual
mento e continuidade da noção de pessoa os guarani nos indicavam em suas falas e
mbyá-guarani, nas suas especificidades face ações, seu sistema de objetos com outros sis-
às relações com outros seres extra-humanos. temas simbólicos de seu contexto cultural,
Com relação àquilo que no “ocidente”, ou tais como o social e o mito-cosmológico.
melhor, em contextos euroreferenciados, Os atuais estudos sobre arte indígena
denominamos “cultura material”, podemos têm “aportado evidências importantes para
dizer que o estatuto dos objetos neste con- a análise das ideias subjacentes a campos e
texto sociocosmológico e histórico é bastan- domínios sociais, religiosos e cognitivos”
te distinto, pois tais “objetos” possuem agên- (Vidal, 1992:13). Ainda de acordo com a au-
cia na constituição de corpos e pessoas, além tora, “manifestações simbólicas centrais
de serem materializadores de significados para a compreensão da vida em sociedade”,
socioculturais importantes e de memórias como concepção da pessoa humana, sua ca-
de encontros passados, num quadro teórico racterização social e material, expressão da
que encara estas manifestações de arte como ordem cósmica, são comunicadas por este
o resultado do encontro com alteridades hu- sistema altamente estruturado, que são as
manas e extra-humanas (animais, plantas, manifestações estéticas de uma sociedade
divindades, e outros seres do cosmos, com- indígena. Em outras palavras, a arte “mate-
preendidos enquanto personas), constituti- rializa um modo de experiência que se ma-
vas de fluidas, compósitas e cumulativas nifesta visualmente”, principalmente na de-
identidades. coração do corpo e no sistema de objetos,
Portanto, tais objetos de arte (colares, permitindo que os membros de uma socie-
pulseiras, cestos, etc.) são a materialização dade vejam-se ao olhar seus grafismos e ob-
de encontros com alteridades extra-huma- jetos (Van Velthem, 1994:86). Neste sentido,
nas, imprescindíveis para a constituição e consideramos a arte indígena como um sis-
transformação de seus corpos, na medida tema de signos compartilhados pelo grupo e
em que possuem agência e estão interliga- que possibilita a comunicação (Vidal & Lo-
dos a uma série de imagens virtuais, sono- pes da Silva, 1992). Estas manifestações vi-
ras, rituais e mito-cosmológicas. suais são a expressão estética de identidades
Além disso, considerando que “as mani- étnicas e culturais.
festações artísticas condensam significados Além de expressar esteticamente identi-
culturais fundamentais para cada socieda- dades, igualmente, certos artefatos certos
de” (Vidal, 1992), estou interessados no con- artefatos têm o poder de materializar mate-
teúdo simbólico que estas manifestações rializar memórias de encontros passados,
estéticas expressam, uma vez que a arte sig- conforme a discussão teórica atual sobre o
nifica e não apenas representa. estatuto dos artefatos nas cosmologias ama-
Estas manifestações estéticas são siste- zônicas (Descola, 1996, 1998, 2005a, 2005b;
mas de representação que procuram expli- Viveiros De Castro, 1979, 2002; Van Vel-
car como a sociedade pensa a si própria e o then, 1994, 2003) e de acordo com outras
mundo que a rodeia. Nesse sentido, são en- referências bibliográficas (Strathern, 2006;
caradas como um código visual de comuni- Gell,1998).
cação, extrapolando uma análise estilística Como já disse em outro lugar (Baptista
e/ou descritiva, para desvelar seus conteú- da Silva, 2010) e exemplificando esta esta
dos semânticos. relação entre objetos e pessoas em uma cos-

C O S M O -O NT O L Ó G I C A MBYÁ-GUARANI: D IS C U T IN D O O E S T A T U T O DE "OBJETOS" E "RECURSOS NATURAIS" Sergio Baptista da Silva


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mologia amazônica, temos o caso mbyá- eles estabelecem uma ponte de comuni-
-guarani, cujo sistema classificatório dos cação com Ñanderuvuçu, constituindo-se
grafismos estabelece categorias de sentido, em uma “aproximação desejada e controla-
nos quais se observa que os significados da pela comunidade com o mundo sobrena-
por ele indicados enfatizam conceitos de tural” (Gallois, 1992:228, referindo-se aos
uma ecologia simbólica, isto é, de um es- Waiãpi), uma vez que representam os ele-
quema cultural de percepção e concepção mentos primevos do cosmos, criados pelos
do meio ambiente que aponta para concei- heróis míticos, e eles próprios.
tos cosmológicos. Em outras palavras, a
arte mbyá evidencia em seus padrões gráfi- Em resumo, tem-se que a origem divina
cos os domínios da natureza e da sobrena- dos grafismos presentes na cultura material,
tureza, através da representação de seres origem esta exterior ao domínio dos huma-
primevos: deuses, animais, vegetais e de- nos, da sociedade, está bem marcada e conti-
mais elementos do cosmos, com a exclusão nua a ser lembrada e reatualizada atualmente,
da figura humana, de artefatos culturais e o que evidencia o vínculo entre a ornamenta-
outros itens de sua organização social. O ção (da cultura material e também dos cor-
domínio do humano, portanto, parece estar pos) e o mundo da sobrenatureza.
excluído do sistema de representação visual A pintura corporal, e, de um modo geral,
guarani. os grafismos guarani, têm um importante
Estes seres primordiais, imagens vindas papel na prevenção e proteção contra estes
dos domínios da natureza e da sobrenature- perigos, uma vez que representam uma apro-
za, relembram os tempos míticos, originá- ximação, controlada socialmente, com o es-
rios, nos quais humanos (Guarani) e divinos pírito presentes nos animais e plantas. Esta
ainda habitavam a mesma terra. concepção de “natureza”, na qual animais e
Desta maneira, os grafismos guarani plantas não estão separados ontologicamen-
possuem características bem marcantes: te dos humanos, como no ocidente de tradi-
ção europeia, outorga a todos os elementos
eles são abstratos; geométricos na forma; do cosmos atributos humanos, especialmen-
te aos animais e vegetais, que diferem apenas
eles são iconográficos, isto é, seu padrão em grau dos homens. Estas cosmologias in-
geométrico e abstrato remete a um signifi- dígenas amazônicas concebem os animais
cante pertencente aos domínio da natureza como ex-humanos, vendo neles muitos atri-
ou da sobrenatureza; em outras palavras, o butos da antiga humanidade perdida (Des-
padrão geométrico/estilizado é o ícone, o elo cola, 1998). É no contexto deste sistema xa-
entre a representação gráfica e o significante; mânico-cosmológico guarani que devemos
compreender os significados dos grafismos e
eles são estilizados (reduzidos a linhas de outras materializações de seres oriundos
gerais) ou, melhor dizendo, eles reduzem os do domínio da natureza.
seres representados a alguns poucos ele- Segundo os Guarani-Mbyá, a pintura fa-
mentos deles constitutivos (em alguns casos, cial (yti) deve ser usada a partir dos cinco
elementos anatômicos), como, por exemplo, anos “para proteger da doença e do espírito
a asa da mariposa para representar a mari- do animal”. Em situações de margem (nasci-
posa, a mandíbula do peixe para representar mento, iniciação, menstruação, morte, etc.),
graficamente todo o peixe, etc.; as diluídas e interpenetráveis fronteiras dos

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três domínios do cosmos guarani (da natu- ameríndio existente entre os coletivos indí-
reza, da humanidade, da divindade ou so- genas das terras baixas americanas. Para es-
brenatureza) tornam-se mais frágeis e inter- tes coletivos, particulartmente para os gua-
cambiáveis, correndo muitos perigos os que rani, todos os seres do cosmos, sejam eles
se encontram nestes momentos de limbo. humanos, divindades, animais, plantas, mi-
Descrevendo o “encantamento sexual”, o nerais, etc., são considerados personae, pos-
ojepotá, um interlocutor Mbyá assim se ex- suidores de subjetividades e atributos de
pressa: humanidade. Não há, portanto, separação
ontológica entre seres da natureza e seres
Irmão ou pai se pinta para se proteger culturais, existindo, sim, gradações hierár-
quando nasce o irmão mais novo ou o filho. quicas entre estes seres, que irão variar con-
Nesses momentos, se não estiver pintado, a forme o coletivo indígena enfocado, mas
alma (nhe’e) do bicho - tivi (onça) ou outro que não impedem a comunicação e a relação
qualquer - entra no teu corpo, se transfor- entre os seres, todos eles dotados de ponto
ma. Ela não traz doença, troca a alma: pode de vista, subjetividade e agência uns sobre os
[a pessoa] virar um bicho. Pode ser cobra, outros (Descola, 2005b). Temos, assim, ao
sapo. Árvore e bicho têm nhe’e, mas não é contrário do pensamento ocidental, o com-
boa. Se transforma em moça bonita. [A pes- partilhamento de uma única cultura entre
soa] fica com ela e não volta mais (Valdeci todos os seres do cosmos, que estarão distri-
Karaí Mirim, Tekoá Jataity-RS). buídos em inúmeras categorias, de acordo
com sua natureza e seus diferentes corpos.
Resumindo, os Mbyá enfatizam o domí- O multinaturalismo ameríndio opõe-se ao
nio da natureza em suas representações grá- multiculturalismo ocidental. Além disso, o
ficas e manifestações estéticas, tanto num primeiro inclui, apesar das diferenças de na-
estilo abstrato, geométrico e iconográfico, tureza – corpos diferentes e não espécies to-
que se faz presente nos grafismos que ocor- talmente separadas, como no pensamento
rem nos vários suportes por eles trabalha- ocidental – a possibilidade relacional entre
dos, como num estilo figurativo, que apare- todas as alteridades constitutivas do cosmos
ce nos vixú rangá (zoomorfos confeccionados (Viveiros De Castro, 2002). Percorrer o ter-
em madeira) e nos desenhos escolares. Tra- ritório ancestral e tradicional Mbyá-Guara-
ta-se, evidentemente, de um modo particu- ni – o Ka’águy porã -, portanto, é estar em
lar, construído cultural e localmente, se- relação não só com outros coletivos Mbyá-
guindo a lógica do nhandé rekó (nosso -Guarani ou estrangeiros, mas, sobretudo,
costume), de conceber o meio ecológico também com todos os outros seres extra-
circundante, de atribuir sentido aos seus di- -humanos deste horizonte ecológico-cultu-
versos elementos constitutivos, e, principal- ral (não separado) de terras: divindades e
mente, de estabelecer uma relação controla- espíritos/essências/almas/donos/proprieda-
da socialmente com os domínios da des imateriais/agências dos seres extra-hu-
natureza e da sobrenatureza, pelos perigos manos que povoam os vários domínios cos-
que representa franquear as suas fronteiras mológicos. Estes domínios possuem
interpenetráveis e diluídas. fronteiras especialmente porosas e interpe-
A clássica oposição entre natureza e cul- netráveis, que possibilitam o trânsito tanto
tura, presente no ocidente euroreferenciado, dos humanos como dos extra-humanos,
não faz nenhum sentido para o pensamento permitindo a relação mútua entre alterida-

C O S M O -O NT O L Ó G I C A MBYÁ-GUARANI: D IS C U T IN D O O E S T A T U T O DE "OBJETOS" E "RECURSOS NATURAIS" Sergio Baptista da Silva


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des e, principalmente, a contínua troca e do/negociando a relação com a alteridade,


predação simbólica destas qualidades/sub- objetivando incluir/incorporar a qualidade/
jetividades/essências, entre estes outros. propriedade imaterial visada, materializada
Neste sentido, corpos/pessoas Mbyá-Guara- nos corpos/pedaços/partes de outros seres
ni – naturezas diferentes – são construídos/ do cosmos, e através de inúmeras técnicas e
fabricados/compostos/transformados em rituais, que vão desde a confecção e uso de
um contínuo processo temporal – devir -, pinturas/adornos/objetos junto ao corpo,
como objetivo de alcançar perfeição corpo- passando pela ingestão/inalação de parcelas
ral/espiritual em um mundo imperfeito, se- dos corpos dos outros/alteridades, até a ex-
gundo a concepção mbyá-Guarani. Corpos/ periência onírica onde a relação com a alte-
pessoas mbyá-Guarani necessitam de um ridade acontece, sem esquecer da audição
constante cuidado para sua formação, que da palavra divina, exarada pela boca dos xa-
para além da obtenção de saúde e proteção, mãs, mas também experienciada por cada
precisam adquirir, na relação com as alteri- Mbyá (Baptista da Silva, 2008; Baptista da
dades, uma identidade Mbyá-Guarani pró- Silva et al., 2010; Tempass, 2005).
pria que as distinga das outras identidades Pelo imbricamento dos vários domínios
que povoam o cosmos, que têm corpos/na- cosmológicos mbyá-guarani, e da conse-
turezas diferentes, mas que possuem essên- quente ação e contra-ação que os seres de
cias/propriedades imateriais necessárias à uns agenciam sobre os de outros, os perigos
constituição dos corpos/pessoas mbyá (Bap- de ser seduzido por seres mal intenciona-
tista da Silva, 2008). Corpos são formas flui- dos, especialmente em momentos de fragili-
das, instáveis e em transformação, que ne- dade dos corpos/pessoas mbyá-guarani,
cessitam de constantes esforços técnicos/ proteções devem ser processadas, sendo
rituais/sociais para que adquiram as carac- proveniente destas várias modalidades de
terísticas desejáveis e para que não sejam relação estabelecidas com as alteridades.
metamorfoseados – através das agências de A incorporação destas inúmeras essên-
alteridades perigosas – em outros corpos, cias/poderes mágicos provenientes destes
não Mbyá-Guarani, como no caso de djepo- vários outros, compõe um ser Mbyá-Guara-
tá, acima descrito e comentado. ni que pode ser compreendido não como
Assim, a relação com alteridades - que um “indivíduo” ocidental, pensado como
agem e reagem entre si - é constitutivo do único e indivisível, mas como um “divíduo”,
pensamento mbyá-guarani: formas, corpos formado de vários outros e que pode vir a
e naturezas estão em contínua transforma- formar vários outros, constitutivos de seu
ção, pois não são rígidos e estão sobre cons- corpo/pessoa (Strathern, 2006). Um concei-
tante ameaça de transformação ou meta- to mais apropriado para esta concepção de
morfose. Temos, pois, de um lado, a corpo e pessoa, que mais se aproxima das
imperiosa precisão de transformar corpos categorias nativas Mbyá-Guarani, é aquele
imperfeitos em corpos perfeitos, produzin- proposto por McCallum (2002): “composite
do-os, e, de outro, a igualmente importante being” (pessoa composta), pois enfatiza o
necessidade de impedir que alteridades mal processo temporal – devir – de acumulação
intencionadas atinjam-nos, protegendo-os. de espíritos/propriedades imateriais/potên-
Mas como se produzem e se protegem cias mágicas de inúmeras alteridades que
corpos/pessoas Mbyá-Guarani? são incorporadas.
No primeiro caso, induzindo/provocan- Assim, faz-se necessário compreender

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uma outra dimensão ou concepção de “re- rais, alimentos, eméticos, tabaco, óleos e
médio”, expressa pelos guarani nos exem- tinturas vegetais” (op. cit., pág. 31) até a re-
plos já citados e nos que virão a seguir. Para clusão em espaço doméstico privado e,
além da categoria de remédio da cosmologia acrescentando à ideia original do autor, a
euroreferenciada, os guarani indicam o uso presença ritual de “objetos” e “adornos” cor-
de “objetos”, plantas, animais, minerais e ou- porais, como foi comentado e analisado a
tros extra-humanos como a incorporação partir dos exemplos etnográficos colhidos
de propriedades imateriais, almas e essên- em campo.
cias, presentes nestes existentes do mundo, Segundo a proposição de Viveiros de
nestes seres, nestas alteridades, que com- Castro, a identidade social ou a posição so-
põem, protegem e curam. cial de um alto-xinguano não é depositada
Pode-se dizer, de forma genérica, que o sobre o corpo como “um suporte inerte”,
corpo humano nas sociedades indígenas pois este corpo é fabricado, criado. Dessa
brasileiras é percebido de forma diferente de forma, conclui que “a persona xinguana não
como o representamos na tradição ociden- parece ser facilmente redutível a um dualis-
tal. Ao contrário do que ocorre nessa última, mo (...) e muito menos no homo duplex da
as sociedades do Alto Xingu, por exemplo, metafísica durkheimiana [corpo/alma]”
não fazem distinção entre processos fisioló- (op. cit., pág. 32).
gicos e processos sociológicos ou entre Neste sentido, é importante ressaltar a
transformações corporais e mudanças na relação entre corpo, pessoa e território para
identidade social ou na posição social. Na os guarani.
concepção dessas sociedades, “o corpo hu- A concepção de território para os guara-
mano necessita ser submetido a processos ni tem especificidades, que gostaria de subli-
intencionais, periódicos, de fabricação”. nhar, principlalmente a não separação entre
Sendo assim, “a natureza humana é literal- natureza e cultura, e a relação constante eles
mente fabricada, modelada, pela cultura” estabelecem com as alteridades humanas e
(Viveiros de Castro, 1979, p.32). extra-humanas que o compõem.
Nessas sociedades alto-xinguanas, é no- Assim, o conceito de território aqui é
tório que a fabricação de um novo papel concebido como um valor simbólico, para
social, especialmente nos momentos de além de ser este amontoado de matéria, para
transição entre os estados da pessoa (prin- muito além de ser um conjunto de elemen-
cipalmente nascimento, puberdade/maturi- tos “naturais”, ecológicos, cuja materialidade
dade e morte), requer toda uma tecnologia está ao alcance dos cinco sentidos, pois po-
do corpo, através da intervenção da socie- demos ver seus contornos, formas e desdo-
dade sobre a pessoa, submetendo-o a uma bramentos, ouvir seus sons e murmúrios,
normalização sócio-fisiológica (op. cit., tocar seus vários corpos, cheirar seus inú-
pág. 33-4). meros aromas e mesmo provar os sabores
Essa tecnologia de criação sociocultural dele e que dele brotam. Ele constitui-se em
do corpo da “pessoa humana” (negando-se a espaço vivido e vivenciado por grupos que
possibilidade de um corpo “não humano”) nele constroem suas experiências de mun-
inclui desde relações sexuais entre os genito- do, articulando a memória de seus antepas-
res, passando por um “conjunto sistemático sados com a recriação e re-elaboração de
de intervenções sobre as substâncias que co- suas tradições no cotidiano da atualidade.
municam o corpo e o mundo: fluidos corpo- Metáfora gasta, é na terra que se lançam

C O S M O -O NT O L Ó G I C A MBYÁ-GUARANI: D IS C U T IN D O O E S T A T U T O DE "OBJETOS" E "RECURSOS NATURAIS" Sergio Baptista da Silva


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raízes. Seus espaços de significação são múl- entretecidas entre humanos, não humanos,
tiplos e polissêmicos: lugar de nascimento divindades, vivos e mortos, são fundamen-
(raízes pessoais); lugar de pertencimento, de tais e norteadoras para o entendimento das
identidade (raízes grupais); lugar de cresci- formas de conceber a territorialidade mbyá-
mento, de socialização, de convivência, de -guarani. Da mesma forma, a cultura mate-
relações familiares, sociais; lugar de tradi- rial das populações em foco servirá como
ções; lugar dos antepassados; lugar onde vi- importante instrumental para investigar es-
vos e mortos que carregam de sentido as tas relações híbridas, notadamente entre na-
existências individuais e de grupos inteiros tureza e cultura, sociedade e divindade,
estão presentes no mesmo espaço de ligação mortos e vivos, e seus conceitos cosmo-on-
com o mundo. Neste território material, for- tológicos.
mado por relevos, cursos de rio, vegetação, Nesta tarefa e neste desafio, parece-
minerais, além de habitações e vestígios da -me, as disciplinas antropológica e ar-
sua cultura material, estão inscritas marcas queológica têm papel importante no
imateriais profundas, modos particulares de sentido de dialogar simetricamente com
apropriação e categorização desta natureza, os conceitos do coletivo estudado, evi-
deste espaço ecológico. denciando as especificidades de suas so-
Em comunidades específicas, em relação ciocosmologias e as diferenças em rela-
intensa com seu território e em constante ção às concepções euroreferenciadas,
diálogo com as marcas imateriais e materiais sem cair na dupla armadilha da exotiza-
nele inscritas, são engendradas, articuladas ção e do divisor/Rubicão entre primitivo
e recriadas visões de mundo específicas. e moderno.
Este território marcado, vivido, vivenciado,
experimentado, é o palco de uma organiza-
ção social diferenciada, fruto das relações
estabelecidas entre grupos de pessoas que
compartilham uma identidade e bens sim-
bólicos.
Ao mesmo tempo, é bem verdade, este
território é a fonte de sustento do grupo nele
radicado. Ele representa, também, o local
que permite a reunião das condições para a
reprodução e continuidade física do grupo
enquanto tal, através da agricultura, da cria-
ção de animais, da coleta de vegetais, da
caça, da pesca, do beneficiamento de produ-
tos ... Daí, sua dupla importância
Do ponto de vista teórico, a territoriali-
dade é aqui encarada enquanto a interpene-
tração e inter-relação entre território, con-
cepções cosmo-ontológicas, corporalidade,
ideologias sobre natureza, noção de pessoa e
as redes de parentesco lançadas sobre esta
base territorial. Neste sentido, as relações

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 42-54 - 2013


54

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C O S M O -O NT O L Ó G I C A MBYÁ-GUARANI: D IS C U T IN D O O E S T A T U T O DE "OBJETOS" E "RECURSOS NATURAIS" Sergio Baptista da Silva


SEGUINDO O
FLUXO DO TEMPO,
56 TRILHANDO O
ARTIGO CAMINHO DAS
ÁGUAS:
TERRITORIALIDADE
GUARANI NA
REGIÃO DO LAGO
GUAÍBA
Adriana Schmidt Dias1
Sérgio Baptista da Silva2

1- Coordenadora das pesquisas arqueológicas do Plano Operacional para a Identificação e


Delimitação de Terras Indígenas nas Regiões Sul do Lago Guaíba e Norte da Laguna dos Patos, RS.
Professora do Departamento e Programa de Pós-gradução em História da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul. Pesquisadora do CNPq.
dias.a@uol.com.br
2- Coordenador Geral do Plano Operacional para a Identificação e Delimitação de Terras Indíge-
nas nas Regiões Sul do Lago Guaíba e Norte da Laguna dos Patos, RS, Professor do Departamento
e Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
sergiobs@terra.com.br
57

Resumo: Entre 2008 e 2010 foram rea-


lizados estudos com o objetivo produzir um Abstract: Between 2008 and 2010 stu-
relatório de identificação de terras indígenas dies have been conducted with the aim to
Mbyá-guarani na região metropolitana de produce a report about Mbyá-Guarani indi-
Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O foco das genous lands in the metropolitan region of
atividades estava relacionado à regulariza- Porto Alegre, Rio Grande do Sul. The focus
ção da Aldeia Pindó Mirim e à avaliação de of activities were related to the regulariza-
outros locais com potencial de uso tradicio- tion of the Pindó Mirim Village and evalua-
nal como o Morro do Coco e o Parque Esta- tion of other sites with potential for traditio-
dual de Itapuã, em Viamão, e a Ponta da nal use by Mbyá as the Morro do Coco and
Formiga, em Barra do Ribeiro. Pesquisas Itapuã State Park, in Viamão, and Ponta da
arqueológicas foram incluídas nestes levan- Formiga, in Barra do Ribeiro. Mbyá leaders
tamentos atendendo às demandas dos Mbyá demands that archaeological surveys were
que entendem que os sítios arqueológicos da also carried out because they understand
área representam uma relação de ancestrali- that the archaeological sites represent an an-
dade com o território reivindicado. Nas três cestral relationship with the territory clai-
áreas pesquisadas foram identificados 18 sí- med. In the three areas surveyed were iden-
tios da Tradição Guarani, indicando que as tified 18 sites Guarani Tradition, indicating
ocupações pré-coloniais formavam um ho- that the pre-colonial occupations formed a
rizonte sócio-cultural e ambiental que atual- socio-cultural and environmental horizon
mente também é manifestado pelos Mbyá- which is currently also expressed by Mbyá-
-guarani. -Guaraní.
Palavras-chave: Arqueologia Gua- Key words: Guarani Archaeology,
rani, Mbyá-guarani, Territorialidade, Etno- Mbyá-guarani, Territoriality, Ethnoarchaeo-
arqueologia. logy.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 56-70 - 2013


58

Introdução de Itapuã, no município de Viamão, e a Pon-


Atualmente vivem no Rio Grande do Sul ta da Formiga, no município de Barra do
em torno de 2.600 Mbyá-guarani. Este cole- Ribeiro. O núcleo residencial e as áreas de
tivo indígena ocupa de forma precária apro- roças da Aldeia Pindó Mirim restringem-se
ximadamente 83 áreas, das quais apenas a uma área de 26 hectares em uma porção de
uma pequena parte possui algum procedi- terras limítrofes ao Parque Estadual de Ita-
mento jurídico de reconhecimento fundiá- puã que possui uma área de 5.566,5 hecta-
rio. Os Mbyá da região metropolitana de res. Até 1973 havia três aldeias mbyá no
Porto Alegre se caracterizam como parte de Morro da Praia de Fora, onde viviam em
uma ampla rede comunitária de relações de torno de 60 pessoas, sendo estas aldeias
parentesco e afinidade que abrange muitos abandonadas quando o Parque foi criado.
outros grupos do Brasil e do Exterior. Uma Em 1998 o Ministério Público Federal insti-
parte considerável desta extensa rede deslo- tuiu um processo administrativo para inves-
ca-se através de um arquipélago de áreas in- tigar o fato de o Parque de Itapuã ter-se
dígenas de tamanhos e características fundi- constituído sobre território tradicional
árias diversas. Apesar da existência de mbyá. Contudo, a presença indígena na área
famílias extensas cujos membros permane- do Parque antes de sua criação foi contesta-
cem em uma dada aldeia, não é incomum da pela Administração Pública, culminando
que estas também possuam parentes em di- em 2004 com a proibição pelo Conselho Es-
versos Estados brasileiros ou mesmo em ou- tadual de Parques da entrada de indígenas
tros territórios nacionais (Baptista da Silva no Parque de Itapuã (Comandulli, 2009).
et al., 2008, 2010). Quanto às demais áreas investigadas, o Mor-
Entre 2008 e 2010 foram realizados estu- ro do Coco é composto por quatro proprie-
dos com o objetivo de produzir relatórios de dades privadas, das quais duas são Reservas
identificação e delimitação de terras indíge- Particulares do Patrimônio Natural e a Pon-
nas guarani na região metropolitana de Por- ta da Formiga é uma área de Preservação
to Alegre. Integradas ao Plano Operacional Ecológica pertencente a uma empresa de
para a Identificação e Delimitação de Terras produção de celulose (Aracruz Celulose no
Indígenas nas Regiões Sul do Lago Guaíba e momento da pesquisa, atualmente Fíbria
Norte da Laguna dos Patos, Rio Grande do Celulose).
Sul estas pesquisas buscaram conjugar da- Por um lado. As três áreas investigadas
dos etnográficos, históricos, arqueológicos e têm em comum o fato de serem extrema-
ambientais. Conforme a Portaria n° 14 da mente ricas do ponto de vista ambiental,
FUNAI, os trabalhos de campo foram reali- constituindo-se em referenciais tradicio-
zados com a participação dos indígenas e no nais importantes para o processo de reivin-
decorrer das pesquisas suas manifestações e dicação mbyá por permitirem a sustentação
interpretações foram incorporadas aos rela- do Ñandé Rekó, o modo de ser guarani.
tórios produzidos. Como a concepção de territorialidade mbyá
O foco das atividades estava relacionado não é contínua, estas áreas com riqueza de
à regularização da área de implantação da recursos naturais para o estabelecimento de
Aldeia Pindó Mirim, bem como à avaliação aldeias podem ser comparadas a “ilhas”,
de outros locais com potencial de uso tradi- cercadas pela Sociedade Nacional e interco-
cional pelos Mbyá como o Morro do Coco e nectadas por complexas redes de relações
a Unidade de Conservação Parque Estadual de toda a ordem. Nos trabalhos de campo

S E G U I N D O O F L UX O D O T E MP O , T R IL H A N D O O C A MIN H O D AS ÁGUAS:... Adriana Schmidt Dias e Sérgio Baptista da Silva


59

nuidade e manuten-
ção mbyá.
Estas áreas apre-
sentam condições
fundiárias diversas,
gerando dificulda-
des no processo de
demarcação tendo
em vista distintos in-
teresses. A maioria
dos raros locais com
bom estado de pre-
servação ambiental e
abundância de re-
cursos naturais no
sul do Brasil já foi
reservada para a
criação de Unidades
de Conservação Na-
tural, não admitindo
a presença humana
no seu interior. Tam-
bém propriedades
privadas e empresas
tendem a opor-se ao
processo de demar-
cação de terras indí-
genas pelo fato de
serem indenizados
Figura 1 – Sítios da Tradição Guarani no Lago Guaíba: 1) RS-JA-23: Praça da Alfândega, apenas pelas benfei-
2) Arroio do Conde, 3) RS-SR-342: Santa Rita, 4) RS-JA-16: Ponta do Arado, 5 ) RS-LC-71: torias presentes em
Ilha Chico Manuel, 6) RS-JA-02: Lami Bernardes, 7) RS-JA-01: Reserva Biológica do Lami,
8) PA-300: Rogério Christo, 9) RS-LC-18: Morro do Coco, 10) RS-JA-07: Lajeado, 11) RS- suas terras. No caso
LC-01: Cantagalo, 12) RS-323: Ilha das Pombas, 13) RS-LC-08: Praia das Pombas, 14) RS-
LC-11: Praia da Onça, 15) RS-LC-70: Ilha do Junco, 16) RS-LC-39: Morro da Fortaleza, 17) da Ponta da Formiga
RS-LC-74: Praia da Pedreira, 18) RS-LC-07: Praia do Araçá, 19) RS-LC-15: Praia do Sítio, há o agravante do
20) RS-LC-16: Prainha, 21) RS-LC-17: Morro do Farol, 22) RS-LC-75: Lagoa Negra, 23) RS-
324: Tarumã, 24) RS-LC-22: Tekoá Porã, 25) RS-LC-21: Tekoá Mareÿ, 26) RS-LC-20: Tekoá ponto de vista eco-
Yma, 27) Arroinho I.
nômico que a em-
presa de celulose
realizados conjuntamente com os Mbyá- proprietária da área terá que desativar esta
-guarani inúmeros exemplos de plantas, unidade de produção (Baptista da Silva et
animais, divindades e outros seres cosmoló- al., 2010).
gicos foram identificados pelos indígenas, As pesquisas arqueológicas foram inte-
demonstrando a relação forte e indissociá- gradas às atividades destes relatórios de de-
vel que traçam entre seus corpos/pessoas e marcação a partir de uma demanda das lide-
estas “matas sagradas” essenciais a conti- ranças indígenas, pois os sítios arqueológicos

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 56-70 - 2013


60

Tabela 1 - Sítios Arqueológicos da Tradição Guarani na porção norte do da Tradição Guarani são entendi-
Lago Guaíba localizados entre 1970-2010
Nome do Sítio Sinonímia Coordenadas Intervenção Município Instituição
dos pelos Mbyá como as “marcas
RS-119 RS-152: Ponte
do Guaíba
Sem registro Coleta de
superfície
Eldorado do Sul PUCRS do caminhar dos avós” que de-
Arroio do Conde 22J 0469 770
6675 048
Coleta de
superfície e
Eldorado do Sul Não
localizado monstram uma relação de ances-
sondagem
RS-SR-342: Santa Complexo 22J 0469 294 Escavação e Guaíba PUCRS tralidade e imemorialidade com o
Rita Automotivo da 6671 719 datação:
Ford 540+60 AP
440+60 AP
território reivindicado (Baptista
RS-LC-71: Ilha
Chico Manuel
RS-C-01 22J 0484 300
6651 800
Escavação e
datação:
Porto Alegre MARSUL
MARS
da Silva et al., 2010).
RS-87: Romeu Ponta do Sem registro
610+50 AP
Coleta de Porto Alegre
MJJF
PUCRS As pesquisas arqueológicas re-
Chico superfície
G1: Vila da Sem registro Coleta de Porto Alegre FAPA alizadas entre 1970 e 2010 na re-
Restinga superfície
RS.JA-74: Lomba
do Pinheiro 2
22J 0488 226
6669 014
Escavação Porto Alegre FAPA gião do Lago Guaíba atestam a
RS-JA-01: Reserva
Biológica do Lami
22J 0493 050
6655 665
Coleta de
superfície e
Porto Alegre MJJF
presença de uma ocupação pré-
RS-JA-02: Lami 22J 0493 025
sondagem
Coleta de Porto Alegre MJJF -colonial intensa, associada a 37
Bernardes* 6654 372 superfície e
sondagem sítios arqueológicos da Tradição
RS-JÁ-16: Ponta 22J 0481 711 Coleta de Porto Alegre MJJF
do Arado 6655 320 superfície e
sondagem
Guarani dentre os quais dois apre-
RS-JA-07:
Lajeado*
Morro São
Pedro
22J 0490 337
6662 732
Coleta de
superfície e
Porto Alegre MJJF
sentam datações entre 610 e 440
Morro das
Quirinas
sondagem
anos AP. Por sua vez, nas três áre-
RS-JA-23: Praça 22J 0477 701 Escavação Porto Alegre MJJF
da Alfândega 6677 966 as de interesse dos Mbyá foram
RS-JÁ-24: Rede Sem registro Escavação Porto Alegre MJJF
DMAE
Morro do Osso Sem registro Registro Porto Alegre UFRGS
identificados 18 sítios arqueológi-
RS-88: Novo Lar
dos Menores
Sem registro Coleta de
superfície
Viamão PUCRS
cos da Tradição Guarani (tabela
PA 300: Rogério
Christo
Morro do
Coco
22J 0493 665
6651 662
Coleta de
superfície
Viamão PUCRS
1) (Baptista da Silva, 1992; Carle
RS-LC-18: Morro 22J 0495 718 Registro Viamão UFRGS
do Coco 6651 542 & Santos, 2000; Gazeano, 1990;
RS-272: Nei Bueno Sem registro Coleta de Viamão PUCRS

RS-LC-01: Aldeia G4 22J 0498 081


superfície
Coleta de Viamão MARS
Gaulier, 2001-2002; Noelli, 1993;
do Cantagalo
RS-LC-02: Colônia
Tekoá Jataity 6659 494
Sem registro
superfície
Coleta de Viamão
FAPA
MARS
Noelli et al., 1997; Pouget & Thies-
de Itapuã
Pomar da Lagoa I Águas Claras 22J 0513 106
superfície
Coleta de Viamão UFRGS sen, 2002; Zortea, 1995. Para
6663 477 superfície e
sondagem maiores detalhes sobre estas pes-
RS-LC-70: Ilha do 22J 0493 700 Coleta de Viamão MARSUL
Junco 6141 900 superfície e
sondagem
quisas ver Dias & Baptista da Sil-
RS-LC-74: Praia
da Pedreira**
RS-LC-03:
Sitio da
22J 0495 161
6641 730
Coleta de
superfície
Viamão MARSUL
MARS
va, prelo).
Pedreira-
Morro do A distribuição destes sítios re-
Fortaleza
RS-LC-75: Lagoa
Negra*
RS-LC-04:
Lagoa Negra I
22J 0500 977
6641 531
Coleta de
superfície e
Viamão MARSUL
MARS
vela uma rica rede de assentamen-
RS-LC-06:
Lagoa Negra II
sondagem tos que interligava o Delta do Ja-
RS-323: Ilha das
Pombas
PA 253 22J 0496 400
6645 300
Coleta
superfície
Viamão PUCRS
cuí com os pontais e ilhas,
estendendo-se até a desemboca-
RS-LC-39: Morro 22J 0495 200 Escavação Viamão MARSUL
da Fortaleza* 6642 250 MARS
RS-LC-08: Praia 22J 0496 303 Coleta de Viamão MARS
das Pombas**
RS-LC-07: Praia
6643 308
22J 0496 150
superfície
Registro Viamão MARS
dura do Lago Guaíba com a Lagu-
do Araçá
RS-LC-11: Praia
6640 750
22J 0495 088 Coleta de Viamão MARS
na dos Patos (figura 1). Observa-
da Onça
RS-LC-15: Praia
6642 544
22J 0495 594
superfície
Coleta de Viamão UFRGS -se, portanto, que as ocupações
guarani pré-coloniais formam um
do Sítio 6639 135 superfície e
sondagem
RS-LC-16: Prainha 22J 0494 944 Registro Viamão MARS

RS-LC-17: Morro
6638 618
22J 0494 500 Coleta de Viamão UFRGS
horizonte sócio-cultural e am-
do Farol 6638 400 superfície e
sondagem
biental que é também manifesta-
RS-324: Tarumã Riocel
Tekoá
22J 0489 112
6641 514
Coleta de
superfície
Barra do Ribeiro PUCRS
do atualmente pelos Mbyá-guara-
Karaguata'ity
RS-LC-22: Tekoá 22J 0490 802 Registro Barra do Ribeiro UFRGS ni através da presença de aldeias e
Porã 6640 887
RS-LC-21: Tekoá
Mareÿ
22J 0490 094 Registro
6639 842
Barra do Ribeiro UFRGS acampamentos nesta região,
RS-LC-20: Tekoá
Yma
22J 0487 816
635 842
Registro Barra do Ribeiro UFRGS
como é o caso das Aldeias de Ita-
Arroinho I 22J 0486 318
6633 595
Registro Barra do Ribeiro PUCRS
puã (Tekoá Pindó Mirim), do
*Possível associação com material lítico da Tradição Umbu/** Atualmente destruídos.
Cantagalo (Tekoá Jataity) e de Co-

S E G U I N D O O F L UX O D O T E MP O , T R IL H A N D O O C A MIN H O D AS ÁGUAS:... Adriana Schmidt Dias e Sérgio Baptista da Silva


61

xilha Grande (Tekoá Porã) e dos Acampa- do modo de vida tradicional (Baptista da
mentos do Lami (Tekoá Pindó Poty), do Pe- Silva, 2008; Pradella, 2009). Portanto, para
tim, de Passo Grande e da Flor do Campo compreender as demandas territoriais mbyá
(Baptista da Silva et al., 2008). na região do Lago Guaíba deve-se situar este
território no complexo multilocal da territo-
ASPECTOS DA TERRITORIALIDADE E rialidade guarani, atentando para as relações
DA MOBILIDADE MBYÁ-GUARANI com as demais aldeias localizadas a leste,
A língua guarani no Brasil (Família lin- centro e norte do Rio Grande do Sul, nos
guística Tupi-Guarani do Tronco Tupi) cos- outros Estados do sul e sudeste do Brasil,
tuma ser subdividida em três dialetos: o bem como nos países limítrofes do Cone Sul
Mbyá, o Nhandeva e o Kaiowá. A este ponto Americano.
de vista linguístico devem ser agregados Ao analisar aspectos das noções de terri-
elementos de identidade sócio-cultural, o torialidade e mobilidade mbyá através da
que permite falarmos atualmente de três perspectiva histórica, sugere-se que o conta-
parcialidades étnicas guarani: os Mbyá, os to inter-étnico constituiu-se em um marco
Nhandeva ou Xiripá e os Kaiowá. Estas par- de resignificação destas categorias, cujo im-
cialidades passaram por diferentes proces- pacto tem uma longevidade de pelo menos
sos históricos de contato com populações 300 anos. Embora os Mbyá se tornem “visí-
não-indígenas e com vários Estados Nacio- veis” aos ocidentais enquanto grupo étnico
nais da América do Sul, culminando em somente no início do século XX, há fortes
identidades sócio-políticas diversas. Em ou- indícios nas fontes documentais do período
tras palavras, temos no povo Guarani uma colonial de que as referências aos Ka’yguá
unidade cultural mito-cosmológica que (“os do mato”) tratem do mesmo grupo. Seu
dialoga com uma diversidade de identida- território original situava-se onde hoje é o
des sócio-políticas constitutivas das rela- Paraguai, organizando-se a sociedade a par-
ções entre as três parcialidades. tir de grupos de parentesco e afins em torno
Os Mbyá-guarani distribuem-se entre os de uma liderança religiosa e/ou política.
Estado do Rio Grande do Sul, Santa Catari- Neste contexto, a mobilidade circunscrevia-
na, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espí- -se ao território contínuo e era motivada
rito Santo, estando também presentes no pela circularidade regular das sedes de al-
Uruguai, Argentina e Paraguai. A dinâmica deias, pela exploração sazonal do ambiente,
societária que orienta o processo de territo- pelo encontro com os extra-humanos nele
rialização desta população caracteriza-se, presentes ou por crises sociais internas (Gar-
concomitantemente, pela descentralização let, 1997; Garlet & Assis, 2009; Soares, 1997).
em pequenos grupos familiares e pela inten- É a partir da segunda metade do século
sa articulação destes mesmos grupos em XVII que o processo de testerritorialização
redes de parentesco inter-aldeãs. Neste sen- mbyá inicia-se, em função da expansão co-
tido, o território mbyá-guarani apresenta-se lonial voltada à exploração das reservas de
como um complexo de conexões sociais e madeira e erva-mate a leste de Assunsión,
ambientais, uma vez que os recursos básicos área então dominada pelos Guarani não in-
para a reprodução da sociedade estão arti- cluídos no sistema reducional jesuíta ou no
culados nas redes de parentesco, as quais sistema colonial das encomiendas. Estes so-
condicionam também o acesso a recursos freram um intenso processo de depopula-
naturais imprescindíveis para a reprodução ção, causado pelos confrontos e epidemias e

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 56-70 - 2013


62

pela perda da quase totalidade do território naram as plantas e os animais. Movimento (dança e
caminhar) e palavra (palavra-alma e reza) são os fun-
original, exigindo uma reestruturação das
damentos do mundo. Ao caminhar e dizer sua palavra
noções tradicionais de território e mobilida- ritualizada, os Mbyá fundam o seu mundo e podem
de espacial (Garlet, 1997; Garlet e Assis, ampliar constantemente seu território. Da mesma for-
2009). ma, a palavra (proferida e ritualizada) e o movimento
A organização social também se reestru- (caminhar, partir para outro espaço) podem ser tomados
turou a partir desta nova noção de território, como elementos culturais eficazes tanto na afirmação da
identidade como de resistência às pressões inter-étnicas”
tendo como base a família extensa configu-
(Garlet, 1997:187).
rada de maneira dispersa entre vários aldea-
mentos, dispostos na amplitude do territó- Entre os Guarani os motivos do cami-
rio. Atualmente, a mobilidade espacial é a nhar são diversos. Existem deslocamentos
principal estratégia de re-elaboração dos la- por questões de saúde (em busca de trata-
ços sociais e a dinâmica da ocupação do ter- mentos xamânico ou da medicina ociden-
ritório se caracteriza pela circularidade, uma tal), por motivos de relacionamento (casa-
vez que os espaços que correspondem mini- mentos e separações), por saudades de
mamente às pautas culturais são constante- parentes ou ainda para evitar o agravamento
mente retomados pelos grupos familiares de conflitos (na ótica guarani, se afastar dos
num sistema de revezamento (Garlet, 1997). problemas é a forma preferencial de resolu-
A mobilidade contemporânea configura- ção). Em um sentido cosmológico-religioso,
-se a partir de uma conjunção de fatores que o jeguatá (caminhar) possui grande impor-
a impulsiona e justifica, destacando-se a tância, uma vez que é considerado inerente
busca de espaços que ofereçam condições à condição humana guarani. Caminha-se
mínimas para que a existência ocorra de depois de um sonho premonitório ou de
acordo com o ideal de vida projetado cultu- uma visão, bem como por conta da busca
ralmente, permitindo “manter-se Mbyá por um local mais adequado ao “modo de
através do caminhar. Portanto, mesmo não ser”. Trata-se de uma territorialidade espe-
havendo mais espaços ideais que permitam lhada em experiências de ocupações do pas-
uma existência plena e perfeita, através da sado, atualizadas pela memória, sonhos e
circularidade é possível maximizar o poten- indicações xamânicas, privilegiando a esco-
cial existente sobre o território e viver de lha por lugares contempladores de um am-
acordo com o modo de ser tradicional (...) biente propício para se viver, onde se façam
caracterizado por uma dinamicidade que presentes a mata (Ka’aguy porã) e determi-
recicla e recria o novo a partir da lógica tra- nados animais, constituindo um horizonte
dicional” (Garlet, 1997: 187). ecológico-cultural de terras (Garlet, 1997;
Também na perspectiva cosmológica, é Pradella, 2009).
através dos deslocamentos que os Mbyá re- As lógicas da mobilidade mbyá são or-
petem constantemente a ação paradigmática denadas pelos grupos de parentes e afins
das divindades, dando origem a uma nova relacionados a um sênior (kuery). Em geral,
Terra Sem Males, fundada, estabelecida e os acampamentos mbyá são constituídos
cultivada segundo os princípios da cultura por um kuery em mobilidade pelo territó-
(Garlet, 1997). rio, ao passo que a maioria das aldeias indí-
“Ao proceder desta forma, repetem uma outra ação pa- genas com situações fundiárias mais estabe-
radigmática: criam o mundo ao caminhar. Imitam os lecidas teria na sua constituição dois ou
heróis culturais que ao caminharem sobre a terra nomi- mais kuery, com localização espacial preci-

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Figura 2 – Sítios Arqueológicos da Tradição Guarani no Morro do Coco.

sa e nucleada. Além disso, há uma forte dis- nitorar as condições de preservação de sítios
tinção e diferenciação interna entre estes arqueológicos já identificados. Como a
coletivos. Isto significa que atualmente há maioria dos dados arqueológicos sobre a re-
uma nucleação e atomização importante gião do Lago Guaíba encontra-se inédita,
dos coletivos mbyá que se deslocam neste realizou-se uma pesquisa documental junto
amplo território. Certamente, esta atomiza- aos acervos das Instituições depositárias
ção não impede a intensa mobilidade acima com o objetivo de coligir informações rela-
referida, que se dá, de preferência, dentro tivas à localização e ao grau de integridade
destes coletivos, especialmente quando mo- dos sítios e conferir possíveis sinonímias.
tivados por visitas e consultas aos xamãs. Em 1972 Guilherme Naue registrou na
Igualmente, se observa que a mobilidade porção oeste do Morro do Coco o sítio PA
em conjunto, abarcando uma quantidade 300: Rogério Christo. Foram realizadas na
expressiva de pessoas, num deslocamento ocasião coletas superficiais que geraram
definitivo de uma área para outra, dá-se a uma coleção numerosa de vestígios lito-ce-
partir da lógica do kuery (Gobbi, 2008; As- râmicos, sob guarda do Centro de Estudos e
sis, 2009). Pesquisas Arqueológicas da Pontifícia Uni-
versidade Católica do Rio Grande do Sul
ARQUEOLOGIA GUARANI NO MORRO (CEPA/PUCRS). A documentação de cam-
DO COCO, NO PARQUE ESTADUAL DE po original indicava uma área de dispersão
ITAPUÃ E NA PONTA DA FORMIGA de material de 130 m2, a uma distância de 20
A ênfase das atividades arqueológicas m da linha da praia. Durante nossas ativida-
desenvolvidas nas áreas de interesse dos des de campo este sítio foi localizado nova-
Mbyá foi registrar novas ocorrências e mo- mente e nele foram identificadas cerâmicas

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arqueológicas aflorando em baixa densidade zadas prospecções no Morro da Praia de


na linha de praia, em função da ação erosiva Fora, contando com a presença de infor-
das cheias do Guaíba. A continuidade das mantes indígenas e não-indígenas que resi-
prospecções na vertente leste do Morro do diam nesta área antes da fundação do Par-
Coco permitiu o registro de um sítio inédito que. Estruturas associadas a uma destas
da Tradição Guarani (RS-LC-18: Morro do aldeias foram identificadas sob as coorde-
Coco) que a semelhança do anterior apre- nadas UTM 22J 0494912/ 66538058 e re-
sentava afloramentos dispersos de fragmen- gistradas como o sítio histórico RS-LC-19:
tos de cerâmica ao longo de 30 m da linha de Tekoá Pindó Mirim. Segundo um dos infor-
praia (figura 2). mantes, nesta aldeia haveria um cemitério
Na área do Parque Estadual de Itapuã onde estão enterrados um homem e uma
foram registrados de 11 sítios arqueológi- criança.
cos da Tradição Guarani desde 1970 (figura Quanto à vistoria dos sítios arqueológi-
3). Tendo em vista o histórico de litígios cos pré-coloniais já identificados e a locali-
entre os Mbyá e a Administração do Par- zação de novas evidências na área do Parque
que, uma das nossas prioridades nas ativi- de Itapuã, estas atividades viram-se compro-
dades de campo arqueológicas era docu- metidas pela falta de conservação das tri-
mentar a existência das aldeias abandonadas lhas, pela ausência de limpeza de praias não
na década de 1970. Para tanto, foram reali- utilizadas pelo público e pela proibição de

Figura 3 – Sítios Arqueológicos da Tradição Guarani no Parque Estadual de Itapuã

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acesso a certas áreas pela Administração do 1995). Embora estas praias também não
Parque por motivos de segurança. Destaca tenham sofrido manutenção recente, sua
se que a construção de estacionamentos e posição geográfica impediu o atulhamen-
vias de acesso às praias públicas em 1998 to. Por outro lado, a ausência de trilhas
ocorreram sem inspeção prévia, levando a tem afastado os turistas, contribuindo para
destruição de sítios arqueológicos já identi- a sua preservação.
ficados. A própria visitação do Parque pela A ausência de trilhas com manutenção
população da região metropolitana de Por- foi usada como justificativa pela Adminis-
to Alegre em busca de locais de lazer no ve- tração do Parque para impedir o acesso
rão é outro fator que contribuiu para a de- aos sítios arqueológicos situados nos Mor-
gradação dos sítios arqueológicos. Pode-se ros de Itapuã, a fim de garantir a segurança
observar claramente este processo ao resga- de seus funcionários que deviam nos
tar os dados de acervo das pesquisas ante- acompanhar em todas as atividades. O sí-
riores. A abundância de materiais resgata- tio RS-LC-39: Morro da Fortaleza foi pes-
dos nos trabalhos das décadas de 1970 e quisado em 1981 por Eurico T. Miller, jun-
1980 contrasta fortemente com os resulta- to ao Museu Arqueológico do Rio Grande
dos das pesquisas dos anos subseqüentes a do Sul (MARSUL), tendo sido identificado
fundação do Parque. em uma área lavrada nos patamares planos
Os sítios arqueológicos do Parque de da encosta oeste do Morro da Fortaleza,
Itapuã distribuem-se em quatro ambien- voltado para a Praia da Onça. Neste sítio
tes: nas praias do Lago Guaíba, nas ilhas, foi realizada uma escavação de 20 m2, reve-
nos morros graníticos (Itapuã, em guarani, lando uma rica coleção lito-cerâmica, des-
significa topo [de morro] de pedra) e nas tacando-se ainda a presença de duas pon-
margens da Lagoa Negra. Nas praias do tas de projétil. O sítio lito-cerâmico
Lago Guaíba as pesquisas anteriores ti- RS-LC-17: Morro do Farol foi registrado
nham identificado seis sítios arqueológi- em 1994 e encontrava-se perturbado pela
cos, dos quais dois foram destruídos pela ação agrícola. O material cerâmico estava
construção das benfeitorias do Parque: RS- distribuído por uma área aproximada de
-LC-74: Praia da Pedreira (sinonímia RS- 200 m2 situada sobre um patamar plano,
-LC-03: Sítio da Pedreira-Morro da Forta- na encosta do último promontório que se-
leza) e RS-LC-08: Praia das Pombas. Não para o Guaíba da Lagoa dos Patos. Foi rea-
foi possível localizar novamente os sítios lizada uma coleta assitemática de superfí-
RS-LC-07: Praia do Araçá e RS-LC-11: cie e o acervo está sob guarda do
Praia da Onça, na medida em que estas Laboratório de Arqueologia da Universi-
praias encontravam-se encobertas por de- dade Federal do Rio Grande do Sul (LAE/
jetos trazidos pelas cheias do Lago Guaíba UFRGS) (Zortea, 1995).
e não sofriam manutenção há alguns anos. No extremo nordeste da Ilha do Junco foi
Por sua vez, os sítios RS-LC-15: Praia do registrado em 1970, por Pedro A. Mentz Ri-
Sítio e RS-LC-16: Prainha foram revisita- beiro, o sítio RS-LC-70: Ilha do Junco. Situ-
dos e apresentaram cerâmica da Tradição ado junto a linha d’água, o sítio distribuía-se
Guarani aflorando na linha de praia, em por uma área de 150 m2, sobre solo arenoso,
decorrência da erosão fluvial, a semelhan- tendo sido parcialmente destruído pelas
ça das ocorrências anotadas quando de seu cheias. Foram realizadas coletas de superfí-
registro original nos anos 90 (Zortea, cie e uma sondagem que evidenciou mate-

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rial lito-cerâmico até a profundidade de 50 documental do CEPA/PUCRS indica que o


cm, sob guarda do MARSUL. As novas visi- sítio apresentava grandes concentrações de
tas realizadas neste sítio não identificaram material lito-cerâmico assentado sobre solo
materiais em superfície. Em 1980 Guilher- arenoso, tendo sido realizadas coletas de su-
me Naue registrou o sítio RS-323: Ilha das perfície. A nova vistoria realizada indicou
Pombas (sinonímia PA253), realizando co- uma dispersão de cerâmica e artefatos líti-
letas superficiais e sondagens em uma área cos a partir linha da praia em direção à
de 600 m2. O sítio apresentava característi- mata de eucaliptos, cobrindo uma distância
cas superficiais, tendo sido resgatada uma de 150 m.
numerosa coleção lito-cerâmica sob guarda Nas prospecções que realizamos no
do CEPA/PUCRS. Não foi possível revistar Pontal da Faxina registramos três sítios
este sítio, tendo em vista tratar-se de área de inéditos da Tradição Guarani, próximos ao
nidificação com acesso restrito pela Admi- sítio Tarumã. O sítio RS-LC-22: Tekoá
nistração do Parque. Porã (=aldeia bonita/sagrada) está associa-
O sítio RS-LC-75: Lagoa Negra (sinoní- do a uma duna, situada a poucos metros
mia RS-LC-04: Lagoa Negra I e RS-LC-06: do Guaíba, com uma altitude de 12 m. O
Lagoa Negra II) foi registrado original- material lito-cerâmico é abundante, distri-
mente no MARSUL por Pedro Mentz Ri- buindo-se em duas concentrações distan-
beiro em 1970, sendo caracterizado pela tes aproximadamente 100 m. O sítio RS-
presença de material lítico aflorando em -LC-21: Tekoá Mareÿ (=terra sagrada/
superfície, disperso por uma área de 50 pura/perfeita) localiza-se em frente à Ilho-
metros. Foram coletados lascas e núcleos, , ta, apresentando duas manchas pretas de
batedores, pedras com depressão semi-es- solo orgânico, gerados por ação antrópica.
férica e apenas um fragmento de cerâmica Ao todo foram identificados neste sítio
Guarani. Entre 1990 e 1992 o sítio foi nova- cinco concentrações distintas de cerâmica
mente estudado por Sergio Baptista da Sil- e um polidor em canaleta, distribuídas por
va, tendo sido realizadas coletas superfi- uma área de 160 m2. Sobre uma duna que
ciais e uma escavação de 10 m 2 que dista 300 m das margens do Guaíba foi re-
atingiram a profundidade de 1 m. O con- gistrado o sítio RS-LC-20: Tekoá Yma (=
junto artefatual é caracterizado por mate- aldeia antiga), apresentando baixa densi-
rial lítico similar ao descrito por Ribeiro e dade de material cerâmico em superfície.
encontra-se sob a guarda do Museu Antro- Na porção sul da Ponta da Formiga foi
pológico do Estado do Rio Grande do Sul registrado em 2007 por Gislene Monticelli
(MARS). Atualmente a área do sítio é utili- o sítio Arroinho I. Situado em área de du-
zada como pastagem para o gado e está so- nas na vertente oeste do Morro da Formi-
frendo um processo erosivo intenso, em ga, este sítio apresentava fragmentos de
função da ação das cheias da Lagoa Negra. cerâmica e uma lâmina de machado lítico
As investigações na Ponta da Formiga polido (Monticelli, 2007). Durante nossas
indicam a presença de cinco sítios da Tradi- atividades de campo não foi possível relo-
ção Guarani (figura 4). No Pontal da Faxi- calizar este sítio, porém foi registrado um
na, situa-se o sítio RS-324: Tarumã (sinoní- sítio lítico inédito, RS-LC-23: Itaty (= local
mia Riocel e Tekoá Karaguata’ity = aldeia da de muitas pedras/onde as pedras estão nas-
plantação de caraguatá pequeno), pesquisa- cendo/tem vida), caracterizado por uma
do por Guilherme Naue em 1980. O acervo concentração de núcleos e lascas. Suas co-

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Figura 4 – Sítios Arqueológicos da Tradição Guarani na Ponta da Formiga.

ordenadas são UTM 22J 0485748/6634809 dos Patos. As características hidrodinâmicas


e ausência de artefatos diagnósticos justifi- do Lago Guaíba apontam, por um lado, para
cou que não tenha sido computado entre as uma facilidade de deslocamentos por água
ocorrências da Tradição Guarani aqui ana- no sentido norte-sul e leste-oeste, tendo em
lisadas. vista o predomínio das correntes no sentido
sul e dos sistemas de ventos do quadrante E/
SEGUINDO O FLUXO DO TEMPO, TRI- SE, ambos de baixa intensidade. Por outro
LHANDO O CAMINHO DAS ÁGUAS lado, as alterações dos sistemas de vento
A Região Hidrográfica do Guaíba ocupa com a entrada de frentes frias ao longo do
a porção centro-leste do Estado do Rio ano, mas principalmente no inverno, podem
Grande do Sul e é formada pelas bacias que gerar fluxos de ondas de maior intensidade,
drenam direta ou indiretamente para o Del- dificultando as possibilidades de atracagem,
ta do Jacuí, formando o Lago Guaíba (do pois a arrebentação se dá na proximidade
guarani “lugar onde a água se alarga”). A su- das praias (IBGE, 1986; Nicolodi, 2007; Ni-
perfície do Lago Guaíba é de 496 km2, com colodi et al., 2010; Knippling, 2002).
profundidade média de 3 m, possuindo en- Analisando a distribuição e densidade
tre 900 m e 19 km de largura e 50 km de dos sítios arqueológicos da Tradição Guara-
comprimento entre o Delta do Jacuí e o Pon- ni na região do Lago Guaíba observa-se um
tal de Itapuã, onde desemboca na Laguna padrão de distribuição regular dos assenta-

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mentos, privilegiando determinados espa- a sobreposição de áreas de ação de distintos


ços estrategicamente posicionados. Desde o tekohá que mantivessem alianças políticas.
Delta do Jacuí até a desembocadura na La- Este modelo sugere que a área de captação
guna dos Patos, as aldeias antigas ocuparam de recursos de um tekohá pré-colonial po-
preferencialmente os pontais, as ilhas e as deria ser estimada com um tamanho médio
baias, buscando locais abrigados da incidên- de 50 km de raio.
cia do vento sul e privilegiando também a Integrando este modelo aos dados aqui
proximidade das margens do Guaíba, em apresentados, podemos pensar que a área de
detrimento das encostas graníticas (figura captação de um tekohá Guarani pré-colonial
1). Esta orientação com relação ao sistema poderia incorporar ambas as margens do
de ventos sinaliza, em grande parte, a im- Lago Guaíba, estendendo-se do Delta do Ja-
portância dos deslocamentos aquáticos nes- cuí ao Pontal de Itapuã. Assim, teríamos um
te território, sugerindo que os sítios situados território de domínio simbolicamente con-
em ambas as margens do Guaíba, bem como tinuo, porém geograficamente descontínuo
nas ilhas, estavam integrados em uma mes- em função das águas do Lago. As estratégias
ma rede de sociabilidade. Trataría-se, por- de manejo de longa duração deste tekohá
tanto, de um território com características por pelos menos dois séculos é atestada pe-
socioculturais contínuas, circunscrito a um las datações entre 600 e 400 anos atrás dis-
espaço geográfico disperso em função do poníveis até o presente para a área (Dias &
ambiente lagunar. Assim como se configu- Baptista da Silva, prelo). Por sua vez, os sí-
ram no presente os assentamentos mbyá, tios identificados podem estar representan-
podemos pensar as ocupações pré-coloniais do tanto o deslocamento das sedes de aldeia
do Guaíba enquanto “ilhas” articuladas por neste tekohá ao longo do tempo, quanto a
um complexo sistema sócio-cosmológico, distribuição de aldeias contemporâneas es-
compartilhando os recursos do território e trategicamente situadas em distintos pontos
conectando-se entre si também através dos da paisagem lagunar.
“caminhos das águas”, ordenados pelo siste- Mesmo que os recursos sejam abundan-
ma de ventos e correntes. tes e perenes em toda a região, pode-se per-
Partindo do modelo etnoarqueológico ceber variações sutis de oferta entre deter-
defendido por Noelli (1993), podemos en- minadas áreas do Lago Guaíba, como solos
tender a densidade e profundidade temporal mais férteis para os cultivos ao norte, junto
do registro arqueológico do Lago Guaíba em ao Delta do Jacuí; maior concentração de
função de estratégias de manejo agro-flores- florestas nas encostas voltadas para o sul na
tal que ofereceriam sustentação a ocupações porção centro-leste do Lago Guaíba; e maior
de longa duração. O padrão de colonização diversidade de pesca e caça sazonal junto
e ocupação territorial Guarani pré-colonial aos banhados do sul, delimitados pelos Pon-
seria temporal e espacialmente contíguo, re- tais de Itapuã e do Morro da Formiga (IBGE,
fletindo um modelo de mudança de sede de 1986). Pode-se sugerir, assim, que o proces-
aldeia dentro de locais anteriormente mane- so de colonização pré-colonial do território
jados na sua área de domínio (tekohá). Por do Lago Guaíba seria representado por um
sua vez, o tamanho da área de captação de padrão disperso de aldeias interligadas por
recursos de um tekohá poderia variar em laços de parentesco que ocupariam contem-
função do grau de reciprocidade do conjun- poraneamente pelo menos estes três pontos
to multi-comunitário, não sendo incomum da paisagem (figura 1).

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Embora a noção de território e coletivi-


dade mbyá seja produto de uma situação Referências Bibliográficas
histórica dada, as condições geográficas do
ASSIS, V. S. 2009 Os kuérys e as redes de sociabilidade Mbyá-
Lago Guaíba podem ter contribuído signifi-
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cativamente para uma tendência similar no
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entre os Mbyá, a família extensa (kuery) se- lógicas na região de Itapuã (Viamão – RS). Anais do Curso Porto
ria a base da organização social no passado, Alegre: Memória e Identidade. Porto Alegre, SMC, pp. 17-21.
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porém configurada de maneira dispersa en-
espaço metropolitano de Porto Alegre. In: GEHLEN, I.; SILVA, M.
tre vários aldeamentos dispostos na ampli-
B. & SANTOS, S. R. (Orgs.). Diversidade e Proteção Social: Estudos
tude do território, sendo a mobilidade espa- Quanti-qualitativos das Populações de Porto Alegre. Porto Alegre,
cial e a circularidade das pessoas através da Century, pp. 93-109.
via terrestre e fluvial a principal estratégia de BAPTISTA DA SILVA, S.; TEMPASS, M. C.; MACHADO, M. P.
manutenção dos laços sociais e políticos. P.; ARNT, M. A.; PRADELLA, L. G; ROSA, P. C.; SALDANHA, J.
R.; LINHARES, B. F.; GOBBI, F. S. 2008 Coletivos indígenas em
Portanto, os espaços escolhidos para ocu-
Porto Alegre e regiões limítrofes. In: In: GEHLEN, I.; SILVA, M. B.
pação pré-colonial se manteriam os mesmo
& SANTOS, S. R. (Orgs.). Diversidade e Proteção Social: Estudos
em função da abundância de recursos locais, Quanti-qualitativos das Populações de Porto Alegre. Porto Alegre,
justificando os padrões nucleados de sítios Century, pp. 111-166.
observados junto a determinados comparti- BAPTISTA DA SILVA, S.; TEMPASS, M. C. & COMANDULLI,
mentos paisagísticos da região do Lago Gua- C. S. 2010 Reflexões sobre as especificidades Mbyá-guarani nos
processos de identificação de Terras Indígenas a partir dos casos de
íba. Estes seriam os lugares de reprodução do
Itapuã, Morro do Coco e Ponta da Formiga, Brasil. Amazônica, 2
Ñandé Rekó que ao longo de séculos foram
(1): 10-23.
recorrentemente retomados pelos grupos fa- CARLE, C. B. & SANTOS, M. L. N. 2000 Diagnóstico realizado
miliares, num constante movimento de cir- para a verificação da área de instalação de distrito automotivo do
cularidade que buscava recriar cotidiana- município de Guaíba: caracterização arqueológica, histórica e cul-
mente o mundo através do caminhar pelas tural. Revista do CEPA, 24 (32): 41-58.
COMANDULLI, C. 2009 Protectionists and the Guarani: the vil-
terras e pelas águas do tekohá do Guaíba.
lage that did not exist – Social-environmental conflicts in Southern
Brazil. Dissertação de Mestrado. Londres, University College Lon-
Agradecimentos: A Fernanda Neu- don.
bauer, Mariana Araújo Neumann, Marilise DIAS, A. S. & BAPTISTA DA SILVA, S. Prelo. Arqueologia Gua-
Moscardin dos Passos, Michael J. Schaefer e rani no Lago Guaíba: refletindo sobre a territorialidade e a mobili-
Roberta Porto Marques que participaram dade pretérita e presente. In: MILHEIRA, R. & WAGNER, G.
(Eds.). Arqueologia Guarani no Sul do Brasil. Pelotas, Editora da
das pesquisas de campo arqueológicas. Aos
UFPel.
coordenadores do, MARS, MARSUL,
GARLET, I. 1997 Mobilidade Mbyá: História e Significação. Dis-
CEPA/PUCRS e LAE/UFRGS, pelo acesso sertação de Mestrado. Porto Alegre, Pontificia Universidade Cató-
ao acervo documental sob sua guarda. Por lica do Rio Grande do Sul.
último, gostaríamos de agradecer aos Mbyá GARLET, I. & ASSIS, V. S. 2009 Desterritorialização e reterri-
que nos acompanharam nas pesquisas de torialização: a compreensão do território e mobilidade Mbyá-Gua-
rani através das fontes históricas. Fronteiras – Revista de História,
campo, compartilhando conosco suas Belas
11 (19): 15-46.
Palavras.
GAULIER, P. 2001-2002 Ocupação pré-histórica Guarani no
município de Porto Alegre, RS: considerações preliminares e pri-
meira datação do sítio arqueológico RS-LC-71: Ilha Francisco Ma-
nuel. Revista de Arqueologia, 14/15: 57-73.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 56-70 - 2013


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ARTIGO

HISTÓRIA(S)
INDÍGENA(S)
E A PRÁTICA
ARQUEOLÓGICA
COLABORATIVA
Juliana Salles Machado1
1- Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo
ABSTRACT
RESUMO This article approaches theoretical and
O presente artigo aborda questões teóri- methodological issues of the collaborative
co-metodológicas da prática arqueológica archaeological practice in indigenous com-
colaborativa em comunidades indígenas. munities. We will deal with questions rela-
Abordaremos questões relacionados a como ted to the how and why to realize research
e porquê realizar pesquisas envolvendo po- involving traditional populations. In order
pulações tradicionais. A fim de encaminhar to address this, I present a collaborative re-
tal reflexão, apresento uma pesquisa colabo- search with the Xokleng, an indigenous
rativa entre os Xokleng de Santa Catarina. A group of Santa Catarina. The co-existence of
co-existência de trajetórias históricas parti- particular historical trajectories in their ter-
culares em seu território e o conhecimento ritory and the understanding of this palimp-
deste palimpsesto de ocupações e reocupa- sest of occupations and reoccupations is the
ções é o cerne desta pesquisa. Através de focus of this research. Through a collabora-
uma prática científica colaborativa, tem-se tive scientific practice, we have given priori-
priorizado a construção de discursos multi- ty to the construction of multivocal discour-
vocais, permitindo assim a formação e a in- ses, thus allowing the formation and
corporação de distintas noções de tempo, incorporation of distinct notions of time,
espaço, história e memória. space, history and memory.

Palavras-chave: Xokleng, territó- Keywords: Xokleng, territory, me-


rio, memória, arqueologia colaborativa, ar- mory, collaborative archaeology, indigenous
queologia indígena. archaeology.

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PROTESTO por Walderes Coctá questão irei utilizar como estudo de caso o
Priprá TI Laklãnõ, Agosto 2013 diálogo estabelecido por mim com os acadê-
No Brasil temos um grande numero de povos, cada um micos indígenas Xokleng, tal como Walde-
com o seu modo de viver e de ver o mundo. Dentre tantos res, além de posições de outros membros
povos e culturas temos também os povos indígenas que dessa população indígena. Tal diálogo teve
também possuem seu modo de ver e viver, todos tem um início no âmbito da formulação de um pro-
ponto de vista e por isso devem ser respeitados. Muitos
jeto de pesquisa no qual se buscou tratar
que não conhecem a trajetória do meu povo, Xokleng/
questões relativas ao passado a partir de situ-
Laklãnõ, muitas vezes questionam dizendo, por que o
índio quer tanta terra? Mal sabem eles que o povo Xok- ações do presente, tendo como eixo nortea-
leng/Laklãnõ durante muitos anos habitou no vale do dor a história de formação do território indí-
Itajaí, nas encostas das montanhas e no planalto do sul gena Xokleng no estado de Santa Catarina.
do Brasil e sobreviviam da caça, da pesca e da coleta de A importância de abordarmos esta pes-
frutos silvestres e mantinham vivas sua língua, cultura e
quisa neste artigo em específico está, em um
tradição, com a chegada da chamada civilização euro-
primeiro momento, na compreensão de sua
peia tudo mudou, os índios foram  massacrados e uns
levados para serem vendidos como escravos nos merca- própria formulação a partir de uma deman-
dos de São Vicente e na Baia de Todos os Santos, os que da indígena dos Xokleng pela pesquisa ar-
sobreviveram foram mortos por doenças transmitidas queológica em sua terra. Tratarei aqui por-
pelos colonizadores, dizimando quase todos os indígenas. tanto de esclarecer o contexto desta
Hoje os sobreviventes do povo Xokleng/Laklãnõ lutam
demanda e as consequencias destas distintas
para reconquistar uma terra que um dia já foi deles, mas
visões sobre arqueologia para a (re)configu-
devido a tantas burocracias o povo perece,  pois, se no
passado os índios foram mortos a fio de facão, escopetas ração de nossas práticas científicas.
e espingarda, hoje tentam matar na caneta e no cansaço Os Xokleng ocupam atualmente no esta-
mais como sobrevivemos a tantos ataques na aurora do do de Santa Catarina a terra indígena Lak-
dia iremos lutar até o fim para reconquistar nossos direi- lãnõ. A TI Laklãnõ iniciou-se com a criação
tos pelas terras ao qual esta sendo reivindicada. 
de um posto indígena de atração em 1914
Com o protesto de Walderes Coctá Pri- (Nigro 2004), quando foi demarcada uma
prá, acadêmica Xokleng inicio este artigo, no área de 20 mil ha. Ao longo destes anos, no
qual quero refletir sobre aspectos teórico- entanto a área foi diminuindo em função
-metodológicos da prática arqueológica rea- das frentes de colonização, exploração de
lizada em áreas habitadas por populações madeira, construção de hidroelétricas, inva-
chamadas de “tradicionais”, tais como indí- são das terras pela agricultura e pecuária e
genas, ribeirinhos, quilombolas, entre ou- pelo crescimento urbano na região (Nigro
tras. Mais especificamente gostaria de focar 2004, Pereira et al 1998). Atualmente apenas
em um fazer colaborativo da pesquisa que 14.088 ha da terra indígena estão registrados
recentemente vem sendo realizado nos con- (CRI – SPU), no entanto os Xokleng utili-
textos brasileiros e mundiais e de maneira zam cerca de 17 ha em 8 aldeias. Em 1999 foi
mais ampla tem sido relacionado a uma definido uma ampliação da terra indígena
perspectiva de pesquisa mais comumente para 37.108 ha, contudo, desta apenas 23.024
conhecida como etnoarqueologia (David e ha foram declarados e estão em questão no
Kramer 2001, Silva et al 2007, 2009a, 2009b, STF. A questão da delimitação da terra indí-
2011a, 2011b, 2012a, 2012b). O intuito é tra- gena é, portanto, um tema que tem preocu-
zer à discussão os distintos interesses em pado muito os Xokleng.
pauta quando tratamos da questão do patri- Há aproximadamente cinco anos ou
mônio arqueológico. Para dar suporte a esta mais, os Xokleng vêm passando por um pro-

HISTÓRIA(S) INDÍGENA(S) E A PRÁTICA ARQUEOLÓGICA COLABORATIVA Juliana Salles Machado


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cesso de auto-reflexão ou auto-re-criação, o este curso são professores da escola diferen-


que na antropologia muitos têm chamado ciada indígena, no entanto há também ou-
de aprender a ser índio no mundo contempo- tras pessoas vindas de diversas aldeias, além
râneo. Isto é, um processo consciente de de lideranças e caciques regionais que não
busca e reflexão de sua própria cultura e re- estão vinculadas a escola. Este grupo teve
afirmação de sua identidade cultural, atra- como parte de sua atividade curricular aulas
vés da retomada de saberes e conhecimentos de arqueologia ministradas na universidade
do passado. Este complexo processo de re- e um trabalho a ser realizado na aldeia (no
-construção de sua memória está intrinseca- chamado tempo-comunidade). A disciplina
mente relacionado com os fenômenos polí- chamou especial atenção dos Xokleng, que
ticos, econômicos e sociais do presente. muito se interessaram pelas questões relati-
Cada povo indígena possui sua trajetória vas à identificação da cultura material de
histórica particular o que faz com que tam- seus antepassados e a possibilidade de discu-
bém suas demandas contemporâneas com tir o passado Xokleng na academia. Com
relação a sociedade nacional, com a propria base nestes interesses muitos buscaram al-
transformação e manutenção de sua cultura deias antigas e sítios arqueológicos no entor-
lhe seja específica. A atual busca do ser índio no da terra indígena e trouxeram sepulta-
hoje, mais do que uma reflexão sobre seu mentos e cerâmicas para a universidade,
próprio eu, é uma reflexão da sua relação sem naquele momento saberem da prática
com o externo. É uma construção contem- de sistematização da coleta e documentação
porânea do que lembrar e do que esquecer, dos mesmos, além da política nacional de
de quais objetos devem compor o repertório preservação destes objetos, tidos como pa-
tradicional de seu povo, suas festas, rituais, trimônio da união. Tendo sido repassados
histórias ancestrais, enfim qual é o repertó- então tais noções da prática arqueológica e
rio significativo para ser Xokleng hoje. Tal as especificidades metodológicas desta disci-
fenômeno no entanto deve ser compreendi- plina, os Xokleng então demonstraram vivo
do através deste contexto de mudanças, o interesse no estabelecimento de uma pesqui-
que no caso específico dos Xokleng, de um sa arqueológica sobre o seu passado naquele
contexto de aumento demográfico intenso, território.
perda acelerada de sua língua nativa, de suas Quando esta demanda Xokleng chegou a
relações de trabalho e poder com os brancos mim, tivemos um primeiro encontro na uni-
e, como já havíamos mencionado anterior- versidade para discutir quais eram as expec-
mente, a iminente ameaça a sua terra. tativas deles em relação a esta pesquisa. Des-
Foi neste cenário que em 2011 foi criado ta conversa inicial o principal tema era como
na Universidade Federal de Santa Catarina a arqueologia podia ajudá-los no reconheci-
(UFSC) a Licenciatura Intercultural Indíge- mento de seu território tradicional. Após
na do Sul da Mata Atlântica: Xokleng, Kain- esta discussão, eles também ressaltaram seu
gang e Guarani, com o enfoque “Territórios interesse no potencial da pesquisa em trans-
indígenas: questões fundiária e ambiental no mitir o conhecimento tradicional Xokleng
Bioma Mata Atlântica”, curso que atualmen- para os mais jovens, usando assim a arqueo-
te conta com 33 alunos Xokleng. Os estu- logia como forma de preservação de sua me-
dantes indígenas passaram por um processo mória. Com base nesta demanda e expecta-
de indicação dentro de suas aldeias e a maio- tivas propus um projeto baseado na
ria dos indígenas Xokleng que frequentam abordagem da arqueologia colaborativa, na

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qual podíamos conjuntamente elaborar (e ciar seus vestígios daqueles relacionados aos
constantemente re-elaborar) as questões Kaingang. Eles então me perguntaram, “isso
pertinentes à pesquisa arqueológica e ao co- não vale?” Esta pergunta tocou no ponto
letivo Xokleng, além de todos se envolverem crucial do fazer arqueológico contemporâ-
na sua aplicação prática (cronograma, méto- neo: como lidar com as diferentes formas de
dos e técnicas) e a interpretação dos dados. construção do conhecimento, especialmente
Em um segundo encontro, ainda na uni- no caso de trabalhos com, para ou pelas po-
versidade, expus a eles as discussões arque- pulações indígenas? Como praticar uma ar-
ológicas já existentes para a região atual- queologia menos excludente e mais respon-
mente ocupada pela terra indígena, sável perante as populações indígenas que
mostrando quais foram as questões aborda- durante muito tempo permaneceram relega-
das e quais são os modelos científicos exis- das à objetos de pesquisa e não sujeitos ativos
tentes para compreender a trajetória pré- na construção de um conhecimento público
-colonial dos índios na região (Noelli 1996, ou cientificamente aceito (Colwell-chantha-
1999, 1999/2000, Schmitz e Beber 2011, Sil- phonh e Ferguson 2008, Colwell-Chantha-
va 2000, Eble 1973). Neste momento foi ex- phonh 2009, Silliman 2008, Smith e Wobst
posto a dificuldade da arqueologia em asso- 2005, Meskell 2009, Silva 2012, 2011).
ciar os vestígios arqueológicos encontrados Pega de surpresa, minha resposta para
na região sul do Brasil aos Xokleng, sendo esta pergunta tão pertinente foi que ela atu-
mais comumente utilizado uma macro-divi- almente era válida entre eles e pequenas
são entre os Jê do sul (categoria que envolve partes da sociedade, sensíveis às questões
os Xokleng e os Kaingang) e os Guarani. indígenas, mas que com este projeto, nosso
Outra abordagem utilizada está relacionada intuito seria discutir e refletir sobre as pos-
a divisão entre tradições arqueológicas (tra- sibilidades de torná-la válida também pe-
dição cerâmica Itararé, Casa de Pedra e Ta- rante o discurso público, legal e/ou científi-
quara) sem uma correlação direta as popu- co. Acredito ser este o desafio
lações que as produziram. contemporâneo da arqueologia colaborati-
Há no entanto, uma tentativa dos pes- va, flexibilizar a pesquisa arqueológica para
quisdores em identificar grupos culturais incorporar diferentes visões sobre o passa-
associados aos vestígios categorizados. A do, não de forma a produzir um discurso
Tradição Taquara estaria associada no Rio homogêneo e estável, mas sim trazendo a
Grande do Sul aos Kaingang, pois seus ves- complexidade e diversidade de idéias sobre
tígios são encontrados em áreas ocupadas o passado, sobre cultura material e sobre o
historicamente por estes grupos. A tradição patrimônio como um todo. Assim a impor-
Casa de Pedra, segundo Miller, teria sido tância deste projeto está baseada na possibi-
um erro de classificação e estaria relaciona- lidade de contemplar, por um lado, uma
da as outras duas tradições. O problema problemática tradicionalmente classificada
maior entre a correlação das tradições ar- como “arqueológica” acerca da trajetória
queológicas com grupos etnográficos está histórica dos Xokleng nesta região sul do
na tradição Itararé, que se espalha por áreas Brasil (vide questões ainda em aberto sobre
de Santa Catarina, Paraná e São Paulo e ora a diferenciação dos vestígios materiais rela-
é associada aos Xokleng ora aos Kaingang. cionados aos Xokleng ou Kaingang, ainda
Tal quadro foi muito questionado pelos agrupados na designação Jê do sul; a asso-
Xokleng que afirmavam conseguir diferen- ciação das tradições cerâmicas Itararé-Casa

HISTÓRIA(S) INDÍGENA(S) E A PRÁTICA ARQUEOLÓGICA COLABORATIVA Juliana Salles Machado


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de Pedra-Taquara e líticas como Umbu, antigas e áreas de manejo ambiental (Balée


com estas populações indígenas, ampla- 1994, Posey 1987, Machado 2012) identifi-
mente debatida, mas ainda com poucas cáveis na TI e entorno, incorporando tam-
abordagens interdisciplinares e principal- bém sítios arqueológicos previamente iden-
mente etnoarqueológicas (ver Noelli 1999), tificados e selecionados amostralmente
e questões mais geral sobre território, mobi- dentre o vale do Itajaí (Eble 1973, Schmitz e
lidade e padrão de assentamento) e outra Beber 2011, Noelli 1996, 1999, 1999/2000,
êmica, relacionada à questões sociais, polí- Nigro 2004, Reis 2002). É a partir de uma
ticas e de memória em grande indissociá- visão integrada entre estes aspectos que re-
veis da questão da terra e do território. fletimos sobre o que mudou e o que perma-
Através deste diálogo estabelecemos neceu na ocupação, uso e manejo deste ter-
conjuntamente que o território seria por- ritório na longa-duração.
tanto o eixo comum de nossos interesses e Articulando estes interesses podemos
através dele poderíamos abordar questões realizar um fazer arqueológico mais ético e
centrais tanto do ponto de vista acadêmico, responsável para com estas populações
como para os interesses coletivos indígenas. (vide bibliografia como por exemplo,
Usando a linguagem já difundida dentro da Colwell-chanthaphonh e Ferguson 2008,
acadêmia (mas que acreditamos agrupar as Colwell-Chanthaphonh 2009, Silliman
questões relevantes tanto para nós pesqui- 2008, Smith e Wobst 2005, Meskell 2009,
sadores, como pelos coletivos indígenas, Silva 2012, 2011a, Silva et al 2011, entre ou-
conforme discutido anteriormente), pode- tros), na qual busca-se aliar interesses so-
riamos apontar então que a pesquisa passou ciais e políticos das populações indígenas
a tratar de questões relativas à: forma de com os acadêmicos em busca de uma pro-
utilização do território (Zedeño 2008, 1997, dução do conhecimento sobre o passado
Silva e Stuchi 2010; Silva 2011, Silva et al mais inclusiva e multivocal, uma que incor-
2011); ao significado dos lugares (Bowser e pore diferentes visões sobre o passado e so-
Zedeño 2009, Whitridge 2004, Carroll, Ze- bre o usufruto do patrimônio arqueológico
deño e Stoffle 2004, Silva 2011, 2010), ao (Smith 2008, Silva 2011b). A possibilidade
manejo ambiental (Machado 2012, Stewart, de tecer pesquisas que conjuquem interes-
Keith e Scottie 2004), e às concepções de ses e problemas científicos, acadêmicos, so-
mundo relacionadas ao uso e apropriação ciais e políticos representa um grande passo
do espaço e a criação do sentimento de ter- para uma nova prática arqueológica, mais
ritorialidade (Machado 2012, Zedeno 2009, responsável e ciente de seu papel perante a
Bowser e Zedeño 2009; Colwell-chantha- sociedade e, mais especificamente, perante
phonh e Ferguson 2008). No questionamos populações historicamente silenciadas (Sil-
sobre como estas atividades do presente es- va 2011a, 2011b; Silva et al 2011). Tendo em
tão imbricadas com aquelas do passado. Es- vista que toda arqueologia tem implicações
tas ações mudaram com relação ao passa- sociais e políticas (Smith e Wobst 2005,
do? Como? Meskell 2009), uma prática colaborativa re-
Na prática este projeto incorpora uma força a necessidade de repensarmos os mé-
pesquisa documental, a coleta e análise de todos e teorias até então praticados tanto do
aspectos da história oral e a implementação ponto de vista da disciplina arqueológica
de práticas arqueológicas de levantamento, (Colwell-chanthaphonh e Ferguson 2008,
prospecção e escavação amostral nas aldeias Colwell-Chanthaphonh 2009, Silliman

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2008, Silva 2011a), como do gerenciamento cas e cosmológicas dos lugares como de ca-
e usufruto do patrimônio arqueológico racterísticas físicas.
(Smith 2008, Ferreira 2011, Silva 2011b). A dwelling perspective proposta por In-
gold ressalta a historicidade, ou temporali-
Lugar, Memória e Território dade para usar seu próprio termo, desta pai-
Como mencionamos anteriormente, ao sagem. Este engajamento perceptivo dos
estabelecer como eixo norteador deste pro- humanos com o ambiente cria a própria
jeto o seu território tradicional Xokleng, es- paisagem e dentro dela encontramos a cria-
tamos dialogando principalmente com as ção dos chamados lugares. Lugar para Paul
discussões do manejo ambiental e da paisa- Lane (2008:240) é parte de uma paisagem
gem. Na arqueologia, paisagem é tida mui- maior constituída de história, atividades ro-
tas vezes como sinônimo de meio-ambiente, tineiras ou ambos. Cada lugar tem qualida-
dissociada da sociedade humana e concebi- des distintas e significativamente particula-
da como repositória de recursos necessários res derivadas de suas inter-relações com
para obtenção e manutenção da subsistência outros lugares que são eles próprios parcial-
dos grupos humanos; como sinônimo de es- mente criados pela performance repetida de
paço, paisagem como terra, composta por atividades costumeiras mas também par-
componentes bióticos e abióticos, com es- cialmente pelo ato de contar.
trutura e transformação própria, decorrente Segundo David e Thomas “para entender
de uma dinâmica interna a qual os homens a paisagem deve-se delinear seus meios de
tentam se adequar e domesticar. Essa mes- engajamento, a maneira que é entendida,
ma paisagem externa, que precisa ser do- codificada e vivida na prática social e cada
mesticada para ser incorporada pode ser um desses, assim como a própria paisagem,
vista como algo indissociável, construído tem história (2008: 36). É nesse sentido que
não apenas pela domesticação, mas pela as paisagens são sempre espaços territoriais,
percepção. porque são controladas e contestadas na
Durante muito tempo, na arqueologia a prática social e política e são ontológicas
noção de lugar era isenta da idéia de um lu- “porque são sempre conhecidas através da
gar significativo (meaningful places) (Zede- emergência de visões de mundo históricas”
no 2008, Bowser e Zedeno 2009) e de um (David e Thomas 2008:38).
significado de “estar em um lugar” (meanin- Estudos contemporâneos de território
gful emplacement), assim como estava isenta em sociedades passadas moveram além da
de experiência social e “saliência”, como nos distribuição espacial de artefatos portáteis
indica David e Thomas (2008). Ainda na dé- para abarcar feições anteriormente ignora-
cada de 1980, os trabalhos de Ian Hodder das como santuários, megalitos, arte rupes-
(1986) indicavam que o registro arqueológi- tre entre outros, como sinais materiais de
co sinalizava não tanto humanos biologica- territórios antigos. Muitos habitats de plan-
mente adaptados, mas pessoas sociais inte- tas assim como fontes minerais também fo-
ragindo que se engajavam com seu entorno ram abordadas da perspectiva dos direitos
de diversas maneiras, incluindo práticas de uso individual e de grupo, assim como
simbólicas. Paisagens então deixaram de ser seres espirituais (Zedeño 2008:213). A com-
“paisagens ambientais” para serem de fato binação de fatores naturais com modifica-
“paisagens sociais”. Arqueologia da paisa- ções humanas é que permite aos arqueólo-
gem hoje trata tanto de dimensões ontológi- gos identificar não apenas territórios, mas

HISTÓRIA(S) INDÍGENA(S) E A PRÁTICA ARQUEOLÓGICA COLABORATIVA Juliana Salles Machado


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formas e estratégias específicas de territoria- como a ciência e mais especificamente a ar-


lidade, que é um processo que “envolve con- queologia assumiu uma postura de autori-
trole, exclusão e defesa para humanos serem dade perante as instituições e orgãos públi-
capazes de interagir em um espaço tridi- cos em detrimento às comunidades e
mensional que pode eventualmente ser um coletivos não-científicos. Como alguns au-
território” (Zedeño 2008). tores tornam evidente, o processo de valori-
zação da ciência enquanto único ponto de
Algumas reflexões sobre patri- vista válido para decidir acerca da gestão do
mônio patrimônio arqueológico está pautado em
Ao ter como foco o território e a territo- uma história colonialista de formação da
rialidade, ao trabalhar de forma conjunta disciplina (Smith 2008; Smith e Wobst 2005;
com coletivos indígenas, estamos lidando Ferreira 2011) e sua ratificação pelo aparato
não apenas com o significado da variabilida- institucional e governamental (Smith 2008;
de dos vestígios arqueológicos, mas também Fairclough 2008, Silva 2011b).
com distintas formas de pensar, disttintas Tal legado colonialista vem sendo trata-
percepções sobre o passado, sobre os objetos do por diversos autores que propoem práti-
e sobre a paisagem. Tais diferenças tem con- cas contemporâneas que visem equilibrar de
sequencias importantes para a pesquisa e maneira mais justa a construção do discurso
geram reflexões contundentes sobre o papel sobre o passado incorporando percepções
do arqueólogo. Escolher que sítios arqueoló- de outros agentes não-cientificos também
gicos serão preservados e quais serão pes- interessados no tema. Como nos ressalta Sil-
quisados e destruídos é função do arqueólo- va (2011:189), “não são apenas os arqueólo-
go. O arqueólogo é portanto o responsável gos que valorizam o conhecimento sobre o
pelo gerenciamento do patrimônio arqueo- passado e que as razões para a preservação
lógico, mesmo que, em geral, as pesquisas do patrimônio arqueológico são múltiplas,
arqueológicos não tenham como principal contextuais e situacionais”. Esta mesma au-
preocupação a questão do patrimônio. O fa- tora chama atenção para as percepções dis-
zer arqueológico é portanto inexoravelmen- tintas sobre o que é patrimônio e como ele
te relacionado a preservação ou não deste deve ser usufruído: “em contextos indíge-
patrimônio. No entanto, a questão patrimo- nas, portanto, a investigação arqueológica
nial é pouco discutida dentre as pesquisas precisa fazer um esforço para abandonar
(Smith 2008), e quando o é, normalmente suas concepções “etnocêntricas” sobre o
está relacionada a sua gestão e não a uma passado e a memória, considerando a diver-
postura reflexiva. Contudo, quando estamos sidade e o pluralismo destas concepções na
tratando de uma arqueologia colaborativa interpretação e apropriação do patrimônio
em terra indígena, uma questão de base se cultural” (Silva 2011:207)
coloca, parafraseando alguns autores, a Como indicamos ainda na introdução
quem interessa o passado (apud Silva deste artigo, a questão sobre quem pode
2011b)? Quem tem o direito de escolher o produzir conhecimento sobre o passado é
que deve ser preservado ou destruído e latente desde a formulação desta pesquisa
como? Alguns autores, principalmente no junto com os Xokleng. O que buscamos ao
contexto internacional, trouxeram à luz esta longo de toda a prática arqueológica cola-
questão (Smith 2008; Faircclough et al 2008; borativa é uma atitude reflexiva sobre a
Ferreira 2011; Silva 2011b) e nos indicam questão do patrimônio. Por lidar com as po-

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pulações indígenas ou tradicionais em geral, processo atual de “pró-vitalização cultural”


temos a oportunidade de dispor de práticas (parafraseando um termo muito corrente
que contemplem suas próprias formas de entre os acadêmicos indígenas), os Xokleng
percepção histórica. Fugindo de uma forma tem pensado e resgatado seu patrimônio
de “ensinamento” sobre o patrimônio, mas cultural em termos de ações cotidianas, ati-
construindo conjuntamente visões mais vidades produtivas (manejo ambiental, co-
plurais sobre o que é patrimônio cultural nhecimento etnobotânico, produção de ob-
para cada um e como podemos vivencia-lo, jetos). Buscamos assim as associações destas
preservá-lo e integrá-lo nas realidades parti- práticas com o passado e construção de sua
culares de cada contexto. memória. O foco aqui é compreender como
o passado compõem o presente, como a his-
O que esperamos de nossas pes- toricidade ou a temporalidade é pensada e
quisas colaborativas? praticada e como ela tem se representado
Os resultados de pesquisas colaborativas como um elemento transformador do futu-
podem ser entendidos por dois vieses: um ro destas sociedades na sua relação com a
relacionado ao conhecimento produzido so- sociedade nacional. Talvez com este tipo de
bre os povos tradicionais (neste caso, os abordagem, que favorece uma visão integra-
Xokleng, o Jê do sul e o manejo e concepção da do patrimônio material e imaterial, pos-
do território do vale do Itajaí – dados pou- samos ter novos subsídios para discutir os
quíssimo explorados até o momento) – e contextos arqueológicos e buscar novos sig-
outro relacionado ao próprio processo de nificados para nossas tão desgastadas classi-
construção de um fazer arqueológico com os ficações.
coletivos indígenas. No nosso estudo de O segundo viés que pesquisas colabo-
caso, poderíamos associar a produção de co- rativas traz está na descentralização da
nhecimento sobre a problemática arqueoló- produção do conhecimento, ao propagar
gica de ocupação pré-colonial do sul do Bra- uma prática mais reflexiva, inclusiva e
sil (Noelli 1999, 1999/2000, Schmitz e Beber ética. Trata-se de criar uma nova relação
2011, Reis 2002) e a dificuldade em relacio- entre pesquisadores e coletivos locais,
nar os vestígios materiais, especificamente trazendo para a disciplina arqueológica
neste caso a cerâmica (Silva 2000, Noelli uma postura de engajamento social e
1999) com grupos étnicos. Segundo Noelli político que no contexto internacional
(1999), é apenas a partir de abordagens in- há algum tempo a antropologia de uma
terdisciplinares e, mais especificamente, de maneira mais ampla já adotou, mas que
abordagens que envolvam pesquisas etnoar- no Brasil, devido em grande parte à his-
queológicas, que a relação entre os Xokleng tória colonialista da arqueologia, esta fi-
e os Kaingang e os vestígios arqueológicos cou à margem dessas discussões. Acredi-
atualmente atribuídos de forma genérica ao to que o estabelecimento de uma relação
Jê do sul, poderão ser melhor compreendi- distinta entre sujeitos e objetos da pes-
dos e, consequentemente, a ocupação pré- quisa tem um potencial efetivo de mu-
-colonial desta região por estas populações. dança na produção do conhecimento
No entanto, esta pesquisa não se propõe a em arqueologia.
diferenciar as cerâmicas arqueológicas co- Os resultados de pesquisas colabora-
nhecidas entre os grupos indígenas atuais, tivas também reverberam em dois âmbi-
mas sim, buscar compreender como neste tos, no meio acadêmico e entre os coleti-

HISTÓRIA(S) INDÍGENA(S) E A PRÁTICA ARQUEOLÓGICA COLABORATIVA Juliana Salles Machado


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vos indígenas envolvidos. No exemplo tensa participação deles nas atividades e


utilizado de nossa pesquiso junto com os resultados do projeto. Trabalhos seme-
Xokleng, no âmbito acadêmico, esta pes- lhantes realizados em comunidades in-
quisa será realizada em parceria com os dígenas no Brasil (Silva 2011, Silva et al.
acadêmicos indígenas da Licenciatura 2011, Bespalez 2009, Stuchi 2010), Esta-
Intercultural Indígena da UFSC, que so- dos Unidos (Zedeño 1997, 2008;
licitaram a pesquisa em sua terra e que Colwell-chanthaphonh e Ferguson 2008;
participam do projeto desde sua concep- Siliman 2008) e Australia (Smith 2008)
ção. Assim o projeto, seu andamento e mostram um grande impacto na dinâ-
resultados serão discutidos na universi- mica interna das comunidades, gerando
dade com os Xokleng através de grupos uma mobilização interna e uma reflexão
de trabalho no tempo-universidade, geral sobre o passado e sua ancestralida-
participação nas etapas de campo e reu- de. A importância do passado dentre as
niões de trabalho durante o tempo-co- comunidades indígenas é bastante co-
munidade. Atualmente aproximada- nhecida na antropologia, no entanto, o
mente 20 alunos Xokleng fazem parte do que os índios tem buscado através destas
grupo de trabalho sobre este três se de- parcerias é tornar este conhecimento
dicam mais efetivamente na co-coorde- tradicional válido em termos científicos.
nação desta pesquisa, o que deverá gerar Isto se deve, em grande parte, a dificul-
publicações em co-autoria e participa- dade que estes grupos tem enfrentando
ção de eventos sobre o tema. na manutenção de seu território tradi-
Outra forma de disseminação dos re- cional. O aumento no número de obras
sultados está relacionada as comunida- de desenvolvimento (hidrelétricas, es-
des indígenas. Entre os Xokleng, sendo tradas, linhas de transmissão, etc.) tem
uma pesquisa colaborativa, a participa- gerado um conflito crescente entre estes
ção dos interessados na pesquisa entre grupos e a sociedade nacional. O uso
os Xokleng das oito aldeias, está aberta tradicional do território e seu vínculo
para além dos chamados acadêmicos in- com a região tem sido um dos principais
dígenas. Assim, realizamos encontros argumentos utilizados na defesa de suas
abertos nas aldeias, discussões com lide- terras. É neste sentido que a arqueologia
ranças e caciques, de forma que todos os assume um lugar privilegiado nesta dis-
interessados da comunidade possam cussão, pois tem o potencial de transmi-
participar, incluindo formas variadas de tir a partir de moldes científicos a rela-
envolvimento no projeto. A repercussão ção dos grupos indígenas com o
de tal envolvimento não pode ser medi- território em uma ampla escala tempo-
da a priori, pois é dependente do engaja- ral. Tal possibilidade tem motivado um
mento das pessoas ao longo da pesquisa grande envolvimento das comunidades
e tem se mostrada bastante variável, de- indígenas com a prática arqueológica,
pendendo do calendário de outras ativi- revitalizando discussões sobre o passado
dades coletivas na TI, como as festas da e, em muitos casos, levando a uma prati-
escola e do tão popular Dia do Índio. No ca intensiva dos mais velhos para os mais
entanto, tendo em vista tratar-se de um novos sobre o uso do território, as anti-
projeto baseado em uma demanda dos gas aldeias e as práticas ancestrais. Em
próprios indígenas, é esperado uma in- muitos casos, objetos materiais tradicio-

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N1: 72-85 - 2013


82

nais que há muito haviam sido abando- ma de tradução visual das múltiplas co-
nados, voltam a ser produzidos e ativa- nexões estabelecidas entre os coletivos
-se um engajamento dos mais novos indígenas e seu território, condensando
para a manutenção deste conhecimento visões de passado, presente e futuro que
tradicional. perpassam relações de pertencimento
É neste sentido que o envolvimento social, de parentesco e suas cosmovisões.
dos Xokleng na pesquisa arqueológica A articulação entre a materialização des-
tem um potencial de reflexivilidade so- tas relações e as representações de cunho
bre o passado Xokleng, seus vestígios e cartográfico são frequentes, tendo em
uso do território. Desde sua concepção, vista o uso recorrente desta documenta-
ele tem estimulado os mais jovens a bus- ção não apenas pelos pesquisadores,
car os sábios mais velhos na busca do mas também como ferramenta política
fortalecimento e reafirmação de uma na delimitação de suas terras e direitos
memória coletiva tradicional. Foi pro- tradicionais. No estudo de caso de Xok-
posto por eles a criação de material didá- leng, a produção coletiva deste mapa foi
tico como resultado desta pesquisa para proposta como parte consitutiva do ma-
utilização em sala de aula na escola indí- terial didático a ser produzido.
gena da TI La-Klaño. Este material será Realizar pesquisas colaborativas e,
produzido em colaboração com a Licen- mais especificamente pesquisas arqueo-
ciatura Indígena Intercultural e será lógicas em terras indígenas ou de popu-
concebido pelos próprios indígenas do lações tradicionais de maneira geral, é,
curso a partir de uma discussão conjun- em um primeiro momento, compreen-
ta dos resultados da pesquisa. der as diferentes expectativas, práticas e
Outro resultado que poderia ser con- visões sobre o mundo - passado, presen-
siderado um produto de ambos vieses, e te e futuro de cada uma das partes envol-
que tem sido uma prática em contextos vidas na execução desta pesquisa. É tam-
internacionais é a produção do que po- bém refletir o que vamos fazer sobre esta
demos chamar de mapas êmicos ou et- diferença. Não trata-se pois do estabele-
nomapas. Um mapa êmico é uma repre- cimento de uma narrativa histórica so-
sentação visual, gráfica, do território. bre as populações indígenas, um discur-
Esta materialização visa agregar diversos so que consiga articular tanto visões
conhecimentos acerca do território e acadêmicas ocidentais e visões nativas.
pode ter inúmeras variações dependen- Trata-se sim de respeitar e compreender
do dos interesses da comunidade e dos as distintas historicidades, temporalida-
pesquisadores envolvidos. De maneira des e relações com os objetos, pessoas e
geral, vê-se uma associação entre uma lugares. Trata-se de um compromisso
visão ocidental, pautada na cartografia ético de que estas pessoas sejam ouvidas
de escalas métricas, e as concepções, e perante a sociedade e perante as legisla-
associações nativos acerca de sua terra. ções, trata-se assim de tornar mais simé-
Pretende-se assim produzir uma repre- trico o papel de seus discursos e visões
sentação gráfica em papel que demons- sobre o passado (e assim inevitavelmen-
tre o significado e articulações dos luga- te sobre seu presente e seu futuro) pe-
res que compõem o território atual e rante uma sociedade que atualmente
passado indígena. Trata-se de uma for- não possui as ferramentas necessárias

HISTÓRIA(S) INDÍGENA(S) E A PRÁTICA ARQUEOLÓGICA COLABORATIVA Juliana Salles Machado


83

para estabelecer esta multivocalidade CUNHA, M. C. 1992. Introdução a uma história indígena. In:

em termos legais, especialmente quando Cunha, M. C. da. (org.). História dos índios do Brasil. São Paulo:
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estamos tratando do gerenciamento do
DAVID, N. e KRAMER, C. 2001. Ethnoarchaeology in action.
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scape Archaeology. Walnut Creek, CA: Left Coast Press, pp. 27-

Agradecimentos: Esta pesquisa tem 43.


DEBOER, W. R. E LATHRAP, D. 1979 The making and break-
financiamento da FAPESP e faz parte de
ing of Shipibo-Conibo ceramics. In Ethnoarchaeology: implica-
meu pós-doutorado no Museu de Arqueolo- tions of ethnography for archaeology, Kramer (ed.), pp.102-38.
gia e Etnologia da Universidade de São Pau- New York: Columbia University Press.
lo. Agradeço a Fabíola A. Silva e Francisco DUNNELL, R. 1986. Advances in Archaeological Method and
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pesquisa e a todos os acadêmicos Xokleng EBLE, A. B. 1973. Identificação arqueológica de padrões de


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REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N1: 72-85 - 2013


86
ARTIGO

Arqueologia
e etno-história
na Terra Indígena
Lalima,
Miranda/MS
Eduardo Bespalez1
1- Doutorando em Arqueologia no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São
Paulo (MAE/USP), professor do Departamento de Arqueologia da Universidade Federal de
Rondônia (DARQ/UNIR)

Eduardo Bespalez
Resumo:
Desde a primeira vez em que demonstrei Abstract:
meu interesse em pesquisar arqueologia na Since the first time that I showed my in-
Terra Indígena Lalima aos índios que a ocu- terest in researching archeology in the Lali-
pam, muitos identificaram pesquisa arqueo- ma Indigenous Land to the Indians occu-
lógica com etno-história e territorialidade. pying it, many identified archaeological
Um deles, Manoel de Souza Neto, escolhido research with ethno-history and territoriali-
pelas lideranças indígenas para auxiliar as ty. One, Manoel de Souza Neto, chosen by
atividades de pesquisa, logo se mostrou um indigenous leaders to assist research activi-
profundo conhecedor da paisagem cultural ties, soon showed a deep knowledge of the
e do território tradicional. Além das taperas cultural landscape and the traditional terri-
ou ruínas das antigas moradias, o Manoel tory. Besides the Taperas or ruins of ancient
também pôs ênfase numa rede de lugares villages, Manoel also put emphasis on a ne-
dispostos na paisagem, tais como marcos twork of places arranged in the landscape,
territoriais, recursos naturais e locais cheios such as territorial landmarks, natural re-
de significados culturais, situados dentro e sources and places full of cultural meanings,
fora dos limites territoriais registrados pela located inside and outside the territorial li-
FUNAI. Assim, este artigo tem o objetivo de mits recorded by FUNAI. Thus, this paper
apresentar os resultados iniciais de um estu- aims to present the initial results of an eth-
do etnoarqueológico destes lugares signifi- noarchaeological study of these meaningful
cativos. places.

Palavras-chave: arqueologia, etno- Keywords: Archaeology, Ethnoarcha-


arqueologia, etno-história, história indíge- eology, Ethno-history, Indian History, Lali-
na, Terra Indígena Lalima/Miranda/MS. ma Indigenous land / Miranda / MS.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 86-94 - 2013


88

“AUQUEOLOGIA” Guana, pensei num levantamento arqueo-


Quando cheguei à Terra Indígena Lali- lógico que buscasse os correlatos materiais
ma, em Miranda/MS, no Pantanal (ver figu- da trajetória histórica da ocupação indígena
ra 1), eu estava interessado em contribuir regional. Eu queria demonstrar que Lalima
com a história cultural da ocupação indíge- poderia ser compreendida, arqueológica e
na regional. O contexto etnográfico em La- etnoarqueologicamente, como um palimp-
lima é constituído por índios Guaikuru, sesto da História Indígena regional (Bespa-
Terena, kinikinao e Laiana (Cardoso de Oli- lez, 2009).
veira, 1970: 75-77), e, pelo que era sabido Em uma reunião um tanto quanto tensa,
até então, o contexto arqueológico era for- discutida em outros escritos meus e dos co-
mado por um sítio Guarani (Kashimoto & legas que me acompanhavam, cada qual
Martins, 2008: 153, 155). Historicamente, com os seus próprios objetivos (Bespalez,
os Guarani abandonaram a região de Mi- op. cit.: 169-79; Pouget, 2010; Silva, 2009;
randa no século XVII, e então os Guaikuru Silva et al.: 2010), explicamos o projeto às
e os Guana, entre os quais se incluem os Te- lideranças indígenas, formadas pelo caci-
rena, Kinikinao e Laiana, entre outros, se que, o vice-cacique, o conselho tribal, os
estabeleceram na região1. Destarte, visto anciões e o chefe de posto da FUNAI, e pe-
que já havia um Sítio Guarani em Lalima, e dimos que eles nos indicassem duas pessoas
que o contexto etnográfico atual era forma- que pudessem nos auxiliar nas atividades de
do por descendentes dos Guaikuru e dos pesquisa.

Figura 1: Mapa de localização da Terra Indígena Lalima

1- As fontes primárias e secundárias sobre a ocupação indígena re-


gional são relativamente abundantes, de modo que seria inviável ci- No dia seguinte, foi-nos apresentado
tar as referências sem olvidar um ou outro título imprescindível sobre Manoel de Souza Neto, um índio Guaikuru,
o assunto. Assim, gostaria de remeter os interessados às reflexões
e bibliografias contidas nos textos dos seguintes autores: Carvalho “filho do lugar” (ver figura 2).
(1992), Eremites de Oliveira (2009) e Gadelha (1980). Em se tratan-
do especificamente da Terra Indígena Lalima, além das duas referên- No período em que fomos realizar o pro-
cias citadas antes desta nota, ver Azanha (2004), Cardoso de Oliveira jeto de levantamento arqueológico em Lali-
(1968, 2002), Ferreira (2007), Ribeiro (1980), Taunay (2000) e Von
den Steinen (1940). ma, o Manuel fazia parte do conselho tribal.

Arqueologia e etno-história na Terra Indígena Lalima, Miranda/MS Eduardo Bespalez


89

“Lalimagad”, que quer dizer “o


sol se põe aqui”.
No tempo do “Pirizar” não
tinha muita gente. Só tinha 13
casas. Era só mato. Não tinha es-
trada, só trilho. Era só “Guaiku-
ruzada”, mas também tinha Tere-
no, Kinikinao e Laiano, e branco,
correntino e paraguaio.
A “Divisa do Lalima” era
maior que a “Divisa da FUNAI”
. Tinha “marco” na “Baía do Ar-
rozal”, no “Córgo Fundo” e na
“Ponta da Mata Grande”. Na
“Ponta da Mata Grande” tinha o
“marco de vinhático”. Mas os
“marco” foram derrubados, com
machado, trator, e foram quei-
mados pelos fazendeiros.
“Daí”, a “Santa Rosa” e a “Var-
ge Grande”, duas fazendas que
usurparam terras indígenas,
Figura 2: Manoel de Souza Neto, índio Guaikuru, principal cola- avançaram.
borador nas pesquisas arqueológicas e etnoarqueológicas na Terra O “João da Praia”, que era ca-
Indígena Lalima
sado com uma índia, guardava a
“Divisa do Lalima”. “Tropelaro
Logo me lembrei, assim que o vi, que o mes- ele” e ele veio pro “Pirizar”
mo havia participado da reunião no dia an- O “Capitão Inocêncio Xavier”, um chefe
terior. Reiteramos as explicações sobre o Guaikuru, demarcou uma área, que é a “Di-
projeto e o Manoel começou a nos auxiliar. visa do Inocêncio”. Também “tropelaro ele”
A resposta dele às nossas questões foi nos e ele foi para a “Campina do Inocêncio”.
levar até as taperas mais antigas de Lalima e Morou um tempo por lá, mas adoeceu e
nos contar a história do lugar. morreu.
Também tinha marco na “Divisa do Ino-
“FOI ANSSIM” cêncio”, mas só sobrou um, que se encontra
Resumidamente, conforme umas anota- na “Santa Rosa”. Tinha marco onde tem a
ções feitas em conjunto com o Manoel, Lali- “Figueira”, na beira do Miranda, mas a en-
ma começou na “Tapera do Pirizar” , com 2
chente levou. Tinha um onde tem o “Gua-
os Guaikuru, os “vô” dele. Os “vô” do Mano- pombeiro”, na “Santa Rosa”, mas o fazendei-
el, ou seja, duas tias-avós e o seu avô, eram ro destruiu. No “marco” que sobrou, na
“purunguero” (pajé). “Lalima” é um termo “Santa Rosa”, tem escrito um L e um H, que
Guaikuru. Significa “por do sol”. Vem de é entendido como a sigla de “Lalimagad”.
2- Daqui em diante, recomendo que a leitura do texto seja
Quando veio o SPI, veio gente do “Otro
acompanhada com a figura 3. Lado”, principalmente do “Morro Grande” e

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Figura 1: Mapa de localização da Terra Indígena Lalima

da “Fazenda Jaboti”, que foi morar na “Mata Construíram o “Posto” (do SPI) e a “Igreja”
do Urumbeva”, na “Tapera do Urumbeva”. (católica), na “Sede”. Veio mais gente, Terena,
São os “Cororó”, que são Tereno, e a turma Kinikinao, Laiano, que foi morar na “Sede”. “É
da “Vovó Ñhola”, que são Guaikuru. Eles a turma do Vicentão, do Chefe e do Seu Pau-
eram “que nem escravo” dos fazendeiros do lino”, Tereno, Kinikinao e Laiano. Veio tam-
“Otro Lado”. bém os “Olivera”, que são “correntino”.

Arqueologia e etno-história na Terra Indígena Lalima, Miranda/MS Eduardo Bespalez


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Os “Souza”, os Guaikuru mais antigos em NAI, Polícia Federal, “mais num teve jeito”.
Lalima, também se mudaram do “Pirizar”. Os assentados foram removidos e os indíge-
Foram para “Campina”, depois que a Vicên- nas retomaram o “Potrero”.
cia morreu, uma das tias do Manoel, à qual Geralmente, o Manoel começa suas falas
ora ele chama de tia, ora de vó. com o advérbio “então”, conecta um fato ao
Os Cororó e a turma da “Urumbeva” outro com a locução adverbial “daí” e termi-
também mudaram. Foram para a Sede. na com a fórmula “foi ansim”. Ele pausa vá-
O fazendeiro da “Santa Rosa” arrendou rias vezes, pensa e fala, e mesmo cansado,
600 hectares da “Divisa do Inocêncio”, em nunca deixa uma pergunta sem resposta,
troca de um boi por mês. Ele pagou o arren- mas encerra a conversa antes da próxima
damento por um tempo. Cercou e formou o pergunta.
pasto, mas parou de pagar e vendeu a fazen- Com a convivência, eu soube, pelo pró-
da, com a parte arrendada junto. A “linha” prio Manoel, que ele já havia colaborado
da “Divisa da FUNAI” ficou na cerca que o antes com pesquisas antropológicas, mas do
fazendeiro construiu. tipo “aplicada”, encomendadas pela FUNAI.
O fazendeiro que comprou também Uma destas pesquisas, inclusive, foi rejeita-
“tomo” uma parte da “Divisa do Inocêncio”, da pelos índios, mesmo pelo Manoel, devi-
que fica na “Quebrada da cerca do Três Can- do à desconfiança de que o antropólogo res-
to”. A “linha” da “Divisa do Inocêncio” vinha ponsável e as próprias lideranças indígenas
reta do “Canto do Jaraguá” direto pro “Três teriam se mancomunado com os fazendei-
Canto”, não tinha a “Quebrada da cerca”. ros. Ele me contou que muitas das histórias
O fazendeiro da “Varge” morreu e os fi- que ele sabia eram histórias das quais ele ti-
lhos dele dividiram a fazenda e venderam. A nha sido testemunha, mas que muitas outras
“linha” ficou no “Córgo do Barrero”, que é a eram histórias que ele havia “escuitado” dos
“Divisa da FUNAI”. seus “tio”, dos seus “vô” e dos “antigo”. Ele
O fazendeiro que comprou a “Varge” também disse que depois de ser escolhido
também “tomo” um pedaço da “Divisa da pelo conselho para nos acompanhar, per-
FUNAI”, por que a “linha” era o “Córgo do guntou ao seu pai e a um tio onde tinha “ta-
Barrero”, mas o fazendeiro passou a cerca pera e caco de pote”. Além disso, por mais
reto e “tomo” um pedaço do lado de cá. circunstancial ou esclarecedor que isso pos-
Os Pires e os Andrade moravam na “Var- sa parecer, os “vô” dele, os “purunguero” que
ge”, mas se mudaram por causa do fazendei- moravam no “Pirizar”, colaboraram com
ro. Eles foram lá para a “Divisa”, na “Bera do Darcy Ribeiro e Roberto Cardoso de Olivei-
Barreiro”. Lá também tem “Tapera”. É a “Ta- ra nas pesquisas que estes antropólogos rea-
pera da Divisa”. Depois eles foram para a lizaram, respectivamente, nas décadas de 40
“Campina”. e 50, em Lalima (Cardoso de Oliveira, 2002;
O INCRA desapropriou o “Potrero”. O Ribeiro, 1980).
“Potrero” era da “Varge”. Foram os filhos do
fazendeiro que venderam depois que ele “NUM É DIZ QUE”
morreu. Mas os indígenas consideram que o Dentre os lugares mencionados pelo Ma-
“Potrero” é deles, pois tá dentro da “Divisa noel, tive a oportunidade de conhecer a “Ta-
do Inocêncio”. Já tinha até gente assentado pera do Pirizal”, a “Tapera do Urumbeva”, a
lá. Então foi feito um movimento para reto- “Sede”, a “Campina”, a “Divisa da FUNAI”, o
mar o “Potrero”. Veio o presidente do IN- “Marco”, a “Figueira” e o “Potrero” (ver figu-
CRA e os índios “prendero ele”. Veio FU- ra 4) – de onde pude contemplar a “Campi-

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na do Inocêncio”, situada na vertente oposta, à Fase Jacadigo (cf. Schmitz et al.,1998: 226-
no piemonte do “Morro do Jaraguá”. Simul- 228); c) Tradição Pantanal análogo aos ma-
taneamente, detectamos muitos sítios ar- teriais detectados no sitio MS-CP-25, em
queológicos em Lalima, inclusive o sítio Corumbá/MS (idem: 228-229); e d) mate-
Guarani que havia sido achado antes. Sele- riais detectados em sítios arqueológicos his-
cionamos alguns desses sítios para a realiza- tóricos relativos à formação do contexto et-
ção de atividades de coleta em superfície e nográfico atual... Aos conjuntos detectados
subsuperfície, analisamos algumas amostras nos contextos arqueológicos, ainda podem
de materiais cerâmicos, datamos dois sítios ser somadas as poucas vasilhas confecciona-
pelo método do carbono 14 e recolhemos das com a tecnologia atual dos Terena (con-
informações etno-históricas com vários co- forme Cardoso de Oliveira, 2002: 237), uti-
laboradores. lizadas em alguns domicílios para armazenar
Conforme tornei público em um artigo água e como souvenir, o que totalizaria 5
onde sintetizei os resultados desse levanta- conjuntos de materiais cerâmicos associa-
mento arqueológico (Bespalez, 2010: 119): dos à dinâmica histórica da ocupação indí-
“As observações realizadas em campo, as gena regional...”
análises cerâmicas e as informações etno- Quanto aos significados desses conjun-
gráficas de caráter etno-histórico, revelaram tos, inferi que os Guarani e os povos porta-
a presença de 4 conjuntos de materiais ar- dores da Fase Jacadigo poderiam ser com-
queológicos cerâmicos tecnologicamente preendidos como populações agricultoras
distintos... Os conjuntos observados foram culturalmente distintas que se estabelece-
os seguintes: a) Guarani (cf. La Salvia & Bro- ram na região desde períodos pré-históri-
chado, 1989); b) Tradição Pantanal análogo cos. É importante citar que Schmitz et al.

Figura 4: Potrero, retomada territorial na Terra Indígena Lalima.

Arqueologia e etno-história na Terra Indígena Lalima, Miranda/MS Eduardo Bespalez


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(1998: 228), os proponentes da Tradição tropólogos, arqueólogos e geólogos buscam


Pantanal, suspeitaram “...que os sítios da para vender e “inchê o borso” – o que, diga-
fase Jacadigo sejam recentes, talvez taperas -se de passagem, trata-se de um crime con-
dos pastores Mbayá-Guaicuru do séc. XIX” tra eles, semelhante à tomada das suas terras
(sic). Seja como for, essa discussão ainda e a exploração dos seus recursos.
não terminou, pois apesar da data de 1070 Não obstante, entre um ou outro conflito
+/- 60 (Beta 238768) obtida em Lalima, ain- mais dramático, os indígenas não tiveram
da são necessárias muitas pesquisas arqueo- dificuldades em compreender arqueologia
lógicas para compreender os significados da como história indígena. Com efeito, eles so-
Fase Jacadigo. maram à essa concepção uma outra, mais
No que se refere aos conjuntos formados cultural, pois, pelo que se depreende do que
por materiais semelhantes aos do sítio MS- foi lido até agora, os registros arqueológicos
-CP-25, os quais apresentam uma tecnologia estão plenamente inseridos na cultura indí-
similar àquela registrada etnograficamente gena em Lalima. Assim, eles fizeram aquilo
entre os Kadiwéu, e aos materiais associados que, de uma certa perspectiva antropológi-
pelos interlocutores indígenas à história de ca, é o que mais interessa nas questões ame-
formação do contexto etnográfico atual, fiz ríndias: indigenizaram a arqueologia, pro-
coro com os meus colaboradores, e associei pondo uma arqueologia como etno-história
esses conjuntos aos ancestrais dos índios (Sahlins, 1997a, 1997b, 2011), mas com uma
Guaikurú, Terena, Kinikinao e Laiana que etno-história no sentido antropológico do
ocupam a região de Miranda, inclusive Lali- termo, ou seja, como uma “etno-historiolo-
ma, desde o período colonial até hoje. Con- gia”, uma historicidade particular, discursi-
tudo, é importante esclarecer que apesar dos va, conceitual, possessiva e êmica, calcada
Guaikurú em Lalima se identificarem com em memórias, identidades, territorialidades
os sítios que apresentam fragmentos de va- e paisagens, e como uma “etno-filosofia da
silhas cerâmicas parecidas com as vasilhas história”, com as concepções sobre o passado
Kadiwéu, pois eles mesmos se reconhecem voltadas no entendimento do presente e nas
como “Cadiveu”, eles não têm memórias so- transformações do futuro (Viveiros de Cas-
bre a ocupação desses sítios. Por outro lado, tro, 1993: 25, 1999). Um modo próprio de
a história dos sítios identificados por eles atribuir significado histórico ao lugar, de ge-
como tapera é conhecida por praticamente rir o patrimônio e de fazer arqueologia
quase todos os velhos, pela maioria dos (González-Ruibal, 2008; Hodder, 1988: 143;
adultos e também por alguns jovens, princi- Lane, 2006: 417; Zedeño & Bowser, 2009).
palmente entre aqueles que incorporam o Toda vez que o Manoel achava uma tape-
conhecimento necessário para se tornarem ra e que nós respondíamos que era isso mes-
caçadores. mo que nós estávamos procurando, ele con-
Já os sítios Guarani e Jacadigo, geralmen- cluía para si mesmo e para quem quer que
te maiores e mais densos, são compreendi- fosse: “então tá provado”. De fato, numa Ter-
dos em termos míticos, mágicos e minerais, ra Indígena onde a população cresceu mil
sendo considerados “enterros”, “guardados” por cento em menos de um século, passan-
ou “encantados”, onde há ou houve potes do de 130 pessoas, em 1919, à 1379, em
cheios de pedras preciosas escondidos no 2007, e onde o espaço, ao contrário, dimi-
tempo da Guerra do Paraguai, ou como algo nuiu uns 200 hectares, passando de 3600 à
de valor, como ouro e diamantes, que os an- 3400 – sendo que destes apenas 3 mil foram

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 86-94 - 2013


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registrados pela FUNAI – nada mais justo KASHIMOTO, E. M. & MARTINS, G. R. 2008. A problemática
que compreender a “auqueologia” como a arqueológica da tradição cerâmica Tupiguarani em Mato Grosso
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“prova” de que “num é diz que”, ou seja, que
rani. Brasília: IPHAN.
o que é “falado” aconteceu mesmo, “foi an-
LANE, P. 2006. Present to past: ethnoarchaeology. In: C. Tilley
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Arqueologia e etno-história na Terra Indígena Lalima, Miranda/MS Eduardo Bespalez


TERRITÓRIOS EM
96 DISPUTA: O PAPEL
DA PESQUISA
ARTIGO ETNOARQUEOLÓGICA
NOS ESTUDOS DE
IDENTIFICAÇÃO E
DELIMITAÇÃO DAS
TERRAS INDÍGENAS
GUARANI ÑANDEVA
NO SUDESTE DO
ESTADO DE SÃO PAULO
Robson Rodrigues1
1- Doutor em Arqueologia pelo MAE/USP e Pós-Doutor em Antropologia pelo CEIMAM/FCL/UNESP.
GEA/CEIMAM/FUNDAÇÃO ARAPORÃ.
robson_arqueo@yahoo.com.br
Resumo ABSTRACT
Em diferentes períodos históricos as ter- In different historical periods the lands
ras da região sudeste paulista eram habita- of the southeast of São Paulo were inhabited
das por populações indígenas Guarani e que by the Guarani indigenous population,
durante o processo de colonização foram whom, during the colonization process,
transferidas para a Terra Indígena Araribá, where transferred to the Indigenous Land
município de Avaí, região de Bauru, centro Araribá, Avaí district, Bauru region, central
oeste do estado, local da criação de um dos west of the state, place of creation of one of
primeiros aldeamentos oficiais do SPI. O the first official SPI villages. The Guarani
próprio deslocamento Guarani pelo seu Ter- movement within their territory, demon-
ritório demonstra que eles sempre foram da strates that they always have been of the re-
região estudada e que não chegaram por searched region and that they did not reach
acaso ao local. As migrações aconteciam an- this place randomly. The migrations oc-
teriormente à chegada dos europeus, consti- curred before the Europeans reached the
tuindo-se em aspectos próprios da cultura area, being part of the specific aspects of the
Guarani. O que se pretende desenvolver Guarani culture. What we intend to develop
nesse artigo é o entendimento de aspectos in this article is the understanding of aspects
da dinâmica de ocupação Guarani Ñandeva of the Guarani Ñandeva occupation dynam-
no vale do rio Itararé, além de informações ics in the Itararé river Valley, including the
sobre o grupo no que diz respeito a dados informations of the group related to ethno-
etnoarqueológicos sobre a ocupação das ter- archaeological data concerning the occupa-
ras indígenas, tendo em vista os aspectos tion of the indigenous lands, including cul-
culturais, espaciais e temporais. tural, spatial and temporal aspects.

Palavras-Chave: Guarani Ñandeva, Key-Words: Guarani Ñandeva, Terri-


Território, São Paulo. tory, São Paulo.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 96-111 - 2013


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INTRODUÇÃO transferidos para a região de Bauru, onde se


A construção da realidade sociocultural encontra a Terra Indígena Araribá, no mu-
do Estado de São Paulo, no contexto da nicípio de Avaí, centro oeste do estado, e
América Latina não pode ser entendida sem toda terra indígena destinada a formação do
a presença e a história dos povos Guarani. núcleo colonial, com a locação e demarca-
Este grupo étnico conhece perfeitamente a ção dos lotes no ano de 1929, realizado pelo
localização de suas áreas territoriais, estejam Departamento de Imigração e Colonização
elas no Brasil ou em outro país. Além disso, do Governo. O Hino Oficial do município
o domínio dos Guarani sobre o seu territó- também faz referência a respeito da ocupa-
rio é anterior à divisão do mesmo efetuada ção Guarani em duas estrofes:
entre portugueses e espanhóis. (...) Que num gesto de amor e grandeza
Os Guarani, na função de guias, carrega- Aos Caiuás que viviam aqui
dores, escravos, catequistas, ao longo da co- Doou tuas terras a esses brasileiros
lonização da América Latina, auxiliaram Da natureza bravos guerreiros
desbravadores, jesuítas, Coroas Portuguesa
e Espanhola a conhecerem e explorarem os Mata dos Índios foste outrora
Do rio Verde e Itararé
territórios que há muito lhes pertenciam.
Vales e serras paragens belas
Apesar da distância temporal que as afir-
Que nunca se viu por aí (...) (PMBA, 2010)
mações acima parecem ter do presente, as
pesquisas e entrevistas com moradores de Historicamente, o próprio deslocamento
Itaporanga e Barão de Antonina, região su- Guarani pelo seu território prova que eles
deste do estado de São Paulo, durante as são da região estudada e que não chegaram
pesquisas realizadas para identificação e de- por acaso ao local. As migrações aconteciam
limitação das terras indígenas1, mostraram anteriormente à chegada dos europeus,
claramente a presença dos Guarani naquelas constituindo-se em aspectos próprios da
paragens, ainda presente na memória de cultura Guarani, claro que o objetivo se
moradores vivos. Segundo estes atuais mo- transmutou devido a anos de contato com o
radores locais, os Guarani viviam ali até por não-indígena. Antes era uma busca por ma-
volta de 1950 e foram embora devido ao tas e rios, pela necessidade de renovar as
contínuo fluxo e povoamento de não-índio, fontes de alimentos e, com os anos de conta-
além das perseguições a eles infringidas to, teria se transmutado para a busca da ter-
(Rodrigues et all, 2010). ra sem mal, no intuito de evitar os cataclis-
No contexto histórico oficial do municí- mos na terra (dilúvios, desmatamentos,
pio de Barão de Antonina, anteriormente incêndios), ou mesmo a visita aos parentes.
petencente à Itaporanga e, hoje, emancipa- Afinal, aos Guarani concerne um sistema
do, em texto elaborado para a apresentação econômico e social que resguarda o ambien-
do município2 se faz a menção de que suas te ao qual se insere.
terras pertenciam aos índios Caiuás existen- Apesar de no passado terem vivido em
tes na região e que, posteriormente, foram um vasto território (boa parte do que hoje é
a região sul, sudeste e centro-oeste do Bra-
1- O grupo de pesquisa que realizou os estudos foi com- sil), atualmente, devido ao longo processo
posto por equipe multidisciplinar e contou com um arque-
ólogo, duas historiadoras, uma etnóloga, uma bióloga, um de colonização do país e a exploração capi-
engenho ambiental e um engenheiro agrimensor.
talista das terras, o sistema de aldeamentos,
2- www.baraodeantonina.sp.gov.br as perseguições de bugreiros, perseguições

TERRITÓRIOS EM DISPUTA: O PAPEL DA PESQUISA ETNOARQUEOLÓGICA NOS ESTUDOS DE IDENTIFICAÇÃO E ... Robson Rodrigues
99

várias e a própria tutela realizada pelo go- nos parâmetros exigidos por sua cultura.
verno brasileiro, através da criação, em Ao longo da pesquisa pretendeu-se des-
1910, do órgão SPI (Serviço de Proteção aos tacar como se manifestou a presença Guara-
Índios) e, em 1967, da FUNAI (Fundação ni na localidade ora reivindicada com a de-
Nacional do Índio), os Guarani encontram- nominação de Terra Indígena Itaporanga e
-se confinados, recolhidos, em pequenas al- Terra Indígena Barão de Antonina, bem
deias reconhecidas ou não pela administra- como, as muitas perseguições e imposições
ção federal. dos não-indígenas àquele povo, fruto do et-
O sistema capitalista, caracterizado prin- nocentrismo e do sistema capitalista (Rodri-
cipalmente pelo individualismo, pela explo- gues et all, 2010).
ração do meio ambiente e pela propriedade No decorrer da pesquisa desenvolvemos
privada, avançou em quase toda parte das uma análise caracterizando o Território
antigas terras Guarani, deixando-lhes pouca Guarani, explanando a localização geográfi-
ou nenhuma opção de vida e de movimento ca e histórica deste povo no Brasil e em ou-
relacionado com sua forma étnica. tros países, as suas migrações míticas e an-
Por meio de sua organização política, cestrais por esse Território, a sua presença na
por sua vez, passaram a lutar pela manuten- região atualmente reivindicada e que consta
ção de sua identidade e retomada de seus desde o período pré-colonial, os embates
territórios, aldeias e aldeamentos, em geral com os não-índios e o confinamento em al-
usurpados pelos não-indígenas e, muitas ve- deamentos, apresentando a vida no aldea-
zes, regularizados pelos Governos Estaduais mento de São João Baptista do Rio Verde em
(caso ocorrido em Barão de Antonina e Ita- paralelo ao controle ou tentativa de controle
poranga), em um franco desrespeito a ime- efetuado pelos não-índios. Além de discutir
morialidade desses povos quanto ao seu di- sobre o povoamento não-indígena e a reto-
reito originário às terras indígenas que lhes mada dos territórios Guarani, com base na
são necessárias para sua sobrevivência física memória oral de depoentes Guarani e não-
e cultural à qual têm direito conforme artigo -índios, para relatar a questão fundiária na
231, da Constituição Federal de 1988, na Terra Indígena Itaporanga e Terra Indígena
qual é enfática e clara: Barão de Antonina, propondo uma delimita-
São reconhecidos aos índios sua organização social, cos- ção territorial que dará conta de possibilitar
tumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originá- a reprodução física e cultural dos grupos
rios sobre as terras que tradicionalmente ocupam, com- Guarani que hoje ocupam a região do vale
petindo a União demarcá-las, proteger e fazer respeitar do rio Itararé (Rodrigues et all, 2010).
todos os seus bens.
Informações a respeito da ocupação
Em um movimento recente e para fazer Guarani Ñandeva no contexto do vale do
valer este artigo da CF/1988, os Guarani rio Itararé, além de informações sobre o
Ñandeva se deslocaram da Terra indígena grupo no que diz respeito a dados históri-
Araribá, para as Terras Indígenas de Itapo- cos sobre a ocupação das terras indígenas,
ranga e Barão de Antonina no intuito de re- tendo em vista os aspectos espaciais e tem-
tomar parte de seu antigo território. porais. Elementos a respeito do território
Durante esses longos e sofridos séculos e ocupado pelo povo Guarani Ñandeva na
apesar das perdas, os Guarani continuaram região de Itaporanga e Barão de Antonina,
lutando por sua liberdade de ir e vir e pela enfatizando sua permanência habitacional,
manutenção da identidade e do território foram sistematizados para caracterizar sua

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efetiva ocupação deste território paulista.


Tratando das atividades produtivas,
abordamos aspectos presentes nas aldeias
organizadas nas respectivas Terras Indíge-
nas para desenvolver um amplo estudo da
caracterização regional a partir de um diag-
nóstico ambiental, apontando as condições
observadas e as possibilidades de utilização
dos recursos naturais no contexto das terras
reinvindicadas, abordando aspectos do
modo de vida Guarani e sua reprodução fí-
sica e cultural.
Este caminho foi percorrido para chegar-
mos a análise da questão fundiária observa-
da no processo histórico e apresentarmos
uma proposta de delimitação das Terras In- FIGURA 1: Desenho da viagem feita pelos Guarani entre
Araribá e Itaporanga realizado por Claudemir Marcolino
dígenas Itaporanga e Barão de Antonina.
Em todos os momentos do trabalho de
pesquisa houve a participação consciente da O OLHAR ETNOARQUEOLÓGICO NA DE-
comunidade indígena, permitindo que seus FINIÇÃO DO TERRITÓRIO GUARANI NA
membros tivessem controle das informa- BACIA DO ALTO PARANAPANEMA
ções recolhidas e que, futuramente, a utili- O grupo étnico Guarani, presente na me-
zem no dia a dia das aldeias e no trato com mória, na história e na cultura material da
seu território. região pesquisada, apresenta como principal
Na época da chegada dos Guarani na re- característica identitária uma grande mobi-
gião, em agosto de 2005, saídos da Terra In- lidade por seus territórios, outrora relacio-
dígena Araribá, se instalaram em locais que nados à sua sobrevivência física e posterior-
ofereciam condições mínimas para a sobre- mente a questão mítico-religiosa.
vivência do grupo. Este movimento contou Atualmente a área onde se encontra inse-
com a participação de Claudemir Marcolino, rida as TIs Barão de Antonina e Itaporanga
importante liderança Guarani da TI Araribá é banhada pelas águas do lago da UHE Xa-
que documentou e reproduziu em um mapa vante que foi construída nos anos 70 do sé-
a viagem dos Guarani Ñandeva entre a TI culo XX. Nesse período se realizou pesqui-
Araribá e Itaporanga e Barão de Antonina. sas arqueológicas que foram coordenadas
De acordo com as informações recolhi- por Igor Chmyz, pesquisador da Universi-
das pelo Grupo Técnico que realizou as pes- dade Federal do Paraná (Araújo, 2001).
quisas na região, os motivos que levaram os As pesquisas associadas a Arqueologia
Guarani Ñandeva saírem da TI Araribá para Guarani no alto curso da bacia do rio Para-
Itaporanga e Barão de Antonina foram fato- ná, no estado de São Paulo, apresentam da-
res ecológico-ambientais e conflitos sociais dos materiais sistematizados a respeito das
internos, aspectos atuais da constante movi- áreas onde, no passado, já se movimentaram
mentação que historicamente se ocupam grupos domésticos do povo Guarani (Ro-
esse povo e que caracteriza seu modo de ser drigues, 2001). O vale do rio Paranapanema
(Rodrigues et all, 2010). em sua junção com o alto Paraná é conside-

TERRITÓRIOS EM DISPUTA: O PAPEL DA PESQUISA ETNOARQUEOLÓGICA NOS ESTUDOS DE IDENTIFICAÇÃO E ... Robson Rodrigues
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rado pelos pesquisadores como sendo a chado, 1973 apud Noelli, 2000:250),
porta de entrada dos Guarani para os atuais 1.195+/-80 (Brochado, 1973 apud Noelli,
estados de São Paulo, Paraná e sul do Brasil. 2000:250) e 850+/-150 (Brochado, 1973
Quando da chegada dos europeus na região apud Noelli, 2000:250). Estas informações
da bacia do Paraná, estimava-se que exis- apontam para uma continuidade ocupacio-
tiam mais de duzentos mil indígenas ocu- nal desta área, só sendo interrompida com a
pando toda a região (Mota, 2007; Noelli, presença européia no período colonial.
2000 e Brochado, 1984). Os Guarani realizam seus movimentos,
Como bem indicam as pesquisas arqueo- seja para visitar parentes ou mesmo religio-
lógicas, assentamentos de grupos Guarani sos em direção a serra do mar no litoral pau-
ocorreram ao longo de todo Paranapanema lista desde tempos imemoriais. Entre o povo
e seus afluentes e várias evidências apontam Guarani, o deslocamento populacional num
para uma grande intensidade de sua ocupa- determinado território, constitui-se numa
ção. Prospecções extensivas desenvolvidas das características de sua forma de vida, de
na região levaram à identificação de mais de sua forma de ser. As migrações acontecem
cem sítios arqueológicos, não deixando dú- dentro de limites geográficos que lhes são
vidas quanto a intensidade com que se pro- muito claros e se realizam em caminhadas e
cessou a ocupação de todo o vale por parte em visitas aos parentes, principalmente (Ro-
deste povo (Robrahn-González, 2000; San- drigues, 2001).
tos E Faccio, 2007). O contato com os não-índios teve influ-
Associado ao elemento material das pes- ência sobre os povos indígenas, especial-
quisas arqueológicas, definido pelas cerâmi- mente sobre os seus deslocamentos popula-
cas e líticos polidos, pesquisas etnobiológi- cionais. Doenças como a gripe, o sarampo, e
cas e de história indígena vem demonstrando outras, adquiridas pelo contato com “civili-
que os territórios de domínio de alguns po- zados” bem como a forma de vida capitalis-
vos Tupi eram lentamente conquistados, ta-individualista, empecilho à realização do
manejados e longamente usufruídos (Noelli modo de ser Guarani, provocaram a depo-
E Dias,1995). Noelli (1993), ao analisar os pulação, certo sedentarismo nas periferias
processos de ocupação territorial do povo de centros urbanos que se construíram em
Guarani, apresenta como termo mais ade- seus antigos territórios e, de certa forma,
quado para definir os deslocamentos deste acentuou o deslocamento geográfico dos
povo pelos territórios que iam ocupando, o que são sobreviventes para áreas menos pro-
conceito de expansão territorial. curadas pelos não-índios.
É certo, porém, que as datações arqueo- A frequência desses deslocamentos, de-
lógicas associadas aos elementos materiais terminada também pelas más condições de
da cultura Guarani mostram que este povo realização do ser Guarani, se modificou ge-
já estava instalado na bacia do Paranapane- rando também ajuntamento de grupos que
ma, desde 2.000 AP (Morais, 2000:215). antes tinham seus espaços próprios.
De acordo com as datações já realizadas Toda a sorte de dificuldades à realização
para o contexto do município de Itaporan- do modo de ser Guarani, causadas pelo con-
ga, o processo de ocupação espacial através tato com os não-índios, estimulou a busca
do tempo por parte do povo Guarani, desde da terra sem males no plano da realidade
a data mais antiga até a mais recente, corres- objetiva e não apenas da espiritualidade
ponde às principais datas 1870+/-100 (Bro- Guarani. Grupos de Guarani deixaram de

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Subiram lentamente pela margem direita do Paraná,


voltar para lugares que lhes era familiar de-
atravessando a região dos Apapocúva até chegar à dos
vido à penetração e à apropriação desses lu- Oguauíva, onde seu guia morreu. Seu sucessor, Ñande-
gares pelo sistema capitalista, realizada pe- ruí, atravessou com a horda o Paraná – sem canoas,
los não-índios (Rodrigues et all, 2010). como conta a lenda -, pouco abaixo da foz do Ivahy, su-
No início do século XX, o etnólogo e fun- bindo então pela margem esquerda deste rio até a região
cionário do governo federal no Serviço de de Villa Rica, onde, cruzando o Ivahy, passou-se para o
Tibagy, que atravessou na região de Morros Agudos. Ru-
Proteção aos Índios – SPI, Curt Nimuendaju
mando sempre em direção ao leste, atravessou com seu
Unkel, que viveu e acompanhou por mais de grupo o rio das Cinzas e o Itararé até se deparar, final-
40 anos os povos Guarani e seus desloca- mente, com os povoados de Paranapitinga e Pescaria na
mentos, principalmente no Estado de São cidade de Itapetininga, cujos primeiros colonos nada
Paulo, registrou as vicissitudes e as migra- melhor souberam fazer que arrastar os recém-chegados
ções Guarani ocorridas no século XIX e para a escravidão. Eles, porém, conseguiram fugir, per-
severando tenazmente em seu projeto original, não de
princípio do século XX, período de acirra-
volta para o oeste, mas para o sul, em direção ao mar.
mento da apropriação dos territórios Guara- Escondidos nos ermos das montanhas da Serra dos Ita-
ni em São Paulo pelos fazendeiros do café, tins fixaram-se então, a fim de se prepararem para a
incluindo dentre esses o Barão de Antonina. viagem milagrosa através do mar à terra onde não mais
Segundo Curt Nimuendaju, se morre (Nimuendaju, 1987:9-10).

Pajés, inspirados por visões e sonhos, constituíram-se Os não-indígenas, sabendo da proximi-


em profetas do fim iminente do mundo; juntaram à sua dade destes índios, se prepararam para ex-
volta adeptos (...) e partiram em meio a danças rituais e pulsá-los. Os Tañyguá, por sua vez, com o
cantos mágicos, em busca da “Terra sem Mal”; alguns a auxílio de Avavuçú, seu melhor guerreiro,
julgavam situada, conforme a tradição, no centro da ter-
revidaram armando uma emboscada na de-
ra, mas a maioria a punha no leste, além do mar. So-
sembocadura do Rio do Peixe no Itariri,
mente deste modo esperavam poder escapar à perdição
ameaçadora (Nimuendaju, 1987:8 e 9). “infligindo-lhes perdas que os rechaçaram”.
Posteriormente, com a mediação do guarani
Nesse período, o interior do Estado de chamado Capitão Guaçú, estabeleceu-se “re-
São Paulo e outras regiões do Brasil, eram ob- lações amistosas” entre os Tañyguá e os não-
jeto de conhecimento e registro pelas Comis- -índios, recebendo, os Tañygua, “em 1837,
sões Geográficas e Geológicas e pelas equipes do Governo Imperial, uma légua quadrada
de reconhecimento de território e de povos de terra no rio do Peixe e no rio Itariry” (Ni-
dirigidas pelo Marechal Rondon. Comissões muendaju, 1987:10).
e equipes que preparavam o espaço, derru- Como resultado dos contatos entre Tañy-
bando florestas, reconhecendo cursos de rios, guá e não-índios notou-se a diminuição
montanhas, instalando telégrafos e contatan- quase imediata do grupo, devido às epide-
do povos indígenas para que pudessem então mias e à miscigenação, bem como a poste-
receber agricultores e extrativistas nacionais. rior perda das terras indígenas Guarani do
Toda essa gente trazia para os Guarani, doen- Itararé para os grupos de não-índios.
ças e devastação, tornando a realidade para Elliot (apud Lima, 1978) verificou que
esses indígenas ameaçadora e apocalíptica. em 1830 apareceu, nas vizinhanças da Vila
Segundo registros de Nimuendaju, no de Itapetininga (distrito de Itapeva), uma
século XIX, a marcha dos Guarani Tañyguá porção de índios Guarani, provenientes da
(1820), vizinhos meridionais dos Guarani área compreendida entre os Rios Ivinhema e
Apapocúva, liderados pelo pajé-chefe Ñan- Iguatemy (ao sul do Mato Grosso). Apesar
deryquyní, seguiu a rota descrita abaixo: de a referência citar, genericamente, índios

TERRITÓRIOS EM DISPUTA: O PAPEL DA PESQUISA ETNOARQUEOLÓGICA NOS ESTUDOS DE IDENTIFICAÇÃO E ... Robson Rodrigues
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Guarani, é bem provável que sejam os Tañy- sendo esses dois últimos afluentes do pri-
guá em sua migração. meiro. No ano de 1843, no município de Ita-
Em 1833, um outro grupo de índios Gua- peva, havia uma aldeia situada à margem
rani foi localizado nas matas do rio Juquiá esquerda do Rio Verde (“aldeia indígena do
(sul da Província de São Paulo). Estes índios, Capitão Manal”) e outra à direita do Rio Ita-
na década de 1840, também foram confina- raré. Estas aldeias distavam uma légua entre
dos no aldeamento de Itariri, em Iguape, li- si e doze léguas da residência do Barão de
toral da então Província de São Paulo. Antonina. “Esta aldêa com vinte e tantas ca-
Nimuendaju destacou que os Tañyguá sas está vantajosamente situada no lado es-
ao passarem pelo território dos Oguauíva (o querdo do rio Verde, tendo a poente uma ou-
Mbaracaý) perceberam que aqueles não sa- tra aldêa pouco menor debaixo dos mesmos
biam as danças religiosas relacionadas ao auspícios”. Na Comarca de Coritiba, um
mito da “terra sem mal”. Ao aprenderem pouco distante do Rio Itararé, havia uma ter-
com os Tañyguá, logo em seguida os Oguauí- ceira aldeia Guarani, que foi destruída num
va iniciaram a sua migração. embate com os “Guayanazes”. Do embate
Em 1830 a sua caminhada foi igualmente interrompida sobreviveram 28 índios que se juntaram a
na grande estrada de São Paulo ao Rio Grande do Sul, uma das aldeias citadas (Nimuendaju, 1987).
na região de Itapetininga. Os Oguauíva então retrocede- Assim, os deslocamentos dos Guarani,
ram um pouco na direção oeste, até entre os rios Taqua- no século XIX, para a região do Itararé foi
ry e Itararé, vivendo em bons termos na fazenda Piritu-
influenciado pela presença de seus parentes
ba, do Barão de Antonina, que solicitou ao governo um
por aquelas paragens, pois, as aldeias men-
missionário para eles. Em 1845 este chegou, na pessoa de
Frei Pacífico de Montefalco, que fundou no Rio Verde a cionadas e os muitos vestígios arqueológi-
missão São João Baptista, atual Itaporanga (Nimuenda- cos indígenas nessa área sugerem diferentes
ju, 1987:10-11). datações para os povoamentos indígenas. É
Os índios que caminhavam pela Comar- importante frisar a importância do desloca-
ca de “Coritiba” estabeleceram três aldeias mento Guarani em busca da Terra Sem Mal
próximas uma das outras nas adjacências e das visitas aos parentes, pois esses fatos
dos Rios Paranapanema, Itararé e Verde, ocorrem em terras reconhecidas na memó-
ria desses povos, se con-
figurando em seus anti-
gos territórios.
De acordo com as in-
formações registradas
por Nimuendaju (1987)
em seu mapa etno-histó-
rico, os Guarani já esta-
vam ocupando as terras
entre os rios Itararé e
Verde, onde hoje está o
município de Itaporanga,
no período anterior ao
ano de 1830.
FIGURA 2: Mapa etno-histórico de Curt Nimuendaju identificando o território Guarani A área em questão,
onde hoje se encontra o município de Itaporanga
durante o século XIX, es-

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tava sob a órbita do que seria, a partir de rios Itararé, Verde, Apiaí, Apiaí-Mirim, Ita-
1853, divisa entre as duas províncias – São petininga, Turvo e Taquari (todos eles com
Paulo e Paraná – território tradicionalmente nomes de origem Guarani) perceberam a
Guarani. Os interesses dos não-índios eram vantagem do uso dos históricos conflitos ét-
vários: apossar-se das terras dos indígenas nicos entre Kaingang e Guarani para, literal-
para estabelecimento da lavoura e da pecuá- mente, ganharem terreno. Os Kaingang so-
ria capitalista; transformação do indígena breviventes do conflito desse período, século
em mão-de-obra barata; criação de rotas de XIX, uniram-se aos grupos de Salto Grande
comunicação, transporte e comércio entre do Paranapanema e àqueles que viviam nos
Mato Grosso, São Paulo e Paraná; proteção Vales dos rios Feio Aguapeí e do Peixe (Ro-
das fronteiras face aos vizinhos estrangeiros. drigues, 2003).
Região de aldeias e de caminhadas Guarani, No entanto, no decorrer do relaciona-
essa era objeto de implantação de políticas mento, as contrapartidas do não-índio fo-
capitalistas. ram rareando. Dessa forma, os Guarani per-
Para poder se fixar naquelas paragens, os ceberam que haviam sido enganados pelos
não-índios, tendo conhecimento dos confli- não-índios, pois esses queriam apenas a li-
tos deles com os grupos indígenas Kaingang, beração de mais terras e a expulsão dos
que também viviam nesse território, aliam- Kaingang. Conseguido esse intento descui-
-se aos Guarani e expulsam os Kaingang. daram da aliança e das promessas feitas aos
Isso feito, os não-índios rompem o pacto Guarani. Por outro lado, os Guarani, após a
celebrado e passam a expulsar, perseguir e aliança feita, precisavam muito mais da as-
escravizar os Guarani que já se encontra- sistência, pois estavam doentes, sujeitos à
vam enfraquecidos devido às doenças, da vingança dos Kaingang e com dificuldades
qual não possuíam imunidade. para viverem conforme suas premissas cul-
Segundo Frei Nelson Berto (1983:01), as turais (economia, língua, imaginário, costu-
tentativas do governo de criar missões indí- mes, pensamento) devido à presença cres-
genas para controlar os deslocamentos indí- cente e constante dos colonos (fazendas e
genas na Província de São Paulo fez com que cidades), suas plantas (café, cana) e seus ani-
os parentes Guarani viessem da Comarca de mais (gado bovino, eqüino, cachorros).
Coritiba, devido aos conflitos que travaram A aliança dos Guarani com os não-índios
com os Kaingang por lá. teve como conseqüências, entre outras, as
Em relação ao conflito Kaingang e Gua- doenças já mencionadas e a escravidão, ób-
rani, o que se observa é a rivalidade dessas via ou dissimulada, de Guarani na região de
duas etnias, com os Kaingang muitas vezes Itapetininga, Salto Grande e Itapeva (Pinhei-
vencendo os Guarani. Entretanto, isso não ro, 1992; Saint-Hilaire, 1972; Lima, 1978).
ocorreu na região de Itapetininga, pois os Famílias Guarani ou indivíduos viviam
Guarani uniram-se aos não-índios com o agregados às terras que se tornaram pro-
intuito de manter longe os grupos indígenas priedades dos não-índios, servindo às famí-
Kaingang, também habitantes da região, que lias na casa ou na fazenda. Alguns grupos,
se tornaram “o inimigo comum” para Gua- mais isolados, deixaram até hoje vestígios,
rani, posseiros, fazendeiros e agrimensores dessa fase do relacionamento, que podem
(Rodrigues et all, 2010). ser vistos na denominação de Mata dos Ín-
Os colonos não-índios do Médio e Alto dios para uma propriedade onde eles então
Vale do rio Paranapanema, dos Vales dos viviam.

TERRITÓRIOS EM DISPUTA: O PAPEL DA PESQUISA ETNOARQUEOLÓGICA NOS ESTUDOS DE IDENTIFICAÇÃO E ... Robson Rodrigues
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Essa região denominada Mata dos Índios gião se intensificou a partir dos anos 80 do
é bem conhecida pela população da região século XIX, o que desencadeou uma sequ-
do município de Itaporanga. Assim que os ência de iniciativas com a finalidade de ex-
atuais proprietários souberam do retorno propriação total do território Guarani.
dos Guarani para a região, eles removeram a De acordo com Mendes (1996), Jorge Se-
placa, mas deixaram os palanques que fo- ckler identifica a fertilidade do solo e lamen-
ram fotografados por esse Grupo de Traba- ta a ocupação indígena por não explorá-lo a
lho (Rodrigues et all, 2010). contento: “Entre o Itararé e o rio Verde há um
A comissão técnica da Inspetoria de Ter- extenso terreno de superior qualidade, muito
ras, Colonização e Imigração, criada pela próprio para a cultura do café, todo livre de
Secretaria de Agricultura para evitar um geada. Mede 33 quilômetros de comprimento
conflito maior entre índios e posseiros, sobre 3 quilômetros de largura. Este terreno é
identificou e delimitou um grande terreno ocupado pelos índios que pouca plantação fa-
conhecido por Mata dos Índios que “inicia- zem” (Mendes, 1966:78).
va-se aproximadamente a dois quilômetros A ocupação indígena nesta região sem-
da cidade do Rio Verde, estendendo-se até a pre foi contínua e ininterrupta e o processo
confluência dos rios Verde e Itararé. Coberto de expropriação das terras Guarani se deu
de espessas matas era habitado nas margens em etapas e durou mais de vinte anos.
dos dois rios por índios e invasores brancos” Segundo Nimuendaju (1987), e outros
(Mendes, 1996:79). documentos consultados, os Guarani aceita-
O mapa etnográfico organizado por ram o “auxílio” oferecido pelo latifundiário
Hermann Von Ihering (1911) identifica a e político Barão de Antonina pelo temor que
Mata dos Índios e outros assentamentos da os Guarani tinham em relação aos Kain-
ocupação Guarani na área definida entre os gang, pois haviam estabelecido aldeias pró-
rios Itararé e Verde, hoje município de Ita- ximas aos rios Verde e Itararé, durante a re-
poranga. alização do seus movimentos migratórios
O interesse em ocupar terras indígenas proféticos. Mas, segundo Amoroso, o conta-
por parte da expansão colonizadora na re- to do Barão com os Guarani e o patrocínio
de aldeamentos “foram concebidos como
uma solução para o povoamento do sertão
meridional, perigosamente desguarnecido às
vésperas da Guerra do Paraguai” (Amoroso,
1998:41). Sendo, portanto, de interesse do
governo manter os Guarani na região.
Hoje encontramos por todas a áreas dos
dois municípios relatos da população local
sobre a presença dos Guarani na região, bem
como outras evidências como o apareci-
mento de objetos e utensílios arqueológicos,
plantas sagradas e medicinais usadas por
esse antigo povo e, que após a sua passagem
pelo local, elas nascem, espontaneamente,
FIGURA 3: Mapa etnográfico de Von Ihering identificando o ter- por toda parte, especialmente onde eles vi-
ritório Guarani onde hoje se encontra o município de Itaporanga
veram mais intensamente, como é o caso da

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planta do tabaco, usada nos rituais sagrados minhadas Guarani. Sendo território por
e encontrada pelos pastos da região, bem eles reconhecido, permaneciam o tempo
como outras apontadas pelos moradores lo- que quisessem no local que lhes era de di-
cais como medicinal e que seu uso foi apren- reito (Rodrigues et all, 2010).
dido com a tradição Guarani (Rodrigues et Vários grupos Guarani seguiram o ca-
all, 2010). minho dos Tañyguá e dos Oguauíva, entre
No entanto, há outros documentos que eles, em 1870, estavam os Apapocúva. Se-
destacam que os Guarani da região foram gundo Nimuendaju (1987, p. 12) os pajés
procurados pelo Barão de Antonina, que Apapocúva Guyracambí e Nimbiarapoñý
possuía o interesse claro em utilizá-los como rumaram para leste. Guyracambí tentou,
mão de obra em sua fazenda e como guias por duas vezes, ir em direção ao mar, mas
nas expedições exploradoras que promovia. foi impedido pelas autoridades brasileiras,
Segundo Pinheiro, o ato adicional de assim, ficou um período no aldeamento de
12/08/1834 deu às Assembléias Legislativas Jatahy, na província do Paraná, “onde fazia
Provinciais o direito de legislar sobre cate- oposição aberta à catequese” do missioná-
quese e civilização dos índios, juntamente rio Timotheo de Castelnuovo, talvez devi-
com o Governo Central. Esse fato transfere do à exploração da mão de obra indígena e
para a iniciativa privada local a conquista imposição do modo de vida do não-índio
dos territórios e o controle das comunida- aos Guarani, liderada pelo missionário
des tribais (Pinheiro, 1992:196). cristão.
Em 1845, foi fundado pelos Guarani, No Jatahy uma grande parte do seu bando desligou-se,
com apoio do Barão, o aldeamento de São buscando voltar para o rio Verde. Este novo bando esta-
João Baptista do Rio Verde, na confluência va sob a chefia de Honório Araguyraá, neto do afamado
dos rios Verde e Itararé. Além de viverem guerreiro Papaý que no princípio do século XIX foi o
terror do Kaingýgn. Até o ano de 1892 ele estava na vi-
nesse local, alguns o utilizaram como lugar
zinhança dos Oguauíva, mas sem se misturar com estes,
de passagem em suas caminhadas e outros
morando na parte mais setentrional do território indí-
ainda, como local de abastecimento de gena do rio Verde (Nimuendaju, 1987:12).
“bens civilizados”.
No final do século XIX, nota-se uma eu- Nimuendaju (1987) afirmou que a docu-
foria para que fosse povoada por não-índio mentação da terra doada pelo Barão de An-
e utilizada sob a forma capitalista a área ter- tonina para a formação do aldeamento de
ritorial que até então estava sob domínio da São João Baptista foi perdida, e, isso auxiliou
forma de uso indígena. O Barão, a Igreja os não-índios nas usurpações que se segui-
Católica, a constituição de vilas e cidades e ram. Parte desses índios, após dizimações
os agrimensores e bugreiros eram os atores por epidemias, mestiçagem e o desgaste das
da transformação almejada pelo poder pú- lutas contra as usurpações de suas terras,
blico e particular. estabeleceram-se no Posto Indígena de Ara-
O aldeamento de São João Baptista foi ribá, em 1912.
criado, bem como, outros na região do vale O aldeamento de São João Baptista do
do rio Itararé, mas, o movimento mítico- Rio Verde (1845) foi o primeiro a ser criado
-profético desse povo permanece ao longo no Vale do Paranapanema. Depois dele, fo-
dos séculos XIX e XX. Como já foi aponta- ram estabelecidos o de São Sebastião do Pi-
do, os aldeamentos criados seriam utiliza- raju (1854) e o de São Sebastião do Tijuco
dos como ponto de apoio e parada nas ca- Preto (1864).

TERRITÓRIOS EM DISPUTA: O PAPEL DA PESQUISA ETNOARQUEOLÓGICA NOS ESTUDOS DE IDENTIFICAÇÃO E ... Robson Rodrigues
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As áreas dos aldeamentos eram normal- zando e delimitando o território Guarani


mente pequenas, pois a concepção que pre- onde hoje se encontram os municípios de
dominava junto aos responsáveis pela polí- Itaporanga e Barão de Antonina (Mendes,
tica que os introduzia, era de que os índios 1996).
não necessitavam de tanta terra para sobre- O Barão afirmava que os índios ficariam
viver, bastava uma porção suficiente para o acostumados com os hábitos civilizados, a
desenvolvimento da lavoura familiar e da ponto de se recusarem a voltar à “vida erran-
pecuária de subsistência. Segundo docu- te”, preferindo fixar-se em um local dotado
mento oficial, do funcionário da província das benesses da civilização. Aponta que o
de São Paulo, responsável pela Diretoria Ge- acolhimento destes índios em um aldea-
ral dos Índios, José Joaquim Machado de mento continuaria garantindo a proteção
Oliveira, o aldeamento de São João Baptista dos moradores locais em face de outros gru-
do Rio Verde possuía duas léguas de largura pos indígenas, considerados ferozes, bem
e 3 a 6 de comprimento, o de São Sebastião como serviria de exemplo para que outros
do Piraju era formado por “meia légua qua- índios, ao perceberem as vantagens de habi-
drada, pouco mais ou pouco menos” e o de tar neste estabelecimento, o procurassem
Itariri também era constituído da mesma também como moradia.
quantidade de terra que o de Piraju (Rodri- O próprio Barão, em 1845, enviou uma
gues et all, 2010). expedição para explorar os rios Verde, Itara-
O Barão de Antonina, em 1843, comuni- ré, Paranapanema, Paraná, Tibagi, Ivahy e
cou ao Governo Imperial a existência de al- seus afluentes, assim como os sertões do en-
deias Guarani próximas a sua fazenda e a torno. O relatório produzido, a partir dessa
necessidade de fazê-las progredir. A idéia de expedição, apresentou pormenores dos con-
progresso convergia com o estabelecimento tatos delineados entre índios e não-índios e
de aldeamentos, comandados por freis ca- a significativa presença indígena constatada
puchinhos, com o objetivo de catequizar e pela expedição reforçou a idéia do Barão, de
civilizar os indígenas. Ao Governo cabia, estabelecer aldeamentos na região (Rodri-
então, “animar este estabelecimento, dar-lhe gues et all, 2010).
a consistência e o prestígio” necessário para Em relação à realidade dessa época e que
tornar-se auto-suficiente e criar condições perdura até hoje, Nimuendaju afirma:
de inseri-los na sociedade civilizada. O Barão de Antonina presenteara os índios com a ponta
No intuito de convencer o Governo Im- de terra entre os rios Itararé e Verde; mas os documentos
perial, Antonina apresentou os benefícios pertinentes desapareceram muito a propósito, e assim,
que proporcionaria um aldeamento de ín- também aqui os intrusos rapidamente prevaleceram,
transformando a terra dos índios em trunfo no jogo sujo
dios na região. Para tanto, sugeriu que as
da politicagem regional. Todas as queixas por parte dos
três aldeias constituíssem um único aldea-
índios em São Paulo e Rio somente pioraram a sua pró-
mento, próximo ou do Rio Verde ou do Rio pria situação (Nimuendaju, 1987:11).
Itararé, constituído de todos os empregos
que se fizesse necessário para o desenvolvi- Várias foram as expedições patrocinadas
mento do indígena ao encontro à civiliza- pelo Barão de Antonina que convergiram na
ção, ao seu “bem-estar” e, principalmente, atração de muitos índios Guarani que cami-
ao seu posterior auxílio à sociedade. A pedi- nhavam, aparentemente dispersos pela re-
do do Barão de Antonina, João H. Elliot, em gião ou mesmo vindos de outras Províncias,
1845, elabora um mapa da região, espaciali- por exemplo, do Mato Grosso. O objetivo

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 96-111 - 2013


108

era estabelecê-los em aldeamentos controla-


dos pelo Governo, nas províncias de São
Paulo e Paraná.
Fundado em 1845 o aldeamento de São
João Baptista do Rio Verde será utilizado
como ponto de apoio estratégico para o
abastecimento e para a formação de outros
aldeamentos, na província do Paraná, no en-
torno dos rios Paranapanema e Tibagi.
Em 1854, vieram para o aldeamento de
São João Batista da Faxina (ou do Rio Verde)
200 Guarani do aldeamento de São Jerôni- FIGURA 4: Quadro populacional do aldeamento Guarani de
São João Batista do rio Verde entre o século XIX e início do XX
mo do Jatahy, localizado na Província do (Mendes, 1996:81)
Paraná, fugindo dos Kaingang. A chegada
de tal número de pessoas, equivalente a um SPI e LTN, continuaram a reconhecer a exis-
grande agrupamento, causou conflitos den- tência das terras indígenas do antigo aldea-
tro do aldeamento, no entanto, ao serem in- mento localizadas em Itaporanga, mas tam-
quiridos a partirem do local, relutaram afir- bém admitiam a inoperância do órgão em
mando que possuíam parentes e amigos que administrar bens dos seus tutelados (Rodri-
ali moravam. Dois anos depois, a população gues et all, 2010).
do aldeamento de São João Baptista da Faxi- Os Guarani, por sua especificidade, con-
na registrou 130 índios. sidera todas as terras indígenas Guarani
Em 1869, o Diretor Geral dos Índios como parte de um único Território, bem
Francisco Antonio de Oliveira apontou a como, apresentam uma grande mobilidade
ocorrência de onze aldeamentos na provín- dentro deste, haja vista, que pertence a todos.
cia: “Pinheiros, Mboy, Carapicuíba, Barueri, O fato desta terra ser pequena, como a
S. Miguel, Escada, S. João de Queluz, Itaqua- maioria das terras Guarani, também justifi-
quecetuba, S. João Baptista, Itariri e Tijuco ca a migração destes indígenas para territó-
Preto” (Rodrigues et all, 2010). rios reconhecidamente de suas etnia – devi-
No final do século XIX, os Guarani esta- do a ancestralidade. É o caso das famílias
vam sem apoio do Governo e pressionados Ñandeva que reocuparam junto com seus
pelos imigrantes europeus que chegavam familiares provenientes de Araribá as terras
cada vez em maior número, munidos de ora reivindicadas em Itaporanga e Barão de
todo um aparato legal que os favoreciam na Antonina, no estado de São Paulo.
legitimação enquanto proprietários das ter- Assim, observa-se, que o Governo Esta-
ras, até então, de pobres e humildes possei- dual aliado aos interesses da propriedade
ros ou de índios Guarani. privada da terra, efetivou projeto de coloni-
Como se pode observar, devido às amea- zação, por meio da expulsão e do esbulho
ças dos fazendeiros e posseiros, que invadi- dos povos nativos, os Guarani, de suas terras
ram o território Guarani, o Serviço de Pro- tradicionais e originárias. Colocando em
teção aos Índios não garantiu a posse seu lugar o não-indígena brasileiro e estran-
indígena ao seu território, deixando que os geiro para por em prática a agricultura e a
intrusos se fixassem no local. Além disso, pecuária capitalista. Na desculpa de evitar a
funcionários da Inspetoria de São Paulo, do sua extinção, causada por agentes epidemio-

TERRITÓRIOS EM DISPUTA: O PAPEL DA PESQUISA ETNOARQUEOLÓGICA NOS ESTUDOS DE IDENTIFICAÇÃO E ... Robson Rodrigues
109

lógicos, perseguições, assassinatos, humi- as perseguições de bugreiros, perseguições


lhações, imposição de um modo de ser e várias e a própria tutela realizada pelo go-
viver que negava o ser Guarani, foram con- verno brasileiro, através da criação, em
finados em pequenos espaços de terras a se- 1910, do órgão SPI (Serviço de Proteção aos
rem protegidas por servidores públicos sem Índios) e, em 1967, da FUNAI (Fundação
poder para reagir à política de colonização Nacional do Índio), os Guarani encontram-
em andamento. Nesse espaço continuaram -se confinados, recolhidos, em pequenas al-
a sofrer com as ações dos não-indígenas, deias reconhecidas ou não pela administra-
mas, assim mesmo, conseguiram manter, a ção federal.
custo, a sua identidade e cresceram popula- Através de sua organização política, por
cionalmente (Rodrigues et all, 2010). sua vez, passaram a lutar pela manutenção
de sua identidade e retomada de seus terri-
PARA CONCLUIR tórios, aldeias e aldeamentos, em geral usur-
O território indígena se caracteriza como pados pelos não-indígenas e, muitas vezes,
um espaço fortalecedor de sua identidade regularizados pelos Governos Estaduais
étnica e de reconhecimento enquanto per- (caso ocorrido em Barão de Antonina e Ita-
tencente a um universo diverso. Nesse con- poranga), em um franco desrespeito a ime-
texto, o modo de ser Guarani Ñandeva se morialidade desses povos quanto ao seu di-
configura pelo sentimento de pertencimen- reito originário às terras indígenas que lhes
to a terra e aos elementos viventes nesse são necessárias para sua sobrevivência física
meio, pelo qual concebem a sua visão de e cultural à qual têm direito conforme artigo
mundo. Retomar o território de domínio in- 231, da Constituição Federal de 1988, na
dígena passa a ser, na atualidade, uma ação qual é enfática e clara.
fundamental na estruturação das condições O povo Guarani sempre foi da região in-
necessárias para a própria continuidade da cerida no vale do rio Itararé onde hoje se
diversidade étnica presente no Estado de encontram os municípios de Itaporanga e
São Paulo. Barão de Antonia, haja vista, o território ser
Apesar da distância temporal que as afir- por eles reconhecido.
mações do presente sugerem, as pesquisas e Pelas diversas informações se pode veri-
entrevistas com moradores da região de Ita- ficar os anos de exploração, perseguições e
poranga e Barão de Antonina, no estado de preconceitos pelos quais passaram os sujei-
São Paulo, mostram claramente a presença tos desta história – os Guarani. Esse antigo
dos Guarani naquelas paragens, ainda em aldeamento se faz presente na memória
tempo de memória de moradores vivos. Se- identitária desse povo, como território an-
gundo eles, os Guarani viviam ali até por cestral, o que é percebido através de seus
volta de 1950 e foram embora devido ao depoimentos, da documentação histórica
contínuo fluxo e povoamento de não-índio, analisada, da vegetação local, dos objetos ar-
além das perseguições a eles infringidas. queológicos ali encontrados e demais aspec-
Apesar de no passado terem vivido em tos de sua cultura, observados por historia-
um vasto território (boa parte do que hoje é dores, antropólogos, biólogos, arqueólogos
a região sul, sudeste e centro-oeste do Bra- que realizaram a pesquisa no contexto do
sil), atualmente, devido ao longo processo vale do rio Itararé.
de colonização do país e a exploração capi- A região do outrora aldeamento de São
talista das terras, o sistema de aldeamentos, João Batista do Rio Verde continuou a servir

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 96-111 - 2013


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de passagem de indígenas que saíram da TI Retomar os seus antigos territórios


Araribá em direção ao Paraná e do Paraná que foram usurpados pelos não-indíge-
em direção do litoral do Estado de São Pau- nas é mais que um direito do povo Gua-
lo, configurando os deslocamentos naturais rani no Estado de São Paulo, garantido
de grupos Guarani por seu território. pela Carta Magna, a Constituição Fede-
Hoje, à alternativa de se esconder na ral, é um dever da sociedade atual fa-
mata virgem vê-se apenas a de retomada dos zendo justiça histórica com aqueles que
territórios ancestrais, lugar da identidade e tiveram muito a perder para que as ci-
da história, da reprodução de seu modo de dades fossem criadas e abrigassem seus
viver e da possibilidade de existência como atuais habitantes tornando-se o lugar
sujeitos de fato. que são.
Na memória da população local ainda
se recordam do momento no qual os últi-
mos Guarani, que viviam nas matas das
proximidades das propriedades rurais, fo-
ram embora, devido às pressões dos pos-
seiros e proprietários da região que por
meio de cercas e intimidações impediam o
acesso do Guarani às terras, rios e matas
imprescindíveis à realização de seu modo
de ser.
Também é importante destacar que os
Guarani possuem uma história de terem
sido confinados em pequenos espaços de
terras. Partindo da história regional, obser-
va-se que na Terra Indígena Araribá (SP),
os Guarani não possuem terras suficientes
para minimamente sobreviver, que dirá de-
senvolver demais aspectos da sua cultura.
No caso da Terra Indígena Araribá, a situa-
ção se configura pior, tendo em vista, a con-
vivência compulsória de várias etnias indí-
genas completamente diferentes entre si,
além da falta de matas, rios, animas e terra
para produzirem, muito frisado nas falas
dos Guarani.
A alternativa encontrada pelos Guarani
tem sido justamente a retomada de seus ter-
ritórios ancestrais, na qual, possuem identi-
dade étnica e histórica e que apresentam
características físicas, geográficas e biológi-
cas para reprodução de seu modo de viver e,
assim, dar continuidade a sua vivência his-
tórica como sujeitos de fato.

TERRITÓRIOS EM DISPUTA: O PAPEL DA PESQUISA ETNOARQUEOLÓGICA NOS ESTUDOS DE IDENTIFICAÇÃO E ... Robson Rodrigues
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REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 96-111 - 2013


112
CORPO,
Artigo
COMUNICAÇÃO
E CONHECIMENTO:
REFLEXÕES PARA
A SOCIALIZAÇÃO
DA HERANÇA
ARQUEOLÓGICA
NA AMAZÔNIA1
Cristiana Barreto2
1- Uma primeira versão deste trabalho foi apresentada no Seminário “Tecnologia, Arte e Patri-
mônio: abordagens críticas sobre aquisição e transformação de conhecimentos” organizado em
dezembro de 2011 pelo LINTT (Laboratório Interdisciplinar de Tecnologia e Território) e CEstA
(Centro de Estudos Ameríndios), Universidade de São Paulo.
2- Pesquisadora do Laboratório de Arqueologia dos Trópicos e Pós-doutoranda do Museu de
Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo.
Abstract
Resumo This article presents ideas about the role
Este artigo parte de algumas reflexões so- archeologists play in the processes of turn-
bre o papel do arqueólogo no atual contexto ing public Amazonian archaeological heri-
de discussões sobre multivocalidade na so- tage, within the present debates about mul-
cialização do patrimônio arqueológico da tivocality. It advances some concepts and
Amazônia, para apresentar uma proposta methods for improving communication
conceitual e metodológica de comunicação and knowledge transmission which would
e transmissão de conhecimento científico be more in tune with public archaeology
mais afinada com uma arqueologia pública practices for XXI century. In sum, it pro-
do século XXI. Em resumo, trata-se de pri- poses to prioritize certain areas of archaeo-
vilegiar certas áreas da interpretação arque- logical interpretation with a greater poten-
ológica cuja capacidade agentiva de comu- tial for visual communication and from
nicação visual e esferas de reconhecibilidade which recognition spheres can be expanded
sejam mais abrangentes e inclusivas quanto and become more inclusive of the types of
aos públicos e audiências em jogo. audiences at play.

Palavras chave: Arqueologia ama- Key-words: Amazonian archaeology,


zônica, divulgação científica, patrimoniali- knowledge transmission, heritage socializa-
zação. tion.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 112-128 - 2013


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DILEMAS DA ARQUEOLOGIA AMAZÔ- da Arqueologia têm sido postos à prova por


NICA NO SÉCULO XXI esta nova realidade. A divulgação científica
A arqueologia da Amazônia encontra-se como instrumento de interação com o pú-
hoje em uma encruzilhada. O rápido avanço blico têm sido discutida por jornalistas es-
da crescente prática da pesquisa voltada pecializados (Amorim, 2010; Tega-Calippo,
para o licenciamento de empreendimentos, 2008). Mas os arqueólogos têm ficado
a chamada “arqueologia de contrato” tem alheios a estes esforços. Este artigo chama a
trazido à tona uma enorme quantidade de atenção não só para a necessidade de se re-
dados brutos, revelando cada vez mais o tomar esta discussão no contexto das práti-
quanto nos falta conhecer sobre um diverso cas arqueológicas aplicadas a uma região
e complexo passado pré-colonial. Nunca a estratégica para o desenvolvimento da ciên-
região tinha sido objeto de tantas mudanças cia, a Amazônia, como também para que
paradigmáticas, modelos interpretativos esta discussão seja direcionada para que se
concorrentes e intensos debates sobre os sig- estabeleçam novos rumos para uma Arque-
nificados de novos achados. Mas, pela pró- ologia do século XXI.
pria dinâmica da pesquisa de contrato, com Mais especificamente, propomos repen-
seus prazos acelerados e recortes aleatórios, sar o papel do arqueólogo nas suas práticas
as pesquisas têm falhado em transmitir o de transmissão de conhecimento na região,
conhecimento adquirido de forma satisfató- tanto para o grande público como para as
ria para a sociedade em geral e, sobretudo, comunidades locais, focando em caracterís-
para as comunidades mais diretamente en- ticas e potenciais que os próprios contextos
volvidas com este patrimônio. arqueológicos amazônicos oferecem. Suge-
Perpassando esta realidade, temos uma rimos assim, algumas estratégias de comu-
legislação e órgãos do Estado preocupados nicação, para que, em contextos multivocais,
com a preservação do patrimônio arqueoló- a voz do arqueólogo possa de fato se tornar
gico que investe cada vez mais em projetos um vetor de diálogo para com os diferentes
de educação patrimonial como a principal agentes do processo de patrimonialização
forma de conscientizar o público sobre a re- da herança arqueológica na Amazônia.
levância deste patrimônio e sua preservação, No cotidiano da prática arqueológica,
mas também no sentido de “socializar” a inicialmente, assistimos a processos em que
gestão e os usos culturais que podem ser fei- o arqueólogo acaba por cumprir diferentes
tos deste patrimônio. papéis na cadeia de pesquisa, produção e
Quer pela obrigatoriedade legal de dar transmissão de conhecimento científico. De
um retorno à sociedade, quer pela renova- forma mais ou menos amadorística, mas
ção que perspectivas como a da “arqueolo- cada vez mais consciente das implicações
gia pública” tem trazido ao debate, o papel e sociais e políticas de sua autoridade enquan-
as funções do arqueólogo no processo de to cientista especializado, o arqueólogo vem
patrimonialização da arqueologia da Ama- se tornando também comunicador, educa-
zônia vêm se transformando rapidamente. dor, sociólogo, museólogo, curador, desig-
Contudo, apesar deste debate estar direta- ner, editor, enfim, tem ocupado uma multi-
mente relacionado à própria concepção da plicidade de funções de forma a garantir a
disciplina, suas competências e atribuições, transmissão do conhecimento arqueológico
limites e alcances, pouco tem sido discutido a outros públicos que não apenas o acadê-
sobre como os contornos epistemológicos mico. Não raro, vemos a composição de

CORPO, COMUNICAÇÃO E CONHECIMENTO: REFLEXÕES PARA A SOCIALIZAÇÃO DA HERANÇA ARQUEOLÓGICA NA AMAZÔNIA Cristiana Barreto
115

equipes multidisciplinares e uma aproxima- Belém e Macapá, é possível comprar cerâmi-


ção muito grande da museologia, ou da co- cas que replicam as arqueológicas com gran-
municação museológica nos ajudando a de primor e exatidão, mas também há um
cumprir estes papéis. amplo espectro de objetos que exibem rea-
Contudo, na medida em que a museali- propriações e transformações tão extrema-
zação dos acervos escavados tem sido consi- mente distantes dos referentes iniciais, isto
derada uma forma definitiva de patrimonia- é, dos estilos da cerâmica arqueológica, e de
lizá-los, quer em museus de sítio, que seus significados, que fica evidente a perda
envolvem as comunidades locais, quer em de interesse pelas culturas tradicionais do
museus universitários, vimos propostas em passado em detrimento de objetivos pura-
que o papel do arqueólogo se torna secun- mente mercadológicos.
dário, sendo até mesmo excluído da criação Também direcionadas ao turismo,
dos conteúdos museológicos em muitos vemos algumas iniciativas de prefeituras e o
projetos. secretarias de turismo no desenvolvimento
São também cada vez mais comuns as de equipamentos urbanos com design inspi-
iniciativas de patrimonialização, que envol- rado em peças ou imagens da arqueologia
vem a comunicação e transmissão de conhe- amazônica: telefones públicos de Belém em
cimento arqueológico, em que o arqueólogo forma de urna marajoara; fonte em praça de
está ausente, ou está presente apenas como Santarém em forma de vaso de cariátides,
um negociador. Na Amazônia, este é o caso latas de lixo com desenhos de pinturas ru-
tanto do turismo e da indústria de suvenires, pestres em Monte Alegre, piso de calçada
como de certa forma, das práticas de licen- com desenhos de muiraquitãs em Santarém,
ciamento ambiental. são alguns exemplos destas iniciativas.
Nestes processos de reapropriações e
A HERANÇA ARQUEOLÓGICA COMO usos deste patrimônio, não temos apenas
MARCA E MERCADORIA uma comodificação da arqueologia, como já
Talvez um dos casos mais formalizados havia notado Schaan para o material mara-
de transmissão de conhecimento arqueoló- joara (Schaan, 2006). O objeto arqueológico
gico para comunidades locais tenham sido passa também por uma perda de sua quali-
aqueles projetos voltados para oficinas de dade de testemunho de um passado, ainda
capacitação de artesãos e geração de renda pouco conhecido do grande público e, tal-
com base em conteúdos arqueológicos. Mais vez, por isso mesmo, lhe seja desinteressan-
especificamente, vimos alguns programas te, mas ainda é mantida, ou ressignificada
do SEBRAE tanto no Pará, como no Amapá, sua qualidade de herança cultural, isto é o
em que se retomou a inspiração da cerâmica caráter exótico e regional. Assim sendo, as-
arqueológica para o a produção local artesa- sistimos um movimento de ressignificação
nal, tanto entre os ceramistas de Icoaraci, no
Como resultado desse trabalho foi elaborado pelo Sebrae
Pará, como no design de suvenires (camise- e pelo MPEG o livro “A Arte da Terra: Resgate da Cultu-
ra Material e Iconográfica do Pará” (1999). No Amapá, em
tas, chaveiros, etc.) no Amapá1. Nas lojas de 2006, o SEBRAE iniciou um programa de capacitação para
os empresários do setor artesanal, com a realização de di-
1. Em 1998, o Governo do Estado do Pará juntamente com versas oficinas, incentivando-os a promover a construção
o Serviço de Apoio às Micros e Pequenas Empresas (SE- de diferenciais que não só agregassem valor econômico a
BRAE) e com apoio do Museu Paraense Emílio Goeldi seus produtos e/ou serviços, como possibilitassem a cons-
(MPEG), instalaram o Programa de Artesanato do Pará. trução de uma identidade para seus produtos e/ou empre-
O Programa proporcionou, a exemplo do que o MPEG já sas, o que resultou em diversas exposições e a publicação
havia feito na década anterior, o contato com os principais intitulada “O legado das civilizações Maracá e Cunani: O
elementos das culturas Marajoara, Maracá e Tapajônica. Amapá revelando sua Identidade” .

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 112-128 - 2013


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Figura 1- Exemplo de equipamentos urbanos com design inspirado em peças arqueológicas. À esquerda, telefone
público em forma de urna marajoara em Belém; à direita calçada com desenho de muiraquitã em Santarém.1
1- Todas as fotografias deste artigo são de autoria de Cristiana Barreto (com exceção do material compilado na figura 5)

do objeto arqueológico como herança cultu- mensagens que estão sendo veiculadas sobre
ral, movimento no qual a voz da arqueolo- o passado arqueológico da Amazônia atra-
gia, isto é o conhecimento científico, fica vés destes projetos. Os usos destes objetos e
muitas vezes ausente. imagens teriam sido diferentes caso houves-
Não se trata aqui da defesa de um “puris- se um entendimento mais aprofundado so-
mo” cultural; o artesanato é uma área em bre os povos que os fabricaram, os contextos
que inovações e reapropriações estão sem- em que foram encontrados e o papel espe-
pre ocorrendo e a referência à história (ou cial que eles podem desempenhar na com-
pré-história) pode ser uma estratégia bas- preensão de nosso passado indígena?
tante positiva e genuína para reforçar a iden- Com exceção das primorosas réplicas de
tidade de um local e dar a conhecer esta his- cerâmicas arqueológicas efetuadas de forma
tória e este passado aos visitantes e turistas bastante exclusiva por alguns artesãos, na
(Borges, 2012). Amazônia, nos parece que o conteúdo ar-
Contudo, esta não tem sido a direção to- queológico não só vem se tornando secun-
mada no design de artesanato da Amazônia. dário para o grande público, mas também
Ao contrário, usos e abusos do patrimônio vem sendo reapropriado para fins variados,
arqueológico têm ocorrido de forma a afas- não apenas comerciais, mas, sobretudo,
tar o público cada vez mais do universo dos como marca de identidade visual, às vezes
conhecimentos produzidos pela arqueolo- reforçando antigos estereótipos sobre as so-
gia. Quer seja a urna funerária Marajoara ciedades indígenas amazônicas, em uma vi-
transformada em telefone público em Be- são ainda bastante “colonizadora” da histó-
lém, os muiraquitãs tornados calçamento ria pré-colonial.
em Santarém, ou ainda a vasta gama de ce- A própria idéia de que objetos arqueoló-
râmicas “tapajoaras” vendidas nos merca- gicos podem ser replicados ad infinitum, ou
dos, devemos nos perguntar quais são as ilimitadamente transformados, em suas

CORPO, COMUNICAÇÃO E CONHECIMENTO: REFLEXÕES PARA A SOCIALIZAÇÃO DA HERANÇA ARQUEOLÓGICA NA AMAZÔNIA Cristiana Barreto
117

proporções, cores, mate-


riais ou técnicas, reduz o
caráter único, genuíno, in-
substituível e testemunha-
dor de um passado parti-
cular que representa um
objeto arqueológico. As
intervenções realizadas
nas cópias minimizam a
autoria propriamente in-
dígena da peça, e a trans-
formam em algo mais
“atraente” à estética oci-
dental. Não raro vemos,
por exemplo, uma eroti-
zação exacerbada das re-
presentações antropo- Figura 2: Artesanato em cerâmica vendido no mercado Veropeso em Belém, com diferentes
morfas femininas, onde as versões de cerâmica “marajoara”.

peças, supostamente ins-


piradas nas urnas funerá-
rias e estatuetas arqueoló-
gicas, exibem órgãos
sexuais de forma exagera-
da ou pintados com cores
chamativas. Em outras
instâncias, os suportes
materiais originais são
deixados de lado, ficam
apenas os desenhos, mais
facilmente aplicados em
outros tipos de mídia.
Assim, as dinâmicas
da comunicação visual
Figura 3: Artesanato cerâmico vendido em Santarém inspirado em estatuetas tapajônicas.
contemporâneas são pos- Note-se a interpretação erotizada das peças, com a representação exacerbada dos órgãos sexuais.
tas em ação, sem realmen-
te aproveitar ou dialogar a capacidade co- transmissão de conhecimentos sobre cultu-
municativa original do objeto, pautada pelas ras passadas, mas ao contrário, vai na dire-
intenções por trás do projeto original e seu ção de sua negação e esvaziamento de signi-
contexto no passado arqueológico. No en- ficados.
tanto, muitos dos objetos replicados, copia- Por esses motivos, se faz necessário um
dos, transformados, possuem uma intensa questionamento mais aprofundado das ini-
capacidade agentiva de comunicação. ciativas que vêm associando o patrimônio
O uso que se faz assim do repertório do arqueológico a valores monetários em geral,
material arqueológico nada tem a ver com a mesmo que a intenção inicial destas iniciati-

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vas tenha sido a de favorecer comunidades transmissão de conhecimento temos ainda


locais através da geração de renda. Esta mo- como variável complicadora a multiplici-
netarização do patrimônio arqueológico, e a dade de vozes e de interesses implicados
conseqüente trivialização e “adaptação” vi- com este patrimônio. Para além dos arque-
sual da cultura material arqueológica a uma ólogos temos as empreiteiras que financiam
estética mais comercial, quer enquanto mar- a maior parte dos programas de educação
ca de identidade de produto (no sentido patrimonial, os educadores, os órgãos do
usado pelos especialistas das áreas de Co- governo, as comunidades e associações re-
municação e Marketing), quer para o consu- presentativas de várias minorias – indíge-
mo turístico, acaba, de certa forma, por in- nas, quilombolas, e caboclas em geral, ór-
terferir na própria comunicação, transmissão gãos mistos, como o Sebrae, além de
e socialização do conhecimento arqueológi- organizações não governamentais, e outras
co junto ao público. fundações que lidam com a indústria cul-
Na base destas questões, talvez resida ou- tural.
tra bem maior, que é o descompasso identi- Nesta seara de muitas vozes, existem,
tário que temos entre as comunidades ama- como sempre, contradições irrefutáveis e in-
zônicas contemporâneas e o passado cultural teresses irreconciliáveis. Na enorme teia de
indígena, descompasso este ainda permeado multivocalidade, existe uma assimetria de
por preconceitos, discriminação e desco- poder que é bastante comum nestes contex-
nhecimento geral das culturas indígenas, tos; na arqueologia de contrato em particu-
tanto do presente como do passado. Refiro- lar, a resolução destas contradições muitas
-me aqui, sobretudo, às comunidades cabo- vezes se dá em negociações, intermediadas
clas que em geral não tem nenhuma relação pelos órgãos governamentais responsáveis,
de herança com o patrimônio indígena pré- quase sempre envolvendo uma política de
-colonial local, quer pertençam a grupos de compensações. Compensações por perdas
afrobrasileiros descendentes de quilombo- que são na verdade incompensáveis, insubs-
las, ou a comunidades nordestinas que se tituíveis, nem mesmo se justificadas pelas
deslocaram para a Amazônia na época da oportunidades excepcionais de pesquisa em
indústria da borracha. áreas antes de difícil acesso ou condições de
Junta se a esta falta de identificação com pesquisa.
as culturas indígenas, as fortes tradições ca- Diante destas assimetrias de poder, con-
tólicas da maioria da população em centros cordamos com Hodder sobre o fato de que a
urbanos da região, e compreende-se melhor multivocalidade deva ser um componente
as razões pelas quais se justifica o fato de que central da prática arqueológica, mas que
conteúdos indígenas não só devam ser for- também é preciso reconhecer os perigos do
çosamente reapropriados de forma a impri- termo e da idéia.
mir a marca deste descompasso, deixando “In many ways, the dangers of multivocality parallel
evidente a diferença com o original, mas those associated with pluralism and multiculturalism. In
também o fato de que a intervenção deva ser all such cases, it appears as if the main intent is to allow
feita dentro de uma concepção de “melho- the participation of more voices, more groups and more
individuals without taking into account the fact that
rar” as peças para que possam ser admiradas
achieving the participation of marginalized groups in-
e usadas em contextos completamente dis-
volves a lot more than providing a stage on which they
tintos do original. can speak. …It involves ethics and rights” (Hodder,
Nos processos de patrimonialização e 2008: 195).

CORPO, COMUNICAÇÃO E CONHECIMENTO: REFLEXÕES PARA A SOCIALIZAÇÃO DA HERANÇA ARQUEOLÓGICA NA AMAZÔNIA Cristiana Barreto
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Ian Hodder reforça a necessidade de se- conteúdos arqueológicos, e também para


paramos uma arqueologia socialmente enga- que tornemos a educação patrimonial uma
jada com a multivocalidade e os objetivos experiência mais democrática, mais simétri-
comercialmente conscientes de incluir a ca, de troca ou “socialização” de conheci-
maior quantidade possível de vozes enquan- mentos, do que propriamente de transmis-
to apenas consumidores (Hodder, 2008: 196; são unilateral de conteúdos que muitas
Silberman, 2008). Mas também aponta para vezes não têm significados relevantes para
o fato de que a comercialização da arqueolo- os públicos almejados.
gia pode abrir oportunidades de alianças Esta proposta é sem dúvida a mais fértil
pouco comuns que, surpreendentemente, que tem surgido até agora para a transmis-
podem ser usadas para melhorar e aprofun- são do conhecimento arqueológico. Neste
dar o engajamento do público com a herança mesmo terreno, da etnografia arqueológica,
arqueológica. Conclui que para se evitar es- podemos ainda avançar em outra frente, que
tes perigos é preciso desenvolver uma arque- é a de aplicar nossas observações de como o
ologia mais reflexiva, com uma plataforma patrimônio arqueológico vem sendo inter-
de comunicação onde grupos que estão em pretado e reapropriado pelos vários públicos
desvantagem de poder não somente tenham para fortalecer a própria interpretação ar-
a oportunidade de serem ouvidos, mas tam- queológica, fechando de fato um ciclo de
bém possam agir sobre como se dá a pesqui- transmissão de conhecimento na cadeia
sa arqueológica em todas as suas fases, in- operatória do processo epistemológico da
cluindo a divulgação e socialização do arqueologia.
conhecimento.
Voltando à Amazônia, acredito que o de- MAPEANDO INTENÇÃO E RECONHECI-
safio maior da arqueologia reside então na BILIDADE
criação desta plataforma de comunicação, Nos processos de divulgação científica,
na qual arqueólogos, enquanto especialistas, inicialmente partimos da premissa de que,
não só ocupam um papel relevante, mas po- apesar de a arqueologia ser uma ciência in-
dem realizar avanços reais naquilo que está terpretativa, podendo acomodar múltiplas
propriamente dentro de suas atribuições e interpretações sobre um mesmo objeto, ela
expertises, que é entender as relações entre continua todavia sendo uma ciência, no sen-
as pessoas e a cultura material, seja ela no tido de que as leituras produzidas são tantas
passado ou no presente, e a partir deste en- quantas o objeto e seu contexto permitem.
tendimento repensar o papel do arqueólogo Ao contrário das narrativas literárias ou ar-
na patrimonialização da arqueologia da tísticas, os limites são dados, não pela nossa
Amazônia. imaginação ou criatividade, mas pelo objeto
Recentemente, pesquisadores que traba- arqueológico em si, e as informações de que
lham com a perspectiva da Arqueologia Pú- dispomos sobre seus contextos.
blica, isto é, da educação patrimonial como Assim, na comunicação com o público, a
antropologia aplicada (Bezerra de Almeida, primeira coisa que o arqueólogo deve dei-
2003, 2012) propõem que este entendimen- xar transparecer, são estas qualidades do
to seja feito através de uma etnografia de objeto arqueológico que guiam a interpre-
como as comunidades se relacionam com tação arqueológica. Por outro lado, seguin-
este patrimônio, para fortalecer a comunica- do na proposta de fortalecimento da inter-
ção e a pedagogia de como transmitir os pretação arqueológica a partir de um

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melhor entendimento de como as pessoas da paisagem: a arte rupestre, os mounds em


interagem com objetos arqueológicos, po- Marajó e, mais recentemente, os geoglifos
demos de início isolar alguns conteúdos do Acre, ou os megalitos do Amapá. A se-
que parecem mais relevantes para o público, gunda categoria engloba recipientes e peças
no sentido de produzirem um maior im- escultóricas, em cerâmica ou pedra, em ge-
pacto na percepção e reconhecimento do ral antropomorfas, cujas denominações va-
patrimônio arqueológico. Além disso, po- riam entre ídolos, imagens, efígies, bonecas,
demos mapear algumas áreas onde a per- estatuetas, e etc.
cepção e as leituras destes conteúdos arque- Ambos os tipos de registros arqueológi-
ológicos sejam minimamente coincidentes, cos são resultantes de ações realizadas com
isto é, diante dos quais as diferenças de a intenção de que estas construções fossem
perspectivas e subjetividades sejam meno- percebidas visualmente, são intervenções ou
res e permitam a construção de uma plata- objetos feitos para serem vistos, por seus pa-
forma comum de comunicação. (Figura 4) res e para além de seus pares. São produções
Está claro que a relação entre o público intencionalmente duradouras, cujos signifi-
atual e a arqueologia, seja ele oriundo de cados podem ser reconhecidos, ou apreen-
pequenas comunidades, ou do turismo de didos, pelo menos em parte, por diferentes
massa na Amazônia, é, e sempre será inter- públicos, a partir de alguns elementos em-
mediada por uma série de idéias, conceitos pregados, tecnológicos ou estilísticos que
e pré-conceitos, talvez adquiridos em expe- lhe conferem algumas características agenti-
riências anteriores, sobre o que é a arqueolo- vas (no sentido proposto por Gell, 1998):
gia, como são as sociedades indígenas e, so- um alto grau de reconhecibilidade, grande
bretudo, como eram no passado. Contudo, capacidade de afetar sensorialmente ou
de maneira geral, existe um enorme desco- emotivamente, ou alto grau de iconicidade,
nhecimento sobre o assunto, apesar de sem- isto é, em termos peircianos, com grande
pre acompanhado por uma grande curiosi- semelhança entre o referente e sua represen-
dade. Afinal, as oportunidades existentes de tação (Pierce, 1981).
entrar em contato direto com este patrimô- Aqui, como um exercício inicial, na dire-
nio são raras e por vezes inexistentes, seja ção de um melhor aproveitamento das capa-
indiretamente através de experiências edu- cidades agentivas dos objetos arqueológicos
cativas, como na escola, na televisão ou na na comunicação e transmissão do conheci-
internet, ou diretamente observando peças mento científico, trataremos em maior pro-
em museus ou visitando sítios arqueológi- fundidade o caso dos objetos antropomorfos,
cos. O contato mais comum, para o turista, - vasos, urnas funerárias ou estatuetas - visto
talvez seja justamente, indiretamente, atra- o amplo uso que têm sido feito destes objetos
vés do artesanato e da mídia voltada para tanto na divulgação científica, na musealiza-
este mercado. ção dos objetos arqueológicos, como nas rea-
Contudo, apesar do desconhecimento propriações do artesanato e turismo.
generalizado, desde os primórdios da arque- Inicialmente, para discutirmos a capacida-
ologia na Amazônia, duas categorias de re- de agentiva destes objetos, são úteis algumas
gistros arqueológicos se destacam na sua das idéias de Alfred Gell, como as de que toda
capacidade de despertar a atenção do públi- representação visual é icônica (e portanto é
co e engendrar múltiplas leituras e interpre- diferente de um simples código de conven-
tações. A primeira se refere às modificações ções), e o que realmente interessa ao antropó-

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logo ou ao arqueólogo, é o grau de se-


melhança com o que está sendo
representado, e o grau de reconhecibi-
lidade por parte do observador, pois
são estes elementos que definem e con-
trolam o tipo de percepção e de relação
almejada pelo artista entre o observa-
dor e as entidades ali representadas ou
constituídas. Além disso, Gell traz para
a discussão o fato de que o reconheci-
mento da entidade ali constituída,
nem sempre ocorre de forma espontâ-
nea, podendo ser induzido de várias
maneiras, as chamadas tecnologias de
encantamento (Gell, 1998). Figura 4: Entre o registro arqueológico e público: mapeando as áreas com
Está claro, que estes objetos com maior possibilidade de leituras coincidentes

alto grau de reconhecibilidade, ape-


sar de serem universalmente reconhecidos, definidores da sociabilidade em sociedades
foram realizados almejando-se determina- ameríndias, em particular as perspectivistas
dos públicos, e que mesmo se suas capacida- (Breton et al., 2006; Conklin, 1995, 1996;
des agentivas tenham se estendido no tem- Taylor, 2010; Turner, 1995; Rival 2005; Vila-
po, permanecendo até hoje reconhecíveis, ça 1993, 2005 e 2009, para citarmos apenas
deve-se diferenciar as diversas esferas de alguns).
leituras possíveis e, conseqüentemente, as Um denominador comum das socieda-
diferentes camadas de significados que po- des indígenas amazônicas é a idéia de que,
dem adquirir. Em outras palavras, a inter- ao mesmo tempo que todos os humanos
pretação do objeto arqueológico é relacio- compartilham corpos semelhantes, decorar,
nal, depende de características do objeto, pintar e transformar o corpo é o que real-
mas também dos significados atribuídos a mente tece a complexa relação entre seme-
estas características pelo observador. lhança e diferença. Tais atividades relaciona-
Para além de sua reconhecibilidade en- das à construção do corpo social (Lambert e
quanto corpos humanos, temos, por um McDonald, 2009), ou da “pele social” (Tur-
lado, um enorme leque de informações ner, 1980, 1995) aparecem tanto na organi-
identitárias encorporadas(embodied) nestes zação da prática ritual, como no discurso
objetos, feitos segundo estéticas e lingua- das artes visuais, muitas vezes como uma
gens visuais particulares, comunicando as prática classificatória cotidiana dos seres e
diferentes maneiras ameríndias de represen- das coisas (Lagrou, 2007).
tação e de fabricação de seus corpos. Por outro lado, isto é, o do público, e de
Não por acaso, nas últimas décadas, a et- todo ser humano em geral, é através do cor-
nologia amazônica tem insistido na impor- po que apreendemos sensorialmente conte-
tância da “fabricação do corpo” enquanto údos externos, que aprendemos a reconhe-
processo de construção de identidades. Inú- cer e a nos relacionar com o outro, e que
meros estudos salientam a corporeidade e os internalizamos nossas experiências de
atributos visuais do corpo como elementos aprendizado sobre o mundo exterior. Práti-

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lha de artefato
particularmente
privilegiada para
a transmissão de
con he ci mento,
tanto no passado,
como no presen-
te. Contudo, se-
ria falacioso e et-
nocêntrico de
nossa parte, usar-
mos esta base co-
mum para proje-
tar nossas noções
ocidentais de cor-
po e humanidade
em uma leitura
direta do material
Figura 5: As caras da divulgação científica na arqueologia da Amazônia: a escolha intuitiva das peças
arque ológ ico.
antropomorfas em capas de catálogos, livros e guias temáticos confirma o seu potencial comunicativo. (Isso é justamente
o que vemos nas
cas museológicas contemporâneas têm en- transformações feitas livremente pelo arte-
fatizado a importância das experiências sanato).
sensoriais no nível do aprendizado indivi- E é aí que se faz necessário o trabalho de
dual. tradução do arqueólogo, a mediação das
“Learning is defined as “an act of perception, interaction diferenças, e os enfoques comparativos en-
and assimilation of an object by an individual”, which tre “eles” e “nós”, entre como concebemos e
leads to an “acquisition of knowledge or the development construímos nossos corpos e como e eles o
of skills or attitudes” (Allard and Boucher, 1998). Learn- faziam no passado. E além disso, como fab-
ing relates to the individual way in which a visitor as-
ricavam seus corpos comparativamente aos
similates the subject (ICOM, 2010).
de outras gentes. Afinal, conforme nos lem-
Não por acaso, os objetos antropomorfos bra Eduardo Viveiros de Castro,
estão entre os mais expostos nas vitrines de “comparison is not just our primary analytic tool. It is
museus e exposições, e cujas imagens foram also our raw material and our ultimate grounding, be-
mais veiculadas em capas de catálogos, re- cause what we compare are always and necessarily, in
vistas e materiais de divulgação científica one form or other, comparisons” (Viveiros de Castro,
2004:4)
em geral. (Figura 5).
Assim, seguimos aqui o que tanto Sally
A MEDIAÇÃO DAS DIFERENÇAS: UM Price (1989) como Edward Morphy (1994)
EXERCÍCIO NECESSÁRIO vêm argumentando em relação à apreciação
O foco na percepção, reconhecimento e e entendimento de objetos etnográficos pelo
interação visual de elementos identitários, público ocidental em geral: não basta expor
sobre uma base universalmente comum (o estes objetos com base em um universalis-
corpo humano), constitui assim uma esco- mo estético; é preciso primeiro criar con-

CORPO, COMUNICAÇÃO E CONHECIMENTO: REFLEXÕES PARA A SOCIALIZAÇÃO DA HERANÇA ARQUEOLÓGICA NA AMAZÔNIA Cristiana Barreto
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dições de igualdade para se entender as tais quais eixos de simetria que atuam no es-
diferenças, e segundo, traduzir estas difer- paço ritual, ritmo, movimento, efeitos ciné-
enças de acordo com os universos culturais ticos, e muitos outros que podemos identifi-
específicos com que se está lidando. Hodder car nos motivos pintados, incisos, e na
também nos lembra o importante papel do relação entre os elementos bi e tridimensio-
arqueólogo não só como um interprete en- nais. Incluem-se aqui as combinações de
tre o passado e presente, mas também entre elementos que compõem seres híbridos,
diferentes perspectivas sobre o passado animais e humanos. São todos elementos
(Hodder, 1992). que fazem parte da tecnologia de encanta-
A seleção, tradução e a mediação, no en- mento de determinados rituais funerários
tanto, só serão possíveis se a arqueologia (Barreto, 2009).
avançar no entendimento dos princípios e Algumas constantes, como as formas tu-
técnicas que conferem a capacidade agenti- bulares com tampa, a antropomorfia, sobre-
va destes objetos, primeiro na arena de tudo com a representação de uma face hu-
“leitura” para os quais foram feitos; as inten- mana, a divisão entre urna/tampa
ções e efeitos almejados para o público correspondendo a corpo/cabeça, a constru-
“original”, dentro de uma perspectiva das ção do corpo na posição sentada, a presença
teorias de percepção e agência dos objetos. de pintura e adornos corporais, a indicação
Na arqueologia amazônica, boa parte do sexo, e a variabilidade de tamanho (às
dos corpos fabricados em cerâmicas, consti- vezes correlacionada com a idade), e o uso
tui na verdade segundos corpos para o en- de elementos decorativos (incisos ou pinta-
terro secundário de indivíduos. De maneira dos) em faixas e espirais com representações
geral, os objetos que vemos nas estantes das de cobras, fazem parte desta linguagem pan-
lojas de artesanato, se inspiram em urnas fu- -amazônica.
nerárias de variados complexos culturais em São estes elementos que garantem uma
tempos arqueológicos. das características fundamentais para se de-
O conjunto de urnas funerárias conheci- finir estilos particulares, isto é, aquilo que
das para a Amazônia pré-colonial certa- Peter Roe, em sua definição de estilo, chama
mente exibe um grau de semelhança que de reconhecibilidade – um termo que vimos
compõe uma linguagem comum, pan- empregando com um sentido mais amplo
amazônica. Uma síntese panorâmica destes neste texto, mas que aqui se refere à capaci-
registros ao longo da bacia amazônica indi- dade do objeto em ser identificado enquanto
ca, sobretudo, uma longa permanência de distinto de outros estilos (Roe, 1995:30).
aproximadamente 1200 anos da prática de Além da reconhecibilidade, para Roe, entre
enterramentos secundários em urnas outros elementos importantes na definição
cerâmicas antropomorfas, de uma ponta à de um estilo, está o que ele chama de contex-
outra da bacia amazônica. tualidade, ou seja, o fato de que sua reco-
São, portanto, artefatos rituais que encer- nhecibilidade depende do contexto a sua
ram a intenção de representar corpos huma- volta, podendo ser induzida ou não por este
nos (pessoas ou personagens ?) de formas contexto (o que certamente acontecia em
mais ou menos icônicas, dependendo da tempos pré-coloniais, visto serem os sítios
tradição cultural e que, para além da forma arqueológicos em que foram encontrados
do corpo humano, apresentam elementos prováveis territórios de domínio ritual, fu-
estilísticos de engajamento com o público nerário e, portanto, sagrado).

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Na Amazônia pré-colonial, o contexto é visitante olhe para uma urna Maracá e reco-
sem dúvida parte deste alto grau de reco- nheça ali uma pessoa sentada sobre um ban-
nhecibilidade dos objetos funerários antro- co, ou seja capturado pelo olhar de uma
pomorfos. Muitos dos sítios em que são en- urna Marajoara com seus grandes olhos de
contradas as urnas exibem algum aspecto coruja?
que garantem sua preservação e sua visibili- Roe fala também da capacidade dos ob-
dade, associados a verdadeiros marcos da jetos de afetar emocionalmente (affect ) ou
paisagem, marcos estes que podem ser natu- sensitivamente o público. Mas não no senti-
rais (como as grutas, abrigos, e topos de do estetizante em que museus e exposições
morros) ou construídos, como os tesos de com materiais etnográficos vêm trabalhan-
Marajó e os túmulos Aristé e que, portanto, do na linha de “deixar o objeto falar por si
podem atuar como um marcador de lugares só”. Ao contrário, a idéia é justamente usar o
sagrados (assim como os templos religiosos objeto para entender as ações, as intenções,
em geral) onde se exibem as marcas estilísti- as técnicas e linguagens usadas para produ-
cas tradicionais e ancestrais das sociedade zir determinados efeitos no público.
que os constroem. Aqui talvez a reconhecibilidade se daria
Nos cemitérios Maracá, as urnas ficam simplesmente pelo fato de se tratar de um
em lugares protegidos (como abrigos e ca- tema universal, o corpo, em que sua compo-
vernas), e ao invés de serem enterradas, fi- sição, por mais que seja culturalmente espe-
cam expostas aos visitantes (Guapindaia, cífica, seja sempre reconhecível por outro
2001). As urnas Aruã e Mazagão também ser humano. Mas em se tratando de socieda-
não eram propriamente enterradas, mas des ameríndias da Amazônia, entre as quais
eram colocadas em abrigos ou outros luga- sabemos que a forma do corpo humano
res protegidos, porém visíveis (Meggers e nem sempre corresponde à noção de huma-
Evans, 1957). nidade, e que estas formas podem ser múlti-
Esta visibilidade intencional sugere forte- plas, híbridas (antropo e zoomorfas ao mes-
mente a prática de uso da representação dos mo tempo), transformacionais e instáveis,
ancestrais enquanto marcadores de identida- em outras palavras, podem ser corpos cons-
de política e cultural para um mundo exte- truídos sob a teoria nativa do perspectivis-
rior, isto é, para as outras sociedades amazô- mo ameríndio (Viveiros de Castro, 2002),
nicas contemporâneas. Em tempos não podemos simplesmente lançar mão des-
pré-coloniais, a variação que encontramos te tipo de reconhecibilidade universal. A
nas formas de representação do corpo, com mediação e a tradução são necessárias.
um grau de iconicidade mais ou menos agu- Devemos reconhecer e explicitar alguns
çado, pode traduzir a necessidade de se man- outros princípios de representação dos se-
ter uma linguagem extra-regional, e talvez res, como algumas das linguagens metafóri-
seja esta intenção de comunicação com ou- cas utilizadas comumente nas artes amerín-
tros mundos que tenha assegurado sua reco- dias que tomam a simetria e a composição
nhecibilidade até os dias de hoje, mesmo em das partes de um corpo (humano ou não)
contextos de conhecimentos ocidentais. pela representação de animais, ou a compo-
Mas o que garante a reconhecibilidade sição de uma serie de artefatos, para além
deste estilo panamazônico para o público daquilo que chamamos de antropomorfos
em geral, que desconhece estes contextos es- (como, por exemplo, a composição das vasi-
pecíficos? O que faz com que um turista ou lhas marajoaras ou xinguanas). Contrapon-

CORPO, COMUNICAÇÃO E CONHECIMENTO: REFLEXÕES PARA A SOCIALIZAÇÃO DA HERANÇA ARQUEOLÓGICA NA AMAZÔNIA Cristiana Barreto
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do urnas funerárias antropomorfas, a outros mais profundas, em que novos regimes de


gêneros de artefatos antropomorfizados, tais percepção, regidos pela instabilidade das
quais vasos que possuem cabeça, membros, formas corporais e a constante transforma-
cauda, e etc., ou as estatuetas cerâmicas en- ção dos seres tenham produzido novos
quanto modelos reduzidos de corpos, pode- meios imateriais de se interagir com outros
-se, assim não só entender os diferentes sis- mundos, incluindo os ancestrais, através de
temas de representação dos seres, mas, outros meios mais imateriais, tais quais so-
sobretudo, as diferentes concepções de nhos, visões alucinógenas, e etc.
como os seres são construídos, ou seja suas Se as urnas funerárias são interessantes
cosmologias. para se tecer conteúdos sobre a relação entre
A “tradução” arqueológica, pode tam- corpo, identidade e idéias nativas de vida e
bém explorar as diferenças contextuais entre morte, outra categoria de objetos antropo-
o arqueológico e o contemporâneo. Por morfos, as estatuetas, talvez representem a
exemplo, é interessante notar que a repre- forma mais intencional de representar cor-
sentação humana em urnas funerárias cerâ- pos. Com certeza elas são hoje um dos gêne-
micas, uma tradição regional tão dissemina- ros mais copiados e transformados na in-
da na Amazônia pré-colonial, e apesar de dústria artesanal, e ao longo da história,
continuada durante os primeiros tempos de sejam as estatuetas tapajônicas ou marajoa-
contato (como atestam as contas de vidro ras, foram transformadas em verdadeiros
européias encontradas em algumas urnas), ícones da arqueologia amazônica. Alguns
parece ter sido abandonada por completo poucos exemplares inteiros e mais bem con-
entre as sociedades indígenas ao longo da servados foram tão repetidamente reprodu-
história. zidos em materiais de divulgação científica,
Assim, estes objetos constituem também que acabaram por fixar uma visão “canôni-
uma categoria privilegiada para tratarmos ca” de como os corpos eram representados
das diferenças entre o passado pré-colonial no passado arqueológico. No entanto, o re-
e o presente etnográfico, mostrando que o gistro arqueológico e as coleções de museus,
papel da cultura material como intermedia- demonstram uma enorme variabilidade
ção na relação entre vivos e seus ancestrais morfológica e decorativa deste gênero de ar-
talvez tenha mudado radicalmente. A fabri- tefato cerâmico.
cação material de corpos ancestrais tais As estatuetas constituem uma forma cor-
quais em tempos pré-coloniais talvez encon- poral tangível e específica, onde os elemen-
tre correlatos em alguns rituais indígenas tos corporais aparentemente não são molda-
atuais, mais conhecidos do público em geral, dos em função de outras características
como na fabricação dos postes Kuarup no utilitárias do objeto, tais quais os vasilhames
ritual funerário xinguano. ou as urnas, com exceção de parte das esta-
Mas de maneira geral os rituais funerá- tuetas marajoaras que parecem ter servido
rios documentados etnograficamente ou en- como chocalhos. Por isso, elas podem se tor-
volvem objetos que não possuem esta ampla nar o meio por excelência para se tratar de
esfera de reconhecibilidade formal, talvez semelhanças e diferenças de concepção dos
em função de situações em que a coloniza- corpos e seres.
ção e o contato tenham reprimido a fabrica- Aqui também, as diferentes esferas de
ção de imagens tão icônicas, ou talvez por- leitura e reconhecibilidade nos levam a con-
que tenham passado por mudanças bem siderar questões que podem ser exploradas

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de forma mais ou menos didática para um são do outro a partir do conhecimento que
público não nativo. Os temas a serem explo- se tem de si, das diferenças e semelhanças.
rados podem girar em torno dos diferentes Se quisermos efetivar o projeto de uma
significados associados aos padrões de va- socialização do patrimônio arqueológico da
riabilidade formal, os diferentes tratamentos Amazônia de forma menos hierárquica e
corporais (pinturas, adornos, penteados), os autoritária, fazendo uma real diferença não
significados das diferentes posições em que só para a preservação do patrimônio, mas
os corpos são representados (sentados, em também para despertar interesses locais no
pé, em posição de parto, etc.), os diferentes seu gerenciamento, não basta incluí-los na
modelos de corpo de acordo com o contexto arena da multivocalidade; não basta deixar
cultural (comparando-se as estatuetas mara- os outros falarem, pois como nos lembra
joara com as tapajônicas, por exemplo), e Hodder, nem sempre os discursos construí-
relacionando este gênero de representação a dos sobre este patrimônio estão alinhados
outros, dentro dos sistemas artefatuais indí- com os mesmo interesses éticos de celebra-
genas amazônicos. ção de um herança arqueológica. Assim, o
A idéia aqui, não é apenas transmitir as arqueólogo tem um papel ativo fundamen-
associações dos materiais a determinadas tal a cumprir nesta arena de multivocalida-
identidades culturais que a arqueologia clas- de, que envolve a comunicação, a mediação
sifica com categorias tais como tradição, e a tradução do conhecimento arqueológico
fase, cultura, complexo cultural ou outras. para os cenários de patrimonialização que
Mas fazer ver, nos objetos, as linguagens e os se apresentam na Amazônia do século XXI.
sistemas nativos de comunicação e expres- Vista desta maneira, a atuação do arque-
são destas identidades, compartilhá-los com ólogo na Amazônia não mais deveria se res-
o público. tringir à comunicação do seu conhecimento
em veículos de divulgação científica, quer os
AS CULTURAS SÃO FEITAS PARA DIA- acadêmicos ou os mais generalizados, mas
LOGAR engajar-se mais profundamente nos projetos
Assim dizia o slogan que, no início do sé- de comunicação visual (governamentais ou
culo XXI anunciou a criação de um novo privados), de design de produtos, de fomen-
museu em Paris para abrigar as coleções de to ao artesanato, de programação cultural,
culturas antes ditas “primitivas”, mas agora tais quais feiras, festivais e exposições, etc.
reconhecidas como primeiras, ou primor- O papel do arqueólogo é procurar as áre-
diais. as, temas, recortes, problemas e, sobretudo,
Na museologia do século XX, a produção linguagens onde este diálogo é mais prová-
de grupos e povos mais ou menos distantes vel e profícuo, e fornecer, a partir de todo o
da civilização ocidental aos poucos migrou seu instrumental teórico e metodológico
dos tradicionais museus de antropologia próprio da disciplina, os elementos para tor-
para os museus de arte. Contudo, aprende- nar a troca de conhecimento possível, isto é,
mos que nem sempre basta expor esta pro- aprender sobre os artefatos arqueológicos a
dução enquanto obra de arte para as fazerem partir da relação do público com eles e fazer
falar. Reiterando as idéias de Sally Price, é uma arqueologia do presente para melhorar
preciso achar a lente certa para fazer ver as a arqueologia do passado.
diferenças e abrir o diálogo. É preciso esta- Como apontam Bezerra de Almeida e
belecer relações que iluminem a compreen- Najjar (2009), no Brasil, são ainda muito tí-

CORPO, COMUNICAÇÃO E CONHECIMENTO: REFLEXÕES PARA A SOCIALIZAÇÃO DA HERANÇA ARQUEOLÓGICA NA AMAZÔNIA Cristiana Barreto
127

midos os estudos sobre a relação de públicos


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está sendo construído fora da arena de con-
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da educação escolar e do turismo arqueoló- HOUSEMAN, M. 2006. Qu’ est-ce qu’ un corps? Paris, Flam-
gico são, de certo, caminhos importantes as marion/Musée du Quai Branly, 215pp .
serem percorridos na arqueologia amazôni- CONKLIN, B.A. 1995 Thus are our bodies, thus are our cus-

ca do século XXI. Contudo, a interface com tom: Mortuary Cannibalism in an Amazonian society. American
Ethnologist , 22:75-101.
o público deve também ser pensada a partir
CONKLIN, B.A. 1996 Reflections on Amazonian Anthropo-
do conhecimento antropológico sobre as di- logies of the Body. Medical Anthropology Quarterly ,10 (73):373-
ferentes capacidades e potenciais dos objetos 375.
intermediarem relações sociais, e a transmis- FIGUEIREDO, S. L. ;  PEREIRA, E. S. ;  ALMEIDA, M.
são de conhecimento em particular. B.  (Orgs.) 2012 Turismo e gestão do Patrimônio Arqueológico,

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onde o saber arqueológico não é mais cons-
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truído de forma confinada à academia, e não GUIMARÃES, C. M. 2001 Arqueologia: identidade e cidada-
é mais repassado unilateralmente da acade- nia. In: XI Congresso da SAB, Rio de Janeiro. Resumos, p. 54.
mia para o público, mas sim construído a par- (não publicado)
tir de uma relação dinâmica entre o próprio GUAPINDAIA, V.L.C. 2001 Encountering the Ancestors:

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CORPO, COMUNICAÇÃO E CONHECIMENTO: REFLEXÕES PARA A SOCIALIZAÇÃO DA HERANÇA ARQUEOLÓGICA NA AMAZÔNIA Cristiana Barreto
130 ARQUEOLOGIA
PELAS GENTES:
Artigo UM MANIFESTO.
CONSTATAÇÕES E
POSICIONAMENTOS
CRÍTICOS SOBRE
A ARQUEOLOGIA
BRASILEIRA
EM TEMPOS DE PAC
Bruna Cigaran da Rocha1, Camila Jácome2, Francisco Forte Stuchi3, Guilherme Z. Mongeló4
e Raoni Valle5
1- Doutoranda em arqueologia pela University College London (cigaran82@gmail.com)
2- Doutoranda em arqueologia pelo MAE-USP (cpjacome@yahoo.com.br)
3- Prof. Dep.Biologia/Universidade do Estado de Mato Grosso UNEMAT, Msc. Etnoarquelogia
MAE/USP (chicostuchi@ig.com.br)
4- Mestrando - ArqueoTrop – MAE/USP (guilhermemongelo@gmail.com)
5- Prof. Dr. – PAA – Universidade Federal do Oeste do Pará UFOPA (figueiradoinferno@hotmail.com)
Resumo
A expansão desenfreada do grande capi-
tal pelo país segue deixando comunidades
locais, já marginalizadas, em situações ainda
mais precárias. O presente artigo (Manifes-
to1) traz uma reflexão crítica sobre a atuação Abstract
de arqueólogos enquanto cúmplices, sendo The big capital expansion all over the
coniventes e participantes de processos ile- country is leading local communities, which
gais e ilegítimos de expropriação e de espo- are already marginalized, to even more pre-
liação de territórios tradicionais, bens cultu- carious situations. This article (Manifesto)
rais e recursos naturais. A atuação acrítica brings a critical reflection about archeolo-
da Arqueologia de contrato nas obras do gists as accomplices, being convenient and
PAC, como exemplo repetido ad nauseum partaker of illegal and illegitimate processes
do conundrum em que nos situamos, não é of expropriation and spoliation of tradition-
uma inexorabilidade de nossa disciplina, é al territories, cultural property and natural
uma escolha política. Outras arqueologias resources. Uncritical proceedings at PAC
eram possíveis antes e continuam sendo, shell-work, as the repeated ad nauseum do
mas devem ser retomadas e postas em práti- conundrum we are lying at, is not an inexo-
ca com urgência. Nosso primeiro compro- rability of our discipline. Other archaeolo-
misso é com as gentes, não o capital. gies were possible and still are, but should be
resumption restarted and put into practice.
Palavras-chave: Arqueologia de Our first commitment is with people, not
contrato, PAC, Populações marginalizadas. capital.

1- Divulgado inicialmente no World Archaeological Con-


gress 2013, em Porto Alegre, e posteriormente na internet,
Key-words: Contract Archaeology,
conta com 112 signatários listados em agradecimentos. PAC, Minority populations.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 130-140 - 2013


132

Viramos reféns de uma legislação que preza pela preser- comunidade arqueológica frente à falta de
vação do patrimônio, mas que não conseguiu, até hoje, uma conduta ética em trabalhos desempe-
barrar um único empreendimento com base na legisla-
nhados por arqueólogos e empresas de ar-
ção vigente e argumentos de que o patrimônio arqueoló-
gico é mais importante do que o próprio empreendimen-
queologia no Brasil. A expansão desenfrea-
to e seus inúmeros impactos, irreversíveis no caso do da do grande  capital  pelo país segue
patrimônio cultural. Um agravo constitui-se no fato de deixando comunidades locais, já marginali-
que, em muitos casos, não há como mitigar ou compen- zadas, em situações ainda mais precárias. Ao
sar a perda do meio de vida e de memória de populações participarem de trabalhos de processos de
atuais que têm em marcos geográficos específicos ou
licenciamento ambiental em contextos nos
mesmo em sítios arqueológicos – sobrepostos a locais sa-
grados – a gravação de sua história que raramente está
quais os direitos de comunidades atingidas
escrita. (Autores do presente artigo, 2013). não são respeitados – com destaque ao di-
reito à consulta livre, prévia e informada
O desenvolvimento da Arqueologia prevista na Convenção 169, da Organização
no Brasil tem frequentemente se mostrado Internacional do Trabalho (OIT), da qual o
incompatível com a agenda da Arqueologia Brasil é signatário –, entendemos que arque-
mundial, promovida pelo World Archaeolo- ólogos estão se colocando como cúmplices,
gical Congress (WAC), na qual a disciplina sendo coniventes e participantes de proces-
fornece uma plataforma para mediação en- sos ilegais e ilegítimos de expropriação e de
tre diferentes interesses – comunidades lo- espoliação de territórios tradicionais, bens
cais, instituições públicas, empresas estatais culturais e recursos naturais.
e privadas. Nesse sentido, há uma necessida- É importante frisar que não se trata de
de urgente por assumirmos esta atuação, fazermos críticas generalistas e idealistas à
considerando que o passado dos povos indí- arqueologia de contrato como um todo, mas
genas e demais populações marginalizadas é sim de problematizarmos aspectos dessas
negado até hoje e que este passado se cons- práticas quando se dão em contextos de re-
trói no hoje. lação direta com populações indígenas e tra-
Isso se dá no contexto de flagrantes em- dicionais e/ou em contextos de obras de alto
penhos no desmantelamento de direitos impacto socioambiental. Essas situações são
conquistados (e.g. PECs 215 e 237) e da pos- problemáticas e sua resolução não se benefi-
tura política autoritária e desenvolvimentis- cia da dicotomização reducionista que cria
ta governamental atual e soma-se à recente uma oposição entre pesquisadores “ingênu-
descoberta do chamado “Relatório Figueire- os e idealistas” e pesquisadores “ambiciosos
do” que traz à tona atos de tortura, campa- que venderam as almas ao capital”. Embora
nhas de extermínio e esbulho de populações existam atores que se enquadrem neles, am-
indígenas em todo o país que poderá quin- bos os cenários são “ficções” quando gene-
tuplicar o número de mortes atribuídas à ralizados. É preciso acima de tudo qualificar
ditadura (Balza, 2012). Entendemos que este a crítica.
é um momento em que, mais do que nunca, Mas também é importante destacar nos-
uma postura coerente e responsável é cobra- so apoio à ideia de que “a economia sem a
da da comunidade de arqueólogos profissio- cultura não pode mais do que propagar a
nais e da Sociedade de Arqueologia Brasilei- desvalorização de uma sociedade, colocan-
ra (SAB). do-a à mercê de interesses estritamente eco-
Entretanto, salvo raras exceções, obser- nômicos” (Chauí e Cohn, 2012). Além disto,
vamos a alarmante quietude e silêncio da conforme define Spensy Pimentel, “num

ARQUEOLOGIA PELAS GENTES: UM MANIFESTO. Bruna C. da Rocha, Camila Jácome, Francisco F. Stuchi, Guilherme Z. Mongeló e Raoni Valle
133

país como o Brasil, o bom trato com a ques- No exercício dessa arqueologia observa-
tão indígena ajuda a definir o grau de nobre- -se uma omissão da reflexão, discussão, po-
za de um governo. Porque os indígenas, sicionamento e manifestação crítica perante
aqui, não são expressivos, em termos eleito- os direitos adquiridos por povos tradicio-
rais, mas eles são um componente da mais nais e ao patrimônio cultural material e ima-
alta relevância no que se refere à nossa his- terial a eles relacionados. Parece-nos que o
tória e nossa identidade como brasileiros” sacro argumento da Arqueologia para justi-
(CEPAT e Sanson, 2013)2. Acreditamos que ficar sua função social que aprendemos nas
a arqueologia deve contribuir para a promo- cartilhas e manuais, o de entender o passado
ção e valorização da diversidade cultural do para ter uma melhor compreensão das cau-
país, sem dúvida uma de suas maiores  ri- sas do presente e um quase-consequente
quezas. Mais do que isso, o componente in- melhor planejamento do futuro, se torna
dígena na história dessa parte do mundo uma falácia, pois a proposição fundante, o
hoje chamada Brasil apenas pontualmente é entendimento do passado perde seu sentido.
percebido pela antropologia social e etno- Quais, então, seriam os objetivos e justifica-
história, pois a maior parte dessa história tivas dessa Arqueologia?
indígena de longa duração – e isso pode sig- Dentre outros exemplos, Politis e Curtoni
nificar entre 15.000 e 50.000 anos antes do (2011) notam como a criação de museus na-
presente – é acessível somente à arqueolo- cionais na Argentina, na década de 1880,
gia, aos pajés e narradores indígenas. compunha uma estratégia para neutralizar a
presença política indígena no presente, ao
Arqueologia para quem? atribuí-la ao passado, quebrando uma conti-
Tanto quanto a Antropologia e a Histó- nuidade cultural e “congelando no passado
ria, a prática arqueológica imbrica teoria, algo repleto de vitalidade no presente”
método e posição política. Nesse sentido é (2011:498). Nos parece que a arqueologia de
impossível desvincular a pesquisa da relação contrato, infelizmente, desempenha este pa-
com as pessoas vivas. Por isso, a opção por pel hoje no Brasil. A divulgação da pesquisa
fazer “salvamentos” arqueológicos em em- arqueológica e constituição de novos museus
preendimentos tão controversos do ponto não são problemas em si, mas o projeto ide-
de vista social e ambiental como as mega ológico que está por detrás deles é profunda-
usinas hidrelétricas na Amazônia – Santo mente problemático. Não se troca vidas por
Antônio e Jirau, Belo Monte, Teles Pires e exposição de vidas. A cega leitura das nor-
Tapajós; a transposição do rio São Francis- mas que são impostas pelos órgãos legislado-
co; os grandes projetos de mineração, entre res transformou nossa prática em um traba-
outros, acaba por, de certa forma, referendar lho técnico; assistimos à alienação no
lógicas históricas antagônicas às dos grupos desenvolvimento de atividades impostas por
culturais pretéritos e atuais que buscamos empresas que forçam a diluição da autoria
entender. Fica claro que, apesar de ser am- dos trabalhos finais. É com pesar que perce-
plamente criticado, um posicionamento bemos a Arqueologia brasileira sendo domi-
político-epistemológico colonialista ainda é nada por “buracólogos” acríticos e autôma-
corrente na práxis brasileira recente (Latour tos. Arqueo-Drones, para nos alinharmos à
1994, Mignolo 2003, Gnecco 2009). moda mais atual nas tecnologias da morte.
A Arqueologia não pode nem deve ser
2- CEPAT - Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores apenas um conjunto de resultados descone-

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 130-140 - 2013


134

xos entre si, produzidos pelas urgências de rados enfaticamente enquanto tais, e não
um trator atrás do pesquisador (o “lupem- serem “relativizados” em Termos de Ajusta-
proletariado de campo”) ou do empreende- mento de Conduta (TACs), cláusulas condi-
dor cobrando relatórios que acreditam ser cionais, medidas mitigatórias.
feitos magicamente, sem necessários pro- A consequência direta é que mesmo
cessos de reflexão, pesquisa e inclusão dos quando arqueólogos apresentam dados de
envolvidos, sejam índios, quilombolas, ri- pesquisa que demonstrem tal inviabilidade,
beirinhos, ciganos, mendigos, o  Estado  e seja por critérios relacionados ao patrimô-
suas instituições, inúmeros setores da socie- nio arqueológico em si ou pela relação deste
dade civil, empresários e empreiteiros. Co- com grupos sociais atuais, seus relatórios,
nhecimento cientifico não pode ser produ- por terem seus direitos autorais cedidos,
zido a toque de caixa. A Ciência requer passam pelos filtros das empresas e consór-
tempo para pensar, para refletir, entre outras cios contratantes e se tornam “neutros”, leia-
coisas, nos processos de conversão de uma se, pró-empreendimento. Assim sendo, a
informação em dado científico, que não é ética individual não traz as garantias espera-
automática, nem estatística, nem inúmeros das que tais observações cruciais, embasa-
dígitos numa planilha Excel: é um processo das cientificamente, sejam consideradas em
reflexivo relacional e contextual, necessaria- seu potencial crítico-reflexivo e embargante,
mente demorado (The Slow Science Acade- apoiado no princípio da precaução (Colom-
my. 2010). bo, 2004), pois os relatórios são reconsidera-
Percebe-se uma tendência cada vez mais dos, editados, segundo uma agenda política.
generalizada de instrumentalização e mer- Esta constatação tem um segundo efeito
cantilização do fazer científico. No Brasil ob- colateral: derruba também outro argumento
servamos aspectos diversos dessa tendência comumente difundido, de que “se arqueólo-
presentes, por exemplo, na obsessão pelo “I” gos que se colocam enquanto éticos não as-
no MCTI (Ministério da Ciência Tecnologia sumirem o contrato, outros que não se sabe
e “Inovação”) e na mencionada rapidez acerca de seus posicionamentos éticos assu-
agressiva com que a “ciência de contrato” é mirão, tornando piores os resultados e con-
feita. Um dos mecanismos que entendemos sequências”. Portanto, como dito, não se trata
favorecer esse processo de instrumentaliza- mais de ética individual, mas da “ausência de
ção é a condição, ou prerrogativa contratual ética em termos de um paradigma” (Kuhn,
nos licenciamentos ambientais que os em- 1970) que oriente uma comunidade de prati-
preendedores têm acerca da edição e conso- cantes de uma ciência. Nos perguntamos se
lidação dos relatórios. Ou seja, o pesquisador o Código de ética da Sociedade de Arqueo-
que levanta a informação e a partir dela tenta logia Brasileira (SAB) é suficiente para pre-
gerar o dado reflexivo e o coloca no relatório encher essa lacuna, ou se precisamos ampliar
não detém o direito autoral sobre o dado, ele e atualizar a reflexão ética sobre a Arqueolo-
é cedido ao contratante, ou empreendedor. O gia de Contrato em contextos específicos,
mecanismo de edição, ou como dito, de con- dentro e fora “dos tempos do PAC”.
solidação final dos relatórios, é um procedi- Diante da ausência de um paradigma éti-
mento problemático porque incide direta- co basilar emerge um exemplo paradigmáti-
mente na capacidade real de tais documentos, co dessas “novas” práticas arqueológicas, no
quando apontam para aspectos que inviabi- mínimo digno de reflexão. Em abril de 2013,
lizariam as obras, serem validados e conside- veio a conhecimento público que a empresa

ARQUEOLOGIA PELAS GENTES: UM MANIFESTO. Bruna C. da Rocha, Camila Jácome, Francisco F. Stuchi, Guilherme Z. Mongeló e Raoni Valle
135

de arqueologia Documento, a serviço do justificar o “progresso”. Assim, apresenta-se


consórcio de empresas responsável pela como um exemplo perfeito da chamada Ar-
obra da Hidrelétrica Teles-Pires, escavou queologia colonialista definida por Trigger
um número desconhecido de urnas funerá- (1986) para a práxis desenvolvida nos EUA
rias reclamadas por indígenas Munduruku no século XIX, quando o estudo organizado
relacionadas a um lugar considerado sagra- de artefatos indígenas emulava o interesse
do por esta etnia, assim como para os indí- pela pré-história na Europa e que se encai-
genas Kayabi e Apiaka, na Cachoeira Sete xava em uma “convicção romântica de que
Quedas/rio Teles Pires (Associação Indíge- americanos brancos tinham o dever de pre-
na Pussuru e Conselho Missionário Indige- servar um registro da raça que eles estavam
nista, 2013). a suplantar no continente norte americano”
Invocar o caso Munduruku é pertinente (1986:192).
pela sua atualidade e implicações. No con- Enquanto objetos etnográficos eram
texto de uma série de ataques contra sua in- exibidos como troféus apropriados de po-
tegridade física – das quais a mais trágica foi vos conquistados, “a exibição de artefatos
a morte a tiros de Adenilson Kirixi Mundu- pré-históricos simbolizava o controle bran-
ruku (em 07/11/2012) por um delegado da co do solo e territórios onde estes objetos
Polícia Federal – e a recente escolta armada foram retirados” (1986:193). Ações como
para pesquisadores envolvidos nos estudos essas exemplificam outros casos em que não
para licenciamento no rio Tapajós, podemos se observa o Código de ética da SAB no que
considerar a intervenção da Documento, toca ao
que não contou com o consentimento dos “Reconhecer como legítimos os direitos dos grupos étni-
Munduruku, como uma investida contra o cos investigados à herança cultural de seus antepassa-
próprio passado do grupo, contra sua iden- dos, bem como aos seus restos funerários, e atendê-los
tidade materializada nas urnas, fato que em suas reivindicações, uma vez comprovada sua ances-
tralidade” (2.2.1) (SAB, 2013)”,
pode comprometer toda a comunidade de
arqueólogos em sua relação com os povos ou mesmo a ignorada Moção sobre a relação
indígenas no País. entre arqueólogos, patrimônio e comunida-
Existem outros casos como esse, notoria- des indígenas, construída no I Seminário
mente um transcorrido em 2006, que envol- Internacional de Gestão do Patrimônio Ar-
veu a mesma empresa a serviço do consórcio queológico Pan-Amazônico em 2007 (Gon-
da PCH Paranantinga II, quando foi denun- zález e Migliacio, 2007).
ciada pelo antropólogo Carlos Fausto por, No citado ponto do Código de Ética fica
dentre outros problemas, ter desconsiderado implícito, ou mesmo explícito uma visão
o que diziam lideranças indígenas da região colonialista, pois supõe que somente atra-
do rio Culuene – de que a obra ameaçava seu vés da arqueologia poderia se definir a an-
patrimônio cultural, pois estava destruindo cestralidade de um grupo. Há aqui uma
um local sagrado onde, de acordo com a mi- desconsidera particularidade da memoria-
tologia alto-xinguana, teria ocorrido o pri- lidade e narrativas históricas indígenas que,
meiro Quarup, ritual de homenagem as lide- em sua diversidade, não são necessaria-
ranças falecidas (Fausto, 2006). mente lineares como as da arqueologia.
Tais procedimentos remetem a um tipo Semelhante à lógica dos bons arqueólo-
de prática arqueológica que há muito tempo gos éticos disputando os contratos contra
é utilizada no continente americano para os antiéticos, entendemos como conformis-

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 130-140 - 2013


136

ta e falaciosa a impotência implícita na lógi- Eco-genocídio simplesmente não é pro-


ca de que a obra não vai parar pela argu- gresso; é extinção, antítese da valorização e
mentação arqueológica. Argumento este promoção do patrimônio arqueológico, so-
que não pode servir para legitimar a des- cioambiental, humano e biosférico. Esses
truição de sítios arqueológicos e de lugares mega-empreendimentos simbolizam a falta
sagrados ameríndios, nem para afirmar de um projeto nacional, perpetuando o pa-
diante desta suposta impotência que nos pel do Brasil como fornecedor de commodi-
colocamos como salvadores de um patri- ties, matérias primas ou bens industrias pri-
mônio condenado a perecer inexoravel- mários. A energia produzida nas usinas
mente e que, sem a Arqueologia, absoluta- beneficia lobbies políticos e uma pequena
mente nada restaria. O sentido da história, parte da população (Brum, 2011); uma de
do passado, de forma nenhuma se encontra suas principais funções é fornecer às indús-
num objeto ou no acúmulo de objetos trias eletrointensivas, alimentando o projeto
numa  reserva  técnica, mas num contexto desenvolvimentista atual. Os beneficiados
situado; contradizer esse princípio é negar de fato são outros grandes empreendimen-
fundamentalmente a Arqueologia, e por tos e empreendedores, como as próprias
contexto entendemos um complexo de rela- empreiteiras construtoras de mega-obras e
ções numa paisagem social, num sistema financiadoras de campanhas e agendas polí-
vivo. Portanto, destruir o sítio, o lugar, a ticas; a mineração em escala industrial; o
paisagem, o ambiente, para resgatar peças agronegócio; e, de maneira geral, as indús-
não legitima os beneméritos do contrato, trias multinacionais instaladas no Brasil
porque ele parte de uma premissa falsa, a de com incentivo fiscal.
que a peça resgatada compensa, ainda que O nó górdio desse processo, é a argu-
minimamente, a destruição cientificamente mentação de que o atual modelo de desen-
questionável de um contexto. volvimento energético do Brasil necessita
Alguns dos empreendimentos que a Ar- inexoravelmente das mega usinas hidrelé-
queologia baliza em seus laudos, são muito tricas, projetos estes todos licenciados pela
mais do que causadores de danos ao patri- Arqueologia e outras ciências. O argumen-
mônio arqueológico e histórico, eles são a to de que as mega usinas hidrelétricas re-
perpetuação de um processo histórico e co- presentam as únicas alternativas energéti-
lonialista de sublimar o direito de todos à cas em larga escala para o Brasil vem sendo
terra e ao seu modo de vida escolhido. As- contestado  e questionado de forma con-
sim, quando ao “salvamento” arqueológico tundente (Novaes, 2010). Entretanto, mui-
se agrega uma escolta armada da Força Na- tos ainda se convencem pelo discurso da
cional de Segurança, como se testemunha inexorabilidade do processo. São argumen-
no Tapajós, perde-se o sentido da história e tos falaciosos. A natureza apresenta pro-
da vida, dá-nos vergonha de nossa profissão. cessos inexoráveis – erupções vulcânicas,
Empunhar uma pacetta entre fuzis aponta- impactos de meteoro, eventos de mega-
dos a indígenas é neo-colonialismo brutal e niño, por exemplo; assim como hidrelétri-
brutalizador. É a perpetuação reeditada das cas e grandes minerações, são capazes de
práticas expostas no Relatório Figueiredo e, afetar processos ecossistêmicos de forma
o que é mais aterrorizante, sob a chancela de irremediável. A diferença entre ambos é o
“Ciência Humana” na maior democracia da fator da escolha: os fenômenos naturais es-
América do Sul. tão além de nosso controle, diferente de

ARQUEOLOGIA PELAS GENTES: UM MANIFESTO. Bruna C. da Rocha, Camila Jácome, Francisco F. Stuchi, Guilherme Z. Mongeló e Raoni Valle
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nosso modelo de desenvolvimento. Não se nauseum do conundrum em que nos situa-


trata de necessidade como condição sine mos, não é uma inexorabilidade de nossa
qua non, pois há uma escolha política ex- disciplina, é uma escolha política. Outras ar-
plícita nisso. O alto custo de matérias-pri- queologias eram possíveis antes e continuam
mas e energia “baratas” está sendo exterio- sendo, mas devem ser retomadas e postas em
rizado e pago pelas comunidades locais e prática com urgência. Nosso primeiro com-
meio ambiente. promisso é com as gentes, não o capital.
Temos a obrigação de defender a vida e o
direito à terra de inúmeras populações, reco- Agradecimentos 
nhecidas ou não pelos critérios postos pelo Agradecemos aos Munduruku e to-
próprio governo como tradicionais, e alerta- dos os Povos e suas resistências em nome
mos o direito (e dever) de sermos éticos. Ín- do patrimônio da Vida e tudo que ela
dios, quilombolas, ribeirinhos, caiçaras, ci- abarca. Agradecemos também todos os
ganos, povo de santo, sertanejos, enfim, as 112 signatários do presente texto/mani-
populações tradicionais socioambiental- festo, que constituem professores, pes-
mente diversas: cabe a nós arqueólogos, quisadores e alunos de graduação e pós-
como cientistas sociais e humanos, não es- -graduação das áreas de arqueologia,
quecermos que é sobre o passado dessas po- antropólogos, história, geografia, direito,
pulações que empreendemos esforços de sociologia, espeleologia, indigenista, pe-
pesquisa. dagogia, membros e funcionários de
Entendemos, por prática arqueológica, ONGs e aqueles que mesmo em institui-
não somente o bem fazer dessa disciplina ções governamentais não se calam pe-
que envolve reflexões teóricas e proposições rante a injustiça e ilegalidade (vide abai-
metodológicas adequadas, mas aquilo que a xo lista de signatários). Também não
torna uma disciplina ética: sua posição po- podemos deixar de agradecer a organi-
lítica clara e aberta em relação a todos os zação da WAC, onde a primeira versão
atores sociais que possam estar envolvidos e deste manifesto pode ser lida e circulou
que reconstroem a si mesmos com base no entre os participantes, e também à Tania
historicizar e ressignificar suas representa- Pacheco e toda equipe do blog do Com-
ções do próprio passado. A Arqueologia bate ao Racismo Ambiental, primeiro
não se resume a simples contagem de cacos meio que veiculou este manifesto.
e elaboração de laudos técnicos. Somos
contra uma Arqueologia que intenta unica- 1.Adauto Okuyama – graduando em arqueolo-
gia – UNIFASF
mente à liberação de áreas, uma Arqueolo-
2.Adriana Dias – arqueóloga – UFRGS
gia que desconsidera as populações do pre- 3.Alenice BaetaDoutora Arqueologia MAE USP
sente. 4.Alexandre de Lima - – graduando em arqueo-
Somos a favor do nosso direito enquanto logia – FURG
arqueólogos de sermos éticos, e não simples- 5.Ana Carolina Cunha - International Doctorate
mente cumpridores de protocolos legais, po- Quaternary and Prehistory/Erasmus Mundus,
UFMG
rém ilegítimos, que muitas vezes nos são im-
6.Anaeli Queren Xavier Almeida, arqueólo-
postos como a única forma de ganharmos ga, UFMG
nosso beijú e caxirí de cada dia. A atuação 7.André Dal Bosco de Oliveira– graduando em
acrítica da Arqueologia de contrato nas arqueologia – FURG
obras do PAC, como exemplo repetido ad 8.Andres Zarankin – arqueólogo- UGMG

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 130-140 - 2013


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9.Angela Buarque – Museu Nacional/UFRJ 39.Evelin Luciana Malaquias Nascimento - Ar-


10.Ângelo Alves Corrêa - MAE/USP queóloga, Mestre pela UFMG.
11.Anne Rapp Py-Daniel– arqueóloga UFOPA 40.Fabiana Belém – arqueóloga – MAE/USP
12.Aparecida Oliveira – Socióloga, Ilhéus-BA 41.Fabiola Andrea Silva – PPArq –MAE (USP)
13.Artur Henrique Franco Barcelos - Universi- 42.Fernando Ozorio de Almeida, Doutor em Ar-
dade Federal do Rio Grande FURG. queologia (MAE-USP)
14.Beatriz Ferreira de Oliveira - – graduanda em 43.Francisco dos S. Carvalho Junior - Graduan-
arqueologia - FURG do em Arqueologia (UFPI)
15.Beatriz Ramos da Costa -Arqueóloga- Museu 44.Gilmar Barcellos – Espeleólogo e Mestre em
Arqueológico de Sambaqui de Joinville Ecologia Humana, Universidade Nova de Lis-
16.Beatriz Valladão Thiesen - Bacharelado em boa.
Arqueologia, Programa de Pós-Graduação em 45.Glaucia Malerba Sene - Instituto Brasileiro de
17.Geografia, Instituto de Ciências Humanas e Pesquisas Arqueológicas (IBPA)
da Informação, FURG 46.Glória Kok - Historiadora, Arqueotrop.
18.Breno Feijó Alva Zúnica - estudante / Arque- 47.Grasiela Tebaldi Toledo - Doutoranda em Ar-
otrop - MAE-USP queolgia MAE-USP
19.Bruno Ribeiro, graduando em História PUC- 48.Greciane Neres do Nascimento – Antropólo-
-MG ga, UFBA
20.Bruno Sanches Ranzani da Silva - Doutoran- 49.Guilherme Macedo – graduando em arqueo-
do em História Cultural/Unicamp logia - FURG
21.Carlos Eduardo Marques- Doutorando em 50.Gustavo Jardel Coelho – estudante – UFMG
Antropologia (UNICAMP) 51.Gustavo Neves de Souza - Arqueólogo (Pes-
22.Carlos Fausto – Antropólogo MN-UFRJ quisador Colaborador do MNHJB-UFMG)
23.Carolina Torres Borges, Mestranda em Ar- 52.Henrique de Alcantara e Silva - graduação
queologia, UFPE Antropologia (UFMG) e estagiário do MHNJB-
24.Claide de Paula Moraes – arqueólogo- UFO- -UFMG
PA 53.Ícaro Ruis Cabral da costa - Graduação An-
25.Claudia Plens – arqueóloga- UNIFESP tropologia (UFMG)
26.Cleiton S. da Silveira – graduando em arque- 54.Igor Morais Mariano Rodrigues- Arqueólo-
ologia – FURG go-UFMG
27.Cliverson Pessoa (PPGA-UFPA) 55.Ingrend Comaquini - – graduanda em arque-
28.Creise Correa Vieiro – graduanda em arque- ologia – FURG
ologia – FURG 56.Isabela Cristina Suguimatsu - graduada em
29.Daiane Pereira - Mestranda do Programa de Ciências Sociais - Arqueologia (UFPR)
Pós- Graduação em Arqueologia, Universidade 57.Jessica Rafaella de Oliveira - graduanda em
Federal de Sergipe Arqueologia e Preservação Patrimonial pela
30.Débora Leonel Soares – mestranda – MAE/ UNIVASF
USP 58.João Victor Souza Faria - aluno de graduação
31.Diego Martinez Celis - Mgter. en Patrimonio em Antropologia (UFMG)
Cultural y Territorio (PUJ), Bogota,Colombia 59.Johni Cesar - graduação em Antropologia
32.Dimitri Zin Vaucher – graduando em arque- com habilitação em Arqueologia
ologia – PUC/GO 60.Jonas Vaz Leandro Leal, Antropólogo do In-
33.Eberson Martins do Couto– graduando em cra-MG
arqueologia – FURG 61.José Alberione dos Reis – arqueólogo- FURG
34.Edison Rodrigues de Souza - Antropólogo - 62.José Cândido Lopes Ferreira - antropólogo -
UFBA IDSM
35.Eduarda Rafaella Rippel – graduanda em ar- 63.Jouran de Deus Ferreira - Arqueólogo forma-
queologia – FURG do na UNIVASF
36.Eduardo Bespalez – arqueólogo- MAE/USP 64.Juliana de Paula Batista - Advogada (Mov. Te-
37.Elisângela de Morais – arqueóloga – UFMG les Pires Vivo)
38.Erendira Oliveira – mestranda –MAE/USP 65.Juliana Pozzo Tatsch, mestranda da Pós-Gra-

ARQUEOLOGIA PELAS GENTES: UM MANIFESTO. Bruna C. da Rocha, Camila Jácome, Francisco F. Stuchi, Guilherme Z. Mongeló e Raoni Valle
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duação em Antropologia/Arqueologia pela 94.Robson Rodrigues - arqueólogo – Fundação


UFPel. Araporã
66.Jullie Anne Kutz Truss – mestranda – PP- 95.Ruben Caixeta de Queiroz- Antropólogo e
GAN – UFMG professor da UFMG
67.Karla Fredd– graduanda em arqueologia – 96.Rute Ferreira Barbosa - Arqueóloga (Núcleo
FURG de Ensino e Pesquisa Arqueológico - NEPA/
68.Lennon Oliveira Matos - Graduando em Ar- UFAL)
queologia e Preservação Patrimonial (UNI- 97.Sabrina de Assis Andrade - mestranda em
VASF) Antropologia Social - UFPR 
69.Leonardo Napp - graduado em História UFR- 98.Sandra Martins Farias - Antropóloga, douto-
GS randa em Integração na América Latina-USP
70.Loredana Ribeiro – arqueóloga – UFPel 99.Sarah Kelly Silva Schimidt – Graduanda em
71.Luciana Barroso Costa França - Antropóloga Antropologia (UFMG)
- PAA/UFOPA 100.Sergio Murillo Pinto - Doutor em História
72.Luciano Pereira da Silva - arqueólogo/UNE- - UFF
MAT 101.Sílvia Peixoto, arqueóloga do Museu Nacio-
73.Luisa de Assis Roedel - UFMG nal/UFRJ
74.Luisa Girardi – Antropóloga Iepé 102.Silvio Cordeiro – Doutorando MAE-USP
75.Luiz Carlos da Silva Junior – Arqueólogo – 103.Suellem Dayane Moraes Esquerdo - gradu-
FUNAI/Juina MT anda de Arqueologia (UFOPA).
76.Luiz de Lima – graduando em arqueologia – 104.Suellem Dayane Moraes Esquerdo, graduan-
FURG da de Arqueologia da UFOPA
77.Luiza Maria Fonseca Câmpera : bolsista Insti- 105.Tailine Rodrigues Valério da Silva - gradua-
tuto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá ção em arqueologia e conservação de Arte Ru-
78.Marcelo Garcia da Rocha -UFPEL pestre- UFPI
79.Marcia Lika Hattori – arqueóloga – MAE/ 106.Tania Andrade Lima - Museu Nacional /
USP UFRJ
80.Maria Goreti Witt Constante - Graduanda em 107.Tania Pacheco - historiadora
Geografia (UNIVILLE) 108.Telma Monteiro - Pedagoga
81.Marina da Fonseca Lopes– graduanda em ar- 109.Thalis Daiani Paz Garcia – graduanda em
queologia - FURG arqueologia - FURG
82.Marina Kahn - indigenista 110.Vanessa Linke – USP
83.Matheus Fuscaldo Ballé– graduando em ar- 111.Verônica Pontes Viana -   Arqueóloga
queologia – FURG IPHAN-CE
84.Mauricio André Silva – educador – MAE/ 112.Vinicius Melquíades – Arqueólogo
USP
85.Meliam Gaspar - estudante MAE/USP
86.Michael Joseph Heckenberger - Prof. Dr. Ar-
queólogo da Universidade da Florida)
87.Milena Acha – MAE/USP
88.Natalia Fraga – graduando em arqueologia -
FURG
89.Orestes Jayme Mega - bacharel em Arqueolo-
gia e Preservação Patrimonial pela UNIVASF
90.Pedro Henrique de Almeida Batista Damin -
mestrando - MAE/USP
91.Ricardo Chirinos Portocarrero. Instituto
Unay Rvna. Perú.
92.Ricardo Reis Vieira – estudante – UFMG
93.Robin M. Wright -Professor Titular aposenta-
do da UNICAMP

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 130-140 - 2013


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ARQUEOLOGIA PELAS GENTES: UM MANIFESTO. Bruna C. da Rocha, Camila Jácome, Francisco F. Stuchi, Guilherme Z. Mongeló e Raoni Valle
142
Historias de
resenha
Arqueología
Sudamericana de
Javier Nastri
e Lúcio Menezes
Ferreira
(editores).
Buenos Aires,
Fundación de Historia
Natural Félix de Azara/
Universidad Miamónides, 2010.
239 páginas
Resenhado por Adriana Schmidt Dias1
(Departamento de História/ Universidade Federal do Rio Grande do Sul).
143

Vindo a preencher uma lacuna existente A primeira sessão, intitulada “Arqueolo-


nos estudos de história da arqueologia ameri- gia e Nação”, analisa o papel da prática ar-
cana, o livro organizado por Nastri e Mene- queológica nos processos de consolidação
zes Ferreira nos oferece uma rica fonte de dos Estados Nacionais Sul Americanos. No
análise crítica sobre as histórias de estrutura- Capítulo 1, Lino Meneses Pacheco apresen-
ção do campo arqueológico em diferentes ta uma reflexão de como a arqueologia ve-
contextos nacionais da América do Sul. A nezuelana de finais do século XIX estrutu-
idéia deste livro surgiu de um simpósio orga- rou-se no marco filosófico positivista como
nizado pelos editores em 2007 por ocasião da um instrumento “científico” do Estado, re-
VI Reunião Internacional de Teoria Arqueoló- -atualizando o etnocentrismo colonial ao
gica na América do Sul (TAAS). Dividido em identificar a modernidade com a civiliza-
cinco sessões temáticas, cada uma composta ção européia. No inicio do século XX, a
por duas contribuições de países diferentes, imagem de modernidade é projetada para
Histórias de Arqueología também é um convi- um novo parceiro econômico e político, os
te a pensar a memória da prática arqueológi- Estados Unidos, e o discurso arqueológico
ca a partir do protagonismo de seus agentes. venezuelano passa a atender aos interesses
Ameghino, Lumbreras, Reichel-Dormatoff, destas novas agendas intelectuais. A mes-
Paulo Duarte, são alguns dos personagens ma conjuntura histórica é analisada por
destas histórias coligidas por Nastri e Mene- Sergio R. Carrizo para o noroeste argentino
zes Ferreira que nos falam dos contextos po- no Capítulo 2. Observa-se, porém, uma po-
líticos e ideológicos de produção e uso da sição ativa do Estado argentino em fomen-
arqueologia na América do Sul. tar através das pesquisas arqueológicas

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 142-145 - 2013


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nesta região a negação da possessão terri- após a sua morte como o herói popular,
torial nativa. Este processo identificado em símbolo de enfrentamento aos poderes es-
Tucumã é compatível com as políticas ar- tabelecidos e à supremacia européia nas
gentinas da segunda metade do século XIX ciências. No Capítulo 6 a relação entre ar-
de expansão colonial “fronteiras adentro”. queologia e nacionalismo no Peru é o tema
A arqueologia, inicialmente praticada por de investigação de Henry Tantaleán, to-
estrangeiros e depois pela academia porte- mando como eixo analítico a figura emble-
nha a partir de 1890, tem por objetivo situ- mática de Luis Guillermo Lumbreras na
ar o território nativo no passado pré-colo- teoria arqueológica americana. A idéia do
nial e desta forma gerar novos territórios a autor é oferecer uma critica interna a práti-
serem apropriados pelo Estado Moderno. ca da arqueologia social latinoamericana
A segunda sessão do livro é intitulada em sua associação às políticas de Estado,
“Internacionalismos” e comporta a análise expondo as contradições inerentes desta
sobre o papel de intelectuais estrangeiros aliança. Mesmo que o nacionalismo perua-
na institucionalização da arqueologia sul no tenha suas bases nas reivindicações in-
americana. No Capítulo 3, Lúcio Menezes dígenas, a arqueologia de Lumbreras trata,
Ferreira tem por objeto as relações institu- em ultima instancia, da produção de dis-
cionais e científicas de Herman von Ihering cursos de dominação ideológica sobre o
com os Museus Argentinos no final do sé- passado.
culo XIX, analisando o compromisso polí- O “Indigenismo” é o tema da quarta ses-
tico deste intelectual com o colonialismo são do livro. A origem do conceito do “ín-
interno no Brasil. No Capítulo 4, Javier dio ecológico” na Colômbia é investigada
Nastri avalia os estudos de cronologias cul- por Carl H. Langebaek Rueda no Capítulo
turais na arqueologia andina do inicio do 7. Destaque é dado à produção acadêmica
século XX, comparando os métodos em- de Gerardo Reichel-Dormatoff, sendo res-
pregados por Max Uhle, no Peru, e por Eric gatada sua importância na auto-percepção
Boman, Juan Ambrosetti e Salvador Debe- indígena e na visão dos políticos de esquer-
nedetti no noroeste argentino. O objetivo da quanto às populações originárias na-
do autor ao analisar os “estilos teóricos” quele país na conjuntura histórica de surgi-
empregados é transcender os dados e aces- mento dos movimentos ambientalista e
sar as conjunturas de estruturação do cam- contra-cultural. Uma situação oposta é
po da arqueologia na América do Sul. representada por Diana L. Mazzanti ao
“Crítica do Nacionalismo” é o título da analisar no Capítulo 8 o desenvolvimento
terceira sessão do livro que se debruça so- da arqueologia pampeana. A autora analisa
bre os usos que distintos Estados sul ame- como a arqueologia argentina tem respon-
ricanos fizeram da arqueologia para justifi- dido desde o século XIX às práticas estatais
car as ideologias nacionais no começo do voltadas à expropriação, extermínio e es-
século XX. No Capítulo 5 as lutas de signi- quecimento do elemento nativo na cons-
ficado de distintos grupos de interesse na trução da memória Nacional. Para a autora
Argentina quanto à figura de Florentino a renovação teórico-metodológica da ar-
Ameghino são tratadas por Pablo Perazzi. queologia pampeana nos anos 1990, no en-
Transformado em herói popular por sua tanto, não contribuiu para uma mudança
tese quanto à origem pampeana da huma- de cenário. A arqueologia histórica nesta
nidade, Ameghino passa a ser representado região, centrada na colonização européia,

Historias de Arqueología Sudamericana de Javier Nastri e Lúcio Menezes Ferreira... Resenhado por Adriana Schmidt Dias
145

representa a continuidade de uma tradição


invisibilidade do nativo pampeano e de
marginalização de seus descendentes.
A título de conclusão da obra, a relação
entre “Memória” e Arqueologia é abordada
na última sessão. No Capitulo 9 Gustavo
M. Rivolta trata a relação entre arqueologia
e discursos nativos sobre identidade, me-
mória e narrativa, tendo por cenário mais
uma vez a região noroeste da Argentina.
Estes temas estão entrelaçados no estudo
do sítio Los Cardones, realizado em con-
junto com os indígenas Amaichas, em Tu-
cumã. O sítio arqueológico assume um pa-
pel catalisador de memórias e narrativas
nativas de resistência e pertencimento ter-
ritorial desde o século XVII, até aquele mo-
mento esquecidas ou deixadas em segundo
plano frente às pressões da sociedade Na-
cional. No Capítulo 10, Pedro Paulo Funari
e Gladyson José da Silva tratam do resgate
da memória de estruturação do campo
científico da arqueologia no Brasil na pri-
meira metade do século XX através do es-
tudo acervos documentais produzidos por
Paulo Duarte. Trata-se de uma defesa per-
tinente de ações de preservação da memó-
ria dos próprios arqueólogos e dos docu-
mentos originais gerados pela investigação
dos sítios arqueológicos.

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 142-145 - 2013


146

146 normas editoriais

OBJETIVOS E PERIODICIDADE opção de assinar ou não seu parecer. Notas,


A Revista de Arqueologia é um veículo resumos de dissertações de mestrado e de
oficial da Sociedade de Arqueologia Brasi- teses de doutorado, resenhas e documentos
leira (SAB) e destina-se à publicação de tra- inéditos serão submetidos à apreciação da
balhos que possam contribuir para o apro- Comissão Editorial e do Conselho Editorial
fundamento e a socialização de da revista. Os trabalhos que forem aceitos
conhecimentos científicos sobre temas rela- para publicação deverão estar de acordo
tivos à Arqueologia Brasileira e seus campos com as especificações que se seguem:
interdisciplinares. Ela tem como prioridade
a divulgação dos trabalhos nacionais mais I. Artigos originais que envolvam aborda-
expressivos nesta área de conhecimento, gens teórico-metodológicas referentes à Ar-
bem como de artigos de pesquisadores es- queologia, desde que contenham resultados
trangeiros considerados relevantes para a conclusivos e relevantes do ponto de vista
disciplina. científico, não devendo ultrapassar a exten-
A revista está aberta a todos os sócios da são máxima de 8.000 palavras. Excepcio-
SAB e a outros pesquisadores, sejam eles da nalmente poderão ser aceitos trabalhos
área de arqueologia ou de áreas afins. Sua com uma extensão superior, desde que
periodicidade será semestral, podendo ter aprovados pela Comissão Editorial da re-
tiragem diferenciada. vista.
O calendário de publicação da Revista de
Arqueologia, bem como as datas de fecha- II. Artigos de revisão ou atualização que cor-
mento de cada edição, são definidos pela respondem a textos preparados a partir de
Comissão Editorial da SAB, composta por uma análise crítica da literatura existente
três membros eleitos para um mandato de sobre determinada temática de valor cientí-
dois anos, sendo apenas um deles o editor fico, não devendo ultrapassar 6.500 pala-
da revista. vras.

MODALIDADES DE TRABALHOS III. Resenhas versando sobre obras recente-


ACEITOS PARA PUBLICAÇÃO mente publicadas no país e no exterior, de
Serão aceitos para publicação trabalhos interesse para a Arqueologia, com no máxi-
elaborados em português, espanhol, francês mo 2.000 palavras.
e inglês. No caso específico de artigos origi-
nais e artigos de revisão ou atualização, estes IV. Resumos de dissertações de mestrado e de
somente serão aceitos após serem submeti- teses de doutorado defendidas nos últimos
dos à apreciação de pelo menos dois reviso- dois anos sobre temática arqueológica ou
res ou pareceristas. A identificação do pare- sobre assunto de interesse à arqueologia, de-
cerista é opcional, cabendo a cada um a vendo ter entre 500 e 2.000 palavras.
147

V. Notas que consistem em textos curtos, nas vel com Word for Windows em folha A4,
quais são apresentados os resultados preli- espaço 1,5, margens direita e esquerda com
minares de pesquisas em andamento ou co- 2 cm, topo e base com 2,5 cm, margem di-
mentários e críticas à artigos e resenhas pu- reita não justificada, fonte Arial, tamanho
blicados na Revista de Arqueologia, devendo 11, com páginas numeradas sequencial-
ter, entre 1.000 e, no máximo, 2.000 pala- mente.
vras. As obras citadas deverão ser referenciadas
no próprio corpo do texto, indicando-se:
VI. Documentos inéditos transcritos ou re- sobrenome do autor, data da publicação,
produzidos, de interesse para a história da página citada. Exemplos: (Clark, 1975),
Arqueologia Brasileira, desde que aceitos (Lévi-Strauss, 1982:47), (Renfrew & Bahn,
pela Comissão Editorial e pelo Conselho 1998); Willey & Philipps (Willey & Phili-
Editorial. pps, 1958:95), Plog et al. (Plog et al., 1976),
Binford (Binford 1967, 1978, 1983). Notas
INSTRUÇÕES AOS AUTORES de rodapé (numeradas sequencialmente)
I. Os trabalhos deverão ser acompanhados, deverão ser utilizadas exclusivamente como
obrigatoriamente, de resumo em português notas explicativas. As referências bibliográ-
(que não exceda 120 palavras) e resumo em ficas completas das obras citadas deverão
inglês fiel ao resumo em português, e igual- vir em uma lista ao final do trabalho.
mente de três palavras-chaves para indexa-
ção da revista. VI. As referências bibliográficas deverão se-
guir as seguintes normas:
II. Ao título do trabalho seguir-se-á(ão) o(s)
nome(s) do(s) autor(es). No rodapé serão Livros:
mencionados a(s) instituição(ões) em que o MEGGERS, B. J. 1979 América Pré-histórica.
artigo foi elaborado, endereço completo Trad. de E. T. de Carvalho. 2ª ed. Rio de Ja-
para correspondência e, sendo necessário, a neiro, Paz e Terra. 185pp.
indicação da(s) instituição(ões) da(s) Artigos ou capítulos em livros:
qual(is) foram obtidos os auxílios relativos à PROUS, A. 1999 Arqueologia, Pré-história e
produção do trabalho. História. In: TENÓRIO, M. C. (Org.), Pré-
-história da Terra Brasilis. Rio de Janeiro,
III. Os trabalhos deverão ser elaborados se- EdUFRJ, pp.19-32.
guindo estritamente a seguinte ordem: Títu- Mais de uma citação do mesmo autor:
lo, autor(es), resumo, palavras-chave, abs- MARTIN, G. 1998 O povoamento pré-his-
tract, key-words, informações sobre o(s) tórico do vale do São Francisco (Brasil).
autor(es) em nota de rodapé; Texto; Agrade- Clio, Série Arqueológica, Recife, 13:9-41.
cimentos; Referências bibliográficas. MARTIN, G. 1997 Pré-História do Nordeste
do Brasil. Recife, Ed. Univ.UFPE.
IV. Os originais devem ser encaminhados Artigos de revistas
anexados a mensagens eletrônicas para re- (com um, dois ou mais autores):
vistadearqueologia@gmail.com. O texto MARTIN, G. 1998 O povoamento pré-his-
deve ser digitado através de editor compatí- tórico do vale do São Francisco (Brasil).

REVISTA DE ARQUEOLOGIA Volume 26 - N.1: 146-148 - 2013


148

Clio, Série Arqueológica, Recife, 13:9-41. XII. Cada autor(a) poderá publicar até um
NEME, S. & BELTRÃO, M. 1993. Tupinam- trabalho individual em cada número da re-
bá, franceses e portugueses no Rio de Janei- vista e mais um outro em co-autoria, desde
ro durante o século XVI. Revista de Arqueo- que não seja o autor principal.
logia, São Paulo, 7:133-151.
Dissertações e teses: XIII. Os trabalhos aprovados serão encami-
WUST, I. 1990. Continuidade e mudança: nhados em PDF para revisão final dos auto-
para uma interpretação dos grupos pré-colo- res, que devem devolvê-lo no prazo máximo
niais na bacia do rio Vermelho, Mato Grosso. de dez dias a partir da data do recebimento.
Tese de Doutorado. São Paulo, Universidade O Editor deve ser informado por escrito so-
de São Paulo. 210pp. bre possíveis alterações ou sobre a aprova-
ção final de cada trabalho. Nessa etapa não
VII. A revisão gramatical deve ser previa- serão aceitas modificações no conteúdo do
mente providenciada pelo(s) autor(es). trabalho ou que impliquem em alterações
no número de páginas. Caso o autor não
VIII. As ilustrações (que não excedam a 6), responda no prazo, o trabalho será publica-
tabelas, gráficos e demais figuras com res- do conforme a última versão autorizada.
pectivas legendas deverão ser numeradas
sequencialmente e apresentadas, quando for XIV. Após aprovado, o trabalho será publi-
o caso, com os devidos créditos autorais, en- cado por ordem de chegada. O Editor res-
viadas separadamente, com a indicação no ponsável também pode determinar o mo-
texto do lugar onde devem ser inseridas. To- mento mais oportuno.
das as imagens deverão ser apresentadas em
arquivos digitais individualizados, em for- XV. A Revista de Arqueologia não aceita re-
mato jpg ou tif, em preto e branco com reso- sumos expandidos nem textos na forma de
lução igual ou superior a 300 dpi. relatórios.

IX. Textos encaminhados fora das normas XVI. Ao autor principal de cada trabalho
acima definidas serão retornados aos auto- publicado serão oferecidos, gratuitamente,
res antes de serem encaminhados aos pare- até 5 (cinco) exemplares do número corres-
ceristas. pondente da revista.

X. O(s) autor(es) será(ão) informados sobre XVII. Uma vez publicados os trabalhos, a
a avaliação do texto que encaminhou(ram) Revista de Arqueologia se reserva todos di-
para publicação no prazo máximo de 3 (três) reitos autorais, inclusive os de tradução, per-
meses, contados após o envio dos artigos de mitindo, entretanto, sua posterior reprodu-
acordo com as normas estabelecidas neste ção como transcrição, desde que com a
documento. devida citação da fonte.

XI. São de responsabilidade do(s) autor(es): XVIII. Os casos não previstos nestas normas
o conteúdo científico do trabalho, a tradu- serão analisados e decididos pela Comissão
ção do título do trabalho para o inglês, o Editorial da SAB, ouvido o Conselho Edito-
abstract e keywords. rial da revista.
149

REVISTA DE ARQUEOLOGIA
REVISTA DE ARQUEOLOGIA
SUMÁRIO
07 Editorial

Volume temático 10 Arqueologia, Memória e História Indígena: uma Introdução


Lucas Bueno e Juliana Salles Machado

ARTIGOS 16 ARQUEO-ETNOGRAFIA DE TIERRADENTRO


Cristóbal Gnecco

28 TERRITÓRIO, LUGARES E MEMÓRIA DOS ASURINI DO XINGU


Fabíola Andréa Silva

42 COSMO-ONTOLÓGICA MBYÁ-GUARANI: DISCUTINDO O ESTATUTO
DE “OBJETOS” E “RECURSOS NATURAIS”
Sergio Baptista da Silva

56 SEGUINDO O FLUXO DO TEMPO, TRILHANDO O CAMINHO DAS ÁGUAS:


TERRITORIALIDADE GUARANI NA REGIÃO DO LAGO GUAÍBA
Adriana Schmidt Dias e Sérgio Baptista da Silva

72 HISTÓRIA(S) INDÍGENA(S) E A PRÁTICA ARQUEOLÓGICA COLABORATIVA


Juliana Salles Machado

86 Arqueologia e etno-história na Terra Indígena Lalima, Miranda/MS


Eduardo Bespalez

96 TERRITÓRIOS EM DISPUTA: O PAPEL DA PESQUISA ETNOARQUEOLÓGICA


NOS ESTUDOS DE IDENTIFICAÇÃO E DELIMITAÇÃO DAS TERRAS INDÍGENAS
GUARANI ÑANDEVA NO SUDESTE DO ESTADO DE SÃO PAULO
Robson Rodrigues

112 CORPO, COMUNICAÇÃO E CONHECIMENTO: REFLEXÕES PARA A SOCIALIZAÇÃO


DA HERANÇA ARQUEOLÓGICA NA AMAZÔNIA
Cristiana Barreto

130 ARQUEOLOGIA PELAS GENTES: UM MANIFESTO. CONSTATAÇÕES E


POSICIONAMENTOS CRÍTICOS SOBRE A ARQUEOLOGIA BRASILEIRA
EM TEMPOS DE PAC
Bruna Cigaran da Rocha, Camila Jácome, Francisco Forte Stuchi, Guilherme Z. Mongeló e Raoni Valle

Resenha 142 Historias de Arqueología Sudamericana de Javier Nastri


e Lúcio Menezes Ferreira
(editores). Buenos Aires, Fundación de Historia Natural Félix de Azara
Universidad Miamónides, 2010. 239 páginas
Resenhado por Adriana Schmidt Dias
146 Normas Editoriais

Fotos da capa: Francisco Stuchi