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A UFF possui uma tradição em produzir estudos nas ciências humanas voltados à

compreensão do sistema de justiça, administração de conflitos, precarização e cidadania. Em geral,


estes estudos são realizados por pesquisadoras e pesquisadores vinculados ou não à instituição e
com os mais variados graus de formação. Tais pesquisas, produzidas no âmbito do Instituto
Nacional de Ciência e Tecnologia e do Instituto de Estudos Comparados em Administração de
Conflitos (INCT-InEAC), sediado na UFF, possibilitam uma maior integração com a comunidade
intelectual e se apresenta como estrutura institucional que possibilita a produção da pesquisa no
âmbito da Universidade Federal Fluminense.
Enquanto antropólogo e pesquisador vinculado a essa rede, pude desenvolver, a partir da
minha trajetória e da interlocução com colegas de diversas áreas do conhecimento, algumas
competências no desenho e aplicação de pesquisas multi-métodos. Estas pesquisas articulam
metodologias qualitativas e quantitativas a expertises disciplinares específicas, como o
levantamento e análise documental (no caso da História), cartografia (no caso da Geografia) e a
própria etnografia. No caso da presente proposta, a construção de tais métodos parte de um
pressuposto fundamental e distinto da maioria dos projetos de pesquisa aplicada. Como exposto na
seção anterior, um dos objetivos do trabalho é capacitar, de maneira introdutória, os jovens
moradores das comunidades no universo da pesquisa científica, bem como estimulá-los a participar
de reuniões comunitárias e espaços de participação e controle social. Em outras palavras, nossa
proposta não enxerga tais sujeitos enquanto o objeto passivo das análises sugeridas pelo projeto,
mas sim enquanto agentes ativos na sua construção, ou seja, ele propõe que esses jovens sejam
também protagonistas dos diagnósticos feitos em cada uma das comunidades estudadas.
Nossa proposta metodológica tem assim os seus alicerces fincados no que Thiollent (2008)
chamou de “pesquisa-ação”. Tal abordagem, de maneira geral, determina um compromisso que
atrela a pesquisa a possíveis objetivos políticos dos grupos com os quais (e não sobre os quais) o
trabalho se desenvolve. É uma metodologia construída no sentido “de baixo para cima”, com os
jovens – no caso do nosso trabalho – assumindo um papel de protagonismo no seu desenrolar. Ela
fomenta a participação deles no seu desenvolvimento, redação e também no seu monitoramento
(Desroche, 2006). Assume-se assim uma postura política mais engajada, uma vez que os
fundamentos teórico-metodológicos do trabalho e seus objetivos serão colocados à disposição dos
moradores destas comunidades a partir de suas próprias demandas. A metodologia proposta busca o
desenvolvimento em conjunto dos rumos da pesquisa e de seus possíveis desdobramentos,
aproximando a ação política da pesquisa acadêmica. Tal postura vem ao encontro de demandas de
diversos grupos sociais, recorrentes no Brasil, que enxergam na pesquisa acadêmica meios pelos
quais seria possível refletir e pensar propostas de reconhecimento social e a política de identidades.
No caso da presente proposta, pretende-se aplicar essa experiência à serviço de uma
pesquisa desenvolvida em seis etapas fundamentais:

(1) Construção colaborativa dos tópicos de interesse e instrumentos de pesquisa. Nessa etapa,
serão realizadas reuniões comunitárias para a apresentação dos objetivos preliminares da presente
proposta. O intuito aqui, por um lado, é informar aos moradores e moradoras sobre a realização da
pesquisa, mas também abrir seu escopo à identificação de tópicos de interesse dos residentes, que
possam ser incorporados à consulta/survey na etapa (3). Em seguida, serão realizados grupos focais
para informar (a) o desenvolvimento do questionário, bem como (b) estabelecer os setores de
aplicação da ferramenta, que devem obedecer as divisões e referências de navegação espacial
significativas para os jovens que lá vivem.

(2) Levantamento bibliográfico e de atividades da UFF nas comunidades analisadas. Nessa


etapa serão inventariadas e organizadas as diversas pesquisas e atividades de extensão realizadas
pela Universidade Federal Fluminense no Morro do Palácio, Estado, Cavalão e Preventório. Dados
censitários disponíveis sobre a região, mapas, referências sobre fenômenos como “gentrificação” e
“securitização”, bem como da literatura disponível sobre favelas.

(3) Realização de survey de caráter censitário. Nessa etapa, prevemos a aplicação de


questionários cujo objetivo é identificar (a) as origens, motivações, recortes e representações sobre
o espaço produzidas a partir das sucessivas camadas migratórias que compuseram a paisagem social
destas comunidades nas últimas décadas, bem como os impactos da pandemia do COVID-19 nessas
representações na visão dos jovens; (b) a organização do mercado imobiliário nas comunidades
(formas e critérios de precificação, institutos de propriedade e transferência de direitos etc.) e os
possíveis impactos da pandemia neste processo; (c) as dinâmicas de inserção sócio-culturais e
econômicas dos jovens de 15 a 29 anos, residentes nas comunidades estudadas através do 
mapeamento dos circuitos de mobilidade da juventude moradora dos territórios contemplados,
considerando fatores de moradia, disponibilidade de vagas nos setores produtivos e opções de lazer
na cidade de Niterói. (d) os impactos causados pelas restrições de mobilidade impostas durante o
período de isolamento social decorrente da pandemia do COVID-19 na economia da região “Praias
da Baía”.

(4) Realização de entrevistas em profundidade. Nessa etapa, buscar-se-á o aprofundamento dos


resultados do survey, que será enriquecido com histórias de vida dos moradores e moradoras e sua
relação com a pandemia do COVID-19, coletadas a partir de roteiros semi-estruturados de
entrevista, realizadas os jovens de 15 a 29 anos que se destaquem enquanto atores-locais
representativos (lideranças comunitárias, representantes do poder público e de organizações da
sociedade civil etc.), portadores da história oral da comunidade ou ainda de acordo com os recortes
espaciais e perfis de ocupação humana das comunidades estudadas (a serem construídas na etapa 3
da pesquisa).
(5) Construção de mapas. Nessa etapa, os profissionais da UFF e os moradores irão realizar a
construção de mapas temáticos a partir da metodologia da “cartografia da ação social”. Na visão de
Silva & Schipper (2012), tal metodologia necessita ser compreendida como um processo social
coletivo, que parte de um projeto-problema criado pelo coletivo formado (no caso deste projeto)
entre profissionais da UFF e jovens moradores de comunidades. Ele se configura enquanto uma
espécie de ferramenta coletiva a ser apropriada pelos jovens e pela UFF na compreensão de
diferentes problemáticas ligadas a essas comunidades. Deverão resultar desta etapa quatro mapas
temáticos inter-relacionados com base nos dados construídos nas etapas (3) e (4) que abordem,
respectivamente, os seguintes temas: (a) espacialização da “história de vida” de alguns dos jovens a
partir dos deslocamentos oriundos das sucessivas camadas migratórias que compuseram e
conformaram significativamente a paisagem social destas comunidades; (b) espacialização dos
possíveis impactos da COVID-19 sobre o mercado imobiliário nas comunidades locais; (c)
espacialização dos circuitos de mobilidade da juventude moradora dos territórios contemplados,
considerando fatores de moradia, disponibilidade de vagas nos setores produtivos e opções de lazer
com relação ao espaço urbano de Niterói; (d) espacialização das restrições de mobilidade impostas
durante o período de isolamento social decorrente da pandemia para os moradores das comunidades
estudadas. O objetivo dos mapas da etapa (5) é verificar as divisões espaciais produzidas
preliminarmente na etapa (1), atribuindo-lhes consistência e favorecendo uma possível
regionalização para as “Praias da Baía” – regionalização esta que é fundamental no fomento de
políticas públicas mais adequadas às particularidades e aos interesses da população local.

(6) Sistematização dos resultados. Período dedicado a análise final dos resultados, revisão dos
aprendizados da pesquisa, discussão destes resultados com a equipe de pesquisa e os moradores,
bem como para a escritura do relatório e do artigo de referência.

A UFF possui uma tradição em produzir estudos nas ciências humanas voltados à compreensão do
sistema de justiça, administração de conflitos, precarização e cidadania. Em geral, estes estudos são
realizados por pesquisadoras e pesquisadores vinculados ou não à instituição e com os mais
variados graus de formação. Tais pesquisas, produzidas no âmbito do Instituto Nacional de Ciência
e Tecnologia e do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC),
sediado na UFF, possibilitam uma maior integração com a comunidade intelectual e se apresenta
como estrutura institucional que possibilita a produção da pesquisa no âmbito da Universidade
Federal Fluminense.   

Enquanto antropólogo e pesquisador vinculado a essa rede, pude desenvolver, a partir da


minha trajetória e da interlocução com colegas de diversas áreas do conhecimento, alguma
competência no desenho e aplicação de pesquisas multi-métodos. Estas pesquisas articulam
metodologias qualitativas e quantitativas a expertises disciplinares específicas, como o
levantamento e análise documental (no caso da História), cartografia (no caso da Geografia) e a
própria etnografia. No caso da presente proposta, pretende-se aplicar essa experiência à serviço de
uma pesquisa desenvolvida em cinco etapas fundamentais: 

(1) Construção colaborativa dos tópicos de interesse e instrumentos de pesquisa. Nessa etapa,
serão realizadas reuniões comunitárias para a apresentação dos objetivos preliminares da presente
proposta. O intuito aqui, por um lado, é informar aos moradores e moradoras sobre a realização da
pesquisa, mas também abrir seu escopo a identificação de tópicos de interesse dos residentes, que
possam ser incorporados a consulta/survey na etapa (3). Em seguida, serão realizados grupos focais
para informar (a) o desenvolvimento do questionário, bem como (b) estabelecer os setores de
aplicação da ferramenta, que devem obedecer as divisões e referências de navegação espacial
significativas para aqueles/aquelas que lá vivem.

(2) Levantamento bibliográfico e de atividades da UFF no Morro do Palácio. Nessa etapa serão
inventariadas e organizadas as diversas pesquisas e atividades de extensão realizadas pela
Universidade Federal Fluminense no Morro do Palácio, dados censitários disponíveis sobre a
região, referências sobre fenômenos como “gentrificação” e “securitização”, bem como da literatura
disponível sobre favelas. 

(3) Realização de survey de caráter censitário. Nessa etapa, prevemos a aplicação de


questionários, cujo objetivo é identificar as origens, motivações, recortes e representações sobre o
espaço produzidas a partir das sucessivas camadas migratórias que compuseram a paisagem social
palaciana nos últimos 50 anos. Receberá destaque na consulta a organização do mercado
imobiliário na favela (formas e critérios de precificação, institutos de propriedade e transferência de
direitos etc.) e os impactos da “invasão uffinana”, como mencionado anteriormente. Além disso,
nessa etapa, poderão ser verificadas as divisões espaciais produzidas preliminarmente na etapa (1),
atribuindo-lhes consistência e favorecendo uma regionalização possível do Morro do Palácio.

(4) Realização de entrevistas em profundidade. Nessa etapa, buscar-se-á o aprofundamento dos


resultados do survey, que será enriquecido com histórias de vida de moradores e moradoras,
coletadas a partir de roteiros semi-estruturados de entrevista, realizadas com atores-locais
representativos (lideranças comunitárias, representantes do poder público e de organizações da
sociedade civil etc.), portadores da história oral da comunidade e com pessoas selecionadas segundo
os recortes espaciais e perfis de ocupação humana do Morro do Palácio (definidas na etapa 3 da
pesquisa). 

(5) Sistematização dos resultados. Período dedicado a análise final dos resultados, revisão dos
aprendizados da pesquisa, discussão destes resultados com a equipe de pesquisa e os moradores,
bem como para a escritura do relatório e do artigo de referência. 

Por fim, é preciso destacar que a presente proposta de pesquisa se articula a ferramenta
analítica da “pesquisa-ação” (THIOLLENT, 2008), assumida aqui como uma postura política, uma
vez que os fundamentos teórico-metodológicos do trabalho e seus objetivos serão colocados à
disposição dos moradores do Morro do Palácio a partir de suas próprias demandas. A metodologia
proposta busca o desenvolvimento em conjunto (Palácio-UFF) dos rumos da pesquisa e de seus
possíveis desdobramentos, aproximando a ação política da pesquisa acadêmica. Tal postura vem ao
encontro de demandas de diversos grupos sociais, recorrentes no Brasil, que enxergam na pesquisa
acadêmica meios pelos quais seria possível refletir e pensar propostas de reconhecimento social e a
política de identidades.