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Vukápanavo: Revista Terena, vol.1, n.1, p.

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TEMPOS AUTORITÁRIOS, CRIMES E DANOS À SAÚDE DE


POVOS INDÍGENAS: LEITURAS POSSÍVEIS DO RELATÓRIO
FIGUEIREDO
Jane Felipe Beltrão1
William César Lopes Domingues2

Resumo: O Relatório Figueiredo (RF) “reaparecido”, pelas mãos de Marcelo Zelic,


sempre foi pensado como uma narrativa sobre massacres e atrocidades contra os povos
indígenas. O enquadramento dos desmandos, em tempos ditatoriais, na categoria crime,
parece ter impedido um olhar mais acurado sobre o genocídio empreendido – com danos
à saúde indígena – é de nossa perspectiva indígena e não indígena, uma leitura não
realizada. A repercussão dos danos é mais ampla do que a primeira vista parece, pois as
ações dos agentes do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) são indeléveis e, ainda hoje se
fazem presentes em muitos coletivos indígenas, pois não houve reparos aos direitos
humanos de pessoas e/ou coletivos indígenas. A leitura do RF produz, ainda hoje,
indignação e choro entre os Kadiweu, Terena, Xakriabá, Palikur e Tembé que falam e
escrevem sobre o período em que SPI perdeu de vista o ideal rondoniano positivista que
levou à sua criação “morrer se preciso for, matar nunca”, e assumiu o papel de agente
facilitador de um cruento processo de espoliação e extermínio dos povos indígenas
visando a ocupação de suas terras e o esbulho do chamado patrimônio indígena. Ao
trabalhar os arquivos da ditadura no Brasil verificou-se que, dos 131 indiciados no RF
por crimes, 37 foram listados por crimes com incidência direta sobre a saúde física dos
indígenas envolvidos, entre esses crimes encontram-se: estupros; crucificações; tortura
com o esmagamento dos calcanhares no “tronco”; castigos físicos, com chicotes e
palmatórias; indução a suicídio; envenenamentos; espancamentos usando de diversas
instrumentos; assassinatos; cárcere privado e escravização.

Palavras-chave: Ditadura; Crimes; Saúde; Povos indígenas; Brasil.

Summary: Figueiredo Report (“RF”, for its portuguese acronym) "reappeared" by the
hands of Marcelo Zelic, was always thought of as a narrative about massacres and
atrocities against indigenous peoples. The framework of the mismanagement, in
dictatorial times, the crime category, seems to have prevented a closer look at the
genocide undertaken - with damage to indigenous health - is, in our indigenous and non-
indigenous perspective, an unrealized reading. The repercussions of the damages are
broader than at first glance, since the actions of the agents of the Indian Protection Service
(“SPI”, for its portuguese acronym) are indelible and still present in many indigenous
groups, since there was no reparation to the human rights of persons and/or indigenous
collectives. The RF reading produces, still today, indignation and crying among Kadiweu,
Terena, Xakriabá, Palikur and Tembé who speak and write about the period in which SPI

1 Antropóloga e Historiadora, professora titular, docente permanente nos Programas de Pós-Graduação em


Antropologia (PPGA); em Direito (PPGD), ambos da Universidade Federal do Pará (UFPA), ambos no
Pará; e docente visitante no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGas) da Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) no Mato Grosso do Sul. Bolsista de produtividade em pesquisa do
CNPq, nível 1C. E-mail: janebeltrão@gmail.com.
2 Uwira é como me chamo entre os Asurini, mas sou Indígena do Povo Xakriabá, que se fez pedagogo de

formação e, hoje, é doutorando em Antropologia junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia


(PPGA), na Universidade Federal do Pará (UFPA). Atuo nos últimos quinze anos com a formação de
Conselheiros de Saúde Indígena por ser membro do Conselho de Saúde Indígena (CONDISI). Sou docente
do Curso de Etnodesenvolvimento da Universidade Federal do Pará (UFPA), no qual ministro entre outras
disciplinas Saúde e Sociedade e oriento pessoas indígenas e quilombolas, no Campus em Altamira-
PA/Brasil. E-mail: uwiraete@gmail.com.

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lost sight of the positivist rondoniano ideal that led to its creation "die if necessary, but
never kill," and assumed the role of facilitator of a grisly process of dispossession and
extermination of indigenous peoples aimed at the occupation of their land and the
dispossession of the so called indigenous heritage. When working the dictatorship files
of Brazil, it was found that of the 131 indicted for crimes in RF, 37 were listed for crimes
with direct impact on the physical health of indigenous involved, among these crimes
include: rape; crucifixions; torture with the crushing of the heels in the "trunk"; physical
punishment, with whips and pennants; induction to suicide; poisoning; beatings using
various instruments; murders; private incarceration and enslavement.

Keywords: Dictatorship; Crimes; Health; Indigenous Peoples; Brazil.

Relevância do Relatório Figueiredo

O Relatório Figueiredo (RF), talvez seja, o documento mais importante


produzido pelo Estado brasileiro que permite pensar a relação entre o Estado brasileiro e
os Povos Indígenas, sobretudo considerando que a etnicidade é política e o genocídio se
inscreve em suas linhas, na medida em que revela a opção do Estado pelos interesses dos
poderosos. O vasto conjunto documental – integrado por aproximadamente 7.000 (sete
mil) páginas distribuídas em 30 volumes – é resultado das investigações levadas a efeito
pela Comissão de Inquérito, instaurada pelo Ministro do Interior General Afonso Augusto
de Albuquerque Lima, e dirigida pelo Procurador do Departamento Nacional de Obras
Contra a Seca (DNOCS) Jader de Figueiredo Correia, em 1967, para apurar as denúncias
de irregularidades cometidas por funcionários do Serviço de Proteção aos Índios (SPI),
instituição estatal que executou a política indigenista brasileira no período de 1910 a
1967.
Apesar da importância do documento, ele ficou anos “desaparecido”,
acreditou-se, inclusive, que ele tivesse ardido em chamas durante um incêndio criminoso
ocorrido no Ministério da Agricultura, em junho de 1967. O incêndio transformou o
documento em “uma lenda” que a todos “assombrava”. Antropólogos e historiadores
queriam obter cópia para enfrentar o silêncio sobre a História Indígena; e, os funcionários
do SPI apontados, pela pena de Jader de Figueiredo, queriam que o fogo tivesse
consumido as folhas do documento, pois assim a verdade permaneceria oculta.
O documento e os fatos narrados ficaram na lembrança de muitas pessoas,
mas foi olvidado por outras tantas pessoas envolvidas nas denúncias contidas no
Relatório, até que, uma “cópia” ou mesmo o referido documento foi “descoberto”, em
dezembro de 2012, pelo pesquisador Marcelo Zelic, vice-presidente do grupo Tortura

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Nunca Mais de São Paulo e coordenador do projeto Armazém da Memória, em pesquisas


feitas nos arquivos Museu do Índio, no Rio de Janeiro.
Elena Guimarães (2015), técnica da Instituição, conta que, entre as muitas
visitas feitas por Zelic, ao solicitar o Processo No. 4.483/68, registrado no inventário do
Museu, como papéis da época da Ditadura Civil-Militar (1964-1985), o pesquisador ao
manusear o documento, se emocionou ao se deparar com a assinatura de Jader de
Figueiredo e, desta forma, o “mistério” que cercava o documento se esvaiu, deixando as
veredas abertas a leituras diversas sobre os registros produzidos sobre a História Indígena.
E, muito se há de descobrir analisando minunciosamente o RF.

O registro dos crimes

O Relatório Figueiredo é resultado da Comissão de Inquérito (CI), instituída


em 03 de novembro de 1967, em plena ditadura militar apurou centenas de denúncias de
irregularidades cometidas contra os povos indígenas no âmbito do Serviço de Proteção
aos Índios (SPI). A documentação é composta por provas testemunhais e documentais.
Dezenas de testemunhas foram ouvidas e centenas de documentos foram incorporado ao
Relatório comprovando que

“[o] índio, razão de ser do SPI, tornou-se vítima de verdadeiros celerados, que
lhe impuseram um regime de escravidão e lhe negaram um mínimo de
condições de vida compatível com a dignidade da pessoa humana. É espantoso
que exista na estrutura administrativa do País repartição que haja descido a tão
baixos padrões de decência. E que haja funcionários públicos, cuja bestialidade
tenha atingido tais requintes de perversidade.” (RF, 1967: fl. 4912, sic.)

No relatório podem ser identificadas diversas categorias de crimes cometidos


contra os povos indígenas, entre eles aqueles que são do âmbito da saúde e que,
certamente por conta do período em que foi produzido o Relatório não foram
considerados como relacionados à saúde, que o Relatório os classifica da seguinte
maneira:

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Das 131 pessoas indiciadas pelo relatório pelos crimes arrolados acima, 37
foram listados como crimes de incidência direta sobre a saúde física dos povos indígenas
envolvidos pelos desmandos, entre esses crimes estão: estupros; crucificações; tortura
com o esmagamento dos calcanhares no chamado “tronco”; castigos físicos, com chicotes
e palmatórias; indução ao suicídio; envenenamentos; espancamentos diversos;
assassinatos; cárcere privado e escravização. É importante lembrar que embora concluído
em 1967, o relatório relata crimes que vinham acontecendo no país, desde meados da
década de 50 do século passado, quando o SPI parecer ter perdido de vista o ideal
rondoniano positivista que levou à sua criação “morrer se preciso for, matar jamais”, e
assumido o papel de agente facilitador de um cruento processo de espoliação e extermínio

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dos povos indígenas visando a ocupação de suas terras e o esbulho do chamado


patrimônio indígena.

Atenção à saúde indígena versus práticas criminosas

As ações de saúde voltada aos povos indígenas de forma organizada e objetiva


foram iniciadas com a criação do Serviço das Unidades Sanitárias Aéreas (SUSA), em
1950, pelo médico Noel Nutels, que posteriormente chegou a ser diretor do SPI. Nutels
procurou imunizar os povos indígenas recém contatados e criar barreiras de imunização
nas proximidades dos locais onde viviam esses povos, o foco da ação estava, sobretudo,
na prevenção da malária e na imunização contra a tuberculose. Nutels foi membro da
expedição Roncador-Xingu que contatou diversos povos indígenas no interior do país,
juntamente com os irmãos Villas-Boas, sendo em conjunto com eles um dos responsáveis
pela criação do Parque Indígena do Xingu.

A ditadura militar iniciada no Brasil, em 1964, com o golpe da deposição do


presidente João Goulart pelo Marechal Castelo Branco marca o início de um período de
expropriação de direitos de todo o povo brasileiro, pouco se sabia que essa expropriação,
atingiu de forma mais contundente os povos indígenas, que por conta da falta de
documentos comprobatórios, era considerada de reduzidos efeitos sociais. A ideia de que
o Relatório Figueiredo registrava os fatos ficou adormecida por 45 anos, mas ao ser
revelada traz à tona “as atrocidades cometidas contra nosso povo nesse período.” Agora,
se sabe que o grupo populacional da sociedade brasileira que contou com o maior número
de vítimas da ditadura foram os povos indígenas.

Não obstante todas os crimes cometidos pelos agentes do SPI contra diversos
sujeitos indígenas de norte a sul do país, a criação do presídio Krenak, onde eram
confinados e torturados indígenas de etnias de todo o país, é especialmente emblemático
do processo de etnocídio e genocídio, naquele período, quando se aceleraram a
contaminação de diversas maneiras e de forma deliberada e direcionada a povos inteiros,
acometidos principalmente pela varíola.

Destaca-se entre os diversos casos: o dos Pataxó Hã Hã Hãe, em Itabuna no


hoje estado da Bahia; dos Yanomami em Roraima no extremo norte do País; e dos Avá
Canoeiro, no atual estado do Tocantins; todos contaminados com varíola, o que ocasionou
um surto de proporções catastróficas que se espalhou entre diversos povos causando o
extermínio de vários grupos que ainda viviam em isolamento voluntário.

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Os Pataxó Hã Hã Hãe foram contaminados por intermédio da distribuição de


roupas e alimentos contaminados, seu extermínio visava a ocupação dos territórios
tradicionais por latifundiários baianos. Como informa o Relatório, às fls. 4917, transcrito
abaixo:

Entre os Yanomami foi utilizado o expediente de vacinação com uma cepa


vírus vivos atenuados imprópria para a vacinação. Mesmo expediente utilizado entre os
Cinta Larga em Rondônia visando a exploração de diamantes em seu território. Em
comum, os processos, tinham o interesse manifesto de exterminar os povos em questão –
intencionalidade que aponta para o genocídio – com o objetivo de se apropriar de seus
territórios. A “vacinação” entre os Yanomami aconteceu debaixo da batuta
governamental contando com a participação “filantrópica” de pesquisadores americanos
interessados em saber como se comportaria o vírus da varíola em um povo considerado
“virgem” para tal doença.

Às folhas 4918, do Relatório, traz a informação de que as enfermarias de


alguns postos do SPI funcionavam como prisão e local de torturas de indígenas. Abaixo
a observação de Jader de Figueiredo:

O atendimento de saúde chegou a ser utilizado como expediente de aplicação


de torturas e contaminação de indígenas causando baixas populacionais severas em
diversos coletivos indígenas e criando desconfiança na relação aos agentes de saúde, fato
que deixou sequelas nas pessoas indígenas. Sem medo de exagerar, até hoje, as

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lembranças desse tempo dificultam o atendimento de muitos povos, pois sobretudo há


indisposição em relação à vacinação de crianças. Possivelmente, este seja um dos motivos
da histórica baixa cobertura vacinal entre os Yanomami e, da maioria dos povos de
recente contato, que vêm nas vacinas maior possibilidade de adoeceram do que de
adquirir imunidade contra as doenças, recusando-se não só a receber as vacinas, mas
principalmente a permitir a vacinação das crianças sob sua guarda.

Outro expediente utilizado e relatado por alguns sertanistas, como Antonio


Cotrim Soares, era a contaminação de alimentos e roupas distribuídos aos indígenas, fato
atestado entre os Asurini do Xingu, contatados em 1971, ano de início da abertura da
rodovia Transamazônica e logo depois vítimas de um surto de tuberculose que quase
levou à extinção do grupo, segundo os mais velhos, o surto começou depois que passaram
a receber alimentos distribuídos pelos karai (não indígenas) o que atesta que a prática não
cessou com a extinção do SPI e a criação da FUNAI. Além do que, envenenamento de
alimentos com arsênico distribuído aos indígenas era prática costumeira. O próprio
Cotrim acabou por abandonar a FUNAI com a justificativa de que estava cansado de
trabalhar como “coveiro de índios”, denunciando publicamente o Estado brasileiro por
tentativa de etnocídio, o regime militar jamais reconheceu as atrocidades cometidas,
antes, o então presidente da FUNAI, o General Bandeira de Melo fez um desmentido
público das denúncias de Cotrim. (Valente, 2017)

O caso dos Cinta Largas, relatado às fls. 4917 do RF, é estarrecedor:

Há violência entranhada em todas as ações do Estado, em relação aos povos


indígenas, que embora não tenha origem e nem fim durante a ditadura militar, encontram
no período, as condições ideais de impunidade e incentivo para se desenvolver, sem os
escamoteamentos costumeiros, os crimes.

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A palavra violência deriva do latim violentia, que significa “veemência,


impetuosidade”, mas na sua origem está relacionada não com esse termo, mas com o
termo “violação” violare, quando se trata de direitos humanos, a violência abrange todos
os atos de violação de direitos: civis (liberdade, privacidade, proteção igualitária); sociais
(saúde, educação, segurança, habitação); econômicos (emprego e salário); culturais
(manifestação da própria cultura) e políticos (participação política, voto). Dessa forma, é
possível afirmar que Estado e violência são sinônimos no ideário indígena brasileiro, uma
vez que todos estes direitos, em relação aos povos indígenas no Brasil, foram violados
pelo próprio Estado, que em muitos casos deveria ser guardião e promotor.

Saúde “encoberta”

A categoria saúde não aparece, enquanto tal, no Relatório Figueiredo porque


o Estado não havia assumido de forma objetiva e clara a responsabilidade por ela, como
também, não o havia feito para o restante da população pobre do país. As ações de saúde
para os coletivos indígenas eram, muito mais, mérito de idealistas como o doutor Noel
Nutels, do que fruto de política de Estado. As práticas eram vistas e declaradas como
ações filantrópicas do Estado e seus aliados em favor dos desvalidos “selvícolas” e com
o recrudescimento da ditadura a filantropia serviu para “encobrir” o extermínio, pois não
se pode falar em cuidados à saúde, como veremos nas descrições presentes no Relatório
Figueiredo.

Os castigos aos quais eram submetidas as pessoas indígenas deixavam marcas


perenes no corpo, é o caso do “tronco” que “… consistia na trituração do tornozelo das
vítimas”, uma vez que “... eram colocados entre duas estacas entrelaçadas juntas em
ângulo agudo ...” imprensavam os tornozelos do/a castigado/a, pois “ ... [a]s extremidades
[das estacas], ligadas por roldanas eram aproximadas lenta e continuamente ... ”,
produzindo o esmagamento dos tornozelos e dor dilacerante. (RF, 1967: Fls. 4913)

O RF não indica com precisão quantas foram as pessoas torturadas, nem


especifica o sexo dos/as massacrados/as (não há tratamento estatístico dos dados
apresentados,3 o procurador se horroriza com as ações e parece desacreditar que “... haja

3Talvez, futuramente, com o aprofundamento das leituras do RF se consiga ter os números reais do que foi
apurado, entretanto jamais saberemos os números dos crimes, pois a Comissão não foi a todas as inspetorias,
e mesmo tendo revelado muito, por certo muito foi encoberto.

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funcionários públicos, cuja bestialidade tenha atingido tais requintes de perversidade.”


(RF, 1967: Fls. 4912)

Às fls. 4914, o relator desculpa-se:

Ao denunciar os estupros Jader de Figueiredo diz: “ ... [v]enderam-se crianças


para servir aos instintos de indivíduos desumanos. Torturas contra adultos e crianças, em
monstruosos e lentos suplícios, a título de ministrar justiça.” (RF, 1967: Fls. 4912)

É importante, considerar que mesmo que a vontade dos parlamentares fosse


“fazer o melhor trabalho, o fato de serem todos homens, produz uma dificuldade a mais,
quando as oitivas dizem respeito às mulheres em situação de violência, pois as vítimas
deixaram de ser escutadas, aliás se elas denunciassem os algozes, depois da saída da
Comissão, poderiam passar por situações semelhantes e dessa vez, contando com a ira
dos criminosos. Afinal a Comissão partia e elas permaneciam no Porto Indígena.

Informa o relator, às fls. 4914 que:

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Ensaia-se, aqui, os efeitos sociais das ações descritas. Tomando como ponto
de partida o fato de que a Comissão, em que pese as distâncias e as imensas dificuldades
de acesso, e a impossibilidade de “... surpreender a totalidade dos crimes praticados contra
a coisa pública e as pessoas ...”, apesar de manter em sigilo suas ações, chegou a jurisdição
de três inspetorias do SPI, duas no Mato Grosso (à época um só estado da federação) e ao
Amazonas.

Se, em cada jurisdição, os crimes tivessem sido cometidos em, apenas um dos
postos indígenas, as situações atingiriam, no mínimo, três coletivos indígenas. Assim
raciocinando, se em cada posto, quatro pessoas fossem colocadas no “tronco” e, ainda,
supondo que só adultos passassem pelo suplício, pelo menos quatro grupos familiares
indígenas teriam sido atingidos em sua organização social. A ocorrência do suplício, se
não matar a pessoa, deixa-a com deficiência, sem poder colocar-se em pé, de modo que
afeta o desempenho dos adultos, que antes supõem-se responsáveis por prover os parentes
de alimentação e proteção, pois não mais poderiam caçar, plantar, caminhar? Como
poderiam manter relações de reciprocidades com os parentes próximos e distantes. A
interrupção das trocas estabelecidas pela reciprocidade, interrompe a corrente de
solidariedade, entre os grupos, domésticos, residenciais, clãnicos e metades de acordo
com a organização social dos povos submetidos às torturas. A interrupção dos laços
podem ter favorecido a existência de situações relatadas no documento, às fls. 4917, as
quais afirmam:

Segundo anotação do relator, às fls. 4917, o que mais impressiona é:

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Os estupros cometidos contra mulheres e crianças, poderiam infectar ou


produzir ferimentos mortais, de acordo com a prática e os instrumentos utilizados para
molestar e penetrar às vítimas. Quando os crimes eram produzidos na frente de
companheiros/as, pais/mães, filhos/as provocava infâmia e humilhação que se estende aos
parentes, além da gravidez não consentida, afora todas as sequelas físicas e mentais. Entre
os muitos efeitos dos crimes de estupro estão: o isolamento social das vítimas, a vergonha
comunitária pelas vítimas feitas, os abortos frutos dos abusos sexuais e, até quem sabe,
os filicídios que na verdade não se tem registro da ocorrência, ou jamais puderam ser
revelados, como diz Joffily ao referir os crimes políticos das ditaduras na America Latina.
(2016: p. 268)

Mas não se pretende contabilizar os crimes, trata-se de uma análise qualitativa


com repercussão sobre a saúde de pessoas indígenas que integram um mesmo coletivo.
Ao atingir um membro da comunidade indígena os efeitos sociais são sempre graves, pois
tratam-se de comunidade com reduzido número de membros quando comparadas a vilas
e cidades.

Considerando que os problemas relativos à violência e a violação de direitos


dos povos indígenas não cessaram, o que vivemos, atualmente, no Brasil deixa claro que
o problema não estava no militarismo em si, e nem na ditadura, mas nos interesses da
extrema direita oligárquica sobre os territórios indígenas, a política brasileira dos dias de
hoje é o testemunho de que sempre que houve condições de insegurança democrática. As
oligarquias se atirarão sobre os povos indígenas com fome de terra e riquezas, como
fizeram seus antepassados portugueses há mais de quinhentos anos. Se existem leis? As
revogam! Se existem normas internacionais, as descumprem, sem que sejam punidos,
afinal de contas o fim do esbulho das terras e riquezas indígenas oriundas delas terminarão
no Norte rico onde mantém suas contas bancárias dos velhos e novos oligarcas.

O modelo de atenção à saúde indígena que temos hoje no Brasil, gostemos ou


não, é herdeiro de todas essas atrocidades, e é obrigado a lidar com as consequências
desse processo que é histórico, que gerou uma desconfiança difícil de ser vencida nas
bases, nas aldeias onde os parentes, ainda hoje, se sentem, inúmeras vezes, vítimas de um
modelo de assistência à saúde que não dialogou no passado e não dialoga, hoje, com as
formas tradicionais de se cuidar da saúde.

A imposição do sistema de saúde ocidental, adotado no Brasil, foi utilizado


para aumentar as práticas de genocídio, sob pretexto de cuidar da saúde indígena. O
Subsistema de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas do Sistema Único de Saúde

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(SASISUS), embora a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas não
faça distinção entre índios, não é para todos, é apenas para aqueles a quem o Estado
reconhece, como indígenas. O Estado que espoliou suas terras e levou muitos povos
indígenas a serem considerados extintos; aqueles que tiveram suas terras demarcadas pelo
Estado que roubou; a totalidade das terras dos que ainda não as têm demarcadas – os
índios supostamente sem-território ou mesmo sem-terra; também, são os índios sem
(SASISUS) e sem atendimento diferenciado dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).

O princípio da equidade é uma das “mentiras bonitas” do SUS, o atendimento


indiferenciado aos indígenas categorizados como não aldeados é a prova disso. A divisão
entre índios com e sem território/terra é colocada para balizar quem tem direito e quem
não tem a atendimento diferenciado dentro de um sistema que por ser único deveria
atender aos diferentes como diferentes, mantendo assim a igualdade da atenção integral
de acordo com as especificidades de cada um. É importante asseverar que estas situações
que produzem desrespeito e discriminação estão relacionadas ao passado que se está
analisando via Relatório.

Para os que são considerados como “aldeados”, ou sejam os alvos do


atendimento, nem tudo são flores, pois, também têm que lidar com um modelo estruturado
em princípios, que não atinam com a ciência do concreto dos povos indígenas e nem com
as epistemologias diferenciadas dos povos, além de desconhecerem os perfis
epidemiológicos característicos de cada, a interculturalidade é letra morta, os não
indígenas desconsideram o que os povos indígenas distinguem como doenças, taxando as
mesmas em categorias sem valor, ao falarem de crendices e superstições. A prova disso
é a completa ausência em todos os perfis epidemiológicos levantados pelo SASISUS de
qualquer referência às doenças que não são biologicamente reconhecidas por eles,
ninguém adoece e nem morre por ação e inação dos espíritos, ninguém adoece pela quebra
da couvade4 e muito menos são registrados os tratamentos para tais enfermidades.

Um alerta para concluir...

As reflexões feitas ganham uma dimensão relevante por conta do


aparecimento do Relatório Figueiredo e da instituição da Comissão Nacional da Verdade

4Conjunto de interdições e práticas a que os maridos de parturientes devem se submeter sob o risco de
adoecimento e morte deles mesmos, de suas esposas e/ou de seus filhos.

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(CNV) pela Lei No. 12.528 de 2011, que encerrou seus trabalhos em 2014, e publicou o
relatório final, dividido em sessões. A sessão referente à violação de direitos dos Povos
Indígenas foi escrita pela psicanalista Maria Rita Kehl, juntamente com uma equipe de
assessores. O relatório final da CNV evidenciou as denúncias de maus tratos espoliação
de patrimônio e violência generalizada que ensejaram a instalação de quatro CPI’s.
chegando algumas denúncias a serem enviadas ao Tribunal Russel, em 1980, que resultou
na condenação do Brasil pelos casos: Waimiri Atroari, no Amazonas, onde o Exército
executou mais de uma centena de indígenas; Yanomami, Nambikwara e Kaingang.

O relatório final da CNV elenca uma série de violações dos direitos dos povos
indígenas, entre eles: a criação da Guarda Rural Indígena em 1969, que tinha como
objetivo funcionar como órgão repressor do Estado dentro das próprias terras indígenas;
a emissão de “certidões negativas de existência de indígenas” em áreas de interesse de
mineradoras e grandes projetos; e expulsão de indígenas de seus territórios.

Considera-se que a CNV consegue, de forma cabal, demonstrar que o


processo de etnocídio evidenciado com o aparecimento do Relatório Figueiredo não
findou com a extinção do SPI, afinal os principais agentes do Estado denunciados naquele
documento, jamais foram processados e condenados de fato. Muitos dos algozes dos
povos indígenas denunciados pelo Relatório Figueiredo chegaram a assumir posições de
vanguarda na Fundação Nacional do índio (FUNAI) criada em 1967, levando ao novo
órgão os vícios do SPI, a própria organização estrutural da FUNAI seguiu o modelo do
SPI e o Estatuto do Índio aprovado em 1973 consagrou a famigerada renda indígena como
um dos meios de sobrevivência do órgão, criando ocasião para que a produção indígena
seguisse sendo destinada ao enriquecimento de chefes de postos e se prestasse a
negociatas que visavam o extermínio dos povos indígenas e a ocupação de suas terras,
obviamente que, não por coincidência, a renda indígena aparece mais uma vez no decreto
de reformulação da FUNAI editado em 2010 que extingue os cargos de chefes de postos
indígenas, mas não a usurpação da produção indígena por parte de Estado que negando a
tutela a reafirma ao tentar se apropriar da renda indígena.

Não coincidentemente, após a promulgação da Constituição Federal de 1988


e a possibilidade de emancipação social dos povos indígenas, enquanto povos
etnicamente diferenciados da população nacional, a FUNAI começa a enfrentar sérios
problemas, uma vez que não é mais possível manipular a renda indígena e, a Constituição
determinou que todas as terras indígenas fossem demarcadas, esse processo se arrasta
pelos governos liberais pós Constituição de 1988 até os momentos de negociação política

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que antecederam o golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Roussef, quando o


parlamento tentando se manter no governo “entregou” às oligarquias ruralistas da direita
o comando do país. Vivemos atualmente no Brasil o que considero como uma espécie de
ditadura do parlamento, deputados e senadores negociam cargos do terceiro e quarto
escalões de governo para seus apadrinhados, negociando suas nomeações para cargos que
deveriam obedecer a critérios técnicos na gestão da saúde e da educação indígena, a
FUNAI esvaziada sofre danos incalculáveis com uma CPI que teve como objetivo
reverter as demarcações de terras indígenas por conta de interesses dos ruralistas agora
declaradamente organizados em uma bancada no Congresso Nacional. Uma vez mais, um
general volta a assumir o comando da FUNAI com o claro objetivo de manter os povos
indígenas “pacificados”, enquanto o Ministério da Justiça, considerado pelos povos
indígenas, máquina produzir injustiças fica inerte.

Em comum, além de desnudar os crimes contra os povos indígenas, os


relatórios Figueiredo e da CNV guardam entre si a impossibilidade de promover a
condenação dos culpados pelos crimes cometidos, sequer podem leva-los a julgamento.
A certeza atual é de que a impunidade permanecerá e de que as coisas sempre poderão
piorar para os povos indígenas, enquanto vivermos nesse regime assimétrico de relações
coloniais, no qual não somos reconhecidos como povos, mas como sujeitos de um passado
longínquo que o tempo, em um lapso de memória esqueceu de apagar. (Uwira Xakriabá)
A presença indígena, hoje no Brasil, incomoda àqueles que ainda compram e vendem
almas no mercado de capitais, que engordam suas contas bancárias comendo a “terra
mãe”, arrancando dela suas riquezas e deixando seus filhos expoliados, abandonados à
própria morte. O Brasil enquanto país plural que reconhece e respeita aqueles que o
construíram, ainda está por ser fundado, não sob o alicerce da mentira da união estável
entre três raças, mas sob a égide do reconhecimento dos erros cometidos no passado e
pelo compromisso em não cometer esses mesmos erros no presente e no futuro.

Em relação à saúde indígena é necessário que os crimes trazidos à tona pelo


Relatório Figueiredo e pela CNV promovam uma necessária reflexão sobre a necessidade
de que os executores da PNASPI passem a atinar para as epistemologias indígenas e com
os mecanismos próprios de cada um dos povos indígenas em perceber e cuidar de sua
própria saúde uma vez que a imposição do modelo ocidental de saúde centrado nas
doenças e não na saúde em si – devido justamente à imposição – é visto com desconfiança
pelos povos indígenas e, não conta com a adesão necessária para que funcione sem
conflito com os modelos autóctones que nega.

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Atualmente grupos que trabalham com a recém inaugurada assistência


psicológica aos povos indígenas dentro do programa de saúde mental da Secretaria
Especial de Saúde Indígena (SESAI) têm se esforçado por abordar as consequências dos
crimes cometidos no período da ditadura militar contra os povos indígenas. O cuidado
prevê a possibilidade de abordar, com relativo sucesso, as complexas situações
relacionadas ao uso abusivo de etílicos e outras drogas, além dos suicídios. Não é por
acaso que o estado de Mato Grosso do Sul é o líder das estatísticas de suicídios entre os
povos indígenas, lá foram cometidos o maior número de crimes no período da ditadura e,
é ainda hoje, a região com o maior conflito pelos territórios indígenas almejados pela
bancada ruralista assentada no Congresso Nacional.

É bem possível que grande parte dos suicídios ocorridos entre os povos
indígenas no Mato Grosso do Sul, sobretudo entre os Kaiowa estejam relacionados ao
violento processo de expropriação de suas terras, que vêm sendo acometidos de forma
mais sistemática. desde meados da década de 50 do século passado, o qual obviamente
teve início processo de colonização e de ocupação do território brasileiro pelos europeus
em 1500.

O reconhecimento dessa violência inaugural do Brasil enquanto país em


relação aos povos indígenas e sua sistematização como modus operandi da máquina
estatal ao longo dos anos do processo colonizador ou supostamente civilizatório, ainda
em curso, precisa ser feito e mais do que isso, urge ser acompanhado de ações que
garantam aos povos indígenas a possibilidade referendada pela Constituição Federal de
1988 de continuarem existindo, enquanto povos indígenas, com direitos sobre os
territórios que ocupamos e com autonomia cultural para viver as suas vidas de acordo
com autodeterminação.

Termina-se o texto com o alerta necessário de que o Estado Brasileiro precisa


refrear a ganância ruralista em seu apetite voraz por terras indígenas, caso contrário num
futuro próximo outros relatórios terão que ser feitos para dar conta de massacres, crimes
que se cometem diuturnamente contra os povos indígenas sem que os responsáveis,
quando identificados, sejam punidos e sem que haja reparação. Os acusados do futuro
serão os parlamentares de hoje que criam CPI’s para incriminar lideranças indígenas e
organizações que nos apoiam, que põem em cheque a seriedade da Antropologia
brasileira, rasgando a Constituição Federal de 1988 se colocam acima da lei indiciando e
condenando o próprio Ministério Público Federal (MPF) em virtude de exercitar a função
para a qual foi criado.

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Vukápanavo: Revista Terena, vol.1, n.1, p.31-46

Seriam estas atrocidades menores do que as cometidas no período pela


ditadura? Certamente, não, pois veem em continuuns de violências, mesmo que estajamos
em supostos tempos de paz. (Moura, Roque, Araújo, Rafael & Santos, 2009)

Entretanto, só o tempo e os caminhos tomados pelo Estado e pelo povo


brasileiro, hoje, nos dirão futuramente.

Referências

Documentais

BRASIL. Comissão Nacional da Verdade (CNV). 2014. “ Texto 5 - Violações de direitos


humanos dos povos indígenas” In: Relatório da Comissão Nacional da Verdade. V. II.
Brasília, p. 203-262. Disponível em:
http://www.cnv.gov.br/images/pdf/relatorio/volume_2_digital.pdf. Acesso em 01 de
julho de 2017.

BRASIL. Relatório Figueiredo: documento na íntegra. 2013. “Síntese”. Disponível em:


http://racismoambiental.net.br/2013/06/02/relatorio-figueiredo-documento-naintegra-7-
mil-paginas-pdf-pode-agora-ser-baixado/. Acesso em 01 de julho de 2017.

Bibliográficas

JOFFILY, Mariana. 2016. “Violências sexuais nas ditaduras militares latino-americanas:


quem quer saber?” In: SUR - Revista internacional de Direitos Humanos. Vol. 13, n. 24,
São Paulo, jun., p. 165-176. Disponível em: http://sur.conectas.org/wp-
content/uploads/2017/02/15-sur-24-por-mariana-joffily.pdf. Acesso em 13.ago.2017.

MOURA, Tatiana; ROQUE, Sílvia; ARAÚJO, Sara; RAFAEL, Mónica; & SANTOS,
Rita. 2009. Invisibilidades da guerra e da paz: Violências contra as mulheres na Guiné-
Bissau, em Moçambique e em Angola Revista Crítica de Ciências Sociais. 86,
Setembro, p. 95-122. Disponível em: https://rccs.revues.org/240.

Valente, Rubens. 2017. Os fuzis e as flechas. A história de sangue e resistência indígenas


na ditadura. São Paulo: Companhia de Letras, 2017.

Recebido em 21/11/2017
Aprovado em 27/10/2018

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