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14/03/2016 Maré vermelha ­ Revista de História

Maré vermelha
Em ondas ao longo do século, o socialismo chegou a ser o regime de um terço
da população e da produção mundiais
Paulo Fagundes Visentini
1/11/2015  
O socialismo de inspiração marxista marcou
profundamente o século XX: em sucessivas
ondas, impulsionou um conjunto de
revoluções vitoriosas. Seu ápice foi o ano de
1983, quando 32 países se autodeclaravam
socialistas de tipo marxista. Da União
Soviética a Moçambique, do Vietnã a Cuba,
um terço da humanidade, da superfície e da
produção mundiais vivia em sociedades pós‐
capitalistas. 
 
A onda inicial do socialismo teve lugar na
esteira da Primeira Guerra Mundial, com o
triunfo da Revolução Russa de 1917 e a
Um prisioneiro português conversando com
criação da União das Repúblicas Socialistas
guerrilheiros da Frente de Libertação de
Soviéticas (URSS). O comunismo soviético
Moçambique (Frelimo), em 1972, durante a guerra
erigiu uma moderna sociedade industrial que
de independência do país. (Foto: UN PHOTO)
enfrentou as maiores potências do planeta
por 74 anos e serviu de apoio a dezenas de
revoluções em quatro continentes. Era um complexo Estado socialista multinacional, que ocupava
um sexto das terras emersas, onde se falavam 120 idiomas. A Revolução na Mongólia, no início
dos anos 1920, devido ao espraiamento da guerra civil, fez parte desse período. 
 
Decorrente dos movimentos antifascistas e dos resultados da Segunda Guerra Mundial, a segunda
onda socialista afetou o Leste europeu com as “Revoluções pelo alto”, apoiadas por Moscou:
Polônia, Alemanha Oriental, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia e Bulgária constituíram as
“Democracias Populares”. A elas devem ser acrescentadas as revoluções autônomas da Iugoslávia
e da Albânia, cujos guerrilheiros antinazistas foram responsáveis pelos levantes, e nunca
obedeceram a Moscou. 
 
A terceira onda desenvolveu‐se paralelamente à anterior e teve como epicentro a Revolução
Chinesa, iniciada já na década de 1920 e caracterizada pela questão camponesa. Após um quarto
de século de guerras e guerrilhas, a nação mais populosa do planeta tornou‐se um regime
socialista em 1949. Carregou como marca um caráter anticolonial e a adoção de visões políticas
asiáticas, como a supremacia das visões coletivas sobre as individuais. A Revolução Coreana, que
implantou o socialismo no norte da península, faz parte dessa fase. O país foi o primeiro a não
ser derrotado numa guerra contra os Estados Unidos. 
 
A vitória das revoluções soviética e chinesa,
estruturantes para a nova realidade global,
se deu na “periferia do centro”, ou seja,
fora do espaço geopolítico afetado pela
gigantesca transformação das potências
capitalistas industriais que dominavam o

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centro do sistema e entraram em conflito


aberto umas com as outras, lutando por
liderança mundial. 
 
Na quarta e última onda, o movimento de
descolonização e o nacionalismo no Terceiro
Mundo protagonizaram o triunfo de diversos
governos de orientação socialista. Na
América Latina, a Revolução Cubana (1959)
foi seguida pelas da Guiana, da Nicarágua e
de Granada. Na Ásia, a experiência
vietnamita, iniciada em 1945, saiu na frente
para se espalhar por Laos, Camboja,
Monumento erguido na capital da Mongólia, Ulan Afeganistão e Iêmen do Sul. Na África, as
Bator, enaltecendo o papel da URSS na Segunda grandes revoluções da Etiópia, de Angola e
Guerra Mundial. (Imagem: WIKICOMMONS / FOTO de Moçambique (1974‐75) foram sucedidas,
MARIO CARVAJAL) nos anos 1970, por regimes que
reivindicavam o marxismo: Benin, República
Popular do Congo, Cabo Verde, Guiné Bissau,
São Tomé e Príncipe, Burkina Faso, Madagascar e Seichelles. 
 
Todos esses casos ocorreram na segunda metade do século XX e “no centro da periferia”, isto é,
na região meridional do planeta, ainda não industrializada, onde o capitalismo expandia seu
desenvolvimento desigual. Outra marca em comum dessas experiências foi a forma de
movimentos de libertação nacional, de caráter socializante. Apesar dos limitados recursos, duas
delas acabaram se tornando paradigmáticas e tendo efeitos sistêmicos por todo o mundo: a
cubana e a vietnamita. Evidentemente, ambas estavam ligadas e dependiam das duas grandes
revoluções fundacionais (URSS e China), mas cada uma delas desenvolveu sua dinâmica própria. 
 
O marxismo e, depois, a prática do marxismo‐leninismo ofereciam uma série de soluções para os
grandes desafios dos países que se lançaram no caminho da ruptura revolucionária e na tentativa
de construção de uma sociedade pós‐capitalista. A Etiópia, por exemplo, era um antigo império,
com estruturas “feudais”, dominada pela Igreja Ortodoxa e que controlava um território
bastante amplo e com grande diversidade étnica. O primeiro atrativo que o marxismo oferecia
era, obviamente, o de uma doutrina revolucionária de conquista e manutenção do poder.
 
Diferentemente da maioria dos Estados coloniais ou semicoloniais – que faziam a revolução com
base em ideologias nacionalistas e anticolonialistas, buscando a libertação em primeiro lugar – os
revolucionários que abraçaram as ideias de Marx (com maior ou menor sinceridade) as
consideravam uma alternativa radical e progressiva ao status quo vigente. Isto se dava não
apenas na organização de movimentos políticos e/ou armados para a mobilização de apoio
popular e conquista do poder – ocorria mesmo após o novo poder estar estabelecido, num quadro
confuso de relação de forças.  
 
O marxismo também oferecia a esses países uma doutrina de desenvolvimento. Ela pregava a
destruição do poder oligárquico que controlava o país – visto como uma obstrução ao bem‐estar
do povo – e previa sua substituição por um Estado mais eficiente, combinado a um campesinato
livre. Essa estratégia buscava paradigmas alternativos ao liberalismo de perfil neocolonial e à
experiência puramente moralista e voluntarista, alicerçada em uma estrutura de planejamento
central, distribuição socialista e, quando possível, industrialização.
 
Mas como lidar com as divisões internas decorrentes do baixo nível de desenvolvimento, do
legado histórico e das manipulações dos colonizadores ou agentes externos? Era necessário forjar
uma nação em novas bases, e a URSS certamente consistia em um modelo atrativo ao combinar
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um governo central efetivo, o respeito às identidades culturais de diversas nacionalidades e um


considerável nível de autonomia das repúblicas. Numa relação dialética com este fator, era
preciso também criar um Estado de novo tipo. Os novos governos egressos do colonialismo ou do
neocolonialismo tinham aparatos administrativos limitados internamente e viciados pela
dominação externa, direta ou indireta. Era preciso organizar um aparato capaz de dar conta
daquela gigantesca transformação e dos conflitos que se avizinhavam. O marxismo‐leninismo
funcionava como uma ideologia de controle estatal. 
 
No contexto da Guerra Fria, a URSS, a China e a comunidade socialista em geral representavam,
para os governos revolucionários, uma rede de apoio internacional. Além da legitimação, do
apoio político e econômico, eram as únicas fontes consistentes de suprimentos militares. A
necessidade de suporte externo foi condição necessária para a sobrevivência de muitos dos
regimes marxistas, embora a ajuda soviética tenha ficado geralmente restrita ao campo militar,
deixando muito a desejar na esfera econômica. 
 
Mesmo com certas deficiências, e ao contrário do que sugerem algumas teses, o socialismo
continua vivo. Países como Cuba, Vietnã, Coreia do Norte e China – a economia que mais cresce
no mundo – mantêm de pé seus regimes. As ondas do comunismo não teriam durado tanto
tempo, contra um capitalismo mais forte do que elas, se não tivessem gozado de considerável
apoio popular. 
 
Paulo Fagundes Visentini é professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio
Grande do Sul e coautor de Revoluções e Regimes Marxistas (Ed. Leitura XXI/ NERINT‐UFRGS,
2013).
 
Saiba Mais
 
DEUTSCHER, Isaac. Marxismo, guerras e revoluções. São Paulo: Ática, 1994.
HOBSBAWM, Eric (org.). História do Marxismo (12 vols.). Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1989
[1983]. 

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