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PESQUISA EM PSICANÁLISE:

ALGUMAS REFLEXÕES

Renato Mezan*

RESUMO

A pesquisa em psicanálise é um assunto cercado por muita confusão. Este


artigo faz um resumo histórico do problema, apresenta as fortes críticas de Adolf
Grünbaum ao método clínico, e sugere que a elas devemos responder usando a noção
de pensamento clínico, devida a André Green, bem como descrevendo mais exatamen-
te o que fazemos e como pensamos na situação analítica. Pesquisas empíricas,
extraclínicas, não parecem ser a melhor solução para enfrentar as críticas provenientes
dos filósofos da ciência.

Palavras-chave: Pesquisa. Método científico. Método clínico. Filosofia da ciência.


Adolf Grünbaum.

Boa tarde a todos. Quero iniciar agrade-


cendo à Magda Khouri e aos demais organizadores
desta mesa-redonda a oportunidade de refletir
novamente sobre um tema que me toca de perto.
O que vou submeter à consideração de vocês são
*
Renato Mezan é psicanalista, membro idéias que resultam de uma já longa experiência
do Departamento de Psicanálise do Ins- como orientador de teses na PUC de São Paulo,
tituto Sedes Sapientiae e professor titu- e também de um questionamento da maneira
lar da PUC/SP. Publicou vários traba-
lhos na área da filosofia da psicanálise,
como a noção de “pesquisa” tem sido utilizada no
recolhidos em coletâneas como A som- nosso meio1.
bra de Don Juan (Casa do Psicólogo),
Tempo de muda e Interfaces da psicaná- 1. Pequeno histórico do problema
lise (Companhia das Letras).
1
Este texto, redigido em junho de 2006,
é uma versão inteiramente remanejada da O contexto em que se vem falando de
comunicação feita à Sociedade Brasileira pesquisa em psicanálise me parece diferir em
de Psicanálise de São Paulo, na mesa- alguns aspectos importantes do que era o caso no
redonda sobre Pesquisa em Psicanálise passado. Sabemos que Freud considerava o tra-
realizada em agosto de 2005. Em parti-
cular, uma releitura dos livros de Adolf
balho com seus pacientes simultaneamente como
Grünbaum me fez mudar bastante a opi- tarefa terapêutica e como investigação científica:
nião que então expressei sobre eles. “Houve em psicanálise, desde o começo, uma

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conjunção entre curar e investigar”, diz em análise” e “Análise terminável e inter-


ele em A questão da análise por não- minável”, ambos de 1937), vemo-lo ocu-
médicos; igualmente, no verbete “Psica- pado com os problemas que surgem na
nálise” que escreveu para a Enciclopédia passagem do trabalho clínico para o plano
Britânica, afirma que “em Psicanálise da teoria. Na abertura de “Pulsões e
pesquisa (Forschen) e esforço terapêu- destinos de pulsão”, explica como conce-
tico (Heilen) se recobrem”(Freud, 1926/ be o procedimento científico; em “O mé-
1975, p. 347)2. Entendia ele que a clínica todo psicanalítico de Freud” (1904), na
propiciava descobertas que não se res- conferência “A terapia analítica” (1917),
tringiam àquele determinado paciente, mas e em seus escritos técnicos, para só citar
podiam ser integradas a uma teoria geral uns poucos textos, vai fundo no exame
da psique, de seu funcionamento e de dos processos psíquicos em ação numa
seus transtornos. análise, buscando diferenciá-los dos que
No entanto, desde que Freud for- dependem da sugestão. Isso porque, se
mulou suas hipóteses elas foram contes- fossem idênticos, dois problemas insolú-
tadas — e não apenas por causa dos veis se apresentariam: do ponto de vista
preconceitos vitorianos quanto ao papel terapêutico, os efeitos da análise cessari-
da sexualidade na vida psíquica. Obje- am ao cessar a influência do médico, e do
ções metodológicas e epistemológicas ponto de vista epistemológico os resulta-
foram levantadas contra a forma pela dos teóricos obtidos a partir da clínica
qual eram obtidos os dados que funda- teriam valor igual a zero. Sem usar este
mentavam as suas inferências — associ- termo, Freud em suma instaura, examina
ação livre por parte do paciente, interpre- e defende o que se convencionou chamar
tação por parte do analista — e contra o de “método clínico”.
caráter “especulativo” das teorias que com Ora, é precisamente o questiona-
base nestes dados ele foi construindo. mento deste método que se encontra na
Freud dedicou-se inúmeras vezes raiz da discussão atual sobre pesquisa em
a responder a estas objeções, como bem nossa disciplina. As contestações da psi-
sabem os leitores da sua obra. Começan- canálise têm a mesma idade que ela, mas
do com “Sobre a crítica da neurose de nos últimos vinte ou vinte e cinco anos
angústia” (1896), em que debate com o tomaram proporções bem mais sérias, em
psiquiatra Leopold Loewenfeld acerca especial as provenientes da filosofia da
da síndrome que havia destacado da ciência. Num pequeno mas interessantís-
neurastenia e batizado com aquele nome, simo livro, o analista americano Edelson
até escritos bem tardios (“Construções Marshall (1984) menciona três momen-

2
Tradução livre do autor. Publicado também em: S. Freud, The standard edition of the complete
psychological works of Sigmund Freud (Vol. 20, p. 256). London: Hogarth Press, 1959.

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Pesquisa em psicanálise: algumas reflexões

tos-chave no debate que opõe à psicanáli- Edelson é igualmente uma tentativa de


se os profissionais da razão: responder aos argumentos de Grünbaum,
1) a crítica dos positivistas lógicos, e as impressionantes bibliografias que
formulada entre outros por Ernest Nagel tanto ele quanto o filósofo incluem em
(1960) num simpósio organizado em 1959, seus livros mostram como o assunto vem
e da qual falarei logo mais; despertando paixões e controvérsias.
2) a crítica de Karl Popper, apre- A crítica de Grünbaum à psicaná-
sentada em diversos artigos e livros, dos lise não é somente mais cáustica e con-
quais os mais significativos são The logic tundente que as emanadas do positivismo
of scientific discovery (1959) e lógico e de Popper. É também mais grave,
Conjectures and refutations (1963). porque não visa como aquelas a enquadrá-
Neles Popper sustenta que os enunciados la numa definição abstrata de ciência (da
da psicanálise não são científicos porque qual, em ambos os casos, ela estaria muito
não podem ser falsificados, já que ne- distante), mas a aniquilar a crença na
nhum comportamento humano daria mar- validade do método clínico para pro-
gem a refutá-los; duzir conhecimento. Infelizmente para
3) a crítica de Adolf Grünbaum, nós analistas, Grünbaum não é um adver-
professor na Universidade de Pittsburgh, sário desprezível: seu conhecimento de
que desde os anos 80 tem sido o mais Freud e da literatura analítica é vasto e
consistente e virulento adversário do es- preciso, ele monta seu raciocínio com
tatuto científico da Psicanálise. Seus li- argúcia, escreve com clareza e uma pon-
vros, entre os quais The foundations of ta de ironia. Em resumo, não é fácil
psychoanalysis (1984) e Validation in refutar sua argumentação.
the clinical theory of psychoanalysis Para vermos como sua crítica é
(1996), tiveram e têm enorme influência muito mais radical do que as anteriores,
entre os filósofos, mas também entre os convém resumir brevemente estas últi-
psicanalistas. A conferência do então mas. Segundo Nagel, a psicanálise não é
presidente da IPA, Robert Wallerstein, uma ciência porque seus conceitos não
proferida em 1986 e intitulada “Psycho- são “operatórios”, o que significa que são
analysis as a science: a response to new mal definidos e confusos. Com base ne-
challenges”3, foi explicitamente concebi- les, são formuladas teses que, por sua vez,
da para responder a Grünbaum. Foi esta sofrem do defeito de ser inverificáveis
conferência que, a meu ver, deu impulso por quaisquer procedimentos que respei-
à atual preocupação com a pesquisa por tem as normas do bom método científico,
parte dos nossos colegas. A obra de identificado com o método experimental.

3
Na introdução ao livro de 1996, Grünbaum cita com evidente satisfação esta e outras reações de
psicanalistas eminentes ao seu trabalho.

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Já para Karl Popper, o que torna se fez neste sentido. Foi preciso que
científico um enunciado é a possibilidade Grünbaum desencadeasse seu devasta-
de ser falseado, o que significa que a dor ataque ao método clínico para que os
hipótese não apenas deve estabelecer psicanalistas começassem a se preocu-
uma relação (de causa e efeito, concomi- par com os problemas reais da pesquisa
tância, dependência etc.) entre A e B, em nossa área.
mas ainda permitir imaginar meios atra-
vés dos quais ela mesma poderia ser 2. Múltiplos sentidos do termo
desmentida. Caso se realize o experimen- “pesquisa”
to assim concebido e a relação não seja
invalidada, a hipótese que a afirma pode Mas aqui começam outros proble-
ser tida por verdadeira, porém sempre mas. De modo geral, surgiram dois tipos
provisoriamente. Hipóteses que resistem de reação às objeções do filósofo. A
a seguidas tentativas para falseá-las são primeira consistiu em reafirmar a valida-
consideradas mais consistentes do que as de do método clínico, mas sem responder
suas rivais. No caso da psicanálise, po- aos argumentos dele, pressupondo
rém, isso é impossível, porque uma afir- veladamente que, como não é psicanalis-
mação como “todo comportamento hu- ta, não sabe do que está falando (o velho
mano é co-determinado por motivações argumento da resistência à psicanálise,
inconscientes” é tão geral que simples- devidamente aggiornato mas igualmen-
mente não tem como ser contradita: o te ineficaz). A outra foi procurar meios
idealizador e o executor do experimentum extraclínicos, experimentais ou não, para
crucis poderiam estar motivados por de- confirmar a veracidade das afirmações
terminações inconscientes, como a clás- da psicanálise: tratamento estatístico do
sica tese da resistência à psicanálise não discurso em sessão (como fazem na Ale-
se cansa de lembrar. manha Thomä e seus colaboradores),
Os ataques do positivismo lógico e tentativas para comparar a eficácia dos
da filosofia popperiana — que desprezam resultados da psicanálise com os de tera-
nossa disciplina por não ser experimental pias rivais, redefinição do que significa
— causaram pouca impressão nos psi- pesquisa, e outros.
canalistas, seguros de que o método clíni- A meu ver, nada disso é muito útil,
co garantiria a validade das suas teorias. e freqüentemente vem embalado num
Embora já em 1960 David Rapaport (1960/ misto de autodepreciação e de idealiza-
1982) tivesse observado que seria preciso ção do “método científico” que faz pensar
fundamentá-las melhor, estabelecendo no que Nelson Rodrigues, falando do
princípios e refletindo a fundo sobre o que caráter nacional brasileiro, chamou “com-
chamou de single subject research (pes- plexo de vira-latas”. Impressiona-me o
quisa do caso único), o fato é que pouco tom defensivo que muitas vezes adota-

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Pesquisa em psicanálise: algumas reflexões

mos ao falar com estes críticos, quer ente das suas palavras, fantasias, desejos
protestando que só quem conhece por e atitudes. De fato, procedemos assim,
experiência pessoal a psicanálise é que mas é preciso reconhecer que não é a isso
pode dizer coisas sensatas sobre ela, quer que se refere a expressão pesquisa cien-
proclamando as excelências do método tífica. Na melhor das hipóteses, estamos
clínico, mas sem dizer exatamente no que fazendo o que Thomas Kuhn denomina
consistem, quer ainda ampliando de tal “ciência normal”, ou seja, encontrando
modo a noção de “pesquisa” que ela novos exemplos que confirmem a valida-
acaba por perder qualquer significado de global da psicanálise ou de determina-
relevante. das hipóteses que ela sustenta. Os proble-
Assim, talvez não estejam fora de mas colocados pela pesquisa — ontológi-
lugar algumas precisões. Minha filha de cos, metodológicos e epistemológicos —
seis anos me perguntou recentemente se não se reduzem à atividade habitual do
as abelhas sentem dor no seu pequeno analista, e a meu ver, se não reconhece-
bumbum quando aferroam alguém, e mos esta diferença, não teremos condi-
acrescentou, muito séria: “Eu quero saber ções de compreender do que estão falan-
porque estou pesquisando as abelhas”. do os que nos criticam. Dizer isso não
É claro que ela se referia a procurar implica diminuir o valor do trabalho clíni-
informações sobre este inseto, no contex- co, nem menosprezar suas dificuldades
to da pré-escola no qual se encontra. Não ou seus praticantes, entre os quais me
sorriam: é neste sentido banal que muitas incluo. Apenas, não é este o ponto que
vezes nos referimos à pesquisa, querendo está em questão.
com isso aludir à mera diminuição da Fala-se em diversos tipos de inves-
nossa ignorância sobre um dado assunto tigação possíveis em psicanálise, como a
(“Pesquise na internet, lá há muita infor- pesquisa conceitual, a pesquisa por entre-
mação sobre o que você quer saber”). vistas não estritamente clínicas, a pesqui-
Não é este o sentido científico do termo, sa histórica, etc. É importante não con-
assim como não o satisfaz o fato de fundir coisas que são por natureza dife-
alguém se documentar para preparar uma rentes. Interessar-se por um problema e
aula ou um artigo (“Vê-se que este texto descobrir o que já foi dito a respeito é
foi bem pesquisado”). Pesquisa em ciên- pesquisa, mas não psicanalítica, embora
cia refere-se exclusivamente à tentativa o tema possa sê-lo (digamos, a contra-
de obter conhecimento novo e de transferência ou a anorexia). O termo
apresentá-lo de modo a que possa se “pesquisa conceitual” me parece bastan-
incorporar ao já existente, seja como com- te confuso: se significa traçar a evolução
plemento, seja como nova perspectiva. de um conceito ou discutir sua esfera de
Diz-se que o analista “pesquisa” aplicação, será uma pesquisa histórica ou
com seu paciente o significado inconsci- epistemológica, mas não psicanalítica. Não

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é porque um texto fala sobre Freud ou psicanálise — o tema foi-se tornando


sobre Lacan que é psicanalítico: há exce- freqüente em nossos debates. Já em 1989,
lentes obras de filósofos, biógrafos e his- o XVIII Congresso Latino-Americano no
toriadores das idéias que nos ensinam Rio de Janeiro tomou como mote “A
muito sobre eles e sobre seus escritos, Investigação em Psicanálise”; pela mes-
sem nada acrescentar à psicanálise. Já ma época, no Programa de Pós-Gradua-
criar um conceito novo é algo bem diver- ção em Psicologia Clínica da PUC/SP,
so, envolvendo condições das quais não é Maria Emília Lino da Silva organizou um
possível tratar aqui com o detalhe neces- colóquio cujos papers foram publicados
sário. no ano seguinte (Silva, 1990)4. Em 1991 e
Por outro lado, na universidade — 1992, novos simpósios foram realizados
em particular na pós-graduação — vêm no mesmo programa; os textos então
sendo realizados trabalhos a que se pode apresentados se encontram disponíveis
chamar sem medo “pesquisa psicanalíti- nos números 1 e 2 da revista Psicanálise
ca”. Eles poderiam perfeitamente ser e Universidade. E desde então não fal-
apresentados nas Sociedades, Círculos e tam contribuições vindas dos mais diver-
associações semelhantes para conferir a sos quadrantes ao tópico que hoje nos
seus autores este ou aquele grau: em nada reúne.
diferem dos que costumam servir a este
propósito, exceto talvez por um rigor maior. Vinte anos orientando dissertações
A universidade interessou-se pela ques- e teses me mostraram que os assuntos
tão por uma razão muito simples: para sobre o quais é possível realizar pesquisas
escrever dissertações e teses em psica- são os mais variados. Num artigo publica-
nálise e de psicanálise, é necessário pes- do em Interfaces da psicanálise (Me-
quisar no sentido forte deste termo. E a zan, 2002), procurei organizá-los em algu-
prova de que tais trabalhos são úteis para mas categorias, seguindo o eixo principal
o psicanalista não-acadêmico está no fato de cada investigação. Eis as que encon-
de que hoje se tornou comum estudar em trei:
livros gestados nas incubadoras da pós- a) teses predominantemente teóri-
graduação. cas, focalizando em especial questões
Por motivações e caminhos dife- metapsicológicas (exemplo, Bernardo
rentes — as associações filiadas à IPA Tanis: Memória e temporalidade: um
seguindo o programa traçado por estudo sobre o infantil em psicanálise,
Wallerstein, os cursos de pós-graduação publicado pela Casa do Psicólogo em
refletindo sobre o que seria uma tese de 1996);

4
Dele participei com a conferência “Que significa ‘pesquisa’ em Psicanálise?”, republicada em Mezan
(2005).

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Pesquisa em psicanálise: algumas reflexões

b) teses sobre questões de psico- lado do analista ou do paciente; outros


patologia (exemplo, Cassandra Pereira ainda focalizam estruturas psicopatológi-
França, Ejaculação precoce e disfun- cas, relações socialmente importantes
ção erétil: uma abordagem psicanalí- (professor/aluno, médico/paciente) ou a
tica, Casa do Psicólogo, 2001); clínica em instituições. Na vertente “psi-
c) teses sobre fatores operantes no canálise aplicada”, temos estudos sobre
processo psicanalítico (exemplo: Myriam literatura, teatro e artes plásticas, en-
Uchitel, Além dos limites da interpreta- quanto na vertente histórica são discuti-
ção, Casa do Psicólogo, 1997); dos autores e/ou escolas importantes.
d) teses sobre a atividade terapêuti- Por outro lado, sob a variedade dos
ca em âmbito institucional (exemplo: Yanina temas, existe um solo comum: todos os
Otsuka Stasevskas, Contar histórias no autores identificam uma questão e a
Hospital-Dia Butantã: a circulação do investigam com os meios conceituais ofe-
sentido e o efeito da palavra, 1998); recidos pela psicanálise. Com freqüência,
e) teses sobre as interfaces psique/ as noções empregadas para estudar o
sociedade (exemplo: Márcia Neder problema escolhido saem revigoradas do
Bacha, Psicanálise e educação: laços embate com aquilo que foram convoca-
refeitos, Casa do Psicólogo, 1998); das a esclarecer: assim, o estudo das
f) teses sobre as interfaces arte/ condições psíquicas do militante político
cultura/psique (exemplo: Camila Pedral clandestino permite a Maria Auxiliadora
Sampaio, Ficção literária: terceira Arantes estabelecer uma hipótese auda-
margem na clínica, 2000); ciosa sobre a relação entre desgaste nar-
g) teses sobre autores ou momen- císico e ideal do eu (Arantes, 1996).
tos importantes na história da psicanálise Poderíamos imaginar as diversas áreas
(exemplo, Teresa Elisete Gonçalves, A em que se desdobram as investigações
Psicanálise na Inglaterra e o “Middle como raios de uma roda cujo centro é a
Group”, 2001); clínica stricto sensu, a qual se encontra
Vê-se que o território da pesquisa presente mais explicitamente em algu-
em psicanálise é bastante heterogêneo, mas, mais indiretamente em outras. Pois
indo do estudo aprofundado de uma histó- é nela e dela que surgem os conceitos
ria de vida à análise de condições que cardeais da psicanálise, os instrumentos
afetam um determinado grupo, seleciona- com que opera qualquer pesquisa em
do por faixa etária ou por algum traço nossa disciplina.
comum (militantes políticos, homens
vasectomizados, pacientes terminais, etc.). 3. O argumento de Grünbaum
Alguns trabalhos examinam conceitos
centrais da nossa disciplina; outros abor- Ora, é precisamente a clínica
dam mais diretamente a prática clínica, do stricto sensu o objeto da crítica de Adolf

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Grünbaum. Como ela recusa ao método Os capítulos seguintes do livro dis-


clínico qualquer validade epistemológica, cutem tais “falhas”. Segundo Grünbaum,
convém examinar — mesmo que breve- a defesa por Freud da validade do método
mente — como está articulada. clínico repousa sobre o Tally argument,
Grünbaum começa por refutar a ou argumento da adequação (tally signi-
tese de Popper, segundo a qual os enun- fica corresponder a). A formulação mais
ciados psicanalíticos são infalsificáveis e completa deste argumento encontra-se
por isso não-científicos. De fato, existem na conferência de 1917 “A terapia analí-
no corpus freudiano diversos exemplos tica”, na qual Freud combina duas afirma-
mostrando que Popper está equivocado, e ções basilares: (1) a análise é eficaz para
o professor de Pittsburgh reconhece que remover os sintomas e produzir uma reor-
Freud procurou enfrentar os problemas ganização da economia psíquica; (2) isso
epistemológicos suscitados por suas teo- se deve a que as causas encontradas pela
rias. Assim, um enunciado como “a para- interpretação para os problemas do paci-
nóia resulta de uma defesa por projeção ente de fato correspondem a (tally with)
contra conflitos inconscientes ligados a fan- traumas e conflitos que ele experimentou
tasias homossexuais” é perfeitamente no passado. As interpretações, que se
falsificável: ele tem a forma lógica P ! Q baseiam nas associações do paciente e
(P implica Q, o conflito a respeito da em seu modo de vivenciar a transferên-
homossexualidade é a causa da para- cia, equivalem a asserções causais do tipo
nóia), e portanto pode ser refutado se P ! Q (tal conflito determina em última
encontrarmos casos em que P não instância tal sintoma ou traço de caráter).
implica Q (conflitos homossexuais cau- Tudo depende, portanto, do grau de confi-
sando outros resultados que não a para- ança que se possa atribuir às associa-
nóia, paranóicos que exibem também ções, no sentido de estarem livres de
comportamentos homossexuais, etc.). qualquer sugestão por parte do analis-
Conclui o filósofo, após examinar ou- ta; do mesmo modo, a aceitação pelo
tros casos do mesmo tipo: “...é uma paciente daquilo que lhe diz o terapeuta
tese central do presente estudo que o (que P ! Q) desemboca na compre-
método clínico da Psicanálise e as infe- ensão dos seus conflitos e na convicção
rências causais fundadas sobre ele são de que eles e não outros eram a causa dos
essencialmente falhos do ponto de vista seus sofrimentos. Grünbaum não confun-
epistemológico, mas por razões que nada de “compreensão” com “intelectualiza-
têm a ver com falsificabilidade ou não- ção”, e dá o devido peso à idéia freudiana
falsificabilidade”5 (Grünbaum, 1996, p. da elaboração ou perlaboração como mo-
184). mento capital do processo de cura.

5
Trechos de Grünbaum, Green têm tradução livre do Autor.

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Pesquisa em psicanálise: algumas reflexões

Ocorre porém, continua o filósofo, lembranças. Ora, dispara Grünbaum, se o


que a situação analítica é inevitavelmente paciente está permanentemente sob o
viciada pela sugestão. Freud procurou efeito da sugestão, não existem confirma-
mostrar que não, mas estava enganado, e ções independentes; tudo o que lhe ocor-
ele mesmo oferece o serrote para cortar rer estará contaminado por sua vulnerabi-
o galho no qual está sentado: a transferên- lidade aos efeitos sugestivos da transfe-
cia, induzida pela compulsão à repetição, rência. Portanto, embora pareçam indi-
coloca o paciente em situação infantil e o retas relativamente ao conteúdo da inter-
analista como “substituto da autoridade pretação, as associações ou lembranças
paterna”. A análise da transferência não que a ela se seguem provêm do mesmo
pode emancipá-lo desta condição (apesar solo e se encontram sob as mesmas con-
do que assevera Freud), porque tudo gira dições que quaisquer outras.
em círculo: o efeito supostamente liberador Este vício de origem torna impossí-
da interpretação transferencial depende vel testar no interior dela mesma as afir-
da crença do paciente na veracidade das mações causais produzidas na situação
palavras do analista, exatamente como clínica. Portanto, todas as hipóteses base-
para qualquer outra. Grünbaum compara adas no método clínico — por mais plau-
a situação à do chamado efeito placebo: síveis que pareçam — não têm qualquer
como o que garante o “progresso” do valor no que se refere ao quesito veraci-
paciente é sua aceitação do que diz o dade: podem até acertar o alvo, mas por
analista, aceitação induzida pelo pró- casualidade, não porque sejam epistemo-
prio dispositivo analítico, não importa o logicamente consistentes. Fica assim in-
que ele diga — aos olhos de quem está no validado o argumento da adequação: se a
divã, o terapeuta terá sempre razão. psicanálise cura, não é porque encontra
Grünbaum sabe que Freud discute pela interpretação as causas reais dos
exatamente este problema em “Constru- problemas que afligem o paciente. A
ções em psicanálise”, e enfrenta este retrodição (atribuição retrospectiva de
texto com galhardia. O argumento de valor causal a acontecimentos ou fantasi-
Freud é sutil, mas, segundo o filósofo, as do passado) não pode ser testada por
falacioso. Diz Freud, em síntese, que nem meio de hipóteses alternativas, e isso vale
a aceitação nem a recusa do paciente tanto para aquele caso específico (“o
significam grande coisa, porque ambas Homem dos Ratos desenvolveu suas ob-
podem provir de fatores inconscientes sessões porque na sua infância...”) quan-
ainda não descobertos (desejo de agradar to para as formulações mais e mais gerais
ou de rivalizar, medo da autoridade do pai, baseadas em inferências obtidas pelo
etc.). Portanto, o analista espera por con- método clínico (“a neurose obsessiva tem
firmações independentes, como novas sua origem em conflitos ligados à analida-
associações ou a emergência de novas de”, ou “o sintoma resulta de um conflito

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Renato Mezan

entre a pulsão e a defesa”, ou, no limite, “o ombros dizendo que ele não fez análise e
inconsciente dinâmico existe”). Xeque- portanto não experimentou os benefícios
mate: do método que ataca, tampouco leva a
grandes resultados: o nervo do argumento
(...) as exigências [científicas] em maté- do filósofo permanece intocado, e nós
ria de validação das asserções causais não paralisados frente ao desafio que ele nos
podem ser satisfeitas intraclinicamente, a lança.
menos que o método psicanalítico seja
apoiado por um potente substituto do
4. E então?
Argumento da Adequação. (...) Na ausên-
cia deste substituto, a descontaminação
epistêmica da massa das produções do É óbvio que o único modo de refu-
paciente no divã, relativamente aos efei- tar as posições de Grünbaum consiste em
tos sugestivos das comunicações do ana- mostrar que a sua tese central — os
lista, parece inteiramente utópica. (...) [Tra- dados em que se baseiam nossas teorias
ta-se de] uma sugestão proselitista, tanto são viciados ab ovo pela sugestão — está
mais insidiosa quanto opera sob a máscara errada. Não é o caso de empreender aqui
de uma terapia não-diretiva” (Grünbaum, esta tarefa, mas podemos ao menos, para
1996, pp. 191; 194). concluir, indicar algumas direções possí-
veis.
Em conseqüência, Grünbaum re- No livro de Marshall Edelson a que
comenda que as “teses cardeais” da psi- me referi encontramos algumas idéias
canálise sejam submetidas a outros tipos que merecem extrema atenção. Em pri-
de teste que não o clínico6. Eis aí, a meu meiro lugar, discutir a tese de que a
ver, a raiz do interesse dos analistas pelas sugestão pervade de tal modo a situação
modalidades extraclínicas de pesquisa — analítica que tudo o que dela provém se
para as quais infelizmente estamos muito encontra “contaminado” (e, diria eu, re-
mal preparados por nossa formação pro- sistir à tentação de interpretar a analidade
fissional e por nosso modo de pensar. De mal resolvida ou as fantasias paranóides
onde o mal-estar de que falei atrás, e o possivelmente subjacentes a tal metáfo-
surgimento de uma literatura que, aberta ra). Em segundo, discutir os complicadís-
ou veladamente, veste a carapuça que simos problemas epistemológicos ligados
Grünbaum nos oferece. Por outro lado, à idéia de testar as asserções psicanalíti-
bater no peito e urrar à moda de Tarzan cas com grupos de controle. E não porque
que o método clínico é bom, ou dar de essas asserções sejam “vagas” ou “me-
6
“A validação das hipóteses cardeais de Freud deve vir — se vier — principalmente de estudos extraclínicos
bem concebidos, epidemiológicos ou até experimentais (1996, p. 410, grifo do autor). Mesmo assim, o
filósofo se mostra céptico: “Mesmo quando os dados experimentais disponíveis até agora foram
favoráveis, não conseguiram confirmar nenhuma das hipóteses principais de Freud” (idem, grifo do autor).

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Pesquisa em psicanálise: algumas reflexões

tafóricas” (embora fosse recomendável, (analítico ou não), uma família, uma insti-
diz Edelson, depurar nossas formulações tuição — um universo self-contained,
para as tornar o menos ambíguas possí- em suma. Sustenta Edelson que o método
vel), mas porque a reprodução exata no clínico, corretamente manejado, é ade-
grupo B das condições vigentes no grupo quado para investigar este tipo de ser, e
A encontra dificuldades de monta, que ele que os temores de Grünbaum quanto à
examina detalhadamente. sugestão são largamente exagerados.
Eu acrescentaria que pode ser Sendo um analista bem-informado sobre
muito útil uma reflexão global sobre a filosofia da ciência, Edelson debate com o
afinidade dos métodos científicos (no plu- professor de Pittsburgh em seu próprio
ral, pois são vários) com os diversos tipos território — mostrando por exemplo que
de ser, numa versão contemporânea do o método experimental não é, como pensa
dito de Aristóteles “o Ser se diz de muitas nosso adversário, o único a satisfazer aos
maneiras”: o que convém a um objeto cânones do “indutivismo eliminativo” —
físico pode não convir a uma entidade nome complicado que designa a postura
matemática ou a um romance. Se a psi- epistemológica de Grünbaum8. Uma
que constitui um tipo particular de ser, a single study research criteriosamente
forma de investigá-la não pode ser a conduzida também pode preencher os
mesma que para outros — em particular, seus exigentes requisitos.
o método experimental pode ser singular- Uma precisão importante é que o
mente inadequado a este objeto espe- estudo de um caso singular não é equiva-
cífico7. lente à narrativa comentada teoricamen-
Mas é sobretudo por uma reavalia- te de um caso de análise (o que chama-
ção rigorosa do estudo de casos singula- mos “estudo de caso”, por isso o risco de
res que o desafio epistemológico de equívoco). Ele pode assumir as feições de
Grünbaum pode ser neutralizado. O sin- uma pesquisa comparável a outras, dando
gular pode ser aqui uma pessoa, um par origem a hipóteses e teorias que podem

7
Desenvolvo mais amplamente esta idéia, que me parece fundamental para discutir com Grünbaum e para
determinar o que pode significar a expressão “pesquisa em psicanálise”, em “Sobre a epistemologia da
psicanálise”, in Interfaces da psicanálise. Grünbaum aborda esse problema no seu capítulo sobre a
aplicabilidade do método experimental à “teoria freudiana da personalidade”, mas não podemos, nesta
comunicação, examinar com o cuidado necessário as suas afirmações. Não me pareceram nada convincentes;
mas a discussão delas precisará esperar uma outra oportunidade.
8
O indutivismo eliminativo opõe-se ao indutivismo enumerativo, que admite que uma hipótese pode ser
considerada verdadeira enquanto a enumeração de exemplos confirmadores não for interrompida pelo
surgimento de um contra-exemplo. Já a versão eliminativa do indutivismo sustenta que “um dado só pode
ser considerado probatório para a hipótese H1 se for obtido de modo tal, que elimina a possibilidade de
explicações alternativas H2, H3, ..., que de outro modo poderiam ser consideradas como dando conta daquele
dado”. (Cf. Edelson, 1984, p. 5, e todo o capítulo 3 da parte I.)

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Renato Mezan

ser discutidas, confirmadas ou refutadas. completo. Não há domínio em que o peso


Isso porque nele opera o que André Green da incerteza seja maior do que na psicaná-
(2004) chama, com muita propriedade, de lise (Green, 2004, p. 13).
“pensamento clínico”. Não podemos, a
esta altura, examinar com o cuidado ne- A idéia de um “modo específico de
cessário esta noção, mas nos pequenos racionalidade” (específico em relação a
trechos que se seguem é possível perce- outros, entende-se), porque “originado da
ber todo o interesse que ela encerra: experiência prática”, é evidentemente
imprescindível para responder com eficá-
Sustento que existe em psicanálise não cia à argumentação de Grünbaum. Ela
somente uma teoria da clínica, mas um está de acordo com a noção de que
pensamento clínico, isto é, um modo origi- existem vários tipos de ser, a psique sendo
nal e específico de racionalidade origina- um deles, e com uma visão menos simplista
do da experiência prática. (...) A elabora- do método científico que a defendida pelo
ção pode ser levada a um nível de reflexão filósofo de Pittsburgh. Pois toda episte-
relativamente distante da clínica; no en- mologia repousa sobre uma ontologia ex-
tanto, mesmo quando não se faz referência
plícita ou implícita — por ontologia enten-
explícita aos pacientes, o pensamento clí-
nico sempre faz pensar neles (Green, 2004,
dendo-se uma teoria do que é o ser, ou a
p. 11). realidade, ou como se queira chamar o
O pensamento clínico forja conceitos que existe por si mesmo, independente-
que dizem as razões do inconsciente, a mente das nossas opiniões e concepções.
diversidade de respostas que suscitam os Este modo “original e específico de
avanços dele, as transformações destas racionalidade” reproduz com relativa fi-
respostas em “realizações” alucinatórias, delidade a estrutura daquela região do ser
em agires, em somatizações, em racionali- chamada “psique” — relativa, porque é
zações, sob o efeito dos contra-investi- da natureza do pensamento científico
mentos, colocando em ação o desinves-
construir modelos aproximados (e não
timento, etc.” (Green, 2004, p. 12).
Quaisquer que sejam a diversidade e a
decalques idênticos ponto por ponto) da-
abundância das soluções propostas, per- quilo que constitui seu objeto. A aproxi-
manecerá sempre uma “distância teórico- mação visa idealmente à reprodução com-
prática” insanável. Dito de outro modo, pleta, no elemento do pensamento, das
jamais a teoria poderá aderir integralmente articulações relevantes daquela região do
à clínica nem recobrir toda a extensão do ser, mas tal reprodução é justamente um
seu campo, jamais a clínica será uma apli- ideal, um objetivo que guia as elaborações
cação sem resto da teoria, inteiramente parciais que partem da observação ou da
esclarecida por ela. O pensamento clínico prática e chegam até um “nível de elabo-
deve ter sempre presente ao espírito este
ração relativamente distante” delas —
hiato e este resíduo inelimináveis, aceitar
que eles não possam ser preenchidos por
outra idéia fundamental para compreen-

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Pesquisa em psicanálise: algumas reflexões

der a estrutura de qualquer teoria cien- o método clínico!”) quanto o servilismo


tífica, psicanalítica ou não. Nenhuma pode (“Vamos fazer pesquisas empíricas para
aderir por completo àquilo de que é teoria: mostrar a eles como é consistente a nossa
é insanável por natureza a “distância teoria e eficaz nossa prática”). Ataques
teórico-prática”, o intervalo entre a reali- como o do filósofo devem nos fazer refle-
dade e as hipóteses que construímos para tir mais sobre o que fazemos e sobre
compreender as leis que a governam. como elaboramos nossos conceitos e hi-
Por outro lado, é evidente que em póteses, de modo a descrever nosso tra-
psicanálise — como em qualquer outra balho e o que dele resulta em termos
disciplina — certas hipóteses estão mais menos esquemáticos do que os utilizados
próximas de um fenômeno singular (“Seu por ele. A situação analítica envolve, sim,
sonho indica que você tem medo do seu o perigo da sugestão, mas há meios de o
pai”), enquanto outras visam tipos ou neutralizar; a circularidade entre dados e
classes de fenômenos (“A histeria man- inferências “intraclínicos” também é um
tém uma relação peculiar com o comple- risco, mas não necessariamente temos
xo de castração”), outras ainda caracte- que cair nesta armadilha. Ou seja: não
rísticas essenciais do campo (“O funcio- enterremos a cabeça na areia desquali-
namento psíquico tende a evitar o despra- ficando arrogantemente um oponente do
zer”), etc. etc. O próprio objeto tem níveis quilate de Grünbaum. Mas, sem enfrentar
diversos de organização, aos quais se sua crítica, de nada valerá macaquear-
referem hipóteses de diferentes níveis de mos os procedimentos das hard sciences,
abstração — o que Green reconhece ao pensando que com isso estamos fazendo
aludir à “diversidade de respostas aos “pesquisa em psicanálise”.
avanços do inconsciente”: somatizações, Como escreveu Freud ao concluir
alucinações, angústias e assim por diante. O futuro de uma ilusão: “Não, nossa
Ou seja, a tarefa é muito mais formidável ciência não é uma ilusão. Mas seria uma
do que suspeita Grünbaum, que reduz a [ilusão] procurar alhures o que ela não nos
golpes de martelo a complexidade da pode oferecer” (Freud, 1927/1974, p. 189)9.
prática analítica ao problema da sugestão
na situação terapêutica e daí deriva toda REFERÊNCIAS
a sua argumentação.
É na companhia de autores como Arantes, M. A. (1996). Pacto re-vela-
Edelson e Green que me parece possível do: Abordagem psicanalítica de
pensar a pesquisa em nossa disciplina de fragmentos da vida militante clan-
modo a evitar tanto a ingenuidade (“Viva destina. São Paulo: Escuta.

9
Tradução livre do autor. Publicado também em: S. Freud, The Standard edition of the complete
psychological works of Sigmund Freud (Vol. 21, p. 56). London: Hogarth Press, 1961.

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Pesquisa em psicanálise: algumas reflexões

SUMMARY

Research in psychoanalysis: some reflections

Research in psychoanalysis is an issue surrounded by confusion. This paper


makes a historical summary of the problem, posing the strong criticism of Adolf
Grünbaum in relation to clinical methodology. The author suggests that this criticism
should be addressed with the use of the notion of clinical thought proposed by André
Green, as well as a more precise description of what we do and how we think the
analytical situation. Extra-clinical empirical researches, do not seem to be the best
solution to encounter the criticism brought forth by philosophers of science.

Key words: Research. Scientific method. Clinical method. Philosophy of science. Adolf
Grünbaum.

RESUMEN

Investigación en psicoanálisis: algunas reflexiones

La investigación en psicoanálisis constituye un asunto en el que reina mucha


confusión. En este artículo se hace un resumen histórico del problema, se presentan
las duras críticas de Adolf Grünbaum al método clínico, y se sugiere que ellas deben
ser respondidas usando la noción de pensamiento clínico, basada en André Green, así
como describiendo exactamente qué hacemos y cómo pensamos en la situación
analítica. Investigaciones empíricas, extra-clínicas, no parecen ser la mejor solución
para enfrentar las críticas provenientes de los filósofos de la ciencia.

Palabras-llave: Investigación. Método científico. Método clínico. Filosofía de la


ciencia. Adolf Grünbaum.

Renato Mezan
R. Amália de Noronha, 198 — Jd. das Bandeiras
05410-000 São Paulo, SP
Fone: 3081-4851
E-mail: rmezan@uol.com.br

Recebido em: 13/06/06


Aceito em: 29/06/06

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