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Dea Loher

A VIDA NA PRAÇA ROOSEVELT


DAS LEBEN AUF DER PRAÇA ROOSEVELT

Portugiesisch von Christine Röhrig,


São Paulo 2005
Alle Rechte vorbehalten, insbesondere das der Aufführung durch Berufs- und Laienbühnen, des
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0055-11-5521-1725, Email: christinerohrig@webcable.com.br

Förderung der Übersetzung durch: / This Translation was sponsored by:

Dea Loher
A VIDA NA PRAÇA ROOSEVELT

1
Tradução Christine Röhrig
Adaptação de Rodolfo García Vázquez

Personagens

Sr. Mirador, um policial


Sra. Mirador, sua mulher, costureira
Vito, dono de fábrica
Concha, sua secretária
Aurora, cantora, velha, mas ainda com ótima aparência, travesti
Bingo, cantadora de números de um salão de bingo
Raimundo, vulgo Mundo, desempregado (papel quase mudo)

e:
dois antigos colegas de trabalho de Mundo
Homem de terno, mala e celular
A Maria dupla
Glória
Casal na janela

Também duas testemunhas caladas:


Mulher dentada com espelho
Homem com elefantíase
Suzana
Mulher com ossos

A peça se passa em São Paulo.

Observações:
Aurora, Glória e Suzana são Transexuais. Não fizeram cirurgia para mudança de
sexo.
O tema musical de Aurora é: Manhã tão bonita manhã ... (Manhã de Carnaval, cf.
Virgínia Rodrigues: Sol Negro).

01.

LARANJAS I

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Sr. Mirador na cama de hospital. em coma, respirando artificialmente.

Sra. MIRADOR Eu voltei.


Em voz baixa:
Está ouvindo
Pausa.
Para você.
Estou de volta.
Pausa
Estou de volta
Silêncio
Você chupou laranjas demais.
Pausa
Dizem
que você chupou laranjas demais.
Dizem
que você pode ouvir
Pausa.
Eu pensei que
a culpa fosse tua
e disse que
a culpa é tua.
Tira uma laranja da bolsa, descasca-a com as mãos.
Se você tivesse outra profissão
se tivesse tido outra postura
em relação à profissão
ele ainda estaria vivo.
Se você fosse outro.
se você tivesse sido outro.
Tira uma laranja após a outra da bolsa e descasca-as com as mãos
Ele adorava chupar laranjas.
Nada além de laranjas
a vida toda.
Parte a fruta com as mãos.
Dizem que
você está morrendo.
Dizem que
você consegue me ouvir.
Mas você também me entende.
Pensei que era uma boa ocasião,
para voltar
até que a morte nos separe
Pausa.
As laranjas derreteram as suas mucosas
a acidez varou as paredes do estômago
perfurou seu intestino.
Dizem

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que a sua laringe, faringe
e o céu da boca estão corroídos.
Mostra a língua.
Deixa ver seus lábios
Ri. Descasca laranjas, rasga a fruta com as mãos
Dizem que a acidez
não pára de corroer
que o sangue vai inundar a sua barriga
dizem,
que você sente dor quando respira
dizem que você vai morrer de fome,
mas antes de morrer de fome
vai morrer de sede.
Pausa.
É assim
Pausa.
É assim.
Você queria saber como é.
Uma morte lenta,
você queria morrer
como ele morreu.
Pausa
fedendo a laranja
em pleno verão.
Mandei embrulhar dúzia por dúzia
só as boas e as docinhas.
Vou trazer uma por uma aqui
para que o cheiro faça você lembrar.
Pausa.
Você vai ter que se lembrar..

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02.

SR. MIRADOR Sou apenas um policial. Meu posto ficava na Praça Roosevelt. A
Praça Roosevelt é um lugar feio e torto. Um lugar onde tudo parece estar
fora do lugar, até as árvores, não posso dizer que a amo. No meio da praça
tem uma igreja de pedra e passa uma avenida de quatro pistas na porta de
entrada. O nosso posto fica à esquerda da igreja, uma construção de
concreto e à direita de um estacionamento subterrâneo. Deixaram os
plátanos em volta da igreja. Ali moram os traficantes. Eles moram nas
árvores, dormem ali e penduram suas roupas nos galhos e, às vezes,
quando algum dos moradores passa embaixo das árvores eles cospem na
cabeça deles, cospem em você ou mijam na tua cabeça. Os esconderijos
deles ficam debaixo da calçada, nas galerias onde a canalização se bifurca.
Eles levantam as tampas do esgoto, na cara de todo mundo e descem os
pacotes com a mercadoria, em lugares que podem vigiar do alto das árvores,
mas ninguém, nem criança, nem a vendedora de bombons , ninguém, nem
aqueles que moram nos nichos subterrâneos, que se instalaram ali, num lar
passageiro, ousaria roubar qualquer coisa deles. Nos prédios em volta da
praça, ficam os bordéis. Nos bordéis é assim: vamos supor que um prédio
tenha 18 andares. Então, você vai até a entrada, digamos que lá pelas nove
ou dez da noite e paga, uns 50 reais. Você pega o elevador até o 18 andar.
Aí você procura um quarto com uma mulher ou um homem, ou uma mulher
que é homem ou um homem que é mulher, ou com os dois, em cada andar
você pode escolher uma coisa diferente ou uma pessoa diferente. E aí você
vai trepando por todos os andares até chegar no térreo às 7 da manhã.
Pausa.
Daí ainda tem uns botecos e um monte de escritórios, um salão de bingo,
uma costureira, ali do outro lado o ponto dos travestis e uma pequena fábrica
de... produtos de metal. Ri.
No fundo, a Praça Roosevelt é tão boa ou tão ruim como qualquer outra
praça nessa cidade. Ou talvez eu devesse dizer, como qualquer outra praça
que eu conheço.
Eu não conversava muito com os meus companheiros. Eles faziam seus
negócios sem mim, isso não foi inteligente da minha parte. O que eu podia
fazer? Eu sou assim. Eu tinha sorte. Eles me deixavam em paz. Muitas vezes
eu por ali sozinho à noite, pelas ruas, nenhum dos meus companheiros fazia
isso, é proibido até. Até isso eles deixavam, talvez eles quisessem que eu
tivesse um outro fim
Um dia entrei numa livraria para descobrir por que a praça tinha o nome de
Roosevelt. Que significa isso, perguntei a uma senhora atrás do balcão. Uma
pergunta simples: meu trabalho não tinha sentido. Eu sabia. Talvez fosse
diferente se eu conseguisse encontrar relação nas coisas. Roosevelt fez o
que, exatamente? E por que essa praça de merda tem esse nome? O que
esse Franklin tem a ver com a gente? Onde está a nossa história e onde eu
apareço. Não pode ser tudo pura arbitrariedade. Tem de haver uma razão
para eu estar aqui. Pausa.
A minha desgraça começou numa noite em que vi alguém debaixo das

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árvores e quis acreditar que fosse coincidência. Eu me aproximei devagar e
a coincidência saiu correndo. Saiu correndo e sumiu. Mas eu tinha
reconhecido ele. Por que eu estava aqui. Por que eu tinha de ver meu filho
aqui. Pausa.
A mulher do balcão disse que antes precisaria pesquisar um pouco.
Eu nunca fiquei sabendo o resultado.

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03.

Dois antigos colegas de trabalho de Mundo.

Qué qui cê ouviu fala do Mundo.


Mundo. Pausa. Num sei de quem cê tá falando
Raimundo. Mundo. Aquele que tava com a gente na fábrica. Torneiro tamém. No
final tava fazendo os buraco nus tambor. Aí foi pro oio da rua.
Não.
Que.

Lembro. Mas não, o que é que eu tinha que tê ouvido


Ta lá na Praça Roosevelt.
Como
Como o que. Como é que dá pra ficar ali. No chão, numa cadeira, numa pedra, sei
lá. Pausa.
Num tô entendendo.
Do lado dum poste, onde é meio verde e é claro, no gramadinho, na beira da
Praça Roosevelt, perto da rua.
E daí
Daí que ele tá sentado ali agora
Como assim, tá lá agora, pra sempre ou quê
Parece
Pausa.
Cê conta cada história besta
Cê num conhece ele. Mai não mesmo, cê num conhece o Mundo de jeito manera
Mai claro que eu conheço, eu conheço ele sim, té trabaiei
Conhece nada, eu é qui conheço ele, então num fica dizendo que eu fico contando
história besta
Pausa.
Pára de dizer que eu to mentindo.
Eu num falei que cê ta mentindo.
Pausa.
Ce é desconfiado.
Parece.
Pausa.
Ele perdeu a casa porque num conseguia mais pagá o aluguel. Sem teto,
orgulhoso demais pra pedir esmola, fica aí parado do lado do poste.
Silêncio.
Dá um tempo.
É verdade. É verdade.
Pausa.
Dá um tempo. Podia acontecer com a gente também. Muito antes do que cê
imagina. Dá um tempo.m ele
Então, por isso que tô te falando.
Pára, senão ce vai levar umas porrada. Ta pensando que vai estragar a minha
noite ou o quê, ta pensando que eu num cunsigo pensar sozinho, ou ce acha

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o que, que eu fico pensando no que o dia todo, quando fico aqui sentado
bebendo minha cerva e saio por aí catando as lata de alumínio.
Ce pensa nos troco que vai juntá quando vendê as lata, bundão, nisso que cê
pensa.
Cala essa boca já, seu fio duma égua.
Silêncio.
Tava pensando num troço. Eu quiria falá cocê porque me passou uns troço na
cabeça.
Ou caga ou desocupa a moita.
Tava pensando se por acaso ele num tinha nenhum amigo
Num parece.
Acho que comigo num ia acontecer um troço desse porque eu ia poder me
encostar no barraco dum amigo por uns tempo e tal.
Claro, ele ia trabaiá procê, ganhá dinhero, enche teu bucho e ainda te emprestá a
muié dele, ia dividir tudo cocê, um bundão solidário.
Tava pensando
Caraio, porque num pergunta pro Mundo onde ele passou os ultimo três méis. Vai
ver que num abrigo e chega uma hora que cê que mandar num güenta mais.
Pausa.
Pois é, bundão, claro que eu ia ajudar ocê, mas não pra sempre, tudo tem limite, o
dinheiro em primeiro lugar. E quando nois dois num tiver mais serviço, já
pensou nisso, quem é que vai segurá a barra de quem.
Pausa.
Tão dizendo que o Mundo num qué sabê de mais nada.
Óia, quem fala assim é por que num tem outro jeito. Conhece a raposa e as uva
Fica lá o dia todo, só ali e quando cê pergunta, ele diz—
O quê.
Num diz mais nada. Parou de falá.
Pausa.
E o cara vive do quê, ou já virô santo que só precisa de água, nada de pão, nada
pra mastigá, já ta flutuando qui nem indiano, já passô pro lado de lá ou quê.
Num güento quando cê fica tirando sarro
Pausa.
O povo por aí dá comida pra ele, vem do mercado, sacola na mão, deixam uma
banana lá, um pacote de leite, meia salchicha
Pausa.
Só isso.
Só isso.
Pausa.
Uns tempo atrás, deu na cabeça dele de escrevê. Dia e noite. Dia e noite
escrevendo em papel, papelão, depois ele dava de presente pra quem
aparecia..
Uns versinho ou quê.
Umas prece
Umas prece
Umas prece
Pausa.

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Dá um tempo. Prece, versinho, essas merda, que bosta, prece, o que o Mundo ia
pedir, pra que.
Diz que o povo vai lá e conta umas história pra ele – conta tudo. A vida inteira. Ele
fica escutando. E aí tinha essas prece. Pausa. Por um tempo. Agora num sei
de mais nada.
Um biscoito da sorte vivo
Num güento quando ce fica tirando sarro. Então, vamu passar lá agora, que aí cê
vai ver

Num credito.
Vamos lá agora que cê vai ver, seu bundão, aí quem sabe cê pega no tranco.

Vão até ele. Chove. Alguém está sentado ali debaixo de um saco de lixo preto,
imóvel. Parece uma estátua embrulhada. Os dois esperam um tempo,
calados. Nada acontece, a chuva cai.

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04.

Escritório.

CONCHA Fico aqui num escritório grande. Doze mesas, vinte e quatro cadeiras,
parece uma sala de aula. As mesas estão vazias, as cadeiras abandonadas,
como se fosse férias. As grandes férias de demissão. Meu lugar fica no meio
da sala, tento preencher o máximo de espaço possível, tento parecer mais,
como se eu fosse muito mais gente, muito mais. A porta do corredor que dá
no escritório fica próxima à minha mesa. Também por isso fico no meio da
sala. Se o diretor da fábrica entra, ele fica obrigatoriamente na minha frente,
a sua secretária chefe. Me reporto a ele. Agora sou passado e futuro numa
só. Em mim ele vê os funcionários do escritório que um dia trabalharam
aqui, que ele demitiu. E em mim ele deve ver o potencial que apesar de tudo
ainda está à sua frente.

Relaxa, ri, balança a cabeça. Pausa. Pega um espelhinho e se olha nele.

CONCHA Não dá para perceber pela minha cara. Não dá para perceber nada.
Minha aparência permite pensar num futuro, com certeza.

Entra Vito.

VITO Pode ir mais cedo para casa hoje, Concha.

CONCHA E o senhor.

VITO Também vou para casa mais cedo

Silêncio.

CONCHA Não estamos indo mal.

VITO Não sei como a senhora vai.

CONCHA Não entendo. O negócio vai tão bem.

VITO Muito bem. Bem demais.

CONCHA Então por que vive demitindo cada vez mais pessoas.

VITO Toda manhã, a senhora me pergunta como estou indo. Mas não pergunta
por mim, na verdade quer saber como vai a empresa. Só isso interessa à
senhora.

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CONCHA Foi para isso que me contratou.

VITO Não fui eu quem contratou a senhora, foi o meu pai que a contratou; eu
herdei a senhora como herdei as mesas e as cadeiras e as luminárias e as
cortinas daqui e as máquinas lá embaixo do galpão e até o carro dele e o
motorista dele. E tudo é horrível. Móveis de escritório horríveis, velhos e
furados pelas traças. Graças a Deus, o carro pifou. Graças a Deus, o
motorista teve um derrame, pelo menos não preciso mais olhar para ele. E
desculpe-me se eu digo isso, Concha, mas a senhora está de novo com um
fedor insuportável de coco de gato. Eu posso entender sim que é difícil ficar
sozinha, mas por que esses seus bichos fedem tanto.

CONCHA É por causa da - deve ser por causa da comida.

VITO Tem cheiro de lixo.

Silêncio.

CONCHA O que vai ser das pessoas, sem trabalho.

VITO Vão acabar morrendo. Mais cedo ou mais tarde. Taí uma coisa em que a
senhora ainda não tinha pensado, Concha. Porque se tivesse pensado uma
única vez e fosse uma funcionária competente, não só uma herança
manchada do meu pai, a senhora já teria me avisado há muito tempo. Ou
não. A gente morre. Mais cedo ou mais tarde.

CONCHA devagar Isso é uma grande verdade.

VITO Vou explicar uma coisa para a senhora, Concha, uma coisa que talvez a
senhora não entenda, eu mesmo só entendi recentemente, mas eu quero
muito que a senhora também entenda.

CONCHA Tem uma coisa que eu também quero deixar bem clara para o meu
chefe. Não sou deficitária. Não sou uma mulher solitária que foi abandonada
pelo marido e agora tem mania de gato e passa a noite na frente da televisão
cheia de almofadas de reumatismo vivas enfiadas nas costas. Fui eu que
mandei ele pro inferno. E – eu tenho três filhos adultos. Que não precisam
mais de mim. Isso eles tem que agradecer a mim mesma. Pronto. Agora
vamos comparar. O senhor tem o quê, além da gastrite.

Para Vito
Eu posso tentar.

VITO Eu tive de demitir 17 trabalhadores no último meio ano. E onze


funcionários do escritório.

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CONCHA Por que teve. Quer economizar em quê. Os negócios vão bem. Os
demitidos odeiam o senhor..

VITO E vou demitir mais ainda. Vou demitir a senhora também. Aliás, por último.
Porque preciso da senhora até o fim. Mas não vai demorar mais muito
tempo. Aí serão todos, todos os 48 funcionários e esse ponto será fechado.
É isso. Mesmo se nenhum de vocês achar trabalho, o que eu duvido, não
vão morrer de fome. Não vão morrer de fome. Mas mesmo nesse caso,
mesmo nesse caso, vamos ter 48 esfomeados mais os esfomeados das
outras filiais que eu também vou fechar. E agora pergunto à senhora,
Concha, agora pergunto à sua consciência, quantas pessoas morreram no
ano passado. Por PAF.

CONCHA Por PAF?1

VITO Perfuração por arma de fogo.

CONCHA Como assim, onde, no mundo inteiro ou o que.

VITO Só aqui, só nessa cidade.

CONCHA Pffff, alguns milhares.

VITO Cinco mil quinhentos e trinta e quatro. Pausa. E agora eu pergunto a


senhora o que são quarenta e oito esfomeados hipotéticos diante 5.534
assassinados reais.

CONCHA É – mas o senhor está comparando alhos com bugalhos?

VITO Não

CONCHA Bobagem?

VITO Não. Causa e efeito. Pausa. Tá caindo a ficha?

CONCHA Claro, - tá claro que sim. Entendi.

VITO Fico feliz. Pausa. Fico muito feliz.

Silêncio.

VITO O rapaz apareceu de novo?

CONCHA Que rapaz?

1
urspr. „PAF“: „perfuraçao por arma de fogo“ oder „projetil de arma de fogo“

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VITO Aquele que esteve aqui atrás de trabalho. Faz umas semanas. Aquele que
a senhora me disse que ficou esperando duas horas por mim.

CONCHA Nunca mais eu vi. Sabe lá o que aconteceu com ele.

VITO Eu gostaria de ter falado com ele, explicado por que não vou contratar
mais ninguém.

CONCHA Não tenho certeza se ele ia ter entendido isso.

VITO Se ele voltar, se ele for um daqueles persistentes, me avise


imediatamente. Sai.

CONCHA Rapaz bonito, de uns 19 ou 20. Foi bom ele ter ficado aqui umas duas
horas. Durante duas horas eu não fiquei sozinha. O pai dele é policial ali na
praça. E ele adora chupar laranja. Os dedos dele estavam amarelos, não de
cigarro, das laranjas. Ele carregava esse cheiro, de fruta recém-cortada,
fruta cítrica, a roupa sobrava nele. Gostei. Silêncio.
Ele disse uma frase estranha, disse com esse trabalho eu ia poder ganhar
mais respeito. Ia salvar a minha vida.
Pega o espelho e se olha nele.

CONCHA Não posso contar nada para ele. Pausa. Não posso contar para ele de
jeito nenhum. Meu ex-marido está com uma nova mulher. Jovem. Também
não posso contar para ele.
As crianças. Roberto está na Flórida, falta pouco para as provas, Ronaldo
em Florianópolis com o bebê recém–nascido, Liliana está estudando
enfermagem em Belém. Talvez pudesse contar para ela. Pausa. Não, não
dá.

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5.

Mundo continua sentado debaixo do saco de lixo. Aurora se aproxima, pára perto
dele, espera. Cantarola. „Manhã tão bonita manhã ...“

AURORA Esse lugar não é bom para você.


Pausa
É perigoso
Pode acreditar em mim
Mostra as árvores
Eu fico observando os caras.
Eles ainda não se meteram com você
mas vai chegar o dia
em que eles vão perceber que você
sentado aí, é inútil, sabe
bem, bem inútil, meu bem
e aí vão te apagar.
Eu não posso te oferecer um lugar para dormir,
meu barraco tá cheio.
Eu divido com a Glória, você conhece ela,
às vezes passa por aqui de madrugada,
como eu, mas ela vestida de mendiga
tem clientes que gostam dela assim.
E aí ela leva os caras lá prá casa
apesar de eu já ter proibido mais de cem vezes
Ri. Pausa.
Por outro lado eu não quero visitar a Concha
por causa da minha alergia a gatos.
Cada vez tem mais na casa dela.
As condições de multiplicação ali devem ser fantásticas.
Na casa da Concha os gatos se multiplicam
feito baratas na casa dos outros.
Então temos que procurar um lugar neutro.
Ri
Um lugar de ninguém
Ri
Vigiada por um mudo –
Uma testemunha muda –
Você ainda escreve preces -
Pausa
Oh, Raimundo, Mundo, po,
sai daí
sai desse teu saco.
Como é que você consegue respirar
Não dá nem para fumar desse jeito

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Pausa.
Sai fumaça de um buraquinho no saco.
Pausa.
Eu sei, você não tem mais trabalho
mas – caracaracaravocê, eu também estou frita
Surge um cigarro pelo buraco.
Deus te pague
Aparece Concha
Onde foi que você se meteu.

CONCHA Vem comigo até o cemitério.

AURORA Ah não, de novo não. .

CONCHA Eu tive aquela conversa desagradável com o meu chefe. Um chefe


herdado do paidele , mas eu também sou herança do pai, e ele me trata
como se eu fosse um tapete comido pelas traças ou uma porcelana chinesa
velha, que no final é daquelas falsas, que não têm valor. Pausa. E agora
chega. Vou entrar no ônibus e ir até o cemitério São Luís.

AURORA para Mundo Ela sempre faz isso. Quando está mal, vai pro cemitério,
senta na grama e fica olhando essa – solidão. Esse deserto de covas. Não
dá pra chamar de outra coisa, um cemitério de pobres. E o sobrinho dela
está enterrado ali. E o meu Paulinho, que Deus o tenha.

CONCHA O cemitério São Luís fica bem longe lá na zona sul, leva mais de duas
horas até eu chegar lá, tenho que pegar três conduções e daqui a uma hora
já vai escurecer. Temos que sair já.

AURORA E a gente se conheceu lá – Eu não quero ir. Vamos tomar um café.

CONCHA para Mundo Ele se chamava Rodrigo. Às vezes eu levo uma vela para
ele e uma flores, para ele saber que eu não me esqueci dele.

AURORA Ela sempre faz isso. Quando fica mal, vai até o cemitério. Eu não digo
nada.

CONCHA para Mundo Rodrigo era ajudante de pintor, tinha 17 anos e estava no
alto de uma escada para pintar a parede, quando um cara virou a esquina e
derrubou ele da escada. Ele tinha a missão de matar um menino que queria
sair fora de um bando de criminosos e esse foi o fim do meu sobrinho. Morte
por engano. O bom Deus deve ter dado risada.

AURORA O cemitério parece uma lavoura. É, uma lavoura de Deus. Não tem
árvores, nem flores, nem bancos. A maior parte dos túmulos está
abandonada, se afundam na terra cobertos pelo mato e capim, aqui e ali
sobra uma cruz torta.

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CONCHA Eu fico imaginando se os mortos saíssem das covas, eu ia poder ouvir
todas as vozes deles. Cada uma ia me contar um acontecimento, o mais
importante acontecimento da sua vida e nenhuma única biografia se
perderia.

AURORA Eu acho que ela gosta disso. Por que será. Você parece tão normal, a
mórbida sou eu.

CONCHA Fico imaginando as vozes desses rostos: naquele muro meio alto à
esquerda da entrada, centenas de imagens ovais com o retrato dos mortos.
Sem nomes. Só os rostos. E ali eu me encontrei com ela. Aurora. No dia
25.11 do ano passado. Aponta para Aurora. Usava um modelito brega e
parecia uma dama.

AURORA E eu disse para esse barrilzinho, para essa codorna podre, parada ali
no meio do barro com seus sapatinhos de secretária que logo pus reparo –

CONCHA Fique mais um pouco aqui, ela disse. Estou vendo os retratos
esmaltados. Um por um.

AURORA Conhece algum deles. Ela balança a cabeça.

CONCHA Caso encontre um rosto caído, perdido nesse deserto, então entregue-
o à administração do cemitério por favor. Eles vão colar no muro, para que
ao menos por um tempo fique em ordem. Chegue mais perto..

AURORA E eu olhando os retratos. Um por um.

CONCHA. Conhece algum deles. Ela balança a cabeça. – Caso reconheça um


rosto e saiba a quem pertence, um nome, uma história, uma data de morte,
então diga porque aí a gente pode juntar o rosto com os familiares. Chama-
se jogo da memória, mas quem vai ser o ganhador.

AURORA No muro não têm muitos lugares vazios, de um rosto que tenha sido
reconhecido e tirado de lá. – De volta à família.

CONCHA Não. Silêncio. Muito bonito, seu vestido..

AURORA Lindos sapatos nos seus pés.

CONCHA Assim a gente foi ficando amiga.

Pausa.

CONCHA Aurora não tem coragem de ir sozinha ao cemitério. Ela tinha um


namorado, deve ter sido faz uma eternidade, que um dia foi encontrado

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morto na cama, -- o vírus -- , e os ossos dele estão guardados num nicho. A
Aurora diz que aqui assaltam mulheres sozinhas . Então ela vem uma vez
por ano de ônibus e deixa as flores na entrada.

AURORA Você tem de encarar os fatos, a Concha disse para mim, eles não vão
assaltar você por ser mulher, mas por não ser. Então não fica se borrando
nas calças. E aí vamos juntas procurar o túmulo do coitado do meu Paulinho,
eu já me esqueci onde ele está enterrado.

CONCHA Assim a gente foi ficando amiga.

AURORA Concha me disse, Aurora, sinceramente, os teus cabelos estão


horrorosos, mas eu gosto das tuas unhas. E eu disse, Concha, sua concha
do brejo, você devia ir ao dentista. Você devia ir ao dentista antes de abrir a
boca desse jeito. Pausa. E assim vamos ficando amigas. Pouco a pouco.

CONCHA É, bem devagar. Pausa. Quando contei para ela do meu chefe e dos
negócios dele e do Paraguai, a testa dela ficou sombria. Eu digo a ela que
não é pior que ficar oferecendo a bunda siliconada nessas boates fedidas,
como você faz.

AURORA Eu digo que sou uma artista e que você não entende nada disso; mas
um dia vai te acender uma luz, o amanhecer de Córdoba, o amanhecer,
como fica feliz pelo dia, como fica feliz pela vida, como luta por cada dia, e
pela vida que havia sido negada a ela; mas esse coração, essa alma, ainda
assim tenta ser ela mesma...

CONCHA Meu Deus, ela é tão patética – .

AURORA Mas ela me escuta, Concha me escuta. Eu animo ela. Não é verdade
Concha.

CONCHA A história do Panamá. Conta a história do Panamá. – Não, conta


como você roubou o amante do delegado em Santa Cruz e foi expulsa da
cidade. Não – conta – conta do quebra pau do outro dia.

AURORA Nunca me meti em quebra pau, nunca, qual é. Mas você não me
escuta, você não me escuta.

CONCHA Então conta de quando você era menino.

AURORA Vou precisar de um trago então.

Mundo enfia um cigarro para fora do buraco. Aurora fuma.

CONCHA Mundo, escuta. Para a crônica. Ele ainda está escrevendo a crônica.

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AURORA O menino de 12 anos, que era eu, saiu correndo do quarto de hotel
onde o homem, que consertava carros na garagem do hotel tinha acabado
de meter o pau no cu dele; o menino de 12 anos, que era eu, desceu
correndo as escadas, passou pelo saguão, desceu a rua para casa,
escondeu-se no seu quarto, limpou o sangue da bunda com as toalhas
brancas que a sua avó tinha bordado e que a mãe encontrou no dia seguinte
debaixo da cama, mal lavadas, molhadas. Enrique Enrique Enrique, meu
irmão se chamava assim, Enrique o que você aprontou com o meu menino
Enrique já tinha estado preso por causa de uma briga. Enrique Enrique
Enrique, Enrique deu de ombros mas por acaso o homem, que estuprou o
menino de doze anos que era eu, também se chamava Enrique e os gritos
da minha mãe ecoaram pela rua, tão alto que eu pensei que o outro Enrique
ia ouvir e pensar que eu tivesse dedurado ele e aí ele nunca mais ia pagar
100 cruzeiros pela minha bunda, porque ele deu, ele deu 100 cruzeiros pela
minha bunda, e eu, eu pensei que agora que as minhas pregas já tinham se
arrebentado mesmo, agora que eu conheço a dor, eu vou morder os dentes
e cada dia ele vai ter de dar um pouco mais, esse Enrique, pelo meu silêncio
e pelo prazer dele, e quem sabe o meu também; mas enquanto eu pensava
meu tio apareceu e disse, o menino estava no hotel, estava num quarto com
o mecânico, e trouxeram o Enrique dos carros; e ele vestia uma calça branca
e uma camisa branca e disse com seus dentes brancos, o menino me
seduziu, passou dias me rodeando e rodeando o carro e ele queria 150
cruzeiros, para dormir comigo, já pensou, 150 cruzeiros, isso é quase o que a
minha irmã ganha no correio, é, eu levei ele pro meu quarto, arrastei ele pelo
braço, é verdade, para castigar ele e antes que eu percebesse ele me tirou
150 cruzeiros da gaveta e saiu correndo e agora eu estou querendo o meu
dinheiro de volta, e além disso, acaso eu tenho cara de bicha, isso também
vai custar extra pela difamação. O menino de 12 anos, que era eu, foi
trancado no seu quarto. Pausa. Eu vesti as roupas da minha irmã e fiquei
me exibindo pela janela para as pessoas que passavam na rua. Minha mãe
dizia você vai acabar como a Marlene Fernandes que canta no puteiro com
uma banda, o meu pai me pegou pelo braço e disse lute, lute meu filho pelo
que tem dentro de você. Seja lá o que for. Depois disso a minha mãe nunca
mais falou comigo e eu falsifiquei a minha identidade; com 15 anos, eu me
emancipei e deixei a cidade com um grupo de dança e ainda levei comigo as
castanholas mais preciosas da minha mãe, cor-de-rosa, presente do meu pai
de Castilha, que eu trago comigo.

Longa pausa.

CONCHA E assim a gente foi ficando amiga. Pausa. Agora já estou melhor.

AURORA A história animou você..

CONCHA A história me animou..

AURORA Isso significa que não vamos ao cemitério.

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CONCHA Vamos até o bar. – Espera. Pega uma máquina fotográfica. Junta todo
mundo aí. – Uma foto a cada dia. Bate a foto.

As duas saem. Pausa. Concha volta, com um cigarro aceso. Enfia pelo burcao do
saco. Mundo fuma.

CONCHA Eu não posso contar para ela. Eu não posso contar para ela. Ela é
minha amiga e eu não posso contar para ela. Silêncio. Dá de ombros. Eu não
posso contar para ela. Silêncio.
Ainda por cima ela tem alergia a gato. Às vezes ela tosse por causa de um
pelinho que fica na minha roupa, por acaso. Não dá para escovar com mais
cuidado ainda. Aurora odeia gatos. Então o que eu posso fazer. Pausa. Eu
não posso contar para ela. Sai..

19
06.

Mundo. Homem de terno, mala e celular.

HOMEM DE TERNO, MALA E CELULAR Meu nome é João. É, João. Esta é a


minha mala. Já não é mais nova. Mas é uma mala. Dentro dela, vou mostrar
pra vocês: um terno, um celular . O resto das minhas coisas eu estou
vestindo: as calças, a camiseta e as sandálias,. E – espera aí – dinheiro, 15
reais e 33 centavos. Tem um problema: estou procurando emprego e o meu
pai vai ser enterrado. Amanhã. A quinhentos quilômetros daqui. Só chego lá
de ônibus. A passagem custa uma fortuna, que eu não tenho. Pois é. Tenho
de vender o celular. Ou o terno. Ou a mala. Pausa. Deixei meu número em
oito lugares, escritórios, fábricas. Procurar trabalho é como malabarismo,
sempre tem alguma coisa que fica no ar. Pausa. O celular não vai dar, de
jeito nenhum. Ninguém vai poder me ligar para avisar do emprego. A mala. A
mala daria se eu não precisasse dela para guardar o terno. Como vou levar o
terno limpo e sem estragar sem uma mala. Por outro lado, sem o terno eu
também não ia precisar mais da mala. Então posso vender o terno e a mala.
Mas como vou arrumar um emprego sem terno, com essa trapo que estou
usando. Sou funcionário de escritório. Imagina só num escritório, como vai
ser. . Não tenho gravata, tá, isso ainda dá para passar. Tem que fechar o
olho. Não tenho camisa. A camiseta branca na verdade é para usar por
baixo, dá pra ver pelo tecido, é claro que dá vergonha, mas de repente eu
posso imaginar que sou um Marlon Brando, com esse corpo, ele sempre
andava de camiseta, ou eu fecho o paletó até o alto. Claro que ficava melhor
se eu raspasse os pelos do peito. Mas com o quê. Com o quê. Melhor eu
pegar um guardanapo de papel, que arrumo em qualquer boteco e enfio
assim na frente, no decote, como antigamente – como chamava, camisa de
peito, sei lá; os guardanapos têm uma estampa listrada, nem fica ruim não e
tem a vantagem que, precisando, é fácil de trocar. Uma camisa descartável.
E aqui, no bolso de fora do paletó, os guardanapos também são muito úteis.
Eu já vi numa revista, mas eu acho, que agora no meu caso seria exagerado.
Sapatos – também faltam, só tenho esse chinelo de dedo, mas as pernas da
calça são bem compridas, eu puxo elas para baixo, e para frente e na
entrevista eu cruzo os pés debaixo da cadeira, atrás e aí ninguém vai ver.
Pausa. Olha os pés de Mundo. Ele tem sapatos. Sapatos de verdade. O
terno é necessário, sem ele a coisa não vai pra frente. Barbeiro – não posso
pagar, eu mesmo corto. Ou um colega me ajuda. Todos temos o mesmo
corte de cabelo, reto na frente por cima da testa, caídos dos lados num
ângulo de 90º e atrás, na altura do queixo, da direita para a esquerda, quer
dizer que o mais importante são as linhas retas, para não parecer
desgrenhado. E quando não dá para lavar é só pentear para trás com um
pente úmido, pra ficar no jeito, mas se houver tempo eu pego um saquinho
de açúcar – o melhor é logo pegar no bar junto com os guardanapos – então
coloco um pacotinho de açúcar na mão e misturo com cuspe até formar uma
massa líquida, bem fresquinha – junto as palmas das mãos e divido em duas
partes – aí é só espalhar uniformemente por todo o cabelo. Bem suave e

20
com delicadeza, por favor. Depois não vai me ficar parecendo um punk
morto. – Isso, junto com o terno, sempre pega bem. Abaixa-se e desamarra
um dos cadarços dos sapatos de Mundo. Não posso me dar ao luxo da
moda. Já tive um cinto com pinos de metal, alternado, um pino, um furo, o
pino encaixava no furo. Couro preto, pra lá de chique, combinava muito bem
com o terno. O problema era que a calça era muito larga e comprida demais.
Quando eu colocava o cinto eu tinha que virar a calça por cima e dobrar. A
calça ficava parecendo uma saia de pregas, uma saia-calça pregada
colorida. Fiquei com vergonha. Abaixa e desamarra o outro cadarço. Aí
vendi o cinto e um compadre de uma oficina de costura me fez essas pences
na calça, para que assentassem, vou mostrar, ficou assim, uma pence de
cada lado e na frente e atrás de cada perna. Agora não fica escorregando
toda hora.
É agora só estou esperando um telefonema, aí podia começar a minha
entrevista.
Espera. Senta-se ao lado de Mundo. .
Acho que vou vender a mala. Vou procurar uma sacola limpa e um jornal
velho. Esfrego as folhas do jornal uma na outra para ficarem bem macias,
como seda. E para tirar o grosso da tinta preta, se não fica todo manchado.
Vou dobrar bem dobradinho, e embrulhar com jornal, talvez eu encontre
papelão pra colocar no meio para dar estabilidade – aí é só cuidar bem da
sacola. Melhor ainda, eu sento em cima que aí já fica passado.;
Isso mesmo.
Abre a mala.

Por acaso você não está precisando de uma mala.


Alguém precisa de uma mala.
Troco mala por passagem. Troco mala por passagem.
Dá um sopapo em Mundo que cai para trás, abaixa-se , tira os sapatos dele,
joga-os dentro da mala e sai correndo com o furto.

21
07.

LARANJAS II

Cena como em Laranjas I.

SRA. MIRADOR Não foi você quem decidiu.


Ninguém te perguntou.
Nem a mim
Ser um policial
Com um filho desses.
Um honesto e outro com as mão sujas.
Ele gostava tanto de laranja.
Comia com a casca.
Não, mordia elas
mordia elas com a casca.
Pegava uma dúzia inteira
escovava as frutas debaixo da água quente,
uma depois da outra,
mordia, arrancava um pedaço com a casca
e chupava o suco com dentes língua e lábios,
no final ainda
com todo cuidado, com dentes língua e lábios
conseguia separar a pele branca da casca,
para rasgar o mínimo possível
desprendia a pela branca da casca,
passava um tempão mastigando bem.
Era um prazer ficar vendo.
Ver meu filho chupando laranja
Me dava o maior prazer na vida.
Meu filho chupador de laranja,
devorador de laranja,
apreciador de laranja
era tão autêntico.
Eu esquecia todo o resto
ao redor dele
quando eu via ele chupando laranja.
Pausa
O que ele mais gostava era da pelinha
Branca da fruta.
Pausa
Ele cuspia os caroços no chão.
e deixava as cascas caírem.
em toda parte. Onde fosse.
Na cozinha, na sala, na banheira
onde ele estivesse,
simplesmente deixava as cascas caírem,

22
simplesmente cuspia os caroços.
A casa inteira cheirava a laranja,
quando chegava em casa e jantava,
porque o jantar dele era só laranja.
Sempre comia laranja à noite
Sempre à noite.
Nunca de manhã. Ou ao meio dia.
Sempre à noite.
Depois, você começou a comer laranja.
A qualquer hora do dia, da tarde, da noite.
Sempre. A qualquer hora.
Por isso é que você está deitado aí morrendo.
Você não comeu mais nada além
das laranjas.
Porque você queria ser
como o meu filho.
Pausa
Antes de sair de casa à noite,
Ele também comia laranja.
Ele praticamente saía todas as noites.
Toda noite comia suas laranjas antes de sair.
Você também não ficava em casa .à noite.
Cada vez mais o turno da noite.
Cada vez mais.
Eu não pregava o olho.
Ficava esperando
por ele
e por você também.
Escorreguei no corredor
nessas laranjas de merda
cascas de laranja de merda
nesse bagaço nojento chupado.
Escorregava na sujeira dele,
toda hora.
Eu deixava ali,
queria que ele mesmo limpasse
pelo menos uma vez
pelo menos uma vez
que ele mesmo limpasse,
essa nojeira,
queria colocar ele de joelhos
que ele lambesse, essa sujeira de laranja de merda,
o suco de dentro da fruta estragando,
queria bater nele,
pra que ele não ficasse cuspindo e
deixando cair tudo no chão
por não se importar com

23
quem morava com ele afinal alguém vai
limpar a minha sujeira desse mundo –
alguém vai limpar a merda da minha bunda,
é só ficar um tempo sem eu limpar
se eu passar um tempo fedendo por aí –
ele arrastava os pés pelas laranjas
quando voltava pra casa
de madrugada.
E você acha que eu não cheiro –
Acha que eu não cheiro --
Você acha que eu só sinto o cheiro dessa tua pele de laranja –
Você acha que eu não sei o que você está fazendo —
A sola dos pés grudentas —
O lençol amarelo --
Tinha cheiro doce, adocicado –
Pausa.
Ele sempre tinha cheiro de laranja --

24
08.

SR MIRADOR Ele não voltou para a Praça, claro que não. Fazia os seus
negócios em outro lugar e eu sabia que ele fazia em outro lugar. Eu podia
sentir. Eu notava nos gestos dele, nas mãos, que ele às vezes esfregava na
costura da calça, as unhas que ele escovava debaixo da água corrente,
apressado, como se pudesse lavar o cheiro, as marcas, o conhecimento do
seu negócio no córrego. Eu via pelo cabelo, que ele penteava molhado toda
manhã, eu via pelo cinto que ele ajeitava, os sapatos que usava, eu via pelo
gorro que só tirava da testa quando pensava que não tinha ninguém olhando.
Eu reconhecia todos os momentos que eu tinha visto centenas de vezes
quando escurecia, à noite na praça Roosevelt, quando eles estão juntos,
aparentemente ociosos, às vezes brigando feito gatos no cio, mas na
verdade sempre atentos, quase eletrizados, antes de guardar a muamba
debaixo do concreto da calçada e antes de subir nas árvores para dormir.
Meus companheiros recebiam a parte deles e também dormiam. Eu não
recebia nada e não dormia nem de noite nem de dia. Talvez eu preferisse até
que o meu filho fosse um cliente, não um dos que vendem, é sim, eu queira
que fosse comprador, aí talvez ainda tivesse tido esperança. Eu sabia que
ele estava procurando trabalho, um trabalho de verdade, com salário fixo. Ele
se candidatou na fábrica ali na praça e não arrumou emprego. Pausa. O que
ia ser dele? Às vezes ele ficava dias e noites desaparecido. Comecei a
procurar por ele, de noite, sozinho.

25
09.

Noite. Concha se arrasta pela praça carregando uma caixa grande de papelão.
Tem algo vivo dentro dela. Ela tenta deixar a caixa em vários lugares. Fala com
Mundo por precaução “você não viu nada, não viu nada, você não tem nada com
isso.” Por fim deixa a caixa debaixo de uma árvore e vai embora. Volta depois de
um tempo, novamente indecisa, pega a caixa e sai andando.

26
10.

Bar vazio, exceto por Vito e Bingo sentados em mesas separadas. Cada um com
uma bebida à frente. Vito olha ao redor com rigor. Silêncio. Televisão transmite
jogo de futebol.

VITO Não entendo nada de futebol. Nada de nada. Absoluta e radicalmente


nada. Provavelmente eu sou o único aqui que não entende nada de futebol.

BINGO Precisando de ajuda, é só o senhor dizer.

VITO Só preciso de um pouco de ar puro. Só isso. Sair da rotina. Mudar de


ambiente. Um outro ângulo. E a senhora está atrás de quê.

BINGO Eu detesto o ar puro. O sol que brilha. O campo cheio. As famílias


levando suas crianças prá lá. Uma barulheira. Pausa. E isso num dia de
folga, isso eu não agüento.

VITO O senhor trabalha com o quê.

BINGO Isso vai lhe interessar menos ainda que o futebol.

VITO Experimente. Estou num momento de mudança.

BINGO Preciso poupar a minha voz.

Silêncio

BINGO Gol.

Pausa.

VITO Pra quem.

BINGO Pros outros.

Silêncio. Bingo fala palavras sem som.

BINGO alto, devagar Um a zero. Vinte e três e dezenove.

Vito olha preocupado. Pausa.

VITO Veja só, que estranho. Faz oito anos que tenho meu escritório no prédio
aqui do lado. Mas nunca tinha entrado aqui antes. Nem uma única vez.

27
BINGO Por quê.

VITO É. Por quê. Silêncio. Sempre fiz tudo como o meu pai. A fábrica, o
escritório, eu herdei do meu pai e ele nunca entrou aqui. Talvez por isso.

BINGO O senhor é velho demais para fazer tudo como seu pai. Olhe para o
senhor. O senhor não é pai também.

VITO ri Não, não sou não. Sou só filho. Infelizmente. Pausa. Meu pai morreu faz
dois anos.

BINGO baixo Oito. Dois.

VITO É. Pausa. Meu escritório é mais ou menos do tamanho desse lugar aqui e
só tem duas mesas. A dele e a minha. Numa distância parecida com essa
entre a gente aqui. Pausa. A gente discutia tudo um com o outro, eu não
encomendava uma chave de fenda sem perguntar para o meu pai. Faz dois
anos que fico sozinho no escritório, faz dois anos uma cadeira vazia e uma
mesa vazia. É com elas que eu falo, como se meu pai estivesse presente.

Silêncio.

VITO Isso significa que eu falo comigo mesmo. Eu só imagino que falo com o
meu pai, mas na verdade eu falo comigo mesmo.

BINGO Fabrica o quê..

Silêncio.

VITO limpa a garganta Armas.

BINGO Harpas. Cordas para harpas.

VITO Não. Tambores. Tambores.

BINGO Tambores e cordas para harpas. Combinação esquisita. Eu tocava


bateria.

VITO Tambores. Tambores para revólver.

BINGO Oh. Ah sei.

VITO A senhora vê como é. Fim de papo. A senhora já não me conhece mais.

BINGO Não, eu –

28
VITO Tudo bem. Para mim tanto faz. Se a senhora soubesse quanto vezes isso
já me aconteceu, é a coisa mais normal. Todo mundo quer segurança, quer
proteção, todo mundo quer que a polícia ande armada, todo mundo quer ter
o direito de se defender por conta própria numa situação de risco, com um
revólver pequenininho, uma pistolinha de bolsa de mulher, não é verdade – e
a senhora pensa o quê, que esses brinquedos vem de onde, que eles caem
do céu, que o bom Deus joga de lá de cima pra cair na cidade?

BINGO Não, eu –

VITO Tá certo. Não precisa falar comigo. Já não falo com mais ninguém mesmo.
Dou as ordens para a minha secretária e aí vou para a minha sala e por cima
da cadeira vazia atrás da mesa vazia vejo o rosto vazio do meu pai e falo
comigo mesmo.

BINGO Está vendo, já eu falo o dia inteiro, por isso –

VITO Cuide da sua voz. Claro. Pausa. É melhor mesmo. Cuidar da nossa voz.
Vamos parar de falar. Pausa. Como a minha mãe. Ri. Quando chego em
casa, falo com a minha mãe. Toda noite. Toda noite. Toda manhã. Mas ela
não responde. Ela não fala mais. Estourou uma veia aqui em cima e então
adeus. Pausa. Ela não faz mais nada, nadinha. Reformei a casa para ela,
para que as enfermeiras pudessem andar com ela na cadeira de rodas por
todos os lados. Quatro enfermeiras se revezam em turnos. Ela não se mexe,
não move um membro, ela é alimentada com uma sonda. A única coisa que
faz é engolir. Engolir, dormir, cagar.
Silêncio.
Ela é a única pessoa com quem eu converso. É uma planta. Eu converso
com uma planta. Pausa. Eu suponho que ela sinta alguma coisa mas não sei
o quê. Observo a planta, dou comida, olho nos olhos dela, dou banho, dou
carinho, penteio, cheiro. Pausa. Coloco no sol, deixo cair luz no rosto e nas
mãos. Pausa. Não sei. Silêncio. Essa é a minha vida. Produzo armas e amo
uma planta.

BINGO O senhor às vezes também tem a impressão que essa sua vida aqui não
é a sua vida de verdade.

VITO Como assim.

BINGO Assim. Como se a vida que estava destinada ao senhor estivesse em


outro lugar. Que existe. Existe em outro lugar. Mas que em algum momento o
senhor perdeu o caminho. Pausa. Tomou uma decisão errada uma única
vez. E agora a sua verdadeira vida está acontecendo sem o senhor.

VITO Nunca pensei nisso..

BINGO Num mundo paralelo.

29
VITO E como fazer para juntar as duas de novo. Como fazer para conseguir
voltar para a sua vida de verdade.

BINGO Não sei. Mas às vezes eu duvido que a minha vida possa ter sido
planejada assim, que eu tenha que passar o dia todo ditando números.
Porque é isso o que eu faço, profissionalmente. É por isso que eu não gosto
de ficar falando. Preciso cuidar a minha voz. E eu também treino. Nos
intervalos. Os números têm de ser apresentados discretamente,
delicadamente, mas ainda assim com nitidez, num volume apropriado. Vou
mostrar como. Vai até o proscênio, fala um monte de números, como no
salão de bingo. Quando fico rouca, faço um gargarejo de manhã e de noite
com folha de pitanga macerada, deixo curar por vinte minutos. Essa é a
minha vida. Tá certo, não passo fome e não fabrico armas. Então é isso.

Silêncio.

BINGO Talvez o senhor não esteja mais acostumado, mas isso agora foi uma
pergunta. Dirigida ao senhor. Então é isso.

VITO Meu nome é Vito. Fico muito feliz por ter conhecido a senhora.

BINGO Bingo.

VITO E como a senhora se chama.

BINGO Bingo. – Meus amigos me chamam de Bingo..Pausa. Tá certo. O senhor


foi honesto comigo, vou ser honesta com o senhor também. Na verdade, não
tenho nenhum amigo. Mas às vezes fico imaginando que eu teria alguns e
que esses amigos me chamariam de Bingo. Pausa. Agora o senhor pode
imaginar onde eu trabalho. Quer dizer – isso vai durar pouco. As casas de
Bingo vão ser fechadas. O jogo vai ser proibido. Pausa. Fica o futebol.
Pausa. Eu só treino por força do hábito. Porque até agora não apareceu
outra coisa para mim. Mas isso é passageiro. Tenho certeza absoluta.

VITO Me lembro da época em que eu achava muita coisa possível. Mas daí. A
gente aprende logo a aceitar a cama de pregos que a vida dá pra gente. A
gente se deita nela e aprende a não gritar de dor. Uma cidade inteira de
faquires. Mas vai melhorar quando a gente começar a mostrar as nossas
feridas.

BINGO pensa Também já experimentei yoga para relaxar, mas não adiantou
muito. Mas eu não fico insatisfeita o tempo todo.

VITO É isso mesmo o que eu acho.

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BINGO Às vezes eu até que acho a minha profissão legal. Achava. Pelo menos
eu trazia sorte para as pessoas. Veja bem, o legal é que, tanto faz o número
que eu cantar, sempre tem alguém que ganha. Pausa. Apresentadora de
telejornal, apresentadora de telejornal eu não podia ser. Mas locutora de
bingo é outra coisa. Uma locutora de bingo é quase como se fosse uma fada
lotérica. Pausa. Era – era quase como uma fada lotérica.

Silêncio.

VITO Que besteira. Isso é uma grande besteira muito grande. Pause. Que
coincidência mais besta.

BINGO Qual.

VITO É que eu estou demitindo os meus funcionários. Já são 28. E cada vez
aumenta mais. No final, vou acabar fechando a fábrica.

BINGO Gol. Pausa. Contra. Um a um vinte e quatro minutos, número 11..


Pausa. Não tenho pena nenhuma.

Pausa. Vito ri.

BINGO E por quê. O senhor está falido.

Pausa

VITO Eu estava feliz com a minha vida. Era feliz. Pelo menos eu achava que era.
Não conhecia outra coisa. Pausa. Mas sabe, quando eu penso no meu
futuro, que vai continuar o mesmo e eu também vou continuar o mesmo,
quase que não dá para agüentar.

BINGO Entendo.

VITO Posso contar uma coisa pra senhora. Posso contar uma coisa que ainda
não contei para ninguém.

BINGO Pode. Claro.

VITO Alguma coisa mudou. Desde que eu comecei a ficar sozinho no escritório.
Sozinho comigo mesmo. Ninguém me apressando. A papelada na minha
mesa aumentando, formando pilhas tortas e eu sem vontade nenhuma, nem
de pegar na mão. Se tinha alguma coisa muito urgente pra tratar, a minha
secretária resolvia. Eu podia passar um tempão sem fazer nada. Não fazia a
menor diferença. A menor diferença. Pausa. Eu passava tardes inteiras na
janela, olhando a praça lá embaixo, a igreja, o posto policial. Pausa. E daí,
uma noite, quando o sol estava se pondo, as folhas das árvores em brasa,
um policial saiu da guarita e se aproximou de um menino que estava debaixo

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das árvores. O menino tinha alguma coisa nas mãos e entregou para alguém
na árvore, sei lá, um traficante mirim, entregando seu serviço, talvez algum
papelote que sobrou, não consegui perceber. Ele vê o guarda, se assusta e
sai correndo. O homem atrás dele. Eu fico admirado com esse pacto
silencioso, a gente deixa vocês em paz e vocês a gente, mas esse guarda
resolveu correr atrás do moleque, com uma cara desesperada, chama ele, o
moleque correndo, a mão do homem pega o revólver, já puxou o revólver,
então ele percebe e fica parado. Ele ainda grita alguma coisa para o
moleque, que nem vira a cabeça e some.

BINGO Conheço o policial. Seu Mirador. Seu Mirador sempre faz a ronda
sozinho. Às vezes fica parado na porta do salão de bingo e assiste uma
rodada. Às vezes eu dou uma cartela pra ele. Uma baratinha. Ele nunca
ganha nada.

VITO Fiquei pensando no sistema de alarme que tem de cuidar da segurança da


minha casa, fiquei pensando quantas vezes eu mesmo fui ameaçado;
quando eu era criança os ladrões entraram pela garagem, cortaram a
garganta do cachorro, amarraram os meus pais, pegaram um isqueiro e
queimaram as sobrancelhas do meu pai. Pausa. Todas essa lembranças não
me assustavam mais. Eu só não via o sentido delas. Achava a minha vida
sem sentido. No horário do expediente, comecei a ler livros de história que
são ainda do tempo de escola. E aí fiquei pensando que no fundo a história
de um país é a história das suas armas. Não a história das guerras, só das
armas. Onde, por quem e para que são produzidas, o que fazem com elas. E
você vai saber exatamente com quem está lidando.
Silêncio
E aí eu comecei a demitir os meus funcionários.

BINGO E aí conseguiu o quê com isso.

Silêncio.

VITO Estou me sentindo libertado.

SR MIRADOR Foi nessa hora que entrei no bar. De novo longe do posto. De
novo procurando. Pretendia beber umas cervejas mas, na verdade, eu queria
observar as pessoas, queria encontrar uma pista, uma pista que me levasse
ao meu menino, às pessoas com quem ele fazia negócios na noite.

VITO olha algumas vezes irritado para o Sr. Mirador, não o reconhece de
imediato. Bingo cumprimenta-o, acenando calada. Veja só. Veja só. Tira um
catálogo da bolsa, folheia-o, forçando Bingo a olhar. Calibre 38, todos os
tipos, a palheta para a polícia, seguranças, vigias. Aqui eu sou tenho uma
filial, aqui só faço os tambores. A matriz é no Paraguai. De lá faço os
melhores negócios. Quer dizer, fazia. A senhora entende agora –

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BINGO Entendi perfeitamente.

VITO olha para o Sr. Mirador É ele. Foi ele quem eu vi. Apontou a arma para um
menor de idade, um menino, bem menino, é ele –

BINGO Por favor, se acalme. Ele deve ter tido suas razões para isso.

VITO Não me interessa. Tanto faz. Para mim tanto faz. Se é traficante ou
policial, tanto faz. Ele estava com a minha arma, que eu fabriquei. Meus
trabalhadores. Ele podia ter matado o menino e teria sido o meu assassinato.
Pausa. Passei anos na frente desse posto policial, todo dia eu vejo batida
policial, toda vez que ultrapasso a fronteira, eu passo pelas armas que eu
mesmo produzi. Mas tanto faz para quem. Não faz a mínima diferença,
caguei, seu Mané vende presunto parma, onde é que tem uma boa arma,
arma é arma. Não faz diferença. Eu sabia, é claro, mas eu nunca tinha
entendido. Pausa. Até aquele dia.
Levanta-se e vai até o Sr. Mirador, estende-lhe a mão.

VITO Boa noite. O senhor me dá licença de me desculpar. Peço desculpas por


ter fabricado a sua arma. O senhor me perdoe, por favor.

Ele não espera pela reação do Sr. Mirador e vai até Bingo.

SR MIRADOR Foi aí que eu entendi que não tinha sentido mais pedir um
trabalho para ele, um trabalho para o meu filho. Já era. Eu olhei para as
minhas mãos e para a foto do meu filho que eu segurava. Olhei para o copo
de cerveja na minha frente, a parede, o luminoso e a lâmpada queimada
nele, olhei para o homem do revólver e sua amiga, como eles mexiam a
boca. E eu não escutava eles . Estava completamente sozinho. E sem
coragem.

BINGO Paraguai. Ah, sei.

SR. MIRADOR E enquanto eles falavam, entrou uma mulher, uma mulher
magra, morena com quatro, cinco sacolas cheias de plástico e papelão e
jornais. Ela se sentou na mesa entre nós e largou as sacolas. Uma mulher
com o rosto enrugado, ombros finos, um casaco amarelo de crochê e os
cabelos amarrados com um nó solto. Ela afundou o braço até o cotovelo
numa das sacolas e pescou um espelhinho que ficou segurando à sua frente,
nas mãos um bem valioso, um bem valioso ele próprio e um bem valioso o
que mostrava. A mulher observa os dentes, os lábios bem puxados para trás,
uma fileira de dentes em cima da outra. Os olhos caminham no pequeno
redondo insuficiente do espelhinho da direita para a esquerda, de cima para
baixo; as mãos movimentam o espelho, para que capte a imagem de cada
dente; os lábios se esforçam em desnudar o maior número de dentes e
quanto mais gengiva possível. Os dentes são fortes e grandes no rosto fino,
sem espaços, nenhum dente quebrado, nenhuma ruína, nenhuma mancha

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escura. A mulher levanta o rosto e nossos olhares se encontram. Eu me
lembro que sou policial, eu me lembro por que estou aqui. Vou até a mesa
dela e mostro a fotografia a ela e pergunto pelo menino. A senhora o viu. E
ela faz que sim, os lábios separados se transformam em sorriso, ela faz que
sim, faz que sim. Onde, eu pergunto, onde. Ela sorri, alegre, fazendo que sim
e pega de novo o espelhinho e admira os dentes, feliz.

Silêncio.

BINGO Paraguai. Ah sei.

VITO É, exato. Porque ainda tem isso. Sofri como um porco no Paraguai. O
Ninguém gostaria de viver num lugar como o Paraguai. Ninguém de livre e
espontânea vontade, vai quer viver no Paraguai. No Paraguai só vive
cachorro. E empregada doméstica. O Paraguai é o país mais deprimente de
todo o continente. Nem capital tem, ou pior, tem capital mas ninguém
consegue se lembrar do nome. Ninguém sabe o nome da capital do
Paraguai. Pode perguntar na rua. Pergunto para a senhora agora, qual é a
capital do Paraguai.

Longa pausa.

BINGO Assunção.

VITO É, isso mesmo. Assunção. Pode acontecer. De alguém acertar, um em mil,


acontece às vezes. A senhora sabe melhor do que eu. Pausa. Mas isso não
muda em nada o fato do Paraguai ser um buraco sujo, com ou sem capital.
No Paraguai só dá cachorro e ladrão. E algumas empregadas domésticas. O
Paraguai só existe para fabricar armas, só para fabricação de armas, o
Paraguai é o útero do armamento de guerra. Mas agora já chega. Pergunte a
alguém na Europa, que queira sair de lá, fugir dali, para onde é que vai, em
qualquer filme, qualquer filme de merda, para onde é que as pessoas fogem,
para onde é que levam a grana com segurança. – Para o Rio, claro. Ninguém
vai para o Paraguai, para levar uma boa vida.

BINGO Tá certo.

VITO Entendeu agora.

BINGO Entendi.

VITO É por isso que pessoas como eu podem tranqüilamente ficar fabricando
armas por lá.

BINGO Tá certo. Já entendi.

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VITO Se alguém me pergunta onde eu vivo, eu nunca digo Paraguai. Digo
Buenos Aires; ou Santiago, também é bom, ou o Rio, claro, o Rio é sempre
legal. – Cuba também dá, depende com quem a gente conversa; às vezes é
vantagem mencionar Havana numa conversa; mas o Paraguai, o Paraguai
em qualquer conversa te derruba lá em baixo.

BINGO E daí. E com os bingos então. Também não é muito diferente.

Entra Concha com ração de gatos.

CONCHA Seu Vito, o senhor está fazendo o quê aqui.

VITO Respirando. E a senhora.

CONCHA Bebendo.

VITO Deixe apresentar. Essa é Bingo. Concha, a minha secretária.

BINGO Conheço a senhora de vista. Domingo de manhã. Uma hora. Entre onze
e uma.

CONCHA É, domingo de manhã dou uma forcinha para minha sorte. Não passo
de uma hora, se ganhar ou perder, sou rigorosa. Às vezes ganho minha
ração de gatos. Gosta de gatos –

BINGO Não muito. Mas sente-se.

CONCHA Imagine. Não quero incomodar.

Os dois convidam ela a se sentar.

BINGO Seu chefe é bem simpático.

CONCHA Ha. há quanto tempo conhece ele.

BINGO Um pouco mais que meio tempo. Eu estou contando os gols.

SR MIRADOR Para provar que Bingo não estava errada, o homem do revólver
pediu uma garrafa de vinho e uma garrafa de Martini para Concha. E eles se
sentaram e conversaram e beberam. Daí um homem entrou no local, um
homem que tinha elefantíase. Era magro, com um corpo de membros
delgados, mas no rosto ele tinha elefantíase. Aproximou-se da minha mesa e
muito educadamente pediu se podia terminar a minha cerveja. Eu disse que
sim. Sedento, ele virou toda. Espere um pouco eu disse, espere um pouco, e
ergui a mão com a foto do meu filho. Ele olhou triste para mim e balançou a
cabeça, balançando as bochechas de um lado a outro. Ele perguntou se
podia experimentar o vinho e eles disseram que sim e ele virou até a última

35
gota. Primeiro pegou o copo, rodou-o de maneira profissional, deixou o resto,
que estava no fundo escorrer para dentro da boca e deve ter feito o vinho
dançar na boca, o que não dava para ver bem por causa da elefantíase e daí
engoliu e disse, ah, ótima safra, excelente uva e foi até a porta. Ficamos
olhando para ele, ele ainda voltou para beber também o último gole de
Martini do copo de Concha e todo mundo fingiu que achava aquilo
completamente normal. Um sujeito, que você nunca viu na vida, com
elefantíase, vem até a tua mesa e bebe o resto do teu vinho, com seu cuspe
e batom na borda, enxagüa a boca com ele e te fala se presta ou não, te
observa enquanto isso, não deixa você escapar dos olhos azuis ligeiros e daí
vai embora, o corpo dele descendo a rua, levando a cabeça pesada, para
dormir em algum canto, com sua sacola cheia de latas de alumínio e uns
tênis rasgados nos pés e só depois disso Concha cochicha, mas as mãos
dele eram de pianista...

CONCHA tira a máquina fotográfica da embalagem Um sorrizinho por favor.


Juntem no meio. – Uma foto por dia.. Dispara.

BINGO Perdemos o final. Dois gols no segundo tempo, aos 81 e 89 minutos.


Estou me sentindo estranha, preciso – acho, é melhor eu ir –

Levanta, anda alguns passos, desmaia. Vito e Concha juntam umas cadeiras e
deitam ela em cima, Mirador fica alerta. Bingo acorda.

VITO Querida Bingo – o que aconteceu – Ela quase não bebeu nada –

BINGO Sinto muito, tem um cheiro estranho. Um cheiro de – não sei, de –

CONCHA De lixo –

BINGO É, acho que é lixo -

CONCHA Sinto muito, isso vem do –

VITO Está bem agora Concha, agora vá para casa.

CONCHA embriagada Tá certo. Estou indo, estou indo. Vou sumir. Tenham uma
boa noite. Sai..

Vito leva Bingo para casa no colo.

SR MIRADOR E no final daquela noite, no final daquela noite, Suzana entra no


bar. Ela viu você lá de fora, está voltando para casa, atendeu o último cliente
e quer te dar um beijo de boa noite. Suzana é o mais lindo dos mais lindos
travestis, o corpo de Suzana é mais esplêndido do que um pintor seria capaz

36
de pintar, mais esplêndido até do que qualquer coisa que a natureza poderia
criar; nenhuma mulher nunca vai ter esses músculos suaves, essa carne
delicada, esses cabelos brilhantes e volumosos, essa bunda completa, esses
seios plenos. Tem homem que dormiu com a Suzana sem perceber que
estava transando com um homem; Suzana é grande e orgulhosa e ri com
uma voz escura, como uma voz de chocolate. Quando era novinha, Suzana
pôs uma bolsa de silicone na coaa , mas atrevida, não teve paciência e
pulou do repouso para fora da cama cedo demais e a bolsa foi escorregando
devagar pela perna durante longos e tortuosos dias, descendo pelo joelho
até o tornozelo onde presenteou Suzana com um pé eqüino e ali Suzana se
queixa de inchaço. Suzana faz um strip-tease super estonteante, vai usar
fitinhas e sininhos dourados no tornozelo inchado ou não vai tirar as botas,
Suzana é a mais bela das mais belas mas é envergonhada e se você ficar
olhando muito tempo pata o tornozelo inchado dela, ela vai fazer você
chorar...
Eu não precisava mostrar a foto para ela, eu só perguntei, só perguntei se
ela tinha visto o meu filho naquela noite, ela esticou a mão, quase me
acariciou a face, faz tempo que não vejo. Saímos juntos para a rua, caminhei
com ela por um tempo, na esquina estava o homem com elefantíase. Pensei
que iam combinar alguma coisa nessa noite, o homem com a cara estragada
e as mãos delicadas, a mulher com o corpo delicado e o pés inchado. E eu,
eu esperei, esperei que aparecessem outros seres na rua a quem eu
pudesse perguntar pelo meu filho... .

37
11.

Noite. Concha se arrasta pela praça carregando uma caixa grande de papelão.
Tem vida dentro dela. Ela tenta vários lugares onde deixar a caixa. Fala com
Mundo por precaução “você não viu nada, não viu nada, você não tem nada com
isso.” Por fim deixa a caixa debaixo de uma árvore e vai embora. Volta depois de
um tempo, novamente indecisa, pega a caixa e sai andando. Volta depois de
algum tempo, traz a caixa de papelão, põe novamente debaixo da árvore.

VOZ DE AURORA Concha – Concha –

Silêncio.

VOZ DE AURORA Concha, o que é que você está fazendo aí –

Silêncio.

VOZ DE AURORA O que você está fazendo com essa caixa –

Silêncio.

VOZ DE AURORA O que está fazendo o gato dentro da caixa – Você vai fazer o
quê –

Silêncio.

VOZ DE CONCHA Quero me livrar dele. Pausa. Tinha esperança que alguém
encontrasse ele, que tomasse conta dele. Não agüento mais. Não dá mais.
Eu queria ir dando de um em um, para poder ficar em paz

VOZ DE AURORA Em paz o quê –

VOZ DE CONCHA Mas você tem alergia. Você odeia gatos. Pausa. Aí eu não
consegui. E se alguém encontrar e fosse afogar ele. Ou deixar morrer de
fome na caixa. Então eu peguei de volta.

VOZ DE AURORA Concha, o que está acontecendo com você –

Silêncio.

VOZ DE CONCHA Eu vou morrer. Pausa. Pode ser que leve ainda algumas
semanas. Pode ser. Se eu tiver sorte. Pausa. Câncer linfático. Não faz mal
Aurora, ao menos eu sei do que eu vou morrer. Eu posso me preparar.

Silêncio.

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VOZ DE AURORA Os teus filhos estão sabendo.

VOZ DE CONCHA Ninguém, ninguém sabe. Você é a primeira. – Você é a


minha família.

VOZ DE AURORA Vamos hoje no médico.

VOZ DE CONCHA Não adianta, Aurora. Pode acreditar.

VOZ DE AURORA Não por tua causa, por minha causa, minha querida, por
mim. Pausa. Deve dar para tratar da alergia a gatos. Pausa. Se alguém
tivesse me dito que eu ia herdar três gatos –

VOZ DE CONCHA Sete. Pinga deu cria.

Silêncio.

VOZ DE CONCHA Amo você, Aurora.

Silêncio.

VOZ DE AURORA Não por muito tempo.

Silêncio. Gargalhadas, parecendo crianças histéricas.

39
12.

Mundo. Maria.

MARIA Como é que o jogo se chama. Ainda não foi nem lançado no mercado.
Estou testando. Para que eles possam fazer os últimos acertos no programa
que é quase perfeito. Você escolhe um dia, uma hora, um ano, escolhe um
lugar. Você determina o sexo. Você escolhe a família, o País, a língua, a
formação. Todo dia você alimenta o computador com informações novas. O
computador cria uma nova personalidade, uma vida completamente nova.
Durante o dia vou até o jornal, no mesmo lugar onde trabalho há mais de
quinze anos, um buraco sem janelas, quadrado, onde fica a minha mesa, a
minha cadeira e o meu computador. Quando afasto a cadeira, a parte de
cima do encosto bate na parede. Com o passar do tempo, ao longo desses
quinze anos eu fiz uma marca na parede, como um sinal, daqueles que
marcam o crescimento da criança na parede. Minha marca se aprofunda a
cada semana, a cada ano, cava na parede, quinze anos no mesmo lugar,
quinze anos a mesma altura.
É expressamente proibido: utilizar os dados pessoais. É expressamente
proibido querer olhar se o acaso gerou um outro destino no computador.
Quando estou de folga – quando estou de folga, aí...
Gostava de ir ao bingo. Era uma distração. Conhecia as principais casas de
bingo da cidade. A que eu mais gostava era a da praça Roosevelt. Um lugar
agradável, com ar condicionado, onde servem café e água de graça. A
vontade.. Enquanto estiver jogando. A cantadora de números falava com voz
abafada, sem enfatizar. Eu gostava. Eu ia atrás da paz, do sossego.
Dificilmente eu ganhava. Com o que ganhava, comprava novas cartelas. Há
pouco tempo, os bingos foram fechados. Fico nos bares em volta. Às vezes
pego um cineminha. Minhas mãos ficam sem ter o que fazer.
Pausa
A pessoa do computador reage; escreve um diário para você, pra você
participar do seu desenvolvimento.
Acordei às 7:00h, não tomei café, atrasada pro trabalho, passei fome no
almoço. Café preto. À noite cinema. Quatro cervejas, fumei demais.
A pessoa vai ficando sua amiga. Você se acostuma com ela, com a
aparente troca diária de idéias.
Pausa
Eu fiz o que era proibido. Alimentei o computador com a minha própria data
de nascimento. Não sei por quê. Pausa. Reconstituir as condições iniciais.
Mais uma vez começar do começo. Pausa. Eu dei pra ela até o mesmo
nome. Minha amiga e irmã, meu gêmeo, meu duplo.
Bom dia Maria, dormi mal, tomei duas aspirinas com o estômago vazio, tenho
de ir.
Perdi muito dinheiro no bingo. Ganho dinheiro no jornal para torrar no bingo.
Não pago aluguel faz três meses. Moro na cada da minha mãe. Quer dizer, a

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minha mãe é que mora na minha casa. Isso significa que eu também não
paguei o aluguel da minha mãe. De noite ela fica me esperando. Nunca me
casei. Minha mãe dá a impressão de sair pouco de casa. Pausa. Durante o
dia ela sempre ia ao bingo. Eu percebia a barulheira no fundo quando ela me
ligava do celular e respondia, quando eu perguntava, que era o barulho da
televisão. Se você está em casa, por que está falando do celular, eu
pergunto. Porque eu posso, ela grita do outro lado e desliga.
A Maria do computador está cada vez mais parecida comigo. Todo dia
aparece com um caso novo a mãe trata todos bem. Trabalha num jornal e já
alcançou o mesmo cargo que eu tenho. Estudei política. Queria comentar o
que acontecia no mundo. A editora-chefe era para ser eu. Fiquei presa no
roteiro de cinema. Sinopses. Resumo as vidas inventadas e deixo os outros
julgarem.
Pausa
Às vezes folheio para trás, na parte de anúncios, escolho um número e vou
num hotel com um homem.
Estou com quarenta e poucos. Eu não tenho nem uma filha, com quem eu
possa morar, quando for velha.
Mas com a Maria aqui –. Posso criar um novo começo..
Oi Maria. Hoje não fui ao jornal. Passei horas no parque, olhando os cisnes
negros, como eles se atiram atrás do pão que as pessoas jogam. Ri Na hora
do almoço comi sem pagar. Ri. Os talhares foram parar na minha bolsa. E
um copo. E a carteira da minha vizinha de mesa. Ri Saí, andei duas quadras
e joguei tudo no lixo. Ri.
Eu ia mesmo ter de abandonar o jogo de bingo. As dívidas – Vamos perder o
apartamento. Vou perder o meu trabalho. Talvez agora fique tudo diferente.
Agora que eu não posso mais jogar.
Não tem de ser tudo diferente. Algumas coisas podiam mudar, só algumas
coisas.
Quando volto para casa, ela parece mais vazia do que antes. Me pergunto
com qual lembrança eu vivo. São os móveis que mudam ou sou eu. Ou eu
estou começando a olhar ao meu redor de outra forma. Com os olhos da
Maria do computador. Minha mãe compra pinga para ela, três reais a garrafa.
O primeiro trago, de manhã, no café.
Sexta-feira 21:00h, Não fui ao cinema como tinha planejado. Perambulei
pelas ruas. Abordei um menino no semáforo. Bonito, uns quinze ou
dezesseis anos. Paguei uma coca para ele e convidei-o para ir em casa. Ele
hesitou.
O Bingo, o Bingo é pura concentração. Exige toda sua atenção. Você tem de
reagir rápido, no bingo; se perder um só número, tá fora. O bingo me
estimula, é como se eu pudesse forçar a minha sorte, o meu prêmio, se for
rápida e boa o suficiente. Como substituir isso.
Dentro do carro abri a calça dele e coloquei o sexo dele na boca. A faca
estava debaixo do banco. Foi fácil. Uma estocada na barriga, o sangue jorrou
pelas mãos dele, ele queria se proteger. Cortei a garganta dele.
Tenho que rir – Tenho que rir.
Algumas coisas podiam mudar, só algumas coisas.

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Tenho que rir – Tenho que rir.
Não precisa ser tudo diferente.
O que fazer. Ir à polícia e dar parte da Maria do computador. Mandá-la pra
terapia. Deixar ela sofrer um acidente. Pausa. No jogo. De brincadeira.
Pausa. Vou marcar uma hora no psicanalista para ela.
Minha mãe me pede mais dinheiro. Diz que foi assaltada saindo do caixa
eletrônico. Mentira. Eu entrei no quarto dela. Não tem mais móveis ali dentro.
só um colchão. Nossa conta está bloqueada porque estourou o limite. Não
quero mais voltar para casa. A Maria está esperando em casa. Vai ao
trabalho obediente, uma semana inteira. Adiou a consulta na terapia.
Não precisa ser tudo diferente.
Um mês depois, Maria matou mais duas outras pessoas.
Algumas coisas podiam mudar, só algumas coisas.
Uma vendedora de uma mercearia, pouco antes de fechar a loja, um
entregador de pizza. Mais um mês e ela atirou no terapeuta, com quem
nunca tinha estado, nunca tinha falado, o contato mais próximo tinha sido por
um silenciador. Silêncio. Onde é que arrumei uma pistola com silenciador.
Silêncio. No jogo. Muito engraçado. Silêncio. Matei quatro pessoas. De
brincadeira. Muito muito engraçado. Na realidade não teria sido possível. Na
realidade você não iria saber onde arrumar uma arma ou como usar uma
arma para matar alguém. Ou ia. Na realidade eles já teriam te prendido faz
tempo. Essa realidade não é possível para você.
Na realidade isso não sou eu. É só um programa. Silêncio. A única
possibilidade. Mundo mostra uma placa com uma cruz preta pelo buraco do
braço.

MARIA Você vai ter que se matar.


(Silêncio)
Vou ter que me matar.

42
13.

Mundo. Concha. Aurora, com o antebraço cheio de testes de alergia.


Silêncio.

AURORA Adoraria poder ficar com eles. – De verdade.

CONCHA Eu sei. – Dessensibilizar você, mal dá para falar a palavra, a gente


devia imaginar que é impossível.

AURORA Teria sido uma superação. Mas eu teria feito.

CONCHA Eu sei.

AURORA Talvez você pudesse trocá-los por tartarugas, tartarugas inofensivas e


mudas, para mim seria o ideal.

CONCHA aborrecida.

AURORA Colocar anúncio. Doam-se gatos a mãos amáveis.

CONCHA Você não tem noção. Passa um tempo e as mãos não só deixam de
ser amáveis como escondem uma faca afiada e ficam especulando com
churrasquinho de gato.

AURORA Você não devia ficar imaginando sempre o pior.

CONCHA Em mim fala a voz da experiência.


Mundo enfia uma placa pelo buraco do saco: “Zôo”.

AURORA O que acha disso.

CONCHA Por mim.

AURORA À noite, na entrada.

CONCHA Coração pesado.

AURORA Bom, estaria resolvido.

Silêncio.

AURORA acaricia os cabelos de Concha que perde muitos cabelos. Não fica
triste.

Silêncio

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CONCHA Eu queria entender. Queria entender o que acontece com a gente. Se
existe alguma ordem. Qualquer uma. Pausa. Eu acho que o nosso cérebro
está organizado como uma cidade. Tem as ruas principais para os
pensamentos, que precisam ser pensados com rapidez e têm
congestionamento nos horários de pico, quando todo mundo vai pra rua ao
mesmo tempo; os atalhos para os que são do pedaço; esquinas sombrias,
angulosas onde os estranhos não se sentem bem; tem as periferias, que
cada vez mais vão sendo segregadas; trilhas que foram percorridas um dia,
agora cobertas de mato, e ainda têm as quebradas, em todas as regiões
possíveis.

Silêncio.

CONCHA Às vezes eu fico imaginando que a gente podia prender um


transmissor no sapato de cada cidadão, só por um dia. E tornar todos os
sinais desses transmissores visíveis. Aí eles iam se mexer como pontos
luminosos num espaço tridimensional. Vinte e quatro horas. Ia ser lindo,
muito lindo. Uma escultura luminosa, leve e arejada, em que o movimento
das pessoas na cidade ia ser como o movimento dos pensamentos num
cérebro.

Silêncio. Concha arranca mechas de seus cabelos. Aurora fuça na cabeça, tira a
peruca, coloca-a delicadamente sobre os cabelos de Concha, ajeita.

AURORA Essa peruca é do tempo em que trabalhei de animadora. No Panamá.


Faz muito tempo. Eu tinha, deixa ver –

CONCHA Deita a cabeça no colo Aurora Dezoito ou dezenove. –

AURORA Dezoito ou dezenove. O primeiro emprego de verdade depois que fugi


de casa. Quer dizer, na verdade eu tinha quinze ou dezesseis. E eu consegui
a vaga na boate. Naquele tempo eu ainda era menino. Os gringos gays
vinham da Flórida e levavam a gente para o quarto dos fundos. Eu tinha que
fazer com que eles enchessem a cara de whiskey e champanhe o máximo
possível. Ganhava uma comissão por cada drinque. Um crédito. Eu vivia
disso. Esses malditos estrangeiros ficavam prestando atenção que nem cão
de guarda, para que você não deixasse de beber também. Eu passava o dia
inteiro dormindo, à noite ia para o bar, ganhava uma refeição e comprava
bebida com os meus créditos, pra curar a ressaca. Pausa. Não consegui ver
o canal do Panamá nenhuma vez.

CONCHA Durante cinco meses -

AURORA Cinco meses de cara cheia, direto..

CONCHA Torta demais para o canal do Panamá.

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AURORA Nunca vi o canal do Panamá e agora estou aqui na Praça Roosevelt.
Isso também é uma ironia.

CONCHA Mas a praça não é dele. Não é do Teddy, é do Franklin.

AURORA Fica tudo em família.

CONCHA Você trepou com eles, com os americanos.

AURORA Iiiiih, eu cuidava da minha reputação. Eu só fazia truque. A gente


chamava assim. Era truque, não era puta. – É, de vez em quando eu me
dedicava mais a um ou outro. Mas só quando eu estava a fim. Pensa o quê.
– Eu queria era cantar e dançar. Eu ensaiava na frente do espelho com as
castanholas da minha mãe. Silêncio. Toda vez eu dava um jeito de entrar no
show, Aurora de Córdoba. Investi todo meu dinheiro em figurinos. – No
começo eles ficavam encantados. Quem era essa moça. Na terceira ou
quarta entrada, o gerente da boate ficava cismado, entrava no camarim,
fungava na minha roupa. Metia a mão no meio das minhas pernas. E aí me
botava para fora. Pausa. Aí eu voltava para o meu quartinho dos fundos e
continuava enchendo a cara com os gringos. Pausa. Eles eram ricos e
generosos, até eles acharem que você queria passar a perna neles. Nunca
mais faturei tanto quanto naquele tempo. Pausa. O Panamá foi a glória.

Silêncio

AURORA A única coisa que sobrou da minha vida são as minhas perucas e os
figurinos. Meu armário parece um compêndio de moda. Ri. E meus
caminhos também contam histórias: os dekolletées do Panamá, os vestidos
de passeio de Buenos Aires, as rendas brancas da Bahia, os borzeguins
empoeirados do interior.
Só tinha saudade de subir no palco e aí: para cada vida uma canção. Para
que não se perdesse. Mas não consegui. Você é a única que me ouve.

Silêncio.

CONCHA Queria te dar isso. Uma lembrança. Entrega uma caixa a Aurora.

AURORA abre a caixa, cheia de fotografias. 2. 4. 94, 23. 10. 81, 5. Junho 02..

CONCHA Uma foto para cada dia.

AURORA Você já reparou nelas.

CONCHA Eu registrei e arquivei todas.

AURORA Minha querida, também tem alguma em que dá pra ver alguma coisa,
essas aqui estão todas pretas.

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CONCHA Não é verdade. Olha aí um traço de luz e acho que essa foi, espera,
no primeiro de maio, a mancha vermelha de uma faixa –

AURORA Concha, Concha, você passou a vida tirando uma foto por dia,
praticamente todas pretas ou desfocadas.

CONCHA Sei lá que quebrou a lente da máquina. Mas isso não tem importância.

AURORA O que tem então.

CONCHA A lembrança. Você vai se lembrar de mim todo dia. Toda vez que
você segurar uma na mão.

AURORA Parece um diário em que a tinta borrou.

CONCHA Não, é um diário em que um dia depois do outro não aconteceu nada
de especial. Pausa. E agora, mesmo assim está chegando ao fim.

Silêncio.

CONCHA Posso pedir uma coisa.

AURORA O que quiser, meu anjo.

CONCHA Quando chegar a hora, no meu enterro, você canta...

Pausa.

AURORA Canto. Pausa. Canto.

Silêncio.

AURORA Você pode escolher o que.

CONCHA pensa Não. – Vou deixar me surpreender.

Silêncio.

CONCHA Você é a única pessoa que nunca me disse que eu tenho um cheiro
estranho..

AURORA Você tem perfume de areia úmida, de água do mar, de sal, do


sargaço, do sol da manhã. Adoro o teu cheiro.

46
14.

LARANJAS III

Como cena 1 e 17.

SRA. MIRADOR Fala.


Eu queria que você pudesse falar.
Eu queria que você pudesse dizer
como foi para você.
Você falou tanto na orelha do nosso filho
até ele não agüentar mais.
Você falou tanto na orelha do nosso filho
até ele ficar mudo.
Até ele não voltar mais para casa à noite.
Você seguiu ele.
Foi atrás dele,
não parou de buzinar na orelha
até ele entrar na tua.
Você conseguiu amansar ele.
Por amor a você ele resolveu largar tudo.
Agora você tem um filho morto.
Silêncio
Para mim não fazia diferença,
não fazia a mínima diferença.
Se o meu filho fosse traficante
Ainda ia estar vivo.
Pausa.
Nós nunca nos casamos na igreja
e isso não fez diferença.
O homem não vive para satisfazer a vontade de Deus.
Ao contrário.
Mas você não aprendeu nada
na tua profissão.
Silêncio
Na última noite,
Em que o meu filho saiu,
o homem comeu uma laranja,
uma só.
Como se soubesse de alguma coisa.
Como se tivesse sentido alguma coisa.
O filho não voltou naquela noite.
No dia seguinte, ele estava morto.
Na noite do outro dia o homem começou
a chupar laranja

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como o filho.
Ele comeu todas as laranjas
que tinham sido plantadas para o nosso filho.
Que para ele tinham sido colhidas.
Que para ele tinham sugado o sol.
Ele comeu todas as laranjas,
que o nosso filho teria conseguido comer
que ele com certeza teria comido
comeu até mais.
Na cozinha tinha um balde de laranjas,
no quarto tinha uma balde de laranjas
e na sala tinha montanhas de laranjas no sofá.
Ele comia com casca e tudo.
A casa inteira fedia a laranja.
Pelo cheiro parecia que o filho tivesse voltado.
Pausa
Tinha cheiro de morte.
Pausa.
Ele não conseguia mais
Parar com as laranjas.
E eu abandonei ele.
A morte tem cheiro de laranja.
E eu abandonei ele.
Pausa
Você podia levantar o braço
Pra dar um sinal, se você estiver me entendendo.
Pausa.
A mão.
Pausa
Você podia levantar um dedo,
se pudesse.
Debruça-se sobre ele
Agora,
a pálpebra
pisca
Dá uma piscada.
Por favor.
Silêncio
Eu te disse
Deixa ele em paz.
Pausa.
E eu ainda estou viva.
Eu ainda estou viva.

48
15.

SR MIRADOR Vou contar essa história para vocês como nunca contei para
ninguém. Como eu nunca consegui contar para mim mesmo, como nunca
consegui discutir com a minha mulher e muito menos ainda com o meu filho.
Posso contar essa história agora que eu mesmo saí dela, agora que eu sou
só um vegetal, que sou uma rua sem saída, uma parte passiva dela, agora,
em que está definido e determinado, que nossa vida encontrou o seu
destino, sem que eu pudesse entendê-la, sem que eu pudesse explicá-la,
sem que eu pudesse me defender, porque para isso também já é tarde
demais.
Queria que imaginassem a minha mulher num vestido de noiva. Não precisa
ser com sapatos brancos, nem véu, mas dêem uma chance dela se mostrar
num vestido branco, fora de moda e feliz. A gente nunca se casou na igreja e
a gente nem tinha dinheiro para dar uma festa de casamento. Minha mulher
já tinha costurado o vestido para ela, em casa de noite, escondida; os pais
dela eram católicos ricos, eu vinha duma família evangélica que não tinha
nada e que não era nada, e por isso mesmo não deixavam a gente
freqüentar a igreja deles. Expulsaram a minha mulher de casa, levando uma
mala, com o vestido de noiva dentro e não desejaram boa sorte prá ela.
Como policial, não dá pra ganhar muito. Então ela começou a fazer o que ela
sabia fazer de melhor: costurar vestidos e vestidos de noiva e ficou famosa
como costureira de vestidos de noiva. Um dia uma cliente queimou a barra
do vestido dela na vela, na prova do vestido e na pressa, como não tinha
mais pano, a minha mulher tirou um pedaço do próprio vestido de noiva dela
e remendou o vestido da outra, e daí, para remendar o próprio vestido de
noiva velho, ela tirou um pedaço de tecido brocado do vestido de noiva de
uma outra cliente, que tinha comprado tecido a mais e aí o vestido dela ficou
um vestido de noiva com um pedaço de brocado de um vestido de noiva com
brocado e uma barra de um pedaço de tecido brocado de vestido de noiva.
Um tempo depois rasgou a blusa de domingo de uma das nossas filhas e aí
minha mulher sacrificou novamente o vestido e fez uma amputação corretiva
de manga do vestido de noiva de brocado. Um dos presentes mais bonitos
que consegui dar a ela no natal foi um broche de brocado de vestido de
noiva e coloquei no peito dela onde a partir de então o broche de brocado de
vestido de noiva brotava como uma jóia de broche de tecido de brocado de
vestido de noiva. Naquela noite, nessa noite alucinante da jóia de broche de
tecido de brocado de vestido de noiva, a gente concebeu o nosso filho, o
mais novo dos quatro e o único menino. Entre nós às vezes, a gente
chamava ele, de bebê da noite alucinante da jóia do broche de tecido de
brocado do vestido de noiva. Silêncio. Era assim que a gente chamava ele.
Silêncio. Quando ficou mais velho, a minha mulher mostrava o vestido pra
ele de vez em quando, o vestido em que ele foi concebido. Um dia ela voltou
a experimentar ele. Não servia mais. Ela teve que deixar o zíper aberto nas

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costas. Silêncio. Quando ele morreu, ela chegou no hospital com o vestido
pendurado no braço, ela se sentou na cama dele, como está sentada na
minha agora, e cobriu o corpo frio dele com o vestido de noiva dela. O
vestido que a gente nunca usou na igreja. O vestido que a gente usou na
cama.

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16.

Duas mesas de escritório, cada uma delas com uma cadeira. Ao lado de uma
delas, um ventilador. Na parede, atrás da outra, um retrato do pai. Ao lado, um
retrato de.Roosevelt

VITO E este é o meu escritório.


Silêncio.

VITO Pois é. A decoração é mais para prática. Meu pai não gostava de frescura.
Pausa.

BINGO Falta um pouco - de verde.

VITO O único luxo que me dou é um ventilador. Pausa. Então senta.

Bingo não sabe aonde. A mesa vazia é a do pai, não dá para sentar ali. A que está
cheia de papéis é a do Vito, seria indiscreto.

VITO vai até a mesa dele e aponta a do pai. Por favor.

Sentam-se um de frente para o outro. Bingo sob o quadro do pai. Silêncio.

VITO Não vai dar. Desculpe, não vai dar. Vamos trocar.

Trocam de lugar. Silêncio.

VITO É. Pausa. Eu só queira que você visse onde eu trabalho. Pausa. A gente
pode ir embora.

BINGO Não, não – espera.

Coloca a cadeira dela e manda Vito colocar a dele entre as mesas. Estão um de
frete para o outro, joelho com joelho.

BINGO Melhorou.

Pausa.

BINGO Aí desabou um monte de perguntas na cabeça deles.

51
VITO Pela primeira vez ele via o escritório dele através dos olhos de outra
pessoa. Pela primeira vez, viu o escritório através dos olhos dela. E viu que
era gasto e vazio como a vida dele. Aí ele ligou o ventilador imediatamente
para não virar sentimental.

BINGO O que você quer fazer quando todo mundo for demitido e as fábricas
fecharem, essa daqui e a do Paraguai. O que você quer fazer com o resto da
tua vida, para onde vai seguir a viagem, você vai me levar, quantos anos
você tem de verdade.

VITO Vamos encontrar uma nova ocupação para tua voz. No aeroporto. Num
karaokê. Todos a mensagens telefônicas do mundo devem ser feitas por
você. Por que você não tem amigos. Queria te dar um diapasão.

BINGO Se pudesse fazer três pedidos – por qual você ia começar.

VITO Eu já tenho uma idéia. Quando estiver tudo acertado aqui.

BINGO Fala logo.

VITO Eu ia querer –

BINGO Fala de uma vez.

VITO Queria patrocinar alpinismo.

Silêncio.

VITO Um dia eu cruzei os Andes de carro. Desde então vivo sonhando. Vi um


lobo. Na neve. E índios que vivem perto de fontes de água quente. Acima de
quatro mil metros você sente como se Deus pegasse os teus dois pulmões
com as mãos, querendo esmagar bem devagarzinho.

BINGO E você gosta disso.

VITO Tem tanta coisa para fazer. O Chimborazzo, o Marmolejo, o Aconcagua.

BINGO Não vai ficar bravo comigo, mas você já funga pra chegar no quarto
andar.

VITO Claro que eu não. Eu só vou financiar os caras. Os profissionais. Melhor


dizendo, os apaixonados. Vou patrocinar os apaixonados pelas montanhas.
Vou fundar uma escola de alpinismo, organizar as expedições deles e a
única coisa que eu quero é uma bandeira espetada no topo escrita com
letras amarelas luminosas- VITO -.

BINGO No fundo vermelho.

52
VITO Você está me entendendo.

BINGO Eu fico tão feliz quando você fica feliz.

VITO Ele não sabia o que devia dizer. Não sabia como devia dizer pra ela que
ele a amava. Pausa. ... que ele a amava ... .

BINGO Você tem ferramentas --

VITO Você vem junto comprar uns trecos verdes -

BINGO Uns trecos verdes -

VITO Uns vasos de flores, ou um arbustinho ou um matinho. Você queria


plantas.

BINGO Lá embaixo na oficina deve ter um machado ou um serrote. Pode me


emprestar, por favor.

VITO Claro. Um machado, pois não.

Cai um machado do forro.


Bingo pega o machado e, calada, começa a picar a mesa do pai. Vito fica
assistindo por um tempo. Olha para o alto e mais um machado cai do forro. Ajuda
Bingo. Picam a mesa em pedaços pequenos. Pronto. Cansaço. Bingo olha para os
quadros., Vito: “esse é o Roosevelt e esse é o meu pai. Bingo mira o quadro do
pai. Vito: “Não esse, não.” Bingo não conhece piedade, joga o quadro no monte
de madeira e manda ver o machado. Vito assiste por um tempo e depois ajuda.
Finito. Dão três passos para trás e fumam um cigarro. Bingo: "E aí a gente coloca
um sofá ali, do lado uma mesa de vidro, pra colocar umas coisas, uma lâmpada, e
do lado uma palmeirinha, hidropônica, é mais prática.” Pausa. Vito: “Ou o berço."
Bingo: “Isso mesmo, ou o berço.”. Pausa. Bingo: “Ou uma cômoda, dessas
brancas laqueadas, tipo um aparador, com uns puxadores de metal, brilhantes.”
Vito: “é, mas, ou o berço.”. Bingo: Tá, o berço.”
Bingo: “E o que a gente vai fazer com a tua mãe. Com ela assim meio em coma,
meio do lado de lá, com a planta, o que a gente faz com ela?” Vito: “Picar é que
não.” Bingo: “Não, picar não. A gente fica com ela e põe para tomar banho de sol.”
Entra Concha.

VITO Oi Concha.

CONCHA O que acontece..

VITO A gente acabou de ficar noivo. Pausa. Eu acho.

BINGO A gente pode fazer alguma coisa pela senhora.

53
CONCHA Pode ser. Quero pedir demissão..

VITO Concha, não posso imaginar a minha vida sem a senhora. Pausa. Ela já
era secretária desde o tempo do meu pai. Trinta e dois anos.

CONCHA Pois é. Justamente. Agora eu não tenho muito mais tempo. Pausa.
Não quero mais saber de ficar enfiada em escritório. Não quero mais saber
de deitar na cama de pregos. Quero – luta, canta um trecho “Manhã tão
bonita manhã ...” – quero sentir um pouco de felicidade, pelo menos uma
vez, uma vez só. Canta. Assim como ver o céu, quando se veste de
vermelho, de um vermelho, como se estivesse envergonhado, antes do sol
nascer e quando ainda está frio, essa felicidade, essa alegria de ver o dia
nascer. Canta. Vou até Foz do Iguaçu, visitar as cataratas. Durante toda
minha vida só viajei a uma distância de até cinco horas de carro, para praia,
nunca para as cataratas. Vou deitar numa espreguiçadeira e ficar escutando
o barulho da água caindo, que é tão alto, que não dá para falar com
ninguém, não dá para entender nem as próprias palavras. Fecho os olhos e
ergo meu rosto para o céu e sinto a bruma fina trazida pelo vento, já meio
dormindo...

VITO E os gatos.

BINGO Desculpe – é esse cheiro de novo. Desmaia

CONCHA Não são os gatos que estão fedendo assim, Sr. Vito. Sou eu, eu que
estou fedendo. São os remédios, é a doença. Estou fedendo. E eu não me
importo. Quero que todo mundo sinta.
Sai.

VITO Que remédios. Que doença – Bingo, Bingo, acorda

54
17.

SR MIRADOR Quando abri os olhos, tinha uma mulher sentada no banco de


espera com uma caixa no colo. Cabisbaixa, olhava o chão. A caixa parecia
ser a embalagem de uma televisão pequena. Eu estava sozinho no posto e
cochilei, tinha passado a noite procurando pelas ruas. Limpei a garganta, a
mulher ergueu a cabeça. Era jovem ainda. Uns trinta e tantos anos, os
cabelos amarrados num rabo de cavalo, vestia um vestido de verão azul
claro.
Levantei e pedi que sentasse à minha mesa. Ela se sentou na cadeira de
visita, com a mesma postura de antes, segurando a caixa com as duas
mãos.
Disse que precisava de uma autorização por escrito para levar o corpo de
sua filha do cemitério daqui para o lugar em que nasceu. Ela vinha de uma
cidadezinha do Nordeste, como a maioria igual a ela. Imaginei que
trabalhasse como empregada na casa de algum rico do bairro. E que na
caixa trazia a muda de roupa, o uniforme dela, que ela tinha deixado suado
durante o dia.
Peguei um formulário na minha gaveta. Nome, sobrenome, data de
nascimento. A filha tinha dezessete anos quando perdeu a vida, numa briga
de faca numa discoteca. A mulher não olhava para mim. A filha estava num
cemitério público, onde os mortos são exumados depois de quatro anos,
para dar vaga a novas covas. Na cidade dela tinha um túmulo da família que
a avó pagava. Eu via pequenas gotas de suor brotarem na testa dela.
Perguntei qual era a transportadora. Ela parecia que não entendeu a
pergunta. Quem vai ser responsável pelo transporte, isso precisa constar no
formulário, quem vai levar o cadáver para casa. Ela repetia o nome dela e
balançava a cabeça. O caixão; que empresa vai transportar o caixão. Me
encarou pela primeira vez, mexeu os lábios e voltou a baixar a cabeça. Senti
calor, levantei e abri a porta, as árvores da praça estavam em plena luz do
meio dia.
Resisti à tentação de me sentar ao lado dela e colocar a mão de um jeito
amigável nos ombros dela. Estava justamente começando a explicar o
formulário de novo quando ela me interrompeu, colocou uma das mãos sobre
a caixa e disse: Não posso pagar nenhuma transportadora. Não tem mais
cadáver. Eu mesma levo a minha filha, de ônibus, que vai sair hoje à noite.
Vou levar os ossos dela para casa.
Silêncio na sala. Olhei para a caixa, para o rosto da mulher, ela tinha baixado
os olhos de novo. Ela não estava chorando. Preenchi o formulário até o fim.
Ouvia o ponteiro do meu relógio bater.
Com o ônibus que sai hoje à noite, ela repetiu. Eu acenei com a cabeça
quando ela pegou o formulário da minha mão e saíu.

55
18.

Aurora, Mundo.

AURORA canta “ Manhã de Carnaval.


Pausa.
para Mundo Bom, agora enfim o preto está combinando.
Me dá um cigarro, amor.
Mundo enfia um cigarro pelo buraco. Aurora fuma. Pausa.
Não deu mais para ela ir ver as cataratas. Mas ela escolheu um cantinho
bonito, no cemitério público. Lá no Jardim São Luís. A nossa Concha. Com
vista para o gramado ressecado e dá lá nas colinas. Não foi ninguém da
família dela. Como são as coisas. Enquanto o padre falava e abençoava o
caixão, tiros do outro lado do muro do cemitério. Ninguém ligou, só o padre
levantou a cabeça. As testemunhas caladas foram chegando, uma depois da
outra (mulher com dentes e espelho Homem com elefantíase, Suzana,
mulher com ossos) Da história da Glória era que a Concha gostava mais. A
Glória é a menina que morou comigo. Dá para reconhecê-la pela teia de
aranha tatuada na testa. Tem uns vinte e tantos anos e desde que conheço
ela, economiza para fazer a operação. Já fez os seios, éramos em três, a
gente se ajudava; injetamos silicone debaixo da pele dela, em volta dos
mamilos, recheamos a bunda, arredondamos as coxas, levantamos os ossos
da face. Tá certo que a gente não conseguiu sumir com o pau dela.
Entra Glória.
Então, a Glória trabalha na rua para juntar dinheiro para poder fazer essa
bosta de operação e um dia ela voltou de madrugada para casa, me acordou
e disse –

GLÓRIA Aurora, eu tive um encontro..

AURORA Espero que sim. Até porque você precisa de muito muito dinheiro.

GLÓRIA Não, foi um encontro especial. Acho que encontrei o homem da minha
vida.

AURORA O homem da tua vida.

GLÓRIA É, escuta só. Eu estava na esquina da Cesário Motta com a Marquês


de Itu, às três da manhã e, além de mim, nenhuma menina, eu estava
completamente sozinha. Pausa. De repente – de repente lá no fim da
Cesário eu vejo uma luz, assim uma au – auréola e quando estou lá parada
olhando, a luz vai se aproximando, vem vindo na minha direção, tem os
contornos de uma pessoa, pára e aí alguém desce da luz e diz –

AURORA Não tenha medo –


s. Virginia Rodrigues, Sol Negro.

56
GLÓRIA Isso mesmo, não tenha medo. Eu olho meio ofuscada pela luz, e vejo –

AURORA Um homem –

GLÓRIA Isso mesmo.

AURORA Um homem forte, com um rosto marcante e cabelos loiros.

GLÓRIA Não, um homem baixinho, careca e bem, bem magrinho, os braços e


pernas compridos e fininhos, e olhos enormes e ele está –

AURORA Está o quê –

GLÓRIA Está pelado –

AURORA Está pelado –

GLÓRIA É, ele está pelado e verde.

AURORA Verde – Como verde -

GLÓRIA O corpo todo.

AURORA Você viu um cara, que se aproximou de você num feixe de luz, careca,
pelado e verde.

GLÓRIA Isso mesmo.

Pausa.

GLÓRIA Primeiro eu não tinha certeza se era um homem.

AURORA Você não sabe se era um homem –

GLÓRIA Só no começo.

AURORA Você foi com ele, vocês foram pro hotel -

GLÓRIA Fomos, pro Paraíso.

AURORA Deixaram vocês entrar.

GLÓRIA Deixaram. Sabe o que é, Aurora, é que ele é –

AURORA Fala logo –

57
GLÓRIA Ele é invisível.

AURORA Você foi pro hotel Paraíso com um homem pelado, verde e invisível.

GLÓRIA Isso mesmo..Foi isso mesmo que aconteceu.

AURORA Mas ele sabia falar..

GLÓRIA Ele fala a nossa língua. Pausa. Também.. Pausa. Ele disse que ficou
me observando por muito, muito tempo e que se apaixonou por mim até as
orelhas.

AURORA Verdes.

GLÓRIA Mhm. Pausa. Sabe, Aurora, eu acho que acredito nele. Porque já faz
muito tempo que eu tenho a sensação de que alguém está me seguindo.

AURORA Tá..

GLÓRIA E aí ele disse que não agüentou mais e teve dar um jeito de aparecer.
Mas só para mim.

AURORA E ele tem nome.

GLÓRIA Eu não sei o nome dele. Ele é marciano..

AURORA pensativa E vocês – Pausa. Vocês treparam, você e o marciano..

GLÓRIA Feito loucos, Aurora.

AURORA O quê..

GLÓRIA O pau dele é bem comprido, assim, e grosso feito o tronco de uma
árvore, eu nunca na minha vida vi um troço desses, só que ele é --

AURORA O quê –

GLÓRIA Invisível. – Pensei que fosse me matar e doeu para cacete. Eu gritei
bem alto, e eu até achei que o sangue que estava saindo ia sujar os lençóis,
ia fazer uma meleca danada, ele mordeu a minha orelha e também gritou
feito louco, nós dois gritamos feito loucos, foi horrível. Eu fiquei morrendo de
medo, Aurora, e não foi nada bom, apesar de ele me amar.

AURORA Sei. E ele te deu dinheiro

GLÓRIA Como. Queria tudo de graça. Por amor oras.

58
AURORA Ele te prometeu alguma coisa. Casamento ou coisa assim.

GLÓRIA Não. – Ainda não.

AURORA Você acha que ele quer.

GLÓRIA Pode até ser. Pode até ser.

AURORA E onde ele está agora.

GLÓRIA Viajou. A gente saiu do hotel, ele se despediu, desceu a rua e aí veio a
luz, que pegou ele e dobraram a esquina e desapareceram.

AURORA Você acha que ele vai voltar.

GLÓRIA Claro. – E ele disse que queria que eu apresentasse você pra ele.

AURORA Ele quer me conhecer.

GLÓRIA É.

AURORA Mas eu não posso vê-lo

GLÓRIA Também não sei como vai ser isso.

AURORA Mas o que é que ele quer comigo.

GLÓRIA Acho que ele está com tesão em você.

AURORA Deus me livre..

Pausa.

GLÓRIA O que é que eu vou fazer agora.

Pausa.

AURORA Você o ama.

Pausa

GLÓRIA Não tenho certeza. Mas acho que sim, sei lá como.

AURORA E como é que está o teu rabo.

59
GLÓRIA Tudo bem. Não dá para ver nada. Não arrombou nada, nenhuma
ferida, nem sangue, sinal ou arranhão, nem marca nenhuma. É esquisito,
né.

AURORA Hm. E não está doendo.

GLÓRIA Não. Não está doendo nada.

Silêncio.

AURORA Depois a Glória deitou no meu peito e chorou. Ela tinha se apaixonado
de verdade pelo marciano verde, careca com o pinto imenso transparente e
aí a gente dormiu juntas na minha cama. Pausa. No dia seguinte a gente foi
procurar um ufologista especializado para nos aconselhar . Um que tinham
recomendado pra gente. O ufologista ouviu tudo com atenção, deu algumas
voltas no seu cosmo em miniatura e disse: „Vocês usaram preservativos,
espero“:

GLÓRIA limpou a garganta Eu esqueci.

AURORA Você esqueceu. – Você trepa com um marciano e esquece de usar


camisinha – você ficou maluca.

GLÓRIA Nem lembrei..

AURORA Como que a gente vai saber se ele é soropositivo

GLÓRIA Não sei. A gente pode ver se eu sou..

AURORA O doutor em ufologia não conseguiu nos ajudar. A gente saiu de lá tão
perdida como quando a gente chegou. A história da Glória se espalhou e ela
foi convidada a participar de um programa de TV. Na noite em que foi
transmitido, as travecas do pedaço se reuniram lá em casa, deitadas no sofá,
pelo chão, com pipoca, cinza de cigarro e migalha de batatinha chips e
deram gritos histéricos quando Glória apareceu na tela. Foi uma catástrofe.
Glória contou do caso dela com o extraterrestre verde, careca e pelado, que
queria ter filhos com ela apesar de ela sequer possuir um útero. O público do
estúdio começou a assobiar, a vaiar e Glória foi sacudida por um crise de
choro.

As amigas da gente acharam que ela ridicularizou a classe. Cortaram ela na


rua, encrencaram com o ponto dela e espantaram seus clientes. Uma noite
cheguei em casa e a Glória estava na janela olhando fixo para a lua,
fumando um cigarro. Ela não quis falar comigo e quando eu fui dormir,
arrumou as coisas dela numa sacola e desapareceu no breu das ruas.
Silêncio

60
Eu não sei onde ela está vivendo agora. Às vezes eu a vejo por aí, com a
teia de aranha na testa, bonita, medrosa, arredia.
Pausa
A Concha disse que eu não devia ter deixado ela participar do programa de
TV. Talvez ela tivesse sido feliz, com seu amado extraterrestre, invisível.
Silêncio
É.

61
19.

Casal na janela

HOMEM à janela Lá.

MULHER O quê..

HOMEM Aquilo

MULHER O quê.

HOMEM Olha lá, oras..

Mulher se aproxima da janela.

HOMEM Lá.

MULHER O quê.

HOMEM Lá

MULHER Onde.

HOMEM Tem alguém caído ali.

Silêncio.

MULHER Não estou vendo nada.

HOMEM Ali

MULHER Tá tudo escuro.

HOMEM Tem alguém caído ali.

MULHER Não consigo ver. Pausa. Sai.

HOMEM Tem sim. Olha lá, ó lá..

MULHER Coisa nenhuma.

HOMEM Tem alguém caído ali. Ali tem coisa..

MULHER Sombra.
Debaixo das árvores.
À noite

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Silêncio.

MULHER Nada.
Pausa.
Coisa nenhuma.

HOMEM Tem sim.


Tem sim

MULHER Escuridão escura..

HOMEM Tem sim.


Alguém caído ali.

Silêncio.

MULHER Pode ser um bicho..

Pausa.

HOMEM Está se mexendo.

Silêncio. O homem vai até a mulher.

HOMEM Está se mexendo ainda.

MULHER balança a cabeça.

HOMEM aponta a janela. Pode ver


ainda está
se mexendo

MULHER balança a cabeça.

HOMEM volta até a janela.

HOMEM É, é
pode ser um bicho mas
está se mexendo
ainda
Pausa.
Tem uma coisa preta se mexendo.

Pausa.

MULHER Um cisne.

63
Pausa

MULHER Um cisne negro.

HOMEM Tem uma coisa preta


saindo dele
saindo do bicho
ou o que for

MULHER Um cisne negro


mexendo as asas na
sombra das árvores
no escuro da noite.

HOMEM Mas.

MULHER É isso o que eu vi.

HOMEM Mas
nunca.

MULHER Eu percebi.

HOMEM Mas nunca eu


Mas de onde.

MULHER Se quer saber.

Silêncio.

HOMEM Eu vou descer lá.

MULHER De jeito nenhum.

HOMEM Vou dar uma olhada.

MULHER Você não vai sair daqui.

HOMEM Mas a gente não pode –

MULHER Por causa de um bicho –

Pausa.

HOMEM Vou chamar a polícia.

64
Pausa.

MULHER Pensa bem.

HOMEM Estão aí para isso.

MULHER E daí.
Você viu o quê.

HOMEM Como. O quê.

MULHER É o que eles vão perguntar.


É o que vão querer saber

HOMEM Nada.

MULHER A primeira coisa.


A primeira coisa que vão perguntar..

HOMEM Nada. Pausa.


Vou telefonar agora.

MULHER Não.
Vamos ver juntos –

HOMEM Não
vi nada.

MULHER Então.
Será que vale a pena.

Silêncio.

HOMEM Não é um bicho.

MULHER Um cisne.
Um cisne negro
Você mesmo disse

HOMEM Nunca.

MULHER Um cisne negro do


lago da praça lá da -

HOMEM 5 km de linha aérea.

MULHER Confundiu a rota

65
Pausa.
Voou pro lado errado.
Pausa.
Quebrou a asa.

HOMEM Então vou chamar


o veterinário

MULHER Não.

HOMEM Por que não.

Silêncio.

MULHER E quem
você viu.

HOMEM Ninguém
Não vi ninguém.

Pausa. Homem pega o telefone.

MULHER Vai sair no jornal


Você vai sair no jornal.

HOMEM Não preciso dizer o


meu nome.
Ou será que

MULHER balança a cabeça.

HOMEM disca, mas desliga, vai de nova até a janela.

HOMEM Um breu.
Não vi ninguém

Silêncio.

HOMEM Acho que o cisne


está morto.

A mulher vai até a janela e os dois ficam olhando para fora

66
20.

SR MIRADOR Fiquei perambulando pelas ruas, pela cidade. Procurando o rosto


que estava determinado para mim. Não reconheci ninguém. Não abri a boca
durante noites. Os dias se tornaram cinza-escuro.

67
21.

De manhãzinha. Clareia aos poucos, um vermelho forte na beirada do céu.


Aurora, a insone, a que vaga na noite pela praça. Canta „Noite de temporal.“ De
longe avista uma coisa escura no chão. Se aproxima e encontra uma pessoa.
Suas mãos estão ensangüentadas. Não fique sozinha com um horror desses. Me
mostra as suas mãos ensangüentadas, Aurora.


cf. Virginia Rodrigues, Sol Negro.

68
22.

LARANJAS
Coro das testemunhas mudas.

Mulher com os dentes e espelho, homem com elefantíase, Suzana, mulher dos
ossos e Aurora.

Eles o encontraram
Eles o encontraram.
Encontraram o filho dele
Encontraram o teu filho.
O Mirador filho.
À noite, o Mirador filho, procurou o chefe dele. Como o pai queria. O nome do
chefe é O Infinito, tão grande é o seu poder. Ele foi até o chefe, O Infinito e disse,
vou parar, vou cair fora, finito, já era. Estou fora dessa. Não se diz uma coisa
dessas ao Infinito, não a ele, não é à toa que se chama assim. Dá dois minutos
ao Mirador filho. Este acena com a mão, não preciso de tempo nenhum, estou
fora, adeus. O chefe faz um sinal e seguram ele, o Mirador filho e o levam até a
praça; levam ele até a praça para que o pai dele possa achar fácil. E ali, a primeira
coisa que fazem é segurar o queixo, apertar o maxilar e abrir a boca dele à força,
e aí puxam a língua para fora e decepam reto com a faca, num gesto rápido. Não
precisam mais amarrá-lo, não precisam mais amordaçá-lo, é só segurar, só
segurar. E ele está vivo. Seguram a cabeça dele, dois seguram a cabeça, e a
mesma faca arranca os olhos dos buracos, os olhos do Mirador filho, o olho direito
e o olho esquerdo, do Mirador filho, não tem mais língua para gritar, um som, um
som qualquer se espreme para fora do corpo dele, o corpo grita, o corpo dele, que
já não vê mais nada, se retorce de dor. E ele vive. Tiram a roupa dele. Arrancam a
camisa e abaixam as calças, até os joelhos. O sangue escorre da boca e dos
buracos dos olhos do Mirador filho. E ele está vivo. Picotam a cueca, os retalhos
cobrem a coxas. Um pega a faca com uma das mãos com a outra segura o pau e
o saco. Um corta fora os dois membros, é preciso tentar várias vezes, a faca ainda
está afiada, mas depois do primeiro corte as partes estão escorregadias do
sangue. Do Mirador filho. Coração forte. Ainda tá vivo. Eles trouxeram outras
ferramentas. Esticam os braços dele no chão, os braços do Mirador filho. O braço
esquerdo. Um pega um machado e toma distância. Separa a mão do braço, logo
acima da articulação. A mão esquerda do Mirador filho. E ele ainda tá vivo. O
sangue cobre o chão, a terra, onde está deitado, escorre pelo seu corpo, esguicha
na pele e na roupa dos matadores. E ele ainda tá vivo. A mão direita. Esticam o
braço no chão, o braço do Mirador filho, um som se desprende de sua garganta, a
dor está em toda parte, o som da dor está em toda parte. Um corta fora a mão
direita, acima da articulação, é péssimo açougueiro, precisa golpear três vezes,
três golpes para o braço delicado do Mirador filho. Ele ainda está vivo.
Resolvem dar um tempo. Fumam um cigarro. Os sapatos deles pisam no sangue.
A cabeça do Mirador filho é uma ferida. Solta ruídos, se mexe, os braços pulsam,
seu corpo se contorce, sem saber, para onde. E ela ainda está vivo. Um quer
terminar de tirar as calças. Não passa pelo tênis. Precisam tirar os tênis que ele

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ganhou do pai no dia do santo, eles não sabem disso. Deixam as meias.
Terminam de tirar as calças, ficam olhando as pernas dele. Um se atira com as
duas mãos no joelho, para que a perna pare de pular. O fio do machado está
vermelho. Cortam o pé esquerdo dele, cortam direto na junta, ali é mais fácil. A
junta, o pé esquerdo do Mirador filho. E ele ainda está vivo.
Está vivo ainda.
Um fuma mais um cigarro. Estão cansando. Um outro pega embalo, dessa vez
ninguém segura a perna do Mirador filho. Começa a feder a sangue, o sangue se
decompõe no ar. O machado cai e separa o pé direito. Fora. Corta fora o pé
direito.
O pé direito do Mirador filho.
O que ele sente. Por quem ele chama.
Ficam em volta dele com os braços pendurados. Estão cansados. Querem ir para
casa.
Mas ele ainda está vivo. O Mirador filho ainda está vivo.
Um deles dá de ombros. O outro joga fora a embalagem vazia do cigarro, que
nada no sangue e enrosca impregnada num pé do Mirador filho, que não mais
pertence ao corpo dele.
Pegam um saco plástico. Um saco de lixo. Colocam os membros cortados no saco
de lixo, a língua, o olho direito, o olho esquerdo, o pênis, as bolas, a mão
esquerda, a mão direita, o pé direito, o pé esquerdo do Mirador filho.
Olham em volta para ver se não se esqueceram de nada. Colocam a faca e o
machado num outro saco. Vão embora. Deixam ele ali deitado. São quatro horas
da manhã.
E ele ainda está vivo. O Mirador filho. Sem a língua. Sem os olhos. Sem o pênis.
Sem as mãos. Sem os pés. Ele está vivo.
Tem um coração forte.
Ele vive até o sol nascer.

70
23.

Mundo rasga seu saco de lixo. Levanta-se. Canta.

OH! VOS OMNIS QUI


TRANSITS PER VIAU
ATENDITE; ATENDITE
ET VIDETE TEUN
SI EST DOLOR
SIEUT DOLOR MEO


Verônica, cf. Virginia Rodrigues: Sol Negro

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