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II Colóquio da Pós-Graduação em Letras

UNESP – Campus de Assis


ISSN: 2178-3683
www.assis.unesp.br/coloquioletras
coloquiletras@yahoo.com.br

LITERATURA DE MASSA DENTRO DA PERSPECTIVA DA FUNÇÃO DA


LITERATURA E SUA INFLUÊNCIA NA VIDA SOCIAL DOS LEITORES

Idalice Lima
(Graduada – UNESP/Assis)

RESUMO: O presente trabalho procura estabelecer e refletir a relação entre a Literatura de


Massa e a Literatura Escolarizada, analisando textos de cunho massivo e popularescos e
textos literários de obras de autores clássicos da Literatura brasileira e portuguesa, analisando
a influência da Cultura de Massa nos meios sociais, bem como a influência da Literatura de
Massa no quotidiano das pessoas, em sua vida social. A partir da análise e reflexão dos textos
procuraremos estabelecer elementos dentro desses romances que nos distanciam dos
clássicos literários e da literatura propriamente dita. Percebemos então o porquê do fenômeno
da Literatura de massa crescer tanto, devido à necessidade de se criar uma literatura
acessível, de fácil assimilação e entendimento à medida que prega ideologias e impõe modelos
de sociedade capitalista. Por um lado percebemos a importância da literatura culta, a didática,
utilizada em escolas e vestibulares, por outro o crescente aumento da leitura dos livros que
exigem pouca ou nenhuma reflexão. A problematização deste trabalho se baseia no conflito
que existe entre os tipos de literatura e de que forma uma literatura pode ou não auxiliar a outra
em questões sociais, comunicativas e/ou didáticas.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura, cultura de massa, vida social.

A questão da verdadeira função da literatura, bem como a função da obra de


arte está na base dos estudos em literatura, sendo discutida desde o período grego,
no entanto ainda hoje é motivo de divergências.
A obra de arte também é vista como representação da realidade, a captação
de algum momento por determinado pintor, ou escultor, mas que a partir do momento
que esta obra passa a ser apresentada ao povo ela toma diferentes significados e
interpretações, mas não perde a sua aura, ou seja, sua autenticidade.
A forma como uma obra é cultuada depende também dos elementos que a
levam a ser vista e experimentada, da mesma forma como ela foi cultuada na época
de sua criação, seu hic et nunc.1

1
Hit et nunc significa o “aqui e agora”. Está relacionado à originalidade da obra, garantindo a unicidade da
presença da obra de arte em seu ponto de origem. A autenticidade está compreendida entre sua duração
material e seu testemunho histórico. Com a reprodução técnica não há duração material nem testemunho
histórico comprometendo sua originalidade e autenticidade. A aura é composta pela originalidade,
autenticidade e unicidade. Com a reprodução técnica a aura da obra de arte é atingida afastando o objeto
reproduzido do domínio da tradição através da sua massificação.

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Por exemplo, o quadro A Santa Ceia, de Leonardo da Vinci, em uma igreja
possui um significado religioso, mítico, que faz com que as pessoas, ao se depararem
com a imagem, lembrem-se da passagem bíblica. O mesmo quadro colocado em um
museu ainda carrega seu valor religioso, cultual, mas é visto especialmente neste
lugar como obra de arte, sendo posta ao lado de outras obras do mesmo pintor para a
apreciação de admiradores e estudiosos.
Outra apreciação inaceitável é o mesmo quadro colocado em uma sala de
jantar, onde todo o seu valor mítico, simbólico é quebrado, onde as pessoas só se
lembram da imagem da “ceia” e não do seu valor sagrado. Neste último caso o seu hit
et nunc é quebrado, e a obra passa a se tornar outra obra, e não mais aquela original,
e sim um kitsh.
Outro quadro muito conhecido é o Abaporu de Tarsila do Amaral, que teve
sua aura quebrada quando foi reproduzida e colocada em copos de requeijão,
passando essa obra a ter apenas valor comercial, deixando de ter o seu valor artístico.
Mas é diferente quando falamos em reprodução hoje e reprodução ontem.
Pensemos na época da Inquisição, onde os verdadeiros livros, os mais importantes,
eram guardados em grandes bibliotecas a sete chaves. Os monges que tinham acesso
às obras, que não eram todas, tinham que copiá-las para si, tendo assim, uma cópia
dos manuscritos. Estas cópias eram feitas apenas pela necessidade de se ter a obra
guardada para si, como referência e como pesquisa.
Havia outras reproduções que eram vendidas, mas que mesmo assim não
perdiam seu caráter de informação e conhecimento, fonte de sabedoria material e
espiritual.
Nos dias de hoje, essa reprodução se tornou desnecessária, existem
máquinas de xerox, computadores, scanners que fazem esse serviço em milésimos de
segundos, levando o homem, talvez por falta de vontade de criar novas “Obras de
Arte”, a reproduzi-las em outros tipos de linguagem, como cinema, fotografia, teatro,
etc.
Temos o exemplo de várias obras literárias que foram reproduzidas na TV,
em forma de novelas, filmes, minisséries. Quando uma obra passa de uma linguagem
para outra ela perde muito de sua aura, de sua veracidade e originalidade.
A obra de arte permite desdobramentos, permite que sua apreciação seja
feita sob vários pontos de vista sem perder seu verdadeiro hit et nunc.
Uma imagem colocada em forma de filme, representando a passagem de um
livro influencia o telespectador quanto à imagem que possivelmente ele teria quando

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lesse o livro, surgindo uma imagem diante da outra, imposta pelo diretor do filme,
colocada através da câmera, impedindo o espectador de pensar e refletir sobre o que
está sendo visualizado. Aspecto apontado por Duhamel (apud BENJAMIM, 1983, p.
25) em Scènes de la Vie Future: “Já não posso meditar no que vejo. As imagens em
movimento substituem os meus próprios pensamentos”.
Usando um exemplo literário, o livro Dom Casmurro, que já foi reproduzido
várias vezes em diversas linguagens “artísticas”, perde muitas vezes sua veracidade,
sua importância como obra literária, pois levam o espectador a formar facilmente uma
opinião a cerca do enredo que talvez ele não tivesse ao ler o livro. Essa visão é
construída pelo diretor, pelo roteirista, pelo foco da câmera, pela luz e todos os
elementos presentes em cena que conduzem a uma interpretação menos aprofundada
da obra. Assim, a obra Dom Casmurro deixa de ter sua importância como obra de arte,
nesse caso sua aura é quebrada, todo o mistério colocado no livro é quebrado
facilmente.
Evidentemente que se a obra de Machado de Assis não envolvesse tanto
mistério, tanta análise psicológica dos personagens, tantos indícios que às vezes
confundem o leitor, o livro deixaria de ser um clássico e passaria a ser apenas mais
um livro, com um enredo, um princípio, meio e fim. A obra nesse caso não teria
utilidade nenhuma, não teria possibilidades de desdobramentos e interpretações que
uma obra de arte deve ter.
Ainda hoje estudiosos tentam delimitar a literatura em épocas e gêneros, mas
devido a sua abrangência uma simples definição ou molde literário tornaria a própria
literatura inútil, pois sua existência independe de conceitos, e suas funções são
inúmeras e se modificam a cada leitura.
Dentro da definição mais apropriada para a análise que faremos a seguir
utilizaremos como base o fato de que para um texto ser literário ele não precisa ter
uma linguagem bonita, não precisa ser acessível e de fácil entendimento. Um texto
literário é aquele que como recriação ficcional da realidade faz o homem refletir sobre
a sua condição humana, e traz elementos dentro do próprio texto que faz entendermos
o mesmo. Num texto literário não precisaríamos buscar outros elementos para o
entendimento da obra, ela neste caso explica-se por si só.
Quando se pensa em conceito de literatura devemos pensar em elementos
que transformam uma obra em literária ou não. Analisaremos então os elementos que
fazem da obra literária um clássico ou não, ou seja, o que difere a literatura culta e
didática da literatura de massa.

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A literatura no seu significado etimológico nesse caso não nos satisfaz quanto
à análise literária, vejamos, pois, se fôssemos considerar assim o seu sentido “literal”,
literatura - toda mensagem produzida através de letras ou de palavras- deveríamos
considerar como literatura uma bula de remédio, um manual de instruções de algum
aparelho doméstico. Estaríamos nesse caso nos referindo a tipologias textuais, e não
à literatura. Pensemos então na literatura no seu sentido poético, no seu sentido
artístico, ou seja, uma forma ficcional de recriação da realidade.
O que nos interessa aqui – além do conceito etimológico - é o conceito de
literatura como proposta de recriação do cosmo a partir de uma visão particular da
realidade, ou seja, a recriação do macro cosmo num micro cosmo.
A literatura é uma forma de reescrita da realidade a partir de um ponto de
vista, consistindo na captação de um momento que não vai se repetir, mas que
provoca uma sensação única em cada indivíduo, tornando possível assim cada um
interpretar de uma maneira individual.
Quando falamos em recriação do macro cosmo, não estamos falando aqui de
conjuntos de valores presos à natureza e à realidade, pois como já dissemos a
literatura não é “só” um conjunto de palavras. Estamos nos referindo em verdade a
elementos do texto que permitam a interação homem vs sociedade, onde a literatura
passa a ter uma função social e ética, a de fazer o homem refletir sobre a sua
condição humana.
Assim consideraremos a literatura e suas funções centrípetas e centrífugas.
Essa relação ocorre quando os quatro elementos exteriores: mundo social,
mundo mítico, mundo individual, mundo linguístico se unem como um conjunto
material para a construção de uma obra literária e são também refletidos na obra como
forma de recriação e reprodução da realidade.
Quando estes quatro elementos interagem podemos dizer que temos um
princípio literário, uma significação.
Uma obra literária precisa ter todos estes elementos interrelacionados, que
não devem ser dissociados, significando e indicando uma verossimilhança da obra
literária.
Essa verossimilhança não precisa necessariamente condizer com a realidade
vivida, seja na sociedade, seja no mundo, no momento histórico dentro da obra, pois
esta não tem caráter histórico. Ela deve possuir uma verossimilhança consigo mesma,
dentro da obra.

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A verossimilhança existe quando a obra possui elementos que povoam o fato,
e que fazem dele verdadeiro ou não, seja ele um tema baseado em circunstâncias
reais ou não. Tudo isso dependerá do modo como o tema é colocado. Se ele é
colocado com uma possibilidade de realização, seja numa ficção ou numa história real,
ele precisa ter veracidade.
Quando possuímos a nossa frente uma imagem dentro de uma obra literária,
percebemos uma sensação nova a cada leitura, como na apreciação de uma pintura:
cada vez que passamos por ela e a observamos, podemos perceber figuras novas, e
outras que vimos passam a ter outros significados, assim também é na literatura,
quando lemos um clássico pela segunda, terceira ou quarta vez e percebemos
elementos diferentes a cada leitura.
Por isso os chamados Clássicos atravessam os séculos, pois se permitem
renovar a cada leitura e a cada leitor, são obras que podem ser recriadas a partir de si
mesmas, podendo ser relidas de várias formas diferentes, e além de tudo, fazendo o
leitor refletir sobre sua condição humana.
Podemos apontar a literariedade em um texto quando o mesmo chama
atenção ao seu próprio aspecto, colocando em evidência a própria mensagem, sem
que o leitor precise buscar meios para entender a obra. Nesse caso o leitor precisa
usar os elementos interiores da mensagem para entender a mesma.
Não se ignora que há outros conceitos vigentes, tais como a literatura de
massas, ou mesmo a literatura popular, mas se investe no direito à leitura de
qualidade, acessível ao leitor que é capaz de ler além das palavras, ou seja,
problematizar o lido com uma possibilidade de atribuição de sentidos que ultrapassa a
compreensão das palavras ou do enredo da história.
O texto literário será ficcional ou não, conforme sua ocorrência interna. As
leituras e interpretações da primeira tendem a ser convergentes, buscar uma unidade,
possibilitando a existência de uma voz da verdade, que sobrepuja as demais.
Quanto mais a obra possa permitir o cruzamento dos sentidos, a ampliação
das significações, a recriação da complexa ambiguidade das situações de vida, mais
ela se torna uma obra literária de qualidade.
A obra de arte literária permite sua renovação ao possibilitar várias leituras, e
é por essa multiplicidade que ela se permite atualizar.
Na literatura de massa, é comum encontrarmos o uso de elementos e
técnicas literárias de “produção” da literatura culta, tais como: intrigas, clímax,
desfecho, quando não encontramos aqueles heróis da humanidade, na luta entre o

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bem e o mal. Tais elementos literários podem ser parecidos, mas é evidente que não
são usados com o mesmo objetivo e claramente o mesmo desempenho.

A função claramente normativa da literatura de Massa é, portanto,


ajustar a consciência do indivíduo ao mundo (confirmá-lo como sujeito
das variadas formações ideológicas), mas divertindo-o como num
jogo. Por isto, a narrativa trabalha com formas já conhecidas ou
facilitadas de composição romanesca (SODRÉ, 1988, p. 35)

Enquanto a literatura culta é produzida para um fim artístico, poético de livre


expressão – pois o ato criativo do escritor é na verdade um sentimento extremamente
egocêntrico, neste caso, o escritor escreve por sentir o prazer de escrever – a
literatura de Massa, além do fato mais óbvio que é o de faturar à custa de uma
sociedade alienada e massificada, encobre muitos outros objetivos, muitos deles
ideológicos, impostos por uma classe social dominante na tentativa de criar um ser
mediano, usando de elementos intermediários para fazer com que o leitor não atinja o
ponto máximo de entendimento e compreensão da realidade que a literatura culta
pode proporcionar.
Um dos fatores ideológicos que implicam na má qualidade da literatura de
massa é o fato de não deixar o leitor refletir sobre o que está sendo lido, pois é uma
literatura que pode tornar um ser qualquer coisa, menos um sujeito crítico, na tentativa
de criar um ser mediano, que não reflete sobre o que está a sua volta, tornando-se
estático diante dos acontecimentos, alimentando informações, histórias, romances,
tudo que de fato possamos imaginar, mas sem a menor carga de conhecimento e
senso crítico.
É evidente que a literatura culta não é só usada como forma de
conhecimento, de aquisição de informações, mas também de levar ao leitor subsídios
para que este reflita sobre sua condição humana, sobre o que está sendo lido.
A literatura de massa geralmente apresenta um universo recriado, numa
linguagem cheia de clichês, simples, acessível, com personagens previsíveis, com fins
previsíveis, onde muitas vezes só percebemos diferença no nome dos personagens.
É como se o escritor nesse caso encontrasse um modelo e a partir daí o
recriasse em diversas situações, onde percebemos que não há rompimento de
paradigmas. É uma literatura que não inova, tornando-se impotente.
Na literatura existe sim uma recriação da realidade, só que esta recriação é
multifacetada, diversificada, enquanto na literatura de massa ela parte de lugares
comuns que não permitem ao leitor explorar novas visões de mundo, novas formas de
interpretá-lo e interagir com ele.

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Do ponto de vista da linguagem utilizada podemos perceber que há por parte
do autor uma enorme preocupação, não com a forma, mas com o conteúdo que deve
preencher os padrões médios de produções novelescas, às vezes com um triângulo
amoroso, com um herói, uma vítima, ou seja, clichês.
Há também a preocupação com a norma culta, de modo que o texto não deve
ter uma linguagem tão rebuscada, pois tal atitude exigiria uma maior atenção do leitor,
exigiria uma interpretação do que foi lido, o que não acontece dentro da literatura de
massa.
São textos que não apresentam qualquer complexidade, pois tratam de
assuntos banais, que servem meramente como entretenimento e ilusoriamente como
aquisição de cultura “culta”. Há quem diga que um best seller não pode ser taxado de
literatura comercial, ou como lixo, como vários críticos dizem pelo simples fato de
venderem muito, e em vários lugares do mundo, em nível internacional.
Devemos, pois, lembrar, que a Bíblia (enquanto narração ficcional de fatos, e
não como instrumento religioso) é o livro mais vendido de todos os tempos, escrita a
milhares de anos, numa linguagem arcaica, puramente literária, recheada de figuras
de linguagem, metáforas e poesia, e que nem por isso deixou de ser lida e
compreendida.
Muitos estudiosos até hoje procuram compreendê-la, dando novos
significados e interpretações a ela. Podemos assim perceber o quanto uma obra de
arte, um verdadeiro clássico, permite-se renovar e interpretar de diversas maneiras e
diversas formas, por diversas pessoas, em qualquer época ou momento histórico.
Aqui então descartamos a ideia de que um livro é bom por que é o mais
vendido, porque todos leem, e sim porque o livro nos permite várias interpretações e
conclusões sobre o que está sendo lido.
Mas nem sempre a maioria está certa quando diz que tal livro é bom só
porque é o mais vendido, assim como programas de TV, músicas disparadas nas
“mais mais dos sucessos”; todas essas informações não surgem do nada; elas são
impostas, são criadas especialmente para iludir, entreter, quando na verdade acabam
tornando as pessoas mais vazias do que são.
Iludindo-as com um mundo imaginário, com novelas, programas de humor,
livros feitos para adolescentes que mais parecem contos de fadas, onde na maioria
das vezes os leitores tornam aquela história sem fundamento, sem objetivos, sem
profundidade, sua própria religião, fazendo-se assim uma espécie de lavagem cerebral

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em cada leitor ou espectador. Está conquistado mais um consumidor compulsivo e os
livros disparam em livrarias.
Quando não são feitas de pequenas histórias previsíveis, numa linguagem
cheia de clichês, não trabalhada artisticamente, tentam cativar o leitor com palavras
bonitas, tantas vezes já ditas e repetidas por sábios ao longo dos séculos, e saltam
das páginas como se fossem originalidades, e sempre com uma linguagem bem
simples, onde o leitor se torna estático em seu desenvolvimento intelectual, diante de
uma literatura que não rompe paradigmas, não inova.
O leitor nesse caso é um ser mediano em estruturas culturais, nas quais a
literatura de massa, feita somente para ele, não o ajudará a se elevar, a subir um
degrau acima da média, e sim a ler cada vez mais todas aquelas lindas e sábias
palavras em busca de algo que jamais estará em algumas páginas de um livro: sua
individualidade, a sua capacidade única de pensar e refletir sobre sua condição
humana, e pior do que isso, é ter a certeza de que não é apenas através de livros que
o homem conhecerá a si mesmo.
Desde os tempos antigos até hoje o homem vem tentando se encontrar, se
conhecer verdadeiramente, e tenta a todo momento se tornar um ser único e que
sozinho conseguirá resolver seus problemas. Só que naquela época, bem ancestral,
as pessoas procuravam livros de auto-ajuda como uma forma de ter o domínio de si
mesmas, onde elas se vissem como sujeitos na sociedade.
Uma sociedade política que naquela época vivia sobre a base dos homens,
onde estes expressavam sua inteligência, equilíbrio e sabedoria quando estavam
diante da luta travada entre razão e emoção, onde o saber dominar a si mesmo, saber
se autogovernar era um fator social dominante.
O que é muito diferente nos dias atuais, enquanto na antiguidade a leitura
desses livros era feita com o intuito de conhecer a si mesmo, hoje se tornou uma
válvula de escape para todo o qualquer problema ou adversidade que o homem
encontre na vida.
Refletir sobre essas diferentes utilidades nos faz pensar em todo o processo
histórico que está por trás dessas transformações.
Até o período da Reforma Protestante Deus representava o centro do
Universo, e todos tinham a crença de que essa era a referência e orientação para a
vida do homem.
Com o apogeu da modernidade e os meios de comunicação, o homem
substitui aquele espaço que era preenchidido por Deus e começa a fazer uso da

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razão, tentando compreender e explicar o mundo de uma outra forma que não seja
aquela que ele viu nos escritos religiosos, cultuados em igrejas por diversos anos, e
até hoje, ou seja, fora da concepção religiosa de mundo.
A partir de todo esse processo histórico, cheio de mudanças e reflexões,
novos dogmas e novas concepções, começa a surgir o sujeito individual, diferente
daquele anterior, singular, único, que é independente, toma decisões, realiza escolhas
e submete-se a crenças.
Os valores que a religião e a sociedade ofereciam naquela época são
perdidos; o homem perde os quadros de referência que possuía, dando espaço à
modernidade, ao mundo racional, à valorização do sujeito e à própria valorização de si
mesmo.

O homem moderno perde a orientação característica das sociedades


tradicionais, deste modo, com o desenvolvimento do individualismo,
cada qual buscou sua própria orientação. Uma das condições
incorporadas pela autonomia do sujeito é a busca em si mesmo (de
forças interiores), para auto-ajudar-se. Isto quer dizer que o sujeito
deve buscar em si mesmo os recursos necessários para conduzir-se
na vida, de tal modo, que possa conseguir pelas suas forças
interiores e vontades individuais, alcançar seus objetivos, a realização
pessoal, a felicidade. (RÜDIGER, 1996, p. 35)

Com a perda desses valores a indústria cultural volta-se para seus


consumidores não com o intuito de ajudá-los em suas dificuldades mas sim para a
especulação financeira, lucrativa, pela exploração, manipulação comunicativa que
procura exercer sobre as pessoas. Apoderando-se de ideais que não existem, valores
criados e impostos por essa nova sociedade, onde o que vale mais é o “ter”, o adquirir
e não o “ser”, o viver.
Meios de comunicação onde a informação é imposta, o lirismo provocado
apenas para adquirir leitores compulsivos, cenas de televisão onde o drama parece
ser mais uma vez repetido, sem mudanças, nem variações, apenas para ocupar o
tempo escasso da população, que não tem mais nada o que fazer além de “engolir”
tudo o que lhe é oferecido pelas mídias em geral. Desde enlatados, selos de
propaganda, modas, até ideologias, valores, conceitos, religiões.
Um texto literário deve ter o poder de produzir questionamento sobre o
mundo, o indivíduo a sua historia, a sociedade e a própria literatura. A literatura não
traz respostas às dificuldades do mundo, aos sofrimentos; ela não é apaziguadora,
muito pelo contrário, provoca no ser humano novos questionamentos e novas
perguntas acerca da sua existência e de vários outros temas propostos.

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Textos como os de massa não buscam problematizar a leitura, tornar
complexos os sentidos da mensagem. Estes textos adotam uma técnica narrativa de
uma linguagem simples, sem rebuscamento estético e de fácil assimilação e tradução
para outras línguas.
Assim, os autores de textos de literatura de massa, em geral os de cunho
narrativo, utilizam-se de técnicas textuais e narrativas que foram ao longo do tempo
desenvolvidas e aprimoradas pela ficção, pela dramaturgia e textos jornalísticos.
Os personagens dos textos narrativos de massa seguem uma linha de
personalidade, que nunca muda apresentando universos recriados, recriação esta que
parte de lugares-comuns.
Percebemos assim claramente uma falta de originalidade, pois o mesmo autor
tenta recriar o mesmo universo, com os mesmos temas e personagens parecidos,
como se quisesse infiltrar na massa leitora de pouco conhecimento, um tipo de leitura
padrão, ou seja, uma leitura de fácil assimilação e acepção pelas classes médias.
Esses tipos de narrativas em textos de literatura de massa são lineares,
procurando sempre envolver o leitor em uma história trivial, partindo de lugares-
comuns, com parágrafos curtos e linguagem simples e acessível. Textos estes que
são escritos geralmente para um grande público que não está habituado à leitura, que
se concentra em outros meios de comunicação abandonando os livros.
Com o abandono do hábito as pessoas passam a preferir coisas mais
práticas, soluções práticas para os seus problemas. Daí podermos perceber que nos
textos de auto-ajuda é comum o uso de frases feitas com soluções imediatas para os
problemas, narrativas curtas que partem de lugares conhecidos e com problemáticas
comuns aos seres humanos.
O texto de massa não é um texto “maçante” e não exige muito de sua
interpretação, além de sempre apresentar um universo previsível, com soluções
previsíveis, ao contrário de outros escritores como Machado de Assis que sempre
surpreendem o leitor, muitas vezes dando-lhe o contrário do que este esperava ao
folhear as páginas do livro:

Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não


tenho que fazer... e, além do mais, expedir alguns magros capítulos
para esse mundo é tarefa que sempre distrai um pouco da
eternidade; mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa
contração cadavérica... Vício grave e, aliás, ínfimo, porque o maior
defeito deste livro és tu, leitor... Tu tens pressa de envelhecer, e o
livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo
regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios:
guinam à direita e à esquerda, escorregam e caem... (ASSIS, 1994)

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Os textos de massa utilizam uma linguagem de forma estereotipada, padrão,
para que todos possam ler e entender sem dificuldade nenhuma, possibilitando ainda
uma melhor tradução para outros idiomas.
As histórias geralmente partem de um mesmo tema, dentro de um mesmo
contexto: “A reiteração ad infinitum das mesmas histórias, sob o disfarce de serem diferentes,
cultiva a alienação vigente, e ao mesmo tempo a exacerba, fazendo com que os receptores
não queiram mais sair dela.” (KOTHE, 1994, p. 141)
Assim o autor toma para a produção de seus livros um tema padrão, com
personagens padrões, sem o rompimento de paradigmas, sem inovação, com uma
linguagem bela. Eco (1989) define este tipo de processo de “retomada” quando algum
autor retorna ao conteúdo, criando uma narrativa parecida, ou continua a mesma
narrativa quando a anterior foi bem sucedida e aceita pela população. Segundo ele:

Na série, o leitor acredita que desfruta da novidade da história


enquanto, de fato, distrai-se seguindo um esquema narrativo
constante e fica satisfeito ao encontrar um personagem conhecido,
com seus tiques, suas frases feitas, suas técnicas para solucionar
problemas. (ECO, 1989)

Encontramos esse tipo de comportamento também em outros meios de


cultura de massa, como filmes, novelas, produções musicais, onde o produtor percebe
quando um produto foi bem vendido e aceito pela população, daí passa a recriá-lo de
diversas formas, em trilogias, em diversos volumes.
Essas retomadas de conteúdos ou de modelos que deram certo impedem o
leitor de buscar novas formas de recriação da realidade, pois está habituado a esta
leitura estereotipada, feita para uma classe mediana, com personagens medianos,
uma narrativa que não evolui significativamente, apresentando sempre os mesmos
moldes, mesmas soluções.
A literatura de massa possui em relação a muitos leitores a função de
entretenimento, muito parecida com os folhetins literários, com histórias românticas,
feitas para consolar as mulheres que ficavam enfastiadas de tardes ensolaradas e
monótonas.

Luísa vestia-se para ir à casa de Leopoldina. Se Jorge


soubesse não havia de gostar não. Mas estava tão farta de
estar só! Aborrecia-se tanto! De manhã ainda tinha os arranjos,
a costura, a toalete, algum romance... Mas de tarde!
(QUEIRÓZ, 1997)

As pessoas buscam hoje novas formas de entretenimento devido à


modernização dos meios de comunicação. Hoje, mulheres como Luísa trabalham,

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estudam, não são tão dependentes dos maridos. Enquanto antigamente essas
mulheres se preocupavam com o jantar e os afazeres domésticos, hoje já se tornaram
mais independentes economicamente, se preocupam com seu próprio sucesso
profissional e pessoal.
No entanto os “folhetins” viraram clássicos, e hoje são lidos com outros
objetivos e não só o da distração, mas de adquirir cultura e conhecimento, já que a
literatura reflete o mundo a sua volta, sendo a reescrita da realidade, mesmo que
dentro de um ato ficcional. São clássicos, pois atravessaram a linha do tempo nos
dando várias dimensões de interpretações e leituras, várias visões de mundo.

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