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GT7 – GRANDES EMPREENDIMENTOS, ESTADO E MEIO AMBIENTE

Tema:

GESTÃO DOS RECURSOS NATURAIS E VULNERABILIDADE SÓCIO-


AMBIENTAL EM MOÇAMBIQUE: PROCESSOS E PERSPECTIVAS

Giverage Alves do Amaral1

NOVEMBRO, 2014

1
Doutorando em Ambiente e Sociedade, Núcleo de Estudos e Pesquisa Ambiental (NEPAM) /UNICAMP / IFCH/
Contacto: tagivera85@gmail.com
Resumo

Em Moçambique, apesar de importantes ações já terem sido levadas a cabo em prol da gestão das
calamidades naturais e os seus potenciais impactos, diversas formas de catástrofes naturais ainda
tem sido registradas, e as regiões mais afetadas têm sido as que apresentam significativa
importância económica, o que tem contribuído significativamente para aumentar e perpetuar a
vulnerabilidade sócio-ambiental do país. O presente artigo procura analisar a perspetiva sobre a
vulnerabilidade sócio-ambiental em Moçambique, tendo como referência o impacto dos
megaprojetos e seu contributo para a variação da vulnerabilidade sócio-ambiental em Moçambique.

Palavras-chave: Megaprojetos, Governo; Vulnerabilidade Social & Ambiental;


1. APRESENTAÇÃO
Frequentes catástrofes naturais tem sido registradas em Moçambique, e as regiões mais
afetadas têm sido as que apresentam significativa importância económica. No momento, existem
algumas importantes ações já realizadas de forma decisiva e concreta na luta contra as calamidades
naturais, e como contribuição para combate a mudança climática global e os seus potenciais
impactos.
A apresentação da primeira comunicação nacional em prol do ambiente e a aprovação do
Programa de Acção Nacional para Adaptação (NAPA), definiram 4 (quatro) ações principais que o
país deve realizar para reduzir o impacto das mudanças climáticas e sua variabilidade, que são: o
fortalecimento do sistema de aviso prévio; o fortalecimento das capacidades dos produtores agrários
para melhor gerirem as mudanças climáticas; a redução do impacto das mudanças climáticas nas
zonas costeiras, e a gestão dos recursos hídricos no âmbito das mudanças climáticas, (MICOA,
2007; QUEFACE, 2009).
Uma das áreas chave deste processo foi sem dúvida a modernização dos instrumentos de
programação de recursos públicos aos níveis provincial e distrital, acompanhado de ensaios de
articulação entre a administração do Estado e as comunidades locais, assim as ações locais
passaram a ter como objectivo, a introdução de novos valores na gestão do risco de calamidades
naturais, assim, a monitoria e o registo fiável da informação relativa aos desastres naturais,
passaram a ser de extrema importância para os planos de desenvolvimento nacional. Nesta
perspectiva a participação dos cidadãos na vida sócio-económica do país passou a ser considerada
como a forma ideal no processo de busca das melhores soluções para os problemas de
vulnerabilidade ambiental que as comunidades locais enfrentam, (PLANO DISTRITAL DE
DESENVOLVIMENTO, 1998).
Com o presente artigo procuramos entender o modo como é discursivamente construída a
perspetiva sobre a vulnerabilidade as mudanças climáticas na visão oficial do governo de
Moçambique, e para tal apresentamos primeiro uma a noção de vulnerabilidade entendida pela
Sociologia, pelo IPCC e depois na perspetiva do governo Moçambicano, de modo a entender os
aspetos apontados como indicadores oficiais de vulnerabilidade no país. Em seguida, fazemos uma
análise sobre como são pensadas/construídas discursivamente as vulnerabilidades do país pelo
governo e por fim aduzimos as considerações finais em jeito de conclusão.
2. PERSPECTIVA CONSTRUCIONISTA DA VULNERABILIDADE E DOS
DESASTRES NATURAIS: CONCEITOS SÓCIO-AMBIENTAIS
Hannigan (1995), Buttel e Taylor (1992: 214) argumentam que a Sociologia ambiental
deveria dar mais atenção a construção social do conhecimento ambiental, pois que a construção dos
problemas ambientais ou das questões ambientais é uma questão de políticas de produção de
conhecimento, visto tratar-se de uma reflexão directa da realidade biofísica, e a forma como o
conhecimento e os riscos ambientais são conceptualizados. O relativo êxito destas construções são
impelidas e canalizadas para as estruturas existente do poder económico e político, ademais que os
problemas ambientais progridem desde a sua descoberta inicial, até a política de implementação, e
esta é sua ordem temporal de desenvolvimento; este pensamento nos conduz a um conceito muito
caro a Sociologia ambiental, o construcionismo, que muito bem foi explorado por diversos autores
dos quais Hannigan (1995) se destaca.
Segundo Hannigan (1995) o “construcionismo” se aproxima etimologicamente e
conceitualmente do “construtivismo”. Na Sociologia ambiental parte-se da ideia segundo a qual, os
assuntos ambientais não se materializam por si; eles são definidos por indivíduos ou instituições
que se dedicam a procurar possíveis soluções para resolver os problemas” (HANNIGAN, 1995).
Falar em construtivismo significa dizer que a realidade não é estática e está em constante
transformação. É a ideia ou teoria segundo a qual nada, a rigor, está pronto e acabado, e de que a
realidade não é dada a priori, em nenhuma instância, como algo terminado, ela se constitui pela
interação do indivíduo com o meio físico e social, com o simbolismo humano, com o mundo das
relações sociais e se constitui por força de sua acção, e é isto que nos permite estudar e interpretar o
mundo em que vivemos (BECKER, 1992)2.
Assim, entendemos que o sujeito é sempre um projeto a ser construído tal qual o objecto,
ora, se os dois (objecto e sujeito) têm de ser construídos, significa que eles não têm existência social
prévia, mas são construídos mutuamente na interação. Entender isto mostra-se importante, porque
daqui nasce uma negação explícita ao apriorismo e ao empirismo, por onde se entende que, por
exemplo, o conhecimento não nasce com o indivíduo, e nem é dado pelo meio social, o
conhecimento é socialmente construído, e é na interação com o meio físico que o sujeito constrói o
seu conhecimento, sendo que tal construção depende das condições do sujeito.

2
“Vê-se, pois, que, assim como Marx derrubou a ideia de uma sociedade constituída por estratos, ricos e pobres, que
existem desde toda a eternidade, e criou a ideia de uma sociedade que se produz e reproduz, estabelecendo um sistema
de produção que a perpetua, Piaget derruba a ideia de um universo de conhecimento dado, seja na bagagem
hereditária (apriorismo), seja no meio físico ou social (empirismo).” (BECKER, 1992).
Há porém uma diferença muito importante e a se levar em consideração: quando se fala de
Construcionismo refere-se aos aprendizados que são criados através das interações sociais de
grupos, enquanto o construtivismo foca no aprendizado do indivíduo, que acontece como resultado
de sua interação com um grupo, por isso para pensar este artigo nos focamos no construcionismo,
por nos remeter a ideia de que a vulnerabilidade existe em função da interação entre o Governo
Moçambicano, a população humana (povo) e o meio ambiente biótico e abiótico.
Olhando para o conceito de vulnerabilidade, é possível ver que de acordo com o IPCC,
pode-se definir como sendo o grau pelo qual um sistema é suscetível ou incapaz de enfrentar efeitos
adversos da mudança, incluindo a variabilidade e os extremos do clima, em função do caráter,
magnitude, da variação, da rapidez da mudança a que um sistema está exposto, de sua sensibilidade
e de sua capacidade de adaptação (IPCC, 2001).
Assim, a vulnerabilidade pode ser entendida também como um conjunto de situações mais
ou menos problemáticas, que situam o indivíduo numa condição de carente, necessitado,
impossibilitado de responder com seus próprios recursos a dada demanda que vive e o afeta.
Literalmente uma relação existente entre a possível intensidade do dano e a magnitude da ameaça,
caso ela se concretize como evento adverso.
Contudo, o conceito de vulnerabilidade tem suas raízes no estudo do risco de eventos
naturais, podendo se definir ainda como, as características de uma pessoa ou grupo em relação a sua
capacidade de antecipar, de fazer frente, de resistir e de se recuperar de um impacto e risco natural
ou social. Implica uma combinação de fatores que determinam o grau no qual a vida e a forma de
vida de alguém são colocadas em risco por um evento discreto e identificável na natureza e na
sociedade (BLAIKIE ET AL., 1994).
O debate sobre as formas de interpretação das vulnerabilidades nas ciências sociais é
complexo e tem sido desenvolvido pela utilização de muitos conceitos como por exemplo, crises,
catástrofes naturais, desastres naturais, riscos naturais, calamidades naturais, situações extremas,
impactos negativos, emergência. A palavra “desastre” tem sido utilizada para caracterizar todo tipo
de infortúnios súbitos, inesperados ou extraordinários, porém em termos sociológicos, sua
utilização reporta, especificamente, a um acontecimento ou uma série de acontecimentos, que
alteram o funcionamento de um determinado sistema social;
Alguns pesquisadores têm focalizado dimensões analíticas relacionadas à duração do
impacto, procurando comparar as reações sociais nos diversos grupos de fenómenos, enquanto
outros enfatizam os aspetos físicos dos desastres (KREPS, 1984: 311), em ambos os casos verifica-
se que os conceitos de desastre e vulnerabilidade evocam uma relação específica entre sociedade e
natureza, no qual se enfatiza os factores sociais para a análise do fenómeno.
Contudo, é possível diferenciar ainda neste meio duas grandes tradições de análise, onde por
um lado encontramos a teoria dos Hazards, desenvolvida do ponto de vista geográfico, que enfatiza
os aspetos naturais e abrange fenómenos como por exemplo, avalanches, terramotos, erupções
vulcânicas, ciclones, deslizamentos, tornados, enchentes, epidemias, pragas, fome e muitos outros,
A infelicidade desta formulação surge da insistência em tratar dos desastres naturais
isoladamente, e embora possa-se, por exemplo, determinar com precisão que o agente causador do
impacto é a chuva, não podemos explicar o fenómeno, considerando o agente isoladamente, sob
pena de sermos levados a supor que quanto maior a magnitude do agente, maior seria o número de
vítimas, o que equivale a dizer em outras palavras, que para compreender por que uma população é
atingida, torna-se necessário considerar não somente as consequências dos desastres naturais, mas
também os factores que o antecedem.
A teoria dos desastres desenvolvida do ponto de vista sociológico enfatiza os aspetos sociais
(MATTEDI & BUTZKE, 2001), e se sustenta num número considerável de modelos desenvolvidos
para analisar o comportamento dos indivíduos antes, durante e depois da ocorrência de um desastre
natural. Estes modelos não são excludentes, mas fornecem uma avaliação das perceções individuais
de forma diferente e variam segundo a ênfase atribuída aos factores cognitivos ou aos factores
situacionais como por exemplo, o sistema social, politico, económico ou cultural.
Assim, podemos identificar o Modelo Behaviorista de análise, que é baseado na aplicação
de questionários e inquéritos em pessoas situadas em áreas de risco, visando a fazer comparações
entre os diversos tipos de comportamento. O Modelo de Preferência que procura entender o
comportamento individual através das preferências “reveladas” e “expressas”, procurando
determinar o papel da experiência na gestão da situação de desastre natural. O Modelo Utilitarista,
que modifica a visão convencional de racionalidade fundamentada na consideração de que os
indivíduos são racionais ao ligarem uma intenção subjetiva a possíveis retornos. O Modelo
Marxista que sustenta que as pessoas vivem em área de risco porque a sociedade não fornece outras
alternativas, ou seja, que os desastres naturais não afetam as pessoas da mesma maneira, pois são os
grupos considerados vulneráveis que são os mais atingidos (idem).
Facto interessante é que na perspetiva sociológica, o agente do desastre não pode ser
considerado como um fator externo ou independente do contexto social, e portanto, um desastre
exprime, a “materialização da vulnerabilidade social” em desastres (PELANDA, 1982: 507-532), e
nesta ordem de ideias, cada sociedade ou comunidade pode responder aos desastres a partir das
experiências acumulada de convívio com o problema.
Nesse sentido, o aumento do número de desastres nos últimos anos em alguns pontos do
globo, e em Moçambique em particular, pode querer indicar que o aumento da vulnerabilidade está
intimamente conectado com o crescente processo de subdesenvolvimento e de marginalização
social, pois aqui a vulnerabilidade é vista como resultado da relação entre uma população
marginalizada e um ambiente físico deteriorado” (MATTEDI & BUTZKE, 2001). Considerando
estas perspetivas, podemos pensar a vulnerabilidade como uma situação de exposição a um
conjunto de fenómenos que podem impactar a sociedade, causando o surgimento de um padrão
específico de interação entre o sistema natural (meio ambiente) e o sistema social (sociedade).
De acordo com Mattedi & Butzke, (2001), a análise típica dos problemas ambientais
caracteriza-se pela consideração dos impactos provocados pelo sistema humano sobre o ambiente
natural, nesta ordem de ideias, a dimensão social é pensada como uma variável que afeta a
dimensão natural, sendo que alguns estudos incluem também a consideração dos possíveis efeitos
que o ambiente modificado pode provocar sobre os seres humanos; neste caso, a dimensão natural
intervém no processo.
Esta forma de considerar as relações entre as dimensões naturais e social fundamenta-se no
princípio de que existe uma relação de influência recíproca entre as duas dimensões, social e natural
e deste ponto de vista um problema ambiental, como por exemplo os desastres, pode ser
caracterizado como sendo um efeito negativo que emerge nos pontos de intersecção entre uma
sociedade e a natureza.
A vulnerabilidade é uma função de três fatores: exposição, sensibilidade e capacidade de
adaptação. Com maior exposição e sensibilidade, maior o incremento na vulnerabilidade, por outro
lado, quanto maior a capacidade de adaptação de um sistema, menor a vulnerabilidade, vale aqui
ressaltar, no entanto, que ter capacidade de adaptação não significa necessariamente a utilização
efetiva desta capacidade, influenciado a determinação da vulnerabilidade (IPCC, 2001). Assim,
urge considerar que o conceito abrange distintos fatores e processos que refletem a suscetibilidade,
uma predisposição a ser afetada e as condições que favorecem ou facilitam que aconteça uma perda
ou desastre frente a uma ameaça, é nesta ordem de ideias que podemos considerar a vulnerabilidade
como ambiental e social.
A vulnerabilidade Social é formada por pessoas e lugares, que estão expostos à exclusão
social, são famílias, indivíduos sozinhos, e é um termo geralmente ligado a pobreza, os indivíduos
que estão dependentes de favores de outros (SEADE, 2001), como do estado e das ONG’s
nacionais e internacionais.
O principal conceito é que um indivíduo está em vulnerabilidade social quando ela
apresenta sinais de desnutrição, condições precárias de moradia e saneamento, não possui família,
não possui emprego, e esses fatores compõe o risco social, ou seja, é um cidadão, mas ele não tem
os mesmos direitos e deveres dos outros cidadãos (idem).
A pessoa que está nessa situação torna-se um excluído, o que ocorre quando indivíduos são
impossibilitados de partilhar dos bens e recursos oferecidos pela sociedade, fazendo com que essa
pessoa seja abandonada e expulsa dos espaços da sociedade3.
Assim, a vulnerabilidade e o risco social podem ser entendidos como sinônimos de pobreza,
porém, uma é consequência da outra, uma vez que a vulnerabilidade é que coloca as pessoas em um
risco social. A pobreza desses indivíduos é medida através da chamada linha de pobreza, que é
definida através dos hábitos de consumo, geralmente num valor equivalente a meio salário mínimo.
Uma das opções mais eficazes para reduzir a vulnerabilidade social é o aumento da escolaridade e
da qualidade educacional e cultural para esse segmento da população, pois entende-se que com uma
melhor e maior bagagem educacional e cultural as outras carências poderão ser suprimidas
(KATZMAN, 1999; 2001).
A vulnerabilidade ambiental está relacionada ao grau de suscetibilidade de um sistema aos
efeitos negativos provenientes das mudanças climáticas a nível do globo (TAGLIANI, 2002; E
METZGER AT AL, 2006). Assim ela pode ser definida como uma situação em que o meio físico
está vulnerável às pressões humanas. Geralmente estão presentes três fatores: exposição ao risco;
incapacidade de reação; e dificuldade de adaptação diante da materialização do risco. Carvalho,
Souza e Santos, (2003) e Li, Wang, Liang e Zhou (2006), relacionaram vulnerabilidade a
características do meio físico e biótico (declividade, altitude, temperatura, aridez, vegetação, solo),
à exposição a fontes de pressão ambiental (densidade populacional, uso da terra, ocupação
irregular) e à ocorrência de impactos ambientais (erosão hídrica) em uma área montanhosa.
Por sua vez Villa e McLeod (2002) e Veyret (2007) pontuam que a vulnerabilidade
ambiental está ligada a processos intrínsecos que ocorrem em um sistema, decorrentes do seu grau
de conservação (característica biótica do meio), e à resiliência ou capacidade de recuperação após
um dano; além de processos extrínsecos, relacionados à exposição a pressões ambientais atuais e
futuras. Nesta perspetiva, a vulnerabilidade ambiental pode ser entendida como uma capacidade ou
incapacidade do meio natural a resistir e/ou a recuperar-se, após sofrer impactos decorrentes de
atividades antrópicas, consideradas normais ou atípicas, por exemplo, a remoção da vegetação de
uma floresta numa encosta, não pode ser considerada uma atividade antrópica normal, sobretudo, se
for uma Área de Preservação Permanente.

3
“Vulnerabilidade social como o resultado negativo da relação entre a disponibilidade dos recursos materiais ou
simbólicos dos atores, sejam eles indivíduos ou grupos, e o acesso à estrutura de oportunidades sociais econômicas
culturais que provêm do Estado, do mercado e da sociedade. Esse resultado se traduzem debilidades ou desvantagens
para o desempenho e mobilidade social dos atores” (VIGNOLI E FILGUEIRA, 2001 apud AMBRAMOVAY, 2002,
p.13.)
3. GOVERNO, VULNERABILIDADE SÓCIO-AMBIENTAL E AS MUDANÇAS
AMBIENTAIS EM MOÇAMBIQUE
As necessidades de Desenvolvimento exigem um ambiente propício à expansão das
actividades produtivas e à implantação de novos empreendimentos sociais, económicos, turísticos,
entre outros. Por seu turno, é fundamental que as práticas de governação (na esfera pública e
privada) incluam a componente da sustentabilidade ambiental (CTV, 2012). É nesta ordem de
ideias que os governos são importantes atores, principalmente para formulação de leis,
regularizações, apetrechamento de instituições e modos apropriados de governança para controle
dos diferentes níveis e escalas de risco e vulnerabilidades ambientais (FERREIRA, 2011).
Em estudo feito pelo governo moçambicano entre Maio de 2008 e Janeiro de 2009,
intitulado: Impactos das Mudanças Climáticas nos Riscos de Desastres Naturais em Moçambique,
liderado pelo Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) é possível encontrarmos uma
abordagem ampla sobre a situação de vulnerabilidade aos desastres naturais em Moçambique.4
A informação documentada existente sobre a abordagem da vulnerabilidade as mudanças
climáticas em Moçambique, revela que os principais desastres naturais que afetam o país são de
origem hidro-meteorologica tais como cheias, seca e ciclones tropicais associados a eclosão de
epidemias tais como a cólera e diarreias. Só no período que cobre desde 1956 até 2008 foram
registados no conjunto total do território nacional, dez (10) eventos de seca, vinte (20) eventos de
cheia, treze (13) ciclones tropicais, dezoito (18) epidemias e um (1) sismo, onde se destaca a cheia e
as epidemias como os mais frequentes em Moçambique (QUEFACE, 2009).
Vários factores contribuem para a vulnerabilidade do País aos desastres e calamidades
naturais. O primeiro fator é a sua localização geográfica, pois a faixa costeira de Moçambique está
localizada na via preferencial dos ciclones tropicais mais destrutivos desta região, e por outro lado,
o país situa-se a jusante dos principais rios cuja nascente está nos países vizinhos, com o destaque
para o rio Zambeze que representa 50% do escoamento superficial de todo território moçambicano
(idem).
O segundo fator é a fraca habilidade de prever os eventos extremos a nível nacional, a
deficiente disseminação de avisos de alerta atempada e de pré-aviso contra as intempéries
ambientais, e o grau elevado de desconhecimento e da pobreza absoluta, tornam o país muito
vulnerável às calamidades naturais de origem meteorológica, nomeadamente secas, cheias e
ciclones tropicais.

4
Observatório dos Países de Língua Oficial Portuguesa, Boletim 0.1 – Catástrofes naturais e necessidades
estratégicas justificam apoio brasileiro a Moçambique, Publicado em Julho de 2010
Neste ponto, cabe enfatizar que os meios de comunicação social moçambicanos
expandiram-se e diversificaram-se bastante desde a transição democrática (1992), mas são ainda
marcados por desigualdades na cobertura e acesso, sendo que os altos níveis de analfabetismo e de
pobreza condicionam a abrangência da imprensa escrita, e a esmagadora maioria (54% de
analfabetos) dos moçambicanos nunca comprou e não lê jornais. Apenas a rádio atinge um público
consideravelmente vasto, e no geral a maioria dos moçambicanos tem acesso a poucos meios de
comunicação social5.
Assim, aos olhos do governo, Moçambique é flagelado por uma capacidade inadequada de
resposta aos efeitos diretos e indiretos dos desastres naturais por causa do alastramento da pobreza,
problemas sociais, conflitos, e incapacidades humanas, institucionais e financeiras que são limitadas.
Depreende-se daqui a lacuna no acervo de conhecimento sobre as estratégias ou os comportamentos
e atitudes que os indivíduos adotam face as intempéries naturais, particularmente nos distritos
também denominados “Pólo de desenvolvimento”, de modo a adotar as melhores estratégias para se
prevenir e gerir os riscos ambientais.

4. GOVERNO, MEGAPROJETOS E A VARIAÇÃO DA VULNERABILIDADE


SÓCIO-AMBIENTAL EM MOÇAMBIQUE
Na análise sobre os megaprojetos e seu impacto e a vulnerabilidade sócio-ambiental, é
possível notar que a tendo a economia de Moçambique registado algumas mudanças estruturais
desde o fim da guerra civil até a atualidade, principalmente impulsionada pelo investimento
estrangeiro, e mais recentemente em especial os grandes projetos de investimento intensivos em
capital, os megaprojetos 6 (ROSS & MASHA, 2014), o Governo complementou as suas políticas
macroeconómicas, com uma série de reformas estruturais num contexto de condições económicas
mundiais favoráveis a dinâmica dos preços da matéria-prima e cooperação forte com doadores em
forma de ajuda ao desenvolvimento (idem).
A orientação do Governo deslocou-se para a redução das vulnerabilidades em toda a
abrangência do termo e ao aumento da resistência a choques de toda natureza. Contudo em
Moçambique a capacidade institucional é ainda fraca em muitas áreas, tais como a redução de
riscos e desastres ambientais, a formulação de políticas sócio-ambientais, o planeamento e a
execução do investimento.

5
Moçambique: Democracia e Participação Política, relatório publicado pelo AfriMAP e pela Open Society Initiative for
Southern África, 2009

6
Exceto no caso da central hidroelétrica de Cahora Bassa e da Mozal, que transforma bauxite importada em alumínio
para exportação, os outros megaprojetos (Vale, Rio tinto, etc.) centram-se em minas e recursos naturais para a
exportação.
Com efeito, o investimento por via dos megaprojetos, estimulou o crescimento
Moçambicano, pelo menos em termos económicos, representando um aumento no investimento nos
primeiros anos após o conflito civil evidenciou a reconstrução financiada pela ajuda externa, mas
rapidamente a atenção virou-se para projetos de infraestruturas e para o investimento direto
estrangeiro (IDE), sobretudo projetos como Cahora Bassa, Mozal e Sasol. Assim desde o ano de
2004, iniciaram-se vários projetos no setor extrativo, exploração ou processamento de minérios,
nomeadamente o projeto das areias pesadas da Kenmare, as minas de carvão da Vale e Rio Tinto e,
mais recentemente, a exploração de gás pela ENI e Anadarko na bacia de Rovuma, norte de
Moçambique (ROSS & MASHA, 2014).
Contudo, o desenvolvimento das riquezas do país através dos megaprojetos representa
grandes desafios para Moçambique, contudo constitui também uma oportunidade para promover
progressos essenciais, principalmente para população de desfavorecidos, que como se esta a
verificar acaba sendo vítima ao invés de se beneficiar desta estratégia de crescimento económico.
Em Moçambique os megaprojetos implicam alianças de poder e de interesses de transparência
duvidosa, com as elites político-económicas locais surgindo dai impactos como o aumento das
desigualdades sociais, falta de transparência na gestão dos recursos naturais principalmente os não
renováveis, e nepotismos, (MOSCA, 2009).
A “pegada ecológica” dos megaprojetos atinge proporções gigantescas e deixa marcas
profundas e irreversíveis, assim por exemplo, apesar de o uso da terra em Moçambique ser regulado
pela Lei da Terra e conferido através de obtenção do Direito de Uso e Aproveitamento da Terra
(DUAT), e apesar de vários destes empreendimentos afirmarem pautar por uma atuação
compromissada com o enfrentamento dos desafios associados ao processo de mudanças ambientais,
através de sua participação em programas de disseminação de informações sobre emissões e em
fóruns de discussão sobre a temática, estes tem sido vistos como os protagonistas no processo de
expropriação, usurpação, aquisição, controle e partilha de grandes extensões terras7.
A titulo de exemplo e citando ainda o relatório acima, de 2009 a 2010 foram expropriadas
de suas terras mais de 1.313 famílias rurais que atualmente estão numa situação de vulnerabilidade
sócio-ambiental agravada, pois a divisão arbitraria das famílias (entre rurais e semi-urbanas) usando
critérios diferenciados para os reassentamentos, nos quais geralmente as famílias consideradas
rurais, são realocadas a cerca de 45 km da sua comunidade de origem e a 75 km da cidade, acarreta
custos pela inacessibilidade aos serviços públicos de qualidade indispensáveis a uma vida digna,

7
Segundo o Relatório de insustentabilidade da Vale, no projeto de Moatize “a Vale tem um DUAT de 23.780 hectares
num período de 35 anos renováveis (contados a partir de junho de 2007)”.
entendendo-se assim que a os megaprojetos tem continuamente criado conflitos de terra e agravado
a vulnerabilidade das comunidades rurais impactadas8
Segundo Mosca (2009), os discursos do Governo e da diplomacia externa, quando
confrontado com estes desafios tem sido positivos, transparecendo estabilidade, progresso e
redução da pobreza, e de facto os megaprojetos tem injetado recursos e criado dinamismo na
economia moçambicana, fazendo crescer o rendimento nacional, e servindo de exemplo do
“milagre económico”, Moçambique consegue captar mais ajuda externa, compondo o que Mosca
chamou de “ciclo de interesses e de desvirtuosismos” cujos efeitos multiplicadores são baixos.
Contudo, os megaprojetos não são indesejáveis em si, o que se pretende é um conjunto de
ações que estimulem o amortecimento das externalidades sociais e ambientais, seja por intervenção
direta do Estado ou pela aplicação da Lei.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A nossa convicção é a de que uma governação local autárquica assente no princípio de
gestão participativa de recursos naturais e dos bens públicos pode solucionar muitos problemas
relacionados com a degradação e vulnerabilidade ambiental em Machanga, num sistema em que o
público utente, os residentes, as unidades económicas e as autoridades governamentais e os
parceiros de cooperação nacionais e internacionais, estabeleçam um vínculo de parceria em prol do
bem comum.
Apesar de nossa análise ser extremamente limitada e parcial, eis uma primeira e tímida
desconstrução de uma situação de vulnerabilidade ambiental de acordo com a proposta de Hannigan,
que brilhantemente evidenciou a necessidade de se desconstruir os problemas ambientas de modo a
obter uma compreensão mais apurada do problema e sobretudo facilitar a compreensão da génese
das questões ambientais, o que vai de acordo com a ideia de Buttel e Taylor (1992: 214).
Com certeza que a educação ambiental é uma das medidas de prevenção que podemos
recomendar aqui, pois pensamos que esta permite uma interação entre os vários parceiros na gestão
da vulnerabilidade social e ambiental, tornando-os mais conscientes sobre o problema e
preocupados em reagir para reduzir o seu impacto na comunidade e no ambiente, proporcionando
um plano preciso e bastante definido, que consolide cada um dos núcleos de população existentes.
Pensamos ainda que são igualmente necessárias políticas mas condicentes com a realidade
Moçambicana, pois a implementação de projectos acabados e exógenos, acaba sendo demasiado
dispendiosa em termos monetários e em termos ecológicos; Pensamos ainda que as ações a nível
local têm como objectivos introduzir valores à gestão ambiental, acompanhados pela valorização do

8
Relatório de insustentabilidade da Vale, 2012.
contexto e das tradições locais, o que ajudaria a fortalecer a identidade local, assim, além da
comunidade ter que assumir o papel de “comunidade agente”, poder-se-iam induzir políticas de
participação e captar recursos e espaços para a sua implementação, de modo que o gozo da
independência para a tomada de decisões, resultasse na durabilidade das ações, envolvendo o
governo, as organizações da sociedade, e permitindo o exercício de uma cidadania activa em
Moçambique de modo geral.
Com este exercício foi possível identificar que a vulnerabilidade ambiental, sendo de facto
um problema social e fisicamente identificado, é trespassada por problemas políticos, económicos,
sociais e culturais, e desse modo, pensamos ser essencial o fortalecimento das instituições ligadas a
área ambiental, com meios técnicos, financeiros e humanos que permitam uma monitoria
sistemática dos parâmetros ambientais, assim como pesquisas académicas para melhor
compreensão dos fenómenos sociais que influenciam as mudanças ambientais em Moçambique.
É de grande importância uma forte componente educacional da população no geral, que
dissemine a importância do conhecimento e preservação do meio ambiente, realçando
veementemente a importância da dimensão socio-cultural e enfatizando o quanto as perceções dos
indivíduos são pertinentes para se alcançar algum sucesso nas ações de prevenção contra as
calamidades naturais, pois resultaria numa contribuição positiva para a redução da vulnerabilidade
sócio-ambiental em Moçambique.
Por último, consideramos que seria uma vantagem para gestão ambiental em Moçambique
permitir que as decisões em relação aos megaprojetos fossem discutidas de forma transparente com
as unidades situadas nos níveis mais baixos da organização político-administrativa, pois as “pessoas
que vivem os problemas são mais indicadas para resolvê-los, economizando deste modo, tempo e
dinheiro, isto é, assegurar a sustentabilidade ambiental local” (UN-Habitat, 2007), por um
desenvolvimento inclusivo.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARTICULAÇÃO INTERNACIONAL DOS ATINGIDOS PELA VALE. Relatório de
Insustentabilidade da Vale, 2012 . www.atingidospelavale.wordpress.com.
AMBROMOWAY, Miriam, et al. 2002. Juventude, violência e Vulnerabilidade Social na América
Latina; Desafios para políticas públicas. Brasília. UNESCO. BID. P.192.
BLAIKIE, P., T. CANNON, I. DAVIS, and B. WISNER. 1994. At Risk: Natural Hazards,
People’s Vulnerability, and Disasters London: Routledge.
BECKER, Fernando. 1992. O que é construtivismo? Revista de Educação AEC, Brasília, v. 21,
n.83, p. 7-15, abr./jun.
BUTTEL, Frederick Howard and TAYLOR, Peter James. 1992. “Environmental Sociology and
Global environmental change: A critical assessment”; Society e Natural Resources N0 5 pp. 211-
230.
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