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LUDICIDIDADE E CORPOREIDADE NA FORMAÇÃO DOCENTE: UMA


EXPERIÊNCIA COM O JOGO DE AREIA NUMA PERSPECTIVA
HUMANESCENTE

Tereza Cristina Bernardo da Câmara/Instituto Kennedy-RN

Ludicidade e Corporeidade na Educação Infantil, nome de uma disciplina, pensada


numa perspectiva transdisciplinar de formação docente, em um curso de pós-graduação
oferecido pelo Instituto de Educação Superior Presidente Kennedy – IFESP, na cidade
de Natal, do qual participam, na condição de alunos, trinta e três professores que
lecionam na Educação Infantil em escolas da rede pública do Rio Grande do Norte. A
referida disciplina tem como referência a Pedagogia Vivencial Humanescente. Um
mergulho na memória foi provocado nos alunos em busca de um momento de
ludicidade em sua existência a ser representado através do mágico Jogo de Areia.
Reflexões e descobertas aconteceram e conceitos foram construídos na busca de
sentipensar acerca do fenômeno da ludicidade como condição humana.

Palavras-chave: Corporeidade. Ludicidade. Pedagogia Vivencial Humanescente.


Formação de Professores.

O homem da racionalidade é também o da afetividade(...)O


homem do trabalho é também o homem do jogo (ludens)
(...)Assim, uma das vocações essenciais da educação do futuro
será o exame e o estudo da complexidade humana
Edgar Morin

Resgatando Memórias Lúdicas: reflexividade autobiográfica/vivencial

Tomar como referência o vivido para refletir acerca da Ludicidade Humana, foi
o ponto de partida ao se pensar em uma (trans)disciplina a ser oferecida no Curso de
Especialização em Educação Infantil ofertado pelo Instituto de Educação Superior
Presidente Kennedy a profissionais da educação envolvidos com esse nível de ensino no
estado do Rio Grande do Norte. A Pedagogia Vivencial Humanescente foi a base para
essa opção e a autopoiese (Maturana e Varela, 1995) o seu lastro, trazendo consigo os
processos de autoaceitação, autoconfiança, autofruição, autodeterminação,
autorresiliência, autorregulação e autotranscendência (Cavalcanti, 2009).
Em 1994, nascia, sob um novo formato, em Natal, o Instituto Kennedy,
instituição até então com tradição em formação de professores em nível médio, mas que
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a partir daquele momento trilhava caminho no ensino superior. Desde o princípio, teve
como um dos objetivos para seus cursos

à qualificação científica, técnica-pedagógica e cultural do professor da


Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental,
objetivando a ampliação, o fortalecimento e aprimoramento de suas
competências intelectuais e profissionais, numa perspectiva
humanística, (grifo da autora) de modo que seja capaz de assumir,
enquanto cidadão e educador, uma participação consistente, ativa e
construtiva nos processos educacionais e sociais, com vistas ao
exercício pleno de cidadania (RIO GRANDE DO NORTE, 2004, p.
8).

A partir de então uma prática com essa finalidade foi sendo construída. O acesso
a Base de Pesquisa Corporeidade e Educação/BACOR-UFRN, no ano de 1995, foi
responsável pelo lastro teórico dessa empreitada e, o desejo de transformar uma
realidade, mola propulsora desse desafio, como é possível observar em trabalhos
produzidos ao longo desse período (CÂMARA, 1996, 1997, 2005, 2006, 2007, 2008,
AMORIM, 2006, 2007, 2008, 2009 e ROQUE, 2008, 2009, 2010).
Nesse cenário, o saber ensinar a condição humana (Morin, 2002), transformou-
se em viver a condição humana e práticas se constituíram a fim de oportunizarem uma
reflexividade vivencial. Essa aqui apresentada, em especial, nasceu com o objetivo de:

Compreender o fenômeno da Ludicidade Humana a partir de uma


concepção transcultural da corporeidade(...) oportunizar vivências
corporais humanescentes visando o despertar de um processo
evolutivo de autotranscendência(...) refletir acerca da ludicidade e o
seu papel no desenvolvimento do ser humano e suas implicações para
a prática educativa. (RIO GRANDE DO NORTE, 2009)

Uma viagem no tempo/espaço foi provocada e os alunos foram conduzidos a


escolherem um momento de sua existência que reconhecessem como vivência de
ludicidade. Sentipensar (Moraes, 2004) esse momento foi o passo seguinte. Um pé no
passado e outro no presente, essa foi a tônica do que foi proposto e para expressar o
momento (re)vivido, o mágico Jogo de Areia foi eleito, pois dentre suas características
essa técnica permite que a objetividade e a subjetividade coexistam em um mesmo
espaço.
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O Jogo de Areia1 vem sendo utilizado pela BACOR, como espaço possibilitador
de expressão não só da racionalidade dos educadores/educandos, mas de suas
subjetividades que os constitui como indivíduos.
Cenários foram sendo construídos em um ambiente de entrega, emoção e prazer,
e os alunos se envolveram a ponto de perderem a noção do tempo, uma vez que as
miniaturas encantadas do Jogo de Areia têm a capacidade de fazer vir à tona a criança
que brinca dentro de cada um.

Vivenciando uma autoformação humanescente: descobertas e (re)construções a


partir do vivido

A vida do educando no centro do processo educativo, aprender com ela e a partir


dela é o sentido da Pedagogia Vivencial Humanescente. Perceber-se e refletir sobre a
condição humana, complexa, é um desfio constantemente lançado para os alunos,
Reconhecer sua autoecossistemicidade, acreditar que tudo está conectado, é um salto de
consciência em um processo de formação que historicamente tem tido como parâmetro
a fragmentação, o pensamento disjuntivo e desintegrado. É também reconhecer-se em
processo de autoformação permanente.
Mudar o rumo dessa história fazendo da autopoiese o seu lastro é ser capaz de
considerar-se ao mesmo tempo autônomo e dependente, reconhecer-se como um ser
paradoxal, condição que não pode ser adequadamente entendida pelo pensamento linear,
mas sim pelo pensamento ecossistêmico apresentado por Cândida Moraes (2004), o
mesmo que envolve o processo de sua humanescência.
Na vivência pedagógica de um processo de autoformação humana, sob o viés da
ludicidade, os processos de autoaceitação, autoconfiança, autofruição,
autodeterminação, autorresiliência, autorregulação e autotranscendência, foram sendo
evidenciados nas “falas” dos educandos ao descreverem as cenas que retratam
momentos de ludicidade nas suas vidas e que foram representadas na caixa de areia.
Não há aqui uma preocupação em apresentar evidências de que a totalidade dos
processos autopoiéticos foram contemplados, embora todos eles tenham sido citados
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O Jogo de Areia foi desenvolvido entre 1954 e 195 por Dora Kalff, analista suíça, formada no Instituto
C. G. Jung em Zurique. Nesse jogo as pessoas constroem cenas com miniaturas em caixa de areia.
“Segundo Kalff (apud Weinrib, 1993: 37), o aspecto central do Jogo de Areia é o conceito de „espaço
livre e protegido‟, que tem dimensões tanto físicas quanto psicológicas: enquanto há liberdade para
criar aquilo que se deseja” (Scoz, 2008, p. 49-50).
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pelos alunos. O de autoaceitação esteve presente em algumas reflexões e uma delas


considera que: “O interessante seria que cada um de nós respeitássemos nossas
limitações, compreendêssemos nossas necessidades e vivêssemos num constante
processo de auto-aceitação e também do outro”, enquanto uma outra reconhece que,
“Havia para nós esse isolamento, essa limitação. Sabíamos que aquele momento seria
único, era só nosso, apesar de em alguns instantes estarmos rodeados de pessoas, mas
sabíamos também que teria fim, que acabaria e voltaríamos à vida „real‟”.
A autofruição como uma característica própria das atividades lúdicas aparece
nas reflexões de forma mais contundente e um educando considera que: “Diante desse
quadro, resgatado em minha memória, percebo como esses momentos nos causam
prazer, alegria e satisfação(...)”, enquanto um outro cenário retrata uma cena em que a
aluna considera que, “quando se fala em prazer e felicidade, acredito que essas
sensações são essenciais à vida e que devem ser sempre buscadas e priorizadas em
nossas vidas” tendo outro declarado: “Estava vivendo uma fantasia, onde o tempo e o
espaço estavam diluídos como numa tela expressionista, e aquela experiência era tudo,
menos cotidiano ou vida real”.
A ludopoiese é percebida nas reflexões acima, visto que em conformidade com o
que afirmam Maia e Cavalcanti (2010), ela corporaliza a alegria de viver e a autofruição
é o reconhecimento e busca dessa alegria.
Assumir o controle da própria vida, regular-se, esse processo também foi
observado nas reflexões analisadas, dentre elas essa que afirma que, “estamos sempre
criando regras para nossa vida”, ou essa outra aluna que acredita: “Nós enquanto seres
humanos, devemos nos conscientizarmos da necessidade de resgatarmos as emoções
vividas outrora, o que nos propiciam „qualidade de vida‟ e que parecem esquecidas pelo
tempo. Sé então compreenderemos que para sermos completos é necessário penetrarmos
no mundo do imaginário, do lúdico e da subjetividade”.
Oportunizar vivências na perspectiva transdisciplinar da Pedagogia Vivencial
Humanescente, é reconhecer o conhecimento como complexo, assim como o é o ser que
aprende e essa ousadia epistemológica, metodológica e ontológica é reconhecida pelas
alunas como: “o trabalho com o lúdico facilita a compreensão dos conteúdos
ministrados, desperta a atenção, o pensamento lógico, possibilita ao aluno a aceitar
perdas e frustrações, explora regras e limites. Enfim o lúdico serve como motivador do
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processo ensino e aprendizagem, principalmente porque trabalha com o aspecto


emocional fundamental para o desenvolvimento do ser humano”.
A subjetividade como condição humana é, possivelmente, aquela mais ausente,
ou melhor, desconsiderada, nas práticas de formação e uma aluna considera que “há
grande importância no estudo da subjetividade humana em profissionais da educação
que produzem processos de aprender e ensinar. Entender suas condições sociais e
afetivas, seus pensamentos e suas emoções certamente contribuirão para sua
singularidade, sua existência.”
Diante do exposto, é possível questionar: Será a corporeidade o caminho para
aprender a viver uma condição humana amorosa? A Pedagogia Vivencial
Humanescente é o caminho que vai conduzir o ser humano em seu processo de
autotranscendência? A Humanescência é o caminho que conduzirá os seres na expansão
do amor, do qual anda carente nossa humanidade? Construir essas respostas é o desafio.

Referências

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corporais para o fluir humanescente. In: 19º Encontro de Pesquisa Educacional do Norte
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Internacional sobre Pesquisa (Auto)biográfica, 2006.
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