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A Reforma e as ordenanças da Ceia e batismo nas

águas

Ter, 17/10/2017 por

            A igreja católica da Idade Média, por ocasião do Concílio de Constança


(1415) vedara aos fiéis à participação do vinho por ocasião da celebração da
Ceia do Senhor (eucaristia). Pouco mais de 100 anos após este Concílio, em
1519, o reformador alemão Martinho Lutero (1483- 1546) publicou alguns
sermões “sobre os sacramentos” apontando o erro em não servir o cálice aos
servos de Cristo. No dia 6 de outubro de 1520 em sua obra “Do cativeiro
babilônico da Igreja” o reformador dedicou-se, entre outros temas, a defender a
participação dos leigos tanto no pão como no vinho por ocasião da Ceia do
Senhor. Neste escrito Lutero desfez exegeticamente as teses contrárias,
estabeleceu a comunhão do pão e do cálice para todos os crentes e concluiu:
“Mateus, Marcos e Lucas concordam entre si que Cristo teria dado todo o sacramento a todos os
seus discípulos, e é certo que Paulo tenha dado as duas espécies; de modo que nunca houve alguém
tão desavergonhado ao ponto de afirmar outra coisa [...] É ímpio e tirânico negar ambas as espécies
aos leigos, nem esta nas mãos de anjo algum e menos ainda do papa e de qualquer concílio” [1].

Nesta mesma obra, Lutero discordou da doutrina da transubstanciação definida


no IV Concílio de Latrão, em 1215. Esta teoria escolástica ensina que na ocasião da
consagração do pão e do vinho eles se transformam literalmente no corpo e no
sangue de Cristo. O reformador foi incisivo ao afirmar que não sendo possível “supor
uma transubstanciação feita pelo poder divino, deve-se tê-la por ficção da mente
humana, pois não se apoiam em nenhuma Escritura, nem em nenhum argumento
racional”[2]. Não obstante, Lutero defendia o principio da ubiquidade (faculdade divina
de estar presente no pão e no vinho). Em contrapartida para o reformador na Suíça,
Ulrico Zwinglío (1484-1531) a Ceia do Senhor devia ser entendida como memorial e
comemoração, uma representação simbólica do ato sacrificial único e suficiente de
Cristo[3]. Assim, os reformadores discordaram conceitualmente acerca da instituição
da Ceia do Senhor. Para Lutero a ceia era um sacramento (meio de graça) e para
Zwinglío uma ordenança (uma ordem de Cristo). O reformador holandês Jacó Armínio
(1560-1609) também discorreu sobre o tema no debate LXIV, onde ensinou:
“A matéria é o pão e o vinho que, com respeito á sua essência, não são alterados, mas permanecem
o que eram previamente; tampouco, são, com respeito a lugar, unidos ao corpo ou ao sangue, de
modo que o corpo não está sob o pão, nem no pão, nem como o pão, etc., nem no uso da Ceia do
Senhor, o pão e o vinho podem ser separados, de modo que, quando o pão é oferecido aos leigos, o
cálice não lhes deve ser negado” [4]

Concordes com os reformadores em que os elementos da Ceia do Senhor (pão


e vinho) devem ser servidos para todos e que os elementos não sofrem
transubstanciação, embora com as devidas peculiaridades quanto à significação de tal
ordenança, a “Declaração de Fé”, o credo maior assembleiano professa o seguinte a
respeito da Ceia do Senhor:
“Rejeitamos o termo “sacramento” e usamos a palavra “ordenança”, do latim ordo, “fileira, ordem” [...].
Essas ordenanças não transmitem qualquer poder místico ou graça salvífica, mas são um rito
simbólico universal e pessoal que apontam para as verdades centrais da fé cristã [...] Ela é ministrada
a todos os crentes em Jesus, batizados em águas, em plena comunhão com a Igreja [...] Tendo Jesus
ministrado pessoalmente os dois elementos aos seus discípulos, fica cabalmente demonstrado que
as expressões “isto é o meu corpo” e “isto é o meu sangue” não são literais, mas referem-se a uma
linguagem metafórica”.[5]

 Deste modo, a Assembleia de Deus reconhece que a ordenança da Ceia foi


instituída diretamente pelo Senhor Jesus para todos os crentes, que deve ser
celebrada após um autoexame e reflexão sobre a conduta pessoal, sendo um rito
contínuo da Igreja visível, instituído com dois elementos – o pão e o cálice - como
memorial da morte de Cristo até a sua vinda em poder e glória (1Co 11.26).

Não menos importante, outro legado da Reforma Protestante diz respeito ao


batismo nas águas. O movimento da Reforma sofreu transformações cruciais à
medida que ia se afastando cada vez mais do ranço doutrinário imposto pela igreja
medieval. Lutero ensinava que o batismo era submersão e que a sua eficácia não
estava na fé de quem batizava, mas na fé de quem recebia. Discorria o reformador
que o batismo significava duas coisas: morte e ressurreição, isto é, a justificação plena
e consumada[6]. Por outro lado, Lutero defendia o batismo infantil aceitando a fé
substitutiva dos pais, padrinhos e da igreja. Sob este aspecto Lutero foi seguido por
Zwinglío e também por João Calvino (1509-1564), o reformador da França.

Todavia, em consequência do princípio de “Sola Scriptura” outros reformadores


argumentavam que o batismo infantil não era bíblico. Afirmavam não existir, no Novo
Testamento, nenhuma menção quanto a esta prática e nenhuma ordenança para o
batismo de crianças. Doravante, passaram a ensinar que somente o adulto atendia à
pré-condição para o batismo, ou seja, a fé evidente, obviamente a fé era algo
inatingível para bebês e recém-nascidos. A este ensino e prática deu-se o nome de
“anabatismo” (batizar de novo). Por volta de 1525, o anabatismo suíço emergiu dos
discípulos radicais de Zwínglio. Entretanto, o maior expoente anabatista foi o holandês
Menno Simons (1496-1561). Menno ao estudar Lutero, Zwínglio e Calvino chegou a
conclusão que “todos estavam equivocados sobre o batismo infantil”[7], e assim, em
1532 começou a pregar a partir da Bíblia Sagrada a necessidade dos adultos
batizarem-se novamente.

No “credo menor” assembleiano, o item nove professa a crença “no batismo


bíblico efetuado por imersão em águas, uma só vez, em nome do Pai, e do Filho, e do
Espírito Santo” [8] (Mt 28.19; Rm 6.1-6; Cl 2.12). A “Declaração de Fé” amplia este
entendimento e ensina que “o batismo é uma ordenança divina; é, em si, um ato de
compromisso e profissão de fé; é um ato público em confirmação daquilo que já
possuímos — a salvação pela fé em Jesus” e ainda acrescenta que o batismo infantil
não é praticado “por não haver exemplo de batismo de crianças nas Escrituras e por
não ser o batismo um meio da graça salvadora” [9].

Conclui-se então que o resgate das ordenanças segundo o modelo bíblico é


resultado dos movimentos de Reforma da Igreja, e ainda, que o credo das
Assembleias de Deus – o maior movimento pentecostal brasileiro – também no quesito
das ordenanças encontra-se em sintonia com o credo dos reformadores.

Pense nisso!

Douglas Roberto de Almeida Baptista

[1]LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal, 2000. Vol 2. p. 350, 354.

[2]LUTERO, Ibid., Vol 2. p. 357.


[3]WACHHOLZ, Wilhelm. História e Teologia da Reforma. São Leopoldo: Sinodal, 2010. p.
146.

[4]ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. Rio de Janeiro: CPAD, 2015. Vol 2, p. 145.

[5]CGADB. Declaração de Fé. Cap XI e XIII. Rio de Janeiro: CPAD, 2017. p. 70 e 75.

[6]LUTERO, Ibid., Vol 2. p. 382-383.

[7]GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1993.  p. 259.

[8]CGADB. Declaração de Fé. Rio de Janeiro: CPAD, 2017. p. 13.

[9]CGADB. Declaração de Fé. Cap. XII. Rio de Janeiro: CPAD, 2017. p. 75.