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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ – UFPI

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS


DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA
DISCIPLINA: ESTADO E CLASSES SOCIAIS NO BRASIL

André Victor Siqueira Sousa1

Vitor Brito de Almeida2

INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como objetivo analisar e discutir os textos apresentados em


seminário na disciplina de Estado e Classes Sociais no Brasil. O trabalho se estrutra da
seguinte forma: na Introdução apresentamos uma breve biografia dos autores e a contribuição
de suas obras no debate; na segunda parte do trabalho discutiremos as relações entre as
análises talhadas pelos autores num viés comparativo, enfatizando as convergências da
análise; no terceiro momento ressaltaremos as singularidades das perspectivas de cada autor,
as especificidades e generalidades dos métodos utilizados; fechamos o trabalho com uma
conclusão, fazendo algumas observações críticas no hosrizonte do debate.

Luiz Carlos Bresser-Pereira, é economista, cientista político e social,


administrador de empresas, e professor da fundação Getúlio Vargas, fora ministro da
Economia em 1987 logo após a redemocratização, sendo o responsável pelo plano Bresser,
com o objetivo de combater a inflação e a crise da dívida externa, o plano em si não foi eficaz,
fazendo com que se demitisse ano seguinte. Usando de suas experiencias e conhecimentos
adquiridos, ele publica em 2007 um artigo intitulado “Burocracia Pública e Classes Dirigentes
no Brasil”, onde analisa a atuação da classe burocrática junto as elites na condução do Estado
brasileiro.

1
Graduando do curso de Ciências Econômicas (UFPI)
2
Graduando do curso de Licenciatura em Ciências Sociaiis (UFPI)
Neste artigo Bresser traça uma linha cronológica, desde a ascensão de Vargas ao
poder até os anos noventa, do desenvolvimento industrial e capitalista brasileiro, que segundo
o autor fora comandado por um grupo nutrido de poder político e influencia, que seriam as
classes dirigentes da sociedade. Essas classes firmavam diferentes pactos políticos com outros
setores da sociedade afim de assegurar seu estatus quo, defender seus interesses e ao mesmo
tempo que garantiam a execução do plano de desenvolvimento que essas classes tinham para
o Brasil.

Dentre as classes dirigentes existentes no Brasil, o artigo descreve duas classes


com papel importante no processo de desenvolvimento brasileiro: A burguesia industrial,
composta pelos empresários do setor, e a classe burocrata composta pelos técnicos
profissionais e políticos eleitos, que recebem atenção maior durante o artigo por desempenhar
um papel político estratégico dentro da sociedade. Bresser analisa o desempenho desse setor,
sempre associada a burguesia industrial, na condução de seu projeto de nacional-
desenvolvimentismo que se iniciou em 1930, com o surgimento do Estado Novo, e das classes
burocratas e burguesa-industrial, e seu alinhamento com os detentores de poder.

Essa relação perdurou todo o processo de desenvolvimento brasileiro sempre com


a burguesia industrial e a burocracia juntas, em diferentes pactos políticos, seja ele popular
nacional, como fora em Vargas, ou autocrático como fora durante a ditadura militar, onde a
burocracia, principalmente a militar, assumiu o posto de principal classe dirigente do país.
Essa relação de poder durou até a década de 80, com a crise da dívida externa onde há
rompimento dessa aliança, e a classe ligada ao setor financeiro passa a assumir o lugar de
importância que a burguesia industrial desempenhava, e a burocracia passou por uma reforma
gerencial em 1995.

Em suma o objetivo central do artigo é analisar o papel da classe burocrática na


sociedade brasileira e sua atuação como classe dirigente, já que Bresser faz parte dessa classe
dirigente, a ponto de assumir alto cargo dentro da alta Burocracia pública, e poder
testemunhar o fim da proposta nacional-desenvolvimentista e o firmamento de um tipo pacto
liberal-dependente, caracterizado como um pacto político excludente formado pelos grandes
rentistas, setor financeiro, multinacionais e interesses externos.

A contribuição de Bresser-Pereira se torna impar no estudo da relação entre o


estado e as classes dirigentes no Brasil.
Florestan Fernandes foi um sociólogo paulista precussor da sociologia crítica no
Brasil. Seus estudos giraram em torno dos métodos de pesquisa nas Ciências Sociais no
contexto da América Latina, buscando compreender as dinâmicas de transformação da
sociedade, assumindo a necessidade da pesquisa empírica.

A obra em questão, A Revolução Burguesa no Brasil: ensaios de interpretação


sociológica (1975) está inserida num panorama de análises anteriores feitas em Sociedade de
Classes e Subdesenvolvimento (1968) e Capitalismo Dependente e Classes Sociais na
América Latina (1973) em que o autor se debruça sobre as especificidades da sociedade de
classes no contexto de subdesenvolvimento e capitalismo dependente, sobretudo no Brasil.
Nela pretende-se fazer uma análise da formação econômica e política do Brasil a partir das
relações entre os sujeitos na história tendo em vista as situações histórico-sociais e o
desdeobramento dos interesses de classes/estamentos num plano das determinações
estruturais.

Nos capítulos A Concretização da Revolução Burguesa e Natureza e Etapas do


Desenvolvimento capitalista o autor analisará como as burguesias locais se desenvolveram
sob formas neocoloniais, havendo uma relação de proximidade e contingência com o modo de
vida e toda a estutura de sustentação do tipo oligárquico vinculado à lógica de relações
coloniais e aos dinamismos da economia capitalista mundial, havendo apenas uma
recomposição das oligarquias em relação à burguesia emergente.

Essa burguesia assumirá, no Brasil, um status e papel singular, duplamente ativo e


reativo na acomodação subalterna da economia e política brasileira num eixo de
subdesenvolvolvimento e capitalismo dependente, sendo que esta seria uma condição
estrutural permanente, não apenas casual, mas tendo a ver com todo o processo de
transformação do capitalismo, sobretudo na transição da etapa do capitalismo competitivo
para o monopolista. O desencadeamento resultante dessas relações têm implicações internas e
externas.

A partir desses trabalhos questionarnos-emos sobre os sentidos e as implicações


do tipo de dominação burguesa que se consolida no Brasil, quais são os pactos sociais
firmados e sua relação com o desenvolvimento do capitalismo, e como através desse
problema é possível pensar a relação entre Estado e classes sociais.
Estado, burguesia e desenvolvimento no Brasil

Apesar de possuírem dimensões históricas diferentes, tanto o livro de Florestan


Fernandes, “A Revolução Burguesa no Brasil”, quanto o artigo de Bresser-Pereira “A
Burocracia pública e as classes dirigentes no Brasil”, tratam de um tema em comum: o
estabelecimento do poder burguês e a interferência das classes dirigentes (alta burocracia
pública e classe empresarial) no desdobramento histórico político e e econômico.

Segundo Florestan (2006), a consolidação do status quo da classe burguesa se deu


por meio de uma revolução burguesa, que seria um conjunto de transformações econômicas,
tecnológicas, sociais, psicoculturais e politicas que só se realizam quando o desenvolvimento
capitalista atinge seu auge. O autor estabelece que esse processo se deu de forma lenta e
gradual, sendo difícil de decidir qual momento histórico, ele se tornou irreversível
possibilitando a consolidação do poder burguês assim como a dominação burguesa.

Para Bresser (2007), a medida que o capitalismo se desenvolve, as classes sociais


acompanham essa transformação adquirindo poder e influência em diferentes momentos
históricos. O autor estabelece que a burguesia assume parte da alta camada da sociedade, com
a queda da aristocracia no século XIX, sendo parte dela constituída por trabalhadores
especializados e diversificados, que passaram a constituir a classe burocrática, que com a
consolidação da democracia no seculo XX, passou a ter maior prestigio tanto no âmbito
publico quanto privado, e também passou a ser detentora de poder, junto da classe
empresarial burguesa.

Comparativamente, as duas obras tratam de forma similar como a dominância


burguesa se estabeleceu, se pelo ponto de vista do desenvolvimento capitalista, ou pelas
formas que o estado assumiu de acordo com a atuação das classes dirigentes, e dos pactos
políticos estabelecidos. Florestan estabelece que o capitalismo passou por diversas fases
durante seu desenvolvimento, e Bresser assume que o estado assumiu diversas formas de
acordo com as mudanças ocorridas na sociedade brasileira, onde são estabelecidos pactos
políticos distintos entre burguesia, burocracia e partes distintas da sociedade. Esses conceitos
se relacionam, não so por seu período histórico, mas por características intrínsecas nas quais
se assemelham.
A primeira fase na qual o capitalismo no Brasil passa, é a fase do capitalismo
mercantil, onde se estabelecem as relações internacionais a partir da abertura dos portos, em
1808, até o século XIX com a proclamação da república e o fim do regime escravista. Esse
período tem um caráter transicional onde o Brasil passa de uma colônia dependente, para uma
república democrática. Nesse período, segundo Bresser, o Estado assumiu uma forma
patriarcal, por causa da forma em que as relações internas ocorriam no país, e dependente
pelas elites não possuírem uma visão própria para a nação, importando instituições
estrangeiras sem que houvesse adaptação a realidade brasileira.

A classe dirigente nesse período, era a princípio a coroa e posteriormente o setor


oligárquico do café e outros setores relacionados a produtos de exportação, não havia um
pacto político entre burguesia e burocracia, pois ambas as classes não haviam se estabelecido
ainda, mesmo havendo uma burocracia patrimonial, relacionada as propriedades dos
oligarcas, sem muita distinção entre os setores público e privado. Esse pacto durou até o
Estado Novo, onde as classes empresarial e burocrática se estabelecem, e por causa de seu
apoio a Vargas, assumiram postos importantes na condução do plano nacional-
desenvolvimentista.

Durante a etapa de emergência ou expansão do mercado capitalista competitivo


(FERNANDES, 2006) a economia brasileira se articula aos dinamismos em expansão das
economias centrais, havendo uma diferenciação em especialidade. Dá-se um outro tipo de
satetilização promovido pelo impulso induzido pelas economias hegemônicas através da
formação da infra-estrutura necessária, braços da transformação do capitalismo periférico em
adequação ao centro. Uma expressão dessa etapa é o processo de industrialização e
deslocamento recomposição dos setores agrários para a burguesia industrial urbana. Essa fase
vai de 1930 a 1950. É um período importante para compreender a formação das burguesias
nacionais e sua articulação com as economias hegemônicas.

Na passagem do um tipo de Estado patriarcal-oligárquico para o surgimento da


burocracia moderna, como aponta Bresser (2007) a burguesia industrial juntamente com a
burocracia pública passam a compor a classe dirigente no país. A modernização – no plano
institucional - do Estado, o surgimento de outras modalidades de trabalho e frações de classe
marca um passo importante da dominação burguesa no Brasil. Já num plano de contingências,
a burguesa não rompe totalmente seus laços oligárquicos e coloniais, tendo isso grandes
implicações na condição econômica e política do país. O intervencionismo do Estado opera
no sentido de aricular um desenvolvimento em conformidade interna e invisivelmente
externa.

Ao alcançar a redemocratização, a burguesia industrial assume o papel de classe


dirigente principal, porém não conseguiram lidar com a crise da dívida externa, por tentarem
reestabelecer o nacional-desenvolvimentismo, acabou por ser falho. Isso abriu espaço para
influencia estadunidense e implementação do liberalismo, formando-se um novo pacto
político, o liberal-dependente, onde os rentistas e os empresários ligados ao setor financeiro
assumiram o posto de classe dirigente, com a burocracia assumindo um perfil gerencial.

Nessas condições, irrompe uma nova fase do capitalismo, o capitalismo


monopolista, que se caracteriza pela reorganização do mercado e do sistema de produção,
através das operações comerciais, financeiras e industriais, funcionando como uma grande
corporação, predominantemente estrangeira, mas também estatal ou mista. O problema de
ingressar no capitalismo monopolista, sob a tutela – então – do imperialismo norte-americano,
é que eram negligenciados os requisitos igualitários, democráticos e cívico-humanísticos da
ordem social competitiva. A modernização visada sob o lema “desenvolvimento com
segurança” dissociava-se do modelo de civilização das nações hegemônicas, o que constituía
um obstáculo à transição. Portanto, a passagem ao capitalismo monopolista tornava-se muito
mais selvagem na periferia, impedindo qualquer conciliação entre democracia, capitalismo e
autodeterminação.

A estratégia da burguesia brasileira, diante do impasse do capitalismo competitivo


e do subdesenvolvimento, foi aderir ao novo quadro de influências externas, mantendo as
demais condições e introduzindo alterações no controle político que permitissem viabilizar a
saída escolhida. A verdadeira dificuldade (a dupla articulação) foi escamoteada, o que
implicou perpetuar a dependência externa e o subdesenvolvimento relativo.

O capitalismo monopolista não eclodiu nas economias periféricas rompendo o seu


próprio caminho, como uma força interna irreprimível que destrói estruturas arcaicas e recicla
o que deve ser preservado. Vindo de fora, o “supermoderno” se superpôs a tudo o que existia
antes, ou seja, o “moderno”, o “antigo” e o “arcaico” – aos quais nem sempre pode destruir e,
com freqüência, precisou conservar, porque serviam como fonte de acumulação primitiva de
capital. Além disso, com o capitalismo monopolista aprofundam-se as desigualdades
econômicas, sociais e políticas. E o elitismo, que penetrara tão fundo no controle da economia
competitiva, renasce com a emergência da economia monopolista.
Com o “capitalismo industrial”, não é só o poder burguês que se restaurou e se
recompôs, mas, simetricamente, o povo mudou de configuração estrutural e histórica, e o
proletariado adquiriu um novo peso econômico, social e político na sociedade brasileira,
produzindo mudanças profundas nos mecanismos de consciência de classe. Pela primeira vez
na história do país, os assalariados em geral e as classes operárias em particular deixaram de
ser meras e “vítimas-mudas passivas” do desenvolvimento capitalista. A defesa dos interesses
as aspirações dessa classe assalariada abriram a possibilidade de o desenvolvimento brasileiro
adquirir alguma faceta nacional e democrática.

As perspectivas de análise se distanciam sob a perspectiva teórico-metodológica


utilizada pelos autores e as prioridades estabelecidas na investigação. Florestan Fernandes põe
ênfase no conceito de capitalismo dependente e subdesenvolvimento, apontando não apenas
como um acaso histórico mas como um encadeamento de estruturas derivadas do
colonialismo e o impacto direto sobre a formação das burguesias nacionais e o tipo específico
de transformação e consolidação não só do capitalismo, num cenário amplo, mas das classes
sociais e do Estado.

Bresser já vai concentrar sua análise no firmamento de pactos entre as classes


dirigentes de forma descritiva e local e dando ênfase à questão do desenvolvimento do Estado
e da sociedade civil, buscando compreender as implicações simétricas de um e de outro. Em
sua análise Bresser não dá aprofundamento nas articulações externas desse processo. Os
pactos são analisados muito mais a partir da ideia de causalidade simples: a ação das classes
dirigentes sobre o desenvolvimento brasileiro e a sequência histórica correspondente.

Contudo, tendo em vista as duas perspectivas analíticas, em Florestan o


desenvolvimento econômico, político e social está comprometido pela lógica do
subdesenvolvimento e da dependência. O subdesenvolvimento não seria um desenvolvimiento
que está a vias de se efetivar, mas um nível específico do capitalismo que implica no bloqueio
estratégico do desenvolvimento ideal do capitalismo como é apresentado nas economias
centrais – implica um desenvolvimento desigual do capitalismo; uma economia duplamente
polarizada (FERNANDES. 2006). Os pactos sociais firmados entre as burguesias que
compõem a classe dirigente e a alta burocracia pública do qual fala Bresser seriam, numa
análise sob perspectiva teórica de Florestan Fernandes, a reação dessas burguesias a pressões
internas e externas da dupla articulação entre elas. O rearranjo desses pactos se fazem através
da crise. A última firmou um tipo de pacto liberal-dependente que ainda vigora.
Bresser termina o seu artigo sugerindo um tipo de desenvolvimento econômico
que abarque democracia e justiça social para guiar a burocracia pública numa outra estratégia
que dê conta das disparidades existentes entre sociedade civil e Estado. Porém em Florestan
Fernandes existe uma não-resolução do problema do desenvolvimento, já que para além da
lógica interna haveria a necessidade de reposicinamento em relação ao capitalismo
monopolista e os complexos entraves existentes que resulta em desdobramentos autocráticos e
de democracia restrita. Haveria, sobretudo, uma não-resolução da relação entre capitalismo e
democracia.

Conclusão

A burguesia passou por um processo de formação na qual, adquiriam poder e


influência, e passaram a usar disso para cumprir seus interesses, e junto da classe burocrata
buscaram garantir que seu plano para o país se tornasse efetivo, ou seja buscaram realizar a
revolução capitalista em sua completude. Porém, ao mesmo tempo em que garantiam o
desenvolvimento econômico, aqueles que discordavam de suas diretrizes ou ideologia, ou
simplesmente não abarcados por seu plano de nação, acabavam sendo prejudicados ou até
mesmo excluídos, gerando injustiça social, e fortalecimento do perfil autocrático das classes
burguesas, manifestando seus interesses egoístas e particularistas com ausência de
preocupação e interesses nacionais democráticos.

É possível a partir das obras estudadas refletir sobre as muitas faces do


colonialismo e sua interferência direta na construção e estabelecimento do capitalismo na
sociedade moderna, assim como a permanência – apesar das transformações – de padrões e
estrutras históricas que dão fundamento às relações de classe.
Referências Bibliográficas

BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Burocracia pública e classes dirigentes no Brasil. Revista


de Sociologia e Política, n. 28, 2007.

FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação


sociológica. Globo Livros, 2006.

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