Você está na página 1de 119

Universidade do Minho

Escola de Direito

Carlos Manuel Borges Garcia

fundamentais: um olhar particular sobre a experiência cabo-verdiana


Relevância do recurso de amparo na tutela direta dos direitos
Relevância do recurso de amparo na tutela
direta dos direitos fundamentais: um olhar
particular sobre a experiência cabo-verdiana

Carlos Manuel Borges Garcia


UMinho|2015

outubro de 2015
Universidade do Minho
Escola de Direito

Carlos Manuel Borges Garcia

Relevância do recurso de amparo na tutela


direta dos direitos fundamentais: um olhar
particular sobre a experiência cabo-verdiana

Dissertação de Mestrado
Mestrado em Direito Administrativo

Trabalho realizado sob a orientação do


Professor Doutor Wladimir Brito

outubro de 2015
AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar, queria agradecer a Deus por me ter dado muita força e coragem
para não desistir de escrever este trabalho, não obstante as adversidades e os
constrangimentos que encontramos pelo caminho.
Queria, também, agradecer a todos os membros da minha família, em especial o
meu pai, a minha mãe e os meus irmãos, pelo apoio emocional, pela força que me
transmitiram durante todo esse tempo em que estive fora de casa, e pela compreensão da
minha ausência, não obstante ter regressado a Cabo Verde.
Agradeço a Dr.ª Ana, Directora do serviço de documentação do Supremo Tribunal
de Justiça de Cabo Verde, pelo apoio bibliográfico e jurisprudencial.
Ao Professor Doutor António Cândido de Oliveira agradeço a amizade, os
conselhos, bem como a solidariedade demostrada.
À professora Dr.ª Isabel Fonseca agradeço a possibilidade que me deu para fazer
um trabalho sobre o recurso de amparo (cabo-verdiano), o que permitiu-me ter o primeiro
contacto com este mecanismo, bem antes de ter começado a escrever esta dissertação.
Aos meus colegas, agradeço a amizade e o companheirismo, durante o primeiro
ano do curso
Para finalizar, agradeço profundamente ao professor Doutor Wladimir Brito, em
primeiro lugar por ter aceitado ser o meu orientador, o que muito me honra, e, em segundo
lugar, pelas observações e sugestões que proferiu sobre o trabalho, pelo apoio
bibliográfico, pelos ensinamentos, o que me permitiu elaborar esse trabalho com muito
estímulo.
A todos, um muito obrigado!

III
RESUMO

Este trabalho tem como tema “relevância do recurso de amparo na tutela directa dos
direitos fundamentais: um olhar particular sobre a experiência cabo-verdiana”.
Com base no tema acima exposto pretendemos, essencialmente, responder algumas
questões que surgiram na praxis constitucional em Cabo Verde, decorrentes da introdução
deste mecanismo na ordem jurídica desse arquipélago lusófono, sendo que uma dessas
questões começou a ser debatida, como ver-se-á, mesmo antes da entrada em vigor da lei
de amparo, que foi aprovada em 1994, na sequência da Constituição de 1992, que o
institucionalizou, debate esse que se prendeu com a questão de saber se o recurso de
amparo é diretamente aplicável ou se depende de uma medida legislativa para ser
aplicado.
Outrossim, com esta dissertação pretendemos dar resposta a outras questões que tem
dividido a doutrina cabo-verdiana, bem como a de outros países que têm um mecanismo
idêntico, quais sejam o âmbito do recurso de amparo, a questão da legitimidade e do
objeto desse mecanismo, etc., esperando contribuir para uma melhor interpretação dessa
lei e da Constituição de Cabo Verde no que tange a esse meio de defesa de direitos
fundamentais dos cidadãos, bem como apresentar a experiência cabo-verdiana a Portugal,
país onde, como se sabe, mantém vivo um debate na doutrina sobre a introdução ou não
deste mecanismo de suma importância para a defesa dos cidadãos perante os atos dos
poderes públicos lesivos dos seus direitos, liberdades e garantias.

Palavras-chave: Recurso de Amparo, Tutela dos Direitos Fundamentais, Direitos,


Liberdades e Garantias, Tribunal Constitucional.

IV
ABSTRACT

This work is untitled " relevance of amparo´s appeal in the directs protection of
fundamentals rights: The Cape Verdean´s experience".

Based on the above theme aimed essentially to answer any questions that may have arisen
in the constitutional praxis in Cape Verde Island, due to the introduction of this
mechanism in the laws among our Portuguese-speaking archipelago, and one of these
issues has begun to be discussed, as we will constact, even before the amparo´s right
effectivation, approved in 1994, following the 1992´s Constitution that has implemented
it, its debate has focused in the dilemma if the amparo´s appeal is directly applicable or
its dependent on the legislative measurement to be applied.
Furthermore, with this dissertation, we intend to address to other issues that have divided
Cape Verdean´s and other´s countries doctrines that have similars mechanisms, namely,
the scope of amparo´s appeal, the question of legitimacy and this mechanism incidence,
etc., contributing to a better interpretation of this law and the Cape Verde´s Constitution
regarding to this important and fundamental instrument of citizens’ rights defense, to
present and socialize Cape Verde´s experience to Portugal, a country, as we know , keeps
alive and consistency debate midst this doctrine and about the introduction or not of this
tools extremely important and pertinent to defense citizens throughout the public
damaging acts of their rights, freedoms and guarantees.

Keywords: Amparo´s appeal; Fundamental´s Rights Protection, Rights, Freedoms and


Guarantees, Constitutional Court.

V
SIGLAS E ABREVIATURAS

ANP – Assembleia Nacional Popular


ACNUDH – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos
B.O- Boletim Oficial
BVerfGG ( Bundesverfassungsgerichtsgesetz) – Lei do Tribunal Constitucional Federal
Alemão
CE – Constitución Española
CNHDC – Comissão Nacional Para os Direitos Humanos e Cidadania;
CPC- Código de Processo Civil
CPCV-Código de Processo Civil de Cabo Verde
CRCV – Constituição da República de Cabo Verde
CRP-Constituição da República de Portugal
DLGs – Direitos, Liberdades e Garantias
DESC- Direitos Económicos, Sociais e Culturais
DUDH – Declaração Universal dos Direitos do Homem;
LA – Lei de Amparo.
LOPE - Lei Sobre a Organização Politica da Sociedade e do Estado
LOTCE – Ley Orgánica del Tribunal Constitucional Español
LBOJM – Lei de Bases da Organização Judiciária de Macau;
MPD – Movimento Para Democracia;
PAICV – Partido Africano da Independência de Cabo Verde;
PAIGC – Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde;
PCP-Partido Comunista Português
PIDESC – Pacto Internacional Sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais
PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento;
PS – Partido Socialista
REDC – Revista Española de Derecho Constitucional
RGDRAA – Regime Geral de Regulamentos e Atos Administrativos
REP-Revista de Estudios Políticos
STJ – Supremo Tribunal de Justiça;
TC – Tribunal Constitucional;
TCE – Tribunal Constitucional Español

VI
ÍNDICE
AGRADECIMENTOS ................................................................................................. III
RESUMO....................................................................................................................... IV
ABSTRACT ....................................................................................................................V
SIGLAS E ABREVIATURAS ..................................................................................... VI
CAPITULO I – A TUTELA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NA JUSTIÇA
CONSTITUCIONAL CABO-VERDIANA ................................................................ 11
1.1Evolução da Justiça Constitucional.................................................................... 13
1.2. A Tutela dos Direitos, Liberdades e Garantias. .............................................. 25
1.2.1.Mecanismos Gerais de Proteção. ................................................................ 27
1.2.2.Mecanismo Específicos para a Proteção de um Determinado Direito
Fundamental ......................................................................................................... 36
1.2.3. Mecanismo Especialmente Dirigido Contra Violações de Direitos ........ 36
1.3. Aplicabilidade Directa dos Direitos, Liberdades e Garantias. ...................... 43
1.4. A Tutela dos Direitos Sociais ............................................................................ 48
CAPÍTULO II – O RECURSO DE AMPARO CONSTITUCIONAL .................... 64
2.1. O Recurso de Amparo Constitucional no Direito Comparado ...................... 68
2.2. O recurso de Amparo Constitucional na Ordem Jurídica Cabo-verdiana .. 71
2.3. Análise da Lei n.º 109/IV/94, de 24 de Outubro sobre o recurso de amparo 73
2.3.1 Âmbito Material de Proteção ..................................................................... 73
2.3.2 Legitimidade ................................................................................................ 80
2.3.3. Objeto .......................................................................................................... 84
2.3.4. Pressupostos ................................................................................................ 88
2.3.5. Prazo ............................................................................................................ 91
2.3.6 Tramitação Processual ................................................................................ 92
2.3.7. Efeitos .......................................................................................................... 97
2.4.Jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça de Cabo Verde sobre o
Recurso de Amparo .................................................................................................. 99
Capítulo III – CONCLUSÕES .................................................................................. 112
BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................ 114

7
INTRODUÇÃO
Esta dissertação de mestrado versa sobre o recurso de amparo como mecanismo
especialmente dirigido contra ações ou omissões (violações) de poderes públicos lesivos
dos direitos fundamentais, que é, aliás, um dos “temas” mais discutidos atualmente, isto
à luz da justiça constitucional. Daí o meu interesse em desenvolver um estudo nesta
matéria.
Como se sabe, atualmente a tutela dos direitos fundamentais foi erigida a patamar
inegociável do Estado de Direito Democrático1.
Sendo assim, pode afirmar-se, com Nuno Piçarra, que “os direitos fundamentais
só têm real eficácia se houver um órgão do Estado capaz de sobrepor aos atos lesivos de
outros órgãos”2
Pois bem, na Alemanha, em Espanha, também em Cabo Verde, bem como noutros
países3, do ponto de vista constitucional, pode dizer-se que quanto aos mecanismos de
defesa dos direitos fundamentais, os particulares estão fortemente protegidos uma vez
que além dos tradicionais mecanismos de fiscalização da Constitucionalidade (e as outras
formas/mecanismos de «garantia da Constituição») em que, em alguns casos, é permitido
o acesso indireto dos particulares ao Tribunal Constitucional para defenderem os seus
direitos e interesses legalmente protegidos, existe, a par desses, um mecanismo que lhes
permite aceder diretamente ao Tribunal Constitucional quando são violados os seus
direitos fundamentais. Este mecanismo chama-se recurso de amparo (constitucional).

1
Neste sentido, veja-se CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na
Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, Almedina, 2010.
2
Cfr. NUNO PIÇARRA, A Separação dos Poderes como Doutrina e Princípio Constitucional, um Contributo para o Estudo das suas
Origens e Evolução, Coimbra Editora, Coimbra, 1989, cit., pp.195 ss.
O autor cita a expressão célebre de Carré Malberg: “Nem o poder legislativo, nem o poder executivo, nem o poder judicial
são «autores do seu próprio poder» (cf. RAYMOND CARRÉ DE MALBERG, «Contribuition à la théorire générale de l’Etat», 2
vols, Paris, 1920), mas a Constituição, ato do superior poder constituinte. Por isso, diz esse autor, qualquer dos poderes constituídos
está vinculado aos direitos fundamentais que a Constituição consagra, e deve poder fiscalizar se os outros poderes estaduais os violam.
Papel fundamental, nesta tarefa de controlo da conformidade da atuação dos poderes constituídos com os direitos fundamentais
consagrados na Constituição, caberá aos órgãos já anteriormente encarregados de os defender perante o soberano: os tribunais – retius,
o Tribunal Constitucional ou, no caso de Cabo Verde, o Supremo Tribunal de Justiça, que também funciona como Tribunal
Constitucional, como ver-se-á.
Na esteira do exposto, podemos dizer, numa palavra, que justifica-se o direito de acesso à justiça constitucional contra atos
dos poderes públicos lesivos de direitos fundamentais, claro está, a começar pelos atos dos próprios tribunais. Daí a importância do
recurso de amparo, como veremos mais adiante.
3
A título meramente exemplificativo, este mecanismo existe, claro está, com diferentes denominações, em: Albânia, Croácia,
Eslováquia, Eslovénia, República Checa, Rússia, Brasil, Bolívia, Angola, Macau, Correia do Sul, etc. Para mais desenvolvimento, cfr.
CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das
Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., pp. 86-90

8
Em Portugal, como se sabe, permanece desde há algum tempo uma discussão bem
acesa na doutrina quanto a possibilidade de inserção deste mecanismo de acesso direto
dos particulares ao Tribunal Constitucional, havendo vozes que defendem a sua
introdução e, concomitantemente, vozes que propugnam pela sua não introdução,
justiçando-se, por exemplo, que há um mecanismo que funciona, como veremos mais
adiante, como um “quase amparo”, ou seja, que o recurso de amparo é desnecessário para
a tutela dos direitos fundamentais.
Em suma, sabendo já que Cabo Verde tem este mecanismo, partindo da sua
experiência, e sem olvidar a questão de saber se este mecanismo é ou não necessário para
a tutela directa dos direitos fundamentais, condensaremos o objeto desta investigação no
propósito de encontrar resposta essencialmente a 4 questões que têm suscitado muita
discussão na praxis constitucional em Cabo Verde, a saber: O artigo 20.º da Constituição
da Republica de Cabo Verde que consagra o recurso de amparo é diretamente aplicável
ou, pelo contrário, a sua efetividade depende de uma mediação legislativa? É possível
socorrer-se ao recurso de amparo para a tutela dos direitos económicos, sociais e
culturais? As pessoas colectivas têm legitimidade para interpor o recurso de amparo? Há
em Cabo Verde uma restrição legislativa do objeto do recurso de amparo?
Tendo em vista dar respostas às questões lançadas como objeto da investigação,
achamos ser útil fazer uma breve evolução da Justiça Constitucional de Cabo Verde. Por
outro lado, uma vez que Cabo Verde, assim como muitos países, para a tutela dos direitos,
liberdades e garantias, além do recurso do amparo dispõem ainda de outras formas ou
mecanismos internos de «garantia da constituição», faremos referência a esses
mecanismos, explicando-as sumariamente.
Seguidamente, debruçaremos sobre a força jurídica dos preceitos relativos aos
direitos, liberdades e garantias, onde falaremos sobre a aplicabilidade directa desses
direitos. Num outro ponto específico, trataremos a questão da tutela dos direitos
económicos, sociais e culturais.
De seguida, já no segundo capítulo, centraremos a nossa abordagem no recurso de
amparo, onde teremos a oportunidade de fazer uma micro-comparação deste instituto com
os de outros países que exercem a mesma função. Nessa esteira, começando por realçar
os principais aspetos desse mecanismo, daremos conta das suas principais especificidades
na Europa, principalmente na Alemanha e Espanha, e na América Latina, onde, a título

9
meramente exemplificativo, citaremos as especificidades que existem no México,
Venezuela, Argentina, Equador, Bolívia, etc.
Por fim, trataremos o recurso de amparo na ordem jurídica cabo-verdiana, com
enfoque sobre o preceito constitucional que o consagra, bem como a Lei n.º 109/IV/94,
de 24 de Outubro, lei essa que trata os aspetos processuais desse recurso. Por outro lado,
analisaremos as jurisprudências do STJ de Cabo Verde sobre esta matéria.
Esperamos que esta abordagem permitir-nos-á, no fim, responder a todas às
questões lançadas acima.
Finalmente, importa dizer que esta investigação foi realizada com base em
contributos de muitos autores que têm dedicado o seu estudo ao recurso de amparo.
Lançamos mão de um conjunto de obras que na doutrina portuguesa, cabo-verdiana, etc.,
tratam o recurso de amparo, bem como vários artigos publicados em revistas nos diversos
países que consagram este mecanismo de acesso dos particulares ao Tribunal
Constitucional para defender os seus direitos contra as violações dos poderes públicos.

10
CAPITULO I – A TUTELA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NA JUSTIÇA
CONSTITUCIONAL CABO-VERDIANA.
Começaríamos este ponto por dizer, com Andreia Sofia Pinto Oliveira e Benedita
Maccrorie4, que “O verdadeiro teste a um Estado amigo dos direitos fundamentais5 não
se faz lendo a respetiva Constituição e apreciando a extensão do catálogo de direitos
fundamentais nela contido ou verificando quais as convenções internacionais de direitos
humanos ratificados e aplicáveis nesses Estado”.
Na verdade, “Os indicadores da verdadeira amizade de um Estado pelos direitos
fundamentais estão numa cultura de defesa dos direitos fundamentais, numa opinião
pública atenta, organizada e capaz de denunciar as compressões aos direitos mais básicos
da pessoa humana, no modo como o processo penal está estruturado e – no que aqui nos
interessa – na previsão de meios formais de reação a violação desses direitos”6.
Ora bem, de facto, e ainda na esteira das mesmas autoras acima citadas, “Não
basta consagrar direitos e qualifica-los como fundamentais, é preciso que as situações em
que esses direitos fundamentais – reconhecidos como tal pela comunidade – são violados
sejam tratadas de modo preferencial relativamente a outras em que não estão em causa
bens jurídicos tão especiais à comunidade política organizada. É preciso reconhecer aos
direitos fundamentais um prefer position em sede de tutela”7.
Posto isto, na nossa opinião, e salvo o devido respeito, parece não ser exagero
dizer que o sistema cabo-verdiano é, sob este pondo vista, exemplar, isto porque não se
limita a prever direitos fundamentais, mas, complementarmente, vai mais além, prevendo
os mecanismos que efetivamente protegem esses mesmos direitos de eventuais
violações8.

4
Cfr. ANDREIA SOFIA OLIVEIRA e BENEDITA MACCRORIE, Direitos Fundamentais, Elementos de Apoio, Aedum, 2012, cit.,
p. 97.
5
Sobre a evolução dos direitos fundamentais em Cabo Verde, por todos, veja-se JOSÉ PINA DELGADO e LIRIAM TIUJO
DELGADO, O Sistema Cabo-verdiano de Direitos Fundamentais – Notas de Aula, Praia, 2009, cit., pp. 38-39.Note-se que os próprios
autores reconhecem que “A avaliação sobre a História dos Direitos Fundamentais em Cabo Verde tem que ser necessariamente
telegráfica” (…) dado a “relativa infância da nossa experiência constitucional”. Não vamos desenvolver nesta sede essa evolução.
Contudo, podemos dizer, na esteira dos mesmos autores, que “ ela perpassa as três ordens constitucionais ou equiparadas que dela
fazem parte”, a saber: a) a Lei de Organização Politica do Estado; b) a ordem constitucional de 1980; e c) a ordem constitucional de
1992. Para maior desenvolvimento, idem, ibidem.
6
Cfr. ANDREIA SOFIA OLIVEIRA e BENEDITA MACCRORIE, Direitos Fundamentais, Elementos de Apoio, ob. cit., 97.
7
Idem, ibidem, pp. 97-98.
8
Neste particular, as autoras que acabamos de citar constatam que o sistema português tem debilidades. Dizem que “São poucos os
mecanismos formais de proteção especifica dos direitos fundamentais, que habilitem os cidadãos que se sintam vítimas de atuações
que ponham em causa bens jurídicos fundamentais a uma reação célere e eficaz”. De facto, ao contrário de Cabo Verde, Portugal não

11
Destarte, do ponto de vista desses mecanismos acima referidos, em cabo Verde,
pode-se apontar desde logo os jurisdicionais – que requerem intervenção ou acesso aos
tribunais9 –, os não jurisdicionais – que são definidos pela negativa como sendo aqueles
que não requerem acesso aos tribunais10–, e, por fim, os meios de autotutela dos direitos
fundamentais – que não requerem qualquer meio formal, judicial ou extrajudicial, de
tutela ou defesa , mas a intervenção protetora do próprio titular11.
Estes mecanismos serão tratados no ponto 1.2 deste capítulo (tutela dos direitos,
liberdades e garantias), onde vamos aproveitar para referir a todos os mecanismos que
existem (efetivamente) ou que podem existir (ou seja, que estão previstos na Constituição
ou nas leis ordinárias, mas que ainda não estão instalados, a funcionar).Contudo, só vamos
desenvolver com mais detalhe os mecanismos jurisdicionais, onde se inclui o recurso de
amparo, tema central desde trabalho.
Porém, antes disso, ou seja, antes de debruçar a nossa abordagem única e
exclusivamente na tutela dos direitos fundamentais em Cabo Verde, importa fazer uma

tem o recurso de amparo, o que tem sido, como ver-se-á, motivo de muitas críticas. Para maior desenvolvimento sobre os mecanismos
que existem em Portugal e sobre as críticas que os autores fazem à inexistência do amparo, por todos, veja-se ANDREIA SOFIA
OLIVEIRA e BENEDITA MACCRORIE, Direitos Fundamentais, Elementos de Apoio, ob. cit., pp 98-104.
No contexto do exposto, também Jose de Melo Alexandrino, ao concluir uma explanação sobre o princípio de acesso ao
direito e a tutela jurisdicional efetiva, não obstante reconhecer que “Em alguns casos, a CRP prevê que exista um «reforço da proteção
jurídica» de certos direitos (como no artigo 20.º, n.º 5) ou instituir de imediato fórmulas para esse efeito (como o habeas corpus,
consagrado no artigo 31.º, que constitui uma modalidade de ação de defesa do direito à liberdade), diz-nos, no entanto, que “Ainda
assim, a nossa Constituição não institui uma forma de acesso direto das pessoas ao Tribunal Constitucional para impugnação da
violação (…) de direitos fundamentais (em especial direitos, liberdades e garantias pessoais), pelos órgãos do Estado em geral (como
a queixa constitucional alemã) ou por decisões dos tribunais (como o amparo espanhol).” Cfr. JOSÉ DE MELO ALEXANDRINO,
Direitos Fundamentais, Introdução Geral, Princípia, Cascais, 2ªEdição, 2011, pp. 87- 88 e pp.111-112.
Pois bem, por causa da não consagração do recurso de amparo em Portugal, Paulo Cardinal questiona, dizendo o seguinte:
«então como se explica que uma lei portuguesa tenha «exportado» o amparo para Macau? (…) será que se entende que serve para
fora, mas não para nós próprios?» Em resposta a esta questão, o autor sugere, em jeito de conclusão, que «consagremos nós e para
nós, o que fizemos para outrem e sem complexos e receios que, salvo melhor, não se justificam. O que se justifica sim é a nossa
Constituição com o seu precioso catálogo de direitos fundamentais ver a sua missão enriquecida com a introdução deste emblemático
instituto. Os direitos dos portugueses não estão desemparados, ou à deriva total, mas não se acham amparados como deviam e
mereciam.»
Diz-nos ainda este autor que “Por outro lado, não se aproveitou o impulso proporcionado pelo legislador constitucional
cabo-verdiano quando em 1992 introduziu o recurso de amparo”, acompanhando o que disse Vitalino Canas – no artigo que
mencionaremos infra –, que «a CRP poderia beneficiar com a consagração (…) do amparo ou da queixa constitucional, já previsto na
CRCV.». Para mais desenvolvimento, veja-se PAULO CARDINAL, «O Instituto do Recurso de Amparo de Direitos Fundamentais
e a Juslusofonia – Os Casos de Macau e Cabo Verde» in Revista Direito e Cidadania, Ano VII, N.º 24, Quadrimestral, 2006, Praia,
Caba Verde, p. 90, e nota 32 e 33.
9
Cfr. JOSÉ PINA DELGADO e LIRIAM TIUJO DELGADO, O Sistema Cabo-verdiano de Direitos Fundamentais, ob. cit., p. 94.
10
Idem, ibidem.
11
Idem, ibidem.

12
breve digressão para o passado, por forma a averiguar como é que a Justiça Constitucional
evoluiu no nosso país, o que, antecipando, permitir-nos-á ver que nem sempre a
preocupação com a proteção dos direitos fundamentais esteve na dianteira.

1.1Evolução da Justiça Constitucional


1.1.1 Antes de mais, parece-nos ser útil começar este ponto por dizer que o Estado
Cabo-verdiano é um Estado Constitucional12, no sentido que a Constituição possui força
normativa suficiente para modelar e dirigir os poderes do Estado e que toda a atuação dos
poderes públicos está subordinada à Constituição13
Posto isto, importa dizer que Cabo Verde, no que diz respeito à justiça
constitucional 14 , conheceu ao longo da sua história um desenvolvimento notável,
passando de uma fase em que esta justiça inexistia, para uma outra fase em que, pode

12
Para maior desenvolvimento sobre este assunto, veja-se “ALGUMAS PALVRAS, EM JEITO DE APRESENTAÇÃO E
JUSTIFICAÇÃO”, do Dr. Jorge Carlos Fonseca, na Revista Direito e Cidadania Ano III, Numero Especial, Maio de 1999, Praia, Cabo
Verde, pág. 8, edição essa que incidiu-se sobre a “Revisão Constitucional em Cabo Verde”.
Lendo essas palavras, teremos “ferramentas” para questionar e responder às seguintes questões:

1) Porquê que se afirma com certeza que Cabo Verde é um Estado de Direito?

2) Um Estado Democrático?

3) Um Estado Constitucional?
Em resposta a essas questões, pode-se dizer que Cabo Verde é um Estado de Direito porque “se funda no respeito pela dignidade
da pessoa humana, pelos direitos, liberdades e garantias individuais; que é um Estado Democrático, na medida em que se encontra,
no momento presente, “enraizado nas ideias de soberania popular e de pluralismo de expressão e de organização politica”; e,
finalmente, é um Estado Constitucional, no sentido de que o poder se forma e se exerce nos termos e limites da Lei fundamental e
nenhuma vontade pode prevalecer contra a Constituição.
13
Cfr. artigo 3.º da CRCV, artigo esse que prevê o princípio da constitucionalidade. O número 2 deste inciso, na esteira do que foi
dito acima, plasma claramente que o Estado subordina-se a Constituição, e que as leis e os demais atos dos Poderes Públicos só serão
validos se forem conformes com a Constituição.
14
Note-se que, para o efeito deste trabalho, tomou-se como data do início da história Constitucional de Cabo Verde a data da
independência do país, que aconteceu no dia 5 de julho de 1975, dado que até essa data o país foi colónica de Portugal e estava sujeito
a regulamentação portuguesa (metrópole).

13
dizer-se, a mesma passou a existir, não obstante existirem ainda na prática algumas
concretizações por ser operadas15 e a pouca operacionalidade dessa mesma justiça16.

15
Referimo-nos à inexistência de um verdadeiro Tribunal Constitucional e, por conseguinte, a inexistência, até bem pouco tempo do
provedor de justiça. Sobre a “falta dramática de um tribunal constitucional que contribua para a criação de uma cultura constitucional”
em Cabo Verde, veja-se CARLOS VEIGA, «Recurso de Amparo», in Direito e Cidadania, Ano V, nos 16/17, Quadrimestral, Setembro
de 2002/Abril de 2003, p.175.
No que diz respeito a figura do provedor de justiça, dissemos até bem pouco tempo, porque quando começamos a escrever
esta dissertação, não obstante a sua constitucionalização com a primeira revisão ordinária da Constituição de 1992, ocorrido em 1999,
verificava-se que efetivamente essa figura inexistia, ou seja, o artigo 21.º da nossa lei magna, que tem por epigrafe “Provedor de
Justiça” foi durante muito tempo “letra morta”.
Hoje, depois de muita discussão entre os partidos políticos com assento parlamentar, chegou-se ao consenso quanto a
personalidade a ser investido nesse cargo: Chama-se António Espírito Santo da Fonseca. Jorge Miranda e Rui Medeiros (Constituição
Portuguesa Anotada, Tomo I, Coimbra Editora, 2005, cit., p.218 e ss), em anotação ao artigo 23.º da Constituição da República
Portuguesa, artigo esse idêntico ao 21.º da nossa Constituição, dizem-nos que a “instituição do Provedor de Justiça tem por fonte
imediata a figura do Ombudsman, nascida na suécia e difundida, sob diversas designações e conformações, para Dinamarca, a Nova
Zelândia e, nas últimas décadas, para muitos Países”.
Mais: segundo os mesmos autores, subjaz desta figura um “tríplice intuito”, a saber: primo, de defesa e efetivação dos
direitos dos cidadãos através de meios informais (ou, como explicam os autores, menos formais que os ritos de processo em tribunal);
secundo, de atuação a margem dos mecanismos tradicionais dos controlos administrativos (embora com respeito pelo principio do
contraditório); e, tertio, de uma relação privilegiada com o parlamento (claro está, como fazem notar os autores, “sem embarco de
uma necessária independência).
Note-se que o Provedor de Justiça, como os autores chamam a atenção, e bem, “insere-se de pleno no Regime comum de
direitos fundamentais”. Vale isto por dizer, ainda chamando à colação o ensinamento desses ilustres constitucionalistas, que esta
figura não se circunscreve aos direitos, liberdades e garantias. Ao invés, claro está, com as devidas adaptações, abrange também os
direitos económicos, sociais e culturais (idem, ibidem). No mesmo sentido, veja-se MARIO SILVA, O Regime dos Direitos Sociais
na Constituição Cabo-verdiana de 1992, Almedina, Coimbra, 2004, pp. 130-133. O Estatuto do Provedor de Justiça, em Cabo Verde,
foi aprovado pela Lei n.º 29/VI/2003, de 04 de Agosto.
Por fim, ainda sobre esta figura, importa dizer que o mesmo, como se sabe, não goza de poder decisório, não lhe cabendo,
por isso, “poder” de anular, revogar ou suspender os atos da Administração. De facto, o Provedor de Justiça apenas pode fazer
recomendações, mas, note-se, “recomendações que deve formular sempre que considere fundada as queixas”.
Do que expusemos, do nosso ponto de vista, pode-se retirar uma conclusão: dado aos parcos poderes dessa figura, que se
limita, como se viu, às recomendações, o impacto das mesmas na sociedade e na proteção dos direitos fundamentais dependem em
muito da figura (humana) investida nessa instituição, ou seja, numa palavra, esta pessoa física deve ser de reputado mérito e, quiçá,
carismático e respeitado, para que as suas recomendações possam ser acatadas. Sobre esta figura, veja-se ainda JOSE CARLOS
VIEIRA DE ANDRADE, os Direitos Fundamentais na Constituição Portuguesa de 1976, 5ª Edição, Almedina, Coimbra, 2012, cit.,
p. 384, nota 80; JOSÉ DE MELO ALEXANDRINO, Direitos Fundamentais, Introdução Geral, ob. cit., pp. 90-91 e LUIS DUARTE
MANSO e LEANDRO CALDAS ESTEVES, Direito do Contencioso Administrativo, Casos Práticos Resolvidos, Quid Juris,
Sociedade Editora, 2011 (os autores discorrem sobre as Origens Etimológicas do Ombudsmam; Alcance Processual da Provedoria
Europeia; Exemplos concretos de queixa e o Caso Português – o Provedor de Justiça Nacional. Para maior desenvolvimento sobre a
queixa ao Provedor de Justiça em Cabo Verde, veja-se JOSÉ PINA DELGADO e LIRIAM TIUJO DELGADO, O Sistema Cabo-
verdiano de Direitos Fundamentais – Notas de Aula, ob. cit., pp. 101-102 e a doutrina ali citada, bem como JORGE CARLOS
FONSECA, Cabo Verde, Constituição, Democracia, Cidadania, Almedina, 2011, pp. 105-134.
16
Neste sentido, reconhecendo que o modelo de justiça constitucional que vigora hoje em Cabo Verde é completamente jurisdicional,
Benfeito Mosso Ramos acentua, contudo, que “as coisas não foram sempre assim, e a completa jurisdicionalização do sistema que
temos hoje é fruto de uma evolução ascendente no sentido do reforço e do aprimoramento das garantias da Constituição no nosso
país” . Cfr. BENFEITO MOSSO RAMOS, «A Garantia da Constituição e a Justiça Constitucional em Cabo Verde», in Direito e
Cidadania, Ano X, N.º29,Quadrmestral, 2009, cit., p. 229.

14
1.1.2 Pois bem, Cabo Verde, nos primórdios da sua independência, não dispunha
de uma verdadeira Constituição, porque tinha apenas uma lei de natureza Constitucional,
designada Lei Sobre a Organização Política do Estado, votada pela Assembleia Nacional
Popular e Publicada no Boletim oficial n.º 1, de 05 de Julho de 1975 (com 23 artigos)17,
que segundo muitos juristas cabo-verdianos e portugueses, não podia ser considerado uma
Constituição, por razões que veremos de seguida. Daí que, nessa fase de evolução, parece-
nos que não se podia falar em justiça constitucional (parece ser um assunto que gera
consenso na sociedade cabo-verdiana18.)
No contexto do exposto, José Vicente Lopes da silva19, no ponto 40 do seu livro
os Bastidores da Independência, sob a epígrafe “ A CONSTITUIÇÃO ADIADA”, diz-
nos que “O compromisso de que a Assembleia Nacional Popular deveria, até outubro de
1975, elaborar a Constituição da República de Cabo Verde não foi cumprido, o que, de
pronto, deixou o regime proclamado a 5 de Julho de 1975 exposto a críticas dos seus
adversários. Alguns deles deixarão, com o tempo, o domínio do privado, para ganharem
corpo em forma de artigos ou estudos publicados, tanto em Cabo Verde como no
exterior”.

17
Tenha-se presente que essa lei deveria vigorar 3 meses, tempo que se pensou que seria necessário para que os legisladores
constituintes elaborassem uma verdadeira Constituição. Mas a verdade é que essa lei vigorou entre 1975 e 1980, data em que se fez a
primeira Constituição da República de Cabo Verde. Veremos, de seguida, um conjunto de opiniões e críticas sobre esse prazo de 3
meses que não foi cumprido pelos constituintes de então. Para uma visão mais desenvolvida sobre a “LOPE” e os remendos que a
mesma sofreu, veja-se, MARIO RAMOS PERREIRA DA SILVA, As Constituições de Cabo Verde e Textos Históricos de Direito
Constitucional Cabo-verdiano, 3ª Edição, Edições ISCJS, Imprensa Nacional de Cabo Verde, Praia, Maio de 2014, pp. 15-19).
18
Neste sentido, tomando como ponto de partida para a sua incursão histórica sobre “A evolução da experiência cabo-verdiana em
matéria da Justiça Constitucional” o surgimento de Cabo Verde independente, Benfeito Mosso Ramos nos diz, num ponto com
epígrafe “Durante a Primeira República” que “podemos começar por reconhecer que nos primeiros cinco anos não havia a
preocupação da defesa da Constituição através da fiscalização da constitucionalidade das Leis. E a razão era bem evidente: durante os
primeiros anos, o Estado de Cabo Verde não foi dotado de uma Constituição em sentido formal e como tal designada”. Como já se
disse, “Tinha apenas uma lei de natureza constitucional que continha o essencial quanto à natureza do Estado, os fundamentos e a
organização do poder politico, de que se destacava a função proeminente do partido então dirigente, a indicação dos órgãos do poder
do Estado, com referência muito breve às suas competências, e sucinta alusão a alguns direitos dos cidadãos”. Para maior
desenvolvimento, veja-se BENFEITO MOSSO RAMOS, «A Garantia da Constituição e a Justiça Constitucional em Cabo Verde»,
ob. cit., p. 229.
19
Cfr. JOSÉ VICENTE LOPES, Cabo Verde, Os Bastidores da Independência, 2.ª Edição, Cidade da Praia, 2002.Faz-se notar que
esta obra, como se lê na capa da segunda edição, “ é o primeiro livro de José Vicente Lopes, no qual o autor investiga e narra o
processo de independência e, em seguida, da construção do Estado naquele país africano de língua oficial portuguesa. A obra em
apreço é construída a partir de entrevistas com mais de 100 personalidades cabo-verdianos, guineenses e portugueses, através de um
confrontar de percursos e depoimentos, entremeados com fontes documentais e bibliográficas”.

15
Com efeito, dessas vozes críticas, vamos chamar à colação quatro nomes:
Aristides Lima; Felisberto Vieira Lopes, António Caldeira Marques e, por fim, Jorge
Carlos Fonseca20.
1.1.3. De realçar que, na verdade, parece que as críticas apontadas à LOPE tinham
razão de ser e parece-nos que no seio da esmagadora maioria dos autores na doutrina
cabo-verdiana há uma convergência de pontos de vista nos aspetos essenciais dessa lei.

20
Aristides Lima, mais benevolente nas críticas diz-nos que “A LOPE era para durar 90 dias. Ela durou cinco anos. Mas, serviu de
1975 a 1980 essencialmente para a organização do Estado. Pelo seu carácter incompleto, sem uma parte relativa aos direitos
fundamentais, já que ela só previu um direito fundamental, o direito a defesa judicial, contribuiu pouco para uma atenção mais cuidada
aos direitos fundamentais. Isto, contudo, não impediu que o Estado cabo-verdiano com os seus parcos recursos se empenhasse na
satisfação das necessidades básicas das populações e na garantia dos direitos, em especial dos direitos sociais: direito à educação, ao
trabalho, à saúde, etc.” Para maior desenvolvimento, veja-se “As alterações Constitucionais no estatuto do Chefe de Estado em Cabo
Verde”, texto disponível http://www.parlamento.cv/GDPublicacoes1.aspx?imagemId=28, p. 4.
Felisberto Vieira Lopes, foi uma das vozes mais críticas e pioneiras em relação a esse assunto. (Cfr. JOSÉ VICENTE
LOPES, Cabo Verde, Os Bastidores da Independência, ob. cit., pp. 615-616.)
De facto, em Junho de 1980, a propósito da discussão pública do anteprojeto constitucional, chegou a fazer um estudo e
apresentar as suas críticas (Idem, ibidem, p. 616). Nesse estudo (Para maior desenvolvimento, veja-se FELISBERTO VIEIRA LOPES,
A saída da crise do poder não é pelo Anteprojeto da Constituição, Praia, 1980, apud JOSÉ VICENTE LOPES, Cabo Verde, Os
Bastidores da Independência, ob. Cit., p. 616) que o próprio autor, à semelhança de outras intervenções do género, distribui em versões
policopiadas e numeradas, é questionada a legalidade e a legitimidade da ANP, que, investida para funções constituintes, não só não
cumpriu o prazo de 90 dias, como foi muito mais além, assumindo funções de um parlamento normal, o que, no entender dessa voz
crítica, constituía uma flagrante violação do mandato para que fora conferida, como também «um golpe de poder», de facto. (…) (Cfr.
JOSÉ VICENTE LOPES, Cabo Verde, Os Bastidores da Independência, ob. cit., p. 616)
A outra voz critica que referimos acima foi António Caldeiras Marques (que no inicio foi Juiz do Conselho Nacional de
Justiça e, mais tarde, representante de Cabo Verde na Conferência Internacional dos Direitos do mar – Cfr. JOSÉ VICENTE LOPES,
Cabo Verde, Os Bastidores da Independência, ob. cit., p. 616) que, aliás, no fundo acabou por manifestar pontos de vista idênticos aos
do Vieira Lopes no que diz respeito à Constituição (idem, ibidem) como refere José Vicente Lopes.
De facto, na entrevista que aquele concedeu ao autor que acabamos de referir, Caldeiras Maques esclarece, porém, que a
sua posição é bem anterior à do seu colega e que as ideias deste em nada o surpreenderam, na medida em que ele próprio já havia
manifestado, algumas delas, nomeadamente a questão da perda de legitimidade pela ANP.
Nesses termos, diz que «Eu sempre defendi essa ideia, com base no Regime de mandato. Ou seja, a ANP tinha uma
“procuração” para, no prazo de três meses, elaborar a Constituição. Findo esse prazo deixou de ter o poder que lhe tinha sido conferido,
o que significava que não podia reconhecer a legitimidade à ANP para, depois do prazo, elaborar a Constituição. É muito simples.»
(Idem, ibidem, pp. 616-617)
Por fim, como se disse supra, ainda em relação ao prazo de 90 dias que a ANP tinha para elaborar a Constituição, como
refere José Vicente Lopes (Idem, ibidem, p. 619) no seu livro, também Jorge Carlos Fonseca, em 1990, irá concluir, no estudo que
dedica ao assunto, que «a Assembleia Constituinte violou o seu mandato, quer por ação, quer por omissão, já que, por um lado,
ultrapassou os limites temporais e de competência do seu mandato (funcionando, até Setembro de 1980, como Assembleia Legislativa,
Assembleia “normal”), e, por outro, não aprovou, na forma e nos termos impostos pelo mandato que possuía, a Constituição da
República». Para maior desenvolvimento veja-se JORGE CARLOS FONSECA, O Sistema de Governo na Constituição Cabo-
verdiana, Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, Lisboa, 1990, p. 39, apud. JOSÉ VICENTE LOPES, Cabo Verde,
Os Bastidores da Independência, ob. cit., p.619. José Vicente Lopes faz notar que, curiosamente, ao contrário de Caldeiras Marques
e Vieira Lopes, Fonseca integra inicialmente a comissão de juristas que irá elaborar o primeiro esboço da futura Constituição, que,
como já se disse, será aprovada em Setembro de 1980. Cfr. JOSÉ VICENTE LOPES, Cabo Verde, Os Bastidores da Independência,
ob. cit., p. 619.

16
De facto, o mesmo autor que tem sido até agora central nesta matéria, conta-nos
na sua obra “Os embaraços da Lope”21 na sociedade cabo-verdiana.
Com efeito, e parafraseando-o, “Por si bastante limitativa e vaga, e por esta razão
tida por juristas como um saco sem fundo, a Lope não conseguia responder de forma
cabal aos naturais conflitos que a nova sociedade cabo-verdiana ia gerando no seu dia-a-
dia”22
Visto que estão a “questão” da LOPE, e os seus embaraços causado, continuemos
com a evolução, para dizer, desde logo, e como já referido anteriormente, que Cabo Verde
só veio a ter verdadeiramente uma Constituição em 198023.
No entanto, apesar de ter a primeira Constituição em 198024, a verdade é que a
25
justiça constitucional não nasceu com esta primeira Constituição , pois nela
desconhecia-se “quaisquer mecanismos de garantia jurisdicional da

21
Idem, ibidem.
22
Idem, ibidem.
23
Sobre os traços fundamentais da Constituição de 1980 – a primeira Constituição de Cabo Verde, que revogou e substitui a LOPE –
veja-se, por todos, NUNU PIÇRA, «A Evolução do Sistema de Garantia da Constituição em Cabo Verde» in Direito e Cidadania,
Ano VII, Quadrimestral, 2005, cit., pp. 213-222 e MARIO RAMOS PERREIRA DA SILVA, As Constituições de Cabo Verde e
Textos Históricos de Direito Constitucional Cabo-verdiano, ob. cit., pp. 20-24.
24
Esta constituição sofreu três revisões: em 1981 (com o fim da “Unidade Guiné Bissau- Cabo Verde); 1988(com a abertura do Estado
ao mercado económico e ao investimento externo; e em 1990 (que culminou com a abertura ao multipartidarismo).Para maior
desenvolvimento sobre a Unidade Guiné/ cabo Verde e o fim dessa unidade com o golpe de Estado perpetrado por “João Bernardo
Vieira (Nino Viera), veja-se DAVID HOPHHER ALMADA, A Construção do Estado e a Democratização do Poder em Cabo Verde,
Praia, 2010, cit., pp. 61-69; e, ainda, de forma mais pormenorizada, num ponto sob a epígrafe “O FIM DO SONHO OU DO
PESADELO”, veja-se JOSÉ VICENTE LOPES, Cabo Verde, Os Bastidores da Independência, ob. cit., pp. 633 e ss.
25
De facto, no dizer de BENFEITO MOSSO RAMOS («A Garantia da Constituição e a Justiça Constitucional em Cabo Verde», ob.
cit., p.230), essa Constituição não significou mais do que a “(re) afirmação de um regime político de partido único, que já tinha sido
claramente delineado na LOPE. Na verdade, o artigo 1.º da LOPE já reconhecia expressamente o PAIGC como a força política
dirigente da sociedade cabo-verdiana, ao prever um artigo (1.º) com o seguinte teor: “A soberania do povo de Cabo Verde é exercida
no interesse das massas populares, as quais estão estreitamente ligadas ao Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde
(P.A.I.G.C), que é a força dirigente na nossa sociedade”. Lendo o artigo 4.º da Constituição de 1980, facilmente se pode concluir que
a formulação do artigo 1.º da LOPE que acabamos de transcrever, veria a ser retomada: De facto, esse inciso diz claramente que na
República de Cabo Verde, o Partido Africano da Independência da Guiné e de Cabo Verde, o PAIGC, é a “força política dirigente da
sociedade e do Estado”.
Na esteira do mesmo autor acima citado, podemos ver que o entendimento plasmado na LOPE e retomado pela Constituição
de 1980, esteve em “consonância com o sentido convergente imprimido pelos movimentos de libertação que chegaram ao poder na
década de setenta, todos ainda tributários de uma conceção do Estado mais próximo do modelo socialista do que da democracia
liberal”.
Já numa perspetiva diferente, ARISTIDES LIMA (As alterações Constitucionais no estatuto do Chefe de Estado em Cabo
Verde, ob. cit., p. 4), afirma que “Em 1980, o país dotou-se da sua primeira Constituição no sentido pleno do termo. Especialmente,
porque não se tratava de um documento provisório e a Constituição contemplava tudo o que em geral uma Constituição integra,
incluindo uma parte relativa aos princípios fundamentais, aos Direitos Fundamentais e à garantia da própria Constituição”.
O autor chegou mesmo a dizer que “A Constituição de 1980 foi um marco importante na organização do Estado, na
definição dos direitos e liberdades dos cidadãos e na própria garantia da Constituição” (idem, p.7).

17
constitucionalidade” 26 , caracterizando-se, como nos dá conta Nuno Piçarra, “pela
inefectividade prática” .
De facto, ela previa uma norma muita curiosa: O seu artigo 62º, alínea c), atribuía
à então Assembleia Nacional Popular a competência para “decidir da constitucionalidade
das leis e dos demais diplomas legislativos. O que estava subjacente a este inciso
constitucional, era a ideia segundo a qual só o órgão que congregava a vontade geral é
que teria legitimidade para fiscalizar a conformidade das leis, que o próprio produzia27.
Pelo exposto, poder-se-á concluir que com a Constituição de 1980 não houve a
“institucionalização” de uma verdadeira justiça constitucional, pois aos tribunais estava
vedado qualquer possibilidade de controlo/apreciação da constitucionalidade das
normas28, existindo sim, como veremos infra, uma mera fiscalização política das leis29.
Benfeito Mosso Ramos30 diz-nos que “O tipo de regime político e o princípio da unidade
do poder a ele subjacente, o qual desconhece a independência institucional do poder
judicial, acabaria por ter reflexos diretos no sistema de fiscalização da constitucionalidade
das leis”

26
Cfr. NUNU PIÇARRA, «A Evolução do Sistema de Garantia da Constituição em cabo Verde», ob. cit., p. 217.
27
Esta ideia do controlo manteve-se com a revisão de 1981 que surgiu, como já se disse, por causa da alteração da ordem constitucional
ocorrida na Guiné Bissau em 14 de Novembro de 1980, alteração essa que ditou a separação entre esses dois Estados, do ponto de
vista da Unidade sonhada por Amílcar Cabral, pai da nacionalidade desses 2 Estados. Esta forma de controlo passou a estar prevista
no artigo 58.º, ali. c) e rezava exatamente o que constava do referido artigo.
28
Faz-se notar que, ainda sim, na esteira de Nuno Piçarra, “na primeira fase da história constitucional dos países africanos de língua
oficial portuguesa – marcada por um modelo de controlo meramente politico da constitucionalidade –, a primeira Constituição de
Cabo Verde constitui uma exceção em relação às suas congéneres, guineense, santomense, angolana e moçambicana”, como veremos
de seguida, “ao envolver os tribunais naquele sistema de controle de constitucionalidade através das atribuição de um “dever de
exame” (Prufungsrecht, na conhecida terminologia alemã) da constitucionalidade das normas concretamente aplicáveis, mas não o
poder-dever de recusarem a aplicação das por eles considerados inconstitucionais (verwerfungsrecht)”.
29
No mesmo sentida, veja-se BENFEITO MOSSO RAMOS, «A Garantia da Constituição e a Justiça Constitucional em Cabo
Verde», ob. cit., pp. 223 -229.Assim, elencando e explicando um conjunto de critérios que se utiliza para caracterizar os diferentes
tipos de controlo de constitucionalidade e os diversos critérios utilizados para os classificar, o autor nos dá conta que existe critérios:
quanto aos sujeitos; modo de controlo; o tempo de controlo; legitimidade; quanto aos efeitos do Controlo e, por fim, quanto à
repercussão no tempo.
Portanto, quanto aos sujeitos, o autor começa por perguntar “Quem é que faz o controlo? Qual o órgão que faz o controlo?”,
assimilando que, com base nesse critério, pode-se distinguir o controlo político do controlo jurisdicional, cuidando ainda de os explicar
sumariamente, dizendo que existe controlo politico quando o controlo de constitucionalidade é feito por órgãos políticos como as
assembleias representativas e, em certa medida, os Conselhos Constitucionais; e por outro lado, o controlo jurisdicional é aquele que
é levado a cabo pelos tribunais.
Posto isto, na esteira da distinção que acabamos de fazer, o autor conclui que “Em Cabo Verde, durante a Constituição de
1980, vigorava o controlo político feito pela Assembleia Nacional Popular. “Ainda no mesmo sentido, cfr. NUNU PIÇRA, «A
Evolução do Sistema de Garantia da Constituição em cabo Verde», ob. cit., p. 212.
30
Veja-se BENFEITO MOSSO RAMOS, «A Garantia da Constituição e a Justiça Constitucional em Cabo Verde», ob. cit., p. 230.

18
Por isso, compreensivelmente, a fiscalização da constitucionalidade das leis e
demais atos legislativos foi confiada a um órgão político, a Assembleia Nacional.31
Ora bem, acontece que, não obstante o exposto, a verdade é que esse sistema de
fiscalização da constitucionalidade não teve operacionalidade.
De facto, só se conhece dois casos em que a Assembleia Nacional Popular se
pronunciou pela inconstitucionalidade: no primeiro caso, para anular um diploma do
Governo referente ao Tribunal de Contas, com fundamento em como a competência para
legislar sobre tal matéria pertencia ao Parlamento (no fundo, suscitou o problema da
inconstitucionalidade orgânica e quiçá formal);32 num segundo caso foi para declarar, a
pedido de um cidadão, a inconstitucionalidade de algumas disposições do contencioso
aduaneiro na parte em que condicionavam a tramitação processual à prestação prévia de
uma caução.33
De realçar que o próprio contexto político em que a mesma se desenvolveu, como
refere Benfeito Mosso Ramos, não era de molde a encorajar o recurso a fiscalização da
constitucionalidade das leis, ao menos na sua vertente sucessiva, fossem elas herdadas ou
as que iam sendo feitas.34
Como pode facilmente ver-se pelo exposto, na história da justiça constitucional
cabo-verdiana, como alguém já disse, nem sempre se teve o entendimento da Constituição
como a “hard law”, isto porque os primeiros estatutos normativos do Estado colocavam
preponderância no parlamento35 e, concomitantemente, nos seus atos normativos.

31
Idem. O autor entende que os tribunais não estavam de todo excluídos do sistema de fiscalização da constitucionalidade das leis,
posto que, segundo o plasmado no artigo 98.º, n.º1?(89), da Constituição de 1980 “nos feitos submetidos a julgamento não podem os
tribunais aplicar normas que infrinjam o disposto na Constituição ou princípios neles consagrados”. No entanto, é o próprio autor a
chamar a atenção que uma vez admitida a questão de inconstitucionalidade, a competência para decidir da sua procedência era
atribuída à Assembleia Nacional Popular, por imposição do número 3 do mesmo inciso. Para mais desenvolvimentos, Idem, nota 10;
e NUNU PIÇARRA, «A Evolução do Sistema de Garantia da Constituição em cabo Verde», ob. cit, pp. 218-219, que diz-nos que
“admitida (pelo juiz) a questão da inconstitucionalidade, o incidente sobe em separado à Assembleia Nacional Popular que decidirá”;
ainda sobre o “controlo político da constitucionalidade”, idem, p. 117.
32
Vide BENFEITO MOSSO RAMOS, «A Garantia da Constituição e a Justiça Constitucional em Cabo Verde», ob. cit., p. 230.
33
Idem.
34
Idem.
35
Assim como aconteceu, inicialmente, em França e noutros países da Europa. De facto, em França, a partir da revolução Francesa e
da errónea interpretação da separação dos poderes, a preocupação central foi, como alguém disse, substituir o «governo dos homens»
pelo governo das leis. Daí que, em vez de um controlo judicial da constitucionalidade, entendia-se que devia ser o parlamento a ter
esta tarefa, sendo que esta atuava como «volonté général».E mais: Dado a confiança no poder legislativo, havia quem entendia que
não era necessário introduzir no sistema qualquer forma de controlo do poder legislativo.
Note-se que, em Portugal, na esteira do pensamento de Carl Schmitt, o controlo político das leis acompanhou todo o
constitucionalismo monárquico. Ora bem, segundo Hans Kelsen «seria ingenuidade política» acreditar num efetivo controlo pelo
próprio autor da norma”. Daí que ele excluía automaticamente o parlamento da tarefa de guardião da Constituição. Sobre o Sistema

19
Como é evidente, o resultado desse entendimento, como não podia deixar de ser,
teve consequências diretas na compreensão da fiscalização dos atos dos poderes públicos.
De facto, os poderes públicos, como já se viu, ficaram libertos de qualquer controlo, posto
que não havia uma instância independente que fiscalizava os seus atos.
Portanto, sendo assim, podemos mesmo dizer que durante a primeira
República, que se situa entre 1975 até a aprovação da Constituição de 1992, a justiça
constitucional não existiu.
De realçar que o princípio do controlo jurisdicional da constitucionalidade das leis
nasceu com a Constituição de 19923637, o qual veio, aliás, provocar varias mudanças de
paradigmas em Cabo Verde.38

de Controlo Politico da Constitucionalidade, bem como sobre a grande querela que existiu entre esses dois autores acerca de quem
deveria ser o guardião da Constituição, por todos, veja-se CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos
Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., pp.
29 e ss.
36
Importa dizer, com NUNU PIÇARRA, «A Evolução do Sistema de Garantia da Constituição em Cabo Verde», ob. cit, pp. 220-
221.), que “A revisão/mutação da Constituição de 1980”, ocorrido em 1990 pela Lei Constitucional n.º 2/III/90, de 28 de Setembro,
que, como se sabe, mudou o Regime político, a forma e o sistema de governo originariamente consagrados na Constituição de
1980(destarte, o artigo 4.º “veio declarar livre a constituição de partidos políticos, destinados a concorrer “para a organização e a
expressão da vontade popular e do pluralismo politico”, alavancando a “estrutura mediadora fundamental da participação dos cidadãos
na vida pública”.), não foi completa por varias razões, mas, para o que nos interessa, diríamos apenas que não foi completa porque
“As próprias disposições sobre o sistema de garantia da constitucionalidade, que não foram tocadas pela revisão, não poderiam deixar
de receber um conteúdo hermenêutico diferente, conforme ao principio da limitação e do controlo do poder politico agora consagrado,
que porventura as tornaria suscetíveis de maior impacto prático”. Numa palavra, não obstante a revisão de 1990, o controlo político
continuou a existir no país.
37
Sobre a segunda fase da evolução do sistema de garantia da Constituição em Cabo Verde: a Constituição de 1992 e a introdução da
garantia jurisdicional da constitucionalidade e, ainda, sobre os traços essências dessa mesma Constituição quanto ao regime político,
à forma de governo e ao sistema de governo, veja-se, por todos, NUNU PIÇRA, «A Evolução do Sistema de Garantia da Constituição
em cabo Verde», ob. cit., pp. 222-236. Esta Constituição já sofreu 3 revisões: primo em 1995; secundo em 1999 (para mais
desenvolvimento sobre esta revisão, idem, ibidem, pp 236-247, BENFEITO MOSSO RAMOS, «A Garantia da Constituição e a
Justiça Constitucional em Cabo Verde», ob. cit., pp..232-233 e MARIO RAMOS PERREIRA DA SILVA, As Constituições de Cabo
Verde e Textos Históricos de Direito Constitucional Cabo-verdiano, ob. cit., pp. 36- 38); e, tertio, em 2010.Para mais desenvolvimento
sobre esta revisão, idem, ibidem, pp. 38-43.
38
É preciso dizer que a Constituição de 1992, que se insere, como já se viu, numa nova fase da história constitucional do país,
representou um momento de rutura com a ordem constitucional vigente até então, rutura essa que se estendeu a todos domínios
(Politico, económico, etc.).
De facto, segundo o 10.º parágrafo da nossa Constituição, “assumindo plenamente o princípio da soberania popular, o
presente texto da Constituição consagra um Estado de Direito Democrático com um vasto catálogo de direitos, liberdades e garantias
dos cidadãos, a conceção da dignidade da pessoa humana como valor absoluto e sobrepondo-se ao próprio Estado, um sistema de
Governo de equilíbrio de poderes entre os diversos órgãos de soberania, um poder judicial forte e independente, um poder local cujos
titulares dos órgãos são eleitos pelas comunidades e perante elas responsabilizados, uma Administração Pública ao serviço dos
cidadãos e concebida como instrumento do desenvolvimento e um sistema de garantia de defesa da Constituição, característico de um
regime de democracia pluralista”. Num sentido próximo, veja-se JOSE LOPES DA GRAÇA, «O “Recurso de Amparo” no Sistema
Constitucional Cabo-verdiano, Breves Reflexões», in Direito e Cidadania, Ano I, N.º 2, Novembro 1997/Fevereiro 1998,

20
De facto, o status quo ante, como se costuma dizer, viria mudar radicalmente, com
a aprovação dessa nova Constituição, ancorada no princípio da constitucionalidade e com
um catálogo extenso de Direitos Fundamentais, bem como os mecanismos de defesa
desses mesmos direitos, onde o destaque vai para o recurso de amparo, tema central
desde trabalho e que será desenvolvido com mais pormenor no segundo capítulo.
Note-se que essa Constituição marcou uma rutura clara com o entendimento que
se tinha da fiscalização das normas, culminando, como já se disse, com a “transferência”
de tal poder do parlamento para os tribunais, órgãos com competência para administrar a
justiça em nome do povo39
Este entendimento foi previsto no artigo 225.º da CRCV40 de 1992 (na sua versão
originária), que dispunha o seguinte: “ Os tribunais não podem aplicar normas contrárias
à Constituição ou princípios nela consignados.”
Pelo exposto poder-se-á dizer que com a carta magna de 1992 foi iniciada uma
nova fase que fez Cabo Verde alinhar com o novo paradigma do Estado de Direito
emergente depois dos conflitos bélicos que o mundo conheceu.
Outrossim, pode dizer-se que até essa data não se podia falar em justiça
constitucional, pois, como se disse, a apreciação da constitucionalidade era
exclusivamente política, já que eram políticos os órgãos que detinham o encargo de vigiar
pelo cumprimento da Constituição.
Portanto, como se viu, a verdadeira justiça constitucional foi instituída com
Constituição de 92.
Mas, de todo o modo, não obstante a existência dessa justiça constitucional, na
prática verifica-se uma reduzida aplicação do sistema de garantia da Constituição. De

Quadrimestral, cit., pp. 199-200 e Idem, «Balanço de Cinco Anos de Vigência da Constituição», in Direito e Cidadania, Ano III,
Numero Especial, Maio de 1999, Praia, Cabo Verde, cit., pp. 37-38.
39
Por isso mesmo Raúl Varela não hesita em dizer que, “com a entrada em vigor da Constituição de 1992, já na 2ª República, foi
instituída entre nós uma autentica Justiça Constitucional.
Para sustentar esta tese, o então Juiz-conselheiro do STJ, diz-nos que “O plenário do Supremo Tribunal de Justiça passou
a funcionar como Tribunal Constitucional que em termos de direito comparado nalguns casos tem uma competência mais restrita que
os outros Tribunais Constitucionais mas, por outro lado, em certos casos tem uma competência mais alargada que incluiu, por exemplo,
o amparo constitucional contra os atos e omissões dos poderes públicos, inclusive do poder judicial que ofendam os direitos, liberdades
e garantia.” Para maior desenvolvimento, veja-se RAÚL VARELA, «A Fiscalização da Constitucionalidade em cabo Verde», in
Direito e Cidadania, Ano I, N.º 2, Novembro 1997/Fevereiro 1998, Quadrimestral, pp. 135 e ss.
40
Atualmente este entendimento esta previsto no artigo 211º, n.º3, sob a epígrafe “Princípios fundamentais da administração da
Justiça”.

21
facto, pode afirmar-se, com Nuno Piçarra41, que “O sistema acabado de analisar nos seus
traços essências tem tido pouca aplicação prática”.
Com efeito, ainda na esteira do mesmo autor, constatou-se que nos primeiros seis
anos de vigência da Constituição de 92, o STJ não emitiu nenhum acórdão tendo por
objeto autónomo a fiscalização da constitucionalidade42, podendo-se apontar um conjunto
de razões que explicam esse estado de coisas, quais sejam a falta de familiaridade dos
operadores jurídicos com o sistema de justiça constitucional consagrado pela Constituição
da República; a inexistência do Provedor de justiça43 (que só viria a ser criado com a
revisão de 1999) e, por fim, a falta de meios e assoberbamentos de trabalho do
Procurador-Geral da República, que intervém ele próprio, em representação do MP, em
todos os processos que correm junto do STJ44
Contudo, verifica-se que até finais de 2004 o STJ proferiu quinze acórdãos em dez
recursos de amparo, incluindo decisões de aperfeiçoamento do pedido45.Alguns desses
recursos de amparo foram interpostos contra omissões de atos processuais e decisões
positivas dos tribunais 46 .Oito deles tiveram como autores pessoas singulares e dois,
pessoas colectivas47.Num dos casos, como nos dá conta Nuno Piçarra, o impetrante foi

41
Assim, NUNU PIÇRA, «A Evolução do Sistema de Garantia da Constituição em cabo Verde», ob. cit., p. 235.
42
Idem, ibidem; neste contexto, pode ver-se ainda LÍGIA DIAS FONSECA, «Revisão da Constituição ou aprofundamento da
cidadania?», Direito e Cidadania, Ano II, Nº 4, Julho de 1998 a Outubro de 1998 cit., pp. 202-203.
43
Note-se, como se disse acima, que quando começamos a escrever essa dissertação, a figura do provedor de justiça não existia na
prática. Porém, como se sabe, depois de muita discussão entre os partidos com assento parlamentar, chegou-se a um consenso quanto
a personalidade a preencher este importante cargo, como demos conta acima.
No entanto, segundo sabemos, o Provedor de Justiça ainda não tem instalação. Mas, de todo o modo, os cidadãos já
começaram a manifestar intenções em lançar mão desta figura, recém “empossada”, para a defesa dos seus direitos contra entes
públicos. Neste sentido, António Espírito Santo afirmou ter já conhecimento, através da Comunicação Social, de que alguns cidadãos
e entidades privadas já manifestaram a intenção de recorrer à Provedoria de Justiça, e prometeu que todos esses dossiers serão
devidamente analisados e encaminhados, se for caso disso.
Trata-se de um grupo de cidadãos de São Vicente que se queixa do excesso de barulho e quer responsabilizar a Câmara Municipal
local, e da Ordem dos Médicos, que questiona uma portaria recentemente aprovada sobre evacuação de doentes e prescrições médicas.
De realçar que esta entidade “defensora da constitucionalidade”, não obstante não ter poder decisório, afigura-se de extrema
importância na defesa dos direitos dos cidadãos perante os poderes públicos. De facto, o Provedor de Justiça tem “competência” para
receber queixas/reclamações apresentas pelos cidadãos por ações e omissões dos poderes públicos, podendo aprecia-las, como
dissemos já, sem poder decisório, e, caso entender que deve fazê-lo, dirigir aos órgãos competentes as recomendações necessárias
para prevenir e reparar ilegalidades ou injustiças Cfr. artigo 21.º da CRCV).
44
Cfr. NUNU PIÇARRA, «A Evolução do Sistema de Garantia da Constituição em cabo Verde», ob. cit., p. 235.
45
Dados fornecidos pelo autor citado na nota anterior (ibidem, p 235)
46
Idem, ibidem.
47
Como pode ver-se, isso nos permite, antecipando, responder afirmativamente a uma das questões que lançamos acima, que é a de
saber se as pessoas colectivas também têm legitimidade para propor o recurso de amparo. De facto, as pessoas colectivas também têm
direitos fundamentais, não se vendo por isso razões para “fecha-los” o acesso a este mecanismo para defender os seus direitos

22
um município, na qualidade de sócio de uma sociedade, fazendo valer o seu direito de
propriedade e de cesso à justiça48
O autor acima citado nos dá conta ainda que “A seguir ao recurso de amparo, a
via mais ativada é da fiscalização abstrata sucessiva (sete pedidos até 2002).Em
contrapartida, a fiscalização preventiva e a fiscalização sucessiva concreta quase não têm
sido utilizadas (uma vez no primeiro caso e três no segundo, isto até 2002).”
Na opinião do mesmo autor, “Para além das razões apontadas pela doutrina cabo-
verdiana, também não será alheio à pouca aplicação prática do sistema de justiça
constitucional estabelecido pela CRCV o facto de o STJ ser, também quanto a sua
formação e composição, um tribunal supremo do ordenamento judicial, maioritariamente
composto por juízes de carreira”49.

fundamentais. Voltaremos a esta questão mais adiante, no segundo capítulo, onde falaremos da legitimidade para se interpor o recurso
de amparo.
48
ARISTIDES R. LIMA, (O Recurso Constitucional Alemão e o Recurso de Amparo Cabo-verdiano, Uma Análise Comparativa,
Praia, 2004, p.. 13, nota 32), explica com mais pormenor este processo. Diz-nos que nele “o STJ (TC) reconheceu legitimidade ao
município do Sal para, enquanto sócio de uma sociedade, Companhia de Tabacos de Cabo Verde, S.A.R.L, interpor um recurso de
amparo em que pretende o amparo para o seu alegado direito de propriedade e o seu direito de acesso à justiça. A entidade recorrida
foi o Chefe de Repartição de Finanças de S.Vicente. ”Cfr. Ac. 3/96 do STJ, um dos acórdãos que utilizaremos infra na análise de
alguns acórdãos que este Tribunal Supremo já proferiu. Ainda no sentido de que as pessoas colectivas têm legitimidade para interpor
recurso de amparo pode ver-se EDELTRUDES NEVES e RUI ARAÚJO, «Primeiro Despacho a Proferir Num Recurso de Amparo
em que tenha Sido Pedida Uma Medida Provisória», in Direito e Cidadania, Ano I, N.º 2, Novembro 1997/Fevereiro 1998,
Quadrimestral, que no fundo foi um comentário ao despacho do presidente do Supremo Tribunal de Justiça de 18 de Novembro de
1996, proferido sobre o recurso de amparo n.º 2/96, em que era o requerente também o mesmo Município do Sal, sócio gerente da
Companhia de Tabacos de Cabo Verde, S.A.R.L e o Presidente deposto do Conselho de Administração da mesma; Também, ainda no
sentido próximo, cfr. WLADIMIR BRITO, «O Amparo Constitucional», in Direito e Cidadania, Ano III, N.º 7, Julho/Outubro 1999,
Quadrimestral, cit., p.19, mais precisamente no último parágrafo do ponto sob a epígrafe “Conceito de Amparo Constitucional” e
p.20, nota 45; e, num sentido diferente, CARLOS VEIGA, «Recurso de Amparo», ob. Cit., …p. 168, nota 3.De facto, Carlos Veiga,
começando por dizer que “A revisão constitucional de 1999 alterou a numeração do preceito que passou a ser 20 da CR” (note-se que
era 19 na versão originária “e, no corpo do n.º1, substitui “Supremo Tribunal de Justiça” por “Tribunal Constitucional” e “cidadãos”
por “indivíduos”), chamando a atenção, na nota 3 acima referida, dizendo que “Esta última alteração poderá suscitar a discussão sobre
se, hoje, o recurso de amparo se não referirá apenas a direitos, liberdades e garantias individuais, excluindo a legitimidade das pessoas
colectivas para o interpor”.
49
NUNU PIÇARRA, «A Evolução do Sistema de Garantia da Constituição em cabo Verde», ob. cit., p. 236. O autor que se acabou
de citar, chama atenção dizendo que “ seja como for, a prática da justiça constitucional em Cabo Verde permite antever que a sua
evolução se fará no sentido verificado nos diversos países em que o recurso de amparo completa o sistema de fiscalização da
constitucionalidade”: assim como acontece, por exemplo, na Alemanha (onde os recursos de amparo representam cerca de 95% do
total dos pedidos de fiscalização da constitucionalidade dirigidos ao Tribunal Constitucional Federal) ou na suíça, concluindo o autor
que “tal recurso tenderá a ter uma importância prática superior tanto a fiscalização abstrata como a fiscalização concreta da
constitucionalidade”.(idem, ibidem).
Posto isto, parece-nos que o autor anteviu bem, pois da recolha de jurisprudência que fomos fazer ao STJ para utilizar no
segundo capítulo deste trabalho verificamos que o recurso de amparo tem estado na dianteira, não obstante a esmagadora maioria
desses recursos, como pudemos constatar, e adiantando, são sempre indeferidos, por um conjunto de razões, quais sejam, o não

23
O exposto permitem-nos, pois, concluir, em suma, que a justiça constitucional em
Cabo Verde evoluiu de uma forma positiva, tendo em conta que passou de uma fase mais
conturbada em que a garantia da Constituição era exclusivamente de caracter politico
(inexistindo, por isso) nos termos assinalados acima, para uma nova fase, que se iniciou
em 1992, onde de facto a Constituição então aprovada teve o cuidado de institucionaliza-
la, “transferindo-a” do parlamento para os tribunais.
Esta Constituição, como se sabe, não distanciou-se muito da Constituição
Portuguesa, como veremos mais adiante, na exacta medida em que as duas optaram por
um sistema misto de garantia jurisdicional, onde conjugam a fiscalização concreta com a
abstrata (sucessiva e preventiva), e, ainda, a fiscalização difusa com a concentrada.
Mas, na esteira de Nuno Piçarra 50 , pode apontar-se alguns distanciamentos da
Constituição cabo-verdiana em relação à Constituição portuguesa, a saber: assim, na
CRCV “(1) não se criou originariamente um Tribunal Constitucional especializado51 ,
confiando-se a administração em última instância da justiça em matérias jurídico-
constitucionais ao Supremo Tribunal de Justiça; mais, “a componente de controlo difuso
prevalece sobre o controlo concentrado, na medida em que não se prevê um recurso

preenchimento dos pressupostos (o não esgotamento das vias ordinárias, por exemplo), a intempestividade, etc. Voltaremos a essa
questão mais adiante.
50
Idem, ibidem, p. 248.
51
Que só veio a ser criado, constitucionalmente, note-se, com a revisão de 1999.Faz-se notar que não obstante a instalação e a entrada
em funcionamento do TC terem sido viabilizadas pela lei n.º 56/VI/2005, de 28 de Fevereiro, a verdade é que este Tribunal ainda não
está a funcionar e existe atualmente uma grande discussão na doutrina cabo-verdiana se este tribunal é ou não necessário para Cabo
Verde. Numa palavra, há prós e contra a instalação desse tribunal em Cabo Verde.
Fazemos notar que, no contexto do exposto, mesmo a acabar de escrever essa dissertação, foi publicado no B.O, a resolução
da Assembleia Nacional, aprovada no dia 26 de Março de 2015, que elege os juízes para o TC. Cfr. Resolução n.º 126/VIII/2015, I
Serie, n.º 24, de 14 de Abril de 2015,que elege, nos termos do artigo 181.º da Constituição conjugado com o artigo 277.º do Regimento,
os cidadãos Aristides Raimundo Lima, João Pinto Semedo e José Manuel Avelino de Pina Delgado, para desempenharem o cargo de
Juiz de Tribunal Constitucional.
Nesta sequência, foi noticiada recentemente na imprensa cabo-verdiana que “o Governo de Cabo Verde aprovou um
projeto de decreto – lei que regulamenta as actividades do recém-criado Tribunal Constitucional (TC), nomeadamente a organização,
composição e funcionamento do secretariado e da assessoria”. Segundo a mesma fonte, a decisão foi tomada em Conselho de Ministros
e, segundo o porta-voz do órgão, Démis Lobo, estão abertas as portas para a instalação definitiva do TC, que será liderado por Aristides
Lima, deputado, jurista e ex-presidente do parlamento. (noticia-se ainda que “A criação do TC cabo-verdiano esteve prevista desde a
revisão de 1999, mas só em março deste ano é que as duas forças politicas do arquipélago – Partido Africano da Independência de
Cabo Verde (PAICV, no poder desde 2001) e o Movimento para a Democracia (MPD) – chegaram a um consenso.).
O diploma, como explica o ministro, propõe uma secretaria que integre o serviço administrativo de apoio à gestão dos
processos, que, por sua vez, se subdivide em secretaria central e secção de processos, composto por oficiais de justiça, dirigido por
um secretário judicial, sob a superintendência do presidente do Tribunal.
Diz ainda que a secretaria será dotada de autonomia administrativa e que compreende os serviços judiciais administrativos
e financeiros e os gabinetes de apoio ao presidente, aos juízes e ao Ministério Público (concluiu-se que antes da sua criação, as
atribuições do Tribunal Constitucional estavam na dependência do Supremo Tribunal de Justiça (STJ).

24
obrigatório das decisões dos tribunais que recusem a aplicação de normas com
fundamento em inconstitucionalidade”; e por fim, o nosso sistema é completado com o
recurso de amparo.
1.2. A Tutela dos Direitos, Liberdades e Garantias.
A partir deste ponto vamos começar a falar dos mecanismos de proteção dos
direitos fundamentais – ou, melhor dizendo, mecanismos de proteção dos direitos,
liberdades e garantias –, onde se inclui o recurso de amparo.
Dito isto, pode dizer-se, acompanhando o que disse um eminente jurista, que já
ninguém duvida que o verdadeiro valor (tanto jurídico, como social) dos direitos
fundamentais traduz-se na sua efetividade, ou seja, na possibilidade de garanti-los quando
são violados, através de mecanismos céleres e eficazes.
Neste particular, a Constituição da República de Cabo Verde é clara quando diz
que a administração da justiça tem por objeto “assegurar a defesa dos direitos
fundamentais52 e interesses legalmente protegidos”53, não podendo os tribunais “aplicar
normas contrárias à Constituição ou aos princípios nela consignados”54.
Neste cenário, o poder judicial aparece como verdadeiro guardião da Constituição
e como sistema especialmente colocado ao serviço da defesa dos direitos
fundamentais55.E, na verdade, quem diz direitos fundamentais, diz também dos direitos
humanos.56

52
Faz-se notar, mais uma vez, que parece, salvo equívoco, que Cabo Verde é o único país do espaço lusófono onde a própria
Constituição assume “a conceção da dignidade da pessoa humana como valor absoluto e sobrepondo-se ao próprio Estado”. Cfr. o
preâmbulo da Constituição.
53
Cfr. artigo 209.º da CRCV.
54
Cfr. artigo 211.º, n.º3, da CRCV.
55
Neste sentido, veja-se ARISTIDES R.LIMA, «Justiça e Politica – quem guarda os guardas?» (2002), in Constituição, Democracia
e Direitos Humanos…, p. 281, apud JOSÉ DE MELO ALEXNDRINO, Os Tribunais e a Defesa dos Direitos Fundamentai: Reflexões
em Torno da Experiência cabo-verdiana, Texto da Conferência proferida no colóquio Universitária “18 Anos de Estado Constitucional,
de Direito democrático”, Cidade da Praia, 2010, p. 5 ; ainda, JOSÉ CARLOS VIERA DE ANDRADE, «Algumas reflexões sobre os
direitos fundamentais, três décadas depois», in Anuário Português de Direito Constitucional, ano V (2006), pp. 128 ss, apud JOSÉ
DE MELO ALEXNDRINO, Os Tribunais e a Defesa dos Direitos Fundamentai: Reflexões em Torno da Experiência cabo-verdianas,
ob. cit. p. 5.
56
Sobre a distinção entre direitos fundamentais e direitos humanos, veja-se ANDREIA SOFIA PINTO OLIVEIRA e BENEDITA
MACCRORIE, Direitos Fundamentais, Elementos de Apoio, Aedum, ob. cit., p.45 e JOSÉ PINA DELGADO e LIRIAM TIUJO
DELGADO, O Sistema Cabo-verdiano de Direitos Fundamentais, ob. cit., pp. 40 -48; ainda, para ver a distinção entre os direitos
fundamentais e uma série de figuras que lhe são próximas – os direitos de personalidade; os direitos do homem; os interesses difusos;
as garantias institucionais e os deveres fundamentais – cfr. JOSE DE MELO ALEXANDRINO, Direitos Fundamentais, Introdução
Geral, ob. cit., pp. 34-40.

25
Exposto isto, poder-se-á dizer que em Cabo Verde os mecanismos jurisdicionais57
de proteção dos direitos fundamentais podem ser internos ou internacionais58; por sua
vez, dentro dos mecanismos interno, podem existir: (i) mecanismos especialmente
dirigidos contra violações de direitos fundamentais, (ii) mecanismos gerais de proteção

57
Por outro lado, quanto aos mecanismos não jurisdicionais (aqueles que não pressupõe a intervenção dos tribunais, como se disse)
temos: a queixa ao provedor de justiça, a denúncia à Comissão Nacional para os Direitos Humanos e Cidadania; o direito de petição
às Entidades Públicas; o recurso gracioso da administração pública; a queixa a comissão especiais de supervisão, como a Comissão
de Proteção de Dados da Assembleia Nacional; bem como o direito de ação popular, prevista no número 3 do artigo 59º da CRCV,
que, ao contrário dos restante mecanismos citados, serve para tutelar os interesses difusos.
Note-se que, além dos mecanismos jurisdicionais e não jurisdicionais, o sistema constitucional cabo-verdiano de direitos
fundamentais prevê ainda, os “Meios de Auto-Tutela dos direitos, liberdades e garantias, quais sejam o direito de resistência e a
legítima defesa, meios esses que se encontram plasmados no artigo 19º da Lei maior da República de Cabo Verde. Para maior
desenvolvimento sobre os mecanismos não jurisdicionais e os Meios de Auto-Tutela dos direitos, liberdades e garantias, por todos,
veja-se JOSÉ DELGADO DE PINA e LIRIAM TIUJO DELGADO, O Sistema Cabo-Verdiano de Direitos Fundamentais, ob. cit.,
pp. 101 e ss.
58
Assim, de acordo com o que prevê o numero 2 do artigo 210 da nossa Constituição, e parafraseando JOSÉ DE MELO
ALEXANDRINO (Os Tribunais e a Defesa dos Direitos Fundamentais: Reflexão em Torno da Experiência Cabo-Verdiana, ob. cit.,
p. 6), quanto aos mecanismos internacionais, tendo Cabo Verde ratificado a Carta Africana de Direitos do Homem e dos Povos,
instrumento que dispõe desde 2006 da assistência de um tribunal (o Tribunal Africano dos Direitos do Homem e dos Povos, criado
pelo Protocolo à Carta Africana de Direitos do Homem e dos Povos de 1998, entrado em vigor em 24 de Janeiro de 2004), dispõem
ainda os cidadãos desse nível suplementar de proteção. Assim, uma pessoa sob a jurisdição do Estado cabo-verdiano que alegue a
violação de um dos direitos protegidos na Carta Africana (ou em outros tratados de direitos humanos), pode, uma vez esgotados os
recursos internos, apresentar uma queixa ao Tribunal Africano dos Direitos do Homem e dos Povos, caso Cabo Verde tenha admitido
a possibilidade da queixa individual (nos termos dos artigos 5.º, n.º 3, e 36.º, n.º 4, do Protocolo à Carta Africana); na hipótese de essa
declaração não ter sido feita, o interessado poderá sempre apresentar uma comunicação à Comissão Africana de Direitos do Homem
e dos Povos, com base na referida violação. (sobre a matéria, por último, Marcolino Moco, Direitos Humanos e seus Mecanismos de
Proteção – As particularidades do sistema africano, Coimbra, 2010, pp. 215 ss.).
Note-se que José Pina Delgado e Liriam Tiujo Delgado, na obra que citamos várias vezes acima (pp. 100-101), criticam o
teor do número 2 do artigo 210 da CRCV. Reconhecem que a norma em apreço “não deixa de ser uma cláusula aberta de mecanismos
de tutela aplicável aos direitos fundamentais. Mas, todavia, entendem que, não obstante essa abertura, curiosamente, esta mesma
norma restringe “a instituições que podem ser recebidas às que tenham natureza judiciária, excluindo, pois, as que não se harmonizam
a esse conceito.”
Na opinião dos autores, “Assim sendo, as chamadas instituições quase judiciárias que, em larga medida, compõe os
mecanismos de tutela internacional dos direitos internacionais de proteção da pessoa humana – como as comités de monitorização das
Nações Unidas ou da Organização Mundial do Trabalho, etc. – ou regionais – a Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos
– não são abrangidos pelo preceito constitucional”.(como pode ver-se, esse entendimento contraria, em certa medida, o que se disse
supra (na esteira de Alexandrino) em relação a essa comissão.
Os autores citados entendem que, na verdade, somente seriam abrangidos, no caso concreto, o Tribunal Africano dos
Direitos Humanos e dos Povos (agora fundido com o Tribunal de Justiça da União Africana), o Tribunal de Justiça da Comunidade
Económica dos Estados da África Ocidental e o Tribunal Penal Internacional.
Ora, na prática, pensamos que só se pode recorrer ao primeiro tribunal e ao último (com a adesão de Cabo Verde ao
Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (TPI).Note-se que Cabo Verde aderiu também, no mesmo dia, à Convenção para a
Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, ao Protocolo Facultativo à Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação contra a Mulher e à Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. A Amnistia Internacional acolheu com
satisfação estas adesões, que demonstram o empenhamento em reforçar a proteção dos direitos humanos e das liberdades fundamentais
de todas as pessoas em Cabo Verde.).Por fim, no que se refere ao Tribunal de Justiça de CEDEAO, salvo erro, Cabo Verde ainda não
se vinculou formalmente ao instrumento jurídico internacional que o cria.

26
e (iii) mecanismos específicos param a proteção de um determinado direito fundamental.
Portanto, nos pontos que se seguem vai-se analisar sumariamente cada um desses
mecanismos jurisdicionais. Assim:
1.2.1.Mecanismos Gerais de Proteção.
Mecanismos gerais de proteção são essencialmente os do contencioso
administrativo5960 e os da fiscalização da constitucionalidade61.

59
Sobre o contencioso administrativo em Cabo Verde e a necessidade da sua reforma, pode ver-se, entre outros, JOSÉ MANUEL
SÉRVULO CORREIA, «Modernização do Contencioso Administrativo», in Revista Direito e Cidadania, Ano VII, N.º 24,
Quadrimestral, 2006, Praia, Caba Verde; MÁRIO RAMOS PEREIRA DA SILVA, «Direito Processual Administrativo ou Wladimir
Brito e o Novo Paradigma da Justiça Administrativa», in Direito e Cidadania, Ano X, N.º 29, Quadrimestral, 2009, pp. 327-
337;ANILDO MARTINS, «Contencioso Administrativo (Algumas Questões)», in Direito e Cidadania, Ano VI, N.ºs 20/21, Maio a
Dezembro, Praia, Cabo Verde, 2004 e, por fim, EDUARDO RODRIGUES, «Garantia dos Administrados», in Direito e Cidadania,
Ano III, N.º8, 1999, Praia, pp. 251 e ss.
60
Faz-se notar que, ao contrário de outros países, como por exemplo, Portugal, onde a jurisdição administrativa é autónoma, Cabo
Verde tem uma unidade jurisdicional, onde são os tribunais judiciais (o STJ e os tribunais regionais da praia e de São Vicente, isso
com base na lei de 83 – cfr. artigo 7.º dessa lei, integrada no capítulo II, sob epígrafe “Da competência, legitimidade e prazos”) que
julgam questões administrativas.
Neste ensejo, Wladimir Brito, no balanço que fez da Constituição de 92, no ano de 1998, (onde o autor julgou a
“prestabilidade dessa Constituição”), propôs a eliminação da segunda parte do número 2 do então artigo 228.º (sob epígrafe “Categoria
dos Tribunais”) referente aos tribunais administrativos. Nessa altura, o professor entendia que “ Efetivamente, num país pobre como
o nosso, não se justifica a criação de Tribunais Administrativos autónomos, quando, em minha opinião, é possível e desejável que, no
quadro dos tribunais especializados, se criem os administrativos”.
De facto, como se disse acima, desde então até hoje, são os tribunais judiciais que julgam questões administrativas
(Supremo Tribunal de Justiça e os Tribunais regionais da Praia e São Vicente, conforme consta da nossa lei do contencioso
administrativo).
O eminente jurista que se acabou de citar disse ainda na altura que “Com esta técnica ficamos com uma única ordem de
tribunais judiciais no qual poderão ser criados tribunais especializados – civil, família, menores, criminais, administrativos, fiscais,
comerciais, etc., etc. – criação que só deverá ser feita se e quando houver disponibilidade de recursos humanos e financeiros para o
efeito”
Remata, dizendo que, “Por outro lado, com a técnica que agora proponho evitar-se-á a tentação de, a prazo, se vir a
reivindicar a criação de um Supremo Tribunal Administrativo com tudo quanto tal Supremo poderá representar em termos de custos
e conflitos.”
61
Por todos, veja-se BENFEITO RAMOS, «A garantia da Constituição e a Justiça Constitucional em Cabo Verde», ob. cit., pp. 223
ss. [217-238].

27
1.2.1.1Com efeito, no que se refere ao contencioso administrativo62, antes de mais,
importa dizer que o mesmo encontra-se neste momento em processo de reforma63, pois a
“vetusta”64 Lei do Contencioso administrativo de 198365está completamente desfasada da

62
Em Cabo Verde as garantias dos particulares podem ser graciosas, contenciosas e politicas. Quanto às garantias graciosas pode
ver-se os seguintes diplomas: Dec. Leg n.º 2/95, de 20-06 – Regime geral de organização e actividades da Administração Pública
Central; Dec. Lei n.º 12/97, de 24-03 – Procedimentos na Administração Pública; Dec. Leg. n.º 15/97, de 10-11 – Regime geral de
regulamentos e atos administrativos; Dec. Leg. n.º 16/97, de 10-11 – Regime geral das reclamações e recursos administrativos não
contenciosos; Dec. Leg. n.º 17/97, de 10-11 – Regime jurídico dos contratos administrativos; Dec. Leg. n.º 18/97, de 10-11 – Bases
gerais do procedimento administrativo gracioso; Lei n.º 29/VI/2003, de 04-08 – Estatuto do Provedor de Justiça e, por fim, Lei n.º
39/VI/2004, de 02-02 – Estabelece medidas de modernização Administrativa. No que diz respeito às garantias contenciosas veja-se:
Dec. Lei n.º 14-A/83, de 22-03 – Regula o Contencioso Administrativo (já referido); Dec. Lei n.º 116/84, de 08-12 – Regula a
responsabilidade civil extracontratual do Estado e demais pessoas colectiva de direito público; Lei n.º 109/IV/94, de 24-10 – Regula
o processo do Recurso de Amparo e de Habeas Data; Lei n.º 76/VI/2005, de 16-08 – Resolução de conflitos pela via de arbitragem e
Lei n.º 56/VI/2005, de 28 -2- Lei da organização e funcionamento do Tribunal Constitucional e processos sob a sua jurisdição. Por
fim, no que se refere às garantias políticas, vide Lei n.º 33/V/97, de 30-06 – Regime jurídico do exercício do direito de Petição
previsto na Constituição.
63
De facto, Já há um anteprojeto do Código da Justiça Administrativa, projeto esse muito moderno e que vem reforçar as garantias
dos particulares face à Administração, pois prevê, como já acontece noutras paragens, novos mecanismos, que vão dos processos
urgentes – principais (intimações e impugnações) e cautelares ou não principais – (ou seja, acrescentou-se outros à suspensão da
executoriedade do ato administrativo, o único meio cautelar conhecido) à Condenação da Administração a pratica do ato devido, etc.
Numa palavra, esse projeto, quando se materializar em verdadeiro código (quando aprovado e publicado no B.O), vai “subjetivar” a
justiça administrativa cabo-verdiana, como aliás já é um imperativo constitucional, com vantagens claras para os cidadãos e constituirá
um grande ganho para o nosso Estado de Direito, rumo à uma maior consolidação.
Note-se que, neste contexto, Arlindo Medina, Juiz Presidente do STJ, a propósito da falta de uma lei moderna de
justiça/contencioso administrativo, disse na abertura do I Congresso de Direito Constitucional Cabo-verdiano, Lusófono e Comparado
que presidiu na Cidade da Praia que o “poder político, numa arrepiante inércia, não se dignou facultar aos cabo-verdianos uma lei
moderna capaz de lhes oferecer uma tutela jurisdicional efectiva e de lhes assegurar uma adequada protecção jurisdicional nas suas
relações com o Estado”.
64
É esta a expressão que muitos juristas cabo-verdianos têm usado quando se referem a essa a Lei n-º 14-A/83, de 12 de Março, que
deste então até hoje tem regulado o contencioso administrativo neste arquipélago – note-se, não obstante as mudanças sociológicas,
politicas, etc. Daí a justificação das críticas que a mesma lei tem sido alvo.
65
Cfr. a Lei n-º 14-A/83, de 12 de Março, acima referida. Note-se que esse diploma legal, na altura em que foi aprovada, marcou uma
rutura como o status quo ante, pois antes dela a Administração e o Governo estavam “libertos” de qualquer controlo judicial .No
fundo, estávamos perante um verdadeiro sistema de “administrador-juiz”, como aconteceu inicialmente em França, nos primórdios da
revolução de 1789.
De facto, como conta-nos David Hopffer Almada, “os atos definitivos e executórios dos membros do Governo podiam ser
impugnados apenas perante o Conselho de Ministros, conforme rezava o diploma de 1977 (Decreto-Lei n.º 101/77, de 08 de Outubro)
”.Por outro lado, na esteira do mesmo autor, “os atos legislativos do Governo (Decreto-Lei) só podiam ser impugnados, mediante
recurso de constitucionalidade para a Assembleia Nacional Popular, ou então sujeitos à ratificação desta, mediante solicitação feita
por qualquer deputado, até a primeira sessão seguinte à sua publicação, sem o que se considerava automaticamente ratificado”.
Nas palavras do autor “não é normal, sendo mesmo contra natura em regimes mono partidários (como era o caso), o
Governo sujeitar-se e sujeitar os seus atos à impugnação contenciosa perante os Tribunais.”
Dai que alguns autores, como por exemplo, Freitas do amaral e Gomes Canotilho, na visita que fizeram a Cabo Verde na
altura, como nos da conta o autor, terem estranhado essa opção do Legislador de 83 em subter os atos do Governo ao controlo judicial.
Para maior desenvolvimento sobre o assunto, veja-se DAVID HOPFFER ALMADA, A Construção do Estado e a Democratização do
Poder em Cabo Verde, Cidade da Praia, ob. cit., pp. 70 e ss, e nota 27.

28
realidade e dos preceitos constitucionais, o que, aliás, tem motivado muitas críticas por
parte dos juristas cabo-verdianos e não só.
De facto, quem ler esta lei facilmente concluirá que o contencioso cabo-verdiano
é de mera anulação e a actocêntrico66 (ao ato), com prejuízos claros para os direitos e
interesses legalmente protegido dos particulares, contrariando, de certo modo, o que está
previsto na atual Constituição da República67 na parte referente a essa matéria.

66
Neste sentido, veja-se MÁRIO RAMOS PEREIRA SILVA, «Direito Processual Administrativo ou Wladminir Brito e o Novo
Paradigma de Justiça Administrativa», ob. cit., p. 336.Neste artigo, onde se pretende, nas palavras do autor “dar a conhecer ao público
cabo-verdiano a publicação de um dos últimos livros de WLADIMIR BRITO, Professor da Escola de Direito da Universidade do
Minho e um nome cimeiro do Direito Público de Língua Portuguesa”: Lições de Direito Processual Administrativo, o mesmo autor
debruçou praticamente sobre todo o conteúdo do livro e, na ultima parte do artigo, sob a epígrafe “ A IMPORTÂNCIA DA OBRA
PARA OS PAÍSES AFRICANOS DE LÍNGUA OFICIAL PORTUGUESA”, diz-nos que o trabalho de Wladimir Brito “constitui
um valioso instrumento de inspiração e de estímulo para a reforma do contencioso administrativo nos Países Africanos de Língua
Oficial Portuguesa, pelas informações que nos faculta e pela análise que adota”(…).
Ora bem, no que a Cabo Verde se refere, continua o autor, dizendo que “ num momento em que paira um grande silêncio
sobre esta matéria, depois da discussão pública da versão zero do projeto de Código de Justiça Administrativa, esta obra de
WLADIMIR BRITO assume grande importância, não só pelos já referidos aspetos, mas também por ser uma voz autorizada a certificar
o fim do contencioso administrativo de anulação, baseado num «processo ao ato», na consagração de vários círculos de imunidade do
poder, na sentença anulatória, na inoperância do sistema de execução de sentenças e na suspensão da eficácia do ato administrativo
como única providência cautelar, entre outros aspetos”.
Em guisa de conclusão, e bem, o mesmo autor demonstra o seu descontentamento com o atual contencioso existente em
Cabo Verde, dizendo que “Mal se compreende que um país como o nosso, que inscreveu na sua Constituição um modelo de justiça
administrativa de natureza subjetiva, ainda com aspetos objetivos decorrentes da existência de ação pública e da ação popular, continue
a hesitar em levar a cabo uma reforma constitucionalmente adequada e protele por mais tempo a adoção de medidas impostas pela
Constituição”.
Nessa esteira, Sérvulo Correia, ao propósito do baseamento da nossa República na dignidade da pessoa humana – pelo
menos à luz da nossa lei mãe –, diz-nos que “Não parece satisfatoriamente sintonizado com esta filosofia constitucional um sistema
de jurisdição administrativa em que os meios de processo visem tão só a reposição da integridade do ordenamento jurídico objetivo
e, apenas por arrastamento, de um modo reflexo, a reintegração das situações jurídicas subjetivas ofendidas”.
Exposto isto, entende o autor que “Daqui resultaria, muito possivelmente, a insuficiência, à face da Constituição de Cabo
Verde, de um modelo de Contencioso Administrativo que, tal como aquele que vigorou em Portugal pelo menos até 1985, apenas
assentasse num recurso contencioso meramente cassatório e em algumas ações de plena jurisdição mas cingidas a um curto elenco de
objetos: os litígios sobre contratos administrativos e responsabilidade civil extracontratual por atos de gestão público ”. Cfr. JOSÉ
MANUEL SÉRVULO CORREIA, Modernização do Contencioso Administrativo (2006), ob. cit., p. 8). Nas páginas 9 e ss o autor
dá-nos conta das “técnicas de que o legislador contemporâneo deverá lançar mão para vincar o caracter subjetivista da tutela
jurisdicional administrativa”
67
Por isso mesmo, Anildo Martins, no seu artigo “Contencioso Administrativo (Algumas questões) ” (p. 189), não hesita em dizer
que o objetivo maior da reforma do nosso contencioso administrativo deverá consistir na adequação desse diploma de 83 acima
referido ao Estado de Direito Democrático gizado na Constituição da República de Cabo Verde. Na altura, dizia o autor, “Para atingir
tal objetivo cimeiro, dois objetivos estratégicos deverão nortear a ação do nosso legislador, a saber:
O primeiro diz respeito ao reforço das garantias dos cidadãos perante a Administração Pública ou a realização da (almejada)
tutela efetiva dos direitos dos cidadãos, ou seja, tratar-se-á aqui do chamado contencioso subjetivo, isto é, gizado para a defesa dos
direitos e interesses legítimos do cidadão perante a Administração Pública. (…).
O segundo objetivo estratégico consistirá no reforço do chamado contencioso objetivo, no âmbito do qual se destacará o
importante papel do Ministério Público enquanto fiscal da legalidade”. Para maior desenvolvimento sobre esses dois objetivos
estratégicos, veja-se ANILDO MARTINS, «Contencioso Administrativo (Algumas Questões)», ob. cit., pp. 189-197.

29
Na esteira do exposto importa acentuar que, de facto, a Constituição da República
de Cabo Verde não se limita, abstratamente, a prever a garantia geral de acesso à Justiça
e de acesso aos tribunais.Com efeito, a par dessa garantia geral, a lei magna de Cabo
Verde contempla igualmente uma garantia especial de aceso à justiça
administrativa68.Neste ensejo, o seu inciso 245.º, sob a epígrafe “Direitos e garantias do
particular face à Administração” dispõe, por um lado, que “ O particular, diretamente ou
por intermédio de associações ou organizações de defesa de interesses difusos a quem
pertença, tem, nos termos da lei, direito a: requerer e obter tutela jurisdicional efetiva dos
seus direitos e interesses legalmente protegidos, nomeadamente através da impugnação
de quaisquer atos administrativos que os lesem, independentemente da forma de que se
revistam, de ações de reconhecimento judicial desses direitos e interesses, de adoção de
medidas cautelares adequadas a imposição judicial à Administração de prática de atos
administrativos legalmente devidos”69.
Por outro lado, esse mesmo particular tem direito a: impugnar as normas
administrativas com eficácia externa lesivas dos seus direitos ou interesses legalmente
protegidos”70

68
Assim, JOSÉ DELGADO DE PINA e LIRIAM TIUJO DELGADO, O Sistema Cabo-Verdiano de Direitos Fundamentais, ob. cit.
p. 99.
69
Cfr. alínea e) do citado artigo 245.º.Faz-se notar que muitos têm entendido que esta norma é análoga aos direitos, liberdades e
garantias.Com efeito, por essa razão, alguns advogam, e bem em nossa opinião, que a inércia do novo legislador não obsta à sua
direta invocação pelos particulares, isto porque, por força dos artigos 18.º e 26.º da CRCV, essas normas vinculam todas as entidades
publicas e privadas e são diretamente aplicadas. Neste sentido, JOSÉ MANUEL SÉRVULO CORREIA, Modernização do
Contencioso Administrativo (2006), ob. cit., p. 7.
Segundo Eduardo Rodrigues, o então artigo 267.º, n.º 2, alínea b) – artigo que previa as garantias dos administrados na
versão originária da Constituição de 1992 – “deixa perfeitamente delineada a vontade normativa de um sistema onde pontifique o
principio da garantia de plena jurisdição na impugnação da atividade administrativa”. Tendo dito isto, diz-nos ainda que “Natural será
que a seu tempo, que se deseja muito breve, a lei ordinária venha a dar devido implemento a tal principio” (Cfr. EDUARDO
RODRIGUES, «Garantia dos Administrados», ob. cit., p. 255), pois, acrescentamos nós, como diz Sérvulo Correia a propósito do
atual contencioso administrativo cabo-verdiano, “No quadro (…) de uma Constituição que, acima de tudo, coloca a República ao
serviço da dignidade da pessoa humana e da inviolabilidade dos direitos do homem, a efetividade da jurisdição administrativa significa
em primeiro lugar a efetividade da tutela subjetiva, ou seja, da tutela jurisdicional das situações jurídicas subjetivas dos particulares
em face da administração”.
De facto, acompanhamos o autor quando diz que “as regras processuais não poderão constituir uma barreira absoluta à
reintegração possível de certos direitos e interesses legalmente protegidos que tenham sido ofendidos”. Para mais desenvolvimento,
veja-se JOSÉ MANUEL SÉRVULO CORREIA, Modernização do Contencioso Administrativo (2006), ob. cit., pp. 3 e ss.
70
Cfr. alínea f) do mesmo inciso. Não obstante a clareza dessa alínea, ao prever que os particulares podem “Impugnar as normas
administrativas com eficácia externa lesivas dos seus direitos ou interesses legalmente protegidos”, importa, neste particular, ter em
atenção que a lei que regula o contencioso administrativo não tem mecanismos eficazes que permitem aos particulares e a
administração impugnar normas – regulamentares, note-se – consideradas ilegais. Ou seja, a Constituição, nesta matéria, não está
devidamente concretizada.

30
De realçar que, como fazem notar Jose Delgado de Pina e Liriam Tiujo Delgado71,
“ o contencioso administrativo não se limita a ser um remédio para a tutela dos direitos
fundamentais, mas poderá alcançar qualquer tipo de direito ou inclusivamente interesses
legítimos individuais e difusos.”
No entanto, como se disse acima, e parafraseando Anildo Martins 72 e outros
autores, na conjuntura atual temos um conjunto de normas e princípios constitucionais
que não estão efetivados ou que estão incompletamente efetivados na disciplina e controlo
da atividade administrativa73.

Posto isto, acompanhando a opinião de muitos autores, podemos dizer que a tutela jurisdicional efetiva que a Constituição
consagra não é hoje respeitada, posto que a atual lei que regula o contencioso administrativo não prevê um mecanismo específico para
sindicalizar os regulamentos ilegais. Portanto, salvo o devido respeito, pensamos que não está devidamente salvaguardo o princípio
da tutela jurisdicional efetiva na sua dimensão petitória. Note-se que para além da tutela petitória, este princípio é composto ainda
por mais 3 dimensões, a saber: decisória, executiva e cautelar. Para uma visão mais desenvolvida sobre este princípio, veja-se, por
todos, WLADIMIR BRITO, Lições de direito Processual Admnistrativo,2ª Edição, Coimbra Editora, 2008, pp. 117 a 118. Quando a
este principio na lei, ver o artigo 2.º do CPTA Português.
Na esteira do exposto, importa dizer que este problema também se coloca em outros países. De facto, em Angola acontece
exatamente o mesmo, ou seja, o “sistema angolano de impugnação dos regulamentos” é idêntico ao nosso. De facto, “o legislador
ordinário angolano nada prevê sobre a questão da impugnabilidade dos regulamentos administrativos ilegais, termos em que suscita
perguntar se eles existirem, podem ser impugnáveis”. Cfr. ISABEL CELESTE M. FONSECA-OSVALDO DA GAMA AFONSO,
Direito Processual Administrativo Angolano, Noções Fundamentais, Almedina, 2013, pp.103-104.)
Carlos Feijó e outro autores angolanos, advogam que há lugar a impugnação directa dos regulamentos administrativos
ilegais, em homenagem ao princípio da tutela jurisdicional efetiva, acima referido. (idem, ibidem).Por outro lado, segundo Isabel
Fonseca e Osvaldo da Gama, “tal solução pode resultar da própria CRA, nos termos dos artigos 266.º e 227.º, relativamente à violação
por atos da Administração Pública que violem os princípios e normas consagradas na CRA.”Neste contexto, continuam os autores,
dizendo que “o artigo 230.º, n.º 1 e n.º 2, ali. e), também vem materializar esta ideia, se tomarmos em conta a queixa ao Provedor de
Justiça, enquanto defensor dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos e a possibilidade de este poder suscitar a questão da
ilegalidade de norma regulamentar” (idem, ibidem).
Faz- se notar que em Portugal houve um reforço dos poderes dos tribunais administrativos com a reforma do contencioso
administrativo de 2002-2003 – reforço esse que se traduziu na aprovação de vários diplomas legais sobre a matéria que levaram, muito
em especial, à entrada em vigor dos (novos) Códigos de Processo nos Tribunais Administrativos (CPTA) e Estatuto dos Tribunais
Administrativos e Fiscais (ETAF).Em relação ao primeiro, cfr. a Lei n.º 15/2002, de 22 de Fevereiro (alterada pela Lei n.º 4-A/2003,
de 19 de Fevereiro); já no que diz respeito ao segundo, vide a lei n.º 13/2002, de 19 de Fevereiro (alterada pela Lei n.º 107-D/2003,
de 31 de Dezembro).Ambos os diplomas entraram em vigor no dia 1 de Janeiro de 2004.O CPTA foi alterado, pela última vez, pela
Lei n.º 59/2008, de 11 de Setembro; e o ETAF por força do Decreto-Lei n.º 166/2009,de 31 de Julho).Cfr. JOSÉ EDUADO
FIGUEIREDO DIAS-FERNANDA PAULA OLIVEIRA, Noções Fundamentais de Direito Administrativo, ob. cit., p.50, nota 20)
Posto isto, da leitura do anteprojeto do Código da Justiça Administrativa de Cabo Verde, acima referido, pode concluir-se,
salvo pequenas adaptações ao nosso quadro jurídico, que a reforma do nosso contencioso administrativo que está em curso, quando
for operada, do ponto de vista dos novos mecanismos que serão postos à disposição dos particulares para a defesa dos seus direitos e
interesses legalmente protegidos, irá ao encontro das reformas realizadas em Portugal.
71
Cfr. JOSÉ DELGADO DE PINA e LIRIAM TIUJO DELGADO, O Sistema Cabo-Verdiano de Direitos Fundamentais, ob. cit., p.
99.
72
(…) «Contencioso Administrativo (Algumas Questões)» ob. cit.,p 197
73
Para resolver essa situação em que nos encontramos, Anildo Martins concluiu o seu artigo dizendo que “Importa pois que o
legislador ordinário tenha sabedoria e a perspicácia para”, em cumprimento da disposição n.º 6 do art.º 21 da CRCV (atualmente, com
a revisão de 2010, passou a ser o art. 22), estabelecer os “procedimentos judiciais céleres e prioritários que assegurem a tutela efetiva

31
Note-se que, por causa dessa desconformidade da Lei do Contencioso
Administrativo com a atual Constituição da República, sente-se uma dificuldade óbvia
em qualificar a justiça administrativa cabo-verdiana, com base nos dois modelos de
justiças administrativa dominantes, que nos é apresentado por Wladimir Brito74, a saber:
a) Modelo Administrativista e o b) Modelo Jurisdicionalizados ou Judicialista.
Com efeito, se sob o ponto de vista da separação de poderes podemos dizer, sem
margem para dúvidas, que seguimos o modelo Judicialista, isto porque, como nos ensina
o autor acima citado, nesses modelos “As questões administrativas podem ser apreciadas
quer por tribunais especializados, quer por tribunais comuns sem qualquer especialização,
sendo certo que, num ou noutro caso, a decisão final poderá ser tomada pelo tribunal
hierarquicamente superior nessa ordem jurisdicional única” 75, já sob o ponto de vista
processual constata-se que a nossa justiça administrativa segue o modelo
administrativista, isto, claro está, tendo em conta só a Lei do Contencioso Administrativo,
pois, como nos dá conta o mesmo autor, esse “modelo é por natureza objetivista, tendo
no recurso de anulação do ato administrativo o seu principal meio”76, sem olvidar, no
entanto, que, complementar a esse meio, são “admitidos outros meios processuais, como
acontece com a apreciação de litígios decorrentes de contratos administrativos e relativos
a responsabilidade civil, em que o contencioso passa a ser de jurisdição plena, embora
limitado ao princípio da decisão administrativa prévia e a impossibilidade de injunções
diretas à administração”77.
Ora, tendo dito isto, salvo o devido respeito, parece-nos que se pode dizer que
temos, em Cabo Verde, um modelo de justiça administrativa que não é nem judicialista
puro, nem é administrativista, mas sim um modelo “complexo” de justiça administrativa.
Posto isto, não obstante a debilidade do nosso contencioso, e sem pretensão de
ser exaustivo, importa dizer, em conclusão, com Eduardo Rodrigues 78 , que existem,
fundamentalmente, dois mecanismos processuais de impugnação da atividade
administrativa junto dos tribunais, a saber:

e em tempo útil contra ameaças e violações” dos direitos, liberdades e garantias individuais, “encontrar os mecanismos mais
apropriados que permitam ao MP uma tutela mais eficiente e eficaz do interesse público e da legalidade, bem assim uma
regulamentação atualizada do importante instrumento de cidadania e participação cívica que é a ação popular”.
74
Para mais desenvolvimentos, veja-se WLADIMIR BRITO, Lições de direito Processual Administrativo, ob. cit., pp. 34-39.
75
Idem, ibidem, p. 37.
76
Idem, ibidem, p. 36
77
Idem, ibidem.
78
EDUARDO RODRIGUES, «Garantia dos Administrados», ob. cit., p. 256 e ss.

32
 O recurso contencioso – que, nas palavras do autor supra referido, “se destina
tão-somente a obter a invalidação judicial do ato administrativo com o
fundamento na sua ilegalidade, sem que daí se obtenha do poder judicial qualquer
apreciação outra, sobre o objeto da atuação administrativa que está em
questão”.79.Portanto, como pode ver-se, este meio está previsto no artigo 5.º da lei
de 83, acima indicado.
 A ação judicial administrativa – segundo o mesmo autor, “Nesta outra
modalidade, o particular que se sinta lesado com a atuação da Administração
Pública, quando esta tenha intervindo desprovida da veste que lhe confere poderes
de autoridade, tem a faculdade de impugnar o ato em causa e de obter uma decisão
judicial de mérito, em tudo igual ao das sentenças ordinárias, sem quaisquer
obstáculos dignos de registo (com ressalva de eventuais dificuldades na sua
execução) ”80
Dito isto, importa dizer, na esteira do mesmo autor, que a diferença entre esses
dois meios reside fundamentalmente na qualidade da atuação da administração que se
quer impugnar nos tribunais
Neste sentido, a esmagadora maioria dos autores, onde se inclui o autor que
citamos, tem entendido que “ se ato é de acatamento obrigatório e é exequível desde logo
pelo princípio de imperatividade e definitividade da medida administrativa81, deve-se usar
o recurso contencioso administrativo”. Ao invés, “se a Administração, na gestão dos
recursos da coleticvidade, age sem o poder de império e lesa o particular, este deve
impugnar o ato em causa pela via de ação administrativa”82
1.2.1.2. No que se refere a fiscalização da constitucionalidade das normas, sem a
pretensão de ser exaustivo, importa dizer que o mesmo é semelhante ao sistema
português 83 , com algumas diferenças, podendo-se desde já apontar uma 84 : o sistema

79
Idem, ibidem, p. 256-257.
80
Idem, ibidem, p. 257.
81
Cfr. a executoriedade do ato administrativo, previsto no artigo 11.º do referido RGDRAA -Decreto-Legislativo n.º 15/97 de 10
de Novembro
82
Idem, ibidem.
83
No mesmo sentido, veja-se VITALINO CANAS, «A fiscalização da Constitucionalidade em Portugal e em Cabo Verde: em
especial a fiscalização preventiva», in Direito e Cidadania, Ano III, Número Especial, Maio de 1999, Praia, Cabo Verde, p. 119; a
este respeito, veja-se ainda RAÚL VARELA, «A Fiscalização da Constitucionalidade em cabo Verde, ob. cit., pp.135-139.
84
O autor assinala outras diferenças, quais sejam a “opção sobre qual a entidade a quem compete o essencial da defesa da
constitucionalidade (em Cabo Verde, o Supremo Tribunal de Justiça; em Portugal, o Tribunal Constitucional) ”. Na opinião do mesmo
autor, as discrepâncias mais significativas verificam-se em quatro áreas, a saber: no recurso de amparo, na fiscalização da

33
português prevê a Inconstitucionalidade por omissão85, já em Cabo Verde não temos esta
previsão86; Quanto as restantes formas de controlo da constitucionalidade verifica-se que
não há grandes diferenças de fundo, funcionando as mesmas em moldes muito
semelhantes. Assim87:
a)Fiscalização Preventiva – Cfr. artigo 278.º, da CRCV88 e artigo 278.º, da CRP;

inconstitucionalidade por omissão, na força das decisões em sede de fiscalização concreta da constitucionalidade e na fiscalização
preventiva da constitucionalidade. (Para maior desenvolvimento, veja-se VITALINO CANAS, «A fiscalização da
Constitucionalidade em Portugal e em Cabo Verde: em especial a fiscalização preventiva», ob. cit., pp. 119 e ss; ainda, nessa esteira,
para ver o reduzido âmbito da fiscalização preventiva previsto na versão originária da Constituição de 92 (âmbito esse alargado com
a revisão de 99), veja-se BENFEITO MOSSO RAMOS, «A Garantia da Constituição e a Justiça Constitucional em Cabo Verde»,
ob. cit., pp. 226-227.
85
De facto, ao contrário de Cabo Verde, a Constituição Portuguesa inclui no sistema de garantia da constitucionalidade o mecanismo
de fiscalização da inconstitucionalidade por omissão (cf. artigo 283.º).Nos termos deste inciso, a requerimento do Presidente da
República, do Provedor de Justiça (…) o Tribunal Constitucional aprecia e verifica o cumprimento da Constituição por omissão das
medidas legislativas necessárias para tornar exequíveis as normas constitucionais (não exequíveis por si mesmas).O numero 2 do
mesmo inciso lamina que “Quando o Tribunal Constitucional verificar a existência de inconstitucionalidade por omissão, dará disso
conhecimento ao órgão legislativo competente.” Vitalino Canas, em 1999, compreendia e aplaudia a opção do legislador constituinte
cabo-verdiano em não consagrar na lei magna a fiscalização da inconstitucionalidade por omissão. Na altura, dizia o autor que a
mesma “tem sido letra morta nos 22 anos de vigência da CRP”. Nesses termos, concluiu dizendo que “ a opção do legislador cabo-
verdiano foi melhor que a do português.”
Ora, pesamos que, sob este ponto de vista, a esmagadora maioria dos autores na doutrina cabo-verdiana diverge desta
posição, pois, como ver-se-á, muitos estão a criticar o sistema por não ter previsto, ainda, esse mecanismo de extrema importância na
tutela dos direitos sociais.
86
Benfeito Mosso Ramos diz-nos que, não obstante o nosso sistema não prever este mecanismo que visa “sanar” a violação da
Constituição por inércia na prática de determinado ato que a própria impõe e exige, verifica-se que na prática tem ocorrido algumas.
Uma situação que configura, no modo de ver do autor, inconstitucionalidade por omissão, parece ser o atraso na aprovação de um
Estatuto Especial para a Cidade Capital, Estatuto esse previsto desde a revisão de 1999, “ passando assim a ser uma incumbência dos
poderes públicos, em especial do Governo e da Assembleia Nacional, dotar a cidade da Praia de um Estatuto Especial”. Para maior
desenvolvimento, BENFEITO MOSSO RAMOS, «A Garantia da Constituição e a Justiça Constitucional em Cabo Verde», ob. cit.,
p. 219.
Aliás, no passado, mais precisamente em 1999, quando se fazia o balanço da Constituição de 1992, José Lopes da Graça,
no seu artigo “BALANÇO DE CINCO ANOS DE VIGÊNCIA DA CONSTITUIÇÃO”, sugeriu que fosse instituído o figurino da
“inconstitucionalidade por omissão; MARIO SILVA, na sua obra “Os Direitos Sociais na Constituição da República de Cabo Verde”,
também fez esta sugestão. Ora bem, como pode ver-se pelo exposto, os autores cabo-verdianos que citamos divergem frontalmente
do autor Português VITALINO CANAS, acima citado, autor esse que, como vimos, aplaude o nosso sistema sob este ponto de vista.
87
Para ver algumas diferenças, não de fundo, como já se disse, nomeadamente no que diz respeito à fiscalização concreta e preventiva,
ver VITALINO CANAS, «A fiscalização da Constitucionalidade em Portugal e em Cabo Verde: em especial a fiscalização
preventiva», ob. cit., pp. 120-122.
88
Neste caso a ação deve ser promovida pelo Presidente da República e, de acordo com alínea b) do mesmo inciso (278.º) citado
acima, por, pelo menos, quinze deputados em efetividade de funções ou pelo Primeiro-ministro, relativamente a qualquer norma
constante de ato legislativo enviado ao Presidente da República para promulgação como lei sujeita a aprovação por maioria
qualificada. Para mais desenvolvimento sobre o processo de fiscalização (abstrata) preventiva, cfr. artigos 11.º, alíneas a) e b); e 57-
68 da Lei do Tribunal Constitucional – Lei n.º 56/VI/2005, de 28 de Fevereiro – e, sobre o processo de fiscalização preventiva do
referendo, cfr. os artigos 11.º alínea d) e 96.º-100.º da mesma lei.

34
b)Fiscalização abstrata – Cfr. artigo 280.º, da CRCV89 e artigo 281.º, da CRP;
c)Fiscalização concreta – Cfr. artigo 281.º, da CRCV90 e artigo 280º, da CRP.
Pelo exposto, poder-se-á dizer que o sistema cabo-verdiano apresenta-se da
seguinte forma:
(i) no âmbito da fiscalização preventiva e abstrata optou-se por não atribuir
legitimidade processual aos particulares, e, neste particular, o legislador seguiu um
esquema de tipo objetivo, procurando, desta forma, a preservação ou a restauração de
uma defesa objetiva da ordem constitucional;
(ii) no âmbito da fiscalização concreta temos um recurso de feição subjetiva, em
que é permitido ao particular, note-se, a título incidental, suscitar a inconstitucionalidade
das leis para a defesa dos seus direitos subjetivos/fundamentais.
Assim, pode afirmar-se, em síntese, que o sistema é este: os particulares não têm
um acesso direto ao tribunal constitucional, só podendo fazê-lo em sede de recurso nos
termos acima referido.
Por outro lado, reconhece-se ainda aos particulares um acesso indireto à justiça
constitucional em sede de fiscalização abstrata através do direito de petição aos órgãos
com legitimidade ativa para o efeito – designadamente Provedor de Justiça e Procurador-
Geral da República –, requerendo que estes iniciem o correspondente processo de
fiscalização da constitucionalidade.
Face ao exposto facilmente se pode concluir, em suma, que a fiscalização da
constitucionalidade poderá ser utilizada de duas formas para a tutela dos direitos
91
fundamentais , a saber: por um lado, através da fiscalização abstrata da
constitucionalidade, que poderá impedir a entrada ou promover a saída92de normas legais

89
Neste caso, o rol de entidades que podem pedir ao Tribunal Constitucional para que aprecie a “constitucionalidade” das normas ou
resoluções é mais alargado. Assim, segundo o artigo indicado, a fiscalização abstrata da constitucionalidade pode ser pedido: pelo
Presidente de República, Presidente da Assembleia Nacional, Quinze deputados, Primeiro-ministro, Procurador-Geral da República e
pelo Provedor de Justiça. Para mais desenvolvimento sobre o processo de fiscalização (abstrata) sucessiva, cfr. artigos 11.º alíneas c),
e), f) e g); 57.º- 62.º e 69.º-74.º da lei referida na nota anterior.
90
Quem tem legitimidade para pedir a fiscalização concreta é as partes e o Ministério Público. A Lei de organização e Processo do
Tribunal Constitucional – Lei n.º 56/V/2005, de 28 de Fevereiro – desenvolve esta questão, dispondo que “podem recorrer para o
Tribunal Constitucional: a) o Ministério Público; b) as pessoas que, de acordo com a lei reguladora do processo em que a decisão for
proferida, tenham legitimidade para dela interpor recurso. “Para mais desenvolvimento sobre o processo de fiscalização concreta, cfr.
artigos 11.º alínea c) e 75.º -95.º da mesma Lei do Tribunal Constitucional acima referido.
91
Assim, JOSÉ DELGADO DE PINA e LIRIAM TIUJO DELGADO, O Sistema Cabo-Verdiano de Direitos Fundamentais, ob. cit,
p. 94.
92
José Delgado de Pina e Liriam Delgado, tendo como suporte a Lei do Tribunal Constitucional, falam da fiscalização abstrata, onde
dividem essa modalidade de fiscalização em “abstrata preventiva” – que, como se disse supra, poderá impedir a entrada de normas

35
ou em alguns constitucionais lesivas de direitos fundamentas, e, por outro lado, através
da fiscalização concreta. Como se disse, nestes casos a aplicação ou desaplicação de uma
norma constitucional, inclusive de direitos fundamentais, poderá ser suscitada
incidentalmente, em sede de recurso, ao próprio Tribunal Constitucional93.

1.2.2.Mecanismo Específicos para a Proteção de um Determinado Direito


Fundamental
Mecanismos especificamente dirigidos à tutela de determinados direitos
fundamentais são sobretudo o habeas corpus94 (relativamente ao direito à liberdade física
e à segurança pessoal), o habeas data 95 (relativamente às garantias em matéria de
tratamento de dados pessoais) e outros institutos do contencioso eleitoral e dos partidos
políticos (relativamente a um conjunto de direitos de participação política).
1.2.3. Mecanismo Especialmente Dirigido Contra Violações de Direitos
Fundamentais
Este mecanismo é, como se disse supra, o recurso de amparo96 que, no dizer de
José Lopes da Graça 97 , “Mais do que um valor ou ideal político-filosófico para a
relevância do ser humano em face dos poderes públicos (…) presta-se como um
instrumento jurídico-constitucional de utilização directa, ao alcance do cidadão, com fito
de opor-se a eventuais tentativas de invasão de sua esfera jurídica privada com intuito de
despojá-lo de seus interesses mais elementares, como os estatuídos na Constituição”98.

legais ou em alguns constitucionais lesivas de direitos fundamentais –, e abstrata sucessiva – que, pelo contrário, poderá promover
a saída de normas legais ou em alguns constitucionais lesivos de direitos fundamentais. Para maior desenvolvimento, cfr. os autores,
ob. cit., pp. 94-96.
93
Assim, Idem, ibidem.
94
Cfr. artigo 36.º da CRCV. Não vamos desenvolver este mecanismo nesta sede. Contudo, este desenvolvimento, na doutrina cabo-
verdiana, pode ser vista em JOSÉ PINA DELGADO e LIRIAM TIUJO DELGADO, O Sistema Cabo-verdiano de Direitos
Fundamentais, ob. cit., pp. 97-98;
95
Cfr. Artigo 46.º da CRCV. Para mais desenvolvimento, pode ver-se a obra dos autores citados na nota anterior, fundamentalmente
as páginas 98-99; ainda, esses dois mecanismos (habeas corpus e habeas data), são analisadas em PAULO ACRDINAL, «O Instituto
do Recurso de Amparo de Direitos Fundamentais e a Juslusofonia – Os Casos de Macau e Cabo Verde», ob. cit., pp.130. Para ver a
tramitação do recurso de habeas data no STJ, cfr. artigos 26.º-34.º da lei do recurso de amparo e habeas data, acima referida.
96
Este mecanismo será tratado com muito mais pormenor no capítulo II desta dissertação, como se disse.
97
Veja-se JOSE LOPES DA GRAÇA, «O “Recurso de Amparo” no Sistema Constitucional Cabo-Verdiano», in Direito e Cidadania,
Ano I, N.º 2, Novembro 1997/Fevereiro 1998, Quadrimestral, Praia, Cabo Verde, p. 200.
98
Num sentido próximo, veja-se WLADIMIR BRITO, «O Amparo Constitucional», ob. cit., pp. 19-20; ANDRÉ MAURO LACERDA
AZEVEDO, O Recurso de Amparo Espanhol, texto publicado em 9 de agosto de 2011 20:06 - Atualizado em 13 de agosto de 2011
19:14, disponível em http://atualidadesdodireito.com.br/andremauro/2011/08/09/o-recurso-de-amparo-espanhol/

36
Na senda do mesmo autor, “Não somente a violação ativa, lesiva de direitos
fundamentais, constitui motivo de acionamento do figurino em presença. A própria
omissão lesiva faz o poder público em presença incorrer em infração jurídico-
constitucional em face do impetrante”99
Antes de debruçarmos sobre a análise do recurso de amparo, importa dizer que em
Cabo Verde, como dissemos supra, a pessoa humana é considerada um valor absoluto
anterior ao próprio Estado. Neste sentido, podemos dizer que todo o nosso ordenamento
jurídico está ao serviço da tutela dos direitos fundamentais.
Aliás, como alguém já disse, deveria existir uma regra que dissesse o seguinte: “a
todo o direito fundamental corresponde uma tutela adequada”100
1.2.3.1 Exposto isto, importa dizer que o ordenamento constitucional cabo-
verdiano foi, na esteira de Wladimir Brito, de algum modo pioneiro no universo da
lusofonia101 na instituição do recurso de amparo102, ou seja, de um mecanismo/remédio
próprio destinado à reparação de violações de direitos, liberdades e a garantias (e direitos
análogos previstos na Constituição) 103 cometidas por atos ou omissões de poderes
públicos.
Esta instituição só aconteceu, como já se disse, com a Constituição de 1992, sob
a influência da legislação ibero-americana, particularmente da Constituição Espanhola de
1978, e também da Constituição Alemã de 1949104
Este mecanismo encontra-se previsto no artigo 20.º, n.º 1, da CRCV, e tem toda a
sua regulação processual da Lei n.º 109/IV/94, de 24 de Outubro105, nos artigos 1.º a 25.º.

99
Cfr. JOSE LOPES DA GRAÇA, «O “Recurso de Amparo” no Sistema Constitucional Cabo-Verdiano», ob. cit. p. 200.
100
E, na verdade, pode dizer-se que, de algum modo, o artigo 22.º, n.º1, da CRCV, vai nesse sentido quando diz que “A todos é
garantido o direito de acesso à justiça e de obter, em prazo razoável e mediante processo equitativo, a tutela dos seus direitos e
interesses legalmente protegidos”. Porém, como podemos ver, esta afirmação é feita de uma forma muita genérica, sendo que o
legislador ordinário terá um papel decisivo na criação de mecanismos que concretizem o número 1 do artigo 22. (Aliás, parece-nos
que os restantes números desse artigo vão nesse sentido).
101
Para uma nota sobre a evolução do amparo nesse espaço cultural, veja-se, por todos, WLADIMIR BRITO, «O Amparo
Constitucional», ob. cit., pp. 17-19.
102
Note-se que, na lei ordinária, fala-se, por vezes, não em recurso de amparo, mas em “amparo constitucional”. Cfr. artigo 7.º, n.º 2,
da Lei n.º 109/IV/94, de 24 de Outubro, e artigo 134.º da Lei n.º 56/VI/2005, de 28 de Fevereiro.
103
Neste sentido, quer o inciso constitucional (ao referir “direitos, liberdades e garantias fundamentais, constitucionalmente
previstos”), quer a estrutura constitucional, quer a história e o Direito comparado conduzem o intérprete à ideia de seletividade.
Voltaremos a esta questão mais adiante (infra, ponto 1.4) a propósito de saber se este mecanismo serve também para tutelar os direitos
económicos, sociais e culturais.
104
Para maior desenvolvimento, idem, ibidem, pp. 18 e ss
105
Note-se que a Lei n.º 56/VI/2005, de 28 de Fevereiro, deixou intocada essa legislação, para a qual remeteu, “com as devidas
adaptações” .Cfr. artigo 134.º.

37
1.2.3.2 Ora, no que diz respeito a Portugal, como foi dito acima, não obstante a
importância deste mecanismo na tutela dos direitos fundamentais, como se sabe, o mesmo
não está previsto, existindo quem defenda que “a ausência de um recurso de amparo
constitucional, apesar de unanimemente sentida pela doutrina como debilidade do
sistema, é expressão de um não reconhecimento aos direitos fundamentais de tal prefered
position em matéria de justiça constitucional”106.
De facto, esta matéria tem sido muito discutida em Portugal107, sendo que tanto
em 1989108, como em 1997109, o consenso não imperou no sentido de ser introduzido este
mecanismo na ordem jurídica portuguesa.
Segundo muitos autores têm afirmado, o único resultado a aplaudir é a
consagração do artigo 20.º, n.º5, da CRP, que como muitos têm dito, só teve concretização
à luz da Justiça Administrativa com a consagração, em lei ordinária, de alguns processos
urgentes, autónomos e céleres, para a tutela de direitos, liberdades e garantias110.

106
Cfr. ANDREIA SOFIA OLIVEIRA e BENEDITA MACCRORIE, Direitos Fundamentais, Elementos de Apoio, ob. cit., p.102.
107
Sobre “ as duas tentativas malogradas de consagração do recurso de amparo constitucional” em Portugal, veja-se CATARINA
SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças
Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., 129-135.
108
De facto, a primeira tentativa data da revisão constitucional de 1989, mediante a qual foram introduzidas algumas modificações no
sistema de justiça constitucional no próprio Tribunal Constitucional (cf. a Lei Constitucional n.º 1/89, de 8 de Julho, lei essa que
aprovou a segunda revisão constitucional, in JORGE MIRANDA, As Constituições Portuguesas – de 1822 ao texto atual…cit., pp.
447 a 502).Como se sabe, o projeto do PCP falava numa «ação constitucional de defesa perante o Tribunal Constitucional contra atos
ou omissões dos poderes públicos que lesassem diretamente direitos, liberdades e garantias, quando não sejam suscetíveis de
impugnação junto dos tribunais» e, por seu turno, o projeto do PS falava de um «recurso constitucional de defesa» contra atos ou
omissões dos tribunais, de natureza processual, que, de forma autónoma, violassem os mesmos direitos, liberdades e garantias, após
esgotamento dos recursos ordinários (Cfr. ambas as propostas no DR, respetivamente, II Série, n.º4, de 28/03/1988, e n.º 65, de
10/01/1989).
109
A segunda tentativa aconteceu com a quarta revisão constitucional de 1997 que, por seu turno, alterou alguns aspetos da parte
primeira da CRP, dedicada aos direitos fundamentais. (De facto, o artigo 20.º da Constituição foi profundamente revisto, sendo que o
numero 5 deste artigo nasceu com essa revisão).Cfr. a Lei Constitucional n.º 1/97, de 20 de Setembro, in Jorge Miranda, As
Constituições Portuguesas…cit., pp. 505 a 556. Ainda, para uma visão mais detalhada da revisão, cfr. Idem, Manual de Direito
Constitucional, Tomo VI, cit., pp. 158 a 161.
110
No mesmo sentido, veja-se VITALINO CANAS, «A fiscalização da Constitucionalidade em Portugal e em Cabo Verde: em
especial a fiscalização preventiva», ob. cit., 119-120. Note-se que na opinião deste autor, teoricamente, este novo inciso constitucional
(20.º, n.º 5, da CRP) “permite que através da lei se possa ir ao ponto de criar o recurso de amparo. E mais: “na verdade, na medida em
que a CRP obriga o legislador a assegurar procedimentos judiciais caracterizados pela celeridade e prioridade para a defesa dos
direitos, liberdades e garantias pessoais (isto é, os direitos, liberdades e garantias consagrados nos art. ºs 24.º a 47.º da CRP, inclusive)
parece conferir-lhe a faculdade de introduzir no ordenamento Português um mecanismo reconduzível à queixa constitucional (
verfassungsbeschwerde) ou recurso de amparo, justamente caracterizado pela sua celeridade e prioridade e pelo objetivo de obtenção
de tutela efetiva contra ameaças ou violações de direitos, liberdades e garantias”.
Posto isto, constatamos ainda que João Caupers partilha o mesmo entendimento. Pois bem, explicando a “Razão de ser”
do mecanismo acima referido, dá-nos conta que “A intimação para a proteção de direitos, liberdades e garantias é uma novidade
absoluta da Reforma de 2002, nada existindo de comparável no direito português anterior”. E mais: diz-nos ainda, e isto é muito

38
O artigo 20.º, n.º5, da CRP, acima referido, provocou, como se disse, modificações
importantes no domínio do acesso aos tribunais administrativos, mas, em matéria
constitucional, segundo muitos autores, mais não implicou do que as alterações já
referidas na Lei 13-A/98, de 26 de Fevereiro, Lei do Tribunal Constitucional, tornando
os processos em que estejam em causa direitos, liberdades e garantias pessoais
prioritários111
1.2.3.3 Os autores que defendem a não introdução de um mecanismo de amparo
constitucional, têm apresentado, em síntese, os seguintes argumentos112:
a) Argumento de desnecessidade (a amplitude em que o Tribunal
Constitucional tem admitido a fiscalização concreta torna esta um quase
amparo, como se disse acima);
b) Argumento da sobrecarga do Tribunal Constitucional, que seria agravada
pela criação de mais um mecanismo de acesso direto;
c) Argumento relacionado com o risco de aparecimento de atritos entre
jurisdições.
Do outro lado, como referem as mesmas autoras, “os argumentos em favor da
introdução de um recurso de amparo salientam a incompletude do atual sistema e a
necessidade de clarificação dos termos de intervenção do TC em sede de recurso de
constitucionalidade – no sentido de se saber se a fiscalização concreta é ainda um
mecanismo de controlo normativo da constitucionalidade ou se já deixou de o ser e é –
encapotadamente – mais uma instância de recurso de decisões judiciais. Opõem ao risco
de aluvião de processos no Tribunal Constitucional a possibilidade de, “em troca”, se
restringir o recurso de decisões negativas de inconstitucionalidade (artigo 280.º, numero
1, alínea b) ”
1.2.3.4 Pois bem, Jorge de Melo Alexandrino defendeu que o recurso de amparo
foi instituído em boa hora em Cabo Verde, e para realçar a importância desse mecanismo,

importante, que o mesmo “Inspira-se, provavelmente, no recurso de amparo mexicano e no mandado de segurança Brasileiro”. Para
mais desenvolvimento, veja-se JOÃO CAUPERS, Introdução ao Direito Administrativo, 10.ª Edição, Âncora Editora, 2009, pp. 488-
491.
111
Cfr. ANDREIA SOFIA OLIVEIRA e BENEDITA MACCRORIE, Direitos Fundamentais, Elementos de Apoio, ob. cit., pp. 102
a 103. Num sentido próximo, veja-se PAULO CARDINAL, «O Instituto do Recurso de Amparo de Direitos Fundamentais e a
Juslusofonia – Os Casos de Macau e Cabo Verde», ob. cit., p. 91. Note-se que a Lei do Tribunal Constitucional de Cabo Verde tem
um dispositivo com um teor idêntico, onde os prazos são reduzidos a metade (Cfr. 89, n.º 3, da Lei do TC de Cabo Verde)
112
Cfr. ANDREIA SOFIA OLIVEIRA e BENEDITA MACCRORIE, Direitos Fundamentais, Elementos de Apoio, ob. cit., pp. 102
a 103. Veja-se ainda PAULO CARDINAL, «O Instituto do Recurso de Amparo de Direitos Fundamentais e a Juslusofonia – Os
Casos de Macau e Cabo Verde», ob. cit., p. 90.

39
apresentou um conjunto de argumentos na defesa da introdução em Portugal de um
instrumento desse tipo113, argumentos esses que vamos reproduzir neste ponto.
Com efeito, parafraseando o autor 114 supra referido, “numa perspetiva da
sociologia política, o acesso, ainda que remoto e extraordinário, à instância máxima da
justiça constitucional significa a adoção de uma postura política antropologicamente
amiga da dinamização processual da Constituição e dos direitos fundamentais. Mais:
tendo em conta que, no sistema de comunicação entre o Estado e o cidadão, são ainda o
exercício do direito de voto e a reclamação judicial de direitos as formas paradigmáticas
de comunicação do cidadão com o Estado, em múltiplos casos de violação de direitos
fundamentais, apenas o Tribunal Constitucional poderá estar num plano funcional e
institucionalmente adequado para relevar e aferir a natureza dessa chamada de atenção.”
Na sequência do exposto, o mesmo autor115 diz ainda que, “em segundo lugar, na
perspetiva moral e jurídico-constitucional, parece evidente a necessidade de uma
articulação adequada entre a componente material da Constituição (os valores aí
recebidos e os direitos que deles são concretização), o princípio geral da tutela
jurisdicional efetiva e a garantia de um elevado nível de efetividade jurídica dos direitos
fundamentais. Ora, em casos de violação (e não de mera inconstitucionalidade de normas)
de direitos fundamentalíssimos, atenta a gravidade da ilicitude e a importância do plano
normativo em que a mesma ocorre, é natural que em derradeira instância o julgamento
desses casos seja entregue a um [novo] Tribunal do Areópago”.
Coloca-se ainda um outro problema que tem a ver com o prestígio das instituições
do Estado.
De facto, na esteira do mesmo autor, não é muito conveniente que, por falta de
mecanismos internos, a concessão de amparo a direitos e liberdades fundamentais deva
ser deferida para a instância internacional, com a dupla consequência (1) da menorização
do sistema interno de proteção e (2) do aumento da frequência das condenações do Estado
pelos tribunais internacionais de direitos humanos116.

113
Cfr. JOSÉ DE MELO ALEXANDRINO, «Sim ou não ao amparo?», in Julgar, n.º 11 (2010) [no prelo], apud JOSÉ DE MELO
ALEXNDRINO, Os Tribunais e a Defesa dos Direitos Fundamentai: Reflexões em Torno da Experiência cabo-verdianas, ob. cit. p.
15.
114
Cfr. JOSÉ DE MELO ALEXANDRINO, Os Tribunais e a Defesa dos Direitos Fundamentais, Reflexões em torno da experiência
cabo-verdiana, ob. cit., p. 16.
115
Idem, ibidem.
116
Idem, ibidem.

40
E, como se referiu acima, na perspetiva do Direito comparado, há outras
observações a reter:
(1) a primeira é a de que, desde que foi instituído o amparo na Constituição
mexicana de 1917, a tendência aponta no sentido da existência de algum mecanismo de
acesso do particular ao Tribunal Constitucional para a proteção de pelo menos certos
direitos e liberdades fundamentais – neste sentido, há mais de três dezenas de países (da
Europa, da América Latina, da Ásia e da África117) que possuem esses mecanismos;
(2) a segunda, é a de que essa evolução se faz sentir inclusivamente no plano
internacional (com o acesso direto ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, ao
Tribunal Interamericano dos Direitos do Homem e agora também ao Tribunal Africano
dos Direitos do Homem e dos Povos118);
(3) a terceira para assinalar o facto de a própria França ter enfim cedido à
introdução da questão de constitucionalidade e precisamente nos casos de violação de
direitos e liberdades garantidos pela Constituição119.
Ainda com os argumentos a favor da introdução do amparo, diz que constata-se
que na perspetiva da ciência do Direito constitucional, a inexistência de um mecanismo
de amparo constitucional tem um triplo efeito dogmático negativo:
(1) por um lado, torna irrelevante a distinção básica entre norma, direito e posição,
confundindo esses diversos níveis;
(2) por outro lado, desvaloriza totalmente o plano absolutamente inafastável da
violação (ou afetação ilegítima) do conteúdo de um direito fundamental ou de uma
posição de direito fundamental;
(3) por fim, raramente o Tribunal Constitucional se ocupa com a tarefa de se
debruçar sobre o âmbito de proteção de cada direito fundamental e sobre o tipo de
afetações de que o mesmo é passível (é isso que na realidade fazem todas as jurisdições

117
Por exemplo, além de Cabo Verde, temos Angola, com o seu “recurso extraordinário de inconstitucionalidade” [artigos 16.º, alínea
m), e 21.º, n.º 4, da Lei Orgânica do Tribunal Constitucional e artigos 49.º e seguintes da Lei Orgânica do Processo Constitucional,
ambas de 17 de Junho de 2008], ou a África do Sul, com o seu “direct acess” (artigo 167.º, n.º 6, da Constituição de 1996 e artigo 18.º
do Regulamento Tribunal Constitucional, de 31 de Outubro de 2003).Veremos, mais a frente, mais países que têm este mecanismo.
118
Note-se que este tribunal proferiu, em 15 de Dezembro de 2009 a sua primeira sentença, onde se ocupou de um problema que
envolvia a discussão sobre o acesso dos particulares (Michelot Yogogombaye v. The Republic of Senegal, texto acessível in
http://www.african-court.org/fr/affaires/derniers-arrets-et-jugements/).
119
Cfr. artigo 61.º, n.º 1, da Constituição francesa (após a lei de revisão de 23 de Julho de 2008) e lei orgânica n.º 1523, de 10 de
Dezembro de 2009 (entrada em vigor a 1 de Março de 2010).

41
de amparo, sejam as internas ou as internacionais, e é essa a debilidade dos sistemas
desprovidos de amparo, perante a instância internacional).
Pelo exposto resulta fácil concluir que o recurso de amparo afigura-se com
extremamente importante para a tutela dos direitos fundamentais.
1.2.3.5 Ora, como foi assinalado nas notas introdutórias, a peculiaridade mais
visível do sistema constitucional cabo-verdiano é, sem margem para dúvidas, o recurso
de amparo120.
Todavia, o Recurso de amparo, em Cabo Verde, não tem sido interpretado da
mesma forma por todos, o que tem levantado muitas divergências na doutrina, como já
se disse.
Por isso, nos pontos que se seguem, procurar-se-á dar resposta /solução,
essencialmente, à essas quatro questões que têm levantado muita discussão, a saber121:
Primo: o artigo da Constituição que consagra o recurso de amparo é diretamente
aplicável ou, pelo contrário, a sua efetividade depende de uma mediação legislativa?
Secundo: é possível socorrer-se ao recurso de amparo para a tutela dos direitos,
económicos, sociais e culturais? Tertio: as pessoas colectivas têm legitimidade para
interpor recurso de amparo122?Quarto: há em Cabo Verde uma restrição legislativa do
objeto de recurso de amparo?123
Cumpre, antes de mais, chamar à colação a norma que prevê o recurso de amparo,
para se apurar quais são os pressupostos para a sua utilização.
Com efeito, este mecanismo está previsto no artigo 20.º da CRCV, norma que sob
epígrafe “Tutela dos direitos, liberdades e garantias”, dispõe o seguinte:

120
Assim, NUNU PIÇARRA, «A Evolução do Sistema de Garantia da Constituição em Cabo Verde», ob. cit., p. 230. Note-se que,
não obstante a bondade da consagração do recurso de amparo, como muitos têm chamado a atenção, e aqui estamos a parafrasear
NUNO PIÇARRA (ob. cit. p. 230) “ a atribuição de competência ao STJ para julgar tais recursos depara com algumas dificuldades,
como a que decorre da circunstância de ter de ser o próprio STJ a conhecer, em recurso de amparo, de decisões alegadamente
violadoras de direitos fundamentais que ele próprio tenha proferido enquanto tribunal judicial, administrativo, fiscal, aduaneiro ou
militar, de primeira, de última ou de única instância, consoante os casos. Portanto, neste ensejo, vários autores têm entendido que “a
concentração do recurso de amparo no STJ, que é simultaneamente o órgão superior da hierarquia dos tribunais, diminui em muito o
alcance do recurso de amparo ou limita as suas virtualidades”. Ainda, neste sentido, veja-se ARISTIDES R. LIMA, O Recurso
Constitucional Alemão e o Recurso de Amparo Cabo-verdiano: Uma análise Comparativa, ob. cit., pp. 22 e 33.
121
Note-se que, em Portugal, de certa forma, levanta-se as mesmas questões relativamente ao mecanismo de intimação para a proteção
de direitos, liberdades e garantias, isto à luz da Justiça Administrativa.
122
Ver supra, 47.
123
Note-se que este problema não é típico do ordenamento cabo-verdiano. De facto, em Espanha (um dos ordenamentos jurídicos em
que Cabo Verde se inspirou) tem surgido dificuldades interpretativas que prendem-se com o objeto da proteção do recurso de amparo.
Para maior desenvolvimento, por todos, veja-se CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais,
Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., pp. 246 e ss.

42
“1. A todos os indivíduos é reconhecido o direito de requerer ao Tribunal
Constitucional, através de recurso de amparo, a tutela dos seus direitos, liberdades e
garantias fundamentais, constitucionalmente reconhecidos, nos termos da lei e com
observância do disposto nas alíneas seguintes124:
a) O recurso de amparo só pode ser interposto contra atos ou omissões dos poderes
públicos lesivos dos direitos, liberdades e garantias fundamentais, depois de
esgotadas todas as vias de recurso ordinário;
b) O recurso de amparo pode ser requerido em simples petição, tem caracter urgente
e o seu processamento deve ser baseado no princípio da sumariedade”.
1.2.3.6 Visto que estão os pressupostos que o artigo anuncia, bem como a
tramitação desse recurso, teremos agora de nos ater a todas as questões lançadas supra,
lançando mão da doutrina, lei, jurisprudência e do direito comparado, que nos auxiliarão
nesta tarefa. Note-se que os pontos que se seguem não foram escolhidos aleatoriamente,
mas, pelo contrário, tendo em conta as questões que lançamos acima.

1.3. Aplicabilidade Directa dos Direitos, Liberdades e Garantias.


O primeiro problema que elencamos acima é mais complexo, e mesmo antes da
entrada em vigor da lei reguladora do recurso de amparo tinha suscitado muita
discussão125: consistiu, como dissemos já, em saber se a norma constitucional que regula
o amparo poderia considerar-se diretamente aplicável ou se, pelo contrário, a sua
efetividade estava dependente de uma mediação legislativa126?

124
Lendo este norma resulta fácil concluir que a lógica que lhe está subjacente é de “abertura da porta do Tribunal Constitucional”,
permitindo assim o acesso direto dos cidadãos para a tutela dos direitos, liberdades e garantias.
125
Houve essa discussão porque, como pode ver-se, a Constituição que instituiu o recurso de amparo foi aprovada em 92 e a lei do
amparo só foi aprovada em 94.Ora, como não podia deixar de ser, aconteceu que durante esse período os advogados sentiram a
necessidade em lançar mão deste mecanismo. Daí a questão de saber se essa norma era, quando houve essa lacuna de regulamentação
legal, diretamente aplicável. Note-se que, da pesquisa feita, constatamos que em Macau também havia, de certo modo, um problema
de regulamentação da lei do amparo, isto porque não obstante o amparo ter sido criado pela Lei 112/9 (Cfr. artigo 17.º), como nos dá
conta Paulo Cardinal, “não foi regulamentado processualmente o correspondente instrumento contencioso”. Não obstante isto, diz-
nos o autor, “é mister louvar os tribunais de Macau porquanto nunca se esquivaram a admitir recursos de amparo, não lançando, pois,
âncora da falta de regulamentação processual como elemento impeditivo do exercício do direito do amparo. Ao contrário do que
aconteceu com o STJ de Cabo Verde, como veremos de seguida. Para mais desenvolvimento, veja-se PAULO CARDINAL, «O
Instituto do Recurso de Amparo de Direitos Fundamentais e a Juslusofonia – Os Casos de Macau e Cabo Verde», ob. cit., pp. 95-97.
126
Faz-se notar que a Constituição de 1980 não consagrava o princípio da aplicabilidade directa dos preceitos constitucionais
respeitantes aos direitos, liberdades e garantias, nem o da sua obrigatoriedade para entidades públicas. Para maior desenvolvimento,
veja-se NUNU PIÇARRA, «A Evolução do Sistema de Garantia da Constituição em Cabo Verde», ob. cit., p. 216.
Na verdade, só a Constituição de 1992, por influência próxima da Constituição portuguesa de 1976, viria, na sua versão
originária, determinar, no seu artigo 17º, a aplicabilidade directa das normas constitucionais relativas aos direitos, liberdades e

43
1.3.1 Segundo José de Melo Alexandrino127, a aplicabilidade direta significa que
os tribunais devem, se for esse o caso, aplicar a Constituição diretamente (contra a lei, em
vez da lei ou só na parte em que a lei não ofender a Constituição128).
De facto, embora os tribunais devam obediência à lei129 e vigore além disso uma
presunção de constitucionalidade das leis, se um juiz concluir que uma determinada lei
ofende normas de direitos, liberdades e garantias, a aplicabilidade directa fornece uma
indicação clara (suplementar relativamente à competência enunciada no artigo 211.º, n.º
3), de que nesse caso a vinculação à Constituição deve prevalecer sobre a vinculação à
lei, impondo-se portanto a não aplicação da lei (desaplicação).
Ou seja, numa situação desse tipo, como nos ensina o autor acima citado, o juiz
deve resolver o caso como se essa lei não existisse, interpretando a norma constitucional
como direito aplicável à causa. Além disso, o juiz deve conhecer da inconstitucionalidade
oficiosamente; e mais: o juiz também deve saber que desaplicando a lei, uma vez
esgotadas as instâncias, da sentença final cabe um recurso para o Tribunal Constitucional
[artigo 281.º, n.º 1, alínea a), da CRCV], órgão ao qual vem a caber a última palavra.
De facto, quando não existir uma lei que dê plena exequibilidade ao direito,
liberdade e garantia, neste caso, os tribunais têm o poder/dever de aplicar as normas de
direitos, liberdades e garantias diretamente, dispondo para o efeito de uma autorização
para concretizarem o direito por via interpretativa (e de colmatarem a eventual lacuna)130.

garantias e o seu caracter vinculativo para todas as entidades públicas e privadas. (Idem, ibidem, p. 223). Note-se que a aplicabilidade
directa, junto com a vinculação das entidades públicas e privadas, é um dos “Princípios próprios do sistema de direitos, liberdades e
garantias).Para maiores desenvolvimentos, por todos, veja-se JOSÉ DELGADO DE PINA e LIRIAM TIUJO DELGADO, O Sistema
Cabo-Verdiano de Direitos Fundamentais, ob. cit., pp. 73 - 80
127
Cfr. JOSÉ DE MELO ALEXNDRINO, Os Tribunais e a Defesa dos Direitos Fundamentai: Reflexões em Torno da Experiência
Cabo-verdiana, ob. cit. p. 8.
128
Assim, dizemos com Vieira de Andrade que “Já não é possível sustentar que os direitos fundamentais só têm real existência jurídica
por força da lei (em virtude de uma transposição legal) ou que valem apenas com o conteúdo que por estas lhe é dado (Por interpretação
autêntica ou por delegação constitucional), porque a Constituição vale por si, prevalece e vincula positivamente o legislador, de modo
que a lei só terá valor jurídico se estiver conforme com a norma constitucional que consagra um direito” Para maior desenvolvimento
veja-se JOSÉ CARLOS VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constituição da República Portuguesa de 1976,
Coimbra, Almedina, 2012, 5ªEdiçaõ, pp. 194 e ss.
129
Cfr. artigo 211.º, n.os 1 e 2, da CRCV.
130
Neste contexto, ensina-nos Viera de Andrade, que tendo em conta a competência própria que os juízes têm para o controle da
constitucionalidade das leis, “eles” podem e devem aplicar os preceitos constitucionais contra a lei e em vez da lei. Mais: Os Juízes
não se limitam nesta sua actividades de controlo, a avaliar, como refere o autor citado, da «compatibilidade» intrínseca das normas
legais com o conteúdo concretizado daqueles preceitos, reavaliando assim em toda a sua extensão o juízo do legislador.
Por outro lado, continua o autor, caso concluam pela inconstitucionalidade da lei ordinária, como se disse acima, os juízes
têm um poder de desaplicação (note-se que o autor chama atenção que os Juízes não têm de suspender o processo e esperar por uma
decisão do Tribunal Constitucional que, como se sabe, é o que acontece nos sistemas puros de controlo concentrado) e, porque não

44
Segundo a doutrina, o juiz é uma entidade adequada não só para determinar o sentido
de conceitos indeterminados131, mas também, mesmo sem lei, para decidir e resolver os
conflitos entre direitos, liberdades e garantias ou entre direitos e outros interesses que lhe
sejam trazidos: num caso como no outro, o juiz tem acesso direto à norma constitucional
e está obrigado pelos efeitos vinculativos da norma de direito, liberdade e garantia.
Na esteira do mesmo autor citado acima, “o juiz tem de passar a conviver com a
Constituição pelo menos tanto como convive com o Código de Processo Civil ou o
Código Penal: a Constituição tem de passar a ser um instrumento de trabalho quotidiano
do juiz, porque a este foi dada uma indicação precisa de que tem acesso direto a ela! E só
ele dispõe dessa prerrogativa qualificada de acesso à Constituição ao ponto de poder
afastar a lei para dar preferência à norma constitucional!”132133
Segundo informação que temos, o Tribunal Constitucional cabo-verdiano
debruçou, por duas vezes sobre esta questão, tendo decidido sempre que o preceito
constitucional carecia de mediação legislativa.

podem deixar de agir, sob pena de denegação de justiça, devem resolver o caso como se essa lei não existisse, aplicando diretamente,
em vez dela, os preceitos constitucionais, devidamente interpretados e concretizados. Para maior desenvolvimento, veja-se JOSÉ
CARLOS VIERA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constituição da República Portuguesa de 1976, ob. cit., pp. 199-
200.No mesmo sentido, JOSÉ DELGADO DE PINA e LIRIAM TIUJO DELGADO, O Sistema Cabo-Verdiano de Direitos
Fundamentais, ob. cit., p. 74.
131
A este respeito, como ensina Viera de Andrade, o juiz pode, pois, preencher os conceitos indeterminados, retirando dos preceitos
soluções que não estejam expressamente previstas. Como exemplo, temos alguns casos que aconteceram na Alemanha, onde retirou-
se da liberdade religiosa a licitude da recusa de juramento em Tribunal; da liberdade de imprensa, o direito dos jornalistas de não
revelarem as fontes de informação; da intimidade da vida privada, a nulidade das provas obtidas por escuta; da liberdade sindical, a
capacidade jurídica dos sindicatos. Para maior desenvolvimento, veja-se JOSÉ CARLOS VIERA DE ANDRADE, Os Direitos
Fundamentais na Constituição da República Portuguesa de 1976, ob. cit., p. 197, nota 11.
132
Cfr. JOSÉ DE MELO ALEXANDRINO, Os tribunais e a Defesa dos Direitos Fundamentais, Reflexões em torno da experiência
cabo-verdiana, ob. cit., p. 9.
133
Todavia, como nos chama atenção José de Melo Alexandrino, temos de reconhecer que há alguns direitos, liberdades e garantias
(O mesmo sucede com múltiplos deveres de proteção associados a direitos e com a generalidade dos direitos económicos, sociais e
culturais – neste caso, a respeito do seu conteúdo principal) a que o juiz sozinho não pode conceder plena efetivação, na medida em
que são direitos necessariamente carecidos de regulação, de organização, de procedimentos e de mecanismos institucionais: direitos
processuais, direito de sufrágio, proteção de dados, direito de antena, entre outros, são disso exemplo.
O juiz não pode, por exemplo, ser ele a definir as regras do processamento do recurso contencioso contra regulamentos ou
ser ele a promover, em nome da tutela judicial efetiva, o alargamento do recurso de amparo – trata-se aí já não de uma atribuição do
juiz, mas sim de uma prerrogativa do legislador democrático (ou seja, do Parlamento). Em todos estes casos, torna-se por isso
imprescindível que seja a lei a regular esses domínios.
Note-se que temos esses casos porque, como ensina Vieira de Andrade, a aplicabilidade directa não é equivalente a
exequibilidade imediata. Daí a importância de uma intervenção legislativa nessas matérias. Sobre esse assunto, veja-se JOSÉ
CARLOS VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constituição da República Portuguesa de 1976, ob. cit., pp. 197-
199, e JORGE MIRANDA/RUI MEDEIROS, Constituição Portuguesa Anotada, ob. cit., pp. 152-153.

45
Ora, esta posição não deixa de causar estranheza uma vez que a própria norma que
consagra o recurso de amparo é, no ordenamento jurídico cabo-verdiano, configurado
como um direito análogo a um direito, liberdade e garantia134.Sendo assim, com base no
que foi exposto supra, o mais lógico é que esta norma seja considerada diretamente
aplicável135136.
1.3.2 Note-se que também se discute a questão da aplicabilidade directa dos
direitos, liberdades e garantias quando estejamos perante órgãos administrativos137.
De realçar que esta questão é muito complexa, isto porque, como se sabe, toda a
atividades administrativa, seja ela regulamentar ou concreta, está sujeita ao principio da
legalidade138, e de existir, entre nós, instâncias independentes com competências para a
fiscalização da constitucionalidade das normas (que são os tribunais), ou seja, o nosso
ordenamento jurídico encontra-se alicerçada pela separação de poderes, onde pode
concluir-se que o poder executivo/administrativo visa, em primeira linha, prosseguir o
interesse público definido num outro plano, sendo que a competência para fiscalização da

134
Aliás, como se sabe, Wladimir Brito entende que o amparo é um direito fundamental e, sendo assim, deve ser aplicado o regime
dos diretos, liberdade e garantia, nomeadamente o da aplicabilidade directa, – cfr. WLADIMIR BRTITO, «O Amparo
Constitucional», ob. cit., p. 19 e 23).Conta-nos o autor que recurso de amparo foi muito bem recebido pela “comunidade” forense
cabo-verdiana que, mesmo antes dessa norma constitucional ter sido regulamentada, lançou-se mão dela por três vezes. Nesses termos,
o professor faz notar, acompanhando os advogados cabo-verdianos, “que o amparo é uma garantia fundamental submetida ao regime
especial dos direitos, liberdades e garantias, nomeadamente à directa e imediata aplicabilidade dessas normas constitucionais
independentemente de estarem ou não regulamentadas”.
O professor não deixou, por isso, de criticar a tese do Supremo Tribunal de Justiça. Para maior desenvolvimento, veja-se
WLADIMIR BRTITO, «O Amparo Constitucional», ob. cit., p 18, nota 38. Num sentido próximo, vide JOSE LOPES DA GRAÇA,
«O “Recurso de Amparo” no Sistema Constitucional Cabo-Verdiano», ob. cit., p. 204, que entende também que este instituto é um
direito fundamental.
135
Cfr. artigo 18.º da CRCV.
136
Neste sentido, podemos dizer, com Jorge Miranda, que se antes o exercício dos direitos dependia da sua regulamentação, hoje as
normas constitucionais adstringem os comportamentos de todos os órgãos e agentes do poder e conformam as suas relações com os
cidadãos sem a necessidade de mediação legislativa.
E daí a estrita sujeição do legislador, controlado pela justiça constitucional, aos meios e aos fins constitucionalmente
estabelecidos. E mais: estão vinculados aos direitos, liberdades e garantias, antes de mais, as entidades públicas seja qual for a sua
forma de atuação, e não apenas o Estado.
Assim, podemos dizer, em suma, que todos os órgãos do poder, e não apenas um dos poderes do Estado – ou seja, o
legislativo –, são destinatários das normas que consagram direitos, liberdades e garantias, ou direitos análogos. Para maior
desenvolvimento, veja-se JOSÉ CARLOS VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constituição da República
Portuguesa de 1976, ob. cit., pp. 200-205, e JORGE MIRANDA/RUI MEDEIROS, Constituição Portuguesa Anotada, ob. cit., pp.
152-153.
137
Sobre esse assunto, veja-se JOSÉ CARLOS VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constituição da República
Portuguesa de 1976, ob. cit., pp. 200-205, e JORGE MIRANDA/RUI MEDEIROS, Constituição Portuguesa Anotada, ob. cit., pp.
155-156 e JOSE DE MELO ALEXANDRINO, Direitos Fundamentais, Introdução Geral, ob. cit., pp. 97-99.
138
Note-se que hoje em dia fala-se no princípio da juridicidade (mais abrangente, por incluir outros princípios que devem vincular a
administração pública, na prossecução do interesse público)

46
constitucionalidade pertence aos tribunais – rectius, ao Tribunal Constitucional, ou, no
caso cabo-verdiano, ao Supremo Tribunal de Justiça –, como se disse.
Neste cenário, se tem colocado a questão de saber se a Administração que, assim
como os restantes poderes públicos, encontra-se “vinculada” ao respeito pelos direitos
fundamentais, pode, num caso em concreto, não aplicar uma lei por considerar que essa
aplicação possa colidir com algumas disposições da Constituição, ou seja, por a
considerar inconstitucional139?
Na esteira de Vieira de Andrade, podemos dizer que este problema se coloca, em
geral, nos ordenamentos jurídicos em que se prevê um sistema de fiscalização judicial da
constitucionalidade das leis e, em especial, naqueles em que existe uma fiscalização
concentrada, que atribui a um Tribunal Constitucional o poder exclusivo de declarar a
inconstitucionalidade de uma lei com força obrigatória e geral140
De realçar que esta questão não gera consenso, sendo que em vários países tem
surgido opiniões divergentes141.
Por exemplo, antigamente, uma doutrina minoritária na Alemanha defendia que a
Administração teria de aplicar sempre a lei e não poderia sequer apreciar a sua
conformidade com a Constituição, mas, pelo contrário, em França, a doutrina maioritária
entendia que a Administração teria essa prerrogativa, ou seja, poderia averiguar a
constitucionalidade das leis. Aliás, como se sabe, em França, o controlo da
constitucionalidade, historicamente, sempre foi negado aos tribunais142
Atualmente, excetuando os casos da inconstitucionalidade das normas
regulamentares ou da inconstitucionalidade superveniente de normas legislativas
anteriores à Constituição, em que se admite, em princípio, a rejeição pela administração,
a doutrina maioritária parece ser a de que a administração pode apreciar a
constitucionalidade das leis, mas não terá, em princípio, poderes para rejeitar ou não

139
Vide JOSÉ CARLOS VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constituição da República Portuguesa de 1976, ob.
cit., p. 200. e JORGE MIRANDA/RUI MEDEIROS, Constituição Portuguesa Anotada, ob. cit., p. 155.
140
Vide JOSÉ CARLOS VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constituição da República Portuguesa de 1976, ob.
cit., p. 200.
141
Sobre a divisão que existe na doutrina a este respeito, veja-se, por todos, JORGE MIRANDA/RUI MEDEIROS, Constituição
Portuguesa Anotada, ob. cit., pp. 154-155. Ainda, em Cabo Verde, cfr. JOSÉ DELGADO DE PINA e LIRIAM TIUJO DELGADO,
O Sistema Cabo-Verdiano de Direitos Fundamentais, ob. cit., pp. 75-76.
142
Cfr. JORGE MIRANDA/RUI MEDEIROS, Constituição Portuguesa Anotada, ob. cit., p. 201e a nota 24.

47
aplicar as leis que considere inconstitucionais, resolvendo o caso a luz da norma
constitucional143144
Note-se que parece ser, em certa medida, essa a posição assumida por Jorge
Miranda e Rui Medeiros145, quando eles dizem que “há, pelo menos, casos em que será
imperioso reconhecer à Administração um poder de não aplicação. Será assim, sem
dúvida quando estiverem em causa direitos insuscetíveis de suspensão mesmo em estado
de sítio (artigo 19.º, n.º 6) e cuja especial valorização constitucional se vem projetar sobre
a atuação dos órgãos e agentes administrativos; ou quando, sem revisão constitucional,
seja reproduzida norma declarada inconstitucional com força obrigatória geral (artigo
282.º).E, no limite, quando se tratar de leis anteriores à Constituição e, de todo em todo,
desconformes com a sua ideia de Direito.”146

1.4. A Tutela dos Direitos Sociais


Os direitos fundamentais sociais, dizemo-lo com Vieira de Andrade147, “ainda que
entendidos em sentido estrito, como «direitos económicos, sociais e culturais» – isto é,
direitos cujo conteúdo principal típico consiste em prestações estaduais sujeitas a
conformação politico-legislativa, sem incluir, por exemplo, «os direitos, liberdades e
garantias dos trabalhadores», que constituem em grande medida direitos à abstenção, com
a função de defesa148 –, apesar de estarem sujeitos a um regime constitucional diferente,
não constituem uma categoria de natureza radicalmente distinta dos direitos, liberdades e
garantias”.

143
Idem, Ibidem e nota 26.
144
Isto, como explicam os autores, “dado que a lei inconstitucional é eficaz até ser anulada ou declarada nula por via judicial, a
Administração não poderia rejeitá-la, resolvendo o caso como se ela não existisse”; mas, continua, “como é responsável pela
juridicidade da sua atuação, não deveria ser obrigado a aplicá-la. Poderia, então (Para alguns deveria), sempre que possível, suspender
a sua atividade de aplicação da norma legal, esperando a decisão do caso pela instância fiscalizadora competente”, que, como se disse,
são os tribunais.
145
Idem, ibidem, pp. 155-156.
146
Vieira de Andrade conclui esta questão dizendo que nos encontramos perante um conflito entre dois princípios constitucionais: de
um lado temos o princípio da constitucionalidade e, mais concretamente, o carácter diretamente aplicável dos preceitos relativos aos
direitos, liberdades e garantias; do outro lado temos o princípio da separação de poderes. Note-se que para resolver este conflito, na
prática, verifica-se que se recorre com frequência a critérios de proporcionalidade e a aplicação da «teoria da evidência». Para maior
desenvolvimento sobre este assunto, cf. JOSÉ CARLOS VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constituição da
República Portuguesa de 1976, ob. cit., pp. 202-205.
147
Idem, Ibidem, p.357.
148
Note-se que, como refere o mesmo autor, esta exclusão refere-se sobretudo a o que se convencionou chamar de “liberdades sociais”,
típicas do Estado Social e da sociedade de massas (liberdade sindical, direito à greve).

48
Como se disse acima, a segunda questão que queremos responder com esta
dissertação prende-se com o âmbito de tutela da norma que prevê o recurso de amparo,
ou seja, em saber se é possível socorrer-se ao recurso de amparo para a tutela dos direitos
económicos, sociais e culturais149 ou se, pelo contrário, este mecanismo visa apenas a
tutela dos direitos, liberdades e garantias150, assim como prevê artigo 20.º da Lei mãe de
Cabo Verde.
A resposta, antecipa-se, na esteira de uma certa doutrina tende também a ser
positiva 151, pelo menos em certos casos, segundo percebemos, ou seja, alguns autores
têm entendido que pode fazer-se uma interpretação alargada do artigo 20.º, não obstante
a escassa jurisprudência do TC cabo-verdiano nesta matéria, bem como a discussão acesa
que sempre existiu nesta matéria de “Direitos Sociais”.
Assim, segundo essa doutrina, em Cabo Verde, os tribunais receberam o especial
encargo de defender a Constituição, fiscalizando o cumprimento das suas normas,
competindo-lhes, particularmente, recusar a validade dos atos jurídico-públicos que (por
ofenderem o conteúdo diretamente aplicável e vinculativo de um direito
fundamental 152153 ), constituam “intervenções restritivas” ilegítimas, aplicando a esses
eventos critérios de controlo similares aos das leis restritivas.

149
Como por exemplo, o direito de propriedade referente aos direitos e deveres económicos, sociais e culturas (cf. artigo 69.º da
CRCV); o direito a iniciativa privada (cf. artigo 68.º da CRCV), etc. Note-se que esses dois direitos são análogos aos direitos,
liberdades e garantias, donde podemos dizer que estão sujeitos ao seu regime (de aplicabilidade directa), embora, como ressalva Vieira
de Andrade, apresentem uma menor intensidade de definição constitucional do seu conteúdo e admitam, por isso, um certo grau de
conformação legislativa autónoma, por exemplo, como acontece com as “garantias institucionais”, isto no âmbito dos direitos,
liberdades e garantias (Idem, ibidem, p. 358, nota 3.)
150
Note-se que em todos os países que analisamos para efeito desta investigação, verificamos que também se coloca esta questão.
Para mais desenvolvimento sobre a tutela dos sociais em Cabo Verde, veja-se, por todos, MARIO RAMOS PEREIRA DA SILVA, O
Regime dos Direitos Sociais na Constituição Cabo-verdiana de 1992, Almedina, Coimbra, 2004, pp. 125-137, obra que que
mencionaremos infra. O autor fala da tutela não judicial – concentrando-se apenas na revisão da Constituição, reserva de competência
legislativa da Assembleia Nacional e Provedor de Justiça – e da tutela judicial (inconstitucionalidade por omissão? (que não existe
entre nós) recurso de amparo e contencioso Administrativo? (em processo de reforma, como se disse).
151
Pensamos que a doutrina maioritária vai no sentido contrário.
152
Portanto, na esteira de José de Melo Alexandrino, admite-se, por isso, no quadro das necessárias diferenciações a estabelecer no
sistema de direitos fundamentais da Constituição, que possam beneficiar desta tutela reforçada não só os direitos fundamentais de
natureza análoga (o que já decorre da Constituição), mas também certas dimensões de certos direitos económicos, sociais e culturais,
quando, a partir da estrutura constitucional (e salvaguardado sempre o parâmetro da igualdade): (i) seja, no caso, juridicamente
determinável um dever de respeito ou de proteção a cargo do Estado; (ii) não subsista espaço de opção para o legislador (na base de
reservas do politicamente oportuno ou do financeiramente possível); (iii) excecionalmente, essa dimensão do direito social esteja
prevista numa regra constitucional.
153
Parece-nos ser essa a posição de Vieira de Andrade que, no entanto, acha que não deva ser a regra. De facto, segundo esse autor,
os direitos sociais, pela sua caracterização através da (in) determinabilidade constitucional do seu conteúdo, não permite que os
particulares exijam diretamente o respetivo cumprimento por via judicial.

49
Na esteira do exposto, Vieira de Andrade154, da escola de Coimbra, nos diz que
por vezes acontece que, em função dos imperativos de atuação estadual que acompanham
a sua específica consagração constitucional, vários direitos sociais acabam por apresentar
uma determinação intensa de conteúdo – hipóteses em que o seu regime substancial
(embora não o orgânico, como ressalva o autor) se aproxima inevitavelmente, por força
do princípio da constitucionalidade, do regime de aplicabilidade directa dos direitos,
liberdades e garantias
Mais, como diz Jorge Reis Novais, a propósito da intimação para a proteção de
direitos, liberdades e garantias, “é sempre possível “traduzir” um direito social por um
direito, liberdade e garantia 155 e se, por hipótese, não houver um qualquer outro
disponível, há sempre a possibilidade de invocar, sem risco de objeção, o direito ao
desenvolvimento da personalidade (art. 26.º da Constituição da República
Portuguesa156).Qualquer lesão ou ameaça a um direito social (direito à saúde, à habitação,

Todavia, reconhece que isso não implica que não possa lançar-se mão de remédios jurídicos, designadamente do
recurso aos tribunais, na medida em que exista uma vinculação jurídica dos poderes públicos e, em especial, do legislador aos preceitos
constitucionais relativos aos direitos sociais. Note-se que, em Portugal, o mecanismo adequado para esse efeito é, apesar das suas
debilidades, o mecanismo da fiscalização abstrata da inconstitucionalize por omissão. (Cfr. Idem, ibidem, pp. 382-384).
Ora, como sabemos, Cabo Verde não prevê este mecanismo, o que, no nosso modo de ver, e salvo o devido respeito, pode
dever-se ao facto de, ao contrário de Portugal, o nosso país ter consagrado o recurso de amparo na sua constituição de 1992, que como
se viu, serve para tutelar os direitos fundamentais contra as ações e omissões dos poderes públicos (de facto a nossa Constituição não
exclui o poder legislativo, daí essa nossa interpretação, que, aliás, vai ao encontro das criticas que a doutrina tem feito a lei do amparo,
como veremos infra).
Faz-se notar, contudo, que o problema complica-se, posto que, como se sabe, o ato de um dos poderes públicos – o
legislador –, foi excluída do âmbito do amparo pela própria lei que regula os aspetos processuais desse recurso – cf. o artigo 2.º, n.º2
da Lei reguladora do recurso de amparo (Lei n.º 109/IV/94 de 24 de Outubro), o que tem merecido, por isso, como se disse, críticas
por parte da doutrina. Como resolver o problema? No nosso modesto modo de ver as coisas dois caminhos podem apontar-
se: por um lado, “mexer” na lei do amparo, para que o ato legislativo possa ser atacado através deste mecanismo. Numa palavra, deve-
se expurgar o número 2 do artigo 2.º artigo da lei do amparo que diz que “os atos jurídicos objeto de recurso de amparo não podem
ser de natureza legislativa ou normativa”; ou, por outro lado, uma outra via pode passar por atender as “solicitações”, que parecem
ser unanimes na doutrina cabo-verdiana, no sentido de introdução do mecanismo “inconstitucionalidade por omissão” no sistema de
controlo da constitucionalidade de Cabo Verde.
154
Idem, ibidem, p. 358.
155
Como por exemplo, ainda na esteira do mesmo autor, “se estiver em causa uma agressão ou ameaça de violação do bem jus
fundamental saúde pessoal (uma autorização de uma indústria ou de comercialização de um produto comprovadamente poluentes ou
nocivos para a saúde das pessoas), se o particular invocar a lesão do direito à proteção da saúde não pode recorrer a intimação para a
proteção de direito, liberdade e garantia porque, supostamente, se trata de um direito social (art. 64.º da Constituição), mas se, no
mesmo caso e nas mesmas precisas circunstâncias, em vez daquele direito invocar antes a lesão do bem integridade física, aí já não
haverá qualquer problema porque, supostamente, o direito à integridade pessoal (art. 25.º da Constituição) é um direito, liberdade e
garantia…” Cfr. JORGE REIS NOVAIS, “Direito, liberdade e garantia”: uma Noção Constitucional Imprestável na Justiça
Administrativa?”, em Cadernos de Justiça Administrativa, n.º 73, Janeiro-Fevereiro, 2009, p. 50, nota 3.
156
Compare-se com o artigo 41.º da CRCV, que tem por epígrafe “Direito a identidade, à personalidade, ao bom nome, à imagem e
à intimidade.

50
ao ensino, à cultura, ao trabalho, ao mínimo de subsistência ou qualquer outro) é sempre
também, inevitavelmente, lesão ou ameaça ao direito de personalidade e este é
indiscutivelmente um direito, liberdade ou garantia, quaisquer que sejam os critérios
desenvolvidos pela doutrina tradicional a que se recorra, e é até um direito, liberdade ou
garantia pessoal, o que satisfaria mesmo quem, embora sem apoio, revele essa exigência
como pressuposto de recurso ao meio em causa”157.
No entanto, não obstante o exposto, do nosso ponto de vista, não se pode esquecer
que os direitos económicos, sociais e culturais têm, na sua esmagadora maioria, um
conteúdo (constitucional) largamente indeterminado e que o legislador ordinário tem a
possibilidade de concretizá-los de diversas formas, claro está, dentro da reserva do
financeiramente possível, o que na prática pode gerar alguns problemas, uma vez que,
além sabermos que cada maioria democraticamente eleito tem as suas opções
ideológicas158, essa reserva que acabamos de referir tem um peso decisivo na efetivação
desses direitos. Ou seja, se o que expusemos for levado ao extremo poderemos ter na
prática vários problemas porque o Estado de Cabo Verde não tem condições, por
exemplo, mesmo que esses direitos apresentem uma determinação intensa de conteúdo –
hipóteses em que, como se disse, o seu regime substancial se aproxima inevitavelmente,
por força do princípio da constitucionalidade, do regime de aplicabilidade directa dos
direitos, liberdades e garantias, para garantir que todos tenham acesso à habitação, ao
trabalho, ao ensino tendencialmente gratuito, a pensões etc., exatamente porque não tem
como garantir tudo isso, pelo menos no estádio atual do seu desenvolvimento159.

157
Cfr JORGE REIS NOVAIS, «Direito, liberdade e garantia”: uma Noção Constitucional Imprestável na Justiça Administrativa?»,
ob. cit., p. 50.
158
Sobre a questão de que cada maioria tem as suas prioridades veja-se, por todos, ANDREIA SOFIA OLIVEIRA e BENEDITA
MACCRORIE, Direitos Fundamentais, Elementos de Apoio, ob. cit., p. 92.
159
Neste particular, na nossa doutrina, alguns autores, como por exemplo Wladimir Brito, tem entendido que “o Estado cabo-verdiano
em rigor não pode ser um Estado Social, mas também não deve ser um Estado Liberal”. Por um lado, não pode ser um Estado Social
porque de facto “não tem na sua base uma economia altamente desenvolvida quer sob o ponto de vista industrial, quer agropecuária,
quer comercial, capaz de suportar todas as prestações que o Estado Social das sociedades capitalistas altamente desenvolvidas
suportam” e, por outro lado, o Estado cabo-verdiano, constitucionalmente, “não deve ser um Estado Liberal (ou neoliberal) na exacta
medida em que, apesar da sua debilidade económica, não pode ser um mero Estado vigilante noturno ou Estado polícia”.
Assim, em 2001, o autor entendia que “sob o ponto de vista da forma de Estado, a que corresponde à fase atual da formação
social cabo-verdiana e ao seu real (e não ilusório) estádio de desenvolvimento, é a de um Estado de Solidariedade Social de Direito
Democrático.” Para maior desenvolvimento, veja-se WLADIMIR BRITO, «Que Estado Para Cabo Verde?», in Direito e Cidadania,
Ano IV, N.º 14, Janeiro de 2002/Abril de 2002, Quadrimestral, Praia, Cabo Verde, pp. 293-300.
Importa dizer, nesta sede, que, na verdade, por via da Constituição de 92, entre outras, tornaram-se tarefas fundamentais
do Estado: promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo, designadamente dos mais carenciados; remover progressivamente os
obstáculos à real igualdade de oportunidades entre os cidadãos, especialmente os fatores da discriminação da mulher na família e na

51
E, permitir que se lance mão do recurso de amparo para condenar o Estado/os Poderes
Públicos a efetivar esses direitos numa situação de carência de meios para o efeito, parece,
na nossa opinião, e salvo o devido respeito, não ser a solução mais acertada.
Por isso mesmo, a doutrina tem entendido que os cidadãos não têm um “direito
absoluto” a esses direitos, e nem há um “dever absoluto” do Estado em “realizar” esses
direitos160.
De todo o modo, e aí estamos de acordo, há um mínimo que o Estado tem de
garantir sempre, ou seja, todo o legislador (democraticamente eleito) tem a obrigação de
reconhecer a todas as pessoas o direito a um mínimo para uma sobrevivência

sociedade; incentivar a solidariedade social, a organização autónoma da sociedade civil (…); criar, progressivamente, as condições
necessárias para a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais por forma a tornar efetivo os direitos económicos
sociais e culturais dos cidadãos, etc. – cf. o artigo 7.º da CRCV, que tem por epígrafe “Tarefas do Estado”.
160
No fundo, e numa palavra, alguma doutrina tem entendido que a realização desses direitos sociais depende do nível de
desenvolvimento sócio- económico do país, ou seja, os cidadãos só têm o direito de os exigir do Estado quando este estiver em
condições de os satisfazer – Vale aqui, como se tem entendido, a regra da gradualidade e progressividade dos direitos sociais –, por
forma a evitar que, por motivos de carência de meios, o Estado não esteja sempre a violar esses direitos “sociais”. Em síntese, a
realização dos direitos sociais fica condicionada ao principio do gradualismo e ao nível de desenvolvimento socioeconómico, onde
pode acrescentar-se que, tando o sector privado, como as associações (públicas e privadas), a sociedade civil, etc., são convocados
para ajudar o Estado na realização dessa tarefa tão importante que é a efetivação dos direitos sociais. Parece-nos ser essa a posição de
Wladimr Brito (defendida na intervenção pública que fez aquando da celebração dos 20 anos da CRCV de 92, ocorrido em
Lisboa).Num sentido bem próximo, pode ver-se idem, ibidem, pp. 296 e ss, principalmente quando diz que, sob o ponto de vista da
relação entre o político e o económico, o Estado de Cabo Verde “ (…) Não deve ser forte, mas indispensável para, em cada momento
histórico determinado, permitir assegurar económica-financeiramente as prestações sociais progressivamente ajustáveis ao estádio de
desenvolvimento socioeconómico do país e um eficaz funcionamento de instituições de solidariedade social prestadores de serviços
mínimos às camadas mais pobres e necessidades da população”.
Por outro lado, na esteira do mesmo autor, este mesmo Estado “Deve ser necessário para contribuir para a correção do
excesso de individualismo e para assegurar um mínimo de justiça social”. Ainda, não menos importante, o mesmo “Deve provocar a
redução da procura do Estado lato sensu, e uma maior responsabilidade da sociedade na prestação de solidariedade, através de
multiplicação de redes de serviços de solidariedades diretas socialmente organizadas, geridas e autorregulamentadas. (…)”Para maior
desenvolvimento, idem, ibidem.
A este respeito, VIEIRA DE ANDRADE nos diz ainda que “(…) os preceitos relativos aos direitos económicos, sociais e
culturais contêm programas de socialização que dependem, para a sua efetivação, da vontade política da comunidade – dos órgãos de
direção política, dos partidos e grupos sociais, dos cidadãos – , mas dispõem igualmente de garantias jurídicas, ainda com intensidades
variáveis, que correspondem à sua qualidade essencial de direitos subjetivos fundamentais”.Cfr. JOSÉ CARLOS VIEIRA DE
ANDRADE, ob. cit., p. 389.
Portanto, parece-nos que, com base neste raciocino, que esses direitos não conferem aos cidadãos, em regra, o “poder” de
exigir um determinado comportamento dos poderes públicos. Note-se que há mesmo quem entenda que a configuração de um direito
subjetivo sob reserva de lei conformadora não passaria de uma farsa, já que ele não seria oponível ao legislador. Cfr. JOSÉ CARLOS
VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constituição da República Portuguesa de 1976, ob. cit. p.361, nota 12).Neste
ensejo, outros autores insurgiram contra a consagração constitucional dos direitos sociais, tais como, Martinez Noberto Bobbio, etc.
Para mais desenvolvimento, por todos, veja-se CARLOS VEIGA, «Os Direitos Na Constituição de Cabo Verde, de Mário Silva, in
Direito e Cidadania, Ano VI, N.ºs 20/21, Maio a Dezembro, 2004, Praia, Cabo Verde, pp.269-270.

52
condigna161162. Este mínimo para uma sobrevivência condigna, como a maior parte da
doutrina tem entendido, é um direito análogo aos direitos, liberdades e garantias e, por
isso, é diretamente aplicável163.
Segundo Jorge Reis Novais, as normas ordinárias que determinam o conteúdo dos
direitos sociais passam a integrar, com as normas constitucionais a que dão realização,
uma “unidade sistemática” que é retirada à livre disponibilidade do legislador.
Neste cenário, como se tem entendido, não há razões plausíveis que justifiquem
um tratamento diferenciado entre os direitos, liberdades e garantias e os direitos
económicos, sociais e culturais se a indeterminação que caracteriza estes já tiver sido
“sanada” ou suprida164.
Assim, segundo o mesmo autor, a proteção devida a direitos de liberdade e a
direitos sociais tem de ser exatamente a mesma, isto é, a proteção devida pelo facto de
constituírem direitos fundamentais constitucionalmente consagrados e, logo, impostos
normativamente à observância de todos os poderes constituídos165.

161
Sobre este assunto, veja-se JOSÉ CARLOS VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constituição da República
Portuguesa de 1976, ob. cit., pp.374-375 e os acórdãos do TC Português ali citados. Em Cabo Verde, veja-se num ponto com a epígrafe
“Principio da Proibição do retrocesso Social, JOSÉ DELGADO DE PINA e LIRIAM TIUJO DELGADO, O Sistema Cabo-Verdiano
de Direitos Fundamentais, ob. cit., pp 82 e ss.
162
Ainda, num sentido próximo, veja-se WLADIMIR BRITO, «Que Estado Para Cabo Verde?», ob. cit., p. 296, principalmente
quando diz que o Estado para Cabo Verde deve ser necessário (…) para assegurar um mínimo de justiça social.
163
Para uma simples visão sobre o regime específico dos direitos, económicos, sociais e culturais, veja-se, por todos, ANDREIA
SOFIA OLIVEIRA e BENEDITA MACCRORIE, Direitos Fundamentais, Elementos de Apoio, ob. cit., pp. 89-96.
164
Note-se, no entanto, que José Carlos Vieira de Andrade tem um entendimento diferente, o qual não podemos olvidar. De facto,
segundo este autor, a tese de Jorge Reis Novais leva-nos a pressupor que a concretização legal de um direito económico, social e
cultural implica a constitucionalização do respetivo conteúdo, retirando, desta forma, a margem que o legislador ordinário tem para
alterar qualquer lei, claro está, dentro dos limites previstos na Constituição.
Ademais, é da opinião segundo a qual a restrição de um direito legal derivado de um direito económico, social e cultural
não deve estar sujeita às mesmas regras apertadas que estão constitucionalmente previstas para a restrição de direitos, liberdades e
garantias.
Contudo, o autor aceita um processo de transformação constitucionalizante de normas de direito legal, baseada na
«consciência jurídica geral», pois, segundo ele entende, a Constituição é suscetível de evolução, incluindo nessa evolução a
possibilidade de, ao nível constitucional, se vir a densificar e determinar o conteúdo dos preceitos. Para maior desenvolvimento, veja-
se JOSÉ CARLOS VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constituição da República Portuguesa de 1976, ob. cit.,
pp. 378 e ss, bem como a nota 63 da mesma página.
165
Cfr. JORGE REIS NOVAIS, “Direito, liberdade e garantia”: uma Noção Constitucional Imprestável na Justiça Administrativa?”,
ob. cit., p. 52.

53
Em suma, se acompanhássemos este entendimento, poderíamos dizer, sem
receios, que este mecanismo (recurso de amparo) serve, também, para a tutela dos
direitos, económicos, sociais e culturais, nos termos acima assinalado166.

166
Parece-nos não ser esta a posição de Jose Pina Delgado e Liriam Tiujo Delgado, que entendem que os mecanismos para se proteger
esses direitos (sociais) são políticos, e não jurisdicionais.
De facto, nas palavras dos autores citados, poderia parecer que a interpretação segundo a qual a realização desses direitos
estão sob a reserva do financeiramente e politicamente possível, ressalvados, claro está, o princípio da dignidade da pessoa humana e
o princípio da proibição do retrocesso social, “deixaria as pessoas à sua sorte em matéria social. Os autores entendem que “No entanto
não! Ele só desloca o espaço de proteção do Estado de Direito (pressupondo especialmente tutela jurisdicional) para o Estado de
Democrático, onde a defesa e os mecanismos de proteção deverão ser eminentemente políticos: o voto de protesto, a pressão politica
através de manifestações, etc.”
De realçar que os mesmos autores sufragam ainda a opinião de que não se deve fazer uma interpretação radical da proibição
do retrocesso em matéria social.
Assim, entendem que “o princípio da reserva do possível deve ser levado em consideração nesse quadro de proibição do
retrocesso em matéria social”, isto porque, na exacta palavra dos autores, “não se pode esperar do Estado aquilo que realisticamente
não pode dar por insuficiência de meios financeiros, se ele não está obrigado a mais do que tem, logo ocorrendo uma situação em que
a sua capacidade é reduzida por qualquer motivos – recessão económica, catástrofes debilitantes do tesouro, etc. – ele não poderia
estar vinculado à proibição do retrocesso em matéria social, pois poderia ocorrer a situação em que a reserva do possível atrairia a
reversibilidade das conquistas sociais automaticamente”. Para maior desenvolvimento, veja-se JOSÉ PINA DELGADO e LIRIAM
TIUJO DELGADO, O Sistema Cabo-verdiano de Direitos Fundamentais ob. cit., p 83; sobre o assunto, veja-se ainda JOSE DE MELO
ALEXANDRINO, Direitos Fundamentais, Introdução Geral, ob. cit., pp. 158-159.
Num sentido bem próximo dos autores acima citamos, parece estar JOSÉ CARLOS VIERA DE ANDRADE, que, aliás,
acrescenta que mesmo sob o ponto de vista internacional a proteção dos direitos sociais não deixa de ser política, isto porque, na
esteira desse eminente constitucionalista/administrativista, “não se admite um recurso individual dos cidadãos, nem está prevista
nenhuma jurisdição internacional no Pacto da ONU ou Carta Social Europeia, exigindo-se dos Estados signatários apenas a
apresentação de relatórios sobre as medidas adotadas para a «implementação» dos direitos”. Para maior desenvolvimento, veja-se
JOSÉ CARLOS VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constituição da República Portuguesa de 1976, ob. cit., pp.
384, e nota 81 da mesma página; e pp. 388-389.
No caso de Cabo Verde pode-se recorrer ao Pacto Internacional sobre os direitos económicos, sociais e culturais, bem
como as convenções da OIT.
O PIDESC é um Pacto internacional que Cabo Verde aderiu em 1993, que consagra um conjunto de direitos no âmbito do
trabalho, da saúde, alimentação, habitação, educação, segurança social, entre outros. De acordo com o mesmo documento, ao aderir a
esse Pacto, Cabo Verde “assumiu” o compromisso de apresentar, periodicamente, relatórios sobre a realização destes direitos ao
Comité dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais das Nações Unidas.
Ainda sobre o PIDESC, importa dizer que, não obstante Cabo Verde ter aderido ao mesmo em 1993, a verdade é que até
bem pouco tempo não tinha ratificado o protocolo facultativo ao mesmo que foi aprovado em 2008 pelas Nações Unidas.
Em 2012, o Ministro da Justiça, José Carlos Correia, dizia que até o final do mesmo ano, Cabo Verde iria apresentar o
primeiro relatório sobre a implementação do PIDESC.
A primeira versão do documento começou a ser divulgada na Capital e representava, segundo o governante, o arranque de um processo
para ultimação de outros relatórios que Cabo Verde tem em atraso junto das instâncias internacionais.
O Arquipélago há muito que devia apresentar os relatórios, mas, segundo o Governo, “as circunstâncias concretas" do País
não permitiram que isso acontecesse, pelo que esse será o primeiro a ser apresentado.
O documento foi elaborado por iniciativa da Comissão dos Direitos Humanos e Cidadania (CNHDC), em parceria com o
Ministério da Justiça, com o patrocínio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) e do
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

54
Assim, diríamos que todos os poderes públicos (o legislador, a administração e o
juiz) devem, cada um dentro do âmbito da sua atuação, respeitar os direitos económicos,
sociais e culturais, isto porque, assim como os direitos, liberdades e garantias, esses
também são direitos fundamentais.
Nesta lógica, se violarem desproporcionadamente um direito económico, social e
cultural, se adotarem tratamentos discriminatórios (sem fundamento razoável) no acesso
a esses direitos, se retrocederem na concretização dada anteriormente (que viola o
principio da proibição do retrocesso social), se violarem o seu conteúdo essencial, etc.,
parece ser legítimo dizer que cometem o mesmo tipo de inconstitucionalidade, com o
mesmo alcance e as mesmas consequências jurídicas, que teríamos, como diz Jorge Reis
Novais, se a vítima fosse um direito, liberdade ou garantia.
Donde parece-nos que se pode concluir que o recurso de amparo poderá servir
para esse efeito, ou seja, para tutelar os direitos económicos, sociais e culturais contra as
violações dos poderes públicos nos termos acima assinalados167.
Note-se, contudo, que esta resposta afirmativa pressupõe que os atos (omissivos)
legislativos sejam atacados através do recurso de amparo, situação que, como já se viu, a
nossa lei de amparo não comtempla, agravada pelo facto do sistema cabo-verdiano de
fiscalização da constitucionalidade não prever o mecanismo de inconstitucionalidade por
omissão.
Sublinhe-se que, sob o ponto de vista de direito comparado, em Espanha, como se
sabe, não obstante o recorte prévio do âmbito de proteção dos direitos fundamentais pelo
recurso de amparo, reconduzindo-o apenas à proteção de certos direitos, maioritariamente

167
Em síntese, dizemos com Vieira de Andrade, que as normas que preveem os direitos (sociais) a prestações, contêm diretivas para
o legislador ou, talvez melhor, são normas impositivas de legislação, não conferindo aos seus titulares verdadeiros poderes de exigir,
porque visam, em primeira linha, indicar ou impor ao Estado que tome medidas para uma maior satisfação ou realização concreta dos
bens protegidos. Contudo, reconhece-se que não se trate de normas meramente programáticas, na medida em que têm força jurídica e
vinculam efetivamente os poderes públicos, impondo-lhes autênticos deveres de legislação.
Assim, “o legislador não pode decidir se atua ou não: é-lhe proibido o «non facere».Tal como, relativamente à conformação
do conteúdo dos direitos, mesmo que possa escolher em grande medida o que quer, não é livre escolher o que quer que seja”.
Refira-se, por outro lado, que o autor advoga que a proteção de que gozam esses direitos é mais fraca, já que os tribunais,
na veste de órgãos encarregados de fiscalização da constitucionalidade das normas, não podem, em obediência ao princípio da
separação de poderes, controlar, quanto ao respetivo conteúdo, as opções legislativas, a não ser, excecionalmente, quando haja
violação evidente e arbitrária, pelo legislador, da incumbência constitucional, situação que, como reconhece o autor, será difícil de
provar, embora sempre reste a proteção objetiva, todavia também limitada, resultante da fiscalização da inconstitucionalidade por
omissão (note-se que nós não temos este mecanismo, como dissemos já. Daí a importância do amparo para fiscalizar as omissões dos
poderes públicos – rectius, do poder legislativo, como se disse supra.). Para maior desenvolvimento, veja-se JOSÉ CARLOS VIEIRA
DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constituição da República Portuguesa de 1976, ob. cit., pp. 358-363.

55
direitos, liberdades e garantais, na prática verifica-se que o Tribunal Constitucional desse
país tem decidido sempre no sentido de se estender ao máximo o âmbito de proteção dos
direitos fundamentais por meio do recurso de amparo.
De facto, ao analisar um conjunto de decisões desse tribunal, verifica-se que, pela via
interpretativa, operou-se uma ampliação dos direitos fundamentais protegidos pela via do
recurso mencionado, sendo que a ênfase foi dada aos direitos sociais.
Na esteira do que dissemos supra acerca da possibilidade da “tradução” de um direito
económico, social e cultural em um direito, liberdade e garantia, constatamos que também em
Espanha se tem entendido que é possível fazer essa “tradução” num caso, por exemplo, em
que o direito económico, social e cultural em que se pretende proteger tenha uma
ligação/conexão forte com um direito, liberdade e garantia, tutelável pelo recurso de
amparo168.
Interessa, para terminar este ponto, dizer que os “Direitos Sociais” não têm sido muito
estudados em Cabo Verde. Mas há uma obra muito interessante sobre o assunto que, aliás,
pensa-se que foi pioneira a discorrer sobre essa questão neste arquipélago: o livro chama-se
“O Regime dos Direitos Sociais na Constituição de Cabo-verdiana de 1992”169, e foi escrito
pelo político e jurista, Dr. Mário Silva.
Na esteira dessa obra, há um artigo escrito por Dr. Carlos Veiga, que, no fundo, é uma
apresentação do livro acima referido, artigo esse cujo título é: “Os Direitos Sociais na
Constituição de Cabo Verde, de Mário Ramos Pereira da Silva”.
Pois bem, nele, Carlos Veiga170, entre outras coisas, dá-nos conta da evolução desses
direitos na história constitucional cabo-verdiana, elaborada por Mário Silva.
Com efeito, diz-nos, em suma, que a LOPE, como aliás já vimos acima a propósito da
evolução da justiça constitucional em Cabo Verde, não continha um catálogo dos direitos

168
Como por exemplo, num caso em que se pretende proteger o direito social à saúde, o recorrente pode invocar o princípio da igualdade, ligando-
o a esse direito, quando em sua opinião o fator de discriminação que for utilizado pelo poder público impediu, sem fundamento razoável e
plausível, o pleno exercício do mesmo direito por uma outra pessoa ou grupo de pessoas. Na doutrina Portuguesa, num sentido próximo pode-se
ver JOSÉ CARLOS VIEIRA DE ANDRADE (Os Direitos Fundamentais na Constituição da República Portuguesa de 1976, ob. cit., pp
385- 386), principalmente quando diz que “(…) o Tribunal Constitucional desde sempre tem fiscalizado situações em que o legislador viola o
principio da igualdade, criando diferenciações injustificadas, de tal modo que acaba mesmo por entender, ele próprio, o regime mais favorável
ou o beneficio a todos os interessados, sem apelar para uma alteração legislativa”. E mais: na esteira do mesmo autor, não devemos menosprezar
o controlo judicial direto da violação do conteúdo mínimo de direitos sociais, isto tendo em conta a recente jurisprudência do Tribunal
Constitucional daquele pais no que diz respeito à proteção, por via de ação (ou omissão, como diz) do direito ao mínimo de existência condigna.
169
Veja-se MARIO RAMOS PEREIRA DA SILVA, O Regime dos Direitos Sociais na Constituição Cabo-verdiana de 1992,
Almedina, Coimbra, 2004, obra acima citada.
170
Cfr. CARLOS VEIGA, «Os Direitos Sociais na Constituição de Cabo Verde, de Mário Ramos Pereira da Silva», ob. cit., pp. 271-272.

56
fundamentais, e, no que se refere a Constituição de 1980, em síntese, afirma o mesmo autor
que, além de ter ignorado a referência à DUDH (assim como aconteceu com a lope),
caracterizou-se “pela indistinção entre os direitos de liberdade e os direitos sociais (…)”
Pelo contrário, em relação a Constituição de 92, Carlos Veiga diz-nos que Mário Silva
é taxativo 171 : “ela traduziu-se num alargamento do catálogo dos direitos sociais em
comparação com a Constituição de 1980; a revisão de 1999 reforçou a tendência (i) quer pelo
alargamento ainda maior do catálogo (com introdução de preceitos relativos ao direito das
crianças e da família e ao urbanismo ao lado do direito à habitação, (ii) quer também
reconhecendo os diversos direitos sociais de forma categórica, não condicionada ao
gradualismo e ao nível de desenvolvimento nacional172 e ainda (iii) consagrando de modo
incisivo e expresso a intervenção dos privados na efetivação dos direitos sociais”
Nessa esteira, conta-nos ainda Carlos Veiga173, que Mário Silva assinalou, ainda, que
a revisão ocorrida em 99 “concretizou uma opção mais vasta de pluralismo político, social e
institucional na efetivação dos direitos sociais, patente não só na preferência pela expressão
“poderes públicos”, a propósito das incumbências sociais, que traduz uma insistente
convocação de uma pluralidade de entidades públicas nessa tarefa, mas também no realce nela
dado ao papel das entidades privadas, das associações, das famílias e da sociedade civil”.
José Carlos Vieira de Andrade174, no ponto do seu livro referente ao “O Regime dos
Direitos Sociais”, ensina-nos que “se o legislador tem o dever geral de assegurar um certo grau
de realização de direitos sociais, esse dever assume uma importância acrescidas em
determinadas situações, quando a Constituição estabeleça direitos especiais a proteção
estadual, como acontece, por exemplo, nos direitos em que se visa assegurar a dignidade das
famílias e de categorias especificas de pessoas (trabalhadores, consumidores, crianças, jovens,
idosos, deficiências, etc.) ”.
Neste ensejo, em Cabo Verde, Carlos Veiga175 nos diz que Mário Silva, na obra que
referimos, “Louvando-se” em Norberto Bobbio, apreciou de forma positiva a opção da nossa
Constituição em consagrar ao lado de direitos sociais universais, outros direitos sociais, mas

171
Idem, ibidem, pp. 272.
172
Assim, veja-se MARIO RAMOS PEREIRA DA SILVA, O Regime dos Direitos Sociais na Constituição Cabo-verdiana de 1992,
ob. cit., p. 111.Note-se que, na esteira desse autor, com isto “não se pode concluir, sem mais, que a importância dos recursos seja
desprezada” (…).
173
CARLOS VEIGA, «Os Direitos Sociais na Constituição de Cabo Verde, de Mário Ramos Pereira da Silva», ob. cit., p. 273.
174
Vide JOSÉ CARLOS VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constituição da República Portuguesa de 1976, ob.
cit., p. 376.
175
CARLOS VEIGA, «Os Direitos Sociais na Constituição de Cabo Verde, de Mário Ramos Pereira da Silva», ob. cit., p. 273.

57
específicos, de situações de vulnerabilidade social carentes de especial proteção176, como as
situações das crianças, dos jovens, dos idosos, dos deficientes e dos consumidores177: o ex-
primeiro ministro de Cabo Verde, concluiu, citando o autor da obra que referimos, “é que, diz,
enquanto os direitos de liberdade se preocuparam historicamente com o Homem em abstrato,
os direitos sociais surgiram em nome de uma filosofia que clamava para o homem social
e a sua concreta condição de vida”178
Não obstante o exposto, no que se refere a tutela judicial dos direitos sociais, na
esteira do artigo que temos vindo a citar, há um consenso de que a mesma é lacunosa e
frágil179.Com efeito, Mário Silva sufraga a ideia segundo a qual a inexistência de mecanismo
de inconstitucionalidade por omissão, como se deu conta acima, limita o controlo da
constitucionalidade relativamente aos direitos sociais180.
Por outro lado, pensa o mesmo jurista que, em certa medida, o recurso à iniciativa
legislativa popular (que a nossa Constituição prevê) poderia suprir a lacuna, mas, como se
sabe, até hoje a respetiva lei não foi aprovada181.
Mais, e isto é muito importante, segundo o autor da obra inédita em Cabo Verde, o
recurso de amparo, pela sua natureza, só pode ser aplicado relativamente a direitos sociais
análogos aos direitos, liberdades e garantias e aos direitos sociais de natureza parcialmente
análoga aos direitos de liberdade, na sua dimensão negativa182.

176
Nessa esteira, chamando de novo à colação os ensinamentos de JOSÉ CARLOS VIEIRA DE ANDRADE (Os Direitos
Fundamentais na Constituição da República Portuguesa de 1976, ob. cit., p, 376) pode dizer-se que “a existirem deveres especiais de
proteção, prevenção e promoção por parte do Estado, torna-se possível a verificação de situações concretas de responsabilidade civil
por atos ou omissões ilícitas no exercício da própria função legislativa, pelo menos quando haja uma violação evidente desse dever
de proteção e os danos provocados sejam anormais”. Neste sentido, em Cabo Verde, pode ver-se o artigo 8.º do Dec. Lei n.º 116/84,
de 08-12 – Regula a responsabilidade civil extracontratual do Estado e demais pessoas colectiva de direito público –, que plasma,
contudo, que “o direito de indemnização só tem lugar quando a mesma lei o tenha expressamente admitido” – Cfr. artigo 9.º, n.º 2 –
(diferentemente de Portugal, que fez depender a responsabilidade de um juízo de inconstitucionalidade). Nos termos do artigo 11.º do
mesmo decreto-lei, “Consideram-se prejuízos especiais e anormais os danos inequivocamente graves que incidem desigualmente
sobre certos particulares”. Nos termos do artigo 2.º do Regime da Responsabilidade do Estado de Portugal (aprovado pela Lei n.º
67/2007) Danos normais são aqueles que “ultrapassando os custos próprios da vida em sociedade, mereçam, pela sua gravidade, a
tutela do direito”. Sobre a responsabilidade civil das entidades públicas, veja-se ainda JOSE DE MELO ALEXANDRINO, Direitos
Fundamentais, Introdução Geral, ob. cit., pp. 110-111.
177
Cfr, respetivamente, os artigos 74.º, 75.º, 77.º, 76.º, 81.º, todos da CRCV
178
Cfr. CARLOS VEIGA, «Os Direitos Sociais na Constituição de Cabo Verde, de Mário Ramos Pereira da Silva», ob. cit., p. 273.
179
Idem, ibidem, p. 276.
180
Idem, ibidem, p. 275.
181
Idem, ibidem. Faz-se notar que hoje (13 de Abril de 2015) já há mais certeza quando a aprovação dessa lei, pois a proposta da
mesma foi agendada para a sessão de Assembleia Nacional do corrente mês.
182
Idem, ibidem, pp. 275-276.

58
Com base no que se disse acima, a questão que se pode colocar, tendo em conta a
posição de certa doutrina, é esta: porquê não alargar o âmbito do amparo para esse efeito?
Do nosso ponto de vista, salvo o devido respeito, o alargamento do âmbito do recurso
de amparo por forma a abarcar as omissões legislativas, permitiria ao nosso sistema dar um
passo importante, o que dispensaria a constitucionalização do mecanismo da
inconstitucionalidade por omissão, com o reforço inequívoco da participação dos cidadãos no
controlo da Constitucionalidade.
É que, se isso acontecer, os cidadãos passarão a poder, contrariamente ao que acontece
nos países em que se prevê o mecanismo da inconstitucionalidade por omissão de forma
autónoma183, a aceder diretamente ao Tribunal Constitucional para a defesa dos seus “direitos
sociais”, suprindo assim a inercia do legislador184, sem estar, note-se, na dependência de certas
entidades (Provedor de Justiça e Presidente da República).
Por fim, ainda no âmbito da tutela judicial, Mário Silva entende que, como aliás se
disse acima, “o contencioso administrativo, já desfasado dos preceitos constitucionais, não
fornece uma base válida suficiente de tutela dos direitos sociais”185
De todo o modo, não obstante as fragilidades judiciais que existem sob o ponto de vista
da proteção dos direitos sociais, Mário Silva não deixa de chamar a atenção do público em
geral, dizendo, como nos dá conta Carlos Veiga, que a nossa lei fundamental não deixa a
realização dos direitos sociais “a bel prazer do legislador ordinário, estabelecendo parâmetros
dentro dos quais deve mover-se”186.

183
Note-se que, de facto, notou-se que uma das críticas que se faz a este mecanismo é a sua “excessiva objetivação”, posto que os
cidadãos não podem, “de per si”, pedir a fiscalização da inconstitucionalidade por omissão diretamente ao tribunal Constitucional,
mas, ao invés, apresentar petições a certas entidades, como, por exemplo, ao Presidente da República, ao Provedor de Justiça, pedindo
que esses iniciem esse processo. Cfr., entre outros, o artigo 283.º da Constituição da República Portuguesa.
184
De facto, o recurso de amparo, parece ser o único mecanismo que pertence verdadeiramente aos cidadãos para defenderem os seus
direitos constitucionais, pois permite a todos requerer ao Tribunal Constitucional (…) a tutela dos seus direitos fundamentais (…)
constitucionalmente reconhecidos. Cfr. o artigo 20.º da CRCV, que, como se sabe, só se refere aos direitos, liberdades e garantias
fundamentais. Pensa-se que só através de uma indiferenciação entre os “direitos de liberdade” e “direitos sociais”, o objetivo de Mário
Silva, de que nos fala Carlos Veiga (ob. cit., p. 276), de “dar a conhecer os direitos sociais, como direitos fundamentais verdadeiros,
juridicamente eficazes, de que os cidadãos podem dispor e devem exercer efetivamente e cuja realização devem exigir”, poderá ser
alcançado.
185
Cfr. CARLOS VEIGA, «Os Direitos Sociais na Constituição de Cabo Verde, de Mário Ramos Pereira da Silva», ob. cit., p. 276.Ainda,
sobre o contencioso administrativo, ver supra, ponto 1.2.1.1.
186
Idem, ibidem, p. 273.Para uma visão mais desenvolvida, veja-se MARIO RAMOS PEREIRA DA SILVA, O Regime dos Direitos
Sociais na Constituição Cabo-verdiana de 1992, ob. cit., pp. 102-137.

59
Mais, neste ensejo, o autor “identifica princípios e normas constitucionais que esse
legislador não pode ignorar ao desenvolver e concretizar os direitos sociais”, os quais, na
esteira do artigo de Carlos Veiga187, passamos a reproduzir:
“O princípio da igualdade de oportunidades – enunciado a propósito das tarefas
fundamentais, do direito à cultura e do direito à educação – salientando, em especial, (i) por
um lado, que a Constituição, no debate teórico sobre a igualdade, tomou posição em favor da
igualdade de oportunidades em detrimento da igualdade de resultados, rejeitando, assim, os
igualitarismos da mediocracia; (ii) por outro, que a educação é concebida como direito dos
direitos sociais; e (iii) além disso, a expressa referência à igualdade de oportunidades em
função do território, ou seja o combate às assimetrias regionais, em perfeita consonância com
as reflexões mais modernas sobre o princípio da igualdade que acentuam uma visão espacial
desse princípio;188
A conexão entre direitos sociais e deveres sociais – expressamente assumida pela
Constituição, relativamente a direitos como a saúde, o trabalho, a cultura e o ambiente – pondo
nu a natureza complexa desses direitos que não se compadecem com o simplismo da sua
consideração como meros direitos a prestações; e fornecendo um fundamento constitucional
para a sua eventual restrição, em nome da preservação de valores comunitários, aproximando-
os do que hoje a doutrina chama de direitos de solidariedade;189
O princípio da solidariedade – que a Constituição consagra em vários preceitos, desde
logo a nível dos fins do Estado, mas também relacionados com a segurança social, com os
idosos e os deficientes, com a educação e com os deveres fundamentais;190
A garantia da existência de serviços e sistemas sociais – como acontece em relação
à segurança social, à saúde e à educação – salientando o autor que a Constituição não se fica
pela mera garantia de existência desses serviços e sistemas, mas exige, mais, que possuam
características especificas: por exemplo, o sistema nacional de segurança social deve ser

187
Veja-se CARLOS VEIGA, «Os Direitos Sociais na Constituição de Cabo Verde, de Mário Ramos Pereira da Silva», ob. cit., pp. 273-
273.
188
Idem, ibidem, pp. 273-274.Veja-se ainda MARIO RAMOS PEREIRA DA SILVA, O Regime dos Direitos Sociais na Constituição
Cabo-verdiana de 1992, ob. cit., pp-102-105.
189
Vide CARLOS VEIGA, «Os Direitos Sociais na Constituição de Cabo Verde, de Mário Ramos Pereira da Silva», ob. cit., p. 274.Vide
ainda MARIO RAMOS PEREIRA DA SILVA, O REGIME dos Direitos Sociais na Constituição Cabo-verdiana de 1992, ob. cit., pp.
105-108.
190
Cfr. CARLOS VEIGA, «Os Direitos Sociais na Constituição de Cabo Verde, de Mário Ramos Pereira da Silva», ob. cit., p.274.

60
“eficiente”; o sistema nacional de educação tem de “integrar instituições públicas e privadas”;
e o sistema nacional de saúde deve assentar numa rede “adequada” de serviços;191
O incentivo e apoio aos privados na efetivação dos direitos sociais: Mário Silva
realça que a Constituição não só permite a intervenção de privados na realização dos direitos
sociais, como impõe ao Estado um conjunto de incumbências, de forma a que essa intervenção
seja uma realidade, obrigando-o, conforme os casos, a “apoiar”, “incentivar”, “fomentar” e
“regular” tal intervenção.192
A participação, colaboração e cooperação dos interessados e da sociedade civil na
realização dos direitos sociais, abrangendo não só a gestão dos serviços, mas a própria
definição das politicas públicas de concretização desses direitos – traduzindo a opção da
Constituição por uma efetivação não autoritária e não estatizante, mas participada e concertada
dos mesmos193.Aliás, sublinha Mário Silva, a ideologia participativa está disseminada por toda
a Constituição, através de uma grande variedade de situações, em que a participação ou é vista
como direito, ou como incumbência do Estado, ou como fim, ou como principio estruturador
da Administração.194
A imposição ao Estado do dever de fiscalização dos sistemas públicos e privados de
efetivação dos direitos sociais.
Mário Silva aborda ainda a questão da proibição do retrocesso social, concluindo que
esse princípio não está consagrado na Constituição, mas pode operar, em conexão com a
inconstitucionalidade por omissão, para evitar a revogação pura e simples de um ato legislativo
que concretize um direito social. Ou seja, se não é proibido pela Constituição reduzir o
conteúdo de um direito social já concretizado pelo legislador ordinário, será inconstitucional
revogar o ato legislativo que efetivou essa concretização sem a substituir por outra.195”

191
Idem, ibidem. Veja-se, mais desenvolvidamente, MARIO RAMOS PEREIRA DA SILVA, O Regime dos Direitos Sociais na
Constituição Cabo-verdiana de 1992, ob. cit., pp. 113-115.
192
Cfr. CARLOS VEIGA, «Os Direitos Sociais na Constituição de Cabo Verde, de Mário Ramos Pereira da Silva», ob. cit., p.274.Para mais
desenvolvimento sobre o assunto, veja-se MARIO RAMOS PEREIRA DA SILVA, O Regime dos Direitos Sociais na Constituição
Cabo-verdiana de 1992, ob. cit., pp.115-117.
193
Num sentido próximo, veja-se «WLADIMIR BRITO, «Que Estado Para Cabo Verde?», ob. cit., p. 298.
194
Vide CARLOS VEIGA, Os Direitos Sociais na Constituição de Cabo Verde, de Mário Ramos Pereira da Silva», ob. cit., pp.274-275.Para
mais desenvolvimento, cfr. MARIO RAMOS PEREIRA DA SILVA, O REGIME dos Direitos Sociais na Constituição Cabo-verdiana
de 1992, ob. cit., pp. 117-119.
195
Cfr. CARLOS VEIGA, «Os Direitos Sociais na Constituição de Cabo Verde, de Mário Ramos Pereira da Silva», ob. cit., p. 275.Para
mais desenvolvimento sobre a proibição do retrocesso social, veja-se MARIO RAMOS PEREIRA DA SILVA, O Regime dos Direitos
Sociais na Constituição Cabo-verdiana de 1992, ob. cit., 54-56 e 119-122.

61
Concluindo este ponto, tendo em conta tudo que o que se expôs acima, parece-nos,
salvo o devido respeito, que o quadro legal atualmente existente em Cabo Verde não permite
dizer, a priori, que o recurso de amparo serve para tutelar os direitos económicos sociais e
culturais.
De facto, tando a Constituição da República (artigo 20.º), como a própria Lei do
Amparo e as outras leis ordinárias existente são omissas nessa matéria.
Contudo, pensa-se que não se pode menosprezar as considerações que a doutrina tem
feito a esse respeito e, não menos importante, o próprio direito comparado196.
Portanto, a nossa resposta a essa questão: “É possível socorrer-se ao recurso de
amparo para a tutela dos direitos económicos, sociais e culturais?” é um não, mas…!
Não, desde logo, como já se disse, porque não há um suporte jurídico coerente que
suportaria uma resposta afirmativa, nem há na doutrina cabo-verdiana nenhum autor que
defende esta posição, e, mais, na praxis constitucional cabo-verdiana, salvo erro, nunca
ninguém ousou pedir ao Supremo Tribunal (Constitucional) que tutelasse alguns dos seus
DESC através do recurso de amparo.
De facto, parece-nos forçoso afirmar, a priori, que o recurso de amparo serve para esse
efeito, posto que não existe um quadro legal que o permite, sem olvidar que o Estado de Cabo
não tem, neste momento, condições para suportar os custos elevadíssimos de todos esses
direitos (Saúde, Educação, Habitação condigna a todos, Segurança Social, etc.).
Por isso mesmo, em abono da verdade, para não se afrontar o Estado a prestar aquilo
que ele realmente não consegue, não porque não quer, mas porque, realisticamente, não pode,
financeiramente, dado que esses direitos pressupõe uma intervenção ou prestação positiva,
somos da opinião que o amparo não serve para esse efeito, sendo certo que, como tivemos a
oportunidade de dizer e como veremos de seguida, há casos em que mesmo assim esses
direitos devem ser salvaguardados.
Mas, por outro lado, pensamos que não se pode hoje fugir a esse debate, tendo em
conta as posições bem fundamentas por certas doutrinas, bem como o direito comparado. Isto
porque, de facto, os DESC também são direitos fundamentais assim como os DLGs e, sendo
assim, merecem ter uma tutela adequada e reforçada, quanto mais não seja quando estejamos
perante situações que se ligam com a dignidade da pessoa humana.

196
Como pode ver-se, quando se disse que o recurso de amparo poderia, com base no argumento que se apresentou, servir para tutelar
os DESC, não foi uma posição que se tomou, mas sim limitou-se a apresentar a posição dos autores que defendem essa tutela.

62
Neste contexto, se afirmamos, por agora, que o amparo não serve para esse efeito por
causa das razões apontadas – exclusão dos atos normativos/legislativos pela lei de amparo e a
escassez de recursos financeiros –, pensamos, em alternativa, que deve-se começar a pensar,
em Cabo Verde, em instituir outros mecanismo alternativos para esse efeito, embora não
acreditamos que exista mecanismo que possa ter mais eficácia que o amparo, pelas razões
acima referidas. Ou seja, como se disse e em conclusão, ou se alarga o âmbito do amparo por
forma a tutelar esses direitos ou se institucionaliza o mecanismo de inconstitucionalidade por
omissão. (Daí o mas)
Note-se, aliás, que, do nosso ponto de vista, isto faz cada vez mais sentido em Cabo
Verde, pois estamos a viver um momento paradoxal em que os cidadãos estão a sentir a
necessidade de ter mecanismos mais eficazes para se proteger dos seus próprios
representantes/Poder legislativo, eleitos para a defesa dos seus interesses (da coletividade, do
bem comum), mas que, na verdade, têm defendido os interesses de grupos, dos partidos
políticos, para não dizer interesses pessoais, em detrimento dos interesses do povo.
Entendemos que o oportunismo da classe política e dos decisores que está aos olhos
de todos neste momento viola esses direitos, na exata medida em que o Estado não está a
conseguir satisfazer muitos desses direitos não por causa da escassez de recursos, mas sim por
causa da má distribuição dos mesmos, falta de comprometimento com o bem comum,
irracionalidade nos gastos públicos, etc., o que tem provocado gritantes desigualdades sociais,
onde alguns vivem numa realidade que, do nosso ponto de vista, não é a cabo-verdiana,
enquanto a maioria padece de necessidades básicas, sem ninguém que, com o sentimento de
interesse público, cuide de tentar as resolver. Urge pôr cobro a essa situação!
Daí que entendemos que os cidadãos devem poder atacar, diretamente, os atos
legislativos/normativos, violadoras dos seus direitos fundamentais, dos interesses do Estado,
etc.
E, do nosso ponto de vista e salvo o devido respeito, isto não viola nenhum princípio
do Estado de Direito Democrático, antes pelo contrário, na exacta medida em que o poder
reside no povo, como diz a Constituição.
Portanto, se o poder pertence ao povo, deve-se-lhe facultar todas as possibilidades de
“sindicalizar” os atos dos seus representantes que violam o contrato de mandato celebrado.
No contexto do que acabamos de expor, parece-nos ser útil transcrever o disposto no
artigo 22.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem a propósito dos direitos
económicos, sociais e culturais, instrumento que, como se lê no preâmbulo, foi proclamada

63
pelas Nações Unidas, com o ensejo de servir “como ideal comum a atingir por todos os povos
e todas as nações (…) ”. Com efeito, segundo este inciso “Toda a pessoa, como membro da
sociedade, tem direito à segurança social; e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos
económicos e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação
internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país.

CAPÍTULO II – O RECURSO DE AMPARO CONSTITUCIONAL


Importa começar este ponto por dizer que a temática do recurso de amparo197,
como diz-nos Catarina Santos Botelho 198 , desde cedo atraiu a curiosidade de alguma
doutrina nacional e estrangeira e, como vimos, foi objeto de várias tentativas malogradas
de consagração constitucional em Portugal199 e em vários outros países.
Note-se que o recurso de amparo, tal como o conhecemos hoje, sofreu, ao longo
da história, uma evolução muito interessante. Por isso, antes de entrar propriamente no
conceito deste recurso, importa, em breves notas, trazer a colação os seus
“antecedentes”200.
Neste contexto, no foral do reino de Aragão ( fueros de Aragon), como nos dá
conta Cantaria Santos Botelho 201 , durante a Idade Média existia uma instituição
denominada «Justicia Mayor”, instituição essa que tinha como principal objetivo proteger
os indivíduos, “tanto perante as autoridade públicas, como perante os tribunais”.
Não obstante a sua abolição em 1716, a “Justicia Mayor” acabou por ser
“exportada”202 para as colonias espanholas, ficando, como nos avança a mesma autora,
sob a responsabilidade do Vice –Rei.

197
Em Espanha, Picazo Gimenéz, para demonstrar a importância do recurso de amparo disse que “yo creo que la Constitución
española, tal como há sido aplicada hasta ahora, sería reconocible sin el recurso o la cuestión de inconstitucionalidade; pero no
sería la misma sin el recurso de amparo”. Para mais desenvolvimento, cfr. LUIS MARIA DIEZ PICAZO GIMENÉZ, «Dificultades
practicas y significado constitucional del recurso de amparo», in REDC, n.º 14, año 40, enero-abril, 1994, Centro de Estudos
Constitucionales, Madrid, p. 37, apud CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e
Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., p. 214.
198
Cfr. CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística
das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., pp.147-148.
199
Sobre a inexistência de amparo em Portugal, além das obras acima citadas, veja-se PAULO CARDINAL, «O Amparo de Direitos
Fundamentais No Direito Comparado e No Ordenamento do Macau», in Revista Jurídica de Macau, Janeiro/Abril, 1996, pp. 68-72.
200
Num sentido próximo, veja-se a “Pré-História” do amparo em WLADIMIR BRITO, «O Amparo Constitucional», ob. cit. 10-
11.Para mais desenvolvimento sobre a pré-história, história, conceito e natureza jurídico do recurso de ampara, por todos, idem,
ibidem, pp. 10-30.
201
Cfr. CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística
das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., p. 214.
202
Idem, ibidem.

64
Com a independência do México surgiram debates sobre a oportunidade da
criação de um instituto particular de proteção dos direitos do homem designado de
«amparo», que acabou por integrar a Constituição mexicana de 1917203. Foi nestes termos
e com esta designação, que o recurso de amparo acabou por regressar às suas origens, ou
seja, a Espanha, através da Constituição de 1931, que, no seu artigo 121.º, al. b), instituía
o recurso de amparo de garantias individuales204 como uma das competências do então
recém-criado Tribunal de Garantias Constitucionais da Segunda República espanhola.
Tendo dito isto, importa concluir dizendo, com a autora acima citada 205 , que
quando a Constituição Espanhola de 1978206 “decidiu positivar o recurso de amparo –
como instrumento de proteção específica dos direitos fundamentais – teve como fontes
inspiradoras o amparo mexicano 207 , a Constituição precedente de 1931, o modelo de
Verfassungsbeschwerde alemã e das Beschwerden suíça e austríaca208

203
Idem, ibidem, p. 215.Para mais desenvolvimento sobre a influência mexicana no recurso de amparo espanhol, veja-se HÉCTOR
FIX-ZAMUDIO, «El recurso de amparo y la suspensión de las garantias», in REP, Núm.7, Enero-Febrero 1979, Centro de Estudios
Constitucionales, Madrid, pp. 227-267.pp. 245-248, apud CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos
Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., p.
215.
204
Note-se que muitos dos autores espanhóis são da opinião que o sucesso do recurso de amparo espanhol deve-se a dois fatores: por
um lado e em primeiro lugar, à presença neste país de RODOLFO REYS (jurista mexicano), que divulgou o instituto de amparo (no
mesmo sentido vide WLADIMIR BRITO, «O Amparo Constitucional», ob. cit., p.15, nota 25); e, por outro lado e em segundo lugar,
ao contributo Kelseniano que defendia a existência de um órgão, separado do poder judicial, que assumiria o monopólio do controlo
da constitucionalidade. Todavia, este precedente do atual recurso de amparo, como nos dá conta Catarina Santos Botelho, não deixava
de apresentar algumas deficiências, sintetizadas por ROSARIO TUR AUSINA. (Cfr. CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela
Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e
Internacional, ob. cit., p. 215, nota 843 e todas as obras ali citadas).
Sublinhe-se que não obstante o exposto, na esteira da mesma autora acima referida, o sucesso deste mecanismo foi
diminuto, uma vez que, além da legislação ordinária ter limitado o objeto desta recurso (o que aconteceu também em Cabo Verde,
como se viu), não chegaram a criar os Tribunais de Urgência que serviriam para conhecer em primeira instância do recurso de amparo
(Idem, ibidem).
205
Idem, ibidem, p. 216.
206
Neste particular, Wladimir Brito, discorrendo sobre a história do amparo em Espanha, diz-nos que “Só com a Constituição de 1789
é que o amparo reaparece como um verdadeiro meio de defesa de direitos fundamentais, consubstanciando num recurso a interpor no
Tribunal Constitucional e que é apreciado em definitivo nesta única instância. Agora, ao contrário do que acontecia com o modelo
consagrado na Constituição de 1931, em que tinha sido adotado um sistema difuso de recurso, o novo modelo constitucional consagra
um sistema concentrado”. Para mais desenvolvimento, vide WLADIMIR BRITO, «O Amparo Constitucional», ob. cit. 15.
207
Para maior desenvolvimento sobre o amparo mexicano, veja-se WLADIMIR BRITO, «O Amparo Constitucional», ob. cit. 11-12;
HÉTOR FIX -ZAMUDIO, « Evolución y perspectivas del derecho de Amparo Mexicano y Su Proycción Supranacional», in Revista
Jurídica de Macau, N.º Especial, O Direito de Amparo Em Direito Comparado, 1999, pp. 12-20 e PAULO CARDINAL, «O Amparo
de Direitos Fundamentais No Direito Comparado e No Ordenamento do Macau», ob. cit., 55-56.
208
Note-se que, como aliás veremos mais a frente, a influência de juicio de amparo mexicano se expandiu aos países latino-americanos,
máxime, Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá, Paraguai,
Peru e Venezuela. No entanto, não obstante essa expansão, muitos autores entendem que “o amparo mexicano possui diferença
significativas em relação ao amparo espanhol. Em particular, a amplitude do campo de competência de juicio de amparo no México

65
Pois bem, chegados aqui, urge agora trazer à colação a noção do recurso de
amparo que nos é apresentado por vários doutrinadores, que, como ver-se-á de seguida,
conduzem a mesma ideia209: mecanismo que serve para tutelar os direitos fundamentais
perante as violações dos poderes públicos210. Assim:
Segundo Wladimir Brito211, “ O Amparo pode ser definido lato sensu como uma
garantia Constitucional à tutela jurisdicional de direitos e liberdades fundamentais.
Garantia constitucional que tem natureza complexa, exatamente porque é,
simultaneamente, um direito fundamental constitucionalmente reconhecido e
assegurado ao homem, considerado individualmente e inserido em grupos socio-
funcionalmente diversificado – grupo socioeconómico, sociocultural, sócio politico, etc.
– o que sob o ponto de vista jurídico consubstancia o conceito de pessoas singular (o
homem, enquanto individuo-cidadão) e de pessoa colectiva, e, de seguida, um
instrumento fundamental de proteção desse direito, que visa garantir e assegurar plena
fruição. Numa palavra é um bem jurídico constitucionalmente tutelado.”
Hector Fix-Zamudio 212 , não obstante ter começado a sua explanação sobre o
recurso de amparo por dizer que “Es muy complicado hacer una descripción de una
institución tan compleja como e sen la actualidad el juicio de amparo mexicano, que ha
servido de paradigma para el establecimiento y la regulación de otros instrumentos
similares de protección de los derechos humanos, especialmente en latinoamérica, pero

separa-o conceptual e institucionalmente do recurso de amparo espanhol, pois o amparo mexicano é bastante mais extenso e complexo,
abarcando em si o habeas corpus, um tipo de recurso de inconstitucionalidade, o «amparo cassação», impugnação de atos e resoluções
da Administração e o «amparo social agrário». Cfr. CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais,
Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., p. 216.
209
De facto, segundo André Mauro Lacerda Azevedo (Vide ANDRÉ MAURO LACERDA AZEVEDO, O Recurso de Amparo
Espanhol, texto publicado em 9 de agosto de 2011 20:06 - Atualizado em 13 de agosto de 2011 19:14, disponível em
http://atualidadesdodireito.com.br/andremauro/2011/08/09/o-recurso-de-amparo-espanhol/ ) e como dissemos já, o amparo
constitucional é hoje uma realidade multinacional, enraizada no sistema constitucional de diversos países, tais como Espanha,
Alemanha e Argentina, o que reforça a sua importância enquanto mecanismo de proteção dos direitos fundamentais.
No entanto, os seus elementos característicos e sua base normativa viriam a depender do modelo analisado, mas sem perder
de vista a sua essência e seus postulados mais fundamentais.
210
Num sentido próximo, cfr. ainda PAULO CARDINAL, «O Amparo de Direitos Fundamentais No Direito Comparado e No
Ordenamento do Macau», ob. cit., p. 53, quando diz que “Amparo é, por um lado, uma designação que não encontra como
correspondente um único e claramente recortado instituto jurídico processual; é, outrossim, uma designação abrangente de diversos
meios processuais, que, de denominador comum, têm a finalidade de: defesa – a título principal – de direitos fundamentais (ofendidos
ou tão só, ao menos em determinados sistemas jurídicos, ameaçados”.)
211
Para mais desenvolvimento sobre o “Conceito de Amparo Constitucional”, veja-se WLADIMIR BRITO, «O Amparo
Constitucional», ob.cit., pp. 19-23.
212
Veja-se HÉTOR FIX -ZAMUDIO, « Evolución y perspectivas del derecho de Amparo Mexicano y Su Proycción Supranacional»,
ob. cit., p. 11.

66
también em España y otros países, así como en vários instrumentos internacionales.Sin
embargo la institución ha sufrido transformaciones esenciales en la legislación mexicana
que lo apartan del modelo original”, vem nos dizer no terceiro paragrafo da introdução
do seu artigo acima referido213, incindindo sobre o recurso de amparo mexicano, que “ el
derecho de amparo en México es um medio de impugnación de los atos y resoluciones
tanto de las autoridades legislativas, como de la administración y de todos los tribunales
del país, por lo que se ha apartado de manera considerable de su concepión original”
Por seu turno, André Mauro Lacerda Azevedo 214 , diz-nos que “o recurso de
amparo é um instrumento de garantia dos direitos fundamentais vulnerados por ações ou
omissões do Legislativo, Executivo e Judiciário. A utilização do amparo constitucional
tem por escopo resguardar os direitos fundamentais e uniformizar a política jurisdicional
de proteção a estes mesmos direitos, conferindo tal mister ao tribunal encarregado de
exercer a jurisdição constitucional. A existência do recurso de amparo se justifica diante
da necessidade impediente em não apenas se reconhecer determinados direitos como
essenciais à vida humana, mas sim o de fazer garantir estes direitos a todos e protegê-los
de qualquer tipo de violação ou ameaça decorrente da ação ou omissão dos poderes
públicos. É assim, portanto, instrumento constitucional destinado a assegurar a
efetividade dos direitos fundamentais”.
Posto isto, nunca é demais frisar que, em Cabo Verde, o recurso de amparo tem
previsão constitucional no art. 20.º da Constituição Cabo-verdiana. Além disso, o artigo
215.º estabelece algumas regras acerca do processo e julgamento do amparo
constitucional. Outrossim, este recurso tem toda a sua tramitação processual, como
referido, na Lei n.º 109/IV/94, de 24 de Outubro, nos artigos 1.º a 25.º.

213
Idem, ibidem, p. 12.
214
Cfr. ANDRÉ MAURO LACERDA AZEVEDO, O Recurso de Amparo Espanhol, texto publicado em 9 de agosto de 2011 20:06 -
Atualizado em 13 de agosto de 2011 19:14, disponível em http://atualidadesdodireito.com.br/andremauro/2011/08/09/o-recurso-de-
amparo-espanhol/.

67
2.1. O Recurso de Amparo Constitucional no Direito Comparado
Como primeira nota215, importa dizer, com Catarina Santos Botelho216, que no
direito comparado217 subsistem relevantes diferenças quanto ao modo de funcionamento
do recurso de amparo, em especial, quantos aos direitos e liberdades tutelados,
relativamente a tramitação processual, legitimidade e, por último, no que respeita ao
órgão incumbido de decidir sobre o recurso de amparo (Tribunal Constitucional, Sala
Constitucional de um Tribunal Supremo, ou os Tribunais Supremos)218.
No âmbito preciso dos assuntos teóricos vertidos em epígrafe, como exemplo de
Estados que atribuem competência para conhecer os recursos de amparo a Salas
Constitucionais, pode apontar-se a Costa Rica, as Honduras, a Nicarágua, o Paraguai,
Salvador e Venezuela219.
Por outro lado, como exemplo de Estados que atribuem competências aos
Tribunais Supremos podemos apontar a Argentina, o Brasil, o México, o Panamá, a
República Dominicana e o Uruguai220.
Posto isto, como segunda nota, cumpre dizer que nem todos os Estados permitem
a queixa constitucional contra decisões judiciais, tais como a Correia do Sul, alguns
Estados Latino-americanos, a Polónia, a Hungria e a Rússia221.
Não obstante essas diferenças acima referidas, verifica-se que a esfera de
incidência constitucional deste mecanismo se tem vindo a globalizar222.Senão vejamos:

215
Não vamos tratar o recurso de amparo no direito internacional. Contudo, esta matéria pode ser vista em WLADIMIR BRITO, «O
Amparo Constitucional», ob.cit., p. 16 e HÉTOR FIX -ZAMUDIO, «Evolución y perspectivas del derecho de Amparo Mexicano y
Su Proycción Supranacional», ob. cit., pp. 37-39, num ponto sob a epígrafe “El amparo en los tratados insternacionales”.
216
Cfr. CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística
das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., p. 89.
217
Para maiores desenvolvimentos sobre as várias vantagens do estudo de Direito comparado, que começou a manifestar-se sobretudo
no seculo XIX, através da criação da société de législation Comparé (1869), em França (Paris), idem, ibidem, p. 163, nota 598.
218
A este respeito, Catarina Santos Botelho, começando por realçar que “Historicamente, o recurso de amparo tem-se revelado um
instrumento de enorme eficácia na proteção de direitos fundamentais”, diz-nos, que “não deixa de ser peculiar notar que nem todos os
Estados o receberam como competência dos Tribunais constitucionais, e aqueles que o introduziram fizeram-no essencialmente por
razões históricas e politicas”. (Idem, ibidem, p. 86)
219
Idem, ibidem, nota 291.
220
Idem, ibidem. Ora, como se sabe, também em Cabo Verde essa competência pertence ao STJ, como veremos mais frente.
221
Idem, ibidem, pp. 90, nota 291.
222
Idem, ibidem, p. 86. De facto, na esteira de André Mauro Lacerda Azevedo e como dissemos já, o amparo constitucional é hoje
uma realidade multinacional, enraizada no sistema constitucional de diversos países, tais como Espanha, Alemanha e Argentina, o
que reforça a sua importância enquanto mecanismo de proteção dos direitos fundamentais.
No entanto, os seus elementos característicos e sua base normativa viriam a depender do modelo analisado, mas sem perder
de vista a sua essência e seus postulados mais fundamentais. Cfr. ANDRÉ MAURO LACERDA AZEVEDO, O Recurso de Amparo

68
De facto, no espaço europeu, podemos apontar a Alemanha 223 , a Áustria224 , a
Espanha225 e a Suíça226.Sublinhe-se que, mais recentemente, como nos dá conta Catarina
Santos Botelho227, foi sendo introduzido nos países da Europa Central, Oriental e da ex-

Espanhol, texto publicado em 9 de agosto de 2011 20:06 - Atualizado em 13 de agosto de 2011 19:14, disponível em
http://atualidadesdodireito.com.br/andremauro/2011/08/09/o-recurso-de-amparo-espanhol/.
223
Para uma síntese sobre o recurso de amparo na Alemanha, por todos, veja-se WLADIMIR BRITO, «O Amparo Constitucional»,
ob. cit. p. 14.
224
Note-se que o recurso de amparo austríaco tem uma particularidade muito interessante. De facto, como nos dá conta Catarina
Santos Botelho, a Constituição austríaca de 1920 concebia a queixa constitucional como um mecanismo alternativo à via processual
administrativa, pelo que o seu objeto, como diz, “consistia somente no controlo de atos administrativos lesivos de direitos
fundamentais constitucionalmente reconhecidos, após o esgotamento da via administrativa”.Com a revisão ocorrida em 1975 o objeto
da queixa foi alargado, sendo que atualmente a Constituição desse país (cf. artigo 144.º, n.º1) acolhe também o controlo de atos
normativos que diretamente violem tais direitos. Dito isto, como podemos intuir, o artigo em causa prevê que o recurso de amparo
apenas pode ter por objeto as decisões das autoridades administrativas, “na medida em que o recorrente tenha sido lesado pela violação
de um direito protegido na Constituição, ou por aplicação de um regulamento ilegal, de uma lei inconstitucional ou de um tratado
internacional desconforme com o direito”.
Ora, do exposto resulta ainda que os atos do poder judicial ficam de fora do âmbito do recurso de amparo, ou seja, esses
não poderão ser atacados mediante este mecanismo, contrariamente do que acontece em Cabo Verde, onde os “atos” do poder judicial
podem ser atacados, claro está, só depois de estarem preenchidos certos pressupostos, como vimos e como veremos com mais
pormenor mais a frente. Não obstante o exposto, Catarina Santos Botelho entende que, no entanto, tal limitação da queixa
constitucional austríaca é matizada pelo facto de não ser exigido, ao contrário do que acontece na Alemanha e em Espanha,
acrescentando nós em Cabo Verde, a exaustão das vias ordinárias de recurso para intentar a queixa. Em suma, o recurso de amparo
nesse país é independente. (para mais desenvolvimento, veja-se CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos
Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., p.
“86, nota 258)
225
Para mais desenvolvimento sobre como o amparo entrou na ordem jurídica espanhola, veja-se, por todos, WLADIMIR BRITO,
«O Amparo Constitucional», ob. cit., pp. 19-20
226
Para mais desenvolvimento, idem, ibidem, p. 15 e 16 e toda a bibliografia ali citada. Em acréscimo, importa dizer ainda que, no
que diz respeito a Suíça, Catarina Santos Botelho, apesar de começar por destacar que “A Constituição Federal Suíça de 1874
consagrou no seu artigo 189.º, n.º 1, um recurso de direito público similar aos estabelecidos na Alemanha e na Áustria, que foi
regulamentado e desenvolvido pelos artigos 84.º a 96.º da Bundesgesets uber die Organisation der Bundesrechtliche (Lei de
Organização Judicial Federal), de 16/12/1943, diz-nos, no entanto, que “Num primeiro relance, esta staatsrechtspflege Beschwers
possui, em termos de direito, um objeto pouco amplo, na medida em que está apenas prevista para os atos cantonais (da autoridade
pública de cada cantão/Estado Federado), o que exclui todos os atos do poder legislativo, administrativo ou judicial do Estado Federal.
(os sublinhados são nossos).Para maior desenvolvimento, ver CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos
Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., p. 87,
nota 260 e a doutrina ali citada.
227
Cfr. CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística
das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., p. 87

69
União Soviética228, tais como a Albânia229, a Croácia230, a Eslováquia231, a Eslovénia232,
Hungria233, Montenegro234, a Polónia235, a República Checa236, a Rússia237 e a Sérvia238.
Importa ainda realçar que este mecanismo está previsto em mais de uma dezena
(16) de Estados latino-americanos, a saber: a Argentina 239 , Bolívia 240 , o Brasil 241 , o
Chile242, a Colômbia 243, a Costa Rica 244, Equador 245, o Salvador246, a Guatemala247 ,
Honduras248, México249, Nicarágua250, Panamá251, Paraguai252, Peru253 e Venezuela254.

228
Para maior desenvolvimento sobre o recurso constitucional de amparo nos países da Europa de Leste, veja-se, por todos JOAQUIM
BRAGE CAMAZANO, «Una Visión Panorámica del Recurso Constitucional de Amparo en los Países de la Europa del Este (
Chequia, Croacia, Eslovaquia, Eslovenia, Hungría, Macedonia, Polonia e y Rusia)», in REP, Núm.128, Abril-Junio, 2005, Centro de
Estudios Constitucionales, Madrid, pp. 193-220, apud CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos
Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., p. 87,
nota 261.
229
Cfr. artigo 131.º, ali. i), da Constituição Albanesa – 1998.
230
Cfr. artigo 128.º, par. 4, da Constituição da Croácia – 1990.
231
Cfr. artigo 127.º, n.º1, da Constituição da Eslováquia – 1992.
232
Cfr. artigo 160.º, n.º 1, par. 6, da Constituição da Eslovénia – 1991.
233
Cfr. artigo 64.º da Constituição húngara – 1949, “ que contempla a possibilidade genérica de se apresentarem petições e queixas
perante tribunal constitucional (Az Alkotmmánybíróság)”.Idem, ibidem, nota 266.
234
Cfr. artigo 149.º, n.º 3, da Constituição da República de Montenegro – 2007.
235
Cfr. artigo 79.º, n.º 1, da Constituição da Polonia – 1997
236
Cfr. artigo 87.º, n.º 1, ali. d), da Constituição da República Checa – 1992.
237
Cfr. artigo 125.º, n.º 4, da Constituição da República da Rússia, “ que prevê a possibilidade de o Tribunal Constitucional da
Federação russa, nos recursos relativos à violação dos direitos e liberdades constitucionais e a pedido dos tribunais, verificar a
inconstitucionalidade da lei aplicada ou aplicável num caso concreto”. Idem, ibidem, nota 270.
238
Cfr. artigo 170.º da Constituição da República da Sérvia – 2006.
239
Cfr. artigo 43.º da Constituição Nacional da República da Argentina – 1994.
240
Cfr. 19.º da Constituição Política da República da Bolívia – 1967.
241
Cfr. artigo 5.º, LXIX, da Constituição da República Federativa do Brasil – 1988.
242
Cfr. artigo 20.º da Constituição Política da República do Chile – a vigorar desde 1981.
243
Cfr. artigo 86.º da Constituição Política da República da Colômbia – 1991.
244
Cfr. artigo 48.º da Constituição Política da República de Costa Rica – 1949.
245
Cfr. artigo 175.º, n.º 3, da Constituição Politica da República do Equador – 1996.
246
Cfr. artigo 247.º da Constituição Politica da República de Salvador – 1983. Note-se que este recurso de amparo é conhecido pelo
Supremo Tribunal de Justiça (Sala de lo Constitucional).Idem, ibidem, p. 88, nota 279.
247
Cfr. artigo 265.º da Constituição da República da Guatemala – 1985.
248
Cfr. artigo 183.º da Constituição Politica da República das Honduras – 1982.
249
Cfr. os artigos 103.º, n.º 1 e 107.º da Constituição da República do México – 1917.
250
Cfr. artigos 45.º e 188.º da Constituição Politica da República da Nicarágua – 1987.
251
Cfr. artigo 50.º da Constituição Politica do Panamá – 1972.
252
Cfr. artigo 77.º da Constituição da República do Paraguai – 1967.
253
Cfr. artigo 200.º, n.º 2, da Constituição Política do Peru – 1993.
254
Cfr. artigo 27.º da Constituição Bolivariana da Venezuela – 1999.

70
Finalmente, ainda que numa escala mais reduzida, nas palavras da autora acima
citada255, este mecanismo expandiu-se também para aos continentes africano e asiático,
particularmente para Cabo Verde256, Correia do Sul257 e Macau258.
Com base no exposto pode ver-se, como acima se disse, que este mecanismo está
a globalizar-se259. Assim, importa concluir dizendo, em síntese, que o recurso de amparo,
a partir da experiencia mexicana, mas sob a influencia do judicial review norte-
americano, como nos dá conta Wladimir Brito 260, historicamente impôs-se nos países
latino-americanos como um instrumento “indispensável na ordem jurídica desses países
e considerado imprescindível para a defesa dos direitos individuais dos seus cidadãos.”261

2.2. O recurso de Amparo Constitucional na Ordem Jurídica Cabo-verdiana


Segundo Paulo Cardinal 262 , “do universo dos sistemas jurídicos lusófonos 263 ,
extraem-se três exemplos de meios de amparo de direitos fundamentais, ou seja, no Brasil,
em Cabo Verde e em Macau264”.

255
Idem, ibidem, p. 88.
256
Cfr. artigo 20.º, n.º 1, e 219.º, n.º 1, ali. e), da Constituição da República de Cabo Verde (de 1992, tendo sofrido uma profunda
revisão constitucional em 1999, pela Lei Constitucional n.º 1/V/99, de 23 de Novembro (note-se que antes, em 1995, já tinha sido
objeto de uma revisão extraordinária), bem como em 2010 – que foi última revisão. Sobre a evolução da Justiça Constitucional e sobre
a Constituição que antecedeu a Constituição de 1992, veja-se supra, ponto 1. Para mais desenvolvimento sobre “As Constituições de
Cabo Verde”, veja-se, por todos, MARIO RAMOS PERREIRA DA SILVA, As Constituições de Cabo Verde e Textos Históricos de
Direito Constitucional Cabo-verdiano, 3ª Edição, Edições ISCJS, Imprensa Nacional de Cabo Verde, Praia, Maio de 2014.
257
Cfr. artigo 111.º, n.º 1 (5), da Constituição da Correia do Sul – 1948, que prescreve que o Tribunal Constitucional tem competência
para decidir as petições que lhe forem enviadas relativamente a matéria constitucional.
258
Cfr. artigo 17.º da Lei n.º 112/91, de 29 de Agosto. Na doutrina, sobre este mecanismo, veja-se, entre outros, CATARINA SANTOS
BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Germanística das Justiças Constitucional,
Administrativa e Internacional, ob. cit., p. 88, nota 200.º e HÉCTOR FIZ-ZAMUDIO, «Evolución y Perspectivas del Derecho de
Amparo Mexicano y su Proyección Supranacional», ob. cit., p. 36.
259
Para mais desenvolvimento sobre o recurso de amparo no direito comparado, veja-se PAULO CARDINAL, «O Amparo de Direitos
Fundamentais No Direito Comparado e No Ordenamento do Macau», ob. cit., pp. 54-72.
260
Cfr. WLADIMIR BRITO, «O Amparo Constitucional», ob. cit., p. 16.
261
Idem, Ibidem.
262
Veja-se PAULO CARDINAL, «O Amparo de Direitos Fundamentais No Direito Comparado e No Ordenamento do Macau», ob.
cit., p.66. Sobre a consagração Constitucional do Amparo na ordem jurídica de Cabo Verde, veja-se ainda Idem, «O Instituto do
Recurso de Amparo de Direitos Fundamentais e a Juslusofonia – Os Casos de Macau e Cabo Verde», ob. cit., pp. 116-117.
263
Para mais desenvolvimento sobre o recurso de amparo nos países de língua Portuguesa/Lusófonos, veja-se WLADIMIR BRITO,
«O Amparo Constitucional», ob.cit., pp. 17- 19 (Brasil, Cabo Verde e Portugal) e PAULO CARDINAL, «O Amparo de Direitos
Fundamentais No Direito Comparado e No Ordenamento do Macau», ob. cit, pp. 56-58 (Brasil), 65-66 (Cabo Verde), 68-72 (Portugal)
e Idem, «O Instituto do Recurso de Amparo de Direitos Fundamentais e a Juslusofonia – Os Casos de Macau e Cabo Verde», ob. cit.,
pp. 87-91, num ponto com a epígrafe “ (Quase) Ausência no Seio da Família Jus lusófona”, ressalvados os casos de Macau e Cabo
Verde.
264
Para mais desenvolvimentos sobre o amparo na ordem jurídica do Macau, cfr. PAULO CARDINAL, «O Amparo de Direitos
Fundamentais No Direito Comparado e No Ordenamento do Macau», ob. cit, pp. 92-115. Note-se que a LBOJM foi substituída por

71
No que se refere a Cabo Verde, importa dizer que o recurso de amparo, aprovado
pela lei de amparo supra referida, veio concretizar a Constituição de 1992, pois, como se
sabe, essa Constituição “incumbiu” ao legislador ordinário a tarefa de regular os aspetos
processuais desse (direito fundamental ao recurso de) amparo265, regulamentação essa
que ocorreu dois anos após a sua consagração constitucional266
Héctor Fix -Zamudio267 diz-nos que “Por lo que respecta al archipiélago de Cabo
Verde, antigua colonia portuguesa, el artículo 19 de la Constitución de 1992, que tine
como epígrafe “Tutela de los derechos libertades y garantias”, consagra expressamente
el recurso de amparo que se reconoce a todos los ciudadanos, los que tienen el derecho
de acudir al Supremo Tribunal de Justicia para solicitar la tutela de sus derechos,
libertades y garantias fundamentales reconocidos constitucionalmente, en los términos
de la ley.Se establecen como lineamientos de este instrumento, a) que sólo puede ser
interpuesto contra atos u omisiones de los poderes públicos lesivos de dichos derechos
fundamentales, después de haberse agotado las vias de recurso ordinário, y b) que el
citado recurso de amparo puede ser promovido por conducto un simples escrito y tiene
carácter urgente, por lo que su procedimento debe basarse en el pricipio de sumarieda”
Ora bem, transcrevendo também o que é o atual artigo 20.º da Constituição de
Cabo Verde, que foi revista pela última vez 2010, Paulo Cardinal 268 diz-nos que se
constata a relativa minúcia com que este meio de amparo se encontra estabelecido na
Constituição Cabo-verdiana, traçando-se, de imediato, o perfil desejado para o recurso
em questão.

um diploma da Região Administrativa Especial de Macau – Lei n.º 9/1999, “na qual, não figura o instituto do amparo de direitos. Não
obstante isto, o autor acima referido está convicto “da possibilidade de defender, com argumentos substanciais e convincentes, a
manutenção/continuidade do recurso de amparo, ainda que o «recurso de amparo» aparentemente desapareça dos textos legais”. Para
tanto, o autor entende que “há que se fazer apelo a princípios como o da continuidade do ordenamento jurídico, da sua manutenção
basicamente inalterado, do individuo mais favorecido (exposto no PIDCP e no PIDESC, do amparo internacional, entre outros). Para
mais desenvolvimentos, Idem, «O Instituto do Recurso de Amparo de Direitos Fundamentais e a Juslusofonia – Os Casos de Macau
e Cabo Verde», ob. cit., pp. 113-115).
265
Para maior desenvolvimento sobre a dimensão substantiva (“o amparo enquanto direito fundamental da pessoa humana) e a
dimensão processual (“o amparo enquanto garantia processual propriamente dita”), veja-se WLADIMIR BRITO, «O Amparo
Constitucional», ob. cit., pp. 20-30.
266
No mesmo sentido, veja-se WLADIMIR BRITO, «O Amparo Constitucional», ob. cit., p. 18, nota 39, quando diz que “Podemos
assim dizer que em Cabo Verde o Amparo Constitucional após ter sido acolhido pela Constituição de 1992 teve de aguardar
pacientemente a sua regulamentação durante dois anos”.
267
Cfr. HÉCTOR FIZ-ZAMUDIO, «Evolución y Perspectivas del Derecho de Amparo Mexicano y su Proyección Supranacional»,
ob. cit., p. 37.
268
Cfr. PAULO CARDINAL, «O Amparo de Direitos Fundamentais No Direito Comparado e No Ordenamento do Macau», ob. cit.,
p. 66.

72
Faz-se notar que não obstante a consagração constitucional deste recurso,
constata-se que, em Cabo Verde, muitos cidadãos precisam conhecer melhor este
mecanismo de capital importância na proteção dos nossos direitos fundamentais contra
as violações dos poderes públicos.
Isto porque, os cidadãos, para poderem exercer a sua cidadania plena, precisam
conhecer, ter consciência da importância e colocar em prática os seus direitos.
Não podemos nunca perder de vista que a nossa República baseia-se na dignidade
da pessoa humana, onde esta é considerada um valor absoluto e sobrepondo-se ao próprio
Estado.
Daí a importância do conhecimento do recurso de amparo que nos protege de todas
as violações dos poderes públicos lesivos dos nossos direitos fundamentais consagrados
na Constituição da República.

2.3. Análise da Lei n.º 109/IV/94, de 24 de Outubro sobre o recurso de amparo


Neste ponto vamos analisar a Lei de amparo, discorrendo sobre o seu âmbito
material de proteção, legitimidade, objeto, pressupostos, prazos, tramitação processual e,
por fim, debruçar-mos-emos sobre os efeitos do recurso de amparo.
Antecipando, importa dizer que esta análise permitir-nos-á responder, de forma
mais fundamentada, às várias questões que lançamos acima, quais sejam a de saber se as
pessoas colectivas têm ou não legitimidade para interpor o recurso de amparo; se houve
uma restrição legislativa do âmbito do recurso de amparo, etc.
Sem mais delongas, passemos então à análise da lei do amparo.
2.3.1 Âmbito Material de Proteção
Antes de mais, importa assinalar que a Constituição da República de Cabo Verde
prevê um sistema de direitos fundamentais 269 , diferenciando claramente os Direitos,
Liberdades e Garantias dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais, onde se pode
constatar também, salvo melhor entendimento, que os primeiros têm uma tutela mais forte

269
Sobre o Sistema de Direitos Fundamentais de Cabo Verde, veja-se JOSÉ PINA DELGADO e LIRIAM TIUJO DELGADO, O
Sistema Cabo-verdiano de Direitos Fundamentais – Notas de Aula, Praia, Cabo Verde, 2009.
Segundo JOSE DE MELO ALEXANDRINO “Sistema de direitos fundamentais é, acima de tudo, uma forma cómoda de
designar uma realidade particularmente complexa e heterogénea: a organização dos direitos desenhada numa Constituição em
concreto”. Para mais desenvolvimento sobre o que deve entender-se por sistema de direitos fundamentais, veja-se JOSE DE MELO
ALEXANDRINO, Direitos Fundamentais, Introdução Geral, ob. cit., p. 63.

73
quando comparados com os segundos, pois gozam da aplicabilidade directa e vinculam
todas as entidades Públicas e Privadas270.
De facto, sob este ponto de vista, importa dizer que não obstante não haver dúvidas
de que ambos são direitos fundamentais, não suscetível de hierarquização, como nos diz
Catarina Santos Botelho, o ponto é que, regra geral, enquanto os direitos, liberdades e
garantias podem ser postos em causa pela generalidade dos poderes públicos e pelos
particulares, os direitos sociais (que não possuam natureza análoga aos direitos,
liberdades e garantias) vinculam apenas o legislador271
Ora bem, não se pretende entrar, de novo, na discussão que tem dividido a doutrina
em vários países, como vimos acima quando tratamos a tutela dos direitos, liberdades e
garantias e dos direitos económicos, socias e culturais, mas achámos importante chamar
essa questão à colação para dizer que parece-nos que é de sufragar, salvo o devido
respeito, o entendimento de que o recurso de amparo só pode ser usado para a tutela dos
Direito, Liberdades e Garantias previstos na Constituição, bem como direitos análogos a
esses direitos (previstos também na Constituição).
Com efeito, segundo o disposto no artigo 20.º, n.1.º, da CRCV, “A todos os
indivíduos é reconhecido o direito de requerer ao Tribunal Constitucional, através de
recurso de amparo, a tutela dos seus direitos, liberdades e garantias fundamentais,
constitucionalmente reconhecidos272, nos termos da lei (…) ”.
Neste campo, preceitua ainda o artigo 2.º, n.º1, da LA, como veremos, que só
podem ser objeto de recurso de amparo a prática ou omissão de atos ou de factos,
qualquer que seja a sua natureza, a forma de que se revestem, praticados por qualquer
órgão dos poderes públicos do Estado, das autarquias locais e dos demais entes públicos
de carácter territorial ou institucional, bem como pelo seus titulares, funcionários ou

270
Neste sentido, no caso Português, segundo Catarina Santos Botelho, “A aplicabilidade directa dos direitos, liberdades e garantias,
tal como dos direitos de natureza análoga, implica uma tutela jurisdicional acrescida quando comparada com os direitos económicos,
sociais e culturas. ”Aliás, como diz a mesma autora, “a própria terminologia do legislador constituinte parece adotar esse caminho, ao
utilizar a expressão «direitos de» quando se refere aos direitos, liberdades e garantias e a designação «direitos a» para os direitos
sociais”. Cfr. CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica
Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., p. 113, nota 403; sobre o assunto, pode ver-se ainda
“ A divisão sistemática entre direitos, liberdade e garantia e direitos económicos, sociais e culturais”, em JOSE DE MELO
ALEXANDRINO, Direitos Fundamentais, Introdução Geral, ob. cit., pp. 43-47.
271
Idem, Ibidem.
272
Os negritos são nossos.

74
agentes que violem os direitos, liberdades e garantias fundamentais reconhecidos nos
termos da Constituição273.
E, por seu turno, o numero 3 do mesmo artigo referido, que parece-nos ser mais
claro, prescreve que “No recurso de amparo constitucional não pode ser feito valer
outra pretensão que não seja a de restabelecer ou de preservar os direitos, liberdades
ou garantias constitucionais referidos nos números anteriores.274
Exposto isto, podemos agora dizer que a grande questão consiste em saber que
direitos é que podem ser defendidos através do recurso de amparo. Serão apenas aqueles
direitos, liberdades e garantias previstos na Constituição, ou, pelo contrário, aceita-se que
se lance mão do amparo para a proteção de Direitos, Liberdades e Garantias consagrados
nas leis ou Convenções internacionais, não previstos na Constituição?
Ora, convém dizer que a resposta a essa questão não se afigura fácil, e que este
assunto tem gerado grandes divergências na doutrina de muitos países com mecanismo
idêntico ao nosso.
De todo o modo, importa dizer, antecipando, que na esmagadora maioria desses
países há uma preocupação com a delimitação do âmbito material de proteção275
No caso de Cabo Verde, sem mais delongas, do nosso ponto de vista, e salvo o
devido respeito, só se pode lançar mão do recurso de amparo para a tutela dos direitos,
liberdades e garantias previstas na Constituição, bem como os direitos de natureza
análoga aos Direitos, Liberdades e Garantias, desde que previstos na Constituição.276
Para suportar esta posição, pode lançar-se mão do artigo 8.º da LA, cuja epígrafe
é “Fundamentação do recurso”.
Ora, subjaz da leitura da alínea c) do número 1) desse artigo que na petição o
recorrente deverá “Indicar com clareza os direitos, liberdades e garantias
fundamentais que julga terem sido violados, com a expressa menção das normas ou
princípios jurídico-constitucionais que entende terem sido violados277.

273
Os negritos e os sublinhados são nossos.
274
Os negritos e os sublinhados são nossos.
275
Neste sentido, veja-se CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na
Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., pp. 172-176, 222-224, e a nota 876.Aqui
estamos a referir ao “caso” Espanhol e Alemão
276
Parece-nos que Paulo Cardinal tem uma posição diferente. Aliás, para este autor, em Macau, “Estatui-se, destarte, um sistema de
cláusula aberta de direitos tuteláveis pelo amparo” (Cfr. PAULO CARDINAL, «O Instituto do Recurso de Amparo de Direitos
Fundamentais e a Juslusofonia – Os Casos de Macau e Cabo Verde», ob. cit., pp. 100-101. No caso de Cabo Verde, a fundamentação
da posição do autor está nas pp. 120-122.
277
Os sublinhados e os negritos são nossos.

75
Portanto, a ser assim, parece-nos, salvo o devido respeito, que esta lei – o
legislador, melhor dizendo –, “fechou a porta” da Constituição, no que tange ao âmbito
material do recurso de amparo, o que significa que não podem entrar ali outros direitos,
a fim de gozar de proteção que os que estão ali previstos expressamente gozam.278
Note-se que, neste particular, na nossa doutrina, Jose Pina Delgado e Liriam Tiujo
Delgado 279 têm uma posição diferente, pois entendem que “Na realidade, o texto
fundamental utiliza a expressão “constitucionalmente estabelecido”, mas é desnecessário
e enganador à medida que direitos, liberdades e garantias atípicos recebidos pela cláusula
aberta da Constituição estenderiam a tutela a esses casos, ainda que não estejam previstos
pela Lei Magna da República. Salvo o devido respeito, com base nos argumentos que já
avançamos e que completaremos infra, temos reservas em perfilhar esta tese.
Como dissemos, esta delimitação do âmbito de proteção do recurso de amparo não
é privativo do ordenamento jurídico-constitucional Cabo-verdiano. De facto, na
Alemanha, relativamente ao âmbito de proteção da queixa constitucional, no que se refere
ao seu âmbito de aplicação, “o legislador não visou salvaguardar através deste mecanismo
todos os direitos fundamentais em sentido material 280 , mas apenas os «Grundrechte»
(direitos fundamentais) catalogados como tal na GG e os «grundrechtsgleiche Rechte»
(direitos de natureza análoga aos direitos Fundamentais), taxativamente enumerados no
artigo 90.º, n.º 1, da BVerfGG”281
Sublinhe-se que o que acabamos de expor significa, em suma, que o legislador
cabo-verdiano, assim como o legislador alemão e espanhol, ao contrário do que sucede
na Áustria e na Suíça, onde incumbe ao juiz definir quais os direitos que são suscetíveis

278
Contrariamente à solução adotada em Cabo Verde, que é a acolhida também na Alemanha, como ver-se-á de seguida, no
ordenamento jurídico-constitucional austríaco, “os direitos protegidos pela queixa constitucional são todos os direitos que merecem
proteção constitucional, e não apenas os que a Constituição expressamente consagra”. (idem, ibidem, nota 641).
279
Sobre este assunto veja-se JOSÉ PINA DELGADO e LIRIAM TIUJO DELGADO, O Sistema Cabo-verdiano de Direitos
Fundamentais – Notas de Aula, ob. cit., p. 96.
280
Idem, Ibidem, p. 172.Como diz a mesma autora, “não pode hoje pretender-se regressar à pureza do artigo 93.º, n.º 2, da Carta
Constitucional Bávara, que previa como objeto da queixa constitucional não apenas os direitos fundamentais, mas qualquer direito
(mesmo que consagrado em diploma hierarquicamente inferior à Lei Fundamental” (Idem, ibidem, nota 639, e a obra ali citada.)
281
Idem, ibidem. Esses direitos são: direito de resistência – artigo 20.º, n.º 4; igualdade de cidadania de todos os cidadãos alemães –
artigo 33.º; direito de sufrágio – artigo 38.º; proibição de tribunais de exceção e direito ao juiz legal – artigo 101.º; direitos
fundamentais do acusado de ser ouvido e proibição de ne bis in idem – artigo 103.º e, por, fim, garantias jurídicas na privação da
liberdade de ensino – artigo 104.º.Segundo o disposto no artigo 90.º, n.º 1, da BVerfGG, acima referido, «qualquer pessoa que alegue
que o poder público violou um dos seus direitos fundamentais ou um dos direitos plasmados nos artigos 20.º, n.º4, 33.º, 38.º, 101.º,
103.º, e 104.º da GG pode intentar uma queixa constitucional no Tribunal Constitucional Federal». Cfr. Idem, ibidem, nota 640.

76
de serem tutelados mediante queixa 282 , e aqui estamos a parafrasear Catarina Santa
Botelho, estabeleceu um catálogo especifico de diretos fundamentais que gozam da tutela
da queixa constitucional ou recurso de amparo, no nosso caso, pelo que não se pode
afirmar que do carácter de fundamentalidade de um direito advenha, automaticamente, a
suscetibilidade do recurso de amparo283.
Não obstante o exposto, importar sublinhar, porém, que, na Alemanha, não é
qualquer violação de elenco de direito acima apresentado que pode dar origem a uma
queixa constitucional284.
De facto, e dizemo-lo com Catarina Santos Botelho285, “para pôr algum freio ao
exponencial de queixas constitucionais que desde cedo começaram a surgir, a
jurisprudência constitucional tem vindo a exigir que a lesão do direito fundamental seja
cumulativamente (i) pessoal; (ii) atual; (iii) e imediata”286.
Com base no que acabamos de expor, importa concluir esta questão dizendo
que, em Cabo Verde, assim como acontece na Alemanha287 e em Espanha288, no que
diz respeito ao âmbito material do recurso de amparo, este apenas pode ser
“acionado” para proteger os direitos liberdades e garantias, bem como os direitos
de natureza análoga, mas só quando estiverem expressamente previstos na
Constituição.
Isto porque, como diz o artigo 8.º da LA, acima referido, na fundamentação
do recurso, o requerente deve indicar com clareza os direitos, liberdades garantias
que julga terem sido violados, note-se, com a expressa menção das normas ou
princípios jurídico-constitucionais que entende terem sido violados.
Aliás, complementarmente ao inciso acima referido, o artigo 16.º, n.º 1, ali.
e), sob a epígrafe “inadmissibilidade do recurso”, é claro ao dispor que o recurso
não será admitido quando “Manifestamente não estiver em causa a violação dos

282
Idem, ibidem, p. 173 e nota 643 e a doutrina ali citada.
283
Note-se que, por causa disso, na Alemanha, alguma doutrina tem criticado a opção do legislador em denominar este instrumento
como “queixa constitucional”. Segundo esta doutrina a este instrumento deveria reservar-se a designação de “queixa de direitos
fundamentais”. Para mais desenvolvimento sobre esta questão, vide idem, ibidem, p.173.).
284
Idem, ibidem, p. 174.
285
Idem, Ibidem.
286
Idem, ibidem. Para ver quando é que temos uma afetação pessoal, atual e imediata, idem, ibidem, pp. 174-176.
287
Para maior desenvolvimento sobre o “Âmbito material de proteção” da queixa constitucional alemã, veja-se idem, ibidem, p. 172-
176.
288
Para maior desenvolvimento sobre o “Âmbito material de proteção” do recurso de amparo constitucional espanhol, veja-se idem,
ibidem, p. 222-224.

77
direitos, liberdades e garantias fundamentais constitucionalmente reconhecidos
como suscetíveis de amparo”289.
Abstraindo um pouco da análise sobre o amparo cabo-verdiano, importa tecer
alguns comentários sobre Portugal
Destarte, a autora acima referida, usando um conjunto de argumentos que, no seu
entender, justificam a introdução do recurso de amparo em Portugal290, faz uma ressalva
muito importante, que importa chamar à colação.
Com efeito, diz-nos que “cumpre ressalvar que, à semelhança do que acontece nos
ordenamentos jurídico-constitucionais espanhol e alemão, não defendemos uma
introdução de amparo extensível a todos os direitos fundamentais.
Nesta linha, aconselha dizendo “que o objeto de tal recurso deveria ser limitado
aos direitos, liberdades e garantias e aos direitos de natureza análoga, uma vez que a estes
últimos é igualmente aplicável, por imperativo constitucional, o regime de direitos,
liberdades e garantias”291.
Na esteira do exposto, diz-nos a doutrinadora, “Excluídos deverão estar, assim, os
direitos económicos, sociais e cultuarias que não possuam natureza análoga aos direitos,
liberdades e garantias. Aliás, como se sabe, e como exemplifica a autora, a Lei

289
Sem olvidar ainda vários preceitos da LA que referem tão-só aos Direitos, Liberdades e Garantias. Cfr. artigos 2.º, n.º 1 e 3; 3.º, n.º
1, ali. b); 4.º, n.º 2; 6.º; 8.º, n.º 2; 20.º; 24.º e 25.º, n.º1, ali. a), c), d), e), todos, da LA.
290
Para maior desenvolvimento, idem, ibidem, pp. 129-162.Note-se que a autora fez um levantamento de acórdãos do TC Português
desde 2004 até 2009, e, de facto, o número de acórdãos que recusaram a conhecer do recurso de constitucionalidade é extremamente
elevado (a listagem desses acórdãos está nas págs. 145-146, nota 533).
Faz-se notar que, em todos esses casos, em síntese, o TC entendeu que, em Portugal, as decisões judiciais, transitadas em
julgado, não são passiveis de recurso constitucionalidade, posto que, nesse país da europa continental, não existe o recurso de amparo.
Donde, em conclusão, esse tribunal só tem competência para fiscalizar normas.
Ora, parece-nos, salvo o devido respeito, que o elevado numero de recusa, por inexistir o recurso de amparo, demonstra a
necessidade imperiosa de se introduzir o recurso de amparo, ou de se repensar todo o sistema de fiscalização da constitucionalidade,
na medida em que, como dizem vários autores, esses casos vão parar muitas vezes no Tribunal europeu dos Direitos do Homem, por
causa da insuficiência de mecanismos internos – o que, como vimos no capitulo anterior, segundo alguns têm chamado a atenção, põe
em causa a própria credibilidade das instituições internas –.
Por isso, Catarina Santos Botelho diz que estamos perante um paradoxo, argumentado que, “se, por uma banda, a nossa
Constituição não prevê o recurso de amparo, nem figura similar, por outra banda, a jurisprudência constitucional como que assume as
dores de tal falha e admite, com excessiva largueza, processos de fiscalização concreta da constitucionalidade, interpostas tantas vezes
como expediente dilatório”.
Posto isto, conclui a autora que, “Deste modo, o TC fecha os olhos à sua função de principal guardião da Constituição e
dos direitos fundamentais, sobrecarregando-se com processos que não pretendem, genuinamente, obter o seu julgamento quanto a
uma eventual inconstitucionalidade” (idem, ibidem, p. 142)
291
Idem, ibidem p. 159.

78
fundamental alemã não consagra um elenco de direitos sociais, não lhes aplicando, desta
forma a queixa constitucional292
Posto isto, podemos dizer que, em Cabo Verde, assim como acontece em Portugal,
por regra, os direitos económicos, sociais e culturais não concretizados, note-se, não
gozam do regime de aplicabilidade directa, pelo que não se lhes aplica o regime do artigo
17 e 18.º da CRCV.293
Alerta ainda autora, e bem, afirmando que apesar de não existir qualquer relação
hierárquica entre preceitos consagradores de direitos, liberdades e garantias e os preceitos
respeitantes aos direitos sociais, a verdade é que os primeiros, como diz, são
especialmente valorados pelo legislador constituinte e mais estreitamente protegidos 294.
Portanto, dito isto, resulta que os direitos económicos, sociais e cultuarias, como
respondemos acima quando vimos a questão da tutela dos “direitos sociais”, não devem
ser, por regra, diretamente acionados perante o STJ, na qualidade de TC, posto que, como
se disse, não são diretamente aplicáveis por falta de determinação constitucional do seu
conteúdo –, ou, dito por outras palavras, por serem direitos sob a reserva de lei.
Contrariamente, os direitos, liberdades e garantias (e os direitos fundamentais de
natureza análoga a estes), como diz Catarina Santos Botelho, “são direitos de reserva da
Constituição, são «norma normata», pelo que não necessitam da intervenção do
legislador ordinário para concretizar o seu conteúdo”295
Em Portugal, que como dissemos já, até a presente data não se previu o recurso
de amparo, existindo, porém, uma acesa discussão na doutrina, a mesma autora acima
referida apresenta o figurino do amparo que quer que seja introduzido, apresentando
algumas notas.
Com efeito, lançando mão do direito comparado, principalmente Alemanha e
Espanha, diz-nos, em suma, que o recurso de amparo em Portugal deverá pôr ênfase na
proteção dos direitos pessoais, prevendo, ainda, exigentes mecanismos de filtragem que
impeçam um bloqueamento das actividades do TC, etc.

292
Idem, ibidem, p. 159, nota 588 e as obras ali citadas.
293
Idem, ibidem. Em Portugal, veja-se os artigos 16.º, 17.º e 18.º, todos da CRP.
294
Idem, ibidem.
295
Idem, ibidem, p. 160.

79
Finaliza citando JOSÉ CARLOS VIEIRA DE ANDRADE, quando sustenta que
a principal garantia dos direitos fundamentais «resulta deles próprios», do modo como
cada comunidade política os foi absorvendo e impulsionando ao longo da história”296
2.3.2 Legitimidade
Antes de mais, cumpre dizer que já tivemos a oportunidade de, em breves notas,
tecer alguns comentários acerca da legitimidade, pelo que neste ponto limitar-nos-emos
a aprofundar esse assunto.
Como demos conta na introdução, uma das dúvidas que se quer esclarecer com
esta dissertação é a de saber se as pessoas colectivas têm ou não legitimidade para propor
o recurso de amparo297.
Com efeito, debruçando-se, agora, mais ao fundo sobre a questão da Legitimidade
processual para se interpor o recurso de amparo, refira-se que, no que diz respeito à
Legitimidade Ativa, segundo o disposto no 20.º, n.º 1, da Constituição da República de
Cabo Verde, “A todos os indivíduos é reconhecido o direito de requerer ao Tribunal
Constitucional, através de recurso de amparo, a tutela dos seus direitos, liberdades e
garantias fundamentais, constitucionalmente reconhecidos…”
Nesta senda, o artigo 4.º, n.º 1, da Lei de amparo, sob a epígrafe “Legitimidade
para recorrer”, dispõe que: “Têm legitimidade para interpor recurso de amparo o
Ministério Público298 em representação dos menores e incapazes e as pessoas directa,
atual e efetivamente afetadas pelos atos ou omissões referidos no artigo 2.º.”299

296
Idem, ibidem, p. 162.
297
Cfr. Nota 47. Note-se que, como se disse, na doutrina cabo-verdiana a esmagadora maioria dos autores entende que as pessoas
colectivas têm legitimidade para interpor recurso de Amparo. Contudo, como se viu, nesta questão, o Dr. Carlos Veiga fez uma
chamada de atenção importante, o qual importa chamar à colação mais uma vez. Nesta esteira, segundo este autor, “A revisão
constitucional de 1999 alterou a numeração do preceito que passou a ser 20 da CR” (note-se que era 19 na Versão originária! “e, no
corpo do n.º1, substitui “Supremo Tribunal de Justiça” por “Tribunal Constitucional” e “cidadãos” por “indivíduos”. Ora bem, por
causa desse facto, o mesmo autor nos diz na nota 3 acima referida, que “Esta última alteração poderá suscitar a discussão sobre se,
hoje, o recurso de amparo se não referirá apenas a direitos, liberdades e garantias individuais, excluindo a legitimidade das pessoas
colectivas para o interpor”. Para mais desenvolvimento sobre a “Legitimidade processual” para a interposição do recurso de amparo
em Cabo Verde, veja-se, por todos, PAULO CARDINAL, «O Instituto do Recurso de Amparo de Direitos Fundamentais e a
Juslusofonia – Os Casos de Macau e Cabo Verde», ob. cit., pp. 124-126.
298
Não obstante a lei reconhecer legitimidade ao Ministério Público, até 2004, como nos dá conta Aristides Lima, “esta possibilidade
legal nunca foi utilizada”. Cfr. ARISTIDES LIMA, O Recurso Constitucional Alemão e o Recurso de Amparo Cabo-verdiano, ob.
cit.,p. 12.
299
Neste particular importa avançar que na nossa doutrina, Jose Pina Delgado e Liriam Tíujo Delgado fazem um alerta muito
importante. Dizem esses autores que “Relativamente à legitimidade processual ativa, o texto constitucional utiliza a expressão
indivíduos, porém, não se pode ler restritivamente o sentido constitucional da expressão, pois poderá ser estendida a pessoas colectivas
que gozam de proteção jus fundamental, designadamente partidos políticos e outras entidades similares (sindicatos, igrejas, etc.) ”.Para
mais, como se disse, “tem-na o Ministério Público em nome de crianças e incapazes”. Sobre este assunto veja-se ainda JOSÉ PINA

80
Por outro lado, no que se refere à Legitimidade passiva, a outra parte da relação
material controvertida, no dizer dos processualistas/civilistas, a resposta encontra-se no
artigo 20.º, n.º 1, ali a), da Constituição da República e do artigo 4.º, n.º 2 da LA, que
plasmam, respetivamente, que “O recurso de amparo só pode ser interposto contra atos
ou omissões dos poderes públicos lesivos dos direitos, liberdades e garantias …” e, nessa
linha, que “Podem ser demandados no recurso de amparo para além da entidade produtora
do ato ou da omissão violadora dos direitos, liberdades e garantias individuais, todas as
pessoas que directa e efetivamente beneficiem da prática do ato ou da missão.” – Ou seja,
os contra- interessados, processualmente falando.
Neste particular, como primeira nota, convém lembrar, mais uma vez, que embora
a Constituição Cabo-verdiana não preveja uma norma a referir à legitimidade das pessoas
colectivas, a esmagadora maioria dos autores tem entendido que as mesmas podem
interpor recurso de amparo300.
Aliás, no direito comparado constata-se que em vários países as pessoas coletivas
têm legitimidade para interpor recurso de amparo.
Com efeito, na Alemanha, no que diz respeito às “pessoas colectivas nacionais
de direito privado” é pacífico que essas pessoas podem recorrer ao recurso
constitucional, “desde que comprovem que um determinado direito fundamental é pela
sua natureza aplicável a elas”301

DELGADO e LIRIAM TIUJO DELGADO, O Sistema Cabo-verdiano de Direitos Fundamentais – Notas de Aula, ob. cit., p. 97).
Faz-se notar que, como se viu, Carlos Veiga tem uma posição diferente (ver supra, nota 297)
300
Neste sentido, Aristides Lima diz-nos que “Embora a Constituição cabo-verdiana não preveja uma norma especifica sobre a
possibilidade de as pessoas colectivas serem titulares de direitos fundamentais, como por exemplo dispõe o nº 2 do artigo 12 da
Constituição da República Portuguesa de 1976, quer nos parecer que a doutrina deste artigo, que reconhece a capacidade de gozo dos
direitos fundamentais, também é validade para Cabo Verde, pois não se compreende uma conceção de direitos fundamentais
exclusivamente centrada no individuo”. (Cfr. ARISTIDES LIMA, O Recurso Constitucional Alemão e o Recurso de Amparo Cabo-
verdiano, ob. cit.,p. 12.)
Jose de Melo Alexandrino, chamando a colação um conjunto de critérios de que se pode lançar mão para proceder à
classificação dos direitos fundamentais, diz-nos que atendendo ao critério do titular (os negritos são nossos), os direitos podem ser
individuais – quando respeitem apenas ao individuo, só ele os podendo invocar ou exercer – ou coletivos/institucionais – quando
respeitam a grupos ou a pessoas coletivos. Aliás, segundo o autor, “Nada obsta, porém, a existência de direitos que sejam
simultaneamente individuais e institucionais (por exemplo, a liberdade religiosa ou a liberdade de associação partidária), nem de
direitos individuais que só possam ser exercidos coletivamente (direito de reunião, direito à greve, por exemplo).Cfr. JOSE DE MELO
ALEXANDRINO, Direitos Fundamentais, Introdução Geral, ob. cit., p. 29 e nota 57; Para mais desenvolvimento sobre a titularidade
de direitos fundamentais por pessoas coletivas, onde o autor explica o alcance do artigo 12.º, n.º2, da CRP, idem, ibidem, pp. 74-75.
301
No mesmo sentido, veja-se CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos
na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., p. 176-178.

81
Já no que diz respeito às “pessoas colectivas públicas nacionais”, não obstante
algumas exceções302, “ a regra é que elas não tenham capacidade de direito fundamental,
com o argumento de que “o Estado não pode ser ao mesmo tempo titular e destinatário
de direitos fundamentais”. Assim, por regra, essas pessoas não podem socorrer-se ao
recurso constitucional.303
Refira-se ainda que, nesse país acima referido, o Tribunal Constitucional Federal
admite o recurso de constitucionalidade mesmo para associações sem personalidade
jurídica, desde que sejam titulares do direito fundamental que invocarem num caso em
concreto304
E mais: no que diz respeito aos partidos políticos, há uma particularidade. Esses,
devido às funções jurídicas-públicas, podem ser autores ou partes em processos
interorgânicos (processos contraditórios ou de partes) e, por outro lado, podem ser autores
de recurso constitucionais, para fazer valer, por exemplo, o direito à igualdade de
oportunidades, etc.305
Do exposto, pode ver-se que na Alemanha além das pessoas físicas nacionais – e
estrangeiros, note-se – podem ser titulares do direito de recurso de amparo as pessoas
colectivas privadas306
Em Cabo Verde, na opinião de Aristides Lima, no que diz respeito à possibilidade
de as pessoas colectivas de direito público serem titulares de direitos fundamentais, não
obstante a escassa pronuncia da nossa doutrina, “é obvio que regra é que não podem ser
titulares de direitos fundamentais, tendo em conta a raiz liberal dos direitos fundamentais
que são tradicionalmente direitos contra o Estado, mesmo quando cabe a este criar
condições, incluindo processuais, para tutela daqueles direitos”307.

302
Essas exceções prendem-se com a existência de certas instituições do Estado que atuam na defesa de direitos fundamentais, com
autonomia face ao Estado, como, por exemplo, as universidades, institutos públicos de radio e televisão, etc. (Para maior
desenvolvimento, idem, ibidem, pp. 10-11.)
303
Idem, ibidem, p. 10, nota 20.
304
Assim, idem, ibidem, p. 11.
305
Idem, ibidem.
306
Para maior desenvolvimento, idem, ibidem, pp. 9-14.
307
Idem, ibidem, p. 13.Parece-nos que a regra, na maioria dos países que têm este mecanismo, vai no sentido de que as pessoas
colectivas do direito público não devam ter legitimidade para interpor recurso de amparo. De facto, por exemplo, em Espanha, a
jurisprudência constitucional mais recente esclareceu que «as possibilidades das Administrações públicas defenderem os seus
“direitos” através do recurso de amparo são mais limitados», pois não são titulares de grandes partes de direitos fundamentais. Cfr.
CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das
Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., p. 227, e nota 897.

82
Mas, como diz o mesmo autor, “Não se vê, no entanto, razão, para não se aceitar
que, por exemplo, uma eventual universidade pública e a s empresas públicas de
radiodifusão e televisão não sejam titulares do direito de amparo para reagir contra atos
ou omissões dos poderes público que ponham em causa direitos fundamentais que são
realizados no seu âmbito de ação e com o seu concurso essencial.”308
No que tange aos partidos políticos, o autor acima referido entende que lhes
assiste o direito de recurso de amparo para a defesa dos seus direitos fundamentais,
designadamente o direito à igualdade 309, o direito de antena, de resposta e de réplica
politica 310 , o direito de propor candidatos à Assembleia Nacional e aos órgãos
municipais311 e os direitos incluídos no direito de oposição democrática312
Tendo em conta tudo o que se expôs, podemos concluir este ponto dizendo
que, do nosso ponto de vista e salvo o devido respeito por outras opiniões em sentido
contrário, que as pessoas colectivas têm legitimidade para interpor recurso de
amparo, claro está, nos termos e com os fundamentos acima expostos.
Parece-nos que podemos fazer essa leitura tendo em conta a doutrina acima
citada, não obstante a nossa Constituição não ter uma norma que refira
expressamente à legitimidade das pessoas colectivas para interpor recurso de
amparo.
Portanto, como já tivemos a oportunidade de dizer, se é pacífico que as
pessoas colectivas têm direitos fundamentais, parece-nos que não se vê motivos para
impedir as mesmas de lançar mão dos mecanismos que a ordem jurídica coloca à
disposição dos cidadãos para defender esses mesmos direitos, quando essa violação
seja perpetrada pelos poderes públicos.

308
Idem, ibidem. Também em Espanha, como já se disse, não obstante não ser esta a regra, em muitos casos são admitidos recursos
de amparo intentados por pessoas coletivas e entidades públicas, como por exemplo, organismos públicos, universidades, coletividades
locais, deputados no exercício das funções eletivas, ou pelo próprio Estado. Para maior desenvolvimento, idem, ibidem, e notas 892,
893, 894, 895 e 896.
309
Cfr. art. 23.º da CRCV.
310
Cfr. art. 57.º da CRCV.
311
Cfr. art. 105.º da CRCV.
312
Cfr. art. 118.Para maior desenvolvimento, veja-se ARRISTIDES LIMA, «A Oposição na Constituição da República de Cabo
Verde», in Direito e Cidadania, Ano X, N.º29,Quadrmestral, 2009, cit., pp. 253-276.

83
2.3.3. Objeto
Subjaz da leitura do artigo 2.º da Lei de amparo, que tem por epigrafe “Objeto do
recurso”, que “ 1. Só podem ser objeto de recurso de amparo a prática ou a omissão de
atos ou factos, qualquer que seja a sua natureza, a forma de que revestem, praticados por
qualquer órgão dos poderes públicos do Estado, das autarquias locais e dos demais entes
públicos de caracter territorial ou institucional, bem como pelo seus titulares, funcionários
ou agentes que violem os direitos, liberdades e garantias fundamentais reconhecidos na
Constituição313; 2. Os atos jurídicos do objeto do recurso de amparo não podem ser de
natureza legislativa ou normativa314 e que 3. No recurso de amparo constitucional não
pode ser feito valer outra pretensão que não seja a de restabelecer ou de preservar os
direitos, liberdades ou garantias constitucionais referidos nos números anteriores315
Transcrito o artigo 2.º da LA, importa dizer que, como tivemos ocasião de referir,
na doutrina cabo-verdiana alguns autores têm entendido que esta lei ordinária restringiu
o objeto do amparo316, posto que a Constituição da República não faz a exclusão que
encontramos no número 2 deste dispositivo legal acima indicado.
Daí a questão que também queremos esclarecer nesta dissertação: Há em Cabo
Verde uma restrição legislativa do objeto do recurso de amparo?317

313
Daqui podemos ver que esta lei adotou uma aceção ampla de poder público, incluindo a Administração Estadual (Directa e
indirecta) e a Administração Autónoma.
Aliás, neste particular, na esteira de José Pina Delgado e Liriam Tiujo Delgado (ob. cit. p. 97) “O recurso de amparo poderá
ser interpretado não só contra atos, mas também contra omissões desde que provenientes dos poderes públicos, abrangendo todas as
entidades da estrutura horizontal do Estado, bem como as entidades privadas que agem munidas de poderes públicos ou públicas que
agem na esfera privada.”
Como se disse acima, os autores também sufragam a ideia que o amparo é bem mais amplo que a fiscalização concreta,
que, como se viu, em Portugal, alguma doutrina tem entendido que funciona como um “quase amparo”, o que dispensaria a
constitucionalização deste. Mas, salvo o devido respeito, temos reservas em acompanhar esta doutrina.
Com base no exposto, diz os autores acima referidos ainda, e bem, que “Isso demonstra, em todo o caso, que o recurso de
amparo desempenha uma função diferente e mais ampla do que a destinada a fiscalização da constitucionalidade das leis enquanto
meio de tutela de direitos fundamentais. “É que, como dizem, “singelamente, este somente pode ser interposta contra norma violadora
de um preceito fundamental, ao passo que o recurso de amparo alcança igualmente atos e omissões, seja de que natureza se figurarem,
que lesa um direito, liberdade e garantia”.(idem, ibidem).
314
Para maiores desenvolvimentos sobre “Atos Legislativos e Atos Normativos: Sentido e Limites”, veja-se, por todos, WLADMIMIR
BRITO, «A Feitura das Leis em Cabo Verde», in Direito e Cidadania, Ano IV, N.º 12/13, Março de 2001 a Dezembro de 2001, Praia,
Cabo Verde.
315
Como pode ver-se, este artigo nos leva a questão da Tutela dos direitos económicos, sociais e culturais, através do recurso de
amparo. Parece-nos que este artigo é claro, na esteira do que se disse acima, quando tratou-se esta questão. Daí a nossa resposta “não,
mas”.Cfr. Supra, ponto 3, sob a epígrafe “Tutela dos Direitos Sociais”.
316
Como Jose Pina Delgado, Liriam Tiujo Delgado e Aristides Lima, Nuno Piçarra, etc.
317
Como ver-se-á, também em Espanha esta questão se coloca.

84
Pois bem, antecipando a resposta, parece-nos que, de facto, há esta restrição.
Nessa esteira, do nosso ponto de vista, pode-se colocar uma outra questão: esta exclusão
deve-se a quê?
Antes de responder a esta ultima questão, importa atentar sobre a (primeira)
resposta positiva que se deu.
Com efeito, importa, antes de mais, registar que, na nossa doutrina Aristides Lima
é categórico em afirmar que “A lei excluiu do objeto do amparo, contrariamente ao que
se passa na Alemanha, e por exemplo, também no México (artigo 103.º da Constituição
Mexicana), as leis.”318
Diz o mesmo autor que, “Igualmente, todos os atos normativos não podem ser,
aparentemente, objeto do recurso de amparo (n.º 2 do art. 2.º da Lei n.º 109/IV/94).
Assim, as leis de revisão constitucional, as leis ordinárias do Parlamento, as
resoluções normativas do Parlamento, os decretos legislativos e decretos-leis do Governo,
os decretos de aprovação dos tratados e acordos internacionais, os regulamentos
administrativos do Governo, incluindo os decretos regulamentares e as portarias, os
regulamentos dos institutos públicos, os regulamentos das associações públicas, os
regulamentos municipais, tudo isso não pode constituir objeto do recurso de amparo”319
Portanto, tendo em conta tudo o que ficou exposto acima, e ainda na esteira do
mesmo autor, pode dizer-se que só os atos administrativos e eventualmente resoluções de
conteúdo individual e concreto podem ser objeto de recurso de amparo320, ao lado das
sentenças

318
Cfr. ARISTIDES LIMA, O Recurso Constitucional Alemão e o Recurso de Amparo Cabo-verdiano, ob. cit., p. 17
319
Idem, ibidem, pp. 17-18. Sobre este assunto veja-se ainda JOSÉ PINA DELGADO e LIRIAM TIUJO DELGADO, O Sistema
Cabo-verdiano de Direitos Fundamentais – Notas de Aula, ob. cit., p. 97.Segundo os autores, “Não deixa de ser verdade que a Lei do
Amparo (Lei n.º 109/IV/94, de 24 de Outubro) restringe o amparo a atos e omissões não legislativas. Na opinião dos mesmos juristas,
“Sendo certo que se trata de uma restrição legislativa do que pode ser considerado direito, liberdade e garantia análoga, é
provavelmente justificável”, como aliás avançamos acima quando tratamos a questão da fiscalização da constitucionalidade, “à medida
que, no nosso caso, as pessoas já possuem remédios contra atos legislativos e similares, o que poderá permitir que a restrição passe a
teste da proporcionalidade”.
320
Tendo em conta esta leitura do Dr. Aristides Lima, podemos dizer que, dentro das formas de manifestação do Poder (administrativo)
pelos entes Públicos, ficam excluídos a elaboração dos regulamentos e a celebração dos contratos.

85
Note-se que, como veremos mais a frente, os atos, as omissões ou factos
praticados por órgão do poder judicial, como adverte Aristides Lima321, e bem, podem
ser objeto de recurso de amparo, desde que preenchidos os seguintes requisitos322: “
a) O ato, facto ou omissão violadores tenham acontecido em processo em
tramitação no tribunal;
b) Tenham sido esgotadas todas as vias de recurso ordinário permitidos na lei
do processo em que a violação tenha acontecido;
c) A violação do direito fundamental (direito, liberdade ou garantia) resulte
directa, imediata e necessariamente de ato ou omissão imputável ao órgão
judicial, independentemente do objeto do processo em que for praticado;
d) A violação tenha sido expressa e formalmente invocada no processo, logo
que o ofendido tenha tido conhecimento e que tenha sido requerida a sua
reparação.”
Importa chamar à colação o que dissemos acima323, dizendo que verifica-se que
até finais de 2004 o STJ proferiu quinze acórdãos em dez recursos de amparo, incluindo
decisões de aperfeiçoamento do pedido. Alguns desses recursos de amparo foram
interpostos contra omissões de atos processuais e decisões positivas dos tribunais. Oito
deles tiveram como autores pessoas singulares e dois, pessoas colectivas
Aqui chegados, importa agora atentar na questão acima exposta para tentarmos
perceber porquê que o artigo 2.º, n.º 2, da Lei de amparo, prescreve que “Os atos jurídicos
do objeto do recurso de amparo não podem ser de natureza legislativa ou normativa”?

321
Idem, ibidem, p. 18.
322
Esses requisitos estão previstos no artigo 3.º da Lei de amparo, sob a epígrafe “Do recurso contra decisões de órgão judicial”.
Esse inciso, como se pode constatar no acórdão n.º 01/99, de 15 de Janeiro do STJ, é inspirada na Ley Orgânica do Tribunal
Constitucional Espanhol cuja disposição paralela, o artigo 44.º, reproduz quase ipsis verbis, nesses termos:
Artículo cuarenta y cuatro
Uno. Las violaciones de los derechos y libertades susceptibles de amparo constitucional que tuvieran su origen inmediato y direto en
un ato u omisión de un órgano judicial podrán dar lugar a este recurso sempre que se cumplan los requisitos seguientes:
a) Que se hayan agotado todos los recuros utilizables dentro de la vía judicial.
b) Que la violación del derecho o liberdade sea imputable de modo inmediato y direto a una acción u omisión del órgano
judicial con independencia de los hechos que dieron lugar al processo en que aquellas se produjeron acerca de los que,
en ningún caso, entrará a conocer el Tribunal Constitucional.
c) Que se haya invocado formalmente en el processo el derecho constitucional vulnerado, tan pronto como, una vez conocida
la violación, hubiere para ello,
Dos.El plazo para interponer el recurso de amparo será de veinte días a partir de la resolución recaída en el processo judicial.
323
Cfr. Ainda. ARISTIDES LIMA, O Recurso Constitucional Alemão e o Recurso de Amparo Cabo-verdiano, ob. cit.,p. 18, e nota
51.

86
Pois bem, na opinião de Nuno Piçarra324, esta “limitação global poderá ter sido
norteada por um objetivo de racionalização global do novo sistema de justiça
constitucional, na parte em que veio conferir a todos os tribunais o poder-dever de recusar
a aplicação de normas legislativas e regulamentares inconstitucionais e prever o recurso
para o STJ das decisões dos tribunais recusando, com fundamento em
inconstitucionalidade, a aplicação de qualquer norma”, ou seja, como demos conta acima,
pelo facto de a nossa Constituição prever o mecanismo da fiscalização concreta da
Constitucionalidade que, como se sabe e como se disse, serve para fiscalizar a
conformidade dos atos legislativos e normativos com a Constituição325.
De todo o modo, nas palavras do mesmo autor acima referido, esta solução
legislativa é de duvidosa constitucionalidade à luz do artigo 20.º da nossa Constituição326.
Destarte, como diz, tendo em conta que o numero 1.º, alínea a) abre genericamente
o recurso de amparo a todos os atos ou omissões dos poderes legislativos, executivo e
judicial, lesivos dos direitos, liberdades e garantias fundamentais, não se afigura lícita a
exclusão operada pelo legislador ordinário no artigo 2,º, n,º 2, da Lei n.º 109/IV/94 – tanto
mais que também os atos de natureza legislativa ou regulamentar podem de per si lesar
tais direitos, liberdades ou garantias, sobretudo quando são de operatividade imediata ou
auto-exequiveis e, portanto, não carecem de atos de aplicação para reproduzir efeitos na
esfera jurídica dos particulares327.
Com base no que se acaba de expor, parece-nos que autor tem razão quando afirma
que “Uma vez que se extrai com clareza do artigo 20.º da CRCV que todo e qualquer ato
ou omissão dos poderes públicos, desde que viole direitos fundamentais, pode ser objeto
de recurso de amparo em determinadas condições processuais, este recurso deve ser

324
Vide NUNU PIÇRA, «A Evolução do Sistema de Garantia da Constituição em cabo Verde», ob. cit.,p. 231.
325
Note-se, aliás, que em Espanha alguma doutrina têm dito que o facto de o tribunal constitucional poder apreciar e declarar, com
força obrigatória e geral, a inconstitucionalidade de qualquer norma – facto esse que é designado como «auto-questão de
inconstitucionalidade» – visa colmatar a ausência de amparo contra atos legislativos. Para maior desenvolvimento, veja-se Cfr
CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das
Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., p. 211, nota 825 e toda a doutrina ali citada.
Refira-se ainda que, em Espanha, como aliás se disse acima, quando a Constituição de 1978 decidiu positivar o recurso de
amparo – como instrumento de proteção específica dos direitos fundamentais – teve como fontes inspiradores o amparo mexicano, a
Constituição precedente de 1931, o modelo Verfassungsbeschwerde alemã e das Beschwerden suíça e austríaca (idem, ibidem, p. 216)
326
No mesmo sentido, veja-se PAULO CARDINAL, «O Instituto do Recurso de Amparo de Direitos Fundamentais e a Juslusofonia
– Os Casos de Macau e Cabo Verde», ob. cit., pp.117-118.
327
Idem, ibidem, p. 232.

87
configurado pela lei ordinária como suscetível de ser interposto igualmente contra leis do
parlamento, os atos legislativos do Governo e os outros atos normativos”328
2.3.4. Pressupostos
Nos termos do artigo 6.º da Lei do Amparo, “ O recurso de amparo só poderá ser
interposto depois de terem sido esgotados todos os meios legais de defesa dos direitos,
liberdades e garantias e todas as vias de recurso ordinário estabelecidas pela respetiva lei
do processo329.
No caso específico do recurso de amparo contra decisões de órgão judicial, o
artigo 3.º, n.º 1, alínea a) da LA, dispõe que “1.a violação por órgão judicial de direitos,
liberdades e garantias fundamentais constitucionalmente reconhecidos, só podem ser

328
Idem, ibidem. A este propósito, veja-se ainda ARISTIDES LIMA, O Recurso Constitucional Alemão e o Recurso de Amparo Cabo-
verdiano, ob. cit., pp. 7, 8 e 32. Não se pode olvidar ainda que há autores, como por exemplo Jorge Reis Novais, que defendem “a
justo título que um recurso de amparo adequadamente regulado pode e deve contemplar a possibilidade de queixa constitucional
directa de um particular contra uma lei, independentemente da existência de um pleito judicial a que ela seja aplicável. Isto porque o
particular pode ver o seu direito fundamental seriamente ameaçado de forma directa por uma lei, seja pelos efeitos lesivos
imediatos desta sobre tal direito, seja pela intensidade com que a ameaça inconstitucional contida na lei pode inibi-lo ou
dissuadi-lo do exercício do mesmo direito. Cfr. NUNU PIÇRA, «A Evolução do Sistema de Garantia da Constituição em cabo
Verde», ob. cit.,p. 232, nota 57.
Ainda neste contexto, convém notar que, na Alemanha, segundo o disposto no artigo 90.º, n.º 1, in medio, da BVerf GG, a
queixa constitucional pode ter como objeto toda a atuação do poder público, independentemente da forma que assuma, ou seja, tem
incidência sobre quaisquer atos emanados pelo poder legislativo, administrativo ou judicial – , ou, dito por outras palavras, pode-se
interpor queixas constitucionais diretamente contra as formas de atuação de todos os poderes públicos, sem exceção, ou seja, contra
leis, regulamentos administrativos e atos administrativos e decisões judiciais. Para maior desenvolvimento sobre o objeto do recurso
de amparo na Alemanha, veja-se, por todos, Cfr. CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais,
Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., pp. 178-184.
329
Portanto, com base neste artigo, podemos dizer que “o ónus” ou a responsabilidade primordial de proteção dos direitos
fundamentais pertence aos tribunais ordinários.
Aliás, em Espanha, pode-se apontar três pressupostos do recurso de amparo, a saber: primo – caracter extraordinário;
secundo – a natureza excecional e, tertio, a denominada subsidiariedade. Para mais desenvolvimento, cfr CATARINA SANTOS
BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional,
Administrativa e Internacional, ob. cit., pp. 233-235.
Em Cabo Verde, Jose Pina Delgado e Liriam Tiujo Delgado dizem-nos que “O problema do esgotamento das vias de
recurso ordinário é um importante pressuposto que implica evidentemente que todos os meios de tutela disponíveis sejam tentados
antes de se fazer movimentar o Tribunal Constitucional.” Mais, os autores nos trazem um dado muito importante: “A nossa curta
experiencia com este processo constitucional tem demostrado que boa parte dos casos não chegam à fase de análise do mérito pelo
não esgotamento das vias internas de recurso”. Cfr. se JOSÉ PINA DELGADO e LIRIAM TIUJO DELGADO, O Sistema Cabo-
verdiano de Direitos Fundamentais – Notas de Aula, ob. cit., p. 97.
Ora bem, de facto, na análise de jurisprudência do STJ que faremos infra, pode-se também chegar a essa constatação. Cfr.
infra, ponto 2.4, sob epígrafe “Jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça de Cabo Verde sobre o Recurso de Amparo”, que
trataremos de seguida)
No que diz respeito às jurisprudências do STJ sobre a “exaustão dos recursos ordinários, por todos, cfr. acórdão n.º 01/05,
de 22 de Março de 2005 do STJ, como TC. Ali essa questão foi tratada com algum pormenor pelos advogados, pelo parecer do MP e
pelos juízes do STJ. Este acórdão é tratado, infra, na análise que faremos sobre a Jurisprudência do STJ sobre o recurso de amparo.

88
objeto de recurso de amparo se for praticada em processo que corra seus termos pelos
tribunais quando: a) Tenham sido esgotadas todas as vias ordinário permitidas na lei do
processo em que tenha ocorrido tal violação”
Do exposto decorre que, em Cabo Verde, assim como em vários países330, foi
consagrado o princípio da subsidiariedade do recurso de amparo. Vale isto por dizer que,
como “Requisitos formais de admissibilidade do recurso”, exige-se o esgotamento de
todos os meios acima referidos331, sob pena do STJ não admitir o recurso.
Neste sentido, em acréscimo ao disposto nesse inciso, importa dizer que, no que
tange aos atos administrativos, como nos chama atenção Aristides Lima 332 , será
necessário primeiro esgotar os recursos administrativos graciosos 333 no âmbito da
administração e os recursos no âmbito do contencioso administrativo, para que,
finalmente se possa interpor o recurso de amparo334.

330
Note-se que países como México, Argentina, Venezuela, Guatemala, Peru, Equador, Colômbia, Bolívia e El Salvado consideram
a procedência do recurso de amparo atrelado ao esgotamento das vias judiciais prévias, à utilização de recursos ordinários ou de outros
meios existentes na ordem jurídica, capazes de proteger o direito, afastando agressão perpetrada ao mesmo. Para maior
desenvolvimento, veja-se KARINA ALMEIDA DO AMARAL, «O recurso de amparo como instrumento de proteção de direitos
fundamentais e a sua relação com a arguição de descumprimento de preceito fundamental», Anuário de Derecho Constitucional
Latino-americano, Ano XVIII, (2012, pp. 13-35), Bogotá, p. 19
331
Note-se que, em Portugal, como se viu, o projeto que o PS apresentou em 1989 “referia-se a um «recurso constitucional de defesa»
contra atos ou omissões dos tribunais, de natureza processual, que, de forma autónoma, violassem os mesmos direitos, liberdades e
garantias, após esgotamento dos recursos ordinários.” Cfr. CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos
Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit.,
pp.129-130.
Dito isto, podemos ver que esta proposta apresentada teria como consequência um recurso de amparo com um objeto ainda
mais reduzido que o Cabo-verdiano.
Diferentemente, o projeto do PCP, como vimos, falava numa «ação constitucional de defesa perante o Tribunal
Constitucional contra atos ou omissões dos poderes públicos que lesassem diretamente direitos, liberdades e garantias, quando não
seja suscetíveis de impugnação junto dos demais tribunais». (idem, ibidem, p. 129).
Ora, este projeto, do nosso ponto de vista, parece ser idêntica a solução adotada em Cabo Verde, com a vantagem de ser
mais clara, pois em Cabo Verde, como ver-se-á de seguida, há alguma doutrina que questiona o facto de o STJ, como TC, não admitir
recursos que não tenham esgotados as vias ordinárias. Essa doutrina que referimos acima é categórico em afirmar que há casos que o
recurso de amparo tem necessariamente que ser interposto no STJ, por ser a única via adequada para tutelar certos direitos em certas
situações.
332
Vide ARRISTIDES LIMA, O Recurso Constitucional Alemão e o Recurso de Amparo Cabo-verdiano, ob. cit.,p. 21.
333
Para maior desenvolvimento, cfr. o Decreto -Legislativo n.º 16/97, de 10 de Novembro, que regula o REGIME GERAL DAS
RECLAMAÇÕES E RECURSOS ADMINISTRATIVOS NÃO CONTENCIOSOS. (como garantias administrativas impugnatórias,
esta lei prevê a reclamação, o recurso hierárquico, o recurso hierárquico impróprio e o recurso tutelar).
334
Note-se que, por causa disso, e por causa da interpretação que o STJ tem feito do artigo 20.º, n.1, ali. a) da CRCV e 6.º da Lei de
Amparo, alguns juristas têm entendido que “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que obter um cidadão o
amparo constitucional em Cabo Verde contra atos e omissões dos poderes públicos que violem os direitos, liberdades e garantias
fundamentais… “Esta frase foi proferida por um juiz do STJ, no seu voto de vencido num acórdão onde se decidiu pela não admissão
do amparo. Para maior desenvolvimento, cfr. o comentário que se fez a este acórdão em CARLOS VEIGA, «Recurso de Amparo»,
ob. cit., p 169.

89
Posto isto, refira-se, como aliás alerta ainda o mesmo autor, que o recurso de
amparo, em Cabo Verde, é dirigido ao Supremo Tribunal de Justiça, que tem funcionado
como Tribunal Constitucional.
Ora, o STJ é o mesmo órgão que conhece em primeira instância dos recursos
contenciosos administrativos dos atos «definitivos e executórios», designadamente, do

Por causa da interpretação, errónea na opinião de alguns, dos preceitos acima referidos que o STJ tem feito, na esteira do
que avançamos acima, Carlos Veiga apresenta, em conclusão, o que, no seu modo de ver, “parece ser a correta interpretação da
exigência legal de esgotamento das vias de recurso ordinário”, a saber: “face a cada tipo de providência requerida para garantir a tutela
efetiva do direito, liberdade ou garantia violado, deve o tribunal indagar se alguma das espécies e formas de processo existentes serve
para a concretizar. Se a resposta for negativa em relação a todas as formas e espécies de processos existentes na ordem jurídica, poder-
se-á fazer uso direto do recurso de amparo; se, pelo contrário, a resposta for positiva em relação a alguma dessa espécie e formas, só
poderá haver recurso de amparo da decisão final do processo proferida pela última instância admissível na espécie ou forma de
processos próprios.” Para maior desenvolvimento, idem, ibidem, p. 175.
Aliás, sobre esta matéria, Karina Almeida do Amaral, citando um conjunto de atores da América Latina, chama atenção
dizendo o seguinte: “ainda que cada país imponha a medida da subsidiariedade a ser levada em consideração como forma de “barreira”
ao conhecimento do recurso de amparo, não há como se cogitar da sua aplicação absoluta”.
É que, como diz, “Não faria sentido instituir um mecanismo de proteção aos direitos sem que se pudesse levar em conta as
circunstâncias em relação à violação do próprio direito.”
Na esteira do exposto, entendem ainda esses autores “que para se admitir um recurso de amparo deve haver ponderação a
partir da analise do caso concreto, até porque, na hipótese de urgência demandada, exigências severas de esgotamento de instâncias,
vias judiciais previas ou outros requisitos, acabarão por inviabilizar a pretensão, isto é: a tutela da suposta violação ao direito”
Do que acabamos de expor decorre, na esteira dos mesmos autores, que a subsidiariedade apenas deve ser capaz “de afastar
a utilização do recurso na medida em que o órgão competente à sua apreciação se convença de que – naquele caso – tal aplicação faça
sentido, o que torna obrigatória, ao requerente, a consideração de certos requisitos.” Para maior desenvolvimento veja-se KARINA
ALMEIDA DO AMARAL, «O recurso de amparo como instrumento de proteção de direitos fundamentais e a sua relação com a
arguição de descumprimento de preceito fundamental», ob.cit., pp. 20-21, notas 25, 26 e 27.
Também, sobre este assunto, na Alemanha, dizemos com Catarina Santos Botelho, há autores que advogam que o princípio
da subsidiariedade não é absoluta e que poderá ser limitado nos estritos termos do artigo 90.º, n.º 2, 2ª parte, da BVerfGG, de modo a
compensar um défice de proteção por parte da jurisdição ordinária. Neste ensejo, este preceito admite a interposição imediata da
queixa constitucional, se esta possuir uma relevância geral ou, quando a exigência da exaustão prévia dos recursos existentes provoque
no requerente um prejuízo serio e irreparável. Para maior desenvolvimento, veja-se CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela
Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e
Internacional, ob. cit., p.187.
Nessa esteira, em Espanha, uma “constelação doutrinária, fundada numa interpretação sistemática dos artigos 41.º, n.º 3,
49.º, n.º 1, e 54.º da LOTCE, advoga que se deve ter em conta as circunstâncias específicas de cada caso concreto, visto que a
subsidiariedade não deve ser entendida como um «dogma sacrossantos», até porque a CE não exige expressamente que o recurso
constitucional deva ser subsidiário em todos os casos, permitindo, inclusive, casos excecionais de aceso ao TCE” (Idem, ibidem, p-
235)
Finalmente, em Macau, Paulo Cardinal entende que parece líquido afirmar que, “no espirito, mas também na letra, do
artigo 17.º, n.º 1 da LBOJM, o legislador pretendeu fornecer como princípio geral a desnecessidade de exaustão dos meios
prévios ordinários”. Para mais desenvolvimento sobre essa opção, veja-se PAULO CARDINAL, «O Instituto do Recurso de Amparo
de Direitos Fundamentais e a Juslusofonia – Os Casos de Macau e Cabo Verde», ob. cit., pp. 105-106.

90
Presidente da Assembleia Nacional e dos membros do Governo e, em segunda instância
dos atos das autarquias locais e dos institutos públicos335
Na opinião do mesmo jurista, “a concentração do contencioso administrativo e
da jurisdição de amparo no Supremo Tribunal de Justiça diminui em muito o alcance do
recurso de amparo, que estaria melhor, passe o termo, «amparado», havendo separação
das jurisdições”336.
Em suma, podemos concluir, pois, que o recurso de amparo é assim um
instrumento de garantia constitucional utilizado sempre que a jurisdição ordinária
não for capaz ou se mostrar insuficiente para proteger o direito fundamental
ameaçado, reservando-se ao Tribunal Constitucional a competência para decidir
acerca da violação do direito fundamental cuja proteção se pleiteia através do
amparo constitucional337
2.3.5. Prazo
No que diz respeito ao prazo para se interpor o recurso de amparo, convém
lembrar, mais uma vez, que em Cabo Verde os atos legislativos e normativos foram
excluídos do âmbito do amparo.
Neste sentido, dissemos já que, na verdade, só se pode atacar “ato” – rectius,
decisão – do poder judicial, quando, como vimos, for esgotada as vias (recursivas)
ordinárias e os atos administrativos – do poder administrativo/executivo.
Posto isto, dir-se-á ainda que a lei de amparo prevê prazos diferentes, consoante
esteja em causa uma decisão judicial ou um ato administrativo.

335
Cfr. artigo. 10.º da Lei 14-A/83, de 22 de Março. Sobre o contencioso Administrativo em Cabo Verde e a necessidade da sua
reforma por forma a se adaptar à Constituição, cfr. supra, ponto 1.2.1.1, e toda a doutrina ali citada.
336
Para o autor a solução proposta por Eduardo Rodrigues – que parece-nos também que é posição do Dr. Wladimir Brito – “de
aumentar o número de juízes que compõe o STJ e de criar secções com competências específicas não resolveria o problema, visto que
se estaria perante a mesma jurisdição. Mas aconselhável parece-me, em geral, a existência de um Tribunal Constitucional distinto do
STJ, que naturalmente dá mais garantias ao cidadão, não só em matéria de recurso de amparo.” Cfr. ARISTIDES LIMA, O Recurso
Constitucional Alemão e o Recurso de Amparo Cabo-verdiano, ob. cit.,p. 22, nota 61.
337
De facto, a finalidade deste instituto é a de proteger, em sede constitucional, os direitos e as liberdades quando as vias ordinárias
de proteção não obtiverem êxito ou produzirem resultados insatisfatórios. Com isso, surge o amparo constitucional como uma garantia
subsidiária aos direitos fundamentais, quando for constatado que a jurisdição ordinária não for capaz de conferir-lhes o grau de
proteção desejado, ou ainda quando a própria justiça ordinária for a causadora da situação de vulnerabilidade do direito fundamental
através de suas ações ou omissões. Além disso, o recurso de amparo tem por fim a proteção da própria Constituição, transcendendo
dessa maneira o mero interesse individual, assegurando-se ao Tribunal Constitucional a qualidade de intérprete supremo dos preceitos
constitucionais, impondo-se suas decisões a todos os poderes públicos estatais. Cfr. ANDRÉ MAURO LACERDA AZEVEDO, O
Recurso de Amparo Espanhol, texto publicado em 9 de agosto de 2011 20:06 - Atualizado em 13 de agosto de 2011 19:14, disponível
em http://atualidadesdodireito.com.br/andremauro/2011/08/09/o-recurso-de-amparo-espanhol/.

91
Assim, no que diz respeito às decisões dos tribunais, o artigo 5.º, n.º, da LA, sob
a epígrafe “Prazo para interposição do recurso”, prescreve que “O recurso de amparo
constitucional é interposto no prazo de vinte dias contados da data da notificação da
decisão, sempre que a questão seja suscitada em processo que corra termos nos tribunais”.
Por outro lado, o numero 2 do mesmo artigo acima referido, preceitua que nos
demais casos – rectius, como já se disse, quando estão em causa atos administrativos –
o recurso deve ser interposto no prazo de noventa dias contados do ato ou facto ou de
recusa da prática de atos ou factos. Ora, dito isto, tudo leva a crer que este prazo foi
pensado para aquelas situações em que a via judicial não está aberta.

2.3.6 Tramitação Processual


Passemos, agora, a ver como é que este recurso se tramita no Supremo Tribunal
de Justiça, como Tribunal Constitucional338. Assim:
2.3.6.1. Petição do Recurso.
Começaríamos este ponto por dizer que o recurso de amparo, como qualquer
recurso, é interposto com a apresentação de uma petição – ou nas palavras da LA, “por
meio de simples requerimento” 339 –, devidamente fundamentado, apresentado na
Secretaria do Supremo Tribunal de Justiça.
Nesse requerimento acabado de se referir, deve o recorrente, expressamente,
indicar que o recurso tem a natureza de amparo Constitucional, ficando a Secretaria com
a incumbência de fixar a data da interposição do recurso340.
Uma vez apresentada a petição de recurso, a secretaria deve, independentemente
de despacho, “recebe-la e autua-la” no prazo de vinte e quatro horas, fazer cópias e

338
Neste particular, pode ver-se, por todos, a “Marcha processual” do recurso de amparo, em PAULO CARDINAL, «O Instituto do
Recurso de Amparo de Direitos Fundamentais e a Juslusofonia – Os Casos de Macau e Cabo Verde», ob. cit., pp.127-129.
339
Cfr. artigo 7.º, sob a epígrafe “Petição em recurso”.
340
É bom notar que na petição acima referida o recorrente deverá fundamentar o seu recurso, sob pena de o mesmo não ser admitido.
Neste sentido, o artigo 8.º da LA, sob a epígrafe “Fundamentação do recurso”, diz-nos que na petição o recorrente deverá identificar
a entidade, o funcionário ou agente autor do ato ou da omissão referido no n.º 1 do artigo 2 e 3, bem como os interessados a quem o
provimento do recurso possa diretamente beneficiar ou prejudicar – ou seja, os contrainteressados; indicar com precisão o ato, o facto
ou omissão que, na opinião do recorrente, violou os seus direitos, liberdade e garantias fundamentais; indicar com clareza os direitos,
liberdades e garantias fundamentais que julga terem sido violados, com a expressa menção das normas ou princípios jurídico-
constitucionais que entende terem sido violados; expor resumidamente as razões de facto que fundamentam o pedido e formular
conclusões, nas quais resumirá, por artigos, os fundamentos de facto e de direitos que justificam a petição.
Refira-se que a petição deve terminar com o pedido de amparo constitucional no qual se indicará o amparo que o recorrente
entende dever ser-lhe concedido para preservar ou restabelecer os direitos, liberdades e garantias fundamentais violados, juntando,
com o referido petição, os documentos que julgar pertinentes para a procedência do pedido (cf. os n os 2 e 3 do artigo 8.º da LA).

92
distribuir a todos os juízes e às entidades afetadas com o pedido, fazendo no mesmo prazo
conclusão do processo ao Presidente do Tribunal341.
2.3.6.2. Marcação de conferência para julgamento da admissibilidade do recurso
Na sequência do que foi dito acima, o presidente, no prazo de dois dias, marcará
Conferência para julgamento da admissibilidade do recurso, a ter lugar no prazo de cinco
dias, o que será notificado aos juízes e ao Ministério Público342.
2.3.6.3 Adoção urgente de medidas provisórias
Faz-se mister, ainda, alertar que o presidente do tribunal poderá oficiosamente ou
a pedido do recorrente e independentemente dos vistos, marcar a Conferencia para as
vinte e quatro horas seguintes ao do recebimento da cópia da petição para, nos termos do
artigo 11.º da LA, nela se decidir sobre a admissibilidade do recurso e sobre as medidas
provisórias343 a adotar quando 1) fundamentadamente da demora da adoção

341
Cfr. artigo 9.º, sob a epígrafe “Recebimento e autuação do pedido”.
342
Cfr. artigo 10.º da LA.
343
Para saber quais são as providências provisórias admissíveis, cfr. os artigos 14.º e 15 da LA. Ainda, para uma visão mais detalhada
sobre as medidas provisórias, veja-se EDELTRUDES NEVES/RUI ARAUJO, «Primeiro Despacho a Proferir Num Recurso de
Amparo que tenha Sido Pedida uma Medida Provisória – Comentário ao Despacho do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça
de 18 de Novembro de 1996, Proferido Sobre o Recurso de Amparo n.º 2/96», ob. cit., pp. 75-84.
Neste processo, onde a recorrente (Município do Sal), com a petição, solicitou que se adotasse medidas provisórias, o
Presidente do STJ, num despacho sobre a admissibilidade do recurso, decidiu, em síntese, o seguinte: “O presente processo, ainda
nesta fase inicial e sem qualquer contraditório, afigura-se-nos algo complexo e pouco claro, devendo por isso evitar-se medidas
precipitadas. Daí que entendamos não serem desde já aconselháveis medidas provisórias nos termos do artigo 11.º da Lei Reguladora
do processo de Amparo. Por isso que vai indeferido o que neste particular se requer.
Para o julgamento da admissibilidade do presente recurso nos termos do artigo 10.º e 13.º da Lei do P. de Amparo designo
o próximo dia 22 do corrente, pelas 9.00 horas.
Vão os autos ao MP, nos termos do art. 12.º da mesma lei. Not.”
Ora bem, inconformado com o despacho, os autores acima referidos comentaram/anotaram o mesmo, lançando e
respondendo duas questões, a saber: 1) Será o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça competente para deferir ou indeferir o pedido
de medida provisória? e 2) Qual a margem de discricionariedade conferida por lei ao referido magistrado?
Ora bem, o próprio magistrado em causa respondeu essas questões quando esclarecia a questão levantada com o
requerimento infra referido.
Assim, da leitura da resposta/esclarecimento do presidente “sobre o requerimento de fls. 36”, de 27 de Novembro (que veio
na sequência do acórdão acima referido), que recomendamos, pode retirar-se a ideia segundo a qual o presidente só pode indeferir a
marcação da conferência nos termos do referido artigo 11.º, e nunca tomada de medidas, pois, como se explica na referida resposta,
esta competência é do Tribunal e não do Presidente ou do relator.
Continua o mesmo documento, plasmando que “E assim é pois que não se entenderia e até seria ilógico que o Presidente
marcasse uma conferência especialmente para a tomada de medidas urgentes pelo Tribunal, e nessa mesma conferência, como relator,
não propusesse a tomada de qualquer medida por entender que nenhuma medida urgente devia ser tomada.”
Na esteira do exposto, alerta ainda o presidente do STJ, na sua resposta, dizendo que com tudo isso poderá parecer à
primeira vista que o presidente, ao indeferir um pedido de marcação de conferência para uma requerida tomada de medidas urgentes
com base no artigo 11.º, n,º 1. Da LA, bloqueia a possibilidade de o Tribunal tomar essas medidas urgentes requeridas.
No entanto, como diz, “Mas não é assim”.

93
de medidas poder resultar prejuízo irreparável ou de difícil reparação para o recorrente
ou a própria inutilidade do amparo e 2) razões ponderosas justificarem a necessidade da
imediata adoção de medias provisórias julgadas necessárias para a conservação dos
direitos, liberdades e garantias violados ou para restabelecimento do seu exercício até ao
julgamento do recurso.344
Por fim, não é demais alertar que a decisão que for tomada, segundo a lei de
amparo345, deve ser imediatamente notificada ao recorrente, à entidade recorrida e ao
Ministério Público, podendo o Tribunal ordenar a notificação de outras entidades, sempre
que entenda que estas devem praticar atos necessários à conservação dos direitos,
liberdades ou garantias violados ou ao restabelecimento do exercício desses direitos.

Nas palavras do então Presidente do STJ caso o requerente da tomada de medidas urgentes não se conforme com o despacho
do Presidente que lhe indeferiu o pedido de marcação de conferência nos termos e para efeitos do artigo 11.º, n.º 1, deverá de imediato
desse despacho reclamar para a conferência nos termos do artigo 700.º, n.º 3, parte final do Código de Processo Civil, aqui aplicado
subsidiariamente.
E, como diz, então aí o Presidente não poderá deixar de levar a questão à conferência para que esta aprecie o bem ou mal
fundado do despacho que denegou marcar conferência nos termos do artigo 11.º acima citado, tomando posição sobre a matéria.
Do exposto decorre que o Tribunal pode fazer uma dessas duas coisas: 1) Por acórdão ou confirma o despacho, e a questão
termina aí ou 2) o infirma, e toma as medidas que achar por pertinentes e aconselháveis.
Exposto isto, importa chamar à colação o que se passou no processo em apreço, isto com base nas informações avançadas pelo
então Presidente do STJ no esclarecimento ao requerimento do requerente. Assim, diz-nos o magistrado que: “
1. O requerente na sua petição requereu que fossem tomadas medidas urgentes com base e nos termos do artigo 11.º, n.º 1 da
LA, com os fundamentos que invoca e entende pertinentes:
2. O Presidente do Tribunal, funcionando como relator nesta fase inicial do processo, em despacho fundamentado entendeu
não ser aconselhável que as medidas requeridas fossem tomadas desde logo e a título de urgência, por isso que indeferiu o
pedido, e apenas esse pedido;
3. Notificado o requerente desse despacho no dia 18 do corrente, do mesmo não reclamou para a conferência, podendo faze-
lo nos termos do artigo 700.º, n.º 3, do CPCV.
4. Preferiu antes o requerente fazer juntar o requerimento de fls. 36 dos autos, onde hipnotiza um engano ou lapso da minha
parte e pede que seja o mesmo retificado.”
Dito isto, o Presidente terminou o seu esclarecimento, dizendo que “não houve qualquer lapso meu, na medida em que na
altura entendi e continuo a entender que nesta fase inicial do processo, ainda sem qualquer contraditório, não se mostra aconselhável
que as medidas provisórias urgentes pretendidas sejam tomadas desde já, por isso que indeferi esse pedido, e só esse pedido”
Mais, “O que nada impedia que o Tribunal, em conferência, viesse a proferir acórdão a deferir esse pedido, caso o
requerente para ela tivesse reclamado, como era seu direito. Pela minha parte só teria que votar vencido.”
Para mais desenvolvimento sobre a posição dos autores, veja-se EDELTRUDES NEVES/RUI ARAUJO, «Primeiro
Despacho a Proferir Num Recurso de Amparo que tenha Sido Pedida uma Medida Provisória – Comentário ao Despacho do
Presidente do Supremo Tribunal de Justiça de 18 de Novembro de 1996, Proferido Sobre o Recurso de Amparo n.º 2/96», ob. cit.p.
79 e ss. Como se disse, os autores criticaram a posição do magistrado, e apontaram caminhos para se ultrapassar essa questão (ou seja,
como deve ser interpretado o artigo 11.º, mormente a expressão “poderá”, que entendem que não pode ser entendido como mera
faculdade (p. 82 e ss); ainda, sobre as medidas cautelares em Cabo Verde, cfr., PAULO CARDINAL, «O Instituto do Recurso de
Amparo de Direitos Fundamentais e a Juslusofonia – Os Casos de Macau e Cabo Verde», ob. cit., pp. 126-127.
344
Cfr. artigo 11.º, n.º 1, ali a) e b).
345
Cfr. artigo 11.º, n.º 2.

94
2.3.6.4 Vista ao Ministério Público
Na esteira do exposto no ponto anterior, importa dizer que se não houver a adoção
de medidas provisórias nos termos explicados acima, vão os autos, nas vinte e quatro
horas seguintes, por dois dias, com vista ao Ministério Público que promoverá o que
entender por conveniente sobre a admissibilidade ou rejeição do recurso, sendo que,
segundo a LA, cópias da promoção desse órgão que defende a legalidade democrática do
nosso Estado de Direito serão distribuídos aos juízes até vinte e quatro horas antes da
Conferencia preliminar346.
2.3.6.5. Do julgamento da admissibilidade do recurso
Aberta audiência, o Presidente fará uma exposição do objeto do recurso, sobre a
necessidade ou não de adoção de medidas provisórias, e, de seguida, lê o projeto de
Acórdão, que será de imediato discutido entre os juízes347.
Uma vez terminada a discussão, os juízes dão os seus votos pela ordem dos
vistos.348
Sublinhe-se que a decisão é tomada por maioria dos Juízes presentes, cabendo ao
presidente voto de qualidade.349
2.3.6.6.Inadmissibilidade do recurso.
Não obstante o exposto no número anterior, cumpre realçar que o recurso pode
não ser admitido, isto nos termos do artigo 16.º da LA.
Assim, o recurso não será admitido quando: tenha sido interposto fora do prazo;
a petição não obedeça aos requisitos estabelecidos nos referidos artigos 7.º e 8.º; o
requerente não tiver legitimidade para recorrer; não tiverem sido esgotados, ainda, todas
as vias de recurso, como manda também o referido artigo 6.º a propósito dos
pressupostos350 ; manifestamente não estiver em causa violação dos direitos, liberdades e
garantias fundamentais constitucionalmente reconhecidos como suscetíveis de amparo e,
por fim, quando o tribunal tiver rejeitado, por decisão transitado em julgado, um recurso
com objeto substancialmente igual351.

346
Cfr. artigo 12.º da LA.
347
Cfr. artigo 13.º, n.º 1, da LA.
348
Cfr. artigo 13.º, n.º 2, da LA.
349
Cfr. artigo 13.º, n.º 3, da LA.
350
Cfr. supra, ponto 2.3.4 .
351
Aristides Lima (“O Recurso Constitucional Alemão e o Recurso de Amparo Cabo-verdiano, ob. cit.”) fez uma análise comparativa
entre o recurso constitucional Alemão e o recurso de amparo Cabo-verdiano, e nessa comparação constatou que “Em ambos os países

95
2.3.6.7 – Distribuição e notificação para a apresentação da resposta
Abstraindo do que se disse no ponto anterior – ou seja, vamos supor que, num
caso em concreto, não houve rejeição do recurso com os fundamentos expostos – diz a
Lei de Amparo que, admitido o recurso será o processo concluso ao relator no prazo de
vinte e quatro horas, ficando aquele com a tarefa de, no prazo de quarenta e oito horas,
notificar a entidade requerida para responder, querendo, no prazo de cinco dias 352 .A
resposta será apresentada na Secretaria do Supremo Tribunal de Justiça e deverá ser
acompanhada de uma cópia para cada Juiz e para o recorrente, que serão distribuídas logo
que recebidas, independentemente de despacho
2.3.6.8.Vista final ao Ministério Público
Pois bem, no contexto do que foi referido, continuemos com a tramitação do
recurso de amparo, dizendo, com base na Lei de amparo, que uma vez recebida a resposta
ou decorrido o prazo para a sua apresentação, os autos, nas vinte e quatro horas seguintes,
vão, por três dias, com vista ao Ministério Público que promoverá o que entender por
conveniente sobre a admissibilidade ou rejeição do recurso, a suspensão, a alteração ou a
revogação de medidas provisórias já decretadas e, ainda, sobre as medidas julgadas
necessárias que deverão ser adaptadas para o restabelecimento do exercício dos direitos,
liberdades ou garantias violados353
2.3.6.9.Elaboração do projeto de Acórdão
Nesta sequência, decorrido o prazo referido no ponto anterior, o processo é
concluso ao relator para no prazo de dez dias elaborar e depositar na Secretaria o projeto
de Acórdão que será distribuído aos restantes juízes nas vinte e quatro horas seguintes354
2.3.6.10. Da designação do dia do julgamento do recurso
De acordo com o artigo 22.º da LA, o Presidente designará dia para o julgamento do
recurso, que deverá realizar-se nos três dias seguintes ao da entrega das cópias do projeto
de Acórdão a todos os Juízes, nos termos acima expostos.
E mais: O despacho que designa dia e hora da audiência de julgamento, será, de
imediato, notificado ao Ministério Público e aos demais sujeitos processuais interessados.
2.3.6.11. Do julgamento do recurso

prevê-se um processo de admissão dos recursos que cumpre essencialmente as mesmas funções: descongestionamento do Tribunal e
especialização das jurisdições naquilo que efetivamente lhes compete”.
352
Cfr. artigo 18.º da LA.
353
Cfr. artigo 20.º da LA.
354
Vide o artigo 21.º da LA.

96
O artigo 23.º da mesma Lei acima referido começa por dizer que é aplicável à
audiência do julgamento do recurso de amparo o disposto no artigo 13º com as alterações
constantes dos números seguintes, ou seja, 1) o julgamento não pode ser adiado por falta
de qualquer dos sujeitos processuais e a 2) audiência de julgamento é pública e contínua.
Importa recordar que o artigo 13.º trata a questão do julgamento da admissibilidade do
recurso.355
2.3.6.12 Da decisão
Isto posto, chegou a hora de concluir este ponto, dizendo que, no que diz respeito
à decisão, deve sublinhar-se que “O Tribunal pode decidir com fundamento diverso do
invocado pelo recorrente e outorgar amparo distinto daquele que foi referido”, de acordo,
aliás, com artigo 24.º, n.º 1, da LA
Note-se que, na senda do mesmo artigo (24.º, n.º 2), “Pode, ainda, o Tribunal
decretar a adoção de medidas julgadas adequadas para restabelecer e garantir ao
recorrente o pleno exercício dos direitos, liberdades ou garantias violados, distintas
daquelas que foram requeridas.”
2.3.7. Efeitos
No que diz respeito aos efeitos356 da decisão, cumpre, pois, dizer que no Acórdão
que julgue procedente o recurso e outorgue o amparo, deverá o Tribunal, conforme
preceitua o artigo 25,º da LA: a) Reconhecer ao recorrente a plena titularidade dos
direitos, liberdades e garantias violados e o direito de os exercer de acordo com o
conteúdo e extensão constitucionalmente consagra; b) Declarar nulo ou inexistente o ato
impugnado; c) Ordenar, no caso de tratar de omissão, à entidade recorrida a adoção,
dentro do prazo que lhe vier a ser fixado no Acórdão de medidas adequadas à preservação
e ao restabelecimento do exercício dos direitos, liberdades e garantias pelo recorrente; d)
Declarar o direito, liberdade ou garantia fundamental violado pela prática do ato ou como
consequência da omissão objeto do recurso; e) Ordenar à entidade recorrida que se

355
Dr. Aristides Lima alerta-nos que “Em Cabo Verde, o STJ, como Tribunal Constitucional, profere, quer na conferência de admissão,
quer na audiência de julgamento do recurso de amparo decisões com a designação de «acórdão». Cfr. ARISTIDES LIMA, O Recurso
Constitucional Alemão e o Recurso de Amparo Cabo-verdiano, ob. cit.,p. 30.
356
No que tange aos efeitos da decisão que concede o amparo, adiantando, podemos dizer que o ordenamento jurídico-constitucional
cabo-verdiano aproxima-se mais do Espanhol, por ambos irem muito mais longe do que a queixa constitucional alemã que, como se
sabe, no que diz respeito a queixas constitucionais contra decisões judiciais possui efeitos meramente cassatórios, ou seja, anula a
decisão recorrida e devolve os autos ao tribunal competente (Cfr. CATARINA SANTOS BOTELHO, A Tutela Directa dos Direitos
Fundamentais, Avanços e Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e Internacional, ob. cit., p.
240, nota 957).

97
abstenha de praticar atos que possam afetar, por qualquer forma, o pleno exercício pelo
recorrente dos seus direitos, liberdades ou garantias) Indicar concretamente o órgão,
agente ou funcionário que deve praticar ou abster-se de praticar os atos nele referidos.
Mais, “Na sentença, o Tribunal poderá ainda decretar fundamentadamente
medidas que julgar apropriadas à preservação ou restabelecimentos dos direitos,
liberdades e garantias violados, até que a entidade recorrida cumpra o estabelecido na
alínea c) do número anterior.”
Cumpre ainda sublinhar que, segundo a LA, “Se o Tribunal reconhecer que o ato
ou omissão objeto de recurso foram praticados por determinação ou em cumprimento de
uma norma jurídica ou de uma resolução de conteúdo material normativo ou individual e
concreto inconstitucional ou ilegal, deverá no Acórdão ordenar a remessa do processo
para o Procurador-Geral da República para a fiscalização sucessiva e concreta da
constitucionalidade da referida norma ou resolução”, isto porque, como se disse, em Cabo
Verde, o amparo não é a via normal para se atacar os atos normativos e legislativos357.
Como já se disse, entre nós, Aristides Lima, entende que “Este facto diminui o
alcance do amparo como instrumento de defesa de direito, de defesa da Constituição e de
«domesticação do poder», incluindo, por conseguinte no poder legislativo, não obstante
haver, noutro plano e, em parte, com outros atores, os processos de controlo objetivo de
normas, o controlo abstrato sucessivo e o concreto”358.
Por isso, na opinião do mesmo autor, “parece desejável repensar a problemática
do recurso de amparo, no sentido de ampliação do seu objeto e de um melhor
conhecimento do mesmo por parte da população e dos técnicos de direito, condição
essencial para a sua utilização”359
Diz ainda, como se frisou varias vezes supra, que “afigura-se criticável a
concentração que se verifica dos recursos contenciosos administrativos e do recurso de
amparo num mesmo tribunal, o STJ, facto que limita as virtualidades do recurso de
amparo em Cabo Verde,”360

357
Também em Espanha, da leitura conjugada dos artigos 164.º, n.º 1, in fine, da CE e do artigo 29.º, n.º 1, da LOTCE, resulta que “a
decisão de outorgamento do amparo não pode, de modo algum, pretender declarar a inconstitucionalidade de uma lei”. (Idem, ibidem,
p. 242).
358
Cfr. ARISTIDES LIMA, O Recurso Constitucional Alemão e o Recurso de Amparo Cabo-verdiano, ob. cit., p. 32.
359
Idem, ibidem.
360
Idem, ibidem, p. 33.

98
Termina esta questão afirmando e recomendando que “A separação destas
jurisdições, e em geral do Tribunal Constitucional face à jurisdição administrativa, seria
aconselhável, com vista a facultar ao cidadão uma garantia real de um recurso de amparo,
quando no âmbito de um recurso de contencioso no STJ um seu direito fosse violado.”361
Posto isto, podemos concluir que os efeitos do recurso de amparo estão todos
previsto no referido artigo 25.º, e que, da análise desse preceito, pode ver-se que não
se previu medidas meramente cassatórias, como acontece, por exemplo, na
Alemanha, mas sim medidas mais eficazes que permite ao STJ, inclusive, como
vimos, ordenar, no caso de tratar de omissão, à entidade recorrida a adoção, dentro
do prazo que lhe vier a ser fixado no Acórdão de medidas adequadas à preservação
e ao restabelecimento do exercício dos direitos, liberdades e garantias pelo
recorrente; ordenar à entidade recorrida que se abstenha de praticar atos que
possam afetar, por qualquer forma, o pleno exercício pelo recorrente dos seus
direitos, liberdades ou garantias, etc.

2.4.Jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça de Cabo Verde sobre o Recurso


de Amparo
Neste ponto vamos analisar um conjunto de acórdãos do STJ de Cabo Verde sobre
o recurso de amparo, note-se, desde de 1996 até 2013, por forma a ver como é que esse
mecanismo tem funcionado no nosso país.
Sem mais delongas, passemos a análise:
A) Pois bem, da leitura do acórdão n.º 1/96, de 13 de Novembro de 1996, em que
é recorrido Tribunal da comarca do Sal, acórdão esse que foi escrito à mão, contata-se
que o recurso não foi aceite, pois, segundo o tribunal, a petição inicial mostrava-se “um
tanto obscura”, “na medida em que não descreve com precisão o modo concreto como os
factos se passaram, nomeadamente o dia em que o requerente pretendeu entregar o
alegado documento e quem o atendeu, nem refere de que modo a meritíssima juíza
interveio na questão”.

361
Idem, ibidem.

99
Nesses termos, com base nos artigos 17.º, n.º 1 e 2362, 8.º, n.º 1, ali. b)363, todos da
LA, os juízes do Supremo Tribunal de Justiça acordaram “em convidar a requerente a vir
nos autos suprir as deficiências e juntar o requerimento ou requerimentos que alega ter
pretendido entregar no tribunal da comarca do Sal”.

B) O acórdão n.º 2/96, de 18 de Novembro, em que é o recorrido também Tribunal


da comarca do Sal, foi proferido no decurso de um processo-crime em que o recorrente
era arguido da prática de uma crime de peculato.
Como veremos já de seguida, as pretensões do recorrente foram parcialmente
aceites.
Pois bem, no caso sub júdice, o requerente, que se encontrava detido
preventivamente, solicitou ao STJ um amparo Constitucional, por entender que por várias
vezes se viu prejudicado o seu direito de defesa na medida em que estando o processo na
fase de instrução contraditória, ao pretender introduzir requerimentos em e para a sua
defesa, tal não lhe foi possível por inoperância ou recusa de serviços da Secretaria do
referido Tribunal, o que motivou o seu pedido de Amparo Constitucional “para a situação,
de modo a poder exercer devidamente os seus direitos de defesa, de conformidade com o
que lhe é garantido pela Constituição”364.
Por outro lado, pretendeu o requerente que nesse processo fosse decretada a sua
soltura para ficar em regime de Liberdade Provisória.
Ora, como avançamos supra, as pretensões do requerente foram parcialmente
aceites, pois, no que diz respeito à primeira pretensão, com base no artigo 13.º da LA,
entendeu o plenário que a mesma padecia de uma certa obscuridade, na medida em que
não esclarecia devidamente como os atos de inoperância e recusa tinham sido
efetivamente passado, nem juntava os documentos que alegadamente tinham sido
entregues e não recebidos.
Nessa esteira, o requerente foi notificado para ir nos autos corrigir as deficiências,
sendo que, dentro do prazo estipulado na lei, o mesmo juntou “esclarecimento e tais

362
Este artigo, sob a epígrafe “Falta, insuficiência ou obscuridade do pedido”, dispõe, por um lado, que “Na falta, insuficiência ou
obscuridade dos fundamentos de facto ou de direito, será o recorrente notificado para suprir as deficiências, no prazo de dois dias.”
Por outro lado, lamina o mesmo preceito que “Pode, ainda, o recorrente ser convidado a juntar documentos ou outros elementos de
prova que o Tribunal julgue indispensáveis para a boa decisão da causa.”
363
Que, como veremos mais a frente, prescreve que na petição o recorrente deverá indicar com precisão o ato, facto ou omissão que,
na sua opinião, violou os seus direitos, liberdades ou garantias fundamentais.
364
Cfr. Acórdão n. 1/96, de 13 de Novembro de 1996 do STJ, acima referido

100
documentos que alega ter pretendido entregar nos serviços da secretaria do Tribunal do
Sal, sem no entanto o ter conseguido”365.
Sublinhe-se que, como diz o acórdão em apreço, a juíza visada, ao receber cópia
da petição que lhe fora enviada, desde logo apressou-se a remeter explicação-
esclarecimento sobre a questão, constante de fax junto aos autos, onde nega que alguma
vez tenha recusado pessoalmente de receber algum documento introduzido em defesa do
arguido ora recorrente, ou sequer dado ordens nesse sentido à sua secretaria.
Contudo, tudo visto e ponderado, no que tange à primeira pretensão do requente,
acima referido, o STJ, para fundamentar a sua decisão, começou por afirmar que da
análise dos documentos agora juntos pelo requerente constata-se efetivamente que quatro
deles, todos endereçados à meritíssima juíza da Comarca do Sal, apresentam carimbo de
“Recebimento” da secretaria do Tribunal do Sal, o que significa que deram entrada nessa
secretaria.366
Sucede, porém, que não tiveram andamento, pois não contêm qualquer despacho
daquela magistrada nem foram junto aos respetivos autos.367
É no entanto imperioso que esses documentos tenham o destino que lhe deve ser
ordenado, o que compete ao juiz 368.
Com base no exposto e lançando mão do artigo 14.º, n.º 1, ali. b)369 da LA, os
Juízes do STJ acordaram, em plenário, em ordenar à meritíssima Juíza da Comarca que
despachasse decidindo do destino dos documentos, que para tanto lhe seriam remetidos.
Segundo o acórdão, “Fica assim atendida a medida de amparo constitucional requerida.”
Foi dito acima que as pretensões do requerente foram parcialmente aceites, isto
porque, da leitura do acórdão resulta que, no que diz respeito à segunda pretensão (“que

365
Ibidem.
366
Cfr. Acórdão n.º 2/96, de 18 de Novembro do STJ, p. 2.
367
Ibidem.
368
Ibidem.
369
Como se viu supra, este inciso trata a questão das providências provisórias. A alínea b) do numero 1 do mesmo, preceitua que na
Conferência a que se refere o artigo anterior, ou seja, o artigo 13.º, poderá o Tribunal oficiosamente, ou a requerimento do Ministério
Público ou do requerente ordenar a adoção provisória de medidas julgadas necessárias para a conservação dos direitos, liberdades ou
garantias violados ou para o restabelecimento do exercício desses mesmos direitos, liberdades ou garantias até ao trânsito em julgado
da sentença que vier a ser proferida.
Portanto, como ver-se-á de seguida, no caso sub júdice lançou-se mão deste preceito para acautelar os interesses do
recorrente. Mais: veremos ainda que não obstante ser uma medida provisória, o ponto é que tornou a lide “inútil”, pois, na verdade,
essas medidas provisórias são as que a final iriam ser tomadas, caso não fosse possível tomá-las antecipadamente.

101
seja decretada a sua soltura para ficar em Liberdade Provisória”), “esse pedido só poderá
ser ponderado e eventualmente atendido em sede própria, que não o presente recurso”370.
De facto, como diz o acórdão, “o ora requerente está já pronunciado no processo-
crime que contra ele corre termos e que acima aludimos, ali cabendo pois requerer o que
tiver por conveniente e oportuno nesse sentido. Por isso que vai indeferida essa sua
pretensão”371
Note-se que, em conclusão, o STJ decidiu que, como avançamos acima,
“Considerando mais que as medidas provisórias agora tomadas são desde já as que
afinal acabariam por ser tomadas a título definitivo, não se vê interesse nem utilidade no
prosseguimento da lide, termos em que mais acordam em declarar extinta a instância por
inutilidade superveniente da mesma”372
C) No acórdão n.º 3/96, de 22 de Novembro de 1996, tendo, mais uma vez, como
recorrente o Município do Sal e Recorrido o Chefe da Repartição de Finanças de São
Vicente, por ordem de quem está agindo – o Ministro da Coordenação Económica, o
Secretário de Estado das Finanças e o Director Geral das Contribuições e Impostos, o STJ
lançou mão do artigo 17.º da LA.
Nesse acórdão, decidiu-se que “Tendo em vista que a recorrente na sua petição de
recurso pede cumulativamente não como medida provisória mas a titulo definitivo a
declaração de nulidade de todo o processo e a suspensão do mesmo enquanto não for
declarado instalado o Tribunal Fiscal e aduaneiro do Mindelo, o que é contraditório e
ininteligível, configurando o vício previsto no artigo 193.º al. A) e E) do C.P.C. aplicável
subsidiariamente, acordam no Supremo Tribunal de Justiça em convidar o recorrente, ao
abrigo do art.º 17.º da Lei n.º 109/IV/94, de 24 de Outubro, para no prazo de dois dias,
suprir essa deficiência”.
Sublinhe-se que nesse acórdão houve um voto de vencido, com o seguinte
argumento: “Entendo que não existe contradição entre o pedido cumulativo de suspensão
imediata do processo fiscal e o de declaração de nulidade do mesmo, na medida em que,
face ao disposto no artigo 15.º, n,º 1, da Lei Reguladora do Processo de Amparo, este
tribunal pode adotar provisoriamente a medida de suspensão do processo a requerimento

370
Cfr. a p. 2 do acórdão em apreço.
371
Ibidem.
372
Ibidem.

102
do recorrente até despacho que designa dia para julgamento (o que quer dizer no decorrer
do processo), sem prejuízo de poder também, e a final declarar nulo todo o processo…”
D) No Acórdão n.º 4/96, que veio na sequência do anterior acórdão, os Juízes do
STJ acordaram, em plenária, que “Considerando que entre razões e explicações várias,
aliás habituais nestas circunstâncias, o recorrente veio eliminar a contradição que tornava
inteligível o seu pedido; Ponderadas as razões invocadas para pedir o Amparo
Constitucional; Decide o Supremo Tribunal de Justiça, em conferência plenária, admitir
o recurso de amparo interposto pelo Município do Sal, para seguir os ulteriores termos
legais, que são os dos artigos 18.º e segts. Da Lei n.º 109/IV/94 de 24 de Outubro”.373
Por fim, quanto ao pedido de tomada da medida provisória de suspensão da
anunciada venda pública, entendeu o Tribunal que o mesmo “deixou de ter objeto, por se
achar a venda de momento suspensa”374
Neste acórdão houve um voto de vencido onde se diz que: “A petição mostra-se
suficientemente inteligível, com observância do disposto no art.º 8.º da Lei Reguladora
do Processo de Amparo. Acompanham-na os documentos que a requerente entendeu
necessários e suficientes para o fim em vista375
Diz ainda que era do conhecimento oficioso desse Supremo Tribunal que o
Tribunal Fiscal e Aduaneiro de S.Vicente já tinha sido criado pelo Dec. Legislativo n.º
69/93, de 13 de Dezembro. Mas que ainda não estava instalado, não tendo sequer juiz
nomeado376
Nessa esteira, o mesmo é de entendimento que é incontestável que o recurso ou
recursos que o requerente pretende interpor deviam sê-lo para o Tribunal fiscal e
Aduaneiro, face ao que dispõe os artigos 99.º, n.º 2, do Código de Processo Tributário e
10.º e sgts. do Dec. Legislativo acima referido377.
Portanto, face ao exposto, o Juiz Conselheiro entende que, não estando este
Tribunal instalado e em funcionamento, e querendo o ora requerente para ele recorrer sem

373
Para maior desenvolvimento sobre os ulteriores termos legais a que se refere o acórdão em apreço, cfr. Supra, ponto 2.3.6, onde se
tratou a tramitação processual do recurso de amparo.
374
Para maior desenvolvimento sobre a suspensão dessa venda, que foi decretada pelo Juiz Cível de São Vicente, a pedido de um
outro sócio da “Fábrica de Tabacos”, veja-se EDELTRUDES NEVES/RUI ARAUJO, «Primeiro Despacho a Proferir Num Recurso
de Amparo que tenha Sido Pedida uma Medida Provisória – Comentário ao Despacho do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça
de 18 de Novembro de 1996, Proferido Sobre o Recurso de Amparo n.º 2/96», ob. cit., p. 83.
375
Cfr. a declaração de voto acima referido, anexo ao acórdão n.º 4/96, p. 16.
376
Ibidem.
377
Ibidem.

103
o poder fazer, estamos perante uma situação de cerceamento do seu legitimo direito de
defesa378
Na opinião desse juiz, trata-se sem dúvida de uma flagrante e manifesta quebra
dos direitos fundamentais de defesa e de acesso à justiça pelo recurso aos Tribunais,
conforme previsto no artigo 20.º da nossa Constituição379.
Ainda nesta senda, no que diz respeito aos pressupostos para se interpor o recurso
de amparo, o referido magistrado dizia que estavam esgotadas todas as vias de recurso
ordinário, restando ao recorrente apenas o Recurso de Amparo como via para garantir os
direitos a que se arroga380.
Por fim, diz-nos que o recurso de amparo foi interposto dentro do prazo legal e
que, na altura, não se via que estivéssemos perante algumas das situações que, como
vimos, nos termos do disposto no artigo 16.º da L.R.P.A obstavam a que o mesmo fosse
admitido381
E) Em suma, no acórdão n.º 1/97, de 06 de Janeiro de 1997, que vem na sequência
dos anteriores, o Tribunal decidiu extinguir a instância, aplicando supletivamente o CPC,
por entender que houve inutilidade superveniente da lide.
De facto, como prescreve o acórdão, pela portaria n.º 52/96, de 9 de Dezembro,
foi declarado instalado o Tribunal Fiscal e Aduaneiro do Mindelo, instância especializada
competente para se pronunciar sobre eventuais ilegalidades do processo Fiscal sub júdice.
Nesse contexto, reconhecendo previamente que a falta de instalação do Tribunal
Fiscal e Aduaneiro de São Vicente, configurando uma situação de impossibilidade de
acesso à justiça tributária por parte dos contribuintes de Barlavento constitui fundamento
de admissibilidade do recurso de amparo Constitucional, tal como previsto no artigo 19.º
da Lei Fundamental 382 , concluiu, no entanto, como se disse, que a existência de um
Tribunal especializado competente para dirimir o presente conflito torna inútil este
recurso de Amparo.383

378
Ibidem.
379
Ibidem.
380
Ibidem.
381
Ibidem.
382
Artigo que plasmava o recurso de amparo. Nessa altura estava em vigor a Constituição de 1992, revista extraordinariamente em
1995.
383
Na nossa doutrina, sobre este assunto, veja-se EDELTRUDES NEVES/RUI ARAUJO, «Primeiro Despacho a Proferir Num
Recurso de Amparo que tenha Sido Pedida uma Medida Provisória – Comentário ao Despacho do Presidente do Supremo Tribunal
de Justiça de 18 de Novembro de 1996, Proferido Sobre o Recurso de Amparo n.º 2/96», ob. cit., p. 76 e ss.

104
F) Lendo o acórdão n.º 01/99, de 15 de Janeiro do STJ, onde se esgotaram todas
as vias ordinárias – num processo cível –, vê-se que o recorrente dirigiu-se ao STJ para
pedir amparo constitucional 1) do seu direito à propriedade privada, “violado mas não
irreparável” e 2) do seu direito de acesso à justiça independentemente do desgaste
económico que a lide lhe causou e vem causando. Constata-se ainda que o mesmo juntou
ainda documentos que achou pertinentes.
Cumpridas as formalidades dos artigos 9.º, 12,º384, da LA, e marcada conferencia
para julgamento da admissibilidade do recurso (artigo 10.º), os juízes do STJ acordaram
em não admitir o recurso de amparo constitucional, e condenaram o recorrente na multa
de 20.000$00 (vinte mil escudos) por litigância de má-fé.
Para sustentar o indeferimento do pedido e a condenação como litigante de má-fé,
começou o SJT por realçar que dispõe o artigo 8.º da citada LA que o recorrente, na sua
petição, deve indicar com precisão o ato, facto ou omissão que na sua opinião violou os
seus direitos, liberdades e garantias fundamentais, e indicar com clareza quais deles julga
terem sido violados, com expressa menção das normas ou princípios jurídico-
constitucionais que entende terem sido violados.
Diz ainda o acórdão em apreço que exige ainda o referido preceito que no pedido
de amparo constitucional se indique qual o amparo que o recorrente entende dever ser-
lhe concedido para preservar ou restabelecer os direitos, liberdades ou garantias
fundamentais violados.
Posto isto, o STJ entendeu que “com a presente petição afigura-se-nos que o
recorrente pretende pôr em causa o douto acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, que
lhe negou provimento às pretensões que vinha tendo num negócio em que o mesmo
pretendia comprar à Companhia de Navegação “Arca Verde” o navio/motor “Ilha do
Como”, alegando que com tal decisão o mesmo Tribunal violou o seu direito fundamental
a propriedade privada.
Não obstante esses argumentos apresentados pelo recorrente, o acórdão do STJ
entendeu que o recorrente “não fundamenta nem justifica minimamente o quanto alega,
de sorte a saber-se de que modo ou em que medida esse arresto viola algum dos direitos
fundamentais, que nem sequer especifica.”

384
Note-se que nos termos desse preceito, o Procurador-Geral lavrou douta promoção no sentido da não admissibilidade do recurso.

105
Ainda, continua o acórdão, muito menos se descortina em quê ou de que modo a
decisão em causa viola o direito à propriedade privada do recorrente, a ponto de justificar
um pedido de amparo constitucional.
Por outra lado, quanto ao pedido de amparo constitucional por violação do direito
de acesso à justiça, o Tribunal afirma que “é evidente que a realidade nua e crua de tudo
o que se passou demonstra que nenhuma razão de queixa tem o recorrente”.
Com efeito, “Basta ter em conta que sobre o seu caso se pronunciou tanto o Juízo
Cível do Tribunal de S.Vicente como o Supremo Tribunal de Justiça385, este em dois
acórdãos. O que, na senda do mesmo acórdão, “prova à saciedade que foram dadas ao
recorrente todas as chances de fazer valer os seus direitos pelas vias judicias”.
Por tudo o exposto, como demos conta acima, o Tribunal concluiu que o
recorrente, na sua petição, não indica com clareza e em concreto quais os seus direitos
fundamentais foram violados pelo acórdão em questão, nem quais as normas ou
princípios jurídico-constitucionais entende ele terem sido violados. Do mesmo passo
ainda na mesma petição não indica que amparo entende dever ser-lhe concedido.
Para além do mais, acrescenta o acórdão, é manifesto que a pretensão do
recorrente não pode proceder, uma vez que não se vê de que modo algum dos seus direitos
fundamentais foi violado.
Em conclusão, e com base no exposto, o acórdão do STJ reza ainda que a petição
em apreço não reúne todos os requisitos do artigo 8.º da Lei do Amparo, o que é
fundamento de inadmissibilidade do pedido nos termos do n.º 1 alínea B) e E) do art.º
16.º do mesmo diploma.

385
Faz-se notar que, em Cabo Verde, só recentemente é que a Lei ordinária veio criar os Tribunais de Relação (de segunda instância),
uma com a sede na Cidade de Assomada e a outra localizando-se em Mindelo, que, segundo a Lei, tomam, respetivamente, as
designações de Tribunal de Relação de Sotavento e Tribunal de Relação de Barlavento. Para maior desenvolvimento, cf. artigos 36 e
ss da Lei n.º 88/VII/2011, de 01 de Março de 2011, Lei essa que define a Organização, a Competência e o Funcionamento dos Tribunais
Judiciais).
Contudo, das informações que temos, esses tribunais ainda não estão a funcionar, não se sabe bem porquê.
Note-se que, segundo muitos cabo-verdianos, em vez da discussão que existe hoje sobre a criação do TC autónomo, deve-
se centrar as atenções nesses tribunais e nos tribunais de pequenas causas, pois tendo em conta o “nível de criminalidade” que assola
o nosso país, serão mais úteis para o arquipélago. Aliás, sobre este ultimo assunto, há uma tese interessante do Dr. Emanuel Sousa
sobre a justiça restaurativa (“ – um contributo para o combate à morosidade da justiça e à criminalidade juvenil”), institucionalizado
em muito países, como p.ex. Brasil, com resultados francamente positivos na diminuição da morosidade da justiça, paz social e
segurança.

106
E, para justificar a condenação por litigância de má-fé, remata que “No presente
processo o recorrente deduz pretensão cuja falta de fundamentação não pode ignorar e
faz um uso reprovável do processo”. Daí, como se disse, a justificação da condenação.
G) Faz-se notar que o acórdão n.º 01/05, de 22 de Março de 2005 é muito rico, na
medida em que fundamentou bem a decisão que se tomou, quais sejam a da não
admissibilidade do recurso por ininteligibilidade da petição inicial e por não se encontrar,
no acórdão sub júdice, esgotadas todas as vias de recurso ordinário, bem como a não
aceitação da questão da constitucionalidade que foi levantada, por não ser a
sede/mecanismo própria.386
Pois bem, no acórdão em apreço, os Advogados interpuseram recurso
constitucional, com pedido de adoção urgente de medida provisória, contra o que
consideram “várias e sistemáticas decisões judiciais”, alegadamente violadoras do seu
direito fundamental de livre exercício de profissão de advogado, decisões essas adotadas
nos processos em que intervêm um Juiz do 2.º Juízo Cível da Comarca da Praia e uma
Juíza do Juízo de Família e Menores da mesma comarca, alegando para o efeito, em
síntese, que “Os direitos fundamentais objeto de violação são os seguintes: o direito ao
livre exercício da sua profissão de advocacia previsto no artigo 41.º, n.º 1, da Constituição
da República; o direito à notificação dos atos previstos no artigo 241.º, ali. c), da
Constituição da República; e o direito a um processo equitativo previsto no artigo 21.º,
n.º 1, da Constituição”.
Mais, os advogados entenderam que embora a lei exija que o recurso de amparo
seja precedido de exaustão dos recursos ordinários, a verdade é que, entendiam eles, no
caso em apreço não é exigível o recurso prévio ao Supremo Tribunal de Justiça, enquanto
tribunal judicial, pois que, devendo esse tribunal funcionar também, em plenário, como
Tribunal Constitucional, depois disso, alertavam, haveria uma situação em que três juízes

386
Aliás, neste acórdão lançou-se mão da doutrina e jurisprudência nacional e estrangeira.
O STJ começou por reconhecer que “como aliás em vários domínios, o universo jurídico cabo-verdiano ressente, por razões
bem óbvias, da aridez doutrinal e jurisprudencial sobre esse assunto”, para, de seguida, dizer em nota (1) que na altura “Que se saiba
na literatura jurídica cabo-verdiana poucos escritos foram publicados sobre a matéria dos quais cabe destacar: Wladimir Brito “O
Amparo Constitucional”, in Revista de Direito e Cidadania ano VII, Julho a Outubro 1999, pág. 9 e seguintes; Aristides R. Lima, “O
Recurso Constitucional Alemão e o Recurso de Amparo Cabo-verdiano, Uma Análise Comparativa”, Praia, 2004; Jose Lopes da
Graça “O Recurso de Amparo” no Sistema Constitucional Cabo-Verdiano”, in Direito e Cidadania, n.º 2, Nov.º 1997 a Fev.º de 1998,
pág. 199 e seguintes”.
O STJ disse ainda que no caso vertente o défice de elementos é agravado pelo facto de as nossas fontes mais próximas,
com quem por tradição partilhamos afinidades em termos linguísticos, académicos e jurisprudências – a ordem jurídica portuguesa,
como se sabe – desconhecerem por completo o instituto em referência.

107
dessa instância que tivessem apreciado e decidido previamente o recurso ordinário em
sede de instância judicial, ficariam impedidos de intervir posteriormente no Tribunal
Constitucional.
Face ao exposto, cumpre dizer que esses argumentos não tiveram sucesso, pois
não convenceram o STJ que, contra-argumentando, indeferiu-os.
Não vamos debruçar em profundidade sobre os argumentos do STJ. Contudo,
importa chamar à colação alguns argumentos que consideramos ser pertinentes.
Pois bem, o acórdão transcreveu a norma Constitucional que prevê o amparo
(artigo 20.º), para depois dizer que desse preceito destacam-se as seguintes
características do amparo na Constituição cabo-verdiana: antes de mais a sua
apreciação e decisão é da competência do Tribunal Constitucional; só pode ter por objeto
direitos, liberdades e garantias fundamentais; a interposição desse recurso tem de ser
precedida da exaustão dos meios de impugnação ordinária; e o processamento é baseado
na celeridade
Neste âmbito, de entre essas características a que assume maior peculiaridade é
sem dúvida alguma a natureza subsidiária do recurso de amparo, expressa, como se disse
várias vezes supra, no facto de o mesmo só poder ter lugar depois de esgotados as vias
de impugnação ordinária. Acrescenta o acórdão em apreço que no plano
constitucional ficou bem claro que não haverá lugar a recurso de amparo enquanto houver
possibilidade de, por via dos meios judiciais ordinários, se proceder à reparação da lesão
provada pelo ato ou omissão em causa387.
Exposto isto, importa dizer que no caso em concreto os juízes do STJ lançaram
mão da doutrina espanhola para responder a essa questão: qual o fundamento para essa
exigência de se esgotar as vias de impugnação judicial?
Nesse pais Ibérico, certa doutrina de então entendia que “La razón de ser de esta
exigencia es bien clara.Responde sencillamente al carácter subsidiario del recurso de
amparo, de manera que, cundo en la vía judicial ordinaria existen recursos susceptibles
de ser utilizados y éstos resultan adecuados por su naturaleza y carácter para tutelar el
dereho fundamental presuntamente vulnerado, tales recurso habrán de intertar-se antes
de interponer el recurso de amparo.De ahí que los recurso de amparo planteados

387
Diz ainda o acórdão que no mesmo sentido se orienta o regime do amparo do Direito espanhol pois que “las violaciones de los
derechos y libertades…podrán dar lugar al recurso de amparo una vez que se haya agotado la via judicial procedente, de acuerdo
com el artículo 53.2 de la Constitucion” (cfr. artigo 43.º da Lei Orgânica do tribunal Constitucional Espanhol).

108
diretamente, sin dar antes oportunidade a los órganos judiciales de reparar las
vulneraciones de los derechos fundamentales que se denuncian, ninguna viabilidad
procesal presentarán, siendo inadmitidos o, en todo o caso, desestimados, por no haber
respetado su naturaleza subsidiaria.Tanto es así, en fin, que el incumprimento del
requisito que se examina, dado su próprio fundamento, determina la ausência de un
presupuesto material e jurisdicional que no puede dispensarse en forma alguna”388.
I) Nos acórdãos n.os º 13/04, de 15 de Março de 2004; 14/04, também de 15 de Março
de 2004; 4/05, de 26 de abril de 2005389; 5/2005, de 29 de Abril de 2005; 07/05, de 06 de
Dezembro de 2005;2/2007, de 26 de Fevereiro de 2007; acordaram os juízes do STJ,
enquanto Tribunal Constitucional, em indeferir liminarmente o recurso de amparo
constitucional, por não se mostrar verificado um requisito específico que a lei exige para

388
Cfr. GERMAM FERNANDES FARRERES, «El Recurso de Amparo Segun La Jurisprudência Constitucional», Marcial Pons,
Madrid, 1994, p. 89, apud acórdão acima referido
389
Aliás, nesse acórdão o STJ disse que “tem sido jurisprudência constante desta instância”, (onde em nota de roda pé, o STJ mandou
ver os acórdãos 13/04 e 14/04, ambos de 15 de Março de 2004, acima referidos) que constitui requisito essencial do recurso de amparo
que, em se tratando de decisão de um órgão judicial, a violação do direito, liberdade e garantia “tenha sido expressa e formalmente
invocada no processo logo que o ofendido dela tenha tido conhecimento” e que a “a reparação seja igualmente requerida ao órgão que
proferiu a decisão”, o que, in casu, como constataram os juízes, não se encontra respeitado, o que motivou, aliás, o indeferimento da
admissibilidade do recurso.
Faz-se notar que, nesse acórdão, tratou-se ainda a questão da natureza do prazo de 20 dias referido no artigo 5, n.º 2, da
LA (Note-se que o MP, no seu parecer, considerou que o recurso foi interposto intempestivamente).
Nesse ensejo, resulta da leitura do mesmo que “na ausência de suporte doutrinal e jurisprudencial de origem nacional,
somos forçados a nos recorrermos à disposição do direito comparado que seguramente terá servido de fonte ao citado artigo 5.º da lei
cabo-verdiana”. Assim, diz ainda o coletivo de juízes que, regulando o recurso de amparo de ato de órgão judicial, dispõe o artigo
44.º, n.º 2, da Lei Orgânica do Tribunal Constitucional Espanhol que “El plazo para interponer el recurso de amparo será de veinte
dias a partir de la notificación de la resolucion en el processo judicial”. Com pode ver-se, ainda com os magistrados do STJ, está-se
perante uma disposição substancialmente idêntica a que existe na lei cabo-verdiana.
Exposto o que diz a Lei, acrescentam que a doutrina espanhola entendia que esse prazo é de “veinte dias hábiles”, valendo
isto por dizer vinte dias úteis, pelo que “del cômputo quedam excluídos los dias inhábiles”.Cfr. GERMAM FERNANDES
FARRERES, «El Recurso de Amparo Segun La Jurisprudência Constitucional», Marcial Pons, ob. cit., p. 133 e 198, apud acórdão
acima referido.
Por conseguinte, entendeu os mesmos que se está perante um prazo que no Direito cabo-verdiano obedece ao regime do
prazo processual por contraposição ao do prazo substantivo.
O Tribunal finalizou esta questão, lançando e respondendo à seguinte questão: “teria o legislador cabo-verdiano querido,
sob a mesmíssima formulação, consagrar solução diferente, isto é atribuir a esse prazo natureza substantiva por forma a que no
cômputo se incluíssem os sábados, domingos e feriados?
Em resposta, foi dito que “Não dispondo de quaisquer elementos que possam sustentar uma tal intencionalidade da parte
do legislador cabo-verdiano em consagrar solução diversa da fonte que lhe serviu de inspiração, e sem prejuízo de investigação mais
aprofundada em momento ulterior, é de se presumir, até demonstração em contrário, que terá querido verter para a mesma fórmula
idêntico conteúdo que, de acordo com a doutrina e a jurisprudência, já consagra a lei espanhola.” Por isso mesmo, contrariamente ao
parecer do MP, o Tribunal deu “como tempestivo o presente recurso”. Não obstante, como vimos, o recurso foi indeferido por causa
de um outro requisito.

109
a interposição de recurso contra decisão de um órgão judicial – 3.º, n.º 1, alínea c) da
LA390.

J) No acórdão n.º 1/2007, de 08 de fevereiro de 2007, em que se pediu ao STJ que


tomasse medidas provisórias, esse tribunal começou por reconhecer que do ponto de vista
teleológico, a única razão para se exigir a exaustão dos ordinários reside no facto de por
essa via se conseguir evitar a lesão efetiva do direito. Ou seja, reside na sua utilidade
efetiva.
Contudo, e ainda com o referido acórdão, quando essa via se mostrar insuficiente
ou inapta para obstar à ocorrência desse resultado, tem de se entender que os meios de
impugnação estão esgotados, justificando-se o recurso a providências específicas de
defesa de direitos fundamentais.

390
No acórdão n.º 06/05, de 14 de Julho de 2005, o STJ indeferiu o recurso com base no artigo 16.º, n.1, alínea d) da LA.
Note-se que nesse acórdão, entre outras coisas, o requerente pediu a declaração de inconstitucionalidade de certos preceitos
do CPC, bem como a verificação “da inconstitucionalidade por omissão de feitura de um Decreto-Lei que cria o Complexo de pesca
da Cova de Inglesa, como órgão estatal, ao mesmo tempo pedindo ao Governo que tome a respetiva medida legislativa, de sorte a
reconhecer o Estado ou entidade descentralizada, como parte legitima na relação jurídico-processual”.
Ora, como pode ver-se, essas pretensões do requerente são muito pertinentes. De facto, o requente pede a verificação da
inconstitucionalidade por omissão que, como se sabe, ainda não foi constitucionalizada em Cabo Verde, existindo, contudo, como
vimos, autores que propugnam pela sua introdução (Como por exemplo, Mario Silva, Benfeito Mosso Ramos, etc.).
Como vimos, resulta da leitura do artigo 1.º, n.º 1, da LA que “Só podem ser objeto de recurso de amparo à prática ou à
omissão de atos ou de factos, qualquer que seja a sua natureza, a forma de que se revestem, praticados por qualquer órgão dos poderes
públicos do Estado, das autarquias locais e dos demais entes públicos de carácter territorial ou institucional, bem como pelo seus
titulares, funcionários ou agentes que violem os direitos, liberdades e garantias fundamentais reconhecidos nos termos da
Constituição”.
Sem ler os demais números desse preceito da LA poderíamos dizer que a pretensão do requerente é perfeitamente
admissível dentro do âmbito do amparo. Contudo, uma passagem pelo número 2 do mesmo inciso leva-nos a concluir que, na verdade,
não é admissível.
De facto, como se adiantou acima, segundo o disposto nesse número 2 “Os atos jurídicos objetos do recurso de amparo
não podem ser de natureza legislativa ou normativa.” Vale isto por dizer que, em sede de amparo, não se pode atacar a prática, nem a
omissão dos atos jurídicos dos poderes públicos com natureza legislativa ou normativa.
Pergunta legitima: Porquê essa opção do legislador? Dissemos que se tem entendido que isto deve-se ao facto de, em Cabo
Verde, existir um forte sistema de controlo da constitucionalidade que serve, por regra, para fiscalizar os atos normativos. Sendo
assim, pode ver-se que a omissão desses atos nunca pode ser declarada, por causa da inexistência do mecanismo da
inconstitucionalidade por omissão na nossa Lei magna. No entanto, como dissemos acima (Supra, ponto 1.4, a propósito da tutela dos
“direitos sociais”), do nosso ponto de vista, para resolver esse problema pode apontar-se dois caminhos: por um lado, pode passar pela
expurgação do número 2 do artigo 2.º da LA, ou, por outro lado, como aliás tem defendido os juristas acima referidos,
constitucionalizar o mecanismo de inconstitucionalidade por omissão no sistema de controlo da constitucionalidade de Cabo Verde.
Exposto isto, tendo em conta o quadro jurídico em vigor, não se estranha o parecer do MP no caso sub judice no sentido
da não admissibilidade do recurso, pois, como diz, “As normas jurídicas não podem ser sindicadas pelo mecanismo do amparo
constitucional”.

110
Posto isto, neste acórdão, o STJ lançou mão dos artigos 11.º e 14.º da LA para
deferir parcialmente a medida provisória requerida – a saber: suspensão imediata da
exequibilidade do despacho da Juíza do juízo de Família e Menores do Tribunal da
Comarca da Praia que ordenou a entrega de menor a um parente para ser remetida para
Estados Unidos391392

391
Na sequência desse acórdão cfr. ainda o acórdão n.º 03/2007 de 26 de Abril de 2007.
392
Para além dos acórdãos aqui analisados existem vários outros que não podemos agora analisar, nomeadamente os acórdãos: n.º
04/07, de 27 de Junho de 2007; n.º 05/07, de 19 de Junho de 2007 (Note-se que o Tribunal indeferiu o pedido porque a requerente
solicitou a fiscalização (“concreta”) do artigo 122.º, n.º2, do Estatuto dos Advogados que, como se disse acima, foi excluída do âmbito
do amparo. Neste particular, importa dizer que existem ainda outros acórdãos onde se levantou questões de fiscalização da
Constitucionalidade (por ação e omissão) das normas. Neste sentido, cfr. os acórdãos n.º 8/2007, de 30 de Julho de 2007 – onde o
Tribunal indeferiu por entender que o recurso de amparo, pela sua natureza de recurso extraordinário, não está vocacionado para a
fiscalização concreta; n.º 12/07, de 31 de Julho de 2007 – onde além de se pedir a fiscalização da constitucionalidade, foi indeferida
por ser “manifestamente infundada; e o n.º 11/2013, de 14 de Junho – aqui, diz o STJ o seguinte: “Deixando novamente de lado muita
coisa (desde logo, o facto de o nosso ordenamento jurídico-constitucional não a admitir a fiscalização da inconstitucionalidade por
omissão), a formulação de pedido de semelhante teor, evidencia (e é apenas isto que se quer sublinhar) que a suposta violação de
direitos constitucionais reconhecidos não resultaria “directa, imediata e necessariamente” – mas sim de um comportamento omissivo
dos órgãos legiferantes”. Por isso mesmo entendeu o Tribunal que “pelos próprios termos da petição, que o recurso não cumpre o
requisito previsto na al. b) do artigo 3.º da LA. Assim, decidiu em não admitir o recurso).
Além dos acórdãos acima referidos, podemos ainda apontar os acórdãos: n.os 06/07, de 01 de Agosto de 2007; 07/07, 09/07,
10/07, 11/07, todos de 30 de Julho de 2007; 13/07, de 06 de Novembro de 2007 e 09/2013, de 14 de Junho de 2014; n.º 14/2008, de
24 de Abril de 2008; n.º 3/10, de 28 de Abril de 2010; n.º 06/2013, de 14 de Junho; n.º 07/2013, de 14 de Junho de 2013; n.º 08/2013,
de 14 de Junho e n.º 10/2013, também de 14 de Junho de 2013
Ora, posto isto, importa dizer que, exceto no acórdão n.º 07/2013, de 14 de Junho de 2013 – onde a instância foi extinta
por perda de utilidade de recurso –, em todos os outros acórdãos o Tribunal indeferiu as pretensões do requerente.

111
CAPÍTULO III – CONCLUSÕES
Com base em tudo o que se expôs acima, podemos concluir dizendo que, com esta
dissertação, em resposta às questões lançadas na introdução deste trabalho, a saber: “O
artigo 20.º da Constituição da Republica de Cabo Verde que consagra o recurso de amparo
é diretamente aplicável ou, pelo contrário, a sua efetividade depende de uma mediação
legislativa? É possível socorrer-se ao recurso de amparo para a tutela dos direitos
económicos, sociais e culturais? As pessoas colectivas têm legitimidade para interpor o
recurso de amparo? Há em Cabo Verde uma restrição legislativa do objeto do recurso de
amparo?”, chegamos às seguintes conclusões:
1) Com base nas explicações explanadas no ponto 1.3 deste trabalho, quanto a
questão de saber se o artigo 20.º da Constituição da Republica de Cabo Verde que
consagra o recurso de amparo é diretamente aplicável ou, pelo contrário, a sua efetividade
depende de uma mediação legislativa, concluiu-se que o recurso de amparo deve ser
aplicado sempre, mesmo quando não haja uma norma que o concretize, ou seja, este
mecanismo é diretamente aplicável, pois, em Cabo Verde, além de ser configurado como
um meio processual, também é visto como um direito fundamental, análogo aos direitos,
liberdades e garantias. Sendo assim, goza da aplicabilidade directa desses direitos, por
força dos artigos 18.º e 26.º da CRCV
2) A resposta a questão “É possível socorrer-se ao recurso de amparo para a tutela
dos direitos económicos, sociais e culturais?”, como adiantamos no ponto 1.4, é um “não
mas”, pois nem a Constituição, nem a lei ordinária prescrevem que os direitos
económicos, sociais e culturais podem ser tutelados através do recurso de amparo, sem
olvidar, como se disse, o facto de esses direitos não terem, por regra, os seus conteúdos
determinados pela Constituição, necessitando, assim, de lei ordinária para esse efeito.
Mas, como se disse, há situações que se prendem com a própria dignidade da
pessoa humana que não podem ser menosprezadas.
Nos casos em que os cidadãos não têm o mínimo para sobreviver condignamente,
aí entendemos que pode-se lançar mão deste mecanismo para condenar o Estado a
cumprir as suas tarefas previstas na Constituição, pois, como diz certa doutrina, esses
casos acabam por ser análogos aos direitos, liberdades e garantias, vinculando assim os
poderes públicos.
Noutros casos, para se poder lançar mão deste mecanismo, como dissemos, do
nosso ponto de vista dois caminhos podem apontar-se: por um lado, “mexer” na lei do

112
amparo, para que o ato legislativo possa ser atacado através deste mecanismo. Numa
palavra, deve-se expurgar o número 2 do artigo 2.º artigo da lei do amparo que diz que
“os atos jurídicos objeto de recurso de amparo não podem ser de natureza legislativa ou
normativa”; ou, por outro lado, uma outra via pode passar por atender as “solicitações”,
que parecem ser unanimes na doutrina cabo-verdiana, no sentido de introdução do
mecanismo “inconstitucionalidade por omissão” no sistema de controlo da
constitucionalidade de Cabo Verde.
Entretanto, como dissemos, não se pode nunca perder de vista a pobreza do país,
o qual, na prática, mesmo nesses casos, poderá não poder suportar os custos desses
direitos.
3) Relativamente a questão de saber se as pessoas colectivas têm legitimidade para
interpor o recurso de amparo, concluímos que a resposta é afirmativa, na exacta medida
em que são titulares de direitos fundamentais que podem ser postas em causa pelos
poderes públicos.
Portanto, sendo assim, como dissemos, não se vê motivos para não permitir que
essas pessoas jurídicas lancem mão do amparo para a tutela dos seus direitos
4) Finalmente, no que tange a questão de saber se há em Cabo Verde uma restrição
legislativa do objeto do recurso de amparo, entendemos que, de facto, há essa restrição,
isto com base na interpretação que fazemos da Constituição.
De facto, a carta magna da nossa República refere-se aos “poderes públicos” e
não faz nenhuma limitação.
E, sabendo que a Constituição tem mais força que as restantes leis, pensamos que
ela deve prevalecer sobre aquelas.
Entretanto, como foi dito, não se pode olvidar a existência em Cabo Verde da
fiscalização concreta, que serve precisamente para atacar os atos normativos/legislativo.
Mas, reitera-se, não se pode confundir direito com norma.

113
BIBLIOGRAFIA
ANDRADE, José Carlos vieira de, os Direitos Fundamentais na Constituição Portuguesa
de 1976, 5ª Edição, Almedina, Coimbra,2012;
________ «Algumas reflexões sobre os direitos fundamentais, três décadas depois», in
Anuário Português de Direito Constitucional, ano V, (2006).
ALMADA, David Hophher, A Construção do Estado e a Democratização do Poder em
Cabo Verde, Praia, 2010.
AMARAL, Karina Almeida do, «O recurso de amparo como instrumento de proteção de
direitos fundamentais e a sua relação com a arguição de descumprimento de preceito
fundamental», Anuário de Derecho Constitucional Latino-americano, Ano XVIII, 2012,
Bogotá.
ALEXANDRINO, José de Melo, «Sim ou não ao amparo?», in Julgar, n.º 11 (2010) [no
prelo:
________ «Os Tribunais e a Defesa dos Direitos Fundamentai: Reflexões em Torno da
Experiência cabo-verdiana», Texto da Conferência proferida no colóquio Universitária
“18 Anos de Estado Constitucional, de Direito democrático”, Cidade da Praia, 2010.
________Direitos Fundamentais, Introdução Geral, Princípia, Cascais, 2ªEdição, 2011
AZEVEDO, André Mauro Lacerda , «O Recurso de Amparo Espanhol», in
http://atualidadesdodireito.com.br/andremauro/2011/08/09/o-recurso-de-amparo-
espanhol/.
BOTELHO, Catarina Santos, A Tutela Directa dos Direitos Fundamentais, Avanços e
Recuos na Dinâmica Garantística das Justiças Constitucional, Administrativa e
Internacional, Almedina, 2010.
BRITO, Wladimir, «O Amparo Constitucional», in Direito e Cidadania, Ano III, N.º 7,
Julho/Outubro 1999, Quadrimestral;
________ «Que Estado Para Cabo Verde?», in Direito e Cidadania, Ano IV, N.º 14,
Janeiro de 2002/Abril de 2002, Quadrimestral, Praia, Cabo Verde
________«A Feitura das Leis em Cabo Verde», in Direito e Cidadania, Ano IV, N.º
12/13, Março de 2001 a Dezembro de 2001, Praia, Cabo Verde.
________Lições de direito Processual Administrativo, 2ªEdição, Coimbra Editora, 2008
CAMAZANO, Joaquim Brage, «Una Visión Panorámica del Recurso Constitucional de
Amparo en los Países de la Europa del Este ( Chequia, Croacia, Eslovaquia, Eslovenia,

114
Hungría, Macedonia, Polonia e y Rusia)», in REP, Núm.128, Abril-Junio, 2005, Centro
de Estudios Constitucionales, Madrid.
CARDINAL, Paulo, «O Amparo de Direitos Fundamentais No Direito Comparado e No
Ordenamento do Macau», in Revista Jurídica de Macau, Janeiro/Abril, 1996;
________«O Instituto do Recurso de Amparo de Direitos Fundamentais e a Juslusofonia
– Os Casos de Macau e Cabo Verde» in Revista Direito e Cidadania, Ano VII, N.º 24,
Quadrimestral, 2006, Praia, Caba Verde.
CANAS, Vitalino, «A fiscalização da Constitucionalidade em Portugal e em Cabo
Verde: em especial a fiscalização preventiva», in Direito e Cidadania, Ano III, Número
Especial, Maio de 1999, Praia, Cabo Verde.
CORREIA, José Manuel Sérvulo, «Modernização do Contencioso Administrativo», in
Revista Direito e Cidadania, Ano VII, N.º 24, Quadrimestral, 2006, Praia, Caba Verde.
______ CAUPERS, João, Introdução ao Direito Administrativo, 10.ª Edição, Âncora
Editora, 2009
DELGADO, José Pina e DELGADO, Liriam Tiujo, O Sistema Cabo-verdiano de Direitos
Fundamentais – Notas de Aula, Praia, 2009.
FONSECA, Jorge Carlos, Cabo Verde, Constituição, Democracia, Cidadania, Almedina,
2011;
______O Sistema de Governo na Constituição Cabo-verdiana, Associação Académica da
Faculdade de Direito de Lisboa, Lisboa, 1990.
______«ALGUMAS PALVRAS, EM JEITO DE APRESENTAÇÃO E JUSTIFICAÇÃO”,
in Revista Direito e Cidadania Ano III, Numero Especial, Maio de 1999, Praia, Cabo
Verde.
FONSECA, Lígia Dias, «Revisão da Constituição ou aprofundamento da cidadania?»,
Direito e Cidadania, Ano II, Nº 4, Julho de 1998 a Outubro de 1998.
______FONSECA, Isabel Celeste M. e AFONSO, Osvaldo da Gama, Direito Processual
Administrativo Angolano, Noções Fundamentais, Almedina, 2013.
FIX -ZAMUDIO, Héctor, « Evolución y perspectivas del derecho de Amparo Mexicano
y Su Proycción Supranacional», in Revista Jurídica de Macau, N.º Especial, O Direito de
Amparo Em Direito Comparado, 1999;
______«El recurso de amparo y la suspensión de las garantias», in REP, Núm.7, Enero-
Febrero 1979, Centro de Estudios Constitucionales, Madrid.

115
FARRERES, Germam Fernandes, «El Recurso de Amparo Segun La Jurisprudência
Constitucional», Marcial Pons, Madrid, 1994.
GIMENÉZ, Luis Maria Diez Picazo, «Dificultades practicas y significado constitucional
del recurso de amparo», in REDC, n.º 14, año 40, enero-abril, 1994, Centro de Estudos
Constitucionales, Madrid.
GRAÇA, Jose Lopes da, «Balanço de Cinco Anos de Vigência da Constituição», in
Direito e Cidadania, Ano III, Numero Especial, Maio de 1999, Praia, Cabo Verde;
______ «O “Recurso de Amparo” no Sistema Constitucional Cabo-verdiano, Breves
Reflexões», in Direito e Cidadania, Ano I, N.º 2, Novembro 1997/Fevereiro 1998,
Quadrimestral.
LIMA, Aristides, O Recurso Constitucional Alemão e o Recurso de Amparo Cabo-
verdiano, Uma Análise Comparativa, Praia, 2004;
______As alterações Constitucionais no estatuto do Chefe de Estado em Cabo Verde”,
texto disponível http://www.parlamento.cv/GDPublicacoes1.aspx?imagemId=28;
______ «Justiça e Politica – quem guarda os guardas?» (2002), in Constituição,
Democracia e Direitos Humanos.
LOPES, Felisberto Vieira, A saída da crise do poder não é pelo Anteprojeto da
Constituição, Praia, 1980.
LOPES, José Vicente, Cabo Verde, Os Bastidores da Independência, 2.ª Edição, Cidade
da Praia, 2002.
MALBERG, Raymond Carré de, «Contribuition à la théorire générale de l’Etat», 2 vols,
Paris, 1920;
______ MANSO, Luis Duarte e ESTEVES, Leandro Caldas, Direito do Contencioso
Administrativo, Casos Práticos Resolvidos, Quid Juris, Sociedade Editora, 2011
MARTINS, Anildo, «Contencioso Administrativo (Algumas Questões)», in Direito e
Cidadania, Ano VI, N.ºs 20/21, Maio a Dezembro, Praia, Cabo Verde, 2004.
MIRANDA, Jorge e MEDEIROS, Rui, Constituição Portuguesa Anotada, Tomo I,
Coimbra Editora, 2005.
______Manual de Direito Constitucional, Tomo VI, Coimbra Editora, 3.ª Edição, 2008;
______As Constituições Portuguesas – de 1822 ao texto atual da Constituição, Livraria
Petrony, Lisboa, 5.ª Edição, 2004.
MOCO, Marcolino, Direitos Humanos e seus Mecanismos de Proteção – As
particularidades do sistema africano, Coimbra, 2010.

116
NEVES, Edeltrudes e ARAÚJO, Rui, «Primeiro Despacho a Proferir Num Recurso de
Amparo em que tenha Sido Pedida Uma Medida Provisória», in Direito e Cidadania, Ano
I, N.º 2, Novembro 1997/Fevereiro 1998, Quadrimestral.
NOVAIS, Jorge Reis, “Direito, liberdade e garantia”: uma Noção Constitucional
Imprestável na Justiça Administrativa?”, in Cadernos de Justiça Administrativa, n.º 73,
Janeiro-Fevereiro, 2009.
OLIVEIRA, Andreia Sofia e MACCRORIE, Benedita, Direitos Fundamentais,
Elementos de Apoio, Aedum, 2012.
PIÇARRA, Nuno, A Separação dos Poderes como Doutrina e Princípio Constitucional,
um Contributo para o Estudo das suas Origens e Evolução, Coimbra Editora, Coimbra,
1989;
______«A Evolução do Sistema de Garantia da Constituição em cabo Verde» in Direito
e Cidadania, Ano VII, Quadrimestral, 2005.
RAMOS, Benfeito Mosso, «A Garantia da Constituição e a Justiça Constitucional em
Cabo Verde», in Direito e Cidadania, AnoX, N.º29,Quadrmestral, 2009.
RODRIGUES, Eduardo, «Garantia dos Administrados», in Direito e Cidadania, Ano III,
N.º8, 1999, Praia.
SILVA, Mário Ramos Pereira da, «Direito Processual Administrativo ou Wladimir Brito
e o Novo Paradigma da Justiça Administrativa», in Direito e Cidadania, Ano X, N.º 29,
Quadrimestral, 2009;
______O Regime dos Direitos Sociais na Constituição Cabo-verdiana de 1992,
Almedina, Coimbra, 2004
______As Constituições de Cabo Verde e Textos Históricos de Direito Constitucional
Cabo-verdiano, 3ª Edição, Edições ISCJS, Imprensa Nacional de Cabo Verde, Praia,
Maio de 2014.
VARELA, Raúl, «A Fiscalização da Constitucionalidade em cabo Verde», in Direito e
Cidadania, Ano I, N.º 2, Novembro 1997/Fevereiro 1998, Quadrimestral.
VEIGA, Carlos, «Os Direitos Na Constituição de Cabo Verde, de Mário Silva, in Direito
e Cidadania, Ano VI, N.ºs 20/21, Maio a Dezembro, 2004, Praia, Cabo Verde;
______ «Recurso de Amparo», in Direito e Cidadania, Ano V, nos 16/17, Quadrimestral,
Setembro de 2002/Abril de 2003.

117
118