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Revista Educacional Maya

ADEQUAÇÃO E FLEXIBILIZAÇÃO
CURRICULAR: UMA
CONSTRUÇÃO COLABORATIVA
POSSÍVEL
ROSANA KELLY BALDAN1

RESUMO necessidades educacionais especiais de todos


os alunos, incluindo os alunos com deficiência.
Trabalhando como professora do ensino regular Os resultados estão sendo favoráveis não só no
há vinte anos, acompanhei todo o processo processo de aprendizagem, mas também em
de inclusão escolar e, também o processo de relação à autoestima e autonomia de todos os
inclusão dos alunos com deficiência - público- alunos.
alvo da educação especial na escola regular.
Desde então venho estudando sobre o assunto Palavras-chave: Inclusão Escolar; Educação
para melhorar a minha prática docente, sempre Especial; Deficiência; Adequação e
pensando em como os alunos conseguiriam, Flexibilização; Colaboração
dentro de suas limitações, terem acesso ao
mesmo currículo, de forma que conseguissem Introdução
acompanhar as aulas. Através dos resultados
que obtive, resolvi me especializar em educação Uma das tarefas mais complexas para
especial na perspectiva da educação inclusiva a escola regular é atender as demandas
para trabalhar com o atendimento educacional da educação especial, direcionando ações
especializado. Desde que iniciei este trabalho, para práticas inclusivas, devido à dificuldade
percebo a dificuldade que muitos professores dos professores em encontrar ferramentas
possuem em trabalhar de forma diversificada adequadas para que esses alunos participem,
atendendo às necessidades específicas de sem segregação, do processo de ensino e
alguns alunos, alegando que não tiveram este aprendizagem na sala de aula. São constantes
preparo na formação inicial. Pensando em como as tentativas para mudar este cenário nas
os professores poderiam garantir a participação escolas, e é importante o envolvimento de toda
dos alunos com deficiência, sem segregação, a equipe escolar para que essas mudanças de
na sala regular, comecei a refletir na formação fato ocorram.
continuada em serviço e, com o objetivo de Para que as escolas se transformem
minimizar essas dificuldades e, por meio de um em verdadeiras comunidades de apoio,
trabalho de colaboração, elaboramos sequências é preciso criar culturas genuínas que
de atividades com adequações possíveis de apoiem os princípios da igualdade, de
serem feitas, considerando estilos e ritmos de justiça, de dignidade, respeito mútuo e
aprendizagem diferentes. Estes momentos a promoção de práticas inclusivas para
serviram para análise e reflexão em relação às que os alunos possam viver experiências
enriquecedoras, aprender juntos uns com
1 Graduação em Letras pela Faculdade Fundação
Santo André (2001); Graduação em Pedagogia pela os outros e assimilar atitudes e valores
Uninove (2010), Especialista em Ética, Valores e que conduzam a uma melhor aceitação
Cidadania na Escola pela Faculdade USP (2014), da diversidade (CORREIA, 2003, p,16)
Especialista em Educação Especial na Perspectiva da
Educação Inclusiva pela UNESP (2015); Professora
de Atendimento Educacional Especializado na EMEF Muitos professores alegam que na
Presidente Prudente de Morais e Professora de Ensino formação inicial não foram preparados para a
Médio - Língua Portuguesa - na EE Professor Aroldo de realização de um trabalho diversificado, pois
Azevedo.
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na maioria das vezes, o foco da universidade um, principalmente àqueles que possuem
é no conteúdo específico de cada disciplina, dificuldades acentuadas de aprendizagem.
deixando-os sem subsídios para trabalhar em É fundamental que o professor
uma sala de aula heterogênea, em que seja implemente a utilização de práticas
possível garantir a participação de todos os educativas flexíveis e nunca abordagens
alunos, levando em consideração que eles rotineiras, pouco diversificadas e iguais
possuem diferentes formas de aprendizagem. para todos os alunos”( ) Na escola de
Por não conseguirem pensar numa maneira hoje “espera-se que as crianças se
de trabalhar determinado conteúdo do currículo desenvolvam segundo os seus próprios
da sua disciplina, de modo que os alunos ritmos de aprendizagem, pelo que os
consigam acompanhar, a aula permanece a grupos de trabalho devem ser flexíveis,
mesma para todos, independentemente de suas as estratégias e o material usado devem
necessidades educacionais individuais. Situação ser, sempre que possível, concretos e
essa que atinge principalmente os alunos com estimulantes. (CORREIA, 2005, p.41)
deficiência - público-alvo da educação especial
que, na maioria das vezes, ficam ociosos na Diante dos desafios, comecei a pensar
sala de aula ou recebem folhas em branco para sobre como fazer com que o aluno público-alvo
fazerem desenhos ou rabiscos aleatórios à aula da educação especial conseguisse estar de
proposta para os demais alunos. fato incluído no processo pedagógico na sala
O professor deve aprender a planejar de aula, independente da matéria ou conteúdo
as suas aulas de maneira diversificada, proposto.
para que cada aluno tenha oportunidade Outra observação relevante foi como os
e possibilidade de participação e, ao final, professores consideram o processo de inclusão
contribua para a aprendizagem geral do escolar, principalmente no que se refere ao
grupo. Independente da composição da atendimento à diversidade. Diante disso, foi
turma, o professor deve ser capaz de necessário também falar educação inclusiva
preparar e coordenar as atividades de e educação especial, bem como o uso das
sala de aula, imprimindo às mesmas terminologias que continuam confundindo
uma dinâmica mais compatível com a muitos profissionais.
realidade social e menos enfadonha Enquanto professora de atendimento
para os alunos. Além disso, em uma educacional especializado, acompanho os
aula inclusiva, atividades de caráter alunos da educação especial no horário de aula
comparativo e competitivo devem ser regular, auxiliando os professores em relação
substituídas por aquelas que incentivem à aprendizagem deles, este momento é muito
a cooperação entre os alunos. (GLAT; importante porque propicia reflexões acerca
OLIVEIRA, 2003, p.16) dos ajustes a serem feitos no currículo a fim de
atender suas reais necessidades.
Considerando que as pessoas se Desenvolver uma dinâmica diversificada,
modificam continuamente, transformando o que garanta ao professor um equilíbrio
contexto no qual se inserem, é preciso uma entre o planejamento curricular geral e o
atuação pedagógica que reforce a importância atendimento às diferentes necessidades
de ambientes heterogêneos para a promoção individuais dos alunos, é a única
de aprendizagens, o desenvolvimento de um forma de estimular todos os alunos e
currículo fechado, inflexível, sem estratégias promover algum tipo de aprendizagem;
para atender às diversidades e especificidades principalmente porque eles já vêm com
dos estudantes, pode acentuar em práticas uma história de fracasso escolar. Se
escolares excludentes, sob a forma do descaso a sua inserção na classe regular não
e do abandono daqueles que não conseguem lhe garantir algum nível de sucesso
acompanhar a aula. É preciso ofertar o mesmo acadêmico, mesmo que o que lhe seja
currículo a todos os educandos e ao mesmo cobrado seja diferente dos demais,
tempo ter um olhar diferenciado para cada ele se tornará mais frustrado ainda e a

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situação escolar poderá ser aversiva. sucesso na corrente educativa geral.


(GLAT; OLIVEIRA, 2003, p.16) (MANTOAN,1997, p.121).

Outro momento importante do meu Educação Especial é uma modalidade de


trabalho acontece nas reuniões semanais ensino que visa promover o desenvolvimento
destinadas ao horário de trabalho pedagógico das potencialidades dos educandos com
coletivo2, destinado à formação continuada dos deficiência (intelectual, física, auditiva, visual e
educadores, com momentos privilegiados de múltipla), transtorno global do desenvolvimento
estudos, discussão e reflexão do currículo para a (TGD) e altas habilidades e superdotação, é o
melhoria da prática docente, acompanhamento conceito de educação como direito humano. Por
e avaliação da proposta pedagógica da escola muitos anos, esse tipo de ensino ocorria apenas
e do desempenho escolar do aluno. Nestes em Escolas Específicas com atendimentos,
encontros comecei a instigar os professores na maioria das vezes, individualizados ou em
com a ideia de um trabalho colaborativo para pequenos grupos.
a adequação e a flexibilização de atividades, Pessoa com deficiência é aquela que
começamos a criar um material que propicie aos tem impedimentos de longo prazo, de
alunos a efetiva participação na aula. Por meio natureza física, mental ou sensorial que,
de um trabalho crítico-reflexivo, os professores em interação com diversas barreiras,
elencaram quais são os ajustes que podem podem ter restringida sua participação
ser feitos no currículo escolar, avaliando a sua plena e efetiva na escola e na sociedade.
aplicabilidade. Os estudantes com transtornos globais
do desenvolvimento são aqueles que
O QUE É EDUCAÇÃO INCLUSIVA E apresentam alterações qualitativas
EDUCAÇÃO ESPECIAL E QUANDO ELAS SE das interações sociais recíprocas
ENCONTRAM NO PROCESSO EDUCATIVO? e na comunicação, um repertório
de interesses e atividades restrito,
Educação Inclusiva ou Inclusão Escolar estereotipado e repetitivo. Incluem-se
vem de fato exigir uma mudança de paradigma nesse grupo estudantes com autismo,
educacional, sendo o acesso à escola um síndromes do espectro do autismo e
direito social, baseando-se no pressuposto de psicose infantil. Estudantes com altas
atenção à diversidade, atendendo a todos os habilidades/superdotação demonstram
alunos sem discriminar, sem separar os mais potencial elevado em qualquer uma
fortes dos mais fracos, sem estabelecer regras das seguintes áreas, isoladas ou
de punição ou expulsão. O foco é atender às combinadas: intelectual, acadêmica,
necessidades particulares de aprendizagem dos liderança, psicomotricidade e artes,
alunos, levando em conta não só os aspectos além de apresentar grande criatividade,
cognitivos, mas também os seus interesses envolvimento na aprendizagem e
e motivações, visando à aprendizagem de realização de tarefas em áreas de seu
todos, irrestritamente, consolidando o respeito interesse. (BRASIL, 2014, p.11)
às diferenças, de modo a não promover a
desigualdade. A Educação Especial na perspectiva da
A inclusão causa uma mudança Educação Inclusiva compreende o acesso dos
educacional, pois não se limita a ajudar alunos da Educação Especial à escola regular,
somente os alunos que apresentam que deverá trabalhar para eliminar as barreiras3
dificuldades na escola, mas apoia
3 De acordo com a Lei Brasileira de Inclusão (2015),
todos, professores, alunos e pessoal barreiras são qualquer entrave, obstáculo, atitude ou
administrativo para que obtenham comportamento que limite ou impeça a participação social
da pessoa, bem como o gozo, a fruição e o exercício de
2 Conquista, garantida na legislação brasileira, que seus direitos à acessibilidade, à liberdade de movimento e
recebe o nome de horário de trabalho pedagógico coletivo de expressão, à comunicação, ao acesso à informação, à
(HTPC) ou aula de trabalho pedagógico coletivo (ATPC). compreensão, à circulação com segurança, entre outros,
No município de São Paulo chamamos de JEIF - Jornada classificadas em: barreiras arquitetônicas, atitudinais e
Especial Integral de Formação. metodológicas.
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que impedem o acesso e a permanência desses resultado inverso do esperado, corroborando


alunos, transformando a escola em um espaço ainda mais com a segregação e exclusão.
para todos. Garantindo o respeito à diversidade, É importante reiterar que inclusão
através das interações e relações, onde os é um termo utilizado na educação e está
saberes sejam compartilhados e a construção do relacionado com o acolhimento todos os alunos
processo de aprendizagem ocorra independente independentemente de suas condições sociais,
da necessidade apresentada pelo aluno. emocionais, físicas, intelectuais, proporcionando
Nota-se também que nos documentos um ambiente acolhedor, que repudie quaisquer
mais antigos sobre educação especial, o uso atitudes discriminatórias e necessidade
do termo „alunos portadores de necessidades educacional especial é direcionado ao aluno
especiais”, de 2006 para cá o termo correto é que, de um modo geral, necessita, mesmo
aluno com deficiência. que temporariamente, de atenção específica,
Além da confusão com o uso das requerendo um tratamento diversificado dentro
terminologias, percebe-se também a do mesmo currículo, suas necessidades
necessidade de tentar especificar ou categorizar educacionais passam a ser especiais em um
uma deficiência, transtorno, distúrbio, ou determinado momento, tendo eles deficiência ou
síndrome, para justificar questões relacionadas não. Como também é possível que um aluno com
à aprendizagem que levam ao fracasso escolar, deficiência não possua nenhuma necessidade
quando de fato nenhuma categorização exime educacional especial, ou seja, ele não possui
o professor do trabalho a ser realizado com nenhuma barreira intelectual.
todos os alunos, independentemente de suas Necessidades educacionais podem
limitações. ser identificadas em diversas situações
representativas de dificuldades de
NEE, inclusão, portador deficiência... Afinal, aprendizagem, como decorrência de
qual é o termo correto? condições individuais, econômicas ou
socioculturais dos alunos: crianças com
De acordo com a UNESCO, ao longo das condições físicas, intelectuais, sociais,
últimas décadas, muitos países passaram por emocionais e sensoriais diferenciadas;
grandes mudanças nas políticas e nas práticas crianças com deficiência e bem dotadas;
de educação inclusiva. crianças trabalhadoras ou que vivem nas
Ao refletir sobre a abrangência do sentido ruas; crianças de populações distantes
e do significado do processo de educação ou nômades; crianças de minorias
inclusiva, estamos considerando a linguísticas, étnicas ou culturais;
diversidade de aprendizes e seu direito crianças de grupos desfavorecidos ou
à equidade. Trata-se de equiparar marginalizados.(PCN SEESP, 2003, p.
oportunidades, garantindo-se a todos 41)
- inclusive às pessoas em situação de
deficiência e aos de altas habilidades/ O objetivo de esclarecer tais
superdotados, o direito de aprender a nomenclaturas é deslocar o foco do aluno e
aprender, aprender a fazer, aprender a direcioná-lo para as respostas educacionais que
ser e aprender a conviver. (CARVALHO, ele requer, evitando enfatizar os seus atributos
2005, s/p). ou condições pessoais, físicas, intelectuais
que possam interferir na sua aprendizagem e
Mesmo com essas mudanças, existe ainda escolarização. A construção de uma verdadeira
dificuldade no ambiente escolar com relação ao escola inclusiva passa também pelo cuidado
uso das terminologias, é muito frequente ouvir de eliminar barreiras que reforcem voluntária
gestores, funcionários e professores utilizando os ou involuntariamente o desrespeito ou a
termos “necessidades educacionais especiais” discriminação e passe a enxergar o aluno frente
ou “aluno de inclusão” para se referir a um aluno à sua deficiência, respeitando-o simplesmente
com deficiência. E não saber o significado ou o como uma pessoa.
uso apropriado das palavras pode acarretar um

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ADEQUAÇÃO E FLEXIBILIZAÇÃO NA com deficiência, de modo que não se restrinja a


PRÁTICA:ESTRATÉGIASDECOLABORAÇÃO uma mera socialização, garantindo adequação
NA FORMAÇÃO EM SERVIÇO e flexibilização curricular, com procedimentos
pedagógicos e práticas alternativas que possam
Considerando que na formação inicial assegurar o acesso de cada um dos alunos ao
muitos professores não tiveram formação para currículo comum.
a educação inclusiva, com foco no atendimento A característica básica de um currículo
aos alunos com deficiência, é salutar realizar inclusivo é a sua flexibilidade. Um
ações de formação continuada em serviço currículo que atenda à diversidade
como prática fundamental para a mudança deve ser passível de adaptações tanto
de paradigmas acerca do tema em questão. de objetivos específicos, quanto de
Estando em aprendizagem contínua é possível metodologias de ensino, mantendo,
produzir modificações nas próprias práticas porém, a base comum. Em outras
educacionais, conseguindo assim encontrar palavras, o currículo não pode ser tão
subsídios para estimular seus alunos. “fechado” que não permita as novas
O professor que se proponha a atuar experiências que o oxigenarão, nem tão
efetivamente com uma perspectiva fluido a ponto de deixar as experiências
inclusiva, deve ser um pesquisador de sua educativas acontecerem de maneira
própria prática, pois só assim ele poderá “espontaneista”. Nesta nova perspectiva
construir novos paradigmas de educação, curricular a ênfase e a responsabilidade
desenvolvimento e aprendizagem. Nesse pela aprendizagem é deslocada do aluno
sentido o professor, ao iniciar seu trabalho e dirigida para os procedimentos de
diário, deve sempre se perguntar: “O ensino. Ou seja, não é o aluno que tem
que preciso fazer para que o aluno X, que adaptar, geralmente sem condições
que tem uma deficiência / dificuldade Y, para tal, sua forma de aprender ao
possa aprender o conteúdo programado, ritmo da aula, mas ao contrário, o ritmo
como os demais?” “Será que o que e dinâmica da aula é que devem ser
estou falando / mostrando faz sentido adaptados para permitir a participação
para ele? Será que ele partilha dos e aprendizagem de todos os alunos.
mesmos significados que a maioria dos (GLAT; OLIVEIRA, 2003, p. 21).
outros alunos?”. Este simples exercício
investigativo ilustra como se pode lidar no Com a disseminação dos princípios da
escola inclusiva (escola para todos), defendidos
cotidiano com a diversidade, pois tira a
ênfase e a responsabilidade em aprenderpela Declaração de Salamanca (1994): “o
do aluno e focaliza nos procedimentos currículo deverá ser adaptado às necessidades
de ensino, beneficiando a turma toda, dos alunos e suas realidades compreendidas
não só o aluno considerado “especial”. pela escola, e não o inverso, quando eles
(GLAT; OLIVEIRA, 2003, p.16) precisavam se adequar às formas tradicionais
de organização da escola e do ensino para
Ajustes a serem realizados no currículo permanecerem naquele ambiente.
para atender às diversidades em sala de aula Em conversa inicial com os professores
foram citados nos documentos legais e em nas reuniões de trabalho pedagógico coletivo,
diversas literaturas com o entendimento de foi possível perceber o grande desafio é planejar
que as salas de aula são heterogêneas e os atividades que atendam os diferentes níveis de
educandos têm tempos e formas diferentes de aprendizagens, levando em consideração as
aprendizagem. habilidades dos alunos para que juntos consigam
Não é um processo fácil e requer aprender.
predisposição por parte de toda a equipe escolar O professor atua diante de um processo
com objetivos claros e compreensão sobre o que investigativo para adequar o currículo,
pode ser feito para a eliminação das barreiras formulando objetivos adequados às
que impedem a participação efetiva dos alunos necessidades, habilidades, interesses

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e competências singulares dos alunos necessidades e as demandas das


para aprender, principalmente, àqueles atividades e expectativas escolares;
que apresentam dificuldades específicas • da crescente complexidade das
relacionadas às deficiências. Nesses atividades acadêmicas que vai se
moldes, estratégias de adequação ampliando, na medida do avanço na
curricular individual têm-se tornado escolarização.
uma alternativa pedagógica importante O que se almeja é a busca de soluções
na condução de práticas educacionais para as necessidades específicas do
inclusivas (STAINBACK et al., 1999, s/p.) aluno e não o fracasso na viabilização
do processo de ensino e aprendizagem.
A fim de buscar orientações sobre como As demandas escolares precisam ser
planejar aulas a partir de um currículo flexível ajustadas, para favorecer a inclusão
e adequado às condições particulares de cada do aluno. É importante observar
aluno, propus um estudo dos Parâmetros que as adequações focalizam as
Curriculares Nacionais - PCN Adequações capacidades, o potencial, a zona de
Curriculares, para os professores verificarem desenvolvimento proximal (nos termos
quais tipos adaptações de grande porte ou de Vygotsky) e não se centralizam nas
significativas4, e adaptações de pequeno porte deficiências e limitações do aluno,
ou não significativas5 são necessárias para como tradicionalmente ocorria. Embora
incluir todos os alunos, inclusive os alunos muitos educadores possam interpretar
público-alvo da educação especial, garantindo essas medidas como “abrir mão” da
oportunidades de aprendizagem adequadas qualidade do ensino ou empobrecer
e flexíveis atendendo às suas necessidades as expectativas educacionais, essas
educacionais especiais. decisões curriculares podem ser as
Após este estudo, os professores únicas alternativas possíveis para os
perceberam que as adequações curriculares alunos que apresentam necessidades
de pequeno porte ou não significativas estão especiais como forma de evitar a sua
presentes em suas práticas cotidianas na escola, exclusão. (PCN SEESP, 2003, p. 38)
pois são pequenos ajustes de estratégias e ações
pedagógicas dentro do contexto normal de sala Para que os professores pudessem
de aula. No entanto, vale ressaltar também que: conhecer melhor os alunos com deficiência, a
Muitas vezes, há necessidade de fim de direcionar o olhar nas habilidades que
adotar adequações significativas do possuem ao invés de focar apenas no que eles
currículo para atender às necessidades não conseguem fazer, elaborei um documento
especiais dos alunos, quando estas simples, prático e personalizado para cada
forem mais acentuadas e não se deles, chamado Quem sou eu6, para que o
solucionarem com medidas curriculares planejamento das adequações e flexibilizações
menos significativas. De um modo geral tivesse direcionamento às especificidades dos
constituem estratégias necessárias alunos. O documento contém informações sobre
quando os alunos apresentam sérias coisas que eles mais gostam de fazer, sobre
dificuldades para aprender, como suas deficiências e tratamentos que fazem,
resultado, entre outros fatores: habilidades que possuem, informações para
• da discrepância entre as suas auxiliar o professores no dia-a-dia, tais como:
4 Compreendem ações que são da competência realizar mudanças logísticas na sala, inserir
e atribuição das instâncias político-administrativas 6 Documento criado pelas professoras Priscila
superiores, já que exigem modificações que envolvem Ciotto Lemos e Rosana Kelly Baldan, que se basearam
ações de natureza política, administrativa, financeira, no Passaporte de Comunicação Alternativa, elaborado
burocrática etc. (BRASIL/2000). para crianças que não se comunicam, como surdocegas
5 Adaptações que estabelecem ações cotidianas, e com deficiência múltipla, com informações relevantes
costumeiramente implementadas na prática pedagógica sobre elas, a forma como se expressa, a melhor forma
em sala de aula, como pequenos ajustes nos objetivos de comunicar -se com ela, as suas preferências e as
de ensino, na didática, nos processos e procedimentos de coisas de que não gosta, as características da família ou
avaliação (BRASIL/2000). medicamentos que tem de tomar.
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os alunos em grupos de trabalhos, encontrar construção é balizar e orientar a compreensão


duplas produtivas, trabalhar com estímulos durante todo o processo, pois trabalhando
de encorajamento diante das dificuldades e juntos com as adequações e flexibilizações das
reconhecimento dos avanços, realizar pequenos atividades, todos nós temos a oportunidade
ajustes no material que será destinado a todos refletir criticamente a sua aplicabilidade na
os alunos, tornar as atividades mais acessíveis prática, avaliando e aprimorando as estratégias
à compreensão, destacar com cores, inserir sempre que necessário. O mais importante do
figuras que auxiliem na compreensão, adaptar trabalho colaborativo é a discussão dos sentidos
os instrumentos de avaliação. e significados imputados às teorias de ensino-
aprendizagem, com a oportunidade de revisitar
práticas e valores que subsidiam nossas ações.
As adequações e flexibilizações viraram
um objetivo comum nas duas escolas. A postura
dos professores em relação aos alunos público-
alvo da educação especial é totalmente diferente
de quando iniciamos o trabalho. É notável uma
visão, um cuidado especial para garantir o
acesso ao conteúdo trabalhado nas aulas, os
professores conseguem visualizar e relatar os
avanços, ainda que pequenos, de cada aluno.
Parece até clichê, mas me emociono quando
acompanho os alunos e vejo um progresso,
claro que dentro das limitações advindas dos
desafios diários de uma sala de aula, mas existe
progresso.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os conhecimentos adquiridos durante o


desenvolvimento deste trabalho contribuíram
no sentido de despertar para importância, a
complexidade e os desafios que envolvem a
educação especial na perspectiva da educação
inclusiva, tendo em vista que a inclusão
Figura 1: Ficha preenchida pela professora de AEE educacional abrange vários fatores importantes
que interferem no contexto educativo.
Pensando sempre no trabalho Ressignificar a aula dentro de uma
colaborativo com os professores, em interação perspectiva inclusiva pressupõe romper com
de igual status, promovendo suporte uns aos diversas barreiras e atitudes implicando em
outros nos aspectos em que possuíamos maior mudanças significativas, em vez de exigir do
expertise, começamos a construir um material aluno um ajustamento a padrões de normalidade
com o seguinte questionamento: em um para aprender como os demais, os professores
contexto de educação especial na perspectiva têm o desafio de construir coletivamente
da educação inclusiva, que atenda as adequações e flexibilizações para atender bem
especificidades dos alunos, quais instrumentos a diversidade de seus alunos,
podem ser elaborados a fim de garantir o acesso Foi possível perceber um déficit
ao currículo, sem praticar a segregação? considerável na formação inicial dos professores
E assim o material vem sendo construído, em relação à educação especial na perspectiva
aplicado e avaliado constantemente, bem da educação inclusiva e que temos a necessidade
como práticas pedagógicas flexíveis estão de investir numa formação continuada que
acontecendo. Vale ressaltar que meu papel nessa condiz com a realidade dos professores, ou

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seja, eles precisam entender como realizar CARVALHO, Rosita Edler. Temas em educação
este processo na prática, de uma maneira que inclusiva. Rio de Janeiro: wva, 1997.
seja perceptível que de fato funciona quando
existe um planejamento adequado focado em
adequações e flexibilizações que garantam o CARVALHO, R. E. Educação inclusiva: com os
acesso ao currículo e a efetiva participação dos pingos nos „“is”. Porto Alegre: Mediação, 2005
alunos.
A realização de um trabalho colaborativo-
reflexivo proporcionou um leque de CORREIA, L. M.(2003). Inclusão e NEE - Um
possibilidades e transformou não só a prática guia para professores e educadores, Coleção
de muitos educadores, como também me fez NEE, Porto: Porto Editora
reavaliar várias estratégias.
Pensando na rotina dos professores em
CORREIA, L. M. (2005). Inclusão e NEE - Um
sala de aula, foi possível planejar ações, aplicar,
guia para professores e educadores, 2ª edição,
refletir e reavaliar as atividades e estratégias
Coleção NEE, Porto: Porto Editora
adequadas ou flexibilizadas para os alunos com
deficiência. Houve um engajamento desses
professores na realização das adequações e
COSTA et al (2006), Costa, A., Leitão, F.;
flexibilizações e, muitas vezes, com comentários
Morgado, J.; Rodrigues, D. (2006). Promoção
positivos em relação à prática, alegando ser
da Educação Inclusiva em Portugal. In Ciências
mais fácil do que eles imaginavam.
da educação em Portugal. Porto: Porto Editora
Isso significa que estamos no caminho
certo, mas ainda temos muito o que discutir e
colocar em prática com o objetivo de garantir GARCIA, Rosalba Maria Cardoso. O conceito
a participação de todos os alunos, sem de flexibilidade curricular nas políticas públicas
segregação, na sala de aula. de inclusão educacional. In: BAPTISTA, Cláudio
Roberto, e col. Inclusão, práticas pedagógicas
REFERÊNCIAS e trajetórias de pesquisa. Editora Mediação,
Porto Alegre, 2007.
BRASIL. Convenção sobre os Direitos das
Pessoas com Deficiência - Brasília. 2012.
GLAT, Rosana; OLIVEIRA, Eloiza da Silva
Gomes de. Adaptação Curricular. (2003).
BRASIL. Declaração de Salamanca e linha de
Disponível em: Acesso em
ação sobre necessidades educativas especiais.
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LIBERALI. Fernanda Coelho, Formação
crítica de educadores: questões fundamentais
BRASIL, Lei Brasileira de Inclusão, 13.146.
-Tradução: Paulo Bezerra, 3ª tiragem, São
Brasília: Casa Civil. 2015.
Paulo, Martins Fontes, 2018.

BRASIL, Parâmetros Curriculares Nacionais:


MAGALHÃES. Maria Cecília, C, Pesquisa
estratégias para a educação de alunos
Crítica de Colaboração: escolhas epistemo-
com necessidades educacionais especiais
metodológicas na organização e condução de
- Adaptações Curriculares. Brasília: MEC/
pesquisas de intervenção no contexto escolar -
SEESP (2003).
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BRASIL - Política Nacional de Educação


MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Caminhos
Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva
pedagógicos da educação inclusiva. In: Gaio
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Roberta; MENEGUETTI. 1997

SANTOS, Lucida Licínio de Castro Paixão.


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Porto Alegre: Artmed, 1999.

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INVISTA NO SEU
FUTURO
CONSULTE NOSSO
CURSOS DE PÓS-
GRADUAÇÃO
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