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O Princípio da Proteção

da Confiança
Em Busca da Tutela de Expectativas Legítimas

Prof. Valter Shuenquener de Araújo


Mestre e Doutor em Direito Público pela UERJ.
KZS pela Universidade de Heidelberg - Alemanha
Prof. Adjunto da UERJ.
Prof. da EMERJ
Juiz Federal
Conceito e função jurídica
• O princípio da proteção da confiança é um mandado de otimização
com alcance determinável pelo caso concreto impeditivo ou atenuador
dos possíveis efeitos negativos decorrentes da frustração, pelo Estado,
de uma expectativa legítima do administrado.

• Funções primordiais:
- defender posições jurídicas dos cidadãos contra inesperadas mudanças de
curso. (Walter Schmidt);
- proteger as expectativas dos indivíduos através da continuidade do
ordenamento (Kyrill-A. Schwarz);
- garantir que a expectativa do particular seja considerada em uma prévia
ponderação com o interesse estatal na implementação de mudanças na ordem
jurídica (Paul Kirchhof).
A confiança na construção do futuro
• O planejamento do futuro é um fator extremamente relevante na
vida de todo e qualquer ser humano. “A vida só pode ser
compreendida olhando-se para trás. No entanto ela deve ser vivida por meio
da contemplação do futuro” (Søren Kierkergaard).

• Sem confiança, apenas relações pouco complexas são viáveis.


Apenas se verificam formas muito simples de cooperação entre
os seres humanos (Niklas Luhmann).

• O nível de confiança nos atos estatais é um fator relevante para o


sucesso econômico de um país. Quanto maior a confiança e
menor o controle, maior é a liberdade, o rendimento e
expectativa de vida (Jornal Frankfurter Allgemeine)
Confiança
• O enfraquecimento da confiança nas relações entre os
indivíduos reduz o sentimento de solidariedade existente
no mundo. (Barbara Misztal – Profª de Sociologia da
Universidade de Leicester)

• Sem confiança, as pessoas evitarão relacionar-se


juridicamente com o Estado e buscarão vias alternativas,
e não tão idôneas, para a preservação de seus interesses.
(Sheilagh Ogilvie – Profª de História Econômica da Universidade
de Cambridge)
Confiança
“O ordenamento imposto pela força é caro e instável e a
legitimação pela confiança torna o ordenamento mais
barato e mais seguro por um longo tempo” (Robert
Alexy).

“Prioridade temporal não implica superioridade moral”.


Bruce Ackermann e Anne Alstott

Prof. de Direito e Ciência Política de Yale Profª de Direito Tributário de Harvard


Solidariedade entre as gerações
• Um povo corresponde ao somatório de gerações.

• Decisões tomadas por uma geração não devem


apenas considerar as necessidades do presente e do
futuro. O passado também merece respeito.

• “Cada geração actual é responsável não só pelo destino das


gerações futuras como também pelo destino sofrido em
inocência pelas gerações passadas”. (Habermas)
Evolução histórica do Princípio
• O Concílio Cadavérico do Papa Formoso de 896.

• O novo Papa Estevão VI determinou que o corpo do


Papa Formoso fosse desenterrado para que, em seguida,
pudesse ser submetido a um julgamento.
Evolução histórica do Princípio
• Tribunal inglês de Exchequer:
• “Um indivíduo não deve ser autorizado a
simultaneamente assoprar quente e frio – a afirmar em
um momento e a negar em outro... Tal princípio assenta
sua base no senso comum e na justiça comum, e seja ele
chamado estoppel ou de qualquer outro nome, este é um
princípio que as cortes de justiça têm mais efetivamente
adotado nos tempos modernos. (Decisão de 1862 no
precedente Cave v. Mills)
Evolução histórica do Princípio
• Arrêt Dame Cachet – Decisão do Conselho de
Estado Francês de 1922

• Decisão da viúva proferida pelo


Bundesverwaltungsgericht em 1956 (BVerwGE 9,
251)
Proteção da confiança e princípio da
legalidade

• Decisão da viúva de Berlim (Witwengeld): BVerwGE 9,


251 – decisão de 1959 que confirmou a decisão do
Tribunal Revisor de Berlim em Matéria de Direito
Administrativo (Oberverwaltungsgericht) de 1956.

• A viúva confiara na informação recebida da


Administração alemã e, com base nela, tomou medidas
drásticas e duradouras (einschneidende und dauernde) que
reorganizaram todo o seu modo de vida.
Evolução histórica do Princípio
• Posição de Ernst Forsthoff. Há um abandono do Estado de
Direito quando o Estado admite uma proteção da confiança
contra legem.

• Conferência de Mannheim de 1973 (Otto Bachof, Norbert


Achterberg, Walter Schmidt, Gunter Kisker, Günter Püttner,
Ernst-Wolfgang Böckenförde, Fritz Ossenbühl e Peter Badura).

• Lei alemã de Processo Administrativo Federal de 1976.

• O aumento da interação do homem com a organização estatal


eleva a necessidade de constância da atividade do Estado e de
tutela das expectativas legítimas dos cidadãos.
Em busca de um fundamento
• Direitos fundamentais – princípio seria derivado de
algum direito fundamental aplicável no caso específico. Ex.:
direito de liberdade, de desenvolvimento da personalidade
etc. Serviria para limitar a intervenção do Estado nos
direitos fundamentais.

• “A crença na estabilidade do ordenamento é fundamental para a


autodeterminação do indivíduo”. (Stefan Muckel)
Em busca de um fundamento
Críticas:
• i) restringe a tutela do princípio da proteção da confiança à
tutela dos direitos fundamentais. A confiança pode merecer
proteção ainda que um direito fundamental não esteja em
risco.
• ii) a tutela de posições jurídicas ilegais e favoráveis ao
particular ultrapassam o alcance da tutela proporcionada
pelos direitos fundamentais.
• iii) a tutela de direitos fundamentais pode estimular uma
ruptura e instabilidade do ordenamento. Ex: a proteção da
liberdade de expressão pode incentivar uma revolução.
Em busca de um fundamento
• Dignidade humana: o princípio da proteção serve para
impedir que o ser humano seja tratado pelo Estado como
um mero objeto e obriga o Estado a criar condições para
que o particular posa fruir plenamente a sua dignidade.

• Crítica: o princípio da proteção da confiança não almeja


unicamente a tutela de uma área núcleo (Kernbereich) dos
direitos dos seres humanos.
Em busca de um fundamento
• Boa-fé objetiva (Treu und Glauben) – exige-se do Estado e
de qualquer pessoa uma atuação em conformidade com o
seu comportamento pretérito. Protege tanto o particular
quanto o Estado. Aplicação diante de relações jurídicas
concretas (Sonderbeziehung), diante de relações do tipo
Estado-cidadão (Staat-Bürger). Instituto inaplicável nas
relações do tipo Estado-súdito (Staat-Untertan) que não são
individualizadas (Humberto Ávila).
Em busca de um fundamento
• Críticas:
i) O princípio da proteção da confiança abrange relações
jurídicas concretas e abstratas;
ii) A boa-fé objetiva não teria uma estatura de princípio
constitucional (verfassungsrechtliche Dignität). (Kyrill-A. Schwarz)
iii) O princípio da proteção da confiança protege, em regra,
apenas o particular perante o Estado. “O princípio da proteção da
confiança almeja exclusivamente a contenção dos poderes públicos”. (Peter
Haas).
iv) Se o princípio da proteção fosse derivado da boa-fé objetiva,
a proteção apenas teria lugar quando a contrariedade em relação
a um comportamento estatal prévio fosse feita com
desonestidade ou deslealdade.
Em busca de um fundamento
• Segurança jurídica e Estado de Direito – os dois exigem que o
poder estatal seja exercido com respeito à confiança que os particulares
depositaram no Estado (Peter Badura).

• Cadeia de derivação (Herleitungskette) Estado de Direito-segurança


jurídica-proteção da confiança. (Tribunal Constitucional alemão)

• O Estado de Direito deve garantir ao cidadão uma continuidade,


previsibilidade e eliminar surpresas desagradáveis, sem bloquear
eternamente as mudanças necessárias do ordenamento. (Winfried
Brugger).
Em busca de um fundamento
• Segurança jurídica designa i) a confiança nos atos do poder
público, ii) a estabilidade das relações jurídicas, e iii) a
previsibilidade dos comportamentos (Luís Roberto Barroso).

• Crítica: segurança jurídica seria um princípio


plurissignificativo que seria capaz de permitir inúmeras
pretensões. Natureza de Zauberkiste (Günter Püttner)

• BVerfG, BVerwG e STF têm fundamentado o princípio da


proteção da confiança na segurança jurídica e no Estado de
Direito.
Expectativas de direito e
direitos adquiridos
• “De modo geral, não é relevante a esperança de adquirir
um direito” (Limongi França)

• Esses dois institutos são insuficientes para solucionar todas as


dificuldades surgidas em razão das violações nas expectativas que os
particulares depositam no Estado. Os dois desconsideram os diferentes
níveis de confiança que o particular deposita nos atos estatais e não
apresentam soluções intermediárias, tal como o resultado de uma
correta ponderação exigiria.
i) A expectativa de aquisição de um direito deve ser respeitada;
ii) as fases intermediárias no processo de aquisição de um direito
devem ser respeitadas.
Expectativas de direito e
direitos adquiridos
• O princípio da proteção da confiança oferece uma proteção “mais ampla
que a preservação dos direitos adquiridos, porque abrange direitos que não são
ainda adquiridos, mas se encontram em vias de constituição ou suscetíveis de se
constituir” (Odete Medauar)

• Um regime jurídico pode ser alterado, mas não em uma extensão que
prejudique o titular de uma expectativa legítima. Isso a teoria dos
direitos adquiridos não é capaz de fazer.

• O Direito deve ter a missão de coordenar e assegurar as expectativas


legítimas criadas pelos mais distintos regimes jurídicos (Stephan Kirste).
Condições para o emprego do
princípio da proteção da confiança
i) Base da confiança;

ii) Existência subjetiva da confiança;

iii) Exercício da confiança através de atos concretos, e

iv) Comportamento estatal que frustre a confiança.


Condições para o emprego do
princípio da proteção da confiança
• Base da confiança (Vertrauensgrundlage): comportamento, omissão ou
ato normativo estatal (lei, decreto, portaria, decisão judicial, práticas da
Administração etc.) que origina a confiança. É o que vai servir para
introduzir a confiança na mente dos particulares.

• As promessas estatais somente geram um direito subjetivo, caso


tenham sido exteriorizadas de modo firme, preciso e concreto (Almiro do
Couto e Silva).

• O tempo será relevante para determinar se a base da confiança será


forte. (Humberto Ávila)
Condições para o emprego do
princípio da proteção da confiança
• Existência subjetiva da confiança: O desconhecimento total
do particular do ato estatal base da confiança é capaz de impedir
o manejo do princípio.

• O particular precisa ter efetivamente confiado na continuidade


do comportamento estatal para que uma expectativa se torne
legítima. (Anna Leisner-Egensperger).

• Não se pode aceitar uma confiança cega (blind), uma confiança


que desconhece os fatores que justificam um modo de proceder
(Claus-Wilhelm Canaris).
Condições para o emprego do
princípio da proteção da confiança
• Exercício da confiança através de atos concretos
(Vertrauensbetätigung): A confiança precisa ser “colocada em
funcionamento” (ins Werk gesetzt), uma vez que ela apenas ganha
relevância jurídica quando se exterioriza por meio de atos concretos.

• Não se deve exigir invariavelmente a prática de atos de disposição


patrimonial. Ex: preso que tem a expectativa de beneficiar-se com o
livramento condicional ou ato que modifica o regime previdenciário
prejudicando aquele que vai aposentar-se. O que se exige , mesmo
que não haja provas quanto à prática de atos com um conteúdo
pecuniário/patrimonial, é que o cidadão tenha se comportado sob a
influência da expectativa criada pelo Estado.
Condições para o emprego do
princípio da proteção da confiança
• Comportamento estatal que frustre a confiança: Além do ato,
omissão ou comportamento estatal inicial que serve de base da
confiança, é preciso que exista um outro em sentido contrário. É na
divergência entre duas ou mais manifestações de vontade que a
expectativa alicerçada na base da confiança poderá ser frustrada.
Críticas específicas ao princípio
• Violação à democracia e ao princípio da separação dos poderes.
Hipertrofia do Poder Judiciário. Argumento não procede, pois a
democracia exige a tutela das expectativas legítimas. A hipertrofia
apenas ocorrerá se o Estado violar excessivamente expectativas
legítimas.

• Risco de engessamento (ossification) da política. A proteção da confiança


não impede necessariamente a evolução da política e a resposta
imediata do Estado às demandas sociais. A continuidade que o
princípio assegura apenas garante uma “mudança com consistência” (Anna
Leisner-Egensperger).

• Redução da vontade do administrador de divulgar informações. Isso


deve ser analisado em conjunto com o aumento da qualidade das
manifestações. Elevação da aceitação voluntária das decisões estatais
(aumento da legitimidade estatal). (Søren Schønberg)
Críticas específicas ao princípio

• Proliferação de ações judiciais com o objetivo de materialização do


princípio da proteção da confiança. Não há provas de que isso
ocorrerá efetivamente.

• Proliferação de decisões divergentes sobre um mesmo tema, o que


pode ser mitigado através do aprofundamento no estudo do princípio
e através da criação de normas gerais sobre a matéria.
Redução da certeza do Direito em decorrência de decisões pontuais. A
diminuição da previsibilidade é compensada por uma elevação do
sentimento de justiça.

• O princípio não demanda o impossível daqueles que tomam decisões.


Princípio da proteção da
confiança e princípio da
legalidade
• Não existe um dever cego de anulação do ato
administrativo inválido.

• Há um estado de tensão entre os dois princípios.

• O Estado não deve deslocar para os particulares todas as


conseqüências danosas advindas da produção de um ato
ilegal (Hartmut Maurer).
Proteção da confiança e princípio da
legalidade
Sistemas de invalidação:

i) Austríaco: retirada do ato inválido depende de uma lei. Ato administrativo,


ainda que ilegal, teria força semelhante à de um ato jurisdicional.

ii) Francês e Espanhol: direito da Administração de invalidar atos


administrativos fica limitado pelo critério objetivo do tempo.

iii) Alemanha e Suiça: direito da Administração de invalidar atos


administrativos fica limitado pelo critério objetivo do tempo e por outros
fatores que possam justificar a preservação do ato administrativo (idade do
destinatário do ato, sacrifício do particular, irreversibilidade do ato etc.).

• Brasil, por força do art. 54 da Lei nº 9.784/99, é adepto do segundo sistema.


Proteção da confiança e princípio da
legalidade
Efeitos da adoção do princípio da proteção da
confiança em relação a atos inválidos:

i) manutenção do ato;

ii) desfazimento com efeitos ex tunc;

iii) desfazimento com efeitos ex nunc;

iv) desfazimento com efeitos em um momento futuro.


Exemplos de aplicação prática do
princípio da proteção da confiança
• Mudança nas regras de um regime previdenciário ou estatutário.

• Leis que proíbem atividades econômicas (ADIn nº 3.937.


Julgamento em 04/06/08) – Vedação de comercialização de
amianto em São Paulo).

• Prorrogação do contrato de concessão da Bacia de petróleo


situada em Camamu/Bahia – prorrogação de 36 contratos exigia
a prorrogação do contrato de Camamu. Expectativa de
tratamento isonômico.

• Ampliação dos requisitos para o exercício de uma profissão.

Ex. 1: ampliação do período de residência médica antes da


conclusão.
Aplicação prática do princípio da
proteção da confiança
Ex.: 2: Validação automática de diplomas obtidos no exterior (Decretos nº 80.419/77 e
nº 3.007/99).

Posição do STJ:

(...) NECESSIDADE DE PROCEDIMENTO – TÉRMINO DO CURSO NA


VIGÊNCIA DO DECRETO N. 3.007/99 – INEXISTÊNCIA DE DIREITO
ADQUIRIDO – RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PROVIDO PARA
JULGAR IMPROCEDENTE A AÇÃO.
• 1. (...) assiste razão à UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL –
quanto ao mérito. 2. Os autos dão conta que a ora recorrida ingressou no curso de
medicina no Instituto Superior de Ciências Médicas de Havana – Cuba, na vigência do
Decreto n. 80.419/77, que conferia ao formando a revalidação automática do
diploma expedido por instituição de ensino no exterior. 3. Entretanto, o término
do curso ocorreu na vigência do Decreto n. 3.007/99, que revogou o Decreto
anterior, razão pela qual impossibilitado o pretendido reconhecimento de
direito adquirido ao registro imediato do diploma sem a observância dos
procedimentos legais elencados pelo sistema educacional brasileiro. Agravo
regimental improvido. (STJ. Segunda Turma. Rel. Min. Humberto Martins. Agravo Regimental no
REsp nº 936.974-RS. Data do julg.: 20/09/07. DJU: 03/10/07)
Aplicação prática do princípio da
proteção da confiança
• Posição do TRF da 4ª Região:

Médico brasileiro:
“(...) Tendo o estudante brasileiro planejado sua formação no exterior almejando o regresso ao fim do
curso, sendo a possibilidade de revalidação automática (garantida pela Convenção, quando de seu
ingresso no curso) elemento de caráter fundamental à sua deliberação de cursar faculdade no estrangeiro,
a revalidação automática deve lhe ser deferida, em homenagem aos princípios da segurança jurídica e da
proteção da confiança, dois dos pilares do Estado Democrático de Direito.” (TRF da 4ª Região.
Quarta Turma. Rel. Des. Fed. Edgar Antônio Lippmann Júnior. Agravo de Instrumento nº
200404010480073-RS. Data do julg.: 16/11/05. DJU: 19/07/06).

Médico cubano:
“(...) Deve ser levada em conta a nacionalidade cubana do médico que pretende validar o diploma do
curso no Brasil. 2. Graduando-se no curso de medicina em 1986, em Cuba, seu próprio país, não se
pode aduzir, deste fato, o mesmo grau de riscos e investimentos a que se sujeitaram os brasileiros que
saíram do país e foram estudar no exterior. Além disso, o fato de ter cursado a faculdade sem planejar
exercer a profissão em nosso país afasta a aplicação dos princípios da segurança jurídica e da proteção
da confiança.” (TRF da 4ª Região. Quarta Turma. Rel. Des. Fed. Márcio Antônio Rocha. Agravo
no Agravo de Instrumento nº 200404010544439-RS. Data do julg.: 22/02/2006. DJU:
22/03/2006).
Aplicação prática do princípio da
proteção da confiança
• Normas com prazo determinado. Ex.: subsídio ou isenção
fiscal com prazo certo, visto de permanência etc. Fixação
do prazo cria uma expectativa legítima tutelável de que o
ato será mantido até o seu término.

• Precedente pioneiro do direito inglês Schmidt v. Secretary of


State for Home Affairs (decisão de 1969) – Dois norte-
americanos que pretendiam serem ouvidos antes da decisão
acerca da prorrogação do visto de permanência na
Inglaterra. Lord Denning indeferiu o pleito de prorrogação
dos vistos e considerou inexistente qualquer expectativa
legítima. Segundo Lord Denning, a expectativa legítima só
existiria se o visto de permanência tivesse sido revogado
antes do seu prazo final.
Aplicação prática do princípio da
proteção da confiança
• Quando se está diante de um requerimento de renovação de um ato
estatal, a Administração precisa atentar para o fato de que o requerente
já obteve um deferimento prévio (Hartmut Maurer). Há uma redução do
espaço de discricionariedade (Ermessensspielraum).

• Pretensão de renovação de um ato estatal que se apresenta como um ato


final (Endpunkt) (Ex.: autorização de uso de uma praça pública por um
dia para a realização de um evento) ≠ pretensão de renovação de um ato
estatal cuja demanda inicial pode ultrapassar o seu período de vigência
(Ex.: visto de permanência de um estrangeiro, autorização para
funcionamento de um estabelecimento). Nesta segunda hipótese, há, em
regra, uma expectativa legítima depositada pelo particular de futura
renovação do ato com vigência determinada.
O princípio da proteção da confiança e os
preceitos violadores dos Direitos Humanos
• Decisão de proteção do muro de Berlim oriunda do Segundo Senado do Tribunal
Constitucional Federal alemão (1996) (Mauerschützen-Entscheidung) – BVerfGE 95, 96
(Confirmação da decisão do BGH de 1992 – BGHSt 39,1).

• Punição dos soldados da extinta Alemanha Oriental pelas mortes na fronteira


(Grenzverletzer... zu vernichten) – comando excessivamente injusto. Dispositivo que
acarreta uma insuportável violação aos preceitos de justiça e aos direitos humanos.
Aplicação da fórmula de Radbruch (Radbruch’schen Formel).

• Gustav Radbruch e Robert Alexy: direito excessivamente injusto não é direito. Preceito
extremamente injusto não é norma jurídica.

• John Rawls: leis injustas precisam ser respeitadas, mas desde que não excedam certos
parâmetro de injustiça.

• Proibição da retroatividade da lei penal, salvo se benéfica (art. 5º, XL, da CRFB) – não
tem aplicação quando da transição de regimes injustos para um Estado de Direito (von
Unrechtsregime zum Rechtsstaat) (Thilo Rensmann).
Alcance do princípio da proteção da confiança
em relação aos Poderes da República
• O princípio da proteção da confiança deve proteger o particular
contra atos estatais oriundos de todos os Poderes da República.

• Embora seja majoritário o entendimento de que o princípio


também alcança os atos oriundos do Poder Judiciário (Ex.:
Bernhard Knittel), o tema não é pacífico. Anna Leisner-Egensperger é
contra a aplicação em relação ao Judiciário. Segundo ela, embora
existisse um direito à continuidade do ordenamento, não existiria
um direito do particular à confiança na percepção antiga e ruim
de um juiz. O que seria vedado na sua concepção seriam apenas
mudanças bruscas de posicionamento.

• Discordamos: cremos que o que se protege é a expectativa a má-


compreensão do Direito criou. Também é possível que uma
leitura equivocada do Direito crie expectativas.
Alcance do princípio da proteção da confiança
em relação aos Poderes da República
• Em relação às mudanças de orientação jurisprudencial, o princípio da
proteção da confiança pode ter o condão de deslocar os efeitos da nova
orientação para um momento futuro. Ele é capaz de preservar a
orientação antiga para os casos pendentes de julgamento (Wilhelm Knittel).

• “Quando uma corte de justiça, notadamente o Supremo Tribunal Federal, toma a


decisão grave de reverter uma jurisprudência consolidada, não pode nem deve fazê-lo
com indiferença em relação à segurança jurídica, às expectativas de direito por ele
próprio geradas, à boa-fé e à confiança dos jurisdicionados. Em situações como esta, é a
própria credibilidade da mais alta corte que está em questão” (Luís Roberto Barroso).

• O particular não deve arcar com todas as conseqüências danosas oriundas


de uma nova compreensão judicial que conclui ser equivocada uma visão
anterior (Paul Kirchhof).
Alcance do princípio da proteção da confiança
em relação aos Poderes da República
• Modulação temporal em razão de uma mudança de orientação na
jurisprudência.

Visão de Luís Roberto Barroso:

• “a questão pode ser colocada em três cenários distintos: a) a declaração de


inconstitucionalidade em ação direta; b) a declaração de inconstitucionalidade
em controle incidental; c) a mudança da jurisprudência
consolidada acerca da determinada matéria”.

• Assim como é possível permitir que um dispositivo


inconstitucional produza efeitos futuros mesmo após o
reconhecimento de sua inconstitucionalidade, também é viável
que uma antiga e ultrapassada orientação jurisprudencial tenha
aplicação em relação a, por exemplo, fatos pendentes de
julgamento.
Alcance do princípio da proteção da confiança
em relação aos Poderes da República
Precedente do crédito-prêmio IPI
Orientação do STJ:
(...) salvo nas hipóteses excepcionais previstas no art. 27 da Lei 9.868/99, é incabível ao
Poder Judiciário, sob pena de usurpação da atividade legislativa, promover a “modulação
temporal” das suas decisões, para o efeito de dar eficácia prospectiva a preceitos normativos
reconhecidamente revogados. (STJ. Primeira Seção. Rel. Min. Teori Albino Zavascki. Embargos
de Divergência em REsp nº 738.689-PR. Data do julg.: 27/06/07. DJU: 22/10/07)
Votos da posição vencida favorável à modulação: Min. Hermann Benjamin e Min. João Otávio
Noronha.

• Orientação do STF:
(...) IPI - INSUMO - ALÍQUOTA ZERO - CREDITAMENTO -
INEXISTÊNCIA DO DIREITO - EFICÁCIA. Descabe, em face do texto
constitucional regedor do Imposto sobre Produtos Industrializados e do sistema jurisdicional
brasileiro, a modulação de efeitos do pronunciamento do Supremo, com isso sendo emprestada
à Carta da República a maior eficácia possível, consagrando-se o princípio da segurança
jurídica.
(STF. Plenário. Rel. Min. Marco Aurélio. RE nº 353.657-PR. Data do julg.: 25/06/07.
DJU: 29/06/07 e STF.)
Voto da posição vencida favorável à modulação: Min. Ricardo Lewandovski.
Alcance do princípio da proteção da confiança
em relação aos Poderes da República
• O entendimento que veio a prevalecer no âmbito da Corte
Suprema no caso do crédito-prêmio do IPI, por seis votos a
cinco, foi o de que não teria ocorrido uma “virada
jurisprudencial” na matéria, mas tão-somente uma “reversão
de precedente” em razão da mudança da composição do
Supremo. Como o STF ainda não havia proferido uma decisão
final sobre o tema, não teria acontecido uma virada abrupta de
jurisprudência hábil a justificar a tutela dos contribuintes. Houve
mera reforma de um entendimento anterior (reversão de
precedente) ainda não transitado em julgado e, segundo a
orientação da Corte Suprema, os contribuintes não pagaram o
tributo por sua conta e risco, uma vez que não havia coisa
julgada sobre o assunto. Ao diferenciar virada jurisprudencial de
reversão de precedente, o STF fixou uma exigência específica
para que sua jurisprudência pudesse eventualmente dar amparo à
proteção da confiança de particulares: a existência de coisa
julgada.
Alcance do princípio da proteção da confiança
em relação aos Poderes da República
Precedente do cancelamento da Súmula nº 394 do STF

Nas decisões que reconheceram o cancelamento da Súmula nº 394 (“Cometido o


crime durante o exercício funcional, prevalece a competência especial por prerrogativa de função,
ainda que o inquérito ou a ação penal sejam iniciados após a cessação daquele exercício”), o
STF decidiu, por outro lado, aplicar tão-somente para o futuro seu novo
entendimento contrário ao antigo verbete.

Voto do relator Min. Carlos Britto:


“O Supremo Tribunal Federal, guardião-mor da Constituição Republicana, pode e deve, em
prol da segurança jurídica, atribuir eficácia prospectiva às suas decisões, com a delimitação
precisa dos respectivos efeitos, toda vez que proceder a revisões de jurisprudência definidora de
competência ex ratione materiae. O escopo é preservar os jurisdicionados de alterações
jurisprudenciais que ocorram sem mudança formal do Magno Texto. 6. Aplicação do precedente
consubstanciado no julgamento do Inquérito 687, Sessão Plenária de 25.08.99, ocasião em que
foi cancelada a Súmula 394 do STF, por incompatível com a Constituição de 1988,
ressalvadas as decisões proferidas na vigência do verbete”.
(STF. Plenário. Rel. Min. Carlos Britto. CC nº 7.204/MG. Data do julg.: 29/06/05. DJU: 09/12/05. )
Meios de proteção da confiança
• Forma procedimental e substancial.

• Procedimental: proteção obtida mediante um procedimento


que conte com a efetiva participação do particular antes da
decisão estatal capaz de frustrar uma expectativa legítima.

• Substancial: visa à concreta tutela da expectativa. Pode


apresentar-se por meio da i) tutela da constância do ato, ii) fixação
de uma compensação ou através iii) da criação de regras de transição .
Grupo de Trabalho da EMARF
Grupo de Trabalho realizado com a presença de Juízes Federais
do TRF da 2ª Região para debater o tema do princípio da
proteção da confiança.

Principais conclusões do debate:

As expectativas legítimas dos administrados, ainda que não


se enquadrem no conceito de direitos adquiridos, precisam
ser respeitadas pelo Estado. Existem graus distintos de
tutela das expectativas que variarão de acordo com o caso
concreto. Não existe um direito absoluto à inalterabilidade
do ordenamento jurídico, mas o ordenamento, quando
sofrer alteração, precisa respeitar as expectativas legítimas
dos particulares.
Principais conclusões
do debate na EMARF
• O decurso de cinco anos previsto no art. 54 da Lei nº 9.784/99
para a manutenção de atos inválidos é um parâmetro a ser
observado como regra geral. Contudo, um ato inválido com
duração inferior a cinco anos pode ser, excepcionalmente,
mantido. A ponderação exigida pelo caso concreto é que
determinará se ele deverá ser expulso ou mantido no
ordenamento.

• A proteção da confiança independe de atos de disposição


patrimonial. Contudo, a expectativa legítima apenas deverá ser
tutelada quando o administrado houver praticado algum ato
concreto, ou quando tiver se comportado com base na confiança.

• O vício de competência não obsta que o princípio da proteção da


confiança seja empregado para impedir a frustração de
expectativas legítimas. Ato praticado por autoridade
incompetente também pode originar uma confiança digna de
tutela.
Principais conclusões
do debate na EMARF
• Os atos estatais podem produzir efeitos retroativos.
No entanto, as expectativas legítimas dos
administrados, e não apenas os direitos
adquiridos, devem ser respeitadas pelos atos
estatais dotados de efeitos retroativos.

• A retroatividade da lei penal não obsta que o


direito excessivamente injusto deixe de ser
aplicado. Atos praticados com amparo em normas
excessivamente injustas podem levar à punição
futura daqueles que os praticaram.

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