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Organizadores

Caio Reis Veiga


Elias Abner Coelho Ferreira
Irana Bruna Calixto Lisboa
Jessica Maria de Queiroz Costa
Sara Concepción Chena Centurión

HISTÓRIA INDÍGENA
E DO INDIGENISMO
NA AMAZÔNIA II

2019
HISTÓRIA INDÍGENA
E DO INDIGENISMO
NA AMAZÔNIA II
Organizadores
Caio Reis Veiga
Elias Abner Coelho Ferreira
Irana Bruna Calixto Lisboa
Jessica Maria de Queiroz Costa
Sara Concepción Chena Centurión

HISTÓRIA INDÍGENA
E DO INDIGENISMO
NA AMAZÔNIA II

1ª Edição

2019
Copyright 2018 © Grupo de Pesquisa Hindia
Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser reproduzida,
transmitida ou arquivada desde que levado em conta os direitos dos autores.

CAPA:
Cynara Dryelle Pantoja Pereira

EDITORES:
Pedro & João Editores

PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO:


Fernando Alves da Silva Júnior

REVISÃO:
Sara Concepción Chena Centurión

CONSELHO CIENTÍFICO:
Augusto Ponzio (Bari/Itália); João Wanderley Geraldi (Unicamp/Brasil); Hélio
Márcio Pajeú (UFPE/Brasil); Maria Isabel de Moura (UFSCar/Brasil); Maria da
Piedade Resende da Costa (UFSCar/Brasil; Valdemir Miotello (UFSCar/Brasil)

Catalogação na Publicação (CIP)


Ficha Catalográfica produzida pelo editor

História indígena e do indigenismo na Amazônia II. Caio Reis


Veiga; Elias Abner Coelho Ferreira; Irana Bruna Calixto Lisboa;
Jessica Maria de Queiroz Costa; Sara Concepción Chena Centurión. São
Carlos: Pedro e João Editores, 2019.

145p.: Il., Color.


1a ed.
ISBN 978-85-7993-737-8
1. História. 2. Indígena. 3. Indigenismo. 4. Amazônia. I.
Título.

980 CDD
304 CDU

Pedro & João Editores


www.pedroejoaoeditores.com.br
13568-878 – São Carlos – SP
2019
SUMÁRIO
Prefácio
Karl Arenz ...................................................................... 07

“Não Sou Escravo de Nenhum Senhor”: os


Processos de Liberdades Indígenas na
Amazônia Colonial (Primeira Metade do Século
XVIII)
André Luís Bezerra Ferreira .......................................... 09

A Representação Indígena na Narrativa


Didática das Entradas e Bandeiras: um Estudo
da Coleção Araribá (2014)
Andressa da Silva Gonçalves ......................................... 19

A Mão de Obra Indígena na “Ribeira de Moju”


– Disputas pelo seu Controle (1733–1755)
Elias Abner Coelho Ferreira ........................................... 31

Expressões Materiais do Sistema de Objetos


Culturais do povo Anambé
Irana Bruna Calixto Lisboa ............................................41

A Infância Tupinambána Amazônia


Seiscentista: a educacão das crianças pelo
olhar dos padres capuchinhos Claude
d`Abeville e Yves d`Évreux
Jane Elisa Otomar Buecke
Maria Betânia Barbosa Albuquerque ............................ 57
Breve Estudo de Representações sobre os
Indígenas em Canções de Artistas da Amazônia
(1988-1993)
Jessica Maria de Queiroz Costa ........................................ 69

Os Índios no Grão-Pará: o Impacto das


Experiências no Diretório dos Índios (1681-1757)
Luana Melo Ribeiro ........................................................... 77

As Línguas e os Línguas: Intérpretes Indígenas e


Missionários Jesuitas na Amazônia Colonial (sécs.
XVII-XVIII)
Rafael Rodrigues Correa .................................................. 89

Redes de Conhecimento e os Índios do Vale


Amazônico: Possibilidades de Pesquisa
Rafael Rogério Nascimento dos Santos ........................... 101

O Bacharel do Diretório dos Índios: o Intendente


Geral e a Fiscalização das Vilas
Stephanie Lopes do Vale .................................................. 109

Tradição e Ensino de História no Brasil: a Formação


para Cidadania entre o Eurocentrismo e as
Demandas por uma História Global/Transnacional
Taissa Cordeiro Bichara .................................................... 125

A Paticipação dos Indígenas nas Expedições da


Rota Madeira-Guaporé (segunda metade do século
XVIII)
Vanice Siqueira de Melo ................................................... 133
PREFÁCIO

Karl Arenz

Mobilidade e visibilidade – eis dois Junta das Missões, um órgão


termos que abarcam, de forma evidente, deliberativo da justiça colonial, para
todas as contribuições na obra que aqui impedir que lhes fosse imposto o status
apresentamos. A coletânea é fruto do III de escravos (André Luís Bezerra
Encontro de História Indígena e do Ferreira);
Indigenismo (HINDIA), que ocorreu no mês  a cultura material com forma visível e
de novembro de 2018, na Universidade palpável de afirmação dos povos
Federal do Pará, sendo realizado pelo Grupo indígenas (Irana Bruna Calixto Lisboa);
de Pesquisa homônimo. Tanto o grupo em si  o papel das crianças indígenas como
como seus encontros já se tornaram uma transmissores e transmissoras dos
referência para estudantes, professoras e saberes tradicionais em meio às relações
professores e também, cada vez mais, para assimétricas instituídas desde o início
indígenas que refletem sobre os complexos e, da colonização (Jane Elisa Otomar
muitas vezes, dramáticos e traumáticos Buecke e Maria Betânia Barbosa
processos de (re)articulação e resistência dos Albuquerque);
povos indígenas. São processos não  a representação dos índios e das índias
concluídos, sempre abertos. As resistências em canções de artistas amazônicos que,
na conjuntura atual o evidenciam. após a ditadura civil-militar, abordaram
Como seus antecessores, o evento do questões sensíveis como a política
HINDIA de 2018 contribuiu com suas indigenista e o desafio ecológico (Jéssica
reflexões, comunicações e debates a quebrar Maria de Queiroz Costa);
a imobilidade e a invisibilidade, que  as experiências dos e das indígenas
persistem a não perceber os índios e índias se aldeados em relação ao Diretório dos
movendo em todos os espaços da sociedade Índios enquanto projeto civilizador que
brasileira e aqui insistem a enxerga-los reverberou – e ainda reverbera – para
somente em condições consideradas como além de sua vigência na segunda
subdesenvolvidas ou “primitivas”. Os metade do setecentos (Luana Melo
artigos que constam na presente coletânea se Ribeiro);
inscrevem nesta tendência, ao realçar as  a contribuição dos “línguas” indígenas
diversas agências indígenas no decorrer da nos contatos e nos processos de
história. Os textos nos apresentam análises mediação entre índios e europeus em
que abordam: busca de estabelecer uma comunicação
 a contribuição dos índios nas dinâmicas mútua que, aliás, revelou ser incompleta
coloniais, não somente como mão de – até hoje (Rafael Rodrigues Corrêa);
obra submissa, mas como trabalhadores  a aparente necessidade dos
de cujos saberes e esforços dependia colonizadores de controlar mais de
toda empreitada colonial (Elias Abner perto os índios e as índias nas vilas
Coelho Ferreira); coloniais ante a suposta lentidão de
 a agência dos índios e, sobretudo, das adaptação dos mesmos ao projeto
índias, reclamando sua liberdade ante a civilizador (Stephanie Lopes do Vale);

Doutorado em História Moderna e Contemporânea pelo Université Paris IV (Paris-Sorbonne), França (2007). Atualmente é
professor efetivo, em regime de dedicação exclusiva, na Universidade Federal do Pará - UFPA, em Belém - PA, lotado na
Faculdade de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e credenciado no Programa de Pós-Graduação em História
Social da Amazônia.

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 a representação dos índios e das índias evento. A presença e a partilha da indígena
no ensino escolar que, ao invés, de Alessandra Munduruku, atualmente
formar cidadãos e cidadãs, tende a acadêmica de direito na Universidade do
inculcar e, assim, perpetuar estereótipos Oeste do Pará (UFOPA), e dos integrantes da
e preconceitos (Taíssa Cordeiro Associação dos Estudantes Indígenas da
Bichara); UFPA (APYEUFPA) foram marcantes e
 o papel crucial de remadores e pilotos mexeram, literalmente, com os demais
indígenas na expansão do domínio participantes, dos quais a maioria (ainda) são
colonial, sobretudo na abertura de não indígenas.
novas rotas fluviais, como a importante Enfim, fica o desejo que o leitor e a leitora
conexão entre o Grão-Pará e o Mato desta obra não possa somente constatar a
Grosso pelos rios Madeira, Mamoré e seriedade acadêmica dos trabalhos nela
Guaporé (Vanice Siqueira de Melo). reproduzidos, mas que a leitura o/a instigue
Essas pesquisas – algumas já bastante a comprometer-se com a causa dos povos
avançadas, outras ainda na fase inicial – indígenas que, mais do que qualquer outra
embora muito variadas, formam um mosaico parte da população brasileira, estão
que nos permite perceber a importância enfrentando uma conjuntura extremamente
fundamental dos povos indígenas no devir difícil e desafiadora.
da Amazônia. É bom lembrar, também, que
os textos constituem somente uma pequena
parte das atividades realizadas durante o

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“NÃO SOU ESCRAVO DE NENHUM SENHOR”:
os Processos de Liberdades Indígenas na Amazônia
Colonial (Primeira Metade do Século XVIII)

 André Luís Bezerra Ferreira

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo analisar os processos de liberdades dos índios
no Tribunal da Junta das Missões na Capitania do Maranhão. Instituído em 1681 pela Coroa
portuguesa na Amazônia, este órgão corroborou para legitimação da expansão do projeto colonial
por meio da propagação da fé e, mais concretamente, auxiliou na aplicação da justiça referente a
(i)legalidade dos cativeiros e, sobretudo, das liberdades dos índios do Maranhão. No decorrer do
século XVIII, evidencia-se uma significativa proximidade dos nativos com a justiça. Portanto,
buscarei realçar o protagonismo indígena perante uma justiça colonial que guardou, ante as
múltiplas realidades no interior da monarquia lusa, um caráter deliberativo e até restaurativo. Para
tanto, utilizo como fontes contidas no Arquivo Público do Estado do Maranhão e documentos
avulsos do Arquivo Histórico Ultramarino.
Palavras-chave: Maranhão. Colônia. Índios. Junta das Missões. Liberdade.

OS TRÂMITES DAS LIBERDADES exteriores” (NOVAES, 2002, p. 8). Essas


determinações exteriores variaram e se
modificaram ao longo do tempo, implicando
Liberdade – essa é uma palavra que no
alterações no sentido da liberdade. Desta
decorrer dos anos suscitou vários debates
forma, cabe compreender como ocorriam as
acerca de sua natureza e seu sentido. Não
ações dos índios e o sentido de suas
obstante, emergiram na esfera acadêmica
“liberdades” na Junta das Missões, com
estudos teológicos, filosóficos, sociais e/ou
atenção às mentalidades e contextos
políticos, com a finalidade de compreender
envolventes da Capitania do Maranhão no
as relações das ações humanas em prol da
início dos setecentos.
liberdade. Segundo Adauto Novaes, a
No período colonial, a liberdade dos
preponderância dos referidos estudos se
escravos, fossem eles indígenas, africanos e
justifica na medida em que a natureza do
afro-brasileiros, constituía constantemente
homem se define pela “necessidade da
um dos principais pontos de pauta da política
liberdade”, ou seja, “o homem é livre por
e legislação da Coroa portuguesa. Por isso, a
natureza. Não no sentido de que ele nasce
referida temática tem sido largamente
livre, mas no sentido que de que ele tende
discutida pelos historiadores. No entanto,
naturalmente a se tornar livre”. No entanto,
cabe sinalizar que a produção historiográfica
há de se fazer uma importante ressalva. As
direcionou-se amplamente para a liberdade
ações humanas em prol da “liberdade”,
dos escravos africanos e afro-brasileiros,
semelhantes a quaisquer outras, sempre estão
sendo que, em comparação, pouco se discutiu
inseridas em certa lógica social, pois “o
a liberdade indígena1. Na década de 1930, no
homem está sujeito a determinações

 Doutorando em História Social pela Universidade Federal do Pará. Bolsista da CAPES. Membro do Grupo de Pesquisa História
Indígena e do Indigenismo na Amazônia (UFPA). Membro do Grupo de Pesquisa Escravidão, mestiçagem, trânsito de culturas
e globalização (UFMG). Belém, Pará, Brasil. Correio eletrônico: andreluis_bf@yahoo.com.br
1 Sobre a liberdade dos africanos e afro-brasileiros, ver SLENES, Robert Wayne. Na senzala, uma flor: esperanças e recordações

na formação da família escrava. 2ª ed. Campinas: Editora UNICAMP, 2011; CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma
história das últimas décadas da escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras, 2011; CHALHOUB, Sidney. A força da
escravidão: ilegalidade e costume no Brasil oitocentista. São Paulo: Companhia das Letras, 2012; GRINBERG, Keila. O fiador
dos brasileiros: cidadania, escravidão e direito civil no tempo de Antonio Pereira Mendonça. Rio de Janeiro: Civilização

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contexto efervescente da elaboração das e o compromisso do rei para com seus
primeiras teorias sobre a sociedade colonial vassalos indígenas, uma vez que estes eram
no Brasil, o historiador português Serafim indispensáveis ao desenvolvimento da
Leite, em seu clássico estudo sobre a colonização.
“História da Companhia de Jesus no Brasil”, O período correspondente ao fim do
chamava atenção para a necessidade de século XVII e, sobretudo, ao século XVIII tem
estudar a liberdade dos índios. Conforme o sido o marco temporal em que as análises
autor, a temática esteve intrinsecamente estão centralizadas (SWEET, 1987;
associada à ordem inaciana, mas a História MONTEIRO, 1994; RESENDE, 2003. MELLO,
da Liberdade dos Índios deveria ser escrita 2006; BOMBARDI, PRADO, 2016;
como “objeto histórico, direto e principal. BRIGHENTE, 2012; PORTELA, 2014.). Uma
Porque, se no passado se confunde em possibilidade para justificar essa recorrência
grande parte com a própria Companhia [de é o fato de nessa temporalidade terem
Jesus], todavia pode e deve ser tratado à ocorrido ações significativas do poder
parte, assunto magnífico e digno de um metropolitano, objetivando a reformulação
grande historiador” (LEITE, 1943, p. 76). do sistema de regulamentação da posse dos
Nesse sentido, paulatinamente os índios na América portuguesa através da
historiadores passaram a direcionar seus promulgação das diferentes Leis de
olhares para a questão da liberdade dos Liberdade, o que, de certa forma, fez os
índios. Por sua vez, no decorrer dos séculos nativos ocuparem um lugar central na justiça
XVII e XVIII, a elaboração da legislação colonial.
indigenista, marcada por intensas querelas No Estado do Maranhão e Grão-Pará, na
em torno da liberdade e do cativeiro dos primeira metade do século XVIII, uma
índios, foi fruto de constantes e, de certa hipótese para explicar a proximidade dos
forma, profícuas reflexões e discussões de índios com a justiça colonial é a existência de
cunho jurídico-administrativo e filosófico- três dispositivos: a presença do tribunal da
teológico entre os principais agentes da Junta das Missões, a instituição dos cargos de
sociedade portuguesa, uma vez que a Procurador dos índios e do Juiz Privativo das
legitimidade da dominação lusitana sobre os Liberdades e a legislação – o Regimento das
povos das conquistas requisitava a Missões (1684), o Alvará dos Resgates (1688)
transformação desses “em alteridade jurídica – que designava as formas legais de inserir os
e socialmente operativa” (XAVIER; SILVA, índios nas dinâmicas da colonização.
2016, p. 22). A Junta das Missões foi instituída, em
Não obstante, os debates acirrados acerca 1681, no Estado do Maranhão e Grão-Pará.
do status social e jurídico dos índios Naquele momento, o rei D. Pedro II adotou,
culminaram, em geral, no estabelecimento de como já demonstrado, um conjunto de
um modus vivendi da Coroa entre seus medidas que visavam a uma maior
diferentes súditos no ultramar, pois como dinamização do projeto colonial na região.
aponta Stuart Schwartz, somente essa práxis Sendo assim, o governo dos índios se
era a “possibilidade de governantes e súditos configurou como um dos principais pontos
multiétnicos conviverem através do das políticas metropolitanas. A Junta das
reconhecimento de direitos comunais, Missões desempenhou, neste contexto, um
instigado por circunstâncias do bom senso papel relevante, instigando a atividade
políticos e econômico”. (SCHWARTZ, 2009, missionária, mas também as metas
p. 75) Ademais, as políticas de interferência econômicas, pois constituiu o principal órgão
da Coroa portuguesa no governo dos índios deliberativo acerca das formas legais –
e, consequentemente, de suas liberdades resgates, descimentos e guerras justas – de
(re)afirmavam a relação de interdependência arregimentação da tão necessária mão de

Brasileira, 2012; GRINBERG, Keila. Liberata – a lei da Dumará, 1994; MATTOS, Hebe. Das cores do silêncio.
ambiguidade: as ações de liberdade na Corte de Apelação Campinas: Editora UNICAMP, 2013.
do Rio de Janeiro, século XIX. Rio de Janeiro: Relume-

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obra indígena. O tribunal se configurou, Juízo “funcionava como um foro de primeira
assim, como uma interface administrativa de instância por onde corriam as causas da
constante debate entre os diversos agentes liberdade dos índios”. (MELLO, 2005, p. 8)
coloniais. Composto por representantes da Assim feito, o Juiz Privativo das Liberdades
Coroa, das ordens religiosas e da autoridade fazia uma apreciação sobre a contenda e, com
eclesiástica secular, o órgão corroborou a base na legislação, emitia um parecer sobre a
legitimação da expansão do projeto colonial (i)legitimidade do cativeiro dos índios em
por meio da propagação da fé e, mais questão. Entretanto, cabe sinalizar que a
concretamente, auxiliou na aplicação da Ouvidoria não concedia o parecer final, pois
justiça referente à (i)legalidade dos cativeiros os casos retornavam para Junta das Missões,
e, sobretudo, das liberdades dos índios do na qual os deputados poderiam estar em
Maranhão. conformidade ou em contrariedade ao
Quanto à atuação do Procurador dos parecer do ouvidor.
índios e a do Juiz Privativo das Liberdades,
essas eram duas formas possíveis para os
índios disporem de representantes
reconhecidos perante a justiça colonial. No OS ÍNDIOS COLONIAIS NA JUNTA
que se refere à atuação do Procurador dos DAS MISSÕES
Índios no contexto dos processos de
liberdade, no dia 10 de julho de 1750, o Dado os trâmites institucionais e
Ouvidor-Geral João da Cruz Dinis Pinheiro legislativos, cabe agora direcionar nossas
escrevia ao rei sobre uma ordem régia análises para uma compreensão mais
referente ao cargo do procurador ser um apurada dos sujeitos concernidos e dos
meio de os índios requererem suas caminhos utilizados para eles pleitearem
liberdades. Conforme o ouvidor, ficou suas liberdades. Para tanto, na seara das
determinado que “os escravos [que denominações genéricas que fazem
interessem] libertar-se do poder de seus referência aos nativos da América, será
senhores e provendo sevicias” poderiam utilizada a categoria de “índios coloniais”,
“requerer e resistir” na casa do Procurador introduzida por Karen Spalding para
dos Índios; e isso, desde o início do século designar a relevante agência dos índios
XVIII. (AHU, Avulsos Maranhão. Cx. 31, perante a colonização na América Espanhola
Doc. 3219.) (SPALDING, 1972). No que concerne às
Por sua vez, o ouvidor-geral, principal especificidades da América Portuguesa, John
representante da justiça portuguesa no além- Monteiro, em estudo intitulado “Tupis,
mar, teve uma atuação preponderante nas Tapuias e Historiadores”, foi o pioneiro na
ações de liberdade dos índios. Sua agência utilização da categoria de “índios coloniais”.
pode servir de hipótese para afirmar que a O autor, numa perspectiva interdisciplinar
Junta das Missões, para além do seu aspecto balizada entre a História e a Antropologia,
missionário, que através da propagação da fé compreende o processo de contato entre os
visava converter os gentios em vassalos povos na Modernidade para além da
régios, também foi um instrumento utilizado dominação europeia em si, colocando em
pela coroa portuguesa para o alargamento da pauta o desenvolvimento da (re)organização
justiça, salvaguardando, no entanto, sua e formação de novas sociedades. Nesse
incumbência primeira: a de deliberar sobre a sentido, o contato entre os mundos europeu e
liberdade dos índios. No Livro de Assentos indígena desencadeou diversos processos de
da Junta das Missões se evidencia que, no etnogênese, enquanto consequência da
momento em que um caso era apresentado ao “articulação entre processos endógenos de
referido tribunal, este o encaminhava para a transformação e processos externos
instância da Ouvidoria que, a partir de 1733, introduzidos pela crescente intrusão de
passou a ser a instância do Juízo Privativo das forças ligadas aos europeus” (MONTEIRO,
Liberdades. Conforme Marcia Mello, o dito 2001, p. 57).

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Desta forma, a partir do contato com o indígenas foram reivindicadas com os
europeu, os índios passaram a ressignificar as seguintes argumentos e motivos: títulos
suas identidades, criando novas estratégias (in)justos de cativeiro, partilhas
de vivência e sobrevivência perante um determinadas por testamento, matrimônios
contexto marcado por significativas indígenas, filhos bastardos, violência e
metamorfoses sociais. Segundo John obtenção de mercês. Passamos, pois, agora a
Monteiro, os índios coloniais, mediante a sua analisar o entrelaçamento das liberdades dos
integração à sociedade colonial, “buscam índios com cada uma dessas questões.
forjar novas identidades que não apenas se O título injusto de cativeiro era o
afastavam das origens pré-coloniais, como principal argumento utilizado pelos índios
também procuravam se diferenciar dos para pleitearem a sua liberdade. A
emergentes grupos sociais que eram frutos legitimidade da escravidão estava prevista
do mesmo processo colonial”, como por no Alvará dos Resgates de 1688. Nas atas,
exemplo, dos escravos africanos e afro- contidas no Livro de Assentos da Junta das
brasileiros. Nesse sentido, em face do Missões, se observa que a falta do título da
surgimento e desenvolvimento de novos escravidão se configurou como um caminho
grupos sociais, sinaliza o autor, “parece ter para as articulações coletivas dos índios em
havido uma crescente estigmatização dos prol de suas liberdades. Uma hipótese para
índios, separados de e opostos a outras justificar esse fato é a possibilidade de os
categorias étnicas e fenotípicas, tais como escravos legítimos serem julgados na mesma
brancos, mestiços, negros” (MONTEIRO, medida como os suplicantes retidos em
2001, p. 59). cativeiro de forma ilegítima. Entretanto, o
A escolha da categoria de índios coloniais tribunal costumava analisar e julgar caso a
para analisar as ações dos índios na Junta das caso, sempre possibilitando aos senhores que
Missões se justifica por tratar-se de sujeitos apresentassem os documentos necessários
oriundos de grupos indígenas que para a comprovação da legalidade da
originalmente habitavam os sertões ou as escravidão dos índios que estavam sob sua
várzeas da Amazônia e que, ao menos por custódia.
duas ou três gerações, estão em contato direto Essa questão aparece explícita na
ou encontram-se integradas à sociedade contenda envolvendo as índias Generoza,
colonial. Sendo assim, muitos desses índios Margarida, Julia e o índio João contra Pedro
coloniais já nasciam na casa de seus senhores, Hipólito Domingues. Em reunião da Junta
mas não deixavam de reconhecer suas das Missões de 16 de setembro de 1748, os
origens. De fato, ao pleitearem sua liberdade suplicantes, alegando serem oriundos dos
ante a Junta das Missões corriqueiramente sertões do Amazonas, requeriam o
mencionavam seus avós e bisavós que foram julgamento de suas liberdades “por não
resgatados, aprisionados ou descidos para as haver justo título da sua escravidão”.
vilas coloniais. Estando presente o dito senhor, em seu
depoimento declarou que tinha os registros
de todas “aquelas peças”, com exceção da
índia Júlia. Desta feita, o pleito do tribunal
OS CAMINHOS PARA AS assentou que a índia Júlia e “todos os seus
LIBERDADES produtos” seriam julgados como forros
devido à ilegalidade da sua escravidão.
Um ponto importante a ser destacado se Todavia, os demais índios seriam
refere aos possíveis argumentos e motivações conservados na posse de Pedro Hipólito
pelos quais os índios coloniais submetidos à Domingues, com a ressalva de poderiam usar
escravidão podiam pleitear suas liberdades. “dos meios ordinários e o Procurador dos
Realizando uma imersão nas fontes da Junta Índios [que] cuidará nesta causa na forma
das Missões, até o presente momento que é obrigado” (Arquivo Público do Estado
pudemos evidenciar que as liberdades

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do Maranhão. Livro de Assentos da Junta das filhos e netos (AHU, Avulsos Maranhão. Cx.
Missões. Fls. 41-43v.). 23, Doc. 2333). Desde a sua infância,
Diferente do caso apresentado acima, os receberam, ao que o documento indica,
índios Ponciano, Raimundo, Francisco, “amor e bom tratamento”, chegando a
Ignacio e Maria, com seus filhos, obtiveram “serem do sangue, e família” dos ditos
logo parecer favorável para as suas senhores que “sempre as trataram como
liberdades. No dia 14 de setembro de 1754, o forras” (AHU, Avulsos Maranhão, Cx. 15,
processo que envolvia os referidos índios foi Doc. 1542).
remetido à Junta das Missões pela instância No entanto, o falecimento de Francisco
da Ouvidoria. Sendo assim, o Juiz Privativo Deiró e, posteriormente, da sua esposa Anna
das Liberdades, após ter solicitado os Sameiro veio a transformar a vida daquela
senhores que os possuíam para a família indígena. Isto porque, Joseph Pires
apresentação do título da escravidão, Deiró, filho do casal e um dos seus herdeiros,
constatou em seu despacho que os títulos “por sessão que fez de sua herança” resolveu
“não foram satisfeitos, nem julgado matéria vender Catarina, Domingas e Teodora a
alguma, com que ainda a prova se fizesse Manuel Gaspar Neves. O jovem Deiró era
duvidosa a sua condição”. Sem demora, os conhecido como “forte contendor”, tendo
deputados da Junta das Missões, em muito prestígio e influência política em São
consonância com as resoluções régias, Luís. Seu intento, no referido caso, teria sido
declararam “aos suplicados livres e isentos cativar as ditas índias. Não obstante,
de toda a escravidão e que podem usar de sua Catarina, Domingas e Teodora, achando-se
liberdade” (APEM. Livro de Assentos da “oprimidas e vexadas”, buscaram ajuda
Junta das Missões. Fls. 47v-48). perante o Governador do Estado do
Quanto as partilhas de testamentos, Maranhão e Grão-Pará João da Maia da
podemos apontar o caso que envolve as Gama. Prontamente, o governador lhes
índias Catarina, Domingas e Teodora. “Todo socorreu, ordenando “[as] depositar em
o gentio é livre de natureza conforme as Leis poder do Procurador dos Índios para este
e ordens de Vossa Majestade”. Essas palavras lhes defender as suas liberdades” (AHU,
foram proferidas pelos índios Martinho Avulsos Maranhão. Cx. 23, Doc. 2333).
Lopez da Fonseca e Damazo Pereira em Entretanto, o Ouvidor-Geral Mathias da Silva
requerimento do dia 28 de janeiro de 1737 ao Freitas, descumprindo a ordem do
Conselho Ultramarino. Na missiva, os governador do Estado, tirou as índias do
suplicantes informavam o rei D. João V sobre poder do Procurador dos Índios e as entregou
a necessidade da proteção dos índios e a a Manuel Gaspar Neves, além de decretar a
conservação de suas liberdades no Estado do prisão do referido procurador, deixando os
Maranhão e Grão-Pará. Mas, o referido índios daquela Capitania sem ninguém que
requerimento fazia menção de um caso bem pudesse advogar pelas suas liberdades
particular: a disputa pela posse das índias (AHU, Avulsos Maranhão. Cx. 15, Doc. 1542).
Catarina e Domingas, esposas dos ditos No conjunto documental pesquisado, o
suplicantes, além da cunhada dos dois, a caso das índias Catarina, Domingas e
índia Teodora. (AHU, Avulsos Maranhão. Teodora é um dos mais emblemáticos sobre
Cx. 23, Doc. 2333) as ações dos índios e as contendas em torno
A índia Maria, natural dos sertões do rio de suas liberdades na Junta das Missões na
Amazonas, está no início da trajetória desta Capitania do Maranhão. De fato, o complexo
família indígena. Descida para a cidade de conflito envolveu os principais
São Luís, a nativa foi direcionada para a casa representantes da governabilidade
de Francisco Deiró e Anna Roiz Sameiro, metropolitana na região e suas articulações
lugar em que deu à luz a sua filha Cecília, com o poder local, como também, uma
mãe das índias Catarina, Domingas e expressiva agência por parte dos índios.
Teodora. Portanto, na mesma casa, as índias Uma vez o caso apresentado, algumas
mencionadas criaram, respectivamente, seus indagações gerais podem ser feitas sobre as

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tramas dos processos de liberdade no Após a morte de Ana Sameiro, em um
tribunal da Junta das Missões. Em primeiro primeiro momento, as índias permaneceram
lugar, cabe apontar a extensão temporal em na casa de sua família, passando a servir os
que o processo se desenvolve. Pelos registros filhos da dita defunta. Entretanto, no
encontrados, se evidencia que a contenda momento da partilha dos bens foram
teve início na década de 1720 e se estendeu, colocadas como escravas e escravos, condição
pelo menos, até o decênio de 1750. Esse que permitia sua venda, resultando na
aspecto chama atenção para o próprio fragmentação da família. Quanto ao
funcionamento da Junta das Missões. As governador, ao ouvidor e ao vereador
Juntas eram órgãos instituídos pela coroa Manuel Gaspar Neves, todos tiveram, apesar
portuguesa para deliberar com maior de suas posturas diferentes, um interesse em
agilidade sobre determinadas questões em comum: o uso da mão de obra indígena.
determinadas localidades da monarquia Mesmo João da Maia da Gama que defendia
portuguesa. Mas, pelo que se evidencia, a a liberdade das índias, sabia que, ao obterem
Junta das Missões na Capitania do Maranhão sua libertação da posse de Manuel Gaspar
nem sempre deliberou sobre as causas que das Neves, caberia a ele remanejá-las para
lhe competiam com agilidade. Isto pode ser outros serviços coloniais. Sobretudo, como
justificado pela substituição regular dos bem salientou Mathias da Silva Freitas, o
sujeitos que ocupavam os cargos de governador poderia distribuí-las entre
deputados, principalmente, o de governador aqueles sujeitos que estavam inseridos em
e ouvidor. Sendo assim, a cada mudança dos suas redes clientelares.
sujeitos que ocupavam os respectivos cargos, Por fim, cabe ressaltar que as liberdades
o conflito em análise adquiria contornos concedidas às referidas índias e a sua prole
distintos. ocorreram em um contexto em que a coroa
Em segundo lugar, vale pontuar as portuguesa passava por um processo de
hierarquias institucionais e “espaciais” do modernização político-administrativa,
poder político no âmbito do tribunal. Como devido à ascensão de Dom José I ao poder
se elucidou, o cargo de Procurador dos real, em 1750. Assim, a principal medida
Índios, embora fosse um ofício público e adotada relativa ao governo dos índios no
investido pela coroa portuguesa, tinha menos Estado do Grão-Pará e Maranhão foi a
prestígio, sendo sua ação no referido conflito promulgação da Lei de Liberdade dos Índios,
esteve condicionada à proteção do em junho de 1755. Foi as vésperas desta lei
governador do Estado. Porém, tal proteção que Catarina, Domingas, Teodora e seus
estava relacionada às articulações das redes filhos foram, enfim, declaradas livres.
do poder local em que os diversos Um pertinente exemplo sobre os
magistrados reinóis estavam inseridos; ainda processos de liberdades dos índios está
que fosse em grupos rivais, como no caso de relacionado com a política de mercê. No dia
João da Maia da Gama e Mathias da Silva 14 de fevereiro de 1723, o índio Lourenço da
Freitas. Esse fator nos possibilita Gama, da aldeia de Caeté, desejando “viver
compreender, mesmo de forma pontual, que na sua aldeia com paz, e quietação da sua
a Junta das Missões foi um espaço de consciência”, encontrava-se em Lisboa para
(re)afirmação de conflitos em torno da solicitar uma mercê ao rei para que ninguém
questão do governo dos índios que no Maranhão e Grão-Pará obrigasse a ele e a
transpassava toda a sociedade maranhense. sua família a prestar serviços que não
Em terceiro lugar está a pluralidade do estivessem em consonância com suas
sentido da liberdade dos índios. Por um lado, vontades. O suplicante alegava que ele e sua
Catarina, Domingas, Teodora e seus filhos, ao mulher, Catharina Acandyra, pertenciam às
pleitearem a sua liberdade, tinham como principais famílias de sua nação, “seguindo a
propósito manter sua família num mesmo verdadeira Lei de Cristo Nosso Senhor que
local. Este aspecto fica claro pelos motivos abraçaram seus avós”, e, sobretudo, “fizeram
que as levaram a recorrer à justiça colonial. [seus familiares] grandes serviços a esta

14
Coroa na expulsão dos holandeses daquele como uma concessão de mercê. Esta foi
Estado” (AHU, Avulsos Maranhão. Cx. 13, solicitada, sobretudo, por índios aliados e
Doc. 1356). vassalos que, amparados pela legislação
Por meio do caso de Lourenço da Gama, indigenista que os diferencia dos “índios
algumas indagações podem ser feitas em inimigos”, eram livres da escravidão, mas
relação às ações dos índios perante a não de serviços compulsórios. O fato de as
sociedade colonial. Em primeiro lugar, cabe famílias de Lourenço da Gama e de sua
destacar o conhecimento do índio Lourenço esposa Catarina Acandyra terem lutado
sobre os trâmites burocráticos para solicitar contra os holandeses é uma clara evidência
as mercês na corte e os argumentos a serem que eram índios vassalos, amigos e fiéis
utilizados para que seu pedido fosse servidores do rei. Sendo assim, cabia ao rei
avaliado. Almir Diniz, analisando a recompensar seus serviços com benesses e
recorrência dos principais indígenas que mercês. Ângela Xavier e Antônio Hespanha
viajavam até Lisboa, classificou esse processo sinalizam que a prática das retribuições
como “domínio da retórica burocrática” por régias pelos serviços prestados resultou em
parte dos índios (CARVALHO JUNIOR, uma “obrigatoriedade nos actos de benefícios
2005, p. 222) Este fator nos possibilita reais, assim não apenas dependentes da sua
compreender como os índios participavam vontade ou da sua ratio, mas muito
dos fluxos e refluxos da monarquia claramente de uma tradição e de uma ligação
portuguesa, inserindo-se nas diversas redes muito forte ao costume de retribuição”. O
que potencializam as dinâmicas coloniais “rei aparece, assim, sujeito ao
para, assim, barganhar honras e mercês a seu constrangimento e contingências impostos
favor. pela economia de favores” (XAVIER;
Em segundo lugar, cabe apontar que, do HESPANHA, 1998, p. 347).
terceiro quartel do século XVII em diante, Desta forma, é bem provável que o índio
houve um declínio gradual da concessão de Lourenço e sua família tenham conseguido a
mercês devido ao fim das guerras na mercê suplementar de somente servir a quem
monarquia portuguesa – sobretudo, as quisessem, sempre de acordo com sua
querelas pós-Restauração com a Espanha vontade. Sendo assim, deve-se sinalizar que
(1668) e a expulsão dos holandeses das naquela época, ser livre não implicava a
possessões americanas e africanas (1654) – e, ausência de trabalho compulsório, mas
ao mesmo tempo, um aumento significativo possibilitava aos índios um espaço de
de solicitações de recompensa por parte dos negociação com aqueles que precisavam de
índios. Diante disso, sucedeu um processo de seus braços e conhecimentos.
ressignificação das mercês, pois, como
aponta Almir Diniz, ao invés de serem
concedidos postos nas Ordens Militares,
passou-se a distribuir roupas com bordados, CONSIDERAÇÕES FINAIS
hábitos e medalhas com a efígie do rei, que
nada mais eram do que “meros símbolos para Ao longo do presente trabalho buscamos
agradar a estes principais e não efetivamente demostrar como ocorreram, durante o século
vínculos às ordens militares”. No entanto, “a XVIII, as agências indígenas perante as
importância simbólica dos ‘vestidos’ era esferas da administração e da justiça colonial
enorme para esses personagens entre dois para pleitearem as suas liberdades. É
mundos. A Coroa tinha consciência deste oportuno assinalar que o desenvolvimento
fato, até porque para no velho mundo as da presente análise se insere na historiografia
vestimentas também significavam ícones de nacional e regional que debate as complexas
prestígio” (CARVALHO JUNIOR, 2005, p. relações entre a administração portuguesa, o
222). processo missionário, a justiça colonial e/ou
Nesse panorama de reformulações, a o status jurídico dos índios na Amazônia.
liberdade também pode ser considerada Dentro destas temáticas, que são variadas e
amplas, esse trabalho enfoca as

15
particularidades da atuação da Junta das V, solicitando que se mandasse proteger
Missões na Capitania do Maranhão, os índios e se conservassem as suas
revelando assim novos aspectos e nuances liberdades naquele Estado. Ant.
das dinâmicas coloniais na região amazônica. 28/01/1737. AHU, Avulsos Maranhão.
Cabe enfatizar que a liberdade dos índios – e Cx. 23, Doc. 2333.
não tanto seu cativeiro – foi o assunto REQUERIMENTO do índio Lourenço da
principal do estudo. Por isso, para além de Gama ao rei D. João V, em que solicita
uma mera análise de cunho administrativo que nenhuma pessoa possa exigir a si ou
ou missionário em torno da instituição em si, a sua esposa servir contra sua vontade no
buscamos realçar o protagonismo indígena Estado do Maranhão. AHU, Avulsos
perante uma justiça colonial que guardou, Maranhão. Cx. 13, Doc. 1356.
ante as múltiplas realidades no interior da
monarquia lusa, um caráter deliberativo e até
– para fazer referência a um conceito judicial
mais recente – restaurativo. REFERÊNCIAS
No entanto, muito há de ser feito ainda.
De fato, o material documental disponível BOMBARDI, Fernanda; PRADO, Luma.
permite que a historiografia possa avançar Ações de liberdade de índias e índios
mais na compreensão sobre a fundamental escravizados no Estado do Maranhão e
importância dos índios, como sujeitos-chave, Grão-Pará, primeira metade do século
na expansão da monarquia pluricontinental XVIII. Brasiliana. São Paulo, vol. 3, n. 1,
portuguesa na região amazônica, pois, como pp. 174-199. Nov, 2016.
salientou o padre Antônio Vieira, “cativar BRIGHENTE, Liliam Ferraresi. Entre a
índios e tirar de suas veias o ouro vermelho liberdade e a administração particular: a
foi sempre a maior mina daquele Estado” condição jurídica do indígena na vila de
(VIEIRA, 1991, p. 136). Curitiba (1700-1750). Dissertação.
Programa de Pós-Graduação em Direito,
Setor de Ciências Jurídicas da
Universidade Federal do Paraná, 2012.
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Cristãos: a conversão dos gentios na
Arquivo Público do Estado do Maranhão. Amazônia portuguesa (1653-1769). Tese.
Livro de Assentos da Junta das Missões (1738 Universidade Estadual de Campinas,
– 1777). Fundo: Secretaria de Governo. Campinas, São Paulo, 2005.
Códice: 01. LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus
Arquivo Histórico Ultramarino. no Brasil. Tomo IV. Rio de
CARTA do ouvidor-geral do Maranhão, João Janeiro/Lisboa: Instituto Nacional do
da Cruz Dinis Pinheiro, ao rei D. João V, Livro/Livraria Portugalia, 1943.
sobre a liberdade dos escravos. Estes MELLO, Marcia. Desvendando outras
podiam requerê-la na Casa do Franciscas. Portuguese Studies Review 13
Procurador dos Índios. Critica a (1), 2005, pp. 1-16.
protecção que os religiosos dão aos ______. Para servir a quem quizer: apelações
escravos. AHU, Avulsos Maranhão. Cx. de liberdade dos índios na Amazônia
31, Doc. 3219. portuguesa. In: SAMPAIO, Patrícia
CARTA (treslado) sobre a disputa da posse Maria Melo; ERTHAL, Regina de
das índias Catarina, Domingas e Carvalho (Orgs.). Rastros da Memória:
Teodora, após a morte de Ana Rodrigues história e trajetórias das populações
Sameiro. São Luís do Maranhão, 1726. indígenas na Amazônia. Manaus:
AHU, Avulsos Maranhão. Cx. 15, Doc. EDUA/CNPq, 2006, v. 1, p. 48-72.
1542. MONTEIRO, John. Negros da Terra: Índios e
REQUERIMENTO de Martinho Lopes da bandeirantes nas origens de São Paulo.
Fonseca e Dâmaso Pereira ao rei D. João São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

16
______. Tupis, Tapuias e Historiadores: estudo SPALDING, Karen. The Colonial Indian: past
de História Indígena e do Indigenismo. and future research perspectives. Latin
Tese de Livre Docência. Departamento American Research Review, Pittsburgh, n.
de Antropologia da Universidade de 1, p. 47-76, 1972.
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NOVAES, Adauto. O risco da ilusão. In: (Gran Pará, siglo XVIII). In: SWEET,
NOVAES, Adauto (Org.). O avesso da David; NASH, Gary (Orgs.). Lucha por la
liberdade. São Paulo: Companhia das supervivencia en la América Colonial.
Letras, 2002. México: Fondo de Cultura Económica,
PORTELA, Bruna Marina. Gentio da terra, 1987.
Gentio da Guiné: a transição da mão de VIERIA, Antônio Apud AZEVEDO, João
obra escrava e administrada indígena Lúcio de. Os Jesuítas no Grão-Pará: suas
para a escravidão africana. (Capitania de missões e a colonização. Lisboa: Tavares
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Pós-Graduação em História da XAVIER, Ângela; HESPANHA, António. As
Universidade Federal do Paraná. redes clientelares. In: HESPANHA,
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RESENDE, Maria Leônia Chaves de. Gentios Antigo Regime (1620-1807). Lisboa:
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Gerais setecentista. Tese. Departamento XAVIER, Ângela; SILVA, Cristina Nogueira.
de História do Instituo de Filosofia e Construção da alteridade no império
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Estadual de Campinas. Campinas, 2003. XAVIER, Ângela; SILVA, Cristina
SCHWARTZ, Stuart. Cada um na sua lei: Nogueira. (Org.). O Governo dos outros:
tolerância religiosa e salvação no mundo poder e diferença no império português.
atlântico ibérico. Tradução de Denise Lisboa: ICS. Imprensa de Ciências
Bottmann. São Paulo: Companhia das Sociais, 2016.
Letras, 2009.

17
A REPRESENTAÇÃO INDÍGENA NA NARRATIVA
Didática das Entradas e Bandeiras:
um Estudo da Coleção Araribá (2014)

 Andressa da Silva Gonçalves

Resumo: Este trabalho tem como finalidade discutir as representações sobre Entradas e Bandeiras
nos livros didáticos produzidos na região Norte. A avaliação implementada em 1996, pelo Programa
Nacional dos Livros Didáticos (PNLD), indica mudanças para a narrativa escolar. Propomo-nos a
discutir como os livros didáticos encaminham ao longo da narrativa bandeirante as relações
estabelecidas entre os sujeitos históricos, principalmente sertanistas e indígenas. Assim, buscamos
refletir sobre o discurso veiculado no saber escolar sobre esses personagens coloniais, suas
aproximações, trocas e conflitos.
Palavras-chave: Livro didático; Representação indígena; Bandeirantes.

INTRODUÇÃO Neste trabalho, nos propomos a fazer


uma breve análise da escrita didática
realizando um estudo por amostragem.
Segundo pesquisa realizada por QEdu:
Selecionamos um exemplar da 4° edição da
Aprendizado em Foco com base no questionário
coleção Araribá destinada à segunda fase do
socioeconômico da Prova Brasil 2011 e
ensino fundamental. A escolha desta coleção
disponibilizada pelo site Último Segundo1,
foi feita por acreditarmos que a obra é
98% dos professores da Educação Básica
representativa de um panorama maior da
utilizam o livro didático. Percebemos então a
literatura didática. Destaco alguns dados que
ampla disseminação da literatura didática
influenciaram essa escolha: primeiro, a obra é
nas escolas públicas de todo o país, logo
uma construção coletiva, e contou com a
realizar discussões sobre essa produção é
participação de nove historiadores com
necessário. A relevância da discussão se
diversas bagagens profissionais e
fundamenta em alguns aspectos, destacamos
acadêmicas, com tal panorama temos a
dois: o primeiro é o status do saber histórico
possibilidade de ter uma visão ampla da
como disciplina escolar. Sendo esta oferta no
escrita didática.
ensino público que justifica a existência de
Em segundo lugar, ressaltamos que de
cursos de licenciatura. Assim é necessário
acordo com informações disponibilizadas
não apenas discutir o saber historiográfico,
pelo PNLD no site do FNDE2, no ciclo de 2017
mas também o saber escolar, sendo este um
o Projeto Araribá foi a segunda coleção mais
dos objetivos finais da formação acadêmica
aderida pelas escolas, foram 1. 781. 362
histórica. O segundo aspecto a ser ressaltado
exemplares distribuídos nas escolas públicas
é que a literatura didática se constitui
do país. Percebe-se que a coleção apresentou
também como um instrumento de
elementos para sua aceitação entre os
divulgação do saber historiográfico, logo
professores, logo precisamos nos debruçar
refletir sobre esse material também é uma
sobre a narrativa, visto a enorme
forma de problematizar questões
receptividade que esta produção encontrou
acadêmicas, como, por exemplo, concepções
na Educação Básica.
históricas.

 Mestranda em história social/PPHIST. Belém, Guamá, Rua Mar da Galileia, n° 586-B, CEP: 66079-150. Correio eletrônico:
andressa_g.m@hotmail.com
1 https://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2013-02-27/98-dos-professores-de-escolas-publicas-usam-livros-didaticos.html
2 http://www.fnde.gov.br/programas/programas-do-livro/livro-didatico/

19
Por último, a coleção reflete em grande encaminham a relação entre esses dois
parte o resto da produção didática. A coleção sujeitos coloniais. Para isso precisamos
foi produzida pela editora moderna, uma recorrer aos elementos básicos da
empresa que se especializou nesse tipo de composição didática, como: texto principal,
literatura e que hoje controla uma parte caixas de texto e discussões historiográficas.
expressiva do mercado editorial de livros No primeiro tópico, faço uma discussão sobre
didáticos. Segundo Marieta Ferreira e Renato a produção didática e como o livro didático
Franco (2008, p. 85), em 2008 a editora analisado se insere nessa produção, na
moderna foi uma das mais cotadas para a segunda parte, faremos uma breve
compra de livros didáticos, no ensino contextualização das duas principais
fundamental II a participação desta superou perspectivas históricas que estão presentes na
todas as suas concorrentes, correspondendo a temática das Entradas e Bandeiras, e por
36, 9% de todo o montante de coleções último fazemos a análise do livro didático
adquiridas pelas escolas. Através dos anos a escolhido. Com tais procedimentos,
editora moderna ainda continua sendo bem- esperamos problematizar a narrativa escolar
sucedida. Segundo dados disponibilizados bandeirante e assim encaminhar algumas
pelo site do FNDE, em 2017 a empresa foi a considerações.
terceira editora que mais faturou na venda de
livros didáticos com o montante de R$ 170.
999. 223, 39.
Visto a extensão dos assuntos elencados PNLD E A PRODUÇÃO DIDÁTICA
no currículo da Educação Básica, utilizamos
como parâmetro a temática das Entradas e Sendo nossas fontes livros didáticos
Bandeiras. A escolha foi feita, primeiro, presentes na rede pública de ensino, é
porque este tema está presente em todos os essencial falarmos sobre a dinâmica de
livros didáticos do segundo ciclo do Ensino produção e escolha para que essas obras
Fundamental, em segundo, é uma temática sejam utilizadas na Educação Básica. Antes
que parece assumir um espaço estratégico no de tudo, é interessante tentarmos definir os
livro didático, surgindo para explicar a contornos do livro didático, segundo
formação do território brasileiro e o início da Amanda Penalva Batista (2011, 15), o livro
economia aurífera. E em terceiro e último didático se difere de outras obras por uma
lugar, desde os anos 2000 a temática vem série de fatores, como lógica diferenciada,
sofrendo modificações na literatura didática, público específico e utilização restrita. A
incorporando em certa medida, novas tentativa de definir esse objeto de pesquisa
discussões historiográficas que destoam da resultará em diversos conceitos. Segundo
representação apologética do bandeirante. Rafael Moreira da Silva (2000), por exemplo,
Acreditamos que essas narrativas qualquer texto pode ser considerado como
escolares ainda incorporam elementos recurso didático e já Maria Cristina D’Ávila
herdados de uma cultura histórica criada no (2008) o compreende como um manual. As
final do século XVIII e início do XIX, e por diferentes respostas acabam por dimensionar
isso denotam características heroicas aos a complexidade desse material que cumpre a
bandeirantes em detrimento da omissão do tarefa de transpor o conhecimento científico
protagonismo indígena, delegando a esse através de metodologia e linguagem
personagem um papel secundário, específicas para o âmbito didático. Apesar de
indivíduos que incorporam a função de ser criticado por diversos pesquisadores
meios e instrumentos para a concretização como Nosella (1979), Faria (1994) e Lajolo
dos objetivos colonizadores. Tendo como (1996), que acreditam que o livro didático não
objeto as narrativas das Entradas e Bandeiras, reflete a realidade de um povo e sim visões
pretendemos discutir como ocorre nessa particulares intrínsecas as suas respectivas
escrita à representação de índios e épocas, o livro didático continua sendo um
bandeirantes, e também como os autores importante instrumento para o aprendizado
de alunos nas escolas por pelo menos dois

20
séculos. Diante de tal importância instrutiva reforço e correção de fluxo, materiais de
e social é fundamental nos determos sobre formação e materiais destinados à gestão
esse objeto do conhecimento escolar. escolar, entre outros”.
Desde o início do século XX, o Estado Ainda segundo o Decreto 9.099 de 2017, a
através de políticas públicas e órgãos realização do programa é feita em ciclos e de
responsáveis voltados para a questão, forma alternada, ou seja, as etapas da
procuram realizar o controle da produção educação infantil, primeiros anos do ensino
didática. Em 1985, com a criação do PNLD, o fundamental, últimos anos do ensino
controle do Estado sobre a literatura didática fundamental e ensino médio são atendidos
diminuiu e este deixa de elaborar e fabricar em anos diferentes. Para realizar essa
livros, tornando-se comprador, já que desde operação, cada órgão detém tarefas
a década de trinta do século passado o estado específicas, cabe ao ministério da educação, o
não apenas adquiria as obras didáticas, mas processo de seleção e avaliação das coleções
também interferia diretamente no conteúdo e didáticas, já o FNDE é encarregado de
no formato do livro, junto com os autores e a realizar a compra e a distribuição desses
editora. De acordo com Eloísa de Matos materiais didáticos para as escolas, estas por
Höfling (2000, p. 164), a criação do PNLD sua vez, precisam fazer a aderência formal do
ensejou o fim da prática de ‘coedição’ dos programa, assim como obrigatoriamente
livros didáticos. Desde sua criação o PNLD fazer parte do Censo Escolar realizado pelo
sofreu diversas modificações, uma das mais INEP. As escolas inscritas no programa
importantes aconteceu em 1996, quando este recebem as obras que estão dentro dos
começou a ser financiado pelo Fundo padrões estabelecidos pelo MEC e que já
Nacional do Desenvolvimento para a foram devidamente avaliadas por uma
Educação (FNDE) e foi instituída uma comissão de especialistas, os professores com
avaliação prévia da literatura didática estes livros em mãos podem escolher os
(CASSIANO, 2005, p.285). É importante frisar materiais que melhor se adequam ao seu
que essas medidas promovidas pelo PNLD método de trabalho.
foram fundamentais para o atual estado do Dentre as obras que foram avaliadas,
livro didático, já que foi com este programa disponibilizadas e escolhidas pelos docentes
que o Estado deixou de ser apenas da Educação Básica, temos a coleção Araribá
comprador e distribuidor para também destinada aos últimos anos do ensino
promover uma avaliação gerida por fundamental, nosso objeto de estudo neste
especialistas. trabalho. Nossa análise se focará na quarta
É importante para a discussão, edição dessa coleção, publicada em 2014, e
abordamos a dinâmica atual, o que envolve disponibilizada para as redes públicas de
as diretrizes esboçadas pelo MEC, a compra e ensino pelo Guia do PNLD de 2017. Como
a distribuição desses livros para os alunos da escolhemos trabalhar com a temática das
Educação Básica. Segundo o Decreto Entradas e Bandeiras, analisaremos o livro
9.099/20173 que dispõe sobre os materiais destinado ao 8° ano, já que é nesta fase que os
didáticos, o PNLD é destinado a atender autores discutem esse processo histórico. A
escolas da Educação Básica, estas da rede coleção intitulada ‘Projeto Araribá’ foi
federal, estadual, municipal e distritais, além desenvolvida e produzida pela editora
de instituições fora da tutela governamental Moderna, como já mencionado, hoje
que não tenham fins lucrativos. Desde 2017, responsável por uma expressiva participação
o programa além da distribuição de livros, no mercado de livros didáticos.
também insere outros materiais em seus O conjunto de livros em questão é uma
catálogos, estes incluem “obras pedagógicas, obra coletiva, tal aspecto foi determinante
softwares e jogos educacionais, materiais de para a escolha da coleção, já que a narrativa

3BRASIL, Decreto 9.099 de 18 de julho de 2017. Dispõe sobre


o Programa Nacional do Livro e do Material Didático. Diário
Oficial da União, Brasília, DF, 19 jul. 2017.

21
contém as perspectivas de vários autores monumentos e o museu paulista, até hoje
sendo possível ter uma visão mais alargada presentes na cidade de São Paulo.
da literatura didática. A equipe de autores é Acreditamos que a segunda
formada por nove indivíduos, todos interpretação do bandeirantismo não se
formados em história, liderados por Maria constitui como cultura histórica, e sim como
Raquel Apolinário, que assina a coleção. É corrente historiográfica. Ao contrário da
importante destacar que quatro desses visão mistificada do bandeirante que foi
profissionais possuem mestrado, o que soma compartilhada por diversos setores da
ao grupo um nível razoável de formação sociedade, uma reinterpretação mais realista
acadêmica, tal aspecto é importante já que do bandeirante que surgiu na década de 1960,
nos sugere que essa coleção pode ter uma se restringiu a academia e não foi apropriada
contribuição importante vinda desses pela consciência coletiva. Esta perspectiva foi
membros. Por último, gostaria de ressaltar consolidada na década de 1990 por John
que quatro historiadores do grupo também Monteiro com uma leitura que problematiza
atuam na Educação Básica, em escolas as ações bandeirantes, apontando a violência
públicas ou particulares, o que agrega à e crueldade das expedições desbravadoras.
perspectiva docente a escrita dessa obra. Na primeira metade do século XX, em
Nesta breve discussão, buscamos situar São Paulo, foi construída uma mitologia
um panorama mais geral da literatura bandeirante, que segundo Ricardo de Souza
didática, com a discussão de políticas (2007, p. 151), seria um “conjunto de
públicas que se consolidam com o PNLD, que narrativas e tradições referentes à imagem do
seleciona e avalia as obras que mais tarde bandeirante enquanto fundador da
serão utilizadas na rede pública. Foi nossa nacionalidade e enquanto símbolo do
intenção também descrever nossa principal paulista”. Essa memória foi estimulada por
fonte nesse estudo de caso, esta, um exemplar um cenário paulista em que muitas
didático do 8º ano da quarta edição do Projeto mudanças se faziam presentes, a maior delas
Araribá. foi à proclamação da República que
desencadeou no planalto paulista uma onda
de urbanização e modernização. Nessa
conjuntura, novos atores sociais se inseriram
A REPRESENTAÇÃO INDÍGENA NA na dinâmica paulista; entre eles estavam uma
MITOLOGIA BANDEIRANTE nova elite burguesa que contrastava com a
aristocracia cafeeira e uma enorme massa
Para realizar a análise da obra escolar em operária formada em sua maioria por
questão, precisamos entender as principais imigrantes. (RAGO, 1985)
configurações historiográficas sobre o tema O período que começa com a
através do tempo. Ressalto duas perspectivas proclamação da república e vai até 1929 com
históricas para a representação do a crise cafeeira, também é conhecido como o
bandeirante e da relação deste com outros segundo nascimento de São Paulo, já que é
sujeitos, nesse caso o índio. A primeira se nessa época que diversos segmentos
constitui como uma cultura histórica, pois paulistas estavam empenhados em criar uma
não abrange apenas as projeções acadêmicas, nova imagem da cidade. Os historiadores e
mas também todas as produções sociais do cronistas se destacaram no período, pois,
período que se inicia com a Proclamação da estes, com a ajuda de inventários, escritos e
República e vai até a década de 1930 na mapas, foram os criadores de uma epopeia
cidade de São Paulo. Essa interpretação do bandeirante que já no começo da década de
passado empresta contornos heroicos aos 1920 se fazia presente no cotidiano da cidade.
bandeirantes e produziu além de textos (SALIBA, 2004, p. 570)
historiográficos, uma extensa iconografia e O bandeirante, além de ter sido um
espaço de memória, materializado pelos elemento que facilitou a união da sociedade
pela representação de uma origem em

22
comum, também foi um símbolo que revolução constitucionalista de 1932 para
permitiu que a elite ligada ao café se ressaltar o caráter particular do povo
diferenciasse de uma burguesia industrial paulista. O mesmo símbolo foi evocado por
ascendente e de uma massa de imigrantes Getúlio Vargas em 1944 para lembrar a
recém-chegada. Tal diferenciação residia no continuidade entre os bravos desbravadores
fato de que a nata tradicional dessa sociedade e a elite cafeeira contemporânea, as
se considerava descendente e herdeira dos qualidades bandeirantes ainda foram
primeiros conquistadores sertanistas em celebradas em discursos para a construção de
detrimento de um grupo burguês que não Brasília na década de 50 e inseridas na
tinha suas origens demarcadas. Muitos ideologia de modernização que envolvia o
historiadores do período, como Alcântara regime militar na década de 60.
Machado, Oliveira Vianna e Affonso Taunay Segundo Souza (2007, p. 152), a década
realizavam seus estudos em homenagem aos de 60 pode ser considerada como um ponto
seus supostos ancestrais. Essa vertente de de virada na interpretação do bandeirante,
historiadores, com um forte apoio estatal, foi nesse momento que a mitologia
procurava através da ciência histórica, bandeirante começou a ser revisitada e
legitimar a superioridade herdada dos contestada por muitos historiadores. Um dos
bandeirantes pelos paulistas, assim como primeiros estudiosos que questionaram a
atribuir a São Paulo a origem da heroicização desse personagem histórico foi
nacionalidade pelo desbravamento do Brasil Sergio Buarque de Holanda, que buscou uma
outrora empreendido. A mitologia versão mais realista e humana do
bandeirante procurava legitimar a personagem:
supremacia de São Paulo frente ao resto da
nação. (WALDMAN, 2015, p. 4) A verdade, escondida por essa espécie de
O governo paulista além de apoiar a mitologia, é que eles foram
constantemente impelidos, mesmo nas
produção intelectual, também apoiou
grandes entradas, por exigências de um
produções cinematográficas que faziam eco à triste viver cotidiano e caseiro:
mitologia bandeirante. Também foram teimosamente pelejaram contra a pobreza,
encomendadas diversas estatuas que e para repará-la não hesitaram em
representassem o herói paulista que até hoje deslocar-se sobre espaços cada vez
fazem parte da paisagem da cidade. Além de maiores, desafiando as insídias de um
esculturas foram encomendadas pinturas mundo ignorado e talvez inimigo.
(HOLANDA, 1986, p. 26)
que ficariam expostas no Museu Paulista,
criado dois anos depois da proclamação da Com tais afirmações, o autor buscava
república. Sob a direção de Affonso Taunay, problematizar aspectos que não eram
a partir de 1917, o espaço virou um espaço destacados na construção de uma narrativa
dedicado à mitologia bandeirante. Todo o romântica. Um desses pontos era a pobreza,
Museu foi organizado para lembrar aos a necessidade extrema que fazia que esses
visitantes que a história do Brasil na verdade homens saíssem do planalto em busca de
era a história de São Paulo, com pinturas e meios de sobrevivência sertão adentro.
estátuas de bandeirantes junto a marcos da Outro ponto muito criticado pelos
história do Brasil, Taunay buscava mostrar a autores que se opunham a idealização do
importância de São Paulo frente ao resto do bandeirante foi a representação do indígena.
Brasil. (RAIMUNDO, 2012, p. 12) As obras dos autores empenhados nessa
Como indica Souza (2007, p. 154), embora interpretação mistificada do passado
tenha sido nesse período em que a mitologia tentavam ocultar o cativeiro imposto as
bandeirante foi mais valorizada e evocada na populações nativas pelos sertanistas. Um
sociedade paulista, mesmo depois desses historiador e literato que representou essa
‘anos dourados’, tal memória foi revisitada e omissão foi Cassiano Ricardo, que na obra
usada para lembrar as qualidades paulistas. ‘Marcha para o oeste’ realizou uma
Os bandeirantes foram adotados na construção romântica do bandeirante,

23
‘esquecendo’ das violentas capturas feitas vistos nas imagens que acompanham os
por esse personagem em sua incessante busca textos didáticos, estas, na maioria das vezes,
por mão de obra. Segundo Vasconcelos (1999, apresentam aos alunos um herói em todos os
p. 104), com o ocultamento da ‘bandeira de sentidos. Segundo Pacheco (2011, p. 302-302)
prea’, Cassiano retirou do bandeirante a e Luiza Volpato (1985, p. 17) os aspectos que
responsabilidade por tais ações, e atribuiu ao associam o bandeirante a uma figura heroica
movimento um significado mais complexo. na literatura didática se relacionam com uma
A construção feita por Cassiano e outros representação idealizada do personagem que
autores do bandeirante foi poética, já que se apresenta como um bravo conquistador
estes não estavam apenas preocupados em com postura imponente, muito bem vestido e
fazer uma análise histórica, mas também com feições europeias, muito diferente da
tinham a perspectiva heroica do bandeirante visão atualmente consolidada na
como ponto central da interpretação do historiografia que retrata um homem mulato,
passado, o que se materializou em uma sem posses, forçado pela fome a se
narrativa de exaltação ao movimento. Dessa embrenhar nos sertões em busca da
forma, os autores ocultavam o sobrevivência. Mais à frente, veremos como
aprisionamento de índios, caracterizando as tais perspectivas são usadas para a
expedições como buscas por pedras representação do bandeirante no livro
preciosas. didático.
John Monteiro (1994, p. 45) que Com tais considerações, percebemos que
representou a consolidação de uma visão uma memória história mesmo construída em
mais realista das bandeiras, afirma que a um momento específico pelas demandas
busca por pedras e metais preciosos somente singulares de uma sociedade, pode persistir
se estabeleceu hegemonicamente nas através dos anos e apresentar resquícios no
expedições a partir do final do século XVII, presente. No caso da mitologia bandeirante,
antes disso as bandeiras se dedicavam em mesmo depois de criticada e superada pela
grande medida à captura de índios para historiografia continua se fazendo presente.
comercialização e utilização destes em Segundo Vianna Moog (1985, p. 139), tal
engenhos de açúcar. Mesmo com o início de persistência ocorre pela resistência da
expedições voltadas à mineração, os sociedade em modificar imagens coletivas
bandeirantes nunca deixaram de aprisionar construídas através do tempo, mesmo
indígenas. Nesse período, embora o tráfico quando a modificação é necessária e
não fosse mais praticado, os índios justificada.
capturados eram empregados como mão de
obra na própria capitania de São Vicente.
Assim, a história de grandeza e virilidade dá
lugar a uma narrativa repleta de ANÁLISE DO EXEMPLAR DIDÁTICO
derramamento de sangue e despovoamento
das matas e missões, estas continuamente O capítulo que trata sobre as Entradas e
atacadas pelos sertanistas. Bandeiras se intitula “A conquista do sertão”,
Manuel Pacheco (2007, p. 41) lembra que o subtítulo que apresenta o tema é “Como
embora a visão romântica tenha sido revista bandeirantes e monçoeiros contribuíram para
pela historiografia, em diversos momentos a a expansão da América portuguesa? ”. A
literatura didática ainda traz à tona a curta frase que introduz o tema já remete a
concepção heroica desses sujeitos históricos. importância que os autores delegam a esses
O autor ressalta que nos livros didáticos os personagens no desbravamento das terras
bandeirantes ainda são vistos como portuguesas, sugerindo que como nesse
desbravadores das matas, fundadores de prelúdio o resto do texto seguirá narrando as
cidades e as barbáries cometidas por eles são contribuições bandeirantes para o
ofuscadas perante seus feitos. Os resquícios empreendimento colonizador. A primeira
da mitologia bandeirante são facilmente sessão “Expandindo as fronteiras” destaca
que o movimento sertanista assim como

24
outros movimentos, como a pecuária e as dependem dos objetivos ou ações
missões jesuítas, foi importante para o portuguesas.
alargamento das fronteiras dos domínios O próximo tópico “Rumo ao interior da
portugueses, os autores citam algumas colônia” se dedica a descrever tais
cidades do país que se originaram pela ação expedições, asseverando no primeiro
bandeirante, acentuando o ponto de partida parágrafo que esses grupos eram formados
dessas viagens: por uma massa de índios cativos que eram
liderados por bandeirantes brancos ou
Muitas cidades do nosso país, como mamelucos. Os autores mencionam que estes
Sumidouro e Sabará (MG), Cuiabá (MT) e sertanistas mestiços eram filhos de pais
Cammapuã (MS), surgiram em
portugueses e mães indígenas, não
decorrência das bandeiras e monções.
Essas expedições partiam da vila de São realizando qualquer aprofundamento quanto
Paulo em direção ao interior da colônia a essas relações interetnicas. Percebe-se que
através de longas trilhas abertas pelos durante o texto esboçado os povos indígenas
Guarani e de rios navegáveis, como o são citados apenas como coadjuvantes no
Tietê. (APOLINÁRIO, 2014, p. 26) empreendimento português, quando
aparecem estão sendo escravizados,
Como se pode perceber pelo excerto, a perseguidos ou subjugados. Esses indivíduos
narrativa enumera algumas cidades que não possuem autonomia de ação ou
foram criadas em decorrências das bandeiras protagonismo na narrativa, estão sempre
e monções, materializando o processo de condicionados a reagir de acordo com as
ocupação e consequentemente a contribuição ações portuguesas. Essa constatação se
bandeirante defendida pelos autores. coaduna com as reflexões realizadas por
Percebemos que a explanação da temática de Mauro Coelho:
Entradas e Bandeiras se dedica mais a narrar
os feitos e contribuições de um único sujeito, A América é pois, uma tábula rasa na qual
o bandeirante, do que de fato, contar um a vontade portuguesa se inscreve (...) A
processo histórico desenvolvido por diversos coroa portuguesa é o agente principal da
agentes: narrativa, representado pelos seus
mandatários –todos nomeados – e seus
No início do século XVII, as principais coadjuvantes – aqueles que concorrem
atividades desenvolvidas na vila de São para o sucesso dos propósitos traçados –
Paulo eram a criação de animais e a também mencionados. Os demais agentes
agricultura voltada para o mercado não são intitulados – são referidos, mas
interno. Os paulistas cultivavam trigo não dimensionados, posto cumprirem
(principal produto), cana, milho, algodão, função secundária na trama. (COELHO,
feijão e mandioca. O trabalho era quase 2017, 188-189)
todo executado por escravos indígenas.
(APOLINÁRIO, 2014, p. 26) Como expõe o autor em análise também
de alguns títulos didáticos, as narrativas
Percebamos que no trecho acima, mesmo atribuem papéis secundários àqueles que não
que os autores mencionem que a maior parte são europeus, nesse caso aos índios. É
do trabalho era feito pelos indígenas, ainda perceptível que enquanto nomes de
assim todas as atividades mencionadas são bandeirantes são citados, o mesmo não
atribuídas aos paulistas. Na narrativa, os acontece com os indígenas que aparecem na
nativos embora mencionados, não ocupam prosa como uma massa de indivíduos
uma posição de autonomia, são peças de um indissociáveis. Partindo das reflexões de
jogo de xadrez, este comandado pelos Coelho, que associa essa interpretação do
sertanistas. Assim, no processo de passado a uma memória proveniente do
colonização, é o paulista que assume o papel século XIX, acreditamos que especificamente
de protagonista, o índio é um indivíduo sem em relação ao bandeirantismo podemos
vontade ou iniciativa própria, estas sempre considerar também uma memória histórica
que se originou na cidade de São Paulo e que

25
teve seu ápice em 1920, tendo o bandeirante profundidade. A inserção da historiografia se
como ponto central da história nacional dá mais para cumprir uma formalidade do
delegando aos outros sujeitos papéis que para acrescentar novas perspectivas à
secundários, as análises aqui empreendidas narrativa.
nos mostram que ainda hoje essa memória Ainda na segunda página, os autores
apologética se faz presente nas narrativas expõem os assaltos realizados pelos paulistas
didáticas, mesmo já superada pela as missões jesuítas, atribuindo a preferência
historiografia. por tais índios por estes já estarem
Voltando a nossa fonte, é interessante familiarizados com o trabalho. A narrativa
notar que a obra, diferente das suas três acentua o conflito que tais incursões
edições anteriores4 que traziam obras datadas causavam nas relações dos sertanistas e
ainda do século XX, apresenta a renovação padres missionários. É importante salientar
bibliográfica com dois novo títulos. Do artigo que aqui se acentua o papel secundário dos
‘No mato sem cachorro’ de Glória Kok se indígenas, já que ao falar sobre esses
extrai um trecho que fala sobre a alimentação acontecimentos os dois protagonistas são
nas expedições bandeirantes, é interessante jesuítas e bandeirantes, o índio é citado
notar que é apenas no fragmento que se apenas como mão de obra a ser disputada
menciona que nas expedições as “condições pelos dois agentes colonizadores.
de vida eram precárias”, a narrativa segue Na terceira página, temos um novo
sem fazer qualquer aprofundamento quanto tópico “Assimilação de conhecimentos
a isso. O outro título é o livro ‘Bandeirantes’ indígenas”, nesta sessão os autores discorrem
de Reina Helena e Wanderley Loconte, mas sobre os conhecimentos indígenas que eram
este é apenas mencionado como sugestão de utilizados pelos paulistas nas expedições. O
leitura, sem qualquer análise. que se percebe é que mesmo nessa parte, o
É importante salientar que citar tais indígena não adquire papel central, a
autores não significa necessariamente que a sabedoria nativa aparece como um
narrativa adotará de forma significativa tais instrumento utilizado pelos bandeirantes a
reflexões. Percebemos isso nitidamente, já fim de alcançar seus objetivos. Mesmo em
que embora a narrativa adote autores da uma parte do capítulo em que se espera que
literatura especializada que colocam o índio os povos indígenas sejam postos em
em condição de sujeito ativo na colonização evidencia pela importância dos seus
portuguesa, o enredo didático continua em conhecimentos para o processo de
grande parte reproduzindo uma história colonização, estes apenas são mencionados
herdada do século XIX e começo do século como receptáculos do saber utilizado pelos
XX. Ainda em relação às referências bandeirantes.
acadêmicas é interessante notar que alguns É interessante ressaltar que já no
momentos, os autores didáticos mencionam exercício, os autores em uma questão trazem
para expor o assunto a palavra ‘historiadores’ um excerto retirado da tese de doutorado do
sem citar que estudiosos são esses ou que indígena Edson Kaiapó, onde o autor narra a
obras estes escreveram. Quando se realiza tal experiência que teve em um internato
prática, segundo Ana Monteiro e Fernando missionário no Baixo Amazonas e compara
Penna (2011, p. 202), está se valendo de um esse período com a evangelização dos
argumento de autoridade, já que os autores o primeiros habitantes do Brasil. Acredito que
fazem para legitimar e dar credibilidade esse seja o único momento da narrativa que a
acadêmica as suas falas, mesmo sem citar os experiência indígena seja colocada em
historiadores em questão ou suas obras. Os primeiro plano, já que há um relato de um
autores nos ajudam a entender que a indígena que pela primeira vez não é
narrativa, embora, busque a fundamentação generalizado, já que se distingue a etnia
acadêmica, referências e citações são Kaiapó, além disso, em sua narrativa ele
inseridas sem qualquer cuidado ou realiza um comparativo entre suas

4 Coleções de 2004, 2007 e 2010.

26
experiências e o processo civilizatório que sobre o tratamento da temática indígena na
seus antepassados fizeram parte, colocando coleção:
os povos indígenas pela primeira vez como
protagonistas na narrativa. É significativo Para abordar os indígenas, a obra investe
que esse autor indígena e a discussão que este em textos e imagens que destacam
aspectos positivos, evidenciando as cores e
encaminha esteja no exercício e não no texto
a beleza, levando à compreensão de que
principal, sugerindo que os aspectos são cultural e politicamente exitosos e
levantados não são tão importantes para os respeitados em suas sociedades. Textos e
autores quanto os tópicos que foram recursos visuais contribuem para
elencados na narrativa principal. Em seguida, desconstruir a percepção desses povos
os autores dispõem três perguntas sobre o como vítimas, realçando as singularidades
excerto exposto: que marcam esses grupos sociais. (Guia
PNLD, 2017, p. 61)
a) Qual era o objetivo da educação que
Edson Kaiapó recebeu no internato de É interessante que os avaliadores
Altamira? Quais efeitos essa educação teve considerem que as cores e a beleza das
sobre ele? imagens sejam o suficiente para que o
b) Por que o autor estabeleceu uma relação estereótipo de vítima dos povos indígenas
entre a educação que recebeu e aquela seja quebrado. Acreditamos que esse tipo de
ensinada pelos jesuítas na América fala, acaba desqualificando a cultura
portuguesa?
indígena, mesmo que a intenção seja
c) Nesta unidade, você viu que, desde a
Constituição de 1988, muitas escolas, valorizá-la, pois ao resumir essas sociedades
foram criadas nas Terras Indígenas, como a elementos visuais e exóticos, se reforça um
a que funciona na comunidade Guarani arquétipo que a priori se tenta rechaçar.
Porã, em São Paulo. Considerando esse A análise empreendida nessa seção
fato que comparações podemos fazer entre procurou dar conta de alguns aspectos da
a educação indígena no período colonial e representação de bandeirantes, indígenas e a
a que existe atualmente? (APOLINÁRIO,
relação entre os dois sujeitos na temática das
2014, p. 31)
Entradas e Bandeiras. Percebemos que
Nas duas primeiras perguntas, os alunos durante a explanação do assunto, os autores
precisam ler e interpretar o trecho mostrado, elegeram o sertanista como principal
já na terceira pergunta os autores relacionam personagem da narrativa, os índios aparecem
o texto com a legislação vigente desde 1988, como sujeitos coadjuvantes e genéricos, se
pedindo que os alunos realizem, assim como apresentando mais como uma ferramenta
fez Edson Kaiapó, uma comparação entre a utilizada pelo colonizador em busca de um
educação indígena do período colonial e a propósito do que como um agente ativo no
atual. A questão seria uma ótima processo histórico. O único momento que o
oportunidade de iniciar um exercício elemento indígena ganha mais relevo é na
histórico de análise e comparação entre dois seção de exercícios e não no texto principal.
relatos distintos, um do período colonial e Tais aspectos revelam que a escrita didática é
outro da atualidade, mas os autores didáticos ainda marcada, em grande parte, por uma
não realizam esse encaminhamento. tradição formada durante o século XIX e
É interessante que na última pergunta se começo do século XX.
faça uma relação com a legislação, tal aspecto
corresponde com a avaliação realizada pelo
PNLD no guia de 2017 que considerou que na
CONCLUSÃO
coleção “os temas da legislação forma
abordados, promovendo o reconhecimento
de questões importantes para a sociedade Neste trabalho procuramos explanar
brasileira”. sobre a literatura didática, especificamente
Algo que é digno de nota na mesma sobre a temática das Entradas e Bandeiras, e
avaliação é a consideração que a banca faz como essa narrativa encaminha a

27
representação de bandeirantes, índios e as Monografia, Educação, Departamento
aproximações entre esses dois sujeitos. em educação, Universidade do Estado da
Na primeira seção procuramos explanar Bahia, 2011.
brevemente sobre as políticas estatais CASSIANO, Célia Cristina de Figueiredo.
representadas pelo PNLD para o livro Reconfiguração do mercado editorial
didático, assim como também caracterizar a brasileiro de livros didáticos no início do
principal fonte utilizada nesse trabalho. Na séc. XXI: história das principais editoras e
segunda seção discutimos sobre duas suas práticas comerciais. Em Questão.
culturas históricas, que acreditamos fazer Porto Alegre: UFRGS, v.11, n. 2, 2005, p.
parte da escrita escolar, já que para entender 281-312.
a narrativa didática é preciso entender COELHO, Mauro Cezar. Que enredo tem
também os discursos que dela fazem parte. essa história? A colonização portuguesa
Finalmente, na terceira e última parte na América nos livros didáticos de
realizamos a análise do livro da coleção história. In: ROCHA, Helenice; REZNIK,
Araribá, constatamos no estudo uma Luis; MAGALHÃES, Marcelo de Souza
narrativa que apresenta o bandeirante (Org.). Livros didáticos de história: entre
paulista como protagonista, o indígena como políticas e narrativas. 1. ed. Rio de
instrumento no processo colonizador e quase Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2017,
nenhuma referência à violência que envolvia p. 185-202.
os contatos entre bandeirantes e os povos D 'ÁVILA, Cristina Maria. Decifra-me ou te
nativos. devorarei: o que pode o professor frente ao
Acreditamos que as narrativas didáticas, livro didático. Salvador: EDUNEB, 2008.
representadas pela coleção analisada, ainda FARIA, Ana Lucia de. Ideologia no livro
se utilizam de um discurso produzido nos didático. 11 ed. São Paulo: Cortez, 1994.
dois séculos anteriores para narrar o processo HÖFLING, Eloisa de Matos. Notas para a
de colonização portuguesa. Ainda que discussão quanto à implementação de
análises historiográficas recentes sejam programa de governo: em foco o
citadas, não percebemos que tais estudos Programa Nacional do Livro didático.
sejam utilizados significativamente na Educação e Sociedade. Campinas: Cedes,
temática das Entradas e Bandeiras, que ainda vol. 21, n. 70, 2000, p. 159-170.
é marcada de forma preponderante pela HOLANDA, Sérgio Buarque de. O extremo
tradição. Oeste. São Paulo: Brasiliense/Secretaria
de Estado da Cultura, 1986.
LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a
leitura do mundo. 6. ed. São Paulo: Ática,
REFERÊNCIAS 1996.
MONTEIRO, Ana Maria; PENNA, Fernando.
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fronteira. Educação e Realidade. Porto
APOLINÁRIO, Maria Raquel. Projeto Alegre: UFRGS, v. 36, 2011, p. 191-211.
Araribá. São Paulo: Moderna, 2014. MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra:
______. Guia de livros didáticos. PNLD 2017: Índios e bandeirantes nas origens de São
História – Ensino fundamental/ anos Paulo. 5. ed. São Paulo: Companhia das
finais. Brasília, DF: Ministério da letras, 1994.
Educação, Secretaria de Educação Básica, MOOG, Vianna. Bandeirantes e Pioneiros. São
Fundo Nacional da Educação, 2015. Paulo: Editora civilização brasileira. 1985.
NETO, Manuel Pacheco. O bandeirante como
FONTES SECUNDÁRIAS tema da educação brasileira: um estudo dos
livros didáticos publicados entre 1894 e
BATISTA, Amanda Penalva. Uma análise da 2006. Tese de doutorado, Educação,
relação professor e o livro didático. Programa de pós-graduação em

28
educação, Universidade Metodista de primeira metade do século XX. 3. Ed. São
Piracicaba, 2007. Paulo: Paz e Terra, 2004, p. 555-585.
NETO, Manuel Pacheco. Heróis nos livros SILVA, Rafael Moreira da. Textos didáticos:
didáticos: bandeirantes paulistas. crítica e expectativa. Campinas, SP:
Dourados: Editora UFGD, 2011. Alínea, 2000.
NOSELLA, Maria de Lourdes Chagas Deiró. SOUZA, Ricardo Luiz. A mitologia
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aos textos didáticos. 12. ed. São Paulo: Revista História Social. Campinas:
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SALIBA, Elias Thomé. Histórias, memórias, In: REUNIÃO DE ANTROPOLOGIA DO
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História da cidade de São Paulo. A cidade na Mercosul. Montevideu: Universidad de la
Republica, 2015, p. 1-16.

29
A MÃO DE OBRA INDÍGENA NA “RIBEIRA DE MOJU”
– disputas pelo seu controle (1733–1755)

 Elias Abner Coelho Ferreira

Resumo: Fundada em 1733, a chamada “Ribeira de Moju” era uma das Fábricas Reais de madeira
que foram criadas no Estado do Grão-Pará e Maranhão, onde fabricavam-se embarcações, como
as utilizadas para as expedições de demarcações de limites estabelecidas pelo Tratado de Madri
de 1750. Na “Ribeira de Moju” a mão de obra preponderante era de indígenas, que provinham de
aldeamentos missionários e eram “repartidos” para este fim. Eles estavam sob o regime de muda,
tendo que trabalhar por seis meses, depois do que deveriam ser substituídos por outros índios.
Esse sistema de trabalho foi motivo de conflitos entre agentes coloniais, na figura do Frei Dom
Miguel de Bulhões, Governador interino do Estado, e missionários que controlavam os aldeamentos
de onde tais índios provinham. Este texto procura falar sobre como se deram tais conflitos e os
discursos gerados em torno deles.
Palavras-chave: Amazônia colonial; mão de obra indígena; século XVIII.

INTRODUÇÃO Para Ney Malvasio, entre as reformas


iniciadas pela Era Pombalina após o
terremoto de Lisboa de 1755, estaria também
Regina Batista postula que durante o
uma reforma naval, apesar de ter sido
período pombalino (1750-1777) a
negligenciada pela historiografia
prosperidade econômica no Estado do Grão-
(MALVASIO, 2012: p. 69). A partir de então,
Pará e Maranhão dependia de dois fatores
o novo estaleiro de Lisboa, antes chamado
essenciais e complementares: de um lado, a
“Ribeira das Naus”, passa a ser chamado de
fomentação da produtividade, com a
“Arsenal de Marinha”. Além de uma série de
produção de gêneros; de outro, dependia que
melhorias, contratou-se também
tais gêneros fossem “interessantes ao
“trabalhadores especializados na arte naval”,
comercio internacional...” (BATISTA, 2013: p.
vindos principalmente dos estaleiros da
20). Nesse contexto, segundo a autora,
Inglaterra, com o intuito de “passar aos
[...] a fabricação de madeiras no Grão-Pará operários do Arsenal de Marinha de Lisboa
despontou como umas das alternativas as novas técnicas empregadas na construção
pela qual a Metrópole poderia alavancar naval pela maior potência marítima
os seus planos de incentivo à prosperidade europeia” (MALVASIO, 2012: p. 83).
da Colônia e o consequente aumento da No âmbito desta reforma, o Estado do
Fazenda Real. A atividade madeireira
Grão-Pará e Maranhão se insere como grande
estava dividida em duas fases: a extração,
no qual uma grande quantidade de fornecedor de matéria-prima. Desde o início
trabalhadores, principalmente indígenas, da colonização portuguesa que os recursos
adentrava nas matas e derrubava as madeireiros da região eram aproveitados
árvores, e o beneficiamento, que poderia tanto para a construção naval como para
ser feito na própria Colônia – nas fábricas construções em geral. No entanto, é a partir
de madeira – ou embarcadas em navios e da segunda metade do século XVIII que passa
enviadas para serem beneficiadas no
a haver uma “intensificação na
Reino (BATISTA, 2013: p. 20).1
comercialização dos recursos lenhosos como
produto de exportação” (BATISTA, 2013: p.

 Universidade Federal do Pará. Av. Augusto Correa nº 01, Guamá, 66075-110, Belém – PA. Mestre em História pela UFPA. Rua
2, q. 2, nº 115, Res. Marechal, Santa Catarina, 68.746-761, Castanhal – PA. Correio eletrônico: elias_abner@hotmail.com
1 Segundo a autora, o termo “fabricação de madeiras”, de acordo com as fontes, seria o processo de derrubada das árvores e o

beneficiamento para os mais diversos usos, como construção em geral e fabricação de embarcações.

31
21), com o governo metropolitano cada vez Batista contabilizou 40 Cartas de Data e
mais interessado em controlar e sistematizar Sesmaria para o Rio Moju (BATISTA, 2013: p.
essa produção. Para tanto, às margens do Rio 56).
Guamá teria sido criado o Estaleiro Real do Se a propaganda da quantidade e da
Pará em 1761, e para abastecê-lo, as Fábricas qualidade das madeiras do Estado é
Reais de Madeira. Para gerir toda essa veiculada desde o início da colonização
atividade, a Coroa Portuguesa teria portuguesa na região, seria com a
determinado algumas medidas, entre elas o implantação da Ribeira de Moju que a Coroa
“monopólio aos paus reais” e o “contrato de passaria a se interessar “em produzir
arrematação das madeiras” (BATISTA, 2013: madeira na Capitania do Grão-Pará, ou pelo
p. 19). menos de tomar para si a responsabilidade de
gerir o processo de produção e
aproveitamento dos recursos madeireiros
desta Capitania” (BATISTA, 2013: p. 45).
A MÃO DE OBRA INDÍGENA NA Segundo Batista, a linha de produção da
“RIBEIRA DE MOJU” “Ribeira de Moju” era bastante diversificada,
incluindo “materiais de primeiro
Ao longo do Vale do Tocantins beneficiamento (pranchas, estacas, tarugos,
localizavam-se sete Fábricas Reais de arcos para varais e taboado para forros) até
Madeira,2 as quais utilizavam largamente a construção de embarcações” (BATISTA, 2013:
mão de obra indígena. O funcionamento de pp. 48-49). Os materiais eram transportados
tais fábricas processava-se em rede, ligadas para o Reino, enquanto que as embarcações
pela malha fluvial, por onde era feito o eram fabricadas para a utilização local.
escoamento da produção. Devido às Na década de 1730 inicia-se os
atividades, funcionavam como preparativos para a instalação da Ribeira de
“catalisadores” para o surgimento de Moju. Em 04 de outubro de 1732, uma
povoados e vilas, passando a batizar as Provisão do Governador José da Serra (1732-
povoações de índios e colonos, como Moju, 1736) nomeava Estácio da Silveira como
Cametá, Igarapé-Miri, Abaetetuba, Acará, Patrão Mor da “Ribeira de Moju”, “por ser
Barcarena, Vila do Conde, Baião e Beja. pessoa examinada há muitos annos em cujo
Dentre essas fábricas, as de Moju, Cametá e emprego tem feito várias viagens nas Naos de
Acará destacavam-se pela maior intensidade Sua Mag.de e em Navios mercantes em que
da produção (ANGELO-MENEZES; teve Patente de Capp.am por El Rey”. Em 28
GUERRA: 1998, pp. 125-126), embora a de de março do ano seguinte, Estácio solicita ao
Moju fosse a responsável pelo conjunto do rei a confirmação da dita Provisão, com soldo
Vale, sobressaindo às demais fábricas, tanto capaz de que pudesse se “sustentar na terra
no que diz respeito à mão de obra quanto ao com o d.to posto”, alegando que o não poderia
fornecimento de materiais para as outras exercer “com tão pequeno ordenado por não
(BATISTA, 2013: p. 48). lhe chegar p.a o seu sustento em rezão de ser
A “Ribeira de Moju”, foi, segundo a terra cara e falta de mantim.tos...”. Em carta
Regina Batista, “uma importante aliada no de 16 de abril de 1733, o rei informa ao
processo de colonização da região de Moju” provedor da Fazenda Real da Capitania do
(BATISTA, 2013: p. 45). Como as demais Pará, Matias da Costa e Sousa, sobre o
fábricas, também funcionaria como requerimento de Estácio da Silveira e solicita
catalisadora do povoamento, tornando-se, um parecer sobre se o ordenado solicitado era
inclusive, a “região mais povoada da bastante e se haveria meios no Almoxarifado
Capitania” (BATISTA, 2013: p. 47). Só num para pagar o suplicante. Matias da Costa
período de vinte anos, de 1727 a 1747, Regina escreve ao Rei em dia 07 de setembro de 1733

2Além das Fábricas Reais de madeira havia também fábricas


particulares, algumas administradas por religiosos, por
exemplo. Informação obtida com o professor Karl Arenz.

32
e emite um parecer contrário à nomeação de diante dos altos custos representados à
Estácio. Alegava o provedor que o dito ofício Fazenda Real, já parca de recursos (BATISTA:
de Patrão Mor não seria necessário, tendo em 2013, p. 47).
vista que a fábrica de Moju ainda não se havia Em parecer do Conselho Ultramarino ao
estabelecido, e, segundo ele, mesmo se já rei D. João V, de 23 de janeiro de 1734, os
estivesse estabelecida não seria necessário, conselheiros mostravam-se favoráveis ao
porque, estabelecimento da fábrica de construção de
navios na capitania do Pará. Consideravam
[...] como esta ocupação não pode ter que a “matéria he summamente grave e de
exercício, senão despois de os Navio feito, gr.de ponderação plas conveniências q. do
para governar os marinheyros que o hão
establescimento desta fabrica se podem
de deytar ao mar e perparalho dos
petrechoz necessários para seguir viagem, seguir ao serv.o de V. Mag.de e a sua real
bastaria que naquella ocazião houvesse faz.da” e que achando-se cortadas as madeiras
hum homem que tivesse esta serventia, e feitas as demais despesas, deveria o rei
porque não he rezão que a fazenda de ordenar que se fabricasse um navio, “p.a q.
vossa Magestade se aplique para huma vendosse o custo q. este faria se viesse no
despeza inútil, mayorm.te não estando ella conhecim.to da utilidade q. desta fabrica se
tam abundante que a possa sofrer, e muito
podia seguir à Real faz.da de V. Mag.de”
menos a de fabrica de Navios neste Estado,
que de nenhuma utilidade serve, pello (PARECER, 23 de jan., 1734). De pronto
grande gasto, que qualquer dos que se iniciou-se o corte das madeiras, tendo sempre
obrar há de fazer, o qual há de ser muito presente o projeto da charrua. No entanto,
mayor do que em outra qualquer parte do tudo feito “sem meyos”, sendo necessário ao
Brazil (CARTA, 07 de set., 1733).3 governador José da Serra “continuar a
despeza com o mesmo dinhr.o do bolcinho de
Matias da Costa alegava os altos custos S. Mag.e q.’ vinha do Piauhy” (OFÍCIO, 07 de
para a manutenção da Ribeira, out., 1737).
empreendimento que não traria retorno, Três anos depois, em 07 de outubro de
senão despesas desnecessárias à Fazenda 1737, já no governo de Antônio de Barros
Real. Ademais, alegava que a dita Ribeira não (1736 - 1737), Antônio da Rocha Machado,
teria “nenhuma utilidade”, já que os gastos Secretário do Governo do Estado do
para se fazer um navio no Estado seria Maranhão, envia um ofício para António
“muito mayor do que em outra qualquer Guedes Pereira, Secretário de Estado da
parte do Brazil”. Como vimos anteriormente, Marinha e Ultramar, em que informa estar
pouco mais de um século antes o piloto havendo por parte do secretário de Estado e
português João de Almeida se “oferecia” para Provedor dos Armazéns, João de Leiros,
vir ao Estado do Maranhão afim de construir “hum dezengano total para não obrar nada q.
embarcações, alegando a abundância de diga resp.to a naus, ou estabelecim.to de
matéria-prima (madeiras) e mão de obra Ribeira p.a cortes de madeiras, pois allegão a
(indígenas), além de que os custos seriam falta de meyos, ou consignação, q. he oq.
muito baixos comparados à outras regiões do basta, para se entender q. sem a tal
Império português, no Estado do Brasil consignação era impraticável semelh.e
inclusive. projecto” (OFÍCIO, 07 de out., 1737). De
Segundo Regina Batista, desde o início a acordo com Antônio Machado, João de Leiros
atividade madeireira realizada na “Ribeira de alegava que antes do estabelecimento da
Moju” foi motivo de polêmica entre os Ribeira seria necessário primeiro estabelecer
administradores coloniais, principalmente rendas no Estado.
nas figuras do Governador e do Provedor do Todavia, Antônio Machado
Estado. Enquanto o Governador José da Serra argumentava que, no início do seu governo
proclamava a utilidade de tal investimento, o em 1733, José da Serra havia trazido um
Provedor Matias da Costa resignava-se
3 Os demais documentos citados ou menção a eles
encontram-se em anexo a esta carta.

33
construtor francês e um maquinista, e consignação para tais despesas (CARTA, 02
também havia achado “dinh.o do Donativo de nov., 1737).
vindo da Capp.nia do Piauhy”, de forma que Este teria sido o principal motivo pelo
ao ver que não havia meios para se fabricar qual ordenara ao Provedor da Fazenda a não
navios “mandou empregar o tal dinh.o em continuar com a referida despesa. Todavia,
fazendas, na occazião da frota, e as mandou não fora o único.
carregar em receita ao Almox.e, separadas do Segundo o Governador, a Fábrica de
mais recebim.to desta Capp.nia, p.a com estas Madeira de Moju tinha o inconveniente de
Fazendas hir pagando os officiaes” (OFÍCIO, “se empregarem naquelle trabalho cento e
07 de out., 1737). sincoenta índios q.’ com grande prejuízo dos
A questão da falta de meios, tanto para moradores se tirarão das aldeias, e faltavão á
o estabelecimento da Ribeira quanto para cultura de que também resultão os dízimos
construção de embarcações não seria, da fazenda real” (CARTA, 02 de nov., 1737).
portanto, um problema, tal como alegado Tais índios, além de serem retirados dos
pelo Provedor da Real Fazenda, já que havia serviços dos moradores, ainda sofriam
dinheiro (do donativo) para o pagamento dos abusos, pois eram enviados para as serrarias
oficiais. Todavia, esta foi uma questão que de madeira particulares e também para
permeou os discursos em torno do outros serviços, como o de remeiros das
estabelecimento da Ribeira. Tanto que o canoas. Além disso, a fuga dos índios era
Governador José da Serra mandou o constante e os religiosos que detinham o
construtor francês de volta a Lisboa, para poder temporal sobre as aldeias negavam-se
“dar conta do que perdia S. Maj.e, em não se a darem outros para substituí-los.
effeituar a Riber.a”. De Lisboa, o construtor De acordo com Regina Batista, nas
foi enviado de volta ao Estado, encarregado fábricas de madeira a divisão do trabalho
“obedecia uma certa hierarquia onde parte
[...] a fazer hua charrua, sem mais meyos, dos oficiais eram trazidos do reino (mestres,
ou consignação, q.’ seis carpintr.os com seis maquinistas, construtores, ferreiros,
contram.e, e quatro serradores, dizendo as
carpinteiros)” (BATISTA: 2013, p. 50). Apesar
cartas de Diogo de Mendonça, Prov.or dos
Armazens, com poucas regras; S. Maj.e he disso, no entanto, o maior volume de mão de
servido q.’ se faça em Mojú hua charrua, obra era de índios. Desde as entradas no mato
p.a ver se tem conta a Faz.a Real a para a escolha das árvores adequadas, a
fazeremse Navios nesse Estado [...] derrubada, o corte dos galhos, o transporte
(OFÍCIO, 07 de out., 1737) até os locais de embarque para a Ribeira e
depois, já no local, no processo de
As queixas sobre da “Ribeira de Moju” beneficiamento em madeiras, era necessário
continuavam no governo de João de Abreu um contingente considerável. Assim, de
de Castelo Branco (1737-1738). Em 02 de acordo com o que estabelecia o “Contrato de
novembro de 1737 escreve ao rei D. João V Arrematação de Madeiras”,4 “Para o corte
sobre as despesas da Ribeira. Dizia o das madeiras nas fábricas eram
governador que chegando ao Estado disponibilizados sessenta índios para o
encontrara estabelecida uma fábrica de trabalho de seis meses”, quando deveriam ser
madeira para navios, mas que não encontrara feitas as mudas (BATISTA: 2013, p. 42).5
na secretaria do governo ordens de Sua Ribeira de Moju, a mão de obra indígena era
Majestade para o estabelecimento e as essencial – como era, aliás, essencial em todos
despesas da referida fábrica. Antes, pelo os demais afazeres no dia a dia do Estado.
contrário, encontrara cartas do Secretário de
Estado em que informava não haver
4De acordo com Batista, “Neste Contrato, homens de negócio 5 O termo “muda” refere-se a substituição da mão de obra
na capitania recebiam a concessão para fabricarem madeiras indígena nas fábricas de madeira a cada seis meses, de
em instalações pertencentes ao Estado, com quantidades, acordo com o que regia o Contrato de Arrematação das
qualidades e preços pré-estabelecidos no Contrato.” Ibidem, madeiras. A muda e os descimentos eram, segundo Regina
p. 25 Batista, as duas formas de conseguir mão de obra para as
fábricas de madeira. Cf. BATISTA: 2013, p. 74.

34
José Roberto do Amaral Lapa, falando no inverno a madeira pela sua porosidade
sobre a ribeira da Bahia colonial, diz que a não teria a mesma consistência; com efeito
madeira, ainda na árvore, exigia a atuação o corte no outono, permitia a obtenção de
madeiras muito mais fortes, segundo
dos serviços da feitoria, uma vez que “Era
afirmavam os memorialistas do século
necessário marcá-la, promover o corte, XVIII. A época propícia ao corte, evitaria
provavelmente desgalhar, proceder à ainda a madeira verde, tão condenada
arrumação, o transporte por diferentes meios pelos velhos cronistas do Reino (LAPA:
até a feitoria, onde esperariam outros 2000, p. 41).
cuidados especiais” (LAPA: 2000, p. 40).
Tudo isso deveria ser feito racionalmente, “a A utilização da mão de obra indígena
fim de se evitarem derrubadas inúteis, para trabalhar tanto na fabricação de
esforços dispensáveis e morosidade nos madeiras quanto na de embarcações não foi
trabalhos...”. É necessário chamar a atenção apenas uma conveniência, dado o enorme
de que Lapa está falando do Estado do Brasil; contingente indígena presente na colônia,
todavia, é evidente que, guardadas as que em tese se configurava em mão de obra
peculiaridades, a exploração madeireira na em potencial – o que, porém, não significava
Bahia, no Estado do Brasil, em muito se facilidade em acessá-la (ALMEIDA, 1990) –,
assemelhava à de Moju, no Estado do Grão mas sim uma necessidade. No ambiente em
Pará e Maranhão, principalmente levando-se que estavam inseridos imperavam ordens
em consideração a efetiva participação da para além da força física, e que exigiam
mão de obra indígena. conhecimentos profundos da floresta, seus
Segundo Lapa, para o serviço junto à caminhos e as espécies arbóreas, fruto da
mata eram contratados no Reino, pelo longa experiência, passados entre gerações e
governo, mestres carpinteiros “que que lhes permitiram acumular um “saber
conhecessem profundamente os diferentes venatório” (GINZBURG, 1986) caros aos
espécimes vegetais”. Tais conhecimentos estrangeiros (europeus e africanos).
giravam em torno das qualidades das É neste sentido que em ofício do dia 03
madeiras, suas utilidades específicas, já que de outubro de 1761, o então Governador e
eram remetidas a Lisboa, de onde não raras Capitão-general do Estado do Pará e
vezes vinham reclamações sobre as Maranhão, Manuel Bernardo de Melo e
dimensões e a qualidade das madeiras Castro, informa ao Secretário de Estado da
enviadas nem sempre corresponderem ao Marinha e Ultramar, Francisco Xavier de
solicitado. Por conta disso, sugere Lapa, era Mendonça Furtado, sobre um requerimento
muito provável que esses mestres feito pelos administradores da Companhia
carpinteiros “aceitassem em muitos casos a Geral de Comércio do Grão-Pará e
experiência indígena”, principalmente no Maranhão. Nele os administradores
que diz respeito à melhor época de solicitavam “se lhe concederem os quatro
derrubadas, para o que o secular índios que ensinassem os pretos a cortarem, e
conhecimento indígena das fazes da lua, da conduzirem as madeyras para o estaleiro, em
observação atenta da característica das q. estão fazendo o seu navio [...]” (OFÍCIO, 03
árvores, seus frutos, flores, folhas, etc. de out., 1761). O documento, além de mostrar
(LAPA: 2000, p. 41). Segundo Lapa: índios e negros trabalhando lado a lado,
mostra os indígenas detendo os
A observação dos galhos, flores e frutos conhecimentos sobre os processos de corte e
objetivava o não aproveitamento de condução das madeiras. Isso se dava não
árvores cuja força do tronco se dispersava apenas porque a mão de obra indígena seria
por essas partes; também devia-se mais abundante que a negra, mas, e
considerar a idade, o tempo de circulação
sobretudo, devido ao conhecimento que
da seiva para evitar que o corte se desse no
momento de sua abundancia, o que detinham da floresta, das árvores cujas
acarretaria doenças que estragariam a madeiras seriam mais apropriadas para uma
madeira, as fases da lua, a estação embarcação, assim como a própria feitura das
preferidas para o corte, pois se praticada embarcações. Tais conhecimentos eram

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decorrentes da vivência em meio a esse Estado do Maranhão e Grão-Pará, fr. Miguel
ambiente em que tudo, praticamente, girava de Bulhões, envia um ofício para o secretário
em torno da água. Longe de se excluírem, de Estado da Marinha e Ultramar, Diogo de
Regina Batista, que também utilizou o Mendonça Corte Real, reclamando das
mesmo documento, considera a escravidão dificuldades em se conseguir índios para
indígena e a africana se complementavam: trabalhar na fábrica de canoas estabelecida na
ribeira de Moju. Segundo Miguel de Bulhões:
A intensificação da coexistência entre
brancos, negros e índios, neste período, Na Ribeira do Mojú, em que actualmente
estabelecida pelas novas diretrizes se fabrica aquellas canoas q.’ são precisas,
referentes à mão-de-obra, favoreceu ao assim p.a demarcações dos Reaes
fortalecimento de novas redes de Domínios de S. Maj.de como p.a a execução
sociabilidades formadas no cerne das de todas as mais diligências pertencentes
relações de trabalho, fossem elas na fábrica ao seu Real serviço achei hua desordem,
das madeiras ou nos sítios dos moradores digna, ao meu parecer, de algua
(BATISTA: 2013, p. 69). providencia. Consiste a tal dezordem, em
q.’ mandandose extrahir das Aldeias
De maneira geral, a partir da aquelles índios, que são precisos p.a
documentação é possível dimensionar a trabalharem nesta fábrica, da qual hé M.e
necessidade de índios para trabalhar na Theodózio Gls [Gonçalves], depois de
atividade madeireira. De acordo com o trabalharem nella aquelle tempo q.’ basta
p.a q.’ fiquem Mestres em fazer Canoas,
Contrato de Arrematação das madeiras, os
são restituídos as mesmas Aldeias, nas q.es
índios, vindos principalmente das vilas e os Missionários os aplicão a este mesmo
lugares de índios do Marajó (BATISTA: 2013, trabalho, vindo por este modo a servir a
p. 51), deveriam se estabelecer na Ribeira de Real Fábrica de S. Maj.de só p.a ensinar os
Moju por seis meses, quando então eram d.os índios, de q.’ os Missionários recebem
“trocados” por outros, voltando para suas depois toda a utilid.e; não sendo possível,
aldeias de origem. Evidentemente que, como q. os d.os Missionários tornem a dar
aquelles índios p.a a mesma fábrica
durante todo o período colonial, tais prazos
(OFÍCIO, 17 de ago., 1755).
raras vezes eram respeitados e os abusos que
daí decorriam ocasionavam, entre outros, a A “desordem” indicada pelo
fuga de muitos índios. Por outro lado, o Governador interino estava em relação à mão
processo de “muda” nem sempre era de obra indígena. De acordo com Miguel de
suficiente para atender as demandas por Bulhões, os únicos beneficiados com o
trabalhadores, tendo em vista que a fuga de processo de muda eram os missionários que
índios acabava ocasionando escassez de mão administravam os aldeamentos,
de obra. principalmente os da Companhia de Jesus. A
É neste sentido que, em um “Ribeira de Moju” serviria apenas de
requerimento de 30 de abril de 1743, os “escola” para os índios, e que eles, depois de
interessados na fábrica de serrar madeiras do aprenderem o ofício, voltavam para os
Estado do Maranhão solicitavam a descida de aldeamentos de origem e passavam a aplicar
quatrocentos casais de índios dos sertões a tais conhecimentos em benefício dos
fim de serem utilizados como mão de obra, a missionários. Como os missionários não
custo dos próprios solicitantes “devolveriam” esses índios para os serviços
(REQUERIMENTO, 30 de abril, 1743). das fábricas, estas ficavam prejudicadas, já
Apesar de o documento não dar indicação de que os próximos índios a chegarem teriam
que a referida fábrica seja a de Moju, fica que aprender novamente todos os
evidente a necessidade de índios para a procedimentos.
continuação dos trabalhos. Como forma de remediar esse “dano”,
A questão da mão de obra para a Miguel de Bulhões após saber de um índio
“Ribeira de Moju” foi motivo de reclamação chamado Felipe Neri que “se achava no
também por parte do governo. Em 17 de matto junto a Villa Viçosa de Santa Cruz do
agosto de 1755, o Governador Interino do Camettá administrando algua gente”,

36
chamou-o à sua presença e, após convencê-lo estabelecimento espero sem duvida
de “que não devia viver como bruto retirado remediada a falta que havia de índios
em hum sertão, mas como homem, onde capazes de trabalhar na referida Fábrica
pelo motivo, que ponderei a V. Ex.ª, qual
podesse ser útil a si e a República”, lhe
era o servir a mesma Fábrica de escolla
propôs “que desejava estabelecer com elle, e para os índios em utilidade dos
a sua gente hua Aldeia, unicamente Missionários (OFÍCIO, 13 de nov., 1756).
destinada para o serviço da d.ta Fábrica”. A
recompensa seria de, nas palavras do Como eram considerados mão de obra
Governador, além de viverem “debaixo da livre – pelo menos teoricamente, já que
proteção de S. Maj.de”, seria de ter um pároco provinham dos aldeamentos missionários6 –,
que lhes celebrasse missas e administrasse os os índios oficiais (de carpinteiro e calafate) e
sacramentos, além dos referidos salários os demais que trabalhavam na Ribeira
(OFÍCIO, 17 de ago., 1755). deveriam ser remunerados. O Regimento das
O índio Felipe Nery se dispôs a descer Missões, de 1686, estabelecia que fosse pago
com sua gente, e o pedido para o duas varas de pano de algodão por mês a
estabelecimento da dita Aldeia foi cada índio que trabalhasse no serviço real. No
prontamente atendido pelo rei, ordenando entanto, em carta de 22 de março de 1740 o rei
que ela fosse estabelecida na forma proposta D. João V escrevia ao Governador e Capitão-
pelo Governador interino, para atender a General do Estado do Maranhão e Grão-Pará,
necessidade de mão de obra da “Ribeira de João de Abreu Castelo Branco, sobre uma
Moju”. O Governador e Capitão-General do petição dos índios da “Ribeira de Moju” em
Estado do Maranhão e Grão-Pará, Francisco que queixavam-se de que o Provedor da
Xavier de Mendonça Furtado, remete um Fazenda Real não lhes mandava pagar mais
descimento de índios do Rio Negro para a que as duas varas de pano de algodão grosso
dita Aldeia, deixando a cargo do Governador por mês. Solicitavam os índios que “fosse
interino o local onde ela seria estabelecida servido ordenar que se lhes pague as oitto
(OFÍCIO, 13 de nov., 1756). varas de panno por mez, na forma que atté
Ao saber da notícia da nova povoação, o agora se uzou” (CARTA, 22 de mar., 1740).
índio Felipe Neri prontamente informa a Meses depois, em 10 de outubro de 1740, João
Miguel de Bulhões seu desejo de estabelecer- de Abreu Castelo Branco escrevia
se nela juntamente com os índios do Principal respondendo ao rei D. João V dando seu
Joá, vindos do Rio Negro. Assim, Miguel de parecer sobre a situação. De acordo com o
Bulhões escreve ao mesmo Diogo de Governador, ainda que o trabalho ordinário
Mendonça Corte Real, agora ex-secretário de dos índios devesse ser com as duas varas de
Estado da Marinha e Ultramar, informando pano por mês, como previa a legislação,
que:
[...] parece ser contra a equidade, que os
Achão-se no referido sitio, assim os índios que sabem trabalhar nos off.os de
do novo descimento, e os que pertencem a carpinteiros, serradores, e torneiros se lhes
Felipe Neri, como todos os mais, que achei satisfaça com as mesmas duas varas de
superior pelo seu continente. Com elles panno, ao mesmo tempo que qualq.r
tenho estabelecido huma competente official branco destes offi.os leva dez, ou
Povoação, na qual mandei logo erigir doze tostoens por dia...
Igreja, destinando-lhe Pároco com oitenta
mil reis de côngrua por anno para instruir Continuava o Governador dizendo que
os mysterios da Fé aos índios pagãos, e seu antecessor, Antônio de Barros, havia
administrar os mais sacramentos aos que mandado pagar “a estes índios officiaes a oito
se achão baptizados. Todos estes índios varas de panno, e alguns a seis, e outros a
tenho applicado ao serviço da Fábrica das
quatro, conforme a differença que o mestre
canoas daquella Ribeira, e com este
da Ribr.a Theodozio Lopes achava no seu
6Os aldeamentos missionários eram locais para onde índios catequizados e, posteriormente, transformados em mão de
de diferentes nações eram “descidos” dos seus locais de obra.
origem e agrupados afim de serem mais facilmente

37
serv.o”, e isso, segundo ele, é o que se deveria demarcações, nos moradores, e que não havia
praticar aos suplicantes (CARTA, 10 de out., outro remédio mais do que mandá-las
1740). fabricar por conta da fazenda real” (CARTA,
Os oficiais brancos a quem o 14 de jun., 1754). O problema, alegava, era a
Governador se referia eram os europeus fuga dos índios, principalmente oficiais
trazidos do Reino para o serviço na Ribeira. carpinteiros. Sem grande número de índios
Enquanto estes ganhavam um soldo maior, oficiais, escrevia, “já V. Ex.ª vê a desordem e
os oficiais índios, pelo mesmo trabalho, a falta que fariam na construtura das
recebiam menos. Por isso o embarcações, de que tanto se necessita para
descontentamento. esta expedição”. Para Mendonça Furtado:
Ao fazerem uma petição7 diretamente
ao rei, os oficiais índios da “Ribeira de Moju” Esta deserção se faz ainda mais
deixavam clara a importante posição que escandalosa, quando notoriamente consta
que estes mesmos desertores são
detinham dentro do sistema econômico do
empregados, logo que chegam às suas
Estado e que sabiam barganhar benefícios em povoações, no serviço dos missionários,
seu favor. Quando estas não surtiam efeitos, fazendo-se canoas para venderem às
ou quando seus efeitos estavam aquém do grandes serrarias de madeiras, além de
desejado, os índios recorriam a uma prática outras obras em que os empregam.
muito comum: desertar, fugir. Na Também têm fugido desta cidade do
documentação colonial são constantes as serviço de S. Maj. os que constam da
relação inclusa, e, finalmente, não há meio
queixas de deserções dos índios da Ribeira,
algum de os fazer parar, porque nas
que deixavam não apenas os trabalhos aldeias não só não são castigados, mas,
inacabados, mas que comprometiam toda contrariamente, favorecidos e amparados,
uma estrutura social, econômica e política do e sem estes índios já V. Ex.ª sabe que nada
Estado. se pode fazer (CARTA, 14 de jun., 1754).
Em carta ao rei de 11 de novembro de
1753, Mendonça Furtado apontava As queixas de Mendonça Furtado
dificuldades para que a expedição de corroboram as de Miguel de Bulhões, de que
demarcação dos limites estabelecidos pelo a “Ribeira de Moju” servia apenas de escola
Tratado de Madri (1750) partisse para o Rio para os índios, e que os beneficiados com ela
Negro. O problema estaria na falta de meios, eram unicamente os religiosos,
principalmente pelo número insuficiente de principalmente os da Cia. de Jesus. As
canoas. Escrevia Mendonça Furtado: mesmas queixas persistem em carta de 10 de
setembro de 1754: a falta de canoas para a
Fico na diligência de pôr pronto tudo o que expedição por falta de índios oficiais e a
é preciso para esta expedição, que sendo conivência dos religiosos nas deserções.
grande ainda se faz mais dificultosa pela Informava Mendonça Furtado que
falta de meios que há nesta terra, porque, “finalmente, não é possível fazer conter essa
só pela fatura das canoas que são precisas,
gente, nem será fácil conseguir-se, quando
é necessário maior tempo pela falta que há
de oficiais, e deserções contínuas de índios elas vão buscar as suas aldeias e nelas são
(CARTA, 11 de nov., 1753). agasalhados com todo o bom modo e até me
dizem que com louvor” (CARTA, 10 de set.,
No ano seguinte as queixas de 1754). Por conta da falta de índios oficiais
Mendonça Furtado continuam, agora para fabricar as canoas devido às continuadas
dirigidas a seu irmão, Sebastião José de deserções, a partida da expedição para o Rio
Carvalho e Melo. Em carta de 14 de junho de Negro só se daria 2 de outubro de 1754.
1754, relembra de que já o avisara sobre ser
“impossível o poder achar as muitas canoas
que são precisas para esta expedição das

7Infelizmente não encontramos a referida petição, apenas a


sua referência no documento citado.

38
CONSIDERAÇÕES FINAIS importante entre os indígenas, o que lhes
rendia certo respeito. Na Ribeira de Moju,
apesar da grande importância desses índios,
Numa região como a Amazônia, o meio
eles eram vistos como uma mão de obra
ambiente desde muito cedo condicionou seus
substituível, até por que, como era
habitantes a utilizarem os rios como meio de
estabelecido no “Contrato”, deveriam ser
locomoção e, nestes, as embarcações (canoas)
“trocados” por outros a cada seis meses, o
como o meio essencial de transporte. A
que não quer dizer que de fato acontecia.
quantidade e a qualidade das madeiras da
Eram nos aldeamentos missionários e
região logo chamaram a atenção dos
nas pequenas povoações que a importância
primeiros colonizadores, principalmente
dos mestres e oficiais índios era, de fato,
levando-se em conta a utilidade da madeira
reconhecida. Nos aldeamentos, diferente da
para a construção em geral e para a
Ribeira, eles tinham um tratamento
construção de embarcações em particular.
diferenciado, status, já que possuíam um
Nas diversas fábricas reais de madeira
ofício específico que os fazia importantes e
espalhadas pela região amazônica, como a
bastante requisitados.
Fábrica de Madeira de Moju (a “Ribeira de
Moju”), a mão de obra indígena era
fundamental. Os indígenas, além do
conhecimento exímio da região, das diversas REFERÊNCIAS
espécies arbóreas e seus diversos fins,
dominavam as técnicas de fabricação de
ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Os
embarcações. Tendo em vista a dificuldade
vassalos del’Rey nos confins da Amazônia: a
de locomoção, uma vez que o meio de colonização da Amazônia Ocidental (1750-
deslocamento era fundamentalmente por 1798). Dissertação de Mestrado em
água através dos rios, a questão da mão de História. Niterói: UFF, 1990.
obra indígena para a “Ribeira de Moju” foi, ______. Metamorfoses indígenas: identidade e
desde o início, motivo de muitos embates cultura nas aldeias coloniais do Rio de
entre agentes coloniais e missionários que Janeiro. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora
controlavam os aldeamentos de onde tais FGV, 2013.
índios provinham. ANGELO-MENEZES, Maria de Nazaré;
Por um lado, a maneira como Mendonça GUERRA, Gutemberg Armando Diniz.
Furtado refere-se às ordens religiosas, como Exploração de madeiras no Pará:
acobertadoras das fugas dos índios, reflete semelhanças entre as fabricas reais do
em parte os conflitos ideológicos entre o período colonial e as atuais serrarias. In:
governador e elas, especialmente a Cadernos de Ciência & Tecnologia, Brasília,
Companhia de Jesus, que não à toa em breve v. 15, nº. 3, set./dez. 1998.
seria expulsa dos domínios portugueses. Por BATISTA, Regina Célia Corrêa. Pau pra toda
outro, tendo conhecimento de que – mesmo obra: atividade madeireira no Estado do
remunerados – muitos índios oficiais fugiam Maranhão e Grão-Pará na primeira metade
e voltavam para as aldeias de origem, onde do século XVIII. Monografia de
seriam “agasalhados com todo o bom modo” Graduação em História, Universidade
e onde os missionários utilizariam seus Federal do Pará, 2008.
conhecimentos adquiridos na “escola”, que, ______. Dinâmica populacional e atividade
segundo o fr. Miguel de Bulhões, era a madeireira em uma vila da Amazônia: a Vila
“Ribeira de Moju”, em benefício da própria de Moju (1730-1778). Dissertação de
Companhia, pensamos que a fuga desses Mestrado em História Social da
índios se dava não apenas por conta do Amazônia, Universidade Federal do
salário que recebiam – apesar das queixas Pará, 2013.
neste sentido –, mas também pelo FERREIRA, Elias Abner Coelho. No Estaleiro
reconhecimento que tinham entre seus pares. dos Índios: a construção de embarcações
Ser oficial canoeiro era uma função na Amazônia colonial portuguesa. In:

39
Revista Estudos Amazônicos, vol. 13, nº 1, Estado do Maranhão e Grão-Pará, João
2015. de Abreu Castelo Branco. Projeto
______. Oficiais canoeiros, remeiros e pilotos Resgate/AHU, Pará (avulsos), Cx. 23,
Jacumaúbas: mão de obra indígena na documento 2202, anexo.
Amazônia colonial Portuguesa (1733-1777). Interessados na fábrica de serrar madeiras.
Dissertação de Mestrado em História Requerimento. 30.04.1743. Para o rei D.
Social da Amazônia, Universidade João V. Projeto Resgate/AHU, Pará
Federal do Pará, 2016. (avulsos), Cx. 25, documento 2401.
GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais. João de Abreu de Castelo Branco, governador
Morfologia e história. São Paulo: Cia. das e capitão-general do Estado do
letras, 1986. Maranhão e do Pará. Carta. Belém,
LAPA, José Roberto do Amaral. A Bahia e a 02.11.1737. Para o rei D. João V. Projeto
carreira da Índia. Edição fac-similada. São Resgate/AHU, Pará (avulsos), cx. 20,
Paulo: Hucitec, Unicamp, 2000. documento 1905.
GUALBERTO, Antônio Jorge Pantoja. João de Abreu Castelo Branco, governador e
Embarcações, educação e saberes culturais em capitão-general do Estado do Maranhão
um estaleiro naval da Amazônia. e Pará. Carta. Belém do Pará, 10.10.1740.
Dissertação de Mestrado em Educação, Para o rei D. João V. Projeto Resgate/AHU,
Universidade do Estado do Pará, Belém, Pará (avulsos), Cx. 23, documento 2202.
2009. Manuel Bernardo de Melo e Castro,
governador e capitão-general do Estado
FONTES: do Pará e Maranhão. Ofício. Pará,
03.10.1761. Para o secretário de Estado da
 Arquivo Histórico Ultramarino – AHU
Marinha e Ultramar, Francisco Xavier de
Mendonça Furtado. Projeto Resgate/AHU,
Antônio da Rocha Machado, secretário do
Pará (avulsos), cx. 50, documento 4607.
Governo do Estado do Maranhão. Ofício.
Matias da Costa e Sousa, provedor da
Belém, 07.10.1737. Para o secretário de
Fazenda Real da capitania do Pará. Carta.
Estado da Marinha e Ultramar, António
Belém do Pará, 07.09.1733. Para o rei D.
Guedes Pereira. Projeto Resgate/AHU,
João V. Projeto Resgate/AHU, Pará
Pará (avulsos), cx. 20, documento 1876.
(Avulsos), cx. 15, documento 1405.
Conselho Ultramarino. Parecer. Lisboa,
23.01.1734. Para o rei D. João V. Projeto
Resgate/AHU, Pará (Avulsos), cx. 16,  Marcos Carneiro de Mendonça -
documento 1468. Amazônia na Era Pombalina – MCM-AEP
D. fr. Miguel de Bulhões e Sousa, governador
interino do Estado do Maranhão e Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
Bispo do Pará. Ofício. Pará, 17.08.1755. governador e capitão-general do Estado
Para o secretário de Estado da Marinha e do Pará e Maranhão. Carta. Pará,
Ultramar, Diogo de Mendonça Corte 11.11.1753. Ao rei. MCM-AEP, vol. 1, p.
Real. Projeto Resgate/AHU, Pará (avulsos), 534.
Cx. 39, documento 3625. Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
D. fr. Miguel de Bulhões e Sousa, governador governador e capitão-general do Estado
interino do Estado do Maranhão e Pará, do Pará e Maranhão. Carta. Pará,
Bispo do Pará. Ofício. Pará, 13.11.1756. 14.06.1754. A Sebastião José. MCM-AEP,
Para o ex-secretário de Estado da vol. 2, p. 176-177.
Marinha e Ultramar, Diogo de Mendonça Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
Corte Real. Projeto Resgate/AHU, Pará governador e capitão-general do Estado
(avulsos), Cx. 41, documento 3816. do Pará e Maranhão. Carta. Pará,
D. João V, Rei. Carta. Lisboa, 22.03.1740. Para 10.09.1754. A Sebastião José. MCM-AEP,
o Governador e Capitão-General do vol. 2, p. 210-211.

40
EXPRESSÕES MATERIAIS
do sistema de objetos culturais do povo Anambé

* Irana Bruna Calixto Lisboa

Resumo: Este trabalho versa sobre as formas de expressões do povo indígena Anambé,
especificamente, a cultura material produzida pelo grupo. A particularidade de cada povo indígena
permite a variedade de técnicas e critérios artísticos para a produção dos objetos. O artigo elucida
os significados atribuídos pelos Anambé aos seus objetos enquanto expressões étnicas e culturais.
Para produção e reprodução da cultura material é indispensável a aplicabilidade dos saberes
indígenas difundidos entre os Anambé, bem como a apropriação de novos elementos por meio de
intercâmbios culturais. A metodologia adotada foi pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo. Os
interlocutores ressaltaram a importância da cultura material ao destacá-la como uma marca que
representa a identidade dos Anambé.
Palavras-chave: Saberes Indígenas. Formas de Expressão. Objetos Culturais. Cultura Material.
Anambé.

INTRODUÇÃO viveu com a população a qual ele estava


pesquisando. As observações em campo e os
materiais coletados resultaram na sua obra
Este artigo versa sobre a cultura material
“Os Argonautas do Pacífico Ocidental”, que
Anambé, que está inserida no cotidiano do
se tornou uma referência indispensável para
grupo de diversas formas e atrelada no
os antropólogos e estudantes de
contexto social, cultural, político e
Antropologia. Malinowski (1976) afirma que
econômico. O trabalho pretende explorar a
os fenômenos sociais devem ser analisados
incorporação das coisas à vida dos Anambé
de forma holística. Segundo o autor:
através da reflexão sobre a cultura material
indígena, bem como os significados o etnógrafo de campo deve cobrir séria e
atribuídos aos objetos culturais. sobriamente os fenômenos em cada
O presente trabalho foi elaborado por aspecto estudado da cultura tribal, não
meio da pesquisa desenvolvida para o estabelecendo diferenças entre aquilo que
mestrado que resultou na dissertação é lugar comum, monótono ou vulgar, e
denominada “Cultura Material e Memória: aquilo que o surpreende por ser espantoso
e raro. Ao mesmo tempo, toda a amplitude
um estudo sobre a coleção etnográfica
da cultura tribal deve ser pesquisada em
Anambé do alto rio cairari (PA)” defendida todos os seus aspectos. A consistência, a
em 2017, pelo Programa de Pós-graduação lei, e a ordem que se revelam em cada
em Sociologia e Antropologia (PPGSA/ aspecto contribuem, simultaneamente,
UFPA), na área de concentração em para a construção de um todo coerente”
Antropologia. (MALINOWSKI, 1976, p. 25).
A pesquisa antropológica realizada em
campo exige que o pesquisador se desloque Ingold e Lucas (2007) asseguram que a
para uma região em busca de informações antropologia não é um estudo de pessoas,
sobre os fenômenos sociais que se propõe a mas sim uma maneira de se estudar com as
estudar. Nesta perspectiva, Bronislaw pessoas, ou seja, o antropólogo aprende a ver,
Malinowski utilizou o método etnográfico e a ouvir e a sentir as coisas gradativamente.

* Graduada em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia (UFPA). Mestre em Antropologia pelo Programa de Pós-graduação
em Sociologia e Antropologia (PPGSA/ UFPA). Endereço: Passagem Doutor Luís Régis, nº 79. Bairro: Sacramenta. Cep:
66123460. E-mail: iranabruna@hotmail.com

41
Esta ciência proporciona o aprendizado sobre da família Cotingidae. Em campo, os
o mundo, os seres humanos e as sociedades. interlocutores confirmaram que anambé é o
A antropologia também fornece uma nome de um pássaro, e os “índios antigos”
educação perceptiva do mundo, abrindo escolheram para ser o nome do grupo
nossos olhos para outras formas de ver o indígena.
mundo, possibilitando novas experiências e Os Anambé foram considerados
descobertas. extintos (NIMUENDAJU, 1948). Darcy
Ao longo da incursão em campo, o Ribeiro (1996) não mencionou os Anambé em
antropólogo vive em dois mundos distintos, seu levantamento sobre os grupos indígenas
pois adentra no mundo cultural do grupo do Brasil. O grupo não estava extinto, apenas
estudado e, ao mesmo tempo, permanece em desaparecera da região que ocupava
seu mundo cultural de origem. De acordo tradicionalmente, na margem esquerda do
com Evans–Pritchard (2005): rio Tocantins, especificamente no alto Pacajá.
De acordo Mattoso (1908), os Anambé
Na verdade, entra-se numa outra cultura, residiam entre os rios Pacajá e Irinauá.
mas ao mesmo tempo guarda-se uma Depois, voltaram a aparecer na margem
distância dela. Não é possível ao
direita do rio Tocantins, na região do rio
antropólogo tornar-se verdadeiramente
um Azande, um Nuer ou um beduíno, a Cairari.
atitude mais digna a seu respeito talvez Napoleão Figueiredo (1983) descreve a
seja a de manter-se, no essencial, apartado forma pela qual o grupo chegou ao rio
deles. Pois, de qualquer modo, sempre Cairari, especificamente à região do Sipoteua:
seremos nós mesmos e nada mais –
membros de nossa própria sociedade, O atual aldeamento Anambé está
visitantes numa terra estranha. Talvez localizado no rio Cairari, acima do Lago
seja melhor dizer que o antropólogo vive Grande e em frente ao furo do igarapé
simultaneamente em dois mundos Bacuri. Até onde vai a memória tribal, as
mentais diferentes, construídos segundo informações colhidas indicam que o grupo
categorias e valores muitas vezes de difícil veio para esse rio, das cabeceiras do rio
conciliação. Ele se torna, ao menos Moju, após luta com os Gaviões que o
temporariamente, uma espécie de expulsaram desse território. Desceram o rio
indivíduo duplamente marginal, alienado Moju, sempre perseguidos pelos Gaviões, e
e de dois mundos (EVANS-PRITCHARD, encontraram-se com a população
2005, p. 246). interiorana desse rio, na altura do igarapé
Cachoeira, nas proximidades do igarapé
Para o desenvolvimento da pesquisa Água-Clara; cruzaram o divisor de águas
utilizei o método etnográfico na perspectiva entre os rios Moju e Cairari e levantaram
de entender a correlação existente entre os aldeia no lugar Sipoteua, nas proximidades
Anambé e os seus objetos culturais. O do igarapé do mesmo nome
(FIGUEIREDO, 1983, p. 75).
método etnográfico foi empregado por meio
da pesquisa de campo, mediante conversas Segundo Figueiredo (1983), o
informais, entrevistas semiestruturadas e comerciante Bernardino Inácio dos Santos
gravadas, bem como levantamento estabeleceu contato e amizade com os
bibliográfico e documental na perspectiva de Anambé quando estavam localizados em
compreender os significados atribuídos à Sipoteua. Posteriormente, construíram uma
cultura material entre os Anambé. aldeia na foz do igarapé do Marinheiro, nas
proximidades do Lago Grande, na Aldeia
Velha.
O POVO ANAMBÉ Anaíza Vergolino (1990) afirmou que
Bernardino morou no Cairari, e então
convenceu os Anambé a se instalarem no
Segundo Nimuendaju (1948), o termo
Lago Grande do Cairari, onde fixaram-se e
“anambé”, na Língua Geral, é aplicado a um
após um tempo mudaram-se para outros
considerável número de espécies de pássaros
quatro lugares próximos ao Lago.

42
Segundo o Processo município de Moju, no estado do Pará. A
FUNAI/BSB/1036/1979, o povo Anambé língua materna dos Anambé faz parte do
ocupou várias aldeias às margens do Cairari tronco linguístico Tupi, família linguística
(Sipoteua, Marinheiro, Queimada Grande, Tupi-Guarani. Todavia, a língua anambé
Urubu), sempre descendo o rio até chegar à perdeu a vitalidade e adotaram o português
margem direita do Cairari, entre o igarapé como língua corrente.
Bacuri e o furo do Bacuri. Nessa perspectiva, O trajeto percorrido para chegar até a
o mapa a seguir mostra o deslocamento do Aldeia Anambé ocorre por meio de um
grupo (Figura 1). ônibus com destino à Mocajuba. Em seguida,
A Terra Indígena (T.I) foi demarcada no é necessário pegar uma condução rumo à Vila
ano de 1984, pela 2ª DR/FUNAI, e Elim, localizada às margens do rio Cairari,
homologada em 29 de outubro de 1991, pelo onde a chegada na aldeia acontece por meio
Decreto nº 304, publicado no Diário Oficial da de rabeta1.
União de 26 de dezembro do mesmo ano. A Em torno da Terra Indígena Anambé
Terra Indígena Anambé faz parte da desenvolveram-se dois centros
Mesorregião do Baixo Tocantins, com área de populacionais, que permitem o contato do
aproximadamente 8.150 hectares, sob a grupo indígena com a sociedade nacional. A
jurisdição da Administração Executiva primeira é a cidade de Mocajuba, situada às
Regional (ADR) da Fundação Nacional do margens do rio Tocantins, com população de
Índio de Marabá. A dimensão da T.I. não 26.731 habitantes, distribuídos em uma área
coincide com a demarcação realizada em de 870, 809 km2 (IBGE, 2010); e a segunda é a
1976, que abrangia as duas margens do Vila Elim, um vilarejo com aproximadamente
Cairari. A redução da área foi uma decisão do 800 habitantes.
grupo, que alegou não utilizar os dois lados Os Anambé deslocam-se
do rio (Processo FUNAI/BSB/1036/1979). frequentemente até a cidade para vender
farinha aos comerciantes da feira de
Figura 1 - Mapa do deslocamento dos Anambé. Mocajuba, comprar outros gêneros
alimentícios, receber o auxílio do Bolsa
Família e as aposentadorias a que têm direito,
além de darem continuidade aos estudos,
principalmente o ensino médio.
Na Terra Indígena Anambé residem 186
pessoas, distribuídas em seis núcleos criados
pela comunidade, que considerou adequado
a organização do espaço desta maneira. No
início da T.I. encontra-se o primeiro núcleo.
Neste núcleo há criações de animais
domésticos como galinhas, bois, vacas,
cavalos e um bode, mas não dispõe de rádio
e água tratada. Há dois núcleos bem
próximos – núcleo da escola e núcleo do
posto de saúde. Estes dois núcleos têm
melhores condições e são os locais para onde
as pessoas dirigem-se quando buscam
Fonte: Figueiredo, 1984. assistência à saúde e também o acesso à
escola. Os núcleos contam com fornecimento
No momento, o povo indígena Anambé de água encanada através da caixa d'água e
habita a margem esquerda do alto rio Cairari, comunicação via rádio. No centro da T.I. há
afluente do rio Moju, que tem seu curso no um núcleo próximo à mata fechada, o local

1 Embarcação de madeira com motor utilizada para o


deslocamento por água.

43
não possui água tratada e nem rádio. Outro para, a partir daí, evidenciar a amplitude do
núcleo também não há água tratada e nem significado de ser Anambé.
serviço de rádio. No final da T.I. localiza-se o Miller (2013) afirma que os objetos têm
último núcleo. a capacidade de determinar o
As atividades de subsistência do grupo comportamento e a identidade humana, já
baseiam-se na caça, pesca, agricultura e que os objetos constroem os indivíduos e
produção de farinha. As casas são estes constroem seus objetos, portanto, há
construídas com a madeira retirada do uma relação de construção mútua entre eles.
território, cujo modelo é similar ao regional, A cultura material consiste no conjunto
dividida em sala, cozinha e quartos; e o de itens que podem ser pensados como artes,
banheiro é construído fora da casa. objetos utilitários e artesanatos (FARGETTI,
Ao redor das casas existem árvores 2010), por exemplo. Os estudos de cultura
frutíferas de goiaba, muruci, manga, abacaxi, material dizem respeito à análise dos
limão, entre outras. Eles criam galinhas e artefatos, do ponto de vista da sua função, do
patos nos terreiros de suas casas e plantam seu valor como documento histórico,
principalmente mandioca, milho, abóbora, artístico, simbólico e de identificação étnica
melancia e melão. (RIBEIRO, 1988).
Nos estudos referentes à cultura material
deve-se fazer uma investigação minuciosa,
que permita desvendar não só as técnicas de
CULTURA MATERIAL INDÍGENA: confecção, como também os usos e os
ALGUNS APORTES TEÓRICOS significados de cada artefato no seio da
sociedade que os produziu e/ou os utiliza no
As sociedades indígenas utilizam-se de seu cotidiano (VIDAL; SILVA, 1995). Nestes
expressões da cultura material nas suas termos, constata-se que nas aldeias indígenas
práticas cotidianas, que podem ser a partir das a cultura material participa decisivamente da
formas utilitárias que assumem, em ocasiões produção e da reprodução social, definindo
de rituais ou como marcadores de identidade. relações individuais e coletivas, confirmando
Os indígenas, portanto, relacionam-se com as papéis sociais e reforçando valores
suas coisas, que agregam informações a fundamentais (VELTHEM, 2007).
respeito do grupo ao qual pertencem. Por isso, Alguns trabalhos sobre populações
torna-se imprescindível estudar os artefatos indígenas abordaram a relação existente
indígenas para compreender o contexto entre a cosmologia e a cultura material, tais
sociocultural dos Anambé. como Santos-Granero (2012) e Stephen Hugh-
Neste sentido, Daniel Miller (2013, p. 12) Jones (2012), por exemplo.
indicou que “(...) uma apreciação mais Na introdução do livro “La Vida Oculta
profunda das coisas nos levará a uma de Las Cosas: teorias indígenas de la materialidade
apreciação mais profunda das pessoas”. y la personalidade”, Santos-Granero (2012)
Além disso, o autor menciona que para ressaltou que os objetos fazem parte das
compreendermos a nossa humanidade é cosmologias e dos imaginários dos povos
indispensável levar em consideração a indígenas amazônicos. A função principal
materialidade das coisas que cercam os dos objetos é a criação e a constituição dos
indivíduos. Por outro lado, as coisas nos humanos, dos animais e das plantas. O autor
constroem, ou seja, existe uma relação social salienta, ainda, que na epistemologia da
entre os humanos e as suas coisas; como cultura material ameríndia os objetos
indica o autor, nenhum ato humano é surgiram como seres primordiais, pois estes
realizado sem as coisas que o cercam. No que eram partes dos corpos dos antepassados
diz respeito ao estudo em pauta, a ameríndios, isto é, os objetos são os seres
abordagem envolve a relação que o povo criadores das pessoas (Idem).
Anambé estabelece com as suas coisas, no Outro autor que aborda a cultura
caso, os componentes da sua cultura material material na cosmologia indígena é Stephen

44
Hugh-Jones (2012), quando trata do mito de durante a estadia em campo não presenciou
criação dos Tukanos que habitam a região de nenhum ritual Anambé.
Vaupés. No mito em questão, evidenciou-se Dando continuidade ao relato sobre o
o papel de cada objeto na criação do mundo. estabelecimento do artesanato no contexto do
Ademais, esse grupo indígena acredita que grupo, na entrevista realizada com a linguista
os objetos representam as partes do corpo Risoleta Julião, indaguei sobre o uso e
humano. confecção de adornos corporais. A
Diferentemente dos grupos indígenas pesquisadora respondeu que os adornos
estudados pelos autores citados, no caso dos corporais entre os Anambé foram inseridos a
Anambé, o povo não tem um discurso sobre partir do contato deles com outros povos
a inserção dos objetos indígenas no período indígenas:
da criação do mundo.
Egon Schaden, em seu livro “Aspectos Quando eu cheguei lá; a primeira vez que
fundamentais da cultura Guaraní”, eu fui lá, nada! Eles não usavam nada,
absolutamente nada! Depois de um certo
publicado em 1974, abordou as modificações
tempo, aí que eles começaram a sair, né,
da cultura material dos Guaraní. Schaden depois que eles começaram, porque
afirma que a transculturação provocou quando eu ia lá, eles não saíam da aldeia;
transformações no âmbito da cultura material eles, no máximo, só iam até Mocajuba, que
e imaterial dos Guarani. também não tinha estrada, não tinha nada;
Para Fernando Ortiz (1983) pra gente chegar lá era super complicado,
transculturação consiste no tanto que tudo quem resolvia pra eles era
praticamente esse seu João Simão. É que
compartilhamento de culturas que provoca
eles tinham vindo a Belém, aqui, no tempo
mudanças de uma cultura diante da outra, a do Barata, Durica dizia. Mas aí quando
partir do enlace de culturas distintas. A partir eles começaram a sair, Pedrinho começou
das contribuições de Schaden, constata-se a fazer aqueles capacetes, a partir dos
que houve uma mudança na cultura material Kayapó; eles começaram também a vir pra
Anambé gerada pela transculturação entre casa do índio fazer tratamento, naquele
outros povos indígenas e a sociedade contato com os outros índios eles
começaram a fazer.[...] Quando eu cheguei
nacional. A partir disso, ocorreu a inserção de
lá, a única coisa que eles ainda faziam era
elementos novos, que foram sendo os cestos. Eu não sei se hoje ainda eles
apropriados pelos Anambé ao longo do fazem, depois eles resolveram fazer
tempo. alguma coisa de colar, de capacete como
eles dizem né, mas já se apoiando em
outros, em outros índios, no trabalho de
outros índios; eles mesmo não tinham
A INSERÇÃO DOS ARTESANATOS (Fonte: Entrevista realizada com Risoleta
Julião, 2015)
NA VIDA DOS ANAMBÉ
Risoleta Julião lembrou que no início de
Para a constituição do artesanato sua pesquisa junto aos Anambé eles não
Anambé na atualidade houve o empenho do usavam adornos indígenas. Entretanto,
grupo em prol do desenvolvimento de seus quando eles começaram a deslocar-se para
adornos, assim como a dança, o canto e a fora da aldeia, o artesanato começou a ser
língua materna. A fotografia de Napoleão produzido. Segundo ela, tendo como base os
Figueiredo com os Anambé (Figura 2), objetos dos índios Kayapó e de outros povos
realizada em uma maloca, no final da década indígenas que faziam tratamento de saúde na
de 1960, revelou o formato dos rostos e olhos, Casa de Atenção à Saúde Indígena (CASAI),
a textura lisa dos cabelos pretos, pés em Icoaraci, distrito de Belém. A
descalços, postura corporal, roupas, e o colar pesquisadora comentou sobre os
utilizado por uma das mulheres na foto. intercâmbios culturais promovidos entre as
Além disso, Anaíza Vergolino relatou que populações indígenas, que foram
oportunizados durante os tratamentos de

45
saúde realizados em um local específico Cada grupo indígena tem um estilo próprio
destinado a acolher os povos indígenas no na elaboração de seus artesanatos. Além
estado do Pará. disso, a arte indígena pode abarcar três
aspectos: técnico, artístico e ritual. O primeiro
Figura 2 - Napoleão Figueiredo com os Anambé, baseado na técnica de elaboração, o segundo
em 1969. baseado no critério da arte e o terceiro
voltado para a arte dos objetos utilizados nos
rituais (MELATTI, 1993).
Os três aspectos da arte indígena estão
presentes entre os Anambé por meio de
técnicas de confecção de artesanato
peculiares. Por exemplo, ao elaborar colares e
pulseiras com os ossos de jiboia, eles utilizam
os ossos da serpente porque ela não é
peçonhenta. O procedimento necessário para
utilizá-la nos objetos culturais é o de enterrar
a cobra morta por alguns dias, para que
restem apenas os ossos que serão usados na
Fonte: Página do Facebook do Laboratório de feitura dos artesanatos.
Antropologia da UFPA.
Outra técnica de confecção de
artesanato é de fritar o bambu (Bambusa
Em suma, a partir da afirmação de
vulgaris) por três minutos no óleo para que
Risoleta Julião, pode-se inferir que os
mude de tonalidade, tornando-se mais
Anambé incorporaram elementos de
escuro. O aspecto artístico peculiar de cada
referência de outras populações indígenas e,
artesão, que imprime a sua personalidade e
a partir de então, construíram novos objetos
criatividade em suas peças. O aspecto ritual
culturais baseados nesses referenciais.
consiste na forma de uso das saias de enviras2
A antropóloga Anaíza Vergolino e a
(Xylopia frutescens Aubl.) ou saias de
linguista Risoleta Julião realizaram trabalhos
sementes de tento3 (Adenanthera pavonina L.),
junto ao grupo em épocas diferentes. A
adornos de cabeça masculinos e femininos,
primeira no final da década de 1960 e a
adornos de braço feminino utilizados em
segunda no início da década de 1990, porém,
apresentações na cidade de Mocajuba ou na
ambas discorreram sobre a relação dos
Vila Elim, brincadeiras no interior da aldeia e
Anambé com os seus objetos culturais.
a festa do Dia do Índio.
Conforme o relato de Anaíza Vergolino,
Hoje, na aldeia, os artesanatos
durante os anos 1960 não havia nenhum tipo
produzidos com maior frequência são os
de artesanato, ritual ou práticas de grafismo.
anéis, paus de cabelo, cordões, pulseiras,
A única característica étnica dos Anambé era
brincos e cocares. Assis e Neves (2013)
a língua materna, enquanto Risoleta Julião
afirmaram que as matérias-primas utilizadas
mencionou o despertar da inserção do
na elaboração dos artesanatos eram as
artesanato nos anos 1990. Portanto, o
seguintes: sementes, ossos de jiboia, as
contexto social da comunidade encontra-se
cartilagens e peças de casco de jabuti. Além
em transformação.
disso, são utilizados dentes de macaco e de
As populações indígenas do Brasil estão
catitu, cascos de tatu, cascas de coco, bambu
vivendo suas manifestações artísticas e
(Bambusa vulgaris) e ossos de boi. As sementes
culturais, que tomam as mais diversas
de uma planta chamada “lágrimas de Nossa
formas, segundo as etnias existentes no país.
2Fibra retirada da entrecasca das árvores da família 3 De acordo com Júnior et al. (s.d.) é uma semente florestal,
Annonaceae. leguminosa pertencente à família Fabaceae, subfamília
Mimosoideae, conhecida popularmente como tento-
vermelho, carolina e saguê. Disponível em:
<http://www.ebah.com.br/content/ABAAAgbhUAB/arti
go-tento-carolina>. Acesso em: 7 nov. 2016.

46
Senhora”, “tento”, “carrapatinho”, inajá diferenciadas a respeito do uso das contas de
(Maximiliana maripa (Aubl.) Drude), morototó vidro.
(Didymopanax morototonii), caroço de açaí A artesã Vanusa afirmou que o
(Euterpe oleracea), assim como de outras artesanato deve ser produzido “sem
sementes, que os interlocutores desconhecem miçangas, pois não são coisas de índios”
a nomenclatura, mas encontram no interior (ASSIS; NEVES, 2013). Tal afirmativa denota
da Terra Indígena. As plumas e penas são de a sua percepção sobre o artesanato indígena,
galinha, tucano, arara, nambu, jacamim, subentendendo-se que deve ser usada
mutum, jacu, gavião e papagaio coletadas na sementes e penas ao invés de miçangas. A sua
T.I. ou compradas dos ribeirinhos que percepção é algo particular, pois as outras
residem na margem direita do rio Cairari. duas artesãs, Raiane e Japona, trabalham com
Os Anambé usufruem dos recursos miçangas.
naturais do seu território retirando a Japona é um exemplo de artesã que
alimentação e as matérias-primas necessárias adotou as contas de vidro no seu trabalho,
para confecção de seus adornos e objetos da pois em conversas informais, a interlocutora
cultura material. A coleta do material afirmou que insere miçangas na cor preta em
utilizado na confecção do artesanato é feita suas produções artesanais, uma vez que o uso
na Terra Indígena, embora também utilizem de contas de vidros coloridas é uma
materiais industrializados, como fios de característica dos índios Kayapó. Enquanto
náilon, que as artesãs chamam de “fibra”, o Raiane utiliza uma variedade de cores de
gancho do brinco, denominado pelas miçangas em seus artesanatos. Em suma,
interlocutoras de “pé de brinco” e as entre as artesãs não há um consenso acerca da
miçangas, que são comprados na cidade de utilização de miçangas. Portanto, as peças
Mocajuba. elaboradas pelas artesãs têm particularidades
A falta de alguns materiais comprados expressivas, que podem transmitir as
na cidade, tais como miçangas e “pés de concepções dos valores sociais ou
brinco” implica na pequena confecção de cosmológicos. Além de expressarem uma
alguns artesanatos, especialmente brincos, natureza coletiva, múltipla e transformativa,
visto que há poucos exemplares na aldeia, também retratam a cosmologia, o grupo
principalmente pela falta de material. indígena, os humanos e não humanos
Os três materiais – “fibra”, “pé de (VELTHEM, 2014).
brinco” e miçangas – são elementos exógenos Além disso, produção de artesanato
incorporados, que são utilizados com depende, por exemplo, do tempo disponível
produtos tradicionalmente utilizados pelos da produtora. Enquanto as mulheres estão
indígenas, como, por exemplo, o inajá de resguardo ou cuidando dos filhos, a
(Maximiliana maripa (Aubl.) Drude). O uso produção diminui, pois, os cuidados com o
das contas de vidros na elaboração do filho recém-nascido exigem atenção por
artesanato Anambé foi incorporado pelo parte da mãe. As artesãs alegam que os seus
contato com a sociedade europeia que filhos não permitem a produção de
realizava o escambo junto aos coletivos artesanato.
ameríndios. Em geral, as miçangas são O escoamento da produção artesanal é
apreciadas pelo seu caráter estético e pela incipiente, pois a venda limita-se aos
durabilidade (VELTHEM, 2010). funcionários da saúde indígena e aos
As contas de vidro são elementos visitantes que compram os artesanatos
externos que foram apropriadas e inseridas esporadicamente. A respeito disso, eles não
no artesanato. Várias comunidades indígenas produzem mais artesanatos porque as
fazem uso de miçangas para expressar sua pessoas que residem nas proximidades da
arte, e os Anambé não são distintos nesse aldeia não compram.
aspecto. Entretanto, três artesãs – Vanusa,
Raiane e Japona – detêm percepções

47
OS SABERES E FAZERES de cabelo. Ela comentou que os anéis de
sementes são esculpidos em dez minutos, e o
ARTESANAIS
tamanho depende das dimensões da semente.
A pigmentação dos motivos é feita com
A maioria da comunidade sabe alumínio derretido e, no acabamento, aplica-se
produzir algum tipo de artesanato, tanto a base de esmalte usada nas unhas. As penas e
homens quanto mulheres. Entretanto, as as plumas utilizadas nos artesanatos são
últimas dedicam mais tempo à produção obtidas pelo seu esposo, Dadá, que sai em
artesanal. Durante a pesquisa de campo, as busca de pássaros. Ele permanece, em média,
três artesãs – Vanusa, Raiane e Japona – duas horas no interior da mata para conseguir
produziram uma quantidade considerável de as penas para a próxima peça da sua esposa.
artesanato. Ao questionar Raiane sobre o
Ademais, as pessoas que contraíram significado e a importância do artesanato
matrimônio com um Anambé e residem na Anambé, ela respondeu: “Porque é da etnia
aldeia passaram a produzir os objetos da gente usar”. A resposta da interlocutora
culturais do grupo, como é o caso de Vanusa, expõe o artesanato enquanto uma
casada com o Cafu, cacique dos Anambé. Ela expressividade das culturas indígenas.
aprendeu a confeccionar artesanato quando Em uma ocasião na aldeia observei o
permaneceu na Casa de Atenção à Saúde marido de Japona, Mauro, elaborando um
Indígena (CASAI) em Icoaraci, para colar com dentes de macaco. Para que ocorra
acompanhar os doentes da aldeia. Outro a produção de objetos indígenas é essencial ter
exemplo é o esposo da Raiane, conhecido habilidades técnicas, conhecimento sobre as
como Dadá, que ajuda a sua companheira na matérias-primas e sobre o processo de
confecção dos adornos e detém o confecção, assim como a visão, os gestos das
conhecimento de alguns tipos de artesanatos mãos e outras aptidões para que o objeto seja
Anambé. concluído (VELTHEM, 2012).
Na aldeia, no ano de 2015, ao chegar às A artesã Japona confecciona cintos,
casas de Raiane e Japona, encontrei-as colares, anéis, pulseiras, paus de cabelo,
trabalhando em seus artesanatos. Na ocasião, tiaras e saias de sementes de tento. Ela utiliza
a primeira estava confeccionando uma sementes que traz de Moju, assim como as
pulseira de inajá (Maximiliana maripa (Aubl.) sementes disponíveis na Terra Indígena. A
Drude) e miçangas e a segunda estava interlocutora comentou que aprendeu a fazer
manuseando algumas penas. os adornos com seu irmão, Araújo, e
No mesmo ano, Raiane produzia comentou sobre a dificuldade em vendê-los,
adornos corporais em seu tempo disponível. mas que produz artesanato porque gosta de
Ela afirmou que gostava de fazer artesanato e, trabalhar com isso.
desta forma, produzia um número Vanusa, por sua vez, produz brincos,
considerável de objetos culturais, de uma colares e paus de cabelos com sementes e
criatividade impressionante, pois plumária. As sementes são plantadas por ela,
incrementou as presilhas de cabelo perto da sua casa, e as plumas adquiridas
compradas na cidade de Mocajuba e com os ribeirinhos, que residem no lado
adicionou sementes e miçangas para direito do rio Cairari. Ao observar o
expressar a sua arte. artesanato de Vanusa visualizei um colar
A interlocutora aprendeu a elaborar feito de sementes de morototó (Didymopanax
artesanatos observando a sua mãe, Dona morototonii) - que me chamou a atenção pela
Raimunda, que produz principalmente beleza, e perguntei sobre a confecção do
colares com costelas de jiboia, cascas de coco, colar. Ela disse que foi necessário muito
cascos de tatu, sementes de inajá e miçangas tempo de trabalho para fazê-lo.
pretas, além das pulseiras de inajá com Os instrumentos de trabalho que
miçangas pretas. auxiliam na elaboração dos artesanatos são os
O repertório de Raiane inclui anéis, seguintes: fuso, que os interlocutores
braceletes, pulseiras, colares, paus e acessórios

48
denominam de “fura fura”, usado para Alargadores de “tutano do boi” são
perfurar as sementes; lixa, utilizada para esculpidos com um terçado e deixado de
esculpir e dar forma aos adornos; facas para molho na água sanitária ou detergente para
retirar fragmentos de algumas sementes; e retirar o odor do animal. Entre os homens é
tesouras para cortar as “fibras” e fios. comum o uso de alargadores, entretanto
Em linhas gerais, as três artesãs alguns não utilizam por reações alérgicas.
produzem peças indígenas singulares em sua Outro material utilizado como alargador é o
essência, embora diferenciadas na estética e bambu (Bambusa vulgaris), mas o osso de boi
na conceituação, pois cada uma elabora os é o mais difundido.
objetos de acordo com seus critérios artísticos As expressões materiais utilizadas em
e estéticos (VELTHEM, 2014). Ademais, a apresentações, brincadeiras e na Festa do Dia
criatividade com que produzem suas obras do Índio são outros tipos de objetos. As
deixa marcas do toque pessoal e da visão de mulheres usam tiaras com sementes de tento
mundo de cada artesã, a partir da confecção e penas de arara, paus de cabelo, braçadeiras
dos objetos. Nesse sentido, a arte indígena emplumadas com penas de arara, colares,
detém um caráter cognitivo que aborda a cintos feito com sementes de tucumã
visão e o sentido que é atribuído pela (Astrocaryum aculeatum) e chocalhos feitos
população indígena (VELTHEM, 2012), mas com sementes de “carrapatinho”. Os homens
não prescinde da perspectiva subjetiva de seu usam cocares, colares, arco e flecha dentre
realizador. outros.
A partir das observações realizadas em Em campo, questionei à Maria Anambé
campo foram identificadas que as mulheres sobre o significado do artesanato para a
desconhecem a técnica de feitura dos cocares comunidade. Na ocasião, a interlocutora
usados pelos homens. Os cocares são feitos acrescentou a relevância do grafismo
com penas de pássaros e palha de coco, na enquanto característica das populações
qual se inserem as penas e assim vai tecendo indígenas:
o cocar.
O artesanato significa tudo, é um símbolo!
O artesanato é uma marca, é igual à
pintura. A pintura e o artesanato são uma
O USO ARTESANAL NA ALDEIA marca, um símbolo que mostra o que tu és.
Se tu bota uma pintura em ti, já sabe que é
ANAMBÉ cultural, que é indígena. Se tu tá usando
um brinco ou um colar, sabe que é cultural;
Os produtos artesanais são utilizados na é uma marca que tu tens que precisa ser
vida diária da população ou em bem preservada e nunca pode apagar,
porque é o que te valoriza, é o que tu és, é
apresentações na cidade de Mocajuba ou
a marca que tu tem (...). Se tu usa um
mesmo na Vila Elim, bem como nas artesanato é porque tu estás se
brincadeiras e na Festa do Dia do Índio, representando, então, você é marcado
comemorada na aldeia. No cotidiano, as sobre aquilo ali; é uma marca que tu
mulheres Anambé usam principalmente carrega pro resto da tua vida, se tu não
pulseiras, anéis e colares, enquanto os esquecer daquilo ali, então é uma marca
homens utilizam alargadores na orelha. muito boa que tem, que te representa, é um
destaque que o índio tem quando ele tá
As pulseiras podem ser feitas de
pintado, quando ele tá usando artesanato,
sementes de inajá (Maximiliana maripa (Aubl.) é destacado no meio de uma população
Drude), de sementes de tucumã (Astrocaryum imensa de pessoas. O artesanato destaca a
aculeatum), de ossos de boi esculpidos em pessoa, hoje em dia o índio está sendo
formato de losango, bem como pulseiras de reconhecido mais por isso e é uma parte
miçangas. Anéis de sementes de tucumã, de muito importante da cultura do índio é a
pupunharana e sementes de inajá. Colares pintura, a dança, o artesanato e a língua
materna (...), o índio tem uma etiqueta
confeccionados com costelas de jiboia, de
sobre o artesanato (...); ele é reconhecido
sementes, de miçangas.

49
por isso, o índio sem cultura não é índio mencionou que o professor da língua
não, é qualquer pessoa. materna tem o papel de contribuir para o
resgaste da cultura, das danças e dos
Maria Anambé ressalta o artesanato e a artesanatos para que permaneçam na
pintura como símbolos da identidade memória do grupo. Pois, segundo Maria
indígena. Em suma, o discurso evidencia que Anambé: "Se a cultura acabar, o índio vai
os artesanatos e os grafismos são tratados junto!"
como símbolos e marcas da identidade dos Portanto, os Anambé estão
Anambé, que precisam ser preservados para empreendendo esforços para a realização de
que a comunidade seja valorizada enquanto artesanatos, danças e grafismos com a
grupo indígena. finalidade de promover a sua “viagem de
Berta Ribeiro (1989) chamou a atenção volta", que consiste em resgatar as suas
sobre a simbolização dos objetos indígenas, origens, desenvolver as práticas e as tradições
que são repletos de heranças e de tradições culturais, e trazer à tona os elementos do
culturais. Além disso, os objetos enquanto passado de forma imbricada com o presente,
expressões materiais de cultura permitem viajar no tempo e no espaço em busca da
que a identidade indígena seja reconhecida: história dos seus antepassados para
reaprender os saberes que foram esquecidos
Tornados herança e tradição, certos
objetos materiais vêm a ser o ponto (PACHECO DE OLIVEIRA, 1999).
culminante de um processo de
simbolização. Representam o esforço de
um grupo humano em legitimar-se pelo
seu passado. Essa busca de legitimação, ARTE E CRIATIVIDADE: AS
através de símbolos, é comum ao índio e REELABORAÇÕES ARTESANAIS
ao branco. Quando ela se sedimenta, o
artefato-símbolo se torna o espelho da ANAMBÉ
identidade. Por sua durabilidade, a
cultura material tem uma existência que se O artesanato Anambé está passando por
prolonga no tempo (RIBEIRO, 1989, p. um processo de reelaboração, que consiste na
118).
incorporação de elementos externos ao
grupo, desde elementos nacionais como a
O artesanato indígena configura-se
bandeira do Brasil ou matérias-primas de
como uma das formas de resistência da
procedência estrangeira como, por exemplo,
identidade étnica, pois no momento em que a
a utilização de ossos de boi obtidos por meio
pessoa almeja fazer valer sua condição
do contato com outras populações indígenas
enquanto membro de uma população
ou não indígenas, que fomentam alterações
indígena e o direito à posse de seu território,
das suas técnicas e estilos.
ela utiliza-se dos artesanatos e de grafismos
No caso Anambé, são utilizados
para reivindicar tal direito garantido na
motivos decorativos oriundos da sociedade
Constituição Federal Brasileira (RIBEIRO,
nacional, tais como bandeira brasileira,
1989). Ademais, os povos indígenas gostam
corações, guitarras ou adornos com frases
de usar os artesanatos para diferenciarem
“Deus é fiel”. Esses elementos foram
entre si, por exemplo, a utilização do cocar é
incorporados e reproduzidos como motivos
feita pelo chefe do grupo.
decorativos que podem ter sido observados
Maria Anambé comentou que os
na televisão, nos livros ou em fotografias
artesanatos e os grafismos são representações
(RIBEIRO, 1989b).
que diferenciam os indígenas da população
O artesanato anambé caracteriza-se por
nacional. Essas expressões artísticas, assim
uma “estética da mudança”, que significa
como a dança e a língua materna
variadas formas de reelaborações do sistema
proporcionam o reconhecimento do indígena
de objetos, pelo qual os grupos indígenas
no seio da sociedade nacional.
redefinem sua própria cultura, para resistir
Após responder à pergunta sobre o
social e politicamente aos impactos sofridos
significado do artesanato, a interlocutora

50
(GRABURN, 1976 apud RIBEIRO; as pessoas e os seus objetos. E também há um
VELTHEM, 1992). processo de construção mútua entre os
Nessa perspectiva, a arte indígena indivíduos e as suas coisas, isto é, os
retrata as modificações efetuadas ao longo do indivíduos constroem os seus objetos, assim
tempo, e também um processo transformativo como os objetos constroem os indivíduos.
que abarca o advento de visões, intuições e A cultura material indígena não é
técnicas que oportunizaram às comunidades estática, pois no decorrer do tempo passa por
criadoras adequarem-se a novas realidades um processo de reelaboração, renovação e
(VELTHEM, 2012). reconstrução por meio de elementos que
Lagrou (2010) discorreu sobre a estão sendo incorporados pelos Anambé, a
concepção de arte entre os povos indígenas, partir de intercâmbios culturais com povos
afirmando que tal visão difere da lógica indígenas distintos, assim como os
ocidental. Nas sociedades indígenas, não há casamentos interétnicos. Portanto, não se
um caráter individualista na confecção dos pode fazer recortes étnicos que apartem os
objetos, pois as produções são coletivas e objetos culturais de uma determinada
baseadas nos aspectos tradicionais dos população indígena, pois não é possível
coletivos indígenas. Já os artistas afirmar que os objetos de um grupo são
contemporâneos preocupam-se em deixar originários do mesmo; e se forem
marcas individualistas em suas obras. Outro identificados em outro grupo, não se pode
ponto ressaltado pela autora diz respeito aos alegar que foram incorporados
objetos indígenas serem considerados arte e indevidamente (GALLOIS, 2011).
artefato, pois são confeccionados para ter uma Assim, as reelaborações dos artesanatos
utilidade prática e serem objetos englobam um caráter tradicional, que diz
contemplativos entre os grupos indígenas. respeito às referências culturais do grupo
Ao longo do processo criativo de indígena; e de um caráter moderno pautado
produzir a arte Anambé os produtores na contemporaneidade, em que populações
relacionam-se com os objetos que são indígenas estão circunscritas. Por isso, tais
produzidos. Esses objetos são dotados de objetos possuem dois aspectos: o tradicional
vitalidade como os seres humanos, pois os e o moderno. As fotografias apresentadas
mesmos exercem uma função sobre o mundo (Figuras 3 a 5) expõem alguns exemplos das
e os indivíduos, mas nem todos os objetos reelaborações artesanais promovidas pelos
expressam intencionalidade. Além disso, os Anambé.
indivíduos compartilham suas vidas com
seus objetos, mas também os objetos não Figura 3 - Anéis de tucumã.
estão desconectados de quem os produziu e
o proprietário do objeto (GELL, 1998).
No processo de criação de objetos,
Lagrou (2012) afirma que os artefatos são
imagens encarnadas que adquirem um corpo
fixo através das mãos dos seus criadores, que
possuem a capacidade imaginativa de
criação. Ademais, as imagens não são apenas
estéticas, sendo consideradas também
pessoas e, assim, detentoras de agência.
Portanto, há uma relação social entre as
pessoas e as suas coisas, uma vez que estas Fonte: Pesquisa de campo, 2015.
constroem identidades, e também constroem
a humanidade dos indivíduos (MILLER, Os anéis confeccionados com tucumã
2013). Além disso, de acordo com Ingold (Astrocaryum aculeatum) possuem vários
(2012), as pessoas estão emaranhadas com as motivos, como corações, flores, pássaros,
suas coisas, pois não há uma separação entre peixes e traços elaborados por seus
produtores, Raiane e Dadá (Figura 3). O casal

51
trabalha junto na produção dos anéis, que que o esposo não indígena de Raiane
podem ser também de sementes de inajá Anambé passou a ajudá-la na produção do
(Maximiliana maripa (Aubl.) Drude) ou de artesanato e imprime suas representações,
pupunharana (Duckeodendron cestroides). Ele memórias e percepções de mundo às peças.
esculpe a matéria vegetal utilizada nos anéis
e Raiane contribui na composição estética das Figura 5- Brincos de osso de boi.
peças.
Outros povos indígenas também
produzem anéis de inajá e tucumã. Lux
Vidal (2009) afirma que os povos indígenas
do Baixo Oiapoque – Karipuna, Galibi
Marworno, Galibi Kali’na e Palikur
confeccionam anéis com motivos de animais
e incrustações de metais.
Fonte: Pesquisa de campo, 2015.
O bracelete de miçangas multicoloridas
apresentado na Figura 4 demonstra o diálogo No ano seguinte o adorno foi
entre o passado e o presente, entre a tradição confeccionado novamente e, desta vez,
e a modernidade do grupo, pois apresenta foram inseridas penas de papagaio. A
uma pulseira com motivo da bandeira do novidade do modelo de brinco feito com
Brasil que expressa a nacionalidade brasileira osso de boi voltado para o gênero feminino
exaltada pela artesã, Raiane, em sua propiciou a réplica do padrão, que se tornou
manifestação material abordada na forma de um exemplar do artesanato Anambé. Por
bracelete. fim, o grupo indígena está em um processo
de inventividade de seus objetos, quando o
Figura 4 - Bracelete de miçangas.
artesão cria uma peça, e a partir daquele
momento ela começa a ser produzida outras
vezes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As expressões da cultura material


Anambé nos anos 1990 obteve uma nova
configuração, pois diversos grupos indígenas
Fonte: Pesquisa de campo, 2015. estavam se apropriando de pinturas e de
artesanatos, por isso tomou-se a iniciativa de
O brinco reproduzido da Figura 5 é feito produzir artesanatos com o objetivo de
com osso de boi, mais especificamente com o promover práticas culturais provenientes dos
que denominam de “tutano”. Este produto povos indígenas.
possui origem externa ao grupo e foi Os artesanatos produzidos na aldeia
apropriado pelos Anambé, tendo sido retratam as técnicas, os estilos e as estéticas
inserido nos exemplares do artesanato do particulares do grupo. Os objetos culturais
grupo indígena. confeccionados com maior frequência são
O adorno da peça foi feito pelo Dadá, cocares, colares, pulseiras, braceletes, anéis e
que exprimiu seu esforço criativo ao elaborar paus de cabelo, que são utilizados para
o brinco com agilidade e esmero. Um ponto distinguir os Anambé de outros coletivos
discutível sobre a confecção do brinco por indígenas.
Dadá consiste no fato de que os artesanatos No que diz respeito à cultura material
Anambé configuram-se como uma criação produzida atualmente, Berta Ribeiro (1988)
coletiva e mestiça a partir do momento em asseverou que a cultura material é parte

52
integrante da cultura, portanto não é naturais da fauna e flora e ao território
estática, pois muda e se transforma indígena Anambé.
continuamente. Destarte, podem ser
verificadas mudanças ocasionadas por
padrões culturais distintos, referentes a
estilo e função, mas também da REFERÊNCIAS
disponibilidade de matérias-primas, da
influência de outros estilos e até mesmo das ASSIS, Eneida; NEVES, Jorge Lucas. Os
singularidades de cada artesão. Anambé do Alto Cairari: Paisagens da
Gallois (2011) discorreu sobre a memória. In: Iluminuras, Porto Alegre, v.
afirmativa de Ribeiro, ao frisar que a cultura 14, n. 34, p.33-49, ago./dez. 2013.
dos grupos indígenas “(...) não pode ser AZEVEDO, Neliza Maria Trindade. Crianças
abordada como um conjunto fixo de e Adolescentes Anambé – Cultura e
elementos que resistiram inertes ao passar do Perspectivas: subsídios para a intervenção
tempo. O processo inclui perdas, mas do Serviço Social em área indígena. 2004.
também acréscimos. E a incorporação de Dissertação (Mestrado em Serviço Social)
elementos novos ilustra exatamente a – Centro Socioeconômico, Universidade
vitalidade de uma cultura (...)” (GALLOIS, Federal do Pará, Belém, 2004.
2011, p. 24). EVANS-PRITCHARD, Edward. Bruxaria,
Assim, as duas autoras chamaram oráculos entre os Azande. Tradução
atenção para o fato de a cultura ser dinâmica, Eduardo Viveiroa de Castro. Rio de
e como parte desse processo de mudanças Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
alguns elementos culturais são perdidos, FARGETTI, Cristina. Cultura material
enquanto outros elementos vão sendo indígena: Questões lexicográficas. In:
incorporados; e isso só acontece em função CABRAL, Ana Suelly Arruda Câmara;
do vigor das culturas. RODRIGUES, Aryon Dall’lgna;
Uma vez que a cultura se transforma DUARTE, Fábio Bonfim (Orgs.). Línguas
continuamente ao longo do tempo, tal e Culturas Tupi. Campinas: Curt
processo acontece com as expressões da Nimuendaju; Brasília: LALI/Unb, 2010.
cultura material indígena. E no caso Anambé FIGUEIREDO, Napoleão. Os Anambé. Cultura
não é diferente, pois atualmente alguns Indígena: textos e catálogos. Belém:
exemplares do artesanato Anambé são Conselho Nacional de Desenvolvimento e
reelaborações produzidas a partir da inserção Pesquisa; Museu Paraense Emílio Goeldi,
de novos elementos, que incorporam p. 73-77,1983.
produtos como miçangas e ossos de boi, FUNAI-Fundação Nacional do Índio.
assim como motivos provenientes da Processo n. 1026/1979. Brasília: FUNAI,
sociedade nacional. Em outras palavras, a 1979.
partir do contato dos Anambé com outros GALLOIS, Dominique. Patrimônio cultural
povos indígenas ou não indígenas, verificam- imaterial e povos indígenas: exemplos no
se as mudanças na elaboração de seus objetos Amapá e norte do Pará, São Paulo: Iepé,
culturais. 2011.
Cada comunidade indígena cria as GELL, Alfred. Art and agency: an
formas e as funções de seus objetos. E anthropological theory. Oxford:
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55
A INFÂNCIA TUPINAMBÁ NA AMAZÔNIA SEISCENTISTA:
a educacão das crianças pelo olhar dos padres
capuchinhos Claude d`Abeville e Yves d`Évreux

* Jane Elisa Otomar Buecke


** Maria Betânia Barbosa Albuquerque

Resumo: Este trabalho focaliza as crianças Tupinambás que viveram na Amazônia, no século XVII
conforme o olhar dos padres capuchinhos Claude d’Abbeville (1874) e Yves d’Évreux (2007) em
suas crônicas escritas entre os anos de 1612-1615. O referencial teórico se baseia na História
Cultural que alça as crônicas como documentos históricos, nos permitindo, a despeito da visão
etnocêntrica, extrair ainda que sutilmente o modo de vida de sujeitos invisibilizados, como as
crianças indígenas. Os dados analisados evidenciam que essas crianças foram importantes
transmissoras da cultura autóctone na região amazônica e não absorviam passivamente as
instruções impostas pelo catolicismo pois mantiveram forte vínculo com seu grupo social.
Palavras-chave: História da Infância. Tupinambá. Educação colonial.

INTRODUÇÃO O foco da análise voltou-se para as


descrições em que são mencionados os
“meninos” e “meninas” e para as relações
Este artigo compõe uma pesquisa em
cotidianas em que havia troca de saberes,
andamento que se volta para a história da
entendidas como práticas educativas. Os
infância na Amazônia colonial, em particular
relatos foram lidos e fichados a fim de
do século XVII e, especificamente, para as
compreendermos que práticas eram aquelas
práticas educativas em que as crianças
nas quais as crianças estavam, de algum
estavam imbricadas.
modo, envolvidas. Com isso, a pesquisa
Nesse recorte, buscamos analisar a
aspira somar esforços no sentido de
educação das crianças Tupinambás conforme
minimizar:
os registros dos padres capuchinhos Claude
D’Abbeville e Yves D’Évreux. Ambos os a carência de trabalhos que percorram os
religiosos compunham a missão organizada relatos dos missionários religiosos e
por Daniel de La Touche que intentou viajantes e suas anotações sobre os hábitos
implantar uma colônia francesa na região – a das populações autóctones e de suas
França Equinocial (1612-1615). Suas obras relações com os adventícios europeus, em
relatam o contato dos padres com os nativos busca de práticas de sociabilidade ou
indícios de processos educativos de
onde as crianças são frequentemente
caráter não escolar, bem como as trocas
mencionadas como protagonistas em culturais entre diferentes civilizações
situações que chamaram a atenção dos (ABBATE, 2016, p. 28).
padres e, consequentemente, também a
nossa.1

* Mestra em Educação (UEPA/PPGED). Bolsista do CNPQ. Av. Hélio da Mota Gueiros, 135. Coqueiro-40 horas –
Ananindeua/PA. E-mail: janebuecke@yahoo.com.br
** Doutora em educação (UEPA/PPGED). Rua Benjamin Constante, 555. Reduto – Belém/PA. E-mail:
mbetaniaalbuquerque@uol.com.br
1 O texto de Abbeville foi produzido nos quatro meses em que permaneceu no Maranhão e foi publicado na França em 1614. Foi

traduzido para o português por Cesar Augusto Marques e publicado pela primeira vez em 1874 no Maranhão (ABBEVILLE,
1874). Já o padre Évreux permaneceu dois anos na região e escreveu o que ele mesmo chamou de Continuação da história das
coisas mais memoráveis acontecidas no Maranhão nos anos 1613 e 1614 porque considerava que seu texto acrescentaria o que o
D`Abbeville deixou de fora (ÉVREUX, 2007).

57
Assim, a fim de contribuir pensamento de uma determinada época e
epistemologicamente com o campo da realidade. Assim, a micro-história desponta
história da educação, em particular, com a como forma de abordagem do passado atenta
história da infância, neste estudo procuramos às minúcias e detalhes ligando o micro - a
compreender como ocorriam as práticas exemplo das práticas educativas e o cotidiano
educativas no cotidiano social das crianças da infância na Amazônia do início do século
que viveram na Amazônia no início do século XVII - com os aspectos macroestruturais,
XVII. neste caso, o contexto amazônico do século
Do ponto de vista metodológico, a XVII e o sentimento de infância vigente no
pesquisa configura-se como de natureza período (FONSECA, 2003). Trata-se assim, de
histórica, com uma abordagem qualitativa uma etnografia do passado em que o
sendo utilizados os procedimentos da pesquisador se debruça sobre as fontes
pesquisa documental em diálogo com a examinando as sutilezas e interpretando os
pesquisa bibliográfica. Teoricamente, baseia- sentidos das relações a fim de responder suas
se em Ariès (1986), Chartier (1990), Cunha & indagações.
Fonseca (2005) e Brandão (2002). Com o intuito de refinar o olhar sobre o
tema, realizamos uma busca virtual no site
Google sobre história da infância no período
colonial amazônico sem, contudo, nada
A INFÂNCIA NA PERSPECTIVA DA encontrar. A partir de marcadores outros
HISTÓRIA CULTURAL como História da Infância no Período Colonial e
História da Infância na Amazônia também
De acordo com Burke (2011, p. 25), ao poucos trabalhos apareceram.
perquirir outros tipos de fontes para Ao vasculhar os sites dos Programas de
responder seus novos questionamentos, os Pós-Graduação em Educação da
historiadores se depararam com problemas Universidade do Estado do Pará (UEPA), da
suscitados por essas fontes tais como, a Universidade Federal do Pará (UFPA) e da
dificuldade de “retratar o socialmente Pós-Graduação em História da UFPA, e
invisível”, ou acontecimentos específicos. Em analisar os títulos de todas as dissertações e
vista disso, importa considerar na análise das teses publicadas constatamos, que pouco
informações o etnocentrismo das fontes, que sabemos sobre práticas educativas
carregam consigo a visão cultural do seu envolvendo crianças na Amazônia Colonial.
autor. Afinal, as fontes utilizadas, referentes Na busca pelos estudos sobre história da
à Amazônia do séc XVII foram produzidas infância, destacou-se o francês Philippe Ariès
por religiosos e europeus, que registraram (1986) considerado um dos pioneiros na
uma interpretação particular da história. matéria. Suas pesquisas, realizadas no
Ainda assim, é possível perscrutar em tais período do Antigo Regime francês nos
relatos a visão dos próprios autóctones, séculos XVI, XVII e XVIII, enfatizam a
através da análise do contexto e do transformação da concepção de infância ao
cruzamento os dados obtidos com outras longo desse tempo, demonstrando o papel da
fontes. escolarização iniciada na Idade Moderna e a
Ao analisar o processo de inquisição emergência da vida privada como principais
contra um moleiro de uma vila na região de fatores que influenciaram tais mudanças.
Friuli, na Itália no século XVI, Ginzburg Para Ariès (1986), no século XVI a
(2006), por exemplo, buscou entender como criança começa a receber uma atenção antes
ele formou seu pensamento naquele não obtida da família. Os pequenos tornam-
contexto. Ele demonstrou, com isso, que os se o encanto da casa e são alvos de mimos e
documentos podem suscitar respostas gentilezas dos adultos, sentimentos esses não
diferentes de acordo com a pergunta evidenciados em tempos anteriores. Na
formulada, e que o exame meticuloso de um verdade, Postman (2012, p. 29), corroborando
objeto pode ser capaz de explicar o com Ariès (1986), considera que “no mundo

58
medieval não havia nenhuma concepção de dando visibilidade à história de milhares de
desenvolvimento infantil, nenhuma crianças no Brasil. Del Priore (2005, p. 17)
concepção de pré-requisitos de considera que “é preciso extraí-las do
aprendizagem sequencial, nenhuma anonimato e do silêncio em que se
concepção de escolarização como preparação encontram, pois elas são sujeitos históricos
para o mundo adulto”. também”. A autora demonstra que as teses de
A escolarização iniciada no século XVII Ariès não se aplicam ao contexto brasileiro
teve um papel decisivo na formação do uma vez que tanto “a escolarização como a
conceito de infância, quando os religiosos, emergência da vida privada chegaram com
tanto da Reforma protestante quanto da grande atraso” por aqui. Portanto, cabe aos
Contrarreforma católica, perceberam que a historiadores brasileiros buscar compreender
educação dos pequenos seria muito mais a nossa infância em seu contexto próprio.
eficaz para a formação de valores morais e Atualmente, há um certo consenso entre
doutrinação do que a educação dos adultos. os estudiosos da história da criança de que a
Conforme o autor, “é entre os moralistas e os concepção de infância é uma construção
educadores do século XVII que vemos histórica e sociocultural. Não há uma criança
formar-se esse outro sentimento da infância única e por isso não é possível estabelecermos
[...] que inspirou toda a educação até o século uma única concepção de infância. Corsaro
XX, tanto na cidade como no campo, na (2011, p. 97) aponta que os estudos históricos
burguesia como no povo” (ARIÈS, 1986, p. foram fundamentais para que que “as
151). crianças pudessem ser vistas como
No Brasil, a obra Casa Grande e Senzala, contribuintes ativas na produção e na
de Gilberto Freyre, pode ser considerada um mudança social enquanto criam,
marco na história da infância visto, que ao simultaneamente, suas próprias culturas
estudar a estrutura social presente no Período infantis”. Nesse sentido, é possível inferir que
Colonial brasileiro, explora as práticas sempre houve infância, mas para entendê-la
culturais e educacionais dos vários grupos é necessário compreender a cultura em que
étnicos que influenciaram a educação das tais crianças estavam imersas, mas não como
crianças em todo o país (FREYRE, 2006). Ao meros produtos dela, e sim como sujeitos que
descrever a estrutura social da Colônia, também produzem e transmitem cultura.
Freyre faz uma robusta etnografia em que Para tanto, faz-se necessário investigar como
focaliza, sobretudo, a vida cotidiana nas as crianças representam sua própria
estruturas sociais do Brasil Colonial. Em sua existência.
análise não deixa de fora a infância e, por isso, Monteiro (2005, p. 22) atesta a
pode ser considerado o pioneiro no estudo necessidade de pesquisas sobre a infância em
social sobre a criança no Brasil, destacando a outros períodos históricos, ao afirmar que “se
preponderância da família e do sistema a História da criança tem ganhado destaque
patriarcal naquele período. Para ele, a nos últimos anos, é ainda muito presa aos
distância entre crianças e adultos era temas da História contemporânea. Poucos
demarcada pela supremacia destes últimos, pesquisadores têm se debruçado na pesquisa
cabendo aos meninos almejar a vida adulta do cotidiano da vida da criança na Colônia
para se livrar da vergonha da meninice. como objeto central de sua análise”.
As crianças também foram alvo dos O estudo do cotidiano teve grande
estudos de Mary Del Priore que, em 1991, impulso a partir do movimento dos Annales
organizou e publicou um trabalho dedicado iniciado na França em 1929, quando os
à historiografia da infância. Intitulado historiadores se voltaram para a história do
História das crianças no Brasil, o livro reúne cotidiano social rompendo com a visão de
artigos de historiadores, sociólogos, história política preponderante até então.
antropólogos e outros especialistas que Com isso, ampliou-se o conceito de fontes de
abordam variadas narrativas sobre a infância pesquisa para todo e qualquer documento –
brasileira em épocas e contextos diferentes, escrito, pintado, fotografado, oficial ou não,

59
que ajudasse a compreender as mentalidades diversas situações educativas em que as
e as formas de viver do ser humano. Na crianças estavam envolvidas. Conforme
terceira geração dos Annales, conhecida propõe Kuhlmann Jr. (1998. p. 11), “A ideia é
como nova história cultural, a partir da encontrar a educação no estudo das relações
década de 70, vários temas da vida cotidiana sociais, no estudo da história”.
como a morte, a religião, a sexualidade, Para Fonseca (2003), a educação é “uma
hábitos alimentares, entre outros, se dimensão importante da conformação
tornaram objetos de investigação. Nas cultural de uma sociedade e como um dos
palavras de Peter Burke (2011, p. 11) “a nova indicadores das diferentes relações nela
história começou a se interessar por estabelecidas”. Por isso, o estudo das práticas
vitualmente toda a atividade humana”. educativas do cotidiano deve levar em
Segundo o autor, “a base filosófica da consideração os conflitos culturais e sociais
nova história é a ideia de que a realidade é presentes no contexto analisado. Para a
social ou culturalmente constituída” autora, tais conflitos, podem estar nas
(BURKE, 2011, p. 12). Isto quer dizer que ela pequenas estratégias cotidianas, nas diversas
não é previamente determinada pelas apropriações de valores, saberes, poderes.
estruturas econômicas e sociais, mas que as Por isso, torna-se importante a referência às
pessoas a constroem em suas relações sociais, noções de representação e apropriação, por
através de táticas de resistência e/ou permitirem a visualização de práticas
sobrevivência engendradas no cotidiano culturais presentes na sociedade brasileira e
(CERTEAU, 2014). Nessa concepção, não é suas diferentes formas de manifestação
mais possível “distinguir o que é central ou (FONSECA, 2003, p. 63).
periférico na história” (BURKE, 2011, p. 12). Ao falarmos de representação e
E a vida cotidiana, tida como irrelevante até apropriação nos remetemos às teorias de
então, passa a ser foco de interesse. Nesse Roger Chartier (1990) que focaliza seus
sentido, as práticas educativas ocorridas no estudos nas práticas e representações
cotidiano da Amazônia colonial erigem-se considerando estas como construções sociais
como objeto de investigação e as crianças, e históricas, fundamentais para a
antes invisibilizadas, adquirem o status de compreensão da própria história. Para o
sujeitos da história, podendo, portanto, ser autor, as formas de ver e entender o mundo,
tema de investigação. isto é, as representações, são sempre
O estudo das práticas é um dos determinadas pelos interesses dos grupos
paradigmas da Nova História Cultural que as formam e por isso os discursos devem
(BURKE, 2008). Assim, nosso interesse se ser entendidos a partir de quem os profere.
volta para as práticas educativas, ou seja, as Nessa concepção, ele define três formas de se
relações em que havia transmissão e relacionar com o mundo social: Na primeira
circulação de saberes (CUNHA e FONSECA, delas, considera que a realidade é construída
2005). Trata-se de uma tentativa de decifrar de forma contraditória pelos diversos grupos
estas práticas sabendo que elas são sociais que a compõem através de múltiplas
“produzidas pelas representações, configurações intelectuais. Esse
contraditórias e em confronto, pelas quais os entendimento é fundamental neste trabalho
indivíduos e os grupos dão sentido ao mundo uma vez que o contexto analisado é composto
que é o deles” (CHARTIER, 1991, p. 177). de múltiplos grupos com cosmovisões
Tais práticas não se restringem ao diferentes. Ao investigar as práticas
sistema escolar onde predomina, em geral, a educativas em que as crianças na Amazônia
transmissão de conhecimentos científicos. colonial estavam envolvidas não perdemos
Para além do saber científico, buscamos de vista as representações dos sujeitos
adentrar nos saberes culturais não inseridos nessas práticas e o modo como os
alicerçados, exclusivamente, na formação adultos compreendiam a infância.
escolar, mas no cotidiano social. Assim, Conforme Chartier (1990) as práticas de
focalizamos os saberes transmitidos nas um determinado grupo visam demarcar sua

60
identidade. Seus rituais e costumes, suas A EDUCACÃO DAS CRIANÇAS
atividades cotidianas levam à construção de
TUPINAMBÁS NA AMAZÔNIA
suas representações, daí a relevância de
estudar suas práticas. Nessa direção, COLONIAL
entendemos que nenhuma prática educativa
está solta no mundo e a análise do seu No início do século XVII, o povo
contexto é fundamental para compreendê-la. Tupinambá residente no litoral Norte do
Chartier (1990) recusa uma história “global” Brasil mantinha uma certa aliança com os
e valoriza as singularidades uma vez que franceses que já haviam estabelecido feitorias
indivíduos e grupos dão sentido ao mundo na região e exploravam os bens da terra
que os cercam por meio das representações através de negociações com os nativos. Em
que constroem da realidade. 1612 quando os franceses decidiram se
Uma terceira forma da relação do sujeito instalar de vez na região, construíram um
com o mundo social, ainda segundo Chartier forte na cidade de São Luís e trouxeram uma
(1990), é a maneira como os membros de um missão religiosa formada por padres
grupo representam sua existência em sua capuchinhos a fim de cristianizar a terra aos
comunidade. Assim, as formas de as crianças moldes franceses.
amazônidas do século XVII agirem e estarem Dois dos quatro padres que
no mundo, capturadas nas crônicas dos compunham a missão descreveram o que
religiosos, são fundamentais para se viram e legaram ampla informação sobre os
compreender o papel destas crianças em sua costumes daqueles povos. O padre Claude
comunidade e a relevância delas como D’Abbeville ficou apenas quatro meses na
transmissora de sua cultura. região e incumbido de relatar sua experiência
Nessa direção, o significado das escreveu um texto bastante detalhado com as
representações, muitas vezes impostas pelos características físicas do local, nomeando
religiosos, não era assimilado pelas crianças todas as aldeias existentes, seus chefes e as
tal qual intentavam. Daí a importância de impressões que teve enquanto ali esteve. Sua
estudar a forma como estas crianças lidavam visão é bem romântica e otimista pois via tais
com tais representações para, então, povos como joias a serem lapidadas que
compreendê-las. Este é, sem dúvida, um dos iriam enriquecer o reino: “ó França será
maiores limites deste estudo, pois só é enfeitada com o riquíssimo ornamento da
possível adentrar no universo social da glória, tecido com muitas pedras preciosas, e
infância amazônida, do século XVII, através semeiado de tantas joias de tão alto valor,
da visão do adulto. Entretanto tal limite não quantas são as alma adqueridas para Jesus
pode ser um impeditivo para esta busca pois Cristo” (ABBEVILLE, 1874, p. XII).
Ele apoiava o projeto de colonização e
as crianças participam das relações sociais, tinha fé na conversão dos gentios. Essa
e este não é exclusivamente um processo conversão significava o despojamento de
psicológico, mas social, cultural e alguns hábitos que não condiziam com os
histórico. As crianças buscam essa
valores cristãos como a poligamia, a
participação, apropriam-se de valores e
comportamentos próprios de seu tempo e antropofagia entre outros. A narrativa de
lugar, porque as relações sociais são parte Abbeville (1874) é marcada pelo heroísmo da
integrantes de suas vidas, de seu missão tida como salvadora e isso é
desenvolvimento (KUHLMANN JR., 1998, perceptível no frontispício da obra original
p. 31). que demonstra a veneração dos Tupinambás
à igreja católica simbolizada por Nossa
Senhora com o manto estendido a eles, seu
abandono aos rituais antropofágicos e
conversão aos padres assim como sua
submissão ao rei da França. Foi assim que a
obra veiculou em 1614 como uma
propaganda da missão colonizadora.

61
O foco do relato de Abbeville (1874) está Ao analisar a educação das crianças
principalmente na obra missionária, e ele tupinambás no século XVI, Thomas (2014)
destaca sua percepção do nativo e do papel evidencia que entre os nativos já havia um
da igreja na vida deles como demonstra o sentimento de infância e que os papéis dos
excerto: meninos e meninas eram definidos por
rituais que marcavam as transições de cada
O que mais agradava no Ceo era a faixa etária. Esses rituais são descritos
profunda humildade destas pobres almas também nos relatos do padre Abbeville. De
vendo-se passar de pontos tão oppostos
acordo com o religioso,
isto é, de lobos a cordeiros, de cruéis a
christãos, de filhos e de instrumentos da
quando chegam seus filhos à idade de 4, 5
raiva e da crueldade do Diabo á filhos de
ou 6 anos, preparam um vinho ou festa a
Deos, aborrecendo sua vida passada, e
que chamam Cauim, e convidam parentes
chorando a cegueira e a perda de seus
e amigos do menino, cujo beiço se quer
antepassados (ABBEVILLE, 1874, p. 424).
furar e também todos os habitantes da
aldeia e de suas circunvizinhanças. Depois
O padre Ives D’Évreux (2007) por sua
de terem cauinado, e dançado por dos ou
vez ficou dois anos na missão e escreveu o três dias, como costumam, apresentam o
que supôs faltar no relato do seu menino, dizem-lhe que vão furar-lhe o
companheiro. Sua crônica focaliza beiço inferior para que seja um dia
principalmente o projeto colonizador e talvez guerreiro valente e forte, e assim animado
por isso a primeira publicação tenha sido o próprio menino com toda a coragem e
confiscada. Naquele momento não presença de espírito oferece o beiço com
alegria e satisfação, e pega nele o
interessava mais à França, criar atritos com a
incumbido de tal processo, fura-o com a
Espanha que era a dona “legal” das colônias ponta de um chifrezinho, ou de algum
portuguesas devido à União Ibérica 1580- osso e faz um grande buraco. Se chora o
1640. Isso porque o futuro rei da França já menino, o que poucas vezes sucede, ou se
havia acertado casamento com a princesa dá alguma demonstração de dor, dizem
espanhola da Áustria. Entretanto, graças às que nunca há de valer coisa alguma, que
divergências internas e, especificamente, ao será covarde e fraco. Se pelo contrário tudo
sofre com firmeza e constância, como de
interesse do almirante François de Razzili,
ordinário acontece, tiram disto bom
nobre francês, na colonização do Maranhão, agouro e creem que sua vida será grande e
ele conseguiu resgatar algumas cópias do ele guerreiro valente e corajoso
livro antes de ser destruído e presenteou o rei (ABBEVILLE, 1874, p. 313).
Luís XIII com uma delas, a qual foi guardada
na biblioteca pessoal do rei. Este exemplar Pela leitura do excerto é possível
conservado na Biblioteca Imperial, foi perceber que esse ritual marcava o início de
encontrado pelo historiador Ferdinand Denis uma nova fase da vida da criança, mais
e publicado em português em 1874 próxima da vida adulta. O evento era
(ÉVREUX, 2007). comemorado de maneira festiva e se
Ambos registraram informações configurava como importante instância de
importantes sobre a criança Tupinambá e a afirmação e transmissão de valores
relação dos seus pais com elas. Tais fundamentais para a sociedade tupinambá
informações nos dão subsídios para como a coragem, por exemplo. Tratava-se de
compreender como ocorriam as práticas um momento de congraçamento com as
educativas entre essas crianças no início do tribos vizinhas e hora de mostrar que mais
século XVII. De acordo com Caldeira (2000), um guerreiro estava se formando ali. Para as
pelo número de tupinambás registrados meninas, a infância terminava ao chegar a
pelos capuchinhos na região, é possível menarca, ocasião festejada através das
inferir que eles predominavam na área visto beberagens, que as introduzia na vida adulta
que tinham a tendência de não se misturar ou (ALBUQUERQUE, 2012).
viver muito próximo de outras nações. A ternura parental foi destacada nos
relatos dos religiosos por se distinguir do

62
tratamento observado entre pais e filhos que o menino era “cordato e bem ensinado”.
europeus. Os padres sublinharam a ausência Parece que a figura do padre, representava
de castigos e uma infância com grande uma autoridade tal qual os mais velhos
liberdade. Os mimos e a presença da criança representavam em sua tribo. Talvez, por isso,
em torno da mãe o tempo todo, foram objeto o religioso tenha atraído tanta atenção da
de espanto visto que na realidade europeia criança.
isto não acontecia (ABBEVILLE, 1874). Podemos desconfiar de que esse
Mary Del Priore (2015, p. 96) acrescenta “silêncio e recato” destacados pelo religioso,
que estes mimos e cuidados às crianças seriam muito mais características almejadas
pequenas não se restringiam aos nativos, mas por eles em uma nova sociedade ideal que
“estendiam-se aos negrinhos escravos ou estaria se formando – A França Equinocial –
forros vistos por vários viajantes estrangeiros do que efetivamente, características das
nos braços de suas senhoras ou engatinhando crianças tupinambás. Porém, ao cruzarmos
em suas camarinhas”. Ressalta que os tais informações com as do padre jesuíta
castigos físicos foram introduzidos pelos Fernão de Cardim (1925), referindo-se aos
jesuítas, momento em que é possível perceber tupinambás da Bahia, percebemos uma certa
o conflito entre concepções diferentes de semelhança, o que nos faz supor que, mesmo
infância já que para os religiosos “o apego à que houvesse algum exagero da parte de
infância e à sua particularidade não se Abbeville, de fato, o silêncio era uma forma
exprimia mais através da distração e da de aprendizagem presente entre os as
brincadeira, mas através do interesse crianças nativas do Maranhão.
psicológico e da preocupação moral” (ARIÈS, A liberdade que a criança tupinambá
1986, 151). Enquanto para os viajantes e tinha é demonstrada em outro trecho do
clérigos essa relação de ternura e liberdade relato de Abbeville (1874, p. 326-327) ao
com as crianças significava lassidão e ressaltar que elas “crescem à vontade” e suas
ausência de educação, Thomas (2014) mães lhe “dão ampla liberdade para fazerem
defende que tais observadores não o que quiserem não os repreendendo nunca”.
perceberam que era assim que se educavam A despeito dessa liberdade, o padre observou
as crianças tupinambás. que as crianças eram obedientes e não
Abbeville (1874) destacou, por exemplo, contrariavam os seus pais. Esse respeito à
o menino Acaiuy Miry, filho de Japyaçu, hierarquia é ressaltado, não tendo o autor
Principal da aldeia de Juniparan. Ao relatar registrado nenhum momento de desavença
suas observações deste indiozinho de 9, 10 entre pais e filhos. Inclusive, ao mencionar o
anos de idade, o autor realça algumas casamento, enfatiza que quando a filha era
características presentes na infância que prometida desde o nascimento para outra
também parece se contrapor à visão de família, assim o cumpria, embora não tivesse
infância europeia. a obrigação de continuar casada a vida
Inicialmente, o padre ressaltou a inteira, em caso de desentendimento com o
iniciativa da criança em se aproximar e marido.
intentar estar junto deles o tempo todo. Vê-se Pelo relato de Abbeville (1874) percebe-
aí um certo protagonismo, uma autonomia e se que é observando, imitando e repetindo
liberdade que a criança detinha. Ao se juntar que as crianças tupinambás aprendiam.
aos padres para aprender, o autor observa Acaiuy Miri exercitava sua aprendizagem
que Acaiuy Miry “ficava silencioso e recatado transmitindo com satisfação o que aprendia
sem interromper-nos para coisa alguma, ou com o padre aos seus companheiros. Para
por leviandade, o que não é comum em obter sucesso nessa tarefa o menino
meninos desta idade (tão prudentes e desenvolveu, inclusive, técnicas como riscar
civilizados fossem eles!)” (ABBEVILLE, 1874, com um pau na terra o número de
p. 111). O silêncio e o recato se sobressaíam mandamentos bíblicos a fim de facilitar a
como forma de aprendizagem apropriada ao memorização dos mesmos, demonstrando,
contexto da tribo. O padre ainda destacou com isso, astúcia e criatividade.

63
Numa cultura ágrafa como a dos povos silêncio, sugerindo que aprendiam,
amazônicos do século XVII, a memória tinha sobretudo, através da observação e imitação.
um papel fundamental posto que os saberes A curiosidade das crianças tupinambás
eram transmitidos por meio dela. Seu valor é observada pelo capuchinho. Segundo ele,
foi destacado pelo padre Yves D’Évreux quando passavam pela residência dos
(2007, p. 311) ao descrever que as crianças religiosos, elas sempre os procuravam. E
“não esqueciam nenhuma única palavra de durante o processo de aprendizagem “se
que havíamos dito, mas recitavam o todo a mostram atentos”. Ao utilizar imagens para
seus pais e mães tendo voltado para suas ensinar a doutrina cristã aos meninos e às
casas”. meninas, Évreux (2007, p. 310) se viu
Tais características – observação, satisfeito pois as crianças eram insistentes em
imitação e repetição – foram percebidas em saber o significado de tais imagens e não os
outras situações relatadas por Abbeville “deixavam de repouso” enquanto não as
(1874), como na habilidade dos meninos em compreendessem. Aqui percebe-se,
pescar. É provável que tais meninos tenham novamente, a persistência e a curiosidade
aprendido essa função – que o autor coloca para aprender.
como seu principal serviço – observando e Évreux (2007), também destacou a
imitando seus pais. Ao evidenciar que essa aprendizagem pela imitação observada nas
prática durava “longas horas” é perceptível a brincadeiras das meninas. Segundo ele, as
aprendizagem de valores como perseverança meninas, conforme sua capacidade, se
e paciência para a realização da atividade. divertiam fiando algodão, com o qual faziam
No relato de Abbeville é visível que as as redezinhas e amassavam o barro que
crianças estavam sempre envolvidas nas usavam para fazer pequenos potes e panelas.
experiências cotidianas dos adultos e Esse exercício, realizado na fase do
também nos rituais que marcavam o Kugmantin-myri (até os seis anos de idade),
calendário do grupo como as beberagens, por servia como preparação para a aprendizagem
exemplo. As beberagens estavam na das atividades próprias da mulher nativa que
centralidade da vida cotidiana indígena começariam, de fato, a partir dos 7 anos.
sendo um ritual presente em diversos A partir desta idade as meninas
momentos significativos do grupo como o deveriam aprender a “fiar algodão, tecer
nascimento, a perfuração do lábio inferior redes, semear plantas na roça, fazer vinhos,
dos meninos, a menarca, o casamento, os preparar carnes” (ÉVREUX, 2007, p. 81). O
funerais, entre outros. Nesses momentos, autor destaca que, na presença dos homens,
valores eram transmitidos para as crianças, as moças (sete a quinze anos) guardavam
configurando-se as beberagens como práticas completo silêncio e mantinham maior
educativas. Além disso, a fabricação das diálogo com as moças da sua idade. A
bebidas era tarefa feminina aprendida desde aprendizagem então, ocorria também pelas
a mais tenra idade, quando as meninas trocas entre os pares. Essa aprendizagem
ganhavam dentes de presente em alusão à coletiva é visível no texto de Évreux (2007, p.
futura tarefa de mastigação da qual viria a 310) quando destaca que as crianças sempre
fermentação do cauim (ALBUQUERQUE, procuravam os padres “em bandos”. Com
2012). isso fica evidenciado que o silêncio era
Évreux (2007) ressaltou também a mesmo um valor importante na cultura
presença das crianças nos momentos de tupinambá e uma forma importante de
trabalho ao relatar a construção do forte de aprender. Era de forma silenciosa que
São Luís. Segundo ele, “não trabalhavam crianças e adolescentes observavam e
somente os homens e sim também as imitavam os mais velhos, e aprendiam os
mulheres e meninos, aos quais eles davam saberes que os identificavam como nação;
pequenos cestos para carregar terra conforme saberes esses fundamentais para que tais
suas forças”. Ambos reiteram que, em tais crianças exercessem o papel social que lhes
momentos, a criança mantinha recato e cabia no grupo.

64
Contrapondo-se à visão de Florestan liberdade, esqueceu o que havia
Fernandes (1963) para quem, a aprendizagem aprendido, e foge para o mato quando o
se realizava na comunidade em que todos se padre o procura (ÉVREUX, 2007, 341).
educavam mutuamente, Thomas (2014)
Assim, é possível observar que
defende o papel preponderante da família,
liberdade e autonomia, presentes nas práticas
onde as funções sociais fortemente
educativas das crianças tupinambás, falavam
delimitadas, direcionavam o processo
mais alto quando elas chegavam à
educativo. Para ele, portanto, a educação das
puberdade. Possivelmente, elas não
crianças e a formação da identidade dos
esqueciam o que aprendiam, como supunha
tupinambás ocorria, principalmente, no
o pai, pois a memória tinha papel
núcleo familiar pela sua estruturação
fundamental em seu processo educativo. O
demarcada, sobretudo, nos ritos de
mais provável é que a falta de significado dos
passagem, nos quais os papéis de pais e filhos
conceitos cristãos para as crianças, as
eram bem definidos.
demovessem da permanência nesse novo
Entretanto, quer fosse na família ou na
estilo de vida. Além disso, ao fugir dos
sociedade, a educação das crianças ainda se
padres, as crianças demonstravam sua
dava de forma coletiva, no grupo social.
identificação com o grupo ao qual pertenciam
Nesse contexto, as representações coletivas
originalmente, fazendo valer seus costumes.
construídas pelas crianças nas relações de
Brandão afirma que a educação é “uma
aprendizagem, lhes conferiam uma
unidade cultural agenciada e responsável
identidade social e marcavam a existência do
pela criação de tipos de pessoas e de
grupo. Essa aprendizagem não ocorria
identidades através da aquisição motivada e
somente nos rituais, mas se dava no
sistemática de tipos de saberes, de valores, de
cotidiano, na realização de tarefas, e/ou nas
sensibilidades” (BRANDÃO, 2002, p. 151).
brincadeiras ou na simples observação
Depreende-se, assim, que se não houver
silenciosa das ações dos mais velhos.
motivação, ou seja, significado, os saberes
Nas relações educativas estabelecidas
não serão apropriados e, portanto, não
entre crianças e religiosos havia uma
haverá educação. É o que parece ter ocorrido
preocupação, destes últimos, em conquistar
no início do século XVII na Amazônia. O
primeiro as crianças pois assim, em sua visão,
conhecimento trazido pelos religiosos não
elas se disporiam a aprender. Isso demonstra
tinha significado suficiente para motivar as
que, naquele contexto, a aprendizagem
crianças, pelo menos a partir do momento em
necessitava ser significativa para a criança
que chegavam à puberdade.
por ser este o modo como aprendiam no seu
dia a dia.
Nos relatos dos padres nota-se que nem
sempre eles tiveram sucesso nessa conquista
posto que algumas crianças abandonavam CONSIDERAÇÕES FINAIS
tudo o que haviam aprendido retornando
para a mata quando chegavam à puberdade. A história da infância na Amazônia
Um exemplo disso é o que aconteceu com o já colonial tem sido pouco estudada pelos
citado Acaiui-Miri.2 Seu pai, em entrevista historiadores e educadores, provavelmente,
com padre Évreux, relata a preocupação com pela exiguidade de fontes que abordem
o filho que, de acordo com ele, diretamente o assunto. Todavia, inspiradas
nos pressupostos da história cultural, que
depois de cristão, logo no princípio
procedeu bem; já sabia ler um pouco no amplia o conceito de fontes, é possível
seu Cotiare, e escrever, estava sempre com investigar a temática por meio das crônicas
o padre, e o seguia por toda a parte. de religiosos que viveram na região naquele
Deixou depois tudo isso, entregou-se à período.

2A grafia do nome Acaiu-Miri difere nos textos de Abbeville


e Évreux embora se trate da mesma pessoa.

65
Os documentos investigados neste BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A educação
estudo nos permitem apontar algumas como cultura. Campinas: Mercado de
características da educação ocorrida no Letras, 2002.
cotidiana das crianças tais como: a repetição, BURKE, Peter. O que é história cultural? Rio de
observação e a imitação. Dos relatos também Janeiro: Zahar Editores, 2008.
extraímos a curiosidade e a avidez dessas ______. Abertura: a nova história, seu
crianças para aprender, a persistência e a passado e seu futuro. In: BURKE, Peter. A
atenção nos processos de aprendizagem. escrita da história: novas perspectivas. São
As relações familiares eram Paulo: UNESP, 2011. pp. 7-38.
fundamentais para que a criança entendesse CALDEIRA, José de Ribamar Chaves. A
e cumprisse seu papel na sociedade indígena. criança e a mulher Tupinambá - Maranhão:
Os mimos das mães marcaram a observação século XVII. São Paulo: Scortecci, 2000.
dos capuchinhos, pois, para eles, tais mimos CARDIM, Fernão. Tratado da terra e gente do
criavam um vínculo importante com a Brasil. Rio de Janeiro: J. Leite & Cia, 1925.
criança, o que explicaria o fato de elas serem Disponível em:
obedientes e buscarem imitar seus pais em <https://digital.bbm.usp.br/handle/bb
tudo. As brincadeiras das crianças remetiam m/4788>. Acesso em: 19 jun. 2018.
ao seu futuro papel no grupo. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano:
Os dados analisados até aqui artes de fazer. Tradução de Ephraim
evidenciam que as crianças Tupinambás, que Ferreira Alves. 22. ed. Petrópolis: Vozes,
viveram no início do século XVII na 2014.
Amazônia, foram importantes mediadoras CHARTIER, Roger. A história cultural entre
culturais para a manutenção da cultura práticas e representações. Rio de Janeiro:
indígena na região pois não absorviam Bertrand Brasil; 1990.
passivamente a cultura imposta pelo ______. O mundo como representação.
catolicismo, mantendo forte vínculo com sua Estudos Avançados. São Paulo, v. 5, n. 11,
cultura e identidade. p. 173-191, abr. 1991. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?scrip
t=sci_arttext&pid=S0103-
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padres capuchinhos na ilha do Maranhão e HISTÓRIA: HISTÓRIA, 23. 2005,
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66
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KUHLMANN JR Moysés. Infância e educação
infantil: uma abordagem histórica. Porto
Alegre: Mediação.

67
BREVE ESTUDO DE REPRESENTAÇÕES
sobre os indígenas em canções
de artistas da Amazônia (1988-1993)

* Jessica Maria de Queiroz Costa

Resumo: No período de 1988-1993, pós-término do regime civil-militar e aprovação da


Constituição Brasileira de 1988, aprofundam-se questões acerca de políticas indígenas, o futuro
do meio ambiente, debates ecológicos presentes em importantes eventos, como a Conferência
das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente - Eco 92, os quais evidenciam o valor e importância da
Amazônia. E, dentro da música, tais apontamentos se encontram presentes em canções de artistas
da Amazônia, como Mosaico de Ravena (PA) e Raízes Caboclas (AM), sendo que, a imagem do
indígena aparece como um dos temas principais a serem abordados. Portanto, este trabalho tem
por objetivo analisar representações sobre o índio que eram produzidas nas letras de músicas
desses artistas amazônidas, no referido período.
Palavras-chave: Representação. Indígena. Amazônia. Música. Artistas.

DIÁLOGO ENTRE MÚSICA E NOVA indígena, principalmente no que se refere à


luta pela elaboração da Constituição de 1988,
HISTÓRIA INDÍGENA
reconhecendo seus direitos através dos
artigos 231 e 232, bem como, se impulsionava
Ao cruzar os eixos da história indígena os debates sobre o Meio Ambiente e História
e da música, depara-se com diversas e Natureza (HORTA, 2013). Exemplo disso
possibilidades de estudo que podem são as várias conferências, encontros e
contribuir para melhor construção da eventos como a Conferência das Nações
historiografia de ambas as áreas. Analisar as Unidas sobre o Meio Ambiente - Eco 92 –,
várias formas de enxergar os indígenas na realizada no Rio de Janeiro, a qual foi a
música, suas estruturas e elementos, suas primeira grande reunião entre chefes de
influências na música brasileira são temas e Estados para tratar sobre o Meio Ambiente e
alternativas pertinentes, uma vez que sua degradação.
apresentam um universo repleto de Ao adentrar neste cenário musical
perspectivas. amazônida, nas décadas de 1980 e 1990, os
Logo, neste trabalho será enfatizado o LPs “Amazonas” (1988), “Em Dez anos –
período de 1988 a 1993, tendo em vista que, volume 1” (1992) e “Cave Canem” (1992),
este momento abarca lançamentos de vários respectivamente, dos artistas Raízes Caboclas
LPs1 de artistas que alcançaram considerável (AM), Nilson Chaves (PA) e Mosaico de
reconhecimento (de nível regional ao Ravena (PA), são alguns dos trabalhos
nacional) e que apresentavam várias faces da musicais selecionados, uma vez que,
Amazônia e o imaginário amazônico como apresentam temáticas relacionadas aos
um dos grandes pontos de foco e discussão. indígenas2, no que se refere a sua situação
Além de este contexto musical social, política e cultural.
apresentar enaltecimento à temática

* Mestranda em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Pará. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior. Cidade Nova 2, WE 12, nº 552. Ananindeua, PA. CEP: 67130150. Correio eletrônico:
jessicamqcosta@gmail.com
1 Long Play em inglês ou Disco de Vinil em português.
2 Nota-se aqui a ciência da ideia de diversidade e pluralidade das nações indígenas.

69
Dentro dessa “efervescência”3 musical REPRESENTAÇÕES SOBRE OS
(MOREIRA, 2014, p.15) na Amazônia, entre
INDÍGENAS NAS MÚSICAS DE
as décadas de 1980 e 1990, a utilização de
elementos indígenas para a composição dos ARTISTAS DA AMAZÔNIA
perfis musicais destes artistas, contribuiu
também para construir e/ou condensar Nas décadas de 1980 e 1990, no cenário
aspectos da região da Amazônia e os povos musical da Amazônia, há uma grande
da floresta (COELHO, 2005, p. 21) para o concentração de artistas que se aproximam
público afora. A partir disso, os de elementos da Amazônia, aspectos da
questionamentos desse artigo se voltam para: fauna e flora para a construção de trabalhos
Quais representações sobre os indígenas são musicais. Entretanto, neste trabalho em
percebidas nas letras de músicas desses específico, os artistas escolhidos foram
artistas? E qual a importância delas para Nilson Chaves5 (PA), Mosaico de Ravena6
pensarmos os povos indígenas atualmente? (PA), Raízes Caboclas (AM)7, por conta de
Estas perguntas se tornam pertinentes já um processo similar, em que este grupo de
que se é colocado o indígena como um dos artistas apresentava um assunto em comum
destaques para o fomento da música em suas músicas: inserir a Amazônia, desde
elaborada na Amazônia e, pode-se definir a sua sonoridade de flora e fauna aos seus
que muitas vezes representações que se habitantes nas composições e musicalização,
apresentam sobre o indígena recaem em além de exaltá-la como um lugar ímpar que
generalizações e estereótipos. Ainda que, precisava ser enxergado e preservado por
entre as décadas de 1970 e 1980, a todos.
historiografia brasileira esteja revendo Para estudar mais a fundo as referências
lugares estereotipados que foram destinados e representações sobre os indígenas na
aos índios e haja grande visibilidade da música, infere-se as discussões proeminentes
articulação do movimento indígena na luta de autores acerca da Nova História Indígena
por direitos básicos (Constituição de 1988), (ALMEIDA, 2003; CUNHA, 1992;
algumas visões sobre os grupos indígenas MONTEIRO, 1999). Assim, foi possível o
apresentavam (e ainda apresentam) conceitos estudo de tais referências, além de indicar
controversos.4 algumas categorias de análise que
identificam características estereotipadas em
relação aos indígenas, visto que, para o
desenvolvimento da discussão, utilizar-me-ei
das categorias: 1) “bom/ mal selvagem”; 2)
“indígena enxergado no passado” e 3)“índio
puro” para dialogar com as canções dos
artistas mencionados.

3 Discute-se que essa ideia de “efervescência” deve ser como John Monteiro destaca o protagonismo indígena ao
atribuída às décadas de 1970, 1980 e 1990 também, indicar a construção de uma “nova” história indígena, haja
principalmente a partir de 1975, devido à grande recepção vista que, esta historiografia, de certo modo recente, traz a
de estilos musicais oriundos de várias partes da América do investigação das diferentes perspectivas que os indígenas
Sul e da América Latina que influenciaram os artistas exercem e apontam sobre o passado.
paraenses em sua musicalidade. Mediante a essa atribuição 5 Nilson Chaves é um dos grandes músicos paraenses que

de “efervescência” também à década de 1970, é natural que ainda atua na atualidade. Ele iniciou sua carreira artística –
a própria ideia de “efervescência” seja questionada, já que se teatro e música - ainda muito jovem na década de 1960.
percebe que a movimentação musical paraense e seu debate Ainda com 17 anos, em 1968, o artista decide viver de música
transcendem limites de tempo. e morar no Rio de Janeiro, desde então, sua carreira seria
4 A historiografia passou a questionar sua perspectiva sobre construída entre Rio de Janeiro e Belém.
a história indígena, para começar a enxergar o indígena 6 É uma banda de heavy metal paraense que se tornou

como protagonista de sua própria trajetória, entretanto bastante conhecida na década de 1980. Muitos críticos a
ainda continua sendo fundamental, no meio acadêmico, reconhecem como a primeira banda de heavy metal do
elucidar a participação dessas sociedades indígenas como Brasil.
sujeitos ativos. Esta é uma das maneiras de afirmar que 7 Grupo musical formado no início da década 1980 e tem

Manuela Carneiro da Cunha salienta que as sociedades como embasamento musical a abordagem das raízes
indígenas são protagonistas de seu processo histórico. Assim culturais da Amazônia.

70
E, para a melhor compreensão do uso Por quê? Onde já se viu?
de representações sobre os índios, configura- Isso é Belém!
se neste trabalho o conceito de representação Isso é Pará!
de Roger Chartier (CHARTIER, 1988, p. 17). Isso é Brasil!
Por intermédio desses apontamentos teóricos (grifo nosso)
e metodológicos de análise, tornou-se
possível enxergar perspectivas em relação a Primeiramente, deve-se entender que a
figura do índio nas músicas produzidas pelos música acima traz certo apelo contra alguns
artistas citados, como na música “Belém, preconceitos e a “mentalidade” cheia de
Pará, Brasil” que pertence a banda Mosaico estereótipos construídos, principalmente por
de Ravena a qual traz o seguinte trecho aqueles que moram fora do Estado do Pará
ou da região amazônica e não apresentam
Belém, Pará, Brasil 8 (Edmar Rochar) conhecimento mais palpável sobre a
dinâmica desse espaço. Além disso, a música
Vão destruir o Ver-o-Peso “Belém, Pará, Brasil” se transformou em uma
Pra construir um Shopping Center espécie de “hino paraense”, por criticar tais
Vão derrubar o Palacete Pinho posturas preconceituosas e também por
Pra fazer um Condomínio apontar alguns elementos e lugares
Coitada da Cidade Velha, concernentes à região amazônica, mais
que foi vendida pra Hollywood, especificamente à cidade de Belém do Pará,
pra se usada como albergue uma vez que, o guaraná, o jacaré, o mercado
no novo filme do Spielberg do Ver-O-Peso, a obra arquitetônica Palacete
Quem quiser venha ver Pinho e o bairro histórico da cidade velha são
Mas só um de cada vez citados na canção.
Não queremos nossos jacarés O verso destacado acima evidencia
tropeçando em vocês algumas categorias de análise referente aos
A culpa é da mentalidade indígenas já mencionadas anteriormente,
Criada sobre a região como o índio “mal selvagem”, haja vista que,
Por que é que tanta gente teme? o trecho “Nossos índios não comem
Norte não é com M ninguém/ Agora é só hambúrguer”
Nossos índios não comem ninguém demonstra que os indígenas são enxergados
Agora é só hambúrguer como canibais, isto é, vistos sob uma ótica
Por que ninguém nos leva a sério ? distorcida que acaba generalizando
Só o nosso minério concepções do modo de vida de povos
Quem quiser venha ver indígena.
Mas só um de cada vez Entre alguns grupos indígenas do
Não queremos nossos jacarés período colonial, por exemplo, não havia
tropeçando em vocês “canibalismo”, que pressupõe o consumo de
Aqui a gente toma guaraná carne humana para alimentação como único
Quando não tem Coca-Cola objetivo, mas sim “antropofagia”, que era
Chega das coisas da terra cercado de uma série de rituais. E mesmo
Que o que é bom vem lá de fora assim não eram todos os grupos indígenas
Transformados até a alma que a praticavam, explica a pesquisadora
sem cultura e opinião Manuela Carneiro da Cunha:
O nortista só queria fazer
parte da Nação Os Tupi, no entanto, não são canibais, e
Ah! chega de malfeituras sim antropófagos: a distinção que é, num
primeiro momento léxica, e mais tarde,
Ah! chega de tristes rimas
quando os termos se tornam sinônimos ,
Devolvam a nossa cultura! semântica, é crucial no século XVI, e é ela
Queremos o Norte lá em cima! quem permitirá a exaltação do índio

8Música presente no LP Cave Canem. Belém do Pará, 1989.

71
brasileiro. A diferença é esta: canibais são estruturais dentro dos grupos indígenas, a
gente que se alimenta de carne humana; pesquisadora Maria Regina Celestino de
muito distinta é a situação dos tupi que Almeida destaca:
comem seus inimigos por vingança.
(CUNHA, 1990, p.99)
Importa reconhecer que os movimentos
indígenas da atualidade evidenciam que
Desta forma, ainda que o falar português, participar de discussões
antropofagismo tenha sido o ato políticas, reivindicar direitos através do
comportamental praticado pelos Tupi no sistema judiciário, enfim, participar
período colonial, é o “canibalismo” que intensamente da sociedade dos brancos e
reverbera no pensamento comum. Além aprender seus mecanismos de
disso, deve-se notar que no decorrer do funcionamento não significa deixar de ser
índio e sim, a possibilidade de agir,
tempo, fatores externos de não indígenas
sobreviver e defender seus direitos. São os
influenciaram os índios em seus modos de próprios índios hoje que não nos permitem
vida, em sua sociedade, portanto “comer mais pensar em distinções rígidas entre
hambúrguer” não deve ser pré-concebido índios e brancos. (ALMEIDA, 2003, p. 20)
como algo ruim, pois, desta maneira,
culmina-se em outra categoria, a do “índio Além dessas perspectivas, é possível
puro” - concepção que tende a aprisionar as também perceber como elementos indígenas
possibilidades de mudanças sociais, culturais e as próprias palavras de cunho indígena
e políticas das etnias indígenas, de acordo estão presentes na língua portuguesa, de
com suas perspectivas de mundo. modo que no cenário musical amazônida tais
Assim, dentro deste pensamento aspectos se fazem presentes nas canções de
comum sobre os povos indígenas se Nilson Chaves. No repertório musical deste
configura várias problemáticas que tendem a último, em sua maioria, desde a composição
formalizar uma reprodução de conceitos até a sonoridade, é possível identificar
sobre os referidos sujeitos, sendo que, para referências à natureza, à Amazônia, aos
João Pacheco de Oliveira o conceito de índio indígenas.
que ainda está muito presente na sociedade é Ao se olhar para as referências
indígenas do LP “Dança de Tudo”, a música
daquele que constitui um indicativo de um “Amocariu” aparece como uma das músicas
estado cultural, claramente manifestado que mais as evidenciam. “Amocariu”, que
pelos termos que em diferentes contextos teve como compositores Saint Clair Dú Baixo9
o podem vir a substituir - silvícola, incola,
e Nilson Chaves, foi lançada primeiramente
aborígene, selvagem, primitivo, entre outros.
Todos carregados com um claro no referido LP e posteriormente relançada no
denotativo de morador das matas, de CD “Em Dez anos – volume 1”, tem como
vinculação com a natureza, de ausência significado “saudade de quem se foi”10 ou
dos benefícios da civilização (OLIVEIRA, “adeus, estou partindo pra nunca mais
1995, p.78). voltar”11. Conforme o cantor, a letra da
música traz uma lenda12 que reúne um
Esses termos se debruçam em uma conjunto de palavras de origem indígena,
discussão muito mais ampla que é justamente como se pode ler abaixo
a desconstrução de conceitos estereotipados
sobre os grupos indígenas, uma vez que, eles
não seguem um padrão restrito e inflexível de
costumes e comportamentos e modos de vida
imutáveis. Sobre as diversas mudanças
9Claudioval Saint Clair da Silva Costa nasceu em Almeirim, 10Informação disponível em:
no Baixo Amazonas em 1941. Ainda com poucos meses de http://presoacancoes.blogspot.com.br/2008/03/tecai-
vida foi trazido a Belém, onde a sua família passou a morar tutera-amocariu.html.
definitivamente. Ele foi ator, compositor e contrabaixista. 11Idem.

Dono de uma grande carreira musical, compôs juntamente 12Entrevista com Nilson Chaves realizada em 26 de agosto

com Nilson Chaves a música “Amocariu”. Informações de 2016.


disponíveis em http://saintclairdubaixo.blogspot.com.br/.

72
Amocariu 13 (Saint Clair do Baixo) conscientização em relação à floresta
amazônica.15
Tecai tutera O grupo musical Raízes Caboclas,
Amocariu oriundo do Estado do Amazonas, mais
Itororó, pirajá precisamente do município de Benjamin
Perebebuí, Constant, que também abraça questões sobre
Cajurú, a floresta e seus povos em suas músicas, bem
Cametá, como são referenciados elementos e
E Marajó representações sobre os indígenas, como na
Foi o curumim letra abaixo
Para adormecê
Na samaúma Sangue Verde16 (Celdo Braga,1988)
Mãe da floresta
Plumas ao vento Amazonas das mulheres guerreiras
Itaguari Amazonas das lindas corredeiras
Tecai tutera Amazonas das selvas perdidas
Amocariu De mil tribos feridas
Pelas mãos traiçoeiras
Nilson Chaves diz que a partir dela é No silêncio da noite
contada uma lenda amazônica, que de acordo Num torpor de agonia
com o músico Repousa o gigante
Pra tomar no outro dia
um índio curumim todo dia dormia no pé Só a brisa reclama
da árvore de samaúma, um dia, ele mais Só o vento assovia
cansado não conseguir chegar ao pé da
Só o rio testemunha
samaúma e dormiu em outro lugar e
quando ele levantou pela manhã em Tanta selvageria
direção a samaúma, a samaúma de ciúmes Corre rio Amazonas
por ele não ter dormido com ela, caiu em Numa eterna sangria
cima dele e morreu junto com ele.14 Corre sangue lavando
O que a lama escondia
Esta lenda indígena traz o índio como Segue a história ocultando
personagem inserido na floresta e mostra a Tanta dor e agonia
sua relação com a natureza, habitual visão Segue a selva chorando
associada por não-índios, mais Esperando outro dia
especificamente com a árvore samaúma que Segue a selva chorando
lhe serve de abrigo para descanso e que traz Segue os índios morrendo
uma relação de troca que a natureza Segue os brancos matando. (grifo
estabelece com os sujeitos que a utilizam. nosso)
Apesar deste trabalho não analisar
especificamente a composição de aspectos Na letra dessa música, percebem-se
completos da música em si, como melodia e várias discussões, uma delas é a denúncia do
arranjo nota-se as sonoridades da floresta, os genocídio indígena pelo homem branco e
sons dos animais. Ademais, o cantor Nilson como alguns acontecimentos da história
Chaves aponta como é fundamental que haja permanecem ocultos, uma vez que são
uma união entre a própria população e os escritos pela perspectiva não indígena, essa
artistas da Amazônia, de forma que se possa continuidade também é percebida nos livros
despertar em todos uma preocupação e uma

13Música do álbum “Dança de Tudo” (1981) e posteriormente 14Entrevistacom Nilson Chaves realizada em 26 de agosto
lançada novamente “Em Dez anos – volume 1” (1992) de de 2016.
Nilson Chaves, ano 1981. 15Idem.
16Música presente no LP Amazonas (1988).

73
didáticos.17 Sobre a música “sangue verde”, vê nas terras indígenas um entrave para a
Raimundo Cardoso aponta também que exploração econômica e para a expansão
da fronteira agrícola. (JÚNIOR ARAÚJO,
Temos aqui como pano de fundo a 2018, p.175)
exuberante floresta testemunhando a
invasão da região amazônica pelos Logo, a música “sangue verde” também
primeiros colonizadores (portugueses e traz uma perspectiva de denúncia contra as
espanhóis). Vemos também a resistência atrocidades que os povos indígenas sofreram
dos povos indígenas em não aceitarem tal e ainda sofrem. Ainda que a mesma tenha
opressão, tendo somente a própria sido pensada para denunciar tais fatos que
natureza como testemunha à enorme
aconteceram no período colonial, como
violência a esses povos e não tendo
ninguém mais a interceder por eles (...). explica Cardoso (2017, p. 59), não há como
(CARDOSO, 2018, p. 59) isolá-la de uma projeção para uma realidade
mais tangente em que se encontram os povos
Portanto, como explica Cardoso, nas indígenas, haja vista que, “segue os índios
músicas do grupo Raízes Caboclas morrendo/ segue os índios matando”
encontram-se denúncias que ainda que se continua sendo algo factual no Brasil.
remetam ao período colonial e que apontem Sobre essas correntes confrontações em
os indígenas como vítima da violência de não que a terra é um foco de disputa, vividas não
indígenas, podem ser projetadas para o somente pelos povos indígenas, mas também
tempo presente, uma vez que as disputas e por outras comunidades que precisam da
demarcações de terras das sociedades floresta e da terra para viver de acordo com
indígenas ainda continuam sendo um os seus costumes, Sônia Maria Araújo diz que
problema grave no Brasil.
As terras indígenas continuam sendo As condições às quais estão submetidas as
invadidas por fazendeiros, madeireiros e populações
ribeirinhas, quilombolas e indígenas da
garimpeiros. Os invasores acreditam que os
região, em função da ação do grande
indígenas “possuem terras demais”, que capital em parceria com o Estado, são de
“não as aproveitam para a produção”. causar espanto. Mas, também, na mesma
Todavia, tais discursos superficiais diluem-se medida, é de causar perplexidade a
em debates antropológicos e sobre os direitos qualquer ativista a capacidade dessas
e garantias constitucionais. No que se refere populações em se organizar, resistir e
aos direitos dos índios, desde 1988, há o enfrentar estas investidas. (ARAÚJO, 2009,
p. 46)
reconhecimento constitucional de sua
organização social, costume, línguas, crenças Nesse sentido, nota-se que ainda que os
e tradições, e os direitos originários sobre as grupos da floresta sejam constantemente
terras que tradicionalmente ocupam, ameaçados, submetidos a situações violentas,
competindo à União demarcá-las, protegê-las muitas vezes dispostos em condição de
e fazer respeitar todos os seus bens. (BRASIL, descaso pelo próprio Estado e/ou
2016, p. 133) enxergados como entraves para satisfazer
Sobre as disputas de terra em que os interesses de outros, há inúmeros
povos indígenas continuam sofrendo graves movimentos e organizações que atuam em
ameaças, até mesmo à sua própria existência, posição contrária a essa conjuntura
Julio José Araújo Junior aponta que problemática.
De um lado, constituem um obstáculo as
ações do Estado, que deseja explorar
recursos hídricos e minerais em áreas
menos visadas e exploradas, como
comprova o empreendimento de Belo
Monte, no Pará. De outro, o agronegócio

17Sobreo tema ver mais em COELHO, Mauro Cezar. As um agente histórico ausente. Anais... Reunião da ANPED, 30.
populações indígenas no livro didático, ou a construção de Caxambu, ANPED, 2007.

74
CONSIDERAÇÕES FINAIS sociedade, seja através da arte, da música, do
teatro e, principalmente, da educação, torna-
se fundamental para promover uma
Este trabalho traz a historiografia
sociedade mais justa e de equidade. Desse
indígena como fator fundamental para
modo, escrever este trabalho é lembrar que o
discutir como os indígenas podem ser
ofício do historiador é, sobretudo, um
representados em músicas de alguns artistas
compromisso social.
da Amazônia, no período de 1988-1993, no
qual se presenciava uma efervescência, no
meio artístico, político e sociocultural. O
enaltecimento e valorização da Amazônia se REFERÊNCIAS
torna um ponto positivo, na medida em que
se destacam os problemas que esse espaço e
ALMEIDA, Maria Regina Celestino de.
seus habitantes, viviam naquele momento,
Metamorfoses Indígenas: Identidades e
embora os mesmos embates desse período
Cultura nas Aldeias Coloniais do Rio de
ainda estejam vigentes no Brasil.
Janeiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Arquivo
A música apresenta um caráter de
Nacional, 2003.
comunicação grandioso, mesmo que naquele
BRASIL. Constituição da República
período a propagação de materiais musicais
Federativa do Brasil de 1988.
se voltasse especificamente para o rádio.
ARAÚJO, Sônia Maria da Silva. A
Ainda que houvesse apenas o rádio como o
constituição do Sujeito e a diversidade
meio de divulgação de seus trabalhos, os
ameaçada da Amazônia. Revista
artistas do Mosaico de Ravena (PA), Nilson
Múltiplas Leituras, v.2, n. 1, p. 39-49, jan.
Chaves (PA) e o Grupo Raízes Caboclas (AM)
/ jun. 2009.
elaboraram canções que se tornaram
CARDOSO, Raimundo Gérson Luzeiro.
conhecidas, em nível regional e nacional, ao
Sonoridade da floresta: Grupo Raízes
focalizarem o mundo Amazônico, os grupos
Caboclas. Dissertação (Mestrado em
e povos da floresta como personagens
Sociedade e Cultura na Amazônia) –
principais de suas letras.
Instituto de Ciências Humanas e Letras.
Infelizmente, os povos indígenas ainda
Universidade Federal do Amazonas,
sofrem com preconceitos e discriminações
Manaus, 2017.
que foram moldados desde tempos coloniais
CHARTIER, Roger. A História Cultural:
até os dias de hoje. Se durante praticamente
entre práticas e representações. Tradução
toda a historiografia brasileira, desde o século
de Maria Manuela Galhardo. Lisboa:
XIX com a criação do IHGB, o discurso que
Difusão Editorial, 1988, 244 p.
formou-se em torno dos povos indígenas era
CHIARADIA, Clóvis. Dicionário de palavras
o de assimilação na sociedade, de forma que
brasileira de origem indígena. São Paulo:
desaparecessem enquanto grupos étnicos, a
Limiar, 2008.
Constituição de 1988 vem garantir seus
COELHO, Mauro Cezar. As populações
direitos enquanto povos originários. De
indígenas no livro didático, ou a
acordo com Manuela Carneiro da Cunha
construção de um agente histórico
(1995, p 131) os índios estão aqui para ficar,
ausente. Anais... Reunião da ANPED, 30.
onde bem quiserem e têm lutado e resistido
Caxambu, ANPED, 2007.P.6. Disponível
por isso há muito tempo.
em:
Além de destacar e analisar as letras de
http://www.anped.org.br/sites/default
músicas, este trabalho traz para o debate a
/files/gt13-3000-int.pdf
situação atual desses grupos indígenas da
______. Introdução In: Do sertão para o mar –
Amazônia brasileira. Os embates que esses
Um estudo sobre a experiência
agentes enfrentaram nas décadas de 1980 e
portuguesa na América, a partir da
1990 ainda estão presentes nos dias de hoje.
colônia: o caso do Diretório dos Índios
Nesse sentido, discutir sobre o lugar de quem
(1751 -1798). Tese de doutorado em
fora historicamente invisibilizado na

75
História Social, Universidade de São MORAES, Cleodir. O norte da canção:
Paulo, 2005a. música engajada em Belém nos anos 1960
COSTA, J. M. Q. Imagem e Representação do e 1970. 2014. Tese (doutorado).
Índio na Música Paraense (1975-1985). Universidade Federal de Uberlândia,
Monografia. Instituto de Ciências Programa de Pós-graduação em História.
Humanas e Filosofia, Universidade MOREIRA, Nélio. A música e a cidade
Federal do Pará, Belém, 2017. práticas sociais e culturais na cena da
CUNHA, Manuela Carneiro da. Imagens de canção popular em Belém do Pará na
índios do Brasil: o século XVI. Estud. década de 1980. 2014. Dissertação
av., São Paulo , v. 4, n. 10, p. 91- (Mestrado em Ciências Sociais da
110, Dec. 1990. Available from Amazônia) – Instituição de Filosofia e
<http://www.scielo.br/scielo.php?scrip Ciências Humanas, Universidade
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do Ocidente. São Paulo: Entrevistas
FUNARTE/Companhia das Letras, 1999. CHAVES, Nilson. Entrevista concedida a
mim. Belém, 24 de agosto de 2016.

76
OS ÍNDIOS NO GRÃO-PARÁ:
o impacto das experiências no Diretório dos Índios (1681-1757)

* Luana Melo Ribeiro

Resumo: O artigo tem por objetivo analisar, a partir das experiências indígenas, o processo de
formulação do Diretório dos Índios enquanto documento que, com base em experiências coloniais
anteriores a sua formulação, visava redinamizar a política de colonização no norte da América
portuguesa. O Diretório foi redigido levando em consideração as relações observadas entre
indígenas, missionários e colonos no cotidiano amazônico, especialmente nos aldeamentos
missionários, sendo este um espaço de negociação e conflitos. A análise abrange o período entre
1681 a 1757, da criação da Junta das Missões até a publicação do Diretório dos Índios. O recorte
espacial é o Estado do Grão-Pará e Maranhão, pois se parte da compreensão de que o Diretório
dos Índios é uma “legislação pensada, formulada e surgida” para atender uma região específica,
ou seja, o Vale Amazônico, e que, posteriormente, foi estendida para outras partes da América
portuguesa.
Palavras-chave: História Indigenista; Diretório dos Índios; Experiência.

Este trabalho inclui-se na abordagem pesquisa compreende o processo de


da chamada “Nova História Indígena”. Nas formulação do Diretório dos Índios,
últimas décadas do século XX, um novo olhar enquanto um documento que visa
é lançado sobre a história indígena, ou seja, redinamizar a política de colonização. Porém,
uma nova perspectiva que colocava em com a intenção de identificar o lugar o índio
evidência o papel do índio da História do nesse contexto, pois este é “um processo vivo
Brasil, não mais como um elemento passivo formado por uma interação entre vários
das atuações metropolitanas e coloniais. atores, inclusive indígenas” (PERRONE-
Dessa maneira, optou-se por trabalhar os MOISES, 1992, p. 129).
agentes que permaneceram, por muito Como no caso da aldeia “que se chama
tempo, invisíveis ou relegados a um plano Cametá” pertencente à Capitania de Antônio
secundário na historiografia sobre a Colônia, de Albuquerque Coelho de Carvalho, onde
os índios, e que começaram a ser tratados morava o Padre João Maria Gorzoni. Na dita
como agentes de sua história por autores aldeia, chegaram alguns índios da nação
como Manuela Carneiro da Cunha (1992), Aruaquis que haviam sido atacados por
John Monteiro (1992), Maria Regina Celestino “paulista” e na fuga acabaram sendo
de Almeida (2013), Beatriz Perrone-Moisés capturados por índios Guarajus. Dessa
(1992), Márcio Couto (2013), Mauro Coelho forma, pediram auxílio para resgatar seus
(2005), José Alves de Souza Junior (2016), dos parentes que estavam em poder dos ditos
quais tratarei mais adiante. índios que podiam comer ou vender os
As leis coloniais relativas aos índios são Aruaques como escravos. Estes estariam
tratadas como a força motriz da história na dispostos a tornarem-se “filhos de Deus e
colônia (PERRONE-MOISES, 1992, p. 115), no serem governados pelos padres” (CARTA, 21
entanto, percebeu-se que tal debate relaciona de jul de 1671). Nota-se a utilização do
Colônia à Metrópole, quando não, colonos aldeamento enquanto meio para defesa de
aos religiosos em um debate constante sobre uma nação, pelos indígenas. Pois, estes
a liberdade indígena. Mas, qual seria o lugar estariam fugindo da possibilidade se
do índio nessa discussão? Nesse sentido, a tornarem escravos.

* Mestre/UFPA. Correio eletrônico: luana-mribeiro@hotmail.com

77
A partir de exemplos como esse historiografia (ALMEIDA, 2008). No entanto,
percebesse o aldeamento como um campo ao serem revisitados por meio do retorno às
dinâmico em interesses. No contexto do fontes, possibilitam uma releitura e,
aldeamento, Maria Regina Celestino de consequentemente, uma nova compreensão
Almeida vem desconstruindo-o enquanto dos seus significados, sendo esta a grande
um simples espaço de dominação e contribuição da historiografia para o
exploração dos índios (ALMEIDA, 2013). Isso entendimento do passado. Além disso, novos
também é possível perceber nas falas de aspectos, com certeza, emergirão da
Mendonça Furtado, em carta ao Marquês de documentação, pois, como afirma
Pombal, onde afirma que os religiosos ao Christopher Hill, “a cada geração a história
estabelecerem que o pagamento pelo deve ser reescrita, pois, embora o passado
trabalho indígena deveria ser feito não mude, o presente se modifica”.
antecipadamente, os indígenas recebiam e Dessa forma pensou-se em como a
fugiam para o mato, deixando os contratantes percepção das autoridades coloniais, acerca
com o prejuízo. E posteriormente, os das ações indígenas em relação aos
“recolhiam pouco tempo depois os fugidos aldeamentos podem ter servido como base
[aos aldeamentos], sem que até agora conste para se pensar a formulação do Diretório dos
do castigo que nela recebiam” Índios. Pois, os indivíduos vivem suas
(MENDONÇA, 2005, p.109). experiências e tratam-nas na sua consciência
Dessa forma a proposta foi a de e o resultado disso é perceptível no seu modo
analisar as experiências das ações indígenas de avaliar suas ações. O “Diretório que se
em relação aos aldeamentos missionários, deve observar nas Povoações dos Índios do
diante dos jogos de interesses dos quais os Pará, e Maranhão em quanto Sua Majestade
índios faziam parte. Compreende-se o não mandar o contrário” (ALMEIDA, 2007),
aldeamento como um espaço de processos foi publicado em 1758 e nele se apresentam as
sociais articulados e que ao longo do tempo regras que passaram a regular a liberdade
se constituem em diferentes formas de ações concedida aos índios em 1755, com a Lei de
coletivas (MELO JUNIOR, 2011, p. 06). Essas Liberdade (COELHO, 2005).
ações foram sendo percebidas pelas Mauro Cézar Coelho, em sua tese de
autoridades coloniais que através das leis doutorado Dos sertões para o mar: Um estudo
buscavam combater tais práticas. sobre as experiências portuguesas na América, a
A ideia partiu através da leitura de partir da Colônia: O caso do Diretório dos índios
trabalhos como de Márcio Couto Henrique e (1750-1798), trata do Diretório dos Índios não
Laura Morais (HENRIQUE & MORAIS, simplesmente como uma legislação
2014), que apesar de tratar dos indígenas no pombalina. Sendo assim, para Coelho, o
Pará do século XIX traz uma discussão Diretório dos Índios não é um produto fruto
relevante apontando as experiências de da imposição metropolitana, nem tão pouco
trocas comerciais não apenas entre índios e é um produto das experiências estabelecidas
regatões, mas também entre nações indígenas a partir da ponte atlântica entre o Brasil, a
que burlavam as leis de cobranças de Metrópole e outras áreas administrativas
impostos, explorando outra nuance. A (ALENCASTRO, 2000). Para ele, tais regras
“solução” para isso seria diminuir as taxas de não teriam sido sequer previstas pela política
impostos para que os comerciantes e regatões pombalina e foram pensadas a partir de um
não efetuassem o comercio irregular com os parecer de D. Miguel de Bulhões, em 1755,
indígenas (HENRIQUE & MORAIS, 2014). (CARTA, 16 de dez de 1755, doc. 3693), acerca
Notadamente, as experiências em relação aos da Lei de Liberdade.
indígenas influenciavam nas decisões No trecho abaixo é possível perceber a
administrativas referentes à Colônia. avaliação de Bulhões, acerca da Lei de
Dessa forma, os índios, se constituem Liberdade, pois para ele a total liberdade iria
numa temática extremamente ampla e vários provocar um grande deslocamento dos
aspectos dela já foram tratados pela indígenas para o “mato”, obviamente isso iria

78
gerar uma significativa diminuição de mão MOISÉS, 1992, p. 115). Ela evidencia o debate
de obra. em torno das questões jurídicas de liberdade
dos índios em função das desavenças entre
Vivem esses índios totalmente privados colonos e jesuítas, como sendo as forças
dos sentimentos da racionalidade e motrizes dessa discussão.
daquela virtuosa ambição, que desterra a
Tais desavenças estão bastante
ociosidade das republicas, efeito, que tem
produzido neles a barbaridade, com que evidentes na documentação do Projeto
até agora foram educados. [Ilegível] Resgate “Barão do Rio Branco”, como, por
reposto persuado-me evidentemente, que exemplo, o caso em que o Conselho
reduzidos ela a uma plena liberdade pela Ultramarino questiona os gastos
publicação da lei [de liberdade] se retiram apresentados pelo frei Hicronimo de S.
para os matos a engrossar os grandes Francisco, com as 400 almas retirados dos
mocambos, que há neles, para onde os
sertões, mas, “se sabe que historicamente o
seus naturalmente a inclinação dos gentis
com aquele mesmo impulso, com que o padre não tirou nenhum índio dos sertões, se
[Ilegível] buscar o mor, [Ilegível] mais não pelo temor das armas” enquanto João
[Ilegível], que o próprio instante (CARTA, Fragozo desceu mais de 2000 mil almas “com
16 de dez de 1755, doc. 3693). boas práticas”, “em cuja aldeia assistem os
padres piedosos o que o João Fragozo o fez
Posto isso, e compreendendo a sem despesas à Fazenda Real”. Assim
multiplicidade de grupos que compuseram a também teria feito Joseph Lopes na aldeia
sociedade do Grão-Pará colonial é que se Aniba e Miguel de Passos, na aldeia dos
objetiva entender qual a parte que cabe às Abacaxis, mas “sem algum deles pedirem
experiências das relações [conflituosas ou subsídio à Fazenda Real nas despesas, sendo
não] indígenas, no processo de produção do meramente seculares”. Sendo assim em
Diretório dos Índios. O recorte espacial se dá “todas as religiões se fazem despesas” e “é
a partir da compreensão de que o Diretório inegável que usam os índios forros para
dos Índios é uma “legislação pensada, lucrarem com as drogas do sertão. Por esse
formulada e surgida” para atender uma motivo é que se pede a retirada do poder
região específica, ou seja, o Vale Amazônico, temporal a todos os missionários” (CARTA,
e que posteriormente foi estendido às demais 29 de ago. de 1705, Doc. 408). A
regiões da América portuguesa, servindo documentação apresenta uma sequência
como base e ganhando novas configurações considerável de pedidos para o fim da lei que
para atender as diversas realidades coloniais colocou o poder temporal dos índios nas
(SANTOS, 2018, p. 64). Chambouleyron mãos dos religiosos. Esse debate deixou a
afirma que não se pode pensar a economia do questão sempre em evidência, e contribuiu
Grão-Pará e Maranhão na perspectiva com para a secularização dos aldeamentos o que
que se pensa a do Estado do Brasil, pois o os elevou ao status de vilas (CUNHA, 1998) e
Norte era dotado de uma multiespacialidade, colocou a direção dos mesmos nas mãos de
devido às características heterogêneas e a sua pessoas seculares, após um longo processo de
potencialidade produtiva, que promoveu acusações de diversos lados.
uma policultura de abastecimento Essas acusações foram compondo as
(CHAMBOULEYRON, 2010). Logo, o mesmo opiniões das autoridades coloniais como
se pode atribuir às legislações, incluísse a Mendonça Furtado, pois inicialmente, nas
indigenista, que deveriam atender as Instruções régias, públicas e secretas
demandas locais, “obtendo características (MENDONÇA, 2005, p. 67) de 1751, para
necessárias a sua aplicação em regiões Francisco Xavier de Mendonça Furtado,
distintas tanto geograficamente como nomeando-o como governador e capitão-
socialmente” (SANTOS, 2018, p. 64). general do recém criado Estado do Grão-Pará
Para Perrone-Moisés, “as leis coloniais e Maranhão (MENDONÇA, 2005, p. 80), é
relativas aos índios parecem constituir o lócus possível perceber que havia o interesse em
de um debate que envolve as principais unir o Estado aos “negócios pertencentes à
forças políticas da Colônia” (PERRONE-

79
conquista e liberdade dos índios, e objeto para que se mandaram a esse Estado
juntamente às missões” (MENDONÇA, 2005, as pessoas Eclesiásticas” (MENDONÇA,
p. 68). As “Instruções...”, objetivavam unir a 2005, p. 71). Dessa maneira acredita-se que
política pensada para a Colônia com o essas mesmas documentações que expõem
trabalho missionário jesuítico, à medida que: “os embaraços” quanto aos missionários, e
ajudam a inferir acerca das disputas jurídicas
Nas aldeias do Cabo do Norte, que nesta pela mão de obras, como afirma Perrone-
Instrução vos encomendo muito cuideis Moises (PERRONE-MOISÉS, 1992, p. 21), -
logo estabelecer, e as mais que se fizerem
também demonstram as relações dos
nos limites desse Estado, preferireis
sempre os padres da Companhia, indígenas no contexto colonial.
entregando-lhes os novos Para tal é importante ressaltar
estabelecimentos, não sendo em terras que trabalhos como os de John Monteiro e Maria
expressamente estejam dadas a outras Regina Celestino de Almeida que tratam
comunidades; por me constar que os ditos sobre os efeitos do processo indígena de
padres da Companhia são os que tratam os reconfiguração e reformulação, ocorridos no
índios com mais caridade e os que melhor
interior dos aldeamentos do Brasil colonial,
sabem formar e conservar as aldeias, e
cuidareis no princípio destes no caso de Monteiro (2001), e do Rio de
estabelecimentos em evitar quanto vos for Janeiro Colonial, no caso de Almeida (2013),
possível o poder temporal dos eles veem desconstruindo o aldeamento
missionários sobre os mesmos índios, enquanto um simples espaço de dominação e
restringindo-o quanto parecer exploração dos índios (ALMEIDA, 2013).
conveniente. Pois, é importante tratar de uma abordagem
Para que os missionários se não
onde até pouco tempo apenas antropólogos
descuidem das suas obrigações e se siga o
fim pretendido tereis cuidado de vos estudavam, para assim ajudar a diminuir os
informar e examinar se se formam as pré-conceitos estabelecidos que colocam os
aldeias com aquele cuidado com o seu indígenas, unicamente, no lugar de
aumento que os missionários devem ter, subordinados na história Colonial
como também em polirem, ensinarem e (ALMEIDA, 2012).
doutrinarem os índios, e em que nas Em 27 de fevereiro de 1688, o ouvidor-
aldeias se aproveitam mais a pública
geral do Estado do Maranhão, Miguel da
utilidade e vigilância dos mesmos
missionários; e também cuidareis quais Rosa Pimentel, relata que o capitão mor
são as nações dos mesmos índios mais Antonio de Albuquerque deflagrou guerra
dóceis e capazes de receberem o ensino, a justa contra os índios da nação Maraumes,
sua inclinação, o gênio dominante de cada pois estes haviam matado o padre Antonio
uma das ditas nações, para, de tudo me Pereyra, seu companheiro e mais 4 índios que
informardes, e à proporção do progresso tinham ficado naquela missão. No processo
que fizerem os missionários, agradecer-
da guerra aprisionaram 39 índios que foram
lhes o seu trabalho ou adverti-los dos seus
descuidos, e também poder dar algum remetidos à cidade. Alguns disseram ter
prêmio proporcionado aos índios que matados os padres, pois, estes os teriam
mais se distinguirem, para lhes servir de roubado. Outros disseram que o fizeram
estímulo a todos a minha Real clemência e porque lhes proibiam as mulheres. E outros
atenção que com os beneméritos mandar porque os franceses disseram-lhes que os
praticar. (MENDONÇA, 2005, p. 75) padres eram embusteiros e que estavam ali
para entretê-los enquanto chegava o capitão
No entanto, as experiências coloniais
mor, e com a sua chegada os iriam amarrar e
com relação às desavenças com os padres
os fazer de escravos (CARTA, 31 de maio de
ficam evidente no mesmo documento, onde
1688, Doc. 271). Nota-se que dentro de um
nota-se que havia a recomendação especial
grupo de ação única, há vários motivos e
de evitar que nessas aldeias aos padres fosse
intenções, bem como a preocupação com a
dado o poder temporal. Para Pombal, “a
sua liberdade que os levaram a tal atitude.
frouxidão e tolerância que tem havido nesta
matéria até serve de embaraço ao principal

80
O destaque aqui é para como as aqui se entende como forma de garantir o não
“camadas populares” são ativamente esvaziamentos das agora Vilas, e assim
atuantes na história e resgatar tais ações de manter um contingente de mão de obra-de-
“gentes comuns” é importante para percebê- obra. Mas, isso é fruto de arranjos e rearranjos
los como transformadores de sociedade dentro de um processo vivo formado pelas
(MELO JUNIOR, 2011, p. 07-09). Nesse partes: colonos, jesuítas e indígenas bem
sentido, torna-se importante apontar as ações como Colônia e Metrópole. Para
indígenas nos aldeamentos, enquanto espaço compreender esse processo a Junta das
de negociações e conflitos, bem como notar os Missões traz uma gama de situações
impactos disso no processo de formulação pertinentes ao tema, como no caso das
das leis indigenistas, no caso o Diretório dos “guerras justas” contra nações não inimigas:
Índios. Ou seja, é necessário estudar os A reclamação foi trazida à Junta, pois o
indígenas a partir de suas experiências e principal Caravajarú e toda a sua gente,
percepções acerca do processo colonizador, teriam sido descidos em cordas, bem como os
entendendo o aldeamento missionário como principais Javá Bumejevá, Iramacom,
sendo um dos principais mecanismos na Jabenarí e Janapú que declaram que os que
política de ocupação. não foram mortos, ou fugiram para o mato ou
Essas relações são preocupações que foram para as missões (JUNTA, 1734, Doc.
vão se apresentando na legislação, mesmo DSCN0367). Ainda segundo esse documento
sutilmente. Um exemplo disso é o fato de a da Junta das Missões, tal fato teria provocado
legislação buscar ressaltar a necessidade de um esvaziamento da região devido ao direito
dar um bom tratamento aos indígenas, na de intervenção dos regulares padres da
busca de estabelecer relações amigáveis e Companhia de Jesus.
assim evitar que eles retirem-se para o mato. Diante da atuação dos religiosos,
No Diretório é possível notar as aproveitava-se para pedir pela secularização
recomendações aos Diretores “que da administração dos indígenas: Não se pode
persuadam os Índios pelos meios da tolerar que desça o principal Jacabary da
suavidade, quais são neste caso, o propor- quase acabada aldeia Castanhal com o resto
lhes a sua maior conveniência, que conduzam de tão pouco vassalos para as fazendas dos
para a Cidade todos os gêneros, e frutos” seus conventos. A utilização da Junta das
(DIRETÓRIO, Artigo 45), “e para que as Leis Missões passou a ser uma adoção indígena no
da distribuição se observem com recíproca campo das negociações, na busca pela
conveniência dos moradores, e dos Índios, e liberdade e bem estar. E suas reclamações
estes se possam empregar sem violência nas compuseram as preocupações coloniais para
utilidades daqueles” (DIRETÓRIO, Artigo evitar o esvaziamento dos aldeamentos,
69), “ainda quando evidentemente especialmente.
mostravam, que os mesmos índios No artigo 9 do Diretório, tais
desertavam de seu serviço se lhes não preocupações podem ser observadas na
restituíam os ditos pagamentos” orientação em se guardar aos indígenas, “as
(DIRETÓRIO, Artigo 69) por isso, orientou honras, e os privilégios competentes aos seus
que “aos Diretores, que apenas receberem os postos: [...], as quais pede a razão, que sejam
sobreditos sellarios [sic] entreguem aos tratadas com aquelas honras, que se devem
Índios uma parte da importância deles, aos seus empregos.” Tais negociações eram
deixando ficar as duas partes em depósito” comuns no contexto colonial, pois os
(DIRETÓRIO, Artigo 69) para pagamentos indígenas não abriram mão de certo espaço
futuros dos mesmos indígenas e assim se de autonomia nos aldeamentos, os religiosos
possa evitar as queixas deles. tinham que fazer concessões como, por
Para Perrone-Moises (1992, p. 211), o exemplo, permitir a bebida alcoólica em
bom tratamento estaria ligado diretamente à festas (HENRIQUE, 2013, p. 145), buscar não
dependência disso para a conversão e “pesar a mão” nos castigos, conceder licença
consequentemente a civilização. No entanto, para que eles pudessem fazer suas roças e

81
casas (DEVASSA, Códice 160, Doc. 008). E é resolver uma demanda colonial, o problema
diante dessas negociações e conflitos que que a liberdade total, dos indígenas, traria
tentamos perceber a dinâmica das relações com a lei de Liberdade (COELHO, 2005).
que ajudaram a pensar as leis indigenistas. Mas, qual o lugar do índio nesse processo?
“Uma história propriamente indígena Para Monteiro a historiografia
ainda está por ser feita”, afirma Cunha (1992, produzida acerca da história indígena, até
p, 20), mas os estudos estão apontando para então, colocava o índio apenas como um
a “nova história” indígena e a indigenista, coadjuvante ingênuo das ações civilizatórias
mostrando que os indígenas possuem a sua europeias (MONTEIRO, 1992, p, 105-120). No
própria história e dela são agentes, bem entanto, nas produções mais recentes,
como, refletem sobre ela. Socialmente, falar buscou-se cada vez mais atribuir,
dos indígenas é também recuperar essa legitimamente, às atuações indígenas na
memória indígena e assim construir e construção da sociedade colonial. Nesse
compreender sua identidade e garantir seus sentido, compreende-se o processo de
direitos. É importante recuperar os sujeitos formulação do Diretório dos Índios,
históricos e as suas ações de acordo com a sua enquanto um documento que visa
leitura de mundo, “leitura esta informada redinamizar a política de colonização.
tanto pelos códigos culturais de sua Para isso, deve-se levar em conta as
sociedade como pela percepção e ações indígenas no contexto dos aldeamentos
interpretação dos eventos que se em relação aos outros agentes coloniais,
desenrolavam” (MONTEIRO, 1999, p. 248). principalmente os religiosos, considerando-
Torna-se relevante, portanto, recuperar se que segundo o artigo 2º do Regimento das
as atuações indígenas resgatando-as do Missões, a eles foi dado o governo não apenas
passado para possibilitar às sociedades espiritual, mas também o temporal e político
indígenas um futuro e, mais importante, um das aldeias de sua administração
presente, a ser ativamente construído a partir (MALHEIROS, 1867, p. 06). Ao
da recuperação de sua memória e de sua compreendermos o aldeamento como um
história. O papel dos historiadores, nesse espaço de negociação e poder, pode-se
contexto, é pensar os povos indígenas em identificar como essas relações influenciaram
processos históricos mais amplos, a formulação das leis, no caso o Diretório dos
procurando evidenciar como suas atuações Índios. Como no artigo 16 do Diretório, onde
contribuíram para delinear seus rumos na se orienta a gestão e a fiscalização da relação
história do Brasil. Afinal, a história dos de trabalho estabelecida entre os indígenas e
indígenas na América se entrelaçou com a os moradores, para que haja reciprocidade
história dos europeus desde o momento em nos seus interesses e assim se possa garantir
que eles ali chegaram (HILL, 1996). Assim, a solidez para o Estado.
elas não devem ser estudadas de forma Em 1682, o Provedor da Fazenda Real
separada, nem tampouco em oposição uma à do Pará, João de Almeida Bacelar, fez uma
outra. consulta ao Conselho Ultramarino acerca de
A questão é: O Diretório dos Índios é uma consignação que fez o Governador e
uma legislação que ora está Capitão General do Estado do Maranhão,
historiograficamente posicionada como uma Grão-Pará e Rio Negro, Pedro César de
lei que possui seu epicentro na Metrópole, Meneses, de uma aldeia de índios [nome não
como resposta às demandas coloniais informado] para a cobrança dos dízimos.
(ABREU, 1998). Ora é vista como parte da Diante do caso, a orientação dada foi a de que
política ilustrada pombalina, para atender fizessem descontos aos contratantes da mão
um plano de crescimento econômico de obra indígena, mas que, antes de tudo,
(ALMEIDA, 1997). Ou então, é a resposta a dever-se-ia aumentar o policiamento na
um processo conflitante entre colonos e a relação de trabalho e pagamento, entre
Companhia de Jesus (PERRONE-MOISÉS, contratantes e indígenas, haja vista que já era
1992). E por fim, uma legislação, criada para sabido da opressão que os indígenas sofriam

82
e por isso ocorriam as fugas. Sendo assim, nações de gentios, cujo principal convocou a
para que aumentasse as rendas da Fazenda aldeia Camonixari, em meio a um grande
Real, primeiramente dever-se-ia “defender” lago, cujo nome é ilegível no documento, e
os índios dos moradores para que não demonstraram “com muito gosto” o desejo
viessem a faltar índios e se pudessem manter de serem admitidos à conversão da fé e
os preços na contratação (CARTA, 22 de out. amizade, “dando a entender o quão violentos
de 1682, D. 206). eram os franceses de Cayana”. Na mesma
A historiografia que diz respeito à légua se encontrou outros franceses em uma
história do índio e do indigenismo sofre canoa vinda de Cayana com ferramentas e
novas inflexões, fortaleceu a ideia de que o outros resgates para o comércio de escravos.
contato entre indígenas e brancos estaria para Os remeiros de seu comboio eram índios do
além do processo baseado conceitualmente rio de Vicente Pinzon [parte de onde dizem
em aculturação, dominação, sujeição, ser o marco da antiga divisa das Coroa]. Tais
catequização entre outros. Tais inferências índios não eram vassalos dos franceses e sim
trouxeram o índio da condição de espectador do rei de Portugal. A esses remeiros foi
para a categoria de agente histórico e por isso avisado que seriam castigados, se tornassem
é importante verificar como essas a remar ou servissem de guias aos franceses
experiências contribuíram para formulação novamente. Os indígenas disseram que
da legislação indigenista. No artigo 14, do faziam esse serviço e que os seus principais
Diretório, adverte-se aos diretores que diante sabiam, mas prometeram não tornar a
das embriagues deve-se ponderar e ter acompanhar os franceses.
brandura nas orientações para que os O Governador afirmou que a entrada
indígenas não fujam do grêmio da Igreja. dos franceses não seria fácil sem a ajudar os
Foi observado, nas fontes, que essa indígenas e logo mandou contentá-los com
brandura era prática comum, na tentativa de alguns mimos que “muito estimaram”, pois
evitar o esvaziamento dos aldeamentos e este era um sinal de amizade, o qual “só se
garantir a mão de obra, na Colônia. O sustentava por temor ou interesse”. O
exemplo disso nota-se na carta do missionário logo pediu para que se
Governador Artur de Sá e Mendes, onde começasse a construir a igreja e casas para a
informou ao rei, D. Pedro II, que foram moradia dos padres. “Feitas essas diligencias
descidos 370 índios da nação Maruaruy. Os e vistas essas paragens do rio de Araguari e
mesmos teriam demonstrado o desejo de lagos de Mayacari e despendendo largos
serem cristão e solicitaram a presença dos mimos, por ser assim conveniente para se
missionários, mas que isso não foi possível satisfizer a comunicação” (CARTA, 19 de set.
naquele momento, pois o Padre Antônio de 1687, Doc. 267-385).
Pereira, da Companhia de Jesus, não estava É sabido que tal fato ocorreu dentro de
acompanhando do Governador. Mas, os uma disputa com os franceses e é mais uma
indígenas o seguiram diante das promessas “experiência de fronteira”, porém quer se
de que logo conseguiriam o que procuravam destacar aqui como “camadas populares” são
(ser cristãos). Além disso, na mesma carta se ativamente participantes na história e busca-
relatou que do outro lado do rio das se resgatar tais ações de “gentes comuns”
Amazonas, havia franceses, e que estes pois estes são também transformadores de
andavam comercializando escravos [índios], sociedade (MELO JUNIOR, 2011, p. 07-09).
nas ilhas dos Haroans, nas quais havia Ao pensarmos dessa forma percebe-se que a
missões de capuchos. Achou-se só três fonte também traz à luz relações de interesses
indigenas escravizados já comprados, todos os lados dos agentes em questão.
passados pelo sertão dos Tocujuz, pouco Nessa fonte é possível perceber a
distante da fortaleza de Gurupá. tentativa de utilização da “conversão” ao
Após esse resgate, Artur de Sá e catolicismo, por dois grupos indígenas –
Mendes continuou a penetrar no rio e lagos Maruaruy e Camonixari -, para evitar a
dos Icayacari, onde viviam outras muitas escravização. Essa prática aparenta ser

83
comum e identificável no artigo 4 da Lei de 1º sido alvo de uma política “civilizatória”
de Abril de 1680 (SOUZA JUNIOR, 2016, p. (ALMEIDA, 1997).
143), onde se orienta que apenas a Buscamos perceber como os indígenas
Companhia Jesus poderia ir aos sertões se posicionaram enquanto sujeitos históricos
“trazer, catequizar e administrar os gentios e analisar as suas relações com os não
que pela grande confiança que neles tinham indígenas, a partir de suas próprias
perderiam o temor do cativeiro, e prestariam motivações e interesses para assim ir
inteira fé à liberdade que a nova lei lhes identificando como isso ajudou a compor na
afiançava” (MALHEIROS, 1867, p. 05). E formulação da legislação indigenista, no caso
posteriormente no artigo 2 do Regimento, o Diretório. Para isso, é importante flagrar os
onde ser esclarece que aos religiosos cabe o conflitos que antecederam a legislação
dever de prestar defesa aos indígenas, contra indigenista entre os agentes sociais dos
o Estado, diante da “guerra do sertão e outros aldeamentos.
serviços” (MALHEIROS, 1867, p. 05). Isso porque, quando se trata do
Observa-se também, a preocupação em Diretório dos Índios é comum perceber a
evitar os castigos contra os indígenas que figura do Marquês de Pombal - como sendo
estavam atuando em favor dos franceses. central. No entanto, propõe-se aqui um
Onde, além de não terem sido punidos, ainda distanciamento dessa linha de pensamento,
receberam “mimos”, pois este era um sinal de apesar de se reconhecer sua importância
amizade, o qual “só se sustentava por temor histórica. Rafael Chambouleyron em seu
ou interesse”, “por ser assim conveniente trabalho Povoamento, Ocupação e Agricultura
para se satisfizer a comunicação,” e é claro na Amazônia Colonial (1640-1706), lança essa
evitar que os indígenas não só fujam, mas proposta, ao inferir que a política pombalina
também para que não voltem a ajudar os é o resultado de um processo pelo qual a
estrangeiros. Obviamente, não se tinha a Amazônia passou, ao qual deve-se incluir as
certeza que os indígenas não voltariam a experiências de governo dos antecessores a
auxiliar os franceses, ou qualquer outra nação Pombal, na região. E que tal política estaria
europeia presente naquelas paragens, haja condizente com a já pensada para o Norte
vista, que são relações como o documento (CHAMBOULEYRON, 2010).
revela, de “temor ou interesse”. Nadia Farage, em As muralhas dos
A demonstração do interesse indígena sertões: os povos indígenas no Rio Branco e a
pela conversão para evitar a escravização ou colonização (FARAGE, 1991), traz uma
o trabalho remunerado com os colonos discussão relevante no contexto de se
leigos, teria sido um, dos muitos, motivos encontrar as dinâmicas próprias da
pelos quais se retirou a administração dos Amazônia ao apontar a importância da
aldeamentos, do poder dos missionários, e “história de contato e fronteiras que,
também os elevou à categoria de vilas. Rita juntamente com portugueses e holandeses,
Heloisa de Almeida trata o Brasil como um constituiu uma dinâmica de poder na região
receptor do pensamento reformista ilustrado do rio Branco” (SANTOS, 2018, p. 46). No
português, que teria ganhado mais força a entanto, ela ainda posiciona os grupos
partir da mudança introduzida na legislação indígenas como ferramentas dessa mesma
colonial, feita pelo ministro Sebastião José de dinâmica.
Carvalho e Mello, o marquês de Pombal.1 E Ângela Domingues evidencia que
isso teria ocorrido, principalmente, como o muitos indígenas buscaram a vida nos
auxilio dos seus colaboradores, que no Norte, aldeamentos como alternativa/estratégia ao
foi Francisco Xavier de Mendonça Furtado, processo colonizado (DOMINGUES, 2000). A
governador e capitão-general do Estado do autora consegue demonstrar a capacidade
Grão-Pará e Maranhão (1750-1759). Dentro desses indivíduos de viverem suas
desse contexto, os povos indígenas teriam experiências e tratá-las na sua consciência e o

1Foi secretário de Estado do Reino durante o reinado de D.


José I (1750-1777).

84
resultado disso é perceptível no seu modo de A brandura com os indígenas
vida. Trabalhos como os de Domingues é que apresentou-se como uma condição sine qua
dão base para que se formule a explicação de non para estabelecer o avanço da política de
que as experiências vivenciadas em relação ocupação e crescimento econômico, mediante
aos indígenas, teriam se refletido nas o uso da mão de obra indígena. Bem como, o
legislações indigenistas. Como é possível aldeamento mostrou-se como um lugar de
perceber nas preocupações do Bispo Miguel índio, na tentativa indígena de garantir uma
de Bulhões e Sousa acerca da lei de Liberdade possibilidade de bem estar, diante das
aos índios: “opções” que possuiam na Colônia. Além
disso, mantê-los como escravos era um
Esta deserção dos índios, que exponho debate que sempre gerou dúvidas nos mais
inevitável não havendo alguma de dois séculos de ocupação, mas as
providencia ou cautela, moveram sem
experiências apontaram para as autoridades
dúvida a estes moradores ou a
desampararem o Estado, retirando-se para que a liberdade plena inviabilizaria a política
as colônias visinhas, ou a romperem em de ocupação.
outro semelhante destino, administrado Dessa maneira, o Diretório dos Índios
pela fúnebre e infeliz ideia de que na falta foi um regulador para que mantivesse a
de operários tem perdido todos os seus possibilidade de acesso à mão de obra
haveres. Assim deste ponderado destino indígena, porém sabia-se que mesmo com as
me persuado também que publicada a dita
regras estabelecidas, não havia garantia de
lei, sem embargo do bando, que v. ex.
aponta como ficam livres os índios para uso dessa mão de obra. Para isso, preocupou-
servirem estes ou aqueles moradores se com as relações de “amizade”
dentro dos limites do mesmo território, demonstrando que para a ocupação,
cada um dos ditos moradores praticará os dependia-se mais do que das leis, seria
índios, que parecer perturbando-se necessário estabelecer alianças e “brandura”
mutuamente um ao outro, de que com os indígenas. Isso é o que fica evidente
naturalmente se há de seguir, uma total
na lei, dada à preocupação constante com o
desordem e confusão.
Para remediar, pois todos estes destinos, trato que se estabeleceu com os indígenas.
me parece justo, que no mesmo dia em que Portanto, principalmente as
se fizer pública a referida lei, se publicasse experiências dos indígenas descidos, com os
também, ou por lei de S. Mag. Ou por agentes dos aldeamentos, principalmente os
bando do Governador, que todos os missionários, influenciaram na formulação
moradores, que quiserem tomar à soldado do “Diretório que se deve observar nas
os mesmo índios, que até agora possuíam
Povoações dos Índios do Pará, e Maranhão
como escravos, os pedissem na forma do
bando do mesmo Governador e exc em quanto Sua Majestade não mandar o
Senhor General, o que pela aprovação de contrário”.2
Sua Mag, se observa em todo este Estado,
como lei por aqueles anos que parecer ao
dito Senhor. Esta providencia que parece o
bem comum dos moradores sem ofensa da FONTES
liberdade dos índios me parece ALMEIDA, Rita Heloísa de Diretório dos
indispensável neste caso para evitarmos índios. O diretório dos índios: um projeto de
algum prejuízo maior. Ao senhor General
"civilização" no Brasil do século XVIII.
escrevi também nesta matéria repetindo-
lhe os mesmos fundamentos para que à
Editora UnB, 1997.
vista dela ressaltasse s. exc. o que lhe BETTENDORF, João Felipe. Carta ânua. 21 de
parecesse mais conforme ao serviço de S. jul. de 1671. ARSI, Cód. Bras 9, fl. 262r.
Mag e conservação desta capitania. DEVASSA. Reclamação contra os
(CARTA, 16 de dez. de 1755, Doc. 3693). índios/Pagamentos dos índios, Códice
160, Doc. 008. APEP.

2Publicado em 1758, nele se apresentam as regras que


passaram a presidir a liberdade concedida aos índios em
1755, com a Lei de Liberdade, segundo Coelho.

85
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87
AS LÍNGUAS E OS LÍNGUAS:
intérpretes indígenas e missionários jesuitas
na Amazônia colonial (sécs. XVII-XVIII)

* Rafael Rodrigues Correa

Resumo: O artigo tem como objetivo aprofundar a agência dos índios tradutores, chamados de
“línguas” enquanto personagens cruciais no projeto jesuítico. Embora as evidências acerca desses
agentes nos relatos missionários sejam extremamente fragmentadas, é possível coletar
informações básicas a seu respeito. Assim, os intérpretes constam, sobretudo, nos escritos de
João Daniel e João Felipe Bettendorff, mas também nos de Luís Figueira e Antônio Vieira. Porém,
a atual pesquisa foca nos dois primeiros. Para a análise dessas fontes parte-se do conceito de
mediação cultural definido por Paula Montero. O recorte temporal da pesquisa é relativamente
amplo (1607-1759), dado o caráter inicial da pesquisa. Percebe-se que os missionários tanto
elogiam quanto se desconfiam dos “línguas” em traduzir seus propósitos.
Palavras-chave: Línguas. Mediação. Lingüística. Índios. Missionários.

Ao chegar ao território que se tornaria partes. A primeira fará um pequeno


colônia portuguesa, os missionários apanhado do que a historiografia, e também
encararam problemas de comunicação com a linguística, tem a dizer sobre esse
os nativos, que possuíam suas próprias personagem, e dos contextos em que viveu e
línguas. Para a resolução desse problema, ao dos sentidos que empregou a esses contextos.
menos temporariamente, foram requisitados Em seguida, a análise das fontes permitirá a
os línguas indígenas, nativos bilíngues ou conclusão sobre alguns aspectos desse
mesmo trilíngues que pudessem traduzir a personagem tão pouco estudado. A recente
mensagem jesuítica, a catequese. Porém, as virada historiográfica para a busca de agentes
fontes sobre a presença desses personagens antes deixados de lado é evidência da
fundamentais são raras e espaçadas. O necessidade de pesquisa sobre a história
objetivo desse artigo é, assim, ler nas indígena em suas especificidades.
entrelinhas do relato jesuítico,
especificamente a crônica de João Fellipe
Bettendorf e os dois tomos do tratado de João
Daniel, para encontrar esse índio. OS LÍNGUAS DA NARRATIVA
Dentro de um contexto de ampliação da JESUÍTICA NA HISTORIOGRAFIA E
Língua Geral Amazônica como língua franca, NA LINGUÍSTICA
o estudo desdobra-se especificamente sobre
os índios que faziam a mediação entre a Dennys Silva-Reis e Marcus Bagno
língua geral e sua língua materna, trabalho (2016) podem nos situar em sua tentativa de
requisitado tanto por colonos quanto por fazer uma breve história da tradução do
missionários. Amplamente conhecido na Brasil. Os autores argumentam que os
historiografia sobre o assunto, parte-se do primeiros tradutores foram portugueses que
aporte de mediação cultural defendido por aprenderam os idiomas indígenas de
Paula monteiro (2006). Para a consecução maneira forçada, pois na sua maioria eram
desse objetivo, o texto se divide em duas degredados da metrópole portuguesa. De

* Discente do curso de graduação licenciatura em História – UFPA. Avenida José Bonifácio, n 3035. Correio eletrônico:
correa.rafael97@gmail.com

89
acordo com esses autores, os línguas não desses indígenas como intérpretes de
eram meros tradutores, mas serviam também confissões gerou uma série de problemas,
de mediadores em importantes questões criando debates dentro da hierarquia
entre índios, locais e agentes administrativos religiosa. A catequese precisava ser traduzida
coloniais, chegando a receberem boa do indígena ágrafo para o manuscrito. A
remuneração no seu ofício em reitorias. Sobre confissão, fundamental para a alma, passava
isso, Maria Cândida Barros concorda: “o pela mediação do intérprete: não era possível
primeiro intérprete oficial foi o colono, por saber como o índio denunciava os próprios
conhecer tanto o discurso cristão como pecados sem adições, omissões ou variantes,
também pela sua destreza na língua tupi” conscientes ou não, daquele que traduzia
(BARROS, 1986, p. 5). (BARROS, 2011).
Quando os primeiros missionários José Bessa Ribamar Freire (2003)
chegaram ao território que se tornaria a defende uma periodização das políticas
Amazônia colonial se depararam com uma linguísticas em que o primeiro período de
gigantesca pluralidade linguística. Essa babel contato teria sido sustentado pela presença
de línguas, todas ágrafas, com centenas de dos línguas, mas difere de sua constituição.
grupos e dezenas de troncos linguísticos, Para o autor, a estratégia europeia imitou a
constituiu grande obstáculo aos desígnios da atuação de Portugal na África: aprisionar
coroa portuguesa e acabou causando alguns nativos para levá-los a Portugal e
mudanças na posição legislativa da coroa em iniciá-los na língua lusa. Esta seria a primeira
relação à questão durante todo o período fase da periodização defendida, que começa
colonial. Era necessário estabelecer alianças no século XVI e termina no começo do século
com os indígenas, possuidores do XVII: A prática dos intérpretes. Porém, em
conhecimento geográfico e biológico daquela seguida, com o começo da ocupação
parte do bioma amazônico em que os populacional do território, de fato os colonos
europeus se aventuraram. Além do acesso a que vieram de Pernambuco e Maranhão para
essas informações, a própria aliança com os o Grão-Pará estavam acompanhados de
nativos era suporte necessário à colonização, índios aliados com os quais falavam através
uma vez que, ao menos nas primeiras da língua geral. Esta compreende a segunda
décadas (ou séculos), o poder bélico de fase, referente à escolha do tupinambá
Portugal não se mostraria suficiente para enquanto língua geral e sua expansão a partir
uma dominação unilateralmente militar. A do convívio de indígenas de várias etnias
revolta dos índios no Maranhão e Grão-Pará dentro das missões (1616-1686). De acordo
que ocorreu no final da primeira década do com o autor, o domínio da “língua brasílica”
século XVII, e a superação dessa revolta com por esses primeiros colonos é indício que a
uso de contingente indígena, são exemplos LGA se tornou franca na Amazônia
disso (CARVALHO JUNIOR, 2005). Para se independentemente de qualquer decisão
alcançar tudo isso, era necessário conseguir política. O último período que diz respeito a
falar com o índio. Os primeiros colonos, esta pesquisa é o de 1686 a 1757, ano em que,
imersos no cotidiano cultural dos indígenas, de acordo com o autor, aparecem as
além de seus filhos, quase sempre com propostas de portugalização da Amazônia.
mulheres indígenas, foram os primeiros (BESSA FREIRE, 2003, p. 96). Percebe-se com
intérpretes que serviram para consecução dos essa periodização, até então em voga e pouco
negócios temporais desses colonos e do questionada pela historiografia, que a LGA
angariamento das almas para a salvação, esteve presente desde os momentos iniciais
pelos missionários. Esses intérpretes serão da colonização e sofreu uma expansão
requisitados para o trato com indígenas crescente de acordo com determinantes
durante todo o período colonial, mas o seu históricas e linguísticas.
uso era paliativo. Para os missionários Como Gabriel de Cassio Pinheiro
particularmente, resolviam alguns Prudente (2017) aponta, era práxis da
problemas, mas causavam outros. O uso companhia de Jesus a aprendizagem da

90
língua nativa dos territórios em que portuguesa se complicou na medida em que
estivessem evangelizando, mas não seria eram necessárias interpretações e traduções
possível aprender todas as línguas indígenas. nas catequizações. Sobre isso, os autores
De acordo com ele “saber a língua do abordam Anchieta:
próximo que se quer converter foi um tema
fundamental na formação dos escolásticos Em São Paulo, o jesuíta José de Anchieta
(isto é, os estudantes) jesuítas, conforme (1534-1597) escreveu várias peças teatrais
– entre as mais famosas estão Na Festa de
orientam as próprias Constituições da
Natal, Na Aldeia de Guaraparime Na Festa de
ordem” (PRUDENTE, 2017, p. 28). Esse foi São Lourenço – que eram encenadas para
um dos motivos que levou a constituição de uma plateia de índios e colonos nas
uma língua geral, e alguns outros fatores línguas tupi, português, espanhol e latim;
determinaram que essa língua geral fosse o ou seja, tanto texto original quanto texto
tupi falado pelos Tupinambá, que eram a traduzido, no que se refere às peças de
etnia numericamente superior na costa do sul Anchieta, nasciam ao mesmo tempo, pois
eram textos de consumo religioso quase
do continente.
que instantâneo por serem utilizados na
Almir Diniz de Carvalho Júnior (2005) catequese dos índios e na manutenção da
aponta que essa matriz tupi constituiu a base fé cristã entre os colonos em meio à Babel
de referência cosmológica indígena que se que era o Brasil quinhentista (...) (SILVA-
ampliou significativamente no período REIS, BAGNO, 2016, pp. 87-88).
colonial, exercendo uma ação de tupinização
sobre outras etnias. Essa tupinização Sobre essas peças, Barros (1986) pensa
constitui estratégia de estabelecimento de sobre a ótica de uma instituição com ideal
língua supraétnica de acordo com Barros supraétnico, no sentido de formar um
(1986), na qual a igreja teve papel pensamento de dominação unificado. As
fundamental, ao atuar no processo de peças, que antes apresentavam certo nível de
dualização entre colonizadores e improviso, uma vez que o discurso religioso
colonizados, que deixava de lado era mais importante que o desempenho
diferenciações étnicas dos nativos. cênico, foram alvo de uma política
Os línguas tiveram tamanha unificadora na qual não houvesse espaço
importância no contexto jesuítico que houve para manifestações profanas. A dominação
solicitações de dispensas de algumas supraétnica do espírito do gentio requereu
obrigatoriedades institucionais eclesiásticas uma unificação do discurso religioso que
para receber os votos, quando se tratava de concorria contra o xamânico nativo. De
alguém não-índio que pudesse agir como acordo com a autora, esse discurso
língua dentro do alcance da igreja: supraétnico ganhou força a partir da segunda
metade do século XVI, quando se
Por exemplo, em relação a Pero Correia, se consolidava não somente o sistema colonial,
pedia dispensa da pena de morte de mas o controle da mão-de-obra indígena e
índios, fato ocorrido antes de ter entrado sua conversão pela igreja.
na Companhia de Jesus; para Fernão Luis, Barros (1986) argumenta que havia uma
dispensa de votos por já ser padre secular;
ideologia do letramento alinhada com o
para Adão Gonçalvez, dispensa da
exigência de nunca ter sido casado, etc. Em projeto civilizatório, onde os indivíduos que
1568, a Congregação solicitava a dispensa tivessem mais erudição seriam mais bem
de maiores estudos a todas as pessoas que vistos. Isso logo se traduziu em um paralelo
soubessem a língua da terra (LEITE, entre os senhores da fala indígena (pajés) e os
1950:v.II:563 Apud Barros, 1995, pp. 5-6). próprios jesuítas, percebendo-se certas
semelhanças entre seus discursos públicos
Sobre o intuito cristão do processo exortativos. Tal semelhança parece ter
colonizador, os autores Bagno e Silva-reis motivado uma aproximação desses discursos
(2016) discutem algumas peças teatrais. O nos anos iniciais. Mas uma colonização da
conhecido intuito de levar a palavra de Deus linguagem, que tentaria suprimir essas
aos não civilizados encontrados na colônia

91
manifestações pagãs, dominou o discurso que “No entanto, assim como os outros, [as
nativo em prol do jesuítico. crianças] exercitaram sua capacidade de
Essa supressão linguística pode servir traduzir a nova crença e vinculá-la ao
como exemplo da disputa entre a universo referencial que traziam como
religiosidade tradicional e a estrangeira e da tradição” (CARVALHO JÚNIOR, 2005, p.
eficiência jesuítica na construção de 259). Como se verá adiante, a apropriação
estratégias de dominação espiritual. Outra particular das doutrinas dessas crianças, ou
estratégia foi a educação cristã das crianças sua ausência, preocupavam os jesuítas, que
indígenas, os “hermanitos de la tierra”, por nem sempre estiveram confiantes na
Luciana Villas Bôas (2009, p.170). “constância” da doutrina cristã nos
As crianças não só pareciam receber os indígenas.
ensinamentos cristãos com mais facilidade, Durante todo o processo de contato e
como acabaram por tornarem-se agentes dos colonização, era necessária a comunicação
jesuítas. Assediavam seus pais para com indígenas, o que tornava indispensável
participarem dos rituais cristãos, auxiliavam o uso de línguas. Entre esses, eram várias as
na preparação desses rituais, e ainda suas identidades e funções, além da tradução.
fiscalizavam seus parentes, prontos a Os primeiros colonos logo aprendiam a
denunciar aqueles que voltassem para os língua da terra, além de conhecer o
antigos hábitos. Porém, as conclusões da português. Os missionários aprendiam a
autora fazem referência a um período de seis LGA ao chegar, mas sua comunicação com
anos, marcado pelo contato inicial dos indígenas não terminava aí: com o uso de
preceitos cristãos com os nativos e pela ideia catecismos, dicionários e gramáticas,
dos jesuítas de que esses índios não tinham conseguiam alcançar, com o tempo, não
religião, recebendo a nova religião, que iria falantes da língua tupi. Bessa Freire faz uma
ocupar esse vazio, com bom grado. Ainda de identificação dos indígenas:
acordo com ela “À medida que os índios se
revelaram inconstantes, não apenas os De um lado, havia aqueles índios que eram
catecúmenos em geral, mas também os recrutados para o sistema colonial - os
“domesticados”, “índios da missão”, “índios de
hermanitos de la tierra, recolhidos e ensinados
repartição” e até mesmo os escravos. Esses
nos colégios, os jesuítas traçaram uma nova adquiriam a Língua Geral, que por um
estratégia” (VILLAS BÔAS, 2009, p. 171). certo tempo convivia em bilinguismo com
Mesmo assim, as crianças indígenas não as línguas vernáculas, mas essas últimas
deixaram de ser vistas como cristãos tendiam a desaparecer em uma ou duas
potenciais com maior chance de sucesso da gerações, criando uma situação de
educação jesuítica do que seus pais. A monolingüismo em Língua Geral. De
outro, os que conseguiram continuar
discussão acerca da música, estratégia de
vivendo em suas aldeias de origem,
aproximação dos missionários com os índios, preservando sua língua materna e sua
feita por Plínio Freire Gomes (1991) também identidade lingüística (BESSA FREIRE,
evidenciam essa potencialidade. De acordo 2003, p. 68).
com o autor, órfãos trazidos de Portugal e
que eram conhecedores de música chegaram Quanto a estes indígenas aldeados e
ao novo mundo para exercer uma mediação domesticados, acabavam aprendendo o tupi
que se tornaria mais eficiente que a catequese no cotidiano dos aldeamentos e mantinham
ortodoxa devido a uma aproximação cultural memória da língua materna, tornando-se
conseguida com essa prática. Vale lembrar bilíngues, sendo fundamentais para o contato
que o recorte temporal desses dois autores com aldeias mais distantes de indígenas
constitui fator de aproximação de suas falantes da mesma língua. Aqueles indígenas
conclusões. acabaram fazendo parte de comitivas a
Tal importância dada à educação das negócios com colonos, ou posteriores
crianças acabou por torná-las catequistas, tentativas de descimentos com jesuítas. É
sacristãs e, mais importante, línguas. É claro sobre esse grupo que se faz esse trabalho.

92
Um dos motivos para essa delimitação e tradições, resultando em “configurações
(índios já aldeados que se tornam bilíngues) culturais específicas”. Assim: “Enfatizar a
é a limitação da fonte. Os relatos jesuíticos análise das relações descentradas através de
oferecem vislumbres da agência desses uma ideia de mediação que supere o
personagens, mas esse aparecimento é dualismo não significa simplesmente
esparso e irregular. No caso dos tratados de postular a existência de "sujeitos híbridos",
João Daniel, que fazem testemunho de mas sim analisar histórica e simbolicamente
momentos de finais da administração as condições e os modos de sua produção”
jesuítica, meados do século XVIII, os padres (MONTERO, 2006, p. 44). De acordo com a
em sua maioria já conheciam a língua geral e autora, a construção histórica desse
os colonos já eram inimigos de longa data hibridismo se deu no nível particular de
desses padres, se tornando cada vez mais acesso, sempre seletivo de alguns códigos
desgostosos com sua administração. O único próprios e alguns códigos do outro. Além
língua que aparece nesses relatos é o indígena disso, o missionário foi mais eficiente nesse
não-tupi, requisitado tanto por uns quanto processo do que o indígena, dado o caráter
por outros. Ao que parece, essa tarefa não universalizante do cristianismo, que possui
costumava lhes render um status “a capacidade de garantir a inclusão social e
diferenciado como acontecia com os índios a inteligibilidade simbólica de todo tipo de
pilotos ou artesãos: em algumas ocasiões, eles diversidade” (MONTERO, 2006, p. 55).
eram escolhidos mesmo entre os remeiros da Mesmo com esse desequilíbrio de forças
canoa usada na viagem (CARVALHO simbólicas, o desafio para a teoria da
JÚNIOR, 2005). Apesar disso, também mediação permanece: como se dá a
poderiam embarcar em viagens unicamente construção de situações e textualidades que
por serem falantes de determinada língua. A engendram sentidos compartilhados nas
diferença entre o tratamento dado, por um zonas de interculturalidade? Porém, como a
lado, aos moradores línguas que porventura autora coloca, é necessário inserir a análise
queriam tonar-se padres e, por isso, desse processo de construção do horizonte
conseguiam dispensas de algumas compartilhado no campo político do jogo de
obrigações eclesiásticas, e, por outro, aos interesses, o que resulta em um novo eixo de
índios línguas, que nunca chegaram a fazer desequilíbrio.
parte da hierarquia eclesiástica do período, é Esse referencial teórico rapidamente
um exemplo das posições sociais que cada sumarizado orienta a análise das fontes em
um ocupava. Sendo ambos os personagens alguns aspectos. Primeiro, pode-se
línguas, as funções e status que cada um considerar que o comportamento dos
ocupava eram bem diferentes. línguas, sua decisão de seguir os desígnios
A referência teórica para analise das dos missionários, ou de traí-los, não se dá
fontes é Paula Montero (2006). A somente pelo entendimento que esses
antropologia histórica pensada por Montero personagens tem da sua própria posição
é um instrumental teórico que deseja superar política no contexto colonial, mas é também
conceitos que exprimissem dualidades direcionado pela particularidade da absorção
generalizantes ou esquematismos, onde o que eles faziam do discurso religioso dos
estudo da questão não se proporia em achar quais eram porta-voz (ARENZ, 2014). A
o que “é nosso” e o que é “deles”, ou o decisão pelo convencimento, a favor ou
“antes” e o “depois” do contato, mas sim contrário, a um descimento perpassava pelo
procurar o próprio processo de horizonte simbólico e, por conseguinte,
ressignificações que ocorreram em toda a religioso que esses indígenas de fato
gradação hierárquica simbólica das compartilhavam, ou não compartilhavam,
cosmologias em contato, durante mesmo esse com seus mestres espirituais cristãos, uma
contato. A mediação cultural é, dessa forma, vez que o político e o religioso eram esferas
o processo no qual os missionários e inseparáveis dentro do contexto colonial. Em
indígenas traduziram signos, crenças, rituais segundo lugar, a própria fonte é

93
unilateralmente de origem jesuíta, fazendo melhor forma vizinhas aos portugueses,
do contato do missionário com o índio onde finalmente os domesticam (DANIEL,
mediado pelo missionário na escrita. O tomo 2, p. 57).
terceiro aspecto é ainda, um porvir: a teoria
Nessa passagem se observa que a
da mediação cultural será importantíssima
estratégia de persuasão de “nações”
para a análise da mediação que o índio
perpassava muitas vezes pela mediação do
tradutor toma parte nas ocasiões do seu uso
língua “manso” ou cristianizado, ou do
em confissões. Dado o caráter inicial da
língua colono. Ou mesmo do colono que não
pesquisa, ainda não é possível fazê-lo.
era língua, mas trazia consigo um, e que tinha
interesses comerciais com aquele povo. João
Daniel diz, em outra ocasião, que o trato dos
OS LÍNGUAS INDÍGENAS NA brancos com alguns principais que oferecem
AMAZÔNIA suas próprias filhas como sinal de amizade é
exemplo dos perigos dos “tementes a deus”,
preocupados em não ofender esses
As duas fontes usadas nessa pesquisa
principais. Mas é possível observar a agência
fazem referência a dois períodos bem
indígena na estratégia de comunicação por
distintos da história colonial da Amazônia. O
esses mesmos brancos uma vez que se
século jesuítico compreende o período de
desculpavam pelo intermédio de um
maior recrudescimento do projeto das
indígena manso, que eram testemunhas dos
missões da Companhia de Jesus e conta com
métodos de relações econômicas dos brancos,
três lideranças mais significativas, que
conseguindo assim, recusar respeitosamente
também são contemporâneas a contextos
o oferecimento dessas índias (DANIEL,
específicos da Amazônia colonial. Os padres
tomo1, p. 282).
Antônio Vieira, João Felipe Bettendorff (1990)
Nesse caso, talvez o índio não fosse
e João Daniel (1975) produziram uma gama
necessariamente língua, mas ainda servia de
de documentos que hoje são fontes para a
intermediário em situações de divergência
análise desses contextos. Porém, somente os
cultural, digamos, potencialmente perigosa.
dois últimos são aqui analisados.
Além disso, vale questionar a escrita
O elogio dos missionários à efetividade
missionária sobre a situação: não se tem
dos intérpretes costuma fazer menção às
notícias de casos em que essas filhas
ocasiões de “prática” dos tapuias. João Daniel
oferecidas pelos principais simplesmente não
considerava necessária muita cautela ao
foram recusadas pelo negociante em questão.
tratar com os principais de uma aldeia. Era
Mesmo que se tivesse conhecimento de um
preciso, primeiro, “acariciá-lo”, ou seja,
caso assim, não cabe a escrita jesuítica relatá-
atuava presenteando o principal e sendo
lo, devido a sua natureza pecaminosa.
cuidadoso, pois era perigoso ofender os
As estratégias para amansar as “feras
orgulhosos e belicosos principais.
humanas” (JOAO DANIEL, 1975)
Costumava-se, ainda, enviar os línguas
dependiam assim, da eficiência do
algumas vezes, antes da vinda do próprio
convencimento de que tomavam parte os
missionário:
línguas quando eram enviados pelos
(...) Outros julgando por temeridade o
missionários e quando iam junto com estes.
irem meter-se entre eles sem esperança de Dados os perigos desse contato, nem sempre
os reduzir, os mandaram primeiro praticar amigável, o papel do intérprete se tornava o
por algum branco, dos que com alguma de mediador. Ao que parece os intérpretes
nação têm comércio, ou por algum índio já entendiam essa preocupação e agiam de
manso, que saiba sua língua repetidas acordo, fazendo traduções de forma a evitar
vezes, té que abrandados já algum tanto os
possíveis conflitos dos quais também
ânimos a poder de dádivas, que pouco a
pouco lhes vão repartindo, e
poderiam sair feridos ou mortos: como se
despendendo, os persuadem a descer, e verá adiante, as traduções pelos indígenas
sair dos seus matos para povoações de nem sempre saíram como planejado pelos

94
missionários, por vezes a mensagem poderia (...) O 2º inconveniente desta repartição, e
ser justamente contrária a eles. Mas não há em resposta ao 2º reparo, é a grande
relatos vistos até esse momento da pesquisa, dificuldade que se segue desta repartição
dos índios ao serviço dos brancos nos
em que essa atitude de inversão de posição
descimentos dos índios selvagens e sua
tenha tomado lugar em momentos tão conversão a fé católica, porque têm
perigosos como os contatos iniciais com ordinariamente comunicação com os
chefes ainda não convencidos. É claro que as índios mansos das aldeias; por eles sabem
fontes observadas nessa pesquisa são tudo o que passa, e como os obriguem a
provenientes de padres que sobreviveram a servir aos brancos, remar canoas, e andar
esses contatos, para ter a oportunidade de em uma roda-viva, sabendo isto não
querem descer dos matos, não acreditam
escrever seus relatos.
nas práticas dos missionários, e dizem que
O próprio fato de que a fonte foi os querem enganar para também os
redigida por padres já desencadeia em uma obrigarem aos serviços dos brancos como
série de omissões. A desigualdade de poder aos mais; confirmam-nos os índios mansos
simbólico e real entre os missionários que nas sua suspeita, e muitas vezes sucede
escreveram essas fontes e os índios que que, que os mesmos línguas que levam os
estavam sendo descritos se aproxima da missionários, e em quem se fiam para por
seu meio praticar os selvagens, se viram
problemática discutida por Carlo Guinzburg
por parte deles, e os persuadem a que não
em O Inquisidor como Antropólogo: uma desçam dos seus matos para as missões,
analogia e suas implicações. (1989). O porque nelas os obrigarão a servir aos
vislumbre que se tem do indígena é sempre brancos, e frustram todas as diligências e
“por sobre os ombros” do missionário. Se gastos dos missionários; outras vezes
houve casos de “traição” dos línguas contra respondem os índios mansos o mesmo,
os padres em um desses momentos iniciais de quando os missionários os persuadem a
que vão praticar, e trazer para a missão a
contato, e o padre em questão porventura
seus parentes selvagens, que tem nos
tivesse sobrevivido, faria sentido o episódio matos, dizendo: para que, para servir aos
ter sido omitido ou diminuído brancos? (DANIEL, t. 2, p. 312)
propositalmente: as crônicas jesuíticas tem
caráter exortativo, baseavam-se na defesa do Percebe-se que, sentindo-se enganados,
cristianismo em geral, e dos jesuítas como os índios descidos se negam ativamente a
portadores de sua palavra, em particular. fazer parte do convencimento de seus
Dessa forma, relatar a existência de um caso familiares. Também deixam passar
dessa magnitude perpetrado justamente pelo informações de seu cotidiano para outros
índio que se espera já domesticado e índios não descidos, dificultando as missões.
cristianizado, não estava no seu interesse. Assim, os línguas a que Joao Daniel se refere
Os línguas indígenas nem sempre só servem ao convencimento dos
estavam dispostos a cooperar com os descimentos na exata medida em que são
missionários e se voltavam contra seus cobrados pelos missionários, explorando
desígnios. Apesar de os missionários brechas ou mesmo se contrapondo ao
creditarem essa ação à “natureza bárbara e missionário quando a situação lhe cabe. Essas
inconstante” dos índios (CASTRO, 1992, p formas específicas de resistência revelam a
35)., conclui-se que tal ação se dava pela particularidade com que os índios
absorção particular que esses agentes faziam compreendiam os limites de seu próprio
do sistema em que, convencidos ou forçados, papel. Eram cristãos, mas não eram
estavam submetidos. Assim que considerava “mansos”.
possível e pertinente, esse índio poderia Também vão nesse sentido, alguns
alternar rapidamente ao discurso anti- trechos coletados por Gabriel Prudente (2017)
jesuítico e denunciar os maus tratos que em sua dissertação. Ao analisar as políticas
sofriam a outros índios que, assim, tornam-se linguísticas na colônia, o autor discute alguns
resistentes: trechos da crônica de Bettendorff, destacando
o uso dos línguas como “persuadores” de

95
parentes e aliados de grupos que não falavam (...) tratei logo de aprender a língua
a língua geral. Em alguns casos, as crianças ingayba, e para ajuda disso tinha eu feito
eram visadas como agentes dos missionários, grande quantidade de diálogos de toda a
matéria que commummente houvera em
depois de efetivada uma educação cristã. Ao
língua portuguesa juntamente e ingayba,
viajar pelo rio madeira, o padre superior valendo-me para isso de um mameluco
Jódoco Peres chegou a uma aldeia de índios versadíssimo em ambas ellas, por ser filho
irurizes, e depois de “praticá-los” disse que do capitão-mor ayres de Souza e uma
lhes mandaria outro missionário; “e para que ingaiba, e destes diálogos me ia ajudando
não lhes faltasse língua trouxe comsigo um admiravelmente em tudo quanto os índios
filho de principal para o Pará, para la me vinham falar, por achar ahi as suas
perguntas e juntamente as respostas que
aprender a língua geral em o collegio (...)”
lhes havia de dar, e assim ia aprendendo a
(Bettendorff, 1990, p. 354). Depois disso, o sua língua deles, de sorte que dentro de
jovem índio retornou com os missionários três meses já a falava, fazendo minhas
prometidos aos irurizes. viagens e conversando com eles e
O sequestro de crianças indígenas era ensinando-os pelas aldêas, em as quais
dado como prática comum dos jesuítas, que dentro de três mezes em que lá assisti,
assim os mantinham reféns e impediam a baptzei algumas oitenta ou mais crianças
que em parte foram pro ceu (...)
fuga dos pais. Mas para além dessa
(BETTENDORFF, 1990, p. 336.)
chantagem, o objetivo dos missionários era
que as crianças fossem instruídas e Ao chamar o dito índio de mameluco, o
retornassem para sua família como padre o inclui dentro de um referencial que o
doutrinadores da fé cristã. Supõe-se que aqui punha como aliado. Filho de um capitão-mor,
também, era a particularidade de cada caso era de se esperar o auxílio daquele agente,
que norteava a decisão de formá-los línguas e que não foi curto ou pouco importante: a
a importância que se dava a essa posição de ajuda daquele língua por três meses foi
mediadores do convencimento. fundamental para o batismo de oitenta
Gabriel Prudente percebeu que algumas crianças, de acordo com Bettendorff.
passagens demonstraram que o “tiro poderia O caso da índia Nathalia é de especial
sair pela culatra” (Prudente, 2017, p. 55). A interesse. Em 1689 se descobriu a morte de
ocasião relatada foi de um esforço jesuítico dois padres que atuavam na ilha de
em ensinar a língua geral ao filho de um camunixary, na capitania do cabo norte. O
principal com o intuito de que esse retornasse levantamento dos fatos e o julgamento são
com os parentes convencidos para o relatados por Bettendorff. Não só da morte
descimento, mas tal esforço não parece ter dos dois padres a paulada os índios da etnia
obtido sucesso. Uma vez de volta à aldeia da Oivanecas foram acusados, mas também de
qual foi sequestrado, o indígena não foi mais comer sua carne, colocar fogo nas casas e
visto. Talvez tenha tentado convencer os matar, ainda, os índios “domesticados” que
familiares e falhado. Mas o que Bettendorff acompanhavam os padres. Entre esses índios
dá a entender é que o índio quebrou sua figurava um língua, mas nada sobre ele, além
promessa por ser “sem fé, sem rei e sem lei” do nome, foi dito. Após o envio de tropas e o
(BETTENDORFF, 1990, p.494). confronto, prendeu-se mais de trinta índios,
Os línguas também poderiam ser incluindo os principais Canáriá e
requisitados como assistentes na Amapixaba. O encarregado do inquérito,
aprendizagem das línguas nativas pelos padre Aloizio Conrado, interrogou (??)
próprios missionários. Dado o caráter Canariá com a ajuda de uma índia intérprete
itinerante desses padres, acabavam muitas chamada Nathalia, e conseguiu a confissão
vezes em aldeias de línguas que lhes eram de que o principal matara o padre Antônio
desconhecidas, mesmo com seus anos de Pereira. O relato edificante narra uma nova
experiência. É o caso do padre Bettendorff na confissão do (já nomeado de forma cristã)
seguinte passagem: Francisco Canariá, antes de sua morte. Além
disso, essa mesma índia serviu para a

96
confissão de Amapixaba, que ficara calado confissões mudas, mas não se tem garantias
por meses e tinha sido dado como mudo. dessa teoria.
Para Almir Diniz, porém, esse relato O próximo caso, também relatado pelo
carece de confiabilidade: padre Bettendorff, é curioso. Ele relata que se
suspeitou que os sobreviventes de uma nau
A riqueza de indícios neste relato é naufragada tivessem sido atacados e mortos
demasiado grande. As contradições se pelos índios tememberezes na área de S.
multiplicam. Nele é possível também
Roque, no entorno do Ceará:
perceber o envolvimento de índios cristãos
no processo de punição de outros, a
Fundada em tal suspeita, mandou-os
maioria formada por gentios. Saiu da boca
prender a justiça a todos, assim mulheres
dos acusados uma culpa nos moldes
como homens; examinados por língua de
desejados pelos padres que envolviam o
sua nação, achou-se ser verdadeiro o que
ódio a Santa Fé e a persistência dos vícios
deles se tinha suspeitado, pelo que todos
gentílicos. Nada, no entanto, existia de
foram condemnados á morte, tirando uma
queixa contra procedimentos inadequados
mulher com sua cria. Eu então, como reitor
dos padres mortos. As bocas repetiram as
do collegio, tratei logo de ensinal-os, mas
mesmas ladainhas, ainda que de uma
como eram bárbaros e mui agrestes, acabei
delas nem mesmo som saísse. As
somente de ensinar a mulher para batpzal-
contradições do edificante relato de
a com a criança, como foi feito; depois,
Bettendorff são enormes – é bom que se
como eu estatva occupado com as cousas
diga que não foi testemunha ocular do que
de meu officio, continuou a ensinal-os o
ocorreu. Este fato foi possivelmente
Padre Superior da Missao, Pero Luiz,
relatado pelo padre Aluízio Conrado ou
animando-os que, visto serem
algum registro feito por ele e lido pelo
conmdenados á morte, tratassem de sua
cronista. (Carvalho Júnior, 2005, p. 201).
salvação, a baptisar-se para escaparem do
fogo do inferno e irem gozar de Deus em o
Dada a cadeia de comunicações do índio
Céo; obedeceram e depois de bem
culpado até Bettendorff, passando, doutrinados se lhes deu a todos a agua do
provavelmente, por Aluízio Conrado, além santo baptismo, excepto um velho, o qual
da própria natureza incerta dos havia de ir com a tropa por língua, e por
acontecimentos, é difícil situar a posição isso não necessitava de tanta pressa
precisa assumida pela língua Nathalia. (BETTENDORFF, 1990, p. 317).
Mesmo assim, é significativo a sua presença
no meio de um julgamento importante. A dificuldade linguística para averiguar
Ao tratar do caso da índia Nathalia, a culpa dos índios foi superada com a ajuda
Gabriel Prudente conclui que a agência dessa de um “língua de sua nação”. Não é grande
índia não é sinal de mera submissão aos risco supor que esse língua é o mesmo que foi
missionários, mas uma forma de poupado do castigo que os outros culpados
sobrevivência e adaptação à nova realidade. receberam, e integrado à tropa para
Nesse caso, não foi a posição de língua que posteriores descimentos como língua. A sua
lhe rendeu prestígio, mas precisamente o sobrevivência, nesse sentido se deu devido a
contrário. Ao apontar a índia como filha do sua utilidade. O relato continua:
principal para que sua tradução não fosse
Estava entre elles um bello mocetão que
vista com desconfiança em situação tão seria de idade de dezoito annos, pouco
importante quanto um julgamento, mais ou menos; este me tinha rogado que
Bettendorff sugere que os índios línguas de se lhe perdoassem a vida, porquanto era
fato pudessem conscientemente e filho de um grande principal, nem tinha
propositalmente proceder a uma tradução ainda conhecido mulher, nem também
não verdadeira (BETTENDORFF, 1990, p. tivera parte alguma em a morte dos
naufragados, mas vinha somente em
434). Risco que não corriam ao se utilizar de
companhia dos matadores sem mais
língua com tamanho prestígio. Esse prestígio animo que de ir em companhia delles ao
pode ter sido exacerbado no relato, na Maranhão, offerecendo-se juntamente a
medida em que omitia as incertezas dessas ser escravo dos padres para os servir toda

97
a sua vida. Compadecendo-me eu deste pouco a pouco muita e bellissima gente, que
bello mancebo assim por sua nobreza, nós iamos ensinando e baptisando, conforme
como principalmente por sua rara entendiamos e era conveniente, e não ha
castidade e innocência em o caso quanto
duvida que se hia formando uma poderosa
me parecia, intercedi por elle; mas como
Deus Nosso Senhor o queria salvar por aldêa” (BETTENDORFF, 1990, p. 340-341). O
esta via, permitiu que o velho parecesse fato de possuir patente de sargento-mor é
mais idôneo para o fim que se pretendia clara evidência de sua intensa inserção no
que elle (...) (BETTENDORFF, 1990,, p. mundo cristão, e o colhimento de certos
318). benefícios que vieram com isso. Aliou-se
assim, aos missionários, e mostrou a
Esse episódio revela que a escolha de eloquência do convencimento que se
quem seria melhor intérprete seguia alguns esperava de um bom língua.
fatores. Mesmo que sendo filho de um
principal e que tenha convencido Bettendorff
de sua inocência, o “bello mocetão” não
parece ter sido o escolhido como língua para CONSIDERAÇÕES FINAIS
a averiguação da culpa dos índios, nem o foi
para os próximos descimentos. Se O caso dos “persuasores”, ou dos que
concordarmos com Almir Diniz, o velho não tinham interesses ulteriores de apoio aos
parecia mais idôneo ao serviço porque seria missionários, apesar de seu esforço em torná-
melhor testemunha das mortes horríveis que los línguas, e da índia intérprete de um
sucederam aos culpados. Isto comprova a julgamento, e vários outros, são exemplos da
tese de que os índios línguas eram parte habilidade dos índios de se situar no jogo
essencial no convencimento dos descimentos: político e decidir em que ocasiões se aliar aos
nesse caso específico, a escolha do índio que missionários ou renegar os seus desígnios a
seria poupado se deu pela avaliação de quem partir do seu próprio entendimento religioso
seria mais eloquente no testemunho dos e da posição de poder que assumiam como
resultados daquele incidente e no intérpretes e tradutores. Agiam a partir da
convencimento dos Tembé (?) restantes que sua crença particular do que era conveniente,
ainda seriam descidos. Diferente do caso da algo que muitas vezes escapava á mensagem
índia Nathalia, escolhida para fazer uma cristã, ou mesmo se opunha diretamente a
tradução mais confiável por ser filha de um ela. Quando desenganados, procediam ao
principal, o velho foi escolhido para fazer convencimento de outras aldeias, mas
uma tradução mais eloquente, à revelia de avisavam os parentes e denunciavam seu dia
um filho de principal, disponível para o a dia nos aldeamentos a quem quisesse ouvir.
trabalho. Assim, diferentes línguas eram Quando convencidos, partiam para amansar
requisitados para diferentes situações de as feras humanas a pedido do missionário, ou
tradução. Não é possível concluir se o velho intercediam com os principais,
era portador de um discurso público economicamente proveitosos, a serviço dos
exortativo, ou seja, se era um “senhor da colonos. Sua atividade como língua poderia
fala”, indivíduos cuja oratória, argumenta significar sua própria sobrevivência dentro
Barros (1995), concorreu com os próprios de um sistema que era ao mesmo tempo de
jesuítas nos anos iniciais, ou se era o jovem dominação e de convencimento, que cada vez
filho de principal que carecia de alguma se tornava mais bem estabelecido à revelia
característica e, dessa forma, parecia menos das tradições indígenas milenares, mas com a
“idôneo”. qual se misturava. Quando um índio não era
Falando sobre persuasores eficientes, um língua desejado, seu filho poderia ser.
uma passagem de Bettendorff é curiosa. De Sequestrado pelo missionário, punha em
acordo com o padre, o índio Pantaleão, que xeque a família, mas o plano poderia sair
era sargento-mor, ajudou significativamente muito errado. Inconstantes como os pais, as
a descer índios para a aldeia de urubuquara, crianças poderiam ser os doutrinadores e
que ia “praticando os seus parentes, e trazia vigilantes exemplares “construídos” pelos

98
missionários, ou poderiam retornar aos BARROS, Maria Cândida Drumond Mendes.
costumes bárbaros no momento em que eles Intérpretes e confessionários como expressões de
mesmos não estivessem mais sendo vigiados. políticas linguísticas da Igreja voltadas à
Em suma: as dificuldades linguísticas de um confissão. DELTA. Documentação de
projeto jesuítico em andamento alocavam Estudos em Linguística Teórica e Aplicada
algum poder simbólico, político e religioso (PUCSP. Impresso) , v. 27, p. 289-310, 2011.
nas mãos daqueles responsáveis pela BARROS, Maria Cândida Drumond Mendes .
tradução. Os indígenas que ocuparam esse Os 'Línguas' e a gramática tupi no Brasil
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100
REDES DE CONHECIMENTO
E OS ÍNDIOS DO VALE AMAZÔNICO:
possibilidades de pesquisa

* Rafael Rogério Nascimento dos Santos

Resumo: No intuito de administrar as potencialidades econômicas de suas colônias no ultramar,


a partir da segunda metade do século XVIII, Portugal criou/ampliou redes de conhecimentos que
permitiam aprofundar o domínio de seu império. Tais redes traduziam informações, localizações
geográficas, além de animais e plantas e pessoas que circulavam no ultramar. Seja na questão
dos produtos naturais, plantas e seus usos medicinais, seja no envio de animais para compor
jardins e museus na Europa, tal situação pode ser pensada para evidenciar a inserção dos
ameríndios nesse processo. Além disso, esse trabalho mostra os passos iniciais da minha pesquisa
atrás dos rastros dessas redes no trajeto que realizaram no interior do sertão até chegarem em
Belém e serem enviados para a Europa.
Palavras-chave: História natural. Vale amazônico. Povos indígenas. Redes de conhecimento.
História da Ciência.

O trabalho que apresento aqui são as 2001). João Carlos Brigola aponta que havia
reflexões iniciais da pesquisa que desenvolvo um intenso intercâmbio científico entre
no doutorado. Fruto de uma mudança tardia, Lisboa e instituições como o Jardim Botânico
mas feita em boa hora, procuro pensar a de Madrid, Jardim do Rei e Sociedade Real de
participação dos povos indígenas nas redes Agricultura em Paris, Jardim Real de Kew e
de conhecimento no vale amazônico a partir Royal Society em Londres, Universidade de
da segunda metade do século XVIII. Amsterdã, entre outros. (BRIGOLA, 2012).
Considero que os saberes indígenas e suas Também foram criadas instituições
práticas foram utilizados por filósofos como o Colégio dos Nobres (1761), a
naturalistas, viajantes, missionários, Academia Real da Marinha (1779), Academia
botânicos, entre outros, no domínio da Real das Ciências (1783), o Palácio Nacional
História natural. da Ajuda (1795), Jardim Botânico da Ajuda
Durante a segunda metade do século (1768), o Jardim Botânico da Universidade de
XVIII, Portugal e suas colônias no além-mar Coimbra (1772), entre outras. De maneira
passaram por duas maiores transformações geral, essas instituições serviriam para
que norteiam o objeto de atenção deste promover práticas científicas em Portugal e
trabalho. A primeira corresponde a uma nos espaços ultramarinos, era o tempo do
mudança “interna”, na metrópole, reformismo ilustrado pombalino.
relacionada à renovação cultural e científica Ademais, o contexto está relacionado ao
financiada pelo próprio Estado. avanço da indústria portuguesa e teve seu
Nessa renovação do conhecimento impulso sob o governo do ministro Sebastião
foram envolvidos cientistas, médicos, Jose de Carvalho e Melo (1699-1782), que
cirurgiões, naturalistas, matemáticos, mais tarde receberia o título de Marquês de
cartógrafos, professores de universidades de Pombal. As políticas pombalinas estavam
outras regiões da Europa, o que se chamou de orientadas para o crescimento econômico de
“elite do conhecimento” (DOMINGUES, Portugal, procurando implementar medidas

* Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará. Universidade Federal do Pará. Alameda: Pedro Araújo, 73; Bairro: Ianetama;
Castanhal_PA; CEP: 68745-125. Correio eletrônico: rafaelsantos@unifesspa.edu.br

101
que favorecessem o país e sua classe Foi na segunda metade do Setecentos que
mercantil (ROLLER, 2010; KURY, 2004; se realizaram viagens científicas às
LEITE, 1997). colônias, mas foi também neste período
que se procedeu à demarcação de limites
Deu-se especial atenção para o
entre as monarquias ibéricas na América
reconhecimento do mundo a partir da do Sul. E, assim, o esforço de conhecer o
Filosofia Natural. Portugal investiu um espaço e a tensão político-diplomática
esforço enorme para superar seu “atraso” confundia-se enquanto estímulo imediato
quando comparado a outros países da à atividade científica de que o Brasil era
Europa (PEREIRA, 2012). Dessa forma, os objeto (DOMINGUES, 2001, p.824)
quatro cantos do Império passariam a ser
explorados e Portugal se tornaria referência A colônia americana portuguesa serviu
das novas ciências, principalmente com a de palco experimental das ações
Universidade de Coimbra. metropolitanas (MAXWELL, 1998). Com o
Foram implementadas uma série de intuito de consolidar sua presença no vale
reformas encabeçadas por Domenico amazônico, além de tornar os indígenas
Vandelli, botânico, professor de Química e súditos da Coroa, as medidas tomadas por
História Natural na Universidade de Portugal envolveram um conjunto de
Coimbra, responsável por dirigir as obras do parâmetros que deveriam nortear a vida na
Real Jardim Botânico e que naquele período região. Alguns deles podem ser elencados: a
ficou responsável por um projeto acerca da criação da Companhia Geral de Comércio do
História Natural das Colônias1. Para Vandelli, Grão Pará e Maranhão (a fim de intensificar a
imbuído dos pressupostos de Lineu, o exploração comercial dos produtos
conhecimento dos recursos naturais de um amazônicos e implementar o uso de escravos
país é essencial para o desenvolvimento africanos como principal força de trabalho); a
econômico e “O progresso do reino adviria reconfiguração das antigas aldeias
da identificação da utilidade dos produtos da missionárias em vilas e povoados sob uma
natureza e dos estudos que indicassem os direção secular; a atribuição aos índios como
melhores meios de explorá-los” (COELHO, principais povoadores da região; a
2010, p.75). transformação das lideranças indígenas
A segunda mudança que direciona meu aliadas em “funcionários” do governo
olhar nessa pesquisa corresponde ao trato (atuando em cargos civis e militares); o
com a América Portuguesa, mais incentivo à agricultura, entre outros.
especialmente o Vale Amazônico, espaço Foi colocada em ação uma política que
onde inicialmente situo meu trabalho. No tinha como objetivo tornar a colônia
século XVIII a região se torna objeto de maior economicamente rentável, além de
atenção para a Coroa lusitana. A definição do concretizar a presença metropolitana na
tratado de Madri, em 1750, e do Tratado de região. Nessa conjuntura, para a Coroa, todos
Santo Idelfonso em 1777, redesenhou as foram dotados de papéis específicos e
fronteiras coloniais entre Espanha e Portugal, deveriam colaborar para o bem comum da
e isso acabou por desencadear uma série de Colônia (SOMMER, 2000; SAMPAIO, 2011;
transformações naquele espaço e no ROLLER, 2010; DOMINGUES, 2000).
cotidiano de milhares de indígenas que ali Nelson Sanjad aponta que na cidade de
viviam. Para Portugal, tratava-se de ocupar Belém, a partir de 1750, há uma intensa
definitivamente a região, transformando seus transformação do espaço urbano.
antigos ocupantes, os índios, em vassalos e Especialmente entre as décadas de 1760 e
povoadores daquele território em nome do 1780, foram inaugurados o “Palácio do
rei. Governo (1771) (...) a nova catedral da Sé
Para Ângela Domingues: (1771), o Hospital Real (1770); os Quartéis dos
Soldados (1779); o Arsenal da Marinha

1Domenico Vandelli. Viagens Filosóficas ou dissertação sobre as Academia das Ciências de Lisboa (BACL), mss 405 - série
importantes regras que o Filósofo Naturalista nas suas vermelha.
peregrinações deve principalmente observar, 1779. Biblioteca da

102
(1761)”, e no final do século XVIII foi criado o colônias, mostrando o percurso de itens da
Jardim Botânico do Grão-Pará (1798). fauna e flora amazônica até Portugal
(SANJAD, 2012, 2007) (SAFIER, 2010). Geralmente, na
Nesse ínterim, foram historiografia, os grandes responsáveis por
criadas/ampliadas redes de conhecimentos moverem esse processo são viajantes,
que permitiam Portugal aprofundar o filósofos naturalistas, funcionários do
domínio de seu império. Tais informações governo português. Mas será que somente
diziam respeito a dados imateriais, estudos eles estavam envolvidos? Como os
teóricos, localizações geográficas, além de conhecimentos indígenas eram utilizados
animais e plantas (vivos/as e mortos/as) e nesse universo? Como os próprios índios
pessoas que circulavam no ultramar. De um participavam disso?5
lado do Atlântico temos a produção e No que corresponde a América
preparação das viagens filosóficas, das Portuguesa poucos trabalhos dão destaque
explorações em outros continentes orientadas aos saberes indígenas na produção desse
pelas instruções de Vandelli e dos seguidores conhecimento acerca do mundo natural. A
de Lineu, do outro temos viajantes e visitados zona de contato, o espaço das relações
em um saber-fazer que apesar de seguir uma mútuas entre viajantes, exploradores,
diretriz científica europeia, também têm suas cientistas e os nativos é pouco evidenciado.
próprias configurações locais (PRATT, 1999). Esses saberes indígenas certamente foram
Essas redes, evidentemente, não surgem utilizados na Colônia e exportados para o
no século das Luzes. Existe uma vasta além-mar. Seja na questão dos produtos
bibliografia que dá conta de mostrar tais naturais, plantas e seus usos medicinais, seja
redes de circulação e informação, “Desde o no envio de animais, tal situação pode ser
início da colonização, remessas de animais da pensada para evidenciar a inserção dos
terra eram feitas para a Europa e para o ameríndios nesse processo.
Reino. As aves – vivas e mortas – tinham É claro que algumas ressalvas devem ser
lugar de destaque” (KURY, 2008, p.100). feitas. Por exemplo, o artigo de Juciene
O que pretendo tratar é sobre como os Apolinário mostra que sem as informações
povos indígenas participaram desse dos indígenas de distintas etnias, a ampliação
processo. Até o momento a lida com a do conhecimento sobre a História natural não
documentação tem mostrado um tráfego de seria possível (APOLINÁRIO, 2013). Além
informações e materiais que seguem o dele, Henrique Carneiro também mostra,
direcionamento do sertão para mar. As fontes com certa ironia, que mesmo numa disputa
apontam que cobras2, onças, periquitos, entre dois naturalistas europeus “sobre quem
papagaios, macacos, pica-flores, plantas, as copiou quem”, o saber indígena antecedia a
famosas “drogas do sertão”, portanto, itens autoria dos dois (CARNEIRO, 2011).
da fauna e flora saindo do sertão, por A historiografia sobre a colonização de
exemplo, que saem do rio Japurá indo para outras regiões da América aponta boas rotas
Belém (Grão-Pará), e serem enviados a de auxílio para se pensar a participação
Portugal, para as famosas Quintas Reais, indígena nesse processo. Parte desses
atual Palácio Real de Belém3.4 trabalhos mostra que nos séculos XVIII há
Essa documentação riquíssima muitas expedições científicas de
apresenta a possibilidade de trabalhar com reconhecimento do mundo natural, e a
questões sobre redes de informações trocadas história natural como ciência classificatória e
e produzidas entre metrópoles e suas comparativa implicou na construção de
2 Martinho de Souza e Albuquerque. Correspondência 4 As Quintas Reais de Belém eram compostas pelo que hoje
original dos governadores do Pará com a Corte. Cartas e é o Palácio Real de Belém, um grande jardim na frente, ruas
anexos. Códice 99, volume 8, março de 1787, Pará, de bosque, horta, pomares e várias casas ao redor dos muros
documento 40. da quinta. Servia para recreação da família real. Ver:
3 Martinho de Sousa e Alburqueque. Correspondência PAPAVERO, 2013.
original dos governadores do Pará com a Corte, Códice 99, 5 Martinho de Sousa e Alburqueque. Correspondência

volume 07, março de 1786, Pará, fls 25 e 26. original dos governadores do Pará com a Corte, Códice 99,
volume 5, 23 de março de 1784.

103
diversos museus na Europa e em novas informação/conhecimento entre as
práticas culturais e científicas. capitanias, entre o Grão Pará, Caiena e
O trabalho de Christopher Parsons: Maranhão, por exemplo. A documentação já
“Plants and peoples: French and Indigenous aponta por um troca de espécimes e gêneros
Botanical Knowledge in Colonial North entre as capitanias da parte norte da américa
America (1600-1700)” tem me chamado portuguesa, formando possivelmente uma
especial atenção. O autor analisou textos malha interna que responde à uma dinâmica
científicos dos séculos XVII e XVIII e como local. Os índios podem surgir aqui como
eles mantiveram conexões com uma rede de sujeitos essenciais na construção dessa
troca ecológica e cultural na América do malha, pois fariam parte de todas as fases do
Norte colonial. O grande diferencial da tese é processo: coleta, preparação e envio.
recuperar o papel dos povos indígenas na
produção desse conhecimento sobre os Parte da documentação já transcrita e
ambientes coloniais que o Atlântico separava. coligida aponta para as fases de coleta,
preparação e envio. Em outro conjunto
De acordo com Parsons:
documental, de 04 de janeiro de 1800,
presente no Arquivo Nacional no Rio de
Yet, as they lived and worked with
Janeiro, Francisco de Souza Coutinho,
indigenous peoples for years on end, they
comenta a respeito da utilização de
learned about local flora through their
“...remessas da casca, madeira e folhas de
experience of the lives of their aboriginal
que aqui descobriram o uso os gentios
hosts, as they ate, were treated for illness,
carajá...”7. Em outro, de 1796, o
and as they travelled throughout
governador do Pará, Francisco de Souza
indigenous territories with indigenous
Coutinho, manda cultivar plantas
guides (PARSONS, 2011, p.18)6.
indígenas em terreno onde antes
funcionava o convento São José. O
Além disso, o autor analisa como os documento possui em anexo um mapa
saberes indígenas foram utilizados por com plantas, quantidades que estavam
cientistas e exportados para constituir sendo cultivadas no convento, no Palácio
museus em outras partes do mundo, de governo e em terras de particulares8.
entretanto, embora constantemente
utilizados nessa história do mundo natural, Penso que além dos distintos sujeitos
tal saber foi apagado nos séculos XVII e que estavam envolvidos nesse universo,
XVIII. entre eles filósofos naturais, viajantes
Ir atrás das pegadas dos animais e tentar europeus, etc., os indígenas foram uma das
traçar o trajeto que realizaram no interior do principais peças dessa engrenagem, não
sertão até chegarem em Belém e serem somente como força de trabalho, mas na
enviados para Portugal é o percurso que própria utilização do saber necessário à
pode me mostrar a participação dos índios exploração dos gêneros do vale amazônico.
nesse processo maior. Algumas dúvidas que Aliás, na estrutura pensada de produção que
logo surgem são: quem eram os responsáveis se dá pela coleta, preparação e envio, os
pela coleta? Certamente viajantes, ameríndios estavam envolvidos diretamente
naturalistas, funcionários do governo nas duas primeiras e quiçá foram os
português; mas será que somente eles principais responsáveis.
estavam envolvidos? Como os Uma documentação que já analisei
conhecimentos indígenas eram utilizados durante o mestrado, e que agora percebo
nesse universo? outras informações data de 1777, onde D.
Outro ponto a ser explorado é a Tomás Xavier de Lima Vasconcelos Brito
formação dessas redes de Nogueira Teles da Silva, secretário de estado

6“Eles viveram e trabalharam com povos indígenas por anos 7 Francisco de Sousa Coutinho. Correspondência original
a fio, eles aprenderam sobre a flora através da experiência dos governadores do Pará com a Corte, cartas e anexos. 04
das vidas de seus anfitriões indígenas, enquanto eles de janeiro de 1800, Pará, Códice 99, volume 21.
comiam, eram tratados por doenças e viajavam através de 8 Idem, Correspondência original dos governadores do Pará

territórios indígenas com guias indígenas...”. Tradução livre. com a Corte. 30 de março de 1798, códice 99, volume 19.

104
dos Negócios do Reino e Mercês, visconde de precisas, a fazer mais abundância e raras
Vila Nova de Cerveira, recebe uma carta com estas remessas, mas não basta o meu
um pedido dos indígenas das Vilas de Faro e cuidado e desejo, a efetuadas como quero,
por malograr todo este desvelo a
Alenquer. Os índios querem enviar para
antecipada morte de algumas, que farão
Portugal, pelos navios da Companhia Geral ainda mais diminuto a sua quantidade
de Comércio do Grão-Pará e Maranhão9, dois ajuntando-se as que morrerão na viagem,
produtos que já coletavam, a salsaparrilha e sem embargo da grande vigilância que
óleo de copaíba, mas agora sem a encarrego ao capitão da charrua de sua
intermediação de terceiros que os conectava majestade e ao capitão da Corveta S. Pedro
aos navios. Gonçalves, em que vão repartidas as que
me tem chegado de várias partes desta
Além de evidenciar como os indígenas
capitania e constam das relações
elaboraram ações que mostravam suas inclusas.10
inserções na economia colonial e sabiam lidar
com as mudanças que o Diretório dos Índios Essa documentação, inicialmente, me
estava promovendo, essa documentação nos permite pensar algumas questões já tratadas
mostra índios que coletavam a salsaparrilha e pela historiografia que é o tratamento dado a
o óleo de copaíba, a armazenavam para esses animais para chegarem vivos (ou não)
transporte, desde o local da coleta até os ao seu lugar de destino. Esse tratamento
navios da Companhia. geraria a produção de técnicas que
As possibilidades supracitadas ainda assegurassem o transporte dos animais,
indicam o oceano Atlântico como espaço de inclusive, como aponta Ermelinda Pataca
conexão e investigação, afinal ele é o (2016), as embarcações que atravessavam o
principal caminho que animais, plantas e Atlântico tornavam-se quase em laboratórios
outros produtos transitam. Vários produtos flutuantes que serviam como espaços para a
foram enviados para Lisboa. Do Estado do realização de experimentos. É bom lembrar
Grão Pará e Rio Negro saíram produtos como também que essa preocupação de preservar o
café, salsaparrilha, óleo de copaíba, mel, espécime para o transporte ocorria desde o
castanhas, cacau, arroz, chocolate, entre interior dos sertões, já que boa parte deles
outros. Os historiadores Rafael saía das longínquas fronteiras daquele
Chambouleyron e Karl Arenz têm realizado espaço.
algumas pesquisas que seguem esse caminho Retomando a leitura do documento, em
e inspiram trabalhos no mesmo rumo outro momento Pereira Caldas informa que
(CHAMBOULEYRON, ARENZ, 2017; seria impossível enviar os chamados “pica-
CHAMBOULEYRON, CARDOSO, 2014). flores”(beija-flor), porque não se sabia ainda
Em um ofício de 1774, o governador e como alimentar aqueles pássaros;
capitão general do Estado do Pará e Rio desconfiava-se que era do suco que libavam
Negro, João Pereira Caldas informa a das flores, mas que “(...) nem com auxílio de
Martinho de Melo e Castro, secretário de lhe por várias flores na gaiola, borrifadas,
estado da Marinha e Ultramar sobre as conseguiu a sua vida mais que por poucas
relações de animais do Pará que iriam para horas, não excedendo de vinte e quatro o que
Portugal: lhe durou mais tempo vivo”; “Mas se (...)
fizer gosto da figura delicada do mais
sobre a diligência e remessa de todas as pequeno emplumado dos voláteis que é o
aves das diferentes espécies que há pelos
dito pica-flor, poderá ir daqui em espírito de
bosques desse Estado, e também alguns
bichos, com que as Reais Quintas de Belém vinho, para chegar com toda a sua
façam mais curioso o seu recreio: em perfeição.”11
observância desta soberana Em outra fonte de 1777 lemos:
recomendação, tenho passado as ordens

9João de Amorim Pereira [Ofício para o D. Tomás Xavier de 10 João Pereira Caldas, [ofício apresentado a Martinho de
Lima Vasconcelos Brito Nogueira Teles da Silva, em Melo e Castro em 09/03/1774] – Projeto Resgate. AHU, Pará
31/12/1777] – Projeto Resgate, AHU, Pará (avulsos), caixa (avulsos), caixa 72, documento 6120.
78, documento 6508. 11 idem

105
Muitas daquelas peles vão perfeitas, participação dos ameríndios, são
porém outras menos boas, porque além da fundamentais para a história da ciência assim
grande distância de que vem, da demora como alimentam o processo de circulação e
em se adquirirem, e ajuntarem, e do muito
produção do conhecimento.
tempo que na viagem gastam, vindo da
Fronteira do Javari, a qualidade deste
clima tudo impossibilita de conservasse, e
de poder existir em perfeição, por mais
cuidado que haja, para assim se FONTES
conseguir.12
Domenico Vandelli. Viagens Filosóficas
Outra questão é relacionada ao caminho ou dissertação sobre as importantes regras que o
que esses itens da fauna e flora colonial Filósofo Naturalista nas suas peregrinações deve
faziam. Parte da bibliografia já aponta a principalmente observar, 1779. Biblioteca da
existência de um intercâmbio de espécies Academia das Ciências de Lisboa (BACL),
entre as próprias capitanias. Isso quer dizer mss 405 - série vermelha.
que apesar de convergirem para a metrópole, Martinho de Souza e Albuquerque.
não só a tinham como ponto de interesse, tais Correspondência original dos governadores
redes também eram conectadas entre as do Pará com a Corte. Cartas e anexos. Códice
próprias capitanias. 99, volume 8, março de 1787, Pará,
Os objetivos futuros da pesquisa documento 40.
envolvem a abordagem do cenário geral da Martinho de Sousa e Alburqueque.
exploração do mundo natural realizado por Correspondência original dos governadores
Portugal em outras colônias, da construção do Pará com a Corte, Códice 99, volume 07,
das redes de informação, fluxo de plantas, março de 1786, Pará, fls 25 e 26.
animais e pessoas, principalmente a partir do Martinho de Sousa e Alburqueque.
projeto encabeçado por Domenico Vandelli, a Correspondência original dos governadores
“História natural das colônias”. Isso acaba do Pará com a Corte, Códice 99, volume 5, 23
sendo não somente uma história de Portugal de março de 1784.
e suas colônias, mas sim de uma história Francisco de Sousa Coutinho.
global, já que alguns produtos saídos do vale Correspondência original dos governadores
amazônico chegavam a Portugal e seguiam do Pará com a Corte, cartas e anexos. 04 de
para outros países. janeiro de 1800, Pará, Códice 99, volume 21.
Dessa forma, há uma vasta Idem, Correspondência original dos
correspondência entre o reino e suas colônias governadores do Pará com a Corte. 30 de
que tratam do trânsito de gêneros do reino março de 1798, códice 99, volume 19.
animal, vegetal e mineral. Entre elas um João de Amorim Pereira [Ofício para o
catálogo destaca quais produtos precisariam D. Tomás Xavier de Lima Vasconcelos Brito
ser melhores investigados para ver a Nogueira Teles da Silva, em 31/12/1777] –
possibilidade de comércio em larga escala13. Projeto Resgate, AHU, Pará (avulsos), caixa
Sendo assim, são vastas as 78, documento 6508.
possibilidades de pesquisa que envolvem a João Pereira Caldas, [ofício apresentado
produção de conhecimento sobre a flora e a Martinho de Melo e Castro em 09/03/1774]
fauna do vale amazônico, e o lugar desse – Projeto Resgate. AHU, Pará (avulsos), caixa
conhecimento relacionado ao império 72, documento 6120.
marítimo português (BOXER, 2002). A João Pereira Caldas, [ofício apresentado
pesquisa que está em desenvolvimento, a Martinho de Melo e Castro em 16/11/1777]
pretende evidenciar o fato de que as – Projeto Resgate. AHU, Pará (avulsos), caixa
configurações locais, especialmente a 78, documento 6486.

12 João Pereira Caldas, [ofício apresentado a Martinho de 13Catálogo de gêneros naturais do Brasil e de outras colônias
Melo e Castro em 16/11/1777] – Projeto Resgate. AHU, Pará portuguesas ainda não comercializados pelo Reino.
(avulsos), caixa 78, documento 6486. Conjunto documental: Secretaria de Estado do Ministério do
Reino, Caixa 731, pct. 02. Datas-limite: 1755-1863

106
Catálogo de gêneros naturais do Brasil e COELHO, Mauro Cezar. A epistemologia de
de outras colônias portuguesas ainda não uma viagem: Alexandre Rodrigues
comercializados pelo Reino. Conjunto Ferreira e o conhecimento na viagem
documental: Secretaria de Estado do filosófica às capitanias do Grão-Pará, Rio
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University, 2010.

108
O BACHAREL DO DIRETÓRIO DOS ÍNDIOS:
o Intendente Geral e a fiscalização das vilas

* Stephanie Lopes do Vale

Resumo: Na Amazônia da segunda metade do século XVIII, agentes coloniais estavam envolvidos
em projetos de aportuguesamento dos hábitos e rotinas dos indígenas nas nascentes vilas do
período pombalino. Os bacharéis régios nas colônias recebiam várias atribuições que lhes
direcionavam a avaliação e fiscalização dos cotidianos das vilas, na manutenção dos moradores e
paz dos povos. A Coroa e as autoridades coloniais tinham expectativas sobre os povos indígenas
e demais moradores dos sertões, a ocupação do espaço e a produtividade dependia desses nativos.
A questão era que as medidas deveriam ser adaptadas e adaptáveis as realidades e urgências
locais, pois a experiência demonstrava o peso das práticas locais para o equilíbrio da relação
colonial e da “paz” com os indígenas, assim, surgia na estrutura administrativa o Intendente Geral
da Agricultura, Comércio e Manufatura.
Palavras-chaves: Intendência. Civilização. Vila. Manutenção. Diretório.

A colonização dessa vasta área chamada processo histórico a criação e implantação do


de Amazônia não pôde negar a necessidade chamado Diretório dos Índios2.
de adaptar-se e ceder as petições e aos Neste texto histórico, tentamos
poderes locais, a região que tratamos por este compreender e localizar as pressões internas
nome foi conhecida durante a segunda que se fizeram presentes na política colonial
metade do século XVIII como estado do constituída na década de 1750 pelas
Grão-Pará e Maranhão1. autoridades coloniais. Tais medidas,
Em 1755 foi criada a capitania de São envolveram perspectivas de uma
José do Rio Negro, fronteira com a capitania transformação desejada pela Coroa, mas que
do Pará, possuía seus outros limites se adequou, transformou e articulou à outras
indefinidos, era fruto do contexto dos ações com agentes locais para este domínio
Tratados de Limites de Madri (1750) e de lusitano. Com negociações articulando
Santo Idelfonso (1777), no qual, partidas espaços coloniais e metropolitanos, a relação
delimitatórias foram enviadas e locadas, colonial era formada na maleabilidade que o
dispendendo atenção, bens e braços. A Império Ultramarino Português mantinha
fundação da capitania entrou em um nos fios das redes clientelais.
contexto geral de disputa de terras onde se Na segunda metade do século XVIII as
torna mais urgente a habitação e o capitanias da América Portuguesa tiveram a
crescimento populacional e produtivo das criação de dois novos cargos no aparelho
vilas e povoações. Ainda se relaciona a este administrativo português: o Diretor dos

* Doutoranda em História Social da Amazônia, UFPA. Mestra em História Social. Bolsista: CAPES. Endereço: Passagem Ana-
Deusa, Curió-Utinga. Nº 102. Belém do Pará, Pará. Correio eletrônico: stephanielopes.989@gmail.com
1 Na década de 1750 ocorreu uma reorganização administrativa do Estado, este era desde 1657 o Estado do Maranhão e Grão-

Pará com a capital na cidade de São Luís. Durante a União Ibérica, a Coroa havia decidido separar o estado do Brasil em duas
administrações em 1621-24, o Estado do Brasil e o Estado do Maranhão, para facilitar a administração da região norte da América
Portuguesa pois o ventos e monções tornavam mais fácil e rápida a comunicação direta com o centro em Portugal, do que com
o governo-geral na Bahia. No ano de 1771, houve uma nova separação, ficando: Estado do Maranhão e Piauí e Estado do Grão-
Pará e Rio Negro, este último permaneceu em comunicação direta com Lisboa e os órgãos em Portugal até a adesão da região a
independência em 1823.
2 Diretório que se deve observar nas povoações dos índios do Pará e Maranhão. In.: ALMEIDA, Rita Heloisa de. O Diretório dos

Índios: um projeto de civilização no Brasil do século XVIII. Brasília: Editora da UNB, 1997. Em referências ao longo do texto
usaremos Diretório dos Índios.

109
Índios e o Intendente Geral da Agricultura, Juiz, o Juiz de Fora que era um bacharel
Comércio e Manufatura. Os dois postos nomeado regiamente. Todavia, a criação
foram pensados no contexto de aplicação do desse cargo da Justiça nas câmaras era algo
Diretório dos Índios e da vassalização dos criado desde o século anterior, observou-se
índios, derivando dos princípios desses que a Lei da Boa Razão traçava um diálogo
projetos. com os costumes locais considerados
memoriais.
As medidas implementadas no período
josefino dirigiam suas atenções em políticas
A CAPITANIA DE SÃO JOSÉ DO RIO que protegessem mais enfaticamente os
NEGRO NO IMPÉRIO interesses econômicos lusitanos frente a uma
ULTRAMARINO PORTUGUÉS balança comercial com a Inglaterra. Do
mesmo modo, consequente ao Tratado de
Os anos de 1750, no reino de Portugal, Madri entre Portugal e Espanha, assinado no
acompanharam uma nova coroação – com a reinado anterior e negociado pelo diplomata
subida ao trono de Dom José I – o terremoto D. Luís da Cunha, os termos do acordo
de 1755 e o atentado sofrido pelo rei exigiam a ocupação do territorial com
permitiram que, progressivamente, novas vassalos, fortalezas e plantações.
forças políticas adquirissem espaço de Analiticamente, a segunda metade do século
influência e cargos na administração XVIII tem soado como um giro da política
ultramarina, nos conselhos e secretárias colonialista portuguesa que, ainda que não
régias, também alçando Sebastião José de tenha criado muitos novos cargos nem
Carvalho e Melo a figura de confiança desalojados tanto privilégios da Grande
monárquica e vasto poder na Corte. O, então, Nobreza, realizou uma pulverização de
Conde de Oeiras3 ocupa postos de grande alguns espaços administrativos com novas
influência junto ao rei, sendo seu ministro de nomeações, ampliando a rede de oficiais no
confiança promove reformas e abre portas a serviço do rei e buscando a centralização
seus associados, Carvalho e Mello assumiu a burocrática no régio poder, um desses
secretária de Negócios do Reino implantando territórios foi o estado do Maranhão e Grão-
o que foi nomeado de despotismo Pará.
esclarecido, ou como uma política A nomeação de Francisco Xavier de
centralizadora. Mendonça Furtado – irmão de Pombal – para
Conjuntamente à grupos de agentes governador e capitão general da colônia
régios e famílias enobrecidas, o Marquês de norte da América portuguesa guardou uma
Pombal fez mudanças na organização organização diferente do formato
administrativa e nos quadros de atuação, administrativo do estado. A sede do governo
além de propor reformas estruturais como a foi deslocada de São Luís do Maranhão para
criação do Erário Régio, a retirada da Belém do Pará, o estado passou a ser
influência jesuíta na educação e a Lei da Boa chamado de estado do Grão-Pará e
Razão, reformando a jurisprudência do Maranhão. Historicamente, as autoridades
direito e inaugurando o Direito Português. coloniais permaneciam mais tempo na
As reformas ou transformações pensada e capitania do Pará, a situação política refletiu
aplicadas no reino e colônias fizeram uso da um comportamento dos oficiais – não que
estrutura jurídica e da própria malha de isso satisfizesse os habitantes de São Luís, a
funcionários, pode-se perceber a perspectiva modificação exigiu que se privilegiasse a
de centralizar vários pontos da política local câmara da cidade mantendo-a como espaço
– dos poderes e instancias locais, como a de destaque na região. Essa transformação
câmara que passou a ter mais presença de um política permitiu o crescimento da força

3 Em referências futuras o indicaremos pelo título que


somente em 1770 recebeu, do Marquesado de Pombal,
todavia, tal nome é de consagrado uso na historiografia.

110
política das duas câmaras, com o aumento de Estrategicamente, pensava-se a
postos e envio de tropas para a região. A constituição de pontos com marcos naturais,
posição do governo em Belém também pode fortes e uma malha de vilas e freguesias
ser interpretada como estratégia militar – assegurando proteção e comércio de
regimentos regulares foram enviados a alimentos, as vilas pelos braços de rios
cidade durante a década de 1750 – dada a aprofundariam a presença portuguesa
posição mais próxima à fronteira com Caiena empurrando a fronteira cada vez mais a
e uma localização pensada olhando também oeste. Todavia, não existia quantitativo
para os sertões do Grão-Pará em sua divisa possível para habitar o estado sem a
com a Espanha, objeto do Tratado de Madri. população indígena desde o século XVI o
Dentre as ações desse período, Francisco processo colonizador foi marcado por
Xavier de Mendonça Furtado estava disputas acerca da posse ou da tutela dos
encarregado de uma das partidas de indígenas. Em 1686, com ordem régia, foi
demarcação de limites do Tratado de Madri decretado o Regimento das Missões como
sendo o Plenipotenciario das Demarcações, instrumento legal que arbitrava sobre as
um dos encarregados de liderar as relações dos colonos, religiosos e indígenas,
expedições com os técnicos (como geógrafos, também definiu quem administrava e
matemáticos) e encontrar a partida espanhola tutelava a vida dos nativos.
para fazer a escolha dos marcos físicos com a O Regimento estabeleceu que a direção
investigação da ocupação. Sendo espiritual e temporal dos indígenas dada aos
Governador e Plenitopenciario, Mendonça religiosos, as ordens administravam os lucros
Furtado se dirigiu ao novo estado com o e pagamentos de seus trabalhos nas vilas de
encargo de conseguir o território, pois os brancos e os colonos poderiam contratar seus
termos do tratado partiam da ocupação. serviços. Mas eles permaneceriam na
Eram necessários os instrumentos (como administração dos religiosos, posto que, suas
pelouro, fortes, casas, plantações) que residências eram em lugares separados dos
comprovassem a posse de uso daquele brancos, nas aldeias de índio. O Regimento
espaço. O grande problema, em termos foi instituído depois de um intenso processo
metropolinos, era que o Tratado vinculava a de liberdades, escravidões e rebeliões dos
posse territorial à presença humana, colonos e dos indígenas, pelos seus
portanto, seriam necessários vassalos parágrafos era instituído um Tribunal de
portugueses ao longo das fronteiras e dos Liberdades, que julgava as petições de
sertões, que deveriam ter vilas. liberdades e a legalidade das tropas de
As povoações, principalmente na resgate e descimento. A Mesa de Liberdades
capitania do Pará, com potencial ao era composta por religiosos das ordens
reconhecimento como vilas portuguesa eram atuantes na região e com autoridades
aldeias de administração religiosa, não coloniais, os Deputados das Mesa da Junta
possuindo moradores reconhecidos como das Missões possuíam influência e
vassalos, posto que os indígenas eram arbitravam da liberdade dos indígenas e de
governados pelos missionários e, apesar do denúncias contra os colonos – também com
aspecto e organização europeizada, as os próprios indígenas recorriam ao Tribunal.
povoações não tinham autoridades régias A forte presença das ordens religiosas
estabelecidas, nem pelouro ou casa de acabará por se tornar um entrave no reinado,
câmara, assim, estando ausente os símbolos a própria ampliação de uma máquina
de dominação régia. A geografia pensada no burocrática lusitana operada pelo poder
acordo de limites se basearia na presença régio empurraria e entraria em choque com o
humana e urbana com a natureza local, os poder que os religiosos atingiram nos
marcos demarcatórios seriam notados na espaços coloniais. O quantitativo de
geografia física com as quedas d'agua e aldeamento e os lucros auferidos pelas
montanhas juntamente de fortalezas e fortins. missões escapavam ao Governo e à Fazenda
Real, juntamente às queixas (e exageros

111
locais), acabaram constituindo a base de das após a reflexão dos argumentos que lhes
alegações para a retirada do poder temporal foram, várias vezes, apresentados pelos
sobre os indígenas. Os “resultados” das moradores. (GOMES, 2013, p. 51-52)
missões passaram a ser tomados como uma
Nas análises dos historiadores Mauro
empresa lucrativa que não evangelizava e
Cezar Coelho (2005) e Robeilton de Souza
que afastava os indígenas de uma civilidade
Gomes (2013), as ações e projeções
europeizada e leal ao monarca.
pombalinas foram constituídas
Esse poder de administração que as
progressivamente ao longo da década de
ordens missionárias operavam quanto aos
1750 nas trocas de correspondências entre o
assuntos indígenas receberam críticas e
governador e capitão general do estado
queixas dos colonos e autoridades coloniais,
Mendonça Furtado, Sebastião José de
com a política pombalina as acusações e
Carvalho e Melo e o Bispo do Pará, nomeado
denúncias contra a ação missionária
na mesma época que o governador, o Frei
ganharam mais espaço, principalmente as
Dom Miguel de Bulhões. As investigações
contrárias à Companhia de Jesus. Nos anos
histócas tem exposto o processo de trocas de
de governo de Mendonça Furtado foi
correspondências e informações entre os
tomando forma essa interpretação da ação
agentes coloniais, seria a convivência com as
missionária jesuítica, assim, a anterior visão
possibilidades e limites do contexto das
da missionação como aliada ao rei e da
colonias que delimitaram ao longo dos anos
salvação espiritual dos indígenas passou a ser
as Leis de Liberdades de 1755 e o Diretório
tida como pedras da discórdia colonial e
dos Índios apresentados pelo governador4.
causa da pobreza do estado.
Levando-se em consideração todo
Compreendemos que um aspecto abuso, desterritorialização e trabalho
importante para a construção dos extenuante sem remuneração a que viviam
argumentos contra os missionários reside submetidos os nativos – em função de um
na mudança de entendimento de discurso de evangelização e civilização – não
Mendonça Furtado no que se refere à seria de se espantar que aberta a
aplicação do Regimento das Missões de possibilidade de suas liberdades as
1686. A princípio considerado como uma
populações desprivilegiadas se evadissem
lei contrária aos interesses da nova política
colonial, particularmente quanto à das aldeias sem pensar duas vezes – fugas já
declaração de liberdade, passou a ser ocorriam mesmo sem a liberdade instituída.
compreendido pelo governador como Havia quase dois séculos de contato e
mais um elemento que comprovava a conflitos, e os povos indígenas vivenciaram
inobservância dos clérigos em relação às mudanças legais em sua condição, ainda que
ordens régias. Deixando de ser entendido apenas oficiais. Algumas vezes, a divisão
como o principal entrave a política
entre aliados e inimigos presente na
indigenista, passando a incidir a crítica na
má interpretação e aplicação da legislação, legislação demarcou povos escravizáveis e
na medida em que os religiosos eram povos que assumiram posições como colonos
acusados de não realizar devidamente as e principais – foi esse universo que as Leis de
repartições dos índios. Liberdade interferiria, já que, as medidas não
É possível dizer que esta opinião foi sendo distinguiam os grupos, mesmo os inimigos
gestada depois que Mendonça Furtado estariam livres.
assumiu o governo e “passou a examinar
Nesse sentido, o Diretório do Índios se
com vagar o Regimento e a forma como os
regulares defendiam as liberdades”. insere como um instrumento primordial para
Atribuímos também esta mudança de se entender o contexto, tendo sido escrito a
avaliação sobre o Regimento das Missões, partir do mundo amazônico o texto de lei
4Os Álvaras com força de Lei de 6 e 7 de junho de 1755 foram Índios foi um regulamento onde esta descrita as orientações
cartas régias onde se extinguiu o poder regular sobre a vida da tutela indígenas instituída em 1757, passando a serem
cotidiana e da própria gestão dos indígenas, o poder súditos tutelados, caberia ao Diretor do Índios (cargo criado
temporal, e se instituiu a liberdade dos indígenas sobre seus no regulamento) e aos demais agentes coloniais aplicarem os
bens e pessoas, passando a serem considerados livres e termos para “civilizar” os nativos aos moldes europeus
vassalos do rei nesses termos e contexto. Já o Diretório dos como portugueses.

112
arrola uma série de medidas e procedimentos comum as fábricas e utensílios de indústria
que devem ser implementados nas vilas e no das povoações, tais como os fornos das
cotidiano das populações indígenas, de olarias – estes, não mais poderiam ser
forma que, eles sejam civilizados e se governados, passando, inclusive, a poderem
tornassem vassalos de sua majestade assumir postos, como sargentos ou
fidelíssima. Assim, a criação da capitania do vereadores e juízes, por exemplo. Para além
Rio Negro era acompanhada por uma nova do cargo de Diretor, foi “criado” o posto de
concepção da região dentro do Império Principal, um cargo de nomeação indígena,
Ultramarino Português, havia uma questão que já existia, atuando como intermediário da
estratégica importante, a demarcação das comunicação entre indígenas e brancos
fronteiras entre Portugal e Espanha que eram organizando descimentos e negociando os
os limites dessa capitania, portanto, um interesses da sua nação, a função passava a
incipiente contato com os nativos poderia integrar a estrutura da burocracia lusitana na
ocasionar um grande risco a posse desse América.
território. Para o caso da capitania do Pará esta
questão estava “encaminhada”, pois com a
Um dos princípios centrais que regiam expulsão dos missionários o governador
essa política era o fortalecimento do poder Mendonça Furtado elevou os aldeamentos
da metrópole, representado pelo reforço
em vilas, “ergueu” os pelouros e procedeu as
da estrutura administrativa na colônia e
pela arregimentação da população em eleições das Câmaras. Com a liberdade foi
povoados organizados e reconhecidos dada aos indígenas a condição de vassalos
dentro da hierarquia oficial. Portanto, para portugueses e se reconheceu os privilégios de
a demarcação desse território – espaço de seus chefes e principais dando-lhes acesso a
posse da Coroa portuguesa, assim condição de homens bons da terra, logo, a
reconhecido pelos demais reinos –, era possibilidade de eleição na vereação e nos
imprescindível a configuração jurídica e
cargos superiores das tropas. Tão logo,
material de elementos que representassem
essa ocupação, para além da representação somava a esta convivência a experiência dos
oficial em documentações textuais e, indígenas aldeados, frutos do próprio
principalmente, cartográficas. (SANTOS, contexto missionário.
2016, p. 186) Nesse sentido, entendemos as
flexibilizações nos pareces e leis, até
O Diretório era um conjunto de alterações em vista a boa execução e a
instruções que deveriam ser praticadas e promoção da paz e harmonia no respeito às
implementadas nas vilas e tais medidas dignidades e privilégios. Nas povoações e
deveriam ser incentivadas e orientadas pelo vilas coloniais se somam as figuras das
Diretor do Índios, este não detinha a lideranças indígenas, que em alguns casos era
administração dos nativos, apenas a direção e representada no Principal, que passaram a
suas atribuições deveriam observar a assumir postos no quadro de funcionários
vassalização e aportuguesamento dos hábitos coloniais, isto implicava em formação de
e modos dos moradores. Entretanto, o que a alianças entre grupos diversos. Observa-se
historiografia e as fontes tem demonstrado que as posições aqui não estavam dadas, a
são ações diversas, do cumprimento parcial figura do Principal se relacionava a grupos
das funções até o uso do cargo para expressos pela etnia – que muitas vezes era
enriquecimento e exploração dos indígenas. resultante do processo colonial – podendo
O Diretório estabeleceu a tutela dos uma vila ter diversos, e as alianças podiam
indígenas, em uma alegada proteção e colocar em polos opostos indígenas e também
orientação até que os mesmos fossem capazes brancos.
de se gerir, mas essa condição não anulou as De forma a organizar o espaço
Leis de Liberdade de 6 e 7 de junho de 1755. Amazônico, fazer o centro mais presente na
Tais alvarás com força de lei davam aos “periferia” e possibilitar apoio as
indígenas a posse de suas pessoas e seus bens Demarcações, a capitania do Pará foi dividida
– o que também, acabou por tornar de posse

113
em duas, em 1755 era criada a capitania de capacidades e articulações indígenas. Foram
São José do Rio Negro. Diferentemente do com as populações aldeadas que os bacharéis
território paraense, no Rio Negro a do Rio Negro lidaram mais diretamente,
missionação carmelita não teve efeito de negociando as instruções sobre as
semelhante perfil de aldeias, na verdade, esta construções e plantações, procurando
ordem foi acusada de negociar índios e esta assegurar a manutenção das povoações. As
mais interessada no tráfico das drogas do colônias surgiam no processo histórico como
sertão– até com os vizinhos espanhois e constantes construções numa prática de
holandeses, constituindo redes de tráfico. A experiência contínua, o processo colonizador
influência dos régulos do sertão e o espaço ser se transformava em relações dialéticas de
explorado constantemente por tropas de reafirmada experimentação.
resgaste e de coleta de drogas do sertão
estabelecia outra forma de contato e
funcionalidade para o oeste da Amazônia ao
longo dos séculos anteriores, sendo utilizada A COMARCA DE SÃO JOSÉ DO RIO
outra atitude negociada com os descimentos. NEGRO: OUVIDORIA E
A expansão portuguesa pela região que INTENDÊNCIA GERAL DA
chamamos de Amazônia inseriu os povos AGRICULTURA, MANUFATURA E
indígenas como agentes dessa ocupação
territorial, sendo, também, alvos de disputa
COMÉRCIO
pela ocupação das fronteiras e rios. A partir
das considerações de Rafael Ale Rocha (2009) Apesar da criação da capitania do Rio
e Fernando Roque Fernandes (2015), Negro em 1755, somente em 1760 foi
podemos perceber que este espaço do nomeado o primeiro ouvidor, Lourenço
Império Ultramarino português foi fruto da Pereira da Costa (1760-1767) e com ele a
ação continuada dos envolvidos nessa definição de uma comarca independente.
política, o mundo colonial foi inaugurado não Segundo Francisco Jorge dos Santos (2012):
por uma imposição externa de colonos, mas
[…] na fase da ‘Concepção da implantação
pelos processos históricos de conflitos e da Capitania do Rio Negro’, esse tipo de
alianças entre os povos em contato. O servidor real não existiu, ainda que, na
indígena colonial era o outro – de todo modo, Carta Régia da criação, o monarca
o índio é um discurso europeu sobre o signatário outorgasse que “para conhecer
habitante deste continente, ele é uma ficção – dos agravos e apelações tenho nomeado
da mesma forma que o colono era uma Ouvidor da nova Capitania, com correição
e alçada em todo o seu território”
criação do mundo colonial.
(SANTOS, 2012. p. 134)
No entanto, utilizava, fundamentalmente,
entidades e métodos já criados no reino e Tornou-se usual definir a criação de
transplantados, em primeiro lugar, para as uma comarca por meio da nomeação de seu
ilhas atlânticas e, mais tarde, para o Brasil, ouvidor, a jurisdição não era
com o propósito de examinar a actuação obrigatoriamente coincidente com o espaço
de todos os funcionários reais. Dessa da capitania. A implementação da Ouvidoria
forma, a actividade dos directores era não pode ser interpretada como um processo
devassada pelos corregedores, ouvidores e
automático, a concepção de uma instância
intendentes-gerais. Estes tanto podiam
inquirir indivíduos ou casos específicos jurídica distinta atuava como uma nova
como desempenhar a sua função sobre organização do espaço administrativo do
todos os directores das povoações luso- Império.
brasileira. (DOMINGUÊS, 2000, p. 157) A figura do ouvidor expressa o
movimento de centralização da
Na Amazônia Pombalina as práticas de administração e sofisticação da burocracia
descimento dos povos dos sertões e a com a ampliação dos quadros de funcionários
organização das vilas fizeram uso das do rei, a presença de um bacharel letrado na

114
capitania implicou na articulação com as estavam relacionadas ao poder do monarca –
medidas do Império. A formação em Letras sua obrigação primeira5. Nesse período,
ou Cânones na Universidade de Coimbra, passou a ser uma preocupação os parâmetros
com seus exames, procedimentos e locais legais (e a formação dos bacharéis) que
próprios aos bacharéis, e os projetos que estavam mais baseados no Direito Romano e
representava ligam a capitania e suas Consuetudinário (costume), não existindo
especificidades ao projeto português. As propriamente um Direito português.
obrigações dos bacharéis locais os colocavam Consecutivamente, se faz observável uma
em posições de intermediários da aplicação postura de nomeação em postos e política
da lei, a readequar para o local se tornou sua regulatória e instrutiva que buscava assentar
função e prática constante. A constituição da nos costumes dos moradores as novas
normatização e do alinhamento das práticas posturas e ordens.
locais com os ditames “justos” e “adequados” Ao percorrerem a comarca nas Viagens
é algo que denota uma transformação social de Correição6, efetuando as Devassas Gerais
profunda. e Especificas7 e Residências8, observaram o
desenvolvimento das vilas e povoações
Não obstante, o continuo avanço do coloniais, tendo como parâmetro de norma,
direito escrito, o juiz ordinário, no mais as Ordenanças Filipinas, as Leis Régias e o
das vezes, ainda se valia do direito
Diretório dos Índios avaliavam e corrigiam os
consuetudinário (costumes) na resolução
dos conflitos entre indivíduos na procedimentos dos Diretores. Inclusive
comunidade. Com as correições e dando procedimento nas queixas, denúncias
provimentos, os ouvidores de comarca e inquirindo das relações entre os brancos e
foram redefinindo o costume local, mestiços com os indígenas. Recorrer ao olhar
homogeneizando a justiça em prol da do ouvidor como uma forma de alcançar a
legislação portuguesa. (PEGORARO, 2007, realidade colonial descortina o diálogo entre
p. 68) Grifo próprio
a lei e a experiência. Neste letrado ocorria um
As reformas pensadas por Pombal e debate cotidiano em um exercício de
seus associados também se preocuparam com constante instrução, fiscalização e correção da
a Justiça do Rei e estrutura juridicional das gente da capitania.
leis. As matérias relacionadas ao “fazer Na comarca do Rio Negro a ação dos
justiça”, dando a cada qual o que lhe era ouvidores tomou direções de
próprio, eram de natureza monárquica, regulamentação e fiscalização das situações
sendo o equilíbrio das partes da sociedade nas vilas. O interesse das autoridades
função do rei, portanto, ao exercerem a coloniais se mostra sobre formas de assegurar
função de Justiça as práticas dos letrados o território para a Coroa portuguesa9, o que

5 O setor da Justiça possuía relativa autonomia frente aos 7 Devassas Gerais eram as funções de Justiças envolvidas
demais cargos, sendo considerada uma temática particular mais ao sentido criminal do tema, procedendo quanto as
ao rei. Segundo José Subtil, não se trata de uma área de ações encaminhadas pelos juízes locais e querelas – também
atuação, mas de uma natural disposição ou capacidade dada recebendo recursos e petições dentro do cabível das
aos reis de “fazer justiça”. A leitura é que não se trata da naturezas do envolvidos. As Devassas Específicas eram os
decisão entre partes, mas a realização do equilíbrio entre os procedimentos jurídicos acionando o ouvidor para devassar
que divergem, assim, não se procurava igualar, mas dar a um caso/querela/crime específico. As devassas tratam de
cada qual o que lhe pertencia, nesse contexto histórico-social processos abertos e apurados na Ouvidoria.
representava a própria harmonia social. “Fazer justiça” era a 8 As Residências eram procedimentos investigatórios da

manutenção do corpo social. SUBTIL, José. Os Poderes do trajetória de um agente colonial em algum cargo, ao final do
Centro. In.: HESPANHA, António Manuel (coord.). História tempo de serviço os funcionários deveriam ser inquiridos e
de Portugal – O Antigo Regime (1620-1807). 4º Volume. testemunhas seriam ouvidas sobre a conduta do agente –
Lisboa: Estampa, 1998. Pp. 141-230. P. 141-145. sendo documento obrigatório para uma posterior nomeação,
6 Dentre as atribuições do ouvidor e corregedor (em ainda que não tenha sido necessariamente cumprido dada as
Portugal) de comarcas estava as viagens de correição, na influências das redes clientalares e da necessidade de
qual o bacharel procedia em viagens pelas vilas realizando funcionários em vários pontos.
avaliação das câmaras – tanto financeira quanto civil, 9 A partir de 1762, o Tratado de El Pardo anulou os

também vistoriando os procedimentos e processos dispositivos e definições negociadas e executadas


envolvidos nos temas da Justiça, julgando recursos as decorrentes do Tratado de Madri, ficando a fronteira entre
decisões dos juízes ordinários. No mesmo procedimento Portugal e Espanha em litigio. Segundo a historiadora
realizava as eleições das câmaras. Ângela Dominguês, este momento pode ser conhecido por

115
não impedia interpretações das ordens e das as partes da administração em paralelo,
jurisdições diferentemente. São comuns os ensejando uma morosidade administrativa.
conflitos entre os funcionários coloniais, Uma sobreposição de poderes decorria da
Fabiano Vilaça dos Santos sinaliza as forte presença ou da grande distância real,
constantes disputas e queixas do governador podendo ser ou não permitido. Os limites de
de capitania Joaquim Tinoco Valente sobre os jurisdição eram definidos
ouvidores Lourenço Pereira da Costa circunstancialmente. Em nossa pesquisa
(17601767), António José Pestana e Silva encontramos várias correspondências entre
(1767-1773) e Francisco Xavier Ribeiro de os ouvidores e os governadores tanto de
Sampaio (1773-1779). Encontramos conflitos capitania quanto os com os gerais, nas quais
na definição das jurisdições entre os cargos de se discute os espaços de ação e as obrigações
ouvidor de capitania e governador de que concernem à Justiça10.
capitania, os três bacharéis que atuaram no Nesse contexto, ocorre a instalação da
Rio Negro (Lourenço Pereira da Costa, Ouvidoria Geral de São José do Rio Negro,
António José Pestana e Silva e Francisco quando o bacharel Lourenço Pereira da Costa
Xavier Ribeiro Sampaio) tiveram o mesmo recebe a nomeação de ouvidor juntamente foi
conflito sobre a alegada, pelo governador, nomeado como Intendente Geral da
hierarquia que tinha sob a Ouvidoria – Agricultura, Comércio e Manufatura do Rio
principalmente nas matérias com os Negro.
diretores.
Em parte, a situação se deve as Ei por bem constituir o ordenado de
indefinições ensejadas e mantidas pela Coroa seiscentos mil reis por ano, ao lugar de
Ouvidor, e Intendente Geral das
para a manutenção de sua função de arbítrio Colonias, Comércio, Agricultura e
final e centralidade, em outro ponto haviam Manufatura da Capitania de São Jozé do
disputas de influência e relações numa Rio Negro, criado de novo, e em que fui
sociedade de estamentos nas quais as servido prover o Bacharel Lourenço
hierarquias e setores entre os postos não Pereira da Costa; cujo ordenado, será
estavam claramente definidos e o público e {confuso} pela Provedoria da minha Real
Fazenda da Capitania do Grão-Pará. O
privado não eram distintos. O
Conselho Ultramarino o tenha assim
desenvolvimento de trajetória nos postos de entendido, e mande expedir os depachos
nomeação régia, como a posição militar- necessários. Palácio de Nossa Senhora da
estratégica da capitania ou mesmo amizades Ajuda a trinta de Junho de mil Setecentos
e apadrinhamentos poderiam assegurar boas e Sessenta.
avaliações nas residências, o apoio à posturas Cumpra-se, Registre-se, e se passe ordem
interpretadas como mais verdadeiras e de ao Provedor do Pará. [duvida]ª 1 de Julho
de 176011
bom proveito ao bem comum, nisso abriam as
possibilidades de ascensão pelo serviço real e
Tal Intendência parece ser
também ocorriam limitações.
exclusivamente da Amazônia portuguesa, as
Tem sido observado que o desarranjo
atuações dos intendentes demonstraram uma
pelo choque de funções enfraquecia a
clara conexão com os termos do Diretório
autonomia das autoridades locais e mantinha

“paz armada”, em decorrência ao acordo as partidas de Isabele de Matos de. Magistrados a Serviço do Rei: a
limites de desfizeram, no entanto, os governos procuraram administração da justiça e os ouvidores gerais na comarca do
manter posições nas áreas de fronteira através da instalação Rio de Janeiro (1710-1790), 2013; PEGORARO, Jonas Wilson.
de povoações e fortes havendo momento de vigilância e Ouvidores Régios e Centralização Jurídico-administrativas na
preparação a uma possível invasão e guerra. DOMINGUÊS, América Portuguesa: a Comarca de Paranaguá (1723-1812),
Ângela. Quando os índios eram vassalos: Colonização e relações 2007.
de poder no Norte do Brasil na segunda metade do século 11 Rei Dom José I. Decreto Régio. 30/06/1760. Manuscrito.

XVIII. Lisboa: Comissão Nacional para Comemoração dos Arquivo Histórico Ultramarino - Rio Negro, caixa 01,
Descobrimentos Portugueses, 2000. documento 26. Projeto Resgate – Barão do Rio Negro. Todas
10 Arquivo Público do Pará, Códices 206 e 233. Abordam esta as citações das fontes documentais tiveram sua ortografia
questão: SCHWARTZ, Stuart B. Burocracia e sociedade no atualizada e em itálico estão as abreviaturas desfeitas para
Brasil colonial, 2011.; SALGADO, Graça (coord.). Fiscais e facilitar a leitura.
meirinhos: a administração no Brasil colonial, 1985; MELLO,

116
referentes a estrutura e cotidiano das intendentes-gerais. Estes tanto podiam
povoações, e da própria ação dos diretores de inquirir indivíduos ou casos específicos
índios. Na capitania de São José do Rio como como desempanhar a sua função
sobre todos os directores das povoações
Negro, a implementação do Diretório dos
luso-brasileiras. Por aditamento ao
Índios encontrou em um indivíduo duas Directoria, feito em 1760, ficou
matérias, os bacharéis que atuaram nesta determinado que os delitos crime
capitania exerceram os dois encargos: perpetados pelos directores ficariam sob a
“oeconomia” [Intendência] e “iurisdictio” alçada do corregedor da comarca,
[Ouvidoria]. enquanto os casos econômicos e fiscais
pertenceriam a jurisdição do intendente-
Procedi a correição assim ordinária, como geral do Estado. (DOMINGUES, 2000, p.
da Intendência em a vila de Silves, e ainda 157)
que não ficasse compreendido em delito
algum o Diretor dela; sempre contudo Dessa maneira, a historiadora
observei nele bastante m[borrado]o, por compreende que os dois ministros (o ouvidor
falta de disposição, e modo, cujos defeitos, e o intendente) exerciam a mesma função
se suprimirão talvez com as eficazes fiscalizatória sobre a vida nas vilas e
advertências, que lhe fiz12 povoações, porém com a distinção das
matérias, a partir da natureza dos
Mesmo sem agir contra as legislações e
descaminhos. A nomeação de bacharéis para
instruções, o letrado falou da indisposição do
o cargo de ouvidor geral da capitania do Rio
diretor em atuar: se referiu a falta de
Negro seria um primeiro passo para compor
empenho para aplicar as instruções dos
o quadro administrativo lusitano na
incentivos aos índios; a advertência seria para
capitania. A nomeação desses funcionários
indicar que posturas e atitudes que eram
régios e demais cargos da burocracia
esperadas (e exigidas) dos diretores.
formavam as tramas da rede de agentes
Prossegue falando que vistoriou as casas dos
coloniais entre os vários pontos do Império,
índios e dos demais moradores, a igreja, a
assegurando assim a presença e o controle
construção de uma olaria, a condição dos
português.
índios, as plantações e o que fizeram o capitão
Em 24 de junho de 1768, o Ouvidor
Raimundo – em diligência e o principal
António José Pestana e Silva envia
Belchior. Este seria o trabalho regular do
correspondência ao Governador Fernando da
intendente geral: itinerante e contínuo.
Costa de Ataíde e Teive aonde dá conta da
Como já abordado, o diretor dos índios
situação da Vila de Serpa noticiando sobre: a
era um funcionário nomeado pelo
organização, da qualidade dos
governador para durante um ano garantir os
procedimentos do diretor, da quantidade de
direitos e privilégios indígenas, promovendo
índios e da situação atual da povoação com as
sua civilização por meio da implementação
providências que tomaram na orientação do
dos costumes lusitanos, usando o trabalho
ouvidor, dando notícia das mesmas.
como principal ferramenta e também
produtivo: roças e comércio. Porém, o Pela Correição da Vila de Serpa me
Intendente da Agricultura, Comércio e constou não haver nela desordem alguma,
Manufatura é uma função ainda pouco e ser o seu Diretor de bom desvelo, e
tratada pela historiografia, sua atividade cuidado.
ainda requer melhor definição. De acordo A dita vila se acha em total decadencia por
com Ângela Domingues (2000), na capitania falta de Indios e sem meios de poder
fornecer-se deles por via de descimentos,
do Pará,
porque o Sargento Mor em quem observei
aptidão para fazer, esta impossibilitado
(…) a actividade dos directores era
por um moléstia, que oprime, e talvez o
devassada pelos corregedores, ouvidores e
obrige a buscar o seu remedio nesta cidade

12António José Pestana e Silva. Correspondência. 24/06/1768 estado do Grão-Pará e Maranhão, Fernando da Costa de
– Borba. Manuscrito. Arquivo Público do Pará, Códice 182, Ataíde Teive.
Carta de António José Pestana e Silva para o governador do

117
{Borba} conhecendo eu a indispensavel política de racionalidade legislativa pensada.
necessidade de providenciar a A capitania teve suas atividades
consternação da Vila, animei o Principal administrativas pautadas em um duplo e
dela, para que me segui-se ao Rio
conflitado comando, as disputas e querelas
Solimões em ordem a se confradando-o
com algum dos Índios das entre as autoridades coloniais eram
Povoações do dito Rio que tinham recorrentes nas colônias, os diversos grupos
parentes, conhecidos ou aliados no rio políticos se alinhavam em torno das
Jupurá ou qualquer dos outros; pode possibilidades de comando, poder e
desce-los e agrega-los a sua vila, ajudando- influência e estes agentes viam-se envolvidos
os e facilitando-lhe ou pelo modo possível nestes jogos de poder, de forma que a
os meios que forem necessário13
extensão de sua função entrava como pauta.
As funções que o magistrado ocupante Em janeiro de 1761, Lourenço Pereira da
dos postos da Ouvidoria e da Intendência do Costa dirige uma carta ao governador do
Rio Negro ocupa na capitania destoa de uma Estado, solicita nela a definição da jurisdição
expectativa jurídica estrita, a Justiça aqui da intendência e afirma sua percepção pela
parece relacionar-se mais com instrução do prática do ofício, mas ainda lhe restavam
que com “punições” e preocupações dúvidas
estratégicas, eram outros tipos de disciplinas.
(…) com tudo como até agora tem sido
Além dos ouvidores e intendentes, nesta capitania, mais conhecido {confusa}
outras autoridades coloniais teriam sido que Justiniano, e a distância faz difíceis os
nomeadas, sendo alguns cargos essenciais ao recursos, e fáceis as transgressões, e sem
funcionamento da capitania, como o clareza poderá menos obedecer-se a
governador, o provedor e o juiz de Fora. atividade das minhas ordens, e
Posições estratégicas de controle e disposições, ou desconhecida a Jurisdição,
neste caso, por evitar o rigor, ou a
fiscalização, também de despacho e
moderação que pode servir de incentivo
efetivação das ordens e instruções do rei. do desagrado; parece Excelentíssimo
Permanecendo nessa linha de raciocínio, é Senhor melhor será declara-lo Sua
imprescindível ver como, no caso do Rio Majestade14
Negro, os cargos que exerciam o âmago da
função e poder régio da administração régia: Todas as autoridades coloniais tinham
o governador, o ouvidor, o provedor da participação e as suas atribuições e ordens
Fazenda Real e o intendente geral da seriam obrigatoriamente dirigidas para a
agricultura, comércio e manufatura foram modificação desse vasto sertão em território
acumulados no mesmo magistrado. Os português e dos habitantes em vassalos do
letrados exerceram três dessas atividades: a rei. Os limites fluidos dos cargos e atribuições
ouvidoria, a intendência e a provedoria, os coincidentes de funções, matérias e poder,
postos gerais da capitania na Justiça e adicionaram elementos na disputa pelo
Fazenda, ficando a Milícia e Governo com o comando da capitania e da direção e governo
governador – neste período Joaquim Tinoco das vilas – ao passo que o uso dos soldados
Valente (1763-1779). para prisões e diligências chegou a ser
Distinguindo-se do cargo de pauta15. De maneira que, equacionando a
governador, que priorizava um “currículo” multiplicidade de funções que foram
nas armas, posto de muito prestígio político encarregados, os potenciais conflitos e
dada a questão militar da possessão em litígio dissonâncias na administração lusitana no
fronteiriço. As letras se conectaram mais com Rio Negro seriam naturais.
a rotina da administração burocrática e com a

13António José Pestana e Silva. Correspondência. 27/06/1768. 14 Lourenço Pereira da Costa. Ofício. 18/01/1761.
Manauscrito. Arquivo Público do Pará, Códice 182, Carta do Manuscrito. Arquivo Histórico Ultramarino – Capitania do
governador da capitania do Rio Negro, Joaquim Tinoco Rio Negro, Avulsos, caixa 01, documento 30. Projeto Resgate
Valente, para o Ouvidor da capitania do Rio Negro, António – Barão do Rio Negro.
José Pestana e Silva. 15 As funções exercidas e o quadro administrativo eram

questões para serem consideradas nas atitudes dos letrados.

118
[…] o que necessito que Sua Majestade me Índios de um, e outros Sexo maiores, ou
faça a especialíssima Graça de declarar o a menores, e que quando instaste lhe
que se dirige a minha intendência; porque respondesse, que recorrente a ele General,
suposta não ignoro de vir escrivão dela aonde ficavam as Resoluções de Sua
fazer crescer o negócio, expedi-lo para o Majestade respectivas a estas, e outras
sertão por meio das câmaras, e Diretores, matérias;17
favorecer os negociantes, cuidar nas obras,
especialmente fabricas, aumentar roças, O que disse Joaquim Tinoco Valente ao
fomentar plantações, cuidar nas colônias, antecessor de António José Pestana e Silva,
persuadir descimentos; fomentar os repetia agora ao mesmo, e fariam várias
moradores, e sindicar Diretores16
vezes: que não permitirá que nada altere ou
Seriam estes os objetos da atenção e das interprete do Diretório, e que ele (o ouvidor)
ações do intendente geral da agricultura, tenta desobedecer, que pare de fazer e não se
comércio e manufatura. Descreveu Pereira da meta com os órfãos índios, jurisdição que não
Costa, uma jurisdição sobre matérias lhe pertencia. Que em dúvida de jurisdição
“econômicas”, todavia, eram os itens recorra a Sua Majestade e ao general, mas era
descritos no Diretório dos Índios para a Tinoco Valente que escrevia ao ouvidor
transformação dos sertões amazônicos. É tomando uma postura que lhe favorecia.
notável a ligação entre o cargo e a legislação, A querela se adensava quando as
assim, o diretor dos índios seria a inovação temáticas eram sobre os indígenas, pois
administrativa com atribuições conectadas mesmo na condição de tutelados, eram
aos parágrafos do texto. Seus olhos voltavam vassalos do rei, podendo recorrer ou serem
a atenção aos aspectos que deveriam ser parte nos expedientes da Justiça régia – como
instalados nas povoações, tanto edificações e testemunhas, denunciantes e peticionários.
demais obras, como rotinas de trabalho, Lembre-mos que a tutela não dava o governo
viagem e comércio. nem a administração dos nativos ao
Entretanto, o problema do intendente governador ou ao diretor por ele nomeado,
ser também o ouvidor – não seguindo o também havia um perfil de exclusividade das
estrito das ordens – e a falta de “confirmação” competências de Devassas e Inquirições da
de quem julga e procede sobre os índios Justiça serem tomadas por bacharel do rei –
persiste – ainda que o Diretor seja o principal principalmente como recurso ou segunda
encarregado, as questões de Justiça eram instância. Assim, surgiam argumentos para o
matéria dos magistrados. A prática de magistrado receber as denúncias dos
interpretação sobre ordens e das leis se indígenas contra outros moradores e de
mantinham presentes nos domínios coloniais proceder em Devassas Específicas de
no período josefino, os desacordos entre as assassinatos envolvendo indígenas.
autoridades coloniais eram comuns e Dessa forma, a atuação do intendente
repetidas aos longos das correspondências concomitantemente ao ouvidor deu outro
dos vários ouvidores. tom para este exercício no Rio Negro, e foi
causa de confusões e disputas nas jurisdições
Diz que foi nomeado governador para a do governador e dos bacharéis. Distinguir
conservação de tudo tal como estar na um limite entre as duas atuações no Rio
ordem das instruções reais; Remete Negro talvez não tenha nexo com aquilo que
parágrafo das instruções básicas, mas cita foi pretendido quando as funções foram
“a Segunda, que por nenhum modo criadas na capitania. Dadas na mesma carta
permitisse, as consentisse, que o Ouvidor
de nomeação e com as condições de
desta Capitania se intrometesse com

16 Lourenço Pereira da Costa. Ofício. 18/01/1761. Joaquim Tinoco Valente, ao ouvidor, intendente geral e
Manuscrito. Arquivo Histórico Ultramarino – Capitania do provedor da real fazenda, António José Pestana e Silva.
Rio Negro, Avulsos, caixa 01, documento 30. Projeto Resgate Anexo a: António José Pestana e Silva. Correspondência.
– Barão do Rio Negro. 06/02/1772 – Barcelos. Arquivo Público do Pará, Códice 233,
17 Joaquim Tinoco Valente. Correspondência. 26/02/1772 – Carta enviada pelo ao ouvidor, António José Pestana e Silva,
Barcelos. Manuscrito. Arquivo Público do Pará, Códice 233, para o governador da capitania do Rio Negro, Joaquim
Carta enviada pelo governador da capitania do Rio Negro, Tinoco Valente.

119
estabelecimento das vilas distintas da DA INTENDÊNCIA GERAL DO RIO
capitania do Pará, eram povoações novas e de
NEGRO PARA A INTENDÊNCIA
gente recém-descida.
Na carta de 1768 abordada, António José GERAL DO PARÁ
Pestana e Silva escreveu ao capitão-general
relatando a correição ordinária e intendência Não ignoro as circunstâncias da
que fez na vila de Silves, ponderou acerca do realidade abusiva e violenta a que estavam
diretor. Eram as condições dos moradores os inseridos os indígenas, todavia, não anulo
temas descritos: casas, roçados, obras suas capacidades transformadoras,
públicas e o percentual humano, inclusive de negociativas e de insurjeição. E, para tais
proporção entre índios e brancos e de sua ações, fizeram usos dos instrumentos
qualidade. O equilíbrio entre brancos e possíveis, tais como queixar-se aos
índios, encontrando estes trabalhadores no funcionários coloniais, utilizando a legislação
cotidiano produtivos quando viu as em seu favor, mas também dos conflitos
plantações que os indígenas cultivavam. dentro da própria estrutura portuguesa.
Constituía, assim, em sua carta um laudo do Temos, sob tais circunstâncias, as ações
estado da vila, os índios não são diretamente de indígenas e moradores em disputas de
citados, mas aspectos da estabilidade da posições, posto que, ainda que livres, os
sedentarização, como o trabalho e a habitação nativos eram tutelados, mas mesmo que
estavam relatados. dirigidos, o indígenas poderiam escolher o
trabalho, peticionar e denunciar à Justiça
Procedi a Correição assim ordinaria, como Régia, deveriam receber salário e evandiam-
da Intendendia em Vila de Silves, e ainda se justificando sua posição - a bem da
que não ficasse compreendido em delito verdade, já fugiam antes.19 De tal modo, a
algum o Diretor dela, sempre contudo
política implementada foram ações medidas
observei nela bastante m[corroído]o, por
falta de disposição, e modo cujos defeitos nas circunstâncias e exercidas dentro de
se suprirão talves com as eficazes possibilidades, para a capitania do Rio Negro
advertencias, que lhe fiz.18 não era realizável a nomeação de mais
letrados nos cargos e isto implicou em
Nessa correspondência Pestana e Silva concentrações de poder, seja na mão dos
não definio o encargo que estava atuando magistrados ou dos diretores de índios. No
(ouvidoria, proedoria ou intendência), mas caso do Pará, foram instalados três
há uma referência ao exercício da funcionários da Justiça do rei para a
intendência, nominalmente como realização de sua Justiça: o juiz de fora nas
procedimento em execução e nas descrições câmaras, o intendente geral da agricultura,
que faz da vila de Silves. É uma atividade de comércio e manufatura e o ouvidor geral da
correição comum da atuação dele na comarca na ouvidoria20.
capitania tanto, rotineiro como ordinário. Compreendemos, o intendente,
Eram observações condizentes com as nesse termo jurídico, como mais um elemento
especificidades locais: a implementação do na implementação da justiça e sua distinção
modus português no Vale Amazônico, de atividades independentes das atribuições
características de averiguação econômica e do ouvidor. A Intendência exercia uma
social. fiscalização sobre as práticas cotidianas das
vilas, não dos descaminhos, mas no cotidiano
e no Diretório – portanto, encontramos uma

18 António José Pestana e Silva. Correspondência. 24/06/1768 profundamente a necessidade de fazê-los satisfeitos e a
– Borba. Manuscrito. Arquivo Público do Pará, Códice 182, situação política nas vilas na medida em que o ouvidor e
Carta de António José Pestana e Silva para o governador do intendência justifica a fugas de indígenas.
estado do Grão-Pará e Maranhão, Fernando da Costa de 20 Conselho Ultramarino. Ordem Régia. 19/02/1766.

Ataíde Teive. Arquivo Histórico Ultramarino, Códice 277, Consultas.


19 A bem da verdade, não foram raras as fugas individuais e

coletivas dos nativos, mas (ainda) nos faz pensar

120
coerência de intenções e exercícios entre as rei, prioritariamente ao Diretório dos Índios.
comarcas. As matérias da intendência eram, da mesma
A resistência de oficiais régios e agentes forma que a ouvidoria, a fiscalização e
coloniais eram uma das motivações dos correção dos descaminhos, ao proceder sua
recorrentes esclarecimentos e das dúvidas viagem de intendência o bacharel realizou
acerca das jurisdições que receberam os averiguação e passou instrução ao diretor,
funcionários da Justiça. As instruções e mas este ponto não é tão bem expresso. Até
advertências encaminhadas pelos letrados se onde teria ele autoridade para passar ordens
encaminhavam para a descontinuidade das e instruções aos diretores (caso tivesse)?
práticas consideradas nocivas dos índios e Porém, estava claro que a atuação do
dos “civilizados”, estabelecendo uma intendente geral da Agricultura, Comércio e
estruturação burocrática para investigar, Manufatura deveria primar pela averiguação
proceder e julgar os casos. Quem poderia da boa execução dos termos do Diretório dos
administrar, instruir e punir os índios e seus Índios, suas relações com os demais bacharéis
algozes? (como ocorre no Pará) e da jurisdição sobre os
diretores e indígenas ainda é objeto de
Que sendo a Jurisdição os Juízes dos investigação.
Órfãos [confuso] e privativa nos Órfãos,
não conheciam dos crimes, e parecia que
como Vossa Majestade encarregava o
Intendente da Inspeção das matérias
políticas e Econômicas , que constando-lhe
REFERÊNCIAS
pelas devassas, que os Diretores cometiam
delitos, que precisassem de castigo [sic], DOCUMENTAIS
para o sossego, e conservação das
Colônias, e de seus estabelecimentos, que Arquivo Histórico Ultramarino:
devia de remeter logo as ditas devassas ao
Juiz da Ouvidoria para nele serem
processados, e sentenciados em Junta;
- Rei Dom José I. Decreto Régio. 30/06/1760.
majoritamente porque o ouvidor sempre Manucristo. Arquivo Histórico
residia seis meses cada ano na cidade, em Ultramarino – Rio Negro, Avulsos, caixa
que as partes podiam livrar-se com menos 01, documento 26. Projeto Resgate –
incomodo, o que não sucedia com o Barão do Rio Negro.
Intendente, que quase sempre andava por - Lourenço Pereira da Costa. Ofício.
fora cuidando nos estabelecimentos
18/01/1761. ManuscritoArquivo
públicos das Colônias: E posto, que o
Intendente sendo conservador, tivesse
Histórico Ultramarino – Capitania do Rio
proposto os Feitos Crimes dos Negro, Avulsos, caixa 01, documento 30.
privilegiados da Companhia em porque Projeto Resgate – Barão do Rio Negro. -
Vossa Majestade na Instituição, da Conselho Ultramarino. Ordem Régia.
Companhia, e Alvará, expressamente lhe 19/02/1766. Arquivo Histórico
concedera a jurisdição para conhecer dos Ultramarino, Códice 277, Consultas
crimes, e por ser Ministro Criminal ad Régias. Projeto Resgate – Barão do Rio
universetalem causarum: O que punha na
Presença de Vossa Majestade, que mandaria
Negro.
o que fosse serviço21
Arquivo Público do Estado do Pará:
A determinação do serviço do
intendente permitia-lhe realizar devassas e - António José Pestana e Silva.
inquirições apurando e averiguando Correspondência. 24/06/1768 – Borba.
irregularidades nas atividades nas povoações Manuscrito. Arquivo Público do Pará,
e desobediências as instruções e ordens do Códice 182, Carta de António José
Pestana e Silva para o governador do
21 Conselho Ultramarino. Ordem Régia. 19/02/1766.
Manuscrito. Arquivo Histórico Ultramarino, Códice 277,
Consultas Régias. Projeto Resgate – Barão do Rio Negro.

121
estado do Grão-Pará e Maranhão, complexo atlântico português (1645-
Fernando da Costa de Ataíde Teive. 1808). In: FRAGOSO, João; BICALHO,
- António José Pestana e Silva. Maria Fernanda Baptista e GOUVÊA,
Correspondência. 27/06/1768. Maria de Fátima Silva (orgs.). O Antigo
Manuscrito. Arquivo Público do Pará, Regime nos trópicos: a dinâmica imperial
Códice 182, Carta do governador da portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de
capitania do Rio Negro, Joaquim Tinoco Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. Pp.
Valente, para o Ouvidor da capitania do 285-315.
Rio Negro, António José Pestana e Silva. GOMES, Robeilton de Souza. “Na forma que
- Joaquim Tinoco Valente. Correspondência. sua Majestade permitir”: legislação
26/02/1772 – Barcelos. Manuscrito. indigenista e conflito. Uma leitura sobre
Arquivo Público do Pará, Códice 233. a Lei de liberdade dos índios de 1755.
Carta enviada pelo governador da Dissertação de mestrado, História Social,
capitania do Rio Negro, Joaquim Tinoco Programa de Pós-graduação,
Valente, ao ouvidor, intendente geral e Universidade Federal do Amazonas,
provedor da real fazenda, António José 2013.
Pestana e Silva. Anexo a: António José LARA, Silvia Hunold. Senhores da Régia
Pestana e Silva. Correspondência. Jurisdição. O particular e o público na
06/02/1772 – Barcelos. Carta enviada vila de São Salvador dos Campos dos
pelo ao ouvidor, António José Pestana e Goitacazes na segunda metade do século
Silva, para o governador da capitania do XVIII. In.: LARA, Silvia Hunold;
Rio Negro, Joaquim Tinoco Valente. MENDONÇA, Joseli M. N. (orgas.).
Direitos e Justiças no Brasil. Campinas:
Unicamp, 2006. Pp. 59-99.
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no Norte do Brasil na segunda metade do Social, Programa de Pós-graduação em
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1991. mestrado, História, Programa de Pós-
FERNANDES, Fernando Roque. O Teatro da graduação em História, Universidade
Guerra: índios principais na conquista do Federal do Paraná, 2007.
Maranhão (1637-1667). Dissertação de PERRONE-MOISÉS, Beatriz. Índios livres e
mestrado, História Social, Programa de índios escravos: os princípios da
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COELHO, Mauro Cezar. Do Sertão para o Mar Manuela Carneiro (org.). História dos
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Universidade de São Paulo, 2005. Hierarquia e Resistência (1751-1798).
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político e administração na formação do

122
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Universidade Federal Fluminense, 2009. Edua, vol. 2, nº. 1, 2008, pp. 205-228.
SAMPAIO, Patrícia Maria Melo. Espelhos SANTOS. Francisco Jorge dos. Nos confins
Partidos: etnia, legislação e desigualdade ocidentais da Amazônia portuguesa: mando
na Colônia. Manaus: Edua, 2012. metropolitano e prática do poder régio na
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concepções de “território” na pesquisa Tese de doutorado, História, Programa
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conquistas do norte: trajetórias no Brasil colonial: o Tribunal Superior da
administrativas no Estado do Grão-Pará Bahia e seus desembargadores, 1609-
e Maranhão (1751-1780). Tese de 1751. 2ª Ed. São Paulo: Companhia das
doutorado, História, Programa de Pós- Letras, 2011.
graduação em História, Universidade de SUBTIL, José. Os Poderes do Centro. In.:
São Paulo, 2008. HESPANHA, António Manuel (coord.).
SANTOS, Fabiano Vilaça. Caminhos e História de Portugal – O Antigo Regime
“descaminhos” da colonização (1620-1807). 4º Volume. Lisboa: Estampa,
portuguesa em São José do Rio Negro no 1998. Pp. 141-230.
governo de Joaquim Tinoco Valente

123
TRADIÇÃO E ENSINO DE HISTÓRIA NO BRASIL:
a formação para cidadania entre o eurocentrismo
e as demandas por uma história global/transnacional

* Taissa Cordeiro Bichara

Resumo: Consiste em reflexão inicial sobre o ensino de história e sua identificação como “guardiã
das tradições”. Através das contribuições oriundas da história global ou transnacional, recorrente
na historiografia, será problematizada a constituição da história como ciência no século XIX e sua
introdução como disciplina escolar no Império brasileiro, pautada por concepções eurocêntricas,
as quais conformaram determinadas formas de se narrar a história do Brasil por conta do projeto
de formação do cidadão nacional. Propõe-se que os sentidos de cidadania passaram por
ressignificações ao longo do tempo, e podem ser identificados nas documentações oficiais que
regem o ensino de história no Brasil e as representações sobre o Índio brasileiro nos livros didáticos
de história.
Palavras-Chave: Ensino de história. Livro didático. Representações sobre o Índio. Formação para
cidadania. Eurocentrismo.

Há vários anos, um personagem de nossa vida pública declarou


que não era ministro: apenas estava ministro. Eu diria o mesmo
dos índios: não são nada disso, apenas estão. (CARNEIRO DA
CUNHA, 1995, p.131)

Manuela Carneiro da Cunha, em livros didáticos de história aprovados


antropóloga de renome entre as produções pelo Plano Nacional do Livro Didático,
que engrandecem as reflexões sobre História direcionados aos anos finais do ensino
indígena e do indigenismo, registrou a fundamental. Mais especificamente, busca-se
supracitada alocução em uma obra, clássica, os pressupostos teóricos que consolidam as
organizada pelos dois renomados narrativas didáticas sobre o Índio brasileiro.
intelectuais, Aracy Lopes da Silva e Luís Neste sentido, a abordagem eleita para a
Donizete Grupioni, intitulada A temática apreensão da temática indígena neste
indígena na escola: novos subsídios para trabalho é a relação entre ensino de história,
professores de 1º e 2º graus. A citação em tradição e formação para cidadania, pois as
evidência remete a uma das possibilidades narrativas didáticas desenvolvidas nos livros
analíticas no que tange à temática: a aparentam serem orientadas por questões
representação sobre o Índio brasileiro. Isto é, que escapam às proposições da lei 11.645/08
a ideia de que a denominação Índio não é ou mesmo das pesquisas acadêmicas que
própria dos povos a quem se refere, sendo integram a História Indígena e do
antes de tudo uma criação forjada em um Indigenismo. É importante ressaltar que este
contexto histórico específico e manuseada é um trabalho oriundo de um projeto de
por inúmeros sujeitos nos múltiplos tempos e pesquisa em desenvolvimento, de modo que
espaços no decorrer da história do Brasil. as considerações aqui apresentadas
É evidente que o Brasil não é o único correspondem às etapas iniciais do plano de
país a ocupar-se com as demandas de povos trabalho, portanto, sem análise documental.
indígenas. Todavia, o enfoque principal do Considera-se que a bibliografia
presente trabalho é o caso brasileiro e a dedicada ao estudo dos povos indígenas na
investigação das representações sobre o Índio sociedade brasileira, a partir de perspectivas
* Mestranda em história social/PPHIST – UFPA. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.
Endereço residencial: Belém, Cabanagem, Rua do Una, n° 320, CEP: 66652-150. Correio eletrônico: taissabichara@gmail.com

125
que contrapunham as versões herdeiras da abordados. Assim, despontaram diversas
historiografia nacionalista do século XIX, pesquisas acadêmicas com o objetivo
despontou em meados da década de 1980 e principal de averiguar como essa legislação é
início dos anos 1990 (CAVALCANTE, 2011, debatida na Educação Básica, nas diferentes
p.363). Além disso, a atuação dos regiões do país e suas complexas salas de
movimentos indígenas pelas suas demandas aula, assim como nos livros didáticos de
como a demarcação de terras e Educação história criados como um dos suportes
Indígena, teve como um de seus marcos a metodológicos para tal empreitada.
promulgação da lei 11.645/08, a qual define: Porém, importa ressaltar que a questão
indígena no ensino de história não começou
Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino a ser foco de pesquisa somente após a
fundamental e de ensino médio, públicos e promulgação da lei 11.645/08. Os trabalhos
privados, torna-se obrigatório o estudo da
sobre Índio e Livro Didático se sobressaíram
história e cultura afro-brasileira e
indígena. adjacentes às supracitadas produções que
§ 1o O conteúdo programático a que se passaram a problematizar a historiografia
refere este artigo incluirá diversos nacionalista do século XIX. Artigo de
aspectos da história e da cultura que significativa relevância ao campo do ensino
caracterizam a formação da população de história escrito pelo antropólogo Luís
brasileira, a partir desses dois grupos Donizete Grupioni, intitulado Livros Didáticos
étnicos, tais como o estudo da história da
e fontes de informações sobre as sociedades
África e dos africanos, a luta dos negros e
dos povos indígenas no Brasil, a cultura indígenas no Brasil, foi publicado na coletânea
negra e indígena brasileira e o negro e o A temática indígena na sala de aula: novos
índio na formação da sociedade nacional, subsídios para professores de 1º e 2º graus, em
resgatando as suas contribuições nas áreas 1995.1 Na ocasião, apresenta como seu intuito
social, econômica e política, pertinentes à central: "(...) uma reflexão sobre a forma pela
história do Brasil. qual os manuais didáticos usados na escola
§ 2o Os conteúdos referentes à história e
ajudam a formar uma visão equivocada e
cultura afro-brasileira e dos povos
indígenas brasileiros serão ministrados no distorcida sobre os grupos indígenas
âmbito de todo o currículo escolar, em brasileiros." (GRUPIONI, 1995, p. 482).
especial nas áreas de educação artística e Afirma, ainda, que sua opção para o
de literatura e história brasileiras.” (NR) enfrentamento da questão é por meio da
(BRASIL, 2008). crítica aos livros didáticos e a exposição dos
problemas presentes nessas obras.
Decorrem duas observações da referida Interessante notar que Grupioni, na década
lei: em primeiro lugar, a temática indígena de 1990, demonstrava sinais de inquietação
deve ser ministrada na disciplina de história justamente com a problemática de que fatores
do Brasil; por conseguinte, a ideia de como a bibliografia especializada sobre a
contribuição dos povos indígenas precisa ser temática indígena apresentar-se em
tratada através de perspectivas sociais, crescimento considerável, aliada ao esforço
econômicas e políticas. Isto é, demanda que o de composição de materiais didáticos para
Índio brasileiro seja entendido como um maior esclarecimento dos debates
agente histórico por excelência no ensino de acadêmicos, não serem capazes de
história, cujas estratégias influenciam promoverem mudanças significativas na
diretamente nos eventos históricos

1 Nesse mesmo artigo Grupioni indica como sugestão de proposta de auxiliar no desenvolvimento da educação para
leitura o trabalho de Norma Telles Cartografia Brasilis ou esta a diversidade. Contou ainda com financiamento do
história está mal contada, publicado em 1984 pela Edições Ministério da Educação e do Desporto e da Organização das
Loyola, São Paulo. Segundo o autor, Norma Telles discute as Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. Sobre a
imagens distorcidas veiculadas nos livros didáticos sobre os importância da obra, verificar: URQUIZA, Antonio Hilário
povos indígenas. A discussão sobre a temática indígena para Aguilera. "Um compromisso entre ação e reflexão"
o ensino de história, portanto, não é inédita na década de Entrevista com Luis Donisete Grupioni. Revista Ñanduty,
1990. Porém, a coletânea referida se destacou pela sua Vol. 3. N. 3. Janeiro a junho de 2015.
ambiciosa composição: reuniu diferentes intelectuais com a

126
escola e nos meios de comunicação, sobre a histórica, isto é, um documento que pode ser
temática indígena. analisado criticamente através do método
É possível resumir as críticas de Luís historiográfico, e com isso, proporcionar
Donizete Grupioni em quatro pontos: (I) os diversas problematizações sobre os povos
manuais didáticos situam os povos indígenas indígenas na narrativa:
no passado; (II) a história dos manuais é
fundamentalmente eurocêntrica; (III) os Assim, por exemplo, é significativo o
manuais didáticos apresentam os traços aluno identificar em que momentos da
História Brasileira o índio é representado
culturais dos povos indígenas pela lógica da
ou se constitui objeto de estudo nos
ausência - sem escrita, sem governo, sem diversos capítulos do livro. Os grupos
tecnologia; (IV) a supressão da diversidade indígenas são mencionados - apenas no
étnica por meio da noção de índio genérico. início da colonização, na fase da conquista,
Dessarte, conclui que tais manuais não e como justificativa para explicar a
incorporam as proposições da história e da introdução de escravos africanos; depois,
antropologia no tratamento da questão na atualidade, nas questões de
demarcação de reservas? Por que não há
indígena na sala de aula, de modo que
referências sobre as populações indígenas
"Preconceito, desinformação e intolerância no período da Independência, quando se
são resultados mais que esperados deste estabelecem os princípios de cidadania
quadro." (GRUPIONI, 1995, p.491). oriundos do pensamento liberal europeu?
Mesmo não tendo a temática indígena Não existiram conflitos e disputas com
como problemática principal, Circe indígenas nas ocupações de terra para a
Bittencourt no artigo Livros didáticos entre plantação de café no interior paulista e
paranaense no decorrer dos séculos XIX e
textos e imagens, também reflete sobre a
XX? (BITTENCOURT, 2013, p. 89).
representação do Índio brasileiro nas obras
didáticas. Componente do livro O saber Nesse caso, Circe Bittencourt não teceu
histórico na sala de aula, publicado pela críticas às obras didáticas, mas propôs uma
primeira vez em 1997, encontra-se em sua 12ª metodologia de ensino e aprendizagem para
edição publicada em 2013, e pode ser a educação básica, ao afirmar que as
considerada uma obra clássica para os representações sobre o Índio nos livros
estudos sobre o ensino de história no Brasil. didáticos de história, produzidas em
Circe Bittencourt, no referido artigo, versa diferentes contextos, podem ser comparadas
sobre as representações criadas sobre o Índio para identificação de mudanças e
em obras didáticas do final do século XIX e permanências e para o desenvolvimento do
início do XX. Afirma que os livros de maior pensamento crítico dos alunos sobre as
destaque, destinados ao ensino primário na devidas problemáticas.
época, foram concebidos por religiosos: De todo modo, as reflexões que se
Cônego Fernandes e Joaquim Maria de ocupam com o tema evidenciam a
Lacerda (BITTENCOURT, 2013, p. 82); logo, manutenção de estereótipos, generalizações e
era plenamente perceptível o enfoque dado silenciamentos dos povos indígenas na
às missões e os trabalhos dos religiosos na literatura didática como GOBBI (2006), DA
conversão dos índios. Inclusive, de acordo CRUZ (2009), MACÊDO (2009), MOTA &
com a autora, Joaquim Maria de Lacerda foi RODRIGUES (1999) e MONTEIRO (2012) -
quem primeiro compilou um grande acervo apenas para citar alguns. Mauro Cezar
sobre os povos indígenas, tendo como Coelho, em análise dos livros didáticos
referência as impressões dos viajantes publicados até a década de 1990, notou uma
franceses. certa ampliação da temática indígena e
Tendo em vista que o objetivo central da interesse em dialogar com as perspectivas
autora supracitada diz respeito mais ao livro oriundas da Antropologia e da História
didático do que à temática indígena, Circe indígena e do indigenismo, porém,
Bittencourt propõe aos docentes o tratamento predominando a concepção tradicional na
do livro didático enquanto uma fonte qual os povos indígenas são plenamente

127
submetidos ao sistema colonial (COELHO, sociais sejam significativas para suscitar
2007, pp.5-6). mudanças curriculares no ensino de história,
O presente trabalho é parte de um a opinião pública apresenta a tendência em
projeto de pesquisa que pretende se inserir exigir conteúdos tradicionais nas escolas. Em
em tais debates. Busca, fundamentalmente, outras palavras, são os conteúdos que narram
investigar de que forma os discursos a história nacional cujo referencial era a
envolvidos na conformação dos livros escola metódica. De maneira breve, o autor
didáticos de história produzem cita o Brasil como um dos exemplos:
representações sobre o Índio brasileiro
assentadas justamente em estereótipos e A narrativa histórica pode também ser
silenciamentos. Em outras palavras, quais são vista como uma tomada de poder por
grupos sem poder. Vejamos um exemplo
os pressupostos teóricos que mantêm tais
disso no Brasil, onde, em vários Estados,
configurações narrativas. principalmente em Minas Gerais e São
Inicialmente, é possível identificar que a Paulo, os professores de história haviam
temática indígena nos livros didáticos lutado, durante a ditadura, para conseguir
dialoga diretamente com determinadas um programa cujo conteúdo fosse
tradições presentes no ensino de história definido de acordo com seu ponto de vista
referentes ao eurocentrismo e à formação de militantes. No caso de Minas Gerais,
eles queriam opor aos programas oficiais,
para cidadania. Portanto, para além da lei
de cunho nacionalista e positivista, um
11.645/08 e do desenvolvimento de conteúdo de história marxista clássico que
pesquisas acadêmicas sobre os povos apresentasse as etapas sucessivas de
indígenas, a dinâmica das representações formação econômica e integrasse o
sobre o Índio estão atreladas tanto às nacional ao universal. Tratava-se,
questões próprias da história ensinada como sobretudo, de trocar uma narrativa por
da história acadêmica. Ocorre que a trajetória outra narrativa. (LAVILLE, 1999, p.134)
histórica do ensino de história no Brasil
De acordo com o historiador referido, os
possui como referências basilares a
professores de Minas Gerais e São Paulo
perspectiva eurocêntrica; enquanto se
obtiveram êxito em suas reivindicações no
escrevia a história oficial no Instituto
momento de redemocratização do país.
Histórico e Geográfico Brasileiro (1838), no
Porém, o modelo eurocêntrico e canônico
Colégio Pedro II (1837) definiam-se os
formulado no século XIX não foi
parâmetros para o ensino dessa disciplina no
completamente ignorado. Marcel Alves
Império brasileiro.
Martins (2012) examinou as propostas
Kátia Abud afirma que a história escolar
curriculares do Estado de São Paulo,
foi "(...) caudatária da europeia, tal como o foi
demonstrando os diversos embates entre os
na versão acadêmica." (ABUD, 2011, p. 167),
especialistas da área para a problematização
isto é, tal como sinalizado por Grupioni em
de uma história mais tradicional e pela
sua crítica aos livros didáticos de história, o
formulação de uma história mais inclusiva da
eurocentrismo é recorrente nos manuais e
diversidade de agentes presentes na
rege os eventos históricos de modo que os
sociedade brasileira, porém constatou que a
povos indígenas são situados em posição de
Europa permanece como o eixo explicativo
coadjuvante na narrativa. A referida
da história para o ensino.
historiadora nomeia a disciplina como
Sobre essa inquirição, Mauro Cezar
"guardiã das tradições" indicando que a
Coelho (2017) analisou seis livros didáticos
história ensinada possui determinadas
do sétimo ano do Ensino Fundamental
agendas a serem cumpridas, caso contrário, o
aprovados pelo PNLD com o objetivo de
debate curricular torna-se campo de
verificar as narrativas forjadas sobre o
expressão para os embates políticos próprios
período colonial. Concluiu que a narrativa
da sociedade. Christian Laville (1999) intitula
predominante é justamente aquela
essa questão como "guerra de narrativas",
conformada pela historiografia nacional do
pois embora as demandas dos movimentos
século XIX inaugurada por Varnhagen e

128
Capistrano de Abreu, e posteriormente, por meio de conceitos criados em contextos
reformulada por Gilberto Freyre, Caio Prado do "centro". Outro ponto abordado pelos
Júnior e Sérgio Buarque de Holanda: na referidos autores é sobre a formação da
colônia busca-se as origens da sociedade historiografia latino-americana no século
brasileira, cujo sentido é definido pelos XIX. Isto é, questiona-se a respeito da
eventos ocorridos no continente europeu. disseminação de teorias e metodologias para
Assim, as narrativas didáticas privilegiam a escrita da história em um continente com
atuação dos agentes que representam o características culturais diversas da sua
eurocentrismo branco e ocidental, pelo matriz de referência europeia. De todo modo,
compromisso com uma tradição também Pedro Afonso Cristovão Santos, Thiago Lima
eurocêntrica, branca e ocidental. Nicodemo e Mateus Henrique Pereira (2017)
Segundo Circe Bittencourt (2013, p.17): concluem que o modelo e concepção de
“A existência da História escolar deveu-se história predominante é o eurocêntrico, pois
sobretudo ao seu papel formador da assim se consolidou a história do
identidade nacional, sempre paradoxal, no conhecimento histórico ao longo do tempo.
caso brasileiro, uma vez que deveríamos nos Daí a importância de encarar as relações entre
sentir brasileiros, mas antes de tudo, "centro" e "periferia" como processos de
pertencentes ao mundo ocidental e cristão”. apropriações e ressignificações mútuas.
Neste sentido, a autora expressa um No que tange ao ensino de história, é do
curioso paradoxo para a história ensinada no eurocentrismo que provém a tradicional
Brasil, no que se refere à identidade perspectiva cronológica-linear de conceber a
nacional/brasileira e a identificação com o história: a divisão quadripartite. Segundo
ocidentalismo de matriz europeia. Ademais, Marcel Alves Martins (2012, p.19) essa
as querelas em torno do eurocentrismo concepção em quatro grandes blocos para
podem ser debatidos na historiografia dentro compreensão do conhecimento histórico
das propostas da história privilegia a trajetória do continente europeu
global/transnacional. No artigo ocidental - Antiguidade, Feudalismo,
Historiografias periféricas em perspectiva global Renascimento e Capitalismo, pois estes
ou transnacional: eurocentrismo em questão, de constituem-se como eventos históricos e
Pedro Afonso Cristovão Santos, Thiago Lima criações pensadas a partir do universo
Nicodemo e Mateus Henrique Pereira (2017) ocidental-europeu.
- todos especialistas em teoria da história e Sendo assim, a tradição eurocêntrica
história das ideias - é traçado um panorama suplanta a participação de povos não-
dos principais embates para a escrita da europeus na narrativa histórica mundial.
história global, tornando-se nítido que o Uma vez que as narrativas literárias didáticas
eurocentrismo é uma questão posta para o assimilam tal perspectiva como
ensino de história e para a historiografia predominante, cada sujeito histórico assume
mundial. Em suma, a problematização sobre um lugar pré-determinado, o qual no caso do
a escrita de histórias nacionais ou locais Índio brasileiro é o da assimilação ao sistema
dentro de uma tradição historiográfica colonial por meio da colaboração com os
gestada na Europa, que pouco considera os agentes, na forma de colonos, missionários,
diversos descompassos existentes para a ou mesmo da Coroa portuguesa, estes
consecução dessa abordagem, como a considerados os verdadeiros protagonistas
utilização de categorias de análise que não dos acontecimentos que culminaram na
integram os códigos culturais de formação da sociedade brasileira.
determinadas sociedades - por exemplo, o Outra tradição que acompanha a
próprio termo Índio é categoria de análise trajetória da história ensinada e delineia os
criada pelos europeus. fundamentos das representações sobre o
Além disso, o questionamento sobre a Índio no livro didático, é a formação para
possibilidade de se analisar as representações cidadania. De acordo com Mauro Cezar
de tempo e memória de culturas "periféricas" Coelho (2009, p.274) a condição de vítima do

129
Índio na narrativa literária didática está no livro didático são formuladas dentro da
relacionada a um "ideal de justiça social e um lógica do saber histórico escolar, cumprindo
paradigma moral", fruto da investida pela agendas próprias da área e assumindo
formação do cidadão crítico. Sobre a relação funções pedagógicas.
entre ensino de história e cidadania, Circe Em estudo sobre a temática indígena
Bittencourt afirma que no século XIX, nos livros didáticos de história, Mauro Cezar
período o qual a História escolar torna-se a Coelho e Taissa Bichara (2017) notaram que
responsável pela formação moral do cidadão, em orientações oficiais como os Parâmetros
o "(...) Cidadão brasileiro era apenas quem Curriculares Nacionais e as Diretrizes
dominava a leitura e a escrita. A abolição do Curriculares Nacionais, busca-se o
sistema escravagista de trabalho não desenvolvimento de valores como o "respeito
assegurava, desta forma, a transformação do à diversidade cultural", de modo que a
ex-escravo e da maioria dos trabalhadores, narrativa literária didática reforça a imagem
em cidadão" (BITTENCOURT, 1993, p.213). do Índio como vítima do sistema colonial,
Embora o sentido de cidadania pois esta serve aos propósitos da formação
supracitado, do século XIX, não seja para cidadania, pautada na denúncia de
exatamente o mesmo ao longo do tempo, a injustiças cometidas ao longo da história do
relação tríade - ensino de Brasil. Somado à isso, se o período colonial é
história/moral/cidadania - se desenvolve tido como o tempo histórico responsável
numa série de premissas dispostas nos pelas "origens da sociedade brasileira" - como
currículos escolares, as quais junto com a indicado por Mauro Coelho (2017) - foi nesse
força da tradição eurocêntrica definem a passado colonial que iniciaram as sucessivas
representação do Índio nos livros didáticos retiradas de direitos dos povos indígenas que
de História, de maneira conflituosa e atualmente integram a sociedade brasileira
paradoxal. Talvez por conta disso, Luís como "minorias étnicas".
Donizete Grupioni tenha observado Ambas as tradições - eurocentrismo e
contradições: formação para cidadania - conformam
modelos narrativos para os livros didáticos
(...) fato é que a imagem do índio no livro de história e moldam a "participação" dos
didático não é una. Há diferentes imagens, povos indígenas nos eventos. Essa
contraditórias entre si, fragmentadas nos
participação pode ser questionada, já que em
manuais escolares. Assim como também
são fragmentados os momentos históricos termos sociais, econômicos e políticos, os
nos quais os índios aparecem. Os livros povos indígenas são coadjuvantes em relação
didáticos produzem a mágica de fazer aos agentes europeus. Assim, a pesquisa em
aparecer e desaparecer os índios na desenvolvimento pretende aprofundar tais
história do Brasil. (GRUPIONI, 1995, p. relações, identificando nas documentações
488-489). oficiais para o ensino de história no Brasil - os
editais do PNLD, os Parâmetros Curriculares
É inegável que as produções acadêmicas
Nacionais, as Diretrizes Curriculares
são de fundamental relevância para a
Nacionais - os sentidos da formação para
construção do conhecimento a ser ensinado
cidadania e concepções de história, com o
na educação básica. Porém, importa ressaltar
intuito de averiguar o propósito ou função
que o saber escolar opera por meio de funções
desta área do conhecimento para a Educação
e atribuições diferentes do saber acadêmico.
Básica, e se esta segue o modelo eurocêntrico.
O conteúdo escolar não é voltado
Desse modo, busca-se maior compreensão
exclusivamente para a produção de
das representações sobre o Índio nos livros
conhecimento científico, e faz uso do saber
didáticos de história, em suas facetas
acadêmico como referência para o
contraditórias e paradoxais.
desenvolvimento de competências e
habilidades "cognitivas, comportamentais e
morais" (COELHO, 2009, p. 273). Por
conseguinte, as representações sobre o Índio

130
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132
A PARTICIPAÇÃO DOS INDÍGENAS
nas expedições da rota Madeira-Guaporé
(segunda metade do século XVIII)

** Vanice Siqueira de Melo

Resumo: Em 1752, a coroa portuguesa permitiu a navegação dos rios Madeira, Mamoré e
Guaporé, possibilitando uma conexão entre o Estado do Grão-Pará e Maranhão e a recém-criada
capitania do Mato Grosso. Ainda que a navegação por esses rios tivesse sido proibida pelo monarca
português na década de 1730, algumas expedições percorreram a rota formada por estes rios. A
transformação desse percurso em rota fluvial oficial, a partir de 1752, certamente, ensejou um
aumento no número de expedições que percorriam esses rios, demandando a presença dos índios
nelas. Dificuldades de arregimentar trabalhadores indígenas para irem às expedições do Mato
Grosso e problemas para realizar o pagamento deles, por exemplo, ajudam a refletir sobre a
participação dos índios nas tropas que se deslocavam por esse caminho fluvial. Assim, a partir de
relatos de viagens e da documentação produzida pelo império português, essa comunicação
pretender analisar a presença dos indígenas nas expedições que percorriam a rota dos rios
Madeira, Mamoré e Guaporé.
Palavras-chave: Participação indígena. Expedições fluviais. Rota Madeira-Mamoré-Guaporé.
Mobilidade.

INTRODUÇÃO chegado nessa vila uma canoa que vinha da


Capitania do Mato Grosso. Na embarcação
iam uns índios com uma carta de Antônio
Em uma correspondência do dia 30 de
Rolim de Moura, primeiro governador da
setembro de 1763, Alexandre Ferreira das
capitania do Mato Grosso. Na missiva que os
Neves disse que estava na Vila de Monte
índios portavam, Rolim de Moura pedia
Alegre quando recebeu, pelo soldado
ajuda ao diretor da Vila de Borba, o qual não
Francisco Pinto, que ia para o Mato Grosso,
poderia socorre-lo, pois encontrava-se “esta
as ordens emitidas, provavelmente pelo
vila na maior consternação de farinhas e
governador do Estado do Grão – Pará e
canoas”. Por isso, Domingos Franco
Maranhão. Ordenava-se a Ferreira das Neves
encaminhou a carta ao governador do Estado
que ele “pusesse o número de vinte índios
do Grão-Pará e Maranhão.2 Anos depois, em
para a tropa que ia para a Capitania do Mato
uma carta de 20 de agosto de 1766, o
Grosso”. Por essa razão, Ferreira das Neves
comandante da Vila de Santarém, na
chegou na Vila de Silves três dias antes da
Capitania do Pará, explicava que o
tropa que ia para o Mato Grosso, colocou “os
comandante João Batista levou “consigo para
ditos índios prontos” e os remeteu “ao
o Mato Grosso quinze índios” de Santarém.3
comandante que levava o governo da dita
Esses trechos de correspondências oficias
tropa”.1
apontam para a participação dos índios nas
Em maio do mesmo ano, o diretor da Vila
expedições que procuravam estabelecer uma
de Borba, Domingos Franco, disse que havia

 Pesquisa realizada com apoio da Bolsa Prodoutoral (CAPES). Pesquisadora com Bolsa Prodoutoral (CAPES).
** Doutoranda em História pela UFPA / UPO, Docente do curso de História da UFOPA. Correio eletrônico:
vanicesmelo@gmail.com
1 Ofício de Alexandre Ferreira das Neves. Vila de Silves, 30 de setembro de 1763. Arquivo Público do Estado do Pará (APEP), Códice

131.
2 Ofício de Domingos Franco. Borba, 3 de maio de 1763. APEP, Códice 130, doc. 43
3 Ofício do Comandante da Vila de Santarém. Santarém, 20 de agosto de 1766. APEP, Códice 73.

133
conexão entre Estado do Grão-Pará e AS EXPEDIÇÕES PELOS RIOS
Maranhão e a capitania do Mato Grosso,
MADEIRA, MAMORÉ E GUAPORÉ
durante a segunda metade do século XVIII,
através dos rios Madeira, Mamoré e Guaporé.
Tratam-se de exemplos que apontam como os A comunicação entre o Estado do Grão-
índios, para atender a uma política colonial, Pará e Maranhão e a capitania do Mato
poderiam circular entre esses dois espaços: Grosso acontecia através dos rios Madeira,
saindo da capitania do Mato Grosso em Mamoré e Guaporé. Localizado na margem
direção ao Estado do Grão-Pará e Maranhão direita do Amazonas, o rio Madeira é o mais
ou realizando o trajeto oposto. longo afluente da bacia amazônica. A
A presença indígena era essencial nas extensão do rio Madeira é de,
expedições que iam aos sertões. Elias Abner aproximadamente, 3.240 KM, porém cerca de
refletiu acerca da importância dos índios 1.425 km está em território brasileiro. A
remeiros, pilotos (conhecidos como nascente do Madeira está localizada na
“Jacumaúbas” ou “Jacumaíbas”) e práticos Cordilheira Andina a partir da união dos rios
nas tropas organizadas pelo governo colonial Madre de Dios, cuja nascente é no Peru, e
e que percorriam os rios da atual Amazônia.4 Beni em território da atual Bolívia. Estes dois
Essas tropas eram formadas, basicamente, rios, por sua vez, se juntam ao Mamoré e
por indígenas. Analisando uma série de formam o rio Madeira. Quanto ao rio
conflitos entre luso brasileiros e índios no Mamoré, nasce em território boliviano, na
atual nordeste brasileiro, Pedro Puntoni serra de Cochabamba. Além disso, recebe as
aponta como a maior parte do terço do mestre águas do Rio Guaporé e, ao encontrar o Rio
de campo Morais Navarro era formado por Beni, forma o rio Madeira6. Já o rio Guaporé,
índios de diversas etnias.5 nasce na Serras dos Parecis, no estado do
A partir disso, esse texto pretende Mato Grosso, e sua extensão navegável é de
discutir sobre a participação dos índios nas 1.716Km.
tropas que partiam do Estado do Grão-Pará e A utilização dos rios Guaporé, Madeira e
Maranhão e iam para a capitania do Mato Mamoré como via de comunicação foi
Grosso. Nesse sentido, serão analisados oficializada pela coroa portuguesa em
algumas dificuldades de ter acesso a esses meados do século XVIII. Entretanto, antes
sujeitos para que eles participassem das dessa oficialização, algumas expedições,
expedições. Acredita-se que esses obstáculos oficiais ou não, percorreram por esse trajeto,
podem estar relacionados a conflitos conectando áreas centrais da América do Sul
envolvendo governantes coloniais ou a falta à atual Amazônia.
de interesse dos índios em participar dessas Provavelmente, a primeira expedição
viagens ao Mato Grosso. europeia que andou por este caminho foi a do
O texto tratará, primeiramente, das bandeirante Antônio Raposo Tavares. Em
expedições que percorreram a rota Madeira- 1648, essa tropa partiu de São Paulo para o
Mamoré-Guaporé antes da segunda metade “sertão em demanda de uma nação de índios
do século XVIII e da oficialização desse chamados serranos” e era dividida em duas:
percurso como via de conexão entre o Estado uma comandada pelo Raposo Tavares e pelo
do Grão Pará e Maranhão e a capitania do capitão Antonio Pereira de Azevedo.
Mato Grosso. Em seguida, discutirá os Seguiram, então, as tropas caminhos distintos
problemas decorrentes da participação até se reencontrarem meses depois, quando
indígena nas tropas que percorriam a rota. proseguiram juntas a procura dos índios

4 FERREIRA, Elias Abner Coelho. Oficiais canoeiros, 6 ALBERTI, André. Hidrovia do Madeira. Departamento
remeiros e pilotos Jacumaúbas: mão de obra indígena na Nacional de Infraestrutura de Transporte. Disponível em:
Amazônia colonial portuguesa (1733-1777). 2016. 158 f. http://www.dnit.gov.br/hidrovias/hidrovias-
Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Filosofia e interiores/hidrovia-do-madeira/hidrovia-do-madeira.
Ciências Humanas, Universidade Federal do Pará, Belém. Acesso em: 14 de janeiro de 2019.
5 PUNTONI, Pedro. A guerra dos bárbaros. Povos

indígenas e a colonização do sertão nordeste do Brasil,


1650-1720. São Paulo: Hucitec/EdUSP, 2002, p.206.

134
serranos. Segundo Jaime Cortesão, as terras Espanha, pela terra adentro”, decidiram “ir a
dos índios serranos seriam ao sul de Santa elas com negócio”.9
Cruz de la Sierra, na região andina do rio A tropa era formada pelos reinóis
Grande ou Guapay. Foi a partir das terras dos Manuel Félix de Lima, Joaquim Ferreira
índios Serranos que a expedição de Raposo Chaves, Vicente Pereira e Manuel de Freitas
Tavares chegou ao Gurupá, pois o rio Machado. Além disso, faziam parte da tropa
Grande, das terras desses indígenas os paulistas João Barbosa Borba Gato,
desemboca no Mamoré, que segue pelo norte capitão, alferes Mateus Correa Leme,
e desagua no rio Madeira. licenciado Francisco Leme do Prado, o
Quase um século após essa expedição do licenciado Tristão da Cunha Gago, Francisco
Raposo Tavares, entre os anos de 1722 e 1723, Borges e Dionísio Bicudo. João dos Santos era
o sargento mor Francisco de Melo Palheta o único do Rio de Janeiro.10
realizou uma exploração do rio Madeira. A Esses homens com o restante da tropa
expedição foi realizada sob as ordens do embarcaram no Guaporé e após uns dias de
governador do antigo Estado do Maranhão e viagem chegaram na Missão de São Miguel,
Grão-Pará, João da Maia da Gama, quando localizada no rio Baures e administrada por
soube que acima das cachoeiras do rio um jesuíta espanhol. Permaneceu por alguns
Madeira haveriam habitações que poderiam dias em São Miguel e posteriormente
ser dos espanhóis ou dos portugueses. Disse seguiram a viagem até a Missão de Santa
o redator da viagem que, “por ter notícias e Maria Madalena11, no rio Itonamas. Nessa
sinais que se viu neste rio de muitas cruzes”, missão “se demoraram vinte e um dias e
decidiu Maia da Gama “mandar dez galeotas vendo que não podiam fazer negócio”12, pois
armadas em guerra com infantaria os curas necessitavam de autorização do
cravineiros a fazer descobrimento”.7 provincial, que estava na Missão de
A tropa de Melo Palheta partiu de Belém Exaltación de la Santa Cruz, no rio Mamoré.
no dia 11 de novembro de 1722 e no dia 02 de Decidiram, então, ir até essa missão no
fevereiro do ano seguinte chegaram no rio Mamoré. Uma parte da tropa seguiria até de
Madeira. Seguiram pelos rios Mamoré e Exaltación de la Santa Cruz pelo rio enquanto
Guaporé até as missões dos jesuítas outra iria por terra, com Manuel Felix de
castelhanos. Retornaram, então, para a Lima. Porém, antes de partir de Santa Maria
capitania do Pará e chegaram na cidade de Madalena, chegou nessa missão um aviso do
Belém em 1723. provincial repreendendo os curas por terem
Anos depois, em 1742, uma tropa faria o hospedados os portugueses.13
trajeto oposto ao que foi feito pela expedição Manuel Félix de Lima seguiu, então, sua
de Melo Palheta. Alguns moradores do viagem pelo Guaporé e não conseguiu
arraial de São Francisco Xavier, na capitania encontrar a outra parte da expedição.
do Mato Grosso, “pelas grandes necessidades Durante a campanha, “em uma dessas
em que se achavam aquelas minas”, com aldeias”, Félix de Lima soube que “não havia
“esperanças de fazerem algum muitos anos, tinham subido, do Grão-Pará
descobrimento de ouro [?]” e “com as
8 pelo rio Mamoré acima, umas canoas grandes
notícias que já tinham de estarem perto carregadas de negócio para aquelas outras
destas minas as missões dos índios de aldeias”. Como Manoel Félix de Lima não
7 A bandeira de Francisco de Mello Palheta ao Madeira no 10 É possível ver a lista dos homens que acompanharam
documento da narração da viagem. In: CAPISTRANO DE Manuel Felix de Lima em: SOUTHEY e Carta governador
ABREU, João. Capítulos de História Colonial: 1500-1800 & João de Abreu de Castelo Branco para o rei D. João V. Pará,
Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil. Brasília. 24 de fevereiro de 1743. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 25, D.
Editora: Universidade de Brasília, 1982 2387.
8 Carta governador João de Abreu de Castelo Branco para o 11 Carta governador João de Abreu de Castelo Branco para o

rei D. João V. Pará, 24 de fevereiro de 1743. AHU, Pará rei D. João V. Pará, 24 de fevereiro de 1743. AHU, Pará
(Avulsos), Cx. 25, D. 2387. (Avulsos), Cx. 25, D. 2387.
9 AMADO, Janaina e ANZAI, Leny C. (orgs.). Anais de Vila 12 Ibidem.

Bela – 1734-1789. Cuiabá: Carlini & Caniato: EdUFMT, 2006, 13 SOUTHEY, Robert. História do Brazil. Trad. Dr. Luiz

p.45 Joaquim de Oliveira e Castro. Rio de Janeiro: Livraria de B.L.


Garnier, 1862, Tomo V, pp.425-426.

135
desejava retornar para o Mato Grosso, seguiu descoberto, de onde tornou finalmente para
com os demais companheiros, pelos rios estas minas”.16
Mamoré e Madeira até a capitania do Pará.14 Nesse sentido, com base nessas
O conhecimento acerca das missões informações, em 1747 Leme do Prado partiu
castelhanas e dos rios Guaporé, Mamoré e de Mato Grosso para a capitania do Pará e
Madeira coletado por aqueles que “em pouco mais de cinquenta dias de viagem
participaram da expedição de Félix de Lima e em canoa desde as referidas minas chegou”
retornaram para o Mato Grosso, foi na cidade do Pará. O governador do Estado
aproveitado em outras viagens feitas aos do Maranhão e Grão-Pará encontrava-se na
domínios espanhóis e ao Pará. Além disso, a capitania do Maranhão e, por essa razão, o
proibição da navegação pelo rio Madeira e a capitão – mor do Pará o deteu até que o
punição aplicada a Manoel Félix de Lima e governador chegasse no Pará “porque o
outros expedicionários que chegaram a intento dele era voltar logo pelo mesmo
Capitania do Pará não impediu que outros se caminho para onde tinha saído”.17
aventurassem em sair do Mato Grosso e ir até No final da primeira metade do século
o Pará pelos rios Guaporé, Mamoré e XVIII, a coroa portuguesa estava preocupada
Madeira. Nesse sentido, transcorridos dois com o avanço da missões espanholas pela
anos da expedição de Felix de Lima, em 1744, margem oriental do Guaporé. Nesse sentido,
Miguel da Silva, Gaspar Barbosa, Mateus Francisco Pedro de Mendonça Gurjão dizia
Correia (provavelmente o mesmo que ao rei lusitado que “o incidente de maior
participou da expedição de Manuel Félix de ponderação” feito pela expedição de Leme do
Lima) e seu irmão, e um holandês resolveram Prado foi “achar quatro aldeias dos padres da
ir das minas de Mato Grosso ao Pará. Durante Companhia Castelhanos situados novamente
a viagem, Mateus Correia foi assassinado na parte oriental do Rio Guaporé continente”
pelos índios Mura e o dito holandês “morreu as minas do Mato Grosso.18 Além disso,
afogado nas cachoeiras, com alguns escravos desde 1747 os reinos ibéricos negociavam um
dessa tropa”.15 novo tratado de limites para resolver os
Outra expedição que percorreu os rios conflitos acerca das extensões dos seus
Guaporé, Mamoré e Madeira foi a de Leme respectivos domínios na América. Não era
do Prado. Francisco Xavier de Abreu, José em vão, portanto, que o governo português
Leme do Prado “e outros foram os terceiros manifestava preocupação com as missões dos
que rodaram por este rio abaixo [Guaporé], jesuítas espanhóis no Guaporé e procurava
até o Pará”. Para Leme do Prado realizar essa coletar informações sobre os rios Guaporé,
navegação até o Pará, ele “havia tido nos Mamoré e Madeira.
Arinos informação da navegação por Nesse contexto, para conseguir mais
Joaquim Pereira Chaves”, que participou da informações sobre a região que era fronteiriça
expedição de Manoel Félix de Lima. Ao que aos domínios espanhóis, o governador do
tudo indica, Pereira Chaves também foi Estado do Maranhão e Grão Pará ordenou
preso, como outros membros da expedição “ao sargento mor da praça, Luís Fagundes
de Félix de Lima, e logo “que foi solto no Machado, que, acompanhado do ajudante
Pará, passando ao Maranhão e dali ao Piauí, Aniceto Francisco de Tavora”, de uma
e daí a Goiás, e depois ao Cuiabá”, foi para “esquadra de doze soldados pagos” e de
“Arinos, no concurso do seu enganoso Antonio Nunes, como piloto,
acompanhassem José Leme do Prado e

14 BARBOSA DE SÁ, José. Relação das povoações do Cuyabá 17 A carta de Francisco Pedro de Mendonça Gurjão para o rei
e Mato Grosso de seos princípios thé os presentes tempos”. escrita do Pará, em 22 de abril de 1749, está anexada em
In: Annaes da Biblioteca Nacional. Volume, XXIII, 1904, p. 42. “Ofício do governador e capitão-general do Estado do
15 Anais de Vila Bela, p. 46 Maranhão e Pará para o secretário de estado dos Negócios
16 Anais de Vila Bela, p. 48. Segundo Robert Southey, Joaquim do Reino e Mercês, Pedro da Mota e Silva”. Pará, 10 de
Chaves assentou praça no Pará e aproveitou a primeira setembro de 1750. AHU, Pará (Avulsos), cx. 32, doc. 2992.
oportunidade para desertar. Teria ido para o Maranhão, 18 Idem.

Goiás e, depois, a Cuiabá. Além disso, estabeleceu uma


fazenda no Guaporé. SOUTHEY, op.cit., p.438

136
Francisco Xavier de Abreu no retorno ao Grosso, D. Rolim de Moura, defenderam a
Mato Grosso. Esses homens deveriam revogação do Alvará de 27 de outubro de
embarcar “no porto dessa cidade [do Pará] 1733, que proibia a navegação pelo rio
com os ditos mineiros” e os conduzir “pelo Madeira. Esses estadistas estavam
mesmo caminho do rio da Madeira até ao preocupados em assegurar os territórios
Mato Grosso donde saíram”.19 José situados nas áreas de fronteira com a
Gonçalves Pereira, que era secretário do América Espanhola e facilitar o escoamento
governo do Estado do Maranhão e Grão- do ouro de Mato Grosso por uma rota que
Pará, seria o responsável por coletar consideravam mais segura, evitando o
informações sobre o trajeto da viagem. contrabando pelos caminhos terrestres que
A expedição saiu da cidade do Pará no tinham como destino São Paulo, Rio de
dia 14 de julho de 1749. Na madrugada do dia Janeiro e Bahia.
25 de setembro “se dobrou a ponta da ilha Assim, o Alvará que proibia a navegação
para o sul, e logo ao romper do dia se avistou pelo Madeira foi revogado em 14 de
a entrada do rio da Madeira”. No dia 30 de novembro de 1752 e a coroa portuguesa
setembro chegou em Trocano e permaneceu autorizou, novamente, a navegação pelo rio
nela até o dia 02 de outubro, quando Madeira. Além disso, nesse contexto, a coroa
prosseguiu a viagem até o Mato Grosso. portuguesa procurou promover, também, o
Somente em meados de dezembro de 1749 é comércio entre o Grão-Pará e o Mato Grosso
que a tropa chegou na primeira cachoeira do através da rota do Madeira. A Companhia de
Madeira, que é a de Santo Antonio. Era 14 de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, criada
abril quando “às 3 horas da tarde descansou em 1755, entre diversas outras atribuições,
a escolta no porto da Pescaria com nove seria responsável pelo abastecimento de Vila
meses completos de viagem do Pará”.20 Bela, situada na margem do Guaporé na
As tropas que percorreram a rota capitania do Mato Grosso.21
Madeira – Mamoré – Guaporé após 1733, Após a abertura da rota Madeira –
como a de Manuel Félix de Lima e as que Mamoré – Guaporé, os governos do Estado
sucederam a essa, eram expedições ilegais, do Grão -Pará e Maranhão e da capitania do
pois em 27 de outubro de 1733, foi emitido Mato Grosso passaram a operar
um Alvará que proibia a navegação pelo rio conjuntamente na defesa dos interesses
Madeira. A coroa portuguesa emitiu esse lusitanos na área. Na década de 1760, por
Alvará em decorrência do receio de que os exemplo, o governo do Mato Grosso
moradores do Pará e Maranhão se solicitava ajuda do aparato militar do Estado
deslocassem para a região mineradora do do Grão-Pará e Maranhão.
Mato Grosso e receava que esse trajeto se A ameaça que os espanhóis
configurasse como rota de contrabando de representavam na fronteira com o Mato
ouro. Grosso motivou, em 1762, o governo do Mato
Em meados do século XVIII, contudo, Grosso a incrementar seu poder bélico
Mendonça Furtado, governador do recém através do aumento de homens na
criado Estado do Grão-Pará e Maranhão, e o companhia dos dragões e envio de homens e
primeiro governador da capitania do Mato munições para o presídio de Nossa Senhora

19 A carta de Francisco Pedro de Mendonça Gurjão para o rei Janeiro: Nova Typographia de J. Paulo Hieldebrandt, pp
escrita do Pará, em 22 de abril de 1749, está anexada em .269-415.
“Ofício do governador e capitão-general do Estado do 21 Cf. DAVIDSON, David Michel. Rivers & Empire. The

Maranhão e Pará para o secretário de estado dos Negócios Madeira route and the incorporation of the brazilian far
do Reino e Mercês, Pedro da Mota e Silva”. Pará, 10 de west, 1737-1808. 1970. Tese (Doutoramento em História),
setembro de 1750. AHU, Pará (Avulsos), cx. 32, doc. 2992. Yale University, 1970; RODRIGUES, Nathália Maria Dorado.
20 FONSECA, José Gonçalves da. Navegação feita da cidade A Capitania de Mato Grosso e a Companhia Geral de
do Gram Pará até à bocca do Rio da Madeira pela escolta que Comércio do Grão-Pará e Maranhão (1755-1778). In: ANZAI,
por este rio subio às Minas do Mato Grosso por ordem mui Leny Caselli & MARTINS, Maria Cristina Bohn (Orgs.).
recommendada de Sua Magestade Fidelissima no anno de Histórias Coloniais em áreas de fronteira. Índios, jesuítas
1749, escripta por Jose Gonsalves da Fonseca no mesmo e colonos. São Leopoldo: Oikos; UNISINOS; Cuiabá:
anno. In: ALMEIDA, Candido Mendes de. Memorias para EDUFMT.
História do Extincto Estado do Maranhão. Tomo II. Rio de

137
da Conceição, na margem direita do em toda aquela capitania [do Mato Grosso]
Guaporé. Além disso, “como na capitania de Casa de Fundição a que o pudessem levar”,
tudo há falta”, o governo da capitania de por essa razão, “se deu licença o Governador
Mato Grosso solicitou a Manoel Bernardes de [do Mato Grosso] para transportarem aquele
Melo, governador do Estado do Pará e ouro a esta cidade [de Belém] debaixo das
Maranhão, que socorresse essa capitania com guias”.23
“trinta soldados infantes, comandados por O caminho fluvial conectando Mato
um oficial subalterno, pólvora, bala, Grosso ao Grão – Pará também se configurou,
munição, e outras coisas bem necessárias, de também, como via de contrabando de ouro.
que não havia nada”.22 O irmão de Marques de Pombal, Mendonça
Furtado, escreveu, de Belém, ao padre reitor
da Companhia de Jesus dizendo que “a
constante fama que há de que os Ministros
que descem do Mato Grosso” para o Pará
“extraviam por estes sertões o ouro que
trazem”, contra as ordens da coroa
portuguesa, demanda um “pronto remédio a
esta desordem”. Por essa razão, Mendonça
Furtado decidiu “pôr na Aldeia do Trocano
[no rio Madeira] uma guarda militar, para
PINTO, Emanuel Pontes. Território Federal do
que se vigie com todo o cuidado esta
Guaporé: fator de integração da fronteira
ocidental do Brasil. Rio de Janeiro: VIAMAN, importante matéria” e para estabelecer e
2003, p.33 governar este quartel militar, Mendonça
Furtado nomeou Tte. Diogo Antônio de
Era, igualmente, pela da rota Madeira – Castro e Meneses .24
Mamoré – Guaporé que ocorria o escoamento Assim, ao que tudo indica, a
do ouro das minas de Mato Grosso. Através transformação dos rios Madeira, Mamoré e
do porto da capitania do Pará o ouro dessas Guaporé em via de comunicação entre o
minas era enviado para Portugal. Pouco Estado do Grão-Pará e Maranhão e o Mato
tempo depois da coroa portuguesa permitir a Grosso ensejou o frequente envio de
navegação pelo rio Madeira, por exemplo, expedições entre esses dois espaços
Francisco Xavier de Mendonça Furtado administrativos e é sobre a presença indígena
enviou, do Pará, um ofício ao Secretário de nessas expedições que será discutido agora.
Estado da Marinha e Ultramar, Diogo de
Mendonça Corte Real, dizendo que haviam
chegado ao Pará, procedentes de Vila Bela,
A PRESENÇA DOS ÍNDIOS NAS
João Rodrigues da Silva e Paulo Gouveia e
estavam acompanhados de três homens. TROPAS: CONFLITOS E
Rodrigues da Silva e Paulo Gouveia INTERESSES
carregavam as guias, nas quais estavam
descritas a quantidade de ouro que eles Durante o período colonial, o acesso aos
possuíam. Ainda segundo Mendonça trabalhadores indígenas sempre foi uma
Furtado, esses homens pagaram “o quinto razão para vários conflitos no Estado do
por capitação e batea” e como “não acharam Maranhão e Grão – Pará.25 Em meados do

22 Anais de Vila Bela, p. 147 da Companhia de Jesus. AHU, Pará (Avulsos), Cx. 36, D.
23 Ofício do governador e capitão general do Estado do 3391.
Maranhão e Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, 25 Cf. CHAMBOULEYRON, Rafael. “Duplicados clamores”.

para o secretário de estado da Marinha e Ultramar, Diogo de Queixas e rebeliões na Amazônia Colonial (Século XVII).
Mendonça Corte Real. Pará, 13 de dezembro de 1753. AHU, Projeto História. São Paulo, n.33 (dez. 2006), pp. 159-178.
Pará (Avulsos), Cx. 35, D. 3315 CHAMBOULEYRON, Rafael. CHAMBOULEYRON, Rafael.
24 Carta do governador do Estado do Maranhão e Pará, Escravos do Atlântico equatorial: tráfico negreiro para o
Francisco Xavier de Mendonça Furtado, para o Padre Reitor Estado do Maranhão e Pará (século XVII e início do século

138
século XVIII, a coroa portuguesa se Gusmão pediu ao dito diretor “12 índios 6
empenhou em executar um projeto colonial pela troca e 6 de mais” e Vitoriano Gomes
no Estado do Maranhão e Grão-Pará, do qual respondeu a ele que “tinha ordem do senhor
o Diretório dos Índios é uma expressão. Uma general do rio Negro para não dar
das diretrizes do Diretório dos Índios cumprimento a portaria alguma” do
consistia em regulamentar a distribuição de governador do Estado “nesta matéria e que
trabalhadores indígenas. Assim, o não conhecia” ele “por seu governador senão
governador da capitania deveria conceder ao senhor Joaquim de Mello Povoas”. Além
licença para que os índios fossem concedidos disso, disse Teotônio Gusmão que “tendo
aos trabalhos e os diretores das povoações esta vila de Serpa muita farinha como os
deveriam solicitar os índios concedidos aos mesmos índios confessavam”, proibiu o
principais, que encaminhariam os indígenas diretor, “com ameaças de prisões e castigos”,
para as atividades destinadas a eles.26 Foi se vendessem a ele um paneiro de farinha,
nesse contexto que os índios começaram a ser ainda que Teotônio Gusmão estivesse
demandados para participarem das “carecido disso, pois sustentava 75 bocas”.30
expedições ao Mato Grosso. A narração feita pelo Teotônio da Silva
Teotônio da Silva Gusmão27 foi Gusmão aponta a dificuldade que ele teve, na
encarregado pelo governo da Capitania do Vila de Serpa, em conseguir índios para sua
Mato Grosso de fundar uma nova povoação expedição de retorno a Capitania de Mato
no rio Madeira e veio até o Pará “por várias Grosso em função da postura do diretor
providencias [?] para a dita povoação”.28 Ao dessa Vila. Além de Teotônio Gusmão, João
retornar para o Mato Grosso, disse que após de Sousa Azevedo, igualmente, enfrentou
quarenta e seis dias de viagem, chegou na alguns problemas com os diretores das vilas
Vila de Borba “muito amofinado de para conseguir indígenas que participassem
carapanãs desde o Xingu até Óbidos”. Nessa da expedição dele.
Vila explicou que em Monte Alegre “foi Em carta de abril de 1761, o governador
prontamente socorrido dos índios” que pediu da Capitania de São José do Rio Negro,
e “da mesma forma em Santarém” e em Vila Gabriel de Sousa Filgueira, dizia ao
Franca. governador da Capitania do Mato Grosso,
Em Serpa29, contudo, Silva Gusmão Rolim de Moura, que João de Sousa Azevedo
enfrentou alguns problemas para conseguir seguia para essa capitania “a levar uma canoa
os índios. Teotônio Gusmão esclareceu que a vossa excelência, e socorro de algumas
na Vila Serpa, “para donde trazia munições”. Explicou Gabriel de Sousa
nomeadamente outra portaria de vossa Filgueira que João de Sousa Azevedo disse a
excelência e donde havia de deixar 6 índios e ele sobre “a falta de alguns índios para a sua
completar as equipaçoes”, conheceu “do equipação” e “que alguns diretores dessa
diretor o soldado Vitoriano Gomes as capitania [de São José do Rio Negro] lhes não
maiores vilanias e desatenções que nunca davam por estarem no presente tempo
nesta estrada” lhe tinham feito. Teotônio

XVIII). Revista Brasileira de História. São Paulo, V.26, n° 52 Gustavo Balbueno de. “Os Juízes de Fora da Capitania de
(2006). pp. 79-114. Mato Grosso e uma discussão em torno de suas rendas”.
26 COELHO, Mauro Cezar. Do sertão para o mar - um estudo Anais do XII Encontro da Associação Nacional de História –
sobre a experiência portuguesa na América, a partir da Seção Mato Grosso do Sul: democracias e ditaduras no
colônia: o caso do diretório dos índios (1751-1798). 2005. 433 mundo contemporâneo. Disponível em:
f. Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia e http://www.encontro.ms.anpuh.org/resources/anais/38/
Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, p.251. 1411240492_ARQUIVO_ArtigoAquidauana.pdf. Acessado
27 Teotônio da Silva Gusmão era sobrinho do embaixador em: 09 de dezembro de 2018.
Alexandre de Gusmão. No período de dezembro de 1735 a 28 Ofício de Teotônio da Silva Gusmão. Pará, 5 de julho de

junho de 1737, Teotônio da Silva Gusmão foi fiscal do ouro 1759. APEP, Códice 54, doc. 17.
em Goiás. Depois foi para Intendência das minas do 29 A Vila de Serpa fazia parte da Capitania de São José do Rio

Tocantins, onde serviu até setembro de 1738. Durante doze Negro. Atualmente é o município de Itacoatiara, no
anos atuou como advogado no reino e depois serviu como Amazonas.
juiz de fora em Itu até 1748, quando foi nomeado primeiro 30 Ofício de Teotônio da Silva Gusmão. Vila de Borba, 31 de

juiz de fora da Capitania do Mato Grosso. ALMEIDA, outubro de 1759, APEP, Códice 54, doc. 30.

139
espalhados pelos sertões a colheita das interessante e lucrativo participar das
drogas”.31 expedições que iam colher as “drogas” no
Teotônio da Silva Gusmão e João de sertão do que ir em uma expedição à
Sousa Azevedo queixam-se aos governantes capitania do Mato Grosso.
do Estado do Grão-Pará e Maranhão das Havia, de fato, um empenho, por parte
dificuldades que enfrentavam para conseguir do governo colonial, em incentivar a
índios nas vila do Estado para as expedições participação desses índios nas viagens ao
deles. A reclamação de ambos dirige-se aos Mato Grosso. Esse esforço expressava-se
diretores da Capitania de São José do Rio através da preocupação com o pagamento
Negro. Enquanto Silva Gusmão fez uma dos indígenas que iam do Estado do
denúncia do procedimento do governador da Maranhão e Grão-Pará ao Mato Grosso.
Vila de Serpa, o prático Sousa de Azevedo Nesse sentido, o governador do Pará,
protestou contra todos os diretores dessa Bernardo Mello de Castro, disse a Rolim de
capitania. É possível, assim, que esses Moura que o pagamento que ele havia
diretores das vilas da capitania de São José do mandado “fazer aos índios que levou João de
Rio Negro fossem oponentes do Teotônio da Sousa Azevedo é cheio de justiça, e de
Silva Gusmão e do João de Azevedo e isso Cristandade”, pois “as duas varas e meia de
tenha influenciado na postura dos diretores. pano ou um cruzado por mês a que os
Ou, talvez existisse algum conflito entre os comerciantes querem recorrer por costume
governadores da capitania de São José do Rio deste Estado” não se deve praticar nesse caso
Negro e os da capitania do Pará e esse atrito “em que os mesmos índios tem o
manifestava-se na indisposição dos diretores grandíssimo trabalho” na “passagem das
em conceder índios que iam do Pará ao Mato cachoeiras” e “na grande viagem, que
Grosso.32 fazem”.34
Por outro lado, é possível que os próprios O deslocamento do Estado do Maranhão
índios não tivessem interesse em participar e Grão-Pará até o Mato Grosso, pelos rios
das expedições que iam ao Mato Grosso. Madeira, Mamoré e Guaporé, era, de fato,
Como foi apontado, Sousa Azevedo disse que trabalhoso. Segundo Amaral Lapa, a viagem
os diretores não dariam índios a ele, pois os normal durava entre seis e sete meses. Já a
índios tinham ido a coleta das “drogas” do travessia das cachoeiras do Madeira durava,
sertão. É provável que os próprios índios aproximadamente, de três a quatro meses. A
tivessem ido à extração das “drogas do viagem de ida e volta não durava, portanto,
sertão”, naquele momento, também, como menos de um ano.35
um mecanismo de fuga das tropas que iam ao O rio Madeira é conhecido pelas
Mato Grosso. Heather Roller argumentou corredeiras / cachoeiras na sua região
que a participação dos indígenas nas superior, acima de Porto Velho, conhecido
expedições de coleta era, provavelmente, um como Alto Madeira. Aline Siqueira
recurso utilizado para evitar serviços mais argumenta que o Alto Madeira não apresenta
onerosos ou um meio de resistir os pleitos condições de navegabilidade em função
coloniais e deles engajarem-se a partir de seus dessas corredeiras / cachoeiras. Esse trecho
próprios termos.33 Assim, talvez esses do Madeira apresenta 18 cachoeiras, dentre
indígenas acreditassem que era mais as quais a de Pederneira, Paredão, Três

31 Carta do governador da Capitania de São José do Rio 1800”. Revista de História (USP), São Paulo. Nº 168 (Janeiro /
Negro Gabriel de Sousa Filgueira ao governador da junho 2013), p. 201-243.
Capitania do Mato Grosso Antonio Rolim de Moura. 34 Carta do governador do Pará Manoel Bernardo de Mello

Barcelos, 16 de abril de 1761. Arquivo Público do Mato Grosso de Castro ao governador do Mato Grosso Antonio Rolim de
(APMT), Fundo Secretaria do Governo, cx. 005, doc. 184 / cx. Moura. Pará, 08 de maio de 1759. APMT, Fundo Secretaria
005. do Governo, Cx. 004, Doc. 144.
32 Agradeço ao Fabiano Vilaça pela reflexão acerca dos 35 LAPA, José Roberto Amaral. Do comércio em área de

conflitos entre os governadores das capitanias do Estado do mineração. Economia Colonial. São Paulo: Editora
Grão-Pará e Maranhão. Perspectiva, 1973.
33 ROLLER, Heather Flynn. “Expedições coloniais de coleta

e a busca por oportunidades no sertão amazônico, c. 1750-

140
Irmãos, Jirau, Caldeirão do Inferno, nova povoação, a de Nossa Senhora da Boa
Morrinhos, Teotônio e Santo Antônio.36 No Viagem, em Salto Grande, no rio Madeira,
trecho que corresponde ao médio e baixo disse que seria conveniente ao serviço do rei,
Madeira, espaço a partir da cachoeira de “benefício daquelas minas do Mato Grosso”
Santo Antônio até a sua foz, no Amazonas, o e “aumento daquela povoação do Salto” que
Madeira pode ser caracterizado como um rio seria necessário providenciar “embarcações
de planície.37 ligeiras armadas que andem desde aquela
Essas cachoeiras, certamente, povoação” até a Vila de Borba “para fazer
representavam um obstáculo para quem conter o gentio Mura inimigo daquela
navegava na rota Madeira – Guaporé – [estrada] que se deve defender e
Mamoré. A narrativa escrita sobre a franquear”.40
expedição de Melo Palheta, ocorrida entre os Um testemunho anônimo escrito,
anos 1722-1723, aponta essas dificuldades e a provavelmente, após 1759, lembrava que o
quantidade de cachoeiras. A narrativa “rio Madeira tem muito cacau”. Contudo, “a
explica que sua navegação é perigosa pela infestação de
gentio Mura” e uma vez que fosse necessário
vinte e três cachoeiras se contam no rio “continuar viagem até ao Mato Grosso” se
Madeira, das quais dez se não podem encontrariam “muitas cachoeiras, nas
passar, por nenhum meio, porque são
margem oriental do rio Madeira”.41 Ou seja,
impossíveis, e as passamos cortando
pontas de terras e fazendo grades de percorrer o rio Madeira e chegar em Mato
madeira, não pelo rio senão por terra em Grosso não era uma atividade simples.
seco, cujos caminhos ficam feitos para Nesse sentido, Manoel Bernardo de
quem vier atrás.38 Mello e Castro argumentava que,
considerando as dificuldades em realizar a
Em um dos trechos da viagem, a tropa de viagem entre a capitania do Mato Grosso e o
Melo Palheta alcançou a “cachoeira chamada Estado do Grão-Pará e Maranhão é “que
dos Iaguerites” e nela viram “sem devem ser atendíveis para a diferença dos
encarecimento uma figura do inferno”, pois pagamentos” entre os índios que faziam essa
ainda que tenha “visto grandes cachoeiras, viagem pelo rota Madeira-Mamoré-Guaporé
como são as horríveis e celebradas do rio dos e aqueles que executavam outros serviços.
Tapajós todas e do rio dos Tocantins, a Dessa maneira, Mello e Castro explicava,
Itaboca” e as que se seguem pelo rio Araguaia também, que “ainda neste mesmo Estado,
“e por ele até a cachoeira do Padre Raposo não é geral aquele estipêndio para todos os
chamada Otimbora”, nenhuma se “iguala trabalhos”, porque as canoas “que vão a
nem tem paridade a esta do rio da Madeira extração das drogas do sertão” fazem aos
na sua grandeza e despenhadeiros de pedras índios “pagamentos muito mais avultados, e
e rochedo tão altos que nos pareceu a esta proporção se regulam conforme os
impossível a passagem”.39 serviços a que os aplicam”. Ou seja, o
O ataque dos índios, considerados hostis, pagamento dos índios no Grão-Pará e
também dificultava a navegação pelo Maranhão seria feito a partir da atividade que
Madeira e, consequentemente, a desempenhavam: quando mais trabalhosa a
comunicação com a Capitania do Mato
Grosso. Quando Teotônio da Silva Gusmão
foi ao Pará buscar apoio para fundar uma

36 SIQUEIRA, Aline Gonçalves de. Características e ABREU, João. Capítulos de História Colonial: 1500-1800 &
Avaliação dos Níveis Basais de Mercúrio do Sedimento na Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil. Brasília.
Área de Influência do Aproveitamento Hidrelétrico Jirau – Editora: Universidade de Brasília, 1982, p.316
Rio Madeira – Rondônia – Brasil. 2013. 80 f. Dissertação 39 Ibidem.

(Mestrado em CIÊNCIA DE MATERIAIS) - Faculdade UNB 40 Ofício de Teôtonio da Silva Gusmão. Pará, 5 de julho de

Planaltina, Universidade de Brasília, 2013, p.22 1759. APEP, códice 54, doc. 17.
37 Ibidem. 41 Fragmento da Viagem das Amazonas e Rio Negro desde o
38 A bandeira de Francisco de Mello Palheta ao Madeira no parágrafo 54 até o 103. Revista do Instituto Histórico e
documento da narração da viagem. In: CAPISTRANO DE Geográfico. Rio de Janeiro, tomo LXVII (Parte I), 1906, p. 275

141
atividade, maior deveria ser o pagamento dos Mato Grosso “ordenar a todas as gentes que
índios que a executavam.42 vão destas partes, e levam índios, que lhe não
Manuel Bernardo de Melo e Castro dizia, deem outro pagamento, mais do que em
também, que os índios deveriam ser bem ouro, na forma que se ajustaram”.45
remunerados não somente em decorrência de Havia, assim, um preocupação por parte
ser penosa a viagem pela rota Madeira- do governo português em incentivar a
Mamoré-Guaporé. Assim, para ele, “como participação dos índios nas expedições que
esta gente pode [facilitar] muito com os seus iam do Grão-Pará ao Mato Grosso. É
remos o negócio deste Estado com essas provável que os índios não tivessem interesse
minas”, é justo “que sejam bem satisfeitos em participar dessas jornadas ao Mato
para que o interesse, e a conveniência os Grosso. As expedições de coleta das
incite a continuarem esta carreira” e “que de conhecidas “drogas do sertão” talvez
outra forma se não poderá conseguir, pelas interessasse mais a esses indígenas do que
continuadas deserções, a que eles tem natural fazer uma longa e perigosa viagem ao Mato
inclinação”. Dessa maneira, era fundamental Grosso. Nesse sentido, as próprias demandas
que os índios ficassem plenamente satisfeitos e interesses dos nativos poderiam dificultar a
com as remunerações que ganhassem na organização e a realização de um expedição
viagem entre a Capitania do Mato Grosso e o ao Mato Grosso. Até mesmo os ataques que
Grão-Pará e Maranhão para que os interesses os Mura eram acusados de realizar são
da coroa portuguesa, ao desenvolver essa exemplares de como as demandas e politicas
rota pelo Madeira, Mamoré, Guaporé fossem indígenas interferiam na execução dos
alcançados.43 projetos coloniais.
A preocupação com o pagamento que era O governo lusitano, por sua vez,
feito aos índios que iam nas expedições ao procurava incentivar a participação dos
Mato Grosso foi manifestada, igualmente, indígenas nas viagens ao Mato Grosso
por outros participantes do governo mediante o pagamento de ouro a eles. Essa
português, como Francisco Xavier de forma de pagamento seria considerada justa,
Mendonça Furtado. Esse antigo governador pelo governo português, em decorrência das
do Estado do Grão-Pará e Maranhão estava dificuldades enfrentadas durante a jornada
em Barcelos quando escreveu a Rolim de ao Mato Grosso. Considerando, igualmente,
Moura, no dia 30 de maio de 1758, sobre “o a importância dos indígenas para a realização
dano que padecem os índios” que iam para o dessas expedições, seria um mecanismo de
Mato Grosso. Segundo Mendonça Furtado, assegurar e garantir a realização dessas
os passageiros combinavam com os índios expedições e, consequentemente, a
que pagariam a eles “umas poucas de oitavas dinamização da rota, atendendo aos
de ouro para os levarem” até as minas de interesses coloniais dos portugueses no
Mato Grosso. Porém, ao chegarem nas minas, Madeira, Mamoré e Guaporé.
os viajantes pagavam os índios “em pano de Ainda que os governantes coloniais
algodão grosso, descontando lhe a meia recomendassem e procurassem viabilizar o
oitava a vara” e “quando aqueles miseráveis pagamento, através de ouro, aos índios das
se recolhem as suas casas, já não há notícia [?] jornadas ao Mato Grosso, essa forma de
de tal pano, e ficam suas pobres famílias em remuneração talvez não fosse atrativa, pois
suma necessidade”.44 esse metal talvez não significasse um
Continuou Mendonça Furtado rendimento melhor e desejado por eles. Se,
explicando ao Rolim de Moura que “este por um lado, para os luso brasileiros o ouro
gravíssimo prejuízo” somente pode ser possuía um valor acima de outros produtos,
solucionado se o governador da capitania do como as varas de pano, é possível que para os

42 Carta do governador do Pará Manoel Bernardo de Mello 44 Carta de Francisco Xavier de Mendonça Furtado ao
de Castro ao governador do Mato Grosso Antonio Rolim de governador Antonio Rolim de Moura. Barcelos, 30 de maio
Moura. Pará, 08 de maio de 1759. APMT, Fundo Secretaria de 1758. APMT, Fundo Secretaria do Governo, Cx. 03,
do Governo, Cx. 004, Doc. 144. doc.121.
43 Ibidem. 45 Ibidem

142
índios, ou para uma parcela deles, o ouro não Não foi possível conhecer as possíveis
possuía a mesma importância que tinha para justificativas para a fuga dos índios que
os luso brasileiros. Por essa razão, é provável acompanhavam Rolim de Moura. Também
que, para os índios, a participação nas não é conhecida a relação que poderia existir
expedições de coleta das “drogas do sertão”, entre os índios de Oeiras com aqueles que
ou outro tipo de tropa que não fosse ao Mato acompanhavam Rolim de Moura. Contudo, é
Grosso, oferecesse um rendimento que mais certo que a organização e funcionamento das
interessava aos índios. tropas que percorriam o trajeto entre o Estado
Por outro lado, alguns índios não tinham do Grão-Pará e a capitania do Mato Grosso
interesse em receber pagamentos através das estavam sujeitas, também, aos interesses dos
varas de pano. Esse é o caso do índio Duarte. índios.
O diretor da vila de Sousel explicou que, após
a chegada da canoa do negócio dessa vila, “o
índio Duarte tinha fugido da mesma canoa”
levando “mais dois consigo depois de ter com CONSIDERAÇÕES FINAIS
ruins práticas quase persuadido” parte da
tropa “para uma sublevação e deserção para A tentativa do governo português em
o Mato Grosso em companhia de João de consolidar uma rota de conexão entre a
Moura”. Disse o diretor de Sousel que soube capitania do Mato Grosso e o Estado do Grão-
por “alguns índios da mesma canoa” que o Pará e Maranhão foi caracterizada por
dito índio Duarte teria dito aos índios das inúmeras dificuldades. Alguns empecilhos
canoas que eles estavam sendo “enganados estavam relacionados aos interesses e às
com umas varas de pano em casa do políticas desenvolvidas pelos índios. Os
tesoureiro”. 46 possíveis ataques que os Mura realizavam às
Se alguns índios não tivesse interesse em tropas que percorriam o Madeira
participar das expedições ao Mato Grosso e dificultavam a consolidação dessa rota
enxergassem nas tropas de coleta das “drogas fluvial. Eram, contudo, realizados a partir
do sertão” uma oportunidade de conseguir dos interesses desse grupo indígena.
seus objetivos, outros índios, como o Duarte, O desenvolvimento de atividades pelos
perceberam na fuga para o Mato Grosso uma índios - como a de remeiros, práticos, pilotos
possibilidade de conseguir um tipo de ou outra qualquer – nas expedições que iam
remuneração que considerava mais do Estado do Grão-Pará e Maranhão ao Mato
interessante que as varas de pano. Grosso dependia de vários fatores. Nesse
As fugas dos índios que participavam sentido, os interesses dos indígenas
das expedições da rota Madeira-Mamoré- sobrepunham-se, em alguns casos, aos
Guaporé poderiam constituir, igualmente, interesses da coroa portuguesa. Ainda que as
um mecanismo de mostrar que eles nem correspondências trocadas entre os governos
sempre tinham interesse em participar e coloniais defendessem que a remuneração
colaborar da política portuguesa. Em meados dos índios que iam até o Mato Grosso deveria
do ano de 1764, o cabo da canoa de vila de ser feita em ouro, alguns indígenas
Oeiras se pediu a Clemente Pereira, diretor enxergavam outras atividades, relacionadas
de Gurupá, que “mandasse prender três ou não a política colonial portuguesa, que
índios” que haviam fugido da tropa que atendessem mais aos seus anseios. Assim,
conduzia Antônio Rolim de Moura da poderiam ser recusar a participar de uma
capitania do Mato Grosso para o Pará. Essa expedição ao Mato Grosso.
fuga teria acontecido com “cinco da dita Igualmente, os conflitos envolvendo
povoação [de Oeiras]”, que iam “em uma governantes nos espaços coloniais poderiam
canoa pequena que embarcaram os três interferir na implementação das políticas e
índios”. 47 diretrizes da coroa portuguesa nas regiões

Ofício de Manoel de Moura. Pombal, 30 de junho de 1761.


46 Ofício de Clemente Pereira para Fernando da Costa Freire.
47

APEP, Códice 106. Gurupá, 31 de maior de 1764. APEP, Códice 70 , doc. 90.

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ocupadas pelos lusitanos, como os possíveis São, portanto, diversos interesses que
conflitos envolvendo os governadores das contribuem para a organização e a realização
capitanias do Pará e de São José do Rio Negro de uma expedição do Estado do Grão-Pará e
ou os atritos entre os diretores das povoações Maranhão até a capitania do Mato Grosso.
e os sertanistas que iam para o Mato Grosso.

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