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Desenhando Palavras e

Construindo Geometrias
__________________________
ESPAÇO ESCRITO E
ESPAÇO PINTADO NO TEMPO BARROCO

Organização
Magno Moraes Mello

Belo Horizonte

2016
EDITORA: CLIO GESTÃO CULTURAL E EDITORA
EDITORA EXECUTIVA:
Tânia Maria T. Melo Freitas
CONCEPÇÃO DA CAPA:
Ludmila Andrade Rennó
PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO:
Ludmila Andrade Rennó
REVISÃO:
Tânia Maria T. Melo Freitas
Valesca Andrade Rennó
REVISÃO GERAL:
Tânia Maria T. Melo Freitas
CONSELHO EDITORIAL DA CLIO GESTÃO CULTURAL E EDITORA:
Profª. Drª. Adalgisa Arantes Campos - UFMG - Brasil
Prof. Dr. Alfredo Morales - USE - Espanha
Profª. Drª. Ângela Brandão – UNIFESP – Brasil
Prof. Dr. Antônio Emílio Morga - UFAM - Brasil
Pe. Mestre Carlos Fernando Russo - UP – Portugal
Eng.º Mestre Fernando Roberto de Castro Veado – UFMG/IEPHA - Brasil
Prof. Dr. Luiz Alberto Ribeiro Freire – UFBA - Brasil
Prof. Dr. Luiz Carlos Villalta – UFMG - Brasil
Prof. Dr. Magno Moraes Mello – UFMG - Brasil
Profª. Drª. Mary del Priori - UNIVERSO - Brasil
Prof. Dr. Saul António Gomes – UC - Portugal
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Luciana de Oliveira M. Cunha, CRB-6/2725)

D451 Desenhando palavras e construindo geometrias [recurso eletrônico] : espaço escrito


e espaço pintado no tempo barroco / organização, Magno Moraes Mello. –
Belo Horizonte : Clio Gestão Cultural e Editora, 2016.
1 recurso online (356 p. : il.)
Artigos de estudos concernentes ao Colóquio Internacional de História da Arte
“A construção da fantasia: arquitetura, escultura, talha e pintura na ordenação do
espaço sagrado tridentino”, realizado em Ouro Preto (MG), no período de 18 a 20 de
novembro de 2015.
Vários autores.
Modo de acesso: <http://cliogestaocultural.com.br>
Textos em português, italiano e espanhol.
ISBN 978-85-68158-09-8
1. Arte barroca. 2. Pintura. 3. Arquitetura. 4. Perspectiva. 5. Ótica. 6. Arte –
História. I. Mello, Magno Moraes.
CDD 709
CDU 7(091)

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Sumário
Agradecimentos..........................................................................................................5

Apresentação..............................................................................................................9

AS CAPELAS DE VILA RICA: PRODUÇÃO ARTÍSTICA E


OFICINAS NO 1º QUARTEL DO SÉCULO XVIII EM
MINAS GERAIS
Alex Fernandes Bohrer...........................................................................................21

ARQUITECTURAS AÉREAS: CAMPANARIOS, ESPADAÑAS Y


MIRADORES EN LA ARQUITECTURA SEVILLANA DE LOS
SIGLOS XVII Y XVIII
Alfredo J. Morales....................................................................................................33

O ALEIJADINHO ARQUITETO E SUA OBRA REVELADA


EM SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO, ESTADO
DE MINAS GERAIS, BRASIL
André G.D. Dangelo...............................................................................................51

O ENTALHADOR JOSÉ COELHO DE NORONHA E SUA


OFICINA: ARTISTAS, ARTÍFICES E SUA INFLUÊNCIA NA
TALHA SETECENTISTA EM MINAS GERAIS
Aziz José de Oliveira Pedrosa................................................................................67

FALSA ARQUITETURA E MÚSICA: SOBRE OS CONCEITOS


MATEMÁTICOS E A PERCEPÇÃO
Carla Bromberg........................................................................................................81

ARQUITETURA E DETALHES ARTÍSTICOS DO SOLAR


DA GLÓRIA - ENTRE A TRADIÇÃO E A MODERNIZAÇÃO
DO ARRAIAL DO TEJUCO, MINAS GERAIS
Celina Borges Lemos..............................................................................................95

JOAQUIM GONÇALVES DA ROCHA, SUA OFICINA E A


PINTURA ILUSIONISTA EM IGREJAS DE SABARÁ, CAETÉ
E SANTA LUZIA
Célio Macedo Alves ............................................................................................ 109

OS FORROS PINTADOS EM MOGI DAS CRUZES,


SÃO PAULO: SÉCULOS XVIII E XIX
Danielle Manoel dos Santos Pereira .................................................................. 125

O DIVERTIMENTO ERUDITO DE JOÃO PACHECO:


ARQUITETURA E ARTE NUMA LIVRARIA EM VILA RICA
Danilo Matoso Macedo ....................................................................................... 141

AGOSTINO MITELLI, ANGELO MICHELE COLONNA E I


MODELLI DEL PRIMO QUADRATURISMO EUROPEO
Fauzia Farneti ....................................................................................................... 159
FRESCOS DEDICADOS A SAN ANTONIO DE LISBOA Y
PADUA EN LAS CÚPULAS DE DOS IGLESIAS MADRILEÑAS
Javier Navarro de Zuvillaga ................................................................................ 175

A DIVINA PASTORA E AS HEROÍNAS DO ANTIGO


TESTAMENTO NO TETO DA NAVE DA IGREJA MATRIZ
DA CIDADE SERGIPANA DE N. SRA. DIVINA PASTORA
Luiz Alberto Ribeiro Freire ................................................................................ 187

TREINAR A MENTE E A PRÁTICA DO DESENHO


– ARQUITETURAS PINTADAS NA LISBOA JOANINA
Magno Moraes Mello........................................................................................... 209

JOSÉ SOARES DE ARAÚJO E MANUEL FURTADO DE


MENDONÇA: DE BRAGA AO TIJUCO. REFLEXÕES SOBRE
UMA PINTURA PERDIDA
Eduardo Alberto Pires de Oliveira
Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani........................................................ 229

LO SFONDATO PROSPETTICO DELL’ATRIO DI PALAZZO


MARTELLI E LA TENDA DI PARRASIO
Maria Teresa Bartoli ............................................................................................. 243

ENTRE TRAÇAS, DIBUJOS E RISCOS: JOSÉ PEREIRA


AROUCA NO OFÍCIO DE ARQUITETO
Mônica Maria Lopes Lage .................................................................................. 253

IGREJA NOSSA SENHORA DA VITÓRIA DE SÃO LUÍS DO


MARANHÃO: CONSIDERAÇÕES SOBRE AS INTERVENÇÕES
OCORRIDAS ENTRE OS SÉCULOS XVIII E XX
Marília Martha França Sousa
Regiane Aparecida Caire Silva ............................................................................ 265

FILIPE NUNES: UM ESTUDIOSO DA PERSPECTIVA NO


SEISCENTOS PORTUGUÊS
Renata Nogueira Gomes de Morais .................................................................. 285

ANDREA POZZO S.J. ED IL CORRIDOIO AL GESÙ:


PITTURA O ARCHITETTURA?
Rita Binaghi ........................................................................................................... 305

ARQUITETURA E CIDADE NA AMÉRICA HISPÂNICA:


A CONFIGURAÇÃO DO CENÁRIO BARROCO DA
CUZCO COLONIAL
Rodrigo Espinha Baeta........................................................................................ 317

PROBLEMI DI RESTAURO E DI CONSERVAZIONE DELLE


ARCHITETTURE VIRTUALI
Silvio Van Riel....................................................................................................... 337

Sobre os Autores .................................................................................................. 351


O DIVERTIMENTO ERUDITO DE JOÃO PACHECO...

Capítulo 9

O DIVERTIMENTO ERUDITO DE JOÃO PACHECO: ARQUITE-


TURA E ARTE NUMA LIVRARIA EM VILA RICA

Danilo Matoso Macedo

Manuel Ribeiro dos Santos1 era Caixa e administrador dos


Contratos dos Dízimos na Capitania de Minas Gerais entre 1741 e 1750,
tendo solicitado entre 1747 e 1753 a seus prepostos em Lisboa mais
de duzentos livros, listados em treze cartas e Receytas – hoje disponíveis
no Arquivo Público Mineiro.2 Tal comprovação de circulação de

1
Segundo Sílvio Gabriel Diniz (DINIZ, Silvio Gabriel. Um livreiro em Vila
Rica no meado do século XVIII. Kriterion n.47–48, pp.180–198, jan.-jun.
1959), o Capitão Manuel Ribeiro dos Santos era “filho de Manuel Ribeiro de 141
Carvalho e sua mulher Mariana Duarte, nascido na Comarca de Guimarães,
Arcebispado de Braga, Conselho de Santa Cruz de Cima, Fámega, Freguesia
de S. Salvador de Travanca”. Em 1783, já havia falecido, pois encontra-se
no Arquivo Público Mineiro (Secretaria de Governo da Capitania, Seção Co-
lonial, SG-CX.13-DOC.53) um Requerimento do administrador da casa do falecido
capitão Manuel Ribeiro dos Santos sobre o recolhimento aos cofres da Casa da quantia
paga pelo Capitão Antônio de Sousa Mesquita ao juiz do Tribunal, datado de 2 de
novembro daquele ano.
2
Arquivo Público Mineiro (APM), Fundo Casa dos Contos, CC-2030: “Com-
pilação de Anotações e correspondência particulares do arrematante do con-
trato de dizimos Manuel Ribeiro dos Santos”. Consultamos as transcrições de
Sílvio Gabriel Diniz (DINIZ. Um livreiro em Vila Rica), contendo os seguin-
tes pedidos: Carta a Jerônimo Roiz Ayraõ, s.d. p.75; Receita a Jeronimo Roiz
Ayraõ, s.d. p.215; Receita de tudo o q’. agora se pede, s.d., p.381.v.; Receita
Jeronimo Roiz Ayraõ de 6 out. 1747, p.15; Carta a Jerônimo Roiz Airão, 5 mar.
1749, pp.219.v./221; Receita a Jeronimo Roiz Ayraõ, 1750, p.171.v.; Carta a
Luís Salgado dos Santos, auzente o S.r Miguel Roiz Batalha, na de ambos o sr.
Franc.o Roiz Rego, 4 jul 1750, p.41; Carta a Jerônimo Roiz Airão, 6 maio 1751,
pp.297.v./299; Receita de L.os, 6 maio 1751, pp. 398.v.-399; Carta a Antonio
Ribeiro das Neves, 24 de Junho de 1751, pp.402-403; Carta a Antônio Ribeiro
Neves, 25 ago. 1752, pp.312/314; Receita a Jeronimo Roiz Ayraõ, 27 ago.
1752, p.317; Carta a Jeronimo Roiz Ayraõ, 1 set. 1752, pp.318-319; Carta a
Domingos Ribeiro Neves, 12 abr. 1753, pp.407-408. As listagens constam ain-
da no trabalho de ALVARENGA, Thábata Araújo de. Homens e livros em Vila
Rica: 1750-1800. Dissertação (Mestrado em História Social) - Departamento
de História da Faculdade de Letras e Ciências Humanas, USP, São Paulo, 2003;
bem como em: ARAUJO, Jorge de Souza. Perfil do leitor colonial. Ilhéus, Bahia:
Editus, Editora da UESC, 1999.
DANILO MATOSO MACEDO

impressos em Minas Gerais revela alguns valores de interesse para o


estudo da arte, da arquitetura e da urbanização daquela capitania, aqui
exemplificados em alguns títulos e ilustrados por um breve olhar sobre
o ali presente Divertimento Erudito de João Pacheco.
O conjunto dos pedidos de Manuel Ribeiro dos Santos é tão
diversificado quanto numeroso – o que conota uma possível atividade
como livreiro em Vila Rica.3 Embora dominado por livros jurídicos,
continha também dicionários, gramáticas, manuais militares, livros
de medicina, história, geografia, literatura (clássica e coeva), filosofia,
religião, moral, e alguns tratados “enciclopédicos”. A arquitetura,
a escultura ou a pintura não estão presentes nos títulos, mas seus
valores trafegam de diversas maneiras no interior daqueles impressos.
Tal circulação cultural nem sempre é explícita, caso das conhecidas
semelhanças entre as pinturas de Mestre Ataíde (1762-1830) e as
gravuras de um missal de Antuérpia (1747) – provavelmente um dos
muitos encomendados pelo livreiro.4
Há casos, porém, em que os textos tratam diretamente de
arquitetura: na legislação afeita à edificação na literatura jurídica, ou
142 nos capítulos sobre arquitetura, artes e ofícios constantes em obras de
caráter moralista e “enciclopédico”.
Como se sabe, as Ordenações e leis do do Reino de Portugal – ou
Ordenações filipinas – constituíam a espinha dorsal do ordenamento
jurídico português. O código fora publicado pela primeira vez em
1603,5 e tivera sua edição Vicentina, aquela até então mais completa

3
“Não há dúvida de que revendia livros. Incluía na relação das obras pedidas
tanto aquelas de encomendas dos amigos como as que esperava negociar com
lucros. São numerosos os pedidos de dois ou mais exemplares de uma mes-
ma obra, e de algumas são os pedidos repetidos em ocasiões diferentes”. In:
DINIZ. Um livreiro em Vila Rica no meado do século XVIII, pp. 180-198,
jan.-jun. 1959, p.181.
4
Cf. JARDIM, Luiz. A pintura decorativa em algumas igrejas antigas de Mi-
nas. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n.3, pp. 63-102,
1939; LEVY, Hannah. Modelos europeus na pintura colonial. Revista do Serviço
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n. 8, pp.7-66, 1944; SANTIAGO,
Camila Fernanda Guimarães. Usos e impactos de impressos europeus na configuração
do universo pictórico mineiro - 1777-1830. Tese (Doutorado em História Social da
Cultura) - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFMG, Belo Horizon-
te, 2009.
5
PORTUGAL. Ordenações (sic), e leis do Reino de Portugal Recopiladas per mandado
do mvito alto catholico, & poderoso Rei Dom Philippe o Pri.º Com licença dos superiores.
Impressas em Lisboa no mostrº de S. Vicente Camara Real de S. Mag.de. da ordem dos
Conegos Regulares por Pedro Crasbeeck. Lisboa: Pedro Crasbeeck, 1603. 5l.
O DIVERTIMENTO ERUDITO DE JOÃO PACHECO...

e luxuosa, dada aos prelos em 1747 – acrescida de repertórios e de


Legislação extravagante –6 a que Manuel Ribeiro dos Santos faz questão
de encomendar repetidas vezes.7 Em diversos títulos, dedicam-se as
Ordenações à regulamentação da construção da cidade. Notadamente, no
Título 68 do Livro Primeiro, cujos quarenta e dois parágrafos tratam
do Almotacé – e cujos vinte últimos tratam dos Edifícios e servidões. No
campo do direito eclesiástico, a obra de maior destaque – também
encomendada pelo livreiro em duas cartas – são as Constituições Primeiras
do Arcebispado da Bahia,8 elaboradas por Sebastião Monteiro da Vide
e publicadas em 1719, que tratam, por exemplo, no Título 17 de seu
Livro Quarto, Da edificação, e reparação das Igrejas Paroquiais.
Os livros religiosos eram os best-sellers do Brasil colônia – fato
atestado não apenas por diversos estudiosos de história do livro,9 como
também pelos pedidos de Manuel Ribeiro dos Santos. Sua capacidade
formativa em diversos campos das artes e ofícios não deve ser

6
PORTUGAL. Ordenações, e leys do Reyno de Portugal Confirmadas, e estabeleci-
das pelo Senhor Rey D. Joaõ IV. Novamente impressas, E accrescentadas com
tres Collecções; a primeira, de Leys Extravagantes; a segunda, de Decretos, e 143
Cartas; e a terceira, de Assentos da Casa da Supplicaçaõ, e Relaçaõ do Porto.
Por Mandado do muito alto e poderoso Rey D. Joaõ V. Nosso Senhor. Lisboa:
No Mosteiro de S. Vicente de Fóra, Camara Real de Sua Magestade, 1747. 5v.
7
Solicita: Receita de 6 de outubro de 1747: “3 tom. Manoel Glz. da S.a a or-
denaçaõ”. Receita P.a Caza de 1750: “1 Jogo de ordenaçoinz novas, naõ tendo
vindo na prez.te Frota; 2 tom. repertorio ou Index das mesmas ordenaçoins
novas, q’. me dizem se estava acabando de Compôr”. Receita de 6 de maio
de 1751: “1 ou 2 tom. de Repertorios das novas ordenaçoes o que for de H
para diente q’. o tom. até ahi me mandou já o Auraõ; 1 jogo de mais inteiro
do d.o Repertorio das novas ord. se ja estiver acabada todas as Letras do
Abc” ; “ql.q.r dos da Pegaz a ordenaçaó”. Receita s.d. a Jeronimo Roiz Ayrão:
“2 Jogos das novas ordenaçoens q’. sahiraõ agora novamente impressos”; “1
tom. Reportorio ou Index a ordenaçaõ addicionado impreçaõ mais moderna
[$]480”. Receita de 27 de agosto de 1752: “1 Tom. se já Se imprimio do A para
diente repertorio novo das ordenaçoins 7$620 agora impreças o pr.o tomo
imprimiosse em 749.”
8
VIDE, Sebastião Monteiro da. Constituiçoens primeyras do Arcebispado da Bahia
feytas, & ordenadas pelo Illustrissimo, e Reverendissimo Senhor D. Sebastiaõ Monteyro
da Vide, Arcebispo do dito Arcebispado, & do Conselho de Sua Magestade, propostas,
e aceytas em o sinodo Diecesano que o dito Senhor celebrou em 12. de Junho do anno de
1707. Lisboa Occidental: na Officina de Pascoal da Sylva, Impressor de Sua
Magestade, 1719. Consta em: “Receita” s.d. : “1 Constituiçaõ da Bahia 1720
2.500 rs.”. Receita de 6 de maio de 1751, “P.a O Rd.o Fran.co da Costa”: “2
tom. Constituiçoens da Bahia”.
9
Cf. VILLALTA, Luiz Carlos. Reformismo ilustrado, censura e práticas de leitura:
usos do livro na América portuguesa. Tese (Doutorado em História) - Fa-
culdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, São Paulo, 1999; e
ARAÚJO. Perfil do leitor colonial.
DANILO MATOSO MACEDO

menosprezada. Dentro de um livro, a princípio, sobre moral religiosa,


encontram-se desde princípios de lógica formal, passando por valores
estéticos até detalhes técnicos de produção de materiais de construção.
Mesmo o ressurgimento de tratados enciclopédicos próprios do
iluminismo ocorre no mundo luso dentro de antigas estruturas textuais
moralistas ou de certa maneira devocionais. Este formato que hoje
consideraríamos híbrido não apenas refletia a mentalidade de seus
autores – muitos deles membros do clero – como também os tornava
mais aceitáveis pelos órgãos censores da Coroa e da Igreja, e portanto
mais vendáveis.
Neste campo, nas encomendas do livreiro de Vila Rica, saltam
à vista três pedidos reiterados pelas obras do ensaísta espanhol Benito
Jerónimo Feijoo (1676-1764), incluindo, numa carta de 1751, “todas as
mais obras q’. tiverem sahido do d[ito].o Feijó ou contra elle”. Seu Teatro
crítico universal10 – para tomar sua publicação de mais vulto – traz alguns
interessantes ensaios diretamente relacionados à ciência, à arquitetura
e à arte, como “Peso del aire” [t.2]; “Paradojas físicas” [t.2]; “Paradojas
matemáticas” [t.3]; “Lámparas inextinguibles” [t.4]; “Resurrección de
144 las Artes, y Apología de los Antiguos” [t.4]; “Nuevas propiedades de
la luz” [t.5]; “Razón del gusto” [t.6]; “Lo Máximo en lo Mínimo” [t.7];
“Importancia de la ciencia física para la moral” [t.8].
Uma obra que se aprofunda em temas na arquitetura artes e
ofícios – dentre outras matérias – é o Divertimento Erudito para os curiosos
de noticias historicas, escolasticas, politicas, e naturaes, sagradas, e profanas,
publicado em 4 volumes in-folio entre 1734 e 1744 pelo frei agostiniano
português João Pacheco (1677- ainda vivo em 1747).11 “1 Jogo [de]
4 tom. Devertimento Erudito” foi encomendado “P[ar].a Caza” por
Manuel Ribeiro dos Santos numa “receita” a Jeronimo Roiz Ayraõ em
1750. Os exemplares não foram os únicos de presença comprovada
na América Portuguesa, ocorrendo também: no inventário post-mortem

10
FEIJOO, Benito Jeronimo. Theatro critico universal, o Discursos varios en todo gene-
ro de materias para desengaño de errores comunes. Madrid en la Imprenta de la Viuda
de Francisco del Hierro; Herederos de Francisco del Hierro, 1726-1739. 8 v.
11
PACHECO, João. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Esco-
lasticas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas. Descobertas em todas as Idades,
e Estados do Mundo até o presente. E extrahida de varios authores. t.I, Lisboa
Oriental: na Officina Augustiniana, 1734. t.II, Lisboa Occidental: na Officina
de Antonio de Sousa da Silva, 1738. t. III, Lisboa Occidental: na Officina de
Pedro Ferreira, 1741. t.IV, Lisboa: na Officina de Domingos Gonçalves, 1744.
O DIVERTIMENTO ERUDITO DE JOÃO PACHECO...

de Manoel Dantas Barreto, feito na Bahia em 1768;12 no “Auto de


inventário e avaliação dos livros achados no Colégio dos jesuítas do
Rio de Janeiro e sequestrados em 1775”;13 e por fim no inventário post-
mortem de Manoel Ribeiro Soares feito em Vila Rica em 1788.14
Pacheco, nascido em 1677 em Aldegallega [hoje Montijo], no
Ribatejo, era agostiniano desde os dezessete anos, e fora “Superior do
Convento de Nossa Senhora da Penha de França, Mestre dos Noviços
do Convento da Graça de Lisboa, Prior dos Conventos de Lamego em
o anno de 1706, de Villaviçosa em 1709 e de Lisboa em 1740”.15
Explicando o título, o autor dá o teor da obra:
Li muito, e ouvi muito, e quanto mais ouvia, e
lia, tanto mais me dezafiava o dezejo a saber,
lendo, e ouvindo muito mais. Por este motivo
continuei sempre com a mesma curiosidade até
o presente, em que, vendo-me com annos já
maduros, considerei que para repetir a memoria,
o que tinha lido, e ouvido em varias, e deversas
materias, naõ seria fóra de proposito idear
hum compendio, aonde podesse aproveitarme,
quando me fosse necessario, ou cultivar o genio,
ou divertir os achaques, ou finalmente passar
o tempo em proveitoza conservaçaõ [sic] com 145
os amigos, e familiares. Puz esta idea em praxe,
trasladando só para mim, o que varios Authores
me suministraraõ. Mas porque seria especie de
avareza conservar só em mim, o que podia,
repartir com os que fazem profissaõ de curiosos,
tomei a resoluçaõ de commeter ao Prélo
esta diligencia. Parecerá temeridade grande,
e desvanecimento mal fundado semelhante
empreza. Eu o confesso. Desculpará porém o

12
Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB). Inventário post mortem de Manoel
Dantas Barreto (1768). Judiciária, 02/972/1441/01. In: ARAÚJO. Perfil do leitor
colonial, p.262-263, 348-350, 387.
13
Arquivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Auto de
inventário e avaliação dos livros achados no Colégio dos jesuitas do Rio de Janeiro e seques-
trados em 1775 (22/7/1775-28/8/1777), manuscrito L.58. In: Revista do Ins-
tituto Histórico e Geográfico Brasileiro, v. 301, pp. 212-259, out./dez. 1973.
14
Arquivo da Casa do Pilar, Ouro Preto (ACPOP). Inventário post mortem de Ma-
noel Ribeiro Soares (1788) 1º Ofício, códice 102, auto 1274, 1785. In: ARAÚJO,
Perfil do leitor colonial, p. 274, 361; ALVARENGA, Homens e livros em Vila Rica,
p. 242.
15
MACHADO, Diogo Barbosa. Bibliotheca Lusitana, historica, critica, e cronologica.
Na qual se comprehende a noticia dos authores portuguezes, e das Obras,
que compuseraõ desde o tempo da promulgação da Ley da Graça até o tem-
po prezente. Coimbra: Atlântida, 1965. 4v. [1.ed. Lisboa: Antonio Isidoro da
Fonseca, 1741-1759], t.2, p.715.
DANILO MATOSO MACEDO

meu arrojo, quem examindo [sic] sinceramente


o motivo desta obra, reconhecer que para ella
concorreo sómente o desejo de divertir aos
curiosos, e poupar trabalho, aos que costumão
revolver muitos livros; como tambem excitar
nos menos estudiosos huma inclinaçaõ a lerem,
e saberem succintamente, o que não saberiaõ,
nem lerião, talvez por se não cançarem em
saber de tudo, ou solicitarem, o que muitos
naturalmente aborrecem.16

Entre intelectuais, a obra deve ter sido recebida com alguma


reserva, pois dela se desviou até mesmo o espírito encomiástico
contumaz do bibliógrafo Diogo Barbosa Machado (1682-1772), o qual
se limitou atribuí-la à “vastissima liçaõ que [Pacheco] tem da Historia
secular e sagrada como da natural e politica”.17 Considerando-se a sua
circulação efetiva em três províncias do praticamente iletrado Brasil
oitocentista, é de se imaginar que, em todo caso, o Divertimento Erudito
tenha sido popular, constando em 1799 no Catalogo dos Livros, que se haõ
de ler para a continuaçaõ do Diccionario da Lingua Portugueza mandado publicar
pela Academia Real das Sciencias de Lisboa, elaborado por Agostinho
146 José da Costa de Macedo (1745-1822).18 Em meados do século XIX,
Inocêncio Francisco da Silva (1810-1876) assim resumiria seu percurso:
Incomparavelmente mais erudito e noticioso
que a Escola Decurial de Fr. Fradique Spinola,
com a qual offerece aliás alguma similhança
nos assumptos, o Divertimento conserva ainda
entre muita farragem de inutilidades e doutrinas
hoje reprovadas pela sciencia, cópia de artigos
curiosos, e que pódem ser consultados com
mais ou menos proveito, já para recreação, já
para estudo; sendo alem d’isso escripto com
linguagem correcta, e adequada ao genero da
obra. Comptudo, é hoje pouco menos que
desconhecido, e talvez a maior parte dos que
entre nós se acclamam litteratos, nem d’elle
ouvissem falar.19

16
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolas-
ticas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.I, s.n. [Antiloquio aos curiosos]
17
MACHADO. Bibliotheca Lusitana, historica, critica, e cronologica, t. 2, p. 715.
18
MACEDO. Agostinho José da Costa de. Catalogo dos livros, que se haõ de ler
para a continuaçaõ do diccionario da lingua Portugueza: mandado publicar pela Aca-
demia Real das Sciencias de Lisboa. Lisboa: Na Typographia da Mesma Aca-
demia, 1799.
19
SILVA, Innocencio Francisco da. Diccionario bibliographico portuguez: estudos
de Innocencio Francisco da Silva applicaveis a Portugal e ao Brasil. Lisboa:
Imprensa Nacional, 1858-1923. 22v., v.3, p.430.
O DIVERTIMENTO ERUDITO DE JOÃO PACHECO...

A espinha dorsal do livro é a narrativa histórica, apoiada


sobretudo no Antigo Testamento. A partir da simbologia evocada por
um acontecimento arquetípico bíblico mencionado no início de cada
capítulo, Pacheco descreve o mundo, o homem e seus ofícios:
He a Historia muito util, porque nella se regulão
pelas acçoens passadas as cousas presentes; as
Artes, e Sciencias fazem aos homens agudos,
e engenhozos; as Politicas os manifestão
estadistas, e urbanos; em fim a expeculaçaõ
das cousas naturaes os inculcaõ capazes de
comprehenderem em toda a materia as cousas,
que se praticão propoem, e questionaõ.
[…]
Aqui achará o curioso, e amante de noticias a
Historia desde o principio do Mundo até o
presente, e entre ella enxeridas a invençaõ,
methodo, e regras de varias Artes, e Sciencias,
a especulaçaõ de cousas naturaes, o estilo de
observaçoens politicas, e outras curiosidades,
de que se tratta por respeito, e incidencia da
mesma historia, donde se tira o fundamento
para se repetirem, e notarem os seus dictames;
porque aqui se tocaõ Theologias, Filosofias,
Chronologias; geografias, Astrologias, 147
Aritmeticas, Fisonomias, Genealogias, e outras
materias, que hoje se praticão, por gosto, por
conveniencia, e por honra.20

Cita então 327 autores que teriam servido de base para a sua
obra – o que o exime de fazê-lo no texto. Dos oito tomos originalmente
previstos, apenas quatro foram impressos.21 O primeiro tomo trata de
Deus e dos sete dias da criação, servindo de pretexto para uma espécie
de “História Natural”. O segundo tomo, que aqui veremos em maior
detalhe, trata da criação do homem, da anatomia, da agricultura e de
diversas artes e ofícios essenciais, incluindo os Artículos: “Da Pintura,
e Illuminação”, “Da Esculptura, e entalhe […]”, “Da Arquitectura”
[…],” “Da Mathematica em geral“,”Da Geometria“,”Da Optica ou

20
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolas-
ticas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.I, s.n. [Antiloquio aos curiosos]
21
Diz Inocêncio: “Além d’estes quatro grossos volumes, ha ainda na Bibl.
Nacional outro manuscripto, de grandeza correspondente, que o auctor não
chegou a imprimir. A obra devia comprehender ao todo oito tomos, de que
já existia acabado o sexto, e principiado o septimo. E ao oitavo devia seguir-
-se a Historia Universal de todas as series das monarchias, etc.”. In: SILVA,
Diccionario bibliographico portuguez, v.3, p.430.
DANILO MATOSO MACEDO

Perspectiva” e por fim “Das Moedas, Pezos, e Medidas”. O terceiro


tomo dá seguimento à história bíblica até o dilúvio, tratando das artes
e ofícios, incluindo: “Dos Edificios mais celebres”, “Da musica” […],
“Da Poesia, e Poetas”, “Dos Fundidores”, “Dos Mineiros, e Metaleiros”
além da tecelagem, tipografia, gramática, magia e medicina. O quarto
tomo prossegue, a partir do dilúvio, até os netos de Noé, tratando da
cozinha, da moral, da nobreza e heráldica, das vinhas e da educação.
O livro não possui estampas. Apenas algumas tabelas e
interessantes composições de tipografia no artigo dedicado à poesia
– no terceiro tomo. O texto alterna trechos da lavra do próprio autor
a transcrições ou traduções literais extensas de outras obras. As
referências a outros tratados no corpo do trabalho ocorrem via de regra
somente quando feitas pelo autor que ele transcreve. Tomemos por
amostra do labor de Pacheco os trechos nominalmente relacionados à
pintura, escultura e arquitetura, constantes no segundo tomo.

148

Figura 1: Frontispício do Divertimento Erudito


Fonte: Acervo pessoal do autor.

Os três Artículos seguem estruturas paralelas: Iniciam-se por


um panorama histórico do ofício na antiguidade, relacionada à história
bíblica, e exemplos de artistas modernos; desdobrando-se nas subdivisões
O DIVERTIMENTO ERUDITO DE JOÃO PACHECO...

do ofício e em alguns detalhes técnicos selecionados entremeados por


apreciações críticas de Pacheco, complementados por um vocabulário
de Termos daquela arte. Nos três casos, o panorama histórico é uma
tradução não assumida de trechos da obra La piazza vniversale di tutte
le professioni del mondo, publicada por Tommaso Garzoni (1549-1589)
em Veneza em 1585,22 cujas sucessivas reedições comprovam tratar-
se de livro de ampla circulação.23 A julgar pela transcrição de listas de
artistas espanhóis modernos ausentes no original, Pacheco parece ter
se servido da tradução castelhana – feita em 1615 por Cristóbal Suarez
de Figueroa (1571-1644).24
As explicações são complementadas pelos vocabulários de
termos próprios de cada ofício, dispostos em ordem alfabética ao
final de cada capítulo. Talvez, no que concerne às artes e à arquitetura,
constituam os primeiros léxicos especializados impressos em língua
portuguesa. Alguns verbetes são transcrições diretas do dicionário de
Raphael Bluteau (1638-1734).25 Outros parecem ser elaborados pelo
próprio Pacheco. Seja qual for a origem, a circunscrição de um universo
temático é trabalho que não pode ser menosprezado: ele não apenas
149
contribui diretamente para a compreensão da semântica vigente, mas
também para a delimitação dos campos profissionais tratados.

22
GARZONI, Tommaso. La Piazza universale de tutte le Professioni del Mondo e
nobili et ignobili. Venetia: Apresso Gio. Battista Somascho, 1585.
23
Diz-nos Brunet: “La piaza universale di tutte le professioni del mondo par le même
Garzoni. Ce dernier ouvrage eut beaucoup de succès, car ils s’ent fit en peu de
temps plusieurs éditions. Nous avons vu celles de Venise, 1585, 1687, 1588,
1596, 1616 (en mar. r. 23 fr. 50 c. Libri), 1638, etc., toutes de format in-4., qui,
au reste, n’ont qu’une vleur très médiocre, et il en est de même de la traduction
lar., sous le titre d’Emporium universale, par Nic. Belli, Francf. 1614, in-4.”. In:
BRUNET, Jacques-Charles. Manuel du libraire et de l’amateur de livres. 5.ed. Paris:
Firmin-Didot Frères, Fils et cie., 1860-1865. 6v., 3/1496. Schlosser afirma que
esta obra foi “molto imitata anche nel titolo”. In: SCHLOSSER Magnino,
Julius von. La letteratura artistica: manuale della fonti della storica dell’arte mo-
derna. Trad. Filippo Rossi. 3.ed. Firenze: La Nuova Italia; Wien: Kunstverlag
Anton Schroll & Co., [1964]. (Il Pensiero Storico, 12)
24
[GARZONI, Tommaso]. Plaza vniversal de todas ciencias y artes, parte tradvcida
de Toscano, y parte compuesta por el doctor Christobal Suarez de Figueroa
[…]. Madrid: Por Luiz Sanchez, 1615.
25
BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez, e latino, aulico, anatomico, ar-
chitectonico, bellico, botanico… zoologico: autorizado com exemplos dos
melhores escritores portuguezes e latinos, e offerecido a elrey de Portugual D.
João V. Coimbra: No Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1712-1728.
8v. Disponível em: < http://clp.dlc.ua.pt/DICIweb/default.asp?url=Home>.
Acesso em: 20 de maio de 2016.
DANILO MATOSO MACEDO

Traduzindo Garzoni, Pacheco nos dá uma bela definição de


pintura, feita na esteira de Simônides de Ceos (ca.556 a.C.-468 a.C.):
He a Pintura Arte Liberal, imitadora das
proporçoens da natureza, e naõ só muda
representaçaõ, mas escrittura, ou expressaõ,
que falla, e com as cores, e o pincel faz fallar
muitas cousas naturalmente mudas. Tanto assim
que o mais antigo, e natural modo de escrever
foi pintar objectos, ou materias, em que se
queria falar; donde veio a palavra Pingere, e a
composiçaõ dos Jeroglificos, que representados
significavaõ, o que se queria dizer. Com ella
tem grande parentesco a Poesia, pois disse della
Simonides, que era huma Poesia Callada; e a
Poesia huma Pintura, que falla.26

Traz então uma sinopse histórica, que vai desde relatos de


Plínio, sobre Giges da Lídia – Grécia antiga –, passando por vasto
anedotário sobre a importância da pintura em Roma e sua estima pelos
imperadores e estudiosos, chegando a uma lista de mais de trinta pintores
modernos, como Albrecht Dürer (1471-1528), Tintoretto (1518-1594),
150 Paolo Veronese (1528-1588), Caravaggio (1571-1610) ou El Greco
(1541-1614), tratando ainda brevemente da Iluminação de manuscritos,
classificando pintores como práticos ou teóricos, concluindo com uma
lista dos principais tipos de pintura, classificadas de acordo com sua
técnica: afrescos, têmpera, água de goma, de penejado (ou a bico de
pena), em mosaico, encáustica, dentre outras.
Trata brevemente da “Illuminação”, que define como:
Especie de Pintura, se estende commummente
em taboasinhas, e laminas pequenas,
em pergaminho, em Agnus Dei, e cousas
semelhantes, aonde suttilmente se pintaõ varias
effigies, e retratos, com purissimas cores de azul
ultramarino, ouro, e prata moida.27

Em seguida, e aqui indo além de Garzoni, menciona os artistas


Paisistas distingue os pintores entre practicos e theoricos, e define que:

26
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasti-
cas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.II, p.126.
27
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasti-
cas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas., t.II, p.130.
O DIVERTIMENTO ERUDITO DE JOÃO PACHECO...

A sua perfeiçaõ consiste na boa proporçaõ, e


boas luzes; intervem no seu ministerio còlas,
mordente, vernizes, pedras de moer, pinceis
grossos, e finos; as suas acçoens sao moer tintas,
compollas, temperallas, ou à tempera, ou a oleo,
ou a fresco; dar còla, dar huma maõ, ou maes
de gesso, imprimar, pintar a claro, ou a escuro,
lustrar, envernizar, illuminar, retratar ao natural,
e outras cousas semelhantes.28

Pacheco lista ainda alguns dos principais tipos de pintura


segundo seu suporte, tratando em seguida:
Da Esculptura, e entalhe em pedra, prata, ouro,
madeira, bronze, cobre, e marfim, em que
entrão naõ só Estatuarios, e Entalhadores, mas
tambem Sinceladores, serradores de marmores,
formadores de Imagens de gesso, cera, e terra.
&c..29

O fio condutor é novamente a narrativa da história da


escultura antiga via Garzoni/Figueroa. Trata-se aqui porém também
da divisão do trabalho nos ofícios da pedra copiados de Plínio que
Pacheco traduz como canteiros ou pedreiros, serradores de mármores
e estatuários. Após mencionar os mármores mais estimados na Itália, 151

conclui tratando dos “Abridores de sellos”. Embora por vezes fazendo


menção a termos de sua língua pátria, o autor até aqui prescinde
completamente de tratar de obras ou artistas portugueses.
Inicia então um novo Articulo, agrupando os dois anteriores,
tratando “Dos requisitos necessarios para o exercicio da Pintura, e
Esculptura, &c.”,30 os quais consistem no domínio das proporções do
corpo humano, copiadas do tratado de Juan de Arfe (1535-1603),31
após o que dedica-se a explicar detalhes sobre a escultura em madeira,
“pasta” (barro) e bronze. Abandonando Garzoni e Arfe, Pacheco
trata, por fim, detalhadamente da confecção de vernizes, tintas a óleo,
goma e esmaltes, bem como da obtenção de cores diretamente de suas

28
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasti-
cas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas., t.II, p.130.
29
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasti-
cas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas., t.II, p.131.
30
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasti-
cas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.II, p.132.
31
Villafañe, Ioan de Arphe y. De varia commensvracion para la escvlptura, y Architec-
tura. Dirigida al Excelentissimo Señor Don Pedro Giron, Duque de Ossuna,
Conde de Vrueña, y Marques de Peñafiel, Virei de Napoles. Sevilla: en la Im-
prenta de Andrea Pescioni, y Iuan de Leon, 1585.
DANILO MATOSO MACEDO

matérias primas, explicando a origem geográfica de cada material e


seu preparo, incluindo o processamento de minerais. Tais descrições,
acompanhadas de 249 Termos de Pintor, Esculptor; e Tintureiro constituem
um verdadeiro manual técnico. Tomemos por exemplo o verbete:
Carmim - He tinta artificial composta de páo
do Brasil, moido em almofariz com paens
de ouro, tudo lançado de molho em vinagre
branco, e depois de ferver, se poem a escuma
a seccar. Tambem se faz de outro modo, com
Cochonilha, e Pedra Hume de Roma, tirante a
vermelho. Tem o Carmim a cor muito viva.32

Tais diretivas práticas não o eximem de apresentar ainda


algumas definições conceituais, como:
Historiado - diz-se Bem Historiado, de hum
painel, quando está ajustado com a historia;
e a composiçaõ das figuras está confórme às
acçoens, e ao tempo, em que viviaõ as pessoas,
que na pintura se representaõ.33

No mesmo segundo tomo, João Pacheco trata, num longo


artigo:
152 Da Arquitectura, e varios engenhos, e maquinas,
com os Officios, e Artes conducentes a ella, que
saõ os dos Pedreiros, Alvaneos, Carpinteiros,
Marceneiros, Torneiros, Entalhadores,
Sembladores, e outros taes. Tratta-se dos
Vidraceiros, Oleiros, Moleiros, Atafoneiros, e
do que a Este respeito lhes pertence.34

Sua principal fonte em Arquitetura é Vitrúvio (séc.I a.c.), quer


por citação direta, quer via Garzoni, trazendo também diretamente as
referências de Leon Batista Alberti (1404-1472), Luca Pacioli (1445-
1517), Albrecht Dürer, Marino Bassi Milanese, Andrea Palladio (1508-
1580) e Sebastiano Serlio (1475-1554).35
Convém lembrar que traduções de Vitrúvio e de Alberti para o
português tardariam até as portas do século XXI para serem dadas aos

32
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasti-
cas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.II, p.163.
33
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasti-
cas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.II, p.168.
34
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasti-
cas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.II, pp. 265-363.
35
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasti-
cas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.II, p.265.
O DIVERTIMENTO ERUDITO DE JOÃO PACHECO...

prelos. Não é marco de pouca importância, portanto, uma transcrição


e publicação – em vernáculo do século XVIII – de valores vitruvianos,
como a célebre passagem:
Em summa seis partes se fazem da Arquitectura,
que saõ Ordem: Disposiçaõ: Euritmia:
Symmetria: Decoro: Destribuiçaõ. A Ordem não
he mais, que humma summaria comprehensaõ
das cousas, que se haõ de fazer. A Disposiçaõ
he huma distinçaõ accomodada às partes das
cousas, que se devem obrar; e he como huma
idéa, e figura do edificio, sendo esta de tres
sortes, Cenographia, que he hum pequeno debuxo
da cousa; Orthographia, que he huma Imagem
direta da frente, e da obra, isto he, um modèlo
imperfeito; Cenographia, que he o completo
modelo de todos os lados, e partes da fabrica. A
Euritmia he a graça, e policia da obra. A Symmetria
he a conveniencia, e proporçaõ das partes entre
si. O Decoro he o aspecto emendado do edificio.
A Distribuiçaõ he huma conveniente despensaçaõ
à cerca, do que se lavra, e à possibilidade, do
que edifica; porque de hum modo se fazem os
edificios das Cidades, e de outro os dos campos;
de huma sorte as casas dos pobres, e de outra
sorte os palacios dos ricos.36
153

36
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Es-
colasticas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.II, p.266. No origi-
nal: “Architectura autem constat ex ordinatione, quae graece taxis dici-
tur, et ex dispositione, hanc autem Graeci diathesin vocitant, et eurythmia
et symmetria et decore et distributione quae graece oeconomia dicitur.
Ordinatio est modica membrorum operis commoditas separatim universque
proportionis. […] Dispositio autem est rerum apta conlocatio elegansque
conpositionibus effectus operis cum qualitate. Species dispositionis, quae
graece dicuntur ideae, sunt hae: ichnographia, orthographia, scaenographia.
Ichnographia est circini regulaeque modique continens usus, e qua capiuntur
formarum in solis continens usus, e qua capiuntur formarum in solis area-
rum descriptiones. Orthographia autem est erecta frontis imago modiceque
picta rationibus operis futuri figura. item scaenographia est frontis et laterum
abscedentium adumbratio ad circinique centrum omnium linearum reponsus.
[…] Eurythmia est venusta species commodusque in conpositionibus mem-
brorum aspectus. […] Item symmetria est ex ipsius operis membris conve-
niens consensus ex partibusque separatis ad universae figurae speciem ratae
parti responsus. […] Decor autem est emendatus operis aspectus probatis
rebus conpositi cum auctoritate. […] Distributio autem est copiarum locique
commoda dispensatio parcaque in operibus sumptus ratione temperatio. […]
Alter gradus erit distributionis, cum ad usum patrum familiarum et ad pecu-
niae copiam aut ad eloquentiae dignitatem aedificia alte disponentur. Namque
aliter urbanas domos oportere constitui videtur, aliter quibus ex possessioni-
bus rusticis influunt fructus; non idem feneratoribus, aliter beatis et delicatis.
[…]” In: VITRUVIUS, (Marcus V. Pollio). De Architectura = on Architecture:
books I-V. Trad. Frank Granger. Loeb Classical Library 251. Cambridge: Har-
vard University Press, 1931. l.1, cap.II, §§.1-9.
DANILO MATOSO MACEDO

Pacheco menciona então as ordens toscana, dórica, coríntia,


compósita, e, indo além de Vitrúvio, Garzoni ou Figueroa, inclui as
ordens:
Ordem Caryatica he, a que em lugar de colunnas
tem escravos à persiana. Ordem Franceza he
composta de lyrios, ou açucenas, cabeças de
gallos, e outras cousas proprias da Naçaõ; tem
proporçoens Corinthias. Ordem Attica he huma
certa fabrica pouco alta, que se faz debaixo de
outras. Ordem Gothica he hum antigo modo de
edificio, que se usava na construcçaõ da maior
parte das Igrejas Cathedraes; tem colunnas,
ou muito mociças, ou muito delgadas, com
capiteis sem medida, e totalmente differente dos
antigos.37

Mais adiante, ao tratar de colunas, o autor detalharia, em


módulos, as proporções toscanas e dóricas, deixando de dar maior
explicação das demais, embora recomendando diretamente, para tais
elementos, a consulta de: Vitrúvio, Giacomo Barozzi da Vignola,
154 Sebastiano Serlio, Andrea Palladio Giuseppe Viola Zanini, Pietro
Cataneo, Juan de Arfe, Giovani Antonio Rusconi e Vicenzo Scamozzi.38
Após tratar brevemente “Dos Carpinteiros, e maes Officiaes,
que trabalhaõ em madeira”, ocupa-se Pacheco “Dos Alvanéus,
Pedreiros, e coisas que lhes pertencem”.39 À história antiga de Garzoni,
Pacheco acrescenta aqui: detalhes do processo de fabricação da cal e do
gesso, bem como da construção de alicerces e da fabricação de tijolos
(“ladrilhos”). Explica também do ofício dos Pedreiros, ou Canteiros,
e aqui volta a tratar de questões de projeto, pois faz uma descrição
completa da composição das partes de uma igreja em planta e em
elevação:
Sendo a planta de huma igreja, que tem fórma de
cruz, se reparte em quatro partes principaes, que

37
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasticas,
Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.II, p.268.
38
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasticas,
Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.II, p.280.
39
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasti-
cas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.II, p.271.
O DIVERTIMENTO ERUDITO DE JOÃO PACHECO...

saõ, corpo, dous braços, que fazem o cruzeiro; e


a quarta parte he a Capella mòr. O comprimento
desde a porta da Igreja atè ò cruzeiro terá dous
tantos e meio da largura. O comprimento do
cruzeiro terá dous tantos da largura do corpo; e
a largura será de sette partes, de que se compoem
a largura do corpo toda, isto, he, menos uma
parte de toda a largura, dividindo-se em outo
partes. As mesmas sette partes terá a Capella
mòr até os presbiterios, assim de comprimento,
como de largura, ficando em quatro a conta de
lados iguaes. Todo o presbiterio atè o espaldar,
q fica por detraz do Altar mòr terá sómente
de comprimento, naõ de largura, menos duas
partes, que os que tem o cruzeiro, mas a largura
sempre terá as mesmas sette partes; porque
haõ de ir as paredes atè o fim iguaes com a
mesma largura, sem divisaõ. As Capellas do
corpo da Igreja teràõ para dentro metade de
largura do corpo da igreja. Se a abobeda for de
pedra, serào de cantaria as paredes com a sua
grossura competente; e entam haõ de ficar estas
Capellas mais afastadas humas das outras, para
que tenhaõ as paredes mais fortaleza. Sendo de
tijolo a abobeda, nao estarao tao afastadas, mas
sempre as divisoens haõ de ser de cantaria. O 155
numero das Capellas de cada banda naõ devem
passar de cinco, e se forem menos, elegerá o
Arquitecto a largura, confórme a proporçaõ;
mas a altura hade chegar ao meio da altura, que
tiver por toda a parede da Igreja; e por isso se ha
de proporcionar a largura.40

Prossegue o autor em proporções, como alturas das capelas e


do coro, e detalhes como a porta. Explica ainda as “igrejas de colunas”,
dando abertura para a delineação plantas “de cinco lados; outras
sextavadas, outras outavadas”.41
Como se pode advertir, no que concerne ao estilo
arquitetônico, Pacheco é bastante permissivo – embora sempre atendo
aos cânones clássicos – como atestam os adjetivos escolhidos para esta
bela passagem:

40
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasti-
cas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.II, p.275.
41
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasti-
cas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.II, p.276.
DANILO MATOSO MACEDO

Figura 2: Descrição de organização da planta de uma igreja, segundo Pacheco.


Fonte: Desenho do autor.

Nos frontispicios, para mais bizarria, e fachada,


sendo a sua elevação de muita altura, se poderá
seguir com todas as colunas das cinco ordens;
que para mostrar mais luzimento, e fermosura,
nao será defeito, ou dezacerto fazer destas
partes hu todo em semelhante obra; porque a
156 variedade, bem ajustada, causa à mesma arte
mais fermosura; e he approvado dos melhores
Mestres. O que supposto se devem advertir
primeiro a fortaleza, que tem cada huma das
colunnas, confórme a sua ordem, e as que se
avantajão mais em dilicadezas; e como a Toscana
he mais forte, sempre esta será a primeira
ordem, que embaixo se assente; às quaes
colunnas seguiràõ logo por cima as Doricas,
dahi as Jonicas, e mais para cima as Corinthias;
e por cima destas as Compostas; assim ficaráõ
com propriedade; porque se sobre as Doricas se
pozerem as Toscanas; ou sobre as Compostas
as Corinthias, seria hum defeito com grande
impropriedade. E dado, que o edificio ficasse
forte, não teria tanta fermosura, nem ficaria tão
airoso.42

A escolha de palavras, aliás, é o cerne do vocabulário de


441 termos de arquitetura ao final do Articulo. Como já foi dito, a
própria delimitação do tema, é uma valiosa porta de entrada para as
circunscrições dos campos profissionais da época – se avaliada com

42
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasti-
cas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.II, p.279.
O DIVERTIMENTO ERUDITO DE JOÃO PACHECO...

o devido espírito crítico. Vejamos alguns agentes da área de projeto e


construção, seguidos de seus produtos:
Architecto - he o que faz plantas, e desenhos dos
edificios; ou o mestre das obras; e o que sabe, e
expoem a Arte de edificar.
Artifice - he obreiro.
Artista - he destro em alguma arte.
Mestre - he artifice, que sabe bem o seu officio;
o que examina as obras do seu officio. Mestre das
obras, he o director de qualquer obra de pedra,
e cal.
Official - he todo o artifice de obras mecanicas, e
dos que trabalhaõ.
Delinear - he lançar riscos, ou linhas, para
representar uma cousa, que se quer fabricar, ou
tomar: lançar a planta de hum edificio. Daqui
Delineação : Delineado.
Desenhar - no papel he idear, e formar hum risco
para alguma Arquitectura.
Debuxar - He riscar com lapis, ou penna, o que
se obra na pintura, sem dar cor, nem sombras.
A’s vezes he pintar.
Debuxado, Debuxo - Delineaçaõ, primeiras
figuras, e tudo, o de que consta o papel riscado
sómente. 157
Desenho - [pintura:] He a idea, que o Pintor fórma
para representar alguma imagem; ou tomar
as justas medidas, proporçoens, &c. fórmas
exteriores, que devem ter objectos, que se
fazem à imitaçaõ da natureza. [arquitetura:] he o
formar, e tomar as justas medidas, proporçoens,
e fórmas exteriores, que devem ter os objectos,
que se fazem à imitação da natureza.
Edificio - he obra de pedra, e cal. Daqui Edificar.
Fabrica - he composiçaõ de edificio; ou a casa,
artificio, lavor, feitio.
Fabricador - he o Author do edificio, o Arquitecto.
Daqui Fabricante.
Risco - he a delineaçaõ da obra, que se quer fazer.
Daqui Riscar.43

Conforme aqui demonstrado, o Divertimento Erudito de João


Pacheco esteve presente no Brasil, e especificamente em Vila Rica,
durante a segunda metade do século XVIII. Seu caráter quase religioso
facilitava sua circulação entre a elite letrada da época que se envolvia,
mesmo que indiretamente, na concepção ou execução das edificações

43
PACHECO. Divertimento Erudito para os curiosos de noticias Historicas, Escolasti-
cas, Politicas, e Naturaes, Sagradas, e Profanas, t.II, p.290-312.
DANILO MATOSO MACEDO

e obras de arte. Eram os bispos, padres, cônegos, desembargadores,


ouvidores, juízes, advogados que as encomendavam, licitavam,
fiscalizavam e avaliavam. O conteúdo da obra de Pacheco era carente da
sistematização racional e hierarquizada dos enciclopedistas franceses.
Em sua erudição, algo apartada da prática real dos ofícios, era em muitos
sentidos incompleto.
Porém, impressos como o Divertimento Erudito traziam para
a América Portuguesa, traduzida em vernáculo, as ideias e valores
de tratadistas europeus da área de arquitetura e arte que talvez aqui
pouco circulassem de outra forma. De fato, têm sido escassas as
comprovações materiais de circulação de alguns autores regularmente
mencionados nas análises das obras construídas: os livros de Alberti,
Palladio, Cataneo, e mesmo Vitrúvio, parecem ter sido raros nestas
terras, fazendo-se presentes em João Pacheco e tantos outros autores
que, por serem “leigos”, talvez sejam pouco visitados pelos estudiosos
da história da arte e da arquitetura. Assim como nossos artífices, tais
intérpretes acrescentavam algo de si ao traduzir o que liam, e por tal
contribuição devem ser creditados.
158