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G. J.

CREUS
Itaipu e os barrageiros; A saga do
petróleo, e Monteiro Lobato; A
Ciência e Dom Pedro II; Juscelino e
Brasília; Os alemães e Gisele
Bündchen; Garrincha e o futebol;
Chiquinha Gonzaga e o Carnaval,

BRASIL
INOVADOR
INOVAÇÃO NO BRASIL

UMA HISTÓRIA CHEIA DE IDEIAS, LUTAS,


DIFICULDADES E TRIUNFOS, CRESCENDO NA
ADVERSIDADE (PORQUE O HOMEM NÃO QUER SÓ
FELICIDADE, TAMBÉM PRECISA ADVERSIDADE E
LUTA), ADAPTANDO, EM UM DEMORADO PROCESSO
DE TENTATIVA E ERRO AS POLITICAS SOCIAIS E
ECONOMICAS DE OUTROS PAISES ÀS CONDIÇOES
PARTICULARES DE UM TERRITORIO ENORME E UMA
GRANDE POPULAÇÃO EM CONDIÇÕES MUITO
DESIGUAIS, NA PROCURA PERMANENTE POR ORDEM
E PROGRESSO.
UMA HISTÓRIA QUE NÃO É PERFEITA. MAS QUE É O
QUE TEMOS E SEMPRE VAMOS TER E PODEMOS
LEMBRAR COM ORGULHO.
COMO EM QUALQUER HISTÓRIA, O IMPORTANTE
NÃO SÃO AS PESSOAS MAS AS IDEIAS.
Nota preliminar
Este livro trata de inovação, mas está focado no passado,
descrevendo fatos históricos inovadores que ocorreram. Pode
parecer curioso que algum capítulo fale do futebol de Garrincha ou
das marchinhas de Chiquinha Gonzaga, quando inovação, hoje,
parece estar reservada à alta tecnologia e à inteligência artificial.
Mas futebol e carnaval são assuntos de grande importância para
muitas pessoas. Lembro bem como em 1958 o mundo ficou
admirado com Pelé e Garrincha e com a decisão de transladar a
capital do Brasil para um local que se imaginava no meio da
floresta. A Argentina se apresou a contratar futebolistas e grupos de
samba brasileiros e a copiar as ideias de Juscelino.
O Brasil tem conseguido inovar e obter resultados positivos em
muitas áreas e com isso, gerar uma autoestima que integra
espiritualmente uma população ainda (infelizmente) mal integrada
economicamente. Como nos lembram os livros de autoajuda para
empreendedores, inovação e empreendedorismo são estados de
espírito. Aqui descrevemos algumas situações em que os estados
de espírito da nação, adequadamente organizados e conduzidos,
levaram a resultados felizes: o Carnaval, no Rio e em todo o país, o
Futebol da Copa de 1958, a construção de Brasília e outros mais.
O Brasil, um assentamento português na costa de um enorme
território povoado por aborígenes, foi completado pela miríade de
estrangeiros que se incorporaram a uma população que continua a
crescer. Sem a unidade de raça e crenças que existe em países
como Japão ou Noruega, realiza a sua união pelo ato consciente do
seu próprio povo, numa história de lutas e triunfos que vale a pena
lembrar.
Há também nessa história exemplos de erros e abusos
imperdoáveis, mas nossa ênfase é outra. No capítulo sobre a saga
do petróleo, mencionamos um livro importante: Petrobrás, Orgulho
e Vergonha, de Roberta Paduan. Orgulho pelo trabalho dos
técnicos da Petrobrás que perfuraram até 8.000 metros no mar;
vergonha para a corrupção que roubou da nação estradas, escolas
e hospitais e gerou uma enorme crise econômica e política.
Sabemos o que fazer com os culpados da vergonha. Mas
escolhemos escrever sobre o orgulho porque é ele que vai estimular
novos avanços. Aprender com os erros é doloroso. Muito
melhor é aprender com os acertos.

Agradecimentos
Em 1976, fugindo do caos na Argentina, fui aceito na UFRGS pelo
professor José Serafim Gomes Franco, a quem nunca poderei
agradecer o bastante. Trabalhei muitos anos em ensino e pesquisa
na área de mecânica dos materiais e conheci colegas e alunos
brilhantes, com os quais aprendi muito mais do que ensinei.
Entre 2012 e 2016, já aposentado, trabalhei como professor
visitante nacional sênior na UNILA (Universidade Federal da
Integração Latino-americana). Fui lá estimulado por meu amigo
Cesar Cusatis e por Helgio Trindade, idealizador e primeiro reitor
da UNILA. Conheci lá colegas da maior competência nas suas
respectivas áreas, aprendi sobre integração e desenvolvimento na
América Latina, conforme as ideias do professor Nilson Araújo de
Souza e comecei a pensar na relação entre Pesquisa e
Desenvolvimento.
Com dois colegas, os brilhantes engenheiros Paulo Augusto de
Lima Torres e Eduardo Giugliani escrevemos o libro Pesquisa,
Inovação, Desenvolvimento, publicado em 1918 pela Editora CiKi.
Esse livro foi escrito para mostrar, através de casos de sucesso no
Brasil e em outros países como Grã-Bretanha, Estados Unidos e
Japão, que a pesquisa aplicada, voltada para as necessidades do
mercado, pode gerar inovação transformando o conhecimento
científico em valor para a sociedade através do desenvolvimento e
da inclusão social. Casos brasileiros na indústria aeronáutica,
petrolífera e siderúrgica são analisados através de aspectos
históricos, estratégicos e culturais, procurando mostrar os fatores
críticos de sucesso para a pesquisa aplicada de base tecnológica.
O presente texto, que é parte de um projeto de pesquisa para o
CNPq, é uma consequência do anterior, focado agora na inovação
social.

Fontes
A maior parte dos textos nesta monografia provém de outros
autores. Aliás, o maior valor deste trabalho é não ser original. Todas
as informações, comentários e ideias provém de colegas
interessados no Brasil e na sua história. As ênfases e a escolha dos
personagens principais podem ser diferentes.
Muito material vem diretamente do Wikipédia, que o oferece
generosamente, sem reclamar reconhecimento. Citações
importantes incluem em geral suas fontes. Em outras, a indicação
do autor ou do texto será suficiente para encontrar no Google a
obra original.
Montaigne, para justificar seus empréstimos (que hoje os
acadêmicos mais requintados chamariam de plágios) se compara a
uma abelha que extrai pólen das flores dos outros para elaborar o
próprio mel. Vou a empregar o mesmo argumento. Repetir um texto
é uma homenagem secreta mas sincera ao primeiro autor. O pintor
Pablo Picasso disse: o verdadeiro artista não se inspira em outros
artistas: os copia.

Michel de Montaigne
INTRODUÇÃO
Quem controla o passado controla o futuro; quem
controla o presente controla o passado.
George Orwell

A importância das narrativas


Toda cultura tem histórias fundadoras, histórias sobre quem somos,
o que acreditamos, de onde viemos, como chegamos aqui. Essas
histórias são extremamente importantes para agrupar identidade e
transmissão cultural (valores, metas, crenças, costumes). Mas a
narrativa não importa apenas para grandes grupos de pessoas; é
extremamente importante para grupos menores de pessoas
também, como famílias, bem como a nível individual.
A coisa mais importante que você pode fazer por sua família é
desenvolver uma narrativa familiar forte. Indivíduos que sabem mais
sobre suas famílias tendem a fazer melhor quando confrontados
com desafios. Quanto mais as crianças sabem sobre a história de
sua família, mais forte o seu senso de controle sobre suas vidas,
maior a sua autoestima. As narrativas mais saudáveis e benéficas
destacam as lutas da família e seus sucessos, mas colocaram a
maior ênfase na resiliência familiar, em sua disposição de ficar
juntos através de tempos bons e ruins.

Narrativas no nível do grupo e da organização


As histórias que nossos líderes nos contam importam,
provavelmente quase tanto quanto as histórias que nossos pais nos
contaram quando crianças, porque nos orientam para o que é, o
que poderia ser e o que deveria ser; as visões de mundo que
possuem e aos valores que consideram sagrados. Nossos cérebros
evoluíram para esperar histórias com uma estrutura particular, com
protagonistas e vilões, uma montanha a ser escalada, uma batalha
a ser vencida.
Nossa espécie existiu por mais de 100.000 anos antes dos
primeiros sinais de alfabetização, e outros 5.000 anos se passaram
antes que a maioria dos seres humanos soubesse ler e escrever.
As histórias orais eram a principal forma que os nossos
antepassados tinham para transmitirem conhecimentos e valores.
As crianças anseiam por histórias de ninar e os livros sagrados das
grandes religiões são escritos em forma de parábolas.
Há diversas maneiras de escrever uma história, e ocorrem muitas
controvérsias quando se trata de histórias centradas na política.
Isso não acontece quando se trata da história da ciência, que fala
essencialmente em triunfos e avanços e se centra nos vencedores.
Teorias erradas (o modelo heliocêntrico, a terra plana, a geração
espontânea) e seus autores ou defensores são mencionados
somente para mostrar sua estupidez e reforçar a importância das
teorias que as substituíram. Às vezes interesses econômicos e
políticos interferem também com observações científicas: tal como
nos casos da hipótese heliocêntrica que foi questionada pela Igreja
e a do aquecimento global negado atualmente por alguns grupos.
Essas ideias estão alojadas em mentes muito pequenas e é melhor
que continuem ali.
Mas a interpretação de fatos econômicos e políticos depende
frequentemente de interesses pessoais. Cada grupo ou orientação
defende propostas formuladas com bases fáticas fracas ou
inexistentes. Se as propostas aplicadas não alcançam os resultados
prometidos, há sempre uma reserva de culpados nacionais ou
internacionais para explicar o insucesso.
E as pessoas podem criar a sua própria desinformação.
Pesquisadores em EUA descobriram que, mesmo quando as
pessoas recebem informações numéricas precisas, elas tendem a
se lembrar desses números de forma errônea para encaixá-los em
crenças pessoais. Por exemplo, a maioria das pessoas acredita que
o número de imigrantes mexicanos nos Estados Unidos esteja
sempre crescendo, embora, na verdade, o número tenha caído de
12,8 milhões em 2007 para 11,7 milhões em 2014. Os resultados
mostraram que quando interrogada depois de receber a informação
correta, a média das pessoas invertia os números dizendo que o
número de imigrantes mexicanos aumentara em 900 mil de 2007 a
2014. E esses erros de memória tendem a ficar cada vez maiores à
medida que são transmitidos entre as pessoas.
Ou seja, cada pessoa ou grupo entende a história e a realidade
conforme a sua própria visão do mundo. Marx, que era muito
astucioso, publicou Das Kapital em duas versões um poco
diferentes para os leitores ingleses e os leitores franceses.

O Antigo Testamento e o Mein Kampf

Uma narrativa importante é a do povo judeu.


De acordo com as escrituras, por volta de 1800 a.C., Abraão recebeu
um sinal de Deus para abandonar o politeísmo e para viver em
Canaã. Isaque, filho de Abraão, teve um filho chamado Jacó. Este
lutou com um anjo de Deus e teve seu nome mudado para Israel. Os
doze filhos de Jacó deram origem as doze tribos que formam o povo
judeu. Por volta de 1700 a.C., o povo judeu migrou para o Egito, e
foram escravizados pelos faraós por 400 anos. A fuga do Egito foi
comandada por Moisés, que recebeu as tábuas dos Dez
Mandamentos no monte Sinai. Durante 40 anos ficaram
peregrinando pelo deserto, até receber um sinal de Deus para
voltarem para a terra prometida, Canaã. Jerusalém foi transformada
num centro religioso pelo rei Davi. Após o reinado de Salomão, filho
de Davi, as tribos dividiram-se em dois reinos: Reino de Israel e Reino
de Judá. Em 721 a.C., começou a diáspora judaica com a invasão
babilônica. No século I, os romanos invadiram a Palestina e
destruíram o templo de Jerusalém. No século seguinte, destruíram a
cidade de Jerusalém, provocando a segunda diáspora judaica. Após
estes episódios, os judeus espalharam-se pelo mundo, mantendo a
sua cultura e a sua religião. Em 1948, o povo judeu retomou a
unidade após a criação do estado de Israel.
Diz-se que a história é escrita pelos vencedores, mas nem sempre
é assim. Histórias escritas pelos vencidos podem ser muito
importantes. Por exemplo, a história contada por Hitler no Mein
Kampf, para explicar as causas da derrota da Alemanha na
primeira grande guerra.
Na versão do Mein Kampf, o ponto de vista de Hitler é o da
supremacia ariana, conseguida pela limpeza da raça sem presença
de judeus e outras raças inferiores. Declara que os judeus
causaram propositalmente a queda da Alemanha na Primeira
Guerra Mundial. O setor bancário alemão era controlado por judeus.
Os banqueiros judeus na Alemanha e em outros países fizeram
grandes empréstimos de dinheiro para as nações de ambos os
lados da guerra, mas, enquanto a guerra avançava, os
conspiradores judeus começaram a diminuir o crédito da Alemanha
e o fluxo de dinheiro secou gradualmente. Sem financiamento
adequado para a sua máquina de guerra, a Alemanha foi derrotada.
Em tempos normais, esta acusação absurda teria pouco efeito
sobre o povo alemão, inteligente e culto, mas na Alemanha
humilhada os judeus eram um alvo fácil para a suspeita. Assim, eles
se tornaram o bode expiatório para a derrota na Primeira Guerra.
A história do Mein Kampf é a história de uma derrota e levou a
uma derrota ainda maior. A história dos judeus é uma história
de dificuldades, mas de sucesso. Assim será a história que
queremos escrever.

Políticas econômicas e sociais

Um dos grandes entraves para que um país conduza uma política


racional, guiada pelo bom senso e pelas melhores práticas
conhecidas, pragmática e capaz de corrigir os próprios erros, é que
as políticas econômicas e sociais são poderosamente influídas por
narrativas políticas em conflito. Na disputa pelo poder, cada grupo
político quer demonstrar para o eleitorado que a condução dos seus
adversários foi mal-intencionada e ruinosa.

Em pesquisas científicas, o efeito de cada variável é estimado


mantendo as outras constantes. Mas isso é praticamente impossível
quando analisamos uma nação. Os efeitos bons ou ruins de
políticas corretas ou equivocadas podem acontecer com diferentes
defasagens de tempo e intensidades, ao capricho dos inúmeros
fatores que as autoridades não controlam: o quadro político, a
economia global, os juros internacionais, eventos climáticos e
desastres naturais, escândalos, assassinatos, notícias falsas.

Essa dificuldade em discernir causa e efeito em políticas


econômicas e sociais aumenta ainda mais o poder das narrativas
políticas. O eleitorado é induzido a acreditar que determinados
programas ou visões ideológicas são corretos apenas porque o
grupo político que se beneficia destas narrativas foi mais eficiente
em vendê-las, ou teve mais sorte. Isto dificulta a chegada ao poder
de forças que representam o caminho da racionalidade.

Podemos, eventualmente, olhar com horror para os erros do


passado e decidir mudar para melhor. Mas essa mudança só pode
ser feita no futuro e inspirada em exemplos positivos. A nossa
intenção, então, é fazer aqui uma narrativa de fatos históricos
suficientemente afastados no tempo e geralmente enxergados
como positivos, para tirar lições do passado e propostas para o
futuro: mudanças inovadoras, ideias e procedimentos que deram
certo. O passado lembrado com orgulho e usado como
inspiração.

Também, e isto é da maior importância, manter-nos atentos às


notícias sobre novos descobrimentos científicos e novos avanços
tecnológicos, porque isso é o que está moldando o mundo
interconectado de amanhã, e vai determinar a situação em que
estaremos no futuro, muito mais que as decisões locais sobre
orientações e lideranças políticas.
Escreveu o genial R. Buckminster Fuller no Manual de operação
para a espaçonave terra:
O leitor pode querer, muito apropriadamente, perguntar-me como
vamos resolver o cada vez mais perigoso impasse dos políticos e
dogmas ideológicos mundialmente opostos. Respondo: será
resolvido pelo computador. O homem deposita crescente confiança
no computador; observe-se a despreocupação dos passageiros
durante uma aterrissagem na neblina e na noite. Enquanto nenhum
político ou sistema político jamais se poderá render aos seus
adversários e opositores, todos os políticos podem render-se, como
de fato, render-se-ão, às capacidades seguras de controle de voo
dos computadores de proporcionar a toda a humanidade uma feliz
aterrissagem. Assim sendo, projetistas, arquitetos e engenheiros,
tomem a iniciativa. Vão ao trabalho e, sobretudo, cooperem e não
se detenham os uns aos outros, nem tentem lucrar às costas dos
outros. Qualquer sucesso em tal tentativa terá cada vez mais curta
duração. Essas são as regras sinergéticas que a evolução está
empregando e tentando tornar clara para nós. Não são leis feitas
pelo homem. São leis infinitamente adaptáveis da integridade
intelectual regendo o universo.
FUTEBOL BRASILEIRO EM 1958
Pele, Garrincha, João Havelange, e
Nelson Rodrigues.
Ordem e disciplina em um exército são mais
importantes do que a pura coragem.
Niccolo Machiavelli

Os indisciplinados são escravos dos seus humores,


apetites e paixões.
M. Montaigne.

Quando alguém diz ‘isso não pode ser feito’ está


falando dos seus limites, não dos teus.
F. D. Roosevelt

Uma organização adequada que deveu muito a João Havelange


foi o segredo do sucesso em 1958, que acabou com o complexo de
vira-lata de que fala Nelson Rodrigues. Também, sem dúvida, a
presença de Garrincha e Pelé.
Garrincha e Pelé não são reproduzíveis, mas a organização sim o
é.

A copa de 1958 na Suécia


A derrota frente aos uruguaios, na última batalha em 1950, ainda
faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma
humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar.
Dizem que tudo passa, mas a dor u dos 2 x 1 continuou. Custa crer
que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O
tempo passou em vão sobre a derrota. Aos berros, Obdulio
arrancou, de nós, o título.

Mas depois veio 1958. E o mundo ficou deslumbrado e começou a


imitar o futebol brasileiro.
Em 1958, o Brasil foi para a Copa do Mundo com um plano de
trabalho neuroticamente detalhista. Foram previstos todos os
passos da seleção nos 75 dias em que ela estaria reunida: de 7 de
abril (data da apresentação dos convocados) a 29 de junho (jogo
final da Copa — se o Brasil chegasse lá). O plano incluía desde o
organograma de viagens, transportes e treinamentos no Brasil e na
Suécia (dia, hora e local de tudo) até o número de gramas e o teor
de gordura dos bifes em cada refeição. Para isso já havia gente
trabalhando há meses, desde a presidência de Sílvio Pacheco na
CBD.

Em meados de 1957, por exemplo, o médico Hilton Gosling


visitara as cidades-sede da Copa para escolher o hotel mais
adequado em todas elas. Os critérios eram o conforto das
acomodações, a proximidade de um campo de treinamento e uma
certa distância em relação ao centro da cidade. Tudo isso era
novidade para a seleção — nas Copas anteriores, o Brasil
embarcava e era um milagre que encontrasse o hotel que um
burocrata da Fifa lhe destinara. Gosling procurara saber até a
temperatura esperada no momento em que o Brasil entrasse em
campo em cada cidade da Suécia.
Gosling e Pelé

Já haviam sido feitas reservas até para o voo de volta, prevendo-se


três hipóteses: o Brasil ser eliminado nas oitavas-de-final (regresso
em 16 de junho), o Brasil ser eliminado nas quartas-de-final
(regresso em 20 de junho) e— não custava sonhar — o Brasil
chegar à partida final (regresso em 1o de julho). A CBD, desta vez,
não deixaria fios soltos.

Os responsáveis de honra por essa organização eram João


Havelange, recém-eleito presidente da CBD (derrotando Carlito
Rocha por 185 votos a dezenove) e seu vice-presidente, Paulo
Machado de Carvalho. O dr. Paulo, patrono do São Paulo e ex-
presidente da Federação Paulista, levava uma grande vantagem
sobre a maioria dos cartolas: não precisava do futebol para
enriquecer (já era rico) e não tinha intenções de eleger-se deputado
(era proprietário da TV Record, das rádios Record e Panamericana
de São Paulo e de uma imensa cadeia de rádio). Aceitara ser o
chefe da delegação na Suécia, mas já avisara que não era homem
de aventuras. O futebol tendia a ser uma bagunça e, na seleção, ele
queria ver tudo funcionando direito, como em suas empresas. Aos
57 anos, dr. Paulo era um homem jovial, conversador, de fácil trato.
Se entrasse numa sala povoada por cinquenta desconhecidos, em
meia hora todos já estariam abrindo os peitos como um jornal e lhe
contando suas vidas.
Carlos Nascimento, o homem escolhido por Havelange e Paulo de
Carvalho para ser o supervisor da seleção, era o contrário:
mantinha o mundo a um braço de distância. O mundo, em troca, o
achava um dos sujeitos mais antipáticos que já usara terno e
gravata. Nascimento, então dirigente do Bangu, era ligado a
Havelange pelo Fluminense, do qual fora jogador e treinador. Tinha
54 anos e seu fanatismo pela eficiência era do tamanho de sua
vivência no futebol. O plano de trabalho da seleção era a sua cara:
rígido e amarrado em cada item.

A seleção treinaria durante quarenta dias em Poços de Caldas


(MG), Araxá (MG) e no Rio, e jogaria dois amistosos contra o
Paraguai e dois contra a Bulgária, no Maracanã e no Pacaembu. Os
amistosos não serviriam apenas para afinar a parte técnica, mas
para a CBD fazer caixa para manter os jogadores na Suécia
enquanto não saísse o adiantamento da FIFA aos países que
disputariam a Copa. As despesas da seleção no Brasil seriam
cobertas por um crédito do governo Juscelino, de 12 milhões de
cruzeiros (80 mil dólares), e pelos recursos da própria CBD. Entre
essas despesas, havia os salários dos jogadores: na seleção eles
receberiam exatamente o que ganhavam nos clubes, mais os
bichos. Isso significava, por exemplo, que Didi custaria
mensalmente à CBD o que passara a custar ao Botafogo: 120 mil
cruzeiros. E Pelé, o que custava ao Santos: 6 mil cruzeiros.

Dias depois, a "comissão técnica" — composta por Feola,


Nascimento, Gosling e Paulo Amaral, responsáveis diretos pelo
time — convocou 33 jogadores, onze dos quais seriam cortados até
o dia do embarque para a Europa. Os convocados se apresentaram
no dia 7 de abril, mas, em vez de pô-los para treinar, a CBD
primeiro encaminhou-os à Santa Casa de Misericórdia, na rua
Santa Luzia, no Rio. Iriam submeter-se a um check-up como nunca
se vira no futebol brasileiro. Durante uma semana, eles foram
virados pelo avesso por clínicos, traumatologistas, neurologistas,
radiologistas, cardiologistas, dentistas, oftalmologistas, otorrinos e
até calistas.

Os exames de Garrincha paralisaram o serviço na Santa Casa: os


médicos saíam de todas as salas para vir admirar suas pernas.
"Estou me sentindo a Lollobrigida...”, ele disse, referindo-se à
italiana Gina Lollobrigida, dona de um dos imortais pares de pernas
do cinema.
Os exames revelaram que, apesar de grotescamente valgo e varo,
Garrincha pisava com uma perfeição de anjo. Hilton Gosling tirara
impressões dos pés dos jogadores e os de Garrincha eram os que
tinham os dedos, o arco e o calcanhar mais lindamente delineados.
Em compensação, tinha o olho direito fora de centro, com a íris
deslocada para a direita — às vezes, de frente, parecia olhar com o
rabo do olho. Uma montanha de material produzido pelos jogadores
foi enviada aos laboratórios para análise e o resultado assustou os
homens da CBD. Ali estava o creme do futebol brasileiro: os
maiores talentos, os maiores salários - e, fisicamente, aqueles
homens pareciam ter acabado de chegar do mato com uma trouxa
às costas e um talo de capim entre os dentes. Era como se os
clubes só se preocupassem com a parte óssea e muscular de seus
atletas.

A maioria tinha vermes e lombrigas para dar e vender; muitos


apresentavam anemia; um deles, sífilis. Havia vesículas precárias,
amígdalas implorando para ser extraídas e jogadores com
problemas crônicos de digestão e circulação. Mas o pior era o
estado dentário de quase todos: Oreco, lateral-esquerdo do
Corinthians, teve de arrancar sete dentes — ou os cacos que
restavam deles; Gilmar, galã e goleiro do Corinthians, quatro; Pepe,
ponta-esquerda do Santos, três, além de passar por uma cirurgia
geral das gengivas; o próprio Garrincha deu adeus a mais um dente
— já perdera quase metade do teclado superior esquerdo.
Os dentistas se atropelavam na Faculdade de Odontologia para dar
conta do trabalho. Entre os 33 jogadores, havia 470 dentes com
problemas - uma média de quase quinze por jogador! O total de
extrações chegou a 32, perfazendo uma dentadura completa. E não
porque a CBD quisesse que eles sorrissem bonito na fotografia. As
seleções do passado nunca haviam tomado essa precaução - e os
focos infecciosos iam doer na Europa. O dentista da seleção, o dr.
Mário Trigo Loureiro, sofria de uma incurável “joie de vivre”.
Contava uma média de trinta piadas por hora, incluindo as
gargalhadas, e tornava um tratamento de canal mais hilariante que
a "PRK-30”. Os jogadores não paravam de rir, mesmo com a boca
cheia de ferrinhos. Quando a seleção viajou para Poços de Caldas
e Araxá, Trigo seguiu com ela, levando o boticão e as piadas. O
único a encontrar uma explicação para a inestancável alegria do
dentista foi Garrincha:
"Claro. Não é ele que senta na cadeira."
Orlando, zagueiro do Vasco, e Garrincha não foram com os
companheiros para Poços de Caldas. Ficaram no Rio, extraindo as
amígdalas na Policlínica de Copacabana. As de Garrincha eram do
tamanho de bolas de gude e já deveriam ter sido operadas pelo
Botafogo dois anos antes, desde que o dr. Santamaria
diagnosticara os focos. Mas Garrincha sempre conseguira deixar
para outro dia e, no dia marcado, não aparecia.
Mas, na seleção, o médico da Policlínica, dr. Antônio da Costa
Cruz, falou grosso: “Ou opera ou não joga." Pela primeira vez,
Garrincha curvou-se a um poder maior e abriu a boca para receber
a assustadora agulha da anestesia. Surpreendentemente, não teve
medo. Submeteu-se com indiferença à agulhada na garganta e ao
estrangulamento da primeira amígdala. O sangue esguichou como
um chafariz da praça Paris e ele nem piscou. Com a segunda
amígdala, a mesma coisa. Depois divertiu-se com uma pilha de
potinhos de sorvete de creme.

Garrincha perdeu muito sangue na operação, emagreceu quatro


quilos e só se apresentou dias depois no Grande Hotel de Araxá,
com uma palidez de necrotério. Mas até brincou: "Realizei um
sonho de criança — tomar sorvete depois de operar a garganta."

A minitemporada em Poços de Caldas e Araxá fora planejada para


desintoxicar os músculos dos jogadores, apresentar os paulistas
aos cariocas — como se eles não se cruzassem todo ano no torneio
Rio-São Paulo - e começar a preparação física. As atrações nas
duas cidades eram as saunas e os passeios de charrete puxada a
bode nas proximidades do hotel. O único exercício a ser praticado
na horizontal era dormir.
Em Poços de Caldas, essa programação sofrera um abalo sísmico
com a chegada de duas beldades regionais, uma morena e uma
loura, que também se hospedaram no Palace Hotel e no mesmo
andar que os jogadores. A olho nu, poderiam ser duas normalistas
de férias, embora fosse abril e todos os colégios estivessem
abertos. Mas, assim que apareceu no jardim do
direto para o Rio. O gerente cedeu à ira de Nascimento e as moças
não ficaram no hotel.

Até 1958, era voz corrente nos botequins que, quando se tratava de
Copa do Mundo, o jogador brasileiro era frouxo. As derrotas para o
Uruguai em 1950 e para a Hungria em 1954 pareciam justificar essa
crença: não tínhamos "fibra" para jogos decisivos. O curioso era
que, quando excursionavam com seus clubes, os jogadores não
tremiam — talvez porque os jogos fossem amistosos e as
excursões, quase clandestinas. Mas a Copa do Mundo era a valer
dois pontos e toda a nação ficava ao pé do rádio. Talvez por isso,
assim que vestia a camisa nacional, o jogador brasileiro derretia-se
diante do europeu como um Chicabon ao sol. Alguns passavam mal
de véspera, com dor de barriga; outros sentiam frio; e ainda outros,
para provar que não tremiam, descontrolavam-se na violência em
campo. Um mal disfarçado racismo atribuía essa falta de "fibra" ao
coquetel racial brasileiro — como se só os jogadores negros e
mulatos tremessem. Para prevenir-se desse problema na Suécia, o
plano de trabalho da CBD em 1958 incluiu, desde o começo, uma
figura inusitada na seleção: um psicólogo.

Chamava-se João Carvalhaes, tinha quarenta anos e não era


exatamente um psicólogo, mas um sociólogo licenciado em
psicologia — um psicotécnico. Sua função seria submeter os
jogadores a testes de "avaliação de inteligência e equilíbrio
psicológico”, como fazia com os candidatos a motorista e cobrador
dos ônibus e bondes da CMTC (Companhia Municipal de
Transportes Coletivos) de São Paulo, da qual era funcionário.
Apesar desses antecedentes, Carvalhaes não era de todo estranho
ao futebol. Em 1954, Paulo Machado de Carvalho levara-o para
aplicar os mesmos testes nos jogadores do São Paulo e, depois,
nos candidatos a árbitros e bandeirinhas da Federação Paulista.
Havia um je-ne-sais quoi de artista em Carvalhaes: estava sempre
com uma barba de dois dias e, embora fosse um enviado especial
de Freud à seleção, fisicamente lembrava o ex-governador paulista
Jânio Quadros, só que sem caspa.

Nominalmente, os testes serviriam para medir o "nível cultural,


índices de tensão, reflexos e coordenação motora e níveis de
impulsividade e agressividade” dos jogadores. Em 1958, esse
vocabulário impressionava pela complexidade e exigia várias idas
ao dicionário. Os psicólogos em geral ainda eram vistos como
médicos para birutas ou coisa pior. Mas, por trás do psicologuês, os
testes encomendados pela CBD destinavam-se a uma coisa
simples: sondar quais jogadores poderiam tremer na Copa —
embora tenha ficado combinado que esses testes serviriam apenas
como indicadores para a comissão técnica. Não teriam poder de
guilhotina sobre nenhum jogador.
Os testes foram aplicados na Santa Casa, no Rio, e na CMTC, em
São Paulo. Alguns exercícios consistiam em o jogador completar
figuras pela metade ou desenhar o que lhe viesse à cabeça e dizer
a Carvalhaes o que o desenho significava. Garrincha foi mal em
todos. Já fracassou ao preencher a ficha: na linha onde deveria
escrever sua profissão, classificou-se como atreta. Os testes o
deram como de instrução primária, inteligência abaixo da média e
grau de agressividade zero. Num máximo de 123 pontos, fez
somente 38, segundo Carvalhaes. Não poderia ser motorista de
ônibus.
O de Pelé também foi ruim. Pelé mostrou grande habilidade motora,
mas Carvalhaes atribuiu-lhe apenas 68 pontos – implicou com sua
letrinha desenhada, tipo caderno de caligrafia — e o definiu assim:
“Pelé é obviamente infantil. Falta-lhe o necessário espírito de luta. E
jovem demais para sentir as agressões e reagir com a força
adequada. Além disso, não tem o senso de responsabilidade
necessário ao espírito de equipe “Não acho aconselhável o seu
aproveitamento”.
Em Poços de Caldas, numa brincadeira com os colegas de seleção,
pediram-lhe o nome de uma fruta que começasse por M, e Pelé
disse sério: “Minduim”. Os jogadores viviam perguntando-lhe
maldosamente se já se acostumara a viajar de avião, apenas para
ouvi-lo responder: “Não. Eu não me adapito”. Ainda levaria algum
tempo para que relaxasse e começasse sua brincadeira favorita nos
vôos: guerra de travesseiros com os colegas. Era natural que
Carvalhaes, confiante no rigor científico de seus psicotestes,
desconfiasse da maturidade de Pelé.

Uma das funções de Carlos Nascimento era manter os jogadores


bem longe dos empresários italianos e espanhóis que iriam rondar
as concentrações da Copa. Na Suécia, Nascimento daria conta do
recado, rosnando para os empresários à simples aproximação. E,
na Itália, só fizera piorar: os jornais punham o seu nome nas
manchetes e falavam em cifras siderais. Era inevitável que
Mazzola, dezenove anos, ficasse com a cabeça cheia de vento — o
que parecia já estar acontecendo. Para cada gol que fazia, perdia
dez. Como seria quando, mesmo sem querer, resolvesse se poupar
e não entrar nas bolas divididas?
E, a partir de agora, era tudo ou nada. De Milão, a seleção partiu no
dia 2 de junho, num Convair da linha escandinava SAS para
Gotemburgo, na Suécia. No Brasil, 60 milhões de torcedores,
ligados a 8 milhões de aparelhos de rádio, já sentiam as mãos
encharcadas. Mas, prevenindo-se contra a frustração, rosnavam
pelas esquinas que seria mais um fracasso e que o Brasil não
passaria da primeira etapa, que eram as oitavas-de-final.
Se, em condições normais, já não haveria muitas esperanças, desta
vez ainda seria mais difícil, porque o Brasil caíra no pior grupo da
Copa, o mais duro e injusto: Áustria, Inglaterra e URSS. A Áustria
não era boba, sabia jogar; a Inglaterra era temível, tremíamos
diante dela; e a URSS tinha o "futebol científico”, que vinha
ganhando de todo mundo. A derrota, a eliminação e a vergonha
poderiam estar em qualquer um desses jogos, se não nos três.
Os jogadores tinham sido proibidos de embarcar levando pandeiros,
cuícas, reco-recos. O que estava indo para a Suécia era a seleção
brasileira, não uma escola de samba. O regulamento disciplinar da
seleção era pior que o de um quartel. Continha quarenta itens e o
Carlos Nascimento obrigara todos os jogadores a lê-lo e assiná-lo-
para que depois ninguém dissesse que “não sabia”

Era proibido descer para o café da manhã sem estar barbeado.


Proibido andar de cueca, toalha, pijama, sandália o tamanco pelos
corredores dos hotéis. Proibido fumar enquanto estivesse vestido
com o uniforme. E em campo, as camisas deviam estar para dentro
dos calções.
Era proibido falar com a imprensa sobre assuntos internos da
seleção. Ou sobre qualquer assunto fora dos horários estipulados
para atender os repórteres. Exemplares de jornais e revistas
brasileiros na concentração, nem em sonho. Havia dia marcado
para se telefonar para o Brasil (uma vez por semana, três minutos
por jogador). Era necessário evitar que os problemas domésticos
interferissem na cabeça dos craques.

A concentração era o Tourist Hotel, em Hindas, um lindo balneário


entre Gotemburgo e Boras. O hotel, escolhido um ano antes pelo
Dr. Gosling, tinha dois campos de treino: um nas próprias
dependências e outro a cinco quilômetros, ao qual se chegava por
uma estrada através de um bosque em glorioso Agfacolor. A frente
do hotel tinha janelões de vidro nos dois andares e a paisagem de
lagos e pinheirais abria-se dia e noite à admiração dos jogadores. A
paisagem humana também se abria às vezes, na forma de louras
altas e sardentas, algumas espetaculares, que viviam pelas
proximidades.
Antes da chegada da seleção, Gosling pedira ao hotel que
substituísse as 28 empregadas (camareiras, garçonetes,
cozinheiras) por 28 empregados. Foi atendido. Mas havia uma ilha
de nudismo num dos lagos próximos ao hotel. Gosling solicitara
que, enquanto o Brasil estivesse em Hindas, os habitantes da ilha
usassem roupa. Em nome dos sadios princípios naturistas, não foi
possível atendê-lo. A ilha nudista podia ser vista das janelas, mas
de muito longe — donde, no primeiro passeio a Gotemburgo, alguns
jogadores mais expeditos voltaram com binóculos. No primeiro dia
em Hindas, Paulo Amaral ordenara que, depois do treino, os
jogadores completassem o esforço voltando em marcha acelerada
para o hotel. Todos reclamaram. No segundo dia, deu a mesma
ordem e ninguém reclamou. No terceiro dia, descobriu por quê: os
jogadores erravam o caminho e corriam até o lago para ver de perto
os brotos pelados. Paulo Amaral sentiu-se traído e tirou a marcha
acelerada da programação. Daí os binóculos.

Na Suécia de 1958, uma virgem de mais de dezenove anos era um


problema para sua família. Os vizinhos perguntavam se ela estava
doente ou coisa assim. Os acampamentos de verão serviam para
resolver o problema – e Hindas era um deles. Acrescente a essa
paisagem uma ou duas dúzias de rapazes brasileiros no seu
máximo esplendor atlético.
A chefia da delegação adotou uma atitude em relação a sexo que
nenhum clube brasileiro usara até então: liberal, com reservas. Os
jogadores não seriam proibidos de fazer sexo, desde que se
limitassem ao dia de folga, que era o dia seguinte às partidas

Todos já sabemos: Brasil 3-Austria 0; Brasil


0-Inglaterra 0; Brasil 2- URSS 0; Brasil 1-
Pais de Gales 0; Brasil 5- França 2; Brasil 5-
Suécia 2.
Mundos e fundos tinham sido prometidos aos jogadores enquanto
eles desembarcavam no Galeão: casa própria, empregos públicos,
carros, geladeiras, máquinas de lavar, fogões e passe livre nos
ônibus, nos cinemas e nos estádios, além de máquinas de costura,
abajures, guarda-chuvas, barbeadores elétricos, filtros e toda
espécie de badulaque. E, naturalmente, dinheiro. Algumas
empresas se associaram a bancos e fizeram “subscrições
populares para os campeões do mundo”. O dinheiro — "qualquer
quantia” — deveria ser depositado no banco xis (um deles, o Banco
Operador S/A), numa conta em nome de "Copa do Mundo”,
“Seleção brasileira” ou outras. Mas nenhum dos jogadores se
recorda de ter recebido esse dinheiro.

A indústria e o comércio aproveitaram-se ao máximo da vitória. Os


sofás-camas drago mandaram um sofá-cama para cada jogador,
como se estivessem oferecendo um trono de rei aos campeões. A
General Electric presenteou-os com televisores pintados de verde e
amarelo. As bicicletas Gulliver premiaram-nos com um pequeno lote
de ações e ofereceram-lhes empregos de promotores de vendas.
Com isso, tais empresas julgavam-se no direito de anunciar os seus
produtos com a foto da seleção brasileira, como se esta os
endossasse. Um fabricante de fósforos lançou uma coleção de
caixinhas com os seus rostos. A Sudan soltou os cigarros
Olympicos, com a biografia de cada campeão no verso do maço.
Mas justiça seja feita: não seria por falta de relógios que, a partir
dali os jogadores se atrasariam para seus encontros, porque a
maioria ganhou grosas de relógios de pulso.

Garrincha quis saber dos carros que lhes tinham sido prometidos.
Mas nenhum deles ganhou carro algum. O total em dinheiro que
cada jogador recebeu, pago pela CBD, foi equivalente a pouco mais
que um salário de seu clube. Durante semanas, empresas e bancos
de outros estados convidaram a CBD para que esta desfilasse a
Jules Rimet por suas capitais. A CBD fechava um contrato em
dinheiro com eles e convocava um campeão mundial, geralmente
Bellini, para viajar com a taça, sem pagar-lhe nada por isso. Para o
capitão da seleção, o título mundial não representou sequer um
aumento salarial. Alguns clubes, como o Vasco, foram espertos e
insistiram em renovar antes da Copa os contratos de seus
jogadores de seleção, e um deles foi Bellini. Com o resultado de
que, agora valorizadíssimo, Bellini ainda tinha um ano de contrato a
cumprir, com base no que ganhava antes de ser campeão mundial.

No entusiasmo da recepção no Catete, Juscelino prometera uma


casa e um emprego público a cada jogador. Os empregos públicos
saíram, mas eram tão insignificantes que poucos se animaram a
tomar posse neles. E a promessa das casas já ia caindo no
esquecimento quando — um ano depois da Copa —, numa
cerimônia na CBD, o repórter Geraldo Romualdo da Silva perguntou
a João Havelange, na presença de Juscelino, em que pé estavam
as casas dos campeões mundiais. Havelange embatucou e
Juscelino ficou perplexo ao saber que essas casas não existiam.

Juscelino deu ordens para que, através da Caixa Econômica, os


jogadores levantassem financiamentos para comprar suas casas, a
seis por cento de juros ao ano e tendo vinte anos para pagar. Mas a
Câmara dos Deputados precisava aprovar esse financiamento e a
coisa parou de novo. Uma comissão dos jogadores, com Bellini,
Nílton Santos, Didi e Castilho, foi ao líder da maioria na Câmara,
Armando Falcão. Afinal, a verba fora recomendada pelo presidente.
Armando Falcão teve, então, algo a declarar. Explicou que ela não
saíra, porque, ao saber que o governo ia premiar os jogadores, os
pracinhas tinham se queixado aos deputados: os jogadores eram
ricos, os pracinhas eram pobres, a guerra acabara havia mais de
vinte anos e eles ainda não tinham suas casas.

E só por isso as casas dos jogadores não saíram. Aliás, as dos


pracinhas também não.

João Havelange
Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange, mais conhecido como
João Havelange (Rio de Janeiro , 8 de maio de 1916 — Rio de
Janeiro, 16 de agosto de 2016) foi um advogado, empresário, atleta
olímpico e dirigente esportivo brasileiro. Foi presidente da FIFA, de
1974 até 1998; sendo o presidente com maior tempo no cargo.
Organizou seis Copas do Mundo. Filho do belga Faustin Havelange,
um comerciante de armas radicado no Rio de Janeiro, onde possuía
uma grande propriedade que se estendia pelos atuais bairros de
Laranjeiras, Cosme Velho e Santa Teresa, desde a infância se
dedicou aos esportes.
No Fluminense, foi escoteiro e atleta, infantil, juvenil e adulto,
destacando-se em vários esportes, inclusive no futebol, tendo sido
em 1931 campeão carioca juvenil. Ainda nesta década graduou-se
em direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal
Fluminense .Em 1952, torna-se presidente da Federação
Metropolitana de Natação e vice-presidente da Confederação
Brasileira de Desportos (CBD). A essa época já havia se formado
advogado e além de acionista, ocupava o cargo de Diretor
Executivo da Viação Cometa, tradicional empresa de transporte
rodoviário de passageiros que opera nos estados de São Paulo, Rio
de Janeiro, Minas Gerais e Paraná.
De 14 de janeiro de 1958 a 10 de janeiro de 1975 presidiu a
Confederação Brasileira de Desportos - que congregava, à época,
24 esportes e não somente o futebol .Durante este período, o
futebol brasileiro conheceu o ápice de sua história: consagrou-se
tricampeão mundial de futebol com a conquista das Copas do
Mundo na Suécia (1958), no Chile (1962), e no México (1970).
Foi eleito para o Comitê Olímpico Internacional (COI) em 1963 e,
com mais de quarenta anos de mandato ininterrupto, foi decano
desse órgão.
Eleito para a FIFA em 1974, permaneceu à frente da entidade até
1998. Organizou seis Copas do Mundo, visitou 186 países e trouxe
a China, desligada por mais de 25 anos por razões políticas, de
volta à FIFA. Criou também os Campeonatos Mundiais de Futebol
nas categorias infanto-juvenil, juvenil, juniores e feminina.
Neste período, torna-se amigo de Horst Dassler, herdeiro da marca
esportiva Adidas, e dono da ISL, considerada a maior empresa de
marketing esportivo do mundo, que comercializava os direitos de
transmissão e publicidade das Copas do Mundo de futebol e das
Olimpíadas.
Quando deixou a Presidência da FIFA, em 1998, já eleito
Presidente de Honra, passou a se dedicar ao trabalho filantrópico
junto às Aldeias Internacionais SOS, patrocinado pela entidade em
131 países.
Em abril de 2013, aos 96 anos de idade, renunciou à Presidência de
honra da FIFA para escapar de qualquer punição por seu
envolvimento em casos de corrupção naquela federação.

Complexo do vira-latas
Nelson Rodrigues
Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da
semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o
pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas
esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O
Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto:

— Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo


inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor


de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na
última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer
brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente
nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos
a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um
escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo
passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há
oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu
disse “arrancou” como poderia dizer: “extraiu” de nós o título como
se fosse um dente.

E hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: — é


ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de
acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico
de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós
mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: — se o Brasil
vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que
escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e
60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades


concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a
verdade: — eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de
um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro
bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os
fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do Flamengo. Pois bem:
— não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num
Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um
Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador


brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em
estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de
improvisação, de invenção. Em suma: — temos dons em excesso.
E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas
qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “com plexo
de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: — “O que vem
a ser isso?” Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o


brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo.
Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós
nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley,
por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e
sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão
evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso viralatismo. Na já
citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além
disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos
da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque
Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.
Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem
de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em
si mesmo.

O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que


tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se
convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará
de dez para segurar, como o chinês da anedota.
Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.

Fontes: Wikipedia,
Ruy Castro, Estrela solitária, Carneiro Rodrigues, Jogo
duro: a história de João Havelange, Nelson Rodrigues,
texto publicado na partida da seleção brasileira para a
copa da Suécia.
CIÊNCIA NO BRASIL
Dom Pedro II, Carlos Chagas, a
medalha Fields e o Nobel que não
aparece (Mas temos unicórnios).
Dois peixinhos se encontram no mar com um peixe maior, que os
cumprimenta dizendo: “Bom dia, a água está boa hoje!” Quando se
afastam um pouco, um dos peixinhos pergunta ao outro: ‘Você sabe
o que é água?”

A ciência é tão envolvente em nossas vidas, estamos tão imersos


em inovações técnicas de base científica, que custamos a encontrar
seus limites. Certamente ela já não está unicamente em
universidades e institutos, mas também e cada vez mais nas redes
e em bares e garagens. Sinais de alerta são as declarações de
Apple e Google, indicando que não mais irão exigir diplomas
universitários dos candidatos a emprego e a declaração atribuída a
Steve Jobs de que hoje quem tem um cérebro como o do Einstein
está criando códigos de computador.

O Brasil, como o resto do mundo em desenvolvimento, está


despertando para esta realidade. Já não é novidade que o modelo
de ensino tradicional está ultrapassado e precisa se adaptar às
mudanças tecnológicas e à demanda por novas habilidades e
competências profissionais. Algumas instituições estão atentas a
esse movimento e têm se dedicado ao ensino da inovação e à
inovação no ensino. O sucesso do Vale do Silício se deve à
Universidade de Stanford. No Brasil, a USP e FGV formaram os
empreendedores responsáveis por startups unicórnios de nosso
país.

Já que desconhecemos o futuro pode ser inspirador olharmos o


passado e o presente.

A tradição portuguesa
A família real portuguesa chegou em 1807, escapando do Portugal
invadido por Napoleão, e fez do Rio de Janeiro a capital do Império.
Até a vinda de D. João, o Brasil não passava de índio e mataréu no
interior, e senhores, feitores e escravos nos núcleos de povoamento
da costa, muito afastados entre si e rarefeitos. Em toda essa fase o
Brasil não deu de si nenhum bruxuleio de arte ou ciência.

Em 1772, foi fundada no Rio de Janeiro a Sociedade Scientifica,


que durou apenas até 1794. Em 1797, o primeiro instituto botânico
foi fundado em Salvador, Bahia. A Real Academia de Artilharia,
Fortificação e Desenho do Rio de Janeiro foi criada em 1792 como
uma escola superior para o ensino de ciências e engenharia. Por
volta de 1783, o naturalista português Alexandre Rodrigues Ferreira
foi enviado pelo Marquês de Pombal para explorar e identificar a
fauna, flora e geologia brasileiras. Suas coleções, no entanto, foram
perdidas para os franceses quando Napoleão invadiu Portugal, e
transportadas para Paris por Étienne Geoffroy Saint-Hilaire. Fora
isso, pouco ou nada foi feito.

D. João VI tentou trazer os símbolos da civilização europeia para o


Brasil. Em um curto período (entre 1808 e 1810), fundou a
Academia Naval Real e a Academia Militar Real, a Biblioteca
Nacional, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro e a Escola Médico-
Cirúrgica da Bahia. Em 1814 a cidade do Rio de Janeiro ganhou
sua primeira biblioteca com acesso público, que agrupava a coleção
de livros dos Bragança que havia sido esquecida no porto de Lisboa
na primeira viagem, em 1807. Em 1816, inaugurou-se a Escola Real
de Ciências, Artes e Ofícios e também o Museu Real, que teria
como função estimular os estudos de zoologia e botânica.
Entretanto, esta instituição não possuía acervo próprio e dependia
da coleção privada de D. João VI com seus animais empalhados,
objetos de mineralogia, produtos naturais e gravuras. Tal coleção se
assemelhava muito mais a um gabinete de curiosidades do que a
um verdadeiro museu.
O Brasil não possuía na época Universidades ou qualquer
organização cultural ou científica. Essa foi uma política deliberada
do poder colonial, temeroso de que a presença de brasileiros
instruídos aumentasse as aspirações à independência política,
como acontecera nos Estados Unidos e em algumas colônias
espanholas. Ao longo de séculos de domínio português, os
brasileiros só eram autorizados a se matricular no ensino superior
em Portugal. Na época, a população de Portugal continental era
maioritariamente analfabeta e o país contava com uma única
universidade, a de Coimbra, que educava cidadãos de todo o
Império.
Universidade de Coimbra, biblioteca Joanina.

Os colonizadores portugueses fingiam estar trazendo para o Brasil


o equivalente das grandes instituições culturais da Europa. Mas, em
verdade, limitavam-se a fazer decretos criando as instituições e
nomeando relativos ou amigos como dirigentes, sem conferir a
competência desses dirigentes e sem estabelecer quaisquer planos
ou controles sobre as suas atividades. Essa atitude tem continuado,
em alguns casos, até os dias de hoje, e é um dos principais
empecilhos a um progresso científico mais sólido. Criar uma cultura
científica requer inteligência, empenho e tempo.

Após a independência, em 1822, D. Pedro I se tornou o primeiro


imperador do Brasil. Nas duas primeiras décadas do século XIX os
estudos científicos foram realizados principalmente por expedições
científicas de naturalistas europeus, como Charles Darwin,
Maximilian zu Wied-Neuwied, Carl Friedrich von Martius, Johann
Baptist von Spix, Augustin Saint- Hilaire, Georg Heinrich von
Langsdorff, Friedrich Sellow e outros. Esses estudos eram
principalmente descritivos da biodiversidade brasileira, de sua flora
e fauna, sua geologia, geografia e antropologia, que maravilhavam
os especialistas. Porém, até a criação do Museu Nacional, os
espécimes eram levados para instituições europeias e não
ajudavam a desenvolver a ciência ou a cultura no Brasil.

(Houve outras contribuições: von Langsdorff teve duas filhas,


nascidas no Brasil, do seu primeiro casamento com Frederike
Schubert, e cinco filhos do segundo casamento, com Wilhelmine,
quatro dos quais também nascidos no Brasil. Seus numerosos
descendentes, atualmente na quinta geração, vivem na Alemanha,
na França e no Brasil, onde seu filho Heinrich Ernst, nascido em
1816, permaneceu, depois que a família retornou à Alemanha. O
especialista genealógico Francisco de Albuquerque verificou um
total de 1500 descendentes do barão no Brasil, entre os quais a
modelo Luma de Oliveira)
Algumas instituições de ensino superior foram fundadas nesses
anos, mas maioria dos brasileiros continuou a estudar em
universidades europeias.

Dom Pedro II
O panorama mudou em 1841, quando o filho mais velho de D.
Pedro I, o imperador D. Pedro II, subiu ao trono aos 15 anos de
idade. A casa de Bragança redimia seus problemas mentais e
morais cumulando no grande monarca virtudes que raro soem
concorrer num homem só. Nos 58 anos seguintes, o Brasil
desfrutou de uma monarquia constitucional estável e progressista.
Nesse período, o Brasil teve estabilidade política e prosperidade
econômica. A grande nação começou a ser conectada por linhas
férreas, telegráficas e de navios a vapor. Isto era possível devido à
extraordinária personalidade do Imperador. Ele exercia poder o
através da cooperação com os políticos eleitos, os interesses
econômicos e o apoio popular. Os mais notáveis sucessos políticos
do imperador foram alcançados devido à maneira cooperativa e de
não-confrontação com a qual ele agia frente a tantos interesses
diversos e as variadas figuras partidárias com as quais ele tinha que
lidar. Era muito tolerante, raramente se ofendendo com críticas,
oposição ou mesmo incompetência. Era cuidadoso em nomear
somente candidatos altamente qualificados para posições no
governo, e buscava coibir a corrupção.

Dom Pedro II

"Nasci para consagrar-me às letras e às ciências", comentou o


imperador em seu diário pessoal em 1862. Ele sempre teve prazer
em ler e sua habilidade para relembrar trechos que havia lido no
passado era notável. Os interesses de Pedro II eram diversos, e
incluíam antropologia, geografia, geologia, medicina, direito,
estudos religiosos, filosofia, pintura, escultura, teatro, música,
química, poesia e tecnologia. No final de seu reinado, havia três
bibliotecas em São Cristóvão contendo mais de 60.000 livros.
Chegou a falar e escrever não só em português, mas também em
latim, francês, alemão, inglês, italiano, espanhol, grego, árabe,
hebraico, sânscrito, chinês, provençal e tupi. Criou um laboratório
fotográfico em São Cristóvão e outro de química e física. Ele
também construiu um observatório astronômico no Paço Imperial. A
erudição do imperador surpreendeu Friedrich Nietzsche quando
ambos se conheceram. Tornou-se membro da Royal Society, da
Academia de Ciências da Rússia, das Reais Academias de
Ciências e Artes da Bélgica e da Sociedade Geográfica Americana.
Em 1875 foi eleito membro da Académie des Sciences francesa.
Pedro II trocou cartas com cientistas, filósofos, músicos e outros
intelectuais e muitos de seus correspondentes se tornaram seus
amigos, incluindo Richard Wagner, Louis Pasteur, Louis Agassiz,
John Greenleaf Whittier, Michel Eugène Chevreul, Alexander
Graham Bell, Henry Wadsworth Longfellow, Arthur de Gobineau,
Frédéric Mistral, Alessandro Manzoni, Alexandre Herculano, Camilo
Castelo Branco e James Cooley Fletcher.
O imperador considerava a educação como de importância vital
para o Brasil. Comentou: Se não fosse imperador, gostaria de ser
professor. Não conheço tarefa mais nobre do que direcionar as
jovens mentes e preparar os homens de amanhã." A educação
também era importante para o seu objetivo de criar um sentimento
de identidade nacional. Seu reinado viu a criação do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro destinado à pesquisa nas
ciências históricas, geográficas, culturais e sociais; a Imperial
Academia de Música e Ópera Nacional; o Colégio Dom Pedro II,
modelo para escolas por todo o Brasil; A Imperial Escola de Belas
Artes; o Imperial Observatório Astronômico; e muito mais.
Utilizando sua lista civil, isto é, sua própria remuneração pessoal,
Pedro II providenciou bolsas de estudo para brasileiros
frequentarem universidades, escolas de arte e conservatórios
musicais na Europa. Ele também colaborou com a criação do
Instituto Pasteur, a casa de ópera Bayreuth Festspielhaus de
Wagner, e outros projetos semelhantes. Seus esforços foram
reconhecidos tanto no Brasil quanto no exterior. Charles Darwin
disse: O imperador faz tanto pela ciência, que todo sábio é obrigado
a demonstrar a ele o mais completo respeito.
Museu Nacional, Rio de Janeiro

O pilar da ciência brasileira e a sede de seus primeiros laboratórios


de pesquisa foi o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, existente até
hoje. D. Pedro desenvolveu um forte interesse pessoal pela ciência
e convidou muitas personalidades científicas europeias, como Fritz
Müller, Hermann von Ihering, Émil Goeldi e outros, para trabalhar no
Brasil. Ele e seus ministros, cortesões e senadores frequentemente
participavam de conferências científicas no Museu. Lá, o primeiro
laboratório de fisiologia foi fundado em 1880, por João Baptista de
Lacerda e Louis Couty.
Dom Pedro II criou uma tradição de amor à ciência que, com altos e
baixos, sobrevive até o presente. O progresso de nossa cultura não
é concebível sem a dedicação e os estímulos de Dom Pedro II.

Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e a Fiocruz

Oswaldo Cruz e A revolta da vacina (charge).

Oswaldo Cruz estudou na Faculdade de Medicina do Rio de


Janeiro, formando se em 1892 com a tese A veiculação
microbiana pelas aguas. Em 1896 estagiou durante três anos no
Instituto Pasteur, em Paris. Voltou ao Brasil em 1899 e organizou o
combate ao surto de peste bubônica registrado em Santos (SP) e
em outras cidades portuárias. Demonstrou que a epidemia era
incontrolável sem o emprego do soro adequado. Como a
importação era demorada, propôs ao governo a instalação de um
instituto para fabricá-lo. Assim foi criado o Instituto Soroterápico
Federal (1900), cuja direção assumiu em 1902.
Diretor-geral da Saúde Pública (1903) coordenou as campanhas de
erradicação da febre amarela e da varíola, no Rio de Janeiro.
Organizou os batalhões de mata-mosquitos, encarregados de
eliminar os focos dos insetos transmissores. Fez decretar a
vacinação obrigatória, o que provocou a rebelião de populares e da
Escola Militar (1904) no que ficou conhecido como Revolta da
Vacina. Houve um momento em que foi apontado como inimigo do
povo, nos jornais, nos discursos da Câmara e do Senado, nas
caricaturas e nas modinhas de Carnaval, numa campanha
alimentada criminosamente pela demagogia de fanáticos e
ignorantes, mas foi premiado no Congresso Internacional de
Higiene e Demografia, em Berlim (1907), Dirigiu a campanha de
erradicação da febre amarela em Belém do Pará e estudou as
condições sanitárias do vale do rio Amazonas e da região onde
seria construída a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré em Rondônia.
Em 1916, ajudou a fundar a Academia Brasileira de Ciências.
Doente, faleceu vítima de insuficiência renal. Sua vida é retratada
no romance Sonhos Tropicais, de Moacyr Scliar.
Carlos Chagas ( 1878 –1934) foi um biólogo, médico sanitarista,
cientista e bacteriologista brasileiro. Trabalhou no iniciou sua
carreira no combate à malária. Destacou-se ao descobrir o
protozoário Trypanosoma cruzi (cujo nome foi uma homenagem
ao seu amigo Oswaldo Cruz) e a tripanossomíase americana,
conhecida como doença de Chagas. Foi o primeiro e único cientista
a descrever completamente uma doença infecciosa: o patógeno, o
vetor, os hospedeiros, as manifestações clínicas e a epidemiologia.
Foi diversas vezes laureado com prêmios de instituições do mundo
inteiro, sendo as principais como membro honorário da Academia
Brasileira de Medicina e doutor honoris causa da Universidade de
Harvard e Universidade de Paris. Trabalhou no combate à
leptospirose e às doenças venéreas, e foi diretor do Instituto
Oswaldo Cruz.
Carlos Chagas. Fundação Oswaldo Cruz

Carlos Chagas foi o brasileiro que mais perto chegou do Nobel, que
merecia amplamente. Em 1970, Paul R. Samuelson, Nobel de
Economia, indicou cinco condições importantes para ganhar o
prêmio: 1. Ter grandes professores; 2. Ter grandes colegas; 3: ter
grandes alunos; 4: Conhecer os maiores autores; 5. Ter sorte.

A Academia Brasileira de Ciências (ABC)

A ABC divulga e fomenta a produção científica no Brasil desde


1916, tendo sido fundada por 27 cientistas com o nome Sociedade
Brasileira de Ciências. O engenheiro francês Henrique Charles
Morize, que trabalhou como astrônomo no Imperial Observatório do
Rio de Janeiro, foi seu primeiro presidente. O segundo, um médico
negro, Juliano Moreira, Diretor do Hospício Nacional. De início, a
Academia tinha apenas três seções: Ciências Matemáticas,
Ciências Físico-Químicas e Ciências Biológicas. Seu principal
objetivo foi estimular o trabalho científico dos seus membros, o
desenvolvimento da pesquisa brasileira e a difusão da importância
da ciência como fator fundamental para o desenvolvimento
tecnológico do país.
Henri Morize e Juliano Moreira, primeiro e segundo presidentes da ABC.

A Academia tem desempenhado papel relevante em diversas


atividades ligadas à ciência no Brasil, liderando a criação de
diversas instituições, viabilizando publicações científicas,
desenvolvendo programas e eventos científicos, estabelecendo
convênios internacionais, e disponibilizando recursos para a
sociedade acadêmica.

Visita de Albert Einstein a Academia, 1922.


Sede da ABC no morro do Castelo, em 1924

Nova sede da ABC em Rio de Janeiro. Sérgio Cabral recebe diploma de


Governador da Ciência.

A eleição de Carlos Chagas Filho para a presidência da ABC, em


1965, confirmou a importância dos pesquisadores da área biológica,
que já vinha ocorrendo desde a década de 1930, em relação ao
grupo fundador de engenheiros, matemáticos e físicos. Sua gestão
caracterizou-se pela atuação política e a crescente importância
econômica atribuída à pesquisa científica pelo governo. Essa
preocupação levou à criação de cursos de pós-graduação e ao
aumento dos recursos destinados à ciência e à tecnologia durante
o regime militar, que propugnava a promoção do desenvolvimento
nacional. Em 1966, o presidente Castelo Branco autorizou
importante apoio financeiro, um investimento que fortaleceu a
instituição. A entidade teve um papel destacado no Plano Básico de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (1973/74 e 1975/79).
Em contraste, durante o regime militar muitos cientistas brasileiros,
incluindo Acadêmicos, foram perseguidos e exilados. A ABC
manifestou preocupação, em agosto de 1965, com a invasão da
Universidade de Brasília, que levou, no mês seguinte, ao pedido de
demissão de duas centenas de professores – alguns dos quais
membros da ABC. No mesmo ano, manifestações de intelectuais e
artistas, dentre os quais alguns Acadêmicos, condenavam as
práticas do regime militar. Por outro lado, diversos Acadêmicos
apoiaram a publicação de um manifesto, no primeiro aniversário do
golpe civil-militar, em prol das ações governamentais. Diante desse
quadro, a ABC adotou uma postura discreta e cuidadosa em
relação aos acontecimentos políticos, ao longo do regime militar.

Em 1966, a ABC passou por uma profunda reformulação


de estatuto. Além de modificar as categorias de membros, a nova
versão detalhou minuciosamente o rigoroso processo seletivo de
novos Acadêmicos. Durante a década de 1970, a Academia
recebeu substancial apoio financeiro do Governo Federal,
especialmente através da Financiadora de Estudos e Projetos
(FINEP). Esse apoio possibilitou a expansão de suas atividades,
com a participação em importantes programas nacionais e
internacionais.
Após um substancial declínio na década de 1980, a década de 1990
marcou o retorno do apoio financeiro do governo, o que tem
possibilitado a organização de vários novos programas e uma maior
interação com a comunidade científica internacional.
A Academia reúne seus membros em dez áreas especializadas:
Ciências Matemáticas, Ciências Físicas, Ciências Químicas,
Ciências da Terra, Ciências Biológicas, Ciências Biomédicas,
Ciências da Saúde, Ciências Agrárias, Ciências da Engenharia e
Ciências Sociais. Em 2009, Jacob Palis, presidente até 2016, criou
as vice-presidências regionais.
A ABC tem desempenhado papel relevante em diversas atividades
ligadas à ciência no Brasil, liderando a criação de diversas
instituições, viabilizando publicações científicas, desenvolvendo
programas e eventos científicos, estabelecendo convênios
internacionais, e disponibilizando recursos para a sociedade
acadêmica. Atualmente cumpre uma função ritualística e de
reconhecimento de méritos, mas sem uma ação direta como, por
exemplo, a da Academia Científica da China.

Fonte: Wikipedia; Academia Brasileira de Ciências e os


caminhos da pesquisa científica no Brasil, ABC, 2016.
A Universidade de São Paulo (USP)
Júlio de Mesquita foi um republicano convicto, pessoa de grande
cultura, fundador do jornal Estado de São Paulo e grande amigo e
incentivador de Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, uma obra
de grande valor científico que inclui informação geográfica,
etnográfica e sociológica totalmente original. O valor literário de Os
Sertões levou a Machado de Assis a convidar a Euclides para a
Academia de Letras.
Euclides era leitor dos filósofos franceses e admirador de George
Dumas que foi um personagem fundamental na fundação da
Universidade de São Paulo (USP). Ele transmitiu essa admiração
aos Júlio de Mesquita pai e filho.

Euclides da Cunha, George Dumas e Claude Lévi-Strauss

Após o revés sofrido por São Paulo na Revolução Constitucionalista


de 1932, o estado entendeu a necessidade de formar uma nova
elite, capaz de contribuir para o aperfeiçoamento das instituições.
Em 1933, um grupo de empresários fundou a Escola Livre de
Sociologia e Política (ELSP), hoje Fundação Escola de Sociologia
e Política de São Paulo. Em 1934, incentivado por Júlio de
Mesquita Filho, o interventor do Estado, Armando de Salles
Oliveira, criou a Universidade de São Paulo (USP).

A ELSP assumiu o objetivo de formar elites administrativas,


enquanto a USP voltou-se a formar professores para as escolas
secundárias e especialistas nas ciências básicas. O modelo
sociológico norte-americano constituiu o exemplo para ELSP,
enquanto que o mundo acadêmico francês foi a principal fonte de
inspiração para a USP através de George Dumas. Professores
estrangeiros tais como Claude Lévi-Strauss, Fernand Braudel,
Roger Bastide, Emilio Willems, Donald Pierson, Pierre Monbeig
e Herbert Baldus difundiram nas duas instituições novos padrões
de ensino e pesquisa, formando as novas gerações de cientistas
sociais no Brasil.

Júlio de Mesquita Filho (o quarto em pé da direita e docentes da


então recém inaugurada Universidade de São Paulo.

Muitos anos depois, desempregado, Lévi-Strauss escreveu um dos


mais famosos livros centrados no Brasil, Tristes Tropiques, uma
descrição bem-humorada e carinhosa do Brasil e seus povos.
(Disse que o Brasil fora descoberto pelos franceses muito antes da
viagem do Cabral, mas que os documentos foram extraviados; traça
interessantes analogias entre as reuniões dos Caduveos e dos
políticos paulistas e exalta a Euclides, Villa-Lobos e Rondon. Sua
descrição dos costumes dos aborígenes é empática, mas
aterradora).

A USP surgiu da união da recém-criada Faculdade de Filosofia,


Ciências e Letras (FFCL) com as já existentes Escola Politécnica de
São Paulo, Escola Superior de Agricultura, Faculdade de Medicina,
Faculdade de Direito e Faculdade de Farmácia e Odontologia.

Atualmente é uma das quatro universidades públicas mantidas pelo


governo do estado de São Paulo, junto com a Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual
Paulista(UNESP) e a Universidade Virtual do Estado de São Paulo
(Univesp). É a maior universidade pública brasileira e a
universidade mais importante do país, da Ibero-América, do mundo
lusófono] e uma das melhores e mais prestigiadas do mundo. São
42 unidades de ensino e pesquisa, distribuídos em dez campi: São
Paulo, com três campi, Bauru, Lorena, Piracicaba, Pirassununga,
Ribeirão Preto, Santos e São Carlos. O campus principal em São
Paulo é chamado Cidade Universitária Armando de Salles
Oliveira, com uma área de 7,44 quilômetros quadrados. A
instituição está envolvida no ensino, pesquisa e extensão
universitária em todas as áreas do conhecimento. Somando todos
os campi, a USP possui um total de 246 cursos de graduação, 229
cursos de pós-graduação, 5,8 mil professores e 93 mil alunos
matriculados entre graduação e pós-graduação (2012). Segundo o
relatório mundial de 2012 (SIR World Report) da SCImago
Institutions Rankings, a USP está classificada na oitogésima-
segunda posição mundial entre as 3290 instituições de ensino e
pesquisa internacionais classificadas. No ano de 2018, de acordo
com o University Ranking by Academic Performance (URAP), a
USP continua sendo a melhor universidade ibero-americana e está
colocada na trigésima sexta posição no mundo. Em 2015, a USP foi
apontada como a primeira universidade da América Latina. A THE
classificou a instituição como a décima melhor universidade dos
BRICS e de outros países em desenvolvimento, em 2015. Entre as
universidades públicas brasileiras, tem o maior número de vagas de
graduação e de pós-graduação, sendo responsável também pelo
maior número de mestres e doutores do mundo, bem como
responsável por metade de toda a produção científica do estado de
São Paulo, e mais de 25% da do Brasil como um todo. Criada em
1934, a contribuição desta universidade para a história brasileira é
bastante relevante: na instituição se formaram, em curso superior,
treze dos quarenta e três presidentes brasileiros, onze deles na
Faculdade de Direito.

CNPq
Desde 1920, integrantes da Academia Brasileira de Ciências (ABC)
falavam em criar uma entidade governamental específica para
fomentar o desenvolvimento científico no país. Mas só em 1931, a
ABC sugeriu formalmente ao governo a criação de um Conselho de
Pesquisas. Em maio de 1936, o então Presidente Getúlio Vargas
enviou mensagem ao Congresso cogitando a criação de um
conselho de pesquisas experimentais, mas a ideia não foi bem
recebida pelos parlamentares. Foi a Segunda Guerra Mundial, e os
avanços da tecnologia bélica, aérea, farmacêutica nesta época, que
despertaram os países para a importância da pesquisa científica,
principalmente no tocante à energia nuclear. A bomba atômica era a
prova real e assustadora do poder que a ciência poderia dar ao
homem.
A partir daí, diversos países começaram a acelerar suas pesquisas
ou mesmo a montar uma estrutura de fomento à pesquisa. Em maio
de 1946, o Almirante engenheiro Álvaro Alberto da Motta e Silva,

Álvaro Alberto da Motta e Silva

representante brasileiro na Comissão de Energia Atômica do


Conselho de Segurança da recém-criada Organização da Nações
Unidas (ONU), propôs ao governo, por intermédio da ABC, a
criação de um Conselho Nacional de Pesquisa. Álvaro Alberto
tinha em mente a criação de uma instituição governamental, cuja
principal função seria incrementar, amparar e coordenar a pesquisa
científica nacional. Dois anos mais tarde o projeto da criação do
conselho era apresentado na Câmara dos Deputados, mas foi
somente em 1949 que o Presidente Eurico Gaspar Dutra nomeou
uma comissão para apresentar um anteprojeto de lei sobre a
criação do conselho de pesquisa, seguindo o modelo do CNRS
francês. Em 15 de janeiro de 1951, dias antes de Dutra passar a
faixa presidencial a Getúlio Vargas, foi criado o Conselho Nacional
de Pesquisas. A Lei N.º 1.310, que criou o CNPq, foi chamada por
Álvaro Alberto de Lei Áurea da Pesquisa no Brasil.
Primeira reunião do CNPq, 1951

Apoiar a formação de recursos humanos para a pesquisa foi a


principal meta do CNPq, que concedia bolsas e auxílios para a
pesquisa. Primeiramente havia as bolsas de estudo ou de formação
e as de pesquisa, posteriormente foram criadas as de iniciação
científica, aperfeiçoamento ou especialização e estágio para
desenvolvimento técnico, pesquisador assistente, pesquisador
associado e chefe de pesquisa. Ainda por influência do pós-guerra,
era concedido maior número de bolsas para campos das ciências
básicas ligados à Física, especialmente em estudos relativos à
energia atômica. Já na primeira reunião do CNPq, dia 17 de
abril de 1951, foi discutida a aquisição de um sincro-cíclotron para o
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), que serviria para
realização de pesquisas e para o treinamento de pesquisadores.

Ainda na primeira década de atuação do Conselho foram criados


diversos institutos, que atualmente não estão mais sob a
coordenação do CNPq, os quais eram responsáveis pela execução
do trabalho de investigação científica e tecnológica tais como:
Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA, 1952). Instituto
de Pesquisas da Amazônia (INPA, 1952), que incorporou o Museu
paraense Emílio Goeldi. Instituto de Bibliografia e Documentação
(IBBD, 1954), que deu lugar ao Instituto Brasileiro de Informação
em Ciência e Tecnologia (IBICT). Instituto de Pesquisas
Rodoviárias (IPR, 1957), que em 1972 foi transferido para a
jurisdição do Departamento Nacional de Estradas e Rodagens
(DNER). Grupo da Comissão Nacional de Atividades Espaciais
(GOCNAE), 1961, o qual foi substituído em 1971 pelo Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), igualmente subordinado
e CNPq e atualmente vinculado ao Ministério de Ciência e
Tecnologia.
Também mereceram atenção especial do CNPq as ciências
biológicas, que estavam entre as mais desenvolvidas no país. Outro
objetivo do conselho era apoiar o processo de industrialização
brasileiro, que se caracterizava na época pela ênfase na produção
de bens de consumo duráveis e importação de bens de capital e
pelo investimento em massa em tecnologia estrangeira. Em 1956 o
CNPq passou por uma reestruturação em razão da criação da
Comissão Nacional de Energia Nuclear, subordinada diretamente à
Presidência da República, o que se refletiria na diminuição a menos
da metade do volume de recursos repassados pela União,
passando de 0,28% do orçamento para 0,11%, entre os anos de
1956 e 1961. Este foi um dos motivos para a evasão de cientistas
do país em busca de uma remuneração condizente com seu
trabalho lá fora. Foi o prenúncio de um período difícil para a história
brasileira que também teve sua influência na área científica.

A partir de 1964 o governo militar estimulou a formação de


profissionais especializados para a indústria e o fortalecimento do
aparato técnico-científico adequado ao projeto modernizador do
regime. A lei de criação do CNPq foi alterada e a partir de então a
área de competência da instituição passou a abranger o papel de
formuladora da política científico-tecnológica nacional e atuar
juntamente com os ministérios para resolução dos assuntos
relacionados à área científica. A próxima mudança viria em 1974
com a transformação de autarquia em fundação, vinculada à
Secretaria de Planejamento da Presidência da República
(SEPLAN/PR). Surge aí o novo nome, Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico, com atuação mais
ampla em ciências básicas, no campo tecnológico que incentiva a
pesquisa. Em 1985, com a criação do Ministério de Ciência e
Tecnologia, o CNPq passou a ser vinculado ao órgão que se tornou
o centro do planejamento estratégico da ciência no Brasil.
Nos primeiros anos, o CNPq buscou intensificar o intercâmbio entre
os pesquisadores e instituições do país e do exterior por meio de
convênios e encontros científicos, o que colaborou
para que houvesse uma grande troca de informações e
conhecimentos.
CNPq, sede atual em Brasília.

Em meados da década de setenta, foram incorporados e criados


outros institutos: Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF)
Observatório Nacional (ON) Centro de Tecnologia Mineral
(Cetem) Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC)
Museu de Astronomia e Ciência Afins (MAST) Laboratório
Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) Laboratório Nacional de
Astrofísica (LNA), Projeto Mamirauá. As recentes conquistas
brasileiras na área genômica, equiparando o país às nações mais
avançadas em termos científicos, é um dos resultados do trabalho
persistente e ininterrupto do CNPq.

Sincrotron Sirius, Campinas

FAPESP
A Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo
(FAPESP) recebe apoio financeiro consistente em 1% dos impostos
estaduais. Apenas 5% do orçamento da Fundação pode ser usado
para fins administrativos. A fundação goza de estabilidade
financeira e autonomia operacional.

A FAPESP emprega julgamentos por pares empregando um


sistema de painéis compostos por pesquisadores ativos
organizados por tema de pesquisa. Além de financiar pesquisas
em todo o espectro da ciência, a FAPESP suporta quatro grandes
programas de pesquisa abrangendo biodiversidade, bioenergia,
mudanças climáticas e neurociências.

Em 2013, os gastos da FAPESP totalizaram R $ 1,085 bilhão (cerca


de US $ 330 milhões). A fundação mantém acordos de cooperação
com agências de fomento à pesquisa, universidades, institutos de
pesquisa nacionais e internacionais. Os parceiros internacionais
incluem o Centre Nationale de Recherche Cientifique na França, a
Deutsche Forschungsgemeinschaft na Alemanha e a National
Science Foundation nos Estados Unidos. A FAPESP também
oferece uma ampla gama de programas de apoio a cientistas
estrangeiros que desejam trabalhar em São Paulo. Isso inclui
bolsas de pós-doutorado, prêmios para jovens investigadores e
bolsas de pesquisa.
A organização da FAPESP é um modelo de excelência que deveria
ser estudado por todas as instituições de pesquisa do Brasil. A
Agência FAPESP Newsletter, que fornece informações sobre as
pesquisas desenvolvidas e sua utilidade em uma linguagem
acessível ao não especialista, no estilo das revistas Science e
Nature, é excelente, e um modelo para outras fundações.

Organizações sociais
Os institutos e universidades públicas de pesquisa do Brasil
seguem regras rígidas que tendem a dificultar seu gerenciamento.
Os Estados podem optar por desenvolver seus próprios institutos de
pesquisa e sistemas universitários, mas, como todas as leis e
regulamentos são estabelecidos em nível federal, todos devem
seguir as mesmas regras e regulamentos e enfrentam as mesmas
dificuldades. Isso inclui estruturas burocráticas extensas, a
obrigação de recrutar funcionários sujeitos ao regimento dos
funcionários públicos, com carreiras e sistemas salariais rígidos,
juntamente com um fluxo irregular de recursos, procedimentos de
compras excessivamente complexos e sindicatos poderosos.
Uma alternativa estrutural foi desenvolvida em 1998, com a criação
de organizações sociais: entidades privadas, sem fins de lucro, que
gerenciam instalações públicas de pesquisa sob contrato com
agências federais. Eles têm autonomia para contratar (ou demitir)
funcionários, contratar serviços, comprar equipamentos, escolher os
tópicos e objetivos da pesquisa científica ou tecnológica e assinar
contratos de pesquisa com empresas privadas. A flexibilidade
concedida a essas organizações sociais e seu estilo de gestão os
tornaram uma história de sucesso na ciência brasileira.
Em 2015, havia seis dessas organizações.
Uma delas é o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA).
O IMPA no Rio de Janeiro foi criado em 1952 como parte do
Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). Desde o início, sua missão
era a de realizar pesquisa matemática de alto nível, treinar jovens
pesquisadores e disseminar conhecimentos matemáticos na
sociedade brasileira. Desde 1962, o programa de pós-graduação do
IMPA concedeu mais de 400 doutorados e duas vezes tantos
mestrados. Cerca de metade do seu corpo estudantil vem do
exterior, principalmente de outros países da América Latina. Os 50
professores também incluem cidadãos de 14 países diferentes.

Em 2000, o IMPA obteve o status de organização social. Desde


então, o IMPA se envolveu na organização da Olimpíada
matemática brasileira para escolas públicas e no treinamento
professores do ensino médio. Em 2014, o IMPA ingressou no grupo
exclusivo de instituições com ganhadores da medalha Fields em
sua equipe, com a presença de Ártur Ávila, que obteve doutorado
pelo IMPA em 2001 e tornou-se membro permanente do corpo
docente desde 2009. Ávila é o único medalhista Fields totalmente
educado em um país em desenvolvimento.

A história da medalha Fields é curiosa. Quando Alfred Nobel deixou


parte de sua fortuna para financiar os prêmios, escolheu entre as
ciências Física, Química e Medicina, mas não Matemática, porque o
possível vencedor seria um antigo amante de sua esposa. O nome
da medalha comemora o matemático canadense John Charles
Fields, que doou os recursos para o prêmio.

Medalha Fields
O (IMPA) anuncia internacionalmente a abertura de posições de
pesquisador (tenure track). A documentação deve ser requerida por
meio do correio eletrônico ao endereço opening@impa.br. A
documentação requerida deverá ter: plano de trabalho e curriculum
vitae incluindo pelo menos:
1) lista de publicações atualizada;
2) data de nascimento;
3) instituição e ano em que completou o doutorado;
4) título da tese e nome do orientador;

Os candidatos devem solicitar a pelo menos 3 matemáticos de


renome que enviem cartas de recomendação (formato livre) para o
IMPA. Este procedimento é semelhante ao empregado nos EUA ou
na Europa. Estrangeiros de todas as partes do mundo aplicam para
concursos do IMPA, e a participação destes estrangeiros no seu
corpo docente ajudou a tornar IMPA um dos mais prestigiados
institutos de matemática no mundo inteiro.
Ser uma Organização Social ajudou, mas a excelência do IMPA é
principalmente fruto do trabalho dos seus fundadores e
extraordinários professores, como Jacob Palis. Uma história a ser
acompanhada e imitada.

Jacob Palis e Artur Ávila

Outras organizações sociais:

• Instituto de Desenvolvimento Sustentável da Floresta Amazônica


(IDSM);
• Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM);
• Centro de Estudos Estratégicos e de Gestão (CGEE);
. Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP); e
• Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

A Embrapii (Associação Brasileira de Pesquisa e Inovação


Industrial) nasceu em 2013 com o objetivo de fomentar projetos
específicos da indústria, buscando aumentar a produtividade e a
competitividade do setor. A entidade é uma é uma instituição social
sem fins lucrativos vinculada ao MCTIC (Ministério da Ciência,
Tecnologia, Inovações e Comunicações) e ao MEC (Ministério da
Educação) e tem como diferencial não funcionar por meio de
editais: empresários podem entrar em contato com a associação a
qualquer momento, e o tempo médio entre o início da negociações
e a liberação de recursos é de 2 a 3 meses. A Embrapii segue o
modelo da Sociedade Fraunhofer, organização de pesquisa
aplicada da Alemanha. A Fraunhofer foi criada em 1949 e possui 72
institutos e unidades de pesquisa espalhados pelo território alemão,
empregando mais de 26 mil pessoas. No Brasil, para reduzir custos
e permitir que a Embrapii saísse do papel rapidamente, o modelo foi
alterado, cadastrando uma rede que reúne atualmente 42 unidades
de pesquisa em tecnologia e inovação que já eram referência no
país.
A Embrapii custeia uma parte do valor dos projetos selecionados. O
restante é aplicado pela própria empresa que procura uma solução
técnica junto com as unidades Embrapii envolvidas. Do R$ 1,4
bilhão que a entidade liberou para projetos até janeiro deste ano,
49,5% do total foram bancados pelo setor privado, 32,2% pela
Embrapii e 18,3% pelas unidades de pesquisa parceiras. Assim, o
Brasil se aproxima de países industrializados, onde são as
empresas as que mais investem em pesquisa, tecnologia e
inovação.
O projeto do sistema de monitoramento da barragem da Usina
Hidrelétrica Dona Francisca, por exemplo, contou com recursos da
Embrapii.

Vista geral da barragem da Usina Hidrelétrica de


Dona Francisca, no Rio Grande do Sul.

O sistema inteligente de monitoramento acompanha mudanças em


condições externas como clima, nível do lago, temperatura e
umidade do solo, tornando o processo de gerenciamento e
operação da barragem mais confiável e facilitando a tomada de
decisões. A ferramenta foi desenvolvida pelo Instituto Senai de
Inovação de Sistemas Embarcados, um dos centros de pesquisa
criados pelo Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).

Pós-Graduação
As duas tendências mais fortes que marcaram a pós-graduação
brasileira foram a europeia, (principalmente na USP) e a norte-
americana (na UFRJ). A regulamentação deste nível de ensino deu-
se sob o comando de um regime militar com orientação
nacionalista. A iniciativa de apoiar a pós-graduação refletia a
percepção da importância estratégica desses estudos, que
(esperava-se) permitiriam ao país romper o cerco tecnológico que
dificultava o seu desenvolvimento. Os conhecimentos e a
competência gerados iriam também espalhar-se por toda a
economia e a sociedade qualificando os professores das
universidades e os novos profissionais.

O governo brasileiro lançou um ambicioso projeto para capacitar


pesquisadores no exterior, oferecendo bolsas de estudo. Esse
programa ampliou as oportunidades de pós-graduação no exterior,
que, até meados dos anos 1960, estavam quase integralmente
restritas às bolsas oferecidas por governos estrangeiros. Foi essa
nova geração de cientistas formados no exterior que deu conteúdo
acadêmico para a pós-graduação no Brasil. Uma vez formados,
esses jovens cientistas voltavam para o país com uma clara
perspectiva do que deveria ser uma pós-graduação. Sua ação junto
aos novos programas que estavam sendo criados no país foi
decisiva para dotar esse sistema de um dinamismo próprio, que
podia ser notado já nos anos 1970.

Para apoiar o desenvolvimento tecnológico e científico, o Banco


Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES) estabeleceu um
fundo de suporte ao desenvolvimento tecnológico, ainda em 1969.
O sucesso do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (FNDCT) determinou sua institucionalização em uma
nova agência especializada. Criada em 1971, a Financiadora de
Estudos e Projetos, Finep, assumiu a secretaria executiva do
FNDCT, agora como um fundo nacional definido como um item
permanente do orçamento público federal. Em 1975 o Conselho
Nacional de Pesquisa foi reformado e transformado em um novo e
muito mais amplo Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico, o CNPq. Essas agências passaram a
concentrar sua atenção nos grupos de pesquisa que vinham se
consolidando.

O papel que essa política reservava para a pesquisa nacional foi


apoiado com entusiasmo pelas lideranças científicas. Como disse o
professor Alberto Luís Coimbra:
[O Programa] foi criado para formar um novo tipo de profissional
que o Brasil não conhecia naquela época. Nós acreditávamos que
pessoas com essas qualificações eram necessárias para o
desenvolvimento tecnológico do país. Nós não tínhamos o pessoal
pós-graduado que poderia criar a nova tecnologia” (citado por
Schwartzman, 1991, p. 229).

Para alcançar seus objetivos, as agências de fomento criaram


linhas diretas de suporte aos pesquisadores. O apoio incluía
recursos para a infraestrutura e para a contratação de pessoal
negociados diretamente com os pesquisadores, passando ao largo
da burocracia das universidades.

Por causa de sua origem, a instalação da pós-graduação no Brasil


se deu, com raras exceções, num contexto de dependência em
relação às nações centrais. É normal que uma sociedade
dependente se vincule a outra, mais organizada e desenvolvida,
estabelecendo uma relação de parceria subordinada. Nesse
contexto, o valor do cientista depende do impacto internacional que
seu trabalho tem e da consonância do tema de sua pesquisa com
os interesses dos países desenvolvidos.
Uma atitude diferente foi a proposta pelo professor Coimbra que
defendeu a criação de condições para que o Brasil pudesse
produzir um saber-fazer próprio e que desconfiava de pesquisas
sem relação com a realidade nacional.

E eu me pergunto se se justifica formar mestres e doutores no


Brasil e outros países subdesenvolvidos onde aprendem a criar
uma tecnologia que depois vai ser importada. Acho que não. Ao
formarmos estes mestres e doutores acho que seria melhor se eles
fossem trabalhar fora. Se não, eles vão ficar trabalhando em
projetos artificiais aqui no Brasil, que é o que está acontecendo
hoje. (Depoimento, 1977/1978). Rio de Janeiro, CPDOC, 2010.
Coimbra sabia, como Lorde Bacon , que são os problemas reais e
as dificuldades práticas os que geram novas ideias e abrem novas
áreas de pesquisa. Foi Coimbra quem estimulou o José Pelúcio
Ferreira a criar o FUTEC (Fundo de Desenvolvimento Técnico-
Científico) dentro do BNDES em 1964. E foi Pelúcio quem levou
Coimbra para a FINEP quando ele foi afastado da COPPE em
1973.

Alberto Coimbra

Publicações
Os resultados de uma pesquisa dão eventualmente origem a
publicações e patentes. Publicações acadêmicas têm duas funções
principais: são veículos para comunicar ideias e filtros para
identificar as ideias que merecem ser comunicadas e seus autores.
Para colocar as universidades brasileiras nos rankings é importante
publicar em revistas internacionais. Exigir publicações
internacionais é também um recurso das universidades para
transferir a juízes externos uma avaliação que elas não poderiam
fazer de modo confiável. Como controle de qualidade são preferidos
os periódicos indexados na Web of Science e no Scopus. Essa
táctica é generalizada entre países desenvolvidos e em
desenvolvimento. Por isso, o número de periódicos tem aumentado
de modo exponencial e as editoras, que são grandes empresas
particulares, e lucram com o aumento da produção científica
mostram tendência a diminuir o rigor dos controles de qualidade.
Poucas dessas publicações são lidas, menos ainda são citadas e
pouquíssimas são aproveitadas com fins práticos.

A preocupação com a publicação internacional aponta para o


fomento de uma ciência alinhada com a produção científica
internacional, frequentemente criticada pelo seu afastamento da
realidade nacional. Nossos sistemas de avaliação e incentivo,
instituídos com a participação da própria comunidade acadêmica,
levaram para o aumento quantitativo da produção científica, sem
demasiado controle de qualidade ou direcionamento a temas de
interesse para o desenvolvimento econômico e social do Brasil.

A maior parte das publicações brasileiras é produzida nos cursos de


pós-graduação das universidades de pesquisa e ligada ao trabalho
de alunos de doutorado. Professores orientam e publicam junto com
seus alunos em periódicos reconhecidos cumprindo com as
recomendações da CAPES. Mas o sistema tem características que
parecem graves, particularmente do ponto de vista da inovação e o
desenvolvimento.

Os professores sabemos que para publicar em periódicos de alto


impacto é mais seguro pesquisar assuntos considerados
importantes na ciência global e não necessariamente no Brasil.
Muitas dessas publicações relatam confirmações ou melhoras
incrementais empregando métodos ou materiais diferentes ou
modelos alternativos, de resultados já conhecidos no mainstream
internacional, porem raramente há um breakthrough ou avanço
importante. Mais interessante que produzir resultados dentro do
mainstream seria produzir resultados para problemas práticos.
Essa foi a orientação defendida pelo professor Coimbra quando
criou a COPPE. E foi essa orientação a que levou o Brasil a
produzir reais avanços na área da exploração do petróleo. O
pesquisador brasileiro que mais perto chegou do prêmio Nobel foi o
médico sanitarista Carlos Chagas, que estudou um problema
regional importante que afetava e afeta milhares de pessoas.
Mas a burocracia universitária conspira contra as mudanças
necessárias. Quem ganha um concurso público tem praticamente
assegurada a estabilidade, pois o período provatório não é
normalmente levado a sério, e o doutorado assegura um
complemento importante (mais de 60%) do salário. Isso aumenta a
procura pelo doutorado (às vezes pouco antes da aposentadoria).
Em comparação a bolsa de produtividade do CNPq é um valor
baixo que perde também para qualquer CD. A progressão
semiautomática (que agora chega até o nível de titular) exige pouco
em termos de pesquisa. Talvez sejam esses alguns dos motivos
pelo qual o número de publicações não aumenta tanto quanto o
número de doutorados e as citações internacionais aumentam
menos que as publicações. E também porque muitos professores
orientam teses, mas poucos formam pesquisadores.
A situação foi complicada recentemente pela aparição de novos
atores: as publicações de livre acesso onde o autor pode publicar
quase qualquer coisa pagando um preço fixado pela editora.

As publicações científicas aumentaram 308% entre 2005 e 2014,


principalmente como resultado da decisão da Thomson Reuters
(Web of Science) de rastrear um número muito maior de periódicos
brasileiros em seu banco de dados entre 2006 e 2008. Apesar
desse impulso artificial, o ritmo de crescimento diminuiu desde 2011
Além disso, em termos de publicações per capita, o país
acompanha as economias de mercado emergentes mais dinâmicas
e as economias avançadas, mesmo que esteja à frente da maioria
de seus vizinhos. Quando se trata de impacto, o Brasil perdeu muito
terreno na última década. Uma causa possível pode ser a
velocidade com que as matrículas no ensino superior se
expandiram desde meados da década de 1990, principalmente no
que diz respeito aos estudantes que passam pelo sistema federal
de universidades, alguns dos quais recorreram à contratação de
professores inexperientes, incluindo candidatos sem doutorado.

Os pedidos de patentes no Instituto Nacional de Patentes (INPI)


aumentaram de 20.639 em 2000 para 33.395 em 2012, avançando
62%. As comparações internacionais usando o número de patentes
concedidas pelo Escritório de Marcas e Patentes dos EUA (USPTO)
fornecem uma medida indireta da medida em que uma economia
pode estar buscando competitividade internacional com base na
inovação orientada pela tecnologia. O Brasil recebeu 108 patentes
pelo USPTO entre 2004 e 2008 e 189 entre 2009 e 2013. O
paísBrasil parece estar menos focado em patentes internacionais
do que em publicações. Entre 2000 e 2013, contabilizou 10
patentes por dez milhões de habitantes do USPTO, menos que
Argentina (14), China, Índia (12) ou África do Sul (25) e apenas um
pouco mais que México (9). Em todo o caso, poucas patentes das
universidades no Brasil dão retornos importantes.

Financiamento da pesquisa

Hoje o Brasil possui uma organização bem desenvolvida de ciência


e tecnologia. A pesquisa básica é realizada em universidades
públicas e institutos de pesquisa, e em instituições privadas,
organizações não-governamentais sem fins lucrativos. Mais de 90%
do financiamento para pesquisa básica vem de fontes
governamentais. A pesquisa aplicada a tecnologia e a engenharia
também são realizadas espacialmente no setor universitário e nos
centros de pesquisa, ao contrário da tendência em países mais
industrializados, como Estados Unidos da América, Coréia do Sul,
Alemanha e Japão.

O financiamento para pesquisa, desenvolvimento e inovação vem


de seis fontes principais:
1. O governo (federal, estadual e municipal). Existem várias
organizações criadas para promover e financiar a pesquisa e o
desenvolvimento, como o CNPq e a FINEP. O MCT é um ministério
relativamente novo, criado em 1990. No nível estadual, quase todos
os estados fundaram suas próprias fundações públicas para apoiar
a pesquisa e desenvolvimento, tentando seguir o exemplo pioneiro
(e altamente bem-sucedido) do estado de São Paulo, que criou a
FAPESP em 1962.
2. Financiamento indireto através do orçamento de universidades,
institutos e centros públicos e privados.
3. Empresas públicas, como a Embrapa (Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária), cuja fonte de receita é o próprio governo e
o investimento de uma parte dos produtos e serviços vendidos.
4. Empresas privadas industriais, comerciais e de serviços,
geralmente para seus próprios centros de P&D, ou através de
algum benefício fiscal (leis de isenção de impostos), como a Lei de
Informática.
5. Associações e fundações nacionais sem fins de lucro, por meio
de mecanismos estatutários ou doações de particulares ou
empresas. Um exemplo é a Fundação Banco do Brasil.
6. Financiamento de outras organizações internacionais como a
Fundação Rockefeller, Fundação Ford, Banco Interamericano de
Desenvolvimento, Banco Mundial, UNESCO, PNUD, Organização
Mundial da Saúde, Fundação Mundial da Vida Selvagem, Fundação
Bill & Melinda Gates, Fundação Nacional de Ciência dos EUA,
Fundação Volkswagen.
MEASURING R&D SPEND: The infographic Research &
Development numbers for nearly every country in the world. It uses
data from the UNESCO Institute for Statistics adjusted for
purchasing-power parity (PPP).
Pesquisa e inovação na área privada

Casos como os da Petrobrás, a Embraer e a Gerdau são bem


conhecidos e citados. Aqui indicamos alguns outros.

Suzano Papel e Celulose

Suzano Papel e Celulose é uma empresa brasileira de papel e


celulose, que criou a tecnologia de celulose de eucalipto. É a maior
produtora mundial de celulose de eucalipto e uma das 10 maiores
de celulose de mercado, além de ser líder mundial no mercado de
papel, com cerca de 60 marcas. Possui sede em Salvador e sede
administrativa na cidade de São Paulo, além de operações globais
em aproximadamente 60 países.
A operação está dividida em três unidades de negócio: Florestal,
Celulose e Papel, e possui cerca de 8.000 funcionários (de acordo
com relatório de sustentabilidade de 2015) e 6 unidades industriais,
quatro delas no Estado de São Paulo (Embu, Limeira e duas em
Suzano), uma na Bahia (Mucuri) e uma no Maranhão (Imperatriz).
Também é proprietária da SPP-KSR, a maior empresa distribuidora
de produtos gráficos e papéis da América do Sul. As florestas de
propriedade da empresa estão espalhadas pelos estados de São
Paulo, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Maranhão, Pará e
Tocantins. A companhia possui 803.000 hectares de área florestal
por todo o Brasil.
A Suzano foi fundada em 1924 na cidade de São Paulo pelo
imigrante ucraniano Leon Feffer, e sua história encontra-se
interligada com a história da própria industrialização brasileira. Seu
filho Max Feffer nasceu em 1926, em São Paulo, e desde jovem
colaborou com o pai na expansão da Suzano. Nos anos de 1950,
Max liderou uma equipe de cientistas em pesquisas que visavam
desenvolver alternativas ao pinus na produção de celulose. Obteve
resultados satisfatórios com o eucalipto, criando uma tecnologia que
revolucionou a fabricação de papel no Brasil e no mundo. A partir
de 1958, começaram a ser fabricados os primeiros lotes de papel
produzidos a partir desta fibra e, em poucos anos, o Brasil passou
de importador a exportador de celulose. Como profissional de
grande visão estratégica, Max Feffer também foi responsável pela
diversificação e consolidação da Suzano a partir de investimentos
no setor Petroquímico e na profissionalização da gestão. Por sua
proximidade com as artes, especialmente a música, e sua
expressiva presença no cenário cultural paulistano, Max Feffer
exerceu o cargo de Secretário de Estado da Cultura, Ciência e
Tecnologia de São Paulo entre 1976 e 1979. Nesta época
desenvolveu importantes projetos entre os quais o Festival de Jazz
e o Festival de Inverno de Campos do Jordão. Em 1999, foi um dos
responsáveis pela criação do Instituto Ecofuturo, organização não-
governamental mantida pela Suzano Papel e Celulose, que visa
promover o desenvolvimento sustentável.

Leon e Max Feffer da Suzano Papel e Celuloce

[Fonte: https://www.suzano.com.br/a-suzano/historia]
Soja

A soja é uma espécie leguminosa nativa da Ásia Oriental,


amplamente cultivada por seu feijão comestível. Usos tradicionais
de alimentos não fermentados da soja incluem leite de soja, da qual
é feito o tofu. Alimentos fermentados de soja incluem molho de soja,
e pasta de feijão fermentado. A soja é uma fonte importante e
barata de proteína empregada em rações animais e muitas
refeições embaladas. Por exemplo, derivados da soja, como a
proteína vegetal texturizada (TVP), são ingredientes de substitutos
de carne e laticínios. Os grãos de soja contêm quantidades
significativas de ácido fótico, minerais dietéticos e vitaminas B. O
óleo vegetal de soja, usado em aplicações alimentícias e industriais,
é outro subproduto importante. A soja é a fonte proteica mais
importante para animais de fazenda que, por sua vez, produzem
proteína animal para consumo humano).

O convênio assinado em 1963 entre a UFRGS e a Universidade de


Wisconsin, nos Estados Unidos, possibilitou a vinda ao Rio Grande
do Sul de professores da universidade norte-americana. John
Murdock liderou a implantação da Área de Concentração em Solos
na pós-graduação em Agronomia da UFRGS, em 1965. O trabalho
na área de solos o encaminhou para a pesquisa de campo e para a
criação do Projeto de Aumento da Fertilidade e Produtividade dos
Solos (Operação Tatu) com a fase pioneira em Santa Rosa/RS, a
partir de capacitação técnica e de implantação de lavouras
demonstrativas. O projeto foi estendido para outros municípios do
Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

Por sua vez, a tchecoslovaca Joahanna Döbereiner estudou


bactérias fixadoras de nitrogênio que permitiram aumentar a
produção de soja no Brasil, que é agora o segundo maior produtor
mundial.

Natura

A Natura foi criada em agosto de 1969 por Antônio Luiz Seabra e


hoje é líder de mercado brasileiro em higiene pessoal, produtos
cosméticos e perfumes. Após abrir uma loja e uma pequena fábrica
no bairro da Vila Mariana em São Paulo, em 1974 deixou de
oferecer seus produtos em lojas e passou a empregar o modelo de
venda-direta. A Natura hoje está presente no Brasil, Argentina,
Chile, Colômbia, México, Peru, Venezuela, França e Estados
Unidos, e indiretamente em outros 63 países. O número de
funcionários, chamados na empresa de colaboradores, atingiu
7.000 em 2013 e o de consultoras é estimado em 1,5 milhão. Em
2016, adquiriu a Emeis Holdings Pty Ltd, dona da rede de
cosméticos australiana Aēsop. Em 2017, realizou a compra da rede
The Body Shop da L'Oréal, por cerca de € 1 bilhão, aumentando
significantemente sua presença internacional e faturamento global.

Hoje uma empresa multinacional, está presente em muitos países


latino-americanos e na França, com receita líquida de R $ 7 bilhões
em 2013 (cerca de US $ 2,2 bilhões). A Forbes List classificou-a
como a oitava empresa mais inovadora no mundo. Como resultado
de seu comportamento corporativo, a Natura tornou-se a maior
empresa do mundo a obter a certificação B-Corp em 2014. A Natura
emprega uma equipe de 260 pessoas diretamente envolvidas na
inovação, mais da metade deles com pós-graduação, e investe
cerca de 3% de sua receita em pesquisa e desenvolvimento (R$
180 milhões em 2013). O crescimento geral tem sido muito intenso,
com o valor dos negócios quadruplicando nos últimos dez anos.
A biodiversidade brasileira é um ingrediente chave no processo de
inovação da Natura, que usa extratos vegetais. A incorporação de
princípios biológicos ativos derivados da flora brasileira requer
interação com comunidades amazônicas e parcerias com institutos
de pesquisa como Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa). A linha Chronos utiliza princípios ativos da
Passiflora (maracujá), e foi desenvolvida em parceria com a
Universidade Federal de Santa Catarina. A Natura também participa
de grupos de inovação no exterior como o Global Hub of Innovation
em Nova York. Tem também parcerias o Massachusetts Institute of
Technology Media Lab,o Massachussetts General Hospital e a
Universidade de Lyon na França. Em 2015 inaugurou o Centro de
Pesquisa Aplicada em Bem-Estar e Comportamento Humano em
parceria com a FAPESP.

Empreendedores e Unicórnios
Fonte: Letícia Piccolotto; https://govtech.blogosfera.uol.com.br/

Unicórnios são as startups avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais.


2019 foi o ano dos unicórnios no Brasil. Nada menos do que 5
startups unicórnio nasceram nesse período: Loggi, empresa de
transporte; Gympass, que criou um plano para utilização de
academias; QuintoAndar, que atua no ramo de compra e aluguel de
casas e apartamentos; a Ebanx, de pagamentos e, por último, a
Wildlife, estúdio de games. Muito mais do que representar o
sucesso individual de empreendedores que conseguiram erguer
grandes impérios, o crescimento de unicórnios é um indicador para
o ecossistema empreendedor. Significa que ele está avançando em
maturidade, escala e inovação. E esse movimento só tende a
crescer. No Brasil, o termo startup só se popularizou no fim da
década de 90, para nomear uma empresa jovem, com um modelo
de negócio inovador e uma ideia disruptiva com grande potencial de
produzir lucro. Essa definição se mantém até hoje e engloba
também importantes princípios, como a sustentabilidade, a rapidez
e a flexibilidade.

Há startups nas mais diversas áreas – fintechs, agritechs,


lawtechs, edtechs e as já conhecidas govtechs. Todo unicórnio é
uma startup, ainda que o contrário não seja verdade. Para que as
startups iniciem sua operação, já que ainda não têm faturamento ou
lucro iniciais, elas precisam de investimento, muitas vezes realizado
por fundos de venture capital. Em tradução literal, seria algo como
"capital de risco" – afinal, os investidores, abertos à possibilidade de
insucesso, aportam dinheiro em uma ideia que pode vir a ser bem-
sucedida.

No Brasil, a primeira a ser considerada um unicórnio foi o aplicativo


de transporte urbano 99. Uma das mais conhecidas é o iFood, a
plataforma para pedido de comida de restaurantes, que em pouco
tempo tornou-se o maior aplicativo de entrega de alimentos da
América Latina, com mais de oito milhões de pedidos por mês e
valor estimado em US$ 2 bilhões. No mundo das fintechs, o Brasil é
o berço da Nubank – considerado um dos maiores bancos digitais
do mundo, da processadora de pagamentos Stone e da PagSeguro,
que alcançou aproximadamente US$ 2,3 bilhões com a venda de
suas ações. A Movile completa a lista: é uma startup de venture
capital, ou seja, investe em negócios promissores e de risco.

Ainda não temos uma govtech unicórnio no Brasil, embora a grande


maioria das startups possa modelar seu negócio para uma atuação
B2G – ou seja, business to government – ou atuar em colaboração
com o governo. Por exemplo, aplicativos como Waze ou Uber
podem ser ferramentas poderosas para pensar a mobilidade
urbana, sobretudo em grandes cidades, graças à quantidade
inimaginável de informações que eles dispõem. Há vários fatores
que dificultam o surgimento de unicórnios govtech. Primeiro e mais
importante, a dimensão cultural: o setor público é quase sempre
visto como um espaço difícil de atuar, em que há burocracia em
excesso e baixa propensão a inovar. Transformar essa imagem tem
sido a pauta de atuação do BrazilLAB, organização que busca
conectar empreendedores e o setor público para juntos, construírem
soluções tecnológicas e de impacto.

Aprendendo a empreender

Pensemos em uma sala típica de uma universidade brasileira,


com 50 alunos. Quantos sonham com um cargo em órgãos públicos
assim que se formarem? Cerca de 21. E quantos deles pensam em
ser donos do próprio negócio? Apenas três.
O principal motivo para essa discrepância de expectativas
profissionais não é a falta de recursos financeiros: 30% dos
universitários dizem não possuir interesse em empreender
simplesmente por nunca ter pensado em tal possibilidade,
desconhecida ao longo da vida escolar. Se ele assistiu a uma
universidade federal, a maioria dos seus professores trabalhava em
regime DE centrado em ensino e pesquisa acadêmica e com pouco
conhecimento do mercado. Eles não comentam em aula as
aplicações práticas das matérias ensinadas e não mostram
interesse por empreendimentos tecnológicos. Falta sintonia entre a
academia e o mercado de trabalho na sala de aula. A situação é
diferente em algumas das universidades particulares, onde os
professores têm maior contato com o mercado e maior flexibilidade
de contrato.
Os dados mencionados são da quarta edição da pesquisa
Empreendedorismo nas Universidades Brasileiras, realizada
pela Endeavor e pelo Sebrae. O estudo contou com a participação
de 2.230 alunos e 680 professores, pertencentes a mais de 70
instituições de ensino superior pelo país. A instituição lançou
recentemente o Centro de Referência em Educação
Empreendedora, um think tank virtual que observa tendências em
educação empreendedora no mundo e no Brasil. O objetivo é
discutir metodologias e práticas de inovação em educação e ensino
do empreendedorismo.
De fato, algumas instituições já estão avançando no quesito
empreendedorismo – seja por iniciativa dos alunos ou da própria
universidade. Essas universidades querem mudar o
desconhecimento sobre o empreendedorismo como opção de
carreira. Nelas, a cada novo ano escolar, os alunos podem elaborar
planos de negócios; expor suas ideias em feiras; capacitar-se em
workshops; participar de empresas juniores, de incubadoras e
aceleradoras de empresas, e, por fim, conversar com investidores
e lançar sua própria empresa.
Temas como criação de empreendimentos, franquias, gestão,
inovação ou tecnologia estão presentes em apenas 6,2% das
instituições. E, das que oferecem tais matérias, 54,5% são sobre
“inspiração”. Ou seja: os alunos são incentivados a dar o primeiro
passo, mas não possuem apoio para os desafios seguintes.
A primeira porta de entrada ao empreendedorismo que a
universidade brasileira costuma oferecer é a empresa júnior: hoje
(dados de 2017), há 452 empreendimentos auditados e
regularizados, segundo dados da Confederação Brasileira de
Empresas Juniores. Isso se traduz em 16 mil universitários
integrantes desse tipo de projeto, em 110 instituições de ensino
superior. Desde muito cedo, o estudante tem a experiência real de
gerir uma empresa: precisa trabalhar em áreas como comunicação,
liderança, tirar ideias do papel e trabalhar em equipe.
Na Universidade de São Paulo, os próprios alunos estimularam a
criação de um Núcleo de Empreendedorismo da USP (NEU), há
cinco anos. No começo, eram cinco membros com a missão de
fomentar a cultura empreendedora na universidade. Havia
pouquíssimas iniciativas focadas em negócios de base tecnológica,
apesar da tradição em pesquisa. Hoje, há bastante apoio de
pesquisadores e professores. O NEU desenvolve diversas
atividades. Um deles é o programa StartupShip, que conecta
alunos com startups que oferecem programas de estágio.
Alunos da USP assistem à palestra feita pelo NEU

O NEU também disponibilizou um curso gratuito e online para


criação de startups, por meio da plataforma Coursera. Há uma
divisão entre aulas teóricas e práticas, dadas por fundadores de
startups uspianas – por exemplo, 99taxi e Kekanto.
Na Fundação Getúlio Vargas (FGV), ocorreu o caminho inverso: a
criação de disciplinas e feiras pela fundação fez os alunos
despertarem para o empreendedorismo. Há diversas disciplinas: a
primeira é “Experiência Empreendedora”, dada no segundo
semestre. Nela, os alunos desenvolvem um projeto escalável e
inovador, trabalhando o semestre inteiro nesse objeto. No final da
disciplina há uma Feira Empreendedora com jurados externos, que
fazem a avaliação. Os alunos expõem os projetos, e os agentes do
ecossistema selecionam os melhores. Esses escolhidos podem ser
incubados na própria FGV, pela GVentures, ou através da captação
de investimentos externos.

Alunos da FGV Experiência Empreendedora

Outras aulas incluem temas como captação de recursos, criação de


websites, empreendedorismo cultural, empreendedorismo feminino,
empreendedorismo social, family business, franquias e startups. Os
estudantes da FGV também podem fazer um curso imersivo de
férias no Babson College, universidade americana que é referência
em empreendedorismo.
A Incubadora de Empresas da COPPE, da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ) nasceu em 1994 para desenvolver
negócios inovadores, a partir de pesquisas tecnológicas apoiadas
pela universidade. A maioria dos projetos nasceu das pesquisas da
UFRJ, mas outros participantes vieram em busca de apoio para
ampliar sua capacidade de inovação tecnológica. Hoje, a instituição
está localizada no Parque Tecnológico da UFRJ, ambiente de
colaboração entre a universidade e empresas.

Empreendedores acelerados pela incubadora da UFRJ

O objetivo é ajudar o aluno que sai da academia com perfil técnico


para desenvolver novas habilidades e alcançar maior sucesso. Para
isso, a COPPE oferece assessoria individual, capacitações e
coaching da incubadora e de mentores externos. Cerca de 90
projetos já foram incubados, de células-tronco até robótica,
passando por software. A UFRJ se especializa em áreas como
energia, telecomunicações e saúde.
Para a universidade, o objetivo é tirar tecnologias dos laboratórios e
colocá-las ao serviço da sociedade. Para os empreendedores, é ter
serviços e suporte para desenvolver novas habilidades. Além de
permitir um networking diferente do que um estudante normal teria,
amplificando sua rede de relacionamento.

O MBA em gestão, empreendedorismo e marketing da PUCRS


tem Professores convidados brasileiros e estrangeiros. (Steve
Wozniak, Neil Patel, Flávio Augusto, Uri Levine, Carlos Wizard
Martins, Alexandre Ribas, Chieko Aoki, Erico Rocha, Renato
Mendes, Milton Beck, Angela Hirata, Maurício Vargas, Caito Maia,
David Lederman, Paulo Ilha, Tiago Mattos, Eduardo Carmello,
Edson Marqueto Rigonatti e Jorge Audy.)
As aulas são realizadas sempre por uma dupla de professores. Um
é um profissional referência no mercado (professor convidado) e o
outro um professor da PUCRS, responsável acadêmico pelas
avaliações e materiais complementares. Cada disciplina tem três
encontros, sendo dois ministrados pelo professor convidado. São 19
disciplinas no total, que aliam conhecimento técnico, humano e de
gestão, sempre aplicado à Gestão, Empreendedorismo e Marketing,
O curso tem duração de 12 meses, sendo nove meses para cursar
as disciplinas e três meses para o Trabalho de Conclusão de Curso.

Desenvolvimento de Startups na Tecnopuc.

Políticas públicas e inovação


Apesar de fazer investimentos importantes, governos recentes não
tiveram demasiado sucesso em promover inovações produtivas. No
final dos anos 90, quando as reformas econômicas se firmaram, foi
proposta legislação para estimular P&D na área privada. O marco
mais importante foi a Lei Nacional de Inovação. Logo após sua
aprovação em 2006, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação
publicou um Plano de Ação para Ciência, Tecnologia e Inovação
estabelecendo quatro metas principais a serem atingidas até 2010:
Aumentar a despesa interna bruta em P&D de 1,02% para 1,50%
do PIB; Aumentar os gastos empresariais em P&D de 0,51% para
0,65% do PIB; Aumentar o número de bolsas concedidas pelo
CNPq e a Capes, de 100.000 para 150.000; promover ciência e
tecnologia para o desenvolvimento social, estabelecendo 400
centros vocacionais e 600 novos centros de ensino à distância,
expandindo a Olimpíada de Matemática para 21 milhões de
participantes e concedendo 10.000 bolsas de estudos no nível
secundário. Nenhuma dessas metas havia sido alcançada em 2012.

Em diversas oportunidades, demasiado recorrentes, planeja-se


melhorar o conhecimento da ciência no Brasil criando novas
instituições, aumentando os recursos para a área, o número de
bolsas de pesquisa e o número de doutorados. Isso equivale a
pensar que a delinquência (um problema ainda mais sério que a
ignorância da ciência) diminuirá aumentando o número de juízes e
os recursos do Judiciário. Para se desenvolver com igualdade e
respeito à natureza, o Brasil precisa de professores competentes e
bem treinados e professionais competentes, dedicados e honestos
nas áreas de saúde e tecnologia que deem apoio aos processos de
inovação econômica e social. A pesquisa básica pode ficar limitada
a grupos de excelência ligados aos melhores centros internacionais,
capazes de trazer prêmios Nobel para nosso país. A Suíça investe
menos em pesquisa que o Brasil, e tem 33 prémios Nobel.

Entre 2001 e 2010, houve uma queda acentuada na participação do


pessoal de pesquisa empregado pelo setor empresarial, de 40%
(2001) para 26% (2010). Isso é contrário à tendência observada na
maioria dos países desenvolvidos e emergentes e resultou da
expansão da pesquisa no ensino superior e do crescimento
anêmico da P&D industrial. Leis de incentivo tecnológico consomem
bilhões de reais em renuncias fiscais sem controle e sem garantia
de que as contrapartidas sejam cumpridas.

De acordo com uma pesquisa de 2014 do Instituto de Estatística da


UNESCO de empresas inovadoras de fabricação em 65 países,
85% das empresas brasileiras ainda estão na fase em que só
inovam através da aquisição de máquinas e software. Cerca de
17% das empresas brasileiras realizam pesquisa e desenvolvimento
internamente, segundo a pesquisa, em comparação com 19% das
empresas russas, 35% das empresas indianas, 54% das empresas
sul-africanas e 63% das empresas chinesas. Apenas 6% das
empresas brasileiras de manufatura colaboram com as
universidades para desenvolver produtos e processos inovadores,
uma proporção menor do que no México (7%), Colômbia (11%),
Argentina e Cuba (15%) e, acima de tudo, Costa Rica (35%).

As raízes do problema são profundas. A velha política de


substituição de importações protege os bens produzidos localmente
da concorrência estrangeira, desencorajando as empresas locais de
investir em pesquisa e desenvolvimento, uma vez que competem
com empresas não inovadoras similares que operam dentro do
mesmo sistema protecionista. A consequência dessa política tem
sido um declínio gradual na participação do Brasil no comércio
global, principalmente na exportação de bens industriais. Essa
tendência se acelerou nos últimos anos. Entre 2004 e 2013, a
participação das exportações caiu de 14,6% para 10,8% do PIB,
apesar do boom das commodities, uma tendência que não pode ser
explicada apenas pela taxa de câmbio desfavorável.
As commodities compõem uma proporção crescente das
exportações brasileiras. Atingiram 50,8% de todas as exportações
no primeiro semestre de 2014, ante 29,3% em 2005. Entretanto,
cabe lembrar que a enorme competitividade agrícola brasileira no
século 21 está associada ao fator tecnologia, não mais ao fator
terra. Com a modernização tecnológica dos últimos 40 anos,
propiciada pela Embrapa e algumas universidades, a economia
rural do Brasil deixou de ser de baixa tecnologia e é hoje uma das
mais produtivas do mundo.

O desenvolvimento industrial no Brasil é limitado pela falta de


infraestrutura moderna, especialmente em logística e geração de
energia elétrica, além de regulamentações complexas no registro de
empresas, tributação ou falência e leis trabalhistas que resultam em
um alto custo de fazer negócios. Esses problemas conduzem a uma
baixa produtividade e baixa competividade e afetam a capacidade
das empresas brasileiras de competir internacionalmente e buscar a
inovação. Em 2018 as exportações do Brasil foram menores que as
do Vietnã.
Fontes: Wikipedia; Pesquisa, Inovação,
Desenvolvimento, G. J. Creus, P.A.L.Torres, E.
Giugliani, 2018; Unesco Science Report., 2015, Capítulo
sobre Brasil, Renato Hyuda de Luna Pedrosa and
Hernan Chaimovich]; ABC: Projeto de Ciência para o
Brasil, 2018.
http://www.abc.org.br/wp-
content/uploads/2018/05/Projeto-de-Ciencia-para-o-
Brasil.pdf
ALEMANHA NO BRASIL
José Bonifácio, Dona Leopoldina e a
ginga da Gisele Bündchen.
Até 1871 não existiu o Estado alemão. A região era composta por
diversos principados, condados, reinados e ducados. As potências
europeias enxergavam uma Alemanha unificada como uma ameaça,
e mantê-la fragmentada fazia parte da geopolítica europeia. No
século XIX o processo de industrialização avançava e
desestruturando o mercado de trabalho no qual havia ainda
resquícios de feudalismo e aumentando a pobreza entre os
camponeses, que começram a ver na emigração uma saída para as
suas mazelas.

Revolta dos negros em Haiti

Pelo Tratado de Aliança e Amizade assinado em 1810 entre


Portugal e Inglaterra, D. João havia se comprometido com a
extinção gradual do tráfico negreiro até a sua proibição. O perigo de
uma revolta de escravos, como a que havia libertado o Haiti de
mãos francesas em 1791, era visto pela população branca e livre
como algo iminente. Um pouco mais tarde o rei português expôs
seu objetivo quanto ao projeto de mudar a fonte da mão de obra no
Brasil: decidira “substituir por colonos brancos os escravos negros”.
Em 1818, D. João VI estabeleceu as condições para a vinda de
famílias suíças para o Brasil. Nos dois anos seguintes, mais de 2
mil suíços, muitos de língua alemã, foram trazidos para a região
serrana do Rio de Janeiro. Ali foi fundada a colônia de Nova
Friburgo, a primeira tentativa oficial de criação de uma colônia
agrícola com europeus não portugueses.

A imperatriz Dona Leopoldina e José Bonifácio de Andrada e Silva

Em 1822, José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), que


estava à frente do Ministério do Reino e dos Negócios Estrangeiros,
articulou a vinda de colonos que viessem substituir a mão de obra
escrava e os soldados que garantiriam a independência do Brasil.
José Bonifácio, nascido e São Paulo, estudou em Portugal, na
França com Lavoisier e em Freyberg com Werner, o criador da
mineralogia. Já mestre e sempre discípulo, porque no sábio
verdadeiro é insaciável a sede do saber, estudou eletricidade com
Volta e fez pesquisas mineralógicas de grande alcance, em uma
peregrinação de dez anos. Quando os franceses invadiram
Portugal, voltou lá e comandante de uma guerrilha lutou até ver o
velho reino limpo de invasores. Então, voltou ao Brasil, deixando o
laboratório para entrar na História.
José Bonifácio contratou Georg Anton von Schaeffer, um alemão
amigo da austríaca Leopoldina, imperatriz do Brasil, e o enviou a
Europa. A sua missão era visitar as principais cortes alemãs
angariando apoio à causa brasileira, e encaminhar para o Brasil
colonos e soldados para a guerra da Independência. Schaeffer
embarcou uma semana antes do Grito do Ipiranga. Assim, devemos
a José de Patrocínio, além de muitas outras coisas, a ginga de
Gisele Bündchen e Gustavo Kuerten, as equações de Mario
Schonberg, a carranca do General Geisel, a filantropia de Jorge
Paulo Lemann, a Oktoberfest de Blumenau e o café colonial de
Gramado.
Ligado a maçonaria, Schaeffer era poliglota, inteligente, organizado
e, como o Patriarca, tinha ideias abolicionistas e liberais. Em de
1821, antes de ser incumbido de trazer colonos para o governo,
Schaeffer recebeu terras devolutas nas proximidades do rio
Peruípe, em Viçosa, no sul da Bahia. Ali, com algumas famílias
alemãs, fundou a colônia de Frankental e tentou plantar café sem a
utilização da mão de obra escrava. José Bonifácio e Schaeffer não
só projetaram a organização de colônias no Brasil, mas a própria
criação de uma nova capital para o país – o que o Patriarca da
Independência propôs na Constituinte de 1823. Schaeffer deu as
coordenadas: o local exato, onde quase 140 depois, Brasília seria
construída!
Para aqueles que quisessem fugir das guerras e da miséria na
Europa, von Schaeffer oferecia 77 hectares de terra, isenção de
impostos por dez anos, animais de criação e sementes entre outros
subsídios. Foram criados quatro batalhões de estrangeiros com
alemães: dois de Granadeiros, para a guarda da Corte e dois de
Caçadores, que lutariam na Guerra da Cisplatina e na
Confederação do Equador.

Gisele Bündchen e Ernesto Geisel

Em janeiro de 1824, o Argus ancorou no porto do Rio de Janeiro


com pouco mais de 280 pessoas. Era o primeiro navio com alemães
“a serviço do Império”. Os soldados permaneceram na capital para
servir no Exército. A região escolhida para as maiores levas de
colonos estava localizada no Vale do Rio dos Sinos, próximo a
Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Onde chegaram no 25 de julho,
data consagrada em 1924, nas comemorações do Centenário da
Imigração Alemã.
A ideia de imigração e colonização no Brasil passava pela
necessidade de criação de uma nova classe média, branca e
pequena proprietária, que desenvolvesse a policultura agrícola e o
artesanato, povoasse áreas de fronteira e fosse capaz de abastecer
cidades importantes. São Leopoldo cumpriu muito bem esse papel,
muito mais do que qualquer outra tentativa anterior. Daí que,
mesmo não sendo o projeto pioneiro, ele é considerado o berço da
colonização alemã no Brasil.
O trabalho de agenciamento de alemães perdurou mesmo depois
da saída de José Bonifácio do ministério. Com base no projeto
iniciado em 1822, após a criação de São Leopoldo (1824) e de Três
Forquilhas, também no Rio Grande do Sul (1826), surgiram ainda
as colônias Santo Amaro e Itapecerica, em São Paulo (1827 e
1828), São Pedro de Alcântara, em Santa Catarina (1829), e Rio
Negro, no Paraná (1829). Até 1830, mais de 8 mil alemães
entraram no Brasil. Metade deles era protestante (luteranos), fato
novo em um país historicamente católico.
Em 1834, uma alteração na Constituição permitiu que a iniciativa e
o estabelecimento de colônias ficassem a cargo dos governos
provinciais. O objetivo da imigração passou a ser quase
exclusivamente econômico, por interesse tanto das províncias
quanto de particulares. Após o fim da Revolução Farroupilha, no
Sul, o país retomou a iniciativa de imigração e colonização. Entre as
mais importantes estavam: Petrópolis, no Rio de Janeiro (1845);
Santa Isabel (1847) e Leopoldina (1859), no Espírito Santo;
Blumenau (1850) e Dona Francisca (1851), em Santa Catarina; e
Santa Cruz do Sul (1849), Santo Ângelo (1857) e São Lourenço do
Sul (1858), no Rio Grande do Sul. Somente no Rio Grande do Sul
foram criadas 140 colônias até 1922.
Possivelmente, o mais bem-sucedido empreendimento de
colonização com alemães tenha sido mesmo Blumenau, em Santa
Catarina, fruto do trabalho do farmacêutico Hermann Blumenau
(1819-1899). Em 1848, ele conseguiu junto ao governo de Santa
Catarina a concessão de terras no Vale do Itajaí, dando início ao
projeto dois anos depois. A ideia inicial de um estabelecimento
agrário em grande escala deu lugar à pequena propriedade e à
criação de um centro urbano, complemento indispensável
econômica, comercial e culturalmente à colônia.
Os alemães estavam entre as nacionalidades que mais
conseguiram preservar sua cultura no Brasil. Devido ao seu
isolamento em regiões de difícil acesso, sobretudo nos estados
sulistas, foi possível a criação de diversas colônias
predominantemente germânicas. Um dos exemplos mais
significativos da manutenção cultural foi a proliferação de escolas
alemãs no Brasil, bem como de uma imprensa em língua alemã.
Como consequência, milhares de descendentes foram instruídos
em língua alemã, sem o conhecimento do idioma português. Com o
tempo, os traços de germanidade foram-se tornando mais débeis,
mas as influências persistem até os dias atuais. Grande número de
brasileiros de origem alemã ainda hoje falam o alemão ou outros
dialetos germânicos como o Hunsrückisch e a língua pomerana.
Além da influência cultural, os alemães contribuiram para a
diversificação da agricultura brasileira, por meio da formação de um
campesinato típico, fortemente marcado pelos traços da cultura da
Europa Central. Os alemães também tiveram participação no
processo de urbanização e de industrialização do Brasil, bem como
na introdução e modificações na arquitetura das cidades e na
paisagem físico-social brasileira. Foi em parte por causa dos
alemães que o sul do Brasil foi considerado o Sul Maravilha. Eles se
mantiveram sempre apegados ao Brasil, ainda na época da
Segunda Grande Guerra, quando foram presionados para
abandonar sua lingua e os símbolos da madre patria.
De diversas formas, até o início da década de 1970 haviam
chegado ao Brasil mais de 255 mil imigrantes provenientes de
territórios que formam a Alemanha moderna. Em 1986, Born e
Dickgiesser estimaram em 3 milhões e 600 mil o número de
descendentes de alemães no Brasil. Segundo Simon Schwartzman,
3,6% dos brasileiros entrevistados afirmaram ter ancestralidade
alemã, percentual que, numa população de cerca de 200 milhões
de brasileiros, representaria 7,2 milhões de descendentes. Em
2004, o Deutsche Welle citou o número de 5 milhões de brasileiros
descendentes de alemães. Segundo pesquisa de 2016 publicada
pelo IPEA, em um universo de 46.801.772 nomes de brasileiros
analisados, 1.525.890 ou 3,3% deles tinham o único ou o último
sobrenome de origem germânica.
Gramado, Rio Grande do Sul.

Fonte: Rodrigo Trespach, 1824., Wikipedia.


BRASILIA
O que o Marquês do Pombal, José
Bonifácio, Dom Bosco e o caboclo
queriam, e finalmente Juscelino fez.
Terra de sol,
Terra de luz
Terra que guarda no céu
A brilhar o sinal de uma cruz
Terra de luz
Terra-esperança, promessa
De um mundo de paz e de amor
Terra de irmãos
Ó alma brasileira ... Alma brasileira ..
Terra-poesia de canções e de perdão
Terra que um dia encontrou seu coração

Vinicius de Moraes, Sinfonia da Alvorada.

Uma nova capital para o Brasil

A primeira ideia de levar a capital ao interior do Brasil parece ter


sido do Marquês de Pombal, que já fizera em 1763 a transferência
da capital de Salvador para o Rio de Janeiro. Ideia semelhante
tiveram os inconfidentes mineiros que queriam levá-la para São
João del-Rei, por ser mais bem situada e farta em mantimentos,
e associavam a mudança à implantação do regime republicano.
Em 1821 José Bonifácio de Andrada e Silva, que era proativo,
reivindicou junto à Corte Constituinte em Lisboa a necessidade da
construção de uma capital no centro do país. Seguindo sua
orientação os deputados constituintes brasileiros conseguiram
incluir a construção no Parecer da Comissão Encarregada da
Redação dos Artigos Adicionais à Constituição Portuguesa
Referentes ao Brasil, de 1822. Um dos deputados publicou um
folheto onde sugeria como nome dessa futura capital Brasília. Após
a Independência do Brasil, na Assembleia Constituinte, foi lido um
memorando de José Bonifácio propondo a instalação da capital no
centro do Brasil e com o nome de Brasília ou Petrópolis. A ideia era
tão forte que até gerou o sonho profético de Dom Bosco, que
imaginou no Planalto Central uma futura Terra Prometida onde
correriam rios de leite e mel: uma cidade livre da contaminação da
herança portuguesa, que irradiaria seu espírito civilizador sobre
todo o território.

Giovanni Melchior Bosco, Dom Bosco


é o padroeiro da capital federal do Brasil.

Com o advento da República a velha questão voltou à tona, e neste


momento ela já estava tão arraigada no espírito nacional que
quando a Assembleia Constituinte se reuniu, de forma praticamente
consensual e sem maiores discussões, foi fixado no texto da
Constituição de 1891 o imperativo da criação de uma nova capital
no centro do país. Floriano Peixoto, o segundo Presidente da
República, deu objetividade ao texto, constituindo em 1892 a
Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, sob a chefia
do astrônomo belga-brasileiro Louis Cruls, então diretor do
Observatório Astronômico do Rio de Janeiro. Após pesquisa de
campo, a comissão apresentou dois relatórios delimitando uma área
retangular de 90 x 160 km que ficou conhecida como Retângulo
Cruls. Os relatórios eram documentos científicos substanciais, com
extenso detalhamento, indicando que o clima nessa região do
planalto era excelente. De fato, Brasília tem um clima tropical de
altitude típico de savanas tropicais, encontrando-se a 1.100 metros
acima do nível do mar. As temperaturas são amenas e nunca muito
quentes ou muito frias. A temperatura média anual é de 21,2°C.
Louis Cruls e o retângulo Cruls.

Em 1933 a Comissão Nacional de Redivisão Territorial e


Localização da Capital recomendou a ratificação do disposto na
Constituição de 1891, com a consequência de na Constituição de
1934 a transferência ser outra vez determinada oficialmente.
Contudo, Getúlio Vargas não fez qualquer movimento para
implementação das leis, e a Constituição do Estado Novo,
outorgada em 1937, silenciou sobre o tema.
Ao final do Estado Novo a eclosão de inúmeras greves de
trabalhadores e outros movimentos sociais foram vistos como
ameaças à ordem pública e por isso prejudiciais a um governo
tranquilo, e acabaram por induzir os parlamentares à ideia de que o
Rio de Janeiro não mais servia como sede do poder federal.
Retomou-se o projeto de mudança em meio a um grande debate
que opunha aqueles que o viam como um dispêndio desnecessário
e os que entendiam a mudança como parte de uma estratégia
geopolítica.
A opinião favorável à mudança ganhou a disputa e formou-se um
novo consenso, refletido na Constituição de 1946. O artigo 4º das
Disposições Transitórias rezava que A Capital da União será
transferida para o planalto central do Pais, e, já no seu primeiro
parágrafo, obrigava à formação de uma comissão no prazo de
sessenta dias para levar adiante os trabalhos técnicos. Em 1953 a
empresa de levantamento aéreo Donald Belcher & Associates Inc.,
dos Estados Unidos, elaborou um documento técnico indicando
cinco pontos favoráveis. No ano seguinte, no governo de Café
Filho, foi escolhido o local definitivo, delimitando uma área de 5850
km² entre os rios Preto e Descoberto e os paralelos 15º30'S e
16º03'S.
No final de 1955 começaram as desapropriações necessárias para
a ocupação da área.
A mudança aconteceu na presidência de Juscelino Kubitschek,
que assumiu o governo em 1956, e desde a campanha eleitoral já
firmara sua disposição de cumprir o que determinava a lei.
Juscelino Kubitschek, médico e político mineiro, ocupou a
Presidência da República entre 1956 e 1961. JK concluiu o curso de
humanidades do Seminário de Diamantina e em 1920 mudou-se
para Belo Horizonte. Em 1927, formou-se em medicina pela
Universidade Federal de Minas Gerais, e em 1930 especializou-se
em urologia em Paris. Em dezembro de 1931, casou-se com Sarah
Lemos. Antes de ser presidente do Brasil foi prefeito de Belo
Horizonte e governador de Minas Gerais.

Juscelino Kubischek, JK

A Novacap
Juscelino iniciou seu governo com uma explosão econômica e taxas
impressionantes de crescimento: 80% ao ano na produção
industrial, e até de 600% em alguns setores como o elétrico e
equipamentos de transporte; 7% de aumento anual no PNB, maciça
entrada de capital estrangeiro, expansão generalizada no consumo,
e ênfase nos valores da livre empresa. Paralelamente houve o
crescimento da inflação pela grande emissão de moeda e maior
concentração de renda, repercutindo em defasagem salarial e
exploração da força de trabalho. Juscelino procurou manter esse
ritmo em um Plano de Metas, para fazer em cinco anos o que
normalmente levaria cinquenta, vendo na industrialização a
panaceia contra todos os males brasileiros.
O projeto de JK foi baseado em estudos das décadas de 1940 e 50,
feitos por variadas comissões econômicas. O principal foi o
diagnóstico elaborado, ainda na Era Vargas, pela Comissão Mista
Brasil-EUA. Tanto a conclusão da Comissão Mista, como a do
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e a da
Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL),
apontavam gargalos estruturais relacionados à produção e
escoamento dos produtos da indústria nacional como os principais
entraves ao desenvolvimento econômico, e por isso o Plano de
Metas se pautou em resolver estes problemas.
Os resultados econômicos foram tão marcantes que o discurso
desenvolvimentista foi capaz de atrair o consenso da maioria dos
segmentos influentes da sociedade brasileira, incluindo facções
inicialmente opostas, como os militares e os comunistas. A
construção de Brasília se inseriu nesse Plano de Metas, como parte
importante do processo de integração nacional e de ocupação do
território. O plano de Metas marcava seis grandes objetivos:
energia, transportes, alimentação, indústria de base, educação e a
construção de Brasília, que era a Meta-Síntese.

A pesar da descrença generalizada de que a nova capital fosse


construída, Juscelino conseguiu aprovar a Lei n.º 2.874, que criou a
Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap),
Para presidi-la foi nomeado Israel Pinheiro, engenheiro formado na
Escola de Minas de Ouro Preto, político mineiro e amigo de JK. O
arquiteto Oscar Niemeyer, nomeado diretor técnico, começou a
elaborar projetos para os primeiros edifícios, como o Catetinho, o
Palácio da Alvorada e o Brasília Palace Hotel. Ele também foi o
organizador de um concurso para a criação do projeto urbanístico
do núcleo da cidade, o chamado Plano Piloto. Lúcio Costa foi o
urbanista da cidade e Roberto Burle Marx foi o responsável pelo
paisagismo.

Oscar Niemayer, Lucio Costa e Roberto Burle Marx

O concurso de projetos
O edital do concurso para a escolha do projeto urbanístico Brasília
foi marcado para março de 1957. Concorreram 26 projetos dos
quais 16 foram eliminados numa seleção prévia.

O 1º colocado foi Lucio Costa. A sua proposta foi apresentada


apenas com um plano piloto desenhado à mão e um relatório
justificativo de 24 páginas, o mínimo exigido pela organização.
Na proposta, a cidade era organizada pelo cruzamento de dois
eixos, um deles arqueado para o escoamento das águas,
resultando assim na forma de avião. Ao longo do eixo reto, foram
ordenados os setores de administração governamental; e no eixo
arqueado, a região residencial, por onde passa uma malha
rodoviária constituída de pistas de alta velocidade e pistas
laterais para o tráfego local.

Definiu áreas específicas para cada tipo de uso: residencial,


administrativo, comercial, industrial, recreativo, cultural, e assim por
diante. Para minimizar problemas de circulação, eliminou
cruzamentos através da intersecção de avenidas em passagens de
nível. Na extremidade do eixo longitudinal, destacava-se a Praça
dos Três Poderes. As primeiras ideias de Costa desenharam o
Plano Piloto em forma de uma cruz ortogonal, mas a topografia do
terreno e necessidades de circulação impuseram uma adaptação,
de modo que o eixo transversal foi curvado

O projeto dividiu a opinião dos arquitetos. Para uns, não passava de


um rabisco, e sua inscrição não deveria ter sido sequer aceita. Para
outros, era simplesmente brilhante, genial. O representante do
Instituto de Arquitetos do Brasil, por exemplo, abandonou o tribunal
por divergir do resultado, já que a proposta de Lúcio Costa era um
rascunho. Os concorrentes derrotados criaram uma polêmica que
repercutiu na imprensa da época.

Lúcio Costa disse que não pretendia participar do concurso para a


nova capital, e partira em viagem aos Estados Unidos. Só ao final
do prazo de inscrições teria sentido necessidade de se desvencilhar
de uma ideia que surgira, quase pronta em sua mente, durante a
viagem.

O projeto consistiu basicamente no Eixo Rodoviário (ou Eixão) e o


Eixo Monumental no sentido leste-oeste. A criação arquitetônica
dos monumentos centrais foi de Niemeyer. O Eixo Rodoviário é
formado pelas asas Sul e Norte e pela parte central, que se
encontram sob a Rodoviária. As asas são áreas compostas pelas
superquadras residenciais, quadras comerciais e entrequadras de
lazer (onde há também escolas e igrejas). O Eixo Monumental é
composto pela Esplanada dos Ministérios e pela Praça Poderes, ao
leste; também a rodoviária, os setores de autarquias, setores
comerciais, diversão e setores hoteleiros, a torre de televisão.

No Relatório do Plano Piloto de Brasília, Lucio Costa já


explicitava suas intenções:
Brasília deve ser concebida não como um simples organismo capaz
de preencher satisfatoriamente, sem esforço, as funções vitais
próprias de uma cidade moderna qualquer, não apenas como urbis,
mas como civitas, possuidora dos atributos inerentes a uma Capital.
E, para tanto, a condição primeira é achar-se o urbanista imbuído
de uma certa dignidade e nobreza de intenção, porquanto dessa
atitude fundamental decorrem a ordenação e o senso de
convivência e medida capazes de conferir ao conjunto projetado o
desejado caráter monumental. Monumental não no sentido de
ostentação, mas no sentido da expressão consciente, daquilo que
vale e significa... Nasceu do gesto primário de quem assinala um
lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto,
ou seja, o próprio sinal da cruz.

É interessante mencionar um projeto bem diferente, o de Rino Levi,


que ficou en terceiro lugar, e concentrava a população em torres de
300m de altura, ao estilo de Manhattan. A ideia de Rino Levi
apresentava superblocos nas zonas de habitação intensiva, que
teriam 16 mil habitantes cada e mediriam 300 metros de altura.
Cada superbloco seria dividido em quatro unidades de habitação
para 4 mil pessoas, e teria, além do térreo com um pilote de 10
metros de altura, subsolo para garagem e ruas internas, onde
haveria lojas comerciais que ofereceriam os mais diversos tipos
de serviço aos moradores. A cada conjunto de três superblocos,
haveria um jardim de infância e um posto de saúde.

O projeto de Rino Levi

A construção de Brasilia

As obras foram iniciadas em fevereiro de 1957. Depois de três anos


a maioria dos seus principais edifícios estava pronta, dentre os
quais o Palácio da Alvorada. A primeira construção de estrutura
metálica (material trazido dos Estados Unidos) foi o Brasília Palace
Hotel. Os edifícios mais complexos, como os palácios e a catedral,
seguiram os projetos estruturais elaborados pelo engenheiro
Joaquim Cardozo. A cidade foi inaugurada em 21 de abril de 1960.

Brasília custou cerca de um bilhão de dólares. Este custo elevado


deveu-se, em parte, a ausência de estradas de ferro e de estradas
para levar o material de construção. A solução foi transportar o
material de construção por via aérea, o que encareceu muito o
custo das obras.

Foram construídos milhares de quilômetros de rodovias e ferrovias


para garantir o deslocamento de pessoas e materiais, e foram
usados os mais modernos recursos técnicos de construção, mas a
exiguidade dos prazos, impondo a conclusão das obras em 21 de
Abril de 1960, tornou febril o ritmo de construção. Os operários que
construíram Brasília, vindos dos quatro quadrantes do território
nacional, foram chamados Candangos. O nome Candango tornou-
se um título de glória. Candangos eram os trabalhadores que
realizavam tarefas impossíveis: os engenheiros, os técnicos, os
profissionais categorizados.

Não existiam materiais locais salvo a pedra, tijolos e areia. Tudo o


mais tinha de vir de longe, incluindo máquinas pesadas, e boa parte
do transporte era por via aérea, o que elevou enormemente os
custos. Apesar da abertura posterior de vias de transporte, o
principal ponto de transbordo de carga era em Anápolis, a 139 km
da capital, e o asfalto só chegou em Brasília em 1960, na fase final
da construção.
O discurso de Juscelino ao longo de todo o processo construtivo foi
enfaticamente progressista e entusiasta. Via a construção como um
passo decisivo da nação em direção à sua independência e unidade
política, e sua plena afirmação como povo, atribuindo a este a
missão grandiosa de civilizar e povoar as terras que havia
conquistado e assim apresentar à comunidade internacional um dos
mais ricos territórios do mundo. O ritmo acelerado das obras
revelava um novo padrão de ação social, para mudar a história por
meio de uma intervenção audaciosa, abreviando o curso da
evolução social e queimando etapas intermediárias.

Candango e a obra do Congresso


As condições gerais de trabalho eram precárias, a comida era de
má qualidade, e houve um alto índice de acidentes de trabalho. Os
salários eram baixos, o pagamento de horas extras era irregular e a
inflação acelerada corroía as pequenas poupanças. Eram
frequentes ações abusivas da polícia contra os trabalhadores em
nome da manutenção da ordem e para a repressão de protestos.
Devido a tantos problemas e violência, as crônicas dos jornais
comparavam Brasília a uma cidade do Velho Oeste norte-
americano.

Mas o entusiasmo empolgava a maioria, que sentia que colaborava


em uma obra grandiosa e podia, assim, enfrentar as dificuldades
materiais e humanas e a campanha pessimista dos inconformados.
Esperavam que dessa devoção ao trabalho e desse entusiasmo
resultaria um clima de união e amizade logo que tudo fosse
concluído.

Bruno Giorgi:,Os candangos, na Praça dos Três Poderes diante do


Palácio do Planalto.

A quantidade de operários afluindo às obras fez nascer vários


povoados em torno do Plano Piloto. A concentração principal
ocorreu na Cidade Livre, depois chamada Núcleo Bandeirante.
Consistindo de um grande conjunto de casas muito simples de
madeira, erguidas pelas empreiteiras para acolher os trabalhadores
migrantes, deveria ser desmantelada ao final da construção da
capital, o que acabou não acontecendo. Chegou a ter cinco mil
moradias e cerca de trinta mil habitantes, com um comércio mais
ativo que o de Goiânia na mesma época. Não eram necessários
projetos para as casas e a aglomeração era favorecida com a
isenção de impostos, mas não se davam títulos de propriedade.
Logo, o Núcleo Bandeirante ficou marcado como um centro de
marginais, com brigas de rua frequentes. Para o abastecimento
dessa população foram especialmente criadas uma cooperativa
agrícola, um matadouro, um mercado livre e uma granja. O Plano
Piloto previa a criação de cidades-satélite para a acomodação da
população excedente, considerando que Brasília propriamente dita
foi planejada para receber somente 500 mil pessoas até o ano de
2000, mas vários acampamentos irregulares no entorno se
tornaram cidades permanentes, como Brazlândia, Candangolândia,
Paranoá e Planaltina.

A partir de 1960, iniciou-se a transferência dos principais órgãos do


Governo Federal para a nova capital com a mudança das sedes dos
poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário.

Joaquim Cardozo, engenheiro e poeta.

A partir de 1960 iniciou-se a transferência dos principais órgãos da


administração federal para a nova capital, e na abertura da década
de 1970, Brasília estava em pleno funcionamento.

Críticas

Controversa desde o início, Brasília custou aos cofres públicos uma


fortuna, o que esteve provavelmente entre as causas das crises
financeiras nacionais dos anos seguintes à sua construção. O
projeto foi combatido como uma insensatez por muitos, e por muitos
aplaudido como uma resposta visionária e grandiosa ao desafio da
modernização brasileira. Ao longo de todo o governo de Juscelino
muitas críticas foram levantadas contra o projeto, algumas muito
duras, especialmente as de Carlos Lacerda, Eugênio Gudin,
Gilberto Freire e Gustavo Corção, atacando o planejamento, a
ideologia e a estética. Os trabalhos só continuaram graças à
inabalável firmeza e otimismo do presidente. Segundo algumas
análises, o esforço custou ao país a desestruturação econômica,
criando um vazio nas contas públicas, tornando crônica a inflação e
dificultando a governabilidade, sendo uma das causas das crises
econômicas nacionais das décadas seguintes. Segundo Roberto
Campos, Juscelino tinha um enorme carisma pessoal, mas o seu
desenvolvimentismo resultou na bancarrota do Brasil, deixando-o
insolvente à sua saída do governo. Celso Furtado, que
acompanhou a construção, disse que foram desviados muitos
recursos de outras obras necessárias em outras partes do país,
sem que jamais tenha havido qualquer debate ou prestação de
contas.

A despeito de toda a polêmica, hoje o projeto brasiliense é


reconhecido como uma das grandes obras de arquitetura e
urbanismo do século XX, o mais completo exemplo das doutrinas
do Modernismo arquitetônico e um avanço em relação às teorias de
Le Corbusier quanto à cidade ideal, tendo sido declarada
Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1987. André Malraux,
visitando-a em 1959, disse que esta Brasília sobre o seu
gigantesco planalto, faz lembrar a Acrópole sobre o seu
rochedo.

Inauguração e primeiros anos

Viramos no dia de hoje uma página da história do


Brasil... Damos por cumprido o nosso dever mais
ousado, o mais dramático dever. Neste dia...
consagrado ao alferes José Joaquim da Silva
Xavier, o Tiradentes, no 138º ano da
Independência e 71º da República, declaro, sob a
proteção de Deus, inaugurada a Cidade de
Brasília, Capital dos Estados Unidos do Brasil.
Juscelino Kubitschek
Na tarde de 20 de abril de 1960 iniciaram-se as cerimônias de
inauguração com a entrega da chave da cidade ao presidente. À
zero hora do dia 21 de abril de 1960, durante uma missa solene,
Brasília foi declarada inaugurada em um clima de emoção e euforia,
e o presidente e vários entre o público foram às lágrimas. Pelas
ruas os candangos expressavam sua alegria. Às 8h da manhã foi
dado o Toque de Alvorada pela banda dos Fuzileiros Navais e
minutos depois Juscelino hasteou a bandeira nacional diante do
Palácio do Planalto. Em seguida Brasília iniciou sua função como
capital, quando o presidente recebeu os cumprimentos das
delegações diplomáticas. Às 9h30min foram instalados os Três
Poderes, às 10h15 min, na Catedral de Brasília ainda inacabada, o
Núncio Apostólico instalou a Arquidiocese de Brasília, e às
11h30min foi realizada a primeira sessão solene do Congresso
Nacional. Ao fim da sessão Juscelino foi carregado nos ombros
pelos parlamentares como um herói. À tarde a população se reuniu
no Eixo Rodoviário Sul para assistir a um grande desfile militar, com
a passagem do Fogo Simbólico da Unidade Nacional. As
comemorações só encerraram oficialmente na noite de 23 de abril,
com a representação de uma alegoria escrita por Josué Montello,
que foi encenada com a participação de militares em parada, jovens
da sociedade carioca, tratores e um helicóptero descendo do céu,
além de inúmeros figurantes portando ferramentas de trabalho,
personificando os candangos. A mensagem da peça, que narrava a
fundação das três capitais brasileiras, foi o contraste entre o
abandono do velho e a adesão decidida ao novo, resgatando
figuras históricas e apontando para um futuro brilhante, em um
cenário colorido por fogos de artifício e diante do aplauso frenético
da população.

Josué Montello

Dwight Einsehower recebe a chave do consulado americano


Vista aerea de Brasilia- Eixo monumental

Apesar de inaugurada, Brasília não estava pronta, as terras não


haviam sido totalmente desapropriadas e a regularização fundiária
não havia sido concluída. Grande número de edifícios importantes
ainda eram só um esqueleto vazio, outros sequer haviam saído do
projeto, e a carência de habitações adequadas obrigou a muitos
órgãos administrativos instalados no Rio a retardarem sua
transferência, em vista da impossibilidade de acomodar seus
funcionários. As embaixadas também não puderam funcionar
imediatamente, e algumas enviaram representantes provisórios,
pois o próprio Itamaraty ainda estava no Rio, mudando-se para
Brasília apenas em 1970. Assim, na prática, por algum tempo, o
Brasil teve duas capitais. As obras continuaram pelo menos até a
década de 1970, quando suas principais estruturas foram
finalizadas, mas a cidade nunca parou de crescer e desde o início já
ficara evidente que deviam ser tomadas medidas para preservar o
plano original, sendo sancionada em 1960 a Lei Santiago Dantas,
que obrigava qualquer modificação na cidade a ser autorizada
previamente pelo Senado.

As mesmas dificuldades por que passavam os candangos no


ambiente de trabalho se refletiram no momento da distribuição de
lotes e apartamentos. A região do Distrito Federal fora comprada
pela República ao preço de dois centavos por metro quadrado, mas
foi vendida por até quinhentos cruzeiros o metro quadrado. Em
1960 todos os lotes da Asa Norte já estavam vendidos ou
reservados, e os interessados só podiam adquiri-los de terceiros,
com ágio. Se o interessado fosse um deputado, senador ou
jornalista, a Novacap fornecia lotes livres a um preço razoável e
sem ágio. Para a área das mansões próximas ao Lago Paranoá, a
zona nobre da cidade, o custo estava em trinta cruzeiros ao metro,
mas apenas para clientes selecionados das castas superiores,
enquanto que na zona residencial comum, o preço subia para
quinhentos cruzeiros. Essa realidade não concordava com as
manifestações socialistas de Niemeyer e Costa, para quem Brasília
deveria ser um exemplo de integração e nivelamento social, uma
cidade que iria transformar a sociedade brasileira através de um
movimento social pacífico assegurando a primazia do coletivo sobre
o individual e evitando os problemas do desenvolvimento urbano
dito capitalista.

Brasília atual
A construção de Brasília teve um impacto decisivo na integração do
Centro-Oeste à vida econômica e social do Brasil, ainda que
enfrentando, como todas as grandes cidades, problemas de
habitação, emprego, saneamento e segurança.
A existência de Brasília estimulou a construção de estradas,
desenvolvendo a agricultura e fazendo surgir outras cidades na
região, um processo que continua nos dias de hoje. Enquanto que
isso contribuiu para a integração regional, tornou necessário o
desmatamento de vastas áreas, com prejuízo para o meio
ambiente. A cobertura de cerrado na região do Distrito Federal foi
reduzida, em cerca de 7%, e as matas perderam 4% de área. As
várias barragens construídas para abastecimento de água e a
ocupação agrícola foram parte importante nessa transformação da
paisagem.
A despeito das polêmicas, Brasília consolidou definitivamente sua
função como capital e tornou-se o centro verdadeiro da vida na
nação, e um ícone internacional que mereceu a consagração como
Patrimônio da Humanidade em 1987, sendo reconhecida como um
dos mais importantes projetos urbanísticos e arquitetônicos da
história.
O plano previa que o centro governamental e o plano piloto
estariam totalmente construídos em 10 anos. O tamanho da
cidade seria limitado: após 20 anos e seu crescimento se daria
em cidades satélites. Os problemas que são observados hoje
pelos moradores do Distrito Federal, como a dificuldade de
deslocamento e os alagamentos em época de chuva,
acontecem porque o plano não foi respeitado.

Planejada para receber 500 mil habitantes em 2000, nesta data já


possuía 2,05 milhões, sendo 1,96 milhões na área urbana e cerca
de 90 mil na área rural. Concebida como um exemplo de ordem e
eficiência urbana, como uma proposta de vida moderna e otimista,
que deveria ser um modelo de convivência harmoniosa e integrada
entre todas as classes, Brasília sofreu na prática importantes
distorções e adaptações em sua proposta primitiva, permitindo um
crescimento desordenado e explosivo, segregando as classes
trabalhadoras na periferia e consagrando o Plano Piloto para o uso
e habitação de políticos, altos funcionários e empresários. A
organização urbana não se revelou tão convidativa para um
convívio social espontâneo e familiar como imaginaram seus
idealizadores, pelo menos para os primeiros de seus habitantes,
que estavam habituados a tradições diferentes.
O plano urbano e a própria arquitetura de Brasília, tão inovadores,
não tinham raízes na tradição brasileira, e se tornou difícil para
muitos dos primeiros brasilienses aceitar a anulação de padrões
tradicionais na organização urbana proposta por Costa e Niemeyer.
A uniformização das residências foi vista como um emblema de
anonimato, frieza afetiva e impessoalidade, e as fachadas com
grandes aberturas envidraçadas produziam uma sensação de falta
de privacidade, logo cobertas por pesadas cortinas, painéis e
vedações, reconstituindo a tradição de paredes sólidas. Além disso,
a distribuição de peças nos apartamentos impedia a estratificação
usual do espaço doméstico, criando tensões na convivência de
proprietários e empregados, com prejuízo maior para estes últimos.
As áreas verdes nas superquadras, programadas para propiciarem
uma confraternização igualitária entre as classes sociais, se
revelaram pouco interessantes para os moradores, e os blocos
comerciais pareciam pouco convidativos para os hábitos de
comércio familiar em mercados de rua. As grandes distâncias em
Brasília, com amplos espaços abertos e longas avenidas que se
destinam principalmente ao tráfego de veículos e não à circulação
de pedestres, e a compartimentalização das habitações nas
superquadras, também prejudicaram uma integração espontânea
entre os habitantes, que passavam a depender do automóvel para
praticamente todos os deslocamentos. Entre muitos da elite
econômica e política, que dispunham de recursos, o conceito de
superquadra foi rejeitado in totum, e eles abandonaram o Plano
Piloto para formar bairros independentes nas redondezas,
especialmente na área fronteiriça ao Lago Paranoá, com uma
urbanização e esquemas edilícios mais tradicionais e com acesso
restrito apenas aos seus membros. Desta forma, várias convenções
sociais e práticas familiares tradicionais encontraram meios de
reafirmação, subvertendo as propostas do Plano Piloto.

Os problemas do distanciamento entre o projeto idealista e as


necessidades do uso cotidiano repercutem até os dias de hoje. As
capelas entre as superquadras são pequenas, e precisam se valer
de cadeiras extras nas celebrações. A capela Nossa Senhora de
Fátima, na Entrequadra Sul 307/308, teve seus murais de Alfredo
Volpi recobertos por tinta branca, e foram abertos nichos para a
instalação de velas, de acordo com o desejo popular. O Cine
Brasília, na Entrequadra 106/107, por outro lado, é grande demais,
e somente por ocasião do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
consegue lotar a plateia.
Educação e artes

O plano educacional de Brasília foi elaborado ainda no final da


década de 1950 por Anísio Teixeira, reproduzindo a experiência
bem sucedida do Centro Educacional Carneiro Ribeiro, conhecido
como Escola-Parque, implantado em Salvador. O plano visava a
adequação do sistema de educação ao estado democrático
moderno, levando a educação das camadas populares a um novo
patamar e oferecendo à nação um conjunto de escolas que
pudessem constituir exemplo e demonstração para o sistema
educacional do país, a partir da ideia de Juscelino de que Brasília
seria "um amplo campo de experimentação de técnicas novas.

Ainda em 1959 foi inaugurada a primeira escola-classe, na


superquadra 308 sul, prevendo-se que, por ocasião da inauguração
de Brasília, estariam concluídas as obras de três outras localizadas
nas superquadras 108, 206 e 106 sul; a da Escola-Parque,
construída entre as superquadras 307 e 308 sul; e a do Centro de
Educação Média, situada na chamada Zona das Grandes Áreas.
Em 1965, 36 mil alunos estudavam em 130 escolas primárias, em
aulas ministradas por 1.315 professores. O ensino médio era
atendido por trinta colégios, estando matriculados 16.881 alunos e
empregando 887 professores.

A Universidade de Brasília foi fundada com a promessa de


reinventar a educação superior, entrelaçar as diversas formas de
saber e formar profissionais engajados na transformação do país. A
construção do campus brotou do cruzamento das mentes geniais do
antropólogo Darcy Ribeiro e do educador Anísio Teixeira. Eles
desejavam criar uma experiência educadora que unisse o que havia
de mais moderno em pesquisas tecnológicas com uma produção
acadêmica capaz de melhorar a realidade brasileira. As regras, a
estrutura e concepção da Universidade foram definidas pelo Plano
Orientador. Só uma universidade nova, inteiramente planificada,
estruturada em bases mais flexíveis, poderá abrir perspectivas
de pronta renovação do nosso ensino superior, dizia o Plano
Orientador. Trilhar esse caminho, no entanto, exigiu esforços.
Apesar do projeto original de Brasília já prever um espaço para a
UnB, foi preciso lutar para garantir sua construção. Por causa da
proximidade com a Esplanada dos Ministérios, algumas autoridades
temiam que os estudantes interferissem na vida política de Brasília.
Darcy Ribeiro discursa na inauguração da UnB

A UnB foi organizada como uma Fundação, a fim de libertá-la da


opressão que o burocratismo exerce sobre as universidades
federais. Ela deveria reger a si própria, livre e responsavelmente,
como um serviço público e autônomo. Na concepção visual de seus
prédios, foi decisiva a participação dos mesmos idealizadores de
Brasília, os arquitetos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Darcy Ribeiro
conta sua experiência no projeto da UnB em seu livro de 1978, UnB
- Invenção e Descaminho. Nele conta detalhes da elaboração da
Universidade, a fundação e os primeiros anos da instituição antes
do golpe de 1964, além das amarguras vividas pela UnB e seus
envolvidos durante a ditadura militar. Com o golpe militar, o
programa educativo da UnB foi seriamente comprometido. Seus
idealizadores foram demitidos e muitos deles tiveram que se exilar
no exterior. A UnB foi palco de expressão da insatisfação e revolta
de estudantes durante a ditadura militar e foi invadida pelas tropas
repressivas em 1968, em vista de ter sido considerada foco de
deliberação de ideias subversivas. Vários alunos e professores
foram detidos e presos.
Universidade de Brasília-Campus Darcy Ribeiro

Na década de 1970 foi iniciado de um projeto modernizador em


comunicação e cultura, seja diretamente através de políticas do
Estado, ou com incentivos ao desenvolvimento do capital privado. A
partir do governo Geisel (1975-1979), com a abertura política,
especialmente por intermédio do Ministério da Educação e Cultura,
que tinha à frente Ney Braga, o regime buscou incorporar à ordem
artistas de oposição. Nesse período, instituições governamentais de
incentivo à cultura ganharam vulto, caso da Embrafilme, do Serviço
Nacional de Teatro, da Funarte, do Instituto Nacional do Livro e do
Conselho Federal de Cultura. A criação do Ministério das
Comunicações, da Embratel e outros investimentos governamentais
em telecomunicações buscavam a integração e segurança do
território brasileiro estimulando a criação de grandes redes de
televisão nacionais.
Atualmente Brasília conta com quase trinta instituições de ensino
superior, entre institutos, faculdades e universidades, públicas e
privadas, incluindo centros de educação à distância. Em meados da
década de 1960 o Museu de Brasília e a Pinacoteca da Residência
Presidencial abriram seus espaços ao público, bem como o Teatro
Nacional, além de nove cine-teatros e treze bibliotecas espalhadas
pelo Distrito Federal, com um acervo de 232 mil volumes.

A morte de Juscelino
Em 22 de agosto de 1976, Juscelino Kubitschek viajava de São
Paulo para o Rio de Janeiro no banco de trás de seu Opala, quando
sofreu um acidente fatal. O carro, que o ex-presidente chamava de
Platão, era conduzido por Geraldo Ribeiro, motorista particular de
JK por 30 anos, que também morreu.
O corpo foi levado a Brasília, onde o governo Geisel decretou luto
oficial, o primeiro em honra de um adversário do regime militar. Após
emocionada missa de corpo presente na Catedral, os bombeiros
tiveram dificuldade para colocar a urna na carreta que a conduziria
ao Campo da Esperança, o cemitério de Brasília. Em mais de uma
ocasião a multidão tomou-a nas mãos, aos gritos de O povo leva! O
povo leva!
O cortejo se arrastou por quatro horas, e já eram 23h35 quando o
corpo do ex-presidente finalmente baixou à sepultura, debaixo de um
coro em que Viva JK! e Viva a democracia! se alternavam com as
estrofes de Peixe vivo, a canção preferida de Juscelino, cantadas
pela multidão.

Como pode o peixe vivo


Viver fora da água fria?
..................................
Como poderei viver
Sem a tua companhia
O túmulo foi colocado a poucos metros do de um outro pioneiro da
nova capital, o engenheiro Bernardo Sayão, com revestimento de
mármore de Carrara que sobrou da construção da catedral. Ali o ex-
presidente foi reverenciado até 12 de setembro de 1981 – data em
que completaria 79 anos de idade –, quando seus restos foram
transportados para o recém-construído Memorial JK, erguido no
ponto mais alto da cidade, o Cruzeiro, o lugar onde no dia 3 de maio
de 1957 se rezou a primeira missa de Brasília.

Memorial JK
ITAIPU
Juscelino, Juraci, os paraguaios, e
os engenheiros e barrageiros que a
construíram

Bacias, reservas e hidrelétricas


14% das reservas mundiais de água-doce estão no território brasileiro. O
país possui 12 bacias hidrográficas, que estão distribuídas por todo o
território nacional.

Bacias no Brasil e arredores

1. Bacia Hidrográfica Amazônica: É considerada a maior bacia


hidrográfica do planeta, responsável por drenar água de uma área
de aproximadamente 7 milhões de quilômetros quadrados. No
Brasil, ela compreende uma área de 3.870.000 km², apresentando
grande potencial para geração de energia hidrelétrica, além de
possuir características propícias para o transporte fluvial.
2. Bacia Hidrográfica do São Francisco: Importante meio de
ligação entre as Regiões Nordeste e Sudeste, a bacia do São
Francisco possui cerca de 640 mil quilômetros quadrados.
Apresenta extensos trechos navegáveis, além de grande potencial
hidrelétrico. O garimpo, a mineração, a irrigação e a poluição hídrica
ameaçam a qualidade dos rios dessa região.

Transposição do rio São Francisco

3. Bacia Hidrográfica do Tocantins-Araguaia: Com 967.059


quilômetros quadrados, essa é a maior bacia hidrográfica
exclusivamente brasileira. Seu potencial energético é explorado,
com destaque para a usina hidrelétrica de Tucuruí, no estado do
Pará.

Barragem de Tucurui

4. Bacia Hidrográfica do Paraná: A bacia do Paraná, compartida


com Argentina, Paraguai e Uruguai, possui rios de planalto e
encachoeirados, perfeitos para a instalação de hidrelétricas. Esse
potencial é aproveitado pelas usinas de Ilha Solteira, Itaipu,
Capivari, Engenheiro Sérgio Mota, Água Vermelha, etc.

5. Bacia Hidrográfica do Parnaíba: Abrangendo uma área de


aproximadamente 340 mil quilômetros quadrados, essa bacia
hidrográfica está presente nos estados do Piauí, Maranhão e na
porção oeste do Ceará. Os principais rios são o Balsas, Uruçuí-
Preto, Gurgueia, Longá, Poti e Canindé.

6. Bacia Hidrográfica do Uruguai: Essa bacia está presente nos


estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O principal rio, o
Uruguai, nasce da confluência dos rios Canoas e Pelotas. Suas
características são propícias para a construção de usinas
hidrelétricas.

7. Bacia Hidrográfica do Paraguai: A bacia hidrográfica do


Paraguai é típica de planície, apresentando grandes extensões para
navegação. No Brasil, ela está presente nos estados de Mato
Grosso e Mato Grosso do Sul, englobando uma área de 361.350
quilômetros quadrados. Tem como principal rio o Paraguai, que
nasce na Chapada dos Parecis (MT).

8. Bacia Hidrográfica do Atlântico Nordeste Oriental: A bacia do


Atlântico Nordeste Oriental é responsável por drenar água de uma
área de 287.348 quilômetros quadrados, compreendendo os
estados do Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Pernambuco e
Alagoas. Os principais rios são o Beberibe e Capibaribe, além do
Jaguaribe, considerado o maior rio intermitente (temporário) do
mundo.

9. Bacia Hidrográfica Atlântico Nordeste Ocidental: Situada nos


estados do Maranhão e Pará, essa bacia hidrográfica possui
254.100 quilômetros quadrados. Os principais rios perenes são:
Mearim, Itapecuru e Turiaçu.

10. Bacia Hidrográfica Atlântico Leste: A bacia do Atlântico


Leste, com 374.677 quilômetros quadrados, abrange territórios no
Sergipe, Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo. O Rio Jequitinhonha
se destaca nessa área de drenagem.

11. Bacia Hidrográfica Atlântico Sudeste: Formada pelos rios


Doce, Itapemirim, São Mateus, Iguape, Paraíba do Sul, entre
outros, a bacia hidrográfica do Atlântico Sudeste está presente nos
estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo
e Paraná, correspondendo a uma área de 229.972 quilômetros
quadrados.

12. Bacia Hidrográfica Atlântico Sul: Com predominância de rios


de pequeno porte, essa bacia hidrográfica possui 185.856
quilômetros quadrados. Seus rios deságuam no Oceano Atlântico.

As hidrelétricas no Brasil são responsáveis por garantir 70% da


energia elétrica do país. O Brasil é considerado o terceiro maior
país no mundo na geração de energia a partir das usinas
hidrelétricas, ficando atrás somente do Canadá e dos Estados
Unidos.
Principais usinas hidrelétricas do Brasil: Usina Hidrelétrica de Santo
Antônio, Usina Hidrelétrica de Tucuruí, Usina Hidrelétrica São Luiz
do Tapajós, Usina Hidrelétrica de Belo Monte e Usina Hidrelétrica
de Itaipu.

Confira a seguir essas e outras usinas presentes no país, bem


como a localização e a capacidades destas:

• Usina Hidrelétrica de Itaipu – Estado: Paraná, rio: Paraná,


capacidade: 14.000 MW
• Usina Hidrelétrica de Belo Monte – Estado: Pará, rio: Xingú
capacidade: 11.233 MW
• Usina Hidrelétrica São Luíz do Tapajós – Estado: Pará, rio:
Tapajós, capacidade: 8.381 MW
• Usina Hidrelétrica de Tucuruí – Estado: Pará, rio: Tocantins,
capacidade: 8.370 MW
• Usina Hidrelétrica de Santo Antônio – Estado: Rondônia,
rio: Madeira, capacidade: 3.300 MW
• Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira – Estado: São Paulo, rio:
Paraná, capacidade: 3.444 MW
• Usina Hidrelétrica de Jirau – Estado: Rondônia, rio: Madeira,
capacidade: 3.300 MW
• Usina Hidrelétrica de Xingó – Estados: Alagoas e Sergipe,
rio: São Francisco, capacidade: 3.162 MW
• Usina Hidrelétrica de Paulo Afonso – Estado: Bahia, rio:
São Francisco, capacidade: 2.462 MW
• Usina Hidrelétrica Jatobá – Estado: Pará, rio: Tapajós,
capacidade: 2.338 MW.

Itaipu: a maior do país


Fonte: Wikipedia; Claúdia Galvão/Paulo Brandi, CPDOC | FGV •
Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do
Brasil,
Local: Brasil e Paraguai
Data de conclusão: 1991
Custo: US $ 18 bilhões
Capacidade do reservatório: 1,02 trilhão de pés cúbicos
Tipo: Gravidade
Objetivo: Energia hidrelétrica
Reservatório: Reservatório de Itaipu
Materiais: Concreto

O complexo de 8,8 quilômetros de extensão de barragens de


concreto e de aterro de rocha no alto rio Paraná, na fronteira Brasil-
Paraguai, possui 18 geradores e levou 18 anos e US $ 18 bilhões
para ser construído. A estrutura principal, uma barragem oca de
gravidade em concreto, possui uma casa de força capaz de gerar
12.600 megawatts de eletricidade. A enorme barragem fornece 25%
do suprimento de energia do Brasil e 78% do suprimento de energia
do vizinho Paraguai.
Construir uma das maiores represas hidrelétricas do mundo não foi
fácil. Os engenheiros tiveram que mudar o curso do sétimo maior rio
do mundo, o rio Paraná, em torno do canteiro de obras antes de
construir a barragem. Demorou quase três anos para os
trabalhadores escavarem um canal de desvio de 1,3 milhas de
comprimento, 300 pés de profundidade e 490 pés de largura para o
rio. Cinquenta milhões de toneladas de terra e rocha foram
removidas no processo. A Sociedade Americana de Engenheiros
Civis reconheceu esse feito incrível e nomeou a represa de Itaipu
uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno.
Os engenheiros escolheram uma barragem de gravidade oca
porque ela requer 35% menos concreto do que uma barragem de
gravidade sólida. A represa oca ainda é pesada e robusta o
suficiente para resistir totalmente ao impulso da água por seu
próprio peso. O volume de ferro e aço usado na barragem seria
suficiente para construir 380 torres Eiffel. A barragem é agora uma
grande atração turística. Mais de nove milhões de visitantes de 162
países visitaram a estrutura desde que foi concluída em 1991.

Antecedentes

Juscelino Kubischek e Juraci Magalhães


A utilização do potencial de Sete Quedas foi postulada originalmente
pelo grupo privado canadense Light, responsável durante mais de
meio século pelo suprimento de energia elétrica às cidades de São
Paulo e Rio de Janeiro. Em 1960, o presidente Juscelino
Kubitschek referiu-se com entusiasmo ao projeto de construção da
usina de Sete Quedas esboçado pelo engenheiro militar Pedro
Henrique Rupp. O governo paraguaio protestou contra a ideia da
exploração unilateral dos recursos energéticos de Sete Quedas,
advertindo que o trabalho de demarcação de fronteiras na área em
torno da cachoeira estava pendente. Por isso, os dois países
buscaram um entendimento diplomático que culminou com a
assinatura da Ata do Iguaçu em 22 de junho de 1966. O documento
firmado pelo chanceler Juraci Magalhães e por seu colega
paraguaio, Raul Sopena Pastor, estabeleceu o regime de
condomínio sobre os recursos hidráulicos do rio Paraná no trecho de
190 km desde o Salto Grande de Sete Quedas até a confluência com
o rio Iguaçu. A energia elétrica seria dividida em partes iguais. A
questão fronteiriça estava resolvida, pois a área de litígio seria
inundada pelo reservatório da usina. O acordo garantiu ao Brasil
prioridade na compra da energia que exceder as necessidades do
mercado paraguaio.

Sete Quedas foi coberto pelo lago de Itaipu

Depois que foi decretado o fim do Salto das Sete Quedas, milhares
de turistas se dirigiram para o local; queriam vê-la antes que se
fossem, todos queriam ver seus últimos dias

Itaipu binacional
Em fevereiro de 1967, foi criada a Comissão Mista Técnica
Brasileiro-Paraguaia. O trabalho dessa comissão só ganhou
impulso em abril de 1970 com a assinatura de um acordo de
cooperação entre as Centrais Elétricas Brasileiras S.A. (Eletrobras)
e a Administración Nacional de Electricidad (ANDE) do Paraguai. O
consórcio formado pela firma norte-americana International
Engineering Company (Ieco) e a italiana Electroconsult Spa
(ELC) venceu a concorrência internacional para a realização dos
estudos de viabilidade e para a elaboração do projeto da obra. Em
outubro de 1972, o consórcio apresentou relatório preliminar,
apontando a construção de uma grande barragem no local
denominado Itaipu como a melhor alternativa econômica para o
empreendimento. Em janeiro de 1973, essa solução foi aprovada
pela Comissão Mista Técnica Brasileiro-Paraguaia. Em 26 de abril
de 1973, os presidentes Emílio Garrastazu Médici e Alfredo
Stroessner assinaram o Tratado de Itaipu. O tratado previu a
criação de Itaipu Binacional, entidade incumbida da execução das
obras e da exploração da energia elétrica produzida. A capacidade
da usina seria estipulada em 12.600MW, o que fazia de Itaipu o
maior empreendimento do gênero no mundo.
Itaipu Binacional foi constituída com o capital de cem milhões de
dólares, divididos igualmente entre a Eletrobras e a ANDE. A parte
paraguaia para a integralização do capital foi obtida com um
empréstimo do Banco do Brasil. A empresa foi instalada em 17 de
maio de 1974, com sedes em Brasília e em Assunção. O cargo de
diretor-geral foi reservado ao Brasil e ocupado inicialmente pelo ex-
ministro José Costa Cavalcanti, tendo como adjunto o engenheiro
paraguaio Enzo Debernardi.

O empreendimento
O engenheiro indiano Gurmukh Sarkaria, um dos maiores
especialistas em construção de hidrelétricas do mundo, foi
nomeado Coordenador Geral do Projeto Executivo de Engenharia, a
cargo do consórcio IECO/ELC Foi Sarkaria quem criou o layout e
escolheu o local ideal para a construção da Itaipu. Também foram
dele algumas das principais decisões sobre a obra, como o formato
da barragem e do vertedouro. Da sua prancheta saiu o modelo de
barragem adotado pela binacional, com aberturas que lembram a
estrutura de uma catedral, para aliviar a ação da gravidade. Foi uma
solução econômica, que permitiu poupar muitas toneladas de
concreto.

Gurmukh Sarkaria morreu em 2014 aos 89 anos,


em Santa Rosa, Califórnia, nos Estados Unidos.

Sarkaria foi, por muitos anos, o chairman do Board de Consultores


Civis da Itaipu. O grupo é formado por especialistas de diferentes
países, com notável conhecimento em engenharia de grandes
barragens, que se reúnem periodicamente para analisar o
desempenho das estruturas civis da Itaipu. Criado em 1975, o
Board promove inspeções técnicas e analisa os dados emitidos
pelos profissionais da usina dedicados à segurança da barragem. O
objetivo é aferir o grau de segurança de toda a estrutura da Itaipu, e
sobretudo da barragem. Frequente durante as obras, a consultoria
passou a ser quadrienal após a conclusão do empreendimento. O
último Board que contou com a presença de Sarkaria foi o de 2006.
Em 2010, já com a saúde um pouco debilitada, ele acompanhou
tudo a distância, de seu escritório nos Estados Unidos.

Maquete da usina

Em 1974, a Itaipu Binacional adotou as primeiras medidas:


elaboração do projeto de infraestrutura, desapropriação e aquisição
de terras, instalação de acampamento provisório e levantamento e
avaliação da área do reservatório. As obras foram iniciadas em
1975. Uma dificuldade surgiu na escolha dos equipamentos da
usina, por causa da diferença de frequência entre os sistemas
elétricos brasileiro (60 Hz) e paraguaio (50Hz). O Brasil propôs a
conversão do sistema elétrico paraguaio, mas acabou concordando
em dividir a usina em duas partes de igual potência, com nove
geradores de 60Hz e outros nove de 50Hz. A parcela não utilizada
pelo Paraguai seria adquirida pelo Brasil e transportada por
intermédio de um sistema de transmissão de corrente contínua de
seiscentos quilovolts (kV) até estações conversoras nas
proximidades de São Paulo. A energia gerada em 60Hz seria
transportada por um sistema de corrente alternada na tensão de
750kV. A construção desse sistema misto de transmissão foi
delegada a Furnas. A cada ano, Itaipu gera 75 TWh de eletricidade
(e evita 67,5 milhões de toneladas de emissões de dióxido de
carbono - em comparação com as usinas a carvão
A primeira etapa da obra foi terminada em 14 de outubro de 1978
com a abertura do canal de desvio do rio Paraná, que permitiu
secar o leito original do rio para a construção da barragem. Ainda
em outubro, foi assinado contrato para a aquisição das 18 turbinas
e geradores com 700MW de potência cada um.
Os verdadeiros heróis
Como não chamar de heróis aqueles brasileiros e paraguaios
destemidos, que vieram de longe para uma terra desconhecida,
dispostos a trabalhar duro no meio do pó, da lama, do frio intenso
no inverno, do sol escaldante no verão? Aqueles que não
desanimaram quando aqui chegaram e viram essa imagem aí, de
um buraco gigante que era apenas uma promessa de ser a maior
usina hidrelétrica do mundo. Aqueles que levaram a sério o sentido
da verdadeira solidariedade e espírito de convivência, e como
“andorinha que se junta em bando pra fazer verão”, se juntou aos
milhares de companheiros para fazer a Itaipu de hoje.

A Itaipu Binacional, através das suas construtoras, contratou


milhares de barrageiros, vindos de todos os cantos. Muitos deles
chegavam sem a capacitação técnica necessária e era preciso
oferecer cursos e treinamentos. Essa foto histórica de outubro de
1980 mostra uma equipe de trabalhadores que concluíram um
curso, dentro do Canteiro de Obras.

O pé inchado

Pé inchado era o nome dado à zona de meretrício localizada na


avenida Tancredo Neves, onde hoje é a Vila A na cidade de Foz do
Iguaçu. Na época da construção, que começou em 1975, era
frequentada por muitos barrageiros de Itaipu, que habitavam no
canteiro de obras.
Alguns relatos de ex-barrageiros afirmam que o nome “pé inchado”
era devido ao fato de que os trabalhadores iam para essa zona e lá
bebiam muito, ficando no dia seguinte com o pé inchado. Outros
dizem que era porque os peões iam e voltavam a pé dos
alojamentos até a zona, ficando com os pés inchados de caminhar.
Antes da construção da usina, os frequentadores da zona eram
turistas brasileiros, além de argentinos e paraguaios das cidades
vizinhas. Com a construção de Itaipu, a peonada era quem mais
frequentava o lugar. Muitos barrageiros acabavam deixando na
zona quase todo o salário recebido no mês.

O cara encontra o colega e pergunta: ‘Ô, Zé Orelha, por que você


não apareceu ontem?’. ‘Ô, cara, não deu’, o amigo responde. E ele
diz: ‘Então vai lá no sapato branco pegar um bombril’. ‘Não vai dar,
cara.’ ‘Mas por quê?’ ‘Rapaz, eu me espalhei no Pé Inchado
anteontem e quando cheguei na barreira o mata-cachorro não me
deixou entrar. Eu fiquei bravo com ele e então ele chamou o
marrom-glacê, por isso eu tive que dormir lá com os homens’.”
Seu Domingos traduz: “Sapato branco era o médico e bombril o
atestado que limpava a barra com o chefe. Pé Inchado era uma
‘casa de orações’ que um esperto montou perto do recrutamento,
cheia de ‘freiras’ selecionadas, e a rapaziada ia lá rezar. Aí na hora
da reza eles tomavam muito leite gelado, que faz ficar bêbado, e na
barreira não deixavam entrar bêbado. Mata-cachorro era o guarda
da empreiteira. Marrom-glacê era o guarda de Itaipu que tinha
poder de polícia. E aí o cara ia preso.

Rodas de água

A roda d'água é um dispositivo antigo que usa água corrente ou em


queda para gerar energia por meio de pás montadas em torno de
uma roda. A força da água move os remos e a consequente rotação
da roda é transmitida às máquinas através do eixo da roda.
A primeira referência a uma roda d'água é de cerca de 4000 a.C.
Vitrúvio, um engenheiro que morreu em 14 d.C., mais tarde foi
creditado por criar e usar uma roda d'água vertical durante o tempo
dos romanos. Elas eram usadas para irrigação de culturas, moagem
de grãos e fornecimento de água potável para as aldeias. Nos anos
seguintes, impulsaram serrarias, bombas, foles de forja e máquinas
nas fábricas têxteis. Elas foram provavelmente o primeiro método
de criação de energia mecânica para substituir a de humanos e
animais.

Roda d´água em Picada Café, Rio Grande do Sul

A turbina hidráulica

A turbina hidráulica é uma invenção moderna baseada nos mesmos


princípios da roda d'água. É um motor rotativo que usa o fluxo de
fluido, gás ou líquido, para girar um eixo que aciona máquinas. As
turbinas hidráulicas são usadas em usinas hidrelétricas. A água
corrente ou em queda atinge uma série de lâminas ou baldes
presos ao redor de um eixo. O eixo gira e o movimento aciona o
rotor de um gerador elétrico.

A energia potencial é fornecida pela água armazenada no lago a


uma certa altura acima da saída. Essa energia é convertida em
energia cinética ao fluir pelos tubos. Essa energia cinética é dada
às lâminas da turbina, que a transformam em rotação mecânica que
aciona os geradores elétricos. A eletricidade é gerada pela
movimentação de campos magnéticos ao longo de bobinas
condutoras.
Esquema de funcionamento de uma turbina Francis

A entrada de água de uma única turbina Francis de 715 MW é de


700 m³ / s, e sua eficiência ponderada é de 93,8%. Assim, com o
lago cheio, as turbinas podem produzir 13 400 GWh até que a
entrada do conduto esteja sem água, o que significa 44 dias de
operação com potência total da planta. Os geradores têm uma
eficiência de 98,6%, enquanto os tipos de 50 Hz com 66 polos têm
uma saída nominal de 823,6 MVA a (90,9 voltas por minuto) e um
fator de potência de 0,85, os tipos de 60 Hz com 78 polos têm uma
saída nominal de 737 MVA (a 92,3 voltas por minuto) e um fator de
potência de 0,95. As tensões de saída são ambas de 18 kV.

Em 1978, o projeto registrou o pico de mão-de-obra, totalizando


mais de 31 mil trabalhadores. Um marco importante no campo
diplomático foi a assinatura do acordo tripartite pelo Brasil, Paraguai
e Argentina, em 19 de outubro de 1979, para aproveitamento dos
recursos hidráulicos no trecho do rio Paraná desde as Sete Quedas
até a foz do rio da Prata. O acordo estabeleceu os níveis do rio e as
variações permitidas para os diferentes empreendimentos
hidrelétricos na bacia comum aos três países.Com a conclusão das
obras da barragem, as comportas do canal de desvio foram
fechadas em 13 de outubro de 1982 para a formação do
reservatório de Itaipu, compreendendo uma superfície de
1.460km2 e 29 bilhões de metros cúbicos de água.
Imagem de uma unidade geradora, o caracol da turbina
Francis, por onde passa a água que faz a turbina girar.

A usina de Itaipu, com duas unidades geradoras de 50Hz, foi


inaugurada em outubro de 1984 pelos presidentes João Batista
Figueiredo e Alfredo Stroessner. Grande parte da quota paraguaia
foi colocada à disposição do Brasil e Furnas assegurou o
suprimento de energia ao mercado brasileiro, colocando em
operação a primeira das duas linhas do sistema de transmissão em
corrente contínua, ligando diretamente as subestações conversoras
de Foz do Iguaçu (PR) e Ibiúna (SP) ao longo de quase oitocentos
quilômetros. As unidades geradoras de Itaipu foram instaladas ao
ritmo de duas a três por ano. Em dezembro de 1986, a usina
começou a produzir energia em 60Hz, destinada integralmente ao
mercado brasileiro, tendo início o suprimento pelo sistema de
transmissão de 750kV, pioneiro no hemisfério sul. O tronco de
transmissão em corrente alternada foi projetado para funcionar com
três linhas entre Foz do Iguaçu e a subestação terminal de Tijuco
Preto (SP), contando em pontos intermediários com as subestações
de Ivaiporã (PR), onde a Eletrosul recebe a energia destinada à
região Sul, e Itaberá (SP).
Em 1988, a usina completou a instalação das máquinas de 50Hz,
entrando em operação a segunda linha de transmissão de corrente
contínua. Em 1989, Itaipu tornou-se a maior hidrelétrica do mundo
tanto em potência instalada como em capacidade de geração, tendo
início a operação da segunda linha de 750kV de Furnas. Em maio
de 1991, a usina alcançou a potência máxima de 12.600MW
prevista pelo projeto original.

Sistema de transmissão
Considerando que durante os primeiros anos de operação de Itaipu
o Paraguai deveria transferir para Brasil a maior parte da energia
gerada em 50 Hz foi decidido construir para o Brasil um sistema de
transmissão composto em EHV-AC (Extra Alta Tensão - Corrente
alternada) para os 6300 MW a 60 Hz e em HV-DC (Alta Tensão -
Corrente direta) para cerca de 6000 MW da parte em 50 Hz . O
sistema HV-DC em FURNAS tem uma tensão de ± 500 kV e é
convertido novamente em CA em Ibiuna, perto de São Paulo, onde
a maior parte da eletricidade é consumida. O sistema EHV-AC
trabalha a uma tensão de 750 kV e transporta a energia elétrica
gerada pelas unidades de 60 Hz por um sistema de transmissão de
891 km, formado por três linhas, para a região metropolitana de São
Paulo.

Sistema de transmissão

A energia elétrica da ITAIPU gerada pelas unidades de 50 Hz e


utilizada no Paraguai (2-4% da quantidade total) é inserida na rede
paraguaia por três linhas de 220 kV CA, condicionadas pela
Subestação da Margem Direita, localizada a 2,5 km da usina de
ITAIPU em território paraguaio.

Final das obras


Na época, o custo total da obra foi avaliado em cerca de 16,2
bilhões de dólares. A Itaipu Binacional assumiu o compromisso de
garantir o transporte fluvial no rio Paraná, mediante a construção de
eclusas ou de um sistema alternativo para contornar a barragem de
120 metros. O projeto de transposição da barragem por um
conjunto de três eclusas, orçado em dois bilhões de dólares, foi
deixado de lado. A transposição de cargas por via férrea, pela
margem paraguaia, despontou como alternativa mais econômica,
mas também não foi levada adiante.
A inauguração oficial das novas máquinas ocorreu em maio de
2007, em solenidade que contou com a presença do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva e seu colega paraguaio Nicanor Duarte
Frutos. Com vinte unidades geradoras, duas delas em manutenção
periódica, a usina atingiu a capacidade final de 14 mil MW e
garantiu a operação simultânea de 18 máquinas, máximo permitido
pelo acordo entre Brasil, Paraguai e Argentina.

Imagem da descida do rotor da primeira máquina geradora.

Vista panorâmica do topo da barragem.

As cataratas do Iguaçu e o parque ecológico


Parque Tecnológico Itaipu

Parque Tecnológico Itaipu

Instalado em Foz do Iguaçu no Paraná, em 2003, e mantido pela


empresa Itaipu Binacional, o parque atua, prioritariamente, nas
áreas de educação, empreendedorismo e ciência, tecnologia e
inovação.

”,
Juan Carlos Sotuyo

O parque apoia a criação e a consolidação de empresas baseadas


em produtos, processos e serviços inovadores, com o objetivo de
impulsionar a geração de emprego e renda na região. Para isso,
atua nas diferentes etapas do desenvolvimento de um negócio.
Atualmente, o PTI possui sete empresas instaladas, em regime de
condomínio. Entre elas estão: a Prognus, que desenvolve e
implanta soluções em software livre; a Tradeplan, especializada em
aperfeiçoamento de gestão; e a PM21, que atua no planejamento e
gerenciamento de projetos. Na incubadora do Parque Tecnológico
Itaipu estão 14 empresas.
O PTI mantém cinco centros e 38 laboratórios para atividades de
pesquisa e desenvolvimento, que buscam a modernização
tecnológica da Usina de Itaipu e do setor elétrico. Entre os centros
do parque tecnológico, estão o de Segurança de Barragens
(Ceasb), de Tecnologia Industrial Básica, de Hidroinformática e de
Estudos do Biogás. O espaço possui salas de aula e de
videoconferência, 38 laboratórios e uma biblioteca com 35 mil
volumes. Várias universidades estão instaladas no parque, entre
elas a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila)
e a Universidade Corporativa Itaipu e uma estação de ciência pela
qual 15 mil estudantes passam todos os anos. Há mais de 200
bolsas de iniciação científica, especialização, mestrado, doutorado
e pós-doutorado, pagos com recursos de Itaipu, a partir da
fundação.

Outros parques tecnológicos no Brasil


A SAGA DO PETROLEO
Getúlio Vargas, Monteiro Lobato,
Link, Geisel, Maluf, Lula e o pré-sal
A maldição do Petróleo

O livro A Maldição do Petróleo, de Michel L. Ross, postula (com


exemplos) que países com jazidas de petróleo são condenados a
desastres económicos e sociais. Isso é verdade em países com
governos incompetentes, como o da Venezuela, focado no livro. Em
outros, como por exemplo na Noruega e no Canadá, é uma benção.
O presente texto mostra como o Brasil perdeu tempo e dinheiro por
causa de incompetência técnica e orientações políticas estúpidas
travestidas de patriotismo e como recuperou o tempo perdido,
obtendo a liderança mundial na exploração de camadas profundas.
Agora temos petróleo e competência em abundancia, mas ideias
políticas idiotas continuam à espreita.

O Petróleo

O petróleo já era conhecido já na antiguidade clássica, com


afloramentos frequentes no Oriente Médio. No Antigo Testamento, é
mencionado diversas vezes, e estudos arqueológicos demonstram
que foi utilizado há quase seis mil anos.

Torre de Babel, construída com tijolos e alcatrão.


No início da era cristã, os árabes usavam o petróleo para fins
bélicos e de iluminação. O petróleo de Baku, no Azerbaijão, já era
empregado quando Marco Polo viajou pelo norte da Pérsia, em
1271. Mas só se tornou uma commodity importante após sua
descoberta e exploração nos EUA.
Fonte: Wikipedia.

O petróleo nos EUA


Em 1859 o coronel Edwin Drake conseguiu extrair uma quantidade
importante de petróleo na região de Oil Creek, na Pensilvânia, a
uma profundidade de 21 m. Drake era financiado por investidores
que perceberam que o petróleo seria o combustível da iluminação e
lubrificante que o mundo precisava. John Rockefeller, negociante
de commodities, percebeu o futuro do negócio e os lucros que
poderia obter. Ele tinha uma habilidade extraordinária para
combinar a expansão rápida dos negócios com uma atenção
fanática à eficiência e aos custos. Exploração, extração, refinação e
transporte foram financiados com capitais privados. No fim do
século XIX, quando se retirou como chefe da empresa (isto é,
quarenta anos depois do descobrimento do petróleo na
Pensilvânia), a Standard controlava 91% do mercado americano e
85% do mercado mundial. Morris defende Rockefeller das
acusações de práticas ilegais e monopólicas. Assegura que era
muito esperto, mas não desonesto. Rockefeller doou grande parte
de sua fortuna para projetos sociais, como a Universidade
Rockefeller, bolsas de estudo e museus de arte. Essa política foi
continuada por seus descendentes.

John D. Rockefeller

Fonte: Charles R. Morris, Os Magnatas, L&PM, 2009.


Petróleo no Brasil

No Brasil, a maioria dos governos têm adotado uma atitude


protecionista, limitando com leis restritivas a liberdade de empresa e
controlando a criação e distribuição da riqueza em benefício de uma
casta próxima ao governo. A divisão ideológica entre políticos e
militares manifestou-se particularmente áspera no caso da
exploração do petróleo e fez com que muito tempo, muita energia e
muito dinheiro fossem gastos inutilmente. Enquanto nos EUA
bastaram 40 anos para ter uma indústria capaz de suprir as
necessidades do país e do mundo, no Brasil se passaram 100 anos
sem produzir nada significativo além de leis e organismos públicos.
Podemos nos consolar sabendo que coisas parecidas ou piores
aconteceram em outros países. Interessante leitura é a de A
maldição do petróleo, de Michael L. Ross. Uma informação
importante é a do crescimento desmedido do setor público e de
uma casta governante irresponsável em muitos países produtores
de petróleo, por exemplo, na Venezuela. Mas a maldição não está
no petróleo. Está nos governos incompetentes e corruptos. O
tratamento do negócio do petróleo na Noruega é admirável.

Oil in Brazil: Evolution of exploration and production,


Fonte: Luciana Braga, da ANP na Enciclopedie de
l’energie,).Contacto :luciana.braga@univ-grenoble-alpes.fr

Luciana Braga.

The first record of oil exploration in Brazil was in the 19th century.
During the Imperial Period a Decree launched in 1864, granted
Thomas Denny Sargent permission to extract peat, oil, and other
minerals, either by himself or through a company, in the Camamu and
Ilhéus districts, province of Bahia, for 90 years.
In 1892, Eugênio Ferreira de Camargo acquired land that included an
old coal concession in Bofete, São Paulo. Camargo then hired a
Belgian scientist, Auguste Collon, to conduct analyses with him and
report on the oil prospects. Guided by favorable perspectives,
outlined in one such report, Camargo acquired a rig and drilled a well
to a depth of 488 meters, from which two barrels of oil were produced.
It was an entirely private initiative. Camargo handled all the technical
and logistical costs of the operation and financed the geological
investigation based on the drilling work. In 1907, the Geological and
Mineralogical Service of Brazil (GMSB) was established to carry out
activities related to oil exploration. GMSB drilled more than 60 wells
in several Brazilian states, most of these unsuccessful. In 1934, the
Service for Promotion of Mineral Production (DNPM) was established
for the purpose of promoting mineral production in the country. The
creation of DNPM was one of the first Brazilian initiatives aimed at a
specific policy for the development of mineral activities in Brazilian
territory. As it had no expertise in the exploration of Brazilian
sedimentary basins, DNPM hired US oil specialists to research and
identify potential producer territories. During this period, an
independent Brazilian petroleum company asked the DNPM for a rig
to prove that an exudation of oil in Lobato would be economically
feasible. The DNPM refused to comply with this request and this
refusal provoked a reaction from the press with the slogan: «The
DNPM was not founded to find oil but to prevent anybody finding it».
In response to this protest, in 1939 the DNPM drilled a well with a
rotating rig, in Lobato, Bahia. Some oil was discovered, though not
enough to be economically feasible. Shortly after this discovery, the
government prevented private oil companies from exploring within a
60 km radius of Lobato.
In 1938 the National Petroleum Council (CNP) was created and
charged with evaluating the requests for research and mining of oil
deposits. The discovery in Lobato (1939) encouraged CNP to
continue exploratory work in the Recôncavo, where other discoveries
were made in Candeias – a first commercial well was drilled in 1941,
Dom João and Água Grande.
In 1941, the government passed the Petroleum Code to regulate the
legal regime of Brazilian oil and natural gas deposits, and also to
foresee the possibility of the government reserving presumed
petroleum areas, in which there would be no authorization for
research and mining. This code contributed to the strengthening of
the CNP as a supervisory entity, since petroleum and natural gas
research and development activities depended on the prior
authorization of this Council.
After the discoveries in Bahia, drilling continued on a small scale,
despite the growing demand for oil and oil products in the country.
National production at this time was only 2,700 barrels per day, while
the consumption was approximately 170,000 barrels per day, most of
which was imported in the form of derivatives. Then began the debate
on the best policy to be adopted to regulate the exploitation of oil –
freedom for private initiative or state monopoly regime. This conflict
was resolved on October 3, 1953, when, after an intense popular
campaign, President Getúlio Vargas signed Law No. 2,004, that
established a state monopoly over research, drilling, refining, and
transportation of petroleum and its derivatives, and created Petróleo
Brasileiro SA – Petrobras – to enact the monopoly.
The period prior to the creation of Petrobras was marked by intense
debate between nationalists, who supported the slogan «Keep
Brazilian oil for Brazilians», and those who believed that opening the
market to the International Oil Companies would provide
technological education and funds to invest in the oil market. The
creation of Petrobras reflects the adoption of the nationalist model
and provides evidence of a substantial increase of state presence in
the Brazilian oil sector.
In addition to establishing Petrobras and defining new attributions to
the CNP, Law No. 2,004 of 1953 also disciplined the government’s
monopoly on research, mining, refining, and shipping of oil, its
derivatives and rare gases, among other activities related to the
petroleum industry, expressly excluding the distribution of petroleum
products. Petrobras and the CNP would exercise the Government’s
monopoly. The Council would be responsible for guiding and
supervising the monopoly activities and Petrobras and its subsidiaries
would be responsible for executing the monopoly.
Petrobras started operations with few reserves and an insignificant
logistics infrastructure to supply petroleum products to consumers.
The assets Petrobras received from the CNP consisted of oil fields
that produced 2,700 bpd and recoverable reserves of 15 million
barrels; a reality that set it apart from other National Oil Companies).
Until the 1970s, most investments were concentrated downstream,
aiming at the construction of a refining park in Brazil. The main
objective was to make the Brazilian oil industry vertical. During this
period, Petrobras also invested in the training of its technical staff,
who participated in courses abroad and were trained by foreign
specialists.
After the oil crisis in the 1970s, Petrobras changed its strategy by
reorienting its investments upstream, pressured by the Geisel
Government to find oil within the national territory.
Petrobras’ first offshore discovery occurred in 1968: the Guaricema
field, off the coast of Sergipe. In 1974, Petrobras discovered the fields
of Garoupa and Pargo, in the Campos Basin.
Monteiro Lobato e a campanha O Petróleo é
Nosso

Monteiro Lobato

Os governos do Brasil estabeleceram muitas vezes, tanto no


período imperial como no republicano ou nas ditaduras, um férreo
controle da criação e da distribuição de riquezas, em muitas
ocasiões encampando habilmente ideias nacionalistas e
socializantes manifestamente patrióticas, mas que beneficiavam em
primeiro lugar o círculo no poder. Neste sentido é importante
esclarecer os motivos da luta de Monteiro Lobato que deram
origem à campanha do petróleo e o levaram finalmente à cadeia.
Monteiro Lobato era um grande escritor e um empresário liberal,
que admirava as ideias econômicas americanas (onde passou 4
anos como adido cultural do Brasil) e desejava criar uma empresa
privada para explorar o petróleo do país. Entre 1934 e 1936, Lobato
empreendeu diversas missões em busca de petróleo, todas
frustradas. Criticava a legislação e chegou a apelar para as
autoridades, na tentativa de alterar o Código de Minas, pedindo que
fosse o mais liberal possível. Pensando que poderia levar o Brasil
a um desenvolvimento semelhante ao observado nos EUA e ainda
se firmar como empresário e empreendedor, Lobato iniciou a sua
Campanha do Petróleo.
Duas frases famosas do escritor em relação a esse tema:

Por que dos dois maiores países da América, descobertos no


mesmo século, povoados com os mesmos elementos
(europeu, índio e negro), libertados politicamente quase na
mesma época, com territórios equivalentes, um se tornou o
mais rico e mais poderoso do mundo e o outro permaneceu
atrofiado?
A humanidade somente progride dentro do respeito às leis
biológicas. A concorrência é a lei biológica do progresso. E o
que é o protecionismo senão essa força estranha que
impede a vitória do melhor e protege o pior? O protecionismo
não protege a indústria e sim, apenas, a incapacidade
industrial. Que vantagem há para um país em criar no seu
organismo este inchaço simulador de músculo? O
protecionismo enriquece alguns indivíduos, mas empobrece
a comunidade.

O Ministério da Agricultura (que cuidava também da mineração)


contratou o técnico americano Victor Oppenheim, conhecido e
renomado geólogo da época vinculado à Standard Oil, para operar
pesquisas em solo brasileiro. Lobato, então, começou a criticar
publicamente a associação entre o governo brasileiro e a estrutura
empresarial dos EUA. Lobato combateu como escritor e empresário
o Código de Minas. Irritado em especial com a exigência de
nacionalidade brasileira para a pesquisa e para a lavra das jazidas
minerais, apelidou-o de lei cipó. A legislação, porém, ao definir
empresas nacionais como “sociedades organizadas no Brasil”, sem
restrição de nacionalidade dos acionistas, possibilitava que
companhias estrangeiras fossem até proprietárias de empresas
nacionais.
Lobato usou essa brecha para organizar no Brasil sociedades com
capital estrangeiro, como foi o caso da Amep (Aliança Mineração e
Petróleos), que consolidou a união entre o autor-empresário e os
alemães. Crítico da exclusividade da pesquisa e da lavra das
jazidas de petróleo por empresas brasileiras, Lobato suspeitava,
também, que empresas americanas buscavam reservar terras no
Brasil com o propósito de garantir prioridade no futuro. Atuando nas
mais diversas áreas, alimentava debates na imprensa, discursava
acerca da importância dos empreendimentos nacionais, realizava
prospecção de petróleo, escrevia artigos e livros sobre o tema,
buscando os mais diversos arranjos políticos e comerciais.
Em 1937, com uma nova Constituição, as regras para a pesquisa e
a lavra das jazidas minerais ficaram ainda mais enrijecidas em
relação à nacionalidade das empresas. Fechou-se a brecha da lei
de 1934, estabelecendo-se claramente que apenas brasileiros ou
empresas constituídas no Brasil, com sócios brasileiros, poderiam
participar das atividades mineradoras. Era um balde de água fria
nas pretensões de Lobato de se associar à empresa alemã
Piepmeyer & Co. para ter a chance de, como empresário, explorar o
subsolo de seu país. A incansável atuação na Campanha do
Petróleo colocou Monteiro Lobato em choque com o governo de
Getúlio Vargas, o que levou à prisão do escritor de janeiro a junho
de 1941. Na madrugada de 4 de julho de 1948, vítima de um
derrame, Monteiro Lobato morreu em São Paulo.
Quase duas décadas mais tarde, em 1967, foi promulgado o Código
de Minas que vigora até hoje, com algumas modificações
implementadas por meio de leis específicas. A lei estabeleceu que a
pesquisa e a lavra de jazidas podem ser realizadas por brasileiros
ou por sociedades organizadas no país como empresas de
mineração. Esta é definida como firma ou sociedade constituída e
domiciliada no país, cujos componentes podem ser pessoas físicas
ou jurídicas, nacionais ou estrangeiras. Desta forma, o código de
1967 oficializou a abertura das atividades de mineração no Brasil a
empresas estrangeiras, o que já vigorava desde 1964. Hoje, de
acordo com dados do extinto DNPM, operam no Brasil cerca de
9.000 empresas de mineração.

Monteiro Lobato nunca encontrou petróleo, mas foi um intelectual


apaixonado e devoto do poder da literatura e dos livros. O
intelectual que fala por todos é essencial em tempos obscuros.
Homens e mulheres como Monteiro Lobato, Sérgio Buarque de
Holanda, Rachel de Queiroz, Anísio Teixeira, Bertha Lutz, Antônio
Candido, Paulo Freire, Conceição Evaristo, Milton Santos, entre
tantos, são, antes de mais nada, cidadãos inconformados com as
injustiças, canalizando suas angústias para levar seus
contemporâneos a pensar nas mudanças necessárias na
sociedade.
A Campanha do Petróleo, ou O Petróleo é Nosso, foi retomada
mais tarde por grupos nacionalista e comunistas para defender o
monopólio estatal, uma ideia totalmente diferente e oposta à de
Lobato.

Katia Chiaradia com os livros de Lobato.

Fonte: Kátia Chiaradia, Em briga por petróleo, Monteiro Lobato vê


burrada imensa no país, Folha, 24 de março de 2019.
O Relatório Link
Este foi o nome dado pela imprensa brasileira da época a uma série
de quatro cartas, três delas de 1960 e a quarta delas de 1961, que
foram escritas pelo geólogo americano Walter K. Link, contratado
pelo general Juracy Magalhães, presidente da Petrobrás. A
discussão em torno do Relatório Link é um exemplo entristecedor do
que hoje chamamos Fake news.
Link, que estava prestes a se aposentar na Standard chegou ao
Brasil em 1955 com um contrato de US $ 500 mil pelo período de 5
anos. O americano tinha duas missões desafiadoras: desenvolver as
estruturas de exploração e produção da companhia e avaliar as
bacias sedimentares brasileiras.
Mas como fazer isso em um país onde não existia nem curso de
geologia? Link foi pragmático: contratou a Universidade de
Stanford, na Califórnia, para desenvolver um curso de pós-
graduação em geologia do petróleo para os engenheiros da
companhia. Ele teria um ano e meio de duração e seria dado em
período integral, ministrado totalmente em inglês. Link também
determinou que vários funcionários da estatal fossem estudar em
universidades americanas, mas só nas mais reputadas e mais
rígidas. Eles estudavam dia e noite para concluir o mestrado em um
ano e retomar ao trabalho no Brasil.
O sistema de contratação de funcionários visava selecionar os
melhores alunos das melhores escolas brasileiras para que a
companhia pudesse formá-los nas áreas das especialidades de que
necessitava. Durante o curso de formação os candidatos viviam um
clima de competição ferrenha. Todos queriam tirar as notas mais
altas pois a escolha do local de trabalho era feita pelos candidatos
de acordo com a classificação no final do curso. Além do status de
pertencer a uma elite profissional, trabalhar na Petrobrás também
significou, durante muitas décadas, cumprir missões de alta
relevância para o país.
Em 1960 Link concluiu sua segunda grande tarefa: o diagnóstico das
bacias sedimentares brasileiras, um trabalho feito por quatorze
geólogos ao longo de cinco anos.

Recomendações de Link em 1960 e 1961

. As bacias terrestres brasileiras paleozoicas como Marajó, Acre,


Baixo Amazonas, Médio Amazonas, Paraná e Parnaíba não tem
possibilidades petrolíferas (conclusão similar à de Oppenheim em
1934).
. O mar, e não a terra, é que será a nova fonte de petróleo e gás
natural do Brasil. Precisa de tecnologia que ainda não temos, mas
que está sendo desenvolvida no Golfo do México.
. Para abastecer o país, a Petrobrás deve investir na prospecção e
produção no exterior, desde que haha boas condições políticas e
geológicas. O melhor seria investir nos países árabes, onde a
produção é barata.

Walter Link

A imprensa, principalmente a de esquerda, criticou com as palavras


mais duras as conclusões do Link. Disseram que ele era um espião
americano e coisas do gênero. Execrado por movimentos
nacionalistas, Link voltou para EUA em 1961. Passados quase 50
anos e muitas perfurações depois, o relatório Link mostrou-se
correto em todas as suas conclusões:
De 1961 a 1964, a Petrobrás fez inúmeras perfurações, em áreas
que Link havia colocado como não apropriadas. As bacias de
Marajó, Acre, Baixo Amazonas, Médio Amazonas, Parnaíba e
Paraná nunca tiveram uma só descoberta comercial de petróleo.
Entre 1960 e 1964, pressionada por políticos de esquerda e a
imprensa, a Petrobrás fez centenas de perfurações nestas bacias
sedimentares terrestres, gastando centenas de milhões de dólares.
E nada parecido com petróleo ou gás natural foi encontrado nelas.
No governo de Paulo Maluf, a Paulipetro fez dúzias de perfurações
na bacia do Paraná. Nenhuma descoberta. Em 1988, o então
presidente José Sarney foi para a televisão anunciar grandes
descobertas de petróleo na ilha de Marajó. Nenhuma gota deste
petróleo jamais apareceu.

Petróleo no mar
Com o Brasil falido e em terrível crise cambial, o regime militar
adotou as providências de Link a partir de 1964. As perfurações
marítimas, que Link pedira antes de 1961, só começaram em 1968.
A Petrobrás resolveu aplicar o conselho dado pelo americano Link e
iniciar as perfurações no mar. Logo na segunda tentativa encontrou-
se petróleo na costa de Sergipe. Em 1981, havia mais produção de
petróleo brasileiro no mar do que em terra. Hoje mais de 85% da
produção e mais de 95% das reservas brasileiras de petróleo são
marítimas.
O que a imprensa da época mais criticou nas cartas de Link foi a
conclusão de que as bacias paleozoicas brasileiras eram
desanimadoras para prospecção de petróleo e gás natural,
conclusão esta que se mostrou corretíssima.
Em 1978, com a geofísica melhor, a Petrobrás achou petróleo na
bacia do Alto Amazonas. Hoje esta é a área terrestre de maior
produção de petróleo e gás natural do Brasil. Ainda assim, nem 5%
do petróleo brasileiro vem desta bacia, que é a única bacia

Extração de petróleo e gás no mar

paleozoica do Brasil que produz ou já produziu petróleo


comercialmente.

Fontes: www.petroleo.coppe.ufrj.br/historia-do-petroleo/Petrobrás:
uma história de orgulho e vergonha, Roberta Paduan, Objetiva,
2016/Pesquisa, Inovação e Desenvolvimento, G. J. Creus, P. A.
L. Torres &E. Giugliani, CiKi, 2018.
Campos de petróleo no pré-sal
Na geologia, o termo camada pré-sal indica uma camada de rochas
carbonáticas, localizada abaixo de uma camada de sal. Entre a
costa oeste da África e a costa leste da América do Sul, um
depósito de matéria orgânica acumulada durante milhões de anos
sob o sal e pressionado por camadas superiores se transformou em
petróleo. Segundo os geólogos brasileiros, essa camada de sal foi
depositada durante o processo de formação do Oceano Atlântico,
após a quebra do Gondwana que levou à separação entre a
América do Sul e a África, um processo iniciado cerca de 120

Laurásia e Gondwuana

milhões de anos atrás. As camadas mais recentes de sal foram


depositadas durante uma fase de mar raso e clima semiárido.
Entre 300 e 200 milhões de anos atrás, houve um único continente,
Pangeia, que há cerca de 200 milhões de anos foi subdividido em
Laurasia e Gondwana. Aproximadamente há 140 milhões de anos,
foi iniciado o processo de separação entre as duas placas
tectônicas nas quais os continentes de Gondwana formaram os
atuais continentes da África e da América do Sul.
Nos primeiros dias, várias áreas de mares rasos e pantanosos
foram formadas, algumas de água salgada e salobra, onde algas e
microrganismos chamados fitoplâncton e zooplâncton proliferaram.
Esses microrganismos eram continuamente depositados no fundo
do mar na forma de sedimentos, misturando-se com outros
sedimentos, areia e sal, formando camadas de rochas impregnadas
de matéria orgânica, que dariam origem às rochas geradoras. A
partir deles, o óleo migrou para cima e ficou preso nas rochas do
reservatório, de onde é agora extraído. Ao longo de milhões de
anos e sucessivas Eras glaciais, ocorreram grandes oscilações no
nível do oceano, incluindo a deposição de grandes quantidades de
sal, que formavam as camadas de sedimentos salinos, geralmente
acumuladas pela evaporação da água nesses mares rasos. Essas
camadas de sal foram novamente enterradas pelo oceano e por
novas camadas de sedimentos quando o gelo das calotas polares
derreteu novamente nos períodos interglaciais.
Esses microrganismos sedimentares no fundo do oceano,
enterrados sob pressão e com oxigenação reduzida, degradaram-se
muito lentamente e, com o tempo, tornaram-se petróleo, como o
que se encontra atualmente na costa do Brasil.
De fato, os técnicos da Petrobras especulam a existência de
hidrocarbonetos abaixo da camada de sal há mais de vinte anos.
No entanto, as técnicas de aquisição e processamento de dados
sísmicos impediam uma melhor análise dos dados, precisamente
devido à presença de sal. Por sua vez, sem um conjunto de
informações minimamente confiáveis, não era possível justificar o
investimento de centenas de milhões de reais na perfuração de um
poço em potencial, devido aos custos muito elevados em função
novamente da presença da camada espessa de sal.
Com a evolução das técnicas de processamento de dados e a
capacidade de processamento dos computadores, foi possível
avançar o conhecimento da subsuperfície, o que levou ao encontro
de pistas que justificariam o bilionário investimento.
No Brasil, os campos de petróleo do pré-sal estão localizados em
profundidades que variam de 1.000 a 2.000 metros de água e 4.000
e 6.000 metros adicionais no subsolo. A profundidade total, ou seja,
a distância entre a superfície do mar e os reservatórios de petróleo
abaixo da camada de sal, pode chegar a 8.000 metros. O estrato do
pré-sal ocupa uma extensão de aproximadamente 800 quilômetros
ao longo da costa brasileira. A área, destacada desde a sua
descoberta pela Petrobras em 2006, se estende do norte da Bacia
de Campos ao sul da Bacia de Santos e do Alto Vitória (Espírito
Santo) ao Alto de Florianópolis (Santa Catarina). Estima-se que
cerca de 80 bilhões de barris de petróleo e gás estejam
armazenados lá, o que colocaria o Brasil como detentor de uma das
maiores reservas do mundo.

Petróleo no pré-sal

Após o anúncio da descoberta de grandes reservas no Brasil outros


países iniciaram processos de exploração em busca de petróleo
nas camadas profundas do subsolo marinho. Atualmente, as
principais áreas de exploração de petróleo com reservas potenciais
ou prováveis já identificadas no pré-sal estão na costa do Atlântico
Sul. No lado africano, há áreas do pré-sal em processo de
exploração no Congo (Brazzaville) e no Gabão. Além do Atlântico
Sul, especificamente nas áreas atlânticas da América do Sul e
África, também são mapeadas camadas de rochas do pré-sal para
produção no Golfo do México e no Mar Cáspio, na zona marítima do
Cazaquistão. As empresas multinacionais de petróleo que procuram
petróleo no pré-sal em outras regiões aplicam os conhecimentos
adquiridos trabalhando como parceiros da Petrobras.

O pré-sal brasileiro
As reservas de petróleo encontradas na camada pré-sal da costa
brasileira estão dentro da área marítima considerada a zona
econômica exclusiva do Brasil. São reservas com óleo considerado
de média a alta qualidade, de acordo com a escala API. O conjunto
de campos de petróleo do pré-sal se estende entre a costa dos
estados do Espírito Santo e Santa Catarina, com profundidades
variando de 1.000 a 2.000 metros de água e entre 4.000 e 6.000
metros de profundidade, chegando, portanto, a 8.000 metros da
superfície do mar, incluindo uma camada que varia de 200 a 2.000
m de sal.
Somente com a descoberta dos três primeiros campos do pré-sal,
Tupi, Iara e Whale Park, na Bacia do Espírito Santo, as reservas
brasileiras comprovadas, de 14 bilhões de barris, aumentaram para
33 bilhões de barris. Além disso, existem reservas possíveis de 50 a
100 bilhões de barris. Os nomes anunciados nas áreas do pré-sal
podem não permanecer, pois, se receberem o status de "campo de
produção", deverão ser renomeados de acordo com o artigo 3 da
Portaria ANP nº 90, com nomes vinculados à fauna marinha.

Extração de óleo da camada pré-sal

O presidente Lula e o petróleo do pré-sal

A Petrobras extraiu óleo do pré-sal pela primeira vez em setembro


de 2008. No campo de Tupi, a fase de extração de óleo
denominada "teste de longo prazo" começou em maio de 2009.
A descoberta de evidências de petróleo no pré-sal foi anunciada
pela Petrobras em 2006. A existência de petróleo na camada de
pré-sal em todo o campo que passaria a ser conhecida como pré-
sal foi anunciada pelo ex-diretor da ANP e posteriormente
confirmada pela Petrobras no final de 2006. Em 2008, a Petrobras
confirmou a descoberta de óleo leve na camada do sub-sal e extraiu
óleo pela primeira vez. Atualmente, a maior parte da produção
brasileira prove do pré-sal.
Fontes: Wikipedia/ Pré-sal: a saga, M.A. Pinheiro Machado,
L&PM, 2018.
Uma das oportunidades mais valiosas abertas pelo pré-sal talvez
esteja em locais como o Parque Tecnológico da Ilha do Fundão,
no Rio de Janeiro. Lá, já estão instalados centros de pesquisa e
desenvolvimento de tecnologia de algumas das maiores
fornecedoras mundiais de equipamentos e serviços para o setor de
óleo e gás, como a americana FMC. Nos dois últimos anos, a
empresa investiu 200 milhões de reais na operação brasileira,
sendo 70 milhões no centro tecnológico. O investimento já rendeu
pelo menos um fruto neste ano: o prêmio de melhor tecnologia de
equipamento submarino da OTC, a mais importante feira de
petróleo do mundo. O sistema premiado foi desenvolvido com o
Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), e é uma das
maiores apostas do setor para que as petroleiras consigam
aumentar o percentual de extração de petróleo de campos já
maduros. Além da FMC, o Parque Tecnológico do Fundão já abriga
os centros de pesquisa das multinacionais Schlumberger e Baker
Hughes. Nesse momento, estão em construção os centros de
tecnologia de GE, Siemens, BG, Usiminas, Halliburton e EMC2 —
esta última, da área de tecnologia da informação, é líder em
armazenamento de grandes quantidades de dados. Sua presença
no parque tecnológico é um bom exemplo do poder multiplicador da
cadeia do petróleo. Quando ainda estão tentando encontrar
petróleo, as petroleiras realizam pesquisas sísmicas no subsolo
marinho que geram enorme quantidade de dados. As informações
precisam ser tratadas por softwares poderosos — daí a presença
da EMC2 no parque. Ela, como as outras, quer aproveitar a
proximidade com o Cenpes, a meca do desenvolvimento
tecnológico de petróleo em águas profundas, instalado na Ilha do
Fundão em 1968.
CARNAVAL NO BRASIL
Chiquinha Gonzaga, o Samba, o
Natal da Portela e uma semana para
bailar e ser feliz.
NaA vida explode em euforia
No Carnaval o camelô e o estafeta
Se transformam em cisnes e borboletas.
Frívolas emergentes cobertas de lamé e ametista
São aves do paraíso socialista.
A Vênus televisiva é destaque.
O vendedor de pipocas de fraque e cartola
Abre alas para a escola.
Uma artilharia de tamborins
Realça o bicheiro vestido de querubim.
É o Carnaval

Luiz Coronel
Origem do Carnaval
A comemoração do carnaval tem suas raízes em festas primitivas,
de caráter orgíaco, realizadas para festejar o renascer da
primavera, e para promover o sucesso das plantações e a
fecundidade dos animais. Nos rituais agrários da Antiguidade, 10
mil anos A.C., homens e mulheres pintavam seus rostos e corpos,
deixando-se enlevar pela dança, pela festa e pela embriaguez. O
ballet Le Sacre du Printemps, de Igor Stravinski, comemora esse
espírito.

Em Roma, realizavam-se danças em homenagem ao deus Baco, as


Bacanais. Ao invadirem as ruas de Roma, dançando, soltando
gritos estridentes e atraindo adeptos do sexo oposto em número
crescente, as bacanais causavam desordens e escândalos. As
mulheres que participavam dessas festas corriam seminuas pelas
ruas, aos gritos de Evoi! Evoi! (origem do grito carnavalesco Evoé!)
A Bacanal, de Peter Paul Rubens.

Em 186 a.C. um decreto do Senado Romano proibiu as bacanais


em toda Itália. Mas, apesar do severo castigo infligido aos que
descumprissem esse decreto, as bacanais sobreviveram por muito
tempo.

A Igreja Católica enfrentou as manifestações pagãs sacralizando


algumas, como o Natal e o Dia de Todos os Santos. O Carnaval
manteve suas caraterísticas profanas, mas ficou limitado aos dias
que antecedem o início da Quaresma. A festa é sempre
posicionada um dia antes da Quarta Feira de Cinzas, que abre o
período de 40 dias de abstinência de carne preparatórios da
Pascoa, inspirado nos 40 dias em que Jesus passou orando e
jejuando no Deserto de Judéia. (Mateus 4,2; Marcos 1.13; Lucas
4.2). As datas variam de ano a ano porque dependem das fases da
Lua. Com a função de criar uma válvula de escape ao rigor das
normas, a festa foi colocada antes do período de abstinência.

Na França medieval, o Carnaval era celebrado com grandes


bebedeiras coletivas. Tantos foram os excessos que a Igreja o
proibiu por muito tempo. O papa Paulo II, no século XV, foi
tolerante, permitindo comemorações na Via Ápia, próxima ao seu
palácio. No carnaval romano, viam-se corridas de cavalo, desfiles
de carros alegóricos, brigas de confetes, corridas de corcundas,
lançamentos de ovos e outros divertimentos. O baile de máscaras,
introduzido também pelo papa Paulo II, adquiriu força nos séculos
XV e XVI, por influência da Commedia dell'Arte. Em outros países
da Europa, as comemorações eram animadas por canções que
ironizavam os governantes locais.
O Carnaval é uma grande festa popular. Tem razões psicológicas,
sociais e culturais. Neste período o povo exprime emoções,
incentiva fantasias, extravasa sentimentos de felicidade. Constitui
um momento de inversão social, em que o indivíduo tem a liberdade
de dizer e fazer coisas que em outras épocas do ano lhe são
interditadas. As hierarquias sociais são quebradas, para logo depois
serem reafirmadas. As inovações são incorporadas ou não,
dependendo da reação das forças sociais que fazem a festa. Os
folguedos de rua, associados à algazarra, sobrevivem.
As tradições carnavalescas mantêm-se vivas em algumas cidades
europeias, como Nice, Veneza e Munique. Em Portugal, de onde
veio para o Brasil – o Carnaval é sinônimo de Entrudo. Também
ocorre em Nova Orleans, sob o nome de Mardi Gras (Terça-feira
gorda).

Carnaval no mundo
Na Alemanha, o Carnaval tem nomes diferentes em diferentes
partes do país: em Colônia e Duesseldorf é Karneval, em Mainz
Fasenacht, em outras regiões Fasnet ou Fosnat; em torno de
Munique é chamado Fasching.

O Fasching começa oficialmente no dia 11 de novembro com a


coroação de um príncipe e uma princesa e dura quase três meses.
O período mais importante vai de 1o de fevereiro a 5 de março.
Durante esse tempo, mais de 800 bailes são realizados em
Munique, com milhares de pessoas. A maioria delas são bailes de
fantasia, mas há também bailes de gala (Schwarz-Weiss-Bälle).

Dois bailes tradicionais tem lugar no Deutsches Theater (o primeiro


baile no Deutsches Theater foi organizado em 1897), e no
Bayerischer Hof. Na sala de festivais do Löwenbräukeller, acontece
em 1º de março o Ball der Damischen Ritter (Baile dos cavaleiros
loucos) com um monte de gente engraçada vestida com armaduras
de cavaleiros.
Carnaval na Mogúncia, Alemanha

Carnaval em Colônia

Ball der Damischen Ritter

Carnaval na Marienplatz, Munique


Durante os últimos três dias a área pedonal no centro da cidade em
torno da Marienplatz é transformada em uma gigantesca zona de
festa ao ar livre com música ao vivo, vestidos extravagantes e
dança. Um dos destaques é a dança das mulheres do mercado
sobre o Viktualienmarkt na manhã da terça-feira.

O Carnaval de Veneza é famoso por suas elaboradas máscaras.


Perto de 3 milhões de visitantes viajam a Veneza para o Carnaval.
Um dos eventos mais importantes é o concurso da maschera più
bella que tem por juízes um painel internacional de artistas e
desenhistas de moda. Máscaras têm sido sempre uma caraterística
do carnaval veneziano. As pessoas podiam usa-las entre o festival
de Santo Stefano (26 de dezembro) e o final do carnaval. Cobrir o
rosto em público era uma resposta às rígidas hierarquias sociais.
Durante o Carnaval, as leis sumptuárias que estabeleciam as
vestimentas conforme profissão e classe social eram suspensas e
as pessoas podiam vestir conforme a sua vontade.

Máscara no Carnaval de Veneza

O Holi ou Festival das Cores é realizado na Índia todos os anos


entre fevereiro e março, para comemorar a chegada da Primavera.
Neste dia, as pessoas atiram tintas das mais diversas cores umas
às outras, com muita bebida, comida e música.

As pessoas cumprimentam-se dizendo Holi Hai.


O Entrudo português
Durante o Entrudo português as pessoas jogavam água, frutas, e
bolas de farinha umas nas outras, cantando canções bem
humoradas. Houve dois tipos de entrudo: o entrudo doméstico ou
privado e o entrudo de rua ou público, mais ousado e agressivo.

Jogos durante o entrudo, aquarela de Augustus Earle, c.1822. Entrudo familiar


e entrudo popular.

Carnaval no Brasil
O entrudo foi trazido pelos portugueses para as suas colônias na
América. Os primeiros festejos carnavalescos no Brasil sugiram no
século XVII, em Pernambuco, quando os trabalhadores das
Companhias de Carregadores de Açúcar se reuniam para a Festa
de Reis, formando cortejos e improvisando cantigas em ritmo de
marcha. Em finais do século XVIII o carnaval já era festejado por
todo o país. Muitos o consideravam uma festa groseira e violenta,
mas a maioria dos senhores liberava os escravos para a folia. Esta
consistia em brincadeiras e folguedos que variavam conforme o
local e os grupos sociais envolvidos. Com a mudança da corte
portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, surgiram as primeiras
tentativas de civilizar a festa através da importação dos bailes e
passeios mascarados parisienses, colocando o Entrudo Popular sob
forte controle policial.

Grupos carnavalescos e escolas de samba


Em finais do século XIX, os grupos carnavalescos já ocupavam as
ruas do Rio de Janeiro. Esses grupos eram chamados de cordões,
ranchos ou blocos. Em 1890, Chiquinha Gonzaga compôs a
primeira música específica para o Carnaval, Ô Abre Alas, música
composta para o cordão Rosas de Ouro.

Chiquinha Gonzaga

Chiquinha Gonzaga nasceu em 1847. Seu pai era o militar José


Basileu Neves Gonzaga e a mãe, Rosa, filha de uma escrava. Foi
educada para os ofícios do lar e para ser uma dama da sociedade,
mas aprendeu sozinha a tocar piano. Foi casada por imposição do
pai quando tinha 16 anos. A união durou dois anos pois aos 18,
Chiquinha foi viver com o engenheiro João Batista de Carvalho.
Divorciou-se também do segundo marido e, a partir de 1877,
passou a fazer da música a sua profissão, escolha infrequente para
uma mulher. Chiquinha contou com o auxílio do pianista português
Artur Napoleão dos Santos para melhorar sua técnica ao piano. A
parceria lhe rendeu a primeira regência no teatro, em janeiro de
1885, quando apresentou a opereta A Corte na Roça. Partidária da
abolição, chegou a vender partituras para arrecadar recursos
destinados à Confederação Libertadora. Um de seus músicos,
José Flauta, era um escravo alforriado, cuja liberdade ela comprou.
A consagração chegou na virada do século, com a marchinha Ó
Abre Alas, canção mantida no repertório carnavalesco até os dias
atuais.
Ó Abre Alas
Ó abre alas
Que eu quero passar
Ó abre alas
Que eu quero passar
Eu sou da lira
Não posso negar
Eu sou da lira
Não posso negar

Chiquinha foi amiga de Nair de Tefé, esposa do presidente Hermes


da Fonseca e que era, como Chiquinha, uma mulher à frente de
seu tempo. Nair lançou a moda de calças compridas para mulheres
e a de montar a cavalo como homem, e organizou saraus no
Palácio do Catete que ficaram famosos por introduzir o violão nos
salões da sociedade. Sua paixão pela música popular reunia
amigos para recitais de modinhas como as de Chiquinha, que foram
criticadas como músicas lascivas e vulgares. Quando Chiquinha
chegou aos 52 anos, mais um português marcou sua vida. João
Batista Fernandes Lage tinha 16 anos quando se apaixonou pela
brasileira. Foi o companheiro que a acompanhou até a morte e a
ajudou na organização da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais,
que protegeu os direitos autorais da artista. Chiquinha teve vida
longa. Morreu no dia 28 de fevereiro de 1935, aos 87 anos de
idade. Produziu de forma permanente e experimentando todos os
gêneros da música: xote, valsa, e choro, o tango brasileiro. O dia do
seu aniversário foi escolhido para instituir o Dia da Música Popular
Brasileira.
Fundadores do Cordão da Bola Preta, um dos grupos carnavalescos mais
tradicionais do Rio, em 1918.

O Samba
Assim como o jazz americano e o tango argentino, o samba é de
nítida origem africana, e nasceu nas casas de baianas que
emigraram para o Rio de Janeiro no princípio do século. Como
disse Vinicius de Moraes

Porque o samba nasceu lá na Bahia


E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Inicialmente vinculado ao carnaval, com o passar do tempo o


samba ganhou espaço próprio. A consolidação de seu estilo
verificou-se no final dos anos 1920, quando desponta a geração do
Estácio, fundadora da primeira escola de samba. Grande tronco da
MPB, o samba gerou derivados, como o samba-canção, o samba-
de-breque, o samba-enredo e a bossa nova.

A Escola de Samba
Uma coisa é o samba e uma outra a escola de samba. O samba
nasceu em 1917. A primeira escola surgiu uma década mais tarde.
Expressão artística das comunidades afro-brasileiras da periferia,
as escolas são grupos de canto, dança e ritmo que se apresentam
narrando um tema em um desfile linear.

A Deixa Falar foi a primeira escola de samba do Brasil, fundada em


1928, na cidade do Rio de Janeiro. Fez muito sucesso entre os
moradores da região e acabou por estimular a criação, nos anos
seguintes, de outras agremiações de samba: Cada Ano Sai
Melhor, Estação Primeira (Mangueira), Vai como Pode (Portela),
Vizinha Faladeira e Para o Ano sair Melhor. Nestas primeiras
décadas, as escolas de samba eram organizadas de forma simples,
com poucos integrantes e pequenos carros alegóricos. A
competição não era o mais importante, mas sim a alegria e a
diversão.

As escolas de samba transformaram a música do Carnaval e a


geografia do Rio de Janeiro, colocando os morros no mapa. Nos
anos 1930 começaram as primeiras competições entre grupos de
sambistas que surgiam em morros e subúrbios de maioria negra. A
partir dali adotava-se como trilha sonora principal da festa o samba
urbano, nascido no Rio décadas antes. As agremiações eram
instituições comunitárias, que reforçavam os laços entre os
moradores e criavam uma rede de proteção social.

O Jogo do Bicho e o Carnaval


Na ditadura do Estado Novo (1937-1946), o governo Getúlio
Vargas reavivou o projeto de embranquecimento físico e cultural da
população, barrando imigrantes negros, judeus e japoneses e as
manifestações populares. Para subsistir, as escolas negociaram
com os políticos e com o jogo do bicho.

A ligação do jogo do bicho com o carnaval começou por volta dos


anos 1930, através de Natal de Portela. Antes de receber este
nome ele era o Natalino José do Nascimento, funcionário da
Estrada de Ferro Central do Brasil, que perdeu o braço em um
acidente nos trilhos e teve que se aposentar por invalidez. Natal
conseguiu emprego em uma banca de Jogo do Bicho onde sua
carreira disparou: de anotador a gerente, de gerente a dono de
banca, e logo depois o nome mais importante da loteria popular.
Desde cedo, Natal esteve envolvido com o mundo do samba,
participando ativamente durante sua juventude das rodas de samba
do grupo que viria formar o bloco carnavalesco. Quando morreu seu
grande amigo Paulo da Portela, para homenageá-lo, Natal
resolveu investir dinheiro na escola criando desse modo a figura do
bicheiro patrono. Depois de Natal, vieram vários outros: Castor de
Andrade, patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel, o
bicheiro Anísio, que em 1973 financiou o desfile da Beija-Flor, que
preparou um luxuoso desfile na escola para o samba-enredo
Sonhar com rei dá Leão.

O intervalo nacionalista
O Carnaval crescia, e cresciam os esforços do governo para
discipliná-lo. Em 1948, em meio à Guerra Fria, passou-se a exigir
que as escolas adotassem bandeiras nacionalistas. Na época, o
Brasil, presidido pelo marechal Eurico Dutra se alinhava aos
Estados Unidos na disputa com a União Soviética. Isto foi uma
reação ao Carnaval anterior, quando 22 escolas desfilaram
patrocinadas pelo Partido Comunista Brasileiro. Para os políticos,
os desfiles eram os livros didáticos de uma população que não tinha
livros didáticos. Tornam-se comuns apresentações exaltando
figuras como o Duque de Caxias, a princesa Isabel e Rui Barbosa, e
eventos históricos como a proclamação da Independência e a
Guerra do Paraguai. Obrigadas a exaltar a história oficial em seus
enredos, as escolas achavam brechas para também contar nos
desfiles outras histórias que valorizassem suas próprias
experiências. Muitas escolas baseavam nas batidas dos orixás o
toque de suas caixas de guerra, instrumentos que dão constância
rítmica a uma bateria.

O desfile das escolas

No Rio de Janeiro e em outras cidades, as escolas de samba fazem


desfiles organizados, verdadeiras disputas para a eleição da melhor
escola. Com o crescimento vertiginoso dessas agremiações, o
processo de criação se especializou gerando empregos,
concentrados principalmente nos chamados barracões das escolas
de samba. O desfile mais tradicional acontece no Rio de Janeiro, na
Passarela do Samba, na Marquês de Sapucaí, primeiro
sambódromo construído no Brasil. O desfile das 16 principais
escolas cariocas se divide em dois dias (domingo e segunda-feira
de carnaval), em um megashow de mais de 20 horas de duração,
numa passarela de 530 metros de comprimento, onde se exibem
cerca de 60 mil sambistas. Com uma média de quatro mil
participantes no elenco, cada escola traz em torno de 300
percussionistas, levando o ritmo em sua bateria, além de outras
figuras obrigatórias: o casal de mestre-sala e porta-bandeira
(mestre de cerimônias e porta-estandarte), a ala das baianas, a
comissão de frente e o abre-alas.

Uma grande escola gasta cerca de um milhão de dólares para


desfilar, mas este valor não inclui as fantasias pagas pelos
componentes, nem as horas de trabalho gratuito empregadas na
preparação do desfile (carros alegóricos, e alegorias de mão, por
exemplo). Indústria do carnaval é o nome dado ao conjunto de
atividades de produção de fantasias, adereços e materiais para os
carros alegóricos. São na maioria empregos informais para milhares
de costureiras. Em 2018 essa indústria movimentou cerca de 6,25
bilhões de reais e gerou mais de 20 mil empregos. As escolas de
samba do grupo especial gastam cerca de 100 milhões de reais em
materiais, fora salários e serviços para por seu enredo na avenida.

A Corte real

Corte real é o nome dado ao cortejo do carnaval, composto pelo Rei


Momo, rainha e princesas. O Rei Momo é considerado o dono do
Carnaval, que comanda a folia. Vindo da mitologia grega, é filho do
sono e da noite, e foi expulso do Olimpo porque tinha como
diversão ridicularizar as outras divindades. Para ser rei-momo é
preciso ser simpático e esbanjar alegria, além de pesar no mínimo
120 quilos, exigência que vem sendo contestada nos últimos anos,
por causa dos problemas de saúde ligados a obesidade. A Rainha e
as Princesas são o trio de beldades que compõe o cortejo real e, ao
lado do Rei Momo, abre as festividades. Após o reinado, muitas
delas se tornam rainhas ou madrinhas de bateria.
Rei Momo e princesas do Carnaval de Florianópolis de 2005.

Primeira escola de samba: Deixa falar

Com a inauguração do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, em


1984, as agremiações viveram seu auge. O Carnaval carioca
tornou-se um espetáculo televisivo turbinado por recursos de
empresas e governos.

Desfile na Passarela do Samba na Sapucai, Rio de Janeiro

A elitização dos desfiles, porém, fez com que os grupos fossem se


afastando de suas bases comunitárias. Hoje o Carnaval das escolas
de samba cariocas perdeu muito da importância que já teve para o
resto do país E conforme o entusiasmo da classe média pelas
escolas esfriou, o carnaval de rua foi ressurgindo.

Muitas cidades voltaram-se às disputas entre escolas de samba


locais. No Recife e em Olinda, o frevo e o maracatu se firmaram
como os principais gêneros carnavalescos. Nas cidades históricas
mineiras, blocos centenários revigoraram os desfiles com
marchinhas. Em Salvador, a invenção do trio elétrico abriu o
caminho para o nascimento do axé, que se tornou a trilha
dominante nos festejos de várias regiões do país, até ser
destronado recentemente pelo funk. E, nos últimos anos, capitais
como São Paulo e Belo Horizonte vêm experimentando um forte
crescimento do Carnaval de rua, com blocos, trios elétricos e palcos
fixos.

Carnaval de rua, São Paulo.

Para atender a públicos cada vez maiores, muitos blocos recorrem


a patrocínios e se submetem a regras rígidas, como horários para o
início e fim dos festejos. Em contrapartida, os patrocinadores -
muitas vezes marcas de cerveja - costumam exigir que só se
vendam seus produtos no bloco e que possam criar áreas VIP. O
modelo já capturou o Carnaval da zona sul e do Centro do Rio, que
vai perdendo suas características populares. O governo tentou, mas
quem está tendo mais sucesso em disciplinar o Carnaval são as
empresas.
Na avenida, na praia ou na rua do bairro, com negros e
brancos, ricos e pobres, a festa continua. Carnaval no Brasil é
alegria e amor à vida. Uma perfeita convergência de nossa
comida, nossa bebida, nossa música, nossa criatividade,
nossos amigos, nossa dança e nossa alegria.

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