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PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 10ª REGIÃO
Gabinete Gabinete da Presidência
MSCiv 0000573-39.2020.5.10.0000
IMPETRANTE: SINDICATO DOS AUXILIARES E TECNICOS DE
ENFERMAGEM DO DISTRITO FEDERAL
AUTORIDADE COATORA: JUÍZO DA 22ª VARA DO TRABALHO DE
BRASÍLIA-DF

DESPACHO

Vistos.

Trata-se de mandado de segurança impetrado por


SINDICATO DOS AUXILIARES E TÉCNICOS DE ENFERMAGEM DO DISTRITO
FEDERAL/SINDATE-DF em face da decisão proferida pela juíza do trabalho
substituta da MM. 22ª VARA DO TRABALHO DE BRASÍLIA-DF, no bojo da ação
civil pública autuada sob o nº 0000633-43.2020.5.10.0022, em que figura
como autor e tem por reclamado o INSTITUTO HOSPITAL DE BASE DO DISTRITO
FEDERAL - IGES/DF.

Narra o impetrante que auxiliares e técnicos de


enfermagem, categorias que representa, contratados ou à disposição do
litisconsorte passivo necessário atuam no combate ao atual quadro de
emergência sanitária provocada pela COVID-19, encontrando-se em contato
direto com pacientes contaminados ou suspeitos de contaminação pela
doença. Em razão disso, argumenta que esses profissionais de saúde se
submetem a condições insalubres acima dos limites de tolerância
estabelecidos na CLT e no Anexo XIV da NR 15, motivo pelo qual fazem
jus à percepção em grau máximo do adicional de insalubridade.

A parte aduz que demandou em juízo a concessão de


liminar em tutela de urgência a fim de que fosse determinado o imediato
pagamento do aludido adicional, pleito o qual foi indeferido. Sustenta
que essa decisão é injusta, uma vez que há suficiente regulamentação
normativa para que se defira a vantagem, além que a saúde e vida dos
substituídos estão sob elevado risco.

Nesse contexto, considera presentes os requisitos

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da plausibilidade do direito e o perigo da demora, de modo a pedir a


concessão de liminar, com confirmação ao final, a fim de se determinar
ao litisconsorte necessário que assegure a todos os auxiliares e
técnicos de enfermagem, que estão em contato direto com pacientes
contaminados ou suspeitos de contaminação pelo novo coronavirus, a
percepção, em grau máximo 40% (quarenta por cento), do adicional de
insalubridade.

Brevemente relatado, DECIDO.

Este processo foi encaminhado ao gabinete da


Presidência deste egr. Regional para decidir a medida urgente nele
requerida, segundo a disposição do art. 106 do Regimento Interno, haja
vista o Relator, Exmo. Desembargador José Leone Cordeiro Leite,
encontrar-se em regular fruição de férias, conforme certidão, a fls. 35
(pdf).

Acerca da questão de fundo, cumpre registrar que o


magistrado deve verificar em cada caso se o fundamento do pedido
formulado pelo impetrante é ou não relevante. Na lição de Manoel
Antônio Teixeira Filho, esse critério "decorre não da eventual
excelência do direito que se procura proteger, e sim das consequências
oriundas da lesão causada ao direito pelo ato da autoridade, ou das
consequências que advirão na hipótese de a ameaça de violação consumar-
se" (Mandado de Segurança na Justiça do Trabalho. 2010. São Paulo: LTr.
3ª ed., p. 234).

Vale ressaltar que a suspensão liminar do ato


impugnado, por meio de mandado de segurança, dá-se "quando houver
fundamento relevante e do ato impugnado puder resultar a ineficácia da
medida, caso seja finalmente deferida", nos termos do inc. III do art.
7.º da Lei n.º 12.016, de 7 de agosto de 2009. Para essa finalidade, a
demonstração desses requisitos constitui encargo da parte impetrante.
Não o fazendo, inevitável o indeferimento do pedido liminar.

Relevo que a norma do caput do art. 300 do CPC


estabelece que a tutela de urgência será concedida quando houver
elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano

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ou o risco ao resultado útil ao processo. Por outro lado, na modalidade


de tutela provisória, a parte não busca a antecipação do mérito, mas
somente o resguardo do direito que lhe assiste. Nessa toada, se a
autoridade judicial compreender presentes os requisitos para a
concessão da tutela antecipada, previstos em permissivo legal, torna-se
imperativa a medida, pois não se cuida de poder discricionário do
julgador.

No caso em análise, como é sabido, em 11 de março


de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou estado de
pandemia em razão de níveis alarmantes de contaminação e gravidade do
coronavírus, causador de doenças como a COVID-19.

Em razão disso, diversas medidas legislativas


foram adotadas, nos três âmbitos do poder executivo, visando "regular o
estado de transmissão comunitária do coronavírus (covid-19)", assim
declarado por meio da Portaria nº 454, de 20/3/2020, do Ministério da
Saúde, com o fundamental intuito de proteger-se a saúde de todos e,
portanto, direcionadas a evitar-se a contaminação e ao controle do
aumento do número de pessoas vítimas do covid-19.

Em tal conjuntura, a matéria veio a ser regulada


pela Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, que dispõe sobre as
medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública provocada
pelo surto do novo coronavirus e, também, pelo Decreto nº 10.282, de 6
de fevereiro de 2020, que, regulando a referida Lei Federal, define os
serviços públicos e as atividades essenciais.

Impende pontuar que o caput do art. 3º-J da


mencionada Lei nº 13.979/2020 estabelece que, "Durante a emergência de
saúde pública decorrente do coronavirus responsável pelo surto de 2019,
o poder público e os empregadores ou contratantes adotarão,
imediatamente, medidas para preservar a saúde e a vida de todos os
profissionais considerados essenciais ao controle de doenças e à
manutenção da ordem pública", descrevendo seu inc. XIV, como
essenciais, as inestimáveis profissões de técnicos e auxiliares de
enfermagem.

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Da leitura dessa Norma Federal, extraio que ela


almeja resguardar a atividade econômica, assim como, essencialmente,
proteger todas as atividades e profissões a ela relacionadas.

É inegável que esse normativo se revela como


instrumento de contribuição para a adoção de medidas preventivas e, em
sua extensão, corrobora como fundamental a postura de quaisquer
setores, público ou privado, em se direcionar a zelar pela preservação
da saúde e da vida de qualquer um.

Nesse sentido, destaco a Convenção nº 155 da OIT,


que trata da segurança, saúde dos trabalhadores e do ambiente de
trabalho, a qual dispõe que o trabalhador deve ser protegido de
situações de trabalho que represente perigo iminente e grave para a sua
vida ou para a sua saúde (art. 13), ao tempo em que estabelece, em seu
art. 16, obrigações dirigidas aos empregadores quanto à adoção de
equipamentos de proteção apropriados.

Destaco, lado outro, que a CLT, em capítulo que


trata da Segurança e Medicina do Trabalho, assenta que cabe ao
empregador "cumprir e fazer cumprir as normas de segurança e medicina
do trabalho" (artigo 157, inc. I), e ao empregado "observar as normas
de segurança e medicina do trabalho", sendo certo que o exercício de
trabalho em condições insalubres acima dos limites de tolerância
assegura a percepção de adicional respectivamente de 40% (quarenta por
cento), 20% (vinte por cento) e 10% (dez por cento), segundo se
classifiquem nos graus máximo, médio e mínimo.

Ainda, a CLT, em seu art. 189, delineia que "Serão


consideradas atividades ou operações insalubres aquelas que, por sua
natureza, condições ou métodos de trabalho, exponham os empregados a
agentes nocivos à saúde, acima dos limites de tolerância fixados em
razão da natureza e da intensidade do agente e do tempo de exposição
aos seus efeitos".

Registro que para "A caracterização e a


classificação da insalubridade e da periculosidade, segundo as normas
do Ministério do Trabalho, far-se-ão através de perícia a cargo de

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Médico do Trabalho ou Engenheiro do Trabalho, registrados no Ministério


do Trabalho" (CLT, art. 195, caput).

Portanto, para a finalidade de enquadrar o risco,


no caso biológico, conforme definido no Anexo XIV da NR 15, como um
possível fator ensejador de insalubridade, faz-se necessária a
realização de prova técnica.

Todavia, ao presente caso há de ser evidenciada


uma peculiaridade que envolve a matéria, sendo devido, desde logo,
adiantar que a invoco, firme no brocado "dê-me os fatos e eu lhe darei
o direito", sem que isso configure violação dos limites da lide.

Consoante salientei, diversas medidas legislativas


foram adotadas para fins de regular o enfrentamento da pandemia global
advinda do novo coronavirus.

Nesta entidade federativa, para o interesse desta


ação mandamental e, por consequência, da ação coletiva de que ela
deriva, foi promulgada a Lei Distrital nº 6.589, de 25 de maio de 2020,
a qual dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de
saúde pública de importância internacional decorrente do novo
coronavírus.

Dentre as diversas medidas a serem adotadas, a


Norma em referência determina expressamente que:

Art. 8º Os gestores das unidades de saúde da rede


pública e privada são obrigados a entregar os
equipamentos de proteção individual - EPI aos
trabalhadores da saúde.
§ 1º Durante o período de emergência da saúde
pública, a exposição do trabalhador da saúde que
tem contato direto com possíveis infectados é
considerada o grau máximo de insalubridade.
§ 2º Fica assegurado aos trabalhadores da saúde o
direito a indenização posterior, em caso de
descumprimento desta Lei.

Da leitura desse texto legal, diviso que a norma


disposta no §1º possui aplicabilidade plena, ou seja, confere imediato
pagamento do adicional de insalubridade em grau máximo para o
trabalhador que labore nas condições ali previstas.

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Essa conclusão se reforça pela redação dada ao


art. 10, que estipula: "Esta Lei entra em vigor na data da sua
publicação, com vigência enquanto perdurarem as medidas de prevenção de
contágio pelo Covid-19 determinadas pelo governo do Distrito Federal
que impliquem a restrição da circulação de pessoas".

Assim, extraio que o legislador distrital


intencionou que a norma examinada deva ser cumprida desde logo. Não
faria mesmo sentido que o pagamento da vantagem tivesse que aguardar
regulamentação ulterior, com formulação de requisitos técnico-formais,
pois a questão, neste particular, é exclusivamente de direito e
encontra operacionalização na legislação que sobre ela incide.

De fato, com efeitos imediatos, a Lei nº


6.589/2020 regulamenta a matéria no âmbito do Distrito Federal e
determina o percentual máximo a ser percebido pelo profissional de
saúde.

Portanto, friso, revela-se desnecessária a


produção de outro regulamento para a finalidade prevista na Lei.

Da mesma maneira, sendo notório que a doença é


altamente infecciosa, não se pode conceber, à luz do inc. I do art. 374
do CPC, que a percepção do adicional somente venha se concretizar após
a realização de prova técnica ou de qualquer outro procedimento
probatório.

Nos termos da Lei referida, todos os substituídos


expostos e que têm contato direto com possíveis infectados laboram em
circunstâncias insalubres.

Reforça essa conclusão de eficácia imediata do


texto legal, a norma dos §2º do mesmo art. 8º da mesma Lei, para o qual
surge o direito à indenização, no caso de o pagamento do adicional não
ser pago a partir da publicação da Lei.

Bem por isso, não condiciona a percepção do


adicional, quiçá em seu grau máximo, o art. 9º da aludida Lei, ao
assentar que "O Poder Executivo editará os atos necessários à

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regulamentação e operacionalização do disposto nesta Lei".

Embora compreensível a preocupação de se realizar


prova técnica, no caso, a matéria encontra suficiente regulação, de
modo a ser despiciendo aguardar-se a formação do contraditório e da
ampla defesa para, só então, concretizar-se o disposto em norma de
plena eficácia.

O respeito à dignidade no mundo do trabalho e, por


decorrência, o trabalho digno, não deve permear tão somente os
normativos. Há de se realizar de forma concreta, no cotidiano das
relações de trabalho.

Nessa esteira, em cognição sumária, própria aos


juízos de urgência, compreende-se que a pretensão deduzida pelo
impetrante no processo do qual derivou a presente ação mandamental
encontra-se inserida na urgência e no perigo da demora.

Além disso, com a devida vênia a entendimentos


diversos, não se vislumbra perigo da irreversibilidade dos efeitos da
medida, porquanto o empregador terá meios para ver-se ressarcido dos
valores que, eventualmente, venham a ser considerados indevidamente
pagos. Não bastasse, consoante mandamento inscrito no art. 302 do CPC,
a parte requerente estará sujeita a responder a reparação por dano
processual e pelo prejuízo que a efetivação da tutela de urgência
causar à parte adversa, se a sentença lhe for desfavorável e ou ocorrer
a cessação da eficácia da medida em qualquer hipótese legal (incs. I e
III do referido preceito).

Nesse contexto, evidenciado nos autos a


probabilidade do direito e o perigo de dano, bem como por não
vislumbrar perigo da irreversibilidade dos efeitos da medida, há de ser
concedida a tutela de urgência de natureza antecipada, com fulcro no
artigo 300, caput e §3º, do CPC.

Porém, ressalto a necessidade de que sejam


relacionados os auxiliares e técnicos de enfermagem, substituídos pelo
impetrante, que se ativam nas condições previstas na Norma de regência.
Obrigação que pode ser cumprida pelo próprio sindicato.

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Dessarte, DEFIRO o pedido liminar formulado para


determinar que o Instituto Hospital de Base do Distrito Federal -
IGES/DF, a partir da entrega da relação dos auxiliares e técnicos de
enfermagem, contratados ou que estejam à disposição do litisconsorte
passivo necessário, e que estejam em contato direto com pacientes
contaminados por covid-19, pague a remuneração obreira conforme
postulado, inclusive sob a forma de folha suplementar, se for o caso.

Advirto que esta decisão manterá seus efeitos até


que venha a ser revista, a qualquer tempo, pelo Juiz natural da causa.

Em caso de descumprimento, será imposta multa


diária de R$1.000,00 (mil reais), nos termos do art. 297 do CPC, a ser
reversível a cada trabalhador constante da listagem a ser fornecida.

Intime-se.

Notifique-se, com urgência, a autoridade judicial,


inclusive para prestar as informações legais.

Cite-se o litisconsorte passivo necessário por


meio telefônico (61) 3550-8811 ou no seguinte endereço eletrônico,
BRUNO.LAGO@IGESDF.ORG.BR.

Após, remetam-se estes autos eletrônicos ao


gabinete do Relator, Exmo. Desembargador José Leone Cordeiro Leite.

Brasília-DF, 7 de Agosto de 2020.

BRASILINO SANTOS RAMOS


Desembargador do Trabalho

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Assinado eletronicamente por: [BRASILINO


SANTOS RAMOS] - 6c70d86
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/ConsultaDocumento/listView.seam Documento assinado pelo Shodo

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