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ESCOLA DE DIREITO
CURSO DE DIREITO

RAFAELA SOUZA DA SILVA


MILÍCIAS: QUEM MANDOU MATAR MARIELLE?
A PROLIFERAÇÃO E O CONTROLE DAS MILÍCIAS NO BRASIL
EM ESPECIAL: NO RIO DE JANEIRO

Porto Alegre
2019
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MILÍCIAS: QUEM MANDOU MATAR MARIELLE?


Rafaela Souza da Silva
Clarice Beatriz Sohgen

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO. 2 CONCEITO HISTÓRICO E CONCEITO DE MILÍCIAS. 3


ANÁLISE DO RELATÓRIO FINAL DA COMISSÃO PARLAMENTAR DE
INQUÉRITO DAS MILÍCIAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. 4 CENÁRIO
ATUAL DAS MILÍCIAS. 4.1 CASO MARIELLE: QUEM MANDOU MATAR
MARIELLE FRANCO? 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS. REFERÊNCIAS.

RESUMO

O presente artigo trata sobre a constituição de milícias privadas e organizações paramilitares,


abordando o conceito, tipo penal, forma e a evolução do tema, bem como analisa o relatório
final da CPI das Milícias trazendo o cenário atual e o polêmico caso do assassinato da vereadora
(PSOL - Rio de Janeiro) Marielle Franco. Sabe-se que o assunto está em mais evidência do que
nunca, embora de forma velada. O objetivo do presente trabalho é demonstrar a causa de
tipificação do crime, a inaplicabilidade na prática, e o cenário atual do ilícito, que por sua vez
está em pauta e ganhou conhecimento notório da nação, que até a CPI das milícias se tratavam
apenas de especulações. A relevância do tema vem aumentando com o passar dos anos, e
principalmente, neste ano, restou demonstrada a ciência da população em geral, e a importância
de abordar o tema em exame.

Palavras-chave: Milícias. Criminologia. Direito Penal. Organizações Paramilitares.

1 INTRODUÇÃO

Inicialmente, conceitua-se as milícias como organizações criminosas que detém


controle de um território e dos moradores desse local, a partir de coação através de grupo
armado, com a promessa de “segurança” com o objetivo de lucro individual e a participação de
membros da Administração Pública. (CANO, CPI DAS MILÍCIAS, pág. 36)
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As áreas dominadas pela milícia têm um histórico de marginalização criado pelo próprio
sistema quando afastou as pessoas com menor poder econômico do acesso à moradia digna e
assistência Estatal no que concerne a criação de políticas sociais visando solver a desigualdade
socioeconômica. (SHECAIRA, Sérgio. Criminologia, 5ª Edição, pág. 148)
O objetivo do presente trabalho é compreender a constituição, a evolução e o
crescimento das milícias no Brasil, tendo como principal embasamento o Estado do Rio de
Janeiro, que é o local em que essas organizações criminosas atuam com mais força.
A partir dessa compreensão pretende se explicitar a dificuldade do Estado em investigar
e desmantelar as milícias, uma vez que a força, a estrutura organizada, a capacidade empresarial
e a violência utilizada estão à nível do conceito internacional de organizações criminosas.
(FERRAZ, CPI DAS MILÍCIAS, pág. 35)
O presente trabalho está estruturado da seguinte forma: no capítulo 2 que sucede o
presente, discorre-se sobre o contexto histórico e o conceito de milícia, atacando a constituição
das áreas marginalizadas onde se encontra presente tal fenômeno. No capítulo 3 aborda-se o
Relatório Final da CPI das Milícias de 2008, que foi a primeira assunção estatal da ocorrência
do atual ilícito penal. No capítulo 4, a partir de notícias jornalísticas, versa sobre o cenário atual
das milícias, que estão em crescimento, e as notícias cada vez mais recorrentes. Já no último
capítulo retrata-se o caso do assassinato da vereadora Marielle Franco e sua importância notória
para a atenção do Estado ao controle exercido pelas milícias.

2 CONTEXTO HISTÓRICO E CONCEITO DE MILÍCIAS

O termo milícia nem sempre foi utilizado para se referir a organizações criminosas. Na
época imperial, os portugueses chamavam de milícias as “tropas de segunda linha”, que
auxiliavam o Exército como uma reserva às tropas de primeira linha. (Alcântara, 2018)
Entretanto, no início do século o termo passou a ser usado para se referir à grupos
criminosos que se formavam nas comunidades marginalizadas do Rio de Janeiro, diga-se
favelas, caracterizadas principalmente pelo poder armado que exerciam em determinados
territórios, gerando uma sensação de “segurança” aos moradores, prestando assim a assistência
que o Estado deixa de prestar. (DUARTE, 2012 p. 13 e 14)
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Cabe aqui, inicialmente, fazer um breve resumo do contexto social que ocasionou essa
situação, que não é única e exclusivamente vivida no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil,
principalmente em metrópoles, nas suas áreas marginalizadas.
Dentre tanto, o que são áreas marginalizadas?
A Escola de Chicago realizou um estudo nominado como “a ecologia criminal”,
definindo a desorganização social e as distintas áreas de delinquência como os principais
fenômenos influenciadores da criminalidade.
Os estudos se perfectibilizaram através de pesquisas que foram divididas entre bairros
distintos, e assim, reconheceu-se que cada organização social, a partir de meios dessemelhantes,
obtém resultados diferentes, conforme bem refere o professor doutor e mestre em Direito Penal,
Sérgio Salomão Shecaira, em sua obra Criminologia - 5ª Edição “Os quarteirões assumem algo
do caráter e qualidades de seus habitantes. Cada parte da cidade, tomada em separado,
inevitavelmente se cobre com os sentimentos peculiares à sua população”. (SHECAIRA, 2013)
Sendo assim, Shecaira (SHECAIRA, 2013 p. 142) aponta que:
“A cidade moderna, em face de sua mobilidade ínsita, caracteriza-se pela ruptura dos
mecanismos tradicionais de controle. Normalmente os processos de desorganização e
organização estão em uma relação direta com a dialética da reciprocidade. A
desorganização social, como preliminar à reorganização de posturas e condutas
humanas, é uma experiência pela qual passa o recém-chegado a cidade com uma
rejeição de hábitos e concepções morais, acompanhados do conflito interior e do seu
sentimento de perda pessoal.”
O professor cita também:
Sendo a desorganização preliminar à reorganização de atitudes e de conduta, constitui
quase invariavelmente a sina do recém chegado à cidade, e o descarte do habitual e
muitas vezes do que tem sido para ele a moral, é não raro acompanhado por agudo
conflito mental e senso de perda pessoal. Talvez mais frequentemente a mudança dê,
mais cedo ou mais tarde, um sentimento de emancipação e um impulso em direção a
novas metas. (BURGESS apud SHECAIRA, 2013, p.143)

Dessa forma, o crescimento das metrópoles juntamente com os grandes processos


migratórios e imigratórios gerou uma reurbanização, causando aos indivíduos que já se sentem
segregados e não pertencentes à localidade, o sentimento de desvalorização por pare dos locais,
justificando uma frase de Disraeli, que em 1845 declarava: “O cristianismo proclama o
mandamento do amor ao próximo; mas na moderna sociedade não existe qualquer próximo.”
(SHECAIRA, 2013 p. 147)
O professor ressalta ainda que Chicago e Brasil têm muito em comum quando se trata
desse processo de desorganização social, tendo em vista a característica comum do grande
número de imigrantes estrangeiros e de migrantes (principalmente negros). (SHECAIRA, 2013
p. 147)
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Visto isso, podemos entender, a partir do Estudo de Chicago, o que ocorre em terras
brasileiras.
O estudo desvendou também que a presença de áreas comerciais ou industriais cria um
afastamento daquelas pessoas com maior poder aquisitivo, uma vez que onde existe comércio
e indústria há poluição, barulho e desorganização, e quem detém um poder econômico mais
alto consegue se resguardar em bairros residências enquanto famílias de baixa renda vivem
nessas áreas arcando com todo o ônus por ela gerado, alojando assim, essas pessoas, à margem
da cidade e, consequentemente, da sociedade “padrão”. (SHECAIRA, 2013)
Por conseguinte, os migrantes e imigrantes que vieram de suas cidades estruturadas de
pequenas comunidades rurais com um controle social informal, não tinham um passado
criminoso, mas passam a aderir esse comportamento quando chegam à cidade por um
sentimento de dissociação causado pelo próprio meio. (SHECAIRA, 2013)
Em suma e diante do exposto sobre o estudo da Escola de Chicago, conclui-se que os
maiores índices de criminalidade são encontrados naquelas áreas da cidade onde o nível de
desorganização social é maior, que hoje no Brasil são as chamadas periferias/favelas. Ressalta-
se que será utilizado o termo “áreas marginalizadas” também para se referir a periferias/favelas
no presente trabalho. (SHECAIRA, 2013 p. 148)
Para iniciarmos de fato o estudo das Milícias precisamos conceituar o tema. O que são
milícias? Para o sociólogo Ignácio Cano é difícil estabelecer um conceito único, por se tratar
de uma realidade extremamente dinâmica, por esse motivo ele divide em cinco eixos que devem
acontecer simultaneamente para caracterizar milícia (CPI, 2008 p. 36):

“1. controle de um território e da população que nele habita por parte


de um grupo armado irregular 2. o caráter coativo desse controle 3. o
ânimo de lucro individual como motivação central 4. um discurso de
legitimação referido à proteção dos moradores e à instauração de uma
ordem 5. a participação ativa e reconhecida dos agentes do Estado.”
(CANO, 2008)

Dessa forma, o sociólogo conceituou cada eixo, conforme demonstra-se abaixo:


“O primeiro eixo, domínio por parte de um grupo irregular, é
decorrência da ausência do Estado levando a arbitrariedade a substituir
a norma. Se as milícias estão compostas por membros dos órgãos de
segurança, os ―infratores da lei‖ poderiam ser entregues à Justiça para
serem julgados. No entanto, a natureza irregular desses grupos dificulta
essa opção.
O segundo eixo é a coação, indispensável para manter o controle. Se
não houver coação, possivelmente é um caso de segurança privada, na
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qual a iniciativa parte do usuário, que controla o serviço. No caso das


milícias, a iniciativa parte dos próprios milicianos, que são quem
controla o suposto beneficiário. Mesmo assim, a intensidade da coação
é muito variada. Em alguns casos, os moradores sofrem ameaças diretas
se, por exemplo, não pagarem as taxas de proteção, o que se caracteriza
como extorsão. Em outros, a coação é bem mais sutil e os moradores
receiam o que possa lhes acontecer se não pagarem o ―serviço‖. Na
verdade, trata-se de oferecer proteção paga contra eles mesmos. O
terceiro elemento é a motivação do lucro individual. Se quisessem tão-
somente restaurar a ordem e proteger a comunidade, os agentes do
Estado poderiam e deveriam fazer isso enquanto funcionários públicos.
Mas, se assim o fizessem, estariam se privando de uma fonte privada
de renda. Então, esse é o elemento central para se contrapor ao que
chama Ignácio de ―mito libertador‖. O motor da milícia não é libertar
ninguém; o motor da milícia é gerar renda individual. Não satisfeitas
com a venda do serviço de proteção, as milícias, em muitas
comunidades, lucram com o controle direto de diversas atividades
econômicas, como o transporte alternativo e a venda de gás, de água,
de sinal de TV a cabo pirata ou até, num claro exemplo do seu perfil
―modernizante‖ em comparação com a dominação dos grupos
tradicionais, a venda de serviços de internet. Observa-se que os três
elementos mencionados até o momento – controle territorial, coação e
lucro – não diferenciam a milícia de outros grupos armados, como o
narcotráfico, por exemplo. Os traços mais marcantes são os dois
últimos: o discurso de legitimação e a participação dos agentes
públicos. O discurso de legitimação relativo à proteção dos habitantes
é um ponto central da milícia. Ela se apresenta como proteção contra a
ameaça do crime, contra a desordem e, em última instância, contra o
mal, simbolizado na figura do narcotraficante. Diferentemente do
tráfico, que não precisa de legitimação, o que se justifica pela simples
violência, a milícia não pode se apresentar como um grupo a mais do
crime organizado. Tem que se apresentar como alternativa ao
narcotráfico. Tenta assim se legitimar pelo seu oposto, como um ―mal
menor‖.
O último dos cinco pontos é a participação de agentes do Estado. Essa
participação precisa ser divulgada localmente para que todos saibam
que os milicianos são policiais, bombeiros etc. Essa divulgação é
importante porque traz o diferencial das milícias em relação às
quadrilhas de traficantes. Enquanto o policial corrupto que recebe
dinheiro do tráfico tenta ser discreto para não ser identificado, o
miliciano faz questão de dizer que é policial, agente penitenciário ou
bombeiro.” (CANO, 2008 p. 36)

Portanto, o conceito pode ser bem extenso e complexo devido a dimensão do assunto,
mas podemos caracterizar como a criação de um poder de controle secundário que paira sobre
áreas marginalizadas, com o auxílio e a anuência de agentes da administração pública.
Acrescenta-se ainda, ao conceito, as palavras do delegado Cláudio Ferraz que acredita
que as milícias se enquadram no conceito internacional de crime organizado, face à sua
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capacidade de organização, da sua racionalidade empresarial, da sua utilização da violência, da


corrupção e dos seus vínculos com o poder político. (FERRAZ, 2008 p. 35)
Em meados do ano de 2006, o termo “Milícia” passou a ser utilizado notoriamente para
definir organizações criminosas que envolvem agentes da administração pública (policiais
militares e civis, bombeiros, agentes penitenciários, políticos...) e empresários. (DUARTE,
2012 p. 11)
O primeiro fato que trouxe apelo e notoriedade nacional ocorreu em 2008, foi o caso
dos jornalistas do “O Dia”, que estavam investigando em sigilo essas organizações criminosas
e foram até a favela do Batan (Zona Oeste do Rio de Janeiro), ocasião essa em que foram
torturados, através de abuso físico e psicológico, por milicianos da área. (DUARTE, 2012 p.
11)
Por conseguinte, devido à publicidade e comoção sobre o caso dos jornalistas, em 2008,
foi instaurada a Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar a ação de milícias no
Estado do Rio de Janeiro. Por ocasião do relatório final dessa CPI é que o termo milícias teve
relação fática e comprovada com agentes da Administração Pública que se aliaram a grupos
criminosos exercendo o papel do Estado através de poder organizado sobre as favelas do Rio
de Janeiro. (DUARTE, 2012 p. 11)
Por outro lado, a análise das denúncias do “Disque-denúncia” realizada na obra “no
sapatinho” apontou que no bairro Campo Grande, onde é a base de uma das milícias mais
poderosas do Rio de Janeiro, a “Liga da Justiça”, as denúncias que eram de 5% a 8% entre 2006
e 2007, subiu para 13% em 2008 e para 21% em 2009, período com muitas prisões e
indiciamento de milicianos da Liga da Justiça. Muito embora tenha diminuído a proporção de
denúncias entre 2010 e 2011, ficando na faixa de 13 a 15%, demonstra que “o poder público
não conseguiu acabar com as atividades de milícia neste bairro”, uma vez que o nível de
denúncias continua alto. (DUARTE, 2012 p. 34)
Devido a este cenário e a proporção que a situação das milícias atingiu no Rio de Janeiro,
criou-se a Lei 12.720/2012, que ensejou o art. 288-A no Código Penal tipificando as ações
desses grupos criminosos e adicionando uma nova majorante ao crime de homicídio (art. 121,
§6º) e ao crime de lesões corporais (art. 129, §7º).

2 ANÁLISE DO RELATÓRIO FINAL DA COMISSÃO PARLAMENTAR DE


INQUÉRITO DAS MILÍCIAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO.
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Em fevereiro de 2007, em decorrência da extrema gravidade da situação das milícias no


Rio de Janeiro, o Deputado Marcelo Freixo requereu a instauração da Comissão Parlamentar
de Inquérito, uma vez que existiam altos indícios de que policiais, civis e militares, bombeiros
militares e agentes penitenciários faziam parte desta organização criminosa. (CPI, 2008 p. 04)
Entretanto, apenas em 2008 após o sequestro e tortura dos repórteres do jornal “O DIA”,
que foi caso notório, é que foi de fato instaurada a citadina CPI, tendo sido aprovada ensejando
a Resolução nº 433/2008, publicada no D.O. de 11/06/2008. (CPI, 2008 p. 04)
O Relatório Final da CPI aponta os diversos meios que foram utilizados para a
investigação, dentre eles o DISQUE-MILÍCIA que resultou em diversas denúncias anônimas
que foram essenciais para o desdobramento das investigações, totalizando o número de 1.162
denúncias. Ainda, houve outras 44 denúncias anônimas fora do DISQUE-MILÍCIA. (CPI,
2008 p. 15)
As denúncias apontavam o domínio das milícias sobre determinadas comunidades,
desde o exercício da prestação de serviços como uma possível central clandestina de TV a cabo
e escuta telefônica na Praça da Bandeira, até a atuação do atual Deputado do Estado de Minas
Gerais, João Magalhães, em grupo de extermínio em Belford Roxo. (CPI, 2008 p. 16)
O relatório final da CPI retrata a história das milícias tendo início e propagação da
informação fática em meados de 2004, momento em que a imprensa passou a utilizar o termo
“milícia”. Já no final de dezembro de 2006, quando facções criminosas responderam à atuação
das milícias através de atentados, é que se constatou o crescimento substancial dessas
organizações criminosas. (CPI, 2008 p. 34)
Outrossim, no início de 2007, com o novo governo no Estado do Rio de Janeiro, foi
efetivada a reação do Estado em represália das milícias, uma vez que afastaram o inspetor da
Polícia Civil Félix dos Santos acusado de chefiar a milícia de Rio das Pedras. (CPI, 2008 p. 34)
No entanto, houve ainda, um caso que impulsionou prisões de autoridades do governo
em razão da atuação das milícias: em agosto de 2008 o líder comunitário da favela Kelson’s,
Jorge da Silva, fez denúncias perante diferentes órgãos do poder público, e no dia 7 de setembro
foi sequestrado e assassinado em função das delações. (CPI, 2008 p. 34)
Mais tarde, naquele mesmo ano, em dezembro, foi preso o vereador Josinaldo,
conhecido como Nadinho, que foi acusado de chefiar a milícia na Favela Rio das Pedras. E
assim, sucessivamente, ocorreram diversas prisões de autoridades públicas acusadas de chefiar
milícias, como o Deputado Estadual Natalino Guimarães e o Vereador Jeronimo. (CPI, 2008 p.
34)
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Sendo assim, quando do acontecimento do abominável caso dos jornalistas do “O DIA”,


pela notoriedade nacional e internacional, e comoção popular é que a Assembleia Legislativa
do Estado do Rio de Janeiro aprovou a criação da CPI das Milícias. (CPI, 2008 p. 34)
No andamento da CPI foram ouvidos sociólogos e acadêmicos para dar embasamento
às origens das milícias, fenômeno que analisaremos agora.
Os acadêmicos Jéssica Muniz e Domício Proença apontam que:
“[...] o grau de responsabilidade do exercício de governança e de governabilidade, na
medida em que, dissociado do verdadeiro interesse público, colaborou para o
surgimento, o crescimento territorial e a ampliação, tanto dos negócios criminosos
como dos braços político-eleitoral e bélico das milícias, como compreendemos
atualmente, a partir do ano 2000 no Rio de Janeiro.” (CPI, 2008 p. 38)

De forma que o interesse público na segurança encontrou outro viés, tornando assim as
milícias um “empreendimento” muito promissor e esperançoso para aqueles que se viram
desamparados, tanto os milicianos como os moradores das áreas marginalizadas.
Os acadêmicos referem que o medo e o sentimento de insegurança, dão origem à
“legitimidade informal” dos grupos de controle, viabilizando a credibilidade e a aceitação de
“justiceiros”, “salvadores” ou qualquer “libertador” que ofereça segurança. (CPI, 2008 p. 38 e
39)
A partir dessa premissa, o sociólogo Luis Eduardo Soares acredita que:
“[...] a origem das milícias reside na segurança privada informal e
ilegal, quase toda ela a cargo de membros e ex-membros da área de
segurança pública que buscam esse segundo trabalho inicialmente
como alternativa para aumentar seus rendimentos face aos baixíssimos
salários pagos.” (CPI, 2008 p. 39)
Ressaltando que se houvessem salários dignos, o interesse na segurança seria
inteiramente destinado ao âmbito público, os agentes se dedicariam única e exclusivamente à
segurança do povo e não precisariam dar prioridade aos seus clientes da segurança privada
como forma de mantê-los e manter seus rendimentos extras, que se tornam um complemento
extremamente necessário de seus salários, perdendo o caráter “extra”.
O sociólogo aponta ainda o “processo de degradação hierárquica” que consiste na
confusão latente presente nas relações públicas e privadas da segurança pública, onde o coronel
(superior) é sócio do soldado (inferior) em seus trabalhos privados: “Na terça-feira, são sócios
do ilícito; na quarta, voltam a se encontrar no batalhão ou na delegacia.” “De que modo se
reconhecem mutuamente? De que forma passam a redefinir suas relações?” (CPI, 2008 p. 39)
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Na visão do sociólogo essa situação acaba por corroer relação hierárquica institucional.
Ele acredita que outro fenômeno relevante é que os agentes submetem as táticas e estratégias
utilizadas na segurança pública aos interesses de seus clientes privados. (CPI, 2008 p. 40)
Em relação a constituição e atuação das milícias, o delegado Pedro Paulo Pinho, da 32ª
DP do Rio de Janeiro, desenvolveu um esquema graduando o surgimento e a conformação das
milícias, dividindo-as em três níveis: No nível 1: “[...] os grupos paramilitares de extermínio
criados nos moldes da milícia de Rio das Pedras, vinte anos atrás... moradores se organizaram
para impedir a entrada de traficantes, assaltantes e ladrões, constituindo também as Associações
de Moradores [...]”. (CPI, 2008 p. 41)
A partir do nível 2 veem uma possibilidade de empreendedorismo promissor:
“[...] os líderes comunitários passam a sobreviver das Associações e, para tal, iniciam
a cobrança de taxas para quem deseja entrar na comunidade... as Associações passam
a apoiar candidatos a cargos parlamentares como forma de ter um representante de
suas reivindicações nos poderes constituídos. [...]” (CPI, 2008 p. 41)

Já no nível 3 se estabelece de fato um grande negócio e os moradores acabam sendo


subordinados à tal regime:
“[...] os líderes comunitários vêem a possibilidade de novos ganhos e passam a cobrar
pelos serviços de distribuição do gás, tevê a cabo, transporte alternativo. Nesse Nível,
os grupos paramilitares não necessitam mais das Associações de Moradores, que
passam a ser controladas por eles. A partir daí, em lugar de apoiar políticos de ―fora‖
passam eles próprios a disputar as eleições [...].” (CPI, 2008 p. 42)

Ainda no tópico sobre as origens, em 2008 o Secretário de Estado de Segurança Pública,


Dr. José Mariano Beltrame, em depoimento à CPI, afirma que hoje as milícias são uma das
maiores ameaças concretas ao Estado, acrescentando que no México, a milícia evoluiu para o
que lá já chamam de “narcomilícia”, que seria a milícia atuando no narcotráfico. (CPI, 2008 p.
43)
No que concerne ao modus operandi das milícias, o sociólogo Ignácio Cano analisa um
cenário de avanços e retrocessos referente à dinâmica do território local. Há comunidades em
que o controle armado tem mais força e por outro lado, há comunidades que foram ocupadas
de forma muito mais sutil e progressiva. Grande parte das comunidades não tinham tráfico, nem
crime organizado, antes do domínio das milícias. Ademais, as milícias garantem em cada
associação de moradores, agora controlada por eles, uma pessoa de sua escolha, exatamente
como o tráfico fazia. (CPI, 2008 p. 43)
As milícias operam através de vigilância na comunidade, por intermédio de guardas
armados que se organizam em turnos distintos, com grupos maiores durante a noite. O sociólogo
explica que a milícia tem um grau de organização elevado em relação ao tráfico: “[...] Cadastros,
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reuniões, recibos, cuidado e valorização das armas em função do seu valor instrumental e não
simbólico são detalhes que revelam um tipo de dominação mais moderno.” (CANO, 2008 p.
43). Enfatiza ainda, que não há uma diferença considerável entre milicianos e traficantes, uma
vez que inclusive houveram casos de estupro, conforme denúncias do Disque Denúncia.
Acrescenta-se aqui, uma história contada no relatório, que tem grande peso para a
compreensão do modus operandi das milícias: em junho de 2008, uma semana após a
instauração da CPI, a pedido dos familiares que procuraram o delegado, foram ouvidos Antônio
Salustiano e Ocian Salustiano, pai e filho, sendo um pescador e o outro estudante. Pai e filho
que estavam presos a 15 dias, acusados de terem confeccionado uma bomba jogada na 35ª DP.
“O Registro de Ocorrência lavrado na ocasião da prisão relacionava que havia sido
encontrado na casa de ambos 85 unidades de treme-treme, 470 unidades de busca-pés,
15 caixas de fogo 12 x 1, 37 unidades de fogos com efeito pirotécnicos, material para
colorir, 9 estopins e zero grama de pólvora. Já o Termo de Declaração feitos pelos
policiais relatava que, no momento da prisão, ambos teriam afirmado possuir vínculo
com o deputado Natalino Guimarães e o vereador Jerônimo Guimarães (Jerominho).
Primeiro a ser ouvido pelos membros da CPI, Ocian negou conhecer Jerominho e
Natalino. Disse que seu pai é pescador e há dez anos monta shows pirotécnicos de
queima de fogos para eventos da Igreja, a pedido do pároco local. Negou que em
qualquer momento, ele ou seu pai tivessem afirmado que conheciam os parlamentares.
Segundo ele, a única referência feita aos dois ocorreu quando chegaram à delegacia.
O delegado os teria recebido dizendo que ali Natalino e Jerominho eram inimigos e
que seria bom que pai e filho confessassem a ligação deles com a bomba. Ocian
assegurou que sequer sabia confeccionar qualquer fogo de artifício e que o único a
mexer com o material era seu pai. Perguntado pelos membros da CPI, Ocian relatou
a prisão afirmando que acordou com os policiais dentro de sua casa, apontando as
armas para ele, acompanhados por dois homens encapuzados. Apesar de questionados
sobre os motivos da prisão, os policiais não teriam dado qualquer explicação. Em seu
depoimento, Antônio Salustiano confirmou que trabalha como pescador e é conhecido
em toda a região como tal. Assim como é conhecido por montar os shows pirotécnicos
para as festas da Igreja. Antonio contou que no dia da prisão, de manhã cedo, estava
no quintal de casa vendendo peixe quando um carro parou e desceram diversos
homens armados de fuzis. Em seu relato, ele diz textualmente: ―Eles entraram, muita
Polícia, armados com vários tipos de arma, como falei. Me algemaram, me jogaram
na tampa do isopor, sentado, chamaram o meu filho lá; reviraram minha casa toda;
perguntaram se os fogos de artifício eram meus, eu falei que eram meus os fogos de
artifício. Reviraram tudo. Teve um que pegou a minha balança de peixe e falou que
era para mim pesar pólvora, e eu falei com ele que era peixe, ele me tratou de forma
brusca, entendeu? Meu filho me falou: ‗pai, fica quieto porque ele pode fazer alguma
coisa com você‘. Eu fiquei quieto. A todo momento eu perguntava porque eu era
acusado, de que eu era acusado e eles falavam que só na delegacia eu ia ver, só na
delegacia. E foi um troço de louco.” (CPI, 2008 p. 57)

Visto isso, podemos ter uma ideia da dimensão do controle das milícias, em relação a
controle, ação, nível de dominância e agressividade.
O relatório final da CPI indica ainda uma lista de nomes de Policiais Militares
(sargentos, major, cabo, etc...), políticos (vereadores, deputados, prefeitos, etc...), que
participam e chefiam milícias pelo Rio de Janeiro, dividindo-as por bairro, indiciando as formas
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de intimidação, os locais de pagamento e/ou reunião, armas e veículos utilizados, etc... (CPI,
2008 pp. 115-202)
Da mesma forma, indica uma lista de municípios do Rio de Janeiro denunciados, através
do Disque-Denúncia, de haver milícias atuando nas áreas, citando nomes de PM’s e políticos
acusados de participar e chefia-las. (CPI, 2008 pp. 202-209)
Discorre, ainda, sobre toda a organização e os serviços prestados por ela, dentre eles:
transporte alternativo, venda de gás, “gatonet” (TV a cabo), segurança privada. De forma
resumida colaciona-se o controle econômico exercido pelas milícias sobre os moradores das
comunidades dominadas:
“Taxa de segurança; Taxa diferenciada para moradores que possuem veículos; Taxa
de instalação e mensalidade dos serviços de sinal de TV a cabo e Internet; Controle e
ágio na venda de gás e garrafão de água; Cobrança de alimentos para composição da
cesta básica para os milicianos; Taxa que varia de 10 a 50% do valor da venda de
imóveis; Taxa para legalização de imóveis; Taxa para permitir construções na
comunidade; Controle e cobrança de taxas do transporte alternativo: mototáxi, vans e
kombis; Cobrança de taxa para funcionamento de barracas de camelô, festas e pipoca;
Cobrança de instalação de portões e guaritas nas comunidades.” (CPI, 2008 pp. 125-
126)

O relatório, através do Disque-Denúncia, traz a informação de moradores que foram


assassinados por se recusarem a pagar a milícia. (CPI, 2008 p. 147)
Averígua-se ainda, que nas áreas dominadas pelas milícias, há maior concentração de
votos para chefes de milícias e dessa forma atingiram um número considerável de votos e
tornaram-se vereadores, deputados, etc..., chegando ao nível 3 da graduação da milícia. (CPI,
2008 p. 109)
A conclusão do relatório consiste em ressaltar que por mais recente que seja o fenômeno
das milícias, a origem se dá a partir de práticas bem antigas. Como bem refere o teor das
conclusões:
“Remonta a uma cultura histórica de violência contra as camadas populares -
algumas vezes até ideologicamente justificada por segmentos mais conservadores -,
representada pela ação da “polícia mineira”, “justiceiros” ou “matadores” que, para se
legitimar junto à população, adotavam a prática de eliminar fisicamente aqueles
considerados indesejáveis para a comunidade, como usuários de drogas, ladrões,
autores de pequenos e grandes delitos.” (CPI, 2008 p. 257) (original sem grifos)

Criando essa falsa sensação de poder paralelo, e dando voz ao discurso dos
conservadores sedizentes “cidadãos de bem”, em consonância com o descrito no relatório:
“O bombardeio ideológico secular das classes dominantes, pregando a ordem e a
repressão aos desvios, obviamente contaminou segmentos da população que, em
diversos momentos, admitiu e até apoiou tais práticas.” (CPI, 2008 p. 257)
(original sem grifos)
12

Salienta ainda, que os baixos salários da segurança pública juntamente com a vontade
de fazer justiça com as próprias mãos foi também um fator determinante para a criação e
evolução das milícias.
De forma que, admite a omissão do Estado em promover políticas públicas de inclusão
social e econômica acrescida ao fato das autoridades encarregadas de garantir segurança pública
utilizarem de maneira ilegal dos instrumentos do próprio Estado para extorquir, intimidar e
subjugar milhares de cidadãos de comunidades populares. (CPI, 2008 p. 258)
Responsabiliza também, os empresários que se aliam às milícias para o crescimento
legal econômico do próprio negócio, como por exemplo as distribuidoras de gás, operadoras de
internet e televisão. Não há como se admitir que para enriquecimento próprio, fechem os olhos
para a venda e os depósitos clandestinos, e ainda limitando o acesso a esses serviços a certas
regiões apenas por não acharem oportunamente rentável. (CPI, 2008 p. 259)
Em sua conclusão, o relatório propôs táticas e práticas para combater as milícias, como
fortalecimento e organização do sistema interno, bem como a proteção da corregedoria dos
órgãos para que não sejam pressionados, a adoção de políticas públicas como legalização do
transporte alternativo, promover acesso à informação, potencializar o exercício do direito
humano à comunicação, regularizar as Associações de Moradores e Cooperativas, indicar aos
partidos políticos para que tomem providência a respeito dos seus filiados
indiciados/denunciados pela CPI, sugerir à OAB a criação de uma ouvidoria para fins de
denúncias contra milícias de forma a disponibilizar à população advogados especializados no
tema. (CPI, 2008 pp. 257-273)

4 CENÁRIO ATUAL DA ATUAÇÃO DE MILÍCIAS NO BRASIL

É cediço que em 2012 criou-se a Lei Lei 12.720/2012, que ensejou o art. 288-A no
Código Penal, para tipificar os crimes cometidos pelas milícias e as chamadas organizações
paramilitares. No entanto, o cenário atual demonstra o crescimento veloz das milícias pelo
Brasil.
O Sociólogo José Cláudio Alves que estuda o fenômeno das milícias há 23 anos, em
entrevista via Whatsapp ao Instituto Humanitas Unisinos, em março/2018, explica a situação
atual e a proliferação acelerada das milícias.
O sociólogo refere que a estrutura política e econômica das milícias no Rio de Janeiro
hoje tem novos vieses de atuação, que antes sequer existiam, dentre eles a atuação da milícia
13

na construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro – Comperj em Itaboraí. Sobre o


caso ele comenta que:

“Várias empresas terceirizadas estão atuando na construção da obra e a milícia está


controlando quem vai trabalhar nessas empresas. Isso já é um passo à frente em
relação à atuação das milícias anteriormente: a milícia detecta onde o capital está se
manifestando — nesse caso é um capital público em parceria com empresas privadas
— e, ao ficar a par da situação, manipula essa informação e passa a controlar de forma
violenta o acesso a esse emprego, cobrando taxas e valores das pessoas que querem
trabalhar nessas empresas. Assim esses empregados terão que repassar parte dos seus
salários para os milicianos. Essa é uma novidade nesse campo no Rio de Janeiro”.
(ALVES, 2018)

Na entrevista o sociólogo refere outra inovação no âmbito das milícias: a chamada


“milícia marinha” atua na costa do Rio de Janeiro, através de informações prestadas pelo
Ministério da Pesca e da Agricultura, que não liberam licenças, de forma que a milícia aborda
os pescadores solicitando a licença que eles não têm e passam a cobrar taxas semanais para que
os pescadores continuem pescando irregularmente.
Outrossim, sobre a atuação da milícia no polo petroquímico supracitado, no dia 04 de
julho deste ano, uma operação da Polícia Civil conjunta com o Ministério Público do Rio de
Janeiro, prendeu 45 suspeitos de integrar uma milícia comandada por Orlando Curicica, acusada
de invadir a cidade de Itaboraí (região metropolitana do Rio) e faturar com a obra do Complexo
Petroquímico do Rio de Janeiro. Segundo a polícia, uma das táticas da milícia era a cobrança
de vans para o transporte dos funcionários para o polo da Petrobras no local das obras. (Freire,
2019)
A força-tarefa informa que a organização criminosa lucrava pelo menos meio milhão
todos os meses. O chefe da milícia, Orlando, ex-PM, está no presídio federal de Mossoró, e é
um dos alvos dessa operação. Segundo investigações comandadas pelo MPF essa milícia atua
na área de forma brusca e violenta, chegando até mesmo a expulsar os moradores de suas
próprias casas, para assim vende-las, inclusive pelo no OLX. Orlando também é suspeito de ter
ligação com a morte de Marielle, que abordaremos no último capítulo deste artigo. (Freire,
2019)
Por outro lado, como bem refere o sociólogo na entrevista: a prisão de envolvidos na
milícia é exceção e não regra, citando a prisão de dois milicianos acusados de envolvimento no
assassinato de Marielle.
Muito embora tenham havido diversas prisões de milicianos após a notoriedade do caso
Marielle, segundo o sociólogo: “[...] A regra é que membros de milícias são intocáveis, seus
negócios se ampliam e eles têm dimensões crescentes desse poder e agora expressam isso a
14

partir do assassinato de pessoas que ocupam cargos no âmbito político e que são contrárias aos
seus interesses [...]”. (ALVES, 2018)
Nesse sentido, utiliza-se o exemplo do vereador de Ananindeua (Pará), Hugo Atayde,
acusado de estar envolvido com milícias e grupos de extermínio, foi preso por força da operação
“Anonymous II” e logo após foi solto por falta de provas que justificassem a prisão preventiva.
(G1, 2019)
Como esse caso, existem diversos idênticos, e sobre as delações premiadas para que os
investigadores cheguem mais perto de desmantelar as milícias, o sociólogo opina “Me
impressiona muito o poder que esses grupos têm e a fragilidade da estrutura do judiciário frente
a esse poder, a ponto de ele próprio se ver encurralado, em busca de delações premiadas para
algo que é escancarado, que está nas ruas.” (ALVES, 2018). Fato esse que acaba por dificultar
a aplicação da novel sanção penal prevista na Legislação Brasileira e os milicianos acabam
impunes.

4.1 CASO MARIELLE: QUEM MANDOU MATAR MARIELLE FRANCO?

No dia 14 de março de 2018, a vereadora Marielle Franco, foi assassinada a tiros dentro
de um carro na Região Central do Rio de Janeiro, por volta das 21h30min. Na ocasião o seu
motorista Anderson Pedro Gomes foi baleado e também morreu, já sua assessora foi atingida
por estilhaços, mas passa bem.
A vereadora estava retornando de um evento “Jovens Negras Movendo as Estruturas”
que acontecia na Lapa. Conforme as primeiras informações da polícia, os assassinos estavam
posicionados em um veículo ao lado do carro da vereadora, e acredita-se que tenham a seguido
por um tempo eis que sabiam o local exato em que estava sentada dentro do carro. Os
criminosos fugiram sem levar nada. (GONÇALVES, et al., 2018)
Marielle Franco, nascida e criada no Complexo da Maré (Rio de Janeiro), se formou em
ciências sociais pela PUC-Rio, Universidade particular onde ingressou através do pré-vestibular
comunitário e obteve bolsa integral. Marielle e uma outra amiga foram as únicas mulheres
negras na época a ingressar na Universidade, porém, sua amiga foi atingida por uma bala
perdida em um confronto entre policiais e traficantes na favela, e por este motivo Marielle foi
incansável até o seu último dia de vida na luta por direitos humanos. (Carneiro, 2018)
Aos 19 anos se tornou mãe e segundo o próprio relato dela, esse fato a auxiliou e deu
força na luta pelos direitos das mulheres e o debate desse tema dentro das favelas.
15

Ainda quando jovem universitária, trabalhou em organizações como a Brasil


Foundation, o Centro de Ações Solidárias da Maré (CEASM) e a Comissão de Direitos
Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), coordenada pelo
deputado federal Marcelo Freixo. Mais tarde, cursou mestrado na Universidade Federal
Fluminense (UFF) e o tema da sua dissertação foi: “UPP: a redução da favela a três letras.”
(FRANCO, 2018)
Marielle se apresentava em seu site como “mulher, negra, mãe e cria da favela da Maré.”
(FRANCO, 2018)
Em 2016, foi eleita a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, com mais de 46
mil votos, obtidos com base em uma campanha pautada pelos temas gênero, raça e cidade, com
o lema “eu sou porque somos”. (CANÔNICO, 2018)
Em seu site, Marielle mostra a sua luta incansável pelos direitos das mulheres e direitos
humanos no período em que perdurou seu mandato (1 ano e três meses), tendo como primeiro
projeto de lei o acesso e a viabilização para o aborto legal se perfectibilizar no Rio de Janeiro,
o que não ocorre por falta de treinamento e equipamentos. Seu segundo projeto de Lei em seu
terceiro mês de mandato foi propor a criação de uma creche municipal noturna, chamado
“espaço coruja”, onde os pais podem deixar seus filhos para que trabalhem ou estudem no turno
da noite, situação que é a realidade de tantas famílias cariocas e que se veem sem assistência.
(FRANCO, 2018)
Marielle no curto período de duração de seu mandato apresentou no total 13 projetos de
lei, todos voltados a políticas sociais a favor das minorias. (CANÔNICO, 2018)
Um dia antes de ter sido bruscamente assassinada, em seu Twitter, Marielle escreveu
“Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo
estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”
(GONÇALVES, et al., 2018)
Dias antes de sua morte, no dia 10 de março de 2018, a vereadora publicou na mesma
rede social: “O que está acontecendo agora em Acari é um absurdo! E acontece desde sempre!
O 41° batalhão da PM é conhecido como Batalhão da morte. CHEGA de esculachar a
população! CHEGA de matarem nossos jovens!” (GONÇALVES, et al., 2018)
O assassinato ocorrido em 14 de março de 2018, teve o primeiro fato relacionado ao
envolvimento da milícia em maio de 2018, oportunidade em que as investigações sobre o caso
levaram aos nomes do Vereador Marcello Sicilliano e o miliciano ex-PM Orlando Curicica,
porém ambos negam o envolvimento com o crime. (Werneck, 2018)
16

Em março de 2019, a Delegacia de Homicídios e o Grupo de Atuação Especial de


Combate ao Crime Organizado efetuaram a prisão do sargento reformado da Polícia Militar
Ronnie Lessa e o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz, segundo a denúncia do Ministério Público do
Rio de Janeiro, Lessa teria efetuado os disparos nas vítimas enquanto Elcio dirigia o veículo.
(Chico Otávio, 2019)
Segundo a denúncia, o crime teria sido articulado três meses antes. Na peça, as
promotoras afirmam “É inconteste que Marielle Francisco da Silva foi sumariamente executada
em razão da atuação política na defesa das causas que defendia. A barbárie praticada na noite
de 14 de março de 2018 foi um golpe ao Estado Democrático de Direito". (Chico Otávio, 2019)
O PM Lessa residia no condomínio Vivendas da Barra, que por coincidência é o mesmo
condomínio onde reside o Presidente da República Jair Bolsonaro, apesar da eventualidade não
há nenhum fato comprovando a ligação de Bolsonaro com o crime. (Chico Otávio, 2019)
Em setembro de 2019, Orlando Curicica afirma ter participado em 2017 de um encontro
no Rio, em que o chefe do “Escritório do Crime”, Major Ronald e um PM que foi assessor do
ex-deputado Domingos Brazão discutiam, no entendimento dele, o assassinato de Marielle.
Para a PF e a PGR, Brazão é o principal suspeito da autoria do crime. Curicica refere ainda que
o assassinato de Marielle seria um recado para Marcelo Freixo que persegue as milícias desde
2008 quando comandou a CPI das milícias. Curicica aponta ainda que “Os responsáveis pelo
crime não imaginavam toda a repercussão que teria a morte da vereadora.” (Costa, 2019)
Em outubro de 2019, o porteiro do Condomínio Vivendas da Barra, afirma que Élcio
Queiroz informou na portaria que iria a casa 51, casa do Presidente Jair Bolsonaro e que o
mesmo teria autorizado a entrada de Élcio. Porém, Bolsonaro estava em Brasília, segundo
registros da Câmara de Deputados. (FOLHA DE SÃO PAULO, 2019)
Após a repercussão do possível envolvimento do Presidente no assassinato de Marielle,
Jair Bolsonaro solicita ao Ministro da Justiça Sérgio Moro que tome providências para
averiguar o depoimento do porteiro. Moro então solicita ao Procurador Geral da República
Augusto Aras a abertura de um inquérito para investigar a fala do porteiro. (UOL, 2019)
Entretanto, dias depois o filho do presidente, Carlos Bolsonaro, publica um áudio em
que Élcio Queiroz é liberado por Ronie Lessa, desmentindo as acusações do porteiro. O áudio
foi periciado pelo Ministério Público Estadual e concluíram que o porteiro pode ter se
equivocado ou mentido. (G1, 2019)
Dentre tanto, em novembro de 2019, a Polícia Federal afirma em relatório para o
Ministério Público/RJ, que o Delegado da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, deve ser investigado
17

pela suspeita de receber propina de R$ 400.000,00 para obstruir as investigações e informações


sobre os reais mandantes do assassinato de Marielle e seu motorista Anderson. (Konchinski,
2019)
Atualmente está se aguardando a federalização da investigação sobre o caso, que foi
requerida pela ex-PGR Raquel Dodge, e deve ser julgada pelo STJ entre o fim de
novembro/2019 e início de dezembro/2019. No dia 06/11/2019 a jornalista Andreia Sadi em
seu blog afirma que integrantes da cúpula da PGR acreditam que a federalização do caso seria
um “remédio processual”, uma vez que foi citado como envolvido o Presidente Jair Bolsonaro.
(OLIVEIRA, et al., 2019)
Em suma, muito embora tenha indiciados e suspeitos, ainda não se sabe quem foi o
mandante do crime, a população através de manifestações cobra uma conclusão das
investigações para que indique o mentor do crime. O brasão “Quem mandou matar Marielle?”,
tem sido proferido pelo povo desde o assassinato da vereadora até os dias atuais. (ALVES, et
al., 2019)

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O teor deste trabalho constituiu em demonstrar o problema social envolto da criação e


proliferação das milícias, o que se percebe a partir do contexto histórico e da criação das áreas
marginalizadas cumulado com o exposto sobre o Relatório Final da CPI das Milícias.
A falta de políticas públicas e sociais visando as minorias, que hoje são maioria no
Brasil, acarreta diversos problemas relacionados a criminalidade, por ser considerada a “única
saída” ou a “necessária saída”, o que gera descontrole e desorganização Estatal.
A desorganização é tanta que os próprios agentes da Administração Pública que
deveriam zelar pela população, fomentam e trabalham para a máquina do crime organizado das
milícias se movimentar.
O cenário atual demonstra mais do que nunca que o fato de as milícias terem atingido o
“Nível 3”, alcançando os cargos públicos, da vazão para as organizações não serem
desmanteladas e inclusive acobertadas pelo próprio Estado.
O assassinato da vereadora Marielle Franco que lutava publicamente contra milícias e
estava frente à debates sobre direitos humanos e políticas sociais, só corrobora o domínio das
milícias perante o Estado e seus interesses, pois “resolve” as suas “contingências” sem precisar
obedecer às normas da Lei.
18

Da mesma maneira, a demora nas investigações sobre o caso reflete na dimensão do


poder que a milícia detém sobre o Estado, e quão desordenada se encontra a atual situação.
Por outro lado, a notoriedade do caso Marielle obrigou o Estado a dar atenção para o
fenômeno, eis que a pressão popular é tão forte que ensejou uma movimentação combativa das
autoridades perante as milícias.
Entretanto, essa falta grave do Estado Democrático de Direito, deixa a população à
mercê e infelizmente os maiores prejudicados são os moradores das áreas marginalizadas, pois
a sua única “proteção” é a mesma que ameaça sua segurança diariamente, as milícias.
Considerando ainda que atuam conforme os interesses do seu “empreendimento”,
alcançam seus resultados a partir do poder coercitivo que exercem sobre a comunidade em
geral, e dessa forma os índices de criminalidade vão às alturas.
Essa constatação leva a um problema iminente e latente no país: a desorganização social
que gera pobreza e criminalidade.
Outrossim, conclui-se que a inaplicabilidade do art. 288-A do Código Penal é totalmente
justificável perante o cenário atual que se descreve a seguir: com todo o aporte financeiro e
apoio de empresários, a segurança armada, PM’s, delegados, bem como os cargos políticos
conquistados, a milícia garante todo o poder que o Estado deveria deter, tendo a organização
criado o que chamo de “Estado Secundário” impedindo assim a devida sanção ao
comportamento criminoso.

REFERÊNCIAS

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cedida ao Instituto Humanitas Unisinos]. março. 2018. Disponível em:
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