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UMA APRENDIZAGEM

Vou começar, narrando a historia de uma pintura que acompanha minha família há 60 anos.

Quando nasci, meus pais já possuíam uma pequena pintura de Aldo Bonadei, pintor do grupo Santa

Helena, pintada em 1947, medindo 40 x 60 cm.

Procurarei traçar com esta narrativa o processo de educação de meu olhar através da convivência

com aquela obra.

Com ela experimentei diferentes modos de ver, adquiridos através de nossa longa convivência .

Naquela época, habitávamos uma casa grande, depois mudamos para um apartamento e ainda

residimos em outras duas casas, portanto tive oportunidades de observá-la em diferentes situações.

Hoje a pintura ainda está na casa de minha mãe, em cima do piano, na sala de estar.

Esta pintura sempre me foi apresentada como uma obra de arte.

Para minha família, aquela pintura sempre significou algo especial, de qualidade e o modo como
fui condicionadado a olhá-la, revela pressupostos, conhecimentos artísticos, adquiridos pela família,

com a própria arte e é por isso sempre ocupou o lugar mais nobre dos espaços de convívio familiar.

Algumas vezes esteve pendurada no hall de entrada, transitando para a sala de visitas e depois para

a sala de jantar, outras vezes esteve em cima do piano, que por sua vez também sofreu diversas

mudanças de lugar.

Cresci olhando para aquela pequena pintura.

Posso afirmar que ela contribuiu para minhas elaborações das questões relativas à Forma, à Beleza,

ao Gosto, à Cultura.

Nesses anos todos, tenho olhado para ela milhares de vezes e tributo a essa convivência ativa uma

parte importante da educação do meu olhar.

Aprendi com ela a ver a pintura dentro da atividade pictórica.

Aprendi a ver a teatralidade da própria pintura.

Uma teatralidade fundada somente na pintura.

Não existe ali uma teatralidade clássica,fundada numa mise en scène perspectiva e o sujeito

literário.

Dela recebi ensinos, que se davam pelo convívio cotidiano, pela contemplação serena, pelas

inquietações que me provocava sua presença silenciosa.

Meus pais e meus irmãos também olhavam para ela, mas não sei avaliar o que ela representou para

eles.

Como ela os atingiu ?

-Não sei.

O que será que apreenderam daquela convivência?

-Não sei.

Qual é a relação entre o que vemos e o que sabemos?

Com o passar dos anos, com a presença de alguns e a ausência de outros, aquela pintura continuou
na família, sempre capturando minha atenção, como se fosse um enigma e sendo para mim fonte

de descobertas.

Compreendi ali, naquela experiência continuada, que a vista chega antes das palavras; a criança,

olha e vê, antes de falar.

Aquela pintura mostrou-me um mundo que nada tem a ver com o fictício, um mundo “criado” pela

obra, revelado por ela, tornado presente por ela, adensado e intensificado por ela.

Qualquer que seja a obra de arte escolhida para refletirmos é preciso, obviamente, olhá-la com

atenção, deixar que ela nos “fale”, não buscar um sentido imediato, não buscar súbitas

compreensões.

Olhar a pintura pede um abandono de um sentido preestabelecido, pois aquilo que sabemos ou

aquilo que julgamos afeta o modo como vemos as coisas.

Olhar aquela pintura se fez num aprendizado para mim, com a elaboração da experiência de olhar,

com a descoberta de que algo se fazia antes do pensamento.

Esforcei-me para dizer o que me proporcionava aquela experiência.

Tentei compor referências descritivas.

Busquei nas palavras, nas idéias, (algumas minhas, muitas de outros), a equivalência de sensações

e compreensões que aquela representação me oferecia.

A pintura de Bonadei parece evidente, mas não é:

A pintura apresenta uma viela, um caminho demarcado por cinco árvores , traçado em perspectiva

diagonal, que termina numa fachada de casa com uma porta e duas janelas fechadas e uma forma

que me faz lembrar um grande latão de lixo.

A pintura tem tons terrosos, rebaixados, pinceladas curtas, decididas, que excluem da visão

qualquer detalhe supérfluo.

A composição é construída por um jogo de diagonais muito equilibrado. A obra do pintor Aldo

Bonadei é marcada pelo conhecimento e admiração da pintura de Paul Cèzanne .


As árvores estão representadas de forma decrescente para acentuar a idéia de perspectiva.

Perspectiva que nos leva para um fundo ( da viela?, da pintura?).

Perspectiva que é somente artifício para percorrer esse caminho ( o da pintura?).

Como pode um caminho ser assunto de pintura?

Não há promessas naquele caminho, não há reconhecimentos, somente a convocação de memórias

de outros percursos, outros caminhos; de quase ver algo neles que se desfaz.

De repente ,vemos o tema.

Como ele deslizou de ações pictóricas para a representação?

Como isso surgiu?

O que nos faz esquecer como as tintas, as formas e cores estão dispostas?

Como as vemos neste esquecimento de aspectos físicos que se mostram em imagem?

O que vemos são pinceladas curtas, quase justapostas, evocando simplesmente formas conhecidas,

muito simples: muros, árvores, porta, janelas.

Quantas milhares de vezes meus olhos fixaram aquela pintura?

Quantas vezes me surpreendi com o olhar capturado naquele espaço?

Que potência tem aquela pintura para me enlaçar e me fazer ver aquele assunto através do ato

pictórico?

Sem dúvida, tive muita sorte de poder penetrar ali, naquele espaço pintado, naquele mundo

condensado.

Ali a realização vai mais além do que a experimentação.

Esta pintura sempre exerceu um encantamento sobre mim: seu estilo.

O que chamamos de estilo não é uma representação subjetiva do artista, uma escolha prévia
intelectual, uma espécie de idéia do mundo, não é uma pintura que reproduz objetivamente as

coisas.

A percepção do pintor naquele quadro já estiliza.

O pintor trabalha aí num sistema de equivalências.

O estilo é latente na obra.

O estilo escapa ao seu autor.

A matriz do estilo está no ato do pintor.

O pintor escolhe, seleciona, entre as aparências, aquilo que é emblemático da situação.

É uma imagem que vem ao meu encontro, algo como um silêncio interrompido e me desperta

sensações indefinidas de convicção.

É uma pintura que não tem um olhar inocente.

O pintor Aldo Bonadei nos contempla com a representação daquela paisagem oferecendo as etapas

da construção da imagem, pondo em evidência o trabalho conceitual da pintura.

Não é uma pintura pronta.

É suspensão de um devir.

É uma pintura que não procura as aparências visuais.

Procura uma ambientação luminosa e muito pouco os contornos das coisas.

Aquela pintura não esclarece nada.

O que ela nos evidencia é a densidade e a solidez da cena.

Ela nos oferece o visível pela convocação da memória através de nossas referências culturais.

Tomamos emprestado novas sensações, associamos outras diversas sensações.

Ela nos surpreende, como se nos tirasse de um esquecimento tolo.

É uma imagem que nos chega fazendo fruir uma luz especial.

Será a luz (da tarde) o acontecimento daquela pintura?

Será que o acontecimento ali é o silêncio que habita aquela cena ensombreada ?

Aquela luz de tarde precede a noite que chegará com suas sombras e encobrirá tudo.
Falta alguma coisa ali, alguma coisa que antecede a imagem se fazer como compreensão.

Aquela pintura não comunica o conteúdo de um pensamento, ela nos faz prisioneiros de uma “voz”

que é portadora de uma tonalidade afetiva.

É poesia subentendida.

O tema da pintura é passagem, caminho, lugar destinado ao trânsito de um para outro ponto.

É um convite para irmos aonde?

Aquela pintura é passagem.

A manifestação do que está presente na pintura obedece a uma sintaxe, uma construção que freia

nossa compreensão do real, é econômica nos detalhes e nos aprisiona numa espécie de armadilha,

nas nossas construções mentais.

Somos obrigados a recorrer a um mínimo de vocabulário técnico, como por exemplo, falar do jogo

rebaixado das cores, da harmonia.

Podemos mencionar a tonalidade peculiar que ali nos encanta.

É uma obra que solicita, que convoca uma abordagem afetiva.

A imagem que aquela pintura apresenta se faz nas relações das coisas representadas e as pinceladas.

Ali, ambas atuam juntas.

É curioso como se interpenetram nela a realidade representada e a ficção presente ( a pintura

propriamente dita).

Para mim existe um acontecimento naquela pintura. Um acontecimento que faz a imagem assumir o

lugar de natureza.

Seria uma “natureza de segundo grau” ?

O espaço daquela pintura revela uma realidade diferente, com leis próprias.

Ali apreendemos a perceber o tempo e o espaço de maneira mais dilatados.

O caminho de árvores decrescentes faz lembrar um conjunto de fontes jorrantes, como jatos de
água.

Somos encaminhados a dirigir o olhar para o fundo da perspectiva onde a luz mais clara da cena,

com uma tonalidade plena de afeto, mostra a fachada da casa, com sua porta (fechada), suas janelas

(fechadas) e o latão de lixo: é uma paisagem urbana.

Todos os elementos representados estão harmonizados por um olhar que exclui as informações

supérfluas, por isso o acontecimento da pintura não se localiza num espaço e num tempo definidos,

remete a um tempo remoto, tempo da memória.

Existe verdade numa pintura?

Qual é a verdade da pintura?

A verdade é na pintura?

Não tenho crença nas palavras, na lingua para traduzir o que acontece na linguagem visual.

O sentido, a forma escapam para essa tradução.

Estas tentativas ficam no lugar das bordas, do passepartout.

Essas tentativas de tradução privam um jogo que só a representação sustenta.

A verdade de uma pintura é um espaço a percorrer.

Não há dentro nem fora dele.

Um espaço que não se deixa enquadrar.

Um espaço que nos faz trabalhar.

Lá as pinceladas estão evidentes e ao mesmo tempo retiram-se.

A pintura nos alucina.

Espia-nos: A pintura nos faz ver entre o fora e o dentro, entre bordas internas e externas, entre

figura e fundo, entre forma e conteúdo, entre significante e significado

Qual é o tempo da pintura?

Há um tempo ali que nos espreita. Um tempo aprisionado.


Um passado que chega ao presente.

Por que nos interessaria ver aquele caminho, aquela fachada, aquela luz?

Aquilo que foi visto por Bonadei pode servir aos olhos de outro?

O que se deu no olhar de Aldo Bonadei pode servir hoje?

A quem estava destinado aquele olhar?

Por que alguem quer contar algo a partir da distância, do estar longe?

É uma aparição de um longe.

Por que fixar um longe?

O pintor está posicionado muito perto do espectador.

O olhar do pintor é como um feixe luminoso, uma espécie de farol.

Compartilho com ele aquele olhar.

Divido com ele aquele olhar.

É um olhar que não é meu, mas que me ensina a ver: organiza o campo visual estabelecendo

prioridades naquilo que deve ser visto : organiza o visível, embaralha, embaça, torna fugidio aquilo

que é narrado.

A pintura realiza aquilo que é seu destino: leva nosso olhar para o fundo do espaço representado,

tornando paisagem, o que separa o espectador da ilusão. Por isso é necessário ver sem pressa., de

um lugar que se parece com um acostamento de uma estrada, de um lugar que permita a

contemplação acontecer.

.Aqui o visível se modifica, passa a significar a emergência, torna-se imagem.

Quando olho para aquela pintura me acontece uma invasão de tempos.

Uma mistura de sensações, que se interpõe com aquilo que a imagem mostra.

A quem pertence aquilo que a imagem mostra?

O Bonadei nos entretem, oferecendo uma imagem, que não nos pertencia, oferece uma imagem
particular.

Nos oferece com esta grande densidade de um bom artista, intensificando a potência expressiva

dos elementos selecionados da narrativa.

Quando olho para sua pintura me acontece uma mistura de tempos.

Um tempo mais antigo mistura-se num agora.

Tempos misturados que nos fazem confundir outras lembranças evocadas com aquelas ali sugeridas.

As lembranças insistem porque são soberanas, invadem o agora, o instante-já.

Em qual quadro eu tenho penetrado nesses anos todos?

Naquele que eu vejo ou naquele que se mistura com as sensações acumuladas pela vida?

Qual quadro o Bonadei pintou?

Sergio Fingermann

Maio, 2008.