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INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO

MESTRADO EM CONSTRUÇÃO

CADEIRA DE COORDENAÇÃO DE PROJECTOS PARA


CONSTRUÇÃO DE EDIFÍCIOS

1º MÓDULO: COMPATIBILIZAÇÃO DOS PROJECTOS DE


ARQUITECTURA E ESTABILIDADE

Jorge de Brito

Janeiro de 2000
ÍNDICE

1. Introdução 1
2. Concepção estrutural 3
2.1. Considerações gerais 3
2.1.1. Objectivos da Arquitectura 3
2.1.2. Objectivos da Estabilidade e Economia 5
2.2. Factores condicionantes 5
2.2.1. Localização do edifício 6
2.2.2.1. Região 6
2.2.2.2. Local 8
2.2.2. Finalidade do edifício 9
2.2.3. Comportamento estrutural do edifício 11
2.2.3.1. Acções gravíticas 11
2.2.3.2. Sismo 11
2.3. Tipologia geral das superestruturas de edifícios 12
2.3.1. Estruturas reticuladas 13
2.3.2. Estruturas mistas 13
2.3.3. Estruturas laminares 15
2.3.4. Lajes fungiformes 15
2.4. Concepção das fundações 18
2.4.1. Soluções disponíveis 18
2.4.2. Regras gerais 21
2.5. Concepção das contenções periféricas 22
2.5.1. Soluções disponíveis 22
2.5.2. Regras gerais 24
2.6. Concepção da superestrutura 27
2.6.1. Acções gravíticas 27
2.6.1.1. Regras gerais 28
2.6.1.2. Lajes fungiformes 29
2.6.2. Concepção anti-sísmica 31
2.6.2.1. Regras gerais 32
2.6.2.2. Paredes resistentes 42
2.6.2.3. Juntas estruturais 43
2.6.2.4. Lajes fungiformes 45
2.6.3. Lajes 45
2.6.3.1. Soluções disponíveis 46
2.6.3.2. Regras gerais 49
2.6.4. Vigas 50
2.6.5. Pilares 52
2.6.6. Paredes 53
3. Pré-dimensionamento 55
3.1. Materiais estruturais 55
3.1.1. Betão 56
3.1.2. Aço 57
3.2. Acções de cálculo 59
3.2.1. Verificação da segurança 60
3.2.2. Acções permanentes 62
3.2.2.1. Elementos estruturais maciços 62
3.2.2.2. Elementos estruturais aligeirados 65
3.2.2.3. Revestimentos de pisos e tectos 71
3.2.2.4. Paredes divisórias (interiores e exteriores) 74
3.2.2.5. Impulsos de terras 78
3.2.2.6. Pré-esforço 79
3.2.3. Acções variáveis 80
3.2.3.1. Variações de temperatura 80
3.2.3.2. Sobrecargas de utilização 81
3.2.3.3. Vento 84
3.3.3.4. Sismo 87
3.3. Pré-dimensionamento de lajes 90
3.3.1. Determinação da espessura 90
3.3.2. Verificações suplementares 91
3.3.2.1. Lajes de vigotas pré-esforçadas 91
3.3.2.2. Lajes maciças vigadas 94
3.3.2.3. Lajes fungiformes 100
3.3.2.4. Escadas 104
3.4. Pré-dimensionamento de vigas 105
3.4.1. Determinação da altura 105
3.4.2. Determinação da largura 106
3.4.3. Verificações suplementares 107
3.5. Pré-dimensionamento de pilares 110
3.5.1. Verificações suplementares 110
3.5.1.1. Verificação à compressão máxima 111
3.5.1.2. Verificação à flexão máxima 111
3.5.1.3. Determinação dos esforços nas vigas devidos ao sismo 114
3.6. Pré-dimensionamento de paredes 118
3.7. Pré-dimensionamento de contenções periféricas 119
3.8. Pré-dimensionamento de fundações 121
4. Bibliografia 125
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1º Módulo: Compatibilização dos Projectos de Arquitectura e Estabilidade por Jorge de Brito

1º MÓDULO: COMPATIBILIZAÇÃO DOS PROJECTOS DE


ARQUITECTURA E ESTABILIDADE

1. INTRODUÇÃO

A cadeira de Coordenação de Projectos para Construção de Edifícios do 9º Mestrado em


Construção do Instituto Superior Técnico tem como principal objectivo ajudar os projectistas
de Arquitectura e das diversas especialidades da Engenharia na execução do seu trabalho.
Como tal, o que se procura é dar a conhecer a cada um dos intervenientes no processo de
concepção de um edifício corrente as preocupações mais prementes dos restantes, no sentido
de estas serem tidas em conta e haver uma compatibilização geral dos diversos projectos.

Neste processo, o Arquitecto tende cada vez mais a ser a placa giratória em torno da qual
todos os Engenheiros especialistas se movem. De facto, toda a concepção do edifício é
marcada pelo projecto de Arquitectura, sendo a qualidade do produto final entregue ao Dono
da Obra fortemente influenciada pelos restantes projectos. Desta forma, a Arquitectura
interactua com todas as especialidades e assume com frequência a função de coordenação
geral.

O 1º Módulo da cadeira diz respeito à compatibilização dos projectos de Arquitectura e


Estabilidade, porventura aqueles que mais influência têm, quer no produto final, quer nos
restantes projectos. Tal como para os restantes módulos, o domínio deste cinge-se apenas aos
edifícios correntes, destinados a habitação, comércio e/ou serviços, com alguma ênfase nos
situados em tecido urbano. Ficam de fora, entre outros, as estruturas especiais, os edifícios
industriais e as infra-estruturas de abastecimento.

Em face da situação vigente em Portugal, em que o domínio do betão armado e pré-


esforçado nas estruturas acima referidas é praticamente total, optou-se por cingir a exposição
da matéria a este material estrutural. Assim, este módulo aborda fundamentalmente os dois
seguintes temas: no Capítulo 2, são indicadas algumas regras de concepção estrutural, nas
quais serão referidas explicitamente as fundações, as contenções periféricas e a superestrutura,

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com particular ênfase na concepção anti-sísmica; no Capítulo 3, são fornecidas algumas regras
muito simplificadas de pré-dimensionamento estrutural, nas quais serão focados os
pavimentos (lajes), as escadas, as vigas, os pilares e as paredes, que constituem a chamada
superestrutura nos edifícios correntes, e referidas apenas de passagem as fundações e as
contenções periféricas.

É preciso que fique claro que, com estas noções, um técnico não especialista em Engenharia
de estruturas não fica de forma alguma habilitado para executar qualquer trabalho neste
domínio. O que se pretende meramente é fornecer algumas noções rudimentares, que
permitam que o não especialista perceba as preocupações do Engenheiro estruturalista e ganhe
a sensibilidade suficiente para não fazer propostas manifestamente insustentáveis do ponto de
vista estrutural. Em suma, o não especialista e, em particular, o Arquitecto fica não só ciente
das necessidades estruturais, como poderá adaptar o seu trabalho de base a essas mesmas
necessidades. Quanto às noções sobre pré-dimensionamento estrutural, elas aplicar-se-ão
apenas aos casos mais correntes, cujo domínio se enunciará caso a caso, e permitirão ter uma
ideia preliminar da geometria dos elementos estruturais e do tipo de interferência que poderão
ter nas restantes especialidades e na Arquitectura.

Ao longo da exposição, tentar-se-á, sempre que possível, apresentar exemplos de aplicação


que ilustrem as noções introduzidas.

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2. CONCEPÇÃO ESTRUTURAL

2.1. CONSIDERAÇÕES GERAIS

Quando se fala em concepção estrutural, a primeira noção que deve ser estabelecida de uma
forma inequívoca é que esta não depende apenas nem é da exclusiva responsabilidade do
Engenheiro de estruturas. Todos os restantes intervenientes no processo, desde o Arquitecto
até ao Empreiteiro, passando pelos responsáveis pelas restantes especialidades de Engenharia,
influenciam e são co-responsáveis pela decisão tomada. Por esta razão, esta fase do
projecto, assim como praticamente todas as outras, deve resultar de um diálogo e de uma
interacção entre todos as entidades referidas. O Arquitecto, em particular, deve ser informado
à priori de quais as consequências previsíveis, ao nível da concepção estrutural, das suas
opções de aproveitamento do espaço, da mesma forma que deve estar ciente das
características da envolvente do edifício, nomeadamente em termos de actividade sísmica e
terreno de fundação.

Desta forma, a concepção do edifício como um todo deve tentar conciliar os objectivos da
Arquitectura (ao nível da funcionalidade e da estética) com os da segurança estrutural e da
economia. Nem sempre é possível atingir totalmente esse objectivo, pelo que a solução final é
sempre fruto de um compromisso em que o Arquitecto, o Engenheiro e o Dono da Obra
“perdem” todos um pouco.

2.1.1. Objectivos da Arquitectura

Por vezes, a Arquitectura procura tirar deliberadamente partido da existência da estrutura,


expondo-a (betão à vista) e até mesmo exagerando as suas proporções em relação ao mínimo
indispensável. No entanto, na maior parte das vezes o Arquitecto gostaria que a estrutura
pura e simplesmente estivesse completamente escondida. Tal passa por embeber os elementos
estruturais nas paredes de alvenaria existentes, orientando os pilares e vigas segundo essas
mesmas paredes, recorrendo a tectos falsos e tentando dar alguma leveza e transparência às
paredes resistentes.

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Como quase nunca é possível esconder completamente a estrutura, a estratégia é a do mal


menor, ou seja, a minimização do impacto visual da estrutura. Entre outras, citam-se as
seguintes estratégias correntes:

• em vigas que não “cabem” numa divisória interior, fazer com que a reentrância da viga
seja toda de um lado, afectando apenas uma divisão (Fig. 1);

Fig. 1 - Posicionamento relativo correcto (b) e incorrecto (a) da viga e da parede divisória

• optar por fazer passar uma viga no meio do tecto de uma casa de banho ou de uma
cozinha (onde se pode recorrer facilmente a um tecto falso) em vez de o fazer num quarto
e muito menos numa sala;
• por vezes a viga à vista corresponde a uma solução aceitável quando parte o
compartimento em dois corpos claramente distintos, num dos quais (geralmente o de
menor área) se pode colocar tecto falso;
• optar por fazer passar uma viga no tecto de um compartimento em vez de colocar um
pilar no meio deste;
• optar por sacrificar, em primeira escolha, outras áreas que não as zonas nobres da entrada
do edifício e as fachadas.

Se bem que estas sejam estratégias típicas, o Arquitecto poderá, pelo contrário, tirar um efeito
visual positivo da enfatização destes aspectos menos desejáveis associados à existência
incontornável da estrutura. Em qualquer dos casos, o Engenheiro de estruturas tem por

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obrigação, sempre que possível, tentar atingir o que a Arquitectura pretende, pelo que,
entre duas soluções idênticas do ponto de vista de funcionamento estrutural, deve escolher a
melhor para a Arquitectura, mesmo que mais trabalhosa, informando-a das consequências
económicas dessa opção.

2.1.2. Objectivos da Estabilidade e Economia

Começando por estes últimos, é evidente que a Economia condiciona todo o processo de
concepção de um edifício. Em igualdade de circunstâncias, a melhor solução será a que for
exequível adequadamente a menor preço, quer em termos de custos iniciais quer de custos
de exploração / manutenção.

É essa a filosofia subjacente a todo o processo de concepção estrutural da responsabilidade do


estruturalista, o que condiciona o tipo de solução estrutural mais indicado para cada caso. No
que se refere à Arquitectura, o processo é muito menos linear já que está em causa o nível
qualitativo do produto final, o qual, como se sabe, aumenta com os custos.

Em termos de objectivos da Estabilidade, estes serão descritos e justificados com alguma


profundidade no texto que se segue, pelo que apenas se lhes será feita uma breve alusão:

• compatibilizar o processo construtivo (função do terreno de fundação, dos equipamentos


e mão de obra disponíveis, das vias de acesso, etc.) com a solução estrutural;
• garantir a segurança tanto para as acções gravíticas como para as horizontais (com
ênfase no sismo);
• conseguir estruturas regulares;
• evitar erros crassos de concepção global ou local, que a experiência demonstrou
poderem dar origem a problemas graves.

2.2. FACTORES CONDICIONANTES

Os factores condicionantes na concepção estrutural são os seguintes [3]:

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• o projecto de Arquitectura, com as suas componentes de ocupação de espaços e estética


(quer de interiores quer das fachadas);
• a limitação dos recursos disponíveis, que justifica a economia, a maximização dos
espaços úteis (em planta e em altura), a selecção do método construtivo, a profundidade
dos cálculos justificativos, etc.;
• a localização do edifício, com reflexos a diversos níveis;
• a finalidade / funcionalidade pretendida para o edifício;
• o comportamento estrutural.

Os primeiros dois aspectos foram já objecto de algumas considerações e, não fazendo parte do
âmbito desta matéria, não serão mais abordados. Os restantes três são de seguida analisados
em mais pormenor.

2.2.1. Localização do edifício

A localização do edifício tem duas componentes: uma inserção numa região com
determinadas características e acções de cálculo que lhe estão associadas; os aspectos
marcadamente locais.

2.2.2.1. Região

No que se refere à região onde o edifício está inserido, ela irá condicionar as acções
(solicitações ou cargas) a que o mesmo irá previsivelmente estar sujeito durante a sua vida
útil. Como exemplo de acções que dependem da localização do edifício, tem-se:

• o sismo - Portugal está inserido numa zona de forte actividade sísmica que, no entanto,
não é homogénea em todo o território nacional; são consideradas quatro zonas sísmicas,
A a D, de intensidade sísmica decrescente, que se distribuem da forma indicada na Fig. 2
(o arquipélago dos Açores, à excepção das ilhas das Flores e Corvo, insere-se na zona A;
as ilhas referidas e o arquipélago da Madeira inserem-se na zona D); assim, enquanto que
na zona A a acção sísmica é a preocupação mais absorvente do projectista da

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estabilidade, na zona D, a acção sísmica introduz esforços na estrutura que são apenas da
ordem de grandeza dos provocados pelos ventos mais intensos (a acção sísmica na zona D
tem apenas 30 % da intensidade da mesma na zona A); em termos práticos, nas zonas
menos gravosas as estruturas poderão ser mais esbeltas e as considerações que serão feitas
mais adiante sobre concepção anti-sísmica assumirão menor relevância;

Fig. 2 [1] - Zonamento do território continental em termos de intensidade sísmica

• o vento - considera-se Portugal dividido em duas zonas A e B (a qual inclui os


arquipélagos dos Açores e da Madeira e as regiões do continente situadas numa faixa
costeira com 5 km de largura ou a altitudes superiores a 600 m); por sua vez e dentro de

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cada zona, consideram-se os tipos I (locais situados no interior de zonas urbanas) e II de


rugosidade aerodinâmica do solo; estas classificações permitem quantificar a máxima
pressão dinâmica do vento previsível ao longo da altura do edifício (Fig. 3, válida para a
zona A; na zona B, estes valores são multiplicados por 1.3); para colocar a questão do
vento na sua perspectiva real, os ventos previsíveis em Portugal não são de molde a
afectar significativamente a concepção estrutural dos edifícios correntes (ao contrário
do que se passa, por exemplo, com os edifícios industriais);

Fig. 3 [1] - Pressão dinâmica do vento em altura na zona A

• a neve - só em locais com altitude igual ou superior a 200 m dos distritos de Viana do
Castelo, Braga, Vila Real, Bragança, Porto, Aveiro, Viseu, Guarda, Coimbra, Leiria,
castelo Branco e Portalegre, é necessário ter em conta nos cálculos da estrutura uma
sobrecarga provocada pela neve; esta nunca é muito relevante em termos globais,
afectando apenas a cobertura, nomeadamente em termos de inclinação.

2.2.2.2. Local

Ao nível das características locais do edifício, são válidas as seguintes considerações:

• as fundações - nenhum projecto da estrutura de um edifício deve ser iniciado sem um


reconhecimento geológico / geotécnico do local, mesmo que apenas sob a forma de uma
visita ao local por uma técnico muito experimentado, complementada pela existência de

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relatórios do mesmo teor em locais imediatamente adjacentes; o terreno de fundação tem


influência decisiva na selecção do tipo e processo construtivo das fundações e
contenções periféricas (como se verá já de seguida), com repercussões indirectas na
concepção e dimensionamento da superestrutura; tanto pode promover a construção de
caves não previstas inicialmente (se existir uma camada de terreno não muito profunda de
características mecânicas muito deficientes à superfície seguida de terreno firme ou se
existir uma grande heterogeneidade de solos ao longo da planta do edifício à cota
inicialmente prevista para as fundações) como desaconselhar ou limitar em termos de
implantação a execução de caves anteriormente previstas (se se detectar rocha
relativamente sã a pequena profundidade, extremamente cara de desmontar);
• a agressividade do meio ambiente - a agressividade do meio ambiente pode manifestar-
se ao nível das fundações (existência de um teor elevado de sulfatos, nitratos ou
magnésios no solo) ou ao nível atmosférico (existência nas proximidades de indústrias
fortemente poluentes ou, como acontece em toda a costa junto ao mar, existência de um
elevado teor de cloretos); em termos de concepção estrutural global, estas circunstâncias
não dão azo a grandes alterações; no entanto, a provável necessidade de garantir
recobrimentos das armaduras superiores ao habitual tem influência nas dimensões dos
elementos estruturais, desrecomendando peças muito esbeltas;
• o risco de incêndio ou de acidente - determinadas construções são mais susceptíveis ou
estão mais sujeitas à acção de um incêndio ou mais expostas a acidentes de várias índoles;
a influência destas circunstâncias na concepção estrutural está fora do âmbito da matéria
deste módulo, reflectindo-se sobretudo na necessidade de garantir peças mais robustas
com maior recobrimento das armaduras, no privilegiar de soluções em betão armado ao
invés de betão pré-esforçado, aço ou madeira, na maximização da redundância estrutural
(necessidade de um maior número de roturas locais para a formação de um mecanismo) e
nalgumas outras medidas.

2.2.2. Finalidade do edifício

A finalidade (funcionalidade pretendida) do edifício que se está a conceber é um dos factores


que mais influência tem no processo. São os seguintes os factores directamente relacionados

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com a funcionalidade do edifício com directas repercussões na concepção estrutural:

• a utilização do espaço construído - esta questão afecta todos os intervenientes no


processo, começando pelo Arquitecto; consoante o tipo de utilização previsto, é necessário
adequar os vãos livres para não pôr em causa a funcionalidade futura do edifício; assim, a
modulação típica nos edifícios de habitação inicia-se nos 3 a 4 m e tem como limite
corrente os 5 a 6 m; nos escritórios de concepção mais antiquada, os vãos pretendidos
iniciavam-se nos 4 a 5 m, tendo evoluído em termos do conceito do “open space” para
vãos que chegam a atingir os 12 m, semelhantes aos pretendidos para áreas comerciais e
determinados tipos de serviços com grande ocupação de público; nos parques de
estacionamento, procura-se tipicamente vãos múltiplos de 2.5 m; a existência de grandes
salões, átrios ou salas de espectáculos coloca problemas especiais ao nível dos vãos livres;
como se verá adiante, a solução estrutural mais económica e segura varia
drasticamente em função da modulação;
• a sobrecarga de utilização - no capítulo seguinte, será fornecida uma lista relativamente
extensa das sobrecargas de utilização previstas nos pavimentos em função da sua
finalidade; é evidente que a grandeza da carga previsível vai afectar a espessura dos
pavimentos e, consequentemente, as dimensões e forma dos elementos estruturais que
sustentam esses mesmos pavimentos, podendo mesmo levar à alteração da solução
estrutural; a existência de cargas concentradas importantes, por exemplo, inviabiliza
uma série de soluções correntes em laje aligeirada; associada à sobrecarga, está também o
seu maior ou menor carácter de permanência, o que condiciona a limitação das flechas a
determinados níveis, podendo propiciar soluções mais robustas;
• o carácter vital do edifício - determinados edifícios (hospitais, central de bombeiros,
esquadras da polícia, etc.) assumem uma importância capital em termos sociais na
eventualidade de uma catástrofe natural (um sismo), pelo que é necessário conferir-
lhes um nível de segurança superior ao ordinário, para garantir que se manterão
operacionais após esse mesma ocorrência; este incremento de segurança “paga-se” em
robustez da estrutura e, eventualmente, na selecção de uma solução estrutural menos
económica e menos conseguida esteticamente.

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2.2.3. Comportamento estrutural do edifício

2.2.3.1. Acções gravíticas

Na esmagadora maioria do tempo de vida útil de um edifício, ele estará sujeito apenas à
acção das cargas gravíticas (peso próprio e restantes cargas permanentes, para além das
acções de carácter variável como as sobrecargas de utilização), pelo que é importante que
reaja de uma forma correcta às mesmas. Nesse sentido, serão fornecidas mais adiante algumas
regras de boa concepção, que apontam de um modo geral todas no mesmo sentido: tentar
uniformizar os efeitos das cargas (esforços e deslocamentos) sobretudo em termos de planta
(tanto nas fundações como nos vários pisos). Se bem que estas regras possam parecer
constrangedoras do processo criativo associado à concepção arquitectónica, elas são
efectivamente fulcrais na garantia de um bom funcionamento da estrutura a longo prazo, com
repercussões directas em muitos aspectos de funcionalidade e conforto associados aos
componentes não estruturais da construção (planeza dos pavimentos, verticalidade das
fachadas, integridade das paredes de tamponamento e das caixilharias, impermeabilidade de
coberturas e fachadas, etc.). O facto de o Arquitecto trabalhar à partida com uma malha
racional de posicionamento dos elementos estruturais pode estimular a sua imaginação e
suscitar a criação de soluções de aproveitamento de espaços muito interessantes e inovadoras.

2.2.3.2. Sismo

Em regiões sísmicas, o comportamento estrutural do edifício quando sujeito a acções


horizontais, de carácter cíclico e muito grande intensidade, é uma das preocupações mais
prementes na concepção do mesmo, e tem repercussões no trabalho de todos os intervenientes
no processo. Um pouco mais à frente será referido um conjunto de regras fundamentais de
concepção assim como um conjunto de erros crassos a evitar na concepção anti-sísmica que
irão ter influência, geralmente pela negativa, no projecto de Arquitectura mas que não
poderão, apesar disso, ser ignorados.

Os objectivos finais subjacentes a estas regras são dois:

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• garantir que, na ocorrência de um sismo de grande magnitude, as estruturas não sofrerão


colapsos globais nem locais, originando desta forma a perda de vidas humanas, ainda que
posteriormente tenham de ser sujeitas a trabalhos, mais ou menos importantes, de reparação;
• garantir simultaneamente que, na ocorrência de sismos de pequena a média magnitude,
a estrutura se comportará sem problemas, ficando isenta da necessidade de trabalhos de
reparação com carácter estrutural.

Sendo a acção sísmica extremamente complexa e susceptível de ocorrer sob as mais diversas
formas, torna-se uma tarefa complicada prever o comportamento dos edifícios sob a acção da
mesma. A experiência adquirida durante a ocorrência de grandes sismos por todo o mundo,
mais do que a pesquisa científica, tem permitido definir e calibrar as regras acima referidas.
Nesta altura, já se pode dizer que é possível prever o comportamento de certas estruturas
sob a acção do sismo. Estas estruturas são as que apresentam alguma regularidade, quer em
termos de forma em planta e em altura, quer em termos de distância dos elementos estruturais
entre si e de posicionamento relativo dos mesmos em planta, quer ainda em termos de uma
certa uniformidade das dimensões dos diversos elementos estruturais. Por outro lado, o
comportamento ao sismo das estruturas que não se enquadram nesta descrição tem sido
sistematicamente deficiente, com grande perda de vidas. Por estas razões, a regularidade
estrutural, tão pouco do agrado de alguns Arquitectos, é indiscutivelmente a melhor
característica que um edifício pode ter em regiões sísmicas.

2.3. TIPOLOGIA GERAL DAS SUPERESTRUTURAS DE EDIFÍCIOS

As superestruturas de edifícios correntes podem integrar-se em três categorias fundamentais:

• as reticuladas (pórticos) (Fig. 4a)- constituídas por lajes (maciças ou aligeiradas), vigas e
pilares; as cargas verticais são transmitidas das primeiras para as segundas e destas para os
últimos; as acções horizontais são exclusivamente resistidas pelas vigas e pilares;
• as mistas (pórticos e paredes) (Fig. 4c) - constituídas por lajes (maciças ou aligeiradas),
vigas, pilares e paredes; as cargas verticais são transmitidas das primeiras para as segundas
e destas para os últimos (pilares e paredes); as acções horizontais são exclusivamente

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resistidas pelas vigas, pilares e paredes (adquirindo estas uma grande preponderância);
• as laminares (paredes) (Fig. 4b) - constituídas por lajes (maciças ou aligeiradas), vigas (ain-
da que nem sempre) e paredes; as cargas verticais são transmitidas directamente das pri-
meiras para as últimas; as acções horizontais são exclusivamente resistidas pelas paredes.

Fig. 4 - Estruturas reticulada, laminar e mista

2.3.1. Estruturas reticuladas

Este é o tipo de estrutura mais corrente neste tipo de edifícios. Em termos de funcionamento
sísmico, são as que melhores resultados têm apresentado. No entanto, para edifícios de
média a grande altura (acima de 4 a 5 pisos) em regiões fortemente sísmicas (zonas A e B em
Portugal), as dimensões dos pilares e vigas a que se seria conduzido para garantir a resistência
e sobretudo a rigidez horizontal necessárias tornam este tipo estrutural antieconómico,
tornando-se imprescindível o recurso a paredes resistentes.

2.3.2. Estruturas mistas

Este tipo de estrutura tem como principal característica e a principal origem de problemas
durante a ocorrência do sismo e no dimensionamento estrutural o facto de colocar a funcionar
em paralelo dois tipos de elementos estruturais diferentes (Fig. 4): os pórticos pilar-viga e
as paredes resistentes (muito rígidas junto à base mas perdendo rapidamente rigidez em

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altura). Este funcionamento conjunto é garantido pelos pavimentos dos pisos, que funcionam
como diafragmas rígidos, fazendo com que o deslocamento dos pórticos e das paredes
sejam, piso a piso, idênticos. Isto dá origem a uma distribuição de esforços pelos pilares e
paredes muito difícil de prever sem recorrer a cálculo automático, o que levanta grandes
problemas no pré-dimensionamento.

O campo de aplicação desta solução estrutural é o indicado acima como antieconómico para
estruturas reticuladas. As paredes, com fortes repercussões na Arquitectura em face das suas
dimensões em planta, são geralmente colocadas nas caixas de escadas e de elevadores (Fig. 5).

Fig. 5 - Caixas de escadas e de elevadores como núcleo de paredes resistentes

Do ponto de vista sísmico, existem dois tipos estruturais, geralmente correspondentes a


estruturas mistas ou laminares, que apresentam problemas especiais, claramente fora do
âmbito da matéria aqui tratada:

Fig. 6 - Estrutura em pêndulo invertido (a), vista em alçado, e em núcleo (b), vista em planta

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• em pêndulo invertido (Fig. 6a) - uma parte importante da massa total do edifício situa-se
junto ao seu topo;
• em núcleo (Fig. 6b) - a maior parte da rigidez do edifício (por exemplo, um núcleo de
caixa de escadas e elevadores) encontra-se concentrada numa reduzida área em planta.

2.3.3. Estruturas laminares

Este é um tipo de estrutura menos corrente por várias razões: há um sobreconsumo de


betão, já que os elementos estruturais ficam claramente sobre-dimensionados em relação ao
estritamente necessário; por isso mesmo, a solução é relativamente cara; o conforto térmico e
acústico nos edifícios com este tipo de estrutura deixa bastante a desejar; em termos
arquitectónicos, é uma solução muito rígida. Muito utilizada nas décadas de 70 e 80, a
estrutura tipo túnel (Fig. 7), deveu a sua popularidade ao rendimento muito alto que se
consegue obter: cerca de um piso por semana. Do ponto de vista sísmico, é uma solução com
um comportamento muito distinto em ambas as direcções: sobre-resistência na direcção dos
septos verticais e excesso de deformabilidade na direcção perpendicular.

Fig. 7 - Representação esquemática de uma estrutura tipo túnel

2.3.4. Lajes fungiformes

As soluções estruturais descritas até aqui baseiam-se nas chamadas lajes vigadas, ou seja, as

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lajes apoiadas directamente em elementos horizontais de maior rigidez (vigas). Em alternativa


e para qualquer das soluções descritas, é possível recorrer a lajes fungiformes, ou seja, lajes
que se apoiam directamente nos elementos verticais (pilares e paredes) e que, como tal, não só
lhes transmitem as cargas gravíticas como participam na resistência às acções horizontais.
Podem assumir diversas formas (Fig. 8): ser maciças, aligeiradas com moldes recuperáveis ou
aligeiradas com moldes perdidos.

≥ 0.15 m

≥ 0.225 m

Fig. 8 - Lajes fungiformes: de baixo para cima, maciças, aligeiradas com moldes recuperáveis
ou aligeiradas com moldes perdidos

As lajes fungiformes apresentam diversos problemas, todos eles relacionados com o facto de
os apoios nos elementos verticais serem muito pequenos quando comparados com a área de
laje que neles descarrega: concentração de esforços e armaduras junto aos apoios; perigo de
punçoamento das lajes (este fenómeno consiste em as cargas aplicadas na parte superior da
laje a pressionarem contra os apoios, acabando por fazer com que a laje se “fure” contra os
mesmos); deformabilidade muito acentuada para acções gravíticas; comportamento menos
conseguido em termos sísmicos (em lajes de espessura correctamente calibrada para a flexão,
as lajes fungiformes maciças terão o comportamento mais insatisfatório ao sismo, seguir-se-
lhes-ão as lajes fungiformes aligeiradas e, como a melhor solução, as lajes vigadas). A forma
de ultrapassar ou minimizar estes problemas será referida mais adiante.

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Em termos de critérios de selecção, as soluções em laje vigada em edifícios correntes ficam


limitadas, em termos económicos e até de funcionalidade (limitação ao pé direito livre), a
vãos máximos até 6 a 7 m. Em circunstâncias (pé direito total generoso) e para exigências
fora do vulgar (por exemplo, um grande salão integrado num edifício de habitação com vãos
correntes), este limite poderá obviamente ser ultrapassado. As lajes fungiformes estão
portanto reservadas aos pavimentos de vãos médios a grandes (escritórios, comércio,
armazéns, pavilhões e salas de acesso público, estacionamentos) ou a imposições de carácter
funcional: elementos resistentes verticais não alinhados na generalidade do edifício (nestas
circunstâncias, a eficácia das soluções vigadas diminui drasticamente, já que teria de haver
muitos apoios indirectos de vigas e/ou pilares em vigas); grande liberdade de colocação das
paredes divisórias (“open space”); necessidade de conseguir tectos planos (nomeadamente
para a passagem sem obstruções de tubagem de serviços).

Em termos económicos, as soluções fungiformes maciças estão limitadas a vãos de 5 a 7 m


(em betão armado) e a cerca de 12 m (betão armado pré-esforçado), passando estes limites nas
soluções fungiformes aligeiradas para 6 a 10 m e até mais de 20 m, respectivamente sem e
com pré-esforço. O recurso a capitéis protuberantes ou a espessamento localizado da laje
junto aos apoios (soluções muito discutíveis do ponto de vista da integração arquitectónica -
Fig. 9) permite aumentar o domínio de aplicação das soluções fungiformes em betão armado
para 8 m (maciças) e 12 m (aligeiradas).

Fig. 9 - Soluções para resolução do problema do punçoamento em lajes fungiformes

Enunciados que estão os objectivos dos principais intervenientes na concepção dos edifícios,
identificados que estão os critérios decisórios em termos de concepção estrutural e definidas
as opções existentes, passa-se à descrição e discussão das regras mais importantes de
concepção estrutural para as principais partes da estrutura: fundações, contenções
periféricas e superestrutura (lajes, vigas, pilares e paredes).

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2.4. CONCEPÇÃO DAS FUNDAÇÕES

Conforme referido atrás, a concepção das fundações é toda ela função do estudo geológico /
geotécnico efectuado à priori e de uma visita ao local de um técnico experiente. Nos casos
correntes, são os seguintes os elementos que interessa analisar:

• tipo de terreno / formação geológica até a uma profundidade claramente abaixo do nível
previsível a que a estrutura será fundada;
• características mecânicas (coeficiente de atrito interno, coesão, módulo de elasticidade)
dessas mesmas camadas de terreno;
• posição do nível freático e previsão da sua evolução sazonal.

2.4.1. Soluções disponíveis

Todos estes elementos são geralmente fornecidas através de sondagens e da realização de


ensaios SPT (“Standard Penetration Test”), pelo menos 3, cuja quantidade e posicionamento
obedece a regras definidas pelos especialistas. A posição da primeira camada espessa de
terreno de características resistentes consideradas aceitáveis (“firme”) será um dos factores
mais condicionantes na selecção de uma das várias soluções disponíveis:

• sapatas isoladas (Fig. 10) ou contínuas (Fig. 11) - se o firme estiver a uma profundidade de
até 3 a 4 m abaixo do piso térreo (piso habitado de menor cota altimétrica) e tiver cara-
cterísticas relativamente constantes; se os níveis de carga forem pequenos a médios; se a
superestrutura não tiver exigências especiais relativas a assentamentos diferenciais; a
cota do fundo da sapata deve ficar pelo menos 1.0 a 1.2 m abaixo da cota do terreno natural;

• ensoleiramento geral (Fig. 12) - se o terreno ao nível da cota de soleira for de caracte-
rísticas médias a fracas e o firme se encontrar a grande profundidade; se o nível
freático expectável estiver acima ou muito próximo do piso térreo; se a superestrutura
for muito sensível a assentamentos diferenciais, se existirem cargas muito elevadas na
totalidade ou em parte significativa da planta do edifício; quando a solução por sapatas

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ocupar 50 % ou mais da implantação do edifício (tornando-se antieconómica);

Centrada Excêntrica Excêntrica em


numa direcção duas direcções
Fig. 10 - Representação esquemática de sapatas isoladas

Fig. 11 - Representação esquemática de uma sapata contínua

Fig. 12 - Representação esquemática de ensoleiramento geral com espessura constante

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• pegões ou poços (Fig. 13) - se o firme estiver a uma profundidade de até 4 a 8 m abaixo
do piso térreo; solução caída em desuso, por ter uma mão-de-obra muito intensiva, sendo
substituída por uma das outras aqui referidas;

Fig. 13 - Representação esquemática de pegões circulares e paralelepipédicos

• estacas (Fig. 14) - se o firme estiver a uma profundidade superior a 8 m abaixo do piso
térreo; se existirem condições de fundação claramente distintas na implantação de um
mesmo edifício (como forma de evitar assentamentos diferenciais importantes).

φ
≈3φ

Fig. 14 - Representação esquemática de uma estaca isolada e de um grupo de duas estacas

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2.4.2. Regras gerais

Em termos de custos, a solução de sapatas é claramente a melhor, pelo que se recorre a ela
sempre que possível. Na solução por estacas, relativamente onerosa, é importante minimizar o
número total de estacas, aumentando o diâmetro destas, ainda que tal possa obrigar à
utilização de equipamento mais caro e com maiores exigências de espaço. Em termos sísmicos,
no entanto, um grupo de duas estacas tem um funcionamento mais eficaz no plano destas do
que o de uma única estaca de volume de betão igual à soma dos volumes das duas estacas.

O recurso a vigas de fundação (Fig. 15), a agrupar os restantes elementos de fundação


(sapatas ou estacas) é recomendável em qualquer circunstância para minorar os efeitos dos
assentamentos diferenciais, rigidificar as fundações no plano horizontal e substituir os lintéis
de fundação (elementos em betão simples ou muito fracamente armado, sem função estrutural,
servindo apenas para que neles descarreguem as paredes de alvenaria do piso térreo). Em
zonas sísmicas, as vigas de fundação tornam-se indispensáveis pois permitem absorver a
totalidade ou uma parte importante dos momentos na base dos pilares, permitindo um melhor
funcionamento e uma maior economia das sapatas (ou estacas).

Fig. 15 - Representação esquemática de sapatas agrupadas com vigas de fundação

Duas situações podem motivar a previsão de juntas estruturais devido às fundações. Na pri-
meira (Fig. 16a), a não uniformidade do terreno de fundação na implantação pode provo-

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car, a ser prevista uma fundação superficial, assentamentos diferenciais significativos e/ou
uma rotação do edifício, pelo que é preferível isolar com a junta as áreas de comportamento
distinto. Na segunda situação (Fig. 16b), duas zonas do edifício de alturas muito distintas
irão introduzir cargas diferentes no terreno com consequências semelhantes às referidas a
propósito da situação anterior, problema resolvido seccionando o edifício em dois corpos.

Fig. 16 - Recurso a juntas estruturais para resolver problemas de fundações

Refira-se ainda, para finalizar, que a concepção das fundações não é independente da
concepção da superestrutura e vice-versa. De facto e por exemplo, a modulação estrutural
(distância entre elementos estruturais verticais ou vãos) tem repercussões directas no nível das
cargas introduzidas pelas fundações no terreno, um dos factores listados acima como
influenciando a escolha da solução de fundações. Por outro lado, os erros de concepção das
fundações, por falta de dados ou de competência, podem ter repercussões catastróficas
durante a ocorrência de um sismo, como aconteceu recentemente na Turquia, em que uma
percentagem significativa dos colapsos foi devida às fundações inadequadas.

2.5. CONCEPÇÃO DAS CONTENÇÕES PERIFÉRICAS

2.5.1. Soluções disponíveis

Existe um conjunto alargado de soluções definitivas de contenção periférica susceptíveis de


serem utilizadas em edifícios correntes:

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• muros de suporte executados com recurso a taludes (Fig. 17) - nesta solução, as
condições de periferia, o prazo de execução da obra e o próprio terreno permitem que
sejam executados, durante a fase construtiva, taludes naturais a toda a volta do edifício;
desta forma, os muros são executados como se de paredes no miolo do edifício se
tratassem, ou seja, cofradas em ambas as faces e sem preocupações com o terreno ou a
água eventualmente nele contida; o dimensionamento tem apenas em conta a fase
definitiva, ao contrário de todas as restantes soluções;

Fig. 17 - Representação esquemática de muro de suporte executado com recurso a taludes

• muros tipo “Munique” (Fig. 18) - se o terreno for relativamente consistente, com nível
freático profundo, sem exigências particulares de impermeabilidade, sem grandes pro-
blemas de periferia provocados pelas estruturas adjacentes ou de tempo de execução;
não tem grandes problemas de espaço de estaleiro, gabarito vertical ou acesso à obra;

Fig. 18 - Representação esquemática de uma parede tipo “Munique”

• cortinas de estacas moldadas (Fig. 19) - para praticamente qualquer tipo de terreno
quando existem estruturas de médio a grande porte situadas perto do novo edifício mas
não excessivamente sensíveis a deformações; em face do elevado diâmetro das estacas
(≥ 0.60 m), exigem equipamento volumoso, caro e pesado;

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Fig. 19 - Corte horizontal esquemático de uma cortina secante de estacas moldadas

• paredes moldadas (Fig. 20) - para praticamente qualquer tipo de terreno quando
existem estruturas de grande importância muito susceptíveis a deformações perto do
novo edifício; se se pretende dar alguma impermeabilidade à cortina de contenção;
também exigem equipamento especial e a espessura das paredes é elevada; surgem
normalmente associadas a ensoleiramentos gerais;

Parede
moldada

Ancoragens

Fig. 20 - Corte vertical esquemático de uma parede moldada

• poços (Fig. 21) - se se pretende construir imediatamente encostado a edifícios antigos de


paredes de alvenaria resistente, extremamente susceptíveis a assentamentos; não exigem
equipamento que suscite problemas em obra mas conduzem a paredes muito espessas.

2.5.2. Regras gerais

Em termos de custos (e ignorando as limitações técnicas acima referidas de cada solução), a


melhor solução é a primeira. No entanto e sobretudo em zonas urbanas, esta solução não é
exequível. Das restantes, as paredes tipo “Munique”, com os inconvenientes e limitações
referidos, são geralmente a solução mais económica em zona fortemente urbanizada. As

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restantes são, em termos económicos, soluções de recurso quando as primeiras não são
possíveis. Recentemente, as paredes moldadas têm vindo a ganhar alguma preponderância,
ainda que, do ponto de vista da Arquitectura, tenham grandes inconvenientes (como se verá
mais adiante, é preciso prever uma grande espessura para a cortina de contenção nestes
processos construtivos), aliás como as cortinas de estacas moldadas e os poços.

Paredes de betão armado

Poços
Ancoragens

Fig. 21 - Representação esquemática de uma contenção por poços

De facto, vê-se com frequência em projectos de Arquitectura paredes de contenção periféri-


ca de espessura insuficiente (por exemplo, 0.20 m), qualquer que seja o método construtivo.
Não é tido também em conta o facto de ser frequentemente necessário colocar uma parede de
alvenaria de tijolo no interior da contenção periférica, fundamentalmente por duas razões:

• irregularidade / aspecto inestético da superfície à vista - neste caso, característico


sobretudo das cortinas de estacas moldadas, dos poços e das paredes moldadas, é
necessário criar uma parede de tijolo de 7 cm rebocada (se puder existir água, ver situação
seguinte), ou seja, em termos de Arquitectura, há que somar 10 cm à espessura da cortina
de contenção propriamente dita;
• exigências de estanqueidade - neste caso, característico de qualquer das soluções
(excepto a primeira se for prevista uma impermeabilização exterior muito eficaz e as
paredes moldadas se houver muito cuidado na execução das juntas de betonagem e forem
utilizados aditivos na betonagem), será necessário prever uma solução de
impermeabilização / drenagem pelo interior; nas excepções referidas, situações de menor
exigência de estanqueidade, pode-se recorrer à solução apresentada na Fig. 22, sem

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grandes consequências a nível de Arquitectura (ainda que seja recomendável encostar à


impermeabilização uma parede de alvenaria de tijolo para evitar que a impermeabilização
descole); nas restantes situações, de maior exigência de estanqueidade, a solução
apresentada na Fig. 23 implica somar à espessura da cortina de contenção cerca de 18 cm
em todo o perímetro (4 cm da caleira, 11 cm do tijolo e cerca de 3 cm de
impermeabilização, eventualmente dispensável, e revestimento).

Fig. 22 - Situações de menor exigência de estanqueidade de contenções periféricas

Fig. 23 - Situações de maior exigência de estanqueidade de contenções periféricas

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2.6. CONCEPÇÃO DA SUPERESTRUTURA

A concepção da superestrutura tem uma relação mais íntima com a concepção arquitectónica
do que a das fundações e das contenções periféricas descrita atrás. Optou-se por apresentar os
conceitos em função dos elementos estruturais, partindo dos elementos suportados para os
suportantes. No início do sub-capítulo, dedica-se duas secções à concepção numa perspectiva
global (uma vez que os aspectos locais são tratados elemento a elemento): em relação às
acções gravíticas e em relação ao sismo.

2.6.1. Acções gravíticas

As acções gravíticas incluem:

• peso próprio da estrutura - nas estruturas de betão, esta parcela representa uma
percentagem muito significativa das cargas gravíticas;
• restante carga permanente - inclui a acção do pré-esforço, os revestimentos e
acabamentos, os tectos falsos, as tubagens, o equipamento fixo, as paredes divisórias
interiores e exteriores, os parapeitos e as platibandas;
• cargas variáveis - incluem as sobrecargas de utilização, a neve e, nas vias de
comunicação, as sobrecargas rodoviárias e ferroviárias.

Todas estas acções têm uma direcção de actuação vertical e, à excepção do pré-esforço, o
sentido de cima para baixo, provocando o seguinte tipo de esforços:

• momentos flectores (Fig. 24a) - nos elementos horizontais (lajes e vigas), as tracções
surgem em cima junto aos apoios e em baixo na zona do vão; nos elementos verticais
(pilares e paredes), os momentos são em geral e desejavelmente muito pequenos à
excepção de nos elementos de periferia;
• esforços transversos (Fig. 24b) - nos elementos horizontais, os maiores esforços surgem
junto aos apoios; nos elementos verticais, não são em geral significativos;
• esforço normal (Fig. 24c) - nos elementos horizontais, são em geral desprezáveis; nos

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verticais, são de compressão e tanto maiores em cada elemento quanto maior a distância
destes aos adjacentes e a carga nos elementos horizontais suportados;
• momentos torsores - sem grande significado, são quase sempre desprezados nos cálculos.

Fig. 24 - Pórtico sujeito a uma carga gravítica uniformemente distribuída na viga: a) diagrama
de momentos flectores; b) diagrama de esforço transversos; c) diagrama de esforços normais

2.6.1.1. Regras gerais

Em termos de acções gravíticas, o objectivo geral é, com já atrás referido, conceber


estruturas regulares. Eis algumas formas de o conseguir:

• fazer com que as distâncias entre elementos verticais no mesmo enfiamento sejam
aproximadamente iguais (Fig. 25) - vãos de elementos horizontais adjacentes muito
desiguais introduzem momentos flectores de carácter permanente no elemento vertical que
funciona como apoio comum; estes momentos, não só aumentam a quantidade de
armadura necessária no elemento vertical como , conjugados com as acções horizontais,
contribuem para a diminuição da sua capacidade resistente;

Fig. 25 - Distribuição de vãos incorrecta (b) e correcta (a), ou seja, com estes
aproximadamente iguais

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• fazer com que os vãos sejam aproximadamente iguais em ambas as direcções ortogonais
do edifício (Fig. 26) - desta forma, a altura total dos elementos horizontais
(aproximadamente proporcional ao vão que vencem) é igual em ambas as direcções
(vantagem importante do ponto de vista arquitectónico) sem que isso corresponda nem a
um sobre-dimensionamento dos elementos de menor vão nem a um sub-dimensionamento
dos de maior vão;

Fig. 26 - Vãos muito diferentes nas duas direcções do edifício (a) e uniformização dos mesmos (b)

• evitar vãos muito grandes (ou muito pequenos) inéditos na restante estrutura - a altura
total das vigas (e a espessura das lajes) é condicionada pelo maior vão (para se evitar a
existência de pés direitos úteis diferentes); o vão maior pode provocar problemas de
gabarito ou um sobre-dimensionamento generalizado nos restantes vãos;
• por uma questão de economia, recorrer ao menor vão geral que não coloque em causa a
funcionalidade do edifício (não há vantagem em aplicar esta regra abaixo dos 3 a 4 m);
• se se pretende recorrer a uma estrutura vigada, é preciso garantir que efectivamente os
elementos verticais se encontram alinhados em ambas as direcções; caso contrário, é-se
conduzido a situações de vigas apoiadas em vigas (muito inestético e, como se verá já de
seguida, desaconselhado do ponto de vista sísmico) e/ou de pilares e vigas não alinhados
com as paredes divisórias.

2.6.1.2. Lajes fungiformes

As lajes fungiformes apresentam alguns aspectos peculiares, para além dos referidos acima
que, à excepção do último, são válidos para qualquer tipo de laje (vigada ou fungiforme):

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• no que se refere ao alinhamento dos elementos verticais, este não precisa de ser tão
exacto como para as lajes vigadas (essa é aliás uma das vantagens das estruturas em
laje fungiforme), mas é claramente desrecomendado que os elementos verticais estejam
de um modo geral desalinhados na estrutura;
• a verificação ao punçoamento junto aos pilares é, como se verá, uma das mais
condicionantes neste tipo de estrutura, sendo que a espessura necessária para esse efeito é
em geral superior à estritamente necessária para a resistência à flexão, nomeadamente no
meio vão entre pilares; a solução ideal do ponto de vista estrutural e económico é a
representada na Fig. 9, a qual deve ser considerada pela Arquitectura sempre que não for
incompatível com os seus objectivos de estética e funcionalidade; independentemente de
se usar ou não essas soluções, é preciso nas lajes aligeiradas maciçar (isto é, prescindir
dos moldes e betonar toda a espessura da laje) uma extensão de laje a toda a volta dos
pilares, até a uma distância entre 1/5 e 1/4 da distância ao elemento vertical mais próximo
em cada um dos alinhamentos (Fig. 27);
• no alinhamento entre elementos verticais em lajes aligeiradas, deve ser criada uma faixa
(de largura variável caso a caso) também ela maciça, com os objectivos de rigidificar a
ligação entre esses elementos, criar espaço para a colocação da armadura inferior que é
mais concentrada nessa zona e diminuir a deformabilidade geral da laje (Fig. 27);
• com objectivos semelhantes e também para resolver o problema do punçoamento
excêntrico, em todas as situações em que os pilares de periferia se situem com a face
exterior coincidente ou muito próxima da fachada, é fundamental criar uma viga de
bordadura a ligá-los (Fig. 27); esta deve ter uma altura claramente superior à espessura
da laje (caso contrário, não é eficaz), o que a transforma numa dificuldade acrescida no
processo construtivo e num elemento incontornável para a Arquitectura, mas nem por isso
menos indispensável.

Ainda que não relacionada com as acções gravíticas, há uma questão de concepção estrutural
que afecta significativamente a Arquitectura. É veiculada pelo RSA a noção de que, devido à
temperatura e outros efeitos diferidos no betão, é de todo conveniente partir os edifícios,
através de juntas de dilatação, por forma a que nenhum dos corpos tenham em planta
qualquer das dimensões superior a 30 m. A redundância (conceito que será justificado

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mais adiante) que se pretende para a estrutura e os problemas bem conhecidos associados à
existência destas juntas têm feito com que se evolua no sentido contrário, ou seja, reduzir a
consideração (e o número) de juntas às situações em que são indispensáveis: as referidas a
seguir a propósito da concepção anti-sísmica e aquelas em que os movimentos da estrutura
são susceptíveis de provocar estragos em equipamentos ou materiais não estruturais.

Fig. 27 - Representação esquemática de um piso em laje fungiforme aligeirada: a sombreado,


as zonas maciçadas entre pilares e em torno destes; em corte, a viga de bordadura

A estas regras, há que adicionar algumas das que serão referidas a propósito da concepção
sísmica, na medida em que a importância do seu cumprimento é maior para esse tipo de acções.

2.6.2. Concepção anti-sísmica

A acção sísmica não é a única acção horizontal a que as estruturas podem estar sujeitas. Ao
nível das contenções periféricas, assumem particular importância os impulsos das terras e da
água freática e, na zona elevada da estrutura, o vento introduz esforços não desprezáveis
(que chegam a ser da mesma ordem de grandeza dos provocados pelo sismo nas regiões
Portuguesas de menor actividade telúrica). Existem ainda outras acções não horizontais nem
gravíticas (as variações de temperatura, a retracção e a fluência) que também contribuem para
os esforços na estrutura, ainda que em geral de forma muito pouco significativa.

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2.6.2.1. Regras gerais

No entanto, na maioria do território nacional, é a acção sísmica a mais condicionante em


todo o processo de concepção e dimensionamento estruturais. Daí que mereça uma
atenção muito especial, consubstanciada num conjunto alargado de regras a seguir expostas:

• é indispensável garantir a existência de estruturas resistentes ( em geral, pórticos) em


ambas as direcções do edifício - de facto, o sismo pode actuar sobre a estrutura em
qualquer direcção, pelo que é necessário garantir a resistência ao mesmo em pelo menos
duas direcções ortogonais e cumprir determinadas regras que, por defeito, garantem a
resistência em qualquer outra direcção; exceptuando as estruturas laminares, essas
estruturas resistentes assumem a forma de pórticos de elementos verticais (pilares e
paredes) ligados entre si por elementos horizontais (vigas ou as próprias lajes, se forem
fungiformes); desta forma, deve-se ter pelo menos dois pórticos, de preferência os de
fachada, contínuos em cada direcção; deve-se evitar a existência de pilares desligados
de qualquer viga numa das direcções, uma vez que a sua contribuição para o sismo passa a
ser praticamente nula, para além de poderem apresentar problemas de (comprimento de)
encurvadura; na impossibilidade de um determinado pórtico ser contínuo em toda a sua
extensão, deve-se tentar constituir vários pórticos (2 ou mais) ligados entre si pelas lajes
(recorde-se que as lajes vigadas não dão uma contribuição explícita para a resistência ao
sismo); nas estruturas mistas pórticos - paredes, é importante ligar as paredes aos pilares
através de vigas; no sentido de conseguir os pórticos contínuos pretendidos, a
Arquitectura deve estar aberta a pequenos ajustes e, em alternativa ou em simultâneo,
poder-se-ão aumentar as dimensões e alterar a configuração de certos pilares para
receberem vigas não perfeitamente alinhadas entre si (Fig. 28a; no entanto, o Eurocódigo 8
[4], o regulamento Europeu para estruturas em regiões sísmicas, prestes a entrar em vigor,
não permite este tipo de situações - Fig. 29, o que se prevê vir a provocar grandes
problemas de compatibilização da Arquitectura com a Estabilidade); apoios indirectos de
vigas ou pilares noutras vigas não são uma boa solução para este efeito (Fig. 28b);

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Fig. 28 - Forma correcta (a) e incorrecta (b) de resolver um problema de desalinhamento de


pilares de fachada

Viga

Viga Pilar
bw = 0.25 m
bc = 0.65 m

e = 17.5 > bc/4 = 15 cm bc = 0.60 m


Viga
bw = 0.30 m

bw = 0.25 m
e = 17.5 > bc/4 = 16.3 cm e = 17.5 > bc/4 = 15 cm

Pilar Viga

Fig. 29 - Dois exemplos de situações, actualmente correntes de compatibilização de vigas num


mesmo pórtico, que o EC8 não irá permitir

• associada à noção anterior, está a da redundância (ou hiperstaticidade) estrutural; esta


consiste em ser preciso que se forme um conjunto alargado de roturas locais (em vigas,
pilares ou paredes) antes de se gerar um mecanismo global que leve ao colapso da
estrutura; por outras palavras, o que se pretende é maximizar o número de ligações de
continuidade entre elementos estruturais de resistência e rigidez semelhantes; sob este
prisma, as estruturas reticuladas são mais indicadas do que as mistas e estas mais do
que as laminares; no entanto, em termos de rigidez a acções horizontais (outra
característica que se pretende das estruturas em zonas sísmicas), os tipos estruturais
escalonam-se exactamente ao contrário;
• em zonas de forte actividade sísmica (zonas A e B), torna-se em geral necessário recorrer
a paredes resistentes para edifícios acima de 5 pisos elevados; conforme anteriormente

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referido, as estruturas reticuladas não conseguem, nessas circunstâncias, ser em


simultâneo suficientemente rígidas e resistentes, por um lado, e económicas e compatíveis
com uma Arquitectura minimamente exigente, por outro;
• são de evitar soluções complexas e estruturas irregulares (de funcionamento
dificilmente previsível) ou corpos compostos (conduzindo a esforços concentrados em
zonas localizadas - em planta, Fig. 30, ou em altura, Fig. 31); é preferível nessas situações
tirar partido de juntas estruturais criteriosamente posicionadas; quanto mais simples e
previsível for o comportamento da estrutura durante o sismo, melhor!

Fig. 30 - Forma incorrecta (a) e correcta (b) de conceber ao sismo um edifício de forma
composta em planta

Fig. 31 - Forma incorrecta (a) e correcta (b) de conceber ao sismo um edifício de forma
composta em altura

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• deve-se também evitar variações bruscas de rigidez quer em planta (por exemplo,
concentrando todas as paredes resistentes numa metade da estrutura, ficando a outra muito
flexível) quer em altura (por exemplo, interrompendo totalmente uma ou várias paredes
que representam uma parte significativa da rigidez da estrutura - Fig. 32);

Fig. 32 [2] - Colapso de estrutura laminar por variação brusca de rigidez em altura (Chile 1985)

• deve-se evitar grandes concentrações de esforços, sobretudo em peças sem uma


capacidade resistente adequada; daí que os pilares e vigas devam estar proporcionados e
que as respectivas dimensões assim como os vãos entre pilares devam ser semelhantes
em toda a estrutura; deve haver também um grande cuidado nas ligações (de vigas ou
lajes) a paredes resistentes, pela grande diferença de rigidez;
• todo o raciocínio assumido no dimensionamento ao sismo deste tipo de edifícios assenta
no facto de os pisos funcionarem como diafragmas rígidos; daí que se deva evitar
grandes aberturas nos pisos, em particular junto a paredes (particularmente perniciosa é
a existência de coretes de pequena largura mas grande comprimento paralelas às paredes e
encostadas a estas), assim como pisos de forma irregular ou composta (Fig. 33);
• os centros de massa e de rigidez (ponto em torno do qual o edifício tende a rodar quando é
impulsionado por uma torção global) dos diversos pisos do edifício devem ser o mais coin-
cidentes possível, para evitar assimetrias e que determinados elementos estruturais sejam
excessivamente esforçados por torção do edifício; para tal, as paredes resistentes devem
ser colocadas de uma forma o mais simétrica possível em relação ao centro de massa
(Fig. 34); por vezes, é preferível não tirar partido de eventuais paredes resistentes se

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estas forem muito excêntricas (Fig. 35); por outro lado, para evitar a chamada estrutura em
núcleo, é preferível ter várias paredes resistentes na periferia do que um núcleo muito
rígido concentrado no centro do edifício (Fig. 35), se bem que esta última situação seja
muito frequente (quando se tira partido da única caixa de escadas e elevadores do edifício);

Fig. 33 - Formas dos pisos e aberturas nos mesmos, susceptíveis em ambos os casos de pôr em
causa o seu funcionamento como diafragmas rígidos

Fig. 34 [2] - Diversas situações de correcto posicionamento das paredes resistentes, por forma
a fazer aproximadamente coincidir o centro de massas (CM) com o centro de rigidez (CR)

• evitar o chamado “piso vazado” (“soft storey”), a qualquer altura, mas sobretudo no rés-
do-chão (onde infelizmente é mais frequente em projectos de Arquitectura); este grave
erro de concepção sísmica consiste no não tamponamento da periferia do espaço ocupado
com paredes de alvenaria (em oposição ao que se passa nos restantes pisos), criando um
ponto de fraqueza da estrutura (em termos de resistência e sobretudo de deformabilida-

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de), frequentemente agravado pelo facto de o pé direito total ser claramente superior ao
dos restantes pisos; são inúmeros os exemplos de colapsos de estruturas durante um
sismo causados por este erro de concepção (Fig. 36);

Fig. 35 [2] - Várias situações incorrectas de posicionamento das paredes resistentes em planta

Fig. 36 [2] - Edifício colapsado devido ao piso inferior vazado (Filipinas 1990)

• pelas mesmas razões, são de evitar as grandes aberturas em paredes resistentes,


sobretudo se estas ocorrerem no rés-do-chão (Fig. 37), como é frequentemente preconizado
em projectos de Arquitectura, em virtude da alteração da ocupação de espaços que
geralmente ocorre nesse piso e da necessidade de maior largueza;

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Fig. 37 - Parede resistente com grande abertura no rés-do-chão: a) situação a potenciar


mecanismo; b) situação preferível com preenchimento de alvenaria (a sombreado)

• deve-se evitar, a todo o custo, a criação dos chamados “pilares curtos”, pois conduzem a
uma grande concentração de rigidez e a uma potencial rotura por esforço transverso
(de carácter frágil); conforme o nome indica, os pilares curtos são os que têm uma
reduzida altura deformável, como por exemplo entre o topo de um muro de suporte de
betão de uma cave semi-enterrada e o piso do rés-do-chão (abertura para iluminação da
cave) ou entre o topo de uma parede de alvenaria e o piso imediatamente superior (Fig.
38), e foram os principais responsáveis pelo colapso de muitos edifícios durante o sismo;
outras situações comuns de pilares curtos incluem: a zona de apoio das escadas a meia
altura do piso (em vigas que apoiam depois nos pilares - Fig. 39a); o troço de pilares
imediatamente acima das fundações se forem preconizadas vigas de fundação ao nível do
piso térreo (Fig. 39b); para resolver estas situações, é preciso pensar na solução caso a
caso: reformulação da modelação estrutural (que por vezes indicia casos de pilares curtos
que efectivamente não existem); eliminação das vigas a meia altura; colocação das vigas
de fundações ao nível das próprias fundações, como é correcto; eliminação das faixas de
iluminação das caves semi-enterradas (ou redução da largura das mesmas e seu
posicionamento claramente afastado do enfiamento dos pilares); criação de juntas entre os
pilares e o muro de suporte (permitindo que o primeiro se deforme sem constrangimentos
durante a ocorrência do sismo); etc.;

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Fig. 38 [2] - Rotura por corte de um pilar curto (Chile 1985)

Fig. 39 - Situações que dão origem a pilares curtos: a) vigas de apoio de escadas; b) vigas de
fundação ao nível do piso térreo

• uma das regras mais importantes na concepção sísmica é a que impõe que a rotura nos
nós pilar-viga se dê preferencialmente pelas vigas e não pelos pilares; a formação
destes mecanismos locais (designados por “rótulas plásticas”) permite a dissipação de
uma parte importante da energia transmitida pelo sismo à estrutura, que assim não provoca
tantos danos no resto da mesma; verifica-se experimentalmente que essa dissipação se faz
de uma forma mais eficaz nas vigas do que nos pilares (devido sobretudo ao esforço axial
nestes); para além disso, é possível formar um número significativamente maior de rótulas
plásticas em vigas do que em pilares, antes que a estrutura se transforme num mecanismo
global e entre em colapso (Fig. 40); para se atingir este objectivo, é preciso que os pilares

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sejam robustos em relação às vigas que neles descarregam, apesar dos custos de integração
arquitectónica que isso representa; situações de vigas de grande vão (e portanto de grande
altura) apoiados em pilares esbeltos (por exemplo no canto) são totalmente inaceitáveis
(Fig. 41);

∆ ∆

Fig. 40 - Mecanismo global devido à formação de rótulas plásticas de vigas e, no fim, na base
dos pilares (à esquerda) ou só pilares (à direita)

Fig. 41 - Viga de grande vão (e altura) apoiada em pilar mal (a) ou bem (b) proporcionado

• é de evitar a todo o custo apoiar pilares em vigas (apoiar paredes, sobretudo se de vários
pisos, em vigas ou mesmo em pilares está completamente fora de causa); o sismo tem
uma componente vertical, geralmente não quantificada no projecto de edifícios correntes,
que nesse caso assumiria uma função primordial no sentido de potenciar uma rotura da
viga de apoio; nesta como noutras situações, a concepção deve evitar criar pontos de
fraqueza da estrutura ou de concentração de esforços; esta solução, por vezes

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inevitável do ponto de vista da integração arquitectónica, só é aceitável como último


recurso e se os pilares em causa tiverem uma carga muito pequena, ou seja e em termos
práticos, no último piso recuado do edifício; noutras circunstâncias, é preferível
prescindir de um pilar aumentando o vão (Fig. 42b) e/ou alterando a posição dos
restantes pilares a ter um pilar no qual descarregam vários pisos a descarregar por sua vez
numa viga (Fig. 42a), por muito robusta que esta seja;

Fig. 42 - Concepção estrutural errada (a) e mal menor (b)

• ainda que represente um problema menor que o anterior, é de evitar situações de vigas
apoiadas noutras vigas (“apoios indirectos”); esta situação será tanto mais grave quanto
maior for o vão da viga secundária (a suportada) e a reacção que a mesma transmite à viga
principal (a suportante) e vice-versa; se situações deste tipo, quase impossíveis de evitar
em pontos isolados da estrutura, se generalizarem, o funcionamento ao sismo pode tornar-
se bastante deficiente; em determinadas circunstâncias (para resolver um problema capital
de Arquitectura ou para evitar situações de pilares desligados da restante estrutura numa
das direcções), pode ser considerada uma solução aceitável (um mal menor);
• outra forma de evitar concentrações excessivas de esforços é evitar vigas de vão muito
curto (ou, o que é equivalente, pilares e/ou paredes muito próximos entre si, ≤ 2.0 m); tal
situação só é aceitável em edifícios muito baixos e de reduzida importância, nos quais os
esforços sísmicos sejam muito reduzidos; é preferível nos casos restantes alterar a
disposição dos pilares (Fig. 43) e/ou, pura e simplesmente eliminar um dos pilares e
aumentar o vão da viga;

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Fig. 43 - Situação de pilares demasiado próximos (a), resolvida com a eliminação de um deles
e o realinhamento de outro

• a rigidez da estrutura deve ser proporcionada com a intensidade da acção sísmica e as suas
dimensões em planta e, sobretudo, em altura; daí que sejam de evitar estruturas
excessivamente esbeltas (e sem capacidade resistente às acções horizontais, como se vê
com frequência em edifícios de média a grande altura sem quaisquer paredes resistentes)
ou demasiado rígidas (levando a grandes forças sísmicas equivalentes e gastos
desnecessários, como acontece por exemplo quando a Arquitectura impõe paredes de
betão armado de grande dimensões em edifícios baixos).

2.6.2.2. Paredes resistentes

Um aspecto que merece um tratamento individualizado nesta secção dedicada à concepção


anti-sísmica é a questão da utilização (ou não) de paredes resistentes. Eis algumas noções a
ter em conta:

• em primeiro lugar, é preciso confirmar se há possibilidade, em termos do projecto de


Arquitectura, de as prever; o local habitual é, como já anteriormente referido, a caixa de
escadas e elevadores (Fig. 5); no entanto, se esta apresentar muitas aberturas
desalinhadas na vertical (Fig. 44), é preferível não tirar partido da mesma e tentar criar
um conjunto de pilares alongados o mais uniformemente distribuídos da estrutura, em
ambas as direcções;

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Fig. 44 - Exemplo de parede cujas aberturas desaconselham a sua utilização como elemento
resistente ao sismo

• só se utiliza paredes resistentes se elas forem efectivamente necessárias: em zonas


fortemente sísmicas, isso acontecerá para edifícios a partir sensivelmente dos 5 pisos
elevados (pode também acontecer que se recorra a pequenas paredes para resolver
problemas de apoio de escadas ou elevadores, sem repercussões globais no funcionamento
ao sismo, ou para garantir a continuidade de determinados pórticos); por outro lado, se a
solução preconizada pela Arquitectura não permitir viabilizar nenhuma das soluções
necessárias de núcleos de paredes, paredes isoladas ou pilares alongados, haverá
necessidade de a alterar, tentando minimizar as consequências negativas dessa alteração;
• caso se utilizem paredes, elas devem ser, na medida do possível, centradas com o centro
de massa do edifício (Fig. 34); em face da enorme rigidez das paredes quando comparada
com a dos pórticos, o centro de rigidez do edifício quase coincide com o daquelas; se a
caixa de escadas for muito descentrada (por exemplo, num canto do edifício - Fig. 35a),
pode ser preferível não tirar partido dela e distribuir pequenas paredes pelo edifício; em
alternativa, poder-se-á tentar complementar a parede da caixa de escadas com outras
também de grande rigidez, criteriosamente colocadas para aproximar o centro de rigidez
do edifício do seu centro de massa (Fig. 34m).

2.6.2.3. Juntas estruturais

Um segundo aspecto que merece uma atenção especial é o das juntas estruturais. Tanto os
Engenheiros como os Arquitectos estão familiarizados com as juntas actualmente
preconizadas, de espessura que pode variar entre os 2 e os 3 cm. Estes valores são

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determinados para evitar que a expansão da estrutura devida ao aumento sazonal da


temperatura (considerado uniforme em toda a estrutura) faça com que os corpos separados
pelas juntas se toquem. No entanto, quando estas juntas são preconizadas por questões
associadas ao sismo (conforme se fez por diversas vezes ao longo do texto), o que é preciso
garantir é o seguinte: se os corpos separados pela junta vibrarem sob a acção do sismo em
oposição de fase (ou seja, em sentidos opostos) e com a amplitude máxima previsível para
essa vibração, a distância entre eles deve ser tal que nem mesmo assim se toquem. Esta
amplitude só é conhecida através de uma análise estrutural e dependerá naturalmente da zona
sísmica em que se insere o edifício, da sua altura e da rigidez e disposição em planta dos seus
elementos estruturais. No entanto, a noção que é preciso transmitir aqui é a de que a espessura
deste tipo de juntas será muito maior que a actualmente preconizada, podendo, para
edifícios de 8 a 10 pisos, atingir os 6 a 8 cm. A preconização de juntas com esta abertura,
repita-se indispensável, levanta no entanto algumas dificuldades práticas ao nível das
fachadas, das tubagens de serviços, da própria ocupação do espaço vazio, das coberturas, etc..
Quando os corpos separados pela junta são de proprietários diferentes (edifícios distintos,
provavelmente construídos em alturas diferentes), colocam-se também problemas ao nível de
saber no terreno de quem se fará a junta. Independentemente dos problemas que crie, esta
medida impõe-se, nomeadamente quando os edifícios adjacentes têm alturas muito
diferentes (Fig. 45a) e, consequentemente, deformações devidas ao sismo distintas. O
eventual choque (“pounding”) é tanto mais gravoso quanto menor a coincidência da cota dos
pavimentos dos dois edifícios (Fig. 45b).

Fig. 45 - Problemas relacionados com o sub-dimensionamento das juntas entre edifícios

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2.6.2.4. Lajes fungiformes

Para encerrar esta secção, uma palavra sobre as estruturas em laje fungiforme. Como já foi
anteriormente referido, o seu comportamento ao sismo é menos conseguido do que o das
estruturas em laje vigada. Isto deve-se ao facto de as vigas terem uma rigidez no plano
vertical substancialmente superior à das lajes entre pilares (nem toda a largura da laje colabora
neste mecanismo, daí a importância do maciçamento da faixa central e da viga de bordadura).
Desta forma, as vigas asseguram (por corte) de uma forma mais eficaz o efeito de binário que
se gera entre os pilares, o qual é responsável por uma parte importante da resistência ao sismo
e da rigidez dos pórticos (Fig. 46). De uma forma sumária, para um mesmo edifício e um pré-
dimensionamento correcto dos diversos elementos estruturais, uma estrutura em laje
fungiforme (sobretudo se for maciça) tem menor resistência e substancialmente maior
deformabilidade do que uma estrutura em laje vigada. Daí que seja fundamental em quase
todas as circunstâncias (só para edifícios de baixa altura poderá não o ser) conceber paredes
resistentes em lajes fungiformes.

Fig. 46 - Efeito de binário por esforço normal nos pilares propiciado pelo esforço transverso
nas vigas

2.6.3. Lajes

A definição do tipo de laje a utilizar nos pavimentos dos pisos é condicionada sobretudo pela
economia, ainda que factores como os vãos entre elementos verticais, o tipo de utilização e a
concepção anti-sísmica possam também ser preponderantes.

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2.6.3.1. Soluções disponíveis

São as seguintes as soluções mais frequentes em edifícios correntes:

• lajes de vigotas pré-esforçadas (Fig. 47) - é uma solução muito económica (menor peso
próprio e acção sísmica), mas só aplicável em determinadas situações: estrutura porticada
(vigada) de formas e vãos regulares; vãos até 5.0 a 5.5 m (a partir daí, a verificação
correcta do estado limite de deformação conduz a grandes espessuras e a lajes muito
pesadas e caras, sendo preferível a solução maciça); em termos sísmicos, o facto de o seu
funcionamento como diafragma rígido ser deficiente (lâmina de compressão ≤ 5.0 cm),
mesmo quando se tomam cuidados no sentido de o melhorar, faz com que a solução não
seja recomendada em zonas fortemente sísmicas a partir dos 3 a 4 pisos elevados;
outros aspectos que podem tornar menos interessante o recurso a esta solução são a
existência de muitos vãos diferentes (falta de repetitividade), de muitos terraços em
balanço (que, tal como uma faixa para o interior da habitação de largura igual ao vão em
balanço, têm de ser maciçados, perdendo-se a principal vantagem do aligeiramento, o
baixo peso próprio) ou uma escala demasiado pequena da obra;

Betão complementar (colocado


in-situ)

Vigota pré-esforçada

Abobadilha cerâmica

Fig. 47 - Representação esquemática de uma laje de vigotas pré-esforçadas

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• lajes maciças vigadas (Fig. 48) - só em estruturas com pórticos, isto é, pilares (e paredes)
+ vigas; são particularmente adequadas para lajes de formas irregulares (por o processo
construtivo não ter constrangimentos nesse aspecto), quando for de prever sobrecargas
elevadas ou cargas concentradas consideráveis (situações em que as lajes aligeiradas
não são indicadas - por exemplo, a cobertura da caixa de elevadores) ou quando
considerações de deformabilidade, vibrações ou conforto forem muito importantes; em
termos sísmicos, já foi referido ser esta porventura a melhor solução, sempre que
possível em termos de economia e funcionalidade; as soluções em pré-laje maciça (Fig.
49) são, sob este ponto de vista, equivalentes às tradicionais (betonadas in-situ), podendo
apenas ter limitações em termos do processo construtivo;

Fig. 48 - Representação esquemática de uma laje maciça vigada

“Treillis”

Betão complementar
(colocado in-situ)

Pré-laje

Fig. 49 - Representação esquemática de uma pré-laje maciça

• lajes fungiformes (aligeiradas ou maciças) (Fig. 8) - em 2.3.4., foram indicados


explicitamente os casos em que se deve recorrer a lajes fungiformes ao invés de lajes
vigadas, relacionados quer com factores económicos, quer funcionais, quer ainda com
limitações desta última solução; tratando-se de uma solução relativamente cara, é menos
económica que as lajes vigadas para vãos até cerca de 6 a 7 m e, no caso das fungiformes

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maciças, tem um domínio de aplicação (também referido em 2.3.4. em termos de vãos)


bastante limitado; para resolver o problema do punçoamento junto aos pilares, pode ter
de se recorrer a soluções como as representadas na Fig. 9, inestéticas, difíceis de executar
em obra e a levantar problemas na passagem da tubagem; um aspecto extremamente
importante relacionado com o punçoamento é a questão das coretes que, em nenhuma
circunstância, devem ser feitas encostadas a pilares (onde dão mais “jeito” à
Arquitectura) ou nas proximidades mais imediatas destes (esta regra fará tanto mais
sentido quanto maior forem as dimensões das aberturas - Fig. 50); estas e outras questões
referidas em 2.6.1. (como a das vigas de bordadura), “aborrecidas” mas nem por isso
menos prementes na concepção das estruturas em lajes fungiformes, poderão contribuir
para que estas sejam preteridas; em termos sísmicos e conforme já referido (2.6.2), são
uma opção discutível em zonas de grande intensidade sísmica (sobretudo as lajes
maciças; a título de curiosidade, o Eurocódigo 8 nem sequer é válido para estruturas em
laje fungiforme), tendo de ser complementadas com paredes resistentes; em termos de
Arquitectura, é preciso ter em conta o facto de conduzirem a pisos espessos (sobretudo as
lajes aligeiradas) e a pilares bastante robustos em relação ao habitual em lajes vigadas;
hoje em dia, assiste-se a uma certa insistência da parte de Arquitectos, do Dono da Obra
ou do Empreiteiro no sentido de “pedir” estruturas em laje fungiforme (pelas suas várias
vantagens) em edifícios de habitação e outras situações em que esta solução não é (a mais)
adequada, tanto em termos de funcionamento estrutural como de economia; nesses casos,
o Engenheiro estruturalista deve ter a função didáctica de chamar a atenção para a
inadequação da solução e tentar resolver os problemas associados às soluções
alternativas.

Fig. 50 - De a) para d), soluções progressivamente mais aconselháveis de execução de uma


corete junto a um pilar de uma laje fungiforme

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2.6.3.2. Regras gerais

Ainda que tal dependa fundamentalmente da modulação geral da estrutura, é de toda a


vantagem que os vãos de cálculo de todas as lajes do mesmo piso sejam da mesma ordem de
grandeza. De facto, há diversas desvantagens em mudar a espessura das lajes de um tramo
para o seguinte, pelo que, a haver uma grande diferença de vãos, todas as lajes serão
condicionadas pelo vão maior, o que conduzirá a um desnecessário sobre-dimensionamento
da maioria dos tramos. O aumento de peso próprio das lajes leva a um encarecimento da
superestrutura em termos de acções gravíticas, assim como sísmicas, “proporcionais” às
primeiras. Por estas razões, poderá haver vantagem em “partir” um determinado tramo de laje
de grandes vãos em dois ou mais tramos através de vigas apoiadas noutras vigas (Fig. 51).

Fig. 51 - Traçados alternativos das vigas (a tracejado) num piso de um edifício, no centro do
qual foi suprimido um pilar: a) antieconómico; b) económico (ainda que não ideal)

Ainda que as questões que se vão referir de seguida sejam normalmente do foro exclusivo do
Engenheiro de estruturas, considera-se que será útil para os restantes técnicos conhecê-las.
Assim, na idealização do funcionamento das lajes, procura-se sempre que o seu vão ou vãos
de cálculo sejam o menores possível (Fig. 52) para reduzir os deslocamentos, os esforços, as
armaduras e, consequentemente, os custos. Numa parte importante das lajes (de um modo
geral todas as pré-fabricadas e, de entre as betonadas in-situ aquelas em que o vão numa das
direcções é maior ou igual ao dobro do vão na direcção perpendicular), idealiza-se o seu
funcionamento como unidireccional, ou seja, considera-se que a totalidade das cargas
assentes na laje descarregam numa das direcções, não havendo reacção na outra direcção. Isto

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corresponde a sobrecarregar as vigas perpendiculares à primeira direcção em favor das


paralelas, uma situação pouco racional ao nível do aproveitamento dos materiais, pelo que se
recomenda que, sempre que possível, o funcionamento das lajes seja idealizado nas duas
direcções (lajes armadas em cruz - Fig. 52). Por esta razão, nas lajes pré-fabricadas
(unidireccionais por natureza) e sem forçar a existência de vãos de cálculo muito maiores que
o mínimo possível, deve-se tentar um certo equilíbrio em termos de direcções de orientação
dos diversos tramos de laje de um mesmo piso (Fig. 53). Esta regra é particularmente
importante para as soluções aligeiradas, geralmente com um funcionamento como diafragma
rígido deficiente e marcadamente diferente nas duas direcções.

Fig. 52 - Idealização do funcionamento estrutural de uma laje: a) mal; b) aceitável; c)


preferível

Fig. 53 - Orientação das lajes de vigotas pré-esforçadas de um piso: a) mais económico; b)


com melhor funcionamento ao sismo e não significativamente mais caro

2.6.4. Vigas

Em termos de concepção das vigas, não há muito a acrescentar ao que já foi dito. Em edifícios
correntes, é quase impossível fugir à forma rectangular, com a alma das vigas aparente em
relação à laje. É frequente a altura aparente das vigas representar um problema estético e/ou

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funcional (Fig. 54a). Sem pôr em causa as regras de pré-dimensionamento expressas no


capítulo 3, existem algumas formas de amenizar estes problemas: “inverter”, total ou
parcialmente, a viga (consiste em ter uma alma protuberante acima da laje - Fig. 54b); mudar
o sistema de apoio das lajes (por exemplo, se estas forem de funcionamento unidireccional,
como acontece geralmente com as soluções pré-fabricadas), por forma a aliviar as vigas
críticas; reduzir um pouco a altura à vista da alma à custa de um aumento da sua largura (Fig.
54c). Esta última medida, muito do agrado da Arquitectura, tem uma eficácia limitada, pois
enquanto que tanto a capacidade resistente como a rigidez da viga crescem linearmente com a
sua largura, são proporcionais respectivamente ao quadrado e ao cubo da sua altura. Daí que a
posição “natural” das vigas seja com uma altura maior que a largura.

Fig. 54 - Disposições alternativas de uma viga: a) com problemas de pé direito livre; b)


invertida; c) com incremento de largura

As vigas devem ser dispostas preferencialmente de forma a ligar elementos verticais e não a
descarregarem noutras vigas. É evidente que esta regra desejável terá frequentemente que
perder prioridade em relação à necessidade de alinhar as vigas com as paredes divisórias.
Quando o apoio indirecto (de uma viga noutra) for inevitável, a viga suportada não deve ter
altura superior à suportante. Por outro lado, um apoio indirecto muito perto mas fora do
pilar (Fig. 28b) é desaconselhado por introduzir um esforço de corte muito importante na viga
suportante.

Alterações bruscas da altura de uma viga no mesmo vão entre pilares poderão ser
explicadas pela resolução de problemas locais (apoios de lanços de escadas ou de corpos em
balanço - Fig. 55), mas é preciso perceber que será a menor altura que irá condicionar o

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funcionamento e a eficácia da viga, tanto para acções gravíticas como para horizontais. Aliás,
por todas as razões incluindo as arquitectónicas, há toda a vantagem em manter uma altura
constante em todas as vigas do mesmo piso.

Fig. 55 - Exemplo (académico) de viga de apoio de lanço de escada e de pala de protecção

Em paredes divisórias interiores de 0.15 m de espessura no projecto de Arquitectura, é


inviável preconizar vigas totalmente embebidas na parede. Isso corresponderia, na melhor das
hipóteses, a vigas de 0.12 m de largura no tosco, claramente insuficiente para garantir a
colocação de varões espaçados entre si e com o recobrimento necessário.

2.6.5. Pilares

Até aqui tem sido corrente ver pilares em edifícios relativamente altos com uma das
dimensões igual a 0.25 m ou mesmo 0.20 m. Esse tipo de situação, explicado pela necessidade
de “esconder” o pilar numa parede divisória, deve ser abandonado, por conduzir a elementos
excessivamente esbeltos numa das direcções e com deficiência de capacidade resistente,
sobretudo para acções horizontais. Recomenda-se assim que todos os pilares tenham como
dimensão mínima 0.30 m, com excepção dos pilares de apoio de pequenos troços de laje ou
escadas e, eventualmente, dos pilares de edifícios térreos e andares recuados no topo de
edifícios, nos quais é aceitável a dimensão de 0.20 m.

Outro aspecto importante é a forma da secção transversal dos pilares. Do ponto de vista de
resistência às acções horizontais, as secções cilíndricas ou quadradas são as menos eficientes.
Assim, é preferível ter secções rectangulares, mas a sua orientação deve ser equilibrada

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pelas duas direcções ortogonais do edifício (Fig. 56), mesmo que em termos de inserção nas
paredes divisórias possa não ser a melhor solução. Ainda em termos de orientação dos pilares,
é vantajoso que os pilares da periferia estejam orientados segundo as fachadas e empenas
(o que também é geralmente vantajoso do ponto de vista da Arquitectura), para aumentar a
rigidez do edifício à torção, podendo os pilares de canto ter a forma de L (Fig. 56).

Fig. 56 - Disposição desequilibrada (a) e equilibrada (b) dos pilares em termos de orientação

2.6.6. Paredes

Em 2.6.2., foram já fornecidas algumas indicações sobre a utilização de paredes resistentes, o


seu posicionamento em planta e a vantagem de se manterem inalteradas (e sem aberturas
importantes) em altura. No que se refere às aberturas, a sua existência é por vezes inevitável
e deve ser encarada da seguinte forma: se as suas dimensões forem tão pequenas que se possa
fazer passar entre elas faixas de 50 a 60 cm de largura inclinadas a 45º (Fig. 57) e não
interromperem as armaduras verticais colocadas nos topos das paredes, o seu efeito pode ser
considerado desprezável; no caso contrário (por exemplo na prumada das portas de acesso da
caixa de escadas aos apartamentos, muitas vezes coincidente com o espaço entre a caixa de
escadas e a de elevadores), dever-se-ão criar lintéis de ligação (Fig. 58) entre os dois troços de
parede, aproveitando a diferença entre o pé direito total e a altura da abertura. Esta última
medida corresponde a “acoplar” as paredes o que, conjugado com uma fundação comum e
eficiente, melhora significativamente a rigidez das paredes para acções horizontais.

Em relação à espessura das paredes, ela deva ser proporcionada à sua extensão em planta, ou
seja, não se deve ter paredes de vários metros de comprimento com 0.15 ou 0.20 m de
espessura, como é frequente ver-se em projectos de Arquitectura. Aqui, assim como nas vigas

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e pilares, é preciso que seja tido explicitamente em consideração a espessura dos


revestimentos, susceptível de aumentar 3 a 5 cm às dimensões das peças em tosco.

Fig. 57 - Aberturas aceitáveis numa parede resistente

Fig. 58 - Lintel entre a caixa de escadas e a de elevadores

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3. PRÉ-DIMENSIONAMENTO

Este capítulo pretende fornecer algumas regras muito simplificadas para pré-dimensionar os
elemento estruturais mais importantes dos edifícios correntes. O pré-dimensionamento não
tem como função fornecer as dimensões definitivas dos elementos estruturais, já que tal só
é possível após o dimensionamento rigoroso de toda a estrutura realizado pelo Engenheiro
estruturalista na elaboração do projecto de execução. O que se pretende é obter dimensões
aproximadas desses mesmo elementos que, a serem alteradas, sê-lo-ão apenas em pequena
escala, permitindo portanto a todos os intervenientes no processo de concepção do edifício,
com ênfase no Arquitecto, tomar todas as decisões que possam ser afectadas pela estrutura.

O capítulo está organizado em função dos diversos elementos estruturais (lajes, vigas,
pilares, paredes, contenções periféricas e fundações). No entanto, para se perceber os
conceitos apresentados, será necessário fazer uma pequena introdução aos materiais
estruturais (betão e aço) e às acções (permanentes e variáveis).

3.1. MATERIAIS ESTRUTURAIS

O betão armado e/ou pré-esforçado é um material compósito em que se tira partido do


excelente funcionamento do betão à compressão e se compensa o seu fraco funcionamento à
tracção com elementos em aço (varões ou malha electrossoldada de armadura ordinária, ou
varões, fios, cordões ou cabos de armadura de alta resistência) (Fig. 59). Em Portugal, é o
Regulamento de Estruturas de Betão Armado e Pré-esforçado (REBAP) [5] que fornece as
directivas da aplicação estrutural deste material. Em breve, será substituído pelo Eurocódigo
2 [6] no projecto de estruturas de betão.

Fig. 59 - Funcionamento de uma peça de betão armado à flexão

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3.1.1. Betão

O betão estrutural é descrito pela sua classe que consiste na letra B seguida do valor
característico mínimo (em MPa) da tensão de rotura por compressão do betão em provetes
cúbicos com 20 cm de aresta (por exemplo, B25). No EC2, as classes são definidas pela letra
C seguida da mesma grandeza obtida de duas formas: em cilindros de 15 cm de diâmetro e 30
cm de altura e em cubos de 15 cm de aresta (por exemplo, C20/25).

Para se entender esta noção de valor característico, é preciso compreender que a resistência de
um material não é uma grandeza determinística mas sim probabilística, à qual está
associada uma função densidade de probabilidade, f(r), supostamente normal ou de Gauss
(Fig. 60). Haverá um valor médio Rm e, abaixo deste, um valor que só não será ultrapassado
em 5 % dos casos (quantilho de 5 %), o valor característico mínimo Rk,mín. Este é ainda
dividido por um factor de segurança (igual a 1.5 para o betão e a 1.15 para o aço), dando
origem ao chamado valor de cálculo Rd.

Fig. 60 - Função densidade de probabilidade da resistência dos materiais

Dentro desta filosofia, obteve-se uma série de valores característicos e de cálculo de grandezas
mecânicas para as várias classes do betão, que se apresentam no Quadro 1.

Subjacente a todo o processo de dimensionamento das peças de betão armado, estão as


relações constitutivas dos materiais betão e aço, ou seja, as relações tensões-extensões
assumidas no cálculo. Estas correspondem necessariamente a uma simplificação conservativa
da realidade (Fig. 61).

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Quadro 1 [5] - Classes do betão e algumas características associadas


REBAP B15 B20 B25 B30 B35 B40 B45 B50 B55
EC2 C12/15 C16/20 C20/25 C25/30 C30/37 C35/45 C40/50 C45/55 C50/60
fck,cubo[MPa] 15.0 20.0 25.0 30.0 35.0 40.0 45.0 50.0 55.0
fck [MPa] 12.0 16.0 20.0 25.0 30.0 35.0 40.0 45.0 50.0
fcd [MPa] 8.0 10.7 13.3 16.7 20.0 23.3 26.7 30.0 33.3
fctd [MPa] 0.80 0.93 1.07 1.20 1.33 1.47 1.60 1.73 1.87
Ec,28 [GPa] 26.0 27.5 29.0 30.5 32.0 33.5 35.0 36.0 37.0
τ1 [MPa] 0.50 0.60 0.65 0.75 0.85 0.90 1.00 1.10 1.15
fck,cubo - valor característico da tensão de rotura do betão à compressão em cubos de 20 cm de aresta;
fck - valor característico da tensão de rotura do betão à compressão em cilindros de 15 cm de diâmetro e 30 cm de
altura;
fcd - valor de cálculo da tensão de rotura do betão à compressão;
fctd - valor de cálculo da tensão de rotura do betão à tracção;
Ec,28 - módulo de elasticidade do betão aos 28 dias de idade;
τ1 - tensão relacionada com o valor de cálculo do esforço transverso resistente do betão.

Fig. 61 [5] - Relações tensões-extensões de cálculo para o betão

Em edifícios correntes, as classes mais utilizadas são o B25 e, cada vez mais, o B30.

3.1.1. Aço

Em termos de tipos de aço, tem-se fundamentalmente as armaduras ordinárias e as de pré-


esforço. As características destas, substancialmente superiores às das primeiras, não são no
entanto de molde a afectar o pré-dimensionamento, pelo que não se lhes referirá mais aqui.
Quanto às armaduras ordinárias, sob a forma de varões redondos ou redes electrossoldadas,

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podem ser lisas ou nervuradas, estando as primeiras praticamente em completo desuso. As


classes de aço das armaduras ordinárias são, no REBAP, descritas pela letra A seguida pelo
valor característico mínimo (em MPa) da tensão de cedência por tracção (por compressão é
em geral considerada igual) do aço. No EC2, as classes são definidas da mesma forma sendo a
letra A substituída pela letra S.

O Quadro 2 apresenta uma séria de valores característicos e de cálculo de grandezas


mecânicas para as várias classes de aço das armaduras ordinárias.

Quadro 2 [4] - Classes do aço das armaduras ordinárias e algumas características associadas
REBAP A235 A400 A500
EC2 S235 S400 S500
fsyk [MPa] 235 400 500
fsuk [MPa] 360 460 550
fsyd [MPa] 204 348 435
Es [GPa] 200 200 200
fsyk - valor característico da tensão de cedência do aço das armaduras ordinárias à tracção;
fsuk - valor característico da tensão de rotura do aço das armaduras ordinárias à tracção;
fsyk - valor de cálculo da tensão de cedência (ou da tensão limite convencional de proporcionalidade a 0.2 %) do
aço das armaduras ordinárias à tracção;
Es - módulo de elasticidade do aço.

As relações tensões-extensões convencionais de cálculo do aço das armaduras ordinárias são


apresentadas na Fig. 62.

Fig. 62 [5] - Relações tensões-extensões de cálculo para o aço das armaduras ordinárias

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Em edifícios correntes, a classe de aço mais utilizada é ainda a A400 mas com tendência
para passar a ser a A500 (quase com o mesmo preço mas permitindo diminuir a taxa de
armadura), estando o aço A235 praticamente em desuso.

3.2. ACÇÕES DE CÁLCULO

Para se dimensionar uma estrutura, é preciso conhecer as acções às quais previsivelmente esta
irá estar sujeita durante a sua vida útil. Tal como a resistência dos materiais, estas acções têm
um carácter probabilístico, estando-lhes associada uma função densidade de
probabilidade, f(s), também normal de Gauss (Fig. 63), um valor médio Sm, um valor
característico máximo Sk,máx, superior ao primeiro, o qual só será ultrapassado em 5 % dos
casos (quantilho de 95 %) e, que multiplicado por um factor de segurança γ, função do tipo
de acção, fornecerá um valor de cálculo Sd. Este factor γg será, para as acções permanentes,
normalmente igual a 1.5 (pode ser reduzido para 1.35 quando houver muito rigor na
quantificação da acção), excepto nas situações em que os seus efeitos são favoráveis em que o
factor passa a 1.0. Para as acções variáveis, o factor γq será geralmente igual a 1.5, sendo que,
quando os efeitos das acções são favoráveis, elas não devem ser consideradas (são anuladas).
A acção sísmica é um caso particular com γE = 1.5 no RSA (mas igual a 1.0 no EC1).

Fig. 63 - Função densidade de probabilidade das acções que actuam uma estrutura

As diversas acções, de carácter completamente diferente, poderão ou não ocorrer em


simultâneo, mas não em geral todas com o seu valor máximo. Esta criação de cenários

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possíveis é feita através das chamadas combinações de acções, em que uma delas, chamada
de acção variável de base, ocorrerá com a sua máxima intensidade (majorada pelo factor de
segurança referido acima) e as restantes com intensidades menores (os chamados valores
reduzidos, obtidos através dos coeficientes de combinação ψ0, ψ1 e ψ2, fornecidos mais
adiante para cada tipo de acção). Os efeitos (negativos) destas acções combinadas, sob a
forma de esforços, deslocamentos ou qualquer outra grandeza, são comparados com valores
limite das grandezas correspondentes, associados à resistência dos materiais ou à
funcionalidade da construção (flechas, largura de fendas ou outras).

3.2.1. Verificação da segurança

A verificação da segurança consiste em garantir que os primeiros são iguais ou inferiores


aos segundos: Nas verificações que têm que ver com resistência, fadiga ou perda de equilíbrio
(estados limite últimos), as combinações de acções utilizadas são as fundamentais, enquanto
que, nas que têm a ver com a fendilhação, as deformações e a durabilidade (estados limite de
utilização), são utilizadas as combinações raras, as frequentes e as quase-permanentes
(consoante a grandeza que se pretende limitar e a agressividade do ambiente).

- 1) Combinações fundamentais:

Sd = γg x SG + γq x [SQ + Σ ψ0j x SQj]

ou Sd = 1.0 x SG + γE x SE + Σ ψ2j,sismo x SQj


em que:
Sd - valor de cálculo do efeito actuante;
SG - valor característico do efeito devido às acções
permanentes;
SQ - valor característico do efeito devido à acção
variável de base;
SQj - valor característico do efeito devido às restantes
acções variáveis
SE - valor característico do efeito devido à acção
sísmica;
ψ0 = habitação: 0.4 (art.º 35 do RSA)
escritórios e lojas: 0.7
terraços e coberturas em telhado: 0.0
temperatura: 0.6
vento: 0.4

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sismo: 0.0
ψ2,sismo = habitação: 0.2 (art.º 35 do RSA)
escritórios e lojas: 0.4
terraços e coberturas em telhado: 0.0
temperatura: 0.3
vento: 0.0

- 2) Combinações quase-permanentes:

Sqp = 1.0 x SG + Σ ψ2j x SQj


em que:
Sqp - valor quase-permanente do efeito actuante;
ψ2 = habitação: 0.2 (art.º 35 do RSA)
escritórios e lojas: 0.4
terraços e coberturas em telhado: 0.0
temperatura: 0.3
vento: 0.0
sismo: 0.0

- 3) Combinações frequentes:

Sf = 1.0 x SG + ψ1 x SQ + Σ ψ2j x SQj


em que:
Sf - valor frequente do efeito actuante;
ψ1 = habitação: 0.3 (art.º 35 do RSA)
escritórios e lojas: 0.6
terraços e coberturas em telhado: 0.0
temperatura: 0.5
vento: 0.2
sismo: 0.0

- 4) Combinações raras:

Sr = 1.0 x SG + 1.0 x SQ + Σ ψ1j x SQj


em que:
Sr - valor raro do efeito actuante.

Todas estas regras se encontram definidas no Regulamento de Segurança e Acções para


Estruturas de Edifícios e Pontes (RSA), que será substituído, ainda que provavelmente não a
título imediato, pelo Eurocódigo 1 [7].

Não obstante as noções apresentadas sejam provavelmente insuficientes para permitir a


percepção adequada de toda esta filosofia de segurança, não é possível, no âmbito desta

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cadeira, estender mais a sua apresentação, pelo que se passa à descrição muito simplificada
das acções de cálculo.

3.2.2. Acções permanentes

As acções permanentes são sobretudo de carácter gravítico (peso dos materiais estruturais e
das paredes divisórias) ou relacionados com os impulsos das terras e o pré-esforço.

No que se refere ao peso próprio da estrutura, interessa saber que, não obstante todos os
materiais tenham alguma variação de peso específico, se pode adoptar para efeitos de cálculo
que o betão (simples) pesa 24 kN/m3, o aço 77 kN/m3 e o betão armado e/ou pré-esforçado
25 kN/m3 (valor médio, já que depende da taxa de armadura).

3.2.2.1. Elementos estruturais maciços

Assim, para elementos maciços (Fig. 64), o peso de uma laje de espessura h1 é igual a 25 h1
(por m2 em planta), passando para 25 h1 / cos α se a laje tiver uma inclinação de α com a
horizontal. Uma viga de largura b2 e altura total h2 pesará 25 b2 h2 (por m de comprimento) ou
apenas 25 b2 (h2 - h1) (peso da alma na eventualidade de o peso da laje já ter sido
considerado). Um pilar cuja secção transversal meça b3 x h3 pesará 25 b3 h3 (por m de altura).
Uma parede de secção transversal de área Ac pesará 25 Ac (também por m de altura). Estas
regras são extensíveis a todas as soluções de lajes maciças, como a algumas lajes fungiformes
e algumas pré-lajes.

Fig. 64 - Determinação do peso próprio de diversos elementos estruturais maciços: a) laje; b)


viga; c) pilar

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Quanto às escadas, aplica-se o que foi referido acima para lajes maciças inclinadas (nos
lanços) ou horizontais (nos patins), sendo os degraus contabilizados da seguinte forma (Fig.
65): se for h a altura do seu espelho (obtida dividindo o pé direito total pelo número de
degraus indicado no projecto de Arquitectura), considera-se que esse acréscimo de espessura é
uniformemente distribuído no lanço com um valor médio de h/2.

Fig. 65 - Determinação do peso próprio de escadas

Exemplo de aplicação 1

Suponha-se um edifício (Fig. 66) de 5 pisos elevados (o último dos quais em terraço
acessível) e sem caves, destinado a habitação, com pé direito total de 3.00 m em todos os
pisos (o centro de gravidade das fundações directas está a 1 m de profundidade - Fig. 67), com
20.0 x 25.0 m2 em planta, uma laje maciça (L1 a L5) de 0.15 m de espessura, uma malha de
pilares (P1 a P32) de 0.30 x 0.40 m2 afastados entre si de 4.00 m numa das direcções e de 5.00
m na outra, ligados entre si por vigas (V1 a V12) de 0.25 x 0.50 m2, dois núcleos de paredes
resistentes (N1 e N2) de 0.20 m de espessura e área da secção transversal de 1.3 m2 e 1.8 m2,
respectivamente, ligados por um lintéis Lt com 0.20 x 0.90 m2, um vazio na laje para caixa de
elevadores com 3.75 x 1.20 m2, umas escadas em laje maciça (E1) com 0.15 m de espessura
(tanto nos lanços de 1.20 m de largura como nos patins, de 1.00 m de largura) e 16 degraus
por piso com 18.75 cm de espelho e 0.25 m de cobertor. Pretende-se determinar o peso
próprio da estrutura de um piso corrente e do último piso.

Em termos de lajes maciças, o seu peso próprio é igual a 0.15 x 25 = 3.75 kN/m2 e o do piso
corrente 3.75 x (20.0 x 25.0 - 1.20 x 3.75 - 2 x 1.20 x 4.00) = 1822 kN. No último piso, este
valor deveria ser ligeiramente ajustado para ter em conta a laje da casa dos elevadores,

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desprezável para efeitos de pré-dimensionamento. Haveria ainda que somar a laje do tecto das
caixas de elevadores de escadas (por hipótese com 0.15 m de espessura e com 4.0 x 5.0 m2 em
planta), cujo peso é igual a 3.75 x 4.0 x 5.0 = 75 kN.

Fig. 66 - Planta estrutural do piso corrente do edifício de habitação

Fig. 67 - Representação esquemática de um dos pórticos segundo x

As escadas pesam nos patins 3.75 kN/m2, por terem a mesma espessura das lajes dos pisos, e

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nos lanços, de inclinação tal que cos α = 0.25 / 0.252 + 0.18752 = 0.80, 25 x (0.15 / 0.80 +
0.1875 /2) ≈ 7.0 kN/m2. Daqui resulta que, para cada piso corrente, a escada pesa 3.75 x 2 x
2.40 x 1.00 + 7.0 x 2 x 1.20 x 2.00 = 52 kN, o que corresponde a meia altura para baixo e
meia altura para cima do piso em análise. No último piso, este valor passa a 3.75 x (2.40 x
1.00) x (1 + ½) + 7.0 x 1.20 x 2.00 = 30 kN.

Os septos das vigas e lintéis pesam, respectivamente, 25 x 0.25 x (0.50 - 0.15) = 2.19 kN/m e
25 x 0.20 x (0.90 - 0.15) = 3.75 kN/m, totalizando, tanto nos pisos correntes como no último,
2.19 x (6 x 25.0 + 6 x 20.0 - 2 x 5.0 - 2 x 4.0 - (32 - 16 / 4 - 4 / 2) x (0.30 + 0.40) - 4 x 0.20) +
3.75 x 2 x 1.25 = 519 kN. Este valor corresponde a um acréscimo em relação ao peso da laje
de 519 / (20.0 x 25.0) ≈ 1.00 kN/m2, que corresponde a um limite superior desse mesmo
acréscimo nos edifícios, que se cifra em geral entre 0.50 e 1.00 kN/m2.

O acréscimo unitário de peso em relação aos pilares e núcleos N1 e N2 é, respectivamente, de


25 x 0.30 x 0.40 = 3.00 kN/m, 25 x 1.3 = 32.5 kN/m e 25 x 1.8 = 45.0 kN/m. Nos pisos
correntes, este acréscimo (correspondente a meia altura para baixo e meia altura para cima do
piso em análise) totaliza 32 x 3.00 x (3.00 - 0.50) + (32.5 + 45.0) x (3.00 - 0.15) = 461 kN, ou
seja, 461 / (20.0 x 25.0) = 0.92 kN/m2 de implantação, dentro do intervalo normal neste tipo
de edifícios que vai de 0.50 a 1.00 kN/m2. No último piso, este s valores passam a cerca de
metade (230 kN), havendo ainda a acrescentar o peso dos pilaretes de suporte da laje do tecto
das caixas de elevadores e de escadas, desprezável num contexto de pré-dimensionamento.

A superestrutura pesa então (1822 + 52 + 519 + 461) = 2854 kN, nos pisos correntes, e (1822
+ 75 + 30 + 519 + 230) = 2676 kN, no último piso, ou seja, respectivamente, 5.70 e 5.35
kN/m2 de implantação, valores correntes em estruturas de lajes maciças vigadas de pequeno a
médio vão.

3.2.2.2. Elementos estruturais aligeirados

Nas soluções de lajes aligeiradas (nas estruturas correntes, o único tipo de elemento
estrutural aligeirado), betonadas in-situ (as fungiformes) ou não (as parcial ou totalmente pré-

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fabricadas: vigotas pré-esforçadas, pranchas vazadas ou outras), só com recurso a tabelas


fornecidas pelo fornecedor (Fig. 68) é possível conhecer com algum rigor o seu peso
próprio. Este poderá ser estimado com base numa percentagem que uma laje maciça com a
mesma espessura teria. Esta percentagem aumenta com a espessura da lâmina de compressão
betonada in-situ (mínimo de 3 a 5 cm no caso das lajes de vigotas pré-esforçadas,
recomendando-se o último valor; de 5 cm para cima no caso das lajes fungiformes aligeiradas,
recomendando-se um valor de pelo menos 7.5 cm para garantir um bom recobrimento das
armaduras superiores) e com o número de vigotas colocadas lado a lado entre elementos de
aligeiramento (nesse tipo de pavimento) e diminui com a espessura total da solução aligeirada
“h” e com o espaçamento entre nervuras (nas lajes fungiformes) ou entre vigotas “s”.

Fig. 68 - Características de uma laje fungiforme aligeirada de moldes recuperáveis

A título meramente exemplificativo, para um determinado fabricante de lajes de vigotas pré-


esforçadas, para uma espessura mínima do betão colocado in-situ fixa de 5 cm e sem
duplicação ou triplicação de vigotas, a percentagem vai de 58 para h = 14 cm e s = 60 cm a 45
para h = 30 cm e s = 52 cm, passando por 51 para h= 20 cm e s = 60 cm.

Também a título de exemplo, para um determinado fornecedor de moldes recuperáveis em


polipropileno injectado (conhecidos na gíria por “cocos”), apresenta-se a Fig. 68 na qual é

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fornecido, entre outras características, o peso próprio das lajes fungiformes construídas com
base nesses moldes. Verifica-se, para um espaçamento s = 90 cm em ambas as direcções e
uma espessura da lâmina de compressão de 7.5 cm, percentagens entre 52 para h = 30 cm a 49
para h = 50 cm.

Ainda no campo das lajes fungiformes aligeiradas, são cada vez mais populares as soluções de
moldes perdidos (chamados de blocos ou “blocões”). Entre outras, existem as soluções de
blocos maciços em betão autoclavado (Fig. 69, à esquerda), vazados (e tripartidos na vertical)
em betão com argila expandida (Fig. 69, à direita), vazados (e tripartidos na vertical) em betão
vibrado, leve ou não (Fig. 70, à esquerda), vazados (e bipartidos na horizontal) em betão
vibrado (Fig. 70, à direita) e vazados e nervurados interiormente em poliestireno expandido
(Fig. 71, à esquerda) ou cartão (Fig. 71, à direita), estas duas últimas opções pouco
recomendáveis. Nessas situações, torna-se fácil determinar qual o volume de betão colocado
in-situ retirando-lhe o volume dos moldes, multiplicar o primeiro por 25 kN/m3 e somar-lhe o
peso dos moldes (que vem tabelado).

Fig. 69 - Blocos maciços em betão autoclavado, à esquerda, e vazados (e tripartidos na


vertical) em betão com argila expandida, à direita

Foi descrito para lajes de vigotas pré-esforçadas e para lajes fungiformes aligeiradas como
determinar o seu peso próprio nas zonas não maciçadas. No entanto, por exemplo para as
lajes de vigotas, é preciso maciçar determinadas zonas (Fig. 72): junto às consolas de um
comprimento da ordem de grandeza do vão destas; junto às vigas de apoio, em cerca de 40
cm. Na Fig. 64, é possível visualizar o efeito que esse maciçamento tem em termos da área em
planta, que se repercute em termos do peso próprio da laje.

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Fig. 70 - Blocos vazados (e tripartidos na vertical) em betão vibrado, à esquerda, e vazados (e


bipartidos na horizontal) em betão vibrado, à direita

Fig. 71 - Blocos vazados e nervurados interiormente em poliestireno expandido, à esquerda ou


cartão, à direita

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Armadura principal superior (prolongada


para o interior do pavimento de um com-
primento idêntico ao do vão da consola)

Deve ser maciçada


para cada lado do
apoio uma largura
de cerca de 40 cm

Deve ser maciçada para o interior do


pavimento uma largura de pavimento
idêntica ao vão da consola

Fig. 72 - Situações em que determinadas zonas das lajes de vigotas pré-esforçadas devem ser
maciçadas

Fig. 73 - Zonas maciçadas de uma laje de vigotas pré-esforçadas

Exemplo de aplicação 2

Suponha-se então uma laje que na zona de vigotas (fora das zonas em balanço) tem um vão
médio (nas duas direcções) de 3.50 m e tem um peso próprio igual a 55 % da laje maciça com
a mesma espessura e que as zonas em balanço representam cerca de 10 % da área de vigotas.
Então, as zonas maciçadas representam cerca de 10 % + (3.52 - 3.12) / 3.52 x 100 % ≈ 30 % da
área de vigotas, pelo que o peso próprio médio (que para todos os efeitos práticos pode ser
considerado como uniformemente distribuído na zona de vigotas) passa de 55 % para (55 % x
70 % + 100 % x 30 %) ≈ 70 % do peso da laje maciça com a mesma espessura total, ou seja,
dá-se um aumento de cerca de 25 % em relação ao peso teórico da zona aligeirada sem
quaisquer maciçamentos, valor este que se pode adoptar em todos os casos correntes em
termos de pré-dimensionamento.

Em 2.6.1. foram descritas as situações em que se torna necessário maciçar as lajes

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fungiformes aligeiradas, sendo essas zonas representadas esquematicamente na Fig. 27. A


forma correcta de ter em conta este efeito corresponde a determinar a área maciçada e fazer os
cálculos para alterar o valor médio do peso próprio da laje.

Exemplo de aplicação 3

Suponha-se uma laje executada com os moldes recuperáveis a que a Fig. 68 diz respeito. A
laje tem, por hipótese, h = 40 cm, uma lâmina de compressão de 7.5 cm, vãos médios (nas
duas direcções) de 7.5 m, faixas centrais maciçadas ligando os pilares com 0.30 m de largura,
zonas maciçadas junto aos pilares correspondentes à retirada de 16 moldes e não tem capitéis
protuberantes da laje. Recorrendo à tabela da Fig. 68, o peso da zona aligeirada é de 4.99 ≈ 5
kN/m2, sendo na zona maciçada de 10 kN/m2. Fazendo as contas para um módulo de 7.5 x 7.5
m2 centrado com um pilar, a zona maciçada representa (2 x 7.50 x 0.30 + 16 x 0.90 x 0.90) /
7.52 x 100 % ≈ 30 %, pelo que o peso próprio médio passa para (5 x 70 % + 10 x 30 %) ≈ 6.5
kN/m2, o que corresponde a um incremento de 30 % em relação ao peso indicado na tabela.
Em termos de pré-dimensionamento, é normal multiplicar por 1.25 o valor tabelado.

Exemplo de aplicação 4

Suponha-se agora que, na mesma estrutura do exemplo anterior, se recorria na execução das
lajes aos blocos de argila expandida representados na Fig. 70, à esquerda, com dimensões em
planta de 75 cm por 75 cm e uma altura de 30 cm, um peso unitário de 0.81 kN (valor
tabelado), nervuras de 15 cm de largura (de onde resulta uma modulação idêntica à do
exemplo anterior, ou seja, de 0.90 x 0.90 m2 e, consequentemente, zonas maciçadas também
idênticas) e uma lâmina de compressão de espessura 7.5 cm (e portanto uma espessura total de
37.5 cm). O peso próprio da zona aligeirada pode ser obtido das tabelas ou fazendo
directamente o cálculo: [(0.90 x 0.90 x 0.375 - 0.75 x 0.75 x 0.30) x 25 + 0.81] / 0.902 = 5.15
kN/m2. Quanto ao peso na zona maciçada, ele vale 0.375 x 25 = 9.38 kN/m2. A percentagem
de zona maciçada mantém-se, de onde resulta que o peso próprio médio passa para (5.15 x 70
% + 9.38 x 30 %) ≈ 6.4 kN/m2, o que corresponde a um incremento de 24 % em relação ao
peso indicado na tabela.

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Estes vários exemplos de aplicação têm duas funções: chamar a atenção para a forma
correcta de contabilizar o peso deste tipo de lajes e mostrar que os ganhos ao nível de
peso próprio não são tão importantes quanto inicialmente seria de pensar (sobretudo se
se tiver em conta os maciçamentos adicionais que é geralmente necessário fazer em zonas
irregulares e junto a coretes e outras aberturas / singularidades).

3.2.2.3. Revestimentos de pisos e tectos

Existe uma infinidade de possibilidades de revestimentos na construção. Como tal, não faz
sentido estar aqui a descrever casos concretos. No entanto, torna-se fundamental estimar o
valor do peso do revestimento. Para tal, é preciso conhecer a sua constituição e o peso
específico médio dos diversos materiais que o constituem [8] [9]:

• gesso - 13 kN/m3;
• argila expandida - 6 kN/m3;
• argamassa de cimento; reboco - 21 kN/m3;
• argamassa bastarda (cal e cimento) - 19 kN/m3;
• argamassa de gesso - 12 kN/m3;
• betão de argila expandida - 12 kN/m3;
• betão com granulado de cortiça - 10 kN/m3;
• betão celular autoclavado - 5.5 kN/m3;
• betonilha - 20 kN/m3;
• areia - 16 (seca) a 18 (húmida) kN/m3;
• brita - 15 kN/m3;
• calhau rolado - 17 kN/m3;
• ardósia; mármore - 27 kN/m3;
• calcário compacto; granito - 26 kN/m3;
• azulejos - 16 kN/m3;
• vidro - 25 kN/m3;
• madeiras resinosas - 5 a 6 kN/m3;
• madeiras folhosas europeias - 5 a 8.7 kN/m3;

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• aço - 78 kN/m3;
• alumínio - 27 kN/m3;
• cortiça - 2.4 kN/m3;
• terra húmida - 20 kN/m3;
• poliuretano; poliestireno extrudido - 0.30 kN/m3.

Apresenta-se ainda alguns pesos de revestimentos correntes por m2 de área em planta [8] [9]:

• ladrilhos (inclui argamassa de assentamento) - 0.70 (cerâmicos) a 0.90 (hidráulicos) kN/m2;


• pedra de 3 cm (inclui argamassa de assentamento) - 1.20 kN/m2;
• tacos de madeira assentes com cola - 0.20 kN/m2;
• alcatifa, até 3 cm de camada de regularização e estuque ou tecto falso - 1.00 kN/m2;
• tacos, alcatifa ou mosaicos cerâmicos, até 5 cm de camada de regularização e estuque ou
tecto falso - 1.50 kN/m2;
• pedra até 3 cm ou mosaicos hidráulicos, até 5 cm de camada de regularização e estuque ou
tecto falso - 2.00 kN/m2;
• forro de tecto em madeira - 0.20 kN/m2;
• estuque - 0.20 (sobre placas de estafe, inclui esboço) a 0.40 (sobre fasquiado, inclui reboco
e esboço) kN/m2;
• tectos falsos e tubagem corrente - 0.30 kN/m2;
• telha de barro vermelho - 0.45 (Marselha) a 1.20 (1/2 cana, tipo mouriscado) kN/m2;
• telha de cimento - 0.40 kN/m2;
• ripado de madeira - 0.20 kN/m2;
• plaquetas de ardósia - 0.35 kN/m2;
• chapa de fibrocimento - 0.16 kN/m2;
• telas e emulsão betuminosa - 0.05 kN/m2;
• feltros, betume e seixo miúdo - 0.05 kN/m2;
• cobertura de telha apoiada em ripado - 1.00 (de madeira) a 1.50 (de betão) kN/m2;
• cobertura de telha com ripado, apoiado em muretes de alvenaria (Fig. 74) - 2. 00 a 2.50
kN/m2;
• cobertura de chapas de fibrocimento apoiadas em muretes de alvenaria - 1.00 kN/m2.

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Ripas de betão armado

Madres (vigotas pré-esforçadas)

Muretes de alvenaria de tijolo

Laje de esteira

Fig. 74 - Solução corrente de cobertura de desvão não acessível

Exemplo de aplicação 5

Esta lista, longe de exaustiva, permite estimar o peso dos revestimentos mais correntes. Seja,
exemplo, um terraço com as duas soluções alternativas apresentadas na Fig. 75 (terraço não
acessível, à esquerda, e acessível, à direita).

Fig. 75 - Sistemas de cobertura em terraço: à esquerda, não acessível e, à direita, acessível

Em ambas as soluções, a camada de forma, em betão de argila expandida, tem uma espessura
média de 10 cm, a impermeabilização é constituída por telas e emulsão betuminosa e o

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isolamento térmico é constituído por placas de poliestireno extrudido com 3 cm de espessura.


No terraço não acessível recorre-se a calhau rolado com 5 cm de espessura, enquanto que no
acessível se recorre a um calcário compacto com 2.5 cm de espessura. O peso total do
revestimento será então: para a cobertura não acessível, 0.10 x 12 + 0.05 + 0.03 x 0.30 + 0.05
x 17 = 2.11 kN/m2; para a cobertura acessível, 0.12 x 10 + 0.05 + 0.03 x 0.30 + 0.025 x 26 =
1.91 kN/m2. Adoptando estes valores para o último piso do exemplo de aplicação 1 (Fig. 66),
respectivamente no tecto das caixas de elevadores e de escadas e na restante área (e
desprezando a área dentro das caixas de elevadores e escadas), o peso total dos revestimentos
nesse piso vale 2.11 x (4.0 x 5.0) + 1.91 x (20.0 x 25.0 - 4.0 x 5.0) = 959 kN.

Independentemente dos valores fornecidos acima, fornece-se uma lista de valores


correntemente adoptados na quantificação do peso dos revestimentos em função da
utilização prevista para o espaço:

• habitação - 1.5 a 2.0 kN/m2; adoptando o valor mais baixo do intervalo para os pisos
correntes do exemplo de aplicação 1 (Fig. 66 - em toda a extensão excepto nas áreas
comuns - escadas e patins de piso - onde se adopta 2.0 kN/m2), vem que o peso total dos
revestimentos nesses pisos vale 1.50 x (20.0 x 25.0 - 4.0 x 5.0) + 2.00 x (1.25 x 4.00 + 2 x
1.20 x 4.00) = 749 kN;
• escritórios - 1.0 a 1.5 kN/m2;
• terraços - 2.0 a 2.5 kN/m2;
• laje de esteira - 0.5kN/m2;
• cobertura aligeirada (eventualmente com muretes de alvenaria) - 1.0 a 2.5 kN/m2.

3.2.2.4. Paredes divisórias (interiores e exteriores)

As paredes divisórias representam uma percentagem significativa das cargas permanentes


dos pisos, sobretudo nos edifícios destinados a habitação. A disposição das paredes interiores
é bastante irregular e complexa e pode variar de uma forma não previsível não só na fase de
projecto mas também durante a fase de utilização do edifício. Por estas razões, torna-se
impraticável considerar de forma explícita o posicionamento dessas mesmas paredes na

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determinação dos esforços. O RSA prevê uma simplificação da consideração das paredes
interiores, considerando-as assimiláveis a uma carga permanente uniformemente distribuí-
da em todo o pavimento, com valores característicos por metro quadrado iguais a uma percen-
tagem do peso de uma faixa de parede interior com o comprimento de 1 m e com a altura igual
à altura da parede. Esta percentagem vale 40 em compartimentos destinados a utilização de
carácter privado (habitações, quartos de hotéis, quartos e pequenas enfermarias de hospitais) e
30 em compartimentos destinados a utilização de carácter colectivo sem concentração especial
(dormitórios, salas de aula, escritórios em geral, salas de tratamento em hospital) ou de média
concentração (salas de venda ao público, salas de espectáculos com cadeiras fixas, zonas
acessíveis ao público de edifícios públicos, salas de espera, restaurantes, cafés).

Em relação às paredes exteriores, estas encontram-se normalmente sobre vigas, pelo que não
consideradas no dimensionamento das lajes mas sim no das vigas, como cargas lineares. O
respectivo valor é igual ao peso de uma faixa de parede exterior com a altura igual à altura da
parede. Nas paredes com vãos (fachadas ou empenas não cegas, este valor pode ainda ser
deduzido de uma parcela igual à percentagem da área dos vãos em relação à área total das
paredes divisórias. É corrente adoptar valores para essa percentagem valores entre 25 e 40.

No Quadro 3, apresenta-se o peso de um conjunto de soluções correntes de paredes


divisórias interiores e exteriores em alvenaria, aos quais há que acrescentar as divisórias
leves amovíveis que pesam cerca de 0.50 kN/m2.

Independentemente dos valores fornecidos acima, fornece-se uma lista de valores


correntemente adoptados na quantificação do peso das paredes divisórias interiores em
função da utilização prevista para o espaço:

• habitação (em geral alvenaria de tijolos de barro vermelho) - 1.5 a 2.5 kN/m2 (tanto maior
quanto maior for o pé direito e a espessura das paredes); estes valores aumentam se se
utilizar blocos de betão normal e diminui se os blocos forem de betão leve ou autoclavado;
• escritórios ( em geral divisórias leves amovíveis) - 0.5 kN/m2; este valor passará para mais
do dobro se se utilizar paredes de 0.15 m em alvenaria de tijolo de barro vermelho.

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Quadro 3 [9] - Peso de paredes divisórias em alvenaria

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Exemplo de aplicação 6

No edifício do exemplo de aplicação 1 (Fig. 66), as divisórias interiores são paredes simples
em alvenaria de tijolo de barro vermelho, de espessura total igual a 0.15 m (tijolo de 11) ou
0.19 m (tijolo de 15), com alguma preponderância das primeiras. As empenas (orientadas
segundo y) são cegas, enquanto que nas fachadas (orientadas segundo x) a percentagem de
vãos (neste caso, apenas janelas) representa 25 % da área total das paredes entre vigas. Tanto
nas fachadas como nas empenas, recorre-se a paredes duplas em alvenaria de tijolo de barro
vermelho, de espessura total igual a 0.30 m (2 panos de tijolo de 11 e uma caleira de 4 cm).
No último piso, as paredes das caixas de elevadores e de escadas são cegas e simples com
0.19 m de espessura total, enquanto que os parapeitos em toda a periferia são também de
alvenaria de tijolo de 0.11 m com 1.00 m de altura.

A carga distribuída equivalente às paredes interiores é, nos pisos correntes (Quadro 3), 40 % x
(1.8 + 2.1) / 2 x (3.00 - (0.15 + 0.50) / 2) ≈ 2.10 kN/m2, correspondendo-lhe uma carga total
nos pisos correntes igual a 2.10 x (20.0 x 25.0 - 4.0 x 5.0) = 1008 kN. No último piso, este
valor é nulo.

Quanto às paredes exteriores dos pisos correntes, elas pesarão, nas empenas cegas (Quadro 3),
2.6 x (3.00 - 0.50) = 6.5 kN/m e, nas fachadas, 75 % x 6.5 = 4.875 kN/m. O seu peso total nos
pisos correntes é de 6.5 x 2 x 20.0 + 4.875 x 2 x 25.0 = 504 kN, ou seja, 504 / (20.0 x 25.0) ≈
1.00 kN/m2 de implantação, dentro do intervalo normal nos edifícios, que se cifra em geral
entre 0.75 e 1.50 kN/m2 (tanto maior quanto maior a espessura das paredes e o pé direito e
mais pequena for a área de implantação, em relação ao perímetro exterior). No último piso, as
paredes exteriores pesarão, nas caixas de escadas e de elevadores, 2.1 x (3.00 - 0.50) = 5.25
kN/m e, na periferia, 1.4 x 1.00 = 1.4 kN/m, correspondendo-lhes um peso total de 5.25 x (2 x
4.0 + 2 x 5.0) + 1.4 x (2 x 20.0 + 2 x 25.0) = 221 kN.

A carga permanente total vale então, para os pisos correntes, 2854 + 749 + 1008 + 504 = 5115
kN e, no último piso, 2676 + 959 + 221 = 3856 kN, o que corresponde respectivamente a
5115 / (20.0 x 25.0) ≈ 10.25 kN/m2 e a 3856 / (20.0 x 25.0) ≈ 7.70 kN/m2. Estes valores
integram-se bem nos intervalos de valores correntes que, para pisos correntes, são:

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• laje maciça vigada - 8.0 a 12.0 kN/m2;


• laje aligeirada vigada - 6.5 a 10.0 kN/m2;
• laje maciça fungiforme - 8.5 a 12.5 kN/m2;
• laje aligeirada fungiforme - 8.0 a 13.0 kN/m2.

Para o último piso, os valores acima são reduzidos de entre 1.5 a 3.0 kN/m2.

3.2.2.5. Impulsos de terras

Impulso de terras é como se designa vulgarmente a acção dos terrenos sobre a estrutura e,
nomeadamente, as contenções periféricas da mesma. Esta acção tem um carácter
vincadamente horizontal, ainda que tenha também uma componente vertical e depende, em
termos de intensidade, direcção e tipologia de um conjunto alargado de factores: tipo de
terreno, rigidez da cortina de contenção, posição do nível freático, processo construtivo da
cortina, inclinação desta com a vertical e do tardoz do terreno com a horizontal, sobrecargas
no tardoz do terreno, etc.. Está totalmente fora do âmbito desta cadeira um aprofundamento
destes conhecimentos, ligados sobretudo à Geotecnia.

Em termos práticos, existem duas situações que podem condicionar o dimensionamento e a


geometria das contenções periféricas e, dessa forma, afectar a ocupação e funcionalidade do
espaço habitado: a fase construtiva (muito condicionante para determinados processos
construtivos, soluções estruturais e características da envolvente do edifício a construir, mas
na qual o grande e praticamente único interveniente é o Engenheiro Geotécnico) e a fase
definitiva. Em relação a esta, são de seguida fornecidas algumas indicações para os casos
mais correntes (Fig. 76).

Num edifício corrente com pisos enterrados, considera-se que as respectivas paredes de
contenção são actuadas por um diagrama de tensões horizontais cujo valor a cada cota é
directamente proporcional à altura de terra acima da mesma. O coeficiente de
proporcionalidade é o peso específico do solo γsolo (que pode ser considerado de uma forma
conservativo como igual a 20 kN/m3) multiplicado pelo coeficiente de impulso (em repouso,

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k0), que depende dos factores referidos acima mas pode ser considerado igual a 0.50 nos casos
mais correntes. Para além deste diagrama de tensões triangular, considera-se também as
paredes actuadas por um diagrama constante em altura e igual a k0 vezes o valor da
sobrecarga no tardoz (assumida como igual a 5.0 kN/m2).

Fig. 76 - Esquema das paredes de contenção de um edifício corrente e das acções a que estão
normalmente sujeitas

3.2.2.6. Pré-esforço

O pré-esforço é uma acção com carácter permanente mas não constante ao longo do tempo,
devido às chamadas perdas diferidas, devidas à fluência e à retracção do betão e à relaxação
das armaduras, que se vêm somar às perdas instantâneas, devidas à deformabilidade do
betão e às folgas nos dispositivos de amarração. É aplicado tanto em lajes (betonadas in-situ,
sob a forma de monocordões, ou pré-fabricadas, sob a forma de fios no interior de vigotas,
pranchas ou pré-lajes) como em vigas (betonadas in-situ, sob a forma de cabos em bainhas, ou
pré-fabricadas, em obra ou no estaleiro) e mesmo em pilares.

Distingue-se entre a pré-tensão (por exemplo, as vigotas pré-fabricadas) e a pós-tensão (por


exemplo, as vigas betonadas in-situ), consoante o pré-esforço é aplicado antes ou depois (ou

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em simultâneo com) da colocação da peça em carga. O pré-esforço pode ser não aderente
(por exemplo, os monocordões das lajes betonadas in-situ) ou aderente (por exemplo, os cabos
colocados nas vigas em bainhas metálicas injectadas com calda ou as vigotas pré-fabricadas).

O pré-esforço, em rigor, não é uma acção mas sim uma deformação imposta, ou seja, impõe
na estrutura uma deformação, geralmente de baixo para cima, assimilável em termos de
projecto a uma carga uniforme, também de baixo para cima, linear no caso das vigas e em
superfície no caso das lajes, a que se soma as cargas concentradas nas ancoragens (Fig. 77).
Em alternativa e como acontece, por exemplo, no caso das lajes de vigotas pré-fabricadas, o
contributo do pré-esforço pode ser considerado como um incremento da resistência
adicional, calculado caso a caso ou tabelado.

Fig. 77 - Cargas equivalentes ao pré-esforço numa viga

3.2.3. Acções variáveis

3.2.3.1. Variações de temperatura

Na generalidade dos edifícios correntes (nomeadamente naqueles em que a máxima dimensão


em planta não ultrapasse os 30 m), não é necessário ter esta acção em conta de forma explícita
no cálculo. Mesmo no caso contrário, os efeitos da temperatura não são susceptíveis de
afectar o pré-dimensionamento da estrutura. São dois os campos em que a quantificação
dos efeitos deste fenómeno, e nomeadamente as variações uniformes de temperatura de
carácter sazonal, podem ter interesse para a Arquitectura: na medida em que possam ser
afectados elementos da construção não estruturais constrangidos pela malha estrutural; na
estimativa da largura das juntas de dilatação.

Segundo o RSA (Art.º 18), as estruturas de betão armado e pré-esforçado estarão sujeitas a

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variações uniformes de temperatura de ±15 ºC, se forem não protegidas e constituídas por
elementos de pequena espessura, ou ±10 ºC, se forem protegidas (quando exista um bom
isolamento térmico dos seus elementos ou quando estão enterradas) ou constituídas por
elementos de grande espessura (menor dimensão ≥ 0.70 m). O coeficiente de dilatação
térmica do betão, do aço e, consequentemente, do betão armado é de 10 x 10-6 / ºC. As
variações diferenciais de temperatura não são geralmente tidas em conta no dimensionamento
de edifícios correntes.

Os valores reduzidos das variações uniformes de temperatura são obtidos através dos
seguintes coeficientes: ψ1 = 0.6, ψ1 = 0.5 e ψ2 = 0.3.

Exemplo de aplicação 7

Suponha-se um conjunto de edifícios em banda, de comprimento 30.0 m cada um, em que se


pretende dimensionar as juntas de dilatação entre os mesmos. Estas são obviamente
condicionadas pela temperatura máxima, que se assume ser 15 ºC superior à que ocorreu
aquando da construção. Se o centro de rigidez dos edifícios coincidir com o seu centro
geométrico, a variação de posição nas extremidades de cada edifício será de 15 x 10 x 10-6 x
30.0 / 2 = 2.25 x 10-3 m = 2.25 mm, pelo que as juntas deverão ter menos 4.5 mm. No entanto,
este valor poderá ser incrementado até, no limite, ao dobro se a rigidez estiver concentrada em
extremidades opostas de edifícios adjacentes. Em qualquer dos casos, as juntas habituais com
2 cm seriam suficientes para este efeito. No entanto, em termos sísmicos, poderiam ser
insuficientes. Assim, se os edifícios tivessem 12 pisos elevados (cerca de 36 m) e assumindo
um valor razoável de 1/800 para a deformação horizontal sob a acção do sismo, ter-se-ia no
topo daqueles uma deformação de 4.5 cm, a que corresponderia uma junta de pelo menos 9.0
cm, a que se somaria uma pequena folga.

3.2.3.2. Sobrecargas de utilização

Conforme referido em 2.2.2., associada a cada finalidade de um determinado pavimento


existe uma sobrecarga de utilização, quantificada, à semelhança das restantes acções

81
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variáveis, pelo seu valor característico.

Assim, em coberturas (RSA, Art.º 34), ter-se-á as seguintes situações tipo [1]:

• coberturas ordinárias - sobrecarga uniformemente distribuída de 0.3 kN/m2 (em plano


horizontal); para efeitos meramente locais, sobrecarga concentrada de 1.0 kN;
• terraços não acessíveis - sobrecarga uniformemente distribuída de 1.0 kN/m2;
• terraços acessíveis - sobrecarga uniformemente distribuída de 2.0 kN/m2.

Os valores reduzidos das sobrecargas nas coberturas são em geral nulos (ψ0 = ψ1 = ψ2 = 0.0).

O valor característico das sobrecargas pqk e respectivos coeficientes de combinação em


pavimentos (RSA, Art. 35) estão indicados no Quadro 4.

Quadro 4 [1] - Quantificação das sobrecargas em pavimentos


Finalidade do pavimento pqk [kN/m2] ψ0 ψ1 ψ2
utilização de carácter privado (habitações e quartos) 2.0 0.4 0.3 0.2
utilização de carácter colectivo sem concentração especial 3.0 0.7 0.6 0.4
(escritórios, salas de aulas, dormitórios)
utilização de carácter colectivo de média concentração (comércio, 4.0 0.7 0.6 0.4
salas de espectáculos com cadeiras fixas, zonas acessíveis ao
público, salas de espera, restaurantes, cafés)
utilização de carácter colectivo com possibilidade de elevada 5.0 0.4 0.3 0.2
concentração(igrejas, salões de festas, ginásios *, salas de
0.7* 0.6* 0.4*
espectáculos com cadeiras amovíveis *)
utilização de carácter colectivo com possibilidade de muito 6.0 0.4 0.3 0.2
elevada concentração (estádios e recintos desportivos)
escritórios com equipamento pesado, cozinhas de hotéis e de 4.0 0.8 0.7 0.6
restaurantes, garagens particulares para automóveis ligeiros
arquivos, oficinas de indústria ligeira, garagens públicas para 5.0 0.8 0.7 0.6
automóveis ligeiros
auto-silos de ligeiros (com algumas restrições) 3.0 0.8 0.7 0.6

Em varandas (RSA, Art.º 36), o valor característico da sobrecarga é igual ao do


compartimento contíguo (excepto numa faixa de 1 m de largura adjacente ao parapeito em que
vale 5.0 kN/m2), o mesmo se passando com os respectivos valores reduzidos.

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Em acessos (RSA, Art.º 37), o valor característico da sobrecarga é igual a 3.0 kN/m2 em
locais privados e a 5.0 kN/m2 em locais públicos. Os respectivos valores reduzidos
correspondem a coeficientes de combinação iguais aos dos compartimentos contíguos.

Exemplo de aplicação 8

No edifício do exemplo de aplicação 1 (Fig. 66), a determinação exacta das sobrecargas de


utilização dependeria da análise em pormenor do projecto de Arquitectura. Por simplificação,
adopta-se os seguintes valores: 2.00 kN/m2, na totalidade da área dos pisos correntes, à
excepção das escadas (públicas) com 5.00 kN/m2 e do patim dos pisos, em que se adoptou o
mesmo valor. A resultante das sobrecargas nestes pisos será então igual a 2.00 x (20.0 x 25.0 -
4.0 x 5.0) + 5.00 x (1.25 x 4.00 + 2 x 1.20 x 4.00) = 1033 kN. No último piso (terraço
acessível), adopta-se o valor de 2.00 kN/m2 em toda a extensão, excepto no tecto das caixas
de escadas e de elevadores (cobertura não acessível), em que se adopta 0.30 kN/m2 (e no
espaço sob esse mesmo tecto que é desprezado para efeito destes cálculos). A resultante das
sobrecargas nesse piso é igual a 2.00 x (20.0 x 25.0 - 4.0 x 5.0) + 0.30 x 4.0 x 5.0 = 966 kN.

Em termos sísmicos, interessa conhecer a resultante das cargas quase-permanentes nos


diversos pisos. Assim, nos pisos correntes, o coeficiente ψ2 vale 0.2 na zona destinada a
habitação e, por inerência, também nas escadas e patim dos pisos. No último piso, este
coeficiente é nulo, tanto no terraço como no tecto das caixas de escadas e de elevadores.
Então, a resultante das cargas quase-permanentes é igual a 5115 + 0.2 x 1033 = 5322 kN e, no
último piso, 3856 + 0.0 x 966 = 3856 kN, o que corresponde respectivamente a 5322 / (20.0 x
25.0) ≈ 10.65 kN/m2 e a 3856 / (20.0 x 25.0) ≈ 7.70 kN/m2. Estes valores integram-se bem nos
intervalos de valores correntes que, para pisos correntes, são:

• laje maciça vigada - 8.5 a 13.0 kN/m2;


• laje aligeirada vigada - 7.0 a 11.0 kN/m2;
• laje maciça fungiforme - 9.0 a 13.5 kN/m2;
• laje aligeirada fungiforme - 8.5 a 14.0 kN/m2.

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Para o último piso, os valores acima são reduzidos de entre 2.0 a 4.0 kN/m2.

3.2.3.3. Vento

Esta acção só é susceptível de ser condicionante no dimensionamento de edifícios correntes


(de betão) em Portugal, na zona sísmica D e para estruturas muito flexíveis, na zona B em
termos da quantificação do vento e em solos cuja rugosidade aerodinâmica seja do tipo II (ver
2.2.1.). Repare-se que, na combinação em que o sismo é acção variável de base, a única em
que este é considerado, o valor de combinação do vento é considerado nulo, pelo que o sismo
e o vento nunca aparecem associados numa mesma combinação. Por outro lado, não é
geralmente tida em conta no pré-dimensionamento, pelo que não será descrita em grande
detalhe.

Em 2.2.1., foi descrito o zonamento do território nacional, o que permite, com base na Fig. 3,
determinar a pressão dinâmica do vento em altura, w. Esta é multiplicada pelo coeficiente de
pressão, δp, para se obter a pressão, p, normal às superfícies sobre as quais o vento incide.
Multiplicando esta pressão pela área da superfície exposta, A, obtém-se finalmente a
resultante das pressões do vento, F. Por sua vez, o coeficiente δp para uma determinada
superfície exposta é obtido somando vectorialmente os coeficientes de pressão exterior, δpe, e
interior, δpi. Estes vêm afectados de sinal positivo ou negativo consoante correspondem
respectivamente a pressões ou sucções exercidas nas faces do elemento a que se referem. O
Quadro 5 apresenta valores de δpe para paredes (fachadas ou empenas) de edifícios. Os
coeficientes δpi valem, em edifícios em que seja pouco provável a existência de aberturas nas
fachadas durante a ocorrência de um vento intenso, -0.3 (se as quatro fachadas tiverem
permeabilidade semelhante ou se o vento for normal às duas fachadas opostas impermeáveis
sendo as outras duas permeáveis) ou +0.2 (se o vento for normal às duas fachadas opostas
permeáveis sendo as outras duas impermeáveis).

Os valores reduzidos da pressão dinâmica do vento são obtidos no caso geral através dos
seguintes coeficientes: ψ1 = 0.4, ψ1 = 0.2 e ψ2 = 0.0.

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Quadro 5 [1] - Coeficientes de pressão exterior δpe para paredes

Exemplo de aplicação 9

Voltando ao edifício do exemplo de aplicação 1 (Fig. 66), considerado isolado, se o vento


actuar perpendicularmente às fachadas (permeáveis), ou seja, A = 25.0 x 16.0 = 400 m2
(desprezou-se para este efeito a caixa de escadas e de elevadores na cobertura) e α = 0º
(Quadro 5), tendo em conta que a altura h do edifício acima do solo é igual a 5 x 3.0 + 1.0
(parapeito na cobertura) = 16.0 m, a maior dimensão em planta a é 25.0 m e a menor b é 20.0
m (1/2 < h/b = 0.8 ≤ 3/2;1 < a/b = 1.25 ≤ 3/2), tem-se que o valor de δpe nas paredes A, B, C e
D (Quadro 5) é respectivamente +0.7, -0.25, -0.6 e -0.6. Quanto ao valor de δpi, este vale, de
acordo com a descrição acima, +0.2 nas quatro paredes (Fig. 78). Daí que resulta que o valor
de δp na face exterior das paredes A, B, C e D é respectivamente +0.5, -0.45, -0.8 e -0.8. Uma
vez que as paredes opostas têm igual área de exposição, a resultante na direcção y é 0.95 no
sentido do vento e anula-se na direcção x. Se, pelo contrário, o vento actuasse
perpendicularmente às empenas (impermeáveis), ou seja, A = 20.0 x 16.0 = 320 m2 e α = 90º,

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o valor de δpe nas paredes A, B, C e D seria respectivamente -0.6 e -0.6, +0.7 e -0.25 e o de δpi
-0.3 nas quatro paredes. Daí que o valor de δp na face exterior das paredes A, B, C e D
passasse respectivamente a -0.3, -0.3, +1.0 e +0.05 e a resultante na direcção x a 0.95 no
sentido do vento e a zero na direcção y (Fig. 78).

Fig. 78 - Coeficientes de pressão exteriores e interiores para vento actuante segundo x (à


direita) e y (à esquerda)

Em termos de pressão dinâmica do vento e supondo que o edifício se localiza na costa


Algarvia (zona B) em zona não densamente urbanizada (rugosidade do solo tipo II), por
consulta da Fig. 3 conclui-se que o respectivo valor característico wk se mantém constante e
igual a 0.90 x 1.3 = 1.17 kN/m2 até aos 10.0 m acima do solo, evolui (de forma supostamente
linear) até aos 15.0 m, onde atinge 1.3 x 1.04 ≈ 1.35 kK/m2 e atinge aos 16.0 m 1.3 x 1.056
(valor obtido por interpolação linear) ≈ 1.37 kN/m2.

Daqui se retira que a resultante global da acção do vento no edifício isolado quando este actua
normal às fachadas é de 0.95 x 25.0 x [1.17 x 10.0 + (1.17 + 1.35) / 2 x 5.00 + (1.35 + 1.37) /
2 x 1.00] = 460 kN na direcção do vento (y), passando para 368 kN na direcção x quando o
vento actua normal às empenas.

Se o edifício se integrasse num quarteirão constituído por edifícios da mesma altura, a


resultante seria naturalmente afectada, mas mais importante seria o facto de deixar de fazer
sentido físico a actuação do vento no edifício perpendicularmente às empenas.

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3.2.3.4. Sismo

Como referido anteriormente, a acção sísmica é de uma grande complexidade e intensidade,


pelo que é necessário adoptar na sua modelação simplificações conservativas. Vai-se
apresentar de seguida uma forma muito simplificada de estimar os efeitos dos sismos em
edifícios correntes que não apresentem peculiaridades em termos de regularidade estrutural:
análise estática em que se assemelha as forças de inércia transmitidas pelo solo ao edifício a
um conjunto de forças estáticas horizontais ao nível dos pisos.

Com base no zonamento sísmico do território nacional descrito em 2.2.1. e esquematizado na


Fig. 2, é possível definir o coeficiente de sismicidade, α, para as zonas A, B, C e D: 1.0, 0.7,
0.5 e 0.3, respectivamente. A relação entre as forças estáticas “equivalentes” ao sismo e as
forças gravíticas que lhes estão associadas, β, é designada por coeficiente sísmico e é obtida
pela equação seguinte:

β = β0 Error! (1)
em que:

β0 - coeficiente sísmico de referência, função da frequência própria fundamental de


vibração da estrutura, f, e do tipo de terreno de fundação (Quadro 6);
η - coeficiente de comportamento, dependente do tipo de estrutura (nas estruturas
correntes, o coeficiente assume os seguintes valores: 2.5 nas reticuladas, 2.0 nas
mistas e 1.5 nas laminares).

Para edifícios correntes com n pisos elevados e para efeitos de pré-dimensionamento, podem-
se adoptar as seguintes estimativas conservativas da frequência própria fundamental de
vibração da estrutura numa determinada direcção [1]: 12 / n para estruturas reticuladas, 16 /
n para estruturas mistas e 6 b / h para estruturas laminares (em que “h” é a altura do edifício
acima do nível do terreno e “b” é a dimensão em planta do edifício segundo a direcção
considerada).
Quadro 6 [1] - Valores do coeficiente sísmico de referência β0

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Quanto à natureza do terreno de fundação, este pode ser considerado num dos seguintes
tipos [1]: I para rochas e solos coerentes rijos; II para solos coerentes muito duros, duros e de
consistência média e para solos incoerentes compactos; III para solos coerentes moles e muito
moles e para solos incoerentes soltos.

Para se calcular o valor característico, Fki, da força estática equivalente ao sismo aplicada
ao nível de cada piso i, relativa a uma dada direcção (Fig. 79), recorre-se à expressão
seguinte:

Fki = β hi Gi Error! (2)

em que:

hi - altura a que situa o piso i (i = 1, n) acima do nível do terreno (Fig. 79);


Gi - resultante das cargas quase-permanentes correspondentes ao piso i.

Fig. 79 - Determinação das forças estáticas equivalentes ao piso


Os valores reduzidos da acção dos sismos são todos os nulos, incluindo o valor raro, ou seja,
o sismo não entra em nenhuma combinação excepto aquela em que é a acção variável de base.

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Exemplo de aplicação 10

Voltando ao edifício do exemplo de aplicação 1 (Fig. 66), considerado fundado num solo
coerente de consistência média (tipo II), a sua situação geográfica (costa Algarvia) coloca-o na
zona sísmica A. Tratando-se de uma estrutura mista (na medida em que incorpora paredes
resistentes e pórticos pilar-viga), as dimensões das primeiras são, quando comparadas com as
dimensões totais do edifício, relativamente pequenas, pelo que se poderá considerar nos
cálculos que se seguem uma média entre os resultados que se obteriam para uma estrutura
mista e para uma estrutura reticulada. Assim, tomar-se-á para estimativa de f (frequência
própria fundamental de vibração, neste caso igual nas duas direcções) a média entre 16 / 5 (n.º
de pisos elevados) e 12 / 5, ou seja, 2.8 Hz. Tratando-se de um valor intermédio entre 0.5 Hz e
4.0 Hz, o valor do coeficiente sísmico de referência, β0, é dado pelo Quadro 6 (terreno tipo II)
como 0.20 2.8 = 0.335. O coeficiente de comportamento é estimado como a média entre 2.0
(estrutura mista) e 2.5 (estrutura reticulada), ou seja, 2.25. Para α = 1.0 (zona sísmica A), o
coeficiente sísmico, β, é estimado como 0.335 x 1.0 / 2.25 ≈ 0.15, valor que se insere no
intervalo de valores habituais neste tipo de edifícios, ou seja, entre 0.12 e 0.18. No Quadro 7,
apresenta-se o cálculo das forças sísmicas, Fki, ao nível de cada piso.

Quadro 7 - Determinação das forças estáticas equivalentes ao sismo


Piso Gi [kN] hi [m] hi Gi [kNm] Fki [kN]
1 5322 3.0 15966 277
2 5322 6.0 31932 554
3 5322 9.0 47898 831
4 5322 12.0 63864 1107
5 3856 15.0 57840 1003
Σ 25144 217500 3772

3.3. PRÉ-DIMENSIONAMENTO DE LAJES

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Em termos de pré-dimensionamento, a única dimensão relevante das lajes é a sua espessura,


h, já que as dimensões em planta (vãos) resultam do posicionamento dos apoios: vigas e
paredes nas lajes vigadas, pilares e paredes nas fungiformes. O pré-dimensionamento das lajes
consiste então em determinar h a partir dos vãos, de acordo com determinadas regras semi-
empíricas.

3.3.1. Determinação da espessura

As lajes pré-fabricadas (de vigotas pré-fabricadas, de pranchas vazadas, as pré-lajes) têm,


pela sua morfologia e/ou pela disposição da armadura pré-definida, um funcionamento
unidireccional, isto é, apoiam em lados opostos numa das direcções, não precisando de
apoios na outra direcção mesmo que eles existam. Em termos de modelação estrutural,
considera-se que o funcionamento das lajes tradicionais (maciças vigadas betonadas in-situ)
é também unidireccional (lajes armadas numa direcção) nas situações em que a distância
entre os apoios numa das direcções é maior que o dobro da distância entre apoios na
direcção perpendicular. Esta última é designada apenas por vão, l, assim como a distância
entre os apoios nas lajes pré-fabricadas.

Nas lajes tradicionais vigadas com vãos semelhantes (lajes armadas em cruz), assim como
nas lajes fungiformes, haverá dois vãos, lmenor e lmaior, sendo que as primeiras são condicio-
nadas pelo primeiro (em cuja direcção as curvaturas são mais acentuadas) enquanto que as
segundas são condicionadas pelo segundo (em termos de esforços e deformabilidade).
Assim, tem-se:

lajes pré-fabricadas (ex. vigotas pré-esforçadas): h ≈ Error! (3)

lajes maciças vigadas armadas numa só direcção: h ≈ Error! (4)**

lajes maciças vigadas armadas em cruz: h ≈ Error! (5)

lajes fungiformes maciças: h ≈ Error! (6)

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lajes fungiformes aligeiradas: h ≈ Error! (7)

**no caso particular das lajes em consola, a regra passa a h ≈ Error!, o que pode ser muito
condicionante; nesses casos, pode recorrer-se a lajes de espessura variável (máxima junto ao
apoio) ou a contraflechas iniciais.

Em vãos muito pequenos, é preciso atender aos mínimos recomendáveis para h: 0.12 a 0.15 m
(função do fabricante) para lajes pré-fabricadas, 0.10 a 0.12 m para lajes maciças vigadas,
0.15 a 0.18 m para lajes fungiformes maciças e 0.25 a 0.275 m (função do fornecedor dos
moldes) para lajes fungiformes aligeiradas.

3.3.2. Verificações suplementares

Não é objectivo desta cadeira entrar no dimensionamento propriamente dito dos elementos
estruturais. No entanto, existem algumas verificações suplementares à estimativa da
espessura que são muito simples de realizar e permitem “garantir” que a espessura a que se
chegou efectivamente não conduzirá a problemas à posteriori. Refira-se ainda que não é
necessário fazes estas verificações em todas as lajes mas apenas na(s) mais condicionante(s).

3.3.2.1. Lajes de vigotas pré-esforçadas

Estas lajes servem para ilustrar as lajes pré-fabricadas aligeiradas em geral e as verificações
que a seguir se indicam confundem-se com o próprio dimensionamento das lajes. Como se
sabe, este é feito por comparação dos esforços actuantes e da deformação máxima previsível
com os respectivos valores limite que se encontram tabelados pelo fabricante. São três as
verificações susceptíveis de levar à alteração da espessura da laje de vão l (nas expressões
seguintes, vai-se assumir que se trata de lajes simplesmente apoiadas em ambos os bordos):

- MSd (valor de cálculo do máximo momento flector positivo actuante - a


meio vão - devido à combinação fundamental) = pSdl2 / 8 ≤ MRd (valor de
cálculo do momento flector resistente, tabelado);

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- pSd = 1.5 (g + q)
em que g - carga uniforme/ distribuída (acções permanentes)
q - carga uniforme/ distribuída (sobrecarga de
utilização)
- VSd (valor de cálculo do máximo esforço transverso actuante - junto aos
apoios - devido à combinação fundamental) = pSdl /2 ≤ VRd (valor de
cálculo do esforço transverso resistente, tabelado)
- a∞ (flecha a tempo infinito devida à carga frequente pf) = a0 x (1+ MG /
Mf x ϕ ) = (1 + g / pf x ϕ ) ≤ l / 400
em que MG = gl2 / 8 - máximo momento flector positivo
actuante devido às acções permanentes
2
Mf = pfl / 8 - máximo momento flector positivo
actuante devido à carga frequente pf
pf = g + ψ1 q (ver Quadro 4)
ϕ - coeficiente de fluência (adoptar 2.0)
l - vão de cálculo
a0 = 5/384 x pf x l4 / E I - flecha instantânea devida à
carga frequente pf
E I (rigidez da laje, valor tabelado)

Exemplo de aplicação 11

Suponha-se que no edifício do exemplo de aplicação 1 (Fig. 66) se optava nos pisos correntes
por lajes de vigotas pré-esforçadas de um determinado fabricante. Para melhorar o
comportamento sísmico das lajes, optou-se por uma espessura mínima da lâmina de
compressão de 5.0 cm ainda que as lajes sejam todas orientadas segundo y (l = 4.00 m).

Assim, da equação 3 vem que h ≈ 4.00 / (20 a 30) = 13.3 a 20.0 cm. No sentido de tentar
manter a espessura o mais baixa possível, recorre-se a lajes com duas vigotas colocadas lado a
lado (Fig. 80), com h = 17 cm. Recorrendo ao Quadro 8, tem-se que o peso próprio será da
ordem dos 2.75 kN/m2, valor que será multiplicado por 1.25 (ver exemplo de aplicação 2)
para ter em conta as zonas maciçadas, passando para cerca de 3.40 kN/m2. A este valor somar-
se-ão 1.50 kN/m2 (ver 3.2.2.3.) para revestimento de pisos e tectos e 2.10 kN/m2 (ver exemplo
de aplicação 6) para paredes divisórias interiores, o que perfaz uma carga total g = 7.00
kN/m2. Quanto à sobrecarga de utilização, ela vale q = 2.00 kN/m2. Daí que pSd = 1.5 (7.00 +
2.00) = 13.5 kN/m2 e pf = 7.00 + 0.3 (Quadro 4) x 2.00 = 7.60 kN/m2. Logo, MSd = 13.5 x 4.02
/ 8 = 27.0 kNm/m < 28.1 kNm/m (se se optar pela laje 2B4-40x12-17 do Quadro 8), VSd =
13.5 x 4.00 / 2 = 27.0 kN < 36.6 kN/m (para a mesma laje) e a∞ = 5 / 384 x 7.60 x 4.004 /

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7506 (Quadro 8) x (1 + 7.00 / 7.60 x 2.0) = 0.0096 m < 4.00 / 400 = 0.010 m.

Fig. 80 - Representação esquemática da laje de vigotas pré-esforçadas utilizada

Quadro 8 - Elementos de cálculo da laje de vigotas pré-esforçadas utilizada

Este exemplo permite tirar duas conclusões interessantes: a primeira é a de que as soluções
chamadas aligeiradas não conduzem sempre a um decréscimo evidente do peso próprio dos
pavimentos (a laje maciça preconizada, com 0.15 m de espessura, pesa 3.75 kN/m2); a
segunda é a de que, para vãos acima dos 3.5 a 4.0 m, a verificação da flecha máxima se
torna a mais condicionante, conduzindo a valores antieconómicos da espessura total e do
peso próprio dos pavimentos quando se evolui para vãos ainda maiores.

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3.3.2.2. Lajes maciças vigadas

As verificações seguintes aplicam-se tanto a lajes betonadas in-situ (tradicionais) como a


soluções maciças pré-fabricadas, como as pré-lajes sem elementos de aligeiramento. Pode
haver dois tipos de verificação: em termos de corte e em termos de flexão (simples).

No primeiro caso, o que se pretende garantir é que não é preciso recorrer a estribos
(processo particularmente lento e oneroso em lajes). Para tal, é preciso garantir que o valor de
cálculo do máximo esforço transverso actuante (junto aos apoios) devido à combinação
fundamental, VSd, é menor ou igual a um termo Vcd dado por:

Vcd = 0.6 (1.6 - d) ι1 d ≥ 0.6 ι1 d (8)

em que:

d - altura útil da armadura (ver Fig. 59); esta é obtida a partir da altura total h, retirando-
lhe 2.5 a 3.5 cm em lajes correntes;
ι1 - tensão de referência, dependente da classe do betão (ver Quadro 1).

A verificação à flexão simples não é tão crucial como a anterior, mas tem a ver com a
obtenção de taxas económicas de armadura e com o controlo de fendilhação e
deformabilidade. O seu não cumprimento não põe necessariamente em causa a espessura
estimada. Consiste no seguinte:

|MSd|
µ= fcd ≤ 0.14 a 0.18
2 (9)
máx;d

em que:

µ - momento flector reduzido;

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|MSd|,máx - valor de cálculo do máximo (em módulo) momento flector actuante (em geral,
sobre os apoios, à excepção das lajes sem continuidade em qualquer dos apoios, em
que ocorre no meio vão) devido à combinação fundamental;
fcd - valor de cálculo da tensão de rotura do betão à compressão, dependente da classe do
betão (ver Quadro 1).

As pré-lajes maciças, um caso particular das lajes maciças vigadas, são verificadas de uma
forma ligeiramente diferente. Em relação ao corte, o que se pretende garantir é que VSd ≤ VRd,
sendo este último valor tabelado (Quadros 11 e 12). No que se refere à flexão, para além da
verificação da equação 9 nos momentos (negativos) sobre os apoios, é preciso garantir que
MSd (máximo positivo) ≤ MRd, sendo também este último valor tabelado. Finalmente, se a
pré-laje for pré-esforçada, é preciso, à semelhança do referido em 3.3.2.1. para as lajes de
vigotas pré-esforçadas, garantir que a∞ ≤ l / 400, sendo o valor da rigidez E I também
tabelado. Para esta verificação e uma vez que, ainda que tendo sempre um funcionamento
unidireccional, as pré-lajes não são necessariamente simplesmente apoiadas em ambos os
apoios, interessa fornecer o valor de a0 para as seguintes condições de apoio correntes (e carga
uniformemente distribuída em toda a extensão da laje): apoio simples de um lado e
encastramento perfeito do lado oposto (a0 = 1/184.6 x pf x l4 / E I), encastramento perfeito em
ambos os apoios (a0 = 1/384 x pf x l4 / E I) e encastramento perfeito de um lado e bordo livre
do lado oposto - consola (a0 = 1/8 x pf x l4 / E I).

Sem querer aprofundar excessivamente este campo do conhecimento, apresenta-se no Quadro


9 os esforços mais importantes que se obtêm em vigas (ou em lajes armadas numa só
direcção, betonadas in-situ ou parcialmente pré-fabricadas - pré-lajes) solicitadas por uma
carga uniformemente distribuída em todo o seu comprimento. Aos modelos apresentados é
preciso acrescentar os elementos em consola com um momento no apoio igual a - pL2 /2 e um
esforço transverso no mesmo local de pL.

Quadro 9 [9] - Esforços em lajes armadas numa só direcção

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Nas lajes armadas em cruz, a estimativa dos esforços transversos máximos faz-se com base
num modelo simplificado de como as lajes descarregam nos seus apoios (Fig. 81).

Fig. 81 - Determinação simplificada do esforço transverso nos apoios de lajes armadas em cruz

No que se refere aos momentos flectores máximos, a sua determinação correcta é feita por
um processo que se inicia pelo recurso a tabelas do tipo das representadas no Quadro 10 e tem
em conta a compatibilização do valor dos momentos nos apoios comuns a dois painéis. Esse
processo é demasiado complexo para se inserir no âmbito desta matéria, pelo que se sugere o
recurso a um método simplificado, designado por método das faixas. Consiste em considerar
que parte da carga total p (α p, com 0 < α < 1) descarrega numa das direcções e a restante, (1 -
α) p, na direcção perpendicular, sendo posteriormente determinados os momentos flectores
em cada uma das direcções como se de lajes armadas numa só direcção se tratasse. Assinale-
se que os factores α e (1 - α) podem ser estimados como inversamente proporcionais aos vãos
nas respectivas direcções elevados ao cubo.

Quadro 10 [9] - Esforços elásticos em lajes armadas em cruz para um caso específico de
condições de fronteira

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Exemplo de aplicação 12

Voltando mais uma vez ao edifício do exemplo de aplicação 1 (Fig. 66), no qual foram

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preconizadas lajes maciças vigadas armadas em cruz, a respectiva espessura é dada pela
equação 5 como h ≈ 4.00 / (35 a 40) = 0.10 a 13.3 cm, tendo-se optado por um valor um
pouco superior (0.15 m), o que permitiu melhorar a durabilidade das armaduras e as
características acústicas dos pavimentos e uniformizar a espessura da laje e dos patins das
escadas. Daqui resulta que o peso próprio da laje é de 25 x 0.15 = 3.75 kN/m2 e, uma vez que
se mantêm todas as restantes cargas permanentes assim como a sobrecarga de utilização em
relação ao exemplo de aplicação 11, g = 3.75 + 1.50 + 2.10 = 7.35 kN/m2, q = 2.00 kN/m2 e p
= pSd = 1.5 x (7.35 + 2.00) ≈ 14.00 kN/m2.

Vai-se supor que se preconiza um betão B25 e uma altura útil das armaduras de 0.12 m
(média nas duas direcções), pelo que Vcd = 0.6 x (1.6 - 0.12) x 650 (B25 - Quadro 1) x 0.12 =
69.3 kN/m, valor que excede claramente o valor de VSd = 14.00 x 4.00 /2 (Fig. 71) = 28.0
kN/m. Adoptando um valor de 65 % para α na direcção y (l = 4.00 m), a mais condicionante,
e recorrendo ao Quadro 9, tem-se como estimativa do momento sobre os apoios segundo x das
lajes L1 (Fig. 66), elas próprias as mais condicionantes, o valor de MSd ≈ - 65 % x 14.00 x
4.002 / 8 = -18.2 kNm/m (por utilização do Quadro 10, este valor seria -20.3 kNm/m), o que
conduz a µ = |-18.2| / (0.122 x 13300 (B25 - Quadro 1)) = 0.095 < 0.14. Isto reflecte algum
sobre-dimensionamento das lajes, aliás já detectado através da equação 5, mas permite
também mostrar a grande competitividade das lajes maciças armadas em cruz, tanto em
termos económicos como ao nível do peso dos pavimentos.

Exemplo de aplicação 13

Suponha-se que no edifício do exemplo de aplicação 1 (Fig. 66) se pretende substituir as lajes
totalmente betonadas in-situ por pré-lajes, estando em estudo duas modalidades, ambas
correspondentes a pavimentos com documento de homologação: pré-lajes armadas (Quadro
11) e pré-lajes pré-fabricadas (Quadro 12). A regra de pré-dimensionamento da espessura da
laje é idêntica à utilizada para a laje totalmente betonada in-situ, sendo o vão de cálculo l =
4.00 m. Adoptou-se em ambos os casos h = 14 cm, por não existirem tabelas para h = 15 cm.
Isto leva a um pequeno acerto nas cargas a considerar: g = 7.10 kN/m2, pSd = 13.65 kN/m2 e pf
= 7.10 + 0.2 x 2.00 = 7.50 kN/m2.

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Quadro 11 - Elementos de cálculo da pré-laje armada utilizada

Nas tabelas é assumido que o betão complementar é um B25, tal como preconizado aqui.
Recorrendo ao Quadro 9, conclui-se que o esforço transverso máximo vale VSd = 5 x 13.65 x
4.00 / 8 = 34.1 kN/m, que o máximo momento positivo vale MSd+ = 13.65 x 4.002 / 14.2 =
15.4 kNm/m e que o máximo momento negativo vale MSd- = - 13.65 x 4.002 / 8 = -27.3
kNm/m, o que, para um valor de d igual a 0.11m, corresponde a um µ = |-27.3| / (0.112 x
133300) = 0.17 < 0.18, ou seja, aceitável.

No Quadro 11, seleccionou-se a pré-laje armada IL60-14, com MRd = 17.9 kNm/m e VRd =
79.1 kN/m. No Quadro 12, seleccionou-se a pré-laje pré-fabricada L6-5-14, com MRd = 18.8
kNm/m e VRd = 69.3 kN/m. Quanto à flecha a tempo infinito nesta última laje, ela vale a∞ = 1
/ 184.6 x 7.50 x 4.004 / 7112 x (1 + 7.10 / 7.50 x 2.0) = 0.0042 m < 4.00 / 400 = 0.010 m.

Quadro 12 - Elementos de cálculo da pré-laje pré-esforçada utilizada

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3.3.2.3. Lajes fungiformes

No caso das lajes fungiformes, a única verificação importante na fase do pré-


dimensionamento é a do punçoamento junto aos pilares (Fig. 82). Esta verificação torna-se
fundamental porque a resistência ao punçoamento é conferida em boa parte pelo betão (e
está portanto directamente relacionada com a espessura da laje), sendo o acréscimo de
resistência, conferido por eventuais armaduras específicas de punçoamento, limitado a um
máximo de 60 % do valor anterior. Uma vez que, devido às acções horizontais ou a
desigualdades de vãos ou carregamentos de um lado e doutro do pilar, o fenómeno do
punçoamento é potenciado pela existência de momentos (punçoamento excêntrico), o que é
corrente fazer-se é verificar a laje ao punçoamento centrado (ou seja, sem considerar esses
mesmos momentos) mas contando apenas com a contribuição do betão para a resistência.

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Fig. 82 - Representação esquemática do punçoamento de uma laje junto a um pilar

O valor de cálculo da força de punçoamento, VSd, é dado pela resultante das acções
gravíticas (combinação fundamental) na chamada “área de influência” do pilar (Fig. 83).
Este valor deverá ser igual ou inferior ao valor de cálculo do esforço resistente de
punçoamento, VRd, dado por:

VRd = (1.6 - d) ι1 d u ≥ ι1 d u (9)


em que:

u - perímetro do contorno crítico de punçoamento, definido por uma linha fechada


envolvendo a área carregada a uma distância não inferior a d / 2 e cujo perímetro
seja mínimo (Fig. 84, respeitante a pilares longe dos bordos; em pilares de fachada
ou de canto, onde já foi referido ser recomendável a existência de uma viga de
bordadura, o contorno crítico será necessariamente diferente; em pilares alongados,
a verificação é ligeiramente diferente);
d e ι1 têm o significado referido a propósito da equação (8).

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Fig. 83 - Área de influência de um pilar (a sombreado)

Fig. 84 - Contorno crítico de punçoamento de algumas formas correntes de pilares afastados


dos bordos do pavimento

Exemplo de aplicação 14

Retomando o exemplo de aplicação 3, supondo que os vãos são iguais em ambas as direcções
e valem 7.5 m, a espessura da laje fungiforme seria estimada pela equação 7 como h ≈ 7.5 /
(20 a 25) = 0.30 a 37.5 cm. Uma vez que se optou por uma espessura da lâmina de
compressão de 7.5 cm (suficientemente espessa para garantir o recobrimento superior e
inferior de duas camadas de armadura superior mas não demasiado espessa para não tirar a
vantagem do aligeiramento da laje), as opções possíveis com os moldes indicados na Fig. 68
seriam h = 30 cm ou h = 40 cm. Optou-se pela segunda pelo tipo de utilização do pavimento
(edifício público, com sobrecarga de utilização de 4.00 kN/m2), pelo que, conforme se
demonstrou acima, o peso próprio a ter em conta nos cálculos tendo em consideração as zonas

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maciçadas é de 6.50 kN/m2. Adoptou-se divisórias leves amovíveis, equivalentes a uma carga
uniformemente distribuída de 30 % (ver 3.2.1.4.) x 0.5 x (3.00 (pé direito total) - 0.40) ≈ 0.40
kN/m2. Adoptou-se um revestimento em mármore sobre uma argamassa de assentamento, o
que, de acordo com a lista fornecida em 3.2.2.3., equivale a uma carga de 2.00 kN/m2.

Daqui resulta que g = 6.50 + 2.00 + 0.40 = 8.90 kN/m2, q = 4.00 kN/m2 e pSd = 1.5 x (8.90 +
4.00) = 19.35 kN/m2. Para um pilar central (o de maior área de influência e,
consequentemente, para este efeito o mais condicionante), VSd = 19.35 x 7.502 = 1088 kN.
Supondo uma altura útil, d, de 0.36 m e pilares quadrados com 0.50 m de aresta, vem (Fig. 84)
u = 4 x 0.50 + π x 0.36 = 3.13 m. Supondo tratar-se de um B30 (do Quadro 1, vem ι1 = 750
kN/m2), vem VRd = (1.6 - 0.36) x 750 x 0.36 x 3.13 = 1048 kN. Apesar de este valor não ser
superior a VSd, a verificação pode ser considerada como atingida para efeitos de pré-
dimensionamento, já que os valores são muito próximos e ainda existe a possibilidade de
colocar armadura específica de punçoamento.

Exemplo de aplicação 15

Suponha-se um edifício destinado a escritórios (sobrecarga de utilização de 3.00 kN/m2,


revestimentos de 1.00 kN/m2 e paredes divisórias interiores de 1.00 kN/m2) com vãos uniformes
de 5.0 m numa das direcções e de 6.0 m na outra, no qual são preconizadas lajes fungiformes
maciças. A respectiva espessura é estimada através da equação 6 como h ≈ 6.00 (vão maior) /
(30 a 35) = 17.1 a 20.0 cm. Adoptou-se este último valor por serem previsíveis problemas
com o punçoamento, correspondendo-lhe um peso próprio de 25 x 0.20 = 5.00 kN/m2.

Daqui resulta que g = 5.00 + 1.00 + 1.00 = 7.00 kN/m2, q = 3.00 kN/m2 e pSd = 1.5 x (7.00 +
3.00) = 15.00 kN/m2. Para um pilar central, VSd = 15.00 x 6.00 x 5.00 = 450 kN. Supondo
uma altura útil, d, de 0.17 m e pilares quadrados com 0.40 m de aresta, vem (Fig. 84) u = 4 x
0.40 + π x 0.17 = 2.13 m. Supondo tratar-se de um B35 (ι1 = 850 kN/m2), vem VRd = (1.6 -
0.17) x 850 x 0.17 x 2.13 = 440 kN. Tal como no exemplo anterior, apesar de este valor não
ser superior a VSd, a verificação pode ser considerada como atingida para efeitos de pré-
dimensionamento, já que os valores são muito próximos e ainda existe a possibilidade de

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colocar armadura específica de punçoamento.

3.3.2.4. Escadas

Neste documento só serão referidas as soluções tradicionais de escadas em betão armado, ou


seja, maciças betonadas in-situ, com funcionamento unidireccional e quase sempre
simplesmente apoiadas em todos os apoios (em termos de modelação estrutural). Mesmo
com estas limitações, existe um número alargado de possibilidades de funcionamento
estrutural das escadas (Fig. 85), que não será objecto de análise neste âmbito.

Fig. 85 - Modelos de cálculo de escadas em edifícios correntes

Em termos de determinação da espessura, h, assim como de verificações suplementares, as


escadas deste tipo são analisadas como lajes maciças armadas numa só direcção, havendo
apenas a acrescentar que se deve adoptar valores relativamente conservativos de h (Error!
) em face do elevado carregamento (peso próprio e sobrecarga de utilização) e do facto de
ambos os apoios serem simples (com liberdade de rotação).
Exemplo de aplicação 16

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Voltando ao edifício do exemplo de aplicação 1 (Fig. 66), concluiu-se que os patins têm uma
carga permanente total g1 = 3.75 + 2.00 (ver 3.2.2.3.) = 5.75 kN/m2, que nos lanços vale (Fig.
65, à direita) g2 = 7.00 + 2.00 = 9.00 kN/m2. Em ambos os casos a sobrecarga é igual a 5.00
kN/m2, fazendo com que pSd1 = 1.5 x (5.75 + 5.00) = 16.13 kN/m2 e pSd2 = 1.5 x (9.00 + 5.00)
= 21.00 kN/m2. Recorda-se que a espessura preconizada para a laje, tanto nos patins como nos
lanços, é de 0.15 m, que se insere dentro dos limites preconizados acima: h ≈ 4.00 (modelo
estrutural em cima à esquerda na Fig. 85) / (25 a 30) = 13.3 a 16 cm.

O valor de VSd é igual a [16.13 x 4.00 + (21.00 - 16.13) x 2.00] / 2 = 37.1 kN/m, inferior a Vcd
= 69.3 kN/m (exemplo de aplicação 12). Quanto a MSd, este vale a meio vão 16.13 x 4.002 / 8
+ (21.00 - 16.13) x (2.00 / 2 x 4.00 /2 - 1.002/ 2) = 39.6 kNm/m, o que conduz a µ = 39.6 /
(0.122 x 13300) = 0.206, valor excessivo em termos de minimização de custos mas ainda
dentro dos limites do aceitável. O exemplo vem confirmar a necessidade de preconizar
espessuras conservativas nas escadas.

3.4. PRÉ-DIMENSIONAMENTO DE VIGAS

Em termos de pré-dimensionamento, a dimensão mais relevante das vigas é a sua altura, h,


essencialmente dependente através de regras semi-empíricas dos vãos que resultam do
posicionamento dos pilares e paredes (excepcionalmente vigas). A largura, b, depende
fundamentalmente da integração arquitectónica, desde que cumpridos determinados
mínimos.

3.4.1. Determinação da altura

O vão das vigas, l, deve ser medido entre eixos dos apoios (centro geométrico dos pilares,
paredes ou vigas de apoio) ou, caso as dimensões destes últimos sejam muito elevadas, pode
ser considerado como a soma do vão livre com a altura útil da viga, d. Desde que não existam
grandes discrepâncias ao nível dos vãos das vigas em diferentes zonas da estrutura (ou
imposições incontornáveis da Arquitectura), é sempre preferível que elas tenham todas a

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mesma altura, o que quer dizer em termos práticos que esta será condicionada pela viga de
maior vão. O que poderá acontecer é que as vigas de maior vão fiquem um pouco sub-
dimensionadas, acontecendo o inverso nas de menor vão. Assim, tem-se:

em betão armado: h ≈ Error! (10)**

em betão pré-esforçado: h ≈ Error! (11)

**no caso particular das vigas em consola, a regra passa a h ≈ Error!, o que pode ser muito
condicionante; nesses casos, pode recorrer-se a vigas de altura variável (máxima junto ao
apoio) ou a contraflechas iniciais.

Em vãos muito pequenos, é preciso atender aos mínimos recomendáveis para h: 0.30 m ( em
casos excepcionais de estruturas pouco importantes) ou 0.40 m (em vigas com
responsabilidades na resistência ao sismo).

3.4.2. Determinação da largura

A largura das vigas, b, é muito condicionada pela Arquitectura, nomeadamente quando é


exequível embebê-las totalmente nas paredes divisórias (interiores ou exteriores). Nessas
situações, é necessário ter em conta uma diferença de 3 a 5 cm entre o tosco e o limpo. Por
outro lado, é recomendável, ainda que não obrigatório, que a relação entre b e h não desça
abaixo de 40 a 50 %. Finalmente, recomenda-se os seguintes mínimos: 0.15 m (em casos
excepcionais de estruturas pouco importantes) ou 0.20 m (em vigas com responsabilidades na
resistência ao sismo). Estes valores têm a ver com a garantia simultânea dos recobrimentos
regulamentares das armaduras, dos espaçamentos livres mínimos entre varões (para não
dificultar a betonagem) e com a possibilidade de realizar reforços aos varões corridos dos
cantos.
3.4.3. Verificações suplementares

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Mais uma vez se ressalva não ser intenção desta cadeira aprofundar em demasia determinados
conceitos estruturais. Existe, no entanto, em relação às vigas, uma verificação suplementar em
termos de flexão (simples) que tem a ver com a obtenção de taxas económicas de armadura
e a garantia de um certo nível de ductilidade, cujo não cumprimento poderá em alguns casos
motivar a alteração das dimensões das vigas logo no pré-dimensionamento. Nesse sentido,
pretende-se que, na(s) viga(s) mais condicionante(s):

|MSd|
µ= 2 ≤ 0.25 a 0.30 (12)
máx;b d fcd

em que o primeiro limite diz respeito às combinações fundamentais sem sismo (geralmente
aquela em que as sobrecargas de utilização são a acção variável de base) e o segundo àquela
em que o sismo é a acção variável de base (ver 3.2.). Refira-se ainda que estes limites não
têm um carácter absoluto, podendo ser infringidos pontualmente, ainda que não por uma
margem muito grande.

As acções que solicitam as vigas podem ser consideradas uniformemente distribuídas (caso
do peso dos septos das próprias vigas, das paredes exteriores, platibandas e parapeitos e das
reacções das lajes com funcionamento unidireccional), concentradas (apoio de pilares ou de
outras vigas) ou trapezoidais (as reacções das lajes armadas em cruz - Fig. 81), de que as
triangulares (Fig. 81) são um caso particular. No Quadro 9, foram fornecidos os valores dos
esforços principais para uma carga uniformemente distribuída e diversas condições de
fronteira correntes em vigas. No Quadro 13 e para as mesmas condições de fronteira, são
indicados os esforços principais em vigas solicitadas por cargas triangulares, concentradas e
trapezoidais. A título meramente indicativo e para as dimensões normais de pilares e vigas em
edifícios correntes, pode considerar-se que os pilares de extremidade de um pórtico conferem
à viga que neles apoia condições de fronteira médias entre um apoio simples e um
encastramento perfeito, enquanto que os pilares interiores de um pórtico “encastram” em
termos práticos as vigas que neles apoiam.

Quadro 13 [9] - Esforços em vigas para diversos tipos de solicitação

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Exemplo de aplicação 17

Voltando mais uma vez ao edifício do exemplo de aplicação 1 (Fig. 66), a altura das vigas
poderia ser estimada (equação 10) como h ≈ 5.00 / (10 a 12) = 41.7 a 50.0 cm, tendo-se
seleccionado este último valor que foi mantido constante em todas as vigas. A largura, b, foi
tomada igual a 0.25 m, ou seja, 50 % da altura total. O betão é da classe B25 e a altura útil, d,
é considerada conservativamente igual a 0.45 m. Suponha-se agora que se pretendia verificar
estas dimensões para a combinação fundamental em que as sobrecargas de utilização são a
acção variável de base (para efeitos de pré-dimensionamento, pode-se desprezar a
contribuição do vento para os esforços) para dois tramos seleccionados, em ambos os casos
nos pisos correntes: o 1º a contar da esquerda da viga V7 (Fig. 66) e o 2º também a contar da
esquerda da viga V8.

O tramo da viga V7 terá o seu momento máximo (negativo) junto ao pilar P12, o qual será
estimado como a média entre os valores obtidos para os dois seguintes modelos: apoio
simples - apoio encastrado; ambos os apoios encastrados (Fig. 86). As cargas uniformemente
distribuídas são (Fig. 86): peso próprio do septo da viga abaixo da laje = 2.19 kN/m
(determinado no exemplo de aplicação 1); paredes exteriores (fachadas) = 4.88 kN/m
(determinado no exemplo de aplicação 6); total majorado pSd1 = 1.5 x (2.19 + 4.88) ≈ 10.60
kN/m. As cargas trapezoidais valem (Fig. 86): reacção das lajes armadas em cruz (Fig. 81) =
(7.35 + 2.00) (determinado no exemplo de aplicação 12) x 4.00 / 2 = 18.7 kN/m; total

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majorado pSd2 = 1.5 x 18.7 = 28.05 kN/m. Recorrendo aos Quadros 9 (carga uniformemente
distribuída) e 13 (carga trapezoidal), obtêm-se (respectivamente para o modelo bi-encastrado e
para o modelo apoiado-encastrado) os seguintes momentos no apoio encastrado: -10.60 x
5.002 / 8 - 28.05 x 1.00 / (8 x 5.002) x (2 x 2.00 + 1.00) [2 x 5.002 - 1.002 - 2 x 2.00 x (2.00 +
1.00)] = -59.1 kNm/m e -10.60 x 5.002 / 12 - 28.05 x 1.00 / (12 x 5.002) x [12 x 2.50 x 2.502 +
1.002 x (5.00 - 3 x 2.50)] = -39.4 kNm/m. De acordo com o critério fixado para este tramo,
adopta-se o valor de MSd = (-59.1 - 39.4) / 2 = -49.3 kNm/m, de onde vem que µ = |-49.3| /
(0.25 x 0.452 x 13300) = 0.073 << 0.25, revelando, para as acções gravíticas, algum sobre-
dimensionamento da viga.

Fig. 86 - Representação esquemática do carregamento das vigas analisadas

O tramo da viga V8 terá o seu momento máximo (negativo) junto aos pilares P11 e P15, o
qual será estimado com base no modelo bi-encastrado (Fig. 86). As cargas uniformemente
distribuídas são: peso próprio do septo da viga abaixo da laje = 2.19 kN/m; total majorado
pSd1 = 1.5 x 2.19 ≈ 3.30 kN/m. As cargas trapezoidais valem: reacção das lajes armadas em
cruz = 2 x (7.35 + 2.00) x 4.00 / 2 = 37.4 kN/m; total majorado pSd2 = 1.5 x 37.4 = 56.10
kN/m. Obtém-se então o momento nos apoios encastrados MSd = -3.30 x 5.002 / 12 - 56.10 x
1.00 / (12 x 5.002) x [12 x 2.50 x 2.502 + 1.002 x (5.00 - 3 x 2.50)] = -41.5 kNm/m, de onde
vem que µ = |-41.5| / (0.25 x 0.452 x 13300) = 0.062 << 0.25, revelando, para as acções
gravíticas, algum sobre-dimensionamento também desta viga (refira-se, no entanto, que o
primeiro tramo da viga V8 seria claramente mais condicionante que o segundo, aquele que foi
verificado).

A verificação para a combinação sísmica será feita mais adiante após se descrever como obter
estimativas dos esforços devidos ao sismo nos diversos elementos estruturais. Nesta fase,

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bastará obter os momentos devidos à parcela (quase-permanente) das acções, que se considera
actuar em simultâneo com o sismo, nas secções que foram objecto da verificação. Assim, no
1º tramo da viga V7, as cargas pSd1 e pSd2 (Fig. 86) passam respectivamente a pqp1 = 1.0 x
(2.19 + 4.88) ≈ 7.10 kN/m e pqp2 = (1.0 x 7.25 + 0.2 x 2.00) x 4.00 / 2 = 15.30 kN/m. Obtêm-
se (respectivamente para o modelo bi-encastrado e para o modelo apoiado-encastrado) os
seguintes momentos junto ao pilar P12: -7.10 x 5.002 / 8 - 15.30 x 1.00 / (8 x 5.002) x (2 x
2.00 + 1.00) [2 x 5.002 - 1.002 - 2 x 2.00 x (2.00 + 1.00)] = -36.3 kNm/m e -7.10 x 5.002 / 12 -
15.30 x 1.00 / (12 x 5.002) x [12 x 2.50 x 2.502 + 1.002 x (5.00 - 3 x 2.50)] = -24.2 kNm/m,
cuja média é Mqp = -30.3 kNm/m. No 2º tramo da viga V8, pqp1 = 1.0 x 2.19 ≈ 2.20 kN/m e
pqp2 = 2 x (1.0 x 7.25 + 0.2 x 2.00) x 4.00 / 2 = 30.60 kN/m, pelo que Mqp = -2.20 x 5.002 / 12
- 30.60 x 1.00 / (12 x 5.002) x [12 x 2.50 x 2.502 + 1.002 x (5.00 - 3 x 2.50)] = -23.5 kNm/m.

3.5. PRÉ-DIMENSIONAMENTO DE PILARES

Em termos de pré-dimensionamento, as dimensões mais relevantes dos pilares são as da sua


secção transversal, hx e hy. Estas não dependem de nenhumas regras específicas, excepto as
que resultam do cumprimento de determinados mínimos e das verificações suplementares
referidas de seguida, para além dos aspectos relacionados com a integração arquitectónica
que não devem, no entanto, ignorar as regras de concepção estrutural referidas no Capítulo
2. Em relação aos primeiros e conforme referido em 2.6.5., deve-se procurar que ambas as
dimensões sejam maiores ou iguais a 0.30 m, excepto em pilares que recebam cargas muito
pequenas (edifícios térreos e andares recuados), tanto gravíticas como sísmicas, nos quais
não se pode regulamentarmente baixar dos 0.20 m.

3.5.1. Verificações suplementares

São fundamentalmente duas as verificações suplementares que devem ser feitas nos pilares
mais condicionantes de edifícios correntes para dar alguma segurança ao pré-
dimensionamento dos mesmos: a primeira à compressão (simples) e a segunda à flexão
(composta).
3.5.1.1. Verificação à compressão máxima

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A primeira, efectuada para a combinação fundamental de acções em que a acção variável de


base são as sobrecargas de utilização, consiste em limitar o módulo do esforço normal (de
compressão, logo negativo, NSd) reduzido, υ, a cerca de 0.85:

|υ| = Error!≤ 0.85 (13)

Nesta verificação, pretende-se maximizar o valor em módulo de NSd pelo que, para a mesma
secção transversal do pilar, a verificação será tanto mais condicionante quanto mais abaixo for
feita. Torna-se particularmente gravosa na última caves e edifícios semi-enterrados ou no rés-
do-chão dos pisos elevados. Para estimar o valor de NSd num determinado troço de pilar,
recorre-se à noção de “área de influência”, definida em 3.3.2.3. e ilustrada na Fig. 83,
quantificando todas as cargas acima do troço em análise, incluindo o peso próprio do pilar.
Refira-se que, quer a carga nos pisos quer a própria área de influência do pilar, podem variar
em altura. As cargas gravíticas também provocam momentos nos pilares, ainda que
normalmente possam ser desprezados durante o pré-dimensionamento nos pilares interiores
dos pórticos. Nos pilares de extremidade, pode-se estimar o momento no apoio da viga,
conforme proposto em 3.4.3., e considerar que vai cerca de 50 % desse momento para a
secção do troço de pilar imediatamente acima do nó e outros 50 % para a secção do troço de
pilar imediatamente abaixo do nó.

3.5.1.2. Verificação à flexão máxima

Para a segunda verificação, torna-se necessário estimar o momento que a acção sísmica
produz nos troços de pilar a verificar. Para tal, pode-se, em estruturas reticuladas de
edifícios correntes, recorrer ao método do corte basal, cuja descrição sucinta se fará já de
seguida. Em 3.2.3.4., foi descrita a forma como se chega às forças estáticas totais ao nível
dos pisos, Fki, “equivalentes” à acção do sismo (Fig. 79), para cada uma das direcções do
edifício, aplicadas no centro de massa, CM, de cada piso. Para cada piso i (0 ≤ i ≤ n - 1, em
que n é o n.º de pisos elevados), pode-se calcular uma força, a que se chamará corte global ao
nível desse mesmo piso, Vki, igual ao somatório das forças Fki acima do piso, ou seja:

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n
Vki = Σ Fki (14)
i=i+1

Numa estrutura reticulada, esta é constituída por pórticos em ambas as direcções (Fig. 87). Para
se saber, em cada direcção, qual o corte global no piso i para o pórtico j, Vkij, considera-se
que este é proporcional à inércia total dos pilares desse mesmo pórtico no piso i, ou seja:

Vkij = Error!Vki (15)

Ipilar = Error! (16)

em que “h” é a dimensão da secção transversal do pilar paralela à direcção de actuação


do sismo e “b” é a dimensão da secção transversal do pilar perpendicular a essa mesma
direcção (Fig. 87).

Fig. 87 - À esquerda, determinação do corte global no pórtico j a partir do corte global ao


mesmo nível da totalidade do edifício; à direita, determinação da inércia dos pilares

Sob a acção do sismo, mesmo as estruturas mais regulares têm tendência a rodar em torno de
um ponto designado por centro de rigidez, CR. Em edifícios em que o centro de rigidez
esteja próximo do centro de massa nos vários pisos (como acontece em geral nos edifícios
correntes de estrutura reticulada com formas regulares em planta e em altura), este efeito de

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torção global, pode ser estimado multiplicando o corte global de cada pórtico j (devido
apenas ao efeito de translação do edifício) por um coeficiente, ξj, definido por (Fig. 87):

Vkij, corrigido = ξj Vkij = (1+ Error!) Vkij (17)

Conhecido o corte global corrigido no piso i do pórtico j, Vkij, corrigido, determina-se o esforço
transverso no pilar m, VEijm, considerando-o proporcional à sua inércia na direcção de
actuação do sismo:

VEijm = Error! Vkij, corrigido (18)

O momento máximo (junto a um dos nós pilar-viga ou à fundação - Fig. 88) no troço de
pilar m, MEijm, é dado por (hi é a altura total do piso i):

Fig. 88 - Determinação do momento máximo em cada troço de pilar conhecido o respectivo


esforço transverso

MEijm = {0.5 h Vi Eijm (pisos intermédios);2/3 hi VEijm (1º e último pisos deformáveis) (19)

A verificação à flexão consiste finalmente em garantir que:

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|MEijm|
µ= 2 ≤ 0.25 a 0.30 (20)
máx;b h fcd

Tal como para as vigas, estes limites não têm um carácter absoluto, já que têm apenas como
objectivo obter taxas económicas de armadura e garantir um certo nível de ductilidade,
pelo que podem ser infringidos pontualmente, ainda que não por uma margem muito grande.

3.5.1.3. Determinação dos esforços nas vigas devidos ao sismo

Ainda que não directamente relacionado com o pré-dimensionamento dos pilares, resta referir
que, estimados os momentos devidos ao sismo nas secções imediatamente inferior (MEi-1jm) e
superior (MEijm) a um nó pilar-viga do piso i (Fig. 89), é possível estimar os momentos
devidos ao sismo nos apoios das vigas à esquerda (de vão l1 e inércia I1) e à direita (de vão
l2 e inércia I2), respectivamente MEijm,esq e MEijm,dir, através das expressões seguintes:

MEijm,esq = Error!(|MEi-1jm| + | MEijm|); MEijm,dir = Error!(|MEi-1jm| + | MEijm|)(21)

Fig. 89 - Determinação dos momentos devidos ao sismo nas vigas a partir dos momentos
também devidos ao sismo nos pilares comuns ao mesmo nó
Todo este processo, descrito para uma das direcções de actuação do sismo (e do edifício),
deve ser repetido para a direcção perpendicular.

É importante ter a noção de que os esforços obtidos através deste método, válidos apenas
para a fase de pré-dimensionamento, poderão ser substancialmente diferentes dos que
serão obtidos através de uma modelação estrutural adequada, na fase de dimensionamento
dos elementos.

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O processo descrito só se aplica a estruturas em que os elementos resistentes verticais tenham


todos rigidezes e funcionamento sob a acção de forças horizontais do mesmo tipo, ou seja, só
é valido para estruturas reticuladas (com algumas reservas) ou para estruturas laminares
(com alguns ajustes). Não se aplica por exemplo a estruturas mistas, como a do exemplo de
aplicação 1, nas quais se torna muito difícil, na fase de pré-dimensionamento, obter
estimativas fiáveis dos esforços devidos ao sismo nos diversos elementos estruturais. Com
alguma sensibilidade e experiência de projecto, consegue-se ter uma ideia aproximada da
percentagem do corte global que é absorvida pelas paredes, podendo-se então aplicar o
método descrito à restante estrutura (pórticos) actuada pela parcela remanescente do corte
global. No entanto, a estimativa dessa percentagem é muito falível, até porque varia
substancialmente em altura (tendendo a aumentar de cima para baixo) e com as dimensões em
planta das paredes e a altura total do edifício. No rés-do-chão dos edifícios correntes, são
frequentes percentagens do corte global absorvidas pelas paredes desde 30 a 80 %.

Exemplo de aplicação 18

Voltando mais uma vez ao edifício do exemplo de aplicação 1, referiu-se que os pilares têm di-
mensões da secção transversal de 0.30 x 0.40 m2, com a orientação visível na planta esque-
mática apresentada do piso corrente (Fig. 66). Para exemplificar a aplicação dos conceitos ex-
postos atrás, seleccionaram-se os pilares P11 e P12 que, em termos do sismo, serão verificados
apenas na direcção x (para simplificar o exemplo). Uma vez que a secção dos pilares é cons-
tante em toda a altura do edifício, torna-se evidente que ambas as verificações (compressão e
flexão) se tornam mais condicionantes na base dos pilares, ou seja, no nó de fundação.
As áreas de influência dos pilares valem respectivamente 5.00 x 4.00 m2 e 5.00 x 2.00 m2. A
resultante das cargas gravíticas por piso corrente é igual a: P11 - (7.35 + 2.00) (cargas nas
lajes determinadas no exemplo de aplicação 12) x 4.00 x 5.00 + 2.19 (peso do septo das vigas
determinado no exemplo de aplicação 1) x (4.00 + 5.00 - 0.30 - 0.40) = 205 kN; P12 - (7.35 +
2.00) x 2.00 x 5.00 + 2.19 x (2.00 + 5.00 - 0.30 - 0.40) + 4.88 (peso das paredes exteriores
determinado no exemplo de aplicação 6) x (5.00 - 0.40) = 130 kN. A resultante das cargas
gravíticas no último piso é igual a: P11 - (3.75 + 1.91 + 2.00) (cargas nas lajes determinadas

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nos exemplos de aplicação 1, 5 e 8) x 4.00 x 5.00 + 2.19 x (4.00 + 5.00 - 0.30 - 0.40) = 171
kN; P12 - (3.75 + 1.91 + 2.00) x 2.00 x 5.00 + 2.19 x (2.00 + 5.00 - 0.30 - 0.40) + 1.40 (peso
das paredes exteriores determinado no exemplo de aplicação 6) x 5.00 = 97 kN. Somando
ainda o peso próprio dos pilares (3.00 kN/m), obtêm-se os valores de cálculo do esforço
normal na base dos pilares (negativos por serem de compressão): P11 - -1.5 x [171 + 4 x 205
+ 3.00 x (4 x 3.00 + 4.00 - 5 x 0.50)] = -1547 kN; P12 - -1.5 x [97 + 4 x 130 + 3.00 x (4 x
3.00 + 4.00 - 5 x 0.50)] = -986 kN. Da equação 13 e para um B25 (fcd = 13.3 MPa), obtém-se,
respectivamente para os pilares P11 e P12, |υ| = 0.97 e 0.62. O primeiro valor indicia um sub-
dimensionamento do pilar P11 (e de todos os restantes pilares anteriores) que deveriam passar
para 0.30 x 0.50 m2 (|υ| ≈ 0.78), ainda que tal alteração não vá ser tida em conta nos cálculos
que se vão seguir.

Para estimar os esforços devidos ao sismo na direcção x na base dos pilares P11 e P12,
começa-se por considerar, de uma forma possivelmente algo conservativa, que os núcleos N1
e N2 apenas absorvem uma percentagem de 40 % do corte global na base do edifício, pelo que
os pórticos serão dimensionados para resistir aos restantes 60 %. Do Quadro 7, retire-se então
que uma força de 60 % x 3772 = 2263 kN será resistida por um conjunto de 32 pilares, dos
quais metade estão orientados segundo x e a outra metade segundo y, a que corresponde uma
inércia total (equação 16) de 16 x (0.30 x 0.403 / 12 + 0.40 x 0.303 / 12) = 0.04 m4. Os
pórticos em que se encontram inseridos os pilares P11 e P12, terão então um corte global na
base (devido apenas ao efeito de translação do edifício), dado pela equação 15, igual
respectivamente a 6 x 0.40 x 0.303 / 12 / 0.04 x 2263 = 305 kN e 6 x 0.30 x 0.403 / 12 / 0.04 x
2263 = 543 kN. O coeficiente ξj, dado pela equação 17, vale, assumindo que o centro de
massa do edifício coincide com o seu centro geométrico, 1 + 0.6 x 6.00 / 20.00 = 1.18 e 1 +
0.6 x 10.00 / 20.00 = 1.30, para os pórticos que incluem os pilares P11 e P12, respectivamente.
Daqui resultam forças de corte global corrigidas iguais a 1.18 x 305 = 360 kN e 1.30 x 543 =
706 kN, respectivamente, repartidas (equação 18), neste modelo muito simplificado da
realidade, equitativamente entre os pilares dos dois pórticos por, dentro de cada pórtico,
aqueles serem todos iguais: VE0B11 = 360 / 6 = 60 kN e VE0A12 = 706 / 6 = 118 kN. Tratando-
se do piso inferior, o momento máximo ocorre na base e é igual a (equação 19): ME0B11 = 2 / 3
x 4.00 x 60 = 160 kNm e ME0A12 = 2 / 3 x 4.00 x 118 = 315 kNm. Recorrendo à equação 20 e

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desprezando os momentos flectores provocados pelas cargas quase-permanentes que actuam


em simultâneo com o sismo, vem µ (P11) = 160 / (0.4 x 0.32 x 13300) = 0.33 e µ (P12) = 315
/ (0.3 x 0.42 x 13300) = 0.49. Estes valores vêm acentuar ainda mais o sub-dimensionamento
dos pilares que já se tinha feito sentir na verificação à compressão (ainda que seja justo referir
que, na estimativa dos esforços devidos ao sismo, as hipóteses assumidas tenham sido, de um
modo geral, conservativas). Torna-se portanto indispensável aumentar as dimensões pelo
menos dos pilares interiores, a não ser que um modelo de cálculo automático preliminar
permitisse demonstrar que era possível contar com uma percentagem significativamente maior
do corte global total absorvida pelas paredes.

Exemplo de aplicação 19

Voltando ao exemplo de aplicação 17, pretende-se agora verificar a inequação 12 para a


combinação sísmica nas mesmas secções das vigas V7 e V8 (Fig. 66). Começando pela viga
V7, torna-se necessário estimar os momentos flectores devidos ao sismo nas seguintes secções
do pilar P12: superior do piso 0 (ME0A12,sup) e inferior do piso 1 (ME1A12,inf). O primeiro pode
ser obtido recorrendo ao valor de VE0A12 obtido no exemplo de aplicação 18 (118 kN) e, pela
Fig. 88, ME0A12,sup = 1 / 3 x 4.00 x 118 = 157 kNm. Para obter o segundo, é necessário
conhecer, a partir do Quadro 7, o corte global ao nível do piso 1: 3772 - 277 = 3495 kN.
Tirando partido da proporcionalidade, conclui-se que VE1A12 = 118 x 3495 / 3772 = 109 kN e
que (Fig. 88) ME1A12,inf = 1/ 2 x 3.00 x 109 = 164 kNm. Pela equação 21 (com I1 = I2 - a
secção da viga é a mesma à esquerda e à direita - e l1 = l2 = 5.00 m), ME1A12,esq = (157 + 164) /
2 = 160.5 kNm, pelo que MSd = -30.3 (cargas quase-permanentes) - 160.5 = -191 kNm e µ
(expressão 12) = |-191| / (0.25 x 0.452 x 13300) = 0.284 < 0.30, indicando que a viga terá uma
taxa de armadura significativa mas, em princípio, não excessiva.

No que se refere à viga V8, torna-se necessário estimar os momentos flectores devidos ao
sismo nas seguintes secções do pilar P11: superior do piso 0 (ME0B11,sup) e inferior do piso 1
(ME1B11,inf). O primeiro pode ser obtido recorrendo ao valor de VE0B11 obtido no exemplo de
aplicação 18 (60 kN) e ME0B11,sup = 1 / 3 x 4.00 x 60 = 80 kNm. Para obter o segundo, tirando
partido da proporcionalidade, conclui-se que VE1B11 = 60 x 3495 / 3772 = 56 kN e que

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ME1A12,inf = 1/ 2 x 3.00 x 56 = 84 kNm. Pela equação 21 (e, tal como no caso anterior, com I1
= I2 e l1 = l2 = 5.00 m), ME1B11,dir = (80 + 84) / 2 = 82.0 kNm, pelo que MSd = -23.5 - 82.0 = -
106 kNm e µ = |-106| / (0.25 x 0.452 x 13300) = 0.157 < 0.25, indicando que a viga, nesta
secção, estará um pouco sobre-dimensionada.

3.6. PRÉ-DIMENSIONAMENTO DE PAREDES

Foi fornecido ao longo deste documento um conjunto de regras relativas à utilização ou não
de paredes resistentes, assim como ao posicionamento das mesmas em planta. Em termos de
pré-dimensionamento, pouco mais há a acrescentar. As dimensões das paredes em planta são
fortemente condicionados pela Arquitectura, pouco mais restando do que a definição da
sua espessura, e. Esta é a necessária para que o comportamento sísmico do edifício seja
satisfatório, tendo-se verificado no exemplo de aplicação 18 como a capacidade de resistência
e a rigidez das paredes pode influir significativamente no (pré-)dimensionamento dos pilares e
vigas. Em termos de valores mínimos de e, é ainda corrente ver-se paredes resistentes com
0.15 m, o que só será aceitável em estruturas de suporte secundárias (por exemplo, de patins
de escadas) ou em platibandas. As paredes com responsabilidade na resistência ao sismo
devem ter como espessura mínima os 0.20 m, devendo o Arquitecto projectista estar
mentalizado para acomodar paredes de 0.30 m ou mais em edifícios de médio a alto porte em
zonas fortemente sísmicas. É fundamental reter em mente que estes valores terão de ser
incrementados em 3 a 5 cm se as paredes forem revestidas.

Não são indicadas verificações suplementares. Estas existem, mas concernem apenas o
Engenheiro estruturalista, exigem o recurso a um modelo de cálculo automático minimamente
refinado, devem ser efectuadas ainda na fase de pré-dimensionamento e incluem, entre outras:
esforço transverso no rés-do-chão ou na 1ª cave, momento flector na base do rés-do-chão,
esforço transverso nos lintéis de ligação entre núcleos (tanto mais condicionante quanto maior
for a altura dos lintéis e menor o seu comprimento livre), excentricidade do esforço normal na
base da sapata comum dos núcleos (tendo em conta o efeito de binário promovido pelos lintéis
e as eventuais vigas de fundação) e máxima tensão de contacto na base da sapata comum.

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3.7. PRÉ-DIMENSIONAMENTO DE CONTENÇÕES PERIFÉRICAS

Em termos de Arquitectura, a única dimensão relevante das paredes de contenção periférica é


a sua espessura, e, sendo frequente ver projectos em que, para um edifício de 3 caves, é
considerada uma espessura total (limpo) de 0.20 m. O que se passa é que ela não constitui
necessariamente a totalidade do espaço que é necessário ficar previsto no projecto de
Arquitectura para “acomodar” as contenções periféricas, havendo que ter especificamente em
conta o processo construtivo (por sua vez, dependente do tipo de terreno - ver 2.5.), o
aspecto estético e as exigências de estanqueidade. Estes dois últimos aspectos foram
referidos em 2.5., tendo-se concluído que a garantia da estanqueidade pode retirar a todo o
perímetro das caves entre 10 e 18 cm, enquanto que a garantia de uma superfície regular sem
preocupações de estanqueidade pode “custar” cerca de 10 cm.

Quanto ao processo construtivo, tem-se fundamentalmente três situações:

• não há impedimentos a que a escavação para as caves seja feita a talude natural, sendo o
sistema de impermeabilização exterior às paredes - nesse caso, poder-se-á maximizar o
espaço útil das caves, tendo no entanto em conta as seguintes estimativas semi-empíricas
da espessura (válidas para os casos correntes e sem pressões hidrostáticas de carácter
permanente; não têm em conta os aspectos relacionados com a estética ou com a
estanqueidade): edifício com 1 cave - 0.20 m; edifício com 2 caves - 0.25 m; edifício
com 3 a 4 caves - 0.30 m;
• há impedimentos à execução da escavação em talude natural mas o terreno é consistente
e o nível freático é profundo - situação típica de zonas urbanas que leva à execução de
paredes de Munique; estas obedecem a regras de pré-dimensionamento semelhantes às
do caso anterior, mas com uma limitação à espessura mínima nos 0.25 m; ao não
permitirem a impermeabilização pelo exterior e por terem, sob esse ponto de vista, um
funcionamento relativamente pouco satisfatório, obrigam em geral a que se retire à área
útil das lajes uma faixa adicional de 10 cm, a que se deve somar por prudência cerca de 5
cm junto a edifícios imediatamente confinantes, pela dificuldade em cravar os perfis
metálicos nessas circunstâncias; daqui se conclui que, em zonas urbanas, se deve

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considerar um mínimo de 0.40 m para as paredes periféricas (num edifício de 15 m por


20 m em planta, isso corresponde a uma perda de 9 % da área útil);
• há impedimentos à execução da escavação em talude natural e o terreno é inconsistente
ou existe nível freático elevado - a solução mais utilizada actualmente em edifícios
correntes é as paredes moldadas; a sua espessura é muito dependente do terreno,
geralmente difícil, sabendo-se no entanto que a espessura mínima exequível é de 0.40 m;
se se pretender tirar partido da totalidade do terreno para construção, é preciso somar à
espessura da parede propriamente dita pelo menos cerca de 15 a 18 cm, que resultam do
muro-guia exterior (Fig. 90) e do facto de haver um acréscimo de 5 cm da distância entre
os muros-guia em relação à espessura nominal da parede (para facilidade de trabalho do
balde de maxilas); complementarmente e devido à presença da água no exterior, terá de se
recorrer a uma das soluções preconizadas nas Figs. 22 (geralmente complementada por
uma paredes de alvenaria por questões estéticas - 10 cm) e 23 (18 cm); em paredes
moldadas, terá de contar em termos de Arquitectura com pelo menos 0.65 m de espaço
perdido em toda a periferia periféricas (num edifício de 15 m por 20 m em planta, isso
corresponde a uma perda de 15 % da área útil); conforme referido em 2.5, a solução de
cortina de estacas moldadas é, sob este ponto de vista, pelo menos tão pouco eficiente
como as paredes moldadas; os poços, reservados às situações de edifícios antigos
contíguos, têm dimensões da ordem do metro, ainda que se possa ganhar algum espaço
pelo facto de estarem implantados em parte sob as paredes de alvenaria existentes.

Fig. 90 - Muros-guia, indispensáveis à execução de paredes moldadas

3.8. PRÉ-DIMENSIONAMENTO DE FUNDAÇÕES

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No que se refere às fundações, o respectivo pré-dimensionamento dificilmente afectará o


projecto da Arquitectura ou das restantes especialidade de Engenharia. No entanto,
apresentam-se algumas regras empíricas apenas para orientação futura desses intervenientes
no processo. Em 2.4 foram descritas as várias soluções de fundações normais em edifícios
correntes.

Começando pelas sapatas, de dimensões em planta A por B e altura H, para efeitos de pré-
dimensionamento, o que se pretende é que:

A x B ≥ Error! (22)

em que Nraro corresponde ao esforço normal na base do pilar ou parede calculado recorrendo
ao conceito da “área de influência”. σseg é a tensão admissível no terreno ao nível da base da
sapata (pelo menos 1.2 m abaixo da cota do terreno natural para que a sapata não assente na
camada superficial de terra vegetal, seja mobilizado algum peso de terreno acima da base e
exista espaço para a passagem das tubagens no piso térreo), a qual pode ser estimada com
base no resultado de um ensaio SPT, NSPT, imediatamente abaixo da sapata:

σseg [kgf/cm2] ≈ Error! (23)


em que k = 10 para valores da largura da sapata (mínimo entre A e B) entre 1.0 e 2.0 m, k = 7
para valores entre 2.0 e 3.0 m e k = 5 para valores entre 3.0 e 4.0 m. A Especificação E217 do
LNEC [10] fornece um conjunto de valores de σseg para solos correntes de fundação:

• rochas brandas ou muito alteradas: 10 kgf/cm2;


• areias e misturas areia - seixo, bem graduadas e compactas: 4 a 6 kgf/cm2;
• areias e misturas areia - seixo, bem graduadas mas soltas: 2 a 4 kgf/cm2;
• areais uniformes compactas: 2 a 4 kgf/cm2;
• areias uniformes soltas: 1 a 2 kgf/cm2;
• solos coerentes rijos: 4 a 6 kgf/cm2;
• solos coerentes muito duros: 2 a 4 kgf/cm2;

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• solos coerentes duros: 1 a 2 kgf/cm2;


• solos coerentes de consistência média: 0.5 a 1 kgf/cm2.

Tanto numa via de determinação de σseg como na outra, para solos incoerentes submersos, os
valores acima devem ser divididos por 2.

A forma rectangular da sapata pode ser mais ou menos alongada. O que se recomenda é que
(A - a) / 2 ≈ (B - b) / 2 (Fig. 91). Quanto à altura da sapata, H, recomenda-se a seguinte regra
semi-empírica (para garantir que a sapata se funciona como um corpo rígido em meio elástico
e que não tem problemas de punçoamento):

H ≥ Error! (24)

Fig. 91 - Sapata de um pilar representada em planta


A problemática das sapatas geometricamente excêntricas (por limitações de ocupação do
terreno enterrado) e dos momentos na base dos pilares (devidos sobretudo às acções
horizontais) não é aqui tratada, recomendando-se em ambos os casos o recurso a vigas de
fundação.

Exemplo de aplicação 20

No exemplo de aplicação 18, determinou-se o valor de NSd na base do pilar P11 para a
combinação fundamental em que a acção variável de base são as sobrecargas de utilização.
Uma vez que o coeficiente de majoração de todas as acções é de 1.5 e só foi considerada uma
única acção variável, Nraro na mesma secção pode ser obtido simplesmente fazendo -1547 / 1.5
= -1031 kN. Supondo que o edifício está assente numa camada de terreno coerente muito rijo

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(σseg ≈ 3 kgf/cm2 = 300 kN/m2), a área da sapata deverá ser da ordem de 1031 / 300 ≈ 3.50 m2.
Adopta-se A = 1.80 m (segundo x - Fig. 58) e B = 1.80 m (A x B = 3.42 m2), para a = 0.30 m
e b = 0.40 m, e H = 0.50 m ≥ (1.80 - 0.30) / 3 = 0.50 m.

Em relação aos ensoleiramentos gerais, o seu pré-dimensionamento está completamente fora


do âmbito desta cadeira, bastando referir que a espessura mínima habitual é de cerca de 0.60
m, sendo os valores mais correntes à volta dos 0.80 m a 1.00 m.

Os pegões são pré-dimensionados de uma forma muito semelhante às sapatas em termos de


acções verticais, sendo a principal diferença o facto de os valores de σseg poderem ser um
pouco mais elevados, em virtude do peso de terra acumulado acima da base do pegão. De
referir também que a secção transversal (em planta) dos pegões é sempre superior ao metro
quadrado.

O pré-dimensionamento das estacas recorre a noções de Geotecnia demasiado complexas para


o âmbito desta matéria. Apresenta-se apenas de seguida uma fórmula semi-empírica para
estimar a carga admissível, Qadm, numa estaca de diâmetro φ (de valor mínimo 0.40 m em
termos de exequibilidade) com funcionamento misto (de ponta ou por atrito lateral, podendo a
segunda parcela ser desprezada se não oferecer grandes garantias):
Qadm [ton.] ≈ Error![4 NSPT Error!+ Error!N*SPT π φ L] (25)

em que NSPT é o resultado do ensaio SPT ao nível da ponteira da estaca, N*SPT é o valor médio
do mesmo ensaio ao longo das camadas de solo desde a superfície à ponteira e L é o
comprimento da estaca. O valor de Qadm deverá ser maior ou igual a Nraro, calculado como
referido acima.

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4. BIBLIOGRAFIA

[1] RSA, “Regulamento de Segurança e Acções para Estruturas de Edifícios e Pontes”,


Decreto-Lei n.º 235/83, Porto Editora, 1983.
[2] Paulay, T.; Priestley, M. N., “Seismic Design of Reinforced Concrete and Masonry
Buildings”, A Wiley Interscience Publication, New York, 1991.
[3] “Estruturas de Edifícios de Betão Armado. Volume I”, Folhas da Licenciatura em
Engenharia Civil, IST, Lisboa, 1988.
[4] Eurocódigo 8, “Estruturas de Estruturas em Regiões Sísmicas”, ENV 1998-2: 1994.
[5] REBAP, “Regulamento de Estruturas de Betão Armado e Pré-esforçado”, Decreto-Lei
n.º 349-C/83, Porto Editora, 1983.
[6] Eurocódigo 2, “Projecto de Estruturas de Betão”, ENV 1992-1: 1991.
[7] Eurocódigo 1, “Bases para a Concepção e Acções em Estruturas”, ENV 1991-1: 1994.
[8] Brazão Farinha, J. S.; Correia dos Reis, A., “Tabelas Técnicas”, Edição P.O.B., Setúbal,
1992.
[9] Gomes, A.; Vinagre, J., “Estruturas de Edifícios de Betão Armado. Tabelas de Cálculo”,
Folhas da Licenciatura em Engenharia Civil, IST, Lisboa, 1993.
[10] E217, “Fundações Directas Correntes. Recomendações”, Especificação E217, LNEC,
Lisboa, 1968.

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