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Resumo do Livro – Vidas Secas


Graciliano Ramos

Publicado pela primeira vez em 1938, Vidas Secas é composto por 13 capítulos
independentes, que podem ser lidos como contos ou juntos, como um romance.

Mudança
Uma família de retirantes, composta por Fabiano, sinha Vitória (curiosamente,
Graciliano Ramos não acentuou a palavra como oxítona, sinhá), dois filhos – o menino
mais velho, o menino mais novo –, a cachorra Baleia e o papagaio, foge da seca. Em
meio à caminhada, o menino mais velho põe-se a chorar e o pai o xinga, fustigando-o
com a bainha da faca de ponta pensando em deixá-lo para trás para morrer. Eram seis
viventes, contando o papagaio, porém a fome era tamanha que a ave se transformou em
alimento, já que era muda e inútil. Fabiano percebe uma nuvem, aponta-a para a mulher
e, chegando ao pátio de uma fazenda abandonada, fixam residência.

"Os infelizes tinham caminhado o dia


inteiro, estavam cansados e famintos."

Fabiano
Fabiano, homem embrutecido capaz de perceber suas limitações, filho e neto de
vaqueiros, apossa-se da casa abandonada. Porém, o fazendeiro volta por causa da
melhoria do tempo e, depois de expulsar a família, acaba aceitando Fabiano como
vaqueiro.

"Você é um bicho, Fabiano.


"Isto para ele era motivo de orgulho. Sim
senhor, um bicho, capaz de vencer as
dificuldades."
Fabiano sabe que seu nível de rudeza está
próximo do mundo animal e percebe que não
consegue falar com clareza, apesar de
admirar as pessoas que conseguem se
expressar, lembrando-se de seu Tomás da
bolandeira:
"Seu Tomás da bolandeira falava bem,
estragava os olhos em cima de jornais e
livros, mas não sabia mandar: pedia."

O patrão mostra autoridade descompondo Fabiano, que se desculpava e prometia


emendar-se, pois sabia que não podia perder o emprego e que o fazendeiro só precisava
mostrar autoridade. Na verdade, sabia que a seca ia chegar, que nem valia a pena
trabalhar.

1
Anote!
Fabiano tem grandes dificuldades
lingüísticas, porém é consciente delas. Seu
vocabulário é mínimo, reduzindo-se, às
vezes, a sons guturais.

Cadeia
Fabiano vai à feira da cidade para fazer compras, toma pinga e percebe que seu
Inácio coloca água em tudo que vende. Sai e senta-se na calçada. Um soldado amarelo
bate-lhe no ombro e convida-o para jogar trinta-e-um. Fabiano procura palavras para
recusar o convite, porém, como soldado é autoridade, acaba acompanhando-o, joga,
perde e sai furioso da sala, contrariando a ordem do soldado que o mandava esperar. O
vaqueiro estava pensando numa desculpa para dar à mulher quando o soldado, de
repente, empurra-o e planta o salto da botina em cima da alpercata de Fabiano, que solta
um palavrão, ofendendo a mãe do soldado. Levado para a cadeia, o vaqueiro apanha
muito e, novamente, analisa sua situação de homem-bicho:

"Vivia preso como um novilho amarrado ao


mourão, suportando ferro quente."

Fabiano deseja vingar-se, mas muda de idéia quando pensa na família,


considerando que, assim como o patrão, o soldado precisava exercer seu autoritarismo.

Sinha Vitória
Sinha pensa em vender as galinhas para realizar o sonho que tinha havia mais de
um ano: possuir uma cama de lastro de couro igual à de seu Tomás, constatando que só
faltava a cama para serem felizes. Tem medo de uma nova seca, porém a companhia do
marido a faz sentir-se segura.

"Sentou-se na janela baixa da cozinha,


desgostosa. Venderia as galinhas e a marrã,
deixaria de comprar querosene. Inútil
consultar Fabiano, que sempre se
entusiasmava, arrumava projetos. Esfriava
logo – e ela franzia a testa, espantada, certa
de que o marido se satisfazia com a idéia de
possuir uma cama. Sinha Vitória desejava
uma cama real, de couro e sucupira, igual à
de seu Tomás da bolandeira."

Observe!
Sinha Vitória é mais inteligente que os
demais, parecendo ter conhecimento
decorrente de outro meio social, controlando
as contas e os sonhos de todos.

2
O menino mais novo
O ideal de vida do menino mais novo é ser igual ao pai, forte e vaqueiro. Sua
emoção maior aconteceu quando a cilha arrebentou e o pai, para espanto e entusiasmo
do filho, caiu em pé.

"O menino deitou-se na esteira, enrolou-se e


fechou os olhos. Fabiano era terrível. No
chão, despidos os couros, reduzia-se
bastante, mas no lombo da égua alazã era
terrível."

No dia seguinte, foi para o bebedouro e, quando o bode chegou para beber, saltou
sobre ele, mas os pulos foram tantos que o menino acabou caindo no meio da lama, sob
as risadas do irmão mais velho, a reprovação de Baleia e o medo da possibilidade de
surra.

O menino mais velho


O menino mais velho sente curiosidade pelo significado da palavra inferno e, sem
uma resposta elucidativa do pai, procura a mãe, que aludiu vagamente a um lugar ruim
demais. O filho pergunta à mãe se o tinha visto e ela, indignada, aplica-lhe um cocorote.
O menino, seguido pela cachorra, sai de casa. A cadela tenta distraí-lo brincando,
oferecendo-lhe a amizade que ele tanto procurava.

"Como era possível haver estrelas na terra?


"Entristeceu. Talvez sinha Vitória dissesse a
verdade. O inferno devia estar cheio de
jararacas e suçuaranas, e as pessoas que
moravam lá recebiam cocorotes, puxões de
orelhas e pancadas com bainha de faca."

Anote!
Os dois irmãos têm sonhos bem distintos: o
menino mais novo, ainda encantado, sonha
ser igual ao pai e sobressair-se realizando
algo; o menino mais velho deseja conhecer o
significado da palavra inferno, desvendar a
vida e ter amigos. Ambos podem ser
considerados sinédoque da criança
nordestina.

Inverno
Fazia frio intenso e a família reuniu-se em torno do fogo. Fabiano procura
conversar e, por meio de monossílabos e frases sem sentido, tenta contar uma história,
mas é interrompido pelo filho que vai buscar lenha. Recomeça a obscura história e é
novamente interrompido com uma discussão entre os meninos.

3
"Baleia, imóvel, paciente, olhava os carvões
e esperava que a família se recolhesse.
Enfastiava-a o barulho que Fabiano fazia."

Baleia enjoou da história e queria que todos se deitassem para que ela pudesse dormir
também. Todos têm medo da tempestade, pois ela é sinal de seca. 7a7a

Festa
Era festa de Natal na cidade. Todos se sentiam mal nas roupas que não eram
normalmente usadas, principalmente incomodados pelos sapatos. Na igreja, os meninos
se encantavam com as imagens e as luzes. Fabiano evitava falar com as pessoas da
cidade, desconfiado de todos. Na verdade, sentiam-se humilhados em contato com as
outras pessoas. Ao terminar a missa, as crianças foram brincar nos cavalinhos, enquanto
Fabiano embriagava-se. Baleia desapareceu por momentos, deixando todos
preocupados. A festa termina, Sinha Vitória sonha com sua cama de couro e Fabiano tem
pesadelos com muitos soldados amarelos.

"Fabiano roncava de papo para cima, as


abas do chapéu cobrindo-lhe os olhos, o
quengo sobre as botinas de vaqueta.
Sonhava, agoniado, e Baleia percebia nele
um cheiro que o tornava irreconhecível.
Fabiano se agitava, soprando. Muitos
soldados amarelos tinham aparecido,
pisavam-lhe os pés com enormes reiúnas e
ameaçavam-no com facões terríveis."

Baleia
Baleia estava doente, prestes a morrer. Fabiano achou que ela estava com
hidrofobia e apressou a morte do animal. Os meninos ficaram inconsoláveis pela perda da
irmã e o coração de Sinha Vitória também ficara pesado. Baleia desconfiou das intenções
de Fabiano, que acaba acertando-lhe um tiro nos quartos traseiros. Ela foge e, em meio à
agonia, misturam-se presente, passado e futuro nos pensamentos dela, sonhando com
outro tipo de vida. Não podia entender o porquê da atitude de Fabiano.

"Baleia encostava a cabecinha fatigada na


pedra. A pedra estava fria, certamente sinha
Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito
cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz,
num mundo cheio de preás. E lamberia as
mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As
crianças se espojariam com ela, rolariam
com ela num pátio enorme, num chiqueiro
enorme. O mundo ficaria todo cheio de
preás, gordos, enormes."

4
Para lembrar:
Baleia era considerada pessoa da família,
sensível, fiel, humanizada, enquanto Fabiano
animaliza-se e acredita ser bicho em face
das condições de vida de um típico retirante.
Note que a cachorrinha possui nome próprio
e os meninos, não.

Contas
O patrão roubava Fabiano na hora da partilha, obrigando-o a vender seus cabritos
por um valor muito pequeno. Sinha Vitória fazia as contas para Fabiano e elas não
conferiam com as do patrão.

"Não se conformou: devia haver engano. Ele


era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente
que era bruto, mas a mulher tinha miolo."

Um dia, Fabiano reclamou e o patrão mandou-o procurar serviço em outro lugar.


Então, o vaqueiro desculpou-se e foi tentar vender um porco magro para cobrir as
despesas, mas um fiscal da prefeitura acabou infligindo-lhe um imposto e uma multa pela
tentativa de venda.

O soldado amarelo
Em meio à caatinga deserta, Fabiano encontra-se com o soldado amarelo que o
havia prendido. Por um segundo passa-lhe pela cabeça a idéia da vingança, pois
percebeu que podia dar fim ao soldado com facilidade já que ele tremia acovardado.
Fabiano afrouxou-se, pensou que apanhar do governo não é desfeita. O soldado,
percebendo a mudança do vaqueiro, perguntou-lhe o caminho e ele, tirando o chapéu,
curvado, ensinou-lhe.
"Afastou-se, inquieto. Vendo-o acanalhado e
ordeiro, o soldado ganhou coragem,
avançou, pisou firme, perguntou o caminho.
E Fabiano tirou o chapéu de couro. –
Governo é governo. Tirou o chapéu de couro,
curvou-se e ensinou o caminho ao soldado
amarelo."

Observe
O soldado amarelo é símbolo de repressão e
do autoritarismo pelo qual é comandado
(ditadura Vargas), porém não é forte sozinho;
sem as ordens da ditadura, é fraco e
acovarda-se diante de Fabiano.

5
O mundo coberto de penas
O mulungu cobria-se de arribações e era um sinal evidente de que a seca estava
voltando, prenúncio de miséria e sofrimento. As aves consumiam a água que mantinha
vivos os animais, segundo Sinha Vitória e, no desespero, Fabiano procura abater com a
espingarda as aves que pode. Pensou em Baleia, em recordações dolorosas, na covardia,
no soldado amarelo, no patrão.
"Se a cachorra Baleia estivesse viva, iria
regalar-se. Porque seria que o coração dele
se apertava? Coitadinha da cadela. Matara-a
forçado, por causa da moléstia. Depois
voltara aos látegos, às cercas, às contas
embaraçadas do patrão. Subiu a ladeira,
avizinhou-se dos juazeiros. Junto à raiz de
um deles a pobrezinha gostava de espojar-
se, suspirou, sentiu um peso enorme por
dentro. Se tivesse cometido um erro? Olhou
a planície torrada, o morro onde os preás
saltavam, confessou às catingueiras e aos
alastrados que o animal tivera hidrofobia,
ameaçara as crianças. Matara-o por isso."

Era necessário abandonar aquele lugar.

Fuga
A fazenda estava despovoada. Fabiano e a família partem de madrugada em
silêncio, deixando para trás o sonho. Sinha Vitória lembra-se de Baleia e chora. Fabiano
espera que algo aconteça e reverta a situação, por isso caminha lentamente. Marido e
mulher amparam-se e pensam juntos pela primeira vez. Sinha Vitória fala da esperança
de dias melhores, cultivariam um pedaço de terra, os meninos iriam para a escola e
seriam diferentes dos pais.
"Iriam para diante, alcançariam uma terra
desconhecida. Fabiano estava contente e
acreditava nessa terra, porque não sabia
como ela era nem onde era. Repetia
docilmente as palavras de sinha Vitória, as
palavras que sinha Vitória murmurava porque
tinha confiança nele. E andavam para o sul,
metidos naquele sonho. Uma cidade grande,
cheia de pessoas fortes. Os meninos em
escolas, aprendendo coisas difíceis e
necessárias. Eles dois velhinhos, acabando-
se como uns cachorros, inúteis, acabando-se
como Baleia. Que iriam fazer? Retardam-se
temerosos. Chegariam a uma terra
desconhecida e civilizada, ficariam presos
nela. E o sertão continuaria a mandar gente
para lá. O sertão mandaria para a cidade
homens fortes, brutos, como Fabiano, sinha
Vitória e os dois meninos."

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