Você está na página 1de 76

ÍNDICE 01

PREFÁCIO
CRIANÇA E ADOLECENTE. PRIORIDADE ABSOLUTA,
DE FATO E DE DIREITO.

02
INTRODUÇÃO
BREVE DESCRITIVO DOS ARTIGOS

03
SUAS OBRAS TÊM QUE CONTINUAR.
CELINA BEATRIZ MENDES DE ALMEIDA E LUIZ FERNANDO
MENDES DE ALMEIDA

04
A LUTA PELOS DIREITOS HUMANOS DE CRIANÇAS
E ADOLESCENTES NO BRASIL: A EXPERIÊNCIA DA ANCED.
MARGARIDA MARQUES

05
QUASE DE VERDADE: DIREITOS HUMANOS E ECA, 18 ANOS DEPOIS.
ALEXANDRE MORAIS DA ROSA
E ANA CHRISTINA BRITO LOPES

06
DIREITOS HUMANOS NO SÉCULO XXI:
AS ALGEMAS E OS SONHOS.
SERGIO VERANI

07
O 60º ANIVERSÁRIO DA DECLARAÇÃO
UNIVERSAL DE DIREITOS HUMANOS DAS NAÇÕES UNIDAS.
VANESSA OLIVEIRA BATISTA

08
20 DE NOVEMBRO: ALÉM DE ZUMBI,
TEMOS UM OUTRO A COMEMORAR.
RICARDO DE PAIVA E SOUZA

09
SITUAÇÃO DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA NO BRASIL DE HOJE:
INSEGURANÇA SOCIAL. POBREZA, DESIGUALDADES E TERRITORIALIDADE.
WANDERLINO NOGUEIRA NETO

10
NÃO-CRIMINALIZAÇÃO & IMPUNIDADE.
SISTEMA DE GARANTIA DE DIREITOS HUMANOS.
WANDERLINO NOGUEIRA NETO

11
18 ANOS DO ECA; 19 ANOS DA CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DA CRIANÇA;
20 ANOS DA CONSTITUIÇÃO; 20 ANOS DO CEDECA-DOM LUCIANO MENDES;
60 ANOS DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS E 120 ANOS
DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA.
LIGIA COSTA LEITE

12
OS 120 ANOS DA ABOLIÇÃO
DA ESCRAVIDÃO.
GILDA ALVES BATISTA

13
DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO
E NUTRIÇÃO SUSTENTÁVEL.
LEONARDO FELIPE DE OLIVEIRA RIBAS

14
A DEMOCRACIA NO
ORÇAMENTO PÚBLICO
THIAGO MARQUES

15
A PRODUÇÃO DE CRIANÇAS E JOVENS PERIGOSOS: A QUEM INTERESSA?
CECÍLIA M. B. COIMBRA
MARIA LÍVIA DO NASCIMENTO

16
PROMESSAS
QUEBRADAS.
IRENE KHAN

17
UM ENCONTRO COM CRIANÇAS E ADOLESCENTES QUE ESTÃO
NAS RUAS – RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA INSTITUCIONAL.
MÔNICA DE ALKMIM MOREIRA NUNES

18
A REFORMA DAS PRISÕES, A LEI DO VENTRE LIVRE
E A EMERGÊNCIA DA QUESTÃO DO “MENOR ABANDONADO”.
ESTHER MARIA DE MAGALHÃES ARANTES

19
BREVES NOTAS SOBRE A INCONSTITUCIONALIDADE
DA MEDIDA DE INTERNAÇÃO.
RAFAEL CAETANO BORGES
Criança e adolescente. Prioridade absoluta, de fato e de direito.

PREFÁCIO “A cidadania é o direito a ter direitos, pois a igualdade em dignidade e direitos dos seres
humanos não é um dado. É um construído da convivência coletiva, que requer o acesso
ao espaço público. É este acesso ao espaço público que permite a construção de um
mundo comum através do processo de asserção dos direitos humanos.”
(Hannah Arendt)

Esta publicação resulta do esforço em socializar reflexões sobre os direitos humanos de todas e todos, e de uma
tentativa de sistematização que permita questionar, confrontar a nossa própria prática, superando o ativismo.
É igualmente um “diálogo entre saberes: uma articulação criadora entre o saber cotidiano e os conhecimentos
teóricos, que se alimentam mutuamente”.1

No ano de 2007, companheiras e companheiros atuantes em diversas áreas de conhecimento contribuíram com
preciosas reflexões sobre as consequências perigosas de uma eventual redução da maioridade penal no Brasil.
Essa adesão possibilitou o lançamento da publicação intitulada “A redução da maioridade penal vai resolver
o problema da violência?”

Neste ano de 2009 celebram-se os 16 anos da Conferência de Viena (1993), os 21 anos da Constituição da
República, os 61 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), os 41 anos da ratificação brasileira
à Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1968), os 19 anos
do Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), 20 anos da Convenção Internacional pelos Direitos das Crianças
(1989), dentre outros aniversários, como os 121 anos da dita abolição da escravidão (1988).

Em 2009 comemoramos também os 15 anos da ANCED – Associação Nacional dos Centros de Defesa da
Criança e do Adolescente, os 25 anos da Associação Beneficente São Martinho (1984) e os 21 anos do CEDECA
D. Luciano Mendes de Almeida (1988).

Estas são conquistas significativas no contexto da luta pela efetivação dos direitos humanos, pois são marcos que
simbolizam admiráveis avanços na compreensão da necessidade do respeito à dignidade do ser humano.

Do ponto de vista legal, o sistema de garantias avançou muito, porém ainda resta um grande abismo entre
o disposto pela norma e a realidade concreta experimentada por milhares de crianças e adolescentes.

Persiste arraigada no imaginário social uma ideia distorcida sobre os direitos humanos de crianças e adolescentes,
sendo comum a reprodução de jargões do tipo: “lá vem o pessoal do direitos humanos”, “crianças e adolescentes
só têm direitos, não têm deveres”, “criança agora pode fazer tudo, o estatuto permite”, ou “depois do estatuto,
os pais e professores perderam o controle sobre as crianças”, “o estatuto é uma lei de primeiro mundo” e ainda,
“direitos humanos só defende bandido” ou “direitos humanos para humanos direitos”.

Lembramos também do fenômeno da criminalização da pobreza e dos movimentos sociais e das constantes
represálias e ameaças que os defensores de direitos humanos ainda sofrem em seu cotidiano.

Ao senso comum, o termo “direitos humanos” parece representar “um lugar”, “um grupo de pessoas”, “o pessoal
dos direitos humanos”, que só aparece em situações muito restritas e que não é reconhecido como parte integrante
da sociedade e da prática cotidiana de luta pela garantia da dignidade da vida.

Todas e todos são titulares dos direitos humanos e, portanto, responsáveis por sua promoção. Os exemplos
de atuação nesse sentido são inúmeros: o médico no atendimento humanitário ao paciente, os agentes de
segurança pública no cumprimento estrito da lei e na relação com as comunidades, a professora na relação
respeitosa com seus alunos e colegas, as organizações sociais, pastorais, grupos de proteção do meio ambiente
e do desenvolvimento sustentável, o poder público na elaboração dos orçamentos e políticas públicas, pais
na relação afetuosa com seus filhos e as próprias crianças e adolescentes ao vivenciarem experiências concretas
de respeito aos direitos humanos.

Com esse espírito, renovamos nosso convite aos parceiros e parceiras, e a aceitação foi imediata. As reflexões
feitas por articulistas de diversas áreas do conhecimento apresentadas nesta publicação perpassam as mais
diversas vertentes dos direitos humanos.
1 HOLLIDAY, Oscar Jara. Para Sistematizar Experiências. P.44
BREVE APRESENTAÇÃO
INTRODUÇÃO DOS ARTIGOS.
Iniciamos a publicação com o artigo “Suas Obras têm que continuar” produzido por Celina Mendes de Almeida
com a colaboração de Luiz Fernando Mendes de Almeida, sobrinha-neta e irmão de Dom Luciano Mendes
de Almeida, relatando a obra construída pelo bispo ao longo de uma vida de desprendimento material, dedicada
às crianças mais necessitadas e desassistidas.

O exemplo de vida de D. Luciano Mendes de Almeida continua sendo uma importante inspiração para o nosso
trabalho, principalmente nos momentos de desânimo diante das grandes dificuldades enfrentadas na área social.

Numa contextualização sob os aspectos e dimensões estruturais de resistência à defesa de direitos humanos
predominante na nossa sociedade, representação social da infância e da adolescência, e o papel do Estado Brasileiro,
Margarida Marques contribui com importantes considerações sobre os 15 anos de atuação e consolidação da
Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente – ANCED, como referência de coalizão
pela defesa jurídicosocial de crianças e adolescentes em nível nacional, regional e internacional.

“Quase de Verdade” é um artigo de Alexandre da Rosa e Ana Christina Lopes que aborda os avanços
e desafios do Estatuto da Criança e do Adolescente, marcado pelo princípio da prioridade absoluta, que
apesar de ser constitucional, ainda é sistematicamente desrespeitado em todas as regiões brasileiras,
especialmente devido a dificuldade que os atores jurídicos ainda têm para compreender o grande giro
na cultura dos direitos humanos representado pelo ECA.

“Pensar os direitos humanos no século XXI significa pensar as formas de luta contra o Capital, contra a produção
dos seus valores ideológicos e da sua organização social, que limitam e restringem a própria vida”, é dentro dessa
lógica que Sérgio Verani, com muita lucidez e sensibilidade compartilha uma lição de justiça vivenciada na sua
infância e nos relata a análise de Machado de Assis sobre a lei de 28 de setembro de 1871, apelidada de Lei do
Ventre Livre. Por fim, apresenta um exemplo da prática judicial do século XXI. Entre “as algemas e os sonhos”,
Verani nos proporciona reflexões políticas sobre o compromisso do Estado com a concretização das políticas
públicas e sobre as dificuldades na efetivação dos direitos humanos.

Na sequência, Vanessa Oliveira aborda as etapas históricas dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos
Humanos. Parte da etapa de elaboração do documento, passando pela fase da Convenção Internacional e por
fim, trata da fase ainda não concluída: a criação de instrumentos adequados para assegurar a observância dos
direitos e o respeito a dignidade humana.

Ricardo de Paiva e Souza nos apresenta importantes reflexões sobre a Convenção sobre os Direitos da Criança
(CDC), adotada por unanimidade pelas Nações Unidas em 20 de Novembro de 1989, documento que enuncia um
amplo conjunto de direitos fundamentais – os direitos civis e políticos, e também os direitos econômicos, sociais
e culturais – de todas as crianças, bem como as respectivas disposições para que sejam aplicados.

A CDC não é apenas uma declaração de princípios gerais; quando ratificada, representa um vínculo jurídico para os
Estados que a ela aderem, os quais devem adequar às normas de Direito interno às da Convenção, para a promoção e
proteção eficaz dos direitos e liberdades nela consagrados. Este tratado internacional é um importante instrumento legal
devido ao seu caráter universal e também pelo fato de ter sido ratificado pela quase totalidade dos Estados do mundo.

Wanderlino Nogueira Neto nos contempla com dois artigos inéditos. No primeiro, aborda as possibilidades
da sociedade civil organizada em promover análises da situação da infância e adolescência no Brasil, a fim de
aperfeiçoar a elaboração, coordenação e execução de políticas públicas garantidoras dos direitos humanos e do
acesso à justiça. O texto apresenta dados de fontes oficiais e de organizações sociais brasileiras e internacionais. Por
fim, trata do conceito de “coesão social”, com foco no sentido de pertencimento e de valorização da identidade.

No artigo “Não-criminalização & Impunidade. Sistema de Garantia de Direitos Humanos”, apresentado durante
o III Congresso Mundial contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, o autor apresenta importantes
e atuais reflexões sobre a promoção e proteção dos direitos sexuais e reprodutivos de crianças e/ou adolescentes.
Reconhece os direitos sexuais como direitos fundamentais do ser humano, como preliminar a ser assegurada
e a criminalização (ou não) do explorado sexual, com uma das possíveis respostas do Estado à violação dos
direitos sexuais de crianças e adolescentes.
Com uma refinada análise, Lígia Leite reconhece que apesar do Brasil ser signatário de diversos marcos legais nacionais e internacionais,
não há muito que se comemorar, uma vez que chegamos em 2009 “sem ver os resultados globais de inclusão de toda a população brasileira
em um projeto de nação e de futuro.” Lígia resgata a trajetória das políticas públicas sociais para a infância no Brasil com seus avanços
e retrocessos. No texto marcado por críticas, destaca que “o Estatuto da Criança e do Adolescente, que nasce com 30 anos de atraso,
já que o golpe de 1964 interrompeu o processo de resgate da dívida sócioeducacional iniciada com a LDB em 1961 e com 50 anos
de atraso das Convenções internacionais das quais o Brasil é signatário”.

Com o texto “os 120 anos da Abolição da Escravidão” Gilda Alves Batista contribui com a reflexão sobre o sentido desse fato, analisando
dois conceitos importantes, que marcam a história dos afrobrasileiros: raça e democracia racial. Fundamentando-se em renomados
autores, compara as relações raciais de outros países com o Brasil.

O artigo de Leonardo Ribas é sobre o “direito humano à alimentação e nutrição sustentável” que, para o autor, é a base dos direitos
humanos e da cidadania. Leonardo aponta que “a solução para o problema da fome e da exclusão social passa por uma nova ordem social,
econômica e política que tenha como objetivo estratégico atingir o desenvolvimento sustentável.” O autor ressalta ainda a necessidade
de mecanismos que garantam o controle da cidadania sobre o Estado e da participação popular, pois sem estas os governos dificilmente
escaparão da prisão da burocracia e dos laços da corrupção.

Nessa conjuntura, Thiago Marques contribui com considerações sobre “A Democracia no Orçamento Público”, cujo cerne está em buscar
o planejamento que satisfaça as prioridades estabelecidas pelas políticas públicas de acordo com as disponibilidades de recursos.

No artigo “A produção de crianças e jovens perigosos: a quem interessa?”, as psicólogas Cecília Coimbra e Maria Lívia do Nascimento
apresentam algumas produções de subjetividade, ocorridas em especial no Brasil do séc. XX, que tem caracterizado a população infanto-
juvenil subalternizada como perigosa, violenta, criminosa e não humana. São também analisados alguns efeitos de práticas que associam
essas características à pobreza.

“Promessas Quebradas” é uma introdução ao Relatório Anual da Anistia Internacional de 2008. O documento cita casos de violações
decorrentes da ação e omissão das grandes potências ao longo dos últimos 60 anos. Também são abordados os exemplos de liderança
construtiva de algumas nações, os desafios para alcançar as Metas de Desenvolvimento do Milênio e a movimentação popular no sentido
de exigir a renovação do compromisso dos líderes com a defesa e promoção dos direitos humanos em nível global.

“Um encontro com crianças e adolescentes que estão na rua” é a exposição de Monica de Alkmim sobre sua experiência como pedagoga
diante da dura realidade de meninos e meninas que vivem nas ruas do Rio de Janeiro. Para a autora, a sociedade não deve achar natural a
moradia nas ruas; a existência de crianças vivendo nessa situação não é um momento histórico ou um problema específico de uma classe
social ou econômica, uma vez que as “conseqüências de uma sociedade que tem como base a desigualdade e a dominação de um ser
humano por outro seu igual vividas diariamente pelo povo brasileiro.”

No texto “A reforma das prisões, a Lei do Ventre Livre e a emergência da questão do ‘menor abandonado”, Esther Arantes partilha
reflexões sobre a história das políticas para a infância no Brasil. O trabalho de intensa pesquisa, desenvolvido por Esther nos últimos
20 anos, ajuda a entender como o processo histórico do dito ‘sistema de proteção da infância’ deixou marcas profundas na infância
empobrecida brasileira, gerando reflexos em futuras gerações.

O texto destaca a necessidade de uma reflexão profunda sobre a “proteção integral” prevista na Convenção dos Direitos da Criança (ONU,
1989), incorporada na Constituição Federal e regulamentada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, cujos princípios básicos reconhecem
crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, pessoas em condição peculiar de desenvolvimento e prioridades absolutas.

No instigante artigo “Breves notas sobre a inconstitucionalidade da medida de internação” Rafael Caetano Borges apresenta uma análise
crítica da permanente afronta ao texto constitucional no tocante à realização plena dos direitos da criança e do adolescente, dentre os quais
a inimputabilidade e todos os desdobramentos dela advindos – notadamente a proibição de submetê-los a penas privativas de liberdade.

O texto reflete a contradição entre as finalidades pedagógicas e a privação de liberdade (internação) previstas no E.C.A., juntamente
com elementos colhidos do dia a dia da realidade nacional. O autor exemplifica por meio dos relatórios de violações de direitos humanos
produzidos pela Human Rights Watch e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em parceria com o Conselho Federal de Psicologia (CFP),
que demonstram a desumanização dos adolescentes encarcerados, retratando absoluto desprezo do Estado brasileiro pelo Estatuto da
Criança e do Adolescente, e o resultado da total ausência de políticas públicas nesta área.

EQUIPE CEDECA - CENTRO DE DEFESA


DOM LUCIANO MENDES DE ALMEIDA.
SUAS OBRAS TÊM QUE CONTINUAR.
CELINA BEATRIZ MENDES DE ALMEIDA*
LUIZ FERNANDO MENDES DE ALMEIDA**

Desde o falecimento do meu tio Luciano, há dois anos, passei “A Figueira”. Ele nos explicava que tinha esse nome porque é
a ouvir muitas pessoas relatarem em vários testemunhos como ele uma árvore com muitos galhos, cada um sendo uma ramificação
era uma pessoa santa. dessa assistência ao menor. A Figueira se dedica prioritariamente
àqueles que têm deficiências físicas, principalmente locomotoras.
Nós da família tínhamos o privilégio de conviver mais de perto Durante o espaço de tempo que ficam na Figueira, além de
com ele, e constatarmos como ele era realmente uma pessoa alimentação recebem acompanhamento de monitores, assistentes
maravilhosa. Foram muitas as suas realizações, mas só aos poucos sociais e em alguns casos de médicos que procuram melhorar o
fui entendendo porque ele era realmente especial. Infelizmente, só dia a dia deles, chegando a reverter a doença de que são vítimas
fui conhecer algumas das inúmeras obras que ele cuidava, ou foi por falta de atendimento adequado. O custeio para manutenção
a fonte de inspiração, depois de seu falecimento. dessa obra, e de outras que ele fundou em Mariana, são obtidas
por doações resultantes de visitas que meu tio fazia àqueles
Quando era pequena lembro que fui uma vez a Mariana para visitá-lo que ele sabia que podiam ajudar, e com a conscientização dos
com meus pais, depois só retornei por ocasião do seu velório. paroquianos de Mariana e dos outros municípios abrangidos por
Nesta última visita a emoção foi muito forte, pois a cidade inteira sua arquidiocese.
pranteava aquele que para eles era um santo, e eu me sensibilizei
com todas essas manifestações. Hoje tenho notícias de que essas obras continuam, mas sofrem
com a falta de auxílio financeiro essencial
Recentemente, numa visita ao Centro de Defesa para manter acesa a chama de esperança
dos Direitos da Criança e do Adolescente “Dom Luciano tinha dessas ações tão importantes para
- CEDECA, descobri por acaso que essa uma expressão no olhar a erradicação da miséria e da fome que
organização possui o nome do meu tio Luciano e um sorriso quando impedem o bem comum, tão necessário
Mendes de Almeida. Esse centro é um braço estava no meio desses à justiça social do nosso Brasil.
da obra São Martinho fundada pelos padres meninos que transmitia,
carmelitas e completou vinte anos em novembro além da segurança, Nunca vou me esquecer das suas últimas
de 2008. o amor que em muitos palavras, que pronunciou meu avô, antes
casos era desconhecido de ser sedado no hospital: “Não abandone
Meu tio Luciano, que era arcebispo de Mariana, desses adolecentes.” meus pobres”. Acho que isso demonstra
foi secretário geral da CNBB por oito anos claramente como sua vida foi marcada
e depois presidente por mais oito anos. No início de seu secretariado por uma entrega total e absoluta aos mais necessitados e um
na CNBB, foi responsável pela criação da pastoral do menor, que desprendimento material que, espero, sirvam de exemplo e
era uma das suas principais metas. A criança pobre e desnutrida possam atingir cada vez mais pessoas, inspirando os outros
era uma de suas grandes preocupações. Foi o responsável pela a olharem mais para as crianças que necessitam principalmente
criação de inúmeras obras de apoio à criança e ao adolescente, do amor e carinho de todos nós. O CEDECA e outras obras
não só escolares e profissionalizantes, mas também abrigos para são uma prova real da dedicação do meu tio Luciano para com
acolher meninos e meninas que iam chegando nesses centros os pobres e os desassistidos.
e ali encontravam o que lhes faltava e muitas vezes nunca
tinham recebido. Lamento só ter visitado essa obra depois que meu tio faleceu.
Meu convívio com ele não foi tão grande como eu gostaria, pois
Lembro do meu tio dizendo que vários nunca tinham visto uma os poucos momentos em que nós podíamos estar juntos eram
escova de dente, pois não tinham alguém que lhes dessem na ocasião do Natal ou quando ele vinha para celebrar algum ato
noções de higiene, carinho ou atenção – pequenos detalhes que religioso. Hoje ele não está mais entre nós e as ocasiões em que
só conheceram quando tomaram contato com essa instituição. pude usufruir de sua companhia ficarão na minha lembrança e irão
nortear a minha vida familiar e profissional.
Dom Luciano tinha uma expressão no olhar e um sorriso quando
estava no meio desses meninos que transmitia, além da segurança,
o amor que em muitos casos era desconhecido desses menores.

A semente plantada por ele, fruto da Pastoral do Menor, cresceu


* CELINA BEATRIZ MENDES DE ALMEIDA
e em muitos lugares já é uma árvore frondosa. Em Mariana, sede Sobrinha-neta de D. Luciano Mendes de Almeida
** LUIZ FERNANDO MENDES DE ALMEIDA
de seu arcebispado, uma de suas obras se chama justamente Irmão de D. Luciano Mendes de Almeida

8
A LUTA PELOS DIREITOS HUMANOS DE CRIANÇAS E
ADOLESCENTES NO BRASIL: A EXPERIÊNCIA DA ANCED.
MARGARIDA MARQUES*

Introdução nacional, nós contávamos com quatro anos de aprovação do


Estatuto da Criança e do Adolescente. Hoje, comemoramos
Este artigo traz uma reflexão sobre os 14 anos da Anced - Associação 18 anos do ECA. Falar desta organização implica reconhecê-la
Nacional dos Centros de Defesa, posto na perspectiva do que parte desta história.
significa ser uma organização de direitos humanos. Em absoluto,
aprofunda questões conceituais ou históricas, vivenciadas ao longo A mudança do paradigma jurídicopolítico que reconhece crianças
desses 14 anos, simplesmente porque a articulista se reconhece como sujeitos de direitos é fruto de um amplo processo de luta
entre os mais novos na história desta organização e por saber que social dos anos 70/80, no qual as próprias crianças e adolescentes
a riqueza da sua experiência, formada por homens e mulheres fizeram-se movimento. No Brasil, este movimento, que foi
espalhados por este país, é mais profunda, mais complexa e mais internacional, coincidiu com nossa redemocratização e resultou
diversa do que seria capaz de traduzir aqui. na adoção da CDC - Convenção Internacional dos Direitos das
Crianças e dos Adolescentes.
O que se pretendeu foi oferecer uma reflexão sobre os 14 anos
da Anced, inserida nos debates sobre os 18 anos do Estatuto da Apesar dos avanços, fruto da luta realizada pelos movimentos
Criança e do Adolescente, dos 20 anos da Constituição Federal sociais, da mobilização e da pressão política, não podemos
de 1988 e dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos deixar de reconhecer que os últimos anos têm sido um tempo
Humanos, situando-a nesta trajetória. de resistência e afirmação das conquistas,
marcado pelo esforço coletivo de fazer valer
Considerando que toda essa riqueza foi possível “Ao completar 14 anos, a Anced na prática aquilo que fomos capazes de impor
vem consolidando suas reflexões/
pela capacidade que a Anced tem encontrado, como marco legal, e inclusive tornou-se
elaborações, tanto em relação ao
ao logo desses anos, de conciliar a tarefa de seu papel como ator político com um
referência em outros países. É por isso que,
ser uma articulação acional e impulsionar papel específico a ser desempenhado, mais do que contar sobre os 14 anos de
as ações locais desenvolvidas por cada Centro qual seja o de uma organização de existência da Anced, é necessário traçar esta
de Defesa filiado. defesa jurídicosocial de direitos trajetória respaldada por uma reflexão do
infantojuvenis de expressão nacional,
que representa a luta em defesa de direitos
como também o de ser um espaço
Fundada em 1994, a Anced reunia, em 2008, de articulação de Centros de Defesa humanos no Brasil, mais precisamente do
trinta e seis Centros de Defesa filiados. Sua espalhados por todo o país.” que significa a luta em defesa de direitos
fundação dá continuidade a uma articulação humanos de crianças e adolescentes.
anterior, denominada Rede Nacional de Centros de Defesa, a
rede de Centros de Defesa, com o objetivo de fazer avançar na Ao fazermos esta contextualização, levamos em conta os seguintes
organicidade e na atuação local e nacional. aspectos/dimensões:

Ao completar 14 anos, a Anced vem consolidando suas 1. As razões estruturais e históricas de resistência à luta em defesa
reflexões/elaborações, tanto em relação ao seu papel como de direitos humanos;
ator político com um papel específico a ser desempenhado, 2. A representação social da infância e da adolescência,
qual seja o de uma organização de defesa jurídicosocial predominante na nossa sociedade;
de direitos infantojuvenis de expressão nacional, como também 3. O desafio de atuação no plano institucional;
o de ser um espaço de articulação de Centros de Defesa 4. O papel do Estado brasileiro, não necessariamente nesta
espalhados por todo o país. Em qualquer desses papéis, ordem.
a Anced se reconhece como parte do movimento de infância.
Não podemos descolar a análise da nossa construção histórica,
A melhor maneira de falar da Anced é situando essa caminhada pois somos um país formado a partir de uma história de opressão
nos processos que foram desenvolvidos nos últimos anos de luta e resistência, de conquista e escravização da população nativa
pela efetivação dos direitos humanos, pois não há como descolar quase dizimada e da população africana traficada. Esta realidade
sua história desse processo. vai marcar as relações de poder em nosso país. E esse poder
baseia-se no lugar que se ocupa na sociedade, marcado pela
1. Um rápido olhar acerca do contexto da luta por direitos relação colonizados x colonizadores, senhores x escravos, patrões
humanos no Brasil x empregados, ricos x pobres.

No momento em que Anced se constituiu como associação Isso marca nossa realidade atual. A pobreza no país, embora tenha

9
se reduzido nos últimos dez anos, continua a afetar com muito mais e alguns dos obstáculos à sua concretização).
intensidade as crianças e os adolescentes. Consideram-se pobres, A análise do papel desempenhado pelo Estado brasileiro é outro
para fins da presente análise, as pessoas que viviam com rendimento aspecto importante a ser analisado. Este, ao longo da história,
mensal familiar de até ½ salário mínimo per capita. Em 2007, esteve a serviço dos projetos das elites, em detrimento da efetivação
a PNAD revelou que 30% dos brasileiros viviam com esse patamar de direitos das maiorias sociais que, por sua vez, são as que
de rendimentos. No caso das crianças e adolescentes de 0 a pagam o maior preço das consequências dos projetos econômicos
17 anos de idade, a proporção de pobres era bem mais alta, desenvolvidos. Exemplo disso é a atual crise do capitalismo
46%. Chama mais atenção ainda o percentual de 19,6% que de dimensões econômica, social e ambiental. A preocupação
vivia com rendimento mensal familiar de até de salário mínimo. central do Estado é a de socorrer as instituições financeiras.
Em contrapartida, apenas 1,7% desse segmento da população
vivia com rendimento mensal familiar de mais de cinco salários Neste contexto de violência estrutural e negação de dignidade,
mínimos. a representação da infância brasileira transita desde a completa
invisibilidade dos primeiros séculos da colonização, passando
A distribuição da riqueza no Brasil caracteriza-se por extremas pelas ideologias higienistas, menoristas, à resistência criativa dos
desigualdades regionais, que também se refletem na situação movimentos sociais de meninos e meninas na década de 80, que
das crianças e adolescentes. O Nordeste é a região que inaugura um novo paradigma quanto aos direitos de crianças
reconhecidamente apresenta o maior percentual de pessoas e adolescentes e seu reconhecimento como atores sociais, sujeitos
pobres (51,6% da população total). Quando se destaca apenas de direitos. Neste novo paradigma, a sociedade adultocêntrica
a população jovem da região (de 0 a 17 anos de idade), é questionada e avançamos em garantias legais de direitos para
o percentual de pobres é maior ainda (68,1%). Destes, 36,9% esse segmento social
viviam com somente até ¼ de salário mínimo de rendimento
mensal familiar. Entre as crianças menores de 6 anos de idade, do Entretanto, estes avanços não significaram a superação das
Nordeste, o percentual das que viviam com até de salário mínimo representações socialmente construídas sobre a infância
de rendimento mensal familiar é ainda mais expressivo: 39,3%. e adolescência, em particular da infância e adolescência pobre,
Os dados da PNAD 2007 mostram que, quanto mais nova e esta representação tem consequência sobre a política pública
a criança, maior a probabilidade de estar em situação mais e sobre a defesa de direitos humanos deste segmento. Ainda
vulnerável qualquer que seja a região do país (Síntese de Indicadores convive, na sociedade, o olhar do passado, profundamente
Sociais 2008, IBGE). impregnado, nas falas, nos gestos, no descaso da sociedade
e do Estado com a efetivação de seus direitos e com a condição
Já no debate sobre direitos, esta relação torna-se mais marcante, de silêncio e invisibilidade que a nossa história e cultura impôs
a ponto de pôr em questão que alguns setores da sociedade a crianças e adolescentes.
sequer tenham algum direito e da ausência/violação de direitos ser
naturalizada. Essa ausência de direitos, alicerçada pela ausência Nesse espaço, não poderemos fazer uma reflexão mais demorada
de Estado, forma um Brasil à parte, um Brasil informal, um Brasil sobre o tema, mas é importante que tenhamos em conta que
que não conta e que não pode ser levado em conta. a história da criança e do adolescente brasileiro foi construída
em uma sociedade adultocêntrica, patriarcal, escravista, onde
Como na história não há linearidade, por mais que tenhamos estão presentes as questões étnico-raciais, de gênero e classe
avançado na luta social, ainda não superamos todos esses social e onde se construíram representações que posteriormente
arquétipos e eles são retomados dia a dia, quando enfrentamos geraram inter-relação entre conceitos, tais como: adolescência
as violações de direitos. Porque no Brasil, em princípio, a lei não e delinquência, pobreza e criminalidade, criança e tutela, políticas
tem a força que tem em outras culturas. Gerando os simbolismos, públicas e repressão.
como por exemplo: “lei não é para os pobres”, “Cadeia não é para
os ricos”, “No Brasil, a lei existe para não ser cumprida”. Marilena É certo que essas representações incluem hoje os interesses de
Chauí nos dá uma indicação da complexidade da nossa formação uma sociedade baseada na mercadoria e, portanto, no consumo,
histórica quando analisa os obstáculos à democracia brasileira. e nesta condição crianças e adolescentes são alvo prioritário.
Buscando nossa formação histórica a partir desses elementos,
ela aponta: Lidamos, portanto, com uma contradição entre as representações
socialmente construídas da infância e adolescência e o novo
“Estamos, portanto, diante de duas séries de obstáculos à paradigma. Ângela Pinheiro nos aponta que “a representação social
democracia social, no Brasil: aquela decorrente da estrutura inovadora da criança e do adolescente como sujeito de direito,
autoritária da sociedade brasileira – que bloqueia a participação e afirmadas no texto da CF/88 parece estar em rota de coalizão com
a criação de direitos – e aquela decorrente das novas ideologias marcas históricas arraigadas da cultura política brasileira, e que
– que reforçam a despolitização provocada, de um lado, pela a repressão, fundada no autoritarismo e na dominação, tem lugar
fragmentação e dispersão das classes populares (sob os efeitos especial no trato público e no pensamento social concernentes
da economia neoliberal sobre a divisão e organização sociais à criança e ao adolescente” (Criança e do Adolescente: Porque
do trabalho) e, de outro, pelo encolhimento do espaço público o abismo entre a lei e a realidade).
e alargamento do espaço privado pela ação das três ideologias
contemporâneas, que reforma a ação privatizadora do Estado Ao invés de superarmos a violência contra criança e adolescente,
neoliberal.” (Marilena Chauí – Considerações sobre a democracia vemos crescer as violações, seja porque a perspectiva de poder

10
adulto crianças se mantêm, alimentando o silêncio e a invisibilidade, Esses elementos, que demonstram o quanto o discurso não
seja por conta das desigualdades sociais que afetam, sobretudo, tem se confirmado pela prática, revelam o longo caminho a ser
as crianças e adolescentes, tornando-os mais vulneráveis percorrido pelo movimento de infância. Em outras palavras:
e constituindo novos campos de violação de direitos, tais como como país, não temos desenvolvido políticas de enfrentamento
a comunicação de massa, a indústria cultural, a publicidade, a questões estruturais.
a criminalização...
A infância e adolescência brasileira, sobretudo a que está
Um elemento final, neste breve cenário, diz respeito aos novos entre a população mais pobre, tem sofrido mais fortemente as
espaços de atuação dos movimentos sociais. Além de novos conseqüências deste modelo. O trabalho infantil não foi erradicado,
debates, a década de 1980 nos trouxe aprendizados que foram pelo contrário, aumenta e conta com a naturalização e aceitação
sistematizados em propostas de construção de novos espaços de junto à sociedade.
intervenção, introduzindo o debate sobre controle social, cogestão,
participação paritária entre sociedade e poder público, espaços O número de adolescentes que atualmente encontram-se em
definidores de políticas. Foram criados os conselhos de direitos, regime de internação é de 15 mil em todo o país, revelando que
fundos da infância e adolescência, realizadas conferências, entre o encarceramento tem sido a medida mais utilizada para lidar com
outras novas possibilidades de atuação. o adolescente em conflito com a lei, indicando a incapacidade
da sociedade, da família e do poder público em lidar com esta
Hoje, faz-se necessária uma avaliação do que tem representado problemática. Deste modo, transformam os adolescentes nos
para o movimento esse nível de atuação mais institucionalizado, culpados pela violência e utilizam-se deste argumento para
repensando em que medida ele tem representado participação o recrudescimento do discurso e de propostas favoráveis
real e em que medida tem funcionado como regulador ou à redução da idade penal e à ampliação de medidas repressoras
legitimador do Estado. São questões não tão novas, mas que e institucionalizadoras de modo geral.
precisamos enfrentar e que também incluem o movimento
de direitos humanos. A violência contra criança e adolescente somente toma visibilidade
quando adquire interesse e dimensão midiática. Na prática, segue
2. A situação da infância e adolescência e o papel das sendo silenciosa, cotidiana e, na maioria das vezes, solitária.
organizações de direitos humanos Dá-se no plano doméstico e institucional.

A prioridade absoluta, definida tanto na CF/88 (art. 227) quanto no 3. Uma experiência: a Anced
Estatuto da Criança e do Adolescente (art. 04), não tem garantido
a implementação de políticas públicas que revertam o quadro de É dentro deste cenário que a Anced se constitui e vem se firmando
desigualdade e violações de direitos, colocando-se, junto com como uma associação nacional, reunindo diferentes experiências.
o enfrentamento dos problemas estruturais, uma prioridade de Nesta condição híbrida, sendo uma associação e, ao mesmo
intervenção. tempo, uma coalizão, a Anced lida com o desafio de ser um
espaço de articulação, mas também de debates e de elaboração
A Anced, no ano de 2007, por ocasião do Dia de Discussão Geral teórica. De desenvolvimento de experiências locais, algumas
da Comissão dos Direitos da Criança da ONU, quando foi discutido bastante inéditas, e expressão nacional e internacional, de um
o investimento na infância e adolescência, apresentou uma análise conceito de atuação como uma organização de direitos humanos
das conseqüências desse modelo de desenvolvimento e da de crianças e adolescentes. É associação de Centros de Defesa,
falta de investimento desse modelo econômico para a infância mas é também movimento social.
brasileira: somando-se os investimentos em 2006 nas áreas de
saúde, assistência social, trabalho, educação, cultura, direitos da O plano trienal 2004-2006 trazia na sua apresentação a seguinte
cidadania, habitação, saneamento, organização agrária e gestão síntese sobre a criação da Anced: “Com essa institucionalização
ambiental, calcula-se o montante de aproximadamente R$ 108 passou-se a contar com uma nova instância de abrangência
bilhões, ou seja, somando o gasto com todas essas áreas sociais, nacional de intervenção que, sem substituir a atuação de
ela representa somente 40% do gasto total com a dívida pública. cada um dos Centros em seus respectivos locais, os fortalece
(segundo documento apresentado pela Anced para debate geral e potencializa. A existência da Anced viabiliza também, do ponto
com a ONU, em 2007). de vista estratégico, as representações desses Centros junto aos
demais atores nacionais de proteção e defesa de direitos.” (plano
Já em documento recente de análise da PLOA (Projeto de Lei trienal 2004-2006).
Orçamentária) para 2009, do Governo Federal, o Inesc confirma
esta perspectiva quando aponta que tem havido uma redução dos É no convívio e a partir dessa complexidade interna que a Anced
investimentos na área social: “O PLOA 2009 propõe a redução vem, ao longo destes 14 anos, agregando sua contribuição ao
do crédito orçamentário dos programas de combate ao trabalho movimento de infância. Entre essas contribuições, podemos citar
infantil (Peti) e exploração sexual de crianças e adolescentes”. as discussões que viriam a se constituir posteriormente na idéia
O programa de erradicação do trabalho infantil tem 348,7 milhões do Sistema de Garantia de Direitos. Sobre esta construção teórica,
como previsão para 2009, o que representa uma redução de nos fala Margarita Bosh: “Com a fundação da Anced, em 1994,
8,62% se comparado ao crédito orçamentário que o Peti recebeu se cristaliza, dissemina e divulga a reflexão iniciada à época da
do congresso em 2008. Rede Nacional dos Centros de Defesa sobre a necessidade e o

11
formato de um ‘Sistema de Garantia de Direitos’ que contemple ampliação da aplicação dos direitos humanos como fundamento
três eixos fundamentais: Promoção, Defesa e Controle Social, e o em normalização internacional e constitucional”.
mesmo passa a ser objeto de estudo, capacitação e estratégia dos
Centros de Defesa e de outros atores sociais e governamentais.” E ainda: “A opção prática dos direitos humanos. Fazer cumprir
estes instrumentos é o ponto de certeza que se tem na Anced.”
Naquele momento, estavam em discussão as instâncias que
deveriam ser responsáveis pela garantia dos direitos. Fazia- É nesse espírito que se deu a participação da Anced na audiência
se necessário desenvolver ações governamentais e não- regional da Comissão de Direitos Humanos da Organização dos
governamentais para a efetiva implementação desses direitos, seja Estados Americanos, que discutiu a situação de adolescente
mediante o reordenamento de algumas instâncias governamentais em privação de liberdade no Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina
e não-governamentais, seja pela criação de outras. e Chile. A Anced tem priorizado a participação em articulações
nacionais e internacionais, onde possa ser uma voz de denúncia
A fundação da Anced veio, pois, fortalecer esse debate e contribuir e debate da situação da infância. Sendo assim, a Anced filiou-
para o avanço na elaboração de uma proposta de Sistema de se ao DCI/DNI em 2006, tornando-se sessão Brasil desta
Garantia de Direitos que contemplasse os três eixos fundamentais: organização internacional. Ao mesmo tempo, tem participado
promoção, defesa e controle social dos direitos de crianças em outros espaços de debate e articulação como, por exemplo,
e adolescentes. a Redlamyc (Red latinoamericana e Caribenha dos direitos
de crianças e adolescente).
Qual o papel de uma organização de defesa dos direitos infanto-
juvenis? Qual a abrangência da defesa de direitos humanos e como Alguns temas têm tido prioridade de intervenção da Anced,
vincular nossa prática de defesa à construção de uma ruptura refletindo por sua vez a atuação dos Centros de Defesa, como
societária? À medida que a Anced levanta estes questionamentos por exemplo, violência sexual contra crianças e adolescentes,
para si, tem também procurado avançar na elaboração de reflexões erradicação do trabalho infantil, monitoramento do orçamento
que possam ser incorporadas à sua prática e ao movimento de público, violência contra criança e adolescente.
infância.
A relação entre o local e o nacional fortalece a ação da Anced,
Essas questões dilemáticas têm acompanhando a Anced/Centros ao mesmo tempo em que possibilita a troca, o intercâmbio e o
de Defesa e têm servido como ponto de partida para as definições aprendizado, não somente entre os Centros de Defesa, mas entre
orientadoras de sua ação/intervenção. É claro que 18 anos depois diferentes atores nacionais e internacionais.
da aprovação do ECA e 14 anos depois da criação da Anced, ainda
seguimos buscando respostas a estes e outros questionamentos. É, portanto, embasada na reflexão deste contexto de luta dos
Entre eles, está a necessidade de uma avaliação de nossa direitos humanos no Brasil e na situação da infância, que a Anced
intervenção no plano institucional, como já indicado anteriormente se posiciona na sociedade, referendando este posicionamento na
neste artigo. carta pública aprovada na sua última assembléia nacional: “Assim,
reafirmamos nosso compromisso com o projeto éticopolítico
As estratégias de ação e debate de uma sociedade justa, democrática e sustentável, pelo que
continuaremos a fazer do engajamento militante, da postura crítica
Entre as estratégias desenvolvidas pela Anced, na sua atuação e no e independente frente a todos os governos e da proteção jurídico-
sentido de aprofundar os debates em torno de questões-chaves, social de direitos humanos nossas ferramentas de projeção de um
podemos destacar a criação de grupos de trabalho temáticos, mundo de homens e mulheres iguais em todas as suas gerações.”
os GTs, nomeadamente o GT de enfrentamento à violência (Assembléia Nacional da Anced – junho de 2008)
sexual, o GT de combate à impunidade, o GT Ato Infracional,
o GT Orçamento Criança e o GT de monitoramento da Convenção
dos Direitos da Criança. Também tem procurado criar espaços
alternativos de troca de experiências entre os Centros. Outra
contribuição da Anced foi a construção do relatório alternativo da
sociedade civil sobre a implementação da Convenção Internacional
dos Direitos da Criança, em 2004. Em 2008, o relatório estava
outra vez em construção, em diálogo com importantes segmentos
da sociedade civil organizada, com destaque para participação de
crianças e adolescentes que, neste relatório, serão agregados de
forma efetiva e não colocados apenas como grupos focais.

Alicerçado nas experiências desenvolvidas pelos Centros de


Defesa, o debate sobre justiça juvenil aponta conflitos e buscas
comuns. O posicionamento apresentado pela Anced no encontro
do DNI (Defensa de Los Niños Internacional), em novembro
de 2007, procura ser uma referência para este debate quando
afirma que “deve-se lutar pela minimização do direito penal e pela

12
Fontes consultadas:

Chauí, Marilena – Considerações sobre a democracia e alguns


obstáculos à sua concretização
Pinheiro, Ângela – Crianças e adolescente no Brasil – Porque o
abismo entre lei e realidade. Editora UFC
Orçamento, direitos e desigualdades – Um olhar sobre a proposta
orçamentária 2009 –
Inesc- Outubro 2008

Documentos da Anced:

- Reflexões sobre as práticas da defesa jurídico-social por entidades


da sociedade civil – centros de defesa – Texto produzido por
Margarita Bosh
- Justiça juvenil: A visão da Anced sobre seus conceitos e práticas
em uma perspectiva dos direitos humanos. São Paulo. 2007
- Plano Trienal 2008-2010
- Plano trienal 2004-2006
- Orçamento e participação: uma contribuição brasileira –
Documento apresentado pela Anced ao Dia de discussão geral
da ONU-2007

* MARGARIDA MARQUES
Graduada em Comunicação Social, especialista em Arte e Educação, faz parte
da Coordenação Colegiada da Anced e da Coordenação do Cedeca - Ceará.

13
QUASE DE VERDADE: DIREITOS HUMANOS
E ECA, 18 ANOS DEPOIS.1
ALEXANDRE MORAIS DA ROSA*
ANA CHRISTINA BRITO LOPES**

Dois mil e oito foi fadado a grandes comemorações voltadas para os trocar a lógica perversa da prática das políticas de repressão e
direitos humanitários: primeiro os 60 anos da Declaração Universal emergenciais pelas políticas públicas básicas? O que temos hoje?
dos Direitos Humanos da ONU, depois os 20 anos da Constituição
da Republica que, de tão comprometida com os direitos Hoje, com toda segurança, podemos afirmar que ele teve
fundamentais, ficou conhecida como Constituição Cidadã. Mas discernimento e clarividência suficientes para prever o grande
o grande destaque comemorativo para os “heróis da resistência” 2 desafio de concretizar a transmutação de crianças e adolescentes
, sem sombra de dúvidas, é o mais que emblemático “aniversário de objetos em sujeitos. Transformar as políticas públicas
dos 18 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente”. de emergenciais e repressivas em básicas, com ênfase no
desenvolvimento de programas voltados para as necessidades
É possível dizer que, nos três documentos comemorados, é tudo comuns ao público-alvo, porque sabia que as prénoções que
“quase de verdade”... Mas aqui cabe-nos apenas refletir sobre os antecipam o sentido eram (e continuam, ainda) permeadas por um
dezoito anos do Estatuto e daí a propriedade do uso do título de totalitarismo antidemocrático decorrente da “ignorância funcional”
história infantojuvenil de Clarice sobre o cachorro Ulisses, que late dos atores jurídicos, especialmente magistrados e promotores de
uma “história que até parece de mentira e até parece de verdade”. justiça, os quais não conseguem compreender o giro copernicano
Foi a inspiração para falar do que no mundo real acontece com avivado pelo ECA e a cultura dos Direitos Humanos.
o aniversário do Estatuto que, ao ser lido e colocado em confronto
com a realidade, também parece ora de mentira E, de novo, a pergunta: o que temos hoje?
ora de verdade, talvez situado no meio termo de
realidades singulares neste imenso país, muito “Quando refletimos sobre os avanços Em todos os segmentos da sociedade,

decorrente de decisões individuais de aplicação


e desafios do Estatuto, marcado pelo indícios de vivermos uma “ilegalidade oficial”,
princípio constitucional da prioridade diante da inobservância das leis: a prioridade
efetiva do ECA. absoluta, não devemos deixar de
absoluta, apesar de princípio constitucional,
lado a dimensão do problema ao
toma o perfil de “ficção jurídica”, bem como
Após grande luta pela redemocratização do País, se fazer um balanço e perceber que
avanços existiram, mas que ainda muitos dos direitos humanos de crianças
eleita a Assembléia Nacional Constituinte, foi
estão aquém, graças à violação e adolescentes inscritos no ordenamento
conquistado o artigo 227 da CR, fruto de grande
ao princípio, que é nacional, e não jurídico especial, transformando esta
mobilização social de segmentos diversos regional, estadual ou municipal, mas
área do direito em um verdadeiro
da sociedade envolvida e preocupada em direcionador da Democracia!”
“conto de fadas” que, parafraseando o
transformar as vidas de crianças e adolescentes.
famoso conto infantil, poderia se chamar
Talvez, nenhum dos princípios seja mais “quase de verdade”.
“O ECA no País das Maravilhas”. Esta poderia ser uma das
traduções do que se passa, embora o “Quase verdade” de Clarice
O objetivo do Poder Legislativo era de que fosse possível reverter
forneça um significante mais adequado ao que pretendemos ou,
a dívida histórica com um atendimento marcado pela caridade e
ainda, muitos outros títulos de histórias infanto-juvenis, no Direito
assistencialismo em detrimento da promoção de direitos humanos
do Sítio do Pica-Pau Amarelo...
para a infância e juventude, que fazia com que o público infanto-
juvenil fosse alvo da atenção apenas no viés abandono-delinquência,
Quando refletimos sobre os avanços e desafios do Estatuto,
objeto de ações repressivas e controladoras em sua maioria.
marcado pelo princípio constitucional da prioridade absoluta, não
devemos deixar de lado a dimensão do problema ao se fazer um
A urgente transformação de crianças e adolescentes em sujeitos
balanço e perceber que avanços existiram, mas que ainda estão
(e não mais objetos) de direito, tinha que ter uma força tal que
aquém, graças à violação ao princípio, que é nacional, e não regional,
impedisse o esquecimento pelo mundo adulto das necessidades
estadual ou municipal, mas direcionador da Democracia!
básicas e fundamentais de pessoas em desenvolvimento, e foi
escolhida a expressão que pudesse destacar a importância
Mais uma vez, pensemos: o que temos hoje, em maior ou menor
das providências z serem urgentemente praticadas: “prioridade
escala, em grande parte dos Municípios e Estados brasileiros?
absoluta” para as ações pertinentes à garantia e defesa dos
direitos fundamentais elencados constitucionalmente: dois anos - A não observância do artigo 4º do ECA, alíneas “d” e “e”
após, ratifica-se o artigo constitucional na Lei 8069/90 – Estatuto não sendo priorizadas pelas políticas públicas na área e
da Criança e do Adolescente. recursos nos orçamentos;
- Uma proliferação de ONGs para tentar diminuir o abismo
Alessandro Baratta (1998)3 anteviu a luta que seria travada: a reforma entre o que a política de atendimento prevê como direito a
legal teria força suficiente para mudar a cultura? Seria possível ser efetivado e o que temos como políticas públicas;
1 O Título “Quase de Verdade” foi inspirado no livro de literatura infanto-juvenil de Clarice Lispector, autora muito admirada pelos autores deste texto que, assim, ao mesmo tempo que usam tomam emprestado o título para desenvolver o tema
por possibilitar provocar uma reflexão crítica por parte dos leitores, ainda possibilita uma justa homenagem à autora que tanto admiram e de quem são leitores vorazes.
2 Expressão escolhida para tentar definir aqueles que se dedicam a lutar pelos direitos humanos, apesar das críticas sempre sofridas que os rotulam, muitas vezes, como meros “defensores de bandidos”.
3 Criminólogo italiano, já falecido, considerado o grande ícone da Criminologia Crítica.

14
- Adolescentes envolvidos com a prática de atos infracionais - Universidades cujos cursos de graduação em Direito não
ainda em delegacias para adultos, ou em unidades contemplam em suas grades curriculares a obrigatoriedade
de internação inadequadas e contrárias aos preceitos do ensino do direito da criança e do adolescente, muitas
indicados pelos estudiosos com maior probabilidade vezes, nem como opção livre e acarretando, como
de mudar a orientação deles para uma vida consoante conseqüências:
às condutas socialmente aceitáveis; a) Futuros operadores de direito que se transformarão
- Dificuldade em ter acesso à Justiça graças à inexistência de em profissionais de carreira pública, como
Defensoria Pública em alguns Estados e, assim, à Defesa promotores, defensores públicos e juízes, que irão
Técnica obrigatória a que têm direito quando envolvidos, operar o sistema de garantia de direitos sem sequer
por exemplo, com a prática de um ato infracional; conhecerem o texto básico legal (Estatuto), que não
- Conselhos Tutelares que, muitas vezes, independente é o suficiente para trabalhar com as questões do
da região em que se encontram, estão longe do que foi universo infanto-juvenil, que exige conhecimentos
idealizado pelo ECA. Conselheiros despreparados para interdisciplinares (psicologia, pedagogia, medicina,
cumprir com a difícil missão de zelar pelos direitos de serviço social...);
crianças e adolescentes simplesmente porque, em alguns b) Baixa capacidade de compreensão do ECA
casos, nem sequer leram o Estatuto antes de se elegerem por magistrados e promotores, reiterando-se
e não podem garantir o que desconhecem; o espetáculo das derrapagens totalitárias, de gente
- Processo de eleição de Conselheiros Tutelares (quando que confunde proteção integral com sua opinião

existem) completamente “viciado” pelas mesmas mazelas pessoal e tranforma o ECA num instrumento de

das eleições para cargos políticos de vereadores, prefeitos, opressão, especialmente porque assiste a “banda
passar falando coisas de amor” e se acovarda diante
deputados... (ex.: compra de votos);
de um Poder Público que se omite reiteradamente;
- Conselhos de Direitos que ainda não têm clareza sobre
c) Despreparo técnico de advogados para trabalhar
quais são suas reais atribuições: controlar ações em todos
na defesa da parcela mais vulnerável da sociedade,
os níveis e deliberar políticas públicas para a infância
afastando a concretização da ampla defesa
e juventude e, ainda, incorrendo no perigo de inverter
e dificultando o sucesso na garantia do direito
a lógica do que é prioridade absoluta por ações, tais como:
a ser defendido. Temos centenas de advogados nas
. Plenárias e Comissões que se transformam em
áreas cível, família, tributária, penal, trabalhista, mas
“reunião de adultos” defendendo seus interesses
um número ínfimo de profissionais que conhecem
institucionais ou dos órgãos que representam (se
e podem advogar no âmbito infanto-juvenil, com
governamentais), ficando em último plano a vez
todas as especificidades nos seus procedimentos
e voz dos sujeitos que deram causa a todos estarem
e que, quando resolvem atuar, acabam colocando
ali reunidos quinzenal ou mensalmente;
em risco a defesa adequada daqueles por quem
. Conferências (Municipais, Estaduais e Nacional) que
estão atuando.
roubam os olhares e a atenção de todos durante
o ano de suas realizações, com disputas acirradas
Este novo direito apresenta uma grande demanda de profissionais
e muita discussão sobre os que poderão participar
que possam operacionalizar e tirar do papel as conquistas da
das mesmas. Os temas escolhidos para serem
reforma legislativa. A Constituição da República de 1988, 20 anos
debatidos, exaustivamente, muitas vezes não
atrás, ordenou que todos fossem responsáveis pelos direitos
revertem nas políticas públicas que deveriam ser
fundamentais de crianças e adolescentes: a família, a sociedade
deliberadas, com base nas sínteses registradas nos
e o Estado. Não se pode tolerar, assim, gente que rasteja no
Anais das Conferências pelos Conselhos;
campo da infância e juventude, negando-se a cumprir o caráter
. Uma sociedade que, muitas vezes, “desorganizada”
emancipatório do ECA.
e desarticulada por interesses “confusos”, diversos
dos que deveriam nortear as ações dos Conselheiros, É hora de nova mobilização social, a exemplo do ocorrido na
desperdiça a conquista da mesma sociedade civil, década de 80. Que 2008 seja um marco: a retomada, não mais
quando mobilizada e organizada, em participar da para conquistar uma lei preponderantemente comprometida
deliberação de políticas públicas pelos Conselhos de com os direitos humanos, mas pela efetivação desta, como já
Direitos e adiando a vitória destes espaços contra- disse Norberto Bobbio. Alessandro Baratta, do alto do seu olhar
hegemônicos vitais para a transformação e efetivação visionário, indicou a difícil luta para a concretização do projeto
dos direitos humanos de crianças e adolescentes. de uma sociedade mais igualitária e mais justa necessária para
- Um universo de explorações, muitas vezes iniciada pelas a aplicação do novo direito da infância e da adolescência: “(...)
mãos dos familiares (prática histórica e mundial), com o caminho hoje no Brasil e em todo o mundo do capitalismo real
viés mercantilista, seja da mão-de-obra, seja do corpo é o das lutas pacíficas e tenazes, para se assegurar e impor que
da criança e do adolescente. Crianças e adolescentes a Constituição e a lei sejam aplicadas em todas as áreas. Revolução
transformados em mercadoria de troca ou objeto de lucro social significa sinergia de todas as lutas pela defesa e plena
(prostituição infantil, meninos vendidos como jogadores realização dos direitos sancionados pelas leis, pelas constituições,
de futebol para o exterior, trabalho no lixo, nos canaviais, pelas convenções internacionais, (...) Hoje, utopia concreta
no tráfico etc.); é a legalidade constitucional (...)”4
4 Baratta, Alessandro. In Difíceis Ganhos Fáceis: Drogas e Juventude Pobre no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Instituto Carioca de Criminologia: Freitas Bastos, 1998, pg.20

15
Dez anos já haviam sido transcorridos da promulgação da
Constituição da República à época em que ele escreveu estas
palavras. Agora, vinte anos depois, é possível dizer, com toda
segurança: ter a melhor lei nacional para crianças e adolescentes,
ter uma Carta Magna que ordena a prioridade absoluta para
a garantia e efetivação destes direitos, não é (foi) uma condição
suficiente em todos estes anos para transformar a realidade,
embora necessária.

No mundo do “faz-de-conta”, até utopia é diferente: o desejo


é de alcançar a legalidade material que só foi alcançada até certo
ponto. Há que se admitir que, felizmente, nem tudo se perdeu.
Muitas conquistas existiram com base na lei predominantemente
comprometida com a garantia dos direitos humanos de crianças
e adolescentes, graças a um pequeno, porém perseverante,
número de guerreiros pró-direitos de crianças e adolescentes.

O que nos move a continuar na luta e, por exemplo, escrever este


artigo, é o desejo de termos uma sociedade na qual tenhamos
leis que, quando lidas para os que ainda as desconhecem,
não provoquem comentários jocosos e piadas quanto à sua
veracidade.

Queremos uma sociedade na qual o “faz-de-conta”, o “lúdico”,


exista só nas brincadeiras e na literatura infantil, como a de
Clarice, mas que, em especial, no que diz respeito ao consagrado
e festejado “princípio da prioridade absoluta” – no que concerne
à preferência na formulação e na execução das políticas sociais
públicas e destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas
relacionadas com a proteção à infância e à juventude – seja tudo
de “verdade verdadeira”. Se para a consagrada autora, a verdade
só é como tal no mundo de quem gosta de inventar, sejamos
mais criativos que os que vêm sendo vitoriosos na arte de criar
estratégias para continuar perpetuando o status quo de objetos,
característico de crianças e adolescentes no Código de Menores,
que insiste em se manter em vigor em vários aspectos, mesmo
18 anos depois de ter sido revogado, principalmente na cabeça de
gente com uma cultura jurídica mofada! Sem contar os “menoristas
enrustidos”...

“Inventemos” mais e mais maneiras de criar mecanismos para


superar a criatividade inspirada em uma lógica perversa dos que
inventam para perpetuar a cultura de desprezo e exploração dos
mais frágeis e vulneráveis. Talvez, com Clarice, possamos entender
o caráter e a função de uma “quase verdade” na construção da
cidadania infanto-juvenil, porque desde 1988 nem todos viveram
felizes para sempre...

*ALEXANDRE MORAIS DA ROSA


Juiz de Direito da Infância e Juventude de Joinville (SC), Doutor em Direito (UFPR)
e Professor do Programa de Mestrado/Doutorado da UNIVALI-SC.

**ANA CHRISTINA BRITO LOPES


Secretária da Comissão da Criança e do Adolescente da OAB/PR, Mestre em Ciências Penais,
Professora da PUCPR e Coordenadora do Curso de Especialização
Panorama Interdisciplinar do Direito da Criança e do Adolescente da PUCPR.

16
DIREITOS HUMANOS NO SÉCULO XXI:
AS ALGEMAS E OS SONHOS.
SERGIO VERANI*

“Segue-se a segunda etapa, a invenção de nova vida – o apenas Naquela época, início dos anos 50, o comunismo era considerado
a construção da nova realidade social na qual nossos sonhos utópicos
o “mal do século”, comunista comia criancinha, era um ser bárbaro
serão realizados, mas a (re)construção desses próprios sonhos.”
(Slavoj Zizek)
e desumano.

Mas o exemplo humano da professora Maria José me intrigava,


No ano de 2008 registraram-se algumas datas significativas ela era a contestação viva daquela fraudulenta propaganda
para a garantia dos Direitos Humanos: 120 anos da Abolição da anticomunista. E comecei a pensar e a descobrir como as belas
Escravatura, 18 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, mentiras eram inventadas pela ideologia do Capital. Se Dona Maria
20 anos da Constituição Federal, 60 anos da Declaração Universal José era uma pessoa assim, integralmente humana, o comunismo,
dos Direitos Humanos. então, não podia ser identificado como alguma coisa desumana,
cruel e desprezível, muito pelo contrário.
Entretanto, o início deste jovem século XXI caracteriza-se,
globalizadamente, por uma aprofundada concentração privada A outra professora lembrada é Dona Arésia Winiwarter, Diretora do
das riquezas, por uma intensificação da segregação social, pela Grupo Escolar.
fragmentação dos interesses públicos/coletivos e dos movimentos
comunitários, por uma exacerbação da desigualdade social e do Era um dia de jogos esportivos, eu participava do campeonato de
sofrimento humano.
corrida, e cheguei em primeiro lugar junto
com outro menino, negro e pobre, da minha
O Capital, hegemônico e soberano, conseguiu, “Lutar pelos Direitos Humanos é,
também, exigir que o Estado não se sala. O prêmio seria um estojo, daqueles de
nesta sua fase histórica, desenvolver, como
privatize, transformando o próprio serviço madeira, puxava-se a tampa e havia vários
nunca antes, o seu incontrolável impulso para público em mais uma mercadoria; espaços separados, para lápis, borracha,
a morte e para a destruição do humano. lutar pelos Direitos Humanos é, também,
apontador etc.
exigir que o Estado exerça o seu

Pensar os Direitos Humanos no século XXI compromisso constitucional para


a garantia da cidadania, da dignidade A Diretora anunciou que faria um sorteio,
significa pensar as formas de luta contra
da pessoa humana, da erradicação colocou dois papeizinhos numa sacolinha
o Capital, contra a produção dos seus valores da pobreza, da marginalização
e sorteou o nome do menino negro e pobre.
ideológicos e da sua organização social, que e das desigualdades sociais.”
Fiquei um pouco desolado, desconfiei do
limitam e restringem a própria vida.
sorteio, e Dona Arésia veio me consolar:
não fica triste não, você já tem um estojo bonito, eu sorteei o seu
A História ajuda a pensar.
amigo porque ele não tem nenhum e nem pode comprar...

Criança, fiz o curso primário no Grupo Escolar Ribeiro de Almeida,


A minha primeira sensação foi sentir-me injustiçado com o sorteio
em Nova Friburgo. As crianças da cidade, todas as crianças – as
dirigido. Hoje, acho que Dona Arésia, Diretora da escola pública,
pobres, as menos pobres, as filhas dos operários das fábricas, as
filhas da classe média e da burguesia –, todas as crianças estudavam deu uma grande lição de Justiça. A Diretora era o Estado intervindo

no Grupo Escolar, escola pública de alta qualidade (minha mãe era para favorecer o mais desfavorecido, era o reconhecimento de
professora do Grupo e meu pai era Promotor de Justiça da cidade). que o menino negro e pobre poderia ter o direito e a alegria de
ganhar um estojo, premiado pelo seu mérito.
Criava-se um vínculo social entre as diferentes crianças – estudavam
juntas, brincavam juntas, jogavam futebol na rua. Estabelecia-se Não éramos, eu e meu amigo, iguais perante a lei naquele momento;
uma forte ligação comunitária e afetiva. ele tinha mais direito ao estojo do que eu. O desempate seria pelo
acaso do sorteio. E a Diretora, intervindo no acaso, tornou-o justo
Pensar os Direitos Humanos é também pensar a memória, não e humanizado.
deixar que o esquecimento prevaleça. Por isso, lembro-me de
duas professoras do Grupo Escolar. A lição de Dona Arésia produz também uma séria reflexão política,
sobre o compromisso do Estado com a concretização das políticas
Dona Maria José Braga era um grande exemplo de competência, públicas. Cada vez mais, obediente ao projeto político neoliberal,
de seriedade, de dignidade, de respeito por todas as pessoas. o Estado afasta-se e ausenta-se da sua responsabilidade
Comentava-se, porém, quase cochichando, que ela e o marido... pelas políticas públicas, delegando e repassando esse dever
eram comunistas... constitucional aos setores privados.

17
A coisa pública vai deixando de ser pública, torna-se uma coisa Ao mesmo tempo, Chalhoub analisa os pareceres do funcionário
privada. público Machado de Assis, à época chefe da seção do Ministério
da Agricultura encarregada de acompanhar a aplicação da Lei do
Lutar pelos Direitos Humanos é, também, exigir que o Estado não Ventre Livre.
se privatize, transformando o próprio serviço público em mais uma
mercadoria; lutar pelos Direitos Humanos é, também, exigir que O regulamento da lei determinava que “os escravos que não forem
o Estado exerça o seu compromisso constitucional para a garantia dados à matrícula por culpa ou omissão dos senhores serão
da cidadania, da dignidade da pessoa humana, da erradicação da considerados libertos, salvo aos mesmos senhores o meio de
pobreza, da marginalização e das desigualdades sociais. provar, em ação ordinária, o domínio que têm sobre eles, e não ter
havido culpa ou omissão sua na falta da matrícula.”
O Estado não pode tornar-se um mero espectador do acaso, mas
deve intervir no acaso, como fez Dona Arésia, para a construção Surgiram divergências quanto ao cabimento, ou não, da
dos Direitos Humanos. apelação “ex officio”, nas hipóteses de decisões contrárias à
liberdade. E o funcionário público Machado de Assis orientava
Uma lembrança histórica, a respeito da Abolição da Escravatura, o seu parecer sempre no sentido de garantir a liberdade:
ajuda a compreender a necessidade dessa intervenção no acaso
e nas relações privadas. “Outrossim, convém não esquecer o espírito da
lei. Cautelosa, equitativa, correta, em relação à
O historiador Sidney Chalhoub, no seu livro “Machado de Assis, propriedade dos senhores, ela é, não obstante, uma
Historiador” (Companhia das Letras S.P., 2007) – 2008 também lei de liberdade, cujo interesse ampara em todas as
foi a data dos 100 anos da morte de Machado –, faz uma longa partes e disposições. É ocioso apontar o que está no
pesquisa sobre “Escravidão e Cidadania: a experiência histórica ânimo de quantos a tem folheado; desde o direito e
de 1871”. Trata-se de uma análise sobre a lei de 28 de setembro facilidades da alforria até a disposição máxima, sua
de 1871, apelidada Lei do Ventre Livre. alma e fundamento, a Lei de 28 de Setembro quis,
primeiro de tudo, proclamar, promover e resguardar
Chalhoub mostra que, durante a discussão do projeto de lei: o interesse da liberdade. Sendo este o espírito da
lei, é para mim manifesto que num caso como o do
“O debate, portanto, consistia em saber se o poder art. 19 do regulamento, em que, como ficou dito, o
público deveria ou não intervir no domínio privado dos objeto superior e essencial é a liberdade do escravo,
senhores sobre seus escravos.” não podia o legislador consentir que esta perecesse
sem aplicar em seu favor a preciosa garantia indicada
Uma corrente sustentava que “o Estado tinha de submeter no art. 7º da lei”. (refere-se ao recurso ex officio).
o poder privado dos senhores ao domínio da lei; não havia Este parecer é de 21 de julho de 1876.
alternativa para obter a emancipação dos escravos.” De outro
lado, o pensamento mais conservador “recusava-se a debater Conclui Sidney Chalhoub:
a questão da emancipação; ao invés disso, parecia empenhado
em aperfeiçoar a escravidão, em torná-la mais ‘humana’, como “Machado de Assis foi de longe o autor do parecer mais
se dizia”. Era “a fina flor da resistência escravocrata”: “o partido politizado e incisivo da série. Seu discurso lembra os de
conservador sempre esteve convencido da necessidade de deixar advogados abolicionistas que encontrei tantas vezes
que o problema da emancipação se resolvesse por si, por uma nas ações de liberdade estudadas para a elaboração
transformação lenta e pela revolução social dos costumes”. de Visões da liberdade.”

A escravidão, segundo os conservadores, seria naturalmente Lembre-se que Machado de Assis não tinha formação jurídica,
extinta, com a evolução do desenvolvimento social, desnecessária era um escritor, mas sabia compreender “o espírito da lei”, sabia
a intervenção do Estado na relação privada/doméstica entre os que “a Lei de 28 de Setembro quis, primeiro de tudo, proclamar,
senhores e seus escravos... promover e resguardar o interesse da liberdade”.

Sidney Chalhoub observa que Machado de Assis, no conto Um retorno, agora, à prática judicial do século XXI.
“Mariana”:
Alguns juízes das Varas da Infância e Juventude fazem uma
“Parece sugerir que não havia saída para o problema interpretação violadora dos princípios e normas do Estatuto da
da escravidão por dentro das relações instituídas entre Criança e do Adolescente.
senhores e escravos. A mensagem inescapável do
conto é a necessidade de o poder público submeter Aplica-se a medida de internação ao ato infracional análogo ao
o poder privado dos senhores ao domínio da lei. Era crime do art. 33, da lei 11.343/06 – tráfico de entorpecentes –,
preciso intervir nas relações entre senhores e escravos com a injurídica justificativa de que há “violência e grave ameaça
e promover a superação da instituição da escravidão, à sociedade inerentes ao tráfico”. E, para “proteger o adolescente
enfrentando decididamente os interesses sociais e infrator, estimulando-o a abandonar a prática de atos infracionais”,
econômicos que ainda a sustentavam.” é preciso afastá-lo “do convívio que lhe é prejudicial”, impondo-se

18
“a conscientização através da imposição de limites mais rígidos”. realidade social na qual nossos sonhos utópicos de emancipação
serão realizados, mas a reconstrução desses próprios sonhos”;
Estas são expressões de uma sentença da Vara da Infância e e reinventar seus próprios modos de sonhar, mudar os próprios
Juventude de São Gonçalo, aplicando ao adolescente Diego, de sonhos, para que os sonhos não permaneçam estagnados, para
15 anos, a internação, “sendo ineficiente a aplicação de qualquer não regressar à velha realidade.
outra medida sócio-educativa”,
Para não nos tornarmos testemunhas do próprio fracasso em
Na audiência de julgamento, realizada em 03.09.08, a Defensora livrar-se do passado.
Pública requer que “sejam retiradas as algemas do adolescente,
diante do entendimento do S.T.F., em 07.08.08, de que o uso de São tantos os passados que não passaram, são tantos os
algemas só deve ser adotado em casos excepcionalíssimos”. passados que permanecem no presente, a impedir a efetivação
dos Direitos Humanos.
A Juíza decide:
Muitas ainda são as algemas, nas suas várias formas.
“Derradeiramente quanto a alegação defensiva em
relação a manutenção de algemas nos representados, Muitos ainda precisam ser os sonhos.
vale esclarecer que cabe ao Magistrado com equilíbrio
e bom senso, caso a caso, verificar se reputa
necessário ou não a manutenção das mesmas para
regularidade do julgamento, não havendo que se falar
em violação do princípio da presunção de inocência
ou que tal circunstância possa influenciar na sentença,
tratando-se inclusive, de norma de segurança diante
da possibilidade do risco de fuga, já que os agentes
do DEGASE não possuem armas e neste ato, há
presença de familiares e ausência de qualquer policial
militar. Diante do exposto, mantenho o uso de algemas
durante as audiências neste juízo.”

No Habeas Corpus 6990/08, julgado em 13.11.08, a 5ª Câmara


Criminal do TJRJ concedeu a ordem para que o Paciente
permaneça em liberdade assistida até o julgamento do recurso
de apelação.

Mas o adolescente Diego já cumprira internação desde o dia 20


de julho, ainda algemado na audiência.

E já existia a Súmula Vinculante nº 11, do Supremo Tribunal


Federal:

“Só é lícito o uso de algemas em casos de resistência


e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade
física própria ou alheia, por parte do preso ou de
terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito,
sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal
do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão
ou do ato processual a que se refere, sem prejuízo da
responsabilidade civil do Estado.”

Os juízes podiam, de vez em quando, ler Machado de Assis, e tentar


aprender a garantir a liberdade, e não a repressão desmedida.

As conquistas históricas este ano registradas não se esgotam em


si mesmas.

O filósofo Slavoj Zizek, na apresentação de “MAO – sobre a


prática e a contradição” (Zahar, 2008, tradução de José Maurício
Gradel), insiste na necessidade da invenção de uma nova vida *SÉRGIO VERANI
Desembargador Presidente da 5ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça
como sonho revolucionário: “não apenas a construção da nova do Rio de Janeiro, Professor da UERJ e Presidente do Fórum Permanente
dos Direitos Humanos da Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro.

19
O 60º ANIVERSÁRIO DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL
DE DIREITOS HUMANOS DAS NAÇÕES UNIDAS.
VANESSA OLIVEIRA BATISTA*

Em função da comemoração dos 60 anos da Declaração e redigisse, com assessoria da Secretaria das Nações Unidas,
Universal dos Direitos Humanos em 10 de dezembro de 2008, um anteprojeto de Declaração. Foi então elaborado um texto com
minha intenção é “rascunhar” sobre o histórico deste importante 45 artigos, apresentado à Comissão em junho de 1947, que serviu
instrumento jurídico, que teve início na sessão de 16 de fevereiro de base para a discussão, até que se adotou a versão definitiva.
de 1946 do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, em
que ficou decidido que uma Comissão de Direitos Humanos, a ser Surpreendentemente, ao se comparar o texto final com o esboço
criada, deveria desenvolver seus trabalhos em três etapas. original, o primeiro é, em muito aspectos, mais audacioso que
o último, especialmente quando trata da universalidade dos direitos
Na primeira etapa, a Comissão deveria elaborar uma declaração humanos. Sente-se especialmente a influência da França e de
de direitos humanos, atendendo ao disposto no artigo 55 da Carta René Cassin, autor da referência a “direitos diretamente universais”,
das Nações Unidas. Na segunda, deveria produzir um documento que só podem ser garantidos por uma instância supranacional.
que vinculasse mais que uma “mera declaração”, ou seja, deveria Seu maior legado, porém, foi fazer com que se admitisse que os
fazer uma convenção ou tratado internacional. Por fim, a Comissão direitos econômicos, sociais e culturais deveriam ser considerados
se encarregaria de criar instrumentos adequados para assegurar direitos fundamentais, ligados de forma indissolúvel aos direitos
o respeito aos direitos humanos, tratando dos “casos de violação”. civis e políticos.

Em 18 de junho de 1947 ficou pronto o projeto de


Assim como Cassin, Eleanor Rossevelt
uma Declaração Universal de Direitos Humanos,
influenciou imensamente a redação da
aprovada em 10 de dezembro de 1948. Esse texto “O ponto mais discutido da Declaração
era a sensibilidade dos países membros Declaração Universal. Extremamente culta,
era fruto dos trabalhos da Comissão Consultiva dos
da ONU diante da não ingerência em a primeira dama dos Estados Unidos
Direitos Humanos, criada em Paris em 1947 pelo assuntos internos, base do sistema das conseguiu introduzir princípios em favor da
governo francês, sob proposta de René Cassin. Nações Unidas. O problema é que não
igualdade de gênero durante os trabalhos,
Presidida por este último, essa comissão, da qual se podia, ao mesmo tempo, falar em
universalidade de direitos humanos e
além de dar ao texto poder concreto
viria a nascer a Comissão Nacional Consultiva dos
deixar sua proteção sob a tutela de países e clareza, devido ao seu espírito de síntese
Direitos Humanos, era essencialmente composta
soberanos que, a exemplo a Alemanha e senso das realidades.
de juristas e diplomatas, estando encarregada de nazista, poderiam a qualquer momento,
preparar as instruções destinadas à delegação fazer o que bem entendessem.”
A ideia de que a Declaração se intitulasse
francesa nas Nações Unidas, a qual era dirigida
“Universal” foi de Cassin, que insistiu
pelo mesmo René Cassin.
por substituir a palavra original “Internacional”. Sua intenção
era associar a Declaração ao conceito fundador da Carta das
Natural, portanto, que a Declaração retomasse os ideais da
Nações Unidas, que se iniciava com a frase: “Nós, Povos das
Revolução Francesa, sendo considerada o símbolo da formação,
Nações Unidas...”, redação posteriormente rechaçada pelos
no nível universal, dos valores supremos da igualdade, da
países no início da Guerra Fria, que temiam perder sua soberania
liberdade, da fraternidade entre os homens, exatamente como
redigido em seu artigo I. Transformar esses ideais em direitos seria com tal afirmação2.

missão progressiva no âmbito nacional, resultado de um esforço


sistemático de educação em direitos humanos. O ponto mais discutido da Declaração era a sensibilidade dos
países membros da ONU diante da não ingerência em assuntos
Membro do Conselho de Estado da França, Cassin era considerado internos, base do sistema das Nações Unidas. O problema
um “utopista pragmático” e, ao assumir a missão de participar da é que não se podia, ao mesmo tempo, falar em universalidade
redação da Declaração, acrescentava a essa tarefa não apenas suas de direitos humanos e deixar sua proteção sob a tutela de
qualidades como jurista1, mas também sua prática como defensor de países soberanos que, a exemplo a Alemanha nazista, poderiam
direitos humanos, já que, desde a ascensão do nazismo e fascismo a qualquer momento, fazer o que bem entendessem.
na Europa, escrevera diversos ensaios acerca da necessidade de
construção da paz e de proteção aos direitos humanos. Criada em meio ao assombro do final da 2ª Grande Guerra, a
Declaração Universal dos Direitos Humanos, embora aprovada
Ao chegar a Nova Iorque, em 1946, representando a França na por unanimidade (mas com a abstenção dos países comunistas
Comissão de Direitos Humanos, presidida por Eleanor Roosevelt, – União Soviética, Ucrânia e Rússia Branca, Tchecoslováquia,
esta o saudou como militante apaixonado e “criador do direito”, Polônia e Iugoslávia – e da Arábia Saudita e África do Sul) não
pedindo-lhe que assumisse a vice-presidência da Comissão convencia a todos os membros da ONU.
1 Ele fora o mentor da lei sobre os direitos à reparação para as vítimas da Primeira Guerra Mundial e, em 1940, o redator dos Acordos Churchill-de Gaulle, que deviam dar uma base jurídica e internacional à França livre.
2 Para detalhes históricos conferir AGI, Marc, René Cassin, père de la Déclaration universelle des droits de l’Homme, Perrin, Paris, 1998.

20
A Declaração Universal é, tecnicamente, uma recomendação A Declaração Universal é o ápice de um processo ético, iniciado com
da Assembléia Geral das Nações Unidas aos seus membros, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, da Revolução
conforme o artigo 10 da Carta da ONU. De fato, o jurista Hans Francesa. É um documento que levou ao reconhecimento da
Kelsen, mais conhecido dos estudantes de Direito por sua obra na igualdade como essência do ser humano, fundamental para
área de filosofia jurídica, se manifestou sobre o projeto de 1947. Ele o respeito à dignidade humana, fonte de todos os valores, sem
trata da natureza jurídica da Declaração, dizendo que o pretendido distinção de raça, sexo, língua, religião, opinião, origem nacional
não é codificar o Direito Internacional, e sim formular normas ou social, ou qualquer outra diferença (artigo II). A parcela de
jurídicas dotadas de força vinculante no âmbito internacional. Ele humanidade contida na Declaração se constitui na verdadeira
considerava que, ao adotar uma Declaração Universal de Direitos universalidade do texto das Nações Unidas5.
Humanos, a Assembléia Geral poderia tão somente recomendar
aos Estados membros da ONU a observância dos princípios nela
contidos, reconhecendo tanto a legalidade da norma internacional,
como a força condutora dos direitos consagrados no texto.
Kelsen esclarece que os princípios de direito internacional podem
– e devem – ser formulados apenas em termos de deveres. Ele
discordava da Comissão, afirmando que os deveres precedem
os direitos, sendo a concepção formulada pelos redatores da
Declaração falaciosa, posto que fundada no Direito Natural3.

Diante desta posição, parte da doutrina sustenta que o documento


não tem força vinculante. Tal entendimento, no entanto, peca
pelo formalismo, pois atualmente se reconhece, por toda parte,
que a vigência dos direitos humanos é independente de sua
declaração em constituições, leis e tratados internacionais, pelo
fato de que são exigíveis diante do respeito à dignidade humana,
exigível com o consentimento ou não dos poderes estabelecidos.
Embora a doutrina jurídica contemporânea distinga os direitos
fundamentais como aqueles consagrados pelos Estados em
regras constitucionais escritas, reconhece-se, igualmente, que
o direito internacional é, além dos tratados e convenções, formado
também pelos costumes internacionais e princípios gerais do
direito, como declarado no Estatuto da Corte Internacional de
Justiça (art. 38). Em suma, a Declaração de 1948 define direitos
que correspondem, na sua integralidade, aos costumes e princípios
jurídicos internacionais, que são exigências básicas do respeito
à dignidade humana.

Apenas em 1966, porém, foram aprovados os pactos sobre direitos


civis e políticos, e sobre direitos econômicos, sociais e culturais,
previstos na segunda etapa. Neste interstício foram aprovadas
várias outras convenções sobre direitos humanos. Infelizmente,
a terceira etapa, em que deveriam ser criados os mecanismos
para assegurar a observância dos direitos, ainda não foi concluída.
O que há neste âmbito é a possibilidade de instauração de um
processo de reclamações junto ao Conselho de Direitos Humanos
das Nações Unidas, criado em 2006, em substituição à Comissão
de Direitos Humanos, além do Tribunal Penal Internacional, criado
para julgar casos de genocído e crimes contra a Humanidade em
1998, que entrou em vigor em julho de 2002.

No discurso de encaminhamento à votação da Declaração


Universal dos Direitos Humanos, na Assembléia Plenário da ONU,
em Paris, em 10 de dezembro de 1948, Austregésilo de Athayde,
representante da Delegação do Brasil, afirmou que não estávamos
diante de um documento sem defeitos, mas que “a perfeição não
está sempre ao alcance dos homens e é de nossa natureza que
*VANESSA OLIVEIRA BATISTA
tudo o que é humano seja igualmente perfectível”4. Mestre e Doutora em Direito, Professora Adjunta da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ.

3 KELSEN, Hans. The draft declaration on rights and duties of States, The Americana Journal of International Law, v.44; n. 259 (1950).
4 Austregésilo de Athayde, discurso na ONU em 1948, na ocasião da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em : www.DHnet/athayde.htm/discurso
5 Para mais detalhes sobre o impacto da DUDH, conferir COMPARATO, Fábio K., A Declaração Universal dos Direitos Humanos 1948, disponível em www.dhnet.org

21
20 DE NOVEMBRO: ALÉM DE ZUMBI,
TEMOS UM OUTRO A COMEMORAR.
RICARDO DE PAIVA E SOUZA*

Sessenta e cinco anos. Esse foi o tempo para que quase todas infância e da juventude (...).
as nações do mundo entendessem que os Estados deveriam ser A Convenção sobre os Direitos da Criança representa
os principais garantidores dos direitos das crianças. um passo adiante na história da humanidade,
assim como a inscrição dos direitos fundamentais
Em 1989, consolidava-se uma discussão que teve seu início nas na Constituição brasileira e o Estatuto da Criança
primeiras duas décadas do século 20, quando a Organização e do Adolescente representam um grande avanço
Internacional do Trabalho adota convenções que buscavam do sistema jurídico nacional.” (ALBERNAZ JUNIOR
erradicar ou regulamentar o trabalho infantil. Pouco tempo depois, e FERREIRA, s/d)
em 1924, é a vez da Liga das Nações – que mais tarde daria
lugar à Organização das Nações Unidas – adotar a Declaração de Mas não foi fácil chegar a acordos. A idéia de uma convenção que
Genebra dos Direitos da Criança. Declaração esta que originaria enaltecesse a necessidade de garantia dos direitos das crianças
a Declaração Universal dos Direitos da Criança, promulgada surgiu em 1978, tendo sido apresentada pela Polônia. 1979
pela ONU em 1954, a qual, por sua vez, foi o embrião da atual seria o ano internacional da Criança e pretendia-se que naquele
Convenção Sobre os Direitos da Criança - CDC, adotada e aberta ano a CDC estivesse terminada e promulgada. No entanto,
para assinatura e ratificação dos Estados Partes no dia 20 de foram 10 anos para que finalmente o documento fosse adotado
novembro daquele ano de 1989. e oficialmente aberto para as ratificações. Vale lembrar que até
os dias de hoje nem todos os países, Estados
Os 65 anos aqui citados representam Partes das Nações Unidas, ratificaram a
exatamente o tempo entre a adoção da “Com a criação do Estatuto, entretanto, Convenção. Estados Unidos da América e
a CDC perde espaço político e jurídico
Declaração de Genebra e a da Convenção Somália ainda não reconhecem a CDC.
no Brasil. Poucas são as organizações
das Nações Unidas. Um tempo de maturação brasileiras que se dizem trabalhar pelos
de idéias. O tempo necessário para que direitos das crianças que conhecem Um dos problemas apontados para a demora
se entendesse a criança não como um a Convenção de fato, que estão era a alegação de que o documento
objeto de direito que deveria receber uma familiarizadas com seus princípios apresentado pela Polônia tratava-se de uma
e sabem como seus mecanismos
proteção especial, mas, sim, como um mera reformulação dos direitos já defendidos
de monitoramento funcionam. E se
sujeito de direitos, de fato – permitam-me o perguntamos o porquê, a resposta na Declaração de 1959. Era preciso, então,
trocadilho. Um tempo para consolidar lutas é sempre: “temos o estatuto”.” ir mais além. Ampliar a gama de direitos
e abrir novas frentes de batalha. e defini-los de maneira que não
restassem dúvidas. Outrossim, era preciso criar um órgão
Longe de dar a certeza da garantia de todos os direitos da que pudesse zelar pelo cumprimento dos compromissos
criança, a CDC abriu espaços para que pessoas, organizações, acordados entre os Estados Partes, elaborando recomendações
e até mesmo governos, pudessem ter um mecanismo de mediação baseadas em relatórios oficiais de cada governo e também
e/ou negociação o qual permitisse assegurar uma condição da sociedade civil.
mínima de vida para as crianças enquanto cidadãs, em seus
países e também fora deles. Assim, hoje temos uma Convenção composta por um Preâmbulo
e 54 artigos. Nela se estabelece o Comitê dos Direitos da Criança,
Sobre esse aspecto, permito-me citar dois procuradores do “a fim de examinar os progressos realizados no cumprimento das
Estado de São Paulo que assim se pronunciam sobre a CDC: obrigações contraídas pelos Estados Partes” (CDC, art. 43).

“Em meio a conflitos regionais e mundiais, frutos de “O Comitê dos Direitos da Criança, como a maior
disputas políticas, religiosas e econômicas, na maioria parte dos Comitês semelhantes, estará constituído
das vezes travadas por interesses de grupos restritos, por especialistas escolhidos pela capacidade pessoal
emerge a esperança e a luta de inúmeros cidadãos, pelos Estados Partes na Convenção. Diferentemente
em todo o mundo, pela busca de uma vida mais de outros comitês, o dos Direitos da Criança não possui
harmônica aos povos da Terra. competência alguma para conhecer de denúncias
de casos específicos de violações dos direitos
Esta luta política e ideológica pela humanidade reconhecidos pela Convenção. A função essencial do
enseja a criação de instrumentos jurídicos nacionais Comitê consiste na análise dos relatórios dos Estados
e internacionais de proteção dos Direitos Humanos Partes sobre ‘as medidas que tenham adotado com
e, dentre estes, aqueles dirigidos à proteção da vistas a tornar efetivos os direitos reconhecidos na

22
convenção e sobre os progressos alcançados no em consideração os anseios e a visão de mundo da criança no
desempenho desses direitos’ (art. 44), assim como momento de determinar quais seriam os interesses das mesmas.
as circunstâncias e as dificuldades, caso existam, Direitos à vida, à sobrevivência e ao desenvolvimento (artigo 6)
que afetem o grau de cumprimento» das obrigações 1. Os Estados Partes reconhecem à criança o direito inerente
consagradas na Convenção.” (O’DONNELL, s/d) à vida.

Para garantir a eficácia do Comitê, os Estados Partes se 2. Os Estados Partes asseguram na máxima medida possível
comprometem a apresentar um relatório sobre o cumprimento de a sobrevivência e o desenvolvimento da criança.
suas obrigações para com as crianças a cada cinco anos, sendo
que o primeiro relatório deveria ter sido entregue dois anos após Esse artigo estabelece o princípio de que as crianças têm direito
a promulgação ou ratificação da CDC. à vida, e afirma que toda criança tem direitos aos bens e condições
que permitirão que ela desenvolva ao máximo seu potencial
Infelizmente, o compromisso dos Estados Partes nem sempre e desempenhe seu papel numa sociedade pacífica e tolerante.
se traduz em respostas concretas. Brasil, por exemplo, só
apresentou até hoje um relatório oficial e um paralelo. O segundo O direito de ser ouvida (artigo 12)1
está em vias de apresentação e ainda devemos outros três. 1. Os Estados Partes garantem à criança com capacidade de
discernimento o direito de exprimir livremente a sua opinião sobre
Os princípios as questões que lhe respeitem, sendo devidamente tomadas em
consideração as opiniões da criança, de acordo com a sua idade
A CDC abrange uma ampla gama de direitos. O Comitê dos Direitos e maturidade.
da Criança, entretanto, identificou quatro desses direitos como
sendo princípios gerais que devem ser levados em conta para Meninas e meninos têm o direito de serem ouvidos com relação
a aplicação de qualquer artigo da CDC, e em quaisquer situações a todas as decisões que lhes digam respeito, e o artigo 12 atribui
que envolvam crianças. Preferi aqui reproduzir o conteúdo de um essa obrigação aos governos para garantir que as opiniões de
manual da Aliança Internacional Save the Children, cuja fundadora, meninas e meninos sejam solicitadas e consideradas. Esse artigo
Eglantyne Jebb, foi a autora da Declaração de Genebra, de 1924. faz parte de uma gama mais ampla de “direitos à participação” da
Esses princípios gerais são: criança, que normalmente são definidos nos artigos 12, juntamente
com os artigos: 13 (liberdade de expressão); 14 (liberdade de
Não discriminação (artigo 2) pensamento, consciência e religião); 15 (liberdade de associação);
1. Os Estados Partes comprometem-se a respeitar e a garantir os 16 (proteção da vida privada); 17 (informação apropriada).
direitos previstos na presente Convenção a todas as crianças que Na CDC, as crianças são reconhecidas como atores sociais, tanto
se encontrem sujeitas à sua jurisdição, sem discriminação alguma, em relação ao seu próprio desenvolvimento, como em relação
independentemente de qualquer consideração de raça, cor, sexo, ao desenvolvimento da sociedade em que vivem.
língua, religião, opinião política ou outra da criança, de seus pais ou
representantes legais, ou da sua origem nacional, étnica ou social, Protocolos Falcultativos
fortuna, incapacidade, nascimento ou de qualquer outra situação.
São dois os Protocolos Facultativos que complementam a CDC
O princípio por trás disso é o de que todos os direitos valem e ambos foram adotados em 2000. Eles tratam de:
para todas as crianças, sem exceção. O próprio Estado tem
a obrigação de pôr em prática os meios para garantir que as 1. Envolvimento de crianças em conflitos armados
crianças sejam protegidas de qualquer forma de discriminação Este Protocolo em seus primeiros artigos diz:
e devem empreender ações afirmativas para promover tais direitos.
Artigo 1°
O interesse superior da criança (artigo 3) Os Estados Partes devem adotar todas as medidas possíveis para
assegurar que os membros das suas forças armadas que não atingiram
1. Todas as decisões relativas a crianças, adotadas por instituições a idade de 18 anos não participam diretamente nas hostilidades.
públicas ou privadas de proteção social, por tribunais, autoridades
administrativas ou órgãos legislativos, terão primacialmente em Artigo 2°
conta o interesse superior da criança. Os Estados Partes devem assegurar que as pessoas que não
atingiram a idade de 18 anos não são alvo de um recrutamento
O princípio do agir para o “interesse superior da criança” diz respeito obrigatório nas suas forças armadas.
a qualquer processo decisório que envolva meninos ou meninas,
incluindo a movimentação e a alocação de recursos. O “interesse A intenção é manter as crianças – na definição da CDC, todos
superior da criança” normalmente não é a única preocupação com menos de 18 anos – fora da condição de agente armado em
quando são tomadas decisões que afetam as crianças, mas qualquer conflito armado.
eles devem estar entre os primeiros aspectos a serem levados
em consideração, e devem ter um peso grande – primacialmente 2. Venda de criança, prostituição e pornografia infantis
- em relação aos interesses dos adultos. É fundamental que
aqueles que estejam encarregados de tomar decisões levem Assim começam os preâmbulos deste protocolo: Considerando

1 Também apresentado como Princípio da Participação

23
que, para melhor realizar os objetivos da Convenção sobre portanto, tem o dever de cumpri-los. O Estatuto sem a CDC não
os Direitos da Criança e a aplicação das suas disposições, seria ruim, mas estaria mais vulnerável.
especialmente dos artigos 1º, 11º, 21 º, 32 º, 33 º, 34 º, 35 º e 36 º,
seria adequado alargar as medidas que os Estados Partes devem Referências Bibliográficas
adotar a fim de garantir a proteção da criança contra a venda de
crianças, prostituição e pornografia infantis. - ALBERNAZ JUNIOR, Victor Hugo e FERREIRA, Paulo Roberto
Vaz. Convenção sobre os Direitos da Criança. Disponível na
E assim está redatado seu primeiro artigo: Os Estados Partes Internet no endereço http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/
deverão proibir a venda de crianças, a prostituição infantil bibliotecavirtual/direitos/tratado11.htm. Acesso em 25/10/2008
e a pornografia infantil, conforme disposto no presente Protocolo. - O’DONNELL, Daniel. La convención sobre los derechos del
niño: estructura y contenido. Disponível na Internet no endereço
A implementação da CDC http://www.iin.oea.org/sim/cad/sim/pdf/mod1/Texto%202.pdf.
Acesso em 23/10/2008
Os Estados que ratificaram a CDC devem obrigação legal - ALIANÇA SAVE THE CHILDREN. Programação baseada nos
à mesma, e assumiram o compromisso de tomar todas as direitos da criança: como enfocar os direitos na programação
medidas legais, orçamentárias, administrativas, entre outras, a fim – manual para os membros da Aliança Internacional Save the
de implementá-la, o que inclui disponibilizar o máximo de recursos. Children. Save the Children Suécia: 2ª edição, Lima, 2005
Alguns Estados, porém, fizeram reservas e/ou declarações
relacionadas ao modo como a CDC deve ser interpretada ou
à não-aplicação de alguns artigos. Essas reservas e declarações
não devem entrar em conflito com o espírito da CDC. O Comitê
insiste que os Estados as retirem2.

É preciso entender que os Estados são os principais responsáveis


pela garantia dos direitos na CDC. O Estado tem a responsabilidade
de criar legislação, conjunto de políticas e de fornecer recursos,
de forma a garantir que os direitos da criança sejam exercidos.
A CDC considera pais, famílias e comunidades como os principais
responsáveis pelo cuidado das crianças, protetores e guias –
eles têm responsabilidades para com as crianças e, por vezes,
a legislação nacional transforma essas responsabilidades em
obrigações legais e morais. A comunidade internacional tem
obrigações relacionadas ao apoio a Estados através da cooperação
e da ajuda internacional como e quando solicitadas.

E no Brasil ...

Ratificada no Brasil em 24 de setembro de 1990, a CDC é – como


deveria ser – a base para o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Nossa lei nacional que tem como função garantir os direitos
de nossas crianças.

Com a criação do Estatuto, entretanto, a CDC perde espaço


político e jurídico no Brasil. Poucas são as organizações brasileiras
que se dizem trabalhar pelos direitos das crianças que conhecem
a Convenção de fato, que estão familiarizadas com seus princípios
e sabem como seus mecanismos de monitoramento funcionam.
E se perguntamos o porquê, a resposta é sempre: “temos
o estatuto”.

O que às vezes se esquece é que o próprio Estatuto necessita


de proteção. Sem a Convenção o Estatuto estaria à mercê
dos arroubos e interesses políticos. A Convenção dá o suporte
internacional e fornece as estratégias de controle social que
necessitamos para cobrar de nossos poderes constituídos
o compromisso acordado globalmente entre 192 dos 194 países
que integram as Nações Unidas.
*PAULO RICARDO DE PAIVA E SOUZA
Pernambucano, Sociólogo, Mestre em Comunicação, Doutorando em Psicossociologia,
O Brasil ratificou a CDC e todos os protocolos facultativos a ela e, Assessor Regional do Programa para América Latina e Caribe de Save The Children Suécia
nos temas de Violência Armada e Emergências.

2 Uma lista das reserves e declarações (e de algumas objeções às mesmas) pode ser encontrada em: http://www.unhchr.ch/html/menu2/6/crc/treaties/declare-crc.htm

24
SITUAÇÃO DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA NO BRASIL DE HOJE:
INSEGURANÇA SOCIAL, POBREZA, DESIGUALDADES E TERRITORIALIDADE.

WANDERLINO NOGUEIRA NETO*

RESUMO: Com o presente texto, pretendeu-se testar as representativas da população1 e dos conselhos dos direitos da criança
possibilidades da sociedade civil organizada em promover análises e do adolescente2 estão no controle externo sobre as ações públicas.
da situação da infância e adolescência no Brasil. Pretendeu-se Mais precisamente, seu papel no acompanhamento, monitoramento
comprovar que análises desse tipo servem para embasar e avaliação das ações públicas, em favor da promoção dos direitos
diagnósticos imprescindíveis ao aperfeiçoamento da formulação, humanos3 da infância e da adolescência e em oposição a todas as
coordenação e execução de políticas públicas e do acesso à Justiça. formas discriminatórias, exploratórias e violentas contra esses direitos.
Tais análises igualmente são preciosas igualmente para a elaboração No exercício dessa função de controle, mesmo dezoito anos depois
de relatórios de monitoramento e avaliação das ações públicas, da vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente4, os conselhos
garantidoras de direitos humanos, exatamente no momento em dos direitos da criança e do adolescente5 ainda têm muito a dizer...
que uma ampla coalizão de expressões organizativas da sociedade e pouco dizem, ainda! Desviam-se, muitas vezes, pelo país afora, do
civil brasileira – capitaneada pela Associação Nacional dos Centros seu cerne, quando se trata da realização dos direitos do seu público-
de Defesa da Criança e do Adolescente (Seção Brasil da Defensa destinatário. Contudo, não apenas os conselhos citados têm essa
de los Niños Internacional) / ANCED-DNI - elabora o chamado legitimidade social, política e jurídica para exercer a função de controle
“relatório alternativo” a ser apresentado ao Comitê dos Direitos da externo. Esse é igualmente o papel essencial da sociedade civil
Criança (ONU), em Genebra, após a apresentação de novo relatório organizada, a ser exercido por uma ampla gama de atores sociais.
do Estado brasileiro, de responsabilidade do seu Governo.
As expressões organizativas da sociedade, no
No texto, para essa análise, foram coletados país, nos tempos atuais – em face da sua crise
e analisados dados a respeito da situação “No exercício dessa função de de identidade e dos seus agravados problemas
nacional, tanto a partir de fontes oficiais (PNUD, controle, mesmo dezoito anos depois de sobrevivência financeira – muitas vezes têm
da vigência do Estatuto da Criança e
OEI, IBGE, IPEA, INEP/MEC, por exemplo), colocado como secundário esse seu papel de
do Adolescente4, os conselhos dos
quanto a partir de levantamentos, pesquisas e controle externo social difuso sobre as ações
direitos da criança e do adolescente
estudos mais localizados, de responsabilidade ainda têm muito a dizer... e pouco do Estado, caindo numa armadilha que as
de organizações sociais (Relatório sobre o dizem, ainda! Desviam-se, muitas fazem parceiras do fracasso do Estado-Mínimo
Programa Prefeito Amigo da Criança 2005- vezes, pelo país afora, do seu cerne, neo-liberal e dependentes do Governo.
08 / Fundação ABRINQ, por exemplo). Como quando se trata da realização dos
parâmetros para a avaliação dessa realidade direitos do seu público-destinatário.” É preciso se devolver aos movimentos sociais
social e políticoinstitucional, no texto foram e à suas expressões organizativas seu
eleitos alguns instrumentos normativos internacionais para esse papel de controle, fomentando o trabalho de acompanhamento,
fim: a Constituição Federal, a Convenção sobre os Direitos da monitoramento, avaliação e de proposição. No caso da Associação
Criança, o Estatuto da Criança e do Adolescente, os Comentários, Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente
Orientações & Recomendações do Comitê dos Direitos da Criança – Seção Brasil da “Defensa de Niños Internacional” – ANCED/
do ACDH- ONU ao Governo do Brasil. E também, para esse mesmo DNI, constata-se que há um reconhecido esforço no sentido do
fim, foram eleitos alguns documentos de instâncias públicas fortalecimento dessa linha técnica e política, enquanto organização
não-institucionais como o Fórum Ibero-Americano de ONG pela da sociedade civil, mostrando que, além dos mecanismos de
Infância (REDLAMYC e DNI). Ao final, na tentativa de se construir controle interno institucional do Estado (controladorias, auditorias,
um determinado cenário mais favorável, para a promoção dos corregedorias, ouvidorias, ministério público, parlamento, tribunais
direitos humanos de todos os cidadãos (e especialmente do de contas etc. etc.), as organizações sociais podem e devem
segmento infanto-adolescente), aqui se desenvolve, como instituir mecanismos próprios e autônomos (mas, sinérgicos) de
estratégico, o conceito de “coesão social” (CEPAL), com seu foco controle externo das ações públicas. E para tanto não podem
no sentido de pertença e de valorização da identidade. prescindir de bem elaboradas análises da situação da infância/
adolescência no Brasil6, embasadoras disso tudo.
Palavras-chaves: Análise de situação. Controle sócioinstitucional.
Insegurança social. Pobreza. Desigualdades. Parâmetros para A moldura do contexto nacional, na qual se deve inserir
a avaliação. Normativa de promoção e proteção de direitos a paisagem da situação da infância/adolescência
humanos. Coesão Social.
Para que se possa melhor entender a situação da criança e do
Análises de situação e controle das ações públicas adolescente, em nível nacional, é preciso partir-se dos dados
e informações, agregados e somados, referentes ao Brasil, como
O sentido mais radical e a missão última da atuação das organizações um todo. Para isso, deve-se buscar compor uma moldura, uma
1 Constituição federal – art.204, II
2 E os demais conselhos paritários de formulação de políticas setoriais e controle externo, nos seus específicos campos de atuação..
3 Nos termos da Resolução 113 do CONANDA, enquanto dimensão da garantia dos direitos humanos
4 E igual tempo da ratificação da Convenção pelos Direitos da Criança pelo Brasil e 20 anos de promulgação da Constituição Federal, ambas normas de hierarquia superior ao Estatuto citado.
5 E os conselhos homólogos setoriais, no seu âmbito específico da operacionalização de determinada política pública (saúde, assistência social, educação etc.)
6 Como, por exemplo, fazem com regularidade e competência o Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF, em nível mundial e nacional e a Fundação ABRINQ, em nível municipal.

25
visão totalizante, na qual se buscassem paradigmas de comparação (46,9), Haiti (47,7), Lesoto (48,3%), Botsuana (56,6%), Suazilândia
com o coletado em nível local, através de levantamentos outros (50,2%), Namíbia (64,5%) e República Centro-Africana (47,7%). Os
com dados desagregados. E, nessa totalização da análise, alguns pobres brasileiros detêm apenas 0,8% da renda, fatia superior à dos
fatores e tendências nacionais surgem de maneira bem clara, pobres de Colômbia, El Salvador e Botsuana (0,7%), Paraguai (0,6%),
ajudando a melhor se entender os dados municipais, que deve e Namíbia, Serra Leoa e Lesoto (0,5%). A comparação entre os 20%
ser nosso foco primordial, pois no território estão as crianças, os mais ricos e os 20% mais pobres mostra que, no Brasil, a fatia da
adolescentes e suas famílias, em concreto. Nessa visita aos dados renda obtida pelo quinto mais rico da população (62,1%) é quase 24
e informações totalizados, dois fatores tendenciais se destacam: vezes maior do que a fatia de renda do quinto mais pobre (2,6%).
a pobreza e as desigualdades de todos os tipos (econômicas,
políticas, sócias e jurídicas), a marcarem o contexto social Pobreza
e político-institucional brasileiro com o estigma da “insegurança
social” (CASTEL7 / ZAMORA8). Como sinal emblemático de que Preliminarmente, é de se reconhecer que a pobreza é o maior sinal
o combate à pobreza e às desigualdades deve ser a tônica para dessa desigualdade, dessa falta de equidade. Ela é a primeira
o enfrentamento prioritário para o Estado brasileiro, em seus três grande violação de direitos fundamentais e o maior filtro
níveis e, em especial, no nível municipal – não foi à toa que o Comitê obstaculizador para o acesso com sucesso às políticas públicas
para os Direitos da Criança do Alto Comissariado para os Direitos e à Justiça, nos municípios, principalmente, vez que os mecanismos
Humanos (ONU / Genebra)9 “tomou nota com preocupação”, de proteção social em todas as políticas sociais básicas, na ponta
como um fator que muito prejudica a implementação da CDC no do atendimento público, são incapazes de garantir direitos aos
Brasil em níveis desejáveis, a ocorrência dessas desigualdades, milhões de crianças e famílias em situação de vulnerabilidade
em seu documento de orientações e recomendações ao Governo econômica. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia
do Brasil, em outubro de 2004, solicitando imediatas providências e Estatística - IBGE, em quase metade (48,9%) das famílias
no prazo de quatro anos: (...) Item 12. “O comitê toma nota, com brasileiras há crianças e adolescentes com até 14 anos de idade.
extrema preocupação, das dramáticas desigualdades baseadas Basta assinalar que o percentual de famílias consideradas pobres
em raça, classe social, gênero e localidade geográfica que (com rendimento mensal per capita de até salário mínimo)
dificultam significativamente o progresso para a realização plena é de 25,1% em relação ao total das famílias no País, mas chega
dos direitos consagrados na Convenção” (grifei). a 40,4% entre as famílias com crianças de 0 a 14 anos. Quando
se consideram apenas as famílias com crianças na faixa de 0 a 6
Pobreza e desigualdade, como focos para a análise anos, o percentual é ainda mais alto: 45,4%”12 , ou seja, as famílias
de situação com filhos nesta faixa etária são mais pobres.

Tanto no tocante às ações das políticas públicas minimamente nas Desigualdades por localidade geográfica
áreas da saúde, educação, assistência social, segurança pública,
dos direitos humanos e do planejamento, quanto no tocante às Contudo, além da pobreza, a desigualdade tem outras dimensões,
ações para acesso à Justiça, os processos de levantamento outras condicionantes e limitações para a ação pública. De nada
e análise de dados e informações passam a ter mais sentido adianta falar-se em redução da mortalidade infantil, da evasão
e mais efetividade se colocamos todos eles confrontados com escolar no país, se não se dissecar esses dados para se constatar
específicos dados e informações a respeito dos altos níveis de que essa redução ocorre por exemplo em níveis maiores em
desigualdade social, econômica, cultural e jurídica, que marcam municípios da Região Sul, que os dados referentes ao aumento da
essas ações públicas de garantia de direitos10 infanto-adolescentes mortalidade por morte violenta (homicídio, por exemplo) referem-
e ao escandaloso desrespeito à diversidade e à pluralidade, no se muito mais a municípios da Região Nordeste e que a Região
Brasil. Quadro esse que se desvela com mais clareza, quando se Norte tem os piores índices no implemento das políticas públicas
analisa a situação das políticas públicas e do acesso à Justiça no e no acesso à Justiça. A desigualdade tem diferentes dimensões
âmbito do território dos municípios, isto é, num espaço político regionais, geográficas. Os dados abaixo demonstram a enorme
mais próximo de quem depende dessas ações públicas, de quem diferença entre as cinco macro-regiões brasileiras (Norte, Nordeste,
mais sofre pela ausência de ações do Poder Público ou pela falta Sul, Sudeste e Centro-Oeste). Como exemplo, tome-se a diferença
de eficiência, eficácia e efetividade na operacionalização dessas do percentual de famílias com crianças e adolescentes de até
ações públicas. 14 anos que vivem em situação de pobreza no Sul (26,5%) e no
Nordeste (63,1%), ou seja, além de ser nacionalmente desigual,
Com mais de 183 milhões de pessoas, o Brasil é o quinto país mais o Brasil tem disparidades regionais que chegam a quase 40 pontos
populoso do mundo e a 10ª economia. Mas, igualmente, é um dos percentuais.
países mais desiguais da Terra, ocupando a 92ª distribuição do PIB per
capita e a 69ª posição no ranking do IDH - Índice de Desenvolvimento Localização geográfica Até ½ SM Mais de ½ a 1 Mais de 5
Humano. Dados do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Brasil (geral) 40,4 28,6 2,2
Desenvolvimento) informam que o País é o 10º mais desigual numa Norte 49,3 27,6 1,1
lista com 126 países e territórios, à frente apenas de Colômbia, Bolívia, Nordeste 63,1 20,6 1,0
Haiti e cinco países da África Subsaariana11 . Além disso, em apenas Sudeste 28,1 32,7 3,0
oito países os 10% mais ricos da população se apropriam de uma Sul 26,5 32,2 2,5
fatia da renda nacional maior que a dos ricos brasileiros. No Brasil, Centro Oeste 34,4 32,2 3,2
eles ficam com 45,8% da renda, menos que no Chile (47%), Colômbia

7 CASTEL, R. (1998) As metamorfoses da questão social uma crônica do salário. Petrópolis. Vozes.
8 ZAMORA, M.H. (2005) A lógica, os embates e os segredos: uma experiência de curso de capacitação com educadores in Para além das grades de ferro – elementos para a transformação do sistema socioeducativo. Rio de Janeiro. Edições PUC-RJ e Loyola.
9 Criado nos termos do art. 43 da CDC
10 Garantia de direitos = promoção e defesa (proteção) de direitos e controle dessa garantia de direitos – Resolução 113-CONANDA.
11 Relatório de 2006 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
12 Síntese de Indicadores Sociais 2007. IBGE. Rio de Janeiro. 2007

26
Desigualdade e outros fatores E mesmo os dados coletados, dentre 535 municípios com dados
coletados na implementação do Programa Prefeito Amigo da
A mesma coisa se diga que a exploração e a violência têm raça/ Criança citado, reforçam essa visão de que especialmente as
cor e etnia no Brasil, atingindo de maneira massiva e sistemática desigualdades por localidade geográfica (regionais) distorcem
a população indígena e afro-descendente. E mais, igualmente, assim as avaliações totalizantes sobre a situação da mortalidade infantil
atingindo os deficientes, o segmento LGBTT, crianças, adolescentes no Brasil: “A mortalidade infantil média dos 445 municípios que
e jovens, idosos e mulheres. Essas são varáveis importantíssimas na responderam, nos três anos, foi de 15,1 óbitos por mil nascidos
análise desses dados e informações, igualmente. Ai de quem nasce vivos. A Coluna 2 mostra que não há uma diferença acentuada na
pobre, ribeirinho amazônico, mulher, adolescente, afro-descendente, mortalidade infantil, segundo os grupos de municípios divididos
lésbica, deficiente físico, por exemplo, nos municípios deste Brasil. por porte. Estas médias variam mais quando desagregamos
A desigualdade tem como condicionante o fator cor/raça. Em 2005, os grupos pelas cinco regiões. Observa-se que os municípios
o Relatório de Desenvolvimento Humano do Brasil (PNUD) focou de porte MP da Região Norte apresentaram a menor taxa média,
as desigualdades étnico-raciais. De acordo com este documento, de 9,1 óbitos por mil nascidos vivos; é preciso ressaltar que este
“se brancos e negros formassem um país à parte, a distância entre valor refere-se aos dados de apenas três municípios. O grupo
eles seria de 61 posições”. A população branca teria IDH alto (0,814) de municípios Médios do Nordeste apresentou a maior taxa média,
e ficaria na 44ª posição no ranking mundial – semelhante à da Costa ou seja, de 20,6” (...) “O mesmo quadro apresenta, percentualmente,
Rica e superior à da Croácia. Já a população negra (pretos e pardos) a queda média da mortalidade infantil observada entre os anos
teria IDH médio (0,703) e ficaria em 105º lugar, equivalente ao de El 2005 e 2007. No conjunto, os municípios que enviaram o Mapa
Salvador e pior que o do Paraguai”13. No Brasil, a despesa média II apresentaram uma redução da mortalidade infantil de 16,8
mensal familiar das famílias onde a pessoa de referência se declarou (óbitos por mil Nascidos Vivos) para 13,5. Portanto, uma redução
branca (R$2.262,24) chega a quase o dobro das que se declararam média bastante significativa, de 19,6%. Mas, observa-se uma
negras (cerca de R$1.230,00), em uma inconteste demonstração variação acentuada entre os grupos de municípios divididos pelas
da inter-seccionalidade de raça e classe social14. Ao todo são regiões, posto que três destes grupos apresentaram aumento da
9,5 milhões de crianças de até três anos fora das creches mortalidade infantil no período. É preciso também muita cautela
e 2,2 milhões entre quatro e seis anos que não estão na pré-escola; na análise da evolução da mortalidade infantil, principalmente em
do total de crianças de quatro a seis anos fora da escola 58% municípios de pequeno porte, podendo ocorrer variações não
são negras, o que corresponde a 1,3 milhão de crianças. diretamente dependentes dos serviços públicos” (...). (grifei).16

Desigualdades e saúde pública: mortalidade infantil Desigualdade e educação (1): creches e pré-escolas

No cômputo geral, consegue-se fazer uma avaliação positiva da Registra o seguinte, o relatório do PPAC 2005-2008, sobre
situação geral da infância e adolescência no país, demonstrando que o atendimento educacional a crianças e adolescentes nos
está havendo uma redução significativa da mortalidade infantil no 535 municípios (Mapa II) que forneceram dados a respeito:
Brasil: “A observação sobre os números de municípios cujos dados “(...) na observação dos dados do PPAC sobre essa última
puderam ser aproveitados para a produção de indicadores neste gestão municipal, percebe-se que ainda existem grandes déficits
eixo reforça a dificuldade de extrairmos resultados conclusivos. No na atenção aos direitos de educação da população, sobretudo
entanto, foi possível verificar que números significativos de municípios no que diz respeito à educação infantil. Apesar de alguns
apresentaram evolução bastante favorável de alguns indicadores, municípios terem obtidos resultados significativos na cobertura
como uma redução média da mortalidade infantil de 20%, como e nas condições de educação, a maioria dos governos realizou
resultado do desenvolvimento de um conjunto relativamente uma gestão educacional muito modesta e de pouco impacto na
amplo de iniciativas, e obtiveram também redução na mortalidade realidade do ensino público. Verifica-se isso no comportamento
entre crianças e adolescentes de 10 a 19 anos. A maioria destes dos municípios, de acordo com as médias dos grupos por região
municípios aplicou bem mais do que o percentual mínimo de 15% (...), onde a evolução 2005 a 2007 foi pequena ou negativa. Além
de seus recursos próprios em saúde, revelando coerência na disso, registre-se a quantidade considerável de municípios que
destinação de recursos para viabilizarem as ações priorizadas neste apresentaram mapas do PPAC sem informação para diversas
eixo” (Relatório do Programa Prefeito Amigo da Criança – Gestão perguntas ou com informações muito distorcidas em relação
2005/08 – Fundação Abrinq). Todavia, as mesmas disparidades por à realidade do município, como, por exemplo, um número de
localidade geográfica (regionais) são facilmente encontradas em outro crianças atendidas em determinado nível de ensino muito acima
indicador – mortalidade infantil para cada mil nascidos vivos. Apesar do total de pessoas residentes e pertencentes àquela faixa etária.
das reduções significativas conquistadas nos últimos cinquenta anos, (...)”. Todavia, quando se examina a situação nacional, levantada
o Brasil ainda mantém desigualdades internas muito relevantes entre em outras fontes, o quadro da desigualdade por localidade
suas regiões com diferenças de 20 pontos entre Sul e Nordeste.15 geográfica se torna mais nítido. Para tanto, veja-se a situação na
Mortalidade Infantil Por mil nascidos vivos - %o área específica da educação infantil, onde, a partir da expansão
Brasil (geral) 25,1 do ensino fundamental para nove anos (2006), a educação infantil
Norte 25,8 passou a atender crianças de zero a seis anos incompletos. Pelos
Nordeste 36,9 dados do MEC-INEP, verifica-se que a falta de acesso neste
Sudeste 18,3
nível educacional é um grande problema, no país, visto que dos
Sul 16,7
“23 milhões de meninos e meninas nessa faixa etária, menos da
Centro Oeste 19,5
metade frequenta creche e/ou pré-escola; dos 11 milhões de

13 Relatório de Desenvolvimento Humano Brasil 2005 — Racismo, pobreza e violência. PNUD Brasil. 2005. Brasília
14 Os dados oficiais, recolhidos nas pesquisas do IBGE, adotam o conceito de auto-declaração, ou seja, o/a entrevistado/a declara se considera ser branco, preto ou pardo.
15 A tabela abaixo tomou como base os dados da Síntese de Indicadores Sociais 2007 (IBGE), elaborada a partir de dados de 2006
16 Relatório PPAC – 2005-2008 – pag.13

27
crianças com menos de três anos, apenas 15,5% frequentam creches, a oferta de vagas em creche encontra-se, basicamente, em
ao passo que 76%, aproximadamente sete milhões de crianças entre escolas públicas municipais. Em 2006, “o sistema municipal de
quatro a seis anos estão matriculadas na pré-escola”. O quadro abaixo ensino respondeu por 62,9% das matrículas e o sistema privado,
da “evolução das matrículas em creches” registra quão desigual, em por 35,8%, ao passo que em 2005 esses percentuais eram de
termos de localidade geográfica (Regiões), ainda é o atendimento 60,9% e 37,8%, respectivamente” (Censo Escolar 2006 – MEC/
desse direito social à educação nessa faixa etária: por exemplo, as INEP). Mas esse descompasso entre creches públicas e privadas
Regiões Norte e Centro-Oeste, como em outros quadros sempre mais se acentua, outra vez, em determinadas Regiões, onde essa
aparece como abaixo de todas as demais. ausência do Estado é mais nítida que em outras, confirmando
a tese de que as desigualdades por localidade geográfica são
Regiões 2000 2002 2003 2005 condicionantes no desenvolvimento de políticas públicas, como se
Total Menos Total Menos Total Menos Total pretende destacar no presente texto de análise. O quadro abaixo
de 4 anos de 4 anos de 4 anos
isso revela o quanto suficiente:
Brasil 916.864 549.048 1.152.511 712.301 1.237.558 755.371 1.414.343

Norte 47.026 23.501 57.881 27.886 60.431 28.358 67.392


Regiões 2000 2001 2003 2005
Nordeste 239.800 120.136 302.381 157.798 310.645 161.219 342.954
Público Privado Público Privado Público Privado Público Privado
Sudeste 418.304 273.162 507.937 340.852 571.351 370.147 658.816
Brasil 3.332.173 1.089.159 3.594.896 1.223.907 3.837.092 1.318.584 4.277.350 1.513.320
Sul 156.539 98.367 213.105 142.184 221.922 149.974 247.447
Norte 251.977 55.970 293.332 69.754 336.781 67.518 421.140 89.706
Centro
Nordeste 944.081 376.764 1.053.518 418.097 1.070.579 450.562 1.349543 555.546
Oeste 55.195 33.882 71.207 43.581 73.209 45.673 87.734
Sudeste 1.535.257 446.517 1.629.623 497.642 1.773.145 553.720 1.790042 599.037
Fonte: MEC/INEP Sul 439.156 128.246 445.167 142.730 467.266 149.752 489.315 156.634
O quadro seguinte sobre a evolução nas matrículas em pré-escolas Centro
Oeste 161.702 81.662 173.256 95.684 189.321 97.032 227.310 112.397
também reflete a mesma situação de desigualdade por localidade
geográfica (Regiões): Fonte: MEC/INEP
Aprofundando-se mais a análise da situação da educação,
Regiões 2000 2001 2002 2003 2005 no país, emblematicamente com a análise da situação específica
Brasil 4.421.332 4.818.803 4.977.847 5.155.676 5.790.670 da educação infantil, observa-se que o fator localidade geográfica
Norte 307.947 363.086 382.891 404.299 510.846 também é relevante, pois existe uma dicotomia entre as áreas
Nordeste 1.320.845 1.471.615 1.484.643 1.521.141 1.905.089 urbanas e rurais. Segundo o MEC/INEP: (...) “nas urbanas, 40%
Sudeste 1.981.774 2.127.265 2.238.130 2.326.865 2.389.099 das crianças de até seis anos freqüentam estabelecimentos de
Sul 567.402 587.897 597.808 617.018 645.949 ensino, ao passo que nas rurais este percentual é reduzido para
Centro 27%.” (...) “em 2006 das quase 35 mil creches funcionando no
Oeste 243.364 268.940 274.375 286.353 339.707
Brasil, trinta mil encontravam-se nas áreas urbanas”. E quando
Fonte: MEC/INEP se analisam os dados nacionais sobre educação infantil, a partir
Outro dado importante, colhido dos registros do MEP/INEP, do indicador referente à pobreza (como forma mais aguda de
mostra como a evolução das matrículas em creches e pré- desigualdade como sustentado atrás neste texto), ela se sobreleva
escolas: “(...) entre 2005 e 2006, no que se refere à oferta de de relação à aqui chamada desigualdade por localidade geográfica
vagas da educação infantil (com cerca de sete milhões de alunos), e aprofunda essa desigualdade por Regiões e por área urbana
foi registrado crescimento negativo de 2,6%” (...) no entanto, ou rural. Os dados nacionais (MEC/INEP) mostram que mesmo
as matrículas em creche, que em 2006 foram na ordem de com a expansão de matrículas na educação infantil, a demanda
1,4 milhões, cresceram 1% em relação ao ano de 2005 (...), já continua latente e crescente, principalmente para os segmentos
na pré-escola, com aproximadamente 5,6 milhões de matrículas, mais pobres da população, justamente os que mais se beneficiariam
houve um decréscimo de 3,5% em relação ao ano anterior, pela do acesso à escola: (...) “a taxa de atendimento escolar na faixa
migração dos alunos de seis anos para o primeiro ano do ensino etária de zero a seis anos para famílias com renda per capita
fundamental com a nova lei de expansão deste para nove anos”. acima de cinco salários mínimos é quase três vezes maior do
Todavia, o grande problema em relação ao acesso à educação que para aquelas famílias sem qualquer rendimento; o resultado
infantil está na natureza das instituições que oferecem este desse processo é que nas classes mais ricas as crianças chegam
serviço, que mostra o abandono da máquina estatal de relação à 1ª série do ensino fundamental com uma já longa experiência
a esse tipo de equipamento, jogando para a esfera pública não- de escolarização, ao passo que nos segmentos mais pobres
governamental ou mesmo privada esse tipo de serviço, fazendo esse será, muitas vezes, o primeiro contato da criança com
com que os segmentos subalternizados da nossa população sinta o mundo escolar”.
mais essa ausência do Estado-Governo. De acordo com os dados
do MEC/INEP, em 2004 “as creches particulares, comunitárias, Desigualdade e educação (2): ensino fundamental
confessionais e filantrópicas correspondiam a quase metade
do total; na pré-escola, as instituições privadas correspondiam O relatório do PPAC (2005-2008) faz o seguinte registro sobre
à minoria de 25,8% ; até 2004 a rede pública atendia apenas a implementação da reforma no ensino fundamental, nos
26,8% do total de crianças de zero a seis anos no país; somado municípios (os que deram conta do Mapa II): “Os municípios,
à rede privada, o percentual subia para 37,7%, até três anos, a os estados e o Distrito Federal têm até 2010 para cumprirem
oferta abrangia apenas 11,7%, com apenas 6,1% estão na rede as diretrizes estabelecidas pela Lei 11.274/2006. Essa lei altera artigos
pública”. Pelo que se observa mais dos dados do MEC/INEP, da LDB/1996, definindo o ensino fundamental com duração

28
de 09 anos, com ingresso obrigatório de crianças a partir dos afligem a população, causando a morte de milhares de pessoas
6 anos de idade. Frente a essa determinação legal, nota-se que anualmente. De acordo com o Mapa da Violência 200617,
um percentual elevado de municípios participantes do PPAC já “é possível observar que, com uma taxa global de 27 homicídios
está adequado nessa nova estrutura do ensino fundamental. por 100 mil habitantes no ano 2004, o Brasil ainda se localiza
Destacam-se os municípios de grande porte (G1) em todas entre os países com as maiores taxas de homicídios entre os
as regiões, com exceção do Sudeste. Além disso, as regiões Sul 84 países do mundo que o Whosis/OMS disponibilizou com as
e Centro-Oeste estão com, no mínimo, 90% de seus municípios correspondentes informações. Embora as taxas do Brasil sejam
já adaptados no ensino de 9 anos. Por outro lado, o menor menores que as da Colômbia e semelhantes às da Venezuela
percentual é apresentado pelos municípios de médio porte (M) da e da Rússia, ainda assim continuam sendo extremamente elevadas
região Norte, com menos da metade (43%) dos participantes do no contexto internacional.” De acordo com o Mapa da Violência
PPAC já atuando com o ensino fundamental de 9 anos de duração”. 2006, “a taxa de homicídio da população negra é bem superior
Ao mesmo tempo, em nível nacional, nos termos dos dados à da população bran¬ca. Se na população branca a taxa em 2004
totalizados e constantes dos relatórios do MEC/INEP, hoje temos foi de 18,3 homicídios em 100 mil bran¬cos, na população negra
“uma taxa de matrícula de 98% do total de crianças brasileiras é de 31,7 em 100 mil negros. Isso significa que a população negra
na educação fundamental”; mas dados recentes afirmam que teve 73,1% de vítimas de homicídio a mais do que a população
“a oferta ainda é insuficiente para garantir a universalização do branca. (...) Se no conjunto da população a vitimização de negros
ensino obrigatório no país e dois terços das crianças de 7 a 14 já é severa, entre os jo¬vens o problema agrava-se ainda mais:
anos fora da escola são negras”. Além disso, nas regiões Norte os índices de vitimização elevam-se para 85,3%. Isto é, a taxa de
e Nordeste “apenas 38% das crianças terminam a educação homicídios dos jovens negros (64,7 em 100 mil) é 85,3% superior
fundamental, ao passo que nas regiões mais desenvolvidas, no à taxa dos jovens brancos (34,9 em 100 mil).” O mesmo estudo
Sul e Sudeste, esta taxa é de 70%.” – afirmação essa que confirma confirma que a violência tem um traço marcadamente de gênero,
a tese aqui sustentada de que as desigualdades regionais (fator pois “só 7,9% das vítimas dos homicídios acontecidos no país
localidade geográfica) são marcantes na análise e avaliação dos durante o ano de 2004 pertencem ao sexo feminino. Entre os
dados e informações sobre ensino fundamental, no Brasil, sem jovens, essa proporção é ainda menor: 6,3%. E essas proporções
discrepância, pois com os dados desagregados da amostra vêm se mantendo constantes nos últimos anos.” Registre-se,
dos 535 municípios que preencheram o Mapa II do relatório do contudo, que o problema é concentrado nas áreas periféricas
PPAC (gestão 2005-2008). Por fim, prosseguindo nessa análise urbanas. Enquanto a taxa de homicídios de jovens no Brasil
comparativa entre os dados nacionais totalizados (fonte MEC/ chegou a 51,7 para cada 100mil habitantes no ano de 2004, em
INEP) e os dados desagregados municipais (fonte relatório 2005- Recife/PE este índice chegou aos estratosféricos 223,6, fazendo
2008 PPAC), é mais de se registrar a influência das desigualdades daquela cidade a capital com o maior índice de homicídios de
regionais ou por localidade geográfica no caso das evasões jovens do Brasil18.
escolares. Segundo o INEP, “cerca de 16% dos jovens que
terminam o ensino fundamental deixam de ingressar no ensino Desigualdade e conflito com a lei
médio; dos 60% que ingressam, apenas 47% o fazem antes dos
17 anos e menos da metade dos jovens do ensino médio concluirá Mais uma conseqüência dessa combinação entre desigualdade
a educação básica antes de atingir a maioridade, quando muitos e pobreza, resultando em exclusão social, é o aumento do
deixam a escola para ingressar no mercado de trabalho”. Todavia, encarceramento de adolescentes pobres, moradores das periferias
a taxa de conclusão do ensino médio – segundo a mesma fonte urbanas, quando da prática de atos infracionais: 57% dos atos
– “dobrou nas últimas décadas de 20% para mais de 40%”. Por infracionais cometidos por estes adolescentes foram contra
sua vez, a taxa de escolarização do ensino médio para jovens de o patrimônio, demonstrando que a pobreza e a desigualdade têm
15 a 17 anos está em 46,2%. Informa mais o INEP que entre 2004 alimentado o envolvimento destes adolescentes com tais atos.
e 2005 observa-se que no ensino médio houve uma pequena O direito à defesa é, sem dúvida, um dos direitos mais violados dos
queda de 0,7 pontos percentuais relativos à taxa de abandono; adolescentes em conflito com a lei. Registros diversos dão conta
contudo, os dados gerais da mesma fonte revelaram um aumento que muitos estão privados de liberdade sem nunca terem tido
de 1,1 ponto percentual no índice de reprovação, que passou de acesso a um defensor, o que contraria os tratados internacionais de
10,4% (2004) para 11,5% (2005). É interessante ressaltar o fato direitos humanos, a Constituição Federal e o Estatuto da Criança
de que, contrariando a ideia de que maior reprovação pode levar e do Adolescente. Pode-se concluir facilmente que os adolescentes
ao maior abandono, os dados relativos ao ensino médio revelam em conflito com a lei, na sua ampla maioria pobres, não tendo
que “as regiões que apresentam as menores taxas de reprovação, acesso nem condições de defesa, são submetidos a toda sorte de
Norte (8,7%) e Nordeste (9%), correspondem aos maiores índices arbitrariedades nos Sistema Nacional de Segurança Pública e no
de abandono: 20,8% e 21,1%”. Sistema de Justiça. Vale ressaltar o grande número de violações
(torturas, tratamento cruel, negligência e morte) registradas no
Desigualdade e violência sistema de internação de adolescentes em conflito com a lei
penal, muitas das quais já levadas ao Sistema Interamericano
Outro resultado da combinação da desigualdade com a pobreza de Proteção de Direitos Humanos, o que justifica, portanto, que
é a violência. Mesmo reconhecendo-se que esses fatores não os investimentos nesta área são mais que urgentes. De acordo
são as únicas explicações para a violência massiva e sistemática com dados da Secretaria Especial de Direitos Humanos da
que acontece no Brasil, não se pode deixar de considerar tal Presidência da República, o número de adolescentes em privação
combinação como um alavancador dos índices de violência que de liberdade aumentou 325% entre 1996 e 2006. Contudo,

17 WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência 2006 – Os jovens do Brasil. OEI – Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, Ciência e Cultura. Brasília. 2006
18 WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência 2006 – Os jovens do Brasil. OEI – Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, Ciência e Cultura. Brasília. 2006

29
segundo o Diagnóstico da Defensoria Pública no Brasil, publicado em certos momentos, como uma situação de risco social,
em 2006 pelo Ministério da Justiça, em média, menos de 40% das que existe como conduta materialmente de exclusão social
comarcas do país contam com o atendimento da população por e diagnosticada pela via administrativa de um encaminhamento
defensores públicos. Além disso, apenas 56% das Defensorias sócio-assistencial). Como exemplo desse tratamento discriminatório
Públicas mantêm plantões regulares nas unidades de internação na execução orçamentária, dados sistematizados pelo INESC20,
de adolescentes privados de liberdade . 19
em outubro de 2007, revelaram que alguns programas estratégicos
para o atendimento ao adolescente autor de ato infracional
Desigualdades e orçamentação pública (socioeducandos) estavam com baixíssima execução. Vale ressaltar,
por exemplo, o grande número de violações (torturas, tratamento
No tocante aos dados sobre execução orçamentária dos Governos cruel, negligência e morte) registradas no sistema de internação
Municipais colhidos através do Mapa II do PPAC, verifica-se que de adolescentes em conflito com a lei, muitas das quais já levadas
“as informações sobre os gastos com saúde dos municípios foram ao Sistema Interamericano de Proteção de Direitos Humanos,
pouco aproveitadas, na medida em que em muitos casos foram o que justifica, portanto, que os investimentos nesta área são mais
bastante diferentes dos dados informados ao SIOPS (Sistema de que urgentes. Consta do citado estudo do INESC o seguinte: “(...)
Informações do Ministério da Saúde)” (...) “menos da metade dos o Programa de Atendimento Socioeducativo do Adolescente em
municípios que informaram ao PPAC sobre os gastos de 2007 Conflito com a Lei (SINASE), cuja dotação é de R$24 milhões teve
tiveram dados próximos aos informados para o SIOPS” (..) “onze até setembro de 2007 uma execução não muito superior a 5,22%,
municípios informaram apenas ao PPAC e não o SIOPS.(...)”. ou seja, R$1,28 milhão”.
O Quadro mostra os gastos médios com saúde em 2007, em Reais
(R$) por habitante, por grupo de municípios. Como referência, O baixo nível de garantia do direito à participação de crianças
informa-se que o gasto total com saúde atingiu R$ 268,00 e adolescentes, como sinal emblemático de desigualdade
enquanto o gasto médio com recursos próprios foi de R$ 168,00
por habitante. Dito isto, pode-se observar que os municípios Aqui está o calcanhar de Aquiles na situação da infância
do grupo PP, de menor porte populacional, apresentam as médias e adolescência (e juventude) no Brasil: o baixíssimo nível de
mais altas. Depois do grupo PP, os municípios do grupo G1, que em participação desse segmento nas políticas públicas no Brasil. A
sua maioria têm serviços de referência para os demais municípios garantia dessa participação como um direito fundamental e não
de suas regiões e/ou estados, apresentam os maiores gastos em meramente como estratégia, como tática, como metodologia – como
cada região. Lembra-se que o grupo G1 do Norte é composto por insistimos em fazer no Brasil. Vislumbra-se apenas, aqui e ali, novas
apenas um município. É importante também observar que estamos possibilidades de se promover o desenvolvimento de um necessário
apresentando valores médios, mas que existem vários municípios processo estratégico de empoderamento (empowerment) do próprio
com gastos muito acima da média, como Madre de Deus (BA), com publico infanto-adolescente (ainda muito pouco aprofundado no
gastos em saúde com recursos próprios de R$ 943,00, e Cubatão Brasil, em comparação com outros países), para que eles participem,
(SP) com R$ 743,00. No extremo oposto, temos municípios como mais e mais, proativamente e não reativamente, de estratégias de
Ilhéus (BA), com gastos por habitante com recursos próprios de mobilização social, de advocay e de monitoramento & avaliação.
R$ 30,00, ou Bragança (PA) com R$ 34,00. Por sua vez, um elemento O envolvimento do público infanto-adolescente no Brasil ainda é muito
importantíssimo, a mais, para a análise das diversas dimensões tímido e exige um aprofundamento maior dessas possibilidades de
das desigualdades, em nível nacional, é a execução orçamentária criação/aplicação de táticas e metodologias novas, que garantam tal
do Governo Federal em relação à infância e adolescência, aqui participação proativa21 de crianças e adolescentes no levantamento,
tomada como exemplo. Nesse campo, certas desigualdades outras análise e avaliação de dados e informações. Esse pormenor da falta de
produzem discriminações e distorções políticas, que influenciam metodologias para empoderamento (e não meramente capacitações
essa execução orçamentária. Quando se trata, por exemplo, e treinamentos!) de crianças e adolescentes, especialmente dos
do atendimento aos adolescentes em conflito com a lei, jovens-adolescentes de 16 a 18 anos, no país, decorre muito do
o preconceito de relação à pretensa marginalidade desse público quadro de desrespeito à diversidade e à pluralidade em nosso meio,
faz com que se justifique a baixa prioridade dada a ele pelas refletindo o quadro de desigualdades (geração, gênero, raça-cor, etnia
políticas públicas e o baixo nível de destinação de recursos para etc.). Na verdade, essa “participação de crianças e adolescentes”,
esse atendimento – na linha do dito tradicional que propõe “serviço entre nós, é vista muito mais como uma tática específica no bojo
marginal para público marginal”. O chamado perfil do adolescente de diversas estratégias de ação, ou apenas como metodologia
em conflito com a lei revela esse forte conteúdo seletivista, classista em determinadas atividades/serviços ou projetos/programas. Essa
e racista do sistema de responsabilização socioeducativa, no país, participação é pouco vista como um direito fundamental, em si,
na prática do dia-a-dia: pretos, pobres, semi-analfabetos etc. Essa reconhecido pelos instrumentos normativos de garantia de direitos
distorção se reflete no modo como as políticas públicas tratam humanos. Essas distorções na realização do direito à participação
a infracionalidade em si, o adolescente autor de ato infracional de crianças e adolescentes decorre também muito da falta de
e a execução das medidas socioeducativas (sanção). Uma situação tradição de trabalho nessa linha, ou seja, da falta de maior ousadia
jurídica, meramente adjetiva, é tratada como situação social, e radicalidade, nesse sentido, da legislação infraconstitucional
mais substantiva. Em verdade, o ato infracional, praticado por um brasileira (no caso o Estatuto da Criança e do Adolescente22), da
adolescente, só existe como conduta formalmente em conflito incipiência e dos desvios de concepção e execução de muitas das
com a lei e a ser constituída pela via judicial de uma sentença de experiências dos chamados projetos de “protagonismo juvenil” em
um juiz, obedecido um determinado procedimento-processual. desenvolvimento no país, fatores todos a merecerem críticas também
Contudo, esse ato/conduta é classificado pelas políticas públicas, do Comitê dos Direitos da Criança da ONU (Genebra).

19 II Diagnóstico da Defensoria Pública no Brasil. Ministério da Justiça. Brasília. 2006


20 INESC – Instituto de Estudos Sócio-Econômicos – organização não-governamental – dados consultados no sítio web em 15/11/2007
21 CDC - “direito de ser ouvido e de ter sua opinião considerada”
22 As normas-regras do Estatuto citado e de outras normas legais infra-constitucionais (Código Civil, Códigos de Processo Penal e Processo Civil etc.) não se adequaram de maneira suficiente ás normas-principiológicas hierarquicamente
superiores da Constituição Federal e da Convenção sobre os Direitos da Criança.

30
A normativa jurídica contrastando com a situação relatórios oficiais e contribuições de agências especializadas em
direitos humanos. Após este exame, o Comitê faz considerações
O Brasil tem um marco normativo baseado no reconhecimento e recomendações aos Estados Partes. Além disso, o Comitê
da prevalência da dignidade humana, da liberdade, da igualdade desempenha seu papel de controle da efetivação e implementação
e da pluralidade – da prevalência dos Direitos Humanos. Mas, ele da Convenção, realizando anualmente discussões gerais sobre
é marcado por essa analisada acima fratura social que afasta regiões temas conjunturalmente relevantes e aprovando comentários
geográficas, classes sociais, homens e mulheres, brancos e negros, gerais. Os relatórios iniciais devem ser apresentados pelo Estado
crianças, adolescentes e adultos (incluídos os jovens e idosos). Parte após dois anos da ratificação e, a partir de então, de cinco
Apesar de ter ratificado todos os tratados internacionais de Direitos em cinco anos. O Brasil deveria ter apresentado seu relatório
Humanos, não consegue estabelecer políticas e recursos públicos inicial em 1992, pois ratificou a Convenção em 1990. O segundo
e assegurar o acesso democrático à Justiça como mecanismos relatório em 1997, o terceiro em 2002 e o quarto em 2007
capazes de realizar os direitos por ele mesmo reconhecidos, Infelizmente, o Estado brasileiro permaneceu inadimplente com
particularmente no âmbito do território dos municípios, em todo este compromisso até 2003, data de envio do primeiro relatório.
o país. Desse modo só se pode falar realmente em eficiência, eficácia Da mesma forma, os relatórios dos protocolos opcionais também
e efetividade no desenvolvimento equânime de políticas públicas e no já deveriam ter sido enviados seguindo-se a norma do art.44 da
acesso democrático à Justiça se isso resultar em redução nos níveis Convenção. Para facilitar o exame e debate sobre os relatórios,
de pobreza e de desigualdade e em aumento dos níveis de coesão o Comitê aprovou disposições gerais a serem seguidas pelos
social (bem menos exclusão e muito mais pertencimento social)23. Estados Partes na elaboração de relatórios, agrupando os temas
Por melhores que sejam as cifras, de modo geral, se os dados tratados pela Convenção24: Nos anos de 2003 e 2004, várias
e informações correspondentes não resistirem a uma desagregação organizações coligadas da sociedade civil brasileira, no exercício
para se verificar em que medida os mais-desiguais se beneficiam de suas atribuições previstas na CDC e nos Regulamentos do
ou não desses incrementos, com ações afirmativas em seu favor, Comitê, decidiram apresentar um “relatório alternativo” sobre
verdadeiras discriminações positivas – no caso sob análise aqui, a efetivação/implementação da Convenção em nosso país.
privilégios legítimos e legais em favor da infância e adolescência; Ao final do seu processo de monitoramento, o Comitê editou
fazendo com que seu superior interesse prevaleça acima de tudo seus “Comentários e Recomendações finais.” A partir daí cabia
e todos, priorizando em termos absolutos esse seu atendimento à sociedade civil organizada no Brasil, em especial (incluindo-
público, com resultados reais para o aumento dos níveis de coesão se privilegiadamente aí a ANCED, como liderança da Coalizão
social no país a partir preferencialmente dos municípios. Brasil de ONGs para o Comitê de Genebra), continuar a difundir
os instrumentos internacionais de direitos humanos relativos
O controle sócioinstitucional das ações públicas de à infância, consolidar a utilização de seus mecanismos e fiscalizar
promoção e defesa (proteção) de direitos a implementação dos citados “comentários e recomendações”
do Comitê ao nosso país, reunindo informações para um possível
Para que se consiga frutos aproveitáveis desse choque segundo relatório alternativo e para elaboração de inúmeros outros
aparente entre realidade social e normativa, entre o “Brasil-Real” relatórios de análise da situação, de planificação, de agendamento
e o “Brasil-Legal”, um sistema de controle das ações públicas e pactuação. Quando se promove a utilização, como parâmetro
necessita ser implementado, onde se faça um acompanhamento, avaliativo e planificador, desse documento especifico do Comitê
monitoramento, avaliação e correção dessas ações, diminuindo para os Direitos da Criança das Nações Unidas, não se trata
os níveis de fraturas entre os dois “Brasis”. Está no controle de preferir utilizar exclusivamente um instrumento ou outro:
social exercido diretamente pela sociedade civil organizada Constituição Federal, Convenção sobre os Direitos da Criança
e no controle institucional exercido principalmente pelos ou Estatuto da Criança e do Adolescente. Ao contrário, todos
conselhos dos direitos da criança e do adolescente e mais pelo os instrumentos normativos são complementares e devem ser
Parlamento, pelo Ministério Público, pelos tribunais de contas, utilizados, inclusive este emanado do Comitê. Imprescindível é
pelas corregedorias, auditorias, controladorias etc. que os princípios explicitados por estes instrumentos normativos
todos sejam efetivados, tomados em conta em nossos trabalhos
Exemplo de parâmetros para o controle das ações públicas: de análise e planejamento, por exemplo. ROSENO explica,
as normas do Comitê da ONU para os Direitos da Criança, a respeito: “O fundamento do direito não é o instrumento
por exemplo normativo, mas o conteúdo de justiça que deve estar contido na
norma, seja ela nacional ou internacional. Por isso, defendemos
Em nível internacional, a Convenção sobre os Direitos da a complementaridade e articulação entre os sistemas nacional,
Criança, a exemplo de outros tratados internacionais de direitos regional e internacional de proteção dos direitos humanos. Mais
humanos, trouxe em seus artigos 43 e seguintes, os mecanismos importante que a norma é a prevalência do princípio da dignidade
e procedimentos para o controle de sua efetivação jurídica do ser humano criança que deve estar reconhecido na norma”25 .
e implementação político-institucional. Criou um comitê, a princípio
formado com 10 membros e, a partir de 2003, com 18 membros, Outros parâmetros para o controle das ações públicas:
“especialistas de reconhecida integridade moral e competência compromissos políticos de instâncias públicas não-
nas áreas cobertas pela Convenção” (art.43, 2). Cabe ao Comitê institucionais
dos Direitos da Criança “examinar os progressos realizados
no cumprimento das obrigações contraídas pelos Estados partes Os participantes do IV Fórum Ibero-Americano de ONG pela
da Convenção” (art.43,1), o que é feito pelo exame periódico dos Infância, representando as organizações não governamentais

23 Ver adiante item III – “Parâmetros (...)”


24 Esse tipo de classificação é de muita importância na elaboração de relatórios outros sobre garantia de direitos da criança e do adolescente, no Brasil e deveria ser levada em conta, nem que seja em caráter suplementar: a) Medidas gerais
de implementação (arts. 4º, 42 e 44.6); (b) Definição de criança (art. 1º); (c) Princípios gerais (arts. 2º, 3º, 6º e 12); (d) Direitos Civis e liberdades (arts. 7º, 8º, 13-7 e 37a); (e) Ambiente familiar e cuidado alternativo (arts. 5º, 18.1, 18.2, 9º, 10,
27.4, 20, 21, 11, 19, 39 e 25); (f) Saúde básica e bem-estar (arts. 6º.2, 23, 24, 26, 18.3, 27.1, 27.2 e 27.3); (g) Educação, lazer e cultura (arts. 28, 29 e 31); (h) Medidas especiais de proteção.
25 ROSENO, Renato in “Introdução ao Relatório Alternativo da Coligação da Sociedade Civil Brasileira ao Comitê para os Direitos da Criança”. 2005. São Paulo. Edição ANCED

31
dos países ibero-americanos (incluindo-se mais a Espanha de crianças e adolescentes: Insta-se nesse documento,
e Portugal), preliminarmente, reconheceram em maio de 2007, em a todos nós no Brasil, no sentido da valorização de
Villarica, Chile, que as políticas públicas em favor da infância e da espaços participativos, como os nossos conselhos dos
adolescência, formuladas e executadas em seus países, deveriam direitos da criança e do adolescente. Todavia acrescenta-
ser firmadas em “processos de planejamento participativo se, além do mais, compromissos de envolvermos,
e democrático, a meio e longo prazo, para permitir a consolidação nesses processos e espaços públicos participativos
de processos sociais estáveis e duradouros, em matéria de garantia e permanentes, crianças e adolescentes, coisa que
permanente de direitos de crianças e adolescentes, a partir de no Brasil temos dificuldades em fazê-lo.
uma perspectiva integral”. Isso supõe – segundo a declaração D) Municipalização – Há um compromisso outro em favor
final – mais uma reforma estrutural e funcional da institucionalidade da municipalização das políticas públicas: isto é, (...)
pública dentro dos Estados e uma gestão de resultados e de “ se deben crear políticas públicas locales que acerquen
impactos, centrada na pessoa da criança e do adolescente, como más el Estado a los espacios de la vida cotidiana de los
sujeitos de direitos, tendo a busca da “coesão social”, como escopo niños, las niñas y los adolescentes”.
final. Levando-se em conta o que consta desse documento do E) Sistema Nacional de Garantia de Direitos – Os
IV Fórum Ibero-Americano, pode-se construir alguns indicadores participantes do IV Fórum constataram a necessidade de se
que permitam garantir maior eficiência e eficácia e igualmente reconhecer a existência em nossos países de um sistema
maior efetividade, para o enfrentamento da exclusão, da pobreza de garantia de direitos em favor de crianças e adolescentes,
e das desigualdades, através do desenvolvimento equânime de fortalecendo-o, dotando-o de mecanismos orçamentários
políticas públicas e do acesso democrático à Justiça, em nosso e jurídicos para garantir sua efetividade em favor do seu
país, a partir dos seus municípios. Os compromissos assumidos público-destinatário, sem se esquecer de se contemplar
na declaração final desse Fórum devem ser considerados quando nesse compromisso o papel do Sistema Judicial: (...) “que
da elaboração de agendas, pactos, compromissos entre nós no realicen las reformas presupuestarias y jurídicas necesarias
Brasil, especialmente as expressões organizativas da sociedade civil para dotar a los Sistemas Nacionales de Protección de
que firmamos esse documento ibero-americano. Do documento los Derechos de los mecanismos necesarios para que
final desse evento foram destacados os seguintes pontos que los mismos puedan ser demandados por niñas, niños
se transformam em parâmetros para a análise da situação social y adolescentes. En este sentido es necesario adecuar
e político-institucional, neste texto registrada e comentada, los procedimientos judiciales y administrativos para que
e para a construção de compromissos no sentido do enfretamento niñas, niños y adolescentes vulnerados en sus derechos,
da pobreza, da desigualdade e da exclusão que dessa análise al igual que sus familiares o testigos, tengan un mejor
emerge e no sentido de elevação dos níveis de inclusão e de acceso a la justicia (...)”.
pertencimento social (coesão social): F) Dados e informações – Assumiu-se, também, para
A) Marco normativo predominante – O documento toda a Ibero-América, o compromisso de criarmos um
inicialmente chama a nossa atenção, de modo particular, sistema de gerenciamento de dados e informações mais
para a necessidade de se garantir mais centralidade na aperfeiçoado e com capacidade de desagregações
Convenção sobre os Direitos da Criança e não apenas no necessárias, a respeito da infância e adolescência e que
Estatuto da Criança e do Adolescente26, considerando-se permita o monitoramento e a exigibilidade de direitos.
que no Brasil, por força da Emenda Constitucional nº 45,
esse tratado internacional, depois de ratificado, passou Coesão social
a ter status de norma constitucional, hierarquicamente
superior a normas infraconstitucionais27. Nesse ponto A situação da infância e adolescência no Brasil está marcada por
se chama mais a atenção para o caráter principiológico profundas fraturas provocadas pela insegurança social, isto é, pela
de certas normas da CDC, a permitir que os gestores pobreza e pelas desigualdades várias (com destaque aqui para
públicos e os julgadores interpretem, por exemplo, a desigualdade por localidade geográfica). A normativa internacional
todas as normas-regras do Estatuto citado e de outras e nacional nos aponta para a necessidade de atendermos
leis ordinárias (LOAS, LOS, LDB etc.), a partir dessas necessidades e desejos desse público, no marco dos Direitos
normas-princípios da CDC, tendo-as como chaves Humanos, fazendo prevalecer os princípios gerais dos Direitos
hermenêuticas, como, por exemplo, os princípios da Fundamentais. E por sua vez, o fortalecimento do controle social
integralidade do desenvolvimento, da não-discriminação, e institucional sobre essas ações aqui se elegeu como mecanismo
do superior interesse, da proteção especial em casos de privilegiado para garantir a deflagração de um processo de
violações de direitos. transformação social dessa situação de iniquidade, a partir desses
B) Investimentos públicos – Comprometeram-se todas paradigmas emancipatórios dos Direitos Humanos. Mas qual
as ONGs ibero-americanas, nessa declaração final, nossa meta, nosso horizonte, nossa utopia histórica e verossímil?
em priorizar a discussão e a luta pelo crescimento das Dir-se-ia aqui: a busca da coesão social em níveis crescentes!
inversões públicas em favor da infância e adolescência, O conceito de “coesão social”28 surge ante a necessidade de
fazendo a devida conexão entre política econômica se encarar os sérios problemas que, apesar de alguns avanços
e políticas sociais, vez que não se poderá ter boas políticas alcançados nos últimos anos, ainda perduram na América Latina,
sociais sem políticas econômicas mais justas no Brasil: altos níveis de pobreza e uma extrema desigualdade,
C) Processos e espaços públicos de participação que resultam nas diversas formas de discriminações, abandonos,
democrática & em especial de participação proativa explorações, violências e exclusão social (em “insegurança

26 Enquanto “normativa nacional de adequação à CDC”.


27 ECA, LOAS, LOS, LDB etc.
28 CEPAL

32
social”), como se viu atrás neste texto. Pobreza e desigualdade
que atingem ainda mais agudamente os segmentos da população
que foram reduzidos a “minorias políticas”, isto é, os mais atingidos
por esses diversos processos de opressão de responsabilidade
dos grupos hegemônicos dominantes (sócio-político-econômico-
jurídico-culturais). Os atores sociais que poderiam ser chamados
a construir espaços e mecanismos de interação positiva e de
superação dessa situação de pobreza e desigualdade não contam
com espaços e mecanismos de cooperação e de comunicação,
baseados em princípios éticos que não dão sustentação a esse
quadro de iniquidade, de pobreza e desigualdade. As razões
desses desencontros são múltiplas, mas se destaca entre elas
o débil nível de coesão social, vez que o problema transcende
à mera satisfação de necessidades materiais. Para superar isso,
há que se reconhecer a relevância dos valores democráticos
no desenvolvimento de políticas públicas que fortaleçam essa
coesão social e no acesso à Justiça igualmente fortalecendo
a coesão social. Mas além dessa relevância ética em razão da
equidade, isso também é relevante para testemunhar a solidez
do Estado Democrático de Direito, da ordem social democrática
e da governabilidade. A coesão social é mais um desejo político,
uma utopia a se realizar no futuro a partir de esforços no presente,
fortemente condicionadora do desenvolvimento humano
sustentado, como um seu elemento obstaculizador ou facilitador.
Trata-se de criar sinergias positivas entre crescimento econômico
e equidade social, através da promoção e defesa (proteção) de
direitos fundamentais e do fortalecimento de uma democracia real,
inclusiva e participativa. Assim sendo, necessário se torna celebrar
um verdadeiro compromisso de coesão social, entre gestores
e outros agentes públicos que integram os atores sociais do sistema
de garantia dos direitos da infância e adolescência (especialmente,
os que atuam em nível municipal), o que permitiria construir
uma agenda mínima em torno desse objetivo, disponibilizando
os recursos econômicos, políticos e institucionais viáveis,
ao máximo de seus esforços.

*WANDERLINO NOGUEIRA NETO


Procurador de Justiça (aposentado) do Ministério Público do Estado da Bahia e membro do Grupo Temático de
Monitoramento da Convenção sobre os Direitos da Criança da Associação Nacional dos Centros de Defesa da
Criança e do Adolescente – ANCED / Seção Brasil da Red de Defensa de los Niños y Niñas Internacional - DNI),
pelo CEDECA Interlagos (SP). Foi Procurador Geral de Justiça e Diretor Geral do Tribunal de Justiça da Bahia,
Professor de Direito Internacional Público da Universidade Federal da Bahia – UFBA, Secretário Nacional
do Fórum DCA, Presidente da Associação do Ministério Público da Bahia e Consultor Especial para o UNICEF
(Brasil, Angola, Cabo Verde e Paraguai).

33
NÃO-CRIMINALIZAÇÃO & IMPUNIDADE.
SISTEMA DE GARANTIA DE DIREITOS HUMANOS.i
WANDERLINO NOGUEIRA NETO*

Nota: O presente texto foi apresentado no III Congresso Mundial e reprodutiva, para que a todas as mulheres e todos os
contra a Exploração Sexual de Crianças, realizado no Rio de homens seja garantida a necessária e eficaz proteção em
Janeiro, em novembro de 2008, promovido pelo Unicef, Childhood face de qualquer violência, abuso ou exploração sexual,
(Fundação WCF – Suécia), ECPAT, Comitê dos Direitos da Criança tortura ou intolerância por orientação sexual;
da ONU, NGO Group for the CDC e Governo Brasileiro. Essa fala do
Autor integrou o Painel 2 sobre “Marco Legal e Responsabilização” • O direito à informação e à educação, incluindo informação
e versava sobre esse enfoque específico da “impunidade, não- sobre sexualidade que promova a liberdade de decisão
criminalização e sistema de garantia de direitos humanos”, como e igualdade de gênero, garanta o acesso à informação
programado. Igualmente, foi apresentado no mesmo período no completa sobre os benefícios, riscos e efetividade de
I Congresso Brasileiro contra a Exploração Sexual de Crianças e todos os métodos de regulação da fertilidade e prevenção
Adolescentes, realizado simultaneamente. de doenças, possibilitando, assim, decisões com base em
um consentimento livre e informado;
SÍNTESE: O reconhecimento dos direitos sexuais, como
direitos fundamentais da pessoa humana, como preliminar a • O direito à liberdade de pensamento, para que homens
ser assegurada. A criminalização (ou não) do explorador sexual, e mulheres não sejam submetidos a interpretações
como uma das possíveis respostas do Estado à violação dos restritivas de ideologias religiosas, crenças, filosofias
direitos sexuais de crianças e adolescentes. A e costumes, instrumentalizadas para controlar
impunidade como tendência, na realidade atual a sexualidade, para estabelecer pauta de
– uma questão estrutural e/ou conjuntural? “Necessita-se, pois de um Direito conduta moral no âmbito da sexualidade
Deslegitimação do Direito Penal, nos tempos emancipador e não meramente e para limitar o exercício de quaisquer direitos
regulador. Em resumo, a
atuais. Novas alternativas. A responsabilidade nas áreas da saúde sexual e reprodutiva;
sexualidade humana pressupõe
do Estado, de modo sistêmico, pela promoção
liberdade, diversidade, respeito
& proteção de direitos humanos da criança e tolerância. E a livre expressão • O direito à privacidade, para que
e do adolescente, incluindo-se os seus direitos dessa sexualidade deve ser todos os serviços de atenção à
sexuais. A institucionalização de um sistema reconhecida e garantida como um saúde sexual e reprodutiva garantam
de garantia de direitos humanos infanto- direito fundamental, da pessoa a confidencialidade.
adolescente, na América Latina (exemplos do humana - indisponível e exigível.”
Brasil e do Paraguai), como alternativa na busca Pelo que se observa na raiz de tudo que se
de novas alternativas. possa dizer e fazer, para todos e para todas, deve estar a questão
da dignidade humana, da liberdade e do direito. Necessita-se do
Contexto: direitos sexuais como direitos fundamentais da reconhecimento e garantia de direitos sexuais que pressuponham
pessoa humana a pluralidade e a diversidade, levando nosso discurso teórico
e nossa prática a passarem pela questão preliminar da “tolerância
Para o pleno exercício dos direitos sexuais e reprodutivos, e respeito” com a diversidade e com a liberdade, de cada um.
fundados na dignidade de sua condição humana, todos os Necessita-se, pois de um Direito emancipador e não meramente
homens e todas as mulheres e cada um deles e delas devem regulador. Em resumo, a sexualidade humana pressupõe liberdade,
ser tratados com respeito a sua liberdade, a sua autonomia diversidade, respeito e tolerância. E a livre expressão dessa
e a sua autodeterminação, para que possam exercer o seu direito sexualidade deve ser reconhecida e garantida como um direito
de desfrutar de uma vida sexual plena, que seja satisfatória, fundamental, da pessoa humana - indisponível e exigível.
saudável, segura, sem discriminações, sem coerção e sem
violência. Para tanto, todos os recursos científicos, políticos Mas, que tem essa questão da sexualidade de todas as cidadãs
e jurídicos, no âmbito público e privado, devem ser garantidos e de todos os cidadãos com este evento, já que nosso enfoque
e disponibilizados para que todos os homens e todas as mulheres neste III Congresso Mundial se concentra sobre crianças
efetivamente exercitem seus direitos sexuais e reprodutivos. e adolescentes? A pergunta tem realmente sentido, vez que, em
nossas reflexões e ações, tradicionalmente o reconhecimento dos
Por sua vez, o pleno exercício dos direitos sexuais e reprodutivos direitos sexuais de crianças e adolescentes discrepa de certa forma
implica no reconhecimento e na garantia minimamente dos de tudo isso dito até agora; como se aquilo apresentado atrás só
seguintes direitos: valesse para os direitos sexuais dos adultos. Enquanto isso os
• O direito à igualdade e a uma vida livre de toda forma de direitos sexuais de crianças e adolescentes continuam marcados
discriminação, inclusive no que diz respeito à vida sexual pela excepcionalidade e pela ideia de tutela e dominação, não
i O presente texto foi apresentado no III Congresso Mundial contra a Exploração Sexual de Crianças, realizado no Rio de Janeiro, em novembro de 2008, promovido pelo UNICEF, Childhood (Fundação WCF – Suécia), ECPAT, Comitê dos
Direitos da Criança da ONU, NGO Group for the CDC e Governo Brasileiro. Essa fala do Autor integrou o Painel 2 sobre “Marco Legal e Responsabilização” e versava sobre esse enfoque específico da “impunidade, não-criminalização e
sistema de garantia de direitos humanos”, como programado. Igualmente, foi apresentado no mesmo período no I Congresso Brasileiro contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, realizado simultaneamente.

34
lhes reconhecendo os adultos medianamente, esses seus dos direitos sexuais infanto-adolescentes, particularmente no
direitos sexuais, como Direitos Humanos que são. Essa condição campo da legislação penal, deverão merecer uma profunda e
de ser-histórico, de sujeito de direitos, não tem tido efeitos práticos ampla revisão, sempre que se colocar a proteção legal dos
no campo da sexualidade, onde as discussões e intervenções direitos sexuais de crianças e adolescentes e o combate contra as
públicas ainda continuam hegemonicamente adultocêntricas. diversas formas de abusos e explorações sexuais, na perspectiva
dos Direitos Humanos, como posto na normativa internacional
Com a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, vigente à qual esses marcos legais nacionais deverão
crianças e adolescentes tiveram explicitada sua condição de titulares urgentemente se adequar de maneira verdadeiramente radical,
dos direitos enunciados naquela Convenção e explicitada mais sem reservas que atinjam os princípios básicos dessa normativa
a obrigação dos Estados-Partes de assegurarem a aplicação desses internacional. E em decorrência disso, é preciso que se faça
direitos a cada criança e adolescente, sujeitos a sua jurisdição (CDC- com que o superior interesse de crianças e adolescentes
art. 2-1). Nesses termos, são cidadãos livres como os adultos, mas prevaleça sempre, considerando-se, porém, o respeito e
com o exercício dessas liberdades condicionado a certos fatores a consideração a sua opinião, no grau de sua maturidade,
e condições, isto é, com sua capacidade do exercício de quaisquer como balizador da definição desse superior interesse, pois
dos seus direitos, limitados estritamente pela lei. A CDC, por exemplo, não deve ficar ao arbítrio das agências públicas e dos seus
reconhece o direito de livre expressão de opiniões de crianças agentes definirem o que corresponde ou não a esse interesse
e adolescentes e a consequente obrigação dos Estados-Partes de maior da criança e do adolescente, sem que se garanta esse
levarem em consideração essa opinião; mas condiciona o exercício direito à participação ativa de crianças e adolescentes. Não
desse direito de participação a sua “capacidade de formular seus foi à toa, que na Reunião Preparatória para o III Congresso
próprios juízos” e ao seu grau de “maturidade” (art.12-1 – CDC). Mundial contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescente,
Assim, a proteção integral a esse direito à sexualidade de crianças realizada em Buenos Aires, crianças, adolescentes e jovens ali
e adolescentes deve ser considerada como uma proteção ao reunidos assim declaram: “Nosotros, adolescentes y jóvenes
seu direito à vida, competindo aos Estados-Partes assegurarem de América Latina – basados en las necesidades e inquietudes
ao máximo a “sobrevivência e o desenvolvimento da criança” de todos los adolescentes y jóvenes de América Latina en
(CDC – art.6 -1-2) e adotarem medidas apropriadas para “protegê- cuanto a su escaza participación dentro de los procesos en
las contra todas as formas de abuso e exploração sexual” (CDC contra de la explotación sexual comercial de niños, niñas y
– art.34 – 1). Considerando-se assim que os direitos sexuais de adolescentes – declaramos que (….)”. E aí eles fizeram um
crianças e adolescentes têm o seu exercício limitado pelo seu grau precioso reconhecimento: “Entienda-se la participación activa
de desenvolvimento bio-psico-social, há que se colocar, mesmo y efectiva de niños, niñas, adolescentes y jóvenes, generadora
assim, essa sexualidade como um direito e regulá-la de maneira de impacto y cambios, como un derecho fundamental que
emancipatória e não meramente repressora. Isso porque a criança nos compete a todos y en defensa de los derechos
e o adolescente, para efeito da garantia dos seus direitos fundamentales de niños, niñas, adolescentes y jóvenes y en
fundamentais, não deixam de serem cidadãos. Para se assegurar especial el derecho a la protección ante la explotación
a liberdade de consentir, no campo sexual, de qualquer criança sexual comercial, hemos coincidido en afirmar los siguientes
ou adolescente (no campo das variadas expressões possíveis de sua puntos como claves para el desarrollo por un cambio
sexualidade, para além da restrita genitalidade), o Estado e o Direito efectivo y real (..)”
devem proteger esses cidadãos dos “vícios de consentimentos”, É preciso que se faça uma mudança estratégica na ordem das
isto é, das formas violentas, fraudulentas, enganosas, indutoras nossas duas táticas e metodologias de atuação tradicional:
e exploratórias de consecução do seu consentimento, por • Preliminarmente, importante se torna promover direitos
outrem. As expressões diversificadas da sexualidade da criança sexuais, na forma do que foi dito até agora, isso significa
e do adolescente, que teimamos em reduzir a uma mera sexualidade que em primeiro lugar privilegiemos práticas e discursos
genital, só podem ter limites na norma jurídica, no Direito. justificadores mais afirmativos;
E nunca limitadas pelo arbítrio do magistrado e do gestor público,
por exemplo, e pelos nossos preconceitos morais e sociais, • Consequentemente, se torna importante proteger esses
religiosos, culturais. direitos sexuais e defendê-los contra todas as formas
de negação, de violação ou ameaça a esses direitos
Essa intervenção estatal nesse campo da sexualidade só será legítima sexuais e, com um discurso. uma prática de redução
– ética e socialmente – para garantia do direito correspondente, de dano, complementando esse anterior discurso
para sua proteção de relação a abusos contra o direito e para a e prática positivos, necessário se torna que combatamos
responsabilização dos violadores, abusadores e exploradores. Em toda a sorte de violências, explorações, discriminações,
favor, pois, da sua liberdade e da sua dignidade, da sua vida e da negligências, opressão.
sua saúde: nunca em prol dos “bons costumes”, da “moral pública”,
como estúpida e anacronicamente prevê a legislação penal de vários Estrategicamente isso tem muito sentido, pois recoloca
países (inclusive a brasileira, em reforma), contrariando os novos no centro das nossas atenções a própria criança, o próprio
paradigmas ético-jurídicos, que garantem a igualdade de direitos de adolescente, enquanto pessoa e titular de direitos humanos,
mulheres, crianças e adolescentes – as maiores vítimas dessa visão em favor de quem se quer combater as formas diversas
machista, adultocêntrica e conservadora da legislação penal, que de exploração sexual e não tanto o agressor sexual, em
impera em boa parte dos nossos países. caráter individual.
Em resumo, os marcos legais nacionais, no Mundo, a respeito

35
A criminalização como uma das possíveis respostas do de direitos sexuais ou diretamente ou de acumpliciamento
estado à violação dos direitos sexuais. A impunidade funcional com outras formas sem suas providências devidas. Até
e a estrutural outras sanções, restrições, embargos, mais gravosos.
Mas aqui, neste enfoque, se vai tratar inicialmente das possibilidades B) A partir dessa sua originária e preliminar responsabilização,
de enfrentamento dessas inúmeras formas de violações dos o Estado criminaliza-penaliza esses agressores sexuais,
direitos sexuais infanto-adolescente e dos obstáculos que surgem como uma das formas derivadas de responsabilização
nesse processo. Especialmente aqui irá focar-se num desses jurídica possível dos referidos agressores sexuais, através
obstáculos: a chamada impunidade dos agressores sexuais ou, de suas agências judiciais e policiais. Contudo, há que
mais especificamente ainda, dos exploradores sexuais e clientes, se reconhecer que essa criminalização-penalização do
no seu processo de responsabilização, através da criminalização agressor sexual (explorador/cliente) não é a única resposta
deles pelo Estado. Em outro painel neste Congresso Mundial, do Estado ao “ato injusto” desse agressor sexual. E talvez
a promoção dos direitos sexuais através das políticas públicas nem sempre a mais efetiva, eficaz e eficiente, diante da cada
terá seu devido espaço. Apontada a impunidade no processo de vez mais desmascarada “deslegitimação do direito penal”,
criminalização como um sério desafio a ser enfrentados por todos por sua manifesta seletividade classista, racista, machista
nós, o Mundo necessita construir estratégias para vencer esse etc. E por sua baixa efetividade, de relação à prevenção e
obstáculo que nos desafia e esboçar saídas tais como: repressão ao crime, as estatísticas mostram o baixo poder
A) Abertura de um leque maior de campos e níveis de intimidatório da sanção penal, no mundo moderno.
responsabilização desses agressores sexuais, para além da
responsabilização pela criminalização, sem prejuízo desta; Quando da Consulta Nacional Preparatória para o III Congresso
B) Colocação da responsabilização individual desses Mundial contra a Exploração de Crianças e Adolescentes, realizada
agressores sexuais, no campo maior da responsabilização em Brasília, no mês de outubro de 2008, em síntese diziam
ampliada estatal e social (accountability); os participantes, a respeito dessa matéria: “É preciso dar um
C) Inserção dessas duas formas de responsabilização sócio- breque nesse discurso que faz a multicitada ‘responsabilização’
estatal e individual, dentro de um sistema integrador ser confundida exclusivamente com criminalização / penalização,
de normativas e mecanismos de garantia de direitos provocando a ‘volúpia punitiva’ de muitos de nós. A indignação
humanos. da sociedade é importante, no entanto é preciso construir outros
parâmetros na forma desta sociedade reagir, superando a égide
A partir disso, enfrentemos essa questão da responsabilização, da pura e simples da justiça penal, punitiva e coercitiva, acrescentando
criminalização e da impunidade, conhecendo melhor a situação a perspectiva multidisciplinar para garantir a proteção integral.
posta de relação à garantia dos Direitos Humanos de crianças Existe ainda a necessidade de requalificar a noção de vítima,
e adolescentes: recuperando as dimensões de sujeito e de sua integralidade.
A) Em primeiro lugar, a expressão tão usada de Para tanto se fazem necessárias soluções sistêmicas e alternativas
“responsabilização de abusadores e exploradores para todos os envolvidos”.
sexuais”, no sentido restrito de sua criminalização-
penalização, deve merecer uma revisitação do seu Em oposição franca a esse posicionamento ímpar, colhido da
conceito e da sua aplicação, para se colocar a expressão Reunião Preparatória citada, constata-se ainda, na média da
“responsabilização”, ampla e primeiramente no seu opinião pública, uma forte defesa monocórdica da criminalização-
sentido próprio, no campo do Direito Internacional dos penalização dos agressores sexuais e o repúdio passional
Direitos Humanos: ou seja, o Estado igualmente precisa a sua impunidade. E esse entendimento médio parte da ideia
ser responsabilizado (“accountability/responsibility”), de que o sistema penal, em si mesmo, é “legitimo e eficaz”
tanto pela promoção dos direitos sexuais de crianças e de que a impunidade ocorrente é disfuncional, a ser combatida
e adolescentes através de políticas públicas intersetoriais com leis penais mais draconianas e uma justiça mais efetiva em
realmente efetivas, quanto pela proteção legal desses produzir condenações. E que, portanto, a impunidade nasce
direitos, através do sancionamento (amplo!), dos apenas de fatores conjunturais, em nossos países, isto é, ou da
abusadores e exploradores sexuais. O Estado é chamado insuficiência da regulação legal ou do mau funcionamento das
a dar uma resposta, (“answerability”) à qual está obrigado agências judiciais ou de ambas. E, isso vencido, se conseguiria
e pela qual é responsável, diante da ordem interna quebrar o chamado “ciclo perverso da impunidade”, no caso da
e mundial, diante das situações de explorações sexuais. exploração sexual de crianças e adolescentes. Mas, será mesmo
E se obriga mais a cobrar, derivadamente, respostas dos que o sistema penal, especialmente no tocante à criminalização-
agressores sexuais e a responsabilizá-los, por sua vez. penalização individualmente dos exploradores sexuais de
O Estado precisa ser chamado a se responsabilizar pela crianças e adolescentes, depende apenas do aperfeiçoamento
garantia dos direitos sexuais de crianças e adolescentes das leis penais e do sistema de Justiça Penal? Primeiro, para
e a combater todas as formas de violações desses direitos. dar conta dessa complexidade de fatores, torna-se importante
É chamado a reconhecer suas obrigações e ele se expõe, aprofundarmos nossas leituras e reflexões a respeito do que, hoje,
se arrisca a sofrer sancionamentos morais, econômicos, no Mundo se chama de “processo de deslegitimação do sistema
políticos – desde o mero “envergonhamento público” penal-penitenciário”: Eugênio Raul Zaffaroni e Emilio Garcia
diante da comunidade internacional (e comunidade Mendes (Buenos Aires), Nilo Batista e Carlos Nicodemos (Rio de
nacional, por que não!?), com a leitura dos relatórios, Janeiro), Elias Carranza (São José da Costa Rica), Alessandro
onde sejam apontados por algumas formas de violações Barata (Saarbrucken), Rosa Del Olmo (Caracas), Lola Anyar de

36
Castro (Maracaibo), Louk Husman (Roterdão), Manuel de Rivacoba pelo menos...), ao máximo, essas características essenciais
y Rivacoba (Córdoba), Eduardo Novoa Monreal (Santiago), Antonio da resposta penal retributivista. Se atuarmos na perspectiva
Beristein (São Sebastião – País Basco). Atualmente esses autores dos Direitos Humanos – ao mesmo tempo em que se pune
e outros tantos põem em duvida décadas e décadas de segurança o delinquente, também se o reconhece como pessoa humana,
na resposta penal tradicional, enquanto alguns outros juristas com direitos fundamentais, com respeito mínimo a sua dignidade.
penalistas clássicos procuram o aperfeiçoamento funcionalista A demonização do delinquente sexual só serve ao modelo de
e conjuntural dessa resposta penal e o combate à impunidade sociedade e de Estado firmado na vingança, na “volúpia punitiva”
dentro desse panorama também conjuntural e funcionalista: alienadora da população e na reprodução da violência, em um ciclo
culpam as leis vigentes e os agentes judiciais e policiais, pela baixa macabro e inacabável. E negatória inclusive do marco dos Direitos
efetividade da resposta penal, sem reconhecer esse fenômeno da Humanos. Contudo, denunciar simplesmente esse discurso
deslegitimação do sistema penal, em si. Contudo, sem sucesso, jurídico penal como falseante, ideológico e deslegitimado, sem
estes últimos, quando se analisa mais profundamente a situação buscar alternativas com capacidade de alteridade, nos faz correr
da prevenção e repressão aos delitos e a partir dela tenta-se o risco também de privar-nos do único instrumento disponível para
construir cenários mais favoráveis à eficiência e eficácia dessa a defesa dos direitos humanos de alguns segmentos sociais, mais
resposta penal, que cada vez mais surge como uma “inflição de susceptíveis de serem alcançados pela malha seletista do sistema
dor sem sentido”, ou seja, “penas carentes de racionalidade” – no penal. Para a defesa dos “suspeitos”, dos presumidamente
dizer de Eugênio Zaffaroni. criminosos, mesmo que depois inocentados das falsas denúncias.
Ação seletiva, ideológico-fascista e controladora higienista
Mas nesse caso, como nos posicionaríamos no tocante baseada em pseudocientíficos critérios, ou perfis inconsistentes
ao enfrentamento dos crimes de exploração sexual desse de natureza psicológica ou psiquiátrica, que buscam ver em todos
segmento, mais especificamente? Abolindo-se de imediato os criminosos sexuais contra crianças e adolescentes, por tudo,
e completamente a resposta penal aos agressores sexuais? “pedófilos”, de maneira generalizadora e alienadora, ignorando de
Eliminando-se as leis penais a respeito? Extinguindo-se essas má-fé ou por ignorância, o sentido mórbido-compulsivo e perverso
agencias judiciais? Óbvio que não! Seria uma insensatez, no dessa parafilia. Desse modo, submeter-se a ação criminalizadora
estágio atual da sociedade humana. Mas, necessitamos encontrar do Estado a normas processuais e a uma agência judicial
uma resposta alternativa e estratégica que dê novas respostas é melhor que deixá-la fora desse sistema, dessas normas, dessas
do Estado à exploração sexual de crianças e adolescentes, agências, isto é, entregue só às outras agências estatais, onde
modernizando-se o processo de responsabilização jurídica desse a violência seletiva seria maior e descontrolada. Isso porque
tipo de agressor sexual, de logo se a distinguindo, por exemplo, o poder seletivo do sistema penal elege alguns candidatos
do abuso sexual, que tem uma conotação mais individualista preferenciais à criminalização, mesmo no caso dos exploradores
que a exploração sexual. Preliminarmente, há que se partir dessa sexuais de crianças e adolescentes, e desencadeia o processo
desconstrução da resposta penal, como a única, a salvífica, de sua criminalização, submete-os a esse processo sob direção
a mais poderosa, a mais legítima. E assim, constaremos nesse e controle da agência judicial que pode autorizar o prosseguimento
desvelar imprescindível da deslegitimidade da resposta penal: da ação criminalização já desencadeada pelo sistema de segurança
todos os sistemas penais apresentam características estruturais pública e, por fim, a privação da liberdade de tal “selecionado” pelo
de seu exercício de poder, que desconstroem como ideológicos sistema penal. A seleção é feita em função da pessoa, o candidato
e falseantes o discurso jurídico-penal tradicional retributivista. é escolhido a partir de um estereótipo – pobres, negros, indígenas,
E por constituírem essas características marcas intrínsecas de sua jovens, desempregados, por exemplo. Por sua vez, fica difícil serem
essência, não podem elas ser eliminadas, sem a supressão dos “selecionados”, nesse processo de criminalização-penalização,
próprios sistemas penais. os integrantes da elite econômica, política, cultural de nossos
países: por exemplo, vice-governadores, prefeitos, parlamentares,
Essas não são características conjunturais e sim estruturais do juízes, empresários, sacerdotes, policiais.
exercício de poder de todos os sistemas penais:
A) A sua seletividade perversa e ideológica, E essa seletividade classista e racista tem raízes históricas,
B) A reprodução interna no próprio sistema penal repressor no Brasil, por exemplo. No período Colonial, no Brasil, no
da violência praticada pelo criminoso contra ele próprio, regime das Capitanias Hereditárias, o poder de condenar
C) A criação de novas e melhores condições para à morte pessoas despidas de qualidade superior, sem apelo, foi
a reincidência, conferido a Governadores e Ouvidores de diversas Capitanias,
D) A corrupção intrínseca e institucionalizada do próprio paulatinamente, com a criação de Juntas de Justiça. O objetivo
sistema penal-penitenciário e era acabar com a dita “impunidade” que, se dizia, grassava,
E) A destruição das relações comunitárias, por exemplo. à época. A Carta Régia que concedeu esta jurisdição às
autoridades da Capitania de Minas Gerais, em 1731, por exemplo,
A possibilidade desse tipo de resposta penal e de sistema penal justificou a medida pelos “muitos e continuados delitos que se
serem substituídos por um Direito Penal de Garantia, um Direito estão fazendo [...] por bastardos, carijós, mulatos e negros”
Penal Mínimo e uma Justiça com resultados restaurativos pode porque “não viam o exemplo de serem enforcados”. Outro traço
ser no momento uma estratégia, um caminho que leve a garantir revelador da impunidade decorre do tratamento diferenciado dos
uma mais eficiente e legítima resposta estatal ao fenômeno dos segmentos sociais, no Império do Brasil, o que seria percebido
delitos (no caso nosso aqui, dos crimes sexuais contra crianças por outro viajante, Johann Jakob von Tschudi, que, interessado
e adolescentes) – uma resposta estatal que neutralize (ou mascare no estado das Colônias Suíças, no Brasil, visitou o país na década

37
de 1860. Escreve ele: “(...) quantas vezes aconteceu no Brasil e organismos, como o Unicef, a OIT, a Unesco, a OMS.
que um homem rico e influente tivesse sentado no banco dos E, para tanto em nível global, regional e nacional, essa “ambiência
réus a fim de se justificar de seus crimes?” Os exemplos dessa sistêmica” tem ganhado reforço na explicitação de seu desenho,
seletividade igualmente estão manifestos, atualmente, quando se na potencialização de suas instâncias de poder e serviço,
analisa as consequências das diversas Comissões Parlamentares chegando a bons níveis de institucionalização. Por exemplo, mais
de Inquérito sobre Abuso e Exploração Sexual, realizadas, que um “sistema organizacional”, na verdade, o Sistema ONU de
no Brasil, por exemplo, pelo Congresso Nacional e pelas Promoção e Proteção de Direitos Humanos tem se conformado
Assembleias Legislativas dos Estados-Federados, ali se constata a esse modo de pensar e agir sistêmico, explicitando-se como
a tendência à impunidade dos poderosos quando apontados espaço público estratégico de articulação e de integração de
como agressores sexuais. variados instrumentos normativos e de outros tantos mecanismos
de exigibilidade de direitos humanos, de modo complementar,
Não são apenas meros problemas conjunturais, defeitos produzidos tanto para os povos em geral, como especificamente para
pela falta de um perfeito aparato legal e pela má funcionalidade o público infanto-adolescente (e para outros grupos vulnerabilizados).
do sistema penal, em países subdesenvolvidos como o nosso, O espaço emblemático na ONU onde essas ideias e práticas mais
a serem superados com o mero aperfeiçoamento das leis penais se sobrelevam tem sido o Comitê dos Direitos da Criança do Alto
e das agências judiciais e de segurança, num espírito puramente Comissariado para os Direitos Humanos, ao exercer seu papel
positivista legal e equipamentalista e patrimonialista no nível importante de controle internacional sobre as ações dos Estados-
administrativo-institucional. É uma questão estrutural, igualmente. Partes da CDC de promoção e proteção dos direitos fundamentais
Ao lado dessa impunidade conjuntural real também contra a qual da pessoa humana com menos de 18 anos – isto é, crianças
devemos lutar igualmente, há que se reconhecer também uma e adolescentes.
impunidade estrutural, que diz respeito ao que se chamou antes
de “deslegitimação do sistema penal” tradicional, meramente Nesse mesmo sentido antes exposto, por exemplo, caminha
retributivista. Além da criminalização-penalização do agressor o Brasil, com a construção e formulação do seu chamado “Sistema
sexual, importa que se aprofundem mais as possibilidades de Garantia dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes”
de responsabilização judicial de natureza civil, administrativa, e com a sua paulatina institucionalização, por força da Resolução
disciplinar, política desse explorador/cliente sexual, somada às nº 113/2006, editada pelo Conselho Nacional dos Direitos
possibilidades de responsabilização meta-judiciais e de restauração da Criança e do Adolescente - Conanda. Trata-se mais de ato
pela mediação e outras de atendimento público, por exemplo, no normativo regulador a partir de uma interpretação extensiva da
campo da saúde mental. E além do mais, igualmente, nesses legislação nacional vigente e de uma transposição dos modelos
casos de violência sexual, se deve assegurar um eficiente e eficaz internacional e regional (interamericano). Esse sistema holístico
monitoramento e avaliação (= controle), tanto das intervenções estratégico nasce muito mais diretamente do espírito da Convenção
judiciais (“acesso à justiça”), quanto desse atendimento direto do que propriamente da lei nacional que aprovou o Estatuto da
pelas políticas públicas, administrativamente, pelos órgãos de Criança e do Adolescente.
controle externo competentes.
Para tornar mais visível esse sistema estratégico de promoção
Sistema de garantia de direitos humanos de crianças e e proteção de direitos humanos de crianças e adolescentes no
adolescentes no Brasil e no Paraguai, exemplificativamente Brasil, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente
- Conanda, órgão público paritário entre governo e sociedade
Todos os nossos países necessitam institucionalizar uma maneira civil, em sua Resolução nº 113/2006 instituiu parâmetros para
sistêmico-holística que consiga fazer com que, tanto a promoção a institucionalização desse Sistema de Garantia de Direitos, onde
preliminar dos direitos sexuais de crianças e adolescentes, quanto ele é definido assim: “O Sistema de Garantia dos Direitos Humanos
a proteção desses direitos (via responsabilização), sejam encaradas da Criança e do Adolescente constitui-se na articulação e integração
de maneira multidisciplinar, multissetorial, multiprofissional das instâncias públicas governamentais e da sociedade civil, na
e multicultural. A multissetorialidade (ou intersetorialidade, quando aplicação de instrumentos normativos e no funcionamento dos
possível!) sozinha não consegue dar conta, sem preliminarmente mecanismos de promoção, defesa e controle para a efetivação
essa multidisciplinaridade no enfoque. O enfrentamento de dos direitos humanos da criança e do adolescente, nos níveis
questões como a da exploração sexual infanto-adolescente, pelos Federal, Estadual, Distrital e Municipal. Esse Sistema articular-
Sistemas de Políticas Públicas (educação, saúde, assistência se-á com todos os sistemas nacionais de operacionalização
social, cultura, segurança pública etc.) e pelo Sistema de Justiça de políticas públicas, especialmente nas áreas da saúde, educação,
(varas judiciais, promotorias de justiça, defensorias públicas assistência social, trabalho, segurança pública, planejamento,
e outras procuraturas sociais, equipes técnicas judiciais) há que ser orçamentária, relações exteriores e promoção da igualdade
posto amplamente numa “ambiência sistêmica”, isto é, no seio de e valorização da diversidade”.
uma concertação sistêmica pela promoção e proteção dos seus
Direitos Humanos. Ou pelo menos, minimamente, no ambiente de De maneira muito mais explícita, posteriormente, o Paraguai, em
um “sistema de garantia de direitos”, a ser institucionalizado em seu próprio “Código de la Niñez y La Adolescencia” (lei nº 1680/2001),
nossos países, como mais conveniente for. instituiu um “Sistema Nacional de Protección y Promoción Integral
de los Derechos de La Niñez y Adolescencia” (artigo 37), muito
Esse tem sido o esforço, nos tempos atuais, por exemplo, da próximo do modelo brasileiro, porém mais sistematizado no texto
Organização das Nações Unidas - ONU e de suas agências da própria lei nacional de adequação à Convenção sobre os Direitos

38
da Criança. E lá está no citado Código, a se reconhecer esse Sistema A) Redefinição dos atuais marcos normativos nacionais,
como “(...) competente para preparar y supervisar la ejecución em todo o mundo, para que sejam mais explicitamente
de la política nacional destinada a garantizar la plena vigência fundados nos paradigmas dos direitos humanos,
de los derechos del niño e del adolescente (...)”. E estabelece mais visando a revisão da estruturação das ações públicas de
o Código paraguaio que esse Sistema é integrado em especial proteção legal (defesa) dos direitos sexuais de crianças
por três instâncias mais protagônicas, em seu seio: a “Secretaria e adolescentes, de responsabilização socio-estatal e de
Nacional de la Niñez y la Adolescencia”, o “Consejo Nacional de responsabilização individual ampla do explorador sexual,
la Niñez y Adolescencia” (mais os “Consejos Departamentales sem prejuízo da sua estrita criminalização-penalização;
y Municipales”) e as “Consejerias Muncipales por los Derechos Del B) Aprofundamento, em consequência, da adequação
Niño, Niña y Adolescente” - Codeni. De se destacar no modelo normativa penal aos instrumentos normativos
paraguaio, como grande avanço, a previsão legal da presença, internacionais, sem ressalvas que desvirtuem o espírito
compondo esses conselhos, de “organizaciones de niños” dos dessa normativa, ampliando sempre e sempre a
Departamentos e dos Municípios. ratificação de novos instrumentos de direito internacional
que tenham essa base jus-humanitária;
Diante destas constatações, principalmente no campo da C) Aprofundamento da redefinição e explicitação do lugar
sexualidade infanto-adolescente, falar-se hoje em direitos humanos social da criança e adolescente na sociedade, com
de criança e adolescentes tem um sentido mais profundo do que provisões que garantam sua participação de maneira
se imagina, pois ao se acentuar a vinculação desse segmento ativa e impactante nas decisões políticas, com o devido
da população aos instrumentos normativos e aos mecanismos, respeito a sua opinião e consideração dessa opinião,
internacionais e nacionais, de promoção e proteção de direitos em conta o seu grau de maturidade, considerando-
humanos. Significa afastar-se a tentação de desvincular se desse modo mais seu direito a uma sexualidade
o movimento de luta pela emancipação de crianças e adolescentes, saudável sem invasões indevidas, com respeito mais
de relação ao movimento maior pela emancipação dos cidadãos, à diversidade sexual;
especialmente dos “dominados e subalternizados”: empobrecidos, D) Fortalecimento dos níveis de coordenação e controle
mulheres, negros, sem-terra, sem-teto, homossexuais, transexuais, dos sistemas de promoção e proteção (garantia) de
índios, deficientes, soropositivos, prostituídos, marginalizados, direitos humanos infanto-adolescentes (SGD), autônoma
delinquentes etc. Quando se fala em direitos humanos geracionais e conjuminadamente, sem concorrências, suprindo
(crianças, adolescentes, jovens e idosos) se quer acentuar lacunas institucionais e programáticas;
a substantividade dessa condição, isto é, acentuar a essencialidade E) Reconhecimento e construção de uma maior diversidade
humana de crianças e adolescentes, ancorada nos princípios da dos meios procedimentais de defesa de direitos de crianças
dignidade, da liberdade e do direito. E se quer – além do mais – e adolescentes em situação de violência sexual, como
que, à essa luta pelo respeito a sua essencialidade humana, se alie a busca de resultados restaurativos e outras formas mais
também a luta pelo reconhecimento, respeito e potencialização amigáveis de atuação jurídico-judicial e extra-judiciais.
da sua identidade geracional. Desse modo, importante torna-se
colocar as situações de vulnerabilidade, de risco, de exclusão, E, por fim, no trato específico da questão da responsabilização,
de marginalização, de conflito com as normas, como meras no tocante à garantia dos direitos sexuais infanto-adolescentes
adjetivações circunstanciais, conjunturais e não essenciais. e à criminalização dos agressores sexuais individualmente,
Mesmo reconhecendo que “crianças, vivendo sob condições importante que se leve em conta as seguintes considerações:
excepcionalmente difíceis” necessitam de “consideração especial” A) Em primeiro lugar, a expressão tão usada de
(CDC – Preâmbulo), a essencialidade delas como pessoas “responsabilização de abusadores e exploradores
humanas vem em primeiro lugar, com o reconhecimento da sexuais”, no sentido restrito de sua criminalização-
“dignidade inerente e dos direitos iguais de todos os membros penalização, deve merecer uma revisitação do seu
da família humana” (CDC – in ibidem). “Todos os membros da conceito e da sua aplicação, para se colocar a expressão
família humana”, sem excluir, portanto, crianças e adolescentes “responsabilização”, ampla e primeiramente no seu
dessa essencialidade. Esse lócus dos direitos humanos traz uma sentido próprio, no campo do Direito Internacional dos
resignificação da criança e do adolescente como ser-autônomo, Direitos Humanos: ou seja, o Estado igualmente precisa
em processo de emancipação e de potencialização do seu ser responsabilizado (“accountability/responsibility”),
desenvolvimento, como co-sujeitos no processo de proteção tanto pela promoção dos direitos sexuais de crianças
integral a suas necessidades, a seus interesses e a seus desejos, e adolescentes através de políticas públicas intersetoriais
vistos como direitos seus exigíveis e como responsabilidade do realmente efetivas, quanto pela proteção legal desses
Estado e da sociedade. direitos, através do sancionamento (amplo!), dos
abusadores e exploradores sexuais.
Indicações B) O Estado é chamado a dar uma resposta, (“answerability”)
à qual está obrigado e pela qual é responsável, diante
Para se enfrentar a questão da impunidade estrutural da ordem interna e mundial, diante das situações
e conjuntural nos processos de responsabilização derivada dos de explorações sexuais. E se obriga mais a cobrar,
agressores sexuais de crianças e adolescentes, especialmente de derivadamente, respostas dos agressores sexuais
criminalização-penalização, aqui são apresentadas as seguintes e a responsabilizá-los, por sua vez. O Estado precisa ser
indicações, firmadas no pensamento da Anced e da ABMP: chamado a se responsabilizar pela garantia dos direitos

39
sexuais de crianças e adolescentes e a combater todas
as formas de violações desses direitos. É chamado
a reconhecer suas obrigações e ele se expõe e se arrisca
a sofrer sancionamentos morais, econômicos, políticos
- desde o mero “envergonhamento público” diante da
comunidade internacional (e comunidade nacional, por
que não!?), com a leitura dos relatórios, onde sejam
apontados por algumas formas de violações de direitos
sexuais ou diretamente ou de acumpliciamento com
outras formas sem suas providências devidas. Até outras
sanções, restrições, embargos, mais gravosos.
C) A partir dessa sua originária e preliminar responsabilização,
o Estado criminaliza-penaliza esses agressores sexuais,
como uma das formas derivadas de responsabilização
jurídica possível dos referidos agressores sexuais, através
de suas agências judiciais e policiais. Contudo, há que
se reconhecer que essa criminalização-penalização do
agressor sexual (explorador/cliente) não é a única resposta
do Estado ao “ato injusto” desse agressor sexual. E talvez
nem sempre a mais efetiva, eficaz e eficiente, diante da
cada vez mais desmascarada “deslegitimação do direito
penal”, por sua manifesta seletividade classista, racista,
machista etc. E por sua baixa efetividade, de relação
à prevenção e repressão ao crime, as estatísticas
mostram o baixo poder intimidatório da sanção penal,
no mundo moderno.

Há que se ousar, inovar, aprofundar, criar nova ordem mundial.


E, como diz o nosso cantor Caetano Veloso, é preciso reconhecer:
“Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem,
apenas sei de diversas harmonias bonitas, possíveis – sem juízo
final”. E por isso eu digo, com ele, com todos vocês, construindo
essas novas harmonias possíveis: “....alguma coisa está fora da
ordem, fora da ordem mundial...”.

*WANDERLINO NOGUEIRA NETO


Procurador de Justiça (aposentado) do Ministério Público da Bahia e membro da Anced
- Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente
– DNI - Defensa de los Niños Internacional / Seção Brasil - Grupo Temático de
Monitoramento da Convenção sobre os Direitos da Criança.

40
18 ANOS DO ECA; 19 ANOS DA CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DA CRIANÇA;
20 ANOS DA CONSTITUIÇÃO; 20 ANOS DO CEDECA-DOM LUCIANO MENDES;
60 ANOS DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS E 120 ANOS DA
ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA.

LIGIA COSTA LEITE*

Apesar do Brasil ser signatário da Carta das Nações Unidas de 1945 estudioso das culturas e das raças, rejeitava totalmente a chamada
e da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, 2008 “inferioridade dos negros e sua incapacidade para civilização”,
foi um ano para se entristecer, já que completamos importantes pensamento comum na época. Para ele a chamada “mentalidade
marcos como a maioridade legal do ECA e da Convenção sobre primitiva” que, segundo as teorias evolucionistas, estaria articulada
os Direitos da Criança, 20 anos da Constituição Democrática do com os cultos fetichistas e superstição existentes no sincretismo
Brasil e da criação do importante Centro de Defesa dos Direitos da religioso do Brasil, registrava-se nas “classes pobres” de qualquer
Crianças e dos Adolescentes - CEDECA-Dom Luciano Mendes, sociedade. Para o autor, os conceitos de primitivo e arcaico seriam
sem ver resultados globais de inclusão de toda a população “puramente psicológicos”, sem relação com a inferioridade racial
brasileira em um projeto de nação e de futuro. (Abreu, in Leite et al, 2008).

Os direitos humanos no Brasil têm sempre vindo a reboque de A proposta para a Higiene Mental para as escolas, conduzida por
pressões internacionais, como foi o caso da abolição. Fomos Ramos, era estudar os fatores socioculturais que condicionavam
o último país do mundo a libertar os escravos, no século XIX, e os o comportamentos dessas crianças. Entre as influências mais amplas
herdeiros de escravos e negros, 120 anos depois, ainda são vistos do meio social, listava os problemas psicológicos que precisavam
como perigosos e com tendência à criminalidade. A Lei Áurea, ser investigados: “os círculos da família”, os hábitos familiares,
em 1888, foi uma lei seca, com apenas dois artigos: os passeios e a vida matrimonial, os moldes emocionais,
sentimentais e as atitudes em relação
Art. 1°: É declarada extinta desde a data desta à criança, todos eles responsáveis
lei a escravidão no Brasil. “Enfim, em 1988 a nova Constituição pelos seus desajustes psicossociais.
brasileira incorpora, no artigo 227, os
Art. 2°: Revogam-se as disposições em direitos constitucionais das crianças e Os adultos, em sua perspectiva, modelavam
contrário. adolescentes brasileiros, colocando-os a personalidade e o caráter das crianças,
como alvo de prioridade nacional. Com
base neste artigo foi elaborado o Estatuto pequenos seres que não eram compreendidos
Manda, portanto, a todas as autoridades, da Criança e do Adolescente, que nasce (Abreu, op.cit.: 135).
com 30 anos de atraso, já que o golpe de
a quem o conhecimento e execução da referida 1964 interrompeu o processo de resgate
Lei pertencer, que a cumpram, e façam cumprir da dívida socioeducacional iniciado com Trinta anos se passaram para que houvesse
a LDB em 1961 e com 50 anos de atraso
e guardar tão inteiramente como nela se contém. nova investida governamental a favor das
das convenções internacionais das quais
o Brasil é signatário.” crianças e adolescentes. No ano de 1961
Mas outras providências não foram tomadas, começam a se configurar os direitos sociais
como aconteceu nos Estados Unidos, que definiu, após a abolição, dos “menores” como dever do Estado, seguindo as obrigações
que cada família ganharia um lote de terra para construir sua casa expressas nas convenções internacionais, de 1945 e 48. Isto
e plantar, e obrigava os estados a oportunizar escola elementar ocorre quando a primeira Lei Nacional de Diretrizes e Bases da
para todas as crianças. No Brasil, os ex-escravos ficaram sem Educação – lei que ficou 13 anos sendo discutida no Congresso
opções e ofertas sociais e educacionais. Nacional – é sancionada pelo governo do Presidente João
Goulart. Esta lei definia a obrigatoriedade do poder público em
A República, proclamada um ano e meio depois, alardeou que iria oferecer escola elementar gratuita e laica para as crianças entre
instituir uma nova ordem social, baseada em princípios de cidadania 7 e 14 anos, em todo território nacional, explicitando o propósito
e da igualdade de todos os brasileiros, tirando o Brasil do atraso de democratização do ensino básico e elementar. O processo da
da Monarquia. Muitos discursos foram feitos, muitas propostas educação passaria a se basear nos princípios de justiça, dando
apresentadas, mas nenhum deles efetivou direitos sociais para a todas as crianças e adolescentes brasileiros, independente
todos, sem distinção étnica ou religiosa (Leite, 2005). de classe social e etnia cultural, o acesso ao mundo letrado,
dentro dos princípios da igualdade de direitos. Até essa data havia
É bem verdade que houve algumas iniciativas de integração, poucas escolas públicas para educar toda a população brasileira,
esparsas, nesses mais de 100 anos. Uma delas foi com Arthur e os mestiços, negros e demais descentes da miscigenação
Ramos, um etnopsiquiatra (denominação inexistente na época), brasileira tinham raras opções para estudo, especialmente o ensino
que criou no Instituto de Pesquisas Educacionais da Cidade profissionalizante que formaria trabalhadores para o capitalismo
do Rio de Janeiro (então Distrito Federal), uma seção de que se vislumbrava a partir do governo JK.
Ortofrenia e Higiene Mental na escola primária, onde analisava
os comportamentos dos alunos de escolas públicas na década As palavras do defensor da LDB, então deputado Anísio Teixeira,
de 1930 e afirmava que essas “crianças problemas” eram fruto o qual lutava pela lei desde a década de 1930, descrevem
da própria “civilização e sociedade” brasileiras. Este psiquiatra, o sentimento de justiça social do momento:

41
Não se pode dizer que a LDB, ora aprovada pelo Congresso, Mito este desmentido em 1930 por Arthur Ramos, mas ainda existente
seja uma lei à altura das circunstâncias em que se acha o país no Brasil de 2008.
em sua evolução para constituir-se grande nação moderna
que todos esperamos. Se isto não é, não deixa, por outro Dentre os pressupostos do período militar estava a ideologia
lado, de ser um retrato das perplexidades e contradições de que “o trabalho cura” e a meta de salvação nacional deveria
em que nos lança esse próprio desenvolvimento do Brasil. ser instituída. Assim, outra Lei de Diretrizes e Bases para Educação
Afinal, é na escola que se trava a última batalha contra foi sancionada em 1971, abolindo quase todos direitos obtidos
as resistências de um país à mudança. (Teixeira, 1962). e a liberdade de ensino existente pela Lei de 1961. Essa nova
lei cria uma educação continuada com o ensino profissionalizante
Infelizmente, esses novos tempos são interrompidos em 1964, no segundo grau e um suplemento – vale dizer de segunda
apenas três anos depois, com as diretrizes da Lei de Segurança categoria – para os mais pobres, defasados em série/idade, que foi
Nacional, quando os direitos de cidadania são abolidos para quase o ensino supletivo e o Mobral. Alegavam na exposição de motivos
todos os brasileiros. Para os chamados “menores”, o marco dessa que esses últimos teriam a duração de uma década, pois seria
época é a Funabem, fundada em 1965 para substituir o antigo como uma ponte entre o passado e o futuro industrial do país.
Serviço de Assistência ao Menor (SAM). Apesar de um nome A meta era em dez anos alfabetizar e recuperar os estudos
politicamente correto – Fundação Nacional de Bem-Estar do Menor dos brasileiros. Mas, também, podemos dizer que esse
–, que anunciava intenções de proporcionar uma política de bem- discurso tinha o intuito de abafar as críticas internacionais sobre
estar aos filhos da pobreza, a Funabem não mudou as técnicas o enorme analfabetismo existente no período, que beirava a 60%
utilizadas nos internatos anteriores e os olhos da repressão se da população.
voltaram para abafar vozes diferentes e tirar de cena todos os que
ameaçassem o regime então implantado. Isto porque uma escola A política social dos militares para os filhos da pobreza era racista
pública, gratuita e laica poderia promover uma educação crítica e excludente. Começava pelo internamento em instituições
e, na interação com o professor, construir a escolaridade singular fechadas mantidas pela Funabem e Febem’s, onde recebiam uma
para cada aluno, articulando sua cultura com a cultura letrada. educação para subserviência, sem possibilidades de crescimento
Tudo isso seria um risco ao regime que se implantava. profissional, sobrevivência e mesmo prazer (Leite, 1998). Não
havia a intenção de incluí-los na industrialização crescente, até
Ao contrário do caminho que o Brasil vinha trilhando antes de 1964, porque a escolaridade não atendia aos requisitos desta demanda.
o retrocesso social foi enorme, o que fica claro pela base doutrinária Esse pensamento retrógrado, arraigado no imaginário social,
da política para os “menores” surgida em pós-64 e intensificada permaneceu – até hoje permanece – em alguns dos que se julgavam
na década de 1970. Esta, por determinações impostas, tratou de luminares do direito do menor e que encontraram campo fértil para
classificar jovens em razão de sua suposta ou possível “situação influir nas diretrizes dessas instituições, a partir de 1964.
irregular”, o que significou subjugá-los a um juiz que aplicaria, de
acordo com seu juízo, medidas preventivas e terapêuticas. Essas Outra forma de resolver o problema da existência de crianças
medidas nada mais eram recolhimento e confinamento deles pobres e sem oportunidades, fim da década de 1960, foi a ideia
em instituições fechadas, sem prazo e condições definidas para de “evitar” o seu nascimento e futuros problemas sociais,
o suposto tratamento, que os colocasse em “situação regular” ainda dentro do pensamento da eugenia, que vive adormecido
para o modelo de país previsto. Todo processo de julgamento e desmemoriado no inconsciente nacional. Falava-se em
era feito sem que o menor pobre tivesse direito de defesa, planejamento familiar, mas o implantado foi um grande programa
o que não acontecia para os jovens das outras classes sociais. de controle da natalidade, com laqueamento de trompas de milhares
Entendiam as autoridades que uma política correcional, repressiva de mulheres – jovens muitas delas – com equipes interdisciplinares
e, simultaneamente, assistencialista dentro de internatos, de saúde, vindas especialmente dos Estados Unidos. Como
poderia dar conta de sanear a doença social da pobreza não lembrar no navio Hope que aporta no nordeste em 1968,
e do abandono social. área de grande efervescência social e de tradição de militância
popular desde as ligas camponesas lideradas por Francisco Julião
A base legal para isto foi a lei nº 4513/64, que veio a ser o fundamento ou da educação popular de Paulo Freire e Moacir de Goes,
do Código de Menores, lei nº 6.697, de 1979, introduzindo então cassados e exilados. Controlar a natalidade de pobres era
a prisão cautelar – inexistente no Código Penal Brasileiro, mas que controlar o país.
podia ser utilizada sem dó e piedade para os menores de idade
que estivessem nas ruas ou fossem denunciados, mesmo sem Uma terceira, por assim dizer, política social mais significativa
provas, por qualquer “cidadão de direito” (art. 94). Os internatos, para aqueles já nascidos e chegados à adolescência foi a do
na prática, se restringiram à função de aprisionar os jovens, não extermínio. Aqueles considerados excedentes das políticas, e que
importando o método ali desenvolvido. ameaçavam o mundo da ordem, estavam destinados a enfrentarem
por si as milícias paralelas que promoviam o extermínio puro
Toda essa política social implantada a partir de 1964, intensificada e simples deles. Isso porque os formuladores das políticas sociais,
em 1968, culminando com o Código de Menores, baseava-se no impotentes por não saber como conter jovens rebeldes e arredios
velho mito do Brasil grande e generoso, onde “em se plantando aos recolhimentos que eram feitos nas ruas, fecham os olhos para
tudo dá”, mito este que entrou no imaginário social e justificava esta prática. Como não lembrar do Mão Branca que assustava
a pobreza pelas características individuais do povo brasileiro, entre todos os jovens no Rio de Janeiro.
elas, a “indolência”, que gera a “incapacidade” de o povo “civilizar-se”. Enfim, em 1988 a nova Constituição brasileira incorpora, no artigo

42
227, os direitos constitucionais das crianças e adolescentes O atendimento às crianças e adolescentes, na área de saúde
brasileiros, colocando-os como alvo de prioridade nacional. mental, não vem apresentando sintonia ou respeito às normas
Com base neste artigo foi elaborado o Estatuto da Criança legais e o legislador brasileiro não tem observado os novos
e do Adolescente, que nasce com 30 anos de atraso, já que parâmetros sobre direitos humanos, em especial o respeito
o golpe de 1964 interrompeu o processo de resgate da dívida à preservação do superior interesse da criança e do
socioeducacional iniciado com a LDB em 1961 e com 50 anos adolescente, e não oferecido soluções consentâneas com
de atraso das convenções internacionais das quais o Brasil a singularidade das pessoas que se acham em fase de
é signatário. desenvolvimento e representam camada social altamente
vulnerável diante das desventuras sociais e políticas de nosso
Todos sabemos que as leis servem para balizar a conduta dos país, razão pela qual devemos acolher iniciativas que façam
cidadãos de um país, dar oportunidades iguais a todos, mas, valer a doutrina da proteção integral a elas. (in Leite et al: 30)
no caso do Brasil, quanto mais democráticas e menos elitistas
forem essas leis, menos serão cumpridas ou, quando o são, Fica evidente que as instituições destinadas a esconder os
acabam escapando em aspectos fundamentais. Sabemos menores, as escolas que nem conseguiram alfabetizá-los e todas
também que não se faz política sem vontade e dinheiro, no entanto as demais propostas que não conseguiram reprimir a juventude,
os recursos que eram aplicados nas antigas Funabem e LBA nem adestrá-la para servir passivamente a ordem vigente,
não foram alocados para promover as medidas sócio-educativas fracassaram. Da mesma forma, fracassou a intenção de eliminar
determinadas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. da memória brasileira a existência desse grupo social, pois ele
permanece presente em seus herdeiros, filhos e netos. E para
É importante frisar que em vários artigos do ECA, a criança definir memória coletiva uso o verbete Memória, da Enciclopédia
e o adolescente são definidos em sua condição peculiar de seres Einaudi, escrito pelo historiador francês Jacques Le Goff (1984):
em desenvolvimento não apenas no aspecto físico, mas sobretudo
no psíquico, e por isto têm de ser foco de proteção, pois estão A memória coletiva foi posta em jogo de forma importante
expostos às influências do mundo em que vivem, tanto na ordem na luta das forças sociais pelo poder. Tornar-se senhores
social, econômica, como familiar e comunitária. da memória e do esquecimento é uma das grandes
preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que
O professor Antônio Carlos Gomes da Costa apresenta um dominaram e dominam as sociedades. Os esquecimentos
comentário ao artigo 6º do Estatuto, com importante esclarecimento e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos
para aqueles que possam ter dúvidas quando ao espírito legal na de manipulação da memória coletiva. (p.13)
definição do desenvolvimento infanto-juvenil:
Portanto, resgatar a história que gerou a pesada carga de violência
A afirmação da criança e do adolescente como pessoas social, que atinge a todos sem exceção, pobres e ricos, velhos e
em condição peculiar de desenvolvimento não pode ser jovens nos dias de hoje, é procurar mudar esta realidade, é superar
definida apenas a partir de que a criança não sabe, não tem o silêncio de políticas sociais, que tentaram abafar a existência
condições e não é capaz. Cada fase do desenvolvimento de uma juventude sem direitos, a qual acabou se impondo pela
deve ser reconhecida como revestida de singularidade simples presença nas ruas, nos crimes que pratica, nas reações
e de completude relativa, ou seja, a criança e o adolescente agressivas que têm diante da violência silenciosa que os atinge,
são seres inacabados, a caminho de uma plenitude mais que a todos nós.
a ser consumada na idade adulta, enquanto portadora de
responsabilidades pessoais, civis e produtivas plenas. Cada Os 18 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente têm que
etapa é, à sua maneira, um período de plenitude que deve festejados com seu cumprimento em todos os seus aspectos, sem
ser compreendida e acatada pelo mundo adulto, ou seja, pela exceção, entendendo que as grandes controvérsias em relação a
família, pela sociedade e pelo Estado (Cury, 2005: 39). esta lei giram em torno da possibilidade do Brasil vir a ser uma
democracia em sua plenitude. A tentativa de manipular a memória
Desenvolvimento sadio implica em qualidade de vida, dignidade da coletiva, felizmente, não atingiu a todos e não há como negar que
pessoa humana, em direitos preservados e exercidos pelo Estado o Brasil precisa pagar esta histórica dívida social.
e demais segmentos da sociedade. No entanto, nem todos os
homens públicos e legisladores se preocupam com esses direitos Referências:
individuais da criança e do adolescente e eventualmente acabam
“esquecendo” de incluí-los em outras leis, portarias e normas de - Abreu Martha. “Velhos conceitos e novos debates: ‘crianças
assistência. Este é o caso da lei nº 10.216/2001, conhecida como negras’ e ‘crianças problemas’ no pensamento de Nina Rodrigues
da reforma da atenção psiquiátrica, que “esqueceu” de legislar e Artur Ramos”. In Leite, L.C.; Leite, M.E.D.; Botelho, A.P. (org.)
sobre a criança e o adolescente. Este aspecto acabou sendo Juventude, desafiliação e violência. Rio de Janeiro: Contra Capa
relegado às portarias posteriores que contemplam apenas aqueles Livraria, 2008.
com transtornos mentais graves ou incapacitantes, omitindo as - Cury, M., Amaral e Silva, A.F., Mendez, E.G. (coordenadores).
especificidades dos demais jovens que vivem riscos psicossociais Estatuto da Criança e do Adolescente – Comentários jurídicos
e precisam de suporte à sua saúde mental. e sociais. SP: Malheiros Ed. 2005, 8.ª edição.
- Le Goff, Jacques. “Memória”. in Enciclopédia Einaudi. vol 1,
Como afirma Moraes e Mecler (2008): Memória e História. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda,

43
1984. p. 13.
- Leite, Ligia Costa. A razão dos invencíveis – Meninos de rua
e o rompimento da ordem. Rio de Janeiro: Editora UFRJ-IPUB‚
1998.
- ________. Meninos de Rua: a infância excluída do Brasil. São
Paulo: Editora Saraiva/Atual, 2005. 4a. revista e ampliada.
- Leite, L.C.; Leite, M.E.D.; Botelho, A.P. (org.)Juventude,
desafiliação e violência. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria,
2008.
- Moraes, Talvane M. de; Mecler, Kátia. “O estatuto da criança e
do adolescente e a lei da reforma da atenção psiquiátrica: um
ensaio comparativo” In Leite, L.C.; Leite, M.E.D.; Botelho, A.P.
(org.)Juventude, desafiliação e violência. Rio de Janeiro: Contra
Capa Livraria, 2008.
- Teixeira, Anísio. Comentário à Lei das diretrizes e Bases
aprovada em 1961. Diário de Pernambuco, 13-04-1962

*LIGIA COSTA LEITE


Professora do Instituto de Psiquiatria da UFRJ.

44
OS 120 ANOS DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO.
GILDA ALVES BATISTA*

Em 2008, o Brasil comemorou os 120 anos da Abolição da e, como consequência, o extermínio de milhões de judeus
Escravidão. Não há como deixar de refletir sobre o sentido na segunda guerra mundial. Aí, o conceito ‘raça’ fortemente
deste fato sem analisar dois conceitos importantes, que marcam estabeleceu-se a uma conotação biológica (MAGGIE, 2001).
a história dos afrobrasileiros.
No entanto, podemos verificar que na sociedade brasileira
O primeiro conceito é o de raça. Este conceito é relativamente o conceito ganha uma nova conotação, sofre uma re-significação,
recente, a primeira classificação dos homens em raças foi publicada e é empregado como forma de distinção social. Guimarães (2005),
em “Nouvelle division de la terre par les différents espèces ou races em suas considerações a respeito do tema, assinala que:
qui l’habitent” (“Nova divisão da terra pelas diferentes espécies ou
raças que a habitam”), de François Bernier, de 1684, que utiliza “As hierarquias sociais podem ser justificadas
o termo para classificar a diversidade humana em grupos fisicamente e racionalizadas, por conseguinte, de diferentes modos,
diferentes. Séculos depois ressurge na Europa quando, em 1859, fazendo, todas, apelo à ordem natural. (...) presumida,
Charles Darwin publica o livro “A Origem das Espécies”. A partir portanto, pode ter uma justificativa teológica (origem divina);
de estudos realizados em plantas e animais, Darwin desenvolveu científica (endodeterminada); ou cultural (necessidade
a teoria da seleção natural, segundo a qual na natureza sobrevivem histórica – como no caso de evolucionismos que justificam
e dominam as espécies fortes. Nesse sentido existiriam, portanto, a subordinação de uma sociedade humana por outra). Em
espécies fortes e fracas. todos os casos, quando essa ordem natural
delimita as distâncias sociais, assiste-se
Autores como Joseph-Auguste de Gobineau, “As diferenças de tipo físico a sistemas de hierarquizações rígidos e
Richard Wagner e Houston Stewart Chamberlain passaram então a ser utilizadas inescapáveis.” (GUIMARÃES, 2005, p. 30)
utilizam a teoria de Charles Darwin para explicar a para classificar os seres
sociedade humana (VERARDO, 2006). Concluem humanos. Assim basicamente O mesmo autor avalia que “a definição de
que alguns grupos humanos são fortes e outros nasceu a fórmula do racismo, racismo que me parece correta terá, portanto,
fracos. Os fortes herdariam certos aspectos ou seja: humanos de pele escura de ser derivada de uma doutrina racialista, isto
que os tornavam superiores e os autorizavam seriam de raça inferior; é, de uma teoria das ‘raças’”. (GUIMARÃES,
a comandar e explorar os outros. Os fracos teriam e os humanos de pela clara, 2005, P. 32). Dando continuidade à reflexão,
características que os deixavam “naturalmente” de raça superior.” o autor comenta ainda que:
inferiores e, portanto, “predestinados” a serem
comandados. “Sem dúvida, pode-se usar o termo ‘racismo’ como
metáfora para designar qualquer tipo de essencialismo ou
As diferenças de tipo físico passaram então a ser utilizadas naturalização que resultem em práticas de discriminação
para classificar os seres humanos. Assim basicamente nasceu social. Tal uso é, contudo, frouxo quando a idéia de ‘raça’
a fórmula do racismo, ou seja: humanos de pele escura seriam de encontra-se empiricamente ausente e apenas empresta um
raça inferior; e os humanos de pela clara, de raça superior. sentido figurativo ao discurso discriminatório. Penso que
seria mais correto designar tais práticas discriminatórias
Com base nessas ideias, em 1908 Francisco Dalton, funda, em por termos específicos como ‘etnicismo’, etc. A referência à
Londres, a Sociedade de Educação Eugênica, com o propósito de raça, porque se encontra subsumida em outras diferenças,
defender a manutenção da pureza das raças, a chamada eugenia. funciona apenas como imagem de diferença irredutível.”
Para ele, era necessário que a raça branca se mantivesse pura, (GUIMARÃES, 2005, p. 34)
evitando a mistura das raças.
Segundo Guimarães (2005), “se não for a raça”, a que atribuir as
No Brasil, em 1929, é realizado no Rio de Janeiro o 1º Congresso discriminações que somente se tornaram inteligíveis pela ideia de
Brasileiro de Eugenia. A proposta veio propagar a corrente “raça”? (p. 25)
eugênica a partir dos modelos americano e inglês atribuindo-se Outro autor que tem produzido reflexões sobre o tema, D’Adesky
ao saneamento, à higiene e ao ensino as melhores opções para (2001) chama atenção para o fato de que:
superação das mazelas vividas pela sociedade brasileira.
“A existência da noção de raça biológica e a evidência da
Esses pensamentos foram disseminados mundialmente e tiveram raça simbólica, ou seja, da raça socialmente percebida
muitos seguidores, dentre os quais destacamos Adolf Hitler, que, e interpretada. Quaisquer que sejam as variações de
em 1934, publicou “Minha Luta”, formulado de ideias racistas sentido do termo ‘raça’, a desconstrução científica da raça

45
biológica não fez desaparecerem as percepções comuns nos cursos secundários, resultado da nova política educacional;
fundadas na aparência física, e em primeiro lugar na cor multiplicação das coleções de livros de debate sobre problemas
da pele. Culturalmente codificadas essas percepções brasileiros, principalmente as Coleções Brasiliana, Coleção Azul
conduzem o homem comum a classificar os indivíduos e Documentos Brasileiros e o surgimento de jovens escritores
que encontra segundo suas características visíveis e não nos compêndios de sociologia. Suas ideias sobre uma ligação
de acordo com o conhecimento genético. Esse hiato indissociável entre raça e cultura vieram a se explicitar no “mito
entre raça biológica e a caracterização social fundada na da democracia racial”. Talvez, para melhor compreender suas
aparência física constitui um problema e um desafio para teses de formação da sociedade brasileira, seja importante ver
o anti-racismo”. (D’ADESKY, 2001, p. 01). o contexto da época, o momento em que ocorria a transição entre
o modelo de análise baseado em pontos de vista sobre o social,
De fato, com base nesta perspectiva da existência da raça, para a análise sistemática da sociedade.
mesmo que o termo não seja pronunciado, as distinções entre
os vários tipos de racismo só poderão ser estabelecidas a partir O Mito da Democracia Racial
de uma análise histórica para se verificar como os outros termos
específicos tornaram-se metáforas para serem designados por Outro conceito fundamental diz respeito à democracia racial. Esta
“raça” e vice-versa. expressão tem sua formulação também a partir da obra “Casa-
Grande & Senzala”. O autor assinala que o tipo de relação entre
Após a segunda guerra mundial, alguns teóricos passaram senhor (Casa-Grande) e o escravo (Senzala) teria favorecido uma
a denominar “raça” tendo o fenótipo como algo que ganha democracia, já que os filhos da relação entre senhor e escrava
importância social por intermédio de crenças, valores e atitudes. tornavam-se herdeiros de parte do patrimônio destes senhores,
Desse modo, onde não havia a presença de marcas fenotípicas, recebendo, desta forma, um reconhecimento social inacessível
a denominação passava a ser etnia. à população negra que se encontrava na condição de escravizada.

Este termo é utilizado para descrever um determinado grupo de As críticas à ideia de democracia racial, no entanto, mostram que
um dado contexto social e que conserva certa solidariedade, a mistura de raças serviu para esconder a profunda injustiça social
experiências compartilhadas e por terem origem e interesses aos negros, mulatos e indígenas. Ao situar no plano biológico uma
comuns. O grupo étnico é, portanto, um fenômeno cultural de questão profundamente social, econômica e política, deixou-se de
onde se originam percepções e experiências de vida. lado a problemática básica – a falta de igualdade. A sociedade não
se reconhece como reprodutora do sistema de hierarquização,
Entretanto, no nosso ponto de vista, o aspecto central que que, neste caso, é pensada como sendo uma herança histórica
constituiria o pano de fundo desses estudos seria responder da colonização portuguesa.
a velha questão: existe discriminação racial no Brasil?
Refletindo sobre a formulação do que veio a ser denominado mito
Para tanto, faz-se necessário pensar sobre a identidade da nação da democracia racial, Hasenbalg (1979) afirma que,
brasileira, raça, cor etc. Gilberto Freyre, um dos nossos mais
importantes intelectuais, deteve-se também sobre estas mesmas “Os princípios mais importantes da ideologia da democracia
questões. Nascido em Pernambuco em 1900, complementou racial são a ausência de preconceito e discriminação
seus estudos nos Estados Unidos da América, inicialmente racial no Brasil e, consequentemente, a existência de
na Universidade Baylor, no Texas (em 1919), ocasião em que oportunidades econômicas e sociais iguais para brancos
realizou viagens até o extremo sul deste país, ficando horrorizado e negros. De fato, mais do que uma simples questão
com a violência e brutalidade da segregação. Influenciado de crença, esses princípios assumiram o caráter de
por esta experiência seguiu para Nova Iorque, onde estudou mandamentos...” (HASENBALG, 1979, p.242)
Ciências Sociais na Universidade de Columbia (em 1921). Neste
momento, os debates acerca das formações nacionais eram Florestan Fernandes (1978), autor de muitos estudos, analisando
acionados pelos resultados sociais e políticos consequentes as relações raciais na sociedade brasileira, aborda o tema
da primeira guerra mundial. da democracia racial e revela os sentidos subjacentes a esta
formulação:
Freyre buscou desenvolver a afirmação de que, no Brasil, essa
situação de segregação e violência não existia. Do encontro com “O mito em questão teve alguma utilidade prática, mesmo
a hostilidade americana construiu uma visão do passado brasileiro no momento em que emergia historicamente. Ao que
e, nesta perspectiva, do presente e do futuro, lançou o conceito parece, tal utilidade evidencia-se em três planos distintos.
do Brasil como uma nação cordial à diversidade racial, fornecendo Primeiro, generalizou um estado de espírito farisaico, que
uma alternativa para o mundo (Casa-Grande & Senzala, 1933). permitia atribuir à incapacidade ou à irresponsabilidade
do ‘negro’ os dramas humanos da ‘população de cor’
Para avaliar o papel que este autor desempenhou, foi nesta da cidade, com o que eles atestavam como índices
década (30) que se iniciou o processo de institucionalização insofismáveis de desigualdade econômica, social e política
da sociologia no Brasil, destacando-se a criação dos cursos na ordenação das relações raciais. Segundo, isentou
universitários de ciências sociais na Escola de Sociologia e Política o ‘branco’ de qualquer obrigação, responsabilidade
da Universidade de São Paulo; a criação da cadeira de sociologia ou solidariedades morais, de alcance social e de natureza

46
coletiva, perante os efeitos sociopáticos da espoliação branco, e da democracia racial como fruto de um
abolicionista e da deterioração progressiva da situação ethos cordial, não necessariamente miscigenado.”
sócio-econômica do negro e do mulato. Terceiro, (GUIMARÃES, 2005 p. 87)
revitalizou a técnica de focalizar e avaliar as relações
entre “negros” e “brancos” através de exterioridades Paixão (2006) em sua abordagem sobre raça e desenvolvimento
ou aparências dos ajustamentos raciais, forjando uma social considera que,
consciência falsa da realidade racial brasileira. (...)
Em consequência, ela também concorreu para difundir “Classificar a democracia racial como mito implica
e generalizar a consciência falsa da realidade racial, dizer que a visão ideológica de uma escravidão benigna
suscitando todo um elenco de convicções etnocêntricas; e de uma sociedade harmoniosa do ponto de vista
1º) a ideia de que o ‘negro’ não tem problemas no do contato inter-racial não corresponde à realidade
Brasil; 2º) a ideia de que, pela própria índole do Povo dos fatos sociais e históricos. Ou seja, no passado,
brasileiro, não existem distinções raciais entre nós; 3º) ao contrário de um modelo de escravidão suave,
a ideia de que as oportunidades de acumulação de teríamos tido um sistema escravista extremamente
riqueza, de prestígio social e de poder foram indistinta perverso, violento e rude sobre os escravizados.
e igualmente acessíveis a todos, durante a expansão A miscigenação, tão produzida mediante o gozo
urbana e industrial da cidade de São Paulo; 4º) a ideia não confraternizante dos senhores brancos sobre
de que o ‘preto está satisfeito’ com sua condição social mulheres indígenas e negras indefesas, dificilmente
e estilo de vida em São Paulo; 5º) a ideia de que logrando sair do terreno estritamente físico no sentido
não existe, nunca existiu, nem existirá outro problema da conformação de relações efetivamente estáveis.
de justiça social com referência ao ‘negro’...” No presente, a imagem idílica de um paraíso racial
(FERNANDES, 1978, p. 256) se contradizia com uma sociedade na qual aos negros
e negras não havia espaço nos postos de trabalho
Florestan Fernandes entendia que o racismo, no Brasil, estava maiôs bem remunerados e prestigiados, aos níveis
associado ao desequilíbrio das estruturas sociais. Avaliava que de escolaridade mais avançados (pelo contrário, na
o preconceito racial existia no país porque, no período escravista, maioria das vezes, nem sequer o ensino elementar
a estrutura social estava organizada em castas e, após o fim da era garantido para esse contingente) e aos demais
escravização, a estrutura se reorganiza em classes sociais, não mecanismos de mobilidade social ascendente, como
assegurando aos negros livres uma verdadeira integração na o acesso ao crédito produtivo, à terra e à proteção
sociedade brasileira. legal contra ações abusivas perpetrados pelos órgãos
de segurança pública. Em suma, no interior de uma
Analisando os estudos de Florestan Fernandes e trazendo luz sociedade na qual os padrões de hierarquização
à discussão sobre o tema em questão, Guimarães (2005) raciais permaneciam razoavelmente rígidos, a
conclui que, pacificação de nosso quadro de relacionamentos
étnicos e raciais era garantida (...) pelo fato dos
“No caso particular de Florestan Fernandes, além disso, negros saberem de antemão qual era o seu lugar”
a democracia racial brasileira jamais seria decorrência de (PAXÃO, 2006, p.48)
um ethos, seja de uma realidade empírica de miscigenação
ou de ausência de regras de pertença grupal. Ao contrário, Apesar dos esforços do Movimento Negro em denunciar que
para ele, a democracia racial seria o resultado da ordem o “mito da democracia racial” esconde de fato uma negação de
social competitiva e do modo racional-burocrático que existe uma dimensão especificamente racial na desigualdade
de dominação, próprios do capitalismo burguês que social brasileira, esta ideologia continua viva e não perdeu seu
prescindia de formas de discriminação ou coerção poder de sedução na sociedade brasileira. Quais seriam as causas
extramercantis ou econômicas. Tratava-se, portanto, de que manteria ainda vivo este “mito”? D’Adesky (2001) enumera
uma propriedade do sistema social mais que atributo de três razões. A primeira reside no fato de que a...
indivíduo ou grupos. Era mais um Ideal, uma meta, que
uma realidade.” (p.84) “’Democracia racial’ coloca em primeiro plano um
ideal futuro de igualdade para todos e, ao mesmo
Para Guimarães (2005), a postura de Florestan Fernandes foi tempo, tem o poder de ocultar a realidade presente
partilhada também por outros intelectuais, tais como Costa Pinto de desigualdades raciais colocando em evidência a
e Guerreiro Ramos, assim como pelo Movimento Negro. Destaca, mestiçagem real da população. Ele remete, assim,
à ideia do claro-escuro ou da ambiguidade racial,
“...a postura agressiva de anti-racialismo e de afirmação termo frequentemente utilizado nos últimos anos
de um Brasil mestiço, por parte de Gilberto Freyre, José para justificar a dificuldade de saber quem é negro
Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e outros no Brasil, no quadro da seleção de candidatos aos
escritores, encontravam alguma simpatia por parte do exames vestibulares das universidades que adotaram
movimento negro quando, e apenas quando, tal visão o sistema de cotas.” (D’ADESKY,2001, p. 5)
de Brasil colidia com aquela, nutrida por escritores
e intelectuais de São Paulo, do Brasil como um país A segunda razão, conforme o autor,

47
- FRY, P. O que a Cinderela Negra tem a dizer sobre a política
“Trata-se, de um lado, da dificuldade de falar abertamente racial brasileira. Revista USP, n. 28, p. 122-135, 1995.
das desigualdades raciais no Brasil e, ao mesmo tempo, - FRY, Peter & MAGGIE, Ivone. Cotas Raciais: construindo um
da extrema dificuldade do movimento negro ter acesso país dividido? Revista Econômica, volume 6, nº 1, pág, 153-161,
a mídia. Sem o qual a sua luta ou defesa de suas ideias Rio de Janeiro, 2004.
se vêem limitadas do ponto de vista do grande público. - GOMES, Joaquim B. Barbosa. Instrumentos e métodos de
(...) falar de racismo no Brasil era tabu (...) alguns mitigação da desigualdade em direito constitucional e internacional.
acreditavam mesmo que o racismo e a discriminação Rio de janeiro, 2000. Disponível em www.mre.gov.br.
racial não ocorriam no Brasil e que insistir nesses temas - GONÇALVES, LUIZ Alberto Oliveira e SILVA, Petronilha B.
representava uma importação de um problema particular Gonçalves. O Jogo das Diferenças: o multiculturalismo e seus
dos Estados Unidos”. (p. 05) contextos. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.
- GUIMARÃES, Antonio Sérgio A. O acesso de negros à
A terceira e última razão estaria no... universidades públicas. In: Educação e ações afirmativas: entre a
injustiça simbólica e a injustiça econômica. Gonçalves, Petronilha
“(...) fato de que a ideologia da democracia racial continua Beatriz e Silvério, Valter Roberto (organizadores), Brasília, Distrito
a ter não apenas seus adeptos, mas também defensores Federal, 2003.
entre os intelectuais e acadêmicos brasileiros. Esses - _______________ Racismo e anti-racismo no Brasil, 2ª ed. FUSP-
últimos são denominados de ‘neofreyreanos’, em Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo. Editora 34-
referência à atualização que promovem do pensamento São Paulo, 2005.
de Gilberto Freyre e à vontade de preservar a expressão - HANCHARD, Michel. “Americanos Brasileiros e a Cor da Espécie
democracia racial neste início de século XXI.” (p. 6) Humana: uma resposta a Peter Fry. Dossiê Magia, Revista USP,
São Paulo: 1996”.
Entretanto, seria necessário considerar que existem outras - HASENBALG, Carlos A. e Silva, Nelson do Valle. Relações
posições com relação a esta temática. Autores como Fry e Maggie Raciais no Brasil Contemporâneo.Rio de Janeiro: Rio Fundo Ed.,
(2002) e Souza (2002) consideram que o “mito da democracia IUPEREJ, 1992.
racial” pode representar um valor, um elemento da identidade - ________________ Discriminação e desigualdades raciais no
nacional brasileira e uma meta a ser alcançada. Brasil. Rio de Janeiro. Edições Graal, 1979.
- HENRIQUES, Ricardo. Desigualdade Racial no Brasil: evolução
No entanto, acreditamos que o “mito da democracia racial” das condições de vida na década de 90. Texto para discussão
ajudou a forjar a ideia de que as relações raciais no Brasil se dão Nº 807/2001. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão
de formas mais harmoniosas, se compararmos a de outros países, – IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.
encobrindo uma verdade fundamental: a de que foram negadas - ____________Raça e Gênero no sistema de ensino: os limites das
à população negra direitos e oportunidades iguais (HASENBALG, políticas universalistas na educação. Brasília:UNESCO,2002.
1979) (HENRIQUES, 2001). Desse modo, consideramos - LOBATO, Fátima. Os Estudos sobre Relações Raciais na UERJ,
que devemos continuar lutando para que os direitos que Onde e Quem realiza? Revista ADVIR, Universidade do Estado
foram conquistados se ampliem, e possamos efetivamente ter do Rio de Janeiro, nº 19, Rio de Janeiro, 2005.
o que comemorar. - ________________Políticas de promoção da igualdade racial no
Brasil: um balanço do período de 2001-2004. Artigo elaborado
Referência bibliográfica para o I Workshop da Rede de Estudos de Ação Afirmativa. Rio
de Janeiro-2005.
- D’ADESKY, Jacques. Pluralismo étnico e multiculturalismo: - MAIO. M.C. UNESCO and the study of race relations in Brazil:
racismo e anti-racismos no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2001. national or regional issue? L American Reserarch Review, 36 (2),
- BORGES, Edson, D’ADESKY, Jacques, MEDEIROS, Carlos p. 118-136,2001.
Alberto. Racismo, preconceito e intolerância. São Paulo: Atual, - ________________ Políticas de Cotas raciais, os “olhos da
2002. sociedade” e os usos da antropologia: o caso do vestibular da
- BOURDIEU,Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro Difel, Universidade de Brasília (UnB). Horizontes Antropológicos, vol.
Coleção Memória e Sociedade, 1989. 11 nº 23, Porto Alegre,2005.
- BRASIL. Ministério da Justiça. Programa Nacional de Direitos - ________________ O Projeto UNESCO e a Agenda das Ciências
Humanos. Brasília, 1996. Sociais no Brasil dos anos 40 e 50. Revista Brasileira de Ciências
- ________________Presidência da República. Projeto Alvorada. Sociais, Vol. 14, nº 41, 1999.
Brasília, 2000, p. 23. - PAIXÃO, Marcelo. Manifesto anti-racista: idéias em prol de uma
- CASHIMORE, Ellis: et. Alli. Dicionário das relações étnicas e utopia chamada Brasil. Rio de Janeiro: DP& A,LPP/UERJ,2006.
raciais. São Paulo: Summus, 2000. Tradução De Dinah Kleve. - RAWLS. J. Uma Teoria da Justiça. 2ª edição. São Paulo, Editora
- CHIAVENATO, Julio José. O Negro no Brasil: da Senzala à Martins Fontes, 2002.
Guerra do Paraguais. São Paulo: Brasiliense, 1980, 4ª ed. - REZENDE, Claudia Barcellos e MAGGIE, Yvonne. Raça como
- FERNANDES, Florestan. A integração do Negro na Sociedade retórica: a construção da diferença. In: Rezende, Claudia Barcellos
de Classes Volume I - 3ª ed. São Paulo: Ed. Ática, 1978. Alves, e Maggie, Yvonne (Orgs). Raça como retórica: a construção da
José Augusto Lindgren Alves. São Paulo. Coleção Estudos diferença. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2001.
Dirigidos por J. Guinsburg. Ed. Perspectiva S.s, 2005. - SILVA, Luiz Fernando Martins da. Estudo sócio-jurídico

48
relativo à implementação de políticas de ação afirmativa e
seus mecanismos para negros no Brasil. Aspectos legislativo,
doutrinário, jurisprudencial e comparado. Brasília: MEC-SEPPIR,
2004.
- SCHARCZ, Lilia Moritz e Queiroz, Renato da Silva (orgs) Raça
e Diversidade. Editora Universidade de São Paulo, Estação
Ciência:Edusp, São Paulo, 1996.
- SILVA, Nelson do Valle e Hasenbalg, Carlos A. Relações Raciais
no Brasil contemporâneo - Rio de Janeiro: Rio Fundo Editora:
IUPERJ (Instituto Universitário de pesquisas do Rio de janeiro),
1992.
- TELLES, Edward. Início no Brasil e Fim nos Estados Unidos?
Revista Estudos Feministas Rio de Janeiro. Nº 01 de 1996- Pág
194 – 2001.
- VERARDO, Maria Thereza. Raízes da Exclusão: Uma análise
histórica dos princípios eugenistas presentes no sistema
educacional. Momento do Professor: Revista de Educação
Continuada, São Paulo, ano 3, n. 1, p. 49-62, 2006.

*GILDA ALVES BATISTA


Pedagoga e Mestre em Educação pela PUC-Rio, Professora Substituta da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro - Faculdade de Educação da Baixada Fluminense.

49
DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO
E NUTRIÇÃO SUSTENTÁVEL.
LEONARDO FELIPE DE OLIVEIRA RIBAS*

A fome de milhares de seres humanos não é uma responsabilidade Trata-se de uma opção política prioritária nas ações da sociedade
de Deus, mas um problema ético e um insulto à dignidade que perpasse todas as esferas de ação do poder público para
humana. Uma questão de matriz econômica e de solução política. garantir a todas as pessoas acesso e gozo dos frutos da terra
Uma questão que não afeta somente a cidadania das pessoas, e do trabalho humano.
mas a soberania das Nações. A fome é, em suma, uma questão
de Estado. A partir de nossos municípios ou, melhor ainda, de nossa
própria rua, com a participação ativa das populações excluídas,
O Brasil pode e deve vencer a fome e a exclusão social. Fome mediante ações concertadas entre sociedade civil, empresariado
e miséria não rimam com democracia. A partilha do alimento e organismos governamentais, encontraremos soluções que
é uma profissão de fé na igualdade de natureza e de direitos. atendam às exigências da realidade e à cidadania de nosso
A fome de uma criança ou a exclusão de qualquer pessoa é uma povo. Não nos faltam recursos técnicos e financeiros, humano ou
negação da nossa própria dignidade como ser humano. Nenhuma materiais. Precisamos de mecanismos que garantam o controle da
criança nasce para morrer criança. cidadania sobre o Estado, os serviços públicos e o mercado. Sem
parcerias com o governo e sem recursos públicos, a sociedade
Não podemos ficar sentados e esperar que o futuro traga a solução. não consegue realizar o que é fundamental para sua vida. Por
Cada ser humano é chamado à vida em um tempo concreto. outro lado, sem a participação do povo, os governos dificilmente
Enquanto caminhamos e respiramos na face atendem às necessidades e aos direitos
da Terra, necessitamos de meios adequados da cidadania e escapam da prisão da
para crescer e atingir a maturidade e assim “A solução para o problema da fome burocracia ou dos laços da corrupção.
poder participar da história de nossa própria e da exclusão social passa por uma
nova ordem social, econômica e
comunidade. Por esta razão, qualquer meta Comer é direito humano básico que jamais
política que tenha como objetivo
presente ou futura, por mais importante que pode sofrer qualquer restrição. A criança
estratégico atingir o desenvolvimento
o seja, deve ser confrontada com os sofrimentos humano sustentável. Em verdade, e o idoso não produzem, mas têm direito
das crianças, dos jovens, das mulheres uma nova civilização deve surgir de assentar-se à mesa da fraternidade e
e homens que experimentam frustração e as comprometida com a promoção da participar do banquete da vida. Todos temos
consequências da fome e da marginalização. vida com dignidade e esperança direito à nutrição e, consequentemente,
para toda a família humana.” ao alimento adequado às necessidades
Nenhum argumento pode justificar a negação pessoais e culturais. O direito ao alimento
da liberdade humana, da paz e da felicidade às pessoas que estão não se reduz, pois, a uma ração que garanta subsistência.
vivendo hoje! Elas não podem ser objeto do sarcasmo da promessa Ninguém se desenvolve sem o pão de cada dia, sem um ninho e a
de que seus filhos terão dias melhores. A solução para o problema companhia de gente amiga e acolhedora em volta de uma mesa.
da fome e da exclusão social passa por uma nova ordem social,
econômica e política que tenha como objetivo estratégico atingir O Direito Humano à Alimentação e Nutrição Sustentável:
o desenvolvimento humano sustentável. Em verdade, uma nova um desafio
civilização deve surgir comprometida com a promoção da vida
com dignidade e esperança para toda a família humana. O ano de 2008 foi muito simbólico em nosso país no que tange
a promoção do direito humano à alimentação. Celebramos o
O direito humano à alimentação e nutrição sustentável é a base dos centenário do nascimento de Josué de Castro: médico, geógrafo,
direitos humanos e da cidadania, fortalece a participação social na deputado, embaixador do Brasil junto a Organização das Nações
gestão da Res. Pública, a viabilização econômica dos assentos Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO/ONU). Foi ele quem
da reforma agrária e da agricultura familiar, a melhoria quantitativa denunciou que a fome não se justifica por fatores ligados à natureza
e qualitativa do abastecimento alimentar local, o acesso a uma ou à vontade de Deus. A fome é uma mazela humana cujas causas
alimentação adequada através de justa distribuição e geração são associadas à injustiça social. Josué foi o primeiro a fazer um
de trabalho e renda, a redução da desnutrição e da mortalidade mapa da fome. Em seu livro Geopolítica da Fome (1946), denuncia
materna e infantil e, afinal, a promoção de práticas alimentares que precisaríamos ter bases sólidas para a reversão do quadro da
e hábitos de vida saudáveis. fome no país caso quiséssemos declarar que somos efetivamente
um país livre e justo.
Como eixo do desenvolvimento humano sustentável, a Política de
Segurança Alimentar e Nutricional não atinge seus objetivos como Passados cerca de sessenta anos, assistimos nos últimos meses
sendo mais um programa ou Secretaria de Assistência Social. o debate acerca de uma crise estrutural na organização dos

50
Estados e do sistema econômico em cujo centro se encontra e culturais;
o principal determinante do direito elementar à vida, que é o acesso 2) Incorporação do enfoque de gênero, raça e etnia na concepção
aos alimentos. O avanço desta crise, suas causas, impactos do direito à alimentação, e criar políticas específicas para a
e possíveis respostas tem sido alvo de debates, inclusive, entre tutela de grupos socialmente vulneráveis;
os Chefes de Estado hodiernamente. 3) Otimização da justiciabilidade e a acionabilidade do direito à
alimentação e dos demais direitos econômicos, sociais e
Um dado grave e pouco destacado é o despreparo político- culturais;
institucional da grande maioria dos países para enfrentar a presente 4) Incorporação da pauta social de direitos humanos na agenda
crise. Devemos assistir à reconstrução de um padrão de regulação das instituições financeiras internacionais, das organizações
nacional no campo alimentar entre os países com capacidade regionais econômicas e do setor privado;
para tanto. Embora pouco provável, seria importante se esta 5) Fortalecimento da responsabilidade do Estado na implementação
conjuntura estimulasse a revisão do tipo de multilateralismo e de do direito à alimentação e dos direitos econômicos, sociais
regulação comercial patrocinados pela Organização Mundial do e culturais e do direito à inclusão social, bem como no
Comércio (OMC) entre outros atores econômicos supranacionais. reconhecimento da pobreza como violação de direitos
Requerem-se formas de cooperação e apoio técnico aos países humanos;
mais fragilizados para além da doação de víveres. 6) Fortalecimento do Estado de Direito e a construção da paz nas
esferas global, regional e local, mediante uma cultura de direitos
A crise do sistema agroalimentar está inserida no contexto da humanos.
busca pelo crescimento econômico, tendo como um dos possíveis
fundamentos a política de agroenergia. Os países desenvolvidos, O atual governo federal investe na política agro-energética
especialmente, vêm buscando alternativas energéticas renováveis, pautada no paradigma do crescimento econômico como possível
de menor custo e maior diversidade de matérias-primas, de modo saída para o processo de consolidação política da soberania
a diminuir a sua dependência em relação ao petróleo, bem como a do Estado brasileiro no cenário global. O governo acredita que
implementar medidas ambientais. As fontes de energia oriundas de com o crescimento econômico foi superado o problema da fome
biomassa ganham crescente importância no cenário internacional. (insegurança alimentar) e, com isso, deixa de investir na política de
Diante deste cenário, vem aumentando significativamente segurança alimentar e nutricional sustentável como instrumento
a demanda por agrocombustíveis no mundo. de consolidação da soberania do Estado e, por conseguinte,
dos seus cidadãos. A questão que nos persegue é: há como
As redes solidárias ligadas ao movimento de agro-ecologia têm promover a soberania cidadã negando o seu acesso à alimentação
denunciado que este investimento no modelo que privilegia e nutrição?
financeiramente o agronegócio voltado para a política energética
e para o mercado de commodities pode comprometer o modelo Nossa preocupação como militantes pelo direito à alimentação
que alimenta o abastecimento e se orienta pelos princípios de é colaborar com os atores sociais na consolidação de uma
sustentabilidade. política, com base na promoção dos direitos humanos, que tenha
como paradigma o desenvolvimento sustentável. Neste sentido,
Neste contexto parece-nos que o emponderamento de atores cremos que devemos nos apropriar dos possíveis instrumentos
populares e sociais, através do resgate da cultura de promoção normativo-jurídicos, políticas públicas e medidas judiciais já
e defesa dos direitos humanos, é algo fundamental e estratégico. existentes. O objetivo é trazer os direitos e garantias consagrados
Enquanto reivindicação moral, os direitos humanos nascem e normatizados para o plano da eficácia e da realização prática,
quando podem e devem nascer. Os direitos humanos não são tentando fazer com que as aspirações emanadas nas declarações,
um dado, mas um constructo, uma intervenção humana, em tratados, convenções e leis sejam gozadas pelas pessoas que
constante processo de construção e reconstrução. Como os sofrem violações desses direitos. Com isto, poderemos colaborar
direitos humanos são fruto de um contexto histórico, parece-nos para que os atores sociais possam fazer com que os direitos
residir exatamente aqui o nosso desafio: como implementar individuais e políticos, que sejam agraciados por esse processo
a justiciabilidade e a exigibilidade dos direitos humanos, de constitucionalização, passem de aspirações e orientações
especialmente do Direito Humano à Alimentação, em uma a serem seguidas segundo a conveniência dos governantes, para
conjuntura onde o mesmo encontra-se ameaçado pelo paradigma o plano de direito exigível. Saindo, portanto, do plano moral para
do crescimento econômico em que aquele direito (vinculado o plano da justiciabilidade e exigibilidade.
ao paradigma do desenvolvimento sustentável) é colocado
em segundo plano nas políticas públicas? O reconhecimento dos direitos econômicos, sociais e culturais,
como direitos fundamentais, só veio no século XX, ainda que sob
Entendemos que esta pergunta pode ser respondida mediante a forte resistência dos denominados juristas liberais. Segundo
o enfrentamento dos presentes desafios, a serem abordados, os mesmos, pela própria característica dos direitos econômicos,
na implementação do direito à alimentação na ordem sociais e culturais, seria impossível uma proteção jurisdicional para
contemporânea: esses direitos. A separação dos direitos humanos em primeira
1) Consolidação e fortalecimento do processo de afirmação da e segunda gerações, levando em conta o seu desenvolvimento
visão integral e indivisível dos direitos humanos, mediante e afirmação, tem levado à cristalização do pensamento liberal
a conjugação do direito à alimentação com os demais de que os direitos individuais, também chamados de direitos
direitos civis e políticos com os direitos econômicos, sociais civis e políticos, estão devidamente resguardados por

51
instrumentos de exigibilidade e justiciabilidade, em detrimento exatamente o contexto da repressão dos direitos. Somente
da segunda categoria. Não se pode admitir um tratamento três anos após a promulgação da nossa Carta Magna é que
quase hierárquico entre os direitos humanos, apesar de o Brasil reconhece estes direitos. São os direitos ligados ao
os mesmos serem estudados e dispostos diversas vezes de princípio da igualdade, emanado na Revolução Francesa.
forma separada.1 Os primeiros são os civis e políticos, emanados do princípio
da liberdade.
A exigibilidade do direito à alimentação não pode ser visibilizada
e aplicada apenas através dos diferentes instrumentos jurídico- Outro marco jurídico internacional no campo da promoção do
normativos existentes no mundo e no país. Não é somente através direito à alimentação são as diretrizes voluntárias da FAO. Esta
destes que se alcança o escopo da efetividade dos direitos humanos. é uma Declaração da Cúpula Mundial da Alimentação que, em
Os instrumentos jurídico-normativos precisam ser utilizados como Roma, no ano de 2002, estabeleceu metas e compromissos dos
uma forma de obrigação para a atuação concreta do Poder Público. governos para a superação da fome e da miséria no mundo. Caso
Pressão no sentido de fazer com que o Estado defina políticas apreciemos com atenção, veremos que os objetivos do milênio
públicas em direção ao cumprimento das obrigações assumidas estão associados à superação das causas e consequências da
quando da adoção de um tratado internacional ou da elaboração fome no mundo.
de leis, principalmente as de cunho social.
A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988
Os direitos estabelecidos devem obrigar o Estado a garantir trouxe um contributo para os direitos humanos quando consagrou
as condições materiais para a obtenção da cidadania e da no art. 5º, §3º, através da Emenda Constitucional nº 45/2004,
dignidade da pessoa humana, mormente, o mínimo existencial. que, “in verbis”: os tratados e convenções internacionais sobre
Quando se fala em direito, não se restringe à possibilidade direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do
de acesso ao judiciário para propor ações judiciais. O controle Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos
do cidadão rumo à exigibilidade e concretização dos direitos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às
humanos vai além disso. Outros mecanismos existem e devem ser emendas constitucionais. Vale recordar que o Brasil é signatário
aperfeiçoados para se atingir tal objetivo, entre eles estão aqueles de de três diplomas internacionais na esfera dos direitos humanos
participação direta ou indireta dos cidadãos, tais como: a iniciativa que prelecionam o direito humano de se alimentar. Neste
popular, o orçamento participativo, o referendo e, principalmente, sentido, adquire o direito à alimentação o status de um
os conselhos de direitos e de políticas públicas. direito constitucional. Vale lembrar que, não obstante não
aparecer textualmente como direito fundamental do art. 5º
Como se nota, existem sistemas e instrumentos de naturezas da Carta Magna, ele lá está garantido pelo §3º do artigo. O
diversas para promoção e garantia dos direitos humanos. rol de direitos previsto no caput deste artigo é exemplificativo
Fundamental é a apropriação desses mecanismos, para que as e não taxativo.
pessoas possam se valer dos direitos listados em tantos tratados
e leis, e perceber que as normas internacionais e nacionais não Um grande avanço no que tange à consolidação de um sistema
representam apenas retórica e engodo. Este é o grande desafio jurídico para a promoção do direito à alimentação no Brasil foi
de toda Lei. Conseguir tirar as intenções e princípios do papel a promulgação da Lei 11.346, de 15 de setembro de 2006. O
e fazer com que eles sejam uma realidade no dia-a-dia daqueles referido diploma legal cria o sistema de segurança alimentar e
que têm sede de direitos e de dignidade humana. nutricional e consagra o instituto do direito humano à alimentação
adequada. Assim está disposto no art. 2º da referida Lei:
Os diplomas legais
A alimentação adequada é direito fundamental do ser
O primeiro grande marco jurídico para os direitos humanos no pós- humano, inerente à dignidade da pessoa humana e
guerra foi a consolidação da Declaração Universal dos Direitos indispensável à realização dos direitos consagrados na
Humanos (1948). Consoante a dicção do artigo 25, preleciona Constituição Federal, devendo o poder público adotar as
a Declaração: que toda pessoa tem direito a um nível de vida políticas e ações que se façam necessárias para promover e
adequado que lhe assegure, assim como à sua família, saúde garantir a segurança alimentar e nutricional da população.
e bem-estar, inclusive alimentação (...). A Declaração preocupa-se
com a tutela do bem jurídico maior que é a vida, mas salienta que Faz-se mister salientar que a Lei deve ser sempre a expressão
o acesso à alimentação é condição fundamental para que aquela de um clamor de um povo que, na busca pela sua soberania,
seja vivida de forma adequada. estabelece princípios e diretrizes para que a sua cidadania seja
efetivada. Neste sentido, longo é também o caminho para fazer
Na mesma esteira, a Carta das Nações Unidas, em seu artigo com que estes direitos sejam implementados pelo Estado, com
55, declara que todos os governos signatários adotariam a participação das famílias, dos governos e da sociedade como
as medidas necessárias para a realização dos propósitos um todo. Este processo se dá através também das garantias
consignados naquele instrumento. Um outro marco é o Pacto de uma ampla participação no planejamento, organização,
Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, controle e monitoramento das políticas públicas que materializam
de 1966. Somente vinte e cinco anos depois, em 1991, é que os direitos.
o Brasil tornou-se signatário deste tratado internacional.
Temos que recordar que na década de sessenta vivíamos

1 Cf. PIOVESAN, Flavia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. Rio de Janeiro: Saraiva, 9ª edição, 2008.

52
Conclusão

Desde os primórdios a humanidade vê no pão o arquétipo da vida.


O alimento é sacramento de um processo cósmico de renovação
e perpetuação da vida. Não é a toa que os alimentos são
o fundamento sacramental da presença do divino nas mais variadas
tradições religiosas. Na visão do profeta Isaías, chegará o dia em
que já não haverá ali criancinhas que vivam apenas alguns dias,
nem velho que não complete a sua idade; com efeito, o menino
morrerá com cem anos (Is. 65,20). Salienta também o profeta que
brilha a luz aquele que parte e reparte o seu pão.

O sentido último da existência da sociedade é a construção do


processo de integração e simbiose entre todos os seres. Nosso
desejo como cidadão e operador do Direito é que a sociedade
possa garantir este direito humano primeiro e básico que é a
alimentação. Mais ainda que o alimento, alimentar-se é sentar-se
junto à mesa em condições de igualdade e celebrar juntos nossa
natureza comum de sermos um-com-o-outro (κοινονια) e um-para-
o-outro (διακονια).

* LEONARDO FELIPE DE OLIVEIRA RIBAS


Bacharel em Filosofia e em Teologia, advogado militante na área de direitos humanos, Mestre e Professor
de Teologia Sistemático-Pastoral e Consultor Técnico do Instituto Harpia Harpyia, agência de promoção
e defesa do direito humano à alimentação.

53
A DEMOCRACIA NO ORÇAMENTO PÚBLICO.
THIAGO MARQUES*

“A democracia social exige a participação do cidadão nas decisões do emendas parlamentares ao orçamento dentre outros, permite que
governo nos seus três estágios – municipal, estadual e federal. Esta
o cidadão participe ativamente nas decisões políticas e interaja
participação vai além do voto, dever e direito básico do eleitor, e abrange
com o poder executivo e legislativo.
não só a fiscalização dos atos dos eleitos mas também a discussão
da política administrativa adotada pelos que eventualmente encontram-se
no poder. Orçamento público não deve ser tratado como um “bicho de sete
cabeças” ou como uma peça de ficção. Por ser um instrumento
O importante, o indispensável é lembrar que todo o poder emana do povo
chave na administração pública, ocorre que muitos governantes
e em seu nome será exercido. Quando um governo age em áreas cruciais,
dificultam seu entendimento.
como a das privatizações de empresas estatais, vendendo patrimônio do
povo, sem consulta prévia aos verdadeiros donos, está traindo a confiança
do eleitorado, incluindo aí as forças da oposição. O orçamento evoluiu ao longo da história para um conceito de
Orçamento-Programa, segundo o qual esse instrumento não
Também na elaboração dos orçamentos públicos – e em especial os
é apenas um mero documento de previsão da arrecadação
municipais – o eleitorado deve ter voz ativa, discutindo, analisando e
fiscalizando a sua execução. Sem essa ativa participação, a democracia
e autorização do gasto, mas um documento legal que contém
passa a ser um mero jogo eleitoral, onde disputas paroquiais influem programas e ações vinculados a um processo de planejamento
negativamente nos verdadeiros interesses da coletividade. público, com objetivos e metas. Dessa forma, a participação
cidadã no acompanhamento orçamentário se torna cada vez
Um orçamento participativo é um orçamento
mais fundamental.
democrático. Sem a participação do povo,
do contribuinte, do eleitor, o dinheiro público
será aplicado segundo critérios que nem “Pode-se considerar que o Breve histórico do orçamento público
sempre representam as melhores soluções orçamento pessoal, familiar ou nas constituições
para os problemas da comunidade. Participar de empresas não se diferencia
é tão importante quanto votar. E é com
muito daquele utilizado na esfera O marco do orçamento público se dá na
a participação ativa que se constrói a verdadeira
pública. O cerne é o mesmo, Inglaterra em 1217 pelo Rei João Sem
democracia social.”
buscar um planejamento que Terra, com a famosa Magna Carta. Nela,
Barbosa Lima Sobrinho1
satisfaça nossas necessidades o principal aspecto orçamentário
“Só a participação cidadã é capaz de mudar o país!” (prioridades) de acordo com é identificado com a instituição dos tributos.
Betinho nossas disponibilidades.” Outra função importante estabelecida foi
a avaliação e o acompanhamento dos
A democracia no orçamento público gastos públicos antes arbitrados pelo Rei – essa função permanece
como missão principal dos parlamentos.
Completados 20 anos da atual Constituição, o debate acerca
da democracia ganha força na sociedade civil. Cresce cada vez O orçamento inglês delineou a natureza técnica e jurídica desse
mais a discussão sobre formas de participação ativa cidadã no instrumento, e difundiu a instituição orçamentária para outros
processo governamental. Sob essa ótica o entendimento do países, como na França após a revolução de 1789. Em todo
orçamento público é primordial. o decorrer do século XIX, o orçamento público foi sendo
aperfeiçoado e valorizado como instrumento básico da política
Não há dúvida de que as políticas públicas estão no orçamento. econômica e financeira do estado.
Qualquer dispêndio público feito tanto pelo poder legislativo,
judiciário e executivo (principalmente), deve ser antecipado neste A multiplicidade orçamentária nos aspectos político, jurídico,
instrumento. Deve-se frisar que o orçamento não é dinheiro e sim contábil, econômico, financeiro e administrativo, impõe
autorização de gastos e estimativa de receitas, ou seja, expressão a importância desse instrumento.
monetária de um planejamento.
A partir da década de 1930, com a doutrina Keynesiana,
Pode-se considerar que o orçamento pessoal, familiar ou de o orçamento público passou a ser sistematicamente utilizado como
empresas não se diferencia muito daquele utilizado na esfera pública. instrumento da política fiscal do governo (Jesse, 1971). Visava
O cerne é o mesmo, buscar um planejamento que satisfaça nossas estabilização ou a ampliação dos níveis da atividade econômica.
necessidades (prioridades) de acordo com nossas disponibilidades.
No Brasil, as primeiras Constituições Federais de 1824 e 1891 não
A publicização para o acompanhamento de como estão sendo trataram diretamente da questão orçamentária, deixando para as
utilizados os recursos públicos, seja para saúde, educação, obras, leis ordinárias – ditadas pela autoridade – o encargo de regular
1 Prefácio à cartilha “De Olho no Orçamento”. Fórum Popular do Orçamento 2° ed. Rio de Janeiro, 2002.

54
o assunto. A evolução e o desenvolvimento da técnica orçamentária Poder Executivo ao Legislativo até o dia 15 de abril
são recentes, a partir de 1936. de cada ano (8 meses e meio antes do encerramento
da sessão legislativa). De acordo com a Constituição
Em 1936, importantes inovações foram introduzidas na proposta Federal, a LDO estabelece as metas e prioridades para
orçamentária que propôs modificações na técnica orçamentária e o exercício financeiro subsequente, orienta a elaboração
sugeriu a criação de um órgão especializado, incumbido de tratar do Orçamento (Lei Orçamentária Anual), dispõe sobre
os problemas orçamentários do governo federal e subordinado ao alterações na legislação tributária e estabelece a política
Ministério da Fazenda. As inovações foram: de aplicação das agências financeiras de fomento; e
- Aumento de fidelidade em termos numéricos do programa iii) a Lei Orçamentária Anual (LOA): A Lei Orçamentária Anual
de trabalho; disciplina todos os programas e ações de governo no
- Maior atenção às perspectivas da receita; exercício. Nenhuma despesa pública pode ser executada
- Expedientes de audiências entre a equipe do órgão central sem estar consignada no Orçamento. A Constituição
e os representantes das unidades administrativas; e determina que o Orçamento deve ser votado e aprovado
- Coligação e sistematização de todos os elementos até o final de cada Legislatura. Depois de aprovado,
necessários à constituição de uma base idônea para o projeto é sancionado e publicado pelo Poder Executivo,
cálculo das estimativas dos recursos, erigindo método transformando-se na Lei Orçamentária Anual. A LOA
de previsão das rendas públicas como instrumento estima as receitas e autoriza as despesas do Governo
fundamental de sua atuação. de acordo com a previsão de arrecadação.

A Constituição de 1946, denominada “planejamentista”, explicita a Estas três leis compõem o processo de tramitação do orçamento
criação de planos setoriais e regionais, com reflexos no orçamento, de qualquer ente da federação. Assim, o planejamento das ações
ao estabelecer vinculações com a receita. A experiência brasileira governamentais sob a forma orçamentária (receitas e despesas),
na elaboração de Planos Globais até 1964 caracterizou-se por ambos servindo como instrumento para a realização de uma
contemplar somente os elementos de despesa com ausência gestão fiscal responsável, no sentido de se alcançar estabilidade
de uma programação de objetivos, metas e recursos reais, econômica e desenvolvimento sustentável, constituem o cerne do
intensificando a desvinculação dos Planos e dos Orçamentos. Orçamento Público.

Em 1964 é criado o cargo de Ministro Extraordinário do A experiência demonstra ao longo dos últimos anos a preocupação
Planejamento e Coordenação Econômica, ocupado por Celso em fortalecer a vinculação existente entre planejamento
Furtado, com a atribuição de dirigir e coordenar a revisão do plano e orçamento. Ao contrário do que ocorria em períodos de alta
nacional de desenvolvimento econômico; coordenar e harmonizar, inflação, hoje é possível planejar e autorizar dotações para
em planos gerais, regionais e setoriais, os programas e projetos a realização de ações voltadas à concretização eficiente de políticas
elaborados por órgãos públicos; e coordenar a elaboração públicas de bem-estar, ou seja, é a programação orçamentária
e a execução do Orçamento Geral da União e dos orçamentos dos voltada não só para o controle de gastos, mas também para
órgãos e entidades subvencionadas pela União, harmonizando- a avaliação de resultados.
os com o plano nacional de desenvolvimento econômico. Neste
período é criada a lei que traçou os princípios orçamentários Princípios e estrutura do Orçamento
no Brasil e que ainda hoje é a principal diretriz para a elaboração
dos orçamentos da União, Estados e Municípios, a Lei Federal A Constituição de 1988 define, na seção II do capítulo II do título
nº. 4.320/64. 2
VI, todo o processo orçamentário. Não obstante, além do Direito
Constitucional, existe o Direito Financeiro como complemento ao
Com a Constituição Federal de 1988, o sistema orçamentário Orçamento Público. Este último é representado pela Lei Federal
passou a ser regulado por três leis: nº 4.320 de 1964, que estatui normas gerais aplicáveis a todas as
esferas da Administração Pública.
i) a Lei do Plano Plurianual (PPA): O PPA é a lei que define
as prioridades do Governo pelo período de 4 (quatro) Como exemplo, podemos tentar definir de forma didática que
anos. O projeto de lei do PPA deve ser enviado pelo o Orçamento Público é relacionado: 1º Elaboração - Constituição
Poder Executivo ao Poder Legislativo até o dia 31 de Federal; 2º Estrutura - Lei 4.320; e recentemente, 3º Limites
agosto do primeiro ano de seu mandato (4 meses antes - Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). É evidente que há uma
do encerramento da sessão legislativa). De acordo com inter-relação de ambos na dinâmica orçamentária.
a Constituição Federal, o PPA deve conter “as diretrizes,
objetivos e metas da administração pública federal A Lei Complementar nº 101/2000 - Lei de Responsabilidade
para as despesas de capital e outras delas decorrentes na Gestão Fiscal foi concretizada como fruto de uma política
e para as relativas aos programas de duração continuada” neoliberal inserida no processo mundial de ajustes fiscais das
(art. 165 §1°); economias, que se intensificou a partir da década de 80 na América
ii) a Lei de Diretrizes Orçamentária (LDO): A LDO é a lei Latina, após a ocorrência de crises de financiamento externo e de
anterior à lei orçamentária, que define as metas dificuldades encontradas pelos países para saldarem suas dívidas.
e prioridades em termos de programas a executar pelo
Governo. O projeto de lei da LDO deve ser enviado pelo No 1º artigo, o objetivo da LRF fica evidenciado: “A responsabilidade

2 Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Históricos das atividades orçamentárias. Disponível em: http://www.planejamento.gov.br

55
na gestão fiscal pressupõe a ação planejada e transparente, em previstas. A dinâmica é simples, se a economia crescer durante
que se previnem riscos e corrigem desvios capazes de afetar o o ano mais do que se esperava, a arrecadação com os impostos
equilíbrio das contas públicas, mediante o cumprimento de metas tende a aumentar. O movimento inverso também pode ocorrer.
de resultados entre receitas e despesas e a obediência a limites...”.
Assim, a LRF impõe um modo limitador e controlador das finanças O conceito de Orçamento-Programa abordado anteriormente
públicas. é a base da Lei Orçamentária Anual, devendo existir integração
entre a LOA de cada período, com a LDO e o Plano Plurianual.
Os princípios orçamentários são:
O programa é o elemento básico da estrutura do Orçamento-Programa,
“A Lei do Orçamento conterá a discriminação da receita pois é com a sua utilização que os esforços e ações de governo são
e despesa de forma a evidenciar a política econômica organizados para o alcance de uma situação futura almejada.
financeira e o programa de trabalho do Governo, obede-
cidos os princípios de unidade, universalidade e anuali- O principal critério de classificação da despesa pública utilizado
dade.” (art. 2). para elaboração do Orçamento-Programa é a classificação por
Programas de Trabalho, cuja finalidade básica é demonstrar as
Primeiro, o princípio da Unidade: só existe um Orçamento para realizações do governo, ou seja, o resultado final de seu trabalho
cada ente federativo (no Brasil, existe um Orçamento para a União, em prol da sociedade.
um para cada Estado e um para cada Município). Cada ente
deve possuir o seu Orçamento, fundamentado em uma política Uma das especificações mais importantes, que permite identificar
orçamentária e estruturado uniformemente. Não há múltiplos se determinado Programa de Trabalho pertence à determinada
orçamentos em uma mesma esfera. O fato do Orçamento área (Educação, Saúde e outros), independentemente da estrutura
Geral da União possuir três peças, como o Orçamento Fiscal, institucional, é expresso na Portaria Federal nº 42 de 1999, que
o Orçamento da Seguridade Social e o Orçamento de Investimento, atualiza a Lei 4.320 na discriminação das despesas por Funções
não representa afronta ao princípio da unidade, pois o Orçamento e Subfunções e dá outras providências.
é único, válido para os três Poderes. O que há é apenas volumes
diferentes segundo áreas de atuação do Governo. Entende-se como Função o maior nível de agregação das diversas
áreas de despesa que competem ao setor público. A Subfunção
Segundo, Universalidade: o orçamento deve conter todas representa uma partição da função, visando a agregar determinado
as receitas e despesas dos poderes, fundos, órgãos e entidades subconjunto de despesa do setor público.
da administração direta e indireta, ou seja, nenhuma instituição
pública que receba recursos orçamentários ou gerencie recursos É importante frisar que as subfunções poderão ser combinadas
federais pode ficar de fora. com funções diferentes daquelas a que estejam vinculadas.
Essa classificação foi realizada com objetivo de dar mais clareza
E, por fim, o princípio da Anualidade: o orçamento cobre um ao orçamento e assim identificar no detalhe o que se vai fazer,
período limitado. No Brasil, este período corresponde ao ano ou ou o que se deveria fazer, proporcionando a oportunidade de
exercício financeiro, de 01 de janeiro a 31 de dezembro. O período discussão diante a população.
estabelece um limite de tempo para as estimativas de receita
e fixação da despesa, ou seja, o orçamento deve se realizar no A participação popular se faz necessária também na elaboração
exercício que corresponde ao próprio ano fiscal. do orçamento, pouco se discute o Orçamento Público, o que
acaba por “transformar” o OP em “Orçamento de Poucos”.
A principal estrutura do orçamento criada pela Lei 4.320 é a
classificação das Receitas e Despesas por Categorias Econômicas, Conclusões
especificando o que é Corrente e o que é Capital.
Os avanços do processo democrático no Brasil misturam de modo
As Receitas Correntes são oriundas principalmente de tributos, complexo, funcional e territorialmente, importantes características
contribuições, patrimônios, atividades agropecuárias, atividades democráticas e autoritárias, ou seja, é um Estado democrático
industriais, de serviços e outras, e constituem a maior parte das esquizofrênico. É um estado no qual os componentes de
receitas totais. Receitas de Capital são auferidas principalmente legalidade democrática e, portanto, de publicidade e cidadania,
da realização de recursos financeiros oriundos da constituição desaparecem nas fronteiras das várias regiões e relações étnicas
de dívidas e outros. e de classe. (O’DONNELL, 1993)

As Despesas Correntes são as chamadas de custeio, incluindo A ausência de mecanismos que estimulem e permitam
despesas com pessoal, materiais, contratação de terceiros a participação ativa e consciente dos cidadãos no acompanhamento
e outros, e representam o maior dispêndio dos orçamentos dos e avaliação das políticas públicas e de seus governantes faz com
entes. Despesas de Capital são os investimentos em equipamentos que aumente o ceticismo político da população, ocorra falta de
e infra-estrutura. transparência governamental e consequentemente efetivação
das práticas corruptas dos administradores públicos, assim
Na LOA as receitas são estimativas realizadas pelo governo, por a necessidade de renovação do Estado e de suas instituições
isso elas podem ser maiores ou menores do que foram inicialmente torna-se primordial.

56
A sinergia entre o Poder Executivo e Legislativo na elaboração
de políticas públicas obedece a uma lógica centralizada, sem
contestações e pouco transparente, sendo oposto ao conceito
de regimes inclusivos e amplamente aberto à contestação pública
(DAHL, 1971).

Mecanismos de inclusão política e contestação pública se fazem


necessários. A participação e o controle social no monitoramento
e avaliação das políticas públicas, seja no orçamento ou nas
diversas leis encaminhadas e fomentadas pelo Legislativo, é de
grande importância.

Governos hierárquicos, centralistas, clientelistas e autoritários


controlados pelas elites locais que orientam seguindo interesses
de cunho privado a gestão da administração pública ainda fazem
parte da política brasileira.

Para enfrentar esta realidade conservadora, as experiências


apontam para a reforma das instituições, promoção da
transparência e do controle social, descentralização da gestão
e participação cidadã.

Sob essa ótica, a garantia dos direitos constitucionais de


participação dos cidadãos será efetivamente exercida.

Referencias bibliográficas

- BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Fed-


erativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988.
- ________. Lei de Responsabilidade Fiscal. Lei Complementar
nº 101 de 4 de maio de 2000. Estabelece normas de finanças
públicas voltadas para a responsabilidade fiscal e dá outras
providências. Diário Oficial, ano CXXXVIII, nº. 86, p. 1-11, 2000.
- BURKHEAD, Jesse. Orçamento Público. 1ª ed. Rio de Janeiro:
Guanabara: FGV, 1971.
- DAHL, R. A. Poliarquia. Participação e Oposição. São Paulo:
Edusp, 1997
- FÓRUM POPULAR DO ORÇAMENTO. Cartilha “De Olho no
Orçamento”. 2° ed. Rio de Janeiro, 2002
- MACHADO JR, J. Teixeira, REIS, Heraldo da Costa. A Lei 4320
comentada. 30ª ed. Rio de Janeiro: IBAM, 2001.
- O´DONNELL, G. Sobre o Estado, a democratização e alguns
problemas conceituais. Novos Estudos Cebrap, n. 36, 1993.
- SANTOS, Boaventura de Sousa. 2002. Democratizar a De-
mocracia - os caminhos da democracia participativa. (Rio de
Janeiro. Civilização Brasileira.).

Sites:
Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Históricos
das atividades orçamentárias. Disponível em: <http://www.
planejamento.gov.br>.

*THIAGO MARQUES
Economista e Consultor do Fórum Popular do Orçamento do Rio de Janeiro (FPORJ).

57
A PRODUÇÃO DE CRIANÇAS E JOVENS PERIGOSOS:
A QUEM INTERESSA?
CECÍLIA M. B. COIMBRA*
MARIA LÍVIA DO NASCIMENTO**

“São perigosos, por certas características psicológico-existenciais que seriam


São tão preguiçosos próprias da juventude. Descrevem, assim, suas atitudes,
ruins demais. comportamentos e formas de estar no mundo como manifestações
Fingem que gemem nas macas, dessas características, percebidas como uma essência
que sangram nas facas, e, portanto, como imutáveis. Dessa maneira, “qualidades”
que morrem. e “defeitos” considerados típicos do jovem como entusiasmo,
Tem televisão vigor, impulsividade, rebeldia, agressividade, alegria, introspecção,
qualquer barracão timidez, dentre outros, passam a ser sinônimo daquilo que
da escória desse país. é próprio de sua natureza.
Com que direito,
pedem os leitos No que se refere à infância, da mesma forma, lhe são atribuídas
limpos dos meus guris?” algumas características tidas como típicas desse momento
(Jorge Simas/Paulo Cesar Feital) do desenvolvimento. Tanto na família como na escola, tal
fase é naturalmente percebida como a que exige cuidados,
No ano em que se comemorou a chamada maioridade do acompanhamento constante, apontando para a dependência,
Estatuto da Criança e do Adolescente, os 60 anos da Declaração a imaturidade e a incapacidade para tomar decisões.
Universal dos Direitos Humanos e os 120 anos
da Abolição da Escravatura, dentre outras Ao lado dessas caracterizações tidas como
datas de nossa história, fomos convocadas “Portanto, esses chamados direitos universais e científicas, no que se refere às
a pensar/problematizar algumas características humanos – princípios burgueses – crianças e jovens pobres, outras são adicionadas:
atribuídas a crianças e jovens pobres como não podem ser estendidos a todos e a violência e a criminalidade. Com isso vai se
se esses aspectos fizessem parte de suas caracterizados como universais, pois configurando para os filhos da pobreza duas
naturezas, tornando-se, assim, inquestionáveis. em uma sociedade onde a liberdade classificações: a infância em perigo – aquela que
Para tal apontaremos algumas produções de é uma quimera, a desigualdade e ainda não delinquiu, mas que pode vir a fazê-lo
subjetividades ocorridas, em especial no Brasil,
1 a competitividade são as regras e, por isso, deve ser tutelada – e a juventude
durante o século XX que têm caracterizado do bom viver, uma existência livre, perigosa – aquela percebida como delinquente
a população infanto-juvenil subalternizada como igualitária e fraterna não tem lugar.” e, portanto, ameaçadora para a manutenção
perigosa, violenta, criminosa e não humana. da ordem social.
A seguir, discutiremos alguns efeitos forjados hoje em
nosso mundo globalizado pelas práticas que têm associado Como tais articulações foram sendo produzidas e fortalecidas?
periculosidade, violência, criminalidade e não humanidade
à situação de pobreza. Alguns desses efeitos podem ser expressos, Articulando pobreza, periculosidade, criminalidade2
por exemplo, pelo aumento dos extermínios de crianças e jovens
pobres, ocorridos cotidianamente, pelo significativo número de Há anos trabalhando com algumas ferramentas propostas por
crianças abrigadas, de jovens cumprindo medidas de reclusão, Michel Foucault (1988), entendemos, como ele, que seja importante
dentre alguns outros aspectos que serão aqui assinalados. pensar a emergência do capitalismo industrial – que esse autor
chamou de sociedade disciplinar – quando as elites passam a se
Majoritariamente, na sociedade capitalista, a criança e o jovem preocupar não somente com as infrações cometidas pelo sujeito,
têm sido construídos como seres em formação, em crescimento, mas também com aquelas que poderão vir a acontecer. Este é o
em desenvolvimento, em evolução. De acordo com esse dispositivo da periculosidade, que emerge na Europa no século
pensamento, essas fases da vida carregariam certas marcas, XIX, e que fará com que o controle não se exerça apenas sobre o
afirmadas como naturezas. Algumas práticas baseadas nos que se é, o que se fez, mas principalmente sobre o que se poderá
conhecimentos hegemônicos da Medicina e da Biologia fazem vir a ser, sobre o que se poderá vir a fazer, sobre as virtualidades
associações entre mudanças corporais e determinadas etapas dos sujeitos.
do desenvolvimento psíquico, afirmando formas específicas de
estar no mundo. Esse modo biomédico de se pensar a infância Em nosso país, que traz como herança mais de trezentos anos
e a adolescência como um todo universal e homogêneo tem de escravidão, considerada à época como fato natural, o controle
construído modos naturalizados de vida. Com relação, por exemplo, das virtualidades exercerá um papel fundamental na constituição
ao jovem afirma-se que determinadas mudanças hormonais, de nossas percepções e subjetividades sobre a pobreza.
glandulares e físicas, encontradas nessa fase, são responsáveis Para tal, muito têm contribuído algumas teorias consideradas
1 No conceito de subjetividade dominante ou hegemônica, “... a produção de subjetividade constitui matéria-prima de toda e qualquer produção . As forças sociais que administram o capitalismo hoje entendem que a produção de
subjetividade talvez seja mais importante que qualquer outro tipo de produção, mais essencial até que o petróleo e as energias, visto produzirem esquemas dominantes de percepção do mundo”. (Guattari e Rolnik, 1988, p. 40).
2 Algumas análises apresentadas neste item podem ser encontradas em Coimbra (1998) e Coimbra e Nascimento (2003).

58
científicas como as racistas e eugênicas, que emergem também último, com sua Antropologia Criminal, defende ser possível
no século XIX, na Europa, condenando as misturas raciais distinguir, por intermédio de certas características anatômicas,
e caracterizando-as como indesejáveis, produtoras de os criminosos natos e os perigosos sociais. A teoria das disposições
enfermidades, de doenças físicas e morais (imbecilidades, inatas para a criminalidade, defendida por Lombroso, ainda tem
idiotias, retardos, deficiências em geral, indolência, dentre outras). muitos defensores entre nós (Waldhelm, 1998). Por exemplo,
É interessante notarmos que, naquele mesmo período, ocorreram, durante o período da ditadura militar em nosso país, em 1974, em
também na Europa, movimentos que propugnaram e influenciaram duas cidades satélites de Brasília, DF (Ceilândia e Taguatinga), por
as propostas de abolição da escravatura negra nas Américas. “ordens superiores”, em duas pré-escolas públicas, crianças – em
Ou seja, ao mesmo tempo em que emerge a figura do trabalhador sua maioria filhos de migrantes nordestinos – são colocadas em
livre – segundo os interesses econômicos vinculados ao fila para terem seus crânios e faces medidos. Posteriormente, são
capitalismo liberal da época – produz-se uma essência para esse enviados à direção e aos professores dos referidos estabelecimentos
mesmo trabalhador. Definindo-se formas consideradas corretas laudos que descrevem as características emocionais e intelectuais
e verdadeiras de ser e de existir, forjam-se subjetividades sobre dessas crianças.
a pobreza e sobre o pobre; diz-se o que são e o que deverão ser.
É curioso observar que propostas deste tipo estão sempre se
Segundo a lógica do capitalismo liberal, os trabalhadores livres têm atualizando. Em 2007, pesquisadores da PUC/RS e da UFRGS
liberdade para oferecer e vender sua força de trabalho no mercado, propuseram um projeto para examinar o cérebro de jovens
desde que se mantenham no seu devido lugar, desde que não infratores, com o objetivo de investigar as bases biológicas da
participem dessas misturas indesejáveis, mantendo-se dentro das violência dos que cometeram atos delituosos. O grupo se propõe
normas vigentes, desde que, portanto, respeitem as regras impostas a fazer um mapeamento cerebral por ressonância magnética
por uma sociedade de classes. Sociedade essa que, paradoxalmente, para tentar entender as manifestações físicas do problema da
a partir de certos princípios defendidos por uma elite que ascende ao delinqüência juvenil.
poder, propugna em seus discursos que os direitos humanos, políticos,
econômicos, sociais e culturais são direitos de todos, produzindo-os, Fora tais “devaneios cientificistas”, temos definições mais
assim, como direitos universais através de suas famosas palavras de grosseiras que, cotidianamente, afirmam a existência de “bandidos
ordem: liberdade, igualdade e fraternidade. de nascença, os que já nasceram para o crime e vão praticá-lo de
qualquer maneira” (Benevides, 1983, p. 56). Por exemplo, para
Entendemos – como nos apontou Karl Marx – que a formação o delegado paulista Sérgio Paranhos Fleury – conhecido por sua
da riqueza, a acumulação do capital produz, também, o seu participação em torturas a presos políticos durante a ditadura –
contrário, a miséria. Pela ótica do capitalismo esta passa “bandido era visto como um fenômeno da natureza”. Dizia ele:
a ser naturalmente percebida como advinda da ociosidade, da
indolência e dos vícios inerentes aos pobres. Portanto, esses “(...) você cria cachorro? Numa ninhada de cachorro vai ter
chamados direitos humanos – princípios burgueses – não podem sempre o cachorrinho que é mau caráter, que é briguento
ser estendidos a todos e caracterizados como universais, pois em e vai ter outro que se porta bem. O marginal é aquele
uma sociedade onde a liberdade é uma quimera, a desigualdade cachorrinho que é mau caráter, indisciplinado, que não
e a competitividade são as regras do bom viver, uma existência adianta educar.” (Apud Benevides, 1983, p. 57)
livre, igualitária e fraterna não tem lugar.
Essas teorias racistas e eugênicas são realimentadas pela obra
Ainda no século XIX, na Europa, pari passu às teorias racistas de Charles Darwin, “A origem das Espécies” (1859). Conceitos
e ao movimento eugênico e lhes servindo de base, temos a obra como “prole malsã”, “herança degenerativa”, “degenerescência da
de Morel (1857), o “Tratado das Degenerescências”, onde aparece espécie”, “taras hereditárias”, “inferiorização da prole”, “procriação
o termo “classes perigosas”, definido da seguinte maneira: defeituosa”, “raça pura”, “embranquecimento”, “aperfeiçoamento
da espécie humana”, “purificação” são comuns nos tratados de
(...) no seio dessa sociedade tão civilizada existem “verdadeiras Medicina, Psiquiatria, Antropologia e Direito do final do século XIX
variedades” (...) que não possuem nem a inteligência do dever, e início do século XX que pregam, seguindo o modelo da eugenia,
nem o sentimento da moralidade dos atos, e cujo espírito não a esterilização dos chamados degenerados como profilaxia para
é suscetível de ser esclarecido ou mesmo consolado por os males sociais.
qualquer ideia de ordem religiosa. Qualquer uma destas
variedades foi designada sob o justo título de classes Renato Kehl, médico ligado ao movimento eugênico no Brasil, no
perigosas (...) constituindo para a sociedade um estado de início do século XX, defendia a esterilização
perigo permanente. (Apud Lobo, 1997, p. 55)
“(...) dos parasitas, indigentes, criminosos, doentes que
Vários outros autores tentam contribuir na busca de bases nada fazem, que vegetam nas prisões, hospitais, asilos; dos
científicas para essas teorias. Já desde o início do século XIX, que perambulam pelas ruas vivendo da caridade pública,
populariza-se entre os cientistas a Antropometria, medição de dos amorais, dos loucos que enchem os hospitais; da mole
ossos, crânio e cérebro que, por meio de comparações, busca de gente absolutamente inútil que vive do jogo, do vício,
provar a inferioridade de determinados segmentos sociais. Ficam da libertinagem, do roubo e das trapaças (...)” (Apud Lobo,
famosas, inclusive entre os educadores da época, as teses de 1997, p. 147-148).
Paul Broca (1824-1880) e Cesare Lombroso (1835-1909). Este

59
Ou seja, deveria ser esterilizada toda a população pobre brasileira perniciosos. Atualmente, com o ECA, não é mais justificável retirar
que não estivesse inserida no mercado de trabalho capitalista, o poder familiar por pobreza, mas é possível fazê-lo alegando-
todos aqueles que não fossem corpos úteis e dóceis para se negligência, abandono ou maus-tratos. Nascimento, Cunha
o mercado. e Domith (2008) ao construírem um debate que estabelece
relações entre as práticas de desqualificação da família pobre
Coroando e seguindo as pegadas de todas essas teorias e o processo de criminalização e penalização da pobreza, indagam:
encontramos, no Brasil, ainda no mesmo período, o movimento “Diz o Estatuto que não mais se pode destituir o poder familiar
higienista que, extrapolando o meio médico, penetra em toda por pobreza, mas não são os pobres, agora qualificados como
a sociedade brasileira, aliando-se a alguns especialistas como negligentes, descuidados, violentos, que continuam a perder
pedagogos, arquitetos/urbanistas e juristas, dentre outros. Tal a guarda dos filhos?”
movimento, formado por muitos psiquiatras e juristas da elite
brasileira e expoentes da ciência à época como Franco da Rocha, Já os pobres considerados “viciosos”, por sua vez, por não
Nina Ribeiro, Silvio Romero e Henrique Roxo, atinge seu apogeu pertencerem ao mundo do trabalho – uma das mais nobres virtudes
nos anos de 1920, quando da criação da Liga Brasileira de Higiene enaltecidas pelo capitalismo – são portadores de delinquência,
Mental pelo médico Gustavo Riedel. Suas bases estão nas teorias são libertinos, maus pais e vadios. Representam um “perigo
racistas, no darwinismo social e na eugenia, pregando também social” que deve ser erradicado. Daí a necessidade de medidas
o aperfeiçoamento da raça e colocando-se abertamente contra coercitivas, principalmente para essa parcela da população,
negros e mestiços, a maior parte da população pobre brasileira. pois são criminosos em potencial. Assim, embora a parcela
dos “ociosos” seja a mais visada por seu “potencial destruidor
Esta elite científica está convencida de sua “missão patriótica” na e contaminador”, a periculosidade também está presente entre
construção de uma “Nação moderna” e suas propostas baseiam- os “pobres dignos”, pois por sua natureza – a pobreza – também
se em medidas que devem promover o “saneamento moral” do correm os riscos das doenças.
país. A “degradação moral” é especialmente associada à pobreza
e percebida como uma epidemia que se deve tentar evitar. A partir desse mapeamento dos pobres, surge uma grande
Portanto, para erigir uma Nação, os higienistas afirmam que toda preocupação com a infância e a juventude que, em um futuro
a sociedade deve participar dessa “cruzada saneadora próximo, poderão compor as “classes perigosas”: as crianças
e civilizatória” contra o mal que se encontra no seio da pobreza. e os jovens “em perigo”, aqueles que deverão ter suas virtualidades
sob controle permanente.
Tal movimento irá atravessar os mais diferentes setores da
sociedade, redefinindo os papéis que devem desempenhar em um O conjunto dessas teorias estabelece/fortalece a relação entre
regime capitalista a família, a criança, o jovem, a mulher, a cidade e vadiagem/ociosidade/indolência e pobreza, bem como entre
os segmentos pobres. A Medicina passa a ordenar o modelo ideal pobreza e periculosidade/violência/criminalidade. Mesmo autores
de família nuclear burguesa. Detentores da ciência, os médicos mais críticos, ao longo dos anos, têm caído nesta armadilha de
tomam para si a tutela das famílias, indicando e orientando como mecanicamente vincular pobreza e violência, a partir de estudos
todos devem comportar-se, morar, comer, dormir, trabalhar, viver baseados nas condições estruturais da divisão da sociedade em
e morrer. classes sociais e no antagonismo e na violência resultantes dessa
divisão.
O higienismo, aliado aos ideais eugênicos e à teoria da
degenerescência de Morel, concebe que os vícios e as virtudes Não é por acaso que, da aliança entre médicos e juristas da época,
são, em grande parte, originários dos ascendentes. Afirma que surge em 1927 a primeira lei brasileira específica para a infância
aqueles advindos de “boas famílias” teriam naturalmente pendores e adolescência, o primeiro Código de Menores. Data daí a utilização
para a virtude. Ao contrário, aqueles que traziam “má herança”, do termo “menor”, não mais para menores de idade de quaisquer
leia-se os pobres, seriam portadores de degenerescências. Dessa classes sociais, mas para um determinado segmento: o pobre.
forma, justifica-se uma série de medidas contra a pobreza, que Esta marca, presente nas subjetividades dos brasileiros, se impõe
passa a ser percebida e tratada como possuidora de uma “moral até hoje, mesmo quando, em 1990, o Estatuto da Criança e do
duvidosa” transmitida hereditariamente. Adolescente (ECA) retira o conceito de “menor” de seu texto legal.
Infância e juventude, crianças e adolescentes, são as designações
Rizzini (1997) discute a produção dos “pobres dignos” e dos que deverão ser utilizadas em substituição à categoria “menor”.
“viciosos”, segundo uma escala de moralidade, e afirma que
para cada um deles serão utilizadas estratégias diferentes. Aos Essa produção de infâncias e juventudes desiguais foi se
“pobres dignos”, aqueles que trabalham, que mantêm a “família constituindo, ao longo de todo o século XX, através da massiva
unida” e “observam os costumes religiosos” é necessário prática de internação de crianças e jovens pobres, em especial
o fortalecimento dos valores morais, pois pertencem a uma classe após a emergência do Juizado de Menores, em 1923, criado para
“mais vulnerável aos vícios e às doenças”. Seus filhos devem ser solucionar o problema da “infância e juventude desassistidas”. Tal
afastados dos ambientes perniciosos, como as ruas e até mesmo política de internação se fortalece, sobretudo, nos dois períodos
de suas próprias casas. Com base em tais crenças, durante toda ditatoriais brasileiros, com a criação de órgãos como o Serviço
a vigência dos Códigos de Menores (1927 e 1979), crianças de Assistência ao Menor (SAM), implantado em 1941 durante
e jovens foram afastados de suas famílias com a justificativa de o Estado Novo, e a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor
que era preferível a internação a seus lares pobres, tidos como (Funabem), que surge em 1964 durante o período da ditadura militar.

60
Estabelecimentos denominados, à época da vigência dos Códigos “sociedade de acumulação flexível de capital” (Harvey, 1993), ou
de Menores, de “depósitos”, dizendo-se destinados ao “regime “sociedade do espetáculo” (Debord, 1997) e mesmo de “sociedade
educativo” e com a finalidade de “prevenção ou preservação”. Em de controle” (Deleuze, 1992), que vem se mesclando com o que
realidade, são locais onde crianças e jovens pobres sofrem toda Foucault (1986) denominou de biopoder. De um modo geral,
sorte de maus-tratos. Se trouxermos esta análise para o presente, essa “nova era” caracteriza-se, em especial, na Europa, após
mesmo após o ECA, podemos dizer que a prática da violência a Segunda Guerra Mundial, pelas diferentes formas de controle
nos internatos não é uma característica do passado. Hoje, em ao ar livre que vêm se misturando às disciplinas que operam em
pleno século XXI, tal situação de exclusão pouco mudou e o que sistemas fechados como família, escola, fábrica, hospital, prisão.
vemos nesses estabelecimentos é um quadro de superlotação, de No contemporâneo, o marketing, os meios de comunicação de
falta de equipamentos e de funcionários, de constantes torturas massa e todos esses processos de subjetivação passam também
e violações. a ser instrumentos de controle social, especialmente através da
produção de modos de ser, viver e existir.
Voltando ao século XX e à vigência dos Códigos de Menores,
percebemos naquela época uma forte preocupação com Entretanto, essas duas formas de funcionamento social, disciplinar
a disciplinarização das crianças pobres, com a necessidade de e de controle, vêm coexistindo simultaneamente. Para a pobreza há
colocar em ordem os “desviados” ou aqueles que poderiam vir um caminho já delineado; por isso, não é por acaso o alto índice de
a ser. Para estes, o espaço jurídico prevê a reeducação, crianças e jovens pobres exterminados. Para os que conseguem
a internação e a preparação para o trabalho. No conjunto dessas sobreviver, estão previstos diferentes tipos de enclausuramento.
medidas, chamadas de proteção, o Estado vai construindo um Muitos jovens pobres maiores de 18 anos encontram-se nas
modelo do que diz ser assistência à pobreza. Assim, prisões, as chamadas prisões da miséria, segundo o sociólogo
Loic Wacquant (2001). Há, também, inúmeros casos de “privação
Sob égide do Juiz, os menores não eram “julgados”, mas de liberdade” aplicada para os que têm entre 12 e 18 anos. Já
“tutelados”; não eram “condenados”, mas sim “protegidos” para as crianças pobres, menores de 12 anos, restam os abrigos;
e não eram “presos”, mas “internados”. Visando assegurar estabelecimentos desaparelhados em termos materiais e de
sua assistência e proteção, o Juiz os encaminhava aos pessoal, que se encontram em mãos de entidades filantrópicas
estabelecimentos (...) onde deveriam ficar internados e caritativas, onde são cotidianas as situações de violência.
pelo tempo por ele determinado. A internação nestes
estabelecimentos, mais que a educação e recuperação dos Em nosso país, a partir de meados dos anos 1980, com
menores, privava-os da liberdade, afastando-os do convívio a gradativa implantação de medidas neoliberais – globalização do
das ruas, encaradas como espaço pernicioso. (...) Outra mercado, Estado penal, flexibilização do trabalho, desestatização
preocupação que se fazia presente naquela época, e que se da economia, competitividade, livre comércio e privatização –
verifica até os dias de hoje, era a tendência de se oferecer temos uma massiva produção de insegurança, medo, pânico,
ofícios profissionalizantes em oficinas, que preparam para o articulados midiaticamente ao crescimento do desemprego, da
trabalho, mas em funções socialmente desvalorizadas e de exclusão, da pobreza e da miséria.
baixa remuneração (...) (Bulcão, 2001, p. 60)
Nesse dantesco quadro, crianças e jovens quando escapam do
Em nosso país, desde o início do século XX, diferentes dispositivos extermínio, são os “excluídos por excelência” (Forrester,1997),
sociais vêm produzindo subjetividades em que o “emprego fixo” pois sequer conseguem chegar ao mercado de trabalho formal.
e a “família organizada” tornam-se padrões de reconhecimento, Sua atuação em redes ilegais como o circuito do narcotráfico,
aceitação, legitimação sociais e direito à vida. Ao fugir a esses do crime organizado, dos sequestros, dentre outros vem sendo
territórios modelares entra-se para a enorme legião dos “perigosos”, tecida como única forma de sobrevivência e se prolifera, cada
daqueles que são olhados com desconfiança, evitados, afastados, vez mais, como práticas de trabalho à medida que aumenta
enclausurados e, mesmo, exterminados. a apartação social.

Sabemos que a situação da pobreza vem se agravando, com base A exclusão e a alienação de crianças e jovens pobres, pelo
nas políticas noeliberais, nas quais o trabalho inexiste e as políticas envolvimento com a ilegalidade, têm produzido fortes marcas em
públicas são totalmente ineficazes e a punição se faz cada vez suas existências: os que conseguem sobreviver aos extermínios,
mais frequente, a partir do fortalecimento do Estado penal e de certamente não escapam do recolhimento em abrigos e internatos.
subjetividades policialesco-punitivas.
O ECA – seus avanços e limites
Se no capitalismo liberal as crianças e os jovens pobres foram
recolhidos em espaços fechados para serem disciplinados Até 1990, os profissionais que trabalhavam na área dos direitos da
e normatizados na expectativa de que fossem transformados em criança e do adolescente tinham suas atuações apoiadas no Código
cidadãos honestos, trabalhadores exemplares e bons pais de família; de Menores de 1927 e em sua posterior reformulação, ocorrida em
hoje, no neoliberalismo, não são mais necessários ao mercado, são 1979. Enquanto o primeiro se baseava no princípio do menor como
supérfluos, suas vidas de nada valem, daí o extermínio. sinônimo de carente, pobre e criminoso em potencial, a mudança
de 1979 se pautou no princípio da “situação irregular”. Essas
Importante assinalarmos que, com o neoliberalismo, vem se duas legislações seguiram uma lógica que colocava no terreno
implantando um modelo de sociedade chamada por alguns de da imoralidade, da anormalidade e mesmo da patologia os modos

61
de vida das famílias pobres, justificando, assim, a necessidade Questionando o pensamento, ainda hoje dominante no Ocidente –
do Estado tomar para si a tarefa de proteger crianças e jovens que entende objetos, saberes e sujeitos como tendo uma essência,
cujas famílias eram consideradas fora das normas. Ou seja, os uma natureza que lhes seria própria – este filósofo propõe uma
textos das duas leis defendiam que existiam formas melhores outra forma de entender o mundo. São as práticas sociais que
e, portanto, ideais dos pobres educarem, cuidarem e protegerem fazem aparecer os diferentes objetos, saberes e sujeitos. Partindo
seus filhos. Com base nisso, ao longo de todo o século XX, dessa lógica é possível avaliar como nossas práticas cotidianas,
justificavam-se as propostas de retirada do pátrio poder devido por menores e mais invisíveis que sejam, constituem-se em
à condição de pobreza, incentivavam-se as adoções de crianças poderosos instrumentos de reprodução e/ou criação, produzindo
pobres, internavam-se os chamados abandonados, dentre outras os mais surpreendentes efeitos.
práticas de exclusão. É interessante notar que os princípios que
regiam os dois códigos sofreram influência direta do higienismo, As formações profissionais em geral nos têm ensinado a caminhar
aliado às teorias racistas, eugênicas, da degenerescência sempre guiados por modelos que irão indicando o que devemos
e da evolução das espécies, que marcaram os momentos de fazer e como devemos fazer. Entretanto, o para que fazemos
emergência dessas leis. nunca é mencionado. Ao contrário, essas formações nos fazem
acreditar na neutralidade e objetividade de nossas atuações. Não
O Estatuto da Criança e do Adolescente, que nasce no bojo percebemos como nossas práticas têm forjado/fortalecido a todo
dos novos movimentos sociais emergentes nos anos de 1980, o momento os modelos de bom cidadão, bom pai, bom marido,
afirma a criança e o jovem de qualquer segmento social como bom filho, bom aluno etc., aceitos como universais e verdadeiros,
sujeitos de direitos. Em contraposição aos Códigos de Menores, pois baseados em formulações consideradas científicas.
preconiza a lógica da “proteção integral”, retirando o princípio
da “situação irregular”, desfazendo a separação entre “menor” Se consideramos os objetos, sujeitos e saberes como produções
e criança, recusando a prática da internação como primeiro históricas, datadas e advindas das práticas sociais; se aceitamos
e principal recurso das medidas chamadas de assistência que os “especialismos” técnico-científicos que fortalecem
à infância e à adolescência. a divisão social do trabalho no mundo capitalista têm tido, dentre
outras funções, a de produzir verdades vistas como absolutas
É inegável a importância trazida pelo ECA no que se refere ao e universais e a desqualificação de muitos outros saberes que
reordenamento jurídico vinculado à área da infância e da juventude se encontram no mundo; se entendemos como importante em
e à proteção dos direitos e garantias para estes segmentos da nossas práticas cotidianas a análise de nossas implicações,
população. É fundamental sua defesa no sentido de torná-lo uma assinalando o que nos atravessa, nos constitui e nos produz,
realidade, pois mesmo após 18 anos de existência, ainda são e o que constituímos e produzimos com essas mesmas práticas,
mantidas práticas menoristas e atos de violência, de desrespeito poderemos pensar, inventar e criar outras formas de atuar, de ser
e de abuso que fazem parte do cotidiano dos estabelecimentos profissional-militante.
onde são aplicadas as chamadas medidas protetivas e sócio-
educativas preconizadas por esta nova legislação. Especialmente nesses tempos neoliberais – em que a globalização
e todos os seus corolários, mais do que uma versão do modo de
Entretanto, considerar a criança e o jovem enquanto sujeitos produção capitalista atual, é uma forma eficaz de definir modelos
de direitos afirmados como universais não faria parte de uma de ser, de estar e de existir em um mundo dito flexível e pós-
proposta liberal? Uma proposta de igualar juventudes e infâncias moderno, baseado nas profundas desigualdades das relações
desiguais, mas que são entendidas como possuidoras de sociais – o trabalho daqueles que atuam na área da criança
essências diferentes? Tal lógica é formulada a partir de princípios e da juventude reveste-se de enorme importância. Entender que
considerados científicos que vêm historicamente caracterizando os discursos/ações do capital, muitas vezes microscópicos,
as crianças e os jovens dentro de modelos dominantes, onde invisíveis e apresentados como desinteressados, pois percebidos
eles são vistos como seres em formação, em crescimento, em como naturais, têm poderosos efeitos: excluem, estigmatizam
desenvolvimento. e tentam destruir a pobreza, notadamente sua infância e juventude.

Entendemos, portanto, que, apesar do avanço que o ECA Há de se estar atento e perceber que, apesar das políticas oficiais
significa para a política de proteção a crianças e jovens brasileiros, e oficiosas, existe por parte dos segmentos subalternizados, em
a lógica de igualar infâncias e juventudes tão desiguais em termos especial de seus jovens, resistências e lutas. Eles teimam em
sócio-econômicos, culturais e históricos faz parte dos princípios continuar existindo, apesar de tudo; suas resistências se fazem
e modelos defendidos pelo liberalismo. Ou seja, é uma tentativa cotidianamente, muitas vezes percebidas como fragmentadas,
de igualar em cima de valores burgueses modos de vida que fora dos padrões reconhecidos como organizados e até mesmo
continuam desiguais e que tendem, no neoliberalismo, a se tornar como condutas anti-sociais, delituosas e, por isso, “perigosas”.
cada vez mais distantes entre si.
Por outro lado, crianças e jovens, através de diferentes ações,
Algumas conclusões de um campo ainda em aberto vêm afirmando outras formas de funcionamento e de organização
que fogem aos pré estabelecidos. Essa população pobre
Talvez alguns outros caminhos possam ser trilhados se nos e marginalizada cria e inventa outros mecanismos de sobrevivência
detivermos sobre a importância e a função que as práticas sociais e de luta, resistindo teimosamente às exclusões e destruições
têm em nosso mundo, como já foi assinalado por Foucault (1988). que vivenciam diariamente em seu cotidiano e conseguindo,

62
algumas vezes, escapar ao destino traçado pela lógica do capital - LOBO, L.F. Os infames da história: a instituição das deficiências
e entendido como inexorável e imutável. no brasil. Tese de Doutorado, PUC, Rio de Janeiro,1997.
- NASCIMENTO, M. L., CUNHA, F. L. e VICENTE, L. M. D. A
Sem pretender racionalmente fazer revoluções, mudar o presente desqualificação da família pobre como prática de criminalização da
e preparar o futuro, muitos desses movimentos de resistência, pobreza. In: Revista de Psicologia e Política, v. 7, no. 14, 2007.
sem dúvida, produzem revoluções moleculares, forjam mudanças - RIZZINI, I. O séculoperdido: raízes históricas das políticas
micropolíticas em seus atores e nos cenários onde atuam, públicas para a infância no Brasil. Rio de Janeiro: Santa Úrsula/
afirmam e apontam para novos caminhos, criações, invenções. Amais, 1997.
É verdade que foram e continuam sendo ignorados pela história - WACQUANT, L. As prisões da miséria. Rio de Janeiro: Jorge
oficial, pelos chamados intelectuais, pelos grandes meios de Zahar, 2001.
comunicação. Apesar desse competente apagamento oficial vêm - WALDHELM, M.C.V. Produção sócio-política do corpo nos livros
ocorrendo várias e diferentes experiências empreendidas por didáticos de ciências editados nas décadas de 60 a 90. Dissertação
crianças e jovens em seus cotidianos, que configuram práticas de de Mestrado, Faculdade de Educação UFF, Niterói, 1998.
resistência, expressas através da música, de outras artes, de micro-
organizações coletivas, de redes de solidariedade. O importante é Discografia
percebê-las, ver que existem, fortalecê-las, nos aliarmos a elas. - Gonzaguinha, Caminhos do coração in Caminhos do coração,
M-Odeon, 1982.
“(...)aprendi que se depende sempre - Simas. J. e Feital, P.C., O Clero in Carta ao Rei, Produção
de tanta muita diferente gente independente, sem data.
toda pessoa sempre é as marcas
das lições diárias de outras tantas pessoas.
E é tão bonito quando a gente entende
que a gente é tanta gente
onde quer que a gente vá
É tão bonito quando a gente sente
que nunca está sozinho
por mais que pense estar.
É tão bonito quando a gente pisa firme
nessas linhas que estão
nas palmas de nossas mãos.
É tão bonito quando a gente vai à vida
nos caminhos onde bate
bem mais forte o coração.”
(Gonzaguinha)

Referências bibliográficas

- BENEVIDES, M.V. Violência, povo e política. São Paulo:


Brasiliense/CEDEC, 1983.
- BULCÃO, I. Investigando as práticas do juizado de menores
de 1927 a 1979. Dissertação de Mestrado, Departamento de
Psicologia UFF, Niterói/RJ, 2001.
- COIMBRA, C. M. B. Guardiães da ordem: uma viagem pelas
práticas psi no Brasil do milagre, Rio de Janeiro: Oficina do Autor,
1995.
- COIMBRA, C. M. B. Operação Rio: o mito das classes perigosas.
Niterói: Intertexto, Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 2001.
- COIMBRA, C. M. B.e NASCIMENTO, M. L. Jovens pobres: o
mito da periculosidade in Fraga e Iulianelli (orgs.) Jovens em
tempo real Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
- DEBORD, G. A Sociedade do espetáculo, Rio de Janeiro:
Contraponto, 1997.
- DELEUZE, G. Conversações. Rio de Janeiro: Editora 34,1992.
- FOUCAULT, M. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis:
Vozes, 1986.
- FOUCAULT, M A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro:
Nau, 1996.
- FORRESTER, V. O horror econômico. São Paulo: UNESP, 1997. * CECILIA MARIA BOUÇAS COIMBRA
Doutora em Psicologia, Professora do Departamento de Psicologia/UFF, fundadora
e atual Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ
- HARVEY, D. A Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola. 1993. ** MARIA LÍVIA DO NASCIMENTO
Doutora em Psicologia, Professora do Departamento de Psicologia/UFF

63
PROMESSAS QUEBRADAS.1
IRENE KHAN*

Os líderes mundiais devem se desculpar por não terem cumprido expressão e o direito à educação; entre o direito de não ser
a promessa de justiça e de igualdade que fizeram com a Declaração torturado e o direito à segurança social. Eles reconheceram que
Universal dos Direitos Humanos (DUDH), adotada há 60 anos. a universalidade dos direitos humanos – todas as pessoas nascem
Nessas seis décadas, muitos governos se mostraram mais livres e iguais – e sua indivisibilidade – todos os direitos, sejam
interessados em abusar do poder ou em perseguir seus próprios eles econômicos, sociais, civis, políticos ou culturais, devem
interesses políticos do que em respeitar os direitos de quem ser realizados com o mesmo empenho – são a base de nossa
representam. segurança coletiva e de nossa humanidade comum.

Isso não significa negar os progressos que foram feitos no Nos anos seguintes, a liderança visionária deu lugar a interesses
desenvolvimento de normas, sistemas e instituições de direitos políticos estreitos. Os direitos humanos se transformaram em
humanos, em nível internacional, regional e nacional. Em diversos um jogo excludente entre as duas “superpotências” envolvidas
lugares do mundo, muita coisa melhorou por causa dessas em uma luta ideológica e geopolítica para estabelecer sua
normas e princípios. O número de países que hoje oferecem supremacia. Enquanto um dos lados negava os direitos civis
proteção legal e constitucional para os direitos humanos é maior e políticos, o outro rebaixava os direitos econômicos e sociais.
do que nunca. Apenas uma pequena porção de países negaria Ao invés de favorecer a dignidade e o bem estar das pessoas, os
abertamente à comunidade internacional o direito de examinar direitos humanos eram usados como instrumento para promover
sua situação de direitos humanos. Em 2007, objetivos estratégicos. Os países que recém
completou-se um ano de funcionamento pleno haviam conquistado sua independência
do Conselho de Direitos Humanos da ONU, “Apesar de os líderes mundiais e que se encontravam em meio à disputa
através do qual todos os Estados-membros alegarem ter-se comprometido entre as potências, ou lutaram pela
das Nações Unidas concordaram em debater com a erradicação da pobreza, em democracia e pelo Estado de direito, ou
publicamente seu desempenho em questões sua grande maioria, ignoraram os abandonaram-nos de vez para adotarem
de direitos humanos. abusos de direitos humanos que diversas formas de autoritarismo.
provocam e que aprofundam a
Apesar de todos os eventos positivos, pobreza. A promessa da Declaração A esperança sobre os direitos humanos
a realidade, porém, é que a injustiça, Universal dos Direitos Humanos aumentou com o fim da Guerra Fria,
a desigualdade e a impunidade continuam continuou a existir só no papel.” mas foi frustrada por uma explosão de
sendo alguns dos aspectos mais marcantes conflitos étnicos e pela implosão de vários
do mundo de hoje. Estados, desencadeando uma série de emergências humanitárias,
marcadas por abusos de direitos humanos perversos em grande
Em 1948, em uma atitude de extrema liderança, os líderes mundiais escala. Enquanto isso, a corrupção, os governos medíocres e a
se reuniram para adotar a Declaração Universal dos Direitos impunidade generalizada para as violações de direitos humanos
Humanos. Os Estados-membros de uma Organização das Nações reinavam absolutos em muitas partes do mundo.
Unidas que recém ensaiava os primeiros passos demonstraram ter
grande visão e coragem quando depositaram sua confiança em Ao entrarmos no século XXI, os ataques terroristas de 11 de
valores globais. Eles tinham pleno conhecimento dos horrores da setembro transformaram o debate de direitos humanos, mais
II Guerra Mundial e tinham consciência da realidade sombria que uma vez, em uma questão desagregadora e destrutiva entre
viria com a Guerra Fria. Sua visão não se limitava apenas ao que “ocidentais” e “não-ocidentais”, restringindo liberdades,
acontecia na Europa. 1948 foi também o ano em que a Birmânia alimentando suspeitas, medo, discriminação e preconceitos, tanto
ganhou sua independência, que Mahatma Gandhi foi assassinado entre governos quanto entre populações.
e que as leis de apartheid passaram a ser introduzidas na África
do Sul. Grande parte do mundo ainda se encontrava sob o jugo As forças da globalização econômica trouxeram novas promessas,
do colonialismo. mas também novos desafios. Apesar de os líderes mundiais
alegarem ter-se comprometido com a erradicação da pobreza, em
Os redatores da DUDH agiram com a convicção de que somente sua grande maioria, ignoraram os abusos de direitos humanos que
um sistema multilateral de valores globais, baseado em igualdade, provocam e que aprofundam a pobreza. A promessa da Declaração
justiça e no Estado de direito, poderia fazer frente aos desafios Universal dos Direitos Humanos continuou a existir só no papel.
que estavam por vir. Em um verdadeiro exercício de liderança,
eles resistiram às pressões de campos políticos que se opunham. Hoje, olhando para trás, o que mais surpreende é a unidade
Rejeitaram qualquer hierarquia entre o direito à liberdade de de propósitos demonstrada pelos Estados-membros da ONU
1 Introdução ao Relatório Anual 2008 da Anistia Internacional.

64
àquela época, quando adotaram a DUDH por absoluto consenso. as sementes de uma maior instabilidade na sub-região. Embora
Agora, frente a inúmeras e urgentes crises de direitos humanos, os EUA continuem a acolher o Presidente Musharraf, o povo
não há, entre os líderes mundiais, uma visão compartilhada sobre paquistanês manifestou o quanto repudia suas políticas.
como lidar com os desafios contemporâneos de direitos humanos
em um mundo que está cada vez mais ameaçado, inseguro O mundo precisa que os Estados Unidos estejam verdadeiramente
e desigual. engajados e comprometidos com a causa dos direitos humanos,
tanto em seu território quanto no exterior. Em novembro de 2008,
O cenário político, hoje, é muito diferente do que era 60 anos atrás. a população dos EUA elegeu um novo presidente. Para que
Existem muito mais países hoje do que em 1948. Algumas ex-colônias o país tenha autoridade moral como defensor dos direitos humanos,
estão entrando no jogo global lado a lado com seus antigos senhores o novo governo deverá fechar a prisão de Guantánamo e julgar
coloniais. Pode-se esperar que as potências novas e as antigas se os detentos em tribunais federais comuns ou, então, soltá-los.
unam, como fizeram seus predecessores em 1948, para reafirmar Deverá revogar a Lei de Comissões Militares e assegurar o respeito
seu compromisso com os direitos humanos? A julgar por 2007, pelo direito internacional humanitário e pelos direitos humanos em
o quadro não é nada promissor. E quanto às novas lideranças todas as suas operações militares e de segurança. Deverá proibir
e às pressões da sociedade civil, farão alguma diferença neste ano as provas obtidas mediante coerção e denunciar todas as formas
de aniversário? de tortura e de outros maus-tratos, quaisquer que sejam suas
finalidades. O novo governo deverá estabelecer uma estratégia
Um histórico desanimador viável para a paz e a segurança internacionais. Deverá abandonar
o apoio a líderes autoritários e investir em instituições democráticas,
Na condição de país mais poderoso do globo, os Estados Unidos no Estado de direito e nos direitos humanos, o que possibilitará
estabelecem os parâmetros para o comportamento dos governos uma segurança duradoura. Deverá, ainda, estar preparado para
em todo o mundo. Com um obscurecimento legal impressionante, acabar com o isolamento dos EUA no sistema internacional de
o governo dos EUA prosseguiu em seus esforços para enfraquecer direitos humanos e para engajar-se de maneira construtiva com
a proibição absoluta da tortura e de outros maus-tratos. o Conselho de Direitos Humanos da ONU.
Autoridades de alto escalão recusaram-se a denunciar a infame
prática de asfixia na “prancha d’água” (waterboarding). Se o governo dos Estados Unidos tem se destacado recentemente
por afrontar o direito internacional, os governos da Europa têm
O presidente dos EUA autorizou que a CIA prosseguisse com as demonstrado uma propensão à aplicação de dois pesos e duas
detenções e com os interrogatórios secretos, mesmo que isso medidas. A União Européia (UE) pretende ser “uma união de
consista no crime internacional de desaparecimento forçado. valores, unida pelo respeito ao Estado de direito, moldada por
Centenas de prisioneiros em Guantánamo e em Bagram, além normas comuns e pelo consenso, comprometida com a tolerância,
de milhares no Iraque, continuaram a ser detidos sem acusação a democracia e os direitos humanos”. Contudo, em 2007, surgiram
nem julgamento. Muitos deles estão há mais de seis anos nessa novas evidências de que diversos Estados-membros da União
condição. O governo dos EUA não só fracassou em tratar da Européia voltaram-se para o lado oposto e foram coniventes com
impunidade de suas forças no Iraque, como ainda foi na direção a CIA no sequestro, na detenção secreta e na transferência ilegal
contrária, concedendo imunidade à empresa de segurança privada de prisioneiros para países em que foram torturados ou sofreram
Blackwater durante as investigações sobre as mortes de civis maus-tratos. Apesar dos repetidos apelos do Conselho da Europa,
iraquianos em setembro de 2007. Essas ações não contribuíram nenhum governo investigou completamente esses delitos, nem
em nada para fazer avançar a luta contra o terrorismo, mas fizeram deixou claro o que aconteceu ou adotou medidas adequadas
muito para prejudicar o prestígio e a influência dos Estados Unidos para impedir uma futura utilização do território europeu para
no estrangeiro. transferências extrajudiciais e detenções secretas.

A vacuidade dos pedidos por democracia e por liberdade no Ao contrário, alguns governos europeus procuraram enfraquecer
exterior, feitos pelo governo dos EUA, ficou evidenciada através de uma decisão da Corte Européia de Direitos Humanos, de 1996,
seu constante apoio ao Presidente Musharraf, quando o governo proibindo o repatriamento de suspeitos para países em que
paquistanês prendia milhares de advogados, de jornalistas, poderiam sofrer tortura. A Corte se pronunciou com relação
de defensores de direitos humanos e de ativistas políticos que a um dos dois casos que ainda aguardavam decisão em 2007,
clamavam por democracia, por um Estado de direito e por reafirmando a proibição absoluta da tortura e de outras formas de
independência do Judiciário no Paquistão. Enquanto o Presidente maus-tratos.
Musharraf ilegalmente impunha um estado de emergência,
destituía o presidente do Supremo Tribunal e lotava os tribunais Enquanto muitos reclamam por causa dos excessos regulatórios
superiores com juízes mais obedientes, o governo estadunidense da UE, ninguém se incomoda com a falta de regulação em matéria
justificava o apoio que lhe dava alegando tratar-se de um aliado de direitos humanos no âmbito interno da União. A verdade é que
“indispensável” na “guerra ao terror”. A insegurança crescente a União Européia não consegue cobrar de seus Estados-membros
nas cidades e nas regiões de fronteira do Paquistão, porém, responsabilidade por questões de direitos humanos externas ao
indicam que, longe de conter a violência extremista, as políticas arcabouço legal da UE. A Agência dos Direitos Fundamentais da
repressoras do Presidente Musharraf, incluindo desaparecimentos União Européia, criada em 2007, recebeu um mandato tão limitado
forçados e detenções arbitrárias, têm fomentado as desavenças que não lhe permitia exigir qualquer prestação de contas. Embora
e contribuído para estimular sentimentos antiocidentais, lançando a UE estabeleça parâmetros de direitos humanos elevados para os

65
países que pretendem aderir ao bloco (e o faz com razão), uma vez se não para os Estados Unidos, mas para a China, como o país
que esses países são admitidos, eles podem violar as normas da UE, com a influência política e econômica necessária para fazer
tendo que prestar pouca ou nenhuma satisfação à organização. as coisas acontecerem – e não sem razão. A China é o maior
parceiro comercial do Sudão e o segundo maior de Mianmar.
Poderão os Estados-membros da UE pedir que a China ou A Anistia Internacional, através de suas pesquisas, mostrou que
a Rússia respeitem os direitos humanos quando eles mesmos são armamentos chineses estão sendo transferidos para Darfur em
cúmplices com a tortura? Poderá a UE pedir que outros países – desafio ao embargo de armas imposto pela ONU. Há muito tempo
muito mais pobres – mantenham suas fronteiras abertas quando que a China justifica seu apoio a governos abusivos, tais como
seus próprios Estados-membros estão restringindo os direitos dos os do Sudão, de Mianmar e do Zimbábue, definindo os direitos
refugiados e dos requerentes de asilo? Poderá a União Européia humanos como sendo um assunto interno de Estados soberanos
pregar a tolerância no exterior quando fracassa em enfrentar e não como uma questão de sua política internacional de modo
a discriminação contra ciganos, muçulmanos e outras minorias que convenha aos interesses políticos e comerciais chineses.
que vivem dentro de seu próprio território?
A posição da China, porém, não é imutável nem intratável. Em
O ano de 2008, tanto para os EUA quanto para a UE, foi um período 2007, o país votou a favor do destacamento de uma força de
de importantes transições políticas. O Tratado de Lisboa, assinado manutenção da paz híbrida para Darfur, pressionou Mianmar
pelos governos da União Européia em dezembro de 2007, exige a aceitar a visita do enviado especial da ONU, e diminuiu o apoio
que novos compromissos institucionais sejam engendrados por aberto que dava ao Presidente Mugabe, do Zimbábue. Os mesmos
seus Estados-membros. Em alguns dos Estados-membros mais fatores que, no passado, motivaram a China a estabelecer relações
importantes, eleições e outros acontecimentos políticos fizeram com regimes repressores, podem muito bem ser a razão para as
ou farão emergir novas lideranças políticas. Eventos como esses mudanças observadas hoje em suas políticas para esses países:
oferecem oportunidades para iniciativas de direitos humanos tanto a necessidade de fontes confiáveis de energia e de outros recursos
no âmbito da UE quanto em nível global. naturais. A Anistia Internacional e outras organizações de direitos
humanos, há muito tempo, têm argumentado que países com má
Quando os Estados Unidos e a União Européia causam danos reputação em matéria de direitos humanos não criam um ambiente
a sua reputação em matéria de direitos humanos, sua habilidade propício para os negócios – negócios precisam de estabilidade,
para influenciar os outros diminui. Um dos exemplos mais visíveis e é isso que os direitos humanos propiciam. É possível que
da esterilidade que infundiram aos direitos humanos foi o caso de também a China esteja começando a reconhecer que apoiar
Mianmar, em 2007. A junta militar do país reprimiu com violência regimes instáveis com má reputação em direitos humanos não faz
as manifestações pacíficas organizadas por monges, invadiu sentido para os negócios e que, se o país quiser proteger seus
e fechou monastérios, confiscou e destruiu propriedade, espancou, bens e seus cidadãos no exterior, deverá apoiar valores globais
prendeu e atirou nos manifestantes, hostilizou e tomou como que criem estabilidade política a longo prazo.
reféns seus amigos e seus familiares.
Entretanto, mesmo com essas mudanças em sua diplomacia,
Os EUA e a UE condenaram essas ações em termos bastante fortes a China ainda tem um longo caminho a percorrer. O país continua
e intensificaram seus embargos comerciais e de armamentos; sendo, desde 2004, o maior fornecedor de armas para o Sudão.
porém, isso não teve, praticamente, qualquer efeito concreto Em janeiro de 2007, a China votou contra uma resolução do
sobre a situação de direitos humanos. Milhares de pessoas Conselho de Segurança da ONU que condenava as práticas de
continuaram a ser detidas em Mianmar, entre as quais ao menos direitos humanos de Mianmar. Além disso, o país ainda terá de
700 prisioneiros de consciência, sendo a mais proeminente entre cumprir as promessas de direitos humanos que fez antes das
eles a ganhadora do prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, que Olimpíadas de Pequim.
passou 12 dos últimos 18 anos sob prisão domiciliar.
Algumas reformas na aplicação da pena de morte e o relaxamento
Do mesmo modo que em Mianmar, também em Darfur os governos nas regras para a imprensa estrangeira, observados em 2007,
ocidentais praticamente não exerceram qualquer influência sobre foram obscurecidos pela repressão aos ativistas de direitos
a situação de direitos humanos. Embora a indignação e as amplas humanos e à imprensa dentro da China, e também pela ampliação
mobilizações da opinião pública internacional tenham gravado do escopo da “reeducação pelo trabalho” (uma forma de detenção
o nome de Darfur na consciência mundial, para o sofrimento das sem acusação ou julgamento), como parte de um esforço para
pessoas, isso não fez quase nenhuma diferença. Os assassinatos, “limpar” Pequim antes das Olimpíadas.
os estupros e a violência prosseguiram implacavelmente e, se
é que algo aconteceu, o conflito tornou-se ainda mais complexo No período que antecedeu os Jogos Olímpicos, o espaço para
e uma solução política tornou-se ainda mais remota. Apesar de melhoras na situação de direitos humanos da China foi reduzido, ao
uma série de resoluções do Conselho de Segurança da ONU, passo que os confrontos aumentaram. Assim que baixar a poeira
o posicionamento de forças híbridas da União Africana e da ONU das Olimpíadas, a comunidade internacional precisará desenvolver
na região ainda não havia acontecido integralmente. uma estratégia eficaz para levar o debate de direitos humanos
com a China a um plano mais produtivo e mais progressivo.
Potências emergentes O governo chinês, de sua parte, deverá reconhecer que
a liderança global traz consigo responsabilidades e expectativas,
Tanto com relação a Mianmar quanto a Darfur, o mundo voltou- e que um jogador global, se quiser ser digno de crédito, não

66
poderá ignorar os valores e princípios que formam a identidade moral de promover esses valores universais, onde quer que
coletiva da comunidade internacional. estejam sendo violados, maior que a da África do Sul.

E a Rússia, como se sai em termos de liderança de direitos Países como Brasil e México têm sido firmes tanto na promoção
humanos? Uma Rússia cheia de autoconfiança e afluente com dos direitos humanos em nível internacional quanto em seu apoio
os rendimentos do petróleo tem reprimido as opiniões políticas à engrenagem de direitos humanos da ONU. No entanto, a menos
divergentes, exercido pressão sobre os jornalistas independentes que a distância entre suas políticas no plano internacional e seu
e introduzido controles para refrear as ONGs. Em 2007, desempenho no âmbito doméstico seja diminuída, sua credibilidade
manifestações pacíficas foram dispersadas com o uso da força, como defensores dos direitos humanos será contestada.
enquanto advogados, defensores de direitos humanos e jornalistas
eram ameaçados e atacados. O sistema judicial permaneceu Direitos humanos não são valores ocidentais – na verdade, os
vulnerável a pressões do Executivo. A corrupção arraigada governos ocidentais têm mostrado tanto desdém pelos direitos
comprometeu o Estado de direito e a confiança da população humanos quanto qualquer outro governo. Eles são valores universais
no sistema legal. Na Chechênia, a impunidade praticamente não e, como tais, suas perspectivas de sucesso estão interligadas
tinha limites, fazendo com que as vítimas tivessem de recorrer à liderança das Nações Unidas. Embora o Conselho de Segurança
à Corte Européia de Direitos Humanos, em Estrassburgo, para da ONU tenha permanecido imobilizado em questões de direitos
conseguir justiça. humanos por causa dos interesses divergentes de seus membros
permanentes, em 2007 a Assembléia Geral da ONU demonstrou
Será que, a partir de 2008, o novo presidente russo, Dimitry seu potencial de liderança ao adotar uma resolução pedindo uma
Medvedev, dará um tratamento diferente às questões de direitos moratória universal da pena de morte. É exatamente esse tipo de
humanos? Faria muito bem dar uma olhada ao redor do mundo orientação que o mundo precisa das Nações Unidas: Estados
para aprender a lição de que estabilidade política duradoura e que inspirem uns aos outros a aprimorarem seu desempenho, ao
prosperidade econômica só podem ser construídas em sociedade invés de se nivelarem por baixo. Isso é o melhor que a ONU pode
abertas em que os Estados prestem contas de seus atos. oferecer. Terá o Conselho de Direitos Humanos da ONU esse
tipo de liderança em 2008 quando adotar o sistema de Revisão
Se os membros permanentes do Conselho de Segurança da Periódica Universal?
ONU fizeram pouco para promover os direitos humanos e muito
para enfraquecê-los, que tipo de liderança podemos esperar de Em setembro de 2007, em uma demonstração de liderança corajosa
potências emergentes como a África do Sul, o Brasil e a Índia? e impressionante, frente à oposição de Estados extremamente
poderosos, 143 dos Estados-membros da Assembléia Geral da
Como uma democracia liberal de bases bem estabelecidas, com ONU votaram a favor da adoção da Declaração sobre os Direitos
forte tradição legal em questões de direitos humanos e com um dos Povos Indígenas, encerrando duas décadas de discussões.
Judiciário independente, a Índia conta com o potencial para ser Dois meses depois de a Austrália ter votado contra a Declaração,
um bom modelo. No Conselho de Direitos Humanos da ONU, o governo recém eleito do primeiro-ministro Kevin Rudd apresentou
o país teve uma atuação positiva. A Índia pode ser creditada um pedido formal de desculpas pelas leis e pelas políticas de
ainda por ter ajudado a aproximar os principais partidos e os sucessivos governos que “infligiram profunda aflição, sofrimento
insurgentes maoístas no Nepal, acabando com um prolongado e prejuízo” à população indígena aborígine.
conflito armado que provocou abusos de direitos humanos de
enormes proporções. Contudo, em matéria de direitos humanos, Construindo uma nova unidade de propósitos
a Índia ainda precisa ser mais enérgica em sua implementação
doméstica e mais franca ao exercer sua liderança internacional. Enquanto a ordem geopolítica passa por mudanças tectônicas,
Em Mianmar, enquanto a junta militar investia com violência as antigas potências estão renegando os direitos humanos, ao
contra as manifestações pacíficas realizadas por monges e por passo que os novos líderes ainda não emergiram ou se mostram
outros manifestantes, o governo indiano continuou com suas ambivalentes com relação a esses direitos. Neste cenário, qual
negociações sobre extração de petróleo. Em Nandigram, Bengala é o futuro dos direitos humanos?
Ocidental, comunidades rurais foram atacadas e tiveram seus
integrantes feridos e mortos, com cumplicidade da polícia, quando O caminho pela frente tem muitas pedras. Conflitos
protestaram contra o estabelecimento de uma zona econômica entranhados – altamente visíveis no Oriente Médio, no Iraque
especial para a indústria. e no Afeganistão e esquecidos em lugares como o Sri Lanka
e a Somália, para citar apenas alguns – provocam sacrifícios
O papel da África do Sul na NEPAD (Nova Parceria para humanos enormes. Os líderes mundiais ou se atrapalham
o Desenvolvimento da África) – que enfatiza questões de boa nas suas tentativas de encontrar saídas para situações como
governança – traz esperanças de que os líderes africanos a do Iraque ou do Afeganistão, ou não têm a vontade política para
assumirão a responsabilidade por resolver os problemas africanos, encontrá-las, como no caso de Israel e dos Territórios Palestinos
inclusive com relação aos direitos humanos. O governo da África Ocupados. Este conflito tão prolongado tem sido especialmente
do Sul, porém, tem hesitado em se pronunciar sobre os abusos de marcado pelo fracasso de uma liderança internacional coletiva (na
direitos humanos no Zimbábue. Os direitos humanos são aplicáveis forma de um quarteto constituído pelos Estados Unidos, pela União
universalmente para todos – e nenhum país sabe disso melhor Européia, pela Rússia e pela ONU) em lidar com a impunidade
do que a África do Sul. Poucos países têm uma responsabilidade e com a injustiça.

67
Quando os mercados oscilam e os ricos usam sua posição De um modo praticamente inimaginável em 1948, existe hoje um
e influência indevidas para mitigar suas perdas, os interesses dos movimento global de cidadãos exigindo que seus líderes renovem
mais pobres e dos mais vulneráveis perigam ser esquecidos. Um seu compromisso com a defesa e a promoção dos direitos
grande número de empresas, com o apoio tácito de governos que humanos. Advogados em ternos pretos no Paquistão, monges
se recusam a investigá-las ou a regulá-las efetivamente, continua com trajes alaranjados em Mianmar, os 43,7 milhões de pessoas
a escapar da responsabilidade por seu envolvimento em abusos no mundo que, em 17 de outubro de 2007, exigiram uma ação
e violações de direitos humanos. contra a pobreza, são fortes sinais, emitidos nesse ano passado,
de que uma cidadania global está determinada a defender os
Há muita retórica sobre erradicar a pobreza e pouca vontade direitos humanos e a cobrar de seus líderes responsabilidade pelo
política para agir. Pelo menos dois bilhões de integrantes de nossa que fazem.
comunidade humana continuam a viver na pobreza, lutando para
conseguir água potável, comida e moradia. Embora as mudanças Em um povoado do norte de Bangladesh, um grupo de mulheres
climáticas afetem todos nós, os mais pobres serão os mais senta sobre esteiras de bambu, em um local poeirento no centro
prejudicados, pois perderão suas terras, seus alimentos e seus da aldeia. Elas participam de um programa de formação legal.
meios de vida. Julho de 2007 marca o ponto medial do cronograma A maioria delas, mal sabe ler ou escrever. Elas ouvem com
estabelecido pela ONU para alcançar as Metas de Desenvolvimento atenção o professor que, auxiliado por cartazes com esquemas e
do Milênio. Apesar de nada perfeitas, a realização dessas metas figuras, ensina sobre uma lei que proíbe o casamento de crianças
significaria um bom caminho andado na direção de melhorar, até e que requer da mulher uma manifestação de consentimento com
2015, a saúde, as condições de vida e a educação de grande parte o casamento. Essas mulheres acabaram de receber financiamentos
das populações do mundo em desenvolvimento. O mundo, porém, por meio de um projeto de microcrédito operado por uma importante
não está no rumo certo para alcançar a maioria dessas metas ONG de desenvolvimento rural de Bangladesh (Bangladesh Rural
mínimas e, infelizmente, os direitos humanos não estão sendo Advancement Committee). Uma das mulheres adquiriu uma vaca
levados em conta nesse processo. Evidentemente, uma mudança e espera conseguir uma renda extra vendendo leite. Outra planeja
de foco e novas iniciativas são mais do que necessárias. comprar uma máquina de costura e abrir uma pequena confecção
própria. O que ela espera dessa aula? “Quero saber mais sobre os
E a liderança para erradicar a violência baseada em gênero, onde meus direitos”, diz ela. “Não quero que minhas filhas sofram o que
está? Em quase todas as regiões do mundo, mulheres e meninas eu sofri; por isso, tenho que aprender a proteger os meus direitos
sofrem com os níveis elevados de violência sexual. Na região e também os delas.” Pode-se ver nos seus olhos um brilho de
de Darfur, destroçada pela guerra, os estupros e a impunidade determinação que, por todo o mundo, está nos olhos de milhões
ainda persistem. Nos EUA, muitas sobreviventes de estupro de de pessoas como ela.
comunidades indígenas carentes e marginalizadas não conseguem
obter justiça nem proteção efetiva por parte das autoridades Neste aniversário dos 60 anos da DUDH, o poder que têm as
federais ou das tribais. Os líderes devem estar mais atentos a fazer pessoas de criar esperanças e de produzir mudanças está tão
com que os direitos de mulheres e meninas sejam realidade. vivo quanto nunca. Uma consciência de direitos humanos está
envolvendo o planeta.
Todos esses são desafios globais com uma dimensão humana.
Por isso, exigem uma resposta global. Os direitos humanos Os líderes mundiais se arriscam por ignorá-la.
reconhecidos internacionalmente oferecem a melhor estrutura
para essa resposta, pois representam um consenso global com Anistia Internacional, em solidariedade a todos os defensores de
relação aos limites aceitáveis e aos problemas inaceitáveis das direitos humanos do mundo no 60º aniversário da Declaração
políticas e das práticas governamentais. Universal dos Direitos Humanos.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos é hoje um modelo


tão apropriado para uma liderança iluminada quanto o era em
1948. Os governos, portanto, devem renovar seu compromisso
com os direitos humanos.

Populações inquietas, indignadas e desiludidas não permanecerão


silenciosas se o abismo que existe entre suas demandas por
igualdade e liberdade e a resposta dos governos a essas demandas
aumentar a cada dia. O descontentamento popular com a alta
acentuada no preço do arroz em Bangladesh, os distúrbios
causados no Egito pelo preço do pão, a violência pós-eleitoral
no Quênia e as manifestações que ocorreram na China por causa
de despejos e de questões ambientais não são apenas exemplos
da preocupação popular com temas sociais e econômicos. São
sinais da ebulição de um caldeirão de protestos dos movimentos
populares, inflamado pela traição de seus governos às promessas
que fizeram de justiça e de igualdade. * IRENE KHAN
Secretaria Geral da Anistia Internacional

68
UM ENCONTRO COM CRIANÇAS E ADOLESCENTES QUE ESTÃO
NAS RUAS – RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA INSTITUCIONAL.
MÔNICA DE ALKMIM MOREIRA NUNES*

“A criança é o princípio sem fim, o fim da criança é o princípio do a possibilidade de aquisição desses bens nunca se dá de forma
fim. Quando uma sociedade deixa matar as crianças é porque igual, principalmente com a estrutura econômica predominante no
começou seu suicídio como sociedade. Quando não as ama mundo ocidental. Portanto o controle destes grupos sociais não
é porque deixou de se reconhecer como humanidade. pode se dar apenas por uma legislação que em princípio prevê
igualdade entre pares. Segundo Gramsci “A burguesia mantêm
Se não vejo na criança uma criança, é porque alguém a violentou o controle sobre toda a sociedade não apenas através da coerção
antes e o que vejo é o que sobrou de tudo o que lhe foi tirado. política ou econômica, porém também pela cooptação ideológica,
Mas essa que vejo na rua sem pai, sem mãe, sem casa, cama por meio de uma cultura hegemônica na qual os valores
e comida; essa que vive a solidão das noites sem gente por e interesses particulares da burguesia se tornam o senso comum”.
perto, é um grito, é um espanto. Nesta estrutura, ainda segundo o autor, é preciso que o “senso
comum”, entendido como uma construção mental imposta por
Diante dela, o mundo deveria parar para começar um novo um grupo dominante torne natural a existência de privilégios
encontro, porque a criança é o princípio sem fim e o seu fim e a dominação de um indivíduo ou grupo por outro.
é o fim de todos nós.”
As consequências de uma sociedade que têm como base a
Herbert de Souza (Betinho) desigualdade e a dominação de um ser humano por outro seu
igual, são vividas diariamente pelo povo
Quando há mais ou menos 3.000 anos atrás brasileiro. Nesse contexto, deparamo-nos
o homem passou a viver em grupo, estava em “A luta pelo reconhecimento com a violência e a desesperança que
busca da proteção que a reunião de iguais poderia dos direitos fundamentais de geram a busca de soluções que cada vez
lhe dar, proteção contra animais selvagens crianças e adolescentes enquanto mais segregam e distanciam aqueles que
e contra aspectos geográficos e climáticos. “pessoa em condição peculiar inicialmente buscavam proteção ao viver
Porém viver em grupo não é apenas uma união de desenvolvimento” passa em grupos.
entre semelhantes. Estas mesmas pessoas pela garantia de promoção e
que inicialmente parecem iguais se proteção através de instrumentos O que hoje configura a sociedade brasileira
comparadas às feras que os ameaçam, normativos e políticas públicas está longe de oferecer proteção à maioria
não resolvem seus conflitos de forma linear de atendimento.” de sua população, segundo pesquisa
e precisam de regras e/ou normas de realizada pelo Centro de Políticas Sociais
condutas para que possam viver em paz e harmonia. Na busca da Fundação Getúlio Vargas divulgado em abril de 2006, intitulado
desta estrutura ideal começam a existir os primeiros grupos “Mapa do Fim da Fome II”. Conforme seus resultados, o Brasil
sociais e conseqüentemente nossas primeiras sociedades possui 56 milhões de pessoas vivendo na indigência com renda
organizadas. inferior a R$ 79,00 por mês. A situação é mais alarmante, pois
cerca de 45% dos miseráveis brasileiros têm 15 ou menos anos
Com a evolução das relações econômicas o que era delineado de idade.
como pertinente para os primeiros indivíduos não mais satisfaz os
atores que desempenham papeis fundamentais nestas primeiras Este grupo é o objeto de nosso estudo e prática, são estas as
estruturas sociais. O que antes era apenas busca de proteção crianças e adolescentes que têm seus direitos básicos restringidos
à vida e qualidade deste viver, passa a ser também proteção antes mesmo de nascerem. A luta pelo reconhecimento dos direitos
a propriedades e bens acumulados por aqueles que aparentemente fundamentais de crianças e adolescentes enquanto “pessoa
vivem em harmonia. em condição peculiar de desenvolvimento” passa pela garantia
de promoção e proteção através de instrumentos normativos
Para a preservação deste conjunto de interesses, inúmeras vezes e políticas públicas de atendimento.
conflituosos, faz-se necessária a criação de regras e leis que
controlem a participação na sociedade, é preciso que os papéis Contamos, hoje com uma legislação que lhes garante Proteção
sejam bem definidos e respeitados, com direitos e deveres claros Integral e Direitos Fundamentais através do Estatuto da Criança
para todos aqueles que pretendem viver hegemonicamente e do Adolescente lei federal 8.069/901[2], porém o que está
nestes grupos sociais. Como já foi dito anteriormente, quando previsto em lei não corresponde à prática, carecemos de políticas
está em jogo à proteção à vida ou a sua qualidade todo indivíduo e dotação orçamentária para execução da lei. A existência de
pode e deve ser tratado de forma igualitária, porém quando se crianças e adolescentes em situação de rua na cidade do Rio de
trata de proteção às propriedades a situação se inverte, pois Janeiro é a prova visual disto.
1[2]Estatuto da Criança e do Adolescente lei federal 8.069/90-Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-
lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. Art. 7º A criança e o adolescente têm direito
a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência.

69
É preciso que além das leis e normas de convivência a sociedade anos de trabalho sistemático de abordagens, em 1990 este grupo
não se acostume e ache natural a moradia nas ruas, não porque voluntário, já constituído na Associação Beneficente São Martinho,
de alguma forma isso incomoda aos moradores dos prédios ganha um espaço para realização de atividades sócio educativas
e comerciantes adjacentes, nem porque sentimos pena ou no coração da Lapa. Sob os arcos o prédio conhecido com
medo, o que acarretaria numa busca por soluções higienistas Centro Sócio Educativo passa a ser uma referência do trabalho
e repressoras, mas principalmente por entendermos que com crianças e adolescentes em situação de rua, tanto para
a existência de crianças e adolescentes vivendo em situação de a sociedade política, como para a sociedade civil. É neste contexto
rua não é um momento histórico ou um problema específico de que a equipe, já constituída por profissionais, revê e repensa sua
uma classe social e econômica, do qual somente somos atingidos prática. Como nos diz Cornelius Castoriadis (1982) “Chamamos
por seus efeitos e conseqüências. A grande questão que se coloca de práxis este fazer no qual o outro ou os outros são visados
aqui é a importância de admitirmos nossa co-responsabilidade, como seres autônomos e considerados como o agente essencial
ou seja, o fato de que essa é uma situação produzida por do desenvolvimento de sua própria autonomia... a autonomia do
todos nós que compomos a sociedade em que vivemos. outro ou dos outros é, ao mesmo tempo, o fim e o meio.”
Em outras palavras: somos “vítimas” daquilo que contribuímos
para produzir, mesmo que seja por nossa omissão enquanto No 2º semestre de 2004, buscando uma postura menos
sujeitos políticos. assistencialista e mais emancipadora, o projeto Ao Encontro
dos Meninos em Situação de Rua reformula sua estrutura
É urgente entendermos que a situação de extrema vulnerabilidade metodológica objetivando um posicionamento crítico de
social, não acesso ou ausência de direitos de uma camada tão crianças e adolescentes em situação de risco social nas ruas
expressiva em números e características de nossa sociedade, buscando a transformação da ordem social. Não podemos
não é problema dos outros, mas antes sim uma conseqüência mais ver este menino com um “indivíduo carente” que inicia sua
natural desta estrutura econômico social a qual reproduzimos história quando passa a ter contato com a Instituição, ele tem
sem questionar de países economicamente bem sucedidos. um processo anterior, que faz parte de um contexto familiar e
Apenas com este entendimento poderemos buscar soluções comunitário com inúmeras possibilidades futuras.
que realmente atendam a todos, não apenas aqueles que estão
dormindo pelas calçadas, mas também aqueles não mais passam Sendo assim, tornou-se necessário que o educador social,
por essas mesmas áreas por medo uns dos outros. compreendesse as estruturas sociais dos atendidos (familiar,
sócio-econômica, e política do país), suas fragilidades (narcotráfico,
É preciso perceber a ida para as ruas como parte de um violência nas suas diversas formas de manifestação e a miséria),
problema maior que não envolve somente aqueles que sofrem suas estratégias de sobrevivência e a dinâmica do grupo e do
as conseqüências desta sociedade produtora de tantas entorno, visto que esses fatores estimulam a ida para as ruas,
desesperanças. Quando nos propomos a trabalhar com este é este profissional que através das abordagens estabelece uma
público, não queremos, com isso, nos limitar a busca de soluções relação de confiança e troca com crianças e adolescentes que
individuais que resolvam apenas o problema daquele que está na estão no centro e zona sul do Rio de Janeiro.
rua. Queremos, através destas crianças e adolescentes, promover
uma indignação social que não fique aguardando promessas de A metodologia utilizada nas abordagens se inspira em alguns
um futuro melhor, que ajam, transformem e reivindiquem seus autores e teóricos da sociologia, antropologia e pedagogia.
espaços de igualdade de direitos. Um de nossos mais importantes inspiradores é Paulo Freire com
sua crença de “que há uma relação indissociável entre a educação
Partimos da definição de que criança e adolescente em situação e a política... A autêntica educação é política. A prática educativa,
de rua é todo aquele que vive permanentemente nas ruas ou que, a formação humana, implica opções, rupturas e decisões
mesmo possuindo referência familiar têm nas ruas atividades a favor de algum sonho.” Nesse sentido, o projeto investe na
de subsistência ou referências afetivas que o leve a pernoites consciência crítica dos atendidos. É preciso que nós reflitamos sobre
contínuos. questões como cidadania, direitos e deveres, responsabilidade
individual, familiar e governamental. É fundamental, sobretudo,
O trabalho que a Associação Beneficente São Martinho realiza com que essas crianças e adolescentes voltem a sonhar, a desejar,
crianças e adolescente em situação de rua há 25 anos passou a investir em um futuro promissor, como qualquer criança
por um longo processo transformador de postura ideológica e faz. Nas atividades realizadas nas ruas os educadores não
conseqüentemente de análise metodológica. pretendem levar respostas ou posturas ideais, se questionam
e questionam junto com os meninos essas categorias que
A história da instituição se confunde e entrelaça com a história impõem idéias e ideais preconcebidos. O educador é um
da sociedade civil organizada no município do Rio de Janeiro. fomentador, mediador e participante destes debates, não se
Quando em 1984 um grupo de voluntários, sensibilizado com a coloca à margem da discussão e muito menos como observador.
situação em que viviam dezenas de crianças e adolescentes que Ele é parte desta organização social e busca soluções que
perambulavam pela Praça Tiradentes e Estação Rodoviária passa reestruture e não adapte os ditos “marginalizados”. As estratégias
a estar diariamente com este público, deu-se início ao trabalho de utilizadas para promover esses momentos de discussões
abordagem nas ruas da cidade. Ainda sob um olhar assistencialista, são: arte-educação, com leituras de livros, jornais e criação
os voluntários se disponibilizavam a oferecer comida, materiais de estórias; esporte dando ênfase nos jogos coletivos e a cultura
de higiene e roupas para os meninos que lá estavam. Após seis incluindo música e capoeira.

70
Contudo observamos que as comunidades que abrigam em suas e legalmente não respondem a contento nossos anseios e para
calçadas crianças e adolescentes se sentem incomodadas com isso delegamos a grupos que se utilizam das mesmas armas
a situação e esperam que o problema seja resolvido. Porém, que aqueles que nos agridem, estamos assim instituindo o caos
é no momento da solução que elas se dividem: enquanto público e regredindo ao estado primitivo da lei do mais forte e “do
alguns desejam, apenas, deixar de ver as crianças ali, outros se olho por olho dente por dente”.
preocupam com o motivo que as levaram a esta situação e o que
pode ser feito para que elas tenham qualidade de vida o que será, Dentro desta nova desordem pública os mais atingidos são aqueles
certamente, em outro lugar. que não podem pagar por essa fugaz sensação de segurança
e que historicamente já vivenciam a ausência de direitos básicos,
Com o primeiro grupo é preciso realizar um trabalho de também pagos por quem pode como educação e saúde de
conscientização que não pode se basear, apenas, no discurso qualidade, moradia e a também desejada segurança.
já tão desgastado pela ausência de solução. É preciso mostrar-
lhes as habilidades e competências que essas crianças É esse o público com o qual a São Martinho trabalha por não
e adolescentes têm quando estimuladas. Uma alternativa é realizar acreditar em uma estrutura social que identifica crianças
o que chamamos “abordagem coletiva”. Nesse espaço, a equipe e adolescentes como um caso de polícia.
vai para as ruas (coordenadora, assistente social, psicóloga,
pedagoga, médico, dentista e enfermeira) é um momento onde Referências Bibliográficas:
realizamos apresentação de capoeira, música, desenhos e peça – Castoriadis, Cornelius. A Instituição imaginária da sociedade,
de teatro, com a participação de todos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982
– Costa, A.C.G. e outros.Brasil criança urgente. Belo Horizonte:
É preenchido, também pela equipe um formulário chamado Columbus Cultural, 1993
de marco zero, onde é anotada a percepção das relações, hostis – Freire, Paulo. Educação como prática da Liberdade, Rio de
ou não, dos atores sociais do entorno com relação às crianças Janeiro: Paz e Terra, 1983
e adolescentes em situação de rua. É muito importante que – Graciani, Maria Stela S. Pedagogia social de rua. São Paulo:
possamos levar a reflexão sobre a situação de moradia nas Cortez, Instituto Paulo Freire, 2001
ruas para aqueles que moram nas calçadas e para os que moram – Gramisci, A. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização
nos prédios. Brasileira, 199-2002,v2
– Pereira, Pedro. Proteção dos Direitos Humanos-dilemas e
Quando esta reflexão leva aos meninos um desejo de mudança desafios para a cidadania de criança e adolescentes no contexto
de sua situação eles realizam, com a equipe técnica, atendimento da Baixada Fluminense. Rio de Janeiro, 2006
psicossocial iniciando o processo de saída das ruas e conseqüentes – Pizá, Graça & Barbosa, Gabriela F. coordenação. A violência
busca dos direitos que lhes foram negados como retirada de silenciosa do incesto, Rio de Janeiro: Clinica Psicanalítica da
documentos, retorno à escola e ao convívio familiar e comunitário. Violência, 2004
Muitas vezes esse processo é bastante difícil, pois os problemas – Rizzini, I. Vidas nas Ruas– crianças e adolescentes nas
que os levaram a ir para rua permanecem em suas comunidades ruas:trajetórias inevitáveis? Rio de Janeiro:PUC
de origem: faltam de vagas nas escolas, emprego, violência – Sousa, Dario – pesquisa. Perfis e trajetórias de crianças e
familiar e envolvimento com o tráfico. Para isso a articulação adolescentes que vivem nas ruas da zona sul carioca e Barra da
com programas governamentais existentes e instituições não Tijuca. Rio de Janeiro: UERJ, 2007
governamentais que atuam nessas áreas é fundamental.

A vida na rua hoje, não difere muito dos 24 anos passados de


atendimento da São Martinho. É uma realidade difícil em que
precisamos enfrentar a violência explícita e física da polícia e do
governo com ausência de políticas voltadas para garantia dos
direitos básicos previstos na lei e também enfrentar a sociedade
com sua violência implícita de olhares de medo e negação da sua
parcela de responsabilidade neste quadro geral de vivência nas
ruas ou pelas ruas.

A busca de soluções por parte destes grupos que realmente


poderiam criar caminhos dignos de vida comunitária se dá sempre
através da repressão dos mecanismos de segurança. E hoje com
acúmulo de “forças majoritárias clandestinas”, o crescimento da
atuação das milícias nas comunidades do Rio de Janeiro é um
exemplo desta força.

Acreditar que a solução para problemas de segurança não passa


pelas esferas governamentais, é um descrédito da organização *MÔNICA DE ALKMIM MOREIRA NUNES
da própria sociedade. Se aqueles que nos representam oficial Pedagoga, Pós-Graduada em Filosofia da Educação, Coordenadora do Projeto Ao Encontro dos Meninos em
Situação de Rua da Associação Beneficente São Martinho no período de 2004 a 2008.

71
A REFORMA DAS PRISÕES, A LEI DO VENTRE LIVRE
E A EMERGÊNCIA DA QUESTÃO DO “MENOR ABANDONADO”.1
ESTHER MARIA DE MAGALHÃES ARANTES*

Durante os primeiros séculos da colonização portuguesa, a prática para o exercício pleno da cidadania. Foi quando crianças pobres
em relação à criança indígena era a de separá-la de sua família passaram a ser encontradas nas ruas brincando, trabalhando,
para moldá-la aos costumes ditos civilizados e cristãos, e em pedindo esmolas ou eventualmente cometendo pequenos furtos.
relação à criança negra era a de sua incorporação como força de
trabalho escrava, tão logo atingisse a idade dos sete anos. Quanto Não se querendo reconhecê-las como tendo os mesmos direitos
à assistência, limitava-se ao recolhimento de expostos e órfãos e status dos “filhos de família”, situação tradicionalmente reservada
em instituições caritativas. Não existia, àquela época, “a criança”, apenas aos bem nascidos socialmente, mas ao mesmo tempo não
pensada como categoria genérica, em relação à qual se pudesse se podendo acusá-las de “criminosas”, por não haverem cometido
deduzir algum direito universal, pois não existia o pressuposto da infração alguma às leis penais, o que teria permitido recolhê-las
igualdade entre as pessoas, sendo a sociedade colonial construída aos estabelecimentos carcerários, um novo arranjo tutelar terá
justamente na relação desigual senhor/escravo2. que ser inventado a partir da identificação destas crianças pobres
como “menores abandonados” e potencialmente “perigosos”,
O que existiam eram categorias diferenciadas de crianças ou seja, “órfãos de pais vivos” e “futuros criminosos”. Caberia
como os “filhos de família”, os “meninos da terra”, os “filhos dos então ao Estado, neste novo arranjo, assisti-los caritativamente
escravos”, os “órfãos”, os “expostos”, os “desvalidos”; ou ainda, como aos órfãos e expostos e, ao mesmo tempo, corrigi-los
os “pardinhos”, os “cabrinhas”, os “negrinhos”. e regenerá-los como aos condenados, só que preventivamente e
com a justificativa de sua proteção.
Os “filhos legítimos de legítimo matrimônio
cristão” não colocavam problemas à ordem “A Proteção Integral, de que trata Assim e retrospectivamente, até os
social, pois que, justamente, encontravam-se o Estatuto, se organiza em torno anos 1870, nenhuma problematização
sob o controle do “pai de família”, que tinha de três fundamentos ou princípios ou inquietação em relação a menores
poderes quase ilimitados. Da mesma forma, básicos, sem os quais não existe ditos abandonados é encontrada nos
os meninos da “terra”, contidos nos colégios tal Proteção Integral: crianças documentos oficiais do Império4. O que traz
jesuítas e os “negrinhos”, propriedades e adolescentes são sujeitos de preocupação, por um lado, é a situação
do senhor, encontravam-se controlados direitos, são pessoas em condição dos órfãos e dos expostos, objetos
socialmente através destas relações de posse peculiar de desenvolvimento, da assistência caritativa, e por outro,
e assujeitamento. Os “expostos” e os “órfãos”, são prioridades absolutas.” a situação dos menores nas
embora sem o suporte familiar, encontravam prisões, quando sujeitos às leis
nos estabelecimentos mantidos pela caridade, como as Casas da penais. “Menor”, como aparece nos documentos,
Roda e os Recolhimentos das Órfãs, o seu guardião legal. é apenas uma variável de identificação nas estatísticas policiais,
que separavam os presos e os réus entre homens e mulheres, livres
Naquela época, as categorias que colocavam problemas à ordem e cativos, nacionais e estrangeiros, casados e solteiros, maiores
social eram as gentes sem eira nem beira – os “mendigos”, os e menores de idade. Quando muito, os documentos lembravam
“viciosos”, os “vadios” – fenômeno tão bem descrito por Laura que os condenados menores de idade não deveriam ficar presos
de Mello e Sousa no livro “Os desclassificados do ouro”. Essa juntos com os condenados maiores de idade, da mesma forma que
gente desclassificada não tinha como se inserir na estrutura dual as mulheres deveriam estar em prisões distintas dos homens.
da sociedade colonial. Não eram escravos propriamente, porque
não haviam sido comprados e também não eram senhores, não A categoria “menor abandonado” só emergirá no Brasil no bojo
podendo ocupar posições na estrutura burocrática e administrativa da discussão sobre a reforma das prisões e após a Lei do Ventre
da Colônia. Existiam como uma espécie de “mão de obra de Livre e não, como se poderia supor a princípio, pelo viés da
reserva escrava”, temidos como sendo “a pior raça de gente”, mas caridade. Os estabelecimentos caritativos, à época, não se
ao mesmo tempo reserva útil, objeto de recrutamentos forçados preocupavam com os menores condenados, dedicando-se
sempre que o Estado necessitasse de milícias para o combate apenas aos órfãos e expostos. Essas categorias de crianças,
aos quilombolas e aos índios, ou para a construção de estradas, inclusive, são tratadas em Relatórios Ministeriais distintos:
prisões e demais edificações e serviços3. as estatísticas e considerações sobre os órfãos, expostos
e desvalidos são apresentadas nos Relatórios do Ministério
O problema modifica-se inteiramente quando os escravos, do Império sob a rubrica “instituições de caridade”, e as
a partir da Lei do Ventre Livre (1871) e da Abolição da Escravatura considerações sobre os menores de idade sujeitos à lei
(1888), adquirem a condição de livres e, portanto, de “filhos” penal, nos Relatórios do Ministério da Justiça, sob a rubrica
e “pais de família”, sem, contudo, adquirirem as condições materiais “polícia” ou “prisões”5. Órfãos e expostos apenas são tratados nos
1 Para a confecção deste texto utilizou-se de material que já vem sendo pesquisado há 20 anos, em diferentes arquivos, como parte de um projeto sobre a História da Assistência à Infância no Brasil. Alguns destes achados de pesquisa já
estão disponíveis em publicações diversas, conforme indicação bibliográfica nas Notas.
2 Um dos objetivos da catequização dos povos indígenas foi justamente o de salvá-los de um suposto estado de inferioridade humana, civilizatória e espiritual: povos “sem Rei, Lei e Fé”. O “próximo” não era, portanto, qualquer outro
humano, mas um súdito do Rei de Portugal e um cristão temente a Deus.
3 Ver: Direitos Humanos: um retrato das unidades de internação de adolescentes em conflito com a lei. Conselho Federal de Psicologia – 3ª Edição Especial para a VII Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, 2007.
4 Exceção é feira ao Decreto N. 1.331-A, de 17 de fevereiro de 1854, estabelecendo casas de asilos para os meninos encontrados em estado de pobreza. No entanto, apenas em 1875, justamente após a Lei do Ventre Livre, foi inaugurado no
Rio de Janeiro o Asilo de Meninos Desvalidos.
72
Relatórios do Ministério da Justiça quando vítimas: o órfão, quando o trabalho ou aquele trabalho. Alguns outros tiveram filhos, que
sua educação for negligenciada ou sua herança mal administrada foram colocados na Casa dos Expostos. Outros ainda foram
ou surrupiada pelo tutor, e o exposto, quando encontrado na via enviados para o Hospício Nacional dos Alienados, ou faleceram.
pública, sujeito às intempéries do tempo, morto ou podendo vir
a falecer, ou quando jogados ao mar forem devolvidos às praias. A República, longe de mudar o foco desta discussão e reverter
este processo, o aprofundou, buscando instituir uma legislação
O que se constata, ao longo de todo o Império, é uma preocupação específica para os ditos menores, visando, sobretudo, o controle
constante com as mudanças na legislação penal e com a reforma daqueles considerados “moralmente abandonados”. Assim,
do sistema carcerário que deveria advir como consequência o Código Penal de 1890, apenas um ano após a Proclamação da
dessas mudanças, uma vez que a penalidade mais comum passa República (1889), regulamentou a idade da imputabilidade penal
a ser a privação da liberdade e não mais as penas de morte, em nove anos, permitindo o envio de crianças e adolescentes para
degredo e galés. Ao mesmo tempo em que se elogia o progresso as casas de detenção. Ao não abolir, mas apenas regulamentar
civilizatório que as novas leis representam, equiparando-se a idade para o trabalho infantil, a República também permitiu que
o Brasil aos países do primeiro mundo, tais leis são constantemente crianças e adolescentes ficassem fora da escola regular.
combatidas, na medida em que se acredita que elas atrapalham
o trabalho da polícia, servindo mais para proteger os malfeitores Construiu-se, desta forma, sobre a base da regulamentação
que os cidadãos honrados, além de que, com as prisões da idade penal e da regulamentação do trabalho infantil, da
superlotadas, pela primeira vez depara-se o Estado com uma possibilidade de destituição do pátrio poder em relação a
massa carcerária a ser administrada, passando as prisões alguns menores e da internação dos mesmos menores em
a serem definidas como “escolas do crime”. estabelecimentos correcionais e de reforma, um sistema dual no
atendimento às crianças, uma vez que, enquanto o Código Civil
É neste contexto - em que se discute a situação das prisões de 1916 tratava dos “filhos de família”, o Código de Menores de
e a criação de um sistema penitenciário em virtude das novas leis 19276 tratava dos menores “abandonados” ou “delinquentes”,
penais e do processo, onde o acusado adquire o direito de se entre os quais: “expostos”, “mendigos”, “vadios”, “viciosos”
defender e impetrar recursos, e a pena deixa de ter o caráter de e “libertinos”.
vingança e adquire a função de regeneração, e apenas após as leis
abolicionistas, quando cresce o número de pessoas pobres vivendo Embora não se possam estabelecer apenas rupturas entre estes
e trabalhando nas ruas das grandes cidades - que a justificativa dois modelos de assistência – coexistindo muitas vezes o mesmo
para a apreensão da criança pobre será formulada, definindo-a propósito de controle social e o mesmo método de confinamento
como “abandonada”, passando a ser voz comum a idéia de que - podemos afirmar, no entanto, que o sistema caritativo, de
deveriam ser encaminhadas às “instituições preventivas”. natureza religiosa e asilar, ocupava-se basicamente da pobreza,
motivado principalmente pelo dever de salvação das almas. Já
A dificuldade de se administrar a questão prisional passa a filantropia dita esclarecida, de natureza cientificista e favorável
a decorrer diretamente do “problema do menor”, o que servirá a uma assistência estatal, tendeu sempre a uma gestão técnica
como justificativa “científica” para que os “menores criminosos”, dos problemas sociais, ordenando os desvios a partir de um
mas não sujeitos à lei penal por não terem agido com discernimento modelo de normalidade que definia a criança pobre quase
e os menores que nenhum crime haviam cometido mas eram sempre como “carente”, “anormal”, “deficiente”, “perigosa”
considerados “mendigos”, “ociosos” e “vadios” pudessem ser ou “delinquente”.
encaminhados às escolas correcionais e de reforma mediante
a suspensão ou destituição do pátrio poder, ou a pedido dos Tal a abrangência deste sistema dito de proteção à infância que,
próprios pais, por serem os filhos considerados “desobedientes” praticamente, cobria todo o universo de crianças e adolescentes
ou “incorrigíveis”, ou a pedido da mãe viúva, por se sentir incapaz pobres, pois que à existência do “menor” correspondia uma
de sustentar os filhos ou de proteger a honra da filha. Ao serem suposta família “desestruturada” - por oposição ao modelo
recolhidos nas ruas pela polícia e levados à presença do Juiz de burguês de família tomado como norma - à qual a criança pobre
Órfãos para receberem “destino”, a grande maioria destes menores sempre escapava: seja porque não tinha família (“abandonada”
foi encaminhada ao trabalho, mediante soldada. ou “órfã”); porque a família não podia assumir funções de
proteção (“carente”); porque não podia controlar os excessos
Recebendo como “destino” o trabalho em casas de família, da criança (“conduta anti-social”); porque os comportamentos
fábricas ou fazendas, ou encaminhados às escolas de aprendizes e envolvimentos da criança ou do adolescente colocavam em
de Guerra ou Marinha, sofrendo muitas vezes abusos de todas as risco sua segurança, da família ou de terceiros (“infratora”); seja
espécies, constituía este aprendizado do trabalho uma modalidade porque a criança era dita portadora de algum desvio ou doença
de “servidão das crianças” ou “sequestro da infância pobre” em com a qual a família não podia ou sabia lidar (“deficiente”,
tempo de pós-abolição e mão-de-obra escassa - só lhes restando “doente mental”, com “desvios de conduta”); seja ainda porque,
a alternativa da fuga do cativeiro, o que muitos realizaram, sendo necessitando contribuir para a renda familiar, fazia da rua local
recapturados e novamente evadidos. Outros foram devolvidos ao de moradia e trabalho (meninos e meninas “de rua”); ou ainda
Juiz, por “não aprenderem o trabalho” ou por não aprenderem porque, sem um ofício e expulsa/evadida da escola ou fugitiva
a “disciplina do trabalho”, por apresentarem alguma doença do lar, caminhava ociosa pelas ruas, à cata de um qualquer
ou incapacidade, por terem sido acusados de furto ou de maus expediente (“perambulante”)7.
hábitos, por terem sido defloradas, porque não mais desejavam No entanto, em que pese o artifício de transformar pobreza em

5 Esta situação se modificará na República, quando as atribuições do Ministério do Império forem repassadas ao Ministério da Justiça, unificando as duas pastas.
6 Decreto Nº 17943-A, de 12 de outubro de 1927 – Consolida as leis de assistência e proteção a menores (Código de Menores de 1927).
7 Ver: ARANTES, Esther Maria M.. Rostos de Crianças no Brasil. In: A Arte de Governar Crianças. RIZZINI, Irene e PILOTTI, Francisco (organizadores). Rio de Janeiro: Instituto Interamericano Del Niño; Editora Universitária Santa Úrsula; AMAIS
Livraria e Editora, 1995.

73
abandono, o problema da assistência à infância permaneceu que nunca, estes princípios devem vir juntos8.
sempre por ser devidamente equacionado, na medida em que ao
definir este abandono de maneira abrangente a legislação fazia Este é o desafio posto para todos nós: o de entendermos
com que a rede de atendimento tivesse por objetivo abarcar todos o caráter ético, jurídico, político e social do Estatuto da Criança
os efeitos da pobreza, subsumindo funções de abrigo, casa, e do Adolescente, uma vez que esta Lei assegura à criança
escola, hospital e prisão. Se isto, por um lado, sempre permitiu e ao adolescente a condição de sujeito de direitos sem abolir
a seus agentes um poder muito grande sobre os menores pobres a sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Não se
e suas famílias, por outro, tal empreitada sempre esbarrou não trata, evidentemente, de infantilizar as crianças e os adolescentes
apenas nos minguados recursos disponíveis para a assistência e de reduzi-los à condição de objeto que por tanto tempo lhes
como também em dificuldades de natureza ética e política, foi imposta, numa retomada do chamado “menorismo”, mas
e mesmo jurídica. Aquilo que se tornava visível pela atuação apenas de assegurar, ao mesmo tempo e no mesmo movimento,
técnica como “desestruturação familiar” (crianças nas ruas ou a condição da criança e do adolescente como sujeito de direitos,
separadas em diferentes lares e internatos; mães solteiras ou pessoa em desenvolvimento e prioridade absoluta.
distantes geograficamente de seus companheiros; pais ou mães
desempregados ou internados em hospitais gerais, psiquiátricos Dado este caráter inovador e único do Estatuto da Criança e do
ou encarcerados em presídios; pais mortos ou desaparecidos; Adolescente, sua aprovação gerou intenso otimismo nos militantes
crianças pequenas cuidadas por irmãos apenas um pouco mais de Direitos Humanos, depositando-se grande esperança nos
velhos; etc.) era, na grande maioria das vezes, a própria condição Conselhos de Direitos e Tutelares, principalmente pelo princípio da
de existência e sobrevivência das famílias pobres no Brasil. participação popular, também estabelecido no Estatuto.

Desta forma, o que se encontrava em jogo na assistência à infância Decorridos 18 anos de sua aprovação, no entanto, forçoso
no Brasil, ao longo de quase todo o século XX, não era a noção reconhecer que as mudanças até agora obtidas não têm
científica (ou supostamente científica) de criança e nem mesmo correspondido aos sonhos e esperanças de todos aqueles que
o seu correlato jurídico menor de idade, mas a constituição de lutaram para que a Doutrina da Proteção Integral fosse incorporada
uma dupla infância ou de um duplo estatuto de menoridade ao ordenamento jurídico brasileiro. Em nome do equilíbrio fiscal e do
(a criança e o menor) - forjados em relações de exploração cumprimento de metas pactuadas com organismos internacionais,
e violência existentes na sociedade, mas sempre em nome de a partir da década de 1990, o Brasil diminuiu consideravelmente
sua proteção. os gastos com as políticas sociais básicas, inviabilizando, na
prática, o cumprimento da Constituição e do Estatuto. A crise que
Foi para romper com esta lógica e com estas práticas que se instalou, a partir daí, combinou desemprego, desesperança
os movimentos sociais e demais organizações da chamada e violência, onde os jovens pobres do sexo masculino tem sido as
sociedade civil, no bojo da mobilização pelo fim da Ditadura Militar maiores vítimas, sendo que grande parte das mortes nesta faixa
e pela democratização do Brasil, iniciaram ampla mobilização etária acontece por motivação externa: acidentes e assassinatos9.
em torno dos direitos humanos e de cidadania dos diferentes Há que se ressaltar, no Rio de Janeiro, a letalidade dos confrontos
grupos marginalizados da população brasileira, entre os quais a partir da chamada “guerra às drogas”, sendo que também os
os chamados “menores”. À medida que se pode efetivamente presídios e unidades do sistema sócio-educativo encontram-se
questionar o modelo de assistência até então vigente, tornou-se organizados pela lógica das “facções”.
possível a emergência de novas proposições. Na redação do artigo
227 da Constituição Federal de 1988, o Brasil adotou não apenas Nesta conjuntura, onde faltam recursos para a garantia dos
a Declaração Universal dos Direitos da Criança, como também direitos sociais ou onde tais recursos não são priorizados frente às
o pré-texto da Convenção destes mesmos direitos, que, naquela exigências de controle fiscal, cresce o número de pessoas favoráveis
data, ainda não havia sido apresentado à Assembléia Geral das a um endurecimento da legislação e do rebaixamento da idade
Nações Unidas. Ao assim proceder, aboliu o Código de Menores penal, divulgando-se insistentemente, como causa do aumento da
de 1979 e, em seu lugar, em 13 de julho de 1990, promulgou violência, uma suposta impunidade proporcionada pelo Estatuto,
o Estatuto da Criança e do Adolescente - Lei Federal 8.069, que cuja única finalidade seria a de “proteger bandidos” – criando na
dispõe sobre a Proteção Integral à criança e ao adolescente, população uma indiferença face ao trágico destino de milhares
conforme seu Art. 1º. de jovens pobres, tanto dos que são executados sumariamente
quanto dos que se encontram privados de liberdade.
A Proteção Integral, de que trata o Estatuto, se organiza em
torno de três fundamentos ou princípios básicos, sem os quais Quanto a esses argumentos, talvez a história possa ainda nos
não existe tal Proteção Integral: crianças e adolescentes são ajudar. Interessado em estabelecer as bases da Assistência
sujeitos de direitos, são pessoas em condição peculiar de Pública, o Ministro da Justiça e Negócios Interiores J. J. Seabra
desenvolvimento, são prioridades absolutas. É condição para incumbiu, em 1905, o então secretário da Escola Correcional
esta Proteção Integral que estes três princípios venham juntos e Quinze de Novembro, Franco Vaz, posteriormente seu Diretor, de
nunca separados, não se devendo opor, por exemplo, “proteção estudar o assunto e apresentar a tal respeito um trabalho, no prazo
especial” e “responsabilização”, no caso do adolescente autor de seis meses. Franco Vaz apresentou um longo relatório intitulado
de ato infracional, bem como não se devendo opor “sujeito de “A infância abandonada”, dividido em duas partes: a primeira
direitos” e “pessoa em condição peculiar de desenvolvimento”, trata do que denomina “abandono material”, na qual estuda
particularmente em situações de vulnerabilidade, quando, mais do a mortalidade infantil, suas causas e remédios; na segunda, trata

8 Ver: Nogueira Neto, Wanderlino. Direitos Humanos. In: Justiça Juvenil sob o marco da proteção integral. Caderno de textos. São Paulo: ABMP, 2008.
9 Vide Mapa da Violência.

74
do “abandono moral”, onde se ocupa das crianças consideradas
vadias, delinqüentes, viciosas que “enchem, dia a dia, as cadeias
e os sítios lúgubres”.

Para confeccionar o seu Relatório10, Franco Vaz visitou os


diversos estabelecimentos onde havia crianças e jovens no Rio
de Janeiro. Em visita à Casa de Detenção, constatou a presença
de 18 menores com idade entre 10 e 18 anos, cujos motivos da
detenção foram: ter atirado uma pedra num comerciante que
o agredira, ter sido apanhado perambulando ou dormindo na rua
à espera de trabalho, estar à noite em companhia de uma mulher
em um bar, estar perdido e confuso mentalmente sem saber
o caminho de volta para casa ou ainda ser encontrado nas
ruas vendendo jornais.

Se dizendo profundamente magoado com a situação daqueles


“pobres irresponsáveis”, mas assinalando não ser possível banir
a miséria da face da terra, nem democratizar a democracia, nem
abolir as diferenças sociais ou mesmo propor a escola pública
para todos, propõe então que sejam tomadas medidas enérgicas
contra a desordem familiar, o jogo, o alcoolismo, a prostituição,
e também que fossem autorizadas medidas mais duras como
processo rápido e sumário, supressão da fiança, reclusão em
colônias correcionais e prisão celular para nacionais e deportação
para estrangeiros, propondo, ainda, que a penalidade para os
menores passasse a ser indeterminada, para que pudessem
permanecer nos estabelecimentos correcionais pelo tempo que
fosse preciso para sua regeneração. Propôs, finalmente, que
o Estado assumisse a tutela de todos os menores moralmente
abandonados, anulando, se necessário fosse, o poder paterno; e
que a criança, quando encaminhada pela autoridade à Detenção,
deveria ser colocada inicialmente em regime celular, sendo a cela
um remédio eficaz contra o desregramento infantil, preparando o
organismo da criança para receber os efeitos benéficos da escola
de reforma e preservação.

Não se lembrou Franco Vaz, no entanto, de abrir as portas da


cadeia, pois os meninos nenhum crime haviam cometido.

* ESTHER MARIA DE MAGALHÃES ARANTES


Professora da UERJ e PUC-Rio.

10 Sobre Franco Vaz, consultar a importante Dissertação de Mestrado de Maria de Fátima Bastos Menezes Migliari, intitulada “Infância e adolescência pobres no Brasil. Análise social da ideologia”. Defendida no Departamento de Sociologia e
Política da PUC-Rio, em novembro de 1993.

75
BREVES NOTAS SOBRE A INCONSTITUCIONALIDADE
DA MEDIDA DE INTERNAÇÃO.
RAFAEL CAETANO BORGES*

Ainda hoje há quem acredite que o Estatuto da Criança e do pela pedagogia da segregação se livrará de todos os males que
Adolescente possui um caráter exclusivamente socioeducativo. o aflige, é compreensível e até desejável que sua medida seja
Se nem mesmo a teoria dá amparo à falácia, o que se dizer da aquela necessária para realizar os inúmeros benefícios a que se
prática? Sob o manto de boas intenções manifestas e ao arrepio propõe. Se, diversamente de seus congêneres, o poder punitivo
da Constituição da República de 1988 a nossa juventude pobre empregado contra a juventude cumpre as funções positivas
é vítima do poder punitivo estatal oficial desde os doze anos de declaradas nas bases teórica e legislativa que lhe dá sustentação,
idade. A despeito dessa realidade, que salta aos olhos até do melhor que o deixemos livres das amarras constitucionais.
observador mais desatento e insensível, a mídia hegemônica A bem da verdade, não tem outra serventia a repetição do credo
e todo senso comum que a acompanha seguem por aí maldizendo ressocializante senão a de ocultar “a natureza dolorosa da pena
a inimputabilidade dos menores de idade e as intenções e chega mesmo a negar-lhe o próprio nome, substituído por
supostamente protetivas da lei nº 8.069/90. sanções ou medidas”4. Negar que a pena, concretamente e em
sua forma de privação de liberdade, seja também sanção típica do
Não se pode negar, todavia, que é o próprio Estatuto da Criança e do direito menorista pode redundar em prejuízos para o adolescente,
Adolescente o ponto de partida desta incompreensão. Ao anunciar, que por esta razão não tem para si resguardado todos os direitos
por exemplo, em seu artigo 100, que “na aplicação das medidas atinentes a sua condição de sentenciado. E em que pese não
levar-se-ão em conta as necessidades pedagógicas, preferindo- ostente os títulos que a legislação reserva aos maiores de idade
se aquelas que visem ao fortalecimento dos – réu, acusado e criminoso – os espaços
vínculos familiares e comunitários” a legislação onde a Justiça da Infância e da Juventude
especial não foi sistemática e tampouco coerente. “E as similitudes entre deposita sua clientela guardam notável
Isto porque fez incluir dentre as medidas os diversos relatórios semelhança com as penitenciárias e casas
socioeducativas do capítulo IV a internação, “que estaduais que, ao de custódia do país.
constitui medida privativa de liberdade” (artigo final, deram origem
121). A contraditória atribuição de finalidades à publicação conjunta Havendo ainda quem duvide disso, convida-
pedagógicas ao encarceramento conduziu parte do CFP e da OAB, se para uma leitura breve de trechos dos
da doutrina a conclusões equivocadas: jamais poderiam relatórios que em 2004 e em março de
ser lidas como 2006 produziram, respectivamente, a
“as medidas socioeducativas não podem mera coincidência.” Human Rights Watch e o Conselho Federal
ser encaradas como penas, dada a de Psicologia em parceria com a OAB.
preponderância de seu aspecto e finalidade pedagógica.
Desta feita, devem ter sua aplicação condicionada às O primeiro, cujo objeto de análise se restringiu aos centros de
necessidades pedagógicas e voltada ao fortalecimento dos detenção juvenil da cidade do Rio de Janeiro e um de Belford
vínculos familiares e comunitários do adolescente”1; Roxo, oferece resumo contundente daquilo que estas unidades
representam:
“Os métodos para tratamento e orientação tutelares são
pedagógicos, psicológicos e psiquiátricos, visando, “Os centros de detenção juvenil do Rio de Janeiro estão
sobretudo, à integração da criança e do adolescente em superlotados, são imundos e violentos e não conseguem
sua própria família e na comunidade local”2. garantir, em praticamente nenhum aspecto, a proteção dos
direitos humanos dos jovens (...)
Ao mesmo passo que se dá ênfase ao inexistente caráter Além dos espancamentos e dos freqüentes abusos verbais,
socioeducativo das medidas deixa-se de reconhecer a natureza os jovens em muitos destes centros de detenção são
eminentemente sancionatória e retributiva da privação da liberdade trancafiados em suas celas por períodos de uma a duas
juvenil. Como nenhum outro instrumento de controle social, logrou semanas como punição pelos delitos considerados graves
muito êxito o Estatuto ao atribuir às suas sanções “uma função (...). Esta determinação é feita exclusivamente a critério dos
positiva de melhoramento do próprio infrator”3. Esta profissão de monitores: não há nenhuma audiência, nenhum direito de
fé nas teorias da prevenção especial positiva está bem explícita recurso e, aparentemente, nenhuma orientação que os
no artigo 121, § 2º da lei nº 8.069/90, cujo conteúdo ressalva monitores devem seguir para aplicar a punição. (...)
que a medida de internação “não comporta prazo determinado, Os centros de detenção juvenil do estado não atendem aos
devendo sua manutenção ser reavaliada, mediante decisão requisitos básicos de saúde e higiene. Os jovens às vezes
fundamentada, no máximo a cada seis meses”. Em sendo usam as mesmas roupas durante três semanas antes de
a privação da liberdade um bem para o adolescente infrator, que serem lavadas (...). À noite, têm que defecar e urinar em
1 Melfi, Renata Ceschin, O adolescente infrator e a Imputabilidade Penal, Rio de Janeiro, Lumen Iuris, 2008, p. 143.
2 Liberati, Wilson Donizeti, Comentários ao Estatuto da Criança e do Adolescente, São Paulo, Helvética, 1995, p. 80 apud Melfi, Renata Ceschin, O adolescente infrator e a Imputabilidade Penal, Rio de Janeiro, Lumen Iuris, 2008, p. 143.
3 Zaffaroni, Eugênio Raul, Batista, Nilo, Alaglia, Alejandro, Slokar, Alejandro, Direito Penal Brasileiro, v. I, Rio de Janeiro, Revan, 2003, p. 125.
4 Op. cit., p. 126.

76
sacos de plástico porque os monitores não o deixam sair 15 minutos por dia e que, às vezes, nem saem. (...)
das celas para ir ao banheiro”5. Um adolescente mostrou sinais de traumatismo toráxico
e afirmou ter sido efeito de espancamento; outros relataram
Patético que dentre as recomendações encaminhadas ao governo ter sofrido tapas, socos e castigos. Reclamam que, às vezes,
do Estado tenha sido incluída a de “providenciar sabão para os a troca de roupas é feita de dez em dez dias”15.
jovens, bem como oportunidades adequadas de se banharem” . 6

Diante de violações tão flagrantes a direitos e garantias E as similitudes entre os diversos relatórios estaduais que, ao final, deram
fundamentais previstas na Constituição da República de 1988 origem à publicação conjunta do CFP e da OAB, jamais poderiam
(v.g: artigo 5º, inc. XLVII, “e”, inc. XLIX) e em inúmeros documentos ser lidas como mera coincidência. Retratam o absoluto desprezo
internacionais7 – os quais, internalizados pelo direito pátrio (art. do Estado brasileiro pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e o
5º, inc. LXXVIII, § 3º), são equivalentes a emendas constitucionais resultado da ausência total de políticas públicas na área. Registram-se,
– soam risíveis certos direitos que o legislador infraconstitucional apenas como exemplos, as observações mais representativas:
elencou no artigo 124 do Estatuto:
“A FEBEM – SP é um sistema prisional, pautado pelas
XI – receber escolarização e profissionalização; práticas de tortura, negligência e humilhação no trato com
XII – realizar atividades culturais, esportivas e de lazer; os adolescentes sob a responsabilidade do Estado. (...)
XIII – ter acesso aos meios de comunicação social. O ambiente é de intensa violência, que atinge os internos
e funcionários, física e psicologicamente, com ausência da
Se nem mesmo padrões mínimos de higiene e salubridade são responsabilidade do Estado pela custódia dos adolescentes.
garantidos nas unidades de segregação fluminenses, por onde entram Foi possível observar e entrar em contato com adolescentes
a pedagogia e a ressocialização? Relatos colhidos pela Human Rights que sofreram castigos físicos e estavam aprisionados em
Watch chegam a dar conta do uso de pasta de dentes para fins celas”. (Complexo do Tatuapé, São Paulo/SP)16;
alimentares: “Eles comem pasta de dente. Estão com fome. Comem
porque estão com fome”8. A precariedade dos estabelecimentos é tão “Os alojamentos são inadequados e precários, construídos
evidente que “supostamente alguns jovens alegam ser adultos para em forma de prisão, ou presídio para adultos, havendo clara
evitar a detenção dentro do sistema juvenil”9. Quando descobertos, superlotação em cada cela (...)
“dizem que é melhor estar no sistema penitenciário do Estado, Denúncia grave de um caso de necessidade de emergência
envolvido, nas últimas semanas, em denúncias de torturas, morte não atendida: um adolescente baleado, na véspera, estava
e corrupção, do que ficar internado nos institutos do Departamento sem atendimento adequado, em uma cela superlotada”.
Geral de Ações Sócio-Educativas (Degase)”10. (Centro de Internação de Adolescentes Santa Therezinha,
Belo Horizonte/MG)17;
Adotando sistemática distinta, o relatório que produziram
conjuntamente o Conselho Federal de Psicologia e a OAB foi feito “Os alojamentos assemelham-se a celas, fora do padrão
a partir de “incursões simultâneas aos centros de internação de internacional exigido pela ONU. Condições de ventilação
praticamente todas as unidades da federação” . A apresentação 11
e higiene precárias, sendo que estes jovens são obrigados,
do documento, ao apontar a “significativa constatação de que no período da noite, a fazer suas necessidades em sacos
o ideal sócioeducativo do regime persiste, de fato, ainda como plásticos ou garrafas”. (Centro Educacional São Lucas,
ideal”12 não se deixa seduzir pelas promessas irrealizáveis do São José/SC)18;
Estatuto, cujas letras desejaram conciliar privação de liberdade
à panacéia ressocializante. De plano, recomenda que “não deveria “Todos os alojamentos se assemelham a celas, com condições
ser economizado esforço para abolir, na medida do possível, precárias de higiene e cuidado. São poucos os colchões
a prisão de jovens”13; no ensejo, reclama da pedagogia e da disponíveis (...). Os banheiros não possuem condições
psicologia a “desafiadora tarefa de desenhar possibilidades de mínimas de higiene, não possuindo vasos sanitários nem
intervenção, para casos complexos e resistentes, que possam portas divisórias separando a latrina do local destinado
prescindir do confinamento como condição necessária de ao banho”. (Centro Sócio-educativo Dagmar Feitosa,
efetivação”14. Manaus/AM)19;

No Estado do Rio de Janeiro a inspeção foi realizada no Instituto “Na ala 2, a primeira a ser visitada, constatou-se a total falta
Padre Severino, na Ilha do Governador. A circunstância de as de asseio. Os quartos na realidade são celas, local destinado
constatações do relatório mais recente, ainda que relativamente ao isolamento dos internos, onde se encontravam 16
a apenas uma unidade, pouco discreparem daquelas que a Human adolescentes, que reclamaram de violência física praticada
Rigths Watch apresentou há quase quatro anos atrás sugere que a por policiais do Batalhão de Choque da PM, chamado pela
desumanização dos adolescentes encarcerados seja um objetivo direção da Unidade”. (Centro de Atendimento ao Menor,
permanentemente perseguido pelas políticas do Estado: Aracaju/SE)20.

“Os alojamentos são inadequados, com características de Torna especialmente grave os relatos produzidos, prova cabal de
cela; o ambiente tem pouca ventilação, é quente, pequeno, inadmissível descumprimento da lei nº 8.069/90, o limite etário de
alguns exalando mau cheiro. imputabilidade fixado na Constituição da República de 1988 (artigo
Foi relatado por adolescentes que estes só saem das ‘celas’ 228). Trata-se de relatos feitos a partir de inspeções a unidades

5 Human Rights Watch, Brasil, “Verdadeiras Masmorras”, Detenção Juvenil no Estado do Rio de Janeiro, p. 1. –– 6 Human... p. 10. –– 7 Dentre as normas internacionais ratificadas mais pertinentes, destacam-se: Convenção sobre os Direitos
da Criança e do Adolescente; Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos; Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. –– 8 Human..., p. 48. –– 9 Human..., p. 42. –– 10 Human..., p. 43. –– 11 Conselho Federal
de Psicologia e Ordem dos Advogados do Brasil, Direitos Humanos, um retrato das unidades de internação de adolescentes em conflito com a lei. –– 12 Direitos Humanos..., p. 7. –– 13 Direitos Humanos..., p. 9. –– 14 Idem. –– 15 Direitos
Humanos..., p. 26. –– 16 Direitos Humanos..., p. 24. –– 17 Direitos Humanos..., p. 29. –– 18 Direitos Humanos..., p. 43. –– 19 Diretos Humanos..., p. 54. –– 20 Direitos Humanos..., p. 104.

77
de internação destinadas a privar da liberdade adolescentes em Artigo 228 – São penalmente inimputáveis os menores de
conflito com a lei. Portanto, espaços estatais que submetem dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial.
a penas privativas de liberdade pessoas presumidas pelo texto
constitucional como inimputáveis. E se é certo que a tais pessoas, E a sujeição dos menores à legislação especial não pode tornar
em razão de sua idade, não se pode imputar a prática de uma meia-verdade a inimputabilidade consagrada. Coloca-se
condutas criminosas, não deveria ser menos certo que também o adolescente sob o manto do Estatuto da Criança e do Adolescente
não pudessem se sujeitar à pena de prisão (legislação especial aplicável) considerando-se, desde logo,
tratar-se de pessoa inimputável. Sendo assim, sem capacidade
No ordenamento jurídico-penal brasileiro a pena, gênero do de culpa e evidentemente infenso às sanções típicas do direito
qual a privação da liberdade é espécie, é sanção reservada penal comum.
a sujeitos ativos imputáveis. Reserva-se a mais coercitiva das
medidas àquele que “dotado de certa dose de autodeterminação Transcendendo de toda a discussão acerca da questão humanitária,
e de compreensão (imputabilidade) que o tornava apto a frear, padece de irracionalidade lógica o desejo de promover a contenção
reprimir, ou desviar sua vontade, ou o impulso que o impelia de agentes incapazes de se autodeterminar pelas vias repressiva
para o fim ilícito (possibilidade de outra conduta) e que, apesar e segregadora.
disso, consciente e voluntariamente (dolo), ou com negligência,
imprudência ou imperícia (culpa stricto sensu), desencadeou Já é um passo significativo reconhecer-se que o Estatuto da
o fato punível”21. Pois bem, por força do que o próprio legislador Criança e do Adolescente, a despeito de todas as previsões
constituinte originário estabeleceu na Constituição da República protetivas que traz em seu bojo, sustenta a aplicação da
de 1988, este juízo de reprovação – pressuposto para aplicação medida de internação como instrumento de promoção da
da pena – não pode sequer ser realizado quando o sujeito ativo dignidade do jovem infrator. À notória contradição, tanto mais
de determinado ilícito é uma criança ou um adolescente. quando se faz acompanhar por elementos colhidos no dia
Recai sobre eles presunção absoluta de inimputabilidade a dia da realidade nacional, segue-se, quase que naturalmente,
e, sob quaisquer hipóteses, são tidos como incapazes de se saudáveis inquietações. Incompreende-se que se prossiga
autodeterminar e, portanto, compreender o caráter lícito/ilícito atribuindo funções positivas, ainda que em plano ideal, a um
de suas atitudes. sistema comprovadamente cruel e perverso. E não se diga que
a questão é conjuntural ou localizada. Afinal, como se viu, suas
Entendida como o conjunto de condições pessoais de sanidade falhas persistem sob quaisquer condições de tempo, espaço ou
e maturidade que dão ao agente a capacidade de lhe ser circunstância política.
juridicamente imputada a prática de um ato punível, no Brasil
a imputabilidade não alcança os menores de idade. Outrossim, Apesar de afrontado, permanece o texto constitucional como
também não alcança aqueles que, “por doença mental ou referência segura para a realização plena dos direitos da criança
desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo e do adolescente, dentre os quais se inclui a inimputabilidade
da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender e todos os desdobramentos dela advindos – notadamente
o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse a proibição de os submeter a penas privativas de liberdade, pouco
entendimento” (artigo 26, caput, Código Penal). No ponto, foi mais importando se sob o falso pretexto de ressocializá-los ou reinseri-
preciso o legislador. Isentou de pena, expressamente, o agente los na sociedade.
que ostentar tais condições. E em sendo ambos inimputáveis
– o menor e o débil mental – não há dúvida que a isenção
de pena prevista no dispositivo aproveita ao primeiro tanto quanto
ao segundo.

A aparente perplexidade sugerida por um sistema que preconiza


a inimputabilidade e, simultaneamente, medidas privativas de
liberdade para menores infratores não passou despercebida
por Fragoso:

“Diz a lei que os menores de 18 anos são inimputáveis,


ficando sujeitos às normas estabelecidas na legislação
especial (art. 27, CP; e art. 228, CF). Em realidade, a questão
não é de imputabilidade, ou seja, de capacidade de culpa.
Os menores estão fora do direito penal e não podem ser
autores de fatos puníveis”22.

Parece verdadeiro que, ao menos em tese, estejam os menores


fora do direito penal. Ocorre, porém, que foi a própria Constituição
da República de 1988 que, privando-os desse ramo do direito,
o fez a partir de considerações atinentes à sua imputabilidade.
*RAFAEL CAETANO BORGES
Advogado criminal graduado pela UERJ. Trabalha no escritório Nilo Batista & Advogados Associados.

21 Toledo, Francisco de Assis, O erro no direito penal, São Paulo, Saraiva, 1977, p. 8.
22 Fragoso, Heleno Cláudio, Lições de Direito Penal, parte geral, Rio de Janeiro, Forense, 1993, p. 197.

78

Você também pode gostar