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Desafios da Comunicação Popular e


Comunitária na Cibercultur@: Aproximação

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à proposta de Comunidade Emergente de
Conhecimento Local1
Challenges of Social and Community Communication in
Cybercultur@: Approximation to the proposition of Emergent
Local Knowledge Commun

Cicilia M. Krohling Peruzzo2

RESUMO Estudo sobre a concepção da cibercultur@ que indaga se ela ajudaria os movimentos comunitários na
redefinição de práticas comunicativas incluindo o empoderamento coletivo das TICC. Os objetivos são identificar
os principais pressupostos teóricos da cibercultur@ no marco das dinâmicas de reestruturação comunicacional da
sociedade contemporânea, situar o tema da presença da comunicação popular, comunitária e alternativa no ciberespaço
e analisar se há pertinência em se relacionar os conceitos de cibercultur@ e sua aplicabilidade aos estudos e práticas
dessa modalidade comunicacional no Brasil. A abordagem se fundamenta nos pressupostos teórico-metodológicos do
materialismo histórico-dialético. Os procedimentos relativos à parte ora apresentada são os de pesquisa bibliográfica e
pesquisa documental.
PALAVRAS-CHAVE comunidade emergente; comunicação popular; alternativa; cibercultur@; ciberespaço.

ABSTRACT Study on the conception of cybercultur@, which investigates if it would help community movements in
redefining communication practices including the collective empowerment of information, communication - and knowledge
- technologies. The objectives are to identify the main theoretical assumptions of cybercultur@ in the mark of dynamic
restructuring of communication in contemporary society, to place the issue of the presence of popular communication, and
alternative community in cyberspace, and to examine whether there is relevance to relate the concepts of cybercultur@
and its applicability to the study and practice of this type of communication in Brazil. The approach is based on theoretical
and methodological principles of historical and dialectical materialism. The procedures presented in this study are part of
the bibliographic and documental research.
KEYWORDS Emergent community; social communication; alternative; cybercultur@. cyberspace.

1 Versão revista e ampliada do trabalho apresentado no Grupo de Trabalho “ Comunicación Popular, Comunitaria y Ciudadania”, X
Congreso Latinoamericano de Investigadores de la Comunicación , realizado na Universidad Javeriana, 22 a 25 de setembro de 2010,
em Bogotá, Colombia. Este texto é resultante de parte de pesquisa realizada com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal Docente (CAPES).
2 Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo. Doutora em Ciências
da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Pos-doutora pela Universidad Nacional
Autónoma de Mexico. Autora dos livros Relações públicas no modode produção capitalista; Comunicação nos movimentos populares:
a participação na construção da cidadania; e Televisão Comunitária: dimensão pública e participação cidadã na mídia local. E-mail:
kperuzzo@uol.com.br.
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Introdução Informação e Comunicação (TICC)5 para que


No contexto da sociedade atual, caracterizada realmente se efetivem na realização plena destas
como sociedade da informação, há toda uma dimensões, incluindo o Conhecimento. O custo
dinâmica social em busca da apropriação autônoma social do não empoderamento coletivo das TICC para
das tecnologias digitais e da comunicação efeito de implementação de alternativas duráveis de
mediada por computador (CMC). Mas, apesar do comunicação comunitária contribui para o atraso na
aumento progressivo do acesso à internet, grandes transformação da realidade local.
contingentes populacionais na América Latina ainda Partimos da indagação sobre se há ou não
estão à margem dos benefícios desse ambiente pertinência em interrelacionar a comunicação
comunicacional. No entanto, de algum modo, popular e comunitária à proposta teórica e prática
também as pessoas de baixo poder aquisitivo e suas da cibercultur@. A hipótese é que a comunicação
organizações sociais que vivem ou atuam em regiões popular e comunitária poderia se revigorar ao
periféricas das cidades, ou no campo, procuram assumir a cibercultur@ como práxis (teoria e prática),
se inserir nesse ambiente de transformação de pois ajudaria a configurar processos organizativos
estruturas comunicativas e de relações sociais. autogestionários de alta conectividade tendo em
Esse tipo de inclusão ocorre como parte de uma vista a construção de uma nova soceiedade.
dinâmica social em que não se separa o mundo Temos como objetivos, no sentido geral,
concreto daquela constituído pelo ciberespaço. identificar os principais pressupostos teóricos da
Em outros termos, há um processo de inclusão cibercultur@6 - (com @) - no marco das dinâmicas
individual e comunitária no universo da internet que de reestruturação cultural e comunicacional
não dispensa a continuidade das lutas presenciais da sociedade contemporânea e suas possíveis
em suas diversas formas de organização, sejam elas intersecções com a comunicação comunitária. No
lutas por direitos sociais, comunicativo-culturais ou nível específico buscamos: a) introduzir o tema da
políticos de cidadania. comunicação popular, comunitária e alternativa,
É nesse patamar que estudamos as possíveis de caráter coletivo, visando explorar sua presença
intersecções entre cibercultur@3 - com arroba - e no ciberespaço, e b) analisar a pertinência em
a comunicação popular, alternativa e comunitária. se relacionar os conceitos de cibercultur@ e
Investigamos se sua proposta teórica, especialmente sua aplicabilidade aos estudos e práticas de
de Comunidade Emergente de Conhecimento Local comunicação popular, comunitária e alternativa.
(CECL), pode ajudar os movimentos comunitários Do ponto de vista metodológico, este texto remete
na redefinição de práticas comunicativas incluindo para parte de uma pesquisa mais ampla que consiste
o empoderamento4 coletivo das Tecnologias de em estudo teórico e trabalho de campo realizados
junto ao Laboratorio de Investigación y Desarrollo en
Comunicación Compleja (LabCOMplex), coordenado
3 O uso do arroba indica a diferenciação que vamos discutir por Jorge A. González, e que envolveu pesquisa
mais adiante em que o espiral traz a ideia de retroalimentação,
na linha do Laboratorio de Investigación y Desarrollo en 5 Reintroduzimos a sigla com duplo C para indicar a idéa da
Comunicación Compleja (Labcomplex). existência do conhecimento em todo processo tecnológico.
4 De “empowerment” em inglês e empregado no sentido 6 Conforme aponta o Labcomplex em sua apresentação
do uso das TICC com poder de controle e sob a direção dos (CIBERCULTUR@...., s/d). Ver http://labcomplex.ceiich.unam.
grupos populares e comunidades. mx.
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de campo por meio de investigação participante expressão, uso mobilizador); e na proposta editorial
em Comunidade Emergente de Conhecimento em (tanto pelo enfoque dado aos conteúdos como pelos
Charcas, do Altiplano Potosino, San Louis Potosí, assuntos abordados).
México. Os procedimentos técnicos relativos Os autores Isabel Gatti e Raúl Bermúdez também
à parte ora apresentada neste texto são os de observam aspectos semelhantes ao analisarem a
pesquisa bibliográfica e documental. A abordagem situação da comunicação comunitária na Argentina:
se fundamenta no materialismo histórico-dialético a construção da mensagem não é realizada
(MINAYO, 2007), pois busca compreender o objeto por um profissional individual – o comunicador
em sua totalidade e provisoriedade. social que responde ao estereótipo das
profissições [...]. É uma construção coletiva
Breves aspectos conceituais e sinais da e participativa que assume um ponto de
comunicação popular, comunitária e alternativa na vista situado e ligado a interesses e projetos
atualidade populares concretos sem nenhuma pretensão
A comunicação popular, comunitária e alternativa de objetividade como a que se predica pelos
gera processos cooperativos de organização e se grandes multimeios com o fim de tornar opacos
pauta por transmitir conteúdos info-comunicativos os verdadeiros enunciadores da mensagem,
tratados de maneira diversa daqueles que circulam também ligados a interesses concretos, só
nos mass media tradicionais, embora não se que não os populares (GATTI, BERMÚDEZ,
constitua como “alternativa” no sentido de substituir 2010, p.18-19).
ou dispensar o acesso aos meios convencionais
de comunicação7. Em outras palavras, como A efetividade desse tipo de proposta
comunicação dos setores organizados das classes comunicacional levada a efeito por segmentos das
subalternas (já explicitado em PERUZZO, 2009, classes subalternas remete a uma situação peculiar
p.132), ela se baliza por uma proposição diferente da história da América Latina, a qual, como mostram
daquela comumente presente na grande mídia Gatti e Bermúdez (2010, p.17-18), é marcada por
privada (de base comercial) e na pública estatal encontros e desencontros de diversos grupos de
(vinculada a governos). Tem um caráter público civil, atores antagônicos: “no tempo da colonização,
portanto não governamental e não empresarial. das migrações e depois, com a imposição do
Suas especificidades são percebidas em múltiplos projeto moderno, que deixou como herança zonas
fatores, tais como na linha político-ideológica de desenvolvimento desigual, grandes massas da
(crítica e propositiva); nos modos de organização (de população em condições de extrema pobreza”. É
base popular, coletiva, feita em espaços, por vezes, neste contexto que se desenvolvem projetos sociais
privados, como na casa de militantes); na ligação comunitários voltados a garantir direitos humanos,
com as organizações civis sem finalidade lucrativa); no bojo dos quais a comunicação é um dos seus
nas estratégias de produção/ação (colaborativa, componentes.
com vínculo local, participação ativa e liberdade de No fim da década de 1970 do século passado,
período do auge do seu ressurgimento num contexto
7 Estes transitam num universo peculiar em decorrência do
de distensão da ditadura militar no Brasil, e nos anos
tipo de informação, cobertura e amplitude de abrangência que
caracterizam sua performance. seguintes, essa outra comunicação “representou um
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grito antes sufocado, de denúncia e reivindicação como instrumentos para a educação popular
por transformações, exteriorizado sobretudo em como mentalizadores de um processo educativo
pequenos jornais, boletins, alto-falantes, teatro, transformador”.
folhetos, volantes, vídeos, audio-visuais, faixas, Com a citação acima queremos enfatizar o caráter
cartazes, pôsters, cartilhas etc” (PERUZZO, 2004, processual nas práticas dessa comunicação, ou
p.115), portanto incluem meios artesanais, além seja, não trata-se apenas de criar meios ou canais
da comunicação face a face e grupal. A dimensão de comunicação, mas sim de inserí-los como
de denúncia e reivindicação ainda permanece nas facilitadores de processos de mobilização social,
configurações recentes, contudo perdeu muito o razão pela qual suas expressões originárias e, em
caráter contestador ao Estado dos anos 1980. Outra muitos casos também atuais, se desenvolvem no
nuance interessante é que ela vem incorporando contexto dos movimentos sociais. Um exemplo:
as tecnologias de radiodifusão (rádio, televisão) e Integrante da Rede de Mulheres no Rádio, o
digitais (internet) conforme as circunstâncias de Centro das Mulheres do Cabo (CMC) entendeu,
cada tempo histórico. ainda em 1997, que o movimento feminista
Há muitos precursores dos estudos desse tipo necessitava se apropriar do veículo rádio
de comunicação que tiveram em Paulo Freire uma como mídia imediata para o estabelcimento
base conceitual inspiradora, principalmente, no que de uma comunicação direta com vistas à
se refere à dialogidade e à democracia a partir nos desconstrução do machismo e do patriarcado
processos educacionais. Fernando Reyes Matta na Zona da Mata Sul [estado de Pernambuco,
(apud BELTRÁN, 1981, p. 30), desenvolveu um modelo nordeste do Brasil]. A entidade necessitava
macro operativo de comunicação participativa. Luis travar uma relação democrática com a
Ramiro Beltrán (1981) desenvolveu conceitos de população de uma área geográfica onde, de
comunicação horizontal enfatizando suas múltiplas acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia
finalidades: “acesso, diálogo e participação”. e Estatística (IBGE), quase 60% da população
Outros pensadores como Mário Kaplún, Juan Diaz das mulheres eram analfabetas em 1995
Bordenave, Gilberto Gimenez, Miguel Azcueta, (VELOSO; FARIAS, 2011, p.6).
Máximo Simpson Grinberg, Daniel Prieto Castillo,
José Martinéz Terrero, Jesús Galindo Cáceres, entre
Para Gatti e Bermúdez (2010, p.18), a comunicação
vários outros, também contribuíram teoricamente
comumitária “se orienta para uma função educativa
para a compreeensão e a prática da comunicação
e de conscientização dos próprios direitos e
popular, alternativa e comunitária na América Latina.
necessidades, com a consequente valorização das
Entre estes expoentes acima mencionados identidades territoriales”, e, complementaríamos,
dessa perspectiva comunicacional, Mário Kaplún histórico-culturais.
(1998, p.17), a concebeu como uma “comunicação
Essa outra comunicação ganhou várias
educativa [...] [produzida democraticamente] ‘para
denominações: comunicação popular, participativa,
que os destinários tomem consciência de sua
horizontal, alternativa, dialógica, radical, para se
realidade’, ou para ‘suscitar uma reflexão’, ou ‘para
referir ao processo comunicativo levado a efeito por
gerar uma discussão’ ”. E completa: “concebemos
movimentos sociais populares e organizações sem
pois os medios de comunicação que realizamos
finalidades lucrativas da sociedade civil. Portanto,
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são atores coletivos que se articulam de modo “comunidades”8 e outros grupos sociais orgânicos
a provocar a mobilização social e realizar ações às classes subalternas com a finalidade de exercitar
concretas com vistas à melhoria nas condições a liberdade de expressão e oferecer conteúdos
de existência das populações empobrecidas e a na ótica das mesmas. Ao mesmo tempo, serve de
elevar o nível de consciência sociopolítica. No instrumento de conscientização e mobilização
Brasil, nos últimos anos, os termos “comunitário” visando a organização de base e a transformação
e “alternativa” vêm ganhando predominância social começando sempre pela busca da superação
possivelmente refletindo as práticas sociais mais de carências e necessidades imediatas dos
presentes na sociedade. segmentos populacionais a que se vincula.
Dadas as configurações recentes, a comunicação Nos anos recentes, no Brasil, simultaneamente
popular, a comunitária e a alternativa podem ser à continuidade de experiências tradicionais de
tomadas em suas singularidades, ou seja, é factível comunicação dos segmentos organizados das
tratá-las remetendo a práxis mais específicas, não classes subalternas, há incremento de novos
obstante em muitos aspectos há interfaces que canais, formatos e organizações de comunicação,
não recomendam visões estanques e separações em grande parte perpassados pela comunicação
rígidas entre elas. Em outro texto (PERUZZO, 2009) mediada por computador (CMC), e que ganham
tratamos das especificidades dos termos. Neste mais expressividade com a Web 2.0 e a Web 3.0
artigo estamos tomando-as numa visão de conjunto, pois facilitam o papel protagonista do usuário
pois interessa discutir suas possíveis intersecções como emissor. Apesar da disparidade do acesso
com o tema da cibercultur@. populacional às benesses tecnológicas, as TICC
Em síntese, entre suas principais características ajudam a configurar um momento histórico que
estão as seguintes: os protagonistas são pessoas do potencializa uma comunicação bidirecional e de
próprio povo (daí o vocábulo popular), porém apenas múltiplas fontes abertas que favorecem a retomada
aquelas ligadas a organizações e movimentos crescente de iniciativas comunitárias e alternativas
sociais; é baseada na participação ativa e aberta; não de comunicação.
tem fins lucrativos; os conteúdos tratados estão em Nesse cenário, a comunicação comunitária e
sintonia com a realidade local ou com a comunidade alternativa se realiza tanto na sua forma grupal
de interesse a que se vincula; institui processos e presencial, como por meio de instrumentos de
compartilhados e não hierarquizados de produção comunicação dirigida a públicos específicos, tais
e difusão de mensagens; se funda a propriedade como a faixa, o cartaz, alto-falante, panfleto, poesia
coletiva (quando privada, esta é colocada a serviço de cordel, teatro popular, vídeo, jornal, revistas
público); e se realiza de diferentes formas, canais e etc. Mas, ela também se apropria de tecnologias
modalidades de comunicação, mas se modifica ao mais avançadas, como as do rádio e da televisão
longo da história. e mais tarde das digitais. No universo da internet,
A comunicação popular, comunitária e se manifestam com páginas virtuais, comunidades
alternativa, na América Latina, representa uma virtuais e plataformas interativas, mas também há
contra-comunicação ou uma outra comunicação experiências de webtv, webradio comunitários,
elaborada no âmbito dos movimentos sociais, 8 As aspas indicam a existência de conceitos e percepções
contraditórios acerca de comunidade. Porém, doravante,
neste texto o termo será empregado indistintamente
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blogs, fotolog, videolog, twitter, podcast, entre na ótica progressista acerca de assuntos pouco
outros. No entanto, como já dissemos, não estamos tratados pela grande mídia, ou deturpados e
tratando neste texto da criação de canais de omitidos por ela. Cresce o número de Observatórios
comunicação em si ou daqueles protagonizados de Mídia e da Comunicação, os quais monitoram
por pessoas individualmente, mas aqueles inseridos criticamente a mídia comercial, além de analisarem
nas dinâmicas de mobilização e organização de acontecimentos relacionados à Comunicação e aos
grupos subalternos progressistas, pois interessa sistemas midiáticos. Entre dezenas de experiências
compreender o sentido coletivo aí constituído. existentes mencionamos três, em distintos níveis:
A título de exemplificação, apontamos a seguir o Observatório Iberoamericano de la Libertad de
algumas experiências de coletivos de comunicação Prensa (Infoamérica)19, sediado na Universidade
alternativa, tais como o Indymedia que está em de Málaga-Espanha e presente em 19 países, o
200 cidades do mundo9, e no Brasil recebe o Observatório do Direito à Comunicação, sediado
nome de Centro de Mídia Independente (CMI)10, em São Paulo-Brasil, e o Observatório da Mídia
o Overmundo11 (canal brasileiro de expressão Regional – direitos humanos, políticas e sistemas,
para a produção cultural de comunidades), o que funciona na Universidade Federal do Espírito
Coletivo de Notícias del Sur (CoNoSur)12, o Centre Santo, Vitória-ES (Brasil).
des Médias Alternatifus du Québec (Cmaq)13, e o Entre os espaços de comunicação colaborativa
Nodo5014 da Espanha. Todos operam com a contra- criados no ciberespaço há aqueles orgânicos a
informação em sistema de publicação aberta, além movimentos sociais e comunidades, bem como os
de outros formatos de plataformas de comunicação pertencentes a outros coletivos cívicos em rede20.
colaborativas. Na mesma linha de comunicação Claro que, além de plataformas e canais como os
alternativa, surgem também agências alternativas mencionados, há também outras formas de redes
de notícias, como, por exemplo, a Agência de sociais21 que favorecem a formação de comunidades
Informação Frei Tito para América Latina (ADITAL)15, virtuais de interesse, ou comunidades de escolha,
a Agência Carta Maior16, a Informação Social17 - na denominação de Goldsmith (1999)22.
agência de noticias que enfatiza a divulgação de Salientamos que as novas manifestações
temática relacionada aos direitos humanos na região alternativas e comunitárias de comunicação, ao
da Amazônia Oriental (Tocantins, Maranhão, Pará incorporarem suportes digitais e interativos e se
e Amapá) brasileira, e a Agencia de Notícias Red- constituírem fundamentalmente como formas
Acción (ANRed)18, todas difundindo informações coletivas de organização, engendram não só
9 Ver Moraes (2008). conteúdos diferenciados a partir de novos olhares
10 http://www.indymedia.or ou www.cmibrasil.org.br tendo em vista a desalienação, mas também
11 http://www.overmundo.org.br novos procedimentos de ação na construção
12 http://ar.geocities.com/agenciaconosur e difusão de mensagens, na socialização de
13 http://cmaq.net
14 http://www.nodo50.org
19 http://www.infoamerica.org/libex/libex_7_d_9.htm
15 www.adital.org.br
20 Ver León, Burch e Tamayo (2001), Finquelievich (2000) e
16 www.cartamaior.com.br González (2008, 2009).
17 www.informacaosocial.com 21 Ver Recuero (2009).
18 www.anred.org 22 Ver Peruzzo e Berti(2010).
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conhecimentos técnicos (e outros), criação de Ciberespaço como novo espaço para a


códigos compartilhados de conduta e na instituição comunicação comunitária e alternativa
de novas relações sociais de produção23 que Há uma visão quase consensual reproduzida
põem em suspensão a hierarquia e a burocracia ao longo do tempo que pode ser vista na citações
tradicional, o sentido da propriedade privada e da abaixo, escritas em épocas diferentes, que apontam
força de trabalho como mercadoria, pois funciona o ciberespaço como espaço virtual ou imaterial
como trabalho voluntário, entre outros aspectos criado pelos meios informáticos e dependente de
(PERUZZO, 2009, p.143). computadores. Vejamos:
As potencialidades participativas/interativas que Para Heim (1993, 78-79)24, por exemplo,
as tecnologias digitais e a comunicação mediada por ciberespaço
computador possibilitam no que se refere à criação sugere uma dimensão computadorizada onde
de instrumentos autônomos e comunitaristas de podemos transmitir e mover informação e onde
produzir, controlar, difundir e receber conteúdos encontramos nosso caminho entre dados.
são indiscutíveis, mas encontram-se imersas num O ciberespaço constrói um mundo artificial
conjunto de contradições que inibem ou dificultam ou representado, um mundo composto de
o avanço da comunicação das classes subalternas. informações que nossos sistemas produzem
Tais contradições advêm das condições estruturais e que re-alimentamos neste mesmo sistema.
da sociedade geradoras de desigualdades no Do mesmo modo que um tabuleiro de xadrez
empoderamento das tecnologias, antagonismos estrutura o espaço do jogo de xadrez
derivados das diferenças nos níveis de escolaridade, dentro de seu próprio mundo de torres e
nos valores culturais e ideológicos expressos nas cavaleiros, peões e bispos, a interface do
práticas e linguagens sociais, assim como nas computador também estrutura seu campo
singularidades locais que nem sempre apontam para de movimentações, hierarquia de arquivos,
a necessidade comunicativa através de plataformas acessos e distâncias relativas entre pontos de
digitais. A situação de existência concreta ajuda a interesse.
configurar formas específicas de apropriação por
parte da população e grupo sociais das TICC. Em
Para Lemos (2008, p.128), ciberespaço pode ser
última instância, há um desnivelamento de acesso
entendido à luz de duas perspectivas: “como o lugar
e aproveitamento das possibilidades que a rede
onde estamos quando entramos num ambiente
das redes oferece, além da pouca efetividades de
simulado (realidade virtual), e como o conjunto de
programas públicos que tentam solucionar esse
redes de computadores interligadas ou não, em todo
tipo de problema, tanto no Brasil como na América
o planeta, a internet”.
Latina como um todo, tema que será abordado mais
adiante no bojo da discussão da cibercultur@. No entanto, ciberespaço aponta para um
fenômeno complexo que esse tipo de visão tecnicista
não consegue explicar.
Se partirmos do sentido da palavra ciberespaço

23 Porém, tais dimensões já faziam parte da comunicação


popular e alternativa de outros tempos históricos. O novo a que 24 As citações de autores estrangeiros extraídas de obras
nos referimos é relativo a cada tempo histórico. publicadas em inglês e espanhol foram por nós traduzidas.
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como derivado dos vocábulos cibernética e espaço, puramente pelas coordenadas do espaço físico.
a partir de Norbert Wiener (194825), cujos estudos Como bem assinala Wertheim (apud GÓMEZ CRUZ,
ligados a programas militares no contexto da Guerra 2007, p.30), o ciberespaço recupera a cosmovisão de
Fria, criaram o conceito de cibernética (teoria “um espaço dual onde o espaço físico não é o único
geral dos sistemas). A palavra cibernética vem do espaço possível”. Mas, do nosso ponto de vista,
grego Kybernetes (Cybernetics) e significa piloto, também se consitui num cosmo harmônico próprio,
timoneiro, controlador ou a possibilidade de controle embora, se pensarmos para além das “máquinas
e da comunicação, tanto na máquina (engenharia) de controle”26, não deixa de se interconectar com o
como de organismos vivos e da linguagem (MIÈGE, mundo físico.
2000; GÓMEZ CRUZ, 2007, GONZÁLEZ, 2008). Cosmos, do grego, significa harmonia, ordem,
Portanto, entra um elemento importante, a ideia de beleza. Seu antônimo é caos27, também do grego.
direção, capacidade de dirigir ações, que não se Esse mundo constituído pelo ciberspaço sugere
circunscreve apenas ao circuito técnico. simetria, uma combinação e um equilíbrio de
A reintrodução na linguagem acadêmica do traços em formatos de redes28 que se conformam
prefixo “ciber” (kyber, cyber) é como uma matriz em mecanismos identificados do ponto de vista do
que parece indicar (e de alguma forma reduzir- determinismo tecnológico, mas os ultrapassam.
se) o uso de “máquinas de controle” (quer dizer, Talvez seja oportuno lembrar, com Jesús Galindo
computadores) (GÓMEZ CRUZ, 2007, p.28). No final, (1998, p.4), que a “sociedade do ciberespaço é
como diz o mesmo autor (2007, p.28), “na linguagem uma nova forma ecológica no devenir humano. [...]
popular, começou a aplicar-se a tudo aquilo que tem Algo que chama a novos tipos de relações sociais,
como centro o uso de computadores, especialmente, a construção de um novo tipo de civilização”.
aqueles conectados à internet” e surgem termos Portanto, o ciberespaço se constitui num fenômeno
como ciberespaço, cibersociedade, cibercidade, das últimas décadas. Como disse Heim (1993, p.84),
ciberlavanderia, cibercafé, cibercultura. “algo se torna um fenômeno quando capta e prende
Já espaço, segundo Wertheim (apud GÓMEZ a atenção da civilização. Só então nossa linguagem
CRUZ, 2007, p.29), até o século XIV ou XV, na comum pode articular a presença da coisa de modo
cosmovisão medieval, existia um espaço “real” e um que possa aparecer em sua identidade ‘estática’
“divino”. A partir do século XVIII, com o deslocamento [sic] no curso da história”.
que colocou a ciência como explicação imperante É assim que o fenômeno ciberespaço se
do mundo, surgiu uma visão mais racionalista e apresenta neboluso e movediço. Atrai distintos
mecanicista do espaço. Nessa visão, a dualidade movimentos societários e, ao mesmo tempo, se
medieval se perdeu em favor de um “espaço físico, refaz continuamente.
total e absoluto”. No entanto, a autora assinala que Não é a intenção desde texto adentrar
o ciberespaço, não só em sua narrativa mas em seu aprofundadamente na discussão do ciberespaço,
“manifestar-se”, abre a posibilidade de um “espaço” nem cair em qualquer uma das vertentes teóricas
que não é cartesiano: ao interagir no ciberespaço,
minha localização não pode ser estabelecida 26 No sentido original dado por Norbert Wiener.
27 Aliás, caos , ou sistema da desordem, é como Lévy (1999,
p.111 ) vê o ciberespaço, com o que discordamos.
25 No livro “Cybernetics, or control and communication in the
animal and machine”. 28 Ver Recuero (2009).
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prodominantes, entre os prometéicos29 e os movem, dos consequentes reflexos reais nas suas
fáusticos30, na linguagem de Rudiger (2007, p.14; vidas, dos processos históricos que não dissociam o
184 ) que, como pensadores da técnica oscilam, mundo material ao do ciberespaço e da própria vida
respectivamente, em visões do ciberespaço a concreta que se efetiva para além das infovias.
partir de um pessimismo cultural ou do otimismo
societário. Para os prometéicos, a técnica portaria Cibercultur@ e comunidades emergentes de
uma faculdade emancipatória e beneficente pois conhecimento
representa o maior bem do ser humano, fator de
Muito se falou em “brecha digital”, “barreira
progresso ou uma oportunidade de avanço no
digital” ou em “digital divide” para designar
desenvolvimento. Por outro lado, para os fáusticos,
a exclusão dos empobrecidos ao acesso a
a técnica é vista como força do ser humano, mas
computadores e à internet em processo simultâneo
capaz de assumir um desenvolvimento autônomo e
de inserção dos setores dominantes neste ambiente
destruí-lo.
comunicacional e seu encantamento diante das
Interessa-nos discutir as possíveis interconexões facilidades de interação e circulação de conteúdos
entre a comunicação dos segmentos organizados que o mesmo oferece. Contudo, há que se atentar
das classes subalternas, tendo por base a para o fato de que a dimensão econômico-financeira
experiência brasileira, e a cibercultur@31, que ao ser não explica a totalidade da problemática da info-
identificada por @, não se ocupa, em essência, das exclusão. Há também razões educacionais, culturais
tecnologias digitais ou da comunicação mediada por e políticas que podem configurar as condições
computador, mas se caracteriza como um processo de não acesso ou mesmo o nível da qualidade de
implicado no desenvolvimento das culturas da acesso conseguido por segmentos populacionais,
informação, da comunicação e do conhecimento. segundo cada realidade. Também, convém ressaltar
Mas, como não há como deixar de considerar que não é apenas o acesso à internet que garante
a centralidade das tecnologias da informação a inclusão das pessoas como sujeito político da
e comunicação no cotidiano e na vida em sociedade, como veremos em seguida.
sociedade, consideramos necessário abordar a Em suma, diante da importância das TICC na
comunicação comunitária na atualidade também atualidade,
a partir do ciberespaço. Este é tomado como um
não ter acesso à principal fonte de mediação
fenômeno complexo que requer interpretações na
das relações sociais do século XXI agrava a
persepctiva da cosmovisão que lhe é constitutiva,
exclusão social de todos os setores que ficam
na imaterialidade como sua essência enquanto
‘de fora’, ou do outro lado dessa ‘brecha’.
processo, mas que se interconecta com o espaço
Por essa razão, considera-se que os países
físico por meio das pessoas e organizações que o
com abundância de populações ‘pobres’
29 De Prometeu, figura da mitologia grega. Para os prometéicos, devem ter e aumentar seu contato com
a técnica, em última instância, representa o bem maior do ser
humano. as TICC, qualificadas como o instrumento
30 Da lenda do Dr. Fausto (sec.XVI), essa visão toma a técnica privilegiado para acessar a informações e os
como uma força criada pelo ser humano que tende a dele conhecimentos organizados e criados para
se emancipar e, em seguida, a assumir um desenvolvimento
autônomo, acarretando sua destruição (RUDIGER, 2007, p.184). todos, por outros que estão do outro lado da
31 Ver www.labcomplex.net ‘brecha’ ” (GONZÁLEZ, 2008, p.123).
91

Nesse contexto, num primeiro momento, estudos Com o passar do tempo, estudos e algumas
e políticas públicas acerca do tema consideraram políticas públicas incorporaram o discurso de que
que as distorções quanto à apropriação competente não basta disponibilizar suportes tecnológicos, nem
dos serviços de informática e da internet, assim promover programas de capacitação visando a
como a incorporação das pessoas às novas formas aquisição de habilidades básicas, mas a melhoria
de relações e estruturação sociais, seriam resolvidas da qualidade educacional e resolução de problemas
proporcionando habilidades para operar máquinas, de desníveis econômicos para que ocorra a
programas (softwares) e a disponibilização de apropriação, como esperada, e dentro do potencial
serviços (telecentros, centros de informática, que a rede oferece. No entanto, na prática, as
cibercafés, cabines públicas etc.), principalmente distorções do acesso e do uso dado – e/ou do
de acesso gratuito. Mas, os debates não tardaram não uso – dos suportes tecnológicos seguem se
a demonstrar serem insuficientes esses tipos de configurando como dilemas políticos.
iniciativas, apesar de se reconhecer a necessidade da Para enfrentar esse tipo de problema, tendo
incorporação de tais condições, porque as soluções como contexto o México, Jorge A. González (2008,
sempre serão insuficentes se não forem resolvidos os p.127) acredita ser necessário rever as
problemas das contradições econômicas, políticas e ferramentas teóricas e a estratégia prática
culturais provindas das relações desiguais inerentes para colocar em vigor uma diferente forma
ao modo de produção capitalista. de apropriação da rede da internet e das
Paulo Cunha (2003, p. 211) assim se expressou tecnologias digitais existentes, para usá-
sobre o assunto: las não apenas para acessar, mas também
a chamada desterritorialização produziu um como plataformas geradoras de informação,
novo tipo de usuário da comunicação, mas de comunicação e especialmente de
não venceu o desequilíbrio provocado pelas conhecimento locais.
diversas dinâmicas nacionais. Novos padrões
hegemônicos produzem novas centralidades. Ele trabalha com um novo conceito de
No entanto, grupos periféricos continuam cibercultur@, identificado com @, que se distingue
isolados à margem do ciberespaço. As novas das abordagens predominantemente utilizadas na
centralidades puramente informacionais academia que a definem, à semelhança de Lemos
convivem com as centralidades efetivamente (2003, p.12)32, como “a forma sócio-cultural que
geopolítico-econômicas, criadas no período emerge da relação simbiótica entre a sociedade,
colonial e incrementadas pela revolução a cultura e as novas tecnologias de base micro-
industrial. De um lado, temos as periferias eletrônica”. González (2008, p.127) entende
econômicas, repletas de desvalidos, cibercultur@ a partir do prefixo grego kyber(ciber),
marginalizados e miseráveis; de outro lado, na perspectiva anteriormente explicitada, da palavra
vemos as periferias-centrais das redes digitais, latina cultura e do símbolo @. Kyber (ciber), porque
as tribos e suas subculturas que, felizes
desenvolver cibercultur@ implica gerar,
em participar do não-lugar do ciberespaço,
incrementar, aperfeiçoar, melhorar e
alienam-se das contradições da indústria da
comunicação. 32 Ver também Lemos ( 2008) , Lévy (1999), Primo (2007), Felice
(2008), Rheingold (2002), Heim (1993) e Recuero (2009).
92

compartilhar as habilidades para conduzir, do nosotros, nosotrificación), Pierre Bourdieu


dirigir e ‘pilotar’ relações sociais, num (produção cultural e habitus de classe), Jesus
exercício de autogestão coletiva, horizontal Galindo (cibercultura), Immanuel Wallerstein e
e participativa. [ ..] [Cultura é empregada no Robert Fossaert (sistema-mundo), Enrique Trueba
seu sentido original, como] ‘cultivo, cuidado, e Concha Delgado (empoderamento social), Paulo
atenção e desenvolvimento’. A habilidade Freire (educação dialógica), Celestin Freinet
para se autoconduzir e se dirigir aos outros (desenvolvimento da autonomia e do espírito
para soluções mais inteligentes frente aos crítico), Felix Geyer (sociocibernética e sistemas
enormes desafios do século XXI, pode ser de informação), Alberto M. Cirese (ecologias
aprendida, pode ser compartilhada, pode ser simbólicas) e Antonio Gramsci (hegemonia), entre
cultivada com outros e para outros. [E uso] outros.
o símbolo arroba @, [...] por sua semelhança O Labcomplex33 trabalha com cibercultur@
gráfica com uma espiral, [...] para representar como objeto de conhecimento e como valor de
um circuito de retroalimentação positivo, um desenvolvimento social. Nessa perspectiva, a
processo aberto e adaptável que gera uma ideia de empoderamento é apregoada no sentido
resposta emergente que surge da densidade de se constituir processos de autodeterminação
das relações do sistema e não se reduz à e a instituição de condições para as comunidades
soma de seus componentes. se apropriarem coletivamente da informação,
gerarem conhecimento e se tornarem capazes de
Desenvolver cibercultur@ significa, portanto, se comunicar entre si e com a sociedade.
um processo que “redesenha coletivamente e de O redesenho do qual fala González (s/da) em
baixo até em cima, uma atitude diferente” diante citação anterior, quer dizer o resgate de nossas
do mundo, e ao mesmo tempo, aprende uma série configurações históricas e identidades enquanto
de “habilidades transmissíveis que nos permitam sociedades que passaram por processos de
operar bem as tecnologias ao nosso alcance dominação, e como elemento para entender o
frente às necessidades de informação para gerar presente e traçar nossos próprios caminhos na
o conhecimento e para coordenar ações de construção de um mundo possível. Trata-se de
comunicação que nos permitam romper o ciclo um processo (GONZÁLEZ , s/da) baseado na
vicioso da dependência tecnológica” (GONZÁLEZ, reflexibilidade – construída e compartilhada –
s/da, p.8). dentro de redes horizontais onde a inteligência é
Os conceitos de cibercultur@ são desenvolvidos distribuída. Assim sendo, cibercultur@ está mais
no âmbito do Laboratorio de Investigación y direcionada a entender os processos de construção
Desarrollo en Comunicación Compleja (Labcomplex) do conhecimento e de transformação social e
e se fundamentam em Liev Vygotsky (zonas de contribuir para que se efetivem, do que a se fixar em
desenvolvimento proximal- ZDP - e inteligência meandros do ciberespaço.
distribuída), Gavriel Salomón (cognição distribuida), Ativar cibercultur@ no conjunto da sociedade,
Jean Piaget e Rolando Garcia (construção do nas palavras de Jorge A. González (2007, p.18),
conhecimento na perspectiva da epistemologia
33 http://computo.ceiich.unam.mx/labcomplex/labcc/c_omugf.
psicogenética), Carlos Lenkersdorf (o sentido html
93

requer o desenvolvimento e cultivo de três culturas (AMOZURRUTIA, 2007, p.131). Ela se vincula aos
cognitivas, elementarmente humanas: a cultura de processos de comunicação. A informação tem
informação, a cultura de conhecimento e a cultura especial importância na organização e construção
de comunicação. Um empenho que, ao realizar-se de memórias, nos sistemas de ordenamento e sua
coletivamente, ajuda a redesenhar as ecologias representação para potencializar a reflexão e
simbólicas e a reconstruir relações que geralmente consequentemente melhorar a tomada de decisões
são negativas se vistas a partir do vetor tecnológico. (AMOZURRUTIA, 2007, p.131-132).
A cultura de conhecimento se refere à Trata-se, pois, de extrapolar a noção de dados
investigação, às perguntas que conseguimos fazer e transforma-los em sistemas de informação. A
à realidade em nosso entorno e ao mundo e as informação é apropriada ou gerada, entendida,
respostas de conhecimento daí decorrentes. Porém, assimilada, transformada e sistematizada, daí
não se trata apenas de pesquisa formal, mas também resulta conhecimento. Conhecimento coletivo, uma
das buscas investigativas que geram descobertas e vez obtido por meio da colaboração estimulada –
as partilham entre os integrantes das comunidades. presencial e mais a distância -, uma vez processado
Paulo Freire (1987, p.36) já dizia que o na perspectiva da zona de desenvolvimento proximal
conhecimento se constitui nas relações homem- (ZDP)34. Ao instituir relações que efetivem dinâmicas
mundo, relações de transformação, e se aperfeiçoa interconectivas que tornam visíveis as formas como
na problematização crítica dessas relações. a sociedade e as relações sociais se estruturam,
Conhecer é uma atividade humana porque somos a comunicação e o conhecimento se realizam. A
a única espécie que desenvolve meta-ferramentas e comunicação viabiliza, então, os relacionamentos,
meta-linguagens. Desta forma, as interações entre o a troca de saberes, a geração e a socialização
ser humano e sua realidade, a partir de inferências, do conhecimento, facilitado por meio dos
nos permitem estabelecer relações entre diferentes mecanismos da chamada inteligência distribuída,
configurações de informação, que por sua vez são como propriedade emergente e não imanente,
produto de construções e atribuições do sujeito a partir das ideias de Vygostky (1995) e Salomón
ao objeto. Daí ser necessário gerar pautas de (2001). A formação de redes e sua articulação
comportamento propícias a criar conhecimento em comunidades emergentes de conhecimento
(GONZÁLEZ, 2007, p.18; 25). local (CECL) e de investigação (CEI) se interligam
ou se constituem em estrutura orgânica e afetiva
Conhecimento e informação “são inseparáveis.
“nosótrica” básica que garante essa dinâmica.
Não há conhecimento sem informação, mas pode
haver muita informação sem conhecimento. A A cultura de comunicação supõe a necessidade
informação e o conhecimento tornam possível e de contato entre os atores sociais para compor e
dão sentido à comunicação” (GONZÁLEZ, 2007, reorganizar o mundo social. Significa a capacidade
p.25). A cultura da informação “se desenvolve de coordenar ações coletivas e necessita desenhar
a partir de uma aproximação à natureza da e estabelecer três modalidades de intervenção
informação – já constituída em observáveis ou consciente sobre a forma social de organização
dados em sua dimensão espacial, estática - e do grupo: sucitar as diferenças, modificar a forma
como integrante dos processos de ‘comunicação/ 34 ZDP, para Vigotsky, se refere às funções mentais presentes
em estado embrionário, mas que avançam quando há interaçao
cognição’ em sua dimensão temporal, dinâmica” e intervenção de outros individuos.
94

social para contemplar as diferenças e ocupar-se Tojolabal é um dos povos Maya, do Alto dos
do ajuste da organização com o objetivo de integrar Chiapas, no México, cujo modo de viver em
uma rede inteligente, ativa, efetiva e afetivamente comunidade é expresso em sua língua (tojolabal),
construtora do espírito “nosótrico”35, (GONZÁLEZ, fundada na intersubjetividade e na participação
2007, p.18, p.25; s/db, p/6), ou seja, o nós, o espírito de todos e de cada um na condição de sujeito.
coletivo. Como comprova Carlos Lenkersdorf em seu livro
A cultura de comunicação implica também no “Los hombres verdaderos” (2008, p.14), entre os
desenvolvimento de três condições necessárias tojolabales “não há objetos nem no contexto do
para a comunicação presencial e a distância, idioma nem da cultura.”
quais sejam: “a estimulação, a conectividade e a Um dos pressupostos na efetividade da
consistência. Do mesmo modo, requer a atitude estimulação, conectividade e consistência em
básica de escuta para descobrir, suscitar, contemplar comunidades emergentes é a escuta, ou seja, o saber
e gerar a diferença” (MAASS, 2007, p. 234). escutar36 o outro e auscultar a realidade e o mundo.
O estímulo é elemento central no processo de Trata-se também de um princípio básico da cultura
construção do conhecimento (MAASS, 2007, p.240). tojolabal. Para González (s/db, p. 8), o primeiro passo
“Consiste conseguir a contínua expansão da zona para se tornar uma comunidade de investigação ou
de desenvolvimento proximal (ZDP) [referindo-se a de conhecimento local “é estabelecer as bases
Vygotsky] de cada um dos participantes e tem em vista de uma estrutura individual e coletiva de escuta
generaliza-la ao conjunto do coletivo”(GONZÁLEZ, autodeterminante”.
s/db, p.4). Portanto, cibercultur@ não refere às teias
Por conectividade entende-se “o processo de intercomunicativas, às sociabilidades no
comunicação que se inicia com a estimulação e ciberespaço ou às habilidades para operar
é seguido de uma etapa de conexão estrutural de destramente máquinas e programas de informática,
componentes conceituais”(MAASS, 2007, p.141) e se não precisamente para o cultivo e a geração de
significa a “construção, manutenção e expansão três tipos de saber fazer que conduzem a) à forma
dos vínculos entre todos os elementos estimulados com que aprendemos a perguntar sobre o mundo,
de um sistema concreto”(GONZÁLEZ, s/db, p.4). a converter problemas práticos em problemas
Já a consistência é relativa à natureza de conhecimento; b) às habilidades e destrezas
“nosótrica” da vinculação. “À medida que aumenta para criar, administrar e utilizar configurações
a “conectividade faz com que se comece a produzir de observáveis e dados de nosso entorno; c) à
um efeito de nosotrificación, a construção de um capacidade de coordenar ações com outros dentro
sentido renovado do nós que não só se manifesta na de estruturas de organização horizontais nas quais
identidade do grupo, mas no aumento da capacidade se possa distribuir a inteligência (CIBERCULTUR@...,
para processar a informação, definir os problemas e s/d, online)37.
resolvê-los de maneira coletiva” (GONZÁLEZ, s/db, A questão-chave é desenvolver conhecimento,
p.6), na perspectiva tojolabal (LENKERSDORF, 2008). mas um conhecimento contextualizado em seu
35 Vem do sufixo mayense Tik que significa “nosostros” e
36 Jorge González e Margarita Maass insistem nesse princípio
foi amplamente adotado por Carlos Lenkersdorf (2008) no
em várias passagens dos seus textos sobre cibercultur@.
livro “Los hombres verdaderos” para explicar a cosmovisão
Tojolabal. 37 Ver http://labcomplex.ceiich.unam.mx/labcomplex02/
95

entorno, na história e no mundo, e em processo de forma dispersa, mas que compartilham


constitutivo de relações comunicacionais densas os mesmos efeitos de processos em escala
e capazes de facilitar a participação ativa e o mundial (GONZÁLEZ, 2008, p.131).
compartilhamento constante do aprendizado, a
sistematização dentro do grupo (comunidade ou Breves apontamentos sobre o conceito de
rede), entre redes e na sociedade. Em suma, nas comunidade emergente de conhecimento
palavras de González (s/da, p.7), cibercultur@ é
Comunidade Emergente de Conhecimento
uma forma de “empoderamento que interessa três
é “uma rede virtual e comunitária ativada para
frentes estratégicas: a informação, o conhecimento
a geração de conhecimento local mediante o
e a capacidade de criar redes de ação para usar
aproveitamento intensivo das tecnologias de
a informação e o conhecimento em projetos
informação e comunicação (TICC) em um ambiente
específicos de autogestão”.
de inteligência distribuída” (MAASS, 2007, p.312)38.
Trata-se de Cada CEC corresponde a um nó (ou nodo) “de uma
construir redes que aumentam a massa rede em construção permanente [...]” (GONZÁLEZ,
crítica de geradores de informação e de MAASS, s/dc, p.7).
comunicação, que dignifiquem o ofício O desenvolvimento de comunidades
de investigar, que permitam uma relação emergentes se concentra em facilitar uma
horizontal entre os diversos grupos sociais dinâmica horizontal, próxima à educação
e que, dessa forma, ponham a nosso serviço popular de Freire e outros, que lhes permite
as tecnologias digitais de informação e não o apropriar-se coletivamente da tecnologia
contrário (GONZÁLEZ, 2007, p.19). para gerar uma capacidade de narrar-se e de
construir-se um ‘nosotros’39 [referindo-se a
Tal processo não significa rechaço as tecnologias. Lenkersdorf] autodeterminante e não derivado
Para efetiva-lo, González propõe a criação de de imposições externas” (GONZÁLEZ, 2009,
comunidades qualificadas como emergentes p.65).
de conhecimento local e/ou de informação, e a
formação de redes entre essas comunidades. Uma Comunidade Emergente de Investigação
O desenvolvimento destas redes emergentes (CEI) forma um coletivo que se organiza com
de comunidades busca tornar concreta a finalidade de realizar investigação e gerar informação
apropriação prática, dialógica, comunitária e e conhecimento. Nela, “cada participante é um nó
criativa dessa dimensão do vetor tecnológico interconectado de trabalho para conformar com o
submetido às necessidades de criação e de tempo, uma rede sistêmica inteligente”. Uma vez
informação e de conhecimento autogerado, ativada em cibercultur@, a CEI é capaz de realizar
porém, com toda uma estrutura autoprojetada e cultivar habilidades concernentes aos processo
e aberta para compartilhar e avançar sobre de informação, comunicação e conhecimento
as particularidades encontradas, ao incluí-las (GONZÁLEZ, s/db, p.2-3).
em uma rede de relações com outras formas
38 Versão digital disponível em: www.labcomplex.net
de conhecimento de outras comunidades,
39 Forjar-se em um nós, uma comunidade com espírito
deslocadas de maneira similar e localizadas extremamente coletivo.
96

Comunidades Emergentes de Conhecimento impulsionado o surgimento de iniciativas que visam


Local (CECL) são coletivos, ou redes, que se sua superação, sejam elas as desencadeadas por
organizam para construir um processo de movimentos sociais populares ou por comunidades
desenvolvimento social. Segundo Jorge González emergentes de conhecimento e tantos outros atores
(2009, p. 64), são redes horizontais que se ocupam sociais.
em desenvolver seus “próprios sistemas de
informação e de comunicação para gerar respostas É possível interrelacionar a COM COM à
de conhecimento frente a problemas concretos cibercultur@?
e significativos de sua localidade [...]: migração,
Partindo da similitude acima destacada,
pobreza, desemprego, contaminação, violência,
identificam-se intersecções entre a comunicação
fome, deterioração ambiental, água e tantos mais”.
popular e comunitária quando esta é desenvolvida
Por intermédio da aplicação dos princípios da na perspectiva das organizações comunitárias
cibercultur@ se inicia um e dos movimentos sociais orgânicos às classes
processo de empoderamento a partir de uma subalternas e a cibercultur@, embora haja
nova e potenciada capacidade coletiva de distinções substanciais em ambas as partes. Elas
narrar seu passado, redefinir seu presente e têm em comum a visão do mundo como contraditório
de redesenhar seu futuro e mundos possíveis e opressor, o sentido político-ideológico dado às
mediante outras formas de narrar-se e de estratégias de mobilização e organização social,
visibilizar-se emanadas de sua capacidade de além de partilharem aspectos quanto ao modo de
gerar e manter sistemas de informação e de atuar tendo em vista a superação de problemas
conhecimento, primeiro local e posteriormente concretos decorrentes das desigualdades sociais
situado, quando cada comunidade emergente e para a construção de uma sociedade justa. O
se converte em um nó de uma rede que se ponto central da questão metodológica em comum
vincula às demais comunidades emergentes diz respeito à participação ativa do cidadão/ã em
(GONZÁLEZ, 2009, p. 65). processos que forjam práticas autogestionárias
de organização social e, no caso da comunicação
Embora se revistam de especificidades, é comunitária, nesse fazer comunicacional. Tal tipo
posssível ser feita uma analogia entre a concepção de participação, em sua forma mais avançada, se
de cibercultur@ e a dos movimentos sociais constitui em autogestão comunitária no exercício do
populares do Brasil e de outros países da América poder de controle e direção dos processos sociais e
Latina, principalmente quanto a aspectos como de comunicação (ciber).
a organização popular autônoma e da práxis Por outro lado, enquanto a cibercultur@ está
desenvolvida a partir da ação coletivizada com mais voltada para a formação e organização de
vistas a solucionar problemas que degradam comunidades emergentes de conhecimento, a
as condições de existência das populações comunicação popular e comunitária dos segmentos
empobrecidas. Tais problemas afetam grandes organizados das classes subalternas decorre
contigentes populacionais das classes subalternas, de processos “espontâneos” de organização e
mas, como as contradições trazem em seu interior mobilização desses setores da sociedade civil. Se
o germe de sua própria negação, elas também têm a primeira visualiza um processo de organização
97

social a partir das CECL e CEI capaz de forjar um movimentos sociais populares normalmente se gera
novo projeto de sociedade, a segunda parece muitos conhecimentos, são feitas inúmeras coisas,
agir mais a partir das demandas, interesses e mas se documenta pouco e quase não se sistematiza
capacidades de mobilização da sociedade civil, ou o conhecimento construído. As informações e o
seja, se circunscreve nos limites das conjunturas, conhecimento costumam se dispersar por falta
com exceção, é claro, de movimentos populares que da prática de criação de sistemas inteligentes
têm clareza quanto à opção política pelo socialismo. de informação. O resultado é que, às vezes, a
Enquanto a primeira tem em mira a construção informação se perde enquanto conjunto estruturado.
de um projeto novo de sociedade, a comunicação Fica apenas o que cada um consegue aproveitar ou
popular e comunitária mostra a tendência de que a entidade reúne e preserva40. O conhecimento
constituir-se enquanto processo mais preso às acaba não sendo socializado como poderia, ou
lutas cotidianas por melhores condições de vida e ainda, muito do que se consegue arregimentar
consequentemente de mudança na realidade, sem permanece no nível dos dados, dos elementos,sem
desconsiderar que existem movimentos sociais e gerar sistemas de informação. No contexto da
organizações que também têm como estratégia a cibercultur@ se forjaria esse tipo de práxis, afinal,
feitura de um outro tipo de projeto de sociedade. tal quefazer está no âmago desta concepção.
Desse modo, pode-se inferir que ao incorporar Outra premissa implícita na concepção teórica
o espírito da cibercultur@, os movimentos sociais, da cibercultur@ é forjar o empoderamento coletivo
ONGs e associações comunitárias poderiam melhorar das TICC. As táticas e a estratégia envoltas nas CECs,
sua performance no sentido de não se contentarem como diz González ( s/da, p.7), conduzem a que as
com as ações tópicas. Há que se mirar um projeto mesmas “façam suas as tecnologias de informação
de sociedade, ou seja, discutir o tipo de sociedade e comunicação, não só para acessar a informação,
que se deseja construir. Caso contrário, apesar da mas para gerar seu próprio conhecimento”. Trata-
boa vontade, pode-se incorrer em processos de se de algo ainda tímido no universo dos movimentos
formação, de educação não-formal e informal e de populares de base. Aí está mais um dos desafios que
mobilização que mais ajudam no enquadramento ao cabe às organizações de comunicação comunitárias
sistema e na reprodução da sociedade capitalista e aos próprios movimentos comunitários: incoporar
do que na sua transformação. Nessa condição, coletivamente as tecnologias como suas e em toda a
como construir a contra-hegemonia? potencialidade nas práticas relativas aos processos
É imprescindível acrescentar outros dois de consciência-organização-ação voltados para
aspectos diferenciais fundamentais, com pontos a efetivação plena da cidadania. Não se trata
a favor da cibercultur@. Um deles está na de defesa ou negação das TICC. Como partes
premissa da importância em se forjar sistemas de constituídas e constituintes pela e da sociedade
informação (organizar, documentar, sistematizar atual, não há outra maneira do que se estar nelas
informações) e intensificar a comunicação intra e empoderar-se delas. Porém, o ciberespaço não
e intercomunidades, a fim de gerar e partilhar 40 É o caso do Centro de Pastoral Vergueiro (CPV) e do do
conhecimentos, o que se constitui num primeiro Centro de Comunicação e Educação Popular de São Miguel
(CEMI) , ambos de São Paulo, Brasil, que já foram organizações
desafio aos movimetnos sociais e organizações de referência de documentação para trabalhos e pesquisas
comunitárias de comunicação. Nas práticas de e hoje alguns de seus idealizadores lutam para preservar
arquivos desestruturados e em decomposição.
98

diminui a importância do espaço fisico nem elimina em curso como antítese das relações desiguais
as lutas sociais presenciais. entre dominantes e subalternos construídas
Enfim, a discussão que a cibercultur@ soa historicamente em todos os níveis.
oportuna para uma mudança de qualidade da A perspectiva teórico-metodológica da
comunicação popular e comunitária. Ou seja, cibercultur@ desenvolvida pelo Labcomplex se 41

provocar a constituição de práticas capazes de mostra apropriada para se entender as condições


ajudar na constituição das culturas mencionadas em que a inserção da comunicação popular,
(terceiro desafio) em paralelo ao estabelecimento comunitária e alternativa no ciberespaço e, além
ou recuperação de relações de organicidade entre dele, representaria um avanço qualitativo do status
os meios de comunicação comunitários e populares da cidadania. Ela corresponde aos pressupostos
e as organizações coletivas que lhes deram origem originários da comunicação no contexto dos
e sustentação política, um quarto desafio. movimentos sociais populares quanto à autonomia
e ao protagonismo popular como facilitadores do
Conclusão processo de ampliação do exercício da cidadania
em suas dimensões – civil, social e política -, mas
Diante do limite de espaço previsto para este
também explicitamente comunicacional e como
texto, muito há a complementar sobre o assunto ora
um direito de quinta geração42. Ao mesmo tempo,
discutido. Mas, os breves apontamentos anteriores
a cibercultur@ avança ao apontar caminhos
denotam a importância do tema, tanto do ponto de
capazes de solidificar processos de informação,
vista da comunicação popular e comunitária, como
conhecimento e comunicação e instigar a
expressão de uma comunicação comprometida com
constituição de novo projeto de sociedade.
a transformação social, como pela inovabilidade
que os seus protagonistas populares são levados Ao finalizar, surge uma pergunta: a comunicação
a incorporar por causa das mudanças ocorridas popular e comunitária poderia inspirar algo à
no ambiente comunicacional possibilitado pelo cibercultur@? Eis um assunto a ser investigado.
ciberespaço. Trata-se de dimensão pouco estudada
na área da Comunicação, no Brasil, visto que a
predominância investigativa sobre o ciberespaço
se concentra em estudos sobre determinismo
tecnológico, nas ramificações da indústria cultural
na internet e na presença e significados dos usos
do ciberespaço por “pequenas multidões” de
internautas, principalmente a partir do fenômeno
crescente das redes sociais de relacionamentos
tipo Orkut e Facebook, estudos também necessários
e importantes.
A comunicação popular, comunitária e alternativa,
ao se inserir no ciberespaço, contribui para forjar
41 Laboratorio de Investigación y Desarrollo en Comunicación
uma mutação nas práticas constitutivas do exercício Compleja.
da cidadania. Parece haver reelaborações culturais 42 Ver Peruzzo (2008).
99

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