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DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO

ATIVIDADE DISCENTE

Gabriel Santana Ângelo

01 - Conceitue nacionalidade e explique os critérios para a sua atribuição nos termos da


constituição de 88.

Nacionalidade é um vínculo jurídico-político que liga o indivíduo ao Estado, fazendo dele um


componente do povo. Daí deriva a nacionalidade originária e a secundária, senão vejamos:

a) Nacionalidade primária (originária)

São os considerados brasileiros natos. As hipóteses de nacionalidade originária estão previstas no


art. 12, I, CF. O critério para adquirir está nacionalidade referem-se ao nascimento do indivíduo,
não está relacionada à manifestação de vontade.

O primeiro critério é o jus solin, segundo o qual é brasileiro nato o indivíduo que nasce em
território brasileiro. É utilizado, geralmente, em países de imigração. O Brasil adota no art. 12, I,
a, CF este critério, excetuando o critério funcional, ou seja, não serão considerados brasileiros
natos os nascidos no Brasil quando o pai e a mãe (estrangeiros) estiverem a serviço do país de
origem, uma vez que o país de origem irá reconhecer a nacionalidade originária da criança.

Art. 12. São brasileiros:


I - natos:
os nascidos na República Federativa do Brasil, ainda que de pais estrangeiros,
desde que estes não estejam a serviço de seu país;

Obs.: a exceção refere-se a ambos os pais a serviço de seu país ou um deles deve estar apenas
acompanhando o outro. Assim, um diplomata que casa com uma brasileira e tem um filho não será
aplicada a exceção, uma vez que esta não o estava acompanhando e nem era sua esposa.

Obs.: Os pais devem estar a serviço de seu próprio país. Desta forma, se um argentino a serviço da
Espanha tem um filho no Brasil este será brasileiro nato.

O segundo critério é o sanguíneo ou jus sanguis, geralmente ocorre em países de emigração.


Adotam este critério para que sejam mantidos os laços com o país de origem. O Brasil,
igualmente, no art. 12, I, b, CF adotou o critério sanguíneo em conjugação com o critério
funcional. Desta forma, são brasileiros natos:
Art. 12, I, b) os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou mãe brasileira,
desde que qualquer deles esteja a serviço da República Federativa do Brasil;

Obs.: Neste caso, apenas um dos pais precisa estar a serviço do Brasil. Assim, caso um brasileiro a
serviço do Brasil tenha um filho com uma italiana este será considerado brasileiro nato.

A terceira hipótese adota o critério sanguíneo conjugado com o registro na repartição brasileira
competente.

c) os nascidos no estrangeiro de pai brasileiro ou de mãe brasileira, desde que


sejam registrados em repartição brasileira competente (EC 54/07) ou venham a
residir na República Federativa do Brasil e optem, em qualquer tempo, depois de
atingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira;

Obs.: Antes da EC 54/07 os nascidos no exterior de pai ou mãe brasileira (jus sanguis) que não
estavam a serviços do Brasil, só seriam considerados brasileiros natos se viessem a residir no
Brasil e optassem pela nacionalidade brasileira. Começou a surgir inúmeros brasileirinhos
apátridas (sem nacionalidade). Com a EC 54/07, passou a ser possível que o filho de brasileiro ou
de brasileira, mesmo que não venha residir no Brasil, poderá ser brasileiro desde que o pai faça o
registro em uma repartição pública do Brasil no país em que estão residindo.

Pode acontecer de os pais estarem em algum país que não admite a dupla nacionalidade, neste
caso o pai deixou de registrar o filho na repartição brasileira competente. Nestas hipóteses, a
criança pode a qualquer tempo, quando vier a residir no Brasil, optar pela nacionalidade brasileira,
ocasião em que será considerado brasileiro nato.

Há uma quarta hipótese, não prevista no texto constitucional, que é defendida por parte da
doutrina como sendo de nacionalidade originária, são os casos de adoção. Estes autores, com base
no art. 227, § 7º, CF, sustentam que seria possível atribuir a nacionalidade originária aos filhos
adotados (não é um entendimento pacífico).

b) Nacionalidade secundária (adquirida):

Confere ao indivíduo o status de brasileiro naturalizado. Está prevista no art. 12, II, CF. Decorre
de um ato de vontade, ou seja, o indivíduo é que opta pela nacionalidade brasileira. Possui duas
hipóteses: a primeira é chamada de naturalização tácita ou grande naturalização e segunda é
denominada de naturalização expressa.

Na naturalização tácita o individuo não precisa manifestar a sua vontade, basta que não faça nada.
É adotado, geralmente, por países que querem aumentar o seu índice populacional. No Brasil,
ocorreu na CF imperial e na CF de 1891, com o intuito de aumentar a população brasileira, assim
à época bastava o estrangeiro residir no Brasil para ser considerado brasileiro naturalizado, salvo
se manifestasse vontade de não o ser.
A CF/88 adotou apenas a naturalização expressa que pode ser: a) ordinária (art. 12, II, a) e a b)
extraordinária (art. 12, II, b).

Art. 12, II - naturalizados:


a) os que, na forma da lei (Estatuto do Estrangeiro 6.815/80), adquiram a
nacionalidade brasileira, exigidas aos originários de países de língua portuguesa
(válida a todos os países de língua portuguesa e não apenas a Portugal) apenas
residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral; Trata-se de um ato
discricionário, não há direito público subjetivo.
b) os estrangeiros de qualquer nacionalidade, residentes na República
Federativa do Brasil há mais de quinze anos ininterruptos e sem condenação
penal, desde que requeiram a nacionalidade brasileira. Pode ser chamada de
quinzenária.

Para adquirir a naturalização brasileira de forma extraordinária é necessário: residência no Brasil


por mais de quinze anos; não pode ter sofrido condenação penal e deve requerer. Neste caso,
segundo o entendimento do STF, trata-se de um ato vinculado, ou seja, a pessoa possui um direito
público subjetivo.

A utilização da expressão “desde que requeiram” lhe confere uma garantia, sendo um ato
vinculado.

02 - Explique a diferença entre o tratamento conferido aos brasileiros natos,


naturalizados e aos portugueses residentes no Brasil.

a) “Quase” Nacionalidade

O indivíduo não é considerado brasileiro nato nem brasileiro nacionalizado, no entanto, possui os
mesmos direitos dos brasileiros. Esta hipótese, prevista no art. 12, § 1º, CF é aplicada apenas aos
portugueses, desde que exista reciprocidade por parte de Portugal. Ou seja, os direitos conferidos
aos portugueses pelo Brasil devem ser os mesmos conferidos aos brasileiros em Portugal.

Por exemplo, um português que reside no Brasil pode ser candidato ao cargo de Deputado
Estadual, Deputado Federal, Governador ou Prefeito, desde que Portugal admita que um brasileiro
residente em Portugal possa se candidatar a cargos políticos lá.

§ 1º Aos portugueses com residência permanente no País, se houver


reciprocidade em favor de brasileiros, serão atribuídos os direitos inerentes ao
brasileiro, salvo os casos previstos nesta Constituição.

Apesar da CF não fazer distinção entre brasileiro nato e naturalizado no referido dispositivo, fica
claro que eles terão os mesmos direitos do brasileiro naturalizado. Os direitos dos brasileiros
naturalizado são os mesmo direitos do brasileiro nato, salvo os casos previstos na CF.
O português equiparado tem os mesmos direitos de um brasileiro naturalizado ou, em outras
palavras, os mesmos direitos de um brasileiro nato com as exceções previstas na CF.

b) Nato X Naturalizado

A lei não pode estabelecer diferença de tratamento entre brasileiro nato e brasileiro naturalizado,
só a CF pode fazer tal distinção (art. 12, § 2º, CF).

§ 2º - A lei não poderá estabelecer distinção entre brasileiros natos e


naturalizados, salvo nos casos previstos nesta Constituição.

A CF estabelece quatro diferenças de tratamento entre o brasileiro nato e o brasileiro naturalizado:

a) Cargos privativos – alguns cargos só poderão ser ocupados por brasileiros natos. A CF
estabelece dois critérios: i) linha sucessória do Presidente da República e ii) segurança
nacional.

§ 3º - São privativos de brasileiro nato os cargos:


I - de Presidente e Vice-Presidente da República;
II - de Presidente da Câmara dos Deputados (representante da Casa do Povo);
III - de Presidente do Senado Federal (representante dos Estados);
IV - de Ministro do Supremo Tribunal Federal (todos os ministros do STF devem
ser brasileiro nato, uma vez que a presidência do STF é rotativa. O presidente do
CNJ deve ser brasileiro nato, vez que o cargo é exercido por ministro do STF);
V - da carreira diplomática;
VI - de oficial das Forças Armadas.
VII - de Ministro de Estado da Defesa

b) Conselho da República – art. 89, VII, seis dos assentos deste conselho devem ser
reservados aos brasileiros natos, tendo em vista que este é um órgão de conselho do
Presidente da república.

Art. 89. O Conselho da República é órgão superior de consulta do Presidente da


República, e dele participam:
I - o Vice-Presidente da República;
II - o Presidente da Câmara dos Deputados;
III - o Presidente do Senado Federal;
IV - os líderes da maioria e da minoria na Câmara dos Deputados;
V - os líderes da maioria e da minoria no Senado Federal;
VI - o Ministro da Justiça;
VII - seis cidadãos brasileiros natos, com mais de trinta e cinco anos de idade,
sendo dois nomeados pelo Presidente da República, dois eleitos pelo Senado
Federal e dois eleitos pela Câmara dos Deputados, todos com mandato de três
anos, vedada a recondução.
c) Propriedade de empresa jornalística e de radio-difusão sonora, podendo ser de brasileiro
naturalizado a pelo menos 10 anos. A exceção foi colocada, segundo informações, devido
ao Presidente do grupo abril.

Art. 222. A propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de


sons e imagens é privativa de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez
anos, ou de pessoas jurídicas constituídas sob as leis brasileiras e que tenham
sede no País

d) Extradição: brasileiro nato não pode ser extraditado em hipótese alguma (art. 5º, LI, CF).
Em relação ao brasileiro naturalizado a CF prevê duas hipóteses: i) crime praticado antes
da naturalização permite extradição e ii) crime praticado após a naturalização irá gerar a
extradição, desde que seja o crime de tráfico de entorpecentes e drogas afins.

Segundo a súmula 421 STF, o estrangeiro casado com brasileira ou pai de brasileiro pode ser
extraditado: “Não impede a extradição a circunstância de ser o extraditado casado com brasileira
ou ter filho brasileiro”. Não pode ser confundida com a súmula 01 STF (“É vedada a expulsão de
estrangeiro casado com brasileira, ou que tenha filho brasileiro, dependente da economia
paterna”), que se refere à expulsão de estrangeiro, neste caso não é possível.

No caso de extradição, o indivíduo pratica um crime em outro país e este requer ao Estado
brasileiro que efetue a extradição ao país de origem. Na expulsão o ato nocivo é praticado dentro
do território nacional, ocasião em que será expulso do país.

“Entrega” (“surrender”) é diferente de extradição. Na extradição o indivíduo é entregue à


jurisdição de outro país diferente, por isso não se admite a extradição de um brasileiro nato, sendo
admitida apenas de estrangeiro ou de naturalizado. No caso da entrega a pessoa é entregue a uma
jurisdição internacional, da qual o próprio Brasil faz parte e manifestou expressamente a sua
adesão, ou seja, no caso do Tribunal Internacional, o indivíduo não está sendo entregue a uma
jurisdição de outro país. Por isso, Novelino entende que não há nada que impeça um brasileiro
nato ser entregue a um Tribunal Penal Internacional.

03 - Quando pode ser declarada a perda da nacionalidade? Fundamente.

Art. 12, § 4º, CF, ocorre através de:

a) Ação de cancelamento da naturalização: somente se aplica a brasileiros naturalizados.

Art. 12, § 4º - Será declarada a perda da nacionalidade do brasileiro que:


I - tiver cancelada sua naturalização, por sentença judicial (competência da
justiça federal), em virtude de atividade nociva ao interesse nacional;

b) Naturalização voluntária: aplica-se aos brasileiros natos e aos brasileiros


naturalizados.

Art. 12, §, 4º, II - adquirir outra nacionalidade, salvo no casos:


a) de reconhecimento de nacionalidade originária pela lei estrangeira; aplica-se
apenas aos brasileiros natos.
b) de imposição de naturalização (não é voluntária, o indivíduo foi obrigado),
pela norma estrangeira, ao brasileiro residente em estado estrangeiro, como
condição para permanência em seu território ou para o exercício de direitos
civis;

Obs.: a ressalva feita pela alinha “a” do § 4º, do art. 12, CF, se aplica apenas aos brasileiros natos.