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Chuck Palahniuk

Cantiga de ninar
Título original: Lullaby, 2002
Tradução de Paulo Reis
Rocco, 2004
Dedico este livro, com especial agradecimento, a...
Jason Cheung
Kyle McCormick
Dennis Widmyer
Amy Dalton
Kevin Kölsch
Que liam minhas coisas quando ninguém lia minhas coisas.
Prólogo

No início, o novo proprietário finge que jamais olhou para o chão


da sala. Não chegou a olhar de verdade. Não da primeira vez que eles
examinaram a casa. Não quando o inspetor lhes mostrou tudo. Eles
mediram os aposentos e disseram ao pessoal da mudança onde
colocar o sofá e o piano, trouxeram tudo que possuíam, e jamais
chegaram a olhar de verdade para o chão da sala. Eles fingem.
Então, na primeira manhã, descem, e lá estão as letras rabiscadas
no assoalho de carvalho branco:

SAIAM

Alguns dos novos proprietários fingem que aquilo foi uma


brincadeira feita por um amigo. Outros têm certeza de que a coisa se
deve à falta de gorjeta para o pessoal da mudança.
Duas noites depois, um bebê começa a chorar dentro da parede
norte do quarto principal.
Geralmente é então que eles ligam.
Mas nossa heroína, Helen Hoover Boyle, não quer saber desse
novo proprietário ao telefone nesta manhã.
Nem desses gemidos e dessa gagueira.
Ela quer mais uma xícara de café e uma palavra de oito letras para
“aves”. Quer ouvir o que está acontecendo no aparelho que capta a
frequência policiai do rádio. Helen Boyle estala os dedos até atrair a
atenção de sua secretária na recepção do escritório. Depois tapa o
bocal com duas mãos e aponta o fone para o aparelho, dizendo:
— É um código nove-onze.
A secretária, Mona, dá de ombros e diz:
— E daí?
E daí que ela precisa ver o que é isso no livro de códigos.
Mona aconselha:
— Relaxe. É um ladrão de lojas.
Assassinatos, suicídios, assassinos compulsivos, overdoses
acidentais, não dá para esperar a coisa sair na primeira página do
jornal. Não dá para deixar outro corretor chegar primeiro ao próximo
maná.
Helen quer que o novo proprietário do número 325 de Crestwood
Terrace cale a boca por um instante.
É claro, a mensagem apareceu no chão da sala. O estranho é que o
bebê só costuma começar a chorar na terceira noite. Primeiro vem a
mensagem fantasma, e depois o bebê chorando a noite toda. Se os
proprietários ainda resistirem, dali a uma semana estarão ligando
para falar de um rosto refletido na água quando se enche a banheira.
Um rosto inchado, cheio de rugas, com dois buracos escuros no lugar
dos olhos.
A terceira semana traz as sombras fantasmagóricas que circulam,
incessantes, pelas paredes da sala de jantar quando todos se sentam
à mesa. Talvez haja mais eventos depois disso, mas ninguém resiste
até a quarta semana.
Helen Hoover Boyle diz ao novo proprietário:
— A menos que vocês estejam preparados para ir à justiça,
provando que é impossível morar na casa, e a menos que possam
provar sem sombra de dúvida que os proprietários anteriores sabiam
que isso estava acontecendo... é bom saber que se perderem um caso
como este, depois de gerar tanta publicidade ruim, a casa não valerá
mais nada.
O número 325 de Crestwood Terrace não é uma casa ruim: estilo
Tudor, telhado novo, quatro quartos, três banheiros, um lavabo e uma
piscina. Nossa heroína nem precisa consultar a ficha. Vendeu a casa
seis vezes nos últimos dois anos.
Outra casa em Eton Court, no estilo da Nova Inglaterra: seis
quartos, quatro banheiros, vestíbulo revestido em pinho e sangue
escorrendo pelas paredes da cozinha. Helen vendeu essa casa oito
vezes nos últimos quatro anos.
— Preciso pedir que você aguarde um instante — diz ela ao novo
proprietário, apertando um botão vermelho no telefone.
Helen está usando conjunto e sapatos brancos, mas não branco-
neve, e sim o branco de uma colina de esqui em Banff, com carro
particular e motorista à disposição, quatorze peças de bagagem em
tons combinados, e uma suíte no Hotel Lake Louise.
— Mona? Moninha? — chama nossa heroína em direção à porta.
Depois tamborila a caneta sobre a página de jornal dobrada na mesa
e pergunta: — Qual é a palavra de quatro letras para “roedor"?
O aparelho que capta a faixa policial gargareja palavras, resmunga
e late, repetindo após cada frase:
— Copiado? Copiado?
Helen Boyle grita:
— Não dá para tomar esse café!
Dentro de uma hora, ela precisa estar mostrando uma casa em
estilo Queen Anne, com cinco quartos, apartamento para a sogra,
duas lareiras a gás e o rosto de uma suicida morta por barbitúricos
que aparece tarde da noite no espelho da penteadeira. Depois disso,
há o rancho com pisos em vários níveis: aquecimento, alcova
rebaixada e a recorrente aparição de tiros fantasmagóricos de um
homicídio ocorrido há mais de uma década. Tudo isso está na grossa
agenda dela, encadernada no que parece ser couro vermelho. É ali
que Helen registra tudo.
Ela toma mais um gole de café.
— Que nome você dá a isso? Café precisa ter gosto de café.
Mona aparece no umbral com os braços cruzados.
— O quê?
Helen folheia algumas fichas.
— Preciso que você dê uma passada no número... 4.673 de
Willmont Place. Estilo colonial holandês, com solário, quatro quartos,
dois banheiros e um homicídio com agravantes.
O aparelho que capta a faixa policial repete:
— Copiado?
— É só fazer o de sempre — diz Helen, escrevendo o endereço
num cartão e estendendo-o para ela. — Não tente decifrar nada.
Nada de queimar salvas. Não exorcize porra nenhuma.
Mona pega o cartão:
— É só para conferir as vibrações?
Helen corta o ar com a mão:
— Não quero ninguém adentrando túneis rumo a uma luz
brilhante. Quero que esses monstrinhos fiquem aqui mesmo, neste
plano astral, obrigada. — Depois olha para o jornal: — Eles têm a
eternidade inteira para ficar mortos. Podem muito bem continuar
naquela casa por mais cinquenta anos, chacoalhando correntes.
Ela olha para a luz de espera que pisca e diz:
— O que você sentiu naquela casa em estilo espanhol ontem?
Mona revira os olhos para o teto, projeta o queixo à frente, solta
um grande suspiro que faz esvoaçar o cabelo na testa. —
Decididamente, há uma energia ali. Uma presença sutil. Mas a planta
arquitetônica é maravilhosa.
Um cordão de seda preto enlaça seu pescoço e desaparece no
canto da boca.
Nossa heroína diz:
— Caguei para a planta arquitetônica.
Danem-se as casas de sonho que só são vendidas a cada cinquenta
anos! Danem-se os lares felizes! E danem-se as sutilezas: correntes de
ar frias, vapores estranhos, animais de estimação irritadiços. Ela
precisa de sangue escorrendo pelas paredes. Precisa de gélidas mãos
invisíveis arrancando crianças da cama à noite. Precisa de ardentes
olhos rubros no escuro ao pé da escada do porão. Isso e mais uma
fachada atraente.
O bangalô na rua Elm 521 tem quatro quartos, encanamento
original e gritos no sótão.
A casa em estilo normando francês, no número 7.645 de Weston
Heights, tem janelas em arco, despensa para o mordomo, portas de
vidro e um corpo com facadas múltiplas que aparece no corredor do
andar superior.
A casa que imita um rancho no número 248 de Levee Place —
cinco quartos, quatro banheiros, um lavabo e pátio de lajotas — tem
o sangue que vive reaparecendo nas paredes da suíte principal
depois do envenenamento de um desentupidor de ralos.
Os corretores as chamam de casas perturbadas. Eram casas
jamais vendidas, pois ninguém gostava de vendê-las. Nenhum
corretor queria oferecer um open-house nelas, para não se arriscar a
ficar sozinho ali. Ou então eram casas vendidas e revendidas a cada
seis meses, porque ninguém conseguia morar nelas. Com uma boa
fieira daquelas casas, vinte ou trinta com direitos exclusivos, Helen
poderia desligar o tal aparelho que capta a faixa policial. Poderia
parar de esquadrinhar os obituários e as páginas criminais em busca
de suicídios e homicídios. Poderia parar de mandar Mona verificar
cada pista possível. Poderia simplesmente relaxar e encontrar uma
palavra de seis letras para “equino”.
— Preciso que você pegue minha roupa na lavanderia. E arranje
um café decente — diz ela, apontando a caneta para Mona. — Além
disso, por respeito profissional, deixe os bagulhinhos rastafari em
casa.
Mona suga o cordão preto até um cristal de quartzo, reluzente e
molhado, surgir de sua boca. Depois sopra a pedra, dizendo:
— É de cristal. Foi presente do meu namorado, o Oyster.
Helen diz: — Você namora um rapaz chamado Oyster?
— Ele diz que isso é para me proteger — diz Mona, deixando o
cristal cair no peito e criar uma mancha úmida e escura na blusa
alaranjada.
— Antes de ir, ligue para o Bill ou a Emily Burrows — diz Helen.
Depois aperta o botão de espera: — Desculpe.
Ela diz que há duas alternativas claras no caso. O novo
proprietário pode se mudar, assinando um termo de cessão de
direitos e fazendo com que a casa passe a ser problema do banco.
— Ou então vocês podem me dar exclusividade na venda da casa
— diz nossa heroína.
Talvez o novo proprietário diga não desta vez. Mas depois que o
tal rosto pavoroso aparece entre suas pernas na água do banho,
depois que as sombras começam a marchar pelas paredes, todos
acabam dizendo sim.
Ao telefone, o novo proprietário pergunta: — E você não vai falar
do problema aos compradores?
— Vocês nem precisam terminar de desencaixotar as coisas. Nós
simplesmente diremos que vocês já começaram o processo de
mudança. Se alguém perguntar, diga que você foi transferido para
outra cidade. Diga que você adorava essa casa. Todo o resto será um
segredinho entre nós.
Lá do escritório externo, Mona grita:
— Bill Burrows na linha dois!
E o aparelho que capta a faixa policial: — Copiado?
Nossa heroína aperta o botão seguinte:
— Bill!
Silenciosamente, ela articula a palavra café para Mona. Inclina a
cabeça em direção à janela e acrescenta, ainda silenciosamente, vá
logo.
O aparelho que capta a faixa policial continua:
— Copiado?
Essa era Helen Hoover Boyle. Nossa heroína. Agora morta, mas
não morta. Esse era apenas mais um dia na sua vida. Esse era o estilo
de vida dela antes que eu aparecesse. Talvez esta seja uma história de
amor, talvez não. Depende do quanto eu consigo acreditarem mim
mesmo.
Isto é sobre Helen Hoover Boyle. Sobre o feitiço que ela exerce
sobre mim. Como uma canção que fica em nossa cabeça. Como
achamos que a vida deve ser. Como qualquer coisa que prende nossa
atenção. Como nosso passado nos segue todo dia futuro afora.
É isso. É isto. É só isso, Helen Hoover Boyle.
Todos nós somos assombrados, e assombramos.
Neste último dia ordinário de sua vida prosaica, nossa heroína diz
ao telefone:
— Bill Burrows? Você precisa colocar a Emily na extensão, pois
encontrei o lar perfeito para vocês dois.
Escreve a palavra “cavalo” e conclui:
— Pelo que entendi, os proprietários estão altamente motivados a
vender.
Capítulo 1

O problema de toda história é ser contada depois do fato.


Até a transmissão radiofônica de um jogo, com os gols e as faltas, sofre
um atraso de alguns minutos. Até a cobertura televisiva ao vivo é
retardada por alguns segundos.
Até o som e a luz têm limites de velocidade.
Outro problema é o narrador. O quem, que, onde, quando e por que do
repórter. A parcialidade da mídia. Como o mensageiro formata os fatos.
Aquilo que os jornalistas chamam de Porteiro da redação. A apresentação
é tudo.
A história por trás da história.
Estou escrevendo isso numa série de cafés, um atrás do outro. Este livro
está sendo escrito, capítulo por capitulo, em diferentes cidadezinhas ou
paradas de caminhão no meio do nada.
O que todos esses lugares têm em comum é a ocorrência de um milagre.
A gente lê esses troços nos tabloides vagabundos: curas e visões, milagres
que nunca são relatados nos órgãos de imprensa mais importantes.
Desta vez foi a Santa Virgem de Welburn, Novo México. Ela passou
voando pela rua principal na semana passada. Com suas longas trancinhas
vermelhas e pretas flutuando no ar, seus pés descalços e sujos, ela usava um
corpete de brim e uma saia de algodão indígena tingida de dois tons de
marrom. Está tudo na edição desta semana do Relatório de Milagres
Mundiais, que é colocado ao lado de todas as caixas registradoras de
supermercado na América.
E aqui estou eu, uma semana atrasado. Sempre um passo atrás. Sempre
depois dos fatos.
A Virgem Voadora tinha as unhas pintadas de rosa forte, com as bordas
brancas. Uma manicure francesa, disseram algumas testemunhas. A
Virgem Voadora usava uma lata de inseticida, e com isso escreveu no azul
do céu do Novo México:

PAREM DE TER BEBÊS

Ela deixou cair a lata de inseticida, que no momento está a caminho do


Vaticano para ser analisada. Já é possível comprar cartões-postais sobre o
evento. E até vídeos.
Quase tudo que podemos comprar surge depois do fato. Vem preso.
Morto. Cozido.
Nos vídeos de suvenir, a Virgem Voadora agita a lata de inseticida.
Flutuando acima de uma das pontas da rua principal, ela acena para a
multidão. E há um tufo de pelos marrons no seu sovaco. Um instante antes
de ela começar a escrever, uma rajada de vento ergue-lhe a saia, e a Virgem
Voadora não está de calcinha. Entre as pernas, ela se depilou.
Estou escrevendo a história de hoje num restaurante à beira da estrada,
conversando com testemunhas em Welburn, Novo México. Comigo está o
Sarja, um velho policial que parece uma batata assada. Na mesa entre nós
está o jornal local, dobrado de forma a mostrar um anúncio de três colunas
que diz:

Atenção clientes de todas as lojas de estofados

O anúncio diz:

“Se aranhas venenosas surgiram de dentro de seus novos


estofados,
você poderá participar de uma ação indenizatória coletiva.”

O anúncio dá um número de telefone para o qual você deve ligar, mas


ninguém atende.

O Sarja tem no pescoço o tipo de pele frouxa que, ao ser beliscada e


depois solta, continua beliscada. Ele sempre precisa achar um espelho e
esfregar a pele para alisá-la.
Do lado de fora do restaurante, as pessoas continuam a chegar à cidade.
Ajoelham-se e rezam, pedindo outra aparição. Sarja junta as mãos imensas
e finge rezar, com os olhos virados para o lado a fim de espiar pela janela.
Tem o coldre desafivelado e a pistola carregada, pronta para disparar.
Depois de terminar de escrever no céu, a Virgem Voadora lançou beijos
para as pessoas. Fez o sinal da paz com dois dedos. Ficou pairando pouco
acima das árvores, com a saia agarrada numa das mãos. Sacudiu as
trancinhas vermelhas e pretas, acenou e disse Amém. Desapareceu atrás
das montanhas, sobre o horizonte. Foi-se.
Mesmo assim, não dá para confiar em tudo que se lê nos jornais.
A Virgem Voadora não foi um milagre.
Foi uma mágica.
Essas coisas não são santas. São feitiços.
Sarja e eu não estamos aqui para testemunhar coisa alguma. Somos
caçadores de bruxas.
Mesmo assim, esta história não é sobre o aqui e o agora. Eu, o Sarja, a
Virgem Voadora. Helen Hoover Boyle. O que estou descrevendo nesta
história é o nosso encontro. Como chegamos aqui.
Capítulo 2

Eles só fazem uma pergunta a você. Pouco antes da sua formatura


na faculdade de jornalismo, eles mandam você imaginar que é um
repórter. Imagine que você trabalha num jornal diário de uma cidade
grande e que, em certa véspera de Natal, o editor manda você
investigar uma morte.
Os policiais e enfermeiros estão lá. Os vizinhos, de robe e
chinelos, entopem o corredor do prédio vagabundo. Dentro do
apartamento, um jovem casal soluça ao lado da árvore de Natal. O
bebê deles morreu sufocado por um enfeite. Você pega o que precisa:
o nome do bebê, a idade e o resto todo. Volta para o jornal por volta
da meia-noite e escreve a matéria a tempo de cumprir o prazo final.
Mostra a reportagem ao editor e ele a rejeita porque você não
disse qual era a cor do enfeite. Era vermelho ou verde? Você não viu e
não pensou em perguntar.
Com a oficina urrando pela primeira página, as suas opções são:
Ligar para os pais do bebê e perguntar qual era a cor do enfeite.
Recusar-se a ligar e perder o emprego.
Isso era o quarto poder. Imprensa. E na minha faculdade, essa era
a única pergunta, da prova final do curso de Ética. Só havia essas
duas opções. Minha resposta foi ligar para os enfermeiros. Itens
como esse sempre são catalogados. Provavelmente o enfeite fora
guardado, fotografado e arquivado como evidência. De jeito algum eu
iria ligar para os pais depois de meia-noite na véspera de Natal.
A faculdade deu conceito D para minha ética.
Em vez de ética, aprendi a só dizer às pessoas o que elas querem
ouvir. Aprendi a anotar tudo. E aprendi que os editores podem ser
uns babacas totais.
Desde então, continuo me perguntando qual era o objetivo
daquela prova. Hoje sou repórter de um jornal diário numa cidade
grande e não preciso imaginar coisa alguma.
Minha primeira matéria com um bebê de verdade aconteceu
numa manhã de segunda-feira em setembro. Não havia enfeites de
Natal. Não havia uma multidão de vizinhos em torno da casa-trailer
no subúrbio. Um dos enfermeiros estava sentado com os pais na
quitinete, fazendo as perguntas costumeiras. O outro me levou até o
quarto do bebê e me mostrou o que eles geralmente encontram no
berço.
As perguntas costumeiras que os enfermeiros fazem incluem:
Quem encontrou a criança morta? Quando a criança foi encontrada?
O corpo da criança foi deslocado de lugar? Quando a criança foi vista
com vida pela última vez? A criança era amamentada no peito ou
com mamadeira? Parecem perguntas aleatórias, mas tudo que os
médicos podem fazer é reunir estatísticas, na esperança de que um
dia algum padrão emerja disso tudo.
O quarto era amarelo, com cortinas azuis floridas nas janelas e
uma cômoda de vime ao lado do berço. Havia uma cadeira de balanço
pintada de branco. Acima do berço ficava um móbile de borboletas
amarelas de plástico. Sobre a cômoda de vime via-se um livro aberto
na página 27. No chão, havia um tapete trançado azul, e numa das
paredes uma tapeçaria emoldurada que dizia: A criança de quinta-feira
vai longe. O aposento recendia a talco.
E talvez eu não tenha aprendido ética, mas aprendi a prestar
atenção. Todo e qualquer detalhe deve ser notado, por menor que
seja.
O livro aberto se chamava Poemas e rimas ao redor do mundo e
pertencia à biblioteca municipal.
O plano do meu editor era fazer uma série de cinco reportagens
sobre a síndrome de morte súbita infantil. Todo ano, sete mil bebês
morrem sem causa aparente. Dois em cada mil bebês simplesmente
adormecem e nunca mais acordam. Duncan, meu editor, vivia
chamando isso de morte no berço.
Os detalhes sobre Duncan são: ele é cheio de marcas de espinhas
e seu couro cabeludo escurece a cada duas semanas, quando ele tinge
as raízes grisalhas dos fios. A senha do seu computador é “senha”.
Tudo o que sabemos sobre a morte súbita infantil é que se trata
de algo sem padrão. A maioria dos bebês morre entre a meia-noite e
o amanhecer, mas alguns também morrem dormindo ao lado dos
pais. Outros morrem no banco do automóvel ou dentro do carrinho.
Alguns morrem até nos braços das mães.
“Há tanta gente com crianças à sua volta”, disse meu editor. Esse
é o tipo de matéria que todo pai, mãe, avô ou avó tem medo de ler e
medo de não ler. Na realidade, não há informações novas, mas a ideia
era traçar o perfil de cinco famílias que houvessem perdido uma
criança. Mostrar como as pessoas lidam com isso. Como elas tocam a
vida para a frente. Aqui e ali, poderíamos salpicar os fatos mais
comuns sobre o fenômeno da morte no berço. Poderíamos mostrar a
profunda reserva interna de força e compaixão que cada pessoa
dessas descobre. Esse ângulo. Como esse tipo de reportagem não
está ligado a qualquer evento específico, é o que chamamos de
matéria de fundo. A série seria publicada com destaque na seção de
estilos de vida.
À guisa de ilustração, poderíamos mostrar fotos sorridentes de
bebês saudáveis que houvessem morrido.
Mostraríamos que a coisa pode acontecer a qualquer um.
A jogada dele era essa, o tipo da reportagem investigativa que se
faz em busca de prêmios. Já estávamos no final do verão e as notícias
andavam escassas. Era o período anual em que havia mais recém-
nascidos e grávidas prestes a parir.
Meu editor teve a ideia de me enviar junto com os enfermeiros.
A história do Natal, o casal soluçante, o enfeite: àquela altura eu
já estava trabalhando havia tanto tempo que esquecera o bagulho
todo.
Aquela pergunta hipotética sobre ética: eles precisariam
perguntar aquilo ao final do curso de jornalismo porque então já é
tarde demais. Você tem grandes empréstimos estudantis para pagar.
Hoje, anos e anos mais tarde, acho que o que eles estão perguntando,
na verdade, é: Você quer mesmo ganhar a vida fazendo isso?
Capítulo 3

o trovão abafado do diálogo atravessa as paredes, seguido per


uma gargalhada em coro. Depois, mais trovões. A maior parte das
trilhas sonoras de risadas na televisão foi gravada no começo da
década de 1950. Hoje em dia, a maioria das pessoas que nós ouvimos
rindo já estão mortas.
O toque-toque-toque de um tambor atravessa o teto. O ritmo
muda. Talvez as batidas se acelerem, ou sejam retardadas, mas nunca
param.
Sob o assoalho, alguém está exclamando as palavras da letra de
uma canção. Essas pessoas que precisam de suas tevês, vitrolas ou
rádios tocando o tempo todo, essas pessoas que têm tanto medo do
silêncio, são minhas vizinhas. São barulhômanos. Silenciófobos.
O riso dos mortos atravessa todas as paredes.
Hoje em dia, isso é considerado um lar, doce lar.
O assédio do barulho.

Depois do trabalho, parei num lugar. O sujeito atrás da caixa


registradora ergueu o olhar quando entrei mancando na loja. Ainda
olhando para mim, enfiou a mão sob o balcão e tirou algo
embrulhado em papel marrom, dizendo:
— Saco duplo. Acho que você vai gostar dessa.
Colocou o embrulho sobre o balcão e deu-lhe uma palmadinha de
leve. O pacote tem metade do tamanho de uma caixa de sapatos. Pesa
menos do que uma lata de atum.
Depois ele apertou uma, duas, três teclas na caixa registradora. O
mostrador indicou cento e quarenta e nove dólares, e ele disse:
— Para você não se preocupar, fechei os sacos.com fita adesiva.
À guisa de proteção contra a chuva, ele enfiou o embrulho num
saco plástico e acrescentou:
— Por favor, me avise se alguma coisa estiver faltando aí dentro. E
pelo seu andar, você não está melhorando do pé.
O pacote foi chacoalhando por todo o caminho até minha casa.
Sob meu braço, o papel marrom deslizava e se amarrotava. A cada
passo manco que eu dava, o conteúdo chacoalhava de uma ponta da
caixa até outra.
Dentro do apartamento, o teto está sendo martelado por uma
música rápida. As paredes murmuram com vozes em pânico. Ou
uma múmia egípcia, antiga e amaldiçoada, voltou à vida e está
tentando matar meus vizinhos de porta ou eles estão assistindo a um
filme.
Sob o assoalho, há alguém gritando, um cachorro latindo, portas
batendo e o chamado estridente de alguma canção.
Dentro do banheiro, apago as luzes para não ver o que há dentro
do saco. Para não saber qual será o resultado final. Na escuridão
apertada e abafada, enfio uma toalha na fresta sob a porta. Com o
pacote no colo, sento-me na privada e fico escutando.
É isso que passa por civilização.
Pessoas que jamais jogariam lixo na rua passam de carro por nós
com o rádio aos berros. Pessoas que jamais soprariam fumaça de
charutos em nós num restaurante lotado gritam ao telefone celular.
Urram umas para as outras, separadas apenas por uma mesa de
jantar.
As mesmas pessoas que jamais borrifariam herbicidas ou
inseticidas inundam a vizinhança com seus equipamentos de som,
tocando canções escocesas de gaita de fole. Óperas chinesas. Canções
sertanejas e rurais.
Ao ar livre, um pássaro cantando é ótimo. Patsy Cline não é.
Ao ar livre, o alarido do trânsito já e ruim o suficiente.
Acrescentar-lhe os Concertos para Piano em mi menor de Chopin
não melhora a situação.
Nós aumentamos o volume da nossa música para abafar o
barulho. Os outros aumentam o volume da sua música para abafar a
nossa. Nós aumentamos a nossa mais uma vez. Todo mundo compra
um equipamento de som maior. É a corrida armamentista do som.
Ninguém ganha essa corrida com muitos agudos.
Não se trata de qualidade. Trata-se de volume. *
Não se trata de música. Trata-se de ganhar a corrida.
Você arrasa os adversários com a força do baixo. Chacoalha as
janelas. Abandona a linha melódica e grita a letra. Apela para a
baixaria e frisa cada palavrão.
Você domina. Na verdade, trata-se de poder.
Na escuridão do banheiro, sentado na privada, raspo com a unha
a fita adesiva numa das pontas do pacote. Lá dentro há uma caixa de
papelão quadrada. Suas bordas são lisas, macias e forradas de pele.
Os cantos são arredondados. A tampa se ergue. O conteúdo parece
ser formado por várias camadas de formas complicadas, rígidas e
pontiagudas, com ângulos, curvas, pontas e cantos diminutos. No
escuro, coloco tudo no chão co banheiro. Enfio a caixa de papelão de
volta nos sacos de papel. Entre as formas rígidas e embaralhadas há
duas folhas de papel escorregadio. Também coloco isso dentro dos
sacos, que amarroto e aperto, formando uma bola.
Faço tudo isso às cegas, tocando o papel liso, sentindo as camadas
de formas rígidas e ramificadas.
O chão sob meus sapatos, até embaixo do assento da privada,
creme um pouco devido à música que vem do vizinho.
Dá vontade de dizer a cada uma daquelas famílias que tem uma
morte no berço: arranjem um passatempo. É surpreendente a rapidez
com que conseguimos fechar a porta sobre nosso passado. Por piores
que as coisas estejam, sempre conseguimos nos afastar. É só
aprender a fazer tricô. Ou luminárias de vidro colorido.
Levo as formas até a cozinha, e sob a luz vejo que elas são azuis,
cinzentas e brancas. São feitas de plástico quebradiço. Apenas
estilhaços diminutos. Telhas, persianas e empenas diminutas.
Degraus, colunas e caixilhos diminutos. Não dá para saber se
pertencem a uma casa ou a um hospital. Há pequenas paredes de
tijolos e pequenas portas. Espalhadas na mesa da cozinha, elas
poderiam ser partes de uma escola ou igreja. Sem ver a figura na
caixa, sem as folhas de instruções, as pequenas calhas e claraboias
poderiam ser de uma estação ferroviária ou de um asilo de lunáticos.
Uma fábrica ou uma prisão.
Pouco importa como sejam montadas: você nunca tem certeza se
estão no local certo.
As pequenas peças, cúpulas e chaminés tremem a cada batida do
barulho que atravessa o chão.
Esses musicômanos. Esses calmófobos.

Ninguém quer admitir que estamos viciados em música. Isso


simplesmente não é possível. Ninguém é viciado em música,
televisão ou rádio. Simplesmente precisamos de mais canais, telas
maiores e mais volume. Ninguém aguenta ficar sem isso, mas não,
ninguém é viciado.
Podemos desligar tudo quando queremos.
Encaixo o caixilho de uma janela numa parede de tijolos. Com um
pincelzinho de unhas, colo cada peça no lugar. A janela tem o
tamanho de uma unha. A cola tem cheiro de fixador de cabelo. Um
cheiro de laranjas e gasolina.
As linhas dos tijolos na parede são finas como as de uma
impressão digital.
Outra janela se encaixa no lugar e pincelo mais cola por cima dela.
O som passa estremecendo pelas paredes, pela mesa e pelo
caixilho da janela, até chegar ao meu dedo.
Esses distraçômanos. Esses concentrófobos.

O velho George Orwell trocou as bolas.


O Big Brother não está vigiando coisa alguma. Ele está cantando e
dançando. Está tirando coelhos da cartola. O Big Brcther se dedica a
prender nossa atenção durante cada minuto que passamos
acordados. Quer garantir que estejamos sempre distraídos. Quer
garantir que estejamos sempre completamente absortos.
Ele quer garantir que nossa imaginação feneça. Até tornar-se
inútil feito nosso apêndice. Ele quer garantir que nossa atenção esteja
sempre preenchida.
E este negócio de ser alimentado é pior do que ser vigiado. Com o
mundo sempre nos preenchendo, ninguém precisa se preocupar com
o que está na nossa mente. Com a imaginação de todos atrofiada,
ninguém jamais será uma ameaça ao mundo.
Abro um dos botões da minha camisa e enfio a gravata para
dentro. Com o queixo encostado no nó da gravata, pego uma pinça e
enfio uma vidraça diminuta em cada janela. Com uma gilete, corto
cortinas de plástico menores que um selo: cortinas azuis para o andar
superior, amarelas para o térreo. Depois colo as cortinas no lugar,
algumas abertas, outras fechadas.
Há coisas piores do que encontrar sua esposa e seu filho mortos.
Você pode assistir ao mundo fazer isso. Pode ver sua esposa ficar
velha e chata. Pode ver seus filhos descobrirem no mundo tudo que
você tentou esconder deles. Drogas, divórcio, conformismo, doenças.
Todos os livros, canções e programas de tevê bons e agradáveis.
Distrações.
Dá vontade de dizer aos pais das crianças morras: vão em frente!
Culpem-se por tudo!
Há coisas piores que você pode fazer às pessoas que ama do que
matá-las. O jeito normal é simplesmente assistir ao mundo fazer isso.
É só ler o jornal.
A música e as risadas vão roendo seus pensamentos. O barulho
abafa tudo. Todos os sons distraem. Sua cabeça dói por causa da cola.
Em todo caso, hoje ninguém é mais dono da própria mente. Você
não consegue se concentrar. Não consegue pensar. Sempre há algum
barulho se infiltrando. Cantores gritando. Pessoas mortas rindo.
Atores chorando. Todas essas pequenas doses de emoção.
Alguém está sempre borrifando o ar com seu clima emocional.
Com o som do carro amplificando sua tristeza, sua alegria ou sua
raiva por toda a vizinhança.
Numa mansão em estilo colonial holandês, instalei cinquenta e
seis janelas de cabeça para baixo e tive de jogar tudo fora. Num
castelo em estilo Tudor com doze quartos, colei os canos nas pontas
das calhas erradas, e depois derreti tudo tentando consertar a
besteira com um solvente químico.
Isso não é novidade.
Os estudiosos da cultura grega antiga dizem que naquela época as
pessoas não consideravam os pensamentos como propriedade sua.
Quando os gregos antigos tinham um pensamento, achavam que
aquilo era uma ordem dada por um deus ou uma deusa. Apoio
escava mandando que eles fossem corajosos. Palas Atena estava
mandando que eles se apaixonassem.
Hoje em dia as pessoas ouvem um comercial de batatas fritas e
vão correndo comprar um saco, mas chamam isso de livre-arbítrio.
Os gregos antigos ao menos eram honestos.
A verdade é que certa noite você lê uma cantiga de ninar para sua
mulher e filha. E, na manha seguinte, você acorda, mas sua família
não. Você fica deitado na cama, encostado na sua mulher. Ela ainda
está quente, mas não está respirando. Sua filha não está chorando. A
casa já ressoa com o trânsito, o rádio e o vapor martelando nos canos
dentro da parede. A verdade é que você consegue esquecer até aquele
dia durante o momento que leva para dar um nó perfeito na gravata.
Isso eu sei. Essa é minha vida.
Você pode se mudar, mas isso não basta. Você arranja um
passatempo. Mergulha no trabalho. Troca de nome. Junta os cacos.
Cria ordem dentro do caos. Você faz isto toda vez que seu pé melhora
um pouco, e você tem dinheiro. Organiza cada detalhe.
Não é o que um terapeuta aconselharia, mas funciona.
A seguir, você cola as portas nas paredes. Cola as paredes nos
alicerces. Com uma pinça, monta as peças diminutas de cada
chaminé e deixa a cola secar enquanto constrói o telhado. Pendura as
calhas minúsculas. Cada detalhe preciso. Você coloca as pequenas
janelas no telhado. Pendura as persianas. Emoldura a varanda.
Semeia o gramado. Planta as árvores.
Inala o sabor de laranjas e gasolina. O cheiro de fixador de cabelo.
Mergulha em cada complicação. Cota um fio de hera num dos lados
da chaminé. Seus dedos se enredam em fios de cola, com as pontas
grudadas e cheias de crostas.
Você diz a si mesmo que o barulho é que define o silêncio. Sem
barulho, o silêncio não seria de ouro. O barulho é a exceção. Pense
nas profundezas do espaço sideral, no frio e no silêncio incríveis
onde sua mulher e filha esperam. O silêncio, e não o céu, já seria uma
recompensa suficiente.
Com a pinça, você planta flores ao longo dos alicerces.
Suas costas e seu pescoço se curvam sobre a mesa. Com a bunda
tensa, sua espinha fica dobrada, criando um arco até uma dor de
cabeça na base do crânio.
Você cola o capacho de BEM-VINDOS diante da porta da frente.
Pendura as luzes diminutas no interior. Cola a caixa de
correspondência ao lado da porta. Cola as minúsculas garrafas de
leite na varanda. E o diminuto jornal dobrado.
Quando tudo fica perfeito, exato, meticuloso, já devem ser três ou
quatro da madrugada, pois tudo está silencioso. O assoalho, o teto e
as paredes estão imóveis. O compressor da geladeira se desliga e
você consegue ouvir o filamento ardendo em cada lâmpada. Seu
relógio de pulso faz tique-taque. Uma mariposa se choca contra a
janela da cozinha. O aposento está tão frio que você consegue
enxergar seu próprio hálito.
Você encaixa as pilhas, aperta uma pequena tecla e as janelas
diminutas refulgem. Você coloca a casa no chão e desliga a luz da
cozinha.
E fica parado junto à casa no escuro. Dessa distância, ela parece
perfeita. Perfeita, segura e feliz. Um belo lar de tijolos vermelhos. As
diminutas janelas de luz brilham sobre o gramado e as árvores. As
cortinas amarelas refulgem no quarto do bebê. Com cortinas azuis no
seu próprio quarto.
O truque para esquecer a visão panorâmica é ver tudo bem de
perto.
O atalho para fechar uma porta é se enterrar nos detalhes.
Essa deve ser nossa aparência para Deus.
Como se tudo estivesse muito bem.
Agora tire o sapato, e com o pó descalço pise com força em tudo.
Pise e continue pisando. Por mais que o plástico, a madeira e o vidro
quebradiços doam, continue pisando com força até o vizinho de
baixo começar a socar o teto.
Capítulo 4

Meu segundo caso de morte no berço aconteceu num dos prédios


de concreto de um conjunto residencial nos limites do Centro da
cidade. No meio da tarde, o falecido estava recostado numa cadeira
infantil enquanto a babá chorava no quarto. A cadeira infantil estava
na cozinha. Havia louça suja empilhada na pia.
De volta à editoria da cidade, Duncan, meu editor, pergunta:
— Pia simples ou dupla?
Outro detalhe acerca de Duncan é que ele cospe quando fala.
Dupla, digo a ele. De aço inoxidável. Torneiras fria e quente
separadas, com maçanetas do tipo pistola e cabos de porcelana. Sem
chuveirinho. ^
— Qual era a marca da geladeira? — ele pergunta novamente.
Gotas de cuspe brilham na luz do escritório.
Amana, respondo.
— Eles tinham calendário? — As gotículas de cuspe borrifam
minha mão, meu braço e a lateral do meu rosto. O cuspe é frio por
causa do ar-condicionado.
O calendário mostrava um velho moinho de pedra da Nova
Inglaterra, informo. Do tipo que tem uma roda d’água. Enviado por
um corretor de seguros. A próxima consulta do bebe no pediatra
estava marcada ali, assim como um exame médico da mãe. As datas,
os horários e o nome do pediatra constam das minhas anotações.
E Duncan elogia:
— Cacete, você é bom mesmo!
Seu cuspe está secando na minha pele e nos meus lábios.
O piso da cozinha era de linóleo cinzento. As banca* das eram
cor-de-rosa, com queimaduras de cigarro nas bordas. Na bancada ao
lado da pia havia um livro pertencente a uma biblioteca. Poemas e
rimas ao redor do mundo.
O livro estava fechado. Coloquei-o sobre a lombada e deixei que
ele caísse aberro sozinho, na esperança de descobrir até que ponto o
leitor forçara a encadernação. O volume caiu aberto na página 27. E
fiz uma marca a lápis na margem.
Meu editor fecha um dos olhos e inclina a cabeça para mim: —
Que tipo de comida estava secando nos pratos?
Espaguete. Com molho enlatado. Aquele tipo que tem mais
cogumelos e alho. Eu inventariei o lixo no saco sob a pia.
Duzentos miligramas de sal por porção. Cento e cinquenta
calorias de gordura. Não sei o que esperava encontrar, mas como
todos os presentes à cena, achei que valia a pena procurar um padrão
ali.
— Está vendo isto? — pergunta Duncan, entregando-me a prova
da seção de restaurantes de hoje. Acima da dobra há um anúncio de
três colunas de largura por quinze centímetros de altura. A linha de
cima diz:

Atenção frequentadores do Restaurante Treeline

O corpo do texto informa:

“Você contraiu alguma forma de síndrome de fadiga crônica resistente a


tratamento depois
de comer neste estabelecimento? Este vírus transmitido pela comida
deixou você
incapaz de trabalhar e viver uma vida normal?
Em caso afirmativo, por favor ligue para o número abaixo,
a fim de participar de uma ação indenizatória coletiva.”

Segue-se um número de telefone com um prefixo esquisito, talvez


um telefone celular.
— Acha que existe uma reportagem aí? — diz Duncan, salpicando
a página de cuspe.
Estamos na editoria da cidade e meu bipe começa a tocar. São os
enfermeiros.
Na faculdade de jornalismo, eles querem que você seja uma
câmera. Um profissional treinado, objetivo e distanciado. Preciso,
polido e observador.
Querem que você acredite que a notícia e você são sempre coisas
separadas. Assassinos e repórteres são mutuamente excludentes.
Seja qual for a matéria, não é sobre você.
Meu terceiro bebe foi encontrado numa fazenda a duas horas de
viagem pela rodovia estadual.
O quarto, num condomínio perto de um shopping.
— Desculpe ter chamado você por causa desse caso — diz um
enfermeiro, levando-me a um quarto nos fundos. Seu nome é John
Nash, e ele ergue o lençol sobre uma criança na cama. É um
garotinho perfeito demais, pacífico demais e branco demais para
estar dormindo. — Ele já tem quase seis anos.
Os detalhes sobre Nash são: ele é um cara grande de uniforme
branco, usa tênis brancos de cano alto e prende o cabelo em forma de
palmeira no alto da cabeça.
— Podíamos estar trabalhando em Hollywood — diz Nash. Neste
tipo de morte limpa, sem sangue, não há agonia mortal, nem
peristalse reversa (estertores em que o trato digestivo funciona ao
contrário e a pessoa vomita matéria fecal). — Numa cena de morte
em estilo realista, você começa a vomitar merda.
Ele me conta que a maioria das mortes no berço ocorre entre dois
e quatro meses após o nascimento. Mais de noventa por cento das
mortes ocorrem antes de se is meses. A maioria dos pesquisadores
diz que, depois de dez meses, a ocorrência é quase impossível.
Depois de um ano de vida, o médico-legista chama o caso de "morte
indeterminada”. Uma segunda morte dessa natureza na mesma
família é considerada homicídio até prova em contrário.
As paredes do quarto são verdes. A cama tem terriers escoceses
pintados nos lençóis de flanela. Um aquário cheio de lagartos solta
um cheiro que abafa todos os outros.
Quando alguém aperta um travesseiro sobre o rosco de uma
criança, o caso é descrito pelo legista como “homicídio gentil”.

Encontro minha quinta criança morta num quarto de hotel perto


do aeroporto.
Na fazenda e no condomínio, havia o livro Poemas e rimas...
Aberto na página 27. O mesmo livro da biblioteca municipal, com
minha marca a lápis na margem. Já no quarto de hotel, não há livro
algum. E um quarto duplo, e o bebe está enroscado numa cama queen
size, ao lado da cama onde os pais dormiam. Há um televisor em
cores sobre um aparador: uma Zenith de trinta e seis polegadas com
cinquenta e seis canais acabo e quatro locais. O carpete é marrom e
as cortinas tem uma padronagem florida, marrom e azul. No chão do
banheiro há uma toalha molhada, manchada de sangue, e creme de
barbear verde. Alguém não deu a descarga na privada.
As cobertas são em tom azul-escuro e fedem a cigarro.
Não há livro algum em parte alguma.
Pergunto se a família tirou algo do local e o policial presente à
cena diz que não. Mas uma assistente social passou por lá a fim de
pegar umas roupas.
— Ah, e uns livros da biblioteca que já deveriam ter sido
devolvidos.
Capítulo 5

A porta da frente se abre. Dentro da casa há uma mulher com um


telefone celular junto ao ouvido, sorrindo para mim e falando com
outra pessoa.
— Mona, você vai ter de apressar isso. O tal Carl Streator acaba de
chegar — diz ela ao telefone. Depois vira o dorso da mão livre para
mim, mostrando um diminuto relógio cintilante no pulso.
— Ele está alguns minutos adiantado.
A outra mão — que tem longas unhas pintadas de cor-de-rosa,
com as pontas brancas — segura o pequeno telefone celular negro e
quase se perde na reluzente nuvem rosada da cabeleira da mulher.
— Relaxe, Mona. Paletó esporte marrom, calças marrons e camisa
branca — diz ela sorrindo e me olhando de alto a baixo. Depois faz
uma careta e completa: — Gravata azul.
— Meia-idade. Um metro e setenta e cinco, talvez oitenta.
Caucasiano. Castanhos, verdes — continua ela ao telefone, piscando
para mim. — Ele está meio despenteado e não fez a barba hoje, mas
parece inofensivo.
Inclinando-se à frente, ela articula silenciosamente as palavras
Minha secretária, e ao telefone pergunta: — O quê?
Depois dá um passo para o lado e faz um gesto com a mão livre
para que eu saia. Revira os olhos até me encarar:
— Obrigada pela preocupação, Mona, mas não acho que ele esteja
aqui para me estuprar.
Estamos na propriedade Gartoller, na alameda Walker Ridge; uma
casa em estilo georgiano, com oito quartos, sete banheiros, quatro
lareiras, uma sala para o café da manhã, uma sala de jantar formal e
um salão de baile com cento e cinquenta metros quadrados no quarto
andar. Há também uma garagem para seis carros e uma casa de
hóspedes, separadas. A casa tem piscina, além de um sistema de
alarme contra incêndios e invasões.
A alameda Walker Ridge é o tipo da vizinhança onde o lixo é
recolhido cinco vezes por semana. Lá moram pessoas que dão valor à
ameaça de um bom processo legal e que sorriem e concordam
quando você dá uma paradinha a fim de se apresentar.
A propriedade Gartoller é linda.
Esses vizinhos não pedem que você entre. Ficam sor> rindo nos
umbrais das portas entreabertas. Dizem que na verdade não sabem
nada sobre o histórico da casa Gartoller. É só uma casa.
Se você pergunta mais alguma coisa, eles lançam o olhar sobre
seu ombro em direção à rua vazia. Depois sorriem novamente e
dizem:
— Não posso ajudar. Você precisa ligar para a imobiliária.
A placa no número 3.465 da alameda Walker Ridge traz a seguinte
inscrição: Imobiliária Boyle. Visitas só com hora marcada.
Em outra casa, una mulher com uniforme de empregada atendeu
à porca com uma menininha de cinco ou seis anos escondida atrás da
saia preta. A empregada abanou a cabeça, dizendo que não sabia de
nada: — Você vai ter de ligar para a corretora.Helen Boyle. Está na
placa.
E a menininha disse:
— Ela é uma baixa.
A empregada fechou a porta.
Já dentro da casa Gartoller, Helen Hoover Boyle caminha pelos
aposentos brancos e vazios cheios de ecos. Continua falando ao
telefone enquanto caminha: uma nuvem de cabelo cor-de-rosa, um
conjunto cor-de-rosa bem justo, pernas cobertas por meias brancas e
pés metidos em sapatos de salto médio também cor de rosa. Seus
lábios brilham com batom cor-de-rosa. Seus braços faíscam e
chacoalham com pulseiras douradas e rosadas, cheias de correntes,
penduricalhos e moedas de ouro.
Enfeites suficientes para uma árvore de Natal. Pérolas
suficientemente grandes para enforcar um cavalo.
Ao telefone, ela pergunta:
— Você ligou para o pessoal da casa Exeter? Eles já deveriam ter
fugido de lá aos gritos há duas semanas.
Ela passa por altas portas duplas. Entra no próximo aposento,
depois no seguinte, e diz:
— Hum, hum... Como assim, eles não estão morando lá?
Altas janelas arqueadas dão para um pátio de pedra. Além do
pátio, vê-se um gramado marcado pelos rastros de um aparador de
grama e uma piscina.
— Ninguém gasta um milhão e duzentos numa casa para depois
não morar lá — continua ela. A voz é alta e ressoa nos aposentos sem
móveis ou carpetes.
Uma pequena bolsa, branca e cor de rosa, pende de uma longa
corrente de ouro no seu ombro.
Um metro e sessenta e cinco. Cinquenta e cinco quilos. Seria
difícil dizer sua idade. Ela é tão magra que só pode ser rica, ou estar
morrendo. Seu conjunto é feito de um tecido parecido com aqueles
que forram sofás, com debruns brancos. É cor de rosa, mas não cor
de rosa camarão, e sim cor de patê de camarão, servido numa bolacha
de água com um raminho de salsa e uma picada de caviar. A jaqueta é
apertada na cintura fina e acolchoada nos ombros. A saia é curta e
justa. 0$ botões dourados, enormes.
Ela está usando roupas de boneca.
— Não, ele está bem aqui. — Ela ergue as sobrancelhas
delineadas e olha para mim. — Se estou desperdiçando o tempo
dele? Espero que não.
Sorrindo, ela continua ao telefone:
— Ótimo. Ele está abanando a cabeça, dizendo que não.
Fico me perguntando o que a levou a dizer meia-idade.
Digo que para falar a verdade não estou realmente procurando
uma casa para comprar.
Com duas unhas rosadas sobre o telefone celular, ela se inclina
para mim e articula silenciosamente as palavras Só mais um minuto.
Digo que na verdade peguei o nome dela nos registros do médico-
legista do município. A verdade é que examinei os registros forenses
de todas as mortes no berço ocorridas na região nos últimos vinte e
cinco anos.
E ainda escutando ao telefone, sem olhar para mim, ela põe as
unhas cor-de-rosa de sua mão livre sobre minha lapela e as mantém
ali, empurrando um pouquinho. Ao telefone, diz:
— Então qual é o problema? Por que eles não estão morando lá?
A julgar pela mão, assim de perto, ela deve ter entre trinta e cinco
e quarenta e cinco anos. Mas essa aparência taxidérmica — que passa
por beleza em círculos acima de certa idade e renda — faz com que
ela pareça mais velha. Sua pele já parece tão esfoliada, pinçada,
esfregada, umidificada e maquiada que ela poderia ser uma peça de
mobília reformada. Reestofada em cor-de-rosa. Restaurada.
Renovada.
Ao telefone celular, ela grita:
— Você está brincando! É claro que sei o que é demolição. Mas
aquilo é uma casa histórica!
Seus ombros se erguem junto ao pescoço, e depois caem.
Afastando o rosto do telefone, ela suspira de olhos fechados.
Depois fica escutando, parada ali, com os sapatos cor-de-rosa e as
pernas brancas espelhadas no assoalho de madeira escura. Refletidas
nas profundezas da madeira, veem-se as sombras dentro da sua saia.
Com a mão livre em concha sobre a testa, ela diz:
— Mona, não podemos perder essa corretagem. Se eles
substituírem a casa, a probabilidade é que ela saia do mercado
permanentemente.
Depois cala-se mais uma vez, escutando.
E fico me perguntando: desde quando não se pode usar gravata
azul com paletó marrom?
Baixo a cabeça para encará-la:
— Helen Boyle? Eu precisava encontrar você em particular, fora
do seu escritório. É sobre a pesquisa que estou fazendo para uma
reportagem.
Mas ela agita os dedos entre nós. Depois de um segundo, vai até
uma lareira e se encosta nela, apoiando a mão livre na prateleira e
sussurrando:
— Quando a bola de demolição balançar, provavelmente os
vizinhos vão se levantar e dar vivas.
Uma porta larga dá para outra sala branca com piso de madeira e
um teto trabalhado intrincadamente, também pintado de branco. Em
outra direção, uma porta dá para um aposento revestido por estantes
brancas vazias.
— Talvez nós pudéssemos começar uma manifestação de protesto
— sugere ela. — Podíamos escrever umas cartas para o jornal.
Eu digo:
— Eu sou do jornal.
Seu perfume tem cheiro de assemos de couro para carros, velhas
rosas esmaecidas e gavetas de cômodas de cedro.
— Mona, espere um instante — pede Helen Hoover Boyle. Depois
caminha de volta na minha direção: — O que você disse?
Seus cílios piscam uma, duas vezes, depressa. Esperando. Ela tem
olhos azuis.
— Eu sou repórter.
— A casa Exeter é uma casa histórica adorável, que algumas
pessoas querem demolir — a mão dela forma uma concha sobre o
telefone. — Sete quartos, com seiscentos metros quadrados. Todo o
andar térreo é revestido em cerejeira.
O aposento vazio está tão silencioso que pode-se ouvir uma voz
diminuta ao telefone, chorando:
— Helen?
— Foi construída em 1935 — continua ela, inclinando a cabeça
para trás. — Tem aquecimento a vapor, quase três acres de terreno,
telhado com...
E a voz diminuta repete:
— Helen?
— Salão de jogos, bar completo, sala de ginástica...
O problema é que não tenho tanto tempo assim, e digo:
— Só preciso saber uma coisa. Você já teve um filho?
— Despensa, câmara frigorífica...
— Seu filho morreu de morte no berço há uns vinte anos?
Os cílios de Helen piscam uma, duas vezes, e ela diz: — Como?
Preciso saber se ela lia em voz alta para o filho. O nome dele era
Patrick. Quero encontrar todos os exemplares existentes de um certo
livro.
Segurando o telefone entre a orelha e o ombro acolchoado da
jaqueta, Helen Hoover Boyle abre a bolsa branca e cor-de-rosa,
tirando um par de luvas brancas. Flexionando os dedos para enfiá-los
nas luvas, ela diz:
— Mona?
Preciso saber se ela ainda tem um exemplar de um livro
específico. Lamento, mas não posso dizer por quê.
Ela diz:
— Acho que Carl Streator não nos servirá de nada.
— Preciso saber se eles fizeram uma autópsia no seu filho.
Ela sorri para mim. Depois articula silenciosamente as palavras
Vá embora.
Ergo as mãos, com as palmas viradas para ela, e começo a recuar.
Só preciso garantir que todos os exemplares desse livro sejam
destruídos.
E ela diz: — Mona, por favor chame a polícia!
Capítulo 6

Quando ocorre uma morte no berço, é procedimento rotineiro


garantir aos pais que eles nada fizeram de errado. Os bebes não
sufocam nos cobertores. Num estudo intitulado "Sufocação Mecânica
na Infância”, publicado no Jornal de Pediatria em 1945, os
pesquisadores já provavam que nenhum bebê podia sufocar nas suas
cobertas. Mesmo o menor deles, colocado de rosto para baixo num
travesseiro ou colchão, consegue rolar de lado o suficiente para
respirar. Mesmo que a criança esteja levemente resfriada, não há
provas de que isso renha relação com a morte. Não há provas que
liguem a morte súbita a injeções contra diferia, coqueluche ou tétano.
A criança pode morrer mesmo que tenha ido ao médico horas antes.
Tampouco os gatos sentam-se sobre as crianças e sugam-lhes a
vida.
Só sabemos que nada sabemos.
O enfermeiro Nash me mostra as partes arroxeadas e azuladas em
cada criança: o livor mortis, em que a hemoglobina oxigenada se
acomoda nas partes inferiores do corpo. A espuma sangrenta que
vaza do nariz e da boca é composta pelo que o médico-legista chama
de fluidos purgativos, uma parte natural da decomposição. Quem
está desesperado por uma resposta olha para o livor mortis, para os
fluidos purgativos, até para uma assadura de fralda, e presume que a
criança foi molestada.
O truque para esquecer a visão panorâmica é ver tudo bem de
perto.
O atalho para fechar qualquer porta e mergulhar nos pequenos
detalhes. Os fatos. A melhor parte da profissão de repórter é poder se
esconder atrás do bloco de anotações. Tudo é sempre pesquisa.
Na seção juvenil da biblioteca municipal, o livro está de volta à
estante, esperando. Poemas e rimas ao redor do mundo. E na página
27 há um poema. Um poema africano tradicional, diz o livro. Tem
oito versos e não preciso copiá-los. Anotei as palavras desde o
primeiro bebê, naquele trailer nos subúrbios. Arranco fora a página e
coloco o livro de volta na prateleira.
Na editoria da cidade, Duncan pergunta:
— Como vai indo a ronda dos bebes mortos? Preciso que você
ligue para esse número e veja qual é a jogada.
Ele me entrega uma prova da seção de estilos de vida, com um
anúncio demarcado em tinta vermelha.
Com três colunas de largura e quinze centímetros de altura, o
texto diz:

Atenção frequentadores da Academia Meadow Downs.

“Você contraiu alguma infecção epidérmica causada por fungos


nos aparelhos de ginástica ou nas superfícies de contato pessoal dos
vestiários?
Caso afirmativo, por favor ligue para o número abaixo,
a fim de participar de uma ação indenizatória coletiva.”

Quando ligo para o número telefônico em questão, uma voz de


homem responde:
— Deemer, Duke e Diller, Advogados. Precisamos do seu nome e
endereço para registro. Você quer descrever a sua inflamação?
Tamanho. Localização. Cor. Perda ou dano de tecido. Seja o mais
específico possível.
Digo que há um engano. Que não tenho inflamação alguma. Digo
que não estou ligando para participar da ação indenizatória.
Por alguma razão, Helen Hoover Boyle me vem à mente.
Quando digo que sou repórter, o sujeito diz:
— Lamento, mas não temos permissão para discutir o assunto
antes que a ação indenizatória seja protocolada.
Ligo para a academia, mas eles também não querem falar a
respeito. Ligo para o Restaurante Treeline, do anúncio anterior, mas
eles não querem falar coisa alguma. O número telefônico é o mesmo
nos dois anúncios, com aquele prefixo esquisito de celular. Ligo
novamente e a voz de homem informa:
— Diller, Doom e Duke, Advogados.
E desligo.
Na faculdade de jornalismo, eles nos ensinam a começar com o
fato mais importante. Chamam isso de pirâmide invertida. Coloque o
quem, o quê, onde, quando e porquê no topo da matéria. Depois
arrole os fatos menos importantes em ordem decrescente. Assim, o
editor pode cortar qualquer extensão da matéria sem perder nenhum
detalhe muito importante.
Todos os pormenores, o cheiro da colcha, a comida nos pratos, a
cor do enfeite da árvore de Natal, esses troços acabam largados no
chão da sala de redação.
O único traço comum das mortes no berço é que as ocorrências
tendem a aumentar à medida que o tempo esfria no outono. Meu
editor quer que eu abra a série de matérias com este fato. Algo para
deixar as pessoas em pânico. Cinco bebês, cinco matérias. Assim
conseguiremos que as pessoas passem cinco domingos consecutivos
lendo a série. Poderemos prometer explorar as causas e as
características da morte súbita infantil. Poderemos acenar com a
esperança.
Algumas pessoas ainda pensam que conhecimento é poder.
Poderemos garantir aos anunciantes um alto índice de leitores. Lá
fora, já está esfriando.
De volta à editoria da cidade, peço que meu editor me faça um
pequeno favor.
Acho que posso ter descoberto uma característica comum a todos
os casos. Parece que todo pai ou mãe leu o mesmo poema em voz alta
para o filho ou filha na véspera da morte da criança.
— Todos os cinco? — pergunta ele.
Vamos tentar fazer uma pequena experiência, proponho.
É tarde da noite, e ambos estamos cansados depois de um dia
longo. Sentado no seu escritório, peço que me escute.
É uma velha cantiga sobre animais que adormecem, triste e
sentimental. Sinto meu rosto ficar lívido e acalorado devido à
hemoglobina oxigenada enquanto leio o poema em voz alta sob as
luzes fluorescentes. Do outro lado da escrivaninha, meu editor
recosta-se na cadeira, com a gravata afrouxada, o colarinho aberto, os
olhos fechados e a boca entreaberta. Seus dentes e a caneca de café
têm manchas no mesmo tom de marrom.
O melhor é que estamos sozinhos e a coisa leva apenas um
minuto.
Ao final, ele abre os olhos e pergunta:
— Que porra é essa?
Os olhos de Duncan são verdes.
Seu cuspe cai sobre meu braço em pequenas gotas frias, trazendo
germes. São chumbinhos molhados que trazem vírus. Saliva de café
marrom.
Digo que não sei. O livro diz que se trata de uma cantiga de poda.
Em algumas culturas amigas, a cantiga era entoada para as crianças
durante períodos de fome ou seca, sempre que a tribo crescia demais
para as terras que tinha. Era cantada para os guerreiros aleijados nas
batalhas c para as pessoas infectadas por doenças, qualquer um que
você esperasse que morresse logo. Para dar fim à dor delas. E uma
cantiga de ninar.
Com respeito à ética, aprendi que não é função do jornalista
julgar os fatos. Sua função não é filtrar informações. Sua função é
coletar os detalhes. Aquilo que está lá. Ser uma testemunha
imparcial. Hoje já sei que algum dia você não vai pensar duas vezes
antes de ligar de volta para aqueles pais na véspera de Natal.
Duncan olha para o relógio, e depois para mim:
~ Qual é a tal experiência, então?
Amanhã saberei se há uma relação de causa e efeito. Uma
verdadeira característica. Minha função é apenas contar a história.
Enfio a página 27 no triturador de papel dele.
Paus e pedras quebram tudo pela frente, mas palavras não
machucam a gente.
Só quero explicar a coisa depois que tiver certeza. A situação
ainda é hipotética e peço ao meu editor que tenha paciência: — Nós
dois precisamos descansar, Duncan. Quem sabe conversamos sobre
isso amanhã de manhã?
Capítulo 7

Enquanto tomo minha primeira xícara de café, Henderson se


aproxima, vindo da editoria nacional. Algumas pessoas agarram os
paletós e correm para o elevador. Outras agarram revistas e correm
para o banheiro. Outros mergulham atrás de telas de computador e
fingem estar ao telefone. Henderson para no meio da redação, com a
gravata afrouxada e o colarinho aberto, gritando:
— Onde, diabos, está Duncan? A edição de hoje está indo para a
rua e precisamos do resto da primeira página, cacete!
Algumas pessoas simplesmente dão de ombros. Pego o telefone.
Os detalhes acerca de Henderson são: ele tem cabelos louros
penteados sobre a testa, largou a faculdade de direito, é chefe da
editoria nacional, sempre sabe as condições da neve e tem um crachá
para o elevador pendurado em cada paletó que possui. Sua senha de
computador é “senha”.
Parado ao lado da minha mesa, ele pergunta:
— Streator, essa gravata azul horrorosa é a única que você tem?
Segurando o telefone junto à orelha, articulo silenciosamente a
palavra Entrevista. Depois pergunto ao sinal de linha, "É G de
'garoto'?”
É claro que não vou contar a ninguém que li o poema para
Duncan. Não posso chamar a polícia acerca da minha teoria. Não
posso explicar para Helen Hoover Boyle por que preciso lhe fazer
perguntas sobre seu filho morto.
Meu colarinho parece tão apertado que preciso engolir com força
a fim de forçar o café para baixo.
Mesmo que as pessoas acreditassem em mim, a primeira coisa
que quereriam saber seria: Que poema?
Mostre o negócio para nós. Prove a coisa.
A questão não é o poema vazaria?
A questão é: Em quanto tempo a raça humana estaria extinta?
A cantiga tem o poder de vida e de morte sem sangue, limpa e
fácil, disponível para qualquer um. Para todos. Uma morte
instantânea, sem sangue, hollywoodiana.
Mesmo que eu não diga nada, quanto tempo levará para que
Poemas e rimas ao redor do mundo chegue a uma sala de aula? Quanto
tempo levará para que a página 27, a cantiga de poda, seja lida para
cinquenta crianças antes da hora da sesta?
Quanto tempo levará para que a cantiga seja lida pelo rádio para
milhares de pessoas? Até que uma melodia seja composta para ela?
Até que ela seja traduzida para outras línguas?
Diabo, a cantiga nem precisa ser traduzida para funcionar. Os
bebês não falam língua alguma.
Ninguém vê Duncan há três dias. Miller acha que Kleine ligou
para a casa de Duncan. Kleine acha que Fillmore ligou. Todos têm
certeza de que alguém ligou, mas ninguém falou com Duncan. Ele
não respondeu ao correio eletrônico. Carruthers diz que Duncan não
se deu ao trabalho de ligar dizendo que estava doente.
Depois que tomo mais uma xícara de café, Henderson para junto
à minha mesa com uma folha da seção de lazer. Está dobrada de
forma a mostrar um anúncio, com três colunas por quinze
centímetros. Henderson olha para mim. Bato no relógio de pulso e
seguro-o junto ao ouvido, mas ele pergunta:
— Você viu isto na edição matutina?
O anúncio diz:

Atenção passageiros de primeira classe das Linhas Aéreas


Regent-Pacific.

“Você sofreu perda de cabelo ou desconforto devido a piolhos depois de


entrar em contato
com o estofamento, travesseiros ou cobertores dessa companhia aérea?
Em caso afirmativo, por favor ligue para o número abaixo,
a fim de participar de uma ação indenizatória coletiva.”

Henderson indaga: — Já ligou para este negócio?


Digo que talvez seja melhor ele simplesmente calar a boca e ligar.
— Você é que é o Senhor Reportagem Especial. Isto aqui não é
uma prisão. Eu não sou sua puta — diz ele.
Este negócio está me matando.
Ninguém se torna um bom repórter porque sabe guardar
segredos.
Ser jornalista significa contar tudo. Significa transmitir as notícias
ruins. Espalhar o contágio. A maior reportagem da história. Este
negócio poderia ser o fim da mídia de massa.
A cantiga de poda seria uma peste exclusiva da Idade da
Informação. Basta imaginar um mundo em que as pessoas fugissem
da televisão, do rádio, do cinema, da Internet, de revistas e jornais.
Em que as pessoas tivessem de usar protetores de ouvido, tal como
usam preservativos e luvas de borracha. No passado, ninguém tinha
muito medo de fazer sexo com estranhos. Ou de mordidas de pulgas.
Ou de beber água sem tratamento. De mosquitos. De amianto.
Basta imaginar uma peste que você pudesse pegar pelos ouvidos.
Paus e pedras quebram tudo pela frente, mas agora palavras
também podem matar.
A nova morte, essa peste, pode vir de qualquer lugar. De uma
canção. De um anúncio transmitido por um alto-falante. Do
noticiário. De um sermão. De um músico de rua. Você pode contrair a
morte escutando um telemarqueteiro. Um professor. Um arquivo da
Internet. Um cartão de aniversário. Um biscoito da sorte.
Um milhão de pessoas podem estar assistindo a um programa de
televisão e amanhecer mortas por causa da trilha sonora de um
comercial.
É fácil imaginar o pânico.
É fácil imaginar uma nova Idade das Trevas. Os grandes
exploradores e as rotas comerciais trouxeram as primeiras pestes da
China para a Europa. Com a mídia de massa, temos diversos novos
meios de transmissão.
Dá para imaginar os livros sendo queimados. E as fitas, os filmes,
os arquivos, os rádios, as televisões, tudo indo para a mesma
fogueira. Todas aquelas bibliotecas e livrarias ardendo na noite. As
pessoas atacarão as estações de transmissão por micro-ondas. A
machadadas, picotarão todos os cabos de fibra ótica.
Dá para imaginar as pessoas orando e cantando hinos para abafar
qualquer som que possa trazer a morte. Todos repelindo, com as
mãos sobre as orelhas, qualquer canção ou discurso em que a morte
possa ser codificada tal como os maníacos envenenam frascos de
aspirina. Qualquer palavra nova. Qualquer coisa que as pessoas não
compreendam será suspeita» perigosa. Algo a ser evitado. Haverá
uma quarentena contra a comunicação.
E se esse negócio é uma bruxaria mortal, um encantamento, deve
haver outras. Se <u sei da página 27, mais gente também deve saber.
Não sou o cérebro pioneiro de coisa alguma.
Quanto tempo levará para que alguém disseque a cantiga de poda
e crie uma variação, e depois outra e mais outra? Todas novas e
melhoradas. Até Oppenheimer inventar a bomba atômica, a coisa era
impossível. Agora temos a bomba atômica, a bomba de hidrogênio e
a bomba de nêutrons, e as pessoas continuam ampliando a ideia
original. Fomos empurrados para um paradigma novo e assustador.
Se Duncan morreu, foi uma baixa necessária. Ele foi meu teste
nuclear atmosférico. Minha Trindade. Minha Hiroshima.
Mesmo assim, lá na seção de copidesque, o Palmer tem certeza de
que Duncan está na sala da redação.
O Jenkins, da redação, diz que Duncan provavelmente está no
departamento de arte.
O Hawley, da arte, diz que ele está na biblioteca de recortes.
O Schott, do Arquivo, diz que Duncan está no copidesque.
Aqui no jornal, isso é considerado a realidade.
O tipo de segurança que eles têm atualmente nos aeroportos:
basta imaginar esse tipo de rigidez em rodas as bibliotecas, escolas,
teatros e livrarias depois que a cantiga de poda vazar. Onde quer que
uma informação possa ser disseminada, você encontrará guardas
armados.
As ondas do ar ficarão vazias feito uma piscina pública durante
um surto de poliomielite. No futuro, só algumas transmissões
governamentais irão ao ar. Só notícias e músicas bem desinfetadas.
No futuro, qualquer música, livro ou filme será testado em animais
de laboratório ou condenados voluntários antes de ser liberado para
o público.
Em vez de máscaras cirúrgicas, as pessoas usarão fones de ouvido
que lhes darão a proteção constante e tranquilizadora de música
segura ou canto de passarinhos. Pagarão pelo fornecimento de
notícias "puras”, uma fonte de informação e diversão “seguras". Tal
como a carne e o leite são inspecionados, é fácil imaginar que os
livros, filmes e músicas serão filtrados e homogeneizados. Ganharão
certificados e serão aprovados para consumo.
As pessoas renunciarão tranquilamente à maior parte de seus
bens culturais, em troca da garantia de que as sobras diminutas que
restarem sejam seguras e limpas.
Barulho branco.
É fácil imaginar esse mundo de silêncio: qualquer som forte ou
longo o suficiente para abrigar um poema mortífero será banido.
Nada de motocicletas, aparadores de grama, aviões a jato,
liquidificadores ou secadores de cabelo. Nesse mundo, as pessoas
terão medo de escutar, medo de ouvir algo por trás do ruído do
trânsito, medo de serem atingidas por algumas palavras tóxicas
enterradas na música alta que toca na casa vizinha. Dá para imaginar
uma resistência cada vez mais alta à linguagem. Ninguém falará
coisa alguma, porque ninguém ousará escutar.
Os surdos herdarão a Terra.
E os analfabetos. Os isolados. Será um mundo de ermitões.
Outra xícara de café e preciso mijar feito um puto. Quando estou
lavando as mãos no banheiro, Henderson, da editoria nacional,
aproxima-se e diz algo.
Pode ser qualquer coisa. Secando as mãos sob o jato de ar, berro
que não consigo ouvi-lo.
— O Duncan! — berra ele acima do barulho da água e do secador.
— Temos dois cadáveres num quarto de hotel c não sabemos se isso é
notícia ou não. Precisamos do Duncan para decidir!
Acho que é isso que ele diz. Há tanto barulho aqui!
No espelho, ajeito a gravata e penteio o cabelo com os dedos.
Num fôlego só, com Henderson refletido ao meu lado, eu poderia
pronunciar rapidamente a cantiga de poda e hoje à noite ele sairia da
minha vida. Ele e Duncan. Seria facílimo.
Em vez disso, pergunto se fica bem usar gravata azul com paletó
marrom.
Capítulo 8

Quando o primeiro enfermeiro chegou à cena, a primeira coisa


que fez foi ligar para seu corretor de ações. O enfermeiro, meu amigo
John Nash, avaliou a situação na suíte 17F do Hotel Pressman e
mandou o corretor vender todas as suas ações da Stuart Western
Technologies.
— Eles podem até me despedir, tudo bem — diz Nash. -Mas nos
três minutos que levei para dar o telefonema, aqueles dois em cima
da cama não ficaram mais mortos do que já estavam.
O próximo telefonema que ele dá é para mim, perguntando se
tenho cinquenta paus para que ele descubra mais alguns detalhes.
Diz que se tenho ações da Stuart Western é bom me desfazer delas e
depois ir para um certo bar da Terceira Avenida, perto do hospital.
— Meu Jesus Cristo, como aquela mulher era bonita! Se o Turner
não estivesse lá... Turner é meu parceiro... nem sei — diz Nash ao
telefone. Depois desliga.
Segundo o noticiário, as ações da Stuart Western Technologies
estão indo privada abaixo. Já deve ter vazado a notícia acerca de
Baker Lewis Stuart, o fundador da companhia, e sua nova esposa,
Penny Price Stuart.
Na noite passada, o casal Stuart jantou no Chez Chef às sete
horas. Com uma gorjeta, foi fácil arrancar isso do recepcionista do
hotel. Segundo o garçom, eles pediram risoto de salmão e cogumelos
à Portobello. Olhando para a coma, disse ele, não dava para saber
quem pediu o quê. Eles beberam uma garrafa de pinot noir. Alguém
pediu cheesecake de sobremesa. Os dois tomaram café.
Às nove, eles foram a uma festa na Galeria Chambers, onde
testemunhas disseram à polícia que o casal conversou com várias
pessoas, inclusive o proprietário da galeria e o arquiteto da nova casa
deles. Cada um tomou mais uma taça de um vinho de garrafão.
Às dez e meia, eles voltaram ao Hotel Pressman, onde estavam
hospedados na suíte 17F havia quase um mês, desde o casamento.
A telefonista do hotel diz que eles deram vários telefonemas entre
dez e meia e meia-noite. Às doze e quinze, ligaram para a recepção e
pediram para ser acordados às oito horas. Um recepcionista confirma
que eles usaram o controle remoto da televisão para encomendar um
filme pornô.
Às nove da manhã seguinte, a camareira encontrou os dois
mortos.
— Embolia, na minha opinião — supôs Nash. — Às vezes você
come uma garota e insufla ar dentro dela, ou então fode com força
demais. Das duas maneiras, você pode enfiar ar na corrente
sanguínea dela, e a bolha vai direto para o coração.
Nash é um sujeito grandalhão. Quando chego lá, vejo que ele está
parado junto ao bar com seus tênis brancos e que tem um casaco
pesado sobre o uniforme também branco. Com os dois cotovelos
sobre o balcão, está comendo um sanduíche de filé. A maionese e a
mostarda escorrem fora do pão. Ele está bebendo uma xícara de café
preto. E prendeu o cabelo oleoso, formando uma palmeira negra no
topo da cabeça.
Eu o cumprimento:
— E aí?
Pergunto:
— O lugar foi saqueado?
Nash fica mastigando, com a mandíbula enorme descrevendo
círculos. Segura o sanduíche com ambas as mãos, mas fica olhando
para o prato embaixo, cheio de porcarias, picles e batatas fritas.
Pergunto se ele sentiu algum cheiro no quarto do hotel.
— Como eles eram recém-casados, acho que ele fodeu até matar a
mulher e depois sofreu um enfarte. Aposto cinco paus que eles vão
abrir o corpo e encontrar ar no coração dela.
Pergunto se ele ao menos apertou o botão de rediscagem no
telefone, a fim de descobrir para quem eles ligaram por último.
E Nash responde: — Não dá para fazer isso num telefone de
hotel.
Digo que quero mais pelos cinquenta paus do que a baba dele
diante de um cadáver.
— Você também ficaria babando. Cacete, a mulher era um
estouro!
Pergunto se havia valores — relógios, carteiras, joias — largados
no local.
— E o corpo ainda estava quente embaixo das cobertas. Quente o
suficiente. Nada de estertores mortais. Nada.
A mandíbula enorme continua descrevendo círculos, agora já
mais devagar, enquanto ele mantém o olhar baixo e vago:
— Se você pudesse ter qualquer mulher que quisesse... se pudesse
ter a mulher do jeito que quisesse... não iria em frente?
Digo que ele está falando de estupro.
— Não se ela estivesse morta. — Ele esmaga uma batata frita e
fala de boca cheia. — Se eu estivesse sozinho» e tivesse uma
camisinha... pois jamais deixaria o legista encontrar meu DNA na
cena.
Então ele está falando de assassinato.
— Não se ela tivesse sido morta por outra pessoa. — Nash olha
para mim. — Ou se eu tivesse sido. O marido tinha uma bela bunda,
se é disso que você gosta. Nenhum vazamento. Nenhum livor mortis.
Nenhum deslizamento da pele. Nada.
Não sei como ele consegue falar desse jeito e ainda comer.
— Os dois estavam nus. Com uma grande mancha molhada no
colchão, bem entre eles. É, eles transaram. Transaram e morreram. —
Nash mastiga o sanduíche. — Quando vi a mulher ali, achei que ela
parecia mais bonita do que qualquer rabo que já papei.
Se Nash conhecesse a cantiga de poda, não sobraria uma mulher
viva na Terra. Viva ou virgem.
Se Duncan estiver morto, espero que Nash não seja chamado ao
local. Talvez dessa vez ele leve uma camisinha.
Talvez elas sejam vendidas no banheiro daqui.
Já que ele deu uma olhada tão boa, pergunto se viu alguma
contusão, mordida, picadura de abelha, marca de agulha, qualquer
coisa.
— Não havia nada disso.
— Bilhete de suicídio?
— Nada. Sem causa de morte aparente.
Nash revira o sanduíche na mão, lambendo a mostarda e a
maionese que estão escorrendo para fora. Ainda lambendo, diz:
— Lembra do Jeffrey Dahmer? Ele não queria matar tanta gente.
Só achava que você podia fazer um buraco no crânio de alguém,
colocar um pouco de desentupidor de cano e transformar a pessoa
num zumbi sexual. Dahmer só queria transar mais.
Então o que mais recebo pelos meus cinquenta paus?
— Eu só tenho um nome — informa ele.
Dou-lhe duas notas de vinte e uma de dez.
Com os dentes, ele puxa uma fatia de filé para fora do sanduíche.
A carne fica pendurada sobre seu queixo até ele lançar a cabeça para
trás e enfiar a fatia na boca. Mastigando, ele diz com um bafo de
mostarda:
— É, sou um porco. A ultima pessoa a falar com eles, pela lista de
chamadas nos celulares dos dois, foi uma tal de Helen Hoover Boyle.
Depois conclui:
— Você se livrou daquelas ações, como eu falei?
Capítulo 9

É o mesmo armário William and Mary. Segundo o cartão colado na


frente, é feito de pinho negro laqueado, com cenas persas pintadas
em tom prateado, pés redondos e a frente enfeitada com um monte
de arabescos trabalhados. Só pode ser o mesmo armário. Nós
havíamos dobrado à direita aqui, passado por um apertado corredor
de guarda-roupas, depois dobrado à direita outra vez diante de uma
bancada Regency, e depois à esquerda junto a um sofá Federal, mas
aqui estamos novamente.
Helen Hoover Boyle põe o dedo sobre os detalhes prateados, os
homens e mulheres reluzentes da vida na corte persa, e diz:
— Não sei do que você está falando.
Ela matou Baker e Penny Stuart. Ligou para os celulares dos dois
em algum momento da véspera da morte deles. Leu a cantiga de
poda para cada um.
— Você acha que matei aqueles dois coitados cantando para eles?
— pergunta cia. Hoje Helen está usando um conjunto amarelo, mas
sua cabeleira continua cor-de-rosa. Os sapatos são amarelos, mas o
pescoço continua cheio de correntes e contas douradas. Suas
bochechas parecem rosadas e macias, sem excesso de pó de arroz.
Não foi preciso cavar muito para descobrir que fora o casal Stuart
que comprara uma casa na alameda Exeter.
Uma adorável casa histórica> com sete quartos e todo o andar
térreo revestido em cerejeira. Uma casa que cies planejavam demolir
e substituir. Plano esse que enfurecera Helen Hoover Boyle.
— Ora, Carl — diz ela se você ouvisse o que está dizendo...
Do local em que estamos parados, apertados corredores de
mobília se estendem por alguns metros em todas as direções. Mais
além, cada corredor dobra ou se ramifica em mais corredores, com
guarda-roupas encostados lado a lado e aparadores espremidos uns
contra os outros. Qualquer coisa baixa, poltronas, sofás ou mesas, só
permite que você veja até o próximo corredor de arcas, a próxima
muralha de relógios de parede, biombos esmaltados e escrivaninhas
georgianas.
Foi aqui que ela sugeriu que nos encontrássemos, onde
poderíamos conversar em particular, um desses galpões de
antiquários. Neste labirinto de móveis^voltamos a nos deparar com o
mesmo armário William and Mary, seguido pela mesma bancada
Regency. Estamos andando em círculos. Estamos perdidos.
E Helen Hoover Boyle indaga:
— Você falou da sua canção assassina para mais alguém?
Só para meu editor.
— E o que seu editor disse?
Acho que ele está morto.
— Que surpresa! Você deve estar se sentindo muito mal.
Acima de nós, candelabros de cristal pendem em diversos níveis
de altura, todos nublados e cinzentos feito perucas empoadas. Fios
desencapados se torcem onde as correntes engancham nas vigas do
telhado. Os fios cortados, as lâmpadas mortas e poeirentas. Cada
candelabro é apenas mais uma antiga cabeça aristocrática cortada e
pendurada ao contrário. Acima de tudo isso arqueia-se o telhado do
galpão: um monte de vigas baixas sustentando aço corrugado.
— É só vir atrás de mim — diz Helen Hoover Boyle. — Não dizem
que o musgo só cresce no lado norte de um guarda-roupa?
Ela umedece dois dedos na boca e ergue-os no ar.
As cristaleiras em estilo rococó, as estantes jacobinas, os criados-
mudos do Renascimento gótico — todos trabalhados e envernizados
— e os guarda-roupas em estilo francês da Provença apinham-se à
nossa volta. Os armários de nogueira eduardianos, os espelhos
vitorianos, as cômodas renascentistas. Nogueira e mogno, ébano e
carvalho. Pernas rotundas, pernas recurvas, placas almofadadas.
Depois do local em que qualquer corredor dobra, simplesmente' há
outros, cheios de cômodas em estilo Queen Anne, e mais peças de
bordo. Com relevos em madrepérola e ouropel.
Nossas passadas ecoam sobre o piso de concreto. O telhado de
aço vibra sob a chuva.
E Helen pergunta:
— Você não se sente um tanto enterrado na história?
Com as unhas cor-de-rosa, ela tira um molho de chaves da bolsa
amarela e branca. Fecha o punho em corno das chaves, de modo que
apenas as mais longas e afiadas se projetam entre seus dedos. Depois
diz:
— Percebe que qualquer coisa que você possa fazer na sua vida
não terá mais sentido daqui a cem anos? Acha que daqui a cem anos
alguém ainda se lembrará do casal Stuart?
Ela olha para as diversas superfícies polidas dos tampos de mesa,
cômodas e porcas, vendo que todas ostentam seu reflexo:
— As pessoas morrem. Demolem casas. Mas os móveis, os móveis
bons e bonitos, simplesmente permanecem, sobrevivendo a tudo.
Depois continua: — Os guarda-roupas amigos são as baratas da
nossa cultura.
E sem interromper o passo, ela arrasta a ponta de aço da chave
sobre a polida superfície de nogueira de um armário. O som é
discreto, como o de algo afiado arranhando algo macio. A cicatriz é
profunda e mostra o pinho barato sob o verniz.
Ela para diante de um guarda-roupa com portas de vidro
bisotado.
— Pense em todas as gerações de mulheres que já se olharam
neste espelho. Elas levaram o espelho para casa. Envelheceram neste
espelho. Morreram todas aquelas mulheres belas e jovens, mas aqui
está o guarda-roupa, hoje mais valioso do que nunca. Um parasita
que sobrevive ao hospedeiro. Um predador grande e gordo,
procurando sua próxima refeição.
Nesse labirinto de antiguidades, diz cia, estão os fantasmas de
todos os antigos proprietários desses móveis. Todos eram ricos e
bem-sucedidos o suficiente para prová-lo. Todo o talento, inteligência
e beleza dessa gente derrotados por bagulhos decorativos. Todo o
sucesso e todas as realizações que esta mobília deveria representar,
tudo isso desapareceu.
Ela pergunta mais uma vez: — No vasto esquema das coisas,
realmente importa como o casal Stuart morreu?
Pergunto como ela descobriu o feitiço de poda:
— Foi porque seu filho, Patrick, morreu?
E ela simplesmente continua andando, arrastando os dedos pelas
bordas trabalhadas e pelas superfícies polidas, marcando as
maçanetas e manchando os espelhos.
Não foi preciso cavar muito para descobrir como o marido de
Helen morreu. Um ano depois de Patrick, ele foi encontrado na cama,
morto, sem uma só marca, sem bilhete de suicídio, sem causa
aparente.
E Helen Boyle diz:
— Como seu editor foi encontrado?
Da bolsa amarela e branca, ela tira um pequeno alicate prateado e
uma chave de fenda, tão limpos que poderiam ser usados numa
cirurgia. Abre a porta de um vasto guarda-roupa, trabalhado e
polido, e pede: — Segure isto para mim, por favor.
Eu seguro a porta e ela fica fazendo algo no interior. Depois de
um instante, a fechadura e a maçaneta se soltam e caem no chão aos
meus pés.
Um minuto mais tarde, ela está com as maçanetas e o ouropel da
porta. Tira o que é de metal, menos as dobradiças, e coloca tudo na
bolsa. Sem os ornamentos, o guarda-roupa parece aleijado, cego,
castrado, mutilado.
E pergunto por que ela está fazendo isto.
— Porque adoro este móvel, mas não quero ser mais uma de suas
vítimas.
Depois fecha as portas, coloca os instrumentos de volta na bolsa e
acrescenta:
— Vou voltar aqui quando eles baixarem o preço ao valor que isso
tinha quando era novo. Adoro esse móvel, mas só quero ser dona
dele sob minhas próprias condições.
Damos mais alguns passos e o corredor se transforma numa
floresta de cabideiros para chapéus, suportes para guarda-chuvas e
cabides para casacos. Atrás de tudo isso, a distância, há outra
muralha de aparadores e guarda-roupas.
— Elisabetano — diz ela, tocando cada peça. — Tudor... Eastlake...
Stickley...
Quando alguém põe duas peças juntas, como um espelho e uma
cômoda, ela explica que os peritos chamam o produto de peça
“casada". Como antiguidade, aquilo é considerado sem valor algum.
Quando alguém pega duas peças, como uma cristaleira e uma arca, e
vende separadamente, os peritos chamam as peças de “divorciadas".
— E mais uma vez nada valem — diz ela.
Digo que estou tentando encontrar cada exemplar do livro de
poemas. Digo que é importante que ninguém descubra o feitiço.
Depois do que aconteceu a Duncan, juro que vou queimar todas as
minhas anotações e esquecer que um dia soube do feitiço de poda.
— E se você não conseguir esquecer? — pergunta ela. — E se a
coisa continuar se repetindo na sua cabeça, feito uma daquelas
canções idiotas de comerciais? E se ficar sempre aí dentro, feito uma
arma carregada esperando que alguém irrite você?
Não vou usá-la.
— Falando hipoteticamente, é claro, e se eu costumasse jurar a
mesma coisa? — diz ela. — Eu. Uma mulher que você diz que
acidentalmente matou o filho e o marido, uma pessoa que vive
torturada pelo poder dessa maldição. Se alguém como eu começasse
a usar a cantiga, por que você acha que não a usaria?
Simplesmente não vou usar a coisa.
— É claro que não — ela dá uma risada silenciosa, dobra à direita,
passa rapidamente por um aparador Biedermeier, dobra novamente
depois de uma escrivaninha art nouveau e por um instante
desaparece.
Corro para alcançá-la, ainda perdido, dizendo que acho que
precisamos ficar juntos se quisermos encontrar a saída daquele lugar.
Bem à nossa frente» há um armário William and Mary. Pinho
negro laqueado com cenas persas pintadas em tom prateado, pés
redondos e a frente enfeitada com um monte de arabescos
trabalhados. E conduzindo-me para as profundezas da moita de
cristaleiras, cômodas, aparadores, criados-mudos, cadeiras de
balanço, cabideiros e estantes, Helen Hoover Boyle diz que precisa
me contar uma historinha.
Capítulo 10

De volta à redação, todos estão silenciosos. As pessoas sussurram


em torno da cafeteira. Escutam boquiabertas. Ninguém está
chorando.
Henderson me pega pendurando o paletó e pergunta:
— Você ligou para as Linhas Aéreas Regent-Pacific sobre o tal
negócio dos piolhos?
Digo que ninguém quer declarar nada até a ação ser protocolada.
— Só para avisar, você agora presta contas a mim. Duncan não é
só irresponsável. Acontece que ele está morto.
Morto na cama, sem uma só marca. Sem bilhete de suicídio, sem
causa de morte aparente. O senhorio encontrou o corpo e chamou os
enfermeiros.
Pergunto se havia algum sinal de que ele fora sodomizado.
Henderson joga a cabeça para trás quase imperceptivelmente:
— Sodo o quê?
Alguém fodeu com ele?
— Meu Deus, não! — Por que você pergunta isso?
Digo que foi sem motivo algum.
Pelo menos Duncan não virou o brinquedo sexual cadavérico de
alguém.
Depois digo:
— Se alguém precisar de mim, estou no Arquivo. Preciso conferir
alguns fatos. Só alguns anos de reportagens que preciso ler. Alguns
rolos de microfilmes para examinar.
Hendereon exclama lá atrás:
— Não vá muito longe. Só porque o Duncan está morto não quer
dizer que você escapou da ronda dos bebês mortos.
Paus e pedras quebram tudo pela frente, mas cuidado com
aquelas malditas palavras.
Segundo o microfilme, em 1983, em Viena, na Áustria, uma
auxiliar de enfermagem de vinte e três anos deu uma dose excessiva
de morfina para uma anciã que implorava pela morte.
A mulher de setenta e sete anos morreu, e a auxiliar de
enfermagem, Waltraud Wagner, descobriu que adorava ter o poder de
vida e morte.
Está tudo ali, em rolo após rolo de microfilme. Somente os fatos.
No início, tratava-se apenas de ajudar os pacientes moribundos. A
tal auxiliar de enfermagem trabalhava num enorme hospital para
pacientes idosos e cronicamente enfermos. As pessoas ficavam
jogadas lá, querendo morrer. Além da morfina, a moça inventou o
que chamava de cura pela água. Para aliviar o sofrimento, você
simplesmente aperta e fecha o nariz do paciente. Abaixa a língua da
pessoa c despeja água garganta abaixo. A morte é uma tortura lenta,
mas gente velha é sempre encontrada com água nos pulmões.
A moça se considerava um anjo.
Tudo parecia muito natural.
Era um ato nobre e heroico o que Waltraud Wagner estava
fazendo.
Ela era o término cabal do sofrimento e da agonia. Era gentil»
atenciosa, sensível e só despachava quem implorava pela morte. Era o
anjo da morte.
Em 1987, já havia mais três anjos. Todas as quatro auxiliares
trabalhavam no turno da noite. O hospital já era apelidado de
Pavilhão da Morte.
Em vez de pôr fim ao sofrimento, as quatro mulheres começaram
a dar a cura pela água a pacientes que roncavam, molhavam a cama,
recusavam-se a tomar a medicação ou tocavam a campainha da
enfermagem tarde da noite. Qualquer pequeno incômodo e o
paciente morria na noite seguinte. Sempre que um paciente
reclamava de alguma coisa, Waltraud Wagner dizia:
— Esse aí vai receber uma passagem para Deus.
E glub, glub, glub.
— Quem me enervava — relatou ela às autoridades — era
despachado diretamente para um leito livre junto ao Bom Senhor.
Em 1989, uma senhora idosa chamou Waltraud Wagner de
vagabunda e recebeu a cura pela água. Depois, os anjos foram beber
numa taverna, rindo, imitando as convulsões e o olhar na cara da
velha. Um médico sentado à mesa ao lado entreouviu a conversa.
As autoridades médicas de Viena estimam que quase trezentas
pessoas já haviam sido “curadas” àquela altura. Waltraud Wagner foi
condenada à prisão perpétua. Os outros anjos receberam sentenças
menores.
— Nós podíamos decidir se aqueles velhotes iriam viver ou
morrer — disse Waltraud Wagner durante o julgamento. — Em todo
caso, a passagem deles para Deus já estava mais do que vencida.
A história que Helen Hoover Boyle me contou é verdadeira.
O poder corrompe. E o poder absoluto corrompe absolutamente.
Portanto, simplesmente relaxe, disse-me Helen, e aproveite o
passeio.
Depois disse:
— Até a corrupção absoluta tem suas vantagens.
Ela me mandou pensar em todas as pessoas que eu queria ver fora
da minha vida. Pensar em todas as coisas que eu poderia resolver. Em
vingança. Pensar em como seria fácil.
E Nash ainda estava ecoando na minha cabeça. Nash estava lá,
babando diante da ideia de qualquer mulher, em qualquer lugar,
disposta e linda, ao menos por algumas horas antes que as coisas
esfriassem e começassem a desmoronar.
— Você pode me explicar — disse ele — em que isso seria
diferente da maioria das relações amorosas?
Qualquer pessoa, todo mundo, poderia se tornar o próximo
zumbi sexual dele.
Mas só porque Waltraud Wagner, Helen Boyle e John Nash não
conseguem se controlar não significa que eu me tornarei um
assassino destrambelhado.
Henderson chega à porta do Arquivo e grita:
— Streator! Você desligou seu bipe? Acabamos de receber um
telefonema sobre outro bebê morto!
O editor está morto, longa vida ao editor! Aqui está o chefe novo,
igual ao chefe antigo.
É claro que o mundo até poderia ser um lugar melhor sem certas
pessoas. O mundo poderia ser quase perfeito, com alguns cortes aqui
e ali. Uma pequena faxina. Uma certa seleção antinatural.
Mas nunca mais vou usar a cantiga de poda.
Nunca mais.
E mesmo que usasse, não seria por vingança.
Não seria por conveniência.
Certamente não seria por sexo.
Não. Eu só usaria a cantiga para fazer o bem. Henderson berra:
— Streator! Você chegou a ligar a respeito do negócio dos
piolhos? Ligou a respeito do fungo venenoso na academia? Você
precisa ficar enchendo o saco do pessoal do Treeline ou nunca vai
conseguir nada!
E rápida como um raio a cantiga de poda passa pela minha
cabeça, enquanto pego o paletó e parto rápido como um raio corredor
abaixo em direção à porta.
Não. Nunca mais vou usar a cantiga. É isso e pronto. Não vou usá-
la. Nunca mais.
Capítulo 11

Esses barulhômanos. Esses calmófobos.


Lá vem a batida, a batida e a batida de um tambor atravessando o
teto. Pelas paredes, dá para ouvir o riso e o aplauso de gente morta.
Até no banheiro, até tomando uma banho de chuveiro, você
consegue ouvir o falatório no rádio por cima do sibilar da ducha, ou
do jorro da água na banheira e na cortina de plástico. Não é que você
queira que todo mundo morra, mas seria agradável soltar o feitiço de
poda no mundo. Simplesmente para gozar o medo. Depois que as
pessoas declarassem ilegal qualquer som forte, qualquer som que
pudesse abrigar um feitiço, qualquer música ou barulho que pudesse
ocultar um poema mortífero, depois disso o mundo ficaria silencioso.
Perigoso e assustador, mas silencioso.
Os ladrilhos reproduzem um ritmo diminuto sob as pontas dos
meus dedos. A banheira vibra com gritos que atravessam o piso. Ou
um dinossauro voador pré-histórico despertado por um teste nuclear
está prestes a destruir o pessoal do andar de baixo ou a televisão
deles está alta demais.
Num mundo em que as juras não têm nenhum valor, em que
fazer um juramento nada significa, em que as promessas são feitas
para serem quebradas, seria agradável ver as palavras de volta ao
poder.
Num mundo em que a cantiga de poda fosse de conhecimento
geral, haveria apagões sonoros. Tal como em tempos de guerra,
haveria guardas patrulhando. Mas em vez de caçarem luzes, eles
procurariam barulhos e mandariam as pessoas calarem a boca. Os
mesmos governos que hoje procuram poluição no ar e na água
passariam a identificar qualquer coisa mais forte do que um
sussurro, e depois efetuariam a prisão dos infratores. Haveria
helicópteros, helicópteros especialmente silenciosos, é claro, para
procurar qualquer barulho, tal como hoje procuram maconha. As
pessoas andariam pé ante pé, usando sapatos com solado de
borracha. Haveria informantes escurando em cada fechadura.
Seria um mundo perigoso e assustador, mas ao menos você
poderia dormir com as janelas abertas. Seria um mundo em que cada
palavra valeria por mil imagens.
É difícil dizer se tal mundo seria pior do que este, com músicas
martelando, televisões rugindo e rádios grasnando.
Se o Big Brother parasse de nos encher, talvez as pessoas
começassem a pensar.
O lado positivo é que talvez nossas mentes se tornassem nossas
de verdade.
Não há mal algum, de modo que pronuncio o primeiro verso do
poema de poda. Não há ninguém para matar aqui. Não há como
alguém ouvir a coisa.
E Helen Hoover Boyle tem razão. Não esqueci a cantiga. A
primeira palavra gera a segunda. O primeiro verso gera o seguinte.
Minha voz se avoluma como que numa ópera. As palavras trovejam
com o som profundo e vibrante de uma pista de boliche. O trovão
ecoa nos ladrilhos e no linóleo.
Na minha forte voz operística, a cantiga de poda não parece tola
como no escritório de Duncan. Parece pesada e rica. É o som da
condenação. É a condenação do meu vizinho de cima. É o fim que
dou à vida dele, e acabo de dizer o poema todo.
Mesmo molhado, o cabelo está arrepiado na minha nuca. Minha
respiração parou.
E nada.
Lá de cima v£m as batidas da música. Em todas as direções há
falatório no rádio e na televisão, tiros diminutos, risadas, bombas,
sirenes. Um cachorro late. Isso é considerado horário nobre.
Fecho a torneira. Sacudo o cabelo. Afasto a cortina do chuveiro e
estendo a mão em direção a uma toalha. E então vejo a coisa.
O respiradouro.
O duto de ar que liga todos os apartamentos. O respiradouro está
sempre aberto. Carrega vapor dos banheiros e odores culinários das
cozinhas. Carrega todos os sons.
Gotejando no chão do banheiro, fico olhando para o respiradouro.
Talvez eu tenha acabado de matar o prédio inteiro.
Capítulo 12

Nash está no bar da Terceira Avenida, comendo pasta de cebola


com a mão. Enfia dois dedos reluzentes na boca c suga com tanta
força que suas bochechas ficam côncavas. Depois puxa os dedos para
fora e pega mais um pouco de pasta de cebola num recipiente
plástico.
Pergunto se aquilo é seu café da manhã.
— Se você quer perguntar alguma coisa, tem de me mostrar
dinheiro antes — diz ele. E põe os dedos dentro da boca.
junto ao balcão, do outro lado de Nash, há um rapaz de costeletas
com um terno risca de giz de boa qualidade. Ao lado dele há uma
garota, que subiu no cano do balcão que serve de apoio para os pés a
fim de beijá-lo. O rapaz joga a cereja do coquetel na boca. Os dois se
beijam. Depois ela começa a mastigar algo. O rádio atrás do balcão
ainda anuncia os cardápios dos almoços escolares.
Nash fica virando a cabeça, a fim de olhar para o casal.
Isso é considerado amor.
Coloco uma nota de dez dólares no balcão.
Com os dedos ainda na boca, Nash baixa o olhar para a nota e
depois ergue as sobrancelhas.
Pergunto se alguém morreu no meu prédio ontem à noite.
É um edifício na esquina da rua Seventeenth com Loomis Place.
Apartamentos Loomis Place, com oito andares e tijolos cor de rim.
Talvez alguém no quinto andar? Perto dos fundos? Um rapaz. Hoje
de manhã havia uma mancha esquisita no meu teto.
O celular do cara das costeletas começa a tocar.
Nash tira os dedos da boca, com os lábios fazendo biquinho em
torno deles. Examina as próprias unhas, bem de perto, com um olhar
caolho.
O cara morto transava drogas, digo a ele. Muita gente naquele
prédio transa drogas. Pergunto se houve mais mortes lá. Por acaso
um monte de gente morreu nos Apartamentos Loomis Place ontem à
noite?
O cara das costeletas agarra o cabelo da garota e a afasta de sua
boca. Com a outra mão, tira o celular do bolso do paletó e abre o
aparelho, dizendo:
— Alô?
Informo que todas elas teriam sido encontradas sem causa de
morte aparente.
Nash mexe um dos dedos dentro da pasta de cebola:
— Aquele é seu prédio?
— É, eu já disse isso.
Ainda segurando a garota pelo cabelo, falando ao telefone, o cara
das costeletas diz:
— Não, meu bem. Estou no consultório do médico agora, c a coisa
não parece muito boa.
A garota fecha os olhos. Arqueia o pescoço para trás e esfrega o
cabelo na mão dele.
O cara das costeletas continua:
— Não, parece que é metástase. Não, estou legal.
A garota abre os olhos.
Ele pisca para ela.
Ela sorri.
O cara das costeletas conclui a conversa:
— Isso significa muito nesse momento. Eu também amo você.
Ele desliga e puxa o rosto da garota para perto.
Nash pega a nota de dez no balcão e enfia o dinheiro no bolso. —
Não. Não ouvi dizer nada.
Os pés da garota escorregam no cano do bar, e ela ri. Dá um passo
para trás e pergunta: — Era ela?
O cara das costeletas responde: — Não.
E sem que eu tente, a coisa acontece. Estou só olhando para o cara
das costeletas e a cantiga passa pela minha cabeça. A cantiga, com
minha voz no chuveiro, aquela voz da condenação, ecoa dentro de
mim. Rápida como um reflexo. Rápida como um espirro, a coisa
acontece.
— É meio engraçado você perguntar isso — diz Nash, com um
bafo que é cebola pura. Depois enfia na boca o dedo que estava
mexendo a pasta.
E a garota no balcão reclama:
— Marty?
O cara das costeletas, ainda encostado no balcão, cai ao chão.
Nash se vira para olhar.
A garota se ajoelha no chão ao lado do cara, com as mãos abertas
acima das lapelas risca de giz, mas sem encostar nele, e repete: —
Marty?
Suas unhas estão pintadas de roxo cintilante. O batom roxo
deixou manchas em torno da boca do cara.
Talvez o cara esteja realmente doente. Talvez tenha se engasgado
com uma cereja. Talvez eu não tenha acabado de matar mais um.
A garota ergue o olhar para mim e para Nash, com o tosto
reluzente de lágrimas, e pergunta:
— Algum de vocês sabe fazer ressuscitação cardiopulmonar?
Nash enfia os dedos de volta na pasta de cebola. Passo por cima
do corpo e pela garota, já vestindo o casaco e indo em direção à porta.
Capítulo 13

De volta à redação: Wilson, da editoria internacional, quer saber


se eu vi Henderson hoje. Baker, da seção de livros, diz que
Henderson não avisou que estava doente e que não atende o telefone
em casa. Oliphant, da editoria de reportagens especiais, pergunta:
— Streator, você viu isto?
Ele me entrega uma folha, com um anúncio que diz:

Atenção clientes do Salão French

“Você teve algum sangramento grave ou


Ficou com alguma cicatriz como resultado de um recente tratamento
facial?”

O número telefônico é um que ainda não vi, e quando ligo, uma


mulher responde:
— Doogan, Diller e Dunne, Advogados.
Desligo.
Oliphant para junto a minha mesa:
— Já que você está aqui, diga algo simpático sobre o Duncan.
Eles estão montando uma matéria, diz ele, um tributo a Duncan,
um belo retrato e um resumo da carreira dele. Precisam que as
pessoas pensem em boas citações. Alguém da arte vai usar a
fotografia do crachá funcional de Duncan para pintar o retrato.
— Só que sorrindo — acrescenta Oliphant. — Sorrindo c mais
parecido com um ser humano.
Antes disso, ao voltar do bar da Terceira Avenida para o trabalho,
contei meus passos. Para ocupar minha mente, contei duzentos e
setenta e seis passos, até uma esquina em que um sujeito de casacão
de couro preto me empurrou, dizendo:
— Acorde, babaca! O sinal está dizendo “ande”.
Atingindo-me tão repentinamente quanto um bocejo, enquanto
eu olhava para as costas de couro preto do sujeito, a cantiga de poda
passa pela minha cabeça.
Ainda atravessando a rua, o sujeito de casacão de couro preto
ergue o pé para passar por cima do meio-fio do outro lado, mas não
consegue. Seu dedão bate no meio-fio e ele tomba na calçada com a
testa no chio. O som parece o de um ovo caindo no piso da cozinha,
só que é um ovo enorme, cheio de sangue e miolos. Ele fica parado,
com os braços estendidos ao longo do corpo. Os bicos dos seus
sapatos pretos pendem um pouco sobre o meio-fio, acima da sarjeta.
Passo por ele, contando 277, contando 278, contando 279...
A um quarteirão do jornal, uma barricada de cavaletes bloqueia a
calçada. Um policial de uniforme azul está parado do outro lado,
abanando a cabeça: — Você tem que voltar e atravessar a rua. Esta
calçada está fechada. Eles estão rodando um filme no meio do
quarteirão.
Atingindo-me com a rapidez de uma câimbra enquanto faço cara
feia para o distintivo dele, os oito versos da cantiga passam pela
minha mente.
O policial revira os olhos até que só as partes brancas ficam
visíveis. Leva uma mão enluvada até o peito e seus joelhos desabam.
O queixo cai sobre o cavalete com tanta força que dá para ouvir o
choque dos dentes. Uma coisa rosada sai voando. É a ponta da língua
do sujeito.
Contando 345, contando 346, contando 347, lanço uma perna por
cima da barricada, depois outra, e continuo andando.
Uma mulher com um intercomunicador na mão se põe no meu
caminho, com o braço esticado à frente e a mão estendida para me
deter. Um instante antes que sua mão agarre meu braço, ela revira os
olhos e fica de queixo caído. Um fio de baba escorre-lhe pelo canto da
boca frouxa e ela tomba aos meus pés, enquanto o intercomunicador
chama: — Jeanie? Jean? Atenção!
As últimas palavras da cantiga de poda passam pela minha
cabeça.
Contando 359, contando 360, contando 361, continuo andando
enquanto pessoas passam apressadamente por mim na outra direção.
Uma mulher com um fotômetro pendurado no pescoço pergunta:
— Alguém chamou a ambulância?
Sob grandes refletores, pessoas usando andrajos, com muita
maquiagem e bebendo água em garrafinhas de vidro azul estão
paradas diante de carrinhos de supermercado cheios de lixo. Elas
esticam o pescoço para ver onde estive. Todo o meio-fio está tomado
por grandes trailers e ônibus, com o cheiro de geradores a diesel
funcionando entre eles. Por toda parte há copinhos de papel com café
pela metade.
Contando 378, contando 379, contando 380, passo por cima da
barricada do lado oposto e contínuo andando. São necessários
quatrocentos e doze passos para chegar ao jornal. Subindo no
elevador, já há gente demais no carro.
No quinto andar, mais um sujeito tenca entrar à força.
Tão súbita quanto um suadouro, enquanto me aperto nos fundos
do elevador minha mente cospe fora a cantiga de poda, com tanta
força que meus lábios se mexem a cada palavra.
O sujeito olha para todos nós e parece recuar como que em
câmera lenta. Antes que vejamos sua queda ao chão, as portas se
fecham e já estamos subindo.
Na redação, Henderson está desaparecido. Oliphant se aproxima
enquanto disco ao telefone. Ele me fala do tributo a Duncan. Pede
citações. Mostra o anúncio na tal folha. O anúncio a respeito do Salão
French e os tratamentos faciais sangrentos. Oliphant pergunta onde
está a próxima matéria da minha série sobre as mortes no berço.
Com o fone na mão, estou contando 435, contando 436, contando
437...
Para ele simplesmente digo:
— Pare de me emputecer.
Ao telefone, uma voz de mulher informa:
— Imobiliária Helen Hoover Boyle. Em que posso ajudar?
E Oliphant aconselha:
— Você já experimentou contar até dez?
Os detalhes acerca de Oliphant são: ele é gordo e suas mãos
deixaram marcas de suor marrons na tal folha que ele me mostra. Sua
senha de computador é “senha*.
Digo que já passei de dez há muito tempo.
A voz ao telefone responde:
— Alô?
Com a mão sobre o fone, digo a Oliphant que deve haver um vírus
à solta. Provavelmente é por isso que Henderson sumiu. Vou para
casa, mas prometo enviar a matéria de lá.
Oliphant articula silenciosamente as palavras Prazo final às quatro
e bate com o dedo no relógio de pulso.
Ao telefone, pergunto se Helen Hoover Boyle está no escritório.
Digo que meu nome é Carl Streator e que preciso falar com ela
imediatamente.
Estou contando 489, contando 490, contando 491...
A voz responde: — Ela sabe qual é o assunto?
E eu digo:
— Sabe, mas vai fingir que não. Ela precisa me deter antes que eu
mate novamente.
E Oliphant recua uns dois passos antes de cortar o contato visual
e partir em direção à seção de reportagens especiais. Estou contando
542, contando 543...
A caminho da imobiliária, peço que o táxi espere diante do meu
prédio enquanto corro lá para cima.
A mancha marrom no meu teco aumentou. Está do tamanho de
um pneu, talvez, só que agora a mancha tem braços e pernas.
De volta ao táxi, tento afivelar o cinto de segurança, mas o ajuste é
pequeno demais para mim. O cinto corta meu corpo, com minha
barriga por cima, e ouço Helen Hoover Boyle dizendo: “Meia-idade.
Um metro e setenta e cinco, talvez oitenta quilos. Caucasiano.
Castanhos, verdes.”
Vejo a bolha de cabelo cor-de-rosa acima de Helen enquanto ela
pisca para mim.
Dou ao motorista o endereço da imobiliária e digo que ele pode
dirigir à velocidade que quiser, só não pode me emputecer.
Os detalhes acerca do táxi são: o interior fede e o assento preto é
grudento. Trata-se de um táxi.
Informo que tenho um pequeno problema com a raiva.
O motorista olha para mim pelo retrovisor e diz:
— Talvez seja bom você fazer um curso de dominação da raiva.
E estou contando 578, contando 579, contando 580...
Capítulo 14

Segundo a revista Architectural Digest, as grandes mansões


cercadas por vascos jardins e estábulos de puros-sangues são
realmente lugares bons para se morar. Segundo a Town & Country, as
fieiras de pérolas gordas são reluzentes. Segundo a Travel & Leisure,
um iate particular ancorado no ensolarado Mediterrâneo é relaxante.
Na sala de espera da Imobiliária Helen Hoover Boyle, tudo isso é
considerado uma grande noticia. Um verdadeiro furo jornalístico.
A mesa de centro ostenta exemplares de todas essas revistas
sofisticadas. Há um sofá Chesterfield, revestido de seda com listras
cor-de-rosa. O aparador atrás do sofá tem longas pernas» com garras
de leão prendendo bolas de vidro. Eu me pergunto quantos desses
móveis chegaram aqui desprovidos de suas peças metálicas, como
puxadores de gaveta. Vieram para cá vendidos como se fossem lixo e
Helen Hoover Boyle remontou tudo.
Uma moça com metade da minha idade está sentada atrás de uma
escrivaninha Luís XIV trabalhada, olhando para um radiorrelógio à
sua frente. Sobre a escrivaninha, uma plaqueta diz Mona Sabbat. Ao
lado do radiorrelógio, há um aparelho que capta a faixa policial,
zumbindo com o barulho de estática.
No radiorrelógio, uma mulher mais velha está berrando com uma
jovem. Parece que a jovem engravidou fora do casamento, de modo
que a mais velha está chamando-a de vagabunda e piranha. Piranha
burra, diz a mulher, já que a vagabunda abriu as pernas sem sequer
ser paga para isso.
A moça da escrivaninha, a tal da Mona, desliga o aparelho que
capta a faixa policial e diz:
— Espero que você não se incomode. Adoro esse programa.
Esses midiômanos. Esses calmófobos.

No radiorrelógio, a mulher manda a vagabunda entregar o bebê


para adoção, a fim de não arruinar o futuro da criança. Manda a
vagabunda crescer, terminar a faculdade de microbiologia e depois se
casar, mas parar de fazer sexo atê então.
Mona Sabbat pega um saco de papel pardo embaixo da
escrivaninha e tira algo embrulhado em papel laminado. Abre uma
das pontas do embrulho, espalhando pelo ar um cheiro de alho e
cravos-de-defunto.
No radiorrelógio, a vagabunda grávida simplesmente chora sem
parar.
Paus e pedras quebram tudo pela frente, mas certas palavras
magoam terrivelmente.
Segundo um artigo na Town & Country, cartas pessoais lindamente
escritas em papel de luxo estão novamente no auge da moda. Num
exemplar da revista Estate, há um anúncio que diz:

Atenção frequentadores do Clube de Equitação e Polo Bridle


Mountain

“Você contraiu uma infecção de pele parasítica devido à sua montaria?”

O número telefônico é diferente dos que vi antes.


A mulher do rádio manda a vagabunda parar de chorar.
Aí está o Big Brother, cantando e dançando, alimentando-nos à
força para que nossas mentes nunca sintam fome o suficiente para
pensar.
Mona Sabbat coloca ambos os cotovelos sobre a escrivaninha e
segura seu almoço nas mãos, inclinando-se em direção ao rádio. O
telefone toca e ela atende, dizendo:
— Imobiliária Helen Boyle. Sempre o lar certo. Ah, desculpe,
Oyster. Está na hora da Dra. Sara. Vejo você no ritual.
A mulher do rádio chama a vagabunda de puta.
A capa da revista First Class diz: “Peles de Luxo, o Homicídio
Justificável."
E rápida feito um soluço, enquanto presto apenas uma vaga
atenção ao rádio, a cantiga de poda passa pela minha cabeça.
No radiorrelógio, ouve-se apenas o choro interminável da
vagabunda.
Em vez da voz da tal mulher mais velha, há silêncio. Um silêncio
doce e dourado. Perfeito demais para que alguém ainda esteja vivo.
A vagabunda respira fundo e pergunta:
— Dra. Sara? Dra. Sara, a senhora ainda está aí?
E uma voz grave se faz ouvir, dizendo que o Programa Dra. Sara
Lowenstein está passando por dificuldades técnicas temporárias. A
voz grave pede desculpas. Um instante depois, ouve-se uma música
para dançar.
A capa da revista Manor-Born diz: “Diamantes em Estilo Casual!"
Enfio o rosto nas mãos e solto um gemido.
A tal da Mona afasta o papel laminado e dá outra mordida no seu
almoço. Desliga o rádio e diz: — Chatice.
Nas costas das suas mãos há desenhos feitos com hena, em tom
ferrugem. Os desenhos vão descendo pelos dedos polegares cobertos
de anéis prateados. Várias correntes prateadas enrolam-se no seu
pescoço e desaparecem dentro do vestido alaranjado. No peito, o
tecido alaranjado do vestido está todo enrugado devido ao volume
dos pingentes que há por baixo. O cabelo de Mona é um emaranhado
de milhares de cachos e trancinhas em tom vermelho e preto, preso
sobre brincos de prata filigranada. Seus olhos parecem ser cor de
âmbar. As unhas, pretas.
Pergunto se ela trabalha ali há muito tempo.
— Você quer dizer em termos de tempo terrestre? — diz ela,
tirando um livro de bolso de uma gaveta. Depois destampa um
marcador de texto amarelo e abre o livro.
Pergunto se às vezes a senhora Boyle fala de poesia.
Mona diz: — Você quer dizer a Helen?
— É, ela às vezes recita poesia? No escritório, ela às vezes liga
para alguém e lê um poema para a pessoa?
— Não me entenda mal, mas a Helen curte demais o lance
financeiro das coisas. Entende?
Preciso começar a contar 1, contar 2...
— É assim: quando o trânsito está ruim, a Helen me obriga a ir no
carro com ela para casa. Só para poder usar a pista de transporte
solidário. E depois tenho que pegar três ônibus para chegar em casa.
Entende?
Estou contando 4, contando 5...
Ela continuava...
— Uma vez nós compartilhamos juntas o barato do poder dos
cristais. Parecia que finalmente estávamos nos conectando em algum
nível, mas depois descobrimos que estávamos falando de duas
realidades totalmente diferentes.
Eu me ponho de pé. Desdobrando um pedaço de papel tirado do
bolso traseiro, mostro a ela o poema e pergunto se aquilo lhe parece
familiar.
Realçada em amarelo no livro sobre a escrivaninha, vejo a frase: A
mágica é a sintonizarão da energia necessária para a mudança
natural.
Os olhos cor de âmbar de Mona movem-se de um lado para outro
diante do poema. Pouco acima do decote alaranjado do seu vestido,
do lado direito da clavícula, vê-se uma tatuagem com três diminutas
estrelas negras. Ela está sentada de pernas cruzadas na cadeira
giratória. Nos pês descalços e sujos há anéis prateados em torno dos
dois dedões.
— Sei o que é isso — diz ela, erguendo a mão.
Antes que seus dedos possam se fechar em torno do poema,
dobro o papel novamente e enfio-o no bolso traseiro.
Com a mão ainda no ar, ela aponta o indicador para mim.
— Já ouvi falar dessas coisas. É um feitiço de poda, não é?
Realçada em amarelo no livro sobre a escrivaninha, vejo a frase O
último produto da morte é invocar o renascimento.
A polida superfície de cerejeira da escrivaninha ostenta um
arranhão comprido e profundo.
Pergunto o que ela pode me dizer sobre os feitiços de poda.
— Toda a literatura menciona isso, mas supostamente eles se
perderam.—Ela dá de ombros. Depois estende a mão com a palma
para cima: — Deixe-me ver isso novamente.
E eu pergunto: — Como eles funcionam?
Ela abana o dedo.
E eu abano a cabeça.
— Como isso pode matar outras pessoas, mas não quem diz o
poema?
— Por que uma arma não mata a pessoa que puxa o gatilho? É o
mesmo princípio — diz Mona, inclinando um pouco a cabeça para o
lado. Depois ergue os braços acima da cabeça e se espreguiça,
torcendo as mãos em direção ao teto. — Isso não funciona feito uma
receita num livro de culinária. Você não pode dissecar a coisa num
microscópio eletrônico.
Mona está usando um vestido sem mangas, e os pelos embaixo
dos seus braços são simplesmente marrom-camundongo.
— Como isso pode funcionar com alguém que nem ouve o feitiço?
— pergunto, olhando para o rádio. — Como um feitiço pode
funcionar se você nem diz a coisa em voz alta?
Mona Sabbat suspira. Vira o livro aberto de cabeça para baixo
sobre a escrivaninha e enfia o marcador amarelo de texto atrás da
orelha. Abre uma gaveta, tirando um bloco e um lápis. Escrevendo
no bloco, diz:
— Você não faz a menor ideia, não é? Quando eu era católica, há
muitos anos, conseguia dizer uma ave-maria em sete segundos. Um
pai-nosso em nove segundos. Quem tem de fazer penitência como eu
tinha acaba ficando muito rápido. E quando você fica rápido assim,
aquelas palavras todas se misturam, mas a coisa continua sendo uma
oração. Um feitiço só faz focalizar uma intenção.
Ela diz a última frase bem devagar, palavra por palavra, e espera
um instante. Com os olhos fixos nos meus, continua:
— Se a intenção da praticante for forte o suficiente, o objeto do
feitiço adormecerá, pouco importa onde.
Quanto mais emoção a pessoa tem reprimida, diz eia, mais
poderoso o feitiço. Mona Sabbat estreita os olhos para mime
pergunta: — Quando foi a última vez que você transou?
Há quase duas décadas, mas não conto isso a ela.
— Você deve ser um barril de pólvora cheio de alguma coisa.
Fúria. Tristeza. Alguma coisa. — Ela para de escrever, e folheia o livro
cheio de trechos realçados. Detendo-se numa página, lê algo e depois
passa para outra página. -Uma pessoa bem equilibrada, uma pessoa
funcional, teria de ler a cantiga em voz alta para fazer alguém
adormecer.
Ainda lendo, ela franze a testa e continua: — Enquanto você não
enfrentar suas verdadeiras questões íntimas, jamais conseguirá se
controlar.
Pergunto se tudo aquilo está no livro.
— A maior parte é da dra. Sara — diz cia.
Digo que a cantiga de poda vai além de fazer as pessoas
adormecerem.
— O que você quer dizer com isso? — indaga ela.
Quero dizer que elas morrem. E digo: — Você tem certeza de que
nunca viu Helen Boyle com um livro chamado Poemas e rimas ao redor
do mundo?
Mona Sabbat deixa a mão aberta cair na escrivaninha e pega o
almoço embrulhado em papel laminado. Dá uma mordida, olhando
para o radiorrelógio, e pergunta:
— Ainda há pouco foi você quem fez aquilo?
Balanço a cabeça.
— Você acabou de obrigar a dra. Sara a reencarnar? — diz ela.
Pergunto se ela pode simplesmente ligar para o celular de Helen
Hoover Boyle. Talvez eu possa conversar com eia.
Meu bipe começa a tocar.
E a tal da Mona diz: — Então você está dizendo que a Helen usa
essa mesma cantiga de poda?
A mensagem no bipe me manda ligar para Nash. Diz que é
importante.
Digo que não é algo que eu possa provar, mas que a sra. Boyle
sabe como fazer isso. Preciso da ajuda dela para poder controlar a
coisa. Para que eu possa me controlar.
Mona Sabbat para de escrever no bloco e arranca fora a página.
Estende-a entre nós dois: — Se você quer mesmo aprender a
controlar esse poder, precisa comparecer a um ritual de praticantes
de bruxaria. Temos mais de mil anos de experiência somados dentro
de uma sala.
Sacode o papel para mim e depois liga o aparelho que capta a
faixa policial.
Pego o papel. É um endereço, com data e horário.
O aparelho que capta a faixa policial informa:
— Unidade Bravo-nove, por favor responda a uma chamada com
código nove-catorze nos Apartamentos Loomis Place, unidade 5D.
— A mística profundidade deste conhecimento leva uma vida
inteira para ser apreendida — diz cia, pegando o almoço e afastando
o papel laminado. — Ah, e traga seu prato quente favorito, desde que
não contenha carne.
O aparelho que capta a faixa policial diz:
— Copiado?
Capítulo 15

Helen Hoover Boyle tira o celular da bolsa verde e branca


enganchada no seu cotovelo. Depois pega um cartão comercial.
Enquanto digita o número, seu olhar oscila entre o cartão e o teclado.
Os pequenos botões verdes brilham na penumbra. O verde brilhante
contrasta com o cor-de-rosa da sua unha. O cartão comercial tem uma
borda dourada.
Helen enfia o aparelho nas profundezas de sua cabeleira rosada.
Ao telefone, diz:
— Sim, estou em algum ponto da sua loja adorável e lamento
dizer que precisarei de ajuda para encontrar a saída.
Depois se inclina para um cartão colado num guarda-roupa que
tem o dobro do seu tamanho e continua falando ao telefone
enquanto lê:
— Estou de frente para um... guarda-roupa neoclássico, com
arabescos de bronze dourado a fogo.
Olha para mim e revira os olhos. Ao telefone, diz:
— O preço i dezessete mil dólares.
'I‘ira os sapatos de salto alto verdes e fica parada descalça no piso
de concreto, apenas com meias brancas. Não é o branco que me faz
pensar em roupas íntimas. É mais o branco da pele por baixo. As
meias dão uma aparência de pé-de-pato aos dedos dela.
A saia do conjunto que ela está usando é bem justa nos quadris. É
verde, mas não verde-limão, e sim o verde de uma torta de limão.
Não é verde-abacate, e sim o verde de uma bisque de abacate
encimada por uma finíssima fatia de limão» servida gelada num
prato de sopa Sèvres amarelo.
É o verde de uma mesa de sinuca sob o amarelo da bola 1, e não
sob o vermelho da bola 3.
Pergunto a ela o que significa o código nove-catorze.
E Helen diz:
— Um cadáver.
— Foi o que pensei.
Ao telefone, ela pede instruções: — É para dobrar à esquerda ou à
direita diante desta cômoda Hepplewhite de jacarandá, trabalhada
com detalhes florais e parcialmente revestida de seda?
Ela tapa o fone com a mão e se inclina para mim:
— Você não conhece a Mona. Duvido que a tal festinha de
bruxaria dela signifique mais do que um bando de hippies dançando
nus em volta de uma pedra chata.
Assim de perto, vejo que o cabelo de Helen não tem um só tom
rosado. Cada cacho mostra um cor-de-rosa mais claro em torno da
borda externa: vejo róseo, pêssego, rosa-choque e quase vermelho à
medida que meu olhar se aprofunda.
Ao telefone, ela continua: — E se eu passar pela espreguiçadeira
de pau-cetim, em estilo Cromwell, com escudetes de marfim, é
porque fui longe demais. Entendi.
E, para mim, ela diz:
— Meu Deus, eu preferia que você não tivesse contado nada a
Mona. Ela vai contar para o namorado» e essa história nunca mais vai
acabar.
O labirinto de móveis nos oprime, cheio de tons marrons,
vermelhos e negros. Com dourados e espelhos aqui e ali.
Com uma das mãos, ela brinca com o brilhante solitário que
ostenta na outra. O diamante é volumoso e pontiagudo. Ela vira a
pedra de modo a colocá-la sobre a palma e arrasta a mão sobre a
superfície do guarda-roupa, rabiscando uma seta que aponta para a
esquerda.
Demarcando uma trilha pela história.
— Muito obrigada — diz ao telefone. Depois fecha o aparelho e
coloca-o na bolsa.
As contas ao redor do seu pescoço são feitas de pedras verdes,
alternadas com contas de ouro. Sob estas, veem-se fieiras de pérolas.
Nunca vi nenhuma dessas joias antes.
— De agora em diante, percebo que minha missão é manter você
e Mona separados — diz ela calçando novamente os sapatos. Depois
ajeita o cabelo cor-de-rosa sobre as orelhas: — Pode me seguir.
Com a palma da mão aberta, ela risca uma seta sobre a superfície
de uma mesa. O cartão diz que se trata de uma mesa de jogo
Sheraton, de carvalho filigranado com bronze.
Passou a ser um aleijão depois da passagem de Helen Hoover
Boyle.
Seguindo à minha frente, ela aconselha:
— Gostaria que você esquecesse esta história toda. Realmente não
é da sua conta.
Pois eu não passo de um repórter, é o que ela quer dizer. Sou
apenas um repórter seguindo a pista de uma história que jamais
poderá ser revelada ao mundo. No máximo, isso me torna um voyeur.
E, no mínimo, um abutre.
Ela para diante de um imenso guarda-roupa com portas
espelhadas, e consigo me ver refletido por trás do seu ombro. Abre a
bolsa e tira um pequeno tubo dourado:
— É exatamente isso que eu quero dizer.
O cartão diz que aquilo é um guarda-roupa em estilo franco-
egípcio, com painéis de papier-mâché e guarnições policromáticas.
No espelho, Helen torce o tubo dourado até revelar um batom
cor-de-rosa.
Por trás dela, pergunto:
— E se eu não for apenas o meu emprego?
Talvez eu não seja apenas um predador bidimensional tirando
proveito de uma situação interessante.
Seja qual for a razão, Nash me vem à mente, e continuo:
— Talvez eu tenha notado o livro, para começar, porque tinha um
exemplar. Talvez antigamente eu tivesse uma esposa e uma filha. E se
tivesse lido o maldito poema para elas certa noite, com a intenção de
fazer as duas adormecerem? Estou falando em termos hipotéticos, é
claro, mas e se tivesse matado as duas?
Depois pergunto se é esse o tipo de credenciais que ela está
procurando.
Helen estica os lábios para cima e para baixo, passando o batom
no batom cor-de-rosa que já está lá.
Dou um passo manco à frente, perguntando se isso me torna uma
pessoa ferida o suficiente na visão dela.
Com os ombros lançados resolutamente para trás, ela faz
beicinho com os lábios, que se separam lentamente, grudados por
um último instante.
Que Deus jamais permita que alguém sofra mais do que Helen
Hoover Boyle.
Digo que talvez tenha perdido tanto quanto ela.
Ela fecha o batom, joga-o na bolsa e vira-se para me encarar.
Parada ali, cintilante e imóvel, diz:
— Falando em termos hipotéticos?
Forço um sorriso no rosto:
— E claro.
Com a mão aberta sobre o guarda-roupa, ela risca uma seta que
aponta para a direita. Depois começa a caminhar lentamente,
arrastando a mão pela muralha de armários e cômodas, todos
encerados e polidos, arruinando tudo que toca. Seguindo à minha
frente, pergunta:
— Você já se perguntou onde aquele poema se originou?
— Na África — respondo mantendo-me bem atrás dela.
— Falo do livro de onde o poema veio — diz ela, caminhando por
fileiras de aparadores de armas, armários e poltronas. — As bruxas
chamam sua coleção de feitiços de Livro das Sombras.
Digo a ela que Poemas e rimas ao redor do mundo foi publicado
há vinte anos. Andei dando uns telefonemas. O livro teve uma
tiragem de quinhentos exemplares. A editora, KinderHaus Press, foi
à falência posteriormente. Os fotolitos e direitos de republicação
pertencem a uma pessoa que os comprou na época do inventário do
autor original, que morreu sem causa aparente há cerca de três anos.
Não sei se o livro já caiu em domínio público. Não consegui
descobrir quem detém os direitos agora.
Helen Hoover Boyle para de arrastar seu diamante pelo meio da
superfície de um largo espelho biselado, e diz:
— Eu detenho os direitos. E sei aonde você quer chegar com isso.
Comprei os direitos há três anos. Os livreiros conseguiram encontrar
cerca de trezentos dos quinhentos exemplares originais, e queimei
cada um deles.
Depois continua: — Mas não é isso que importa.
— Concordo. O que importa é encontrar os livros remanescentes
e controlar a catástrofe. Reduzir os prejuízos. O que importa é
aprender um jeito de esquecermos, nós mesmos, a cantiga. Talvez
seja isso que Mona Sabbat e seu grupo possam nos ensinar.
— Por favor! — diz Helen. — Você continua planejando ir à tal
festa de bruxaria? O que você descobriu sobre o autor original do
livro?
Ele se chamava Basil Frankie e nada tinha de original. Descobria
histórias não-republicadas, de domínio publico, e reunia várias delas
em antologias. Velhos sonetos medievais, versinhos obscenos,
cantigas de ninar. Algumas ele tirava de livros antigos que
encontrava. Outras pegava na Internet. Não era muito seletivo.
Qualquer coisa que pudesse obter de graça, jogava num livro.
— Mas e a fonte desse poema específico? — pergunta ela.
Não sei. Provavelmente foi algum livro velho, ainda empacotado
numa caixa, dentro do porão de uma casa em algum lugar.
— Não foi a casa de Basil Frankie — diz Helen Hoover Boyle. —
Comprei todo o conteúdo do inventário. O lixo da cozinha ainda
estava sob a pia, as cuecas dele ainda estavam dobradas na gaveta da
cômoda, tudo, O livro não estava lá.
Preciso perguntar se ela também matou Basil Frankie.
Ela responde: — Falando em termos hipotéticos, se eu tivesse
acabado de matar meu marido e meu filho não estaria com um pouco
de raiva por um plagiador preguiçoso, irresponsável e cheio de cobiça
ter plantado a bomba que destruíra todos que eu amava?
Tal como ela hipoteticamente matara o casal Stuart.
Helen diz:
— O importante é que o Livro das Sombras original ainda está
por aí, em algum lugar.
Concordo. Precisamos encontrar e destruir o troço.
Helen sorri seu sorriso cor-de-rosa:
— Você só pode estar brincando. Ter o poder de vida e morte já
não basta? Você deve estar se perguntando que outros poemas estão
naquele livro.
Com a rapidez de um soluço, enquanto descanso o peso do corpo
sobre o pé bom, simplesmente olhando para ela, digo que não.
— Talvez você pudesse viver para sempre.
E digo que hão.
— Talvez pudesse fazer com que qualquer pessoa se apaixonasse
por você.
Não.
— Talvez conseguisse transformar palha em ouro.
Digo que não e dou meia-volta.
— Talvez conseguisse instaurar a paz no mundo.
Digo que não, partindo por entre as muralhas de guarda-roupas e
estantes. Por entre as barricadas de escrivaninhas e cabeceiras, vou
percorrendo outra ravina de móveis.
Lá atrás, ela exclama:
— Talvez conseguisse transformar areia em pão.
Vou em frente, mancando.
E ela pergunta:
— Aonde você está indo? A saída é por aqui.
Diante de uma cristaleira de pinho irlandesa, com a frente
quebrada, viro à direita. Depois de uma cômoda Chippendale com
enfeites de laca negra, viro à esquerda.
Atrás de tudo, ela diz:
— Talvez conseguisse curar os doentes. Talvez conseguisse curar
os aleijados.
Junto a um aparador belga com uma cornija, viro à direita, e
depois à esquerda, diante de uma cristaleira eduardiana com vitral da
Boêmia.
E a voz que me persegue não para:
— Talvez conseguisse limpar o meio ambiente e transformar o
mundo num paraíso.
Uma seta riscada numa mesinha de centro aponta em
determinada direção, de modo que sigo outra.
E a voz diz:
— Talvez conseguisse gerar energia limpa ilimitada.
Talvez conseguisse viajar através do tempo para evitar tragédias.
Para aprender. Para conhecer pessoas.
Talvez conseguisse dar às pessoas vidas ricas, realizadas e felizes.
Talvez passar o resto da vida mancando num apartamento
barulhento não seja suficiente.
Num biombo todo trabalhado, uma seta aponta para um lado e
eu viro para outro.
Meu bipe toca novamente e é Nash.
A voz diz:
— Se você pode matar alguém, talvez possa trazer a pessoa de
volta.
Talvez esta seja minha segunda chance.
A voz continua:
— Talvez você não vá para o inferno pelas coisas que faz. Talvez vá
para o inferno pelas coisas que não faz. As coisas que você não
termina.
Meu bipe toca novamente, indicando que a mensagem é
importante.
E vou em frente, mancando.
Capítulo 16

Nash não está em pé junto ao balcão. Sentou-se sozinho numa


mesinha nos fundos. Está no escuro, exceto por uma pequena vela na
mesa, e eu o comprimento:
— Oi. Recebi seus dez mil recados no bipe.
Depois pergunto o que era tão importante.
Na mesa há um jornal dobrado. A manchete informa:

Sete mortos de peste misteriosa

O subtítulo diz:

Estimado editor local e líder público apontado como a primeira vítima

Preciso ler a notícia para saber de quem eles estão falando. É


Duncan, e descubro que seu primeiro nome era Leslie. Sabe-se lá de
onde eles tiraram o tal estimado. Ou o líder.
O jornalista e a notícia não eram mutuamente excludentes?
Nash bate no jornal com o dedo:
— Está vendo isso?
Digo a ele que passei a tarde toda fora da redação. Cacete! Esqueci
de enviar a próxima matéria sobre a morte no berço. Lendo a
primeira página, vejo-me citado. Duncan era mais do que simplesmente
meu editor, estou dizendo ali, mais do que simplesmente meu mentor.
Leslie Duncan era como um pai para mim. Maldito Oliphant e suas mãos
suadas!
Rápida feito um golpe de ar, enregelando-me as costas, a cantiga
de poda passa pela minha cabeça e a contagem de corpos aumenta.
Em algum lugar, Oliphant deve estar desabando no chão ou caindo
da cadeira. Meu barril de pólvora, cheio de fúria e recalques, ataca
novamente.
Quanto mais gente morre, mais as coisas permanecem as
mesmas.
Um prato de papel jaz à frente de Nash. Está vazio, com apenas
um pedaço de papel encerado e algumas manchas amarelas de salada
de batata. Nash está torcendo um guardanapo de papel entre as
mãos, transformando-o num longo cordão grosso. Olhando para mim
por cima da vela, diz:
— Apanhamos o sujeito no seu prédio hoje à tarde. Entre os gatos
do cara e as baratas, não há muito o que autopsiar.
Quanto ao sujeito que vimos cair aqui mesmo hoje de manhã, o
tal cara de costeletas e celular, Nash diz que o legista está perplexo. E
depois daquilo, mais três pessoas caíram mortas no caminho entre o
bar e o prédio do jornal.
— Ainda acharam outro dentro do prédio — continua ele. — O
sujeito morreu esperando o elevador.
O legista acha que todo esse pessoal deve ter morrido da mesma
causa.
— Estão falando que é uma peste. Mas a polícia acha que é uma
droga, na verdade — provavelmente succinilcolina, ou autoaplicada
injetada por alguém. É um agente bloqueador neuromuscular. Relaxa
tanto a pessoa que ela para de respirar e morre por falta de oxigênio.
Os detalhes sobre aquela mulher atrás da barricada no set de
filmagem, a tal que tinha um intercomunicador e apareceu correndo
com o braço estendido para me deter, são: tinha uma cabeleira preta
e uma camiseta apertada sobre os peitinhos empinados. Tinha
também um rabinho decente numa calça jeans justa. Talvez ela e
Nash tenham se desviado para namorar a caminho do hospital.
Mais uma conquista.
Seja lá o que for que Nash está ávido para me contar, não quero
saber.
— Más acho que a polícia está enganada — diz ele. Depois passa
rapidamente o guardanapo de papel enrolado pela chama da vela,
erguendo uma labareda e uma coluna de fumaça preta. A chama
volta ao normal e ele continua: — Caso você queira lidar comigo
como lidou com aquele pessoal, é bom saber que escrevi uma carta
explicando a história e deixei o envelope com um amigo, relatando
tudo o que sei a esta altura.
Sorrio e pergunto o que ele está querendo dizer. O que ele sabe?
Nash segura a ponta do papel torcido um pouco acima da chama
da vela. — Sei que você achava que seu vizinho estava morto. Sei que
vi um sujeito cair morto neste bar, depois que você olhou para ele, e
que mais quatro pessoas morreram quando você passou por elas no
caminho de volta ao trabalho.
A ponta do papel está ficando marrom e Nash diz:
— Admito que não é muito, mas é mais do que a polícia sabe
atualmente. Uma chama diminuta surge na ponta do papel e ele
acrescenta: — Talvez você possa esclarecer o resto para a polícia.
A chama está aumentando. Dentro do bar há bastante gente e a
qualquer momento alguém vai notar Nash sentado ali, provocando
um incêndio, e vai chamar a polícia.
Digo que é tudo delírio da parte dele.
A pequena tocha está aumentando.
O barman olha para nós. Vê o pequeno pavio de Nash ardendo e
ficando cada vez menor.
Nash simplesmente fica olhando a chama na sua mio aumentar
descontroladamente.
O calor do fogo arde nos meus lábios e a fumaça enche meus
olhos.
O barman berra:
— Ei! Vamos parar de sacanagem aí!
Nash aproxima o guardanapo ardente do papel encerado e do
prato de papel sobre a mesa.
E eu agarro seu pulso. O punho do uniforme está amarelado de
mostarda. Embaixo daquilo, a pele é frouxa e macia. Digo a ele:
— Tá. Pare, está bem?
Depois algo que ele precisa prometer não contar a ninguém.
E ainda com o pavio ardendo entre nós, Nash diz:
— Claro. Eu prometo.
Capítulo 17

Helen se aproxima trazendo uma taça de vinho na mão, com


apenas um resíduo vermelho no fundo. A taça está quase vazia.
Mona pergunta:
— Onde você pegou isso?
— Meu drinque? — diz Helen.
Ela está usando um grosso casaco feito de alguma pele em
diversos tons de marrom, com um toque de branco em cada ponta. O
casaco está aberto na frente, revelando um conjunto azul por baixo.
Ela beberica o resto do vinho:
— Peguei lá no bar. Ali, perto da tigela de laranjas e da
estatuazinha de bronze.
— Aquilo é o altar — explica Mona, enfiando as mãos nas
trancinhas vermelhas é pretas e apertando o topo da cabeça. Depois
aponta para a taça vazia: — Você acabou de beber meu sacrifício para
a Deusa.
Helen põe a taça vazia na mão de Mona:
— Bom, que tal você ir pegar outro sacrifício para a Deusa? Mas
desta vez traga uma dose dupla.
Estamos no apartamento de Mona, onde toda a mobília foi
empurrada para um pequeno pátio atrás de portas corrediças de
vidro e coberta com um plástico azul. Sobrou apenas a sala de estar
vazia, com uma pequena alcova lateral onde deveria ficar a mobília de
jantar. O carpete peludo é bege, tal como as paredes. A tigela de
laranjas e a estátua de bronze, que mostra alguém hindu dançando,
estão colocadas na prateleira acima da lareira, cercadas por
margaridas amarelas e cravos cor-de-rosa. Os interruptores elétricos
foram cobertos com fita adesiva para que ninguém possa usá-los. Em
vez deles, Mona tem no chão pedras chatas que sustentam velas
roxas e brancas, algumas acesas, outras apagadas. Na lareira, em vez
de fogo, ardem mais velas. Delicados fios de fumaça branca erguem-
se de pequenos cones de incenso marrom colocados sobre as pedras
chatas junto com as velas.
Só temos luz de verdade quando Mona abre a geladeira ou o forno
de micro-ondas.
Pelas paredes vem o barulho de cavalos relinchando e canhões
atirando. Ou uma beldade sulista, audaz e obstinada, está tentando
impedir que o exército nortista queime o apartamento vizinho ou a
televisão de alguém está alta demais.
Pelo teto vem o barulho de uma sirene de incêndio e gritos de
pessoas que devemos ignorar. Depois armas atirando e pneus
derrapando, sons que devemos fingir que são normais. Não
significam nada. É só uma televisão. O choque de uma explosão vibra
lá em cima. Uma mulher implora que não a estuprem. Nada disso é
real. É só um filme. Somos a cultura do alarme falso.
Esses dramanômanos. Esses pacifóbicos.

Com suas unhas negras, Mona pega a taça de vinho, que tem a
borda manchada pelo batom cor-de-rosa de Helen. Descalça, usando
um roupão de banho branco e felpudo, ela vai até a cozinha.
A campainha toca.
Mona cruza novamente a sala de estar. Coloca outra taça de vinho
na prateleira acima da lareira e diz antes de abrir a porta:
— Não me envergonhem na frente do meu conclave.
Na soleira, vê-se uma mulher baixa de óculos grossos com aros de
plástico preto. A mulher está usando luvas de forno e segura uma
caçarola tampada.
Eu trouxe um prato de salada com feijões de três tipos que
comprei numa delicatessen. Helen trouxe uma massa do Chez Chef.
A mulher dos óculos raspa os tamancos no capacho. Olha para
mim e para Helen e diz:
— Amora, você tem visitas.
Mona dá um tapinha na testa:
— Ela está falando de mim. Quer dizer, Amora é meu nome na
bruxaria. Andorinha, este aqui é Carl Streator.
Andorinha balança a cabeça.
Mona apresenta:
— E esta é minha chefe...
— A Chinchila — diz Helen.
O forno de micro-ondas começa a dar sinal e Mona leva
Andorinha até a cozinha. Helen vai até a prateleira da lareira e bebe
um gole da taça de vinho.
A campainha toca. Da cozinha, Mona nos pede para atender.
Desta vez é um rapaz de cabeleira loura e cavanhaque ruivo que
usa um conjunto de moletom cinzento. Está carregando um pote com
tampa de vidro marrom. Algo grudento e marrom ferveu em torno
da borda e o lado inferior da tampa está enevoado pela condensação.
Ele entra e me entrega o pote. Descalça os tênis e puxa a blusa de
moletom por cima da cabeça, espalhando cabelo por toda parte.
Coloca a blusa sobre o pote nas minhas mãos e ergue uma perna,
depois outra, tirando-as das calças. Coloca as calças nos meus braços
e fica ali parado, com as mãos nos quadris, com o pinto e as bolas
para fora.
Helen fecha a frente do casaco e engole o resto do vinho.
O pote é pesado e está quente. Tem cheiro de açúcar mascavo
misturado com alguma outra coisa. Ou tofu, ou as calças cinzentas
sujas.
— Oyster! — exclama Mona, surgindo ao nosso lado. Tomando as
roupas e o pote das minhas mãos, acrescenta: — Oyster, esse é Carl
Streator. Pessoal, esse é o Oyster, meu namorado.
— Amora acha que você tem um poema de poda — diz o rapaz,
afastando o cabelo dos olhos e olhando para mim. Seu peru vai
afinando até formar uma estalactite rosada de pele enrugada. Um
anel prateado perfura a ponta da coisa.
Helen me lança um olhar, sorrindo com os dentes cerrados.
— Cacete, você está com roupas demais! — diz o tal rapaz,
agarrando as lapelas do roupão felpudo de Mona, inclinando-se à
frente e beijando-a por cima do pote.
— A gente transa nudez ritual — diz Mona, corando e olhando
para o chão. Depois acena com o pote e acrescenta: — Oyster, essa é
Helen Hoover Boyle, para quem eu trabalho.
Os detalhes sobre Oyster são: seu cabelo é louro e aponta para
todos os lados, parecendo estilhaçado como um pinheiro ao ser
atingido por um raio. Ele tem um desses corpos jovens típicos de
hoje. Seus braços e pernas parecem segmentados: inchados de
músculos, mas estreitos nas juntas, como os joelhos, os cotovelos e a
cintura.
Helen estende a mão e Oyster a cumprimenta, dizendo:
— Um anel de olivina...
Parado ali, nu e jovem, ele leva a mão de Helen até o próprio
rosto. Parado ali, bronzeado e musculoso, ele percorre com o olhar
todo o braço dela, do anel até os olhos, e completa, beijando-lhe a
mão. — Uma pedra tão passional dominaria a maioria das pessoas.
— Nós transamos nudez ritual, mas vocês não precisam fazer
isso. Quer dizer, realmente não precisam — diz Mona. Depois
meneia a cabeça em direção à cozinha e acrescenta: — Oyster, venha
me ajudar um pouco.
— A roupa é a desonestidade em sua forma mais pura — explica
Oyster, seguindo-a e olhando para mim. Depois sorri com apenas
metade da boca e pisca: — Bela gravata, papai.
Estou contando 1, contando 2, contando 3...
Depois que Mona entra na cozinha, Helen vira para mim e diz:
— Não acredito que você contou aquilo para alguém.
Ela está falando de Nash.
Só que eu não tinha escolha. Além disso, não há exemplares do
poema disponíveis, Eu disse a ele que queimara o meu, e que queimo
todos os que encontro impressos. Ele não sabe de Helen Hoover
Boyle, nem de Mona Sabbat. Não tem como utilizar a informação.
Está bem, ainda existem algumas dúzias de exemplares em
bibliotecas públicas. Talvez nós consigamos rastreá-los e eliminar a
página 27 de todos eles enquanto procuramos o material original.
— O Livro das Sombras — diz Helen.
O grimoire, como dizem as bruxas. O livro de feitiços. Todo o
poder do mundo.
A campainha toca. O sujeito que entra tira a bermuda folgada,
arranca a camiseta e diz que seu nome é Porco do Mato. Os detalhes
sobre Porco do Mato são: ele tem pele frouxa e trêmula nos braços,
no peito e na bunda. Seus crespos pelos pubianos parecem idênticos
aos dois pelos que ficam grudados na palma da minha mão depois
que nos cumprimentamos.
Helen esconde as mãos nas mangas do casaco, vai até a lareira,
pega uma laranja no altar e começa a descascá-la.
Chega um sujeito chamado Texugo, com um papagaio de verdade
no ombro. Uma mulher chamada Clematite aparece depois. Uma
Lobélia também chega. Um tal de Azulão toca a campainha, seguido
por Gambá. E depois alguém chamado Lentilhas aparece. Ou então
alguém traz lentilhas, não fica claro. Helen bebe outro sacrifício.
Mona sai da cozinha com Oyster, mas sem o roupão de banho.
Uma pilha de roupas sujas se acumula perto da porta. Helen e eu
somos os únicos que ainda estão vestidos. No meio da pilha, um
telefone toca e Andorinha cava ali até encontrá-lo. Trajando apenas
óculos de aro preto, com os seios caídos ao debruçar-se sobre a pilha,
ela atende o telefone, dizendo:
— Dormer, Dingus e Diggs, Advogados... Descreva a inflamação,
por favor.
Levo um minuto para reconhecer Mona, baseando-me apenas na
sua cabeça e no monte de correntes em torno do seu pescoço. Não é
que eu queira ser pego olhando para outro lugar, mas seus pelos
pubianos são raspados. Daí em diante, suas coxas formam dois
parênteses perfeitos cercando um V raspado. Vistos de lado, os seios
parecem se estender, tentando tocar as pessoas com os mamilos. Por
trás, a base das costas se divide em duas nádegas rijas, e eu estou
contando 4, contando 5, contando 6...
Oyster está carregando uma caixa branca que veio de uma
delicatessen.
Uma mulher chamada Madressilva, trajando apenas um turbante
de chita, fala de suas vidas passadas.
E Helen indaga:
— A reencarnação não lhe parece apenas mais uma forma de
procrastinação?
Pergunto quando vamos comer.
E Mona reclama: ^ Cacete, você parece meu pai!
Pergunto a Helen como ela consegue não matar todo mundo aqui.
— Matar qualquer pessoa nesta sala seria um ato de piedade —
explica ela, pegando outra taça na prateleira acima da lareira. Bebe
metade e dá o resto para mim.
O incenso tem cheiro de jasmim e tudo na sala está com o cheiro
do incenso.
Oyster vai até o centro da sala, ergue a caixa da delicatessen acima
da cabeça e diz: — Tá legal, quem trouxe este aborto?
É minha salada com três tipos de feijão.
E Mona pede: — Por favor, Oyster, não faça isso!
— “Sem carne” quer dizer sem carne. Confessem. Quem trouxe
isto? — pergunta Oyster, segurando a caixa pela alça de arame com
apenas dois dedos. Os pelos sob seu braço erguido são vividamente
alaranjados, tal como seus outros pelos, lá embaixo.
Digo que aquilo é apenas salada de feijão.
— Com? — Oyster começa a sacudir a caixa.
Com nada.
A sala está tão silenciosa que dá para ouvir a Batalha de
Gettysburg no vizinho do lado. Dá para ouvir a cantiga folclórica na
guitarra de algum deprimido no apartamento de cima. Um ator urra,
um leão ruge e bombas caem assobiando do céu.
— Com molho inglês no acompanhamento. Isso significa
anchovas. E isso significa carne. Significa crueldade e morte — diz
Oyster, segurando a caixa com uma das mãos e apontando para ela
com outra. — Isto vai descer privada abaixo, onde já deveria estar.
E estou contando 7, contando 8...
Andorinha está dando a todos pequenas pedras redondas, tiradas
de uma cesta que ela carrega na mão. Dá uma delas a mim também.
A pedra é cinzenta e fria, e ela diz:
— Segurem a pedra e sintonizem a vibração da sua energia. Isso
colocará todos nós na mesma vibração pata o ritual.
Dá para ouvir a descarga da privada sendo dada.
O papagaio no ombro de Texugo fica virando a cabeça e
arrancando penas verdes com o bico. Depois inclina a cabeça,
engolindo as penas com mordidas rápidas e violentas. No lugar das
penas arrancadas, a pele parece estar arrepiada, quase em carne viva.
Texugo traz uma toalha dobrada sobre o ombro para o papagaio se
apoiar, e o pano está todo manchado de titica amarela. A ave arranca
e come mais uma pena.
Andorinha dá uma pedra a Helen, que a enfia na bolsa azul.
Pego a taça de vinho da mão dela e bebo um gole. O jornal de hoje
dizia que o sujeito do elevador, o homem que desejei que morresse,
tinha três filhos, todos com menos de seis anos. O policial que matei
sustentava os pais idosos, a fim de que eles não fossem mandados
para um asilo. Ele e a esposa eram pais adotivos. Ele treinava times
esportivos infantis. A mulher do intercomunicador estava com duas
semanas de gravidez.
Bebo mais um pouco de vinho. Tem gosto de batom cor de rosa.
No jornal de hoje há um anúncio que diz:

Atenção proprietários de louças de luxo Dorsett

“Se você se sente enjoado ou perde o controle do intestino depois de


comer,
por favor ligue para o número abaixo.”

Oyster me diz:
— Amora acha que você matou a doutora Sara, mas acho que você
não sabe de porra nenhuma.
Mona estende o braço para colocar outro sacrifício no altar e
Helen tira-lhe a taça das mãos.
— O único poder de vida e morte que você tem é quando pede um
hambúrguer no McDonald’s — continua Oyster, aproximando o rosto
do meu. — Você simplesmente paga com seu dinheiro imundo, e em
algum lugar o machado cai.
Estou contando 9, contando 10...
Andorinha me mostra um manual grosso, aberto em suas mãos.
Lá dentro há figuras com varinhas de condão e caldeirões de ferro.
Há imagens de sinos e cristais de quartzo, de cores e tamanhos
diversos. Há facas com cabos pretos, chamadas athame. Andorinha
diz que isso é para rimar com “bam”. Ela me mostra fotos de
amarrados de ervas usados para borrifar a água da purificação.
Mostra amuletos polidos, usados para desviar as energias negativas.
Uma faca ritualística de cabo branco é chamada de bolline.
Seus seios se apoiam no catálogo aberto, cobrindo metade de
cada página.
De pé ao meu lado, com os músculos do pescoço inchados e os
punhos cerrados, Oyster diz:
— Sabe por que a maioria dos sobreviventes do Holocausto é
formada por vegetarianos? Porque eles sabem o que é ser tratado
como um animal.
Com o corpo irradiando calor, ele continua:
— Sabia que na produção de ovos todos os pintos machos são
moídos vivos e espalhados como fertilizante?
Andorinha folheia o catálogo e aponta para algo.
— Se você perguntar por aí, vai descobrir que nós temos os
melhores preços médios em termos de instrumentos ritualísticos.
No próximo sacrifício à Deusa sou eu que bebo.
O seguinte é Helen.
Oyster circula pela sala. Depois volta e diz:
— Sabia que a maioria dos porcos não sangra até morrer nos
poucos segundos antes de serem afogados em água escaldante a
mais de cem graus?
O próximo sacrifício depois disso é o meu. O vinho tem gosto de
incenso de jasmim. E gosto de sangue animal.
Helen leva a taça vazia até a cozinha e vê-se um clarão de luz
verdadeira quando ela abre a geladeira e tira um garrafão de vinho
tinto.
Por trás, Oyster enfia o queixo sobre o meu ombro:
— A maioria das vacas não morre imediatamente. Eles passam
um laço em torno do pescoço do bicho e arrastam, aos urros, pelo
abatedouro, cortando as pernas dianteiras e traseiras enquanto a vaca
ainda está viva.
Atrás dele, uma garota nua chamada Estrela do Mar abre um
celular e diz:
— Dooley, Donner e Dunne, Advogados. Diga qual é a cor do seu
fungo.
Texugo sai do banheiro, contorcendo-se para que o papagaio
passe pelo umbral da porta. Há um fiapo de papel higiênico colado
no rego da sua bunda. Desnuda, sua pele parece arrepiada, quase em
carne viva. Depenada. Se a ave também fica sentada no ombro de
Texugo enquanto ele está sentado na privada, prefiro não saber.
E do outro lado da sala está Mona.
Amora.
Ela está rindo com Madressilva. Prendeu as trancinhas vermelhas
e pretas num coque, com o rosto miúdo projetando-se por baixo. Nos
dedos, tem anéis com pesadas gemas vermelhas de vidro. Em torno
do pescoço, o tapete de correntes prateadas termina numa pilha de
amuletos, pingentes e talismãs entre seus seios. Joias de fantasia.
Uma menininha brincando de se fantasiar. Descalça.
Ela tem a idade que minha filha teria se eu ainda tivesse uma
filha.
Helen volta cambaleando para a sala. Aperta a língua entre os
dedos e depois dá uma volta pela sala, usando os dois dedos
molhados para apertar e apagar os cones de incenso. Encosta-se na
prateleira acima da lareira e ergue a taça de vinho aos lábios cor-de-
rosa. Por cima da taça, vigia a sala. Vigia também Oyster, que está
dando voltas em torno de mim.
Ele tem a idade que Patrick, seu filho, teria.
Helen tem a idade que minha mulher teria se eu tivesse uma
mulher.
Oyster é o filho que ela teria se tivesse um filho.
Falando em termos hipotéticos, é claro.
Esta talvez fosse a vida que eu teria se tivesse uma vida. Uma
mulher distante e bêbada. Uma filha pertencente a uma seita maluca.
Envergonhada de nós, seus pais. Seu namorado seria este babaca
hippie, tentando arrumar briga comigo, pai dela.
E talvez você possa recuar no tempo.
Talvez possa reviver os mortos. Todos os mortos, passados e
presentes.
Talvez esta seja minha segunda chance. É exatamente por este
caminho que minha vida poderia ter enveredado.
Com seu casaco de chinchila, Helen está observando o papagaio
se devorar. E está observando Oyster.
Mona grita:
— Pessoal! Pessoal! Está na hora de começar a Invocação. Vamos
criar o espaço sagrado, para poder começar.
No apartamento vizinho, os veteranos da Guerra Civil estão
mancando de volta para casa ao som de uma música triste.
Oyster continua a dar voltas em torno de mim, e sinto que a pedra
na minha mão já ficou quente. Estou contando 11, contando 12...
Mona Sabbat precisa vir conosco. Precisamos de alguém sem
sangue nas mãos. Mona, Helen, eu e Oyster. Nós quatro botaremos o
pé na estrada. Simplesmente mais uma família amalucada. Férias em
família. A busca por um Graal sem nada de santo.
Com cem tigres de papel a serem mortos pelo caminho. Cem
bibliotecas a serem saqueadas. Livros a serem desarmados. O mundo
inteiro a ser salvo da cantiga de poda.
Lobélia diz a Granadina:
— Você leu a reportagem sobre aquelas pessoas que morreram?
Disseram que é como a Doença dos Legionários, mas na minha
opinião parece magia negra.
* De braços abertos, mostrando os pelos castanhos e simples dos
sovacos, Mona está reunindo as pessoas no centro da sala.
Andorinha aponta para algo no catálogo:
— Isso é o mínimo necessário para você começar.
Oyster afasta o cabelo dos olhos e estende o queixo para mim.
Depois aproxima-se, enfia o dedo indicador no meu peito, cutucando
com força o meio da minha gravata: — Escute aqui, papai. A única
cantiga de poda que você conhece é “Quero o meu bem-passado”.
E paro de contar.
Com a rapidez de um espasmo muscular, dou um empurrão com
toda força em Oyster. Minhas mãos chocam-se contra a pele desnuda
do rapaz, forçando-o para trás. Todos ficam silenciosos, observando,
enquanto a cantiga de poda ecoa na minha cabeça.
Acabo de matar novamente. O namorado de Mona. O filho de
Helen. Oyster fica parado ali um instante, olhando para mim, com o
cabelo caído nos olhos.
E o papagaio tomba do ombro de Texugo.
Oyster ergue as mãos, com os dedos estendidos, e diz:
— Esfrie a cabeça, papai.
Depois vai, com Andorinha e todos os demais, examinar o
papagaio morto aos pés de Texugo. Morto, depenado e seminu.
Texugo cutuca a ave com a sandália e chama:
— Peninha?
Olho para Helen.
Minha mulher. Mulher deste novo jeito sinistro. Até que a morte
nos separe.
E já que você pode matar alguém, talvez possa também trazer a
pessoa de volta.
Helen já está olhando para mim, com a taça manchada de cor-de-
rosa na mão. Abana a cabeça para mim e diz:
— Não fui eu.
Depois ergue três dedos, com o mindinho e o polegar se tocando
na frente: — Palavra de bruxa. Juro.
Capítulo 18

Estou escrevendo isto perto do trevo Biggs, no Oregon, estacionado na


rodovia Interestadual 84. O Sarja e eu temos um velho casaco de pele
jogado no acostamento da estrada, ao lado do carro. O casaco de pele,
manchado de molho de tomate e rodeado por moscas, é nossa isca.
Nesta semana, saiu um novo milagre nos tabloides.
É algo que o povo chama de Jesus Cristo dos Bichos Atropelados. Os
tabloides chamam o sujeito de “Messias da 1-84" Um cara que para ao
longo da rodovia, onde quer que haja um animal morto, coloca as mãos
sobre o bicho, e Amém. Seja gato estraçalhado, cachorro esmagado ou até
veado partido ao meio por um trator-trailer, o bicho arqueja e fareja o ar.
Depois se ergue sobre as pernas quebradas e pisca com os olhos bicados por
pássaros.
Muita gente já viu isso em vídeo. Há fotografias da coisa postadas na
Internet.
Seja gato, porco-espinho ou coiote, o bicho fica ali mais um minuto, com
a cabeça nos braços do Jesus Cristo dos Bichos Atropelados, que sussurra
algo para ele.
Antes o veado, cachorro ou guaxinim era um monte estraçalhado de pele
e osso, uma refeição para corvos e urubus. Dois minutos depois, o bicho sai
correndo inteiro, restaurado, perfeito.
A certa distância do ponto onde o Sarja e eu estamos, um velho para
uma picape no acostamento da estrada. Salta e tira um cobertor xadrezado
da caçamba da picape. Agacha-se para colocar o cobertor sobre o
acostamento, enquanto o trânsito passa zunindo no quente ar matinal.
O velho puxa a borda do cobertor xadrez, revelando um cachorro morto.
Um monte enrugado de pele marrom, não muito diferente do monte
formado pelo meu casaco de pele.
O Sarja tira o pente da pistola, vê que está cheio de balas, e recoloca-o
no lugar.
O velho inclina-se com ambas as mãos no asfalto quente para descobrir
um cachorro morto. Enquanto os carros e ônibus passam zunindo em ambas
as direções, ele esfrega a bochecha no monte de pele marrom.
Depois se levanta, olhando para os dois lados da estrada. Volta à
picape, senta-se e acende um cigarro. Fica esperando.
O Sarja e eu também ficamos esperando.
Aqui estamos nós, uma semana atrasados. Sempre um passo atrás.
Depois do fato consumado.
A primeira aparição do Cristo dos Bichos Atropelados foi diante de uma
turma de operários estaduais que estavam recolhendo um cachorro morto a
alguns quilômetros daqui. Antes que pudessem colocar o bicho num saco,
um carro alugado parou no acostamento, atrás deles. Era um casal\ com o
homem dirigindo. A mulher permaneceu no carro, mas o homem saltou e
correu na direção dos operários, gritando para que eles esperassem e que
podia ajudar.
O cachorro já não passava de um monte de vermes e ossos dentro de um
fiapo de pele.
O sujeito era jovem, com uma cabeleira loura balançando ao vento
provocado pelos carros que passavam por eles. Tinha um cavanhaque ruivo
e cicatrizes horizontais nas duas bochechas, bem sob os olhos. As cicatrizes
eram vermelho-escuro. O rapaz enfiou a mão no saco de lixo com o cachorro
morto e disse ã turma... que o bicho não estava morto.
Os operários riram e jogaram a pá dentro do caminhão.
E algo dentro do saco de lixo soltou um gemido.
Latiu.
Enquanto escrevo isto, enquanto o velho espera ali perto fumando, o
trânsito passa zunindo por nós. Do outro lado da rodovia Interestadual 84,
uma família numa caminhonete abre um edredão sobre o cascalho do
acostamento e lá dentro há um gato alaranjado morto. Perto deles, uma
mulher e uma criança sentam em cadeiras dobráveis ao lado de um hamster
numa toalha de papel.
Adiante um casal mais velho está de pé, com um guarda-chuva fazendo
sombra sobre uma moça de corpo ossudo e retorcido numa cadeira de rodas.
O velho, a mãe e a criança, a família, e o casal mais velho
esquadrinham com os olhos cada carro que passa.
O Cristo dos Bichos Atropelados aparece cada vez num veículo
diferente: um carro de duas portas, outro de quatro portas ou uma picape.
Às vezes até de motocicleta, Uma vez, veio num motor home.
Nas fotos ou nos vídeos que as pessoas fazem, veem-se sempre a
esvoaçante cabeleira loura, o cavanhaque ruivo e as cicatrizes. É sempre o
mesmo homem. A silhueta de uma mulher espera a distância no carro,
caminhão, o que for.
Enquanto estou escrevendo isto, o Sarja mira o cano da pistola em
direção ao nosso casaco de pele amontoado. O molho de tomate e as moscas.
Nossa isca. E como todos os demais aqui, estamos esperando um milagre.
Um messias.
Capítulo 19

Fora do carro, tudo era amarelo. Amarelo até o horizonte. Não


amarelo-limão, e sim amarelo-bola-de-tênis. Era o amarelo de uma
bola numa quadra verde vivo. O mundo nos dois lados da rodovia
tinha essa única cor.
Amarela.
Grandes ondas trêmulas de amarelo se movem nas lufadas
quentes dos carros que passam por nós, indo do acostamento de
cascalho até as colinas amarelas e lançando uma luz amarela sobre
nosso carro. Sobre mim, Helen, Mona e Oyster. Sobre todos nós.
Nossa pele e nossos olhos. Os detalhes do mundo todo. Amarelos.
— Brassica tournefortii — diz Oyster. — Mostarda marroquina em
plena flor.
Estamos cercados pelo cheiro de couro do enorme carro de Helen,
que segue ao volante. Estou no banco do carona. Oyster e Mona vão
sentados atrás. Sobre o banco entre Helen e mim está a agenda dela,
com a encadernação vermelha grudada ao couro marrom do assento.
Temos um atlas dos Estados Unidos. Temos uma lista
computadorizada das cidades com bibliotecas que têm o livro de
poemas. E temos também a bolsinha azul de Helen, parecendo verde
na luz amarela.
— O que eu não daria para ser uma índia americana — comenta
Mona, encostando a testa na janela. — Só para ser uma blackfoot ou
sioux livre, há duzentos anos, entendem, e viver em harmonia com
toda essa beleza natural.
Para ver o que Mona está vendo, encosto a testa na janela. Apesar
do ar-condicionado, o vidro está fervendo.
É uma coincidência sinistra, mas o atlas mostra todo o estado da
Califórnia com esse mesmo amarelo vivo.
E Oyster assoa o nariz: uma assoada rápida que lança sua cabeça
para trás. Depois abana o rosto para Mona e diz:
— Os índios não viviam com isso.
Os caubóis não tinham amarilhos, diz ele. Só no final do século
XIX é que as sementes de amarilho, cardos russos, chegaram da
Eurásia na lã dos carneiros. A mostarda marroquina chegou no meio
da terra que os navios usavam como lastro. Aquelas árvores
prateadas ali são oliveiras russas, Elaeagnus augustifolia. As centenas
de orelhas-de-coelho, brancas e peludas, que brotam ao longo do
acostamento são Verbascum thapsus, verbascos lanudos. As árvores
escuras e retorcidas que acabaram de passar, Robinia pseudoacacia,
alfarrobeiras-pretas. As moitas verde-escuras com flores amarelas
vivas são giestas escocesas, Cytisus scoparius.
— Todas fazem parte de uma pandemia biológica. Aqueles velhos
westerns de Hollywood, cheios de amarilho, capim-cevadinha e
outras merdas? — explica ele abanando a cabeça e lançando o olhar
para o estado de Nevada ao lado da rodovia. — Nada disso é nativo
daqui, mas é só o que sobrou. Quase nada na natureza ainda é
natural.
Depois chuta o encosto do banco dianteiro e pergunta:
— Ei, papai. Qual é o maior jornal diário de Nevada?
— Em Reno ou em Las Vegas?
Olhando pela janela, onde a luz refletida deixa seus olhos
amarelados, Oyster diz:
— Nas duas. E em Carson City também. Todas elas.
E eu respondo a ele.
As florestas ao longo da Costa Oeste estão cheias de giesta
escocesa, giesta francesa, hera inglesa e amoras-pretas do Himalaia,
diz ele. As árvores nativas estão morrendo devido às mariposas-
ciganas importadas em 1860 por Leopold Trouvelot, que queria criá-
las para fazer seda. Os desertos e pradarias estão cobertos de
mostarda, capim-cevadinha e grama de praia europeia.
Oyster abre os botões da camisa, e lá dentro, sobre a pele do
peito, há algo feito de contas. É do tamanho de uma carteira e está
pendurado num colar de contas no pescoço dele.
— Saco de feitiços dos índios hopi — diz ele. — Bem espiritual,
não?
Helen olha para ele pelo retrovisor, com as mãos no volante
cobertas por luvas de pele de bezerro bem justas:
— Belo abdome.
Oyster tira a camisa e o saco de contas fica pendurado entre seus
mamilos, com os músculos peitorais projetando-se dos dois lados.
Sua pele é bronzeada, e sem pelo algum até o umbigo. O saco de
feitiços é todo coberto por contas azuis, exceto por uma cruz de
contas vermelhas no centro. O bronzeado de Oyster parece
alaranjado na luz amarela. Seu cabelo louro parece estar em chamas.
— Fui eu que fiz isso — diz Mona. — Levei desde fevereiro até
agora.
Mona, com suas trancinhas e colares de cristais. Eu pergunto se
ela é uma índia hopi.
Com os dedos, Oyster remexe dentro do saco.
E Helen diz: — Mona, você não é índia coisa alguma. Seu
sobrenome verdadeiro é Steinner.
— Não é preciso ser uma hopi para fazer um saco desses —
explicá Mona. — Fiz a partir de um molde num livro.
— Então isso não é um saco hopi autêntico — diz Helen.
E Mona rebate:
— É sim. É igualzinho ao do livro. Vou mostrar a vocês.
Do tal saco de contas, Oyster tira um telefone celular.
— O mais divertido do artesanato primitivo é que é fácil de fazer
enquanto a gente vê televisão — diz Mona. — E ainda nos põe em
contato com todos os tipos de energias antigas, coisas assim.
Oyster abre o telefone, puxa a antena e digita um número.
Embaixo da sua unha há uma curva de sujeira.
Helen fica olhando pelo espelho retrovisor.
Mona se inclina à frente e apanha uma mochila de lona no
assoalho do banco traseiro. Pega lá dentro um emaranhado de
cordões e penas. As penas parecem ser de galinha, tingidas de azul e
cor-de-rosa em tons vivos, típicos da Páscoa. Moedas de bronze e
contas de vidro preto pendem dos cordões.
— Isto que estou fazendo é um apanhador de sonhos navajo —
diz ela, sacudindo o troço. Alguns dos cordões se desemaranham e
ficam pendurados. Algumas contas caem na mochila no colo dela.
Penas cor-de-rosa flutuam no ar. — Pensei em tornar a coisa mais
poderosa usando moedas do I Ching, para dar uma superenergizada.
Sob a mochila no colo de Mona, as contas de vidro rolam até o V
rapado entre as coxas dela.
— É, preciso do número do departamento de anúncios a varejo do
Carson City Telegraph-Star — diz Oyster ao telefone. Uma pena cor de
rosa flutua perto do seu rosto e ele a sopra para longe.
Com as unhas pintadas de preto, Mona mexe em alguns dos nós:
— É mais difícil do que o livro mostra.
Com uma das mãos, Oyster segura o telefone junto ao ouvido.
Com outra, esfregão saco de contas sobre o peito.
Mona tira um livro da mochila de lona e passa-o para mim no
banco dianteiro.
Oyster vê Helen, que continua a observá-lo pelo espelho
retrovisor. Pisca para ela e belisca o próprio mamilo.
Seja qual for a razão, Édipo Rei me vem à mente.
Em algum lugar sob o cinto dele, está a estalactite pontuda e
rosada do seu prepúcio, furada pelo pequeno anel de aço. Como
Helen poderia querer aquilo?
— Os antigos rancheiros plantavam capim-cevadinha porque ele
verdejava rapidamente na primavera, fornecendo logo pastagem para
o gado — diz Oyster, meneando a cabeça para o mundo lá fora.
O primeiro trecho plantado de capim-cevadinha foi no sul da
Colúmbia Britânica, no Canadá, em 1889. Mas o fogo espalha a
planta. Todo ano ela seca feito pólvora, e atualmente terras que só
costumavam arder a cada dez anos ardem todo ano. E o capim-
cevadinha se recupera depressa. O capim-cevadinha adora fogo. Mas
as plantas nativas, artemísia e flox do deserto, não. Após cada
queimada anual, há mais capim-cevadinha e menos todo o resto. E os
veados e antílopes que dependiam das outras plantas já
desapareceram. Tal como os coelhos. Tal como os falcões e corujas
que comiam os coelhos. Os camundongos morrem de fome, de modo
que as cobras que comiam os camundongos também morrem de
fome.
Hoje em dia, o capim-cevadinha domina os desertos interiores do
Canadá a Nevada, cobrindo uma área mais de duas vezes maior do
que o estado de Nebraska, e que abrange mais milhares de hectares a
cada ano.
A grande ironia, explica Oyster, é que até o gado odeia o capim-
cevadinha. Portanto, as vacas comem o capim nativo, mais raro. O
pouco que ainda resta.
O livro de Mona se chama Artesanato e passatempos tribais
tradicionais. Quando abro o volume, mais penas cor-de-rosa e azuis
saem flutuando.
— Hoje o novo sonho da minha vida é encontrar uma árvore
realmente reta — comenta Mona, com uma pena cor-de-rosa presa
nas trancinhas. — Para fazer um totem, algo assim.
— Do ponto de vista de uma planta nativa, Johnny Appleseed era
a porra de um terrorista biológico — continua Oyster. E acrescenta
que Johnny Appleseed bem poderia estar espalhando varíola.
Depois começa a digitar outro número no telefone. Dá um chute
no banco dianteiro e pergunta:
— Papai? Mamãe? Me diga o nome de um restaurante bem
luxuoso em Reno, Nevada.
Helen dá de ombros e olha para mim, dizendo:
— O Desert Sky, em Tahoe, é muito bom.
Ao telefone, olhando pela janela, Oyster diz: — Quero colocar um
anúncio de três colunas por quinze centímetros. A linha de cima tem
de dizer “Atenção frequentadores do Restaurante Desert Sky”. A segunda
linha deve trazer “Você sofreu recentemente um caso quase fatal de
envenenamento alimentar por bactérias? Em caso afirmativo, por favor
entre em contato com o número abaixo, a fim de participar de uma ação
indenizatória coletiva.”
Depois ele dá um número telefônico. Tirando um cartão de
crédito dó saco de feitiços, lê ao telefone o número e a data de
expiração do cartão. Pede que o atendente ligue para ele depois que o
anúncio estiver pronto e leia o texto final pelo telefone. Manda
publicar o anúncio diariamente na semana seguinte, na seção de
restaurantes. Desliga e recolhe a antena novamente.
— Assim como a febre amarela e a varíola mataram os índios
americanos, nós trouxemos a doença holandesa dos olmos para cá
em 1930, numa carga de troncos para construir um moinho, e
trouxemos’ a praga das castanheiras em 1904. — Um outro fungo
patogênico está matando as faias do Leste. A previsão é de que o
besouro de chifres longos asiático, introduzido em Nova York em
1996, elimine os bordos norte-americanos.
Para controlar a população de marmotas, diz Oyster, os rancheiros
introduziram a peste bubônica nas colônias dos bichos, e 98% das
marmotas já haviam morrido por volta de 1930. Mas a peste se
espalhou, matando outras trinta e quatro espécies de roedores
nativos e um punhado de pessoas azaradas a cada ano.
Seja por que razão, a cantiga de poda me vem à mente.
— Gosto das tradições antigas — diz Mona quando lhe passo o
livro. — Minha esperança é que esta viagem se torne minha busca de
visão pessoal. Que eu descubra um nome indígena e seja
transformada.
Do saco hopi, Oyster tira um cigarro:
— Vocês se incomodam?
Eu digo que sim.
— Nem um pouco — diz Helen.
O carro é dela.
E estou contando 1, contando 2, contando 3...
Aquilo que consideramos a natureza, continua Oyster, não passa
de atos nossos matando o mundo. Cada dente de leão é uma bomba
atômica fazendo tique-taque. Poluição biológica. Devastação amarela
bonita.
Esse negócio de você poder ir a Paris ou Pequim e encontrar um
hambúrguer do McDonald’s em toda parte é o equivalente ecológico
de franquias de formas de vida. Todos os lugares ficam iguais. Cheios
de trepadeiras kudzu. De mexilhões-zebra. De jacintos aquáticos. De
estorninhos. E de Burger Kings.
As formas nativas do local são eliminadas.
— A única biodiversidade que vai sobrar é a da Coca contra a
Pepsi — diz ele. — Estamos ajardinando o mundo todo com um erro
boçal atrás do outro.
Olhando pela janela, ele tira um isqueiro de plástico do saco de
feitiços. Sacode o isqueiro, batendo-o contra a palma da mão.
Eu cheiro uma das penas do livro e imagino que o cabelo de Mona
tem o mesmo cheiro. Torcendo a pena entre dois dedos, pergunto a
Oyster o que ele queria com aquele telefonema recente.
Oyster acende o cigarro. Depois enfia o isqueiro de plástico e o
celular de volta no saco de feitiços.
— É assim que ele ganha dinheiro — explica Mona, desatando os
nós e emaranhados no apanhador de sonhos. Entre os braços, dentro
da blusa alaranjada, seus seios projetam os pequenos mamilos
rosados.
E estou contando 4, contando 5, contando 6...
Com as mãos abotoando a camisa, a boca tensa em torno do
cigarro e os olhos estreitados por causa da fumaça, Oyster pergunta:
— Lembram-se de Johnny Appleseed?
Helen aumenta o ar-condicionado.
Abotoando o colarinho, Oyster diz: — Não se preocupe, papai.
Estou só plantando minhas sementes. — Ele olha para todo o
amarelo lá fora com seus olhos amarelos. — Nossa geração só está
espalhando nossa própria peste para tentar destruir a cultura
existente.
Capítulo 20

A mulher abre a porta da frente. Helen e eu estamos na varanda.


Estou segurando a valise de cosméticos de Helen, parado meio passo
atrás dela. Helen aponta a longa unha cor-de-rosa do indicador para a
mulher e diz:
— Se você puder me dar quinze minutos, posso lhe dar toda uma
nova você.
Ela está usando um conjunto vermelho, mas não vermelho-
morango. É mais o vermelho de uma musse de morango encimada
por crème fraîche batido e servida numa tigela de cristal com pé.
Dentro da nuvem cor-de-rosa do cabelo de Helen, os brincos emitem
reflexos rosados e vermelhos na luz do sol.
A mulher seca as mãos num pano de prato. Está usando
mocassins masculinos marrons, sem meias. Um avental estampado
com pequenas galinhas amarelas cobre-lhe a parte da frente do
corpo. Por baixo, há uma espécie de vestido lavável a máquina. Com
as costas de uma das mãos, ela afasta o cabelo da testa. Todas as
galinhas amarelas portam utensílios de cozinha, conchas e colheres,
nos bicos. Olhando para nós pela tela enferrujada da porta, a mulher
diz:
— Pois não?
Helen olha para mim, parado ali atrás. Depois olha para Mona e
Oyster, abaixados e escondidos dentro do carro estacionado junto ao
meio-fio. Oyster sussurra ao telefone:
— A coceira é constante ou intermitente?
Helen Hoover Boyle une as pontas dos dedos no peito, sobre a
confusão de joias e pérolas rosadas oculta embaixo da blusa de seda,
e informa:
— Nós somos da Maquiagem Milagrosa, sra. Pelson.
Ao falar, ela abre e estende a mão para a mulher, como se
estivesse espalhando as palavras.
— Meu nome é Brenda Williams — continua ela. Depois espalha
as palavras de volta sobre o ombro com as unhas cor-de-rosa,
dizendo: — Este é meu marido, Robert Williams. E nós temos um
presente muito especial para a senhora hoje.
Atrás da tela da porta, a mulher baixa o olhar para a valise de
cosméticos na minha mão.
E Helen pergunta:
— Podemos entrar?
Era para ser mais fácil do que isto.
Era só sair viajando, entrar nas bibliotecas, tirar um livro da
prateleira, sentar numa privada no banheiro da biblioteca e arrancar
a página. Depois dar descarga. Era para ser só isso.
Nas duas primeiras bibliotecas não houve problemas. Na terceira,
o livro não está na estante. Com sussurros típicos de biblioteca,
Mona e eu vamos até o balcão e perguntamos. Helen fica esperando
no carro com Oyster.
O bibliotecário é um sujeito de cabelo comprido e liso, amarrado
num rabo-de-cavalo. Tem brincos nas duas orelhas, brincos de argola
de pirata e está usando um colete de lã xadrezado. Rolando a
informação pela tela do computador, ele informa que o livro está
emprestado.
— É muito importante — diz Mona. — Eu peguei o livro antes
dessa pessoa e deixei uma coisa entre as páginas.
— Lamento.
— Não dá para nos dizer quem é? — pergunta Mona.
— Lamento. Não dá.
E estou contando 1, contando 2, contando 3...
Claro, todo mundo quer brincar de Deus, mas para mim isso é um
serviço em tempo integral.
Estou contando 4, contando 5...
Um instante depois, Helen Hoover Boyle está parada diante do
balcão. Fica sorrindo ali até o bibliotecário erguer o olhar do
computador e depois abre as mãos cheias de anéis vistosos.
— Rapaz, minha filha deixou uma antiga fotografia de família
entre as páginas de certo livro — diz ela, abanando os dedos. — Você
pode seguir as regras ou pode fazer uma boa ação e escolher um
desses anéis.
O bibliotecário fica olhando para os dedos dela. O prisma de
cores e estrelas de luz refletida dança no seu rosto. Ele lambe os
lábios. Depois abana a cabeça num sinal negativo e diz que
simplesmente não vale a pena. A pessoa com o livro reclamará e ele
será despedido.
— Nós prometemos — diz Helen — que você não vai perder seu
emprego.
Dentro do carro, fico esperando com Mona, contando 27,
contando 28, contando 29... tentando, da única maneira que sei, não
matar todo mundo na biblioteca e procurar eu mesmo o endereço no
computador.
Helen se aproxima do carro com uma folha de papel em uma das
mãos. Inclina-se na janela aberta do motorista e diz:
— Boas notícias e más notícias.
Mona e Oyster estão deitados no banco traseiro e sentam-se
eretos. Estou no banco do carona, contando.
Mona diz:
— Eles têm três exemplares, mas todos estão emprestados.
Helen coloca-se ao volante:
— Pois conheço um milhão de maneiras de fazer visitas
domiciliares sem aviso prévio.
— Bom trabalho, mamãe — diz Oyster afastando o cabelo dos
olhos.
A primeira casa até que foi fácil. E a segunda também.
No carro, entre uma casa e outra, Helen remexe nos tubos
dourados e caixas brilhantes, batons e maquiagens, da valise de
cosméticos aberta no seu colo. Ergue um batom cor-de-rosa e aguça o
olhar para o bastão: — Nunca mais vou usar nada disto. Se não me
engano, aquela última mulher tinha porrigem.
No banco traseiro, Mona se inclina à frente, lançando o olhar
sobre o ombro de Helen:
— Você é ótima nisso.
Abrindo caixinhas redondas de sombra, examinando ou farejando
o conteúdo bege, cor-de-rosa ou pêssego, Helen se gaba:
— Tenho muita prática.
Ela se examina no espelho retrovisor e ajeita algumas mechas de
cabelo cor-de-rosa. Olha para ó relógio, apertando o mostrador entre
o polegar e o indicador:
— Eu não deveria contar isso a vocês, mas esse foi meu primeiro
emprego de verdade.
A essa altura estamos estacionados diante de um trailer
enferrujado, fincado num trecho de grama morta coberto de
brinquedos de plástico. Helen fecha a valise, olha para mim, sentado
ali ao lado, e pergunta: — Pronto para tentar novamente?
Dentro do trailer, falando com a mulher do avental de galinhas e
fazendo-a recuar até o sofá, Helen está dizendo: — Sem qualquer
custo ou obrigação da sua parte.
Sentada diante da mulher, tão perto que seus joelhos quase tocam
os dela, Helen estende um pincel macio e pede: — Aperte as
bochechas, querida.
Com uma das mãos, agarra um tufo de cabelo da mulher e o puxa
para cima. O cabelo da mulher é louro, com dois centímetros de
castanho nas raízes. Com outra mão, Helen passa um pente pelo
cabelo com movimentos rápidos, mantendo no alto os fios mais
longos e achatando os menores sobre o couro cabeludo. Agarra outro
tufo e fica penteando-o de cima a baixo, até todos os fios, menos os
mais longos, estarem achatados e emaranhados sobre o couro
cabeludo. Com o pente, vai alisando as longas mechas louras sobre
os crespos fios curtos até a cabeça da mulher se tornar uma imensa
bolha fofa de cabelo louro.
E concluo:
— Então é assim que você faz isso.
O penteado é idêntico ao de Helen, só que louro.
Na mesinha diante do sofá há um grande arranjo de rosas e lírios.
Murchas e amarronzadas, as flores estão dentro do vaso de vidro
verde de uma florista, com apenas um pouco de água preta no fundo.
Sobre a mesa de jantar na cozinha há outros grandes arranjos florais:
apenas caules mortos em água opaca e fedorenta. Enfileirados no
chão, junto à parede de trás da sala, há mais vasos, cada um contendo
um bloco de espuma verde espetado com rosas ressequidas e mortas,
ou então cravos negros e esguios cobertos de mofo cinzento. Fincado
em cada buquê há um cartão onde se lê Com os melhores votos.
— Agora cubra o rosto com as mãos — diz Helen, começando a
agitar uma lata de laquê. A mulher fica cega, inclinada um pouco à
frente, com as duas mãos cobrindo o rosto. Helen borrifa a mulher
com laquê, meneando a cabeça em direção aos aposentos na outra
ponta do trailer.
E eu vou.
Mergulhando um pincel no tubo de rimei, Helen pergunta:
— Você se incomoda que meu marido use seu banheiro? Agora
olhe para o teto, querida.
No chão do banheiro há roupas sujas separadas em pilhas de
cores diferentes. Brancas. Escuras. As calças jeans e as camisas de
alguém manchadas de óleo. Há toalhas de banho, lençóis e sutiãs,
além de uma toalha de mesa de xadrez vermelho. Dou a descarga na
privada, como efeito sonoro.
Não há fraldas ou roupas infantis.
Na sala, a mulher das galinhas continua olhando para o teto, só
que agora está dando longos arquejos trêmulos. Seu peito treme sob
o avental. Helen encosta o canto de um lenço de papel na maquiagem
aguada. O lenço está ensopado e enegrecido de rímel.
— Vai melhorar depois, Rhonda. Você não consegue ver isso
agora, mas logo vai — diz Helen, dobrando outro lenço e secando as
lágrimas da outra. — O que você precisa fazer é se enrijecer. Pense
em si mesma como algo rijo e afiado. Você ainda é uma mulher
jovem, Rhonda. Precisa voltar à escola e transformar esta mágoa em
dinheiro.
A mulher-galinha, Rhonda, continua a chorar com a cabeça
inclinada para trás, olhando para o teto.
Além do banheiro, há dois quartos. Num deles há um colchão de
água. No outro há um berço, um mobile de margaridas de plástico e
uma cômoda pintada de branco. O berço está vazio, com o pequeno
colchão de plástico enrolado numa das pontas. Perto do berço há
uma pilha de livros sobre um banco. Poemas e rimas está no topo.
Quando ponho o livro sobre a cômoda, o volume se abre na
página 27.
Passo a ponta de um alfinete de segurança na margem interna da
folha, bem perto,da lombada, e a página se solta. Com o papel
dobrado no bolso, devolvo o livro à pilha.
Na sala, os cosméticos jazem amontoados no chão.
Helen tirou o fundo falso da valise de cosméticos. Lá dentro estão
empilhados colares e braceletes, broches pesados e pares de brincos.
Todos presos juntos, cintilantes e cobertos por estilhaços de luz
vermelha, verde, amarela e azul. Joias. Das mãos de Helen pende um
longo colar de pedras amarelas e vermelhas, maiores do que as
polidas unhas cor-de-rosa dela.
— Nos brilhantes, confira se não há luz vazando nas facetas
abaixo da cintura da pedra — diz ela, colocando o colar nas mãos da
mulher. — Já nos rubis... oxido de alumínio... partículas estranhas no
interior, chamadas de inclusões rútilas, podem dar à pedra uma
suave tonalidade rósea, a não ser que o joalheiro coloque a gema sob
calor intenso.
O truque para esquecer a visão panorâmica é ver tudo bem de
perto.
As duas mulheres estão sentadas tão perto uma da outra que seus
joelhos se encaixam. As cabeças quase se tocam.
A mulher-galinha já não está chorando. Está usando um
monóculo de joalheiro num dos olhos.
As flores mortas são afastadas para o lado, e sobre a mesinha de
centro espalham-se aglomerados de rosa cintilante e ouro suave, frias
pérolas brancas e lápis-lazúlis trabalhados. Outros aglomerados
refulgem em tons alaranjados e amarelos. Outras pilhas também
brilham, prateadas é brancas.
Helen ergue numa das mãos um faiscante ovo verde, tão grande
que ambas as mulheres parecem verdes na luz refletida, e diz: —
Você vê aqui o tipo de inclusões uniformes, semelhantes a veias, de
uma esmeralda sintética?
Com o olho tenso ao redor do monóculo, a mulher balança a
cabeça e Helen continua:
— Lembre-se disso. Não quero que você se queime do jeito que eu
me queimei.
Ela enfia a mão na valise de cosméticos e tira um reluzente objeto
amarelo:
— Este broche de safiras amarelas já pertenceu à estrela
cinematográfica Natasha Wren.
Com ambas as mãos, pega um cintilante coração cor-de-rosa, de
onde pende uma longa corrente com diamantes menores:
— Este pingente de berilo, de setecentos quilates, já pertenceu à
rainha Maria da Romênia.
Nesse monte de joias, diria Helen Hoover Boyle, estão os
fantasmas de todos os que já as possuíram. Todos os que eram ricos e
bem-sucedidos o suficiente para prová-lo. Todo o talento, inteligência
e beleza dessa gente foi derrotado por esse livro decorativo. Todo o
sucesso e todas as realizações que essas joias deveriam representar já
desapareceram.
Com o mesmo penteado e a mesma maquiagem, tão perto uma da
outra, elas poderiam ser irmãs. Poderiam ser mãe e filha. Antes e
depois. Passado e futuro.
Há mais, mas nesse instante eu vou até o carro.
Sentada no banco traseiro, perguntou:
— Achou?
E digo que sim. Não que tenha adiantado grande coisa para a
mulher.
A única coisa que nós lhe demos foi um grande penteado, e
provavelmente porrigem.
Oyster pede:
— Mostre a cantiga para a gente. Vamos ver por que estamos
fazendo esta viagem.
E digo que nem fodendo. Enfio a página dobrada na boca e fico
mastigando. Meu pé está doendo e eu descalço o sapato. Continuo
mastigando. Mona adormece. Mastigo mais um pouco. Pela janela,
Oyster olha para um trecho de mato numa vala.
Engulo a página e adormeço.
Mais tarde, sentado no carro, indo para a próxima cidade, a
próxima biblioteca, talvez a próxima transformação, acordo e vejo
que Helen está dirigindo há quase quinhentos quilômetros.
Está quase escuro, e olhando pelo para-brisa ela diz:
— Estou contabilizando as despesas.
Mona senta-se ereta, coçando o couro cabeludo. Depois enfia o
dedo anular no canto interno do olho e retira-o rapidamente, com
uma ramela presa na ponta. Esfrega a ramela na calça jeans e
pergunta:
— Onde nós vamos comer?
Mando Mona afivelar o cinto de segurança.
Helen liga os faróis. Abre uma das mãos sobre o volante e olha
para as costas da mão, cheia de anéis. Depois diz:
— Quando nós acharmos o Livro das Sombras, quando formos os
líderes todo-poderosos do mundo inteiro, quando formos imortais,
possuirmos tudo no planeta e todos nos amarem, você ainda estará
me devendo duzentos dólares em maquiagem.
Ela parece estranha. Seu cabelo não está normal. São os brincos,
aqueles pesados conjuntos em tons de rosa e vermelho, com safiras
rosadas e rubis. Desapareceram.
Capítulo 21

Aquilo não era apenas uma noite, mas dava essa impressão. Era
toda noite, pelo Texas e pelo Arizona, passando a Nevada, cortando a
Califórnia e subindo pelo Oregon, por Washington, Idaho, Montana.
Viajando de carro, todas as noites são iguais. Seja lá onde for.
Todos os lugares são iguais no escuro.
— Meu filho Patrick não está morto — diz Helen Hoover Boyle.
Segundo os registros médicos do município, ele está morto, mas
não digo nada.
Helen segue dirigindo enquanto Mona e Oyster dormem no
banco traseiro. Dormem ou escutam. Estou sentado no banco do
carona. Vou encostado na porta, à maior distância possível de Helen.
Com a cabeça apoiada no braço, coloco-me de forma a poder escutar
sem precisar olhar para ela.
E Helen fala comigo sem olhar para mim. Nós dois ficamos
olhando fixamente para a estrada que desaparece velozmente nos
faróis abaixo do capô do carro.
— Patrick está no Centro Médico New Continuum -continua ela.
— E tenho plena fé de que um dia ele vai se recuperar totalmente.
Sua agenda encadernada em couro vermelho jaz no banco
dianteiro entre nós dois.
Atravessando Dakota do Norte e Minnesota, pergunto como ela
descobriu o feitiço de poda.
Com uma unha cor-de-rosa, ela aperta um botão em algum lugar
no escuro e coloca o carro em velocidade de cruzeiro. Com alguma
outra coisa, também no escuro, liga os faróis altos.
— Eu era representante comercial da Cosméticos Skin Tone — diz
ela. — O trailer em que nós... meu marido e eu... morávamos não era
muito legal.
Segundo os registros médicos do município, ele se chamava John
Boyle.
— Você sabe como é com o primeiro filho. As pessoas dão tantos
brinquedos e livros de presente! Nem sei quem trouxe o livro, na
verdade. Era só mais um livro numa pilha.
Segundo o município, isso deve ter sido há vinte anos.
— Você não precisa que eu conte o que aconteceu. Mas John
sempre achou que foi culpa minha.
Segundo os registros policiais, houve seis chamadas à polícia
devido a perturbações domésticas no lar do casal Boyle, lote 175 do
Parque de Trailers Buena Noche, durante as semanas seguintes à
morte de Patrick Raymond Boyle, aos seis meses de idade.
Atravessando Wisconsin e Nebraska, diz Helen:
— Eu trabalhava de porta em porta, vendendo os produtos da
Skin Tone. Mas não voltei a trabalhar imediatamente. Deve ter sido,
meu Deus, um ano e meio depois que Patrick... depois da manhã em
que encontramos Patrick.
Ela conta que estava caminhando pelo parque de trailers onde
eles moravam e encontrou uma moça exatamente igual à mulher do
avental de galinhas. As mesmas flores fúnebres, já mortas, trazidas
da capela mortuária. O mesmo berço vazio.
— Eu podia ganhar muito dinheiro só vendendo base forte e
maquiagem para retoques. Principalmente no final do mês, quando o
dinheiro ficava escasso.
Há vinte anos, a tal moça era da idade de Helen. Enquanto as duas
conversavam, ela mostrou a Helen o quarto e os retratos do bebê. A
moça se chamava Cynthia Moore e tinha um olho roxo.
— Notei que eles tinham um exemplar do mesmo livro que nós.
Poemas e rimas ao redor do mundo.
O casal mantinha o livro aberto na mesma página da noite em que
o filho morrera. O livro e as cobertas no berço. Eles estavam tentando
manter tudo igual.
— Claro que era a mesma página do nosso livro.
Em casa, John Boyle andava bebendo muita cerveja toda noite.
Dizia que não queria ter outro filho, pois não confiava nela. Se ela
não sabia o que fizera de errado, o risco era grande demais.
Com minha mão no aquecido assento de couro do carro, parece
que estou tocando outra pessoa.
Atravessando o Colorado, o Kansas e o Missouri, ela continua:
— Um dia houve uma liquidação no trailer da tal moça que
morava no parque. Todas as coisas do bebê deles estavam dobradas
em pilhas no gramado, marcadas a vinte e cinco centavos cada uma.
O livro também estava lá e eu o comprei. Quando perguntei ao
sujeito lá dentro por que Cynthia estava vendendo tudo, ele
simplesmente deu de ombros.
Segundo os registros médicos municipais, Cynthia Moore bebeu
um líquido para desentupir ralos e morreu de hemorragia no esôfago
e asfixia três meses depois da morte sem causa aparente de seu filho.
— John estava preocupado com germes, e por isso tinha
queimado todas as coisas de Patrick — diz Helen. -Comprei o livro de
poemas por dez centavos. Lembro que o dia estava lindo.
Os registros policiais mostram mais três chamadas à polícia
devido a perturbações domésticas no lote 175 do Parque de Trailers
Buena Noche. Uma semana depois do suicídio de Cynthia Moore,
John Boyle foi encontrado morto sem causa aparente. Segundo o
município, a alta concentração de álcool no sangue dele poderia ter
causado apneia do sono. Outra causa possível era asfixia posicionai.
Ele poderia estar tão bêbado que tombou inconsciente numa posição
que o impedia de respirar. Fosse como fosse, não havia marcas no seu
corpo. O atestado de óbito foi emitido sem causa de morte aparente.
Atravessando Illinois, Indiana e Ohio, Helen diz: — Matar John
não foi algo que fiz de propósito. Eu só estava curiosa.
Tal como eu e Duncan.
— Estava apenas testando uma teoria — explica. — John ficava
dizendo que o fantasma de Patrick estava conosco. E eu ficava
dizendo que Patrick ainda estava vivo no hospital.
Vinte anos depois, o bebê Patrick ainda está no hospital, diz ela.
Por mais maluco que isso pareça, eu não falo nada. Não consigo
imaginar a aparência de um bebê após vinte anos em coma, vivendo
com o auxílio de aparelhos ou qualquer coisa assim.
É só visualizar Oyster com um tubo alimentar e um cateter
durante a maior parte de sua vida.
Há coisas piores que você pode fazer às pessoas que ama do que
matá-las.
No banco traseiro, Mona senta-se ereta, espreguiça-se e diz:
— Na Grécia antiga, as pessoas escreviam suas maldições mais
fortes com pregos tirados de naufrágios. Os marinheiros que
morriam no mar não recebiam um funeral decente. Os gregos sabiam
que os mortos que não eram enterrados tornam-se os espíritos mais
destemidos e destrutivos.
Helen manda que Mona cale a boca.
Atravessando a Virgínia Ocidental, a Pensilvânia e Nova York, diz
ela:
— Detesto gente que afirma ver fantasmas. Não existem
fantasmas. Quando você morre, morreu. Não existe vida após a
morte. As pessoas que afirmam ver fantasmas simplesmente querem
chamar atenção. Quem acredita em reencarnação só está adiando a
própria vida. — Ela sorri. -Por sorte, descobri uma maneira de
castigar essa gente e ganhar muito dinheiro.
Seu celular toca.
Ela diz:
— Se você não acredita no que falei de Patrick, posso mostrar a
conta hospitalar deste mês.
O celular toca novamente.
Estamos atravessando Vermont enquanto ela conta isso. Conta
parte da história enquanto estamos cruzando a Louisiana no escuro,
e depois o Arkansas e o Mississippi. Todos aqueles pequenos estados
do Leste, em algumas noites nós cruzávamos dois ou três.
— Aqui é Helen — ela abre o telefone, revirando os olhos para
mim. — Um bebê invisível preso dentro da parede do seu quarto?
Que chora a noite toda? É mesmo?
Outras partes desta história eu só soube depois que cheguei em
casa e pesquisei um pouco.
Apertando o telefone contra o peito, Helen me diz:
— Tudo que estou contando a você é estritamente confidencial.
Enquanto não encontrarmos o Livro das Sombras, não podemos
mudar o que aconteceu. Mas usando um feitiço do livro, vou garantir
a total recuperação de Patrick.
Capítulo 22

Estamos atravessando o Meio-Oeste com o rádio numa estação


AM qualquer e a voz de um homem diz que a dra. Sara era um farol
de esperança e moralidade no deserto da vida moderna. Ela era uma
moralista nobre e de linha dura, que se recusava a aceitar qualquer
coisa que não fosse uma conduta reta e virtuosa. Era um baluarte dos
valores corretos, uma lâmpada que lançava sua luz para revelar o mal
deste mundo. A dra. Sara, diz o sujeito, sempre estará em nossos
corações e nossas almas, pois sua própria alma era tio forte e tão in...
A voz para.
E Mona bate no encosto do banco dianteiro, bem atrás dos meus
rins:
— De novo, não! Pare de descontar seus problemas pessoais em
pessoas inocentes!
Digo que ela precisa parar de me acusar. Talvez trate-se apenas de
uma mancha solar.
Esses conversômanos. Esses escutófobos.

A cantiga de poda passou pela minha cabeça tão depressa que


nem notei. Eu estava semiadormecido. A coisa já chegou a esse ponto
de descontrole. Posso matar dormindo.
Após alguns quilômetros em silêncio, aquilo que os radialistas
chamam de ar morto, outra voz de homem surge no rádio, dizendo
que a dra. Sara Lowenstein era o padrão moral com o qual milhões de
ouvintes podiam comparar suas próprias vidas. Ela era a espada
flamejante de Deus, enviada para expulsar os criminosos e malvados
do Templo de...
E a voz desse novo sujeito também é cortada.
Mona bate no encosto do meu assento, com força: -Isso não tem
graça! Esses pregadores radiofônicos são pessoas de verdade!
Digo para ela que não fiz nada.
Helen e Oyster dão risadinhas.
Mona cruza os braços sobre o peito e joga o corpo para trás no
assento:
— Você não tem respeito algum. Nenhum. Está fodendo com um
milhão de anos de poder.
Põe ambas as mãos em Oyster e empurra-o para longe, de modo
que ele se choca contra a porta. Depois diz:
— Você também. Uma personalidade radiofônica é tão importante
quanto uma vaca ou um porco.
Uma música para dançar surge no rádio. O celular de Helen
começa a tocar. Ela abre o aparelho e encosta-o no cabelo. Meneia a
cabeça para o rádio e articula silenciosamente as palavras Abaixe
isso.
— Hum, hum, sim, sei quem ele é — diz ela ao telefone. — Diga
onde ele está agora, ou um local o mais perto possível.
Abaixo o volume do rádio.
Helen escuta e fala: — Não. Quero um diamante branco-azulado,
lapidado, de setenta e cinco quilates. Ligue para o sr. Drescher em
Gênova, ele sabe exatamente qual eu quero.
Mona apanha a mochila no assoalho do banco traseiro, tirando
um pacote de canetas hidrográficas e um livro grosso, encadernado
em brocado verde-escuro. Abre o livro no colo e começa a rabiscar
nele com uma caneta azul. Depois tampa a caneta; azul e começa a
escrever com uma amarela.
E Helen continua:
— O que houver de aparato de segurança não é problema. O
negócio estará feito dentro de uma hora.
No banco dianteiro, entre nós dois, jaz sua agenda. Ela abre o
volume, escrevendo um nome e a data de hoje lá dentro.
O livro no colo de Mona é o seu Livro dos Espelhos. Todas as
bruxas verdadeiras, diz ela, têm Livros dos Espelhos. É uma espécie
de diário e livro de receitas, onde você reúne o que aprende sobre
magia e rituais.
— Por exemplo, Demócrito diz que queimar a cabeça de um
camaleão em fogo feito de troncos de carvalho causará uma
tempestade com trovões — diz ela lendo o Livro dos Espelhos.
Depois se inclina à frente e fala bem perto do meu ouvido: —
Demócrito, entende, o inventor da democracia.
E estou contando 1, contando 2, contando 3...
Para calar a boca de alguém, diz Mona, fazer a pessoa parar de
falar, você pega um peixe e costura a boca do bicho.
Para curar uma dor de ouvido, diz Mona, você usa o sêmen do
javali que pinga da vagina da fêmea.
Segundo a coleção de feitiços judaica Sepher ha-Razim, você
precisa matar um cachorrinho preto antes que ele veja a luz do dia.
Escreva sua maldição numa tabuleta e coloque-a dentro da cabeça do
cachorrinho. Depois feche a boca com cera e esconda a cabeça atrás
da casa de alguém. A pessoa jamais adormecerá novamente.
— Segundo Teófrato, você só deve arrancar peônias à noite, pois
se for visto por um pica-pau fazendo isso, ficará cego. — Mona
continua lendo: — Se for visto pelo pica-pau cortando as raízes da
planta, seu ânus sofrerá um prolapso.
E Helen comenta:
— Eu queria tanto ter um peixe...
Segundo Mona, não se deve matar ninguém, pois isso nos afasta
da humanidade. Para justificar uma matança, você precisa
transformar a pessoa em inimigo. Para justificar qualquer crime, você
precisa transformar a vítima no seu inimigo.
Depois de um tempo suficiente, todos no mundo serão seus
inimigos.
A cada crime, diz Mona, ficamos mais e mais alienados do
mundo. Cada vez mais, imaginamos que o mundo inteiro está contra
nós.
— A dra. Sara Lowenstein não começou atacando e repreendendo
todo mundo que ligava para o programa dela no rádio — continua
Mona. — Antigamente ela tinha bem pouco tempo, uma audiência
muito pequena e parecia realmente querer ajudar as pessoas.
Talvez isso houvesse acontecido graças aos anos e anos dos
mesmos telefonemas sobre gravidezes indesejadas, divórcios e
brigas familiares. Talvez porque a audiência aumentara e o programa
fora promovido ao horário nobre. Talvez porque ela passara a ganhar
mais dinheiro. Talvez o poder corrompa, mas ela não fora sempre
uma escrota.
A única saída, diz Mona, será Helen e eu nos rendermos e
deixarmos que o mundo nos mate por causa de nossos crimes. Ou,
então, nós mesmas nos matarmos.
Pergunto se isso é mais baboseira de bruxaria.
— Não, na realidade é Karl Marx — explica Mona ainda
desenhando no livro. — Depois de matar alguém, essas são as únicas
maneiras de voltarmos a nos conectar com a humanidade. — Essa é a
única maneira de voltarmos a um lugar onde o mundo não seja nossa
nêmese.
— Um peixe — pede Helen. — Além de agulha e linha.
E não estou sozinho.
Tenho Helen.
Talvez seja por isso que tantos assassinos compulsivos trabalham
em duplas. É bom não se sentir sozinho num mundo cheio de
vítimas ou inimigos. Não é de surpreender que Waltraud Wagner, o
Anjo da Morte austríaco, tenha convencido suas amigas a matar com
ela.
Simplesmente parece natural.
Você e eu contra o mundo...
Gary Lewingdon tinha o irmão, Thaddeus. Kenneth Bianchi tinha
Angelo Buono. Larry Bittaker tinha Roy Norris. Doug Clark tinha
Carol Bundy. David Gore tinha Fred Waterfield. Gwen Graham tinha
Cathy Wood. Doug Gretzler tinha Bill Steelman. Joe Kallinger tinha o
filho, Mike. Pat Kearney tinha Dave Hill. Andy Kokoraleis tinha o
irmão, Tom. Leo Lake tinha Charles Ng. Henry Lucas tinha Ottis
Toole. Albert Anselmi tinha John Scalise. Allen Michael tinha
Cleamon Johnson. Clyde Barrow tinha Bonnie Parker. Doug Bemore
tinha Keith Cosby. Ian Brady tinha Myra Hindley. Tom Braun tinha
Leo Maine. Ben Brooks tinha Fred Treesh. John Brown tinha Sam
Coetzee. Bill Burke tinha Bill Hare. Erskine Burrows tinha Larry
Tacklyn. Jose Bux tinha Mariano Macu. Bruce Childs tinha Henry
McKenny. Alton Coleman tinha Debbie Brown. Ann French tinha o
filho, Bill. Frank Gusenberg tinha o irmão, Peter. Delfina Gonzalez
tinha a irmã, Maria. O doutor Teet Haerm tinha o doutor Tom Allgen.
Amélia Sachs tinha Annie Walters.
Treze por cento de todos os assassinos compulsivos descobertos
até hoje trabalhavam em equipe.
No corredor da morte em San Quentin, Randy Kraft, o “Matador
do Cartão de Escore”, jogava bridge com Doug Clark, o “Assassino do
Pôr do Sol”, Larry Bittaker, o “Alicate”, e Bill Bonin, o “Matador da
Rodovia”. Os quatro somavam aproximadamente cento e vinte e seis
vítimas.
Helen Hoover Boyle tem a minha pessoa.
— Eu não conseguia parar de matar — disse Bonin a um repórter
certa vez. — Cada vez ficava mais fácil...
Tenho que concordar. A coisa realmente vicia.
O rádio diz que a dra. Sara Lowenstein era um anjo de poder e
impacto sem paralelos, uma gloriosa mão de Deus, uma consciência
para o mundo ao seu redor, um mundo de pecado e intenções cruéis,
um mundo de ocul...
Quanto mais gente morre, mais as coisas permanecem as
mesmas.
— Vá em frente, prove seu valor — provoca Oyster, meneando a
cabeça em direção ao rádio. — Mate esse puto também.
Estou contando 37, contando 38, contando 39...
Já desarmamos sete exemplares do livro de poemas desde que
partimos. A tiragem original era de quinhentos. Portanto, já foram
eliminados trezentos e seis, e faltam cento e noventa e quatro.
O jornal diz que o sujeito de casacão de couro preto, o tal que me
empurrou no cruzamento, doava sangue mensalmente. Ele passara
três anos no exterior com o Corpo da Paz, cavando poços para
leprosos. Doara um pedaço do seu fígado para um sujeito de
Botswana que comera um cogumelo venenoso. Atendia telefonemas
durante campanhas beneficentes contra uma doença paralisante
qualquer, esqueci qual.
Mesmo assim, merecia morrer. Ele me chamou de babaca!
Ele me empurrou!
O jornal mostra a mãe e o pai chorando junto ao caixão do meu
vizinho de cima.
Mesmo assim, o aparelho de som dele tocava alto demais.
O jornal diz que uma modelo que já foi capa de revistas, chamada
Denni D’Testro, apareceu morta no seu apartamento no Centro da
cidade hoje de manhã.
Seja qual for a razão, fico torcendo para que Nash não tenha sido
incumbido de apanhar o corpo.
Oyster aponta para o rádio:
— Se você não matar esse cara, papai, é porque não está com
porra nenhuma!
Realmente, este mundo só tem babacas.
Helen abre o celular e liga para bibliotecas em Oklahoma e na
Flórida. Encontra outro exemplar do livro em Orlando.
Mona nos lê um trecho do livro que diz que os gregos antigos
faziam tabuletas de maldição que chamavam de defixiones.
Eles usavam kolossi, bonecas feitas de bronze, cera ou argila.
Crivavam-nas de pregos, torciam-nas ou mutilavam-nas, arrancando-
lhes a cabeça ou as mãos. Punham fios de cabelo tirados das vítimas
dentro das bonecas. Ou então lacravam uma maldição, escrita num
papiro e enrolada, dentro da boneca.
No Museu do Louvre, há uma figura egípcia do século II d.C. É
uma mulher nua, toda amarrada, com pregos cravados nos olhos,
orelhas, boca, seios, mãos, pés, vagina e ânus. Rabiscando no livro
com a caneta hidrográfica, Mona diz:
— Quem fez aquela boneca provavelmente adoraria Helen e você.
As tabuletas de maldição eram finas folhas de chumbo ou cobre,
às vezes argila. Você escrevia a maldição nelas com o prego dos
destroços de um naufrágio, depois enrolava a folha e cravava nela o
prego. Ao escrever, você escrevia a primeira linha da esquerda para a
direita, a segunda da direita para a esquerda, a terceira da esquerda
para a direita, e assim por diante. Se pudesse, você dobrava a
maldição sobre um fio de cabelo ou um fiapo de roupa da vítima.
Jogava a maldição num lago ou no mar, qualquer coisa que a levasse
ao submundo, onde demônios a leriam e executariam sua
encomenda.
Ainda falando ao telefone, Helen encosta o aparelho no peito por
um instante:
— Parece até uma encomenda feita pela Internet.
Estou contando 346, contando 347, contando 348...
Na tradição literária greco-romana, diz Mona, há bruxos da noite
e bruxos do dia. Os bruxos do dia são bons e protetores. Os bruxos da
noite são misteriosos e desejam destruir toda a civilização.
Ela concluiu: — Vocês dois são decididamente bruxos da noite.
A mágica fazia parte do cotidiano daquelas pessoas, diz Mona, as
mesmas pessoas que nos deram a democracia e a arquitetura. Os
empresários lançavam maldições uns sobre os outros. Os vizinhos se
amaldiçoavam mutuamente. Perto do local original das Olimpíadas,
os arqueólogos descobriram velhos poços cheios de maldições
lançadas por atletas sobre os seus adversários.
Mona salienta:
— Não estou inventando nada disso.
Os feitiços para se atrair um amante eram chamados de agogai em
grego arcaico.
As maldições para arruinar um relacionamento se chamavam
diakopoi.
Helen eleva a voz ao telefone:
— Sangue escorrendo pelas paredes da cozinha? Bom, é claro que
você não deve ser obrigado a conviver com isso.
E ao seu telefone, Oyster diz:
— Preciso do telefone de anúncios comerciais do Miami Telegraph-
Observer.
O rádio interrompe tudo com um coro de trompas. Depois surge
a voz grave de um homem, com um teletipo matraqueando ao fundo.
— O suspeito de ser o líder do maior cartel de drogas da América
do Sul foi encontrado morto na sua cobertura em Miami. — Gustave
Brennan, de trinta e nove anos, é tido como o responsável por quase
três bilhões de dólares em vendas anuais de cocaína. A polícia não
sabe a causa da morte, mas planeja fazer uma autópsia no corpo...
— Vocês estão ouvindo isto? Que ridículo! — diz Helen olhando
para o rádio. Depois aumenta o volume. — Escutem só.
— Brennan morava numa fortaleza, cercado por guarda-costas
armados, e estava sob constante vigilância do FBI — diz a voz.
Helen me pergunta: — Ainda se usa teletipo?
O telefonema que ela acabou de receber, sobre o tal diamante
branco-azulado... o nome que ela escreveu na agenda era Gustave
Brennan.
Capítulo 23

Séculos atrás, os marinheiros que partiam em viagens longas


costumavam deixar casais de porcos em cada ilha deserta. Ou então
deixavam um bode e uma cabra. Em todo caso, em qualquer visita
futura a ilha seria uma fonte de carne. As ilhas eram imaculadas, lar
de estirpes de aves sem predadores naturais. Estirpes de aves que
não viviam em nenhum outro lugar. Sem inimigos, as plantas de lá
evoluíam sem espinhos ou venenos. Sem predadores e inimigos,
aquelas ilhas eram verdadeiros paraísos.
Quando os marinheiros visitavam as ilhas outra vez, só
encontravam rebanhos de cabras ou porcos, mais nada.
Oyster está contando esta história.
Os marinheiros chamavam aquilo de “semear carne”.
— Isso faz vocês se lembrarem de alguma coisa? Talvez da velha
história de Adão e Eva? — pergunta Oyster, olhando pela janela. —
Já se perguntaram quando Deus voltará com um monte de molho
para churrasco?
Lá fora vê-se um dos Grandes Lagos, com a água estendendo-se
até o horizonte.
— Nada além de mexilhões-zebra e enguias-lampreia — diz
Oyster. O ar fede a peixe podre.
Mona aperta uma almofada de cevada e alfazema sobre o rosto
com ambas as mãos. Os desenhos de hena vermelha nas costas das
suas mãos estendem-se por todos os dedos. Cobras e cipós
vermelhos enroscados juntos.
O celular de Oyster toca. Ele estica a antena e coloca o aparelho
junto ao ouvido: ~ Deemer, Davis e Hope, Advogados.
Enfia o dedo no nariz e remexe lá dentro. Depois o tira e examina.
Ao telefone, diz:
— Quanto tempo depois da refeição a diarreia se manifestou?
Vê que estou olhando e me faz um sinal obsceno com o dedo.
Helen também fala ao telefone: — As pessoas que moravam lá
antes eram muito felizes. E uma casa linda.
No jornal local, o Erie Register-Sentinel, um anúncio na seção de
entretenimento diz:

Atenção sócios do Clube de Golfe Country House

“Você contraiu alguma infecção de estafilococos, resistente à medicação,


na piscina ou no vestiário?
Caso afirmativo, por favor ligue para o número abaixo, a fim de
participar de uma ação indenizatória coletiva.”

Já sei que o número é o do celular de Oyster.


Ele conta que, por volta de 1870, um sujeito chamado Spencer
Baird resolveu brincar de Deus. Baird concluiu que a fonte de
proteínas mais baratas para os americanos era a carpa europeia.
Passou vinte anos enviando filhotes de carpas para todas as partes do
país. Convenceu uma centena de linhas férreas diferentes a
transportar filhotes de carpa e soltá-los em todos os corpos aquáticos
por onde os trens passassem. Chegou a equipar vagões-tanques
especiais, que levavam cargas de cinco toneladas de filhotes de carpas
para cada cachoeira norte-americana.
O telefone de Helen toca e ela abre o aparelho. Com a agenda
aberta sobre o banco ao seu lado, diz:
— E onde, exatamente, está Sua Alteza Real neste momento? Ela
anota um nome sob a data de hoje na agenda -Peça ao sr. Drescher
para me mandar aquele par de prendedores de esmeraldas.
Em outro jornal, o Cleveland Herald-Monitor, na seção de estilos
de vida há um anúncio que diz:

Atenção clientes da cadeia de Lojas de Roupas Apparel-Design


“Se você contraiu herpes genital enquanto experimentava roupas,
por favor ligue para o número abaixo, a fim de participar de uma ação
indenizatória coletiva.”

E mais uma vez vem o mesmo número, o número de Oyster.


Ele conta que em 1890 um outro sujeito resolveu brincar de Deus.
Eugene Schieffelin soltou sessenta Sturnus vulgaris, o estorninho
europeu, no Central Park de Nova York. Cinquenta anos depois, os
pássaros haviam se espalhado até San Francisco. Atualmente há mais
de duzentos milhões de estorninhos nos Estados Unidos. Tudo
porque Schieffelin queria que o Novo Mundo abrigasse todos os
pássaros mencionados por Shakespeare.
E, ao telefone, Oyster diz: — Não, senhor, seu nome permanecerá
em total sigilo.
Helen fecha o telefone, pondo a mão enluvada sobre o nariz e a
boca. Depois pergunta:
— Que cheiro horroroso é esse?
Oyster coloca o celular junto à camisa e responde:
— Savelhas mortas.
Desde 1921, quando o curso do canal Welland foi alterado para
ampliar a navegação em torno das Cataratas do Niágara, diz ele, as
lampreias marinhas vêm infestando todos os Grandes Lagos. Esses
parasitas sugam o sangue dos peixes maiores, matando as trutas e os
salmões. Quando os peixes menores se veem livres dos predadores,
sua população explode. Eles logo dão cabo dos plânctons de que se
alimentam e começam a morrer de fome.
— Savelhas idiotas, gulosas! Isso não faz vocês se lembrarem de
outras espécies? — continua Oyster. — Se uma espécie não aprende a
controlar sua própria população, algo como a doença, a fome ou a
guerra resolve o problema.
Através da almofada, Mona diz com a voz abafada: -Não conte
nada para eles. Não vão entender.
Com uma das mãos, Helen abre a bolsa ao seu lado no banco e
tira de lá um cilindro polido. Com o ar-condicionado na potência
máxima, ela borrifa refrescante bucal num lenço e cobre o nariz.
Borrifa mais refrescante bucal na saída do ar-condicionado e
pergunta: — O assunto é o poema de poda?
Sem me virar para trás, digo:
— Você usaria o poema para controlar a população?
Oyster ri.
— Mais ou menos.
Mona baixa a almofada até o colo.
— O assunto é o grimoire.
Oyster digita outro número no telefone: — Se o livro for
encontrado, terá que ser compartilhado por todos nós.
E digo que vamos destruir o negócio.
— Só depois de ler tudo — ressalta Helen.
Ao telefone, Oyster diz: — Está bem, aguardo. — Para nós,
acrescenta: — Isto é típico. Temos toda a estrutura de poder da
sociedade ocidental dentro deste carro.
Segundo Oyster, os “tios” detêm todo o poder, de modo que não
querem mudar nada.
Ele está falando de mim.
E estou contando 1, contando 2, contando 3...
Oyster diz que todas as “tias” detêm um pouco de poder, mas têm
fome demais.
Ele está falando de Helen.
Estou contando 4, contando 5, contando 6...
E os jovens, continua ele, detêm pouco ou nenhum poder, de
modo que correm desesperadamente atrás de qualquer coisa.
Oyster e Mona.
Estou contando 7, contando 8, contando 9... e a voz de Oyster não
para nunca.
Este silenciófobo. Este conversômano.

— Toda geração quer ser a última — conclui Oyster, dando um


meio sorriso. Ao telefone, acrescenta: — É, eu gostaria de publicar
um anúncio. Está bem, aguardo.
Mona põe novamente a almofada sobre o rosto. As cobras e cipós
vermelhos estendem-se em cada um dos dedos dela.
Capim-cevadinha, diz Oyster. Mostarda. Trepadeiras kudzu.
Carpas. Estorninhos. Semeando carne.
Olhando pela janela, Oyster indaga:
— Vocês já se perguntaram se Adão e Eva não seriam apenas uns
cachorrinhos que Deus jogou fora porque eles não conseguiam
aprender a se comportar dentro de casa?
Ele baixa o vidro e o vento penetra no carro com um cheiro quente
e fedorento de peixes mortos. Oyster grita contra o vento:
— Talvez os seres humanos sejam apenas uns jacarés de
estimação que Deus lançou privada abaixo.
Capítulo 24

Na próxima biblioteca, peço para esperar no carro enquanto


Helen e Mona entram procurando o livro. Depois que elas saltam,
folheio as páginas da agenda de Helen. Em quase todos os dias há
um nome, e alguns são nomes que eu conheço. O ditador de alguma
república das bananas, ou então uma figura do crime organizado.
Todos os nomes estão riscados por um traço vermelho. Anoto os
últimos doze nomes num pedaço de papel. Entre eles, vejo as
anotações de Helen para suas reuniões, numa caligrafia rebuscada e
perfeita como uma joia.
Oyster fica me observando no banco traseiro, com os braços
cruzados atrás da cabeça. Tem os pés também cruzados sobre o
encosto do banco dianteiro, pendurados perto do meu rosto. Há.um
anel prateado em um dos dedões. Nas solas, os calos acinzentados
estão rachados e sujos, e ele diz:
— Mamãe não vai gostar de você ficar espiando as merdas
pessoais e secretas dela.
Lendo a agenda de trás para a frente, a partir da data de hoje,
examino três anos de nomes, assassinatos, antes que Helen e Mona
voltem andando pelo estacionamento.
O telefone de Oyster toca, e ele atende: — Donner, Diller e Dunes,
Advogados...
Não tenho tempo de ler a maior parte da agenda. Anos e anos de
páginas. Mais para o final, há anos e anos de páginas em branco
ainda a serem preenchidas por Helen.
Helen está falando ao telefone quando chega ao carro: — Não, eu
quero uma água-marinha que já pertenceu ao imperador Zog.
Mona senta-se no banco traseiro: — Sentiram nossa falta? Lá se
foi outra cantiga de poda privada abaixo.
E Oyster recolhe as pernas no banco traseiro:
— A inflamação sangra?
Helen estala os dedos, querendo que eu lhe passe a agenda. Ao
telefone, diz:
— É, a água-marinha de duzentos quilates. Ligue para o Drescher
em Gênova.
Depois abre a agenda e anota um nome sob a data de hoje.
— Estive pensando. Vocês acham que o grimoire original pode ter
um feitiço voador? Eu adoraria isso. Ou então um feitiço para ficar
invisível? — pergunta Mona, tirando da mochila o Livro dos Espelhos
e começando a colori-lo. — Também quero conseguir falar com os
animais. Ah, e fazer telecinese, mover coisas com a mente.
Helen liga o carro, e em voz alta diz para o espelho retrovisor:
— Estou costurando meu peixe.
Depois coloca o telefone e a caneta dentro da bolsa. A pequena
pedra cinzenta da festa de Mona ainda está lá, a pedra que o conclave
lhe deu. Quando Oyster estava nu. Com a estalactite cor-de-rosa de
pele enrugada perfurada pelo pequenino anel prateado.
Mona, na mesma noite, Amora, e os dois músculos das suas
costas dividindo-se nas duas partes firmes, cremosas e alvas de sua
bunda, e estou contando 1, contando 2, contando 3...
Na próxima cidadezinha, na próxima biblioteca, peço a Helen e
Mona que esperem no carro com Oyster enquanto entro e caço o livro
de poemas.
É uma biblioteca de cidade pequena no meio do dia. Há um
bibliotecário sentado atrás do balcão de recepção. Os jornais mais
recentes estão encadernados em grandes capas duras, para serem
lidos sobre uma mesa comprida. Gustave Brennan está no jornal de
hoje. No de ontem, um líder religioso maluco do Oriente Médio. Há
dois dias, um detento no corredor da morte, já em seu último
recurso.
Todos na agenda de Helen morreram nas datas em que seus
nomes estavam anotados.
Entre essas notícias, há reportagens sobre algo pior. Denni
D’Testro hoje. Três dias atrás, Samantha Evian. Há uma semana, Dot
Leine. Todas jovens, todas modelos, todas encontradas mortas sem
causa aparente. Antes disso foi Mimi Gonzalez, encontrada morta
pelo namorado, morta na cama sem uma marca, nada. Um caso sem
pistas, até a autópsia anunciada para hoje revelar sinais de relações
sexuais após a morte.
Nash.
Helen entra dizendo: ‘
— Estou com fome. Por que você está demorando tanto?
A lista de nomes está sobre a mesa ao meu lado. Perto da lista há
uma reportagem com a fotografia de Gustave Brennan. À minha
frente há outra reportagem, sobre o enterro de um molestador de
crianças condenado, cujo nome encontrei anotado na agenda de
Helen.
Ela dá uma olhada nisso tudo e conclui:
— Então agora você já sabe.
Senta-se na borda da mesa, com as coxas esticando a saia justa
sobre o colo, e acrescenta:
— Você não queria aprender a controlar seu poder? Bom, é assim
que a coisa funciona para mim.
Depois diz que o segredo é você se profissionalizar. Se você faz
algo só por dinheiro, é menos provável que faça de graça.
— Você acha que as prostitutas vivem querendo fazer sexo fora do
bordel? — pergunta ela. — Por que você acha que os empreiteiros
sempre moram em casas inacabadas? Ou que os médicos vivem mal
de saúde?
Acena para a porta da biblioteca e o estacionamento lá fora,
acrescentando:
— Só não matei Mona mais de cem vezes porque mato outra
pessoa todo dia. E ganho muito dinheiro para fazer isso.
— E a ideia da Mona? Por que você não pode controlar seu poder
simplesmente amando as pessoas a ponto de não querer matar
ninguém?
— Não se trata de amor e ódio. Trata-se de controle. Ninguém se
senta e lê um poema para matar o próprio filho. As pessoas só
querem que a criança adormeça. Só querem dominar. Por mais que
você ame alguém, sempre quer fazer as coisas do seu jeito.
O masoquista força o sádico a agir. A pessoa mais passiva é, na
realidade, uma agressora. Todos os dias, nossa simples sobrevivência
significa a morte de plantas e animais... e até de algumas pessoas.
— Goste você ou não, seu dinheiro compra abatedouros, fazendas
industrializadas e fábricas clandestinas — diz ela.
E digo que ela anda escutando demais as ideias do Oyster.
— O segredo é matar as pessoas deliberadamente. — Ela pega a
fotografia de Gustave Brennan no jornal e a examinado de perto. —
Você mata desconhecidos deliberadamente para não matar
acidentalmente as pessoas que ama.
Destruição construtiva.
— Sou uma empresária independente — diz ela.
Ela é uma assassina de aluguel internacional, que trabalha em
troca de diamantes enormes.
— Os governos fazem isso todo dia — diz ela.
E digo que os governos só fazem isso após anos de deliberação, e
segundo procedimentos estabelecidos. Só após muita reflexão é que
um criminoso é considerado perigoso demais para ser solto. Ou para
dar um exemplo. Ou por vingança. Está bem, o processo não é
perfeito. Mas ao menos não é arbitrário.
Helen esconde os olhos com a mão por um instante. Depois afasta
a mão e olha para mim, dizendo:
— Quem você acha que me chama para esses servicinhos?
É o Departamento de Estado americano que faz isso?
— Às vezes — responde ela. — Quase sempre são outros países,
qualquer país do mundo, mas não faço nada de graça.
E por isso é paga em joias?
— Eu odeio pechinchar por causa da taxa de câmbio. Você não?
Além disso, um animal morre a cada refeição que você come.
Oyster novamente. Vejo que minha missão será manter Helen
longe dele.
E digo que isso é diferente. Os seres humanos estão acima dos
animais, que foram colocados neste planeta para alimentar a
humanidade e servi-la. Os seres humanos são preciosos, inteligentes
e únicos. Deus nos deu os animais, que são propriedade nossa.
— É claro que você diria isso — diz Helen. — Você está do lado
vencedor.
Digo que esse negócio de destruição construtiva não é a resposta
que eu estava procurando.
— Desculpe, é a única que eu tenho. Vamos pegar o livro, resolver
logo isso e depois matar um faisão adorável para almoçarmos.
Na saída, pergunto ao bibliotecário onde está o exemplar do livro
de poemas. Mas o volume foi emprestado a alguém. Os detalhes
sobre o bibliotecário são: ele tem umas mechas em tom louro-cinza
no cabelo gomalinado, que formam um toldo firme sobre sua cabeça.
Uma espécie de viseira em tom louro-cinza. O sujeito está sentado
numa banqueta atrás de um monitor de computador e fede a fumaça
de cigarro. Usa um suéter de gola rulê com um crachá plastificado
que diz “Symon”.
Digo a ele que muitas vidas dependem de eu achar o tal livro.
Ele diz que isso é uma pena.
Digo que não, que na verdade só a vida dele depende disso.
O bibliotecário aperta um botão no teclado e fala que está
chamando a polícia.
— Espere — diz Helen, espalmando a mão no balcão, com os
dedos faiscantes carregados de esmeraldas, safiras e diamantes
negros. — Pode escolher, Symon.
O bibliotecário ergue o lábio superior até o nariz, de modo que os
dentes de cima aparecem. Pisca lentamente uma, duas vezes, e diz:
— Meu bem, pode ficar com suas bijuterias de travesti cafonas.
O sorriso no rosto de Helen se mantém fixo.
O sujeito revira os olhos e relaxa os músculos do rosto e das
mãos. Seu queixo baixa até o peito e ele tomba à frente sobre o
teclado. Depois rola para o lado e desliza até o chão.
Destruição construtiva.
Helen ergue aquela mão milionária e vira o monitor. Depois
exclama:
— Caceta!
Até morto no chão o sujeito parece adormecido. A gigantesca
cabeleira gomalinada amorteceu-lhe a queda.
Examinando o monitor, Helen diz:
— Ele trocou a tela. Preciso saber qual é a senha.
Isso não é problema. O Big Brother alimenta todos nós com a
mesma bosta. Meu palpite é que o sujeito tinha a mesma esperteza
que todo mundo acha que tem. Digo a ela para digitar “senha”.
Capítulo 25

Mona desenrola a meia do meu pé. As entranhas elásticas da


meia, as fibras, arrancam minhas feridas. Os flocos da crosta de
sangue caem no chão. O pé está tão inchado que ficou liso, com todas
as rugas esticadas. Meu pé é um balão manchado de vermelho e
amarelo. Mona estende uma toalha dobrada embaixo do pé e despeja
o álcool para esfregá-lo.
A dor é tão instantânea que não dá para saber se o álcool ferve ou
congela. Sentado na cama do motel, com a perna da calça enrolada e
Mona ajoelhada no carpete aos meus pés, agarro dois punhados de
colcha e trinco os dentes. Minhas costas se arqueiam e todos os meus
músculos se tensionam por longos segundos. A colcha está fria,
ensopada de suor.
Bolhas de algo mole e amarelo, verdadeiros bolsões, cobrem
quase toda a sola do meu pé. Sob a camada de pele morta, dá para
ver uma forma sólida e escura dentro de cada bolha.
— Você costuma andar sobre o quê? — diz Mona, aquecendo uma
pinça com o isqueiro plástico de Oyster.
Pergunto qual é o esquema dos anúncios que Oyster publica nos
jornais. Ele trabalha para algum escritório de advocacia? Os tais
surtos de fungo epidérmico e envenenamento alimentar são reais?
O álcool escorre do meu pé, num tom rosado devido ao sangue
dissolvido, e- pinga sobre a toalha dobrada do motel. Mona coloca a
pinça na toalha e aquece uma agulha com o isqueiro de Oyster.
Depois prende o cabelo com um elástico, formando um grosso rabo-
de-cavalo, e explica:
— O Oyster chama isso de “antipropaganda”. Às vezes as
empresas mais ricas pagam para que ele cancele os anúncios. Ele diz
que o valor que elas pagam reflete o provável fundo de verdade que
os anúncios contêm.
Meu pé já não está cabendo dentro do sapato. No carro, ainda
hoje, perguntei se Mona podia dar uma olhada na coisa. Helen e
Oyster foram comprar mais maquiagem. E vão parar numa grande
loja de livros usados aqui perto a fim de desarmar mais três
exemplares do livro de poemas. O Lar dos Livros.
Digo que o que Oyster está fazendo é chantagem. É difamação.
Já é quase meia-noite. Onde Helen e Oyster realmente estão, não
quero saber.
— Ele não fala que é advogado — diz Mona. — Não fala que já
existe um processo. Só publica um anúncio. As outras pessoas
preenchem as lacunas. O Oyster diz que só planta a semente da
dúvida na cabeça delas. E diz que isso é justo, pois os anúncios
prometem algo que vai deixar as pessoas felizes.
Como ela está ajoelhada, dá para ver as três estrelas negras
tatuadas acima dá sua clavícula. Dá para ver o interior da blusa, além
do tapete de correntes e pingentes. Ela está sem sutiã, e estou
contando 1, contando 2, contando 3...
— Outros membros do nosso conclave também fazem isso, mas a
ideia foi do Oyster . — Ele diz que o plano é minar a ilusão de
segurança e conforto na vida das pessoas.
Com a agulha, ela perfura uma bolha amarela e algo escorre para
fora. É um pedacinho de plástico marrom, coberto de gosma
fedorenta e de sangue, que cai sobre a toalha. Mona revira o troço
com a agulha e a gosma amarela encharca a toalha. Ela ergue o
pedacinho de plástico com a pinça e pergunta:
— Que diabo é isso?
É o campanário de uma igreja.
Digo que não sei.
Mona está de boca aberta, com a língua para fora. Sua goela
desliza para cima e para baixo dentro do pescoço, engasgando. Ela
abana a mão diante do nariz e pisca rapidamente. A gosma amarela
fede horrivelmente. Ela limpa a agulha na toalha. Com uma das
mãos, segura os dedos do meu pé, e com outra perfura outra bolha. A
gosma amarela sai num jorro curto e sobre a toalha vê-se metade da
chaminé de uma fábrica.
Ela ergue a peça com a pinça e limpa-a na toalha. Com o rosto
enrugado em torno do nariz, examina-a de perto:
— Quer me contar o que anda acontecendo?
Perfura outra bolha, que expele a abóbada de uma mesquita
também coberta de sangue e gosma. E usando a pinça, retira do meu
pé um diminuto prato de jantar pintado à mão com uma borda de
rosas vermelhas.
Fora do quarto do motel, uma sirene de incêndio passa uivando
pela rua.
De outra bolha, escorre a fachada de um prédio bancário em
estilo georgiano.
A cúpula de uma escola primária explode da bolha seguinte.
Suando, respirando fundo, agarrando meus punhados de colcha,
macios e encharcados, trinco os dentes. Erguendo o olhar para o teto,
digo que alguém anda matando modelos.
Extraindo um arcobotante ensanguentado, Mona pergunta: —
Pisando neles?
E digo a ela:
— Modelos de moda. *
A agulha cavuca a sola do meu pé e pesca uma antena de
televisão. A pinça extrai um gárgula. Seguem-se telhas, cumeeiras e
calhas diminutas.
Mona ergue a borda da toalha fedorenta e dobra-a para usar o
lado limpo. Depois despeja mais álcool no meu pé.
Outro carro de bombeiros passa uivando pelo motel. Suas luzes
vermelhas e azuis refulgem nas cortinas.
Meu pé arde tanto que nem consigo respirar direito.
Eu digo:
— Precisamos... eu preciso... nós precisamos...
Digo que precisamos voltar para casa assim que for possível. Se
meu palpite estiver certo, preciso deter o sujeito que está usando o
poema de poda.
Com a pinça, Mona extrai uma persiana de plástico azul e coloca-a
na toalha. Depois retira um fiapo de cortina de quarto. São as
cortinas amarelas de um quarto de criança. Também escava um
fragmento de cerca, e tapando o nariz com a mão despeja mais álcool
até o líquido começar a escorrer do meu pé.
Outro carro de bombeiros passa uivando e ela pergunta: — Você
se incomoda que eu ligue a tevê para ver o que está acontecendo?
Estico as mandíbulas em direção ao teto:
— Não podemos... não podemos...
Sozinho ali com ela, digo que não podemos confiar em Helen. Ela
só quer o grimoire para poder controlar o mundo todo. Digo que a
cura, quando se tem poder demais, não é ter mais poder. Não
podemos deixar Helen pôr as mãos no Livro das Sombras original.
Tão lentamente que não consigo enxergar o movimento, Mona
extrai uma coluna jônica de um buraco ensanguentado embaixo do
meu dedão. Devagar feito o ponteiro das horas de um relógio. Não
lembro se a coluna é de um museu, uma igreja ou uma faculdade.
Tantos lares desfeitos e instituições destruídas!
Ela mais parece uma arqueóloga do que uma cirurgia.
— Que engraçado. — Ela depois alinha a pilha com os outros
fragmentos na toalha e franze a testa ao debruçar-se novamente
sobre minha sola com a pinça. — Helen me disse a mesma coisa
sobre você. Disse que você só quer destruir o grimoire.
Aquilo deve ser destruído. Ninguém consegue lidar com esse tipo
de poder.
Na televisão, vê-se um velho prédio de tijolos de três andares,
com labaredas saindo de todas as janelas. Os bombeiros apontam
mangueiras e lançam delicados arcos brancos de água. Um rapaz
com um microfone entra em quadro. Atrás dele, Helen e Oyster estão
vendo o incêndio, com as cabeças encostadas uma na outra. Oyster
segura uma sacola de compras. Helen segura a outra mão dele.
— Eu gostaria mesmo é de ter o dom da empatia. Só precisaria
tocar nas pessoas e elas ficariam curadas — diz Mona, erguendo o
frasco de álcool. Verificando quanto ainda sobrou, lê o rótulo. —
Helen me disse que a gente poderia transformar o mundo num
paraíso.
Ergo metade do corpo na cama, apoiando-me nos cotovelos, e
digo que Helen está matando pessoas em troca de tiaras de
diamantes. É esse tipo de salvadora que ela é.
Mona limpa a pinça e a agulha na toalha, deixando mais manchas
amarelas e vermelhas no pano. Cheira o frasco de álcool e diz:
— Helen acha que você só quer explorar o livro numa reportagem.
Diz que depois que todos os feitiços forem destruídos, inclusive o
feitiço de poda, você vai sair se gabando que é um herói.
Digo que as armas nucleares já são ruins o suficiente. Armas
químicas. Digo que o fato de certas pessoas terem poderes mágicos
não tornará o mundo um lugar melhor.
Digo a Mona que talvez venha a precisar da ajuda dela.
Digo que talvez tenhamos de matar Helen.
Mona abana a cabeça sobre as ruínas ensanguentadas na toalha
do motel:
— Portanto, sua resposta à matança demasiada é mais matança?
Só Helen, digo. E talvez Nash, se minha teoria sobre as modelos
mortas estiver certa. Depois de matar os dois, poderemos voltar à
normalidade.
Na televisão, o tal rapaz do microfone está dizendo que um
incêndio paralisou a maior parte do Centro da cidade. Diz que a
estrutura está totalmente envolvida e que se trata 173
de uma das instituições prediletas da cidade.
— Oyster não gosta da sua ideia de normalidade — comenta
Mona.
A instituição em chamas é o Lar dos Livros. E, lá atrás, Helen e
Oyster sumiram.
— Você já se perguntou por que nós torcemos para que o detetive
vença nas histórias policiais? — pergunta Mona.
Ela diz que não é só por vingança, ou para deter a matança. Talvez
nós queiramos, na verdade, ver o assassino redimido. O detetive é o
salvador do assassino. Imagine se Jesus perseguisse você, tentando te
pegar para salvar sua alma. Assim não seria apenas um Deus
paciente e apático, mas um perdigueiro persistente e agressivo. Nós
queremos que o criminoso confesse durante o julgamento. Queremos
que ele seja denunciado na cena da sala de estar, cercado por seus
pares. O detetive é um pastor, e queremos o criminoso de volta ao
rebanho, devolvido a nós. Nós o amamos. Sentimos falta dele.
Queremos abraçá-lo.
— Talvez seja por isso que tantas mulheres se casam com
assassinos na prisão. Para ajudar a curá-los — diz ela.
Eu lhe digo que ninguém sente minha falta.
Mona abana a cabeça:
— Você e Helen são muito parecidos com meus pais, sabia?
Mona. Amora. Minha filha.
Deitando de novo na cama, pergunto:
— Como assim?
Puxando um umbral de porta para fora do meu pé, Mona diz:
— Hoje de manhã, Helen me contou que talvez tivesse de matar
você.
Meu bipe toca. É um número que não conheço. O visor diz que é
muito importante.
Mona escava um vitral de um buraco ensanguentado no meu pé.
Ergue-o no ar, de modo que a luz do teto atravessa os pedacinhos
coloridos, e olha para a janela diminuta:
— Estou mais preocupada com Oyster. Ele nem sempre diz a
verdade.
E nesse instante a porta do quarto de motel é escancarada
bruscamente. Há sirenes lá fora. Clarões vermelhos e azuis pulsam
nas cortinas da janela. Nesse instante, Helen e Oyster cambaleiam
porta adentro, rindo e ofegando. Oyster carrega uma valise de
cosméticos. Helen segura os sapatos de salto alto numa das mãos. Os
dois recendem a uísque escocês e fumaça.
Capítulo 26

E só imaginar uma peste que você pegue pelos ouvidos.


Oyster e suas babaquices apócrifas, bioinvasivas, ecobabacas, de
abraçar árvores. O vírus das suas informações. O que antigamente
era uma bela selva, verdejante e profunda, agora é uma tragédia em
que a hera inglesa sufoca todo o resto até a morte. As adoráveis
revoadas de estorninhos, com seu reluzente tom negro e aquele
chilreio sinistro, agora roubam os ninhos de cem pássaros nativos
diferentes.
É só imaginar uma ideia que ocupe sua mente como um exército
ocupa uma cidade.
Do lado de fora do carro, agora, está a América.

Ah, belos céus cheios de estorninhos,


Sobre as ondas cor de âmbar da tanásia.
Ah, montanhas roxas de salgueirinha,
Acima da planície de peste bubônica.

América.
O cerco de ideias. Toda a luta pelo poder da vida.
Depois de se escutar Oyster, um copo de leite não é mais uma
bebida agradável com biscoitos de chocolate. É uma vaca forçada a
permanecer grávida e entupida de hormônios. É o inevitável bezerro
que vive poucos meses sofridos, enfiado num pacote de vitela. Uma
costeleta de porco significa um leitão, esfaqueado e sangrando, com
uma corda em torno da pata, sendo pendurado para morrer urrando
enquanto é seccionado em costeletas, assados e banha. Até um ovo
cozido é uma galinha com os pés atrofiados por viver numa gaiola
com dez centímetros de largura, tão estreita que ela não consegue
erguer as asas, tão enlouquecedora que seu bico é cortado para que
ela não ataque as vizinhas de cadeia. Com as penas gastas pelo atrito
com as grades e o bico cortado, a galinha põe ovo após ovo até seus
ossos perderem tanto cálcio que se estilhaçam no abatedouro.
É essa a galinha servida na sopa de frango com macarrão, e é essa
a galinha chocadeira. Galinhas tão machucadas e feridas que
precisam ser retalhadas e cozidas, porque ninguém jamais as
compraria num açougue. É essa a galinha servida nas saladas. O
frango dos nuggets.
Oyster só fala nisso. Ele é uma verdadeira praga em termos de
informação. Nesses momentos, ligo o rádio para ouvir música
country. Ou jogos de basquete. Qualquer coisa, desde que seja
constante, em volume alto, e permita que eu finja que meu sanduíche
no café da manhã é apenas um sanduíche de café da manhã. Que um
animal é apenas um animal. Que um ovo é apenas um ovo. Que um
queijo não é uma vitela minúscula sofrendo. E que comer essas coisas
é um direito meu, como ser humano.
O Big Brother está cantando e dançando para que eu não comece
a pensar demais. E para meu próprio bem.
No jornal local de hoje, há outra modelo morta. E um anúncio que
diz:

Atenção clientes da Fazenda de Filhotes Falling Star

“Se seu novo cachorro passar raiva infecciosa para qualquer criança do
seu lar,
você poderá participar de uma ação indenizatória coletiva.”

Passando pelo que antigamente era uma bela paisagem natural,


comendo o que antigamente era um sanduíche de ovo, pergunto por
que Oyster e Helen simplesmente não compraram os três livros que
estavam procurando no Lar dos Livros. Ou roubaram as páginas e
largaram lá o resto dos livros. Digo que só estamos fazendo esta
viagem para que as pessoas não comecem a queimar livros.
— Relaxe — diz Helen enquanto dirige. — A loja tinha três
exemplares do livro. O problema é que ninguém sabia onde eles
estavam.
— Os três estavam em prateleiras erradas — acrescenta Oyster,
separando as mechas vermelhas e pretas do cabelo de Mona, que
adormeceu com a cabeça no colo dele. — Ela só adormece assim.
Dormiria para sempre se eu continuasse a fazer isto.
Seja por que razão for, minha esposa e filha me vêm à mente.
Por causa das sirenes e dos carros de bombeiros, ficamos
acordados a noite toda.
— Aquele tal de Lar dos Livros parecia um ninho de ratos — diz
Helen.
Oyster está trançando os pedacinhos quebrados de civilização no
cabelo de Mona. Os artefatos tirados do meu pé: as colunas,
escadarias e para-raios quebrados. Desmontou o apanhador de
sonhos navajo dela, e está trançando as moedas do I Ching, as contas
de vidro e os cordões na cabeleira. As penas em tom azul e cor-de-
rosa, típicos da Páscoa.
— Passamos a noite toda procurando — continua Helen. —
Conferimos todos os livros na seção infantil. Procuramos na seção de
ciência. Conferimos a seção de religião, de filosofia, de poesia, e de
folclore. Conferimos a seção de literatura étnica, e toda a seção de
ficção.
— Os livros constavam da lista computadorizada, mas estavam
perdidos dentro da loja — diz Oyster.
E por isso eles incendiaram a loja toda. Por causa de três livros.
Queimaram dezenas de milhares de livros para destruir apenas três.
— Achamos que era a única alternativa realista — explica Helen.
— Você sabe o que aqueles livros podiam causar.

Seja qual for a razão, Sodoma e Gomorra me vêm à mente. Deus


teria poupado as cidades se houvesse ao menos uma pessoa boa
nelas.
Aqui é exatamente o contrário. Milhares de mortos para que
poucos sejam destruídos.
É só imaginar uma nova Idade das Trevas. Imaginar os livros
ardendo. As fitas, os filmes, os arquivos, os rádios e os televisores,
todos entrando na mesma fogueira.
Não sei se estamos impedindo ou criando esse mundo.
Na televisão, disseram que dois seguranças foram encontrados
mortos depois do incêndio.
— Na realidade, eles morreram muito antes do incêndio — diz
Helen. — Precisávamos de algum tempo para espalhar a gasolina.
Estamos matando gente para salvar vidas?
Estamos queimando livros para salvar livros?
Pergunto no que esta viagem está se transformando.
— No que sempre foi. — Oyster passa uma mecha por uma
moeda de I Ching. — Uma grande luta pelo poder. Você quer manter
o mundo como ele é hoje, papai, só que com você no comando.
Helen, diz ele, também quer o mesmo mundo, só que com ela no
comando. Toda geração quer ser a última. Toda geração odeia as
novas tendências musicais que não consegue compreender. Nós
detestamos renunciar às rédeas da nossa cultura. Detestamos
encontrar nossas canções tocando em elevadores. Ver a balada da
nossa revolução transformada em música de fundo num comercial de
televisão. Detestamos descobrir que as roupas e os penteados da
nossa geração viraram retro.
— Já eu sou a favor de apagar tudo, eliminar os livros e as pessoas
e recomeçar do zero. Sou a favor de ninguém estar no comando.
Mas com ele e Mona como os novos Adão e Eva?
— Não — diz ele, alisando o cabelo na cabeça adormecida de
Mona. — Nós também teríamos de partir.
Pergunto se ele odeia as pessoas tanto assim, a ponto de matar a
mulher que ama. Pergunto por que ele simplesmente não se mata.
— Não — repete Oyster. — Simplesmente amo tudo por igual. As
plantas, os animais e os seres humanos. Simplesmente não acredito
na grande mentira de podermos continuar a dar frutos e nos
multiplicar sem nos destruir.
Digo que ele é um traidor da própria espécie.
— Sou a porra de um patriota. — Oyster lança um olhar para a
janela. — Esse poema de poda é uma bênção. Por que você acha que
isso foi criado, para começar? Vai salvar milhões de pessoas da morte
lenta e horrível a que estamos destinados devido a doença, fome,
seca, radiação solar, guerra. Vai nos salvar de todos os lugares a que
estamos destinados.
Portanto, ele está disposto a se matar e a matar Mona? Pergunto
pelos pais dele. Vai matar os dois também? E todas as criancinhas
que viveram pouco, ou não viveram? E todas as pessoas boas e
trabalhadoras que vivem segundo os preceitos verdes e reciclam as
coisas? Os vegetarianos? Não são inocentes na visão dele?
— Não se trata de culpa ou inocência — explica ele. — Os
dinossauros não eram nem bons nem maus moralmente, mas estão
todos mortos.
Esse tipo de raciocínio faz dele um Adolf Hitler. Um Joseph
Stalin. Um matador compulsivo. Um assassino de massas.
Oyster traça um vitral no cabelo de Mona:
— Quero ser aquilo que matou os dinossauros.
Digo que foi um ato divino que matou os dinossauros. Que não
vou dar mais um passo com um assassino de massas.
— E a doutora Sara? Mamãe, me ajuda nessa. Quantos outros o
papai aqui já matou? — acusa Oyster.
— Estou costurando meu peixe — diz Helen.
Ao ouvir o som do isqueiro de plástico de Oyster, eu me viro e
pergunto se ele precisa mesmo fumar. Digo que estou tentando
comer.
Mas Oyster pegou o livro de Mona sobre artes primitivas,
artesanato e passatempos tribais tradicionais, e está segurando o
volume acima do isqueiro, incendiando as páginas com a pequena
chama. Abrindo um pouco a janela, ele enfia o livro para fora,
deixando que as labareda^ explodam no vento antes de deixá-lo cair.
O capim-cevadinha adora fogo.
— Os livros podem ser maléficos. Amora precisa inventar seu
próprio tipo de espiritualidade.
O telefone de Helen toca, tal como o de Oyster.
Mona suspira e estica os braços, ainda de olhos fechados. Oyster
continua remexendo no cabelo dela enquanto o telefone toca. Mona
esfrega a cabeça no colo de Oyster e comenta:
— Talvez o grimoire tenha um feitiço para deter a explosão
populacional.
Helen abre a agenda na data de hoje e anota um nome. Ao
telefone, diz:
— Não se dê ao trabalho de exorcizar nada. Podemos colocar a
casa de volta no mercado imediatamente.
— Nós precisamos de uma espécie de “feitiço castrador ”
universal — continua Mona.
Pergunto se ninguém ali tem medo de ir para o inferno.
E Oyster tira o telefone do saco de feitiços.
O telefone toca sem parar.
Helen encosta seu telefone no peito:
— Não pensem que o governo já não está trabalhando em vários
modos bacanas e infecciosos de controlar a explosão populacional.
— Para salvar o mundo, Jesus Cristo sofreu por cerca de trinta e
seis horas na cruz — completa Oyster, enquanto o telefona toca sem
parar. — Estou disposto a passar a eternidade sofrendo no inferno
pela mesma causa.
Seu telefone toca sem parar.
Ao telefone, Helen diz:
— É mesmo? Seu quarto fede a enxofre?
— Você decide quem é o melhor salvador — conclui Oyster.
Depois abre o aparelho e diz ao telefone: — Dunbar, Dunaway e
Doogan, Advogados...
Capítulo 27

Basta imaginar o que teria acontecido se o incêndio de Chicago, em


1871, houvesse continuado por seis meses antes que alguém notasse.
Imaginar que a enchente de Johnstown, em 1889, ou o terremoto de San
Francisco, em 1906, houvesse durado seis meses, um ano, dois anos, antes
que alguém houvesse lhe dado atenção.
Construindo com madeira, construindo sobre falhas geológicas,
construindo em baixadas à margem de rios, cada era cria seus próprios
“desastres” naturais.
Basta imaginar uma enchente de verde-escuro no Centro de qualquer
cidade grande, com as torres de escritórios e os condomínios sendo
submergidos, centímetro por centímetro.
Agora estou escrevendo aqui em Seattle. Com um dia, uma semana, um
mês de atraso. Sabe-se lá quanto tempo depois do fato. O Sarja e eu
continuamos a caça às bruxas.
Hedera helixseattle é o nome que os botânicos deram a esta nova
variedade de hera inglesa. Há algumas semanas, talvez os canteiros em
torno da Olympic Professional Plaza estivessem precisando ser aparados. A
hera estava cobrindo os amores-perfeitos. Algumas trepadeiras já haviam
se enraizado na lateral da fachada de tijolos e estavam começando a subir.
Ninguém notou. Andava chovendo muito.
Ninguém notou, até que um dia os moradores do Park Sênior Living
Center encontraram as portas do saguão obstruídas pela hera. Nesse
mesmo dia, a parede sul do Teatro Fremont, feita de tijolos e concreto, com
quase um metro de espessura, tombou sobre uma casa cheia. No mesmo dia,
a parte subterrânea da rodoviária desabou.
Ninguém sabe ao certo quando a Hedera helixseattle se enraizou pela
primeira vez, mas dá para fazer uma boa estimativa.
Examinando as edições atrasadas do Seattle Times, na seção de
entretenimento de 5 de maio, vê-se um anúncio, com três colunas de
largura, que diz:

Atenção clientes do Palácio do Sushi Oráculo

“Se você tiver sofrido uma severa coceira retal causada por parasitas
intestinais,
pode participar de uma ação indenizatória coletiva. ”

E segue um número de telefone.


Aqui com o Sarja, ligo para o número.
Um homem atende:
— Denton, Daimler e Dick, Advogados.
— Oyster — pergunto. — Onde você está, seu puto?
A linha fica muda.
Agora, escrevendo isto aqui em Seattle, num restaurante perto das
barricadas do Departamento de Obras Públicas, uma garçonete nos diz:
— Eles já não podem matar a hera.
Ela nos serve mais café, olha pela janela para as muralhas de verde
estriadas com grossas trepadeiras cinzentas, e continua:
— É a única coisa que ainda segura aquela parte da cidade em pé.
Dentro da rede de trepadeiras e folhas, os tijolos estão se fragmentando
e caindo. Rachaduras estilhaçam o concreto. As janelas são comprimidas até
o vidro se quebrar. As portas já não abrem, pois os umbrais estão
empenados. Pássaros voam em torno dos íngremes penhascos verdes,
entrando e saindo, comendo as sementes de hera e cagando-as por toda
parte. A um quarteirão de distância, as ruas tornaram-se ravinas
verdejantes. O asfalto e as calçadas estão soterrados de verde.
“A Ameaça Verde”, dizem os jornais. O equivalente de abelhas
assassinas em termos de hera. O Inferno da Hera.
Silencioso, impossível de deter. O fim da civilização em câmera lenta.
A garçonete diz que as raízes da hera se espalham toda vez que as
equipes municipais aparam as trepadeiras, queimam-nas com lança-
chamas, borrifam-nas com venenos ou até trazem rebanhos de cabras para
comê-las. As raízes já derrubaram túneis. Cortaram os cabos e canos
subterrâneos.
O Sarja disca para o número do anúncio de sushi inúmeras vezes, mas a
linha permanece muda.
A garçonete olha para as trepadeiras que já atravessam a rua. Daqui a
uma semana ela estará desempregada.
— A Guarda Nacional prometeu que ia confinar a planta — suspira
ela. — Mas ouvi dizer que já tem hera em Portland e em San Francisco.
Decididamente, estamos perdendo essa.
Capítulo 28

O sujeito abre a porta da frente e me vê com Helen de pé na


varanda. Estou carregando a valise de maquiagem, parado meio
passo atrás dela, que aponta a longa unha cor-de-rosa do indicador e
exclama:
— Ah, meu Deus!
Ela está com a agenda enfiada embaixo do braço. Dá um passo
para trás e diz:
— Meu marido. Ele gostaria de lhe dar seu testemunho sobre a
promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Helen está usando um conjunto amarelo, mas não o amarelo do
tipo botão-de-ouro, e sim o amarelo dos pavé citrons de Carl Fabergé.
O sujeito segura uma garrafa de cerveja. Está usando grossas
meias cinzentas, sem sapatos. Seu roupão está aberto na frente, por
cima de uma camiseta branca e de cuecas estampadas com pequenos
carros de corrida. Com uma das mãos, ele enfia a cerveja na boca. Sua
cabeça se inclina para trás e bolhas se formam dentro da garrafa. Os
pequenos carros de corrida têm pneus ovais inclinados para a frente.
O sujeito arrota e pergunta: — Vocês estão falando sério?
Seu cabelo preto pende sobre uma testa enrugada no estilo
Frankenstein. Ele tem olhos tristes e com bolsas sob as pálpebras,
feito um perdigueiro.
Estendo a mão para cumprimentá-lo:
— Senhor Sierra? Estamos aqui para compartilhar a alegria do
amor de Deus.
O cara dos carros de corrida franze a testa e estreita os olhos: —
Como vocês descobriram meu nome? A Bonnie mandou vocês virem
conversar comigo?
Helen se inclina para o lado e lança um olhar em direção à sala.
Abre a bolsa, tira um par de luvas brancas e começa a enfiar os dedos
dentro delas. Abotoa um pequeno botão no punho de cada luva e
pergunta: — Podemos entrar?
Era para ser mais fácil do que está sendo.
Plano B: se encontrarmos o homem em casa, passamos para o
Plano B.
O sujeito dos carros de corrida põe a garrafa de cerveja na boca e
suas bochechas mal barbeadas sugam o gargalo. Sua cabeça se
inclina para trás e o resto da cerveja desaparece borbulhando. Ele dá
um passo para o lado e diz: -Bom, sentem-se. — Depois olha para a
garrafa vazia. — Querem uma cerveja?
Nós entramos e ele vai até a cozinha. Ouve-se o ruído de uma
tampa de garrafa sendo aberta.
Em toda a sala há apenas uma espreguiçadeira e um pequeno
televisor portátil em cima de um caixote de leite. Pelas portas
corrediças de vidro vê-se um pátio. Alinhados ao longo da borda do
espaço aberto veem-se vasos de florista verdes, transbordando com a
água da chuva. As flores estão enegrecidas, podres e curvadas, caídas
para fora dos vasos. Rosas marrons apodrecidas, espetadas em
varetas negras cobertas de penugem mofada. Uma larga fita de cetim
negro ainda está amarrada em torno de um dos arranjos.
No felpudo carpete da sala veem-se as linhas fantasmagóricas
deixadas por um sofá, bem como as marcas de uma cristaleira e as
pequenas impressões deixadas pelos pés de cadeiras e mesas. Há
uma grande marca plana onde o carpete foi esmagado por igual.
Aquilo me parece tão familiar!
O sujeito dos carros de corrida acena para que eu me sente na
espreguiçadeira, bebe um gole de cerveja e diz:
— Sente aí e vamos conversar sobre a verdadeira cara de Deus.
Aquela grande marca plana no carpete foi feita por um cercado
infantil.
Pergunto se minha mulher pode usar o banheiro.
Ele inclina a cabeça, olhando para Helen. Com a mão livre, coça a
nuca e com a outra gesticula com a garrafa:
— Claro. Fica no final do corredor.
Helen olha para a cerveja derramada no carpete e agradece.
Depois, pega a agenda enfiada sob um de seus braços e entrega-a a
mim: — Caso você precise, isso é uma Bíblia.
E aquela agenda que estava cheia de alvos políticos e transações
imobiliárias. Que maravilha!
A agenda ainda está impregnada pelo calor do sovaco dela.
Helen desaparece corredor adentro. Ouve-se o som do ventilador
de um banheiro. Uma porta se fecha em algum lugar.
— Sente-se — pede o cara dos carros de corrida.
E eu me sento.
O sujeito posta-se de pé perto de mim, tão perto que fico com
medo de abrir a agenda. Ele poderá ver que não se trata de uma
Bíblia de verdade. Sinto fedor de cerveja e suor. Os pequenos carros
de corrida estão ao nível dos meus olhos. Os pneus ovais são
inclinados para parecer que estão a toda velocidade. O sujeito bebe
outro gole:
— Fale de Deus para mim.
A espreguiçadeira tem o mesmo fedor que ele. E forrada de
veludo dourado, com um tom mais escuro nos braços por causa da
sujeira. E quente. E digo que Deus é um moralista nobre, linha-dura,
que se recusa a aceitar qualquer coisa que não seja uma conduta reta
e virtuosa. E um bastião dos padrões elevados, uma lâmpada que
lança sua luz sobre os males deste mundo. Deus estará sempre em
nossos corações e almas, pois Sua própria alma é tão forte e tão in...
— Que babaquice! — o sujeito se vira e olha para as portas do
pátio. Parte do seu rosto aparece refletido no vidro: apenas os olhos,
com o escuro queixo mal barbeado perdido nas sombras.
Com uma voz de pregador radiofônico, digo que Deus é a Fita
métrica moral que milhões de pessoas devem usar para medir suas
próprias vidas. Ele é a espada flamejante, enviada para expulsar os
perversos do Templo de...
— Que babaquice! — grita o sujeito para seu próprio reflexo na
porta de vidro. Respingos de cerveja escorrem pelo seu rosto
refletido.
Helen está parada no umbral do corredor, com uma das mãos na
boca, mordiscando as juntas dos dedos. Ela olha para mim e dá de
ombros. Depois desaparece pelo corredor novamente.
Da espreguiçadeira de veludo dourado, digo que Deus é um Anjo
de Poder e Impacto sem paralelo, uma consciência para o mundo em
torno dele, um mundo de pecado e intenções cruéis, um mundo de
ocul...
— Que babaquice! — repete o sujeito, quase sussurrando. Seu
bafo enevoou o vidro, apagando o reflexo. Ele se vira, olha para mim,
apontando com a garrafa de cerveja. — Feia aí nessa sua Bíblia
alguma coisa que conserte as coisas.
Reabro a agenda de Helen, encadernada em vermelho, e espio lá
dentro.
— Diga como posso provar para a polícia que não matei ninguém
— pede o sujeito.
Na agenda consta o nome de Renny O’Toole e a data de 2 de
junho. Seja ele quem for, está morto. No dia 10 de setembro, vê-se o
nome de Samara Umpirsi em 17 de agosto,Helen fechou negócio com
uma casa em Gardner Hill Road. Além disso, matou o tirano que era
rei da República de Tongle.
— Leia! — grita o cara dos carros de corrida. A cerveja cobre de
espuma os dedos da sua mão e pinga no carpete. -Leia para mim a
parte que diz que posso perder tudo em uma noite, e que as pessoas
vão dizer que a culpa foi minha.
Espio no livro, que só tem mais nomes de geme morta.
— Leia — insiste o sujeito, bebendo cerveja. — Leia a parte que
diz que uma mulher pode acusar o marido de ter matado o próprio
filho e que rodo mundo vai acreditar nela.
Na parte inicial do livro, a escrita é desbotada e difícil de ler. As
páginas parecem duras e manchadas. Antes disso, alguém começou a
arrancar as páginas mais antigas.
— Eu pedi a Deus — diz o sujeito, sacudindo a garrafa em minha
direção, — Pedi que tele me desse uma família. Eu ia à igreja.
Digo que talvez no começo Deus não atacasse e repreendesse
rodos os que rezavam. Digo que talvez isso só renha acontecido após
anos e anos de orações repetidas sobre gravidezes indesejadas,
divórcios e brigas familiares. Talvez tenha sido porque a plateia de
Deus cresceu e havia mais gente fazendo exigências. Talvez tenha
sido por causa do aumento dos elogios que Ele recebia. Talvez o
poder corrompa, mas Ele nem sempre foi um escroto.
E o cara dos carros de corrida diz:
— Escure, vou ao tribunal daqui a dois dias decidir se vou ser
acusado de assassinato. Quero que você me diga como Deus vai me
salvar.
Com um hálito que é cerveja pura, ainda acrescenta:
— Diga aí.
Mona preferiria que eu contasse a verdade. Para salvar o sujeito.
Para salvar Helen e me salvar. Para nos unir novamente à
humanidade. Talvez o sujeito e sua esposa se unissem novamente,
mas o poema seria divulgado. Milhões morreriam. O resto viveria
naquele mundo de silêncio, ouvindo apenas o que achasse seguro.
Tapando os ouvidos e queimando livros, filmes, músicas.
Em algum lugar, uma descarga é dada. Um ventilador de banheiro
é desligado. Uma porta se abre.
O sujeito põe a cerveja na boca e o líquido borbulha dentro da
garrafa.
Helen aparece no umbral do corredor.
Meu pé dói e pergunto se ele já pensou em arranjar um
passatempo.
Algo que ele possa fazer na prisão.
Destruição construtiva, tenho certeza de que Helen aprovaria o
sacrifício. Condenar um homem inocente para que milhões não
morram.
Um brinde a todo animal de laboratório que morre para salvar
uma dúzia de pacientes cancerosos.
E o cara dos carros de corrida diz:
— Acho que é melhor vocês irem embora.
Andando de volta para o carro, entrego a Helen a agenda:
— Aqui está sua Bíblia.
Meu bipe toca e é um número que não conheço.
As luvas brancas de Helen estão enegrecidas de poeira. Ela diz
que rasgou a página da cantiga de poda e jogou-a pela janela do
quarto da criança. Está chovendo. O papel vai apodrecer.
Digo que isso não basta. Algum garoto pode achar a folha. O
simples fato de a página ter sido rasgada já fará alguém querer juntar
os pedaços. Algum detetive investigando a morte de uma criança,
talvez.
E Helen comenta: — O banheiro parecia um pesadelo.
Damos a volta ao quarteirão e estacionamos. Mona está
rabiscando no banco traseiro. Oyster está ao telefone. Helen aguarda
enquanto me abaixo e volto à casa. Vou me esgueirando pelos cantos,
com o gramado molhado prendendo meus sapatos, até chegar
embaixo da janela que Helen diz ser a do quarto das crianças. A
janela ainda está aberta, com um pedaço das cortinas caída para fora
sobre o peitoril. Cortinas cor de rosa.
Os pedacinhos rasgados da página estão espalhados pela lama e
começo a apanhá-los.
Por trás das cortinas, no quarto vazio, ouço uma porta se abrir.
Um vulto se aproxima, vindo do corredor, e me agacho na lama sob a
janela. A mão de um homem pousa no peitoril, de modo que me
achato de encontro à casa. Num ponto acima de mim que não
consigo enxergar, um homem começa a chorar.
Começa a chover mais forte.
O homem fica parado junto à janela, inclinado com ambas as
mãos sobre o peitoril. Soluça com mais força. Dá até para sentir o
bafo de cerveja.
Não posso correr. Não posso me levantar. Com as mãos tapando o
nariz e a boca. vou me esgueirando lentamente, bem junto aos
alicerces da casa. E com a rapidez de um calafrio, respirando por
entre os dedos, também começo a chorar. Com soluços que mais
parecem de vômito. Sinto câimbras na barriga. Com os dentes
mordendo as palmas, sinto o catarro respingar nas minhas mãos.
O homem dá uma fungada forre e borbulhante. Está chovendo
mais e a água encharca meus sapatos por entre os cordões.
Com os pedaços rasgados do poema nas mãos, detenho o poder
de vida e morte. Mas não posso fazer coisa alguma. Ainda não.
E talvez a geme não vá para o inferno pelas coisas que faz. Talvez
a gente vá para o inferno pelas coisas que não faz.
Com os sapatos cheios de água fria, meu pé para de doer. Com a
mão escorregadia de catarro e lágrimas, desligo meu bipe.
Quando encontrarmos o grimoire, se houver um meio de
ressuscitar os mortos, talvez nem queimemos a coisa. Pelo menos no
começo.
Capítulo 29

O relatório policial não diz qual era a temperatura da minha


mulher, Gina, quando acordei naquela manhã. Não diz que o corpo
dela parecia macio e quente sob as cobertas. Nem que quando me
virei ao seu lado ela rolou de costas e seu cabelo se espalhou pelo
travesseiro. A cabeça estava um pouco inclinada na direção de um
dos ombros. Sua pele matinal tinha um cheiro quente, feito um raio
de sol refletido sobre uma toalha de mesa branca num bom
restaurante perto da praia na nossa lua de mel.
O sol atravessava as cortinas azuis, azulando a pele dela.
Azulando seus lábios. Os cílios de Gina repousavam sobre as faces.
Sua boca mostrava um sorriso frouxo.
Ainda semiadormecido, enfiei a mão sob sua nuca, inclinei seu
rosto para a frente e beijei-a.
Seu pescoço e seus ombros pareciam tão leves e relaxados!
Ainda beijando sua boca quente e amolecida, ergui-lhe a camisola
até a cintura.
Suas pernas pareceram se abrir sozinhas, e minha mão
encontrou-a úmida e receptiva por dentro.
Sob as cobertas, com os olhos fechados, meti a língua dentro dela.
Com os dedos molhados, afastei para os lados as bordas lisas e
rosadas do seu sexo, lambendo ainda mais fundo. A maré de ar
entrava e saía de mim. Depois de cada respiração, eu enfiava a boca
nela.
Ao menos uma vez, Katrin dormira a noite toda e não estava
chorando.
Minha boca subiu até o umbigo de Gina, e depois até seus seios.
Com um dedo molhado na sua boca, alisei com os outros seus
mamilos. Minha boca se fechou sobre o outro seio e minha língua
tocava-lhe o mamilo.
A cabeça de Gina rolou para o lado e lambi a parte de trás da sua
orelha. Com os quadris separando-lhe as pernas, enfiei-me dentro
dela.
Aquele sorriso frouxo no seu rosto, o jeito com que sua boca se
entreabriu no último instante e sua cabeça afundou no travesseiro...
ela estava tão quieta. Foi nossa melhor transa desde que Katrin
nasceu.
Um minuto depois, esgueirei-me da cama e tomei uma ducha. Pé
ante pé, vesti minhas roupas e fechei silenciosamente a porta atrás
de mim. Fui até o quarto de Katrin e dei-lhe um beijo no lado do
rosto. Apalpei-lhe a fralda. O sol atravessava as cortinas amarelas,
iluminando seus brinquedos e livros. Ela parecia tao perfeita!
Eu me sentia tão abençoado!
Ninguém no mundo era tão sortudo quanto eu naquela manhã.
Agora estou aqui, dirigindo o carro de Helen com ela dormindo
no banco dianteiro ao meu lado. Hoje estamos em Ohio, Iowa ou
Idaho, com Mona adormecida lá atrás. O cabelo cor-de-rosa de Helen
forma um travesseiro junto ao meu ombro. Mona se esparrama pelo
espelho retrovisor, com suas canetas e livros coloridos. Oyster
também está adormecido. Esta é a vida que tenho agora. Para o
melhor ou pior. Na riqueza ou na pobreza.
Aquele foi o meu último dia realmente bom. Só descobri a
verdade quando voltei para casa após o trabalho.
Gina ainda estava deitada na mesma posição.
O relatório policial descreveu o caso como relação sexual após a
morte.
Nash me vem à cabeça.
Katrin ainda estava silenciosa. A parte de baixo da sua cabeça
assumira um tom vermelho-escuro.
Livor mortis. Hemoglobina oxigenada.
Só percebi o que fizera quando voltei para casa.
Aqui, estacionado em meio ao cheiro de couro do carrão de
Helen, o sol paira pouco acima do horizonte. E a mesma hora que era
então. Estamos estacionados embaixo de uma árvore, numa rua
margeada por árvores numa vizinhança de casas pequenas. As
árvores são de uma espécie florida, e durante a noite toda pétalas de
flores rosadas caíram sobre o carro, grudando-se na carroceria devido
ao orvalho. O carro de Helen parece um carro alegórico, coberto de
flores, e estou espiando por um pequeno buraco onde as pétalas não
cobriram o para-brisa.
A luz matinal que brilha através da camada de pétalas é rosada.
Cor-de-rosa. Sobre Helen, Mona e Oyster adormecidos.
No final do quarteirão, um casal de velhos trabalha nos canteiros
ao longo dos alicerces da sua casa. O velho enche um regador numa
torneira. A velha se ajoelha, arrancando o mato.
Ligo de novo o bipe, que começa imediatamente a tocar.
Helen acorda de supetão.
Não reconheço o número que aparece no visor do bipe.
Helen senta-se ereta, piscando e olhando para mim. Depois olha
para o diminuto relógio cintilante no seu pulso. Num dos lados do
seu rosto, há profundas marcas vermelhas deixadas pelos pingentes
de esmeraldas sobre os quais dormiu. Ela olha para a camada de cor-
de-rosa que cobre todas as janelas. Mergulha as unhas rosadas de
ambas as mãos no cabelo e ajeita as mechas, perguntando:
— Onde nós estamos?
Algumas pessoas ainda acham que conhecimento é poder.
Digo a ela que não faço a menor ideia.
Capítulo 30

Mona está parada junto ao meu cotovelo. Segura uma reluzente


brochura colorida aberta e empurra-a diante do meu rosto, dizendo:
— Podemos ir até lá? Por favor? Só por umas duas horas? Por
favor?
As fotografias da brochura mostram pessoas berrando com as
mãos erguidas no ar, descendo uma montanha-russa. Outras fotos
mostram pessoas dirigindo carrinhos em torno de uma pista ladeada
por pneus velhos. Outras pessoas estão comendo algodão-doce,
montadas em cavalos de plástico num carrossel. Outras mais estão
presas aos assentos de uma roda-gigante. Ao longo do topo da
brochura, em grandes letras rebuscadas, lê-se: Risolândia Familiar.
Mas no lugar dos “as” há quatro rostos sorridentes de palhaços.
Uma mãe, um pai, um filho e uma filha.
Ainda precisamos desarmar oitenta e quatro livros. Isso significa
dúzias de bibliotecas por todo o país. E depois precisamos encontrar
o grimoire. Há gente a ser trazida de volta do mundo dos mortos. Ou
então há a humanidade inteira a ser morta. Depende para quem a
pergunta é endereçada.
Há tanta coisa que precisamos consertar! Para podermos voltar a
Deus, como diria Mona. Só para empatar.
Karl Marx diria que tornamos todas as plantas e animais nossos
inimigos só para justificar nossa matança.
O jornal de hoje diz que o marido de uma das tais modelos foi
detido como suspeito de assassinato.
Estou parado numa cabine telefônica diante da biblioteca de uma
cidade pequena enquanto Helen está lá dentro rasgando outro livro
com Oyster.
Um homem atende o telefone:
— Departamento de Homicídios.
Eu pergunto: — Quem fala?
E a voz diz: — Detetive Ben Danton, Departamento de
Homicídios. Quem está falando?
Um detetive policial. Mona diria que ele é meu salvador, enviado
para me levar de volta ao rebanho com o resto da humanidade. Este é
o número que vem aparecendo no meu bipe há dois dias.
— Veja só. — Mona vira a brochura para mim. Trançados no seu
cabelo, há pedaços de moinhos, de pontes ferroviárias e de torres
radiofônicas.
Fotografias mostram crianças sorridentes sendo abraçadas por
palhaços. Mostram pais passeando de mãos dadas e em pequenos
carrinhos num túnel do amor.
Ela insiste: — Nossa viagem não precisa ser só de trabalho.
Helen sai pela porta da biblioteca e começa a descer os degraus
da escada. Mona se volta e corre para ela:
— Helen, o Carl disse que tudo bem.
Ponho o fone no peito e digo:
— Eu não disse isso.
Oyster está um pouco afastado, um passo atrás do cotovelo de
Helen.
Mona segura a brochura junto ao rosto de Helen:
— Veja como é divertido.
Ao telefone, o detetive Danton pergunta:
— Quem está falando?
Não foi problema sacrificar o pobre coitado da cueca de carros de
corrida. Não foi problema sacrificar a moça do avental de galinhas.
Não lhes contar a verdade, deixá-los sofrer. Nem sacrificar o viúvo de
alguma modelo. Mas me sacrificar para salvar milhões de pessoas é
uma coisa completamente diferente.
Ao telefone, digo meu nome e que ele me bipou.
— Streator, gostaríamos que você viesse até aqui para ser
interrogado — informa ele.
Pergunto: — Sobre o quê?
— Por que não conversamos pessoalmente?
Pergunto se é sobre alguma morte.
— Quando você pode vir?
Pergunto se é sobre a tal serie de mortes sem causa aparente.
— Antes cedo do que tarde.
Pergunto se é porque uma das vítimas era meu vizinho do andar
de cima e outras três eram meus editores.
— Não diga!
Pergunto se é porque passei por três outras vítimas na rua no
momento em que cada uma delas morreu.
— Isso já é novidade para mim.
Pergunto se é porque eu estava perto do rapaz de costeletas que
morreu num bar na Terceira Avenida.
— Hum, hum. Você está falando de Marty Latanzi.
Pergunto se é porque todas as modelos mortas mostram sinais de
terem tido relações sexuais após a morte, da mesma forma que
minha esposa mostrava, vinte anos atrás. E sem duvida eles têm o
vídeo de uma câmera de segurança em que apareço falando com um
bibliotecário chamado Symon no momento em que ele cai morto.
Pode-se ouvir um lápis, em algum lugar, rabiscando anotações
num papel.
Ao fundo, ouço outra pessoa dizer:
— Mantenha o sujeito na linha.
Pergunto se isso é realmente uma armação para me prender sob
suspeita de assassinato.
O detetive Danton ameaça:
— Não nos obrigue a emitir um mandado de prisão.
Quanto mais pessoas morrem, mais as coisas continuam na
mesma.
— Detetive Danton, pode me dizer onde você está neste exato
momento?
Paus e pedras quebram tudo pela frente, mas lá vamos nós
novamente. Rápida como um grito, a cantiga de poda passa pela
minha cabeça e a linha fica muda.
Eu matei meu salvador, o detetive Ben Danton. Estou ainda mais
afastado do resto da humanidade.
Destruição construtiva.

Oyster agita seu isqueiro de plástico, batendo-o contra a palma da


mão. Depois entrega-o a Helen e fica observando enquanto ela tira
uma página dobrada da bolsa. Ela toca fogo na página 27 e a segura
sobre a sarjeta.
Enquanto Mona está lendo a brochura, Helen aproxima a página
incendiada da horda do livro. As fotografias de famílias sorridentes e
felizes pegam fogo. Mona grita e as deixa cair. Ainda segurando a
página incendiada, Helen chuta as famílias em chamas para dentro
do bueiro. O fogo na sua mio vai ficando cada vez maior, crepitando e
soltando fumaça na brisa.
Por alguma razão, penso em Nash e no fusível queimado.
Helen diz:
— Não quero saber de diversão.
Com a outra mão, ela agita as chaves do carro para mim.
E então a coisa acontece. Oyster dá uma gravata em Helen,
levantando-a do chão. Enquanto ela agita os braços procurando se
equilibrar, ele agarra o poema em chamas. A cantiga de poda.
Helen cai de joelhos, liberta-se da gravata de Oyster e solta
apenas um gritinho quando seus joelhos batem na calçada de
cimento. Rola para a sarjeta, com as chaves ainda na mão.
Oyster bate a página em chamas contra a própria coxa. Segura-a
com ambas as mãos, com os olhos movendo-se sem parar, lendo a
página enquanto o fogo sobe pelo papel.
Ambas as mãos se queimam antes que ele largue o papel e meta
os dedos na boca, gritando:
— Não!
Mona recua com as mãos sobre as orelhas e os olhos bem
fechados.
Helen, com as mãos e os joelhos apoiados na sarjeta, junto às
famílias incendiadas, olha para Oyster, que não move um músculo. O
penteado de Helen se desfaz e mechas de cabelo cor-de-rosa pendem
sobre seus olhos. As meias de náilon estão rasgadas. Os joelhos,
sangrando.
— Não mate o Oyster! — grita Mona. — Não, por favor! Não mate
o Oyster!
Oyster ajoelha-se e tenta pegar o papel queimado na calçada.
E devagar, devagar como o ponteiro das horas de um relógio,
Helen se levanta. Seu rosto está vermelho. Não é o vermelho de um
rubi da Birmânia. É mais o vermelho do sangue que escorre de seus
joelhos.
Oyster de joelhos. Helen de pé, junto a ele. Mona cobrindo as
orelhas com as mãos e os olhos bem fechados. Oyster remexendo as
cinzas. Helen sangrando. Eu ainda observando da cabine telefônica, e
um bando de estorninhos parte voando do telhado da biblioteca.
Oyster, o malvado, ressentido e violento filho que Helen poderia
ter, se ela ainda tivesse um filho.
Simplesmente a velha luta pelo poder.
— Vá em frente — incita Oyster, levantando a cabeça para encarar
Helen. Sorrindo com apenas metade da boca, ele acrescenta: — Você
já matou seu filho verdadeiro. Pode me matar também.
E então a coisa acontece. Helen lhe dá um tapa no rosto com toda
força, arrastando a mão cheia de chaves em cada face. Um momento
mais tarde, mais sangue.
Mais um parasita com cicatriz. Mais uma barata de guarda-roupa
mutilada.
Os olhos de Helen se desviam do sangue de Oyster para os
estorninhos que esvoaçam sobre nós. Pássaro por pássaro, eles vão
caindo. Suas penas negras brilham com um azul oleoso. Seus olhos
mortos parecem meras contas negras. Oyster segura o rosto com as
mãos cheias de sangue. Helen olha fixamente para o céu enquanto os
reluzentes corpos pretos passam zunindo e ricocheteiam, pássaro
por pássaro, em torno de nós, no concreto.
Destruição construtiva.
Capítulo 31

A cerca de um quilômetro da cidade, Helen para o carro no


acostamento da rodovia e liga o pisca-alerta. Olhando fixamente para
suas mãos, para as luvas justas de couro de bezerro apoiadas no
volante, ordena: — Saia!
No para-brisa há pequenas lentes de contato feitas de água. Está
começando a chover.
— Está bem — diz Oyster, abrindo a porta do carro com força. —
Não é isso que as pessoas fazem com os cachorros que elas não
conseguem ensinar a se comportar dentro de casa?
Suas faces e suas mãos estão avermelhadas de sangue. O rosto do
diabo. Tufos amarfanhados de cabelo louro sobressaem de sua testa,
duros e vermelhos como os chifres do diabo. A barbicha vermelha.
Em meio a todo esse vermelho, os olhos continuam brancos. Mas não
o branco de bandeiras brancas, de rendição, e sim o branco de ovos
bem cozidos, de galinhas aleijadas em gaiolas enfileiradas, de
miséria, sofrimento e morte em granjas industriais.
— Exatamente como Adão e Eva sendo expulsos do Jardim do
Eden — continua ele. Parado no acostamento de cascalho da estrada,
ele se inclina e olha para Mona, ainda no banco traseiro. — Você vem,
Eva?
Não se trata de amor, e sim de controle.
Atrás de Oyster, o sol está se pondo. Atrás dele estão os cardos
russos, as giestas escocesas e as trepadeiras kudzu. Atrás dele, o
mundo inteiro está uma bagunça.
Com as ruínas da civilização ocidental, os pedacinhos do
apanhador de sonhos e o I Ching entrelaçados no cabelo, Mona olha
para as unhas pintadas de preto no colo e diz:
— Oyster, o que você fez foi errado.
Oyster mete a mão vermelha de sangue coagulado no carro,
estende-a sobre o assento até ela e pede: — Amora, apesar de todas
as suas boas intenções herbáceas, essa viagem não vai dar certo.
Venha comigo.
Mona cerra os dentes e vira o rosto subitamente para encará-lo,
dizendo:
— Você jogou fora meu livro de artesanato indígena. Aquele livro
era muito importante para mim.
Algumas pessoas ainda acham que conhecimento é poder.
— Amora, meu bem. — Oyster toca no cabelo dela. O cabelo
gruda em sua mão cheia de sangue. Ele mete uma mecha de cabelo
atrás da orelha dela. — Aquele livro estava fodido.
— Ótimo — diz Mona, afastando-se dele e cruzando os braços.
— Ótimo — repete Oyster, batendo aporta do carro. Sua mão
deixa uma mancha de sangue na vidraça.
Com as mãos vermelhas erguidas do lado do corpo, Oyster se
afasta do carro. Abanando a cabeça, diz:
— Podem me esquecer. Não passo de um dos jacarés de Deus que
vocês podem fazer sumir na descarga da privada.
Helen engrena o carro. Aperta um botão e a porta de Oyster se
tranca.
Fora do carro trancado, com a voz amortecida e indistinta, Oyster
grita:
— Vocês podem dar a descarga em mim, mas vou continuar
comendo merda! E vou continuar crescendo!
Helen liga a seta e se junta ao tráfego.
— Vocês podem me esquecer! — grita Oyster, com o rosto
vermelho de diabo, os dentes grandes e brancos. — Mas isso não
significa que eu não existo!
Seja qual for a razão, eu me lembro da primeira mariposa-cigana
que saiu voando por uma janela em Medford, Massachusetts, em
1860.
Dirigindo, Helen toca o olho com um dedo. Quando ela põe a mão
de novo no volante, vejo que o marrom do dedo da luva está mais
escuro. Úmido. Para o melhor ou para o pior. Na riqueza ou na
pobreza. É essa sua vida.
Mona põe o rosto entre as duas mãos e começa a soluçar.
Contando 1, contando 2, contando 3... eu ligo o rádio.
Capítulo 32

No mapa, o nome da cidade é Stone River. Stone River, em Nebraska.


Mas quando eu e o Sarja chegamos lá o letreiro na divisa da cidade estava
coberto pelo nome “Shivapuram”.
Nebraska.
População: 17.000.
No meio da rua, sobre a faixa divisória, há uma vaca marrom e branca
da qual temos que nos desviar. Ruminando seu bolo alimentar, ela nem
pestaneja.
O Centro da cidade consiste em dois quarteirões de prédios de tijolos
vermelhos. Um sinal de trânsito amarelo pisca acima do cruzamento
principal. Uma vaca preta roça um dos lados do corpo contra o poste de
metal de um letreiro onde se lê PARE. Uma vaca branca come zínias de
uma jardineira na janela em frente ao correio. Uma outra vaca está deitada
bloqueando a passagem da calçada diante da delegacia.
Dá para sentir um cheiro de curry e patchouli. O subdelegado está de
sandálias. O delegado, o carteiro, a garçonete do café, o barman da taverna,
todos exibem um pequeno ponto negro colado entre os olhos. Um bindi.
— Que diabo! — diz o Sarja. — A cidade inteira virou hindu.
De acordo com o Boletim de Maravilhas Psíquicas desta semana, tudo
isso se deve à Vaca Judas Falante.
Em qualquer matadouro, o truque é enganar as vacas para que elas
subam no duto que leva ao piso da matança.
Trazidas em caminhões das fazendas, as vacas ficam confusas e
amedrontadas. Depois de horas ou dias apertadas em caminhões,
desidratadas e acordadas durante toda a viagem, as vacas são jogadas no
curral de espera, fora do matadouro.
Para se conseguir que elas subam no duto é que entra a Vaca Judas. E
realmente assim que a vaca é chamada. Ela é uma vaca que vive no
matadouro e que se mistura com as vacas condenadas. Depois leva todas a
subir no duto, indo parar no piso da matança. Apavoradas e assombradas,
as vacas nunca iriam se a Vaca Judas não lhes mostrasse o caminho.
No último segundo antes de o machado ou facão lhes cair sobre o crânio,
a Vaca Judas se afasta. Ela sobrevive para conduzir outro rebanho para a
morte. E faz isso a vida inteira.
Mas de acordo com o Boletim das Maravilhas Psíquicas, um dia a
Vaca Judas do Abatedouro Stone River parou.
A Vaca Judas parou., bloqueando a passagem para o piso da matança.
Ela se recusou a se afastar e deixar que o rebanho atrás dela fosse para a
morte. Diante do olhar de todos os funcionários do matadouro, a Vaca Judas
sentou-se sobre as pernas traseiras, como se sentam os cachorros. Ficou
sentada lá na passagem, olhando para todos com seus olhos castanhos de
vaca, e falou.
A Vaca Judas falou.
E disse:
— Abandonem esse hábito de comer carne.
A voz da vaca parecia a de uma jovem. As vacas enfileiradas atrás dela
ficaram apoiando-se ora numa pata ora na outra, esperando.
Os empregados do matadouro ficaram de queixo caído, com tanta
rapidez que seus cigarros caíram no chão ensanguentado. Um homem
engoliu o tabaco que mascava. Uma mulher gritou por entre os dedos.
Sentada ali, a Vaca Judas levantou uma das patas dianteiras, apontou o
casco para a multidão, e disse:
— O caminho para o moksha não passa pela dor e pelo sofrimento de
outras criaturas.
“Moksha”, diz o Boletim de Maravilhas Psíquicas, é o termo
sânscrito para “redenção”, o fim do ciclo cármico da reencarnação.
A Vaca Judas falou durante toda a tarde. Disse que os seres humanos
haviam destruído o mundo natural. Disse que a humanidade deveria parar
de exterminar as outras espécies. O homem deveria limitar seus números,
criar um sistema de cotas que permitisse que apenas uma pequena
porcentagem dos seres do planeta fosse humano. Os humanos poderiam
viver do modo que quisessem, desde que não fossem a maioria.
Depois ensinou a todos uma canção hindu. E fez com que todos os
empregados a cantassem, enquanto movia o casco de um lado para outro na
cadência da música.
A Vaca Judas respondeu a todas as perguntas sobre a natureza da vida e
da morte.
E continuou falando sem parar.
Aqui e agora, eu e o Sarja chegamos após o fato. Continuamos a caça às
bruxas. Estamos vendo todas as vacas libertadas do matadouro naquele dia.
O matadouro está vazio e calmo. Fica no limite da cidade. Alguém está
pintando de cor-de-rosa o prédio de concreto. Transformando-o num
ashram. Plantaram uma horta no terreno onde as vacas esperavam a
morte.
Desde então, a Vaca Judas não disse mais uma só palavra. Ela pasta nos
gramados diante das casas das pessoas. Bebe água nos bebedouros dos
pássaros. As pessoas penduram grinaldas de margaridas no pescoço dela.
— Eles estão usando o feitiço da ocupação — explica o Sarja. Estamos
parados na rua, esperando que um porco enorme e
vagaroso cruze a via diante do nosso carro. Há outros porcos e galinhas
sob a sombra do toldo da loja de ferragens.
Um feitiço de ocupação permite que você projete sua consciência para
dentro do corpo de outro ser.
Dou um olhar demasiadamente longo para ele e pergunto se ele não é o
roto falando do esfarrapado.
— Você pode se colocar dentro de qualquer corpo vivo, de animais ou de
gente — continua o Sarja.
E eu pergunto: — E mesmo? Não diga!
Passamos de carro pelo homem que está pintando o ashram cor de rosa
e Sarja comenta:
— Se você quer a minha opinião, a reencarnação não passa de uma
outra forma de procrastinação.
E eu digo:
— Sei, sei, sei.
Ele já me falou disso antes.
O Sarja estende o braço pelo banco dianteiro, pondo sua mão enrugada e
manchada sobre a minha. As costas da sua mão são cobertas de pelos
grisalhos. Os dedos parecem frios devido ao contato com a pistola. Ele
aperta minha mão e diz:
— Você ainda me ama?
E pergunto se tenho escolha.
Capítulo 33

Uma multidão se comprime à nossa volta, as mulheres com


corpetes e os homens com chapéus de caubói. As pessoas estão
comendo maçãs carameladas enfiadas em palitos e sorvetes em
casquinhas de papel. Há poeira por toda parte. Alguém pisa no pé de
Helen e ela recua, comentando:
— Descobri que, por mais pessoas que eu mate, nunca é o
bastante.
Eu digo: — Não vamos falar de trabalho.
O chão está coalhado de grossos cabos pretos que se cruzam. Na
escuridão fora do círculo das luzes, motores queimam óleo diesel
para produzir eletricidade. Há um cheiro de diesel, comida frita,
vômito e de açúcar refinado.
Hoje em dia, isso é considerado diversão.
Um grito passa por nós. E uma rápida visão de Mona. Estamos
diante de um brinquedo com um letreiro brilhante de neon onde se
lê O Polvo. Braços negros de metal, como raios de rodas retorcidos,
giram em torno de um eixo, ao mesmo tempo que se elevam e
mergulham. Na extremidade de cada braço há um assento, e cada
assento gira em torno do próprio eixo. O grito passa de novo, junto
com mechas de cabelo ruivo e negro. Os colares e amuletos
prateados se projetam no ar ao lado do pescoço de Mona. Suas mãos
estão grudadas na barra de segurança que corre sobre seu colo.
As ruínas da civilização ocidental, ameias, torres e chaminés
voam dos cabelos de Mona. Uma moeda de I Ching passa como uma
bala por nós.
Helen a observa, dizendo:
— Acho que Mona conseguiu seu feitiço voador.
Meu bipe toca novamente. E o mesmo número do detetive da
polícia. Um novo salvador já está grudado na minha cola.
Quanto mais pessoas morrem, mais as coisas continuam na
mesma.
Desligo o bipe.
Vendo Mona passar gritando, Helen pergunta: — Más notícias?
— Nada de importante.
Com seus saltos altos cor-de-rosa, Helen vai caminhando
lentamente pela lama e pela serragem, passando sobre os cabos de
força pretos.
Estendendo a mão, digo:
— Pegue.
Ela segura a minha mão. E não largo a mão dela. Helen parece não
se importar com isso. Vamos andando de mãos dadas. E é gostoso.
Só lhe restaram uns poucos anéis, de modo que não dói tanto
quanto se possa pensar.
Os brinquedos do parque agitam o ar à nossa volta com luzes
branco-diamante, verde-esmeralda, vermelho-rubi, turquesa e azul-
safira, amarelo-cidra, âmbar cor de mel. A música de rock estrondeia
dos alto-falantes instalados por toda parte nos postes.
Esses rockômanos. Esses calmófobos.

Pergunto a Helen quando foi a última vez que ela andou numa
roda-gigante.
Por toda parte há homens e mulheres de mãos dadas, beijando-se.
Dão uns aos outros fiapos de algodão-doce cor-de-rosa. Caminham
lado a lado, todos com a mão metida no bolso traseiro da calça jeans
do parceiro ou parceira.
Observando a multidão, Helen pergunta: — Não leve a mal, mas
quando foi sua última vez?
— Minha última vez do quê?
— Você sabe.
Não tenho certeza se minha última vez conta, mas deve ter sido
há dezoito anos.
Helen sorri e diz:
— Não admira que você caminhe de um modo engraçado. Quanto
a mim, faz vinte anos, e estou contando desde John.
No chão, com a serragem e os cabos, há uma página de jornal
amarfanhada. Um anúncio de três colunas informa:

Atenção clientes da Imobiliária Helen Boyle

O texto diz:

“Venderam a você uma casa mal-assombrada?


Se for esse o caso, por favor telefone para o número abaixo,
a fim de participar de uma ação indenizatória coletiva.”

Segue-se o número do celular de Oyster. Então eu pergunto: —


Helen, por que você contou aquilo a ele?
Ela baixa os olhos para o anúncio do jornal. Com o sapato cor-de-
rosa, ela o enfia na lama, dizendo:
— Pela mesma razão que não matei o rapaz. Ele pode ser
encantador, às vezes.
Junto ao anúncio, coberta de lama, está a fotografia de outra
modelo morta.
Levantando os olhos para a roda-gigante, um anel de tubos
fluorescentes vermelhos e brancos com assentos que balançam
cheios de pessoas, Helen diz:
— Acho que dá para ir nisso.
Um homem para a roda e todos os carrinhos balançam no lugar
enquanto eu e Helen nos sentamos no assento de plástico vermelho.
O homem fecha com força uma barra de segurança na nossa frente.
Depois recua e puxa uma alavanca. O grande motor diesel engrena e
a roda-gigante balança como se fosse rolar para trás. Helen e eu
subimos na escuridão.
A meio caminho da noite, a roda para subitamente. Nosso assento
balança e Helen agarra rapidamente a barra de segurança. Um
solitário escorrega de seu dedo e cai, luzindo entre tirantes e luzes,
cores e rostos, direto nas engrenagens da máquina.
Helen olha para o anel que cai e comenta:
— Bem, ali vão aproximadamente trinta e cinco mil dólares!
Digo que talvez não haja problema. E um diamante.
E Helen diz que aí é que está o problema. As pedras preciosas são
as coisas mais duras que há na Terra, mas mesmo assim quebram.
Podem suportar esforço e pressão constantes, mas um impacto
súbito e forte pode reduzi-las a pó.
Lá no chão, Mona vem correndo pela serragem, até parar debaixo
de nós, agitando as mãos. Fica pulando no mesmo lugar, berrando:
— Uauuuuuuu! Vá fundo, Helen!
A roda treme, movendo-se novamente. O assento balança e a
bolsa de Helen ameaça cair, mas ela a agarra. A pedra cinzenta ainda
está ali dentro. O presente do conclave de Oyster. Em vez da bolsa, é
a agenda que escorrega do assento, abrindo-se no ar e caindo na
serragem. Mona corre e a apanha.
Mona bate com a agenda na coxa para tirar a serragem, depois
agita-a no ar para mostrar que está salva.
Helen se alivia:
— Graças a Deus Mona está lá.
Eu digo:
— Mona disse que você planejava me matar.
— Ela me disse que você queria me matar.
Nós nos entreolhamos.
Eu digo:
— Graças a Deus Mona está lá.
E Helen me pede: — Compra um milho caramelado para mim?
No chão, cada vez mais longe, Mona está examinando as páginas
da agenda. Em cada dia, o nome do alvo político de Helen.
Olhando para o céu noturno lá em cima, longe das luzes
coloridas, nós ficamos mais perto das estrelas. Uma vez Mona disse
que as estrelas são a melhor parte de se estar vivo. Do outro lado, lá
onde as pessoas vão depois de mortas, não se pode ver as estrelas.
E só pensar no espaço sideral, com aquele frio e silêncio incríveis.
O céu onde o silêncio já é recompensa suficiente.
Digo a Helen que preciso ir para casa resolver uma coisa. Tem de
ser logo, antes que tudo piore.
As modelos mortas. Nash. Os detetives policiais. Tudo. Como ele
conseguiu o feitiço de poda não sei.
Nós subimos ainda mais alto, para longe dos odores e do barulho
do motor a diesel. Subimos dentro do silêncio e do frio. Mona, lendo
a agenda, fica menor. Toda aquela multidão, com seu dinheiro, seus
cotovelos e suas botas de caubói, fica menor. Os quiosques de
alimentação e os banheiros portáteis ficam menores. Os gritos e a
música de rock, menores.
Lá no alto, damos uma parada súbita. Nosso assento balança cada
vez menos, até que ficamos imóveis. Lá no alto, a brisa agita,
descabela e brinca com a bolha cor-de-rosa do cabelo de Helen.
Daquela altura, tudo parece perfeito: o néon, a graxa e a lama.
Perfeito, seguro e feliz. A música não passa de um rufar surdo.
Essa deve ser nossa aparência para Deus.
Olhando para os brinquedos que giram lá embaixo, com as cores
esvoaçantes e os gritos, Helen diz:
— Estou feliz por você ter me descoberto. Acho que sempre tive a
esperança de que alguém fizesse isso. Fico feliz por ter sido você.
A vida dela não é tão ruim assim, digo. Ela tem as joias. E tem
Patrick.
— Mesmo assim, é legal ter pelo menos uma pessoa que conhece
todos os nossos segredos.
A roupa dela é azul-clara, mas não aquele azul comum, cor de ovo
de tordo. E o azul da cor de um ovo de tordo que você talvez encontre
e fique com medo que ele não choque por já estar morto por dentro.
Mas então o ovo choca e você não sabe o que fazer em seguida.
Na barra de segurança à nossa frente, Helen põe a mão sobre a
minha:
— Streator, você tem um primeiro nome, mesmo?
Carl.
Eu digo:
— Carl. É Carl Streator.
Pergunto por que ela me considera de meia-idade.
Helen ri:
— Porque você é. Nós dois somos.
A roda dá mais uma sacudidela e lá vamos nós descendo.
Eu digo, os olhos dela. Digo que são azuis.
Essa é minha vida.
Lá em baixo, o homem da roda-gigante levanta bruscamente a
barra de segurança e eu dou a mão a Helen quando ela se levanta do
assento. A serragem é solta e macia. Vamos atravessando a multidão
aos trancos e barrancos, enlaçados pela cintura. Chegamos até Mona,
e ela está lendo a agenda.
— Chegou a hora do milho caramelado — diz Helen. — O Carl vai
comprar para nós.
E com a agenda ainda aberta nas mãos, Mona levanta os olhos.
Sua boca se abre um pouco e os olhos piscam uma vez, duas vezes,
três vezes, rapidamente. Ela suspira:
— Sabem o grimoire que estamos procurando? Acho que já o
achamos.
Capítulo 34

Algumas bruxas escrevem suas fórmulas mágicas no alfabeto


rúnico, símbolos secretos em código. De acordo com Mona, algumas
delas escrevem de trás para a frente, de modo que a fórmula mágica
só pode ser lida num espelho. Escrevem seus feitiços em espirais,
começando no centro da pagina e fazendo curvas para fora. Algumas
escrevem como as antigas tabuletas de maldição gregas, com uma
linha correndo da esquerda para a direita, a seguinte correndo da
direita para a esquerda, e a seguinte correndo da esquerda para a
direita. Chamam isso de forma boustrophedon, porque imita o
movimento de um lado para outro de um boi amarrado a uma corda.
Para imitar uma cobra, diz Mona, algumas escrevem cada linha numa
direção diferente.
A única regra é que um feitiço tem de ser retorcido. Quanto mais
escondido, mais retorcido, mais poderoso ele é. Para as bruxas, as
próprias curvas retorcidas são mágicas. Elas desenham ou esculpem
o deus-mágico Hefaistos com as pernas retorcidas.
Quanto mais retorcido o feitiço, mais ele torcerá e desequilibrará
a vítima. O feitiço as confundirá. Prenderá sua atenção. Elas
tropeçarão. Ficarão tontas. Não conseguirão se concentrar.
Assim como o Big Brother com todo seu canto e dança.
No estacionamento de cascalho, a meio caminho entre o parque
de diversões e o carro de Helen, Mona ergue a agenda com as luzes
do parque ao fundo, iluminando uma só página. A princípio, as
únicas coisas que enxergamos são as anotações de Helen para o dia
de hoje. O nome “Capitão Antonio Cappelle” e uma lista de
compromissos imobiliários. Depois vemos alguns traços apagados no
papel: palavras vermelhas, frases amarelas, parágrafos azuis,
conforme cada luz colorida passa por trás da página.
— Tinta invisível — diz Mona ainda segurando a página.
E uma imagem apagada como uma marca d’água, uma escrita
fantasmagórica.
— O que me chamou a atenção foi a encadernação — explica
Mona. A capa e a lombada são de couro vermelho-escuro, quase preto
devido ao manuseio.
— E feito de pele humana.
A agenda estava na casa de Basil Frankie, diz Helen. Parecia um
lindo livro antigo, um livro vazio. Ela o comprou junto com todas as
posses de Frankie. Na capa há uma estrela negra de cinco pontas.
— E um pentagrama. E, antes de virar livro, isso era a tatuagem
de alguém. Esse carocinho aqui já foi um mamilo — diz ela, tocando
um local na lombada. Depois, ela fecha o livro, estendendo-o para
Helen. — Passe a mão. Isso é antiquíssimo.
Helen abre a bolsa e tira um par de pequenas luvas brancas com
um botão no punho:
— Não, segure você.
Mona folheia o livro aberto em suas mãos.
— Se pelo menos eu soubesse que tinta foi usada, saberia como
ler isso.
Quando é amônia ou vinagre, diz ela, você cozinha um repolho
vermelho e derrama um pouco do caldo para fazer com que a tinta
fique roxa.
Se for sêmen, você pode ler a coisa debaixo de uma luz
fluorescente.
Eu pergunto:
— As pessoas escrevem feitiços com porra?
E Mona diz:
— Só os tipos mais poderosos de feitiços.
Se o feitiço estiver escrito numa solução de maisena, você pode
passar iodo para fazer com que as letras apareçam.
Se for sumo de limão, você aquece as páginas para fazer com que
a tinta fique marrom.
— Experimente que gosto tem, para ver se é azedo — sugere
Helen.
Mona fecha o livro com força: — E um livro de bruxaria com mil
anos de idade, encadernado em pele mumificada, e provavelmente
escrito com titica antiga. Que tal você lamber isso?
— Tá legal, já entendi. Pelo menos tente traduzir essa coisa
depressa — diz Helen.
— Não fui eu que passei dez anos carregando o livro por aí. Não
fui eu que vim estragando o troço, escrevendo por cima de tudo. —
Mona segura o livro com ambas as mãos e o empurra para Helen. —
Este é um livro antigo. Está escrito em grego e latim arcaicos, além de
alguns tipos esquecidos de runas. Vou precisar de tempo.
Helen abre a bolsa, pega um quadrado de papel dobrado e passa-
o para Mona:
— Tome esta cópia da cantiga de poda. Um sujeito chamado Basil
Frankie traduziu essa parte. Se você conseguir encaixar isso num dos
feitiços do livro, poderá usar a canção como uma chave para traduzir
todos os feitiços nessa língua. Como a pedra de Roseta.
Mona estende a mão para pegar o papel dobrado.
Mas eu arrebato a folha da mão de Helen e pergunto por que
estamos tendo essa discussão. Digo que minha ideia era queimar o
livro.
Abro o papel, vejo uma página 27 roubada de alguma biblioteca e
digo que precisamos pensar mais.
— Helen, você tem certeza de que quer fazer isso com Mona? —
continuo. — Esse feitiço já arruinou nossas vidas. Além disso, se
Mona souber, Oyster também vai saber.
Helen está enfiando os dedos dentro das luvas brancas. Abotoa os
punhos e estende a mão para Mona:
— Passe o livro para cá.
— Posso traduzir as coisas — diz Mona.
Helen abana a mão para Mona:
— Não, é melhor assim. Carl tem razão. Isso vai mudar as coisas
para você.
O ar da noite está cheio de gritos longínquos e cores brilhantes.
Mona cruza ambos os braços em torno do livro, apertando-o
contra o peito:
— Não.
— Está vendo? — diz Helen. — A coisa já começou. Diante da
possibilidade de uma pequena dose de poder, você já quer mais.
Mando Mona entregar o livro a Helen.
Mas Mona vira-se de costas para nós, argumentando:
— Fui eu que encontrei o livro. Sou a única que pode ler isso.
Depois vira-se, lançando um olhar sobre o ombro para mim:
— Você só quer destruir o livro, a fim de vender a história. Quer
tudo resolvido, para que seja seguro falar sobre o assunto.
E Helen tenta acalmá-la:
— Mona, meu bem, não é isso.
Mona vira-se, a fim de olhar para Helen sobre o outro ombro:
— E você só quer o livro para poder dominar o mundo. Só vê
dinheiro em tudo.
Seus ombros se inclinam para a frente, até que ela parece enrolar
o corpo todo em torno do livro. Baixando o olhar para o volume, diz:
— Sou a única que dá valor a isto pelo que isto é.
E eu peço:
— Escute o que Helen está dizendo.
— E um Livro das Sombras, um verdadeiro Livro das Sombras —
continua Mona. — Tem de ficar com uma feiticeira de verdade.
Deixem que eu traduza isso. Conto a vocês o que descobrir. Prometo.
Dobro o feitiço de poda de Helen e meto o papel no bolso
traseiro. Dou um passo em direção a Mona. Olho para Helen e ela
acena afirmativamente.
Ainda de costas para nós, Mona diz:
— Vou trazer Patrick de volta. Vou trazer de volta todas as
criancinhas.
Agarro-a pela cintura, por trás, e levanto-a no ar. Mona grita,
batendo os calcanhares contra minhas canelas e torcendo-se de um
lado para outro, ainda segurando o livro. Vou subindo minhas mãos
por seus braços até tocar no volume, tocar em pele humana morta. O
mamilo morto. Os mamilos de Mona. Ela grita e crava as unhas nas
minhas mãos, na pele macia entre meus dedos. Fica com as unhas
cravadas na pele das costas das minhas mãos até que consigo agarrá-
la pelos pulsos, dobrando seus braços para cima e afastando-os do
corpo. O livro cai. Ainda esperneando, ela o chuta para longe. No
estacionamento escuro, com os gritos distantes, ninguém percebe.
Essa é a vida que tenho. Essa é a filha que eu sabia que perderia
algum dia. Por causa de um namorado. Por causa de notas ruins no
colégio. Drogas. De alguma forma, essa ruptura sempre acontece.
Essa luta pelo poder. Por mais que você pense que dará um ótimo pai,
cedo ou tarde vai se encontrar nessa situação.
Podemos fazer coisas piores com as pessoas que amamos do que
matá-las.
O livro aterrissa numa nuvem de poeira e cascalho.
E grito para Helen pegá-lo.
Assim que Mona se liberta, Helen e eu recuamos. Helen segura o
livro e olho para ver se há alguém por perto.
Mona se inclina para nós com os punhos fechados. O cabelo
vermelho e negro cai sobre seu rosto. As correntes de prata e
amuletos se emaranham no cabelo. O vestido alaranjado está
retorcido em torno do corpo, com o decote rasgado de um dos lados
revelando seu ombro nu. Ela chutou as sandálias para longe, de
modo que está descalça. Por trás das mechas revoltas do cabelo, os
olhos refletem as luzes do parque de diversões. Os gritos distantes
poderiam ser o eco dos dela, continuando, continuando para sempre.
A aparência de Mona é sinistra. Uma feiticeira sinistra. Uma
bruxa. Retorcida. Ela não é mais minha filha. Agora é alguém que
talvez eu nunca compreenda. Uma estranha.
Entredentes, ela diz: — Eu podia matar vocês dois. Podia!
Penteio o cabelo com os dedos. Endireito a gravata e coloco as
fraldas da camisa dentro da calça. Estou contando 1, contando 2,
contando 3, e digo a ela que não, mas somos nós quem podíamos
matá-la. Digo que ela deve um pedido de desculpas a Helen.
E isso que é considerado amor bandido.
Helen está parada, segurando o livro nas mãos enluvadas de
branco, olhando para Mona.
Mona não diz nada.
A fumaça dos geradores a diesel, os gritos, a música de rock e as
luzes coloridas fazem o possível para preencher o silêncio. As
estrelas no céu noturno não dizem uma palavra.
Helen se vira para mim:
— Estou bem. Vamos indo.
Ela me entrega as chaves do carro. Nós nos viramos e começamos
a andar. Mas, ao olhar para trás, vejo Mona rindo com as mãos na
boca.
Ela está rindo.
Mona para de rir quando a vejo, mas continua sorrindo.
Eu lhe digo para tirar aquele sorriso sarcástico do rosto. E
pergunto de que diabos ela está rindo tão sarcasticamente.
Capítulo 35

Vou dirigindo o carro com Mona sentada de braços cruzados no


banco traseiro. Helen está sentada ao meu lado, com o grimoire
aberto no colo. Vai levantando cada página contra a janela para deixar
passar a luz do sol através do papel. No assento dianteiro, entre nós
dois, seu celular toca.
Em casa, diz Helen, ela ainda tem todos os livros de referência
que pertenciam a Basil Frankie. Entre eles há dicionários de grego,
latim e sânscrito. Há livros em antiga escrita cuneiforme. Todas as
línguas mortas. Alguma coisa num dos livros permitirá que ela
traduza o grimoire. Usando o feitiço de poda como uma espécie de
chave de código, uma pedra de Roseta, ela talvez consiga traduzir
tudo.
E o celular de Helen toca.
No espelho retrovisor, Mona futuca o nariz e esfrega a meleca na
calça jeans até transformá-la numa bola dura e escura. Depois ergue
os olhos do colo, revirando as órbitas devagar, até fitar a nuca de
Helen.
O celular de Helen toca.
E Mona atira a meleca na parte de trás da cabeleira cor-de-rosa de
Helen.
E o celular de Helen toca. Com os olhos ainda no livro de feitiços,
Helen empurra o telefone pelo assento até comprimir a minha coxa,
pedindo:
— Diga a eles que estou ocupada.
Pode ser o Departamento de Estado com uma nova missão
importante para ela. Pode ser um outro governo, algum negócio de
capa e espada a ser tratado. Algum chefão das drogas a ser
eliminado. Ou um criminoso de carreira a ser aposentado.
Mona abre seu Livro dos Espelhos de brocado verde, seu diário de
bruxa, no colo, e começa a escrever com canetas coloridas.
Ao telefone, é uma mulher.
— E uma cliente sua — informo a Helen. Segurando o telefone
contra o peito, acrescento: — A mulher está contando que uma
cabeça cortada rolou pela escadaria da frente na noite passada.
Ainda lendo o grimoire, Helen diz:
— Deve ser a casa de cinco quartos em estilo colonial holandês na
Feeney Drive. A cabeça desapareceu antes de cair no vestíbulo?
Pergunto isso à mulher, e para Helen respondo que sim, a cabeça
desapareceu mais ou menos no meio da escada. Uma cabeça
sangrenta, horrenda, com um sorriso malvado.
A mulher ao telefone diz qualquer coisa.
— E tinha dentes quebrados — relato. A mulher parece muito
perturbada.
Mona está escrevendo com tanta força que as canetas coloridas
guincham sobre o papel.
Ainda lendo o grimoire, Helen diz:
— A cabeça desapareceu. Fim do problema.
A mulher ao telefone conta que isso acontece toda noite.
— Então ela que chame um dedetizador. — Helen segura outra
página contra a luz do sol e acrescenta: — Diga a ela que não estou
aqui.
Mona está desenhando no Livro dos Espelhos algumas figuras: a
de um homem e uma mulher sendo atingidos por um raio, depois
sendo atropelados por um tanque, depois sangrando até a morte
pelos olhos. Os miolos deles jorram pelos ouvidos. A mulher usa um
terninho sob medida e muitas joias. O homem, uma gravata azul.
Estou contando 1, contando 2, contando 3...
Mona começa a rasgar o homem e a mulher em tiras bem finas.
O telefone toca de novo e eu atendo.
Seguro o telefone contra o peito e digo a Helen:
— E um sujeito que conta que jorra sangue do seu chuveiro.
Ainda segurando o grimoire contra a janela, Helen conclui:
— E a casa de seis quartos em Pender Court.
— Pender Place. A de Pender Court tem a mão cortada que sai
rastejando da lata de lixo — corrige Mona. Ela abre um pouco a
janela do carro e começa a lançar o homem e a mulher rasgados em
tiras pela fresta.
— Você está pensando na mão cortada de Palm Corners — diz
Helen. — A de Pender Place tem o doberman fantasma que morde.
Peço ao sujeito ao telefone que aguarde um pouco na linha.
Aperto o botão vermelho de AGUARDAR.
Mona revira os olhos:
— O fantasma que morde é o da casa espanhola perto de
Millstone Boulevard.
Depois começa a rabiscar algo com uma caneta hidrográfica
vermelha, escrevendo as palavras em espiral, a partir do centro da
página.
Estou contando 9, contando 10, contando 11...
Estreitando os olhos para as linhas da escrita apagada na página
que mantém aberta contra a janela, Helen diz: — Diga a eles que
larguei o ramo imobiliário. — Ela passa o dedo em cada palavra
apagada. — Esse pessoal de Pender Court tem uns adolescentes em
casa, não é? — eu pergunto, e o homem ao telefone responde que
sim.
Helen vira-se para olhar para Mona no banco traseiro. Mona está
lançando outra meleca enrolada, e Helen diz:
— Então diga que uma banheira cheia de sangue humano é o
menor dos problemas dele.
Eu sugiro:
— Que tal continuarmos a viagem mais um pouco? Poderíamos ir
a mais algumas bibliotecas. Ver umas paisagens. Outro parque de
diversões, talvez. Um monumento nacional. Podemos rir um pouco,
relaxar. Já fomos uma família, e poderíamos voltar a ser. Ainda nos
amamos, falando de modo hipotético. Que tal?
Mona inclina-se para a frente e arranca alguns fios de cabelo da
minha cabeça. Depois se inclina para o lado e arranca alguns fios cor-
de-rosa da cabeça de Helen.
Helen se inclina para a frente, sobre o grimoire, reclamando: —
Mona, isso dói.
Digo que na minha família meus pais e eu conseguíamos resolver
quase todas as desavenças com uma animada partida de Parcheesi.
Mona dobra os fios de cabelo cor-de-rosa e castanhos, colocando-
os dentro da página da escrita em espiral.
Digo a Mona que simplesmente não quero que ela cometa os
mesmos erros que eu cometi. Olhando para ela pelo espelho
retrovisor, continuo:
— Quando eu tinha mais ou menos a sua idade, parei de falar
com meus pais. Não falo com eles há quase vinte anos.
E Mona enfia um alfinete de fralda na página dobrada com os
nossos fios de cabelo.
O telefone de Helen toca de novo, e dessa vez é um homem. Um
rapaz.
E Oyster. Antes que eu possa desligar, ele diz:
— Oi, papai, não deixe de ler o jornal de amanhã. Coloquei uma
pequena surpresa nele para vocês. Agora me deixe falar com Amora.
Digo que o nome dela é Mona. Mona Sabbat.
— E Mona Steinner — corrige Helen, ainda mantendo uma página
do grimoire contra a janela, tentando ler a escrita secreta.
— E Oyster que está ao telefone? Quero falar com ele -diz Mona.
Do assento traseiro, ela estende os braços em torno da minha cabeça,
tentando agarrar o telefone, e grita: — Oyster! Oyster, eles estão com
o grimoire!
Tentando dirigir o carro, que ziguezagueia pela estrada toda,
fecho o telefone rapidamente.
Capítulo 36

Em vez da mancha no teto do meu apartamento, há um grande


trecho pintado de branco. Pespegado na porta da frente, há um
bilhete do senhorio. Em vez de barulho, silêncio total. O carpete está
coalhado de pequenos pedaços de plástico, portas e arcobotantes
estilhaçados. Dá para ouvir o filamento silvando em cada lâmpada.
Dá para ouvir o tique-taque do meu relógio de pulso.
Na geladeira, o leite azedou. Toda aquela dor e sofrimento
desperdiçados. O queijo está inchado e azul de mofo. Um pacote de
hambúrgueres ficou cinzento dentro do plástico. Os ovos parecem
bons, mas não estão, não podem estar, não depois de tanto tempo.
Tanto esforço e sofrimento foi posto nesses alimentos, e vai tudo para
o lixo. As contribuições de todas aquelas vacas e vitelas sofridas, tudo
jogado fora.
O bilhete do senhorio diz que o trecho branco no teto é um
selador de tinta. Diz que quando a mancha parar de exsudar, eles vão
pintar todo o teto. O aquecimento está no máximo para que a tinta
seque mais rapidamente. Metade da água do vaso sanitário evaporou.
As plantas estão secas que nem papel. O sifão da pia da cozinha está
meio vazio e o cheiro do esgoto está se infiltrando de volta. Meu
antigo modo de vida, tudo que eu chamava de lar, cheira a merda.
O selador é para evitar que as sobras do meu vizinho de cima
vazem para cá.
Soltas no mundo, ainda há trinta e nove cópias do livro de
poemas, desaparecidas. Nas bibliotecas, nas livrarias, nas casas. Mais
ou menos, não sei, algumas dúzias.
Hoje, Helen está em seu escritório. Foi lá que eu a deixei, sentada
à escrivaninha, cercada por dicionários abertos, dicionários de grego,
latim e sânscrito, dicionários de tradução. Ela arranjou um vidro de
iodo e está usando um pedaço de algodão para passar a substância
na escrita, fazendo com que as letras invisíveis fiquem vermelhas.
Usando outros pedaços de algodão, está passando caldo de
repolho vermelho nas demais letras invisíveis, fazendo com que
fiquem roxas.
Perto dos vidros, dos pedaços de algodão e dos dicionários, há
uma lâmpada com empunhadura. Um fio parte dali até uma tomada
na parede.
— É um fluoroscópio alugado — explica Helen. Ela aperta um
interruptor em um dos lados da lâmpada e a segura sobre o grimoire
aberto, virando as folhas até uma página ficar cheia de palavras cor-
de-rosa brilhantes. — Isso aqui foi escrito com sêmen.
Em cada feitiço há uma caligrafia diferente.
Em sua mesa lá na recepção Mona não disse uma palavra
agradável desde que saímos do parque de diversões. O aparelho que
capta a faixa policial emite um código de emergência após outro.
Helen pergunta para Mona:
— Qual é uma palavra boa para “demônio”?
E Mona responde:
— Helen Hoover Boyle.
Helen olha para mim e diz:
— Você já viu o jornal de hoje?
Ela empurra alguns livros para o lado. Sob eles há um jornal.
Helen folheia o exemplar, e na última página da primeira seção há
um anúncio de página inteira. A primeira linha diz:

Atenção, você viu este homem?


A maior parte da página é ocupada por uma foto antiga, minha
foto matrimonial: eu e Gina sorrindo, há vinte anos. Foi tirada do
nosso anúncio de casamento em alguma antiga edição de sábado.
Nossa declaração pública de compromisso e amor um pelo outro.
Nossa promessa. Nossos votos. O velho poder das palavras. Até que
a morte nos separasse.
Abaixo da foto, o texto do anúncio diz: “A polícia está atualmente
procurando este homem para ser interrogado em relação a diversas mortes
recentes. Ele tem quarenta anos, um metro e setenta e oito de altura,
oitenta e dois quilos, cabelo castanho e olhos verdes. Não está armado, mas
deve ser considerado altamente perigoso.”
O homem na fotografia é tão jovem e inocente! Ele não é o que
sou agora. A mulher morreu. Essas duas pessoas são fantasmas.
Abaixo da foto, o texto continua: “Se você souber o paradeiro
dele, por favor telefone para 911 e avise a polícia.”
Não sei se foi Oyster que pôs o anúncio ou a polícia.
Parados ali, de pé, Helen e eu olhamos para a fotografia. Ela
comenta:
— Sua mulher era muito bonita.
E digo que era mesmo.
Os dedos de Helen, seu terninho amarelo, sua escrivaninha antiga
de madeira lavrada e envernizada, tudo está manchado e besuntado
pelo vermelho do iodo e o roxo do caldo de repolho. As manchas
fedem a amônia e vinagre. Helen segura o fluoroscópio sobre o livro
e lê o esperma antigo.
— Tem um feitiço voador aqui. E um desses outros pode ser um
feitiço amoroso. — Ela folheia o livro. Cada página tem cheiro de
peidos de repolho ou mijo de amônia. — O feitiço de poda é esse
aqui. Em zulu arcaico.
Lá na recepção, Mona fala ao telefone.
Helen põe a mão no meu braço e me empurra para trás,
afastando-me um passo da escrivaninha. — Veja isso.
Fica ali de pé, ambas as mãos comprimindo as têmporas, os olhos
fechados.
Pergunto o que vai acontecer.
Mona desliga o telefone na recepção.
O grimoire aberto na mesa de Helen se move. Um dos cantos se
eleva, e depois outro. O livro começa a se fechar sozinho, depois se
abre, fecha e abre, cada vez mais rápido, até que se eleva da mesa.
Com os olhos ainda fechados, Helen articula palavras silenciosas.
Balançando no ar, com as páginas esvoaçando, o livro parece um
estorninho escuro e brilhante voejando perto do teto.
O aparelho que capta a faixa policial emite uns estalidos e berra:
— Unidade Dezessete, por favor vá ao número 5.680 da avenida
Weeden, a nordeste, onde fica a Imobiliária Helen Boyle, e prenda
um adulto para ser interrogado...
O grimoire bate na mesa com estrondo. Iodo, amônia, vinagre e
caldo de repolho se espalham por toda parte. Papéis e livros deslizam
até o chão.
Helen grita:
— Mona!
E eu digo:
— Não mate Mona, por favor! Não mate Mona!
Helen agarra minha mão com sua mão manchada:
— Acho que é melhor você ir embora daqui. Lembra-se do lugar
onde nos conhecemos? — sussurra ela. — Encontre-se comigo lá hoje
à noite.
No meu apartamento, toda a fita da secretária eletrônica foi
usada. Minha caixa de correio está tão atulhada de contas que tenho
de extraí-las com uma faca de manteiga.
Sobre a mesa da cozinha há um shopping center semiconstruído.
Mesmo sem o auxílio da figura na tampa da caixa, dá para dizer o que
é aquilo, pois os estacionamentos estão demarcados. As paredes
estão no lugar. As janelas e as portas estão de um lado, com as partes
de vidro já instaladas. Os painéis do telhado e as grandes unidades
de aquecimento e refrigeração ainda estão na caixa. A parte de
jardinagem está fechada em um invólucro de plástico.
Através das paredes do apartamento não passa nada. Ninguém.
Depois de semanas na estrada com Helen e Mona, esqueci como o
silêncio vale ouro.
Ligo a televisão. E uma comédia em preto-e-branco acerca de um
homem que volta do reino dos mortos sob a forma de uma mula. Ele
deve ensinar alguma coisa a alguém. Para salvar sua própria alma. O
espírito de um homem ocupando o corpo de uma mula.
Meu bipe soa de novo: a polícia, os salvadores, empurrando-me
para a salvação.
Seja por parte da polícia ou do porteiro, este lugar deve estar sob
alguma forma de vigilância.
No chão, espalhados pelo assoalho, há os estilhaços de uma
serraria, além das ruínas estraçalhadas de uma estação ferroviária
respingadas de sangue seco. Em torno da estação, jaz um prédio de
consultórios médicos e dentários em bilhões de pedaços. E um
hangar de aviões, esmagado. Um terminal de barcas, chutado para
longe. Todas as sangrentas ruínas e artefatos que me esforcei tanto
para montar, espalhados e estalando sob meus pés. Foi o que sobrou
da minha vida normal.
Ligo o radiorrelógio junto da cama. Sentado com as pernas
cruzadas no chão, estendo a mão e reúno os restos de postos de
gasolina e casas funerárias, quiosques de hambúrgueres e
monastérios espanhóis. Empilho os pedaços cobertos de sangue e
poeira enquanto o rádio toca canções swing de grandes orquestras,
música folclórica celta, rap dos guetos e música de citara indiana.
Empilhados à minha frente estão partes de sanatórios e estúdios
cinematográficos, elevadores de cereais e refinarias de petróleo. Do
rádio saem música hipnótica, reggae e valsas. Amontoados juntos
estão pedaços de catedrais, de prisões e de alojamentos militares.
Com pincel e cola, monto chaminés e claraboias, domos
geodésicos e minaretes. Aquedutos romanescos levam a coberturas
art déco, que levam a antros de ópio, que levam a bares do faroeste,
que levam a montanhas-russas, que levam a bibliotecas de cidades
pequenas, que levam a casas com gramados, que levam a salas de
conferência de faculdades.
Depois de semanas na estrada com Helen e Mona, esqueci como é
importante a perfeição.
No meu computador há um rascunho da matéria sobre as mortes
no berço. O último capítulo. E o tipo da reportagem que todos os pais
e avós têm medo de ler e mais medo ainda de não ler. Não há
informações novas. A ideia era mostrar como as pessoas lidam com a
coisa. As pessoas vão tocando suas vidas. Podíamos mostrar o
profundo reservatório interior de força e compaixão que cada uma
dessas pessoas descobre. Esse ângulo.
Tudo que sabemos sobre a morte súbita infantil é que não há um
padrão. Os bebês podem morrer até nos braços das mães.
A matéria continua inacabada.
A melhor forma de desperdiçar nossa vida é fazendo anotações. O
modo mais fácil de evitar viver é ficar só observando. Procurando os
detalhes. Relatando, Sem participar. Deixando que o Big Brother se
encarregue da música e da dança por nós. Sendo um repórter. Sendo
uma boa testemunha. Um membro agradecido da plateia.
No rádio, a música de valsa muda para música punk, que muda
para rock, que muda para rap, que muda para canto gregoriano, que
muda para música de câmara. Na televisão, alguém está mostrando
como cozinhar um salmão em água fervente. Alguém está mostrando
por que o Bismarck afundou.
Vou colando janelas, abóbadas, arcadas, escadarias, assoalhos,
mosaicos, paredes, cortinas, empenas e colunas jônicas.
Do rádio, vêm música africana de tambores e hinos franceses,
tudo misturado. No chão, à minha frente, estão pagodes chineses,
fazendas mexicanas e casas coloniais de Cape Cod, tudo combinado.
Na televisão, um golfista tenta se aproximar do buraco. Um mulher
ganha dez mil dólares por saber a primeira linha do Discurso de
Gettysburg.
A primeira casa que montei na vida tinha quatro andares, com um
telhado de mansardas e duas escadas, uma na frente para a família e
outra nos fundos para a criadagem. Tinha candelabros de metal e
vidro, iluminados com lâmpadas minúsculas. Tinha um assoalho de
tacos na sala de jantar que levei seis semanas para cortar e colar, peça
por peça. Tinha um teto na sala de música que minha esposa, Gina,
passou noites acordada pintando com nuvens e anjos. Tinha uma
lareira na sala de jantar com labaredas feitas por mim com vidro
partido contendo uma luz bruxuleante por trás. Arrumamos a mesa
com minúsculos pratos de jantar, e Gina ficava acordada até tarde da
noite pintando rosas na borda de cada prato. Nós dois, naquelas
noites, sem televisão nem rádio, com Katrin dormindo. A coisa
parecia tão importante na época! Eram essas as duas pessoas que
estavam na foto matrimonial. A casa foi montada para o segundo
aniversário de Katrin. Tudo tinha de ser perfeito. Tinha de ser algo
que provasse nosso talento e nossa inteligência. Uma obra-prima que
sobrevivesse a nós.
O cheiro da cola, de laranjas e gasolina mistura-se ao cheiro de
merda. Na cola grudada sobre os dedos das minhas mãos ficam
incrustados caixilhos, varandas e condicionadores de ar. Grudados à
minha camisa há molinetes, escadas rolantes e árvores. Eu aumento o
rádio.
Tanto trabalho, amor, esforço e tempo, minha vida,
desperdiçados. Arruinei tudo que eu tinha esperança que
sobrevivesse a mim.
Na tarde em que cheguei do trabalho e encontrei as duas, deixei a
comida na geladeira. Deixei as roupas nos armários. Na tarde em que
voltei para casa e percebi o que fizera, aquela foi a primeira casa que
pisoteei. Uma herança sem herdeiro. Os minúsculos candelabros, as
labaredas de vidro e os pratos de jantar. Grudados nos meus sapatos,
deixei um rastro de minúsculas portas, prateleiras, cadeiras, janelas e
sangue por todo o caminho até o aeroporto.
Além desse ponto, meu rastro terminava.
E, sentado aqui, não tenho mais pedaços. Acabei com todas as
paredes, telhados e corrimãos. E o que está grudado no assoalho à
minha frente é uma confusão sangrenta. Não é nada perfeito ou
completo, mas é nisso que transformei a minha vida. Certa ou errada,
não segue nenhum plano geral.
Você pode apenas torcer para que surja um padrão, e isso às vezes
nunca acontece.
E mesmo com um plano, você só consegue o melhor que pode
imaginar. Eu sempre esperara por algo melhor do que isso.
Estoura um clangor de trompas no rádio, um teletipo
matraqueando, e a voz de um homem diz que a polícia encontrou
mais uma modelo morta. A televisão mostra uma foto sorridente
dela. Prenderam mais um namorado suspeito. Outra autópsia mostra
sinais de relações sexuais após a morte.
Meu bipe toca de novo. O número é do meu novo salvador.
Com as mãos incrustadas de persianas e portas, pego o fone. Com
os dedos cobertos de encanamentos e canos de esgoto, disco um
número que não posso esquecer.
Um homem atende.
E digo:
— Papai. Papai, sou eu.
Conto a ele onde estou morando. Conto a ele o nome que estou
usando agora. Conto a ele onde trabalho. Digo a ele que sei o que a
coisa parece, com Gina e Katrin mortas, mas que não fui eu. Eu só
fugi.
Ele diz que sabe. Viu a foto matrimonial no jornal de hoje. Sabe
quem sou agora.
Há cerca de duas semanas, passei de carro pela casa deles. Digo
que vi mamãe e ele trabalhando no quintal. Eu estava estacionado
adiante, na mesma rua, embaixo de uma cerejeira florida. Meu carro,
o carro de Helen, coberto de pétalas cor-de-rosa. Digo que tanto ele
quanto mamãe parecem estar bem de saúde.
Digo a ele que também tenho sentido saudades. Também o amo.
E digo a ele que estou bem.
Digo que não sei o que fazer. E digo que tudo vai acabar bem.
Depois disso, fico só escutando. Espero até ele parar de chorar, a
fim de que eu possa pedir desculpas.
Capítulo 37

Sob o luar, a Casa Gartoller: oito quartos em estilo georgiano, com


sete banheiros e quatro lareiras. Vazia e branca. Cada passo dado no
assoalho reluzente ecoa por toda parte. A casa está escura, sem luzes.
Parece fria, sem mobília ou tapetes.
— Aqui. Podemos fazer a coisa aqui, onde ninguém nos verá —
diz Helen, apertando um interruptor de luz perto do umbral.
O teto é tao alto que poderia passar pelo céu. A luz vem de um
candelabro gigantesco, do tamanho de um balão atmosférico de
cristal. A luz transforma as altas janelas em espelhos e lança nossas
sombras para trás sobre o assoalho de madeira. Estamos no salão de
baile de cento e quarenta metros quadrados.
Estou desempregado. A polícia está atrás de mim. Meu
apartamento fede. Meu retrato ocupa uma página inteira do jornal.
Passei o dia todo escondido nas moitas perto da portaria, esperando
que escurecesse. E que Helen Hoover Boyle me dissesse o que tem
em mente.
Embaixo do braço, ela traz o grimoire, com as páginas manchadas
de cor-de-rosa e roxo. Abre o livro e me mostra um feitiço, com as
palavras em inglês escritas em tinta preta sob a algaravia estrangeira
do original.
— Diga isso em voz alta! — ordena ela.
— O feitiço?
— Leia logo isso — insiste Helen.
Pergunto o que aquilo faz.
E ela avisa:
— Cuidado com o candelabro!
Helen começa a ler as palavras de forma mecânica e monótona,
como se estivesse contando, como se as palavras fossem números.
Começa a ler, e sua bolsa começa a subir, flutuando, até a altura da
cintura dela. A bolsa flutua cada vez mais alto, até ficar presa a ela
pela alça do ombro. Flutua sobre a cabeça de Helen como se fosse um
balão amarelo.
Ela continua a ler e minha gravata flutua à minha frente.
Elevando-se como se fosse uma serpente azul saindo de uma cesta, a
gravata roça o meu nariz. A bainha da saia de Helen também começa
a se levantar. Ela a segura, prendendo a saia entre as pernas com uma
das mãos, e continua a ler. Os cordões de meus sapatos dançam no ar.
Cheios de pérolas e esmeraldas, os brincos de pingentes de Helen
também flutuam em torno das suas orelhas. Seu colar de pérolas
flutua em volta do rosto e acima da cabeça, formando uma auréola de
pérolas esvoaçantes.
Helen olha para mim e continua a ler.
Meu paletó esporte flutua sob os meus braços. Helen está ficando
mais alta. Seus olhos se elevam à altura dos meus. Depois tenho de
levantar os olhos para ela. Com os dedos apontados para baixo, seus
pés flutuam acima do chão. Primeiro um sapato amarelo, e depois
outro, caem dos pés e batem na madeira.
Com a voz ainda monótona e mecânica, Helen baixa os olhos para
mim e sorri.
E então sinto que um dos meus pés não está mais apoiado no
chão. Meu outro pé fica sem força e começo a dar chutes no ar, como
a gente faz em águas profundas, tentando encontrar o fundo de uma
piscina. Estico minhas mãos à procura de um ponto de apoio. Dou
chutes e meus pés se levantam atrás de mim, até que me vejo com o
rosto diretamente voltado para o assoalho do salão de baile, a um
metro, um metro e meio, dois metros, três metros lá embaixo. Eu e
minha sombra vamos ficando cada vez mais distantes. Minha sombra
vai ficando cada vez menor.
Helen recomenda:
— Carl, cuidado.
E algo frio e quebradiço me envolve. Pedaços pontiagudos e
frouxos se enrolam no meu pescoço e se entrelaçam no meu cabelo.
— É o candelabro, Carl — explica Helen. — Tenha cuidado.
Minha bunda está mergulhada no meio de contas e aparas de
cristal. Estou envolvido em um polvo tremulante e tintilante, com
braços frios de vidro e velas falsas. Meus braços e pernas se
enroscam nos filamentos pendentes de correntes de cristal. O cristal
poeirento balança. Há teias de aranha e aranhas mortas. Uma
lâmpada quente queima minha manga. Tudo isso muito acima do
chão. Entro em pânico e me agarro a um braço de vidro balouçante. A
enorme coisa brilhante balança e treme, soltando sons agudos.
Pedaços reluzentes se espatifam no chão lá embaixo. O negócio todo,
comigo dentro, balança de um lado para outro.
E Helen diz:
— Pare! Você vai quebrar esse negócio.
Ela se aproxima de mim, flutuando atrás de uma cortina de cristal
de contas tremeluzentes. Seus lábios articulam palavras silenciosas.
Suas unhas cor-de-rosa afastam as contas e ela sorri para mim,
dizendo: — Vamos endireitar você primeiro.
O livro desapareceu. Ela afasta os cristais para o lado e se
aproxima ainda mais.
Estou agarrado com as duas mãos a um braço do candelabro de
vidro. Os milhões de pedaços reluzentes balançam a cada batida do
meu coração.
— Finja que você está debaixo d’água — recomenda Helen,
desamarrando meu sapato. Ela tira o sapato do meu pé e o deixa cair.
Com as mãos manchadas, desamarra o outro sapato, e o primeiro
sapato bate com estrondo no chão. Ela passa os braços sob os meus.
— Pronto. Agora tire o paletó.
Ela deixa o paletó cair também, e depois minha gravata. Tira seu
próprio paletó e deixa-o cair. Em torno de nós, o candelabro parece
ser formado por milhões de arco-íris reluzentes de cristal. Quente,
devido a uma centena de lâmpadas minúsculas. Há um cheiro de
poeira queimada nas lâmpadas quentes. Tudo parece estonteante e
resplandecente enquanto flutuamos no centro vazio.
Estamos flutuando em luz e calor, nada mais.
Helen articula palavras silenciosas e meu coração se enche de
água quente.
Seus brincos, todas as suas joias, têm um brilho ofuscante. Só se
ouve o repicar dos cristais em torno de nós. Estamos balançando
cada vez menos e começo a me soltar. Com um milhão de estrelas
brilhantes piscando à nossa volta, é assim que Deus deve se sentir.
E essa também é minha vida.
Digo que preciso de um lugar para ficar. Longe da polícia. Não sei
o que fazer em seguida.
Helen estende a mão:
— Aqui.
Pego a mão dela. Ela não a solta. Nós nos beijamos. E é bom.
— Por enquanto, você pode ficar aqui — diz Helen. Dá um
peteleco com a unha rosada numa bola de vidro reluzente, cortada e
facetada para lançar luz em mil direções. -De agora em diante,
podemos fazer qualquer coisa. Qualquer coisa.
Nós nos beijamos, e com os dedos dos pés ela tira as minhas
meias. Nós nos beijamos, e desabotoo as costas da blusa dela.
Minhas meias, a blusa dela, minha camisa, a meia-calça dela.
Algumas coisas caem no chão lá embaixo e outras ficam penduradas
na parte mais baixa do candelabro.
Meu pé está infeccionado e inchado. Os joelhos dela estão
esfolados devido ao ataque de Oyster. Não há meio de escondermos
essas coisas um do outro.
Faz vinte anos, mas aqui estou, numa situação na qual jamais
sonhei que estaria novamente, e digo que estou me apaixonando.
Macia e quente, fulgurando neste centro de luz, Helen sorri e
inclina a cabeça para trás.
— A ideia é essa.
Estou apaixonado por ela. Apaixonado. Por Helen Hoover Boyle.
Minha calça e a saia dela saem flutuando, caindo na pilha lá
embaixo com os cristais tombados e nossos sapatos, tudo no chão
com o grimoire.
Capitulo 38

Na Imobiliária Helen Boyle, as portas estão trancadas. Quando


bato, Mona grita pelo vidro: — Estamos fechados!
E grito que não sou um cliente.
Lá dentro, Mona está sentada ao computador digitando algo. A
cada dois toques, ela levanta o olhar do teclado para o monitor, e
depois olha para o teclado novamente. No alto da tela, em caracteres
grandes, lê-se a palavra Currículo .
O aparelho que capta a faixa policial emite um código nove-onze.
Ainda digitando, Mona diz:
— Não sei por que não acuso você de agressão.
Talvez porque ela se importe comigo e com Helen, digo.
— Não, não é por causa disso.
Talvez ela não me denuncie porque ainda quer o grimoire.
Mona não fala nada. Volta-se na cadeira e puxa para cima a borda
da blusa de camponesa. A pele sobre as costelas, embaixo dos braços,
é branca, com manchas roxas.
Amor bandido.
Helen grita pela porta que dá para sua sala:
— Me diz um sinônimo para “atormentado”!
A escrivaninha dela está coberta de livros abertos. Debaixo da
mesa, vejo que ela calçou um sapato rosa e um amarelo.
Tudo está coberto de poeira: o sofá de seda rosa, a escrivaninha de
madeira lavrada em estilo Luís XIV de Mona e a mesinha de centro
com pés em forma de leão. Os arranjos florais estão secos e marrons,
mergulhados em água preta e fedorenta.
O aparelho que capta a faixa policial emite um código três-onze.
Peço desculpas. Digo que agarrá-la com força não foi uma coisa
legal. Pego os vincos das calças e levanto as pernas, para mostrar as
equimoses roxas nas canelas.
— Isso é diferente — diz Mona. — Eu estava me defendendo.
Bato o pé duas vezes e informo que minha infecção está bem
melhor. Depois agradeço.
Helen grita:
— Mona? Qual é um outro modo de se dizer “esquartejado”?
Mona diz:
— Quando você sair, precisamos ter uma conversinha.
Lá no escritório, Helen examina de perto um livro aberto.
É um dicionário de hebraico. Ao lado, vê-se um guia de latim
clássico. Embaixo do guia, há um livro sobre aramaico. Junto a ele,
uma cópia desdobrada do feitiço de poda. A cesta de lixo próxima à
mesa está cheia de copos de papel para café.
Eu digo oi.
Helen levanta os olhos. Há uma mancha de café na sua lapela
verde. O grimoire está aberto perto do dicionário de hebraico. Helen
pisca uma vez, duas vezes, três vezes:
— Streator.
Pergunto se ela gostaria de almoçar. Ainda preciso enfrentar John
Nash. Estava com esperança de que ela pudesse me dar uma
ajudazinha. Um feitiço de invisibilidade, talvez. Ou um feitiço de
controle da mente. Algo que evitasse que eu tivesse de matá-lo. Dou
a volta na mesa para ver o que ela está traduzindo.
— Estou um pouco ocupada hoje — diz Helen, deslizando uma
folha de papel para cima do grimoire. Com a outra mão, fecha o
dicionário. E com uma caneta na mão fica esperando: — Você não
deveria estar se escondendo da polícia?
Pergunto: — Que tal um cinema?
— Não neste fim de semana.
— Que tal se eu comprasse entradas para o concerto sinfônico?
Helen agita a mão entre nós:
— Como você quiser.
— Ótimo. Então está marcado.
Helen põe a caneta no cabelo cor-de-rosa, atrás da orelha. Abre
outro livro e coloca-o em cima do volume em hebraico. Com um dedo
marcando um ponto num dicionário, levanta os olhos e diz: — Não é
que eu não goste de você. E que estou muito, muito ocupada neste
momento.
No grimoire aberto, um nome sobressai na borda de uma página.
E o nome de hoje, o alvo de assassinato de hoje. E o nome é Carl
Streator.
Helen fecha o livro:
— Você compreende.
O aparelho que capta a faixa policial emite um código sete-dois.
Pergunto se ela vem me ver, hoje à noite, na Casa Gartoller.
Parado junto à porta do escritório, digo que mal posso esperar para
estar com ela novamente. Preciso dela.
Helen sorri:
— A ideia é essa.
Na recepção, Mona me pega pelo pulso. Apanha a bolsa e coloca a
alça no ombro, gritando:
— Helen, vou almoçar!
Depois diz para mim:
— Precisamos conversar, mas lá fora.
Ela destranca a porta para sairmos.
No estacionamento, parada junto ao meu carro, Mona abana a
cabeça.
— Você não tem ideia do que está acontecendo, não é?
Estou apaixonado. Portanto, pode me matar.
— Por Helen? — Mona estala os dedos diante do meu rosto e
suspira: — Você não está apaixonado. Nunca ouviu falar em feitiços
amorosos?
Seja qual for a razão, Nash fodendo mulheres mortas me vem à
mente.
— Helen descobriu um feitiço para prender você — continua
Mona. — Você está sob o poder dela. Não está realmente apaixonado
por ela.
Não estou?
— Quando foi a última vez que você pensou em queimar o
grimoire? — diz Mona, olhando fixamente para os meus olhos. Depois
aponta para o chão: — Isso? Você chama isso de amor? E apenas um
modo que ela descobriu de dominar você!
Um carro se aproxima e estaciona. Oyster está lá dentro. Ele
simplesmente afasta o cabelo dos olhos e fica sentado atrás do
volante, observando. As mechas de cabelo louro explodiram em
todas as direções. Duas linhas fundas, cicatrizes paralelas, correm de
cada lado do seu rosto. Tinta de guerra vermelho-escura.
Seu celular toca e ele atende:
— Doland, Dimms e Dorn, Advogados.
A grande luta pelo poder.
Mas eu amo Helen.
— Não. — Mona dá uma olhada para Oyster: — Você só pensa
que ama. Ela enganou você.
Mas isso é amor.
— Conheço Helen há mais tempo do que você — continua Mona.
Cruza os braços e olha para o relógio de pulso. — Isso não é amor. E
um feitiço. E lindo e doce, mas ela está transformando você num
escravo.
Capítulo 39

Os estudiosos da antiga cultura grega dizem que naquela época as


pessoas não viam os próprios pensamentos como pertencentes a elas
mesmas. Quando tinham um pensamento, achavam que um deus ou
uma deusa estava lhes dando uma ordem. Apoio estava lhes dizendo
que fossem corajosas.
Atena dizia-lhes que se apaixonassem.
Atualmente as pessoas ouvem um comercial de batatas fritas
condimentadas e saem correndo para comprar um saco.
Entre a televisão, o rádio e os feitiços mágicos de Helen Hoover
Boyle, realmente não sei mais o que quero. Não sei sequer se acredito
em mim mesmo.
À noite, Helen me leva de carro até o antiquário, o grande galpão
onde ela já mutilou tanta mobília. O local está fechado e escuro, mas
ela encosta a mão numa fechadura e diz um rápido poema. A porta se
abre. O alarme antifurto não soa. Não se ouve nada. Mergulhamos
fundo no emaranhado de móveis, com os candelabros escuros,
desligados, pendurados lá em cima. O luar atravessa as claraboias.
— Está vendo como é fácil? — diz Helen. — Nós podemos fazer
qualquer coisa.
Não, digo, ela pode fazer qualquer coisa.
Helen pergunta:
— Você ainda me ama?
Se ela quiser que eu a ame. Eu não sei. A decisão é dela.
Helen levanta os olhos para os enormes candelabros, gaiolas
penduradas cheias de dourados e cristais, e diz:
— Tem tempo para uma rapidinha?
E digo que aparentemente não tenho escolha.
Não sei a diferença entre o que quero e o que fui treinado a
querer.
Não consigo perceber o que realmente quero e o que me levaram
a querer.
Estou falando de livre-arbítrio. Temos realmente isso? Ou Deus
dita e determina tudo que fazemos, dizemos e queremos? Temos
livre-arbítrio? Ou a mídia e a cultura de massa nos controlam, junto
com nossos desejos e atos, desde que nascemos? Eu tenho livre-
arbítrio? Ou minha mente está sob o controle do feitiço de Helen?
Parada diante de um guarda-roupa de nogueira polido em estilo
Regency, com um enorme espelho bisotado na porta, Helen acaricia
os arabescos e florões e propõe:
— Vire imortal comigo.
Imortal como esse móvel, viajando vida após vida, observando
todos que nos amam morrerem. Parasitas. Esses guarda-roupas. Eu e
Helen, as baratas da nossa cultura.
Como uma cicatriz, ao longo da porta espelhada há um antigo
arranhão feito pelo anel de brilhantes de Helen, na época em que ela
odiava esse traste imortal.
Imagine a imortalidade: até um casamento com cinquenta anos
de duração pareceria apenas uma noitada sexual. Imagine ver todas
as tendências, toda moda passar fugazmente por você. Imagine ver o
mundo mais apinhado de gente e mais desesperado a cada século.
Imagine mudar de religião, de casa, de dieta, de carreira, até nada
disso ter mais valor real. Imagine viajar mundo afora até você se
entediar com cada centímetro quadrado. Imagine ver suas emoções,
seus amores e ódios, suas rivalidades e vitórias reencenadas
repetidamente, até a vida se tornar apenas uma novela
melodramática. Até você encarar o nascimento e a morte de outras
pessoas com tão pouca emoção quanto encara as flores colhidas e
murchas que joga fora.
Digo a Helen:
— Acho que já somos imortais.
— Eu tenho o poder. — Ela abre a bolsa e, tirando uma folha de
papel dobrada, balança-a para abri-la.
— Sabe o que é “cristalomancia”?
Não sei o que sei. Não sei o que é verdadeiro. Duvido que eu
realmente saiba alguma coisa. E peço:
— Conte para mim.
Helen tira uma echarpe de seda do pescoço e limpa a poeira da
grande porta espelhada do guarda-roupa. Segundo o cartão colado
ali, trata-se de um guarda-roupa em estilo Regency, com entalhes
marchetados de oliveira e detalhes metálicos dourados a fogo no
estilo do Segundo Império. Ela diz:
— As bruxas espalham óleo num espelho. Depois pronunciam
um feitiço, e conseguem ler o futuro no espelho.
O futuro, digo, ótimo. Capim-cevadinha. Trepadeiras kudzu. A
perca do Nilo.
No momento, nem tenho certeza se consigo ler o presente.
Helen levanta o papel e lê. Com a mesma voz monótona, como
que contando, que usou para o feitiço voador, lê rapidamente
algumas linhas. Depois baixa o papel:
— Espelho, espelho meu, diga qual será o nosso futuro se nos
amarmos e usarmos nosso novo poder.
O novo poder dela.
— Inventei a parte que diz “espelho, espelho meu” — diz Helen,
segurando a minha mão e apertando-a. Não devolvo o aperto, e ela
continua: — Experimentei fazer isso no escritório com o espelho do
meu estojo de maquiagem, e foi como ver televisão pelo microscópio.
No espelho, nossos reflexos ficam indistintos. As formas se
fundem e o reflexo assume um tom cinzento uniforme.
— Mostre o nosso futuro juntos! — ordena Helen.
E outras formas aparecem no tal tom cinzento. Luz e sombras se
fundem.
— Está vendo? Aí estamos nós — diz ela. — Somos jovens de
novo. Eu consigo fazer isso. Você está como estava no jornal. Naquela
foto matrimonial.
Tudo parece tão desfocado! Não sei o que estou vendo.
— E veja — diz Helen, estendendo o queixo para o espelho. —
Estamos governando o mundo. Estamos fundando uma dinastia.
Mas já não é o bastante?, consigo ouvir Oyster dizer. Ele e aquela
conversa de superpopulação.
Poder, dinheiro, comida, sexo, amor. Algum dia vamos achar que
já temos o bastante? Ou quanto mais tivermos, mais quereremos?
Dentro da confusão das imagens do futuro, não consigo
reconhecer coisa alguma. Vejo apenas mais imagens do passado.
Mais problemas, mais gente. Menos biodiversidade. Mais sofrimento.
— Eu nos vejo juntos para sempre — profecia Helen.
Eu digo:
— Se é isso que você quer.
E Helen pergunta: — O que significa essa frase?
Apenas o que ela quiser que signifique, digo. E ela quem está
manipulando os cordões aqui. E ela quem está plantando as suas
sementinhas. Colonizando e ocupando o meu ser. A mídia e a cultura
de massa estão botando ovos debaixo da minha pele. O Big Brother
está me enchendo de necessidades.
Quero realmente uma casa grande, um carro veloz e mil parceiras
sexuais lindas? Realmente quero essas coisas? Ou sou treinado para
querê-las?
Essas coisas são realmente melhores do que as coisas que já
tenho? Ou simplesmente fui treinado para ficar insatisfeito com o
que tenho agora? Será que simplesmente estou sob um feitiço que
diz que nada é bom o bastante?
O tom cinzento no espelho está girando num redemoinho.
Poderia ser qualquer coisa. Pouco importa o que o futuro nos reserve,
no final sempre haverá uma decepção.
Helen pega minha outra mão e me puxa:
— Olhe para mim. Mona disse alguma coisa para você?
Eu digo:
— Você ama você. Só não quero mais ser usado.
Acima de nós, os candelabros brilham como prata ao luar.
— O que a Mona disse? — perguntou Helen.
Estou contando 1, contando 2, contando 3...
— Não faça isso. Eu amo você — Helen diz apertando minhas
mãos: — Não se feche para mim.
Estou contando 4, contando 5, contando 6...
— Você está agindo como o meu marido — comenta ela. — Eu só
quero que você seja feliz.
Isso é fácil, digo, basta lançar um feitiço “feliz” sobre mim.
E Helen diz:
— Não existe esse feitiço. Para isso, as pessoas têm drogas.
Não quero continuar a piorar o mundo. Quero tentar consertar a
bagunça que fizemos. A população. O meio ambiente. O feitiço de
poda. A mesma mágica que arruína minha vida supostamente pode
consertá-la.
— Mas nós podemos fazer isso — diz Helen. — Com mais
feitiços.
Feitiços que consertam feitiços que consertam feitiços que
consertam feitiços, e a vida apenas ficando mais sofrida, de maneiras
que nunca imaginamos. E esse o futuro que vejo no espelho.
Eugene Schieffelin e seus estorninhos. Spencer Baird e sua carpa.
A história está cheia de pessoas geniais que queriam consertar as
coisas e só pioraram tudo.
Quero queimar o grimoire.
Digo a Helen o que Mona me contou. Que ela lançou um feitiço
sobre mim para me transformar no seu escravo amoroso imortal por
toda a eternidade.
— É mentira da Mona! — diz Helen.
Como vou saber? Em quem acreditar?
O tom cinzento no espelho, o futuro, talvez não esteja tão claro
para mim porque agora nada é claro para mim.
E Helen larga minhas mãos. Acenando para os guarda-roupas em
estilo Regency, as escrivaninhas em estilo federalista, e os cabideiros
em estilo Renascença, diz:
— Então, se a realidade é toda um feitiço, e se na verdade você
não quer o que pensa que quer... — Ela aproxima o rosto do meu. —
... Se você não tem livre-arbítrio... se você não sabe realmente o que
sabe... se você não ama realmente quem você só acha que ama... você
vai viver para quê? O que resta?
Nada.
Resta apenas nós dois parados aqui, com toda a mobília ao redor.
Pense no espaço sideral, no silêncio e no frio incríveis onde a sua
esposa e filha o esperam.
E eu digo:
— Por favor, me dê o seu celular.
O tom cinzento ainda está rodopiando de forma líquida no
espelho. Helen abre a bolsa e me entrega o telefone.
Abro o aparelho e disco 911.
Uma mulher atende:
— Polícia, incêndio ou emergência médica?
Respondo:
— Emergência médica.
— Sua localização? — pergunta a voz.
Dou o endereço do bar na Terceira Avenida, onde eu e Nash nos
encontramos. O bar perto do hospital.
— E a natureza da sua emergência médica?
Quarenta chefes de torcida profissionais exaustas devido ao calor.
Um time de voleibol feminino precisando de socorro boca a boca.
Uma turma de modelos querendo fazer exame nos seios.
Pergunto à mulher se eles têm um enfermeiro chamado John
Nash. E ele que deve vir. E digo que se eles não encontrarem Nash, é
melhor esquecer o assunto.
Helen pega o telefone de volta. Olha para mim, pisca lentamente
uma vez, duas vezes, três vezes, e:
— O que você está armando?
O que me resta, talvez a única saída para me libertar, é fazer as
coisas que não quero. Deter Nash. Confessar à polícia. Aceitar minha
punição.
Preciso me rebelar contra mim mesmo.
Isso é o oposto de relaxar e gozar. Preciso fazer o que mais temo.
Capítulo 40

Mash está comendo carne moída com molho de uma tigela numa
mesa nos fundos do bar da Terceira Avenida. O atendente está
debruçado sobre o balcão, com os braços ainda balançando acima
das banquetas. Dois homens e duas mulheres estão caídos sobre
uma das mesas. Seus cigarros ainda ardem, pela metade, no cinzeiro.
Há outro sujeito estendido na porta dos banheiros. E mais um morto
na mesa de sinuca, com o taco ainda nas mãos. Na cozinha, atrás do
balcão, um rádio emite o ruído de estática. Alguém com um avental
engordurado está caído de cara na chapa entre os hambúrgueres. A
chapa espoca e solta fumaça. A fumaça doce e sebenta do rosto do
sujeito se espalha ao longo do teto.
A vela na mesa de Nash é a única fonte de luz no ambiente.
Ele levanta os olhos, com a boca avermelhada pelo molho, e diz:
— Achei que você ia querer um pouco de privacidade.
Ele está usando o uniforme branco. Ali perto há um cadáver com
o mesmo uniforme.
Meu parceiro — Nash meneando a cabeça na direção do cadáver.
Quando ele faz isso, seu rabo-de-cavalo, a tal palmeirinha preta,
balança no alto da cabeça. A frente do uniforme branco de Nash está
toda manchada de molho vermelho. Ele diz:
— Eu já deveria ter podado esse cara há muito tempo.
Atrás de mim, a porta da rua se abre e um homem entra. Fica
parado ali, olhando ao redor. Agita a mão no meio da fumaça e
exclama: — Que porra é essa?!
A porta da rua se fecha atrás dele.
Nash baixa o queixo e mete dois dedos dentro do bolso do casaco.
Tira uma ficha de arquivo, manchada de comida vermelha e amarela.
Depois lê a cantiga de poda num tom monótono e firme, como se
estivesse contando. Como Helen.
Os olhos do sujeito que está na porta se reviram e ficam brancos.
Os joelhos se dobram e ele cai para o lado.
Eu simplesmente fico parado.
Nash mete a ficha de arquivo de volta no bolso e diz:
— Bom, onde nós estávamos?
Pergunto onde ele encontrou o poema.
— Adivinhe. Foi no único lugar em que você não poderia destruí-
lo — responde Nash. Depois, pega uma garrafa de cerveja e aponta o
longo gargalo para mim. — Pense. Pense bem.
O tal livro, Poemas e rimas ao redor do mundo, sempre poderá
ser encontrado por alguém. Está escondido à plena vista.
Simplesmente nesse único lugar, diz ele. Jamais poderá ser
eliminado inteiramente.
Por alguma razão, o capim-cevadinha me vem à mente. E
mexilhões-zebra. E Oyster.
Nash bebe um pouco de cerveja e ajeita-se no banquinho:
— Pense bem.
Falo das modelos e dos assassinatos. Digo que o que ele está
fazendo é errado.
Nash pergunta: — Desiste?
Ele precisa entender que é errado fazer sexo com mulheres
mortas.
Nash pega a colher e finalmente revela:
— Na velha Biblioteca do Congresso. Onde os dólares dos seus
impostos são postos para trabalhar.
Diabo.
Ele mergulha a colher na tigela de carne moída. Põe a colher na
boca e diz:
— E não venha me fazer sermão sobre os males da necrofilia!
Você é a última pessoa que pode me passar esse sermão.
Com a boca cheia de carne moída com molho, acrescenta:
— Sei quem você é. — Ele engole a comida. — Você ainda está
sendo procurado pela polícia.
Lambendo o molho esparramado em volta dos lábios, ele
acrescenta, sorridente:
— Eu vi o atestado de óbito da sua mulher. Sinais de relações
sexuais após a morte.
Depois aponta para uma cadeira vazia, e eu me sento.
Ele se inclina sobre a mesa e diz:
— E não me diga que aquela não foi a melhor trepada que você já
deu na vida...
— Cale a boca, eu ordeno!
— Você não pode me matar. — Nash esfarela algumas bolachas
dentro da tigela. — Você e eu somos exatamente iguais.
E digo que foi diferente. Ela era minha mulher.
— Mulher ou não, morta significa morta. E necrofilia. — Nash
mexe as bolachas e o molho vermelho com a colher: — Se você me
matasse, seria como matar você mesmo.
Repito:
— Cale a boca!
— Relaxe, não dei nenhuma pista a ninguém sobre isso. Teria sido
burrice. — Ele mastiga uma colherada de bolachas com molho. Enfia
outra colherada na boca. — E sério.
Pense bem. Bastaria a pessoa ler a coisa, e não preciso de
competidores.
Imperfeito e bagunçado, este é o mundo em que vivo. A tamanha
distância de Deus, é esta gente que me resta. Todo mundo lutando
por poder. Mona, Helen, Nash e Oyster. As únicas pessoas que me
conhecem têm ódio de mim. Todos nós nos odiamos. Todos temos
medo uns dos outros. O mundo inteiro é meu inimigo.
— Você e eu não podemos confiar em ninguém — diz Nash.
Bem-vindos ao inferno.
Se Mona estiver certa acerca daquelas palavras de Karl Marx que
citou, matar Nash será salvá-lo. Será fazê-lo voltar para Deus. Será
conectá-lo à humanidade anulando os seus pecados.
Nossos olhares se cruzam e os lábios de Nash começam a se
mexer. Seu bafo é pura carne moída.
Ele está recitando a cantiga de poda. Num tom áspero como o de
um cachorro latindo, diz cada palavra com tanta força que o molho
borbulha em torno da boca. Respingos vermelhos voam por toda
parte. Ele para e examina o bolso do casaco. Com a mão, procura a tal
ficha de arquivo. Segurando-a entre os dedos, começa a ler. Mas a
ficha está tão lambuzada que ele a esfrega na toalha e recomeça a
leitura.
O som é pesado e grave. O som da condenação.
Meus olhos relaxam e o mundo assume um tom cinzento
desfocado. Todos os meus músculos se afrouxam e se alongam.
Reviro os olhos e meus joelhos começam a se dobrar.
E assim que nós nos sentimos ao morrer. Para sermos salvos.
Mas, a esta altura, matar já virou um reflexo. E assim que resolvo
tudo.
Meus joelhos se dobram e bato no chão em três estágios, com a
bunda, as costas e a cabeça.
Rápida como um arroto, um espirro ou um bocejo vindo do meu
âmago, a canção da poda passa velozmente pela minha cabeça. O tal
barril de pólvora formado pelas minhas merdas recalcadas nunca
falha.
O tom cinzento volta a entrar em foco. Estendido de costas no
chão do bar, vejo a fumaça oleosa e cinzenta se espalhar pelo teto. Dá
para ouvir o rosto do cara ainda fritando.
Os dedos de Nash deixam a ficha cair na mesa. Ele revira os olhos,
ergue os ombros e cai de cara na tigela de carne moída com molho.
Gotas vermelhas voam por toda parte. Dentro do uniforme branco, o
corpo de Nash arqueja e desaba no chão ao meu lado, com os olhos
encarando os meus. Seu rosto está coberto de molho. O rabo-de-
cavalo, a tal palmeirinha negra no alto da cabeça, acabou se
desfazendo. Mechas de cabelo negro caem inertes ao longo das
bochechas e da testa.
Ele foi salvo, mas eu não.
Pego a ficha de Nash no chão enquanto a chapa sibilante continua
a espocar e a fumaça gordurenta pousa sobre mim. Seguro a ficha
sobre a vela na mesa, acrescentando mais fumaça ao ambiente, e fico
ali parado, vendo o papel queimar.
Uma sirene começa a soar. E o detector de fumaça, soando tão alto
que não consigo ouvir meus pensamentos. Como se eu pensasse.
Como se algum dia já houvesse pensado. A sirene me engolfa. E o Big
Brother. Ocupa minha mente como um exército ocupa uma cidade.
Enquanto isso, fico ali sentado, esperando que a polícia venha me
salvar. Para me entregar a Deus e me reunir à humanidade, a sirene
uiva, afogando tudo. E fico feliz.
Capitulo 41

Isto aconteceu depois que os policiais leram os meus direitos.


Depois que algemaram minhas mãos atrás das costas e me levaram
para a delegacia. Depois que o primeiro patrulheiro chegou ao local,
olhou para os cadáveres e exclamou:
— Nosso Senhor Jesus Cristo!
Aconteceu depois que os enfermeiros tiraram o cozinheiro morto
da chapa, deram uma olhada em seu rosto frito e vomitaram nas
mãos em concha. Depois que os policiais me deixaram dar o
telefonema costumeiro. Depois que telefonei para Helen e disse que
sentia muito, mas que era o fim, pois eu estava preso. E depois que
Helen prometeu: “Não se preocupe. Vou salvar você.”
Foi depois que eles tiraram minhas impressões digitais e me
fotografaram. Depois que confiscaram minha carteira, as chaves e o
relógio. Depois que puseram minhas roupas, o paletó marrom e a
gravata azul num saco plástico etiquetado com o meu novo número
de criminoso. Depois que me levaram nu por um corredor frio de
tijolos cinzentos, até uma sala fria de concreto onde havia um policial
corpulento, de cabelo cortado rente e as mãos do tamanho de uma
luva de beisebol. Depois que me deixaram naquela sala, com apenas
uma mesa, meu saco de roupas e um vidro de vaselina.
Quando fico sozinho com esse velho touro grisalho, ele calça uma
luva de borracha e diz:
— Por favor, vire-se para a parede, curve-se para a frente e afaste
as nádegas com as mãos.
E pergunto:
— O quê?
O tal gigante carrancudo mete dois dedos enluvados no vidro de
vaselina e informa: — Exame das cavidades corporais. Vamos, vire-se!
Estou contando 1, contando 2, contando 3...
Mas me viro e me curvo, com as mãos afastando as nádegas.
Contando 4, contando 5, contando 6...
Eu e a minha ética reprovada. Tal como Waltraud Wagner, Jeffrey
Dahmer e Ted Bundy, sou um assassino compulsivo, e este é o
começo da minha punição. Prova do meu livre-arbítrio. E o meu
caminho para a salvação.
E a voz do policial, áspera e fedendo a cigarro, diz:
— Procedimento-padrão para todos os detidos considerados
perigosos.
Estou contando 7, contando 8, contando 9...
E o policial rosna:
— Você vai sentir uma ligeira pressão; portanto, relaxe.
Estou contando 10, contando 11, contando...
Cacete.
Cacete!
— Relaxe — pede o policial.
Cacete. Cacete. Cacete. Cacete. Cacete. Cacete!
Sinto uma dor pior do que quando Mona me cutucou com sua
pinça em brasa. Pior do que a do álcool lavando meu sangue. Agarro
as duas nádegas e trinco os dentes, com o suor escorrendo pelas
pernas. O suor da testa pinga no meu nariz. Paro de respirar. As
gotas caem respingando entre os meus pés descalços, bem afastados
no chão.
Algo grande e duro vai se enroscando dentro de mim, e a voz
horrível do policial diz:
— Vamos lá, relaxe, parceiro.
Estou contando 12, contando 13...
O movimento de rosca para. O tal troço grande e duro recua
devagar, quase chegando a sair. Depois começa a entrar novamente.
Devagar como o ponteiro das horas de um relógio, depois mais
depressa, os dedos vaselinados do policial me investigam, recuam,
penetram de novo, recuam.
Perto do meu ouvido, a voz do policial, velha e áspera feito um
cinzeiro, pergunta:
— Ei, parceiro, tem tempo para uma rapidinha?
Todo o meu corpo treme com um espasmo.
E o policial comenta: — Cara, alguém acabou de trancar o fiofó.
Eu peço:
— Oficial, por favor! Você não faz ideia. Eu posso matar você. Por
favor, não faça isso!
E o policial diz:
— Se você soltar meus dedos, posso tirar suas algemas. Sou eu,
Helen.
Helen?
— Helen Hoover Boyle. Lembra-se de mim? — diz o policial. —
Há duas noites, você não estava fazendo quase exatamente a mesma
coisa comigo dentro de um candelabro?
Helen?
O troço grande e duro ainda se enrosca dentro de mim.
O policial me explica:
— Isto se chama um feitiço de ocupação. Acabei de traduzi-lo. E
depois expulsei este oficial Fulano de Tal para o subconsciente dele.
Quem manda aqui agora sou eu.
A sola fria e dura do sapato do policial empurra minha bunda e
ele arranca os grandes dedos duros para fora. Entre meus pés há uma
poça de suor. Ainda com os dentes trincados, eu me levanto
depressa.
— Achei que ia perder esses dedos — diz o policial, olhando para
a mão. Depois cheira os dedos e faz uma cara de nojo.
Ótimo, digo, respirando fundo com os olhos fechados. Primeiro
Helen me controla, e agora tenho que me preocupar se ela está
controlando todo mundo em volta.
O policial continua:
— Passei as últimas duas horas da tarde de hoje controlando
Mona. Só para testar o feitiço, e para acertar as contas por ela ter
assustado você. Dei uma boa escovada nela.
Ele apalpa os colhões e:
— Que incrível! Só ficar aqui com você já está me dando uma
ereção. Parece até machismo, mas eu sempre quis ter um pênis.
Digo que não quero ouvir aquilo.
E Helen diz pela boca do policial:
— Depois de colocar você num táxi, acho que vou ficar dentro
desse cara e bater umazinha. Só para experimentar.
Eu digo:
— Se acha que isso me fará amar você, pode pensar duas vezes!
Uma lágrima escorre pelo rosto do policial.
Nu em pé ali, continuo: — Não quero você. Não posso confiar em
você.
Com a voz roufenha do policial, Helen conclui: — Você não
consegue me amar porque eu sou uma mulher e tenho mais poder do
que você.
E eu digo:
— Vá embora, Helen! Vá se foder! Eu não preciso de você. Quero
pagar pelos meus crimes. Estou cansado de piorar o mundo para
justificar meus atos errados.
O policial começa a chorar copiosamente. Um outro policial, mais
jovem, entra na sala. Ele olha para o velho policial, que está
chorando, e para mim, que estou nu. Depois pergunta:
— Tudo bem aqui, sargento?
— Maravilhoso — responde o velho policial, enxugando os olhos.
— Estamos nos divertindo muito.
Ele percebe que enxugou os olhos com os dedos enluvados que
acabaram de sair da minha bunda, e arranca a luva com um gritinho.
Todo seu corpo estremece e ele joga a luva vaselinada do outro lado
da sala.
Digo ao policial jovem que nós só estávamos tendo uma
conversinha.
Ele estende o punho até meu rosto e ordena:
— Cale a porra dessa boca!
O velho sargento se senta na borda da mesa e cruza um joelho
sobre outro. Dá uma fungada para sustar as lágrimas, joga a cabeça
para trás como que ajeitando o cabelo, e diz:
— Bom, se não for incômodo, nós gostaríamos muito de ficar
sozinhos.
Eu simplesmente olho para o teto.
O policial jovem responde:
— É claro, sargento.
O sargento pega um lenço de papel e enxuga os olhos
delicadamente.
Então o policial jovem se vira com rapidez, agarra meu queixo e
me prende contra a parede. Minhas costas e pernas batem no
concreto. Empurrando minha cabeça para cima e apertando minha
garganta, ele grita:
— Não crie problema para o sargento! Entendeu?
O sargento levanta os olhos com um sorriso débil, funga, e diz: —
É mesmo. Você ouviu.
O policial jovem larga minha garganta e recua até a porta.
— Vou ficar ali fora, para... bom, para qualquer coisa.
— Obrigado — diz o sargento. Depois segura a mão do policial
jovem e a aperta. — Você é tão meigo!
O policial jovem puxa a mão com força e sai da sala. Helen está
dentro desse homem, como a televisão planta suas sementes em nós.
Como o capim-cevadinha toma conta de uma paisagem. Como uma
canção gruda em nossa cabeça. Como os fantasmas assombram
casas. Como um germe nos infecta. Como o Big Brother prende nossa
atenção.
Sarja, ou Helen, põe-se de pé e remexe no coldre. Segura uma
pistola com as duas mãos e aponta-a para mim:
— Agora pegue suas roupas no saco e se vista.
Fungando para prender as lágrimas e chutando o saco de lixo
cheio de roupas para mim, ele insiste:
— Vista isso, cacete! Vim aqui para salvar você!
Com a pistola tremendo, arremata:
— Quero que você caia fora logo, para que eu possa bater
umazinha.
Capitulo 42

Por toda parte há palavras se misturando. Palavras, letras de


músicas e diálogos estão se misturando numa sopa que pode
desencadear uma reação em cadeia. Talvez os atos de Deus sejam
apenas a combinação certa do lixo que a mídia joga no ar. As palavras
erradas colidem e provocam um terremoto. Tal como as danças de
chuva chamavam tempestades, a combinação certa de palavras talvez
provoque furacões. Por trás do aquecimento global, talvez haja um
excesso de jingles comerciais mesclados no ar. Talvez o número
excessivo de reprises televisivas que pululam por aí esteja causando
furacões. Câncer. AIDS.
No táxi, a caminho da Imobiliária Helen Boyle, vejo manchetes de
jornal misturadas a cartazes manuscritos. Panfletos colados em
postes telefônicos se misturam com correspondência de terceira
classe. As canções dos músicos de rua se misturam à música dos
elevadores, que se mistura ao barulho dos camelôs, que se mistura às
vozes no rádio.
Estamos vivendo numa torre de algaravias prestes a tombar. Uma
frágil realidade de palavras. Um caldo de cultura com o DNA da
catástrofe. Com o mundo natural destruído, restou-nos este mundo
atulhado de linguagem.
O Big Brother está cantando e dançando e resta-nos ficar olhando.
Paus e pedras quebram tudo pela frente, mas nosso papel é
simplesmente ser uma boa plateia. Simplesmente prestar atenção e
aguardar a próxima catástrofe.
Sobre o assento do táxi, minha bunda ainda parece oleosa e virada
do avesso.
Há trinta e três cópias do livro de poemas a serem encontradas.
Precisamos visitar a Biblioteca do Congresso. Precisamos consertar a
bagunça e garantir que isso jamais volte a acontecer.
Precisamos alertar as pessoas. Minha vida está acabada. Esta é
minha nova vida.
O táxi entra no estacionamento. Mona está diante das portas da
frente, trancando-as com um grande molho de chaves. Por um
instante, tenho a impressão de que é Helen. Mas é Mona, com o
cabelo emaranhado penteado para trás e metido num coque
vermelho e negro. Ela está usando um conjunto marrom, mas não
marrom cor de chocolate, e sim o marrom de uma trufa de avelã com
chocolate servida sobre uma almofada de cetim num hotel de luxo.
Há uma caixa no chão, perto dos pés de Mona. No alto da caixa há
algo vermelho, um livro. O grimoire.

Estou atravessando o estacionamento, e ela informa:


— Helen não está aqui.
O aparelho que capta a faixa policial falou algo sobre várias
mortes num bar da Terceira Avenida, diz Mona, e também que eu
fora preso. Pondo a caixa na mala do carro, continua:
— Você não encontrou a Helen por pouco. Ela saiu correndo
daqui, soluçando, não faz um segundo.
O Sarja.
O carrão de Helen, com seu cheiro de couro, não está à vista em
lugar algum.
Baixando os olhos para seus saltos altos marrons, seu conjunto
sob medida, acolchoado e pregueado, suas roupas embonecadas com
grandes botões de topázio e sua saia curta, Mona diz:
— Não me pergunte como isso aconteceu. — Ela levanta as mãos,
com as unhas negras pintadas de rosa com pontas brancas. — Por
favor, diga a Helen que não gostei de ter o meu corpo sequestrado e
essa merda feita comigo.
Depois, aponta para o rígido coque de cabelo, as faces maquiadas
e o batom cor-de-rosa.
— Isso é o equivalente a um estupro da moda com suas novas
unhas cor-de-rosa. Mona fecha com força a tampa da mala do carro.
E, apontando para a minha camisa: — As coisas lá com o seu amigo
ficaram um pouco sangrentas?
Digo a ela que as manchas vermelhas são de molho de carne
moída.
Depois digo que vi o grimoire. A pele humana vermelha. O
pentagrama tatuado.
— Ela me deu o livro — explica Mona, abrindo a bolsinha marrom
e metendo a mão lá dentro. — Ela falou que não ia mais precisar dele.
Como eu disse, ela parecia perturbada. Estava chorando.
Com duas unhas cor-de-rosa, Mona tira uma folha de papel
dobrada da bolsa. E uma página do grimoire, com meu nome escrito
nela. Ela estende a folha para mim. — E bom tomar cuidado. Acho
que alguém no governo quer ver você morto. Acho que o pequeno
feitiço amoroso da Helen deve ter saído pela culatra.
Ela tropeça nos saltos altos marrons e apoia-se no carro: -Acredite
ou não, estamos fazendo isso para salvar você.
Oyster está caído no banco traseiro, imóvel demais, perfeito
demais, para estar vivo. Seu cabelo louro despenteado espalha-se
pelo assento. O saco de feitiços hopi ainda pende de seu pescoço,
com cigarros caindo para fora. Vejo as cicatrizes vermelhas nos dois
lados do seu rosto, feitas pelas chaves do carro de Helen.
Pergunto se ele está morto.
— Bem que você gostaria que isso fosse verdade, mas não, ele está
bem — responde Mona, assumindo o volante e ligando o carro. — E
melhor você se apressar para encontrar Helen. Acho que ela pode
fazer algo desesperado.
Ela bate com força a porta do carro e começa a dar ré para sair da
vaga. Pela janela, indo embora, ainda grita: -Verifique no Centro
Médico New Continuum. Tomara que você não chegue tarde demais.
Capitulo 43

No quarto 131 do Centro Médico New Continuum, o chão brilha.


As placas de linóleo estalam e espocam quando passo sobre elas, em
meio aos cacos e estilhaços vermelhos, verdes, amarelos e azuis. As
gotas de vermelho. Os diamantes e rubis, esmeraldas e safiras. Os
saltos dos dois sapatos de Helen, o rosa e o amarelo, estão reduzidos
a uma massa informe. Sapatos arruinados deixados no meio do
quarto.
Helen está parada no canto mais afastado do aposento, bem na
borda da luz que vem de um abajur de mesa. Está debruçada sobre
uma arca feita de aço inoxidável, com as mãos estendidas sobre o
metal. Ela comprime o rosto sobre a superfície gelada.
Meus sapatos quebram e esmagam as cores no chão. Helen vira-se
para mim.
Seu batom cor-de-rosa ostenta uma mancha de sangue. Na arca
vê-se a marca de um beijo em rosa e vermelho. No lugar onde ela
estava caída há uma janela cinzenta e enevoada, e lá dentro há algo
perfeito demais e branco demais para estar vivo.
Patrick.
O gelo em torno das bordas da janela começou a derreter e a água
pinga no gabinete.
— Você está aqui — diz Helen, com uma voz indistinta e pastosa.
Sangue pinga de sua boca.
Só de olhar para ela, meu pé dói.
Digo que estou bem.
E Helen comenta: — Fico feliz com isso.
Seu estojo de maquiagem está jogado no chão. Entre os
fragmentos de cor há cordões e encaixes retorcidos, feitos de ouro e
platina.
— Tentei quebrar os maiores. O restante tentei mastigar — diz
Helen. Ela tosse até a palma de sua mão ficar cheia de sangue e lascas
brancas.
Perto do estojo de maquiagem há um frasco derramado de líquido
para desentupir ralos, formando uma poça verde.
Os dentes de Helen estão arrebentados, com falhas sangrentas, e
há buracos dentro de sua boca. Ela encosta o rosto na janela cinzenta.
Seu hálito embaça o vidro e a mão ensanguentada vai até um dos
lados da saia.
— Não quero voltar à situação de antes, ao estilo de vida que eu
tinha antes de conhecer você — continua ela, limpando a mão
ensanguentada na saia. — Mesmo com todo o poder do mundo.
Digo que nós precisamos levá-la para um hospital.
Helen dá um sorriso ensanguentado:
— Isto aqui é um hospital.
Depois diz que não é nada pessoal. Ela simplesmente precisava de
alguém. Mesmo que pudesse trazer Patrick de volta, jamais iria
querer arruinar a vida dele compartilhando o feitiço de poda. Mesmo
que isso significasse viver sozinha de novo, ela jamais gostaria que
Patrick tivesse aquele poder.
— Olhe para ele. — Ela toca o vidro cinzento com as unhas cor-de-
rosa. — Ele é tão perfeito!
Ela engole sangue, diamantes estilhaçados e dentes, e faz uma
careta terrível. Põe a mão sobre o estômago e se inclina sobre a arca
de aço com a janela cinzenta. Sangue e vapor condensado escorrem
janela abaixo.
Com a mão trêmula, Helen abre o fecho da bolsa e tira um batom.
Retoca com ele os lábios, e o batom cor-de-rosa sai manchado de
sangue.
Ela diz que desligou a unidade criogênica. Desconectou o alarme
e as baterias de emergência. Quer morrer junto com Patrick.
Ela quer que tudo acabe aqui. O feitiço de poda. O poder. A
solidão. Ela quer destruir todas as joias que as pessoas pensam que
as salvarão. Todos os resíduos que sobrevivem ao talento, à
inteligência e à beleza. Toda essa porcaria decorativa que é deixada
para trás pela verdadeira realização e pelo sucesso. Ela quer destruir
todos os belos parasitas que sobrevivem a seus hospedeiros
humanos.
A bolsa cai de suas mãos. A pedra cinzenta rola para fora da bolsa
no assoalho. Seja qual for a razão, Oyster me vem à mente.
Helen arrota. Tira da bolsa um lenço de papel, coloca-o em concha
sob a boca e cospe. Sangue, bile e esmeraldas quebradas.
Rebrilhando dentro de sua boca, entranhadas na carne macerada das
gengivas, há rosadas safiras pontiagudas e berilos alaranjados em
estilhaços. Alojados no céu da boca, fragmentos de espinélios roxos.
Cravadas na língua, lascas de diamantes negros.
Helen sorri:
— Quero ficar com minha família.
Ela faz uma bola com o lenço de papel ensanguentado e a enfia no
punho do paletó do conjunto. Os brincos, colares e anéis, tudo se foi.
Os detalhes do seu conjunto são: é de alguma cor, é um conjunto,
e está arruinado.
Ela pede: — Quero que você me abrace, por favor. Mais nada.
Dentro da janela cinzenta, o infante perfeito está virado de lado
num travesseiro de plástico branco. Tem um polegar enfiado na boca.
Perfeito e pálido como gelo azul.
Ponho os braços em torno de Helen e ela faz uma careta de dor.
Seus joelhos começam a ceder e eu baixo o seu corpo até o chão.
Helen Hoover Boyle fecha os olhos e diz: -Obrigado, Streator.
Segurando a pedra cinzenta em uma das mãos, quebro a fria
janela cinzenta. Com as mãos sangrando, tiro Patrick, frio e pálido, lá
de dentro. Com meu sangue sobre ele, coloco-o nos braços de sua
mãe. E enlaço Helen com meus braços.
Meu sangue e o dela agora misturados.
Deitada nos meus braços, Helen fecha os olhos e enfia a cabeça
no meu colo. Sorri e diz:
— Você não achou muita coincidência Mona ter encontrado o
grimoire? — Com um esgar sarcástico para mim, ela abre os olhos. —
Não achou conveniente demais estarmos viajando com o grimoire o
tempo todo?
Ainda em meus braços, ela embala Patrick. E então a coisa
acontece. Ela levanta a mão e belisca minha bochecha. Ergue o olhar
para mim e sorri com apenas metade da boca, um esgar com sangue
e bile verde entre os lábios. Dá uma piscadela e diz: — Peguei você,
papai!
Meu corpo todo é um só espasmo muscular molhado de suor.
— Você achou mesmo que mamãe se mataria por sua causa? E
jogaria na porra do lixo aquelas joias preciosas? E derreteria esse
pedaço de carne congelado? — pergunta Helen.
Ela ri, com sangue e líquido desentupidor de ralos borbulhando
na garganta: — Você achou mesmo que mamãe mastigaria essas
porras de diamantes só porque não é amada por você?
Eu digo:
— Oyster?
— Em carne e osso — afirma Helen, ou Oyster diz com a boca e a
voz de Helen. — Bom, estou nos ossos da Helen, mas nas carnes
aposto que você mesmo já esteve.
Helen levanta Patrick nas mãos. Seu filho, frio e azul como
porcelana. Frágil e congelado como vidro.
Ela atira Patrick para o outro lado do aposento. A criança morta
bate na arca de aço e cai ao chão, rolando no linóleo. Patrick. Um
braço congelado se desprende do corpo. Patrick. Rolando, o corpo
bate num canto da arca de aço e as pernas se soltam. Patrick. Sem
braço e sem perna, feito uma boneca quebrada, o corpo rola até a
parede e a cabeça se solta.
Helen dá uma piscadela.
— Ora essa, papai! Deixe de ser convencido!
Digo a ele que vá para o inferno.
Oyster ocupa Helen, tal como um exército ocupa uma cidade. Tal
como Helen ocupou o Sarja. Tal como o passado, a mídia e o mundo
nos ocupam.
Helen diz, ou Oyster diz pela boca de Helen:
— Mona descobriu o grimoire há semanas. Percebeu logo que viu a
agenda de mamãe. Só não conseguia traduzir o troço. O meu negócio
é musica, e o negócio da Mona é... bom, o negócio da Mona é burrice.
Hoje à tarde, Mona acordou num salão de beleza, com as unhas
sendo pintadas de cor-de-rosa. Foi voando de volta para o escritório e
encontrou Helen caída de cara na mesa, numa espécie de coma; ela
estremece e põe as mãos no estômago: — Aberto diante de Helen,
havia um feitiço traduzido, chamado feitiço de ocupação. Na
verdade, todos os feitiços já estavam traduzidos.
Ela continua, ou Oyster pela boca de Helen: — Que Deus abençoe
mamãe e suas palavras cruzadas. Ela está aqui, em algum lugar,
completamente furiosa. Diga oi para a mamãe por mim.
A frágil estátua azul, o bebê congelado, está espatifado, quebrado
entre as joias quebradas, com um dedo arrebentado aqui, as pernas
arrancadas ali, a cabeça despedaçada acolá.
Pergunto, então, se ele e Mona vão matar todo o mundo para se
tornarem Adão e Eva.
Toda geração quer ser a última.
— Todo o mundo, não — explica Helen. — Vamos precisar de
alguns escravos.
Com as mãos ensanguentadas de Helen, ele se estica e levanta a
saia dela. Apalpando a virilha, diz:
— Talvez você e mamãe tenham tempo para dar uma rapidinha
antes que ela vire churrasco.
E empurro o corpo de Helen do meu colo.
Meu corpo todo dói mais do que meu pé jamais doeu.
Helen solta um pequeno grito ao deslizar até o chão. Enroscada
ali no linóleo frio, com as joias despedaçadas e fragmentos de
Patrick, ela chama:
— Carl?
Põe a mão na boca e sente as joias incrustadas ali. Revira-se a fim
de olhar para mim, e pergunta:
— Carl, Carl, onde estou?
Vê a arca de aço inoxidável e a janela cinzenta quebrada. Vê
primeiro os pequenos braços azuis. Depois as pernas. A cabeça.
E com o sangue jorrando da boca, Helen grita:
— Não! Não! Não!
Ela sai rastejando entre as afiadas lascas coloridas. Com a voz
pastosa e indistinta por causa dos dentes arruinados, vai apanhando
todos os pedaços. Soluçando, coberta de bile e sangue, em meio ao
fedor da sala, agarra os pedaços azuis quebrados. As mãos e os pés
diminutos, o tórax esmagado e a cabeça afundada, ela abraça tudo
com força contra o peito e urra:
— Ah! Patrick! Patrick!
Beijando a cabeça azul fendida, apertando-a contra o peito, ela
pergunta: — O que está acontecendo? Carl, me ajude!
Fica olhando para mim, até que uma câimbra a faz se dobrar em
duas e ela vê o frasco vazio de desentupidor de ralos.
— Meu Deus! Carl, me ajude! — diz ela, agarrando o filho e
embalando o corpo. — Meu Deus! Por favor, me diga como cheguei
aqui!
E eu vou até ela. Pego-a nos braços e digo que no início o novo
proprietário finge que nunca olhou para o assoalho da sala. Nunca
olhou de verdade. Não quando visitou a casa pela primeira vez. Nem
quando o inspetor o levou para percorrer todo o imóvel. Eles só
mediram os aposentos e mostraram ao pessoal da mudança onde
colocar o sofá e o piano. Botaram para dentro tudo que possuíam e
nunca olharam de verdade para o chão da sala. Eles fingem.
A cabeça de Helen está caída sobre Patrick. Sangue escorre de sua
boca. Seus braços estão mais soltos, espalhando os dedinhos das
mãos e dos pés no assoalho.
Dentro de um instante, estarei sozinho. Essa é a minha vida. E
juro que, não importa onde e quando for, pegarei Oyster e Mona.
O bom é que isso só leva um minuto.
E uma canção antiga sobre animais que adormecem, melancólica
e sentimental. Meu rosto parece lívido e quente devido à
hemoglobina oxigenada, enquanto recito o poema em voz alta sob as
luzes fluorescentes, com o fardo frouxo que é Helen nos meus braços,
encostado na arca de aço. Patrick está coberto pelo meu sangue, e
pelo sangue dela. A boca de Helen está um pouco aberta. Seus dentes
cintilantes são diamantes verdadeiros.
Ela se chamava Helen Hoover Boyle. Seus olhos eram azuis.
Minha missão é notar os detalhes. Ser uma testemunha imparcial.
Tudo é sempre pesquisa. Minha missão é não sentir nada.
Esta é uma cantiga de poda. Em algumas culturas antigas, eles
cantavam isso para as crianças durante as fomes e secas, sempre que
a tribo crescia demais para a terra que possuía. A canção era cantada
para guerreiros feridos em acidentes, para anciãos ou para qualquer
um que estivesse morrendo. Era usada para dar fim à infelicidade e à
dor.
E uma cantiga de ninar.
Digo que tudo vai dar certo. Abraço Helen, embalando-a, dizendo
que ela já pode descansar. Dizendo para ela que tudo vai dar certo.
Capítulo 44

Quando eu tinha vinte anos de idade, casei com uma mulher chamada
Gina Dinji, e isso deveria ser o resto da minha vida. Um ano mais tarde,
tivemos uma filha chamada Katrin, e ela deveria ser o resto da minha vida.
Depois Gina e Katrin morreram. Eu fugi e me tornei Carl Streator. Virei
jornalista. E durante vinte anos, essa foi a minha vida.
Depois disso, bom, todo mundo jã sabe o que aconteceu.
Não sei quanto tempo fiquei abraçado a Helen Hoover Boyle. Depois de
muito tempo, aquilo passou a ser apenas o corpo dela. Foi tanto tempo que
ela já havia parado de sangrar. Aquela altura, as partes quebradas de
Patrick Boyle, ainda conservadas nos braços dela, já haviam se derretido o
bastante para começar a sangrar.
Foi então que ouviram-se passadas do lado de fora do quarto 13 L A
porta se abriu.
Comigo ainda sentado no chão, segurando Helen e Patrick mortos no
meu colo, a porta se abre. E o velho policial irlandês grisalho.
O Sarja.
E peço: — Pode me colocar na cadeia. Vou dizer que sou culpado de tudo.
Matei minha mulher. Matei minha filha. Sou Waltraud Wagner, o Anjo da
Morte. Pode me matar, para que eu possa estar com Helen novamente.
O Sarja diz:
— Precisamos botar o pé na estrada.
Ele vai do umbral até o gabinete de aço. Num bloco de papel, escreve
algo com uma caneta. Arranca a página e entrega-a para mim.
Sua mão é enrugada, coalhada de verrugas e coberta de pelos grisalhos.
As unhas, grossas e amarelas.
No bilhete, leio: “Por favor, me perdoe por tirar minha própria vida.
Agora estou com meu filho. ”
E a caligrafia de Helen, a mesma da sua agenda, o grimoire.
E está assinada na caligrafia precisa dela: “Helen Hoover Boyle. ”
Olho para o cadáver nos meus braços, coberto de sangue e vômito verde
de desentupidor de ralos. Olho para o Sarja parado ali e digo: — Helen?
— Em carne e osso — responde o Sarja, ou Helen, olhando para o corpo
morto de Helen no meu colo. — Bom, nem na minha carne, nem nos meus
ossos. — Ele olha para suas próprias mãos enrugadas. — Odeio comprar
roupa pronta, mas numa tempestade qualquer porto serve.
Portanto, foi assim que pegamos a estrada de novo.
As vezes fico com medo de que o Sarja seja, na realidade, Oyster
fingindo ser Helen ocupando o Sarja. Quando durmo com quem quer que
esteja nesse corpo, finjo que é Mona. Ou Gina. Assim fica tudo certo.
Segundo Mona Sabbat, as pessoas que comem ou bebem demais, ou são
viciadas em drogas, sexo e roubo, na realidade são controladas por espíritos
que adoravam tanto essas coisas que não conseguiram largá-las depois da
morte. Os bêbados e cleptomaníacos são possuídos por espíritos malignos.
Nós somos os transmissores da cultura. Os hospedeiros.
Algumas pessoas ainda acham que dirigem suas próprias vidas.
Nós somos os possuídos.
Somos todos assombrações e assombrados.
Sempre há algo alienígena vivendo sua vida por nosso intermédio. Toda
a nossa vida não passa de um veículo para algo vir à Terra.
Um espírito maligno. Uma teoria. Uma campanha de marketing. Uma
estratégia política. Uma doutrina religiosa.
— Eles têm o feitiço de ocupação e o feitiço voador — diz o Sarja para
mim, afastando-se do Centro Médico New Continuum ao volante de uma
radiopatrulha. Depois ele ou ela vai enumerando cada feitiço, levantando
um dedo por vez. — Devem ter o feitiço da ressurreição, mas aquilo só
funciona com animais. Não me pergunte por quê. Devem ter o feitiço da
chuva e o feitiço do sol... o feitiço da fertilidade, para trazer colheitas
abundantes... o feitiço de comunicação com os animais...
Sem olhar para mim, mas para os próprios dedos abertos sobre o
volante, Sarja arremata:
— Mas eles não têm um feitiço amoroso.
Portanto, estou realmente apaixonado por Helen. Uma mulher no corpo
de um homem. Não fazemos mais sexo loucamente, mas, como diria Nash,
nisso somos iguais à maioria dos casais com relacionamentos amorosos
prolongados.
Mona e Oyster têm o grimoire, mas não têm a cantiga de poda. A
página do grimoire que Mona me deu, e que tinha meu nome escrito na
margem, era a que trazia a cantiga. Na parte de baixo da página lê-se: “Eu
também quero salvar o mundo, mas não do jeito do Oyster.” Está assinado
“Mona ”.
— Eles não têm a cantiga de poda — continua Sarja. Helen diz: — Mas
têm o feitiço-escudo.
Feitiço-escudo?
— Para se proteger da cantiga de poda.
— Mas isso não é problema. Eu tenho um distintivo, uma arma e um
pênis.
Para encontrar Mona e Oyster, só é preciso procurar o fantástico,
procurar milagres. As espantosas manchetes dos tabloides. O jovem casal
que foi visto cruzando o Lago Michigan a pé no verão. A moça que fez capim
brotar através da neve, alto e verdejante, para os búfalos mortos de fome no
Canadá. O rapaz que conversa com os cachorros perdidos no abrigo de
animais e ajuda os bichos a voltar para casa.
E só procurar mágica. Procurar santos.
A Virgem Voadora. O Cristo dos Bichos Atropelados. O Inferno da Hera.
A Vaca Judas Falante.
E só continuar em busca dos fatos. A caça às bruxas. Não é o que um
terapeuta aconselharia a alguém, mas funciona.
Mona e Oyster. Este mundo será deles em breve. O poder mudou de
mãos. Helen e eu ficaremos brincando de pega-ladrão eternamente. E só
imaginar Jesus nos caçando por aí, tentando nos pegar e salvar nossas
almas. Não simplesmente como um Deus paciente e apático, mas como um
perdigueiro laborioso e agressivo.
Sarja abre bruscamente o coldre, exatamente como Helen costumava
abrir sua bolsinha, e pega uma pistola.
Ele, Helen ou quem quer que seja, pergunta: — Que tal simplesmente
liquidarmos os dois à moda antiga?
Essa é a minha vida agora.