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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO


GRANDE DO SUL
DFP – DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E PSICOLOGIA
CURSO DE PSICOLOGIA

CONSIDERAÇÕES ACERCA DO CORPO E IMAGEM NA CULTURA

GABRIELA MALLMANN FENNER

IJUÍ (RS)
2008
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GABRIELA MALLMANN FENNER

CONSIDERAÇÕES ACERCA DO CORPO E IMAGEM NA CULTURA

Trabalho de pesquisa supervisionado e


apresentado como requisito parcial para
conclusão do curso de formação de Psicólogo.

Orientadora: Eliane Bueno

IJUÍ (RS)
2008
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GABRIELA MALLMANN FENNER

CONSIDERAÇÕES ACERCA DO CORPO E IMAGEM NA CULTURA

BANCA EXAMINADORA

_________________________________________________
ELIANE BUENO
Psicóloga e Especialista em Psicanálise na Cultura: Saber e Ética

_________________________________________________
ANA DIAS
Psicóloga e Mestre em Educação nas Ciências pela Unijuí

__________________________________________________
KENIA FREIRE
Psicóloga e Mestre em Educação nas Ciências pela Unijuí
4

Dedico este trabalho àqueles que acreditaram e apostaram em


meu sonho, ou seja, aos meus pais, Edson e Elaine, bem como
todas as pessoas que participaram direta e indiretamente deste
percurso e fazem parte da minha história.
5

AGRADECIMENTOS

Primeiramente agradeço a Deus, por ter me acompanhado e me iluminado durante esta


trajetória.
Aos meus pais, que me ensinaram seus valores, me possibilitando ir em busca dos meus
sonhos. Agradeço por todo o amor e confiança que sempre depositaram em mim durante toda
minha vida. Agradeço pela compreensão e pela ajuda nos momentos mais difíceis longe de
casa. A eles que acreditaram, lutaram (e como lutaram!) para possibilitar a realização deste
sonho! A eles, meu eterno obrigado!
Este é o resultado de cinco anos de trabalho, dureza, mas muita esperança e muita vontade de
chegar a este dia e vos dizer: “Isto é pra vocês meus pais”.
Ao meu irmão, pelos momentos em que tive que me ausentar de sua vida, mas que mesmo
assim, não deixei de amá-lo por um instante.
À minha orientadora, que com seu profissionalismo auxiliou-me na elaboração deste trabalho.
Pelos seus ensinamentos, pelas orientações quando estive “perdida” e por toda a força que me
incentivou desde o início na condução deste trabalho. O processo de aprendizagem é difícil,
mas nos faz crescer... E o produto final é que nos impulsiona a sempre estar aprendendo mais!
Às minhas colegas e amigas que estiveram comigo durante estes cinco anos, que
compartilharam emoções, alegrias, sorrisos, angústias e conquistas. Muito obrigada por
estarem sempre ao meu lado!
O resultado final é a soma da colaboração, de alguma forma, de cada um de vocês!!
OBRIGADA.
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Compor uma imagem corporal exige uma complicada operação


psíquica, uma negociação com os olhares outros, que do espelho nos
olham. Com que rigor ou com que benevolência o espelho nos
espreita? (BRASIL, 2002, p.134).
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Título: CONSIDERAÇÕES ACERCA DO CORPO E IMAGEM NA CULTURA


Autora: Gabriela Mallmann Fenner
Orientadora: Eliane Bueno

RESUMO: O presente trabalho de pesquisa supervisionado aborda a representação do corpo


e sua imagem, os quais estão imbricados com a história e com a cultura, uma vez que cada
época constrói seu padrão ideal corporal. Contempla-se um breve percurso acerca dos
diferentes olhares sobre o corpo, através de uma retomada histórica desde a Antiguidade
Clássica até a Contemporaneidade. Ainda, a constituição do corpo e sua imagem a partir de
um complexo processo de subjetivação.

PALAVRAS-CHAVE: Corpo – Imagem – Outro – Cultura.


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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.........................................................................................................................9
1 O CORPO NA HISTÓRIA: UM BREVE OLHAR........................................................11
2 O CORPO NA PSICANÁLISE........................................................................................20
3 CORPO E IMAGEM NA CONTEMPORANEIDADE ................................................33
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..................................................................................47
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INTRODUÇÃO

Ao longo da história, a representação do corpo e sua imagem passaram por diversas


modificações. À medida que a sociedade vai avançando na construção do conhecimento,
percebe-se uma mudança na relação dos sujeitos com o seu corpo e sua imagem corporal,
assim como na transformação do mesmo através da interação histórica que vai se
processando.

As modificações culturais e suas demandas propiciam modificações nos modos de


percepção dos sujeitos em torno do mesmo. A partir disto, o objetivo da pesquisa consiste em
refletir sobre a construção dos significados do corpo ao longo do tempo, sua concepção do
ponto de vista da Psicanálise e a atualidade da questão.

Para tal, a pesquisa organiza-se em três capítulos. No primeiro deles, a partir de uma
breve perspectiva histórica, reflete-se sobre o que o corpo significou para cada cultura ou
período histórico, situando as imagens exercidas pelo mesmo em seus diversos aspectos:
corpo belo, corpo sagrado, corpo científico e corpo ideal.

No segundo capítulo parte-se da perspectiva de corpo pelo viés psicanalítico,


apresentando e desenvolvendo como se dá a constituição do mesmo frente ao olhar do Outro,
articulando-o enquanto efeito da linguagem. Tendo como foco a questão da imagem corporal,
a qual é inconsciente e singular, trabalha-se fundamentalmente os conceitos de Narcisismo e
Estádio do Espelho, enfatizando a relação com o Outro enquanto formador do sujeito e de sua
imagem corporal.
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No terceiro e último capítulo priorizam-se questões concernentes às imagens corporais


ideais que a cultura Contemporânea propõe como referências a serem seguidas. Problematiza-
se o sujeito inserido na cultura, tendo como referencia o olhar Outro cultural para seu
reconhecimento.

O trabalho efetua-se a partir da pesquisa bibliográfica, tendo como base fundamental a


teoria psicanalítica de Sigmund Freud e Jacques Lacan, que possibilitaram a sustentação
teórica acerca da constituição do corpo do sujeito. Nesta direção, enfatizando o contexto atual,
faz-se referência a outros pontos de vista, citando autores tais como Maria Rita Kehl, Joel
Birman, e situando também autores da área da filosofia e educação física como Guy Debord e
Fábio Zóboli.
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1 O CORPO NA HISTÓRIA: UM BREVE OLHAR

Interrogar os mistérios do corpo é tão antigo quanto investigar o Universo que nos
cerca. Ao decorrer da história, com a finalidade de abordar e compreender os enigmas em
torno do corpo, construíram-se diferentes mitos, crenças, conceitos e teorias. O corpo sempre
apareceu como objeto de estudo abarcando diversos campos do saber e, neste sentido, por
diversos ângulos.

O estudo sobre corpo e as representações feitas dele são importantes para conhecermos
o que este significou para cada época ou período histórico. Segundo Calvacanti (2005), o
corpo é construído historicamente, sendo assim, podemos localizar o significado e a
percepção do que vem a ser o corpo para cada época ou ao longo da história.

No decurso da história da humanidade, o corpo tem sido abordado nas mais diversas
formas. Ao pensarmos no corpo, podemos considerá-lo como um patrimônio universal, sobre
o qual a cultura escreveu e escreve diferentes histórias e concepções. Neste sentido, o corpo é
visto enquanto efeito da cultura, assujeitado às suas tradições e aos seus significantes.

Ao longo da história humana, o homem apresenta inúmeras variações na concepção


e no tratamento de seu corpo, bem como nas formas de comportar-se corporalmente,
que revelam as relações do corpo com um determinado contexto social.
(GONÇALVES, 1994, p.14).

O corpo é uma síntese da cultura, pois ele expressa elementos específicos da sociedade
da qual faz parte. Através do corpo, o homem vai assimilando e apropriando-se de normas,
valores e costumes sociais. O homem institui esse conteúdo cultural em seu corpo,
originando-o no conjunto de suas expressões.
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Cada modelo de corpo é construído de acordo com seu período histórico e cultural.
Assim, cada sociedade tem sua concepção de corpo, e suas características regem cada um de
seus membros, o que envolve seu modo de se expressar, de se comportar e seu estilo de vida,
de acordo com os valores e as crenças da época.

Nesta busca da compreensão do que é o corpo, com base em cada cultura, este ocupou
distintas posições ao passar dos séculos: corpo belo, corpo sagrado, corpo científico, corpo
ideal, entre outros. A partir disso, o corpo é discutido como uma construção cultural, onde
cada período se expressa diferentemente por meio de corpos diferentes. O corpo de cada
sociedade constrói os corpos dos sujeitos a partir de seus padrões, concepções e paradigmas.

Num breve regresso ao passado, na Antiguidade Clássica, mais precisamente na


Grécia Antiga, houve uma especial atenção ao corpo. Foi na Grécia, o berço da civilização
ocidental, onde surgiu a cultura do culto ao corpo belo. Nesta cultura, o ideal era possuir um
corpo belo e saudável, a perfeição e a simetria eram considerados atributos essenciais.

De acordo com Romero (1995), o corpo na Antiguidade Clássica era tomado como um
objeto de glorificação. Neste sentido, o povo grego como expoente civilizador dessa época
instituiu competições esportivas, os famosos Jogos Olímpicos, como meio da celebração das
qualidades corporais: “O corpo do atleta olímpico é tão valorizado, a ponto de o vencedor
obter regalias do Estado.” (ROMERO, 1995, p.18). Nestas sociedades, a força e a agilidade
eram extremamente valorizadas como qualidades corporais.

Foi na Grécia Antiga que surgiu a idéia do corpo perfeito conquistado por meio das
atividades físicas. Os homens exercitavam seus corpos em busca do físico ideal e, não se
envergonhavam de exibir-se nus nos jogos, pois gostavam de se admirar. Segundo eles, a
nudez, além de bela, melhorava o desempenho do atleta.

Segundo a Wikipédia, costuma-se afirmar que os primeiros Jogos Olímpicos foram


realizados na Grécia Antiga, como uma importante celebração e tributo aos deuses. Assim,
por meio de provas físicas eram expressadas celebrações às divindades. Os gregos
consideravam os deuses semelhantes aos homens, com virtudes e defeitos, porém, dotados de
imortalidade, força e beleza superior. Desta forma, desejar um corpo belo era um modo de se
aproximar dos deuses, com isso, da perfeição.
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O físico, a estética e o intelecto faziam parte da busca a perfeição. Havia uma


preocupação muito grande com o cuidar de si mesmo, um belo corpo era tão importante
quanto uma mente brilhante. O cidadão grego procurava uma íntima relação entre o trabalho
do corpo e os conhecimentos existentes. “A perfeição só podia ser alcançada com a união da
beleza e da virtude” (CARVALHO, 2004). Somente deste modo era possível alcançar um
estado de plena realização.

A partir da Idade Média, essa representação do corpo belo da Antiguidade Clássica foi
rompida pelo domínio da interpretação religiosa. “Uma das demandas da idade média foi à
subjugação do corpo pela religião” (NAVARRO, s/a, p.1). Neste período desaparecem,
sobretudo, o esporte e os jogos herdados pelos gregos, os quais cedem lugar a um
desmoronamento do corpo na vida social, potencializando as questões místicas e religiosas.

Segundo Romero (1995), toda e qualquer preocupação com o corpo foi proibida. Com
a influência dos preceitos religiosos o corpo foi tomado enquanto sagrado e profano, cuja
principal preocupação constituía-se na ocultação do mesmo, contrariando as tradições e
valores da Antiguidade Clássica.

Foi na Idade Média mais precisamente nos mosteiros e conventos que surge o
pensamento que norteará todo esse período histórico – de que o corpo deveria ser
odiado e negado, de que trazia estampado em si a evidência do pecado e a
necessidade de se retirar do mundo para um local de contemplação como negação da
finitude presente no corpo e no mundo como conseqüência do pecado original.
(DELUMEAU, 2003, p. 34).

Para Delumeau (2003), são os sacerdotes e os padres da Igreja que introduzem e


fomentam essa grande reviravolta conceitual a respeito do corpo. A visão medieval traz como
característica principal a sacralização do corpo, onde o mesmo se torna sinônimo de pecado.
A representação do corpo se restringia ao corpo pecaminoso, considerado um empecilho ao
desenvolvimento da alma. Assim, o corpo era considerado o local dos defeitos e pecados,
enquanto a alma era dos valores supremos, como espiritualidade e racionalidade.

A grande valorização da religiosidade promoveu uma demonização dos desejos, entre


eles, muitas coisas relacionadas ao corpo, devido à idéia de que este era um dos obstáculos à
descoberta da verdade e da salvação. Deste modo, o corpo deveria ser dominado e
disciplinado, pois somente assim a alma seria introduzida no caminho da salvação.
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A moral cristã proibia qualquer manifestação criativa e toda prática corporal que
visasse o culto ao corpo. Os homens eram submetidos a ordens rígidas, as quais
impossibilitavam qualquer tipo de ascensão social. As manifestações sociais mais ostensivas,
assim como as exposições mais íntimas do corpo, foram amplamente reprimidas.

Durante um contexto de profundas transformações sobre a forma de conceber o corpo,


desabrocha um novo movimento cultural e, simultaneamente um período histórico, conhecido
como Renascimento ou Renascença. Este foi considerado um período que marcou o final da
Idade Média e o início da Idade Moderna.

A concepção de corpo tomada pela Idade Média modifica-se com a ascensão do


Renascimento. “Após a Idade Média o corpo é dessacralizado, ou seja, já não é mais algo
proibido de se manipular” (CAVALCANTI, 2005, p.54). A vida cultural deixou de ser
controlada pela Igreja, influenciando-se nos estudiosos da Antiguidade greco-romana ao
resgatar os valores clássicos.

A partir do Renascimento houve uma atenção especial à liberdade do corpo,


valorizando-o por meio do trabalho de artistas. “Durante esse período acontece a redescoberta
do corpo, principalmente no que se refere às artes em que o nu aparece com destaque por
muitos pintores famosos, como Michelangelo, Leonardo da Vinci, entre outros” (ROMERO,
1995, p.18).

Extraindo inspiração da arte clássica, o homem renascentista mostrava seu interesse ao


corpo, particularmente no nu. Suas principais preocupações centravam-se no aprimoramento
destas artes. Assim, os temas giravam em torno do nu artístico e de figuras mitológicas
sensuais.

O corpo foi tomado pelo ideal de beleza greco-romana, onde as imperfeições não
deviam influir em suas representações. Estes tentaram idealizar a forma humana de maneira
com que foi exposta na perfeição e na pureza do físico, com expressões e personalidades
únicas.
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O Renascimento viu surgir, no campo da arte, um novo paradigma estético, segundo o


qual uma obra de arte era uma representação fiel dos fenômenos naturais. Este período
permitiu que homens como Leonardo da Vinci dissecassem cadáveres humanos para obter
uma melhor compreensão do corpo biológico e, assim, uma melhor representação deste corpo.
Houve aí um estudo detalhado do corpo humano, onde a arte referenciava um estudo
científico.

Com o Renascimento e o surgimento da Idade Moderna, as ações humanas também


passaram a ser guiadas pelo método científico. Inaugurou-se aí o pensamento racionalista,
introduzindo o paradigma da cientificidade. O avanço deste método ocasionou nos homens do
período moderno um apreço sobre o uso da razão científica, como única forma de
conhecimento. “Com a ascensão de uma ciência positiva separada dos valores religiosos e do
espaço da moralidade, o corpo passa a ser objeto de estudo de algumas ciências”
(CAVALCANTI, 2005, p.54). O corpo, agora sob um olhar cientificista, foi utilizado como
objeto de estudo e experiências:

O conhecimento do corpo foi estudado por muitos estudiosos apenas como


organismo vivo, tendo validade, na medida em que era avaliado por pesquisas
experimentais/laboratoriais e submetido aos modelos teóricos rígidos. Na ordem dos
grandes sistemas explicativos, a ciência destacou-se como legitimadora da
racionalidade, relegando como não-científico o não-demonstrável, enfim, tudo o
que se referisse à subjetividade. (ROMERO, 1995, p.21).

A ciência moderna tinha suas práticas fundadas em um mundo puramente racional. A


figura da Igreja passou a ser substituída pelo discurso da ciência, pelo racional e o moderno.
A partir daí, o corpo passou a ser estudado e investigado em um contexto médico-científico,
expresso através de um vocabulário objetivo e rigoroso. Neste sentido, o estudo do ser
humano e de seu corpo foi reduzido à sua existência biológica.

A Modernidade fundou um discurso científico e se legitimou por este. Nesta


perspectiva, segundo Foucault (1987), para produzir discursos sobre o corpo as sociedades
ocidentais desenvolveram uma “ciência corporal”, na tentativa de estabelecer uma verdade
sobre este com base nos conhecimentos da Medicina. Assim, a Medicina representou nas
sociedades ocidentais um saber oficial sobre o corpo.
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O estudo do corpo, neste contexto, tornou-se acessível à Medicina a partir da


dissecação de cadáveres, tornando-se um mero objeto passível de estudos e intervenções.
Houve uma revolução no modo com que o corpo era percebido, emergindo como um objeto
de análise científica.

Com a Medicina, houve um grande avanço em matéria de conhecimento sobre o corpo


através dos estudos da anatomia. Ela concebia o corpo segundo a descrição anátomo-
fisiológica, com funções sensoriais e orgânicas. O corpo era pensado enquanto um conjunto
de órgãos, num somatório de funções orgânicas, reduzido puramente ao biológico.

Mas essa definição puramente biologista de corpo, remanescente do final do século


XVIII, mostrou-se insuficiente, isto é, limitada para explicá-lo em toda a sua complexidade.
Rumo ao século XIX, a intensificação da produção científica e os avanços teóricos
influenciaram e repercutiram também em progressos no campo da Psicologia. Em um
primeiro momento, a Psicologia, presente no campo das ciências médicas e restrita ao campo
da consciência, teceu investigações sobre processos psíquicos manifestos, e o conjunto de
comportamentos originados destes.

Nesta perspectiva, em pleno século XIX, com o advento da Psicanálise, Sigmund


Freud, através do conceito de determinismo psíquico resgatou a importância dos aspectos
internos do homem. Houve aí uma elevação do corpo puramente biológico à sua condição
subjetiva, ao passo que se reconheceu uma complexidade na relação entre o psíquico e o
somático. A partir da teoria psicanalítica houve um rompimento com a concepção de corpo
dada pela Medicina.

Freud (1895), em seu texto “Estudos sobre a histeria”, ressaltou que o corpo da
histérica só poderia ser definido se fosse considerada não somente sua anatomia, mas a
condição da representação corporal presente no imaginário social. Em seu trabalho com as
histéricas, Freud percebeu que a fala afetava o corpo na estrutura histérica. Desta forma, o
corpo da histérica, pelo fenômeno da conversão sintomática expressava o psíquico,
obedecendo a lei do desejo inconsciente e, inaugurando assim, a distinção entre o corpo
biológico e o corpo psicanalítico.
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Foi na prática clínica com as histéricas, que Freud começou a pensar o estatuto do
corpo na Psicanálise. Assim, ele abriu uma ruptura com a Medicina ao delinear uma nova
leitura sobre a corporeidade. Enquanto na Medicina o corpo era estruturado como um
organismo puramente biológico, que obedecia às leis da distribuição anatômica dos órgãos, o
corpo para a Psicanálise foi tomado como um corpo subjetivo, estruturado pela linguagem e
marcado por desejos inconscientes e, muitas vezes utilizado como instrumento de expressão
da vida emocional e psíquica, ultrapassando o somático e se constituindo em funcionamento
com a história do sujeito.

Mais adiante, com o progresso da revolução científica e industrial, delineou-se uma


nova relação do homem com o seu corpo, conforme cita Gonçalves (1994):

Com o acelerado progresso das ciências, a partir do século XVII, o homem passou a
considerar a razão como único instrumento válido de conhecimento, distanciando-se
de seu corpo, visualizando-o como um objeto que deve ser disciplinado e
controlado. Fragmentado em inúmeras ciências, o corpo passou a ser um objeto
submetido ao controle e à manipulação científica. Com a visão positivista, o mundo
físico, observável, mensurável tornou-se a única realidade. (p.20).

As transformações paradigmáticas que configuraram a Modernidade, de certo modo,


foram mediadas pelo desenvolvimento da técnica, através dos processos das revoluções
científica e industrial. Lideradas por estas revoluções e seus desdobramentos, as inúmeras
rupturas paradigmáticas espalharam-se pelas diversas instâncias da realidade cotidiana, na
qual houve uma proliferação da razão instrumental.

Neste contexto de revoluções, com a expansão do capitalismo, as implicações culturais


decorrentes desta nova forma social de organização passaram a originar uma nova de
percepção do corpo, construída através de novos valores e ideologias. “Com a expansão e a
solidificação do sistema capitalista e o crescente domínio da natureza, por intermédio da
ciência e da técnica, transformaram-se progressivamente as relações do homem com sua
corporalidade” (GONÇALVES, 1994, p.19).

Segundo Cavalcanti (2005), o capitalismo tinha suas práticas e valores baseados em


um mundo totalmente racional e instrumental. Assim, e corpo foi tomado como uma parte da
natureza que devia ser dominada e moldada, sujeito a controle e exploração.
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Com a ascensão deste sistema, propagou-se a forma de produção industrial, onde a


instrumentalização do corpo fez-se necessária. As novas técnicas de produção acabaram
desencadeando uma padronização de gestos e hábitos, os quais instauraram-se nas
manifestações corporais.

Nesta lógica de produção capitalista o corpo mostrou-se extremamente manipulável,


passando a ser concebido como uma “máquina” para o acúmulo de capital. Sob este olhar, o
corpo tornou-se um símbolo de produtividade, socialmente oprimido e manipulável, sendo
visto apenas na perspectiva de ganho econômico.

Ao longo do processo histórico da civilização ocidental, constatamos, assim, a


crescente ação de um poder que atua sobre o corpo: de um lado, diminuindo suas
potencialidades de empatia e comunicação e determinando-lhe formas específicas de
comportar-se; de outro lado, com o avanço da ciência e da tecnologia, investindo-o,
também de um poder que abre possibilidades de aperfeiçoamento quase ilimitadas
de saúde e prolongamento da vida. Esse processo tem suas raízes históricas,
conforme apresentamos, na trama complexa das relações sociais que se
configuraram a partir das situações concretas determinadas pela expansão do sistema
capitalista, com o qual caminha, passo a passo, a concepção da natureza como um
objeto de domínio e manipulação. (GONÇALVES, 1994, p. 24).

Conforme Gonçalves (1994), a racionalidade e a instrumentalização, conseqüências da


expansão do capitalismo, tiveram por objetivo a manipulação da natureza e do corpo,
condicionando todos os aspectos da vida social e refletindo nas relações do homem
contemporâneo com a sua corporalidade. A velocidade com que o avanço tecnocientífico se
estabeleceu acabou resultando num corpo transformado, um corpo contemporâneo, o qual,
conseqüentemente abarcou as transformações sociais deste contexto histórico. Porém, neste
período houve uma transformação na concepção de corpo-máquina para um corpo para além
da produção. Além de produtor, transformou-se num corpo consumidor destas técnicas.

O desenvolvimento da ciência e da tecnologia, mais precisamente a partir do século


XX, acarretou profundas implicações no redimensionamento da concepção do corpo e de sua
categoria estética. Houve uma revolução na percepção corporal, onde esse “novo” corpo,
segundo Cavalcanti (2005), foi captado pela ciência e potencializado pela técnica. Assim, esse
processo científico e tecnológico, que antes estava ligado somente à produtividade na
perspectiva da economia, acabou sendo estendido ao mais profundo da individualidade, ou
seja, o corpo.
19

O avanço do capitalismo e as novas possibilidades tecnológicas propiciaram um


incremento de técnicas sobre o corpo. A parir deste contexto, multiplicaram-se os discursos e
as técnicas para uma liberação do corpo dos antigos vínculos religiosos e morais, sendo
amplamente divulgada a concepção de um corpo “glamourizado” e idealizado.

O corpo tornou-se um dos valores predominantes do mundo contemporâneo,


intensificando as técnicas e práticas sobre este, o qual foi projetado enquanto um objeto
superinvestido e supervalorizado. Desta forma, ancorado pelas novas tecnologias, houve uma
homogeneização da representação do significado corporal e uma padronização nos conceitos
estéticos sobre este, questão esta que será trabalhada posteriormente.

Entretanto, é no momento em que se apresenta uma subversão da materialidade, que


pergunta-se pelo corpo de um sujeito, sujeito este do inconsciente. Um corpo que não é dado
pela natureza, mas conquistado através de um complexo processo de subjetivação. Para tanto,
no segundo capítulo tentar-se-á abordar como se dá a construção do corpo e imagem para um
sujeito.
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2 O CORPO NA PSICANÁLISE

As mudanças na percepção dos sujeitos em relação ao corpo são conseqüências das


modificações culturais decorrentes do processo histórico. Em cada época os ideais de corpo se
modificam a partir do estabelecimento de novas referências que a cultura oferece. No entanto,
a partir da perspectiva psicanalítica, o acesso do sujeito e de seu corpo à ordem da cultura está
relacionado a um complexo processo de subjetivação, que constitui-se por meio das relações
parentais, as quais permanecem como referências durante toda a vida do sujeito.

Para pensar o corpo inserido na cultura, torna-se fundamental entender o processo de


constituição do sujeito. Mas o que vem a ser, a partir dos referenciais psicanalíticos, a
chamada constituição subjetiva?

Segundo a Psicanálise, para que haja a constituição é necessária uma outra estrutura
subjetiva para sua sustentação, isto é, só há desenvolvimento do sujeito à medida que este for
inserido em um contexto cultural, constituído pela linguagem e, portanto, atravessado pelo
desejo1. Para Levin (1997), o ser humano por si mesmo e em si mesmo não estabelece laço
social, ou seja, em outras palavras, o ser humano não possui condições suficientes para
produzir uma estrutura subjetiva, ficando a mercê de alguém, representado pelas figuras
parentais, que com suas marcas significantes2 possam nomear e criar as condições de
possibilidade da inserção do ser humano nesta ordem cultural.

1
DESEJO: Falta inscrita na palavra e efeito da marca significante sobre o ser falante. (CHEMAMA, 1995, p.42).
2
SIGNIFICANTE (S): Elemento do discurso, referível tanto ao nível consciente como inconsciente, que
apresenta e determina o sujeito. (CHEMAMA, 1995, p.197).
21

Para que o sujeito possa se constituir é necessário entrar em uma ordem social e
cultural, a partir da família ou de seus substitutos (pais adotivos, orfanatos, etc.). Lacan
(1949), ao questionar-se sobre a “prematuração específica do nascimento do homem” (p.100),
considera o ser humano como o único ser vivo que necessita de um outro semelhante para se
constituir enquanto sujeito, pois além das necessidades fisiológicas das quais o bebê demanda,
há uma impossibilidade simbólica 3de sobrevivência.

A partir de sua chegada ao mundo, o bebê, devido a esta sua dependência fisiológica e
simbólica, exige a intervenção de um “alguém”, ou seja, de um Outro4, o qual venha
interpretar as manifestações de seu corpo, necessárias a sua sobrevivência. O estado de
desamparo original do bebê coloca-o, desde seu primeiro momento de vida, em uma
dependência absoluta deste Outro primordial, para que este garanta a satisfação de suas
necessidades. “A essa condição Freud deu o nome de desamparo fundamental (Hilflosigkeit)
do ser humano, que exige a intervenção de um adulto próximo (Nebenmensch) que perpetre a
ação específica necessária à sobrevivência do ser humano desamparado.” (Elia, 2004, p.39).

Mas quem é este Outro do qual a criança depende? Lacan (1955) utiliza-se da
categoria de Outro, com “o” maiúsculo, para designar aquele que ocupa uma posição
simbólica nos cuidados do bebê, na medida em que investe no mesmo, supondo um
entendimento acerca deste. É o Outro primordial, ou seja, a mãe ou aquele que desempenhe
seu papel, que introduz e inscreve os significantes, um conjunto de marcas simbólicas, a partir
das quais o sujeito será chamado a se constituir. O Outro é um ser da linguagem, o qual
atende à necessidade do bebê através da linguagem, tornando-se o personagem fundamental
para a constituição do sujeito.

Lacan propõe a categoria de Outro (com “o” maiúsculo) para designar não apenas o
adulto próximo de que fala Freud mas também a ordem que este adulto encarna
para o recém-aparecido na cena de um mundo já humano, social e cultural [...] O
Outro não é apenas, portanto, uma pessoa física, um adulto [...] chamaremos de
mãe, porquanto em nossas sociedades seja esta a categoria que designa a função de
cuidar dos bebês e também toda a ordem simbólica que a mãe introduz no seu ato
de cuidar do bebê. (ELIA, 2004, p. 39-40).

3
SIMBÓLICA (S): Funções complexas e latentes que envolvem toda atividade humana, comportando uma parte
consciente e outra inconsciente ligada a função da linguagem e, mais especificamente à do significante.
(CHEMAMA, 1995, p.95).
4
OUTRO: Lugar onde a psicanálise situa, além do parceiro imaginário, aquilo que, anterior e exterior ao sujeito,
não obstante o determina. (CHEMAMA, 1995, p.156).
22

Conforme Levin (1995), o Outro de quem a criança depende, tem a função, através da
linguagem, de apresentar o corpo à criança. O desejo do Outro materno, através de seu
discurso e de suas palavras marca e mapeia o corpo do bebê. A partir das manifestações
corporais do mesmo, a mãe responde aos seus apelos e sinais fazendo interpretações, à
medida que realiza um investimento nomeando ao bebê as partes, as funções e sensações
deste corpo.

[...] o tônus é tomado e atravessado pela linguagem, que “diz” ao tocar e ao ser
tocado (diálogo tônico que se inscreve num sujeito desde o seu nascimento a partir
do desejo do Outro que, numa primeira instância, é encarnado por sua mãe, ou por
aquele que cumpra esta função). Deste modo, estas inscrições, estas demarcações,
ficarão gravadas no inconsciente e determinarão o sujeito enquanto tal, quer dizer,
inscrito pelo desejo do Outro no universo simbólico. (LEVIN, 1995, p. 46-47).

Jerusalinsky (1989), ao escrever sobre o desenvolvimento infantil, fala que o corpo


organiza-se em função de uma série de signos. Quando o bebê chora, a mãe responde,
supondo, a partir deste choro, que ele está chorando por alguma razão (fome, dor, sono, etc.),
dando significação a este corpo. No momento em que a mãe olha, fala ou toca seu filho, esta
passa a dar um sentido a uma experiência corporal, introduzindo-o na ordem simbólica. Estes
significantes, produtos das interpretações maternas, formam uma articulação seqüencial, a
qual vai introduzindo o bebê em sua constituição enquanto sujeito do desejo. Para Elia (2004),
“o que chega a ele é um conjunto de marcas materiais e simbólicas – significantes –
introduzidas pelo Outro materno, que suscitarão, no corpo do bebê, um ato de resposta que se
chama de sujeito.” (p.41).

Ao se questionar sobre o que leva o seu bebê a chorar, a mãe decodifica uma ação,
fazendo isto através da linguagem, de forma que, o corpo puramente carnal comece a ter
significação. A linguagem vai significar, dar um sentido e uma forma a experiência corporal
para o bebê, sendo esta a condição de todo o corpo humano. Assim, na Psicanálise, a
linguagem não é considerada um mero instrumento de comunicação, mas o que estrutura o ser
humano em sua condição de sujeito.

Para Levin (1995), o corpo para a Psicanálise não é o corpo biológico do qual a
medicina se ocupa: “o corpo de um sujeito é a Letra, é gramática, e é lida pelo outro enquanto
tal [...] lê-se o sentido [...] necessita de um Outro que inscreva um dizer no corpo [...] que o
metaforize em seu “toque significante” (p.47). A estrutura subjetiva é irredutível à lógica do
23

biológico, uma vez que ela obedece a outras leis, quer dizer, somos sujeitos falantes, sujeitos
do desejo, pois somos constituídos na e pela linguagem. Nas palavras de Levin (1995): “o
corpo humano é efeito da linguagem e não ao contrário, sustenta-se enquanto tal pela
linguagem, são suas leis que o sustentam, o atravessam e o regem. É a linguagem que cria um
sujeito e, com ele, seu corpo e sua motricidade” (p.81).

Segundo a Psicanálise, a constituição do sujeito e do corpo são complementares. Ao


nascer, a criança é um corpo-carne, mas é a partir das relações parentais que ela vai se
apropriando de seu corpo, suas bordas e sua imagem, constituindo-se em um sujeito
atravessado pelo desejo. É através do desejo dos pais que a criança entra no universo
simbólico, repleto de significantes, os quais a tiram de uma condição puramente orgânica para
uma condição de sujeito desejante.

Mas do que estamos falando quando nos referimos ao sujeito do desejo? Conforme
Chemama (1995), o sujeito em Psicanálise é o sujeito do desejo, o qual Freud descobriu no
inconsciente. Este sujeito distingue-se do indivíduo biológico por estar submetido às leis da
linguagem que o constituem, as quais manifestam-se na formações do inconsciente. Neste
sentido, para que um sujeito do desejo possa emergir, é necessário que haja a sua inscrição no
campo da linguagem a partir do Outro.

A necessidade, o puro pedido da criança transforma-se, ao passar pelo Outro, em


demanda. O estado de necessidade, o puramente biológico tomado e transformado
por ele, ou seja, pelos significantes que vêm desse Outro que lhe dá o dom da
linguagem. Daí em diante o que retorna constantemente já não é o corpo da
necessidade, mas o que um sujeito deseja através de seu corpo. (LEVIN, 1995, p.
54).

É preciso que o Outro suponha na criança um sujeito de desejo. É este Outro quem dá,
desde o início, as palavras para que o sujeito possa desejar. Quando o bebê tem uma
necessidade, a mãe responde a esta com gestos ou palavras, e esta satisfação passa a
transformar a necessidade em desejo. A partir deste momento, a criança poderá desejar, mas
sempre através de uma demanda dirigida ao Outro. Assim, é o Outro que nos inscreve no
mundo da linguagem e o que nos torna desejantes.
24

É a partir destas marcas e inscrições que o Outro materno imprime no corpo da


criança, que segundo Levin (1995), o corpo subjetivado será constituído. São justamente estas
inscrições que vão construindo o corpo de um sujeito.

A primeira etapa fundamental na constituição do sujeito diz respeito à percepção de


seu próprio corpo enquanto unidade. No entanto, esta totalidade corporal unificada não é uma
experiência que a criança tem desde o início, ela é resultado de uma construção que se
desenvolve gradualmente.

Inicialmente a criança não se diferencia psiquicamente do mundo à sua volta, não há


distinção entre o seu corpo e o Outro. Esta primeira imagem da criança tem como espelho o
Outro materno, onde ela se imagina como uma unidade com a mãe, não havendo separação ou
falta, a criança sente-se com um ser completo, há uma ilusão de onipotência. Seu corpo toma
para si a forma do Outro. “[...] o primeiro efeito que aparece da imago no ser humano é um
efeito de alienação do sujeito. É no Outro que o sujeito se identifica e mesmo se experimenta
de início.” (LACAN, 1949, p.181).

A este momento Freud (1914) designou o tempo em que o sujeito encontra-se na


posição de Eu Ideal, momento este onde o sujeito é possuído de toda a perfeição, é aquilo em
direção a que surge o narcisismo do sujeito. Segundo Freud (1914), “esse ego ideal é agora o
alvo do amor de si mesmo (self-love) desfrutado na infância pelo ego real. O narcisismo do
indivíduo surge deslocado em direção a esse novo ego ideal, o qual [...] se acha possuído de
toda perfeição de valor” (p. 111). Em outras palavras, o eu se constitui como tal tendo em face
esta imagem de perfeição e completude, fruto, adverte-nos Freud, do próprio narcisismo dos
pais.

Se prestarmos atenção à atitude dos pais afetuosos para com seus filhos, temos de
reconhecer que ela é uma revivência e reprodução de seu próprio narcisismo, que
de há muito abandonaram [...] Ela será mais uma vez realmente o centro e o âmago
da criação – ‘Sua Majestade o Bebê’. (FREUD, 1914, p. 107-108 ).

O Eu Ideal se traduz pelo fato de o sujeito tomar a si mesmo como seu próprio ideal,
se caracterizando pela fantasia de onipotência, onde o sujeito pode tudo, ou seja, pode ser
completo. A este estado, Freud (1914) também denominou de auto-erotismo, que é postulado
25

como a fase inicial da libido5, ou seja, da energia sexual que ainda não tem objeto
diferenciado. Neste estado, a criança procura no próprio corpo uma forma de satisfação, sendo
designado de auto-erotismo por ser um momento onde a criança encontra prazer em si mesma.

Neste momento, também conhecido como narcisismo primário, tem-se um eu


completamente investido pela libido. No narcisismo primário o sujeito retira a energia que
normalmente investiria no mundo externo e não as substitui por outras fantasias, pois tem seu
investimento voltado apenas para si.

Este narcisismo, posteriormente, irá se desdobrar em uma segunda fase, quando a


criança, a partir do seu objeto de desejo, passa a investir sua energia psíquica para objetos
externos, ocorrendo um desinvestimento da libido sobre o sujeito. Neste sentido,
primeiramente, o objeto é o seu próprio eu, já na fase subseqüente este será um objeto
externo.

No narcisismo primário, por sua vez, o corpo começa a ser elevado à condição de si
pela sua própria erotização. Inicialmente, as zonas erógenas estão num registro dispersivo no
corpo, que posteriormente será unificado, constituindo um corpo totalizado. Essa totalidade se
ordena em torno de uma imagem que é denominada de imagem corporal, sendo a partir do
Outro que a unidade corpórea é antecipada.

Esta passagem da dispersão para a formação do eu enquanto unidade, que possibilita a


emergência do corpo, é uma conquista que vai marcar a transição do auto-erotismo para o
narcisismo, ou também, do narcisismo primário ao narcisismo secundário. A saída do estado
auto-erótico para o narcisismo ocorre, então, pela possibilidade de identificação com o objeto
e com a conseqüente constituição do eu. Este aspecto está vinculado ao momento psíquico no
qual a criança adquire a capacidade de antecipar o domínio de sua unidade do corpo próprio a
partir da imagem corporal e do investimento desejante do Outro.

Freud (1914) adere ao termo narcisismo, utilizado anteriormente por Paul Nacke em
1899 – ao qual designava aquilo que seria amar seu próprio corpo como se ama os objetos
externos de cunho sexual, buscando através dele a obtenção de prazer –, para pensar a questão
5
LIBIDO: Energia psíquica das pulsões sexuais, que encontram seu regime em termos de desejo, de aspirações
amorosas, e que, para Sigmund Freud, explica a presença e a manifestação do sexual na vida psíquica.
(CHEMAMA, 1995, p. 126).
26

do corpo em Psicanálise. Ele argumenta que o narcisismo deve “ser atribuído a toda criatura
viva” (p. 9.), fazendo parte do desenvolvimento e da constituição psíquica de todo o sujeito.

Em seu texto “Sobre o narcisismo: uma introdução”, Freud (1914) diz que:

[...] uma unidade comparável ao ego não pode existir no indivíduo desde o começo;
o ego tem de ser desenvolvido. Os instintos auto-eróticos, contudo, ali se encontram
desde o início sendo, portanto, necessário que algo seja adicionado ao auto-
erotismo – uma nova ação psíquica – a fim de provocar o narcisismo. (p. 93).

Ora, é justamente este ato psíquico, da passagem do auto-erotismo ao narcisismo, que


dá a criança a possibilidade de transpor-se de um estado disperso a um princípio de unidade
corporal. Onde antes a criança era as partes pelo todo, fragmentada, ou seja, a criança era
“xixi”, era “cocô”, após essa passagem ela passa a ser total, uma imagem unida de seu corpo.
É neste momento em que temos uma das maiores contribuições de Lacan à teoria
psicanalítica. Lacan (1949) nos apresenta essa “nova ação psíquica” – que promove o
narcisismo e faz a criança sair do auto-erotismo – como sendo o estádio do espelho.

Lacan (1949) retoma a obra de Freud em seu texto “O estádio do espelho como
formador da função do eu”, reformulando o conceito de narcisismo e denominando este
momento como “estádio do espelho”. Denomina-se de “estádio” justamente por não ser um
momento passageiro, mas por permanecer durante toda a vida do sujeito como reelaboração
das identificações.

Considerado um momento inaugural do processo de constituição subjetiva, Lacan


(1949) o toma como uma experiência de identificação, não referindo-se ao espelho
propriamente dito, mas tomando-o como uma metáfora para falar de um movimento oportuno
à constituição subjetiva que se dá a partir da intervenção do Outro. Para ele, este momento é
“a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem” (p.97). O estádio do
espelho representa, de forma ampla, aquilo do que o sujeito é comumente tomado quando ele
se vê e se identifica no Outro. Trata-se da constituição do sujeito pela imagem especular.

Situado em torno dos seis e dezoito meses de vida da criança, o estádio do espelho é a
expressão cunhada por Lacan (1949) para designar a experiência psíquica na qual a criança
27

antecipa um domínio sobre sua unidade corporal, dando-se através de uma identificação com
a imagem do Outro, e assim, da percepção de sua própria imagem no espelho.

Esse desenvolvimento é vivido como uma dialética temporal que projeta


decisivamente na história a formação do indivíduo: o estádio do espelho é um
drama cujo impulso interno precipita-se da insuficiência para a antecipação – e que
fabrica para o sujeito, apanhado no engodo da identificação espacial, as fantasias
que se sucedem desde uma imagem despedaçada do corpo até uma forma de sua
totalidade que chamaremos de ortopédica – e para a armadura enfim assumida de
uma identidade alienante, que marcará com sua estrutura rígida todo o seu
desenvolvimento mental. (LACAN, 1949, p. 100).

O estádio do espelho permite também especificar o momento original no qual, a partir


da imagem corporal, a criança estabelece uma distinção entre o seu corpo e o Outro, ou seja, o
mundo exterior. A criança deve constituir um espaço e um corpo diferente do Outro. Segundo
Lacan (1949), é esta imagem do corpo que dá ao sujeito a primeira forma que lhe permite
diferenciar o que não é seu, estabelecendo assim uma relação deste com sua realidade.

É na relação com o Outro materno que é possível a unificação do próprio corpo, isto é,
uma antecipação da imagem do corpo como unidade. Mas de que maneira se dá a relação com
o Outro especular?

Quando a criança olha para a mãe, o que enxerga é a si própria, ela se vê no rosto
materno. Assim, o olhar funciona como um espelho e como um lugar no qual se iniciam as
primeiras trocas significativas com o mundo exterior.

A relação inicial da criança com o Outro materno também é marcada por uma
dependência total, onde a mãe, a partir de seus cuidados, garante a sobrevivência do filho.
Nesta experiência dos primeiros cuidados, o Outro fornece elementos à criança pela via
significante e discursiva, para que ela assuma, por via da identificação, a imagem de si
mesma. Desta forma, é mãe como personagem principal da história da criança, que possui a
função de apresentar o corpo a ela (criança), falando das partes deste corpo e, desta maneira, o
marcando, passando a lhe dar uma imagem unificada. É assim que o Outro materno se faz de
espelho para a criança.
28

A imagem especular antecipa a integridade e a totalidade do corpo, no contraponto do


corpo desintegrado. O Outro especular faz um “contorno” desta imagem, que como citada
anteriormente, se dá pela via da linguagem.

Esta consideração do espelhamento materno nos remete a pensar que o primeiro


reconhecimento do sujeito enquanto tal é fornecido a partir dos desejos maternos em relação à
criança. A partir disso, podemos considerar que a imagem que futuramente essa criança
assumirá é delineada a partir de sua relação com o seu Outro materno. É em função desse
espelhamento que ela vai fazer as primeiras leituras da realidade, sendo esta sua única
possibilidade de reconhecimento.

Conforme Levin (1995) “é a partir da unificação especular que se constitui o esquema


mental do corpo” (p. 63), e é através disso que se pode falar do corpo como unidade
imaginária. Para ele, o corpo imaginário é o efeito da identificação a uma imagem, imago
imaginária de unidade, “imagem que não é constituída e sim constituinte do corpo de um
sujeito” (p. 63). Pensar o corpo do ponto de vista do imaginário implica levar em conta a
forma como a imagem do próprio corpo, a partir do Outro, marca a constituição subjetiva.

Ainda em relação à fase do espelho, o reconhecimento do corpo a partir de uma


imagem implica também, de alguma forma, a perda da ilusão de onipotência sentida até então
pela criança. No momento em que o reconhecimento acontece, o sujeito fica capturado àquela
imagem e, nessa operação, algo se perde. O que se perde é justamente a possibilidade de ser
completo. O que se perdeu – a capacidade de se completar com o objeto – será o motor que
impulsionará o sujeito a tentar reencontrar esse resto por toda a sua vida. Neste sentido, ao
sair do narcisismo primário, a criança passará a confrontar-se com um ideal, o qual buscará
recuperar a sua ilusão de completude, ou seja, o tempo em que se encontrara na posição de Eu
Ideal.

Ele não está disposto a renunciar à perfeição narcisista de sua infância; e quando,
ao crescer, se vê perturbado pelas admoestações de terceiros e pelo despertar de seu
próprio julgamento crítico, de modo a não mais poder reter aquela perfeição,
procura recuperá-la sob a nova forma de um ego ideal. O que ele projeta diante de
si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua infância na qual
ele era o seu próprio ideal. (FREUD, 1914, p. 111).
29

A este momento, em contrapartida do Eu Ideal, Freud (1914) designa esta nova forma
de ideal de Ideal do Eu, já atravessada pelos valores culturais, morais e críticos, forma através
da qual o sujeito procura recuperar a perfeição narcísica de que teria outrora desfrutado. O
Ideal do Eu seria, desta forma, o que o sujeito projeta diante de si como sendo seu ideal. Neste
sentido, o Ideal do Eu marca para o sujeito aquilo que precisa alcançar para reencontrar o Eu
Ideal, aquela sensação de completude perdida. Assim, a noção de Ideal do Eu remete a uma
perspectiva futura, e em oposição a este, o Eu Ideal remete a uma ilusão de reencontro
consigo mesmo, como houvera no passado.

Desde o primeiro momento, a criança reconhece o seu desejo através do desejo


materno, condição esta para que ela aceda ao seu próprio corpo. O corpo da criança é, ao
mesmo tempo, o corpo da mãe, já que a criança não só reconhece o desejo por meio da sua
imagem especular, mas o faz por meio do corpo do Outro. Porém, existe um momento nesta
relação dual mãe-bebê, em que há necessidade de uma separação, de um espaço entre os dois
para que a criança saia da condição de alienação ao desejo do Outro materno e coloque-se em
busca de seu próprio desejo.

Sua constituição depende de que ele ascenda à esta posição de desejo, mas, para se
tornar um ser desejante, a falta terá que lhe ser inscrita. Ela deve vir pelo Outro, como um
efeito do significante transmitido pela linguagem. O sujeito se presentifica lá onde existe o
significante da falta, e é esta falta, carregada de significação que é onde se manifesta o desejo.
Assim, o sujeito passa a ser um vazio marcado pela falta, sendo esta constitutiva do desejo de
ser e ter aquilo que jamais terá ou será. É a partir disto que o sujeito sai em busca de sua
“completude imaginária” perdida, através da realização de seus desejos e de suas
identificações.

A falta se instala no sujeito como uma resposta à perda de seu estado inicial de
completude – posição de Eu Ideal, onde sua imagem era sustentada pelo olhar da Outro
materno. Não havendo mais essa completude ele passa a se haver com a falta, e para
contemplá-la, passa a demandar. É a mãe quem “ensina” a criança, através do campo da
linguagem, a convocar o Outro para aplacar a sua demanda e dessa forma realizar seu desejo.
Para Lacan (1949), “é esse momento que decisivamente faz todo o saber humano bascular
para a mediatização pelo desejo do Outro.” (p.101), desta forma ligando-se ao social e
remetendo-se a busca do Ideal do Eu.
30

Esta complexa articulação entre as noções de Eu Ideal e Ideal do Eu encontra-se


presente em toda a vida do sujeito, sendo formas de alteridade necessárias à constituição do
mesmo. No entanto, a diferença entre o Eu Ideal e o Ideal do Eu somente se coloca a partir do
momento em que a criança é antecipada pelo Outro, isto, através do estádio do espelho.

É neste momento da elaboração lacaniana, que o corpo, em sua perspectiva


imaginária, surge como a matriz fundante do sujeito, afirmando a importância da imagem para
a estruturação subjetiva. Entretanto, ao longo de seu ensino, o conceito de sujeito e de corpo
está para além do estádio do espelho, do plano imaginário, articulando-se também ao plano
real e ao simbólico. O corpo se faz suporte dos significantes enquanto efeito da linguagem,
articulando os três registros do real, simbólico e imaginário, constituindo-se entre o carnal, a
linguagem e a imagem.

O corpo enquanto real corresponde, na teoria lacaniana, àquilo que do imaginário


sobra como resto, e que o simbólico torna-se impotente para capturar. O corpo real é o não
representável, impossível de ser simbolizado, é uma espécie de resto de toda articulação, a
qual pode ser aproximada, mas nunca capturada. Assim, quanto ao corpo no registro do real,
nas palavras de Levin (1995):

[...] é o corpo “coisa”, esse impossível que no dizer de Lacan “não cessa de não
inscrever-se”. Puro corpo-“coisa” que está sempre no mesmo lugar, sem alcançar o
nível da representação. O corpo no real é este corpo não ligado, não investido, esse
resto não articulado à combinatória significante, portanto não tem realidade para o
sujeito, já que esta supõe o registro imaginário e simbólico em jogo. Essa pura
existência do corpo no real, essa pura “coisa”, é o impossível, o não representável.
(p. 65).

Já o corpo sob o ponto de vista do simbólico, está relacionado à interação entre corpo-
linguagem. Este registro representa o lugar do código fundamental da linguagem, o lugar da
lei, onde fala a cultura, a voz do grande Outro. Segundo Lacan (1953), em seu texto “Função
e Campo da Fala e da Linguagem”, o corpo marcado pelo simbólico diz respeito ao corpo
transgredido pela linguagem, no qual suas partes podem servir de significantes, ou seja, ir
para além de sua função de corpo-carne. É a partir do simbólico que há o advento do sujeito,
sujeito do próprio desejo, tal como citado anteriormente.
31

De certa forma, a ordem simbólica pré-existe ao sujeito. Neste sentido, antes do


nascimento do corpo real e da criança, o simbólico já está presente no discurso parental e
social. Antes mesmo de nascer, o bebê já existe no discurso parental, num lugar marcado
simbolicamente, um lugar para essa criança que vai chegar. Segundo Levin (1995), “o corpo é
construído, constituído, a partir de uma história que começa e se desenvolve sem que a
criança possa escolher nada dela, está em sua origem, constitui-a, torna-a humana” (p.51).
Assim, conforme o autor, o bebê é inserido em um discurso que precede sua vivência, este
passa a existir como um significante (elemento do discurso, que representa e determina o
sujeito) na história do casal parental, à medida que os pais sustentam a suposição de que ali
haja um sujeito, antes mesmo que ele exista. Há um desejo dos mesmos de conceber um filho,
pois já é falado, esperado e imaginado, onde lhe dão um nome, inscrevendo-lhe ideais e
antecipando-lhe uma história.

Levin (1995) diz que:

Antes do nascimento da criança já há um sujeito em jogo, ou começa a ficar em


jogo a constituição de um sujeito. Poderíamos dizer, inclusive, que já há um corpo
“feito”, este que os pais imaginam. Antes de que nasça já há um corpo para este
filho que vai chegar, há desejos, há palavras, há um nome, um lugar, uma posição,
quer dizer: um corpo, um primeiro corpo simbólico (corpo de representações, de
desejos parentais, de palavras, de linguagem). (p. 50-51).

Assim como para Levin, Jerusalinsky (1989) postula que o sujeito é efeito da
linguagem, do simbólico, com tal antecipa-se no discurso parental. Através disto, a criança é
vinculada à inserção na ordem familiar e social.

No que se refere ao estatuto de corpo na teoria lacaniana, torna-se imprescindível


pensar o corpo a partir dos três registros. Tais registros são inseparáveis e devem ser pensados
como formadores da estrutura subjetiva.

Retomando, a constituição subjetiva se dá por efeito do Outro, e é a partir dos


elementos que este oferece à criança que ela conseguirá estruturar-se subjetivamente,
inserindo-se na linguagem e remetendo-se a sua condição desejante, efeito da inscrição
simbólica e inserção no social. Estando constantemente referenciado ao Outro, o sujeito
constitui sua imagem corporal e suas identificações, as quais perpassam todas as relações do
sujeito no decorrer de sua vida.
32

O Outro primordial a quem nos referenciamos é o Outro materno, porém,


posteriormente é a cultura quem ocupa o papel fundamental na vida de todo o sujeito. Com a
inserção no social, este Outro desliza-se para a cultura, e a demanda que antes era da mãe,
passa a ser a demanda da cultura, onde o sujeito submete-se a respondê-la da mesma maneira.

A constituição do sujeito se dá pelas referências parentais e culturais. Desta forma, são


estas referências que vão situar o mesmo frente ao desejo do Outro. Sujeito e cultura são
indissociáveis. No entanto, a constituição subjetiva e corporal constrói-se primeiramente
diante dos referenciais oferecidos ao sujeito a partir dos laços parentais e, posteriormente,
pelos referenciais proporcionados pela cultura em uma determinada época.

Ao estar inserido na cultura, ou seja, tendo como referência o Outro cultural, com um
discurso em constante transformação, o sujeito e seu corpo passam a seguir e a responder as
demandas sociais que se modificam com o passar do tempo. O Outro cultural oferece e
demanda certas referências corporais, as quais, de alguma forma induzem o sujeito a
respondê-las.

A partir do viés psicanalítico, percorreu-se brevemente através do caminho pelo qual o


corpo e sua imagem constituem-se e inserem-se na cultura, para assim poder pensar que lugar
os mesmos ocupam na cultura contemporânea. Tais considerações remetem a pensar o que faz
com que os sujeitos determinam-se a atingir o padrão ideal que a cultura impõe como
referência ideal de corpo e o que buscam com isto. Para tal, procura-se no próximo capítulo
trabalhar esta questão.
33

3 CORPO E IMAGEM NA CONTEMPORANEIDADE

Como visto nos capítulos anteriores, o corpo tem sido alvo de diferentes
representações e valores nos distintos momentos histórico-culturais. No entanto, até pouco
tempo, o corpo magro foi sinônimo de pobreza e/ou de doença. Homens e mulheres buscavam
combater a magreza e almejavam corpos robustos, os quais remetiam-se a corpos saudáveis.
Porém, este padrão foi modificando-se com o tempo, e os valores atribuídos ao corpo magro e
ao corpo gordo adquiriram outros significados.

O sujeito contemporâneo, susceptível às inquietudes midiáticas e sociais, vivencia um


contexto em que sua imagem é tomada como o centro de seu eu. As revistas, as propagandas,
os desfiles de moda, ou seja, a mídia em geral está cada vez mais mostrando um modelo de
corpo perfeito e padronizado: o corpo magro e definido. Este corpo definido remete-se ao
corpo malhado, com músculos torneados, trabalhado diariamente em academias, um corpo
“esculpido” arduamente.

Nesse início de século 21, o padrão estético de corpo caracteriza-se pelo biótipo
longilíneo e magro, como aqueles vistos em campanhas televisivas, na mídia escrita
e em outdoors. O corpo, para ser bonito na atualidade, deve seguir a regra do
padrão estético culturalmente difundido e disseminado. Ou seja, é fabricado um
padrão visual estético pré-estabelecido que deve ser buscado e consumido pela
sociedade. (ZÓBOLI, 2008, p.10).

Como diz o autor, o corpo, para ser bonito e bem representável, deve estar dentro deste
padrão estético proferido pelo social. O corpo magro, nos dias de hoje é sinônimo de ser belo,
ser sensual, ser valorizado, ser saudável e estar na moda, acabando por tornar-se um símbolo
de felicidade.
34

A concepção de corpo atual está também diretamente ligada ao desenvolvimento da


medicina e da ciência que, deste o início do século, atribuiu conotações positivas à magreza,
correlacionando o excesso de peso a inúmeras doenças. No discurso médico-científico, para
“viver bem” e “viver com saúde”, o corpo deve submeter-se a exercícios físicos e dietas
saudáveis, os quais garantam a boa forma corporal. A imagem do corpo passa a refletir saúde.
Porém, este discurso, de certa forma, engloba também a idéia do corpo tomado como
referência pela sociedade contemporânea.

Cuidar do corpo tendo em vista a melhor aparência vai se tornando, gradativamente,


cada vez mais fácil para as pessoas. O desejo de aperfeiçoar o corpo é seguido e estimulado
pela expansão de conhecimentos relativos ao corpo nas áreas da estética, alimentação, saúde e
educação, além de técnicas e produtos que lhes correspondem. O mercado oferece estes
produtos e técnicas para que se possa aperfeiçoar e se aproximar do padrão estético corporal
considerado ideal, sendo representado por inúmeros profissionais especializados em
tratamentos de pele, cabelo, gordura, pêlos, unhas e instrumentos de atuação que se encontram
em livre desenvolvimento, como produtos para modelar e alisar os cabelos, raio-laser para
remover pêlos, máquinas de bronzeamento, agulhas para combater a celulite, shakes para
emagrecer, entre muitos outros.

Desta forma, as relações que o mercado estabelece com a expectativa do corpo


predominante são múltiplas, criando sempre novas demandas corporais e novas exigências as
pessoas. A ciência, assim como os meios de comunicação, por meio de sua suposta
objetividade, penetrou em todos os recantos da vida. Além da poderosa tarefa de normatizar o
corpo conforme seus padrões, oferece os mais diversos meios para seu aperfeiçoamento, os
quais estão a disponibilidade para os sujeitos.

Percebe-se também em torno disto a grande influência da mídia, que é algo que está
presente na vida de praticamente todos os sujeitos com fácil acesso, e que possui a capacidade
de tomar conta do imaginário dos mesmos. Visto que ela tornou-se parte de nossas vidas, de
nosso cotidiano, ela passou a ser uma de nossas maiores referências. Segundo Kehl (2004), a
mídia tomou conta das subjetividades dos sujeitos, impondo uma “subjetividade
35

industrializada”, imaginariamente programada para ser seguida por todos. Para ela, o que
passa a ser transmitido é o desejo do Outro, que com sua opinião, o sujeito passa a seguir,
imaginando que assim poderá ser valorizado.

Kehl (2004), em seu texto “Com que corpo eu vou?”, frisa o quanto somos
convocados a responder as demandas que vem pelo discurso da mídia. Incentivados pela
publicidade e pela indústria cultural, os sujeitos reduzem-se a produção de corpos que estejam
dentro dos padrões estéticos, corpos estes que serão apresentados no espelho do Outro
cultural, o qual determinará o seu reconhecimento e sua felicidade ou não.

O corpo-imagem que você apresenta ao espelho da sociedade vai determinar sua


felicidade não por despertar o desejo ou amor de alguém, mas por constituir o
objeto privilegiado do seu amor-próprio: a tão propalada auto-estima, a que se
reduziram todas as questões subjetivas na cultura do narcisismo. Nesses termos, o
corpo é ao mesmo tempo o principal objeto de investimento do amor narcísico e a
imagem oferecida aos outros – promovida, nas últimas décadas, ao mais fiel
indicador da verdade do sujeito, da qual depende a aceitação e a inclusão social. O
corpo é um escravo que devemos submeter à rigorosa disciplina da indústria da
forma [...] e um senhor ao qual sacrificamos nosso tempo, nossos prazeres, nossos
investimentos e o que nos sobra de nossas suadas economias. (KEHL, 2004, p.174-
175).

Conforme Kehl (2004), a cultura do narcisismo tem na imagem corporal a sua questão
central, sendo que o que o espelho do Outro cultural nos refletir é o que definirá se estamos
incluídos neste ideal, se seremos felizes ou não. O corpo é a imagem que o sujeito oferece ao
Outro, do qual espera a garantia de reconhecimento e aceitação. A partir da leitura de Kehl
(2004), supõe-se que os sujeitos buscam atingir este padrão estético corporal crendo que ele
lhes trará felicidade, pois isto faz parte do discurso social da cultura que estão inseridos.

Ao remeter o corpo enquanto o principal objeto de investimento e cuidado da


sociedade contemporânea, onde as pessoas tornam-se muitas vezes submissas a estas
tendências mutáveis consideradas como padrões ideais pela cultura, e na imagem oferecida ao
Outro enquanto busca de aceitação, deve-se refletir sobre o conceito de Narcisismo de Freud
(1914), no qual, primeiramente, o sujeito tem a si próprio como objeto de amor e,
posteriormente, ao investir nos objetos, estará sempre em busca de ter um retorno para si, o
que perpassa por toda a sua vida. Neste sentido, é importante, dentro do que foi exposto,
remeter-se a este conceito, visto que, os sujeitos investem em sua imagem corporal seguindo
os padrões disseminados pela cultura na busca por uma aceitação e reconhecimento do Outro.
36

Conforme Zóboli (2008), para garantir um reconhecimento, isto é, para ser visto e
valorizado nesta esfera social, deve-se estar dentro do padrão estético tido como referência
pela cultura. Segundo ele, “só nos reconhecemos como “belos” se nossos corpos se refletirem
no espelho social” (p.10).

Assim como para Zóboli, Kehl (2004) frisa que para ser aceito socialmente e para
certificar-se de sua existência nesta cultura contemporânea, “o sujeito é compelido a agir,
respondendo a uma demanda do Outro. Para existir diante desse Outro, para não desaparecer
– porque uma imagem desvanece no momento em que ela não está sendo vista -, para
comparecer no campo do Outro, ele é compelido a agir” (p.100), ou seja, o sujeito necessita
adaptar sua imagem corporal de acordo com as atuais referências.

Em nossa cultura somática, a aparência virou essência. Hoje somos o que


aparentamos. Estamos, portanto, expostos ao olhar do outro, sem lugar para se
esconder, se refugiar, Estamos totalmente à mercê do outro [...] Somos vulneráveis
ao olhar do outro, mas, ao mesmo tempo, precisamos desse olhar, de sermos
percebidos; caso contrário, não existimos. O olhar do outro serve, assim, como uma
espécie de referência sobre o nosso próprio corpo, sobre nossa estética, sobre os
modos de nos vestirmos. (ZÓBOLI, 2008, p.10).

Durante toda a vida do sujeito, desde sua constituição, o olhar do Outro está sempre
presente. Na medida em que é este olhar que certifica a existência, ele passa a ser a referência
para a imagem corporal ideal que o sujeito buscará atingir. Destarte, na cultura
contemporânea, assim como em outras épocas, é a partir deste olhar que acredita-se poder
obter um reconhecimento, ao tempo que é este quem serve de referência para o modo como o
sujeitos tratam seu corpo e imagem.

A certeza que garante, muito precocemente, a existência do sujeito, advém da


identificação a uma imagem, a imagem corporal. Freud e Lacan, a partir dos conceitos de
Narcisismo e Estádio do Espelho, já supunham a importância do olhar do Outro primordial
para a constituição da imagem corporal, do corpo narcísico, o qual vem a unificar o corpo
auto-erótico. Para eles, o Outro não apenas devolve a imagem unificada de seu corpo, mas
também, projeta o sujeito numa temporalidade futura, em direção a um ideal narcísico sempre
por alcançar. O olhar do Outro é a testemunha da existência do sujeito, de sua existência
presentificada a uma imagem. Nas palavras de Kehl (2004), “existir é, antes de mais nada,
apresentar a própria imagem para o Outro” (p.150). É no encontro com o olhar do Outro que
se dá a inserção do sujeito no mundo das imagens.
37

O Estádio do Espelho não se resume apenas a um momento de desenvolvimento pelo


qual passa o sujeito. É uma construção, uma forma de vínculo que acompanha toda a vida do
sujeito. Isto é, o sujeito acredita ser o que o espelho reflete, ou melhor, o que o olhar do Outro
lhe devolve. Porém, trata-se do olhar no sentido de uma presença, do olho tomado enquanto o
signo do investimento libidinal, e não como o órgão de suporte da visão.

Desde a origem do sujeito, é o olhar do Outro primordial, o olhar da mãe que vai
intermediar a relação com a criança e a relação da criança com o mundo. Há um jogo de troca
de olhares entre a mãe e a criança, no entanto, estes olhares não se completam totalmente,
pois a criança pressente que o desejo do Outro materno está sob a insígnia da falta, assim
como o dela mesmo. O olhar da mãe não está todo tomado, o qual além da criança olha em
outras direções. No entanto, ao sentir-se amada, a criança tenta ilusoriamente desmentir a
experiência de separação que instala a descontinuidade entre ambas. E o olhar, mais do que se
referir a um órgão de visão, passa a ser um dos objetos privilegiados de troca com o Outro,
que nada tem de natural, é produzido e se torna signo do amor e do investimento. Assim, o eu
e o corpo se definem como efeitos do olhar, sendo este quem garante uma presença para o
sujeito.

Este investimento, naquilo que é “o primeiro esboço do eu”, tomado como unidade,
formaliza o que conhecemos como o Eu Ideal, que se traduz pelo fato de o sujeito tomar a si
mesmo como o seu próprio ideal e que se caracteriza pela fantasia de onipotência, onde o
sujeito pode tudo, ou seja, pode ser totalidade novamente.

Embora tomada de amor pela suposta totalidade de si mesma, a criança segue marcada
pela falta que a constituiu e que jamais vai ser preenchida. Falta esta que se inscreve no ato
mesmo da identificação com a imagem do espelho.

Desde muito cedo o sujeito fica alienado à ilusão oferecida pela imagem tecida no
espelho, a qual o acompanhará por toda a vida. O sujeito acredita ser esta imagem que ele
mesmo elaborou de si e “corre” atrás dela pelo resto de sua vida. No entanto, como ele nunca
coincide totalmente com ela, ele sempre irá procurar reafirmar-se e voltar a reconhecer-se, ou
seja, o sujeito nunca estará completamente satisfeito com sua imagem corporal, buscando
sempre a completude imaginaria perdida. Esta imagem, a qual ele busca reafirmar é então o
38

Eu Ideal, seu ideal de perfeição a ser alcançado, o qual ele não é mas pretende ser, é uma
configuração egóica correspondente à maneira pela qual o sujeito quer ser reconhecido.

Esse ego ideal é agora o alvo do amor de si mesmo (self-love) desfrutado na


infância pelo ego real. O narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a
esse novo ego ideal, o qual, com o ego infantil, se acha possuído de toda a perfeição
de valor. Como acontece sempre que a libido está envolvida, mais uma vez aqui o
homem se mostra incapaz de abrir mão de uma satisfação que outrora desfrutou.
Ele não está disposto a renunciar à perfeição narcisista de sua infância; e quando,
ao crescer, se vê perturbado pelas admoestações de terceiros e pelo despertar de seu
próprio julgamento crítico, de modo a não mais poder reter aquela perfeição,
procura recuperá-la sob a nova forma de um ego ideal. O que ele projeta diante de
si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua infância na qual
ele era o seu próprio ideal. (FREUD, 1914, p.111).

Em “Sobre o narcisismo: uma introdução”, Freud (1914) apresenta pela primeira vez a
distinção entre Eu Ideal e Ideal do Eu. Para ele, o Eu Ideal é o representante da perfeição, é
aquilo em direção a que surge o narcisismo do sujeito. Neste sentido, o eu se constitui como
tal tendo em face esta imagem de perfeição e completude, fruto, adverte Freud, do próprio
narcisismo dos pais. Já o Ideal do Eu, é uma nova forma de ideal, marcada por valores
culturais, é a forma através da qual o sujeito busca recuperar a perfeição narcísica desfrutada
do tempo do Eu Ideal.

Ao mesmo tempo em que o Ideal do Eu é um ponto de alteridade a partir do qual o


sujeito se constitui na sua singularidade, como sujeito do significante, o Eu Ideal é a imagem
da qual o sujeito vai servir para que se constitua tanto na sua imagem corporal quanto a
realidade, já que esta será a imagem aspirada em todas as formas de semelhança que irá
aplicar aos objetos. Desta forma, pode-se pensar que o sujeito se vê em relação ao Outro,
como se vê em relação ao Ideal do Eu.

Lacan (1953), em seu primeiro Seminário também aborda a articulação entre as


noções de Eu Ideal e Ideal do Eu, a propósito do texto freudiano sobre o Narcisismo. Ele
afirma que para pensar a constituição da realidade e o relacionamento com a forma do corpo
do sujeito, deve-se pensar na articulação entre estas duas noções.

Segundo ele (1953), a identificação ao Ideal do Eu...

[...] permite ao homem situar com precisão a sua relação imaginaria e libidinal ao
mundo em geral. Esta aí o que lhe permite ver no seu lugar, e estruturar, em função
39

desse lugar e do seu mundo, seu ser [...] O sujeito vê o seu ser numa reflexão em
relação ao outro, isto é, em relação ao ideal do eu. (p.148).

Neste sentido, torna-se necessária a articulação entre tais noções, as quais


desempenham ao sujeito um papel fundamental na estruturação da realidade e na relação com
o Outro.

Lacan (1949), ao descrever o triunfo jubilatório da assunção da imagem unificada do


sujeito diante do espelho, esclarece que o segredo da jubilação é o encobrimento da falta,
constitutiva do sujeito, pela imagem. No entanto, esta unidade ideal, como uma linha de
ficção, será sempre irredutível ao sujeito. O eu representa não a plenitude, mas uma falta de
plenitude que busca ser preenchida "imaginariamente" pelas formas como os sujeitos
imaginam ser vistos pelo Outro. O sujeito está sempre buscando uma "identidade", tentando
se ver em uma unidade, para anular a angústia que a fragmentação e a dispersão provocam e,
ao mesmo tempo, buscando resgatar a plenitude de satisfação narcísica, vivida naquela mítica
experiência junto ao Outro. Mas existe sempre um estranhamento ou um desconhecimento
com relação a si mesmo em função dessa alienação constitutiva. Pode-se dizer que o sujeito se
constitui por intermédio do Outro, e o preço a ser pago por esta constituição é a sua alienação
a esse Outro, a essa ordem cultural.

Diante o exposto, percebe-se o quanto há, desde a constituição do sujeito, a


necessidade da busca do olhar do Outro, Outro este, o qual, através de seu olhar certifica a
existência. E segue-se continuadamente dependente do Outro para o reconhecimento. Desta
maneira, o sujeito vive permanentemente em um registro especular, imaginário, onde o Outro
é a sede da alienação.

O sujeito é então constituído por um processo de alienação e separação ao Outro. A


separação significa o seu movimento em direção à realidade, ao social, em detrimento da
satisfação onipotente e imaginária. Mas esta dimensão alienante, imaginária, exatamente por
ser organizadora do eu, permanece como característica essencial de toda subjetividade.

Segundo Kehl (2004), “o Outro em psicanálise é testemunha da visibilidade do sujeito,


portanto de sua existência presentificada em uma imagem: à posição do sujeito na imagem,
chamamos de Eu Ideal” (p.149). O Eu Ideal é uma “aspiração”, uma instância imaginária, e o
Ideal do Eu é um “modelo” simbólico desta aspiração imaginária, um ponto de referência que
40

se encontra no lugar do Outro, um lugar simbólico onde o sujeito adquire sua consistência
imaginária e no qual pode se ver como capaz de ser amado.

Durante a constituição subjetiva, o Outro vem no lugar do Ideal do Eu, oferecendo ao


sujeito um modelo em que ele ajusta seu Eu Ideal. Assim, o Ideal do Eu é um lugar do Outro,
a partir do qual o sujeito pode projetar todas as perfeições do Eu infantil, narcísico, que fazia
crer que ele reinava em absoluto no amor do Outro materno.

No entanto, com a entrada no social, o sujeito passa a ocupar a posição de Ideal do Eu,
buscando sempre resgatar a plenitude de satisfação narcísica, a qual encontrava na posição de
Eu Ideal. Para isto, o sujeito, estando alienado ao Outro, procura responder a demanda do
mesmo, sendo este quem determina a posição que o sujeito ocupa. O Ideal do Eu é uma
instância psíquica com a qual o sujeito busca corresponder à expectativa e a demanda deste
Outro. Então, no caso da imagem corporal, remete-se a uma questão imaginária, onde a
demanda vem pelo registro do imaginário.

Neste sentido, ao ocupar esta posição de Ideal do Eu, estando remetido constantemente
ao Outro, o sujeito contemporâneo, conforme Kehl (2004), “é tentado a “aparecer”, exibir o
brilho fálico da imagem, que atesta: “eu sou” (porque o Outro me vê)” (p.150). Assim, o
sujeito busca atingir a imagem corporal tomada como referência, como forma de responder a
esta demanda imaginária do Outro cultural, podendo desta maneira obter reconhecimento e
ser amado e valorizado por este.

Diante disto, não há como ignorar o papel dos meios de comunicação na produção de
imagens que não cessam de nos modelar, exercendo sempre um papel decisivo nas referências
da imagem corporal. A mídia pode ser considerada um “espelho” da sociedade, na medida em
que as imagens que ela reflete são respostas às próprias demandas sociais. Ela passa a ser um
instrumento de transmissão de cultura. Assim sendo, o que a mídia apresenta, são referências
de imagens corporais ideais para a cultura, as quais respondem ao ideal que traduz
perfeitamente o que o Outro cultural demanda.

Tais questões permeiam um universo comandado por imagens e signos,


ideologicamente veiculados pela mídia, e que, segundo o filósofo francês Guy Debord (1997),
41

comanda a “sociedade do espetáculo”. Neste sentido, o sujeito contemporâneo é capturado


imageticamente pela referência vigente de corpos perfeitos, jovens e saudáveis.

Debord (1997), em seu livro “A Sociedade do Espetáculo”, formula a existência de


uma sociedade baseada no espetáculo, a qual resulta em uma “relação social entre pessoas,
mediada pelas imagens” (p.14). Debord tomou a televisão como o mais importante meio da
sociedade do espetáculo. Segundo ele, “o espetáculo nada mais seria que o exagero da mídia,
que embora tenha como função comunicar, poderia chegar a excessos e diversas
extravagâncias” (p.171). Seria, portanto, a mídia um meio de propagação da cultura da
imagem. Assim, conforme o autor, mediante a esta concepção, os modos de vida das pessoas
passam a ser marcados pela busca de acompanhar as imagens tidas como ideais e
exibicionistas que se apresentam na cena midiática.

A questão da imagem, para Debord (1997), é abordada como um produto de consumo.


O espetáculo é vendido como se fosse um modelo de vida, o qual a televisão reflete como
verdade e como uma possibilidade de existência. Então, o corpo ideal seria apenas uma das
referências que este instrumento transmite aos sujeitos, onde acima de tudo, transmite um
ideal de sociedade.

Na sociedade do espetáculo, a visibilidade depende exclusivamente da aparição da


imagem no campo do Outro, onde este Outro é imaginariamente representado pela mídia.
Kehl (2004), ao analisar a hipótese da cultura do espetáculo de Debord, afirma que a mídia
representa “a esperança de visibilidade para onde os sujeitos dirigem, ainda que
inconscientemente, suas escolhas de vida. O espetáculo demanda o que o sujeito deveria ser
para participar dele; ele fornece uma imagem, que se transforma em ideal, para os sujeitos”
(p.159).

Desta forma, a função da imagem na sociedade do espetáculo está ligada à idéia do


simulacro de um ideal que é atribuído pelos ícones midiáticos. Assim, a sociedade do
espetáculo vive em função das imagens e promove a própria vida como visibilidade, já que
existir é aparecer numa imagem. Se para os sujeitos, a primeira certeza de sua existência se dá
a partir da constatação de que o Outro o vê, a visibilidade espetacular, segundo as leituras de
Debord (1997) e Kehl (2004), é o que prolonga esta certeza.
42

Birman (1999), sobre a condição atual da subjetividade contemporânea, afirma que


esta “assume uma configuração decididamente estetizante, em que o olhar do outro no campo
social e midiático passa a ocupar uma posição estratégica em sua economia psíquica” (p.23).
Segundo ele:

A cultura da imagem é o correlato essencial da estetização do eu, na medida em que


a produção do brilharesco social se realiza fundamentalmente pelo esmero
desmedido na constituição da imagem pela individualidade [...] Na cultura da
estetização do eu, o sujeito vale pelo que parece ser, mediante as imagens
produzidas para se apresentar na cena social. (1999, p.167).

A imagem, devido ao seu poder de captação, fascina e cativa os sujeitos. Birman


(1999), em seu livro “Mal-estar na atualidade: A psicanálise e as novas formas de
subjetivação”, frisa que a ilusão da completude imaginária, originária da relação dual
narcísica, é convocada como o eixo estruturante da subjetivação contemporânea. Para ele, há
uma captura da subjetividade contemporânea no registro imaginário, em detrimento do
simbólico, onde a dimensão da estética, dada pelo olhar do Outro, ganha destaque no
espetáculo social.

Segundo Kehl (2004), o Outro na contemporaneidade mantém esta função, esta função
de reconhecimento através do olhar, a partir do qual os sujeitos buscam responder sua
demanda imaginária. O que cabe destacar, é de que forma os sujeitos respondem esta
demanda do Outro cultural, a qual, na maioria das vezes, aparece como um imperativo.

A cultura contemporânea, muitas vezes, passa a tomar isto como uma ordem, um
imperativo para inserir-se no espelho social, excluindo aqueles que não responderem à
estética corporal proposta. Neste sentido, os sujeitos buscam permanecer ou pelo menos se
aproximar desta referência como forma de responder a demanda imaginária do Outro, e desta
maneira ser reconhecido perante o social e fazer-se ver no espelho deste.

A cultura nos oferece referências, e na medida em que há uma referência, como no


caso da referência de corpo ideal, não há como não nos remetermos a ela, pois somos seres
sociais. No entanto, ao passo que somos todos sujeitos inseridos na mesma cultura, cada um
responde às demandas sociais de forma singular, dependendo de sua constituição psíquica.
Mesmo em casos em que os sujeitos não seguem tais padrões, estipulados por estas
43

referências, eles estão inconscientemente buscando um objeto perdido, isto é, o olhar do


Outro.

O espelho que importa para o sujeito é o olhar do Outro. Neste sentido, sabendo que a
imagem do sujeito é marcada a partir deste olhar, e a partir da referência do padrão estético de
corpo difundido e disseminado especialmente pela mídia, a cultura contemporânea acaba
remetendo os sujeitos a buscar constantemente o testemunho deste espelho, na busca de um
reconhecimento. Trata-se sempre de uma imagem na busca de reconhecimento.
44

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O desenvolvimento desta pesquisa permitiu pensar questões acerca das referências


corporais tomadas como padrões ideais, as quais encontram-se diretamente vinculadas com a
história e a cultura, mas, principalmente, com a subjetividade/constituição do sujeito.

Quanto a questão histórica e cultural, pode-se conceber a cultura enquanto lugar do


grande Outro. A cultura é onde encontra-se não apenas as estruturas de parentesco, mas
também, é onde os sujeitos se identificam com seus significantes e ideais.

A demanda de uma estética corporal difere nas determinadas épocas e culturas por
tratarem de diferentes discursos, mas sempre sendo o corpo tomado como um tema de
bastante expressão. As referências e os ideais corporais culturais se modificam pois os
significantes da cultura são reflexos das demandas dos sujeitos inseridos em determinado
momento histórico.

O corpo já fora forte e guerreiro na Grécia Antiga, a qual contemplava e valorizava o


corpo ideal em sua beleza física e intelectual. Na Idade Média, com a influência do discurso
do Outro religioso, o corpo ideal tornara-se sagrado. Já na Idade Moderna, e com o advento
do capitalismo, o corpo fora transformado em “corpo-máquina”, sendo o corpo de referência
aquele que representava maior fonte de produção. Nestes diferentes discursos das distintas
épocas percebe-se o quanto este Outro cultural é tido como objeto de identificação, aquilo em
que ao mesmo tempo o sujeito se identifica e se determina.

Sendo a cultura contemporânea uma cultura marcada pela sedução de imagens, os


investimentos sobre o corpo contemporâneo trazem à tona novas utopias. O mundo
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contemporâneo, fascinado pela estética, acaba levando os sujeitos cada vez mais à tendência a
investir em seu corpo, a fim de torná-lo conforme as atuais referências de beleza. A ênfase
nos cuidados com o corpo, em dietas alimentares e exercícios físicos diários, fazem hoje mais
do que nunca, parte quase que obrigatória dos procedimentos para a “construção” de um
corpo tido como referência de ideal contemporâneo, o qual é tomado como responsável pela
captura do olhar do Outro.

Nesta cultura atual, os sujeitos são convidados a focalizar, de certa forma, a atenção na
aparência corporal. Cada vez mais, homens e mulheres, gordos ou magros buscam
acompanhar os padrões de aparência que condizem a uma imagem ideal proposta como
referência, a qual acreditam ser fundamental para a obtenção de reconhecimento social e do
olhar do Outro. Vive-se em uma época onde os sujeitos são fortemente influenciados pela
preocupação com a imagem corporal, uma vez que faz parte dos padrões da sociedade
contemporânea tornar-se visível.

Nesta cultura contemporânea o corpo possui um lugar de destaque, ao tempo que este
representa o sujeito e a cultura e/ou sociedade em que vive. Hoje, mais do que em outras
épocas, tem-se a impressão de que o corpo e seus adereços nos representam no mercado dos
olhares e das relações sociais.

Quanto a questão subjetiva, sabe-se que ao nascer, o sujeito é inserido na cultura


familiar, a qual, por sua vez, insere-se em uma cultura maior. Sendo assim, a constituição
subjetiva e corporal se dá diante dos referenciais oferecidos ao sujeito pelo Outro materno,
que passa a ser sua primeira referência, a qual, posteriormente, com sua inserção no social,
delega-se para a cultura. Neste sentido, ao inserir-se na cultura e tomando como referência o
Outro cultural, o sujeito é demandado a responder ao social assim como em respondia a
demanda do Outro materno.

Ao mesmo tempo em que o Outro desempenha o papel de modelo – durante a


constituição do sujeito –, também se oferece como espelho, mostrando ao sujeito quem ele é e
possibilitando, deste modo, que o sujeito reconheça a si mesmo como tal. Assim, sou o que
me dizem que sou. Como num espelho, cada ser humano constrói sua imagem psíquica como
o Outro faz vê-la. Incapaz de ver a si mesmo, uma vez que ao homem não é dado a ver o
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próprio rosto, é apenas mirando-se no Outro enquanto espelho que o ser humano se reconhece
enquanto tal.

A busca da imagem corporal proposta como referência pelo discurso social, seria uma
forma do sujeito responder a demanda imaginária e ao desejo do Outro, pois é a falta
instaurada por este (Outro) que permite ao sujeito uma constituição subjetiva, a qual leva ao
encontro a uma possibilidade de corresponder a um ideal, a um padrão que jamais poderá ser
alcançado.

Na cultura contemporânea, assim como nos demais momentos históricos, e durante


toda a vida do sujeito, o olhar do Outro está sempre presente. Na medida em que é este olhar
que certifica a existência do sujeito, ele passa a ser a referência para a imagem corporal ideal
que o mesmo buscará alcançar.
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