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AUTONOMIA DE VÔO

Por CARLOS ALBERTO MATTOS


19/08/2002

Quando Eryk Aruac Gaitán Rocha nasceu, seu pai estava realizando A Idade da Terra. Quando
Glauber morreu, em 1981, Eryk tinha três anos de idade e morava na Europa com a mãe, a
fotógrafa, video-artista e cineasta colombiana Paula Gaitán. Cresceu nutrido, de um lado, pela
paixão de Paula pela arte latino-americana; de outro, pela curiosidade em relação ao pensamento e à
obra do pai, uma herança avassaladora que se impôs em toda a sua formação cultural. No período
1997-1999, enquanto freqüentava a Escola de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, em
Cuba, Eryk topou com os vestígios da passagem de Glauber por Havana, entre 1971 e 1972,
capítulo ainda pouco conhecido de sua biografia. Estavam criadas as condições para que surgisse o
documentário Rocha que Voa.
O filme é, mais que tudo, a tentativa de um filho de compreender um momento da trajetória do pai.
Justamente por isso, surpreende em Rocha que Voa a ausência de um viés pessoal explícito, como
tem sido praxe nos recentes documentários em primeira pessoa. Esta tem sido a opção de muitos
realizadores, brasileiros e internacionais, que se dispõem a trocar a demanda de objetividade típica
dos documentários por uma perspectiva mais pessoal, nascida de sua própria experiência. Sandra
Kogut, por exemplo, usou os trâmites da busca de uma dupla nacionalidade para investigar a
história de sua família e da imigração no Brasil em Um Passaporte Húngaro. Kiko Goifman
documentou a tentativa de encontrar sua mãe natural em 33. Em Tempo Sul, Cezar Migliorin
visitou a cidade onde seu pai nasceu, na fronteira do Brasil com o Uruguai.
Rocha que Voa bem podia ser um filme sobre um filho que recolhe as memórias da presença do pai
famoso num território de exílio. Mas essa idéia sequer passou pela cabeça do realizador. Eryk
preferiu abster-se do papel de filho-repórter e fazer um filme pessoal não porque ele apareça em
pessoa ou sequer em voz, mas porque está ali, despudoradamente, na forma como tece os fios do
tapete. Já em seu primeiro filme, ele se apresenta com um discurso próprio, uma inquietação santa,
um apetite intelectual e político que não pode deixar de lembrar o do próprio Glauber.
Em lugar de ajustar os moldes ao bom-comportamento exigido pelo mercado - sobretudo o
televisivo -, com exposição cautelosa de idéias, bom-gosto fotográfico e uma aura de
entretenimento fácil, Eryk nos oferece um raro exemplar de ensaio poético-político. A narrativa
assume um aspecto de colagem barroca, cheia de imagens desfocadas, tremidas ou estouradas no
grão da película ou no frame do vídeo, que parecem reivindicar um valor tanto poético quanto
informacional. A tela em transe. Por vezes, nas panorâmicas sobre o céu, o mar e a terra, lembra a
estética de A Idade da Terra. Em outros momentos, quando a justaposição de imagens de origens
diferentes converge para um sentido alegórico ou simbólico, evoca recursos que Glauber e Marcos
Medeiros utilizaram em História do Brasil, o filme montado em Cuba em 1972.
Mas não vá você pensar que se trata de simples emulação da linguagem paterna. Eryk é
contemporâneo na variedade de recursos com que retrabalha a imagem captada - sobreposições,
sampleamentos, slow motion etc -, sempre visando acrescentar camadas de sentido ao que está
sendo dito ou mostrado. Quando Fernando Birri fala de suas "visões" deGlauber ("Ele ainda anda
levitando por aí..."), o rosto do cineasta argentino multiplica-se e sobreimpressões e arrasta imagens
de intensa pulsação poética. Quando, no trecho mais emocionante do filme, a cubana Teresa
recorda-se do namoro com Glauber, Eryk deixa o pudor de lado e embebe o filme em música
romântica, para horror dos puristas do documentário. Definitivamente, não estamos diante de um
filme subserviente ao estilo de Glauber, mas de uma obra autônoma que se constrói a propósito
dele.
Semi-oculto nas entrelinhas de Rocha que Voa há um depoimento sobre os 30 anos que nos
separam da época em que Glauber passou por Cuba. Passou como alguém que se informava sobre
um novo tempo e ao mesmo tempo o anunciava. Essa era a forma como Glauber aprendia as coisas:
ensinando. Três depoimentos inéditos compõem o aúdio básico do filme, dois dos quais estão
saindo em livro homônimo, da editora Aeroplano e da distribuidora Martim 21. Expressos num
portunhol de fluência selvagem, eles revelam um Glauber eufórico com a possibilidade de o
intelectual revolucionário (ou de vanguarda, o que naquele momento significava mais ou menos a
mesma coisa) abandonar as fileiras da elite burguesa e integrar-se ao processo social e político,
como qualquer trabalhador. Por outro lado, o cinema parecia-lhe o agente ideal para promover a
unidade cultural e política da América Latina e do Terceiro Mundo.
Como sabemos, esta última profecia não se cumpriu - o Mercosul está em frangalhos e os laços
entre o Brasil e as demais cinematografias latino-americanas são hoje tão frágeis quanto um pedaço
de filme ressequido. O discurso anti-burguês e anti-colonização de Glauber pode soar defasado aos
ouvidos contemporâneos, mas o filme encarrega-se de situá-lo, ao mesmo tempo, como produto de
uma época e como reserva de inspiração para futuras utopias. "Sabemos que um filme não pode
mudar o mundo", diz Julio García Espinoza num dos depoimentos colhidos por Eryk Rocha, "mas
devemos fazê-lo como se isso fosse possível".
Rocha que Voa faz uma profissão de fé no documentário como veículo de discussão de idéias. A
edição é rica em associações críticas e paralelos elucidativos. Eryk coleta a memória ainda viva das
palavras e do comportamento irreverente de Glauber entre cineastas, intelectuais e cinéfilos
cubanos. Inventaria os elos do Cinema Novo (e do pós-Cinema Novo do Glauber exilado) com o
cinema que emergiu da revolução cubana. As intercalações de um travelling automobilístico de
Terra em Transe com imagens do Malecón de Havana; ou do cine-teatro de O Leão de Sete Cabeças
com cenas documentais de santerías (rituais religiosos afro-cubanos) são de uma eloqüência
cristalina. Uma energia comum circulava nas veias de uma cultura terceiro-mundista à procura de
emancipação.
v É comovente o esforço de Eryk no sentido de encontrar as imagens que corporifiquem o discurso
do pai. E mais ainda ver que conseguiu, sem abrir mão de um olhar que é dele próprio. Pode-se
desculpar uma certa tendência à monumentalização do personagem na seleção e enquadramento das
fotografias, assim como no tom dos depoimentos - o que, afinal, é nada diante da natureza do
projeto. Rocha que Voa é exemplar de um modelo de ação documental que busca numa certa
imperfeição a sua personalidade. E não se esgota no seu objeto, mas toma-o como atalho para uma
reflexão mais ampla sobre passado, presente e futuro desejado.

Mais informações:
site oficial do filme: www.martim21.com.br/rochaquevoa

#ROCHA QUE VOA


Brasil/Cuba, 2002
Direção: ERYK ROCHA
Roteiro e Montagem: ERYK ROCHA E BRUNO VASCONCELOS
Fotografia: MIGUEL VASSILSKIS

“Erik tinha apenas três anos quando Glauber morreu,


em 1981. Logo, seu filme não tem traços de memória
concreta, explícita. Rocha que Voa é mais uma
tentativa de reconstrução emocional da trajetória
de Glauber em Cuba. Erik abdica, assim como o
pai, da narrativa tradicional, desenvolvendo sua
própria linguagem. Com algumas seqüências em
sépia, o documentário utiliza imagens, em parte
inéditas, feitas por Glauber, ao lado de depoimentos
de seus amigos de então.”.

#ROCHA QUE VOA


Brasil/Cuba, 2002
Direção: ERYK ROCHA
Roteiro e Montagem: ERYK ROCHA E
BRUNO VASCONCELOS
Fotografia: MIGUEL VASSILSKIS