Você está na página 1de 24

EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ DE DIREITO DA 1ª VARA

CRIMINAL DA CIRCUNSCRIÇÃO JUDICIÁRIA DE


PLANALTINA/DF

Au t os nº : 2008.05.1.008817-4
Denu nc ia nt e: M in i st é ri o P ú b li co do Di st ri t o F e de ra l e Te rri t ó ri os - MP DF T
Denu nc ia d o: S r. M a rci on n y d e Oli v e i ra Sa ra i va L eã o

“Uma coisa é maldizer, outra


é acusar [...] a maledicência
não tem outro propósito
senão a contumélia”
(CÍCERO)

MARCIONNY DE OLIVEIRA SARAIVA LEÃO, já


devidamente qualificada nos autos do processo em epígrafe, por
intermé dio de seu advogado, in fine subscrito, vem,
respeitosamente, perante Vossa Excelê ncia, com fulcro, no art.
404, pará grafo ú nico do Có digo de Processo Penal, apresentar

ALEGAÇÕES FINAIS POR MEMORIAIS

aduzindo para tanto o que se segue:


I– PRELÚDIO

Faz-se mister, primeiramente expor a magnífica liçã o


dada por CÍ CERO, na primeira parte da defesa de Coeli:

“ U ma coi sa é ma ldi z e r, o ut ra é a c usa r [.. . ] a


ma l ed ic ênc ia nã o tem out ro p rop ós it o s enã o a
c ont u mél ia ”.

Em nada é admissível na atualidade, um pedido de


condenaçã o de um acusado, sem SUPORTE PROBATÓRIO
IDÔNEO que sustente a acusaçã o, revelando-se sempre atual à
insuperá vel liçã o do mestre CARRARA:

“ O p roc e sso cri mi n a l é o q ue há de ma i s s é ri o n e st e


mun do. T udo ne le de ve se r cla ro como a l uz, c e rt o
como a e vi dê n ci a , p osit i vo como q ua lq ue r gra n d e za
a lgé b ri ca . Na da d e a mpl iá vel , d e p res s u p os t o, d e
a nf ibol ógic o. Ass e n t e o p roc e sso na p r e ci s ã o
morfol ó gi ca le a l e n e sta o ut ra p re ci s ã o ma i s sa l ut a r
a i n da : a v e rda de s e mp re de sa t i va da d e dú vi da s” .

Í nclito julgador, apó s um exame do acervo probató rio


resta incontroverso que a conduta do Sr. Marcionny de Oliveira -
ré u na presente açã o penal - é digna de nosso profundo respeito
e nã o de reprovaçã o 1 .

Data maxima venia, causa espé cie, apó s uma aná lise
sé ria dos autos, imputar ao Sr. Marcionny de Oliveira,
levianamente o delito de tortura, ou lesã o corporal, ou abuso de
autoridade, ou tentativa de homicídio ou qualquer outra açã o
típica a depender da maior ou menor capacidade imaginativa do
acusador. É sempre salutar relembrar que o que está em jogo
aqui é a liberdade, o status dignitatis do acusado.

1
A. cumprindo ordem do Delegado de polícia se dirigiu ao local dos fatos (onde foi
noticiado por um popular que a pseudovítima estava armada com uma espingarda calibre
12 e disse ao popular que iria matá-lo se este fosse à Delegacia) no intuito de solicitar que
a pseudovítima comparecesse à delegacia;
B. Mesmo estando armado e sendo atacado pela pseudovítima, não efetuou sequer um
disparo contra esta, ao contrário apenas a conteve com a força necessária para tanto;
C. Encaminhou a pseudovítima à Delegacia após os fatos;
D. Conduziu a pseudovítima ao hospital;
2
II- EPÍTOME DA DINÂMICA PERSECUTÓRIA

O Sr. Marcionny de Oliveira foi denunciado pela


acusaçã o pú blica por supostamente:

“No dia 06 (seis) de junho de 2007 (quarta-feira), por volta das


19h, no Nú cleo Rural Pipiripau II, nesta cidade satélite de
Planaltina/DF, os denunciados de forma livre e consciente, na
condiçã o de agente de polícia e sob o pretexto de encaminhar a
vítima Ivanildo Camilo Ferreira à Delegacia de Polícia,
submeteram-na a intenso sofrimento físico mediante o emprego
de violência consistente em diversos socos e pontapés, que vieram
a lhe causar as lesõ es descritas no laudo fls. 26/27 e fotografias de
fls. 41/63”.

Ato contínuo, a exordial acusató ria foi recebida (fls.


203), litteris:

“Recebo a denú ncia. Citem-se e atenda-se à cota


ministerial.”

Por conseguinte, apó s o recebimento da denú ncia


determinou-se que o denunciado apresentasse Resposta à
Acusaçã o nos termos do art. 396-A, do CPP. A R esposta à
Acusaçã o foi apresentada (fls. 212/217) tendo sido requerido a
absolviçã o do denunciado, e arrolada as testemunhas de defesa.

Em sequencia, a autoridade julgadora - nã o


vislumbrando presentes no caso nenhuma das hipó teses de
absolviçã o sumá ria (art. 397, CPP) - designado audiê ncia de
instruçã o, debates e julgamento.

Instruçã o realizada, a acusaçã o (e aqui temos uma


acusaçã o qualificada pela ilustre presença da defensoria pú blica
como assistente de acusaçã o) tanto aquela representada pelo
Ministé rio Pú blico como dominus litis, quanto a assistê ncia à
acusaçã o patrocinada pela a Defensoria Pú blica apresentaram
alegaçõ es finais cada qual pugnando por consequê ncia penal e
processual penal diversa e incompatíveis entre si.

Nessa toada, seguindo a dialé tica processual vem


agora a defesa perante Vossa Excelê ncia apresentar suas
3
alegaçõ es finais, em forma de memoriais.

III- DA DENÚNCIA E ALEGAÇÕES FINAIS DA ACUSAÇÃO: o vaticínio


do Núcleo de Investigação e Controle Externo da Atividade Policial
e Núcleo de Combate à Tortura

Desde já elucide-se que antes do oferecimento da


denú ncia, na data de 13/04/2009, o Ministé rio Pú blico do
Distrito Federal, por intermé dio de nú cleo específico de combate
à tortura e controle externo da atividade policial manifestou-se,
no sentido de que no caso nã o haveria ocorrido tortura (fls. 168-
176):

“Apó s aná lise detida dos autos, resumida


no relató rio acima, verifica-se que, em
tese, pode ter existido exagero dos
policiais na abordagem de IVANILDO, o
qual teria resistido à atuação
policial ... Desse modo observa-se que
o fato não constitui crime de tortura ...
Não se cuida de Crime de Tortura no
presente caso”
Malgrado a substanciosa manifestaçã o do NCAP/NCT,
ó rgã o com atribuiçã o específica e com induvidosa expertise na
maté ria concluindo de forma categó rica que no presente caso
nã o teria ocorrido tortura, a douta 3ª Promotoria de Justiça
Criminal de Planaltina, na data de 28/07/2009, denunciou o
acusado Marcionny de Oliveira por supostamente ter praticado o
delito de tortura, consistente na submissã o de Ivanildo Camilo
Ferreira a intenso sofrimento físico, mediante o emprego de
violê ncia, a pretexto de encaminhá -lo à Delegacia de Polícia,
verbis:

“No dia 06 (seis) de junho de 2007 (quarta-feira), por volta das


19h, no Nú cleo Rural Pipiripau II, nesta cidade satélite de
Planaltina/DF, os denunciados de forma livre e consciente, na
condiçã o de agente de polícia e sob o pretexto de encaminhar a
vítima Ivanildo Camilo Ferreira à Delegacia de Polícia,

4
submeteram-na a intenso sofrimento físico mediante o emprego
de violência consistente em diversos socos e pontapés, que vieram
a lhe causar as lesõ es descritas no laudo fls. 26/27 e fotografias de
fls. 41/63 ... em assim agindo, estã o os denunciados incursos nas
penas do art. 1º, §1º, c/c §4º, inciso I, da Lei nº 9.455/97”.

Ocorre que, após a instrução processual a 3ª


Promotoria de Planaltina também constatou que, in casu,
tortura não teria ocorrido, e em sede de alegações finais
requereu a declinação de competência para a Vara do Juizado
Especial Criminal de Planaltina/DF desclassificando o delito
(art. 383, §2º, CPP), de tortura para o tipo legal de abuso de
autoridade e lesão corporal leve.

Ou seja, o dominus litis entendeu que nã o há no caso


delito da competê ncia desse nobre juízo, deixando de requerer a
condenaçã o do acusado por tortura. Em síntese: no caso não se
mais existe acusação do Ministério Público por tortura.

Saliente-se que a defensoria pú blica, habilitada como


assistente de acusaçã o no presente feito, procedendo – data
venia - a verdadeiro excesso de acusaçã o e exorbitando de sua
atribuiçã o, aditou a denú ncia requerendo a declinaçã o da
competê ncia para Vara do Tribunal do Jú ri, pedindo
subsidiariamente a condenaçã o do acusado pelo delito de
tortura.

Elucide-se desde já , que nã o se ignora que ao


assistente de acusaçã o é permitido apresentar suas pró prias
alegaçõ es finais, seus pró prios articulados na dicçã o do art. 271
do CPP, contudo, não é lícito ao assistente à acusação aditar a
denúncia. Como é cediço, os poderes do assistente, em que pese
serem dos mais variados (propor m eio de prova, requerer
perguntas à s testemunhas, participar do debate oral, etc) nã o
podem ultrapassam o do dominus litis (MPDFT) e encontram-se
limitados por este.

A denú ncia é o limite dentro do qual operar-se-á o


“jogo” processual, nã o podendo o assistente ultrapassar esse
limite. Ademais, por imperativo ló gico apenas há que se falar em

5
alegaçõ es finais de uma acusaçã o se nos autos a referida
acusaçã o esteja presente.

Ocorre que, no caso dos autos operou-se o fenô meno


processual da desclassificaçã o (art. 383, §2º, CPP), haja vista q ue
o titular da açã o penal em sede de alegaçõ es finais aditou a
denuncia para desfazer a imputaçã o por tortura (desimputaçã o).

Destarte, se nã o há nos autos acusaçã o por tortura,


corolá rio ló gico nã o caberá a parte (assistente) em sede de
alegaçõ es finais sustentar a condenaçã o por tortura. Nessa toada
nã o há que se falar em pedido de condenaçã o por tortura e muito
menos em declinaçã o de competê ncia para a Vara do Trib unal do
Jú ri.

IV- DA CREDIBILIDADE DOS DEPOIMENTOS DE IVANILDO CAMILO


FERREIRA: Será que um testemunho contraditório, ilógico e em
descompasso com as demais prova dos autos serve como suporte
probatório idôneo apto à condenação?

Mesmo apó s a instruçã o judicial a acusaçã o ainda sustenta que


no caso subjudice o acusado atuou em desconformidade com regras do
direito, seja lhe imputando o delito de abuso de autoridade (MPDFT), seja o
acusando absurdamente – com todas as venias - de tortura ou mais
absurdamente ainda de tentativa de homicídio (assistente de acusaçã o).

Por que a defesa de forma tã o contundente, vem à presença de


Vossa Excelência afirmar que a versã o fá tica da acusaçã o é leviana e absurda
nã o condizendo com a realidade dos fatos?

Examinando os autos logo se conclui que a dinâ mica fá tica


sustentada pela acuaçã o é extraída dos depoimentos que o Sr. Ivanildo
Camilo Ferreira prestou nos vá rios momentos da instruçã o (seja preliminar,
seja processual). Assim, imperativo examinar os depoimentos do Sr. Ivanildo
Ferreira.

Desde já adiante-se, que como chegou a afirmar o pró prio


MPDFT em suas alegaçõ es finais é muitas vezes difícil (para dizer o mínimo)
acreditar nos depoimentos do Sr. Ivanildo Ferreira.
Infelizmente a defesa é obrigada a ir além do afirmado pelo d.
6
MPDFT e afirmar que as declaraçõ es do Sr. Ivanildo Camilo Ferreira sã o: (a)
faltam muito (mas muito mesmo) com a verdade; (b) contraditórias em
si (aná lise do depoimento isoladamente); (c) contraditórias com as demais
provas juntadas aos autos (cotejo entre o depoimento e as demais provas)
(d) violadoras da lógica; (e) transgressoras das mais básicas leis da
física newtoniana.

É lamentável que o Sr. Ivanildo ardilosamente para


sensibilizar o interlocutor e buscar uma indevida punição do acusado,
falte com a verdade desde as situações mais irrisórias, como por
exemplo, quando negou em carta buscando sensibilizar o Corregedor
de Polícia que tinha apelido, até as situações mais sérias alegando que o
acusado já chegou no local o agredindo e dizendo que ia mata-lo, tendo
Ivanildo em razão das agressões desmaiado e apenas acordando no
hospital. Constata-se:

COTEJO ENTRE A VERSÃO DE IVANILDO E A PROVA DOS AUTOS


SITUAÇÃO IVANILDO PROVA DOS AUTOS
1) APELIDO “Destaco, principalmente, que nunca “Que trabalha como caseiro para
“CEARÁ fui tratado por qualquer alcunha IVANILDO CAMILO FERREIRA,
como destacado no APF nº 184. vulgarmente conhecido como CEARÁ”
Sempre fui conhecido pelas pessoas (Depoimento de Severino Rego, caseiro
como Ivanildo Camilo Ferreira. E me de Ivanildo, fls. 41)
causou estranheza observar que eu
passei a ser tratado como Ceará, “QUE foi informado nesta delegacia
algo que nunca havia ocorrido” que o nome de CEARÁ é IVANILDO
(Carta que Ivanildo encaminhou ao CAMILO FERREIRA” (Depoimento de
Corregedor de Polícia, fls. 35) Sebastiã o Borges de Sousa, fls. 44)

2) Em razão “QUE abriram a porta da Kombi e GAE/HRP (fls. 29): exame físico:
das agressões arrastaram o declarante, agredindo-o hálito etílico, consciente, orientado.
desmaiou e com socos e pontapés, motivo pelo
apenas qual veio perder os sentidos ... Que “QUE IVANILDO estava consciente
acordou no recobrou os sentidos quando era quando foi encaminhado à DP; QUE
hospital medicado no Hospital Regional de em momento algum IVANILDO
Planaltina, DF”; (Depoimento de desmaiou”; (Depoimento de Sebastiã o
Ivanildo Camilo Ferreira, fls. 108) Borges de Souza, fls. 105)

“que quando a equipe retornou trazendo


o autor do fato informaram que no
momento da abordagem houve
resistência por parte do autor ... que a
vítima também se queixava de dores
no corpo e na cabeça”
(Depoimento de Douglas Roberto de
Magalhã es Chegury – Delegado de
Polícia, fls. 585)

7
Como alguém pode se queixar de dores
se está inconsciente?

De forma precípua, para que se entenda todo o contexto


fático e se entenda a razão de tanto descompasso é necessário que se
perscrute: quem é Ivanildo Camilo Ferreira?

(i) QUEM É IVANILDO CAMILO FERREIRA?

Ivanildo Camilo Ferreira (Ceará) é um chacareiro do Núcleo


Rural Pipiripau II conhecido na vizinhança por “impor o terror” entre
os chacareiros, principalmente aqueles que nã o lhe obedecessem, sentia-se
o “dono do pedaço”, e vociferava que aquela á rea era dele, nã o tendo medo
da Polícia ou da Justiça, ali quem mandava era ele. Confira os depoimentos
que ratificam o retromencionado:

“Que no local onde ocorreu os fatos CEARÁ é conhecido por


impor o terror entre os chacareiros” (depoimento de Elider
Camilo Leal, fls. 153)

“QUE CEARÁ chefiava o grupo e gritava que nã o aceitaria cerca


alguma naquele local e que não tinha medo nem da polícia, nem
da justiça e que quem insistisse iria responder “na boca da
calibre 12” (depoimento de Sebastiã o Borges de Souza, Fls. 44)

“QUE ao retornar pela estrada onde estava IVANILDO, o depoente


disse que nã o tinha mais acordo e que estava indo na delegacia,
tendo ele dito o seguinte: ‘polícia aqui não resolve, quem
resolve sou eu’” (depoimento de Sebastiã o Borges de Souza, Fls.
146)

“o depoente sofreu ameaças por parte de seu confrontante,


Ivanildo Camilo Ferreira ... que Ivanildo chegou a ir até a área
do depoente acompanhado com o caseiro dele, estando
ambos armados com facas, QUE inclusive Ivanildo forçou o
depoente a comparecer na chácara dele, por volta das
15:00hs, do dia 06 de junho de 2007 ... Que Ivanildo chegou a
fazer com que o depoente fosse até uma área cascalheira sob
o pretexto de ver um trator que estaria desmatando uma á rea da
chá cara do depoente, sendo que mesmo desconfiado, o depoente
decidiu conferir, se dirigindo em seu veículo ao local indicado,
mas que ao se aproximar percebeu que havia um indivíduo
atrás de um barranco, tendo o depoente in continenti se
tirado do local, fazendo com que o depoente acreditasse que
IVANILDO estaria preparando uma armadilha para lhe
8
matar ... QUE ao retornar pela estrada onde estava IVANILDO,
o depoente disse que não tinha mais acordo e que estava indo
na delegacia, tendo ele dito o seguinte: ‘polícia aqui não
resolve, quem resolve sou eu’” (depoimento de Sebastiã o
Borges de Souza, fls. 146)

Da aná lise dos autos, verifica-se que Ivanildo Camilo Ferreira


era de fato um homem perigoso, que desafiava a todos e nada temia,
acreditando ser a mais alta maior autoridade no local. Nã o se submetendo a
quem quer que fosse, mesmo aos poderes constituídos e seus consectá rios
(Poder Judiciá rio e a Polícia Judiciá ria).

Em resumo: a pseudovítima é um lobo e nã o uma ovelha! Mas,


consigne-se a pseudovítima é a mais perigosa espécie de lobo, qual seja:
aquela que se reveste da pele de ovelha (tanto que seus status processual é
de vítima).

Registre-se que após o ocorrido que culminou com a luta


corporal e posterior prisão do Sr. Ivanildo este ficou desmoralizado
perante aquela comunidade, sua reputação foi manchada, pois como se
sabe o processo penal é um rito de degradação da dignidade, o processo
criminal macula como nada o status dignitatis de uma pessoa, ainda
mais quando acarreta prisão, como no caso do Sr. Ivanildo.

Nessa senda, por entender ter sido desmoralizado em sua


“área”, o Ivanildo pretende prejudicar os ora acusados, custe o que
custar, ainda que para tanto tenha que proferir tanta mentira.

(ii) DAS CONTRADIÇÕES

Eminente julgador, ressalte-se que as contradiçõ es sã o tantas e


das mais variadas ordens, que é necessá rio advertir que é impossível trazer
todas nesse articulado, mas para facilitar a compreensã o, as contradiçõ es
serã o separadas em duas classes:

a. Contradições em si (o problema das


declarações de Ivanildo com a lógica e as leis da
física): as declaraçõ es analisadas por si só , já nã o
sã o críveis, para dizer o mínimo sã o declaraçõ es em
que se é muito difícil de acreditar;
b. Contradições em relação as demais provas: a

9
situaçã o piora quando cotejamos as declaraçõ es de
Ivanildo (pseudovítima) com as demais provas dos
autos, nesse momento fica patente que o que
move Ivanildo é a vontade de prejudicar o
acusado custe o que custar;

a. DAS CONTRADIÇÕES EM SI2: o problema das declarações de Ivanildo


com a lógica e as leis da física

a.1. Como uma pessoa que perdeu a consciência sabe que foi agredida
quando estava desacordada?

Depoimento de Ivanildo à s fls. 15:

“o declarante mesmo desacordado foi agredido


pelos policiais”

Como a pseudovítima pode ter consciência que estava sendo


agredida se nã o estava consciente?

a.2. Como alguém que chegou desacordado na delegacia, reclama de


dores no corpo?

Em todos os seus depoimentos o Sr. Ivanildo faz questã o de


destacar que:

“Que o declarante alega que desmaiou no local,


vindo a acordar apenas quando já estava
internado no Hospital de Planaltina” (fls. 151);

Já se sabe que Ivanildo nã o desmaiou por conta das agressõ es -


e aqui louve-se a contraprova, senã o seria mais um ponto de dú vida que
poderia ser avaliada indevidamente contra o réu e nã o a favor - uma vez que
a GAE expedida pelo HRP atesta que Ivanildo chegou ao local consciente
e orientado com hálito etílico.

No entanto, mesmo que assim nã o fosse a ló gica mais uma vez


desmente seu depoimento, pois ao prestar depoimento ao à época Delegado
2
As contradições aqui abordadas não excluem as mesmas indagações quando da próxima classificação.
Como ficará demonstrado, uma vez que não contam com o beneplácito da lógica, tais versões do Sr.
Ivanildo são logo a frente desmentidas pelo acervo probatório, como não poderia ser diferente.
10
de Polícia de plantã o Douglas Chegury, elucidou:

“que quando a equipe retornou trazendo o autor do


fato informaram que no momento da abordagem
houve resistência por parte do autor ... que a
vítima também se queixava de dores no corpo e
na cabeça” (fls. 585)

Perceba que antes mesmo de ir ao Hospital, ou seja, na


Delegacia de Polícia a pseudovítima estava acordada, uma vez que, para
reclamar de dores no corpo é preciso que a pessoa esteja acordada e
consciente.

a.3. Como alguém que previamente vai a um local para matar outra
pessoa, busca dar cabo ao seu intento no meio de outras testemunhas,
caracterizado com viatura policial, e estando de posse de arma de fogo
não atira contra o desafeto, tendo inclusive após luta corporal levado o
desafeto para o hospital?

O Sr. Ivanildo e o assistente de acusaçã o levantam a esdrú xula


hipó tese de que o acusado foi ao local dos fatos para matar Ivanildo:

“QUE os dois policiais desceram da viatura,


momento em que MARCIONNY disse: “vou te
matar, cabra velho safado”, desferindo um soco no
rosto do declarante e o pegando pelos cabelos” (fls.
108)

Nessa toada, indague-se porque alguém que vai/quer matar seu


desafeto o faz:

(i) sem qualquer motivo para tanto: o acusado era policial do


plantão que nã o tinha qualquer relaçã o com as partes (não
conhecia nem Ivanildo, nem Sebastião) e foi ao local apenas
para cumprir determinação do Delegado de conduzir a
pseudovítima à delegacia;
(ii) na frente de várias testemunhas;
(iii) em veículo caracterizado da Polícia Civil;
(iv) entra em luta corporal com o desafeto o domina e
mesmo assim de posse de arma de fogo em nenhum

11
momento dispara contra este;
(v) leva o desafeto ao hospital para que seja medicado;

a.4. Qual a razão de uma pessoa se dirigir à Delegacia dizendo que foi
ameaçada de morte se nada tivesse acontecido?

O Sr. Ivanildo afirma que nã o possuía qualquer divergência com


o Sr. Sebastiã o nã o entendendo porque este foi a Delegacia, confira:

“Que apó s a reuniã o ali referida, todos ali se


dirigiram até local onde o Sr. Sebastiã o autorizou a
retirada de quatro estacas ... que tudo ocorreu
normalmente sem nenhuma divergência entre
os presentes.” (fls. 25)

“Que o declarante alega que na referida reuniã o


nã o houve nenhuma divergência, bem como nã o
impediu a participaçã o de quem quer que seja na
reuniã o” (fls. 151)

Causa espécie, que uma pessoa sem nenhum motivo compareça


a uma delegacia de polícia para imputar a outra o delito de ameaça, e ainda
ter ciência que aquela possui arma de fogo calibre 12.

a.5 Por qual razão os policiais chegaram no local já agredindo o Sr.


Ivanildo?

Ivanildo relata que os policiais já chegaram gritando que iriam


mata-lo e desferiram nele um soco:

“QUE os dois policiais desceram da viatura,


momento em que MARCIONNY disse: “vou te
matar, cabra velho safado”, desferindo um soco
no rosto do declarante e o pegando pelos
cabelos”

Por qual razã o um policial do plantã o que no cumprimento de


ordem do Delegado de Polícia, que nã o conhece comunicante e suspeito
chegaria no local agredindo e dizendo que vai matar o suspeito de ameaça e
porte de arma?

12
b. DAS CONTRADIÇÕES EM RELAÇÃO AS DEMAIS PROVAS DOS AUTOS:
Ivanildo X acervo probatório

Agora passemos ao cotejo da narrativa da pseudovítima


Ivanildo Camilo Ferreira em comparaçã o com as demais provas dos autos.

Para facilitar a aná lise, em virtude da quantidade de


contradiçõ es proceder-se-á o presente exame com um auxílio de uma tabela
(“tabela verdade”) e em uma metá fora com o raciocínio ló gico ao final
poderemos verificar se a afirmaçã o do Sr. Ivanildo é verdadeira ou falsa.

“TABELA VERDADE”
COTEJO ENTRE A VERSÃO DE IVANILDO E A PROVA DOS AUTOS
DECLARAÇÕES DO SR. IVANILDO C. FERREIRA ACERCO PROBATÓRIO
b.1 “Destaco, principalmente, que nunca fui “Que trabalha como caseiro para IVANILDO
tratado por qualquer alcunha como destacado no CAMILO FERREIRA, vulgarmente conhecido
APF nº 184. Sempre fui conhecido pelas pessoas como CEARÁ” (Depoimento de Severino Rego,
como Ivanildo Camilo Ferreira. E me causou caseiro de Ivanildo, fls. 41)
estranheza observar que eu passei a ser tratado
como Ceará, algo que nunca havia ocorrido” “QUE foi informado nesta delegacia que o nome
de CEARÁ é IVANILDO CAMILO FERREIRA”
(Depoimento de Sebastiã o Borges de Sousa, fls. 44)

b.2 “no dia dos fatos não havia ingerido bebida GAE/HRP (fls. 29): exame físico: hálito etílico,
alcoólica” (fls. 208, juízo); consciente, orientado.

b.3 “após a reunião ali referida, todos ali se Os agentes GILMAR PEREIRA DA CONCEIÇÃ O e
dirigiram até local onde o Sr. Sebastião autorizou VALDINO JOAQUIM DA SILCA, relatam ao
a retirada de quatro estacas ... que tudo ocorreu DELEGADO que ao entrevistarem MARIA IRIS e
normalmente sem nenhuma divergência entre os esta disse que: Diante daquela situaçã o e
presentes.” (fls. 25) sabedores de que havia um desentendimento
anterior quanto a uma cerca que envolviam
proprietários da chácara daquela região, entã o
resolveram adentrar a residência e nã o observaram
o desfecho daquela situaçã o que exigia a presença
da polícia”. (Relató rio OM fls. 119-120)
b.4 “não impediu a participação de quem quer “Que apó s se inteirar dos fatos o depoente se dispô s
que seja na reunião”; (fls. 151) a acompanhar ‘PAULINHO’ na citada reuniã o que
iria ocorrer na casa de ‘CEARÁ ’, sendo que ao
chegarem ali o depoente foi impedido de participar
da reuniã o” (depoimento de Elider Camilo Leal, fls. 153)
b.5 “o declarante nunca ameaçou de morte o Sr. “o depoente sofreu ameaças por parte de seu
Sebastião”; (fls 108) confrontante, Ivanildo Camilo Ferreira ... que
Ivanildo chegou a ir até a á rea do depoente
acompanhado com o caseiro dele, estando ambos

13
armados com facas, QUE inclusive Ivanildo forçou o
depoente a comparecer na chá cara dele, por volta
das 15:00hs, do dia 06 de junho de 2007 ... Que
Ivanildo chegou a fazer com que o depoente
fosse até uma área cascalheira sob o pretexto de
ver um trator que estaria desmatando uma á rea da
chá cara do depoente, sendo que mesmo
desconfiado, o depoente decidiu conferir, se
dirigindo em seu veículo ao local indicado, mas que
ao se aproximar percebeu que havia um
indivíduo atrás de um barranco, tendo o
depoente in continenti se tirado do local,
fazendo com que o depoente acreditasse que
IVANILDO estaria preparando uma armadilha
para lhe matar ... QUE ao retornar pela estrada
onde estava IVANILDO, o depoente disse que
não tinha mais acordo e que estava indo na
delegacia, tendo ele dito o seguinte: ‘polícia
aqui não resolve, quem resolve sou eu’”
(depoimento de Sebastiã o Borges de Souza, fls.
146)

b.6 “os dois policiais desceram da viatura, “Que trabalha como caseiro para IVANILDO
momento em que MARCIONNY disse: “vou te CAMILO FERREIRA, vulgarmente conhecido como
matar, cabra velho safado”, desferindo um soco CEARÁ ...QUE os policiais pediram que descessem
no rosto do declarante e o pegando pelos cabelos” do veículo, mas CEARÁ recusou-se a descer”
(fls. 25) (depoimento de Severino Rego caseiro do pró prio
Ivanildo, fls 41)

“QUE os policiais deram ordem para que CEARÁ


estacionasse o carro e descesse do veículo, mas ele
disse que ‘nã o desceria do carro nem morto ... QUE
um dos policiais aproximou-se da janela da
Kombi e CEARÁ tentou atingi-lo com um soco no
rosto, momento em que recebeu voz de prisã o por
resistência”; (depoimento de Sebastiã o Souza, fls.
44)

“Que o depoente presenciou quando os policiais


deram voz de prisã o a IVANILDO, tendo este dito
aos policiais que nã o iria descer do veículo,
inclusive o depoente e o caseiro SEVERINO
chegaram a descer do carro ... Que o depoente
presenciou IVANILDO dar soco no intuito de
atingir os policiais, que se encontravam em
número de dois, tendo estes que usar de força
para dominar e prender IVANILDO”;
(depoimento de Ivaldo Marques da Silva amigo
de Ivanildo, fls. 149)

“Que o depoente presenciou quando um dos


policiais se identificou para CEARÁ como sendo da

14
polícia, tendo aquele ‘esnobado’ enquanto o outro
policial encaminhava o caseiro ... Que o depoente
também presenciou quando foi determinado
que CEARÁ saísse do veículo, tendo este se
recusado a obedecer a ordem, inclusive quando
um dos policiais tentou abrir a porta do veículo
VW/KOMBI, CEARÁ tentou agredi-lo desferindo
um soco, que por pouco nã o atingiu o policial”;
(depoimento de Elider Camilo Leal, fls. 153)

b.7 “quando os policiais aproximaram eles não se “Que o depoente presenciou quando um dos
identificaram como policiais e nem tampouco policiais se identificou para CEARÁ como sendo
pediu para o depoente descer do veículo” (fls. da polícia, tendo aquele ‘esnobado’ enquanto o
208, juízo); outro policial encaminhava o caseiro” (depoimento
de Elider Camilo Leal, fls. 153)

“que os policiais aproximaram-se e


identificaram-se como policiais, solicitando que
IVANILDO descesse do veículo; QUE IVANILDO
respondeu: “quem sã o vocês para eu descer daqui”
(depoimento de Sebastiã o, fls 105)

b.8 “QUE em nenhum momento reagiu contra os “Que trabalha como caseiro para IVANILDO
policiais” (fls. 108) CAMILO FERREIRA, vulgarmente conhecido como
CEARÁ ...QUE os policiais pediram que descessem
do veículo, mas CEARÁ recusou-se a descer”
(depoimento de Severino Rego caseiro do pró prio
Ivanildo, fls 41)

“QUE os policiais deram ordem para que CEARÁ


estacionasse o carro e descesse do veículo, mas ele
disse que ‘nã o desceria do carro nem morto ... QUE
um dos policiais aproximou-se da janela da
Kombi e CEARÁ tentou atingi-lo com um soco no
rosto, momento em que recebeu voz de prisã o por
resistência”; (depoimento de Sebastiã o Souza, fls.
44)

“Que o depoente presenciou quando os policiais


deram voz de prisã o a IVANILDO, tendo este dito
aos policiais que nã o iria descer do veículo,
inclusive o depoente e o caseiro SEVERINO
chegaram a descer do carro ... Que o depoente
presenciou IVANILDO dar soco no intuito de
atingir os policiais, que se encontravam em
número de dois, tendo estes que usar de força
para dominar e prender IVANILDO”;
(depoimento de Ivaldo Marques da Silva amigo
de Ivanildo, fls. 149)
15
“Que o depoente presenciou quando um dos
policiais se identificou para CEARÁ como sendo da
polícia, tendo aquele ‘esnobado’ enquanto o outro
policial encaminhava o caseiro ... Que o depoente
também presenciou quando foi determinado
que CEARÁ saísse do veículo, tendo este se
recusado a obedecer a ordem, inclusive quando
um dos policiais tentou abrir a porta do veículo
VW/KOMBI, CEARÁ tentou agredi-lo desferindo
um soco, que por pouco nã o atingiu o policial”;
(depoimento de Elider Camilo Leal, fls. 153)

b.9 “QUE em nenhum momento o declarante “Que CEARÁ deu socos e pontapés contra os
tentou agredir referidos policiais com aquela policiais, tentando abrir o porta-luvas, onde
faca”; (fls. 108) havia uma faca, posteriormente apreendida pelos
policiais”; (depoimento de Elider Camilo Leal, fls.
153)

“QUE em seguida IVANILDO tentou abrir o


porta-luvas do veículo VW/KOMBI, momento
em que os policiais o seguraram, tendo ele
resistido, investindo com violência contra os
policiais, dando socos, inclusive chegando a cair no
chã o em luta corporal com os policiais. Que com
muito trabalho os policiais conseguiram dominar
IVANILDO, algemando-o” (depoimento de
Sebastiã o Souza, fls. 146)

“QUE neste instante o agente JORGE se


aproximou pelo outro lado e conseguiu impedir
que CEARÁ pegasse uma faca que encontrava-se
dentro do porta-luvas”; (depoimento de
Marcionny de Oliveira Saraiva Leão, fls 38-39)

“O interrogando percebeu que CEARÁ tentava


alcançar o porta-luvas da Kombi, no qual
posteriormente constatou-se que havia uma
faca”; (depoimento de Jorge Alves, fls. 633)
b.10 Que o declarante alega que desmaiou no GAE/HRP (fls. 29): exame físico: hálito etílico,
local, vindo a acordar apenas quando já estava consciente, orientado.
internado no Hospital de Planaltina” (fls. 151)
“QUE IVANILDO estava consciente quando foi
encaminhado à DP; QUE em momento algum
IVANILDO desmaiou”; (Depoimento de Sebastiã o
Borges de Souza, fls. 105)

“que quando a equipe retornou trazendo o autor do


fato informaram que no momento da abordagem
houve resistência por parte do autor ... que a
vítima também se queixava de dores no corpo e
na cabeça”

16
(Depoimento de Douglas Roberto de Magalhã es
Chegury – Delegado de Polícia, fls. 585)

b.11 “que o declarante perdeu a consciência após “Apó s os policiais conseguirem conter IVANILDO,
levar várias pancadas na cabeça; que o declarante não continuaram a agredi-lo; a intençã o dos
mesmo desacordado foi agredido pelos policiais” policiais era som conter IVANILDO” (depoimento
(fls. 15) Sebastiã o, fls. 431)

“QUE após certo tempo CEARÁ foi dominado e


algemado”; (depoimento Severino Rego fls. 41)

Data venia, é para dizer o mínimo, difícil de acreditar na versã o


do Sr. Ivanildo, nã o se podendo punir os policiais por conta de tã o falaciosa
narrativa que está como visto em total discrepâ ncia com as provas dos autos!

Como exposto na tabela supracitada quem iniciou as


hostilidades e as agressões não foram os policiais, mas o próprio
Ivanildo. Cumpre trazer à baila, que até mesmo o seu caseiro Severino e
seu amigo Ivaldo esclarecem nas fls. 44 e 149 respectivamente que:

“Que trabalha como caseiro para IVANILDO CAMILO FERREIRA,


vulgarmente conhecido como CEARÁ ... QUE os policiais pediram
que descessem do veículo, mas CEARÁ recusou-se a descer”
(depoimento de Severino Rego caseiro do pró prio Ivanildo, fls 41)

“Que o depoente presenciou quando os policiais deram voz de


prisã o a IVANILDO, tendo este dito aos policiais que nã o iria
descer do veículo, inclusive o depoente e o caseiro SEVERINO
chegaram a descer do carro ... Que o depoente presenciou
IVANILDO dar soco no intuito de atingir os policiais, que se
encontravam em número de dois, tendo estes que usar de
força para dominar e prender IVANILDO”; (depoimento de
Ivaldo Marques da Silva amigo de Ivanildo, fls. 149)

Destarte, é faliciosa a narrativa de Ivanildo que afirma que


os policiais já chegaram ofendendo e agredindo, bem como é faliciosa a
narrativa de que Ivanildo não tinha o apelido de Ceará, que no dia dos
fatos não tinha ingerido bebida alcoólica, que não se desentendeu com
Sebastião e não o ameaçou de morte, que os policiais não se
identificaram, que não agrediu os policiais, que desmaiou e apenas
acordou no HRP, que foi agredido depois de contido.

Destaque-se que a conduta do Sr. Marcionny (acusado) é


modular, pois mesmo sendo ofendido verbalmente e fisicamente pela
pseudovítima, apenas utilizou da força e obviamente da violência necessá ria
17
para contê-lo. Inevitavelmente o excelência quando apenas dois homens tem
a missã o de conter um homem forte, as agressõ es físicas sã o corolá rio ló gico.
Tanto que nã o apenas a pseudovítima se feriu, mas também um dos policiais
que estavam tentando contê-la.

Nessa esteira de intelecçã o constata-se que as afirmaçõ es do Sr.


Ivanildo Camilo Ferreira sã o falsas, nã o tendo correspondência com a
realidade dos fatos, em síntese, as declaraçõ es do Sr. Ivanildo é uma fonte
inesgotá vel de mentiras!

Apó s o presente cotejo constata-se que em que pese Ivanildo se


esforçar para prejudicar os acusados a narrativa do Sr. Ivanildo nã o pode
prosperar e muito menos servir de base para condenar quem quer que seja!

Consoante observado, o depoimento de Ivanildo é contraditó rio


e falta muito com a verdade, nã o podendo servir de suporte sequer para uma
acusaçã o, quiçá para uma sentença condenató ria.

Por fim, e nã o menos importante cabem tecer algumas


advertências sobre Ivanildo:

Ivanildo, como dito alhures, era o “dono do pedaço”,


impunha temor na redondeza, e no momento em que o policial solicitou
que comparecesse à Delegacia de Polícia, se sentiu desafiado e
concretizando aquilo que falara antes (quem mandava lá era ele)
atacou o policial tendo, por isso que ser contido manu militare.

Ademais, Ivanildo além de ter sido contido forçadamente


por estes policiais, foi por eles preso, o que inevitavelmente resultou
em sua desmoralização pública, sua degradação perante a vizinhança.

Com essas razões chega-se a conclusão inarredável de que o


depoimento de Ivanildo Camilo Ferreira, não possui qualquer
credibilidade, qualquer comprometimento com a verdade, o que
Ivanildo quer é prejudicar os acusados, não importa como.
Destarte, tais declarações não servem como suporte
probatório idôneo para perseguir criminalmente ou condenar o Sr.
Marcionny, seja porque está em dissonância com as demais provas dos
autos, seja porque não possui lógica, seja porque proferido por alguém
que não possui qualquer compromisso com a ética e a moral.

18
V.II- DA IMPERATIVA ABSOLVIÇÃO: do legítimo procedimento
adotado pelo Sr. Marcionny de Oliveira X inexistência de infração
penal

O acusado agente de polícia de plantã o, apenas se


dirigiu ao local dos fatos, em cumprimento da ordem emitida
pelo Delegado de Polícia de entã o, Dr. Douglas Chegury, litteris:

“Que se encontrava como Delegado de Polícia plantonista na


data dos fatos; que foi procurado em seu gabinete por um dos
agentes da equipe de policiais de plantão; que este policial
informou que havia uma possível vítima de ameaça, fato
ocorrido na zona rural de Planaltina/DF; que o depoente
determinou que a equipe fosse até o local e conduzisse o
autor do fato até a Delegacia para lavratura do TCO”; (fls.
585)

Assim, o acusado apenas foi ao local dos fatos,


conduzir a pseudovítima (Sr. Ivanildo) à Delegacia, em
obediê ncia ao que foi determinado pelo Delegado de Polícia.

Frise-se conforme restou provado nos autos, que o Sr.


Ivanildo (pessoa a ser conduzida à delegacia) era homem
extremamente forte, verbis:

“QUE o declarante entrou dentro do VW/KOMBI e CEARA tentou


mexer dentro do porta-luvas do veículo, mas o declarante nã o
deixou ... QUE na confusã o todos caíram no chã o, até que o agente
MARCIONNY e o declarante conseguiram imobilizar CEARÁ , nã o
antes de muita luta; QUE CEARÁ é um homem muito forte”;
(depoimento de Jorge Santos Alves, fls. 115)
(v) “Deseja enfatizar que CEARÁ é um homem extremamente forte
e deu bastante trabalho para ser dominado, algemado e conduzido
a delegacia” (depoimento de Jorge Santos Alves, fls. 138)

Acrescente-se que eram apenas dois policiais, para conter


um homem muito forte. Outrossim, os policiais não dispunham de
nenhum equipamento diverso da arma de fogo para
contenção de Ivanildo, tais como equipamentos de choque,
etc.

Imperativo sublinhar que, a conduta dos policiais


Marcionny e Jorge é digna de aplausos, de nossa estima, e nã o de
19
reprovaçã o. É estarrecedor submeter tais policiais a um terrível
processo-crime por tortura por conta da situaçã o fá tica
subjacente aos autos.

Consigne-se que os policiais foram atacados por


Ivanildo, e ainda assim não efetuaram nenhum disparo
contra a sua pessoa, entre conter a violência de Ivanildo por
arma de fogo ou valendo-se do próprio corpo, optaram por
este.

É mister ressaltar o risco que os policiais ora


acusados estavam correndo, pois a qualquer momento Ivanildo
poderia retirar a arma de qualquer desses policiais e disparar
contra estes. Ora, um homem que desfere um murro contra um
policial, por conta de nã o querer ser conduzido à Delegacia,
poderia do mesmo modo, se conseguisse, se nã o fosse contido,
retirar a arma do policial e atirar contra este.

Cogente positivar o desrespeito que goza a figura


do policial no Estado Brasileiro, uma vez que estando
provado que foi atacado, tendo se ferido no momento em que
buscava conter o agressor, provado que o agressor tinha
ingerido bebida alcoólica na data das agressões, provado que
o policial valeu-se do meio menos lesivo que tinha no
momento (seu corpo), ainda assim está respondendo um
processo penal por suposto crime de tortura, e o assistente,
pasmem ó céus, ainda advoga a tese de tentativa de
homicídio!

Ademais, apó s terem contido Ivanildo, os policiais o


levaram à Delegacia de Polícia e posteriormente o encaminharam
ao hospital.

Corroborando todo o exposto, a sindicância nº


109/2008-CGP (fls 702) instaurada para verificar a conduta
de Marcionny e Jorge quando da prisão em flagrante de
Ivanildo foi arquivada ante a inexistência de provas.

Elucide-se ainda que as fotografias não


demonstram qualquer excesso (abuso/lesão) ou tortura por

20
parte dos policiais.

As fotografias estão em perfeita harmonia com o


que foi narrado pelos acusados e testemunhas senão
vejamos:

ÉLIDER FLS. 153 SEBASTIÃO FLS. 44


“Que o depoente presenciou quando um dos “QUE os policiais deram ordem para que
policiais se identificou para CEARÁ como sendo CEARÁ estacionasse o carro e descesse do
da polícia, tendo aquele ‘esnobado’ enquanto o veículo, mas ele disse que ‘não desceria do
outro policial encaminhava o caseiro ... Que o carro nem morto ... QUE um dos policiais
depoente também presenciou quando foi aproximou-se da janela da Kombi e
determinado que CEARÁ saísse do veículo, CEARÁ tentou atingi-lo com um soco no
tendo este se recusado a obedecer a ordem, rosto, momento em que recebeu voz de
inclusive quando um dos policiais tentou abrir prisão por resistência ... QUE no momento
a porta do veículo VW/KOMBI, CEARÁ tentou que o outro policial se aproximou para ajudar
agredi-lo desferindo um soco, que por pouco o colega, CEARÁ bateu e travou a porta
não atingiu o policial ... Que nesse momento empurrando o policial no chão; QUE
outro policial entrou pelo lado do passageiro para CEARÁ entrou em luta corporal com um
tentar retirar CEARÁ do interior do veículo dos policiais ... QUE CEARÁ foi algemado e
tendo este reagido com agressividade, para trazido a esta delegacia pelos policiais“
não sair de dentro do carro ... Que CEARÁ deu
socos e pontapés contra os policiais, tentando
abrir o porta-luvas, onde havia uma faca,
posteriormente apreendida pelos policiais ...
Que os policiais tiveram dificuldades em
algemar CEARÁ, chegando inclusive a rolar no
chão com os dois policiais, que ocasionou
lesões tanto nos policiais quanto em CEARÁ”;

MARCIONNY FLS. 38 JORGE FLS. 138


“Que deram ordem para que o veículo parasse “Esclarece que, ao agredir o colega
e o motorista e o carona descessem, mas o MARCIONNY, CEARÁ deu início a um
motorista conhecido por CEARÁ, disse que não embate físico em que houve diversos
desceria do carro e tampouco acompanharia golpes dele contra os policiais e areação
os policiais até esta delegacia ... Que destes que utilizaram da força necessária
aproximou-se da janela do carro e quase foi e compatível com a resistência para
21
atingido por um soco desferido de dentro para imobilizar e conduzir CEARÁ ... Destaca
fora por CEARÁ ... Que deu voz de prisã o ao que CEARÁ aplicou uma ‘gravata’ em
agressor pelo delito de resistência e tentou retirá - MARCIONNY, chegando a quase asfixiá-lo,
lo de dentro do carro ... QUE CEARÁ resistiu a o que obrigou o declarante a aplicar
socos e tentou apanhar algo no porta-luvas do alguns golpes com a coronha da pistola
carro ... QUE neste instante o agente JORGE se contra a sua cabeça, com vistas a salvar o
aproximou pelo outro lado e conseguiu impedir colega ... Que o declarante, ao final do
que CEARÁ pegasse uma faca que encontrava-se embate, ostentava vários hematomas pelo
dentro do porta-luvas ... QUE ato contínuo corpo, mais especificamente, na região
CEARÁ entrou em luta corporal com JORGE, abdominal e no braço direito, provocado
somente sendo contido após certo tempo de pro chutes desferidos pelo opositor ... Nã o
resistência ... QUE durante a tentativa de foi imediatamente submetido a exame no IML
dominar o agressor JORGE gritou que havia devido ao fato de ter sido socorrido no
sido ferido em uma de suas mãos ... JORGE hospital, onde sofreu intervençã o cirú rgica e
procurou socorro médico no Hospital de permaneceu cerca dois dias internados ...
Planaltina, onde apó s um raio X, foi Deseja enfatizar que CEARÁ é um homem
imediatamente encaminhado para um hospital extremamente forte e deu bastante trabalho
com mais recursos no Plano Piloto para ser para ser dominado, algemado e conduzido a
submetido uma cirurgia de emergência” delegacia ... Que a equipe utilizou apenas o
esforço físico necessá rio para imobilizar
CEARÁ , nã o havendo qualquer excesso por
parte dos policiais”;

Quer dizer desfere-se um murro contra o policial,


o agrido, busco pegar uma faca para acertá-lo, jogo ele no
chão, o enforco e é o policial que é o torturador, foi o policial
que tentou matar alguém?

Será que foi o acusado que abusou de sua


autoridade, ou seria o cidadão que está abusando e muito de
seus direitos, tendo inclusive iniciado agressões contra um
policial que apenas estava cumprindo ordens do Delegado de
Polícia?

Como deixe indene de dúvidas as provas dos autos


os policiais não cometeram qualquer delito quando da
abordagem do Sr. Ivanildo, a violência utilizada foi apenas
aquela necessária para conter o subversivo, tendo os
policiais, agido em estrito cumprimento de um dever legal
(causa de atipicidade à luz da teoria da tipicidade
conglobante) ou atuado justificadamente em legítima defesa.

Assim, todo o procedimento adotado pelos ora


acusados foi escorreito, em total consonância com o direito.

22
V.III- DA SENSATEZ: filtro de racionalidade sobre as
imputações de tortura e tentativa de homicídio X
manifestação do Núcleo de Combate à Tortura – MPDFT

No caso dos autos nã o há que se falar em tortura, ou


tentativa de homicídio, haja vista que os acusados atuaram
conforme as regras de direito em estrito cumprimento de um
dever legal ou justificadamente (legítima defesa), repelindo as
injustas e atuais agressõ es desferidas pelo Sr. Ivanildo.

Nesse sentido:

“O interrogando conseguiu colocar a algema em uma das mã os de


CEARÁ , mas este ainda assim conseguiu aplicar uma ‘gravata’ em
MARCIONNY, enforcando-o. Com o intuito de impedir o
enforcamento de MARCIONNY, o interrogando passou a aplicar
coronhadas na cabeça de CEARÁ , até que ele afrouxou e o
interrogando entã o conseguiu algemá -lo”; (depoimento de Jorge
Santos Alves, fls. 633)

Acrescente-se que os envolvidos (Ivanildo e os


acusados) ao entrarem em luta corporal caíram no chã o o
rolaram no cascalho tendo inevitavelmente se ferido.

O exame de corpo de delito e as fotos acostada aos


autos sã o compatíveis com o relato dos acusados, eis que os
arranhõ es no corpo e braço, perna da pseudovítima decorre da
luta corporal tendo ir parar em terreno irregular com pedras,
etc. Outrossim, os ferimentos na cabeça decorrem da tentativa de
Jorge salvar seu parceiro de uma gravata aplicada por Ivanildo.

Repise-se foi o Sr. Ivanildo que primeiramente


desferiu um soco contra o acusado, foi ainda Ivanildo que estava
dando socos e pontapé s contra os policiais e buscando buscar
uma faca que encontrava-se dentro do porta-luvas.

Nessa esteira de intelecçã o nã o se pode admitir que


seja imputada ao acusado tentativa de homicídio ou tortura,
sendo imperativa a absolviçã o dos acusados.

23
IV- DA DESCLASSIFICAÇÃO: mais uma vez o vaticínio do Núcleo de
Investigação e Controle Externo da Atividade Policial e Núcleo de
Combate à Tortura

Em nome do princípio da eventualidade e por amor ao debate,


caso Vossa Excelência nã o absolva o acusado, indubitavelmente a conduta
do acusado como já consignado neste articulado, nã o se conforma com o
delito de tortura, razã o pela qual devem os autos serem encaminhados para
o Juizado Especial Criminal de Planaltina, para que se apure eventual
exagero cometido pelo acusado, que reitere-se nem de longe se amolda a
conduta típica de tortura.

VII- DO PEDIDO

Ex positis, a defesa requer à Vossa Excelência, sucessivamente:

a) absolviçã o do acusado, estando provado que o fato nã o constitui infraçã o


penal (estrito cumprimento de um dever legal, à luz da teoria da
tipicidade conglobante), nos moldes do art. 386, III, CPP;
b) absolviçã o do acusado, estando provado que atuou justificadamente
(legítima defesa), nos moldes do art. 386, VI, CPP;
c) absolviçã o do acusado, por nã o existirem provas suficientes para a
condenaçã o, nos moldes do art. 386, VII, CPP;
d) em nã o atendendo os pedidos supracitados que opere a desclassificaçã o
do tipo legal (art. 383, §2º) encaminhando os autos ao Juizado Especial
criminal de Planaltina/DF.

Rendendo as homenagens de estilo, pede deferimento.


Brasília, 26 de abril de 2013.

24

Você também pode gostar