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podem tirar um tão grande partido: não os inventários globais dessas


grandes línguas de civilização que fundem os contributos de tantos
grupos, 'locais ou sociais, diferentes, e no-los transmitem em desor-
dem - mas esses inventários de «patois» que, interpretados pelO'histo-
riador das sociedades rurais, nos dão ensinamentas tão preciosos como
só eles podem dar. 'É nãO' menos necess.ária a colaboração deespecia-
listas da semântica que, ao restituírem-nos a história de palavras par-
ticularmente carregadas de sentido, escrevam, ao mesmo tempo,
capítulos exactos de história das ideias. lÊ precisa a colaboraçãO' desses. OOMO RECONSTITUIR A VIDA AFECTIV A.
historiadores das línguas - como Meillet,em relaçãO' à história da DE OUTRORA?
língua grega, como Ferdinand Brunot, que segue passo a passo os des-
tinos da língua francesa - que observam O' aparecimento, em deter-
minadas datas, de todo um contingente de palavras novas ou de sen-
tidos novos dados a palavras velhas. Ê necessária, para passar de um A sensibilidade e a História
jogo de signos a um outro, a colaboração desses exegetas da icono-
grafia que, a partir de momentos datados, restituem a história de sen-
timentalidades religiosas muito complexas. É preciso ... não continue- A sensibilidade e a história: tema nova. Não conheça livro em
mos a enumeração, porque afinal tudo se resume a uma palavra: são que apareça tratado. Não estou mesma a ver que os múltiplos pro-
precisos espíritos atentos, inventivos, hábeis, que tenham em vista a blemas que acarreta se encontrem formulados seja onde for. Eis, pois
cO'laboração e que perante todo o trabalha intelectual ponham a si (perdoem a um pobre historiador este grito de artista)·- eis, pois,
próprios a pergunta do investigador: «Para que é que isto pode ser-
um belo tema. Tantas pessoas partem, afligindo-se a cada passo:
vir-me, a mim? E como utilizar o que nãO' é feito para mim?»
Então, mãos à obra! O problema não é teórico. Não consiste em parece não haver nada mais a descobrir em mares demasiadO' trilha-
saber se toda a história política, social, económica, intelectual, dos dos. Que mergulhem nas trevas da Psicologia, nas questões relacio-
grupos humanO's, se deve ordenar em função de um «Psicológico em nadas com a História: retomarão o gosto pela exploração.
primeiro lugar» desmedido, à volta de uma história dos pensamentos, Ainda não há muito tempo lia eu a relat6riode uma sessãa aca-
dos sentimentos e das vontades captadas nas suas transformações cro- dêmica. Um «historiador» apresentava à douta companhia as con-
nológicas. Era, não há muito, a ideia de Karl Lamprecht. Grandes clusões de uma memória que acabava de compor sobre um dos casos
teses doutrinais. Por agora, não as discutamos. Mas. simplesmente, desesperados da história anedótica: que alcance convêm dar às famo-
façamos votos para que tenha lugar a urgente pesquisa do trabalho sas «Cartas da Coroa» de Maria Stuart e que explicação se deveria,
positivo cujas condições acabamos de fixar. Trata-se de integrar uma na verdade, adaptar para tratar «cientificamente» este ilustre pequeno
psicologia histórica inteiramente individual (a criar) na poderosa cor- caso: o casamentb da rainha da Escócia com o assassino do seu
rente de uma história em marcha, coma todas as coisas, para o des- marido? O nosso homem explicava, pois, que se podia, ao cabo' de
tino desconhecidO' da Humanidade. grandes esforços e à falta de melhor, recorrer à psicologia para elu-
cidar este mistério. Falava também da <dmaginação intuitiva»: pode-
mos utilizá-la, afirmava, coma um modo de adivinhação, quanda se
trata de um caso individual; ela é, aliás, muito decepcionante, porque
afinal o Napoleão de Stendhal não é O' de Taine, que não é o de, etc.
Não desenvalvo mais; mas ele desenvolvia, e acrescentava: existe, em
todo a caso, um dominio que está totalmente fechado à psicologia. Um
"domínio em que ela não tem que fazer. É o da história impessoal, da
história das instituições e da história das ideias: instituições, ideias
apreendidas numa dada sociedade durante um determinado período;
aí «a imaginação intuitiva» não pode desempenhar nenhum papeL
- Se tivesse tido alguma dúvida sobre a oportunidade de um exame
das relações entre a Sensibilidade e a História, a minha leitura tê-Ia-ia
dissipado i.mediatamente, Gostaria de tentar dizer porquê,
*
* * conjunto do desenvolvimento psíquico do homem observado de um
extremo aa outro da sua carreira - do dia da concepção ao dia da
morte. E referir-me-ei, mais particularmente, a0' original artigO'sobre
I Mas, em primeira lugar, duas palavras de definição. Sensibilidade as emoções assinado pelo próprio Dr. Wallon: poucas leituras podem
é uma palavra bastante antiga. Existe na língua, pel0' menos, desde a iluminar melhor uma Ianterna de historiador em busca de claridade.
começa do século XIV; 0' seu adjectiva, sensível, com0' acontece habi~
tualmente, tinha-a precedido um pauco. Ao longo da sua vida, coma *
também acontece, sensibilidade carreg0'u-se de diversos sentidos. Há-os * *
que são estritos, há-os mais latos e que, em certa medida, se podem
localizar n0' tempo. Ê assim que no século XVII a palavra parece Portanto, objectar-se-á, o que há de mais rigorasamente indivi-
designar sobretudo uma certa susceptibilidade do ser human0' às dual e mais pess0'al que uma emoção? Mais ainda, o que há de mais
impressões de ordem moral: fala-se então muito de sensibilidade ao estritamente p:lOmentâneo? Não são uma revelação ou uma resposta
verdadeiro, ao bem, ao prazer, etc. No século XVIII a palavra designa instantânea a determinadás solicitações do exterior? E não traduzem
uma certa maneira particular de ter sentimentos humanos - senti~ modificações dos nossos órgãos que, por definiçãO', sãO'incomunicá~
mentos de piedade, de tristeza, etc. E o trabalho dos sinonimistas veis? A vida afectiva é de facto (para usar uma fórmula de Charles
consiste sobretudo em opor o sensível ao termo: a sensibilidade, m0'ndel, na sua Introduction à Ia psychologie colective, p. 92), 'O que
escreve, por exempl0', ()i abade Girard, n0' seu estranho tratado d0's eXiste «de mais necessariamente e de mais inexüravelmente subjectivo
Sinônimos franceses (utilizo a edição revista por Beauzée, Paris, 1780, em nós». A partir daí, O'que é que a história tem que ver com todo
t. II, p. 38) - «a sensibilidade diz mais respeito à sensação, a ternura, esse personalismo, todO' esse individualismo, todo esse subjectivismo
a0' sentiment0'. Esta tem uma relação mais directa com as manifesta- psicológica? Pede-se-lhe que analise nas suas causas orgânicas deter-
ções de uma álma que se lança para os object0's; é activa. Aquela tem minado acesso de medo, de cólera, de alegria ou de angústia dePedro
uma relação mais acentuada com as impressões que as objectos dei- o Grande, de Luís XIV au de Napoleão? E quandO' esse historiadar
xam na alma; é passiva... O calor do sangue leva-nos à terura; a deli- nos tiver dito: «Napoleão teve um acess0' de raiva» O'Uentão «um
cadeza dos órgãos entra na sensibi:Iidade.Os jovens serão mais ternos momento de intens0' prazer», não terá terminado a sua tarefa? Pedir-
que os velhos; os velhos mais sensíveis que os jovens... »] -se-lhe-á que desça ao mistério fisiO'lógicO'das vísceras da grande
Mas existem outr0's sentidos da palavra. Sentidos sémi-científicos homem?
e semi-filosóficos que a cultura, tal como é distribuída nos liceus, TudO'isto é muito ilusório. Em primeiro lugar, nãO'se deve fazer
tende, pouc0' a P0'uco, a fazer predominar. «Sensibilidade, já Littré ~ confusões: uma emoçãO' é, sem dúvida, uma coisa diferente de uma
começava p0'r dizer: propriedade reservada a certas partes do sistema simples reacçâO' automática do organisma às sO'licitaçõesdO'mundo
nervoso, pela qual os homens e os animais captam as impressões, quer exteriO'r. Enquanto revelaçãO' e resposta, não está provadO' que as
produzidas pelos objectos exteriores, quer produzidas interiormente.» reacções que a acompanham e que a caracterizam sejam sempre de
Nós diremos, sem embarcarm0's num esforço de definição pessoal natureza a acelerar, a tornar mais precisos, mais diversos e mais vivos,
totalmente ilusório e sem nos referirmos, por outro lado, à velha psi- os gestO'sdo homem sujeitO' àemação. Pelo contrário.
cologia caduca das faculdades da alma (eram três, como todos sabem: ne facto, o Dr. 'WallO'ntem razão ao dizer que as emoções cons-
( inteligência, sensibilidade e vontade) - diremos que sensibilidade tituem uma fórmula nova de actividade que nãa é de confundir com
i ev0'ca para nós e evocará, nO decorrer do presente estudo, a.~i{jJJ.,,ªj.i!f;.- os simples automatismos de réplica. E, em primeiro lugar, elas dima~
)iy.!l: e as suas manifestações. \ . nam de outras fontes da vida 'Orgânica: mas isso é pO'ucoimpO'rtante
. Após o que espero a objecção: «Sendo assim, onde vai buscar o para nós, historiadores, que não estamos habilitados para prospectar
seu tema: a sensibilidade e a história? Escolhamos um exemplo: na essas fontes. \0 que é muita mais importante é que a,sellloções, con-
base da vida afectiva e, portanto, da sensibilidade, tal como é definida trariamente ao que se pensa quando são confundidas oom simples
por si, existem as (}moções. Ora, o que é que há de mais rigorosa- -automatismos de reacção ao mundO''exterior, têm um carácter par-
mente individual, de mais estritamente pessoal que uma emoção? - --Tícularde que o homem que se ocupa da vida social dos seus congé-
Examinemos a objecção. Mas, antes de tudo, devo prevenir os meus neres nãO' pade, desta vez, abstrair. As . emoções sãO' contagiosas.
leitores: em tudo quanto vai seguir-se, referir-me-ei aa excelente tomo - [Implicam relações de homem pãra homem, relações colectivas.
VIII da Enciclopédia francesa, A vida mental, onde, pela primeira vez, Nascem, sem dúvida, num fundo orgânica específicõ-êfe-üm determi-
os cientistas que estão na vanguarda da investigação' psicológica na nado indivíduO',muitas vezes par acasião de um acontecimenta que
nosso país nos deram, com uma rara e feliz audácia, um quadro de apenas toca este individuo ou que, pela menos, o toca com uma gra-
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vidade, uma violência muito particulares. Mas exprimem-se de deter- de actividades tónicas, que as emoções, quando se vê, ainda hoje,
(- minada maneira; se se quiser, a sua expresSão é o resultado de uma as perturbações das funções tónicas trazerem consigo, imediatamente,
I dada série de experiências de vida comum, de reacções semelhantes e perturbações de elocução? Só que depressa surgiu um antagonismo
simultâneas suscitadas pelo choque com situações idênticas e con- entre as emoções e as representações. Revelou-se uma incompatibi-
é
tactos da mesma natureza; o fruto, se se preferir ainda, de uma dada lidade. Porque, por um lado, depressa se verificou que, a partir do
fusão, de uma dada redução recíproca de sensibilidades diversas - que, mOmento em que se produzem, 'ls emoções alteram o funcionamento
rapidamente, adquiriram o poder de provocar em todos os presentes, da actividade intelectual. E, por outro lado, em breve se compreen-
J20r uma espécie de contágio mimético, o complexo afectivo-motor deu, igualmente, que o melhor meio de reprimir uma emoção era
que corresponde ao acontecimento que teve lugar inesperadamente representar-se, com precisão, os seus motivos ou o seu objecto - dar-
e qy:efoi sentido por um só. J -se a: si próprio o -:espectáculo dela - ou, simplesmente, entregar-se
i E assim, pouco a pouco, as emoções, associando vários partici- a um cálculo, a uma meditação quaisquer. Fazer da sua dor um poema
pantes;alterIlªdamente iniciadores e continuadores, chegaram a cons- ou um romance - foi, sem dúvida, para muitos artistas um modo de
\ tituir um sistema de incitações interindividuais.que se diversificou anestesia sentimenta1. 1
. segundo as situações e as circunstâncias, ao mesmo tempo diversifi- E pôde-se, assim; assistir nas civilizações em vias de evolução
cando as reacções ea sensibilidade de cada um. E isto tanto mais a esse longo drama - ao recalcamento, mais ou menos lento, da
quanto o acordo assim estabelecido, quanto a simultaneidade assim +'
actividade emocional pela. actividade intelectual; a princípio as únicas
regulada das reacções emotivas, mostrando-se de natureza a conferir
ao grupo uma maior segurança ou um maior poder, fez com que bem capazes de realizar, entre os indivíduos, a unidade de atitude e de
depressa a utilidade viesse a justificar a constituição de um verdadeiro consciência de que pôde nascer o comérciO'intelectual e a sua pri-
sistema de emoções. Tornaram-se comol que uma instituição. Foram meira utensilagem, elas entraram, com a continuação, em conflito
reguladas à maneira de um ritmt.l. Muitascerimónias entre os primi- com estes instrumentos novos de relaçãocuja criação só elas tinham
tivos são conjuntos de simulacros que têm por fim evidente suscitar tornado possível.)E quanto mais se desenvolveram as operações inte-
em todos, através das mesmas atitudes e dos mesmos gestos, a mesma Iectuais nos meios sociais em que todas as relações entre homens se
emoção - e uni-Ias todos numa espécie ,de individualidade superior, encontram cada vez mais reguladas por instituições ou técnicas-
prepará~los a todos para a mesma acção.: mais forte se tornou a tendência para considerar as emoções como
Detenhamo-nos aqui. Tudo isto não é, sem dúvida, de natureza uma perturbaçãO' da actividade, algo de perigoso, de importuno e de
a deixar indiferentes Ü'S historiadores? Certamente que se trata dessas desagradável: digamos, pelo menos, impúdico. O homem honesto não
sociedades que continuamos a chamar «primitivas», embora conti- tem (prosápias. Se tivesse prosápias de alguma coisa, deveria ser de
nuando a declarar absurda a palavra. Digamos, se o quisermos, que se conservarséIDIl're o sangue frio, de nunca trair a sua emoção. Ê ver-
trata de sociedades ainda balbuciantes. Mas, enfim, não nos façamos dade que as nossas sociedades não contam senão com homens honestos.
rogados. Essas sociedades balbuciantes cobrem mais tempo e espaço, Dir-se-á que um tal esquema - cujos elementos, repito, foram
na passado do homem, que as nossas sociedades eloquentes de hoje. colhidos do belo artigo de Remi 'Wallon, no tomo VIII da Enciclopédia
Essas sociedades balbuciantes deixaram em nós muito do seu balbu- francesa - não tem valor para o historiador? Tudo depende do que
ciar. Porque, se tudo se transforma, nada se perde. E, sobretudo, o se designa por história. Creio, apesar de tudo, que tem algum inte-
que acabamos resumidamente de dizer permite-nos atingir outra coisa, resse. E que nos permite, não só compreender um pouco melhor a
mais grave. O que acabamos de dizer permite-nos, simplesmente, assis- atitude dos homens de outrora, mas talvez definir um método de
tir à gênese da actividade intelectuaL! pesquisa, que é o nosso objectivo aqui.
_+' (A actividade intelectual pressupõe a vida social. Os seus instru- *
mentos indispensáveis (em primeiro plano a linguagem) implicam, * *
com efeito, a existência de um meio humano no qual necessariamente
se elaboraram, uma vez que o seu objectivo é operar a relacionação
de todos os participantes num mesmo meio. Ora, onde encontrar o Aqui está um livro, é-se tentado a dizê-Io, que não teve em
primeiro terreno conhecido das relações interindividuais de consciên- França todo o êxito que merecia: Outono da Idade Média (Herbst
cia 'entre os homens, senão no que acabamos de descrever e que se von Mittelalter), de Huizinga, que se tornou, prosaicamente, em
pode chamar a vida emocional? Não se está fundamentado para crer francês, Déchn du Moyen âge (Payot, 1932). Um bom livro, insisto.
que o órgão especializado da linguagem, a palavra articulada, surgiu Será que pa·ra a sua relativa falta de sucesso há, talvez causas pro-
e se desenvolveu a partir do, mesmo fundo de actividades orgânicas, fundas?

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Abro o primeiro capítulo, que se intitula: Q áspero sabor da vida. iniciado nO'dia da Sagração para s6 terminar n0' dia da trasladação
O autor mostra~nos, neste fim da Idade Média, o poder soberano das para Saint·Denis, pousavam os seus utensílios e corriam quanto
emoções, a sua violência explosiva, capaz de alterar, às vezes, os podiam a beijar, um o seu estribo, outro o pano do seu manto, outro,
planos mais racionais 'e melhor estudados. «Mal podemos fazer uma ao menos, o flanco do seu cavalÜ'? É a Justiça do Rei que passa com
ideia da extravagância e da emotividade medievais», escreve (p. 24). majestade, é 0' representante de Deus na terra e que, como o próprio
Denuncia, no sentimento de justiça tão forte nessa época, a simples Deus, tudo pode, está acima de toda a lei. Um gesto, a cabeça cai.
transposição, na maioria dos casos, de uma necessidade de vingança. Um gesto, 'Ü' homem é salvo. Nã0' há meias medidas. Não há gradação.
Mostra este sentimento ao atingir o seu máximo de tensão entre estes Não' há meio termo. O perdão ou a morte ...
dois pólos: a lei do talião, cara ao pagão, e o horror religioso do Mas por que razão o perdão, de preferência à morte? Será que,
pecado, dom do cristianismo: mas o pecado, para esses violentos e depois de um estugo atento dO's factos e dos méritO's, surgia uma
impulSIVOS era, a maior parte das vezes, uma outra maneira de deno- dúvida? .. Nunca. A nossa justiça é que pesa e sopesa, que hesita,
minar as acções dos seus inimigos. Co,loca, frente a nós, homens do tenteia e doseia. A justiça do séculO'XVI? Tudo ou Nada. E quando
século XX e já (e sobretudo, talvez?) do século XIX - frente a nós, a justiça disse Tudo, ou entãO'Nada, o Rei intervém. Para graduar?
que procuramos dosear as penas com lucidez e precaução, administrá- Para dO'sear? Não, O Rei dá, livremente, não a sua justiça, mas a
-Ias com lentidão e moderação, a conta-gotas, se ousO'dizer - coloca sua piedade. Ela pode cair sobre um indigno. Também a Caridade,
perante nós os homens do fim da Idade Média, que apenas conhe- essa grande virtude do mundo cristão. Pouco importa. O povo, tal
ceram uma alternativa categórica e brutal: a morte ou o perdão. como 0' Rei, não põe a si próprio a questão. Fica tão oontente se o
E o perdão muitas vezes incümpreensível- bruscO', repentinO', total, dom dO'perdão cair sobre o criminoso como se cair sobre um mise-
imerecido, se um perdãO' pudesse alguma vez ser imerecido ... A vida, rável. Do mesmO'modO'que fioa tão contente quandO' pratica a cari-
dade com um patife, como com um homem de bem. O que conta,
r conclui Huizinga, «era tão violenta e tão contrastante que espalhava não são as circunstâncias atenuantes e o grau de contabilidáde. O que
O'odor mistO'dO'sangue e das rosas ... »
Pois bem, tudO' isso está dito de uma maneira precisa e até ~onta, é a P!edade com0' tal. O dom que é purO' dO'm. o. perdão que
bela - mas deixa, todavia, um certO' mal-estar no espíritO'. Será um e purO' perdao ...
bom trabalho? Isto é: a questão, como está posta, poderá ser resol- *
vida? Poder-se-á, na verdade, falar, a este propósito, de um período * *
particular e distinto da história afectiva da humanidade? Estas revo-
luções bruscas, estas bruscas reviravoltas do ódio para a demência,
da crueldade mais furiosa para a piedade mais patética - serão o Rec0'rdemos uma narrativa dessa ép0'oa, a culpado de joelhos,
sinal do fim da Idade Média, do declínio da Idade Média, dO'Outono os olhÜ'svendados, a cabeça sobre o cepo... O homem de vermelho
medieval- por oposição, penso, ao iníciO'da Idade Média, à Prima- brande já a sua temível espada nua. E, bruscamente, gritos, um
vera medieval ou então, pelo contrário, ao início dos tempos modernos? cavaleiro invade a. praça a grande velocidade, agitand0' um perga-
Duvido um .pouco no que se refere ao início da Idade Média. minho: perdão, perdão! lÉ a palavra exacta. Porque o Rei cO'ncede
Uma leitura de Gregório de Tüurs esclareceria rapidamente o debate ... a seu perdão; não temem conta um mérito. Como o Deus de João
E, no que se refere ao início dos tempos modernos, também duvido. Calvino. Como o homem caracterizado pela transformação brusca,
Afinal porquê? Há já alguns anos, num ciclo de conferências. em pela súbita reviravolta - 0' h0'mem branco-negro, que Huizinga nos
Genebra, Lausana, Neuchâtel, sobre as origens da Reforma francesa, afirma ser por excelência o homem do fim da Idade Média e que
que propunha este tema de reflexão aos meus auditores: quando João corre seriamente o riscO' de ser o homem eterno ... Porque o certo
Calvino insiste veementemente, na sua teologia, no carácter de dom, é que Huizinga tudo teria, sem dúvida, esclarecido numa palavra
totalmente gratuito e incondicional, de que se reveste a concessão (e o seu livro teria ganho grandemente com issO'em clareza) se tivesse
da graça aos eleitos; quando assim dá testemunho da repugnância posto em primeiro lugar o factO' de que há ambivalênda em todO'o
invencível, muitas vezes proclamada, e expressamente, pelacontabi- sentimento humano. Digamos, claramente, que t0'do o sentimento
lidade dupla das boas obras e dos pecados, assente nos arquivos da humano é, 8:0' mesmO' tempo, ele próprio e O' seu contrário. Que
Divindade por um exército de contabilistas irrcorruptíveis e seguida uma espécie de comunhão fundamental une, sempre, os pólos opüstos
de uma avaliaçãO'final- não estará ele de acordo, espontaneamente, dos nossos estados afectivos. Que HS circunstâncias, o jogo das n0'ssas
ele que, por outro lado, tantas vezes compara o seu Deus a um Rei, representações, determinadas atitudes pessoais podem explicar, num
com o' sentimento dos Franceses da sua épüca que, ao verem passar dado caso e ·em dado momento, que um desses pólos predomine de
o Rei nos seus campos, no decurso do seu perpétuo giro pelO'reino, uma maneira geral sobre o outro: 0' ódio sobre o amor; a necessidade

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de piedade sobre o instinto de crueldade, etc. Mas estes estados con- adquiridas ou herdadas que serve de guia aos nossos cüntemporâneos
trastantes permanecem solidários e um não pode manifestar-se sem nas suas relações quotidianas com os seus semelhantes?
que o outro desperte, mais ou menos, do seu estado latente. Daí as Recheada de algumas citações bem escolhidas, de algumas máxi-
oscilações, as mudanças bruscas que perturbam a lógica, as transfor- mas de efeito, revestida de belo estilo académico, foi ela que causou
mações repentinas, etc.Como a vida afectiva dos homens tomada admiração nas inumeráveis obras-primas da história romanceada que
particularmente, a vida dos grupos humanos, ao longO'de uma dada invadiram, durante dez anos, as montras das nossas livrarias - mas
época, não pode ser reproduzida por uma simples justaposição de parece que o seu horrível mau cheiro acabou por pôr em fuga os
tintas uniformes.jE uma resultante - quer de tendências üpostas que leitores. A psicologia; oiçamos Bouvard ou Pécuchet, robustecidos
naturalmente são induzidas, quer de apetites que a sua fixação sobre por uma experiência adquirida na convivência das modistas e dos
objectos pode orientar de modo diverso. negociantes do seu bairro e partindo daí para compor de tal modo
Então, se se começou por pôr as coisas deste modo, se se come- os sentimentos de Agnes SareI por Carlos VII ou de Luís XIV pela
çou pelo geral, pelo humano, para descer ao particular e ao circuns- Mont'espan, que os seus pais e amigos exclamam quandO' os lêem;
tancial- já nãO' se é tentado a adornar «a vida da Idade Média», «'É mesmo istob>Essa psicologia, é como o Childerico do abade Velly,
para retomar a expressãO'de Huizinga, com uma espécie «de seve- que divertia O'nossO'bom mestre Camille Jullian: Childerico, diz Velly
ridade» particular que lhe conferia algo de específico, de original na sua História de França (1755), «ChUderico foi um príncipe de
e de distintivo. A vida da Idade Média não tem nada que ver com isso. grandes aventuras. Era O'homem mais completo do seu reino. Tinha
espírito, coragem. Tendo nascido com um coraçãO'terno, entregava-se
Ou p:1elhor,o problema está deslocado. Está mal posto. demasiado ao amor: foi essa a razão da sua ruína ... }}.Ridículo.
IVerificadü este factO' universal, este facto «humano», a ambi-
valêncÍa dos sentimentos, haverá lugar para distinguir na história (Mas, em contrapartida, o domínio da história das ideias, O'domí-
das sociedades humanas, épocas em que as reviravoltas das correntes Q., nio da história das instituições, esse domínio de que se pretende excluir
se operariam com mais frequência, mais violência também? Haverá toda a imaginação intuitiva: que magnífico campo de pesquisas e de
lugar para pensar que em certas épücas, nesta mesma história, ten'- reconstituição e de interpretação para o historiador psicólogO'!O seu
campo de investigaçãO'por excelência,\ Porque, muito pelo contrário,
dências de uma determinada ordem prevalecem em frequência e\m o mecanismo das instituições de uma época; as ideias dessa épbca ou
violência sobre as tendências da ordem oposta: mais crueldade que :
de uma outra - eis o que o historiador não pode compreender. nem
piedade; mais ódio que amür? - De uma forma ainda mais gerat;~/ fazer compreender sem esta preocupação primordial a que eu chamo
haverá lugar para pensar que existem na história períodos em que
predominam a vida intelectual, que se sucedem a períodos de vida psicologia: a preücupaçãa de relacionar, de ligar a todo o conjunto
afectiva particularmente desenvolvida? E porquê, e como? - Eis as gas condições de existência da sua época, ü senticlo qlle os homens
verdadeiras questões a colücar. As que Huizinga não pás, correndo dessa época davam às suas ideias. Porque' essas condições tingem
o risco de confusãO'por não ter ido às origens, por não ter remontado as ideias, coma todas as coisas; com uma cor bem própria da época
até aos problemas da génese, o que podia parecer, a alguns dos nossos e da sociedade. Porque essas condições põem a sua marca sobre as
leitores, fastidioso e importuno; creio que agora eles a tornam clara ideias, dO'mesmo modo que sübre as instituições e o seu jogo. iE•..lJ.flIa
e a campreendem.
A verdade é que pretender reconstituir a vida afectiva de uma
dada época é uma tarefa ao mesmO' tempo extremamente atraente
1< .
r\ manifestações
e sob
.2.... a pressãohistóricas
his.ton·ado.r., ide.l.'as,
do génioque
de circunstâncias humano
1.'nstitUi.ç.ões,. nunca
..nunc..•
numa determinada
mais se
a SãO.dadoS.reproduzem.
dO
époéa
... Eter.no; ....
Mas nada de ilusões: a tarefa é rude, os instrumentos raros e de
SãO
e terrivelmente difícil. E então? O historiador não tem o direito de
desertar. difícil manejo. Quais são os principais?
Ele não tem esse direito - pürque, por não ter empreendido essa Em primeiro lugar, os JigglÚstas ou, mais exactamel1te, os filó-
lagos - que nos ôferecem os seus vocabuláriüs e os seus dicionados.
tarefa (ou por não a levar a bom termo), torna-se cúmplice de afir- '-De resto tão insuficientes, tão incompletos ainda e tão pouco exac-
mações como aquelas que eu lembrava ao começar. Pode-se, dizem- tos... Ora, o que se pode tirar de um estudo de vücabulário? Poucas
-nos ainda demasiados historiadores, pode-se «utilizar a psicologia}} coisas, se se tratar de sentimentos. Às vezes permite isolare atingir
para interpretar os factos fornecidos por documentos válidos sobre certas condições de existência fundamental dos homens que criaram
o carácter, a acção, a vida de um homem de primeiro plano, de um esse vocabulário. Para tomar um exemplo mais que clássico, permite
desses homens «que fazem a histórim}. A psicologia, que entender por marcar bem b aspecto camponês que as palavras de uma língua como
ela? Aquela espécie de sabedoria um tanto sentenciosa, à base de o latim conservaram, em que a rivalidade é assim chamada por causa
provérbios antigos, de recordações literárias murchas, de prudências
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li:
da disputa entre vizinhos que pretendiam o mesmo canal de irrigação, * *
rivus; em que a excelência do homem, egregius, é comparada ao
valor do animal que se tira para fora do rebanho, e grege, para o
cuidar à part,e; 'em que o fraco, imbeciNis, evoca a ideia da planta o empréstimo, esse enO'rmeprO'blema.Porque é evidente que não
sem estaca, bacillus; em que a noção de alegria, laetitia, permanece basta dizer: «Veja: nesta arte feita em França, uma parte vem da
profundamente ligada à de estrume, laetamen. Mas, uma vez que se Itália ou da Flandres», para impossibilitar um raciocínio ulterior
tratade um conjunto de sentimentos e dos seus cambiantes, é possível sobre a evolução sentimental da arte francesa, da arte praticada em
seguir-se, uma vez mais, evoluções individuais e fragmentárias. Ne- França, na época considerada. Se há empréstimo, é porque existe
nhum estudo de vocabulário permite reconstituir uma evolução de necessidade. Se os franceses se apoderam de temas sentimentais desen-
conjunto de todo um sistema de sentimentos numa dada sociedade, volvidos pelos vizinhos de Itália ou dos Países-Baixos, numa dada
numa determinada época. É preciso ,contentar-se com pesquisas mono- época - é porque esses temas sentimentais o'S tocam profundamente.
gráficas que desempenham, se se quiser, o papel de um corte geoló- E, ao apoderarem-se deles, fazem-nO'sseus. Do mesmo modo que ao
gico at:mvés de uma grande quantidade de terrenos cuja massa se irem buscar globalmente um vocabuláriO'a uma língua vizinha, fazem
não tem tempo de prospectar. E o esquema que dele se pode traçar seus os diversos elementO's.Vejam esses livros madços, curiosos, ao
poderá ser gerador de mil sugestões diversas. Apenas tem valor de mesma tempo pesados 'e·subtis, informados e tendenciosos, que Louis
amostra. Não poderia constituir um elemento estatístico para o estudo Reynaud outrora oonsagrou aa p~oblema das relações culturais entre
de um conjunto. a França e a Alemanha medievais. Pretendia mostrar aí que esta
Segundo recurso: aiconografia artística. Aquela para a qual, em última colhia em bloco, na França, todo o vocabulári'O da cortesia:
França, o labor hábil é 'sagaz de Émile Mâle atraiu tão fortemente as palavras e, com elas, uma vontade de criar (e antes de mais de
a atenção de há um bom meio século para cá. E, na verdade, o criar artificialmente) a série de estadas de espírito ou decoração
recurso é importante. correspondentes. A palavra estrangeira, coma a tema artístico estran-
geiro, se é adoptado, é porque responde a uma necessidade. Pelo
Sabe-se como, com a ajuda da iconografia, E. Mâle reconstituiu menos à necessidade de alguns que a adoptam ...
o que se pode chamar modos sucessivos e muitas vezesoontrastantes Com efeito, surge aqui uma segunda dificuldade. Do sentimenta
de sentimentalidade religiosa. Sabe-se como conseguiu opor à arte religioso das massas, cujos matizes sentimentais ele reconstitui, com
clássica divina, racional e cheia de sel'enidade do gótico do século XIII, a ajuda de documentos com sentido simbólicO',Mâle fala demasiado
a arte patéüca, humana, sentimental e por vezes sensual, a arte como de um todo. «Todo», se se quiser - mas há matizes, que rea-
expressiva e atormentada do flamejante do século XV. Sabe-se como parecem a partir do momento em que se examinam as coisas um
conseguiu datar com precisão o aparecimento, nas artes plásticas, de pouca mais de perto. Um exemplo. Se existe um tema patético cuja
uma 'Ououtra variante de expressão sentimental que, comparada com elaboraçãO' e evolução possam ser estreitamente seguidas através dos
outras, permite compor os capítulos encadeados de uma história documentos simbólicos do fim da Idade Média é, com certeza, o
artística do sentimento religioso em França, do século XII ao começo tema do sofrimenta de Maria, da Paixão da Mãe unindo-se à Paixão
do século XVII. - E é bem necessário ter o cuidado de não diminuir
de Cristo, com todo o seu cortejo de devoções do sangue e das chagas,
oelevadísSÍmo valor desta tentativa e dos trabalhos que suscitou, não ora expO'stasà vista dos fiéis para suscitar o duplo instinto de piedade
digo para a história da expressão artística, mas para a História sem e de crueldade que dorme no íntimo de cada um - ora transfigura-
mais. Mas também é necessário ser prudente. das, no plano místico, em representações como a da Fonte de Vida,
Primeiro, porque é preciso ter em conta o empréstimo. A imita- por exemplo. Tudo para chegar, finalmente; ao grupo de Maria aos
ção das artes vizinhas. É mesmo necessário tê-Ia em muito maior pés da Cruz: O'ra prostrada, semi-desmaiada, compassiva e trágica;
conta do que Émile Mâleo fez - se é certo, pO'r exemplo, que algo ora de pé, na atitude que o Stabat descr.eve:
falseou, desde a origem, a perspectiva do seu segundo volume, a1go
que ele não pôde recuperar depois, a não ser imperfeitamente: isto Stabat M ater dolorosa
é, a sua relativa indiferença pela arte italiana, o' seu desconhecimento Juxta crucem lachrymosa
da poderosa acção exercida pela arte italiana do século XIV sobre Dum pend ebat fili uso
a arte francesa, quando da génesedessa arte patética, realista e
humana cujo nascimento Mâle unicamente reporta às influências Ora, desde o início da século XVI, desde 1529, que no livro de
combinadas das Meditationes vitae Christi, do pseudo-Boaventura, um doutor católico, Jean de Hangest, em polémica contra os adver-
e do teatro dos Mistérios. sários do culto de Maria, se lê um protesto, contra os propósitos de
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alguns que, ao reagirem contra essas representações da Virgem dolo-
rosa, prütestam contra elas 'Com O'seguinte pretexto: non super Filii diflln~e uma determinada fonna de sentÍlnento entre as massas, cuja
passione doluit, aut lachrymata est ... .iiiijx)rtância, aliás, caberá avaliar com precisão. Porque o público
Humor? Mas este texto veio-me recentemente à memória ao ler, de um romance cortês da Idade Média não é exactamente .o mesmo,
na História literária da sentimentO' religiasa em França, de Henri nem em quantidade nem em natureza, que o do romanc~folhetim
Bremond, uma passagem consagrada às controvérsias apaixonadas do sé'Culü XIX üu de um filme popular do séculO' Xx. - Mas, uma
que esta crítica dO' Stabat levantava nO' século XVII. E, mais ainda, vez que neste momento se trata de sensibilidade e de cambiantes de
aO' ler, no belO' livro de MareeI Bataillon sübre Erasma e a Espanha, sensibilidade, como não ir direitO' aüs düisadmiráveis vülumes publi-
o .que escreve sobre o sucesso que o tema da Virgem prostrada e cados do Pré-ramantismo francês, de André Münglond, que pôs a
chorandO' aüs pés da cruzcünheceu na Espanha patética do fim do mesma requintada finura, a mesma delicadeza de pensamentO' e des-
século XV - e sobre üs não menores pvotestos que suscitou esta gostO' de um HenrLBrémond ao redigir os vülumes sucessivos da sua
introdução na piedade de uma espécie de elementO' de dor verista. História literária da sentimentO' religiaso, na composiçãO' dos capítulos
Conflito de dois métodos e de duas escolas; de duas concepções do de uma História da sentimentO' literária em França? Cümo não ir
patético na religiãO' interiür: é a eterna üpO'sição que o soneto de direito ao belO' tomo lI, em particular, totalmente consagradO' ao
Campanella acima de tudo 'traduz, aO' afastar-se da imagem do Cru- mestre das «almas sensíveis», a Rousseau, aos que o prepararam, aos
cificado para mergulhar na contemplação glüriosa do Ressuscitado: que o ajudaram, aos que o protegeram?
«Por que razão müstrá-Io, por toda a parte, pintadO' 'Ou não, nO' meio Tudo istO' é de um preço inestimável. Com a condição, natural-
de tormentos que pesam tão pO'uco comparados com a alegria que mente, insisto, de que se observem as mesmas precauções críticas no
se lhes seguiu?» manejo dos textos literários que no estudo e utilização dos documentos
«Ah! Vulgar insensato, vulgar de olhos sempre fixos na terra, da arte simbólica. Com a condição de que nãO' se fechem os olhos
vulgar indignO' de ver O' seu triunfo celeste: quandO' porás os teus quer à extensão quer à profundidade real dos raios de sentimento
olhos noutra coisa que nãO' seja O'dia do combate atroz? .. .» que a história da literatura nos mostra sucedendo-se uns aos outros
A isto responde eternamente a oração de Santa Teresa, esse com uma espécie de lógica implacável- quando, na realidade, e é
preciso tê-'lo em conta, não fazem senão escO'nder-se e descobrir-se,
magnífico grito de mulher apaixonada:
perpetuamente.
«Eu amo~te mais por causa da tua agonia e da tua morte do que
por causa da tua ressurreição'. Porque penso que, ressuscitado, tendo O século XVIII, época triunfal dO' reinado da sensibilidade?
slibido aos espaços azuis, tendo 'Ouniverso às tuas ordens, terás menos Tenho a certeza disso. Mas volto, finalmente, aos meus Sinônimos
necessidade da tua serva ... » franceses de Girard (edição de 1780). «A ternura é um ponto fraco.
A conclusão é que, todavia, é preciso saber dosear, pesar, avaliar. A sensibilidade uma fraqueza... A sensibilidade obriga-nos a velar
Não generalizar abusivamente e sem precaução. Não imaginar que, à nossa volta pelo nosso próprio interesse. A ternura leva-nos a agir
num dado momento, a fé é una. Quanto mais viva, diria eu, mais pelo interesse dos outros ... O coração sensível nãO' será mau: pürque
pessoal, mais díversificada também, e intransigente nas suas moda- não poderia ferir os outros sem se ferir a si mesmo. O caraçãO' terna
lidades. Nã'O tomemos uma determinada forma de adoração especifi- é bom, uma vez que a ternura é a sensibilidade em acção. Desejo
'camente' franciscana - a do Deus piedoso ou da Mãe prostrada; não que o cüração sensível não seja o inimigo da humanidade. Mas sinto
tomemos um dado método de evocação dO' Deus da Paixão e de que o coração temo é O' seu amigü.»
exaltação das chagas por um método universalmente aceite por todos E eis aqui, em poucas linhas (mas O' paralelo completo ocupa
os crentes místicos de uma épO'ca ávida de cristianismo interior. quatro páginas), um belO' requisitório de 1780 e que decerto pode
Correctivos que em nada diminuem o valO'r de uma obra como passar por uma tradução válida do sentimento francês (isto é, do
a de Émile Mâle, mas que nos ensinam uma prudência que ele, pes- sentimentO' dO's franceses mais cultos e mais distintos dessa época)-
soalmente, nem sempre teve. eis um belo requisitório de 1780 contra essa sensibilidade lacrimosa e
transbordante que sem dúvida encheu toda uma parte do século XVIII.
* * Só uma parte, é evidente, e não sem suscitar algumas reacções sem
*
violência. Bem mais clarividentes, aliás. e menos capazes de ilusão.
Que outvo recurso ainda? c1~l!t~ratura. E não apenas o registo *
feito por ela, o registü que lhe devemos das variantes de sensibilidade * *
que separam as épücas umas das outras e, mais precisamente, as gera- /
ções - mas o_próprio estudo, da maneira comO' ela cria e em seguida Recapitulemos. 'Do'Cllntentos marais:'elementos fomecidos quer
pelos arquivos judiciais quer pelo que se pOde chamar, utilizando uma
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palavra de sentido lato, a C'l;$J1ística.
- Documentos artísticO's: os que emoções para a periferia, para um papel secundário e desprezível.
a arte plástica fornece, máS, igu3J1mente,a arte musical, quando cor- Muito bem. E pode-se, a partir daí, se f0'rmos um desses racio-
rectamente interrogada. - DO'cumentos literáriO's,com as reservas que nalistas desmedidos à moda antiga que todos conhecemos (e.que talvez
acabo de indicar. Não, apesar de tudo não estamos desarmadas? E se ainda possamos conhecer se descermos, em determinadas horas, até
mantivermos sempre e acima de tudo ocontacto com as investigaçõ~s dentro de nós próprios) - pode-se, a partir daí, entoar um belo hin0'
dos psicólogos e os resultadas que fornecem; se tomarmos por regra triunfala'o Progresso. À Razão. À Lógica. Mas querem quevoltem0's
nunca embarcar nas investigações de psicologia aplicada à história a ler juntos ÜI texto que eu .há pouco utilizava?
ou da história que procura reconstituir aevo1uçã'O dos dados psicoló- «E assim, p0'uco a pouco, as emoções, associandO' vários parti-
gicos, sem primeiramente nos iniciarmos no último estada da questão cipantes, alternadamente iniciadares ecantinuadores, chegaram a
(porque, para que serve folhear esses livros antigos cujo título conser- c0'nstituir um sistema de incitações interindividuais que se diversificou
vamos na memória porque nos falaram deles, há vinte, trinta, qua- segunda as situações e as circunstâncias, diversificando, ao mesma
renta anos, quando ainda andávamos no liceu, e que muitas vezes já tempo, as reacções e as sensibilidades de ,cada um. E isto, tanta mais
estavam ultrapassados) - se nos apoiarmos com firmeza, inicialmente, quanto o acorda assim estabelecidO',quanto a simultaneidade assim
nos .últimas: resultados adquiridos pelo labor crítico e pasitivo dos regulada das reacções emO'tivas,se mostrava de natmeza a canferir
nossos vizinhos, os psicólog0's- então, p0'derem0's, creia, empreender aO'grupo uma maior segurança ou um maior poder - e:bem depressa
uma série de trabalhos que nos fazem falta: pois enquant0' n0's fize- a utilidade se encO'ntrou a justificar a canstituiçãO' de um verdadeira
rem falta, nãO' haverá história possível. Nã0'tem0's história do Am0'r, sistema de emoções. Tornaram-se coma que uma instituição. Foram
pensemos nisso. Nã0' temos história da M0'rte. Nã0' tem0's história reguladas à maneira de um ritual. Muitascerimóniasentre os primi-
da Alegria. Graças às Semaines de Synthese de Remi Berr, tivem0's tivÜ'ssão conjuntÜ's de simulacros que têm pÜ'rfim evidente suscitar
um ráJpid0'esboço de uma história do Medo. Que bastaria para mos- em todos, pelas mesmas atitudes e pelos mesmos gestos, a mesma
trar que imenso interesse essas histórias poderiam ter ... emoçã0'- e uni-Ias a todÜ'snuma espécie de individualidade superiar,
Quando digo: não temos história do Amor, nem da Alegria- prepará-l0's a tod0's para a mesma acção.»
é preciso compreender que eu não exija um estud0' sobre 0' Amor ou A ist0'- que se aplica perfeitamente a essas grandes festas das
a Alegria através de todos os tempos, todas as idades e todas as civi- sociedades indígenas, por exemplo, ao Pilou dos Canaques da Nova
li:cações.Indica uma direcção de pesquisa. E não a indico aos isalados. Caledónia, cuja descrição se pode ler nÜ' belíssimÜ'livro de Maurice
A simples fisiologistas. A simpLesm0'ralistas. A simples psicólogos, no Leenhardt, Povos da Grande Terra, um livro que honra, ao mesmo
sentido mundano e tradicional da palavra. Não. Eupel,(o que se abra tempo, a ciência francesa e a humanidade - a isto terem as neces-
um vasto inquéritocolectiyo ,sobre os sel1timentos TundalIlentais dos sidade de alterar uma única linha, para o aplicar a tantos espectáculos
,Jimnens. e suas modalidades. Quantas surpresas a prever! Falava eu trágicos que se desenr0'lam sob O'Snossos O'lhos, a tantos esforços
( da Morte. Abram,póis., 0'fómo IX da História literária do sentimento pacientes, obstinados, sábios e ao mesmo tempo instintivas, para que
religioso em França, de Remi Brémond - o seu estud0' sobre a Vida se apodere, de sunpresa, dO' que em cada um de nós existe de vida
cristã sob O' antigo regime (1932). Abram n0' capítulO' intitulado: emocional sempre pronta a invadir a vida intelectual e opere uma
A arte de morrer. Nem sequer trezentos anos; que abismo entre os reviravolta brusca dessa evolução de que estávamos tãO' 0'rgulhosos:
costumes, os sentiment0's dos homens dessa época - e 0'Snossos! da emoção para o pensamento, da linguagem emocional para a lin-
guagem articulada ...
* Sensibilidade na história, um tema para amad0'res distintO's...
* * Voltemos depressa, depressa, à verdadeira história, nãO' é? Às cir-
cumtâncias do casÜ' Pritchard. À questã0' dos Lugares Santos. Ou
E agora, para uma última vista de olhO's,evoquemos de novo esse à 'enumeração dos armazéns de sal em 1563. IssÜ'é história. Que é
esbÜ'çÜ'pelo qual começava - esse esbÜ'ça dO' papel da actividade conveniente ensinar aos nO'ssosfilhos nas aulas, e aos estudantes nas
emociÜ'nal na história da humanidade, comparadac0'm 0' papel da universidades. Mas a história do ódio, a história dÜ'medÜ',a história
actividade intelectual, que eu traçava com a ajuda dO'sdados forne- / da crueldade, a história do amor: p0'r favor, deixem-nos dessas litera-
cidos pelo tom0'· VIII da Enciclopédia Francesa. Recordemos essa
espécie de curva que nO'smostrava, em conjunt0', a sistema das acti- {\ turas
nidade,enfadonhas. - Essas acabarão
mas que, amanhã, literaturaspor
enfad0'nhas, estranhasumà O'ssáriO'
fazer dÜ'universo huma-
vidades emocionais ainda respeitado, mas cada vez mais recalcado \ mal-cheirosa ..
pela massa pululante, pel0'sistema invasÜ'r das actividades intelec- . Sim. Os que de iníciO'talvez se tenham perguntada: «Para que
tuais: conquistadoras,d0'rninadorase rejeitando cada vez mais as tende toda essa psicologia resumida?» -creio que agÜ'ra pO'derãO'

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conoluir: tende para a história. Tanto para a mais antiga, como para
a mais recente das histórias. Tanto Para a dos sentimentos primitivos
no local, in situ, como para a dos sentimentos primitivos ressuscitados.
Como para a nossa história de perpétuos ressurgimentos e ressurrei-
ções sentimentais. Culto do sangue, do sangue vermelho, no que
ele tem de mais animal e de mais primitivo. Culto das potências ele-
mentares que traduzem o cansaço dos animais forçados que somos-
dos animais esmagados, gastos, laminados pelo ruído furioso, pelo
dinamismo furioso de milhares de máquinas que nos obcecam. Res-
surreição compensadora de uma espécie de culto da Terra-Mãe sobre
cujo seio é tão bom estender, filialmente, à noite, os membros doridos.
Ressurreição não menos univel'sal de uma espécie de culto do Sol
que alimenta e cura: nudismo e campismo, deslizes desvairados no
ar e na água. Exaltação de sentimentos primários, com ruptura brusca
de orientação e de valência; exaltação da dureza à custa do amor,
da animalidade à custa da cultura - mas de uma dada animalidade,
sentida como superior à cultura; em verdade, eu concluo: valerá a
,sensibilidade na história um inquérito, um grande inquérito, poderoso
( e colectivo? E, quanto à psicologia, será um devaneio doentio se eu
pensar, se eu disser aqui que ela está na própria base de todo o tra-
balho válido de historiador?

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