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Mú sica

A música (do grego μουσική τέχνη - musiké téchne, a arte das musas)
constitui-se basicamente de uma sucessão de sons e silêncio organizada ao longo do
tempo. É considerada por diversos autores como uma prática cultural e humana.
Actualmente não se conhece nenhuma civilização ou agrupamento que não possua
manifestações musicais próprias. Embora nem sempre seja feita com esse objetivo, a
música pode ser considerada como uma forma de arte, considerada por muitos como
sua principal função.

A música expandiu-se ao longo dos anos, e atualmente se encontra em


diversas utilidades não só como arte, mas também como a militar, educacional ou
terapeutica (musicoterapia). Além disso, tem presença central em diversas atividades
coletivas, como os rituais religiosos, festas e funerais.

Há evidências de que a música é conhecida e praticada desde a pré-história.


Provavelmente a observação dos sons da natureza tenha despertado no homem,
através do sentido auditivo, a necessidade ou vontade de uma actividade que se
baseasse na organização de sons. Embora nenhum critério científico permita
estabelecer seu desenvolvimento de forma precisa, a história da música confunde-se,
com a própria história do desenvolvimento da inteligência e da cultura humanas.

Definiçã o
Definir a música não é tarefa fácil porque apesar de ser intuitivamente
conhecida por qualquer pessoa, é difícil encontrar um conceito que abarque todos os
significados dessa prática. Mais do que qualquer outra manifestação humana, a
música contém e manipula o som e o organiza no tempo. Talvez por essa razão ela
esteja sempre fugindo a qualquer definição, pois ao buscá-la, a música já se
modificou, já evoluiu. E esse jogo do tempo é simultaneamente físico e emocional.
Como "arte do efêmero", a música não pode ser completamente conhecida e por isso
é tão difícil enquadrá-la em um conceito simples.

Um dos poucos consensos é que ela consiste em uma combinação de sons e


de silêncios, numa sequência simultânea ou em sequências sucessivas e simultâneas
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que se desenvolvem ao longo do tempo. Neste sentido engloba toda combinação de


elementos sonoros destinados a serem percebidos pela audição. Isso inclui variações
nas características do som (altura, duração, intensidade e timbre) que podem ocorrer
sequencialmente (ritmo e melodia) ou simultaneamente (harmonia). Ritmo, melodia e
harmonia são entendidos aqui apenas em seu sentido de organização temporal, pois a
música pode conter propositalmente harmonias ruidosas (que contém ruídos ou sons
externos ao tradicional) e arritmias (ausência de ritmo formal ou desvios ritmicos).

E é nesse ponto que o consenso deixa de existir. As perguntas que decorrem


desta simples constatação, encontram diferentes respostas se encaradas do ponto de
vista do criador (compositor), do executante (músico), do historiador, do filósofo, do
antropólogo, do linguista ou do amador. E as perguntas são muitas:

Toda combinação de sons e silêncios é música?

Música é arte? Ou de outra forma, a música é sempre arte?

A música existe antes de ser ouvida? O que faz com que a música seja música
é algum aspecto objetivo ou ela é uma construção da consciência e da percepção?

A música eleva os sentimentos mais profundos do ser humano. Não é


necessário gostarmos de todos os estilos, porém conhecê-los.

Mesmo os adeptos da música aleatória, responsáveis pela mais recente


desconstrução e reformulação da prática musical, reconhecem que a música se inspira
sempre em uma "matéria sonora", cujos dados perceptíveis podem ser reagrupados
para construir uma "materia musical", que obedece a um objetivo de representação
próprio do compositor, mediado pela técnica. Em qualquer forma de percepção, os
estímulos vindos dos órgãos dos sentidos precisam ser interpretados pela pessoa que
os recebe. Assim também ocorre com a percepção musical, que se dá principalmente
pelo sentido da audição. O ouvinte não pode alcançar a totalidade dos objetivos do
compositor. Por isso reinterpreta o "material musical" de acordo com seus próprios
critérios, que envolvem aquilo que ele conhece, sua cultura e seu estado emocional.

Da diversidade de interpretações e também das diferentes funções em que a


música pode ser utilizada se conclui que a música não pode ter uma só definição
precisa, que abarque todos os seus usos e gêneros. Todavia, é possível apresentar
algumas definições e conceitos que fundamentam uma "história da música" em
perpétua evolução, tanto no domínio do popular, do tradicional, do folclórico ou do
erudito.
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O campo das definições possíveis é na verdade muito grande. Há definições de


vários músicos (como Schönberg, Stravinsky, Varèse, Gould, Jean Guillou, Boulez,
Berio e Harnoncourt), bem como de musicólogos como Carl Dalhaus, Jean Molino,
Jean-Jacques Nattiez, Célestin Deliège, entre outros. Entretanto, quer sejam
formuladas por músicos, musicólogos ou outras pessoas, elas se dividem em duas
grandes classes: uma abordagem intrínseca, imanente e naturalista contra uma outra
que a considera antes de tudo uma arte dos sons e se concentra na sua utilização e
percepção.

A ABORDAGEM NATURALISTA
De acordo com a primeira abordagem, a música existe antes de ser ouvida; ela
pode mesmo ter uma existência autônoma na natureza e pela natureza. Os adeptos
desse conceito afirmam que, em si mesma, a música não constitui arte, mas criá-la e
expressá-la sim. Enquanto ouvir música possa ser um lazer e aprendê-la e entendê-la
sejam fruto da disciplina, a música em si é um fenômeno natural e universal. A teoria
da ressonância natural de Mersenne e Rameau vai neste sentido, pois ao afirmar a
natureza matemática das relações harmônicas e sua influência na percepção auditiva
da consonância e dissonância, ela estabelece a preponderância do natural sobre a
prática formal. Consideram ainda que, por ser um fenômeno natural e intuitivo, os
seres humanos podem executar e ouvir a música virtualmente em suas mentes sem
mesmo aprendê-la ou compreendê-la. Compor, improvisar e executar são formas de
arte que utilizam o fenômeno música.

Sob esse ponto de vista, não há a necessidade de comunicação ou mesmo da


percepção para que haja música. Ela decorre de interações físicas e prescinde do
humano.

A ABORDAGEM FUNCIONAL, ARTÍSTICA E


ESPIRITUAL

Para um outro grupo, a música não pode funcionar a não ser que seja
percebida. Não há, portanto, música se não houver uma obra musical que estabelece
um diálogo entre o compositor e o ouvinte. Este diálogo funciona por intermédio de um
gesto musical formante (dado pela notação) ou formalizado (por meio da
interpretação). Neste grupo há quem defina música como sendo "a arte de manifestar
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os afectos da alma, através do som" (Bona). Esta expressão informa as seguintes


características: 1) música é arte: manifestação estética, mas com especial intenção a
uma mensagem emocional; 2) música é manifestação, isto é, meio de comunicação,
uma das formas de linguagem a ser considerada, uma forma de transmitir e
recepcionar uma certa mensagem, entre indivíduos considerados, ou entre a emoção
e os sentidos do próprio indivíduo que entona uma música; 3) utiliza-se do som, é a
idéia de que o som, ainda que sem o silêncio pode produzir música, o silêncio
individualmente considerado não produz música.

Para os adeptos dessa abordagem, a música só existe como manifestação


humana. É atividade artística por excelência e possibilita ao compositor ou executante
compartilhar suas emoções e sentimentos. Sob essa óptica, a música não pode ser
um fenômeno natural, pois decorre de um desejo humano de modificar o mundo, de
torná-lo diferente do estado natural. Em cada ponta dessa cadeia, há o homem. A
música é sempre concebida e recebida por um ser humano. Neste caso, a definição
da música, como em todas as artes, passa também pela definição de uma certa forma
de comunicação entre os homens. Como não pode haver diálogo ou comunicação
sem troca de signos, para essa vertente a música é um fenômeno semiótico.

DEFINIÇÃ O NEGATIVA

Uma vez que é difícil obter um conceito sobre o que é a música, alguns tendem
a definí-la pelo que não é:

A música não é uma linguagem normal. A música não é capaz de significar da


mesma forma que as línguas comuns. Ela não é um discurso verbal, nem uma língua,
nem uma linguagem no sentido da linguística (ou seja uma dupla articulação
signo/significado), mas sim uma linguagem peculiar, cujos modos de articulação signo
musical/significado musical vêm sendo estudados pela Semiótica da Música.

A música não é ruído. O ruído pode ser um componente da música, assim


como também é um componente (essencial) do som. Embora a Arte dos ruídos
teorizasse a introdução dos sons da vida cotidiana na criação musical, o termo "ruído"
também pode ser compreendido como desordem. E a música é uma organização, uma
composição, uma construção ou recorte deliberado (se considerarmos os elementos
componentes do som musical). A oposição que normalmente se faz entre estas duas
palavras pode conduzir à confusão e para evitá-la é preciso se referir sempre à ideia
de organização. Quando Varèse e Schaeffer utilizam ruídos de tráfego na música
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concreta ou algumas bandas de Rock industrial, como o Einstürzende Neubauten,


utilizam sons de máquinas, devemos entender que o "ruído" selecionado, recortado da
realidade e reorganizado se torna música pela intenção do artista.

A música não é totalizante. Ela não tem o mesmo sentido para todos que a
ouvem. Cada indivíduo usa a sua própria emotividade, sua imaginação, suas
lembranças e suas raízes culturais para dar a ela um sentido que lhe pareça
apropriado. Podemos afirmar que certos aspectos da música têm efeitos semelhantes
em populações muito diferentes (por exemplo, a aceleração do ritmo pode ser
interpretada frequentemente como manifestação de alegria), mas todos os detalhes,
todas as sutilezas de uma obra ou de uma improvisação não são sempre interpretadas
ou sentidas de maneira semelhante por pessoas de classes sociais ou de culturas
diferentes.

A música não é sua representação gráfica. Uma partitura é um meio eficiente


de representar a maneira esperada da execução de uma composição, mas ela só se
torna música quando executada, ouvida ou percebida. A partitura pode ter méritos
gráficos ou estéticos independentes da execução, mas não é, por si só, música.

DEFINIÇÃ O SOCIAL

Por trás da multiplicidade de definições, se encontra um verdadeiro fato social,


que coloca em jogo tanto os critérios históricos, quanto os geográficos. A música
passa tanto pelos símbolos de sua escritura (notação musical), como pelos sentidos
que são atribuídos a seu valor afetivo ou emocional. É por isso que, no ocidente,
nunca parou de se estender o fosso entre as músicas do ouvido (próximas da terra e
do folclore e dotadas de uma certa espiritualidade) e as músicas do olho (marcadas
pela escritura, pelo discurso). Nossos valores ocidentais privilegiam a autenticidade
autoral e procuram inscrever a música dentro de uma história que a liga, através da
escrita, à memória de um passado idealizado. As músicas não ocidentais, como a
africana apelam mais ao imaginário, ao mito, à magia e fazem a ligação entre a
potencialidade espiritual e corporal. O ouvinte desta música, bem como o da música
folclórica ou popular ocidental participa diretamente da expressão do que ouve,
através da dança ou do canto grupal, enquanto que um ouvinte de um concerto na
tradição erudita assume uma atitude contemplativa que quase impede sua
participação corporal, como se só a sua mente estivesse presente ao concerto. O
desenvolvimento da notação musical e a constituição artificial do sistema de
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temperamentos consolidou na música, o dualismo corpo-mente típico do racionalismo


cartesiano. E de tal forma esse movimento se fortaleceu que mesmo a música popular
ocidental, ainda que menos dualista, se rendeu à sistematização, na qual se mantém
até hoje.

MÚ SICA - UM FENÔ MENO SOCIAL

As práticas musicais não podem ser dissociadas do contexto cultural. Cada


cultura possui seus próprios tipos de música totalmente diferentes em seus estilos,
abordagens e concepções do que é a música e do papel que ela deve exercer na
sociedade. Entre as diferenças estão: a maior propensão ao humano ou ao sagrado; a
música funcional em oposição à música como arte; a concepção teatral do Concerto
contra a participação festiva da música folclórica e muitas outras.

Falar da música de um ou outro grupo social, de uma região do globo ou de uma


época, faz referência a um tipo específico de música que pode agrupar elementos
totalmente diferentes (música tradicional, erudita, popular ou experimental). Esta
diversidade estabelece um compromisso entre o músico (compositor ou intérprete) e o
público que deve adaptar sua escuta a uma cultura que ele descobre ao mesmo tempo
que percebe a obra musical.

Desde o início do século XX, alguns musicólogos estabeleceram uma


"antropologia musical", que tende a provar que, mesmo se alguém tem um certo
prazer ao ouvir uma determinada obra, não pode vivê-la da mesma forma que os
membros das etnias aos quais elas se destinam. Nos círculos acadêmicos, o termo
original para estudos da música genérica foi "musicologia comparativa", que foi
renomeada em meados do século XX para "etnomusicologia", que apresentou-se,
ainda assim, como uma definição insatisfatória.

Para ilustrar esse problema cultural da representação das obras musicais pelo
ouvinte, o musicólogo Jean-Jacques Nattiez (Fondements d’une sémiologie de la
musique 1976) cita uma história relatada por Roman Jakobson em uma conferência de
G. Becking, linguista e musicólogo, pronunciada em 1932 no Círculo Línguístico de
Praga:

Um indígena africano toca uma melodia em sua flauta de


bambu. O músico europeu terá muito trabalho para imitar
fielmente a melodia exótica, mas quando ele consegue enfim —
determinar as alturas dos sons, ele esta certo de ter Nattiez
reproduzido fielmente a peça de música africana. Mas o
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indígena não está de acordo pois o europeu não prestou


atenção suficiente ao timbre dos sons. Então o indígena toca a
mesma ária em outra flauta. O europeu pensa que se trata de
uma outra melodia, porque as alturas dos sons mudaram
completamente em razão da construção do outro instrumento,
mas o indigena jura que é a mesma ária. A diferença provém
de que o mais importante para o indígena é o timbre, enquanto
que para o europeu é a altura do som. O importante em música
não é o dado natural, não são os sons tais como são
realizados, mas como são intencionados. O indígena e o
europeu ouvem o mesmo som, mas ele tem um valor
totalmente diferente para cada um, porque as concepções
derivam de dois sistemas musicais inteiramente diferentes; o
som em música funciona como elemento de um sistema. As
realizações podem ser múltiplas, o acústico pode determiná-las
exatamente, mas o essencial em música é que a peça possa
ser reconhecida como idêntica.

Teoria musical
Teoria musical é o nome que é dado a qualquer sistema destinado a analisar,
compreender e se comunicar a respeito da música. Assim como em qualquer área do
conhecimento, a teoria musical possui várias escolas, que podem possuir conceitos
divergentes. Sua própria divisão da teoria em áreas de estudo não é consenso, mas
de forma geral, qualquer escola possui ao menos:

análise musical, que estuda os elementos do som e estruturas musicais e


também as formas musicais.

estética musical, que inclui a divisão da música em gêneros e a Crítica musical.

Notação musical.

ANÁ LISE MUSICAL

Apesar de toda a discussão já apresentada, a música quando composta e executada


deliberadamente é considerada arte por qualquer das facções. E como arte, é criação,
representação e comunicação. Para obter essas finalidades, deve obedecer a um
método de composição, que pode variar desde o mais simples (a pura sorte na música
aleatória), até os mais complexos. Pode ser composta e escrita para permitir a
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execução idêntica em várias ocasiões, ou ser improvisada e ter uma existência


efêmera. A música dos pigmeus do Gabão, o Rock and roll, o Jazz, a música
sinfônica, cada composição ou execução obedece a uma estética própria, mas todas
cumprem os objetivos artísticos: criar o desconhecido a partir de elementos
conhecidos; manipular e transformar a natureza; moldar o futuro a partir do presente.

Qualquer que seja o método e o objetivo estético, o material sonoro a ser


usado pela música é tradicionalmente dividido de acordo com três elementos
organizacionais: melodia, harmonia e ritmo. No entanto, quando nos referimos aos
aspectos do som nos deparamos com uma lista mais abrangente de componentes:
altura, timbre, intensidade e duração. Eles se combinam para criar outros aspéctos
como: estrutura, textura e estilo, bem como a localização espacial (ou o movimento de
sons no espaço), o gesto e a dança.

Na base da música, dois elementos são fundamentais: O som e o tempo. Tudo


na música é função destes dois elementos. É comum na análise musical fazer uma
analogia entre os sons percebidos e uma figura tridimensional. A sinestesia nos
permite "ver" a música como uma construção com comprimento, altura e profundidade.

O ritmo é o elemento de organização, frequentemente associado à dimensão


horizontal e o que se relaciona mais diretamente com o tempo (duração) e a
intensidade, como se fosse o contorno básico da música ao longo do tempo. Ritmo,
neste sentido, são os sons e silêncios que se sucedem temporalmente, cada som com
uma duração e uma intensidade próprias, cada silêncio (a intensidade nula) com sua
duração. O silêncio é, portanto, componente da música, tanto quanto os sons. O ritmo
só é percebido como contraste entre som e silêncio ou entre diversas intensidades
sonoras. Pode ser periódico e obedecer a uma pulsação definida ou uma estrutura
métrica, mas também pode ser livre, não periódico e não estruturado (arritmia).
Também é possível que diversos ritmos se sobreponham na mesma composição
(polirritmia). Essas são opções de composição. Enfim é interessante lembrar que,
embora pequenas variações de intensidade de uma nota à seguinte sejam essenciais
ao ritmo, a variação de intensidade ao longo da música é antes de tudo um
componente expressivo, a dinâmica musical.

A segunda organização pode ser concebida visualmente como a dimensão


vertical. Daí o nome altura dado a essa característica do som. O mais agudo, de maior
freqüência, é dito mais alto. O mais grave é mais baixo. O elemento organizacional
associado às alturas é a melodia. A melodia é definida como a sucessão de alturas ao
longo do tempo, mas estas alturas estão inevitavelmente sobrepostas à duração e
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intensidade que caracterizam o ritmo e portanto essas duas estruturas são


indissociáveis. Outra metáfora visual que freqüentemente é utilizada é a da cor. Cada
altura representaria uma cor diferente sobre o desenho rítmico. Não é à toa que muitos
termos utilizados na descrição das alturas, escalas ou melodias também são usados
para as cores: tom, tonalidade, cromatismo. Também não deve ser fruto do acaso o
fato de que tanto as cores como os sons são caracterizados por fenômenos físicos
semelhantes: as alturas são variações de freqüências em ondas sonoras (mecânicas).
As cores são variações de freqüência em ondas luminosas (eletromagnéticas). Assim
como o ritmo, a melodia pode seguir estruturas definidas como escalas e tonalidades
(música tonal), que determinam a forma como a melodia estabelece tensão e repouso
em torno de um centro tonal. O compositor também pode optar por criar melodias em
que a tensão e o repouso não decorrem de relações hierárquicas entre as notas
(música atonal).

A terceira dimensão é a harmonia ou polifonia. Visualmente pode ser


considerada como a profundidade. Temporalmente é a execução simultânea de várias
melodias que se sobrepôem e se misturam para compor um som muito mais
complexo, como se cada melodia fosse uma camada e a harmonia fosse a
sobreposição de todas essas camadas. A harmonia possui diversas possibilidades:
uma melodia principal com um acompanhamento que se limite a realçar sua
progressão harmônica; duas ou mais melodias independentes que se entrelaçam e se
completam harmonicamente; sons aleatórios que, nos momentos que se encontram
formam acordes; e outras tantas em que sons se encontram ao mesmo tempo. O
termo harmonia não é absoluto. Manipula o conjunto das melodias simultâneas de
modo a expressar a vontade do compositor. As dissonâncias também fazem parte da
harmonia tanto quanto as consonâncias. Adicionalmente, pode-se criar harmonias que
obedeçam a duas ou mais tonalidades simultaneamente (politonalismo - usado com
freqüência em composições de Villa-Lobos).

Cada som tocado em uma música tem também seu timbre característico.
Definido da forma mais simples o timbre é a identidade sonora de uma voz ou
instrumento musical. É o timbre que nos permite identificar se é um piano ou uma
flauta que está tocando, ou distinguir a voz de dois cantores. Acontece que o timbre,
por si só, é também um conjunto de elementos seqüenciais e simultâneos. Uma série
infinita de freqüências sobrepostas que geram uma forma de onda composta pela
freqüência fundamental e seu espectro sonoro, formado por sobretons ou harmônicos.
E o timbre também evolui temporalmente em intensidade obedecendo a uma figura
chamada envelope. É como se o timbre reproduzisse em escala temporal muito
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reduzida o que as notas produzem em maior escala e cada nota possuísse em seu
próprio tecido uma melodia, um ritmo e uma harmonia próprias.

Segundo o tipo de música, algumas dessas dimensões podem predominar. Por


exemplo, o ritmo bem marcado e fortemente periódico tem a primazia na música
tradicional dos povos africanos. Na maior parte das culturas orientais, bem como na
música tradicional e popular do ocidente, é a melodia que representa o valor mais
destacado. A harmonia, por sua vez, é o ideal mais elevado da música erudita
ocidental.

Estes elementos nem sempre são claramente reconhecíveis. Onde estará o


ritmo ou a melodia no som de uma serra elétrica incluída em uma canção de rock
industrial ou em uma composição eletroacústica? Mas se considerarmos apenas o
jogo dos sons e do tempo, a organização do seqüencial e do simultâneo e a seleção
dos timbres, a música nestas composições será tão reconhecível quanto a de uma
cantata barroca.

GÊ NEROS MUSICAIS
Assim como existem várias definições para música, existem muitas divisões a
agrupamentos da música em gêneros, estilos e formas. Dividir a música em gêneros é
uma tentativa de classificar cada composição de acordo com critérios objetivos que
não são sempre fáceis de definir.

Uma das divisões mais freqüentes separa a música em grandes grupos:

Música erudita - a música tradicionalmente dita como "culta" e no geral, mais


elaborada. É erroneamente conhecida como "música clássica", pois a música clássica
real é a música produzida levando em conta os padrões do período musical conhecido
como Classicismo. Seus adeptos consideram que é feita para durar muito tempo e
resistir a modas e tendências. Em geral exige uma atitude contemplativa e uma
audição concentrada. Alguns consideram que seja uma forma de música superior a
todas as outras e que seja a real arte musical. Porém, deve também ser lembrado que
mesmo os compositores eruditos várias vezes utilizaram melodias folclóricas para que
em cima dela fossem feitas variações, e a música erudita também pode ser sacra.
Alguns compositores chegaram até a apenas colocar melodias folclóricas como o
segundo sujeito de suas músicas (como Villa-Lobos fez extensamente). Os gêneros
eruditos são divididos sobretudo de acordo com o períodos em que foram compostas
ou pelas características predominantes.
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Música popular - associada a movimentos culturais populares. Conseguiu se


consolidar apenas após a urbanização e industrialização da sociedade e se tornou o
tipo musical icônico do século XX. Se apresenta atualmente como a música do dia-a-
dia, tocada em shows e festas, usada para dança e socialização. Segue tendências e
modismos e muitas vezes é associada a valores puramente comerciais, porém, ao
longo do tempo, incorporou diversas tendências vanguardistas e inclui estilos de
grande sofisticação. É um tipo musical frequentemente associado a elementos extra-
musicais, como textos (letra de canção), padrões de comportamento e ideologias. É
subdividida em incontáveis gêneros distintos, de acordo com a instrumentação,
características musicais predominantes e o comportamento do grupo que a pratica ou
ouve.

Música folclórica ou tradicional - associada a fortes elementos culturais de cada


grupo social. Tem caráter predominantemente rural ou pré-urbano. Normalmente são
associadas a festas folclóricas ou rituais específicos. Pode ser funcional (como
canções de plantio e colheita ou a música das rendeiras e lavadeiras). Normalmente é
transmitida por imitação e costuma durar décadas ou séculos. Incluem-se neste
gênero as cantigas de roda e de ninar.

música religiosa, utilizada em liturgias, tais como missas e funerais. Também


pode ser usada para adoração e oração ou em diversas festividades religiosas como o
natal e a páscoa, entre outras. Cada religião possui formas específicas de música
religiosa, tais como a música sacra católica, o gospel das igrejas evangélicas, a
música judaica, os tambores do candomblé ou outros cultos africanos, o canto do
muezim, no Islamismo entre outras.

As apresentações musicais são cada vez mais realizadas pelo mundo, seja em
datas festivas, ou em compromissos de artistas. A música sempre foi uma atração,
desde a antiguidade.

Cada uma dessas divisões possui centenas de subdivisões. Gêneros,


subgêneros e estilos são usados numa tentativa de classificar cada música. Em geral
é possível estabelecer com um certo grau de acerto o gênero de cada peça musical,
mas como a música não é um fenômeno estanque, cada músico é constantemente
influenciado por outros gêneros. Isso faz com que subgêneros e fusões sejam criados
a cada dia. Por isso devemos considerar a classificação musical como um método útil
para o estudo e comercialização, mas sempre insuficiente para conter cada forma
específica de produção. A divisão em gêneros também é contestada assim como as
definições de música porque cada composição ou execução pode se enquadrar em
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mais de um gênero ou estilo e muitos consideram que esta é uma forma artificial de
classificação que não respeita a diversidade da música. Ainda assim, a classificação
em gêneros procura agrupar a música de acordo com características em comum.
Quando estas características se misturam, subgêneros ou estilos de fusão são
utilizados em um processo interminável.

Os estilos musicais ao entrar em contato entre si produzem novos estilos e as


culturas se misturam para produzir gêneros transnacionais. O bluegrass dos Estados
Unidos da América, por exemplo tem elementos vocais e instrumentais das tradições
anglo-irlandesas, escocesas, alemãs e afro-americanas que só podem ser fruto da
produção do século XX.

Outra forma de encarar os gêneros é considerá-los como parte de um conjunto


mais abrangente de manifestações culturais. Os gêneros são comumente
determinados pela tradição e por suas apresentações e não só pela música de fato. O
Rock and roll, por exemplo, possui dezenas de subgêneros, cada um com
características musicais diferentes mas também pelas roupas, cabelos, ornamentação
corporal e danças, além de variações de comportamento do público e dos
executantes. Assim, uma canção de Elvis Presley, um heavy metal ou uma canção
punk, embora sejam todas consideradas formas de rock, representam diversas
culturas musicais diferentes.

Também a música erudita, folclórica ou religiosa possuem comportamentos e


rituais associados. Ainda que o mais comum seja compreender a música erudita como
a acústica e intencionada para ser tocada por indivíduos, muitos trabalhos que usam
samples, gravações e ainda sons mecânicos, não obstante, são descritas como
eruditas, uma vez que atendam aos princípios estéticos do erudito. Por outro lado,
uma trecho de uma obra erudita como os "Quadros de uma Exposição" de Mussorgsky
tocado por Emerson, Lake and Palmer se torna Rock progressivo não só por que
houve uma mudança de instrumentação, mas também porque há uma outra atitude
dos executantes e da platéia.

EDUCAÇÃ O MUSICAL
Educação musical é o conjunto de práticas destinadas a transmitir a teoria e a
prática da música de uma geração a outra. Inclui:
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Musicalização - métodos destinados a iniciar o estudante na prática vocal ou


instrumental antes mesmo do ensino da teoria musical. Há muitos métodos de
musicalização e os mais conhecidos são o Método Orff, Dalcroze e Kodály.

Prática instrumental - ensino e treinamento de técnicas específicas de cada


instrumento

Prática vocal - ensino e treinamento de técnicas vocais. Inclui o canto coral e o


canto orfeônico.

Teoria musical - ensino da teoria musical, escalas, rítmica, harmonia e


notação musical.

História da música.

Percepção auditiva - treinamento da percepção melódica (alturas e intervalos)


e rítmica.

Composição e regência - Curso superior destinado à formação de


compositores e regentes.

A educação musical acontece na escola junto às demais disciplinas, normalmente


como parte da educação artística, no Conservatório de música, escola especializada
no ensino de música e artes cênicas e na Universidade.

PRÍNCIPAIS GÊ NEROS MUSICAIS

As composições musicais são classificados em três grandes grupos:

Música Instrumental (solos de instrumento ou duos, trios, quartetos, etc., é


chamada também de música de câmara).

Vocal (cantada)

Mista (Instrumental e Vocal)


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HISTÓ RIA DA MÚ SICA

História da Música é o estudo das origens e evolução da Música ao longo do tempo.


Como disciplina histórica insere-se na história da arte e no estudo da evolução cultural
dos povos. Como disciplina musical, normalmente é uma divisão da musicologia e da
teoria musical. Seu estudo, como qualquer área da história, é trabalho dos
historiadores, porém também é freqüentemente realizado pelos musicólogos.

Em 1957 Marius Schneider escreveu: “Até poucas décadas atrás o termo


‘história da música’ significava meramente a história da música erudita européia. Foi
apenas gradualmente que o escopo da música foi estendido para incluir a fundação
indispensável da música não européia e finalmente da música pré-histórica."

Há, portanto, tantas histórias da música quanto há culturas no mundo e todas


as suas vertentes têm desdobramentos e subdivisões. Podemos assim falar da história
da música do ocidente, mas também podemos desdobrá-la na história da música
erudita do ocidente, história da música popular do ocidente, história da música do
Brasil, história do samba, e assim sucessivamente.

O OBJETO DO ESTUDO DA HISTÓ RIA DA


MÚ SICA

Se considerarmos o termo em sua maior abrangência, a história da música


envolve ao menos:

As origens culturais da música em cada grupo humano estudado.

As influências culturais e sociais que a música exerce e sofre ao longo de seu


desenvolvimento.

A origem e evolução de seus sistemas musicais característicos (que envolvem


suas estruturas rítmicas, melódicas e harmônicas).

O desenvolvimento das formas musicais e dos gêneros (ou estilos).


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A história dos instrumentos musicais e técnicas associadas à sua execução.

A influência mútua entre a música e os demais movimentos culturais.

A origem e evolução dos sistemas teóricos utilizados para estudá-la, incluindo


sistemas de notação e análise musical.

As principais personalidades envolvidas na sua evolução. Os compositores e


músicos que marcaram cada período ou gênero específico ou que impulsionaram o
desenvolvimento de novas formas, estilos e gêneros.

A cronologia de todos estes temas.

Os métodos usados no estudo da história da música podem incluir a análise de


manuscritos e iconografia, o estudo de textos críticos ou literários, a associação entre
música e linguagem e a relação entre a música e a sociedade. A análise de artefatos
arqueológicos e a documentação etnográfica também são instrumentos úteis a este
campo do conhecimento.

A HISTÓ RIA DA MÚ SICA E A ETNOLOGIA

instrumentos culturais de acordo com os círculos culturais estudados por


Gräbner, Schmidt, Ankermann e Preuss, Uma das razões do conceito difundido de que
história da música refere-se apenas à música ocidental é a grande quantidade de
obras existentes que tratam apenas desta vertente e predominaram por muitos
séculos. Apenas após o surgimento da etnomusicologia (uma área da etnologia), foi
que as origens da música não européia passaram a ser mais bem documentadas.

Nos estudos da música primitiva que tentam relacionar a música às culturas


que as envolvem, há duas abordagens prevalecentes: a Kulturkreis da "Escola de
Berlim" e a tradição norte americana da área cultural. Entre os adeptos da Kulturkreis
está Curt Sachs, que analisou a distribuição de entre outros, e descobriu que as
distribuições coincidiam e estavam correlacionadas. De acordo com esta teoria, todas
as culturas passam pelos mesmos estágios e as diferenças culturais indicam a idade e
velocidade de desenvolvimento de uma dada cultura.

A teoria da área cultural, por outro lado, analisa a música de acordo com as
regiões nas quais as pessoas compartilham a mesma cultura, sem atribuir a essas
áreas um significado ou valor histórico (por exemplo, todos os Inuit tradicionais
possuíam um caiaque, um traço comum que define a área cultural Inuit). Em cada uma
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das teorias, as regiões definidas necessariamente se interceptam, com pessoas que


compartilham partes de mais de uma cultura, permitindo a definição dos centros
culturais pela análise de seus limites. (Nettl 1956, p.93-94)

A etnologia analisa e documenta as manifestações culturais transmitidas


oralmente e as correlacionam às suas regiões para determinar a história de cada
cultura. Isso inclui todas as manifestações artísticas, inclusive a música.

A MÚ SICA NA PRÉ HISTÓ RIA

Somente através do estudo de sítios arqueológicos podemos ter uma idéia do


desenvolvimento da música nos primeiros grupos humanos. A arte rupestre
encontrada em cavernas dá uma vaga idéia desse desenvolvimento ao apresentar
figuras que parecem cantar, dançar ou tocar instrumentos. Fragmentos do que
parecem ser instrumentos musicais oferecem novas pistas para completar esse
cenário. No entanto, toda a cronologia do desenvolvimento musical não pode ser
definida com precisão. É impossível, por exemplo, precisar se a música vocal surgiu
antes ou depois das batidas com bastões ou percussões corporais. Mas podemos
especular, a partir dos desenvolvimentos cognitivos ou da habilidade de manipular
materiais, sobre algumas das possíveis evoluções na música.

Na sua "História Universal da música", Roland de Candé nos propõe a seguinte


seqüência aproximada de eventos:

Antropóides do terciário - Batidas com bastões, percussão corporal e objetos


entrechocados.

hominídeos do paleolítico inferior - Gritos e imitação de sons da natureza.

Paleolítico Médio - Desenvolvimento do controle da altura, intensidade e timbre


da voz à medida que as demais funções cognitivas se desenvolviam, culminando com
o surgimento do Homo sapiens por volta de 70.000 a 50.000 anos atrás.

Cerca de 40.000 anos atrás - Criação dos primeiros instrumentos musicais para
imitar os sons da natureza. Desenvolvimento da linguagem falada e do canto.
19

Entre 40.000 anos a aproximadamente 9.000 a.C - Criação de instrumentos


mais controláveis, feitos de pedra, madeira e ossos: xilofones, litofones, tambores de
tronco e flautas. Um dos primeiros testemunhos da arte musical foi encontrado na
gruta de Trois Frères, em Ariège, França. Ela mostra um tocador de flauta ou arco
musical. A pintura foi datada como tendo sido produzida em cerca de 10.000 a.C.

Neolítico (a partir de cerca de 9.000 a.C) - Criação de membranofones e


cordofones, após o desenvolvimento de ferramentas. Primeiros instrumentos afináveis.

Cerca de 5.000 a.C - Desenvolvimento da metalurgia. Criação de instrumentos


de cobre e bronze permitem a execução mais sofisticada. O estabelecimento de
aldeias e o desenvolvimento de técnicas agrícolas mais produtivas e de uma economia
baseada na divisão do trabalho permitem que uma parcela da população possa se
desligar da atividade de produzir alimentos. Isso leva ao surgimento das primeiras
civilizações musicais com sistemas próprios (escalas e harmonia).

A IDADE ANTIGA

As primeiras civilizações musicais se estabeleceram principalmente nas


regiões férteis ao longo das margens de rios na Ásia central, como as aldeias no vale
do Jordão, na Mesopotâmia, Índia (vale do Indo atualmente no paquistão), Egito (Nilo)
e China (Huang He). A iconografia dessas regiões é rica em representações de
instrumentos musicais e de práticas relacionadas à música. Os primeiros textos destes
grupos apresentam a música como atividade ligada à magia, à saúde, à metafísica e
até à política destas civilizações, tendo papel freqüente em rituais religiosos, festas e
guerras. As cosmogonias de várias destas civilizações possuem eventos musicais
relacionados à criação do mundo e suas mitologias freqüentemente apresentam
divindades ligadas à música.
20

TEMPOS POSTERIORES
Da idade antiga em diante, os estilos musicais expandem-se tanto, que torna-
se impossível definir a música universal apenas observando-se uma localidade (como
a Europa), sendo necessária, portanto, uma subdivisão no estudo da história da
música por continentes e nações:

CRONOGRAMA DA HISTÓ RIA DA MÚ SICA

Europa

Mú sica erudita européia


Música medieval ° Música renascentista ° Música barroca ° Era clássica (classicista) °
Era romântica ° Música moderna ° Música de vanguarda

Música por nação/etnia


Música greco-romana ° Música Celta ° Música da Rússia ° Música da Romênia °
Música da Bulgária ° Música da Sérvia ° Música da Croácia ° Música da Espanha °
Música da Suíça ° Música da Polônia ° Música da Dinamarca ° Música da Alemanha °
Música da França ° Música da Insânia ° Música da Finlândia

Ásia

Mú sica erudita asiá tica Mú sica por naçã o/etnia


Música da Índia ° Música Chinesa ° Música do Japão ° Música do Tibete

Africa
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Mú sica erudita Mú sica por naçã o/etnia

Oceania

 Música erudita Música por nação/etnia

Américas

 Música erudita Música erudita (Brasil) ° Música erudita (EUA) Música da


Colômbia ° Música da Argentina ° Música de Cabo Verde Rock(EUA) °
Samba(Brasil)

SÉ CULO XX

No século XX houve ganho de popularidade do rádio pelo mundo, e novas


medias e tecnologias foram desenvolvidas para gravar, capturar, reproduzir e distribuir
música. Com a gravação e distribuição, tornou-se possível aos artistas da música
ganhar rapidamente fama nacional e até internacional. As apresentações tornaram-se
cada vez mais visuais com a transmissão e gravação de vídeos musicais e concertos.
Música de todo gênero tornou-se cada vez mais portátil.

A música do século XX trouxe nova liberdade e maior experimentação com


novos gêneros musicais e formas que desafiaram os dogmas de períodos anteriores.
A invenção e disseminação dos instrumentos musicais eletrônicos e do sintetizador em
meados do século revolucionaram a música popular e aceleraram o desenvolvimento
de novas formas de música. Os sons de diferentes continentes começaram a se fundir
de alguma forma.

NOTAÇÃ O MUSICAL
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Notação musical é o nome genérico de qualquer sistema de escrita utilizado


para representar graficamente uma peça musical, permitindo a um intérprete que a
execute da maneira desejada pelo compositor ou arranjador. O sistema de notação
mais utilizado atualmente é o sistema gráfico ocidental que utiliza símbolos grafados
sobre uma pauta de 5 linhas, também chamada de pentagrama. Diversos outros
sistemas de notação existem e muitos deles também são usados na música moderna.

O elemento básico de qualquer sistema de notação musical é a nota, que


representa um único som e suas características básicas: duração e altura. Os
sistemas de notação também permitem representar diversas outras características,
tais como variações de intensidade, expressão ou técnicas de execução instrumental.

ORIGEM

Os sistemas de notação musical existem há milhares de anos. Foram


encontradas evidências arqueológicas de escrita musical praticada no Egito e
Mesopotâmia por volta do terceiro milênio a.C.. Outros povos também desenvolveram
sistemas de notação musical em épocas mais recentes. Os gregos utilizavam um
sistema que consistia de símbolos e letras que representavam as notas, sobre o texto
de uma canção. Um dos exemplos mais antigos deste tipo é o epitáfio de Seikilos,
encontrado em uma tumba na Turquia. Os Gregos tinham pelo menos quatro sistemas
derivados das letras do alfabeto;

O conhecimento deste tipo de notação foi perdido juntamente com grande parte
da cultura grega após a invasão romana.

O sistema moderno teve suas origens nas neumas(do latim: sinal ou curvado),
símbolos que representavam as notas musicais em peças vocais do canto gregoriano,
por volta do século VIII. Inicialmente, as neumas , pontos e traços que representavam
intervalos e regras de expressão, eram posicionadas sobre as sílabas do texto e
serviam como um lembrete da forma de execução para os que já conheciam a música.
No entanto este sistema não permitia que pessoas que nunca a tivessem ouvido
pudessem cantá-la, pois não era possível representar com precisão as alturas e
durações das notas.
23

Para resolver este problema as notas passaram a ser representadas com


distâncias variáveis em relação a uma linha horizontal. Isto permitia representar as
alturas. Este sistema evoluiu até uma pauta de quatro linhas, com a utilização de
claves que permitiam alterar a extensão das alturas representadas. Inicialmente o
sistema não continha símbolos de durações das notas pois elas eram facilmente
inferidas pelo texto a ser cantado. Por volta do século X, quatro figuras diferentes
foram introduzidas para representar durações relativas entre as notas.

Grande parte do que desenvolvimento da notação musical deriva do trabalho


do monge beneditino Guido d'Arezzo (aprox. 992 - aprox. 1050). Entre suas
contribuições estão o desenvolvimento da notação absoluta das alturas (onde cada
nota ocupa uma posição na pauta de acordo com a nota desejada). Além disso foi o
idealizador do solfejo, sistema de ensino musical que permite ao estudante cantar os
nomes das notas. Com essa finalidade criou os nomes pelos quais as notas são
conhecidas atualmente (Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si) em substituição ao sistema de
letras de A a G que eram usadas anteriormente. Os nomes foram retirados das sílabas
iniciais de um Hino a São João Batista, chamado Ut queant Laxis. Como Guido
d'Arezzo utilizou a italiano em seu tratado, seus termos se popularizaram e é essa a
principal razão para que a notação moderna utilize termos em italiano.

Nesta época o sistema tonal já estava desenvolvido e o sistema de notação


com pautas de cinco linhas tornou-se o padrão para toda a música ocidental,
mantendo-se assim até os dias de hoje. O sistema padrão pode ser utilizado para
representar música vocal ou instrumental, desde que seja utilizada a escala cromática
de 12 semitons ou qualquer de seus subconjuntos, como as escalas diatônicas e
pentatônicas. Com a utilização de alguns acidentes adicionais, notas em afinações
microtonais também podem ser utilizadas.

NOTAÇÃ O PADRÃ O

A notação musical padrão é escrita sobre uma pauta de cinco linhas. Por isso
também é chamada de pentagrama. O conjunto da pauta e dos demais símbolos
musicais, representando uma peça musical é chamado de partitura. Seguem-se
alguns dos elementos que podemos encontrar numa partitura.
24

REPRESENTAÇÃ O DAS DURAÇÕ ES

Tempo e compasso - regulam quantas unidades de tempo devem existir em


cada compasso. Os compassos são delimitados na partitura por linhas verticais e
determinam a estrutura rítmica da música. O compasso escolhido está diretamente
associado ao estilo da música. Uma valsa por exemplo tem o compasso 3/4 e um rock
tipicamente usa o compasso 4/4.

Em uma fórmula de compasso, o denominador indica em quantas partes uma


semibreve deve ser dividida para obtermos uma unidade de tempo (na notação atual a
semibreve é a maior duração possível e por isso todas as durações são tomadas em
referência a ela). O numerador define quantas unidades de tempo o compasso
contém. No exemplo abaixo estamos perante um tempo de "quatro por quatro", ou
seja, a unidade de tempo tem duração de 1/4 da semibreve e o compasso tem 4
unidades de tempo. Neste caso, uma semibreve iria ocupar todo o compasso.

Figuras musicais - Valores ou figuras musicais são símbolos que representam


o tempo de duração das notas musicais. São também chamados de valores positivos.

Os símbolos das figuras são usados para representar a duração do som a ser
executado. As notas são mostradas na figura abaixo, por ordem decrescente de
duração. Elas são: semibreve, mínima, semínima, colcheia, semicolcheia, fusa e
semifusa.

Antigamente existia ainda a breve, com o dobro da duração da semibreve, a


longa, com o dobro da duração da breve e a máxima, com o dobro da duração da
longa, mas essas notas não são mais usadas na notação atual. Cada nota tem metade
da duração da anterior. Se pretendermos representar uma nota de um tempo e meio
(por exemplo, o tempo de uma mínima acrescentado ao de uma colcheia) usa-se um
ponto a seguir à nota.

A duração real (medida em segundos) de uma nota depende da fórmula de


compasso e do andamento utilizado. Isso significa que a mesma nota pode ser
executada com duração diferente em peças diferentes ou mesmo dentro da mesma
música, caso haja uma mudança de andamento.

Pausas - representam o silêncio, isto é, o tempo em que o instrumento não


produz som nenhum, sendo chamados valores negativos. As pausas se subdividem
também como as notas em termos de duração. Cada pausa dura o mesmo tempo
relativo que sua nota correspondente, ou seja, a pausa mais longa corresponde
25

exatamente à duração de uma semibreve. A correspondência é feita na seguinte


ordem:

REPRESENTAÇÃ O DAS ALTURAS

Clave - clave de Sol, clave de Fá, clave de Dó. Propõe toda a representação musical a
uma que mais se adeque ao instrumento que a irá reproduzir. Por exemplo, as vozes
graves usam geralmente a clave de Fá, enquanto que as mais agudas usam a clave
de Sol. Costuma dizer-se que a clave de Fá começa onde acaba a clave de Sol. De
um modo geral, é a clave que define qual a nota que ocupará cada linha ou espaço na
pauta.

Alturas - a altura de cada nota é representada pela sua posição na pauta em


referência à nota definida pela clave utilizada, como mostrado abaixo:

Deslocações de tom ou acidentes: o sustenido, o bemol, o dobrado sustenido


e o dobrado bemol. São representados sempre antes do símbolo da nota cuja altura
será modificada e depois do nome das notas, cifras e tonalidades. Um sustenido
desloca a nota meio-tom acima (na escala), um dobrado sustenido desloca o som um
tom acima, um bemol desloca a nota meio-tom abaixo e o dobrado bemol desloca o
som um tom abaixo. Por exemplo, pode-se dizer que um "Fá sustenido" (Fá#) é a
mesma nota que um "Sol bemol" (Sol♭), porém, devido às características de cada
instrumento (e à sua própria disposição da escala), o timbre pode variar. Considere,
como exemplo, o caso da guitarra, em que um Dó tocado na segunda corda (Si),
primeira posição, é equivalente a um Dó tocado na terceira corda (Sol) na quinta
posição, embora o timbre seja diferente.
Uma vez que um sustenido ou bemol tenha sido aplicado a uma nota, todas as
notas de mesma altura manterão a alteração até o fim do compasso. No compasso
seguinte, todos os acidentes perdem o efeito e, se necessário, deverão ser aplicados
novamente. Se desejarmos anular o efeito de um acidente aplicado imediatamente
antes ou na chave de tonalidade, devemos usar um bequadro, que faz a nota retornar
à sua condição natural. No exemplo visto acima podemos notar que a terceira nota do
primeiro compasso também é sustenida, pois o acidente aplicado à nota anterior
permanece válido e só é anulado pelo bequadro que faz a quarta nota voltar a ser um
Lá natural. O segundo compasso é semelhante a não ser pelo acidente aplicado que é
um bemol. No terceiro compasso, uma nota Sol, um Lá dobrado bemol e um Fá
dobrado sustenido. Embora tenham nome diferente e ocupem posições diferentes na
clave, os acidentes aplicados fazem com que as três notas soem exatamente iguais.
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Chave ou tonalidade, que não é mais que a associação de sustenidos ou bemóis


representados junto à clave, indicando a escala em que a música será expressa. Por
exemplo, uma representação sem sustenidos ou bemóis, será a escala de Dó Maior.
Ao contrário dos acidentes aplicados ao longo da partitura, os sustenidos ou bemóis
aplicados na chave duram por toda a peça ou até que uma nova chave seja definida
(modulação). Na figura vemos a chave de tonalidade de uma escala de Lá maior.
Nesta escala todas as notas Fá, Dó e Sol devem ser sustenidas, por isso os acidentes
são aplicados junto à clave.

EXPRESSÃ O
Certos símbolos e textos indicam ao intérprete a forma de executar a partitura,
incluindo as variações de volume (dinâmica) e tempo (cinética), assim como a
maneira correta de articular as notas e separá-las em frases (articulação e
acentuação).

DINÂ MICA MUSICAL

A intensidade das notas pode variar ao longo de uma música. Isso é chamado
de dinâmica. A intensidade é indicada em forma de siglas que indicam expressões em
italiano sob a pauta.

pp - pianissimo. a intensidade é mais baixa que no piano

p - piano. o som é executado com intensidade baixa

mp - mezzo piano. a intensidade é moderada, não tão fraca quanto o piano.

mf - mezzo forte. a intensidade é moderadamente forte

f - forte. A intensidade é forte.

ff - fortissimo. A intensidade é muito forte.

Símbolos de variação de volume ou intensidade: crescendo e diminuindo, em


forma de sinais de maior (>) e menor (<) para sugerir o aumento ou diminuição de
volume, respectivamente. Estes devem começar onde se deverá iniciar a alteração e
esticar-se até à zona onde a alteração deverá ser interrompida. O volume deve
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permanecer no novo nível até que uma nova indicação seja dada. A variação também
pode ser brusca, bastando que uma nova indicação (p, ff, etc) seja dada.

A figura abaixo mostra um solo de trompa da Sinfonia número 5 de Tchaikovsky. Esta


partitura apresenta várias marcas de dinâmica.

CINÉ TICA MUSICAL

Cinética Musical (do grego kine = movimento) ou agógica define a velocidade


de execução de uma composição. Esta velocidade é chamada de andamento e indica
a duração da unidade de tempo. O andamento é indicado no início da música ou de
um movimento e é indicada por expressões de velocidade em italiano, como Allegro -
rápido ou addagio - lento. Junto ao andamento, pode ser indicada a expressão com
que a peça deve ser interpretada, como: com afeto, intensamente, melancólico, etc.

Os andamentos são os seguintes:

Grave - É o andamento mais lento de todos

Largo - Muito lento, mas não tanto quanto o Grave

Larghetto - Um pouco menos lento que o Largo

Adagio - Moderadamente lento

Andante - Moderado, nem rápido nem lento

Andantino - Semelhante ao andante, mas um pouco mais acelerado

Allegretto - Moderadamente rápido

Allegro - Andamento veloz e ligeiro

Vivace - Um pouco mais acelerado que o Allegro

Presto - Andamento muito rápido

Prestissimo - É o andamento mais rápido de todos

Alguns exemplos de combinações de andamento com expressões:


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Allegro moderato - Moderadamente rápido.

Presto con fuoco - Extremamente rápido e com expressão intensa.

Andante Cantabile - Velocidade moderada e entoando as notas como em uma canção.

Adagio Melancolico - Lento e melancólico

NOTAÇÕ ES DE VARIAÇÃ O DE TEMPO:

rallentando - Indica que a execução deve se tornar gradativamente mais lenta

accelerando - Indica que a execução deve se tornar mais rápida.

A tempo ou Tempo primo - Retorna ao andamento original.

Tempo rubato - Indica que o músico pode executar com pequenas variações de
andamento ao seu critério.

OUTRAS NOTAÇÕ ES

Tablatura

A tablatura é uma notação que representa como colocar os dedos num


instrumento (nos trastes de uma guitarra, por exemplo) em vez das notas, permitindo
aos músicos tocar o instrumento sem formação especializada. Esta notação tornou-se
comum para partilhar músicas pela Internet, já que permite escrevê-las facilmente em
formato ASCII
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Cifras

Cifra é um sistema de notação musical usado para indicar através de símbolos


gráficos ou letras os acordes a serem executados por um instrumento musical (como
por exemplo uma guitarra). São utilizadas principalmente na música popular, acima
das letras ou partituras de uma composição musical, indicando o acorde que deve ser
tocado em conjunto com a melodia principal ou para acompanhar o canto.

As principais cifras são grafadas:

A: nota lá ou acorde de Lá Maior

B: nota si ou acorde de Si Maior ( H em alemão)

C: nota dó ou acorde de Dó Maior

D: nota ré ou acorde de Ré Maior

E: nota mi ou acorde de Mi Maior

F: nota fá ou acorde de Fá Maior

G: nota sol ou acorde de Sol Maior

Os acordes menores são grafados pelas letras acima, acompanhados da letra "m"
minúscula. Ex: Cm indica um acorde de Dó menor. Há outras alterações quando se
utilizam tetracordes ou intervalos dissonantes. Ex: Cm7 indica acorde de Dó menor
com

COMPOSIÇÃ O MUSICAL
Uma composição musical ou peça musical é uma peça original de
música feita para repetidas execuções (em oposição à música de improvisação
em que cada performance é única). A música pode ser preservarda na
memória ou através de um sistema de escrita e/ou notação. As composições
podem ser feitas para a voz humana, geralmente contendo letras, assim como
para instrumentos musicais.

Composição Musical pode também significar o processo pelo qual uma


peça se origina e a disciplina acadêmica que estuda seus métodos e técnicas.
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Quem executa este trabalho é chamado de compositor. Ao realizar a


composição, ele deve ter conhecimento da teoria musical e das características
do gênero musical para o qual a música está sendo composta. Essa escolha
determina, entre outras coisas, o ritmo, a instrumentação utilizada e a duração
da composição.

A composição pode ser publicada na forma de partitura ou em algum


outro método de notação, como a letra com cifras ou tablaturas. Existem
editoras especializadas em música que publicam e controlam os direitos
autorais da composição. Uma das etapas importantes do processo de
composição é a realização do arranjo musical, ou seja, a divisão da música em
partes a serem executadas por cada um dos instrumentos e vozes. Muitas
vezes é o próprio compositor que executa esse arranjo. Compositores de
música clássica, por exemplo, são responsáveis por todas as etapas da
composição, arranjo e, em muitos casos, pela primeira execução das suas
composições. Em outros casos, o arranjo é realizado por um músico
especializado, o arranjador.

Quando um sistema de notação não é utilizado, a composição é


transmitida por repetição e memorização. Esse é o método usado na maior
parte das canções tradicionais, como, por exemplo, canções folclóricas, música
indígenas e cantigas de roda. Embora muitas vezes o compositor dessas
canções não seja conhecido, elas são ainda assim composições musicais, e é
possível transcrevê-las e preservá-las em partituras. Esse é um dos trabalhos
da etnografia