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O CÉREBRO DAS BALEIAS

ou do “feminino” e da “natureza”
no pensamento ocidental

Texto figurando no verso do cartaz de mesmo título

Christine Rufino Dabat e Régine (Gigi) Bandler (Orgs)

Programação visual e arte do cartaz

Ana Bosch e Régine (Gigi) Bandler

Recife
S.O.S. Corpo Gênero e Cidadania
1993
“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum
destino biológico, psíquico, econômico define a forma
que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o
conjunto da civilização que elabora este produto
intermediário entre o macho e o castrado que qualifica
o feminino.”
Simone de Beauvoir. O segundo sexo. 1949.

“A mulher é Natureza.” “A mulher está mais próxima da Natureza.” “A mulher


expressa, pelo seu próprio corpo uma ligação estreita com o mundo natural, os ciclos
naturais.” “A natureza feminina determina o destino da mulher.”
Expressões como estas, repetidas ad nauseam nas mais diversas circunstâncias,
promovem uma associação sedutora entre as noções de Mulher e Natureza. Ao longo da
história do pensamento ocidental, este corpo de idéias transformou-se em senso comum que
ressurge hoje, na contemporânea discussão da crise ambiental identificada como a uma crise
de civilização. Com status de teses inovadoras, essas velhas idéias, em nada inspiradoras de
mudanças, voltam ao debate com roupagem nova; a Natureza feminina ou o argumento da
Natureza na definição do papel social da mulher.
À antiga lógica de conquista/dominação da natureza, parecem suceder, nesta época de
preocupação ecológica, noções de preservação/conservação, manutenção dos eqüilíbrios, das
perenidades. Nessa esteira, diversas correntes atuais (as pós-) tentam responder à ânsia por
perspectivas históricas com um conjunto de valores ‘definitivos’, ‘eternos’, substitutos
cronológicos das agonizantes ideologias do progresso. Frente à ‘falência’ diagnosticada nos
modelos servidos até hoje, pretende-se recorrer às essências: daí a ressurreição da idéia de
‘natureza feminina”, a-histórica, positivamente próxima do cerne das coisas, garantindo
autenticidade inerente às suas propostas. Ademais, dotada do brilho de uma aparente inversão
da hierarquia de valores: reverencia-se o que era anteriormente desprezado.
Se o contexto é, sem dúvida, inédito, e a proposta apela para anseios profundos, esses
conceitos não trazem em si fundamentalmente nenhuma novidade: a naturalização de certas
categorias de pessoas faz parte, há muitos séculos, do repertório do pensamento ocidental
dominante, aliás, na maioria das vezes, com o fim de oprimí-las, explorá-las ou até mesmo
aniquilá-las.
O feminismo criou a perspectiva de desvendar este prisma deformante a respeito das
mulheres. Portanto, enquanto feministas, achamos oportuno alertar para os perigos embuídos
em noções e amálgamas talvez sedutores à primeira vista, mas que comprometem
profundamente os propósitos gerais da luta pela cidadania dos seres humanos de sexo
feminino.
Singularizando falas de alguns dos mais prestigiosos pensadores do mundo ocidental e
dos seus seguidores, tentamos evidenciar, no presente cartaz, um paradoxo singular na
construção do pensamento moderno: ao mesmo tempo em que se consolidavam a Razão, o
Progresso, a Ciência e a Democracia como valores-mestres do ideário atual com pretensão à
universalidade, afirmava-se, com a mesma ênfase, a diferença/inferioridade das mulheres –
bem como a dos negros, dos índios etc... – em virtude de verdades ‘científicas’, de princípios
morais ou religiosos que apelavam para o argumento da natureza.

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Médicos, filósofos, juristas, políticos ou clérigos e até sindicalistas formulavam um
conjunto de preceitos limitativos e depreciativos contra as populações visadas, incluindo as
mulheres, enquanto se definia o pensamento moderno, fosse ele científico, político ou moral.
Por meio de figuras retóricas complexas ou de asserções brutais, disfarçando o
preconceito com argumentos ‘numéricos’ e o desprezo com falsos elogios, os pensadores aqui
citados, escolhidos no período compreendido entre o Século das Luzes e 1950, não hesitaram
em descartar para a metade da espécie humana – muito mais, de fato, pela via do racismo – os
postulados mais ‘sagrados’ dos direitos naturais à Liberdade, à Igualdade, à procura da
felicidade, ao desenvolvimento da personalidade etc...
Como contraponto a esse coro ensurdecedor, ilustramos os esforços de inúmeras
pessoas que lutaram para ‘virar a página’ de tanto sofrimento, e criar um mundo diferente: são
as lutas das mulheres por direitos políticos e direitos enquanto trabalhadoras; pelos direitos
reprodutivos, pelo direito à educação; pela paz’ pela oportunidade, enfim, de viver livremente
como seres humanos por inteiro, gozando de oportunidade de fazer opções, de desenvolver
potencialidades.
A História ‘oficial’ costuma menosprezar ou ignorar incômodos episódios,
personagens ou idéias que desafiaram a ordem social por ela justificada. Ao resgatar o ‘avesso
da história’ apostamos na subversão e na invenção de novas relações sociais que dispensem a
diferença (‘natural’) e a semelhança (obrigatória) , mas valorizem a pluralidade, respeitando
finalmente toda a diversidade, humana ou não, como expressão de uma consciência de espécie
entre as demais.

OS MÉDICOS E OS CIENTISTAS
Os cientistas – particularmente os médicos – constam entre os mais arrasadores e
categóricos definidores da ‘natureza feminina’. Armados com seu monopólio sobre a saúde –
recém-tomado das curandeiras tradicionais – e do crescente prestígio da Ciência, eles se
empregam a repetir os velhos preconceitos veiculados pela cultura ocidental, pelo menos
desde Aristóteles, cujos efeitos têm sido, muitas vezes, lamentavelmente duradouros. Os
argumentos que sustentavam a tese da imbecilidade congênita de boa parte da população
mundial – sobretudo a feminina – ganham nova roupagem. Enfeitados pelo jargão ‘científico’
- que sucedeu ao latim como arma linguístico–ideológica – eles aparecem doravante
acompanhados de dados quantitativos como, por exemplo, o tamanho do cérebro: quanto
maior esse, maior a inteligência. Portanto melhor há de ser a colocação do seu portador na
hierarquia social.
“O homem é mais corajoso, lutador e dinâmico que a mulher, e tem um gênio mais
inventivo”; superior no que exige “pensamento profundo, razão ou imaginação, ou tão
somente o uso dos sentidos e das mãos. Se fizéssemos uma lista contendo os homens e as
mulheres mais eminentes em poesia, pintura, escultura, música (incluindo composição e
execução), história, ciência e filosofia, com meia dúzia de nomes para cada uma dessas
atividades as duas listas não comportariam comparação.” Portanto “a faculdade mental
média do homem deve ser superior à da mulher.”
Charles Darwin, cientista, ‘pai’ da teoria da evolução, Grã Bretanha, séc. XIX.1

1
Apud BOCK, Kenneth. Natureza Humana e História. Uma réplica à sociobiologia. Rio de Janeiro: Zahar,
1982, p. 52.

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“Em geral, o cérebro é maior nos homens que nas mulheres, nos homens eminentes que nos
de talento medíocre, nas raças superiores que nas inferiores. Como em outras coisas, existe
uma relação notável entre o desenvolvimento da inteligência e o volume do cérebro.”
“Devido ao ápice arredondado e ao lóbulo posterior menos desenvolvido, o cérebro do negro
assemelha-se ao de nossas crianças, e pela protuberância do lóbulo parietal, ao de nossas
mulheres (...) Quanto a suas faculdades intelectuais, o negro adulto partilha da natureza da
criança, da mulher e do homem branco senil.”
Broca, evolucionista, professor da Faculdade de Medicina de Paris, França, séc. XIX.2

“Nas raças mais inteligentes, como entre os parisienses, existem numerosas mulheres cujos
cérebros aproximam-se mais, em tamanho, do cérebro dos gorilas do que dos cérebros
masculinos, mais desenvolvidos. Essa diferença é tão óbvia que ninguém pode contestá-la por
um momento que seja; só o seu grau merece ser discutido. Todos os psicólogos que
estudaram a inteligência das mulheres, bem como os poetas e os romancistas, reconhecem
hoje que elas representam as formas mais inferiores da evolução humana e que estão mais
perto das crianças e dos selvagens do que de um homem adulto e civilizado. Eles primam
pela volubilidade, inconstância, ausência de pensamento e lógica, e incapacidade de
raciocínio. Existem sem dúvida, algumas mulheres notáveis, muito superiores ao homem
mediano, mas são tão excepcionais quanto o nascimento de qualquer monstruosidade, como
por exemplo, de um gorila com duas cabeças; consequentemente, podemos ignorá-las por
completo.”
“Os homens das raças negras têm o cérebro um pouco mais pesado do que o das mulheres
brancas.”
Gustave Le Bon, discípulo de Broca, um dos fundadores da psicologia social na França,
século XIX.3

“As observações anatômicas do Dr Gall confirmam tão bem esta diferença primeira que
estabelecemos entre o moral do homem e da mulher. Com efeito, Gall observa que as
mulheres têm geralmente a cabeça mais volumosa na parte posterior e a frente mais estreita;
e sabemos que ele atribui às partes posteriores do cérebro as faculdades afetivas, e às partes
anteriores as faculdades intelectuais.”
Barros, médico, Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, séc. XIX.4

A função materna que constitui, segundo essas teorias, o destino inexoravel das
mulheres (como o trabalho escravo nas plantações está para os negros, por exemplo),
desqualifica-as definitivamente para quaisquer outras atividades, particularmente aquelas que
comportam alguma responsabilidade ou poder, algum prestígio. A fisiologia feminina é
apresentada nestes escritos com características inferiorizantes, especificidades
menosprezíveis; essas, articuladas às mais recentes teorias científicas, como o evolucionismo,

2
in GOULD, Stephen Jay. O Polegar do Panda – Reflexões sobre História Natural. São Paulo: Martins Fontes,
1989, p. 133; e apud GOULD, Stephen Jay. A Falsa Medida do Homem. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 98.
3
in GOULD, Stephen Jay. O Polegar do Panda Op. cit., p. 137 e 140.
4
in CHALOUB, Sidney, Trabalho, Lar e Botequim. O cotidiano dos trabalhadores do Rio de Janeiro da Belle
Epoque. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 118.

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concorrem então para justificar e garantir a posição subalterna das mulheres em todas as áreas
da vida social: no trabalho, na arte, na política, na educação etc...
“De todos os seres orgânicos, cujos sexos são separados, as mulheres, evidentemente,
receberam a vida apenas para a propagação das espécies; sem dúvida, a sábia Natureza não
alterou as leis imutáveis, universais de seu plano para o gênero humano. E como a mulher
não estaria formada unicamente para o amor?”
“A existência da mulher é apenas uma fração daquela do homem; ela não vive para si
mesma, mas pela multiplicação da espécie, conjuntamente com o homem; eis o único objetivo
que a Natureza, a sociedade e a moral reconhecem. Segue-se que a mulher é apenas um ser
naturalmente subordinado ao homem pelas suas necessidades, seus deveres e sobretudo, pela
sua constituição física. (...) Se a mulher é fraca pela sua cosntituição mesma, a Natureza quis
então fazê-la submissa e dependente na união sexual; ela nasceu então para a doçura, a
ternura e mesmo para a paciência, a docilidade; ela deve então suportar sem sussurros o
jugo da coação para manter a concórdia na família pela sua submissão e seu exemplo.”
Julien Joseph Virey, médico e filósofo,
um dos principais autores do Dicionário das Ciências Médicas, França, século XIX.5

“Qual é o grande dever da mulher? Parir, parir de novo, sempre parir. Se a mulher se recusa
à maternidade, se a limita, se a suprime, não merece mais seus direitos; a mulher não é mais
nada... A mãe é igual ao homem; mas a mulher que renuncia à maternidade é um acessório,
um dejeto. Voluntariamente estéril, ela cai no nível da prostituta, da filha pública, cujos
órgãos não são mais nada além de brinquedos obscenos, em lugar de permanecer o molde
venerável de todos os séculos futuros.”
Doleris e Bouscatel, médicos defensores do natalismo, França, século XX. 6

“A mulher que contrai casamento deve ser convencida das leis naturais e morais que
obrigam-na a exercer o círculo completo das funções de mãe. Se a isto se recusar é porque
há uma falsificação dos sentimentos contrariando as manifestações naturais e sacrificando o
dever que é sacrificar a si, à prole e à humanidade.”
Vitorino Assunção, médico, autor de Garantia Sanitária da Prole, Brasil, 1909.7

“Uma mulher só goza de boa saúde tornando-se mãe, e se possível antes de 25 anos de idade;
em toda a minha carreira, meio século de ensino e de clínica, nunca vi um fibroma em uma
mãe de seis filhos e nunca vi uma solteirona com perfeita saúde. Eis a verdade toda crua: a
esterilidade é contra a natureza; uma legislação que a encoraje é desumana, portanto,
contrária à moral.”
Pinard, professor de medicina, França, 1925.8

5
Apud FRAISSE, Geneniève. Muse de la Raison. La démocratie exclusive et la différence des sexes. Aix-en-
Provence: Alinea, 1989, p. 85; e KNIBIEHLER, Yvonne e FOUQUET, Catherine. Histoire de la femme et des
médecins. Paris: Hachette, 1983, p. 106-7.
6
Apud THÉBAUD, Françoise. “Matenité et famille entre les deux guerres: idéologies et politique familiale”. In
THALMANN, Rita, Ed. Femmes et fascismes. Paris: Tierce, 1986, p. 85.
7
Apud RAGO, Margareth. Do Cabaré ao Lar. A utopia da cidade disciplina. Brasil 1890-1930. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1985, p. 79.

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“A psicanálise não pode elucidar a natureza intrínseca daquilo que, na fraseologia
convencional ou biológica, é denominado ‘masculino’ e ‘feminino’: ela simplesmente toma os
dois conceitos e faz deles a base de seu trabalho.”
“Quando a menina descobre sua própria deficiência, por ver um órgão genital masculino, é
apenas com hesitação e relutância que aceita esse desagradável conhecimento. Como já
vimos, agarra-se obstinadamente à expectativa de um dia também ter um órgão genital do
mesmo tipo, e seu desejo por ele sobrevive até muito tempo após sua esperança ter-se
expirado. Invariavelmente a criança encara a castração, em primeira instância, como um
infortúnio peculiar a ela própria; só mais tarde compreende que ela se estende a certas
outras crianças e, por fim, a certos adultos. Quando vem a compreender a natureza geral
dessa característica, disso decorre a feminilidade – e com ela, naturalmente, sua mãe –
sofrer uma grande depreciação a seus olhos.”
Sigmund Freud, ´pai´ da teoria da psicanálise, Austria, séc. XIX–XX.9

“Mas, ninguém pode ser furtar ao fato de que, ao abraçar uma vocação masculina, ao
estudar e trabalhar como um homem, a mulher está fazendo alguma coisa que não está
inteiramente de acordo – quando não prejudicando diretamente – com sua natureza
feminina.”
Carl Jung, psiquiatra e teórico alemão, século XX.10

DOCUMENTOS
“Vende-se ou aluga-se uma negra jovem, bem-posta, parida há dez meses e um dia, com leite
bom e abundante, excelente lavadeira, passadeira e com rudimentos de cozinha, sã e sem
manchas, com ou sem sua cria, Rua de Cienfuegos, No 10, esquina com Glória.”
Diário del Gobierno de La Habana, 5 de abril de 1839.11

“Vende-se na rua da Imperatriz N° 41, loja, uma preta de nação moça, com uma cria
pardinha, de mezes, tem bom leite, serve o trivial, não tem vícios ou moléstias, e vende-se por
precisão.”
Jornal do Commércio, Pernambuco, 10 de agosto de 1850.12

“Vende-se ou aluga-se uma rica ama com muito bom leite, parida há dous mezes, tem 18
annos de idade. Vende-se com a cria ou sem ella.”
Diário do Rio de Janeiro, 29 de julho de 1850.13

8
Apud KNIBIEHLER, Yvonne e FOUQUET, Catherine. Histoire des mères. Op. cit., p. 271.
9
FREUD, Sigmund. “A psicogênese de um caso de homosexualismo numa mulher” e “Sexualidade Feminina”,
in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de. Rio de Janeiro: Imago, 1969, vol. XVIII,
p. 211 e vol. XXI, p. 267-8.
10
Apud CHESLER, Phyllis. Women and Madness. New York: Avon Books, 1973, p. 77.
11
Apud FRAGINALS, Manuel Moreno. O Engenho, vol. II e III. São Paulo: UNESP/HUCITEC, 1988, p. 56.
12
Apud GIACOMINI, Sônia Maria, Mulher e Escrava. Uma introdução histórica ao estudo da mulher negra no
Brasil. Petrópolis: Vozes, 1988, p. 54.

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6
MATERNIDADE: EXALTAÇÃO, NEGAÇÃO, UTILIZAÇÃO
“São eles um ser ou dois? Poderia se ter dúvida. Ela o faz e refaz dela mesma (na
transformação que nos renova sem cessar), e muitas vezes é mãe dele. Ele é totalmente
constituído de sua substância. Nela, ele tem sua verdadeira natureza, seu estado mais doce de
beatitude profunda, de paraíso. É bem aí que ele é Deus. Ela é sua natureza e seu
sobrenatural (...) Se alguma vez nesta terra houve uma religião, ela está bem aí, e num grau
tal que nada, nada semelhante voltará a ocorrer. Ela não pode defender-se disto. Não é sua
culpa. Ela é Deus (...) começamos por aí, por uma idolatria, um fetichismo profundo da
mulher. E por ela, atingimos o mundo.”
Jules Michelet, historiador francês, século XIX.14

“Os dias de escravidão eram um verdadeiro inferno. Eu já era adulta quando chegou guerra,
e tornei-me mãe antes que ela acabasse. Os bebês eram arrancados dos braços de suas mães
e vendidos a especuladores. As crianças eram separadas de seus irmãos e irmãs e nunca se
reencontravam. Naturalmente, elas choravam. Você acha que não choravam, quando eram
vendidos como gado? Eu poderia passar o dia todo lhe contando, e mesmo assim você não
faria idéia do horror disso aí.”
Delia Garlic, ex-escrava, Virgínia, EUA, século XIX.15

“O Sr E., fabricante, informou-me de que empregava exclusivamente mulheres em seus teares


mecânicos; ele dá preferência às mulheres casadas, especialmente àquelas com família em
casa, que depende delas para se sustentar; são muito mais atentas e dóceis, e são compelidas
a aplicar o máximo de seus esforços para obterem os meios de subsistência de que
necessitam. Assim, as virtudes peculiares do caráter feminino são pervertidas para seu
próprio prejuízo – assim tudo o que há de mais honesto e terno em sua natureza é
transformado num meio para escravização e sofrimento.”
Depoimento citado por Karl Marx, filósofo socialista alemão, século XIX. 16

OS FILÓSOFOS
Considerado fonte do pensamento filosófico-político atual, o século das Luzes começa
a divulgar as noções modernas de indivíduo e de cidadão, com obrigações e direios no quadro
de uma sociedade que se pretende reformar/transformar. No entanto, sejam muitos dos
encicopedistas, sejam os represntantes da várias correntes do pensamento que tomaram
impulso nos ‘séculos seguintes, o fato é que pensadores entre os mais eminentes deste período
não se incomodaram em abrir uma (ampla) exceção nos seus princípios tão ardentemente
defendidos: o sexo ‘fraco’.

13
Apud GIACOMINI, Sônia Maria. Mulher e Escrava. Op. ci.,, p. 53.
14
Apud KNIBIEHLER, Yvonne e FOUQUET, Catherine. Histoire des mères. Op. cit., p.170.
15
Apud HYMOWITZ, Carol e WEISSMAN, Michaele. A History of Women in America. New York: Bantam,
1978, p. 49.
16
MARX, Karl. “Ten Hours’Factory Bill. The Speech of Lord Ashley, 15 th March”, London, 1844, p. 20 in O
Capital, vol. II. São Paulo: Nova Cultura, 1988, p. 26.

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Suas representantes, exaltadas na ‘vocação sagrada e natural’ para a maternidade, não
são consideradas dignas das diversas declarações de igualdade de direitos e oportunidades,
procura da felicidade etc... A ‘natureza feminina’ é um argumento fácil e pouco discutido
contra pretensões à igualdade que permeiam no entanto todo o ambiente intelectual desta era.
As mulheres são ‘agraciadas’ com o argumento estático da natureza justamente nos
séculos em que mais se prezam as mudanças arquitetadas pelos homens de forma consciente e
deliberada no campo da relação com seus semelhantes ou com o mundo em geral, isto é,
quando baseiam seu pensamento na idéia de história.
“Não existe nenhuma paridade entre os dois sexos, no que diz respeito à conseqüência do
sexo. O macho apenas é macho por alguns instantes, a fêmea é fêmea por toda a sua vida, ou,
pelo menos, por toda a sua juventude (...) A rigidez dos deveres relativos aos dois sexos não
é, nem pode ser, a mesma. Quando a mulher se queixa da injusta desigualdade introduzida
pelo homem, ela está errada; essa desigualdade não é uma instituição humana, ou ao menos,
não é o resultado de um preconceito, porém da razão.”
“Elas devem aprender muitas coisas, mas unicamente essas que convêm elas saberem. (...)
Da boa constituição das mães depende primeiramente a das crianças; da atenção das
mulheres depende a primeira educação dos homens; das mulheres dependem ainda os
costumes desses, suas paixões, seus gostos, seus prazeres, sua felicidade mesma.”
“Toda a educação das mulheres deve ser relativa aos homens. Elas devem agradá-los, ser-
lhes úteis, fazer-se amadas e honradas por eles, educá-los quando jovens, cuidar deles
quando adultos, aconselhá-los, consolá-los, tonar-lhes a via agradável e doce; eis aí os
deveres das mulheres em todos os tempos, o que lhes deve ser ensinado desde a infância.
Enquanto esse princípio não for seguido, o objetivo não será alcançado e todos os preceitos
dados a elas não servirão de nada; nem para a sua felicidade, nem para a nossa.”
Jean-Jacques ROUSSEAU, filósofo franco-genebrense, L´Emile, século XVIII.17

“A sã filosofia biológica abre a possibilidade, particularmente depois da importante teoria do


Dr Gall de argumentar cientificamente contra estas quiméricas declarações revolucionárias
sobre a pretensa igualdade dos sexos.
“Não se pode seriamente contestar hoje a evidente inferioridade relativa da mulher que,
muito mais do que o homem é imprópria para a indispensável continuidade, bem como para a
alta intensidade do trabalho mental, seja em virtude da menor força intrínseca da sua
inteligência, seja em razão de sua mais viva susceptibilidade moral e física.”
“Se algum dia esta desastrosa igualdade social de ambos os sexos viesse a ser realmente
tentada (...), ela tenderia moralmente a destruir o principal charme que hoje nos arrasta em
direção às mulheres e que (...) supõe as mulheres numa situação essencialmente passiva e
especulativa.”
Auguste Comte, filósofo francês, ‘pai’ do positivismo, século XIX.18

17
Apud KNIBIEHLER, Yvonne e FOUQUET, Catherine. Histoire des mères. Op. cit., p. 140-41.
18
Idem, p. 292-3.

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“Na sua natureza reside o poder de cura que substitui aquilo que se esgotou, o repouso
benéfico no qual todo o imoderado se confina, o eterno mesmo pelo qual o desmedido e o
excedente se regulam. Nela, a geração futura sonha. A mulher é mais estreitamente ligada à
Natureza do que o homem e, no que tem de essencial, permanece sempre ela própria. A
Cultura em relação a ela é sempre alguma coisa externa, alguma coisa que não toca a
semente eternamente fiel à Natureza.”
“É preciso que a mulher obedeça e que encontre uma profundidade em sua superfície. A alma
do homem porém é profunda; suas vozes rugem nas cavernas subterrâneas; a mulher
pressente a potência do homem, mas não a compreende.”
“Elas [ as mulheres] são uma propriedade, um bem que deve ser guardado a sete chaves:
seres feitos para a domesticidade e que só atingem sua perfeição numa situação subalterna.”
“Quando uma mulher quer aprender, geralmente tem alguma coisa errada no seu aparato
sexual.”
Friedrich Nietzsche, filósofo alemão, século XIX.19
“E eis a família, o casamento, a mulher que pertence ao marido e que só existe enquanto tal.
Eis a mulher que realiza na individualidade do marido a sua própria individualidade. (...) Por
isso, a mulher é vestal do lar familiar, gênio da família. Ela é a nossa mãe, como a outra,
como a Terra que nos engndrou, não porque nos cria, mas porque nos mantém e nos alimenta
(...) Representante da natureza infinita que, através da mulher, engendra todo o sistema vivo.”
Giovanni Gentile, filósofo do fascismo italiano A Mulher na Consciência Moderna 1934.20

Detentor de um impressionante recorde de longevidade intelectural, um filósofo grego,


preceptor de Alexandre o Grande, conserva até hoje um prestígio invejável; seus pensamentos
reunem as adesões mais inesperadas, dos ‘pais’ da igreja católica, aos escritores pós-
modernos; tidos ainda como uma das referências máximas no campo da filosofia, seus
escritos fundamentam também a discriminação sexual, racial etc.
“Alguns seres, ao nascer, se vêem destinados a obedecer, outros a mandar. (...) A alma dirige
o corpo como o senhor o escravo. O entendimento governa o instinto como um juiz os
cidadãos e um monarca seus súditos. É claro, pois, que a obediência do corpo ao espírito, da
parte afetiva à inteligência e à razão, é coisa útil e conforme com a natureza. (...) O homem
livre ordena ao escravo de um modo diferente do marido manda à mulher, do pai ao filho. Os
elementos da alma estão em cada um desses seres, mas em graus diferentes. O escravo é
completamente privado da faculdade de querer; a mulher a tem mais fraca; a do filho é
incompleta.”
Aristóteles, filósofo, autor de “A Política”, Grécia, século V BEC.21

19
Apud PELLE-DOUËL, Yvonne. Ser Mulher. Rio de Janeiro: Forense, 1973. p. 8 e 258; LLOYD, Genevieve.
The Man of Reason. “Male” and “Female” in Western Philosophy. Minneapolis: Univ. of Minnesota Press,
1986, p. 1-2; GROULT, Benoîte. Ainsi soit-elle. Paris: Grasset et Frasquelle, 1975, p. 47.
20
Apud MACCIOCHI, Maria Antonieta. “As mulheres e a travessia do fascismo”. In MACCIOCHI, M. A., Ed.
Elementos para uma análise do fascismo. Lisboa: Bertrand, 1977, p. 157.
21
ARISTÓTELES. A Política, II, 8; II, 11; I, IV, 11. Rio de Janeiro: Ediouro-coquetel, sd., p. 17, 18 e 31.

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DIÁLOGO
Pauline Leon (ao entregar uma petição com centenas de assinaturas femininas, para a
Convenção Nacional durante a Revolução Francesa, em março de 1792)22
“Legisladores, mulheres patriotas apresentam-se a vocês para pedir o direito que tem todo
indivíduo de providenciar a defesa de sua vida e de sua liberdade. (...) Somos cidadãs, e o
destino da pátria não poderia ser-nos indiferentes. Seus antecessores depositaram a
Constituição em suas mãos, tanto quanto nas nossas; como poderemos conservá-la se não
temos armas para defendê-la dos ataques dos inimigos? Sim, precisamos de armas, e vimos
para lhes pedir a permissão de conseguí-las. Que nossa fraqueza não seja um obstáculo; a
coragem e a intrepidez a suplantarão; e o amor pela pátria e o ódio pelos tiranos nos farão
enfrentar facilmente todos os perigos.”

Dehaussy-Robecourt (deputado, respondendo à petição em nome da Convenção Nacional)


“Guardemo-nos de intervir na ordem da natureza. Ela não destinou as mulheres par dar a
morte; suas mãos delicadas não foram feitas para manejar o ferro, nem para agitar lanças
homicidas.”

OS HOMENS POLÍTICOS
Nos séculos herdeiros da Revolução francesa – era da “Liberdade, Igualdade,
Fraternidade” – os debates, as lutas em torno da questão dos direitos políticos, a cidadania
formal aplicável a todos os adultos, independentementede sua crença, raça ou religião, não
deixam de ocupar o proscênio da história. O pensamento político dominante, outorgando-lhes
o voto ou não, argumenta com o intuito de manter as mulheres afastadas da gestão da ‘res
publica’ – a coisa pública – negando-lhes de fato a dita cidadania: a República pertence aos
homens, exclusivamente, pois às mulheres é reservado ‘naturalmente’ o privado, a família, o
lar.
“Cada sexo é chamado para um tipo de ocupação que lhe é próprio; sua ação é circunscrita
neste círculo que não se pode ultrapassar, pois a natureza, que coloca seus limites ao homem,
comanda imperiosamente e não recebe lei alguma.”
“O homem é forte, robusto, nascido com uma grande energia, audácia e coragem; enfrenta
os perigos, as intempéries das estações graças a sua constituição; resiste a todos os
elementos, lhes são próprias as artes, os trabalhos penosos; assim como é quase que
exclusivamente destinado à agricultura, ao comércio, à navegação, às viagens, à guerra, a
tudo o que exige força, inteligência, capacidade. Da mesma forma, ele parece ser o único
apto às meditações profundas e sérias que exigem uma grande contenção de espírito e longos
estudos, o que não é dado às mulheres seguir.”
Amar, deputado francês na Convenção Nacional durante a Revolução Francesa.

22
Apud DUHET, Paule Marie. Les femmes et la Révolution 1789-1794. Paris: Julliard, 1971, p. 41 e 117.

O CÉREBRO DAS BALEIAS ou do ‘feminino’ e da ‘natureza’ no pensamento ocidental

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“A anatomia é destino (...) A natureza designou as mulheres para serem nossas escravas (...)
Elas são nossa propriedade; nós não somos as suas. Elas nos pertencem da mesma forma que
uma árvore, que tem frutas, pertence ao agricultor. Que idéia louca esta, de exigir a
igualdade para as mulheres! (...) As mulheres são apenas máquinas para produzir crianças.”
Napoleão I, político, França século XIX.23

“Aconselho-te a não te meter em negócios políticos, nem a aderir ou te opor a nenhum


partido. Deixe andar a opinião e as coisas, mesmo quando as achas contrárias a teu modo de
pensar. Uma mulher deve ser neutra nos negócios públicos. Sua família e seus deveres
domésticos são suas primeiras obrigações. Uma irmã minha deve observar uma perfeita
indiferença num país que está em estado de crise perigosa, e onde sou visto como ponto de
reunião de opiniões.”
Simon Bolivar, O Libertador, homem de Estado latino-americano.
Carta a sua irmã, Maria Antônia, em 10 de agosto de 1826.24

“Uma metade do gênero humano excluída pela outra de qualquer participação no governo;
pessoas indígenas de fato e estrangeiras pela lei no solo que no entanto as viu nascer;
proprietários sem influência direta e sem representação: estes são fenômenos políticos que
parecem impossíveis de serem explicados por princípios abstratos; mas existe uma ordem de
idéias na qual a questão se altera, sendo possível resolvê-la facilmente. O objetivo de todas
as instituições deve ser a felicidade do maior número.Tudo aquilo que dele se afasta é um
erro; tudo aquilo que a ele conduz, uma verdade. Se a exclusão dos empregos públicos
pronunciada contra as mulheres for, para ambos os sexos, um meio de aumentar a soma de
sua felicidade mútua, então é uma lei que todas as sociedades tiveram que reconhecer e
consagrar.”
“Qualquer outra ambição seria uma inversão das destinações primeiras; e nunca interessaria
às mulheres mudar a delegação que elas receberam.”
“Ora, parece-nos incontestável que a felicidade comum, sobretudo a das mulheres, exige que
elas não aspirem ao exercício dos direitos e das funções políticas. Que se procure aqui seu
interesse dentro do desejo da natureza. Será que não é sensato que sua constituição delicada,
suas inclinações pacíficas, os numerosos deveres da maternidade as afastem constantemente
dos costumes fortes, dos deveres penosos e as chamem para ocupações doces, para cuidados
internos?”
Talleyrand, homem político francês, séculos XVIII-XIX.25

23
Apud MORGAN, Robin. Sisterhood is Powerful. An Anthology of Writings from the Woman’s Liberation
Movement. New York: Vintage Books, 1970, p. 34.
24
Apud PORTUGAL, Ana Maria. “Formación y Deformación: educación pela culpa”. In GRELA, Cristina et al.
(Ed.) Mujeres e iglesia: sexualidad y aborto en América Latina. Washington DC: Catholics for a Free Choice,
1989, p. 37.
25
Apud DUHET, Paule Marie. Les femmes et la Révolution 1789-1794. Op. cit., p. 187-8.

O CÉREBRO DAS BALEIAS ou do ‘feminino’ e da ‘natureza’ no pensamento ocidental

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“Como foi que a mulher começou a ser submissa ao homem, como ela o é no mundo inteiro?
Pela sua natureza, seu sexo, exatamente como o negro é e sempre será, até o fim dos tempos,
inferior à raça branca, e portanto condenado à submissão; mas ela é mais feliz assim do que
poderia ser em qualquer outra situação, apenas porque esta é a lei da sua natureza.”
New York Herald Tribune, EUA, editorial de 1852.26

“O que há de maravilhoso na Natureza a na Providência, é que nenhum conflito entre os dois


sexos é possível desde que cada um preencha as funções que a Natureza lhes destinou.
“Seu mundo é seu marido, sua família, seus filhos e seu lar. Mas onde estaria o mundo
maior, se ninguém cuidasse do menor? (...) Não achamos correto que uma mulher interfira
no mundo do homem. Pelo contrário, achamos natural quando estes dois mundos ficam
separados (...) A um pertence o poder do sentimento, o poder da alma (...) ao outro pertence
a força da visão, a força da dureza (...) O homem sustenta a nação, como a mulher sustenta
a família. Os direitos iguais das mulheres consistem no fato de que, no domínio da vida
determinada para ela pela natureza, ela experimenta a alta estima que lhe é devida. A mulher
e o homem representam dois tipos de seres bastante diferentes. A razão predomina no
homem. Ele busca análises e freqüentemente abre reinos novos e imensuráveis. Mas tudo o
que ele aborda, principalmente com a razão, é sujeito à mudança. O sentimento, ao
contrário, é muito mais estável do que a razão, e a mulher é o sentimento e, por isso, o
elemento estável.”
Adolf Hitler, político fascista alemão, século XX. 27

“Como chefe, compete-lhe [ao homem] buscar os meios de dar subsistência e comodidade
aos que constituem o seu lar. A mulher pertence, como tarefa imediata, a questão do lar, para
que tudo corra bem e sem atribulações.”
General Pedro Cavalcanti, inspector militar, Brasil, 1941.28
OS JURISTAS
Aos juristas compete codificar o estado de coisas vigente e defendê-lo com base num
arcabouço ideológico cada vez mais rico e detalhado, graças às contribuições aparentemente
inesgotáveis das ciências – tanto as humanas, quanto as exatas. Apoiando-se ora nos dados
‘científicos’ apresentados pelo corpo médico, ora nas considerações ’histórico-éticas’ dos
filósofos e moralistas, o legislativo e o judiciário confirmam o status quo nos textos legais e
na jurisprudência.
“As pessoas privadas de direitos políticos são os menores, as mulheres casadas, os
criminosos e os débeis mentais.”
Código civil napoleônico, artigo 1124, século XIX.29

26
Apud STIMPSON, Catharine. “Thy Neighbor’s Wife, Thy Neighbor’s Servant: Women’s Liberation Black
Civil Rights”. In GORNICK Vivian & Barbara K. MORAN (Eds.). Woman in sexist society. Studies in Power
and Powerlessness. New York: Basic Books, 1971, p. 629.
27
Apud MILLETT, Kate. Sexual Politics. London: Sphere Books, 1971, p. 164 e MACCIOCHI, Maria
Antonieta. “As mulheres e a travessia do fascismo” Op. cit., p.164.
28
Apud PENA, Maria Valéria Junho. Mulheres e Trabalhadoras. Presença feminina na constituição do sistema
fabril. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981, p. 160-1.

O CÉREBRO DAS BALEIAS ou do ‘feminino’ e da ‘natureza’ no pensamento ocidental

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“A lei civil, bem como a natureza, ela mesma, têm sempre reconhecido uma grande diferença
nas respectivas esferas e destinos do homem e da mulher. O homem é, ou deveria ser, o
protetor e defensor da mulher. A timidez e a delicadeza naturais e adequadas, que pertencem
ao sexo feminino, evidentemente incapacitam-no para muitas ocupações da vida civil. A
constituição da organização familiar, fundada na lei divina, bem como na natureza das
coisas, indica a esfera doméstica como aquela que pertence adequadamente ao domínio e
funções da condição feminina. (...) O destino e a missão supremos da mulher são cumprir as
funções nobres e benignas de esposa e de mãe.”
Corte Suprema, EUA, Caso Bradwell x Illinois, 1872.30

“Somos todos concordes em considerar que o trabalho é o aviltamento e a escravidão da


mulher, porque é o fim da solidariedade conjugal, da família. O verdadeiro reino da mulher é
o lar. Se ela o abandona, se ela não sabe aí servir ao homem e aos filhos, acabo-se o seu
poder, foi-se sua influência.”
Câmara Federal, Rio de Janeiro, Documentos Parlamentares, Legislação social, 1919.31

“A legislação trabalhista protege a mulher no trabalho, impedindo que ela realize tarefas
inadequadas à sua capacidade física, fixando aquelas em que ela pode concorrer com o
homem, sem quebra das características de seu sexo, somática e moralmente falando (...) É
claro que não pode realizar todos os trabalhos que o homem consegue. Têm menos força
muscular que eles, são mais tímidas, menos lógicas, menos objetivas, mais subjetivas,
embora tão inteligentes. (...) Mas entre atirá-las a tarefas masculinas, como caixeiras de bar,
motorneiras, trabalhadoras de alto forno e encaminhá-las a funções menos árduas, está a
ciência seletiva e orientadora do Estado, garantindo a progenia, o produtor da concepção, a
raça, não devendo ser esquecida que a longa permanência em pé e que os gases e emanações
tóxicas da indústria moderna são elementos talvez abortivos e seguramente perturbadores
das funções maternais.”
Décio Parreira, Diretor da Divisão de Higiene e Proteção do Trabalho,
Departamento Nacional do Trabalho, Rio de Janeiro, 1943.32

OS CLÉRIGOS
Tampouco inovadora a este respeito é a posição das autoridades religiosas. Salvo por
algumas nuanças modernizantes, elas alimentam a longa tradição misógina dos ‘pais
‘históricos da igreja cristã; ao lado dos argumentos doravante ‘científicos’, morais,
filosóficos, confirmam o dogma, a tradição bíblica e escolástica, que limitam as mulheres às
prendas domésticas, e à vocação (desta vez por ordem divina) materna, através da promoção
exemplar – para os católicos – do culto popular à virgem Maria.

29
Apud GROULT, Benoîte. Ainsi soit-elle. Op. cit., p. 48.
30
Apud MORGAN, Robin. Sisterhood is Powerful. Op. cit.
31
Apud RAGO, Margareth. Do Cabaré ao Lar. A Utopia do Cidade Disciplinar, Brasil 1890-1930. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1985, p. 69.
32
Apud PENA, Maria Valéria Junho. Mulheres e Trabalhadoras. Op. cit., p. 159 e 162.

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“Não tenho nenhuma objeção ao fato da mulher se o pescoço sobre o qual gira a cabeça, mas
não desejo vê-la assumir o lugar da cabeça.”
Eben Galusha, pastor de Nova York, oposto à participação das mulheres
na Convenção Abolicionista Mundial em 1840. 33

“Enfim, o que um homem válido e na força da idade pode fazer, não será equitativo exigí-lo
de uma mulher ou de uma criança (...) Trabalhos há também que não se adaptam tanto à
mulher, a qual a natureza destina, de preferência, aos arranjos domésticos, que por outro
lado, salvaguardam admiravelmente a honestidade do sexo, e correspondem melhor, pela sua
natureza, ao que pede a boa educação dos filhos e a prosperidade da família.”
Leão XIII, Encíclica, De Rerum Novarum, 1891.34

“Toda mulher é destinada a ser mãe; mãe no sentido físico da palavra ou em um significado
mais espiritual e elevado, mas não menos real. A este fim, o Criador ordenou todo o ser
próprio da mulher, seu organismo, mas também seu espírito e, sobretudo, sua especial
sensibilidade. De modo que, a mulher, verdadeiramente tal, não pode de outro modo ver nem
compreender a findo todos os problemas da vida humana, senão com relação à família. Por
isso o sentido agudo de sua dignidade a torna apreensiva cada vez que a ordem social ou
política ameaça prejudicar sua missão materna, sua missão em favor da família.”
Pio XII, Discurso à Juventude Feminina da Ação Católica, 1943.35

OS SINDICALISTAS
Além de possuir um cérebro “menor-portanto menos-capaz’, as mulheres são
supostamente mais fracas do que os homens no que diz respeito à força física. Justifica-se,
desta forma, uma remuneração inferior à deles, a despeito da dureza efetiva das tarefas
realizadas. Ao mesmo tempo, a alta qualificação demonstrada em certos ramos de atividade
não significa um aumento nos níveis salariais.
No século XIX, essa crença não parece ser afetada pela presença maciça de mão-de-
obra feminina em todas as áreas do trabalho agrícola ou industrial. Essa só é considerada para
evidenciar a necessidade de ‘corrigir’ tal ‘desvio’ histórico com medidas de contenção do
emprego desta força de trabalho barata; além do mais as mulheres constituem uma temível
sub-concorrência para a mão-de-obra masculina.
“Se a dedidação à coisa pública, a preocupação para com os interesses coletivos são, no
homem, qualidades, na mulher são uma aberração, cujas consequências inevitáveis para a
criança a ciência constatou há muito tempo: fraqueza, raquitismo e, finalmente, impotência.”
Memorando dos delegados franceses ao
Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores, Genebra, 1866.36

33
Apud STIMPSON, Catharine. “Thy Neighbor’s Wife, Thy Neighbor’s Servant: Women’s Liberation Black
Civil Rights”. In GORNICK Vivian and Barbara K. MORAN, Eds., Woman in sexist society. Op. cit., p. 632.
34
Apud SAFFIOTI, Heleieth I. B. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. Petrópolis: Vozes, 1979,
p. 93.
35
Apud idem, p. 99.
36
Apud DUFRANCATEL, Christiane. “Les amants de la Liberté? Stratégies de femmes, luttes républicaines,
luttes ouvrières.” Révoltes logiques, n° 5, 1977, p. 67.

O CÉREBRO DAS BALEIAS ou do ‘feminino’ e da ‘natureza’ no pensamento ocidental

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“No que se refere ao organismo, não diremos precisamente, como Michelet, que a mulher é
uma doente perpétua; mas não é menos verdade que a respeito de alguns fatos devidos às
particularidades do organismo feminino (a brusca eclosão da puberdade, a crise periódica
da menstruação e o mal-estar generalizado que normalmente acompanha a gravidez, o parto,
a amamentação, o desmame e mais tarde a menopausa), é difícil fixar o limite entre o estado
fisiológico e o estado patológico, e que estas funções orgânicas impedem a mulher de
dedicar-se a qualquer trabalho tenaz ou contínuo, como aqueles da indústria. Mas essas
funções que tornam a mulher imprópria para o trabalho industrial, são precisamente aquelas
que a tornam própria para a maternidade.”
Relatório da seção belga no Congresso operário de Lausanne, 1867.37

DEPOIMENTOS
“Na Inglaterra ainda é costume, ao longo dos canais, empregar mulheres no lugar de cavalos
para rebocagem, já que os custos dos cavalos e das máquinas são quantias fixadas
matematicamente, enquanto que os das mulheres, relegadas à ralé, escapam a qualquer
cálculo.”
Karl Marx, filósofo e cientista social alemão, ‘pai’ do materialismo histórico, XIX. 38

“Serão as mulheres empregadas para descarregar, à noite, as beterrabas nas refinarias,


porque elas são mais hábeis e mais flexíveis que os homens, e porque elas resistem melhor à
lama e ao frio.”
Villermé, médico, citando um trecho de uma circular patronal das refinarias açucareiras do
Norte da França, 1860.39

“Eu tenho um cinto ao redor da cintura e uma corrente passando entre as pernas e ando de
quatro. O caminho é muito inclinado e precisamos nos agarrar a uma corda, e quando não
há corda, qualquer coisa que podemos agarrar (...) A mina onde eu trabalho é muito úmida, e
a água invade sempre nossos tamancos, e já subiu até as coxas; cai muita água do teto;
minhas roupas ficam molhadas quase o dia todo. Nunca adoeci na minha vida, apenas
quando de resguardo. Minha prima fica com meus filhos durante o dia. Eu estou muito
cansada quando volto para casa à noite; às vezes caio no sono antes de me lavar. Não estou
tão forte como já fui, e não consigo suportar meu trabalho tão bem quanto antes. Eu
arrastava o carrinho até esfolar. O cinto e a corrente são piores quando a gente está
grávida.”
Betty Harris, 27 anos, trabalhadora que arrasta carrinhos onde os cavalos não podem passar
numa mina de carvão na Inglaterra, XIX.40

37
Idem, p. 67.
38
O Capital, vol. II. São Paulo: Nova Cultura, 1988, p. 20.
39
Circular das refinarias, apud VILLERMÉ, “Tableau physique et moral des ouvriers des manufactures”. In
GROULT, Benoîte. Ainsi soit-elle. Op. cit., p. 65.
40
NEFF, Wanda. Victorian Working Women. New York: Columbia UP, 1929, apud MILLETT, Kate. Sexual
Politics. Op. cit., p. 70-71.

O CÉREBRO DAS BALEIAS ou do ‘feminino’ e da ‘natureza’ no pensamento ocidental

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“Podemos dizer que essas negras não descansam, nem aos domingos, nem nos dias festivos;
parece que essas negras são feitas de ferro. Pois não dormem mais do que cinco horas
durante a moagem, levantam quando os primeiros resplendores da manhã não pensam em
luzir, e ficam enfiadas nos canaviais cortando cana ao sol, no sol escaldante dos trópicos,
sem outra trégua se não aquele momento do meio-dia em que vêm comer nas casas; e além
disso, quando cai um aguaceiro, agüentam água, até no inverno, com o frio que faz no
campo, penetrando os africanos até os ossos; e depois, no domingo e nos dias festivos, dão o
peito aos filhos, lavam, costuram roupas, fazem comida... e não sei como elas têm resistência
para tanto! E além disso, amigo, você acredita? Estão sempre alegres, o rosto prazeroso, não
têm aquela gravidade que normalmente têm os negros, e raramente se as vê desesperadas,
tirando a própria vida, enforcando-se. Por isso os feitores dizem que as negras são mais
resistentes e mais constantes no trabalho de que os homens, e atribuem isso ao fato de serem
mais resistentes por sua natureza física; mas os feitores naturalmente, não podem penetrar
no fundo das coisas...”
Suarez y Romero, escritor romântico e senhor de engenho, Cuba, século XIX..41

“Nunca soube o que era repousar. Eu trabalhava o tempo todo, de manhã até tarde da noite.
Devia fazer tudo que tinha que fazer fora: trabalho no campo, cortar madeira, bater o trigo,
até que às vezes sentia minhas costas quebrarem... O velho Marse nos batia tanto quando
fazíamos alguma coisa que não gostava. Às vezes, ele amarrava tuas mãos na frente do corpo
e te chicoteava como uma mula... No verão, tínhamos que trabalhar fora, no inverno, na
casa. Eu tinha que cardar e fiar até as dez horas da noite. Sem muito dormir, tinha que me
acordar às quatro das manhã seguinte e recomeçar.”
Sarah Gudger, ex-escrava na Carolina do Norte, EUA, século XIX..42

“Um dono de gráfica me dizia, um dia destes, como uma ingenuidade muito característica:
“Pagamo-lhes a metade daquilo que pagamos aos homens, e é muito justo, já que elas vão
mais rápido que os homens; elas ganhariam demais se lhes pagássemos o mesmo preço.”
Flora Tristan, feminista e socialista, França, século XIX. 43

O axioma pouco questionado segundo o qual ‘lugar de mulher é dentro de casa’, afeta
tanto o ponto de vista dos legisladores burgueses, quanto o do próprio movimento sindical e
revolucionário. Frente aos tremendos sofrimentos impostos ao proletariado – inclusive às
crianças e às mulheres – pela Revolução Industrial triunfante, os defensores das classes
oprimidas sonham, na sua maioria, com medidas radicais de proibição do trabalho feminino.
Essas deveriam ter resultados positivos de proteção às vítimas da exploração capitalista,
segundo uma lógica parecida com aquela do movimento abolicionista, contemporâneo do
sindicalismo principiante.

41
Apud FRAGINALS, Manuel Moreno, O Engenho. (V. II e III). São Paulo: UNESP/HUCITEC, 1988, p 54-55.
42
Apud HYMOWITZ, Carol e WEISSMAN, Michaele. A History of Women in America. Op. cit., p. 43.
43
Apud DESANTI, Dominique. Flora Tristan, Vie, oeuvre mêlées. Paris: UGE, 1973, p. 11.

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“A mulher que se torna operária não é mais uma mulher. (...) É necessário que as mulheres
possam casar e que as mulheres casadas possam ficar em casa o dia todo, a fim de se
tornarem a providência e a personificação da família. (...) A mulher cresce somente com
amor, e o amor desenvolve-se e fortalece-se apenas dentro do santuário da família. Se existe
uma coisa que a natureza nos ensina com evidência, é que a mulher é feita para ser
protegida, para viver como uma jovem menina perto de sua mãe, como uma esposa debaixo
da proteção e autoridade do seu marido.”
Jules Simon, escritor francês, autor de A Operária, 1860.44

Debate:
RESOLUÇÕES DO CONGRESSO DA
ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES,
Genebra, 1866.45
“Do ponto de vista físico, moral e social, o trabalho das mulheres e das crianças nas
manufaturas deve ser energicamente condenado, como uma das causas mais ativas da
degenerescência da espécie humana, e como um dos mais poderosos meios de
desmoralização posto em movimento pela classe capitalista. A mulher não é feita para
trabalhar, seu lugar está no lar da família, ela é a educadora natural da criança; só ela pode
prepará-la para a existência critica, viril e livre.” Resolução majoritária.

“A falta de educação, o excesso de trabalho, a remuneração excessivamente baixa e as más


condições higiênicas das manufaturas são, atualmente, para as mulheres que nelas
trabalham, causas de rebaixamento físico e moral; essas causas podem ser destruídas por
uma melhor organização do trabalho, pela cooperação. A mulher precisa trabalhar para
viver honradamente. Portanto, temos que procurar melhorar seu trabalho e não suprimí-lo.”
Resolução minoritária.
“Na realidade, o centro da questão da mulher é este: será que o caminho inelutável do
desenvolvimento leva as mulheres ao emprego profissional e será que isto pode ser encarado
como um progresso que devemos saudar e encorajar, já que através disto, com uma nova
organização de toda a vida social, a mulher se torna pela primeira vez realmente livre,
economicamente independente do homem, e acede à sua emancipação? Ou então, será que a
atividade profissional da mulher é algo de antinatural, socialmente não saudável, nocivo, um
dos males do capitalismo, que com a abolição do capitalismo também desaparecerá e deverá
desaparecer... O objetivo de vida da mulher, primeiro, maior, profundamente enraizado na
sua natureza, é o de ser mãe e de viver para cuidar e criar os filhos.”
“A chamada ‘emancipação da mulher’ vai de encontro com a natureza feminina e no final
das contas com a natureza humana; ela é antinatural e por isto impossível de ser posta em
prática.”
Edmund Fischer, socialista,
Zur Frauenfrage in sozialistischen Monatshefte, Alemanha, 1905.46

44
Apud SCOTT, Joan Wallach. Gender and the Politics of History. New York: Columbia UP, 1988, p. 156.
45
AIT. La Première Internationale. Recueil de documents. fac-similé, I, Congrès de Genève, (sept. 1866), p.
103.

O CÉREBRO DAS BALEIAS ou do ‘feminino’ e da ‘natureza’ no pensamento ocidental

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RESISTÊNCIAS
Daí a originalidade e coragem magníficas daquelas vozes – por raras vezes
masculinas, mas principalmente femininas – que se opuseram ao pensamento dominante a
respeito das mulheres. Oriundas das mais diversas classes sociais, mulheres decidiram, em
inúmeras regiões do planeta, resistir à opressão, dominação, exploração e ao desprezo que
lhes eram impingidos, utilizando para isso um extraordinário elenco de meios. Propondo
reformas de cunho mais ou menos radical, lutando ora pela educação, ora pelo voto, ora pela
contracepção, ora pela igualdade no trabalho, associando ou não suas lutas àquelas ditas ‘mais
amplas’, objetivando transformações sociais anti-colonialistas, anti-imperialistas e/ou
socialistas, elas marcaram sua época.
Falando, escrevendo, manifestando, agindo nos congressos, nas ruas, nos jornais, nos
locais de trabalho, nos campos de batalha, nas academias e nos laboratórios; utilizando ora o
lápis, os pincéis, ora o estilete ou o microscópio, em massa ou isoladamente, elas desafiaram e
abalaram a construção opressiva do pensamento ocidental que pretendia aprisioná-las dentro
da tão badalada ‘natureza feminina’.
Herdeiras de seu empenho, as mulheres de hoje lhes devem muitos dos direitos, do
espaço e do respeito sociais dos quais gozam. Para nós, feministas, somam-se a admiração
pela sua ousadia e coragem, bem como a gratidão pela fonte de inspiração em que suas lutas
se constituem na longa rota para a construção de um mundo melhor.
“A natureza, ou para falar mais corretamente, Deus, fez bem todas as coisas; mas o homem
inventou mil coisas para afetar a sua obra. (...) A liberdade é a mãe da virtude; se as
mulheres, por sua constituição, são escravas e não são autorizadas a respirar o ar vivo e
vivificador da liberdade, elas definharão para sempre como plantas exóticas, e serão
consideradas apenas como um belo defeito da natureza.”
Mary Wollstonecraft, feminista, Grã-Bretanha, séculos XVIII-XIX.47.

“As razões pelas quais acredita-se dever afastá-las das funções públicas, razões aliás, que
seria fácil destruir, não podem ser motivo para despojá-las de um direito cujo exercício seria
tão simples, e que os homens possuem não pelo sexo, e sim pela qualidade de seres racionais
e sensíveis, comum a mulheres e homens.”
“Por que razões, seres expostos à gravidezes e à indisposições passageiras, não poderiam
exercer direitos dos quais nunca se imaginou privar pessoas que têm gota a cada inverno e
que resfriam facilmente?”
“Pois, é injusto alegar, para continuar a negar às mulheres o usufruto de seus direitos
naturais, motivos que só têm um que de realidade pelo fato de que elas não usufruem destes
direitos.”
Condorcet, filósofo e político francês século XVIII.48

46
Apud BAUER, Karin. Clara Zetkin und die proletarische Frauenbewegung. Berlin: Oberbaum, 1978, p. 58-9.
47
WOLLSTONECRAFT, Mary. Vindicación de les derechos de la mujer. Madrid: Editorial Debate, 1977, p. 67
e 60.
48
Apud ALBISTUR, Maïté e ARMOGATHE, Daniel. Histoire du féminisme français du Moyen Age à nos
jours. Paris: Ed. des femmes, 1977, p. 218.

O CÉREBRO DAS BALEIAS ou do ‘feminino’ e da ‘natureza’ no pensamento ocidental

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“As mães, as filhas, as irmãs, representantes da Nação, podem para serem constituídas em
Assembléia Nacional. Considerando que a ignorância, o esquecimento ou o desprezo dos
direitos da mulher são as únicas causas das infelicidades públicas e da corrupção dos
governos, resolveram expor, numa declaração solene, os direitos naturais, inalienáveis e
sagrados da mulher: a fim de que esta declaração constantemente presente, lembre a todos
os membros do corpo social, sem cessar, seus direitos e seus deveres; a fim de que os atos do
poder das mulheres, e os do poder dos homens, suscetíveis de, a cada momento, serem
comparados com o objetivo de toda instituição política, sejam mais respeitados; a fim de que
as reclamações das cidadãs, doravante fundadas em princípios simples e incontestáveis,
sejam voltadas sempre para a manutenção da Constituição, dos bons costumes e da
felicidade de todos.”
“Em conseqüência, o sexo superior em beleza, como em coragem nos sofrimentos maternos,
reconhece e declara, em presença e sob os auspícios do Ser Supremo, os Direitos seguintes
da Mulher e da Cidadã.” (...)
“Art. 2. O objetivo de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e
imprescritíveis da Mulher e do Homem. Estes direitos são a liberdade, a propriedade, a
segurança e sobretudo a resistência à opressão.”(...)
“Art. 4. A liberdade e a justiça consistem em devolver tudo aquilo que pertence a outrem;
assim o exercício dos direitos naturais da mulher só têm limites na tirania eterna que o
homem opõe-lhe; este limites devem ser reformados pelas leis da natureza e da razão.
Art. 5. As leis da natureza e da razão defendem todas as ações nocivas para a sociedade:
tudo o que não é defendido por essas leis sábias e divinas, não pode ser impedido e ninguém
pode ser coagido a fazer o que elas não ordenam.”
Olympe de Gouges, Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã,
França, 1791.49

“Que virtude pode-se esperar de uma escrava? (...) Por toda parte onde as mulheres serão
escravas, os homens estarão curvados sob o despotismo. Sede, portanto, justos, homens que
vos gabais de luzes, e não censurais as mulheres; que elas participem de vossos direitos, e
imitarão vossas virtudes, pois se tornarão mais perfeitas ao se tornarem mais livres, e nossa
liberdade comum será obra da instrução e do interesse que teremos pela República.”
“Renunciai então, cidadão Prudhomme, a teu sistema tão déspota em relação às mulheres
quanto o da aristocracia em relação aos povos. É tempo de operar uma revolução nos
costumes das mulheres; é tempo de restabelecer-las na sua dignidade natural.”
Blandine Desmoulin, resposta ao discurso do editor Prudhomme, adversário dos Clubes de
Mulheres, durante a Revolução Francesa, século XVIII.50

49
Apud DUHET, Paule Marie. Les femmes et la Révolution 1789-1794. Paris: Julliard, 1971, p.74.
50
Apud BADINTER, Elizabeth. Palavras de homens, 1790-1793. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991, p. 137.

O CÉREBRO DAS BALEIAS ou do ‘feminino’ e da ‘natureza’ no pensamento ocidental

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“O homem aí diz que as mulheres precisam se ajudadas para subirem nas carruagens e
carregadas para atravessarem regos, e para terem o melhor lugar em todos os cantos.
Ninguém nunca me ajudou para subir em carruagens ou passar por cima de lamaçais, ou
para me ceder o melhor lugar – e não sou eu uma mulher? Olhai meu braço! Eu lavrei e
plantei e armazenei em celeiros, e nenhum homem podia me ultrapassar - e não sou eu uma
mulher? Pude trabalhar e comer tanto quanto um homem – quando tive a oportunidade – e
agüentar o chicote também! E não sou eu uma mulher? Tive treze filhos, e vi a maioria
vendidos como escravos, e quando chorei com minha dor de mãe, ninguém me ouviu, a não
ser Jesus - e não sou eu uma mulher?”
Sojourner Truth, ex-escrava, líder abolicionista, EUA, século XIX.51
“Se (...) admitirmos que a mulher parece ser destinada pela natureza antes para a esfera
doméstica, devemos acrescentar que os arranjos da vida civilizada não foram feitos, até
agora, para garantir-lhe isto. Seu espaço, se é o mais tedioso, não é o mais tranqüilo. Se ela
está resguardada da ‘excitação’, ela não está da exploração. Não somente a índia carrega os
fardos do acampamento, mas as favoritas de Luís XIV o acompanhavam durante suas viagens
e a lavadeira fica no tanque e leva trabalho para casa em todas as estações e em qualquer
estado de saúde. Aqueles que ligam as circunstâncias físicas da mulher à impossibilidade de
fazer parte dos assuntos do governo nacional, não são evidentemente aqueles que pensam ser
impossível as negras suportarem o trabalho no campo, mesmo durante a gravidez, ou as
costureiras continuarem seus trabalhos extenuantes.”
Margaret Fuller, feminista, EUA, século XIX.52

“Pela força física, [o homem] submeteu a mulher. Privou-a do desenvolvimento da


inteligência, da educação, para melhor subjugá-la, para que melhor desempenhasse sua
humilhante missão. (...) Deus nenhuma raça fez, para sobre a outra ter, revoltante primazia,
ilimitado poder.” Nísia Floresta, feminista brasileira, 1853.53

“Aristóteles, menos terno do que Platão, colocava sem responder esta pergunta: têm as
mulheres uma alma? Pergunta que o Concílio de Macão dignou-se em responder
favoravelmente, por maioria de três votos.
Assim, três votos a menos, e a mulher era reconhecida como pertencendo ao reino das feras,
e desta feita, o homem, o mestre, o senhor teria sido obrigado a conviver com uma fera! Este
pensamento faz estremecer de horror. De resto, tais são as coisas, que isto deve ser uma
razão profunda de dor para os sábios entre os sábios, pensarem que eles descendem da raça
mulher. Pois, se realmente eles estão convencidos de que a mulher é tão estúpida quanto eles
o afirmam, que vergonha para eles terem sido concebidos no ventre de tal criatura, terem
mamado seu leite e terem ficado sob sua tutela por boa parte de suas vidas! É bem provável
que, se tivesse sido possível a estes sábios colocar a mulher fora da natureza, como eles a
colocaram fora da igreja, fora da lei, fora da sociedade, teriam se poupado a vergonha de
descender de uma mulher.”
Flora Tristan, feminista e socialista,

51
Apud FLEXNER, Eleanor. Century of Struggle. The Woman’s Rights Movement in the United States.
Cambridge Mass.: Harvard UP, 1973, p. 90-91.
52
Idem, p. 68.
53
Apud MOTT, Maria Lucia de Barros. Submissão e Resistência. A mulher na luta contra a escravidão, São
Paulo: Contexto, 1988, p. 64.

O CÉREBRO DAS BALEIAS ou do ‘feminino’ e da ‘natureza’ no pensamento ocidental

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Des moyens de constituer la classe ouvrière, França, século XIX.54
“Com base no senso comum e na constituição da mente humana, eu desafio que alguém
conheça, ou posa conhecer, a natureza dos dois sexos, já que eles foram apenas vistos na sua
presente relação mútua... O que hoje é chamado de natureza da mulher é eminentemente
artificial – o resultado da repressão forçada, em algumas direções, e da estimulação não
natural, em outras. Podemos afirmar sem escrúpulo, que nenhuma outra classe de
dependentes tiveram suas personalidades tão inteiramente distorcidas de suas proporções
naturais pela relação com os seus amos.”
“As diferenças mentais supostamente existentes entre mulheres e homens são apenas efeitos
naturais das diferenças na sua educação e nas circunstâncias. E não indicam qualquer
diferença radical e, ainda menos, uma inferioridade radical de natureza.”
John Stuart Mill, escritor, filósofo e economista, Grã Bretanha, século XIX.55
“A maioria das pessoas cita a relativa fraqueza da mulher como principal argumento de
oposição à igualdade de direitos entre essa e o homem. Continua a se apoiar no argumento
da ‘profissão natural’ da mulher. Esquece-se que a relativa fraqueza, de origem sexual –
onde aparece ocasionalmente – é agravada, quando não causada pelas condições insalubres
da nossa vida moderna. Em boas condições ela seria bem menor ou até deixaria de existir.
Esquece-se que tudo aquilo que se aproveita com tanta rapidez quando se debate a questão
da liberdade da mulher, é rapidamente esquecido quando se trata de sua escravidão.
Esquece-se que essa relativa fraqueza da mulher só é levada em consideração quando pode
servir de pretexto para fazer baixar o conjunto dos salários. Tampouco pode ser questão de
‘profissão natural’ da mulher, quanto se fala de leis ‘naturais’ da produção capitalista.”
Eleanor Marx, socialista e feminista, Grã Bretanha, século XIX.56

“Não somos nós que arrancamos a mulher do lar; é a exploração, é o capitalismo que se
apropria não somente da mulher, mas também da criança para fazer concorrência ao
homem. Para tornar os lares aconchegantes e a humanidade feliz, temos que suprimir a
exploração capitalista, não há outro meio. E, durante o tempo que discutimos se a mulher
deve ou não trabalhar, há milhares de operárias que estão trabalhando e que morrem de
esgotamento.”
Paule Mink, feminista e socialista, França, século XIX.57

“Nós, as mulheres, não queremos ser a Vênus de Milo, mas sim queremos ser a Vênus
Urânia, para que possamos percorrer brilhantemente todos os círculos concêntricos que a
atividade humana tem de descrever na aurora da vida da humanidade e social sociedade...
Não nos perturba a negativa. Seu sofismo é tal, que nos tratando de rainhas só nos dão o
cetro da cozinha, da máquina de procriação etc. Não nos consideram senão como objeto de
imprescindível necessidade! Somos a flor de cactus e nada mais.”
Francisca Motta Diniz, O sexo feminino, Brasil, 1873.58

54
Apud DESANTI, Dominique. Flora Tristan. Op. cit., p. 399.
55
Apud MILLETT, Kate. Sexual Politics. Op. cit., p. 94 e 98.
56
MARX-AVELING, Eleanor. Die Frauen Frage. Berlin: Verlag für das Studium der Arbeiterbewegung, 1973.
Im Anhang, Beiträge von Laura Lafargue und Louise Kautsky, p. 15.
57
Apud SOWERWINE, Charles. Les femmes et le socialisme. Paris: Presses de la Fondation Nationale des
Sciences Politiques, 1978, p. 74.

O CÉREBRO DAS BALEIAS ou do ‘feminino’ e da ‘natureza’ no pensamento ocidental

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“Se alguém ouvir dizer que apenas os maiores cérebros são feitos para as capacidades
intelectuais, poder-se-ia, então, mandar as baleias para a universidade.”
Emma Ihrer, socialista e feminista, Alemanha, século XIX-XX.59

“Elas exibiram seus talentos e seus diplomas. Também invocaram autoridade filosóficas. Mas
tiveram de se defrontar com certos números desconhecidos por Condorcet ou por John Stuart
Mill. Esses números caíram como um malho sobre as pobres mulheres, acompanhados por
comentários e sarcasmos mais ferozes que as mais misóginas imprecações de certos
representantes da igreja. Os teólogos haviam-se perguntado se as mulheres tinham alma.
Vários séculos mais tarde, alguns cientistas estavam dispostos a negar-lhes uma inteligência
humana.”
Léonce Manouvrier, ovelha negra não determinista entre os alunos de Broca,
França, século XX.60
“Temos que nos levantar todas para proclamá-lo, minhas irmãs (...) Temos que proclamar
que se querem filhos, devem dirigir-se a nós; e que doravante nós os faremos, em número
razoável, mas naturalmente, sob certas condições. Com a condição, primeiro, de que nos
tivéssemos a certeza de não mais trabalhar para engordar os campos de batalha; com
condição de que nos dêem garantias sérias de paz – ou melhor ainda – que nos deixem
assegurar, nós mesmas, a paz pela nossa participação direta nos assuntos públicos. Sob a
condição, depois, que nos seja reconhecido nosso ‘direito de mãe’ (...) sob a condição
também de que a maternidade não seja mais para nós motivo de escravidão, de humilhação e
de miséria, mas se torne, ao contrário – pela sua assimilação a uma função social, a mais
honrada e a mais retribuída de todas – uma fonte de bem-estar, de independência e de
segurança.”
“Sim, Senhoras! Colocamos nossas condições. E se não forem aceitas, façamos o que todos
os trabalhadores conscientes e dignos fazem quando são explorados, maltratados, e
humilhados: façamos greve! A maternidade é nobre apenas quando consciente e suave
apenas quando desejada.”
Nelly Roussel, feminista militante para o planejamento familiar, França 1919. 61

“Sonhar com o domínio de um partido ou de uma ideologia para todo o orbe e ‘organizar’ o
amor segundo os interesses desse partido ou dessa classe, ou ideologia – é sufocar a
liberdade, desprezar as experiências do passado (...) Deixem o amor livre, absolutamente
livre. Homens e mulheres encontrarão nas leis biológicas e nas necessidades afetivas e
espirituais, o seu caminho, a sua verdade e sua vida... A solução só pode ser individual. Cada
qual ama como pode...”
Maria Lacerda de Moura, feminista, Brasil, 1920.62

58
Apud HAHNER, June. A mulher no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p. 83.
59
Apud BOXER, M. e QUARTAERT, J. (Ed.) Socialist Women, European Feministm in the XIXth and early
XXth century. New York: Elsevier, 1978, p. 125.
60
Apud GOULD, Stephen Jay. A Falsa Medida do Homem. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 11.
61
Apud KNIBIEHLER, Yvonne e FOUQUET, Catherine. Histoire des mères du Moyen Age à nos jours. Op.
cit., p. 297.

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“Art. 1 As mulheres, assim como os homens, nascem membros livres e independentes da
espécie humana, dotados de faculdades equivalentes e igualmente chamados a exercer, sem
péia, os seus direitos e deveres individuais.”
Manifesto feminista da Federação Brasileira Pelo Progresso Feminino, 1929. 63

“Abolição de todas as restrições à capacidade jurídica, econômica e política da mulher (...)


Sendo a maternidade um encargo imposto à mulher pela natureza, não deve ser agravado,
nem dificultadas as suas condições de vida pela proteção obrigatória, mas antes resolvidas
pela instituição do seguro maternal.
Todo ato da administração pública que, a título de amparar a mulher, cerceie a sua
liberdade de trabalho, lhe imponha obrigações ou lhe concede vantagens demasiado, que
redundem em prejuízo do empregador, eqüivalem praticamente a privá-la dos meios de
ganhar a vida. Competindo com o homem livre desta proteção forçada, a mulher será
dispensada por ser oneroso e incômodo o seu emprego.
É indispensável deixar ao critério da própria mulher o aproveitamento das medidas de
proteção à maternidade, dando-lhes caráter facultativo. Ninguém melhor do que a
interessada poderá resolver em cada caso concreto o que convirá a ela e sua prole.”
Resoluções da 1a Convenção Nacional Feminina, Rio de Janeiro, 1933.64

Texto figurando no verso do cartaz “O cérebro das baleias”.


Versão revisada e aumentada.
Programação visual e arte do cartaz
Ana Bosch e Régine (Gigi) Bandler
Revisão: Márcia Laranjeira
Recife, S.O.S. Corpo Gênero e Cidadania, 1993.

62
Apud RAGO, Margareth, Do Cabaré ao Lar. Op. cit., p. 107.
63
Apud SAFFIOTI, Heleieth I. B. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. Op. cit., p. 262.
64
Apud HAHNER, June. A mulher no Brasil. Op. cit., p. 107-8.

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