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HOMELESS

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edimilson de almeida pereira

HOMELESS

sans chapeau

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A Prisca pour ses rêves.

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“Hanki koy daarol awratee”
Paroles des Fulbes

“All names are false.”


Jay Wright

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os antílopes

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totemiteque

a pedra
o sabiá
a
palmeira

a g i z
a h e r a n ç a d e
v o r a o d i a e a
os mortos chamados
num copo de água
sugam o sopro de
quem os evoca os
mortos apreciam um
corpo sem erros : pela
delícia de sua conversa
fazem de tudo para
adiar o segundo não
noiteeosdevol
veànossacabeça
o silêncio entre as p a
lavrasgrávido

sóorelâmpag
o
p a r a f e n d ê - l
a e m n o m e d
a o r f a n d a d e

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CENA DE PESCA DE
TSOELIKE

a memória é
um curso em parte
navegável

somos os
que trocaram o rumo
pela sua voragem

nossa violência
cai
na órbita de um fisgo

o mundo
barriga e ponta
alucina 

(erraram os deuses
a geometria?)

na escassez de um
centro
o que prendemos
nos excede

: sua
elipse não obedece
à nossa coluna

[13]

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em quatro, porém,
tiraríamos
o pêlo às baleias

não fosse a rota


em si mesma
o desvio

: um de nós
pende à direita
como se escolhesse
o ínfimo

: outro
acima, como
se do azul
mirasse o abismo

: ao meio
quem se equilibra
há muito é um
entre os perdidos

: sob a linha
de esqueletos
outro alarga os braços
e ancora

quatro nós em pênis


alçados
prontos (talvez)
para a inumação

*
[14]

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na pedra, apesar
do cárcere
fluímos

saltamos do peixe
ao cervo para cobrir
mulher e filhos

a escassa gordura
nos força a um estilo
esguio

graças ao animal
em fuga
e ao estrago
da armadilha

no desenho
não se mede a hora
em que o barco
afunda

e a vida – em pânico
se agarra às iscas

*
em quatro somos
contra
a aflição das escamas

[15]

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nesse campo
ninguém
ousa – a luta nele
travada não

faz inimigos
: os sangues
que se esbarram

chegam a tal ponto


por conhecimeto
da regra

: o que à alma cabe


não perece

– de outro
modo ocupa
as escavações

: o que a alma pesca


multiplica no corpo
sua origem

*

aquele à direita
subverte a espinha
do destino

seu barco
impõe ao corpo
uma rotação
em guerra
[16]

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o alvo é nada
ante sua argúcia
: o que persegue está
além do sustento?

esse nos inclina


a um norte
que não morre
na extensão da lança

seu arremesso
é um gesto de cavar
onde crescem
os tubérculos

: o que persegue
esse cujo sexo
se iguala aos pinos
do sol?

não vemos quem


nos espera
nem a orla
a que chamam terra

não distinguimos
durante a lida
marido
esposa filhos, forma
nenhuma que não
em vermelho
[17]

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o braço tensionado
é o mesmo
que na vítima
serviu de esqueleto

o suor a carne
o que é nosso
se dilui e se recupera
no oceano

: herdeiros do bosque
protegidos
pelos mantídeos

certeiros na mira
como a ferida
que derruba
os chifres

é nas águas, todavia


que roemos
o tórax dos deuses

levamos os bens
e como a terra
nutrimos sua viragem

nós que entalhamos


o pote e arredondamos
os cadáveres

[18]

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estamos atadas
aos flancos

onde os homens passam do lodo


à vertigem
incrustamos a pedra que os salva
do esquecimento

em caulim está pintada


a porosidade
– outro nome da pedra

nuvens ao revés
não prometem utilidade ao fogo
nem a noite
em que o arpão e a concha
enlouquecem

em caulim está pintado


o ventre
que imploramos seja acolhedor
e farto

qual dos nossos
sobressai à tempestade?
ao sangue
que rodeia a embarcação?

sorriem e gritam – ante


a fúria
de uma barbatana

[19]

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: não nos dizem
que essa euforia
resvala
os cardumes da morte

sorriem ante o dedo


estirpado, não é por ele
que a testa
faz sombra no chão

: não nos dizem


sobre as moeduras
à sua volta
e a serpente azul
que não querem evitar

: nós que levamos o pote


e arredondamos os mortos
atadas
pelos flancos

lá, onde há fendas


entre os ossos, quem garante
amizade aos pais
esfoladores?

nuvens não
prometem utilidade ao fogo
só a pedra
caiada de assombro
nos dirige

[20]

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: os homens disparam
as rédeas
e exaustos
alçam os haveres ao redor
da palavra

pretendem convencer
os umbigos
de que a fronteira
não lhes interessa

os deuses
não esmorecem
se um fosso
nos devora

: por que dividiriam


as vísceras
de um animal
a galope?

entretanto, são
eles por trás da lava
a nomear
o que enfrentamos

: a bexiga esculpe
a pele
e nos assola a ideia
de um acidente

[21]

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a ser descoberto
depois de muitos
nascimentos
(as fraturas

riscaram no corpo
a separação e os ritos
não garantiram
seu retorno à planície)

: os arpões atingem
menos a caça, escavam
em nós
a errância

como se não fôssemos


quatro,
mas tantos
em exílio

: cada um se equilibra
para dar aos erros
um sentido
– nada nos obriga

a ficar com o deus


do limo
ou o espírito da árvore
: cada um chama

mulher e filhos
para desafiar
a outra margem
: os cadáveres dão-se
[22]

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vestir como agasalhos
sua ausência
nos incita a roer desde
o pólen

antes mesmo que a


forma
se pretendesse ponta
ou círculo

: essa é a tarefa
ainda que a memória
deslize
em direções

avessas – e as águas
torturem os ossos
e nós
a nós mesmos 

[23]

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O QUE DANÇAS?

Porque nasceu, um corpo não garante lugar


entre os fiadores da palavra. Às vezes,
é um canal por onde escoam as fúrias,
mas não o chamaremos de rio.
Outras vezes, é a cabeça que andará o mundo,
nem por isso a saudaremos: mãe.
Um corpo se não diz a que veio,
não nos interessa.
Ainda que resuma a noite em sol,
não vale mais que ímã para os rastros.
Porém, se erra entre vizinhos e estrangeiros
é um caniço para toda música – a cicatriz
desse corpo são os ofícios que aprende.

*
OS DENTES dizem que chegaremos em segundo,
sem direito à verde campina.
Da carne recebemos uma porção-espelho:
a que tocamos se disfarça em névoa a esconder
nossa alegria faminta.
Como se não bastasse, entre nós, a disputa
pelo anel de sangue, somos lançadas
ao escárnio que se estende, como uma pradaria,
para além da consciência: – nenhuma
de nós sente conforto em ser a madrinha
obscura de sua irmã,
mas assim é que nos esperam, antes
e depois da passagem dos rapinadores.

*

[24]

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SEM FÔLEGO não é desginação para as pernas,
não lhes é permitido serem menores
que o senhor do alto.
Embora se ralem à beira do penhasco,
é como enguias de junco que se apresentam
à porta venerável: “Se não comportam seu
próprio medo, merecem polir, uma a uma,
as presas levantadas contra os seus herdeiros.”
Não fosse o senhor do alto o senhor,
diríamos que também ele deixa
em nossa espádua os sinais do predador.
Quem ousa, no entanto?
De sua cobiça se espraia a generosidade
(que suaviza os estragos da morte)
onde os limites da planície são medidos
pelo vibração das fibras, em sua cobiça se
desaprende a agonizar na tempestade.
Sem fôlego não é designação
que as costas mereçam, nem colônia
para o envelhecimento do vermelho. Sim,
que a forma sim nos assegure domínio sobre
a relva
o pântano
a colina
e o deserto
ainda que alguns, dentre os mais rápidos,
não vejam duas vezes o pôr-do-sol.

A GUINADA sobre o inimigo se arma em um


lapso
de sua auto-confiança, isso e a arrogância
[25]

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de quem não superou um arbusto semeiam
discórdia entre os que se pensam
irmãos por terem arranhado o berço de peles
: atrelados a esse círculo vestiram-no
como paciência (ou vício)
de um domingo interminável : porém
a guinada vira o sentido antes que a saliva
enrugue a língua e cristalize o preceito
“se me dás um desastre, levarás um igual”.
: é que de uma guinada a outra toma-se gosto
pelas palavras que não
se esposam e dizem em relâmpago.

não danço esta dança nem outra em


não-erigir sobre
o totem que amadureceu a ovulação do verbo
em não-erigir sobre nada em não-erigir
se fez o destino
do enganado pelos sinais de pedra e musgo

não danço o barco
da grande tartaruga
não
o vértice do lagarto

não danço os dentes
da hiena
o fôlego antílope
a guinada da lebre
não danço

[26]

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a argila o sangue a
dança que se antecipa
ao corpo

não danço o que danço o que não danço
danço
para estupor da autoridade quem vai
ao campo não sabe se retorna no entanto
deixar-se ir é um atrito cujos
laivos ficam menos
na pele que no pensamento salvem pois

o que não dança

senhor-ninguém dos ossos e medula erro


na coreografia animal sem nome
e culto que tem o abismo por mensagem

o que não dança a pergunta “o que danças?”
escava
os calcanhares e se dança
retira das vísceras um mito zero em sintaxe


[27]

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SANGUE

ó todo ouvidos: algo foi dito


e o dito
vale o osso de nossas vidas

o pé direito rende ao homem
artérias que o
estiram além do salto

o esquerdo no que é ossatura


se dirá feminino até a
estreiteza da herança obrigá-lo
a inominar-se

sob o código
ar
vox
res
o pé direito e o esquerdo ligam
um corpo a si e aos outros
: aliança
que se dobra em mal e bem:
o corpo –
engastado à lei na tentativa
de saber onde mulher e homem
se dividem

e não há como saber se os pés


irrigados na origem
sustentam o que é ao mesmo
[28]

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tempo
pluma
e lupo

ó o todo ouvidos se esgarça


ao vento
: sua palavra seu preço

o direito não se resolve em força


(um cajado é
sem relva onde amparar-se) nem
o esquerdo em corte
(uma teia é
sem ramo onde engravidar-se)

à esquerda e à direita
os pés inventariam o acaso, rês
maior da herança
: o cajado
é corte
a teia
força

os pés têm de floresta
a negação da flor que exibem
a negação
por mérito de quem se devora

se o ancestral quis atá-los


em direito homem e esquerdo
atou-se a si mesmo, os

[29]

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pés se vestem de não
há que roer a lei
para entender a gravidez
do cajado
e a punção da teia

tudo está disposto, mas não


pousado
na planta dos pés, se a cabeça
observa

desde a cave onde a nuvem
se impõe
ao olho
não verá herança, nem
origem

nem os pés, nem o homem


nem a mulher
nem a manada
de vírgulas que os separa

ó todo ouvidos : nada foi


dito
tudo está por si (e se...)

o direito ao pé rende uma


criação de esporos – separados
são gêmeos

: homulheres são, os esporos


que vagam desde
a caverna onde se prendem
[30]

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seu umbigo sua lábia
fluem em-sexo-em-imagem
– que estrada assaltam
senão a do corpo?

os esporos fazem-no andar


sem os pés
sem a lei
que humilha o esquerdo
e o direito

tudo nos esporos dispõe-se


em falo em vulva
que além de si
modelam outros frutos

ó todo ouvidos: ó todos


o interdito
ao vento perde seu preço

[31]

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LÍNGUA

para ser eUm guardador de bois


devo sugar na língua do antecessor
os nomes (sua
fala
éab é
agniroc a
e cave
outros onde
em o
desordem passado
na se
saliva refugia)

para ser eUm vizinho do animal
e companheiro dos cascos
sem bichos que hão de cair
do céu da boca
maledicente
devo sugar na língua do antecessor
os nomes
rotsamada, o gigante
e oretul,
o que escava a raiz do verbo

se assim não for, chama o animal
pela hérnia de seu pai e diz-lhe:

– maldaram que tens sete cravos
eUm olhei e digo – tens seis
[32]

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cinco e quatro e a cada vez
menos um até que o um em zero seja

: esse o preceito vísceras a ver

como tens vivido, meu acompanhante?


– tal como tu o dirás!

ainda que faças todas as obrigações
não te darás por satisfeito.
– sabes que não.

então, escuta: era uma vez um caçador,
essa é a minha fala desta manhã.
– certamente, e de outras também.

o caçador está lá, na ria dos mortos
– nós o veremos algum dia?

talvez, mas se o encontrarem não
saberão que foi o primeiro
a erguer uma casa para os guardadores.
– esquecer é o nosso ofício.

o caçador se cansou de ir com os testículos


por toda parte,
tendo mais que alvejar as presas.
– tu o conheceste?

sim, eu vi a poeira de suas sandálias.


– com certeza, tu o vistes.

não se parecia conosco embora


a alma que somos

[33]

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nele vigiasse a contrapelo.
– como resolveste isso?

qual! por isso o nome que sou não


me pertence.
– és tão ruim quanto nós
na adivinhação.

não me desafies ou tua noiva não


dormirá contigo se eu lhe disser o medo
que tens da caverna.
– não farias isso, guardador.

por que é mentira ou por que é verdade?


– nem por uma nem por outra
tu que falas o que não falamos
não serias pequeno como nós.

tens e não tens razão, também sou pasto


para as hienas sem
que entenda se falo eu ou felam elas

HUM JAZOM
N
I
V
É
D
O
U
H T
TÀHÉDUME
U M
M À
A L
F O
Õ !

[34]

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tu vês, sem que eu lhe mostre, as hienas?
– são elas a doença
varíola?
meu acompanhante, assim te fiz
para dificultares a vida de quem nos ouve.
– são elas o flagelo?

insistes em aborrecer-nos com o dente


do óbvio:
quem não sabe que a pedra saudou
o caçador
e este a insultou: ó viajante morta, por que
não seguistes o antílope?
e a pedra se vingou dizendo: seu último
repouso será sob mim.
– que garfo é esse
em veste de palavras?

por fim sugaste sem o fazer a língua


tal como eUm
para ser guardador de bois

apalavrahiena apalavraberne

são um enigma para o vivente pelam


a cabeça e o couro a cabeça e o couro
apalavraberne se desmancha por si
mesma tanto quanto apalavrahiena
come onde não há comida onde se
alastra o deserto descansa como se
uma palavra fosse diversa da ferida
que ela inocula no couro e na cabeça

[35]

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: esse o preceito vísceras a ver

para ser eUm guardador de bois
devo passear no exílio do antecessor
baé
coringa
adamastor
lutero
nomes
que na saliva-chuva se rebelam: para
que eu sejaUm
deves perguntar-me: como tens vivido?
e prosseguires: esta
é a minha fala depois de eu muito ouvir

[36]

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SOB A RELVA

PRIMAVERA

não há pasto anterior


à vontade
boi
obedecemos ao leite
para iludir as facas

o alarido dos animais
ameaça
como se fosse o mar

*

a colisão da erva contra
o gume
assina a paisagem enxada

se o arremesso
é violento, responderá
quem parir
um filho que se invente
*

pegadas não se apagam


assumem
outro relevo mato
próximas ao erro
deduzem o que somos

*
[37]

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os modos de falar, como
os de vestir
são inacabados tatuagem

o que menos pertence


a um viajante
são as medidas
para se enrolar num pano

– a nudez de uma frase


pode encobri-lo

antes do sacrifício
o recipiente
nos interroga pedra

duro tigre à porta da noite

o alvo e a arma
estão no atirador
arco
a cada lance
um desespero

talvez para entender


a matemática
do desejo

*
[38]

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o boi não está a salvo
dos assaltantes, nós
linha
muito menos, quando
viramos a terra
pelo avesso – levarão
nossa enxada

a barbela do medo

o mato onde pisam


é sua tatuagem
de azar

– atirada ontem
a pedra dos mortos
procura descanso

azar aos que esticaram


o arco dos mortos

INVERNO

sangrar no pescoço, do contrário abre-se um canal


à navegação dos mortos. serão muitos a se roer: as
mães pelos filhos entregues às

noras, os pais por tudo que fizeram a si mesmos.


serão muitos, reconhecidos pelas insígnias que não
impedem o inimigo de

[39]

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comer à cabeceira. serão tantos a decidir o campo
onde abandonar os rebanhos. sangrar os que montam
o interrogatório e se dizem

senhores do fêmur. embora não estejam mortos,


rosnam exigências em longas filas. sangrar para que
os pêlos não sirvam de

convite aos mortos e aos que assim se entendem.


ambos reclamam ao invés de tirarem seus animais da
chuva. se o verde

eriça suas órbitas, esperam alguém para salvá-los.


ainda que não pesem, os mortos estremecem a casa e
fendem no quintal

sinais ameaçadores. são os primeiros a defecar e os


únicos com direito aos ombros dos parentes: os
mortos têm

uma legião deles, confiantes de que, uma vez mortos,


apreciarão melhor o casco e o cavalo. os mortos se
aquecem à sombra

das grávidas, mas não dividem seu conforto. os


mortos de mau humor os mortos a quem se oferece
galo e centeio não

tiram da chuva os irmãos. os mortos em sua morte


não se arriscam ao fogo sangrar no pescoço a
palavra ritual

[40]

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em hon ra ao gesto que não se
fixa no sacrifício: cada um do
alto de sua sede deseja o que
v a i d e n t r o d a

p
a
l
a
v
r
a

não se most ra nos mortos n


ão se move nos hábit os e nos
habita sangrar até onde a lí
ngua não se endivide e nenhu
m sa l a m e a c e o corpo sang
rar sem q u e o t a t o se r e
vele o que foi aceito antes
emnomedosmortossobacusaçãodosmortospara
odelíriodosmortosresolvidosemsuasmortes não
tangia o vazio que faz um pe
n s a m e n t o ser o que é
via-se o véu m a s
não o músculo da idéia em
lago sem marcas s a n g r a r no
pescoço a ausência da palavr
a sangrar o galo e o dia s
angrar as armas de vergonha
salvar a gula d a
palavra emhonra
ao gesto que não se sacrifica

[41]

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NO TEMPO, O DOS

que sol é? indagam prevendo o sopro


que emenda
uma frase à outra. a distância forja
o parentesco,
leopardo e fome sob a árvore.

que sol é? dizem os que veem nos ossos


a carroça
do espírito e ajustam-na antes
de atravessarem a planície
da memória.

que sol é? reconhecem a morte, com ela


o estio
e a pele em nenhum altar, com
ela a surdez
e o medo. fora de si, aceitam

a derrota e se parecem a tudo que


recusaram em dias
de solenidade. por isso, dizem, um
corpo
ao longe é a dúvida

que sabemos siamesa. ele estira


o sentido das
leis para descobrir a pluma
no cactus.
: o mesmo (nós, os de inscrições
[42]

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feitas no berço) e o outro = ao m
esmo
o outro (qvorpo ao longe) e o mesmo
= ao
outro

por que, então cercar a floresta? as ruas


do bairro?
indagam o leopardo e a fome.
a distância a ser
vencida entre eles

mede-se em rixas, as que sobram


na despensa
e ruflam a poeira em benefício
da prole. o selo
“que sol é?” admitem, é o que lhes

resta, depois de soarem lado a lado e se


despedirem
estranhos. em suas carroças,
cada um
se arrisca na planície.

[43]

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EXCELÊNCIA

PARA UM REI

a palavra acirra
sua foice
para a cabeça é um corte
de cabelo

mas e a vida, depois


do golpe?

o nome que me faz é o chamado de um


outro em sílabas
a explicação do esqueleto
– embora as portas sejam altas, me dobro
ao entrar no templo
e as ferpas me esgarçam o manto

a voz mudou escasso, o que move o corpo,


sim me espanta
se esgueira atrás das retinas e à noite
sabe do céu o inferno

por mérito, não me entregariam o clã


não sou de elucidar o herpes
e a mudez há muito não é meu idioma
a clarividência
com que um velho sutura um nervo
exilou-se do meu alforje
o esqueleto, porém, recupera sua memória
e escava em mim a orfandade
[44]

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terra que nos cerca à noite
irmãos da noite
terra que morde engole
sem crispar
terra corpo insone
terra sem os velhos que são
o arado e o boi
terra mastro
que deita sem cupins
terra de marinheiros, seu pai
onde está?
sua mãe, onde está?
quem risca suas costas?
terra pai-mãe de si
rua para um terno marchar
ao fim do mundo
suas filhas não são as mulheres
nem a morte
o marinheiro sem companhia
senta à sua porta
terra de frutos podres, espírito
do frio
e do quarto sagrado
terra
que afugenta a cerração
do charco
árvore sem cortiça
coroa sem altura, espírito
da terra sangue
escuta minha voz: um homem
invoca sua ira
sem medo

[45]

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a tecedeira fiou caçulas e vassaulis
os carapuças os cariris
chora no calunga muito lonjá
chora patangome muito longe
chora tata odila muito longe
chora na poeira muito lonjá
chora na ingoma muito longe
chora o coroado muito longe
essa coroa
não é minha, luzia, de quem
será?
meu latim minha espada meu cutelo
nada não é
meu é de quem será?
eu me chamo morador desse lugar
que é dos meus?
e da língua no sereno?
o que não é mandou aviso “se a mão
arruinou o conjó
é que a testa assistia noutro sítio”

temendo-me da morte por ignorar


o dia em que possa dar serviços
de minhas ordens
e desordens
bandeiras e andanças
pedi saúde,
ela não veio muito lonjá
pedi sentido
ele não veio muito lonjá
pedi à teia que salva a aranha
ela não veio muito longe
no campo santo me despeço: será?

[46]

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o país é uma orca
em desordem
em toda parte uma
hidra ameaça

mas se você dançasse
com os antílopes

o estandarte alerta o bloco está na rua


– vá de retro a polícia
e seus missais: queres comer o sal
do eterno?
o bloco está na rua cosido pelos não
comedores de sal
os que se abstêm para ganhar
a lide dos espíritos

o bloco avança da margem


para a missão francesa e o piano
a vendeta cravou-se no ilíaco, depois
da esquiva sua ponta nos conhece

não há negociação
se um prego desabriga o escaravelho
e uma fenda esculpe as paredes
não há como alargar os grãos
para a miséria passar
a vendeta quebrou o estandarte,
já se alcança a ferida que habitamos

a morte
acirra a foice
onde a cabeça entende
um corte

[47]

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a vida emenda
a costura

o homem deitado é uma paisagem


quase húmus, porém,
circunda o abismo da infância

calunga pequeno não


é
seu irmão mas
quando morde, sim

morde os que vivem
na ilha de pele
os que feridos no morto
se querem vivos
com ele

o homem deitado dá-se à lembrança
do movimento a uma roda a
um
silvo
à noite em seus galopes enfim
à Hora o esqueleto monta um estandarte
mal se divisa onde os ossos são palavra
– teu juízo é tua sorte?
– sim e não, não e sim.
– tua sina é sabida?
– não e sim, sim e não.
– teu legado se adivinha?
– .................................
– nesse interrogatório
de mortos é justo
[48]

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que não sejas tu nem
outro
diante dos sete erros.
– não e sim, sim e não.
– é justo que em raiva
adoeças
o juízo e o percas para
tua graça
tua única obrigação
a depositar-se em arca
nenhuma

o nome que não ressoa é messe de família


em sangue e ausência
o que todos agora seguem é menos árvore
menos goiva menos torsão
já não tange embora tinja no giz
um menos que é não menor

PARA UMA RAINHA

nos confins do mato nada se move


– aí, onde besouros soterram exércitos –
a mulher pediu ao senhor pelos gêmeos
e à relva um deslize na vigilância
pediu que ao virem-na
não se atrevessem a perguntar:
– o seu teto é largo para três polias?
o par de calças que a sustenta não se cansará
dos giros a mais que fará no moinho?
ela rogou até o mato desordenar-se em

[49]

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fogo água
tijolo nuvem
fio da lei lâmina-lua
falo concha
captura amizade
da fera

os gêmeos tocaram seu ar de noturna


que abre os olhos onde a carne não habita
– minha mãe calunga, lungara, minha mãe
eu passei por aqui, eu passo bem

sobre a leira de sua bondade a sua raiva


uma e outra a se revelar conforme os cães
deixados à entrada da vila
para esses, sua envergadura, seu manjar
de fomes feito

agora que sua linha se mudou da palmeira
para o rio
e se estende como a juta e o linho
agora que o espírito da relva adormeceu
e seu marido baixou por terra o boi vermelho
e sua mão afaga o que anunciara
agora, mãe
o animal de morte pousa em nossa porta
ri contra a linguagem e o fogo

a orfandade faz o sexo na eleição do seixo


a ser dividido
: o de membro esguio vai à guerra de sangue
a que se umedece semeia
não coincidem uma única vez, mãe, desde
[50]

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que o sonho
os exilou de seu ventre lá, sem que
entendêssemos o sim e o não
o alto e o
baixo
a sinalaram para as colisões do círculo
a>o
o>a

mai > pãe


pãe > mai

vivos mortos
filha filho
mortos vivos

pai

mãe

ó, mãe, sem ferramentas, como ver os objetos?


– eu: faca no entorno da presa
sem medida, como alcançar o inverno?
– eu: passo dos vivos e dos mortos
sem aspereza, como proteger o fruto?
– eu: aliciada em litígio
O QUE SABEIS NÃO SALTA ALÉM DE MINHA SUPERFÍCIE
NEM VIGE
POR SI EM MIM A
CURVA SE ACENTUA E LONGE DE SER ALBERGUE EM IN
CESTO SE ORDENA E APUNHALA E SE NUTRE DO
ESQUECIMENTO O MAPA
CALOROSO DO MUNDO NÃO É SENÃO UMA CARCAÇA

Útero. Berço ao avesso.
Linhagem-do-poisson
noir /água/ luogho
di niente. Úbere vermelho.
Estreita os deltas.
[51]

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Comadressilva. Réquiem.
A lei-obesa na íris.
Move a pluma, rumores.
Chiara, assina a morte.
Salva o erro, ocidente ermo.
Duplo a. Círculo.
Hera em chamas – tez.
Dança à raiz do cóccix.
“Viva, diz vivá”: o silêncio.
Fere. Esconjura. Desarma.
Péla o que há por dentro
como se o pomo fosse
a fera: dentes & ganas.
Berço ao avesso. Poisson
de la mort. Ígneo.
Signo em palo fêmea.
Risco. Manhã. Dilúvio.

teu velo SOY UN HILO S
guarda o Pai a Espera IN DIRECCIÓN

passado p PERÒ IO NON TECIDO JUNT


ara termos SONO FIGLIA O ÀS HIENAS
um futuro

............................................................................. O QUE SABEIS, EN


FIM
TEM A SERVENTIA DE UM ARADO NO DESERTO
EU SENHORA DOS CONFINS TALUDE E SEMENTEIRA
CALECHE E FUNDA INHORINHÁ MORADORA DE CASAS
SITAS NA RUA QUE VAI DA IGREJA MATRIZ AO LABIRINTO
COM SEU QUINTAL E AVES E MAIS
PERTENCES EU PRATO E MORINGA A QUE PURIFICA
AS DEZ CAMAS ENLEADAS EM COLCHAS DE DAMASCO

[52]

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A QUE REFAZ EM TABATINGA O BRANCO DOS MOLARES
EU FISGO
URNA EM FLOR

ó, mãe, cuja voz pediu ao senhor pelos gêmeos
e trespassou a noite, seu deserto nos fecunda
ainda
que a relva nos tome seu corpo, não seremos
cães fora da vila não
seremos cardos
seu teto é largo para cem cabeças seus grandes
lábios atemorizam
a sede ó, mãe, que nos captura
não seremos arrieiros de sua ausência

ó, mãe, cuja voz pediu ao senhor pelos


grandes lábios e trespassou a relva, sua noite
nos fecunda
ainda que o deserto nos tome seu teto, não
seremos cães fora da vila
não seremos sua corda
seu corpo é largo para a ausência seus gêmeos
atemorizam o senhor ó, mãe,
que nos deserda não seremos sua sede

PARA UM RECÉM-NASCIDO

os que nasceram para morrer não


se desesperam com as rixas a devorar quem
conhece um lado da floresta

as diferenças da floresta não importam,


o que esperamos, sim, nos obriga a sermos
flamingo ou escarpa

[53]

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os que nasceram para morrer não
se esmeram em ser ave ou abismo, não é sua
a natureza da escolha

é preciso noção de bem e mal e prezar


o desgosto para reduzir o mundo ao verde
e maduro como sinais de delícia

os que nasceram para morrer


se divertem a macerar com os dentes de leite
o ventre materno do pai

sua violência não rompe o círculo


e quem os visita senta-se à sombra para
as discussões, os que

nasceram para morrer raptam o pente


que defende as esposas, porque em casa,
o doente pede roupas ao domingo

os dias de graça são longos, o estrepe


que envergonha o noivo se deixa enredar
pelas unhas da paciência

os que nasceram para morrer rodeiam


o alvo para doá-lo à família,
num golpe se estatelam e acirram os cílios

são um louva-a-deus que oferta a cicatriz


da juventude, os que nasceram para morrer
têm a bondade de abrir um pássaro

[54]

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para compreendermos os destinos que
o habitavam, são defendidos os que nasceram
para morrer

em seu gozo são livres, embora roídos


pelas cidades, os que nasceram para morrer
não se desesperam com as preces

não se culpam, quando regressam


em branco vermelho e plantamos seu
umbigo sob a árvore-mãe

os que nasceram para morrer ficam à mesa


por educação, a fome não os aborrece
por educação se inclinam às coisas

que lhes dizemos, se o corpo é o seu manto


não cabem no quarto de hóspedes
os que nasceram para morrer

[55]

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QUE CIDADE LINDA
: sob o arco-íris

saudação

vermelho, a terra,
vermelho.
vermelho com seus olhos,
vermelho.
vermelho com sua língua,
vermelho.

venho de passagem franca,


vírgula não me deixou passar
venho de passagem,
vírgula,
eu passo, eu passo, eu passo

Palavra me alucina.
Raiando em mim não ao que
me pertence. Usá-la deixa falar

depois que a boca


aprende a dizer nada.

1

Cabelo, um pega e dá de
comer à vista. Eu o aprecio
como um segredo. aos que olham
e nada vêem

[56]

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Me esmero no ofício
para não arruinar o corte.
Nem assim debelo o perigo.

Um ali, os modos que


foram mel. Agora
são conchas na areia.

No rádio a canção faz


gelar o espírito. Vem pela
tarde um selo de

sete feras. Se deus não erra


outra mão erra por ele.
E vira boxe na cozinha

o que era festa. Um tiro,


outra miséria. Tudo notícia
nessa porta onde o senhor

sua vez espera.


O músico ensaia
com a tesoura no ventre.

Peça de nem imaginar.


O que toca é não-jazz,
só rancor, um estrepe

que se alia à ferrugem


e a gente dá conta
depois. Há três na fila,

[57]

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parece que o corte
príncipe danilo voltou.
A noite desceu polícia,

no rastro dela o crime.


Difícil saber onde o céo
sobrevive em metileno.

Um orfeu desfila na
escola de primeiro grau.
Escreve para não

arruinar o tino. O esse


cabelo que televisão.

2

O menino jorge voa.


Três águas nos altares a esquerda
da casa: meia-noite

sirene silêncio nos vestidos.
Sob a cútis uma chave.
Na televisão do cabelo

o que passa dança


como se a porta-estandarte
nunca dormisse.

O que era branco preto


bebe por uma flor onde
respira o vermelho.

[58]

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Está no canto, podemos
tocá-lo enquanto pare.
Vai se abrir o selo,

outro mais transparente


oculta sua presença.
Do mar chega um aviso,

das matas e ruas


um sereno que espreita.
Parece um ônibus

que a gente tomasse.


Em sua rota: proibido.

Essa é uma Casa.


Pelo invisível que templo-cidadela
a cerca, quando se abre.

Os signos são diálogos


para aquele que reza.
Vê-se por uma casa

na entrada (e por outras


que fazem a Casa)
onde tudo começa.

Uma casa-barco
com peixes e, além, um
dicionário de matos

[59]

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para quem lê as ervas,
recados e nuvens.
Noutra sala de ouros

um se move, sua cabeça


é todo armazém.
Para o que tem garfos

essa bilha de prata


e cigarros. Para ela
que são elas, os álcoois,

unhas e ocres. Aos que


fascinam flechas, as noites.
Nessa Casa vemos

os rios como espelhos.


Pela cal das paredes
fala o silêncio dos raios.

É quando a Casa arde.


Pelas suas orelhas
entram palavras facas.

Rixas de outro mundo


nesse ganham fotos.
A Casa quase aderna

mas não vira, que navio


é e se basta. Dá-se
o preceito, o alarme

[60]

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e os habitantes da Casa
lêem o livro de horas.
Se chega um, de carro

ou trazido pelas pernas,


– esse a quem matam
gira nova a sua estrela.

4

a decifrar e os que
designam descem o rio os designados
de uma só beira

céu branco terra negra


cabaças brancas: dois em
um à beira-mar, os

designados se enganam
à flor do gume, eriçam
à porta da Casa

os que designam
o vermelho sobre
o vermelho, clara

mensagem nascosta
furam a cabeça
do escuro, os

designados e os que de-
signam
fluem em branco preto
[61]

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e vermelho: os três
sangues que soam em
todos os corpos, a eles,

os corpos, se aguça
com pedras de toque
: o feminino à esquerda,

o masculino à
direita: os corpos, porém
escarnecem desse

enigma (se à direita


fere o falo, se o branco é
do homem que

fazer do cosmo
que a mãe verte em
seios poros?)

....................... os de-
signados
riem dos desígnios

............... os que de-


signam
se despem com eles

os de-
signados e os que de-
signam

[62]

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são pássaros fora
da árvore, têm destino
a morte é sua

graça – a quem
se doam, em três noites
sob o lençol viscoso

Eles têm suas vestes,


não podem sair a passeio. os que têm
Fazem nossas costelas corpo
sem o ter
avenidas de seus desfiles.
Tomam de um tudo
como se o desespero

valesse um centavo.
E a miséria, quando risse,
um minuto. Eles

são o calcanhar
do medo. Não há mãe
ou rico com o seu gado

que deixe leves


os senhores desse teto.

Que cidade linda
habitam sem a carne.
Se a gente vai entrando,

[63]

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sem bagagens,
vê que fazem os desfiles
no todo vazio espaço.

Tendo nós as costelas,


queremos aparecer
em seus bailes.

Para coser os afazeres


dessa e da outra margem.

6

Ter o vizinho ao alcance


dos olhos é de matar. os que lutam
Se o vigio sei os perigos entre si

em sua caixa de linhas.


Ele, que se defende,
deita ao léo meu alguidar.

Quando o filho preferido


respira, só os ausentes
movem as línguas.

Tudo mesuras, o que rende


um jardim de ciúmes.
Se a gente falasse menos

talvez se entendesse mais.


Isso para quem usa verbos.
E para nós que dizemos

[64]

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sem casar as letras? e as
palavras que não-ditas
fazem dançar como se

música? No país da Casa


o mar que desafia
é tão longe quanto perto.

Das desavenças fica


um silêncio de cambraia.

O que não tem corpo


em mim me ensina. as folhas
Saberei, se esquecer, amargas

o que vi por seus olhos.


Em reportagens diárias
devo dizer sem dizer:

não morre um morto.


Mais que isso, nada,
se não quem paga

é meu corpo. O que não


tem corpo cultiva
sarças para uns. Para

outros, tisana, desenredo.


O que não tem corpo
trabalha no zero.

[65]

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8

Falamos metade Padi.


O mais são ilhas. a senhora
E feiras onde o tecido, de muitos
nomes
como o seu nome,
muda sem ter preços.
Não rimos, se você ri.

Seus dentes parecem


o que deus saberia,
se não fosse homem.

Uns vêem sua raiva.


Outra, sendo filha,
dispersa os lenços

na terra onde pisa.


Deu meia-noite, meio
lume flutua na Casa.

O que é movimento
ainda uma vez age.
Mais que a palavra

vale o não-dito.Um
perfume, o buquê que
o dia seguinte verá

surgir na esquina.
Uma quer suas saias.
Outro, sendo filho,
[66]

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estremece o sangue.
Mais gira a dália
entre paredes, mais gira

a Casa
em seu vermelho.

saudação

o vermelho
negro em sua urbe
o vermelho
branco em sua nave
o vermelho
vivo não pode ceder
o vermelho

eu-rei-tubarão: o branco
furta-cor
eu-rei-das-léguas
um de duas penas
não pode em minha cabeça

Palavra me elucida.
Saindo de mim não ao que
me pertence. Usá-la deixou falar

depois que a boca


disse e não disse nada.

[67]

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OCONJÓ

esse o nome que vinga, antes de as coisas


se emprestarem ao nosso
conhecimento: o Ausente, onde
árvore motor e as formas não

previstas são variações de ser humano.
na lama, o automóvel e o tronco,
ou seriam braços na tentativa de
içá-lo palmo a palmo?

o Ausente, não sendo, nos obriga a per-


corrê-lo. há-horas nesse desastre,
difícil saber se nos batemos
com a terra ou a chuva.

talvez não seja contra nenhum deles,


pois de tanto rejeitá-los os nervos
esposaram a terra alagada.
o pensamento, todavia, não.

por que a várzea nas unhas da montanha?


se ao menos a lavrassem,
os aguapés continuam sua rede
sem nada que os demova.

se um de nós não temesse o remorso,


cruzava em outra parte. houve
comitiva aprisionada dias nessa pas-
sagem: mal se avistava na
[68]

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montaria o homem. quando do resgate, os
salvos não queriam outra sorte,
tomaram gosto pela metamorfose –
um

cavalo sendo a estrada, um comerciante


a sua
mercadoria – qual? nesse
deserto somos tu eu a máquina e

a chuva que passará em breve. nasci por


aqui, me instruí da relva tanto
quanto o permitido. se
bandeei, como ajustaram

de me acusar, não significa que perdi


o faro. então, por que
não diviso se as horas nesse
encalhe, que eram duas, serão

tais ou mais? o que sei é nada ante a lama
que nos trava? não, esse é
tão somente um lugar feito de
mim o tio e uma

lataria que se habituou a romper esse


continente. pelo menear
da cabeça sei o tio não me escuta.
ao se ocupar de mim, agora,

era como se refizesse minha partida
(vendo-o pela janela do ônibus,
parecia menos um deles,
sem a economia nos gestos.
[69]

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– não explique o tempo por encargos –
rezava. eu era todo-ouvido
ao que ele diria, se pudesse mais,
enquanto o ônibus, ao mover-se,

lhe devolvia e a tudo a escassez.


fundo e seco, tocamos o poço,
apesar de a paisagem
chover dezembros). melhor

voltarmos ao serro, tio. não, sua mãe


não tolera. enquanto perdeu três
dos irmãos ela se negou a
roer a vontade. mas desandou,

o truco está ao avesso, com a morte do


menor. veja, a ajuda vem.
não sei se deslindo a regra
dos vivos e mortos ou se tento

reconhecer, no nevoeiro, o auxílio


de outro espessor humano. antes
que me decida, os bois
cravam os cascos, estirando a

corda: a máquina emerge colada aos


animais. algum dia, essa
fúria me invade. por ora, somos
corpo em água, sem a

iluminação do sexo ou da flor. queremos


nos redimir da inércia,
pois em cada passo que nos leva
do lodaçal à terra firme
[70]

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matura o enigma. não somos os únicos
a fazer tal esforço, alguém
mais espreita esse rito
e se prende a nós e nos liberta.

o Ausente não é lugar para fincar raízes,


tudo convida aos saltos,
às terras baixas, à extensão agulha
dos vales.

uma direção para os braços abertos, outra


para as pernas, menos em
formação de cruz, mais em apelo
de vela num oceano

que a custo se apartou de nós. não por


acaso, setembro ganha plumas que
outro período não merece.
troca-se os afazeres de semear

vigiar colher por lides da marinhagem: os


mestres rodeiam a igreja – barca
nova sete mares. estamos lá, anuncia
o tio patriarca:

– ê, o de areias ferido.
– o de fortaleza, olá.
– de onde vieste?
– dos mercados tais e tais.
– que trouxestes?
– água de um vaso extremo.
– que ofício tens?

[71]

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– riscar notícias
no corpo das tartarugas
– quantos dias a viagem?
– vinte e cinco e meio.
– grande rastreador,
círio dos arredores,
dizei o que fazem os ossos
de um seu navio no mar.
– sou um de terra em
marujo parecido, não há
rastro, só distância que barco
nenhum vai alcançar
– sê bem-vindo às quintas
dessa vária gente,
uns de ré, outros de pé
em seu mirante.

não há vento, nem caronte, nem polícia,
o que vier de norte ou de açoite, não
toca essa bandeira – o tio
patriarca anuncia.

quando chegar a sem nome, ele deixa o


branco de garça encimado por um
quepe
e desiste de seus arquejos.

apesar dos chamados do mundo, as saídas


da família quebravam no
indaiá, se fosse ousadia grande,
no serro. os meninos buliam

[72]

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à espera da reação que eu trazia na ponta:
– quando eu me for, não serei
do Ausente, estarei
à deriva. o que tivesse à mão

me servia de arma, num ringue desigual:


o raio contra mim. de início,
intervinha alguém, mas
em face do confronto seguinte,

desistia. os colegas, se cansaram, não
das provocações mas
da insistência em minha resposta:
nunca serei o Ausente.

noites a fio, a recusa da origem descom-


punha em mim o filho.
quanto à mãe, arranhava-me a porta
do quarto e a

manhã advertia-me com os seus sinais.


na primeira vez uma árvore,
depois a mesma em esqueleto.
nos desafiamos até que às

vésperas de minha partida um pássaro


grifou a porta, uma cabeça
voltada para frente e a outra
para trás. não nos falamos, nem

carecia: a guerra enlouquece, nos tira


de nós mesmos. de repente, tudo
isso irrompe do
calabouço, juntamente com
[73]

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o fusca içado pelos chifres. já não é
a máquina
que extraímos do palude.
o tio me interroga, à maneira

deles, com a dobra no canto da boca.
– não é pelo tio menor que vieste.
não é, e não poderia. o des-
acordo era nosso acordo: nas

vezes em que viajamos à outra margem
da montanha,
não fiamos com a mesma
linha. eu apreciava o salto deste

Ausente ao outro, onde a família decidia


como errar os
dias. festa é o que havia neles,
enquanto nós guardávamos

para setembro o desprendimento. com


vocês ficaram as obrigações,
eles diziam. o tio, nesse
instante, estreitava

os ombros, saltando na garupa e já nos


víamos, os dois,
no caminho de volta. de raiva,
eu pressionava os

calcanhares na ilharga do cavalo e riscava


no coração uma febre que
só aos dez anos se tem.
por que
[74]

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viria por ele? jamais o auferi em carne
e osso. se eu entrasse em casa
de mãe e o visse
enredado no canto de sentinelas,

não o saudaria. as viagens ao outro


lado da montanha
não eram para contato com a gente,
se fossem

teríamos como reparar na comida e no


gracejo, na fissura
que torcia as paredes na direção
do vento.

não eram viagens para encontrar os


enviezados no sangue.
– os parentes?
isso punge, em família, quando

alguém se alista entre os iguais, mas


sendo um-outro
tece
pela dispersão os seus liames.

[75]

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NUMA PAISAGEM, OUTRA

o unguento e, às vezes,
a colônia de morte,
sangram através do pensamento, lâmina
que toca a jugular

se animal em pêlo, se apenas


recipiente,
quem saberá? enquanto se esgueiram
refazem os modos de si

alguém que os interpreta


há muito não goza de confiança
por isso, os gritos
com que intenta mover as pedras

quem contesta o descendente


e as razões
que o fazem irmão da gazela
inimigo da febre?

não seremos nós, os que portam


a camisa sem idiomas,
nem as mulheres
a quem reservam o teto da casa
e nenhuma epígrafe

a contestação faz-se por si mesma


a jugular não se entrega ao braço
que desfere o golpe
e se esgota nesse gesto
[76]

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não, o sacrifício não está no mel
que incendeia, de tempos em tempos,
a viagem dos parentes

as ondas que mudam por si mesmas


disseram adeus às certezas,
nós ainda não
(pelo menos aqueles que se julgam
primos dos primeiros)

como nos enfrentaremos sob a ordem


que tropeça?
mil sendas se abrem e a seiva do pai,
como o recém-nascido,
se perdeu num corpo maior

ninguém está lá, a não ser


quem te conhece e estranha, não
o chame de irmão,
não espere entendimento se ele fizer
um círculo na areia

não há cortes que expliquem


a paisagem anterior, nem a sombra, amanhã,
nos caules

o que se espraia da jugular


é um labirinto que conduz a outro e se algum
vestígio resta
é para dizer seu afastamento da origem

[77]

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as leituras faliram
se o descendente insiste,
rasga os seres para os quais não temos
saúde

nesse deserto de alegrias, a herança


é o animal que saqueia o verbo
antes do sacrifício

[78]

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LES HOMMES-BÊTES
(notas para um etnógrafo)

rito de nascimento:
o ramo de ouro
as minas de prata

apesar do autor, o texto se arrisca para não


colher enxertos à sua margem. o texto seta
não funda colmeias nem países (com
adjetivos), desarma o lacre e a fábrica de
belas artes. para quem não basta o miolo ou
a carcaça, o texto sugere o alarido da ostra

rito de iniciação:
o ramo de ouro
as manias do rapto

apesar do texto, o autor contém a ira ante


um mercado de erros. lê como se extraísse
a casca de um orifício. (sem armas) o autor
se arma ainda que a função não o obrigue:
estão fartas as peças que imprimem letras,
embora autor e texto insistam no marco
zero de suas medidas

[79]

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3

rito de fertilidade:
o ramo de ouro
as moedas no caixa

apesar da escrita ou qualquer suporte, autor


& texto suportam a linguagem e a língua.
se algum desvio torce-lhes a superfície,
autor & texto veem aí as coisas e dizê-las
(em palavra som imagem corpo) é uma
questão entre outras. autor & texto
negociam o abismo ou melhor: a montagem
para trazê-lo às retinas

rito de puberdade:
o ramo de ouro
a miríade falsa

apesar do leitor, autor e texto deflagram as


cápsulas do sentido. as máscaras do leitor
têm na luta o sinal de boa vontade, suas
garras vão ao texto como dardos à fruta: o
que mordem não é carne, mas o que estando
ausente se fere ainda mais. diante do leitor
não há caixa-forte: se a forjassem, autor e
texto fariam (quando muito) uma chave às
avessas

[80]

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5

rito fúnebre:
o ramo de ouro
os foles da palavra

apesar dos pesares, autor e texto atiçam as


hélices como se um – por não ser linha-
gem sem o outro – expirasse à beira do livro
(objeto para não conter guelras nem
acidentes). nome que se desse ao texto e
seu autor não faria o livro nem a pági-
na de rosto com que este nos ilude: para o
autor e o texto, a memória é um imposto
que se cobra a si mesmo

[81]

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passagem do meio

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t o t e m z a u m

N
j a z z
a
m
b
i
n
G
O
m
a
N
sendo o que não foi or
phe(x)u afia o gume d
a mudança ¿qué debem
os esperar de su cabeza?
n ã o sendo escrito nem
falado o r p h e (x) u
se interessa pelo sexo
da língua e não vindo
devassa la mémoire shi
ps deaths words são os
c a v a l o s de
o r p h e ( x ) u
: s E u corpo estrangeiro

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CEMITÉRIO MARINHO

CENA 1

: embarcados, como
avaliar a tempestade

não é fora que a lâmina


arruína, mas
nas veias

o grito (lagarto que


os dias emagrecem)
insulta a diversão
do escorbuto

onde uma perna


outra
lista de mercadorias
que valessem
peça
por
peça

nesse cômodo
mal se tira a costela
e a morte instala sua
força tarefa

[87]

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no vermelho da hora
um baque
outro
espanto, deveras

o corpo
– o que expõe em mulher
ou guelra
exasperado?

: embarcados, às vezes
nos desembarcam

antes da ilha, em meio
às ondas
como sacos de aniagem

entregues ao calunga
grande, o que resta?
uma
cilada, outro revés?

à
superfície um brigue
é
o
que
é

faca alisando a bandeira


do mar país
sem continente
garden of the world

[88]

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mas
o
que
ele
arrota
assombra-nos

: na praia, desembarcados
teremos de volta
as pernas os braços
a cabeça
os rios
os crimes
a ira
os lapsos
as línguas
a guerra
a teia
o horror
a trégua

o camaleão
no céu
a tempestade?

CENA 2

uma ponte de ossos


submersa
eis o que somos –

[89]

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além-abismo a sigla
em gesso
se esculpe e nela
habitam, sob musgo,
la vieja le bleu

o atirado aos tubarões


que,
devido à calmaria,
flutou com a barriga
em luto
por meia hora
o rosto
perto do navio dentro
dos rostos em fuga

o rosto
esverdeado como um
fruto-memória
um braço
estendido além
de seus nervos

eis o que somos – apesar
do abismo e sua colônia
de entalhes

apesar do abismo onde


a forma informe (a
linguagem)
nos experimenta

[90]

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CENA 3

um velho repõe a cólera


não pela intenção
de roubar o sono aos peixes

ou porque uma raia


crispou o coral e sua memória
se esgarçou

– os tendões, uma
vez descolados, acusam
a história

entre essa e a outra


margem do oceano, cabeças
rolaram mas

continuam presas à orelha


dos livros

se um velho pretende dizer


quem as perdeu
deve se postar na beira

o mar à sua frente


sem nada a recuperar, senão
o exílio

CENA 4

o ventre materno
nave
se atreve nas ondas
[91]

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não porque os filhos
o pensem umbigo
fora
do alvo

o ventre erra
na tempestade, embora
costure os portos
da noite

o que leva dentro
se move
mais que a nuvem
& o comércio

sobre as águas
esse navio
norte de outro norte

mas
traído, o ventre
se inventa
presídio-liberdade

a cabeça (quem
a tiver gire
além do próprio
eixo)
é o bólido

o que somos
vem de um
enigma
tirado aos peixes
[92]

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de um corpo
além
das chagas

o ventre materno
nave
esgrime na água

e o que esculpe
excede
ao seu trabalho

: na pele
nenhum risco
que tire desse
corpo o equilíbrio

o ventre materno
diário
rasura a inscrição
de si mesmo

na águas em que
submerge
ressoa, estala
se ergue

– a ele, por isso


saúdam as cabeças

[93]

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CENA 5

a linguagem espolia o museu
de história natural

nem tudo o que ressoa
é som
a palavra ainda menos

se a diamba espuma
a noite
não é que o morto viajará

o pássaro limpa
os dentes do hipopótamo
nem por isso
vão juntos à reza

a grande árvore freme


mas não é
com a chuva que se deita

a linguagem se joga
no oceano – para desespero
da memória
que se quer museu de tudo

CENA 6

a primeira loja (de carnes:


termo usual
para quem perdera

[94]

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o domínio
de sua violência)

imitava o inferno
em curvas: trezentos
nascidos para morrer
acenando em azul
e branco
ao país das demências

trezentos entre os seis


e treze
anos apartados do jogo
: uns meninos
outros, meninas
em fila sob trinta e três
graus

no inferno, o azul
o branco, trezentas vezes
lesado,
se esgueira do assédio
de sua fila, cada
um respira no olvido

trezentos zeros a trinta


e três graus
crepitam na grama: extinto
o negócio,
não se bastam, em flor
em farpa oxidam

[95]

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CENA 7

recusado, esse

lugar
é o soldo que reduziu
o mar a duas braças

em 110 metros
quadrados
redondos em febre
e assombro

dormem (não como


deveriam)
seis mil cento e dezenove
almas

: as pupilas golpeadas
no mar cevam
um dia
que não se esgota

de óbito em óbito
o horror assunta os vivos
corta-lhes
herança e umbigo

de óbito em óbito
os sem irmandade ou
crédito
se escrevem à esquerda

[96]

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de óbito em óbito
navio e continente são
um
mesmo ancoradouro

de óbito em óbito
se calcula a história como
se ao apagá-la
ela se fizesse nova

nesse lugar
de esconjuros a juros
a nudez acossa
o oficial de ossos

a linguagem, corpo
indefeso, cola-se à laje
suas entranhas são
um caniço

e ainda que o silêncio


a ancore suona
: os que morreram antes
de se tornarem

outros foram lançados


a essa barca noturna
sem nome
tirados ao sangue

não pertencem ao hades


olimpo
de nenhuma ordem
são outros além-outros
[97]

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que engolem a língua
para regressar
à primeira queda
do rio

que temem perder
a cabeça
e sem ela o rastro anterior
ao chão

esse
lugar recusado
invernou sob arcas
e contrapesos

sob alucinações
e mercadorias alheias
ao seu comércio
sobre tal

cemitério
se atulharam
o descuido letras de câmbio
e tumultos

o que fazer, porém
dos espólios
recuperados no golpe
de uma pá?

são os aptos
no manuseio da
equipagem: os mortos
de quem o navio
[98]

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não partiu, os mortos
tatuados
na cal, os de sempre
que teriam

movido arcos e tinas


comprado & vendido
suas posses
e a si mesmos

os mortos descalços, os
emudecidos
os surdos a qualquer
sentinela

lá vem a barra do dia


topar co’as ondas
do mar

os vermelhos e suas
orquídeas
saídas no flanco
esquerdo

sua terra é diferente


vá m
orar no campo santo

os mortos que não


viram a cidade
as lianas
mortas, as mortas

[99]

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lá vem a barra do dia
sem as ondas do mar
de vigo

o que fazer desses
rendidos
na praia, de suas
valises

com nada por dentro?


de seu esqueleto
convertido em
flauta lá vem a barra

do dia topar co’as ondas


do mar de sua
cólera enrugando
a manhã?

[100]

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PORTRAIT DE FAMILLE

pela escarificação no rosto


cada um se dá a ler
como um jornal diário

em verdade, os textos
nessa pocilga rascunham
um lugar em trânsito

uma sílaba traindo a outra


coloca no mesmo ringue
francisco e licutã

pelejam em nome do
ab al
to
em língua selada
esfolam-se francisco e licutã

para salvar o crânio
e seus dividendos
afiam a conversa no sangue

cada um de seu canto


não mede que está no outro
talvez, por isso,

se devorem
para ler-se desde dentro

[101]

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2

sob a escarificação outra


miragem
esperando a mão
tocar-lhe as vértebras

outra que não a urina


e as fezes
nem a coleira do cão – outra

que sitiando os piolhos


escala os anônimos – outra

CAMPO GRANDE

brumado

guinda careca

sapucaí cabaça
ibituruna

inficionado ambrósio

caraça

marcília isidoro


diversa de si – todo-o-avesso
revés que se serve
do zero
para informar o mundo

[102]

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3

das cáries nenhuma


escreve mais
que o esquecimento

raros os fatos
que dão origem a uma
nova dor

nem o tendão
exposto da mãe, nem
o rapto, a morte – sim,

em outra língua, sobra


no inventário
de hostilidades

apesar dela o rosto


ao se desfazer
inaugura uma promessa

os mortos que foram


perdas
dobram a página para
viver nos livros

pela escarificação
das heranças
pouco se decifra, mas
uma vértebra
(o que basta)
prenuncia o corpo

[103]

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TRÊS ATOS, UMA FUGA
: ao mesmo assunto

sentenciado está:
no tejuco & adjacências,
isto é,
no orbe, três vermelhos
em conluio
um monjolo
e o que vier do ato de moer

ideias, sobretudo,

um teto
ainda que escasso
uma roça
com planta qualquer de raiz

território, em particular,

um animal
de labor e não de gozo
uma carroça
apta a cargas ilícitas

ideias, se entendem,

uma enxó
em condição de uso
uma adaga
polida em excesso
[104]

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de princípios,

um eixo
conjugado às suas traves
respectivas
e rodas

de ideias,

uma roca
com que se fie a provisão
de filhos
e mais herdeiros

de ato,

isto, reunido em terras


doutas
ou sandias, proibido está

e mais, se por conta de três


vermelhos
e suas ideias o mundo
saltar dos eixos

sentencia-se ao crime
essa ordem entre
grumos e pensamento
gerada: contra ela
o estatuto
a torre a salva de tiros

*
[105]

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três vermelhos romãs
vermelhos cravos

contra a lira o divino


contrário ao divino
a ria o riso do divino

na lapa onde escapa ao fisco


cardar
ouro diamante insônia
não faz do vermelho
um vermelho: sua natureza ex

ata é argumento em favor das
miríades
já que o visto o sabido o dado
são estranhamento

ares ao fugitivo ao território


que o habita –
rosa dos ventos raiz andante
empenho

que se planta, qual madeira de


lei – ele
surfa o canavial a mina
em outra t r a v e s s i a

salve a espora salva do navio


o instrumento
lavra da palavra
salve a hora o estandarte em

[106]

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prata
desfeito o líquen salvai
e o grito t r i a n g u l a r

três vermelhos romãs


vermelhos cravos

em roxo, talvez, ou carmim


trajando
o consorte-escaler salve a
vogal consoante o rigor
de entender-se o não dito de
estender-se a ideia na praia
na mina
na coxia na roça no rocio

romãs v e r m e l h a s
cravos v e r m e l h o s
nos beirais do tejuco
que não
sendo
o mundo
é
m a i s que o dispendioso verbo

se as feridas deram
em bacilos vermes
pruridos, se

se dobraram em úlcera
gangrena
ancilostomose
[107]

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certo é que se abriram
em floresta tropical
de signos

os vermelhos
lançaram os velames
da antiode

– fugidos ao calabouço
cobram, ao sol,
a fatura do infortúnio

: uma roça um moinho


os destroços
não forjam um território,

os três trezentos
que o fundam também
não

a paliçada o fosso a defesa


o fuso
entre as orelhas o revide

também não: o prêmio saído


às barbas
do assaltante, não,

os que se valem da poeira


inimiga não duram
em mil palavras

[108]

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– além do renque de palenques
os que beneficiam
o não

são em si território,
o moinho não está lá, a roça
não

sobrevive ao sol, o três


o cem
o um – se

beneficiam a recusa, sim,


vão além
do renque de árvores

e seu CAMPO GRANDE


– mais que resíduo
de urnas e ferramentas –

se espraia em linguagem
e método
do não território,

o que não sendo medido


nem cercado
supera os assaltos

o moinho a roça
e deflagra aos três aos mil
a ideia: seu estado

[109]

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HOMELESS

CARTOGRAFIA I

o cultivo no mar
é devoração
: a cada movimento

de escuna
um fruto se desgasta
para intuir

a empresa que dirige


esse campo
é urgente revolvê-lo

desde a medula
– à superfície
o rascunho dos embates

revela muito &


pouco sobre o inferno
submerso

a palavra-sonar
traz à tona
o espólio que, um

dia corpo,
atravessou o próprio
meridiano
[110]

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: para esse o
esquecimento e a sede
como sinais

ou nomes
em outra
sintaxe figurados

MANHÃ

: antes que o fisgo


anuncie a tartaruga reagimos
à exigência do barco

ainda se escuta
o ranger da árvore-mãe, o crepitar
sob os machados

– estávamos cegos de frio


e receosos
da agressão que os deuses fariam
explodir do lodo

ao longe, porém, via-se o barco


não os fungos
e o armazém de insetos

atacamos
cientes de que a árvore
nos restituiria
o ferro
de embaraçar a caça
[111]

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o tronco aguilhoado arrastou
meditações da flora
farpas
que desequilibram a proa

daí a guerra para tirar
o fisgo
levar à praia os homens
e não morrer na tartaruga
que matamos

– estávamos cegos, diz


o timoneiro
éramos da terra, naquele dia

agora o mar
nos caleja o fígado

COLISÃO

o interesse dá sinais
de uma ilha
onde as vontades
aportam
para a separação

: a máquina
despedaça os ânimos

o que entalhamos
na árvore
abdicou de seu êxito
[112]

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(não fomos rendidos
pela espreita?)
mas certa linguagem
redimiu-nos

o barco que se impôs à orquídea


trepida
antes de esmorecer

não sabe se morrem em si


o mar
e o continente

: a máquina
não distingue mutilação
fustiga a tartaruga e o fêmur
de quem a raptou

a voragem muda de fábrica


também os ofícios
& rendimentos
as regras
& mercadorias
os contratos
& palavras

a máquina não se prende ao porto


nem aceita a convenção
das cartas

território em si mesma
já não devora
os escalpos

[113]

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: a máquina
em nova política, administra

NAVIO

: a máquina são várias

como os seus nomes


alianças
& cálculos

: a que ora se apresenta
é um útero às avessas

um feto trocado
por fumo e aguardente
bóia
alheio ao mercado

há quem o destine à roça


quem o excite
para a fuga

nos porões da máquina


vegeta
contrário ao que era

a máquina mesma
pouco revela de si

– navega por que prêmios


sua rota
vale a pena?
[114]

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quanto mais se lava
maior custo
gera em seus lucros

: a máquina
se expande
a golpes e cólicas

a cada ângulo
um zero
ressecando as costas

um piercing
em acusação às ideias

a máquina se ilustra
de anfíbios
mas não explica
suas divergências

(ventre
de morte,
país
de muitas
línguas)

o exílio é um saldo
na linguagem
o que resta do mar
se mistura à saliva

no convés tudo
comunica
o parcial desembarque
[115]

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(uma vez
em curso
aportar
é a passagem)

os que estiveram
na máquina trazem-na
em quebra-cabeças

: são várias

e fendem na página
a migração
da sintaxe

LINGUAE

o mundo parece
outra figura
se aceitamos
o verbo sem contrário

mas se o
vivido dispara
o míssil
das perguntas?

cabemos
no idioma a que não
se ajusta
o país de húmus?

[116]

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esse idioma
percorre os artelhos
do que
falamos?

: eu memo
é cariocanga
(i circle
the nameless
body)

: eu memo
é capicovite
(glasses are shining
i know
nothing
catch
nothing)

: eu memo
é candandumba
serena
(but it is silence
offered up
the ring)

la pierre de notre
origine
s’aniquile
mais

[117]

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je suis un autre
avec
ma parfaite
hallucination

a pronunciar
uma nova

espessura

àtòrì àtòrì
bá organiz
mi e
to a
iyè minha
tèmi própria
fún memór
mi ia

et avec une seule


possibilité
: render o medo pois

os ìsìnkú
fantasmas òrun
.
nunca kì
comem í je.
obì obì
torrado súnsun
no n’
fogo íná

[118]

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: en la lengua
florece
su atrocidad

a punto
de hacer del cuerpo
una fiera
para sí mismo

légun légun
kúrò kúrò
bá ajude
mi -me
lé a
ìsìnkú afugentar
órun
. os
lo
. fantasmas

when
it
rains
five
days
and
the
skies
turn
dark
as night

(não) atinamos
em que
registro
trafega a nave
[119]

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: la chose la plus claire
en este huracán
are the spaces between
the words

o que me impede
de ser
apenas extensão
da máquina

et me laisse comme
les travaillers
que negocian
la tempestad

ombera
tutimba
ô calunga
ô tomara
ô tavira

: a máquina
devorada não
se extingue (espreita
da ferrugem)

o país de uns
& outros
desde o convés
se enerva

[120]

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desde a linguagem
– diria,
quem está
em silêncio

CARTOGRAFIA II

o norte é labirinto
ainda que o mar
se resolva
em continente

e o continente vertido
em corpo
se admire da própria
ganância

: à superfície
os embates são fábricas
de artifícios
e mortos

o que foi lançado


às ondas
sobe ao maxilar
da história

mas por si não


reinventa a máquina
é preciso revolver
o eclipse

[121]

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que serviu
de leme à barca
e de venda
aos embarcados

: para o norte outro


norte
como se a viagem não
fosse cárcere

e a rota
do sangue sobrenome
escárnio
como se a caverna

(onde a razão
matura)
não fosse a boca
do monstro

: ao norte a
desorientação e o
sigilo
os ossos do ofício

a memória
coleciona lapsos
por isso
assaltá-la com

a linguagem
extraída a fórceps
do mar
: ao norte
[122]

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uma acareação
de ostras
até que o exílio
finde

& a máquina
soe
música, outra que
não a morte

[123]

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PRAIA DO NÃO RETORNO

o cuidado de ulisses
com seu cão se explica a quem
antevê

um braço
a mais no escorpião: parentesco
que tece
a aflição da mulher

porque está ocupado, ulisses
tateia o pulso
de outro corpo “disseram

que a sombra de achiles


deteria o inimigo”

mas o bicho de
estimação já se habituara
ao zero
como destino

estendem a olisseo um
abismo
e em recompensa
os farelos
[124]

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– há-de ser um mergulho,
insistem,
para que nenhuma
cifra o recupere

há-de ser fortuna esquecer
os músculos
e a estatura da palmeira

olisseo escreve o selo


do pai
o selo que ao pai dispersa

o mater selo, em
circuito fechado, nas
trevas

o zelo de olisseo contra


o selo
: à sua volta se acumulam

fendas uivos
sombras que na praia
ardem

olisseo se instrui
no pó
contra a incisão no carpo

[125]

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– o mater selo do pai
recua
ante a fricção do mar

olisseo se lança, aporta


ao som
dos búzios

à deriva se dá, entre


signos
a que não se pode amarrar

(os signos
não plantados e que, no
entanto,

vingam em matas
livros mortos em rios
vogais)

oeco olisseo, de si
inteirado,
apruma-se salta-se elide-se

: para ser não se imprime,


olisseo,
o osso navio

olisseo carda a palavra


okoenda
[126]

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sob a usura do assalto
se despe
se veste
em outra pele: cuendá
ulisses d’oro
arvorado argonauta

o eco

onde vais
where are you
où est-il

o devolve à planície
onde o leopardo não caça
por ser malhado

na linguagem quem captura


o
l
i
s
s
e
o
filho do se?

[127]

Homeless_FINAL_alt300310.indd 127 30/3/2010 22:28:15


LÁ EMBAIXO ONDE
CRESCE O ALGODÃO

HOLLERS

y
a
a
eh
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e
e

eh

[128]

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um tendão cortado
faz a gleba
ainda menor

quem vai até


sua horta
não imagina o que é
a lâmina

a dizer: suas palavras
serão todas
de uma sílaba

nem atina com o


inferno
na língua dos anjos

oh, sara
não diga à kalimba
“se esgueire”
não lhe diga

ela – o único
rastro de olafala
a permanecer

e com ela
outros engenhos
do pensamento

(que tal
a ruína de uma
cidade
vertida em quéops
[129]

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ou a crista do não
que,
enfim, nos obedece
e pousa?)

não diga à kalimba


“se esgane”

os que vão além
da plantação
recusam a lâmina
nos artelhos

se ocupam em curar
o corte
(não o que sangra
à luz do dia

mas o que incendeia


o verbo
antes de dizer
a que viemos)

enfurecidos em suas
cãs
tingidas de vermelho
os que recusam

estão sadios demais
para
entender a pélvis
rachando

[130]

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y

a
e
e
e
e
e
e
eh, sara
eee
eh, sara
e
e
e
a
rum
a
eh

no campo
falar a alguém não é
tarefa
que um resolva por si

: o algodão é luva
para absorver
o som

ante o macio
nenhum ácaro
se atreve

[131]

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mas o archie dobra a esquina
sua voz
chega antes que a fratura
dos ossos

e ousa o que um
apanhador de morangos
não poderia

archie é dos que fazem


comércio
com o inferno

se tentamos calcular
os danos
com a reza-do-bom-filho
sua pele
cai no rio

o que há para dizer


é como
tirar o pai da forca

é espesso
vertical
a ponto de iludir
a língua

– arpad, archie
como se fosse um cutelo

não se vê além
da colina com um olho
apenas útil
[132]

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o grito
diferencia um mangusto
da armadilha
e o terno de um morto

por isso, archie,


a sinfonia tem de quebrar
sem se quebrar

os vagões aparam
os ombros
sujo arrecife
para quem seca de raiva

mas quê? o archie


nem ossos
ostenta

vê-lo na esquina
é estar atrasado para
sua fala

SEARA. INVERNO

se tirarem as orelhas da floresta ninguém dará


por sua falta, nem dos sapatos ou de qualquer
coisa que funcione como asilo de família.
engana-se quem pensa a origem do mundo
desde a saliva: para os que sufocam entre as
leiras, tudo se resume ao cemitério de tu-
fos. deles se levantam a faca e o arreio. a eles
confiam os altares e as mulheres. tente ver a
[133]

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curva, lá embaixo, onde cresce o algodão.
talvez uma ceia de morcegos, o rio em que
mergulha um cão. seu pai pode ser que
acene, como se voltasse de uma fuga de
cervos. difícil saber o que se doa sob essa
nuvem mais densa que as outras. o
vermelho, se ateasse fogo, não faria aqui o
inferno, pois os tufos o vestiriam para um
aleijado domingo de incensos.

os adultos

§ mãe: estátua de sal


ereta
irmã das árvores
à esquerda do inexplicável

§ o esboço de sorriso
crava no homem seus
meios
a tiracolo como pólvora

§ a mulher de branco
(eixo da vida
ou da foto) lança fora
do escárnio
sua compostura

[134]

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os meninos

§ o maior – candidato
a carregador de armas –
não é maior
que o próprio chapéu

o que suas retinas elegem
nem a fórceps se deduz

§ o menor – encoberto
pelos rufos
dos flocos – tange o humor
com a sem vontade
de quem estaria noutro
uivo (se pudesse)


as meninas

§ a de blusa laranja com


listras
do que se admira?
vê-la além da cotton
home a céu aberto é um
exercício
de salvar à pinça
o melhor de si

§ a de vestido azul fixa


à frente
para evitar, quem sabe,

[135]

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a onda
verde
gris
que lhe estreita os ombros
fixa se pensa eixo
ainda que não pareça
roer-se

§ a de blusa branca enrijece


a natureza

é gesto seu? nem


se move para extrair à boca
do monstro

um siso, se o chamamos
de infância

a outra mulher

§ estátua de sal
ereta
irmã das árvores

à direita do inexplicável

: duas tranças, porém,


desposam
uma aragem que antes
da cinza

morde os seios
alucina
[136]

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o bebê

§ oh arpad archie sara

não sendo um, é


não sendo, é todos
ponta de lápis
raio na planície

oh rebecca oh ben
dizer à foice que a reta
é ostra
faz elegante o corpo

antes de arar é com


a linguagem
que se explora o campo

quem o habita
só existe depois deste
sonar

SEARA. VERÃO

na floresta a língua falo dos mortos. a


língua do palude e da raposa, talvez pega-
das. não será isso cada sentença? a sombra se
levanta entre as árvores e quebra o asilo da
memória: o mar de felpo não tem menores os
dentes. o corpo travado por ele volta à tona
em pedaços, não há mesa em que essa posta
seja um lírico guindaste. quem comeu a car-

[137]

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ne, roa os ossos. na floresta o falo arrepio dos
mortos raia o algodão de nervos: onde ele
cresce, somente a língua alcança. e desde
aí monta cavalos de corrida, navalhas puro
sangue. se a música brota de uma tábua de
lavar, por que não educar as cáries desse
monstro? onde ele cresce, lençóis pijamas
calças se dão à luz: extraídos à fórceps de
quem trabalha numa leira que não é a sua. a
mão ácida das mulheres afina as cordas vo-
cais dos filhos (o que não se ganha na história
terá de ser ganho no grito): talvez se tire de-
las um roteiro de vida. já não está em ruínas a
floresta, nem os mortos se limpam por sua
conta. um bar na esquina do pântano caçoa de
outra qualquer miséria.

blue notes

o navio ardeu nas axilas


o navio ardeu
como caixas de royal mal destilado

a viagem é sina, às vezes


às vezes não partir
é também um embaraço

mas ir na classe inferno


às cegas, quem
merece, quem merece?

[138]

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por isso, caro sir,
não por acaso,
pagamos a golpes de cutelo

a passagem não desejada


a passagem
que devora os nervos

e se essa moeda não serve


se não serve
um royal mal destilado convém

quem escapou à travessia


está longe do céu,
quem escapou à travessia

o mar de calúnia e febre


rasga o verbo
o mar de calúnia e febre

quem lhe poda o fígado


sem uma faca,
quem lhe poda o fígado

eu não, sara e archie não


talvez quem torça
a plantação pelo tórax

ah, quem tirou da baleia


ventre de ferro
ah, quem sequestrou dela
[139]

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não o dia mercantil, não
o suor, mas
essa voz instrumento?

ainda não fui à montanha negra


iremos, sim,
à montanha negra

quando possível, iremos àquela


montanha
com o nariz acima da testa

nenhum metal em nossas mãos


(enxada, ancinho)
o só metal de um sax

para irmos à montanha negra


nada a levar
a não ser o que perdemos

lá, dançam mal os demônios


dançam à esquerda
sem mais nem menos

e quando saem à caça


quando saem
não roubam a memória da noite

na montanha negra, além


dela, o inverno
não range em nossa barriga
[140]

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lá, nenhum sinal da carne magra
que atiça a fome
e seus cães

se ainda não fomos, iremos


à montanha negra
com o só metal de um sax

OTHER HOLLERS

y a a eh e e e e e e e e e e e e e e e e e e e e e
e e eh se a noite
não interrogasse a ponto de
a cútis rugir um cortar à foice a ponto de
um por um se acutilarem todos
y a e e e e e e eh, sara e e e eh, sara
yelow sturm e e e
e a rum a eh reparem, ali, entre a
morte e o camarim : uma cabeça eriçada
em festa e ao fundo, como nos santuários a
carenagem do inferno y a a eh e e e e e e e e e e
e e e e e e e e e e e e e e e e e e e e eh
sara violence, por lei um timbal não se tocava
nessas paragens não se tocavam
os estranhos, não se tocavam as pás e os pés,
porém o senhor-tendão-de-aquiles-costurado
liberou-nos para dançar cry baby cry baby c
r
y
a
a

[141]

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eh
e
e
e

e
e
e
e
e
e
e
e
eh

archie son nouveau ciel c’est ici onde o rapto


c’est devenu un
jeu à la mode – ainda uma vez é preciso sonar
sem a caixa de lavar pratos, ainda, como nas
searas de algodão but

un’autre perception du monde ha cambiato il
modo di suonare la memória os nascidos
na cidade de casas em um só andar caçam à
maneira dos niam-niams, que devoram para a
fama de sua caudas adesso
bruccia il silenzio e de lá evolam hollers
nomes hinos drums

[142]

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CAÇADORES DE BORBOLETAS

: dois
prestes a rolar da conversa ao sono

: dos que estão em pé, apenas um


ameaça cumprir seu ofício

será uma pausa


para adiar a selva?
desejo de estirar o corpo
em outra fenda?

um silvo assalta a cabeça


não há, porém,
gesto
que o denuncie

são testemunhas os que não


viram
e os que virão
a esse dia a esse lugar
em que a natura cedeu à ironia
deu-se para não
se dar a fábrica nenhuma

apesar da rede e do reino


bichos visitam as rendas, além
da pele noturna
líquens vigiam fetos
que vivem
de sua altura

*
[143]

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o que avança obedece às normas
embora a cabeça
mire direção
contrária ao previsto

: dois, outros
sustentam-se na ferramenta
seu braço
mais longo
e estranho

tudo elegante nessa imagem
branco
sépia
esguia
como se nenhum estertor cariasse
a amizade

a selva, porém
não se oferece como um passeio
de sábado

sua calma
(e a dos homens na sesta)
é repouso depois da sangria
ou preparação
da intempérie?

em meio a lupas e alfinetes
se insinuam insetos
prêmio
e garantia de que o mundo
tem a medida das mãos

[144]

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outra forma, no entanto
que não se decide
rói a paisagem, desde o
início

*

adoeceu o guia
ou as veredas
é que levam a todos e a nenhum
destino?

de certo, apenas
a inutilidade dos mapas

e o desafio de apreender
num rastro
o continente

: em que fenda se aventura


a iara?
em que língua xangô
se ofende?

o caderno registra
o que se descobre
incapturável
quem porá o ouvido
nessa quimera?

quem se dará à rota


caapora?
ou lerá ossaim
na mata?
[145]

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helá, bach
curumim cerzindo o latim

a lógica que o viajante transporta


se desnuda
em compasso mélangé

saltou de um nada

antes que as bestas


dessem conta
se fizeram resto
entre grumos
de farinha e sal

como é possível este


assalto?

em presteza não perde


para um cálculo
geométrico

de fato, reinventa
a matemática
pelos ossos

saltou ou fizemos saltar


essa indagação
que nos devora?

*
[146]

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: dois
Quase Irmãos & Filhos
no comércio do acaso

quase
uma Empresa Sem a Vontade
Ltda.
quase
sócios a catar moscas

: dois e dois em contabilidade


incerta
e ainda assim exposta
nos ombros

contratá-los só para serviços


de apuração fugaz
ao preço que em moeda
não se mede

: dois e dois companhia


(não company)
ilimitada contra os azares
e czares

alugados para caçar borboletas


absorvem a ciência
do mato
– sus quehaceres

[147]

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: dois + dois por sua conta
(ainda que não pareça)
erram ao saquear

um regato na treva
nosso, de ninguém
remoendo à faca
nossa, de ninguém
uma bebida-rumo
nosso, de ninguém
tirada ao inimigo
nosso, de ninguém

: dois x dois – sua calma


(e a da floresta) é repouso
depois da sangria
ou preparação da intempérie?

para dentro da imagem


se enovelam os caçadores –
na aparência,
obedientes à cia. razão
capital & fraude

porém, aos rés do trópico
no que não dizem
(fingida inércia)
movem a teia-pensante

: como alcançá-los
na vertigem
que salta os meridianos?

[148]

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prestes a rolar do sono à carne
de dois em pois
sem cor nem corte
os borboletas caçoadores: sua

inércia não rende a floresta


rende-se à dúvida
sobre o museu a coleção o clã

[149]

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PHOTO DAVID
R. Carioca 53 – Rio

CORO

......................devant cette carte de visite


o futuro digere uma linhagem
que em seu crespúsculo devorou
outras e as escondeu em si de si
como se não houvesse além-presente
uma insabida espera
um diabo
na escada a torcer
com fino trato a trata o truque a trama

LES YEUX

oh, merci pour la belle ouvre, une vraie


mademoiselle
modelada imagem menos por dentro
mais pela armadura
que exila os seios adornai o escuro,
senhora, em paz nessa pose
que rende vulcões e outras feras

pourquoi chercher le fleuve sur la peau


ou le sens des mots?
mansa senhora: lírios sapatos meias
oferecem trocas que a tudo compensa
un voyage
dans la ville de la peur
[150]

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un café
au bord de la misère
que mais desejar, estão inscritas nessa
foto o gelo e sua consorte : ao futuro
não lhe parece que as flores de cepa
rangem ao redor de eurídice  oh,

mademoiselle, nous ne sommes pas


les hommes-bêtes
nous avons methode, nous
sommes le meilleur visage de la mort
ao futuro
a educação do cotovelo
sejamos didáticos o que veem
é método, coloração da ideia – rito
de esconder na foto o que se fotografa

ANTIFLOR

oh, merci pour la belle ouvre je ne


suis pas votre mademoiselle mais

a selva e o pânico a selva e as epide


mias em festa a selva e a juventude a
selva e a educação ciliar a selva e os

cavalos no asfalto a selva e a reserva


de elegância a selva e o demônio das
mulheres que acariciam os cães a sel

va a selva a selva a selva a selva e os


óleos podres a selva e os limpa-poros
a selva que tu vas tuer a selva e seus
[151]

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diários a selva e sua devoção a selva
e seu equilíbrio que tu vas tuer a sel
va e o automóvel em riste sobre a foz

a selva e sua família – os generosos


a selvagem salsugem da selva a silva
dentro do livro em torno ao sopro a

solidão selva a sílfide selva a morte


além da selva o palude a paura a nota
solar da selva o salvo conduto ou seja

nessa tarde aos 13 de agosto de 1921


morri na foto
éden-de-aluguel
não para o RIO-OCEANO-DE-JANEIRO
que dizer de Lucinda sua casa-múndi
para os de Minas Minho e Cabinda
e os
de lugares que em alfabeto não cabe

morri na foto, para a rusga não morri
nem para o sexo
que desnuda os anjos de má saúde

um machado de duas cabeças rasga


a foto
não se vê nem o rasgo nem as
cabeças um machado
que salva o lírio da tristeza e cresce
desde o olho atrás da lente : não
me apraz ser borboleta nessa mata
incendiada por senhores e escassos
filhos de orfeu je ne suis pas
[152]

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la femme la forme
deslizam entre colunas e arestas
a mando de si
contra o locus amoenus noir

janaína entre algoritmos iola beatrice


que não se cumprem senão além dos
nomes : I am not um flash em foto
capturado antes
uma esfinge a lecionar o deserto

CORO

............... devant cette carte de visite


a linguagem devora o crespúsculo
como se não houvesse um arlequim
à espera
na escada
sobre o miolo do retrato tudo pousa
nada se atreve no entanto

da fronteira cavalos partem rubis


se furtam
às pessoas rendem frutos o acidente
dos dados moi toi nessuno
sabe a margem a que pertence..........

............... devant cette carte de visite


a grande palavra se a b i s m a
“quando três pessoas se penteiam ao
mesmo tempo

[153]

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e uma abotoa a roupa da outra o que
acontece com a do meio”: o eclipse
se desvela
girotondo nell’oscurità figlio dell’
oscurità chiara fonte del pensiero

: diante da foto e o que ali não está


moto-contínuo
o passado se abre = arca que o Sumo
Ventríloquo
abandona aos espectadores
é pois, iola beatrice a janaína
quem nos interroga: “desse carnaval,
por que o lírio
e não o arlequim me destinaram?” é,

pois, une carte de visite qui cherche


son destinataire não entre os
cadáveres
não entre os lábios dos cadáveres
que vivem de suas irmãs, les femmes
des photos les femmes papillons

é, pois, com o dente de leão e a noite,


sua outra face,
que m a n s a m e n t e
a imagem se distorce ou somos nós
a mirar de onde não estamos o que
não é senão um corte?

[154]

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RASTRO

á r v o r e d o á r v o r e d o
e s q u e c i m e n t o alumbramento

para não sofrer com : palavra dos mortos


a praga dos mudos que atrai a felicidade
exigir que os vivos cabeça à espera da
circulem o eixo do nudez para florescer
mundo – sua agonia .................................
ilustra a desonra do .................................
corvo ....................... .................................
......................o lucro .................................
do escárnio.............. .................................
á r v o r e d o ( )
exílio cevada onde .................................
não estivemos, raro .................................
piano em esqueletos .................................
disposto – árvore do .................................
incêndio saliva gare .................................
des mots dos mortos .................................

... le jour ne sait pas ton nom, ni ne le pourrait. tant


cris de pluie dorment encore dans les arbres: embora
o machado esteja vermelho, o ouriço come folhas de
´
embaúba, o ouriço come folhas de bambu, o ouriço
vai suavemente sobre a relva ao encontro da sombra,
sua irmã de pêlo escuro: o ouriço não anda quando o
sol está de pé ................................le jour est aussi une
nuit lumineuse e ‘ÕNYÃM – OOURIÇO TUTHI XUX MÃHÃ

[155]

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filho da mesma flora, o leopardo salta na linguagem e
arranha: EKUN
. TOFOJU TANAN leopardo olhos de fogo

ao lançar-se no espaço defende outro arco-íris, o dia


e a noite fazem sua camisa – aquela que o leopardo
sua ao dar-se curvo no salto. seu arco, seta do próprio
sangue, dispara: o leopardo sob a íris renasce, filho da
mesma aragem, rapto de si, senhor que não se declara
___________________________________

bien sûr, dirão os temerosos da palavra, já não se mira
no fruto o que foi a árvore, tomai bebei a gramática,
levai, aos domingos, vossa língua ao ácido silêncio:
EL SIGNIFICADO NO TIENE SEMILLAS, pois cortou-se o
mal pela raiz: não há floresta, signos bichos não há
___________________________________

á r v o r e d o á r v o r e d o
a l u m b r a m e n t o e s q u e c i m e n t o

para não sofrer com a palavra morta oouriço
e o leopardo crescem na jaula da história, sua cabeça
repousa no hímen da noite a noite grávida de sóis

EL SIGNIFICADO ES SEMILLA
: OPEN THE WINDOW :

OOURIÇO TUTHI XUX MÃHÃ
.
EKUN TOFOJU TANAN OS
D O I S E N T R E A S Á RVORES

são o que não parecem: quando transitam com suas


memórias de londres, há quem lhes diga: – je ne
vous connais pas. se rolam em sua veste tecida pelos
ancestrais, não há quem lhes diga: – my brother. no
[156]

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ESPAÇO ENTRE UM PASSO E OUTRO UM SALTO E OUTRO

oleopardooouriço ofende a calmaria dos verbos, sua


fala saliva para nutrir a árvore das árvores – a que
tem raízes para o céu e flores para a terra. se roesse
a língua, ao invés de engordá-la, oleopardooouriço
não teria como divorciar-se dela. por isso a ternura
das garras/o veludo da pele, presente que mutila para
engravidar o futuro. oleopardooouriço recusa
a cidade e a floresta reage anti-linguagem
á r v o r e d o á r v o r e d o
e s q u e c i m e n t o alumbramento

[157]

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PORTE ÉTOILE

NO GOD DOGON
GO
um camaleão
se aprende na fome uma
cabeça o devora em pensamento

es
se é o preceito-mãe da redenção
is
this an apple? a pergunta que se
l
a
n
ç
a
desde o céu é o abismo em si –

NO GOD GO GO
NA CAVE

da palavra o mito
se quer
história

esta, noutra lavra


sequer
tateia o mito

do embate, então
se forja
um calo
[158]

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duro muro
estuque
que rodeia

o mito e a
história
em seus enclaves

GO GOD UM DOGON
ESCALA

o céu para
baixo
a leitura tira-lhe

o fôlego:
a busca da estrela
fisga-o

se abrisse os
olhos
não veria

a messe
dos deuses, nem
a ira

que os
pacifica, em seu
mergulho

[159]

Homeless_FINAL_alt300310.indd 159 30/3/2010 22:28:18


UM DOGON CALCULA
O FRONT
o camaleão
seu pensamento devora-se

es
se é o mandamento-pai: grávido
es
sa é a teia que se esculpe nas
p
o
r
t
a
s
– um livro em tese vegetal

GO HOME GOD
OS GÊMEOS

traem sua
natureza: o laço
que os fere

não é o eixo
de sua
aventura

: um e outro
tecem na chuva
umbigos

[160]

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separados: os
gêmeos que ninguém
gerou

testam a altura
dos telhados,
sua alegria

abre fissuras nos


potes,
entardece o sumo

e a gripe
– as mulheres não
os gêmeos

salvam com sua


natureza
o sonho

: ninguém os teve
no clã
se demoram

ninguém os
escreve na trave
das portas

eles, no entanto,
se aninham
onde não cabem

[161]

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NO GOD NO : DOGON
TODOS
são o camaleão
exilados na roda da fortuna
es
se o testamento: essa a tatuagem
is
this a tree? esse é o princípio?
u
m
s
a
l
t
o
às avessas – o equilíbrio : como

se a durar
os ossos preferissem
o brilho

e a mão ao
instrumento preferisse
a imagem

: como se o mito
(saindo de
si)

e a história
(em si revolvida)
riscassem

[162]

Homeless_FINAL_alt300310.indd 162 30/3/2010 22:28:18


no cerne
dos fatos a sua
miragem

: como se a morte
tirada
ao intestino

cobrasse, aos
poucos,
a sua dívida

: como se o grito
lascasse
a pedra

e em cada sulco
arrojasse
um alfabeto

: como se a urna
dos mortos
saindo de casa

levasse os vivos
para
a floresta

e em cada assomo
de vento
resvalasse

[163]

Homeless_FINAL_alt300310.indd 163 30/3/2010 22:28:18


dois mundos
– como se à porte
étoile

entre vivos e mortos


o pacto
se revelasse

– ninguém
rompe a esfera
ainda que o ferido

não cante não


urle
não sinalize a vertigem

TODOS SÃO UM
PLATÔ
onde circula
o sangue

esse
corpo é fiel ao deserto
às
quedas d’água aos grumos
e
s
p
i
n
h
a
dorsal de todas as landscapes

[164]

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dele se espera
o moinho
e a ceifa

o juízo à beira
do precipício, o labor
a cerveja

que se vende
por tecidos no
mercado

: o corpo afiança
a duração
da noite

afiança o ar e os
volumes
que o suspendem

: o corpo, platô onde


as estrelas
nublam

onde os rios
adiam o deserto
: ao corpo

– que moendo ceifa


e afiançando
afia –

[165]

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se rendem
os penhascos, os tufos
as furnas

: o corpo em cone
erigido
marca o centro

da palavra, a palavra
esculpida
na porte étoile

o que nela repousa


sem tempo
se move

.................................
.................................
.................................

[166]

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O CONTINENTE

LIVRO DE MARCAS

da origem se guarda
as rondas ao redor o nada

de um rio, o conselho
reunido para saber a rota

se um navio é a fera
que devora a noite

um corpo entregue às
núpcias o fato

é que nada sutura a rota nem a pele


onde surfa a lâmina

– essa funcionária vive de incisões


que a família esculpe o rito explica
o pagador impõe o mercado insufla
a junta de bois arrosta a
história imprime a paisagem oculta

lâmina bem nutrida: lápis de ponta


seca : ferro sobre a calvície : alma
disfarçada em estilete que escreve

hyg maionbe braço direito
................ braço esquerdo
................ espádua direita
[167]

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d b a c g m c j nas frontes
braço direito braço esquer

lâmina a quem se elogia pelos


sabores da mesa: ela, porém, reage
e se garante dizendo – os trabalhos
da casa são feitos em língua
d’além-mar nutrida a farinha de
milho misturada com água quente

(para quem não desgustou, a isso
se chamava angu, no qual punham
um naco de toucinho): para quem
urdiu, no entanto, um modo de
pensar isso é o que era – e de
saltar felino as bendições do hades
das origens
fiadas no campo na mina

se avista os cordames que prendem


a nau à memória : ambas fisgam
o tubarão que eviscerado revela-se
um cofre
de cabeça tronco e membros

: ele que defrontou o morto no mar


o
rosto na quina do navio o corpo
em
balanço
um
grito para dentro como se os dentes
engravidassem aquele que não vê
[168]

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a hora
de tocar o fundo
e retornar

a lâmina sobreviveu aos assaltos –


ilustra praças e negócios : a lâmina
adia os sexos que não podem
zelar por suas lagunas

da origem se guarda
a noite o nada

de um rio se cumpre
a rota voraz

por isso, embora vertidos de si –


hyg
maionbe & anônimos
movem a nave em que se tornaram

VOYAGES

de passagem por esta cidade – irmã


das nossas pelo comércio, danos &
cia –, roeram-me o fígado as lisas
pedras do cais.

tantos pés as desposaram que


faltando um dentre os navios
sentem-se viúvas. e rosnam e urdem
vinganças. “o Especulador nos deve

[169]

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COFFEE COTTON CLUB. o Boa Viagem
GOLD TOBACCO COOL. o Flor do Brasil
COTTON CACHAÇA BLOOD”. nós, que
vemos as nossas,

vemos também esta cidade


endividada em vítimas. qualquer
especulador, por mais dura seja a
viagem, colhe sua flor sua fortuna.

os caibros dos navios têm cãibras, as


notas fiscais não. na seara de usura e
cana pousa a constelação arfante o

p l a
u s r

o noturno de netuno

quem especula : [dor]


quem recupera : [ ]
[dor] tenta : quem
[ ] vinga : quem
ninguém coopera [d’or]

por esta cidade, irmão, as âncoras se


cravam em nós, nos hinos que
atiramos aos ouvidos. já não há
passagem se do mar chegam notícias

de morte. e a morte mesma desnuda, a


morte em festa, em sua mais cara
face, a que não se paga e nos
indaga: não danças?
[170]

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NEL MEZZO DEL CAMINO

se davanti alle indagini alla dogana i


morti non contano, soprattutto i morti
dell’altro margine, avrà senso
indovinare gli insegnamenti del fuoco
o dipingere le unghie per nominare il
caos?

… il signore soffriva di mal di


denti nonostante nel suo pascolo
curasse le pecore così che la divinità
– principio e fine della malattia – lo
teneva nella condizione di figlio.

ma essendo lontano, il dio non


guardava il desiderio dell’uomo,
neanche il vuoto della sua tavola.
per questo chiedeva agli anziani: che
antidoto potrei fare per me?

nessuno, dicevano gli anziani.


il signore soffre ancora coperto da un
capello d’erba, chissà che un giorno,
il dio rinasca madre ed il mondo sia la
sua bocca...

avrà senso per questa parola casalinga


se la dogana che ognuno impianta in
se stesso chiede i documenti ed offre
una camera sorvegliata per lo
spogliatoio della febbre?


[171]

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BEN ALL CABEÇA

o amolador de faca alicate e tesoura


não amola o instrumento mas o que
nele é ausência. seu método permite
deduzir a que horas fustiga o cabelo
para dizer

: louvado o fogo que dobrou a curva


em lâmina. devo-lhe a ruína das
unhas e a mulher que as perdoa.

na cabeça de benAll o prazer do


ofício esgrima com a censura do
sangue: ante o pedido para enfurecer
o aço, sai de si para que o branco fale
a língua do corte.

ben se resolve nisso, como finesse


daquilo que afina. porém, o emigrado
que assiste nele se interroga sobre o
corpo à sua disposição

: depois do corte, nada há que não


aflore – o corpo assiste na lâmina,
ousado fogo em sua peleja.

BLUES DU CHÔMAGE

um flamingo ergue o pescoço à


margem de claras manhãs escuras.
não carece de alucinações: aos três,
[172]

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aos pares há quem se esfole em seu
lugar: os de plumagem xadrez
transidos de uivo e calmos.

alto em sua cabeça, o flamingo se


desampara com o dedo em riste da
fortuna.

oiseaux noire, pensam os da escola


Petit Boulot – o que retiramos dos
bolsos é de matar.

nada, porém, demite um flamingo de


sua curva. nem a seta-sexo à beira da
morte.

para um black bird rouge a máquina


de vontade engrena em horas
inimigas.

DICIONÁRIO

mitumba: nome atribuído na tanzânia


às roupas de segunda mão vendidas
em áfrica.

as vestes da europa são doadas à


caixa vermelha que destina os lotes a
intermediários na itália.

os compradores della botta revendem


as peças a seus pares do continente
bleu.
[173]

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na tanzânia os senhores do incenso
dominam as compras efetuadas junto
ao coliseu e repassam as peças a
comerciantes de dar-el-salam que as
vendem em feiras da cidade.

revendedores do interior compram


as mitumbas e as negociam nos
povoados distantes.

entre elas, uma camisa 10 que


amarela ao sol da infância.

TAGS

BIG MAMMA OF THE PARADISE


ligue a manhã no caos e salve
as alminhas de lá
onde o cotton ruge : rouge ao

modo de cana incendiada p
or sabotagem
limão nas tachas dentes que

brados na moenda a dizer –


acordo zero good man sir
acende-se o fogo
à faca no COTTON CLUB COFFEE

: aquele menos de um em cada


mil que não sabia ler vem
à noite com sua
voz suave como um trovão
[174]

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BIG MAMMA OF THE PARADISE
nada é claro nada é escuro
se ligue onde o cotton ruge ao

toque GOLD TOBACCO BLOOD e a


linguagem no
páreo mede os segundos para
a abertura do box

BIG MAMMA OF THE PARADISE


o humor dos mor
tos suona nunca mais BLOOD
never more paradise

EDUCAÇÃO PELO MAR

tatear a flora de obispo e jbalmasqué


um fixou a biografia
de perdas ao negar sua árvore
“um dia eu apareci”
outro ameaçou do éter: “enquanto
trabalho, persigo a vida, o resto
é arte”

os signos que pinçaram são ácidos sinais


da travessia:
um suspenso entre o lírio do delírio
outro
retido entre a infância
e o baço: AMBOSAMO

[175]

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pugilistas sin punch destróieres em cam
pos de trigo

tatear a cidade natal do marinheiro a


manha
ttan acesa em hospitais
(SOMOSAMBOS um para quedas) as-
sina o diálogo entre os livre-prisioneiros

*

os artefatos que importam da sombra


explodem
sobre cabeças
que migram de um retrato a outro
não há divórcio
entre a porta de geladeira
e o fauno AMBOSOMOS
habilitados pela ruína

tatear o nylon como se fosse o roteiro


além da vigilância
um código
antiaéreo
a ser decifrado no centro do labirinto
de sua leitura
se avista o caos e a troca de golpes entre
as vontades

*
[176]

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os peixes que ensinaram a escapar
são, agora,
uma erosão na paisagem
SOMOSOMOSOMOSOMOS senhores de
uma espada
que não sabe ferir
e para não os decepcionarmos AMBOS
rimos em sofrimento

aderir aos materiais para saber que sob


eles
se organiza
a recusa da superfície: irmãos no resíduo
tiramos as cabeças do alfinete
– isso não é um refrigerador, insistem
e não é mesmo
basta ver a oscilação em seu dorso

será o indício do que somos, menos


a pele?
isso nos iguala às garrafas térmicas
canecas e latas de óleo
“Primor”
e nos casa à GE = gentileza ecumênica
da morte

[177]

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rastrear os fichários à caça da fera
cor bege 37
e caso não exista, alimentá-la de sua
própria ausência
: não é assim que zoológicos e famílias
crescem?

tatear a floresta a cidade o nylon


O ZERO em que AMBOS
aportaram nem viúvos nem vivos mas
refeitos
em azul e prata os signos
que municiaram
são a travessia mesma: sem N A V E

[178]

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o mestressala

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MoViEtoteM

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ABRE ALAS

não crescemos como era preciso, alguém deve aparar


as unhas da história. os navios continuam che-
gando, não os vemos, nem a colônia que fundam
além da primeira página.

os navios, como nós, têm alarmes. nos confundimos


até saber quem decifrará os icebergs. nos puni-
mos nas linhas que nos separam e os cães não
farejam amizade em nós.

se um filho nascesse, o chamaríamos de urgência,


sua fome mastigaria sete pedaços do mundo. e
só depois que ele cuspisse, nos entregaríamos ao
nosso próprio nome.

a varanda incendeia sua orfandade. inútil o mar que


transformou os ossos em corais e a fisga que os
recupera para os livros.

uma vez perdido, como esperar o corpo? as rixas


deixam nele um rastro por onde o escorbuto
avança.
[183]

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estão recolhendo gripes na areia e a pá mecânica
ruge como um navio pirata, sua carga exposta
enoja o mercado.

o que foi comido pelo mar se debruça na garagem,


anda descalço para que sejamos iludidos de
seu perfume.

o nervo do lagarto é um irmão, pouco importa se o


arrancaram de suas costas e haja mais curvas
numa
hélice que em sua raiva.

instale um código nessa lacuna e a faça assoviar.

uma salva de tiros me desperta, se estão celebrando


não é pelo esqueleto a quem pertenci. a cárie no
dente de um morto é ameaçadora.

nada diz sem a cumplicidade da língua, não expele


nada, não perfura a carne que raptaram antes. a
cárie envergonha o morto.

que dizer de seus hábitos se medidos pela saúde da


boca. a salva de tiros é para impôr na praia um
aviso.

a cárie sabendo dele mais que a festa rói a si mesma.


[184]

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5

na fotografia que verger não fez, carros apodrecem.


plantas lançam seu cateter e antes de atingirem o
coração da máquina, ocultam-na. os coletores de
ferro velho assaltam essa ermida,
o deus carcaça
os abençoa.

há que abri-lo e tirar o peixe de seu ventre. ele se ofe-


rece sem destilar o sangue. não é justa a balança
que transforma os seus restos em centavos.

a mão é o maçarico ante o decalque de uma flor no


pára-brisas. para essa fotografia a que verger se
antecipou, o esquecimento é a moldura pior.

o espírito da floresta alugou um quarto na cidade.


sufoca de não poder. de hora em hora os trens
disparam e a morte compra cedo na padaria.

o gato se desprendeu da rede elétrica e às escuras


vemos os seus dentes em marcha.

o espírito da floresta trouxe um alguidar e uma faca,


com eles esfola o medo. quando se atirou do
ônibus, gritaram:

– valei-nos, por tudo que é.

[185]

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o espírito caiu em si, soprou sobre a ferida e o dia
amanheceu em paz.

ao descer a escada de incêndio, a varanda defron-


tou-se com o serviço da vida nas ruas. o lagarto,
a cárie, os coletores

de ferro velho e o espírito da floresta rasuram a geo-


grafia da cidade. o que era amendoim na infân-
cia, dizem ser passatempo natural.

por um níquel se vende, com mil esperanças se com-


pra. ao braço que falta, uma camisa. ao cego o
acordeon com que nos enxerga.

o lagarto a cárie os coletores de ferro velho e o espí-


rito
da floresta estão infernos. vamos com eles salvar
a pluma do lixo.

[186]

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IMPROVISO

a dança foi o idioma herdado mas sua gramática não é


lida sem tormentos.

os da casa erramos sobre a lição conhecida. o registro


nas fibras não é suficiente para dizer agora um preço
que se cobra desde ontem.

um tendão repara o gasto pelo uso ou esquecimento


e se rompe como um varal, se fosse em hora de
trabalho a fome nos comeria.

uma lesão não impede a dança – nem um rabisco


desperdiça a letra, uma lesão é o papel de seda que
a criança atravessa com os dedos úmidos.

uma lesão ajoelha a carne no milho, uma só, curada no


pensamento vira o corpo pelo avesso.

[187]

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2

um mínimo excesso faz do ritmo mentira, do corpo


algo sem eira, uma batida que perdesse o tempo
daria exemplo disso: invasão de aspas onde tudo
fora livre, cuidados para não ver o ritmo correr
seus riscos

pelo traçado que não seja grade se tange a baía de


qualquer paisagem, se entende os saques ao um-
bigo. basta, no entanto, um risco convertido em
rédea para que tudo fique por um fio

a vértebra não é ponte entre a batida e o movimento


mesmo se um desejasse o contrário, os pés não
seriam tapa-buracos: abismo é o que há onde
o ritmo estorque

nem sina de mãe nem sirena de polícia nada nenhum


desata o número que o ritmo nega a quem dança.
isso não é sacrifício – e se fosse, quem polir o
ilíaco durante um grito.

não tem essa de que um é o outro, mestre em vez de


cadarço – leve em veste de arame – um é um
ameaçado de não. eu, se pudesse fazia coro da
roupa que me despe e sendo outro rendia a vida
que nos falta

às vezes, desde os nervos um gesto sem forma ataca,
vem à margem do que somos e pensávamos
fosse o de sempre. um gesto que não faz caso
de lugar nem intérprete e desgoverna a sola dos
rodapés
[188]

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eu se me desse ao traço da fantasia talvez fizesse do
corpo uma rota. mas, qual – se uma prancha me
leva ao oco à cova em que me tiveram por
morto – com dois saques adio as férias de oxalá,
a dois escrevemos um livro que suporta golpes
em palavras

o corpo, se quer – abre-se como um odre, idiomas


derrapam em suas curvas: um erê um substantivo
reconhecem a transgressão na sintaxe. o que não
quer o corpo são as coleiras do cão & a cia.
limitada de um corpo de jurados de morte.

um estandarte se faz do gesto que o estende. o gesto


assiste sobre um eixo, se alarga em letra e não
tolera erros. o eixo do estandarte não desliza em
direção a qualquer fronteira. a mulher que o leva
no punho de renda explica não o estandarte mas
a sua passagem

um homem à roda de quem porta o estandarte. algo


em seu roteiro de vida abandona-o à deriva
– primeiro exercício na busca do equilíbrio –
última chance, também, para saber de si e do
nexo entre as coisas. à roda do estandarte o que
um porta não decide a sorte mas nem por isso a
desperdiça.

a Hora, enfim, e o fogo que a congela se apresentam


– nenhuma regra que ilude os pés sobrevive –
a mulher o estandarte oUm aguçam a fala na
espinha dorsal do mundo.

[189]

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3

se uma palavra tange, não quer dizer que traduza os


vivos e os mortos: herança é a escolha de levar
adiante os ossos.

se um livro confirma um rapto, isso não impede


que o raptado meça a cidade com seu corpo.

um corpo arrastado convence os cavalos a mudarem


de rota e se expõe como centauro na orelha dos
livros.

quem atira nele


sem apontar
a voz que decidiu silenciá-lo?

desde o início da rapina, roteiro nenhum é garantia.


exceto a casa-exílio a quem cortaram um braço.

talvez o mar já não se explique aos garfos, nem a


família se comunique.

mas a língua, como os açoitados em via pública, se


vinga inquilina e esgarça os arquivos.

[190]

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4

o furo é anterior a baudelaire, à caravana que trouxe


pianos do litoral à fazenda.

é anterior à arquitetura de ananse, propícia para gru-


dar paredes no despenhadeiro.

o furo é o olho mágico, prolonga os sapatos através


da sala, encoraja os filhos a visitarem os pais.

o furo é um órgão tático, o que vai ser uma pedra


um lábio pode ser apreendido em sua pestana.

a velocidade de um peixe, a barriga de um surdo: é


endêmico o furo e não se cabe. para classificá-lo
nem uma tabela de alfinetes.

[191]

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5

uma gaiola desabitada e sonora. para essa lição de


música a caneta se esquiva do jornal e fere.

a folha em branco do ritmo. escreve da direita para
a esquerda no sentido de quem prende um ramo
na orelha.

o trinado na gaiola reclama as cinzas da quarta- feira,
mas as coisas não estão onde as vemos, sua fenda
é que as comunica ao mundo.

também não estamos em quem abre uma janela e sal-


ta. na paisagem que se oferece, o ar frio é como
o rubor antes do desfile.

[192]

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6

o navio inglês ancorou e a doença a seu modo. cuspiu


sangue um dos nossos. há tempos expiava em ver-
melho e preferia o boato à confissão. está no cais
finalmente

em vão os guindastes
os rebocadores

madame luna pôs no alto as arengas – ao caírem eram


um estorvo para interpretar. madame se retira para
dentro das cortinas. qualquer navio é uma lápide
esta manhã.

[193]

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7

a chuva arruinou a janela mas haverá reparo, conforme


a promessa de quem? a chuva continua o trabalho
de mudar-nos.

– a quem chega pede-se


a lisura de um albergue
com os visitantes.

depois, se houver tato,


esfolem as grafias do sangue.

os dias amaros se quebram


com ideias política economia,
mas não só.

ira de pássaro, ciência


de olaria e fogo dão seus
rumos à história

: onde o zelo da infâmia,


descobrem a duração
de um núcleo.

para lê-lo, a língua


se infiltra nos calcanhares.
se calhar, arma o cóccix.

não veio o reparador e porque nada nos separa da noite


somos morcegos, os que têm a cabeça enfurecida
para o salto e as pernas a pensar.

[194]

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o portador de boas notícias também não veio. por isso
o cabelo de agar misturou-se ao algodão sem que
o vissêmos.

hoje, o sonar que ganhamos à força da perda, detecta


um fiasco no pêssego, que dirá o desespero de um
sol no porão.

[195]

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8

ao tempo de g.t.p. um terno branco, um pisante de dos


tonos e um padrinho-fraque punham a miséria em
férias, aliciavam com tentações.

o fígado tinha punch para lâmina de quinze centímetros,


compromisso assinado a fio de barba se pagava neste
como no outro lado do rio.

do tempo g.t.p. aprendeu que perder não é honroso. o


seu retrato não é o de um parceiro mas de um cadáver
inconformado. não se contém, escorrega em direção
a um feto, nasce e morre até exasperar as retinas.

num tempo – que não se fixa em partitura – cede as ini-


ciais ao asilo e de sua carapaça extrai um óleo de in-
fância.

[196]

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9

passear é a arte de sobreviver aos insultos da cidade. há


quem nos devolva o amor em três dias e seque por
cheque as nossas dívidas.

se um pendura o pêlo na varanda corre o risco de virar


casaco. se tem de fazê-lo, é melhor sondar as veias
que circula. um passo em falso e lhe destroçam o
aniversário.

é nos cascos, nos cascos que se abala.

a onda cresce, recita o berne sobre nossas pernas. sua


identidade, irmão, é um cavalo louco quando as lan-
ternas vasculham as digitais.

se eu disser três tristes tigres vão piscar do mesmo jeito:


eu corria – era por isso – em sentido contrário à
morte. mas há outros, enfeitados de recusa, girando
sobre as poças. os magistrais.

sua mão segura um leque, pássaro de outra festa que


aceita o norte de nossa rua. vão passar e por isso se
acumulam onde viveram. o esqueleto de ar os imita,
a treva desvanece seus cobertores.

eu corria cego para dentro do sentido. é na sola que


o sonho encrespa.

[197]

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10

o muro nos olhos, desde quando? Aos sete, logo depois


de escutá-la batendo o telefone. a prisão e o alívio no
meio de uma cor em que elipses variam em linha reta.
e viajar numa kombi entre galinhas e piolhos.

se o cabelo chega aos quarenta os olhos ainda não viram,


os irmãos aparecem de fraldas na janela. os sulcos
no corpo ponderam sobre o declínio antes do inverno.
por isso nos chamam de lobos, às vezes de um jeito
que mataria nosso bíceps.

na tarde o lodo conspira debaixo da latrina o telefone


e a mão líquida de ciúmes.

[198]

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11

o sol às vezes nasce quadrado mesmo fora do inferno


e segura a fera antes que nos nos humilhe.

se eu me vestisse com óculos e terno xadrez pode ser


que me deixassem entrar no clube. e mais,
se danasse de excrementos a escola.

só vão me chamar depois que eu atirar no céu da boca.
e se eu não quiser o abismo, quem me assombra?

até passeio em terno xadrez, pronto a sugar o óleo que
nos empestia a vida.

não vou deixar meus ossos de cabide para as notícias,
nem minha febre à carniça.

o que me rói é pouco, considerando as mortes que


decidi não morrer.

[199]

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12

um, quando dança, não é placa de aviso nem se amarra


a bordo de um país. nutre menos dor pela terra onde
pisa, não sofre porque ela falta a seus pés.

não venham acusá-lo, não lhe puxem o tapete. muitos


cravam as unhas no pescoço, o que dança talhou a
giz – e na poeira – a sua bagagem.

não há país sob a sola dos sapatos. um que dança aponta


o ciclone contra os postos de controle. a dança é seu
lápis para rasurar os mapas.

batendo de porta em porta são todas o seu refúgio. aqui


lhe costuram a calça, ali a tripudiam, deitam cera em
seu ouvido, rezam por seu destino. se tivesse borda
seria antônio felício macário, se convicção, a cinza
das horas.

[200]

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13

a voz é o instrumento depois que os outros foram proibi-


dos. nenhum tambor ou corda para dizer o que pare-
cendo ninfa era convocação à revolta.

a casa-grande está tranquila. não há tambor ou corda no


umbigo da mata. o céu apenas atravessado de úberes e
a suicida no poço.

pelo alfabeto da pilhagem, falar era cair no laço e repetir


a frase-mor das palavras cruzadas.

a voz gretou aos poucos até soar triângulo caixa rabeca.


parece ruído de gatos, mas os que estão dentro do saco
se entendem.

e tocam a voz como se falassem “bom dia, gente, o que


era melro, encilha os dentes e morde.”

[201]

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14

o grito é um sonar, seu indicador apalpa o tecido, a


envergadura das paredes
os becos de fuga.

o grito carece de obstáculos, onde seu toque se erga:


um ossário clandestino, os lagartos na horta
testando a audácia.

onde rejeitado, o grito se expande, onde o praticam


anda descalço nos fins de semana.

o sexo do grito se derramou, chamá-lo de rumo é


estar sob ele de guarda-chuva.

o grito é o cisne metereológico, economia oceano.


as urtigas em sua malha sovam o calabouço.

o grito é um sonar, nós a pedra em sua bílis.

[202]

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15

as superfícies do mundo são o couro para as mãos. um


tampo de mesa o lábio uma garrafa: o mundo é um
silêncio que morre a todo instante.

levaram o animal para o cercado, tiraram-lhe as vísceras


e interpretam o escrito de suas entranhas. o livro
recita quando menos respira.

um homem rouba os instrumentos de outro e nem por


isso o sepulta. a mata de um homem é severa, quem
a visita é para amar no escuro.

a queda da foice o martelo na cabeça de um prego – dá


tudo no mesmo: é o deus levantando a crina para
empenhar um canto.

[203]

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16

as notas sujas corroem a sala


as notas sujas corroem a sala
quem não amá-las arme a tenda no escuro

um parente desceu da prancha


e apesar do nome rolou
entre as cebolas
foi bigorna para o desprezo

as notas sujas estão demolindo


o criador de porcos que entendeu
viver como um deus
nem tanto para morte

nosso amigo tatuado pinça do muro


uma palavra, uma
daquelas que vira lama e caranguejo
não me pergunte se é de ponta

me partiram um braço três vezes


o outro de inveja quer se moer

não é por azar que o vagão de frete


nos leva mas o amigo,
o da palavra, a tem para
entortar as terrinas e o verniz

as notas sujas corroem a sala


as notas sujas corroem a sala
quem não amá-las arme a tenda no escuro

*
[204]

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a vida no blar claire de lune
respira a contrapelo

se alguém a perdeu não há-de


reclamar um molusco
entre adereços de pulso

eurídice

eu, com o mar


às costas, não quis
me resignar à teia

tudo caiu para além


do chão – não fui
às bodas até
me esquecer de mim

amaldiçoei os avós
mas sua prole
me devolve à praia

se alguém sai da ponte,


a mãe, depois
da queda, ainda
lhe prende os braços

não me fiz esperar


eu, com a
miragem encarnada

no bar claire de lune


no eleito bar claire de lune
se alguém perdeu não há-de

*
[205]

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o carro da miséria deslizou por aqui
o motorista largou as mãos do volante

ia a cento e vinte, lento para nos salvar


o álcool passou da garrafa ao cente
francisca soube o ciúme de rasgar

lento o carro da miséria, passou a cem


não levou anis para o enforcado
vão abri-lo, esse conforto,
puxar as sardinhas que dormem em óleo

se a cartomante vier, lerá as vísceras


: com um sol desses o pai arderia
estaremos vivos ainda que ameaçados
– dêem no fígado, no fígado

o carro da miséria calejou por aqui


o motorista esquecido do sinal vermelho
lento para engravidar a sombra

cada um de nós pergunta como é possível


dobrar a esquina se estamos dobrados
talvez por isso não haja dor que nos confunda

o carro da miséria golpeou por aqui


ia a cento e vinte, lento para nos salvar

[206]

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17

o auxílio chega e se espalha no deserto

o país de sua origem


é um animal
acéfalo

agora, sobre o deserto


inicia a vida
como se a não tivera
antes

como adivinhar os cereais entre as rajadas?


se levantamos a cabeça
um segundo basta
para que se desampare

o trabalho não é domar as ofertas


do animal-auxílio
– elas caem para a boca, seu destino

como saber os rumos da fome?

os mortos
farejam nos vivos
a sua alegria

por isso se as calças


não giram na cintura
nem os dentes
se destratam
ainda estamos no páreo
[207]

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não conte as rugas, celestine
se não o estômago
rejeita a sogra
e o último alimento
se perde

o auxílio é um parente
a ser esfolado
sua pelagem
é a melhor das virtudes

[208]

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18

a mulher que deve coser a bandeira dorme. o serviço


em atraso não é motivo para que se vire na cadeira.
sua gordura está confortável, por que lhe dar uma
culpa?

o receio da mulher que deve coser a bandeira amofina:


entrou por um tear, é máquina também, fuzila com
trepidações a vulva de outra irmã.

a mulher que deve coser a bandeira subiu três vezes a


escadaria. quem a entendesse perceberia que está
em pane e feliz.

a mulher nem dorme, os dedos intactos, vai cosendo a


bandeira. como saber se usa linhas do armarinho
rosa? cortará com tesoura amolada na outra
falange do rio?

a mulher se enrola na sede para uma noite de fogos.

a mulher que deve conduzir a bandeira se revolta de


alegria, a seguir-lhe o rubro me desconheço. seu
meridiano é disperso, por isso a cobiçamos.

quando se lança, o país se encurva. tudo é deserto sob
o sol do seu gesto.

[209]

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para conduzir a bandeira a mulher faz uma dívida e até
saudá-la não me oferece o tornozelo.

dentro, onde não vemos, se despe, por fora se diverte


em sacrifício.

ainda que a morte a visite, não contará o dispêndio. por


hoje sofram os vizinhos, turve o leite, os filhos se
percam.

as roupas por engomar anoiteçam, a pedra atirada


ontem continue buscando o alvo. por hoje a cárie
seja a senhora da boca.

a mulher vai na bandeira. os vendedores lucram às


suas custas: para vê-la negociam um giro que não se
capta.

o que tem o cabelo raspado a gilete merece respeito pelo


deus a que foi entregue

e a regra que impõe ao signo. não vemos o que está em


sua testa, mas

o ritmo doado aos instrumentos é sinal da forja que traz


acesa.

a que tem o cabelo raspado à pedra merece respeito pela


mãe que a sustenta

[210]

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e o estilo que impõe à sentença. o que está em sua testa
não adivinhamos

mas o estilo rebelde à letra é sinal do grão que a faz


imensa.

o que tem o cabelo raspado a gilete e a que tem o cabelo


raspado a pedra colocam

o sopro dentro do esqueleto.

[211]

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19

com eles o recurso de trinchar o parafuso e afinar


o surdo com eles a sífilis de orfeu a flanela para
lustrar o abismo com eles o barrete de exu a faca
que agredindo o prato faz da cozinha uma caixa de
som para eles o roxo a cabaça e a rede um serviço
que a chuva interrompeu com eles as anáguas um
tempo à mercê da língua como se um provérbio
se entornasse : quase álibi.

[212]

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20

a fala de quem traz um grifo


é às avessas

para dizer o berço tem um cervo


nos mostra o lenço
dos mortos, e se pretende

contar o devaneio das meninas


arrepende com facas
o entendimento, a fala de quem

traz um grifo não suporta


a linha de um fecho éclair

se esgueira entre a mata até a úmida


fronteira, a fala

de quem descobriu em si
o verbo
não carece de bicicleta

pode ser que lhe baste


um sossego de lata e os amigos
morando na árvore

[213]

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21

faíscas do esmeril chovem na oficina. quando


a marmita se dará em prêmio?

chovem vermelhos entre as ferragens. um torso


com bandagem sua como se voltasse de um
mergulho.

a oficina em transe – de uma cavidade se arrasta


um touro, um fauno perseguido pelas ostras.
um casco
de tartaruga se casa às tripas.

altas horas meio-dia. para cada nervo a oficina


é mais que o gênesis.

[214]

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22

a história dos antílopes


tem sido contada pelo sangue
nas ravinas

engana-se quem se orienta por este selo


e outras missivas

se esse alguém
intuísse que são medusas as plantas
talvez amasse menos
o desastre alheio

a história dos antílopes


não deve ser creditada aos herdeiros
do colecionador

nem ao vento
nem à esposa nem ao homem
que ateia fogo

quando o antílope invernou


não é que abandonasse
seus arcos

talvez fosse estratégia,


nunca se gastaram por isso?
e a vida que nos cabe rompesse
a armadura

[215]

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dentre os primeiros
a não rechaçar o antílope
ardeu
o que vai chegar de viagem

“minha bolsa de estudante


estrangeiro
percebe as gralhas
furtando a tranquilidade

antes que nos identifiquemos


rasgam nossos livros – e o que pode
um antílope
sem suas anotações?

apostamos séculos na palavra


mas na cidade-ringue
não evitam o nocaute”

um fusca estraçalha
o domingo
os suicidas desembarcam para dar geografia
aos lugares

na pastelaria sobrenatural
ou no bar do cabelo
pouco importa – aí se preparam
os nervos
de quem se apresenta
às organizações naja

– que linguagem assaltaremos?


na pergunta sobre a ação
a ação se desenrola
[216]

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os antílopes
não morrem – o que vai chegar de viagem tatuou
em si
os trabalhadores engolidos
pela mina
os lenços que as mães
passaram do cetim ao protesto

porque um
invernou não quer dizer
que deixou de abrir o clube

nem que esqueceu
a agulha
emperrada no disco

os antílopes
correm na equipe de revezamento
e o mais velho
o que dançou no elite
estira o amor
num quarto de vogais

“olho a vitrine e sei que a onda


de calor
faria menor estrago
no deserto

aqui, entre os artigos de festa


traiu
o corpo da bailarina

[217]

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como se não pudéssemos
dançar
além do toque de recolher”

a história dos antílopes


se atreve
num cadáver
sua origem corta
o selo, vai ao cinema
salda uma dívida

o antílope
vira a mesa de bilhar
e acende o rádio
para amanhecer os ouvintes

[218]

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23

– no document – vírgula que separa um negro


vermelho de sua árvore. a cidade se apruma,
no entanto, seus fornos assediam a ilusão
que gestamos.

no extremo da praça uma ópera trai os idiomas


decifrá-los só ao preço de estender a própria
boa vontade.

... arrivals and departures ressoam na


memória e me devolvem um saldo
que pende para o vermelho. o gesto
de puxar a gola acima das

orelhas adverte sobre a mudança de


paralelos: outros purgaram nesse
ringue, sei pelo arrepio que torna cada
um de nós um feixe a ser

amarrado. não sou o primeiro nem o


último a ranger os dentes para a
cidade, tão mais agressiva quanto
mais a respiro. não sendo desse

lugar, colaboro com sua teia, educado


em sua liturgia, pertenço a qualquer
fronteira, o que me permite ser todos
e ninguém. são delírios,

[219]

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reprova, tesfa, porque transporta o
cordão umbilical disfarçado de nome.
os outros talvez digam o mesmo,
afinal fizemos a travessia com

passaporte assinado pelos que matam


e têm pudor em suas biografias. estou
furioso, mais uma vez, sem me dar
conta. o modo como tesfa gira o copo

basta para que eu o perceba. devias


medir as palavras, elas te corroem e
mal reconhecemos de quem és filho.
que me importa, tesfa. eles

continuam a nos observar através dos


binóculos: as exposições que
apresentam no museu etnográfico são
uma oportunidade para se

eximirem de suas culpas. eles que ti-


raram a golpes de discurso a cabeça
da serpente. tesfa não movera um
cílio, mas era visível seu

descontentamento comigo. de todos


nós, foi sempre a que nunca se
perturbou. em nossa ilha, durante as
reuniões na casa maior, nada

[220]

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acontecia, o tédio engordava crias:
uma delas, o mau-humor que me
tornava irascível. os outros se
afastavam, menos tesfa, que me
convencia a

ler os entalhes das portas, enquanto


os velhos se esqueciam de tudo para
lembrar. a mesma tesfa me fitava
agora, com uma ponta de tensão,

inexistente nos rigores da ilha. por


que reclamas tanto? não fosse a ruína
das fronteiras, ainda estarias no
campo, pronto a ser cortado como a

folhagem de chá. ninguém, a não ser


os velhos, seriam tolerantes contigo.
graças aos acordos recebeste um
cartão verde... que me ensina a

olhar os meus através dos binóculos,


interrompi bruscamente. eu deveria
me conter, mas as rodas do
pensamento haviam se livrado da

ferrugem. pobre tesfa, nem o carinho


de amante-irmão a protegeria de mim.
resignada, ela voltou a girar o copo,
enquanto eu insistia. veja as

[221]

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exposições de etnografia sugeridas
pelos punhos de renda. são cínicos,
quando nos convidam a ouvrir les
dossiers du chant des peuples H. isto,

para eles, é apenas ouvrir une boîte


noire et rencontrer la distance entre
nous (les hommes) et les autres (fils
d’un ciel sans paroles). se a

inquietação não nos fere diante desse


convite, não o fará para desalojar a
gentileza de uma senhora LSD. que
oferece à praça sua coleção de
bambous

recouverts de motifs abstracts et


figuratifs...

para isso o branco: suporte não exigente: prego


na parede do fôlego. como se a paisagem
demitisse o arquiteto
e soltasse as amarras: de uma anti-linguagem se
deduz o fiorde e a respiração que nos falta.
nada compensa o risco
de perder esse embate, quando o vento amola as
pedras e uma vértebra estremece o final da
tarde.

não há origem que nos conforte e a casa cerzida


na rocha é um grito adiado. por isso a queda
soa fóssil-irmã.

*
[222]

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a palavra não é o abismo. artelhos defendem
sua figura e o corpo (rebelde às fronteiras)
transido em mapas.

é raro medir a extensão sem margens até que


o limite se declare: onde a pedra e a água
tangem, a gramática é às avessas.

talvez a curva de um réptil afunde, uma colisão


nomeie os continentes e os selos mostrem a
orientação dos erros.

escarpas calculam para a memória em greve: sua


letra se dissolve. do não-escrito, porém, outro
texto decorre.

a saliva não espuma igual, mas revela um lapso


na atenção dos fiscais: sua cauda tem a orla do
arpão que a decepou.

esse conflito é a ponte e o corpo a atravessa sem


música até o desejo recusar os círculos: não
existe fora ou dentro quando os formulários
estão puídos.

se a ordem nos empurra, caímos no dia e não há


quem impeça o fruto exilado de amadurecer.

para justificar o trópico, só o movimento e com


ele a luta entre a cartografia e a vida. um tremor
cabe na espinha, no passaporte não.
[223]

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a bagagem é a rota.

por isso a coleção de impasses e o nervo exposto


como um troféu.

*

língua: quintal do mundo: se a vontade é arrastá-la,


enguia fora d’água, também se pode roer nela
o que tem de minueto e palmeira-da-índia.

no miolo sua desordem & concerto: um deslize


como herança, tátil e sem endereço.

a língua aos sobressaltos: no caderno de viagens do


cão o só registro da névoa. em outro caderno
(de pilhagens) a confissão de perder-se entre
as sintaxes.

não fossem as capitais, o ritmo tomaria as horas do


decapitado. não para vingar as artérias, gesto
previsto no calendário.

o ritmo entende que destravando o freio & cia o


ganho não é só da língua: o corpo esse que se
retrai trepida em hipóteses.

a língua para os assaltos devolve o anonimato a


pessoa. podem fremi-la os gatos em olinda e
luanda, os barcos em litígio no faro.

o ritmo gesta na língua a razão de si mesma. se a


mão que a esparge falha, não é que deixará de
nomear a paisagem.
[224]

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24

a parte severa do corpo não descarna apesar do vento,


é ainda o preço a ser pago.

se o antílope indaga – qual a dívida? não é que saiba


o roteiro para entender a violação do campo.

o irmão cego: não é certo que tome o partido das coisas


há muito os caniços são os porta-vozes, mais água
que saúde, numa fieira de provérbios.

é cada vez mais difícil ver no antílope a recitação dos


velhos: o que se diz em água não se demora.

caniços vergam e se partem, não há como recolher suas


vírgulas – ordene aos cães que o façam, insinua o
antílope (assim haverá menos farejadores em seu
encalço?).

seios ardem se a regra que os norteia é de caniços, mas


importa? talvez a árvore familiar seja o vento que
descarna os míopes.

[225]

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25

no intervalo entre uma e outra batida a ideia ronda


o calabouço.
a cada instrumento a voz do seu mestre.

onde um duelo, dois mortos, o que era uma nota


desencanta.
quem pariu mateus que o alimente. o incêndio
se alastra
para bordar um estandarte.

ao longe um barco de flores

onde as ideias encarnam, os caules dançam, o que


era um
nó se desata. o aceno à janela do ônibus, a
leitura dos trevos. entre uma batida e outra os
pés não atrasam o piso onde estão.

[226]

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26

cinco mulheres estão fazendo e o que fazem não


é
pouco: se não fiarem a palha o gado resseca
os grilos
não saltam verdes

cinco mulheres em saias tecidas, cada uma sabendo


que a vida morde
não se distrai de seus afazeres.
fossem irmãs
teriam o asilo, os anéis de coral e sorte.

fossem madrinhas
o esquilo de sol não lhes faltaria,
madrastas fossem a polir as roupas, uma carta
lhes diria: vai a chuva,
vem o sol faz arder o meu lençol

cinco mulheres mil tarefas: uma cava, sua morada,


outra engravida as leiras, a terra não lhes devolve
os grãos
mas os naipes em que foram mudados
duas pilam contra a fome – um cereal se muito

outra, enfim, cozinha o que não há em cidade


ou campo
sua mão rema num lago de margens oculares,
talvez
fosse uma lua, um deserto em braile?

[227]

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cinco mulheres em suas lidas não se escondem, altas
acima da noite,
com ela vergam em flecha e raio. cinco mulheres
em greve semeariam o caos

se o umbigo não redime o clã, por que aturá-lo?


pela hipótese de ver no mínimo
um útero tardio?
o umbigo é menos que um filho, se recusa
a si mesmo,
o centro oscila e a lua mutila
seus chifres
como frear a sede do umbigo, virá-lo às avessas?
quem sabe torcendo
a pupila dos deuses
é de mulheres essa enciclopédia tão esquerda
em sua carestia,
às mulheres pertence a cabeça
(outro umbigo de tudo)

cinque femmes on enseigné aux signeurs un autre


rytme des mots
dans sa tête les mots sont un fruit despaysé
sont armes
d’accusation et souffle du ciel.

les mots des femmes s’agit comme un autre


langage.
les femmes qui parlent les mots
sans pays
touchent l’histoire, avec son chemise-matin
ont peut faire la mort mas
ont ne peut pas faire la musique de ses idées.
[228]

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cinco talos fora do mapa, certos em sua geografia:
um mito fere o tempo como a um peixe
e à força de não vir
nos funda como heras de outro campo.

fossem menos que cinco mulheres na faina,


ainda assim o país se alargaria,
elas são, contudo,
o número exato para a euforia dos ossos.
fossem buscá-las de automóvel, somente um
quatro portas as levaria

alerte-se a história, a que sendo uma não


absorve cinco mulheres
para elas os hiatos são buracos de agulha
e linha e o que fazem deles
não é fiado ao esquecimento

cinco mulheres tiram os gumes da caixa. quando


não forem mais
que sombra, pelo que fazem, ainda estarão
em seus ofícios
(que serão outros como as veias

e o sangue) cinco mulheres em estampa fabricam


o pensamento, vê-las não
revela o quanto se moveram
e continuam a mover-se além das retinas.
cinco mulheres
estão fazendo e o que fazem enumera-se por si.

[229]

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27

tudo em calma, o arco da noite não desliza. o chapéu


sobre o couro que a mão fustigou.
sob o chapéu uma escrita em sangue. não demos por
ela quando era chama.

uma lasca com a intenção de matar


não sobrevive à ferida que provoca.

a lasca de abrir o selo, como


um lápis, para atormentá-lo de escritas
esta, sim, não desmerece o próprio corte.

se é para ornar as costas ou aferir o tórax,


essa lasca (útil à geometria) devora
adentro, entre gordura e memória.

o corpo é palco onde dançam as escarificações.


órfãs da lasca, são chuva e leopardo,
árvore no sonho dos lamantins.

os acontecimentos vergam a espinha, não é possível


tirar-lhes a camisa.
a morte adoece para durar em si mesma.
se o rastreador desonrou a noite, suas pupilas não
podem engravidar a manhã.
afinamos os amuletos e a escrita nos interpela, salvar
a voz não nos redime do saque à tempestade.
tudo em calma, agora, só uma letra em sangue resvala.

[230]

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28

dois irmãos sentados, se me querem


vermelho, vão ter
se me querem estou saindo a cavalo

antes de lixar a cidade preciso esvaziar


os armazéns
além da fronteira não há provisões

não há fronteiras, apenas um falo


indicando a seca
dois irmãos se encaram se detestam

entre eles uma farmácia, a tarefa


de quem
penteia as cabras para uma fotografia

tenho bexigas onde repousa


a família
de rostos em conflito, um vai à guerra

outro avermelha entre dois irmãos


se me encarceram
sou o que julga e prende o secretário

da repartição: para os sentados na vida


se me querem
posso atravessá-los com uma teoria

talvez um relato: dois irmãos se aliciam


enquanto um
falo desiste de nomear as fronteiras

[231]

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29

o medo se aquece sob a lona, mas não desistimos


de minar a saúde da morte. o rastreador deveria
perder as rédeas, única maneira de achar sentido
para sua raiva.

a vida interpela quem se separa durante a colheita.

tememos o fogo nas ervas, embora os ossos desejem


crepitar. o tempo nos roça com seus peixes –
seria possível arredá-lo com a foice?

o tempo nos morde a coluna e se diverte como se
não pudéssemos rugir em nós mesmos.

[232]

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30

uma casa cresce para o centro, gerando ao contrário


punge outra memória.

menos que as paredes e o teto assume os hábitos de


quem já não respira.

uma casa ao vento tateada por um velho que orienta


os bichos, eles também

alheios a qualquer vestígio e, no entanto, vivos. uma


casa recuperada

na ausência não é uma casa, mas um rastro que de


tão impreciso é o que se basta.

a casa nova sobe nas costas da antiga, duas tartarugas


que se falam.

se uma toca o ventre da outra, dão à luz o zero das


coisas.

[233]

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31

os gatos amanhecem envenenados (um felino


ultrapassa a floresta, não se adivinha a eletricidade
nele)

os gatos estão famintos – a mão que os aniquila se


exercitou contra a memória, para ambos o
mesmo método: cortar a cauda enfiar no saco
atirar no rio, mas antes envenená-los

não se calcula, no entanto, a odisseia de um corpo


esquecido no lodo

[234]

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32

a mesma blusa para duas braças de vida. a que vai


à escola cede o seu visgo a outra, que flameja o
ventre.

durante a semana engordam a amizade com o


pouco: nada de agredir os seios nem desperdiçar
o ônibus.

mas sábado, como vestir a multiplicação do mundo?


os grampos riem na chuva, nenhum recado se
engaveta.

a blusa única não é páreo ante a aceleração do desejo.


o acordo de troca adormece na frente do espelho:
duas braças não

pertencem ao mesmo corpo, ainda que rodassem


com a pele idêntica e tenham sangrado juntas
no berço.

a travessia do bairro devassa um território maior e


sem nome: os que acenam se deflagram. onde
uma conversa, algo se retesa. o corpo desliza
entre as flechas.

[235]

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33

o olho de vidro entrou na história daquele que esperava


ser o mais visto

a bola

a toda na direção do sol. o olho de vidro veio obscuro.


por um desvario de rotas a menina do olho se plantou
entre a velocidade e a força: não caiu morta encolheu-se.
sua caverna sua janela, eis como se deu a recuperação
daquele que olhando dentro e fora não se encarcera nos
lugares: em sua estratégia as linhas partem e os desvios
são países cruzando a via férrea
o olho de vidro
reinstalou tudo: do alto de seu labirinto o que esperava
ser imprevisível decola na direção que o nariz aponta
e depois duvida

[236]

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34

o grão cão sofreu uma entorse na costela, vieram


examiná-lo com um aparelho suspeito.

e lhe dizem: foi assim com seus avós, cuidamos que


sirva para seu acerto.

o aparelho de cura singra como se talhasse o oceano


e mergulha onde menos

o grão cão precisa. parece que o perseguem num


filme de segunda,

querem sugar-lhe a medula e, na falta de imaginação,


salgar a rua onde caminha.

o grão cão tolera o exílio, a traição da porta-estandarte


mas nunca

o adiamento da língua: como ser fora da palavra? o


canto repercute

sem o tropel da fala? por isso recusa o aparelho, cospe


para que vejam

suas peças uma a uma. a costela do grão cão funciona


por exigência.

[237]

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35

agonia é o besouro equilibrando no varal. a mãe


o estende,
não há gravidez nas roupas e sim a ilusão de
lidarmos
para a memória. vez por outra o passado tem
o coice
de um lago e nos devora.

agonia é o desejo que oxida, um fragor se expande


para ser beleza
no desastre. a mãe compara o mês ao touro.
um varal ensina
balé ao estômago – se a morte não tripudia, é
a dama que elegemos.

agonia é o não em andamento, uma vez rolada


se esculpe
em quem a ampara. uma autópsia distingue
nela o orgasmo.
certo é que vale uma calça de veludo, em sua
presença cada um vista o que puder.

[238]

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36

a costela de adão o desarvora

entre os que tangem o fogo


cresceu a ideia de que não conseguirá
explicá-la aos filhos

a costela posta à lua
troca o baile por um pierrot

o sindicato do crime
não a derruba porque ela o expõe
sem curativos

a costela de adão nos patrocina

ainda que a devolvêssemos


se insinua

basta puxar o cobertor e ela cumpre


seu desígnio
temos de levá-la como um dente
saindo de lado

não fosse a costela de adão seria


o pomo

entre os que tangem o fogo grassou


o hábito
de alugar a sorte no mercado

[239]

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37

o ateliê de antônio sérgio moreira não é um galpão


onde as figurações de elegbara se inibem: nele
estão o ringue e os lutadores,

cada um, de seu córner, atirando para sobreviver.


o tédio recusa essa vivenda, embora mereça o
seu nicho. o galpão se debruça sobre os livros e
o telefone, imaginá-lo arrumado seria amordarçar
hermes. o galpão fala todos os modos, migram
sentenças dos seus orifícios. um tigre devora o
escárnio, escadas enxugam os pêlos. a qualquer
momento virão cobrar uma dívida, pedir um
conselho a quem acorda sem cheques. o tigre se
inclina ao cinema de sombras na parede.

o ateliê antôniosérgiomoreira não é um endereço fixo,


seu eixo acelera ao apontar os incêndios, lá fora:
“estão chamando, filha”.

[240]

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38

em casa da senhora tadesse


escutar os retratos é compreender
porque nos empresta a chave
de sua consciência

algo se enerva entre a bola


de tênis e o receio

estamos à espreita
com a ciência de um tocador de kora

se o país fosse uma fronteira


acabaria ao entrarmos
no armazém chifre de hérnia

a curva – gatilho da errância –


explica os idiomas
e a cidade pelos bueiros

em casa da senhora tadesse


honra fraude
uivos
infestam a biografia dos ídolos

também eles se afastam


rendidos
no jogo da memória

interrogamos a mulher
que a fotografia não revela
impossível saber se fala
como os que não dão entrevista
[241]

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perdemos a inocência da linguagem
em casa da senhora
tadesse
e nos divertimos a roer os alfabetos

ademar papaléguas

não há que esperar dele senão


a virtude
de quem untou
os calcanhares da paciência

ademar papaléguas vai nessa


outra
animação do oceano
a que nos cabe
se nada vimos

pelo cardume de sílabas


ademar
identifica seu ofício
campeia
as que acenam fora do livro

e ao catá-las
remenda não a roupa
mas o corpo
para afogar-se na vida

[242]

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o afihado chorou a queda
do primeiro dente
georgina não intuiu que outra erva
se danava

imersa no receio da infância


mais se protegeu – afinal
não era assim que a igreja
ensaiava com os seus remadores?

e no coro lutavam
os vermelhos contra os lúcidos,
mas venciam todos?

é pela margem que georgina marcha


esquecida
do próprio esqueleto
– o nosso pacto, qual era?
ele a interroga

a fortuna talvez
lhe ofereça a melhor loteria
georgina a recusará
pela cicatriz que afeto nenhum
dissolve

(...) esse com quem converso


é tadieu
– o que me acorda das viagens
ao rio-greve

[243]

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meu lado direito se inclina ao sorgo
quem passe por nós
se morde:
– são dois homens em comércio
ou à mercê?

tadieu ergue o círculo de arame


suas mãos cortaram a torto
ainda que não o quisessem

“a água (é tadieu)
me alarma
para o rude
eu em relva e febre
apresentado
aos cães

quase um arremedo
de força
cortando a torto
e às cegas

salvo pela água


que me afere
o pensamento”

infringimos a manhã
com o serviço encomendado: um desvio
antes da curva
tadieu recorda:
“eu
vinha
com meu cadarço
à revelia
[244]

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mas um terno
advertiu que a ordem
tiraria meus calos

qual quê? arranhei

o terno
para não perder
sua função
me exilou em casa”

veja o que anda em nosso encalço


seria o caso de rirmos
dessa ofensa

meu lado direito se queixa das úlceras


que não
chegam a desvio
a curva permanece, nenhum golpe
a torce de sua rota

quem passe por nós se morde:


– são dois homens
em conversa sobre o quê?
..........................................................
..........................................................

[245]

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39

uma cadeira ao sol para não endoidecer, garota.


ouça a mãe
que sequestra os pesadelos. eles estão dentro
da minha cabeça
e ninguém chama o arrombador de cofres.

para tirá-los só o espanto de uma cadeira ao sol,


a gente
balançando até moer, o primo faminto a nos
doar
o seu ventre de ano novo.

mas isso nunca virá, para que eu fique torta de


remédios
querendo pegar uma tolice com os pés e ela
escapando
pelo furo das meias.

empurre ao sol essa cadeira. não se descuide,


a mãe
desce na velocidade em que ferveu à porta
de circe
– a que balança sem a febre dar corda em
sua cadeira.

amanhã haverá bodas na família, sinto os


carros viajando
para a mesa. os cabelos cheiram a gasolina,
as molas
dos colchões funcionam muito bem.

[246]

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dentro da minha cabeça as peias aterrorizam,
se chamassem
meu irmão ele explicaria, depois de tirar
os coelhos
das armadilhas.

– sejamos francas, minha cara, no alto dessa


cadeira, quando
o sol se puser nem os diabos dançarão.

[247]

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40

um suspiro para khaleb, tão íntimo das rodoviárias


que – não se imaginaria – nasceu ontem. ainda
desarmado, ama a serpentina e o áspero, seu
primeiro dicionário.

os vizinhos estão chegando por khaleb, cavalinhos


de fax e velocípedes estacionam junto ao berço.
khaleb não tem registro nem vacinas, como um
bairro se faz por extenso aos passantes.

7 arrudas para khaleb + 7 rumos para seu umbigo.


faça chuva ou sol se faça é de sua cabeça que o
mundo descende.
um suspiro por khaleb, nascido para mudar de
si mesmo.

[248]

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41

para não crispar um estrangeiro se agarra – à sua música?


o desemprego desafina as linguagens, não importa o
lado da esfera.

ormai non c’è frontera neanche un metrò capace di por-


tare via i disagi. questa è la città oppure la primera
idea del horrore.

o estrangeiro e seu irmão-nenhum-lugar a reconhecem,


antes
que a mira de uma magnum os traduza em notícia.

para não esculpir em si a ferrugem, se prende la musica


o qualcuno colpo di memoria.

: a orla
de onde se parte
adquire um nome
na ausência

pronunciá-lo
requer um idioma
anônimo

o estrangeiro não aporta, rói a si mesmo de dentro para


fora. imagem essa a que dura.

[249]

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42

se uma palavra arranha não quer dizer que seduza os


vivos e os mortos. ao vento ela execra desmandos,
porém
não corrige a violência

o lugar que nos deram para exílio estranhou-se em casa


: herança é o que entendemos. o que esperavam os
descendentes do rapinador?

a língua encoraja à sobrevivência, por isso preferimos


os sintagmas afinados.

talvez o mar seja apenas uma linha à frente e sequer o


alcancemos. a família, talvez, nem se comunique
através dos gestos.

talvez o continente seja uma ilha. apesar da incerteza,


algo se oferece à língua – e escapa.

[250]

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AS CINZAS

desde a infância o mar sangrando junto à casa. o que


se movia não era um quadro e menos a inscrição
que seria dor

no tempo. o corpo um ciclone, era possível morrer


em suas tardes.
desde a infância um hospital estremece na areia
e se expõe em signos.

a dança exige que o corpo seja um repórter na linha


de fogo. que viva e nos diga o sentido da ameaça
e seja rápido ao bater em retirada.

a dança exige do corpo que se esquive e não volte ao


lugar de origem,
toda marca é ausência anunciada.

a dança não quer para o corpo o destino de um cofre.

[251]

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3

o irmão manobra a chave mesmo se filaram a oficina.


arrancados,
os cílios têm a altura das montanhas.

o brigue invasor cedeu à revolta: quando foi a pique


soubemos que daria excelente arquivo. o irmão
estripou o navio
(tartaruga às avessas)

em sua homenagem negociamos a sintaxe do atrito.

o corpo é uma semana de férias. estende-se na his-


tória como se estivesse na praia.
sofre os efeitos do sol,
alguém vai montá-lo para merecer o desejo.

o corpo se habitua ao próprio sal, embora reconheça


nele os sinais de sua dispersão.

o corpo não reside em si. essa ausência legitima os


cartões de embarque e desembarque, as figuras
letais coladas à retina.

e nada será mais fincado que o corpo, ciumento de


sua horta.

[252]

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5

diante do carro que a memória conserta, estacamos


para entender o clã dividido no transporte de
uma aparelhagem de som.

o pai atravessa com uma caixa nos ombros, o filho


com outra, a mãe com o toca-discos. são três
horas da tarde, o corpo é a família levando pão
e água para a cidade.

a música que ouvem não é desse enredo, é de outro


talvez, que não soasse ainda.

entre as orquídeas um pêlo como se o asco ganhasse


fortuna e o cão deixasse a rua para salvar
o eclipse.

as fibras advertem que a serpe não é transitória no


homem.

por isso, subir ao carro e torcer o pêlo da orquídea


até que o ar se exprima em grito.

[253]

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7

o modo como nos chamam tem a ver com o corpo


: porque nasceu, ele não garante um quintal
entre os fiadores da palavra.

às vezes, é um canal por onde escoam as lianas, mas


não o chamaremos de rio.
outras vezes, é uma
cabeça que andará o mundo, nem por isso a
saudaremos: mãe.

um corpo se não diz a que veio, não veleja em


outro. ainda que resuma o dia em lua, não vale
mais que um asilo para os rastros.

porém, se erra entre os vizinhos e os nômades é um


caniço para toda música. ele, porque muda, faz
do nome um enigma.

sob o Q O R P O recordamos o que fomos – se querem


nos oferecer a carta de identidade, deixem-na
em suspenso.
: o grávido nome, pronunciá-lo é perdê-lo.

[254]

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ÍNDICE

Os Antílopes [9
totem iteque [11

cena de pesca de tsoelike, lesoto [13


o que danças? [24
sangue [28
língua [32
sob a relva [37
no tempo, o dos [42
excelência [44
que cidade linda [56
oconjó [68
numa paisagem, outra [76
les hommes-bêtes [79

Passagem do Meio [83


totem zaum [85

cemitério marinho [87


portrait de famille [101
três atos, uma fuga [104
homeless [110
praia do não retorno [124
lá embaixo, onde cresce o algodão [128
caçadores de borboletas [143
photo david [150
rastro [155
porte étoile [158
o continente [167

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O Mestressala [179
movie totem [181

abre alas [183
improviso [187
as cinzas [251

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O AUTOR

Edimilson de Almeida Pereira nasceu em 1963, em Juiz


de Fora, Minas Gerais. Publicou, dentre outros, os livros
Zeosório blues, Lugares ares, Casa da palavra e As coisas arcas
(poesia reunida, 2003); Histórias trazidas por um cavalo
marinho (prosa/ infanto-juvenil, 2005); Os tambores estão
frios: herança cultural e sincretismo religioso no ritual de
Candombe (ensaio, 2005) e Malungos na escola: questões
sobre culturas afrodescendentes e educação (ensaio, 2007). É
professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal
de Juiz de Fora.

[259]

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homeless
© 2010 by Edimilson de Almeida Pereira

COLEÇÃO TRAVESSIA

Coordenação editorial e projeto gráfico:


Edimilson Pereira e Prisca Agustoni

Conselho editorial:
Carlos Machado (Brasil), Ísis McElroy (EUA),
Mia Lecomte (Itália), Rita Chaves (Brasil)

Revisão:
Édimo Pereira

Composição:
Pablo Guimarães

Capa:
Edimilson de Almeida Pereira

P436H Pereira, Edimilson de Almeida.


Homeless / Edimilson de Almeida Pereira. –
Belo Horizonte : Mazza Edições, 2010.
264 p.

ISBN: 978-85-7160-495-7

1. Poesia brasileira. I. Título. II. Série.

CDD: B869.1
CDU: 821.134.3(81)-1

Mazza Edições Ltda.


Sans Chapeau
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Autoriza-se a reprodução dos textos desde que sejam identificados os dados da
publicação e das editoras Mazza/Sans Chapeau.

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Colofão

homeless, na presente versão, se escreveu em


juiz de fora, belo horizonte (minas gerais,
brasil) e maroggia (ticino, suíça) no período
de março de 2003 a setembro de 2009. a
primeira edição, em parceria Mazza-Sans
Chapeau, belo horizonte/ juiz de fora, veio
a lume em abril de 2010.

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