Você está na página 1de 5

PROVA ORAL – PONTO II

ESPELHO

DIREITO CONSTITUCIONAL

O CNJ instaurou procedimento de controle administrativo para apurar caso em que


a juíza Vanessa atuou de forma negligente na condução de processo judicial, o que
favoreceu uma das partes. Ao final, puniu-se a magistrada com a penalidade de
aposentadoria compulsória. Inconformada, Vanessa impetrou mandado de segurança,
no STF, alegando, entre outros pontos, que:

a) o CNJ exorbitou de suas atribuições ao julgar o caso. Isso porque a


Corregedoria do TJ já havia investigado os fatos, sem aplicação de qualquer
punição;
b) a decisão do Conselho teria ferido os princípios da razoabilidade e da
proporcionalidade ao aplicar a pena máxima, diante da baixa gravidade da
conduta a ela atribuída;
c) teria havido prescrição administrativa.

Diante do caso concreto, responda: A ordem foi concedida? Como o STF se


posicionou a respeito das teses apresentadas pela impetrante.

O STF denegou a ordem. Teses fixadas:

a) Competência do CNJ é originária e concorrente


A CF/88 conferiu competência originária e concorrente ao CNJ para aplicação
de medidas disciplinares. A competência constitucional do CNJ é autônoma (e
não subsidiária).
Assim, o CNJ pode atuar mesmo que a corregedoria local não tenha
investigado o caso ou tenha arquivado a apuração. STF. 1ª Turma. MS
30361 AgR/DF, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 29/8/2017 (Info 875). STF.
2ª Turma. MS 28513/DF, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 15/9/2015 (Info
799).

O Min. Gilmar Mendes destacou que o CNJ agiu antes que o TJ tivesse se
manifestado sobre o tema. Assim, o procedimento disciplinar não foi instaurado
pelo CNJ no exercício de sua competência revisional, mas sim originária. Logo,
não se aplica o prazo de um ano para revisão disciplinar, previsto no art. 103-
B, § 4º, V, da Constituição Federal.

b) STF não deve rever o mérito das decisões do CNJ


O STF entende que não é seu papel fazer a revisão do mérito das decisões do
CNJ. Assim, os atos e procedimentos do CNJ estão sujeitos apenas ao
controle de legalidade por parte do STF. Além disso, não haveria
desproporcionalidade na decisão do CNJ, considerando que ela foi amparada
na conclusão de que as magistradas não observaram os deveres de cautela e
prudência ao ignorarem dados trazidos aos autos que demonstravam
claramente a utilização do aparato judiciário para atingir objetivo criminoso.
Vale ressaltar, por fim, que o mandado de segurança não se presta ao
reexame de fatos e provas analisados no processo disciplinar. Nesse sentido:
(...) A reprimenda imposta aos recorrentes mostrou-se plenamente
adequada aos atos ilícitos praticados, para os quais a lei comina a pena
de demissão. Conclusão diversa em relação à proporcionalidade na
dosimetria da pena demandaria a reapreciação de aspectos fáticos, o que
não se admite na via estreita do mandado de segurança, haja vista tratar-
se de ação que demanda prova pré-constituída. (...) STF. 2ª Turma. RMS
31494, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgado em 26/11/2013.

c) Não houve prescrição


Isso porque, segundo o STF, o prazo prescricional para aplicação da pena de
aposentadoria compulsória é de 5 anos, contados a partir da data da tomada
de conhecimento do fato, salvo quando configurar tipo penal. Assim, a ação
disciplinar (obs: ação aqui não no sentido de ação judicial) para aplicação da
pena de aposentadoria compulsória prescreve em 5 anos, conforme dispõe o
art. 142 da Lei nº 8.112/90:

Art. 142. A ação disciplinar prescreverá:


I - em 5 (cinco) anos, quanto às infrações puníveis com demissão, cassação de
aposentadoria ou disponibilidade e destituição de cargo em comissão;
II - em 2 (dois) anos, quanto à suspensão; III - em 180 (cento e oitenta) dias,
quanto à advertência.
§ 1º O prazo de prescrição começa a correr da data em que o fato se tornou
conhecido. § 2º Os prazos de prescrição previstos na lei penal aplicam-se às
infrações disciplinares capituladas também como crime.
§ 3º A abertura de sindicância ou a instauração de processo disciplinar
interrompe a prescrição, até a decisão final proferida por autoridade
competente.
§ 4º Interrompido o curso da prescrição, o prazo começará a correr a partir do
dia em que cessar a interrupção.

Obs: o art. 142 da Lei nº 8.112/90 é aplicável, de forma subsidiária, para os casos
envolvendo apuração disciplinar contra magistrados considerando que não há uma
norma específica na Lei Orgânica da Magistratura Nacional (LC 35/79). Nesse sentido:

(...) A Lei Orgânica da Magistratura Nacional não estabelece regras de prescrição


da pretensão punitiva por faltas disciplinares praticadas por magistrados:
aplicação subsidiária da Lei n. 8.112/90. (...) STF. Plenário. MS 25191, Rel. Min.
Cármen Lúcia, julgado em 19/11/2007.

É o que prevê também a Resolução 135/2011 do CNJ, que trata sobre o procedimento
administrativo disciplinar aplicável aos magistrados. Confira:

Art. 24. O prazo de prescrição de falta funcional praticada pelo magistrado é de cinco
anos, contado a partir da data em que o tribunal tomou conhecimento do fato, salvo
quando configurar tipo penal, hipótese em que o prazo prescricional será o do Código
Penal.

DIREITO PENAL

Sobre o crime continuado, explique:

a) a teoria que prevalece acerca de sua natureza jurídica, conforme o CP;


b) os requisitos necessários para o seu reconhecimento no caso concreto;
c) qual a sua implicação no cálculo da pena, nas hipóteses do art. 71 do CP,
caput e parágrafo único;
d) como fica a aplicação da pena de multa?

a) Existem três teorias que foram desenvolvidas para tentar explicar a natureza
jurídica da continuidade delitiva.

 Teoria da unidade real: afirma que todas as condutas praticadas (que, por si


sós, já se constituiriam em infrações penais) são um único crime. Segundo
essa teoria, para todos os efeitos, o agente pratica apenas um único delito.

 Teoria da ficção jurídica: sustenta que cada uma das condutas praticadas se
constitui em uma infração penal diferente. No entanto, por ficção jurídica, esses
diversos crimes são considerados pela lei, para fim de aplicação da pena,
como crime único, por questões de política criminal. Para todos os outros fins,
os crimes são vários, a exemplo do art. 119 do CP (que trata da extinção de
punibilidade).

 Teoria mista (ou da unicidade jurídica): defende que, se houver crime


continuado, surge um terceiro crime, resultado do próprio concurso. Segundo
essa teoria, o agente pratica uma nova categoria de crime, chamada de (nome
do delito) por continuidade delitiva.

 O CP brasileiro adotou a teoria da ficção jurídica.

b) Quantos aos requisitos necessários para a configuração do crime continuado,


prevalece na doutrina que o CP adota a teoria mista ou objetivo-subjetiva, de modo
que é imprescindível o preenchimento dos requisitos de ordem objetiva (mesmas
condições de tempo, lugar e forma de execução) e de ordem subjetiva (unidade de
desígnios ou vínculo subjetivo entre os eventos).

“1. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça compreende que, para


a caracterização da continuidade delitiva, é imprescindível
o preenchimento de requisitos de ordem objetiva (mesmas condições
de tempo, lugar e forma de execução) e subjetiva (unidade de desígnios
ou vínculo subjetivo entre os eventos), nos termos do art. 71 do
Código Penal. Exige-se, ainda, que os delitos sejam da mesma espécie.
Para tanto, não é necessário que os fatos sejam capitulados no mesmo
tipo penal, sendo suficiente que tutelem o mesmo bem jurídico e
sejam perpetrados pelo mesmo modo de execução.

2. Para fins da aplicação do instituto do crime continuado, art. 71


do Código Penal, pode-se afirmar que os delitos de estupro de vulnerável
e estupro, descritos nos arts. 217-A e 213 do CP, respectivamente,
são crimes da mesma espécie.” (REsp 1.767.902/RJ, j. 13/12/2018)

c) REGRA GERAL:

“Art. 71 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão,


pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições de
tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem os
subseqüentes ser havidos como continuação do primeiro, aplica-se-lhe a
pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas,
aumentada, em qualquer caso, de um sexto a dois terços.”         

CRIME CONTINUADO QUALIFICADO:

“Parágrafo único - Nos crimes dolosos, contra vítimas diferentes,


cometidos com violência ou grave ameaça à pessoa, poderá o juiz,
considerando a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a
personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias,
aumentar a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se
diversas, até o triplo, observadas as regras do parágrafo único do art. 70 e
do art. 75 deste Código.”

d) No crime continuado, a pena de multa deve ser aplicada mediante o critério da


exasperação, tendo em vista a inaplicabilidade do art. 72 do CP. Então, unifica-se a
pena de multa e faz incidir a causa de aumento.

DIREITO PROCESSUAL CIVIL

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARÁ promoveu ação civil pública


contra B2W - CIA DIGITAL (B2W), afirmando em seu desfavor a prática publicidade
enganosa e descumprimento da oferta.

O Juízo de piso julgou parcialmente procedente a demanda para determinar à


B2W o cumprimento, de forma precisa, da publicidade informada em seu site acerca
dos produtos ofertados e indenizar, de forma ampla e completa, os danos materiais e
morais causados aos consumidores individualmente considerados.

Inconformado, interpôs apelação alegando a ocorrência de violação ao artigo


16 da Lei nº 7.347/85, visto que estaria inobservada a lei da ação civil pública, ao
interpretar como possível ampliar para todo o território nacional os efeitos da coisa
julgada a ser produzida na demanda.

Diante do caso acima, pergunta-se:

a) Assiste razão à apelante quanto à limitação dos efeitos da sentença


prolatada em ação civil pública sofrem limitação? Qual o posicionamento do STJ
sobre o tema?

Apesar da literalidade o citado dispositivo, a decisão está em conformidade


com a orientação firmada no âmbito no STJ no sentido de que os efeitos e a eficácia
da sentença prolatada em ação civil coletiva não estão circunscritos a lindes
geográficos, mas aos limites objetivos e subjetivos do que foi decidido. (AREsp
808603). A Corte Especial do STJ, no julgamento do REsp 1.243.887/PR, relatoria
do Min. Luis Felipe Salomão, submetido ao regime dos recursos repetitivos (art.
543-C do CPC), reconheceu que "os efeitos e a eficácia da sentença não estão
circunscritos a lindes geográficos, mas aos limites objetivos e subjetivos do que
foi decidido, levando-se em conta, para tanto, sempre a extensão do dano e a
qualidade dos interesses metaindividuais postos em juízo.
b) Existe diferença entre coisa julgada e efeitos da sentença?
Fundamente.

A distinção, defendida inicialmente por Liebman, entre os conceitos de eficácia


e de autoridade da sentença, torna inóqua a limitação territorial dos efeitos da coisa
julgada estabelecida pelo art. 16 da LAP. A coisa julgada é meramente a imutabilidade
dos efeitos da sentença. Mesmo limitada àquela, os efeitos da sentença produzem-se
erga omnes, para além dos limites da competência territorial do órgão julgador (REsp
1243887). Assim, a jurisdição é una em todo território nacional, devendo as decisões
emanadas pelos juízes valer em todo país.

Então, os efeitos da sentença são as modificações práticas (fáticas ou de


direito) que podem ocorrer na vida das pessoas, mesmo que elas não tenham
participado do processo. O que é diferente dos limites subjetivos da coisa julgada, já
que esses são a “qualidade que torna imutável a sentença” e que só podem atingir as
partes, não atingindo terceiros, haja vista que esses (terceiros) não estão obrigados a
“acatar” a coisa julgada, podendo, a qualquer tempo questionar seus direitos na
justiça, apesar da coisa julgada ocorrida entre as partes do processo em que não
participaram.

Enfim, o que distingue os efeitos da sentença dos limites subjetivos da coisa


julgada é que os efeitos atingem a todos (partes e terceiros). Já, os limites subjetivos
da coisa julgada- que torna a sentença imutável- somente podem atingir as partes que,
participando do processo, tiveram a oportunidade de produzir provas, discutir,
defender e modificar seus direitos, o que torna os limites da coisa julgada
intransponíveis, com o trânsito em julgado da sentença, ao menos para as partes que
participaram do processo.

Você também pode gostar